MEMÓRIAS
DO
INSTITUTO BUTANTAN
1942
TOMO XVI
Ht
Sáo Paulo, Brasil
Caixa Pottal 65
MEMÓRIAS
DO
INSTITUTO BUTANTAN
1942
TOMO XVI
São Paulo, Brasil
Caixa Poital 65
ÍNDICE
Xoticiirio VII
ALCIDES PRADO — XoUs Ofiológicas.
13. Rcdfscrição dc duas serpentes columbiauas 1
I-t. Comentários aerrea de algumas serpentes opistóglifas, com a descrição
de uma nova esp^ie 7
WOLFGANG UCCltERL — Estudo comparado dos órgãos sexuais externos dos (Juiló-
podos do Urasil. baseado nus gêneros Scolopendra L., 17Õ8. Otostigmus
PORAT, 1876, Rhvsida WOOD. 18C2, Cr.sptopa LKACH, 1813. Srolopu-
rryptops XEWPORT, 184-t e Otoeryptops, 1887 13
\VOLKG.\XG HCCHERL — Contribuição ao estudo dos órgãos sexuais externos das
espécies do gênero Seoloprndra l.lXXfL mais frequentes no llrasil. Cin
novo método murfo-eomparado para a sua sistematização 37
\VOLFG.\XG HCCHERL — Revisão das chaves sistcnráticas dc Chamberlin c .\ttenis
sóbre as espécies neotrópicas do géneni Otostigmus 1*011., 1876 (subfam.
Otostigminae KRPLX, 1903) 69
\VOLFG.\XG HCCHERL — Descrição de uma noxa suliesjrécies do género Otostigmus
POR.VT, subgencro Coxopleurotostigmus HCCHERL 85
J. A. B. FOXSECX & FLAVIO da FOXSECA — Transmissão da malária humana por
Anofelinos da série tarslmacalatus 93
FLAVIO da FOXSECA — .Xotas de .\careoIogia.
XXXIV. Posição do género Liponissus KOLEXATI em facc das espécies tropi-
cais; seu desdobramento em novos géneros (Aeari. Liponissidae) 149
P. dc TOLEDO ARTIGAS; JOSft M. 1U’IZ & ARISTOTERIS T. LEAO — Trematóides
de OfMios — Liophistrrma pulmonalis, n. gen., n. sp.; IJopphistreminar, *
n. suhfam.; Wrstella suiina, n. gen., n. sp. (Plagiorchiidae) 157
JOSft M. RCIZ & .UUSTOTBRIS T. LEAO — Xotas Hclmintológicas.
1. Três nosas espécies de Opisthogonimos parasitas dc ofidios brasileiros
(Trematoda: Piagiorchildae) 171
2. Algumas considerações em tómo do género I.eptoph}'llum COHX. 1903
(Trematoda: Plagiorchiidae) 187
2. Xos'a espécie de Trematóide do género Infidom TR.\V.ASSOS, 1916 (Di-
eroeoeliidae) parasita de ofidio brasileiro 203
4* Choiedoeystns vesicalis, n. sp. parasita da sesicula biliar dc Hufo ma-
cinns (L.) (Trematoda: Plagiorchiidae) 209
.AX.IXIAS PORTO Jt M.AXOEL FERRAZ Presença de hormônio antidiurético na
hipófise de serpentes do género Phllodryas 319
JOSft R. do V.VLLE 4 LIMZ A. R. do VALLE — Substâncias anJrogénicas nas gona-
das de serpentes dos géneros Bolhrops e Crotalus 23.5
JOSft R. do VALLE 4 LITZ A. R. do VALLE — Tencur en prolactinc dc riiypoph.vse
humaine selun les sixes 231
cm
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Pag.
IH.ALF.S M.ARTINS, JOSÉ R. do VALLE i ANANIAS PORTO — Efeitos do trata-
mento prolongado de cadelas com o propionato de testosterona 237
J. I. LOBO & LCCIANO DÉCOfRT — .Alguns aspectos da es-oinção de cretinismo
e do mongolismo 24.3
J. I. LOBO & LUCI.ANO DÉCOLRT — \oras observações sòbre o diabete insípido 273
J. TRAV.ASSOS & A. V.ALLEJO-FREIRE — Sõro anti-rickettsia na febre macnlosa
c.vp<rsmental 285
J. TR.AV.ASSOS & N. BIOCC.A — .Ação da prata eletroHsada sòbre certas toxinas,
venenos, protozoários, rickettsias, vims filtráveis e bacteriofagos (Xo-
ta prévia) 300
JOSÉ CARLOS RIB.AS — Caraterização sorológica dos meningococos 315
PLIXIO MARTIXS RODRIGUES — Tipos de bacilo de Koch na tuberculose pulmo-
nar humana 329
FERX.AXDO P.AES de B.ARROS — Contribuição á matéria médica vegetal do Brasil.
8. Complemento ao estudo farmacognóstico e terapêutico das várias es-
pécies do género Jacaranda (Bignoniacea) 357
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NOTICIÁRIO
Ao ser impresso o presente número das “Memórias", é a seguinte a relação
do pessoal técnico superior das várias seções do Instituto Butantan:
Diretor:
FLAVIO Oi-nTnBA Riboro DA FONSECA, Dipl. Med. (D. M.), Prof. Parasit.
Esc. Paul. Med.
Assistentes-chefes :
ALCIDES prado, B. Cien. & L., Dipl. Med.
Cícero de Moura Xeiva, B. Cienc. & L., Dipl. Med. Veter.
JOAQUIM Travassos da Rosa, B. Cienc. & L., Dipl. Med.
José Bernardino Arantes, Dipl. Farm., Dipl. Med. (D. M.)
MOACYR DE Freitas Amorim, Dipl. Med. (D. M.), Lavre docente Anat Patol.
da Fac. Med. S. Paulo.
Paulo Monteiro de Barros Marrey, Dipl. Med.
SebastiAo de Camargo Calazans, Dipl. Med.
Assistentes:
Aristides Vallejo-Freire, Dipl. Med.
Armando Taborda, B. Cienc. & L., Dipl. Quim.
Fernando Paes de Barros, Dipl. Farm., Dipl. Med. (D. M.)
Jandyra Planct do Amaral, Dipl. Med. (D. M.)
José Ribeiro do Valle, B. Cienc. & L-, Dipl. Med. (D. M.), Prof. Farmacol.
Esc. Paul. Med.
Assistente-químico:
Antonio de Salles Teixeira, Dipl. Farm.
Assistentes-auxiliares:
ANA.NTAS PORTO, Dipl. Med.
Favorino Prado Junior, Dipl. Med.
Goswin Karmann, Dipl. Quim. Ind.
José ICNACIO Lobo, B. Cienc. & L., Dipl. Med. (D. M.), Livre docente Clin.
Med. da Fac. Med. S. Paulo, Prof. Clin. Doenças Tropicais Esc. Paul. Med.
Laura Comette Taborda, B. Cienc. & L., Dipl. Quim.
WoLTCANc BCciiERL, Dipl. Fil. Biol. (D. Fil. Biol.)
Toda a correspondência científica, relativa às “Memórias , deve ser dirigida ao
Editor, MEMÓRIAS DO INSTITUTO BUTANTAN
Caixa Postal 65
SAo Paulo, Brasil.
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15 16
598.1286
NOTAS OFIOLÓGICAS
13. Redescrição de duas serpentes colombianas
POK
.\LCIDES PR.\DO
Consta êste tralialho da determinação de um lote de seqientes enviado pelo
revmo. Irmão Xiceforo Maria, do Instituto de La Salle, de Bogotá, cm principios
do ano passado.
Desse lote foram detenninadas. sem tergiversação as espécies Lcfftodcira
annulata (L.), Atractus colcmbianus Prado. Atractus crassicaudalus (D. & B.)
e Liophis regime alhiveiüris Jan*. Sòbre esta última, aliás uma sulicspécie, tive
ocasião de manifestar-me em trabalho anterior.
Duas, porém, Rhadinae purpurans (D. & B.) e Dipsas tolimensis Prado, a
primeira própria da parte setentrional da .América do Sul, e a scguncb da Cordi-
lheira Central da Colômbia, são aqui redescritas. sem. no momento, cogitar-se da
posição sistemática do género Rhadinae, a que a primeira pertence.
Rhadinae purpurans (Dumf.ril & Bibron, 1854)
Xo. 207, adulto 9 , na coleção do Colégio dei Sagrado Corazón, de Cúcuta;
na Colombia, procedente de Puerto .\sÍ8, nas proximidades do Equador, com datá
de captura: novembro de 1940.
Esta espéde, ainda não -assinalada na Colômbia, tem por liabitat as áreas
próximas à linha equ.atoriana.
Dentes maxilares 19. aumentados gradativamente de tamanho de diante para
tra«. separados dos dois últimos, pouco desenvolvidos, por um curto inten-alo
(equivalente mais ou menos à queda de um dente). Calieça levemcnte distinta
do pescoço; olho moderado. com pupila redonda. Corpo cilíndrico; escamas lisas,
sem fossetas apicilares. em 17; \-cntrais não angulosas; subcaudais pares.
cm
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2 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Rostral mais larga do que alta. visível de cima ; internavais tão largas quanto
longas, mais curtas do que as prefrontais; prefrontais mais longas do que largas;
frontal duas vêzes tão longa quanto larga, pouco mais longa do que sua distância
da extremidade do focinho, mais curta do que as parietais; parietais tão longas
quanto sua distância das intemasais; loreal mais alta do que longa; 1 pre- e 2
postoculares ; temporais 1-2; 8 supralabiais, 4.* e 5.“ junto ao olho; 10 infrala-
biais, 5 tocando a mental anterior, que é tão longa quanto a posterior. Escamas
em 17. Ventrais 156; anal dividida; subcaudais 55/55.
Pardo-olivácea. em cima, com duas ténues estrias longitudinais claras, uma
para cada lado, principalmente visíveis na metade posterior do corpo; duas ou-
tras, uma para cada lado da cabeça que, partindo da comissura dos lábios, vão
pouco além do pescoço; lábios superiores levemente esbranquiçados; ventre, com
e.xceção da parte caudal, que é imaculada, e das porções guiares e do pescoço,
que são marmóreas, com manchas transversais negras e irregulares.
Comprimento total 338 mm; cauda 58 mm..
Dipsas tolimensis Prado, 1941
è — Corpo fortemente comprimido dos lados. Cabeça distinta do pesco-
ço. Olho grande; pupila eliptica-vertical.
Rostral pouco mais larga do que alta, apenas visivel de cima; nasal semi-di-
vidida; intemasais muito mais largas do que longas, cérca de metade do compri-
mento das prefrontais; prefrontais, igualmente, muito mais largas do que longas;
frontal tão larga quanto longa, tão longa quanto sua distância da extremidade do
focinho, muito mais curta do que as parietais; loreal pouco mais alta do que
lònga, junto ao olho ; supraoculares subtriangulares, muito largas ; preocular trian-
gular, pequena e acima da loreal; 1/2 postoculares; temporais 1-3; 8 suprala-
biais, 4.* e 5.* em contacto com o olho, a última alongada; 11 infralabiais, 2
primeiros pares em contacto, na linha mediana, por trás da sinfisial; 2 pares dc
mentais largas, anterior maior. Escamas lisas, sem fossetas apicilares, as ver-
tebrais moderadamente alargadas, em 15. Ventrais 168; anal inteira; subcau-
dais 65/65.
Cinza-olirácea em cima, com largas faixas transversais cinza-negras, cm
número de 21, as primeiras, na metade anterior do corpo, muito regulares, for
mam como que verdadeiros aneis, completando-se ventralmente ; os intervalos são
pontilhados de dnza-negro, cm série trans\'ersal ; cabeça cinza-negra, cortada por
um leve traço occipital; ventre da côr geral, atras^essado por faixas negras, re-
gulares na porção anterior, e irregulares na posterior.
Comprimento total 264 mm ; cauda 54 mm..
2
Alcides Pb-vdo — Notas Ofiológicas. 13.
3
Holotipo, adulto á , sob o Xo. 204, na coleção do museu do Colégio dei
Sagrado Corazón. de Cúcuta, Colômbia.
Procedência: Líbano (Tolima), na Cordilheira Central, com data de captu-
ra: outubro de 1940.
Próxima a Dipsas niccforoi Pr.\do, também da Cordilheira Central, que se
distingue da espécie em discussão, pelos seguintes caracteres espedficos, além
do colorido geral, inteiramente diverso: frontal pouco mais larga do que longa;
2/3 postoculares ; temporais 2 3; 3 pares de mentais; ventiais 176; subcaudais
73/73.
RESUMO
Xeste trabalho de determinação de um pequeno lote de serpentes colombia-
nas, redescrevem-se Rhadime purpwans (D. & B.), assinalada ai pela primeira
vez, e Dipsas tolimcnsis Prado, capturada na Cordilheira Central, e afim de
Dipsas niccforoi Prado.
ABSTRACT
In this paper on thc identification of a small lot of Colombian snakes,
Riiadinae purpurans (D. & B.), there found for the first time. and Dipsas loli-
mensis Prado, caught in the central Andes, and similar to Dipsas niccforoi
Pr.\do, are being described.
BIBLIOGRAFIA
Boidenocr, G. A. — Cat. Sn. Brit. Mus. 2:167.1894.
Prado, A. — M«n. InsL Butantan 14:13.1940.
Prado, A. - Ciência 2(10-12) :34S. 1941.
(Tral»n>o <U St^So de Ofiolocia e Zooloti* Mídtc» do Ti«-
litolo BoUnIan. Ertrc«o« P»r» jmNkoclo etn 25 de
março de 1M2 e dado i puURidade. on aeparado, on
tctcisbro d« 1942).
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Mcm. Inst, ButanUn
Alcides Pr.\do — Xotas Ofiolôgicas. 13
RkaJiHãf fmrf>Mrans (D. <1 B)
lUfss* l*«*no
Voí. XVI — 1942
cm
2 3 4 5 6 7
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5S8.12
NOTAS OFIOLÓGICAS
14 . Comentários acêrca de algumas serpentes opistóglifas do
gênero Ajx)stolepis, com a descrição de uma nova espécie.
POR
.\LCIDES PR.ADO
A espécie que neste trabalho descrevo como no\-a, dentre as serpentes opis*
tóglifas do gênero Apostolepis, enquadra-se no grupo II. A. da chave de Bou-
lenger, onde também se encontram A. flavolorquala (D. & B.) e A. nigrolincaia
(Peters), acrescidas de outras, posteriomiente descritas, tais como: A. pytm
Boulenger e A. sanctae-ritae Werxer.
Entretanto, essas quatro espécies, na realidade se reduzem a três somente:
enquanto as três primeiras me pareceram de indiscutivel valor em sistemática, a
última, A. sanctac-ritac , deve caber na sinonimia de A. flavotorquata, a levar-se
em conta o exame do tipo, procedido por Amaral, no Museu de \iena.
Wemer, comparando sua espécie com A. flavotorquata e A. Pymi, conside-
rou-a distinta por possuir a 3.* e 4.“ supralabiais em contacto com o olho,
f a 5.“ e 6.“ em contacto com a parietal, ao invés da 2.* e 3.“ e 4.* e 5.“, res-
P«oti\-amente ; ainda a existência da separação entre a nasal c a preocular.
Amaral verificou que são a 2.* e 3.* e a 4.® e 5.* que tocam, respcctiva-
mente. a órbita e a parietal, e que a separação entre a nasal e a preocular é um
caráter desprorido de importância especifica.
Restam, pois, considerar-se como boas as espécies A. flavotorquata, que foi
descrita em 1854, por Duméril & Bibron, dc um exemplar de sexo não especifi-
cado, procedente de Goiás, Brasil, e pertencente ã coleção dc Castelnau-Dcville ;
A. nigroUncata, divulgada em 1869, por Peters. de sexo e habitat desconhe-
cidos; e A. pytni_ dada à publicidade em 1903, por Boulenger, a qual foi descrita
de um único exemplar macho, dc procedência não maicionada, do Brasil.
1
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S Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Lorenz Müller, mais tarde, deu-a como encontradiça em Benevides, no Pará.
Deste Estado o Museu Britânico, segundo Amaral, conserva um espécime pro-
veniente de Igapé-Assú.
Em suma, coloco A. goiasensis, sp. n., como pró.xima a A. flavotorquaía e
A. pymi. em que os caracteres específicos destas são comparáveis com os daquela,
sendo que o habitat da primeira é igual ao da segxmda, e diverso da terceira.
Todas elas, porém, se afastam do grupo onde se inclue A. coronata (Sau-
vage), também existente no Brasil, por não possuírem uma única supralabial em
contacto com a parietal.
Apostole pis goiasensis, sp. n.
T
:: é I
9 — Cabeça pequena, não distinta dó pescoço; corpo cilíndrico e alonga-
do. Focinho fracamente projetado; olho minúsculo. Rostral quasi tão larga
quanto alta, parte risível de cima quasi metade da sua distância da frontal; in-
temasais fundidas com as prefrontais; frontal uma vez e dois terços tão longa
quanto larga, tão longa quanto sua distância da extremidade do focinho, mais
curta do que as parietais, que são duas vêzes tão longas quanto largas; nasal in-
teira, separada da preocular, que é única; 1 postocular muito pequena; 5 supra-
labiais, 2.® e 3.“ em contacto com o olho, e 4.* e 5.* com a parietal; 4 infrala-
biais em contacto com a mental anterior, que é tão longa quanto a posterior,
l.° par. na linha mediana, em contacto, por trás da sinfisial. Escamas lisas, sem
fossetas apicilares, em 15. Ventrais 237; anal dividida; subcaudais 25/25.
.'Vvermelhada em dma, com 3 tênues linhas longitudinais pardo-negras so-
bre o dorso, a mediana mais nitida; face superior da cabeça e nuca pardo-negra,
com duas entradas laterais claras sôbre esta última; lábios superiores e partes
inferiores branco-amarelados ; face superior da extremidade da cauda negra, com
a placa terminal branco-amarriada.
Comprimento total 408 mm; cauda 30 mm..
Ilolotipo, adulto 9, sob o Xo. 10.260 na coleção do Instituto Butantan,
S. Pauio, Brasil.
Procedenria: Rio Verde, Estado de Goiás. Brasil.
Colecionado por Garbe, e oferecido pela Seção de Parasitologia deste Insti-
tuto, em 20-1-942.
As espécies A. flavotorquata e A. pymi lhe são afins.
A primeira difere da espécie em estudo pelos caracteres específicos seguin-
tes: parte visível da rostral, em cima, cêrea de uma vez e dois terços da sua
distância da frontal; frontal uma vez e meia tão longa quanto larga; nasal em
contacto com a preocular; 6 supralabiais ; 5 infralabiais em contacto com a men-
tal anterior; ventrais 250; nenhuma linha longitudinal, listra ou raia sôbre o
cm
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Alcides Pawx) — Notas Ofiológicas. 14.
9
dorso e flancos, que são vermelhos, apenas com a cabeça negra em cima, e um
esboço de colar amarelado, ladeado de negro, através da garganta, e lateralmente
a nuca; cauda negra em dma, em seu terço posterior.
A segunda apresenta os seguintes caraterísticos diferenciais: rostral apenas
rísivel de cima; nasal em contacto com a preocular; 6 supralabiais ; ventrais 209;
subcaudais 35/35; côr apenas distinguível.
RESUMO
Neste trabalho, discute-se a posição em sistemática de algumas Apostole pis,
Colubrídeas opistóglifas, pertencentes ao grupo II. A. da chave de Boulenger,
1896, entre as quais se acrescenta a descrição de uma nova espécie, Apostolepi^
goiasensis, sp. n., de um exemplar procedente do Estado de Goiás, Brasil, afim
de A. flavotorquala (D. & B.) e A. pymi Boulenger,
ABSTRACT
In this paper the systematic position of some Apostolepis. opisthoglj-ph
Colubridae is being discussed. belonging to group II. A, oi Boulenger’s key,
1896, among which a new species Apostolepis goiasensis, n. sp.. is being dcscríbcõ
of a specimen provenient from the State of Goiás, Brazil, similar to A. flavo-
torquata (D. & B.) and A. pymi Boulenger.
BIBLIOGR.\FIA
DumtrU, A. & Bibron, G. — Erp. Gcn. 7 : 836.1854.
Boydenger, G. A. — CaL Sa Brit Mus. 3 : 233.1896.
Boulenger, G. A. — .Ann. & Mag. Nat. Hist. (7)12: 538.1903.
Amaral, A. do — Mcm. Inst. Butantan 4 : 50-225.1930.
(TrabiH>a d» S«çio de OfiolocU e ZoclocU MMke do Intti-
tnto ButantAn. Entrvfue para poblicaçSo tm 25
marco d« 1942 e dado i publkidadr, rm separado, em
setembro de 1942).
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Alcides Pkado — \otax Ofiolnaicax. li.
Mcm. Intt. But^tan
VoJ. XVI ~ 1942
çoiétemsis, »p. o.
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591.156:595.62
ESTUDO COMPARADO DOS ÓRGÃOS SEXUAIS EXTERNOS
DOS QUILÓPODOS DO BRASIL, BASEADO NOS GÊNEROS
SCOLOPENDRA L, 1758, OTOSTIGMUS PORAT, 1876,
RHYSIDA WOOD, 1862, CRYPTOPS LEACH, 1815, SCO-
LOPOCRYPTOPS NEWPORT, 1844, E OTOCRYPTOPS
HAASE, 1887.
POR
WOLFGANG BCCHERL
' INTRODUÇÃO
Xo nosso primeiro trabalho sôbre "Os orgãos sexuais do gênero Scolo-
pendra”, a ser publicado conjuntamente com éste, já salientamos a prande ne-
cessidade de serem considerados os referidos órpãos como fatores principais
da sistemática, como aliás já vem sendo feito nos outros grupos zoológicos.
Esta necessidade torna-se imperiosa justamente no gênero Olostigmus, onde, como
já referiu Verhoeff num trabalho de 1937. reina ainda grande confusão a respeito
da sistemática de grandes grupos, confusão esta que o próprio autor não con-
diminuir, como cie mesmo se vê obrigado a confessar.
