MEMÓRIAS
DO
INSTITUTO BUTANTAN
1940
TOMO XIV
Ht
t
São Paulo, Brasil
Caixa Postal 65
MEMÓRIAS
DO
INSTITUTO BUTANTAN
1940
TOMO XIV
São Paulo, Brasil
Caixa Poital 65
índice
NoticSario VII
VITAL BRAZIL — Recordando IX
ALCIDES PRADO — Notas Ofiologicas.
5. Obscrs'açôes sobre serpentes da Colombia 1
6. Uma nova especie de Colnbrideo aglifo da Colombia 13
7. Sobre a determinação de Elapomorphns trilineatni BOULENGER e afins 19
8. Dois novos Atractos da Colombia 95
ALCIDES PRADO i FERNANDO PAES de BARROS — Notas Ofiologicas.
9. Dtus cascareis albinas do Brasil - 31
AI.CIDES PR.-tDO — Notas Ofiologicas.
10. Outras serpentes da Colombia, com a descrição de uma nova especie
do Boideo
FL.W10 da FONSEC.V — Protozoários parasitas.
I\’. Protozoários novos de tapirideos
FLAVIO da FONSECA — Notas de Acareologia.
XXX. Familias, genero e especie novos de acarianos parasitas do pulmão de
serpentes (Aeari. Pneuraophionf ssidae, n. fam. c Entonysaldae, n. fam.) 53
XXXI. Bolirilaelaps tricholabiatua. gen. n.. sp. n. (Aeari. Laelaptidae) 59
WOLFGANG BÜCHERL — Sobre a musculatura da Seolopendra vlridlcornlo NE\\T.
Uma contribuição para o estudo comparativo da musculatura dos Qui-
lopodos e Insetos 65
THALES MARTINS * JOSfl R. VALLE — Excitação do hipogastrico c ação da adre-
nalina e da pitocina sobre a musculatura lisa genital masculina de gatos
e cobaios cm diversas condições hormonais 109
THALES MARTINS; JOSÉ R. VALLE i ANANIAS PORTO — Estudo in ritro da mus-
cnlatura lisa genital masculina de ratos em diversas condições hormonais 119
THALES MARTINS; JOSÉ R. VALLE & ANANIAS PORTO — Sobre a duração do tra-
tamento necessário para que os hormonios sexuais influam sobre a
contratilidade In vitro, dos canais deferentes e vesiculas seminais dc
ratos castrados 129
THALES MARTINS; JOSÉ R. VALLE & ANANIAS PORTO — Estudo morfologico e
funcional de enxertos dc orgãos genitais acessorios de ratos e cobaios
cm diversas condições hormonais 139
THALES MARTINS; ANANIAS PORTO & JOSÉ R. VALLE — Contratilidodc In vitro
dc canais deferentes, vesículas seminais e próstatas de ratos castrados
e injetados simultaneamente com propionato dc testosterona e benzoato
de estradiol 151
FAVORINO PR.\DO JUNIOR & J. B. AR.■^NTES — Poder anagotoxico das aguas dc
São Pedro sobre alguns venenos ofidicos 159
LAUR.\ C. TABORDA — .\ influencia da temperatura sobre os princípios toxicos,
coagnlante e proteolitico do veneno da Bothrops Jararaca 169
ARMANDO TABORDA i L.AURA C. TABORDA — Protease do veneno da Bothrops
jararaca 183
ARMANDO TABORDA & JOSÉ SALCEDO NAVARRO — Nova eamara para dialisc. ... 199
SciELO,
14
NOTICIÁRIO
Ao scr impresso o presente numero das “Memórias”, ê a seguinte a relação
do pessoal técnico superior das varias secções do Instituto Butantan:
Diretor:
Jayme Cvvalcaxti, Dipl. Med., Proí. Quim. Biol. Fac. Med. S. Paulo.
Assistentes-chefes :
.Alcides Prado, B. Cienc. & L., Dipl. Med.
Cícero de Molr.\ Neiva, B. Cienc. & L., Dipl. Med. Veter., cx-Prof. Esc.
Med. Veter. S. Paulo.
Fuwio Oliveir.4 Bibeiro da F'onseca, Dipl. Med. (D. M.), Prof. Parasit.
Elsc. Paul. Med.
Joaquim Travassos da Rosa, B. Cienc, & L., Dipl. Med.
José Bernardino .Arantes, Dipl. F'arm., Dipl. Med. (D. M.)
Moacyr de Freitas .Amorim, Dipl. Med., Prof. F^ac. Med. Veter. S. Paulo.
Paulo Monteiro de Barros ^URREY, Dipl. .Med.
Skbasti.so de Csmargo Calazans, Dipl. Med.
Assistentes:
Aristides Vallejo F'reire, Dipl. Med.
Armando Taborda, B. Cienc. JL L., Dipl. Quim.
Fernando Paes de Barros, Dipl. F'arm., Dipl. Med. (D.M.)
Jandyra Pl^net do .Am.vral, Dipl. Med. (D. M.)
José Ribeiro do Valle, B. Cienc. Jt L., Dipl. Med. (D. M.), Prof. I'amiacol.
Esc. Paul. Med.
Leonidas de Toledo Piz.\, Dipl. Quim.
Paulo Ratii de Souza, Dipl. Med.
Assistente-quimico :
.Antonio de Salles Teixeira, Dipl. F'arm.
Assistentes-auxiliares :
.Ananias Porto, Dipl. Med.
Domingos ATjuo), Dipl. Med.
F'avorino I*rado Junior, Dipl. Med.
G. Karmann, Dipl. Quim. Ind.
Laura Comette Taborda, B. Cienc. & L., Dipl. Quim.
WoLFGANG Büchebl, Dipl. Fil. Biol. (D. F'il. Biol.). *
Toda a correspondência cientifica, relativa às “Memórias”, deve .ser diri-
gida ao
Editor, .ME.MORI.AS DO INSTITUTO BUT.ANT.AN
Caixa Postal 6õ
S.AO PAULO, BRASIL
RECORDANDO...
Recordar è viver. Viver no presen~
te, o passado, é preparar o futuro.
(pelo dr. Vital Brazil)
Quando passo, pela mente, o passado, procurando a razão de ter sido con-
duzido ao estudo do ofidismo, sou levado a crer que o assunto perseguiu-me,
ou por outra, que o destino teve uma influencia decisiva sobre este fato.
Cursando o segundo ano de medicina no Rio, fiz-me amigo de um fotografo
estabelecido à rua da Carioca, a cujos filhos menores lecionava. Homem inte-
ligente e instruido, esse amigo, por varias vezes, instou para que eu estudasse
um vegetal, cujos efeitos miraculosos sobre os acidentes ofidicos ele garantia,
fazendo-me ver a conveniência de tomar esse tema para escrever a tese inaugural.
Depois de alguma hesitação resolvi aceitar os conselhos do amigo. Fui,
como medida inicial, procurar o professor Domingos Freire, na epoca catedrá-
tico de quimica organica, o qual adquirira grande renome pelos seus trabalhos
experimentais sobre a febre amarela. Foi pouco amavel o eminente professor.
Recebeu-me de senho carregado e disse-me que não poderia prestar-mc o auxilio
que ambicionava: conselhos de mestre, um canto cm seu laboratorio e animais
para experiencia. Ficou, porisso, adiada essa primeira oportunidade.
Mais tarde, ainda durante o curso medico, foi-me dado presenciar, na F'a-
culdade, uma experiencia que exerceu no meu espirito grande influencia, des-
pertando-me Interesse pelo assunto. Um farmacêutico, cujo nome silenciarei,
descobriu um remedio de base vegetal, para cura infalivel das mordeduras de
cobra. Requereu aprovação do preparado, que foi submetido ã consideração
da .\cademia Nacional dc Medicina para dar parecer. Esta nomeou uma co-
missão da qual fazia parte o professor Souza Lima, que exigiu as experiencins
realizadas no pavilhão central da Faculdade de Medicina. Essa experiencia,
assistida por grande numero de estudantes, dc médicos c dc professores, na
presença da comissão, teve efeito impressionante e inesperado. Uma grande
caixa de madeira, tendo uma das frentes teiada, permitindo ver-sc o que se
passava no seu interior e uma divisão movei no meio, possibilitando estabele-
cer ou interromper a comunicação entre as duas partes da mesma, .serviu de
cenário ã experiencia que ia ser levada a efeito. Uma grande Cascavel estava
em um dos compartimentos da referida caixa, irritada pelo ruído c a presença
de tanta gente, pronta para lançar o bote na primeira oportunidade. Dois
cães, inconcientes do perigo, tranquilamente esperas-am o momento do contato
fatídico. Um deles, forte, de cerca de 10 quilos, escolhido para ser tratado,
fôra, de acordo com o plano traçado pela comissão, o primeiro a ser introdu-
*ido no 2.® compartimento da caixa. Levantada a comunicação que o separava
da Cascavel, esta, enfurecida, lançou-lhe terrível hote sobre o focinho, presen-
— X —
ciado por toda a assistência. Imediatamente, separado da serpente, foi levado
para um aparelho contensor para receber o remedio introduzido por meio de
uma sonda ao estomago do animal. Essa operação correu com alguma dificul-
dade, durando cerca de 15 minutos. Instantes depois de terminada a adminis-
tração do remedio, o animal sucumbia, na mesa de contensão. Outro animal,
de pequeno talhe, tomado para testemunha, foi como o primeiro, introduzido
na caixa. Mordido varias vezes pela Cascavel, foi retirado e conservado por
vários dias no bioterio da Faculdade sem que apresentasse o minimo sintoma
de envenenamento.
O resultado desconcertante desta experiencia, deixou-me duvidas, aguçan-
do-me a curiosidade cientifica. Teria o cão tratado sucumbido à ação do re-
medio ou à ação da peçonha?. Qual o motivo da confiança do experimentador,
que se expusera a tão grande vexame publico? Porque razão teria resistido o
pequeno animal testemunha a tantas mordeduras do ofidio, sem ao menos apre-
sentar sintomas de envenenamento? Estas e outras interrogações que se le-
vantaram em meu espirito firmaram-me na intenção de examinar um dia a in-
teressante questão, que no momento fugia ãs possibilidades do curioso estudante.
Uma vez diplomado fui para São Paulo, onde iniciei a vida clinica em
companhia dos saudosos colegas -\rthur Mendonça e Diogo de Faria, ingressando
mais tarde com eles no Serviço Sanitario. Tocou-me o posto de Inspetor Sa-
nitário, no desempenho de cujas funções tive oportunidade de percorrer quasi
todas as cidades do interior, no combate a varias epidemias. Ehi 1895 resolvi
tentar a clinica em Botucatú, onde encontrei meu velho mestre, o Rev. J. de
Carvalho Braga, que falou-me nas virtudes curativas da Pulmeria, empregada
com resultados positivos no tratamento das mordeduras de cobras. Pediu-me,
mesmo, que examinasse a questão, pois, era de opinião que eu prestaria grande
serviço ã humanidade si, com o prestigio de medico, tornasse conhecido esse
grande remedio.
Em contacto constante com a gente do povo, procurando tomar conheci-
mento do seu modo simples de viver, de suas idéias, de suas crendices, tive
oportunidade de verificar a confiança que depositavam nos curadores de cobra,
como chamavam os caboclos que tratavam, por meio de raizes, os acidentados
por serpentes. Os vegetais preconizados eram numerosos, quasi tantos quanto
os curadores. Isto Icvou-mc a pensar que talvez houvesse uma substancia comum
nos vegetais que explicasse a proclamada ação curativa. Resolvi a examinar a
questão. Montei pequeno laboratorio, acumulando raizes, caules e frutos para o
preparo de extratos e tinturas, que me serviriam nas projetadas experiencias.
Tratei de adquirir uma serpente venenosa, nma Cascavel, que me foi fornecida
por um dos caboclos curadores. .\s primeiras Cascavéis sucumbiram porque
eram traumatizadas no momento da captura, .\final consegui uma em boas con-
dições, (jue foi colocada em caixa reforçada de madeira no meu improvisado
laboratorio. Era um belo especime de Cascavel (Crolalus lerrificus Lacr.).
Começou minha aprendizagem. Tive de vencer a mim mesmo, ao medo inato
das serpentes. Era preciso colher o veneno em estado de pureza, cm ordem a
poder avaliar-lhe a quantidade. Não dispunha de aparelho de contensão. Come-
cei, porisso, provocando a mordedura em algodão hidrofilo, tarado; pela dife-
rença de peso avaliava a quantidade de veneno, empregado em solução titulada.
Os resultados das primeiras experiencias foram negativos para diversos vege-
tais examinados.
Por esse tempo, Calmctte publicava os primeiros resultados alcançados pela
soroterapia antlofidica na Indo-China, com imunização do cavalo contra o ve-
neno de .Nojo. .\ leitura de um pequeno resumo desses trabalhos foi a luz, que
i SciELO
— XI —
lançou>me sobre o verdadeiro caminho que me conduziria à verdade. Com ver-
dadeiro entusiasmo e sem perda de tempo tratei de imunizar animais contra o
veneno da Cascavel e de adquirir o material indispensável para obtenção do
soro. .\o fim de algum tempo convenci-me de que precisava de recursos técni-
cos, que só em meio maior poderia encontrar. Resolvi, porisso, transferir-me
de novo para São Paulo, candidatando-me ao cargo de ajudante do Instituto
Bacteriológico, onde teria, certamente, os elementos para enfrentar o problema
que me empolgava. Em junho de 1897 consegui a almejada nomeação, tendo
encontrado no Instituto, como diretor o dr. .\dolfo Lutz c como ajudante o dr.
Artbur Mendonça e o dr. Boniiba de Toledo. Deste ultimo recebi as primeiras
lições de técnica bacteriológica. Embora a questão do ofidismo fosse extranha
aos objetivos do Instituto, o dr. .\doIfo Lutz bondosamente, não só permitiu
ocupar-mc do assunto, como prontificou-se auxiliar-me, dando-rae sábios conse-
lhos para resolução de questões de ordem prática que se apresentavam. Entre
estas a que mais me preocupava era a extração do veneno, de modo a obtê-lo
separado de corpos estranhos, em condições de ser medido ou pesado. Para
isto, seria preciso um bom aparelho de contensão, em ordem a garantir o ope-
rador contra possivel acidente durante a extração. Foi o dr. Adolfo Lutz
quem imaginou e mandou executar o laço que tão bons serviços prestou e ainda
presta na captura e contensão das serpentes. Com esse aparelho começamos a
fazer colheita regular e periódica da peçonha da Cascavel, que haviamos tra-
zido de Botucatú e de outras especies venenosas que conseguimos cm São
Paulo. Pouco a pouco fui-me familiarizando com o manejo das serpentes, pro-
curando ensinar auxiliares indispensáveis à execução da arriscada operação.
Não dispondo o Instituto de verba para aquisição de serpentes, tive eu mesmo
de assumir este encargo. Em pequeno terreno adquirido proximo ã rainha re-
sidência, mandei construir meu primeiro serpentário, bastante imperfeito, o qual
serviu-me de orientação quando mais tarde tive de construir outros cm Butantan.
Nesse periodo trabalhei intensameste na aquisição de serpentes e na pro-
paganda entre agricultores amigos, dos meios de captura c transporte de ofidios,
distribuindo-lhes laços e caixas. Visitei algumas fazendas nas proximidades da
Vila de Cotia, para caçar serpentes c ensinar aos trabalhadores agricolas o uso
do laço. Tomei conhecimento das lendas vulgarizadas sobre os ofidios, pro-
curando intcrpretar-lhcs o verdadeiro sentido.
Quando já dispunha de pequena quantidade de peçonha continuei os estu-
dos desta sobre pequenos animais de laboratorio, coelhos, cobaios e pombos.
Distingui logo a nitida separação do efeito do veneno da Cascavel do das outra»
especies, julgando-me autorizado a grupá-los nos dois tipos: crotalico e bolro-
pico. Comecei então a imunização de cães contra os dois tipos de peçonha,
com a idéia de preparar soros antitoxicos cspecificos, o que consegui em pequena
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escala. Confiante na experiência de imunização, levada a efeito em cães, íenlci
imunizar um muar que por acaso ou esquecimento se encontrava no Instituto.
O resultado foi desastroso, pois o animal sucumbiu em menos de 24 horas, com
todos os sintomas de envenenamento, a despeito da dose infinitamente pequena
injetada. Esse insucesso seguido de outros rcvelou-me a grande sensibilida<lc
dos grandes herbivoros, preparando-me para enfrentar o problema pratico da
imunização do cavalo.
Estavam as coisas neste pé, quando o aparecimento da peste bubônica cm
Santos, creou situação propicia, para continuar cm escala muito maior os tra-
balhos de soroterapia antiofidica iniciados no Instituto BacterioIogico.
Encarregado do preparo do soro contra peste, em Butantan, para ali segui
cm dezembro de 1899, levando cora o peso da responsabilidade desta honrosa
cm
vSciELO, 12 13 14 15 16 17
— XII —
incumbência, o ardor cientifico, a preocupação de solucionar o problema do
ofidismo.
Improvisação de laboratorios, pelo fechamento de rancho aberto, que, na
fazenda de Butantan, servia para a ordenha, a construção das primeiras caixas
de alvenaria, para deposito das serpentes venenosas, que possuia em numero
regular, a intensificação da propaganda para aumentar esse material de estudo,
foram os primeiros objetivos visados no desenvolvimento dos planos que trazia
em mente.
Vários cavalos foram imunizados contra o veneno crotalico e outros contra
o veneno botropico. Começaram os estudos de caraterização das diferentes pe-
çonhas pelas reações biológicas. Os soros anti-peçonhentos começaram a ser ■
distribuidos em circulo restrito de agricultores, o qual pouco a pouco foi se
alargando até atingir a algumas centenas em correspondência direta com o Ins-
tituto. As cobras encontradas por ocasião dos trabalhos agrícolas eram captu-
radas e enviadas ao Butantan, recebendo o fazendeiro, em permuta, empolas
do soro curativo e bem assim seringa apropriada para sua aplicação.
Desta arte conseguiu o Instituto a valiosa cooperação dos agricultores na
solução pratica do problema, eles que eram realmente os maiores interessados,
por pagarem o maior tributo ao ofidismo.
Em dezembro de 1901 fiz a primeira conferencia sobre o ofidismo levada
a efeito na Escola de Farmacia de São Paulo, que na epoca funcionava no pa-
lacete Marqueza de Santos no começo da rua Brigadeiro Tobias. Essa confe-
rencia acompanhada de demonstrações experimentais, nas quais, pela primeira
vez, demonstrei, em publico, a eficacia do tratamento especifico, teve grande
assistência de médicos, professores e representantes das autoridades e de varias
classes sociais, conseguindo pela repercussão obtida interessar grande numero
de pessoas na solução do problema.
Outras conferencias seguiram-se sempre acompanhadas de demonstrações
praticas: extração de veneno e ação preventiva e curativa dos soros específicos.
Ao lado dos meios de propaganda oral, encetei a serie de publicações sobre
o assunto. A primeira conferencia foi editada e largamente distribuída. Arti-
gos em que condensava os resultados de estudos sobre esse tema foram inseri-
dos na Revista Medica de S. Paulo.
Assim foram se desenvolvendo no Instituto Butantan os estudos sobre
as serpentes e seus venenos, assunto que se tornou nota dominante, chamando
para êle a atenção dos poderes públicos, dos homens de ciência, do povo de S.
Paulo e dos estrangeiros.
Não me vanglorio da obra de Butantan, porque reconheço que nela cola-
boraram elementos de tão grande valor, que o meu papel resumiu-sc à função
de levantar o tema e de coordenar vontades em beneficio do que se tinha em
mente realizar.
Quando penso que o Butantan ai está, com raizes profundas no meio social,
sustentado por uma pleiade de jovens cientistas, trabalhando intensamente pelo
seu engrandecimento, que dias não se pa.ssam, sem que os soros anti-peçonhen-
tos, não salvam da morte, algumas vitimas do ofidismo, sinto-me feliz e larga-
mente compensado dc todos os trabalhos, rendendo graças ao Creador de todas
as coisas, por haver colocado em meu caminho esse humanitário problema,
dando-me forças para levá-lo a bom termo.
Rio, 23 de Outubro dc 1910.
a) VITAL BRAZIL
598.121:591.986
NOTAS OnOLOGICAS
5. Observações sobre serpentes da Colombia
POR
ALCIDES PILADO
Passo a dar uma breve notida das serpentes que foram remetidas da Colom-
bia, no período de 1938-1939, pelos revmos. irmãos Danid e Nkéforo Maria,
respectivamente, do Colégio de San José, de Medellin, e do Instituto de La Salle,
de Bogotá.
Compreende um ligeiro estudo de cada uma das serpentes examinadas, es-
pedalmente baseado nos caracteres devidos à folidose e colorido geral.
O tempo gasto neste mister foi de algum modo recompensado pelo resul-
tado colhido, que consistiu numa pequena contribuição ao estudo dos ofidios da
Colombia.
Fani. Boidae
Subfam. Boinae
Gen. CONSTRICTOR Laurentius
Constriclor consirictor (L.)
No. 10.089, jovem S , na coleção do Instituto Butantan, procedente de
Porto Berrio, com data de captura: agosto 1938.
E. 88; V. 248; A. 1; Subc. 64.
Propría da região neotropica, porém não assinalada como frequente na Co-
lombia, onde a forma mais encontradiça é a Consirictor imperalor (Daudin).
Cinza-violaoea, estampando-se no dorso faixas pardo-negras, as quais se
expandem lateralmente, e onde se alternam com outras ovais ou rombicas, da
cm
vSciELO, ; l 1 12 13 14 15 16 17
2 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
mesma côr; as primeiras, nas porções expandidas, são atravessadas por u’a linha
longitudinal clara, ao passo que as segundas são apenas descoradas na parte
central; as manchas sobre a cauda são alongadas, vermelho-tijolo, e fortemente
guarnecidas de negro; a parte superior da cabeça é cortada ao meio por uma
forte estria negra.
Habita os campos e as florestas, muitas vezes subindo às arvores- As gi-
boias, como elas são \'ulgannente chamadas, nutrem-se de pequenos roedores.
São animais essencialmente noturnos, que geralmente atingem grandes proporções.
Lacépède diz que, no México, as giboias eram veneradas pelos antigos,
que delas se serviam para os moti%’os esculturais, nas obras de arte, como esta-
tuas, vasos de terra-cota e de pedra.
Gcn. BOA L.
Boa annulala (Cope)
Xo. 179, adulto S , na coleção do museu do Institutp de La Salle, Bogotá,
procedente de Chocó.
Rostral pouco mais alta do que larga; duas pequenas escamas por trás da
rostral, que a separam das nasais; supraoculares não aumentadas; 11 escamas
de olho a olho, na fronte, e 12 ao redor do mesmo; 1 preocular; 3 f renais; 14
supralabiais, todas esca\-adas, com exceção da ultima, sendo que as que se colocam
por debaixo e atrás do olho o são mais fortemente; infralabiais posteriores tam-
l>em esca\-adas.
Pardacenta, com desenhos pardo-amarelados dos lados; cabeça da côr geral;
ventre uniformemente amarelado. O colorido difere do descrito por Boulenger,
o que se poderá atribuir a uma \-ariação radal.
Comprimento total 1.040 mm.; cauda 180 mm..
Boa horiulana cookii (Cray)
Xo. 178, jovem 9, na coleção do museu do Instituto de La Salle, Bogotá,
procedente de Villavicencio.
E. 40; V. 259; A. 1 ; Subc. 109.
Rostral quasi tão alta quanto larga; nasais cm contacto por trás da rostral,
seguidas de grandes prefrontais; supraoculares pouco aumentadas, as quais são
separadas do olho por uma serie de escamas ; 12 escamas de olho a olho, na fronte,
e 14 ao redor do mesmo; 1 preocular; 2 frenais; 14 supralabiais, fortemente
escavadas as que s: encontram por debaixo e atrás do olho; infralabiais, com as
posteriores esca^-adas.
Alcides Prado — Notas Ofiologicas. 3.
3
Pardacenta em cima, com duas series de desenhos negros romboidais, alter-
nados uns e paralelos outros; parte sui^erior da cabe<;a com manchas pardo-ne-
gras, dando-lhe um aspecto marmoreo, e duas listras negras atrás do olho, sendo
que a mais inferior atinge a comissura dos lábios.
A descrição do colorido da especie em apreço, assemelha-se à de Boulenger
para a forma A.
Fam. Colubrtdae
Subfam. Colubrinae
Gen. HELICOPS Wagler
HcUcops angulata (L.)
No. 163, jovem 9 , na coleção do museu do Inst'tuto d; La Salle. Bogotá,
procedente do Alto Magdalena.
E. 19: V. 121; A. 1/1; Subc. 64/64 + 1.
Spl. 8 (4.® junto ao olho) ; T. 3 -f- 3.
Pardo-cinza etn cima, com cintas mais ou menos regulares pardo-escuras,
formando como que faixas que se estreitam dos lados, onde se fundem com as
ventrais; grande mancha romboidal na nuca; ventre amarelado, com faixas
pardo-escuras mais ou menos regulares.
Como anomalia verificamos no e.xcmplar o seguinte: ausência da frcnal,
devido à fusão com a nasal respectiva cm ambos os ladoe; temporais 3 -f- 3,
ao invés de 1 ou 2 -f 2 ou 3.
É uma especie cssencialmcnte aquatica, que se nutre naturalmente de peixes
e pequenos batraquios.
Gen. EUDRYAS Fitzinger
Eudryas boddacrtii (Sentzex)
No. 169, adulto 9 , na coleção do museu do Instituto de La Salle,’ Bogotá,
procedente de Bucaramanga.
E. 17; V. 185; A. 1/1; Subc. 110/110 -f 1.
Spl. 9 (4.*, 5.* e 6.* junto ao olho) ; T. 2 -f- 2.
Cinza em cima, com dois pares de linhas cla,ra6 nos flancos, por todo o
corpo; cabeça com uma distinta faixa negra, através do olho, para cada lado;
ventre olivaceo; garganta marmórea, em pardo, como também as supralabiais.
3
2 3 4
5 6 7
W _l_ J — I J_J \^\
11 12 13 14 15 16
4
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Colorido bastante %'ariavel. Tem o nome vulgar de “Yaruma”, na Colôm-
bia, porque é encontrada nas raizes do “Yarumo”, arvore do genero Cecropia,
segundo Daniel.
Comprimento total 1.020 mm.; ca,uda 310 mm..
Gen. DRYMARCHON Fitzingee
Drymarchon corais corais (Boie)
No. 10.090, jovem S , na coleção do Instituto Butantan, procedente de
Bello, com data de captura: junho 1937.
E. 17; V. 203; A. 1; Subc. 87/87 -f- 1.
Spl. 8 (4.* e 5.^ junto ao olho) ; Infl. 8; T. 2 -f- 2.
O genero Drymarchon, segundo Amaral, foi criado por Fitzinger justa-
mente para conter a espede corais que lhe foi escolhida para tipo. Diz, mais,
o seguinte: “Esta espede, descrita primeiramente por Boie, esteve original-
mente ligada ao genero Coluber, do qual foi sucessi\'amente transferida para
os generos Geórgia, por Baird e Girard em 1853, Spiloies, por Duméril e Bibron
em 1854, Gcoptyas, por Steindachner em 1867 e Coryphodon, por Jan em 1876,
havendo-a Boulenger em 1894 restituido ao genero Coluber, na sua concepção”.
Dada sua apro.ximação com as serpentes do genero Spiloies, estas como
aquelas, são vulgarmente conheddas por “Caninana” no Brasil e possuem os
mesmos hábitos: são arboricolas, encontrando-se, contudo, nos campos; alimen-
tam-se de pequenos roedores, passaros, lagartos e rãs.
Gen. LYGOPHIS Fitzingek
Lygophis linealus (L.)
J
No. 177, jovem 9 , na coleção do museu do Instituto de La Salle, Bogotá,
procedente de Barrancabermeja.
E. 19; V, 164; A. 1/1; Subc. B1/&1 + 1.
Spl. 8 (4.* e 5.* junto ao olho); Infl. 9; T. 1 2.
Oliva-palido, em cima, com uma fai.xa pardo-negra guarnecida de amarelo
sobre a linha vertebral, a qual tem inido ao nivel do fodnho; duas linhas pardo-
negras laterais, que se alargam dos lados da cabeça, através dos olhos; ventre
branco-amarelado.
4
Alcides Pr.ux> — Notas Ofiologicas. 5.
Gen. LIOPHIS Waglek
Liophis cobella (L.)
Xo. 175, adulto 9 , na coleção do museu do Instituto de La Salle. Bogotá,,
procedente do Sarare.
E. 17; V. 148; A. 1/1; Subc. 37/37 + n.
Spl. 8 (4.* e 5.* junto ao olho) ; Infl. 10; T. 1 + 2.
Enegredda em dma, com linhas transversais claras, formando faixas; ven-
tre idêntico, porém com faixas mais nitidas.
Comprimento total: 582 mm..
Liophis undulatus (Wied)
No. 176, adulto è , na coleção do museu do Instituto de La Salle, Bogotá,
procedente de La Pedrera.
E. 17; V. 165; A. 1/1 ; Subc. 62/2 + 1.
Spl. 8 (3.“, 4.* e 5.* junto ao olho); Infl. 8; T. 1-j- 2.
Pardacenta em cima, com uma faixa negra vertebral, em ziguezague; uma
listra negra se dirige do olho atrás, em ambos os lados, para o lado do pescoço;
outra da mesma côr em cada um dos lados da cauda; ventre uniformemente
amarelado, guarneddo, de ambos os lados, por pontilhados negros que se colo-
cam nos ângulos das ventrais.
Gen. XENODON GCnthes
Xenodon colubrimij Günther
No. 10.006, jovem 9 , na coleção do Instituto Butantan, procedente de
Yarumal, com data de captura; março 1938.
E. 19; V. 149; A. 1; Subc. 45/45 + 1.
Spl. 8 (4.“ e 5.* junto ao olho) ; Infl. 9; T. 1 3.
Pertencente à fauna da America Central e do Sul (Brasil, Bolivia, Perú
c Colombia) e da America do Norte (México Meridional). Próxima a Xeno-
don suspectus Cope, que ocorre no Perú, da qual se distingue pelo maior nume-
ro de ventrais e pelo colorido geral.
b'
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Pardo-palida em dma. com faixas pardo-escuras retraídas ao meio, e uma
grande mancha da mesma côr sobre a nuca, a qual se bifurca atrás; ventre ama-
relo mais ou menos ofuscado por pontilhados pardos.
Al;mentam-se como as outras "Boipesas”, nome como são conhecidas no
Brasil, de rãs e sapos.
Gen. ATRACTUS Waglek
Atraclus arangoi Prado
No. 136, adulto 9 , na coleção do museu do Instituto de La Salls, Bogotá,
procedente da Colombia.
E. 17; V. 159; A. 1; Subc. 25/25 -f- n.
Spl. 7 (3.* e 4.“ junto ao olho); Infl. 6; T. 1 2.
Pardo-palida em dma, com manchas pardo-escuras areoladas de claro, irre-
gulares, em bastonetes, geralmente em uma unica serie sobre o dorso; cabeça
pardo-escura; garganta e ventre branco-amarelados.
Comprimento total 395 mm.; cauda 52 mm..
Atractus bocourti Boulenger
No. 171, adulto é , na coleção do museu do Instituto de La Salle, Bogotá,
procedente de Manizales.
E. 17; V. 147; A. 1 ; Subc 26/26 + 1.
Spl. 7 (3.* e 4.® junto ao olho) ; Infl. 6; T. 1 -f- 2.
Cinza-arroxeada, com dnco series longitudinais de pintas negras no dorso;
u’a mancha negra de cada lado da cabeça, ao nivel do olho; uma entrada branco-
amarelada sobre as têmporas; ventre branco amarelado, salpicado de negro.
Comprimento total 260 mm.; cauda 28 mm..
Atractus colombianus Prado
No. 174, adulto S , na coleção do museu do Instituto de La Salle, Bogotá,
procedente de Chocontá.
E. 17; V. 149; A. 1; Subc. 29/29 -f 1.
Spl. 7 (3.* e 4.* junto ao olho); Infl. 6/7; T. 1 -j- 2.
Pardo-olivacea em cima, com uma faixa negra vertebral, a qual, guardando
a largura de uma escama, vai da parte nucal á extremidade caudal; extremi-
dade da cauda enegrecida; escamas em geral tarjadas de negro; nos flancos u’a
C
Alcides Pilvdo — Notas Ofiologicas. õ.
7
linha clara, a qual envolve as extremidades das ventrais e a fileira contígua das
escamas dorsais; ventre inteiramente n^ro, luzente.
Comprimento total 362 mm.; cauda 42 mm..
Xo. 155, jovem ô , na mesma coleção c da mesma procedência.
E. 17; V. 144; A. 1; Subc. 29/29 + 1.
Sp. 7 (3.® e 4.® junto ao olho) ; Infl. 6; T. 1 4* 2.
Còr idêntica, apenas com o ventre mesclado de branco.
Alractus crasstcaudaius (D. & B.)
Xo. 173. adulto £ , na coleção do museu do Instituto de La Salle. Bogotá,
procedente des*.a cidade.
E. 17: V. 160: 1; Subc. 21/21 4- 1.
Spl. 6 (3.* e 4.^ junto ao olho;; Intl. 6; T. 1 4- 2.
Cinza-escura, com pequenas manchas branco-amareladas ; outra da mesma
còr sobre as têmporas.
Comprimento total 265 mm.; cauda 25 mm..
Xo. 158, jovem ?, na mesma coleção, piocedente de Sibaté (Bogotá).
E. 17; V. 150; A. 1; Subc. 29/29 4- 1.
Spl. 6 (3.* e 4.“ junto ao olho); Infl. 6; T. 1 2.
Colorido idêntico.
Alractus indistinctus Prado
Xo. 166, adulto 9 , na coleção do museu do Instituto de La Salle, Bogotá,
procedente de Ocana.
E. 17; V. 170; A. 1; Subc. 35/35 1.
Spl. 7 (3.* e 4.* junto ao olho); Infl. 6; T. 1 +2.
Pardo-avcrmelltada. .com um indistinto traço negro vertebral, da nuca à
extremidade da cauda; dois outros da mesma còr nos flancos; cabeça negra;
lábios, garganta e ventre branco-amarclados, porém este ultimo irregulannente
manchado de pardo.
Comprimento total 444 mm.; cauda 48 mm..
Alractus longttnaculalus Prado
Xo. 170, adulto S , na coleção do museu do Instituto de La Salle, Bogotá,
procedente do Quindio.
E. 17; V. 166; A. 1; Subc. 21/21 4- 1.
Spl. 7 (3.“ e 4.“ junto ao olho) ; Infl. 6; T. 1 -f- 2.
7
2 3 4
5 6 7
j — I -1—1 1
11 12 13 14 15 16
8
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Castanho-clara, com tres series de manchas negras: l.“ sobre a linha ver-
tebral, em traço continuo no terço anterior do corpo, e sob a forma de pontilha-
dos largos nos dois terços restantes, 2?- e 3.^ nos flancos, sob a forma de pon-
tilhados finos; duas faixas negras dos lados da cabeça; uma que vai do angulo
posterior do olho à comissura dos lábios, outra, paralela a essa, caminha ao nivel
das têmporas; finalmente, um desenho negro em V, de vertice posterior, sobre
as parietais, e duas manchas negras: uma sobre a frontal e outra sobre a nuca;
partes inferiores amareladas, marchetadas de negro.
Comprimento total 372 mm.; cauda 21 mm.
^ Airactus manizalesensts Prado
No. 172, adulto S , na coleção do museu do Instituto de La Salle, proce-
dente de Manizales.
E. 15; V. 152; A. 1; Subc. 20/20 -f 1.
Spl. 7 (3.® e 4.* junto ao olho) ; Infl. 7 ; T. 1 -j- 2.
Castanho em cima, com duas series de manchas negras, guarnecidas de claro,
paravertcbrais ; cabeça manchada de negro; lábios, garganta e ventre branco-
amarelados, sendo o ultimo salpicado de pardo.
Comprimento total 370 mm.; cauda 31 mm..
No. 157, jovem 9, na mesma coleção e da mesma procedência.
E. 15; V. 154; A. 1; Subc. 18/18 + 1.
Spl. 7 (3.® e 4.® junto ao olho) ; Infl. 6; T. 1 -f- 2.
Côr idêntica.
Atraclus melas Boulenger
No. 167, adulto S, na coleção do museu do Instituto de La Salle, pro-
cedente de Santo Domingo.
E. 17; V. 157; A. 1; Subc. 5/5 -f 9 -f 10/10 -f 1.
Spl. 7 (3.® e 4.® junto ao olho) ; Infl. 6; T. 1 -|- 2.
Côr negra, com apenas os lábios superiores e a garganta claros, sendo a
ultima salpicada de negro, além de duas entradas laterais nas têmporas.
Baseia-se a descrição original de Boulenger numa simples femea, procedente
de Los Mangos.
Comprimento total 240 mm.; cauda 25 mm..
8
10
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Colorido muito semelhante ao originalmente descrito. Bocourt afirma que
esta espede, pela sua etologia, conjunto de caracteres e coloração, aproxima-se
de Liophis godmani (GC'xther), ofidio da serie aglifa. Este autor reuniu 14
exemplares de Caniophanes' fissidms, procedentes algims do Istmo de Tehuan-
tepec, no México, e outros de Attitlan, na Guatemala Ocidental, sendo que estes
se diferenciam por uma côr mais sombreada. Xa coleção do Instituto Butantan
encontra-se um exemplar apenas desta especie, procedente de Honduras, o qual
recebeu o Xo. 762.
Sua distribuição geográfica, segundo os autores, restringe-se à America
Central, do Panamá ao México. Regista-se, pois, pela primeira vez sua ocorrên-
cia na America do Sul. Afim de melhor determiná-la extrai os últimos dentes
ma.xilares, donde a certeza inidal de tratar-se realmente de um especime da
serie opistoglifa.
Esta serpente, habitando, de preferencia, os logares húmidos situados nas
proximidades dos cursos dagua, parece nutrir-se de pequenos batraquios.
RESUMO
Trata-se de uma breve noticia de cada uma das serpentes que foram enria-
das da Colombia, no periodo de 1938-1939.
São as seguintes as espedes e.xaminadas : Constrictor constriclor. Boa annu-
lala. Boa hortulana cookii, Helicops angulata, Eudryas boddaertii, Drymarchon
corais corais, Lygophis lincatus, Liophis cobella, Liophis undulalus, Xenodoti
colubrinus, Atractus arangoi, Airaclus bocourti, Atractus colombianus, Airactus
crassicaudatus, Atraclus indislinclus, Atractus longimaculatus, Atractus maniza-
Icsensis, Atractus inclas, Sibynomorphus sancti-joannis, Leptodeira annulata e
Coniophanes fissidens.
ABSTRACT
This paper contains a brief report on each of the snake specimens received
from Columbia during 1938-1939.
The following spedes have been examined: Constrictor constrictor. Boa
annulata. Boa hortulana cookii, Helicops angulata, Eudryas boddaertii, Drymar-
chon corais corais, Lygophis litieatus, Liophis cobella, Liophis undulatus, Xeno-
don colubrinus, Atractus arangoi, Atractus bocourti, Atractus colombianus,
Atractus crassicaudatus, Atractus indistinctus, Atractus longimaculatus, Atractus
10
Alcides Prado — Notas Oíiologicas. 5.
11
tnamcaJesensts, Atractus nulas, Sibynomorphus sancti-joannis, Leptodcira aitiiu-
lata and Coniophanes fissidens.
BIBLIOGR-\FIA
Boulenger, C. A. — Cat Sn. BriL Mus. 1-3.1893/96.
Amoral, A. do — Mem. Inst. Butantan 4:3, 127.1930.
Afaria, Hno. A’. — Rcr. Soc. Colombiana 19:106.1930.
Danifl, Hno. — Rev. .\ca<L Colombiana 2(8) :594. 1938/39.
Prado, .4. — Mem. InsL Butantan 13:15.1939.
(Trabalho da Seccão de Ofiologia e Zoolo-
gia Medica do Instituto Butantan» lido no
Qube Zoologico do Brasil» na sessio de 15*
IX-39. Dado k publicidade em agosto de 1940).
II
SciELO
I 11 12 13 14
598.121:591.936
NOTAS OFIOLOGICAS
6. Uma nova especie de Colubrideo aglifo da Colombia
POR
ALCIDES PRADO
A cspecie que ora descrevo como nova, Dipsas niceforoi, sp. n., possue
como as demais do genero Dipsas, entre outros caracteres, dois ou mais pares de
infralabiais em contacto, na linha mediana, por trás da sinfisial.
Muitos autores separam as espccics de Dipsas das de Sibynomorphus, pela
ausência de dentes pterigoideos naquelas e presença dos mesmos nestas ultimas.
Assim c que Moequard e Amaral incluem no genero Dipsas, as especies
Dipsas albifrons (Sauvace) e Dipsas iKtrisgala (D. & B.), outrora colocadas no
genero Sibynomorphus (= Leptognathus).
Parker, e.xaminando espedmes do Museu Britânico, confirmou a ausência
de dentes pterigoideos em Dipsas albifrons, enquanto que, cm dois exemplares de
Dipsas variegata, um não os possuia e outro os tinha em numero de tres para
cada osso.
Refere-se à sua Dipsas Irinitatis, que os tem cm numero de dois ou tres para
cada pterigoideo, e à de Amaral, Dipsas nekxti, que os não possue, sendo ambas
muito próximas a Dipsas variegata.
Conclue dizendo que a presença ou a ausenda de dentes pterigoideos não
scr>nrá para estabelecer distinção entre as especies de Dipsas e Sibynomorphus,
mostrando com Dipsas variegata, que ha uma gradação entre os dois generos.
O proprio Amaral a isso não é infenso, quando afirma que, caso se con-
firme a observação de Parker, o genero Sibynomorphus deverá passar para a
sinommia de Dipsas que é anterior a êle.
No presente caso, tratando-se de Dipsas niceforoi, sp. n., os dentes pterigoi-
deos existem ate em numero relati\'amcnte elevado, como se poderá constatar
da descrição que se segue.
1
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5 6 7
Ky J — I -1—1 1
11 12 13 14 15 16
*
H Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Dipsas niceforoi, sp. n.
9 — Corpo fortemente comprimido. Cabe^ distinta do pescoço. Dentes
pterigoideos 10/10. Olho grande; pupila eliptica-vertical.
Rostral pouco mais larga do que alta, dificilmente visivel de dma; nasal
semi-dividida ; intemasais mais largas do que longas, quasi um terço do com-
primento das prefrontais; frontal pouco mais larga do que longa, quasi tão longa
quanto sua distancia da extremidade do focinho, muito mais curta do que as
parietais; f renal pouco mais alta do que longa, junto ao olho; supraocular larga;
prcocular pequena, acima da frenal; 2/3 postoculares ; temporais 2 3; 8
supralabiais, 4.® e 5.® junto ao olho, 2 ultimas mais longas; 11 infralabiais, 2 pri-
meiros pares em contacto, na linha mediana, por trás da sinfisial; 3 pares de
mentais. Escamas lisas, sem depressões apicilares. as vertebrais moderadamente
alargadas, em 15. Ventrais 176; anal inteira. Subcaudais 73/73 -f 1.
Pardo-palida em cima. com largas fai.xas pardo-escuras, e com algumas esca-
mas guarnecidas de escuro; cabeça pardo-escura, com uma tenue faixa palida
sobre a nuca; garganta e ventre levemente mesclados de pardo, porém, este ulti-
mo, em sua porção anterior é atravessado pelas faixas pardo-escuras do dorso.
Comprimento total 256 mm.; cauda 56 mm..
Holotipo, jovem 9 , sob o No. 165, na coleção do museu do Instituto de
La Salle, Bogotá.
Procedência: Quindio, na Cordilheira Central, Colombia.
Colecionado pelo revmo. irmão Nicéforo Maria,' cm 1939, a quem o nome
da cspccie é dedicado.
Afim de Dipsas trínitatis Parker. Esta, ao contrario de Dipsas niceforoi,
sp. n., possue: frontal tão longa quanto larga, 2 pares de mentais, maior numero
de ventrais e subcaudais.
Seu colorido geral também é diferente.
Não se confundirá com Dipsas pratti (Boulenger), que ocorre na Colom-
bia, porque esta. além de apresentar no colorido desenhos diversos, tem as se-
guintes caracteristicas, que a separam de Dipsas niceforoi, sp. n. : rostral tão
alta quanto larga, \nsivel de cima; internasais com cerca de metade de compri-
mento das prefrontais; frontal tão longa quanto larga; frenal mais longa do que
alta; 2 pares de mentais.
RESUMO
Refere-se este trabalho, além de comentários em torno da posição em sistemá-
tica dos generos Dipsas e Sibynotnorphus (=Leptognathus), à descrição de
Dipsas niceforoi, sp. n., que ocorre na Colombia. sendo a mesma afim de Dipsas
irinitaiis Parker.
SciELO
0 11 12 13 14 15 16
cm
ALCIDES Pr-\do — Notas Ofiologicas. 6.
15
ABSTR-\CT
This work deals in first place with the systematic position of the genera
Dipsas and Sibynomorphus Leptognalhus), and in second place with the
description of Dipsas niceforoi, n. sp.. which occurs in Columbia, being similar to
Dipsas trinitaiis Parker.
BIBLIOGRAFIA
Dumfril âr Bibron — £rp. Gen. 7:477.1854.
Botãengcr, G. A. — CaL Sn. BriL Mus. 3 :447. 1896.
Bímlengrr, G. A. — .\nn. & Mag. Nat. Hist. (6)20:523.1897.
iíacquard — Miss. Sc. Mex. 3:896.1909.
Amaral, A. do — .Arch. Mus. Nac. 26:108.1926.
Parker. H. IV. — Ann. & Mag. NaL Hist (9)18:205.1926.
Amaral. A. do — Mem. insL Butaman 10:127.1935/36.
(Trabalho da SccfSo de Oliolofia e Z<iw->
(ia Medica do Instituto Butantan, entregue
para poblicacio em maio de 1940. Dado i
publicidade em agosto de I940I.
SciELO,
11 12 13
15 16
59S.131
NOTAS OFIOLOGICAS
7. Sobre a determinação de Elapomorphm trilineatus Boulencer
e afins
POR
ALCIDES PRADO
O gcnero Elapomorphus Weicmann, constituído de fomias subterrâneas,
c, no dizer de Amaral e outros especialistas, suscetível de revisão.
Amaral mesmo, na sua Lista Remissiva dos Oíidios do Brasil, publicada
cm 1935-1936, coloca as cspecies Elapomorphus letnniscalus D. & B. e Elapo-
morphus trilineatus Boulenoer, na sinonimia de Elapomorphus bilincatus D. & H.
Em fins de 1939 deram entrada no Instituto, procedentes de Cacequi, no
Rio Grande do Sul, dois exemplares, um adulto e outro jovem, de uma cspecie
que determinei como Elapomorphus trilineatus. Dessa forma, pude cstudá-Ias
comparativamente com outra, de procedenda ignorada, que considerei como
Elapomorphus lemniscatus. Infelizmentc, não tive cm mãos nenhum espccimc
de Elapomorphus bilincatus, forma que, ao contrario de Elapomorphus trilinca-
tus, parece ocorrer mais frequentemente na Argentina do que naquele Estado
do sul do Brasil.
A cspecie Elapomorphus trilineatus, de cujos do!s exemplares me servi para
observação, como suas afins, possue uma simples prefrontal ; entretanto, como
pude notar, nela as intemasais apenas se tocam por trás da rostral. não for-
mando assim, entre si, luna sutura mediana.
