ISSN 0077-2216
Boletim do
Museu Paraense
Emílio Goeldi
Série
Botânica
fAG-
530.5
62
Vol. 2
12 de Junho de 1986
N.° 2
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BOLETIM DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI
Série BOTÂNICA
COMISSÃO DE PUBLICAÇÕES
Presidente : Nelson Papavero
Editor Chefe : Adelmar Gomes Bandeira
Editor Associado : Paulo Bezerra Cavalcante
CONSELHO CIENTIFICO
Consultores
Carlos Toledo Rizzini — Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Dana Griffin III — University of Florida
Ghillean T. Prance — New York Botanical Garden
Graziela M. Barroso — Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Henrique Forero — Universidad Nacional — Bogotá
João Murça Pires — EMBRAPA/CPATU
Luis F. G. Labouriau — Instituto Venezuelano de
Investigaciones Científicas
Maria ENzabeth van den Berg — MPEG
Nanusa L. Menezes — Instituto de Biociências - USP
Ortrud Monika Barth — Fundação Osvaldo Cruz
Paulo B. Cavalcante — MPEG
Richard Evans Schultes — Harvard University
Walter Handro — Instituto de Biociências — USP
Walter B. Mors — UFRJ
Wüliarn A. Rodrigues — INPA
Assinatura anual — US$ 10.00 ou equivalente
(porte simples)
Endereço para correspondência :
Setor de Difusão Científica o Cultural
Museu Paraense Emílio Goeldi
Caixa Postal 399
66.000 — Belém — Pará — Brasil
ISSN 0077-2216
Boletim do
Museu Paraense
Emílio Goeldi
Série
BOTÂNICA
Vol. 2(2)
Belém — Pará
12' de junho de 1906
t o n
Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi
Série Botânica
v. 2 — n? 2
1986
Belém, Museu Paraense Emílio Goeldi
1 . Botânica — Amazônia
CONTEÚDO
HELDA LENZ CESAR, ADELMAR GOMES BANDEIRA & JOSÉ GE-
RARDO BEZERRA DE OLIVEIRA — Estudo da relação de
cupins e seus ninhos com a vegetação de campos no Es-
tado do Pará, Brasil 119
WILLIAM BALÉE — Análise preliminar de inventário florestal e a
etnobotânica Ka'apor (Maranhão) 141
MANOELA F. F. DA SILVA, NELSON A. ROSA & RAFAEL DE P.
SALOMÃO — Estudos botânicos na área do Projeto Ferro
Carajás. 3. Aspectos florísticos da mata do Aeroporto de
Serra Norte — PA 169
MANOELA F. F. DA SILVA, RAFAEL DE P. SALOMÃO & NELSON
A. ROSA — Estudos botânicos na área do Projeto Cara-
jás. 4. Análise da estrutura populacional de Hymcnaea
courbaril L. (jatobá) em mata natural, Município de San-
ta Luzia — MA 189
SAMUEL S. DE ALMEIDA, PAULO G. S. SÃ & ALVARO GARCIA
— Vegetais utilizados como alimento por Podocnemis
(Chelonia) na região do Baixo Rio Xingu (Brasil — Pará) . . 199
MARIA ELISABETH VAN DEN BERG & MILTON HÉLIO LIMA DA
SILVA — Ethnobotany of a traditional ablution in Pará, Brazil 213
BOLETIM DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI
BOTANICA. Vol. 2(2): 119-139. 12.VI.1DCG
119
Estudo da relação de cupins e seus ninhos com a
vegetação de campos no Estado do Pará, Brasil
Helda Lenz Cesar *
Adelmar Gomes Bandeira '*
José Gerardo Bezerra de Oliveira *
RESUMO — A relação entre vegetação e cupinzeiros em dois
campos do Estado do Pará foi estudada em janeiro e feverei-
ro de 1982, “sendo um dos campos cultivado (1 o 18'S/48 0 5'WG)
e outro natural (0°53'S/48°5’WG). Foi feito levantamento da
vegetação (presença/ausência) em número semelhante de
parcelas com e sem cupinzeiros. As comunidades vegetais
nos dois tipos de parcelas foram comparadas através de aná-
lise de grupamentos, tendo por base o índice de semelhança
de Sorensen. Ao nível de comunidade, não foi constatada qual-
quer distinção entre a vegetação de parcelas com e sem
cupinzeiros. Ao nível de espécie, entretanto, 6% das plantas
do campo cultivado e 15% das plantas do campo natural evi-
denciaram tendências significativas de uma associação posi-
tiva (proximidade) ou negativa (não proximidade) com os
cupinzeiros.
INTRODUÇÃO
É grande a importância dos cupins ou térmitas nos ecos-
sistemas tropicais, por seu papel nos processos de decomposi-
ção e sua posição na cadeia alimentar (Coles, 1980) . Alguns
trabalhos sobre ecologia de cupins foram recentemente desen-
volvidos no Brasil: Brandão (1982), Coles (1980), Domingos
(1980, 1982a, 1982b), Fontes (1980) e Mathews (1977) na região
Departamento de Biologia, Universidade Federal do Ceará, C. P
D-3001, 60.000 — Fortaleza — CE, Brasil.
Dept*? Zoologia, Museu Paraense Emílio Goeldi, C.P. 399,
66.000 — Belém-PA, Brasil.
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dos cerrados, e Bandeira (1979a, 1979b, 1981, 1985) e Sylvester-
Bradley et al. (1978) na Amazônia. Embora alguns aspectos da
relação plantas/cupins tenham sido abordados, são necessárias
mais informações.
A vegetação pode ser afetada pelos térmitas de duas for-
mas: pelo consumo de partes selecionadas de plantas vivas e
mortas e pela modificação de certas propriedades dos solos que
têm influência no crescimento das plantas (Lee & Wood, 1971).
Procuramos verificar como as comunidades vegetais, ou suas
espécies individualmente, são afetadas pela presença de cupin-
zeiros. Consideramos que a relação das comunidades com os
cupins pode ser de três tipos: (a) positiva, quando a vegetação
é significativamente “beneficiada” pela proximidade dos cupin-
zeiros; (b) negativa, quando “prejudicada” por essa proximidade;
e (c) indiferente, se não há distinção entre a vegetação de áreas
com e sem cupinzeiros. Procuramos verificar a ocorrência de
associações semelhantes também ao nível da espécie vegetal.
Freqüência, densidade, cobertura e biomassa são alguns dos
aspectos que podem ser medidos para constatar tais relações.
A tendência para uma associação positiva pode ser evidenciada
pelo melhor “desempenho" da vegetação dentro da área de in-
fluência do cupinzeiro; o contrário é esperado para uma asso-
ciação negativa. Não havendo diferenças significativas, a asso-
ciação pode ser considerada indiferente aos térmitas.
ÁREAS DE ESTUDO
Para verificar a relação entre plantas e cupins, foram de-
senvolvidos trabalhos de campo em duas áreas distintas, pró-
ximas a Belém, Pará, durante janeiro e fevereiro de 1982. A
primeira área, que passaremos a denominar “Americano", é um
campo cultivado com Brachiaria liumidicola Rendle em con-
sórcio com Hevea sp., em latossolo amarelo, plano, sob pastejo
com bovinos, apresentando cupinzeiros grande e resistentes de
Corr.itermes ovatus Emerson. Esta área está localizada em
Americano (aprox. ri8’S/48°5’WG), Município do Santa Isabel
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do Pará. A segunda área, que chamaremos “Vigia", é um cam-
po natural, de solo arenoso branco, parcialmente alagado na es-
tação chuvosa, plano, com predominância de Gramineae, Cipe-
raceae e Eriocaulaceae, apresentando cupinzeiros pequenos e
abundantes de Nasutitermes minimus (Holmgren) e Termes sp.
A vegetação mostrava sinais de queimada relativamente recen-
tes. O local, conhecido como “Campina do Palha" (aprox.
0°53’S/48°5’WG), dista 6 km da cidade de Vigia, na estrada San-
ta Isabel-Vigia.
METODOLOGIA
Os trabalhos de campo constaram de: (a) delimitação das
áreas de estudo; (b) mapeamento e medidas de altura, profun-
didade e de dois diâmetros basais perpendiculares dos cupin-
zeiros contidos nas áreas de estudo; (c) medida da freqüência
de todas as espécies vegetais, através do levantamento de pre-
sença/ausência de plantas, em número similar de parcelas com
e sem cupinzeiros; (d) coleta de material botânico e zoológico
para identificação. O material botânico, identificado no Herbá-
rio do Museu Paraense Emílio Goeldi, foi transferido para Forta-
leza, Ceará, e está depositado no Herbário Prisco Bezerra da
Universidade Federal do Ceará.
Em Americano, a área de estudo, de 1 ha, foi dividida em
8 blocos de 25m x 50m. Em Vigia, a área estudada, 0,5 ha, em
4 blocos de 25m x 50m. Em cada bloco foram tomados números
equivalentes de parcelas com e sem cupinzeiros.
Os dados de presença/ausência da vegetação nas parcelas
foram processados no computador DEC-1094 do Núcleo de Pro-
cessamento de Dados da Universidade Federal do Ceará. Os
dados foram submetidos a análise de grupamentos (Mueller-
Dombois & Ellcnberg, 1974) com base no índice de semelhança
de Sorensen (Sorensen, 1948), calculado a partir da freqüência,
para estudo da relação entre comunidades com e sem cupinzei-
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ros. A coabitação de cupins e piantas, ao nível da espécie ve-
getal, foi avaliada através do teste do qui-quadrado descrito em
Dajoz (1978).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os dados gerais obtidos dos levantamentos de campo nas
duas áreas estudadas constam da tabela 1 . A área delimitada
em Vigia foi menor do que em Americano, dada a alta densidade
de ninhos em Vigia. Em Americano, devido às dimensões dos
ninhos, as parcelas usadas foram círculos com 2m de diâmetro,
centrados nos cupinzeiros; em Vigia, usamos um quadrado de
1m de lado, centrado nos cupinzeiros.
Observações de campo mostraram que, em locais protegi-
dos de pastejo, a vegetação era nitidamente mais viçosa numa
faixa que variava de 40 cm a 1 m (às vezes mais) em torno dos
ninhos. Observamos ainda que, ao serem os bovinos introduzi-
dos em pastagens artificiais, a preferência alimentar inicial era
peia vegetação contida naquela faixa. Bandeira (1985) considera
que a existência desta faixa é resultado de uma influência dos
ninhos de cupins sobre a vegetação. Em Vigia, encontramos
indícios da passagem de gado peio campo cm estudo, não tendo
sido, no entanto, observada sua presença nas proximidades, du-
rante o trabalho de campo.
O número de parcelas em cada área variou, obviamente,
com a densidade dos ninhos, que parece estar relacionada com
o seu tamanho. Lee & Wood (1971) verificaram que colônias
grandes parecem manter territórios maiores do que colônias pe-
quenas, implicando portanto num maior espaçamento entre ni-
nhos grandes e, conseqüentemente, menor densidade de ninhos.
Em Americano, os ninhos de Cornitermes ovatus eram grandes
e espaçados, resultando numa densidade baixa; já em Vigia, os
ninhos de Nasutitermes minimus e Termes sp. eram pequenos
e abundantes, com um menor espaçamento entre eles, e apre-
sentavam uma densidade alta.
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Os ninhos de Cornitermes ovatus encontrados em Ameri-
cano tinham o formato de um “pão-de-açúcar” irregular. Apre-
sentavam uma porção central de material escuro e mole, e uma
parede externa bastante resistente, de material mineral compac-
tado, com espessura basal média de 25cm. O material macio e
pouco resistente à pressão que preenchia o centro dos ninhos
apresentava consistência de papelão; era rico em matéria orgâ-
nica, proveniente dos resíduos metabólicos dos cupins, e abun-
dantemente entremeado de raízes vivas. As dimensões médias
desse material cartonado eram 40cm de altura e 50cm de diâme-
tro basal. Os ninhos se aprofundavam no solo em formato seme-
lhante e inverso ao externo. A parede externa dos ninhos de
Cornitermes ovatus era, às vezes, atravessada por plantas vi-
vas, com o caule em grande parte dentro do ninho. Supomos
que tais plantas foram sendo soterradas, à medida que o ninho
foi sendo construído, num processo provavelmente semelhante
ao descrito por Coutinho (1979) para as adaptações de plantas
recobertas por murundus originados por formigas do gênero
Atta, em regiões de cerrado.
Em Vigia, os ninhos de Nasutitermes minimus eram de ma-
terial cartonado escuro, semelhante ao da porção central dos
ninhos de Cornitermes ovatus, apresentando formato aproximado
de um hemielipsóide. Não tinham parede externa espessa di-
ferenciada e eram ninhos de superfície, não aprofundados no
solo de forma significativa. Termes sp. foi encontrado com
baixa freqüência, sempre em ninhos de maior porte, conviven-
do ou não com Nasutitermes minimus. É possível que os Termes
de Vigia não construam seus próprios ninhos, mas invadam os
ninhos de Nasutitermes minimus para se alimentarem de restos
orgânicos (fezes, reservas alimentares em decomposição), e
que terminem por expulsar os hospedeiros. Os Termes, por sua
vez, modificam a estrutura dos ninhos ocupados, anexando ao
material, basicamente orgânico, quantidades maiores do partí-
culas minerais, possivelmente recolhidas do solo adjacente.
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A tabela 2 mostra as espécies vegetais encontradas nas par-
celas em Americano, com suas respectivas freqüências (total e
parciais). Foram registradas para aquela área 66 espécies de
53 gêneros e 32 famílias. Dado o grande número de píântulas
sem quaisquer estruturas reprodutivas, algumas vezes não r.os
foi possível identificá-las com certeza absoluta. A tabela 3 for-
nece os mesmos tipos de dados para Vigia, onde registramos
27 espécies de 27 gêneros e 18 famílias. Americano apresentou
maior riqueza em espécies vegetais do que Vigia, mostrando
grande quantidade de plantas invasoras da pastagem cultivada.