Movido pelo desejo de prestar nossos serviços para o esclarecimento dos f>ontos
fracos da sistemática principalmente no gênero Olostigmus, com seus subgêneros,
realizamos pesquisas sôbre os órgãos sexuais externos de.ste grupo e de outros,
.dos quais a coleção quilopódica do Instituto Butantan possue grande número de
exemplares, machos e fêmeas, adolescentes e adultos.
O precioso material, em número acima de 100 exemplares, na grande maio-
ria obtidos vivos e depois convenientemente preparados para o estudo, diride-se
da seguinte maneira:
I
1
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Família: SCOLOPENDRWAE
Subfamilia: OTOSTIGMINAE
Gênero : Otostijínius Porat
Espécies: Otostigmus (C.) caralcantii Bücherl, 1939
“ (F.) tibialis Brõl., 1902
” (.A.) scabrícauda (Humb. 4 Sauss.), 1870
” {A.) " dnnelloi (Verh.), 1937
” (A.) rcx Chamb., 1914 (fêmea de scabri-
caudá)
" (F.) pradoi BCxherl, 1939
" ÍF.) tibialis Brõl., 1902
Gênero : Rhysida WooD
Espécie: Rhysida brasiliensis Krplx.. 1903
Família: CRYPTOPIDAE
Subfamilia: CRYPTOPINAE
Gênero : Cryptops Leach
Espécie: Cryptops (Trig.) iheríngi Brõl., 1902
Subfamilia : SCOLOPOCRYPTOPINAE
Gênero: Scolopocryptops Newport
Espécie: Scolopocryptops niicrsü puruensis Bücherl, 1941
Gênero: Otocryptops Haase
Espécie: Otocryptops fcrrugincus fcrrugíncus (L.), 1767.
M.-\TERI.AL E MÉTODO
Todas as espécies acima enumeradas, foram mandadas vivas para êste Insti-
tuto durante os anos de 1939, 1940 e 1941. Após conveniente anestesia foram
injetadas por via intraintestinal até os órgãos sexuais externos, retraídos natu-
ralmente dentro da cavidade do último segmento do tronco, aparecerem em estado
normal. Depois procedemos à classificação, separando os machos das fémeas e
fazendo séries de adolescentes e adultos de ambos os sexos. Foram retirados os
órgãos sexuais externos de macho e fémea de cada espécie e, depois de deshidra-
tados e diafanizados. montados em bálsamo do Canadá.
O estudo comparado da morfologia dos órgãos sexuais foi feito com o auxilio
da lupa, dentro de 10 a 40 vézes de aumento. Em casos especiais recorremos
também ao microscópio.
Todo o material que serviu para o presente estudo acha-se devidamente con-
servado e fichado na coleção do Instituto Butantan.
2
NVolfcang BCcherl — Estudo comparado dos orgãos sexuais externos
dos Quilópodos do Brasil
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ESTUDO COMPARADO E DISCUSSÃO
1 . Otosiiginus {Coxopleurotostigmus') caivilcantii
(Vide Fotos Nos. 1 e 2)
MÊDI.\ DAS MEDID.^S D.\ SÉRIE
Macho
Fêmea
Comprimento total
45 — 48 mm
46 — 49 mm
Largura do 12.* tergito
3,2 — 3,4 mm
3,5 — 3,6 mm
Comprimento do estemito genital
0,8 mm
0.9 mm
" ” postgenital . —
0,2 mm
órgão copulador
0,7 mm
tergito anal
0.9 — I.l mm
0,9 — 1,1 mm
Xa fêmea desta espécie (Foto Xo. 1) a primeira membrana intermediária
(entre o último sarnento do tronco e a região gênito-anal) é muito curta na
zona ventral mediana, de maneira que quasi não c visivel deste lado. Xa região
pleural, porém, ela se salienta bem, formando algumas dobras, que se estreitam
novamente na r^ião do tergito anal.
O estemito genital (Foto Xo. 1), coberto por pêlos muito j>equenos e pouco
numerosos, apresenta forma triangular, com bordos laterais cun.'os e bordo poste-
rior arredondado. Xa linha ventral mediana ha uma ligeira saliência longitudinal.
A abertura genital (a) tem forma semi-lunar, sendo de dimensões bastante
avantajadas, mais larga do que longa, de posição transversal, apresentando cm
ambos os lados uma pequena apófise interna, de quitina mais espéssa do que as
zonas adjacentes. Suas paredes internas são lisas, sem pregas sen.siveis, apre-
sentando apenas leve revestimento quitinoso, de maneira a gozar dc grande elas-
ticidade.
O tergito anal tem bordo posterior redondo e Ixjrdos laterais ligeiramente
divergentes, com cantos posteriores arredondados, salicntando-sc uma ligeira ele-
vação longitudinal na área mediana, de resto coberta por i)êIos curtos c jx)uco
numerosos. O tergito anal apresenta quitina mais espéssa do que o estemito
genital (4).
As laminae adanales” unem-se atrás, perto da cratera anal, terminando
mmia ponta (Foto Xo. 1,5). A "adanalis superior” estal>elece o contacto com o
bordo lateral do tergito anal. enquanto que a inferior se limita com o bordo ex-
terno posterior da abertura genital. Também as lâminas adanais apresentam pêlos
mu'.to pequenos e pouco numerosos.
3
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XYI
. No macho o estemito genital (Foto No. 2.1), o tergito anal (2,4) e as lâ-
minas adanais (2,5) apresentam o mesmo aspecto que na fêmea.
O estemito postgenital (2,2) é muito pequeno, ficando quasi completamente
encoberto pelo estemito gem'tal.
O órgão copulador apresenta a forma de cunha (2,3), com a abertura geni-
tal estreita e longa, situada no lado ventral. Os lados do órgão copulador são for-
mados por duas placas, fracamente quitinizadas, de forma triangular, terminando
atrás numa ponta. \'^entralmente formam dois bordos, um externo inteiro e mn
interno desfeito em franjas pequenas. Não existem pêlos no órgão copulador.
As duas placas laterais são unidas dorsalmente por uma membrana, bastante larga
no lado apical e terminando atrás numa ligeira ponta.
O macho se distingue facilmente da fêmea pela presença do estemito post-
genital e, antes de tudo, pelo órgão copulador, sempre bem visivel em todos os
machos. Por outro lado a fêmea pode ser reconhecida como tal pela abertura
genital semilunar, de forma muito caraterística.
Quanto ao colorido dos escleritos da r^ião gênito-anal ha grande dificuldade
de distingui-los das membranas adjacentes, porque todas as zonas, quer se trate
de membranas quer de escleritos, apresentam côr de cinza suja. Apenas a pre-
sença de pêlos em áreas circunscritas indica os limites exatos dos escleritos (es-
temito genital, postgenital, lâminas adanais e tergito anal), o que ê muito im-
portante nas zonas onde não ha bordos, como na lâmina adanal inferior.
Esta uniformidade no colorido pode ser constatada aliás na região gênito-anal
de todos os gêneros da familia Scolopendridae, quer se trate de espécies da sub-
família Scolopendrinae ou da subfamília Otostigmime. Ao contrário notamos
que os escleritos da familia Cryptopidae com as duas subfamilias Cryptopinae e
Scolopocryptopinac apresentam uma cór vermelha ou amarela, enquanto que as
membranas são incolores ou ligeiramente cinzentas.
Quanto ao segundo gmpo. observa-se em cortes transversais pelas camadas
quitinosas dos esclerítos que a epi- e exocutícula consers^am a mesma espessura que
nos tcrgitos e estemitos do tronco, enquanto que nas membranas estas duas ca-
madas são muito finas. Na família Scolopendridae, porém, já são mais finas do
que nos tergitos e estemitos mesmo nos escleritos gênito-anais.
.■Mêm dos caracteres sexuais supra enumerados, os machos e fêmeas ce Otos-
iigmus cavalcantii podem ser facilmente distinguidos ainda pelos chamados "ca-
racteres sexuais secundários”, independentemente da inspeção dos órgãos geni-
tais. Êstes caracteres secundários só existem nos machos adultos e adolescentes,
nunca nas fêmeas. Consistem num apêndice digitiforme, cilíndrico, que constitue
um prolongamento do último tergito do tronco (Foto No. 2.c) e ainda no apêndice
coxopleural (Foto No. 2.b). formado por uma apófise quitinizada, com aspecto
4
NVolfg.\xg BCcherl — Elstudo comparado dos orgãos sexuais externos
dos Quilópodos do Brasil
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de espinho grande, curro, que constitue um prolongamento do campo poroso. Am-
bos estes caracteres são sempre facilmente \-isíveis em todos os machos, qualquer
que tenha sido seu estado de conser\*ação. Xa fêmea faltam totalmente, como se
pode ver confrontando os dois Fotos Xos. 1 e 2.
O apêndice do tergito é mais longo do que o próprio tergito (tergito: 1,30-
1,50 cm; apêndice: 2-2,20 cm), como já tivemos a oportunidade de referir ao
descrever esta espécie nova (Rev. Biol. e H)-g. 10 (1) :54-57.1939). O apêndice
é achatado na p>onta terminal, apresentando em cada lado uma ligeira cavidade,
coberta por fileiras de jjêlos longos e vermelhos. Êstes vão todos numa só direção
dorso-ventral, medindo entre 0,3-0,4 mm de comprimento.
Machos e fêmeas desta espécie ainda apresentam a particularidade de terem
o prefêmur subdividido por uma fossa drcular, particularidade esta comum com
outras espéaes do gênero Olosligmus (Fotos Xos. 1 e 3).
2. Otostigmits {Dactylotergilius) cauáatus
MÉDIA DAS MEDIDAS D.A SÉRIE
Macho
Fêmea
Comprimento total
40 — 45 mm
41 — 49 mm
Largura do IZ* tergito
3,4 — 3,7 mm
3,5 — 3.8 mm
Comprimento do esternito genital
0.6 — 0,8 mm
0.5 — 0,7 mm
" " postgenital
0,1 — 0,3 mm
” órgSo copulador
0.5 — 0,8 mm
tergito anal
0,7 — 0,9 mm
0,7 — 0,9 mm
Os órgãos sexuais dos machos e das fêmeas desta espécie não se distinguem
em nada que seja essencial da espécie Olostiginus cavalcantU. Isto vale princi-
palmente no tocante aos órgãos sexuais do macho. Apenas o esternito genital da
fêmea apresenta uma saliência mediana, longitudinal, muito mais profunda e
mats nítida do que a fêmea de caialcantii.
Todos os escleritos são revestidos de pêlos pequenos e pouco numerosos.
Em Olosligmus caudatus existe igualmciite um caraterístico sc.xual secun-
dário que permite distinguir os sexos sem a inspeção dos próprios órgãos sexuais.
Consiste num apêndice digitiforme, que forma a continuação direta do último ter-
gito (liigésimo primeiro tergito) do tronco do macho. A fêmea carece deste
apend.ee. Êle tem a mesma forma que o apêndice em cavalcantU, sendo de notar
apenas que é muito mais curto c mais delgado, não atingindo nunca o compri-
mento do tergito, enquanto que cm cavalcaniii sempre excede o comprimento deste.
SciELO
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Também nesta espéde encontra-se uma subdidsão do prefêmur do último
par de patas, subdivisão esta um tanto mais nítida nas fêmeas. Não se trata de
uma articulação, mas apenas de um sulco profundo circular que destaca o último
quarto do prefêmur.
3. Oíosligmus (Androlostigmus) scabricauda
(Vide Foto Ko. 3)
MÉDI.\ D.^S MEDID.\S DA SÉRIE
Macho
Fêmea
Comprimento total
63 — 72 mm
64 — 79 mm
I-ar(riira do 12.* tergito
5.5 — 5,8 mm
6,5 — 6.8 mm
Comprimento do esternito genital
0,5 — 0,7 mm
0,8 — 1.1 mm
" - - postgenital ....
0,1 — 0.3 mm
órgão copulador
0,5 — 0.7 mm
" tergito anal
0,6 — 0,9 mm
0,3 — 1,5 mm
Na fêmea (Foto No. 3, à direita) a primeira membrana intenuediárm é muito
estreita na parte ventral mediana, alargando-se consideravelmente em ambos os
lados, na zona pleural. Na zona dorsal, na região do tergito anal, ela é duas vêzes
mais longa do que no lado ventral. apresentando bordo posterior reto. É de grande
elasticidade, sem apresentar zonas de quitina mais espêssa.
O estemito genital é igualmente muito elástico, sendo contudo constituído
j)or uma camada continua de quitina. Na linha mediana não ha depressão sensi-
vel. O bordo posterior c ligeiramente saliente. As zonas laterais do esternito
confundem-se com as porções pleurais da primeira membrana interme Hária, sendo
apenas nitidamente demarcadas no bordo posterior.
A abertura genital é semi-circular, mais larga do que longa, com uma apófise
interna transversal em aml>os os lados. Seu revestimento interno é como na fê-
mea de cazvIcanlH.
O tergito anal é um pouco mais largo do que longo, com bordos distinta-
mente demarcados; com quitina uniforme, pouco espêssa. porém mais dura do
que cm qualquer outro esclerito da região gênito-anal. O Iwrdo anterior é reto e
nitidamente separado por um sulco transversal da primeira membrana interme-
diária. Os lados são ligeiramente recurvados. O bordo posterior é muito cur-
\-ado. principalmente na zona mediana. área mediana do tergito apresenta uma
depressão longitudinal nítida, a extinguir-se na frente e atrás, e mais outra de-
pressão transversal, fxnico nítida, a cruzar a primeira.
0
WoLixuNG BCcherl — Estudo comparado dos orgãos sexuais externos
dos Quilópodos do Brasil
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No scgnrento anal notam-sc ainda as duas “laminae adanales”, cobertas de
poucos pêlos, sendo a inferior melhor desenvolvida do que a superior. A base
da primeira é estreita, principiando na zona lateral da abertura genital. Em se-
guida descreve uma curv'a em direção à zona ventral mediana, dirigindo-se então
em linha reta para trás, onde se une com a parte terminal de uma segunda apó-
fise quitinizada, que vem da zona pleural (Foto No. 3,5).
lâmina adanal posterior é menor, estabelecendo de um lado contacto com
os bordos laterais do tergito anal e do outro com a ponta terminal da primeira
lâmina.
.•\s partes terminais das duas lâminas são muito engrossadas por membranas
espessas que vêm a formar as zonas ventro-lateral e láterodorsal da cratera anal.
.■\s membranas que revestem as pontas terminais das quatro lâminas adanais apre-
sentam uma incisão ventro-longitudinal profunda e outra, atravessada, menos pro-
funda, de maneira que a cratera anal, redonda, é dividida por estas incisões em
quatro partes mais ou menos simétricas.
O aspecto geral da região gênito-anal do macho (Foto No. 3, à esquerda) é
idêntico ao observado na fêmea no tocante à côr, à quitinização e à distribuição
dos pêlos curtos,
O esternito genital se estende muito para trás, na linha mediana. Os bordos
laterais seguem, no começo, em linha reta para trás. depois descrevem uma breve
curva, dirigindo-se então para o bordo curvo. Os lados do esternito são muito de-
primidos, sendo notável também a e.xisténcia de uma saliênda longitudinal me-
diana, que se bifurca na zona jwsterior do esclerito, vindo os dois ramos a terminar
nos bordos laterais do mesmo, perto da ponta mediana.
Do esternito post-genital observa-se muito pouco devido ao seu tamanho exí-
guo. É levemente sulcado na linha mediana, formando suas áreas laterais uma
bainha ventro-lateral em que se encontra o órgão copulador.
Êste tem a forma de cunha, apresentando a mesma constituição morfológica
como o órgão copulador do macho de cai-alcaniii.
O segmento anal apresenta-se como na fémea, sendo menores apenas as "la-
minae adanales”.
Também nesta espécie existem caracteres sexuais secundários, sempre fa-
dlmente visíveis, mesmo a olho nú e presentes apenas nos machos, mesmo nos
adolescentes, sob a forma de um apêndice longo, preso no lado interno dos dois
prefêmures do último par de patas. Os apêndices são mais longos do que os pre-
fémures, sendo muito engrossados atrás, onde terminam numa placa circular, li-
geiramente côncava, coberta de pêlos longos, ruivos (Foto No. 3,c).
cm
SciELO
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
*JÜ
4. Otosligmus scabricauda demelloi
Os órgãos sexuais desta subespécie em nada diferem dos da espécie.
No tocante ao dimorfismo sexual, por Verhoeff considerado grande, abran-
gendo novas modalidades morfológicas prindpalmente na fémea, devemos salien-
tar que nesta subespécie não existe outro dimorfismo a não ser o mesmo apên-
dice interno nos prefêmures dos machos, ausente nas fêmeas. Quanto ao resto
não há outros caracteres morfológicos divergentes em ambos os sexos. Aliás
Verhoeff em “Ueber einige Chilopoden aus Australien imd Brasilien”, Zool.
Jahrb. Syst. 70 (1/2) :1 1-15. 1937, descreve demelloi como espécie muito bem se-
parada de scabricauda. As afirmações do autor já foram por nós examinadas à
mão de numeroso material, machos e fêmeas, em “Os Quilópodos do Brasil”,
Mem. Inst. Butantan 13:261-264.1939, onde fizemos uma redescrição de Otos-
tigmus scabricauda (Humb. 4 Sauss.), 1870, chegando então à conclusão de que
a espécie de Verhoeff era apenas uma subespéde da primeira.
Podemos confirmar novamente esta nossa opinião pelo confronto de machos
e fémeas de scabricauda e de scabricauda demelloi (Verh.).
Os órgãos sexuais externos de ambas as formas não se distinguem em nada.
O dimorfismo se.xual, sôbre o qual Verhoeff fundou sua nova espécie (prin-
cipalmente das fêmeas), só se manifesta pela presença de um apêndice no lado
interno do pre fémur do último par de patas dos machos. A fémea carece deste
apêndice. Isto vale tanto para a scabricauda como para a demelloi.
Para a última Verhoeff refere ainda outros caraterísticos sexuais secundá-
rios, como sejam:
Macho
Com depressões profundas em todos
os esternitos;
Sempre com esporão tarsal ;
Últimos tergitos com rugosidades,
muitos nódulos, leves quilhas e es-
pinhos curtos ;
Do 5.® tergito para trás já existem
pseudocarenas.
Fêmea
Sem depressão nos esternitos;
20.“ pata sem esporão tarsal ;
Tergitos lisos, sem rugosidades c sem
nódulos, nem espinhos;
Sem pseudocarenas nos tergitos ;
No nosso trabalho, acima dtado, já afirmamos que tudo o que Verhoeff diz
a respeito da fêmea não corresponde absolutamente aos resultados das nossas
observações. Pelo contrário, ela apresenta sempre, mesmo já como “adolescens”,
depressões, esporões tarsais no penúltimo par de patas, 'rugosidades, nódulos, qui-
* * ' ' »
8
^^OLFG.^^•G BCcherl — Esludo comparado dos orgãos sexuais externos
dos Quilópodos do Brasil
21
lhas e pseudocarenas como no macho, ap>enas carecendo do apwndice prefemural do
último par de patas.
Mas de onde tirou Verhoeff suas afirmações? Ouçamos o próprio autor:
“Ainda não se realizaram observações suficientes sôbre o dimorfismo dos sexos
no gênero Otostiguius, principalmente porque estas observações não estão isentas
de grandes dificuldades. O precioso material deve ser tratado com cuidado, sendo
que, pela sua conservação em álcool, se acha quasi sempre num estado de tão
forte contração que não se pode pensar mais em fazer aparecer a regpão genital.
Êste último caso também se verifica com o autor no tocante ao material que serviu
para a descrição do dimorfismo sexual da espécie Otostigmus dcmeltoi. Porisso
não se pode deixar de declarar que tudo o que acaba de ser estabelecido sôbre o
dimorfismo entre macho c fêmea da nova espécie pode apenas ser co)isiderado
como proz’ável c não como absolutamente certo.”
.\ hesitação do nosso colega Verhoeff e sua curiosa descrição da fêmea da
nova espéae nos fez proceder ao exame minucioso do copioso material, deposi-
tado na coleção quilopódica do Instituto Butantan. Quanto às espécies scabricauda
e dcmclloi chegamos às seguintes conclusões:
1.® É sempre fácil distinguir os machos das fêmeas, mesmo em material
por longo tempo conservado em meio alcoólico, independentemente <la
consideração da região gênito-anal, unicamente pela ausênda ou presença
do apêndice prefemural do macho. Êste apêndice mede entre 4,1 -
4,4mm (o prefêmur mede entre 3,5 - 3,8 mm) de comprimento mínimo
e 8,1 - 10,lmm de comprimento máximo por 0,9 - l,7mm de espessura
e consta de quitina, de maneira que. mesmo por longa conservação em
álcool, não está sujeito a retrações, sendo, portanto, sempre facilmente
visivel.
Nas atadas espécies não ha outro dimorfismo dos sexos, de nuncira
que em tudo as fêmeas são iguais aos machos.
Os caraterísticos morfológicos que Verhoeff atribuc à fêmea de de-
melloi são tão aberrantes que se pode afirmar com toda a certeza que
o autor teve à mão uma fêmea de outra espéde, até então ainda não
descrita. Os caraterísticos, portanto, não são a expressão dum dimor-
fismo dos sexos, mas constituem caracteres de uma nova espécie.
De fato a fêmea que o autor descreveu indirctamente foi reconhecida por
nós como sendo a fêmea de Otostigmus cavalcantii BCcherl. Esta, sim. tem o
mesmo tamanho, o mesmo colorido verde azulado metálico, estemitos sem cavi-
dades, tergitos lisos, sem nódulos, sem quilhas, sem espinhos e sem pseudocarenas.
9o
3.»
cm
SciELO
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Quanto à espécie Otosligmus rex Chamb., 1914, devemos salientar que, pelas
1 )esquisas dos órgãos sexuais externos chegamos à conclusão de tratar-se de fato
de fêmea de Otostigmus scabricauda, com a qual, aliás, concorda a descrição da
morfologia geral.
5. Otosligmus (Parotostigmus) pradoi
MÉDI.\ DAS MEDIDAS DA SÉRIE
Macho
Fémea
Comprimento total
42 — 47 mm
43 — 49 mm
Largura do 12.* tergito
3,4 — 3,7 mm
3.5 — 3,8 mm
Comprimento do estemito genital
0,5 — 0,7 mm
0,5 — 0,7 mm
” » » postgenital ....