Pela chave de Boulenger, publicada cm seu catalogo, vol. 3, 1896, obser^•a-
se que, neste particular, esta ultima aproxima-se de Elapomorphus bilincatus.
Como verifiquei na Elapotnorphus lemniscatus, de minha determinação, as
intemasais formam ai uma sutura completa por trás da rostral, detalhe que está
a concordar com as características contidas na chave de Boulenger.
Quanto ao colorído geral, pelo que cons^ui vêr, entre os exemplares de
Elapomorphus lemniscatus e Elapomorphus trilineatus, a difirença é bastante
sensivel, sendo que no primeiro êle assim se mostra (Fig. 1): avermelhado em
1
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20
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
cima, sem lista negra vertebral ; cabeça enegrecida, com um colar amarelado
occipital; uma faixa negra, em barra, na base da cauda; escamas laterais, placas
ventrais e subcaudais negras, porém debmadas de claro. No segimdo o colorido
assim se apresenta (Fig. 2) : alaranjado em dma, com tres faixas negras longi-
tudinais. uma vertebral e duas outras laterais, sendo que as escamas negras que
as formam têm seus bordos palidescentes ; cabeça negra, com duas entradas
amareladas, dos lados, sobre o occipido; uma faixa negra transversal na base
da cauda; ventrais e subcaudais quasi inteiramente negras.
Ao passo que Boulenger.dá para Elapomorphus büíneaius o colorido mais
ou menos seguinte: pardo-amarelado em dma, com u’a linha negra para cada
lado do dorso, entre a 4.* e 5.* fileiras de escamas; cabeça enegredda em cima
e abaixo; ventrais e subcaudais enegreddas, bordadas de branco.
As especies por m.m estudadas exibem, ainda, os s^uintes caracteres :
Elapomorphus lemnixatus
No. 10.081, adulto á, na coleção do Instituto Butantan, S. Paulo, com
procedenda e data da captura ignoradas.
E. 15; V. 210; A. 1/1; Subc. 24/24 -f 1.
Spl. 6 (2.* e 3.“ junto ao olho); Infl. 7; T. 1 -j- 1.
Comprimento total 520 mm.; cauda 44 mm.
Elapomorphus trilineatus
No. 10.082, adulto á, na coleção do Instituto Butantan, S. Paulo, proce-
dente de Cacequi, Rio Grande do Sul, Brasil, com data de recebimento: 8-XI-39.
E. 15; V. 203; A. 1/1; Subc 23-f23-fl.
Spl. 6 (2.* e 3.* junto ao olho); Infl. 7; T. l-fl.
Comprimento total 530 mm. ; cauda 37 mm..
No. 10.083, jovem $ , na mesma coleção, procedenda e data de recebi-
mento idênticas às do exemplar anterior.
E. 15; V. 203; A. 1/1; Subc. 25/25-fl.
Spl. 6 (2.* e 3.* junto ao olho); Infl. 7; T. 1-f-l.
RESUMO
Parece haver elementos bastante para fazer-se a separação entre as especies
Elapomorphus lemniscatus D. & B., Elapomorphus trilineatus Boulenger e
Elapomorphus bilineatus D. & B., fato que concorda com o primiti^-amente esta-
beleddo por Boulenger, no seu Catalogo, volume 3, ano 1896.
«
o
Alcides Pauw — Notas Ofiologicas. 7.
21
Elapotnorphus lemniscalus distingue-se de suas afins, Elapomorphus trili-
nealus e Elapomorphus bilincatus, pela formação de uma sutura mediana entre
as mtemasais, por trás da rostral.
Elapomorphus trilineatus e Elapomorphus b.lineatus, diferenciam-se entre
si, pelas intemasais que, na primeira, apcnar se tocam por trás da rostral, e na
segunda pela sua completa separação, moti\-ada pelo a\'anço da rostral, além das
divergências bem acentuadas relati\-as à folidose e colorido.
ABSTRACT
There seem to exist sufficient data to justify a separation of thc species
Elapomorphus lemniscaius D. & B., Elapomorphus Irilineafus Boulenger .md
Elapomorphus bilineatus D. & B. ; this separation agrees with Boulengcr’s
Catalt^e Vol. 3, 1896.
Elapomorphus lemniscaius is distinguished from the similar species, Elapo-
morphus trilineatus and Elapomorphus bilincatus, by the shape of the median
suture between thc intemasais, behind the rostral.
Elapomorphus trilineatus and Elapomorphus bilineatus are distinguished
by the intemasais which in the former touch each other only behind the rostrals,
whereas in the latter they are completely separated by thc projection of the
rostral, and by other pronounced diffcrcnces as to the pholidosis and colouring.
BIBLIOGRAFIA
Boutenger, G. A. — CaL Sn. Brit Mus. 3:239-243.1896.
Amaral, A. do — Mem. InsL Butantan 4:47,223.1930.
Amaral, A. do — Mem. InsL Butantan 10:145.1935/36.
(Tnbalbo da Scc«4o de Odolocia e Zooi»-
(ia Ued:ca do Inititoto Bolantan. entreevie
para poblicaeSo em maio de 1940. Dado i
pobllcldade em agoato de 1940).
3
3
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Ky W _l_ J — I J_J
11 12 13 14 15 16
Alcides Piudo — Sotas Ofiologicas. 7.
I — irmmisfStms D. & B.
Fig. 2 — Etêfyfm^fhmi tnlimfmtut BoCLtxct»
M«in. In»t. Butantan
Vol, XIV — 1940
cm
2 3 4 5 6 7
Ky W _l_ J — I J_J
11 12 13 14 15 16 17
598. 121:591. 98<
NOTAS OFIOLOGICAS
8. Dois novos Atractus da CoIombia
POR
ALCIDES PRADO
Entre os ofídios remetidos ha pouco da CoIombia pelo revmo. irmão Nicé-
foro Maria, dois, pertencentes ao genero Atractus, me pareceram novos. Os
demais foram assim determinados:
Hdminthophis anops Cope, Helminthophis praccularis .\mar.\l, Eudryas
boddaertii (Sentzen), Lygophis tacniurus dbiventris (Jan), Lygophis tacniurus
bipraeocularis (Boulencer), Urotheca lateristriga Berthold, Atractus badius
(Boie), Atractus longimaculatus Prado, Atractus tnauisaJesensis Prado, Siby-
notnorphus mikanii orcas (Cope) e Pseudoboa cloeUa (Daudin).
Atractus vcrtebrolincatus, sp. n.
ê — Focinho arredondado. Rostral mais larga do que alta. pouco visivcl
de cima; intemasais pequenas, tão largas quanto longas; prefrontais tão largas
quanto longas; frontal tão larga quanto longa, quasi tão longa quanto sua dis-
tanda da extremidade do focinho, muito mais curta do que as parietais; frcnal
cerca de 2 vezes tão longa quanto alta; 2 postoculares ; temporais I 2; 7
supralahiais, 3.* e 4.* junto ao olho; 3 infralabiais em contacto com a mental
respectiva de um unico par.
Escamas lisas, sem depressões apicilares, cm 17. Ventrais 159; anal inteira;
subcaudais 46/46 -f- L
Cas:anho-i^rda em dma, com uma lista dnza-escura sobre a linh?. \-er-
tebral, a qual é ladeada por pontilhados negros; duas faixas largas da mesma
cõr, de ambos os lados, nos flancos ; cabeqa cnegrcdda ; lábios e garganta branco-
cm
vSciELO, ; l 1 12 13 14 15 16 17
26
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
amarelados; ventre branco-amarelado, manchado de pardo, e com sua porção
caudal fortemente manchada da mesma côr, ao centro.
Comprimento total 296 mm. ; cauda 48 mm..
Holotipo, adulto S , sob o No. 184, na coleção do museu do Instituto de
La Salle, B(^otá.
Procedência: Oca na, ao norte de Bucaramanga, Colombia.
É uma forma de Atractus com escamas dorsais em 17, e onde também se
inclue o Atractus crassicaudatus (D. & B.).
É próxima a Atractus loveridgei Am.mlal, que tem como diferenças espe-
cificas as seguintes: rostral tão larga quanto alta. prefrontais mais longas do
que largas, frenal quasi 3 vezes tão longa quanto alta, subcaudais 18 pares, e
côr pardo-oliva em cima com 6 linhas n^pas longitudinais.
Atractus biseriatus, sp.n.
S — Fodnho obtuso. Rostral pequena, mais larga do que alta, pouco
visivel de cima; intemasais também pequenas, tão largas quanto longas; prefron-
tais grandes, tão largas quanto longas; frontal pouco mais longa do que larga,
tão longa quanto sua distancia da extremidade do focinho, mais curta do que as
parietais; frenal cerca de 2 vezes tão longa quanto larga; 2 postoculares ; tem-
porais 1 -f- 2; 7 supralabiais, 3.* e 4.* junto ao olho; 3 infralabiais em contacto
com a mental respectiva de um unico par.
Escamas lisas, sem depressões apicilares, em 15. Ventrais 148; anal inteira;
subcaudais 18/18 1.
Pardo-escura em dma, com duas series de manchas claras paravertebrais,
às vezes confluentes; cabeça da côr geral, desmaiada nas têmporas e focinho;
ventre branco-amarelado, salpicado de pardo, e com sua porção caudal forte-
mente manchada dessa côr.
Comprimento total 237 mm.; cauda 19 mm..
Holotipo, adulto ê , sob o No. 187, na coleção do museu do Instituto de
La Salle, Bogotá.
Procedenda : Manizales, Colombia.
Esta espede pertence ao grupo de Atractus com escamas dorsais em 15.
Entre as formas colombianas, ela é afim de Atractus reticulalus BouLENcra,
Atractus niceforoi Amaral, Atractus punctiventris Amaral, e Atractus tnani-
salesensis Prado, que oferecem os seguintes caracteres distintivos:
Atractus rcticulatus: focinho arredondado, frontal pouco mais larga do que
longa, 4 infralabiais em contacto com a mental respectira côr pardo-palida com
escamas bordadas de pardo-negro;
2
Alcides Pr.\oo — Notas Ofiologicas. 8.
27
Atractus niceforoi: frontal tão larga quanto longa, {renal 2 vezes e meia tão
longa quanto alta, côr plumbeosrinza com as bordas das escamas paraventrais
claras;
Atractus punctiventris: frontal tão larga quanto longa, frenal 3 vezes tão
longa quanto alta, côr castanho-clara com uma serie paravertebral de manchas
negras tarjadas de claro, e ventre esbranquiçado com uma estria negra mediana;
Atractus manisalesensis: frontal tão larga quanto longa, frenal 2 vezes e
meia tão longa quanto alta, côr castanha em dma, com duas series de manclias
negras paravertebrais orladas de claro, ventre branco-amarelado apenas salpicado
de pardo.
RESUMO
São aqui descritas duas formas no\'as de Atractus: Atractus vcrtcbrolinca-
tus, sp.n. e Atractus biseriatus, sp.n., a primeira afim de Atractus loveridgei
Amaral, e a segunda de Atractus reticulatus Boulencer, Atractus niceforoi
Amaral, Atractus puncth-entris Amaral, e Atractus manisalescnsis Prado.
ABSTRACT
A description is given of two new species of Atractus: Atractus vcrtcbro-
lineatus, n.sp. and Atractus biseriatus, n.sp., the former being similar to Atractus
loveridgei Amaral, and the latter to Atractus reticulatus Boulencer, Atractus
niceforoi Amaral, Atractus punctiventris Amaral, and Atractus manisalescnsis
Prado.
BIBLIOGRAFIA
BouUnger, G. A. — CaL Sn. BríL Mtu. 2:300.1894.
Amaral. A. do — Buli. Antir. InsL America 4:27.1930/31.
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por* pubUeoçfto «m Jolbo d« 1940.
D*do à poblkidod* cm *#o«to de 1940).
3
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Mem. Inst. BuUntan
Alcidks I*r\do — Xotas Ofiologicas. 8.
Atr*cl»s »p. n.
Hstr»éSns, »pw n.
Vol. XIV — 1940
cm
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NOTAS OFIOLOGICAS
9. Duas cascavéis albinas do Brasil
POR
ALCIDES PRADO & FERNANDO PAES de BARROS
No tocante à variaqâo do colorido nas serpentes, os casos de albinismo apre-
sentam-se como os mais interessantes e raros.
Amaral verificou em cascavéis do Brasil, quatro casos de albinismo, tres em
1927, e um em 1934. Estes de diferentes modalidades, o albinismo no ultimo
se nos afigurava total.
Ocorrências semelhantes têm dado origem a confusões. Gloyd, em 1936,
teve ocasião de. pelo exame dos respectivos tipos, considerar Crotalus pulvis
Ditmars, encontradiqo na Nicaragua, por muitos tido como um albino de
Crotalus terrificus (Laur.), como idêntico a Crotalus unicolor Van Lidth
DE Jeude, da ilha de .\ruba, espede que o autor revalida.
O presente registo refere-se a dois casos de albinismo verdadeiro, cons-
tatados cm cascavéis, Crotalus terrificus (Laur.), procedente um do Estado
de S. Paulo c outro de Santa Catarina.
Neles a ausência de melanina é total, não se constatando nem traços da
mesma, quer na pele da cabeça, dorso e cauda, quer nos olhos. Ambos os
exemplares chegaram vivos ao Instituto Butantan.
Eis. os dois casos referidos:
No. 10.141. adulto á, na coleção do Instituto Butantan. procedente de
Palmar, Estado de S. Paulo, com data de recebimento: 28-2-940. (Fig. 1).
Focinho curto. Rostral quasi tão alta quanto larga, cm contacto com a
nasal anterior : intemasais interceptadas ao meio por uma estreita placa ; prefron-
tais mais longas e mais largas do que as precedentes; supraoculares grandes,
algum tanto rugosas, separadas entre si por 2 series longitudinais de escamas
escutiformes; 2 preoailares; 4 series de escamas entre o olho e as supralabiais ;
32
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
estas em numero de 14; infralabiais em igual numero. Escamas fortemente
carínadas, em 27. Ventrais 1 75 ; anal inteira ; subcaudais 23.
Branco-amarelada em cima. com desenhos rombicos amarelo-avermelhados,
orlados de branco; odpicio e pescoço com duas listras paralelas da mesma cõr;
partes laterais e inferiores e cauda inteiramente brancas.
Comprimento total 815 mm.; cauda 72 mm..
No. 10.142, adulto á , na coleção do Instituto Butantan. procedente de
Barra Bonita, Estado de Santa Catarimi, com data de recebimento: 13-5-940
(Fig. 2).
Fodnho curto. Rostral quasi tão alta quanto larga, em contacto com a
nasal anterior; intemasais um terço do comprimento das prefrontais; supra-
oculares grandes, separadas entre si por 3 series longitudinais de escamas escuti-
formcs; 2 preoculares. as quais são separadas da nasal posterior por 1 serie de
escamas; 4 series de escamas entre o olho e as supralabiais ; estas em numero
de 14/15; 15 infralabiais. Escamas fortemente carinadas, em 27. Ventrais
167; anal inteira; subcaudais 27.
Côr idêntica à da forma anterior.
Comprimento total 1.035 mm.; cauda 120 mm..
* RESUMO
Refere-se o presente trabalho ao registo de duas cascavéis albinas do
Brasil. São dois exemplares em que o albinismo se apresenta total, não se
verificando traços de melanina quer na pele, quer nos olhos.
ABSTR.ACT
The present papcr deals with the record of two albino rattlesnakes of
Brazil. Both specimens present a total albinism. no traces .of melanin having
secn, neither on the skin. nor in the ej'es.
BIBLIOGR.AFIA
Amaral, A, do — Rev. Mus. Paulista 15:SS.1927.
Amaral, A. do — Mem. Inst Butantan 8:151.1933/^
Gloyd, H. K. — Herpt. 1:65.1936.
da S«cçio de OfiotosU t
Zoolocim Medica do Instituto Batantan,
pablícado ia **Ciencia** I.IMO. Dado à
poblicidade em agoato de 1940).
2
Mem. In»t. Buiantxn
A. PauK) i F. Paióis dk Barhos — Sotas Ofioloijicas. 9.
Fit I
VoU XIV — 1940
cm
593.121:591.986
NOTAS OFIOLOGICAS
10. Outras serpentes da Colombia, com a descrição de uma nova
especie de Boideo
POR
ALCIDES PRADO
A fauna ofidica da Colombia, muitíssimo rica, mereceu sempre da parte dos
pesquisadores grande atenção.
Nestas notas, estão enfeixadas as obser\'açõcs sobre o ultimo lote de serpen-
tes daquele pais, remetido pelo revmo. irmão Daniel, do Colégio de S. José, de
Medellin.
Procedem todos os exemplares dessa localidade e seus arredores, donde nu-
merosos especimes enriquecem a coleção ofiologica do Instituto Butantan.
Fam. B o i d a e
Subfam. Boinae
Gen. UNGALIOPHIS Müller
Ungaliophis dantcli, sp. n.
í — Cabeça distinta do pescoço. Rostral triangular, pouco mais larga do
que alta, visivel de cima; nasal tripartida; prefrontal simples, subcordiforme,
pouco mais larga do que longa; frontal subtriangular, tão larga quanto longa,
mais estreita do que a prefrontal ; supra-ocularcs largas, menos largas do que a
frontal ; parietais quasi indistintas ; frenal pequena, com os lados desiguais, pouco
mais longa do que alta ; preoculares grandes, atingem o alto da cal>eça e tocam a
frontal; duas postoculares ; temporais indistintas; 9 supralabiais, 4.*, 5.“ e 6.* em
contacto com o olho; 9 infralabiais ; sulco guiar profundo, guarnecido por esca-
1
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36
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
mas maiores. Escamas moderadas, lisas, em 19. Ventrais 226; anal inteira;
subcaudais 41.
Castanho-palida, com duas series longitudinais alternadas, de manchas ovais,
pardo-escuras, em cima; na linha vertebral e nos lados, manchas da mesma côr,
ora lineares, ora arredondadas ou ovais; alto da cabeça com duas listras sagitais
pardo-escuras, paralelas, que se perdem ao nivel do pescoço; uma barra trans-
versal à altura da frontal; outra de igual colorido, partindo do olho atrás, en-
curva-se para articulação mandibular; ventre manchado de pardo-escuro e. de
espaço a espaço, pontuações grandes da mesma côr, alternadas.
Comprimento total 485 mm-; cauda 60 mm..
Holotipo, jovem S , sob o No. 189, na coleção do museu do Col^o de
S. José, de Medellin, Colombia, com data de captura: outubro, 1938.
Procedenda: Andes, a sudoeste de Antioquia.
Coledonado pelo revmo. irmão Daniel, diretor daquele museu e distinto na-
turalista, a quem o nome da espede é dado em homenagem.
O genero U ngaliophis, de Müller, era considerado monotipico e possuia como
seu representante a especie Ungaliophis continentális Müllek, com ocorrenda
na America Central.
Ungaliophis conlincntalis Müller, distingue-se de Ungaliophis danieli, sp. n.
por possuir os seguintes caracteres estruturais e de colorido: rostral mais alta do
que larga; prefrontal tão larga quanto longa; f renal tão longa quanto alta; 10
supralabiais, 4^. e 5^. em contacto com o olho ; escamas em 25 ; côr geral pardo-
dnza-palida, com desenhos negros sobre o dorso, partes laterais, cabeça e ventre.
Fam. Colubridae
Subfam. Colubrinae
Gen. MASTIGODRYAS Amaral
Masligodryas danieli Amar.vl
No. 10.150, adulto ê , na coleção do Instituto Butantan, procedente de Me-
dellin, com data de recebimento: agosto, 1940.
E. 17; V. 170; A. 1/1; Subc. 89/89-f 1.
Spl. 9 (4.», 5.» e 6.» junto ao olho) ; Infl. 10; T. 2 -f- 2.
Comprimento total 1.001 mm.; cauda 264 mm..
Como a espede tipo, tem esta as características seguintes: 5 infralabiais em
contacto com a mental anterior respectiva, que é um terço do comprimento da
posterior.
2
Alcides Prvdo — Notas Oíiologicas,
37
Côr, igualmentc, idêntica: pardoazulada, mais ou menos uniforme por todo
o corpo, apenas mais clara na face ventral.
Procedenda: a mesma da especie tipo.
Gen. CHIRONIUS Fitzinges
Chirontus melas (Cope)
No. 188, josTm 9 , na coleção do museu do Col^o de S. José, de Medellin,
Colombia, procedente de Yarumal, com data de captura: julho, 1939.
E. 10; V. 153; .-V. 1/1; Subc. 152/152 -f 1.
Spl. 9 (4.*, 5.* e 6.* junto ao olho) ; Infl. 9; T. 1 +2.
Pardacenta em cima, com manchas transversais enegrecidas; cabeça marche-
tada de n^o; lábios e ventre branco-amarelados.
Amaral coloca-a na sinonimia de Ch. juscus (L.).
Conseni’o-a separada daquela, pelas diferenças apreciáveis na anal que é
dividida, e nas escamas dorsais que são lisas, ao contrario do que se verifica em
Ch. fuscus.
Gen. LYGOPHIS Fitzincer
Lygophis laeniurus bipraeocularis (Boulenqek)
No, 10.149, jovem i , na coleção do Instituto Butantan, procedente de Me-
dellin. Colombia, com data de recebimento: agosto, 1940.
E. 17; V. 126; A. 1/1 ; Subc. 37/37 -f- n.
Spl. 8 (4.* e 5.* junto ao olho) ; Infl. 12/11 ; T. 1 -|- 2.
Apesar do numero pouco elci'ado das ventrais, com 8 supralabiais ao invés
de 7, e com apenas 1 preocular, não pude dei.xar dc colocá-lo debaixo desta de-
nominação, levando, para isso, em conta o colorido geral e os caracteres estrutu-
rais que me pareceram importantes.
I
Gen. XENOIX)N GOsther
Xenodon colubrínus GCnthe*
No. 10.143, joiem 9, na coleção do Instituto Butantan, procedente do Me-
dellin (rio Medellin), com data de captura: março, 1940.
E. 19; V. 147; A. 1; Subc. 43/43 + 1
Spl. 8 (4.‘ e 5.“ junto ao olho) ; Infl. 10; T. 1 -f 2.
cm
vSciELO, ; l 1 12 13 14 15 16 17
38
>[emorias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Espede muito próxima a Xenodon suspeclus Cope, quer pelos caracteres
estruturais, quer pelo colorido geral, porem com area de dispersão diversa desta
ultima.
Gen. UROTHECA Bibrox
Urothcca elapoides curyzona (Cope)
No. 10.145, jovem 9 , na coleção do Instituto Butantan, procedente de Yaru-
mal, com data de captura: julho, 1939.
E. 17; V. 146; A. 1/1 ; Subc. 90/90+1.
Spl. 8 (4.* e 5.* junto ao olho) ; Infl. 9; T. 1 + 2.
Negra em cima, com estreitissimas linhas transversais palidas e equidistan-
tes; essas linhas transformam-se em faixas irregulares, no ventre; pontilhados
pálidos se distribuem sobre a cabeça. Esta descrição do colorido se ajusta à de
Boulenger.
Subfam. Boiginae
Gen. PSEÜDOBO.A. Schxeider
Pseudoboa petola (L.)
Pscudoboa rhombifera (D. & B.)
Nos. 10.146 e 10.147, respectivamente, na coleção do Instituto Butantan,
procedentes de Andes, ambas com data de captura: outubro, 1938.
Especies de ocorrência mais ou menos comum na região neotropica, porem
com pouca referencia quanto a este pais (Colombia).
Gen. STENORHIX.A. Duméril & Bibron
Stenorhina degcnhardtii (Berthold)
No. 10. 144, jovem 9 , na coleção do Instituto Butantan, procedente de Ya-
rumal. com data de captura: julho, 1939.
E. 17; V. 145; A. 1/1; Subc. 37/37+ 1.
Spl. 7 (3.® e 4.* junto ao olho) ; Infl. 7 ; T. 1 + 2.
Castanho-oliva, com manchas pardo-escuras, irregulares, bordadas de negro
e cercadas de uma aureola clara; ventre mais ou menos manchado de negro, em
tudo semelhante ao que descreve Boulenger para sua forma A.
4
Alcides Prado — Notas Ofiologicas. 10.
39
Goi. ERYTHROLAMPRUS Wacler
Erythrolatnprus aesculapii (L.)
No. 10.148, adulto é, na cole<;ão do Instituto Butantan, procedente de
Andes, com data de captura: outubro, 1938.
Espede neotropica de larga distribuição, inclusive Colombia.
RESUMO
São examinadas neste trabalho \'arias especies de serpentes, inclusive um novo
Boideo, Ungaliophij danicli, sp. n., afim de Ungaliophis continenlalis MOllek.
ABSTRACT
Several species of snakes are being examincd in this paper, inclusively a new
Boidae, Ungaliophis danieli, n. sp., similar to Ungaliophis coníincntalis MOller.
BIBLIOGRAFIA
Dumíril, Sí. A. & Bocowrt, H. — Miss. Sc. Mex. 2:522.1870.
Boníengrr, G. A. — Cat.Sn.Brit.Mu». 1:114.1893.
BonUngrr, G. A. — Cat.Sn.Brit.Mus. 2:183.1894.
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Amaral, A. do — Mem.Inst. Butantan 8:157.1933/34.
(Trabftlko 4a Scceio d« Ofiolofia « Zoolofia
Medica do Iiutitttlo Butantan. Entrefue fura
publicaeSo cin ateolo dc 1940 c dado i publici-
dade ein outubro de 1940).
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3^1ctn. Tn»t. Bulantan
Vol. XIV — 1940
\lcides Piluk) — \olas Ofiologicas. 10
oc. pMvro • * •
t
593.1:616.961
PROTOZOÁRIOS PARASITAS
IV. Protozoários novos de tapirideos
POR
FL.-WIO DA FONSECA
Os protozoários descritos na presente nota provêm do c.xamc de material
colhido de um exemplar de Tapirus da cspecie clara, de tamanho medio, prova-
velmente Tapirus raulitiHs, conhecida pelo nome vulgar dc “anta sapateira”,
denominação e.-ta que lhe dão os caçadores derido à conformação alongada
dos dedos, em oposição à fórma curta obser^-ada na espccie negra c maior, o
Tapirus amrricanus. Esta anta, capturada muito jovem cm S. Romão, Pirapora,
Estado de Minas Gerais, foi-nos remetida pelo missionário Frei Bcrtholdo von
^íec. ao qual somos muito grato, tendo chegado a Rutantan com cerca de tres
meses de iflade. Sómente um ano após siu chegada, ao serem feitos pela
primeira vez exames de fezes, foi observado o parasitismo pelos protozoários
abaixo descritos, sendo de notar que a saude c desenvolvimento do animal
têm sido excelentes, apesar de mantido nos últimos seis meses em um simples
“box” da coudelaria do Instituto.
Queremos ainda assinalar que o Tapirus em questão, durante os primeiros
meses que sucederam à sua chegada, foi conservado no bioterio geral do Instituto,
onde existem cerca de dois a tres mil cobaias, coelhos c ratos, animais estes
também parasitados por varias espedes pertencentes aos mesmos generos.
Tivemos, por exemplo, ocasiões de encontrar no bioterio do Instituto Butantan
Endamoeba cobayae (Walker), que é frequente cm nossas cobaias, ao
contrario de Endolimax caviae Hecneu (*), que nunca poude ser por nós
assinalada; Endamoeba muris Grassi, ocorre também na criação de murideos.
De ambas estas espedes se distingue Endamoeba dobelli, sp.n. pela disposição
granular e periférica da cromatina nudear, alem de outros caracteres.
(•) Htgner, R. IF. — The J. of Parasitoloiry 12 :IA6.\926.
cm
vSciELO, ; l 1 12 13 14 15 16 17
44
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Chilonuistix intestinalis Kuszinki, de cobaias, e Chilomastix bitteticourti O.
DA Fonseca, de ratos, são também especies comuns em nosso bioterio; as
respectivas deícrições diferem, porém, das da nova especie encontrada. A
Trichomonas cai-iae (Davaine), da cobaia, a Trichonwnas murís (Galli-
Valerio), de ratos, ambas especies já por nós observadas em animais do
Instituto, bem como às varias outras especies parasitas de ratos que já têm
sido descritas, só forçadamente poderia ser identificada a n.sp. Trichomonas
navasi, que é facilmente cultivavel. ao contrario de Trichomonas murís, e cuja
membrana ondulante só dificilmente se deixa corar.
As descrições são feitas de es f regaços de fezes corados pela hemoteina,
segundo a técnica proposta por Gilberto de Freitas nas Memórias do Instituto
Oswaldo Cruz J7(3) :707.1936.
Endamoeba dobelli, sp. n.
(Figs. 1 e 2)
Forma vegetativa (Fig. 1) — Dimensões variando de cerca de 8ii 5 a
13p6, nunca sendo visto pseudopodos nos exemplares fixados. Protoplasma
finamente granuloso, às vezes \-acuolar ou com granulações maiores, sem
diferenciação entre endo- e ectoplasma, às vezes com inclusões, frequente-
mente com um grande vacuolo, incluindo uma grande bactéria com forma de
Coccus (Sarcinat). Não raro o protoplasma apresenta vacuolos, geralmente
em pequeno numero. Núcleo de contorno nem sempre perfeitamente circular,
de tamanho proporcional ao da ameba, oscilando em geral de 2 a 2p5. Cro-
matina periférica dispondo-se em grânulos junto à membrana nuclear. Cariosoma
central ou sub-central, circular ou ligeiramente alongado, com 1/3 a 1/16 do
diâmetro do núcleo, parecendo menor nos exemplares mais diferenciados.
Cistos (Fig. 2) — Cistos uninucleados, com cerca de 4p25 a 7p. de
contorno circular, com membrana protoplasmatica fina, protoplasma condensado
e com granulações não raro volumosas. Núcleo igual ao da forma vegetativa,
variando o tamanho de lp7 a 2p5, sendo, portanto, às vezes extremamente
volumoso em relação ao tamanho da ameba. E’ interessante assinalar que os
grânulos cromáticos, tanto nos cistos quanto nas formas vegetativas, quasi
nunca se encontram em toda a volta da membrana nuclear.
Dos tres protozoários que ocorriam no mesmo animal eram o Eutríchomastix
e a nova Endamoeba os mais abundantes, sendo vistos às vezes duas ou tres
amebas no mesmo campo examinado com objetiva de imersão.
Cultura — Semeadas as fezes em meio ovoimicoide de Hogue, tendo em
vista a obtenção de cultura dos flagelados, desenvolveram-se também as
I
í
1
O
F. DA Fonseca — Protozoários parasitas. IV
45
Endamcbas. apresentando-se a maioria endstada. Formas vegetativas íoram,
entretanto, vistas mesmo cm culturas de 5 dias. Repicado o material, da 3.*
passagem em meio de Hogue, para mdo Lõffler -f- Ringer, segtmdo Simitch,
a cultura de 48 horas apresentou-se rica em formas vegetativas, que se tomam
muito moveis quando aqueddas, mas que à temperatura ambiente se imobilizam.
Lamina tipo No. 3433, esfr^ço de fezes corado pela hemateina, segundo
Gilberto de Freitas, depositada na coleqão da Secção de Parasitologia do
Instituto Butantan.
Chilomastix navasi, sp. n.
(Fi«. 3)
Contorno geralmente peri forme e alongado, mais raramente alargado, de
extremidade posterior de regra bruscamente afilada. As dimensões osdlam
entre 7p5 e 13p para o comprimento e 4p5 e 7\i para a maior largura. O
protoplasma apresenta-se muito vacuolado e o dtostoma é alongado e aparente-
mente estrangulado no meio, com lábios pouco cromofilos e flagelo aderente à
membrana ondulante raras vezes visivel. Núcleo anterior, drcular, com lp6
a 2p5 de diâmetro, sem cariosoma indiridualizado, vendo-se às vezes alguns
grânulos cromáticos no seu interior; não ha aglomeração de cromatina periférica,
formando calota, como cm Ch. bittencourti O. da Fonseca, parasita de ratos,
Ch. intestinalís Kuzinski, de Cavia porcellus e Ch. olympioi F, da
Fonseca, de Dasyprocta aguti, Ch. cuniculi O. da Fonseca, de Orycto-
lagus cunicuU e Ch. mesnili (Wenyon), de Hoino.
Os flagelos são tres, anteriores e curtos, geralmentc com 5p, raramente
com lOp.
cultura em meio ovomucoide de Hogue foi nc^ti^-a, bem como no de
Lõffler -f- Ringer, segundo Simitch.
Lamina tipo No. 3380, corado pela hemateina, segundo Gilberto de Freitas,
depositada na coleção da Secção de Parasitologia do Instituto Butantan.
Trichomonas tapiri, sp. n.
(Fiai. 4, S e 6)
A fresco e cm esfregaços de fezes aprescnta-sc o flagelado muito move!,
avançando de preferência por entre os detritos, com membrana ondulante estreita,
pouco risivel, porem perceptivcl graças ao flagelo que a margea em toda a
extensão do flagelado e que com ela ondula. Não foi. entretanto, possivel
contar os flagelos a fresco, devido ao seu rápido movimento.
46
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Em preparados de fezes corados segundo a técnica de Gilberto de Freitas
(hemateina e diferenciação pelo acido picrico), que tem dado ótimos resultados
em nossas mãos, só raras vezes nos foi dado ver elementos identificáveis a
Trichomonas, apresentando-se sempre a membrana encurtada, como que retraida,
conforme mostra a Fig. 4.
Tais elementos mediam 8u5 X 6ti ou mais frequentemente 12 —
12p5 X 8 — 12p5, apresentando fórma eliptica ou quasi circular, um grande
núcleo anterior uniformemente corado, com cerca de 3p5, não tendo sido possivel
distinguir o cariosoma. o que talvez seja devido à intensidade com que toma a
coloração, tomando dificil a diferenciação dos esfregaços. Um axostilo, largo,
sempre de percepção dificil, percorre o corpo e faz saliência posterior. Os
flagelos são quatro, dos quais tres anteriores, muito longos, chegando a atingir
20p, partindo dois deles de um mesmo granulo basal anterior. Um outro flagelo
percorre o bordo externo da membrana ondulante, parecendo ser curto nos
esfregaços corados, ao contrario do que se observa a fresco. Tanto quanto foi
possivel verificar em flagelados pouco diferenciados, este flagelo se origina do
mesmo granulo basal que dá origem ao flagelo isolado anterior. Sempre que
foi possivel dirisar a membrana ondulante, esta, ao contrario do observado nos
preparados a fresco, mostra-se notavelmente encurtada. Não foi possivel ver
filamento basal da membrana, .sendo frequentes os vacuolos. Um dos exempla-
res acha\'a-se parasitado por Sphaerita Dakgeard, 1886, de disposição
concêntrica, provavelmente Sph. mtnor Cunha & Muniz, 1923.
A cultura em meio ovomucoide de Houge foi facilmente obtida, desenvol-
vendo-se os flagelos em abundancia, permanecendo vivos até mais ou menos
um mês depois de semeados, obtendo-se da mesma forma repiques com facilidade.
As dimensões do flagelo rivo. em cultura, oscilaram entre 10 e 16p. Para
tirar duvidas porventura e.xistentes sobre a extensão da membrana ondulante
e o numero dos flagelos, foi feita a obseivação ultramicroscopica de uma
cultura da 2.* repicagem com 6 dias. Para reduzir a velocidade da mo-
vimentação dos flagelos, graças ao aumento da viscosidade do meio, fez-se
a adição da clara de ovo à cultura,' cm partes iguais, pois em maior
quantidade tem logar rapidamente fenomenos de osmose que redundam na
plasmolise do flagelado. Foi possivel. graças à combinação do exame em
campo escuro com o aumento de riscosidade do meio, obser%'ar que a membrana
ondulante percorre toda a extensão do corpo em todos os exemplares de flagelados
examinados e que os flagelos são em numero de quatro, dos quais tres anteriores
c um recorrente, aderente à membrana. O citostoma poude também ser visto
sob a forma de pequeno entalhe anterior e situado do mesmo lado da membrana
(Fig. 5).
Em esfregaços das culturas que rimos mantendo, feitos 10 dias após o
repique, os flagelados se apresentam com dimensão maxima de 12ii X 9u.
4
F. DA Fonseca — Protozoários parasitas. IV
47
geralmente piriformcs, com extremidade posterior curta e aguda, núcleo com-
pacto, geralmente de situação lateral, citostoma alongado, protoplasma muito
granuloso e axostilo pouco risivcl (Fig. 6). Os flagelos são extremamente
longos, atingindo os tres flagelos anteriores em uma Trichomonas de 8p,
respecti\-amente, 16p, 22p e 24p. A membrana ondulante é de coloração dificil,
mas nas vezes em que sua presença poude ser obser\’ada, mostrou-se sinuosa,
acompanhando o corpo até à extremidade posterior, sendo margeado em todo
comprimento por flagelo que se apresenta li\Te cm grande extensão.
O exame das fezes, praticado dois meses depois, revelou ainda infecção
do Tapirus pela mesma Trichomonas, embora desta vez mais discreta.
Lamina tipo No. 3435, com exemplar desenhado marcado, corada pela
hemateina segundo Gilberto de Freitas e depositada na coleção da Secção de
Parasitologia do Instituto Butantan.
Eutrichomastix bertholdoi, sp. n.
(Fig. 7)
Em esfregaços de fezes foram vistas numerosas formas que coincidem com
a morfologia atribuida aos Eutrichomastix. Contorno circular, peri forme ou
alongado, com 5 a 8p5 de comprimento; citostoma presente, porem, geralmcnte
invisiwl, de situação bteral anterior. Núcleo anterior, volumoso, com cerca de
2p. com ou sem cariosoma visivel. Flagelos de regra pouco cromofilos, ao
contrario dos de Trichomonas tapiri, sp.n.. Em alguns exemplares foi, todavia,
possivel contar quatro flagelos que podem atingir até 13p em flagelado de
8p; grralmente dois dos flagelos são longos e dois curtos, derirando tres de
um mesmo blefaroplasta e outro de um granulo situado nas proximidades.
Só excepcionalmente foi possivel perceber recorrenda do flagelo. Unu faixa
corada percorre o corpo do flagelo, só sendo viíivel em alguns exemplares, nos
quais se vé fazer saliência na extremidade posterior.
A tentati\*a de obtenção de cultura em meio de Hogue não logrou bom
êxito.
A especie é assim denominada em homenagem a Frei Bertholdo v-on Mee,
que nos forneceu o hospedeiro.
Lamina tipo corada pela hemateina. No. 3380 da coleção da Secção de
Parasitologia do Instituto Butantan.
RESUMO
Em esfregaços de fezes de um exemplar de Tapirus raulinus de Pirapora,
Estado de Minas Gerais, foram encontradas as seguintes especies de protozoários.
48
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Endamoeba dobcUi, sp. n. (Figs. 1 e 2), com forma vegetativa de 8 p 5
a 13 p 6 e núcleo de 2 a 2 p 5, com cromatina disposta em grânulos periféricos
e cariosoma central ou sub-central com 1/6 a 1/3 do diâmetro do núcleo. Cistos
uninucleados com 4 p 25 a 7 p e morfologia nuclear idêntica à forma vegetativa.
Foi obtida cultura nos meios de Hogue e de Lõffler -j- Ringer.
Chilomastix navasi, sp. n. (Fig. 3), com 7 p 5 a 13 p de comprimento
e4p5a7pde maior largura, citostoma com flagelo, núcleo anterior com
2 p 5 de diâmetro, sem cariosoma individualizado e sem aglomeração de cro-
matina nos polos. Ha tres flagelos anteriores com 5 a 10 p. Não foi con-
seguida cultura em meio de Hogue. nem no de Lõffler Ringer, segundo
Simitch.
Trichotnonas sp. n. (Figs. 4, 5 e 6) com 8 p 5 a 12 p 5 de
comprimento por 6 — 12 p 5 de largura, elipticas ou quasi circulares, de núcleo
arredondado, anterior, com cerca de 3 p, citostoma longo e estreito, axostilo
fazendo saliência, tres flagelos anteriores, cujo comprimento, pode alcançar 20 p,
partindo de 2 grânulos basais. Em esfr^aços de fezes corados a membrana
ondulante parece curta, mas ao ultramicroscopio (Fig. 5), em cultura, foi rista
percorrer todo o corpo, margeada por um flagelo aderente. Cultura facilmente
obtida em meio de Hogue.
Eulrichomastix bertholdoi, sp. n. (Fig. 7). Contorno circular, piriforme ou
alongado, com 5 p a 8 p 5, citostoma presente, nudeo anterior com cerca de
2 p, com ou sem cariosoma visivel. Ha quatro flagelos, que podem atingir até
13 p nos maiores exemplares, e uma faixa corada que percorre toda extensão
do flagelado. Não foi conseguida cultura em meio de Hogue.
ABSTRACT
Following spedes of Protozoa were found in stool smears of a specimen
of Tapirus raulinus from Pirapora, State of Minas Gerais:
Endamoeba dobelli, n. sp. (Figs. 1 a. 2). Trophozoites measuring 8 p to
13 p 6. Nucleus with 2 to 2 p 5, a central or sub-central kan«-osome with
1/6 to 1/3 of the nucleus diameter and chromatin in shape of small peripheric
granules. Uninucleated cysts with identical nuclear morpholog>% measuring 4 p
25 to 7 p. Cultures were obtained in Hogue’s and Lõffler-Ringer media.
Chilomastix notusi, n. sp. (Fig. 3). Spedes with 7 p 5 to 13 p in lenght
and 4 p 5 to 7 p largest width. Anterior nucleus 2 p 5 in diameter, without
an indiddualized karj-osome or chromatic masses at the poles. There are three
anterior flagella from 5 to 10 p. Attempts to obtain cultures in Hogue’s and
Lõffler-Ringer media, after Simitch, were unsuccessfull.
r<
F. DA Fonseca — Protozoários parasitas. IV
49
Trichomonas tafnri, n. sp. (Fig. 4 to 6). An clHptical or almost circular
specics, mcasuring from 8 p 5 to 12 p 5 in Icngth by 6 to 12 p 5 in width.
••Vnterior deeply staining nucleus with about 3 p. An anterior long and narrow
cjtostomc and a projecting axostyle may sometimes bc seen. Three anterior
flagella, arising from two blephoroplasta, may reach up to 20 p in length. In
stained specimens the undulating membrane scems to be short; by ultramicros-
copical examination of cultures, however, she was seen to run along the whole
bod^ s length, bordered by an adherent flagelium (Fig, 5). The culture was
easily obtained in Hc^es media.
Eutrichomastix bertholdoi, n. sp. (Fig. 7). With circular, piriíomí or
elongated contour. 5 to 8 p 5 in lenght, cjlostome present. Anterior nucleus
about 2 p in lenght, with or without a visiblc kaiyosomc. There are íour flagella.
which might reach up to 13 p. and a stained stripe which runs along the
whole extension of the flagellate. .-Xttempts to cultivate this species in Hogue’s
médium were unsuccessfull.
(Tralianw da Sac^io d< Parasitolocia e Proto-
lootocia do Inatitoto Botaolan. Dado i pu-
blicidade cm daembeo d< 1940).
*
7
2 3 4
5 6 7
j — I -1—1 \
11 12 13 14 15 16
F. DA FoNSEtA — Protozoários ftarasilas. IV,
Mem. In«t. Rutantan
Vd. XIV — 1940
Fir 1
Endmtmofb^ »pL n.
Forma vrcrtalira.
Fi*. ’
Emd^msx^ doMU, tp. n.
Címol
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Thckcm^t^^ té/>tri, »p. nu
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Trtck^m*íH»4S té^rí, »p. tu
Emirifk ^ mú J fit brrtk^4m, %p^ o.
Fií. 7
SciELO
I 11 12 13 14
595. 42:616. 9«S. 5
NOTAS DE ACAREOLOGIA
XXX. Familias, genero e especie novos de acaríanos parasitas
do pulmão de serpentes (^Acari. Pneumophionyssidac, n. fam. e
Entonyssidac, n. fam.)
POR
FL-WIO DA FONSECA
Os acaríanos parasitas das vias respiratórias ficam distribuidos nos gêneros:
Rhinonyssus Trouessart, Rhinonyssoides Hirst, Seonyssus Hirst, Seonyssoi-
des Hirst, PtUonyssus Berlese & Trouessart, Sommalcricola TrãcÀrdh e
Slemoslonum Trouessart que parasitam Aves; Halarachnc Allman, parasita
de Phocidat; PncumonyssMS Haas & Grijns, encontrados no pulmão de Pri-
matas; Entonyssus Ewing e Ophiopncumicola Hcbbaro, ambos scrpenticolas.
Interessam-nos sobretudo os dois últimos gêneros, por induirem parasitas
de serpentes, tal como o novo genero a que se refere o presente trabalho.
Entonyssus Ewi.vc, 1923 (I) c caraaerízado pela mandibula cujo dedo fixo
tem forma de harpão, sendo o dedo movei fakiforme, c tem como espede tipo
£. hallt Ewi.vc. 1923. ,-\ ele pertencem ainda: £. riley Ewing, 1924, £. glas-
macheri V'itztiicm, 1935 e £. ni-ingt Hcbbard, 1939.
Ophiopncumicola Hubbaro, 1938 (2) apresenta o dedo fixo apenas encur-
vado, sem o dente retrogrado encontrado em Entonyssus, sendo o dedo movd
também fald forme; deste genero apenas c conbedda a espede tipo, Ophiopncu-
micola colubri Hcbbard, 1938.
O proprío autor do genero Ophiopncumicola julga possivcl venha a ficar
demonstrado que Ophiopncumicola Hcbbard, 1938 seja sinonimo de Entonyssus
Ewing, 1923. Julgamos, porem, que os caracteres das mandibulas bem como a
ausenda dc cerda bifida no apice do 4.° articulo dos palpos em O. colubri falam
a favor da \-alidade generíca de Ophiopncumicola Hcbbard.
A ocorrenda digna dc nota de dois generos de acaríanos especializados no
parasitismo do pulmão de serpentes, vem juntar-se agora a dc um outro genero
cm
vSciELO, ; l 1 12 13 14 15 16 17
54
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
dotado do mesmo tropismo, compro\-ando ainda uma vez que os sacos pulmonares
de Ophidia representam habitat de primeira ordem não só para outros grupos
de parasitas, tais como Pentastomida e Nematoda, como também para os Acari.
Necropsiando um exemplar da coral opistoglifa Erythrolamprus aesculapii
L., 1758, proveniente de Botucatú, Estado de S. Paulo, obseiramos a ocorrência
de algtms acarianos que se locomoviam livremente no interior do saco pulmonar.
E.xaminando o pulmão com os acarianos ainda vivos e moveis ao microscopio
entomologico, tivemos a impressão de que se tratava de penetração post-mortem de
ninfas de Ophionyssus serpentium (Hirst), especie importada e que se aclimatou
em nosso serpentário, de^ndo à côr raiada de vermelho e à rapidez dos seus
mo\'imentos. Tal hipótese foi, porém, l(^o afastada ao sabermos que o nosso
auxiliar de laboratorio tinha acabado de sacrificar por decapitação o ofidio,
que se encontrava em ótimas condições de vitalidade.
Elxaminando o material depois de montado em liquido de Berlese, ficou
comprovado tratar-se de um novo acariano pertencente a um genero diverso de
quantos c.xistem descritos.
