ISSN 0077-2216
BOLETIM DO
MUSEU
PARAENSE
EMÍLIO GOELDI
BOTANICA
Julho de 1994
Vol. 10
SciELO
cm
BOLETIM DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI
Série BOTÂNICA
GOVERNO DO BRASIL
Presidência da República
Presidente - Fernando Henrique Cardoso
Ministério da Ciência e Tecnologia - MCT
Ministro - José Israel Vargas
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq
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Diretora Adjunta de Difusão Científica - Aline da Rin Paranhos de Azevedo
Comissão de Editoração - MPEG
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© Direitos de cópia/Copyright 1 995
por/by/MCT/CNPq/Museu Goeldi
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Ministério da Ciência e Tecnologia
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELD1
Boletim do
Museu Paraense
Emílio Goeldi
Série
BOTÂNICA
Vol. 10(1)
Belém - Pará
Julho de 1994
cm
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Parque Zoobotâncio - Av. Magalhães Barata, 376 - São Braz
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O Boletim do Museu Paraense de História Natural e Ethnographia foi
fundado em 1 894 por Emílio Goeldi e o seu Tomo I surgiu em 1 896. O atual
Boletim é sucedâneo daquele.
The Boletim do Museu Paraense de História Natural e Ethnographia was
founded in 1894, by Emílio Goeldi, and the first volume was issued in 1896.
The present Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi is the successor to
this publication.
REVISTA FINANCIADA COM RECURSOS DO
Programa de Apoio a Publicações Científicas
MCT ÊiCNPq IpFINEP
CDD: 925.81
MARTIUS E A AMAZÔNIA
Pedro L. B. Lisboa
Pará. Como me sinto feliz aqui, como chego a compreender afundo muito daquilo que até agora
era inacessível. Magníficas brilham as estrelas, e o rio resplandece com o reflexo da lua poente.
K. F. P. von Martius, 16.08.1819.
Muito tem sido publicado sobre a vida de Karl Friedrich Philip von Martius no
Brasil. Livros, artigos e folhetos foram escritos para homenagear a passagem do
cientista bávaro pelo país. Estas páginas visam também prestar uma homenagem ao
pai das palmeiras , em comemoração ao bi-centenário do seu nascimento e à
impressionante contribuição que deu à ciência brasileira.
Uma boa parte da excursão de Martius ao Brasil, entre os anos de 1817 e 1820,
ocorreu na Amazônia brasileira. Suas impressões sobre a região estão registradas no
célebre Viagem pelo Brasil , que ele publicou junto com o zoólogo Johann Baptist
Spix. Este diário fornece um primoroso quadro dos costumes da época nas cidades
onde passou o botânico, além das anotações preciosas sobre a flora, a fauna, a vida
indígena e o ambiente físico da região.
Graças ao obscurantismo da Idade Média, Martius nasceu na Bavária. Galeotus
Martius, um ilustre ancestral seu, de origem italiana, foi perseguido pela Inquisição
porque comungava de idéias reformistas contra o aristotelismo, expressadas no
tratado De incognitis vulgo , elaborado por volta de 1480, mas que jamais seria
publicado. Condenado pela intolerância da Igreja, refugiou-se na corte húngara,
neste mesmo ano, sob a proteção do rei Matias Corvino. Trezentos e quatorze anos
depois, em 17 de abril de 1794, nasceu o seu descendente Karl Friedrich Philip von
Martius, em Erlangen, filho da união do farmacêutico Ernst Martius com sua prima
Regina. Suas raízes mais próximas já indicavam a sua inclinação para a Botânica.
Seu tio-avô, Henrique Martius, produziu a Flora de Moscou e seu pai foi um dos
fundadores da Sociedade Botânica de Ratisbona.
Aos 16 anos quando ingressou na Faculdade de Medicina, já demonstrava
interesse pela Botânica. Aprendeu as primeiras lições práticas dessa ciência com um
Museu Paraense Emílio Goeldi. Departamento de Botânica. Caixa Postal 399, CEP 66.017-970, Belém,
Pará.
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Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi., 10(1), 1994
jardineiro da Universidade "Fredericus Alexander". A opção definitiva pela Botânica
viria em 1812, por influência da visita do diretor do Jardim Botânico de Munique,
Francisco Schrenk e do zoólogo Johami Spix a Erlangen. Com este último mais
tarde empreenderia a sua longa viagem pelo Brasil. Dois anos depois obteve o grau
de doutor com o trabalho Planta rum Horti Academici Erlangensis Enumerado. Desde
então cresceu o interesse de Martius pela identificação das plantas, sendo sua
competência reconhecida até pelo próprio rei da Baviera, Maximilian Joseph I. O
monarca, que também se interessava por plantas, era sempre ciceroniado por
Martius nas suas frequentes visitas ao Jardim Botânico de Erlangen.
A vinda de Martius ao Brasil deveu-se a uma coincidência de interesses dos
reinos de Portugal, Áustria e Alemanha. O príncipe Regente de Portugal, D. João
VI, em 1816, mantinha um tenso relacionamento com alguns reinados europeus.
Visando melhorar as relações diplomáticas, a Coroa portuguesa almejava realizar um
evento que superasse essas dificuldades. O ideal seria o arranjo matrimonial do
príncipe D. Pedro de Alcântara com alguém das monarquias européias. A escolhida
foi a Arquiduquesa da Áustria, Dona Leopoldina Carolina Josepha, filha do
imperador Francisco I, que aprovou o casamento. Leopoldina, de cultura refinada,
admirava as ciências e as artes. Sabendo que viria viver no Brasil, logo manifestou
o desejo de incluir na sua comitiva artistas e cientistas, que pudessem contribuir para
revelar os segredos da natureza do seu novo país.
A inclusão de Spix e Martius na comitiva ocorreu pelo interesse que o rei da
Baviera, Maximilian Joseph, havia manifestado junto à Academia de Ciências de
Munique, de realizar uma expedição exploratória às terras da América. O monarca
estava convencido da importância que a expedição teria para as ciências e para a
humanidade e sua presença nas cerimônias de Viena culminou com a cooperação
entre os dois países. O rei da Baviera indicou os dois naturalistas para integrarem
a comitiva da Arquiduquesa.
No dia 15 de junho de 1817, Martius e Spix desembarcaram no Rio de Janeiro,
para iniciar os três anos de viagem pelos sertões brasileiros. No Rio foram
acompanhados em expedições pelo Barão Langsdorff, também um interessado em
História Natural e que, mais tarde, faria a sua própria viagem pelo interior do
Brasil. Martius homenageou o barão criando o gênero Langsdorffia , para uma
orquídea por ele denominada Langsdorffia hypogeia Mart.
Depois de excursionarem pelo interior do Rio, São Paulo, Minas e outros locais,
Martius e Spix chegaram a Santa Maria de Belém do Grão Pará, onde foram
recebidos pelo Governador Geral, Antônio José de Souza Manoel de Menezes, o
Conde de Vila Flôr, que havia assumido pouco antes o governo da Província. Foram
instalados em uma aprazível rocinha, nos arredores da cidade.
O Pará, à época da visita de Martius, contava com 37 municípios e uma
população de 79.730 pessoas, das quais 24.500 se concentravam em Santa Maria de
Belém do Grão Pará. A capital impressionou Martius pela sua excelente localização
geográfica, pela presença marcante de uma alta burguesia européia pura e pelo
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Martius e a Amazônia
aspecto salubre que encontrou. Belém tinha edificações de bom aspecto, casas
residenciais de dois andares, ruas calçadas, arborizadas e um comércio florescente
com muitos negociantes ingleses e franceses mantendo representações comerciais das
matrizes européias. Artur César Ferreira Reis. historiador, fala com entusiasmo da
feição que Belém tomou até o final daquele século: Belém, assim foi se destacando
das demais cidades capitais do Norte. Em 1833, habitavam-na 12.467 pessoas que
moravam em 1.935 casas; em 1885 esses algarismos estavam modificados para
70. 000. O Teatro da Paz, a Catedral, com os painéis de De Angelis e os mármores
de Luca Cari mini, e o Museu Paraense davam-lhe já antes de findar o século, títulos
que nenhuma outra cidade do Império possuía. O Teatro da Paz, que teve seu início
ainda na administração do Conde de Vila Flor, foi construído com base em um
projeto do arquiteto José Landi.
Apesar de achar a cidade sadia, Martius relatou que além de verminoses, as
viroses exantemáticas como o sarampo, a escarlatina e a bexiga (varíola) infestavam
Belém e o interior. A bexiga grassava no Pará sob a forma de uma epidemia,
matando de 30 a 40 pessoas diariamente. Antônio Baena, no Compêndio das Eras
da Província do Pará comenta que a epidemia se dava por desleixo dos empregados
da saúde. Os mais afetados eram os índios. Os médicos sentiam-se desorientados,
porque as fumigações com gás oximuriático não impediam o avanço do mal. O
Governador da Província chegou a empenhar o seu próprio soldo no combate à
doença, repassando-o à Confraria da Santa Casa de Misericórdia, que recebia os
devastados pelo flagelo da doença. A dependência completa de decisão da Corte do
Rio de Janeiro não conferia autoridade ao Governador para doar os oitocentos mil
réis que a Santa Casa solicitava para enfrentar o mal. Fato curioso é que no
Compêndio.. . , Baena refere-se aos naturalistas dizendo: Apresentam-se dois tenentes
coronéis, Martius e João Spix, pensionámos do rei da Baviera, com a permissão da
Corte do Rio de Janeiro para fazerem excursões botânicas.
Martius teve a sua atenção chamada pela marcante presença de índios na vida da
cidade, porém se surpreendeu com a falta de ambição destes que preferiam ficar
desocupados, tomar cachaça e satisfazer com mulheres. Passeando pelos arredores
da rocinha localizou um exemplar de seringueira (Hevea brasiliensis Muell. Arg.).
Mesmo já sendo explorada localmente, a espécie não tinha maior aproveitamento
económico na primeira metade do século XVIII. No Viagem pelo Brasil , os
naturalistas descrevem o processo de coleta e tratamento da borracha, registrando
sua utilização na confecção de capas e agasalhos, usadas inclusive por ele e Spix nas
suas viagens pela Amazónia. Os índios a usavam para confeccionar cachimbos e
objetos de diversão.
Um dos fatos pitorescos da passagem de Martius pela Amazônia, ocorreu quando
o botânico perdeu-se na chamada ilha das Onças, próxima à Belém. Enquanto
preparavam-se para o deslocamento mais prolongado ao interior da Amazônia,
Martius e Spix, impacientes por conhecer a floresta, amenizavam a espera fazendo
pequenas excursões pelos arredores da cidade. Numa delas, para a ilha das Onças,
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à qual Martius refere-se dizendo que nenhuma espécie de terra é melhor apropriada
para demonstrar ao viajante o espetáculo da primitiva criação do mundo que surgia
das águas onipotentes , o cientista perdeu-se. Empolgado com o cenário da vegetação
da várzea, rica ent palmeiras e aráceas, e com as flores sendo visitadas por
borboletas, libélulas e colibris, o botânico embrenhou-se mata a dentro. Quando um
bando de frangos d’água passou em direção a um alagado, Martius seguiu as aves
sem preocupar-se com a orientação e com o anoitecer. Percebendo que estava sem
orientação, tentou regressar, mas estava perdido na floresta. Todo o deslumbramento
que sentira momentos antes desapareceu, tomado pelo pânico e por um sentimento
de impotência. Aterrorizado, caminhava sem os devidos cuidados, ferindo-se contra
palmeiras espinhosas e atolando-se em locais lamacentos. Tentando manter a calma
o naturalista concluiu que naquela situação, era improvável que encontrasse o
caminho de volta. O melhor a fazer era permanecer quieto e improvisar um "SOS"
com a lata de herborizar. Sem armas para defender-se de animais ferozes (o nome
da ilha se devia à abundância de onças no passado), Martius subiu em uma palmeira.
Mais calmo, imaginou que a sua demora em regressar seria percebida por seu
companheiro de andanças no Brasil. Não tardou para que o naturalista percebesse
disparos de espingardas. Logo vislumbrou na escuridão da mata luzes errantes se
aproximando do local onde estava, empunhadas por dois índios de um engenho
local, que o foram procurar a mando de Spix.
A 21 de agosto, os dois naturalistas deixaram o conforto da rocinha para a sua
longa viagem de oito meses pelo interior da Amazônia. Alcançaram a foz do rio
Guamá, entrando no Moju, navegando até à localidade de Jacuari onde permanece-
ram até o dia 26 de agosto. Por um canal que liga o Moju ao Tocantins chegaram
a este, navegando em seguida para o sul da ilha do Marajó, quando perceberam que
o piloto da embarcação mostrava sinais de haver contraído varíola. Para evitar
pânico a bordo, os naturalistas mantiveram segredo sobre o mal, deixando o piloto
em Breves, aos cuidados do juiz local, onde morreria algum tempo depois. Breves,
hoje a maior cidade marajoara, àquela época era uma aldeia com 40 palhoças feitas
com a palmeira ubussu ( Manicaria saccifera Gaertn. & Martius), em geral só com
um teto.
À meia noite de 3 de setembro deixaram Breves com destino ao rio Amazonas.
Martius reclamava das nuvens de carapanãs, verdadeiros demônios no seu entender,
que não davam sossego, nem sob a proteção dos mosquiteiros. No Baixo Amazonas,
em 12 de setembro, descobriu uma paisagem diferente, formada pelas montanhas
que se estendem entre Almeirim e Monte Alegre.
Curiosos, os naturalistas tinham o cuidado de registrar todas as lendas que
ouviam durante a viagem. Uma delas, bem conhecida de todos da região, era sobre
"ma cobra d’água do tamanho de um tronco flutuante, que um remador da sua canoa
afirmava ter visto. A cobra teria engolido o irmão do remador quando este passeava
com a noiva pelas margens do rio.
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Martius e a Amazônia
Na manhã de 18 de setembro os cientistas bávaros chegaram à foz do Tapajós,
até alcançarem Santarém por volta de meio-dia. Em 28 de setembro estavam de
volta ao Amazonas por onde seguiram até o Estreito de Óbidos com destino a
Manaus, naquela época chamada Fortaleza da Barra, capital da Província do Rio
Negro. No trajeto as embarcações dos naturalistas foram interceptadas antes de
chegar a Parintins (Vila Nova da Rainha, na época), por um destacamento militar.
Ouviram a explicação de que só prosseguiriam com destino a Fortaleza da Barra
após cumprirem duas semanas de quarentena como prevenção contra a varíola, por
determinação do Governador de Fortaleza da Barra, que estava assustado com os
boatos da epidemia que grassava no Pará. Não conformados com a interrupção da
viagem, alegando que não mantinham contato com populações ribeirinhas havia
muito tempo, os naturalistas chegaram a um acordo com o sargento do destacamen-
to. Seguiriam viagem com índios do destacamento, enquanto a tripulação e duas
outras embarcações permaneceriam retidas para cumprir a quarentena. Ainda em
Vila da Rainha, tiveram a oportunidade de conviver com os Tupinambarana,
observando a sua pesca com o tintbó ( Paulliniu pinnata L.). Depois de seguir
viagem Martius esteve em comunidades dos índios Mura, que por aquela época
formavam um contingente de 30 a 40 mil indivíduos espalhados pelo Solimões, Rio
Negro e Amazonas, antes de abandonarem o Baixo Madeira, seu local de origem.
Seis dias depois de navegação a partir de Tupinambarana chegaram a Vila de
Serpa (hoje Itacoatiara), em 12 de outubro, depois de uma viagem penosa feita a
remo por falta de vento. Em 15 de outubro avistaram a foz do rio Madeira e no dia
22 navegaram sobre o encontro das águas brancas do Solimões com as águas negras
do rio Negro, chegando pouco depois em Manaus, sob a algazarra da alegria dos
índios.
Martius registrou no seu diário de viagem o contentamento de aportar em
Manaus, às margens do rio Negro, depois de uma longa viagem pelo Amazonas. A
paisagem amena das matas mais homogêneas e a ausência dos carapanãs, que tanto
aborreciam o botânico, melhoraram sensivelmente seu humor. Sobre a floresta perto
de Manaus escreveu: A floresta que perhmga aquelas margens já de longe se
apresenta mais densa e regular, e, de perto, toda enfeitada com a maior variedade
de magníficas flores, grandes e de lindas cores. Dos índios da região, o naturalista
ouviu muitas lendas sobre entidades malignas, inclusive a do curupira', que ainda
é bem atual na Amazônia. Certa feita, perdido na selva dos arredores, em
companhia de um índio, Martius errou durante horas sem encontrar o caminho. O
camponês, apavorado, reafirmava que o lugar não era seguro, porque o curupira
1 Segundo Osvaldo Orico (1975). cm Mitos ameríndios e crendices amazônicas, o curupira é o duende
mais famoso c endiabrado da floresta. Às vezes, é de boa índole, cm outras c maligno, irascível c
perigoso. Hm geral é descrito como um menino de cabelos vermelhos, corpo peludo, pés virado para trás
c privado de órgãos sexuais.
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Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi., 10(1), 1994
vagava por alí. Só a muito custo o homem foi acalmado, podendo ambos alcançar
as margens de um rio. De Manaus, antiga Barra do Rio Negro, os naturalistas
viajaram para a Vila de Ega, hoje conhecida como Tefé, naquela época habitada por
apenas 600 pessoas. Fizeram inúmeras excursões aos arredores de Ega, observando
as densas matas virgens e as populações de uma Mirtaceae, Eugenia egensis ,
chamada pelos índios de araçarana. que por estarem cobertas por flores alvas e
perfumadas lembravam aos viajantes as fruteiras européias. Francamente empolgado
com esta região registraram também a presença de troncos colossais de Ficus,
Lecythis, Bertholletia e Caryocar ; de cogumelos da família Agaricaceae e de animais
como macacos, caititus e coatis, além dos mutuns que voavam de galho em galho.
Fizeram um registro interessante sobre uma plantação de ipadu (Erythroxylum coca
Lam.), dos índios locais nas margens das roças. Os índios secavam as folhas à
sombra ou próximo ao forno de fazer farinha, que depois eram socadas em pilão
transformando-se num pó que depois era mastigado, para animá-los ou aplacar a
sensação de fadiga e fome. Todo o processo usado na época está descrito
detalhadamente pelos naturalistas no Viagem pelo Brasil , vol. 3. A percepção da
riqueza natural daquela região, de rica flora, abundante fauna e farto material
etnográfico, levou Martius e Spix a tomarem a decisão de se separarem temporaria-
mente para um melhor aproveitamento das coletas. Spix dirigiu-se para o alto
Solimões até a fronteira, enquanto Martius subiu o rio Japurá. Os dois cientistas já
estavam com a saúde bastante abalada, principalmente Spix que tinha acessos
constantes de febre, provocados por malária, que só eram aliviados com doses de
quina ou chá da raiz de caferana (Tachia guyanensis). Para complicar a situação
haviam notícias sobre febres degenerativas e riscos de cirroses no Japurá, que não
desanimaram Martius. Sua esperança era localizar tipos diferentes de vegetação no
Solimões e visitar algumas tribos indígenas que ainda não haviam sido contactadas.
Martius partiu em 12 de dezembro, voltando a Maués só em 2 de março e à Barra
do rio Negro em 1 1 do mesmo mês. Sete dias após a partida chegou a Santo
António do Maripi. A viagem foi difícil e os índios que acompanhavam o
naturalistas desestimulavam o seu prosseguimento. A insatisfação era tão forte que
Martius correu risco de vida. Certa feita, animado para caçar cobras, que eram
abundantes na região, o botânico saiu com quatro índios em direção ao lago Cumapi.
O índio que pilotava a canoa, em trama com os demais, alterou a direção do
percurso, descendo o rio sem que Martius percebesse. No final da tarde foi alertado
sobre o complô, por um índio fiel que o acompanhava desde o Pará. A intenção do
grupo era eliminar Martius para roubar a canoa e fugir. Martius imobilizou o índio
piloto e o ameaçou de morte com uma pistola, caso não retornasse ao ponto de
origem. Intimidado, o indígena regressou com o grupo a salvo.
Prosseguindo viagem chegou à região das cachoeiras próximo à serra Cupati. As
dificuldades naturais da região que um viajante tem que enfrentar impunham um
grande esforço para deslocamento e arraste de canoas pelas margens. Por volta de
15 de janeiro, depois de alguns dias de repouso Martius prosseguiu penosamente a
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Martius e a Amazônia
viagem, até à região dos Miranhas. O naturalista tinha constantes acessos de febre
quarta, combatidos com quina. Atribuía sua doença ao consumo da água morna e
turva. Naquela época era desconhecido que a transmissão da malária se deve à
picada do mosquito Anopheles , que inocula uma forma do parasita Plasmodium na
corrente sanguínea.
Em 28 de janeiro Martius chegou ao limite da viagem, a cachoeira de Araraqua-
ra. A saúde precária, as dificuldades naturais da viagem e a solidão estavam se
tornando um fardo muito pesado para o botânico. Sintetizando o sentimento daquele
momento no Viagem pelo Brasil Martius escreveu: Era este o ponto mais ocidental
que eu podia estender a viagem. Enquanto me oprimia com todos os terrores de uma
solidão destituída de seres humanos, sentia indizível saudade da companhia de
homens da cara Europa civilizada. Pensei como toda a cultura e a salvação da
humanidade tinha vindo do Oriente. Dolorosamente comparei aqueles países
venturosos com este ermo pavoroso; entretanto, mesmo assim me felicitava por estar
aqui. levantei mais um olhar para o céu, e volvi corajosamente o espírito e o
coração para o Oriente amigo.
A situação era tensa. Um soldado europeu que participava da viagem insuflava
os índios a se rebelarem, para obrigar o botânico a regressar. Dizia que Martius
pretendia ainda cruzar as cachoeiras para chegar até aos espanhóis. Martius desfez
a armação deixando claro em reunião que o regresso a partir dali estava decidido.
A febre o consumia e a quina que tomava, mesmo aliviando a malária, era um
medicamento tóxico que também contribuía para o seu enfraquecimento, por isso
sentia que suas forças estavam seriamente minadas. Iniciou a descida do rio em 3 1
de janeiro sob os brados de alegria dos índios. Na viagem de regresso, ainda
povoada de problemas, chegaram na Barra do Rio Negro em 1 1 de março, onde
Spix já aguardava Martius.
No Baixo Amazonas, entre Óbidos e Santarém, os naturalistas passariam mais
um susto quando foram apanhados por um temporal no Estreito de Óbidos. A
extensão deste acontecimento só seria entendida bem mais tarde, porque os bávaros
não o detalharam muito no livro Viagem pelo Brasil, que conta o cotidiano da
viagem. O médico César Augusto Marques que em 1856 desenvolvia atividades no
Exército, na Província do Amazonas, quando reinava a primeira epidemia de cólera-
morbus no Brasil, localizou acidentalmente na igreja Matriz de Santarém uma
imagem do Cristo crucificado relegada ao abandono num canto da sacristia. Curioso,
conseguiu localizar uma lâmina de ferro com a inscrição O cavalleiro Carlos Fred.
Phil. de Martius, membro da Academia Real das Sciencias de Munich, fazendo de
1817 a 1820, de ordem de Maximiliano José, rei da Baviera, uma viagem scientífica
pelo Brasil, e tendo sido aos 18 de setembro de 1819 salvo pela misericórdia divina
do furor das ondas do Amazonas junto à vila de Santarém, mandou, como
monumento de sua pia gratidão ao Todo Poderoso, erigir este crucifixo n 'esta igreja
de Nossa Senhora da Conceição no anno de 1846.
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Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi., 10(1), 1994
Figura 1. Crucifixo doado por Martius à Igrcga dc Nossa Senhora da Conceição, Santarém, Pará.
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Martius e a Amazónia
Figura 2. a. Eslela de Martius no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Gocldi. b. Crucifixo,
c. Placa de ferro doada junto com o crucifixo à Igreja d Nossa Senhora da Conceição.
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Boi. Mus. Para. Emílio Goelcli, sér. Boi., 10(1). 1994
Só depois de 1856, quando o médico publicou um artigo no Alrnanack de
Lembranças , em Lisboa, contando o lamentável abandono do crucifixo doado por
Martius, é que foram tomadas providências para que fosse fixado num Calvário,
onde se encontra até boje. No dia 16 de abril, exaustos e com a saúde abalada, os
naturalistas finalmente chegaram à Belém. Traziam mais de oitenta animais vivos,
dos quais só cinquenta e sete chegaram a Munique, e centenas de plantas vivas.
Depois de três anos de deslocamentos pelo interior do Brasil, Martius e Spix
estavam eufóricos com a perspectiva da partida direta de Belém para a Europa. Se
entregaram então à deliciosa tarefa de embalar coleções, que pelo seu volume eram
motivo de admiração dos moradores de Belém. No dia 14 de junho partiram para
o velho continente. A bordo da galera Nova Amazonas, ainda sofreriam as agruras
do comportamento intempestivo do comandante da embarcação que os privava de
água e de alimentos embarcados pelos naturalistas, além de tentar danificar as
coleções feitas a custo de muito sacrifício.
No dia 21 de agosto, com indisfarçável emoção avistaram a costa do continente
europeu. Em 10 de outubro, partindo de Lisboa, atravessaram o Tejo, para em 10
de dezembro de 1 820, emocionados, chegarem à capital da Baviera.
O rico acervo resultante da expedição científica de Spix e Martius consiste de
material mineralógico, e etnográfico, faunístico e florístico. Os materiais mineralógi-
co e etnográfico estão depositados no Museu da Real Academia de Ciências de
Munique. Os exemplares da fauna consistem de 85 espécimes de mamíferos, 350
aves, 130 de anfíbios, 116 de peixes. Dos 2.700 insetos coletados, 1.800 são
coleópteros, 120 ortópteros, 30 neurópteros, 120 himenópteros, 120 lepidópteros,
250 hemípteros, 100 dípteros, além de 80 espécies de aracnídeos. Da flora foram
coletados 6.500 espécimes, que originariam as obras de Martius, que ainda hoje são
material de consulta obrigatório para quem se dedica à botânica brasileira, como a
monumental Flora Brasiliensis. de inestimável valor científico e histórico. O livro
Reisen in Brasilien (Viagem pelo Brasil) teve o primeiro volume publicado em 1823,
saindo o último em 1831. Apesar de sua importância para um Brasil que desconhecia
a sua vegetação, fauna e hábitos indígenas, a obra só viria a ser traduzida
parcialmente para o Português em 1916, na parte chamada Através da Bahia.
Martius devotava especial atenção às palmeiras. Ao regressar do Brasil, dedicou-
se a elaborar a monografia sobre estas plantas, recebendo a colaboração de outros
botânicos. Entre 1823 e 1850 publicou os três volumes do Historia Naturalis
Palmaram, enriquecida com 245 estampas. Foi por esta dedicação que Martius
recebeu o apelido de pai das palmeiras. Neste mesmo período, iniciando em 1824,
começa a publicar Nova genera et Species Plantaram Brasiliensium, onde são
descritas mais de quatrocentas espécies e setenta gêneros novos.
Mas a obra que viria a imortalizá-lo em definitivo para a botânica brasileira, foi
a conhecida Flora Brasiliensis, elaborada com a participação de diversos botânicos.