^ órgão copulador
” tergito anal
0,2 — 0,4 mm
0,5 — 0,7 mm
0,6 — 0,8 mm
0,7 — 0,8 mm
Os órgãos sexuais externos dos machos e das fêmeas desta espécie rão se
distinguem sensivelmente dos da espécie scabricauda, de maneira que podemos
dispensar uma descrição topográfica dos mesmos. Apenas o estemito genital da
fémea apresenta uma pequena fossa longitudinal mais nítida do que aquela espé-
cie. Seu bordo posterior é quasi reto.
Como dimorfismo dos sexos deve ser apontado o apêndice agudo, existente
no lado interno ca tibia do último par de patas do macho, ausente na fêmea, Êste
apêndice se estende geralmente também até ao fémur, como mostra o desenho
Xo. 2, á página 445 do Boletim Biológico 4 (3). 1939. O apêndice está presente
já nos adolescentes, de maneira que sempre se podem distinguir facilmente os
machos das fémeas, mesmo sem a inspeção dos próprios órgãos genitais e.xtemos.
6. Olostigmus (Parotostigmus) tibialis
.'\s mediJas dos órgãos sexuais e.xternos revelam grande uniformidade en-
tre esta espérie e a precedente, de maneira que não ha necessidade de uma nova
descrição dos mesmos.
Taml>ém e.xiste dimorfismo sexual sob a forma de um apêndice na tibia do
último par de patas nos machos, apêndice êste muito menor do que em pradoi,
mas sempre l)cm visível, mesmo nos adolescentes. Êste apêndice está ausente
nas fêmeas, de maneira que constitue um bom caraterístico para distinguir facil-
mente os sexos.
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WoLFGAKG BCchehl — Esludo comparado dos orgãos sexuais externos
dos Quilópodos do Brasil
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7 . Rhysida brasiliensis
MÉDIA DAS MEDIDAS DA SÉRIE
lilacho
Fêmea
Comprimento total
68 — 77 mm
69 — 81 mm
Lareura do 12.* tertrito
6,5 — 7 mm
6,5 — 7,1 mm
Comprimento do estemito genital
0,4 — 0,7 mm
0,4 — 0,6 mm
postgenital
0.2 — 0.3 mm
órgão copulador
0,5 — 0,7 mm
tergito anal
0,6 — 0,8 mm
0,5 — 0,8 mm
Os escleritos da região gênito-anal dos machos e das fémeas desta espécie
não se distinguem pelo colorido das membranas. Apresentam. ix)rém. quasi
sempre bordos nitidos, de quitina mais espéssa e, além disso, pêlos pequenos, pouco
numerosos, presentes também nas “laminae adanales”, e inteiramente ausentes nas
zonas das membranas.
A primeira membrana intermediária forma um anel completo, estreito na
área ventral e dorsal e mais longo nas regiões pleurais.
O estemito genital dos machos e das fémeas apresenta bordos laterais ligei-
ramente cur\'os e bordo posterior arqueado. No meio do esclerito ha uma leve
saliência longitudinal mediana. Os pêlos são mais densos jx:rto do bordo jx)s-
terior.
O estemito postgenital apresenta saliência longitudinal mais acentuada do
que a do estemito genital.
O órgão copulador, sem pêlo algum, é de fomia triangular com ligeiro apên-
dice saliente na ponta, apresentando uma orla ventral franjada, entre a qual se
ve nitidamente a abertura genital masculina.
A abertura genital da fémea é semi-lunar, igual cm sua forma como nas es-
l>écies do género Olostigmus.
As lâminas adanais unem-sc atrás numa ponta comum, sendo que a posterior
cstaWece contacto direto com os bordos laterais do tergito anal c a anterior forma
a continuação das membranas que marcam o limite externo da abertura genital
na fémea, enquanto que no macho servem de esteio jxjstero-lateral ao órgão co-
pulador.
O tergito anal apresenta igual constituição topográfica cm ambos os sexos,
tendo os bordos laterais ligeiramente divergentes e o bordo posterior redondo.
NesU espécie não existe nenhum dimorfismo sexual que pennita distinguir
os machos das fémeas sem a inpeção dos próprios órgãos sexuais externos, <lc
maneira que os sc.xos só podem ser distinguidos jtclo confronto dos últimos ou.
11
cm
SciELO
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
quando isto não é possível, por um corte, praticado em alguns tergitos, inspedo-l
nando-se os órgãos genitais internos (ovários ou testículos).
A ausência absoluta do dimorfismo sexual parece ser um caraterístico ex-|
tensivo a todo o gêjiero RItysida, pois não encontramos nenhum indício morfo-|
lógico, além dos órgãos genitais externos, que distinga os machos das fêmeas, emi
nenhuma espécie do gênero. Referimo-nos aqui às seguintes espécies, das quaisl
a coleção do Instituto Butantan dispõe de séries:
Rhysida celcris Humb. í Sauss., 1870
” longipcs Xewport, 1845
brasilicnsis Krplx., 1903
” nuda (Xewport), 1845.
Família : Crypiopidac
Já referimos a grande facilidade na distinção dos escleritos e das membranasl
da região gênito-anal em todos os gêneros pertencentes a esta família, cm oposiçãol
à família Scolopcndrídae, onde esta facilidade não existe.
8. Cryptops (Trigonocryptops) iheringi
(Vide Foto Xo. 4)
MÉDI.\ D.-\S MEDIDAS DA SÉRIE
Macho
Fêmea |
t
Comprimento total
85 — 90 mm
87 — 91 mm
Largura do 12.* tergito
5,8 — 6,7 mm
5,4 — 6,3 mm
Comprimento do esternito genital
1,2 — 1,4 mm
1,1 — 1,3 mm
" ” postgenital
0,5 — 0,6 mm
” " órgio copulador
0,9 — 1,1 mm
tergito anal
1 — 1,3 mm
1,1 — 1,6 mm
Os escleritos dos machos e das fêmeas são, no tocante à região gênito-anal,
muito pilosos e de colorido amarelo a«rmelhado, enquanto que as membranas se
apresentam sem pêlos e de aspecto branco.
Xa fêmea (Foto Xo. 4, à direita) a primeira membrana intermediária é in-
visível no lado ventral e mesmo lateral, sendo visível apenas no lado dorsal como
uma faixa muito curta, côr de cinza.
O estemito genital (Foto Xo. 4,1), de aspecto amarelado e com pêlos longos I
e numerosos ao longo do bordo posterior e na zona mediana da última metade do
12
cm
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^^OLFGAxc BCxherl — Esludo comparado dos orgãos sexuais externos
dos Quilópodos do Brasil
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esclerito, apresenta bordos laterais fortemente divergentes. O bordo posterior é
côncavo. Quanto à forma convem notar ser êle muito mais largo do que longo,
havendo cm sua área central uma ligeira depressão longitudinal mediana.
A abertura genital tem a forma de sempre, semi-circular, sendo atravessada
parcialmente por pregas.
O segmento anal é maior do que o genital. Tanto o tergito anal como as
"laminae adanales” apresentam numerosos pêlos, pequenos e longos. No tergito
anal notamos um leve sulco longitudinal mediano, sendo seu bordo posterior bas-
tante curvo e havendo no mediano uma curta saliência.
A “lamina adanalis inferior” ê muito mais grossa do que a superior. Parte
do lado externo, posterior, da abertura genital, dirige-se então para o centro, for-
mando o limite do poro genital; daí emite uma apófise, que se dirige para trás.
em linha reta, na área mediana, vindo a terminar na zona ventral, perto da cra-
tera anal.
“lamina adanalis superior” vem dos bordos laterais do tergito anal ; diri-
ge-se para trás, sofrendo ligeira declinação para o lado ventral, e termina nas
proximidades da cratera anal, à mesma altura como a apófise da lâmina inferior,
sem contudo unir-se diretamente com a última.
No macho o estemito genital tem maior tamanho do que na fêmea, seivlo
os bordos laterais paralelos, não divergentes. O bordo posterior ê reto. O nú-
mero de pêlos longos ê muito mais ele\-ado do que na fêmea, encobrindo unifor-
memente toda a área do estemito, enquanto que na fêmea estão aglomerados ape-
nas numa determinada zona posterior do esclerito.
O estemito postgenital (Foto No. 4,2) ê igualmente coberto de numerosos
pelos, mais longos na área mediana posterior. O bordo posterior temiina numa
pequena ponta (^nsível no Foto).
O órgão copulador apresenta poucos pêlos curtos nas duas placas laterais, uni-
das dorsalmente por uma membrana elástica, branca e sem pêlos. A ponta temii-
nal do órgão é saliente. No lado ventral as duas placas se desfazem num bordo
externo contínuo e num interno, mais saliente, franjado, sendo que a última con-
tem a abertura genital, estreita e longa.
O tergito anal. levemente sulcado na área mediana longitudinal, apresenta
pêlos somente ao longo do bordo posterior.
As lâminas adanais são pilosas como na fêmea e apresentam o mesmo per-
curso como nesta, sendo apenas de menor tamanho.
Pelo órgão copulador (Foto No. 4,3) podem-se facilmente distinguir os ma-
chos das fêmeas, sendo de notar que êste órgão tantbêm já está presente e bem
desenvolvido nos machos adolescentes.
No intuito de descobrir caracteres sexuais secundários que permitam dis-
tinguir os sexos independentemente da consideração dos próprios órgãos sexuais.
13
cm
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
realizamos as seguintes mediqões em séries de machos e fêmeas: (6 machos e 6
fêmeasl.
Machos
Fémeas
Comprimento total
85 — 90 mm
87 — 91 mm
Largura do 2.* tergito
5 — 5,2 mm
4 — 4,2 mm
" ” 14.* "
7 — 7,2 mm
5 — 5,2 mm
' " 20.* ■
4 — 4,1 mm
3 — 3,7 mm
10.* tergito
í mm de compr. e
comprim. e largura
7 mm de largura
5: 5
Comprimento dos 5 articulos das últimas patas
5 +4,5 "f 3,2 -r 2+3,5;
4-(-4-i-2-t-1.8-(-3;
total: 18.2 mm
total: 14,8 mm
Espinhos enfileirados na tíbia e no tarso
22-24 -1- 6
13-17 + 4-5
Dentes no fémur e na tibia
1-t-l pequenos (au-
1-t-l grandes (sem-
sentes)
pre)
Quanto aos espinhos enfileirados na tíbia deve-se salientar que são do mesmo
tamanho tanto nos machos como nas fêmeas. Nos machos, porém, ha na média
8-9 espinhos mais do que nas fêmeas. Xas fêmeas êstes espinhos são separados;
na maioria dos machos, porém, os 2-3 espinhos terminais, maiores, aparecem mais
ou menos unidos.
Xo último tergito das fêmeas ha em média 18-24 espinhos, enquanto que nos
machos seu número é apenas de 8-14.
área do último estemito do tronco apresenta nas fêmeas 50-55 espinhos
e nos machos apenas 28-37 menores.
Pelo conjunto do confronto de todos êstes caraterísticos podemos concluir;
1. ” Que as fêmeas são mais longas do que os machos e mais delgadas:
2. ® Que o comprimento das últimas patas tomado em relaqão ao compri-
mento do tronco revela que estas são muito mais longas nos machos do
que nas fêmeas :
3. ® Os machos têm maior número de esjMnhos enfileirados na tíbia (sendo
geralmente os últimos 2-3 unidos) e no tarso do que as fêmeas; estas,
aò contrário, têm maior número de espinhos no último tergito e ester-
nito do tronco.
.Além de todos êstes caracteres morfológicos, que certamente podem ser clas-
sificados como sendo próprios aos dois sexos, ainda que sua verificação não seja
tão fácil, principalmente quando não se dispõe de uma grande série, existe ainda um
outro caraterístico muito importante e nunca falho para distinguir os dois sexos.
14
WoLFGANG BCcherl — Esludo comparado dos orgãos sexuais externos
dos Quilópodos do Brasil 27
residindo na pilosidade maior dos 3 últimos segmentos, principalmente da tibia e
dos tarsos do último par de patas das fêmeas, enquanto que nos machos esta pilo-
sidade é minima ou quasi nula nos citados artículos.
Quanto ao Cryptops {Trigonocryptops) triangulijcr Verhoeff, 1937 (Zool.
Jahrb. Syst. 70 (1/2) :9-ll), cabe nos referir aqui mais um argiunento que prova
a sinonimia desta espécie com a antiga: Cr. (Tr.) iheringi, deficientemente des-
crita por H. W. Brõlemann, em 1902. Já em nosso trabalho “Os Quilópodos
do Brasil”, Mem. Inst. Butantan 13;2frl-287.1939, provamos suficientemente
a nulidade da esjtêcie de Verhoeff e a caraterização morfológica insuficiente da
espéde antiga de Brõlemann (Rev. Mus. Paul. 5:42.1902), procedendo por esta
ocasião à redescrição de Cryptops iheringi. Em nosso "Catálogo dos Quilópodos
da zona neotrópica”. Mem. Inst. Butantan 15 :323-324. 1941, a espécie de Verhoeff
já é considerada como sinónima da de Brõlemann.
O estudo comparado dos órgãos sexuais externos e principalmente dos cara-
terísticos sexuais secundários ratifica o que estabelecemos cm 1939 e 1941.
\’’erhoeff diz entre outras coisas que a espécie triangulifcr se distingue de
iheringi :
!.• Pela presença de um dente na margem terminal do fémur e da tíbia,
ausentes em iheringi;
2. ® Pela separação nítida dos 15 dentes enfileirados da tibia, enquanto que
em iheringi são mais ou menos unidos;
3. ® As últimas patas de triangulifer, principalmente prefémur e fémur,
apresentam muitos pêlos longos c- muitos acúleos: a tibia só apresenta
pêlos, o primeiro tarso apenas jxjucos pêlos c o segundo tarso nova-
mente pêlos longos c numerosos.
Ora, V’erhoeff não sabia que todos éstes carateristicos, principalmente o
grande número de pêlos nas últimas patas, constituem justamente o que chama-
mos de dimorfismo sexual, sendo próprios das fêmeas de iheringi, como aca-
bamos de assinalar acima. Os dentes enfileirados, mas sempre separados, são
igualmente típicos nas fêmeas de iheringi, ralendo o mesmo também da pre-
sença de dentes no fêmur e na tibia.
Verhoeff, dispondo apenas de um unico exemplar (femea adolescens ),
não pôde. naturalmente, tomar cm consideração o dimorfismo dos sexos e assim
descreveu como espécie nova a fêmea de Cryptops {Tr.) iheringi, descrito por
Brõlemann de um exemplar macho.
15
SciELO
10 11 12 13
28
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
9. Scolopocryplops miersii puruensis
Macho
Comprimento total
Largura do 12.* tergito
Comprimento do esternito genital
” ~ I» postgenital
" ” órgão copulador
" ” tergito anal
84 — 86 mm
7,3 — 7,5 mm
1,2 — 1,5 mm
0,5 — 0,7 mm
1 — 1,2 mm
1,2 — 1,6 mm
A primeira membrana intermediária é estreita na zona ventral, atingindo
maior desenvolvimento nas jJeuras e encurtando-se novamente na área do ter-
gito anal.
O estemito postgenital apresenta igualmente uma fossa mediana, porém
menos profunda, e pêlos longos, mais numerosos ao longo do bordo posterior.
O órgão copulador é triangular, sem pêlos nas duas orlas franjadas, ao
longo da abertura genital, nem nas placas laterais.
O tergito anal apresenta um ligeiro sulco mediano, sendo coberto por
pêlos curtos.
As “laminae adanales”, também cobertas por pêlos curtos, convergem atrás,
sem se unirem. A lâmina dorsal vem diretamente dos bordos laterais do tergito
anal, enquanto que a ventral surge no meio de membranas. Atrás ambas as
lâminas se perdem entre as membranas, muito espessadas, que formam a cratera
anal. A última é redonda, havendo no lado ventral uma curta fenda que se
estende até as imediações da base do órgão copulador.
Infelizmente não possuimos por ora fêmea alguma desta espécie, de ma-
neira que não podemos proceder a um estudo comparado dos sexos, nem às ve-
rificações de dimorfismo sexual.
10. Otocryptops ferrugincus ferrugineus
(Vide Foto Ko. 5)
MÉDIA DAS MEDID.\S DA SÉRIE
Macho
Fémea
Comprimento total
46 — 52 mm
48 — 53 mm
Largura do 12.* tergito
5,3 — 5,5 mm
5,3 — 5,5 mm
Comprimento do estemito genital
1,1 — 1,3 mm
1 — 1,2 mm
” n n postgenital
" órgão copulador
” tergito anal
0,2 — 0,4 mm
0,6 — 0,8 mm
1,1 — 1,3 mm
1,1 — 1,2 mm
16
^^OL^■CA^'G BCcherl — Estudo comparado dos orgãos sexuais externos
dos Quilópodos do Brasil
29
Na fêmea observa-se pouca diferença morfológica na região gênito-anal
com a fêmea de Cryptops ihcringi. Todos os esderitos apresentam numerosos
pêlos, distribuídos a esmo nas lâminas adanais (Foto No. 5.5), aglomerados em
maior número nos bordos posteriores e na área posterior mediana do estemito
genital e do tergito anal.
O estemito genital (Foto No. 5,1) apresenta ligeira elevação longitudinal
mediana. abertura genital (Foto No. 5, a) é tipicamente semi-lunar. O ter-
gito anal tem um sulco longitudinal nítido.
Quanto à morfologia da r^ão gênito-anal do macho, nada se pode acres-
centar à descrição da mesma no macho de ihcringi. Todos os esderitos são
cobertos por pêlos, enquanto que as membranas apresentam pêlo nenhum.
Nesta espêae não conseguimos observar caracteres sexuais secundários, de
maneiia que não se podem reconhecer os sexos sem a inspeção dos próprios
orgãos sexuais.
9 o
3.0
5.«
CONCLUS.^O
Pelo estudo dos órgãos sexuais e.xtemos é sempre fácil distinguir os
sexos em todos os indivíduos da ordem dos Scolopcndronwrpha, ha-
vendo nos machos sempre um estemito postgenital c um órgão copu-
lador. nitidamente visíveis, enquanto que nas fêmeas êstes são inteira-
mente ausentes.
A abertura genital é colocada nas fêmeas no segmento genital e apre-
senta a fomia de um semicírculo, enquanto que nos machos da tennina
no segmento postgenital, apresentando a forma de uma fenda longa e
estreita.
Em todos os indivíduos da família Scolopendridac (gêneros: Scolopen-
oro, Otostigmus e Rhysida) não é fádl distinguir à primeira rista os
esderitos das membranas, porque apresentam o mesmo colorido, sendo
os pelos dos primeiros de proporções muito pequenas e de número pouco
elevado, enquanto que nos indiriduos da familia Cryptopidae (gêneros:
(^^yptops, Scolopocryplops e Otocryptops) os esderitos se distinguem
fadlmente das membranas brancas pelo grande número de pêlos ama-
relados ou avermelhados.
Havendo órgãos sexuais secundários, êles constituem um caraterístico
seguro para distinguir os machos das fêmeas, sem ser necessário recor-
rer aos órgãos sexuais propriamente ditos. Isto ^ale não somente no
tocante aos indiriduos adultos, mas também para as formas juvenis t
imaturas.
Caracteres sexuais secundários existem nas seguintes espedes:
17
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Scolopcndra morsitans L., 1758
Otosfigmus (C.) cavalcantii BCxherl, 1939
Otosligmus (D.) caudalus Brõlemann, 1902
Oiostigmus {A.) scabricauda (Humb. 4 Sauss.). 1870
Otostigmus {A.) scabricauda demclloi (Verh.), 1937
Oiostigmus (P.) pradoi Bücherl, 1939
Otostigmus (P.) tibialis Brõl., 1902
Cryptops (Tr.) iheringi Brõl., 1902
Não existem nos gêneros: Rhysida, Scolopocryptops (provavelmente)
e Otocryptops.
6. ® Os caracteres sexuais secundários sempre existem apenas nos machos,
nunca nas fémeas.
7. ® Otostigmus demclloi Verh. é de fato apenas uma subespéde de O. sca-
bricauda. Otostigmus rex Chamb. é uma espécie nula, porque foi des-
crita à mão de uma fêmea de scabricauda. Cryptops triangulifer Verh.
é pela mesma razão considerada uma espécie nula.
BIBLIOGRAFIA
Bücherl, IF. — Dois novos Quilópodos do snbgcnero Parotostigmus da coleção do Instituto
Butantan — Boi. Biol. 4(3). 1939.
Idtm — Três Escolopendrideos novos — Rev. Biol. Hyg. 10(1). 1939.
IJem — Os Quilópodos do Brasil — Mcm. Inst. Butantan 13.1939.
Idrm — Catálogo dos Quilópodos da Zona Ncotrópica — Ibidem 15.1941.
Verhoefí, C. — über einige Chilopoden aus .-Vustralien und Brasilien — Zool. Jahr. Syst.
70 (1/2). 1937.
(Tralnlbo d» Seçio de Zoolocia Médiea. Entrcfuc par»
puUicacSo em 37 de maio de 1M2 e dado 1 publicidade
em lerereiro de 1943).
18
Wolfg-xng BCcherl — Esludo comparado dos órgãos se-
xuais externos dos Quilópodos do Brasil, baseado nos
gêneros Scolopendra L.. 1758, Olostigmus Porat, 1876,
Rhysida Wood, 1862, Cryptops Le-vch, 1815, Scolopo-
cryptops Newport, 184-1, e Olocryptops Haase, 1887.
Mem. Iiut. BuUntaa
Vol. XVI — 1M2
cm
SciELO
^\oLFGANG BCXHERL Hstiuio CÜIliparado llos Ór^OS SC- M«n. Inst. Butantan
suais externos dos Quilópodos do Brasil, baseado nos Voi. xvi — 1942
itêneros Scoloptmlra L.. 1758 . Oiustigmus Porat, 1876 .
Hhysida Wood. 1862 . Cryptops I,e.\ch, 1815 . Scolopo-
rryplops .Xewiort. 1844 . e Olorryplops Haase. 1887 .
Eoio Xo. 5
Otocryftofs frmçintat ftrrnçinras IL) nucba r íimti.
grattal; 3 — õriáo cufuladvr; 4 — tercito anal; 5 — “laminae
adanalst"; a — a^icrtura letiital da frmra.
