ISSN 0070-2216
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Yl^lf CONSELHO NACIONAL DE’ DESENVOLVIMENTO CIENTIFICO E TECNOLÓGICO
ImW INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS DA AMAZÔNIA
BOLETIM DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELD)
NOVA SÉRIE
BELÉM — PARA — BRASIL
BOTÂNICA N9 55 27, JULHO, 1982
NOVIDADES TAXONÔMICAS NO GÊNERO ASPILIA THOUARS
(COMPOSITAE — HELIANTHEAE) DE OCORRÊNCIA
BRASILEIRA (*)
João U. M. dos Santos
Museu Goeldi
RESUMO : Diagnose e ilustração de duas espécies
novas — Aspilia hermogcnesii e Aspilia vandenbergiana
— e transferência de Wedelia parcensis Huber para o
gênero Aspilia.
INTRODUÇÃO
Em estudo feito sobre o gênero Aspilia Th., entre o mate-
rial pertencente aos herbários do Museu Goeldi (MG),
CPATU — EMBRAPA (IAN) e Jardim Botânico do Rio de Ja-
neiro (RB), encontramos grupos de exemplares diferentes
das demais espécies conhecidas no Brasil. Após pesquisas
adicionais, chegamos à conclusão de que se trata de duas
espécies novas para a Ciência, sendo apresentada ainda, uma
nova combinação a partir de uma espécie descrita por Huber
(1814) como pertencente ao gênero Wedelia, mas, sem dú-
vida, com todas as características do gênero Aspilia-
DESCRIÇÃO DAS ESPÉCIES
Aspilia hermogenesii sp. nov.
(Fig. 1, est. I)
Herba prostrata, pilosa, pilis hispidis dotata. Foliis
cppositis, elipticis ca. 40 — 97 mm longis et 15 — 26 mm
( *
) — Trabalho apresentado no XXXIII Congresso Nacional de
Botânica, Maceió (AL), 1982.
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SANTOS, J.U.M. DOS — NOVIDADES TAXONOMICAS. . .
latis, apice acuto vel obtuso, basi acuta, coriacea, pilis
strigosis ambabus paginis. Capitulis radialibus, corymbosis;
involucro campanulato ca. 10 mm diâmetro et 9 mm alto;
bracteis involucralibus duobus seriebus; externis ovali —
lanceolatis, ca. 9 mm longis et 3 mm latis, pilis strigosis
praeditis; apice acuto, foliaceo, basique scariosa, margine
ciliato; internis tamen oblongis ca. 8 mm longis et 3 mm latis,
scariosis, pilis strigosis, apice attenuato; pedunculo ca. 40 —
110 mm longo; recptaculo plano, paleaceo; paleis navi-
cularibus, oblongo-lanceolatis, ca. 7 mm longis et 1,5 mm iatis,
scariosis, carenatis, apice attenuato, leviter piloso; floribus
numerosis, neutris in radio, ligulatis; ligulis obovalibus ca.
11 mm longis et 7 mm latis, flavis, trilobatis; in disco
androginis, corola tubulosa ca. 6 mm longa et 1 mm diâmetro,
pentalobata, lobis lanceolatis, ca. 1,2 mm longis; stilo cylin-
drico, ca. 5 mm longo, bifido, ramis pilosis; antheris sagitta-
tis, ca. 2,5 mm longis; achenio oblanceolato ca. 7 mm longo
et 2,5 mm diâmetro, crasso angulatoque superne; pappo
coroniformi ca. 1 mm longo, biaristato-
Typus : Brasil, Paraíba, Município de Areias; 25.05.1959;
Jaime Coelho de Moraes s/n; (RB 105182, Holotypus, ex
Herb. Esc. Agr. de Areias).