Um dos aspectos singulares da personalidade de Martius era sem dúvida a sua
capacidade de articulação para coordenar trabalhos integrados, de grande envergadu-
12
Martius e a Amazónia
ra. A Flora Brasilieusis permanece como a única publicação com características
monográficas sobre a botânica sistemática brasileira. Considerando-se a precariedade
de comunicação da época, as limitações dos laboratórios, sua conclusão de fato
representa uma conquista pessoal sem precedentes no inundo da Botânica. Hoje. com
dezenas de sisteinatas botânicos trabalhando no país. facilidades de obtenção de
recursos, de comunicação e de intercâmbio, os botânicos brasileiros estão longe de
conseguir idealizar a continuação da flora brasileira, dentro de um projeto global
bem articulado e coordenado a nível nacional. Por dificuldade de encontrar um
patrocinador desde 1830. só em 1840, contando com a colaboração do botânico
austríaco Endliclier. Martius conseguiu a publicação do primeiro volume da Flora.
sob os auspícios do Imperador Ferdinand, da Áustria e do rei Ludwig I, da Baviera.
Preocupado em garantir recursos para a sua publicação completa. Martius dirigiu
carta ao Imperador Pedro II, aqui no Brasil. Conhecido por seu interesse pela
ciência, D. Pedro, a partir de 1850. anualmente enviava subvenções que auxiliaram
a publicação dos demais volumes. Mesmo com o advento da República, o auxílio
continuou a ser enviado até 1906, quando foi concluída a publicação. Em
agradecimento Martius registra na obra as palavras Sublevatum populi brasilieusis
liberalitate (Publicado graças à liberalidade do povo brasileiro).
Em 1855 já estavam publicados 15 volumes da Flora, tendo Martius contribuído
conto autor de duas monografias, sobre as Annonaceae e Agáveas. Em meio à
coordenação do gigantesco projeto, o ilustre botânico pensou em desistir em alguns
momentos, quando a sua saúde tornou-se precária ou em momentos em que era
assaltado por crises de depressão. Em carta ao conselheiro Paulo Barbosa da Silva
em 1863, um amigo do Brasil, retratou seu estado de espírito " ...ainda alguns anos:
depois dormirei no chão destas pacíficas montanhas" . Em 13 de dezembro de 1868,
aos 74 anos falece o botânico, vitimado por uma pneumonia. Nesta ocasião haviam
sido publicados 46 fascículos da Flora, contendo a descrição de mais de 10.000
espécies e mais de mil estampas. Segundo o professor Frederico Sommer. ao
encerrar-se em 1906. a Flora Brasilieusis comportava 40 volumes, com 22.767
espécies descritas de plantas, num total de 20.733 páginas e 3.81 1 tábuas ilustrati-
vas. Compartilharam da gigantesca obra 62 botânicos de várias nacionalidades (38
alemães, 7 austríacos, 5 suíços. 5 ingleses. 4 franceses. 1 húngaro, 2 dinamarque-
ses). Mais de 125 coletores de plantas brasileiras, de 14 países também contribuí-
ram. A conclusão deste projeto mostra que com organização, determinação e espírito
de colaboração é possível a concretização de obras ambiciosas.
Martius era um erudito. Como entendia de medicina, auxiliou pessoas no interior
do Brasil; compunha música e poesia, daí tornar-se amigo do poeta alemão Goethe,
que tornou-se um admirador do botânico, escrevendo inclusive avaliações sobre
algumas obras de Martius, como Genera et Species Plantaram, reconhecendo
elegância, vigor, nitidez e minúcias de detalhes nas estampas que ilustram a obra.
Publicou 59 trabalhos nas mais diferentes áreas, muitos deles de grande extensão
como os três volumes do Viagem pelo Brasil, a obra sobre as Palmeiras e a Flora
13
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
Boi. Mus. Paru. Emílio Goeldi. sér. Boi., 10(1), 1994
Brasiliensis . Publicou sobre Botânica, Zoologia, além de obras sobre Etnologia e
Linguística, sobre História e sobre assuntos diversos como melodias indígenas,
filosofia, poemas épico-dramáticos e orações acadêmicas, mostrando a sua
versatilidade de homem culto e inteligente. Produziu inclusive um mapa fitogeográft-
co do Brasil, dividindo a vegetação nos grandes tipos que hoje conhecemos, dando-
lhe nomes de deusas. Assim, a Amazônia é a Naiades, a caatinga a Hamadryades.
o cerrado a Oreades e o sul a Napaeae.
Apaixonou-se pelo Brasil, que considerava a sua segunda pátria. Foi sócio do
Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. O Instituto, por sua vez, não tem
poupado homenagens ao naturalista ao longo da sua trajetória. Exposições e
publicações, notadamente no início do século, registraram o reconhecimento a
Martius. No centenário da sua chegada, o Instituto inaugurou uma exposição das
obras em 16 de julho, sob a presidência do Conde de Alfonso Celso, presidente
vitalício da casa. Martius, por sua vez, dedicou várias obras ao Instituto, entre elas
um pequeno códice, contendo uma relação bibliográfica desde 1495. visando auxiliar
a quem pretendesse escrever a história do Brasil. O botânico conquistou os
brasileiros, não só por publicar um extraordinário acervo científico sobre o Brasil,
mas por suas seguidas manifestações de apreço e admiração pelo Brasil, que
considerava sua segunda pátria.
Em 1847 o Instituto outorga uma medalha de ouro a Martius, por seu trabalho
Plano de se escrever a história antiga e moderna do Brasil, abrangendo as suas
partes política, civil, eclesiástica e literária. Tanto escreveu e comentou sobre o país,
que é inegável sua influência na emigração de alemães para o Brasil.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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PADBERG-DRENKPí )l IE. J. A. 1 932. Como fíoelhe apreciou as obras de Martius sobre o Brasil. Boi.
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SPIX, J. & MARTIUS, C F. P VON. 1976. Viagem pelo Brasil ( 1RI7-IR2I) ). 3 cd.. São Paulo.
Melhoramentos.
14
CDD: 588.2098115
ADIÇÕES À BRIOFLORA DO ESTADO DO PARÁ
Regina C. L. Lisboa '
RESUMO — São relacionadas 14 espécies de musgos e 2 de hepáticas, como ocorrências novas
para o Estado do Pará. Alguns casos de disjunção são parcialmenle eliminados. Dados
morfológicos, distribuição geográfica, locais de coleta no Estado do Pará e folomicrografias são
apresentados para cada espécie.
PALAVRAS-CHAVE: Musgos; Hepáticas; Brioflora; Fitogeográfia; Disjunção; Brasil; Pará.
ABSTRACT - Founeen species of mosses and rwo of liverworts are presented as new
occurrence for the State of Para. Some cases of disjunction lias been parcially eliminated.
Morphological data, geographical distribution. collection places for lhe State of Pará and
photomicrographs for species are presented.
KEY WORDS: Mosses: Liverworts; Bryoflora: Phytogeography: Disjunction; Brazil: Pará.
INTRODUÇÃO
Nos últimos anos vários trabalhos têm sido publicados tratando especificamente
de relacionar espécies de briófitas para o Brasil, que até então não tinham sido
coletadas ou/e identificadas.
Neste contexto estão os trabalhos de Porto & Yano (1985), com novas
ocorrências em Pernambuco, Lisboa & Yano (1987), com várias ocorrências novas
para a Amazônia brasileira, Yano & Andrade-Lima (1987) tratando das briófitas de
Pernambuco. Yano & Lisboa (1988), abordando as briófitas do Amapá, Yano &
Costa (1992) com referências novas para várias regiões do Brasil. Yano & Mello
(1992), tratando das briófitas do Estado de Roraima e Yano (1992) com novas
localidades de musgos para vários Estados do Brasil. Todos estes trabalhos visam
ampliar a distribuição geográfica das briófitas e, fundamentalmente, conhecer a
brioflora brasileira. Em Lisboa (1993a), é apresentada a situação atual da brioflora
brasileira, em relação ao resto do mundo e o conhecimento para a Amazônia.
Observa-se a necessidade urgente de aumentar o número de coletas/identificações
' Museu Paraense Emílio Goeldi. Departamento ilc Botânica, Caixa Postal 399, CEP 66.040-170, Belém.
Pará.
15
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi., 10(1), 1994
deste grupo na Amazônia e no Brasil como um todo, já que no Brasil, ocorrem
apenas 12,32% das espécies conhecidas no mundo, diminuindo para 2,46% na
Amazônia, em números aproximados, segundo Lisboa (1993a).
Este trabalho tem como objetivos ampliar a distribuição geográfica do grupo
dentro do Brasil e o conhecimento da brioflora no Estado do Pará.
MATERIAL E MÉTODOS
Consistiu na identificação de material coletado nos municípios de Afuá (ilha de
Marajó), Parauapebas (serra dos Carajás), Melgaço (Caxiuanã) e Belém, todos no
Estado do Pará, no período de 1992-93. As identificações foram feitas utilizando-se
chaves e descrições de Bartram (1949), Florschutz (1964), Griffin (1979), Crum &
Anderson (1981) e Lisboa (1993b). Algumas espécies foram identificadas por
comparação com amostras identificadas por especialistas e outras pela Dra. Olga
Yano do Instituto de Botânica de São Paulo.
Para checar as espécies ainda não citadas para o Estado do Pará, foram utilizadas
as "checklists" de Yano (1981, 1984 e 1989) e os trabalhos mais recentes, citados
na introdução deste trabalho.
Para cada espécie relacionada, são fornecidos fotomicrografias, dados sobre o
local de coleta, coletor, data e alguns comentários morfológicos, taxonômicos e
ecológicos, quando disponíveis.
As fotomicrografias foram feitas em um fotomicroscópio Zeiss.
As lâminas para as fotomicrografias foram preparadas com a solução de Hoyer
(Anderson 1955).
Todo material estudado está sendo incorporado ao Herbário do Museu Paraense
Emílio Goeldi (MG).
RESULTADOS
Foram identificadas quatorze espécies de musgos e duas espécies de hepáticas
que ainda não tinham sido referidas para o Estado do Pará.
ORTHOTRICHACEAE
Grouríella tonientosa (Hornsch.) Wijk & Marg., Taxon 9:51. 1960 (Figura 1).
Material examinado: Pará, município de Afuá, margens dos rios Marajozinho,
Afuá e Cajuuna, mata de várzea, sobre árvore caída e em decomposição, associada
a Neckeropsis mdulata (Hedw. ) Reichardt, U.N. Maciel 1947. 12/IX/92 a 02/X/92
Comentários: espécie reconhecida por seus filídios com ápices quebradiços e
caulídio densamente tomentoso, como sugere o epíteto específico. Largamente
distribuída na América Tropical. No Brasil é referida para Pernambuco (Yano &
Andrade-Lima 1987) e Rondônia (Lisboa 1993b). Ocorre sobre árvore viva e
também sobre rochas. No material examinado, está sobre árvore em decomposição.
16
Adições à briojlora do Estado do Pará
Figura 1 . Groutiella lomentosa. A) Filidio. onde se nota a presença de Comentos na base e apice quebrado
83X; B) Detalhe da base do filídio, notando-se as papilas e as células longas da margem, 210X; C) Ápice
do filídio, 210X (U.N, Maciel. 1947).
SciELO
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi. sér. Boi.. 10(1), 1994
BRYACEAE
Bryurri subverticillatum (Broth.) Oclii, Jour. Fac. Educ. Tottori Univ. Nat. Sc.
30:29. 1981. (Figura 2).
Material Examinado: Pará. município de Parauapebas, Serra Norte, Carajás, N 1 ,
bomba d’água, sobre pedra. Jair S. Ramos e C. Rosário 635, 29/111/ 1993.
Comentários: espécie com filídios dispostos em rosetas, podendo confundir-se com
B. roseuni (Hedw.) Gaertn. Também assemelha-se superficialmente a B. grandifo-
lium (Tayl.) C. Midi. e a B. beyrichianum (Hornsch.) C. Midi., segundo Ochi
(1981). Os dentes da margem superior do filídio como espinhos e um bordo largo
e indistinto são caracteres específicos. Ocorre no Brasil e Uruguai. No Brasil é
citada para São Paulo, Minas Gerais (Serra da Caraça) e Santa Catarina (Ochi 1981,
Yano 1989), estados brasileiros com ocorrência de baixas temperaturas. Esta, que
é a primeira referência para a região amazônica, também foi coletada numa Serra,
o que poderia indicar que a espécie é de locais com temperaturas mais amenas.
STEREOPHYLLACEAE
Stereophyllum radiculosum (Hook.) Mitt., J. Linn. Soc. Bot. 12:542. 1869 (Fig. 3).
Material Examinado: Pará, município de Afuá, costa setentrional da ilha de
Marajó, Fazenda Paraíso. Sobre árvore viva, associada a Cyrtohypnum schistocalyx
(C. Midi.) Buck & Crum., U.N. Maciel 2057, 12/XI a 02/X1Í/1992; idem, U.N.
Maciel, 2062.
Comentários: espécie única do gênero, segundo Buck & Ireland (1985). Possui as
seguintes características: filídios com células curtas, romboidais, muitas vezes
unipapilosas e costa relativamente robusta. Ocorre nos Estados de Minas Gerais, São
Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Espírito
Santo (Buck & Ireland 1985 e Yano 1992).
HYPNACEAE
Ectropothecium leptochaeton (Schwaegr.) Brittonia 35: 311. 1983. (Figura 4).
Material Examinado: Pará, município de Afuá, margem dos rios Marajozinho,
Afuá e Cajuuna. mata de várzea, sobre árvore viva de seringueira, U.N. Maciel
1959, 12/XI a 02/X/1992.
Comentários: espécie com ramificação pinada, filídios estreitos, ápices agudos,
grosseiramente dentados acima, células estreitamente lineares, muito próxima a
E. globitheca (C. Midi.) Mitt e, segundo Bartram (1949), talvez sejam mesmas
espécies, merecendo portanto uma revisão, com comparação dos respectivos tipos.
Ocorre na Guatemala, México, Costa Rica, Panamá, índias Ocidentais, Colômbia
e Brasil (Bartram 1949). No Brasil, coletada nos Estados de Mato Grosso, Minas
Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina (Yano 1981); mais recentemente, foi
coletada no Amazonas (Lisboa & Yano 1987).
18
Adições o h ri o flora do Estado do Para
Figura 2. Dryum subverticillatum. A) Metade superior do filídio. 83X; B) Apice do filídio, com detalhe
da costa excurrente. 210X; C) Margem superior do filídio, 210X; D) Células da base do filídio, vendo-se
claramente a presença de pontuações, 210X (J.S. Ramos & C.S. Rosário, 635).
SciELO
cm
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi. ser. Boi.. 10(1), 1994
Figura 3. Slereophyllum radiculosum. A) Filídio. destacando-se a cosia robusta. 83X; B) Ápice do íilídio,
notando-se as células romboidais e papilosas, 2I0X; C) Ápice, destacando-se as papilclas, 533X; D)
Células medianas do filídio, 533X: K) Células alares do filídio (na seta), claramcntc diferenciadas, 210X
(U.N. Maciel. 2062).
20
Adições à brioflora do Estado do Pará
figura 4. Ectropothecium leplochaeton. A) l ilídío, com costas curtas c duplas, grosseiramente denteado
acima, 83X: li) Ápice do iilídio, 210X: C) Detalhe do mesmo ápice, 533X: D) Células da margem e
região mediana do Iilídio. 533X (II. N. Maciel. 1959).
cm
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi. sér. Boi., 10(1), 1994
SEMATOPHYLLACEAE
Meiothecium revolubile Mitt. , J. Linn. Soc. Bot. 12:471. 1869 (Figuras 5 & 6).
Material Examinado: Pará. município de Afuá, margem dos rios Marajozinho,
Afuá e Cajuuna. Mata de várzea sobre cipó vivo, associada a Zelometeorium
patulum (Hedw.) Manuel, U.N. Maciel 1949, 12/XI a 02/X/1992; Pará, município
de Belém, campus da EMBRAPA, Av. Perimetral, em frente ao prédio da Botânica,
sobre caule de seringueira em um bosque, associada a Plagiochila sp., R. Lisboa
2343, 01/1V/1993; Pará. município de Ananindeua, condomínio Green Garden,
bosque artificial de mangueiras. Sobre tronco vivo de mangueira, R. Lisboa 2351,
02/V/l 993; idem, R. Lisboa 2352, 2353, 2354, 2355, 2356, 2361, 2366 e 2367.
Comentários: espécie com filídios ovalado-lanceolados, ápice agudo, células do
ápice ovaladas, as inferiores alongadas, células alares infladas, dentes do perístoma
baplolepídeo remotos; margem dos filídios laterais recurvo-revolutos, como indica
o nome específico. Ocorre na Venezuela e Brasil. Neste, é referida para os Estados
do Amazonas e Mato Grosso (Yano 1981). Mais recentemente foi coletada no
Espírito Santo (Behar, Yano & Vallandro 1992).
Trichosteleum fluviale (Mitt.) Jaeg., Ber. S. Gall. Naturw. Ges. 1876-77:419. 1878
(Figura 7).
Material Examinado: Pará, município de Afuá, fazenda Nazaré. Sobre caule caído
em decomposição, U.N. Maciel 1758, 10 a 24/1/1993; idem, sobre raiz viva, U.N.
Maciel 1763.
Comentários: espécie com filídios ecostados, ovalado-lanceolados, ápice agudo,
células unipapilosas, células alares infladas. No Brasil é referida para Mato Grosso
(Lisboa & Lisboa 1978) e Amazonas (Griffin 1979).
PTEROBRYACEAE
Pireella pohlii (Schwaegr.) Card., Rev. Bryol. 40:18. 1913 (Figura 8).
Material Examinado: Pará, município de Afuá, rio Cajuuna, mata de várzea. Sobre
árvore viva. Associada a Neckeropsis undulata (Hedw.) Reiehardt, Cyrtohypnurn
schistocalyx (C. Midi.) Buck & Crum, Taxithelium planurn (Brid.) Mitt. e
Calymperes afzelii Sw., U.N. Maciel 2005, 12/XI a 02/XII/1992; idem, associada
a Neckeropsis undulata, U.N. Maciel 2006, 12/XI a 02/XII/I992; idem, associada
a Cyrtohypnurn schistocalyx (C.M.) Mitt., U.N. Maciel 2015, 12/XI a 02/XII/ 1 992.
Comentários: planta dendróide, filídios fortemente unicostados, os primários
lanceolados, os secundários largamente ovalado-oblongos. côncavos, ápices
acuminados. Filídios dos ramos secundários, dispostos espiraladamente, oblongo-
lanceolados, muito côncavos; células lineares, flexuosas, diminutamente papilosas,
menores na base, formando pequenas aurículas. Ocorre nos Estados Unidos, índias
Ocidentais, América Central e do Sul, onde foi referida para Suriname, Guiana,
Guiana Francesa (Florschutz 1964) e Brasil. Neste, ocorre nos Estados do
Amazonas, Espírito Santo, Goiás, Paraná, Mato Grosso e São Paulo (Yano 1981).
22
Adições à brioflora do Estado do Pará
Figura 5. Meiolhecium revolubile. A) Filídio, com ápice c margens desfocados por serem revolutos, 83X;
B) Células alares, inlladas e acastanhadas. 210X: C) Filídio superior largamente ovalado. 83X: D)
Células medianas do filídio. 533X (R. Lisboa, 2351).
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. fíol., 10(1), 1994
figura 6. Meiolhecium revolubile. A) Detalhe da cápsula, deixando ver perístoma único c esporos, 83X;
B) Perístoma abertos, com esporos saindo, 210X; C) Ápice dos dentes do perístoma c esporos, finamente
papilosos, 533X (R. Lisboa, 2351).
24
Adições à brioflora do Estado do Fará
Figura 7. Trichosteleum fluviale. A) Filídio, sem costa e com células alares claramentc diferenciadas,
83X; li) Cápsula sem opereulo, vendo-se o perístoma duplo. 83X; C) Ápice do filídio, 210X; D) Hasc
do filídio, destacando-se as células alares infladas, 210X: F) Detalhe do perístoma duplo, 210X (IJ.N.
Maciel, 1758),
SciELO
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi.. 10(1). 1994
Figura 8. Pireella pohlii. A) Filídio. distintamente côncavo, unicostado, 83X; B) Ápice do tilídio,
observando-se as células lineares, flexuosas. minutamente papilosas, 210X; C) Região mediana do filídio.
2 1 OX ; D) Detalhe da base do filídio, com células menores. 210X (U.N. Maciel, 2015).
26
Adições à brioflnra do Estado do Pará
NECKERACEAE
Porotrichum plicatulum Mitt., J. Linn. Soc. Bot. 12:461. 1869 (Figura 9).
Material Examinado: Pará. município de Parauapebas. Serra dos Carajás, mina de
manganês do igarapé azul, zona oeste da mina; sobre caule de cipó vivo; mata com
cipó e afloramentos rochosos, R. Lisboa, C.S. Rosário & J.S. Ramos 1987,
23/X/1992.
Comentários: planta com caulídio primário rastejante, caulídios secundários eretos,
mais ou menos dendróides, irregularmente pinados ou bipinados; filídios dos
caulídios primários distanciados, estreitamente lanceolados. margens inteiras: os dos
caulídios secundários ovalado-lanceolados, longitudinalmente plicados quando secos,
margens serradas quase até à base. Ambos os filídios, primários e os secundários,
unicostados. Células longo-romboidais, apresentando pequena papila na extremidade
apical; células basais menores e mais largas. Distribui-se nas índias Ocidentais e
Américas Central e Tropical (Florschutz-De Waard 1986). No Brasil, é referida para
o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Rondônia (Yano
1981 e 1989).
DALTONIACEAE
Lepidopilum surinamense C. Midi., Linnaea 21:193. 1848 (Figura 10).
Material Examinado: Pará, município de Afuá, margem dos rios Marajozinho,
Aftiá e Cajuuna. Mata de várzea, sobre árvore viva de jenipapo, associada a Radula
kegeli Gott., U.N. Maciel 1943, 12/1X a 02/X/1992; idem, rio Cajuuna, sobre
árvore viva, associada a Cyrtohypnum schistocalyx (C. Midi.) Mitt.. Calymperes
erosiun C. Midi. e Fissidens guianensis Mont., U.N. Maciel 2012, 12/XI e
02/XII/1992.
Comentários: plantas vistosas, epifíticas, abundantemente tomentosas, complanadas;
filídios bicostados, oblongos, ovalados a obovalados, margem superior dentada;
células lisas, romboidal-ovaladas. Ocorre na América do Sul tropical (Florschutz-De
Waard 1986). No Brasil, referida apenas para o Estado do Amapá (Yano & Lisboa
1988).
Lepidopilum scabrisetum (Schwaegr.) Steere, Bryologist 51:140. 1948 (Figura 11).
Material Examinado: Pará. município de Parauapebas, Serra dos Carajás, Salobo,
mina de cobre, em picada a 500 m do rio Salobo; sobre caule de árvore viva;
vegetação com muitos cipós, R. Lisboa, C.S. Rosário & J.S. Ramos 1917,
21/X/ 1 992.
Comentários: espécie com caulídios prostados, filídios laterais falcados, oblongo-
lanceolados, muitas vezes com o ápice flexuoso, recurvado para a base, bicostados,
costas tênues e curtas; células lisas romboidal-ovaladas, seta com papilas largas,
arredondadas. Ocorre nas índias Ocidentais e América Central e do Sul. No Brasil,
identificada nos Estados do Rio de Janeiro (Yano 1981), Santa Catarina e Rio de
Grande do Sul (Sehnetn 1979), Amazonas e Amapá (Lisboa & Yano 1987).
27
cm
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi. sér. Boi., 10(1), 1994
Figura 9. Porolrichum plicatulum. A) Apicc do caulídio mostrando disposição dos filídios, 210X; B)
Filídio, longitudinal-mente plicado. 83X: C) Apicc, destacando-sc as células romboidais c com pequena
papila na extremidade apical, 533X; D) Células da região mediana do filídio, longo-romboidais, 533X
(R. Lisboa, 1987).
28
Boi. Mus. Para. Emílio fíoeldi, sér. Boi., 10(1), 1994
Figura 1 1 . Lepidopilum scabriselum. A) Metade superior do filídio, 83X; li) Células da região mediana
do filídio, 210X; C) Detalhe do ápice do filídio, evidenciando a margem dentada c células romboidal-
ovaladas, 210X (R. Lisboa, 1917).
30
SciELO
11
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi., 10(1), 1994
Lepidopilum stolonaceum C. Müll., Hedwigia 37:245. 1898 (Figura 12).
Material Examinado: Pará. município de Parauapebas, Serra dos Carajás, mina de
manganês do igarapé azul, zona oeste da mina; sobre caule de cipó vivo, mata com
cipós e afloramentos rochosos; R. Lisboa, C.S. Rosário & J.S. Ramos 1979,
23/X/ 1992.
Comentários: espécie muito semelhante à anterior, diferindo por não apresentar os
ftlídios laterais conspicuamente falcados, pela seta com papilas maiores, híspidas e
ramos algumas vezes parcialmente desfolhados, formando eixos estoloníferos.
Ocorre nas índias Ocidentais, Guiana e Suriname (Florschutz-De Waard 1986). No
Brasil é referida para o Estado do Amazonas por Lisboa & Yano (1987).
POTTIACEAE
Barbula agraria Fledw., Spec. Musc. 116. 1801 (Figuras 13 e 14).
Material Examinado: Pará, município de Ananindeua, Conj. Júlia Seffer, bosque
das irmãs do Preciosíssimo Sangue; sobre restos de saca de cimento duro;
R. Lisboa 2350, 26/IV/1993.
Comentários: plantas minúsculas. Segundo Florschutz (1964), esta espécie é
facilmente identificada, mesmo quando estéril, pelos filídios oblongos, agudos ou
acuminados, mais largos no meio e células superiores pelúcidas, quadrado-
retangulares, comprimento superior a 10 /un; os filídios são involutos quando secos,
os dentes do perístoma são muito finos, marrom-claros, enrolados espiraladamente
para a esquerda e finamente papilosos. É distribuída na América Tropical. No
Brasil, referida para os Estados do Amazonas e Rio de Janeiro (Yano 1981).
FISSIDENTACEAE
Fissidens guianensis Mont., Ann. Sc. Nat. Bot. ser. 2, 14:340. 1840 (Figura 15).
Material Examinado: Pará, município de Afuá, margens dos rios Marajozinho,
Afuá e Cajuuna, mata de várzea, sobre árvore viva de seringueira, associada a
Lejeuneaceae; U.N. Maciel 1800, 12/IX a 02/X/1992; idem. sobre árvore viva de
Sterculia sp., associada a Taxithelium planum (Brid.) Mitt. e Hypnaceae; U.N.
Maciel 2002, I2/1X a 02/X/ 1992; idem, rio Cajuuna, mata de várzea, sobre árvore
viva, associada a Cyrtohypnum schistocalyx (C. Müll.) Buck & Crunt e Calymperes
levyanurn Besch., U.N. Maciel 2004, 12/XI a 02/X1I/1992; idem, rio Cajuuna, mata
de várzea, sobre árvore viva; associada a Cyrtohypnum schistyocalyx (C. Müll.)