23
391.156:595.62
CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DOS ÓRGÃOS SEXUAIS EX-
TERNOS DAS ESPÉCIES DO GÊNERO SCOLOPENDRA
LINNÉ MAIS FREQUENTES NO BRASIL
Um novo método morfo-comparado para a sua sistematização
POR
WOLFGAXG BÜCHERL
ESBOÇO HISTÓRICO
A classificação genérica e principalmente específica de muitos grupos dos
Scolopcndrotnorpíia ainda é parcialmente obscura, sendo os caraterísticos mor-
fológicos, por ora considerados, muito suscetíveis de \’ariação e em grande parte
francamente insuficientes.
Cientes destes graves inconvenientes os especialistas modernos abandonaram
quasi por completo os métodos antigos de classificação, baseados geralmente
apenas num ou dois caraterísticos morfológicos, o colorido, o comprimento total,
o numero de espinhos ou pêlos, etc., que posteriormente foram verificados fa-
lhos. A sistemática moderna, ao contrário, procura contornar êste mal, proce-
dendo à sistematização das espécies pelo conjunto de todos os caracteres mor-
fológicos importantes.
Isto já significa um bom passo adiante, ainda que não se tenha conseguido
vencer totalmente as deficiências, como aliás é natural, porque o julgamento
sôbre o conjunto de caracteres mesmo assim continua ainda individual e subje-
tivo. a mercê do critério de cada especialista. Dai os litígios, às vézes veementes
entre os autores mais conhecidos: Attems. Verhoeff. Chamberlin, Silvestri e
Brõlemann. acerca da validade de gêneros e espécies novas.
Admira, porém, que êstes mesmos espedalistas tenham olvidado por com-
pleto o estudo dos órgãos sexuais externos, pois êstes órgãos constituem, como
vamos demonstrar, um dos melhores caraterísticos para distinguir seguramente
1
2
3
L
5
6
38
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
as espécies, os machos e fêmeas de uma espécie e ainda as formas juvenis das
adultas.
Ainda mais nos admira si um autor, como Attems, julga poder excluir de
antemão os órgãos sexuais externos dos Scolopcndromorpha como caracteres im-
portantes para a sistemática. Êle escreve textualmente em seu trabalho sistemá-
tico sôbre os Escolopendromorfos (Tierreich 54 Scolopcndromorpha, página 15) :
“Os segmentos genitais são extremamente pequenos c destituídos de qualquer
importância sistemática”.
Estas palavras só puderam ser escritas por quem nunca realizou um estudo
comparado dos órgãos sexuais das espécies do gênero Scolopcndra. Um sim-
ples olhar sôbre as fotografias dos órgãos genitais de algumas espécies neotró-
picas deste mesmo género basta para qualificar de absurda a afirmação de
Attems (vide as fotografias).
O estudo dos órgãos sexuais externos foi tão negligenciado entre os autores,
que até o dia de hoje não se publicou trabalho algum sôbre o assunto.
W. Brõlemann, em “Myriapodes du Musée de São Paulo” (Revista Museu
Paulista 5:35-44.1902 e 6:63-71.1904) descreveu nada menos de seis espécies
novas de Escolopendromorfos sem fazer siquer menção dos seus órgãos sexuais.
Ka mesma falta incidiu R. Chamberlin em sua descrição das treze espécies
novas, colhidas na América do Sul pela expedição de Stanford, em 1911 (Buli.
Mus. Har%-ard 58:151-195.1914).
O ponto de >nsta de Attems (Tierreich 54:1-308.1930) já foi referido.
Este autor, porém, contúa a ignorar a importância dos estudos comparados dos
órgãos sexuais externos mesmo ainda em tempos recentes, apesar das criticas
que seu sistema tem sofrido.
Verhoeff, em Bronn’s Klassen und Ordnungen 63-101.1902-1925, é o pri-
meiro a fazer pelo menos algumas considerações gerais sôbre os órgãos sexuais
dos Scolopcndromorpha, considerações estas ainda de ordem puramente morfo-
lógica. feitas esporadicamente nas seguintes páginas: 25-27, 75, 87, 105-107 e
523-528. .Atribuo já ao estudo dos órgãos se.xuais sua devida importância, es-
crevendo à página 177: “Estudos topográficos e comparados, minuciosos e exa-
tos. sôbre os órgãos sexuais externos dos segmentos genitais seriam sumamente
desejáveis e constituiriam provavelmente uma ótima base para a caraterização da
evolução epimorfa dos Escolopendromorfos”.
A e.\igência de Verhoeff em serem considerados na sistemática os órgãos
sexuais se tomou ainda mais explicita nestes últimos anos. Vale a pena repro-
duzir um curto trecho do seu trabalho “Cber europaeische Crytops- .Arten”
(Zool. Jahrb. Syst. 62.1931), porque permite entrever claramente a fraqueza
da sistemática quilopódica moderna, feita sem o estudo comparado dos órgãos
genitais c.xtemos:
•>
WoLFa\XG BCcherl — Contrib. ao estudo dos orgãos sexuais externos
das espécies de Scolopendra 39
“Foram publicados ultimamente dois trabalhos dos meus colegas Attems
(Tieireich 54.1930) e Brõlemann — “Elements d’une Faune des Myriapodes
de France, Chilopodes”.
Brõlemann estudou as espécies do gênero Cryptops, colhidas na França e
na Algéria e Attems reuniu numa chave sistemática todas as espécies do mundo
inteiro deste mesmo género.
O trabalho de .Attems é, sem dúvida, muito meritório. Demonstra, porém,
claramente, quão necessária é uma reforma deste gênero.
E’ singular, antes de tudo, que ambos os autores ainda não saibam distin-
guir claramente os sexos, o que é pro^ado pelo fato que a subespécie nova de
Brõlemann Cryptops savignyi hirlitarsis é simplesmente a fêmea de Cryptops
savignyi (“genuinus”), espécie esta descrita apenas segundo um exemplar
macho.
Já Latzel escreveu em 1880 (Chil. õsterr.-ungar. Monarchie, página 156);
‘E muito difícil distinguir os machos e as fémeas, porque em nenhum dos se-
xos existem apêndices genitais. Baseado em estudos comparados dos órgãos
genitais internos, considero por enquanto como fémeas aqueles indinduos, cujo
tronco é mais largo em frente e que têm maior número de poros pleurais; ma-
chos são aqueles que são liastante estreitos na parte anterior do tronco, que têm
apenas um número regular de poros pleurais e cujo penúltimo par de jiatas c
mais longo e mais grosso do que o anterior.’’
Brõlemann, ao contrário, nada nos revela sõbre os sexos e .Attems e.xplica:
.As patas posteriores, principalmente o 20.° par, apresentam muitas vêzes uma
aglomeração densa de pêlos (caracteres sexuais masculinos?).’’
Está demonstrado, portanto, que persiste ainda grande incerteza na distin-
ção dos sexos. Eu mesmo identifiquei o sexo de uma série de indivíduos pcla
autópsia. Pude determinar facilmente os machos pcla presença dos grandes cs-
permatóforos. Surpreendi, por outro lado, certos indivíduos (do mesmo gênc-
ro) que faziam guarda à sua cria, de maneira que destes suponho serem fêmeas.
Os meus estudos me fizeram abraçar parcialmente a opinião dc Attems, porque
cheguei à conclusão de que o último par de patas dos machos apresenta dc fato
gcralmcnte um número maior de pêlos. No 20.° i»ar dc patas, porém, não há
caracteres seguros para distinguir os sexos. Mas também a presença dc um
número maior de pêlos no último par não é um caráter absolutamente valido,
porque var:a nas espécies e subespécies. LTma diferença sexual, baseada no nu-
mero dos poros pleurais. segundo Latzel, não pude confirmar.
Êste esboço histórico mostra-nos que cabe a Verhoeff o mérito dc ter cha-
mado a atenção dos especialistas sóbre a grande importância dos caracteres se-
xuais na descrição de novas espédes e novos gêneros. Mas êste mesmo
\'erhoeff procurou os caracteres fóra da esfera dos próprios órgãos genitais
3
40
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
externos e assim chegou forçosamente à conclusão pouco satisfatória de que.
para se ter certeza que o indi^duo em estudo é macho ou fêmea, é preciso pro-
ceder à autópsia e inspecionar os órgãos genitais internos. Muitos especialistas
desistem deste processo, pois o próprio \'erhoeff confessa “que o predoso material
precisa ser tratado com cuidado, omitindo-se praticar cortes ou dssuras que des-
truam o tioo.”
O presente trabalho apresenta um novo caraterístico morfológico seguro
para distinguir os machos e as fêmeas de uma e mesma espêde e ainda para
estabelecer no^^as espédes. Êste caraterístico é constituido justamente pelos
próprios órgãos sexuais externos, como veremos:
M.-VTERIAL E MÉTODO
O material empregado para o presente estudo dos órgãos sexuais externos
consta de exemplares em grande parte vivos. Por ora realizamos apenas pes-
quisas comparadas sôbre as espécies e subespécies mais frequentes no Brasil e
reunidas no gênero Scolopendra. Porém já temos em preparação um grande
número de outros grupos quilopódicos, cujos órgãos sexuais serão estudados em
outro trabalho. Esperamos desta maneira poder contribuir eficientemente para
o lançamento de uma nora base para a sistemática dos Quilópodos.
O material vivo é constituido pelas seguintes espédes e subespédes:
Scolopendra zirídicornis Xewport
” ” zdrídicomis Bücherl
” ” nigra BCcherl
” subspinipes Leach
” ” subspinipes Leacu
” morsitans Lixné
” angulata Xewport
” ” angulata, n. subsp.
Além do estudo destas espécies e subespédes riras fizemos numerosos ijre-
parado.s parciais do aparelho genital, entre lâmina e lamínula. e conservamos
ainda, em álcool a 70%, grande número de Escoloj)endras com os órgãos sexuais
visíveis. Foram executados igualmente cortes longitudinais e transversais dos
segmentos genitais de machos e fêmeas das espécies adma enumeradas.
Empregamos no exame do aparelho genital externo o seguinte método:
X^arcotizamos os exemplares vivos e injetamos, em seguida, por ria intes-
tinal uma solução alcoólica de formol até que os órgãos genitais, naturalmente
4
WOLFOAXG BCcherl - Contrib. ao estudo dos orgàos sexuais externos
das espécies de Scolopendra
41
•nvisiyeis e recolhidos no interior do último segmento de patas, se tomassem
visiv«s externamente e aptos para um exame topográfico e comparado.
Quando este método não era \-iável (como acontece nos individuos que já fo-
ram consersados por muitos anos em meio liqiúdo) e mesmo para obter maior
certeza nas pesquisas comparadas, abriamos longitudinalmente os últimos tergito
e estermto na Imha lateral, com fina tesoura, e separavamos a última porção do
intestino postenor e a parte baixa dos órgãos genitais internos dos animais
mortos, retirando de uma só vez os segmentos anal, postgeniul e genital, con-
juntamente com « formações intermediárias dos “pseudosegmentos”. Proce-
e musculatura e das traqueias sob o binocular
T , . isloopca (quando se trata\-a de animais ainda não fixados).
^ genitais, submergiamos os preparados em carmim acético (Se-
mchon), passando, em seguida, pelo ácido acético e depois pelo creosoto.
d»Wdn.u™no, o material, após prévio
com.™ ^ 1 • tios feixes musculares e das traquéias, pela série
romum de álcoois, permanecendo 3-4 dias em álcool absoluto, renovado T-4 vêzes
e clanfica.-amos as peças em xilol-fenicado.
a ouiri^^or “ referidas peças foram fixadas em formol, sendo
q amolecida pelo diafanol ou pela solução alcoólica de ácido nitrico.
ESTUDO TOPOGRÁFICO E COMPAR.ADO
genitais e o anal tanto dos machos como das fêmeas dos
último **^^Pha estão profundamente recolhidos numa cavidade central do
*^™**'^° tle patas, de maneira que nos exemplares vivos quasi nunca
que os ' * ' ■rtn este o motivo que induziu certamente .Attems a escrever
Outros genitais externos não tém importância alguma na sistemática.
. . ‘^racteres sexuais morfológicos, fóra do âmbito da zona genital, que
nhuma d^ tlistinguir os machos e as fêmeas, não foram descobertos cm nc-
^^Péeies referidas, exceção feita da Scolopendra inorsilanj, como ve-
remos adiante F... ,
. ■ ^ni regra geral as femeas são um tanto maiores e mais robus-
tas do que os machos.
vertical niediana posterior, entre as últimas patas, obser\a-se uma fenda
formada ^ tergito e a estender-se até ao estemito. Esta fenda é
'ir bordo espesso de uma membrana e contém, cm seu interior, os
** *^tiientos: o genital, o postgenital c o anal.
ta fenda é comumente um pouco distendida no meio, de maneira que é
possne \er alguns detalhes da zona genital e anal. A membrana que forma a
5
42
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
fenda faz parte de um pseudosegmento, vindo a ser a primeira membrana inter-
mediária (Vide Foto 3, Xo. 2) entre o 21.° segmento (último segmento de pa-
tas) e o 22.° segmento (segmento genital).
Um treino suficientemente longo permite já distinguir os sexos pelos sim-
ples detalhes, entrevistos pela fenda aberta. .Ajites, porém, queremos dar uma
noqão topográfica geral dos referidos segmentos e aconselhamos, para a bóa
compreensão, conferir as 4 primeiras fotografias deste trabalho:
A última zona do corpo dos Quilópodos consta dos segmentos genital, post-
genital e anal, com formaqâo morfológica incompleta e de interpretação difidl,
e ainda de dois pseudosegmentos ou duas membranas intermediárias, sendo a
primeira localizada entre o 21.° estemito e o estemito genital e a segunda entre
o estemito genital e postgenital (\’^ide Fotos 3 e 4, Xos. 2 e 5). A primeira mem-
b.'ana intermediária nos machos é muito longa no lado ventral e ventro-lateral.
Estreita-se em seguida e abraça o lado dorso-basal do tergito anal (Foto 4, Xo.
2). A zona ventral mediana desta mesma membrana forma dois bordos longi-
tudinais salientes que protegem a zona basal do estemito genital. Nas fêmeas
esta membrana intermediária é de igual formação como nos machos, com a di-
ferença de ser um p>ouco mais curta na zona ventral mediana (vide Foto 2).
O segmento genital consta apenas do estemito genital (Vide Fotos 2, Xo. 1
e Fotos 3 e 4. Xo. 3)t constituido por uma placa fracamente quitinizada. E’
igual em machos e fêmeas tanto na forma como no tamanho. Xos machos
apenas é bruscamente dobrada na linha mediana ventral (Vide Foto 4), enquanto
que nas fêmeas ê ligeiramente curm (Vide Foto 1). Xa zona l>asal da linha
mediana obser\-a-se uma curta fossa profunda (Vide Foto 3, Xo. 3). Os bor-
dos posterior c laterais do estemito são cur\os e de quitina mais espessa. Nas
fémeas obser^-amos atrás deste estemito a grande abertura genital que dá acesso
ao “atrium genitale” bastante volumoso.
Até aqui as formações morfoh^cas foram mais ou menos iguais nos ma-
chos e fémeas; de agora cm diante, porém, observa-se uma diferença completa.
A segunda membrana intermediária só existe nos machos (Vide Foto 4, Xo.
5), envolvendo o segmento postgenital lateral- e dorsalmente e separando-o do
segmento anal. Esta membrana é extremamente delicada e flexivel, de maneira
que se adapta perfeitamente ao volume do segmento postgenital, cujas partes
basais protege contra a pressão excessiva.
O segmento postgenital é igualmente presente apenas nos machos. Consta
dum estemito e do órgão copulador. O estemito (Vide Fotos 3 e 4, Xo. 6) é
formado por duas placas ventro-laterais, quitinosas, unidas no meio apenas por
uma dobra delicada e transparente, que cobre um sulco longitudinal profundo.
Os bordos destas placas são nitidos e arredondados, sendo sua parte basal pro-
tegida, como já dissemos, pela membrana intermediária. O papel do estemito
postgenital consiste em dar ao órgão copulador a necessária firmeza.
G
43
WoLFGANC BCxhebl — Conlrib. ao estudo dos orgãos sexuais externos
das espécies de Scolopendra
O órgão copulador ou “penis” consta de duas placas laterais, aproximada-
mente triangulares, com face ventral reta e linha dorsal ligeiramente curva (Vide
Fotos 3 e 4, Xo. 7). Xo lado ventral ha duas orlas, uma saliente e quitinizada
e a outra franjada. Entre a última abre-se a fenda genital masculina (Vide
Foto 3) que c estreita e longa, enquanto que a abertura genital da fêmea é, como
vimos, larga e redonda. Posteriormente o órgão copulador se estreita. Sua
face dorsal é geralmente larga, principalmente atrás e completamente destituida
de quitina, de maneira que apresenta máxima elasticidade.
O segmento anal é outra vez presente em ambos os sexos, consistindo sem-
pre das mesmas p>eqas, a saber; do tergpto ou “lamina dorsalis”, de duas peças
laterais pequenas ou “laminae adanales” e de uma peça ventral, mediana, cha-
mada “lamina subanalis.’’ Xos machos o segmento anal é muito reduzido, não
chegando a corresponder à metade do comprimento dos segmentos genitais, en-
quanto que nas fêmeas se dá justamente o contrário, excedendo aqui o segmento
anal o genital pelo seu maior desenvolvimento. Esta diferença cm tamanho ê
tão pronunciada e tão típica nas espécies neotrópicas do gênero Scolopendra,
que bastaria por si só para distinguir seguramente os sexos.
O tergito anal é aproximadamente de igual tamanho em ambos os sexos e
apresenta quitina espessa. .As lâminas adanais e a subanal, porém, são muito
reduzidas nos machos, enquanto que nas fémeas formam peças muito nítidas,
unidas entre si por dobras elásticas.
•\ "lamina subanalis” forma, por assim dizer, o fêcho ventral do anus e
as “laminae adanales”, que ocorrem cm um j>ar de cada lado, são dobras laterais,
móveis, unidas de um lado com a lâmina subanal e do outro com a região anal
propriamente dita.
Esta apresenta forma de cratera, tendo no centro, cm nivcl aprofundado, a
abertura anal. parede interna da cratera anal ê formada por uma dobra elás-
tica, dividida jjor sulcos, que divergem do centro para a periferia (Vide Fotos
1 e 2, Xos. 2. 3, 4).
Êste ligeiro esboço topográfico já é suficiente para mostrar que ha de fato
diferenças morfológicas profundas nestes últimos segmentos, diferenças estas
que permitem facilmente distinguir os machos das fêmeas. Outros detalhes nes-
tes órgãos, típicos para cada espécie, vão ser referidos mais adiante.
Os segmentos genitais e o anal dos Quilópodos são extremamente mó\ eis ,
podem ser protraídos ou retraídos segundo estiverem sujeitos ou não à pressão
sanguínea. Quando retraídos mudam completamente de volume, tomando-se
3-4 vêzes menores do que em estado protraído. Cabem assim perfeítamente
dentro de uma pequena cavidade do corpo, que se encontra no último segmento
do tronco. O mecanismo de retração é semelhante ao do fechamento de um te-
lescópio: o órgão copulador entra nas duas placas do estemito postgenital; estas
i
44
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVT
afa^tam-se um tanto em direto ao anus e entram na cavidade interna do ester-
nito genital. Em seguida são retraídas as partes do anus, a saber: as lâminas
adanais e a subanal, que se aqjlicam então extemamente ao estemito postgenital.
Desta maneira acontece que, em estado ’de retratjão, nada mais é visto dos seg-
mentos genitais e anal a não ser algims restos da parte terminal do tergito anal,
das lâminas “adanales”, da lâmina “subanalis” e do estemito genital. Nos ma-
chos o segmento postgenital desaparece por completo. O estemito genital de
um lado e o tergito anal do outro formam, por assim dizer, duas tampas a isolar
completamente os órgãos sexuais do mundo exterior.
Muitas vezes estas zonas se encontram tão retraídas pwr entre a fenda ver-
tical, formada pela primeira membrana intermediária, acima referida, que não
se consegue ver cousa alguma dos órgãos genitais externos. Na maioria dos
casos, porém, isto não se verifica, de maneira que sempre se vêm o tergito anal,
o estemito genital e as lâminas sub- e adanais, pelo menos em seus detalhes
posteriores.
Êstes mesmos detalhes são suficientes para, com algum treino, distinguir os
sexos. Pode-se facilitar um pouco esta tarefa, distendendo com a pinça as zo-
nas laterais da fenda. As diferenças entre machos e fêmeas são as seguintes:
Nas fêmeas a “lamina subanalis” (falamos sempre apenas das partes pos-
teriores, risíveis mesmo em estado de retração), diretamente encostada ao estemito
genital, é do mesmo comprimento que êste. Em seguida observam-sc em cada lado
duas peças muito menores, sendo principalmente a última bem desenvolrida e maior
do que a anterior (são as “laminae adanales”) e, por último, vem o tergito anal.
Nos machos, ao contrário, a “lamina subanalis” é muito menos comprida do
que o estemito genital e as lâminas adanais não são tão bem risíveis c postas uma
atrás da outra como nas fêmeas. .•\lém disso a posterior é menor do que a
anterior.
Como já assinalamos, é necessário um certo treino para saber distinguir por
esta maneira os sexos, mas uma vez obtido êste treino, a distinção ê segura, pelo
menos no gênero Scolopcndra. Há ainda um fator que facilita grandemente a
distinção. E’ que na maioria das espécies masculinas deste gênero existem nos
bordos laterais do estemito genital apêndices uniarticulados, os chamados “styli
genitales” e êstes são igualmente visíveis, estando localizados por cima das “lami-
nae sub- e adanales”.
Os órgãos sexuais do grupo: S. viridicornts Newp.
Estudamos neste grupo a espécie viridicornis e as duas subespécies viridi-
cornis e viridicornis nigra, sendo de notar que em nenhuma das duas espécies
encontramos diferenças morfológicas nos órgãos sexuais externos, tanto nos
machos como nas fêmeas, que permitissem uma distinção nitida das subespécies.