Erva prostrada, pilosa, pelos híspidos; folhas opostas,
elípticas, ca. 40 — 97 mm de comp. e 15 — 26 mm de larg.,
ápice de agudo a obtuso, base aguda, coriácea, com pêlos
estrigosos em ambas as faces; inflorescências em capítulos
radiais, corimbosos; invólucro campanulado com ca. 10 mm
de diâm. e 9 mm de alt.: brácteas involucrais em duas sé-
ries, as externas oval — lanceoladas, ca. de 9 mm de comp.
e 3 mm de larg., com pêlos estrigosos, ápice agudo, foliáceo
e base escariosa, margem ciliada; as internas oblongas, ca.
de 8 mm de comp. e 3 mm de larg., escariosa, com pêlos
estrigosos, ápice atenuado; pedúnculo de 40 — 110 mm de
comp.; receptáculo plano, paleáceo; páleas naviculares, oblon-
go-lanceoladas com ca. de 7 mm de comp. e 1,5 mm de larg.,
escariosas, careadas, ápice atenuado, levemente piloso; f lo-
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res numerosas, as do raio neutras, liguladas; lígulas obovais
com ca. de 11 mm de comp. e 7 mm de larg., amarelas, tri-
lobadas; as do disco andróginas, com corola tubulosa ca-
Y
Fig. 1 — Aspilia hermogcnesii sp. nov. A — Capítulos mostrando
o invólucro e as lígulas; B — Flor do raio; C — Aquênio; D e
E — Brácteas involucrais externa e interna, respectivamente; F —
Pálea do receptáculo; G — Flor do disco-.
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de 6 mm de comp. e 1 mm de diâm., pentalobada lobos lan-
ceolados com ca. de 1,2 mm de comp.; estilete cilíndrico com
ca. de 5 mm de comp., bífido, ramos pilosos; anteras sagi-
tadas com ca. de 2,5 mm de comp.; aquênio oblanceolado,
ca. de 7 mm de comp. e 2,5 mm de diam,, com espessamen-
tos na parte superior formando ângulos; papus coroniforme
com ca. c!e 1 mm comp., biaristado.
O epíteto específico homenageia o Dr. Hermógenes
Leitão Filho, da Universidade Est. de Campinas (UN1CAMP)
— SP.
Aspilia vandenbergiana sp. nov.
(Fig. 2, est, II)
Frutex subscandens ca. 1 m altus, pilosus, pilis sparsis
hispidisque. Foliis oppositis, linearibus usque ad linear-
lanceolatis ca. 45 — 140 mm longis et 5 — 8 mm latis,
discoloribus; pagina ventrali nigella, pilis strigosis albican-
tibus sparsis toto limbo; pagina dorsali clariori, pilis vixdum
in nervis, breviter petiolatis; petiolo ca. 2 mm longo. Ca-
pitulis radialibus corymbosis; invólucro campanulato ca.
17 mm diâmetro et 11 mm alto; bracteis involucralibus tribus
seriebus; externis vel prima serie ovali-lanceolatis ca. 9 mm
longis et 3 mm latis, foliaceis, pilis strigosis et apice at-
tenuato dotatis; secunda serie ovalibus ca. 12 mm longis et
4 mm latis, pilis strigosis sparsis, apice foliaceo, attenuato,
basi scariosa; tertia serie vel interna oblongis ca. 11 mm
longis et 4 mm latis, scariosis, ciiiatis, apice attenuato;
pedunculo ca. 15 — 85 mm longo; receptáculo plano, pa-
leaceo; paleis oblongis, ca. 7 mm longis et 2 mm latis,
navicularibus, scariosis, apice attenuato; floribus numerosis,
in radio neutris, ligulatisque; ligulis flavis, elipticis ca. 23
mm longis et 9 mm latis, bidentatis, tubo cylindrico ca. 2 mm
longo; floribus in disco numerosis, androgynis; corola tubu-
Icsa ca. 6,5 mm longa et 2 mm diam., pentalobata, lobis
lanceoiatis ca. 1 mm longis; stilo ca. 7 mm longo, bifido,
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respectivamente .
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ramis densi pilosis; antheris sagittatis ca. 3,5 mm longis;
achenio oblanceolato ca. 5 mm longo et 2 mm diam., dense
piloso, apice leviter alato basique cicatrice praedito; pappo
coroniformi, biaristato.