Na sistemática dos Dermanissideos {sensu lato), tem prevalecido ultima-
mente o critério da subdirisão em familias, segundo os caracteristicos fornecidos
pela gnatosoma, especialmente a forma das mandibulas. Em Dertnanyssidae
Kolenati, 1859 (sensu strictu) as mandibulas têm forma de estilete; em Lipo-
nissidac Vitzthum, 1931, apresentam o aspecto de tezouras sem dentes ou
cerdas nos digiti; em Ixodorhynchidae Fonseca, 1934, apresentam um só digitus
provddo de dentes recuivados.
Quanto à subfamilia Entonyssinae Ewing, 1923, deverá, logicamente, tal
como sucedeu a Ixodorhynchinae Ewing, 1923, ser elevada à categoria de
familia, modificada a diagnose para incluir o genero Ophiopneumicola Hubbard,
1938.
Diagnose de Entonyssidae, fam. n.: Mandibula com dedo movei falciforme
e dedo fixo em forma de harpão, com dente retrogrado, ou com ambos os dedos
faldformes, sem dentes ou cerdas. Genero tipo: Entonyssus Ewing, 1923.
O encontro de um novo parasita que não se deixa enquadrar em familia
alguma das ate hoje reconhecidas, pois a mandibula é constituida por um digitus
mobilis fortemente encur\'ado para fóra e por um digitus fixus nidimentar, obriga-
nos a erigir a nora familia Pneumophionyssidac, fam. n.
Pneumophionyssidae, fam. n.
Diagnose — Mandibula da femea constituida por um digitus mobilis bem
desenvolvido, porém, fracamente quitinizado e fortemente encurvado para fóra
e por um digitus fixus rudimentar, ambos sem dentes ou cerdas.
Genero tipo: Pneumophionyssus, gen. n.
F. DA Fonsec\ — Xotas de Acareologia. XXX
55
PXEUMOPHIOXYSSUS. gcn. n.
Mandíbulas sem cerdas, com um só digitus bem desenvolvido, o digitus tiio-
bilis, fracamenie quitinizado, encur\"ado para fóra em angulo reto, desprovido
de dentes ou ganchos.
Especie tipo: Pneumophionyssus aristoterisi, sp. n.
Descrição da 9
O idiosoma mede 680 p de comprimento por 340 p ao nivcl do 4.° par.
Face ventral (Eig. 1).
F»«. I
9p. o.
TfOtr»!
Placa cstcmal — Muito mais longa do que larga, sem prolongamentos entre
as coxas, fracamente quitinizadas, medindo 130 p de comprimento por 90 p de
largura ao nivel' do par de ccrda posterior. Super f ide não reticulada, fraca-
mente pontilhada, poros invisi\-eis. Apresenta tres pares de cerdas sub-iguais,
3
2 3 4
5 6 7
W _l_ J — I J_J \^\
11 12 13 14 15 16
56
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
de 15 n, equidistantes, os anteriores nos ângulos anteriores e os posteriores muito
à frente da margem posterior.
Placa genital — Curta e estreita, de extremidade posterior acuminada, com
cerca de 125 p de comprimento por 50 p de maior largura, com estrias longitudi-
nais e sem cerdas, não apresentando mesmo nem o par genital.
Placas mctacstcmal e inguinal invisiveis.
Placa anal larga, com 80 p de maior largura, de comprimento impossivel de
medir por acompanhar a curvatura da extremidade posterior do corpo. Anus
largo, a 22 p da margem anterior da placa. Cerdas pares mais longas do que a
impar, as primeiras com 55 p e a ultima com 25 p, ficando as anteriores mais
ou menos ao nivel do bordo anterior do anus.
A superficie descoberta da face ventral apresenta 5 pares de cerdas, lisas,
como todas as outras nesta especie.
Estigmas ao nivel do 4.° par de coxas. Peritrema curtissimo, não ultra-
passando o bordo anterior da coxa IV.
Face dorsal (Fig. 2).
rit. 2
Pn«mnophionyMaf arUtoterUl» tp. n-
Fac« dorsal
4
F. DA Fonsecv — Xotas de Acareologia. XXX
57
Escudo dorsal de quitinização muito fraca e de limites dif iceis de perceber
quando o material não se encontra bem clareado. Mede 320 p por 196 p de
maior largura ao nivel do 2.® par de patas, ficando a extremidade posterior um
pouco para trás do nivel da extremidade posterior da placa genital. A super-
fide do escudo c finamente pontilhada, reticulada na meude anterior, apresen-
tando cerca de sds pares de cerdas muito curtas, dos quais só o 4.® e o 5.®
ficam bem para dentro das bordas. O escudo, que dei.xa a descoberto quasi
todo o opistosoma, atenua-se rapidamente para trás, a partir do nivel do 3.® par
de patas, terminando em ponta, sem cerdas posteriores.
A larga superfide descoberta é praticamente glabra, apenas ocorrendo cerca
de 6 pares de cerdas, dos quais tres marginais anteriores e um posterior.
Gnatosoma
CoAtoiom*
o gnatosoma se acha quasi intdramente recoberto pela extremidade anterior
do idiosoma, apenas a extremidade das mandibulas ultrapassando esse limite.
MaxiUicoxae com os quatro pares habituais de cerdas;
Corniculi muito fracamente quitinizados e de aspecto normal ;
Labrum membranoso, bifido no apke, sem pêlos.
Mandibulas — Tibia largo e longo, com 85p x 22p, retraídos cm todos os
exemplares. Dos digiti só o digitus mobilis se acha bem desenvolvido, apresen-
tando-se largo na base, encurvado para fóra em angulo de 90®. Dá a impressão
de csca\'ado em todo o seu comprimento. Do outro dedo apenas parece haver
um rudimento, pouco maior do que um tubérculo e com situação interna. Não
ha pulvillutn nem püus dentUis.
58
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
P aipos normais, com cerda bífida no 4.° articulo.
Tritosterno bifido, com raros pêlos curtos.
Patas — Finas, não dilatadas, sem espinho, quer nas coxas, quer nos
restantes artículos. Coxas I e III com 2 cerdas e coxa IV com uma só. Tarso
IV muito mais longo do que os outros. Todas as patas com pulvillum e duas
garras fortes.
Descrito de dois cotipos 9 9 , dos quais um dissecado para estudo do gna-
tosoma, No. 1887 da coleqão de Acari. Tres paratipos do mesmo hospedeiro,
No. 1956 da mesma cole<;ão. Macho desconhecido.
Hospedeiro tipo — Erythrolamprus aesculapii L., 1758.
Localidade tipo — Botucatú, Estado de S. Paulo, Brasil.
Data da captura: 23-IV-1940.
O nome especifico é dado em homenagem ao auxiliar da Secção de Para-
sitologia. Sr. Aristoteris T. Leão, que encontrou os acarianos estudados neste
trabalho.
ABSTRACT
Two ne^v families of parasitic Acari are erected. Entonyssidae, n. fam. to
include Entonyssus Ewing, 1923 and O phiopneumicola Hubbard, 1938, with
following diagnosis: Mandíbula with movable arm falciform and fixed arm
harponlike, with a retrograd tooth or with both arms falciform, without teeth
or setae. Type genus: Entonyssus Ewing, 1923.
Pneumophionyssidae, n. fam., including Pneumophionyssus, n. gen., with
following diagnosis: Mandíbula of the female with a long morable arm, which
is weakly chitinized and strong curved out^vards; fixed arm unconspicuous ;
there are no teeth or setae. Type genus: Pneumophionyssus, n. gen..
The new spcdes Pneumophionyssus aristoterisi, n. sp., is also described from
females found in the lung sac of the snake Erythrolamprus aesculapii L.. 1758,
from Botucatú. S. Paulo, Brazil.
BIBLIOGRAFIA
1. Ewing, H. E. — The Dermanyssid Mites of North America — Proc. U. S. Xat.
Museum 62(13) :1-26.1922.
2. Hubbard. W. E. — Ophiopneumicola cotubri, n. g., n. sp.. a lung mite from a snake —
Trans. Amer. Microsc. Soc. 57(4) :40(M06. 1938.
6
(Trabalho da SccqIo de Parasitolo^a e Proto-
roolofia do Instituto Butantan. Dado à publi-
cidade em dezembro de 1940).
S»S. 42:616.968.5
NOTAS DE ACAREOLOGIA
XXXI. Bolivilaelaps tricholabiatus, ge/u n., sp. n. (Acari.
Laelaptidae)
POR
FLAVIO DA FONSECA
Os Laelaptidae, parasitas dc vertebrados que apenas apresentam um par de
cerdas na placa genital ou genito-ventral, ficam dístribuidos pelos generos Cyclo-
laelaps Ewisc, Eubrachylaelaps Ewinc, Hemilaelaps Ewinc, Atricholaelaps
Ewing, Neoparalaelaps (Fonseca) (= Paralaelaps Fonseca), Caxilaelaps
Fonseca, hchnolaelaps Fonseca e Gigantolaelaps Fonseca. De todos estes
SC distingue o novo gcncro abaixo descrito pela expansão do assoalho do hipo-
fannge que o toma extremamente característico.
BOLIVII^\EL.\PS. gen. n.
Laelaptidae de pequenas dimensões, com genito-ventral não expandida c
trazendo só o par de cerdas genital. Gnatosoma com expansão labial membra-
nosa provida dc cerdas rombas no bordo 1í\tc. Especic tipo: liolhnlaelaps
tricholabiatus, sp. n..
Bolivilaelaps tricholabiatus, sp. n.
Só a femea c conhedda.
Laelaptidae. Dc contorno cliptico muito regular, apenas mais afilado na
extremidade anterior, com patas ligeiramente alargadas, tais como as da maioria
das especies de Laelaps, sensu strictu; placas pouco quitinizadas, sem verdadeiros
espinhos no corpo; gnatosoma com expansão membranosa prorida dc longas
cerdas rombas. Comprimento do idiosoma 590 p c largura maxima 385 p. em
ambos os cotipos.
cm
vSciELO, ; l 1 12 13 14 15 16 17
GU
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Fi». 1
Face rentral de tiin cotipo Ç
Face vcntral
Placa cstcrnal fracamente quitinizada, com reticulo apenas perceptível com
aumentos fortes, emitindo prolongamentos entre as coxas lellellelll,
de bordo anterior ligeiramente convexo e posterior levemente concavo. As
cerdas são sub-iguais, medindo o par anterior, implantado no bordo anterior, 58p,
o medio 62p e o posterior 65p; as cerdas se encontram em uma mesma linha
antero-posterior divergente para trás e são afiladas e lisas. A placa tem 104p de
comprimento na linha mediana, por 108p de menor largura. Ha dois pares de
poros em forma de fenda com a situaqão habitual.
Placa genital. — De quitinização fraca, praticamente não apresenta dilatação,
terminando em prolongamento posterior de extremidade arredondada. Apresenta
duas linhas transversais, posteriores e côncavas jara a frente, e um reticulo
escamoso à frente destes. Xelle só se implanta o par de cerdas genital, cujos
elementos medem -lóp. A largura maxima da placa é de 77p.
Placa anal. — É cordiforme e tão longa quanto larga, medindo 97p por
97p. O bordo anterior é convexo e a zona do cribrum termina muito afilada,
apresentando 3 series de estrias. A superfície é reticulada. O anus mede, 31 p
por 19p e fica a 8p do bordo anterior. As cerdas pares medem 30p, ficam
logo atrás do nivel do meio do anus e muito mais próximas deste do que dos
bordos laterais da placa. cerda impar assenta sobre uma ele\-ação da superfí-
cie e é bem mais forte do que as pares, estando fraturada em ambos os cotipos.
Placas inguinais. — Elípticas, de situação muito externa, medindo cerca
de 24u de comprimento.
2
F. DA Fonsec.4 — Sotas de Acareologia. XXXI
61
A restante superfide descoberta tem 12 a 15 pares de cerdas de cada lado,
sendo as dos bordos do corpo mais desenvoKndas.
Estigmas ao nivel do intervalo entre as coxas III c IV.
Perítremas percorrendo o bordo \-entral até o nivel do bordo posterior da
coxa II. passando em seguida ao bordo dorsal, sendo \nsivel até o bordo antenor
da coxa I. Peritrematalia prolongando-se para trás dos estigmas, tal como cm
Laelaps, apresentando ai um pequeno poro, acompanhando o peritrema até a
extremidade anterior do escudo dorsal.
ric. 2
Fac« <lor»al <k um emipo 9
Face dorsal
Escudo dorsal. — .\ face dorsal é recolxrta por um escudo dorsal unico,
de quitinização fraca, porém mais intensa do que a das placas ventrais, dc
superfide reticulada. Sua extremidade anterior, afilada, funde-se com as
peritrematalia. apresentando os seus bordos laterais sinuosidade muito pronun-
dada, correspondente às espaduas, e ligeiras condulaçõcs dai para trás. O bordo
posterior, muito regular, é largo e arredondado, ficando ao nivel da cerda
posterior da placa anal. Em toda volta da face dorsal lia uma faixa de tegumento
nú. exceto na extremidade anterior. Esta faixa é, na região do propodosoma,
em parte recoberta pelas peritrematalia em seu percurso dorsal. O comprimento
do escudo dorsal é de 48Sp e sua maior largura, ao nivel do 4.® par de patas,
é de 329p. A quetotaxia do escudo é a seguinte: além das cerdas verticais e
de um par que lhes fica proximo. existem 11 pares de cerdas submedianas, com
cerca de 46p, exceto o ultimo que mede apenas 34p. Ha taml>em 11 pares de
62
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
cerdas marginais ou submarginais e cerca de 15 pares entre estes e as sub-
medianas, todos mais ou menos com 45p; existe, finalmente, um par marginal
posterior com 73u. A zona marginal posterior descoberta, apresenta a partir
do intervalo entre as coxas III e IV algumas cerdas de dimensões progressi\'a-
mente crescentes, medindo o par posterior, que é de muito o maior, 85p. Além
do reticulo não foram vistas outras marcas no escudo, que não apresenta
escultura.
Palas
As patas I e III são um tanto alargadas, especialmente a II. As coxas não
têm espinhos e sim cerdas fracas, as quais na coxa I ficam no bordo posterior,
sendo a distai mais fina, tal como a da coxa IV. Em todas as patas, excetuando
as do par I as cerdas mais fortes são as dos tarsos. No lado dorsal da c.xtre-
midade distai do tarso I ha um tufo de cerdas fracas. Os tarsos todos terminam
cm expansão membranosa com 2 garras muito fracas.
Gnalosotna
Fif. i
Gnato»om& <U Ç
Palpos normais, com cerda bifida no apice do 4.® articulo.
Trítosterno pectinado nos 2/3 distais, longo e bifido.
Maxillicoxae separadas por uma rima hypopharyngis que apresenta vai ias
series de denticulos pouco nitidos. Das cerdas as posteriores inlernae são muito
mais longas do que as externae, as anteriores e as maxillicoxales. Os corniculi
são ligeiramente mais quitinizados do que a restante superficie.
4
F. DA Fonseca — Sotas de Acareologia. XXXI
63
Labto — O plano ventral s^uinte é constituído por uma expansão
membranosa que parece partir do hipo faringe, alcançando o apice dos comiculi,
a qual apresenta toda a margem recoberta de cerdas, tanto mais longas e fortes
quanto mais posteriores, recobrindo a face ventral dos comiculi. Tais cerdas
têm extremidade romba e ligeiramente dilatada, assemelhando-se a baguetas de
tambor.
Labro — Com estriação longitudinal, terminando em ponta que alcança
e ultrapassa o apice das mandíbulas.
Slyli sob a forma de hastes delgadas, encurs’adas para dentro.
Mandibulas fortes, com f>uhHlus atrás do digitus mobilis e cerda curta
atrás do digitus fixus. Pitus dentilis extremantente dilatado na base e de apice
encur\-ado e fino, apresentando perfil de uma ave. Digitus mobilis bem mais
longo do que o digitus fixus e de apice encurs^ado recobrindo o apice do seu
oponente.
O digitus mobilis parece ter dois dentes fortes e o digitus fixus um só
dente.
Epistoma membranoso curto e dificilmente perceptível.
Descrição feita de dois cotipos montados na mesma lamina, No. 243 da
coleção do Instituto Butantan. O material foi capturado sobre Isothrix bistriatus
Wagner, na BolisHa, e remetido ao autor pelo dr. Fabio Wemcck. do Ins-
tituto Oswaldo Cruz, ao qual fica consignado agradecimento.
5
SciELO,
5
64
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
ABSTRACT
Bolh-ilaelaps, n. gen. is erected to include a new species of Laelaplidae
from Isothrix bistriatus Wagner, foimd in Bolivia.
Diagnosis: Genito-ventral plate not enlarged, bearing only the genital pair
of setae. Labium with membranous expansion, bearing stout setae with slightly
expanded extremities.
Type spedes: BoUvilaelaps trícholabiaius, n. sp..
(Trabalbo da Secçio de Parasitolocia e ProCo*
xoolocia do Instituto Butantan. Dado i
blicidade cm dezembro de 1940).
G
5»I.4:5»S.S2
SOBRE A MUSCULATURA DA SCOLOPEJSDRA
VIRIDICORMS NEWP.
Uma contribuição para o estudo comparativo da musculatura dos
Quilopodos e Insetos
POR
WOLFGAXG BÜCHERL
Em Bronn’s Klassen und Ordnungen des Ticrrciches, 1925, VERnoEFF
escreve à pag. 60: "A musculatura dos Quilopodos espera ain<la por um estudo
detalhado, existindo ate hoje apenas dois trabalhos pequenos neste ramo, um
de Meinert (Caput Scolo(>cndra, 1883) e outro de Verhoeff (Zoolog.
Ergeb., 1896).
\ musculatura das patas foi tratada parcialmcnte por Verhoeff, 1902, in
"Thorax der Insecten. mit Berücksichtigung der Chilopoden”, Halle, Nova .*\cta.
Foi feita uma descrição mais detalhada, em 1903, pelo mesmo autor.
No capitulo "Vergleichende Morphologie und Phylogcnie”, Bronn’s 1925,
pag. 385, Verhoeff fai ligeiras considerações comparatis*as sobre os sistemas
musculares dos Litobiomorfos e Geofilomorfos.
Toma-se necessário, portanto, realiiar um estudo comparativo mais apro-
fundado, baseado prindpalmente sobre a musculatura dos Escolopendromorfos,
que são os mais emluidos entre os Quilopodos e sobre os quais Verhoeff quasi
nada tem feito.
Ê o que procuramos fazer no presente trabalho, ser\"indo-nos de modelo
a Scolopendra viridicornis Newp.. Não consideramos a musculatura da capsula
cefalica, já estudada por Mein.nert, nem tão pouco a dos apendices cefálicos,
descritos por Verhoeff.
Os musculos dos orgãos internos já foram estudados num dos recentes
trabalhos do autor.
I
cm
vSciELO, ; l 1 12 13 14 15 16 17
GG
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
1. Musculatura e tegumento
A musculatura e o tegumento quitinoso apresentam muitas relações tanto
fisiológicas como morfologicas, prindpalmente quanto à origem e inserção da
primeira e quanto à forma externa do ultimo. Estas relações são tão importan-
tes que não é possivel interpretar com precisão a morfologia externa (p. ex. a
origem dos sulcos episcutais, a grossura e a diminuição de profundidade das
carinas laterais, os sulcos transversais dos pre-tergitos e pre-estemitos, a posição
e a forma externa dos escleritos pleurais, principalmente daqueles que concorrem
na formação da coxa, das reentrâncias e depressões nos tergitos e estemitos,
etc...) sem que se estude ao mesmo tempo o percurso e a direção dos feixes
musculares e os seus pontos de origem e inserção.
Não é facil distinguir a origem e a inserção de um musculo, porque ambos
estes pontos, à primeira vista, parecem ser idênticos.
Afim de extinguir qualquer duvida, definimos logo no principio o que se
entende por "origo” e “insertio” de um musculo. Denominamos “origo” o
lugar em que o musculo estabelece contacto com uma parte imóvel do tegumento
quitinoso e "insertio" quando estabelece contacto com uma parte movei.
Portanto, estando um musculo em atividade, a parte fixa corresponde à
origem, servindo de ponto de apoio à mecanica muscular e a parte movei à
inserção, sendo mo\'ida pela pressão ou tração muscular.
Em caso pratico nem sempre é facil distinguir estes dois pontos. Toma-se
necessário, então, fazer funcionar o musculo.
Os feixes musculares acompanham em linha geral a segmentação homo-
noma do tegumento externo dos Quilopodos. Esta disposição segmentar é
nitida principalmente nos feixes musculares pleurais, dorso- e ventro-pleurais
(Vide Foto 5).
A rede traqueal apresenta igual disposição homonoma, saltando porem cada
vez um segmento, afora os primeiros e últimos, nos quais os canais respira-
tórios obedecem a uma orientação particular.
A rede traqueal penetra por entre os feixes musculares, envolvendo-os total-
ou parcialmente e separando-os desta maneira entre si (Vide Foto 4 “a”). As
duas anastomoses ventro-longitudinais grossas correspondem duas dorso-longi-
tudinais finais. Destas anastomoses como também das outras traqueias, que
saem dos estigmas, partem inúmeras traqueolas que formam verdadeira rede
respiratória, terminando no sarcolema das fibras estriadas.
2
WoLFCANG BCxhehl — Scolopendnt viridicornis NEWP.
67
As traqueias e traqueolas separam os feixes musculares, subdividindo-os mui-
tas vezes em subfeixcs, como se pode ver nitidamente na Foto 5 no tocante aos
feixes dorso-longitudinais.
Para que possamos dar uma noção nitida da origem e inserção dos feixes
musculares, toma-se necessário descrever antes o aspecto interno dos segmentos.
a) Aspecto interno dos segmentos
Sem duvida os Quilopodos descendem de formas traqueadas primiti\’as,
cujo corpo era dividido cm metameros bomonomos e debaixo de cuja cuticula
encontrava-se uma camada muscular, subdi\*idida em fibras longitudinais c
circulares.
Com o progresso da quitinisação das placas dorsais e ventrais e das ilhotas
pleurais, tomou-se impossivcl que a camada muscular primitix-a continuasse na
mesma espessura c uniformidade conx> dantes. Inidou-se então o processo de
separação cm 3 zonas tipicas dentro de cada metamero: o tergito, o estemito
e, unindo-os de cada lado, os pleuritos. Concomitantemente a musculatura dis-
solvcu-se cm feixes proprios para cada uma destas regiões e cm feixes que
uniam as 3 zonas.
A quitinisação não se processou de modo igual cm todo o corpo, sendo,
cm primeiro lugar, mais rapida nas zonas que eram dirctamente expostas às
inclemências do clima, da luz, dos inimigos (placa cefalica, ultimo sarnento,
tergitos, patas) e, em segtmdo lugar, nas rrçiôes que conser\a\am contacto com
o solo (estemitos). As tentas peles pleurais apenas sofreram quitinisação cm
algumas porções drcunscritas, aglomeradas prindpalmentc na região da inserção
das patas locomotoias e dos estigmas. Analogamente evoluiu a musculatura',
sendo a dorsal a mais forte (Vide Foto 4) c a ventral também muito espessa
(Vide Foto 5), enquanto que os fd.xes pleurais são rclati\-amcntc fracos, ainrla
que numerosos.
Os fdxes musculares, prindpalmentc dos tergitos c estemitos, afim de pode-
rem realizar plenamcnte sua função, receberam um auxilio eficaz i>ela fomiação
de trabéculas, apófises, dobras, articulações, suturas, sulcos, reentrandas e de-
pressões da quitina.
Portanto, as articulações desU segmenução, chamada "secundaria”, para
ser distinguida da “primitira”, são meras formações tegumentares, oriundas
pela intercalação de pdes membranosas entre elementos quitinisados juxUpos-
tos, distantes ou sobrepostos.
3
2 3 4
5 6 7
W _l_ J — I J_J \^\
11 12 13 14 15 16
C8 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Nos Quilopodos o ultimo caso é o mais frequente, ocorrendo não só entre
os articulos das patas, mas também, ainda que com algiunas modificações, entre
os tergitos e estemitos. Desta maneira, estes últimos parecem sobrepostos como
as telhas de um telhado, sendo unidos por peles membranosas dobradas, nas quais
inserem-se os feixes musculares longitudinais (Vide Fig. 1). A tração destes
feixes motivou a superposição articular das placas quitinosas, dando origem
aos pre-tergitos e pre-estemitos. Esta região conservou sua mobilidade primitira
(Vide Figs. 1 e 2 “c”), indispensável para os movimentos locomotores. Attems
in “iDas Tierreich, 54. Lieferung, 2. Scolopendromorpha 1930,” diz à pag. 9:
“Comparando os Escolopendromorfos com os Geofilomorfos vemos que nos pri-
meiros a formação de sarnentos intercalares é quasi nula. Pretergitos nitidos
só existem nos Cryptopinae, Theatopsinac e Asanada."
Esta afirmação de Attems é um tanto confusa. Ainda que não existam
l>re-tergitos nitidos nas Escolopendras, vimos, contudo, obsei^-ando os tergitos
pelo lado interno, em frente ao tergito uma fileira de 6 escleritos, servindo
todos eles de ponto de inserção aos feixes musculares (Vide Figs. 1 e 2 “a”).
Estes escleritos pertencem ao tergito seguinte, sendo separados dele apenas por
um sulco horizontal (Vide Fig. 1 — tergitos em estado natural e Fig. 2 — ter-
gitos distendidos). Os dois sulcos paramedianos (b) atravessam todos os ter-
gitos, continuando mesmo na zona dobrada e terminando nas peles membrano-
sas finas.
Veriioeff in Bron.n*’s Klassen u. Ordnungen des Tierreiches, Arthropoda,
Chilopoda, 1925, considera estes escleritos como diferenciações morfologicas dos
tergitos. Neste ponto tem ele razão, porém não menciona si são diferenciações
do tergito anterior ou do posterior. Alem disso Veriioeff nega a existência
de qualquer fei.xe muscular longitudinal proprio a estas zonas intersegmentares.
Quanto à primeira asserção já dissemos que nas Escolopendras existem ape-
nas pre-tergitos (sob a forma de 6 escleritos enfileirados) (Vide Figs. 1 e 2 “a”)
cobertos pelo tergito anterior e servindo de lugar de inserção a elementos
musculares.
Sobre a existência de feixes musculares, proprios aos pre-tergitos, falaremos
num dos capitulos seguintes.
Nas zonas laterais do lado interno de cada tergito observamos frequente-
mente sulcos fracos, curtos e muitas vezes bi- ou tripartidos que não aparecem
exteriormente, mas cujas bordas internas são constituídas por elevações quiti-
nosas que oferecem boas bases para a origem muscular (Vide Figs. 1 e 2).
Alem dos dois sulcos paramedianos dos tergitos e estemitos e das saliendas
internas originadas por ele\Tições da quitina, obsei^mnos, principalmente nas
zonas plcurais, trabéculas quitinisadas, servindo igualmente de lugares de in-
serção aos musculos.
4
WoLFGANG BCxherl — Scolopendm viridicornis NEWP.
69
b) Origem e inserção muscular
Nas Escolopendras não encontramos nenhum caso em que os feixes mus-
culares se unissem diretamente com o tegumento quitinoso, como acontece fre-
quentemente nos Insetos, mas estabelecem sempre contacto direto com a epiderme
subcuticular (Vide Microfoto 1 “d”). A zona de união é constituida pela base
das células epidérmicas. A membrana basilar c sempre nitida e sdsivel (como
se ve pela Microfoto mencionada), terminando nela o feixe muscular, quasi
sempre por meio de um campo claro (b). .A primeira estria transversal (campo
escuro) ora é próxima, ora distante da referida membrana. .*\ epiderme sub-
cuticular oferece geralmente nas zonas em que terminam os musculos, um aspecto
diferente das regiões livres de fibras musculares. Suas células são mais dlin-
dricas. comprimidas lateralmente e de contornos irregulares. Em sua estrutura
interna pres-alecem elementos fibrilares (dos quais originam-sc as conhecidas
tonofibrilas) (c). Estes são amontoados em pequenos fei.xes, que terminam na
parede anterior das células em forma de cone ou cilindro. Atravessam, portanto,
as células da epiderme de lado a lado (Vide Microfoto 1 “c”).
Entre as tonofibrilas e as fibras musculares medeia, como já dissemos, a
membrana basilar (a). Este fato constitue uma prora de que as primeiras são
de origem epidérmica e não muscular.
Em alguns lugares pudemos obser\-ar núcleos por entre as tonofibrilas.
Trata-se de núcleos epidérmicos, apresentando forma diferaite da tipica, i. c,
não são geralmente redondos com posição central na cclula, mas fusi formes c
deslocados para uma das paredes laterais.
Nas zonas, porem, em que se aproxima apenas um feixe muscular delgado,
existindo, por conseguinte, poucas tonofibrilas, as células apresentam-se com
aspecto quasi normal, consers-ando sua forma dlindrica e não diferindo seus
núcleos dos normais.
Na endocuticula (Vide Microfoto 2 “a”) não conseguimos observar os cha-
mados “cones fibrilares” ou “cilindros fibrilares”, mencionados por Sciiclze
e Pèkez (Vide bibliografia) como presentes nas camadas subcuticularcs de nu-
merosos Hexapodos.
Nas zonas de aglomeração de feixes musculares, não havendo lugar para
que todos estabeleçam contacto direto com a epiderme, como acontece quando
uma dobra de quitina penetra profundamente pelo tronco, ou quando se encontra
uma saliência acentuada da mesma, observamos “tendões” (Vide Microfoto 2).
São de natureza quitinosa, homogenea, apresentando-se aqui sob a forma de
faixas largas, arredondadas apicalmente, acolá sob a forma de alças longas, com
70
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
apice alargado. Ocorrendo ao longo da parede interna das placas fortemente
qiiitinisadas e imóveis, formam os pontos originais dos musculos; encontrando-se,
ao contrario, no interior do tronco ou nas peles membranosas, são as bases da
inserção muscular.
A origem dos tendões subepidermicos pode ser explicada facilmente pela
inraginação das células epidérmicas, de um lado, e pela junção e prolongação
das tonofibrilas, do outro.
Mais dificil é explicar como se originaram os tendões, nos quais se inserem
os feixes musculares horizontais, p. ex. das paredes laterais do coxostemum
forcipular (Vide Microfoto 3 “a”). Estes tendões (b) perderam completa-
mente o contacto com a epiderme do tegumento, apresentando, contudo, natu-
reza quitinosa e alguns núcleos epidérmicos pequenos (c). O plasma epidérmico,
entretanto, acha-se ausente ou foi gasto na formação destes tendões. Trata-se
certamente de uma invaginação profunda de zonas tonofibrilares da epiderme,
processada durante os períodos embrionários. Durante a evolução seguinte, as
porções epidérmicas tonofibrilares, inraginadas cada vez mais pela tração exces-
siva dos musculos, sofreram uma ruptura progressiva nas zonas próximas ao
tegumento, indo alojar-se definiti\-amente no interior do tronco e ser\nndo de
trave de inserção aos dois feixes horizontais simétricos do coxostemum forci-
pular (Vide Microfoto 3).
Fato analogo pode ser observado nos limites entre os dois estemitos de
cada segmento. Ai obser\-amos dois musculos ventrais, quasi horizontais, que
se unem na linha mediana por meio de um tendão facilmente visivel a olho nu
(Vide Foto 5 “a”).
Um tendão ainda mais nitido pode ser visto na mesma Fotografia-b, como
ainda em muitos outros lugares, em que se unem mais feixes musculares.
c) A musculatura
A simetria bilateral e a segmentação homonoma, próprias dos Quilopodos
e de seus ancestrais, manifestam-se na disposição e repetição dos feixes mus-
culares. A cada feixe corresponde um igual no mesmo metamero (Vide Figs.
3 e 4 e Fotos 4 e 5).
Para muitos AA. a segmentação dos Quilopodos é heteronoma. Não se
pode negar que estes tenham razão, si aceitarmos as duas palavras “homonomo
e heteronomo” no sentido restrito, porque, de fato, tomando dois segmentos
proximos, vemos que são desiguais. De outro lado, porém, os segmentos “estig-
G
WoLFGANG BCxherl — Scolopendm viridicornit NEWP.
71
matoforos” são iguais e os "astígmatoforos" correspondem-se igualmcnte. Desta
maneira o litigio entre os A A. é mais uma “lis de vcrbis".
Os feixes musculares acompanham esta desigualdade dos segmentos, i. é,
repetem-se quando ocorrem segmentos iguais (3.®, 5.®, 8.®, 10.®, etc., e 2.®, 4.®,
6.®, 7.®, 9.® 11.®, etc.). Da mesma forma que o 6.® e o 7.® segmentos são iguais,
neles se repetem os mesmos feixes musculares, como veremos depois.
A musculatura dos Quilopodos de>-e ser deri\*ada da dos Anelídeos, princi-
palmente dos Poliquetas ou Oligoquetas. Entre os Poliquetas a familia Neretdac
oferece muitas analogias com os Geofilomorfos, como c facil ver, comparando
series de cortes a microtomo provenientes de ambos. Nos Oligoquetas obserm-
mos 2 camadas musculares, a circular externa e a longitudinal interna. Os mús-
culos intersegmentares longitudinais dos Quilopodos deri\-am-se, sem duvida, da
camada muscular longitudinal dos Anelídeos. Progredindo a quitinisaqão, esta
camada foi deslocada para a linha mediana dorsal e ventral e veiu a constituir
os feixes dorsais e ventrais concentrados e divididos en> subfeixes (Vide Fig. 4
— aspecto interno de um segmento da Scolopendra tnridieornis Newp.).
Os musculos dorso-\xntrais, dorso-pleurais e a musculatura das patas ori-
ginaram-se da musculatura circular dos Anelídeos. Esta camada sofreu, de\ndo
á concentração dos feixes longitudinais na linha mediana, um deslocamento para
as zonas marginais dos tergitos (nas carinas laterais) e dos estemitos, \nndo a
constituir os musculos adma referidos.
Nos limites entre um e outro segmento, dentro da dobra do tergito ante-
rior, observamos nos tergitos feixes que vão em direção horizontal da linha me-
diana para as pleuras. Ê pro\*a\xl que estes feixes sc tenham originado da
musculatura dos “dissepimentos" dos Anelideos.
Os musculos "promotores" e “remotores" das coxas que sc originam aos
pares nos tergitos c estemitos, inserindo-se nas margens superiores c inferiores
dos escleritos da coxa, descendem igualmente da musculatura circular dos
Anelideos.
Os musculos, quer intersegmentares, quer segmentares, são repartidos cin
muitos feixes e subfeixes, de maneira que c difícil reduzi-los aos feixes pri-
mitivos simples (Vide Foto 5 e Fig. 3).
Contudo, aproveitando-nos da nomenclatura de Voss e adaptando-a ao nosso
caso, podemos distinguir os feixes musculares mais importantes (que sempre
ocorrem aos pares) da seguinte maneira:
72
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
I) Muscuios longitudinais
(Fig. 3 — mdl e mvl)
dorsais (Fig. 3 —
segmentares (Fig. 4 — mdls)
intersegmentares (Fig. 4 — md/i)
ventrais (Fig. 3 — »ii7)
segn^tares {mvls)
intersegmentares {mvli)
2) Muscuios dorso-ventrais
(Fig. 3 — mdv)
intersegmentares (Fig. 4 — mdíi')
segmentares (tndvs)
3) Muscuios pleurais
dorsais (Figs. 3 e 4 — md//)
ventrais (Figs. 3 e 4 — mi-pl)
4) Muscuios das patas
proprios
ventrais (m. subcoxales stemales)
Esta nomenclatura, por nós alterada, permite perfeitamente indicar com
exatidão a posição de um musculo dentro de um determinado segmento. É
suficiente indicar este segmento com um numero romano. P. ex. : VI "mdl” é
o musculo dorso-longitudinal do 6.° segmento.
Quasi todos os feixes musculares dos Quilopodos são subdivididos em prin-
cipais e secundários. Para determinar mais de perto estes feixes ajunta-se um
algarismo no fim da abreviação muscular, p. ex. : mdli = musculo dorso-lon-
gitudinal principal ou “primus”; mdl 2 = musculo dorso-longitudinal “secundus”.
Dissecando a Scohpendra viridicornis pelo lado ventral e afastando cuida-
dosamente do interior do seu tronco o corpo adiposo e os orgãos internos, depa-
ra-se-nos o quadro muscular da Fig. 3, que é um tanto esquematizado. A Fig. 4
apresenta uma reconstrução grafica esquematizada de um segmento com seus
feixes musculares. A Foto 4 mostra apenas os “mdl” e alguns feixes dorso-
ventrais.
1) MUSCULOS LONGITÜDIN.\IS
(Vide Figs. 5 e 6)
Na descrição dos muscuios dorsais partimos sempre do aspecto que se
obtem, quando se dissecam as lacraias pelo lado ventral.
Os muscuios longitudinais dos Escolopendromorfos subdividem-se em di-
versos feixes, segmentares uns, intersegmentares outros.
s
WoLFCANC BCcherl — Scolopendni viridicornis NEWP.
73
Os intcrscgmcntares são os mais importantes, caindo logo cm vista pela
sua extensão e espessura. Já não podem ser reduzidos mais ao caso primitiro
de m. long. principais ou medianos c long. secundários ou laterais.
Museulos dorso-longitudinais — O feixe dorso-longitudinal mais impor-
tante c o "Museulo dorso-longitudinal intersfgmentar “primus": mdlii” (Vide
Fig. 5). É visivel quando se abre uma lacraia pdo lado ventral. afastando-se
todos os orgãos internos. Localiza-se, portanto, no lado inferior dos feixes
dorsais, ficando a parte interna de seu feixe próxima ao coração. Não se
trata propriamente de um feixe extritamente longitudinal, porque diverge for-
temente para o lado externo (Vide Fig. 5 e Foto 4 “b”).
O mdlii ocorre somente nos segmentos "estigmatoforos” (Vide Figs. 3 c 5).
Apresenta forma de trapézio com a base maior para a frente.
Elste musculo só atinge a epiderme subcuticular nos pontos da origenf e da
inserfão, enquanto que as suas outras porções, cedendo lugar aos feixes dorsais
segmentares, extendcm-sc para o interior da zona dorsal (Vide Foto 4 "b”).
A origem do mdli, é a arca antero-mediana do segmento "estigmatoforo",
a começar no meio do tergito, na linha mediana, e a extender-se para a frente
até a saliência quitinosa, que demarca o limite anterior do tergito, sem, entre-
tanto, atingir a zona do pre-tergito propriamente dito (Vide Fig. 6, 1.®). Ao
longo da saliência quitinosa o musculo forma uma pequena dobra transversal,
acompanhando aquela (Vide Fig. 5: mdlii. cm frente).
.'\ penas poucas fibrilas anteriores do mdlii .sobrcpa.ssam a saliência, exten-
dendo-se para alem do pretergito. onde. sem que haja linha dirisoria muito nitida,
continuam imediatamente numa parle do feixe muscular longitudinal — mdlit
(Vide Fig. 5: mdlii, em frente). .\fim de poder-se ver e.xatamcntc esta região,
é preciso afastar o musculo mdli- (marcado com a letra “c" na Foto 4), como
foi feito no desenho da Fig. 5.
.Após a origem o mdlii percorre, estreitando-se sempre, através do tergito,
por cima dos museulos longitudinais retos, cobrindo igualmente as fibrilas pos-
teriores do mdlij (Vide Fig. 5 e Foto 4 “b” e “c”), e continua em direção ao
canto postero-extemo do segmento estigmatoforo. .AÍ, como na origem, desce
em direção à epiderme subcuticular. desaparecendo por baixo de um feixe de
traqueias grossas, que vêm do estigma (Vide Foto 4 "a" e “b”).
Suspendendo estas traqueias, observamos que uma pequena porção do mdlii
(Vide Fig. 5) a que fica no lado anterior do feixe muscular, é continuada dire-
tamente por fibrilas longitudinais, que. por seu lado. pertencem ao mdlÍ 4 , a ser
descrito mais tarde (Vide Foto 4 “f"). Estas fibrilas longitudinais são sobre-
passadas em seu começo por um feixe reto de um musculo dorso-ventral (Vide
Foto 4 “g”).
74
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
No local da transição das mencionadas fibrilas do mdlii para os feixes do
mdlií podemos perceber nitidamente a inserção do primeiro e a origem do ultimo
na epiderme subcuticular, estando ambas estas zonas muito próximas uma da
outra.
A massa principal de mdlii, porém, extende-se mais para trás e aproxima-
se diretamente à epiderme, p>ara inserir-se, finalmente, na saliência antero-lateral
do tergito do segmento astigmatoforo e, em parte, nos escleritos pre-tergitais
externos do mesmo.
O local desta inserção só pode ser observado pelo lado ventral, após o
afastamento do musculo dorso-ventral e dos feixes anteriores do mdlii acima
referidos. O musculo não termina diretamente na epiderme, mas esta forma
tonofibrilas muito longas, principalmente nas fibras dorsais. Nestas originam-
se no lado oposto novas fibrilas musculares que devem ser consideradas como
sendo a continuação do mdlii e que formam um feixe pleural.
Estas ultimas correm imediatamente por baixo da epiderme, sendo cobertas
por musculos dorso-laterais. Afastando estes últimos, vemos que as menciona-
das fibrilas inserem-se na zona dorso-pleural, na margem antero-extema do ter-
gito do segmento astigmatoforo, proximo à cur\a da “carina latcralis”.
Movendo a pata deste segmento, também estas zonas pleurais se movem,
exercendo tração, principalmente sobre as fibrilas que são a continuação do
mdlii- Presumimos, por êste motivo, que as mencionadas fibrilas exercem o
papel de reforçar a resistência do mdlij durante os movimentos de locomoção.
O mdlii tem por função; a) unir o segmento astigmatoforo ao cstigmatoforo
(pelos pontos de origem e inserção), exercendo tração indireta sobre a zona
antero-extema do primeiro; b) assegurar a firmeza da zona pleural antero-supe-
rior, o que é essencial para a morimentação dos musculos da coxa; c) serrir
de reforço interno aos musculos dorso-longitudinais intersegmentares (mdlij e
mdlií) e segmentares, que ficam entre o primeiro e o tergito; d) proteger os
orgãos internos, principalmente o coração e os orgãos genitais, contra contusões
e raios luminosos muito intensivos; e) favorecer a respiração, pois pelo funcio-
namento deste feixe muscular as traqueias e traqueolas (visiveis na Foto 4
"a”), ora ficam alargadas, ora comprimidas, o que concorre para a renovação
do ar.
O mdlii ocorre, como já dissemos, em todos os segmentos estigmato foros,
portanto nos Escolopendrideos, Parotostigmineos, Criptopideos e Otocriptopideos
nos segmentos: 3, 5, 8, 10, 12, 14, 16, 18. 20 e (22) ; nos Rhysida, Scolopocripto-
pideos e Ncufortia nos segmentos: 3, 5, 7, 8, 10, 12, 14, 16, 18, 20 e (22).
No ultimo caso o mdlii do 7.^ segmento é um pouco mais fraco que o do 8.®
O musculo dorso-longitudinal inicrsegmcntar “secundus” (mdlÍ 2 — Vide
Figs. 4 e 5 e Foto 4 “c”) é para o segmento astigmatoforo o que é o mdlii para
10
WoLFGANO BCcherl — Scoloptndra viridicornis XEWP.
75
o estigmatoforo. Localiza-se imediatamcnte em frente ao ultimo, como pode-se
ver na Foto 4, sendo, porem, mais estreito e mais longo do que este. Apresenta
forma ligeiramente triangular (Vide Fig. 5).
A origem do mdlij está no primeiro terço da zona mediana do segmento
astigmatoforo, um pouco mais próxima da linha mediana que a do mdlii. A
massa principal do mdlij origina-se diretamente na epiderme, sem atingir a sa-
liência quitinosa que demarca o limite entre o tergito e o pre-tergito (Vide Fig. 5:
mdlÍ 2 ). Algumas fibrilas internas, porém, dirigem-se mais para a frente e
abraçam dorsalmente o feixe mediano do musculo dorso-longitudinal intersegmen-
tor "tertius” (Foto 4 "d”), para unir-se com um feixe mediano do “mdis” (\'ide
Fig. 6, 2.0).
A epiderme forma, nas zonas de origem, tonofibrilas muito longas e nume-
rosas que, na linha mediana, aproximam-se muito do \’aso sanguineo, prote-
gendo-o contra influencias prejudiciais do ambiente.
O percurso do mdlij pode ser obser\-ado na Foto 4 e na Fig. 5. Oliedece
à mesma direção que o mdlii, estreitando-se progressivamente. Logo cm seguida
à origem seus feixes formam uma cun-a, passando por dma dos musculos "d”
e “e" (Vide Foto 4).
.•\tingindo os limites entre o segmentos astigmatoforo c estigmatoforo, o
mdlij é coberto parcialmente pelo mdli| (Vide Foto 4 "b” e “c” c Fig. 5). Apro-
xima-se. então, no\’amcntc do tergito. desaparecendo, por completo, por baixo do
mdli|.
O mdlij apresento, portanto, o mesmo percurso que o mdlii, sendo separado
deste por alguns canais traqueanos, dos quais se desprendem traqucolas delgadas,
que se perdem por entre os feixes do mdlij.
Para que possamos ver o percurso da ultima parte do mdlij é preciso afastar
o mdli|.
A “inserção” do mdlij é tripla: uma pequena porção insere-se exatamente
no local, em que se originam os musculos que continuam o mdlii ; utna outra
porção, após uma inserção fraca e pouco nitida. c continuada dirctamente por
uma parte das fibrilas do musculo dorso-^-entral (Vide Fig. 5 "mdv” c Foto 4
“g”) ; a massa prindpal do mdlij. porém, aproxinu-se do ponto de inserção do
mdlii e insere-se conjuntamente com este na epiderme, sendo continuado ime-
diatamente (analogamente a uma porção do m<lli|) por um feixe do mdlií.
A inserção da porção principal corresponde às ilhotas quitinosas da zona
antero-lateral do segmento astigmatoforo. arca esta um pouco anterior à da "injer-
tio” do mdlii.
O mdlij é, portanto, muito longo, ligando um segmento astigmatoforo a
outro astigmatoforo e saltando cada véz o estigmatoforo.
76
Memórias do Instituto Botantan — Tomo XIV
Nos generos de Quilopodos em que o 6.® e 7.® segmentos são astigmatoforos,
o mdlio repete-se imediatamente.
A função do mdIÍ 2 é idêntica à do mdlii, como ressalta pelo mesmo percurso
e os mesmos pontos de origem e inserção.
Provocando movimentos de locomoção, vêmos que, contraindo-se os mdlii
e mdlia de um lado, ipso facto se distendem os do outro lado.
O musculo dorso-longitudinal intersegmentar "tertius” (mdlij: Vide Fig. 5
e Foto 4, “d” e "e”) forma o principal feixe longitudinal, no sentido estrito
(Segundo a nomenclatura de Voss seria o mdlii).
Os pontos de origem e inserção do mdlia são cobertos pelos dois musculos
“dorsais obliquos” acima descritos, sendo visivel apenas um curto trecho de seu
percurso (Vide Foto 4 “d” e “e”). Nos segmentos 6 e 7 dos Escolopendrideos
nem neste trecho podem ser vistos pelo lado ventral.
Para vermos toda a extensão do mdlis, é necessário afastar o mdlii e o
mdlÍ 2 . como foi feito no lado direito da Fig. 5. Grande numero de traqueolas
subdiridem este musculo em 2 a 3 subfeixes (Vide Foto 4 “d” e “e”), ora
mais unidos, ora separados por meio de fendas estreitas.