SciELO
0 11 12 13 14
8
WoLFavNc BCciierl — Contrib. ao estudo dos orgâos sexuais externos
das espécies de Scolopendra -15
Para o estudo comparado dos órgãos sexuais das fêmeas da espécie S. z-iri-
dicomis Xewp. servnram-nos treze exemplares vivos e muitos outros, conservados
em álcool. A região genital e anal destas fêmeas apresenta, quando completa-
mente estendida, maior comprimento do que o 21° estemito. A região anal é.
como já assinalamos, bem desenvolvida e estende-se por trás do segmento genital
(\'idc Foto 2).
O último segmento do tronco ou 21° segmento já foi descrito por outros au-
tores e por nós num outro trabalho, de maneira que nos consideramos dispensados
de repetir aqui mais uma vez a descrição. Queríamos mencionar apenas que éste
segmento, além do seu papel na defesa do animal, executada com as patas robus-
tas e muito armadas, tem também grar.de importância na procriação, princqxilmen-
te as partes co.xopleurais. .As coxopleuras executam um movimento de fóra j)ara
dentro e exercem desta maneira uma pressão externa sõbre a cavidade que contem
os órgãos genitais, determinando a protração dos últimos. As apófises (apêndices
coxopleurais) podem formar uma pinça que contribue, juntamente com as últimas
patas, para segurar os machos no ato da cópula.
Quanto às glândulas coxopleurais pudemos verificar repetidas vêzes cm
animais vivos que a zona anterior do campo poroso está destituida quasi de fun-
ção, enquanto que esta é muito ativa mais atrás, onde c eliminado um excreto
esbranquiçado.
-A primeira membrana intermediária das fêmeas de S. Hrídicomis está em
contacto imediato com o estemito e o tergito do 21* segmento do tronco. No es-
tado normal, portanto, quando os órgãos genitais se encontram recolhidos no inte-
rior do tronco, esta membrana forma, como já dissemos, uma figura oval a incluir
o aparelho gênito-anal, deixando aparecer o último apenas através de uma fenda
central, estreita, que corre do tergito cm direção ao estemito.
Esta membrana c desfeita cm dobras muito elásticas. Quando, pela prcs«âo
sanguínea, os órgãos sexuais são protraídos, ela acompanha a protração c então
rodeia num drculo todo o aparelho genital (\’idc Foto 2). No lado ventral c
dorsal a membrana ê mais curta» enquanto que tias zonas laterais ela se toma
mais longa, formando duas curvas que encobrem extemamente as partes liasais
do estemito genital, das lâminas adanais e do tergito anal.
O segmento genital das fêmeas consta apenas de um estemito dividido no
meio por uma ligeira fossa longitudinal c circundado nos lados por dobras. O
estemito é fracamente quitinizado e não apresenta apêndice nenhum, como aliás
acontece em to<las as fêmeas deste gênero. -A sutura mediana c acompanhada
por dois liordos de quitiiu mais espêssa.
O estemito genital abraça a grande abertu-a genital, rodeada inteiramente por
dobras elásticas que se estendem ou recolhem confomie maior ou menor pressão
sanguínea. No interior desta abertura observamos o "atrium gcnilalc”. de forma
'.I
46 Memórias do lustituto Butantan — Tomo XVI
semi-lunar. Êste “atrium” não acompanha de maneira alguma a forma do órgão
copulador do macho, como seria de esperar, mas é, ao contrário, perfeitamente
adaptado à forma dos espermatóforos do macho, descritos já por nós num outro
trabalho.
Considerando ainda o fato da ausência de qualquer apêndice no estemito
genital nos machos e nas fêmeas desta espécie, somos inclinados a abraçar a opi-
nião de alguns dos antigos autores, segundo os quais não haveria nesta espécie
cópula propriamente dita. Neste caso os machos depositariam os espermatófo-
ros perto das fémeas e estas mesmas os introduziriam no “atrim genitale”. Aliás,
a “lâmina subanalis” (Vide Foto 2, Xo. 2) é muito grande nas fémeas, formando
uma verdadeira tampa móvel, capaz de fechar completamente o “atriiun” e im-
pedir que os espermatóforos caiam para fóra.
A parede interna do “atrium” é revestida de uma camada espêssa de mús-
culos estriados.
Segundo \'^erhoeff as fêmeas dos Scolopendromorpha carecem do segmento
postgenital. Esta afirmação é certa; pode, porém, ser interpretada de modo dife-
rente. Não acreditamos que esteja ausente, mas que secimdariamente foi trans-
formado nas "laminae sub- e adanales”. Estas, de fato, são nas fêmeas muito
maiores do que nos machos como também o segmento anal excede o dos machos
2-3 vézes em comprimento. Êste assunto, porém, será tratado ainda explicita-
mente num outro capitulo dêste trabalho.
O segmento anal das fêmeas é muito grande e consiste da cratera anal, das
lâminas adanais e da lânüna subanal. Xo lado dorsal observamos ainda um ter-
gito, bastante quitinizado, um pouco maior do que o estemito genital. Entre a
lâmina subanal (Vide Foto 2, Xo. 2) e a cratera anal (Xo. 4) e.xiste em cada
lado uma dobra que encobre uma cavidade profunda, cujos lados externos são
formados pelas chamadas lâminas adanais. Estas ocorrem aos pares, sendo a
posterior maior do que a anterior. São móveis e apresentam quitina mais espêssa
nas pontas teraiinais. Xo lado basal são substituídas por dobras elásticas. A
cratera anal estende-se ainda mais para trás e é formada inteiramente por dobras
elásticas. Em seu centro se encontra o anus.
órgãos sexuais do macho de S. xdridicornis Xewp.
(Estudo comparado de 12 machos)
Xesta espécie não é possível distinguir os machos das fêmeas por nenhum
•caraterístico morfológico fóra da esfera estritamente sexual. Tanto os machos
como as fêmeas têm os mesmos pêlos, espinhos e a mesma constituição morfoló-
gica das patas.
Pelos órgãos sexuais, porém, a diferença entre os sexos é muito nítida e
tão segura que não persiste a menor dúvida si o exemplar em questão é macho ou
10
WoLFü,\NG BCcherl — Contrib. ao estudo dos orgãos sexuais externos
das espécies de Scolopendra
fêmea. O caraterístico principal reside, como já indicamos acima, no segmento
postgenital dos machos que inclue um estemito quitinizado e um órgão copula-
dor grande e. alem disso, no segmento anal, muito menor do que nas fémeas.
O primeiro segmento intermediário dos machos apresenta uma membrana melhor
descnvolrída do que nas fêmeas (Vide Fotos 3 e 4 Xo. 2). O lado ventral prin-
cipalmcnte ê mais longo do que nas fêmeas. Esta membrana intermediária é
elástica, apesar de incluir ilhotas de quitina. Pode ser dividida numa área ven-
tral, cm duas áreas laterais e numa área dorsal. .\ ventral apresenta quitina mais
espêssa, formando dois bordos látero-longitudinais, salientes. .\s zonas laterais
são no%amente subdirídidas por um sulco longitudinal curvo e conservam máxi-
ma elasticidade. zona dorsal é bem estreita e encobre o lado basal do ter-
gito anal.
O estemito genital (Vide Fotos 3 e 4, Xo. 3) é mais ou menos do mesme
tamanho que nas fêmeas, diferindo, porém, i)cla forma. Xa linha longitudinal me-
diana observia-se imia fossa larga, profunda, mais nitida priiKipalmentc na área
basal (\ ide Foto 3). esta fossa corresponde uma apófise qúitinizada, interna,
da primeira membrana intermediária, de maneira que, no ato de retração dos
órgãos genitais, esta se prende ao lado externo do estemito. O estemito genital
c curvo no meio, apresentando bordos laterais ligeiramente sinuosos.
Xestes bordos não se observam os chamados "styli genitalcs”, gcralmente
presentes nos machos do gênero Scolopendra.
Xa zona látero-posterior o estemito genital é continuado pela segunda mem-
brana intermediária (Vide Foto 4, Xo. 5)t muito menos qúitinizada do que a pri-
meira membrana e, consequentemente, mais elástica do que esta. Esta mem-
brana encobre os lados basais do estemito postgenital, sejara o segmento genital
do analfe comunica dirctamente com os detalhes basais das lâminas sub- c adanais.
O lado interno desta membmna apresenta musculatura estriada muito espêssa. de
maneira que nos parece que seu papel principal deve ser o de proteger os outros
órgãos, cuja musculatura é mais fraca, contra uma pressão sanguinea denuisiada.
Em estado de retração o segmento postgenital se acha completamentc imerso
nesta membrana. Quando pela afluência do sangue os órgãos forem protraidos,
esta membrana se adapta perfeitamente ao volume do segmento postgenital, fi-
cando porém retraida (comparem-se os Fotos 3 c 4, Xo. 5) c protegendo, como
ja dissemos, as zonas basais do estemito postgenital e o lado dorsal do órgão
copulador contra a excessiva pressão sanguinea. Contra esta mesma pressão a
ntembrana ê protegida de um lado pelo estemito genital e do outro pela “lâmina
subanalis” (invisivel nos fotos), igualmente qúitinizada.
O segmento postgenital (23° segmento do tronco) apresenta cm todos os
machos do gênero Scolopendra luna forma bem caraterística. E’ formado pelo
estemito postgenital propríamente dito c pelo órgão copulador. O estemito
48
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
postgenital é di^-idido por uma fossa mediana longitudinal em duas placas de po-
sição mais ou menos lateral. A forma destas placas é a de um quadrilátero com
os ângulos arredondados (Vide Fotos 3 e 4, No. 6). O estemito apresenta uma
camada quitinizada espessa e abraça as zonas basais ventro-laterais do órgão
copulador.
O órgão copulador é formado por duas peças laterais, de aspecto triangular
e com ponta cur\-a. Xo lado dorsal estas duas peças terminam numa zona menos
quitinizada, estreita perto da ponta, alargando-se progressivamente e desapare-
cendo por baixo da segunda membrana intermediária. O lado ventral do órgão
copulador forma uma linha reta e abre-se numa fenda longa, a começar no ester-
nito postgenital e a terminar na ponta. Esta fenda constitue a abertura genital
masculina (Vide Fotos 3 e 4, Xo. 7). Esta abertura é desfeita numa margem
longitudinal externa e numa interna. A externa é constituida por um bordo
saliente, quitinizado, enquanto que a interna apresenu-se franjada.
O segmento anal dos machos apresenta um tergito normalmente formado e
de quitina espessa, enquanto que as lâminas adanais são muito menores do que
nas fêmeas. A lâmina subanal, muito grande nas fêmeas, é rudimentar nos
machos. A cratera anal é igualmente pouco desenvolvida.
Scolopctidra subspinipes subspinipes Le.\ch (2 fêmeas)
O aparelho genital externo das fêmeas desta subespécie ê completamente
igual ao das fêmeas da espécie subspinipes. Por outro lado sua semelhança
morfológica com o das fêmeas de viridicornis é tão grande que não é possivel
distinguir as fêmeas de ambas as espécies simplesmente pelo estudo topográfico
ou comparado dos órgãos sexuais externos.
Xos machos, porém, (realizamos nossas pesquisas em 5 machos) não sucede
assim. O primeiro segmento intermediário e o segmento anal também são iguais
aos dos machos de idridicomis, como também o estemito do segmento genital.
Xo bordo póstero-lateral do último, porém, obser\-a-se de cada lado uma protu-
berância curta, 0 apêndice genital, não articulado, rudimentar, mas presente em
todos os machos (Vide Fig. 1, Xo. 4), chamado por alguns autores “ Stylus geni-
talis”. Ultrapassa apenas um pouco os bordos do estemito genital e, de\*ido ao
mesmo colorido dele e do ambiente, passa facilmente despercebido. Isto parece
ter sucedido a Verhoeff, pois não menciona êstes apêndices genitais ao descrever
em Bronn’s, página 528, os órgãos sexuais de subspinipes.
Diferenças notáveis entre os machos de subspinipes, e zdridicornis existem
também no segmento postgenital. O órgão copulador de subspinipes subspini-
pes é mais estreito e mais longo do que em viridicornis. O lado dorsal deste
12
SciELO
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GANc BLciieri. Conirib. ao estudo dos orgãos sexuais externos
espécies de Scolopendra 49
ÓTBão é nesta subespécie formado por uma linha reta do começo ao fim. enquanto
que em vnridicomis esU linha é curs-a. A dobra dorsal do órgão copulador é
ainda mais eJásíita do que cm viridicomis.
estemito postgenit^ da subespécie é muito mais curto no lado vcntral
m imo do que ot viridicomis e seus bordos posteriores apresentam na linha
m lana uma pro unda entrância, ausente em viridicomis. A fossa mediana é
muito mais raca e a forma típica de um quadrilátero em cada lado não existe
aqui (compare os Fotos com a Fig. 1 , No. 6 ).
Scolopendra morstíans L. (4 machos e 3 fêmeas)
I espéaes e subespécies até agora estudadas não era possí-
ugu.r os sexos fior caraterístico morfológico algum fóra da esfera estrita-
' 'A^ observamos em .J. morsiíans uma diferença morfológica muito
mtida que permite facilmente distinguir os machos das fêmeas.
caraterístico sexual secundário reside nas últimas patas, no lado dorsal,
prinapalmente na tíbia (compare as últimas patas do macho e da fêmea na
2 ).
O lado dorsal do prefêmur, fémur e da tibia dos machos é chato e um pouco
convexo, sendo os bordos externos e posterior muito elevados e salientes. O
. ° I»sterior do prefêmur e fêmur é interrompido no meio. Na tíbia os
N ^ posterior formam uma saliência contínua,
acha a^ ao contrário, 0 lado dorsal destes artículos é normal, i. é, não
ind' d^' na tíbia. Bordos laterais elevados apicnas são um pouco
ca os no lado posterior do prefêmur e na zona anterior do fémur. Na tibia
«tao inteiramente ausentes.
indiv^*^ diferenças existem sempre e foram por nós observadas em todos os
ivi uos da citada espéae, de maneira que podem ser considerados como indí-
cios serros para distinguir os sexos.
f^fei^ças ainda mais nítidas e de muito maior importância residem nos
proprios orgãos sexuais externos. Êstes apresentam, principalmcnte nos machos,
ffpica. que é fáal distingui-los não somente como tais, mas dife-
os ainda de todo e qualquer macho de outras espécies do género Scolo-
pendra.
O elemento principal, que permite esta distinção reside no estemito genital,
anna o de dois apêndices longos, uniarticulados (Vide Foto 5, No. 4), mais
ongos muitas vezes do que o próprio estemito.
Êstes apêndices são visíveis também, quando os segmentos genitais se encon-
tram completamente retraídos dentro do 21° segmento. Neste caso aparecem
13
50
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
entre a fenda formada pela primeira membrana intermediária e recobrem pelo
lado externo a “lâmina subanalis” e as duas “laminae adanales’". Nesta dr-
cunstânda encontram-se em posição paralela.
Êstes “styli genitales” são tão nitidos que parece quasi impossível que pos-
sam ter passado despercebidos pelos espedalistas Kraepelin e Attems e que
o último escrevera em seu trabalho sistemático sôbre os Quilópodos que não se
deve dar importânda alguma aos órgãos genitais externos na sistemática destes
artrópodos. Também Verhoeff não mendona êstes órgãos em seus trabalhos.
Nos machos de N. inorsitans a primeira membrana intermediária (Vide Foto
5. No. 2) é menos desenvolvida do que em ziridicornis e subspinipes. Apresenta
porém sempre uma forma muito característica (comparem-se os Fotos 3 e 5).
Na linha ventral mediana da aparece muito pouco abaixo do 21° estemito, en-
quanto que nas zonas ventro-laterais ela forma um ângulo de cada lado e dobra
para trás, abraçando dorsalmente o tergito anal. O tamanho diminuto desta
membrana na zona ventral mediana e os dois ângulos internos formam um cara-
terístico espedfico para os machos da espéae inorsitatts.
O esternito genital é relativamente bem desenvolvido e apresenta três novos
caraterísticos. O primeiro consiste num sulco mediano, nitido e reto que per-
corre e estemito do bordo anterior ao posterior, dividindo-o em duas metades.
Estas duas áreas apresentam uma zona central elevada, enquanto que lateral-
mente são deprimidas.
O segundo caraterístico é formado pelo bordo posterior reto do estemito
genital, principalmente na zona ventral. Êste bordo sempre é curvo em viridi-
cornis e em subspinipes, enquanto que nesta espécie forma no meio um ângulo
de 90 graus com o sulco mediano (Vide Fotos 3# 4 e 5).
O terceiro caraterístico é o mais importante e reside, como já dissemos, nos
dois apêndices genitais. Originam-se numa pequena cavidade, de cada lado, do
bordo posterior do estemito genital e apresentam fomia de cone, sendo um pouco
cursos de dentro para fóra. Estão armados, como também o estemito genital,
postgenital e o órgão copulador, de poucos pêlos sensoriais, muito pequenos.
Os dois apêndices atingem ou ultrapassam o comprimento do próprio estemito
genital. Apresentam uma leve camada quitinosa. sendo, porém, bastante móveis.
O estemito postgenital é muito mais curto do que o genital. E’ mais curto
também do que o postgenital de i’irídicornis e não apresenta na linha mediana
uma reentrância tão profunda como na última espécie. Uma segunda diferença
reside no fato de que o estemito postgenital de tnorsitans obedece mais a uma
posição ventral, formando assim um anel ventral semicircular, enquanto que em
tnridicornis êste esternito é dividido em duas placas laterais.
O órgão copulador de morsitans apresenta igualniente uma. forma típica.
No lado dorsal observa-se uma zona pouco, quitinizada muito larga e elástica,
protegida contra a pressão sanguínea excessi\'a pela segunda membrana inter-
14
WoLFGAXG BCxherl — Contrib. ao estudo dos orgãos sexuais externos
das espécies de Scolopendra 51
mediária. As linhas dorso-laterais são sinuosas. A parte ventral do órgão
copulador é mais larga do que em ziridiconiis e apresenta em cada lado. além da
dobra interna, franjada, que forma a abertura genital masculina, dois bordos de
quitina salientes (Vide Foto 5, Xo. 7). A abertura genital estende-se da ponta
do órgão copulador até a sua base, sendo porém estreita na frente e alargando-se
atrás. O órgão copulador não é arredondado como em z^ridiconiis, nem tão
pouco apresenta a forma de cunha como em subspinipes, mas é sinuoso no lado-
dorsal, enquanto que sua parte ventral se estende mais p>ara trás.
O segmento anal é pequeno, apresentando um tergito pouco desenvolvido.
As lâminas subanal e adanais são quasi rudimentares.
Os órgãos sexuais externos das fémeas distinguem-se dos dos machos
pelo maior desenvolvimento do estemito genital, f)ela ausência dos ap>éndices ge-
nitais, do segmento postgenital e p>elo maior desenvolvimento do segmento anal.
O tergito anal e a “lâmina subanalis” atingem seu pleno desenvolvimento. O
segmento anal é muito mais longo do que o genital. A abertura genital apre-
senta forma semilunar.
Scolopendra angulata. n. subsp. (3 machos e 6 fémeas)
In felizmente obtivemos apenas duas fêmeas \ivas desta sube.^pécic, enquan-
to que as outras fémeas e todos os machos desta subespécie e também da espécie
X. angulata Xewp. vieram em nossas mãos ap>enas após longa conservação cm
meio liquido. Os órgãos sexuais externos encontram-se. portanto, retraídos e
extremamente rígidos e quebradiços, de maneira que não nos foi possível pre-
pará-los convenientemente.
Quanto aos órgãos sexuais externos das fóneas da subespécie, observamos
inteira concordância com os das fémeas de tdridicornis. sendo apenas as medidas
um tanto diversas.
MEDID.^S DOS ÓRGÃOS SEXUAIS DAS ESPÉCIES XEOTRÔPICAS:
Comprimento
S. viridicontis
(macho)
S. subspinifes
(macho)
S. morsilans
(macho)
S. OHffH/ata angulata
(fêmea)
Total do animal . . .
118-168mm
94-139mm
67-98mm
115-139mm
Total do» sejçm. genitais ..
6,5-7mm
33-1 mm
3.5mm
6,5mm
1-* »egm. intermediário ..
1,5 mm
0.5 mm
03mm
1 mm
Estemito genital . .
2,5 mm
2 mm
13mm
2 mm
•Apêndice genital ...
0.1 mm
. 1 mm
—
Estemito postgenital
1 mm
03 mm
03mm
—
órgão copulador . .
2 mm
13 mm
l.lmm
15
52
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
DISCUSSÃO
O estudo comparado dos órgãos sexuais dos Scolopendromorpha e parti-
cularmente do gênero Scolopendra está ainda no inicio. Apesar disso, porém,
já existe uma grande divergência nos têrmos técnicos, surgida entre os autores
_a respeito das diferentes zonas dos segmentos sexuais externos e do segmento
anal. Achamos, portanto, oportuno reunir numa nomenclatura simples e univer-
sal o que até agora encontramos na literatura sóbre o assunto. Desta maneira
evitam-se futuras confusões que costumam dificultar muito o avanço das pes-
quisas.
Até ao ano de 1910 mais ou menos, predominava a opinião de que a zona
genital consistia apenas de um único segmento. Assim Verhoeff, em Bronn’s
Klassen u. Ordn., página 25, divide os últimos segmentos dos Scolopendromor-
pha nos segmentos pregenital, genital e anal. O segmento “pregenital” deste
autor não é mais do que o último sarnento do tronco com as últimas patas.
Deixamos de lado propositalmente o nome que Verhoeff deu a êste segmento
para não causar uma. confusão inútil.
O segmento “genital” abrange toda a zona genital, omitindo o citado autor
qualquer descrição tojxjgráfica. Igualmente deficiente é sua descrição do seg-
mento “anal”. Diz que o tamanho deste segmento sempre é muito menor do
que o do segmento genital. Isto não é exato, pjelo menos no tocante às fêmeas
das esj)écies neotrópicas do gênero Scolopendra, nas quais, como já vimos, o
maior tamanho do segmento anal. constitue justamente um caraterístico do sexo,
permitindo distinguir facilmente os machos das fêmeas. Continua o citado autor,
dizendo que o segmento anal apresenta forma triangular, derído ao fato de ser
formado por 3 piartes: “uma placa dorsal, mais ou menos nitida e duas placas
anais”.