A área de estudo em Vigia, campo natural de vegetação ras-
teira, apresentava manchas de vegetação arbustiva e arbórea
incrustadas no campo ou limitando-o. Localmente, tais man-
chas são chamadas "campinas” ou “campinaranas”, de acordo
com o porte da vegetação. Segundo Anderson (1981), o solo
dessas formações vegetais, o conhecido “solo de areia branca",
é muito pobre, com baixo teor de nitrogênio e outros nutrientes
e capacidade de troca catiônica excepcionalmente baixa. É ainda
interessante observar que espécies de Leguminosae só foram
encontradas nas “campinas” e "campinaranas” adjacentes ao
campo de estudo em Vigia.
Ao nível da comunidade vegetal, foi feita análise de grupa-
mentos tendo por base o índice de similaridade de Sorensen,
calculado a partir da freqüência das espécies. Para Americano,
foram consideradas 34 parcelas (total de parcelas com e sem
cupinzeiros) . A figura 1 mostra os resultados da análise de gru-
pamentos. O primeiro grupo foi formado, ao nível de 75% de
semelhança, de duas parcelas com cupins. O nível de seme-
lhança mínimo foi de 35%. Os grupos nem sempre foram for-
mados de um mesmo tipo de parcela, resultando numa mistura
e não diferenciação de comunidades com e sem cupinzeiros.
Não houve, inclusive, qualquer padrão lógico de distribuição es-
pacial das parcelas nos grupos que pudéssemos relacionar, em
uma primeira análise, com outros fatores ambientais, tais como
tipo de solo e microrrelevo.
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FIGURA 1 — Análise de grupamentos baseada no índice de semelhança
de Sorensen para freqüência das espécies vegetais em uma amostra de
1 ha de um campo cultivado em Americano, Pará, Brasil. (V = Parcela
com cupinzeiros; V = parcela sem cupinzeiro).
Os dados de Vigia tiveram que ser separados em 4 grandes
blocos, de 1/8 de hectare cada, para serem processados pelo
computador. Cada bloco continha 30 parcelas sem cupinzeiros
e número variável de parcelas com cupinzeiros (31, 28, 37 e 31,
recpectivamente) . Os resultados da análise de grupamentos
para cada bloco são apresentados na figura 2. Os grupos ocor-
reram desde 100% cie semelhança até 22,5%, sendo mistura-
das parcelas com e sem cupinzeiros nos diversos grupos, in-
clusive nos de 100% de semelhança. Não foi evidenciada dis-
tinção significativa entre as comunidades de parcelas com e
sem cupinzeiros, nem um padrão de distribuição espacial de
grupos formados que pudesse ser relacionado com outros fa-
tores ambientais.
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FIGURA 2 Análise de grupamentos baseada no índice de semelhança
de Sore.isen para frequência das espécies vegetais em uma amostra de
0,5 ha de um campo natural, dividida em 4 blocos, em Vigia, Pará, Brasil,
(y =. Parcela com cupinzeiro; V = Parcela som cupinzeiro)
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Submetemos os dados dos dois tipos de parcelas de Vigia
à análise de grupamentos separadamente. O grau de semelhan-
ça entre parcelas com cupinzeiros variou de 100 a 0%, o mesmo
ocorrendo entre parcelas sem cupinzeiros. Assim, as amplas
faixas de semelhança em que foram agrupadas as parcelas, quan-
do analisadas conjuntamente (Fig. 2), refletem bem a variação
interna dentro de parcelas de um mesmo tipo.
A freqüência de cada espécie por bloco e por tipo de parcela
foi usada para testar a semelhança entre os 4 blocos em que a
área de estudo em Vigia foi dividida. A semelhança obtida foi
acima de 70% .
Ao nível de comunidade, portanto, podemos chegar a duas
suposições, tanto para Americano quanto para Vigia: (1) ou de
fato não há ocorrência de comunidades diferenciadas em torno
dos cupinzeiros, ou (2) os dados levantados não foram suficien-
temente refinados para detectar essa diferença.
Dados de presença/ausência das espécies são fáceis de
obtor, mas verificamos que o seu uso em análise de grupamen-
tos pode levar a uma interpretação que talvez não corresponda
à realidade, pois, a partir da formação de um grupo, os elemen-
tos que o compõem são fundidos numa nova identidade. Quando
trabalhamos com valores numéricos, de densidade, biomassa
ou cobertura, por exemplo, a nova identidade é formada pelos
valores médios, sendo então algo intermediário entre os dois
elementos originais. Ora, com presença/ausência passamos a
lidar com identidades fictícias, porque na análise de grupamen-
tos uma espécie pode ser considerada “1/2 presente" e, na rea-
lidade, ou ela está ou não está presente na amostra. As-
sim, a nova identidade formada, e a partir da qual se proces-
sará nova análise para estabelecer um novo grupo de maior se-
melhança, pode levar a uma comparação distorcida.
A comunidade vegetal não mostrou distinção entre parce-
las com e sem cupinzeiros. Mas talvez, no nível de espécie,
pudesse ser evidenciada alguma preferência. As tabelas 2 e 3
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apresentam também valores de x 2 . calculados segundo Dajoz
(1978), obtidos para cada espécie, em Americano e Vigia, sendo
indicado também o tipo de associação entre cada planta e o
cupinzeiro, sugerido pelos resultados.
Em Americano, apenas uma espécie (1,5% do total) evi-
denciou associação positiva; associação negativa foi evidenciada
por 3 espécies (4,5%). As demais foram indiferentes à presen-
ça ou não dos cupinzeiros. Em Vigia, 15 (56%) das 27 espécies
registradas foram indiferentes à ocorrência de cupinzeiros; as
demais 12 espécies (44%) indicaram algum tipo de relação, sen-
do 4 (15%) de associação negativa e 8 (20%) de associação
positiva. As espécies consideradas indiferentes, foram-no por
duas razões: ou porque de fato ocorreram igualmente nos dois
tipos de parcelas, ou porque a amostragem para essas espé-
cies foi pequena, não sendo possível chegar a uma conclusão
segura.
Para Americano, consideramos que os resultados que leva-
ram à determinação de associação positiva ou negativa das 4
espécies (6% do total) podem ser válidos. Aparentemente, há
preferência de Vismia guianensis pela proximidade dos cupin-
zeiros, enquanto as outras três espécies (ver tabela 2) parecem
repelir essa proximidade, embora todas eias tenham ocorrido
em ambas as situações, com e sem cupinzeiros.
Temos algumas restrições, porém, quanto aos resultados de
Vigia. Uma freqüência total muito baixa (< 15%) foi apresen-
tada por 5 das plantas que indicaram associação positiva e 2 de
associação negativa (ver tabela 3). Embora o x ! tenha sido sig-
nificativo para tais espécies, não nos parece razoável aceitar
essa indicação de uma associação, pois consideramos os da-
dos escassos para qualquer conclusão. Já a espécie Paspalum
cf. pulchellum mostrou uma freqüência total alta (88,7%), sendo
igualmente alta (>80%) a sua freqüência em parcelas com e
sem cupinzeiros. Embora o x 2 tenha sido significativo, indicando
uma associação negativa, temos restrições quanto a esta con-
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clusão. As 4 espécies restantes (15% do total), que indicaram
uma associação positiva ou negativa, merecem maiores inves-
tigações.
Mathews (1977) discute as relações entre plantas e cupins.
Em seu estudo, na região Centro-Oeste do Brasil, verificou que
os ninhos de Armitermes neotenicus Holmgren eram de mate-
rial cartonado, com alta proporção de matéria orgânica, resul-
tante da deposição de fezes não mais utilizadas pelos cupins.
Mathews verificou também que ninhos de Cornitermes be-
quaerti Emerson apresentavam a sua parte central formada
de material semelhante ao de A. neotenicus, revestida por uma
parede externa espessa e resistente, formada de partículas mi-
nerais do solo. O autor realizou análises de nutrientes do solo
adjacente e do material cartonado de ninhos de A. neotenicus.
Dos resultados, concluiu ser a grande quantidade de raízes que
penetra e prolifera nos ninhos devida à maior capacidade de re-
tenção de água e à maior disponibilidade de nutrientes que es-
tes demonstraram, quando comparados ao solo vizinho. Bandei-
ra (1985) realizou análises semelhantes no Pará para o material
cartonado de ninhos de Armitermes neotenicus, Cornitermes
ovatus, Nasutitermes minimus e N. surinamensis (Holmgren),
mostrando ser este bem mais rico em nutrientes do que o solo
adjacente.
A relação entre plantas e cupins é considerada por Bandei-
ra (1979b, 1985) como uma simbiose do tipo mutualismo. Ma-
thews (1977), porém, discutindo a mesma idéia, apresentada por
Kaiser (1953, citado por Mathews, 1977), defende a possibilida-
de de se tratar de uma relação de parasitismo, em que os cupins
se alimentariam da seiva das raízes que penetram no ninho.
Observamos que ninhos habitados por Cornitermes ovatus
apresentavam grande quantidade de raízes vivas no material
cartonado. Em ninhos abandonados pela espécie havia apenas
um buraco no lugar anteriormente ocupado pelo material carto-
nado e pelas raízes. Um dos ninhos abandonados, no entanto,
VOL. 2(2), 1986
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
136
Cesar, et ai.
ainda apresentava raízes e o material cartonado em estado de
desintegração. Estas observações sugerem uma possível rela-
ção de interdependência entre plantas e cupins.
A possível associação entre determinadas plantas e os
cupinzeiros, por nós evidenciada, requer mais estudos. Por
exemplo, qual a verdadeira natureza da relação entre plantas e
cupins? Plantas “negativas” o são por que os cupins delas se
alimentam e não têm qualquer defesa contra eles? Plantas “po-
sitivas” estariam apenas se beneficiando da maior quantidade
de nutrientes disponível nas proximidades ou mesmo no próprio
cupinzeiro? Que proveito adviria para os cupins da proximidade
de tais plantas? De quais plantas eram as raízes encontradas
nos ninhos estudados? Seriam as plantas beneficiadas pelos
cupins apenas em algum período de sua vida, ou desenvolve-
riam elas mecanismos de proteção contra danos drásticos que
pudessem ser causados pelos cupins ou outros animais de há-
bito alimentar próximo?
Outra abordagem do problema, entretanto, pode ser feita:
seriam as plantas os "agentes ativos", ou seja, o elemento que
busca ou rejeita a associação, ou seriam os cupins? Seriam
ambos elementos passivos e a associação evidenciada seria
resultado de uma relação advinda da distribuição inteiramente
casual de plantas e cupins? Estes e outros aspectos são assun-
tos que poderão fornecer interessantes temas para investiga-
ções futuras.
CONCLUSÕES
Os resultados encontrados nos permitem concluir que :
(1) Se existe alguma diferença, ao nível da comunidade, en-
tre a vegetação em área próxima ou distante de cupinzeiros nos
campos estudados, essa diferença não foi detectada por dados
de presença/ausência das espécies vegetais nas parcelas. Ou-
tras medidas, como densidade, biomassa ou cobertura, fazem-se
necessárias para verificar se há ou não tal distinção.
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldl
cm
SciELO
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Estudo da Relação. .
137
(2) Os dados de presença/ausência indicaram, ao nível das
espécies, a possível relação entre cada planta e o cupinzeiro.
Medidas de densidade, biomassa ou cobertura de cada espécie
seriam dados valiosos para corroborar ou não as evidências
obtidas.
(3) Na vegetação natural, embora a diversidade de espécies
tenha sido menor do que na pastagem, a proporção de espécies
que evidenciou associação positiva e negativa foi de 15%, ao
passo que na pastagem cultivada foi de 6% .
(4) As associações, se verdadeiras, não parecem essen-
ciais para a sobrevivência, quer de plantas, quer de cupins.
AGRADECIMENTOS
A Universidade Federal do Ceará e ao Museu Paraense Emílio Goeldi,
pelo apoio logístico para a realização deste trabalho. A Ramiro Bittencourt
Neto e Thelma Jandiara Lima Freitas, pelo auxílio nos trabalhos de campo.
A Milton Gonçalves da Silva, pela colaboração na identificação das plantas
® auxilio nos trabalhos de campo. A Paulo Eremita, pela hospedagem
da equipe de campo em Americano. Ao Prof. Roberto Cláudio Frota Bezerra,
pela orientação inicial quanto à coleta e tratamento estatístico dos dados.
Aos bolsistas Cesar Cavalcanti Lima, Nancy Maria de Aguiar Falcão, Maria
Gorette Lourenço de Barros e Luís Gonzaga Sales Jr., pelo auxílio no pro-
cessamento dos dados.
ABSTRACT
The relationship between vegetation and termlte mounds
was studied In two flolds In the State of Pará, Brazil, from
January to February, 1982. One of the fields was cultivated
(O^S/MSoST/VG). Tho presence/absence of each plant specles
In similar number of sample plots with and without termite
mounds was reglstered. Plant communlties from both kind of
plots were comparod by cluster anclysis, using Sorensen's
slmllarlty Index. At the communlty levei, no dlfferences were
detected between vegetation from sample plots with and
without termlte mounds. At tho specles levei, however, 6%
VOL. 2(2), 1986
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138
Cesar, et al.
of the cultivated field species and 15% of the natural field
showed significant tendencies for some kind of association,
positive (proximity) or negative (no proximity), to termite
mounds.