Typus : Brasil, Pará, Município de Marabá, serra dos Ca-
rajás; 09.04.1970; P. Cavalcante et M- G. Silva 2659 (MG,
Holotypus), ibidem; 23.05.1969; P. Cavalcante 2138 (MG;
BB) — ibidem; 25.03.1977; M. G. Silva et R. Bahia 2914
(MG; RB).
Arbusto subscandente com ca. de 1 m de alt., piloso,
pêlos esparsos, híspidos; folhas opostas, lineares a linear-
lanceoladas, ca. de 45 — 140 mm de comp. e 5 — 8 mm de
larg., ápice atenuado, base aguda, subcoriácea, discolor, face
ventral mais escura, com pêlos estrigosos, esbranquiçados,
distribuídos por todo o limbo, face dorsal mais clara, com
pêlos apenas nas nervuras, curtamente pecioladas; pecíolo
com cerca de 2 mm de comp., capítulos radiais, corimbosos,
invólucro campanulado, com ca. de 17 mm de diâm. e 11 mm
de alt., brácteas involucrais em 3 séries; as externas oval-
lanceoladas, ca. de 9 mm de comp. e 3 mm de larg.. foliáceas,
com pêlos estrigosos, ápice atenuado, as da 2a. série, ovais,
ca. de 12 mm de comp. e 4 mm de larg., com pêlos estrigo-
sos esparsos, ápice foliáceo, atenuado e base escariosa, as
internas oblongas, ca. de 11 mm de comp. e 4 mm de larg.,
escariosas, ápice atenuado; pedúnculo ca. de 15 — 85 mm
de comp.; receptáculo plano, paleáceo; páleas oblongas, ca.
de 7 mm de comp. e 2 mm de larg., naviculares, escariosas,
com ápice atenuado; flores numerosas, as do raio neutras,
liguladas; lígulas amarelas, elípticas, ca. de 23 mm de comp.
e 9 mm de larg., bidenteadas, com tubo cilíndrico, ca. de
2 mm de comp., flores do disco numerosas, andróginas, co-
rola tubulosa, com ca. de 6,5 mm de comp. e 2 mm de diâm.,
pentalobada, lobos lanceolados, ca. de 1 mm de comp.; esti-
lete ca. de 7 mm de comp., bífido, ramos densamente pilosos;
anteras sagitadas, ca. de 3,5 mm de comp., aquênio oblan-
ceolado ca. de 5 mm de comp. e 2 mm de diâmetro, densa-
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mente piloso, ápice levemente alado e base com cicatriz;
papus coroniforme, biaristado-
Aspilia vandenbergiana inclui-se nas Fruticosae (Baker,
1882/4) e assemelha-se a A. aspérrima (Gard.) Baker (Ibid.),
separando-se dessa principalmente pelo hábito, tamanho e
indumento das folhas e pilosidade da corola da flor andrógina.
A espécie parece ser endêmica da serra dos Carajás.
O epíteto específico homenageia a Dra. Maria Elisabeth
van den Berg do CNPq. — Museu Paraense Emílio Goeldi,
pelo constante incentivo.
Aspilia paraensis (Huber) nov. comb.
(Fig. 3, est. III)
Basiônimo : Wedelia paraensis Huber, B . Société Bot . Genè.
ve 6(2) : 215-216, 1914. Typus : Brasil, Pará, Alto Ari-
ramba, margem do Jaramacuru; A. Ducke (MG 8052!).