Buck & Crum, Calymperes erosum C. Müll. e Lepidopilum surinamensis C. Müll.,
U.N. Maciel 2012, 12/XI a 02/XII/1992; idem, rio Afuá, sobre pau em decompo-
sição, associada a Lejeuneaceae, U.N. Maciel 2042, 12/XI a 02/XII/1992; idem,
costa setentrional da ilha de Marajó, Fazenda Paraíso, sobre árvore viva, associada
a Sematophyllum sp. Taxithelium planum (Brid..) Mitt., Calymperes erosum C.
Müll. e Lejeunea sp., U.N. Maciel 2056, 12/XI a 02/XI1/1992.
Comentários: táxon muito variável, o que leva alguns autores, como Florschutz
(1964), a considerar como sinônimos do mesmo, um grande número de espécies.
32
cm
Figura 13. Barbula agraria. A) Filídio. claramente mais largo no meio. 83X; B) Aptcc do filídio,
notando-se as células quadrado-relangulares, mamilo-bojudas na superfície ventral, 210X; C) Outro
detalhe do filídio. 210X; D) Base do filídio onde as células são mais longas, 210X (A c C, U.N. Maciel,
1754: B e 1). R. Lisboa. 2350).
SciELO
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi., 10(1), 1994
Figura 14. Barbula agraria. A) Cápsula com opérculo e caliptra caindo, deixando ver o perístoma, 83X;
B) Perístoma espiralado. 83X; C) Detalhe do ânulo, 210X; D) Dentes cspiralados do perístoma, 210X
(R. Lisboa, 1021).
34
Adições à brio flora do Estado do Pará
l'igura 15. Fissidem guianensis A) Apice do caulídio. mostrando a disposição dos filidios. 210X; H)
Detalhe aumentado do ápice c da margem dos íilídios. 533X; C) Outro espécime, mostrando variação do
apice. 2 1 OX ; D) Região mediana do filídio. destacando-se as papilas como pontos luminosos, 533X (A,
H e D. U.N. Maciel. 2004: C. U.N. Maciel. 2012).
SciELO
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi. sér. Boi.. 10(1), 1994
Cruni & Anderson (1981) já não concordam com esta sinonimização. Lisboa
(1993b) discute estas posições, acatando a opinião de Florschutz (1964). Segundo
este autor, a disposição da lâmina vaginante, a forma do ápice dos filídios, o número
de papilas marginais das células da margem, o bordo marginal ou intramarginal das
lâminas vaginantes, o comprimento destes bordos, células uni ou pluripapilosas do
ápice, são caracteres variáveis, até no mesmo espécime, acrescentando ainda, que
o único caráter constante e de confiança, que separa F. guianensis das outras
espécies relacionadas, são as células da lâmina vaginante, achatadas ou menos
salientes, sempre finamente papilosas. Em alguns exemplares, estas papilas se
dispõem em torno das paredes celulares, conferindo um visual muito bonito às
células. Ocorre no Suriname, Guiana. Guiana Francesa e Brasil. Neste é referida
para Mato Grosso, Goiás, Santa Catarina, Rondônia e São Paulo (Lisboa & Lisboa
1978, Yano 1981. Lisboa & Yano 1987 e Yano 1989).
Fissidens rnoílis Mitt., J. Linn. Soc. Bot. 12:600. 1869 (Figura 16).
Material Examinado: Pará, município de Belém, campus de pesquisa do Museu
Goeldi, Av. Perimetral, Depto. de Botânica; sobre o solo da vala para água da
chuva; R. Lisboa 2335, 29/111/1993.
Comentários: plantas pequenas, até lcm de altura, decumbentes, filídios dispostos
em 10-15 pares, quando secos enrolados e contorcidos, quando úmidos laxamente
expandidos, moles, lineares a oblongo-lanceolados, células laxas, hexagonais, na
margem 3-5 filas de células muito longas e estreitas, formando um bordo muito
conspícuo. Ocorre nas índias Ocidentais, América Central e do Sul. No Brasil é
relacionada para o Acre, Rondônia e Pernambuco (Lisboa & Yano 1987 e Yano &
Andrade-Lima 1987).
LEPIDOZ1ACEAE
Micropterygium trachyphyllum Reimers, Hedwigia 73:186. 1933 (Figura 17).
Material Examinado: Pará. município de Melgaço, Caxiuanã, Estação Científica
Ferreira Penna. Sobre tronco caído em decomposição. Mata primária de terra firme,
sobre platô em solo areno-argiloso. Samuel Almeida, A.S.L. Silva & P.J. Dantas
015, 16 a 17/VI/1992.
Comentários: hepática folhosa sem lóbulos; anfigástrios grandes, mais largos do que
o talo, filídios longo-ovalados com uma ala ou carena no lado ventral, células
inchadas, mamilosas ou papilosas. Citada para os Estados do Amazonas (Yano 1984)
e Roraima (Yano & Mello 1992).
36
Adições à brioflora do Estado do Pará
Figura 1 6. Eissidens mollis. A ) Filídio com lâmina vaginante. 83X; li) Filídio, mostrando a junção muito
oblíqua da lâmina vaginante. 83X; Cj Metade superior do lilídio. 210X: D) Detalhe do ápice,
evidenciando o bordo e as células sinuosamente hexagonais. 533X (R. I.isboa. 2335).
37
Boi. Mus. Para. Emílio Goeltli, sér. Boi., 10(1), 1994
Figura 17. Miiropierygium trarhypliylluni. A) Ápice do caulídio. mostrando a disposição dos filídios.
83X: li) Filídio. notando-se as células papilosas. 2 1 OX : C) Ápice do filídio, 533X (S. Almeida, 15).
38
1'igura IX. irullania hojaneirensis. A) Ápice cio caulídio. destacando-se os lóbulos. 33X: H) Detalhe
aumentado do ápice superior. X3X; C) Perianto. 33X: D) Detalhe mais ampliado do pcrianto. X3X (R.
Lisboa. 2357).
Adições à brioflora do Estado do Pará
cm
Ilnl. Mus. Para. Emílio Goeldi. sér. Boi., 10(1). 1994
FRULLANIACEAE
Frullania riojaneirensis (Raddi) Spruce, Trans. Proc. Bot. Soc. Edinburgh 15:23.
1884 (Figura 18).
Material Examinado: Pará. município de Belém, campus da EMBRAPA, Av.
Perimetral. em frente ao prédio da Botânica. Sobre caule de palmeira, associada a
Calymperes erosiim C. Midi., R. Lisboa 2340, 01/IV/1993; Pará, Município de
Ananindeua, Condomínio Green Garden, bosque artificial de mangueiras, sobre
tronco vivo de mangueira, R. Lisboa 2357, 02/V/ 1993.
Comentários: hepáticas com lóbulos grandes, inflados na porção superior e com
segmento laminar basal bem desenvolvido, anfigástrios várias vezes mais largos que
o caulídio, levemente bífidos no ápice e auriculados na base, perianto trapezoidal em
secção transversal (Michel 1980). Distribui-se na América Tropical. No Brasil é
citada para o Rio Grande do Sul (Michel 1980). Pernambuco (Porto 1990), Goiás.
Minas Gerais, Rio Grande do Sul. Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo (Yano
1984).
DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
Estas 16 espécies relacionadas como referências novas para o Estado do Pará,
constituem-se apenas o início de uma lista que pode aumentar, à medida que forem
realizadas coletas nos 128 municípios paraenses, dos quais a imensa maioria nunca
foi visitada por botânicos especialistas em briófitas. Além disto, o material coletado
na serra dos Carajás ainda está em fase de identificação e as coletas em Caxiuanã,
município de Melgaço, onde se encontra a Estação Científica Ferreira Penna, apenas
começaram.
Observa-se algumas coisas interessantes: Bryuni subverticillatum era referida
apenas para Estados brasileiros com ocorrência de baixas temperaturas. Como foi
coletada na serra dos Carajás, que também apresenta temperaturas amenas, pode-se
imaginar que a espécie seja de Serras ou de lugares mais altos, o que ocorre pouco
na Amazônia.
Duas espécies ocorriam antes em apenas um Estado do Brasil: Lepidopilum
surinamen.se, que ocorria apenas no Estado do Amapá (Yano & Lisboa 1988) e
L. stolonaceuw , citada para o Estado do Amazonas (Lisboa & Yano 1987).
Coincidentemente, ambas citadas pela primeira vez para o Brasil a partir de 1987
e na região Amazônica.
Fissidens mollis foi encontrada dentro do campus de pesquisa do Museu Goeldi.
demonstrando o quanto este grupo ainda está mal coletado, mesmo dentro da cidade
de Belém.
Frullania riojaneirensis está sendo citada pela primeira vez não só para o Estado
do Pará, como para a região amazônica, o mesmo acontecendo com Stereopliyllurn
radiculo.su ni.
40
Adições à brioflora do Estado do Pará
Alguns casos de disjunções são parcialmente eliminados: Groutiella tomentosa
ocorria em Rondônia e passava para Pernambuco; Ectropotheciurn leptochaeton
ocorria no Amazonas, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina;
Meiothecitm revolubile , citada para o Amazonas e depois para Mato Grosso e
Espírito Santo; Trichosteleum fluviale também citada para o Amazonas e Mato
Grosso; Pireella pohlii, coletada no Amazonas, Mato Grosso, Espírito Santo, Goiás
e Paraná; Porotrichum plicatulum , ocorria na região Norte apenas em Rondônia e
ia aparecer no Sul e Sudeste, Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina
e Rio Grande do Sul; Lepidopilum scabrisetum era citada para o Amazonas e depois
Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul; Babula agraria , coletada nos
Estados do Amazonas e Rio de Janeiro; Fissidens rnollis, coletada nos Estados do
Acre, Rondônia e Pernambuco.
Todos estes novos dados mostram o conhecimento insuficiente de nossa brioflora,
impedindo conclusões definitivas sobre endemismos, disjunções e outras observações
fitogeográficas.
AGRADECIMENTOS
Ao Fundo Nacional de Meio Ambiente (FNMA) e à Fundação Margareth Mee,
pelos auxílios para excursões à Serra dos Carajás; à Companhia Vale do Rio Doce,
pelo apoio logístico dado à autora e sua equipe, dentro da Serra dos Carajás; ao
pesquisador Antônio Sérgio Lima da Silva, pela versão do Resumo para o inglês e
ao pesquisador Ubirajara Nery Maciel, pelas coletas de briófitas no município de
Afuá.
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CDD: 588.20981152
MUSGOS DA ILHA DE MARAJÓ - I - AFUÁ (PARÁ ) 1
Regina C. L. Lisboa ’
Vbirajara N. Maciel 1
RESUMO — Foram realizadas coletas de Bryopsida no município de Afuá. ilha de Marajó,
dentro de um projeto que visa conhecer a brioflora do Estado do Pará. Identificaram-se trinta
e uma espécies e uma variedade de musgos, pertencentes a quinze famílias. Sematophyllaceae
e Calymperaceae destacaram-se como as famílias de maior riqueza específica. Taxithelium
planum (Brid.) Mitt. e Cyrtohypnum schistocalyx (C. Midi.) Min. foram as espécies mais
coletadas.
PALAVRAS-CHAVE: Briófitas; Musgos; Afuá; Marajó; Pará.
ABSTRACT — /Mosses from Marajó Island, Brazil. I. Municipalily of Afuá] Mosses were
collecled in lhe Municipalily of Afuá, on lhe Island of Marajó in lhe norlhem fírazilian State of
Pará, as pari of a survey of the Bryophyla flora of this State. 31 species and one variely,
belonging lo 15 families, were idenlified from lhe municipalily. Sematophyllaceae and
Calymperaceae stand oul as lhe families wilh the greatesl number of species. Taxithelium
planum (Brid.) Mitt. and Cyrtohypnum schistocalyx (C. Midi.) Mitt. were the mosl collecled
species.
KEY WORDS: Bryophyta: Moss; Brazil; Amazônia; Pará; Marajó Island.
INTRODUÇÃO
O Estado do Pará, localizado na região Norte do Brasil, possui 128 municípios,
ocupando uma superfície de 1.246.833,1 kni2. Apresenta diferentes tipos de
vegetação, como restinga, mangues, savanas, campos rupestres, inatas densas, inatas
abertas, igapós, várzeas e capoeiras. Considerando esta grande área territorial e a
diversidade de vegetação, seria razoável se prever a presença de um elevado número
de espécies de musgos e hepáticas (briófitas), que no inundo todo alcança mais de
24.000 espécies. Entretanto, até o presente, há referência de menos de 3% destas
' Pesquisa realizada com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-
CNPq (Auxílio-Pesquisa n°630035/92.0-PTU/CPSR).
2 Museu Paraense Emílio Gocldi. Departamento de Botânica, Caixa Postal 399. CEP 66.017-970, Belém,
Pará.
43
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
Boi. Mus. Para. Emílio Goelili, sér. Boi.. 10(1). 1994
espécies para a Amazônia brasileira, sendo ainda mais reduzido o número de
espécies para o Estado do Pará (Lisboa 1993a).
Lisboa (1984, 1985, 1991, 1993a) tem discutido esta situação e alertado para a
necessidade de urgentes estudos sobre musgos e hepáticas na Amazônia. Segundo
o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, no "O Estado de São Paulo" (1991), o
Estado do Pará está sendo submetido a uma das mais altas taxas de desmatamento
do mundo, ou seja, 4.902 km2/ano, devido à grande pressão colonizadora,
principalmente no sul do Estado.
Em decorrência dos fatores acima, foi feito um projeto para determinar a
diversidade da brioflora no Estado. Vários municípios já estão sendo inventariados,
incluindo aqueles situados na ilha de Marajó. Lisboa et al. (1994), refere a brioflora
da Reserva Ecológica do Bacurizal, em Salvaterra e este trabalho aborda a brioflora
de Afúá.
ÁREA DE ESTUDO
A ilha do Marajó está situada no nordeste do Estado do Pará, na foz do rio
Amazonas (Figura 1). Suas coordenadas geográficas ficam entre os paralelos 0 o a
2 o de latitude sul e os meridianos 48° a 51° de longitude Oeste. Ocupa uma área
de 49.606 km2, sendo o maior complexo de ilhas do mundo. Está dividida em 12
municípios: Afuá, Anajás, Breves, Curralinho, Muaná, São Sebastião da Boa Vista,
Chaves, Cachoeira do Arari, Santa Cruz do Arari, Soure, Salvaterra e Ponta de
Pedras. Possui clima equatorial úmido, com uma estação seca no verão (de julho a
dezembro) e uma estação chuvosa no inverno (janeiro a junho). No auge do verão
marajoara, em meados de novembro, os pastos desaparecem, os lagos secam, o solo
racha, ocasionando perda de centenas de cabeças de gado por falta de água e pasto
(Cruz 1987).
O município de Afuá possui área de 5.570km2 e situa-se na extremidade norte-
ocidental do Marajó (Figura 1 ). A sede do município fica localizada numa ilha à
margem direita e oriental do rio Afuá, afluente do rio Amazonas, em terrenos
inundáveis, muito próxima da foz do rio Amazonas (0°9’32"S; 50°23’31"W) e
altitude igual a quatro metros (Figura 2).
A média anual de precipitação varia de 2.700 a 3.000 mm, a temperatura média
anual situa-se em torno de 27,5°C, os solos são do tipo Aluviais Eutrófico Textura
Média, o relevo é plano, com algumas formações mais elevadas e terrenos
inundáveis, os quais compreendem planícies de inundação (várzeas), terraços baixos
e depressões. As vegetações características do município são a floresta tropical
úmida e os campos naturais (IDESP 1977) (Figura 3).
44
Musgos da ilha de Marajó - I - Afuá
Figura 1. Localização dos ecossistemas da ilha de Marajó, PA, na foz do rio Amazonas. O município
de Afuá está situado na seta (Mapa de Nascimento et al. 1991),
Figura 2. Vista da cidade de Afuá. Av. Barão do Rio Branco. Foto de U.N. Maciel, 1993
SciELO
cm
10 11 12 13 14 15
Boi. Mus. Pura. Emílio Goeldi. sér. Boi.. 1D(J). 1994
Figura 3. Aspectos da vegetação no município de Afuá. Ilha de Marajó, a) Mata de várzea com
predominância de Calirophyllum sprureanum (Benth.) Hook.. "pau mulato". Rio Cajuuna; b) Vegetação
da costa setentrional da Ilha de Marajó, com aglomeração de Mauritía flexuosa L., "buriti”. (Fotos de
U.N. Maciel. 1993.)
46
Musgos da ilha de Marajó - I - Afuá
MATERIAL E MÉTODOS
Foram realizadas três excursões para o município de Afuá, para coleta de
material. Os períodos das excursões foram: 10 a 24/1/1992: 12/IX a 02/X/1992 e
12/X1 a 02/XII/ 1 992. Um total de 107 amostras foram coletadas e preparadas
segundo metodologia descrita em Yano (1984).
A identificação das espécies foi feita utilizando-se chaves e descrições de Bartram
(1949), Florschutz (1964), Griffin III (1979), Cruni & Anderson (1981), Reese
(1983), Yano (1992) e Lisboa (1993b). Todo o material estudado encontra-se
depositado no Herbário do Museu Paraense Emílio Goeldi (MG).
RESULTADOS
No município de Afuá, foram identificadas trinta e uma espécies e uma variedade
de musgos, pertencentes a quinze famílias, que estão apresentadas segundo a
classificação de Vitt (1984).
ORTHOTRICHACEAE
Groutiella tomentosa (Hornsch.) Wijk. & Marg., Taxou. 9:51. 1960.
Sobre árvore caída e em decomposição, margem dos rios Marajozinho, Afuá e
Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Neckeropsis undulata (Hedw.) Reichdt,
U.N. Maciel 1947. Lisboa (1994) ilustra a espécie e a refere pela primeira vez para
o Estado do Pará.
BARTRAM IACEAE
Philonotis sp.
Sobre a encosta cimentada da praça da prefeitura de Afuá e sobre madeira, em
fundo de quintal. U.N. Maciel 1755 e 1756.
THUIDIACEAE
Cyrtohypnum schistocalyx (C. Midi.) Buck&Crum, Contr. Univ. Midi. Herb. 17:
55-69. 1990.
Sobre árvore viva de taperebá, margem dos rios Marajozinho, Afuá e Cajuuna,
vegetação de várzea, associada a Hymenophyllaceae, U.N. Maciel 1942; sobre
árvore viva, rio Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Calymperes levyanum
Besch. e Fissidens guianensis Mont., U.N. Maciel 2004; idem, associada a
Neckeropsis undulata, Taxithelium plamim (Brid.) Mitt., Pireella pohlii (Schwaegr. )
Card. e Calymperes afzelii Sw.. U.N. Maciel 2005; idem, associada a Calymperes
erosum C. Midi., Lepidopilum surinamense C. Midi. e Fissidens guianensis , U.N.
Maciel 2012; idem, associada a Pireella polilii , U.N. Maciel 2015; idem, associada
a Neckeropsis undulata, U.N. Maciel 2025; sobre árvore viva, costa setentrional da
ilha de Marajõ, fazenda Paraíso, associada a Stereophyllum radiculosum (Hook.)
47
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi. sér. Boi.. 10(1). 1994
Mitt. . U.N. Maciel 2057 e 2062. Espécie muito frequente na área, sempre associada
a outras. Essencialmente corticícola.
STEREOPHYLLACEAE
Stereophyllum radiculosum (Hook.) Mitt.. J. Linn. Soe., Bot. 12:542. 1869.
Sobre árvore viva, costa setentrional da ilha de Marajó, fazenda Paraíso,
associada a Cyrtohypnum schistocalyx , U.N. Maciel 2057 e 2062. Espécie ilustrada
em Ireland & Buck (1994) e referida pela primeira vez para o Estado do Pará em
Lisboa (1994), que também inclui ilustrações.
HYPNACEAE
Isopterygium tenerwn (Sw.) Mitt., .1. Linn. Soc., Bot. 12:499. 1869.
Sobre árvore em decomposição com cupim, margem dos rios Marajozinho, Afuá
e Cajuuna, vegetação de várzea. U.N. Maciel 1948; sobre árvore viva de
murumuru, margem dos rios Marajozinho, Afuá e Cajuuna. U.N. Maciel 2000;
sobre árvore viva, costa setentrional da ilha de Marajó, fazenda Paraíso, associada
a Taxithelium planurn. U.N. Maciel 2059.
Ectropotheciuni leptochaetou (Hornsch.) Buck.. Brittonia 35; 311. 1983.
Sobre árvore viva de seringueira, margem dos rios Marajozinho, Afuá e
Cajuuna, vegetação de várzea, U.N. Maciel 1959.
Referida para o Estado do Pará em Lisboa (1994), onde está ilustrada.
SEM ATOPHYLLACEAE
Meiothecium revolubile Mitt., J. Linn. Soc., Bot. 12:471. 1869.
Sobre cipó vivo, às margens dos rios Afuá, Marajozinho e Cajuuna, vegetação
de várzea, associada a Zelometeorium patulum (Hedw. ) Manuel. U.N. Maciel 1949.
Lisboa (1994) refere esta coleta, junto a outras da espécie realizadas em Belém,
como primeiras ocorrências para o Estado do Pará. incluindo ilustrações.
Seniatophyllum adnatum (Michx.) E.G. Britt. , Bryologist 5:65. 1902.
Coletada sobre árvore viva, rio Cajuuna, mata de várzea, associada a Taxithelium
planum. Calymperes erosurn, Fissidens guianensis e Lejeunea sp.
Segundo Yano (1981), esta espécie foi referida como Leskea microcarpa R.
Hedw. ex Brid. por Montagne, em 1835. para o Oiapoque. na época pertencente ao
Estado do Pará, hoje Estado do Amapá. Então esta é a primeira coleta da espécie
dentro do atual Estado do Pará. Ilustrada em Cmm & Anderson (1981).
48
Musgos da ilha de Marajó - I - Afuá
Sematophyllum subsimplex (Hedw.) Mitt. , J. Limi. Soc., Bot. 12:494. 1869.
Sobre árvore viva de seringueira, às margens dos rios Afuá, Marajozinho e
Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Plagiochila sp., U.N. Maciel 1958; sobre
árvore viva. costa setentrional da ilha do Marajó, fazenda Paraíso, associada a
Octoblepharum albidum Hedw. e Calymperes erosum, U.N. Maciel 2053.
Sematophyllum sp.
Sobre árvore viva, rio Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Octoblepharum
pulvinatum (Dozy & Molk.) Mitt. e Syrrhopodon incompletus Schwaegr., U.N.
Maciel 2041.
Taxithelium planum (Brid.) Mitt., J. Linn. Soc., Bot. 12:496. 1869.
Sobre árvore viva. fazenda Nazaré-Marajó; associada a Calymperes afielii , U.N.
Maciel 1757; sobre árvore caída, seca, margem dos rios Marajozinho, Afuá e
Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Schizomitrium pallidum (Hornsch.) Crum
& Anderson, U.N. Maciel 1944; sobre árvore viva de Melastomataceae, associada
a Zelometeorium patulum (Hedw.) Manuel, U.N. Maciel 1951; sobre árvore viva
de taperebá, às margens dos rios Afuá, Marajozinho e Cajuuna, vegetação de
várzea, U.N. Maciel 1957; sobre árvore viva de Sterculia sp, às margens dos rios
Afuá, Marajozinho e Cajuuna, associada a Fissidens guianensis. U.N. Maciel 2002;
sobre árvore viva. rio cajuuna, vegetação de várzea, associada a Cyrtohypnum
schistocalyx, Neckeropsis undulata, Pireella pohlii e Calymperes afzelii. U.N. Maciel
2005; sobre árvore viva, rio Cajuuna, U.N. Maciel 2008, 2009 e 2050; sobre árvore
viva, rio Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Neckeropsis undulata e
Calymperes aft.elii, U.N. Maciel 2052; idem, associada a Sematophyllum adnatum,
Calymperes erosum. Fissidens guianensis e Lejeunea sp, U.N. Maciel 2056; idem,
associada a Isopterygium tenerum, U.N. Maciel 2059; idem, associada a Calymperes
erosum , U.N. Maciel 2061; idem, associada a Plagiochila guilleminiana Mont. e
Calymperes erosum. U.N. Maciel 2065.
Trichosteleum fluviale (Mitt.) Jaeg., Adumb. 2:485. 1876-77.
Sobre tronco caído em decomposição, fazenda Nazaré-Marajó, U.N. Maciel 1758
e 1759; sobre raiz viva, fazenda Nazaré-Marajó, U.N. Maciel 1763.
Foram as primeiras coletas da espécie para o Estado do Pará (Lisboa 1994).
Ilustrado em Griffin III (1979) e Lisboa (1994).
Trichosteleum guianae (C. Mull.) Broth., Nat. Pfl. 1(3): 1 1 19. 1908.
Sobre folha de açaí (palha), no chão, rio Cajuuna, vegetação de várzea, U.N.
Maciel 2029.
49
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi.. 10(1). 1994
PTEROBRYACEAE
Pireella polhii (Schwaegr.) Card.. Rev. Bryol. 40:18. 1913.
Sobre árvore viva, rio Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Neckeropsis
undulata, Cyrtohypnum schistocalyx, Taxithelium planurn e Calymperes ajzelii. U . N .
Maciel 2005; idem, associada a Neckeropsis undulata. U.N. Maciel 2006: idem,
associada a Cyrtohypnum schistocalyx. U.N. Maciel 2015. Espécie essencialmente
corticícola, sempre associada a outras. Referidas por Lisboa (1994), como as
primeiras coletas da espécie no Estado do Pará, com ilustração.
Orthostichopsis tetragona (Hedw.) Broth., Nat. Pfl. 1(3):805. 1906.
Sobre árvore viva, rio Cajuuna, vegetação de várzea, U.N. Maciel 2013.
METEOR1ACEAE
Zelometeorium patulum (Hedw.) Manuel, J. Hattori Bot. Lab. 43:107-126. 1977.
Sobre cipó vivo, margens dos rios Marajozinho, Afuá e Cajuuna, vegetação de
várzea, associada a Meiothecium revoluhile. U.N. Maciel 1949: sobre árvore viva
de Melastomataceae, margens dos rios Marajozinho, Afuá e Cajuuna, vegetação de
várzea, associada a Taxithelium planurn. U.N. Maciel 1951; sobre cipó vivo,
margens dos rios Marajozinho, Afuá e Cajuuna, vegetação de várzea, U.N. Maciel
1952.
Espécie muito vistosa, geralmente pêndula de cipós e galhos finos, em vegetação
aberta.
NECKERACEAE
Neckeropsis undulata (Hedw.) Reichdt. Verli. Zool. Ges. Wien 18:192. 1868.
Sobre árvore caída e em decomposição, margens dos rios Marajozinho, Afuá e
Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Groutiella tomentosa. U.N. Maciel 1947;
sobre árvore viva, rio Cajuuna. vegetação de várzea, associada a Cyrtohypnum
schistocalyx. Taxithelium planurn. Pireella pohlii e Calymperes ajzelii. U.N. Maciel
2005; sobre árvore viva, rio Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Pireella
pohlii. U.N. Maciel 2006; sobre árvore viva, rio Cajuuna, vegetação de várzea,
U.N. Maciel 2019: idem. associada a Cyrtohypnum schistocalyx. U.N. Maciel 2025;
sobre árvore viva, costa setentrional da ilha do Marajó, fazenda Paraíso, associada
a Taxithelium planurn e Calymperes ajzelii. U.N. Maciel 2052.
DALTONIACEAE
Lepidopilum surinamense C. Mull.. Linnaea 21: 193. 1848.