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BOLETIM DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI
BOTANICA. Vol. 2(2): 141-167. 12. VI. 1986
141
Análise preliminar de inventário florestal e
a etnobotânica Ka’apor (Maranhão)
William Balée *
RESUMO : Esta pesquisa faz parte de um estudo sobre a por-
centagem de plantas úteis para índios amazônicos em lotes de
um hectare de mata de terra firme. Foi feito um inventário
florestal de um hectare na área dos índios Ka'apor, que habitam
em floresta pré-amazônica no Maranhão. Todas as árvores e
cipós > 10 cm DAP no lote foram plaqueados e medidos de
várias maneiras. Ocorreram 519 árvores e cipós > 10 cm DAP
no hectare, dos quais 507 foram coletados; todas as espécies
foram coletadas pelo menos uma vez. Foram entrevistados
vários informantes Ka'apor sobre os usos de cada planta cole-
tada. Verificou-se que 100% das espécies de árvores o cipós
têm algum uso para os índios Ka'apor. Neste trabalho estão
descritos os nomes e os usos indígenas de todas as espécies
do lote. Este trabalho também analisa a maneira de classificar
as plantas úteis.
INTRODUÇÃO
Esta pesquisa tem como objetivo uma estimativa da por-
centagem de plantas úteis entre culturas indígenas da região
amazônica. Agora, numa época em que as terras tradicionais
de muitos grupos indígenas estão diminuindo, é importante en-
tender a dependência que eles têm em relação à floresta. Uma
maneira de entender esta dependência cultural é quantificá-la.
Podemos quantificar a dependência de uma cultura em relação
à floresta (aqui, "floresta" refere-se a todos os vegetais, mani-
Institute of Economlc Botany. New York Botanical Garden.
SciELO
12
142
Balée,
pulados ou não pelo homem, num determinado local) através
de coletas sistemáticas de plantas e de observações detalha-
das sobre os seus usos dentro de um contexto indígena. Isto
implica que os "usos" de uma planta não serão definidos de um
ponto de vista ocidental nem mesmo de um ponto de vista glo-
bal. Os “usos" de uma planta, deste modo, referem-se aos usos
pelos índios de uma cultura específica. Devido à grande diver-
sidade de espécies de plantas na Amazônia, supõe-se que os
etnobotânicos não têm certeza sobre o número de plantas úteis,
mesmo entre uma cultura indígena, sem coletar todas as espé-
cies na região (cf. Anderson & Posey, 1985). Para estimar a por-
centagem de plantas úteis entre culturas indígenas da Amazô-
nia e suas proximidades, o Instituto de Botânica Econômica do
Jardim Botânico de Nova Iorque vem desenvolvendo pesquisas
etnobotânicas baseadas na coleta de árvores em lotes de um
hectare de mata de terra firme em áreas indígenas. Até hoje
apenas Boom (1984) havia realizado um estudo deste tipo. Ele
estimou que os indios Chácobo da Bolívia utilizam 95% das ár-
vores 5= 10 cm DAP e 82% das espécies de árvores ^ 10 cm
DAP num lote de 1 hectare.
A presente pesquisa, realizada em convênio com o Museu
Goeldi, trata da botânica econômica dos índios Ka’apor, que ha-
bitam em floresta pré-amazônica no Maranhão. Os índios
Kaapor (também denominados Urubu-Ka’apor) têm uma popula-
ção de aproximadamente 500 pessoas. Moram em 17 aldeias
pequenas, espalhadas em 535.100 hectares de floresta nas ba-
cias dos rios Gurupi, Maracaçumé e Turiaçu. A aldeia de Uru-
tawy é a maior de todas, com 79 pessoas. Localiza-se apenas a
2,5 km da fronteira oriental da reserva Kaapor e a aproximada-
mente 55 km da vila de Zé Doca na BR-316. Embora os índios
Kaapor estejam em contato pacífico com os civilizados desde
1928 e atualmente muitos já se vestem como os regioanis e
praticam o comércio de arroz, os aspectos básicos da língua,
da cultura e da sociedade tradicional ainda persistem (Balée,
1984). A língua Kaapor pertence à família Tupi-Guarani. Esta fa-
mília de línguas teve uma influência profunda no Português da
Boi. Mus. Para Emílio Gooldi
Análise preliminar...
143
região amazônica. A língua Ka’apor continua sendo falada em to-
das as aldeias e relativamente poucos são bilíngües. Persistem,
ainda, a subsistência tradicional, baseada na lavoura e na caça;
o shamanismo e os rituais familiares, tais como o batismo tradi-
cional e as obrigações de resguardo das mulheres; a cosmolo-
gia; o casamento tradicicnal e o sistema de parentesco. Tam-
bém o conhecimento de plantas e seus usos sobrevive, pelo me-
nos em relação às amostras do lote estudado.
MATERIAL E MÉTODOS
Foi selecionado um lote de 500 m x 20 m, localizado a 4,5
km N da aldeia Kaapor de Urutawy (aproximadamente 3°10’S,
45°6’W) , numa cabeceira pequena do Rio Turiaçu. Pela estrutura
da floresta, o lote parece ser representativo da mata de terra fir-
me que predomina na região. O número de árvores e cipós ^ 10
cm DAP neste lote (51 9J foi quase idêntico ao número (51S) en-
contrado num lote de 1 hectare localizado perto dos índios Gua-
já, a 20 km de Urutawy. O número de espécies de árvores e ci-
pós ^ 10 cm DAP do lote foi 123 (117 espécies de árvores e 5
espécies de cipós). Entretanto, uma afirmação objetiva sobre a
representatividade do lote perto de Urutawy precisaria de dados
sobre muitos outros hectares na região.
Embora o lote inteiro possa ser considerado “terra firme"
(ou seja, terra que não fica inundada mesmo na enchente dos
rios), há uma zona pequena cobrindo 10% da superfície do lote
que não é muito bem drenada. Os índios denominam esta zona
de yaporã' lou seja, transição entre igapó e mata alta). O resto do
lote (90%) eles denominam ka’a te ("mata alta”). Estas propor-
ções parecem ser típicas do habitat dos Ka’apor. Existem 16 ár-
vores caídas no lote e 16 árvores marcadas estavam com copas
quebradas. Nestas clareiras, as famílias Marantaceae, Zingibe-
rnceae e Heliconiaceae são comuns. As clareiras podem ter re-
lação com uma penetração forte de ventos, pois esta mata não
é muito fechada. Em janeiro e fevereiro de 1985, foram coleta-
das Iodas as espécies e quase todos os indivíduos de árvores e
cipós ^ 10 cm DAP no lote. Do total de 519 indivíduos, 507 fo-
VOL. 2(2), 1986
cm
SciELO
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144
Balée,
ram coletados. Todos os 12 indivíduos não coletados foram ár-
vores : a coleta não foi realizada apenas quando não era pos-
sível se subir na árvore com segurança ou no caso de palmei-
ras que já foram coletadas uma vez. Cada árvore e cipó ^ 10
cm DAP foi plaqueada com fichas numeradas, 51 9-1 037a. (As fi-
chas 1-518 foram plaqueadas num lote ainda não coletado na
área dos índios Guajá). O DAP, a altura do fuste e a altura da
copa de cada árvore e cipó foram medidos, além do diâmearo da
copa de cada árvore, em dois sentidos perpendiculares.
Amostras de todas as espécies foram coletadas em cinco
sublotes (escolhidos aleatoriamente) medindo 5 m x 1 m cada;
esta coleta foi numerada na mesma série das árvores e cipós
^ 10 cm DAP. Também 52 plantas (na maior parte férteis e úteis
para os índios) foram coletadas numa coleta geral; os números
desta coieta começam com CG 1. No caso das árvores e cipós ^
10 cm DAP e todas as plantas da colota geral, três amostras de
cada espécime estéril e até 15 amostras de cada espécime fértil
foram obtidas Todos os dias após a coleta, dados sobre os no-
mes e usos das plantas coletadas foram obtidas de vários infor-
mantes Ka'apor; neste trabalho, discutem-se apenas os usos de
árvores e cipós ^ 10 cm DAP do lote de 1 hectare.
Todos os números das plantas coletadas foram distribuídos
igualmente para os herbários do Museu Goeldi, o Centro de Pes-
quisas Agropecuárias do Trópico Úmido (CPATU-EMBRAPA) e o
New York Botanical Garden. Os nomes científicos fornecidos
neste trabalho são baseados em determinações preliminares,
realizadas nos herbários do Museu Goeldi e CPATU em Belém.
RESULTADOS
Todas as árvores ^ 10 cm DAP foram classificadas em
classes de tamanho de DAP (veja Fig. 1). As árvores ^ 30 cm
DAP são poucas, constituindo apenas 11% de todas as árvores
^ 10 cm DAP. Talvez a área tenha sido derrubada para a agri-
cultura em tempos remotos, mas os informantes dizem que
nunca foi derrubada.
Boi. Mus. Para. Emílio Gooldl
Número de arvores individuais
Análise preliminar...
145
Figura 1 — Feríil ãas" Srvores d |; 1< lS l cm 0 D < AP° r Jo r ?ote de 1 ha
VOL. 2(2). 1986
146
Balée,
As famílias Lecythidaceae, Burseraceae e Euphorbiaceae
são bem representadas no lote em termos de freqüência de indi-
víduos, pois 60,2% de todas as árvores plaqueadas pertencem a
uma destas três famílias. A família Lecythidaceae é a mais co-
mum, abrangenao 31,6% das árvores individuais. De fato, à es-
pécie Eschweilera coriacea, com 95 indivíduos, abrange 19,1%
de todas as árvores nc lote. Esta espécie, mesmo sendo a mais
comum no lote coletado por Prance ei al. (1976:1) perto de Ma-
naus, abrangeu apenas 7,4% de todas as árvores lá localizadas.
Esta espécie não é apenas a mais comum, como também é uma
planta bem útil na cultura Ka’apor.
Segundo os informantes, todas as 123 espécies de árvo-
res e cipós ^ 10 cm DAP do lote são úteis. Neste trabalho, uma
planta "útil" é qualquer vegeta! que possui uma propriedade
real ou imaginária, aproveitada pelos índios Ka’opor para um ou
mais fins específicos. Para compreender a utilização de plantas
do lote, dentro do contexto da cultura Kaapor, é conveniente di-
vidir o domínio de ' usos" em categorias (cf. Andcrson & Posey,
1935). Sete categorias são reconhecidas aqui : 1) comida para
o homem; 2) comida para a coça; 3) material de construção; 4)
material de tecnologia; 5) remédio; 6) combustível; e 7)
“outros". Os usos de cada espécie do lote são mostrados nas
Tabelas 1 (árvores) e 2 (cipós). Estas Tabelas também mostram
o nome científico, o nome Kaapor, o número de coleta (no caso
de uma espécie coletada mais de uma vez, só o primeiro núme-
ro da coleta é anotado) e o número de indivídues de cada espé-
cie do lote.
Das árvores levantadas, 44 (37,6%) espécies e 155 (31,3%)
árvores individuais produzem frutos (ou sementes, no caso de
Caryocar glabrum), comidos pelos Ka’apor. Cento e dez (94%)
espécies e 485 (97,4%) árvores individuais oferecem frutos
e/ou folhas que são comidos por animais caçados pelos Kaapor.
Estas árvores são, pelo menos índiretamente, úteis neste senti-
do, pois os índios dependem da proteína dos animais, os quais,
por sua vez, dependem de nutrientes vegetais. O conhecimento
que os índios têm dos hábitos dietéticos dos animais de caça é
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldl
Análise preliminar. . .
Análise preliminar. . .
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ULMACEAE
Ampelocera endentula Kuhlm.
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162
Balée,
de alto valor econômico para eles. Mesmo se as 4 espécies de
árvores do inventário, que servem somente como alimento para
animais de caça, fossem excluídas do domínio de plantas úteis,
a porcentagem de plantas úteis em outras categorias ainda seria
impressionante : 113 (96,6%) árvores individuais seriam úteis.
Da mesma maneira, todos os cipós seriam úteis. Dos cipós, ne-
nhuma espécie tem fruta comestível para o homem; 4 (66,6%)
espécies e 7 (33,3%) cipós individuais servem como alimento
para caça.
A categoria “material de construção” refere-se às plan-
tas usadas para esteios (como Licania spp.), caibros (como
Fusaea longifolia), paredes (Euterpe oleracea), tetos (às ve-
zes, Oenocarpus distichus) e outras partes das casas e abri-
gos; também, inclusive espécies utilizadas para construir cer-
cados (p. ex., Eschweilera spp.), grelhas para moquear carne
(p. ex., Diplotropis purpurea) e gaiolas para vários animais
domésticos (p. ex., Cecropia sciadophylla) . Nesta categoi ia, 28
(23,9%) espécies de árvores e 160 (32,1%) árvores individuais
servem para tais fins na cultura Ka’apor. Nenhum dos cipós ser-
ve como material de construção.
“Material de tecnologia" inclui espécies utilizadas para
fazer envira e corda (p. ex., Lecythis idatimcn), espetos (p. ex.,
Tetragastris altíssima), colheres (Lacmellia aculiata), abanos
(Oenocarpus distichus), teares ( Sierculia pruriens) e pontas
das flechas (Cupania scrobiculata) ; inclui espécies utilizadas
para pintar cuias (Licania hetermorpha e var.) e as pontas das
flechas (Carapa guianensis) e espécies utilizadas para tempe-
rar cerâmica ( Licania membranacea) e colar várias peças de
artesanato (Symphonia globulifera) . Finalmente, inclui espécies
usadas para fazer cabos de machado (p. ex., Pouteria laurifolia)
e cangalhas para burros (Ocotea canaliculata) Das árvores,
21 (17,95) espécies e 228 (45,8%) indivíduos servem para fins
tecnológicos; nenhum cipó do inventário cabe nesta categoria.
A categoria “remédio" inclui espécies utilizadas para tra-
tar diarréia (p. ex., Fusaea longifolia); dor de estômago (p. ex.,
Boi. Mus. Para. Emílio Gooldl
cm
; SciELO
10 11 12 13 14
Análise preliminar. .