Subarbusto escandente com ramificações dicotômicas;
folhas opostas, elípticas, lanceoladas, oblongo-lanceoladas ou
ovais, de 67 — 115 mm de comp. e 18 — 40 mm de larg.,
ápice atenuado, base de aguda a obtusa, cartácea, escabra.
margem levemente denteada, face ventra! verde-escura e
dcrsalmente verde-clara, peciolada; pecíolo de 6 — 8 mm de
comp.; capítulos radiais, dicotômicos; invólucro campanulado
ca. de 10 mm de diâm. e 10 mm de ait.; brácteas involucrais
em 2 séries, a externa oval, lanceolada ou oblongo - lanceola-
da de 10 — 30 mm de comp. e 4 — 5,5 mm de larg., foliácea,
com pêlos estrigosos e ápice agudo, a interna de oblongo a
oboval, ca. de 8 mm de comp. e 3 mm de larg., escariosa,
com ápice obtuso; pedúnculo de 15 — 70 mm de comp.; re-
ceptáculo plano, paleáceo; páleas oblongas, ca. de 9 mm de
comp. e 1,5 mm de larg., naviculares, carenadas, escariosas,
ápice atenuado; flores numerosas, as do raio neutras, ligu-
ladas; lígulas elípticas com ca. de 10 mm de comp. e 5 mm
de larg., alaranjadas, bídenteadas, com tubo cilíndrico de ca.
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de 2 mm de comp., flores do disco andróginas, numerosas,
corola tubulosa, com ca. de 7 mm de comp. e 1,5 mm de
diâm., pentalobada; lobos lanceolados, com ca. de 1,1 mm
i 4 m m i
1 3 m m |
Fig. 3 — Aspilia paracnsis (Huber) nov. comb. A — Capítulo
mostrando o invólucro; B — Flor do raio; C, D e E — Brácteas
involucrais externa, mediana e interna, respectivamente; F —
Aquênio; G — Flor do disco; H — Pálea do receptáculo.
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de comp ; estilete cilíndrico, ca. de 8 mm de comp., ramos
pilosos; anteras sagitadas, ca. de 3 mm de comp.; aquênio
oblongo, ca. de 7,5 mm de comp. e 1,5 mm de diâm., piloso,
ccm uma cicatriz na base; papus coroniforme, sem arista.
Material examinado : Brasil, Pará, região do alto Ariram-
ba, rio Trombetas; 07.10.1913; A. Ducke (MG 14920; RB)
— ibidem; 17.12.1910; A. Ducke (RB 2384) — ibidem;
28.05.1957; W.A. Egler 369 (MG) — ibidem; 27 05. 1957;
W.A. Egler 259 (MG) — ibidem; 02-06.1957; G.A. Black
et al. 57-19851 (IAN) — ibidem; 08.06.1980; G. Martinelli
et al. 6932 (RB) .
Esta espécie é endêmica da região do alto Ariramba,
Pará.
AGRADECIMENTO
Ao Pe. José Maria Albuquerque, Professor da Faculdade
de Ciências Agrárias do Pará (FCAP), pela versão das diag-
noses para o latim.
SUMMARY
The author publishes descriptions and illustrations of two
new species of tribus Heliantheae, genus Aspilia Thouars —
A. hermogenesii and A. vandenhergiana and subordinates
Wedelia paraensis Huber to genus Aspilia as a new combi-
nation.
V
REFERÊNCIAS bibliográficas
BAKER, J. G.
1882/4 — Heliantheae, In: MARTIUS, C. F. P. Flora Brasilicn.
sis. Monachii. v. 6, part. 3, p. 138-268.
HUBER, J.
1814 — Compositae. B. Société Bot. Gcnève, 6(2) : 215.216,
(Aceito para publicação em 27/04/82)
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Est. I — Hábito de Aspilia hermogenesii sp. nov.
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Est. III — Hábito de Aspilia paraensis (Huber) nov. comb
SciELO
SANTOS. João U. M. dos. Novidades taxonômicas no gênero
Aspilia Thouars (Compositae - Helianthaceae) de ocorrên.
cia brasileira. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi,
Nova Série, Botânica. Belém (55) : 1-9. jul., 1982. il.
RESUMO : Diagnose c ilustração de duas espécies novas — Aspilia
hcrmogcnesii o A. vandenbergiana — e transferência de Wcdelia poracn-
sis Huber para o gênero Aspilia.
CDU 582.998
CDD 583.55
MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI
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