O mdlij conserva em todo o seu percurso a zona estritamente mediana. Os
subfeixes são aproximadamente da mesma grossura, ^'ariando apenas nos lugares
de origem e inserção. Apenas o feixe e.xtemo (Foto 4 “e”) é mais espesso
do que o mediano. São separados por ramificações traqueanas (Foto 4 “a”).
O mdlij apresenta os mesmos pontos de origem e inserção, i. é — apenas
termina o feixe anterior, continua imediatamente o seguinte, sendo separados
apenas por uma zona tonofibrilar. As tonofibrilas são muito longas neste local,
devido ao fato da existência de outros musculos segmentares, localizados entre
o mdlij e a epiderme, impedindo maior aproximação do mdlij.
Os pontos de origem e inserção localizam-se no mesmo segmento em que se
origina o mdlii, com a diferença de serem mais aproximados à zona intersegmen-
tar (Vide Fig. 5: mdlij). As tonofibrilas, que servem de origem ao musculo,
pertencem à zona da saliência quitinosa da parte anterior do tergito do segmento
estigmatoforo ; as tonofibrilas de inserção, porém, caem na zona dos escleritos
(Vide Fig. 2 “a”) do mesmo sarnento, portanto um pouco adiante da zona de
origem.
O mdlij atravessa todo o comprimento do tronco, sendo os feixes tão unidos
entre si que, afastando-se um com a pinça, seguem-no os s^uintes automatica-
mente.
O feixe mediano do mdlij (Vide Foto 4 “d”) origina-se um pouco atrás do
lateral, sendo deslocado f)ela origem do mdlii. Em seu começo é estreito, sendo
12
WoLFCANG Bücherl — Scolopendra oiridicornis NEWP.
77
coberto parrialmcnte pelo latenü. Perto de sua inserção é abraçado por traqueo-
las, que o separam em dois subfeixes medianos, um dorsai, perto da epiderme,
e um ventral, próximo ao primeiro. A inserção do subfeixe ventral tem lugar
num dos esderitos do pre-tergito. Deste local originam-se tonofibrilas longas,
nas quais príndpiam todas as fibras do feixe mediano seguinte.
O subfeixe dorsal, porém, alarga-se em forma de leque, inserindo-se seu
ramo interno conjuntamente com o subfeixe ventral. Seu ramo externo, ao
contrario, envolve dorsalmente o feixe lateral e insere-se, formando um curto
tendão, numa parte do mdlÍ 4 .
Sendo a origem do feixe mediano do mdlij deslocada para o primeiro terço
do tergito do segmento estigmatoforo, portanto bastante afastada da margem an-
terior quitinisada, não coincide com ela a inserção. Em compensação, porem,
ambos estes pontos são unidos por tonofibrilas longas.
Xos generos de Quilopodos em que o 6.® e o 7.® segmentos são astigmato-
foros, o mdlij c segmenur, coincidindo a inserção do ramo externo do subfeixe
dorsal mediano com à do mdlii.
O feixe lateral do mdlis (Vide Foto 4 "e”) c muito largo, principalmentc
nas zonas de origem e inserção. Estando um pouco mais afastado da epiderme
dorsal do que o mediano, cobre o ultimo, parcialmente. Durante o seu percurso c
dissolrido por traqucolas cm delgados subfeixes que, por seu turno, logo se unem
de novo.
O local de origem deste feixe lateral é a parte anterior do tergito do segmen-
to estigmatoforo. Ai podemos distinguir dois subfeixes: um interno, e outro
externo, tres a quatro \-czcs mais largo do que o primeiro. O interno x-ai cm
direção à linha mediana, cobrindo pardalmentc pelo lado ventral o feixe mediano
do mdli» e insere-se no pre-tergito, sendo continuado imediatamente pela porção
estreita do mdlii, como já «mos.
A parte externa, larga, insere-se c origina-se ai mesmo, somente um pouco
mais para trás, formando tonofibrilas e curtos tendões. Estes tendões servem
igualmente aos musculos dorsais segmentares de origem e de inserção (V’ide
Fig. 6: mdls).
No 6.® e 7.® sarnentos o mdlia é segmentar.
O musetão dorso-longitudinal intersegtnentar “quartus" (mdlÍ 4 — \'ide Fig.
5 e Foto 4 ‘‘f’’) c muito mais delgado do que o mdlú, sendo em grande parte
coberto por este. Em algims lugares alarga-sc sensivelmente.
A origem do mdlÍ 4 é formada pela zona anterior do tergito do segmento
astigmatoforo, nas imediações dos sulcos episcutais. Só atinge a epiderme com
uma pequena porção de suas fibrilas, enquanto que a massa principal origina-se
cm tendões, formados pela origem e inserção dos musculos dorsais segmentares.
78
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Sua inserção coincide com a origem do feixe seguinte com a diferença de ser
dividida nos seguintes feixes: uma pequena parte de suas fibrilas externas coin-
cide com as inserções do mdlii e do mdlio (como já vimos), de maneira que
formam a continuação reta destes no segmento seguinte; a parte mediana insere-
se num tendão, no qual se originam musculos longitudinais segmentares; uma
outra parte, após curta inserção, é continuada por um musculo dorso-pleural e
o resto de suas fibrilas internas forma um tendão de inserção comum com
algumas fibras do mdlij (como vimos), que serve de origem ao mdlÍ 4 seguinte
e a alguns musculos dorso-longitudinais segmentares.
Como se vê. a musculatura dorso-intersegmentar, apesar de constar apenas
de 4 musculos, 2 obliquos e 2 retos, forma, contudo, um conjunto muito complexo.
Os musculos dorso-longitudinais segmentares (mdlÍ 2 de Voss) são localiza-
dos imediatamente por bai.xo da epiderme subcuticular. São dissolvidos em
diversos subfeixes, retos alguns, obliquos outros. Todos eles são curtos, origi-
nando-se na zona anterior do tergito e inserindo-se na borda posterior do mesmo.
A origem e inserção dos retos coincidem com os feixes intersegmentares
retos, o mdlis e o mdli^, respecti\’amente. Traqueolas diminutas separam os
musculos segmentares, dos quais as camadas obliquas são localizadas imedia-
tamente sob a epiderme. Na linha dorso-mediana e.xistem apenas feixes retos muito
achatados, enquanto que nas zonas laterais os musculos segmentares são espessos
e obliquos.
Nem todos os feixes retos são extritamente segmentares. Assim os que
estão em contacto com o mdli^ são um pouco mais longos (Vide Fig. 6 — mdls
do lado esquerdo), extendendo-se alem dos limites segmentares. A origem e a
inserção destes feixes são muito juntas, separadas apenas por tonofibrilas curtas.
Imediatamente por baixo da epiderme e.xistem feixes obliquos, mais acen-
tuados nos segmentos astigmatoforos. Originam-se no primeiro terço do tergito
na zona interna e terminam na dobra posterior do mesmo, no lado externo (Vide
Fig. 6: mdls — do lado direito).
Dentro da dobra da parte posterior de cada tergito existe um feixe, que,
porém, não é longitudinal mas francamente circular. Não sabemos, si é deri-
vado da musculatura longitudinal primitira ou si é um resto ainda da muscula-
tura dos “dissepimentos” dos Anelideos. Não raras vezes passa alem da dobra
e, neste caso, deve ser considerado um elemento proprio aos pre-tergitos, origi-
nando-se nos escleritos dos mesmos.
Os feixes longitudinais segmentares retos localizam-se entre os obliquos e
os intersegmentares.
Musculos ventro-longitudinais — Os musculos ventro-longitudinais (Vide
Foto 5:4 e 5) são muito mais divididos em feixes e subfeixes do que os dorsais
14
WoLFGANC BCcherl — Scolopendru uiridicornis XEWP.
79
segmentares. Quasi todos obedecem a direção longitudinal, havendo apenas Ii>
geiros desnos nos musculos longitudinais, proximos à linha mediana do estemito.
Por entre estes musculos e a epiderme do estemito medeia ainda uma camada
espessa de feixes pieurais (restos da camada circular dos .Anelideos), \nsiveis na
linha mediana da Foto 5. Estes (os musculos "subcoxales stemales”) impedem
que os feixes ventrais longitudinais se aproximem diretamente da epidenne.
Por isso nunca vemos um frixe ventro-longitudinal originar-se ou inserir-sc dire-
tamente na epiderme, nem tão pouco existem as tonofibrilas longas, tão frequen-
tes nos musculos dorsais.
Em compensação, os pontos de origem e inserção dos musculos ventro-lon-
gitudinais são demarcados por tendões. Estes são extremamente fortes e trans-
formam-se mesmo em elementos quitinisados resistentes.
Para compreender bem o percurso dos feixes \-entrais c, cm seguida, o dos
dorso-ventrais, é preciso recordar ligeiramente a morfologia dos estemitos e dos
escleritos da coxa das Escolopendras.
Xos estemitos vemos 2 sulcos longitudinais. Vekhoeff, íw Bronns —
Klassen u. Ordnungen des Tierreiches, 1925, diz à pag. 23: "Frequentemente
obser\a-se uma fossa longitudinal mediana ou então dim fossas longitudinais la-
terais que, porem, não correspondem aos sulcos episcutais, nus representam
apenas ligeiras dobras”. No recente trabalho — "Os Quilopodos do Brasil” —
Mcm. do Instituto Butantan, 1939, puzemos cm durida esta afimução de
N^^erhoeff. Achamos não tratar-se nem de dobras, nem de fossas, nus de ver-
dadeiros sulcos que separam pelo menos a exo- e a endocuticula do estemito.
Os dois sulcos longitudinais nem sempre atravessam o estemito até o fim. Fre-
quentemente terminam nunu fossa horizontal, só risivcl cm prefurados diafani-
zados, existente no ultinx) terço do estemito. Desta nuneira a placa vcntral
goza de rclatiw elasticidade, fator importante para a morimentação dos escle-
ritos da coxa. quasi unidos ao estemito. Portanto, si os sulcos longitudinais
fossem apenas ligeiras dobras, que não interrompessem a continuidade da placa
quitinosa, como parece insinuar Vekhoeff no trecho citado, então os feixes
musculares ventrais c dorso->Tntrais exerceriam quasi nenhunu influencia sobre
os morimentos locomotores.
,-\ coxa, constituida por diferentes peças quitinosas descansa nas peles mem-
branosas das pleuras. Estas formam dobras clasticas, de nuneira que, pela
tração muscular, toda a zona plcural, que rodeia a coxa. muda de nivel. Desta
maneira a pata pode ntover-se da frente para trás, morimento este impossivel
entre a coxa e o trocanter, por causa da apófise quitinosa anterior e de uma
menor posterior. Estas duas formações quitinosas servem de esteio c de pontos
de articulação para os ntorimentos de cima para baixo entre a coxa e o trocanter
pre fêmur.
80
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Na coxa e nas pleuras inserem-se os musculos locomotores diretos e indi-
retos, como veremos a seguir.
Ao lado interno de cada estemito da Elscolopendra vemos um tendão fraco
no limite anterior, um tendão mais forte na mesma zona, porém, no limite
posterior, dentro da dobra formada pela junção de dois estemitos e, finalmente,
um tendão muito forte, localizado no meio do estemito, a correr em direção às
pleuras. Os tres, prindpalmente o mediano, formam chapinhas internas quiti-
nisadas, nos quais inserem-se os musculos ventro-pleurais e os “stemales-sub-
coxales”.
O primeiro e o segundo tendão atravessam todo o estemito. Em seu co-
meço são mais rijos e prosalientes, constituindo uma apófise interna, quitinisada,
semelhante à formação e.xistente no torax dos insetos e chamada de “spina”.
Destes dois tendões parte, no local em que se insere o musculo “a”, um tendão
que continua em direção às pleuras, constituindo os pontos de origem e inserção
do musculo ventro-longitudinal intersegmentar. Do mesmo local parte um outro
tendão, que, formando uma apófise quitinisada, descreve ligeira cur\a unin-
do-se pelo lado anterior, com a chapa do meio, que está ligada com a "costa
coxalis” da eucoxa inferior.
Esta ultima principia perto da linha mediana, no meio do estemito. En-
grossa em seguida, dirigindo-se para as pleuras. .-\i estabelece contacto com a
“costa coxalis”, e, no outro lado, com a outra apófise da coxa e com os elementos
quitinosos que vem da “spina”. Corresponde, portanto, à formação que no torax
dos insetos chamamos de "furca”.
\’emos, por conseguinte, que os Quilopodos nos podem dar valiosos escla-
recimentos filogeneticos sobre a origem da spina e da furca e, consequentemente,
dos musculos que unem estes elementos quitinosos.
Os musculos ventro-longitudinais são um tanto afastados dos estemitos, co-
municando com os últimos, como já vimos, por meio de tendões. Dividimos estes
musculos em segmentares e intersegmentares.
Os musculos ventro-longitudinais segmentares (Vide Foto 5:4 e 5 — mvls)
são um tanto afastados da linha mediana.
O musculo ventro-longitudinal segmentar "primus" (mvlsi Foto 5:4) ocorre
em todos os segmentos, sendo sempre de igual tamanho e forma. Percorre o es-
temito em toda a sua e.xtensão, correndo paralelo à linha mediana. Origina-se
no tendão anterior, existente na dobra entre dois estemitos. A origem é coberta
pelo musculo horizontal (Foto 5 “a”), e, em seguida, pelos musculos dorso-
ventrais (Foto 5: 6, 7).
Xo começo o mvlsi é muito espesso, estreitando-se progressivamente du-
rante o percurso. Xa zona posterior do estemito já é muito estreito, desapa-
recendo por baixo de um musculo localizado a seu lado (Foto 5:5).
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WoLFCANc BCcherl — Scolopetidra viridicornis NEWP.
81
A inserção do mvisi é esubelerida pelo tendão seguinte localizado no limi-
te entre este e o estemito seguinte. O mvls, insere-se um pouco abaixo do
musculo mvlsj (5: na Foto 5).
Este tendão, como também o anterior, é estabelecido pelo concurso de muitos
feixes musculares, entre os quais se salientam os musculos: “a” 3,4, 5,6,7, todos
visivds na Foto 5, concorrendo: "a” 3, 4 e 5 para a formação do tendão poste-
rior e: “a” 4, 6, 7 para a formação do tendão anterior.
.Ambos os tendões principiam na linha mediana dos estemitos com um curto
tendão longitudinal dsivel na Foto 5, do qual parte, no lado ventral do musculo:
*‘a”, o mencionado tendão ‘•intersegmentar”.
Portanto, estes dois tendões, após e\olução ulterior, constituem nos insetos
as apófises quitinisadas, chamadas "sf^inac” e consequentemente o mvlsi é o
prototipo do mvl| dos metameros torácicos dos insetos, correndo de spina cm
spina, perto da linha mediana do “slemum”.
O musculo vcntro-longiludinal segmentar '“seeundus" (mvlss: \’idc Foto 5,
5) localiza-se ao lado do mvlsi, apresentando forma semelhante a este. E’ largo
na frente, estreitando-se pre^ressis-amente atrás.
Este feixe muscular origina-se no tendão que corresponde à “furca" dos
insetos, portanto na zona lateral do estemito, no lado interno dos feixes ventro-
longitudinais “intersegmentares”. No ponto de origem forma um tendão curto,
comum com o musculo: “a” da Foto 5: mvls*.
O local da inserção c comum com a do mvlsi, ainda que esteja no lado dorsal
da ultima.
O musculo ventro-longitudinal segmentar “tertius": mvls* (Vide Foto 5
"a”), parece, à primeira \-ista, ser um resto da musculatura dos “dissepi mentos”,
existente entre um e outro metamero dos .Anclideos, falo indicado pela posição
nos entre-estemitos e pelo percurso horizontal. Pesquisas minuciosas revelaram-
nos, porém, «lue de fato se trata de um feixe longitudinal segnwntar, muito
obliquo, o antagonista do mvlsj (5, na Foto 5). Pro\*amos esta afirmação, por
ser este musculo muito afastado da epiderme, de maneira que cobre parcial-
mente os feixes: 4, 6 c 7 (Foto 5) ; cm segundo lugar porque se origina num
tendão comum com o mvls*; em terceiro lugar porque se insere na apófise, que
corresponde à “spina” dos insetos e em quarto lugar, porque não existe outro
feixe muscular nos Escolopendrideos. que correspondesse exatamente aquele que,
nos insetos, corre da "spina” para a * furca .
O mvls, corre, portanto da "furca” para a “spina”, enquanto que o mvls*
parte da mesma "furca”, correndo, porem para a “spina” posterior.
82
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
A posição circular do mvlsj é explicada p>elo fato de que a “furca” não corres-
ponde exatamente à linha mediana do estemito e que os esternitos não são loca-
lizados diretamente sob os tergitos, mas um pouco atrás. Desta maneira o feixe'
muscular mvls^ é muito longo, indo do limite anterior do estemito até ao limite
posterior. Consequentemente o mvlss, inserindo-se no local, que corresponde à
“spina” e originando-se no mesmo ponto que o mvIsj, não pode correr de trás
para diante, mas deve obedecer a um percurso horizontal.
No torax dos insetos estes dois musculos mudaram de posição, porém, con-
sertaram os mesmos pontos de origem e inserção.
O mvIsj e o mvlss exercem a função de “remotores e promotores ventra-
les subcoxae”, pelo menos indiretamente através da sua tração sobre os pontos
de origem e inserção do musculo ventro-Iongitudinal “intersegmentar”. Deste
fato ressalta que, nos Escolopendrideos, em que a parte ventral da coxa já está
quasi soldada com o estemito, estes dois feixes musculares já perderam sua
função direta, passando o mvlsj a ser um musculo ventro-Iongitudinal e o mvlsa
um horizontal.
O mtuculo vcntro-longitudiml "intersegmentar” (mvli) fomia uma camada
muito espessa, sendo dissolvido em 2 a 3 subfeixes. (Não é visivel na Foto 5).
Não se trata propriamente de um musculo intersegmentar no rigor da palavra,
mas denominamo-no assim porque a sua disposição não coincide com os seg-
mentos externos.
Esta camada muscular é estritamente longitudinal. Corre de “furca”
em “furca”. Nestes pontos origina- e insere-se por meio de um tendão obliquo,
localizado perto da borda posterior de cada estemito. No lado interno, por-
tanto perto da linha mediana do estemito, o tendão dirige-se para a frente,
unindo-se no meio do estemito com o tendão mediano, que vem da "spina”,
como já temos dito.
O “mvli” está pela sua orijem e inserção em contacto direto com o mvlsj,
o mvlss e com outros feixes dorso-ventrais e pleurais.
Nos insetos este musculo corre de furca cm furca. H. Weber, in “Lehr-
buch der Entomologie”, Jena, 1933, diz à pag. 132: “que não se pode inter-
pretar este musculo como stemo-subcoxalis primitivo, inutilizado em sua função
pela unificação da subco.xa com o sternum”. O citado A. opina, então, pela
opinião de tratar-se de um feixe muscular ventro-Iongitudinal segmentar que
primitivamente corria de “spina” em “spina” e depois começou a emigrar para as
regiões da furca.
. No caso dos Escolopendrideos este musculo ainda se encontra na zona das duas
“spinae”; os seus pontos de origem e inserção, porém, já apresentam contacto
direto com as furcas. Achamos, por conseguinte, que a emigração da “spina” para
18
WoLKGANG BCcherl — Scolopttidra viridicornis NENVP,
83
a furca verificou-se conjuntamente com a transforma(;ão e treslocação da furca,
oriunda peh junção de tendões quitinisados, já descritos.
A função dos musculos ventro-longitudinais traduz-se na aproximação e
no afastamento dos segmentos, quer pela contração, quer pela distensão. Auxi-
liam igualmente o processo respiratório pelo arejamento das traqueias e. final-
mente. exercem indiretamente papel na movimentação das patas.
2) MUSCULOS DORSO-VE.\'TR.\IS
(mdr. — Vide Fotos 6, 7 e 8)
Os musculos dorso-ventrais consum de segmentares e intersegmentares. Os
últimos formam apenas um feixe fraco, enquanto que os segmaitares são nu-
merosos e fortes.
O. musctüo dorso-veniral intersegmentar (mdri) corre do meio do ester-
nito (da região que nos insetos forma a furcã) para a zona antem-lateral do
tergito seguinte. O lugar de origem i constituido pelo tendão, comum com um
outro feixe dorso-ventral segmentar e localizado no meio de cada estemito, por
cima da chapinha quitinisada. O percurso do “mdvi” procede ao longo dos
escleritos do pre-tergito. de maneira que este musculo parece ser um resto da
musculatura dos “dissepimentos” dos .Anclideos.
Por haixo do "mdvi”, portanto, mais proximo da região pleural, existe
mais um feixe intersegmentar (Vide Foto 55). Este é muito espesso, apre-
sentando igual percurso como o "mdvi”, de maneira que podemos presumir tra-
tar-se de dois feixes, que nos Anelideos formavam um unico originado pela mus-
culatura circular.
Nos Escolopcndridcos este no\x» feixe intersegmentar distingue-se do "mdvi”
pelo seu ponto de inserção, que coincide com a origem dos feixes ventro-
longitudinais intersegmentares. Estes feixes formam um tendão horizontal conx>
já rimos e, neste tendão, no lado externo, termina o mencionado musculo inter-
segmentar; no lado interno, na mesma altura origina-se o mvls*.
Em seu percurso o feixe "9” (Vide Foto) cobre a inserção do feixe "7”
e termina no tergito, perto da margem lateral.
Entre os musculos dorso-ventrais segmentares devemos distinguir os se-
guintes feixes: o musculo dorso-vcntral segmentar "primus" (Vide Foto 5:6)
ou posterior. Este musculo parte da zona anterior do estemito e vai à zona
posterior do tergito. devendo, portanto, ser considerado como um feixe obliquo.
Muitas vezes transgride le\-emente o limite do tergito, termipando então nos
84 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
escleritos do pre-tergito seguinte, por entre a borda lateral e os sulcos episcutais,
de maneira que pode ser considerado como sendo intersegmentar no sentido
mais amplo.
A origem do mdvsj é formada por um tendão longo, formado pela epiderme
na linha mediana de cada estemito (exatamente em frente ao tendão longitu-
dinal "a” da Foto 5, mas invisivel nesta Foto). Neste local encontram-se os
tendões, dois dos lados opostos. Durante o percurso cada um passa por baixo
do musculo "a” (Foto 5), servindo de ponto de origem ao mvlsi, e, em seguida,
terminam neles os musculos 3 e 5 no lado anterior do feixe “a” e o musculo 7
no fim do tendão (Vide Foto 5).
Em seguida o mdvsi engrossa progressi\’amente, dirigindo-se para a mar-
gem extenia do estemito. Sobe, então, paralelamente às paredes pleurais, em
direção ao tergito, aproximando-se ao lado externo do feixe 3 (Foto 5).
O mdvsi inserc-sc na ultima porção do tergito, entre a carina lateral e os
sulcos episcutais, exatamente debaixo do fei.xe do “mdri”. No local da inser-
ção apresenta maior espessura, sendo coberto parcialmente pelos musculos dorso-
longitudinais segmentares obliquos e por um feixe dorso-ventral que ainda será
descrito.
O mdvsi ocorre em todos os segmentos, sendo de notar que nos estigmato-
foros toma-se ainda mais obliquo, cobrindo parcialmente as traqueias ventrais,
antes de temiinarem no cálice interno do estigma. Presumimos, portanto, que
este musculo, além de unir o tergito ao estemito, seja um grande fator também
na renovação do ar.
O musculo dorso-ventral segmentar "secundus” (mdvsj — Vide Foto 5 ;7)
localiza-se em frente ao feixe mdvsi. Origina-se no tendão do mdvsi, cobrindo
o começo deste ultimo. Continua em direção ao tergito, não sendo, porém, tão
obliquo como o mdvsi. Durante o percurso aumenta em espessura. Perto de
seu fim aproxima-se do lado anterior, externo do musculo 3 (Foto 5). O mdvsj,
portanto, extende-se um pouco mais para a zona pleural do que o mdvsi. •
A inserção é localizada no tergito, numa zona mediana posterior, entre os
sulcos episcutais e a carina lateral, estando em contacto imediato com os feixes
dorso-longitudinais.
Nos segmentos estigmatoforos esta camada muscular é deslocada um pouco
pelas traqueias, de maneira que se distancia mais do mdvsi.
O mdvsi e o mdvsj descendem indubitavelmente da camada externa, cir-
cular, da musculatura dos Anelideos. A sua origem num tendão comum demons-
tra tratar-se de elementos musculares que forma^^am primitivamente um unico
feixe dorso-ventral: — o promotor primitivo da subcoxa. Nas Escolopendras
já se realizou sua divisão em dois feixes isolados dorsalmente, enquanto que
20
WoLFGANG Büchehl — Scolopenüra viridicornis NEWP. 85
nos Insetos a divisão já é completa, sendo os dois feixes separados também no
“stemum”. Ai constituem o mdvj que \-ai do “notum” para o “basistemi-
tum”, e o mdv 2 , do “notum” para o “laterostemitum”.
Nos Insetos estes dois feixes são novamente unidos quasi no “notum”.
Nos Quilopodos os mdvsi e mdvsj não apresentam mais contacto com a
coxa, mas são apenas pontos de apoio, que unem o tergito ao estemito, ofere-
cendo, desta maneira, bases de resistência aos feixes que executam os movi-
mentos locomotores.
O musculo dorso-vcntrd segtnenlar "tertius” (mdvss — \'^ide Foto 5:3)
corre em sentido inverso do mdvsj, i. é, principia na zona posterior do estemito
e sobe em direção ao tergito, no lado interno dos feixes 6 e 7 (Foto 5), termi-
nando na margem antero-lateral do tergito do mesmo segmento.
O mdvss forma um feixe muito espesso, constando de 2 a 3 camadas
sobrepostas, separadas levemente por finas traqueolas. Atinge a maior largura
no lado dorsal, estreitando-se progressivamente. Nos segmentos estigmatoforos
é deslocado um pouco para trás, cobrindo as traqueias posteriores. Ocorre em
todos os segmentos.
Origina-se, como já \nmos e como ressalta da Foto 5, num tendão, que
parte do lado ventral do musculo “a”, e que comunica com o tendão dos musculos
6 e 7 (Foto 5). .
O mdvss insere-se na zona antero-lateral do tergito do mesmo segmento,
l>erto da dobra, formada pela carina lateral. Nesta zona é continuado parcial-
mente pelo mdlii ou o mdli», respecti\-amente. como já descrevemos, quando
tratamos destes 2 feixes. O resto, após curta inserção, é continuado pelos
musculos dorso-longitudinais segmentares obliquos. Uma pequena porção inse-
re-se diretamente na epiderme dorsal ao longo do lado e.\temo dos sulcos
episcutais, no primeiro terço do tergito.
O mdvss descende filogeneticamente da musculatura circular dos .'\nelideos,
correspondendo ao “remotor primitivo da subcoxa”, não estabelecendo, porém,
contacto direto com a ultima, de maneira que deve ser considerado como sendo
apenas um “remotor” indireto, i. c, unindo as partes anteriores do tergito com
as posteriores do estemito. Favorece consideravelmente os movimentos da coxa.
O musculo dorso-veniral segmentar "quartus” (mdvs«) corre da linha me-
diana do estemito para o tergito, dividindo-se em 2 ramos, que iniciando-se no
mesmo tendão, divergem em seu percurso.
O ramo posterior é visivel na Foto 5:8, enquanto que o anterior fica
totalmente coberto pelos feixes 3. 4, 5. 6 e 7.
86
Memórias <lo Instituto Butantan — Tomo XIV
A origem deste musculo duplo é constituída pelo tendão já mencionado.
Este principia no local do sulco longitudinal do estemito, no meio da placa, di-
rigindo-se em seguida de encontro às pleuras sem, entretanto, atingi-las. Eista-
belecendo contacto com a origem e inserção dos feixes ventro-longitudinais inter-
segmentares, sobe entre estes e os musculos 5, 6 e 7 para o tergito.
O ramo anterior termina no ultimo quarto do tergito, entre a carina lateral
e o sulco episcutal. O ramo posterior, separado deste pelo musculo 6, termina
na mesma região, apenas porem um pouco mais atrás, no limite entre um e
outro tergito.
Todos estes musculos dorso-ventrais segmentares partem, portanto, ou da
tendão, localizado no limite entre dois estemitos, ou do tendão do meio do ester-
nito. Estabelecem contacto com os mvls ou os mvli. Aliás os feixes destes últimos
são localizados mais perto da zona pleural do que da central, separando os mus-
culos dorso-ventrais das pleuras.
♦ *
Queremos, antes de prosseguir no assunto, comparar os musculos longitudi-
nais e dorso-ventrais de alguns generos de Geofilomorfos e Litobiomorfos com
a musculatura das Escolopendras. Assim poderemos acompanhar a evolução da
sistema muscular, a começar das 2 camadas, a circular externa e a longitudinal
interna dos Anelídeos. Nos Geofilomorfos, que formam o grupo mais primitivo
entre os Quilopodos, já se acentua uma separação destas 2 camadas em feixes e
subfeixes, simples, facilmente reduzíveis às camadas primitivas. Nos Litobiomor-
fos surgem novos elementos musculares, ainda não evoluidos nos Geofilomorfos.
Nas Escolopendras, finalmente, vemos representado o tipo mais evoluído, com
subdivisão, superposição e deslocamentos das fibras musculares e um grande
afastamento da musculatura primitiva dos Anelídeos, de um lado, e uma aproxi-
mação surpreendente ao sistema muscular dos Insetos Apterigogeneos e Hexa-
podos, do outro.
A musculatura longitudinal dos Geofilomorfos: Aphilodon mieronyx Brõi..,
1901; Orphnaeus brasiliensis Meix., 1870; Schendyla paulista Brõl., 1903 e
Geophilus sublaetis Meix., 1870, especies estas que representam 4 generos, obe-'
dece ao seguinte quadro:
Por baixo dos tergitos e pretergitos (os últimos costumam ser subdivididos-
por suturas em escleritos, parcialmente soldados) observamos 3 camadas mus-
culares, duas superiores s^mentares e uma inferior intersegmentar. As primeiras
ocorrem nos tergitos principais e nos pre-tergitos, de maneira que estes últimos
gozam de musculatura própria. A primeira camada segmentar é obliqua, correndo
do centro da borda anterior para o lado externo da borda posterior. Nos tergitos
principais esta camada se desdobra em dois subfei.xes. Além disso, existe nestes
segmentos mais uma camada dorso-longitudinal segmentar obliqua que corre da
centro da borda posterior para o lado externo da borda anterior.
22
WoLFGANG Bücherl — Scoloptndra viridicornis NEWP. 87
A segunda camada segmentar abrange feixes longitudinais retos que se ex-
tendem da borda anterior para a posterior.
A camada dorsal intersegmentar passa por baixo das segmentares, correndo
da borda anterior do pre-tergito à borda posterior do tergito principal. São
feixes retos que unem o tergito “intercalar” com o principal. Em seus pontos de
origem e inserção unem-se pelo lado inferior com os feixes segmentares.
Em Eulithobius (examinamos uma serie de exemj^ares pertencentes a este
subgenero e comparamô-la com os Litobiomorfos, descritos por Verhoeff in
Bron*n’s — Klassen u. Ordnungen des Tierreiches, Chtlopoda, 1902-1925) obser-
\'amos os mesmos feixes musculares dorsais, obliquos. retos e intersegmentarcs,
com a diferença, porém, de os musculos dos pre-tergitos serem mais fracos, en-
quanto que os dos tergitos principais aumentam em espessura, sendo os inter-
segmentares já subdirididos em subfeixes paralelos.
Esta subdivisão acentua-se ainda mais em Scolopcndra : os feixes segmentares
obliquos são muito espessos e correm da borda anterior, do centro, para o lado
externo da borda posterior; os feixes segmentares retos vão de borda em borda.
Tanto estes, como aqueles, pertencem exclusivamente aos tergitos principais. Os
pre-tergitos são pequenissimos, carecendo de musculatura própria.
Os musculos intersegmentarcs, ao contrario, evoluiram a uma grande espes--
sura, subdiridindo-se em retos e obliquos e unindo sempre dois segmentos prin-
cipais imediatos.
Nestes tres grupos verificou-se. portanto, uma diminuição gradati\'a dos
segmentos “intercalares" e consequentemente um treslocamento da musculatura
destes para os tergitos principais.
Fato idêntico pode ser observado no tocante à musailatura longitudinal dos
esternitos. Nos citados 4 generos de Geofilomorfos e no sul^cnero Eulithobius
existem feixes vcntro-longitudinais segmentares e intersegmentarcs, retos e
obliquos, sendo os primeiros distribuidos para os segmentos principais c inter-
calares, onde correm de borda em borda. Os intersegmentarcs são pouco evolui-
dos. Em Scolopcndra já não encontramos elementos musculares proprios aos
escleritos pre-estemiticos. Mas isto é devido apenas ás proporções pouco evoluidas
destes escleritos. Em compensação os musculos segmentares retos e obliquos e
os intersegmentarcs formam camadas espessas.
Os musculos dorso-ventrais são relativamcnte pouco evoluidos tanto nos 4
generos de Geofilomorfos e no subgenero Eulithobius como em Scolopcndra.
3) MUSCULOS PLEURAIS
Os musculos pleurais são segmentares, partindo do tergito, respectiN^amente,
do estemito e dirigindo-se ás regiões pleurais. Dividimo-los em dorsais e ventrais.
23
88
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV'
Os feixes dorso-pleurais (mdpl) apresentam percurso diferente nos Geofi-
lomorfos, nos Litobiomorfos e em Scolopendra. Nos 4 generos de Geofilomorfos
acima citados observamos 4 feixes musculares, dois nos segmentos intercalares e
dois em cada segmento principal. Partem da zona lateral do tergito e do pre-
tergito e correm em direção aos pleuritos dorsais do mesmo segmento.
O mdpli parte da zona antero-lateral do pre-tergito, dirige-se, em seguida,
um pouco para a frente e insere-se no grande pleurito dorsal anterior.
O mdplj parte da mesma zona como o primeiro, dirigindo-se porém para
trás e inserindo-se na margem posterior do mesmo pleurito.
O mdpls origina-se na zona antero-extema do tergito principal e, dirigindo-se
para trás, termina no pleurito do estigma.
O mdplj ocupa uma zona de origem muito mais vasta do que os tres outros,
principiando suas fibrilas anteriores ao lado do nidpls, enquanto que as posteriores
extendem-se até a zona postero-lateral do tergito principal, correndo paralelas com
a margem posterior. O mdpU insere-se no pleurito imediato ao do estigma, en-
quanto que algumas fibrilas, pertencentes ao mesmo feixe, terminam nos pequenos
pleuritos que formam uma fileira no lado inferior do pre- e post-scutellum.
Em Euíilhobius reencontramos os musculos dorso-pleurais sob a forma de
dois feixes apenas, ambos partindo da borda anterior, respectivamente posterior
da zona lateral do tergito principal, inserindo-se nos pleuritos dos estigmas e nos
outros escleritos pleurais.
Fato semelhante é observado em Scolopendra, onde, em lugar de segmentos
intercalares nitidos, são conservados (como já vimos) apenas alguns escleritos
nos pre-tergitos e pre-estemitos. Os feixes dorso-pleurais partem da borda
antero-e postero-lateral do tergito, inserindo-se nos pleuritos laterais, sendo mais
espesso o feixe que termina no pleurito do estigma. Outras fibras do mesmo
feixe inserem-se na catopleura e ainda outros na parte superior da eucoxa superior
e posterior.
Os musculos ventro-pleurais (mvpl) formam nos 4 generos de Geofilomorfos
tres feixes. O mvpU origina-se no lado externo do estemito intercalar, os mvplj
e mvplj partem da zona que marca o limite entre o esternito principal e a hipocoxa
anterior, respectivamente posterior, terminando os 3 nos pleuritos.
Em Eulithobius apenas pudemos verificar a e.xistencia de um musculo ventro-
pleural nitido, que se insere no pleurito do estigma, na margem inferior, enquanto
que, em lugar dos dois outros feixes ventro-pleurais, existem dois musculos ho-
rizontais, um. na borda anterior e o outro, na posterior do estemito indo cada um
de um canto ao oposto.
Os musculos ventro-pleurais de Scolopendra são reduzidos aos dois feixes
horizontais, um, na borda anterior e o outro, na posterior de cada estemito, ambos
muito pouco evoluidos. O anterior ultrapassa porém os limites, de maneira que
cobre parcialmente os escleritos dos pre-estemitos.
24
WoLFCANG BCcherl — Scolopendra viridicornis NEWP.
89
Comparando os músculos pleurais dos 4 generos de Geofilomorfos, de
Eulithobins e de Scolopendra (estudamos sempre as seguintes especies: Scolo-
pendra viridicornis Newp., 1844, Scolopendra subspinipes Leach, 1815 e Scolo-
pendra morsitans L., 1758) com o sistema muscular das pleuras dos Insetos (H.
Weber; op. cit. na bibliografia), vemos quão grande é ainda a incerteza sobre a
origem filogenetica dos feixes laterais dos Insetos, principalmente dos “promoto-
res” e “remotores coxae”, que correm da borda dorsal do “epistemum” ao
"basicoxale” e da borda dorsal do "epimerum” ao “merum”. Uma explicação
poderia ser encontrada tah-ez nos feixes dorso-pleurais das Escolopendras, feixes
estes que já atingem parcialmente os pleuritos que concorrem na formação da
coxa. Aceitando a hipótese de um treslocamento das zonas de origem dos tergitos
para o “epistemum” e “epimemm”, estes musculos de fato corresponderiam aos
“promotores e remotores” dos Insetos.
4) MUSCULOS DAS PATAS
A procoxa, metaco.xa e eucoxa inferior estão cm Scolopendra em contacto
imediato com o esternito, resultando deste fato a necessidade de uma união
mu.>^cular direta entre os feixes medianos do esternito (m. subcoxales stemales)
e as citadas partes da coxa.
Tendo Verhoeff tratado da musculatura das patas (vide bibliografia),
resta-nos estudar apenas os musculos ventrais “subcoxales”, presentes nos 4
generos de Geofilomorfos, em Eulithobius e em Scolopendra.
Nos citados Geofilomorfos os musculos “subcoxales stemales” são di\-ididos
em tres feixes, localizados no esternito do segmento principal. Originam-se ao
longo da linha mediana da placa, sendo cobertos lateralmcnte pelos musculos
ventro-Iongitudinais, e correm em direção aos escleritos pleurais que formam a
hipocoxa e a procoxa, inserindo-se nestas ultimas.
Além destes tres feixes observamos outros tres, que. partindo um da borda
anterior, outro do meio e o terceiro da borda posterior do esternito. atravessam
a coxa, inserindo-se na base do tclopodito.
Os primeiros feixes são “promotores” e “remotores” da coxa, os últimos
“pro-c remotores” do telopodito.
Na cavidade, formada pelos pleuritos da coxa, e.xistem ainda alguns musculos
curtos que correm da base da coxa ás bordas do telopodito.
Em Eulithobius podemos observar um sistema muscular ventro-lateral se-
melhante aos citados Geofilomorfos, principalmente no tocante aos musculos
“subcoxales stemales”.
Em lugar dos outros tres feixes vemos apenas dois musculos, porém muito
longos. Originam-se no canto posterior, respectiv-amente, na zona mediana do
90
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
lado oposto, atravessando em s^uida toda a largura do estemito e inserem-se
na base do telopodito. g
Musculos curtos correm igualmente da base da coxa à base do telopodito.
Em Scolopendra vemos representado noramente o tipo mais evoluido. Os
feixes “subcoxales sternales” (visiveis na Foto 5 na zona mediana de cada ester-
nito) são muito espessos e entrecruzam-se em seus lugares de origem.
Ai são muito espessos e subdivididos em subfeixes, enquanto que diminuem
em espessura durante seu percurso. Na linba mediana do estemito unem-se
dos dois lados, estabelecendo sua “origo” na epiderme.
O primeiro dos musculos “subco.xales sternales” principia em frente, no
limite entre um e outro estemito. É dividido em dois subfeixes, inserindo-se com
um subfei.xe na borda anterior da eucoxa superior e com o outro na borda pos-
terior do mesmo pleurito.
O segundo corre paralelo ao primeiro, tendo sua origem atrás deste e sua
inserção na borda da euco.xa inferior, principalmente na apófise quitinosa da
“costa coxalis”.
O terceiro origina-se na linba mediana perto da borda posterior do estemi-
to. Durante o seu percurso é subdividido em dois subfeixes. inserindo-se o an-
terior na procoxa, no lugar onde esta se limita com a eucoxa superior, enquanto
que o subfeixe posterior se insere na “costa coxalis”, entre a eucoxa superior
e inferior.
Perto deste ultimo, ao longo da borda posterior do estemito, salientam-se
dois musculos longos que correspondem aos dois de Euliihobius, principiando
ambos no canto posterior do outro lado. Atravessam todo o estemito, inserin-
do-sc na base do telopodito, um. perto da eucoxa posterior e o outro, entre esta
ultima e a eucoxa inferior.
Da base da co.xa para a base do telepodito correm feixes musculares curtos
que ativam as articulações da pata.
Os musculos “subcoxales sternales” aparecem igualmente nos Insetos (H.
Weber: op. cit. na bibliogr.). Não se originam, porém, na linha mediana dos
esternitos. mas na apófise da furca. O primeiro musculo é o "promotor coxae”,
correndo da furca para a margem anterior da coxa ; o segundo é o “abduetor do
trocantero— femur”, indo da furca para o tendão do trocanter; o terceiro é o “re-
motor co.xae”, correndo da furca para a margem posterior da coxa.
Snodgrass considera os primeiros dois como “homologon” de dois feixes
que correm da linha mediana ventral para a margem anterior, respectivamente
jxjsterior, da “coxa” do parapodo dos Poliquetas, cobrindo os feixes longitudi-
nais ventrais. H. Weber, ao contrario, acha isto impossivel, porque os dois
musculos em questão são periféricos nos Insetos, isto é, muito distantes dos
feixes ventro-longitudinais, enquanto que nos Poliquetas conser\*am posição cen-
tral, sobrepassando os musculos longitudinais. Comparando com estes dois casos
26
W'0LFa\XG BCcherl — Scolopendra viridicornis NEWP.
91
extremos os musculos “subcoxales sternales” de Scolopendra, tendo em vista
principalmente sna posição para com os feixes ventro-longitudinais, então a ten-
tativa de Snodgrass de honiologuizar estes musculos não nos parece tão invero-
símil como pensa Weber. De fato em Scolopendra os citados musculos já não
cobrem os feixes longitudinais, mas são, pelo contrario, cobertos por estes. O
deslocamento da zona central para a zona da furca ainda não se realizou neste
grupo, mas torna-se evidente nos Insetos pelo estabelecimento definitivo da furca
e o crescimento maior das patas.
CONXLUSAO
Pelo presente trabalbo é feito um estudo comparativo da mu.sculatura dos
Quilopodos. tendo em vista também o sistema muscular dos .^nelideos e Insetos.
Entre os Geofilomorfos estudamos os 4 generos: Aphilodon micronyx
Brõl., 1901 ; Orphnacus brasilicnsis Mein., 1870; Schcndyla paulista Brôl., 1903
e Geophilus subíactis Mein., 1870.
Xos Litobiomorfos examinamos uma serie de exemplares do subgenero Eu-
lithobius Stuxb., comparando-a com os Litobiomorfos descritos por Verhoefp
(vide bibliogr.).
Entre os Escolopendromorfos estudamos o genero Scolopendra, servindo-
nos de modelo: Scolopendra t-iridicornis Xewp., 1844; Scolopendra subspinipes
Leach, 1815 e Scolopendra tnorsilans L., 1758.
Como ponto de partida deste tralialho, escolhemos a Scolopendra rirídiVor-
nis (vide titulo), porque é uma das Escolopendras mais frequentes, de maneira
que obtivemos grande numero de exemplares vivos e mortos.
Quanto ao sistema muscular dos .Anelideos e Insetos aproveitamos o “Lehr-
buch der Entomologie” de H. Welier (vide bibliogr.).
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
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28
APEN DlCE-.-í AH/li\G
DIE MUSKULATUR VON SCOLOPENDRA VIRIDICORNIS NEWP.
, . I
I
EIN BEITRAG ZUM VERGLEICHENDEN STUDIUM DER
CHILOPODEN UND INSECTEN — MUSKULATUR.
In dieser Arbeit wird ein vergieichendcs Studium der Chilopodenmuskulatur
untemommen, wobei auch das Muskelsystem der .Anneliden und Insecten in’s Auge
gefasst wird.
Aus der Geophilomorphengruppe haben wir 4 genera mit den Arten: Aphi-
lodon tnicronyx Brül., 1901; Orphnacus brasilicnsis Mein., 1870: Schcndyla
Paulista Brõl., 1903 und Geophüus sublacz-is Mein., 1870 untersucht; von den
Lithobiomorphen diente uns cine Serie des sul^enus: Eulithobius Stuxb. zu
diesem Studium und von den Skolopendromorphcn behandelten wir die Arten:
Scolopcndra viridicornis Newp., 1844; Scolopcndra subspinipcs Leacii, 1815 und
Scolopcndra morsilans L., 1758.
Da Scolopcndra 'viridicornis ejne sehr hãufige Art darstellt, konntcn wir sie
in grossen Mengen bekommen und im lebendigen und toten Zustande untersu-
chen. Wir nahmen deshalb auch diese Art ais Ausgangsobjekt unserer verglei-
chenden Untersuchungen.
Jedesmal wenn wir von Anneliden und Insecten sprechen, so bezichen wir
uns dabei auf H. Weber’s "Lehrbuch der Entomologie”, Jena, 1933 (Siehe auch
Bibliographie im Haupttexte).
* ♦ *
Im Kapitel: Vergleichende Morphologie und Phylogenie-Bronn’s, 1903-1925,
macht Verhoeff zusammengefasste, vergleichende Betrachtungen übcr das Mus-
kelsystem der Lithobiomorphen und Geophilomorphen, wobei er nur einige Ver-
treter in’s Auge fasst. -Aus der Skolopendromorphengruppe wird Scolopcndra
mbspinipcs einige Male flüchtig envãhnt. Wir stellten deslialb in dieser .Arbeit ge-
rade die Skolopendromorphen. besonders das genus: Scolopcndra in den Vor-
dergrund, wobei wir die Kopf und Beinmuskulatur ausser .Acht liessen, da diese
schon von Meinert und Verhoeff (siehe Bibliographie) behandelt wurde.
94
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Bei den Skolopendromorphen haben wir es rweifellos mit der abgeleitetsten
Gruppe unter den Chilopoden zu tun. Wãhrend die Muskelverhãltnisse bei den
Geophilomorphen noch am einfachsten sind und am leichtesten von der Ring-
und Lãngsmuskulatur der Anneliden abgeleitet werden kõnnen, sehen wir bei
den Lithobiomorphen schon eine neue Verwicklung und Ver\’ollkommung in der
Auflõsung der verschiedenen Muskellagen in neue Züge. deren Ursprungs-und
Insertionsstellen auch schon teilweise vcrschoben sind.
Bei den Skolopendromorphen geht diese \’erschiebung und Verlagerung noch
weiter auseinander. Das Bild der einzelnen Muskellagen wird noch verwickelter,
so dass wir nicht anstehen, gerade diese Gruppe ais einen \'ermittlungstyp der
In.«ectenmuskulatur einerseits und der Annelidenmuskulatur andererseits anzu-
sehen. Zur Bekrãftigung dieser unserer Behauptung haben wir in vorliegender
Arbeit eine morphologisch-vergleichende Betrachtung der verschiedenen Muskel-
systeme der oben genannten Gruppen untemommen und wir glauben damit einige
neue Blickpunkte zur phylogeneti sehen Deutung der besonders verwickelten Tho-
raxmuskulatur der Insecten erõffnet zu haben.