Nas espécies p>or nós estudadas nunca observamos a forma triangular. Pelo
contrário, vimos como a cratera anal forma sempre um circulo, cujos contômos
externos são acompanhados p>elas placas dorsal, ventral e laterais. Querer, pxjr-
tanto, atribuir a forma triangular à existência das placas quitinizadas, é inexato.
A “placa dorsal” de Verhoeff nós chamamos de tergito anal, piorque apre-
senta a forma de um verdadeiro tergito, com quitina mais ou menos esp)ê.ssa e
ainda pxjrque achamos que esta denominação está mais conforme com os tergitos
do tronco.
As “placas anais” de Verhoeff nós chamamos de “laminae adanales” ou lâ-
minas adanais, porque êste nome já indica sua px)s:ção lateral. O próprio Ver-
hoeff. aliás, mais tarde já usara esta denominação.
Neste conjunto o autor omitiu a presença também da “lâmina subanalis”.
16
WoLFGANG BCcheri, — Conlrib. ao estudo dos orgãos sexuais externos
das espécies de Scolopendra 53
1 »
O primeiro que demonstrou que a zona genital dos Scolopcndromorpha con-
sistia em dois sarnentos foi Hej*mons. Êste autor é, porém, muito confuso
na descrição topográfica destes segmentos. Chama, p. ex., de “órgão copula-
dor” (Kopulationsorgan) todo o conjunto dos segmentos genital, postgenital e
da segunda membrana intermediária dos machos de Scolopendra. O órgão co-
pulador propriamente dito ele apelida de “apêndice copulador” (Kopulationsan-
hang). .-Mcm disso fala numa “lâmina accessória” ou “stemitum accessorium”,
localizada atrás da nossa segunda membrana intermediária. Esta lâmina acces-
sória não é mais do que o estemito postgenital.
O citado autor continua dizendo que em todos os machos do gênero Scolo-
pendra se encontram nos bordos do estemito genital “extremidades rudimentares”,
maiores ou menores, uniarticuladas, chamadas “styli genitales”. Xós preferi-
mos o nome de “apêndices genitais”, porque a denominação “styli genitales” dá
lugar a confusões destes apêndices com os dos insetos. .-Mêm disso constatamos
pelo exame comparado das espécies neotrópicas que êstes apêndices não existem
cm todas as espécies do gênero Scolopendra, contrariamente, portanto, ao que
Hej-mons afirmou.
Afim de esclarecermos a nomenclatura das diferentes peças que constituem
os segmentos genital, postgenital e anal apresentamos o seguinte quadro:
Xornendatura definitiva:
Xornendatura antiga:
Seçmento das últimas patas do tronco
Segm. pregcnital (Verhoeff) ;
Primu^ra rmmbrana intermediária
Segm. pregeniul (Heymons, .\ttem$) ;
Segmenio genital
Styli genitales (Hcymoos);
Apêndices genitais . . .
Estiletes geniuis (Verhoeff):
Segnnda membrana intermediária
Pele dilaudora (He>mons) ;
Segm. genital (Heymons, Attems) ;
Segmento Postgenital ...
“ Stemitum accessorium " ou lâmina
accessória ou “stcmac" (Hc>-mons) ;
órgão copulador . . .
.\pèndicc copulador (Hej-moos);
Segmento anal
Telson (Verhoeff. .■Xttems) :
anal ou **letmtna su^oanalis'*
“Lamina supraanalis" (Verhoeff);
lâmina supraanal
Laminat adanales** ou làminaj adanais
Idem (Verhoeff) ;
Lamina snbanalij^* ou lâmina lubanal
Idem (V'erhoeff).
\ crhoeff, que considcra\'a antigamente toda a zona genital e postgenital
como um só segmento, corrigiu seu ponto de %-ista segundo os estudos de Hey-
mons no gênero Scolopendra. Em Bronns: Klassen u. Ordnungcn, à página
■87. Verhoeff afirma que nas fémeas adultas de Scolopendra obscr%-a-sc na linha
*
54 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
mediana longitudinal um sulco nítido do estemito genital, ausente nos machos.
Nós, porém, constatamos que éste sulco está presente igualmente em todos os
indivíduos masculinos deste gênero (Vide Foto 5, No. 3).
Como segundo tx>nto de discussão apresentamos a formação embrionária c
definitiva do segmemo anal e postgenital e sua explicação em sentido filoge-
nético.
Verhoeff, fazendo a descrição comparada dos estados larvários dos Qui-
lópodos (Bronn’s Klassen u. Ordn.) diz que “os tergitos do segmento genital e
postgenital estão fundidos numa só placa”. Para esta afirmação êle se baseia
nos estudos de Heymons, realizados em embriões de Scolopendra cingulata
Latz. Em indivíduos adultos do mesmo gênero nós nunca obser\’amos lun ter-
gito comum aos dois segmentos. Si, portanto, as pesquisas de HejTnons, feitos
apenas em S. cingulata, corresponderem à verdade, então somos de opinião que
êste tergito comum já deve desaparecer nas primeiras fases lar^árias em favor
de um maior desenvolvimento da segunda membrana intermediária e da “lamina
subanalis”. Interessante é, porém, o fato que Hej-mons não se refere mais a
êste tergito e não explica a sua redução ou transformação. Figura 2 da pran-
cha XI em Bronn’s apresenta a zona gênito-anal da fase postembrionária do
macho de N. cingulata, porém sem o tergito comum. Nos Litobiomorfos, aliás,
êste tergito comum permanece também nos indivíduos adultos.
nossa opinião de que no género Scolopendra êste tergito comum é trans-
formado durante a evolução na segunda membrana e na lâmina subanal ó corro-
borada pelo fato de que estas últimas são extremamente pequenas^nas primeiras
fases embrionárias, enquamo que nos indivíduos adolescentes e mais ainda nos
adultos apresentam um tamanho bastante grande.
Quanto à evolução do telson, Verhoeff (Bronn’s. página 527-528) fala
"numa grande redução da zona toda” nos Scolopendromorpha em oposição aos
Lithobiotnorpha. Segundo o A. esta redução deve ser explicada em sentido filo-
genético e confirmaria “a natureza secundária da zona genital” dos Escolopen-
dromorfos.
Segundo a nossa opinião, Verhoeff julgou um tanto arbitrariamente e isso
em dois sentidos. Primeiro êle opina que o “telson” dos Escolopendromorfos
tenha passado por uma continua redução durante a evolução embrionária e post-
embrionária. Nos indivíduos adultos e mesmo adolescentes das espécies neo-
trópicas do género Scolopendra não se pode, a nosso ver, absolutamente falar de
uma redução do telson. Pelo contrário, estamos inclinado a pensar que justa-
mente o segmento anal ficou gradativamente maior e melhor dcsenvol\*ido à custa
do segmento postgenital, principalmcnte nas fémeas em que o comprimento do
segmento arai excede o dos segmentos genital e postgenital juntos. .-Mém disso
18
WoLFc.\xc BCcherl — Conlrib. ao estudo dos orgãos sexuais externos
das espécies de Scolopendra 55
o segmento anal tanto nos machos como nas fêmeas apresenta tantas placas como
o tclson dos Litobiomoríos, sendo principalmente o tergito anal e a lâmina subanal
muito bem desenvolvidos. Xos machos o segmento anal é menor do que nas
fémeas, mas apresenta igualmente todas as placas. Não vemos, portanto, o mo-
tivo que tenha forçado Verhoeff a considerar o telson dos Scolopcndromorpha
um sarnento reduzido, pelo menos não no gênero Scolopendra. Quanto aos ou-
tros gêneros desta subordem ainda não existe nenhum estudo topográfico c ainda
menos um estudo comparado sóbre a evolução do segmento anal.
Em s^undo lugar a redução do telson seria o motivo da "natureza evolu-
tiva secundária da zona genital”. Concordamos plenamente com a natureza se-
cundária na evolução dos sarnentos genital e p)ostgenital no género Scolopendra.
Nas fêmeas prinapalmente observamos a ausência completa do estemito post-
genital e dos apêndices do estemito genital. Nos machos existe igualmente uma
redução evolutis^a nestes segmentos. No estemito genital de S. tnorst/ans vemos
apêndices genitais bastante longos ainda, mas sempre apenas uniarticulados, en-
quanto que nos Anamorpha éstes apêndices são articulados nos dois sexos. Em
S. iubspinipes éstes apêndices formam apenas ainda dois botões quasi microscó-
picos e em ziridicornts estão inteiramente ausentes.
Nos Escolop>endrideos machos não existe igualmente um penis no sentido
morfo-comparado, presente em muitos Litobiideos. Além disso, tanto nos ma-
chos como nas fêmeas de Scolopendra desapareceram os dois tergitos dos seg-
mentos genital e postgenital, presente nos Anamorpha sob a forma de um sin-
tergito.
Apesar de tudo isso, porém, não vemos porque a “redução” do tclson sc>a
responsável pela transformação secundária destes segmentos. Pelo contrário,
somos de opinião que os dois segmentos se reduzem na mesma projxjrção em
que o tclson se desenvolve. Esta nossa afimução c compro\-ada pela evolução
«mbrionária e postembrionária dos segmentos genital, postgenital c anal nas
fêmeas de Scolopendra. Pois, s(^ndo as pesquisas de Ilcj-mons, existe no esta-
<lo postembrionário ainda uma formação de duas protuberâncias que correspon-
dem ao segmento postgenital das fêmeas, protuberânoas estas que desaparecem
nas fases cvoluti\’as seguintes na mesma proporção cm que o tclson c a lâmina
subanal se desenvolvem.
Como terceiro ponto nesta discussão queriamos chamar a atenção para a
descrição topográfica do órgão copulador do macho de 5. subspinipes, feita por
Verhoeff cm Bronn’s, página 528. Esta descrição c deficiente cm três pontos.
Primeiro o A. refere-se ao estemito genital, sem contudo mendonar a pre-
sença dos dois minúsculos apêndices dos bordos laterais deste estemito (\'ide
Fig. 1. No. 4).
36
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Em segundo lugar, o autor procede à descrição do órgão copulador, mas
fá-lo de maneira tal que é impossível reconhecê-lo: “O órgão copulador de
5". subspiuipes apresenta a forma de uma cunha de três cantos, dois no lado dor-
sal e um no lado ventral, ao longo da fenda genital. O órgão copulador termina
atrás numa ponta”. Quanto à pele dorsal que liga as duas placas laterais do
órgão copulador, nós observamos que é bem estreita e não forma absolutamente
dois cantos. A linha dorsal do órgão copulador é reta e não curva, como pensa
Verhoeff, e a área terminal é estreita, mas não forma um ângulo agudo (Ver-
hoeff) ; pelo contrário, é arredondada ventralmente.
Em terceiro lugar, Verhoeff incorreu em erro porque, ao descrever os órgãos
sexuais de subspiuipes, apresenta, para a melhor elucidação do assunto, as duas
figuras antigas de Heymons. O autor esquece-se, porém, do fato que ambos os
desenhos nem de 5". subspiuipes são, mas de S. cingulata Latz. (conferir as duas
Figs. No. 64 da prancha XXIX e a Fig. Xo. 2 da prancha XI em Bronn’s).
Admira, pois, como \*erhoeff pode criticar a descrição de Heymons, dizendo
que êle não encontrou a mesma forma do órgão copulador como Hej-mons, isso
princifalmente no tocante à Fig. da prancha XI, onde nem se trata de um indi-
viduo adulto, mas apenas de uma fase lar\’ária, cuja evolução ainda não está
completa.
É-nos incompreensível como Verhoeff pode descrever os órgãos sexuais dos
machos de uma espécie e ainda entrar em critica, apresentando para a elucidação
do assunto o desenho de outra.
Quanto à divergência sôbre a forma externa do órgão copulador entre \'er-
hoeff e a nossa descrição, queríamos chamar a atenção para o fato de. como o
próprio \'^erhoeff concede, ser o órgão copulador sumamente elástico, mudando
de forma segundo a maior ou menor pressão sanguínea. Diante deste fato já
não tem grande \-alor qualquer descrição que insista por demais nas formas
externas unicamente, sem mencionar o comprimento, etc., porque, como é sabido,
em quasi todo o indiriduo há ligeiras diferenças no estado de pressão sanguínea
e. ponanto. a forma do órgão copulador varia ligeiramente, sendo esta forma
fixada em cada caso nos líquidos consci^-adores.
Por êsse mesmo motivo consideramos de grande \"antagem o fato de termos
podido, no presente trabalho, utilizar-nos de animais na maior parte rivos, con-
seguindo fixar seus órgãos sexuais naquele estado de ereção que corresponde
exatamente ao natural.
CONCLUSÃO
Pelo presente estudo topográfico e comparado dos órgãos sexuais externos
das espécies e subesjjécies mais frequentes no Brasil do gênero Scolopcndra po-
demos fazer a.s seguintes conclusões:
20
WoLFGANC BCcuerl — Contrib. ao estudo dos orgãos sexuais externos
das espécies de Scolopendra 57
Os órgãos sexuais externos dos machos formam um precioso e se-
guro caraterístico morfo-especifico a ser considerado em primeiro
lugar na sistemática deste gênero.
Êstes caraterísticos estão localizados:
a) no comprimento e na forma dos bordos do estemito genital;
b) na ausência ou presença, no comprimento e forma dos apêndi-
ces do estemito genital ;
c) na forma externa e na posição das placas que constituem o es-
icmito postgenital;
d) no comprimento e na forma externa do órgão copulador.
Os indivíduos masculinos das subespécies não podem ser diferencia-
dos das esp)êaes às quais pertencem, unicamente pelos órgãos sexuais
externos.
Os órgãos sexuais externos das fêmeas de todas as espédes por nós
comparadas apresentam tão grande uniformidade em sua constmeão
morfológica que não podem ser considerados como esped ficamente
caraterísticos. Estas formas devem, portanto, ser classificadas se-
gundo os métodos morfológicos usuais.
Os machos e fêmeas da mesma espéde podem ser distinguidos fadl-
mente como segue:
M.\CHOS:
FÊME.AS:
Estemito genital sempre com apêndices,
exceçSo feita em .S. viridicomis.
Sempre sem apêndices.
Hstcmíto postgenital sempre presente.
Nunca presente.
ôrgJo copulador grande.
.Ausente.
Segmento anal menor do que os segmentos
genitais e invisível do lado ventral, com
lâmina subanal pequena e duas lâminas
anadais menores ainda.
Sempre maior do que os dois segmentos
geniuis juntos e visível do lado ventral,
com lâmina subanal grande e com as duas
lâminas adanais maiores do que nos machos.
Tergito anal bem desenvolvida
Nfaior ainda do que nos machos.
.Abertura genital atrás.
No estemito genital, portanto, muito mais
em frente do que nos machos.
1.0 —
->o
. 1.0 —
4 .* —
5.0 —
21
58
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
6° — ' Não existem outros caraterísticos morfológicos externos que permi-
tissem distinguir os machos das fêmeas, com exceção de S". morsitans
fiado dorsal das últimas patas).
7.® — Mesmo quando os órgãos sexuais se encontram retraídos no interior
da cavidade do 21° segmento do tronco podem ser distinguidos os
machos das fêmeas pelas partes dos órgãos que estão à vista, sendo
necessário, porém, um certo treino.
8° — Nas três espécies mais frequentes no Brasil, os órgãos se.xuais dos
machos permitem estabelecer uma chave sistemática muito simples:
a) Estemito genital dos machos sem apêndice lateral: S. znridi-
cornis ;
b) Estemito genital dos machos com um apêndice quasi micros-
cópico : S. subspinipes ;
c) Estemito genital dos machos com um apêndice longo em cada
lado, facilmente rísível, fracamente páloso, atingindo ou exce-
dendo seu comprimento o do próprio estemito: S. morsitans.
BIBLIOGRAFIA
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WoLFCAXG BCxherl — Contributçõo ao estudo dos órgãos
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Lixnê mais frequentes ih> Brasil
Mrm. lost. Butantan
Vol. XVI — 194
. •= s
'/SCÍELO3 ;l1 12 13 14 15 16
cm 1
7SCÍELO3 12 13 14 15 16
^^OLFa\^•r■ BCcherl — Contribuição ao estudo dos órí/ãos
sexuais externos das espécies do gênero Scolopcndra
Linné mais frequentes no Brasil
Mcm. Inst. Butantan
Vol. XVI — 1942
Foto 5
Scoícfrmdrs macho, apresentando a tona cr-
nttal rt«la pelo la4o vmtral. I. 21.* ertemiio; 2. primeira
toetnbrana intennetjtiria: i. e»temito fenital; 4. apétwlice »e*
nital; h. estemito f-vrtfmilal; 7. ôfitâo cspuU«Jor.
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2 3 4 5 6 'ySeiELO^ ;l1 12 13 14 15 16
WfiLKGANG BCcherl — Contribuiçãu ao estudo dos úrijtios vr-, i..i, Buu>un
sexuais externos das espécies do gênero Scoloponilra ^ ^ ^
I.iNNÉ mais frequentes no Hrasil '*'• ~
Fic. 1
Sc€4<>rr»Jta ntsciuifrs nhttmtrtt I.tACW. oucIkx I. 21.* rMrtn.lu;
2. rambraaa InttrnKdtiria; 3 íttrrniio fmiiJ; 4. ap«n-
J»cc do c^trmito rrnilal; 5. *cgonda inlciuw Jjiria; 6.
rrttrmio poticmiul; ?. õr»ic eopoUdor; 1. rr*iio »n»J.
2Í>
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13
15 16
WoLFa\Xü BCcherl — Contribuição ao estudo dos órgãos
sexuais externos das espécies do género Scolopcndra
I-iNNÉ mais frequentes no Brasil
Mcin. In»t, Butantan
Voí. XVI — 1943
Fic. .»
I.ixxt, nucbo c fcmr*. Amlw»» .»* ivrms* *c dt*tin-
nrm facilsoRilc jiri» (crma^ mor(olá(KX do» (.rcíctnor. írmur r nt"»
**í'**x* no nucKo apmmioni bordo* latrrai* matlo *olifOtr*.
1“»nlo s» n» fíriJO» é«lc» borrk* »io qu»*i ior»i*ict>«'. «prT*niUndo-»r o»
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31
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2 3 4 5 6 'ySciELO^ ;l1 12 13 14 15 16
593.^2
REVISÃO DAS CHAVES SISTEMÁTICAS DE CHAMBERLIN
E ATTEMS SÔBRE AS ESPÉCIES NEOTRÓPICAS DO GÊNERO
OTOSTIGMUS POR., 1876
(Subfam. Otosligminae Krpin., 1903)
POR
WOLFGAXG BÜCHERL
R. Chamberlin foi o primeiro a tentar reunir as espécies brasileiras do gênero
OtosUgmus numa chave sistemática. Apesar desta tarefa fácil, pois a chave
abrangia apenas 9 espécies, das quais 5 éle descrevia então como novas, o autor
não conseguiu uma diferenciação morfológica segura entre as poucas espécies, de
maneira que sua chave pouco valor tem hoje para a sistemática.
Demrns não fez distinção entre os suligéneros Otostigmus e Parotosligmus
stigma PococK, 1895), referindo todas as espécies brasileiras como per-
encentes simplesmente ao género Otostigmus.
crito **^**^*^ também não se preocupou com os sexos dos indivíduos por ele des-
fistiM 'spccies e não se deu conta absolutamente do chanudo "Jimor-
. . . entre machos e fémeas, tão frequente justamente nas espécies neo-
tropicas deste género.
cjyy de tudo isso, os caracteres morfológicos, sôbre os quais repousa sua
basais j**^*”^**^’ *^®mo sejam : ausência de pêlos num certo número de artículos
. . * antenas , presença ou ausência de um sulco mediano no último estemito ;
. . presença de um espinho tarsal no 20.° par de patas ; isolamento ou
junçao s dentes laterais com os centrais na placa dentária do coxosternum for-
®rido igual ou diverso do segmento cefálico c dos segmentos do tronco;
cpiscutais nos tergitos, etc..., são variáveis demais para poderem ser to-
ma s como base, sendo que, de fato. no máximo, lhes cabe um valor sistemático
secundário.
O citado autor certamente teve apenas poucos exemplares ou um só (como
con essa ao descrever as seguintes espédes novas : O. rrx. O. casus, O. suitus, O.
1
70
Memórias do Instituto Butantan — Tomo X^^
iidius e O amazonae, espécies noras estas das quais o autor desconhece o sexo),
de maneira que seus caracteres morfológicos foram descritos num sentido muita
limitado, isto é, válidos apenas em relação a um exemplar.
T; vemos a oportunidade de examinar séries de indivíduos, machos e fêmeas,
das espécies de Chamberlin, chegando à conclusão de que quasi nenhum daqueles
caracteres morfológicos é aproveitável para determinar com segurança uma es-
péae, principalmente quando se trata de indivíduos fémeas.
De fato, O. rex, espéde nora esta, da qual o próprio autor diz “que é dificil-
mente distinguível da fémea de scabrieaudus” , foi por nós reconhecida como a
própria fêmea da aludida espécie.
O. suitus foi descrito insufidentemente, de maneira que será praticamente
impossível reencontrá-lo no futuro. O mesmo se dá também com O. casus.
Em 1930. Attems elaborou uma chave sistemática completa sóbre o gênero
Otosligmus, chave esta que abrange 2 novos subgêneros. 70 espécies (5 subdivi-
didas em 11 subespécies), 2 rariedades e 2 espédes incertas.
O autor distingue os dois subgêneros, Otosligmus e Parolostigmus, da se-
guinte maneira:
Prefêmur das últimas patas com espinhos. Coxopleuras terminando
sempre numa ponta prorida de espinhos —
subg. Otostigmus.
Prefêmur das últimas patas sem espinhos ; no macho às vezes com um
apêndice perto da ponta da base. Coxopleuras sem ponta ou com ponta
pouco saliente; geralmente sem espinhos —
subg. Parolostigmus.
Esta divisão, apesar de ter sido feita com copioso material à mão, é imprecisa,
porquanto existem Parotostigmíneos, cujas coxopleuras terminam numa ponta
longa, mais comprida mesmo do que na maioria das espécies do subgênero Otos-
tigmus (vide O. cavalcaniii) e ainda, porque existem espédes de Parotostigmíneos
que apresentam espinhos na zona terminal das coxopleuras do último segmento
do tronco.