Sobre árvore viva de jenipapo, margens dos rios Marajozinho, Afuá e Cajuuna,
vegetação de várzea, associada a Radula kegeli Gott., U.N. Maciel 1943; sobre
árvore viva, rio Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Cyrtohypnum schisto-
calyx, Calymperes erosurn e Fissidens guianensis. U.N. Maciel 2012.
50
Musgos da ilha de Marajó - I - Afuá
HOOKERIACEAE
Schizorrátrium pallidum (Hornsch.) Crum & Anderson, Mosses E. N. America:822.
1981.
Sobre árvore caída, seca, margens dos rios Marajozinho, Afuá e Cajuuna.
vegetação de várzea, associada a Taxithelium planum , U.N. Maciel 1944.
POTTIACEAE
Barbula agraria Hedw., Spec. Musc. 116. 1801.
Sobre a encosta cimentada da praça da prefeitura, associada a Hyophila involuta
(Hook.) Jaeg. & Sauerb., U.N. Maciel 1754.
Hyophila involuta (Hook.) Jaeg. & Sauerb., Ber. St. Gall. Naturw. Ges. 1871-
72:354. 1873.
Sobre a encosta cimentada da praça da prefeitura, associada a Barbula agraria ,
U.N. Maciel 1754.
CALYMPERACEAE
Calymperes afzelii Sw., Jahrb, Gewáchsk. 1(3): 1. 1818.
Sobre árvore viva, fazenda Nazaré-Marajó, associada a Taxithelium planum ,
U.N. Maciel 1757; sobre cipó, fazenda Nazaré-Marajó, U.N. Maciel 1762; sobre
árvore em decomposição, fazenda Nazaré-Marajó, U.N. Maciel 1764; sobre árvore
viva, rio Cajuuna, associada a Neckeropsis undulata, Cyrtohypnum schistocalyx,
Pireella pohlii e Taxithelium planum, U.N. Maciel 2005; sobre árvore viva, costa
setentrional da ilha do Marajó, fazenda Paraíso, U.N. Maciel 2052.
Calymperes palisotii Schwaegr. subsp. richardii (C. Mull.) S. Edwards, J. Bryol.
11:81. 1980.
Sobre árvore viva, fazenda Nazaré-Marajó. U.N. Maciel 1765; sobre cipó vivo,
associada a Lejeuneaceae, margens dos rios Marajozinho, Afuá e Cajuuna,
vegetação de várzea, U.N. Maciel 1999; sobre árvore viva, rio Cajuuna, vegetação
de várzea, associada a Frullania neesii Lindb. e Acrolejeunea torulosa (L. et L.)
Schiffn., U.N. Maciel 2023; sobre árvore viva. rio Afuá. vegetação de várzea, U.N.
Maciel 2063 e 2064.
Calymperes levyanum Besch.
Sobre árvore viva, rio Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Cyrtohypnum
schistocalyx e Fissidens guianensis, U.N. Maciel 2004; sobre árvore viva, rio
Cajuuna, associada a Fissidens prionodes Mont. f. hornschuchii (Mont.) Florsch. e
Plagiochila sp, U.N. Maciel 2017.
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi. sér. Pm.. 10(1 ). 1994
Calymperes erosuni C. Mull.. Linnaea 21:182. 1848.
Sobre árvore viva, rio Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Cyrtohypnurn
schistocalyx, Lepidopilum surinamense e Fissidens guianensis , U.N. Maciel 2012;
ideni, rio Afuá, vegetação de várzea, associada a Ceratolejeunea sp. U.N. Maciel
2033; sobre árvore viva, costa setentrional da ilha de Marajó, Fazenda Paraíso,
associada a Lejeunea sp, U.N. Maciel 2051; ideni, associada a Octoblepharum
albidum e Sematophyllum subsimplex, U.N. Maciel 2053; ideni, associada a
Sematophyllum adnatum, Taxithelium planum, Fissidens guianensis e Lejeunea sp,
U.N. Maciel 2056; idein, associada a Taxithelium planum e Lejeuneaceae , U.N.
Maciel 2061; ideni, associada a Taxithelium planum e Plagiochila guilleminiana
Mont., U.N. Maciel 2065.
Calymperes nicaraguense Ren. & Card., Buli. Soc. Belg. 33(22): 117. 1894.
Sobre árvore viva. rio Cajuuna. vegetação de várzea, U.N. Maciel 2016.
Syrrhopodon incompletas Schwaeg. var. incompletas , Spec. Musc. Suppl. 2(1): 1 19.
1824.
Sobre árvore viva de muruniuru, margens dos rios Marajozinho, Afuá e Cajuuna,
vegetação de várzea, U.N. Maciel 1801 e 1808; idem, sobre árvore viva de
palmeira, U.N. Maciel 1941: sobre árvore viva, rio Cajuuna. vegetação de várzea,
associada a Octoblepharum pulvinatum, U.N. Maciel 2011; sobre árvore viva, rio
Cajuuna, vegetação de várzea, U.N. Maciel 2024.
Syrrhopodon incompletas Schwaeg. var. luridus (Par. et Broth.) Florsch., Mosses
of Suriname 1 : 163. 1964.
Sobre árvore viva, rio Cajuuna, vegetação de várzea, U.N. Maciel 2020; sobre
árvore viva, rio Afuá. vegetação de várzea, associada a Octoblepharum pulvinatum
e Sematophyllum sp, U.N. Maciel 2041. Esta é a primeira referência da variedade
para o Estado do Pará.
LEUCOBRYACEAE
Octoblepharum pulvinatum ( Dozy & Molk.) Mitt., J. Linn. Soc., Bot. 12: 109. 1869.
Sobre árvore viva de muruniuru, margens dos rios Marajozinho, Afuá e Cajuuna,
vegetação de várzea, U.N. Maciel 1804; sobre palmeira inajá, margens dos rios
Marajozinho, Afuá e Cajuuna. vegetação de várzea, U.N. Maciel 1961; sobre árvore
viva, rio Cajuuna. vegetação de várzea, associada a Syrrhopodon incompletas var.
incompletas , U.N. Maciel 2011; sobre árvore viva, rio Afuá, vegetação de várzea,
U.N. Maciel 2034; idem, associada a Trichosteleum fluviale, U.N. Maciel 2036;
idem, associada a Syrrhopodon incompletas e Sematophyllum sp, U.N. Maciel 2041 .
52
Musgos da ilha de Marajó - I - Afuá
Octoblepharum albidum Hedw., Spec. Musc. 50. 1801.
Sobre árvore viva. rio Cajuuna. vegetação de várzea, associada a Lejeuneaceae,
U.N. Maciel 2026; sobre árvore viva, costa setentrional da ilha de Marajó, Fazenda
Paraíso, associada a Sematophyllum subsimplex e Calymperes erosurn , U.N. Maciel
2053; sobre árvore viva, costa setentrional da ilha de Marajó, fazenda Paraíso, U.N.
Maciel 2055 e 2058.
FISSIDENTACEAE
Fissidens guianensis Mont., Ann. Sei. Nat. 2(14):340. 1840.
Sobre árvore viva. rio Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Cyrtohypnum
schistocalyx, Calymperes erosurn e Lepidopilum surinamense, U.N. Maciel 2012;
sobre tronco em decomposição, rio Afuá, vegetação de várzea, associada a
Lejeuneaceae, U.N. Maciel 2042; sobre árvore viva, costa setentrional da ilha de
Marajó, fazenda Paraíso, associada a Sematophyllum adnatum, Calymperes erosurn
e Lejeunea sp, U.N. Maciel 2056.
Referida pela primeira vez para o Estado do Pará em Lisboa (1994), a qual inclui
ilustração.
Fissidens prionodes Mont. f. hornschuchii (Mont.) Florsch., Mosses of Suriname
1:62. 1964.
Sobre árvore viva, rio Cajuuna, vegetação de várzea, associada a Calymperes
levyanum e Plagiochila sp., U.N. Maciel 2017.
DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
Estas trinta e uma espécies e uma variedade relacionadas neste trabalho não
correspondem ao total de musgos de Afuá, sendo muito provável que, caso sejam
realizadas mais coletas na área, ocorra um aumento da lista. Mas o que se tem agora
parece ser bastante representativo da flora amazônica. As famílias são as mesmas
coletadas para outras áreas da Amazônia. Em Griffin III (1979) são relacionadas 21
famílias de musgos para Manaus e adjacências, das quais 15 ocorrem em Afuá. Para
o Estado do Amapá, Yano & Lisboa (1988) relacionam 14 famílias que também
ocorrem em Manaus. O levantamento feito em Rondônia pela autora, relaciona 23
famílias de musgos. Considerando que em Afuá foram coletadas 107 amostras, que
incluem hepáticas. 15 famílias já é um número suficiente para fazer uma avaliação
da diversidade local de musgos.
A família com maior número de espécies foi Sematophyllaceae (sete), seguida
por Calymperaceae, com seis espécies e uma variedade.
As espécies mais comuns foram Taxithelium planam (14 coletas), Cyrtohypnum
schistocalyx (8 coletas), Calymperes erosurn (7 coletas), Neckeropsis undulata,
Calymperes afzelii e Octoblepharum pulvinatum (6 coletas), seguidas por Calymperes
palisotii subsp. richardii e Syrrhopodon incompletas var. incompletas (ambas com
53
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi.. 10(1), 1994
5 coletas). Todas estas espécies são comuns na Amazônia, sendo Taxithelium planurn
uma das espécies de musgos mais abundantes.
Não se pode comparar o número de famílias e espécies encontrados em Afuá,
com os resultados de Salvaterra, já que neste município foram coletadas briófitas
apenas na Reserva Ecológica do Bacurizal (Lisboa et al. 1993). Nesta Reserva,
foram identificadas três famílias de musgos, Calymperaceae, Leucobryaceae e
Sematophyllaceae. Destaca-se Calymperaceae, com oito espécies, sendo comuns com
Afuá Calymperes palisotii subsp. richardii, C. erosutn, C. nicarapuen.se e
Syrrhopodon incompletas var. incompletas. Em ambos municípios observa-se elevada
riqueza específica de Calymperaceae, em comparação com outras famílias.
O que mais surpreendeu neste trabalho, foi o grande número de espécies
coletadas pela primeira vez no Estado do Pará, objeto do trabalho de Lisboa (1994)
que trata de novas ocorrências de espécies de briófitas para o Estado. Das trinta e
uma espécies e uma variedade de musgos coletados em Afuá, nove foram referências
novas para o Pará. Isto significa 28%, ou seja, uma percentagem bastante
significativa, demonstrando-se. mais uma vez, a importância de se fazer este tipo de
estudo para a região.
Na impossibilidade de se coletar em toda a área do Estado, espera-se que, à
medida que sejam feitas coletas nos demais municípios, chegue-se a um determinado
estágio em que não seja acrescentada mais nenhuma espécie nova. Estará então
conhecida a brioflora do Pará.
Este levantamento deverá incluir o grupo das hepáticas, que não faz parte do
presente trabalho porque, apesar de coletadas, estão incompletamente determinadas.
Pode-se adiantar a presença de um grande número de espécies da família Lejeunea-
ceae, comum na Amazônia, destacando-se Symlnezidium transversale (Sw.) Trev.
AGRADECIMENTOS
Ao Dr. William Overal, pela versão do resumo para o inglês.
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Para. Emílio Goeldi, ser. Bot.. 4 ( 2 ): 243 - 270 .
Recebido: 17.02.94
Aprovado: 28.1 1.94
55
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
. ,
. .7
cm 1
SciELO
10 11 12 13 14 15
CDD: 581.15
581.662
PHENOLOGY OF TROPICAL TREES FROM JARI,
LOWER AMAZON, II. INFLUENCE OF GENETICS
AND THE ENVIRONMENT
M. Joaquina Pires-0’Brien '
RESUMO — A influência da genética na fenologia reprodutiva das árvores tropicais foi
investigada através de três métodos diferentes. O primeiro envolveu a comparação da sincronia
da floração e da frutificação de dez espécies de árvores de distribuição restrita, ocorrentes em
oito comunidades de floresta primária localizadas no Jari, Baixo A mazonas. O segundo en volveu
a comparação das médias da fenologia de frutificação de diferentes populações da mesma
espécie, que diferem apenas quanto à localização. O terceiro método usou os coeficientes de
correlação das variáveis pluviosidade, temperatura, floração, frutificação, copa com folhas
velhas e copa com folhas novas, seguido pela regressão linear a fim de detectar a dependência
de cada fase f enológica nas duas variáveis ambientais, pluviosidade e temperatura. Os resultados
sugerem a existência de dois tipos de árvores. No primeiro a fenologia é controlada
principalmente pelo ambiente, e. no segundo, o controle da fenologia é endógeno. Estes tipos
de controle tanto podem ocorrer em todos os indivíduos de uma população quanto em apenas
alguns indivíduos selecionados.
PALAVRAS-CHAVE: Floração; Frutificação; Biologia dc Populações; Sincronia.
ABSTRACT — lhe influence of genetics in lhe reproductive phenology of tropical trees was
investigaled by three dijferenl methods. Thefirst involved lhe comparison of lhe synchrony in lhe
flowering and fruiting episodes of ten species of trees of reslricted dislrihulion, from eighl
primary foresl communities in Jari, Lower Amazon. lhe second involved lhe comparison of lhe
median fruiting phenologies of dijferenl populations of lhe same species which dijfered only in
location. The third melhod used lhe correlation coefficients ofthe variables rainfall, lemperature,
flowering, fruiting, o! d canopy and enlire new canopy, followed by furlher linear regression to
detect lhe dependency of each phenological variable on lhe two environmental variables, rainfall
and lemperature. lhe resulls suggesl lhe exislence of two types of foresl trees. one in which the
phenology is controlled mainly by the environment. and another in which the conlrol of
phenology is mainly endogenous. These types of conlrol can be either linked lo all lhe individuais
or to selecled individuais of a population.
KEY YVORDS: Flowering; Fruiting; Population Biology; Synchrony.
1 Faculdade dc Ciências Agrárias do Pará. Departamento dc Ciências Florestais, Curso de Pós-Graduação.
Caixa Postal 917. CEP 66.077-530. Belém-Pará.
57
Boi. Mus. Paru. Emílio Goeldi, sér. Boi., 10(1), 1994
INTRODUCTION
Based on their prirnary goal, most studies of tropical forest phenology can be
placed into one of two categories: (1) Resource productivity studies, and (2)
Biosystematic studies. The first one, focus on how many calories a particular
community produces for a particular guild. The second focus on counts of
individuais of particular tree species that show a particular phenological pliase.
This paper is part of a three-year phenological study carried out by the author
from 1986 to 1990 in eight prirnary forest communities from Jari, Lower Amazon,
Brazil, involving 36 monthly observations of 1508 trees of 137 tree species. Its aitn
was to study phenology of forest tree species, from the biosystematic perspective,
that is, one in wliich the ecological role of a species can only be detemiined by the
properties of its individuais (Hallain, Lassiter, Li & Suarez 1990).
In this study the character species phenology is equated witli the compound
phenology of its populations. A study of this nature requires lack of bias towards
those trees which produces the most conspicuous fruits that animais eat, and a
drastic minimization of gap and border effects. The first was attained simply by
excluding the edibility criterion on the species selection, and the second by the
random selection of the individuais to be observed. This last requires a previous
inventory of the study area, and its advantage is to allow the computation of negative
data. This type of phenological study answers not only when a particular species
flowers or fruits, but what proportions of their individuais do so.
One of the facts of phenology already known for some time, is that the
compounding of the flowering and fruiting phenologies of tropical forest communi-
ties results in clear seasonal patterns (Croat 1969: Pires-0’Brien 1993). What lias
not been strongly emphasized is that in a large number of tree species, the flowering
and fruiting phenologies at the leveis of individuais and populations do not reveal a
seasonal pattern. Tliere are two reasons why many phenology studies miss this fact.
The first is failure to consider the negative data, that is data from those individuais
in the population which do not flower or fruit during the course of a study. The
second cause is when the study is not carried out in a closed forest situation.
A tree occurring isolated on a roadside, or in a forest gap behaves differently
from another tree of the same species grown in a close forest. This is equivalem to
the group effect reported for animais, and it simply implies the existence of both
individual and community characters. Of course the community characters are
influenced by different types of environmental conditions. In the tropical rain forest.
light is the limiting factor. In an undisturbed prirnary forest, or in any old growtli
forest, the canopies touch one another, leaving only a small part exposed to the sun
light, diminishing their photosynthetic activity and bringing the forest mosaic to the
conipensation point. When this happens, photosynthesis becomes equal to respiration
and all the energy produced is spent in maintaining the plant’s metabolism. All the
58
Phenology of tropical trees, II.
other activities ceases, including importam phenomeiia such as growth and
reproduction.
Wliat happens if an individual tree wliicli lias reached its compensation point,
flowers and ffuits? The likley answer is— it dies. This was observed by the author
in several instances, during the course of the íield study in Jari. Trees with a storm-
caused trunk wound, attacked by fungi, were seen to flower, fruit and die while its
nearby conspecifics remained in the vegetative stage.
The finding that only a small percentage of the individuais of a population enters
tlie flowering stage in a particular cycle (Pires 1991, Pires-0’Brien 1993, Alencar
1990), brings the present question, to explain the mechanism that triggers an
individual to enter a reproductive phase. This question is centered on the debate
concerning the exogenous versus endogenous control of reproductive phenology, that
is what makes a plant switcli from a vegetative State to a reproductive one. Some
authors attribute flowering to environmental causes, suggesting either the rainfall
(Augspurger 1983) or photoperiod (Alvim & Alvim 1978). Others attribute
flowering to internai mechanisms (Falcão & Lleras 1980, 1981, 1982, 1983; Falcão,
Lleras & Kerr 1981 e Borchert 1983).
STUDY AREA AND METHODS
Description of the area where the study took place is given in Pires-0’Brien
(1993). The eight communities studied are primary forest reserves aimed at the
conservation of tree genetic resources. The area of Jari has an average precipitation
of 2.115 m and average temperatures in the order of 26.4°C, as seen in Figure 1.
The climate is seasonal with a mild dry season from September to November
(climate formulas "BlrA'a”' in the Thornthwaite System or "Amw" in the Kõppen
System). The driest months contribute with only 8 % of the annual volume of rain
in the region (Companhia Florestal Monte Dourado 1989).
Due to the longevity of most tropical trees it is not feasible to perform crosses
of individuais showing different phenological traits and observing such traits over
two or more generations, in order to study of the genetic cause of phenology. To
counteract this limitation, the influence of genetics on phenology was evaluated
indirectly, by measuring the synchrony between an individual and its conspecifícs
and the synchrony of the population. Very higli synchrony implies a large influence
of genetic factors. Very small synchrony implies a stronger role of the environment
on the flowering and fruiting phenologies.
Ten species of trees which showed restricted site distribution were selected for
this (Table 1). All the species studied, except for Guarea kunthiana , occurred in
only one forest. Although the two populations of Guarea kuntltiana occurred in two
very close and similar forests, only one population was included in the synchrony
calculation, to avoid a bias towards the environment.
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Boi. Mus. Para. Emílio Goelili, sér. Boi.. 10(1). 1994
1987 1988 1989 1990
Figure 1. Rainfall and temperature during the study.
The metliod used to investigate synchrony aniong individuais of a population was
that devised by Primack (1980) and modified by Augspurger (1983). Tliis metliod,
which was originally devised for shrubs, measures the overlap on all days an
individual shrub shows at least one open flower. To adapt it to tropical trees the
variable days were substituted for months and the maturity stage of the flowers was
disregarded. For the synchrony calculation only those individuais that actually
entered a tlowering and fruiting stage were analyzed. The methods are as following:
Synchrony of a given individual with its conspecifics:
X|, the index of synchrony for individual i, is defined as: X, = ( 1 /(n- 1 ))( 1 /f^Dej,
where c-, = number of months both individuais i and j are flowering synchronously,
and j i; f, = number of months individual i is tlowering; n = number of
individuais in the population that enter in tlowering during the studied period.
60
Phenology of tropical trees. II.
Thus, when X = 1.0, perfect synchrony occurs, i.e., all flowering months of
individual i overlap with flowering months of eacli otlier individual in the population.
When X = 0, no synchrony occurs, i.e., no overlap occurs among any of the
flowering days of individual i and otlier individual j in the population.
Synchrony of the population:
Z, the index of population synchrony, is defined as: Z = (l/n) E X*, where X;
is synchrony of individual i with its conspecifics from part i (ahove).
A second way to investigate the environmental influence on fruiting phenology
was through the study of ten widely occurring species of trees, that is, species which
occurred in different forest coinmunities (Table 3). There were two reasons for
choosing to compare fruiting rather than flowering. Firstly, flowering duration can
be so short that it may go unnoticed in monthly observations. Secondly, the fruiting
curves and peaks of individual trees resembled closely those of flowering except by
being more extended (Pires 1991). Here a null hypothesis tested was that the fruiting
phenologies of different populations of the same species of trees were the same. The
median was used as a measure of central distribution since it permits location tests
through analysis of variance of ranks. Tliis statistical method was chosen instead of
the more comnion ANOVA due to the skewedness of the flowering and fruiting
phenologies (Pires 1991). The Kruskal-Wallis method was used for comparing the
medians, since three or more statistical populations were compared. The alternative
method, WilcoxoiTs test is used when there only two populations to compare. A
rejection of the null hypothesis implies a strong environmental control of fruiting
phenology. The same can be inferred for flowering phenology since the fruiting
curves are nearly the same of the flowering ones, only earlier. Fail to reject the null
hypothesis supports a strong role of genetics on phenology.
For the above hypothesis, climate was assumed to be constam since all the
forests studied were located within one degree of latitude/longitude, and also because
no significam difference in rainfall occurred between the various climatic stations
of Jari (Companhia Florestal Monte Dourado 1989). Thus soil factors and relief
were the only environmental variables that could account for eventual variations in
the forests studied.
A third way to investigate the influence of the environment on phenology is
through the correlation coefficients of the variables rainfall (R), temperature (T),
flowering (FL), fruiting (FR), olcl canopy (OC) and entire new canopy (E) (Tables
4 and 5). These were ealculated by botli the Pearson product-moment and Spearman
rank methods. Finally, the data were analyzed by means of linear regression
techniques in order to detect the dependency of each phenological variable
(flowering/FL, fruiting/FR, old canopy/OC and entire new canopy/E) on the two
environmental variables available (rainfall/R and temperature/T).
61
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To test the null hypothesis of zero correlation, multiple regression analysis on
tlie correlation coefficients obtained by the Speamian metliod was carried out in
order to select wliicli variables best explained the phenology of tropical trees, testing
four phenological phases: flowering, fruiting, nkl canopy and entire new canopy
individually as dependem variables.
RESULTS AND DISCUSSION
First the influence of genetic factors on phenology was done indirectly by
comparing the synchrony of flowering and fruiting of individuais and populations.
The results are given in Tables 1 (flowering synchrony) and 2 (fruiting synchrony).
Before interpreting the synchrony results, it niust be pointed once again that
many individual trees did not flower each year and that there were many which
remained on the vegetative stage throughout the 36 nionths of the study. The smaller
synchrony of flowering in relation to fruiting ean be attributed to a larger nuniber
of variables affecting flowering including variation on the reproductive biology of
each species. For instance, herniaphroditic species tend to be more asynchronous
than dioecious species since asynchrony could reduce geitonogamy and promote out-
crossing by forcing pollinators to move between plants (Rathcke & Lacey 1985). By
the same token. monoecious plants tend to be less synchronous than dioecious since
within an individual plant the female phase may be separated from the male phase
by a montli or longer, to promote out-crossing (Rathcke & Lacey 1985). For these
reasons there seems to be advantages in the variation of flowering phenology within
individuais of the same species.
ln Table 3, below, fruiting phenology is studied by comparing populations of ten
widely occurring tree species.
In Table 3 six species of trees had the null hypothesis of equal phenology
rejected (#), meaning that tliey had different fruiting phenology between sites. This
suggests that for sucli species the control of phenology is mostly exogenous
(environmental). The four species which the null hypothesis of equal phenology was
not rejected, Hirtella bicornis , Eschweilera coriacea , Campa guianensis, and
Piptadenia communis, the control of phenology is likely to be genetic.
The third way to look at the influence of the environment, was the correlation
of rainfall (R) and temperature (T) witli phenology. This approach did not address
the biologica! species but the overall area where the phenology study took place. The
phenology phases chosen to study the correlation with rainfall and temperature were:
flowering (FL), fruiting (FR), old canopy (OC) and entire new canopy (E). This was
done in two steps. First, the Speamian rank correlation coefficients and the Pearson
produet-moment correlation coefficients on environmental and phenological
variables, were ealculated. Secondly, the probability for a null hypothesis of zero
correlation was ealculated (Table 4).
62
i Phenology of tropical trees, II.
1 Tablc 1 . Index of flowcring synchrony of individuais and populations of ten tropical trce species.
I Family / Spccies
Individual
Population
I ANACARDIACEAE
I Tapirira sp. nov.
0.0.25.0.0
0.06
I T. peckoltiana
0.66.0.06.0.16.0.5
0.39
1 77i yrsodium guianense
0.65.0.79.0.65.0.56.0.62.0.73.0.
0.47.0.49.0.45.0.0.37,0.57.0.35
0.48
I T. spruceanum
0.5, 0.0. 5.0.5. 0.5
0.40
1 LECYTHIDACEAE
1 Lecylhis corrugara
(nonc tlowered)
I L. lurida
0.71.0.14.0.0.14.0.07.0.36.
0.38.0.71
0.31
| MELIACEAE
1 Guarea kunlhiana
0.06.0.10.0.0.40.0.12.0.40
0.18
1 G. macrophylla
(nonc flowered)
VOCHYSIACEAE
Qiialea coerulea
(nonc tlowered)
1 Q. albiflora
0.41.0.50.0.33.0.33.0.0.16.
0.0.33
0.30
Table 2. Index of fruiting synchrony of individuais and populations of ten tropical tree species. |
Family / Species
Iudividual
Population 1
ANACARDIACEAE 1
Tapirira sp. nov.
0.0.08,0.0.1
0.22 I
T. peckoltiana
0.8.0.0.0.0.57
0.27 j
Thyrsodium guianen.se
0.0.4.0.42.0.5.0.5.0.42.0.0.35.
0.3.0.4.0.0.25.0.20,0.45
0.31 1
T. spruceanum
0.1, 0.5. 1,0
0.50 I
LECYTHIDACEAE g
Lecylhis corrugara
o.o.o.o
0 I
/.. lurida
0.69.0.69,0.69.0.08,0.69,0.75.
0.69.0.75.0
0.56 I
MELIACEAE 1
Guarea kunlhiana
0.13.0.33.0.06.0.16
0.17 I
G. macrophylla
0.75.1.0,0.21
0.65 1
VOCHYSIACEAE 1
Qualea coerulea
(none fruited)
Q. albiflora
0.0.0
0 1
63
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Boi. Mus. Paru. Emílio Goeldi. sér. Hot.. 10(1). 1994
Table 3. Compariso» of the fruiting phenology bctween populations of len ircc specics.