Unseren Ausführungen im Hauptteile dieser Arbeit mõchten wir nur noch
Folgendes kurz beifügen:
Die dorsalen Lãngsbündel von Scohpcndra werden in 3 Züge geteilt. Zu
oberst liegen die schiefen, segmentãren I^ngsmuskeln, die von vome innen nach
aussen hinten streichen und von den darunter liegenden, geraden I^ngsbündeln
zur Seite verschoben werden. Diese sind ebenfalls segmentar, behalten die Mit-
telzone der Tergite inne und verlaufen vom V’order-zum Hinterrand. Hierauf
folgen die geraden intersegmentãren Lãngsbündel, die durch Tracheolen in Ne-
benbündel zerklüftet werden und über die Segmentgrenzen hinwegziehen, immer
je 2 Hauptsegmente miteinander verbindend. Zu unterst bemerken wir die 2
schiefen intersegmentãren Lãngsbündel. die von vome innen nach hinten aussen
ziehen, wobei immer jedes der beiden einem besonderem Segment entspricht, was
daraus ersichtlich ist, dass “mdlij” \nel mehr in die Lãnge gezogen, wãhrend
“mdlii” kürzer und breiter ist, -und noch besonders daraus, dass sich “mdlij"
in den beiden stigmenlosen, sechsten und siebten Segmenten wiederholt.
Der “mvlsi" ist gerade und verlãuft der Mittellinie paralell. Er ist der Pro-
totyp des Lãngsbündels, das bei den Insecten von Spina zu Spina lãuft. “Mvlsj”
geht bei Letzteren von Furca zur hinteren Spina; “mvlss” von Furca zur vorde-
ren Spina. Da aber bei den Skolopendromorphen weder von einer eigentlichen
Spina noch Furca geredet werden kann, sondem diese hier erst in Bildung be-
griffen sind (sie sind angedeutet durch chitinõse Gebilde am Vorder-und Hin-
terrande und in der Mittellinie der Sternite) und desonders das primãre Furca-
gebilde noch sehr verschoben ist, so wird "mvlss” sehr lang und “mvlsj” von
aussen nach innen verschoben.
30
WoLFGANG BCcherl — Scolopetidra viridicornis XEWP 95
Bei den Insecten ist noch ein “mvli” vorhanden, der von Furca zu Furca ver-
lãuft. Bei Scolopcndra geht er jedoch imnier noch von primãrer Spina zu Spina,
obwohl hier schon in so fern eine Annãlierung an den Fali der Insecten vorlian-
den ist, dass die “spinãre” Chitinformation mit den primãren “Furcaausbildun-
gen” in engster Verbindung stelit. Auf diese Weise ist der Beweis íür die
Richtigkeit der Behauptung Webers — Lehrbuch der Entomologie, pag. 132, —
dass der “mvli” auf keinen stemo-subcoxal-Muskel zurückzuführen, sondem
dass er vielmehr von einem ventralen Lãngsmuskel, der von Spina zu Spina
verlief, abzuleiten ist, wobei sich die Ursprungs-und Inscrtionsstellen von den
Spinae auf die Furcae verschoben liabcn müssen, erbracht.
Weber’s Ausführungen mõcliten wir nur noch beifügen, dass mit der
Vcrschicbung dieses Muskels von der Spina zur Furca auch die Umwandlung
und definitive Ausgestaltung der Furca Hand in Hand ging, wxis wir dadurch
bewcisen zu kõnncn glaubcn, dass bei den Skolopendromorphen nocli kcinc
eigcntlichen Spinae noch Furcae ausgebildet sind, sondem diese nur <lurch
flache Chitinleisten ausgedrückt wcrden, wobei besonders die der Furca cnt-
sprcchende Oiitinlciste schr mãchlig ist. Sie beginnt mit einem schmalcn
Anfangsteil in der Mitte je eines Sternites, verlãuf sodann ül)er den Sternitrand
hinweg und vereinigt sich mit den chitinõsen Apophyscn der Costa coxalis und
dem.diescr gegenüber liegenden inneren Coxo-Trocliantingelenke. Durch Lãngs-
und Quermuskcln wird diese primitive, inncre Furca in ihrer Lage crlialtcn und
sie ist es auch, die den direkten Pro-und Rcmotorcn der Coxa ais Insertionsstel-
Ic dient. Nun sind gerade bei den Skolopendrcn die "mvli” mit diescr Platte
schr lose verbunden (durcli Nel>ensehnen und einer schwachen, vorderen Ajh)-
I>hyse), so dass, auf Gmnd einer steigenden Inanspruchnahmc und der fort-
schreitenden Vcrschmelzung der Subcoxalteile mit dem Stemum der Insecten,
die M^lichkcit einer definitiven Niedcrlassung des “mvli” auf den Furcae
durchaus im Berciche der M^lichkeit liegt.
(TrmbAlbo da S«cçio de Zoolocia Medica do
Instituto Batantan. Dado i publicidade esn
dezembro de 1940).
WoLFa\NG Bucherl — Sobre a musculatura da Scolopen
dra viridicornis Newp.
Mctn. InsL BuUntAn
Vol. XIV
1940
ri£
Fif 2
Aspecto loterno do« tcrgitos em
estado nattxraL
•) esclcritos, b) sulco eins*
ctttal, c) zooa moTcL
Aspecto interno dos terfitos distendidos,
a) esclerítos, b) sulco esMtcutal, c) xona
more) distendida.
7SCÍELO1 ;l1 12 13 14 15 16 17
Mcm. Icst. BatAntan
WoLFa\NG Bücuerl — Sobre a musculalura da Scolopen
dra viridicornis Newp.
VoJ. XIV
1940
Fi*. J
Fi*. 4
Reprodução esquemática da musculatura da Scolo-
prmdra pírídicunsis NE\^P.
mdl: muscuios dorso-longitudinais;
iDdv: nittvctilos dono'TCBtms!
iiitI: nmsctilo* Ycnlro-lonptodinAi*;
mdpl: mu*culo* dor»o*pletir»if;
arpi: muscuIo* vcnlro-plcurais.
Aspecto interno de um tegtnento ds
Scolc^tndn viridicornis NEWP.
indls: nmsculos dorso-looptodioais »e<*
men tares;
okÍIí: muscuios dorso-longitudinais in*
terse^en tares;
mvl: musculoo eentro-longitudinais;
mdpl: muscuios dorso-pleurais;
mvpl: muscuios rcntro-pleurais;
indri: muscuios dorso-ventrais inlcrseg-
men tares.
cm
7SCÍELO1 ;l1 12 13 14 15 16 17
WOLFa\NG Bücherl
Sobre a musculatura da Scolopen-
(Ira viridicornis Newp.
Meta. Inst. ButanUn
Vol. XIV
1940
mÍIíj
3 ^ rSiárXf^
•V n:jím/
Fig. 6
Fig. 5
A»|^ecto interno «k» raonculot dor*o-loocitodinai*
intersecmen tares.
Atpecto iotemo dos nitsscoios dnrso-lonfitxidi*
nats secmcntares.
!•* trícefa do mdlii; 2.* origem do nxUi^
vSciELOi ;l1 12 13 14 15 16 17
Meto. Inst. Butantan
Sobre a niuscuIaUira cia Scolopen-
dra vi ri di ro rnis N kw p.
WOLFGANG BVCHERL
Vol. XIV
1940
M»crofo(o 1
c) tonofibrila*
H> cptdctmc «a^cuticular
a) mrmbrana ba»ilar
b) mu^culo
M icrofoto
M>crofo(o
núcleo epidennico
traqueias
esofafo
a» mu«culos boruon-
tais
b) temiâo
tendoe*
C3HCUi*(nI* ctm t**"
ros cutâneos.
endocuticula
lotw f t b rilas
7SCÍELO1 ;l1 12 13 14 15 16 17
Foto
Aspecto intcfTK) de tres se(inentos dorsais
a: traqueias e traqueolas;
b: nKUi|;
c; tndli,;
d: feixe mediaiM do mdlij;
da Scolo^mdrm riridici>rmis NEWP,
e: feixe lateral do mdlij;
mdlt^;
mdr.
7SCÍELO1 ;l1 12 13 14 15 16 17
WOLFCANG BCt.herl — Sobre a musculatura da Scolopen-
dra viridicornis Xewp.
Mera. Inst. Butantan
Vol, XIV — 1940
NVolfgano Bücherl — Sobre a nuisculalura da Scolopen-
dra viridicornis Xkwp.
Mera. Inst. Rtilantan
VcJ. -XIV
1940
Fo«o 5
A»peclo interno de tre« reitraenlo» Tentriii e irentro-plenriif tU Scatotcmára ririjicormis XEWT.
a: tendão longitinlinol mediano do mrl»,: b; tendão do mdre,; 1: mdli,; 2: mdli,; 3: mdn,;
4; mel»,; 5: mrl»,: 6: mdr»,; 7: mdv»,; 8: mdn,; 9: radri.
Xa linha rae<liana do» ««temito» ubierTamo» o» feixe» tiibcoxales — Hemale».
cm
vSciELOi ;l1 12 13 14 15 16 17
612.617:612.816
EXCITAÇÃO DO HIPOGASTRICO E AÇÃO DA ADRENALINA
E DA PITOCINA SOBRE A MUSCULATURA LISA GENITAL
MASCULINA DE GATOS E COBAIOS EM DIVERSAS
CONDIÇÕES HORMONAIS
FOB
THALES MARTINS & JOSÉ R. VALLE
Já e ludamos em trabalhos anteriores (1-6) a influencia dos hormonios
sexuais sobre o comportamento “in vitro” dos orgãos genitais accessorios mas-
culinos do gato e do cobaio. No gato, as substancias androgenicas inibem a
motilidade espontânea e diminuem a reatividade farmacológica daqueles orgãos.
As substancias estrogenicas exercem efeitos opostos e ainda sensibilizam os
orgãos à ação da pitocina e modificam de contração para relaxamento o efeito
da adrenalina.
No cobaio a ação inibidora da testosterona não é tão evidente como no gato.
mas o estradiol parece exagerar a grande excitabilidade dos orgãos de doadores
normais. A variação dos efeitos da adrenalina analoga à obsers-ada no utero da
gata por Cushny (7), Dale (8), van Dyke e Gustavson (9) e no utero da cobaia
por Okamoto (10), foi encontrada também nos deferentes e nas vesiculas de
colxiios tratados com o benzoato de estradiol.
Diante dos dados acima resumidos e empregando grupos de animais normais,
castrados e castrados tratados com hormonios sexuais, procuramos estudar neste
trabalho os 'resultados da excitação faradica dos nervos hipogastricos e os efeitos
da injeção endovenosa de adrenalina e de pitocina sobre os canais deferentes de
gatos e sobre os deferentes e as vesiculas de cobaios, mantidos os orgãos "in
situ’
cm
vSciELOi ;l1 12 13 14 15 16 17
110
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
MATERIAL E MÉTODO
Empregamos nas nossas experiencias 25 gatos de 2.3 a 3.8 kgs., assim dis-
tribuídos: 2 normais, 4 castrados. 8 castrados tratados com testosterona e 11
castrados tratados com estradiol e 19 cobaios de 420 a 900 gs. : 5 normais, 3
castrados, 3 castrados injetados com testosterona e 8 castrados tratados com
estradiol. O tratamento hormonal consistiu em inje<;ões subcutâneas, cada 4 a 6
dias, da substancia hormonal (*), dissolvida em 0.5 a 1.0 cc. de oleo de sésamo.
Fi». 1
Gato 43» castrado 36 dias antes» tratado com 70 nigs, de propiooato de testosterona repartidoa em
7 injtçôea oleosas snbctitaneas. De cima para baixo: morimentos do penis» morimentos do canal defe-
rente» linha do sinal e Unha do tempo.
A — Excitaçio doe eerroe hipogastricoe dorante 5 e 15 segundos com corrente de 4 toIu do pri-
mário « secundário afastado de 13 cms..
B Efeitos da injeçáo na fcmural de 5 y ^ adrenalina.
OLsenraf o tipo de resposta mooofasica do deferente depois da cxcitacio detrica e rítmica após a
adrenalina. O abaixamento da alaranca ligada ao penis durante a exciuçóo detrica corrcapocule à ere^5o
do orgio.
£m todas as figuras» na linha do sinal, rem registada a duração da excitação faradica e da injeção
endorenosa. Cada interralo na Unha de tempo corresponde a 6 segundos.
Abb. 1
Katze 43» 36, Tage nach der Ka$trati<m mit 70 mg Testosteronproprionat auf 7 mal Tcrteilt Injisicrt.
Obtm: Penis. ÀíitU: Samenleiter. — und Zeitlinie.
A ^ Reiiung der hrpogastríci Nn. wâhrend 5 und 25 Sekunden Dauer (4 Volt, Abstand der Primar-
und Sckundâr-Spule 13 cm).
B — - Wirkung des Adrcnalins (5 y intravenSs injUiert). Zu Tcrgleichen ist die Art der Kontraktioacn
nach der Injektion und nach der faradiscben Reizting der Xerren. Die Senkung des mit dem GUedc
Terbundenen Schrcibstiftes wâhrend der elektrischen Reiaung entspricht der Erektíoa des Organs.
Bei alleo Abb. ist auf der Signallinie die Dauer der Reiaung und der Injektion reraeichnet. Zeitlinie:
loterralls too 6 Sek..
(•) Agradecemos às casas Schering (Testoriron, Progjnon) e Parke Davis (Adrena-
lina, Pitocina) os preparados hormonais uiados nestas experiencias.
2
Th. Martins & J. R. Yalle — Excitação do hipogastrico
111
As doses utilizadas variaram de 30 a 160 mgs. de propionato de testosterona e de
2 a 22 mgs. de benzoato de estradiol. De 23 a 180 dias depois da castração e
de 3 a 96 horas depois da ultima dose hormonal, quando o tratamento era insti-
tuído, anestesia\-a-se o animal para a dissecção dos orgãos e isolamento dos ner-
vos hipogastricos. Para os gatos empregamos o Dial “Ciba” em injeção
intraperitoneal de 0.7 a 0.8cc. por kg. e para os cobaios a uretana, também intra-
peritonealmente, na dose de 1 g. por kg.. Em ambas as especies, quando ne-
cessário, a anestesia era completada com éter. Isolados os orgãos êles eram
ligados às alavancas inscritoras com index de ampliação de 1 x 6 e carga de 1
a 2 gs.. Um tubo protetor de vidro, com orificio de passagem do fio, servia
de camara húmida. Nos gatos, as injeções eram feitas na fenniral e nos co-
baios na jugular na dose de 1 a 2 unidades intemadonais de pitocina e.de 2 a
20 gamas de adrenalina e, em ambas as especies, a exdtação dos hipogastricos
era feita com a corrente de uma bobina tipo “Harvard” com 4 a 8 volts no pri-
mário, 60 interrupções por minuto e de 5 a 60 segundos de duração. Também
os orgãos contralaterais eram isolados e le\-ados para um banho oxigenado de
Locke a 38° para experienda concomitante “in vitro”.
Fi*. 2
Cofiai deferente do Gato 52, castrado dias antes c tratado durante 12 dias coo
2.5 Off. de bentoato de estradiol "per os". Experieticta realiaada 6 horas apds a ultima
ingestão do bonnonto.
Efdtos da excitarão hipofastrica duraste 90 segundos (4 eotts. IJ cms.) e da injecio
endoTcnosa de 15 y àe adrenalina. Notar a fraca excitabilidade nenrosa e a açio ioilúdora
da adrenalina.
Abb. 2
Samenleiter der Katae 52, S3 Tace oach der Kastratien mit 2.5 mc Ocstradiolbenioat,
f-tr os wàbrend 12 Tagen, bHmoddt; 6 Stunden nach der letzteo Doais bcobachtet.
Effdrt der Reixunc der hjrpocastrici Xn. (4 Volt, 13 cm 90 Sck.) und der Injcktion
vem 15 Y Adrenalin. Schwache XenrenreUbarkeit und hemmende Wirkun* des Adrenalina.
RESULTADOS
Os resultados vêm resumidos no quadro No. 1. .^s contrações espontâ-
neas, isto é, independentes de injeções de drogas ou de excitação hipogastrica,
foram registadas mórmente no grupo de cobaios castrados tratados com estra-
112
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
diol. Também neste grupo foi maior a exdtabilidade hipogastrica ; contrações
fortes eram registadas já com o máximo afastamento do secundário da bobina.
Fij. 3
Canal deferente do Gato 55, castrado
de 61 dias tratado durante este período
com 50 de propionato de testoste-
rona e a seguir com 5 mgs. de benzoato
de estradiol. Xa linha do sinal vêm re>
gistadas a injeçío na femural de 1.5 c.
int. de Pitocina e a excitação hipogastrica
durante 15 segxtndoa <4 volts, 9 cms.).
O tratamento pelo estradiol sensibtli*
%ou o orffio i ação da pttocina, mas a
excitabilidade nervosa é fraca. As peqne<
nas oscilações são devidas aos movimentoa
respiratórios,
Abb. 3
Saraenleiter der KaUe 55, 61 Taje nach der Kastration mit 50 mg Testosteronpropionat und h*»*^*»
mit 5 mg Oestradiolbenzoat behandelt. Effekt der intravenisen Injdction von Pitocin (1.5 I. E.) und
def elektrischen Reisung des Hrpogastricus <4 Vdt, 9 cm 15 Sek.).
Die Oestradiol-Behandiung sensibtlisiert das Organ gegen die Wirkung des Pitocins. aber die Nerven-
reizbarkeit ist schwach.
Fig. 4
Canal deferente do Gato 33,
130 dias depois da castração. Efei-
tos da injeção endovenosa de 1 u.Í.
de pitocína.
Abb. 4
Saroenleiter der Katze 33, 130
Tage nach der Kastration. Wir«
kung der intravenAsen Injektion
von Pitocin (1 I. £,).
Xos gatos, pudemos verificar que a excitabilidade hipogastrica é maior nos ani-
mais castrados do que nos grupos de castrados injetados com tetosterona ou es-
tradiol. Em dois casos, um gato normal e um castrado injetado com testoterona,
o comportamento “in situ” de castrado, deduzido da maior excitabilidade ner^-osa.
concordou com a experiencia "in vitro”. Tanto nos gatos como nos cobaios
tratados com estradiol somente em um caso, para cada espede, foi assinalado re-
laxamento dos orgãos depois da excitação farádica dos nervos hipogastricos.
Quanto à ação da adrenalina, predominaram os efeitos inibidores no grupo de
gatos e cobaios injetados com benzoato de estradiol; nos gatos, entretanto, an-
4
I SciELO
Th. Martins & J. R. Valle — Excitação do hipogastrico
11.3
QUADRO No. 1
Animais de expertencia
’c
£
'£
m
c
e
z
e
B
c
c
3
A
A
E.\CITABILIDADE
HIPOGASTRICA
ADRE.SALINA
PITOCI.VA
V
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5
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A
C-
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Contraçflo
Sem efeito
normais
2
0
1
1
2
•»
1
1
castrados
4
1
4
4
3
1
3
3
" castrados -f- testosterona. .
8
2
1
7
7
5
2
6
1
5
castrados -f- estradiol ....
n
2
3
7
1
10
I
4
5
8
6
2
Cobaios normais
ò
0
2
3
4
1
3
” castrados
3
0
1
2
3
2
1
3
3
castrados -J- testosteroiu
3
1
1
1
3
2
1
3
1
2
castrados -(- estradiol . . .
8
6
5
2
1
7
•>
6
4
3
1
tes do relaxamento houve sempre pequena contração inicial. As variações na
resposta à excitação hip<^astrica e à injeção de adrenalina foram discutidas por
Kennard (11) a proposito do comportamento “in situ" de úteros de gatas tra-
tadas com progesterona. Elmbora tivéssemos examinado os nossos animais de
3 a 96 horas depois da ultima dose de estradiol, os efeitos inibidores depois da in-
jeção de andrenalina foram, como dissemos, mais frequentes do que após a excita-
ção faradica dos nervos hipogastricos. Entretanto, sómente o exame de um numero
maior de casos e, talvez, a analise da influencia do ritmo de tratamento e da
via de administração do hormonio, permitirão concluir pela excepcional inibição
à excitação nervosa da musculatura lisa genital de gatos e cobaios tratados com
substancias estrogenicas.
Fif. 5
Canal deferente do cobaio 126A, nonnal.
Efeito* da inje^io na jufular de 2S y de
adrenalina.
Abb. S
Sameoleiter de« oomalen Meerschwdn*
chent 126A. Wírkung roo 25 y Adrenaltn,
in die Jnfnlarrene injiziert.
Finalmente, a maior incidência de efeitos positivos da
especies, foi encontrada no grupo de castrados-estradiol.
pitocina, nas duas
5
114
Memórias do Instituto Butantan
Tomo XIV
Fís. 6
C^nal deferente do cobaio 7 castrado de 145 dias e tratado com
21.5 mgs. de benioato de estradiol repartidos em 29 inje^des oleosas i
subcxitaneas. Efeitos da excitação bipofastrica. 4 volts. 13 cms. durante
30 segundos. Notar a leve queda do tonus e a diminuição da ampli*
tude das contrações espontâneas.
Abb. 6
Samenleiter des Meerscbweinchens 7» 145 Tage nach der Kastration
und mit 21.5 mg Oestradiolbcnxoat, auf 29 mal rerteilt. ínjiziert. Reis-
ung der brpogastríci Nerren wãhrend 30 Sek. (4 Volt, 13 cm). Scbwa-
ches Fallen des Tonos und V^erkleinerung der Spontanbewegungeo.
Fig. 7
Cobaio 144, castrado de 70 dias tratado com 1.5 mgs. de propionato
de testosterona e a seguir com 6 mgs. de benxoato de estradiol.
Em cima: Veskula seminal. Em baixo: Canal deferente. Efeitos
da injeção endorenosa de 2.5 y de adrenalina e da excitação faradica dos
nenros bipogastricos. (4 volts, 13 cms. 50*. 5 segundos).
Notar que o tratamento pelo estradiol só inrerteu a ação da
adrenalina.
Abb. 7
Meerscbweiocben 144, 70 Tage nacb der Kastrati<m mit 15 mg
Testosteronpropionat tmd danacb mit 6 mg Oestradiolbenzoat injUiert.
Obtn: Samenblasc. ünten: Samenleiter.
Effekt der intrarenSsen Einspritaung roo Adrcnalin (2.5 y)
der faradiseben Reisung der bjpogastríci No. (4 Volt, 13 cm 50*, 5 Sek.).
Bemerkbar ist. dass die Oestradiolbebandiung nur die Wirkung des
Adrenalins wecfaselt.
6
Th. M-Krtixs Jc J. R. Y.\lle — Excitação do hipogastrico
115
RESUMO
Xos deferentes de gatos, a x-ariação nos efeitos da adrenalina na dependen-
cia do tratamento hormonal, assim como a sensibilização dos orgãos de castra-
dos injetados com estradiol à ação da pitocina, previamente descritas nas expe-
riências “in ritro”, foram também r^istadas nas experiencias realizadas, man-
tidos os orgãos “in situ”. Nesta especie a reatiridade à excitação do nervo
hipogastrico foi encontrada maior nos castrados do que nos normais ou injeta-
dos com testosterona ou estradiol. Xos deferentes e vesiculas seminais de co-
Fi(. 8
Cobaio 123 cottrado d« 120 diai e tratado com 11 meo. de benxoato de estra-
diol. Em cima: BexifO. .V« meie: Vesícula seminal. Em bmxot Canal deferente.
Efeitos da injeeJo endorenosa na jotnlar: a) 1 o-i. de pitocina, b) 10 y de
adrenalina, c) Exciucio farodica do hipocostrico durante 10 sefundos (4 VolU,
13 cms. 4S*).
Xeste coso o tratamento peto estradiol scnsibilUon os orpios i aeSo da
pitocina. Afio praticamente nula depois da inje^ de adrenalina.
Abb. 8
Meerschweinclien 123, 120 Tape noch der Kostration mit II m« Oestra-
diolbenxoat ' behanddt. Obrn: Homblose. Miut: SomenUose. UrnSen: Sa-
menleiter.
Effekt der Injektion in die Jurularrene ron a) Pitocin (1 I. E.),
b) Adrenolin (10 y). c) Farodische Reisunc des X. hrpocostricus wihrend 10 Sek.
(4 Volt, 13 cm 45*). Bei diesem Foll sensibiliiiert die Oestrodiol-Bcliandlonp
die Orgone gegen die Wirkung des Pitocins. Xoch der Adrenalin-Injcktion
keinerlei auffollige Wirkung.
baios, a maior excitabilidade hipogastrica foi encontrada no grupo de castra-
dos-estradiol. X^este grupo também foi observada a inversão dos efeitos da
adrenalina e registada eventual sensibilização à pitocina. Nas duas especies,
cm
vSciELO, ; l 1 12 13 14 15 16 17
116 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
ainda no grupo de castrados-estradiol, efeitos inibidores foram mais facilmen-
te obtidos com a injeção de adrenaliiu do que com a excitação faradica dos
ner\-os hipogastricos.
REIZUNG DER HYPOGASTRICI XERVEN UND WIRKUXG DES
ADREXALIXS ÜXD PITOCIXS AUF DIE GLATTE GEXITALMUS-
KULATUR VOX KATZEX UXD MEERSCHWEIXCHEX IX VER-
SCHIEDEXEX HORMOXALEX ZUSTÃXDEN
Durch frúhere Arbeiten dieses Laboratoriums (1-6) haben wir die hem-
mende Wirkung des Testosterons auf die Kontraktilitãt “in \'itro’', sowie die
Erregung der Samenleiter von Katzen durch Oestradiol-Behandlung bewiesen.
Bei den Meerschweinchen scheint der Einfluss der Sexualhormone nicht so
dcutiich hervorzutreten ; aber durch Adrenalin kann man, wie bei Katzen, in
Organen Testosteron-kastrierter Tiere Kontraktion und in Oestradiol-kastrierter
Erschlaffung hervorrufen. Ein anderer bemerkenswerter Punkt unserer Unter-
suchungen war, dass das Oestradiol das Vas deferens des Katers für die Wirkung
des Pitocins sensibilisiert. Xach diesen Angaben untersuchten wir das Ver-
halten “in situ” der Genitalorgane dieser xwei Tierarten nach elektrischer Reiz-
ung der hopogastrici Xerven, mit Anwendung eines Harvard-Induktoriums von
4-8 Volt und 5-60 Sekunden Dauer, und intravenõsen Injektionen von Andre-
nalin (5 bis 20 gama) und Pitocin (1 bis 2 I.E.).
Ais Versuchstiere dienten: 25 Katzen — 2 normale, 4 kastrierte, 8 kas-
trierte nrit Testosteron behandelte und 11 kastrierte mit Oestradiol eingespritzte ;
19 Meerschweinchen — 5 normale, 3 kastrierte, 3 kastrierte mit Testosteron
und 8 kastrierte mit Oestradiol behandelte. 23 bis 180 Tage nach der Kastration und
3 bis 96 Stunden nach der letzten Injektion wurden die Tiere narkotisiert und
die Lãngskontraktionen der durch Glasrõhren geschützten Genitalorgane mit
Hilfe eines Schreibstiftes gemessen.
Die wechselnde Wirkung des Adrenalins auf die Samenleiter von Katem,
sowie die erhõhte Empfindlichkeit gegen das Pitocin nach der Oestradiol-
Behandlung, ãusserten sich auch bei den Versuchen “in situ”. Die elektrische Reiz-
ung der hyp(^;astrici Xerven ruft Kontraktionen in fast allen Fãllen hervor;
die Organe kastrierter Tiere sind die empfindlichsten ; in Oestradiol-Kastraten
bcobachteten wir nur in einem Fali deutliche Hemmung. Bei den Meer-
schweinchen zeigten die Oestradiol-Kastraten die stãrkste Reizbarkeit. Bei die-
ser Gruppe beobachteten wir auch die wechselnde Wirkung des Adrenalins und
eine eventuelle Sensibilisierung für das Pitocin.
Bei den Oestradiol-kastrierten Tieren beider Arten erzielten wir eine Hem-
mung Icíchter durch Adrenalin-Injektion, ais durch faradische Reizung der hypo-
gastrici bíerven.
8
2 .
3.
4.
6 .
10 .
11 .
Th. Martins & J. R. Valle — Excitação do bipogastrico
117
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(Trabalho da Sreeiu de Endocrinolofia do
lostituto Butant^n. Dado à poblicidad* cm
dcccmbro de 1940).
cm
7SCÍELO1 ;l1 12 13 14 15 16 17
ESTUDO “IN VITRO” DA MUSCULATURA LISA GENITAL
MASCUUNA DE RATOS EM DIVERSAS
CONDIÇÕES HORMONAIS
POR
THALES MARTINS ; JOSÉ R. VALLE & ANANIAS PORTO
Pross^^indo em nosso estudo sobre o papel dos hormonios sexuais na
regulação da contratilidade e da excitabilidade farmacológica da musculatura
lisa genital masculina (1-10) tivemos a ocasião de examinar, em nova serie de
experiencias, os efeitos de %-arias drogas sobre os canais deferentes, vcsiculas
seminais e próstatas de ratos normais, castrados e castrados tratados com hor-
mom‘os sexuais. Estudamos nos nossos trabalhos anteriores os efeitos da adre-
nalina, acetilcolina, pilocarpina, eserina, nicotina, ergotamina, yoimbina, cloreto
de bario, pituitrina, atropna, espermina, morfina, papaverina, efcdrina, hidras-
tina. muscarina, histamina e prostigmina. Os efeitos foram predominantemente
tonicos nos orgãos provenientes de doadores normais ou de castrados tratados
com substancias androgcnicas, e ritmicos nos orgãos de doadores castrados ou
tratados com substancias estrogenicas. Algumas drogas como a pilocarpina e
a muscarina, somente excitavam os orgãos provenientes de ratos castrados ou
de injetados com a estrina. Concluimos dos nossos estudos que a contratilidade
e a excitabilidade farmacológica dos orgãos genitais accessorios masculinos são
r^uladas pelos hormonios sexuais: as substancias androgenicas exercendo ação
inibidora e as estrogenicas, excitadora.
Neste trabalho estudamos os efeitos de novas drogas: cocaina, esparteina,
veratrina, lobelina, bulbocapnina. pwtressina e pitocina e também a ação “in
vitro” dos hormonios sexuais: testosterona, estradiol e progesterona.
MATERIAL E MÉTODO
Os resultados descritos neste trabalho se baseam no emprego de 22 defe-
rentes, 21 vesiculas e 10 próstatas de ratos normais; 33 deferentes, 37 vesiculas
120
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
e 14 próstatas de castrados; 28 deferentes, 32 vesículas e 21 próstatas de ratos
castrados tratados com propionato de testosterona e 23 deferentes, 27 vesículas
e 18 próstatas de castrados tratados com benzoato de estradíol.
Os orgãos eram retirados de 2 a 90 dias depois da castração e o tratamento
hormonal consistia em injeções subcutâneas oleosas cada 4 ou 5 dias de 5 mgs.
de propionato de testosterona ou de 1 a 2 mgs. de benzoato de estradiol (*).
Os orgãos provenientes de animais em condições hormonais diversas eram
levados para um frasco contendo 40 a 60 ccs. de Locke oxigenado e de pH 7.4 a
7.8. O frasco ficava mergulhado num termostato com regulação automatica da
temperatura a 38° ± 0.5°. As contrações longitudinais eram registadas com
Índice de ampliação de 1 x 6 e carga de 0.5 a 1 g. ;
Depois de 30 a 40 minutos para as observações concernentes às contrações
espontâneas, as drogas, nas concentrações finais adiante referidas, eram adicio-
nadas ao banho, graças a uma tubulura lateral, indo até ao fundo do frasco e
facilitando assim a mistura rapida com o liquido nutridor.
RESULTADOS
Cloridrato dc cocmna (1 :25.000 — 1:50.000). E’ um bom excitante dos
canais deferentes, provocando contrações com as diferenças já assinaladas para
as drogas referidas nos outros trabalhos: contrações ritmicas nos orgãos prove-
nientes de animais castrados ou de castrados tratados com estradiol e predomi-
nante tônicas nos de normais ou de castrados injetados com testosterona. As
vesiculas e próstatas de normais ou de castrados-testosterona são muito sensiveis
à droga, que, na maioria das vezes, não provoca nenhum efeito. As vesiculas e
as próstatas de castrados e de castrados-estradiol apresentam contrações predo-
minantemente ritmicas. Em deferentes, vesiculas e próstatas de todos os grupos
experimentais a adição de adrenalina após cocaína provoca efeitos sobre a ampli-
tude e o tonus das contrações maiores do que quando a droga era aplicada iso-
ladamente (Fig. 1).
Sulfato de esfarteina (1:15.000 — 1:50.000). Estimulo das contrações
ritmicas nos orgãos de castrados ou de tratados pelo estradiol. Os orgãos de
normais ou de tratados pelo propionato de testosterona são jxjuco sensiveis a esta
droga; só reagem às concentrações mais fortes com pequenas contrações tônicas.
(Fig. 2).
Veratrina (1:8.000 — 1:25.000). Resultados inconstantes. Nos deferen-
tes. vesiculas seminais e próstatas de castrados ou de tratados pelo estradiol, às
(•) Agradecemos às casas Schering os hormonios sexuais — Testoviron e Pro-
gynon, e Parke Davis — Pitocina e Pitressina, gentilmente cedidos para as nossas
experiencias.
*1
Th. Martins; J. R. Valle & A. Porto — Musculatura lisa genital
masculina de ratos 121
Fi,. 1
Cajiats defercntet de ratoe, S dias depois da castraçio.
Em cima: Rato 235, tratado com bcnxoato de estradiol.
So mria: Rato 234, tratado com propiooato de testosterona.
Em baisa: Deferente contralateral do Rato 235.
A primeira flecha assinala a adic^ ao tanho de cloridrato de adrenalina (1:1 mílhio), a secunda
de cloridrato de cocaína (1:25 mil) e a terceira repetição da mesma dose de adrenalina, ^tsenrar as
diferenças de tipo de contração e o sinervismo entre a cocaína e a adrenalina.
Fi». 1
Canaux détérents de rat, 5 jours aprés la castration. En haut et en bas rat 235, traité par le ben*
aoate d'oestradiol ; aa centre, rat 234, traité par la testosterone. Additioo successive d*adrenaline (1:1
miUion>; de cccaine (1:25. (XN)) et d*adrenaline (1:1 míllkm).
Remarquer les différences de iTpe de contraction et 1'effet sensibilisant de la oocaine en au»mentant
Taction de radrénaline.
Fi». 2
Rato 202. 90 dias depois da castraçãa
Em cima:
Em bairo: Rato 237, normal.
A ticcha assinala a adição ao banho de sulfato de esparteina a 1:13 mil.
Resposta ritmica do castrado e tônica do normal.
Kif. 2
Déférents de rat, En haut. rat 202, 90 jours aprés la castration. En bas,
rat 237 rorroal. Addition au bain du sulfate de spartéinc (1:13.000).
cm
vSciELOi ;l1 12 13 14 15 16 17
122
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
vezes, efeitos rítmicos. Nos orgãos de normais ou de tratados com testosterona,
apenas alguns deferentes manifestaram leve efeito tonico (Fig. 3).
Vesículas seminais de ratos castrados de 5 dias. Xo alto e em baixo rato
335 tratado com estradiol. Xo meio, rato 234 tratado ccm testosterona. Hecha
assinala a adição ao banbo de veratrina e 1:10 mil.
Fif. 3
Vésicules de rats, 5 joors apris la castratiocu En bant et en bas, rat 235
traité par Torstradiol; au centre, rat 234 traité par la testostêrone. Action de
la veratrine (1:10.000).
Lobelina (1:25.000 — 1:50.000). Sobre os deferentes de castrados ou
de tratados pelo estradiol, a lobelina é um bom excitante do ritmo, decrescendo o
efeito após alguns minutos; em normais ou tratados pela testosterona efeito nulo
ou fracamente tonico. Sobre as vesiculas e próstatas a ação é nula ou, às vezes,
inibidora, quando os orgãos já apresentam contrações. Em vista deste resultado
procuramos verificar a ação da lobelina sobre as contrações provocadas por outras
drogas; efedrína, acetileolina, cloreto de bário, pilocarpina. Em parte das expe-
riências houve inibição, suspendendo-se as contrações ou diminuindo a amplitude
e a frequência. Este efeito é mais nitido nas vesiculas (Fig. 4).
Cloridrato de bulbocapnina (1:25.000 — 1:50.000). Efeitos inconstantes
sobre deferentes de normais e de castrados-testosterona e excitação rítmica dos
mesmos orgãos de castrados e de castrados-estradiol. Os efeitos sobre as vesiculas
e próstatas foram em geral nulos ou então inibidores quando os orgãos apresen-
tavam contrações. Depois de drogas excitantes como o barío, a efedrína e a
cocaina, tanto para os deferentes como para as vesiculas e próstatas, predominou
o efeito inibidor. A adição prería ao banho de bulbocapnina anula ou inverte a
4
Th. Martins; J.
R. Valle & Porto — Musculatura lisa genital
masculina de ratos 123
ação da adrenalina, efeito comparável ao da ergotamina e yoimbina e já referido
por Molitor (11) noutra ordem de pesquisas (Fig. 5).
Fi,. 4
GlaadolM coaicaladoras (Próstatas) de rato*.
Em cim^: Rato 176» castrado de 2S d«>s .
Em baixo: Rato 18S» normal.
A primeira flecha assinala a adiçio ao banho de doridrato
de efedrina a 1 :80 mil e a segnoda a adiçio de lobdina a
1:80 mil.
Fig. 4
Prostates de rat. £o haot; rat 176» 28 jours après la
castration; en bas rat 188» normal. La première flècbe signale
Tadditioti aa baio de cblorfajdrate d*cpb6dríne (1:80.000) ct
la dcuxième radditíoa de lobélioe (1:80.000).
Fig. 5
de 8 dias.
Canais deíercntcs de rato* castrado*
Em cima: Rato 297, testemunha.
Em baixa: Rato 295» tratado com propiooato de testocterooa.
A primeira flecha iodica a adiçio ao banho de doridrato de bulbocapnina a 1:25 mil e a
segunda a adiçio de doridrato de adrenalina a 1:500 mil.
Fig. 5
Déférents de rat» 8 jours apres la castration. En haul» rat 297, castre tdnoin. En bas» rat
295, traitd par le propionate de testosterooe.
Première flèche additíoo de U bulbocapnine (1:25.000), deuxième flèche adreoaline (1:500.000).
cm
vSciELOi ;l1 12 13 14 15 16 17
124
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Pilrcssina e Pifocina ( 1 a 2 u. i. em 50 ccs. de Locke) . Depois dos resultados
inconstantes obtidos com a pituitrina, ensaiamos estes dois principios posthipofisa-
rios. Na maioria dos casos os resultados foram negativos. Efeitos inibidores
foram registados em alguns casos com a pitressina depois de drogas excitantes.
Hormonios sexuais. Em algumas experiencias procuramos a ação da tes-
tosterona, do estradiol e da progesterona, de 0.25 a 2 mgs. da substancia hormonal
cristalina, dissolridos em 0.1 a 0.2 cc. de álcool absoluto. Os resultados foram
inconstantes e, na grande maioria das vezes, negativos. Foram ensaiados ainda
extratos aquosos de foliculos e corpos amarelos de ovários de animais de labora-
torio e de matadouro também com resultados inconstantes. Não pudemos com-
provar, o efeito excitante de extratos de corpos luteos assinalado por Matsumoto
e Macht (12).
CONCLUSÃO
Das novas drogas estudadas neste trabalho a cocaina e a esparteina excitaram
a contrat(lidade da genitalia masculina de ratos na dependencia das condições
hormonais dos doadores. A lobelina e a bulbocapnina, bons excitantes do ritmo,
provocam, em determinadas condições, efeitos inibidores. A adição previa de
bulbocapnina ao> banho nutridor anula ou inverte os efeitos da adrenalina. Os
resultados com a veratrina, pitocina e pitressina foram inconstantes. Também
não exerceram efeitos caracteristicos nem os hormonios sexuais cristalizados
dissolridos em pequeno volume de álcool absoluto, nem extratos aquosos de fo-
liculos e de corpora lutea de animais de laboratorio e matadouro.
ÉTUDE ‘TN VITRO” DE LA MUSCULATURE LISSE GÉNITALE
MASCULINE DE R.A.TS EN DIFFÉRENTES CONDITIONS
HORMONALES
Poursuivant notre étude sur la Pharmacologie “in vitro” des organes
genitaux masculins de rats, en différentes conditions hormonales, et employant
la même méthode décrite dans nos tra\-aux antérieures (1-10), nous avons eu
1’occasion d’examiner les effets des drogues suivantes, additionnées au bain nourri-
cier de Lpcke, oxj-géné et à 38° ± 0.5°: cocaíne, sparteine, vératrine, lobéline,
bulbocapnine, pitressine, pitocine et hormones sexuelles.
Les effets décrits dans ce tra\-ail se basent sur 1’étude de 22 déférents, 21
vésicules et 10 prostates de rats normaux; 33 déférents, 37 vésicules et 14 prosta-
tes de rats châtrés traités au propionate de testostérone ; et 23 déférents, 27
vésicules et 18 prostates de rats châtrés traités au benzoate d’oestradiol.
G
Th. Martins; J. R. Valle & A. Porto — Musculatura lisa genital
masculina de ralos 125
Les organes étaient retires de 2 a 90 jours de castration; le traitement hor-
monal consistait en injections huileuses de 5 mgs. de propionate de testosterone,
ou 1 a 2 mgs. de benzoate d’oestradiol, tous les 4 ou 5 jours.
Résultats: Chloridrate de cocáinc (1:25.000 — 1:50.000). Contraction
rj-thmique des canaux déférents, vésicules et prostates provenant d’animaux
châtrés, ou châtrés et traités par 1’ ostradiol; contraction prédominanment toni-
que des déférents d’animaux ou d’animaux châtrés et injectés par la testostérone.
Les vésicules et les prostates d’animaux normaux ou d’animaux châtrés et traités
par la testostorone sont très p>eu sensibles â la drogue qui, dans la majorité des
cas, ne jirovoque aucun effet.
Nous nous sommes efforcés de vérifier si la cocaine sensibilisait les organes
pKJur les effets de Tadrenaline. Chez les déférents, les vésicules et les prostates
de toutes les catégories expérimentales, 1’addition de 1’adrénaline après la cocaine
provoque des contractions plus amples et des effets toniques plus prononcés que
lorsque la drogue était appliquée toute seule (Fig. 1).
Suljatc dc spartéine (1 :10.000 — 1 :50.000). Cest un stimulant des con-
tractions r>-thmiques des déférents d’animaux châtrés ou traités par Toestradiol.
Les déférents des animaux normaux ou traités au propionate de testostérone sont
p»eu sensibles â cette drogue ; ils réagissent seulement au.x concentrations plus fortes
avec de petites contractions toniques. Les vésicules et les prostates sont px:u
reactives, même lorsqu’il s’agit d’animaux châtrés ou traités au benzoate d’oes-
tradiol. Chez les organes d’animaux normaux ou traités par la testostérone, dans
la majorité des cas, il ne se produit aucun effet (Fig. 2).
Véralrine (1:8.000 — 1:25.000). Résultats inconstants. I.es déférents,
vésicules séminales et prostates d’animaux châtrés ou traités par 1’oestradiol,
reagissent par des contractions rj^thmiques. Chez les organes d’animaux normau.x
ou traités par la testostérone, quelques déférents ont manifesté un léger effet
tonique (Fig. 3).
Lobéline (1:25.000 — 1:50.000). La lobéline est un bon excitant du
rythme des déférents d’animaux châtrés ou traités par roestradiol; mais les effets
sont passagèrs. Chez les animaux normaux ou traités par la testostérone 1’effet
«st nul ou faiblement tonique. Sur les vésicules et prostates, 1’action est nulle et
même parfois inhibitrice, lorsque les organes présentent déjâ des contractions. A
cause de ce résultat, nous avons vérifié 1’action de la lobéline sur les contractions
provoquées par d’autres drogues: éphédrine, aceUdcholine, chlorure de barj-um,
pilocarpine. Pour une partie des exp>ériences, il y a eút inhibition, les contractions
cessèrent ou leur ampleur et fréquence diminuièrent. Cet effet est pilus net sur
les vésicules (Fig. 4).
7
12C
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Clilorídratc dc bulbocapnine (1:25.000 — 1:50.000). Effets inconstants sur
les déférents d’animaux normaux et châtrés traités par Ia testostérone ; excitation
rjthmique des organes provenant d’animaux châtrés ou traités par Toestradiol.
Les effets sur les vésicules et les prostates ont été en général nuls; parfois, il y a
inhibition des contractions prosoquées par d’autres drogues, comme chlorure de
baiytun, éphédrine, cocalne, tant pour les déférents que pour les vésicules et pros-
tates. Laddition préalable au bain de bulbocapnine annule ou invertit 1‘action
de 1’adrénaline, effet comparable à celui de Tergotamine et de le yohinibine et
déjà rapporté par Molitor (11) dans un autre ordre de recherches (Fig. 5).
Pitressine ct Pilocine (1 a 2 unit. int. dans 50 cc. de Locke). Après des
résultats inconstants obtenus avec la pituitrine, nous avons assayé ces deux prín-
cipes posthypophysaires. Dans la majorité des cas, les résultats ont été negatifs.
Des effets d’inhibition ont été enregistrés dans quelques cas avec la pitressine
après des drogues cxdtantes.
Horiuoncs sexuclles. Dans quelques experiences nous avons essayé la
testostérone, Toestradiol et la progesterone (0.25 a 2 mgs. dissoutes dans 0.1 a
0.2 cc. dalcool absolu). Les résultats ont été inconstants ou n^atifs. Nous
navons pas aussi obser\’é une action evidente des e.\traits aqueuses des follicules
ni 1’effet excitant des extraits des corps jaunes signalé par Matsumoto et Ma-
cht (12).
En conclusion: les résultats rapportés ici confirment nos travaux anteríeurs.
Les canaux déférents, vésicules seminales et prostates des rats châtrés ou traités
par 1'oestradiol sont plus excitables, et presentent des contractions de tJTe predo-
minanment lythmique. Oiez les normaux ou traités par la testostérone, Texcita-
bilité est faible, et le type de contraction tonique.
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(Tratolbo da Scccio de Endocrínologia do
Inaliloto BuUntan. Entrecue cm acosto de
1940 e dado i poblicidade cm dezembro de
1940).
0
SOBRE A DURAÇÃO DO TRATAMENTO NECESSÁRIO PARA
QUE OS HORMONIOS SEXUAIS INFLUAM SOBRE A CONTRA-
LIDADE ’7;Y VITRO“, DOS CANAIS DEFERENTES E
vesículas SEMINAIS DE RATOS CASTRADOS
POR
THALES MARTINS: JOSÉ R. VALLE & ANANIAS PORTO
Em trabalhos anteriores demonstramos que a testosterona tem ação inibi-
dora e o estradiol excitadora da contratilidade e da excitabilidade dos canais defe-
rentes, vesiculas seminais e próstatas de ratos (1,2), macacos rhesus (3) e
gatos (4), a julgar pelo seu comportamento "m vitro”.
Os canais deferentes, vesiculas seminais c próstatas de ratos castrados apre-
sentam, na sua quasi totalidade, movimentos espontâneos; reagem bem à pilo-
carpina, efedrina, cocaina e outras drogas excitantes ensaiadas; também o tipo de
contração, além de mais amplo, é qualitati\-amente diferente: preponderantemente
ritmico no castrado e preponderantemente tonico no normal.