163
Parahancornia amapa); problemas associados com gravidez e
nascimento (p. ex., Cordia bicolor); dor de dente ( Protium palli-
dum); sinusite (Ampelocera endcntula); furúnculos e outras in-
fecções da pele (p. ex., Couepia leptostachya); cancros da boca
(Licania hetermorpha); cansaço geral (p. ex,. Laetia procera);
feridas sangrentas (Eschweilera coriacea, a qual age como ci-
catrizante e não simplesmente como um curativo, de acordo com
os informantes); mordida de cobra (p. ex., Poedlanthe effusa);
febre (p. ex., Tachigalia mirmecophila); dor de garganta (Virola
michelii) ; e ka’uha ou “loucura" (Tachigalia paniculata). Das
árvores, 24 (20,5%) espécies e 228 (45,8%) indivíduos têm pro-
priedades medicinais; dos cipós, 5 (83,3%) espécies e 19
(90,5%) indivíduos são utilizados contra doenças de vários
tipos.
“Combustível” refere-se às espécies que servem para le-
nha e para iluminação. Os Ka’apor dividem “lenha” (jape’a) em
3 categorias básicas: 1) u'i karãi-ha — madeiras que queimam
devagar, apropriadas para torrar a farinha (p. ex., Üodecastigma
integrifolium); 2) soo mujyk-ha e so’o mupupur-ha — aquelas
que queimam rápidamente com chamas muito quentes e que
servem para assar e cozinhar várias comidas (p. ex., Licania
hclermorpha) ; e 3) maku-atu-ha — madeiras utilizadas para fa-
zer calor à noite, a fumaça não sujando as redes (p. ex., Sagotia
r acemosa) . “Combustível” aqui também abrange aquelas espé-
cies que possuem resinas ou látex inflamáveis e aromáticos,
utilizados para iluminar e defumar as casas à noite (p. ex., vá-
rias Protium spp. e Symphonia globulifera) . Das árvores, 96
(82,1%) espécies e 397 (79,8%) indivíduos servem como com-
bustível; dos cipós, 2 (33,3%) espécies e 12 (57,1%) indivíduos
cabem nesta categoria.
A categoria de "outros” inclui espécies utilizadas como
desodorante (Protium pallidum); sabão (Parkia paraensis); fer-
mentador da bebida cerimonial (p. ex., Tcgragastris altíssima);
e Planta ornamental ( Apeiba enchinita). Também inclui plantas
utilizadas para engordar cachorros (Tachigalia mirmecophila);
V OL. 2(2), 1986
cm
; SciELO
10 11 12 13 14
164
Balée,
fazer sal (Euterpe oleracea); água potável (p. ex., Davilla
kunthii); e para marcar rumos na mata (as folhas de Bauhinia
sp. são empregadas para este fim). Das árvores, 8 (6,8%) es-
pécies e 67 (13,5%) dos indivíduos cabem nesta categoria; dos
cipós, 3 (50,0%) espécies e 12 (57,1%) indivíduos são utiliza-
dos dentro desta categoria.
DISCUSSÃO
É notável que 100% das espécies de árvores e cipós ^ 10
cm DAP, num lote de mata alta escolhido aleatoriamente, são
considerados utilizáveis pelos Ka’apor. Os índios não classifi-
cam qualquer espécie como jaxer ("sem potencial”). Além dis-
so, a maior parte das espécies e indivíduos cabem em 3 ou mais
categorias. Das árvores, 68 (58,1%) espécies e 395 (79,3%) indi-
víduos são utilizados para 3 ou mais fins ; dos cipós, 3 (50%) es
pécies e 12 (57,1 %) dos indivíduos têm 3 ou mais usos para os
Ka’apor.
O que devemos saber é se nossas definições e categorias
de uso correspondem às dos índios Ka’apor. Parece que o maior
problema da etnociência é elucidar as similaridades e diferen-
ças entre as categorias de um grupo indígena e as de nossa cul-
tura ocidental (cf. Berlin et al., 1973 ; Berün et al. 1974; Hays,
1983). A intenção deste trabalho foi a de apresentar as catego-
rias de uso das plantas empregadas pelos Ka'apor. Foi necessário
distinguir entre “comida para o homem” e "comida para caça”,
pois não existe um termo Ka'apor equivalente ao sentido do ter-
mo “fruto comestível”. Para os Kaapor, quase todas as espécies
do lote são comestíveis, pelo menos são comidas pelo homem ou
por um outro animal. Eles distinguem entre u’u awa (“o que o
homem come") e soo mi'u (“comida de caça”). Estas catego-
rias são fiéis ao conceito Ka’apor da utilidade das plantas- Por
outro lado, não existem palavras Ka’apor para referir-se ao uni-
verso de plantas usadas em “construção" e "tecnologia”. Cada
uso específico (p. ox., envira) ó distinguido por um termo es-
pecífico. Então estas categorias são compostas de várias cate-
Bol. Mus. Para. Emílio Goeldl
cm
; SciELO
10 11 12 13 14
Análise preliminar. . .
165
gorias Ka’apor e representam uma conveniência do analista.
Estas categorias podem ser consideradas "ocultas” por não se-
rem nomeadas pelos Ka’apor, mas possuem validade cultural e
econômica, entre os Ka'apor (veja Berlin et al., 1973).
“Combustível” aqui também representa uma categoria
composta de varias categorias e subcategorias Ka’apor. Pode-
mos defini-la nestes termos : lenha ( jape'a ) e suas subcatego-
rias Ka’apor (veja supra), que não são distinguidas por termos
portugueses, mas sim por circunlocuções, o resinas e látex infla-
máveis. Da mesma forma, a categoria de "outros” foi explicada
em termos de vários usos específicos pelos Ka’apor. À medida
em que as categorias Ka’apor são explicadas em termos do ana
lista, a arbitrariedade inevitável de análise é reduzida.
A categoria que apresenta mais problemas etnosemânti-
cos é a de “remédio". Ao ser fiel à concoituação Kaapor, aqui
não é feita uma distinção entre remédios “sobrenaturais" e re-
médios "naturais.” Por exemplo, para provar se folhas de Cor-
dia bicolor, quando esfregadas sobro a barriga de uma mulher
grávida, se “realmente” ajuda a dar à luz, não é uma responsa-
bilidade do etnobotânico. Também seria ilógico, com este exem-
plo, distinguir entre um remédio sobrenatural e um remédio na-
tural. A planta é “natural”, mas quem sabe se o efeito da apli-
cação dela e “natural" ou “sobrenatural”? Além disso, o termo
Kaapor puhã, o que mais se aproxima do sentido de “remédio"
abrange mais tipos de uso. A palavra puhã, refere-se a qualquer
coisa que, quando aplicada apropriadamente pelo homem, pode
ter o efeito de mudar o estado de ser de uma outra coisa. Por
exemplo, Tetragastris altíssima é considerada como kaul puhã,
(“remédio para a bebida cerimonial"), porque os índios 'acredi-
tam que ela possa influenciar o processo de fermentação, quan-
do aplicada de uma maneira apropriada. Este uso não corres-
ponde às nossas idéias comuns sobre um "remédio." Neste
caso, e em outros em que puhã não se refere a uma cura, real
ou imaginária, para uma doença humana, o uso da espécie ó
classificada dentro da categoria "outros”. ^
VOL. 2(2), 1986
166
Balée,
Resta muito para ser entendido sobre os usos da floresta
pré-amazônica e a maneira pela qual os índios Ka'apor classifi-
cam estes usos. Para minimizar as informações ctnobotânicas
que são perdidas na tradução é preciso explicar claramente as
similaridades e diferenças entre as categorias do analista e as
dos índios. Enfim, haverá uma base pa.ra estimar o valor da flo-
resta e a importância que ela desempenha na sobrevivência de
uma cultura e de um povo indígena.
ABSTRACT
This project is part of a larger study of the percentage
of useful plants for Amazonian Indians in one hectare plots
of terra firme forest. A forest invuntory of one hectare was
carriod out in the area cf the Ka'apor Indians, wlio occupy
pre-Amazonian forest in Maranhão State, Brazil. All trees and
lianas > 10 cm DBH on the plot were tagged and measured
in many ways. There are 519 tree3 and lianas 2: 10 cm DBH
of which 507 were coliected. All species were collccted at
least once. Many Ka’apor informants wera interviewed about
the uses of each plant. According to the informants, 100%
of the species are useful in some way. The indigenous name
and use of all species are here described. Also, the means
of classifying useful plants is analyzed.
NOTAS
1 . A ortografia de palavras Ka'apor corresponde à ortografia portuguesa
com algumas exceções :
KA’APOR PORTUGUÊS
y não tem equivalente; em outras
ortografias é representado como
i, ou seja vogal alta e central
j ia, como em laiá
r mais ou menos como o
r Inglês, como em right
x x, como em xícara
3 c, como em cipó
' oclusiva glotal
A tônica na língua Ka'apor quase sempre cal na última sílaba da palavra.
Encontram-se acentos apenas onde existem oxcoçõos.
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldl
Análise preliminar. . .
167
AGRADECIMENTOS
Ao Sr. Benedito Gilberto dos Santos Ribeiro, do herbário de CPATU-
EMBRAPA, pelo auxílio indispensável no campo e no herbário. Ao Sr.
Neison Rosa, do Museu Goeldi, por muitas das determinações prelimina-
res das plantas coletadas. Ao Dr. Anthony Anderson e à Sra. Suely An-
derson pelos comentários valiosos ao manuscrito. Ao Institute of Eco-
nomic Botany do New York Botanical Garden e à Edward John Noble
Foundation pelo apoio financeiro. Aos índios Ka'apor da aldeia de Uru-
tawy pela sua paciência e amizade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDERSON, A. B. & POSEY, D. A.
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Emílio Goeldi, sér. Bot., Belém, 2(1): 77-98.
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folk biology. Am. Anthrop., Lancaster, 75(1): 214 - 242.
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VOL. 2(2), 1986
BOLETIM DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI
BOTÂNICA. Vol. 2(2): 169- 187, 12. VI. 1986
169
Estudos Botânicos na área do Projeto Ferro
Carajás. 3. Aspectos Florísticos da Mata do
Aeroporto de Serra Norte -PA*
Manoela F. F. da Silva ** ***
Nelson A. Rosa **
Rafael de P. Salomão **•
RESUMO — Foi procedido um inventário botânico em uma
floresta virgem, localizada próxima ácT aeroporto de Serra Nor-
te (Carajás) - PA, com a finalidade de coletar e analisar da-
dos relativos à estrutura e composição florística daquela área.
Foi amostrado um total de 1700 indivíduos: 516 árvores, 98
arbustos e 1086 ervas, distribuídos por 55 famílias, 151 gêne-
ros o 234 espécies. As famílias mais diversificadas em espé-
cies foram: Leguminosae “sensu lato", Moraceae, Rubiaceae,
Bignoniaceae, Sapindaceae, Lauraceae, Sapotaceae, Burseraceae,
Maliaceae e Rutaceae. O volume da madeira com casca foi de
257,71 m 3 /ha e área basal de 27,72 m 2 /ha. A análise estatística
demonstrou não haver diferença significativa entre as variân-
cias, a 95% de probabilidade, nos tratamentos aplicados: tra-
tamento A = número de espécies/parcela e tratamento B =
número de espécies/subparcela. Quanto ao número de sub-
parcelas mensuradas, esteve aquém do ideal, para um erro
admissível de 10% e 95% de probabilidade.
INTRODUÇÃO
A prática de Inventários Botânicos está ganhando espa-
ço, ultimamente, nos meios acadêmico-científicos; diferem
essencialmente dos conhecidos Inventários Florestais, cuja
* Estudo desenvolvido com recursos repassados pela Companhia Vale do
Rio Doce, através do Convênio n? 16/83 — CVRD/MPEG.
** Depf? Botânica, Museu Paraense Emílio Goeldi, C.P. 399,
66.000 — Belém -PA, Brasil.
*** Bolsista espoclal do Convênio CVRD/MPEG.
170
Silva, et al.
finalidade é principalmente obter dados sobre o potencial ma-
deireiro de uma determinada área. No inventário botânico pro-
priamente dito (florístico-vegetacional), o objetivo é estudar a
composição florística e analisar a estrutura da vegetação de
uma região. Parte-se do princípio de que todas as espécies
são importantes, independente do seu valor comercial imedia-
to. À medida que as amostras botânicas vão sendo estudadas
a nível de laboratório, a importância ou não de determinada
espécie vai sendo definida; finalmente, as espécies de maior
interesse, cientificamente, são : as espécies novas; amea-
çadas de extinção; de distribuição geográfica restrita, e ra-
ras. A estrutura da vegetação também é analisada, dando-se
peso igual aos componentes.
Entre os vários levantamentos florísticos procedidos na
Amazônica, alguns já foram divulgados, como : Rodrigues
(1962, 1967), Prance et al. (1976), Dantas & Müller (i979), Dan-
tas et al. (1980) e Lisboa & Lisboa (no prelo).
Os levantamentos florísticos na região do Projeto Ca-
rajás constituirão base para investigações mais aprofundadas
sobre as comunidades vegetais sujeitos a pertubações resul-
tantes da exploração mineral. Atentos aos problemas dc ordem
ambiental, no caso a vegetação, proc.iram-se, através de estu-
dos científicos, subsídios que possam ser usados no controle
ou cerno atenuantes de tais problemas.
Com este propósito, foi conduzido um inventário floris-
tico-vegetacional em uma mata contígua à área desmatada
para a construção do aeroporto de Serra Norte (Carajás). O es-
tudo tenta obter informações sobre a estrulura e composição
florística da mata primitiva, para servir de padrão nas compa-
rações com a área que foi desmatada e que, atualmente, se
encontra em franca recomposição da flora.
Um outro objetivo deste trabalho é demonstrar, estatis-
ticamente, a representatividade da metodologia empregada e
adotada, ultimamente, nos estudos desta natureza, conduzidos
pelo INPA, CPATU/EMBRAPA e MPEG.
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi
cm
SciELO
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Estudos Botânicos.