Além disso, a caraterização do subgênero Parolostigmus pelos apêndices nos
prefêmures do último par de patas tem o inconveniente de se referir apenas aos
machos de muito poucas espédes, sendo que a imensa maioria dos machos das
outras espédes do mesmo subgênero carecem desta apófise. Neste conjunto ca-
be-nos assinalar que o autor omitiu a dtação do apêndice no último tergito e da
apófise na tibia do último par de patas, também verificados em machos de algu-
9
WoLFCANG BCcuebl — Revisão das chaves sistemáticas de Chamberlin
e Attems yj
mas espécies do dito subgcnero e aos qtiais, no mínimo, cabe o mesmo valor siste-
mático que aos apêndices dos prefêmures do último par de patas.
Aliás, existem muitas espédes do subgênero Paroíosttgtnus. cujos machos
não se distinguem absolutamente das fêmeas, (carecem de qualquer apófise ou
apêndice no último segmento do tronco), de maneira que julgamos pouco eficiente
o sistema de Attems, caraterizando o subgênero pela simples presenqa de apên-
dices em algtins machos de algumas espécies.
Vejamos alguns detalhes da chave sistemática de Attems sobre o subgênero
Parotostigmus:
“Xo. 52 (página 136, op. dt.) — 4 artículos basais das antenas
sem pêlos. Elstemitos com sulcos longitudinais completos —
0. (P.) limbatus".
Quanto a esta caraterizaqão deve ser dito que o número de artículos basais
de.spiwidos de pêlos só em muito poucos indivíduos ê de 4, na maioria é de 2)4
— 3 e raras vêzes de 3J<J. Os sulcos longitudinais “completos” são de fato en-
curtados nos esternitos dos últimos segmentos do tronco, de maneira que no 19.*^
eslemito êles apenas se estendem ainda até a metade da placa, estando já total-
mente ausentes nos esternitos 20 e 21.
(Xo tocante á nova caraterizaqão vide: “Coleqão quilopódica do Instituto
Butantan", séries de 7 exemplares adultos, machos e fêmeas).
“Xo. 54 (na mesma página) — Somente o 1.® ou o 1.® e o 2.® par
de patas com 2 esporões tarsais. Coxa do 20.® par de patas do macho
apófise cur\-a. 20.® par de patas com 1 esporão tarsal — O. sca-
bricauda”.
Quanto a esta espécie cumpre salientar que ha um espinho também no fêmur
e um na tibia, no lado interno apical, do 1.® par de patas, sempre presentes cm
qualquer indivíduo adulto de ambos os sexos. Alêm disso admira Attems ter
classificado os machos desta espécie pela ausência de uma apófise cur\-a na coxa
do penúltimo par de patas, omitindo de mencionar o verdadeiro caraterístico
destes machos: os 2 apêndices internos da coxa no 21.® par de patas. O colorido
não é sempre verde de oliva, mas marrom ou cór de hranja escuro, podendo ser
uniforme em todo o tergum, inclusive os segmentos cefálicos, ou podendo os úl-
timos apresenUr um colorido castanlio escuro e os tergitos um verde escuro. O
2.® par de patas pode estar com ou sem um esporão tarsal.
(Coleqão quilopódica do Instituto Butantan. 32 exemplares adultos, machos
e fêmeas).
3
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
“Xo. 57 (na mesma página) — Cabeça e primeiro tergito castanho
escuro, os outros tergitos verdes. 20.° par de patas sem esporão tar-
sal — O. (P.) rcx”.
Quanto a esta espécie, já escrevemos o suficiente para estar patente que se
trata apenas da fêmea de O. scabricauda.
“À página 161 — Estemitos sem sulcos — O. caudatus”.
Pela res-isão de 23 e.xemplares na coleção do Instituto Butantan constatamos
que em todos os indivíduos adultos existem dois sulcos medianos nos estemitos,
ainda que curtos e muito leves. Attems não fala em esporão tarsal algum, en-
quanto que de fato existem dois esporões tarsais do l.° ao 6.° ou 7.° par
de patas. Daí até ao 20.® par ha um esporão só. Xo l.° par de patas existem
ainda um esporão no prefêmur, um no fêmur e um na tibia.
“Xo. 64 (página 137) — Antenas com 17 artículos, dos quais
2 '/a a 3 artículos basais sem pêlos. Xo. 68 — Os primeiros 4 a 5
pares de patas com dois esporões tarsais. 20.® par de patas sem es-
porão tarsal — O. (P.) libialis”.
Quanto à descrição desta espécie. cal)e nos referir que raramente consta-
tamos apenas 17 artículos antenais, mas geralmente 18 ou então 17 numa antena
e 18 na outra.
Existem igualmente muitos indivíduos desta espécie, tanto machos quanto
fêmeas, que apresentam apenas dois articulos tiasais das antenas sem pêlos. Em
nenhum indivíduo da citada espécie observamos dois esporões tarsais nos primei-
ros 4-5 pares de patas, mas somente no primeiro e, raríssimas vêzes ainda, no
segundo par de patas. Existe, porém, um esporão no íêmur e um na tíbia do
primeiro par. 20.® par de patas geralmente com um esporão no tarso.
(Confronto entre 23 exemplares adultos, machos e fêmeas, da coleção quilo-
pódica do Instituto Butantan).
Quanto aos machos da presente espécie deve ser salientada ainda a presença
de um espinho no lado interno da tibia do último par de patas, presente já em
animais adolescentes e sempre ausente em fêmeas de qualquer idade.
A chave sistemática de Attems abrange 70 espécies, mas os poucos exemplos
citados já serão suficientes para demonstrar as graves deficiências da mesma.
Além de frequentes contradições e de obser\-ações menos exatas, notamos nela,
como sendo um dos maiores defeitos, o fato de ser quasi impossível determinar a
espécie a que pertencem as fêmeas. Xão menos difícil é a determinação daqueles
machos que não apresentam um carateristico sexual secundário.
4
WoLFGAXG BCcherl — Revisão das chaves sistemáticas de Chamberlin
e Attems 73
Attems, no intuito de reunir todos os Otostigmineos, até então conhecidos no
mundo inteiro, numa só diave sistemática, deu demasiada importância a caracteres
morfol^icos que êle julgou fixos (sem que tenha visto os tipos ou paratipos de
Chamberlin), mas que, de fato, eram sujeitos a largas \-aria«;ões. Resultou dai
um sistema bastante artificial e forçado.
Uma prova cabal disso constitue o fato de o autor não ter conseguido em sua
chave fazer jus à distribuição gec^ráfica das espéaes do seu subgénero Parotos-
tújmus. Assim, O. produclus, da África ocidental, vem a cair ao lado de O. bür-
gcri, da Colômbia; este ao lado de O. backeri, das Filipinas; o último se aparen-
taria com O. gytnnopus, da -■África nordestina. O. limbatus, da América do Sul,
formaria com O. incrmtpcs, de Camerum. A espécie sulaniericana, O. incrmis,
estaria entre O. fullcbomi e o grupo de O. troglodytcs, espéaes africanas.
Isto não deixa de ter graves inconvenientes, porque justamente o habitat
fornece valiosos esclarecimentos para o parentesco natural, a ser considerado em
toda a chave sistemática, principalmente quando se trata de animais exclusivamente
terrestres, de locomoção lenta e de dependência relatiramcnte grande do solo.
A chave sistemática de Attems é fundamentada principalmente nos seguintes
caraaeres morfológicos;
1 .• — Número de artículos antenais e número de artículos basais das an-
tenas desprovidos de pelos;
2. ® — Número e posição dos dentes do coxostemum forcipular,
3. ® — Tergito em que principiam os sulcos episcutais e as carenas laterais ,
4. ® — Existência ou ausência de espinho tarsal no 20.® par de patas.
Ora, f.ela ubela comparativa da morfologia externa das espéaes neotrópicas
vê-se claramente que êstes caraterísticos nada ou muito pouco ajudam para a sis-
tematização por serem quasi iguais em todas as espécies.
São êstes os motivos, que induziram Verhoeff a criar três subgêneros novos
(Zool. Jahrb. Syst. 70 (1/2). 1937), aos quais nós ajuntámos um quarto (1939).
Apesar, porém, dos esforços em dar maior valor às relações geográficas e
filogcnéticas (no dizer de Verhoeff) e cm diminuir oposições que havia nos dois
subgêneros de Attems. também esta nova subdivisão cm 5 (mais tarde em 6)
subgêneros não pôde satisfazer picnamente:
1.* — porque os novos sul^êneros repousa\-am apenas sóbre a auscna'a ou
presença de caracteres sexuais secundários nos machos (caracteres ês-
tes, aliás, nem estudados por Verhoeff, como êle próprio confessa),
persistindo, portanto, as mesmas dificuldades antigas cm determinar
ã
74 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
a espécie das fêmeas e daqueles machos que carecem de um caráter
sexual secundário (vide tabela comparada) ;
2. ® — porque houve quem interpretasse como caraterísticos suficientes para
a criação de uma nova espécie o que, de fato, era apenas uma dife-
rença sexual secundária de machos e fêmeas da mesma espécie (vide
a fémea de O. demelloi Verh.) ;
3. ® — porque esta nora subdirisão não obrigou o sistemáta a se certificar,
si o indiriduo que estava por ser determinado, era macho ou fémea.
Sem a determinação prévia do sexo, seja pelos próprios órgãos se-
xuais externos ou então pela verificação de testiculos ou de orário,
praticando um corte e suspendendo-se alguns tergitos nos casos em
que não ha caracteres sexuais secundários, não é possível, na maioria
dos casos, determinar nem o subgênero e ainda muito menos a espécie
exata.
-Mém de tudo isso, Verhoeff não entrou em minúdas morfológicas, perma-
necendo arbitrário, porisso mesmo, seu novo agrupamento das espécies nos 5 novos
subgêneros (os 2 antigos de Attems e mais 3 novos). Êste fato é comprovado
pelas espéaes 0. tibialis, brunneus e goeldii, cujos machos apresentam todos um
caráter sexual secundário nitido e que, apesar disso, continuam a pertencer ao
subgênero Parolosligmus.
Pela nossa tabela comparada fica comprovado que existem outros caraterís-
ticos morfológicos constantes, além das diferenças sexuais em muitos machos,
segundo os quais se podem muito bem subdividir as espécies ncotrópicas do
antigo subgênero de Attems (Parotostigmus) em subgêneros novos.
Êstes carateristicos foram aproveitados para a seguinte nova chave dos sub-
gêneros (deixamos de lado o subgênero Ecuadopleurus com 0. (E.) insignis e
o grupo O. (£.) silvestrii, do Ecuador) :
Prefêmur do último par de patas com espinhos -
subg. Otostigmus (Velho Mundo)
Prefêmur do último par de patas sempre sem espinhos- 2
Todos os tergitos, inclusive os últimos, lisos, sem rugas laterais, sem quilhas
e sem tubérculos- 3
Pelo menos os últimos 3-6 tergitos com 1-3 quilhas longitudinais; áreas la-
terais destes mesmos tergitos levemente enrugadas; geralmente com estrias
longitudinais finamente tuberculadas e com pêlos muito pequenos. Machos
sem apêndice no lado interno do prefêmur do último par de patas ou com
apêndice curto ou tão longo quanto o próprio prefêmur -
subg. Androtosligmus (.América do Sul).
2
I
TABELA SISTEMÁTICA DOS NOVOS SüBGÊNEROS DE ZONA NEOTRÓPICA
0. cavalcantü
0. caudatus
O. scabricauda
O. SC. demetloi
O. fococki
O, goeldii
O. clofiler
O. bninneus
0. pradoi
O. tibiaUs
(
0. bürgeri
0. longistigma
0. longittí
O. limbatus
0. sulcatus
0. inermis
0. kretsii
0. amasonae j
0. lidius
0. castis
0. dolosus
0. muticus
Comprimento total
36—45 mm
40— 50 mm
60— 75 mm
60—75 mm
60—70 mm
24 mm
50 —55 mm
32 mm
40 — 45 mm
80 mm
37— 42 mm
50—55 mm
48—51 mm
35 mm
36— 42 mm
33 mm
32 mm
14 mm
57 mm
35 mm
50 mm
verde azul
verde- verm.
verde-marrom
azul-roxo-rosa
verde-marrom
verde-oliva
verde-oliva
marrom
marrom verde
verde, mar.
—
amar. verm.
verde, mar.
verde, mar.
amar. verm.
verde. am.
verde esc.
verde, mar.
cast. verm.
verde, marrom
verde escuro
castanho
Número de artículos antenais
18
18(16-19)
17-18
17-18
17
—
20
20
16-17
17-18
21
17
17
17
17
17
17-18
17
17
17
17
17.
Artículos basais sem pêlos
2J6
22/3
2-2 56
2-2 56
254
254
254
2
254
2-3
3-4
2-2 54
2 2/3
2 14-4
254
21/2-3
2-4
2
2
2
2^4
2 54
Dentes forcipulares
4+4-4+S
4+4-44-5-5
4+4-4+5
•4 + -1-4+S
4+4
4+4
4+4
4+4
4+4
4-+4— 4+5
4+4
4+4
4+4
3+4
3+3-4+4
44-4— 54-5
54-5
4+4
4 + 4
4+4
4+4
4+4
Tergitos com sulcos episcutais
15-16
13-14
13-15
13-15
16
17-18
16
17
16
13-17
16
14-16
15
18
15
15-17
13-15
17
16-17
16
16
17
Carenas laterais
no 21°
21°
21.®
21.®
em 16
21.»
21.®
no 21.®
21.®
21.®
em 2—16
21.®
21.»
21.0
em 13-16
11-14
21.»
21.®
21.»
21.»
21.®
cm 12
Sulcos nos esternitos
ausentes
2 leves, curt.
ausentes
ausentes
ausentes
amentes
ausentes
ausentes
2 curtos
2 curtos
ausentes
2 curtos
ausentes
2 ccmpl.
com 2+1 med.
2 curtos
2 curtos
2 curtos
2 curtos
2 curtos
2 curtos
2 longos
Depressões nos esternitos
sem
sem
3+3
3+3
3+3
sem
sem
sem
1 médio
2+2 ‘
sem
I
1
2
sem
3 les".
sem
2
2
sem
sem
sem
2 esporões tarsais
l.°— 16° par
l.*-7.°
l.®“2.®
1.®— 2.®
l.°
i.°
l.*-4.»
l.»-3.»
l.°— 3.»
1
1.»— 17.»
1.®— 2.®
l.»-3.»
i.°
l.»-18.*
l.»-4.»(18)
l.»-16.»
l.»-6.»
l.*-18.»
1.»
1.*— 2.®
l.°-6.°
1 esporão tarsal
17.°-19.°
8.°- 19°
2— 3.°- 19°
2-3.°-19.°
2.®— 19.®
2.»- 19.»
2-5.»-19.»
4.®- 19.»
4.»— 19.*
2.®— 19r
18.*- 19.»
3.»- 19.»
4.»- 19.»
0
19.»
5.»- 19.»
17.»- 19.»
7.»- 19.»
19.»
2.»- 19.»
3.°- 19.»
7.°- 19.»
Esporão tarsal no 20° par
0-1
0-1
0-1
0-1
0-1
0-1
0-1
1
0-1
0 I
1
0-1
1
0
1
1
0-1
0
1
0-1
1
0
Esporão prefemural
0
0-1
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
—
—
—
—
Esporão feniural
no l.° par
1°
1°
1°
l.°
—
1.»
—
0
1.»
—
1.»
1.»
1.*
—
—
1.»
1.»
—
—
—
Esporão tibial
l.°-4.°
1°
1°
1°
l.°
—
1.»
—
0
1.»
—
1.»
1.»
1.»
—
—
1 .®— 2.®
I.»
—
—
—
—
Estrutura dos últimos tergitos
lisos
lisos
rugas, quil.
rugas, quil.
rugas, quil.
lisos
lisos
lisos
lisos
lisos
lisos
lisos
rugas. quil.
lisos
rugas. quil.
rugas. quil.
lisos
lisos
lisos
rug. quil.
lisos
lisos
Machos: caracteres sexuais secundários
2
1
1
1
1
1
1
1
1
1
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
Subgeneros
COXOPL.
DACTYLOT.
ANDROTOSTIGMUS
PAROTOSTIGMUS
ANDROTOST.
PAROTOST.
ANDROTOSTIGMUS
PAROTOSTIGMUS
ANDROTO.
PA ROTO
STIGMUS
Habitat
Brasil
Brasil
Brasil
Brasil
Guianas bras.
Pará
Guiana inglesa
Guiana inglesa
Brasil
Brasil
Colômbia
Brasil
S. Paulo
.■\rgentina
Uruguai
Colômbia
Brasil
Amazonas
Amazoitas
Mato Grosso
Paraguai
Perú
Venezuela
Paraguai
N’enezuela
S. Paulo
Argentina
WoLFCAXG BCciierl — Revisão das chaves sistemáticas de Chamberlin
e Attems 77
j Machos com apêndice digitiforme no último tergito; fémeas com bordo
' posterior do mesmo tergito terminando em ângulo reto ou agudo; estemi-
: tos sem depressões e sem sulcos ou com 2 sulcos anteriores quasi imper-
! ceptiveis; geralmente 18 artículos antenais; carenas laterais somente no 21.*
I tergito -4
3
Ültimo tergito em ambos os sexos com bordo posterior arqueado, sem for-
mar ângulo; machos de algumas espécies com apêndice tibial no último par
de patas ou com apêndice no prefêmur do último par de patas ; estemitos
sem ou com sulcos longitudinais nitidos; com ou sem depressões; gcralmente
17 artículos antenais. raras vêzcs 18. 20 ou 21. Carenas laterais só no úl-
timo tergito ou jâ desde o 5.* -
subg. Parotostigmus (América do Sul)
Colorido da cabeça e do tronco uniforme, rerde-aaulado ou verde escuro;
sulcos episcuuis desde o tergito; estemitos sem sulcos; Patas 1-16
‘ com 2 esporões tarsais. 1-3 ou 4 com 1 esporão tibial. Machos com apên-
; dice coxopleural. curvo, e com apêndice digitiforme no último tergito -
subgen. CoxopUurolostigmus (Brasil).
t
\ I
Cabeça e primeiro segmento marrom: tronco %-erde; sulcos episcutais desde
! o 7.®-8 ® (do 6 ® apenas 2 sulcos anteriores curtos) ; estemitos, âs vêzcs, com
2 sulcos anteriores muito leves; patas 1-7 com 2 esporões tarsais. apenas
o 1.* par com 1 esporão tibial. Machos só com apêndice digitifomie-
subg. Dactylotergitius (Brasil).
Subgen. Androlostigmus
(chave da» opície»)
1
Primeiros 4-18 pares de patas com 2 esporões tarsais; estemitos com
sulcos inteiros ou encurtados - 2
No máximo os primeiros 3 pares de patas com 2 esporões tar.sais; estemi-
tos sem sulcos, apenas em O. (A.) casus (Mato Grosso) com 2 sulcos quasi
imperceptíveis e muito encurtados - 3
1
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Estemitos do 8.®-19.° segmento com 2 sulcos longitudinais inteiros e, um
pouco atrás, mais 1 sulco mediano; sem ca\'idades; os primeiros 16-18 pares
de patas com 2 esporões tarsais; quilha mediana desde o 15.°-19“ tergito-
0. (A.) su/caJus (Uruguai)
2
Elstemitos apenas com 2 sulcos curtos, anteriores, e com três leves cavida-
des; sem sulco mediano; geralmente apenas os primeiros 4-6, raras vezes
18 ptares de patas com dois esporões tarsais; quilha mediana já desde o 5.®
ou 7.® tergito-
0. (A.) incrmis (Argentina, Colômbia, Venezuela;.
3
Estemitos com uma grande depressão no centro e 3-6 ca\ndades; somente
o primeiro ou, no máximo, os primeiros 2 pares de patas com 2 esporões
tarsais ; sulcos episcutais desde o 5.° ou 8.® tergito - 4
Estemitos sem depressão e apenas com uma cavidade no meio de cada placa.
Sulcos episcutais desde o 6.® tergito, existindo já desde o 3.® sulcos encur-
tados, anteriores -
0. (A.) longipes (São Paulo)
4
Somente o primeiro par de paUs com 2 esporões tarsais; cal>eça e primeiro
sarnento marrom; os outros tergitos verdes ou azuis, escuros- 5
Geralmente os dois primeiros pares de patas com 2 esporões tarsais ; cabeça
e tergitos do mesmo colorido verde marrom ou azul arroxeado - 6
Carenas laterais e quilha mediana desde o 5.® tergito; duas quilhas laterais
desde o 7.® tergito; estemitos sem sulcos, mas com 3-f3 depressões nos
bordos anterior e posterior ; machos com apêndice prefemural frágil e curto -
0. (A.) pococki (Guiana brasileira)
5 '
Carenas laterais somente no 21.® tergito; quilhas já desde o 5.® ou 6.® ter-
gito; estemitos com 2 sulcos longitudinais anteriores, encurtados c, desde
o 5.° ou 6.®, com 3-f-3 depressões; machos sem apêndice prefemural no úl-
timo par de patas - 1
0. (A.) casus (Mato Grosso) 1
10
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
"'oLFCAXG BCchehl — Revisão das chaves sistemáticas de Charaberlin
e Attems 79
Cabet;a e tergitos verde marrom; tarsos das patas amarelos ou verdes; es-
temitos com grande depressão mediana, posterior, na qual se encontram 3
cavidades nítidas ao longo do bordo posterior, existindo ainda 3 cavidades
. leves no bordo anterior; apêndice prefemural do último par de patas dos
machos um pouco mais curto do que o prefêmur ou tão longo quanto êste -
6 O. (A.) scabricauda (São Paulo, Santa Catarina, Mato Grosso)
Cabeça e tergitos azul-roxo; patas côr de rosa; cavidades nos estemitos
ainda mais acentuados do que em scabricauda; apêndice prefemural dos
machos geralmente um pouco mais longo do que o prefêmur -
O. (A.) scabricauda detuelloi (habitat idêntico ao da espécie)
Como se vê. deixamos de lado, todos os caraterísticos, sôbre os quais Cham-
berlin e Attems basearam sua classificação, e que foram reconhecidos como ya~
riáveis. São êstes principolmente :
a presença ou ausência de 1 esporão tarsal no 20.® par de patas ;
o número dos artículos antenais e dos basais, desproridos de pêlos;
o número e a posição dos dentes fordpulares;
a presença ou ausência de uma fossa ou elevação nos últimos tergito
e estemito.