Dadas estas diferenças de comportamento “itt vilro” da musculatura lisa
genital masculina de ratos, dependentes das condições hormonais dos doadores
seria interessante determinar qual o período minimo de aparecimento dos sinto-
mas funcionais da castração e qual o limiar dos efeitos corretivos da testosterona.
Poderia ser analisada nesse sentido, também, a influencia do benzoato de estradiol.
MATERIAL E MÉTODO
t
Os ratos adultos de 160 a 220 gs. utilizados foram divididos em dois gru-
pos experimentais:
a) Tratamento preventivo, em que. logo após a castração um certo numero
de ratos recebia uma injeção de propionato de testosterona (5 ou 10 mgs. em
1 cc. de oleo de sésamo) ou de benzoato de estradiol (1 ou 2 mgs. em 1 cc. de
oleo), conservando-se outros sem tratamento.
130
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
b) Tratamento corretivo, neste caso, os animais ^só recebiam a injeção 4
a 21 dias depois da castração (♦).
Fiff. 1
Canai» deferentes de ratos, 6 dias depoi»
da castração. Em cima: rato ãll, 30
horas depois de uma injeção sobeutanea de
1 m(T. de benzoato de estradiol; Xo mrio:
rato 313, 30 horas após a injeção de 1 cc.
de oleo de sósamo; Em boiro: rato 313,
30 horas depois de uma injeção de 5 tnr§.
de propionato de testosterona.
Ausência de contracóes espemUneas no tra*
tado com testosterona e maior amplitude
das obserradas no tratado com estradiol.
Na linha de tempo era todas as fiiniras os
intervalos são de 6 segundos.
Fig. 1
Canaux dóf^rents de rats, 6 jours après
la castration. De haut en has: rat 311,
30 beures après une injectioo de 1 mg.
de benzoate d*ocstradiol; rat 312, tèiomn;
rat 313, 30 heures après une injection de
5 mgs. de proprionate de testosterone.
L*amplitade des roouvements spontanès est
plus grande dans le rat traitè par Toestra-
diol que dans le rat cbâtré têmoín. Inhi-
bitioo de rautomatisme par ta testosterone.
Teraps: 6 sèc.
Fig. 2
Canais deferentes de ratos, 72 horas depois
da castração. Em cimo: rato 294, castrado
testemunha; mrio: rato 293, 72 horas
depois de uma injeqão de 1 mg. de ben*
xoato de estradiot; Em boixo: rato 292, 72
horas depois de uma injeção de 5 mgs.
de propionato de testosterona.
A flecha assinala a adição ao banho de
clorídrato de efedrína a 1:120 mil.
Fig. 2
Canaux déférents de rat 72 beures après
Ia castration. De haut en bas: rat 294.
cbâtré teraoin; rat 293, 72 heures après
une injection de 1 mg. de benzoate d*oestra-
diol; rat 292, 72 heures après une injectioo
de 5 mgs. de propionate de te s to s terone
(Addition de chiorhjrdrate d*ephédríne
1 : 120 . 000 ).
No primeiro grupo foram estudados 7 canais deferentes e 7 vesiculas semi-
nais de ratos castrados tratados com propionato de testosterona; 8 deferentes e
8 vesiculas de castrados tratados com benzoato de estradiol e 6 deferentes e 6
vesiailas de castrados testemunhas. No segundo grupo foram estudados 64
(•) Agradecemos à Casa Schering os hormonios — Testoviron. Progj-non — cedidos
gentilmente para a realização destas experiendas.
2
Th. ÍUrtins; J. R. V.\lle & .\. Porto — Conlralilidude "in vitro" dos
canais deferentes e vesículas seminais de ralos castrados 131
orgãos, sendo 32 deferentes e 32 vesículas assim distribuídos: 14 deferentes e
14 vesículas de ratos castrados e tratados com propionato de testosterona, 5
deferentes e 5 vesículas de animais castrados, tratados com benzoato de estra-
diol; 5 deferentes e 5 vesículas de ratos castrados e tratados com oleo puro e
8 deferentes e 8 vesículas de castrados não tratados.
Depois da anestesia dos doadores com eter os orgãos eram extirpac}os, de-
sembaraçados dos tecidos adjacentes e levados para um frasco, contendo liquido
de Locke o.xigenado, mergulliado num tennostato a 36°-38“, tomando-se ao
mesmo tempo e no mesmo banho os traçados das contrações longitudinais de
2 a 3 orgãos pertencentes a animais diferentes. Em todos os gruix)s as expe-
riências “in vitro" foram feitas 24, 30, 50, 54, 72 e 120 horas ajws a injeção
hormonal.
Para l>em interpretar as experiencias. é bom sublinhar que no grupo a) os
resultados mais interessantes são os que revelam o aparecimento dos sintomas de
castração, nos animais não tratados com testosterona: e, no grujx) b), o desa-
parecimento daqueles sinais, nos tratados com este homionio.
RESULTADOS
Tratamento prez^entivo: Os orgãos de animais tratados pelo propionato de
testosterona conservaram seu tipo normal de comportamento.
Nos castrados testemunhas ou nos tratados pelo estradiol já ha leves sinais
de alteração nos deferentes, revelando um aumento da excitabilidade nas pri-
meiras 24 horas: reação leve à pilocarpina e esboçando-se tipo ritmico misto
(tonus com oscilações) à junção das outras dre^s (acetileolina, adrenalina,
cocaína e cloreto de bario nas concentrações referidas em nossos trabalhos an-
teriores) .
As diferenças vão se acentuando à medida que se alonga o período de tra-
tamento, chegando ao "grand complet” em 72 horas. No que concerne ao auto-
matismo, só apareceram, nesta serie, casos positivos nos grupos de 54 horas cm
diante. Todavia, em e.xperiencias anteriores, já obtivemos casos de automatismo
nitido de deferentes com 24 e 48 horas após a castração. Quanto ao papel do
benzoato de estradiol, si bem que não seja dos mais pronunciados, nos períodos
airtos citados, é bem constatavel; de fato, o automatismo foi mais nitido nos
orgãos dos ratos injetados com este hormonio, que apresentam tamliem um
tipo de ritmo mais puro sob à ação das drogas.
Quanto às vesículas seminais, o aparecimento das alterações de castração é
mais lento para certos sintomas. Até 72 horas nenhuma vesícula de castrados
não tratados com testosterona demonstrou automatismo ou reação à pilocarpina.
132
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Entretanto, a reação à efedrina (que é negatira nas vesículas de normais ou tra-
tados pela testosterona) já é positiva com 24 horas, tomando-se cada vez mais
ampla com o decorrer do tempo. A reação rítmica ou mista às outras drogas
começa a ser constatada com 30 horas e a reação à cocaina com 54 horas. No
grapo de 72 horas faltam apenas o automatismo e a reação à pilocarpina para
completar todos os sinais da castração. Não se verificou ação nitida de benzoato
de estradiol no sentido de acelerar o aparecimento dos sinais de castração.
Fiff. 3
C«nai$ deferentes de ratos castrados 72
horas antes. Em cim: rato 305, 72 horas
depois de uma injeçSo de 1 mg. de ben-
zoato de estradiol; No mtio: rato 306»
castrado, testemunha; Em haixoi rato
307, 72 horas depois de uma injeçlo de
10 mgs. de propionato de testosterona.
Efeitos da adi^io ao banho de clorídrato
de pilocarpina a 1:100 mlL
Fig. 3
Déférents de rats 72 heures après Ia caa-
tration. De haut en bas: rat 305, 72 hea-
res après une ínjection de 1 mg. de ben-
zoate d'ocstradiol; rat 306 chitrè temioa;
rat 307, 72 heures après one injectioc de
10 mgs. de propionate de testosterooe.
Addition de chlorh^drate de pílocarpine
(1:100.000).
Fig. 4
Vesículas seminais de ratos castrados 10 dias antes.
Em cimoí rato 302, 30 horas depois de uma injeçio de
1 mg. de benzoato de estrauliol; No moioi rato 304,
testemunha; Em boiso: rato 303, 30 horas depois de
uma injeçio de 10 mgs. de propionato de testosterona.
Efeitos da adiçáo de clorídrato de acetilcolina a 1:100 mil.
Fig. 4
Vèsicules seminales de rat, 10 jours après la castration.
De haut en bas: rat 302, 30 heures après une injcction
de 1 mg. de benzoate d'oestradiol ; rat 304 tèmoin; rat
303, 30 heures après une injcction de 10 mgs. de pro>
pionate de testosterone.
Addition d'acetríehoIine (1:100.000),
Tratamento corretivo: Nos castrados não tratados o comportamento é evi-
dentemente o tfpico da castração. Procuramos, neste caso, o tempo necessário
para que, sob a ação da testosterona, a contratilidade volte ao tipo normal. Os
efeitos são aqui mais rápidos nas vesículas do que nos deferentes. De fato, já
4
Th. Martins; J, R. Valle & A . Porto — ContratUidade “in vitro" dos
canais deferentes e vesículas seminais de ratos castrados 133
cora 30 horas após a injeção de propionato de testosterona desapareceu a reação
à pilocarpina nas vesículas e na resposta às outras drogas começa a dominar o
efeito tonico. Nas vesículas de 72 horas de tratamento só ha de discrepante a
reação positiva à efedrina. Nos deferentes, si bem que em alguns já se deli-
neiem certas modificações com 24 a 30 horas pode-se admitir 48 horas de trata-
mento com testosterona como o período de diferenças incontestáveis: ausência
de automatismo e de reação à pilocarpina; tonus cada vez mais pronunciado após
a adição de drogas. Com 72 horas a recuperação do tipo normal é praticamente
completa.
Em conclusão: As modificações do comportamento "in vitro” dos canais
deferentes e vesículas seminais e que se traduzem num aumento da contratilidade
e excitabilidade dos mesmos, após a castração, aparecem com relativa rapidez após
a extirpação das gonadas (30 — 72 horas), sendo completamente prevenidas pela
injeção de propionato de testosterona. Por outro lado, o tratamento com este
hormonio, de ratos 4 a 21 dias após a castração, já exerce efeitos constatáveis a
partir de 30 horas para as vesículas e 48 horas para os deferentes; como limites
para a apreciação de resultados indiscutíveis podemos fixar respectivamente 48 e
72 horas. O espaço de tempo relativamente curto para a manifestação dos efei-
tos da testosterona aqui descritos, além de outros argumentos já citados em
trabalhos anteriores deste laboratorio, fazem-nos crêr que a ação dos hormonios
sexuais, neste caso, é principalmente funcional, sem grande dependencia das ações
morfogenicas exercidas pela testosterona sobre os orgãos aqui estudados.
RESUMO
As alterações funcionais de castração traduzidas pelo aparecimento de auto-
matismo e aumento da excitabilidade farmacológica "in vitro" da musculatura
lisa genital masculina de ratos começam a aparecer para os canais deferentes 24
horas e para as vesiculas seminais 30 horas depois da extirpação das gonadas.
Depois de 72 horas os sinais são completos nos deferentes mas nas vesiculas
faltam ainda o automatismo e a resposta à efedrina. Já no tratamento corretivo,
isto c, feita a injeção depois de instalados aqueles sintomas, a vesícula é mais
sensível do que o deferente à presença de testosterona circulante. As alterações
funcionais de castração começam a desaparecer nas vesiculas 30 horas e nos
deferentes 48 horas depois da injeção hormonal. Quanto ao benzoato de estra-
diol, foi obseivTido que, para os canais deferentes, nas primeiras 72 horas, ele
pode aumentar a incidência de automatismo e reforçar o tipo rítmico da
resposta às drogas ensaiadas.
134
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
SUL LA DURÉE DU TRAITEMENT XÉCESSAIRE POUR QUE LES
HORMOXES SEXUELLES IXFLUEXT SUR LA COXTRACTILITÉ
“IX VITRO” DES CAXAÜX DÉFÉREXTS ET DES \'ÉSICULES
SÉMI XALES DE RATS CHATRÉS
II serait intéressant de détemiiner quelle est la durée mininia de traitement
nécessaire pour que puissent se constater les efíets des hormones sexuelles que
nos avons déjà décrits. Pour la bonne compréhension nous résumerons les prin-
cipales différences de comportement entre les organes de rats nomiaux et châtrés
lorsqu’ils sont placés dans le liquide de Locke “in vitro”. Les détérents, les
vésicules séminales et les prostates des animaux châtrés, présentent, dans leur
quasi totalité, des mouvements spontanés; ils réagissent bien à la pilocarpine, à
1 cphédrine, à la cocaine et à dautres drogues excitantes essayées. Le tj-pe de
contraction est aussi qualitativement différent: prépondéramment rj-thmique dans
Taninial châtré, et tonique chez le normal.
Méthodc: Les organes, après extirpation, étaient placés dans un ílacon con-
tenant du liquide de Locke, à la température de 36 à 38°; on prenait en méme
temps, et dans le méme bain, les tracés des contractions longitudinales de 2 ou
3 organes appartenant à des animaux différents.
a) Traitement preventif: Le jour méme de la castration, un certain nombre
de rats recevait une injection de propionate de testosterone (5 ou 10 mgs dans
1 cc. d’huile de sésame) ou de benzoate d'oestradiol (1 ou 2 mgs. dans 1 cc.
d’huile) ; dautres rats étaient conservés sans traitement.
Efans ce groupe il y a êut 7 déférents et 7 vésicules de rats châtrés ct traités
au propionate destosterone, 8 déférents et 8 vésicules de rats châtrés traités
au benzoate d’oestradiol et 6 déférents et 6 vésicules de rats châtrés témoins.
b) Traitement correctif: Dans ce cas, les animaux rece\"aient Tinjection
de 4 à 21 jours après la castration. On étudia 64 organes, dont 32 déférents
parmi lesquels 14 furent traités au propionate de testostérone, 5 au benzoate
d’oestradiol et 13 châtrés simples; et des vésicules, en nombre et traitement iden-
tiques. Dans tous ces groupes, les expériences "in z-itro" furent faites 24, 30,
50, 54, 72 et 120 heures après 1’injection de l'hormone. Le poids des rats %'aria
de 160 à 220 gs..
Pour bien interpréter les expériences il est bon de souligner que dans le
groupe a) les résultats les plus intéressants sont ceux qui révèlent Tapparition
de sjmiptomes de castration, sous le point de vue de la contractilité, dans les
animaux non traités par la testostérone; et dans le group b) la disparition de
ces signes chez les animau.x traités avec cette hormone.
f>
Th. Mabtins; J. R. \alle Porto — Contratilidade “in vitro" dos
canais deferentes e vesículas seminais de ralos castrados 135
Resultais: Traitcmcnt prctvntif — Les organes d'aniinaux traités au pro-
pionate de testostérone conser\-èrent leur type normal de comportement.
Chez les aniniaux châtrés temoins ou chez ceux traités au oestradiol il y a
déjà de s>’niptômes d'altération des déférents, révélant une augmentation dexci-
tabilité dans les premicres 24 heures: réaction légère à la pilocarjiine et cbauche
du tyjie r\lhmique ou niixte (tonus avec oscillations) après la jonction des autres
drogues (acétylcholine, adrénaline, cocaine et chlorure de barium) dans les con-
centrations rapportées dans nos travaux antérieurs. Les différences augmenteiit
à mesure que sallonge la période de traitement, arrivant au grand complet en
72 heures. Pour ce qui concerne lautomatisme, des cas positifs apparurent seu-
lement après 54 heures. Toutefois, dans des expéricnces antérieures, nous avons
obtenu des cas dautomatisme net de déíérenís, 24 et 48 heures après la castra-
tion. Quant au ròle du benzoate d’oestradiol, bien qu’il ne soit jws des plus
prononcés, dans les courtes périodes dtées, il est bien constatable. De fait,
Tautomatisme fút plus net chez les organes des rats injectés avec cette hormone,
lesquels présentent aussi un tyjje de rithme plus pur sous 1’action des drogues.
Quant aux vésicules séminales, 1’apparition des altérations de la castration est
plus lent. Jusqu’ à 72 heures, aucune vésicule danimaux châtrés témoins ne
» démonstra automatisme ou réaction à la pilocarpine. Cependant la réaction à
lephédrine (qui est négative dans les vésicules tlanimau.x nonnaux ou traités
par la testostérone) est déjà positive après 24 heures, devenant de plus en plus
ample avec le temps. La réaction rjthmique ou mi.xte à d'autres drogues commen-
ce a étre constatée après 30 heures et la réaction à la cocaine après 54 heures.
Dans le groupe de 72 heures manquent à peine lautomatisme et la réaction à la
pilocarpine pour compléter tous les sj-mptômes de la castration. II ne se vérifia
pas daction nette du benzoate d’oestradiol dans le sens d’accélérer Tapparition des
signaux de castration.
Traitement correctif — Chez les animaux châtrés non traités, le comporte-
ment est évidemment celui t>q)ique de la castration. Nous rechercherons, dans
ce cas le temps nécessaire pour que, sous Taction de la testostérone, la contracti-
lité revienne au type normal. Les effets sont ici plus rapides chez les vésicules
que chez les déférents. De fait, 30 heures après 1’injection de propionate de
testostérone, disparut la réaction des vesicules à la pilocarpine, et 1’effet tonique
commence à dominer dans la réponse au.x autres drogues ; cependant, la réaction
positive à Téphedrine peut persister jusqua 72 heures. Chez les déférents, bien
que dans quelques cas certaines modifications s’ebauchent déjà après 24 heures
ou 30 heures, on peut admettre 48 heures de traitement par la testostérone comme
période de différences bien appréciables : absence d’automatisme et de réaction
à la pilocarpine: tonus de plus en plus prononcés après 1’addition des drogues.
Après 72 heures. la récupération du type normal est pratiquement complète.
136
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Conclusion: Les modifications du comportement "in vitro" des canaux défé-
rents et des vésicules séminales et qui se traduizent par une augmentation de la
contractilité et de Texcitabilité des mêmes, après la castration, apparaissent avec
une relative rapidité après 1’extirpation des gonades (30 à 72 heures), et sont
évitées par le traitement avec la testostérone. D’autre part, le traitement des
rats. 4 a 21 jours après la castration, avec le propionate de testosterone, exerce
déjà des effets constatables à partir de 30 heures (vésicules) et 48 heures (défé-
rents), après la première injection. Comme limites pour Tapprédation de résul-
tats indiscutables nous pouvons fixer respectivement 48 et 72 heures. Uespace
de temps relativement court pour la manifestation des effets de la testostérone
nous fait croire que 1’action des hormones sexuelles sur la contractilité des orga-
nes genitaux étudiés cst principalement fonctionnelle. sans grande dépedance des
actions histogeniqr^s exercées par la testostérone.
BIBLIOGRAFIA
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(Trabalbo da Secç&o de Endoerinolocia do
Initittsto Batantan. Dado i publicidade etn
dcaetnbro de 1940).
8
611.63:612.602
ESTUDO MORFOLOGICO E FUNCIONAL DE ENXERTOS DE
ORGÃOS GENITAIS ACESSÓRIOS DE RATOS E COBAIOS EM
DIVERSAS CONDIÇÕES HORMONAIS
POR
THALES MARTIXS; JOSÉ R. VALLE & ANANIAS PORTO
Em trabalhos anteriores deste Laboratorio mostramos que a contratilidade
e a excitabilidade farmacológica dos orgãos genitais accessorios masculinos são
reguladas pelas condições hormonais dos doadores. No rato, este controle é
bem evidenciado pelo exame comparativo "in vitro” dos orgãos provenientes de
normais, castrados e de castrados injetados com substancias androgcnicas c estro-
genicas. Nos cobaios, entretanto, a influencia da castraçãae a ação inibidora da
testosterona não são tão eridentes como no rato ; não obstante, o tratamento com
estradiol parece exagerar a já notável excitabilidade dos orgãos provenientes de
doadores normais. Particularmente interessante nesta especie é a rariação dos
efeitos da adrenalina: os orgãos provenientes de cobaios normais, castrados ou
castrados tratados com testosterona, são excitados, enquanto que os provenientes
de doadores tratados com estradiol são deprimidos.
O presente trabalho foi feito com o fito de se verificar si as modificações de
comportamento acima descritas e dependentes do tratamento hormonal, seriam
também observadas nos orgãos transplantados, isto é, deslocados de suas conexões
nervosas habituais. Poder-se-ia, deste modo, eliminar a influencia dos centros,
analisando mais a fundo o mecanismo de ação dos hormonios sexuais na regula-
ção daquela motilidade.
M.-\TERIAL E MÉTODO
Foram operados, sob anestesia pelo éter, 21 ratos de 110 a 240 gs. e 30
cobaios de 450 a 700 gs.. Depois da castração total ou unilateral os orgãos eram
enxertados na parede muscular dorsal ou abdominal, no estomago ou no mesente-
cm
vSciELO, ; l 1 12 13 14 15 16 17
138
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
rio proximo às alças intestinais. Xo rato foram enxertados o deferente e i
vesicula seminal com o lobo cranial da próstata, no cobaio o deferente e o terço
distai da vesicula seminal. Em todos os animais operados os OTgãos contralaterais
eram mantidos “in situ” para estudo comparativo.
Logo depois da operação era iniciado o tratamento hormonal que consistia
em injeções subcutâneas, cada 4 ou 6 dias, de 5 a 10 mgs. de propionato de
testosterona ou de 0.5 a 1 mg. de benzoato de estradiol, dissolvidos em 0.5 a 1 cc.
de oleo de sésamo. (*)
Fig. 1
Vesicula semioal enxertada na face anterior do
estoinago do rato 6, bemicastrado, operado 6Í dias
antes e tratado durante este periodo com 45 mgs. de
propionato de testosterona (10 mgs. em implantaçio e
35 mgs. em 7 injeções oleosas cada 4 dias).
f
Abb. 1
In die Magenwand verpOanate Samenblase der
eínseitig kastrierten Ratte 6, 63 Tage Torber operiert
und mit 45 mg Testosteroopropionat bebandelt.
Na qiaioria dos casos, para se assegurar das bôas condições do enxerto, as
injeções de estradiol eram feitas depois de um tratamento prévio com testosterona.
Nos ratos, em alguns casos, foi utilizada também a implantação subcutânea do
hormonio (androsterona, testosterona) em grânulos de 5 a 20 mgs. Em alguns
(•) Agradecemos à Casa Schering o material hormonal posto amavelmente à nossa
lisposição para a realização destas expericncias.
2
Th. Martins; J. R. Valle & A. Porto — Contralilidade “in vitro” dos
canais deferentes e vesículas seminais de ratos castrados 139
casos, também, cerca de um mês depois da operação, era feita uma laparotomia
para se observar as condições do enxerto.
Elntre 30 a 83 dias depois da operação, os orgãos eram retirados para o estudo
morfologico e funcional. Foram utilizados 16 ratos: 2 hemicastrados, 5 castrados,
5 castrados tratados com testosterona e 4 castrados tratados com estradiol e 10
cobaios: 2 hemicastrados, 4 castrados tratados com testosterona e 4 castrados
Fif. 2
Microfotos de veikulas fcminaii de ratoe. (Hem. Eo». SJO x).
A — Vesícula enxertada na face anterior do estoma(o. Rato 10, castrado, operado
62 dias antes e tratado com propiooato de testosterona (60 m»s. ttn 12 injecdea oleosas
ftobcutaneas).
B — Vesictila *in «àtu*. Rato 13. castrato, de 56 dias.
A«>. 2
SamcnUasen roa Rattcn (Mikropbot. Hem. Eos. 530x).
A — Verpflanzte Samenblase. Ratte 10, 62 Tagc nach der Kastration mit 60
TestosteroQprosMOoat. aof 12 Injdctiooen rerteilt. behandelt.
B — SamesUase *in situ". Ratte 13, 56 Tafe nach der Kastratiocu
tratados com estradiol. Depois do exame macroscopico e da retirada de pequeno
fragmento para as preparações histológicas, os orgãos eram dissecados e levados
para o banho nutridor de Locke, oxigenado e a 38°, para o estudo comparativo
em grupos de dois: o orgão transplantado e o orgão "in situ” colocados no mesmo
frasco e fLxos a alavancas inscritoras com carga de 0.5 a 1 g. e ampliação de
'1x6.
140
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Depois de um período de 30 a 40 minutos para o r^sto das contrações es-
pontâneas eventuais, era estudada a ação de \'arías drogas que, como a adrenalina,
a acetilcolina, a pilocarpina, a efedrína, a cocaina e o bário, provocam respostas
características nos orgãos de ratos. No caso dos orgãos de cobaios, além do
estudo dos efeitos das drogas enunciadas, tinha especial interesse a analise da
ação da adrenalina.
/if. 3
Vesículas seminais imersas em liquido de Locke. Rato IS. operado 54 dias antes e
tratado com 10 mgs. de propionato de testosterona e a seguir com 7 mgs. de bensoato
de estradiol.
Em cima ~ Vesicula “in situ*.
Em baixa Vesícula enxertada na face anterior do estomago.
A — Registo das contrações espontâneas
B ^ Efeitos da adição ao banbo de clorídrato de pilocarpina a 1:100.000. Notar
o mesmo tipo de resposta do org&o **in situ* e do orgio transplantada
(Em todos os grafico# cada sinal na linha de tempo marca 6 segundos).
Abb. 3
Samenblasen ron Ratte 18 in Locke*scher X.êsung eingetaucht, 54 Tage nach der
Kastration mit 10 mg Testosteronpropionat und danach mit 7 mg Oeslradíolbemoat behandelt,
Oben — SamenUase "in situ*.
Unten — Verpflanste Samenblase.
A ^ Spontankontraktionen.
B — Wirkung des Pilokarpinchlorhydrates; VerdÜnnung 1:100.000 Gleiche Wirkung
bei beidcn Fãllen.
(Bei allen Abbildungeo markiert die ZeitUnie Intenralle voo 6 Sekunden).
RESULTADOS
1. RcsttJtados morfologicos. a) Ratos: Dos 21 animais operados 16
foram aproveitados e forneceram 12 deferentes, 16 vesiculas e 14 coaguladoras
transplantados. Os orgãos em melhores condições foram os isolados da face
anterior e posterior do estomago de animais tratados com a testosterona. As
I SciELO
4
Th. Martins; J. R. V.alle & A. Porto
Enxertos de orgõos genitais
acessórios de ratos e cobaios
141
vesículas se apresentaram bem \’ascularizadas e distendidas pelas secreções
acumuladas no seu interior (vide Fig. 1), os deferentes facilmente destacáveis
e as coaguladoras, em geral, císticas. O exame microscopico confirmou o achado
macroscopico. Xos castrados tratados com testosterona o epitelio vesicular normal,
Fif. 4 ^
Em cim4 — Vttkiila *in titu” do rato 259, castrado, de 70 diaa.
ATo etntro — Veticola enxertada no dtiodeno do rato 4, 56 dias
depois da operaçio e tratado cora propiooato de testosterona (Implaatacio
de ]5 an*)*
Em teisü — Vesictala *ín sita* do rato 4.
A flecha assinala adi^lo ao hanbo de clorídrato de pilocarptna a
1:50.000. Obserrar a aoseocia de reação tanto no orgão ”in sita”
como oo orgão enxertado do rato 4.
Abb. 4
Samenblasen roa Ratten.
Oben — Samenblase *in sita" der Ratte 259, 70 Taçe nach der
Kastration.
Mitte — In den Dnodemnn Trrpflanrte Samenblase der Ratte 4, 56
Tage nach der Operatioo and mit 15 mg Testoateronpropionat implantiert.
Unttn — Samenblase *tn situ* der Ratte 4.
Zugabe von Pilokarpinchlorhrdral (1:50.000). Keine Reiiung beim
Organ *in sito”, noch beim verpflanzten der Ratte 4.
isto é, formado de células bem indi\Tdualizadas com protoplasma granuloso, era
observado também no orgão enxertado. As alterações histológicas de castração,
no nosso caso observadas nos orgãos de animais cujo tratamento com a testoste-
rona tinha sido suspenso, foram registadas igualmente nos orgãos transplantados.
10
cm
vSciELOi ;l1 12 13 14 15 16 17
142
Memórias do Instituto Butàntan — Tomo XIV
b) Cobaios: Nesta especie foi alta a mortalidade operatória. De 30 ani-
mais operados 10 senidram de base para este estudo, tendo sobrevi^•ido somente
os animais com enxertos na parede muscular do abdome ou no estomago. De
10 deferentes e 10 vesiculas enxertadas foram identificados à autopsia respecti-
vamente 9 e 4 orgãos, os demais tendo sido reabsorvidos. O melhor aspecto dos
orgãos enxertados é encontrado nos castrados tratados com testosterona ou nos
hemicastrados. As vesiculas se apresentam de paredes finas e cheias de liquido
Fig. 5
Canais deferentes. Rato 9. castrado, operado 64 dias antes.
Em cima — Deferente **in sita*.
Em hcix9 ^ Deferente contralateral enxertado no mesenterío.
Efeitos da adi^io ao ban2»o de cloridrato de efedrina a 1:50.000.
Abb. 5
Samenleiter. Ratte 9, 64 Tage nach der Kastration.
Ohtn Samenleiter *in sitn**.
Vnten — Kootralateraler Samenleiter in das Mesenteriam
verpflaoat.
Zogabe TOO EpbedrincUorhydrat (1:50.000).
fluido ; ao exame microscopico as células epiteliais se apresentam com protoplasma
granuloso e as franjas da mucosa, pelo acumulo de liquido, estão apertadas de
encontro à túnica muscular. Em alguns casos, graças ao método de Cajal de
impregnação pela prata depois da fixação em piridina, não se observou a presença
de fibras nerv’osas nos orgãos transplantados, enquanto que eljs são numerosas
nos orgãos testemunhas mantidos “in situ”.
2. Resultados funcionais, a) Ratos: Nos diferentes grupos experimen-
tais, o estudo comparativo, no mesmo banho, do orgão "in situ” e do orgão trans-
plantado, não mostrou nenhuma particularidade de comportamento, quer quanto
ao automatismo, quer quanto à reatividade e ao tipo de resposta às drogas. Como
nos orgãos “in situ”, os orgãos enxertados, provenientes de animais castrados
r>
Th. Martins; J. R. Valle Jt A. Porto — Enxertos de orgãos genitais
acessórios de ratos e cobaios 143
tratados com testosterona, não exibiram contrações espontâneas e apresentaram
fraca reatividade farmacológica. A incidência de automatismo, tanto no grupo
Fie. 6
Carat< «1cfcrente«. Cobaio 2, operado 71 diat ante», tratado com propionato de testo»*
terora (20 me», cm 4 tojecOes) e a sefnir com bencoato de estradiol (S me», em 10 inje^óet).
Em cima — Deferente "in *Íto*.
Em bairo — Deferente enxertado na face anterior do estoenaco.
A primeira flecba assinala a adi^io ao banho de cloridrato de acetileolina (1:100) mílhOct)
e a segunda adtçio de cloridrato de adrenalina (1:10 milbOes). Observar que a inibiçio
pda adrenalina foi obtida também no orgio transplantado.
(Orgios examinados 24 horas depois da conservacio em Locke a baixa temperatura).
Abb. 6
Samenleiter rom Meerschweiochen 2. 71 Tage nach der Operatioo mit 20 mg Testosieron*
propionat und danach mit 5 mg Oestradiolbcnioat behanddt,
Obcn — Samenleiter "in sito".
ünten — In d»e rordere Magcnwand rerpílanater Samenleiter.
Der erste Pfeil beaeichnet die Zugabc too Acetylcbolínchlorhxdrat (1:100 Millionen)
und der rweite die Zugabe roo Adrenalinchlorhjdrat (1:10 Millionen). Die hcmniende
Wirkung des Adrenaliss wurde anch beim Terpflanxten Organ beobachtet.
(Die Organc wurden nach 24stftndigem Aufbcwahren in Locke'scber L*sung im
Eissebrank beobachtet.).
de castrados simples, como no grupo de castrados injetados com benzoato de
estradiol foi comparável nos orgãos implantados e nos orgãos mantidos “in situ”.
cm
vSciELOi ;l1 12 13 14 15 16 17
144
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
As vesículas enxertadas provenientes de animais castrados tratados com testos-
terona. si bem que de ótimo aspecto, foram os orgãos de menor reatividade obser-
vada. E’ provável que, além da ação inibidora da testosterona, tenham tido
influencia depressora as secreções acumuladas no orgão. Aliás, já vimos em
trabalhos anteriores que a espermina, constituinte normal destas secreções, exerce
efeitos inibidores sobre a contratilidade da musculatura lisa genital masculina.
Fi*. 7
CaoAts deferentes do cotado 141» beaksftrado» opersdo
dias antes.
Em cima — Deferente “in sitn^
Em bmxú — Deferente cootraUteral enxertado na face
anterior do estoenafo.
A flecha assinala adágio ao banho de doreto de bano
(1:50.000).
Abb. 7
Samenleiter Tom Sleer^bveincbcn 141» bcmikastriert,
60 Tace nach der Operatkm.
Obtn ~ Samenleiter ”io sito*.
VHttm ^ Koatralateraler Samenleiter to die Macen*
wand Terpflanat.
Zucabe too BarítuncUorid (1:50.000).
b) Cobaios: A não ser a menor amplitude das contrações em alguns casos
« certa diminuição da excitabilidade, não observamos diferenças de comporta-
mento entre os orgãos enxertados e os mantidos "ín situ”. A inibição provocada
pela adrenalina nos orgãos de castrados tratados com estradiol foi obser\'ada
também nos orgãos enxertados. Este achado c interessante e mostra que, pelo
menos nas condições referidas, o deslocamento do receptor não interfere na
I SciELO
8
Th. Martins; J. R. Valle & A. Porto — Enierlos de orgãos genitais
acessórias de ralos e cobaios 145
obtenção da \‘aríação dos efeitos da adrenalina com o tratamento hormonal, apesar
dos efeitos opostos obser^-ados, quer pela excitação do simpático, quer pela apli-
cação de adrenalina nos orgãos dos territórios ner\ Dsos em questão, v. g., estôma-
go e genitalia.
RESUMO
Os orgãos genitais accessorios do rato e do cobaio foram enxertados na pa-
rede gastrica ou na abdominal. Os animais eram em seguida tratados com hor-
monios sexuais, retirando-se no fim de 30 a 83 dias os orgãos enxertados e os
contralaterais conser\*ados “in loco" para o estudo comparativo "iu vilro". Dada
a identidade do comportamento farmacologico, as experiencias efetivadas permitem
deduzir que a regulação da contratilidade e da excitabilidade farmacológica dos
orgãos genitais accessorios masculinos do rato e do cobaio c sobretudo periférica,
isto c, exercida dirctamente sobre os orgãos efetuadores. Si os centros nervosos
genitais têm alguma interferencia nos fenomcnos estudados, esta não c de im-
portância primordial.
MORPHOLOGISCHE ÜND FUXKTIONELLE STUDIEN CBER DIE
VERPFL.-\XZTEX AKZESSORISCHEX GEXIT.ALORG.AXE VON
RATTEX UXD MEERSCHWEIXCHEX IX VERSCHIEDEXEN
HORMOXALEX ZUSTÃXDEX
Das Problem der Kontraktilitàt der mãnnlichen akzessorischen Genital-
organe und ihre hormonale Kontrolle ist der Gcgenstand vcrschiedencr .Arbcitcn
dieses Laboratoriums gcwescn. Die Errcgbarkeit der Organe kastricrter Ratten
ist stãrker ais die der nonnalen. Durch Oestradiol-Behandlung wird sie noch
verstãrkt. Bei den Meerschwcinchcn scheint der Einfluss der Sexualhomione
nicht so dcutlich zu sein, aber das Adrenalin “in vitro” ruft bei Organen
Testosteron-kastrierter Tiere Kontraktion, und bei Oestradiol-kastrierter Er-
schlaffung hervor. Um diesc hormonale Kontrolle gründlicher zu analysicren,
versuchten wir das pharmakologischc Verhalten “in vitro” der Genitalorganc von
Ratten und Meerschweinchen. wclche in die Abdominalwand oder in den Magen
verpflanzt worden waren. Es wurden 21 Ratten von 110-240 g und 30 Meer-
schweinchen von 450-700 g operiert. Bei den Ratten wurde der Samenlciter
und die Samenblase mit dem Kraniallappen der Próstata und bei den Mecr-
schweiiKhen der Samenleiter und das distale Drittel der Samenblase verpflanzt.
Die Hormonbehandlung bestand in subeutanen njektionen alie 4-6 Tage von
5-10 mg Testosteronpropionat und 0.5-1 mg Oestradiolbenzoat.
14G
Memórias cio Instituto Butantan — Tomo XIV
Zum morphologischen und funktionellen Studiuni wurden die Organe 30
bis 83 Tage nadi der \'erpflanzung exstirpiert. Ais \'ersuchstiere dienten 16
Ratten: 2 einseitig kastrierte, 5 kastrierte, 5 kastrierte mit Testostcronpropionat
behandelte, 4 kastrierte mit Oestradiolbenzoat eingespritzte und 10 Meer-
schweinchen: 2 einseitig kastrierte, 4 kastrierte mit Testosteron behandelte
und 4 kastrierte mit Oestradiol eingespritzte. Nacdi der makroskopischen
Beobachtung und der Entfemung eines Stückchens für die histologiscdien
Prãparate, wurden die Organe in eine Flasche mit Locke’scher Lõsung.
von 38°, mit Sauerstoff durchstrõmt, gebracht. Die \'ersuche wurden immer
mit dem verpflanzten Organ und dem “in situ” in derselben Flasche und unter
denselben myographiscdien Bedingungen ausgeführt. Die Lãngskontraktionen
wurden mit Hilfe eines Schreibstiftes registriert, der im Verhãltnis von 1x6
Vergrõsserung aufzcichnete.
Dann wurde die Wirkung der verschiedenen Drogen wie Adrenalin, Acetyl-
cholin, Pilokarpin, Ephedrin, Cocain und Bariumchlorid beobachtet. Das Ver-
haltcn der verpflanzten Organe war das Gleiche wie das der kontralateralen in
loco gehaltenen. Zum Beispiel, in kastrierten Ratten oder Oestradiol-Kastraten
ruft das Pilokarpin tonische und rhjthmische Kontraktionen in verpflanzten,
wie auch in Organen in siíu hervor (Siehe Abb. 3). Diesellíc Droge ist
wirkungslos in Organen von Testosteron-kastrierten Tieren (Siehe Abb. 4).
Bei Meerschweinchcm war die Analyse der Effckte des Adrenalins am
wichtigsten, denn l>ei dieser Tierart hat diesc Droge wechselnde, von den
hormonalen Bedingungen abhãngende Wirkung. Auf die Samenleiter und
Samenblasen von normalen, kastrierten oder Testosteron-kastrierten Meer-
schwenchen bcwirkt das Adrenalin Kontraktionen. Auf Oestradiol-behandelte
jedoch hat diese Ürogue hemmenden Effekt. Unter denselben Bedingungen
wurde hemmende Wirkung des Adrenalins auch bei den verpflanzten Organen
festgestellt (Siehe Abb. 6).
Aus unseren \'ersuchen konnten wir schiiessen, dass der Einfluss der
Sexualhormone auf die verpflanzten Genitalorgane derselbe ist wie auf die “in
situ”. Die hormonale Kontrolle der akzessorischen Gcnitalien scheint sich
hauptsãchlich direkt auf die Organe auszuüben. Wenn das Xervcnsystem dabei
eine Rolle spielt, so hat diese keine überwiegende Wichtigkeit.
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612.617
CONTRATILIDADE “IN VITRO” DE CANAIS DEFERENTES,
vesículas seminais E próstatas de ratos CASTRA-
DOS E INJETADOS SIMULTANEAMENTE COM PROPIONATO
DE TESTOSTERONA E BENZOATO DE ESTRADIOL
POK
THALES MATIXS; AXANIAS PORTO & JOSÉ R. VALLE
IXTRODUÇAO
A regulação homional da contratilidadc e da excitabilidade farmacológica
da musculatura lisa genital masculina de ratos, macacos rhesiu, gatos e cobaios,
tem sido objeto de \'arias publicações deste Laboratorio (1-8). Além dos efeitos
funcionais bem conhecidos para a genitalia feminina (ação das substancias estro-
genicas sobre a motilidade uterina, dessensibilização do utero à pituitrina pela
progesterona, etc.) vimos que os hormonios sexuais exercem um papel importante
na motilidade da genitalia masculina.
•\s ações inibidora da testosterona e excitadora do estradiol são facilmente
demonstradas “in vitro”, utilizando, por e.xemplo, canais deferentes, vesículas
seminais e próstatas de ratos em diversas condições hormonais. Com a técnica
bastante conhecida de imersão cm banho oxigenado e aquecido de Locke, mas
estudando ao mesmo tempo o comportamento de 2 a 3 orgãos de doadores com
passado hormonal diferente, pudemos analisar não só a motilidade espontânea,
mas ainda o efeito de varias drogas e o tipo de resposta obtida.
Os orgãos genitais acessórios provenientes de ratos nonnais ou castrados tra-
tados com propionato de testosterona não apresentam automatismo e são pouco ex-
citáveis; ao contrario, os orgãos de doadores castrados ou de castrados injetados
com benzoato de estradiol tem movimentos espontâneos e são bem excitáveis pelas
drogas de emprego corrente, sobretudo pelas chamadas parasimpaticomimeticas.
Interessante que as diferenças de comportamento não são apenas de ordem quan-
1
150
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
titati\'a e sim também quaHtati\’as. As respostas dos orgãos de doadores nor-
mais ou de castrados tratados com as substancias androgenicas são do tipo tonico
ou, então, tonico com oscilações ritmkas; já nos orgãos de castrados ou tratados
com as substancias estrogenicas domina o tipo rítmico. Ha mesmo drogas que,
como a pilocarpina, são excitantes sobretudo de orgãos provenientes de ratos
castrados ou, melhor ainda, de ratos que receberam o tratamento estrogenico.
Vimos que estas alterações fundonais de castração (automatismo, aumento
da e.xdtabilidade farmacológica, predominanda de resposta rítmica, aparedmemo
de reação a drogas normalmente inat^^'as) são precoces, isto é, independentes
das alterações morfologicas produzidas pela castração ou pelo tratamento
hormonal (8).
Diante dos dados que acabamos de resumir, seria interessante analisar o
comportamento “in dtro” daqueles orgãos provenientes de animais tratados
simultaneamente com propionato de testosterona e benzoato de estradiol. Poder-
se-ia, assim, verificar dentro das doses utilizadas o antagonismo entre os dois
hormonios.
MÉTODO
As conclusões deste nosso trabalho se baseiam no estudo comparativo “in
vitro” da musculatura lisa genital masculina de grupos de ratos de 120 a 250 gs.,
castrados 10 a 31 dias antes e tratados ou com propionato de testosterona ou
com benzoato de estradiol ou, então, simultaneamente com os dois hormonios (*).
As injeções eram feitas subeutaneamente e repetidas com intervalos de 4 dias.
No primeiro grupo os ratos recebiam de 0.25 a 4 mgs. pro dosi de propionato
de testosterona; no segundo grupo a mesma dose de testosterona mais 0.2 a
5 mgs. de benzoato de estradiol; finalmentc, os animais do terceiro grupo eram
tratados somente com estradiol.
Depois de 2 a 6 injeções os ratos eram anestesiados com eter e os canais
deferentes, vesiculas seminais e glandulas coaguladoras eram extirpados, desem-
baraçados dos tecidos adjacentes e levados para um frasco, contendo liquido de
Locke aquecido e oxigenado. As condições experimentais foram as mesmas
referidas nos nossos trabalhos anteriores. Repetimos que eram colocados no
mesmo banho os orgãos de 2 a 3 ratos em condições hormonais diversas, reali-
zando-se ao mesmo tempo, em 3 frascos, as experiendas com os deferentes, as
vesiculas e as próstatas. Assim foi possivel o estudo comparativo do compor-
tamento dos orgãos nas mesmas condições experimentais — temperatura e volu-
(•) Usamos nas nossas experiências os hormonios Tesloviron e Progync», que a
Casa Schering poz amavelmente à nossa disposição.
2
Th. Martins; J. R. Valle & Porto — Canais deferentes, vesículas semi-
nais e próstatas de ratos castrados lõl
me do banho, concentração das drogas adicionadas, etc.. É obvio que as dife-
renças registadas correram por conta do passado hormonal dos doadores.
Foram estudados 21 deferentes, 21 vesiculas seminais e 17 próstatas de
ratos castrados e tratados com testosterona ; 30 deferentes. 30 vesiculas e 23
próstatas de ratos castrados e tratados simultaneamente com testosterona e estra-
diol ; e 14 deferentes, 14 vesiculas e 12 próstatas de ratos injetados com estradiol.
Fir. 1
Em rimu; rato 2*6, tnlado coa cMradwl (4 iajcvScs dc 0,5 m(.); .Vo mriot nto 245, tnUdo
com bciuoalo de «tradiol (4 injc^dc* de 0,5 mt.) e propónato de tcMoaterooa (4 inje«de« dc
0.25 m(.): Em tmxo: rato 244. tratada com propiotuto de teitoiterocta (4 ioiccOei de 0.25 mt-).
a) Efeito* da adi«5o ao banho de doridrato de pilocarpiiu a 1:60.000.
b) Qoridrata de cocaina a 1 :50.000.
Em toda* a* rignra*: Tciapo 6 ictnado*.
Fi,. 1
Cananx ditémU de rat 15 joort apr^ Ia caitratioa. De haiit en ha>: rat 246 traité par le
benioate d‘oe«tradiol (4 injcctioe* de 0.5 mt.), rat 245. iraití par le b. d‘ce*tradiol (4 inj. de
0,5 mt.) pln* propiooate dc testoetírone f4 inj. dc 0.25 «(■); rat 244, traití par le p. de teato*-
tírooc (4 inj. de 0.25 m«.).
a) Addition de cblorhjrdrate dc pilocarpinc (1:60.000).
b) Addition de cUorhrdrate dc cocainc (1:50.000).
Ligne d* téntpa: 6 »6cood*.
De 30 a 60 minutos depois de levados para o frasco e depois das observa-
ções concernentes à motilidade espontânea dos orgãos, iniciavamos o e.\ame das
reações às seguintes drogas: adrenalina (1 :500.000 - 1 :2. 000. 000) ; acetileolina
(1 :30.000 - 1 :200.000) ; cocaina (1 :12.500 - 1 :50.000j ; pilocarpina (1 :25.000 -
1 rlOO.OOO) ; efedrina (1 :16.000 - 1 :50.000) : nicotina (1 :500.000) ; esparteina
(1 :10.000 - 1 :30.000) ; cloreto de bário (1 :50.000 - 1 :120.000).
RESULT.\DOS
O comportamento dos orgãos provenientes de animais castrados tratados
com um dos hormonios isoladamente foi o mesmo referido nos nossos trabalhos
152
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
anteriores e resumido na introdução. Já no grupo que recebeu tratamento misto,
o tipo de resposta às drogas ensaiadas se modificou no sentido tonico, rítmico
ou tonico-rítmico na dependencia das doses empregadas. Assim, para as doses
maiores de testosterona (2 a 4 mgs.), o tratamento simultâneo com estradiol
Fir. 2
Canais deferentes de ratoe castrados de 19 dias.
Em cimã: rato 243, tratado com bensoato de es*
tradiol (5 inje^des de 1 ac.); S 9 mrú>: rato 142,
tratado cora benioato de estradiol ($ injeções de
0,5 mf.) e proptonato de testosterona ($ injeçdes
de 0,5 Bf.): Em rato 241, tratado com
propiooato de testosterona (5 injc^Ses de 0,5 mc.)«
A flecha assinala a adi^^ ao banho de cloridrato
de efcdrina a 1:25.000.