171
MATERIAIS E MÉ IODOS
O estudo foi realizado em uma área de floresta primária,
nas proximidades do aeroporto de Serra Norte (Carajás), Mu-
nicípio de Marabá-PA.
É uma floresta tropical típica, com a presença de muitos
cipós em certos trechos e mais limpa em outros. Foi descrita
por Pires (1973), genericamente, como “mata de cipó”. O clima
é do “Ami”, de acordo com a classificação de Kõppen, e
o solo é do tipo latossolo amarelo, segundo o Atlas elaborado
pelo Conselho Interministerial do Programa Grande Carajás
(1981) .
Foi feita uma amostragem em transecto de 20x500 m (01
hectare), subdividida em 20 parcelas de 20x25 m (500m 2 ) para
o registro dos indivíduos com limite mínimo de 30 cm de CAP
(circunferência a 1,30 m do solo); os dados anotados foram ar
medidas de : CAP, altura do fuste e altura da copa. Dentro de
cada parcela, foram alocadas subparcelas de 1x5 m (5 m 2 ) para
amostrar os indivíduos ccm menos de 30 cm de CAP. Nestas,
foram consideradas 2 categorias ;
— Plantas com altura total mínima de 2,0 m e CAP < 30,0
cm (arbustos) : medida a CAP e altura total;
— Plantas com menos de 2,0 m de altura total : só re-
gistrada a presença.
Foram coletadas amostras de material botânico de todas
as espécies, indistintamente, para identificação em laboratório.
Os dados coletados foram analisados estatisticamente.
Procedeu-se à análise de variância pelo teste de z de R.A. Fis-
cher, atualmente substituído pelo teste F de G. W. Snedecor,
tendo em vista comparar variâncias. Foram estudados 2 trata-
mentos :
— Tratamento A : número de espécies por parcela;
— Tratamento B : número de espécies por subparcela;
cada um com 20 repetições.
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172
Silva, et al.
A intensidade de amostragem (n) para subparcelas foi
também calculada, em relação às parcelas — consideradas
como o universo — , para saber-se que número de subparcelas
representaria mais fielmente a floresta a um erro admissível
de 10% com 95% de probabilidade.
RESULTADOS
A — Composição e Estruturação da Vegetação
Foi registrado um total de 55 famílias na área es-
tudada. Destas, 8 são compostas exclusivamente de indivíduos
arbóreos (CAP > 0,30 m), 16 exclusivamente de arbustos e
ervas e 31 famílias com representantes arbóreos, arbustivos
e herbáceos.
Na categoria de gênero foi amostrado um total de 151. O
gênero com o maior número de espécie foi Inga Scop. ILegu-
minosae-Mimosoideae), com 7 espécies, seguido de Brosimum
Swartz. (Moraceae), Protium Burm. (Burseraceae) e Psychotria
L. (Rubiaceae), com 5 espécies cada; Eugenia L. (Myrtaceae),
Guarea Aliem. (Meliaceae) e Mouriri Aubl. (Melastomataceae),
com 4 espécies cada.
O total de espécies registrada foi de 234. Destas, 76 são
exclusivamente árvores, 109 arbustos e ervas e 49 espécies
com representantes das 3 categorias.
Foram inventariados ao todo 1700 indivíduos: 516 perten-
cem à categoria das árvores, 98 à de arbustos e 1086 são ervas.
As famílias que mais se destacaram em número de es-
pécies estão representadas na Tabela 1. Em primeiro lugar apa-
recem as Leguminosae, com 12,4% das espécies amostradas,
seguidas pelas Moraceae, Rubiaceae, Bignoniaceae & Sapin-
daceae, Lauraceae & Sapotaceae, Burseraceae, Meliaceae &
Rutaceae. As 45 famílias restantes apresentaram um total de
120 espécies, dando uma média do 2,7 espécies por família. No
Anexo. 1, encontram-se listados todos os dados acima referi-
dos.
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cm
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173
Tabela 1 : Famílias com maior número de espécies amostradas em 1 ha de
floresta primária e percentual relativo ao total de espécies.
Serra Norte, Carajás — PA.
FAMÍLIA
N9 ESPÉCIES
%
Leguminosae
29
12,4
Moraceae
15
6,4
Rubiaceae
11
4,7
Bignoniaceae
& Sapindaceae
10
4,3
Lauraceae &
Sapotaceae
9
3,8
Burseraceae,
Meliaceae & Rutaceae
7
3,0
Outras
120
51,3
TOTAIS
234
100,0
Na Figura 1 é apresentada a curva do aparecimento de
novas espécies — relação entre o número de espécies acumu
ladas pelo número de parcelas amostradas. A ascensão da
curva indica que, para esta mata, tem-se que ter uma maior in-
tensidade de amostragem para se conhecer melhor as espé-
cies ali existentes.
Na Figura 2 está demonstrada a freqüência de indivíduos
por classe de CAP. A distribuição apresenta-se em forma de
“J" invertido, onde a maicr concentração se dá nas classes
mais baixas.
A distribuição dos indivíduos por classe de altura total
está representada na Figura 3. Os espécimes arbustivos e her-
báceos e descrevem uma curva em ‘J” invertido, semelhante e
condizente com a Figura 1, enquanto que os representantes
arbóreos tendem à distribuição normal, com poucos indivíduos
nas classes mais baixas, maior concentração nas classes me-
dianas, decrescendo nas classes mais altas.
A freqüência acumulada dos indivíduos arbóreos, em per-
centagem, é mostrada na Figura 4; a partir de 19,0 m de fuste,
a curva tende a se estabilizar.
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S3l03dS3
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o
— r-
o
— r-
o
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldl
Estudos Botânicos... 175
Figura 2 : Freqüôncia de indivíduos por classe de CAP (cm) nos
estratos arbóreo e arbustivo-herbáceo. Classes de CAP :
A = 0,01 — 29; B = 30 — 59; C = 60 — 89; D = 90 — 119;
E = 120 — 149; F = 150 — 179; G = 180 — 209; H = 210 — 239;
I _ 240 — 260; J = 270 — 299; K = 300 — 329; L = 330 — 359;
M = 360 — 389; N = 390 - 419; O = 420 — 449.
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176
Silva, et al.
CLASSE DE ALTURA TOTAL (m)
Figura 3: Número de indivíduos por classe de altura total (m), nos estra-
tos arbóreo e arbustivo-herbáceo. Classes de altura total :
A = 0,01 — 2,9; B =3,0 — 5,9; — C = 6,0 — 8,9; D = 9,0 — 11,9; E
= 12,0 — 14,9; F = 15,0 — 17,9; G = 18,0 — 20,9; H = 21,0 — 23,9; I
= 24,0 — 26,9; J = 27,0 — 29,9; K = 30,0 — 32,9; L = 33,0 — 35,9; M
= 36,0 — 38,9; N = 39,0 — 41,9.
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldl
Estudos Botânicos...
177
VOL. 2(2), 198C
SciELO
12
178
Silva, et al.
O volume estimado de madeira com casca foi de 257,71
m 3 /ha, dando uma média de 0,50 mVárvore, e a área basal fo'
de 27,72 m 2 /ha, com uma média de 0,50 mVárvore. A Tabela 2
mostra as espécies madeireiras mais expressivas em volume
de madeira e área basal. As que mais se destacaram foram :
Buchenavia capitata (Vahl.) Eichler., Erisma uncinatum Warm
e Newtonia suaveolnns Miq., com 15,92 m 3 e 1,34 nr, 15,37 m ?
e 1,57 m 2 , 14,26 m 3 e 1,27 m 2 de volume de madeira e área ba-
sal, respectivamente.
Tabela 2 : Esências madereiras com maior expressão em volume com
casca (em m 3 ) e respectiva área basal (em m £ ), amostra-
das em 1 ha de mata primária. Serra Norte, Carajás — PA.
ESPÉCIE
NOME VULGAR
VOL. C/C
— m 3 —
1
1
Buchenavia capitata
mirindiba
15,917
1,34
Erisma uncinatum
verga-de-jabuti
15,374
1,57
Newtonia suaveolens
timborana
14,260
1.27
Astronium gracile
muiracatiara
8,557
0,51
Endopleura uchi
uchi
5,015
0,48
Eschweilera sp.
jatereu
4,664
0,27
Tetragastris altíssima
breu-manga
4,422
0,35
Copaifera duckei
copaíba-angelim
4,216
0,24
Parkia multijuga
fava-atanã
3,781
0,32
Lccythis luriãa
jarana
3,619
0,29
Eschweilera sp.
jatereu
3,565
0,20
Virola michelii
ucuúba-preta
3,248
0,26
Tabebuia serratifolia
pau d’arco amarelo
3,137
0,15
Tetragastris paraensís
breu- jacaré
3,103
0.34
Buchenavia grandis
mirindiba-íolha-miúda
3,091
0,18
Na Tabela 3 estão relacionadas as espécies com limite
mínimo de altura total de 30,0 m. São estas as que formam o
dossel da mata e as emergentes. As espécies destacadas co-
mo emergentes são: "mirindiba folha miúda”, "pau darco
amarelo", “copaíba-angelim”, “jatereu", “timborana", entre
outras.
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B — Análise Estatística
Na Tabela 4 são apresentadas as observações do
número de espécies referentes aos tratamentos : tratamento
A = n.° de espécies/parcela e tratamento B = n.° de espé-
cies/subparcela.
Os cálculos estatísticos foram realizados segundo as
equações a seguir, extraídas de Gomes (1981) e Spiegel (1978):
Soma de Quadrados Total (SQTotal)
- C
SQTotal = ^Y Í I1
1 1 »J
C = G 2 /i.j
G = * Y
i.j Y i.j
Onde
i — tratamento
j = repetição
Y . . = observação do i-ésimo tratamento na j-ésimo
l,J repetição
C = fator de correção
G = somatório das observações
SQTotal = 19.719,000 - 18.792,225 = 926,775
Soma de Quadrados para Tratamentos (SQT)
SÜT = 1 /j5pT j2
- C
Onde
j
repetição
Tj = tratamento nas i-ésimas repetições
C = fator de correção
SQT = 1/20 (376.529,000) - 18.792,225 = 34,225
Soma de Quadrados do Resíduo (SQR)
SPR = SQTotal — SQT
Onde
SQTotal ” soma de quadrados total
SQT = soma de quadrados para tratamentos
SQR = 926,775 - 34,225 = 892,550
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Análise de Variância (ANOVA)
FV
GL
SQ
QM
F
Tratamento
1
34,225
34,225
1,4571 ns '
Resíduo
38
892,550
23,488
—
Total
39
926,775
—
—
Onde :
FV = fonte de variação
GL = graus de liberdade
SO = soma de quadrados
QM = quadrado médio
F = valor encontrado
n.s. = não significativo
Intensidade de Amostragem (n) para sub parcelas
t 2 CV 2
n =
E%Ht 2 -CV 2
Onde
N
n = número de unidades amostrais
t = 2,09, para 19 graus de liberdade e 95% de proba-
bilidade
CV = coeficiente de variação, em %
E% = erro admissível (10%)
N = número de unidades amostrais “cabíveis" na
área total
2,09 2 . 26.41 2
n
=30,0
10 2 + 2,09 2 . 26, 41 2
2000
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Estudos Botânicos...
183
DISCUSSÃO
A alta diversidade da vegetação em estudo demonstra
tratar-se realmente de uma floresta tropical típica, pois o nú-
mero de espécies amostradas é semelhante ao normalmente
reportados para outras áreas da Amazônia. Embora haja gran-
de semelhança quantitativa entre os vários inventários proce-
didos nas matas amazônicas, como em Rondônia, Manaus
(AM), Altamira (PA), Capitão Poço (PA) e no presente estu-
do, a composição florística difere de um ponto para outro. A
distribuição das espécies sofre grande variação espacial. Ro-
drigues (1962) encontrou para a floresta da Serra do Navio,
em Macapá (AP), a família Leguminosae como a mais repre-
sentativa em número de espécies. Prance et al. (1976), para a
região de Manaus, citaram Eschweilera odora (Poepp.) Miers.
(Lecythidaceae) como a espécie mais expressiva em número de
indivíduos. Dantas & Muller (1979) citam para Altamira (PA) as
espécies Cenostigma tocantinum Ducke (Leguminosae — Cae-
salpinoideae) e Alexa grandiflora Ducke (Leguminosae — Papi-
lionoideae) como as mais abundantes na área.
Na região de Carajás, em todos os inventários procedidos
até o presente, a família Leguminosae tem-se mostrado a
mais diversificada em espécies; possui representantes em
todas as categorias Je porte (arbóreo, arbustivo e herbáceo).
Apresenta espécies com madeira de alta qualidade, como o
"jutaí”, e espécies com madeira branca sem valor comercial
atualmente; outras possuem propriedades medicinais, ou fru-
tos comestíveis, e assim sucessivamente. Dentro da família
há uma gama muito grande de aplicabilidade econômica entre
as espécies.
A grande concentração de indivíduos no sub-bosque da
mata é devida a dois fatores :
a) Existem espécies de Graminae, Cyperaceae e Maran-
taceae, entre outras, que são essencialmente de lugares som-
breados, com porte arbustivo e/ou herbáceo. Estes sempre se-
rão parte do sub-bosque da mata.
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b) Muitas espécies arbóreas possuem sementes capazes
de germinar à sombra da mata, e as plântulas, inicialmente em
número elevado, só resistem até os primeiros estágios de vi-
da. À medida que vão crescendo, vai havendo a competição
por luz, pois as árvores que formam o dossel da mata são exi-
gentes e dependentes de muita luz; a maioria desaparece nos
primeiros estágios de vida.