Family
Specics
X 2 df p>X 2
Buseraceac
Chrysobalanaceae
Lecythidaccae
Meliaceac
Leguminosae
Lcguminosac
Leguminosae
Myristicaceae
Myristicaceae
Vochysiaceac
Prolium sagolianum
13.43
4
0.0093#
tliriella hiromis
5.95
5
0.3114
Eschweilera roriacea
1.60
2
0.4500
Campa guianensis
3.36
3
0.2861
Dinizia excelsa
26.96
3
0.0001#
Marmaroxylon raremosum
20.40
6
0.0011#
Pseudopiptadeuia psiloslachya 2.97
4
0.5632
tryamhera sagotiana
12.45
4
0.0143#
Virola michelii
58.40
5
0.0001#
Qualea paraensis
10.92
3
0.0122#
f = degrees of freedom = n°
’ of populations -
1: P =
probahility c
X 2 = lest statislic: df
stalistie.
Less correlation was found through the Pearson metliod than through the
Spearman metliod. For tliis reason only the later is shown in this paper (Table 4).
Here the variable o kl canopy correlated witli entire new canopy, flowering, rainfall
and temperature. The variable entire new canopy correlated with old canopy ,
flowering and rainfall. Flowering correlated with entire new canopy rainfall and
temperature. Fruiting correlated only with rainfall. The variable rainfall correlated
with old canopy , entire new canopy , flowering and temperature. Temperature
correlated with old canopy , flowering and rainfall.
Studies on flowering and fruiting phenologies of 82 trees of Copaifera multijuga
occurring in Reserva Ducke, near Manaus, also showed a strong correlation of these
events with the area’s seasonality (Alencar 1988).
The results of multiple regression analysis on the correlation coefficients obtained
are given in Tables 5. 6 and 7. below.
Regression analysis in Tables 5, 6 and 7 showed tliat the four phenological
phases tested: old canopy, entire new canopy, flowering and fruiting, correlated with
rainfall, but not with temperature. Some correlations were also found amongst the
phenological phases themselves. However, these correlations were at a micro-region
levei and do not constitute proof tliat the same correlation would occur at individual
and population levei.
Further interpretations of phenology at individual and population levei are being
prepared by the author (firstly: Pires-0’Brien et al., 1994). These papers aim to
discuss phenology of eacli species within the light of its natural history.
64
Phenology of tropical irees, II.
Table 4. Spcarman rank correlation coefticients on environmental and phenological variables, togethcr
with the calculated probability for a null hypothesis of zero correlation.
OC
FL
FR
OC
E
FL
FR
R
1.00
0.00
-0.88
1.00
0.00
0.00
-0.59
0.51
1.00
0.00
0.00
0.00
-0.04
0.15
0.23
1.00
0.81
0.37
0.18
0.00
0.55
-0.48
-0.69
0.30
1.00
0.00
0.00
0.00
0.08
0.00
-0.47
0.30
0.55
-0.18
-0.60
0.00
0.08
0.00
0.30
0.00
1 canopy; E
= entire
new canopy;
FL =
flowering;
1.00
0.00
T = temperature
FR = fniiting; R = rainfall:
CONCLUSION
The evidence based on the results of flowering and fmiting synchrony is tliat the
two types of control, endogenous and exogenous, may occur within the sanie
species, manifesting differently among tlie individuais of a population. Tliis plus the
comparative results of populations in different locations suggest the existence of two
types of forest trees. In the first type, phenology is mainly controlled by the
environnient, and in the second type, the control of phenology is mainly endoge-
nous. The two types of control can be extensive to all or may affect only some the
individuais of a biological species. In this study the tree species whose phenology
seemed to have a stronger genetic control were mainly r type opportunists, except
for Carapa guianensis which seems to have an intermediate position in the r-K
selection gradient.
The present paper compels a revisit of two major insights with respect of a
species biology. The first one relates to the role of an individual with respect to its
65
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cm
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Tablc 5. Mean square error for modcl of flowering (fl) as dependem variable.
Variables
Ind. Variables
R-square
Mean Square Error
1
rainfall
0.33
19.86
2
rainfall. fr
0.51
15.12
3
rainfall. fr, e
0.52
15.33
4
rainfall, fr, e. oc
0.57
13.97
5
rainfall. fr. c. oc. temp
0.57
14.37
Tablc 6. Mean square error for modcl of fruiting (fr) as dependem variable.
Variables
Individual variables
R-squarc
Mean Square Error
1
n
0.07
33.77
2
fl, rainfall
0.30
26.17
3
11. rainfall. e
0.38
23.96
4
11. rainfall. e. oc
0.40
24.06
5
fl. rainfall, e, oc. temp
0.40
24.77
Tablc 7. Mean square error for modcl of old canopy (oc) as dependem variable.
Variables
Ind Variables
R-squarc
Mean Square Error
1
rainfall
0.28
506.92
2
rainfall. fr
0.34
479.34
3
rainfall, fr. 11
0.34
492.53
4
rainfall, fr. (1. temp
0.34
507.80
66
Phenology of tropical irees, II.
species and of the species upon the community. The second insight is a philosophical
one and has to do witli the tneaning the word cause , since the aim of this paper was
to determine the cause of flowering phenology, tliat is, whether it was the
environment or the plant’s genetic make up.
Tliere are two types of causes, the proximal and the ultimate cause. Proximal
cause is equivalem to the physiological event closest to the one we are trying to
explain. Ultimate cause refers to an evolutionary adaptation, or the sum hereof,
which resulted on a particular trait. The proximal and ultimate causes are linked by
the requirements and pressures of the environment, to which the species have two
ways of responding: (i) by evolving through natural selection and (ii) by triggering
some aspect of their anatomical or physiological machinery. As pointed by Wilson
(1975), in ecological studies involving species of long life cycle the two processes
seem decoupled due to the fact tliat the organisms are observed from the perspective
of one life cycle only.
ACKNOWLEDGEMENTS
This paper benefitted from a doctoral study grant by the Brazilian Ministry of
Education-CAPES, 1988-91. I ain indebted to a large number of other people,
particularly to former supervisprs Professor G. T. Prance. from the Royal Botanic
Gardens, Kew, and Dr. F. B. Goldsmith, from University College London. Dr. Cari
0’Brien assisted with the statistics. The tield work was done during the time 1
worked for Companhia Florestal Monte Dourado. I thank the anonymous referees
for useful criticisms to the manuscript.
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Recebido: 03.08.92
Aprovado: 13.10.94
68
CDD: 584.5045
ASPECTOS ETNOBOTÂNICOS E ECOLÓGICOS DE
PALMEIRAS NO MUNICÍPIO DE NOVO AIRÃO,
ESTADO DO AMAZONAS, BRASIL
Mário Augusto G. Jardim '
Phillip ./. Stewarl 1 2
RESUMO — Caracterizou-se os aspectos etnobolânicos e ecológicos de espécies de palmeiras
no Município de Novo Airão, Estado do Amazonas, Brasil. Os resultados revelaram a ocorrência
de 20 espécies de palmeiras úteis nas áreas estudadas. As espécies lucumã (Aslrocaryitin
aculcatum G.W.F. Meyer), açai (Euterpe sp.), hacaba (Oetwcarpus bacaba Mart.) e inajá
(Maximiliana martiana Karsten) foram consideradas espécies de palmeiras de maior importância
econômica e alimentar.
PALAVRAS-CHAVE: Palmeiras; Ecologia; Etnobotânica.
ABSTRACT — V\e ecological and ethnobotanical asperts of palms species were sludied in lhe
Municipality Novo Airão. State of Amazonas, Brazil. Th e results revealed 20 species occurring
in lhe areas sludied. lhe species lucumã (Astrocaryum aculcatum G. W. F. Meyer). açai (Euterpe
sp.). bacaba (Oetwcarpus bacaba Mart.) and inajá (Maximiliana martiana Karsten) had the
highesl alimentary and economic importance.
KEY WOKDS: Palms: Ecology: Ethnobotany.
INTRODUÇÃO
A região amazônica é caracterizada por agrupamentos distintos de espécies de
palmeiras distribuídas em toda sua extensão territorial. A maioria destas espécies
representa potencial ecológico e sócio-econômico para diversas comunidades locais
em função de seu aproveitamento integral. As palmeiras demonstram um caráter
histórico baseado em usos tradicionais provenientes de populações mais antigas. Este
tradicionalismo está voltado principalmente ao aproveitamento integral e em técnicas
de manejo local visando usos múltiplos para determinadas espécies.
1 Museu Paraense Emílio Goeliii. Departamento de Botânica, Caixa Postal 399, CEP 66.040- 170. Belém.
Pará.
2 School for International Training. Independem Sludy Project. Brattlcboro. VT. U.S.A.
69
Boi. Mus. Para. Emílio Goetdi. sér. Boi., WH). 1994
Em vários locais da região amazônica nota-se que existem variações no que
concerne a utilização das palmeiras, principalmente no produto para comercialização
ou para fabricação de artesanatos entre outros. A aplicação de técnicas de manejo
local está relacionada com os aspectos comercial e alimentar. As técnicas de manejo
tem forte influencia na manutenção das espécies e na finalidade de uso.
Na Amazônia, a importância de associar-se eventos que influenciam no ciclo
biológico das palmeiras devem interagir com as investigações etnobotânieas, pois o
que se observa ainda hoje é a falta de informações por espéçie. o que pode acarretar
apenas o interesse pelo produto final (frutos, palmito, óleos) desperdiçando outras
partes das quais se desconhece a utilização.
Nesta pesquisa objetivou-se caracterizar os conhecimentos etnobotânicos e
ecológicos de algumas espécies de palmeiras de uma área da região amazônica.
MATERIAL E MÉTODOS
Caracterização (la Arca de Estado
O estudo foi conduzido no Município de Novo Airão (2°40’S; 6I°5’W)
localizado aproximadamente 120 km da cidade de Manaus, Estado do Amazonas.
O município é caracterizado por pequenas produções agrícolas em roças, capoeiras
e sítios; com predominância de ecossistemas florestais (floresta primária, floresta
secundária e floresta manejada). A interação do homem com o meio ambiente está
concentrada no extrativismo de espécies florestais. Os dois principais tipos de solos
locais são: solos de terra preta em áreas de terra firme e solos hidromórficos em
áreas de várzea.
Procedimento de campo
Foi realizado inventário florestal para espécies de palmeiras em 3,0 ha de área
no Município de Novo Airão. sendo 1 ha para cada tipo florestal (floresta primária
de terra firme e várzea, floresta secundária e floresta manejada). Nestas áreas
mediu-se altura e DAP das espécies de palmeiras.
Para as investigações etnobotânieas e ecológicas foram elaborados formulários
de campo onde procurou-se abordar todos os usos das espécies de palmeiras
encontradas nos 3,0 ha e em áreas adjacentes (quintal, capoeira, sítios), além de
anotações sobre as técnicas de manejo local, informações ecológicas ao nível de
floração, frutificação, ataque de patógenos, forma de dispersão de sementes e forma
de propagação das espécies de maior interesse local.
70
Aspectos etnbolânicos e ecológicos de palmeiras de Novo Airão, Amazonas
tf
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No inventário realizado na área de 3,0 ha (floresta primária, secundária e
manejada), registrou-se 20 espécies de palmeiras, sendo que 1 1 espécies apresenta-
ram abundância relativa significativa conforme o tipo de ecossistema (Tabela 1).
Tabela 1. Abundância relativa (%) de espécies de palmeiras cm 3,0 ha no Município de Novo Airão,
Estado do Amazonas, Brasil. (FP= Floresta primária: FS = Floresta secundária; FM = Floresta manejada).
Espécie
FP
FS
FM
Oenocarpus bacaba (bacaba)
28.6
24.0
3,6
Maximiliana martiana (inajá)
19,0
8,0
0,0
Astrocaryum aculeatum (tucumã)
14,3
64.0
28,8
Euterpe sp.
14,3
0.0
47.5
Socratea exorrizha (paxiúba)
14.2
0.0
1,4
Bactris sp.
4,8
0.0
0,0
Astrocaryum mumbaca (mumbaca)
4.8
0,0
0,0
Elaeis melanococca (caiauc)
0.0
4.0
2,2
Bactris gasipaes (pupunha)
0.0
0,0
15.1
Cocos nucifera (coco)
0,0
0,0
0,7
Mauritia flexuosa (buriti)
0,0
0,0
0,7
Total
100.0
100.0
100.0
Na floresta primária as espécies Oenocarpus bacaba (bacaba) e Maximiliana
martiana (inajá) representam 28,6% e 19,0%; na floresta secundária a espécie
Astrocaryum aculeattm (tucumã) representa 64,0% e na floresta manejada a espécie
Euterpe sp. representa 47,5%. Constatou-se que em cada ambiente florestal a
abundância relativa das espécies está associada a fatores biológicos e atividades
humanas.
Oenocarpus bacaba e Maximiliana martiana são as espécies de maior ocorrência
na floresta primária. Segundo informações de moradores locais estas espécies
ocorrem a vários anos nestas áreas. Isto significa considerar como hipótese que estas
71
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi., 10(1). 1994
espécies possuem elevado indíce de regeneração natural em função do grande
número de frutos dispersados.
A predominância de Astrocaryum aculeatum na floresta secundária estaria
associado ao fato da espécie ser típica de áreas que sofrem degradação em função
de aberturas de clareiras e, por conseguinte, o excesso de luminosidade favorecer
o alto indíce de germinação. Segundo Kalm & De Granville (1992). as palmeiras do
gênero Astrocaryum são consideradas pioneiras na sucessão secundária após
perturbação na área, seja causado por desmatamento ou fogo.
Na floresta manejada, Euterpe sp. é caracterizada pela ação do homem através
do manejo local que é uma atividade realizada de duas formas: com a distribuição
de sementes em áreas de menor densidade populacional e pelo desbaste seletivo de
espécies árboreas de menor interesse econômico permitindo maior intensidade em
luminosidade e espaçamento.
Segundo Tomlinson (1979), o gênero Astrocaryum pode ocorrer em extensas
populações agrupadas em função do grande número de frutos produzidos por
indivíduo, associado ao indíce de regeneração natural.
Em relação aos usos locais de palmeiras foram acompanhadas nove espécies que
fazem parte do cotidiano extrativista dos moradores locais através de variados usos,
além de ocorrerem frequentemente em habitats diferentes dentro do município. Cada
espécie foi avaliada a nível de usos locais e sazonalidade de frutificação (segundo
informações locais). Outras espécies de palmeiras com menor abundância popula-
cional foram identificadas, atingindo um total de dez espécies com avaliação de
informações etnobotànicas (Tabela 2).
Tabela 2. Usos locais, sazonalidade de frutificação e habitats de espécies de palmeiras no Município de
Novo Airão. Amazonas. Brasil. (Habitat: Tf = Terra firme: V/. = Várzea; IG = Igapó.)
Espécie
Usos locais
Frutos
Habiti
Astrocaryum aculeatum
(Tucumâ)
Fibras para artesanato; cons-
trução de pontes; vigas para
suporte: óleo; alimentação;
sabão
Jan-Jun
TF
Oenocarpus hacaha
(Ba caba)
Folhas para cobertura de casas:
vinho: óleo
Sct-Dcz
TF
MasimUiana martiana
(Inajá)
Alimentação: óleo e raçAo ani-
mal
Jan-Dez
TF
Euterpe sp.
(açaí)
Artesanato; palmito; vinho
medicina caseira
Fcv-Jun
VZ
Baclris gasipaes
(pu punha)
Alimentação: medicina caseira
Jan-Abr
TF
72
Aspectos etnbotânicos e ecológicos de palmeiras de Novo Airão, Amazonas
Espécie
Usos locais
Frutos
Habitat
Cocos nucifera
(coco)
Alimentação
Jan-Dez
TF
Elaeis melanococca
(caiauc)
Oleo. vinho; ração animal
Abr-Jun
TF
Astrocaryum jauari
(jauari)
Palmito; isca para peixe; ração
animal
Jan-Jul
IG
Mauritia flexuosa
(buriti)
Artesanato; construção de
pontes; vigas para suporte;
vinho
Mar-Jun
VZ
Orbignya phalerata
(babaçu)
Frutos, tolhas para cobertura de
casas
TF
Manicaria martiana
(buçu)
Folhas para cobertura de casas
TF
Mauritiella sp.
(cara na)
Folhas para cobertura de casas
TF
Leopoldinia pulchra
(jará)
Frutos, folhas para cobertura de
casas
IG
Bactris sp.
(marajá)
Frutos
VR
Astrocaryum murumuru
(murumuru)
Óleo
IG
Oenocarpus sp.
(bacabinha)
Frutos
TF
Jessenia balaua
(patauá)
Frutos
TF
Iriartea exorrizjia
(paxiuhinha)
Fsiipc
TF
Leopoldinia piassaba
(piaçava)
Fibras
TF
Geonoma sp.
(ubim)
Folhas para cobertura de casas
TF
73
cm
2 3 4
5 6 SciELO 10 2.1 12 13 14 15
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi.. 10(1). 1994
Estudando aspectos de usos de palmeiras por índios Yanomama no Estado do
Amazonas (Anderson 1977), constatou 20 espécies nativas caracterizadas em termos
de utilização, principalmente para construção local e alimentação. Em comparação
com as espécies do município de Novo Airão podemos considerar usos semelhantes
para tucumã, bacaba, inajá, pupunha, buriti e ubim. Em Novo Airão. as folhas das
espécies caranã, marajá, murumuru e patauá são usadas para cobertura de casas
(folhas), os frutos para vinho e extração de óleos. Pelos índios Yanomama são
usados na alimentação frutos e palmito.
Estudando a etnobotânica de palmeiras pelos índios Chacobó a noroeste da
Bolívia, Boom (1986), relata que patauá, tucumã e pupunha são utilizadas na
alimentação diária através dos frutos e ubim com usos das folhas para cobertura de
casas. Prance et al. (1987) relata usos semelhantes destas palmeiras em levantamento
realizado com grupos indígenas da região amazônica.
Através de levantamentos etnobotânicos de palmeiras na região amazônica
(Macapá, Estado do Amapá e Municípios de Gurupá, Cametá e Bragança, Estado
do Pará), Johnson (1987) relaciona 18 espécies com variados usos. As espécies
murumuru, tucumã, pupunha, patauá, buriti, caranã, inajá, bacaba e bacabinha
apresentam características semelhantes de usos em comparação com as espécies em
estudo.
No Município de Novo Airão, o que se observa em relação ao uso de palmeiras
é que estão voltadas principalmente para alimentação, óleos caseiros e extração de
palmito, outras na utilização de folhas para cobertura de casas. Ressaltamos nestas
informações etnobotânicas algumas espécies que são incluídas para fins medicinais
Euterpe controversa e Bactris gasipaes através de suas raízes como anti-vérmicos.
As palmeiras ( Oenocarpns mapora , Euterpe precatória , Scheelea príncipes ,
Socratea exorrhiza e Bactris luwiilis) são citadas por Boom (1986) como espécies
utilizadas para fins medicinais pelos índios Chacobo.
Plotkin & Balick (1984) citados por Balick (1986) evidenciaram o alto valor
farmacológico das palmeiras nas regiões neotropicais, caracterizado em determinadas
partes vegetativas como raízes, frutos e folhas na forma de chás caseiros.
Para determinadas espécies de palmeiras que são cultivadas no local ("bacaba”,
"pupunha" e "coqueiro"), o plantio é feito diretamente pelo homem acompanhado
de técnicas locais de manejo. As espécies tucumã, inajá e açaí são consideradas
nativas do local, embora a espécie tucumã seja eomumente plantada a pleno sol
através da distribuição de sementes no solo, principalmente em áreas abertas.
Observou-se em determinadas palmeiras a ocorrência de patógenos e aspectos
ecológicos como prováveis dispersores de frutos e sementes, ação antrópica do
homem e influência de luminosidade que consequentemente estarão relacionados com
capacidade de regeneração, sobrevivência e mortalidade das espécies (Tabela 3).
74
Aspectos elnbolânicos e ecológicos de palmeiras de Novo Airão, Amazonas
Os conhecimentos etnobotânicos e os aspectos ecológicos das espécies de
palmeiras encontradas na região do baixo Rio Negro, no município de Novo Airão
podem ser consideradas alternativas extrativistas viáveis para a melhoria das
condições alimentares e sócio-económica quando associados as práticas de manejo.
Tabela 3. Fatores que influenciam no processo ile sobrevivência e mortalidade de palmeiras consideradas
economicamente importantes no Município de Novo Airão, Amazonas, Brasil.
Nome vulgar
Patógcuos
Aspectos Ecológicos
Tucumã
Ataque de cupins e coleópte-
ros no estipe
Resistente ao fogo; dispersão de sementes
por passáros; rápido crescimento em clareiras
Bacaba
Ataque de coleopteros no
estipe
Resistente ao fogo; dispersão de sementes
por passáros e pequenos mamíferos
Inajá
Ataque de cupins na base do
estipe
Resistente ao fogo; rápido crescimento cm
clareiras
Pupunha
Ataque de coleopteros no
estipe
Rápido crescimento em clareiras: dispersão
de sementes por pequenos mamíferos
Açaí
Ataque de fungos nas folhas
e sementes predadas por
coleopteros
Rápida capacidade de regeneração por se-
mentes e perfilhamenlos
Coqueiro
Ataque de coleopteros no
estipe
Alta produção de frutos c hiomassa
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem aos moradores do Município de Novo Airão por todas
informações locais obtidas no decorrer desta pesquisa.
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76
,\ r
CDD: 581.662
584.5
FENOLOGIA DE FLORAÇÃO E FRUTIFICAÇÃO EM
POPULAÇÃO NATURAL DE AÇAIZEIRO ( EUTERPE
OLERACEA MART.) NO ESTUÁRIO AMAZÔNICO
Mário Augusto Gonçalves Jardim '
Paulo Yoshio Kageyama !
RESUMO — O presente estudo avalia aspectos da fenologia de floração e frutificação de uma
população natural de açaizeiro (Euterpe oleracea Mart.) no estuário amazônico. O trabalho de
campo foi realizado na Ilha do Combu, município de Acará. Estado do Pará. Brasil. O período
de estudo foi de janeiro de I9SH a dezembro de 19X9. E. oleracea floresce nos meses de
fevereiro a maio e frutifica nos meses de junho a dezembro.
1’AUAVRAS-CHAVE: Euterpe oleracea: Fenologia: Floração; Frutificação.
ABSTRACT — ihis sludy examines aspects offlowering and fruiting of a natural population
of lhe açai palm ( Euterpe oleracea Mart.) in lhe Amazon estuary. Eieldwork was carried on
Combu Island, municipality of Acará. State of Pará. Brazil. during two years (19XX-19X9).
E. oleracea fiowers prinripally from february unlil may and fruils rnainly between june and
december.
KEY WORDS: Euterpe oleracea: Phenology; Flowcring; Fruiting.
INTRODUÇÃO
As características fenológicas das espécies florestais têm implicações na
organização e estrutura das comunidades e na biologia das populações, influindo
diretamente no fluxo gênico de plantas determinado pelo comportamento de
polinizadores e/ou visitantes e na evolução de estratégias reprodutivas (Kageyama
1987).
1 Museu Paraense Emílio Goclcli. Departamento de Botânica, Caixa Postal 399. CEP 66.040-170, Belém,
Pará.
J Escola Superior üc Agricultura Luiz tle Queiroz— Universidade ile São Paulo. Departamento de Ciências
Florestais, Caixa Postal 1 1, CEP 13.400-000, Piracicaba, São Paulo.
77
Boi. Mus. Boro. Emílio GoehH, sér. Boi.. 10(1). 1994
O conhecimento de padrões fenológicos pode ser usado para o entendimento da
ecologia de ecossistemas. As fenofases de florescimento e frutificação estão
associadas aos processos de interação planta-animal em relação à polinização,
dispersão e predação de sementes, além de auxiliar em planos de manejo para a
produção de sementes e hibrídos.
O açaizeiro (Euterpc oleracea Mart.) é uma espécie de importante valor
alimentar e comercial para as populações ribeirinhas das várzeas do estuário
amazônico através do aproveitamento dos frutos e do palmito.
Nesta pesquisa procurou-se determinar os padrões fenológicos do açaizeiro para
contribuir com informações sobre a ecologia desta espécie em seu habitat natural.
MATERIAL E MÉTODOS
Localização da Arca de Estado e Caracterização Climática
O local de coleta dos dados é uma área de várzea com aproximadamente 1,5 ha,
pertencente à Estação Experimental do CNPq/MPEG localizada na Ilha do Combu.
no município de Acará; ao sul da cidade de Belém, Estado do Pará, à margem
esquerda do Rio Guamá; dista aproximadamente 1.5 km de Belém (Figura I).
A Ilha do Combu localiza-se a latitude de I °25’S: longitude 48°25’W. O clima
segundo Koppen é do tipo "Am". Os dados pluviométrieos mostram uma precipitaç-
ão média anual de 2.500 mm, com temperatura média anual de 32°C.
Procedimento de Campo
Durante o período de janeiro de 1988 a dezembro de 1989 foram realizados
acompanhamentos de características fenológicas de floração e frutificação em 540
estipes adultos; com altura média de 8,5 metros e circuferência média de 17,5 cm.
Os estipes foram marcados com placas de alumínio indicando o número da touceira
e do estipe.
As observações fenológicas foram registradas quinzenalmente. Foram anotados
o número de in florescências por estipe na fase de floração; desde o aparecimento da
espata até a abertura das flores masculinas e femininas; e o número de infrutescên-
cias por estipe desde o início da formação dos frutos até a maturação.
Foram estimadas as médias e os desvios padrões do número de cachos em
floração e em frutificação presentes em cada estipe.
78
/•'enologia de floração e frutificação em Euterpe oleracca Mart.
Eigura 1. Mapa dc localização da área experimental de 1,5 ha na Ilha do Combu. Município de Acará,
Pará.
79
Feiwlogia de floração e frutificação em Euterpc oleracea Marl.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A floração do açaizeiro ocorreu eni todos os meses do ano; com um pico de
fevereiro a maio, correspondendo ao período da estação mais chuvosa; e minímo de
julho a setembro, correspondendo ao período da estação menos seca. Observou-se
frutificação em todos os meses do ano; com um pico de junho a outubro e de
fevereiro a abril (Figura 2).
Os padrões de florescimento e frutificação nas palmeiras são importantes para
o fluxo gênico por estabelecer relações específicas com polinizadores e dispersores
de sementes (Henry 1960). E. oleracea revela picos definidos de floração e
frutificação em duas épocas distintas durante o ano (chuvosa e seca). Segundo o
autor acima citado; estas variações são comuns nas espécies de palmeiras nos
trópicos.
Com relação ao número médio de inflorescências e infrutescências nos dois anos
de observação; constatou-se um maior número médio de inflorescências no segundo
ano (1989). A maior variação climática nos dois anos foi para o regime de
temperatura. Uma observação mais prolongada poderá revelar se este fator está
realmente associado ao florescimento do açaizeiro na região.
Segundo Frankie (1973), a predominância de uma complexa relação entre grupos
de espécies induz a padrões diferenciados na periodicidade de florescimento;
podendo estar associado ao fenômeno da polinização e permitindo que floresçam em
períodos diferentes; reduzindo a competição pelo mesmo polinizador.
Para Janzen ( 1 978) as diferentes épocas de florescimento implicariam no tamanho
efetivo da população como por exemplo: quantidades variadas na produção de frutos
provenientes das diferentes épocas na sazonalidade de florescimento.
Quanto às variações fenológicas associadas a períodos úmido ou seco, Frankie
(1975) relata que os padrões de fenologia de florescimento podem apresentar grande
variação em época, duração e frequência, o que poderá influenciar no fluxo gênico
da população.