Fif. 2
Canaox d^férents de rat, 19 jonrs après la cas*
tratioa. De haut en bas: rat 243, traité par le
benxoste d*ocstradiol (5 injectioos de 1 af.); rat
242, traité par le profMonate de testosterooe (5
injcctions de 0,5 ac«); plus b. d*ocstradicl (5
injccttons de 1 ar): 241 traité par le p. de
testostérone (5 injcctions de 0,5 at>).
Addition da chlorhrdrate d*ephédrioe (1:25.000).
Fi». 3
Canais deferentes de ratos castrados de 22 dias.
Em cimãt rato 224, tratado com benxoato de es-
tradiol (5 injeções de 1 af.); 4V0 mrio: rato 223,
tratado cora benxoato de estradiol (5 inje^des de
1 af.), com p. de testosterona (5 iojeçdcs de 2
af.); Em b€ÍTo: rato 222, tratado com p. de teS'
tosterona (5 injeçdes de 2 af.).
Efeito do cloreto de bario (1:120.000).
Fif. 3
Canaox déférents de rat, 22 joors aprés ta cas*
tration. De haot en bat: rat 224, traité par le
benxoate d*oestradicl (5 injcctions de 1 af.);
rat 223, traité par le b. d*oestradiol (5 injcctions
de 1 af.) pios p. de testostérone (5 injcctions de
2 af.); rat 222, traité par le p. de testostérone
(5 injcctions de 2 af.).
La íleebe sifnale raddstion an bain da clorare de
barram (1:120.000).
não modificou de maneira apreciável o comportamento que foi do tipo normal.
Já para as doses menores de propionato de testosterona (0.25 a 1 mg.), em
bom numero de casos, os deferentes apresentaram maior excitabilidade farma-
cológica, predominando o tipo tonico-rítmico na resposta às drogas ensaiadas.
Entre estas, a cocaína e a efedrina são as melhores para se analisar as diferen-
ças de comportamento registadas nas condições experimentais que estamos estu-
dando. Mesmo naqueles casos em que a reação às demais drogas era do tipo
•i
Th. JLustins; A. Pobto & J. R. Vaixe — Canais deferentes, vesiculas
seminais e próstatas de ratos castrados I53
tonico, a resposta á eíedrina se apresentara do tipo rítmico ou, então, tonico
com oscilações rítmicas.
A pilocarpina, quasi inativa sobre os orgãos de normais ou de castrados
tratados com testosterona, e bom excitante dos orgãos provenientes de castrados
e de castrados-estradiol, é também um bom reativo para as condições hormonais
dos doadores que recebem tratamento misto. Xas nossas experiendas, 14 defe-
rentes provenientes de animais tratados simultaneamente com propionato de tes-
tosterona e benzoato de estradiol, responderam à adição de pilocarpina ao banho
nutridor com contrações rítmicas cm 1 1 casos. Xos orgãos provenientes de ratos
tratados só com testosterona foram verificadas 10 reações fracas, sendo 6 do
tipo tonico.
Quanto às vesiculas seminais e próstatas, não se rarí ficou, com as doses
hormonais utilizadas, uma diferença scnsivel de comportamento entre os orgãos
provenientes de animais tratados com a testosterona e aqueles cujos doadores
receberam tratamento misto. Em muitos casos, mesmo, o tratamento simultâneo
pareceu diminuir a e.xdtabilidade dos orgãos mais do que o tratamento só pela
testosterona. Entretanto, na serie de 33 ratos injetados com os dois hormonios,
4 apresentaram no fim do tratamento um estado permanente de turgescência do
penis, com a glande fóra do prepúcio. Xa literatura corrente este estado c fre-
quentemente designado por priapismo.
Podemos concluir do que ficou relatado que. relatiramcnte ao comportamento
“in vitro” da musculatura lisa genital masculina de ratos submetidos ao trata-
mento misto, isto c, recebendo simultaneamente a testosterona e o estradiol,
desapareceram aquelas diferenças esquemáticas que são observadas entre os orgãos
de normais e castrados ou injetados com um dos dois hormonios isoladamente.
Xos animais castrados, tratados com doses fracas de testosterona, mas já
ativas sobre a atrofia de castração, o tratamento simultâneo com o benzoato
de estradiol póde anular parcialmente a ação do hormonio masculino sobre a
contratilidade dos canais deferentes. Parece que o rato, no que respeita a con-
tratilidade "in vitro” dos orgãos genitais acessoríos, c relativamente mais sen-
sivel à testosterona do que ao estradiol.
RESUMO
O estudo “in vdtro” da musculatura lisa genital masculina de ratos tratados
simultaneamente com propionato de testosterona e benzoato de estradiol mos-
trou o desaparecimento, em grande numero de casos, das diferenças esquemá-
ticas observadas nos orgãos de normais e castrados ou de tratados com os dois
154
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
hormonios isoladamente. A ação antagônica do estradiol é menos nitida nas
vesiculas seminais e próstatas do que nos canais deferentes. Dentro das condi-
ções experimentais referidas, o rato se mostrou relati\-amente mais sensivel à
testosterona do que ao estradiol.
CONTR.\CTIUTÉ “IX VITRO” DES CAX.^UX DÉFÉREXTS, DES
VÉSICÜLES SÉMIXALES ET DES PROST.\TES DE R.\TS CHATRÉS
ET IXJECTÉS SIMULTAXÉMEXT AVEC DU PROPIONATE DE
TESTOSTÉROXE ET DU BEXZO.A.TE D’OESTR-\DIOL
On a étudié dans des tra\-aux antérieurs le comportement “in s-itro” des
canaux déférents, des vésicules séminales et des prostates de rats, macaques rhesus
et chats, et il a été démontré que les hormones sexuelles ont un rôle important
dans Ia régulation de Ia motilité de ces organes.
Les organes, provenant de rats châtrés ou de rats châtrcs et traites au
benzoate d’oestradioI, presentent des contractions spontanées “in vitro” et réa-
gissent mieux aux drogues additionnées au bain de liquide de Locke, que les
organes des animaux normaux traités par la testostérone. De plus, il e.xiste des-
diffcrences qualitatives dans le type de contraction; les réactions des animaux
normaux ou traités par la testostérone sont de tj-pe tonique tandis que celle des
animau.K châtrés ou traités au benzoate d’oestradiol son r}'thmiques.
Dans ce tra\*ail, nous recherchons les effets de traitement mixte des animaux,
afin de vérifier si le benzoate d'oestradioI a quelque action neutralizante de la
testostérone.
Melhode: Après avoir châtré les rats d’un poids de 120 à 250 grammcs,
on commença le traitement avec des hormones dissous dans 0,5 ou 1 cc. d'huile
de sésame, en injections sous-cutanées.
Les rats étaient toujours répartis par groupes de 2 ou 3, dans les mèmes
conditions; dans chaque groupe, un animal prenait ime dose déterminée dc
propionate de testostérone; un autre, la méme dose de testostérone plus une
dose de benzoate d'oestradiol ; parfois un troisieme rat recevait seulement la
dose de benzoate d'oestradiol. Les injections, commencées le jour méme de
la castration, étaient répétées de 4 en 4 jours. Les doses de propionate de
tsetostérone \ariaient, par injection, de 0.25 à 4 milligrammes, celles de benzoate
d'oestradiol de 0.2 à 5 mgr. (*).
(*) Dans Ia scríe de 13 rats étudiés, 4 présentèrent à la fin du traitement un état
permanent de turgesccnce du penis, a%-ec Ia glande hors du prépuce; dans la littérature
courante cet état est fréquemmcnt appelé priapisme. II est intéressant de le noter,. ces
animaux étaient tous soumis au traitement mixte, c’est à dire traitement au propionate-
de testostérone plus le benzoate d'oestradioL
6
Th. JL\rtins; A. Porto & J. R. Vau.e — Canais deferentes, vesículas
seminais e próstatas de ratos castrados 155
On étudia 21 déférents, 21 vcsicules et 17 prostates (lobe cranien) de
rats chãtrés et injectés a^-ec du propionate de testostérone ; 30 déférents, 30
vésicules séniinales et 23 prostates de rats chãtrés et traités au propionate de
testostérone plus du benzoate d’oestradiol ; et 14 déférents, 14 vésicules sémi-
nales et 12 prostates de rats chãtrés et traités au benzoate d'oestradiol.
De 10 ã 31 jours après la castration, les organes étaient disséqués et mis
dans un bain de liquide de Locke, dans les conditions décrites dans les travaux
antéríeures. On mettait toujours dans le même bain les organes de 2 ou 3 rats
appartenant au méme groupe experimental.
On a étudié les effets de 1’addition au bain des drogues sui\antes: adréna-
line (1 :500.000 ã 1 :2.000.000) ; acétylcholine (1 :30.000 ã 1 :200.000) ; cocaine
(1:12.500 ã 1:50.000): pilocarpine (1:25.000 ã 1:100.000): éphédrine
(l:16.000ã 1 :50.000) : nicotine (1 :500.000) : sparteine (1:10.000 ã 1:30.000):
bar}-um (1:50.000 ã 1:120.000).
Résultats: Pour les doses plus grandes de testostérone, de 2 ã 4 mgrs., le
traitement simultané de benzoate d’oestradiol ne modifia pas d’unc façon appré-
dable le comportement, qui füt du type normal.
Pour les doses moindrcs de propionate de testostérone (0,25 a 1 mgr.) dans
un bon nombre de cas, les déférents des rats soumis au traitement mixte ont
montré une excitabilité plus grande aux drogues et une contraction de tjT»^
mixte.
Lorsque les contiactions n*étaicnt pas purement rythmiques commc chez
les animaiLx chãtrés ou traités seulemcnt au l>enzoate d’oestradiol, on a constaté
im effet tonique, mais avec des osdllations rynhmiques.
Pamii les drogues essayécs, Téphédrine et la cocaine semblent les meilleurs
pour révéler ces différences de comportement. Méme dans les cxpériences oü
les réactions ã d’autres drogues étaient de tj-pc tonique, la réponsc à 1’éphédrine,
éuit dans la grande majorité des cas, chez les rats traités par la testostérone
plus oestradiol, rythmique, ou tonique avec des osdllations rythmiques.
Un autre “réactif différcntid” est la pilocarpine qui, comme nous 1’avons
vu dans les travaux antérieurs, est un bon exdtant des animaux chãtrés ou traités
par 1'oestradiol et presque inactive sur les organes des normaux ou traités par
la testostérone. 14 déférents, traités par la testostérone plus oestradiol pré-
sentèrent des contractions, après 1'addition de cette drogue, dont 11 de tj-pe ryth-
mique. Chez les animaux traités par la testostérone seuJement, il se produisit
10 réactions faibles, dont 6 de type tonique.
Quant aux vésicules séminales et prostates on ne vérifia pas, avec les doses
dTiormone employées, une difference sensible entre les animaux traités par la
testostérone et les traités par la testostérone plus benzoate d’ocstradiol. En de
156 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
nombreux cas 1’excitabilité, chez les animaux soumis au traitement mixte, sem-
blait même moindre, et le tj-pe de contraction plus proche du normal, que chez
les animaux traités seulement par la testostérone.
De la vue d’ensemble des effets des diverses drogues essayées, nous pou-
vons conclure qeu, chez les animaux traités avec des doses faibles de propionate
de testostérone, déjà proches du seuil actif sur Tatrophie de castration, le traite-
ment simultané au benzoate d’oestradiol peut annuler {fertiellement Taction de
rhormone masculine sur la contractilité des canaux déférents. Mais ce n’est
pas un résultat constant et il est loin des différences schématiques, que nous
avons décrites, entre animaux normaux, châtrés, et châtrés injectés seulement
avec une des hormones cités. II semble que le rat, pour ce qui concerne la con-
tractilité "in vitro” des organes génitaux accessoires, est relativement plus sen-
sible a la testostérone qu’au oestradiol.
ZZi.
BIBLIOGRAFIA
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(Tnlkftlbo <Ía S«cçio áe Kodocnnoloci* do
laftátoto BotAotan. D&do á publieidAde cia
docsüiro d« 1940).
8
612.3144
PODER ANAGOTOXICO DAS AGUAS DE SÃO PEDRO SOBRE
ALGUNS VENENOS OFIDICOS
POR
FAVORIXO PRADO JUNIOR & J. B. ARANTES
Nestes últimos anos, os hidrologos têm posto em evidencia as propriedades
especificas de certas aguas minerais. Para alguns parece ser de natureza
catalitica, tal c a ação alterante das aguas de Vichy sobre a agua oxigenada,
assinalada, em 1911, por Glénard, e ati\ação das diastases, sob o nome de poder
zimo.'tenico, estudado por Loeper, Mougeot & Aubertot (6).
Certos toxicos de constituição quimica desconhecida ou quasi desconhecida,
como as toxinas, venenos vegetais, alcaloidicos. podem ser transformados em
compostos quimicos desprovndos complefamente de toxicidade.
Billard (1) assinalou o nitido poder inatirante "fw z-itro” das aguas de
Chatel-Guyon. sobre o veneno de vibora. Em mais de 20 pro\*as realizadas
sobre as aguas d’Auvergnc. esse autor observou nitido poder anagotoxico sobre
di\’ersos venenos.
Perrin & Cuénot (9) mostraram o poder anagotpxico das aguas de Bussang
(fontes "Grande Salmade” e "Petite Salmade”) sobre o sulfato de esparteina.
Usando como animal reativo as larv^as de Culcx, esses autores verificaram o
poder anagotoxico das aguas de "La Bourboule” cm face da picrotoxina, bem
como as aguas de Bussang e de numerosas fontes de Vichy.
Entre nós. Vital Brazil (16), trabalhando com as aguas de Poços de Caldas,
Pocinhos do Rio Verde e Lambari, demonstrou indiscutivel po<lcr anagotoxico
dessas aguas, cm face da peçonha da Cascavel {Crotalus tcrrificus) "in vivo",
sobre o organismo do pombo e sobre a toxina difterica.
Diante de um fenomeno assim geral, procura-se uma explicação satisfatória.
Violle & Giberton (15) foram os primeiros a demonstrar experimental-
mente, que o poder anagotoxico duma agua mineral é atribuido unicamente a
certos sais que nela estão dissolvidos. radioativiflade e o estado coloidal não
têm nenhuma qualidade antagónica própria. Numa agua com poder anago-
11
cm
vSciELOi ;l1 12 13 14 15 16 17
158
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
toxico, pode-se colocar sempre em evidencia um ou muitos sais que lhe conferem
esse poder.
Assim é que Violle & Giberton revelaram o poder anagotoxico do cloreto
de caldo em face dos sais de cobre e do sulfato de esparteina.
Perrin & Cuénot mostraram a atividade dos bicarbonatos de ferro, de
magnésio e de cálcio, que contem as aguas de Bussang, em face do sulfato
de esparteina; do carbonato de magnésio, que existe na maior parte das aguas
alcalinas, sobre a picrotoxina.
Como agirá a agua para proteger o organismo contra esses toxicos, é um
problema somente resolvido por inúmeras hipóteses cmpiricas. Cremos que,
futuramente, desse empirismo sairá a solução definitiva dessa ação misteriosa
das aguas minerais, haja visto as palavras de Gaude Bemard: “Dans sa marche
à travers les siècles, la medicine, constanment forcée d’agir, a tente d’innom-
brables essais dans le domaine de Tempirisme et en a tiré d’utiles enseignements”.
Billard (2) que utilizou sobretudo toxicos de composição quimica complexa
ou mesmo desconhecida, atribue toda atividade das aguas anagotoxicas a certos
ions livres do complexo cletrolitico hidromineral. Pensa ele, que esses ions,
mais rapidamente difusiveis que o toxico ao qual está misturado, se fixam
cleiivamentc sobre os orgãos sensiveis, tomando-os refratários à impr^iação
toxica posterior. Para Billard, o toxico de nenhum modo é alterado pela adição
dum 'eletrolito anagotoxico.
Baseado em novas experiências, Perrin & Cuénot, em 1930, emitiram uma
hipótese em contrario. Para eles, o poder anagotoxico seria resultado de uma
reação quimica, mais ou menos nitida, duma ação reciproca do eletrolito ativo
sobre o toxico correspondente, cora a produção dum corpo novo, seja solúvel e
atoxico ou seja toxico, mas insolúvel. Em favor de sua teoria, esses autores
citam o fato das aguas bi carbonatadas serem anagotoxicas para uma solução
acida, havendo formação de um corpo novo, um sulfato, por exemplo, com
abaixamento de taxa acidimetrica por desprendimento de gas carbonico. Em
aguas minerais com poder anagotoxico minimo ou nulo, o toxico é transformado
em um corpo novo, menos toxico, ou é transformado somente em parte.
Verificou Billard que, certas substancias consideradas toxicas, podem, em
certas ocasiões, funcionar como anagotoxicas. É o caso do sulfato de esparteina,
que em dose toxica, misturado "m vilro" com o veneno de Vif>era aspis, cm vez
de reforçar sua ação, tem um nitido poder anagotoxico. Segundo Marie Phisalix
(7), o veneno de Vipera, inoculado sob a pele na dose de 0.5 a 1 miligrama,
determina a morte de uma cobaia em menos de 10 horas. Doses muito supe-
riores a essas, misturadas "in vilro” com o sulfato de esparteina. são inócuas.
J. Weill explica esse fenomeno, atribuindo à esparteina, que é um veneno curari-
zante, um aumento da cronaxia muscular.
n
F. Pr-mk) JiNiOR & J. B. Arantes — Poder anagotoxico das aguas de
S. Pedro 159
Em suma, para Perrin & Cuénot, o poder anagotoxico é um fenomeno
químico extremamente geral; os produtos atoxicos originados sâo do mesmo
tipo que a anatoxina de Ramon, formada pela associação formol-toxina ; ou
semelhante à criptotoxina de Vincent, obtida pelo contacto prolongado
da toxina com o palmitato de sodio. Havendo aguas minerais anagotoxicas
da toxina tetanica, da toxina difterica, da falina, do veneno de Vipera, deve-se
deduzir, que nessas aguas existem sais minerais antídotos químicos desses toxicos.
Leon Binet, Georges Weller & Eugène Robillard (4), constataram o poder
anagotoxico do glutation e compostos sulfidrilados, em face do \"eneno de
Cobra, chegando as cobaias a suportar ate 50 doses mortais de veneno, quando
misturados a esses elementos. Explicam esses autores o modo de ação dos
compostos sulfidrilados sobre o veneno de Cobra, dizendo que o glutation e esses
compostos agem como redutores, transformando os grupamentos — SS — do
veneno em grupamentos — SH.
Maurice Renaud (11) mostrou, em seus trabalhos, que o veneno de Cobra
forma, com as soluções coloidais de sabões (seja oleato de sodio, seja palmitato
de sodio), complexos nos quais a toxicidade se atenua rapidamente e acaba
por desaparecer ao fim de certo tempo, suportando os animais injeções até
60 DML de veneno. Esses complexos veneno-sabões, desprovidos de toxicidade,
guardam seu poder antigenico especifico. A neutralização do veneno de Cobra
pelos sabões necessita um contacto prolongado de 4 a 6 horas, em uma solução
pouco concentrada. Xetter, Thomas & Freser constataram a ação antivcncno.sa
da bile sobre o veneno de Cobra, explicando a sua ação pela formação de sabões,
dai a inocuidade do veneno por via digestiva (12-13).
Pelo exposto, verifica-se a dificuldade que existe em saber, qual o ion ou
grupo de ions que têm um poder neutralizante sobre um determinado veneno,
e como será essa ação. Devemos ter sempre em mente as palavras de
Mouriquand, Michel & Milhaud (8), que afinnam, não dever nunca relacionar
as proprietbdes de uma agua mineral, unicamente aos elementos minerais que
ela encerra.
Temos hoje a firme conricção de que não existe um veneno de origem
organica para o qual não se possa encontrar uma agua mineral capaz de
inati vá-lo (Biliard).
Principio aceito por todos pesquisadores é o de que uma agua mineral
pode ser nitidamente anagotoxica para um determinado veneno e não ser para
outro. Esse fato foi confirmado por Biliard com varias aguas. .As aguas de
"La Bourbole” são anagotoxicas para a toxina tetanica e não são para outras
toxinas; a de "Saint-Xectaire” são anagotoxicas para a toxina difterica e as
de "Mont-Dore" para o sulfato de esparteina.
160
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Um de nós teve ocasião de verificar o mesmo com as aguas minero-medicinais
de São Pedro. A agua da fonte “Gioconda” mostrou nitido papel protetor em
presença da picrotoxina (10), enquanto que as aguas das fontes “Juventude”
e “Almeida Salles” se mostraram anagotoxicas em face da toxina tetanica (3).
É necessário ter-se cuidado na prescrição das aguas minerais, porque não
sabemos dizer qual o grupo de aguas que terão um poder anagoto.xico e qual
será o grau desse poder. Mesmo após longas experiencias. determinada a fonte
que suprime a ação de certo toxico, estamos longe de saber qual é o eletrolito
inati\*ante e qual o ion que tem ação. Assim, em face de uma determinada
moléstia, é necessário verificar si a agua a ser usada tem um poder anagotoxico,
pois, muitas vezes, elas possuem um terrivel poder agotoxico (aumenta a
toxicidade).
Com o fim de pesquisar o poder anagotoxico das aguas de São Pedro sobre
diversos venenos ofidicos, utilizamos como animal reativo o pombo, por ser
muito sensivel ao veneno e de uma sensibilidade constante, motivo pelo qual
é este animal utilizado para o do.seamento de soro ofidico neste Instituto. Os
pombos usados, com um peso constante (mais ou menos 300 gs.). eram injetados
por via venosa, com a mistura veneno -j- agua mineral, depois de pemianecer
em contacto por 30 minutos à temperatura de 37 graus centigrados. Usamos
uma técnica contraria à de Billard, quando estudou a ação do veneno de Vipcra
misturado com agua mineral de Chatel-Guyon. Esse autor usa\’a a via
peritoneal. c cobaias de pesos \'aria\’eis.
A.S aguas minerais usadas por nós não tinham mais de 48 horas de colhidas
na fonte, pois as aguas muito envelhecidas perdem seu po<ler anagotoxico.
\'^ital Urazil verificou com as aguas do RÍo Verde, que estas iierdem seu poder
anagotoxico após 9 dias de colhidas na fonte.
Dividimos nossas expcrienaas em duas series. Xuma, usamos o veneno
de Cascavel (veneno crotalico), e na outra, o veneno de Jararaca (veneno
botropico).
Primeira serie: O veneno de Cascavel (Crotalus tcrrificus) usado tem como
dose minima letal (DML) 0.0015 de miligramos (DML é a dose que mata
um pombo de 300 gs. em 24 horas). Numa primeira parte injetamos 4 DML
(0,006 de mgs.) para cada grupo de 3 fontes, bem como para as testemunhas,
feitas com agua potável e soro fisiologico. Numa segunda parte, injetamos 2
DML (0,003 de mgs.) nas mesmas condições que na primeira parte. Tanto
para as testemunhas, como para as aguas em experiencia. misturamos "í« titro”
a dose de veneno diluido em 1 cc. de soro fisiologico com 1 cc. da agua em
estudo, que permanecia em contacto por 30 minutos a 37 graus centigrados.
4
F. Prado Junior & J. B. Arvntes — Poder anagoloxico das agitas de
S. Pedro 161
RESUMO DAS EXPERIEXCIAS COM O VENEXO CROTALICO
t
J
Xo. do
pombe
Peso
em gs.
Dose
em
mgs.
Tempo 1.®
sintomas
cm horas
Tempo da
paralisia
em horas
Tempo da
morte.
.^guas usadas
88
286
0,006
Ul'
1.18'
2.49'
Fonte " Gioconda ”
89
302
0.006
2.11'
2.37'
após 3hs.
Fonte “Juventude"
90
312
0,006
1,25'
1,39'
N m
Fonte “ Alm. Salles ”
91
320
0.006
0,49'
0.55'
2.8'
Test. soro físiol.
92
300
0,006
i,sr
1.15'
2J0'
Test. agua potav.
93
335
0.003
1.52'
2.32'
3.30'
Fonte " Gioconda "
94
326
0.003
—
—
Sobrev.
Fonte “Juventude"
95
327
0,003
3.13'
3J3'
após 4hs.
Fonte “Alm. Salles"
96
335
0.003
1.45'
2.24'
M M
Test. soro fisiol.
97
311
0.003
2,9-
2,21*
m M
Test. agiu potav.
No quadro acima, a 3* coluna indica a dose recebida pelo pombo, cm
miligramos (0,006 de mgs. correspondente a 4 DML, e 0,003 dc miligramo
correspondente a 2 DML) ; a 4* coluna indica o tempo decorrido entre a injeqão
veneno + agua e o aparecimento dos primeiros sintomas ; a coluna seguinte nos
dá o tempo entre a injegão do veneno e o aparecimento da paralisia ; finalmcntc,
a 6.* coluna indica o tempo decorrido entre a injeção e a morte do pombo.
Obser\-amos que com 4 DML (0.006 dc mgs.), o pombo injetado com
a mistura veneno+agua da fonte "Juventude’’ foi o que mais resistiu, só
morrendo após 3 horas de injetado. Depois da fonte “Juventude”, a fonte
“Almeida Sallcs” foi a que apresentou maior poder anagotoxico cm face do
veneno crotalico. O pombo injetado com essa agua seguramente morreu
primeiro que o pombo injetado com a agua da fonte Juventude, pois os feno-
menos paraliticos apareceram muito antes. Com 2 DML (0,003 de mgs.),
o pombo injetado com veneno-fagua da fonte “Juventude”, não apresentou
sintomas. Nas testemunhas, os fenomenos paraliticos se manifestaram mais
cedo, tendo esses pombos seguramente morrido antes do pombo injetado com
a agua da fonte “Almeida Salles”.
Scffunda serie: Usamos o veneno botropko (Bothrops jararaca), cuja dose
minima letal c de 0,030 de miligramos (dose que mata um pombo de 300 gs.
mais ou menos em 20 minutos). Nessa segunda serie, como na primeira.
162 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
usamos os mesmos métodos de diluição e de injeção. Os pombos foram injetados
com 2 DML (0m060) e com 1,5 DML (0m(M5). O resultado obtido foi r
s^uinte :
Na do
pombo
Peso em
gs-
Dose em
mgs.
Tempo l.°
sintomas
em minutos
Tempo de
morte
em minutos
Aguas usadas
8
307
0,060
2*
4'
Fonte “ Gioconda "
9
3H
0,060
16'
22”
Fonte “Juventude"
12
322
0,060
T
10-
Fonte “Alm. Salles”
10
280
0,060
y
S'
Test. c/sõro fisiologico
11
276
0,060
imediatos
3'
Test. c/agua potável.
Obsecramos que com 2 DML os pombos injetados com a agua da fonte
“Juventude” foram os que mais resistiram, passando de 20’, tempo em que
se considera a dose minima letal para o veneno botropico. Repetimos essas
mesmas experiendas, com os mesmos métodos, usando 1.5 DML (0,045 de
mgs.) tendo o pombo injetado com a mistura vcneno+agua sulfurosa (fonte
“Juventude”), suportado muito bem, sem qualquer sintoma.
Ensaios iniciados por nós, com o veneno da coral {^ficrurus corallinus),
demonstraram também um nitido poder anagotoxico da fonte “Juventude”, e
em segundo plano, da fonte “Almeida Salles”.
Fato comprovado por vários pesquisadores, entre nós por Vital Brazil, c
o de que, à medida que a agua mineral envelhece, perde seu poder anagotoxico.
As aguas por nós usadas não tinham mais do que 48 horas de colhidas. Para
prorar esse fato. deixamos envelhecer na geladeira, pelo espaço de 10 dias,
uma garrafa de agua da fonte “Juventude”. Findo esse prazo, a agua perdia
seu cheiro sulfidrico característico e sua cór. Com a mesma técnica, usada
anteriormente nos outros experimentos, injetamos um pombo de 313 gs. com
uma mistura dessa agua. mais 0m003 (2 DML) de veneno crotalico. Após
lh.30' de injetado, o pombo apresentou paralisia, morrendo após 2 hs. 13’ de
injetado, o que prova ter a agua perdido todo poder anagotoxico. Com essa
mesma dose, e com agua nova, o pombo não apresentou sintomas.
Ao que atribuir o papel protetor da agua mineral, sobre esses venenos
ofidicos. Cada hidrologo interpretaria esse poder por um prisma diferente,
baseado em suas teorias.
Biliard acharia que os ions do complexo eletrolitico hidromineral, mais
difusivel do que o veneno, se fi.xariam eletivamente sobre os orgãos sensíveis
e os tomariam refratários ó impregnação posterior do veneno.
6
F. Prado Juxior & J. B. Arantes — Poder anagoloxico das aguas de
S. Pedro 163
Perrin & Cuénot atribuiriam essa ação a uma reação química do eletrolito
ativo sobre o veneno, com a produção de um corpo novo solúvel e atoxico ou
de um corpo toxico, mas insolúvel.
Para Renaud haveria a formação de sabões com a agua mineral que inati\-aria
o veneno.
Binet, Weller & Robillard achariam que os compostos sulfidrilados da agua
sulfurosa da fonte “Juventude”, agiriam como redutores, transformando os
grupamentos — SS — do veneno em grupamentos — SH. Esta interpretação
assemelha-se aos trabalhos de Slotta & Fraenkel-Conrat, que, trabalhando com
a neurotoxina do veneno crotalico, assinalaram a presença e a importância dos
grupamentos — SS — na molécula da neurotoxina.
De todas as hipóteses, nos parece mais razoavel atribuir esse poder anago-
toxico a um fenomeno de oxido-redução do veneno, pelos compostos sulfidrilados
da agiu mineral, hipótese já bem discutida por um de nós e Büller Souto,
explicando a ação inativante dessa mesma fonte sobre a toxina tetanica (3).
CONCLUSÕES
1. A agua alcalino-sulfurosa da fonte “Juventude" de São Pedro revelou
poder anagotoxico em relação ao veneno de Cascavel (Crotalus Icrrifúus),
de Jararaca {Bothrops jararaca), e ao de Coral (Micrurus corallinus).
2. O pombo injetado com uma mistura feita “in vitro” de 1 cc. de veneno
diluido em soro fisiologico, mais 1 cc. de agua da fonte “Juventude”,
suportou 2 DML de veneno crotalico e 1,5 DML de veneno botropico.
3. Os pombos injetados com 4 DML de veneno crotalico e 2 DML de veneno
botropico, mais 1 cc. de agua da fonte “Juventude”, resistiram por mais
tempo que as testemunhas.
4. Esse efeito parece ocorrer por conta de um fenomeno de oxido-redução
do veneno, pelos compostos sulfidrilados da agua.
5. A agua da fonte “Juventude”, após o envelhedmento por 10 dias, tendo
perdido sua cór e cheiro caracteristico, não protegeu o pombo injetado
com 2 DML de veneno crotalico. Depois de envelhecida a agua perde seu
poder anagotoxico.
6. A agua cloro-bicarbonatada-sodka da fonte “Almeida Salles” apresentou
fraco poder anagotoxico sobre os venenos ofidicos experimentados.
7. A agua cloro-sul fatada-sodica da fonte “Gioconda” c destituída de poder
anagotoxico sobre os venenos experimentados.
164
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
8. As aguas minerais em experiencia eram utilizadas até 48 horas depois de
colhidas na fonte.
CONXLUSIONS
1. The alcaline-sulphurous water of the foimtain “Juventude”, in São Pedro,
seems to show a distinct anagotoxic power in regard to the venom of the
rattlesnake (Crotalus terrificus), of Bothrops jararaca and of Micrurus
corallinus.
2. The pigeon injected with a mixture prepared in vitro with 1 cc. of venom
diluted in saline, and 1 cc. of water of the fountain “Juventude”, resisted
to 2 DML of the venom of Crotalus terrijicus and to 1.5 DML of the
venom of Bothrops jararaca.
3. The pigeons injected with 4 DML of crotalic venom, 2 DML of bothropic
venom and 1 cc. of the water of the fountain “Juventude” survived longer
than the test animais.
4. This effect seems to be due to a o.x>-do-reduction phenomenon of the venom,
causcd by the sulphidrilated compounds of the water.
5. The water of the fountain “Juventude”, after standing for 10 days and
consequently loosing its colour and characteristic odor, has not protected
a pigeon injected with 2 DML of crotalic venom. After standing the
water looses its anagotoxic power.
6. The chloric-bicarbonated-sodaic water õf the fountain “.Mmeida Salles”
seems to present weak anagotoxic power in regard to the examined ophidic
venoms.
7. The chloric-sulphurated-sodaic water of the "Gioconda” fountain is des-
tituted of anagotoxic power against the examined venoms.
8. The jnineral waters undcr experience were used within 48 hours after
having been collected at the foimtain.
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3. Büller Souto, A. & Prado Junior, F. — Poder anagotoxico das aguas de São Pedro
sobre a toxina tetanica — II.* Coeigr. Xac. de Hidro-Qimatismo, 1940.
0
8
F, Pbado Junior & J. B. Ar.\ntes — Poder anagoloxico das aguas de
S. Pedro 165
4. Bhut, L.; WtUer, G. & RobUlard, E. — Xouvclles expéricnccs concemant 1'action cxer-
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5. Chaves, B. — .Aguas de Lambari :29.1932.
6. Lotper, Sí.; Siougeol A. Sr Auberlot, V. — Le pouvoir zjmostbínique des eaux mt-
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7. Phisolix, Síarie — Animaux Venimeux et venins — Masson & Cie. 2:547.1922.
8. ilouriquand, G.; ifichel, P. & Milhaud — Action comparée de l’eau de Vichy (Grande
Grille) et d’une solution bicarbonatée equivalente sur le cohaye carencé — CR.
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10. Prado Junior, F. — Poder anagoloxico das aguas de Sáo Pedro, era face da picroto-
xina — II.® Congresso Nac. dc Hidro-Qimatisrao, 1940 et Brasil Medico 54:
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11. Renaud, M. — Iramunisation contre le venin de Cobra par les complèxes venin-savons
— C R. Soc. Biol. 103:143.1930.
12. Renaud. if. — Pouvoir neutralizant des savons sur le venin de Cobra — C. R. Soc.
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13. Renaud. .\f. — Savons et venin de Cobra — Buli. InsL Pasteur 26:11 14. 192&
14. Sousa Lopes. Renato — Anuas minerais do Brasil — Edit Livr. Francisco Alves. 1931.
15. yiolle, P. L. Sr Giberton, A. — Les eaux minérales milieux antitoxiques — Presse
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(Trakolbo da Scc^lo dc lmaac4oci* do InMi*
luto BotanUn. AprcacnUdo ao IL* Coorrc»^
Nac. d« HidnxItmatiMno e dado á p«d4»ci-
dadc cta dcianbro dc 1940).
9
C12.3144
A INFLUENCIA DA TEMPERATURA SOBRE OS PRINCÍPIOS
TOXICO, COAGULANTE E PROTEOLITICO DO VENENO DA
ROTHROPS JARARACA
POR
LAURA C. TABORDA
Ao iniciarmos algumas expericncias em tomo da separação dos princi|Mos
toxico, coagulante e proteolitico do veneno da Bothrops jararaca deparamos com
rarias divergências entre os nossos resultados e os de alguns outros pesquisadores
no tocante à ação da temperatura sobre este veneno.
Assim c que ao se referir a ação do calor sobre as soluções de veneno em
face da sua atirddade toxica, diz Calmette (1), que os venenos de Lachesis (hoje
Bothrops) já seriam atenuados à temperatura de 65® C, embora dependendo esta
atenuação do tempo de aquecimento c que jx>r aquecimento a perdia a ação
dissolvente sobre a gelatina e a fibrina.
Houssav, Sordelu e Xegrete (2) afirmam que os venenos de diversas
cobras, dentre as quais o da Bothrops jararaca (L. lanceolatus) , diminuem subita-
mente suas ati\ndades toxica, coagulante e lipolitica entre 60 e 70^, dependendo
da especie e que por aquecimento a 80* ou 90°C reaparecem as propriedades do
veneno, embora atenuadas. Segundo Xoc (3), o aquecimento a 80KT durante
30’ em tubo fechado, destroe o poder proteolitico do veneno da Bothrops jararaca
bem como de outros venenos.
Vital Brazil e Rangel Pestana (4). no estudo da ação do calor sobre os
venenos, advertem que devemos mencionar a qualidade do veneno, o tempo durante
o qual se aquece e o grau de diluição com que se opera.
Em solução IVoo cin NaQ 8®/oo verificaram que o veneno de Bothrops
jararaca perde a sua toxicidade a 70^ bem como o seu poder proteolico.
Referindo-se, poréinTà ação do calor sobre o veneno seco, diz Nogucui (S)
ser esta muito pequena, podendo ser aquecida a 130C sem perder a toxicidade.
cm
vSciELOi ;l1 12 13 14 15 16 17
1C8
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Por esta pequena exposição, sintese da escassa literatura que pudemos
encontrar sobre a ação da temperatura em face das mais importantes atividades
do veneno da Bothrops jararaca, vemos que muito pouco ainda existe sobre o
assunto e que as opiniões dos diversos investigadores não são muito concordantes.
A importância desta ação sobre um complexo enzimo-proteico como o ve-
neno, é, entretanto, d etal monta, que resolvemos estudá-lo, em primeiro lugar,
com o fim de estabelecer uma diretriz mais segura para o nosso problema de
fracionamento.
\’erificamos então a ação do calor sobre os principios toxico, coagulante e
proteolitico do veneno, quer seco, quer em solução, chegando a resultados que
nos le\-am a afirmar que grande numero de fatores influe nesta ação.
Além da qualidade do veneno (de diferentes especies dentro do mesmo genero
e diferentes extrações), do tempo de aquecimento, e, do grau de diluição em que
se opera, como obser\-am muito bem Vital Brazil e Rangel Pestana (4),
outros fatores têm influencia como: o modo de aquecimento, a maneira como foi
dessecado o veneno (no caso de não se usar veneno fresco), o pH da agua em
que foi dissolvido, para não falar de maiores variações de pH que não entraram
nas cogitações deste trabalho.
Si aquecermos a solução de veneno a fogo direto, as suas atividades diminuem
mais rapidamente com o aumento de temperatura que si o fizermos em banho
ma ria.
O veneno dessecado em alto \-acuo apresenta-se mais homogeneo e resistente
à tem{)eratura e as atividades toxica, coagulante e proteolitica num “stock” são
bem mais concordantes do que as de um “stock” de veneno dessecado em estufa a
37°C. Obsei^Tunos também que, si dissolvermos o veneno em aguas distiladas
cujos pH sejam diferentes, as suas atividades toxica, coagulante e proteolitica
sofrem também variações.
O nosso trabalho foi realizado com um veneno dessecado em estufa a 37*C
de um grande “stock” e. em diversas porções que temos utilizado para ^•arios
fins, achamos sempre resultados diferentes para os tres principios em questão.
Para eliminar esta causa de erro, fizemos, de uma só vez, a solução para
todo o nosso trabalho.
Apenas para os aquecimentos acima da temperatura de ebulição, precisamos
usar uma outra solução.
Esta foi a razão por que organizamos um quadro à-parte com estes resul-
tados (Quadro IV).
Para o aquecimento do veneno seco, utilizamos veneno dessecado em estufa
a 3,^C (Quadro III) e também em alto vacuo (Quadro IV).
2
Lalra C. Taborda — Princípios toxico, coagulante e proteoUtico do
veneno da B. jararaca
1G9
PARTE EXPERIMENTAL
a) Aquecimento do veneno seco
Este aquecimento foi feito com veneno seco em estufa a 37®C e em alto
vacuo.
De ambos pesamos 0.22 mgs. de veneno jara cada pro\-a. colocamos em
capsula e aquecemos em estufa a 130°. 140*, 150“, 1G0°, 170* e 180* durante uma
hora.
Deixamos esfriar, juntamos 20cc. de agua bidistilada pH 6.2 para ter uma
solu<;ão a 1% e procuramos dissolver o veneno tanto quanto possivel. pois à me-
dida que aumentamos a temperatura, mais dificil se toma a clis.soIucâo.
Para separar os residuos insolúveis que são também tanto maiores quanto
mais ele\-ada a temperatura, centrifugamos o todo durante 30' e. na solução, dosa-
mos as acti\ndades. toxica, coagulante e proteolitica jwlos seguintes processos:
(Quadros I e II).
Aclhidadc toxica: Em primeiro lugar adicionamos NaG ao liquido fil-
trado de cada prova na proporção de 8.5 ®/oo. isto é. na do sôro fisiologico.
Dctemiinamos a D. M. L. por injeção endovenosa em pomiws. usando sem-
pre o volume de 2 cc. e obser\ando a téaiica preconizada por .Armando Ta-
borda (6).
Em linhas gerais, a técnica c a seguinte : em pomlws adultos de unia deter-
minada raça e cuja diferença de peso não seja superior a 10 gs., por ex.. entre
2.50 e 260 gs.. injetam-sc 2 ccs. da solução cuja toxicidade se deseja dosar c veri-
fica-se a dose que matou o pombo em 10', com uma diferença de mais ou
menos 1’.
Injetam-sc então com esta dose mortal mais cinco pomlx)s e verificam-se os
tcnqxis de morte dentro dos limites já citados (de nnis ou menos 1 minuto). Si
mais 4 pombos morrem dentro do limite a dose injetada c a D.M.L..
Quando fôr necessário usar diferentes raças faz-se mister obsen^ar a equii^a-
lencia entre elas para eliminar a causa de erro devido á diferença de resistência
entre as raças.
Acthddadc coaffulanic: Também para esta prora adicionamos NaQ ao liqui-
do filtrado na proporção de 8.5 ®/oo para evitar a hemolise. Detenninamos então
a quantidade de veneno expressa cm gama (y) capaz de coagular exatamente
em 10 minutos e na temperatura de 20*C, a mistura de 2.5 ccs. de sangue oxala-
tado de cai-alo. na concentração de 0,21^ mais 0.5 cc. de soro fisiologico, consi-
derando o sangue coabulado ao primeiro aparecimento do coagulo (7).
170
Memórias do instituto Butantan — Tomo XIV
Expressamos em mgs. os resultados nos Quadros. Nos Gráficos I e II
mgs.
empregamos logaritmos de ou y
1000
Atkndadc proteoliticai Medimos a atividade proteolitica, usando a mesma
técnica que no trabalho sobre a “Protease do veneno da Bothrops jararaca" (8).
Como o pH otimo de atividade da protease deste veneno é 8, segundo nossas
determinações, trabalhamos somente neste pH.
A técnica usada foi a de Ivengar, Sehra & Mukuerjee (9) com ligeiras
modificações. Usamos como s^tbstratum uma solução de caseinato de sodio a
2% e realizamos a proteolise da seguinte forma:
Num tubo graduado de 10 ccs. colocamos 5 ccs. de caseinato, ajustado ao
pH 8 com NaOH N/10, juntamos 2 ccs. de “buffer” pH 8, 1 cc. da solução
do veneno c completamos a 10 cc. com HjO bidistilada, pH 6,2.
Assim, a concentração total do caseinato c de l/í> e do veneno 0,1%.
Retiramos inicialmente 2 ccs. do todo, e precipitamos com 5 ccs. de addo
tricloroacetico a 10%, filtramos e dosamos o nitrogênio não proteico inicial por
micro-Kjeldahl. Juntamos então ao tubo de proteolise 0,05 cc. de toluol como
antisséptico e incubamos em estufa durante 24 horas a 35°C, a temperatura
otima que determinamos para esta protease. Ao fim deste tempo, retiramos
no\'amente 2 ccs. do todo, precipitamos por 5 ccs. de acido tricloroacetico a 10%.
filtramos e dosamos o aumento do nitrogênio não proteico.
b) Aquecimento Je solução
Em nossas experiencias empregamos veneno de Bothrops jararaca dessecado
em estufa a 37*C, em solução 1% em agua bidistilada pH 6,2 ao invés dc em
solução 8.5% de NaQ com o fim especial de abstrair de nossas experiencias a
ação do NaG sobre a atividade proteolitica do veneno.
Como a solução é usada imediatamente, não ha causa de erro com a preci-
pitação das globulinas do veneno pela agua distilada e que se obser\-a mais ou
menos 6 dias após a dissolução. Medimos então as suas atividades taxica,
coagulante e proteolitica iniciais pelos processos já descritos.
Tomamos 50 ccs. desta solução para cada prora, aquecemos em banho-
maria só até atingir as temperaturas de 40, 50, 60, 70, 80. 90°C, e, até a ebulição
(mais ou menos 98°C em São Paulo) e em cada uma destas temperaturas por
5, 10, 15 e 30 minutos, completando com H^O bidistilada aquelas em que houve
modificação de volume. A partir de 60“15’ obser\amos uma turvação pela
coagulação das proteirus.
*
4
L.WRA C. Taborda — Princípios toxico, coagulante e proteolitico do
tfcneno da B. jararaca
171
Para as pro\’as a 100*, 110“ e 120*0 usamos uma outra solução (também
50 CCS. para cada pro\-a) e aquecemos só por 15’ em autodave pelas dificuldades
que apresenta a retirada imediata do material.
Centrifugamos cada pro\-a durante 30’, filtramos e verificamos as suas ati-
vidades toxica, coagulante e proteolitica pelos métodos atrás citados.
DISCUSSAOS DOS RESULTADOS
Pelas nossas experiencias, pudemos constatar que a influencia da tempera-
tura sobre o veneno de Bothrops jararaca depende de vários fatores, como já disse-
mos. XocuCHi já observara que a ação do calor sobre o veneno seco era muito
pequena, podendo ser aquecido a 130“C sem perder a toxicidade. Realizamos
este aquecimento durante 1 hora com veneno dessecado em estufa a 37°C (a 130®
C em estufa) e observamoá, tal como Nocucui, que o veneno de Jararaca
nada perdeu na sua atividade toxica e nem também na coagulante e na proteo-
litica. Aquecemô-lo ainda a 140“, 150’, 160®, 170" e 180“C por 1 hora (Quadro
I).
QUADRO I
Temperatura
Poder toxico
(mgs. txneno)
Poder coagulante
{mgs. veneno)
Poder proteolitico
{mg. \%)
Ambiente
0.062
O.OOS
121
130*C
0.063
O.OOS
121
I-WC
0.109
0.005
108
1S<J"C
O.IIO
O.OOS
107
16(K:
20.000
1.000
78
170*C
20.000
1.800
45
180*C
—
—
5
-p Tempo fixo — 1 hora.
Verificamos, entretanto, que a dissolução do veneno (cm agua bidistilada
pH 6,2), depois de aquecido, é bem mais dificil, e, tanto mais quanto mais ele-
vada a temperatura, devido, provavelmente, a uma desnaturação das proteinas
inertes e a sua côr vai se tomando cada vez mais escura, passando do amarelo
vivo ate ao marrom.
A 180“C, finalmcnte, a parte mais solúvel é a corante, deixando insolúvel
o residuo de substancia marrom. Este soluto feito do veneno após aquecimento
a 180"C, por 1 hora, não c toxico ao pombo (2 ccs. por \"ia venosa) nem coagu-
lante e nem proteolitico. Já, porém, com o veneno dessecado em alto \’acuo
172
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
realizamos aquecimentos a 170° e 180*C por 1 hora, notando maior resistência
deste, até 170°C (Quadro II).