Quando se analisa a distiibuição dos elementos arbó-
reos, somente em classes de altura a curva é diferente de
quando são analisados todos os indivíduos; a curva tende à
normalidade : a maior concentração dá-se na altura mediana,
envolvendo 4 classes, cujas árvores variam de 9,00 a. 24,0 m
de altura. À medida que vai aumentando a altura, vai diminuin-
do gradativamente o número de indivíduos na classe mais alta
(39,0-41,9 m), onde só dois indivíduos se fizeram presentes. As
árvores com mais de 35,0 m de altura podem ser consideradas
emergentes.
Ma análise de variância, admitindo-se a hipótese de nu-
lidade, isto é, supondo-se que os tratamentos são todos equi-
valentes, o quadrado médic (QM) para os tratamentos é uma
estimativa da variância («r*), da mesma fornia que o quadrado
médio referente ao resíduo. Sendo estimativas diferentes do
mesmo parâmetro, elas não deveriam diferir, a não ser por
acaso. Para compará-las, usa-se o teste F.
Neste estudo, com 1 e 38 graus de liberdade, o limite de
F, tabelado a 95% de probabilidade.^ é 4,09; como o valor de F
encontrado (1.457) é bem inferior ao tabelado, diz-se que não
é significativo, acarretando na aceitação da hipótese de nuli-
dade : hipótese de que os tratamentos (A = parcelas e B =
subparcelas) são iguais estatisticamente. Não fica provado
que esses tratamentos são iguais, mas apenas que não temos
motivos para afirmar que são diferentes, o que é uma afirmativa
bem mais fraca.
Quanto à intensidade de amostragem para as subparcelas,
calculou-se ser de 30 o número ideal de unidades amostrais, para
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldl
Estudos Botânicos.
185
um erro admissível de 10% a 95% de probabilidade. Também po-
der-se-ia optar pelas mesmas 20 subparcelas com as dimensões
de 7,5x1 ,0 m (7,5 nf), totalizando 150 m 2 de amostragem para os
indivíduos Dertencentes a estas.
CONCLUSÕES
— A floresta estudada apresentou uma alta diversidade
florística, comparável aos resultados de cutros estudos do gêne-
ro, em outras áreas da Amazônia;
— A família mais diversificada em espécies fci Legumi-
nosae, com 12,4% das espécies amestradas;
— A competitividade por luz, em mata tropical, faz com
que só uma minoria dos indivíduos arbóreos, que germinam à
sombra, alcance a fase adulta;
— O volume de madeira com casca encontrado, de 257,71
m 3 /ha, e área basal de 27, 72 m 2 /ha, evidenciam a alta biomas-
sa da floresta;
— Os tratamentos : A = n.° de ospécies/parceia e B =
n.° de espécies/subparcela são, estatisticamente, iguais; e
— Para um erro admissível de 10%, numa população finita, o
número de unidades amostrais (subparcelas) de 5x1 m seria de
30 a 95% de probabilidade.
ABSTRACT
A botanical survey was done in a Virgin forest located
in tho vicinity of the Serra Norte Airport at Carajás - Pará, in
order to collect and analyze data on the structure and floristic
composltion of that area. A total of 1700 plants was sampled; of
these 5/6 were trees, 98 were shrubs and 1086 were herbs; they
wero distributed among 55 families, 151 genera and 234 species.
Tho most diversified families were : Leguminosae “sensu
lato", Moraceae, Rubiaceae, Bignoniacoae, Sapindaceae, Laura-
ceao, Sapotaceae, Burseraceae, Menlspermaceae and Rutaceae.
The volume of wood with bark was 257.71 m 3 /ha and tho basal
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area was 27.72 m 2 /ha. The statistical analysis showed no
significant difference between the variances, with a probability
of 95%, in the various treatments applied.
• Treatment A: number of species/lot
• Treatment B: number of species/sub-lot.
The number of sub-lots measured was lower than the
ideal, with an error of 10% and a probability of 95%.
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SPIEGEL, M.R.
1978 — Estatística, São Paulo, Ed. McGraw-Hill do Brasil Ltda.
580 p.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao pessoal do Departamento de Meio Ambiente
da Companhia Vale do Rio Doce, na pessoa do Sr. Eduardo Porto, em
Serra Norte, e ao pessoal da DOCEGEO, em especial ao Sr. Carlos Ve-
nâncio, pelo apoio em campo. Aos Srs. Raimundo Procópio Bahia e José
Cosme dos Santos (Dept? de Botân!ca/MPEG), pela ajuda na tomada de
dados no campo; ao Dr. William Overal, pelo constante apoio e incentivo
durante a realização deste e de outros estudos dentro do Projeto Carajás.
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BOLETIM DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELD1
BOTÂNICA. Vol. 2(2): 189- 197, 12. VI. 1986
189
Estudos Botânicos na área do Projeto Carajás.
4. Análise da estrutura populacional de Hymenaea
COUrbaril L (Jatobá) em mata natural, Município
de Santa Luzia -MA*
Manoela F. F. da Silva**
Rafael de P. Salomão***
Nelson A. Rosa**
RESUMO — Para o estudo da estrutura populacional de
Hymenaea courbaril L. (Leguminosae — Caesalpinioideae),
realizaram-se 3 amostragens, em áraes de 20x500 m (1 hecta-
re) cada, subdivididas em 20 parcelas de 20x25 m (500 m 2 ),
totalizando 60 parcelas. As plantas amostradas foram distri-
buídas em classes de tamanho. Foram calculados abundância,
freqüência, grau de agregação e volume com casca — indiví-
duos com DAP igual ou superior a 25, C cm. A abundância
calculada foi de 21,0 indivíduos/ha; freqüência de 36,7% e
volume de 12,1 m 3 /ha. As plantas do estrato inferior apre-
sentaram tendência a se agrupar; as do estrato superior não.
INTRODUÇÃO
Hymenaea courbaril ("Jatobá”, "Jutaí”, “Jutaí-açu”, "Ju-
taí-roxo”, entre outros nomes), é espécie de grande expressão
econômica regional. Possui madeira de boa qualidade, com inú-
meras aplicações (Loureiro et ai, 1979 o Rizzmi, 1971), de ampla
aceitação nos mercados interno e externo.
Trabalho desenvolvido com recursos repassados pela Companhia Vaie
do Rio Doce — CVRD — através do Convênio n 1 ? 16/83-CVRD/MPEG.
Dcpt<? Botânica, Museu Paraense Emílio Goeldi, C.P. 399,
66.000 — Belém -PA, Brasil.
’ Bolsista especial do Convênio CVRD/MPEG
cm
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Ocorre desde o sul do México até o estado da Bahia. Na
Amazônia, onde é muito distribuída, encontra-se nas matas de
terra firme, cujo solo é argiloso, e nas várzeas altas (Rizzini,
1978j. Heinsdijk & Bastos (1963) citam uma freqüência de 0,1-02
árvores/ha na Hiléia.
Ordinariamente, na floresta amazônica, apresenta-se com
diâmetro de até 2 metros, caule reto, sem sapopemas e com fus-
te em torno de 25 m (Rizzini, 1971) •
É uma das espécies mais exploradas nas matas cortadas
pela ferrovia que liga São Luís (MA) a Carajás (PA), principal-
mente na região de Marabá (PA), Imperatriz (MA), Açailândia
(MA) e Buriticupu (MA) para utilização em dormentes, a que se
presta muito bem.
O extrativismo desta espécie, processado de modo acele-
rado e indiscriminado, não só para dormentes mas para comer-
cialização de um modo geral, pode acarretar seu extermínio.
Atentando para tal possibilidade, foi feito estudo para subsidiar,
com dados relativos, o conhecimento da distribuição da espécie
em seu “habitat" natural; isto não só das plantas adultas comer-
cializáveis, como também da estrutura da regeneração, utilizan-
do esses resultados para sua exploração racional, sem submeter
a espécie a risco de extinção.
O estudo foi realizado em mata de terra firme — área de
propriedade da Fundação Rubem Berta/Varig — na localidade de
Buriticupu, município de Santa Luzia, Maranhão. O solo é do tipo
latossolo vermelho-amarelo, de topografia acidentada; e o clima
é do tipo Ami, segundo a classificação ue Kcppen.
METODOLOGIA
Fizeram-se três amostragens em áreas de 20x500 m (1 ha)
cada, subdivididas em parcelas de 20x25 m (500 m 2 ), totalizando
60 parcelas.
Para plantas com limite mínimo de DAP igual a 5,0 cm fo-
ram registrados: presença, altura do fuste e da copa, e diâmetro
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a 1,30 m do solo (DAP). Para plantas com menos de 5,0 cm de
DAP foram registradas apenas a presença e altura total.
Foram calculados : abundância = número de indivíduos por
hectare (N/haJ; freqüência = razão entre o número de classes
em que ocorre a espécie pelo número total de classes — expres-
sa em %, e graus de agregação segundo MacGuinnes (1934),
Fracker & Brischle (1944), Payandeh (1970) e Kanzen (1976), des-
critos por Carvalho (1982, 1983). Para o cálculo do volume foi em-
pregado o fator de forma igual a 0,7.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As plantas medidas nos 3 hectares apresentaram uma ampli-
tude de variação, em altura, de 35,85 m. A menor altura foi 0,15
mea maior 36, 0m. O DAP máximo foi 94,0 cm. Houve ausência
de indivíduos em determinadas parcelas, plantas isoladas nou-
tras e número variado nas demais. A parcela de maior densidade
apresentou 20 indivíduos, todos com menos de 1,5 m de altura.
A distribuição das plantas nas classes de tamanho é apre-
sentada na Tabela 1, com o total por classe de tamanho, por par-
cela, e o sub-total por hectare amostrado.
As estimativas de abundância e freqüência por classes
de tamanho são apresentadas na Tabela 2. As classes B e A,
compreendendo plantas com menos de 1,5 m de altura, foram as
que apresentaram maior expressividade em freqüência, com
21,7% e 16,7% respectivamente, seguidas da classe mais alta L
(DAP > 65 cm) com 6,7%. As demais classes mostraram fre-
qüências muito baixas ou nulas. A média de 2 árvores/ha com
DAP igual ou superior a 25 cm observada neste levantamento é
idêntica à citada por Loureiro et al., (I.c.) para o Inventário Flo-
resta! do Distrito Agropecuário da SUFRAMA, nas florestas de
terra firme I.
Das 63 plantas amostradas na área, 37 pertencem à classe
B (0,30 m^H<1.50 m), num percentual de 58,7 do total de plan-
tas e com média de 12,3 indivíduos/ha. Sucessivamente, a clas-
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Tabela 1 — Distribuição dos indivíduos de Hymenaea courbaril L. por
classe de tamanho e com sub-totais por hectare. Município
de Santa Luzia, Maranhão.
CLASSES DE TAW <\NHO
A
B
C
D E F G H 1 J
K
L
Oi __________ 1 _ i
03 — _ — _ — — i i
06 _________1 — — 1
08 ______ 1 _ _ _ _ — !
Sub-tota| — — — — — — 1 — — 1 1 1 4
21 1 ___________ i
24 1 1 — — — — — — — — — — 2
25 — 2 — — — — — — — — — — 2
26 — 4 — — — — — — — — — — 4
27 ____ 1 _______ !
30 — 4 — — — — — — — — — — 4
31 1 4 — — — — — — — — — — 5
32 9 11 — — — — — — — — — — 20
33 1 1— _________ £
35 1 __________ i 2
36 1 — __________ !
Sub-total 15 27 — — 1 — — — — — — 1 44
41 1 3 — — — — — — — — — 1 5
43 — 1— _________ !
47 1 3 — — — — — — — — — 1 5
48 1_____ ______ !
53 _ 1 — — — — — — — — .!
55 — 1_ — _______ _ !
57 — 1 __________ !
Sub-total 3 10 — — — — — — — — — 2 15
TOTAL 18 37 — — 1 — 1 — — 1 1 4 63
Classe de tamanho: — A: H < 0,30m; B: 0,30m ^ H < 1,50m; C: 1,50m
< H < 3,0m; D: H > 3,00m e DAP < 5cm; E: 5cm < DAP < lOcm;
F: lOcm ^ DAP < 15cm; G: 15cm < DAP < 25 cm; H: 25cm ^ DAP
< 35cm; I: 35cm 5 DAP < 45cm; J: 45cm < DAP < 55cm; K: 55cm
51 DAP < 65cm; L: DAP > 65cm.
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi
Estudos Botânicos...
193
Tabela 2 : Abundância e frequência absolutas, por classes de tamanho de
Hymcnaea courbaril L. Município de Santa Luzia — MA.
PARÂMETRO
CLASSES DE TAMANHO
1
<
h-
o
1-
ABC
D E F G H
J
K
L
Abundância
28,6 58,7 —
- — 1,6 — 1,6 — -
- 1,6
1,6
6,3
21,0
(N/ha)
Frequência
16,7 21,7 -
— 1,7 — 1,7 — -
- 1,7
1,7
6,7
36,7
(%)
se A IH < 0,30 m) apresenta 18 plantas com 28,6% do total e
abundância de 6 indivíduos/ha. A maior classe de tamanho
(DAP ^ 65cm) apresenta 4 árvores — média de 1,3 árvores/ha
— correspondendo a 6,3% do total de plantas. As classes que
apresentam menor número de plantas são : E, G.JeK com um
indivíduo cada: 1,7% do total e média de 0,3 plantas/ha. As
classes C, D, F, H e I não apresentaram nenhum exemplar.
A alta concentração de plantas nas classes mais baixas
(plântulas) demonstra a capacidade da espécie de germinar a
pouca luz e a tolerância das plântulas à sombra. À medida que
as plantas vão crescendo, vai diminuindo sua concentração. Do
total de 63 plantas amostradas, 55 (correspondendo a 87,3%)
não se encontram ainda estabelecidas (assim consideradas,
normalmente, as plantas com mais de 3,0 m de altura e DAP
inferior a 5,0 cm).
Foi estimado também um volume com casca médio (para
árvores com DAP maior ou igual a 25, 9 cm) de 12,1 m 3 /ha —
Tabela 3 — bem superior ao citado por Loureiro et ai, (l.c ):
0,18 m 3 /ha para a região de Manaus.