No caso de E .oleracea estas variações em épocas de florescimento e frutificação
foram encontradas em populações naturais na Ilha das Onças, município de
Barcarena, Estado do Pará (Jardim & Anderson 1987) que determinaram um pico
de florescimento durante os meses de fevereiro a maio, durante a época chuvosa e
pico de frutificação nos meses de junho a dezembro, na época seca. Bovi et al.
(1986) estudando a fenologia de floração em populações cultivadas determinaram
picos de abril a junho; e de outubro a dezembro, sugerindo que a produção de
inflorescências em duas épocas seria para manutenção de frutos durante todo o ano.
Anderson et al. (1988) realizando observações fenológicas no babaçu ( Orlngnya
phalerata Mart.) observaram picos de florescimento durante as estações chuvosa e
seca. Eles poderiam estar relacionados com as variações de visitantes florais durante
o ano e provávelmente com a quantidade de frutos produzidos.
81
í, | SciELO
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi.. 10(1), 1994
Portanto, a ocorrência de picos de floração e frutificação em épocas distintas
poderá afetar a estrutura genética da espécie, uma vez que nestes dois períodos o
processo de fluxo de genes, seja por pólen ou por semente; pode ser modificado
pelas condições ambientais e pelo comportamento de polinizadores e dispersores. A
floração e frutificação em estações climáticas variadas (chuvosa e seca) podem ser
fatores limitantes e específicos aos vetores de polinização, a produção de frutos e
consequentemente a estrutura genética da população.
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82
CDD: 581.1662
ANÁLISE POLÍNICA DOS MÉIS DE ALGUNS
MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PARÁ - II.
Léa Maria Medeiros Carreira '
Mário Augusto G. Jardim '
RESUMO — Neste trabalho foram analisadas amostras de mel procedentes dos municípios de
Afiiá, Peixe-Boi. São Caetano de Odivelas e Vigia (Pará. Brasil). Poi observado que todas as
amostras apresentaram odor e gosto característicos de mel variando a cor de amarelo
acastanhado a marrom escuro. O pólen de Mimosa pudica I.. foi encontrado na quantidade de
pólen dominante nas amostras procedentes de Afuá e Peixe-Boi.
PAUAVRAS-CHAVE: Mel: Palinologia: Plantas melíferas; Análise polínica.
AHSTRACT — Ihis study analysis samples of honey obtained from lhe municipalities of Afuá,
Peixe-Boi, São Caetano de Odivelas and Vigia (Pará State, norlhem Brasil). All of lhe samples
exhibited odor and taste characteristic of honey. varying in color from yellow-brow to dark-
brown. The pollen of Mimosa pudica L was found to be predominam in lhe samples from Afuá
and Peixe-Boi.
KEY WORDS: Honey; Palynology; Mellifcrous plants. Pollen analysis.
INTRODUÇÃO
A região Amazônica possui um vasto potencial que está concentrado principal-
mente na sua vegetação; porém a maior parte da exploração desses recursos naturais
está voltado para o comércio madeireiro e/ou extrativismo. Consequentemente, a
busca de novos conhecimentos que venham permitir um maior aproveitamento desses
recursos poderão ser soluções viáveis como alternativas de produção e alimentação
sem prejudicar as interrelaçües bióticas do ecossistema.
Na Amazônia existe uma grande diversidade de plantas melíferas que são
responsáveis pela quantidade e qualidade de mel produzidos e usados na alimentação
diária de moradores rurais. No entanto, poucos conhecimentos se têm dessas plantas
com relação a estudos de melissopalinologia.
' Museu Paraense Emílio Goeldi. Departamento de Holânica, Caixa Postal 399, CEP 66040-170. Belém.
Pará.
83
1, | SciELO
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi. sér. Boi.. 10(1), 1994
No (Estado do Pará, foram analisados os méis procedentes dos municípios de
(Belém, Benfica, São Francisco do Pará e Tomé-açu) (Carreira et al., 1986). O
objetivo principal dessas análises foi reconhecer os tipos polínicos encontrados nas
amostras de mel e, se possível, identificar as espécies referentes aos mesmos a fim
de que se obtenha uma estimativa sobre as principais plantas melíferas da região em
estudo.
MATERIAL E MÉTODOS
Os méis obtidos são procedentes dos municípios de Afuá, São Caetano de
Odivelas, Peixe-Boi e VigiíjJ e foram retirados de colméias de Apis mellifera L.
As lâminas das amostras de mel foram preparadas e descritas segundo o método
de Maurizio & Louveaux (1965). O método de acetólise de Erdtman (1952) foi
utilizado para preparar as lâminas de pólen de referência.
Para análise das amostras dos méis, levou-se em consideração os tipos polínicos
encontrados nas lâminas, os quais foram desenhados e contados. Nesta análise
contou-se 1000 grãos de pólen para cada amostra de mel e calculou-se a percenta-
gem para o pólen dominante (P.D.), pólen acessório (P.A.) e pólen isolado (P.I.).
As fotomicrografias foram obtidas no fotomicroscópio ZEISS.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Mel procedente do município de Vigia, de cor amarelo-acastanhado, de gosto e
odor agradáveis, transparente, com sedimentos e presença de sobrenadante. Nesta
amostra foram encontrados os seguintes tipos polínicos:( pólen acessório de palmae
e Borreria verticillata-, pólen isolado importante de cyperaceae e Myrcia sp.; pólen
isolado ocasional de Combrctum sp, Eupatõrium sp., Paspalum sp., Hyptis sp. e
espécie não identificada (Tabela 1, Figura 1). A diagnose final indicou ser um mel
heterofloral com predominância apenas de pólen acessório, apresentando bastante
sedimento, fragmentos de matéria orgânica, bactérias e esporos de fungos.
Mel procedente do município de São Caetano de Odivelas, de cor amarelo-
acastanhado, odor e gosto característicos, transparente, com sedimentos e acentuada
presença de sobrenadante. Nesta amostra foram encontrados os seguintes tipos
polínicos: pólen acessório de Phthirusa sp. e Borreria vcrticillata ; pólen isolado
importante de anacardiaceae, cyperaceae e palmae; pólen isolado ocasional de
boraginaceae. combretaceae, gramineae, Hyptis sp. e Myrcia sp. (Tabela 1, Figura
2a). A diagnose final indicou ser um mel heterofloral com predominância apenas de
pólen acessório, apresentando bactérias, fungos, fragmentos de matéria orgânica e
bastante sedimento.
Mel procedente do município de Peixe-Boi, de cor marrom escuro, de gosto e
odor agradáveis, viscoso, sedimento e limpeza normais. Nesta amostra de mel foram
encontrados os seguintes tipos polinícos: pólen dominante de Mimosa pudica-, pólen
84
Análise polínica dos méis — II.
Tabela 1. Frequência (%) dos tipos polinícos encontrados nas amostras de mel procedentes dos
municípios de Vigia. São Caetano de Odivelas, Peixe-Boi e Afuá, 1’ará. (Notas: a = pólen dominante;
b = pólen acessório; c = pólen isolado importante; d = pólen isolado ocasional. )
Tipos polinícos
Vigia
Sã» Caetano
de Odivelas
Peixe-boi
Afuá
Anacardiaccae
0.0
3.4c
0.0
0.2d
Apocynaceae
0.0
0.0
0,5d
0.0
lioraginaceae
0.0
1 ,8d
0.0
0.0
Burseraceae
Protium sp.
0.0
0.0
0.0
O.ld
Combrelum sp.
9,4d
0,0
0,0
0,0
Combretaceae
0.0
6,2d
0,0
1.3d
Compositae
Eupalorium sp.
0.4d
0.0
0.0
1.2d
Vemonia sp.
0,0
0,0
1.2d
0.0
Compositae
0.0
0.0
l,4d
0.0
Cyperaceae
14.1c
9.8c
0.0
0.0
Gramineae
Paspalum sp.
2.0d
0.0
0.0
0.0
Gramineae
0.0
2,3d
0.0
0.0
Labiatae
Hyptis sp.
2.9d
2.4d
0,0
0.0
Leg. Mimosoideae
Araria sp.
0,0
0.0
0.0
2.6d
Leg. Mimosoideae
Mimosa pudica
0.0
0.0
81,9a
84.1a
Leg. Papilionoideae
Erylhrina sp.
0.0
0.0
0.0
0.3d
Loranthaceae
Phthirusa sp.
0.0
42.8b
0,1 d
0.0
Myrtaccae
Mvrria sp.
13.0c
2.7d
8.3c
0,0
Onagraccae
0.0
0.0
0.0
4,4c
Palmae
Mauritia sp.
0.0
0.0
1 . 1 d
1.5d
Palmae
33.2b
11.6c
0,0
3.8c
Kuhiaceae
II verlicillaia
23. 7h
1 7.0b
2.2d
0.0
Rutaccae
Zanihoxylum sp.
0.0
0.0
3.3c
0,5d
Não idcnlilicado
1 ,3d
0,0
0,0
0.0
Total
100.0
100.0
100.0
100,0
85
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi., 10(1). 1994
£
4
TV
•O
Pigura I. Mel procedente de Viyia: (a) pólen acessório de Palmac (P) e Borreria vertidllaia (Hv); pólen
isolado ocasional de Paspalum sp. (Ps), (b) pólen isolado importante de Comhretum sp. (Cb.) Aumento
de 580x. (e) vista geral do pólen de palmac. (d) vista polar do pólen de Combretum sp. (c) vista quase
equatorial de Paspalum sp. (0 vista polar de Borreria verlirillala. Aumento de 1450x.
86
Análise polínira dos méis — II.
1 üjjura 2. Md procedente de São Caetano dc ( )divelas: a) pólen acessório de Phlhirusa sp. (|'li). Uorreria
verlicillaia ( Hv ) c pólen isolado ocasional de llyplis sp. (Hp). Mel procedente de 1’cixc-hoi: h) pólen
dominante de Mimoso pudica (l’s). pólen isolado importante de Myrcia sp. (M) e pólen isolado ocasional
de Uorreria venidllala (Itv). Mel procedente de Alua: c) pólen dominante de Mimosa pudica (Mp) e
pólen isolado ocasional de Araria sp. (Ac). Aumento de I450x. d) pólen isolado importante dc
Onagraceac (O) Aumento de 580.x.
87
Uol. Mus. Para. Emílio Goeldi, ser. Ilol.. 10(1). 1994
isolado importante de Myrcia sp. e Zanthoxylum sp.; pólen isolado ocasional de
apocynaceae, Vernonia sp., compositae, Mauritia sp. e Borreria verticillata (Tabela
1, Figura 2b). A diagnose final indicou ser uni mel quase monofloral de Mimosa
pudica L.
Mel procedente do município de A fuá, de cor amarelo claro, de gosto e odor
agradáveis, transparente, com sedimentos e pouca presença de sobrenadante. Nesta
amostra foram encontrados os seguintes tipos polínicos: pólen dominante de Mimosa
pudica: pólen isolado importante de onagraceae e arecaceae: pólen isolado ocasional
de anacardiaceae e combretaceae, Protium sp., Eupatorium sp., Acacia sp.,
Erythrina sp., Mauritia sp., e Zanthoxylum sp. (Tabela 1, Figura 2c, d). A diagnose
final indicou ser um mel quase monofloral de Mimosa pudica L. apresentando
bastante sedimento.
De um modo geral, as amostras coletadas não apresentaram variações em termos
de sua constituição quanto a sedimentos, sabor e odor; ressaltando-se que todas as
amostras foram analisadas logo após a coleta de colmeias nativas sem passar por
processos de centrifugação; determinando acentuada presença de sobrenadantes e
sedimentos. A importância para a análise melissopalinológica é a determinação mais
evidente de tipos polínicos, onde na maioria da vêzes é dificultado pelo processo de
centrifugação.
Segundo Barth (1989), a analise polínica dos méis pode ser realizada sob duas
formas: pela análise qualitativa e quantitativa, abrangendo o teor total em grãos de
pólen, bem como as relações quantitativas entre o pólen de diferentes espécies ou
grupos componentes do espectro polínico da amostra.
Nos resultados obtidos, podemos destacar dois aspectos quanto a caracterização
quantitativa dos méis: mel heterofloral e mel quase monofloral. No caso de mel
heterofloral, pode-se considerar a ausência de florescimento nas espécies específicas
na alimentação das abelhas, permitindo a visita floral e coleta de grãos de pólen nas
espécies que estejam em florescimento.
Para o caso do mel monofloral significaria dizer que a produção elevada de
néctar em apenas uma espécie seria suficiente para saciar sua alimentação.
Consequentemente, ao coletar o néctar estariam transportando grãos de pólen. Para
Barth (1989) esta atividade de coleta de néctar e involutariamente coleta de grãos de
pólen serão depositados nos alvéolos melíferos, os quais aparecerão na análise do
mel. constituindo um fator de indicação para a sua origem botânica e geográfica.
O mel monofloral é amplamente caracterizado pela presença de pólen dominante
de uma determinada espécie, e isto foi constatado nas análises polínicas dos méis de
Afuá e Peixe-boi, onde o pólen dominante foi da espécie Mimosa pudica L.
(Leg. Mimosoideae).
Em trabalho realizado por Carreira et al. (1986) o pólen da espécie Mimosa
pudica L. foi encontrado em análise polínica de amostras de mel procedentes do
Município de Belém numa porcentagem de 78.0%, sendo considerado como pólen
dominante. Zander lV Maurizio (1975) consideram a espécie Mimosa pudica como
88
Análise polínica dos méis — //.
uma espécie superrepresentada em quantidade de grãos de pólen (mais de 90% do
total de pólen).
Barth (1989) cita que as espécies do gênero Mimosa são superrepresentadas nos
espectros polínicos, ou seja, são plantas fornecedoras de pequenas quantidades de
néctar e de muitos grãos de pólen. Quando em amostras de mel são observados estes
espectros polínicos, considera-se, portanto, mel puro de planta polinífera.
Pelo percentual obtido em grãos de pólen nas áreas de coleta dos quatro
municípios constatou-se a presença de pólen acessório nas amostras de mel dos
municípios de Vigia e São Caetano de Odivelas provenientes de espécies considera-
das poliníferas, sendo portanto, este mel heterofloral; e para os municípios de Afuá
e Peixe-boi, provenientes de espécies nectaríferas, sendo portanto, considerado mel
quase monofloral.
AGRADECIMENTOS
À Dra. Ortrud Monika Barth do Instituto Osvaldo Cruz (RJ) pelo auxílio na
identificação de tipos polinícos nas amostras de mel.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ABSY, M. I..; CAMARGO. J. M. F.: KERR. W. E. & MIRANDA, I. P. A. 1984. Espécies dc plantas
visitadas por Mcliponinae (Ilymcnoptera: Apoidca) para coleta dc pólen na região do medio
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Groupmcnts Apicolcs Erançais. 148p.
ZANDER. E. & MAURIZIO. A. 1975. llandburh der Bienenkunde. v. 6 Der Honig. Stuttgart, Vcrlag
Eugcn Ulmer. 212p.
89
CDD: 5S1.5
583.143
EFEITO DE CLAREIRAS NATURAIS NA
ESTRUTURA DE PLÂNTULAS DE VOCHYSIA
GUIANENSIS AUBL. (VOCHYSIACEAE), EM
FLORESTA AMAZÔNICA DE TERRA FIRME
Samuel Soares de Almeida '
Ivan Luiz Guedes de Aragão 1
Paulo Jorge Dantas da Silva 2
RESUMO — Realizou-se um estudo sobre o efeito de clareiras naturais na estrutura
populacional de plântulas de Vochysia guianatsh Aubl., numa área de floresta de terra firme
na Reserva do Mocambo, Belém, Pará. Foram sorteadas aleatoriamente 10 quadras de 9 nr
(S x 3 m), sendo 5 em ambiente de clareira e 5 no sub-bosque da mata. As plântulas foram
discriminadas em 2 sub-populações etárias, uma originada da safra recente (menos de I ano de
idade ) e outra incluindo indivíduos remanescentes de safras anteriores (mais de i ano de idade).
Procedeu-se a contagem e sorteou-se dentro de cada quadra 30 plântulas (15 por sub-
populaçâo), que foram numeradas e mensurados a altura, diâmetro basal, contado o número de
folhas e registrado o estado sanitário (sadias e danificadas por insetos e/ou fungos). O censo
incluiu um total de 2. 440 plântulas. sendo 2. 090 de safra recente e 350 de safras anteriores. V.
guianensis parece ter em clareiras o habitat com as condições mais favoráveis para o
estabelecimento e crescimento de plântulas, com a detecção de uma quantidade mais elevada de
plântulas neste ambiente, quando comparado com o sub-bosque (1.447 contra 993 indivíduos no
sub-bosque), sugerindo uma aptidão ecológica desta espécie como colonizadora pioneira de
clareiras. A atividade de fungos e insetos é mais evidente em indivíduos recentes de sub-bosque,
enquanto que as plântulas de safras anteriores são mais vulneráveis a fungos no sub-bosque e
ao ataque de insetos em ambiente de clareira.
PAEAVRAS-CHAVE: Florestas tropicais: Estrutura de plântulas; Clareira natural; Vochysia
guianensis-, Amazônia.
ABSTRACT — Ihis paper presents a study of lhe effects of tree-fall gaps on lhe seedling
population strurture of Vochysia guianensis. in upland ("terra firme") forest in lhe Mocambo
Reserve, Belém, Pará, Brazil. Ten samples of9 nr (3 x 3 m) were selected at random in gap (5)
1 Museu Paraense Emílio Goeldi. Departamento de Botânica. Caixa Postal 399. CEP 66017-970. Belém,
Pará.
2 Bolsistas de Iniciação Científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-
CNPq.
91
Boi. Mus. Para. Emflia Gaeldi, sér. Uni.. 10(1), 1994
and underslary (5) habitais. Seedling.s were rlassified inlo two age subpopulalions: 1) Young
seedlmgs (less tlian 1 year afage beginning at seed germination) and 2)juveniles ( more than 1
year afage bui wilh heiglil <1 m). From earh sample 30 seedlings were randomly selecled (15
per subpopulalion), tagged, measured (heighl and basal diameter ), lhe number ofleaves counted
and surveyedfor sanitary status (heallh, insect and fungai damage), The census mcluded 2,440
individuais, wilh 2,090 (23. 2/m 2 ) young and 350 (3.9/m : ) alder seedlings. The regeneralion of
V. guianensis is promoled in iree-fall gap, wilh lhe deieclion of 1,447 individuais in ihis habitat
againsl 993 in understory. This indicaie lhal V'. guianensis is a pioneer species in lhe regrowih
of Iree-fall gaps. Fungai artivity and inseri allack were more frequenl in young understory
individuais, whereas older seedlings were more vulnerable to Jungi in lhe understory and lo
inseri attack in gap environments.
KEY WORDS: Tropical forests; Scedling struclurc; Trec fali gap; Vochysia guianensis-,
Amazônia.
INTRODUÇÃO
Os estudos ecológicos em florestas tropicais sobre a estrutura e dinâmica
populacional de espécies arbóreas em relação às clareiras naturais têm sido muito
enfatizados atualmente, contribuindo para a compreensão do comportamento das
espécies no espaço e no tempo. O porte florestal, os padrões de distribuição
espacial, as adaptações morfo-fisiológicas e o ritmo de crescimento de espécies
tropicais são fortemente influenciadas por estas perturbações naturais. A avaliação
da qualidade dos sítios de estabelecimento e a quantificação do estoque de indivíduos
jovens são primordiais para o estabelecimento dos níveis de intensidade de manejo,
que mantenham o contingente populacional reprodutiva e ecologicamente viável
(Vieira & Hosokawa 1989). A ausência desses parâmetros limita a formulação de
qualquer tipo de exploração de recursos madeireiros em bases duradouras. Os
diferentes padrões de história de vida e as demandas específicas para as variáveis
ambientais, requerem que cada espécie seja estudada detalhadamente em suas
particularidades, visando a manutenção da diversidade e a permanência do estado de
equilíbrio dinâmico das populações sob utilização (Denslow 1980: Orians 1982).
Os conceitos de clareira natural variam de autor para autor. Brokaw (1892)
considera como sendo a abertura no dossel que se projeta até uma altura de 2 m do
solo. Barton (1984) estabelece o limite de uma clareira até os troncos das árvores
marginais. Popma et al. (1988) utilizou uma definição mais biológica do que física,
estabelecendo que uma clareira se extende até onde houver espécies pioneiras
regenerando por influência microclimática. Por questões práticas para amostragem
e delimitação, Almeida (1989) estabeleceu que uma clareira se limita a área
circunscrita a projeção das copas das árvores marginais. Neste ambiente existem
condições ambientais diversas daquelas vigentes no sub-bosque, com alterações
microclimáticas significativas. O mosaico microambiental direciona as respostas
fisiológicas e adaptativas das plantas, provendo condições para a germinação de
sementes e a colonização por plantas com requerimentos específicos (Orians 1982;
Pickett 1983).
92
SciELO
14
Clareiras naturais e plânuilas cie Vochysia guianensis
As clareiras naturais têm sido indicadas como um sítio ótimo para o estabeleci-
mento de muitas espécies da fase madura em florestas tropicais (Whitmore 1985).
Em La Selva, Costa Rica. Hartshorn (1978) registrou a dependência de muitas
espécies arbóreas por clareiras naturais para uma regeneração bem sucedida,
assinalando que cerca de 75% das espécies do dossel estão associadas a estes sítios
para o estabelecimento de juvenis.
Vochysia guianensis Aubl. ("quaruba branca") é uma espécie perenifólia das
matas de terra firme, abundante no nordeste da Amazónia Oriental, incluindo o
estuário amazônico, a bacia do rio Jari e a região do baixo rio Amazonas. Compõe
o alto dossel florestal e seus maiores indivíduos podem atingir até 35 m de altura.
O fuste apresenta uma excelente conformação dendrológica. com madeira leve, de
fácil manuseio, largamente comercializada para uso na construção civil, marcenaria
e carpintaria (Loureiro & Silva 1968). Esta espécie é comumente encontrada nos
relictos de terra firme próximos a Belém. Os registros de herbário indicam que V.
guianensis seria uma das espécies dominantes nesta região, antes da remoção da
cobertura vegetal, decorrente da expansão da área urbana e da colonização do NE
paraense.
Este trabalho trata da estrutura de plântulas de V. guianensis pertencentes a duas
faixas etárias, incluindo ambientes de clareira e de sub-bosque em floresta de terra
firme. Procedeu-se análise da densidade, classes de tamanho, relações biométricas
e o grau de incidência de inimigos naturais.
METODOLOGIA
Área de estudo. Este estudo foi realizado na Reserva do Mocambo, localizada
na região de Belém. Pará (aproximadamente 01°27’S; 48°28’W, altitude de 24 m);
em terreno pertencente ao CPATU/EMBRAPA. A área é uma pequena amostra de
floresta de terra firme, com cerca de 6-ha. testemunha da vegetação primária do
Nordeste Paraense. O relevo é plano e o solo predominante é um oxissol do grupo
dos Latossolos Amarelos, textura arenosa a areno-argilosa, com alto teor de matéria
orgânica, pH ácido e forte lixiviação. Segundo a Classificação de Kõppen, o tipo
climático é "Afi", caracterizado como clima tropical úmido, onde a pluviosidade
média do mês menos chuvoso geralmente não é inferior a 60 mm.
A vegetação desta área é do tipo Iloresta amazônica densa de terra firme (Pires.
1973), com a presença de espécies arbóreas de grande porte e abundância de
epífitas. Entre as espécies mais representativas, associadas a Vochysia guianensis ,
destacam-se Lecythis idatimon. Eschweilera coriacea, Vouacapoua americana , entre
outras.
Amostragem. Preliminarmente foi feito o censo de todas as árvores adultas de
Vochysia guianensis existentes na Reserva do Mocambo, a fim de localizar matrizes
e selecionar aquelas associadas à clareiras. O universo amostrai incluiu dois
ambientes: a) Sub-bosque da mata, em condições de sombreamento, principalmente
93
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi. sér. Boi.. 10(1). 1994
luz difusa, alta umidade, temperatura com pouca variação durante o dia e pouca
ventilação; b) Clareira natural, em ambiente iluminado pela abertura do dossel da
mata. Foram sorteadas aleatoriamente 5 quadras de 9 nr (3x3 m) em cada
ambiente. As quadras foram mapeadas juntamente com as matrizes associadas.
Denominou-se, como "plântula", todos os indivíduos com altura inferior a 1 m;
plântulas de safra recente aquelas que ainda apresentavam as duas folhas cotiledona-
res e tinham menos de 1 ano de idade. As plântulas de safras anteriores eram
aquelas já estabelecidas, com folhas definitivas e caule lignificado, com idade
superior a 1 ano.
Obtenção de dados. Todos os indivíduos dentro das quadras foram registrados.
Em cada quadra foram sorteados aleatoriamente 30 indivíduos (13 de safra recente
e 13 de safras anteriores). Mediu-se dessas plantas a altura, o diâmetro basal e
registrou-se o número de folhas sadias e predadas por insetos e/ou fungos.
Taxa de Dano. A incidência de herbívoros e patógenos foi medida levando-se em
consideração tanto o número de indivíduos com folhas atacadas por insetos e/ou
fungos, como o número total de folhas danificadas por herbívoros ou patógenos. Isto
permitiu obterá Taxa de Dano (TD). Este parâmetro, expresso em porcentagem, foi
obtido a partir da razão entre a somatória do número indivíduos por agente de dano
(Fi) mais o número de folhas por agente de dano (Ni), pela somatória do número
total de indivíduos (Ft) mais o número total de folhas (Nt), vezes 100. Isto é:
TD(%) = Nf + Fi / Nt + Ft x 100.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Densidade. O total de plântulas incluiu 2.440 indivíduos nos ambientes de
clareira e sub-bosque para as 2 sub-populações etárias tratadas. As plântulas de safra
recente, nas 5 quadras do sub-bosque, totalizaram 869 indivíduos (19,3/m 2 , 35,6%
do total), enquanto em ambiente de clareira a amostragem incluiu 1.221 (27,1/m 2 ,
50,0%) (Tabela I). Esta diferença considerável sugere que a distribuição de
indivíduos recém emergidos está associada às condições ambientais das clareiras
naturais (Tabela 1). No entanto, há indícios consistentes de que este diferencial
também ocorre devido as barreiras físicas (galhos e folhagem) que impedem a
dispersão uniforme de sementes no chão do sub-bosque. Neste caso, as probabilida-
des das sementes alcançarem o solo nos dois ambientes, não são equivalentes. Nas
áreas clareadas, livres de copas em cima e com maior circulação do ar, o aporte das
sementes leves e aladas de V. guianensis é favorecido por ocasião da chuva de
sementes ("rain seed"). proporcionando a deposição de um maior número de
sementes/unidade de área. I odavia, no interior das clareiras existem microssítios
mais aptos à colonização, o que pode ser constatado pela variação da densidade
dentro das quadras de clareiras, que loi mais elevada do que aquela registrada para
o sub-bosque (CV = 58.6% e 41.08%, respectivamente) (Tabela I). O efeito de
zonação em clareiras pode se manifestar tanto na "performance" populacional de
94
Clareiras naturais e plántula.s cie Vochvsia guianensis
Tabela 1 . Estrutura de plàntulas de Vochvsia guianensis em ambientes de suh-bosque e clareira natural.