QU.\DRO II
Ttmferatura
Podfr toxico
(mgs. txneno)
Poder coagulante
(mgí. fencHo)
Poder proteolitico
ímg. .V%)
170
16.000
0.800
11
180
—
—
8
+ Tempo fixo — 1 hora.
Verificamos ainda que este veneno embora seja inati\’ado também a 180°C
apresenta maior facilidade na dissolução e uma coloração apenas amarclo-carre-
gada, sem o aspecto de veneno queimado tal como obsen^amos no veneno desse-
cado cm estufa a 37®C.
Em se tratando entretanto de soluções de veneno, a influencia da tempera-
tura já se faz sentir desde 40’C (Quadro III), dependendo do tempo de aqueci-
QU.\DRO III
TEMPERA-
TLKAS
I
O O F. R TOXICO
ímgv renrno»
rODFR CO.AGCL.XNTE
(me*, vrnrno)
PODER PROTEO-
LITICO
(mg». X. *,i
Ambirnte
O.rtO
o.ooc
137
atmgir
y
!0‘
15'
30"
Sa alí
atinair
5-
10*
15
30'
S«
y
lO"
15'
30-
40» C
0.070
0.072
0.102
0 101
0.112
0 007
0.007
0.008
0.009
0.009
137
121
112
ICS
102
500 C
O.OIS
0.I2S
0.130
0.1S5
O.ISh
0.009
0.011
0.013
0.015
0 021
135
133
1.93
105
104
60» C
0.100
0.570
0 Gno
0 772
i.flon
0.015
0.400
0.500
0..V»
O.M
125
111
109
106
105
70o C
1.900
2.000
3.200
3.600
4 000
0.035
O.OOD
0 500
0.500
0.600
117
35
29
2S
24
M)o C
Z.WO
.9.400
5.000
9 2Dl>
14 300
0 0C5
0.2U1
0.500
0.600
1.000
28
19
18
19
10
SOo C
2.000
.9.600
S.OOO
lo.ono
20.00
0.120
0.700
O.SOO
1.000
2.500
25
14
12
8
5
Kbuliçio
2.000
4.500
9.500
19.000
20 ono
0 160
1.500
1.900
2.000
3.500
21
12
12
10
7
mento, conquanto apresente algumas anomalias quanto à perda pre^essiva de
atiridade em função do aumento de temperatura e do tempo de aquecimento.
6
L.\ura C. Taborda — Princípios toxico, coagulanie e proteolitico do
veneno da B. jararaca
173
Assim é que no Grafico I. na cun-a em que expressamos as atividades do
veneno, após aquecimento só até atingir as diversas temperaturas, observamos
uma ativação do poder toxico a 50°C e logo a 6ífC uma atenuação acentuada
e a 70^ uma queda brusca desta atividade que, então, pouco se altera até à
ebulição.
Graiico I
A perda total da toxiddade só se dá a 110*C por aquecimento durante 15'
(Quadro IV).
QUADRO IV
TentperatMra
Poder toxico
(mgs. s-eneno)
Poder coaguJanle
(mgs. feneno)
Poder proteolitico
(mg. \%)
.\mbiente
0.051
0.002
U4
lotre
19.500
2,500
7
iuk:
—
—
2
120“C
—
—
-f- Tempo fixo — 15'.
174 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Acreditamos, apesar de termos trabalhado em condições diferentes, que
Vital Brazil & Rakgel Pestana (4), ao constatarem uma perda da ativi-
dade toxica deste veneno a 70°C, referiam-se não a uma perda total, mas, jus-
tamente a esta queda brusca de atindade que também observamos nesta tempe-
ratura.
Julgamos interessante consignar aqui, não obstante fora da alçada deste
estudo, que os sintomas mortais nos pombos injetados com estas soluções aque-
cidas de 40“ a 120" são bem diversos. De 40 a 70“ obser^-am-se hemorragias,
grande agitação, bater de azas e, finalmente, a morte em decúbito dorsal. De
70* a 120°, ao contrario, observa-se uma paralisia locomotora, dispnéa e, final-
mente, a morte em decúbito ventral. Estes sintomas tomam-se cada vez mais
nitidos, à medida que a temperatura se eleva.
No que diz respeito à atividade coagulante. Grafico IT. observamos uma
diminuição brusca a 60“.
Grafico I)
atoo
1000
UM
1000
íl-
1000
T-
Variacões da atividade coagulante
i
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w
lA*
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««
•
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t
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— V —
\
%
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*
***** '*•
Grafico H
■ k •*4«l
Houssay, Sordeixi & Necrete (2) já haviam também constatado uma
perda súbita das atividades toxica e coagulante entre 60 e 70"C. Esses autores
falam, entretanto, do reaparecimento destas propriedades, embora atenuadas, do
8
L-wr^ C. Taborda — Princípios toxico, coagulante e proteolilico do
veneno da B. jararaca .. 175
1 1 ri
veneno por aquecimento a 80 ou 90“C. Em nossas experiendas, mesmo por
ebulição durante 30’, o veneno não perdeu totalmente nenhuma de suas ativi-
dades, entretanto, não pudemos também obser\'ar uma ativação dos poderes to-
xico ou coagulante por aquedmento a 80 ou 90°C.
Obtivemos entretanto uma notável ativação do poder coagulante a 70*C e
uma pequena atiração da toxiddade a 50^, como já dissemos. No Quadro
IV constatamos a inativação do poder coagulante a 110°C. Quanto ao principio
proteolitico, Grafico III, obtivemos uma ati\ação a 50°C e à ebulição e inati-
\ação também a 110°C (Quadro IV).
Grafico III
Está fóra de duvida que a atenuação das diversas atividades é função
também do tempo de aquedmento.
Observamos no Quadro III que o veneno aqueddo só até atingir à tem-
peratura de 40°C, por exemplo, é toxico para o pombo com 0 mg. 070, enquanto
que com um aquecimento à mesma temperatura por 30’ são necessários 0 mg. 112
de veneno para matar o pombo.
Já o poder coagulante, conquanto liaja sofrido também uma atenuação esta
foi mais branda, passou de 0 mg. 007 por aquecimento só até atingir a 40^
para o mg. 009 após aquedmento a -VfC durante 30’.
O poder proteolitico sofreu uma atenuação mais acentuada do que o coagu-
lante. Passou de 137 mgs. N% para 102 mgs. N^ nas mesmas condições an-
teriores.
176
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Além dos fatos já citados, devemos ainda frisar, quanto à influencia da
temperatura sobre o veneno da Bothrops jararaca, que todas as atividades sofrem
uma atenuação com o aumento de temperatura, salvo nos casos já citados e que
é função do tempo de aquecimento. A atividade toxica cai bruscamente de 50
para 70*C, a coagulante de 50 para 60°C e a proteolitica de 60 para 70*C, exceto
com o aquecimento só até atingir às diversas temperaturas em que observamos
a queda brusca da atividade proteolitica a 80^.
Aliás, a comparação das curvas referentes às temperaturas só até atingir,
mostra-nos claramente que a temperatura age de modo diverso sobre estes tres
princípios. O principio to.xico permanece inalterável até 40”C, ati\-a-se a 50*C
e cai bruscamente até 70°C e, praticamente, nada perde até à ebulição (98°C).
O principio coagulante sofre uma desnaturação r^ular e progressiva, po-
dendo ser expressa esta perda quasi como uma função linear do acréscimo de
temperatura. Finalmente, o principio proteolitico inati\-a-se lenta e progressi-
\-amente até 70"C jara cair bruscamente de 70 para 80*C e daí pouco perder
até à ebulição.
Sendo o escopo principal do presente trabalho investigar a ação da tempe-
ratura sobre os princípios toxico, coagulante e proteolitico do •veneno da Bothrops
jararaca, para fins de fracionamento, prosseguimos no nosso trabalho, investi-
gando com mais minúcias as temperaturas exatas em que esses princípios são
alterados bruscamente.
RESUMO
Pelas nossas pesquisas em tomo da influencia da temperatura sobre os
princípios toxico, coagulante e proteolitico do veneno da Bothrops jararaca che-
gamos aos seguintes resultados:
1) Que essa influencia depende de inúmeros outros fatores além dos já
observados por \’ital Brazil e Rangel Pestana (qualidade do veneno, tempo
de aquecimento e grau de diluição), isto é:
a) do modo como foi dessecado o ^■eneno, si em estufa a 37®C ou em alto
^acuo a baixa temperatura;
b) do pH da agua em que foi dissohddo;
c) do modo como foi aquecido — si a fogo direto ou indireto;
d) si o aquecimento foi realizado sobre o veneno seco ou em solução.
2) Que o veneno dessecado cm estufa a 37"C e aquecido seco só é total-
mente inativado à temperatura de 180®C.
10
LAi'a\ C. Taborda — Princípios toxico, coagulante e proleolitico do
veneno da B. jararaca 177
3) Que o veneno dessecado em estufa a 37*C e em solução 1% em agua
bidistilada pH 6,2 (como realizamos todo o nosso trabalho) é inativado total-
mente à temperatura de 110*C.
4) Que, nas soluções, a influencia da temperatura já se faz sentir sobre
os principios toxico, coagulante e proteolitico a partir de 40“C, dependendo do
tempo de aquecimento.
5) Que o principio toxico é atindade a 50°, num aquecimento só até atingir
essa temperatura, a 60°C sofre uma atenuação e a 7(PC uma queda brusca desta
atividade, nada mais perdendo até a ebulição.
6) Que o prindpio coagulante diminue bruscamente a 60®C, ma^a 70°C
obser\-amos uma notável ativação.
7) Que o principio proteolitico é ativado a 50° (5 e 10 minutos), e por
ebulição (15 e 30 minuto»), caindo bruscamente a 70*C. E’ mais resistente
à temperatura.
8) Que a comparação das ações da temperatura sobre estes tres principios
evidencia uma notável diferença nas suas temperaturas de atenuação brusca, o
que faz crer serem aquelas entidades distintas. Elste ponto será melhor eluci-
dado pela determinação mais exata da temperatura de atenuação brusca de cada
principio, no veneno integral, como mostraremos em outro trabalho.
Cremos, entretanto, deddo aos inúmeros fatores que influenciam a ação
do calor sobre o veneno, que só por uma separação dos tres principios — o que
é nosso escopo — poderemos obter dados mais exatos e também estabelecer a
identidade ou diversidade destes principios.
ABSTR.ACT
Our experiments studjing the effect of the temperature on the toxic. clotting
and protcoljtic principies of the Bothrops jararaca venom led us to the following
results :
1 . That this effect <lcpends on various other factors, besides those already
stated by Vital Brazil and Rangel Pestana (quality of the \-enom, heating period
and degree of dilution), that is:
a) the method of dehydration of the venom. if in the drjing oven at 37*C
or at low temperature and high vaccuum; ’
b) the pH of the Wi^ater in which it has been dissolved;
11
178
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
c) the method of heating — if appl)nng direct or indirect heat;
d) if the heating of the venom has been carried on in dry state or in so-
lution.
2. That the venom dehydrated in the drjnng oven at 37*C. and heated in
dry State loses its activity completely only at 180°C.
3. That the dehydrated venom in the drying oven at 37“C. and in 1%
aqueous solution of bi-distilled water at pH 6.2 (as employed in all our expe-
riments) is completely inactivated at IICPC..
4. That, when in solution, the temperature effect influences the toxic,
clotting and proteolytic principies from 40°C. on, depending on the heating
period.
5. That the toxic principie is activated at SCTC. heating being ceased as
soon as this temperature is reachecl; at 60*C. it undergoes a decrease and at
70°C. an abrupt drop occurs, no other alteration being observed until the boiling
point.
6. That the clotting principie activity drops suddenly at 6QpC., at 70°C.
a remarkable acti\’ation has been noticed when heated for 5 minutes.
7. That the proteolytic principie is activated at SÍTC. (5 and 10 minutes)
and at the boiling point (15’ and 30’) and suffers a sudden drop at 70*C.. It
is more thermo-resistant.
8. That a comparison of the effects of the temperature on these three
principies shows a noticcable difference at the temperatures at which a sudden
drop of their activity is obseived. what makcs us believe that these three prin-
cipies are distinct entities. This fact will bc better elucidated on determining
the exact temperature at which each principie in the whole venom undergoes an
abrupt decrease. as we shall show in another paper.
We belie\’e, however, that on account of the numerous factors that influence
the effect of the heat on the venom, only by a separation — our scope — we
shall bc able to secure exact data and also establish an identity or diversity of
these principies.
ZUS.AMMEXFASSUNG
Untersuchungen über den Temperatur-Einfluss auf die toxischen, koagu-
lierenden und proteoljiischen Wirkungen des Giftes der “Bothrops jararaca”
führten uns zu nachstehenden Schlussfolgerungen :
12
Laur.v C. Taborda — Princípios toxico, coagulante c proteolilico do
veneno da B. jararaca 179
1 . Dieser Einfluss hãngt ausser denen, schon von Vital Brazil und Rangel
Pestana beobachteten (Qualitãt des Giftes, Erhitzungszeit und Verdünnungs-
grad) noch von vielen anderen Faktoren ab, die da sind:
a) Trocknungsweise, ob bei 37®C im trockenschrank oder bei niedriger
Temperatur im Hochvakuum;
b) Die Wasserstoffionenkonzentration des Wassers, in dem das Gift ge-
lõst wird;
c) Die Erhitzungsweise, ob direkt oder indirekt;
d) Ob die Erhitzung eines trockenen oder eines sich in I^sung befindcn-
den Giftes erfolgt.
2. Ein bei 37“C im Trockenschrank getrocknetes Gift wird, wenn ais
Trockensubstanz erhitzt, erst bei 18(fC vollstãndig inaktiviert.
3. Ein bei 37*C im Trockenschrank getrocknetes Gift wird, wenn in \%
Lõsung in bi-destiliertem Wsser (pH 6,2) erhitzt wird (unsere Untersuchumg-
en sind so ausgeführt worden) bei IKKT volltãndig inaktiviert.
4. In Lõsungen ist der Temperatur-Einfluss auf die toxische. koagulie-
rende und proteolytische Wirkung bei 40°C bcmerkbar, jedocli abhãngig von der
Erhitzungszeit.
5. Die toxische Wirkung wrd bei 50°C aktiviert. falis bis zu dieser Tem-
peratur erhitzt wird ; bei 6(PC erleidet die Aktivitãt eine Vcrminderung und bei
70°C fãllt sie plõtzlich, ohnc bis zur Errcichung der Siedetemperatur einen wei-
teren Verlust zu erfanrcn.
6. Die koaguliercndc Wirkung fãllt plõtzlich bei 60*C und aktiviert sich
bemerkenswerter Weisc bei 70*C, wenn 5 Minuten erhitzt wird.
7. Die proteolytische Wirkung wnrd bei 50*C (5 und 10 Minuten) und
bei Siedetemperatur (15-30 Minuten) akti\’iert, fãllt plõtzlich bei 70“C und ist
temperaturbestãndiger.
8. Da die Vergleichung des Temperatur-Einflusses auf die drei Wirkung-
en deutlich einen bemerkenswerten Unterschicld in der piõtzlichen Verminder»
ung der Aktivitãt durch die Temperatur zeigt, glauben wir, dass es sich um
verschiedene Prinzipien handelt. In weiteren Untersuchungen werden wir die
genauen Temperaturen der piõtzlichen Verminderung der Aktivitãt jeder dieser
drei Wirkungen im Gesammt-Gift bestimmen und so diesen Punkt besser
aufklãren.
Da die Wirkung der Temperatur auf das Gift von vielen Faktoren bcein-
fiusst wrd, nehmen wir an, nur durch eine Trennung der drei Wirkungen —
13
180
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
unser Ziel — genauere Angaben zu bekommen und die Gleichheit oder Verschie-
denheit dieser Wirkungen festzustellen.
BIBLIOGRAFIA
1. Calmette, A. — Les venins: 16 e 215.1907.
2. Houssay, B. A.; Sordellt, A. & Ntgrele, J. — Rev. Inst. Bact. Bs. .Aires 1(5) ;565.1918.
3. Noc, F. — Ann. Inst. Pasteur 18(1) ;387.1904.
4. Brasil, Fitai & Rangel Pestana, B. — Coletanea de Trabs. Inst. Butantan 1:151.1901-17.
5. Noguchi, H. — Cit in Phisalix, Marie — .Animaux Venimcux et Venins 2:478.1922.
6. Toborda, Armando — ííota previa apresentada à Soc. de Biologia de S. Paulo, sessão de
8-2-940 (G^nunicado pessoal do airtor).
7. Toborda, Armando — Memórias Instituto Butantan 13:431.1939.
6. Toborda, Armando & Toborda, Laura C. — Trabalho apresentado ã Soc. de Biologia de
S. Paulo, sessão de 8-2-940.
9. lyengar, N. K.; Schra, K. B. & Mukerjee, B. — Indian J. of Med. Res. 26(2) :487.1938.
(Trabalbo <U Sccçio de O^imica c Farmaccio*
ffia £xpeh8)cntais. apreacntailo Í Soc. de Bio*
lofiA de S. Paulo em S*2*940. Dado á pu-
blicidade em dezembro de 1940).
14
6I2.3I41
PROTEASE DO VENENO DA BOTHROPS JARARACA
POR
ARMANDO TABORDA & LAURA C. TABORDA
O papel das enzimas proteoliticas ou proteases dos venenos de cobra começa,
á luz de recentes imixstigações, a assumir aspecto de grande importância, espe-
cialmente na aplicação dos venenos cm terapêutica.
Assim é que Iyencar, Sehra & Mukherjee (1) procuraram e.xplicar, pela
presença destas enzimas no veneno, o fato obsci^^ado por Chopra, Mukiierjee
& CiiowHAN (2) de rariações da \-iscosidade e tensão superficial do sangue de
macacos (Silenus rhesus) após injeção de veneno de Naja trif>udians e logo uma
normalização em cerca de 24 horas.
Admitem eles que as enzimas proteoliticas do veneno digerem o excesso de
proteinas que ocasiona tais v^ariações, excesso esse devido, possivelmente, a um
aumento da concentração de proteinas no plasma pela própria injeção de veneno.
No estudo da protease do veneno da Cobra chamam a atenção para a presença
de um inibidor dessa protease que, associado a uma baixa concentração do veneno,
acreditam ser de grande interesse no tratamento do câncer.
Imaginam que esses fatores possam ser os responsáveis pela digestão selcti\’a
das células dos tumores pelo veneno, sem afetar o tecido original.
Diante desses estudos e de inúmeros outros, que nos mostram a notável
importância das enzimas proteoliticas dos venenos de cobras fomos levados a
estudar as proteases das serpentes brasileiras, começando pelo da Bolhrops jara-
raca^ uma das mais frequentes entre nós.
A atividade proteolitica deste veneno, já ha muito constatada por Lacerda
(3), Launoy (4), Vital Brazil & Rangel Pestana (5). Delezenne (6),
Calmette (7), Noc (8), Houssay e Negrete (9), etc., não fôra até agora
identificada sob as leis da atividade enzimatica.
Conheda-se-lhe apenas a propriedade de digerir proteinas como gelatina,
fibrina, caseina, albumina de ovo, etc., e algumas influencias de alcalis, ácidos,
sais, etc. sobre esta digestão, porém investigações puramente qualitativas.
Estudamó-la. então, sob as leis que regem as enzimas, determinando-lhe os
otimos de atiridade
cm
vSciELO, ; l 1 12 13 14 15 16 17
182
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Nossas determinações foram baseadas no aumento de nitrogênio não proteico
por hidrólise do caseinato de sodio, segundo a técnica de Iyengar, Mukhesjee &
Seura, posto que o método de Bayuss (10) que mede a variação da condutivi-
dade eletrica não deu bons resultados.
Concentrações ótimas do substraium e da protease
O substraium que usamos, segundo a técnica de 1^'excar, Sehra & Mu-
KHERjEE, foi uma solução de caseinato de sodio a 2% (caseina de Hammarsten).
Variando, porém, para percentagens maiores ou menores a concentração do
substraium, verificamos que precisaríamos \’aríar proporcionalmente a percenta-
gem de enzima e o nosso interesse era exatamente usar concentrações mais
baixas.
A nossa protease comportou-se magni ficamente numa concentração de 0,01 Çfc
sobre um substraium de caseinato de sodio a 1 %.
pH otimo da protease
Para a determinação do pH otimo, fizemos variar o pH do sttbstraium de
2 a 10 e dosamos o aumento do nitrogênio não proteico por micro-Kjeldhal.
Para tal, emproamos uma solução de caseinato de sodio a 2% como
substraium.
5 CCS. deste substraium ajustados aos pH de 2 a 10 com H 2 SO 4 N/10 ou
NaOH N/10 foram postos em diversos tubos de ensaio, adicionados de 2 ccs. de
“buffer” de mesmo pH c 1 cc. de solução de veneno seco 0,1% e completado a
10 CCS. o volume final.
A concentração final do veneno é então de 0,01% e do caseinato 1%.
Após, 2 CCS. são retirados, a caseina prerípitada por 5 ccs. de addo tríclo-
roacetico a 10 % e no filtrado . dosado o nitrogênio não proteico inicial.
Os diversos tubos foram postos em estufa a 35*C por 24 horas após adição
de 0.05 cc. de toluol como antisséptico.
Exatamente ao completar as 24 horas de digestão, mais 2 ccs. foram retira-
dos de cada tubo, procedendo-se como anteriormente para a dosagem do nitro-
gênio.
Pelo aumento deste nitrogênio podemos apreciar o grau da proteolise nos
diversos pH.
Queremos observar aqui que todas as nossas dosagens foram precedidas de
pro\*as em branco e os -nossos resultados representam uma media de 3 dosagens.
O acréscimo de nitrogênio não proteico em mg.% pode ser apreciado pelo
Grafico I.
2
A. Taborda & L. C Taborda — Protease do veneno da Bothrops jararaca 183
Grafico I
Verificamos por este Grafico que o otimo de atividade da nossa enzima é
em pH 8.
Conhecido, porém, o fato de que a própria caseina se autodigere (11), pro-
curamos conhecer o grau dessa autohidrolisc nos diversos pM de 2 a 10, tal como
fizemos para o estudo da protease do veneno da Jararaca.
Verificamos então o seguinte aumento de nitrogênio não proteico cm 24
horas de incubação a 35°C (vêr Grafico II).
Grafico II
cm
vSciELOi ;l1 12 13 14 15 16 17
184
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Como vemos, a autohidrolise da caseina é mais nitida nos pH ácidos que
nos alcalinos, mas, nem por isso, desprezivel quando se trata de obter os resulta-
dos mais exatos possiveis.
Tomamos, então, em consideração essa autohidrolise, deduzindo-a da diges-
tão com veneno para eliminar essa fonte de erro.
Temperatura otima da protease
Conhecido o pH otimo de atividade da protease do nosso veneno, procuramos
determinar a sua temperatura otima.
Assim, procedendo como anteriormente, preparamos diversos tubos para
proteolise em pH 8 e, após retirados 2 ccs. para dosar o nitrogênio inicial, colo-
camos em estufa em temperaturas variaveis de 5 em 5° desde 20P até 55°C com
erro de mais ou menos 1°C.
O aumento de nitrogênio não proteico em mg-Yc podemos apreciar no
Grafico III.
Grafico III
Constatamos assim que a temperatura otima foi 35°C.
Pelo Grafico IV verificamos que a proteolise é progressira até 72 horas de
digestão.
4
A. T.tBORDA & L. C. Tabobda — Protease do veneno da Bothrops jararaca 185
Grafico IV
-r -71
Cinética da proteolise
Conhecidas as duas principais caracteristicas da nossa protease, pH e tempe-
ratura otimos, estudamos a seguir a cinética da proteolise pela enzina proteolitica
do veneno da Jararaca, procurando vêr se esta seguia a regra de Schütz, isto é,
si com uma quantidade fixa de enzima, as transformações seriam proporcionais à
raiz quadrada dos tempos de digestão:
X = K Vt
Colocando um tubo de proteolise em pH 8 numa estufa a 35°C, após dosar
o nitrogênio não proteico inicial, fomos dosando de hora em hora o aumento
desse nitrogênio (Vêr Tabela I).
186
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
TABELA I
(0
Tempo
{horas}
X {aumento de N
não proteico)
%
X {calculado)
X = K y/C
1
34
34,3
2
42
47,5
3
63
59,4
4
70
68.6
5
72
767
6
73
69,8
7
73
75,4
8
80
80,6
24
125
124,9
48
128
72
129
96
129
X = K VTãté S hs. K = 34^
da 6* a 8.» K = 28,5
após 24 hs. K = 25,5
e dai vai baixando para 15, após 72 hs. de digestão, quando não ha mais hidrólise-
Verificando que a partir da quinta hora a proteolise prosseguia lentamente,
continuamos as nossas dosagens até a oita\-a hora e, depois, só ao completar 24,
48, 72 e 96 horas.
Depois de 72 horas a proteolise estacionou, possivelmente, devido á formação
de algum inibidor durante a digestão. Aliás, Waldschmidt-Leitz (12), citando
Arrhenius, dir que a velocidade de reação não c unicamente proporcional á
concentração do substratum existente neste tempo, mas é, além disto, inversa-
mente proporcional à quantidade já transformada.
E’ interessante observarmos que, tal como no exemplo citado por Wald-
schmidt-Leitz, a velocidade da proteolise pelo veneno de Jararaca corre regular-
mente até a quinta hora, isto é, exatamente até SO^o de hidrólise do substratum.
. Antissépticos
Sempre que estudamos a ação de uma enzima, temos necessidade do emproo
de um antisséptico para evitar as ações bacterianas.
I SciELO
6
A. Taborda & L. C. Taborda — Protease do veneno da Bothrops jararaca 187
Não é, porém, indiferente que se empregue tal ou qual antisséptico.
Ha os que funcionam como verdadeiros ativadores e outros como inibidores.
Já E. H. Walters (13) se refere á ação dos antissépticos na digestão da
casei na pela tripsina, observando que o toluol tem uma ação ati vante.
Estudando, no nosso caso, a ação dos antissépticos mais comuns, pudemos
observar que o toluol se re%’elou o mais aconselhável.
Infelizmente, não pudemos conseguir antissépticos como Nipagina, Nipozol,
Mertiolato, etc. para o nosso estudo.
Realizando ensaios nos pH e temperatura otimos, usamos 0,05 cc. dos diver-
sos antissépticos e obtivemos os seguintes aumentos de nitrogênio constantes da
Tabela II.
TABELA II
Annssfpticat
mgs. S%
Toluol
125
Xilol
120
Timol
95
Fenol
9^
Formol
14
Creiol
14
Podemos dizer, apreciando os resultados da Tabela I, que o formol e o
cresol funcionam como verdadeiros inibidores da protease do veneno.
Ativadores e inibidores
Pesquisando, sob todos os aspectos, a natureza da nossa protease. procura-
mos submetê-la à ação de ati\-adores e inibidores especificos de proteascs conhe-
cidas.
Realizamos as ativações e inibições nos pH e temperatura otimos (pH 8 a
35*C), incubando em estufa a 35*C por 24 horas.
Pelo bicloreto de mercúrio obtivemos uma inibição completa, empregando
1 cc. de solução 0,1 Çfe de HgQj.
Pelo KCN (1 cc. sol. 0,1%) pudemos constatar apenas um aumento de
18 mgs. N% e pelo H-S Í1 cc. sol. saturada), um aumento de 94 mgs..
188 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Finalmente, pela fervura durante 1 hora obtivemos uma grande diminuição
de atividade, pois, o aumento de nitrogênio foi apenas de 8 mgs. XÇíi.
Fazendo agir, porém. 1 cc. de uma solução da mudna do proprio veneno,
após 6 vezes lavada em agua distilada, obtivemos uma pequena ativação, isto é,
um aumento de 132 mgs. XÇfc..
Fazendo ainda agir uma solução 0.1% de acido ascorbico, obtivemos um
aumento de 131 mgs. X%. Xa Tabela III podemos apreciar melhor estes
resultados, calculados em % de inibição e ativação.
TABEL.\ III
Inibidores
e
Athvdores
mgs.
•V%
%
KCX
18
85,5 de inibição
Ebulição
8
934 ”
HgOj
1
99 '> •* "
H,S
94
24^ **
Acido ascorbico. . . .
131
5.6 ” ativação
MtKina
132
6,4 "
Constatada a inibição por HgQj, KCX e HtS verificamos que a protease
do veneno da Jararaca não é do genero das papainases e pelo seu pH otimo em
8 também não é do genero das pepsinases, mas, tal como a protease do veneno da
Cobra, pertence ao genero das triptases.
Desejavamos verificar também a ação da enteroquinasa sobre a protease do
veneno, mas não pudemos obter tal produto na praça.
Resolvemos então prepará-lo e voltaremos noutro artigo a tratar dos ati-
vadores e inibidores.
Hidrólise pela tripsina
Pela semelhança de ação entre as triptases e a protease do veneno da Jara-
raca, procedemos também à hidrloise da caseina pela tripsina, nas mesmas con-
dições em que para o veneno.
I SciELO
8
Taborda Si L. C. Taborda — Protease do veneno da Bolhrops jararaca 189
5 CCS. de caseinato de sodio, ajustados aos diversos pH de 2 a 10 com
H-SOíN/lO ou Na OH N/10, foram postos em diversos tubos, adicionando-se
2 CCS. de “buífer” dos diversos pH, 1 cc. de solução de tripsina a 0.1% e com-
pletamos o volume a lOccs., de sorte que a concentração final da tripsina fosse
de 0,01% e do caseinato 1%.
Dosando o nitrogênio não proteico inicial e após 24 horas de digestão a
35°C, verificamos o seguinte aumento (vêr Grafico V) :
Grafico V
pH eli<no da hidroloc do
laitmafo dr sodio xj.
Como vemos pelo Grafico V, também para a tripsina obtivemos um otimo
de ati\*idade em pH 8.
Temperatura otima
Procedendo ainda da mesma maneira que para o veneno, obtivemos a se-
guinte v’ariação do nitrogênio não proteico, conforme o Grafico VI.
190
Memórias do Instituto Butantan
Grafico VI
Tomo XIV
Ainda na temperatura otima observamos um grande paralelismo entre a
tripsina e a protease do nosso veneno.
Hidrólise pela pancreatina
Procedendo sempre do mesmo modo que para o veneno, usamos uma solução
de pancreatina a 0,1% de sorte que a concentração final fosse de 0,01% e determi-
namos o pH otimo.
Pelo Grafico VII, que resume os nossos resultados, observamos que a
hidrólise da caseina pela pancreatina já se afasta mais da hidrólise da caseina
pelo veneno e que nos pH 7 e 8 não ha diferença de atividade.
Grafico VII
10
cm
SciELO
0 11 12 13 14 15 16
A. Taborda Si L. C. Taborda — Prolease do veneno da Bolhrops jararaca 191
Até aqui as nossas pesquisas foram feitas com soluções de veneno seco de
um “stock” de um ano.
Esse veneno foi dessecado a 37®C e em media 5 ccs. de veneno fresco produ-
zem 1 g. de veneno seco. Antes, porém, da secagem o veneno é centrifugado,
separando-se dessa forma a mucina e outras impurezas.
Desejando verificar o comportamento do veneno fresco em relação à sua
atividade proteolitica, realizamos digestões pelo veneno centrifugado e sem
centrifugar.
Um fato curioso pudemos obser\-ar no tocante ao veneno fresco e sem cen-
trifugar.
Embora o pH otimo de athndade seja realmente 8, os resultados da hidrólise
com venenos de diferentes extrações não são absolutamente concordantes, e os
aumentos de nitrogênio não proteico são bem maiores que com o veneno seco,
especialmente com o veneno não centrifugado.
Acreditamos, pois, que a mucina e demais impurezas tenliam uma ação atira-
dora da hidrólise.
Hidrólise pelo veneno fresco sem centrifugar
Procedendo sempre da mesma maneira, usamos, entretanto, 1 cc. de uma
solução 0,05% de veneno fresco correspondente a 0,01% de veneno seco, pois,
como dissemos, em media 5 ccs. de veneno fresco dão uma grama de veneno seco.
O Grafico VIII mostra os nossos resultados e o pH otimo em 8.
Grafico VIII
n
cm
vSciELOi ;l1 12 13 14 15 16 17
192
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Hidrólise pelo veneno fresco centrifugado
Realizamos aqui os nossos ensaios como no caso do veneno sem centrifugar
e obtivemos os resultados que se vêm no Grafico IX.
Grafico IX
RESUMO
Determinamos todos os otimos de atividade da protease do veneno da
Bothrops jararaca sob as leis enzimaticas. usando veneno dessecado em estufa a
37’C, veneno fresco centrifugado e não centrifugado, observando maior atividade
neste ultimo.
Sintetizando temos:
1) o otimo de concentração da enzima 0.01% e do subsiraium (casemato
de sodio) 1 % ;
12
A. Taborda & L. C. Taborda — Prolease do veneno da Bothrops jaráraca 193
2) o pH otimo 8;
3) a temperatura ótima 35” C;
4) o antisséptico otimo, toluol;
5) a cinética da proteolise obedece à regra de Schütz, ou seja, a caseina
digerida é sensivelmente proporcional à raiz quadrada dos tempos de digestão;
6) realizamos a autohidrolise do caseinato nas mesmas condições em que
serviu de subslralum;
7) estudamos alguns ati\’adores e inibidores especificos de proteases co-
nheddas. conseguindo inibições pelo HgClj. KCX e por ebulição, e ativações pelo
acido ascorbico e pela mudna;
8) determinamos, nas mesmas condições que para a protease do veneno,
o pH e temperatura otimos da hidrólise do caseinato pela tripsina e o pH pela
pancreatina, notando uma grande analogia entre a hidrólise pela tripsina e pelo
veneno ;
9) pelos seus otimos de atividade, suas atirações e inibições, a protease do
veneno da Bothrops Jararaca pertence ao genero das triptascs.
ABSTRACT
All the actidty optimums of the proteasis o{ the Bothrops Jararaca venom
in regard to the enzymatic rulcs have been determined, using venom dehydrated
in the dr>'ing o>-cn at 37®C.. fresh centrifuged venom and non-centrifuged
venom; the greatest activity lias been noticed in the latter.
The following results were obtained:
1. the concentration optimum of the enzyme 0.01% and of the substract
( sodium-caseinate) 1 % ;
2. the pH optimum 8;
3. the temperature optimum 3S”C. ;
4. the antiseptic optimum toluol;
5. the proteolyse dnetic obeys the rules of Schütz, that is, the amonut of
digested cascin is proportional to the square root of the time of digestion ;
6. the autohydrolysis of the caseinate used as a substract, has been effected
under the same conditions;
194
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
7. a few specific activators and inhibitors of knovvn proteasis have been
studied ; inhibition by HgQj, KCN and boiling, as well as actiration by ascorbic
acid as mudne have been secured;
8. under the same conditions as for the proteasis of the venom, the optimum
pH and temperature for the hydrolysis of the caseinate by trv'psine and the pH
by the pancreatine have been determined, a great analogj' between the hydrolysis
by the venom and the trjpsine having been observed ;
9. on account of its optimum of actidty, activations and inhibitions, the
proteasis of tlie Bothrops jararaca venom belongs to the tiyptasis tj"pe.
ZUSAMMEXFASSUXG
Die .-Vktivitâts-Optima der Protease des Bothrops jararaca-Gihes sind unter
Berücksichtigung der enzj-matischen Gesetze bestimmt wordcn ; die Verwend-
ung von im Trockenschrank bei 37®C getrocknetem Gift, auszentrifugiertcm
frischen und unzentrifugiertem Gift ei^vies grõsste Aktivitãt des letztercn.
1. Das Konzentrations-Optimum des Enzyms 0.01% und des Substraktcs
(X’’atrium-Kaseinat) 1%;
2. das pH-Optimum, 8;
3. das Temperatur-Optimum, 35*C;
4. das Antisepticum-Optimum, Toluol;
5. die Kinetik der Proteolyse gehorcht der Regei von Schútz, d. h., das
digerierte Kasein ist der Quadrat-Wurzel der Verdauungszeiten deutlich propor-
tional ;
6. die Autohydrolyse des Kaseinats, das ais Substrakt diente, wurde unter
gleichen Bedingungen ausgeführt ;
7. einige spezifische Aktivitãts- und Hemmungs-Faktoren bekannter Pro-
teasen wurden untersucht; durch HgGi. KCX und Kochen wurde Hemmung
und durch 1-Ascorbin-Sãure und Mucin Aktivierung festgestellt ;
8. Unter den gleichen' Versuchsbedingungen wie für die Protease des
Giftes, wurden pH- und Temperatur-Optima für die Hydrolyse des Kaseinats
durch Trypsin und das pH durch Pancreatin bestimmt. wodurch eine grosse
Ahnlichkeit zwischen der Hydrolyse des Trj'psins und des Giftes festgestellt
werden konnte;
14
A.T ABORDA & L. C. Taborda — Protease do veneno da Bothrops jararaca 195
9. Xach den Óptima der Aktivitãt, Aktivienmg und Hemmung zu schliessen,
gebõrt die Protease des Bothrops, jararaca-Giltes zu der Klasse der Trjptasen.
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(Trsbalbo de colaboraçio <Us Sccçdes de Fi>
tko^Ouimica e Qnimicã c Farmacolofia Kx*
perímentait do loetittito Botantan e apreacn*
tado á Sociedade de Biolofia de S. Paulo etn
t*2-940. Dado i pt^icidade etn deaembro de
1940).
543.U
NOVA CAMARA PARA DIALISE
POR
ARMANDO TABORDA & JOSÉ SALCEDO NAVARRO
O considerável aumento da produção industrial do Instituto Butantan nos
últimos dois anos colocou-nos diante de vários problemas dentre os quais o da
dialise dos soros.
A instalação existente para este mister era muito deficiente e. sobretudo,
não comporta\-a qualquer acréscimo de atiridade.
Compunha-se duma simpJcs calha de madeira, colocada dentro de uma velha
camara frigorifica, cuja temperatura oscilava de 8 a 12"C. A capacidade dessa
calha era de 14 sacos de 1 litro e a agua proveniente da rede adutora mantinha
os cartuchos a uma temperatura media de 20*C. o que. não poucas vezes, deu
causa a que os soros fermentassem.
Estes soros fermentados adquiriam um cheiro dcsagradavel e persistente,
não desaparecendo com as ulteriores manipulações — fenicagem. filtração, etc..
Urgia, pois, melhorar tecnicamente as instalações de dialise e ampliá-las con-
venientemente. tal como hariamos proposto no relatorio de 1938. Assim, a 8
de outubro de 1939 — apresentamos um esquema com a seguinte descrição para
a camara de dialise:
1) Capela envidraçada com portas de abrir.
2) Tanque de dialise. em folha de chumbo, diridido em 2 unidades inde-
pendentes de 2ms.50 de comprimento por Om.50 de largura e 15 cms. de profun-
didade (capacidade — cerca de 170 litros cada).
3) Serpentina em canos de chumbo com 2 entradas.
4) Isolamento de cortiça e base de alvenaria.
5) Cavalete ou cantoneiras de ferro com ganchos.
6) Maquina frigorifica capaz de renovar e manter refrigerada a agua dos
dois tanques entre 0 e 4*C. .A reno\’ação deverá ser de pelo menos 1 10 do
volume total por hora.
1
2 3 4
5 6 7
Ky _l_ J — I J_l Vw/ 1
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198
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Finalmente, no inicio do corrente ano foi executada a construirão da Nora
Camara para Dialise, que, com as modificações de ordem técnica sugeridas pelo
engenheiro construtor (*), tem preenchido de modo cabal o fim a que se destina.
O nosso escopo, ao dar publicidade à presente camara de dialise, é preencher
uma lacuna que se observa na literatura especializada, quanto à falta quasi abso-
luta de detalhes sobre a questão de tal importância como a dialise dos soros.
A unica referencia, aliás, sucinta, que encontramos sobre o assunto, foi na
nora edição (2.*) do “Standard Methods of the Division of Laboratories and
Research of the New York State Depiartment of Health, Fig. XXXII”.
Esta edição chegou-nos às mãos em meados de 1940, porém, mesmo que nos
viesse a tempo, em nada alteraria o nosso projeto pela falta de uma descrição
detalhada e, ainda, pelas des\’antagens que apresenta para o manipulador a entra-
da numa sala refrigerada.
Nossa camara eliminou este grande inconveniente, pois é construida numa
parede livre d’uma sala e, pelo seu sistema de refrigeração, não ha rolamento de
ar frio sobre o operador, nem mudança na temperatura de dialise.
DESCRIÇÃO DA CAMARA
Como se vê pela Fotografia I, o aspecto externo é de uma grande geladeira
dividida em 2 camaras de 3 portas cada uma. As dimensões externas são: compr.
total Sms.óO, larg. Om.98 e altura 2ms.25 na parte posterior e 2ms.OO na anterior.
As portas com um vão livre de 0,70 x 0.70, aproximadamente, deixam o batente
inferior a uma altura de 1,15 do chão, o que torna comodo o manuseio da camara.
O arcabouço da camara (Croquis I) é essencialmente constituido por duas
lages de concreto armado, embutidas nas paredes do fundo e do lado direito;
uma inferior de Ocm.lO de espessura, horizontal, distante Ocm.73 do piso e
apoiada em paredes de tijolo; outra superior de Ocm.08 de espessura, inclinada,
formando um angulo de mais ou menos 45® com a parede e também apoiada
em paredes de tijolo.
(•) .\ construção ficou a cargo da firma Vasone Junior & Cia., tendo como engenhei-
ro o dr. Luiz Pinatel Filho e como fornecedor e responsa\-el pela refrigeração o dr. Orlan-
do Ribeiro da firma Campos Salles.
E’ com grande prazer que agradecemos a colaboração desses especialistas e a atenção
dispensada pelo sr. Vasone Junior para que nenhum entrasx dificultasse a rapida e perfeita
execução da construçãa
2
A. Taborda Si J. Salcedo Navarro — Xova cantara para dialise 199
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SciELO
200
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Toda a parte interna, com excetpo da dianteira correspondente às portas, é
isolada por 2 camadas de cortiça de 6 ans., colocadas com as juntas desen-
contradas e tomadas por asfalto.
Xas paredes laterais e do fundo, uma fieira de tijolo de espelho recobre as 2
camadas de cortiça e, finalmente, uma camada de argamassa recobre os tijolos.
O acabamento da lage inferior, em que se apoiam os tanques de folha de
chumbo, tem o seguinte arranjo, a contar de baixo para dma; a) uma cantada
de argamassa de cimento com um material isolante (Isofloc) ; b) duas camadas
de cortiça de 6 cms., tomadas as juntas com asfalto.
Os tanques, em numero de 2, cujo corte apresentamos, têm as seguintes
dimensões: compr. 2ms.40, larg. 0m.50, altura 0m.l5. De ambos os lados, per-
feitamente horizontais, desbordam as calhas com a necessária inclinação para
escoamento das aguas.
A renovação da agtia é feita por intermédio de uma serpentina dupla, em
canos de chumbo de polegada. A agua refrigerada entra pelas duas extremi-
dades da serpentina e sai por pequenos orificios vasados ao longo dos canos.
O esvasiamento total dos tanques de cerca de 170 litros de capacidade c feito
pelas \-ah-ulas do fundo.
O conjunto de refrigeração compõe-se de: a) compressor Xorge rotativo
excêntrico, acionado por motor de 1 J<í HP., 220 volts. trifasico e de desligamento
automático; b) camara de resfriamento e camara de esfriamento propriamente
dita. com salmoura; c) caixa dagua filtrada. pri\-ativa. com canalização própria
e competentes registos, sendo que a canalização para a agua refrigerada é toda
isolada.
A renovação horaria minima é de 1/10 do volume de cada tanque, que se
mantem assim permanentemente entre 3.5*C e 4.5“C.
Para a sustentação dos cartuchos, um numero suficiente de ganchos estão
pendurados em 3 ordens de canos, comportando 45 cartuchos por tanque, ou seja.
90 nos dois tanques.
Portas de vidro com tres laminas garantem o fechamento conveniente.
A Fotografia II mostra-nos. iluminado, o interior de uma das camaras.
Pelas portas entreabertas pode-se ver, claramente, como ficam mergulhados
os cartuchos pendentes dos ganchos.
Um dos pontos delicados que tivemos de solucionar foi a pintura das pare-
des internas das camaras, isto porque o resfriamento destas paredes provocava
condensação de \-apor dagua e o humedecimento facilitava o descnvoUdmento de
cogumelos.
4
A. Tadorda Si J. Salcedo Navarro — Xova camara para dialise
201
A questão ficou resohnda aplicando sobre a argamassa do reboque, já imper-
meabijizado com “Sika”, tintas e a massa própria para a pintura a duco feita a
pistola.
Como consequência imediata das novas instalações, a capaddade mensal de
dialise passou de 56.000 ccs. para 360.000 ccs. (Grafico 1).
Grafico I
Wlrf'
-Mac
1
AmtRiOfl
Ainda mais, o papel pergaminho não podia anterionnente ser usado mais
de uma pois. as incrustações de cogumelo que se forma^^am na parte externa
do cartucho, durante a dialise, acaba>’am por romper o pergaminho. Atualmente
a temperatura baixa impede estas formações destruidoras e - os papeis, bem la\-a-
dos, chegam a ser\ir 5 a 6 vezes, ate com \’antagem. pois. dializam mais rapida-
mente do que os novos, ainda engomados.
A economia de papel pergaminho vê-se no Grafico II. cm que são comparados
os volumes dialisados por metro quadrado de papel.
202
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XIV
Grafico II
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6 6.
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25 00Ô'
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13.700‘"
1
1938
1939
1940
G Y"«k. f C c» II
RESUMO
Apresentamos uma nora Camara para Dialise, especialmente destinada a
soros, com as seguintes características:
a) tanque em folha de chumbo, assentado sobre camada isolante e encerra-
do numa’ construção semelhante a um balcão* frigorifico;
b) agua refrigerada e filtrada, cuja renov^ação minima horaria é de 1/10
de volume de cada tanque, mantendo a temperatura da agua entre 3.5 e 4.5*C ;
c) conjunto refrigerante Norge — Rolator de 1J4 de HP e de desligamento
automático.
6
A. Taborda Jc J. Salcedo Navarro — Sova camara para dialise
203
ZUSAMMEXFASSUNG
Eine neue Dialysier-Kammer wird beschrieben, die eigens fúr Sera bc-
stimmt ist. Sie weist folgende Charakteristiken auf:
a) die Blei-verkleidete Kammer, die auf eine Isolierschicht gesetzt und
in eine Kühlbalkon-ãhnliche Konstruktion eingebaut ist;
b) von dem gekühlten und filtrierten Wasser wird mindestens stündlidi
1/10 des Volums in jeder Kammer emeuert und die Temperatur des Wassers
zwischen 3.5 und 4.5'C gehalten;
c) Kühlanlage “Norge” mit 1J4 HP und automatischer Ausschaltung.
ABSTRACT
A new Dialysing-Chamber especially designed for sera is being described
with the following essential details:
a) lead linned tank, resting on an insulating layer and enclosed in a refri-
gerating platform;
b) cooled and filtered water, of which at least 1/10 of its volume is re-
newed every hour in cach tank, maintaining the temperature of the >rater l)ct-
ween 3.5 and 4.5'C.;
c) the refrigerating assembly “Xorge” with \yi and automatic release.
(Trabalbo Sccçio de FUíco>Ou(mtca Oo
Instituto Butantan. Dado 4 publicidade em
desctnbro de 1940).
A. Taborda 4 J. Salcedo Navarro
Sova caniara para dialise.
Mein. In»t. Butantan
VÕT XIV ~ 1940
Fotografia II
Fotografia I
"SèXíí -
cm
SciELO