~ Convencionando-se o DAP igual ou superior a 45,0 cm
para a exploração comercial, estima-se em 6 o númeio de árvo-
res aptas ao corte, média de 2 árvores/ha com 12,1 m 3 /ha.
A proporção de plantas não-estabelecidas e estabelecidas
é de 1:6,9, ou seja, para cada “arvoreta" necessitam-se aproxi-
madamente 7 “mudas”. Assumindo-se o DAP comercial anteri-
ormente citado, esta proporção é de 1:9,2.
VOL. 2(2) 1906
194
Silva, et al.
Tabela 3: Volume com casca das árvores de Hymenaea courbaril L.,
com DAP superior a 25,0cm. Município de Santa Luzia — MA.
PARCELA
— n? —
CLASSE DE
TAMANHO
DAP
— cm —
ALTURA DO
FUSTE
— m —
VOLUME
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L
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L
84,0
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L
67,0
20,0
4,9
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K
55,0
26,0
4,3
06
J
51,0
18,0
2,6
Na Tabela 4, ao se comparar os resultados obtidos nos ín-
dices de determinação do grau de agregação, calculados para
os estratos verticais, verifica-se que, no estrato inferior, as
plantas se agrupam de forma aleatória na área; no estrato supe-
rior, não se agrupam, apresentando tendência a uma distribui-
ção regular. Analisando-se os índices da forma geral (estrato
inferior + estrato superior), constata-se o agrupamento cios in-
divíduos, seguindo uma distribuição aleatória.
CONCLUSÕES
As plantas têm boa ocorrência na área, predominando nas
classes mais baixas. Apresentam abundância relativa de 21,0
plantas/ha e freqüência de 36,7%.
Há notável irregularidade na distribuição da espécie na
área.
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldi
TABELA 4 : Graus de agregação das plantas de Hymenaea courbaril L. no estrato inferior, superior e na forma
geral (sem estratificar). Município de Santa Luzia — MA.
Estudos Botânicos
195
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V0L. 2(2), 1986
MecGuinnes 60 63 36,67 1,05 0,46 — — 2,28
Fracker & Brischle 60 63 36,67 1,05 0,46 — — 2,79
Payandeh 60 63 — — — 1.05 7,95 7,57
Hazen 60 63 — — — 1.05 7,95 446,71
196
Silva, et al.
As plantas r!o estrato inferior — com menos de 3,0 m de
altura e DAP menor que 5,0 cm — se agrupam ao acaso na área;
as do estrato superior — plantas com mais de 3,0 m de altura e
DAP igual ou maior a 5,0 cm — não se agrupam, ocorrendo ca-
sualmente na área.
As árvores apresentam um volume comercial expressi-
vo : 12,1 m 3 /ha.
Verificou-se a proporção de aproximadamente 7 mudas
para cada "arvoreta” e de 10 mudas para cada árvore com DAP
igual ou superior a 45,0 cm.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem o apoio concedido pelo pessoal do Departa-
mento de Ecologia/Meio Ambiente, em especial pelo Sr. Miguel Assis, da
Companhia Vale do Rio Doce em São Luís (MA) e nos acampamentos de
Nova Vida e Piquiá; também ao pessoal da Fundação Ruben Berta (Fazenda
Varig) pela permissão de obter os dados de campo em área de propriedade
dessa Fundação; ao pesquisador Jacques I. Jangoux. do Departamento de
Botânica do MPEG/CNPq, pela tradução do resumo.
ABSTRACT
The sampling of all plants of Hymencxa courbaril L.
(Leguminosae — Caesalpinioideae) was done in 3 hcetares of
primary forest for the study of the population structure of
this species. Each hectare was divided in 20 (20x25 m —
500 m J ) plots, totalizing 60 plots. The distribution of the
sampled plants was established according to size classes.
The abundance, frequency and degree of aggregation of the
plants were 1 calculated, as well as the volume with bark for
Individuais with CBH (circunferenco at breast height) greater
than 25 cm. The abundance was 2'1.0 individuals/ha; the
frequency was 36.7% and the volume with bark was 12.1 m 3 /ha.
The plants of the lower stratum show a tendency to aggregate,
whereas those of the upper stratum do not.
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldl
Estudos Botânicos . . .
197
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VOL. 2(2), 1986
BOLETIM DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI
BOTANICA. Vol. 2(2): 199-211, 12. VI. 1986
199
Vegetais utilizados como alimento por Podo-
cnemis (Chelonia) na Região do Baixo
Rio Xingu (Brasil -Pará)*
Samuel S. de Almeida **
Paulo G. S. Sá
Álvaro Garcia***
RESUMO:. Podocnemis expansa Schw. (“tartaruga-da-Ama-
zônia"), P. unifilis Troshell (“tracajá”) e P. sextuberculata
Cornalfè (“pitiu”) empregam 32 espécies vegetais em sua ali-
mentação. A primeira espécie é a que possui hátpto alimentar
mais diversificado. Foram levantados os nomes populares,
parte utilizada, época de ocorrência e hábito vegetativo das
32 espécies vegetais, distribuídas por 20 famílias, sendo Le-
guminosae e Gramineae as mais representadas. São consumi-
dos na forma de planta inteira 53,1% das plantas; o restante,
como frutos e sementes. Dentre os vegetais analisados, 86,2%
oferecem alimento o ano todo, havendo assim boa disponibili-
dade de alimento para esses quelônios naquela área.
INTRODUÇÃO
A identificação de componentes vegetais utilizados como
alimento por quelônios assume grande importância para estu-
dos sobre conservação, manejo e zootecnia desses répteis. A
implantação de criadouros artificiais, em áreas de açudes, lagos
e represas de hidrelétricas, requer um conhecimento amplo e
sistemático da biologia e do comportamento desses animais,
destacando-se o aspecto alimentar de fundamental importância.
(*) Trabalho subvencionado pelo Conv. MPEG/FADESP/FINEP/
n<? 5.3.83.0858.00
(**) DeptP Botânica, Museu Paraense Emílio Goeldl, C.P. 399,
66.000 — Belém -PA, Brasil.
(***) Bolsista do Conv. MPEG/FADESP/FINEP
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
200
Almeida, et al.
Relatamos aqui alguns dados sobre hábito alimentar de jo-
vens e adultos de 3 espécies de Podocnemis da região do Baixo
Rio Xingu (PA). Ojasti (1967), em estudo realizado no Rio
Orinoco (Venezuela) sobre a ecologia e a conservação de “tar-
taruga-da-Amazônia” (Podocnemis expansa (Schw), citou-a ali-
mentando-se principalmente de frutos e sementes de plantas
silvestres de várzeas; o mesmo autor (1971) constatou que 86%
do conteúdo estomacal de 10 tartarugas era constituído de
fragmentos de frutos, realçando a importância deste animal na
conversão de nutrientes da cadeia alimentar.
Algumas tentativas para determinar a dieta alimentar de
quelônios amazônicos de hábito aquático já foram feitas; entre
elas, destaca-se o trabalho realizado por Alho et al. (1979), no
qual relacionaram algumas espécies silvestres comidas pela
tartaruga; no entanto, os autores citaram este animal como pra-
ticamente onívoro, pois, além dos vegetais, consumia também
carnes e seus próprios ovos, quando desovados nagua. Es-
tudando a criação de tartaruga, Alfinito (1980) elaborou uma
lista mais abrangente de plantas, assinalando também certos
moluscos (ostras) como alimento.
A importância dos quelônios no regime alimentar do ho-
mem amazônico e a possibilidade de sua criação em cativeiro,
para suprir a crescente demanda de carne, levaram-nos a buscar
um melhor conhecimento do seu hábito alimentar.
MATERIAL E MÉTODO
A área estudada localiza-se no município de Senador José
Porfírio (PA), abrangida pela região do Baixo Rio Xingu (PA)
(3°33’S — 3°55'S; 51°53’W — 52°07’W), caracterizada por relevo
plano nas matas de várzea e nas ilhas e ondulado nas matas de
terra firme (Fig. 01).
A coleta de dados e de amostras botânicas, realizada no
período de 01 a 30 de outubro de 1984, iniciou-se com a prospec-
Bol. Mus. Para. Emílio Goeldl
cm
SciELO
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202
Silva, et al.
ção da área, para localizar os sítios de permanência e alimen-
tação dos quelônios, destacando-se as ilhas do Piteruçu, Imbau-
bal, Juncai, Mucuripe, Cipó Pitanga e Juventa; a seguir, proce-
deu-se à coleta do material botânico consumido por esses
animais, levantando-se dados junto aos habitantes locais sobre
o nome popular, a parte vegetal utilizada e qual a espécie de
quelônio que a consome, pois, além da tartaruga, são freqüen-
tes na área o “tracajá” (Podocnemis unifilis Troschol) e o
“pitiú” (Podocnemis sextuberculata Cornalis).
Fez-se também análise do conteúdo estomacal de diversos
animais e observou-se “in loco", quando possível, a apreensão
do alimento pelo animal, para confirmação das informações pes-
soais obtidas na área.
O material botânico coletado, foi herborizado, identificado
por comparação com material de herbário e por dissecção floral,
utilizando-se chaves taxômicas contidas em Barroso (1978 e
1984), e incorporado ao Herbário MG.
Para a ordenação dos vegetais no quadro 01, obedeceu-se
à classificação filogenética de Cronquist (1978).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No quadro 01 estão listadas 32 espécies vegetais consumi-
das por quelônios na área estudada, constando os nomes cien-
tíficos e populares das espécies, a parte consumida e a espécie
de quelônio que delas se alimenta.
Das 32 espécies vegetais, 18 são Magnoliatae (Dicotyle-
doneae, sensu Engler), 13 Liliatae (Monocotyledoneae, sensu
Englcr) e 1 Algae (provavelmente Chlorophyta), distribuídas em
20 famílias : as mais representadas são as Leguminosae (7 es-
pécies), Gramineae (4 espécies) e Nymphaeaceae, Palmae e
Pontederiaceae (2 espécies cada).
As espécies levantadas são plantas de várzea ou aquáti-
cas, com hábitos arbóreos, arbustivos, herbáceos e sarmento-
Bol. Mus. Para. Emílio Goeldl
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Vegetais utilizados...
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203
VOL. 2(2), 1986
Macrolobium acaciaefolium Benth arapari fruto TAR (A), TRA (A)
Macrolobium pendidum Willd. ipé fruto TAR (A), TRA (A)
LEGUMINOSAE-MIMOSOIDEAE
Neptunia oleracea Lour. ... planta inteira TAR (J), TRA (J,A), PIT (J,A)
Pentaclethra macroloba (Willd.) pracaxi semente TAR (A)
206
Almeida, et a!.
sos. Geralmente, as árvores habitam áreas sazonalmente inun-
dáveis (± 6 meses), representadas pela “envira preta" (Guat-
teria poeppigiana Mart.), “uxirana” (Couepia paraensis (Mart.
ex Zucc.) Benth.) “Seringueira" (Hevea brasiliensis Muell. Arg.},
“acapurana” (Campsiandra laurifolia.), “arapari" ( Macrolobium
acaciaefolium Benth.), “ipé” (Macrolobium pendulum Willd.),
“pracaxi” (Pentacletbra macroloba (Wild.) Kuntze), “pitaíca"
(Swartzia polyphylla A.DC.) “genipaporana" (Genipa sprucea-
na Steyer.), “abiurana” (Pouteria sp.), "cajurana” (Simaba aff.
guianensis Aubl.) e as palmeiras “jauari” e "marajá" ( Astro -
caryum jauari Mart. e Pyrenoglyphis maraja Mart.) respecti-
vamente.
De forma arbustiva, encontramos a “aninga" (Montrichar-
dia linifera (Arruda) Schott), cujos frutos, juntamente com os
de jenipaporana, são muito apreciados pela tartaruga e utili-
zados como isca para sua captura.
As ervas são representadas por espécies perenes, anuaij
e aquáticas; estas últimas têm como representantes o “agua-
pé” ( Nymphaea rudgeana G.F.W.Mey.), a “cabomba” (Cabom-
ba pubescens Ule), os “mururês" (Eicbornia azurea Kunth. e
E. crassipes (Mart.) Solms.), a Neptunia oleracea Lour., as
“canaranas" (Echinochloa polystachya (HBK) Chase e Hyme-
nachna amplexicaule (Rudge) Nees.), “capim membeca" (Pas-
palum repens Berg) e Panicum laxum Swartz. As ervas pere-
nes, aqui consideradas, são aquelas que conseguem vegetar
mesmo sob inundação (anfibiófitas), destacando-se Ecbinodorus
tonellus Mart. et Buch., Eleocharis capitata R.Br., Eriocaulon
guyanense Koern. e Bacopa salzmanni (Benth.) Edwall. As
ervas anuais são aquelas que sobrevivem somente na época
menos chuvosa, em áreas não alagadas, representadas por
Ludwigia decurrens Walt. e Polygonum acuminatum HBK.
O “mucurnã” (Dioclea virgata (Rich.) Amshoff.), cipó helió-
f i lo muito freqüente nas margens do rio Xingu, cresce sobre as
espécies arbóreas de várzea.
Boi. Mus. Para. Emílio Gooldl
Vegetais utilizados...
207
A espécie de alga vegeta em colônias; seus filamentos
são consumidos por indivíduos jovens e adultos das 3 espécies
de quelônios mencionadas.
Cerca de 53,1% de toda a flora comida por quelônios le-
vantada no Baixo Xingu é consumida sob a forma de planta
inteira, incluindo, principalmente, as partes vegetativas aéreas.
Algumas vezes as plantas aquáticas são consumidas integral-
mente (parte aérea mais sistema radicular), como é o caso de
Eichornia azurea Kunth., de E. crassipes (Mart.) Solms. e de
Cabomba pubescens Ule.