Densidade
Alt (cm)
Diam (cm)
Ambiente
Total
Média/m 2
%CV
Média
(±DP)
Média
(±DP)
Recente
Sub-bosque
X69
19.3
41.1
11.2 (2.08)
1.26 (0.21)
Clareira
1.221
27.1
5X.6
11.2 (1.90)
1.50 (0.23)
TOTAI.
2.090
23.2
Anterior
Sub-bosque
124
2.X
X3.3
26.0 (7.14)
2.73 (0.84)
Clareira
226
5.0
X3.4
36.2 (I6.4X)
3.79 (1.77)
TOTAI.
350
3.9
uma espécie, conto pode ser determinante para estabelecer o padrão de distribuição
de ale untas espécies mesmo em escala reduzida. Diferenças no grau de perturbação,
competição por luz e nutrientes e nas mudanças microclimáticas exercem um efeito
seletivo na composição da regeneração natural (Brandani et al 1988). A ocorrência
de espécies exclusivas em zonas de clareiras ou o registro de um maior contingente
populacional, atesta o efeito seletivo da heterogeneidade microambiental neste habitat
(Nuhez-Farfan & Dirzo 1988), propiciando um espectro de condições ambientais tão
variadas que permite a manutenção da diversidade em florestas tropicais em níveis
elevados.
As plàntulas de safras anteriores (mais que 1 ano de idade) totalizaram 226
(5.0/nr) no ambiente de clareira (9.3% do total), contra 124 (2.8/m 2 ) para o sub-
bosque (5,1 % do total) (Tabela 1). A variação nas densidades dessas plàntulas foi
também mais elevada nas clareiras indicando que, com o tempo, a pressão seletiva
do ambiente está concentrando os indivíduos nas zonas mais aptas, por efeito da
maior mortalidade de plàntulas no sub-bosque, agregando ao longo do tempo a
população juvenil de V. guianensis em clareiras. Richards & Williamson (1975)
sugerem que espécies com este comportamento apresentam uma distribuição em
forma de manchas, cujas áreas estão fortemente relacionadas com os tamanhos das
clareiras. A habilidade de espécies de Vochysia para colonizar áreas abertas é
registrada por Allen (1956), citado por Richards & Williamson (1975), que
constatou "stands" puros de indivíduos jovens de uma espécie do gênero em clareiras
artificiais de floresta úmida sub-montana. No entanto, na Reserva Mocambo, apesar
das plàntulas apresentarem comportamento muito semelhante ao descrito acima, não
se observou um padrão de manchas para adultos e provavelmente, isto possa ser
95
1, | SciELO
Boi. Mus. Para. Emílio (loeldi, sír. Boi.. 10(1). 1994
atribuído ao biotipo de V. gulanensis , que apresenta grandes indivíduos de copas
largas permitindo que apenas um só indivíduo seja hábil para se estabelecer
definitivamente numa clareira.
Estrutura de Tamanho. A altura média das plântulas recém emergidas não aponta
diferença significativa para os dois ambientes estudados (Teste t = 3.54; p > 0. 10),
talvez devido ao curto período entre a emergência e a época da mensuração (2-3
meses), que ainda não tinha produzido efeito de diferenciação ambiental na taxa de
crescimento vertical entre os indivíduos sombreados e com luz. Porém, nas plântulas
já estabelecidas, obteve-se uma diferença significativa na altura média das sub-
populações em clareiras e em sub-bosque (Teste t = 4.94; p < 0.05), com uma
variação de 10.2 cm na amplitude da altura média dos indivíduos nos 2 locais
(Tabela 1 ). Esta variação indica que, além de favorecer a emergência e o estabeleci-
mento de plântulas, o ambiente de clareira proporciona melhor "performance" na
taxa de crescimento, resultado já observado para algumas espécies colonizadoras de
clareiras (Schulz 1960; Uhl et al. 1988).
Os desvios das médias de altura apontam uma alta heterogeneidade de tamanho
nos indivíduos de safras anteriores em clareiras (Tabela 1). Essa elevada amplitude
de tamanho diamétrico neste ambiente indica que o tamanho desta sub-população é
mais desuni forme, ao contrário do que ocorre no sub-bosque onde provavelmente
há uma alta taxa de super-posição em altura nos indivíduos com idades diferentes.
A distribuição por classes de altura, para as plântulas já estabelecidas (com mais
de 1 ano de idade) no sub-bosque, descreveu um comportamento uni-modal
crescente até o limite de 30 cm e decrescente a partir da ciasse acima deste limite
(Figura 1). Entretanto, em clareiras a frequência de indivíduos nas classes de altura
é irregular, alternando classes mais ou menos representadas. A amplitude de
distribuição é maior neste habitat do que no sub-bosque, onde as classes a partir de
60 cm são nulas (Figura I). Este padrão talvez seja função da limitação de
crescimento no sub-bosque a partir de determinado tamanho e a elevada dinâmica
de crescimento na sub-população de clareira onde, ao contrário do sub-bosque, as
alturas de plântulas com idades diferentes geralmente não se superpõem.
As plântulas recentes apresentaram uma distribuição de altura aproximadamente
normal nos indivíduos de clareira e sub-bosque, com a mesma classe modal para
essas sub-populações (Figura 2). Neste grupo de plântulas, os indivíduos dos 2
habitats estiveram representados nas mesmas classes de altura, incluindo desde
aquela com plântulas a partir de 5,0 cm até a última cujo limite foi de 17,5 cm
(Figura 2).
O diâmetro médio basal das plântulas de clareira foi mais elevado quando
contrastado com o sub-bosque (Tabela I), com diferença significativa tanto para a
sub-população etária recente (Teste t = 4.15; p < 0.01. gl = 82), como para
aquela de safras anteriores (Teste t - 3.15; p < 0.01, gl = 133).
96
Clareiras naturais e plântulas cie Vochysia guianensis
£ Clareira
Sub - bosque
luJj — . i
« 20 29 30 39 40 43 90 93 60 63 70 75 80
Classe* de Altura (cm )
Figura I . Distribuição de plântulas dc Vochysia guianensis Aubl., ern classes de altura (cm) no ambiente
de clareira e sub-bosque. Indivíduos de safras anteriores (idade > 1 ano).
Claattt d« Altura (cm )
Fittura 2. Distribuição dc plântulas dc Vochysia guianensis Aubl.. em classes dc altura (cm) cm ambiente
de clareira c sub-bosque. Indivíduos dc safra recente (idade < I ano).
97
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi . sér. Boi.. 10(1). 1994
70
co-
so
40 -
( b ) Sub - bosque
r« 0,55
p <0,01
n= 75
50
Altura (cm )
Figura 3. Associação entre altura (cm) c número de folhas cm plântulas de V. guicmensis Auhl. Indivíduos
de safras anteriores cm ambiente de clareira (a) e sub-bosquc (b).
Em habitats clareado e sombreado, a altura das plântulas com mais de 1 ano de
idade foi correlacionada moderadamente com o número de folhas (r = 0.63 e 0.55
respectivamente). Por inspeção à Figura 3, verifica-se que apesar do número de
folhas estar correlacionado com a altura, as plântulas de clareira natural apresenta-
ram uma associação mais linear entre essas 2 variáveis, quando comparadas as do
sub-bosque. A dispersão dos pontos na Figura 3 permite visualizar que a sub-
população de clareira possui uma distribuição mais ampla tanto para número de
folhas como para altura. Uma explicação para este padrão diz respeito ao efeito do
sombreamento na redução da taxa de crescimento, a partir de determinado tamanho.
Isto permitiria que plântulas com idades diferentes e provavelmente com número de
folhas variável, apresentem a mesma altura. Como a vida média das folhas neste
ambiente é maior, devido ao maior custo energético em produzi-las (Augspurger
1 984), as plântulas sombreadas apresentam um maior número de folhas/plântula. Isto
não significa necessariamente maior produção de biomassa, mas que a taxa de
renovação foliar ("turnover rate") é mais lenta no sub-bosque do que em clareiras.
Neste caso, a emissão de folhas nesses indivíduos seria um evento independente da
taxa de crescimento.
98
CUtreiras naturais e plântulas de Vochysia guianensis
Tabela 2. Coeficientes de Correlação (r) entre altura (cm) e diâmetro basal (mm) em plântulas de V.
guianensis. (ns = não significantc: * = significante a nível de p < 0.01)
Safra
Recente
Anterior
Ambiente
r
n
P
r
n
P
Clareira
0.04
65
ns
0.94
70
+
Sub-bosque
0.46
21
ns
0.84
64
Altura e diâmetro são duas variáveis estruturais que se correlacionam em muitas
populações de plantas, servindo de parâmetro para detectar o comportamento de
espécies em relação ao dossel florestal e a demanda luminosa (Pires & Prance
1977). As plântulas de safra recente não apresentaram uma correlação significativa
dessas variáveis em nenhum dos dois ambientes examinados (Tabela 2). A amplitude
nos valores de altura foi considerável, com o diâmetro variando numa faixa mais
restrita, evidenciando que a concorrência intraespecífica nas fases iniciais está
favorecendo o crescimento vertical, independentemente do ambiente.
Quanto às plântulas de safras anteriores de clareira e sub-bosque, houve uma
correlação positiva e significativa entre as variáveis altura e diâmetro, apesar dessa
associação ter sido mais forte no primeiro ambiente (Tabela 2). Isto demonstra que
após o período inicial de alta competitividade por luz e nutrientes, a mortalidade
dependente da densidade causa um raleamento na população, quando então inicia a
diferenciação no crescimento diamétrico.
Herbivoria e patogenicUlade. A variação no número de indivíduos de última safra
com folhas sadias e danificadas por fungos, insetos ou associação destes 2 agentes,
foi bem evidente em cada ambiente (Tabela 3). No entanto, quando feita o contraste
entre os ambientes de clareira e sub-bosque, a frequência observada não diferiu
daquela ao acaso (Qui-quadrado = 3.54, gl = 3: p > 0.10). Comportamento
similar foi obtido para as plântulas com idade superior a 1 ano (Qui-quadrado =
2.73, gl = 3; p > 0.10), todavia há uma tendência registrada de aumento da
predação insetívora em clareira e ataque fúngico nas condições úmidas e sombreadas
do sub-bosque. No entanto, quando foi considerado somente o número total de
folhas danificadas nos dois ambientes, independente do número de indivíduos
99
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi., 10(1), 1994
Tabela 3. Atividade de insetos e palógenos em plântulas de Vochysia guianensis em ambiente clareira c
sub-bosque. Notas: (1 ) Os números entre parcntcses referem-se à quantidade de folhas indicadas cm cada
agente dc dano. (2) TD„ 2 „ = 13 + 17 / 97 + 150 x 100.
Agente de dano
Clareira
Sub-hosque
n° de iud.
TD(%)
n" de ind.
TD(%)
Safra recente
Fungo
13 (17)'
12, l 2
20 (28)
19,1
Insetos
20 (27)
190
2 (30)
20,3
Fungo e insetos
4 (6)
4,1
1 (D
0,8
Sem danos
60 (100)
59 (91)
Total
97 (150)
101 (150)
-
Safras anteriores
Fungo
55 (270)
18.7
72 (242)
21,6
Inseto
53 (209)
15,1
45 (108)
10,5
Fungo c insetos
65 (384)
25,8
72 (301)
25,6
Sem danos
74 (628)
-
75 (540)
Total
247 (1.491)
264 (1.191)
predados, fungos e insetos atacaram uma maior quantidade de folhas de plântulas
novas no sub-bosque, ocorrendo uma relação inversa quando se tratou de plântulas
antigas (Tabela 3). No entanto, somente na sub-população de plântulas antigas houve
uma diferença significativa no nível de predação foliar por fungos e insetos entre os
dois ambientes (Qui-quadrado = 17.05, gl = 3; p < 0.01), o que pode ser
atribuído também a pouca idade das plântulas recentes. Entretanto, os resultados da
relação entre herbivoria e ambiente precisam ser analisados com cautela, pois a
densidade de herbívoros em um local pode não ser determinante para explicar o
nível de predação. Ademais, a concentração de defesas químicas pode variar
quantitivamente mesmo dentro de um indivíduo (Macnebery & Foresta 1985). Por
sua vez, a eficiência de defesa pode estar relacionada com a história adaptativa da
espécie, pois Scupp (1988) constatou que indivíduos de Faramea occidentalis , uma
espécie de sub-bosque, apresentaram uma maior taxa de predação em clareiras do
que embaixo de co-específicos adultos no sub-bosque.
Aparentemente, a tolerância ou a resposta fisiológica a danos em plântulas de V.
guianensis em clareira é mais expressiva, face a maior capacidade das mesmas em
compensar perdas, emitindo novas folhas. Apesar disso, fungos foram um pouco
100
Clareiras naturais e plântulas de Vochysia guianensis
mais frequentes sobre plântulas de sub-bosque, enquanto insetos estiveram mais
associados aos indivíduos antigos de clareiras (Tabela 3).
Em termos relativos de Taxa de Dano, plântulas de safra recente do sub-bosque
sofreram uma maior incidência de fungos e insetos. Quanto às plântulas de safras
anteriores, fungos foram mais evidentes na sub-população do sub-bosque, enquanto
insetos atacaram mais os indivíduos de clareiras. Os danos pela associação de fungos
e insetos foi mais elevado em plântulas de clareiras independente da faixa etária
(Tabela 3). A exceção do ataque de insetos em plântulas com mais de 1 ano em
clareiras, as condições sub-bosque aparentemente está favorecendo a ação de
inimigos naturais de juvenis de V. guianensis, com os danos se manifestando com
mais evidência. Isto no entanto, não deve ser entendido como uma evidência da
maior pressão desses agentes neste ambiente, mas porque plântulas de sub-bosque
teriam uma menor capacidade de responder fisiologicamente a esses danos, face a
baixa taxa de renovação foliar.
Quando comparados os valores relativos de danos entre plântulas de safras
diferentes, observou-se que, independente do habitat, os indivíduos mais antigos
registraram maiores taxas de danos por fungos do que aqueles recém emergidos, ao
contrário do que ocorreu com insetos, que foram menos frequentes nesses
indivíduos, para ambos os habitats (Tabela 3). O fato de que a manifestação do
ataque de fungos demanda algum tempo desde a infecção, pode ter relação com o
menor nível de incidência observado nas plântulas novas (menos que 1 ano). Por sua
vez. a causa do ataque de insetos ter sido mais forte nesta sub-população pode ser
creditada a qualidade de suas folhas, menos fibrosas e provavelmente mais indefesas
do que as de plântulas mais antigas.
CONCLUSÃO
O número total de plântulas de safra recente e de safras anteriores foi considera-
velmente menor no sub-bosque, quando contrastado com o ambiente de clareira. Isto
sugere que V. guianensis seja uma espécie que demanda elevado nível de luminosi-
dade para a regeneração bem sucedida de seus juvenis, com a seleção de habitat
atuando para a manutenção da demografia populacional. Aparentemente a
desobstrução do dossel nas clareiras naturais também favorece a deposição das
sementes desta espécie sobre o chão, ao contrário do que ocorre no sub-bosque,
onde os obstáculos naturais (folhagem, copas estratificadas e troncos) diminuem a
chance de uma disseminação uniforme.
As diferenças de altura média e diâmetro basal foram pequenas entre plântulas
de safra recente, nos dois ambientes. No entanto, essas variáveis nos indivíduos de
safras anteriores foi bem mais acentuada, inclusive com uma variação mais ampla
em altura, entre os indivíduos. Em clareiras, a altura esteve mais correlacionada
com o número de folhas, quando comparada ao sub-bosque. É provável que isto
101
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi., 10(1). 1994
ocorra em função da maior sobreposição de altura entre indivíduos de idades
diferentes.
A altura e o diâmetro basal se correlacionaram significativamente nas plântulas
de safras anteriores para ambos os ambientes. Quanto às plântulas recentes, essas
variáveis não estão associadas em nenhum dos ambientes, talvez porque tanto o
crescimento vertical como o diamétrico ainda não se diferenciaram por efeito das
diferenças ambientais.
Danos causados por ataque de insetos e fungos são mais evidentes em indivíduos
recentes do sub-bosque, enquanto que as plântulas antigas são mais vulneráveis a
atividade de fungos no sub-bosque e ao ataque de insetos em ambiente de clareira.
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103
CDD: 582
583.55
NOVAS ESPÉCIES DE ASPILIA THOU.
(COMPOSITAE— HELIANTHEAE) PARA A
REGIÃO CENTRO-OESTE DO BRASIL
João Ubiratan M. dos Santos 1
RESUMO — Quatro espécies novas de Aspilia Thou. são descritas: A. matogrossensis e A.
disc olor para o Estado de Mato Grosso, A. haisclibachii para Mato Grosso do Sul, e A.
goyazensis para do Estado de Goiás. São ilustrados seus hábitos de crescimento, parles
reprodutivas, distribuição geográfica, e discutidas suas relações com outras espécies afins.
1’AUAVRAS-CHAVE: Compositae; Hdiantheae; Aspilia Thou.; Taxonomia vegetal.
ABSTRACT — This paper describes four new species of lhe genus Aspilia Thou. (Composilae-
Helianlheae): A. matogrossensis and A. discolorfrom Mato Grosso State; A. hatschhachii from
Mato Grosso do Sul State and A. goiazensis from Goiás State, lhe relationships between lhese
species and olhe rs ofthe same genus are discussed, wilh illuslrations oftheir grow habitus and
reproduetive orgarts. Comments anil a map are given to clarify lhe geographical distribulion of
the new species.
KEY WORDS: Compositae; Hdiantheae; Aspilia Thou.; Plant taxonomy.
INTRODUÇÃO
Dando prosseguimento ao estudo do gênero Aspilia Thou. para o Brasil, entre
o material herborizado consultado, encontrou-se alguns espécimes coletados na
Região Centro-Oeste sem identificação, sendo dois do Estado de Mato Grosso, um
do Estado de Mato Grosso do Sul e um do Estado de Goiás. Examinando-os mais
detidamente e comparando-os com os tipos das espécies brasileiras conhecidas,
chegou-se à conclusão que se tratavam de novas espécies, as quais foram denomina-
das de A. matogrossensis Santos, A. discolor Santos, A. hatschbachii Santos e
A. goiazensis Santos.
' Museu Paraense Emílio Gocldi. Departamento de Botânica, Caixa Postal 399, CEP 66.017-970. Belém,
Pará.
105
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi., 10(1), 1994
Vale salientar que A. discolor , coletada na divisa do Pará com Mato Grosso
(Cachhnbo-Xavantina), é afim com/l. attenuata (Gardn.) Baker, espécie que ocorre
na Amazônia, levando-se a acreditar que esta espécie parece formar, juntamente com
A. elata Pilger, A. leucoglossa Malme e A platyphylla (Baker) Blake, uma linha de
conexão entre as Aspilia do Brasil Central e as da Amazônia, ao Norte do Brasil.
As espécies A. matogrossensis, A. discolor z A. hatschbachii incluem-se no grupo
das "Suffruticosae" da chave de identificação de Baker (1884), enquanto que A.
goiazensis no grupo das "Herbaceae”.
Depois do trabalho de Baker (1884) sobre Aspilia , onde descreve 21 espécies
novas para o Brasil, poucos trabalhos deste tipo tem sido leito com as espécies
brasileiras, dentre esses destacam-se:
Blake (1918) transferiu de Viguiera a Aspilia três espécies. Em 1921, revendo
o gênero Oyedaea , transferiu duas de suas espécies para o gênero em estudo.
Santos (1982a) descreveu a espécie A. grazielae. Em 1982b descreveu duas
espécies e estabeleceu uma nova combinação a partir de Wedelia paraensis Huber.
Em 1985 estabeleceu duas espécies. Em 1986 tratou das espécies do Norte do Brasil,
redescrevendo-as e ilustrando-as, bem como organizou uma chave analítica para
identificar essas espécies. Em 1987 descreveu duas novas espécies. Na sua tese
(1992) tratou das espécies brasileira do gênero onde destacou 61 espécies.
Robinson (1984a) descreveu quatro espécies de Aspilia, sendo três dessas
brasileiras. Em 1984b descreveu nove espécies para a América do Sul, sendo oito
dessas brasileiras. Em 1985 descreveu para o Brasil a espécie A. cachimboensis .
Descrição das espécies
1. Aspilia hatschbachii Santos, sp. nov. (Figura 1)
Suffrutex circa 1 m altus, ramosus, pilosus: internodiis conspicuis, centralibus
85-120 mm longis; foliis 33-86 mm longis ac 13-28 mm latis, lanceolatis, oblongis
vel oblongo-lanceolatis, oppositis, chartaceis, petiolatis; petiolo 3-7 mm longo; facie
dorsali pilis sericeis ventralique scabrosa, apice apiculato, basi decurrente, margine
dentata; capitulis umbelatim, semper tribus formatione umbellatum, apice ramorum;
pedunculo 10-60 mm longo, piloso; involucro circa 5 mm alto ac 10 mm diâmetro,
campanulato, pari braetearum basi circa 6 mm longis ac 2,5 mm latis, spatulatis,
foliaceis, pilosis, apice apiculato; bracteis involucralibus tribus seriebus, 4-5 mm
longis ac 1,5-2 mm latis, spathulatis, ovatis vel obongis, apice apiculato vel
acuminato; primae seriei pilosis. foliaceis e ciliatis; secundae seriei pilosis, scariosis,
apice fimbriato; ultimae seriei glabris, scariosis, apice fimbriato; ligulis 6-7 mm
longis ac circa 3 mm latis, oblongis vel ovatis, flavis, bilobatis vel bidentatis; tubo
circa 2 mm longo; floribus androgynis circa 3,5 mm longis ac I mm diâmetro;
achenio immaturo circa 3 mm longo ac 1,8 mm lato, leviter curvato, glabro; papo
cupulato, mutico; paleis circa 5,5 mm longis ac 1,8 mm latis, leviter curvatis.
106
SciELO Jp
2
3
5
6
11
12
13
14
15
L
cm
Boi. Mus. Para. Emitiu Goeldi. sér. Boi., 10(1), 1994
scariosis, glabris, apice acuminato.
Tipo: Brasil. Mato Grosso do Sul, Rio Verde, 10 km ao norte, G. Hatschbach
et al. 35983, 09/11/1975 (Holótipo: MBM),
Arbusto com cerca de lm de altura, ramificado, piloso, entrenós conspícuos, os
centrais de 85-120 mm de comprimento. Folhas de 33-86 mm de comprimento e 1 3-
28 mm de largura, lanceoladas, oblongas ou oblongo-lanceoladas, opostas, cartáceas,
pecioladas; pecíolo de 3-7 mm de comprimento, face dorsal com indumento seríceo
e ventral escabroso, ápice apiculado, base decurrente, margem denteada. Inflores-
cência em umbela de capítulos, sempre três formando as umbelas no ápice dos
ramos, eixo da inflorescência de 10-60 mm de comprimento, piloso; invólucro com
cerca de 5 mm de comprimento e 10 mm de diâmetro, campanulado, com um par
de brácteas em sua base, com cerca de 6 mm de comprimento e 2,5 mm de largura,
espatuladas, foliáceas, pilosas, de ápice apiculado; brácteas involucrais em três
séries, de 4-5 mm de comprimento e 1.5-2 mm de largura, espatuladas, ovadas ou
oblongas, com o ápice de apiculado a acuminado, as da primeira série pilosas,
foliáceas e ciliadas, as da segunda série pilosas, escariosas, com o ápice franjado e
as da última série glabras, escariosas, com o ápice fimbriado; páleas com cerca de
5,5 mm de comprimento e 1.8 mm de largura, levemente curvas, escariosas,
glabras, ápice acuminado; lígulas de 6-7 mm de comprimento e cerca de 3 mm de
largura, oblongas à ovadas, amarelas, bilobadas ou bidenteadas, tubo com cerca de
2 mm de comprimento; flores andróginas com cerca de 3,5 mm de comprimento e
1 mm de diâmetro; aquênio imaturo com cerca de 3 mm de comprimento e 1 mm
de diâmetro, levemente curvo, glabro; papus coroniforme, sem arista.
Distribuição: A espécie é conhecida, até o momento, apenas pelo exemplar tipo,
coletado no Estado do Mato Grosso do Sul, em ambiente rupestre, com afloramento
de arenito (Figura 5). Flores e frutos no mês de fevereiro.
Esta espécie é afim a A. bonplandiana (Gardn.) Blake, diferenciando-se,
principalmente, pelo aquênio curvo com papus sem arista; pelos capítulos dispostos
em número de três, no ápice dos ramos; pelas séries de brácteas involucrais, em
número de três, e por suas folhas pecioladas, com o ápice apiculado. Em A.
bonplandiana o aquênio é oblanceolado, biaristado; os capítulos são solitários ou no
máximo dois no ápice dos ramos; as brácteas involucrais são dispostas em duas
séries e as folhas são sésseis, com o ápice de agudo a obtuso.
A espécie é uma homenagem ao Prof. Gert Hatschbach, coletor do espécime-
tipo, por sua dedicação à ciência botânica.
108
Novas espécies de Aspilia (Compositac-Hcliantheae)
2. Aspilia goiazensis Santos, sp. nov. (Figura 2)
Herba erecta, circa 80cm altas, pilosa; intemodiis centralibus 20-40 mni longis;
foliis 50- 1 10 mm longis ac 8-26 mm latis. oblongis vel oblongo-lanceolatis, oppositis,
subcoriaceis vel coriaceis, petiolatis; petiolo 1-3 mm longo; facie dorsaíi pilis
strigosis super nervos proeminentes ac sericeis lamina foliorum; facie ventrali
strigosis, apice basique acutis. margine serrata, revoluta; capitulis corymbosis. apice
ramorum; pedunculo 3-27 mm longo, piloso; involucro circa 10 mm alto ac 8 mm
diâmetro, eampanulato: bracteis involucralibus squarrosis, trihus seriebus, 7,5-9 mm
longis ac 2,5-3 mm latis, oblongis vel oblongo-spathulatis, duabus primis seriebus
pilosis, ciliatis, medietate superiore foliaceis ac inferiore scariosis, apice obtuso;
ultimae seriei scariosis, glabris. tertio superiore pilosis, apice mucronato; ligulis,
tlavis, immaturis: floribus androgynis tamen in alabrastris dispositis; corolla pilosa;
achenio immaturo oblongo, piloso; papo bi-vel triaristato, arista conspícua; paleis
circa 7,5 mm longis ac 2 mm latis, oblongis, scariosis, glabris, apice acuminato.
Tipo: Brasil. Goiás, Serra do Tombador, J.G. Guimarães 48, 18/111/ 1978
(Holótipo: RB).
Erva ereta, com cerca de 80cm de altura, ramificada, pilosa, entrenós centrais
de 20-40 mm de comprimento. Folhas de 50-110 mm de comprimento e 8-26 mm
de largura, oblongas à oblongo-laneeoladas, opostas, de subcoriáceas à coriáceas,
pecioladas; pecíolo de 1-3 mm de comprimento, face dorsal com indumento
estrigoso nas nervuras proeminentes e seríceo na lâmina foliar; face ventral
estrigosa, ápice e base agudos, margem serreada. revoluta. Inflorescência em
corimbos de capítulos no ápice dos ramos, eixo da inflorescência de 3-27 mm de
comprimento, piloso; invólucro com cerca de 10 mm de comprimento e 8 mm de
diâmetro, campanulado; brácteas involucrais esquarrosas, em 3 séries, de 7,5-9 mm
de comprimento e 2,5-3 mm de largura, de oblongas à oblongo-espatnladas, as das
dua.N primeiras series pilosas, ciliadas, com a metade superior foliácea e a inferior
escariosa. com o ápice obtuso; as da última série escariosas, glabras, com o terço
supcrioi piloso. e o ápice mucronado; páleas com cerca de 7,5 mm de comprimento
c 2 mm de largura, oblongas, escariosas, glabras, ápice acuminado; lígulas
amarelas, imaturas; flores andróginas, ainda em botões, corola pilosa; aquênio
unaiuio. oblongo, piloso; papus bi a triaristado, arista conspícua.