Geralmente essas plantas são preferidas por animais jo-
vens, pois possuem tecidos tenros, o que deve facilitar a de-
glutição.
Quanto aos frutos e sementes, representam 46,9% do ma-
terial comido, existindo 34,4% na forma de frutos e 12,5% na
de sementes. Desses elementos, aqueles que apresentam
certa consistência são preferidos pelos animais adultos. De
alguns frutos drupáceos, cujo endocarpo é bastante endure-
cido, somente o pericarpo é consumido; por exemplo, o 11 jauari”
(Astrocaryum jauari Mart.) e a “uxirana" (Couepia paraensis
(Mart. ex Zucc.) Benth) .
Observou-se que a tartaruga, entre os quelônios que ocor-
rem na área pesquisada, é o que possui hábito alimentar mais
diversificado, pois utiliza como alimento 97% das plantas le
vantadas Logo a seguir vem o “tracajá”, consumindo 84,3%
dessas plantas, muitas das quais comuns à preferência da tar-
taruga jovem. Quanto ao pitiú, quelônio de menor porte em
relação ao tracajá e a tartaruga (esta, o maior quelônio de água
doce da Amazônia), se alimenta de 62,5% dos vegetais que
compõem a flora estudada, na maioria plantas com tecidos
moles, consumindo em geral folhas e ramos de ervas e, mais
raramente, frutos e sementes (fase adulta).
O quadro 02 apresenta a época de disponibilidade do ali-
mento ao animal e o hábito vegetativo da planta comestível.
A maioria das espécies oferece alimento o ano todo (86,2%),
VOL. 2(2), 1986
SciELO
12
Quadro 02 — Período de oferta de alimento e hábito vegetativo das espécies comestíveis
Almeida, et al.
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Swartzia polyphylla A. DC. (LEG. PAPILIONOIDEAE) Jan-Set. Arvore (8-30m)
Thalia geniculata L. (MARANTACEAE) Ano todo Erva (até 1,2m]
210
Almeida, et al.
o que é devido a dois fatos — ou é a parte vegetativa que é
consumida (brotos, folhas, ramos e raízes), ou a espécie fruti-
fica o ano inteiro, como é o caso do genipaporana e do arapari.
Quanto ao hábito vegetativo das espécies estudadas, pre-
dominam as ervas, com 17 espécies (53,1%), incluída a espécie
de alga. As árvores representam 40,7% (13 espécies), incluí-
das as espécies de palmeiras e uma com hábito arbustivo e
outra sarmentosa (3,1%).
As espécies arbóreas apresentam porte baixo e médio,
destacando-se alguns indivíduos de Hevea brasiliensis Muell.
Arg., Astrocaryum jauari Mart., Macrolobium acadaefolium
Benth. e Swartzia polyphylla A.DC.
AGRADECIMENTOS
Ao Dr. Pedro L..B. Lisboa, Chefe do DBO/MPEG, pelo apoio e incen-
tivo; ao Dr. Paulo B. Cavalcante e aos colegas João Ubiratan M. Santos,
Maria da Graça A. Lobo e Orlando Watrin, pelas sugestões ao texto; aos
Srs. Carlos da Silva Rosário e Nelson A. Rosa, pelo auxílio na identificação
do material botânico; ao Dr. Anthony B. Anderson, pela redação do Abstract
e ao Sr Antonio Carlos Martins, pela confecção do mapa.
ABSTRACT
Podocnemis expanso. Schw. (“tartaruga-da-Amazônia"),
P. unifilis Troschell (“tracajá”) and P. sextuberculata Cor-
nalis ("pitiú”) feed upon 32 different plant species. The first
chelonian species has the more diversified feeding habit.
The common names, part of the plant eaten, time of occurrence
and vegetative habit of the 32 plant species have beon in-
vestigated; these are distributed thiough 20 families, the
Leguminosae and Graminae with larger representation. 53,1%
of the plants are eaten entirely; the remaining as fruits and
secds. Among the plants examined, 86,2% provide fcod all
year round; there is consequently a good quantity of food
available for the chelonians, in the area studied.
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldl
Vegetais utilizados.
211
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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BOLETIM DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI
BOTANICA. Vol. 2(2): 213 - 218, 12. VI. 1986
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Ethnobotany of a traditional ablution in Pará, Brazil
Maria Elisabeth van den Berg*
Milton Hélio Lima da Silva*
RESUMO — O tradicional “banho de São João” de Belém, Pará
Brasil, é pouco conhecido e divulgado a nível etnobotânico.
São apresentados a identificação botânica e os nomes popula-
res das espécies vegetais que entram na sua composição, além
de informações adicionais.
The twenty-fourth of June is the festive commemoration
of St. John in Belém, Brazil. On the eve of this event, hommage
is paid to the saint by both rural and urban folks who light
bonfires and savor the taste of the typical dishes reserved for
this month of festivais.
There is also a tradition, well-entrenched among the de-
votees of St. John in Belém, of annoiting the body with a pre-
paration of aromatic herbs from the region. This is the famous
“Banho de São João” which is taken preferencially at midnight
on the 23rd or in the morning of the 24th of June. It is believed
by practicioners that this special bath serves to clean both the
body and the spirit of any malediction and to ward against the
evil-eye while also fostering happiness, prosperity, good busi-
ness, riches, and good luck of all sorts.
The bath is prepared on the previous day, made from a
large and variable quantity of herbs in a basin of water left in
the sunlight. Belief in the efíiclency of lhe ablution is such
that the devotee often insists that his whole family take pari in
* Dept? Botânica, Museu Paraense Emílio Goeldi, C.P. 399,
66.000 — Belém -PA, Brasil.
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Berg & Silva
the ritual, in order that the blessing be spread to these people.
Without doubt, in Bslém, this is a widespread and cherished
custom, in which all leveis cf society participate.
In order to prepare the infusion, bark and roots are pulver-
ized and herbs are grated before being adaed to the water which
is left to stand. The perfume which is released fills the sur-
roudings with a penetrating and strorig scent. After the bath is
taken, the perfume lingers for some hours, until it fades away,
signífying that the body and spirit have been cleansed by St.
John.
The literature on this subject is more related to an anthro-
pological point of view and directed towards Afro-Brazilian ritual
baths, as in Figueiredo (1983). Thus, it is difficult to find com-
mentaries and the botanical identity of the component species
of this traditional bath which is representative of the many
folkloric baths used in the Amazon. Below, we have listed virtu-
ally all of the species used in the bath. There have long been
variations in the number and quality of plants used in the bath,
according to the tradition of each family and the avaiiable
species, most ef which are transported from remote nreas of
Amazônia especially for this celebration. The herbs are sold in
the open markets, especially the famous Ver-o-Peso market
(Berg, 1984) and by travelling vendors in the streets. A high
percentage of species (ca. 95%) are very aromatlc, but some
species with unatractive odors are used because people att.ri-
bute to them beneficiai effects, such as enhanced wealth, love,
and health, for the rest of the year.
SPECIES EMPLOYED IN THE ST. JOHN'S BATH :
Alecrim — Rosmarinus officinalis L. (Labiatae) . The very
aromatic leaves are used.
Aiecrim-de-Angola — Vitex agnus-castus L. (Verbenaceae).
Aromatic leaves.
Arataciú — Sagotia racemosa (Baill.) M. Arg. (Euphorbiaceae)
The bark is used.
Boi. Mus. Para. Emílio Goeldl
Ethnobotany of. . .
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Arruda — Ruta graveolens L. (Rutaceae). The leaves have a
distinct smell, and are believed to protect people
from the evil-eye and unlucky astral influences.
Beliscão — Bacopa cf. axillaris (Benth.) Standl. (Scrophula-
riaceae) .
Breu — Protium heptaphyllum (Aubl.) March. (Burseraceae).
The bark has a very distinct sour-sweet smell.
Caá-xió — Criptocaria guianensis Meiss (Lauraceae). Pieces of
aromatic wood are used.
Canela-da-índia — Cinnamomum zeylanicum Breyn. (Lauraceae).
The sweet smelling leaves and bark are es-
sentia! components of the bath.
Capei inhade-São João — Licopodium cernuum L. (Licopodia-
ceae) .
Capim-de-cheiro — Cymbopogon nardus (L.) Rendle (Grami-
neae). This is the famous “nard grass”,
mostly known among older people. Current
use is much reduced.
Capim-de-cheiro — Kyllinga odorata Vahl (Cyperaceae). The
smell resembles a mixture of vetiver and
lemon. Current use is much reduced.
Capim-santo — Cymbopogon citratus (DC.) Stapf. (Grami-
neae). Also called “lemon grass”, this has a
delicious-smelling esseníial oil.
Capitiú — Siparuna guianensis Aubl. (Monimiaceae). A “ma-
gica!” plant supposed to protect against evil infiu-
ences.
Carrapatinho — Peperomia circinnata Link. (Piperaceae) . Not
odorous. It is used for its attractiveness.
Casca-preciosa — Aniba canelilla (H.B.K.) Mez (Lauraceae).
Scented bark resembles cinnamon.
Catinga-de-mulata — (Labiatae). Much usèd, but very difficult
to identify. (There are other species
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identified as Leucas and Tanacetum with
this Portuguese name. We are trying to
elucidate the question now.) .
Cedro — Cedrella odorata L. (Meliaceae) . Wood with a very
fine smell.
Chama — Mentha rotundifolia (L.) Huds. (Labiatae). Very
odorous and highly appreciated as an “attractant” .
Chama-cabeluda — Wedelia paludosa DC. (Compositae) .
Cipó-catinga — Mikania amara Willd- (Compositae).
Cipó-curimbó — Tanaedum nocturnum (B. Rodrig.) B. et K.
Schum. (Bignoniaceae). The strong smell of
this vine is like bitter almonds.
Cipó-pucá — Cissus sicyoides L. (Ampelidaceae). Not very
commonly used in the bath.
Cipó-uíra — Guatteria scandens Ducke (Annonaceae) .
Coré-mirá or Coré-mirim — Croton matourensis Aubl. (Euphor-
biaceae) .
Cumaru — Dipterix odorata (Aubl.) Willd. (Leguminosae-Papi-
lionoideae) . One to three seedc used in the bath.
Estoraque — Pluchea quitoc DC. (Compositae).
Japana-branca e Japana-roxa — Eupalorium triplinerve Vahl .
(Compositae). One of the
indispensable components of
the bath. (Obs.: the number
of species that compose the
bath is variable, according
the supply and prices, but
there are determinated
species which can not be
omitted) .
Laço-de-amor — Episcia cupreata (Hook.) Hanst. (Gesneria-
ceac). Only mentioned by cld people.
Macacaporanga — Aniba fragrans Ducke (Lauraceae). The
aromatic bark is used.
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Malvarosa — Pelargonium graveolens L'Herií (Geraniaceae) .
Manjericão — Ocimum minimum L. (Labiatae). Another es-
sential ingredient of the bath.
Manjerona-de-Angola — Majorana hortensis L. (Labiatae).
Small Ieaves with a fragance like that
of mint, rose and Iemon.
Mão-de-onça — Maranta noctiflora Reg. et Koern. (Maranta-
ceae). The roots are employed.
Pataqueira — Conobea scoparioides Benth. (Scrophulariaceae).
Essential .
Patichulim — Vetiveria zizanioidcs Nash. (Gramineae). In Pará,
this common name of Pogostemon applies also
to this species (see van den Berg, 1984).
Pau-de-Angola — Spirostachis africanus Sond. (Euphorbiaceae).
The powder of this fine smelling wood was
used in the past.
Pau-de-Angola — Pipper latifolium (C.DC.) Yuncker (Pipera-
ceae). The aerial parts of plant are used.
Pau-rosa — Aniba rosaeodora Ducke (Lauraceae). The wood
possesses a delicious odour of roses.
Pega-rapaz — Pilea nummularifolia Wedd. (Ulticaceae) . Only
women use this species.
Pluma — Tanacetum suaveolens H.B.K. (Compositae).
Priprioca — Cyperus odoratus Rott. (Cyperaceae). Root con-
taining an essential oil.
Trevo-cumari — Stethoma pectoralis (Jacq.) Raf. (Acanthaceae).
Trevo-de-S. João — Melampodium camphoratum L. (Compositae).
Umiribuiuçu — Humiria balsamifera Aubl. (Humiriaceae). From
the bark is distilled a balsamic liquor with the
smell of benzoin.
Uriza — Pogostemon heyneanus Benth. (Labiatae). The true
“patchouli".
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Vergamota or Bergamota — Mentha aquatica L. (Labiatae).
Vindicá — Alpinia nutans Rose. (Zingiberaceae) . One of the
essential species that make up the bath.
OBSERVATIONS AND CONCLUSIONS
From year to year, the number of plarit species included
in the folkloric baths has been decreasing. Presumably, the most
important reasons for this are: 1) the loss of purchasing power
of the populace due to inflationary inereases in the price ot
these herbs, 2) the loss of knowledge about these herbs, and 3)
the lack of the proper herbs in the market. A complete bath
used to contain from 25 to 30 species, but ir. the last two years
vendors offer baths with only ten to fifteen ingredients (plant
species). For a discussion of this problem, the reader is refer-
red to van den Berg (1985).
ACKNOWLEDGEMENTS
We are grateful to Drs. William Overal and Anthony Anderson, of tho
Goeldi Museum, for their assistance with the English translation.
ABSTRACT
The plant species are listed that are used in a perfumed
bath, a tradition in the State of Pará, Brazil, on the Eve of
St. John.
LITERATURE CITED
FIGUEIREDO, A.N.
1983 — Banhos de cheiro, ariachés e amacis. Rio de Janeiro. FU-
NARTE. (Cad. de Folclore, 33). 48 p.
VAN DEN BERG, M.E.
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1985 — A personal account of ethnobotanical research in Amazônia.
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Fone: 224-8166 . Belém-PA.