Distribuição: Espécie conhecida, até o momento, somente pelo exemplar tipo
coletado no Estado de Goiás, no cerrado (Figura 5), com flores e frutos imaturos
no mes de março.
Esta espécie distingue-se das demais por apresentar as flores andróginas pilosas
c papus com até três aristas. Aproxima-se de A. pseudoyedaea Robinson, da qual
se diferencia, principalmente, pelo papus aristado; pelo invólucro constituído por
brácteas superpostas e pelo número de capítulos, até 5, que constituem o eorimbo.
A. pseudoyedaea apresenta o papus sem arista, as brácteas involucrais imbricadas
e mais de 10 capítulos constituindo o eorimbo.
109
Ilnl. Mus. Paru. Emílio Goeldi. sér. Ilol . . 100), 1994
Figura 2. Aspilia goiazensis Santos. (J. G. Guimarães 48. RB). A. Hábito de um ramo com flores;
B. Capítulo; C, I) & F. Brácteas involucrais da I a a 3“ série, respectivamentc; E. Pálca: G. Aquênio
c papus.
1 10
Novas espécies de Aspilia (Compositae-IIcliantheae)
3. Aspilia matogrossensis Santos, sp. nov. (Figura 3)
Suffrutex paruni raniosus; caule erecto, hirsuto; internodiis conspicuis,
centralihus circa 40-60 mm longis; foliis 60-65 nmi longis ac 16-25 mm latis, ovatis
vel lanceolatis, oppositis. chartaceis, petiolatis; petiolo 5-7 mm longo; ababus
faciebus pilis hirsutis, apice caudato, basi acuta, marginibus dentatis; capitulis
solitariis vel corymbosis apice ramorum principalium vel axillaribus;pedunculo 1-7
mm longo, pilis vilosis; involucro circa 12 mm alto ac 10 mm diâmetro, campanula-
to; hracteis involucralibus tribus seriebus. 9-12 mm longis ac 2,5-3 mm latis, ovatis,
ovatis-oblongis vel oblongis, apice caudato, mucronato; primae seriei pilosis lanatis,
foliaceis, basi tantum scariosa; secundae seriei glabris. scariosis, apice tantum
lanato, foliaceo; tertiae seriei omnino glabris. scariosis, apice ciliato ac violáceo;
ligulis circa 1 1 mm longis ac 5 mm latis, obovatis, tlavis, bilobatis; tubo circa 3 mm
longo; tloribus androgynis 6,5-7 mm longis ac 1-1,5 mm diâmetro; achenio circa
5 mm longo ac 2 mm diâmetro, oblongo, leviter piloso; pappo biaristato, ramo una
arista tantum; paleis circa 1 1 mm longis ac 3 mm latis, oblongis, scariosis, glabris,
apice caudato.
Tipo: Brasil. Mato Grosso. Serra de São Vicente, estrada para Água Quente,
E.C.C. de Moraes et al. 134, 04/111/1983 (Holótipo: MG).
Subarbusto pouco ramificado, caule ereto, hirsuto, entrenós conspícuos, os
centrais com cerca de 40-60 mm de comprimento. Folhas de 60-65 mm de compri-
mento e 16-25 mm de largura, ovadas à lanceoladas, opostas, cartáceas, pecioladas;
pecíolo de 5-7 mm de comprimento, ambas as faces com indumento hirsuto, ápice
caudado, base aguda, margem denteada. Capítulos solitários ou corimbosos. no ápice
dos ramos; eixo da inflorescência de 1-7 mm de comprimento, com indumento
viloso; invólucro com cerca de 12 mm de comprimento e 10 mm de diâmetro,
campanulado; brácteas involucrais em três séries de 9-12 mm de comprimento e 2,5-
3 mm de largura, ovadas, ovado-oblongas ou oblongas, de ápice caudado,
mucronado; as bráctreas da primeira série com indumento lanoso, foliáceas, com
apenas a base escariosa; as da segunda série glabras, escariosas, com apenas o ápice
lanoso, foliáceo: as da terceira série totalmente glabras e escariosas, com o ápice
ciliado, violáceo; páleas com cerca de 1 1 mm de comprimento e 3 mm de largura,
oblongas, escariosas, glabras, ápice caudado; lígulas com cerca de 1 1 mm de
comprimento e 5 mm de largura, obovadas, amarelas, bilobadas, tubo com cerca de
3 mm de comprimento; flores andróginas de 6,5-7 mm de comprimento e 1-1.5 mm
de diâmetro; aquênio com cerca de 5 mm de comprimento e 2 mm de diâmetro,
oblongo, levemente piloso; papus biaristado. ramo com uma só arista.
Distribuição: Espécie, até o momento, conhecida apenas pelo exemplar tipo,
coletado no Estado de Mato Grosso, em ambiente rupestre (Figura 5). com flores
e frutos em março
Distingue de todas as demais espécies do gênero por apresentar indumento albo-
seríceo em toda a planta.
III
Boi. Mus. Para. Emílio fíoeldi. sér. Boi., 10(1), 1994
Figura 3. Aspilia malogrossensis Santos. (F. C. C. Moraesctal 134. MG). A. Hábito de um ramo com
flores; 11. Capítulo; C. Flor ligulada; I). G & II. liráctcas involucrais da 1 a à 3 “ série, respectivamente;
E. Flor andrógina; F. Aquênio c papus; I. Pálea.
1 12
Novas espécies de Aspilia (Compositae-Heliantheae)
4. Aspilia discolor Santos, sp. nov. (Figura 4)
Suffrutex circa l,5ni altus, raniosus, caule erecto, piloso; internodiis conspicuis,
centralibus 90-110 mm longis; foliis 40-110 mm longis ac 8-20 mm latis,
lanceolatis, oppositis, chartaceis, petiolatis; petiolo 3-5 mm longo; facie dorsali pilis
sericeis ventralique strigosis, apice mucronato, basi acuta vel obtusa, margine
dentata; capitulis solitariis vel paribus, apice ramorum; pedunculo 1-20 mm longo,
piloso; involucro circa 8 mm alto ac 10 mm diâmetro, campanulato; bracteis
involucralibus 5 seriebus, 5-8 mm longis ac 3-3,5 mm latis, ovato-lanceolatis,
rotundatis vel oblongo-obovatis; primae seriei foliaceis, ciliatis, apice mucronato;
secundae, tertiae ac quartae seriei glabris, scariosis, apice tantuni foliaceo, piloso,
ciliato, caudato, mucronato; ultimae seriei glabris, scariosis, apice rotundato,
fimbriato; ligulis 5-6 mm longis ac 3 mm latis, ellipticis vel oblongo-ellipticis,
tlavis, bi- vel tridentatis vel lobatis; tubo circa 2 mm longo; floribus androgynis
circa 6 mm longis ac 1 ,8 mm diâmetro; achenio immaturo circa 5 mm longo ac 1,5
mm diâmetro, oblongo, piloso; pappo cupulato, mutieo; paleis circa 7 mm longis ac
3 mm latis, oblongis, scariosis, glabris, apice acuminato.
Tipo: Brasil. "Mato Grosso, Road btween base camp and Xavantina-Cachimbo
road", D. Fhilcox & A. Ferreira 4100, 16/01/1968 (Holótipo; 1AN; Isótipos: RB,
K).
Subarbusto com cerca de 1,5 mm de altura, ramificado, caule ereto, piloso,
entrenós conspícuos, os centrais de 90-110 mm de comprimento. Folhas de 40-1 10
mm de comprimento e 8-20 mm de largura, lanceoladas. opostas, cartáceas,
pecioladas; pecíolo de 3-5 mm de comprimento, face dorsal com indumento seríceo
e ventral estrigoso, ápice mucronado, base aguda à obtusa, margem denteada.
Capítulos solitários ou aos pares, no ápice dos ramos; eixo da inflorescência de 1-20
mm de comprimento, piloso; invólucro com cerca de 10 mm de diâmetro e 8 mm
de comprimento, eampanulado; brácteas involucrais em 5 séries, de 6-8 mm de
comprimento e 3-3,5 mm de largura, ovado-lanceoladas, arredondadas ou oblongo-
obovadas; as da primeira série foliáceas, ciliaoas, de ápice mucronado; as da
segunda, terceira e quarta séries glabras, escariosas, com apenas o ápice foliáceo,
piloso, ciliado, caudado, mucronado e, as da última série, escariosas, glabras, com
o ápice arredondado, fimbriado; páleas com cerca de 7 mm de comprimento e 3 mm
de largura, oblongas, escariosas, glabras, ápice acuminado; lígulas de 5-6 mm de
comprimenrto e 3 mm de largura, elípticas à oblongo-elípticas, amarelas, bi ou
tridenteadas ou lobadas; tubo com cerca de 2 mm de comprimento; flores andróginas
com ca. de 6 mm de comprimento e 1 .8 mm de diâmetro; aquênio imaturo com
cerca de 5 mm de comprimento e 1,5 mm de diâmetró, oblongo, piloso; papus
coroniforme, sem arista.
Distribuição: Espécie, até o presente, conhecida apenas pelo exemplar tipo,
coletado no cerrado do Estado de Mato Grosso (Figura 5). Flores e frutos no mês
de janeiro.
113
Figura 4. Aspilia discolor Santos. (D. 1’hilcox & A. Ferreira 4100. IAN). A. Hábito de um ramo com
flores; B. Capítulo; C. Flor ligulada; D. F. F. 1 & J. Bráctcas involucrais da 1“ à 5“ série, rcspectiva-
mentc; G. Pálea; H. Flor andrógina; L. Aqucnio e papus.
114
Novas espécies de Aspilia (Compositae-Hdiantheae)
Figura 5. Distribuição geográfica das espécies: O Aspilia hatschbachii Santos; • Aspilia goiazensis
Santos; ★ Aspilia mawgrossensis Santos e a Aspilia discolor Santos.
A. discolor é uma espécie afim à A. attenuata (Gardn.) Baker e à A. floribunda
(Gardn.) Baker, diferenciando-se dessas, principalmente, por apresentar folhas
pecioladas e papus coronifonne, sem arista.
O epíteto específico refere-se as suas folhas, que apresentam a face ventral verde
escura e a dorsal verde clara.
AGRADECIMENTOS
Ao pesquisador Ricardo Secco, pelas críticas e sugestões, e ao Sr. Rafael
Alvarez pela confecção dos desenhos, ambos do Museu Paraense Emílio Goeldi.
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SANTOS, J. U. 1992. O gênero Aspilia Thou. (Compositae-Heliantheae) no Brasil. Tese de Doutorado.
Campinas, Universidade Estadual de Campinas.
1 16
1, | SciELO
CDD: 583.95
634.97395
ANATOMIA DA MADEIRA DO GÊNERO
MICRANDROPSIS W. RODR. (EUPHORBIACEAE)
Pedro L. B. Lisboa 1 2
William A. Rodrigues '
RESUMO — É apresentado o estudo anatômico macroscópico e microscópico da madeira do
gênero monotípico Micrandropsis W. Rodr.. espécie M. scleroxylon (W. Rodr.) W. Rodr.
PALAVRAS-CHAVE: Anatomia da madeira; Micrandropsis.
ABSTRACT — This paper presents the resulls of a study of lhe wood anatomy of lhe monotipic
genus Micrandropsis W. Rodr. (Euphorbiaceae), species M. scleroxylon (W. Rodr.) W. Rodr.
KEY WORDS: Wood anatomy; Micrandropsis.
INTRODUÇÃO
Rodrigues (1971) descreveu uma nova Euphorbiaceae amazônica, Micrandra
scleroxylon W. Rodr. Mais tarde, Rodrigues (1973), verificando que a espécie
estava mal posicionada dentro de Micrandra , propôs o novo gênero Micrandropsis ,
para acomodar a sua nova espécie, que passou a chamar-se Micrandropsis
scleroxylon (W. Rodr.) W. Rodr. Num trabalho recente do especialista em
Euphorbiaceae Webster (1994) o gênero está relacionado junto com Micrandra e
Cunuria para a sub-tribo Micrandrinae Muell. Arg.
Micrandra scleroxylon à época da sua descrição só era conhecida das matas de
terra firme das cercanias de Manaus, no Estado do Amazonas. Ultimamente sua
ocorrência neste Estado foi registrada também para o município de Presidente
Figueiredo (rio Uatumã) e para a região do rio Madeira até Novo Aripuanã. No
estado do Pará, ocorre nos arredores da Cachoeira Porteira, no rio Trombetas.
Rodrigues (1971) incluiu uma descrição macroscópica da madeira de M.
scleroxylon , que é em geral muito útil para uma identificação rápida e segura de
1 Museu Paraense Emílio Gocldi, Departamento de Botânica, Caixa Postal 399, 66.017-970, Belém, Pará.
2 Pesquisador-Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico c Tccnológico-CNPq.
117
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi., 10(1), 1994
qualquer lenho com uma lupa de 10 vezes de aumento. Tratando-se, porém, de um
novo gênero, um estudo mais completo da anatomia desta madeira certamente
poderá subsidiar outros estudos da anatomia de Euphorbiaceae. Neste trabalho,
portanto, é apresentado um estudo anatômico mais completo, com a inclusão da
descrição microscópica da madeira de Micrandropis , elaborada a partir de cortes
histológicos de amostra oriunda da árvore-tipo.
MATERIAL E MÉTODOS
O estudo macroscópico foi feito com uma amostra duplicata de madeira da
xiloteca do Museu Goeldi, originalmente registrada na xiloteca do Centro de
Pesquisas de Produtos Florestais/CPPF, do Instituto Nacional de Pesquisas da
Amazônia/INPA, sob o número INPAx 3170 (herbário INPA 15564). O material é
oriundo da espécie tipo Micrandropsis scleroxylon (W. Rodr.) W. Rodrigues;
basiônimo Micrandra scleroxylon W. Rodr., Acta Amazônica 1(3): 3. 1971. Além do
exame completo da amostra, foram preparados corpos de prova, cujos planos foram
nivelados em micrótomo Reichert. Após o nivelamento, as superfícies transversal
e longitudinal (tangencial e radial) foram submetidas a sucessivas passagens em
micrótomo, até que as superfícies não mais apresentassem quaisquer irregularidades,
permitindo o exame detalhado das estruturas.
As mensurações e as contagens das estruturas anatômicas visíveis no exame
macroscópico foram feitas em lupa tipo conta-fio , com aumento de 10x, utilizando-
se uma escala de celulóide. Foram feitas dez mensurações de diâmetro tangencial
dos poros, dez contagens para número de poros por mnr e dez para o número de
raios por mm linear, em diversas partes da superfície transversal, entre a casca e a
parte mais interna do cerne. Os resultados estão apresentados segundo a norma
COPANT (1974).
Para o estudo microscópico, foram confeccionados cortes histológicos na Divisão
de Madeiras do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo/IPT, de acordo
com a técnica padrão utilizada em estudos de anatomia de madeiras: um bloco de
2 x 2 cm foi fervido por duas horas em água e dele foram retirados cortes
histológicos nos sentidos transversal, e longitudinal nos planos tangencial e radial,
utilizando-se um micrótomo de deslize. Após a clarificação e passagem em série
alcoólica, os cortes foram corados com safranina hidroalcoólica e verde de malaquita
e montados entre lâmina e lamínula, com bálsamo de Canadá. Alguns cortes foram
conservados ao natural, para observação de inclusões celulares.
O exame de estruturas dissociadas foi feito a partir de pequenas lascas
longitudinais, maceradas em uma mistura de partes iguais de ácido acético glacial
mais água oxigenada 120 volumes, submetidas à estufa a 60° por 24 horas. Em
seguida, foram lavadas em água corrente e coradas com safranina. Da maceração
foram confeccionadas lâminas temporárias, misturando-se parcelas do macerado em
gotas de glicerina.
118
Anatomia da madeira do gênero Micrandropsis
A contagem e a mensuração das estruturas foram feitas em Projetor Olympus
Tokyo e microscópio ótico composto Zeiss-Jena. As microfotografias foram obtidas
no Sistema Macrográfico Tessovar e as microfotografias em microscópio de luz Cari
Jena.
RESULTADOS
Caracteres gerais
Conhecida na Amazônia como acapuri, a árvore tem uma casca fina, de 2 a 5mm
de espessura, cor acinzentada-escura, exudando látex branco. A madeira é pesada
(cerne com 1,1 a 1,3 g/cm 3 seco ao ar); grã direita; cheiro e gosto indistintos;
superfície lisa ao tato, lustrosa, não muito difícil de trabalhar; recebe acabamento
esmerado e ótimo polimento; durabilidade provavelmente elevada, resistindo bem
ao ataque de insetos e à decomposição.
Ocasionalmeme é utilizada na confecção de estacas, esteios, moirões, tacos para
assoalho, parquetes, construção civil e naval, dormentes etc. Ainda é pouco
utilizada, por não ser muito conhecida regionalmente.
Descri ção macroscópica
Parênquima apotraqueal em linhas muito finas, aproximadas e sinuosas,
formando com os raios um retículo uniformemente distribuído, às vezes interrompi-
das pelos poros. Poros visíveis a olho nu, pequenos a médios, 0,1 a 0,2mm de
diâmetro tangencial, em média 0, 15mm; pouco a muito pouco numerosos, 0 a 4 por
mm2, predominando os solitários (58%). geminados (14%) e cadeias radiais de 3
a 5 (28%), difusamente distribuídos, a maioria vazios no alburno e geralmente
obstruídos no cerne por conteúdo amarelado. Linhas vasculares apenas visíveis a
olho nu, finas e longas, obstruídas por conteúdo amarelado. Raios no topo distintos
só sob lente, muito finos, muito pouco a pouco numerosos, 3 a 9 por mm linear, em
média 7, com certa uniformidade no espassamento e espessura; na superfície
tangencial visíveis só sob lente, irregularmente dispostos; na face radial pouco
contrastados. Camadas de crescimento aparentemente demarcadas por zonas fibrosas
mais escuras.
Descri ção microscópica
Vasos de secção ovalada a circular; parede média, difusamente distribuídos; médios
a muito grandes. 150 a 340 gm de diâmetro tangencial, em média 260 gm, maioria
entre 200 a 300 ju.ni (60%); tiloses presentes nos poros das camadas mais internas,
freqüentemente esclerosados; pouco a pouco numerosos, 3 a 1 1 por mni2, em média
5; solitários predominantes (85%), geminados (4%) e cadeias radiais de até 10 vasos
119
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Boi.. 10(1), 1994
Figuras 1-5. Micrandropsis scleroxylon : I. Corte transversal (50x). Parênquima em linhas, formando
retículo com os raios: 2. Corte tangencial (5()x): 3. Corte transversal (31 5x ). Tiloscs csclerosadas no
interior do elemento de vaso(l) e bainha envollora formada pelo parênquima vasiccntrico (b); 4. Corte
langcncial(125x). Raios irregularmente estratificados, com predominância de células procumhcntes nos
multisscriados: e. Corte tangcncial(315x). Cristais prismáticos nas células do parênquima axial (c).
120
Anatomia da madeira do gênero Micrandropsis I ; ® , Çí.iot~ca '
5 DO. ' D|
ou aglomerados de até 19 vasos (2%); placas de perfuração inc li nadas Xlft vezes
horizontal, exclusivamente do tipo simples; pontuações intervasculares arroja das,
poligonais ou alongadas. Elementos vaculares muito curtos a muito longos, 300 a
870mm de comprimento, média de 570nmi, mais frequentes entre 500 a 800mm
(78,1%), com apêndices geralmente curtos, às vezes só de um lado e outras vezes
ausentes. Traqueídes raras presentes. Raios irregularmente dispostos, heterocelula-
res, nos multisseriados predomina os que têm a parte unisseriada mais curta do que
a parte multisseriada e composta de uma fila de células eretas e células quadradas
e procumbentes além da margem; unisseriados mais comuns (38,6%), trisseriados
(35,6%), bisseriados (15%), tetrasseriados (1%) e pentasseriados (1%); extrema-
mente baixos a baixos, 130 a 11 10/xm de comprimento, em média 570/xm; 9 a 48
células de altura, em média 25; numerosos a muito numerosos, 9 a 22, em média
13; pontuações radiovasculares diminutas, ovaladas a circulares, achatadas
radialmente. Fibras do tipo libriforme, extremamente curtas a curtas, 600 a 1350/x
m, em média 949 /xm, não septadas e com as pontuações areoladas presente nas
paredes radiais. Parênquima axial apotraqueal , do tipo reticulado, com linhas finas,
no máximo com até 3 células de largura. Parênquima paratraqueal escasso,
constituído por células distribuídas ao redor dos vasos, geralmente formando uma
bainha envoltora. Cristas prismáticos rombóides presentes nas células do parênquima
axial, visíveis nos três planos de corte.
AGRADECIMENTOS
À Dra. Verônica Angyalossy, do Instituto de Biociências da Universidade de São
Paulo e ao Dr. João Peres Chimelo, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do
Estado de São Paulo/IPT, pela confecção de cortes histológicos no laboratório da
Divisão de Madeiras do IPT. Ao Dr. Arthur Loureiro do CPPF/INPA pela doação
de duplicata da amostra de madeira utilizada neste estudo.
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SciELO
10 11 12 13 14 15
6 Editora Supercor es
Travessa do Chaco, 688.
Tel. : (091 ) 233-021 7 . Fax: (091) 244-0701
Belém do Pará
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BOLETIM DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI
INSTRUÇÕES AOS AUTORES PARA PREPARAÇÃO DE MANUSCRITOS
1) O Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi dedica-se à publicação de trabalhos
de pesquisas científicas que se referem, direta ou indiretamente, à Amazônia, nas
áreas de Antropologia, Arqueologia, Lingúística, Botânica, Ciências da Terra e
Zoologia.
2) Os manuscritos a serem submetidos devem ser enquadrados nas categorias de
artigos originais, notas preliminares, artigos de revisão, resenhas bibliográficas ou
comentários.
3) À Comissão de Editoração é reservado o direito de rejeitar ou encaminhar para
revisão dos autores, os manuscritos submetidos que não cumprirem as orientações
estabelecidas.
4) Os autores são responsáveis pelo conteúdo de seus trabalhos. Os manuscritos
apresentados devem ser inéditos, não podendo ser simultaneamente apresentados a
outro periódico. No caso de múltipla autoria, entende-se que há-concordància de
todos os autores em submeter o trabalho à publicação. A citação de comunicação de
caráter pessoal, nos manuscritos, é de responsabilidade do autor.
5) A redação dos manuscritos deve ser, preferencialmente, em português, admitindo-
se, contudo, manuscritos nos idiomas espanhol, inglês e francês.
6) O texto principal deve ser acompanhado de resumo, palavras-chave, “abstract”,
“key words”, referências bibliográficas e, em separado, as tabelas e figuras com as
legendas.
7) Palavras e letras a serem impressas em negrito devem ser sublinhadas com dois
traços e as impressas em grifo (itálico), com um só traço.
8) Os textos devem ser datilografados em papel tamanho A-4 ou similar, espaço duplo,
tendo a margem esquerda 3 cm, evitando-se cortar palavras à direita. As posições
das figuras e tabelas devem ser indicadas na margem. As páginas devem ser
numeradas consecutivamente, independentes das figuras e tabelas.
9) Os manuscritos devem ser entregues em quatro vias na forma definitiva, sendo uma
original.
10) O título deve ser sucinto e direto e esclarecer o conteúdo do artigo, podendo ser
completado por um subtítulo. O título corrente (resumo do título do artigo) deverá
ser encaminhado em folha separada para que seja impresso no alto de cada página
ímpar do artigo e não deverá ultrapassar 70 caracteres.
11) As referências bibliográficas e as citações no texto deverão seguir o “Guia para
Apresentação de Manuscritos Submetidos à Publicação no Boletim do Museu
Paraense Emílio Goeldi".
12) No artigo aparecerá a data do recebimento pelo Editor e a respectiva data de
aprovação pela Comissão Editorial.
13) Os autores receberão, gratuitamente, 30 separatas de seu artigo e um fascículo
completo.
1 4) Os manuscritos devem ser encaminhados com uma carta à Comissão de Editoração
do Museu Paraense Emílio Goeldi-CNPq (Comissão de Editoração, Caixa Postal
399, 66.000 Belém, Pará, Brasil).
15) Para maiores informações, consulte o “Guia para Apresentação de Manuscritos
Submetidos à Publicação do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi”.
CONTEU 1)0
Artigos Originais
MARTIUS E A AMAZÔNIA
Pedro L. IS. Lisboa
ADIÇÕES A BRIOFLORA DO ES I ADO DO PARÁ
Regina C. L. Lisboa 15-42
MUSGOS DA ILHA DE MARAJÓ - I - AEIIÁ (PARÁ)
Regina Ç: L. Lisboa. Ubirajara N. Maciel 43-55
PIIENOLOGY OE TROPICAL TREES I ROM JARI, LOVVER
AMAZON, II. INFLUENCE OI GENETICS AND THE
ENVIRONMENI
M. Maquina I’ires-()'Urien 57-68
ASPECTOS ETNOBOTÂNICOS E ECOLÓGICOS DE PALMEIRAS
NO MUNICÍPIO DE NOVO AIRÃO, ESTADO DO AMAZONAS,
BRASIL
Mário Augusto (i. Jardim. PhillipJ. Stewart 69-76
I ENOLOGIA DE FLORAÇÃO E FRUTIFICAÇÃO EM
POPULAÇ ÃO NATURAL DE AÇAIZE1RO ( EUTERPE OLERACEA
MART.) NO ESTUÁRIO AMAZÔNICO
Mário Augusto (1. Jardim. Pauto Yosliio Kageyama 77-82
ANÁLISE POLÍNICA DOS MÉIS DE ALGUNS MUNICÍPIOS DO
ESTADO DO PARÁ - II.
Léa Maria Medeiros Carreira. Mário Augusto Ai Jardim 83-89
EFEITO DE CLAREIRAS NATURAIS NA ESTRUTURA DE
PLÁNTULAS DE VOCHYSIA GUIANENSIS AUBL.
(VOCHYSIACEAE), EM FLORESTA AMAZÔNICA DE TERRA
FIRME
Samuel Soares de Almeida, Ivan Luiz Guedes de Aragão.
Pauio Jorge Dantas da Silva 91-103
NOVAS ESPÉCIES DA ASPIUA TIIOU. (COMPOSITAE -
HELIANTHEAE) PARA A REGIÃO CENTRO-OESTE DO BRASIL
João Übiratan M. dos Santos 105-1 16
ANOTOMIA DA MADEIRA DO GÊNERO MICRANDROPSIS W.
RODR. (EUPIIORBIACEAE)
Pedro L. IS. Lisboa. WiUiam A. Rodrigues 117-121
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