Colocamos neste subgênero as espécies: longipcs, sulcaius e incrmis, apesar
de seus machos carecerem de um apêndice no prefêmur do último par de patas,
porque rimos que o caraterístico genérico (a rugosidade das zonas laterais dos
últimos tergitos, as quilhas, as fileiras de tubérculos finamente espiculados e as
caridades nos estemitos) rale muito mais. O mesmo se verifica a respeito de
O. (A.) casus.
Aliás, o próprio \'erhoeff classifica O. Itbialis entre as espécies do subgênero
Parotostigmus, cujos machos, segundo êle, carecem de qualquer apêndice no úl-
timo segmento, apesar dos machos da aludida espécie apresentarem apêndices ti-
biais bem acentuados no último par de patas.
O. gocldii e c/ori/íT, cujos machos possuem o citado apêndice e que foram
situados por Verhoeff no subgênero Androtostigmus, serão classificados agora en-
tre as espécies do subgênero Parolostigmus, porque não apresentam em absoluto a
nigosidade geral (quilhas, tubérculos) dos tergitos, nem depressões ou cavidades
hos estemitos.
11
80
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Subgen. Parotosligmus
(chave das espécies)
20-21 artículos antenais ; estemitos sempre sem sulcos e sem cavidades - 2
1
17-18 artículos antenais (raras vêzes 19) ; estemitos com 2 sulcos longi-
ttKÜnais nítidos, encurtados (anteriores ou posteriores) ou inteiros; com
1-4 cavidades, apenas em krctcü, dolosus e muticus sem cavidades - 5
2
21 artículos antenais; patas 1-17 com 2 esporões tarsais; apêndice coxo-
pleural temiinando em duas pontas -
0. (P.)bürgcri (Colômbia)
20 artículos antenais; somente o 1.® ou os primeiros 3-4 pares de patas com
2 esporões tarsais; partes posteriores das coxopleuras redondas, sem
. pontas - 3
3
Só o 1° par de patas com 2 esporões tarsais; desde o 2.® ou 4.® tergito
pseudocarenas laterais; machos com 1 pequeno apêndice prefemural no úl-
timo par de patas -
0. (P.) goeldii (Pará, Venezuela)
Os primeiros 3-4 pares de patas com 2 esporões tarsais ; sem pseudocarenas ;
apenas o 21.® tergito com carenas laterais- 4
•t
l.®-4.® par de patas com 2 esporões tarsais; cabeça e 1.® tergito vermelhos;
os outros tergitos verde escuro; estemitos com leves sulcos irregulares ao
longo dos bordos anterior e posterior; machos com apêndice prefemural
pelo menos tão longo quanto o prefêmur-
0. (P.) clavijcr (Guiana inglêsa)
l.®-3.® par de patas com 2 esporões tarsais; todo o tronco, inclusive a ca-
beça, marrom; parte posterior da placa cefálica com 2 sulcos curtos; ma-
chos com apêndice prefemural cilíndrico, que atinge no máximo dois terços
do comprimento do prefêmur-
0. (P .) brunmus (Guiana inglêsa)
5
12
Estemitos com 2 sulcos longitudinais inteiros (do bordo anterior ao poste-
rior ou quasi ao posterior) - 6
Estemitos com 2 sulcos longitudinais curtos, indo do bordo anterior até ao
primeiro quarto da placa ou, no máximo, até a primeira metade - 7
'VoLFGAXG Bücicerl — Revisão das chaves sistemáticas de Chamberlin
e Attems 81
Esternitos 1-19 com 2 sulcos longitudinais que vão do bordo anterior ao
posterior: na área central duas cavidades; somente o 21.® tergito com ca-
renas laterais; o 1.® par de patas com 1 ou 2 esporões tarsais; 2.® (3.®) ao
20.® sem esporão tarsal algiun ou em alguns tarsos um muito pequeno -
^ O. (P.) Ihnbatus (S. Paulo, Argentina, Paraguai)
b
Esternitos 10-19 com 2 sulcos longitudinais que vão do bordo anterior até
ao terço posterior; sem cavidades; carenas laterais desde o 9.® ou 14.® ter-
gito; os primeiros 5-6 pares de patas com 2 esporões tarsais, os seguintes
com 1 esporão facilmente visivel- ,
O. (P.) iMM/iciw (Peru)
Esternitos sem cavidades- 8
7 Esternitos pelo menos com 1, geralmente com 2 e, às vezes, com 4 cavi-
dades - 9
5-}-5 dentes forcipuWes; sulcos episcutais desde o 6.® ou 8.® tergito; l.®-16.®
par de patas com 2 esporões tarsais -
O. (P.) kretsü (S. Paulo, Minas, Mato Grosso)
8
4 . |.4 dentes forcipulares ; 2.®-4.® tergito com sulcos episcutais anteriores, do
5. ®-20.® sulcos inteiros; 1.® e 2.® par de patas com 1-2 esporões tarsais; 3.®-
19.® ou 20.® com 1 esporão tarsal -
O. (P.) dolosus (Paraguai)
Esternitos com 2 cavidades oblongas na área central, entre os sulcos; pelo
menos os primeiros 6 pares de patas com 2 esporões tarsais - 10
Esternitos com 1 ou 4 cavidades (no último caso 2 centrais e 2 laterais) ;
somente os primeiros 3 pares de patas ou menos com 2 esporões tar-
sais - •
10
l.®-6.® par de patas com 2 esporões tarsais; 4-5 últimos tergitos com pseu-
docarenas, 21.® tergito com carenas laterais; as 2 cavidades já existem desde
o 3.® ou 4.® estemito -
O. (P.) omaronuc (Amazonas, Perú)
l.®-18.® par de patas com 2 esporões tarsais; sem pseudocarenas ; 21.® ter-
gito com carenas laterais ; 2 cavidades só nos últimos 4-5 esternitos -
O. (P.) tidius (Amazonas)
13
82
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
11
Sulcos longitudinais atii^indo quasi a metade de cada estemito; apenas
com uma cavidade redonda entre os sulcos - 12
Sulcos longitudinais muito curtos, existentes apenas nos bordos anteriores
dos estemitos ; duas cavidades na área mediana e mais duas laterais na área
posterior; apenas o 1.® par de patas com 2 esporões tarsais; machos com
apêndice agudo no lado interno da tibia do último par de patas -
O. (P.) iibialis (S. Paulo, Paraná, Amazonas)
A cavidade entre os sulcos fica na segunda metade de cada estemito, tor-
nando-se gradati\'amente menor nos últimos estemitos ; os primeiros 3 pares
de patas com 2 esporões tarsais ; pseudocarenas laterais já desde o 3.” ou 4.®
tergito : machos com apêndice agudo no lado interno da tíbia do último par
de patas ^ ^ pradoi (S. Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul)
A cavidade entre os sulcos fica no centro de cada estemito, sendo ní-
tida também nos últimos ; apenas os primeiros 2 pares de patas com 2 es-
porões tarsais; pseudocarenas laterais somente desde o 7.® ou 8.® tergito;
machos iguais às fêmeas, sem apêndice tibial -
O. (P.) longistigma (S. Paulo, Paraná)
Reunimos neste subgênero todas as espécies neotrópicas, cujos tergitos
se apresentam lisos e brilhantes, portanto, sem mgas, sem quilhas fortes e sem
tubérculos espiculados.
Vieram a cair neste subgênero 3 espécies, cujos machos estão providos de
apêndices no lado interno dos prefêmures do último par de patas (gocldii, claznfcr
e hrunneus) e mais 2 espécies, aliás sempre consideradas como pertencentes ao
subgênero Parotostigmus, cujos machos têm um apêndice tibial no último par de
patas (Hbialis e pradoi).
Para goeldii, claznfcr, bruuncus e bürgcri o número total de artículos ante-
nais constitue um bom caraterístico especifico, fazendo jus, ao mesmo tempo, à
sua distribuição geográfica.
Outros bons caraterísticos deste subgênero foram encontrados nos 2 esporões
tarsais (como se pode depreender da tabela sistemática), no comprimento dos
sulcos dos estemitos, na ausência ou presença de depressões e carídades nos mes-
mos estemitos e ainda nos sulcos episcutais. O numero dos dentes forcipulares,
aproveitado por Attems para todas as espécies deste subgênero, foi útil apenas
para as espécies kretaii e dolosus.
14
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
*
^OLFGAXG BCcherl — Revisão das chaves sistemáticas de Charaberlin
e Attems 83
As pseudocarenas dos tergitos são valiosas apenas como caraterístico de
'•aior secundário, e isto somente nas espécies goeldii, aitiasonae, pradoi e lon~
Qiitigma.
As carenas laterais dos tergitos formam um caraterístico estritamente espe-
cifico de muticíis.
Subgen. Coxopleurotostigmus
Espécie única: O. (C.) cavalcantü, com os caraterísticos do gênero. Tipos
c paratipos e mais 39 exemplares, machos e fêmeas, na coleção quilopódica do
Instituto Butantan.
I
Subgen. Daclyloiergitius
Espécie única: O. (D.) caudatus, com os caraterísticos do gênero, sendo de
notar, entretanto, que o número de artículos antenais varia de 15-19, sendo a mé-
^•a 18, e ainda que já desde o 2.® ou 3.® tergito se notam cm muitos casos sulcos
cpiscutais curtos, anteriores, ou posteriores ou então anteriores c posteriores no
•ncsmo tergito, sendo os sulcos completos desde o 7.® ou 9.®.
BIBLIOGRAFIA
dtUtnt, G. — Scolopcndromorpha, Tierreich 54.1930.
^''õletnann, H. — Os Miriápodos do Brasil — Catálogos da Fauna Brasileira — Rcv
Ihius. Paulista 1909.
^icherl, ir. — Os Quilópodos do Brasil — Mctn. Inst. Butantan 13:255-275.1939.
— Catálogo dos Quilópodos da zona ncotrópica — ibidfm 15:305-315.1941.
Cftainberlin, R. — The Stanford Expedition to Brazil 1911: The Chilopoda of Brazil —
Buli. Mus. Harv. 58:170-180.1914.
^trhofff, C. — Cbcr einige Chilopodcn aus Anstralicn und Brasilien
70 (1/2). 1937.
Zool. Jahrb. Syst.
(Tratollia <U Srçio de Zoolocia Médica do Inttitnto RotanUn.
Entrtfne para poUicacSo cm 27-5-42 e dado i publici-
dade cm fcTereiro de 1942).
lã
SciELO
10 11 12 13 14 15
cm
593.62
descrição de uma nova subespécie do gênero
OTOSTIGMUS PORAT, SUBGÊNERO COXOPLEUROTOSTIG-
MUS BÜCHERL (SCOLOPENDROMORPHA,
SCOLOPEXDRÍDAE)
POR
WOLFGAXG BCCHERL
Xo presente trabalho descrevemos uma no^*a subespécie de Olostigmus
^ovalcantii Bücherl, do gênero Olostigmus. subgênero Coxoplcurotostigmus,
^abelecendo simultaneamente um confronto diferencial com as espécies próximas :
cavalcantii c O. caudaíus Brõl..
O material, que consta de 44 exemplares, foi colhido pelos senhores Pedro
^âssarim, de Perdizes, Estado de Santa Catarina, e B. Coelho, de Mogy das
^*^zes, Estado de São Paulo.
Olostigmus (C.) cavalcaniii perdiccnsis, n. subsp.
^^fdidas :
comprimento total (sem antenas e sem últimas patas) . . 40 — 54 mm
largura do segundo tergito 2.7 — 3,2 mm
” ” décimo tergito 3.8 — 4.2 mm
” ” vigésimo tergito 2.3 — 2,7 mm
comprimento do último tergito dos machos 1.8 — 2.2 mm
apêndice digitiforme dos machos 2,3 — 2,6 mm
18. ° par de patas 4,8 — 6,3 mm
19. ® par de patas 6,8 — 7.2 mm
20. ® par de patas 10.5 — 13,7 mm
21. ® par de patas 11,4 — 14,3 mm
Queremos chamar a atenqão sôbre a diferença abrupta de comprimento entre
dois últimos pares de patas e as patas precedentes.
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
Memórias do Instituto Butantan
Tomo XVI
Colorido: Todos os tergitos. inclusive a placa cefálica, lisos, brilhantes, de um
verde de oliva ou mais côr de cinza; bordos posteriores dos tergitos um tanto
enegrecidos: em alguns exemplares o verde apresenta traços fracamente
azulados, principalmente na placa cefálica e no primeiro tergito, distinguin-
do-se nisto a nora subespéde de caudaíus, em que a cabeça e o primeiro
tergito são amarelos ou de côr castanha, com bordos fuliginosos e os tergitos
verdes. Esternitos de um amarelo pálido. Antenas roxas com pêlos lou-
ros. Patas de um azul claro, principalmente as tibias e os tarsos.
Todas estas côres, principalmente a roxa e a azul claro, desaparecem
já dentro de 2-3 semanas de consen-ação do animal em álcool a 70 apre-
sentando-se. então, de um colorido verde cinza, no lado superior, e amarelo
pálido nas patas e esternitos.
Aniciias: longas, atingindo o bordo posterior do 4.® tergito; com 18 artículos,
oblongos; raras vêzes 17 artículos apenas, ou então num lado 17 e no outro
18 artículos, providos de pêlos louros, ordenados geralmente em fileiras
longitudinais.
Dois artículos basais inteiramente sem pêlos; o terceiro, no lado dorsal,
na extremidade distai, geralmente com algumas fileiras transversais de pêlos;
no lado ventral a área pilosa da extremidade distai é maior, atingindo pele
menos um terço ou mesmo a metade do aniculo.
Placa cefálica : lisa, brilhante, apenas com poucos poros, muito leves ; sem sulcos
ou ca\"idades.
Tergitos: lisos, brilhantes, com poucos poros; sem pseudocarenas laterais; sul-
cos episcutais completos (do bordo anterior ao posterior) desde o 7.® ou 9.*
tergito até ao 20.®; nos tergitos anteriores, até ao 4.® ou 3.® existem geral-
mente dois sulcos longitudinais muito curtos, ou no bordo anterior ou no
posterior ou cm ambos os bordos. 21.® tergito sem sulcos e sem cavidades:
com carenas laterais muito nítidas: bordo posterior dos machos fortemente
prolongado em forma de um apêndice dlindrico, digiti forme, mais longo
que o próprio tergito (vide medidas). Apêndice com bordos laterais mais
ou menos jaralelos: na ponta distai, cm ambos os lados, um denso fei.xe de
pêlos longos, amarelo-avcmielhados. Com aumento cêrea de 200 vêzes vê-sc
que se trata de pêlos simples, não articulados, com leve destacamento apenas
na base, afinando-se progressivamente em direção distai e terminando num3
ponta muito aguda (Fig. 2).
Xas fênteas obse.-^-a-se a mesma protração do bordo posterior do último
tergito que em cccvalcantii e caudatus, com a diferença, porém, de ser esta
protração ainda mais acentuada, isto é, forma-se um ângulo reto ou agudo na
linha mediana.
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
'Volfgang BCcherl — Descrição de uraa nova subespécie do gênero
Otosligmus Porat 87
Quanto aos sulcos episcutais completos deve-se notar ainda que são
sempre mais acentuados e mais profundos nos bordos anterior e posterior
dos tergitos.
Coxoslernum forcipular: com poros pouco numerosos, porém, mais pronuncia-
dos do que nos tergitos; sem cavidades. Sulcos das placas dentárias for-
mando um ângulo muito obtuso. 4-^-4 dentes, isolados e aproximadamente
do mesmo tamanho, havendo, por baixo dos dentes, em cada placa um leve
. tubérculo com uma cerda longa.
Eslernitos: lisos, brilhantes, com poucas e leves pontuações (muito mais leves
do que em caudatus) ; sem ca>'idadcs e depressões ; com 2 sulcos anteriores,
muito curtos, nos estemitos 2 ou 4 até ao 19.® ou 20.°, sendo de notar que,
geralmente, são muito leves ou quasi imperceptíveis nos estemitos 2-5 e
18-19 ou 20. Xos estemitos 7-18 ou 9-20 existem, além disto, ainda 2 sul-
cos no bordo posterior de cada esclerito, ainda mais curtos do que os ante-
riores, ligeiramente convergentes de trás para diante. (Em caivlcaiitii éstes
sulcos ventrais não existem geralmente ou então são muito superficiais e
curtos). 21.° estemito com bordos laterais ligeiramenie convergentes c
com bordo posterior cortado cm linha reta. Na linha mediana acentua-se
geralmente uma ligeira fossa longitudinal, aliás nem sempre muito nitida.
Coxo pleuras', com carnjx) poroso nomial. Parle distai protraída, nos machos,
num apêndice longo, curvo (como nos machos de caz'alcantii') , sendo nomial
nas fémeas (como também nas fémeas da citada espécie)-.
Esporões nas paias: No primeiro tarso das 7-9 patas anteriores 2 esporões
tarsais (em cavalcantii ha 2 esporões nos primeiros 14-16 pares de patas)
nos machos e nas fémeas ; nas patas 10-19 um esporão tarsal só ; no 20.®
par geralmente 1 ou nenhum; 21.® nenhum esporão. Esporão tibial so-'
mente no primeiro par de patas ou, no máximo, ainda no segundo (em'
cavalcantii nos primeiros 3-4 pares).
I^morjismo sc.rual: machos com segmento postgenital nitido, tão longo quasi
quanto o próprio segmento genital ; com órgão copulador nitido, triangular
e abertura genital em forma de fenda longa, estreita; fémeas sciii s^nicnto
postgenital. com aliertura genital grande, semi-circular. situada no próprio
segmento genital.
Caracteres sexuais secundários: machos com apcndice cilíndrico, digiti forme
no último tergito e com apêndice longo, curvo, na parte distai das coxo-
pleuras ; fémeas sem éstes dois apêndices ; no bordo posterior do último ter-
gito apenas com uma protração tnangular.
3
88 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
DIAGNOSE DIFERENCIAL DAS ESPÉCIES PRÓXIMAS
(Vide desenhos)
0. cazvlcantií f^rdicensis
O. catalcantii
0. caudatus
Mesmo colorido verde de oliva ou verde cinza da placa cefálica,
primeiro tergito e todos os outros tergitos.
Tergitos verdes; placa
cefálica e 1.* tergito
vermelhos ou marrom-
Antenas e patas como
em cavalcaniii.
Antenas roxas com pêlos louros; patas
de um azul claro, principalmente as
tibias e os tarsos.
Antenas e patas
amarelo-esverdeadas.
Sulcos episcutais mais acentuados nos
bordos anterior e posterior. Sem de-
pressão longitudinal no meio dos sulcos.
Sulcos não espccialmente acentuados nos bordos
anterior e posterior.
Com depressão no
mek>.
Sem depressão entre os
sulcos.
Machos •. com apêndice cilíndrico no último tergito, mais longo
do que o próprio tergito e com apêndice coxopleural,
longo e curvo.
.Apêndice cilíndrico um
pouco mais ‘curto do que
o último tergito. Sem
apêndice coxopleural.
Fimeas: Sem apêndices no último tergito e na parte distai das coxopleuras.
Bordo posterior do último
tergito fortemente protraído
em forma de triângulo reto
ou agudo.
Bordo posterior nor-
mal ou apenas pouco
protraído.
Bordo posterior sempre
mais protraído do que em
cavaJcanlii, mas menos do
que na subsp. nova.
Coxostemum forcipular sem
sulco mediano.
Cjjm sulco mediano,
curto.
Sem sulco mediano.
Estemitos com raras pontuações muito leves (vide Fig.).
Pontuação rara. mas pro-
funda.
Sulcos curtos anteriores e posteriores
nos estemitos (Fig. 1 :2 e 3).
Sem sulcos ou apenas anteriores, muito leves e
muito curtos (Fig. 1).
Ültimo estemito com bordo posterior
reto e com fossa longitudinal leve
(Fig. 1:3).
Bordo arqueado,
sem fossa, com de-
pressão triangular
vFig. 1:4).
Bordo reentrante, forman-
do duas saliências angulo-
sas nos lados (Fig. 1:5).
Os 2 últimos pares de patas excedem no dobro o comprimento
das patas anteriores.
.Apenas um pouco mais
longas do que as anteriores.
2 esporões tarsais nos primeiros 7-9
pares de patas. 1.* e 2.« par com
1 esporão tibial.
2 esporões em 14-16
patas. 3-4 pares de
patas com 1 esporão
tibial.
2 esporões em 5-7 pares
de patas. Só o 1.® par
com 1 esporão tibial.
4
"'OLFGANG BCcherl — Dcscriçâo de uma nova subespécie do gênero
Otostigmus Porat 89
fiolotipo (macho) e alotipo (fêmea) na coleto quilopódica do Instituto Bu-
tantan, No. 303.
Local. -tipo: Perdizes (vide nomen). Santa Catarina, Brasil.
Paratipos (adultos): 17 machos e 19 fêmeas;
(adolescent.) : 2 machos e 4 fêmeas, na mesma coleção, sendo coleta-
dos em parte na local.-tipo e em parte perto de Mogi das Cruzes, Estado
de São Paulo.
(Trab&IlM> d» S«^io de Zoologia Mêdka do Instituto Bnuntan.
Ectrefue para pt^icação ein 15 de junho de 1942 e
dado i publicidade eiu fererctro de 1943).
'^OLFGAXG BCCIIEHL — Descrição de uma nova subespécie Mem, ln»t. nolantan
<io género Olosligmus FOHAT, subgénero Coxopleiirolo- VJ. XVI — 1942
ftigmus BÜCHKHL i Scolopenilromorpha, Scolopendridae >.
Xol I : *ulo ^ fx?»lcrk»rr%
Noi 2 : »Qko% anteriores
No. Si fuA«a longitudinal
No. 4: drprr**âo triangular
No. 5: canl(« latcraU do tordo pc*tcri«r
Fic, 7.
O. (C.t rurWi*. f<réKtnus, n.
rutst*.
O» 2 fcíKcr dr p^lo» na p««)ta
00 ap«ndkc digitifora>c. (côrea
de 200 TÓm autn.).
591.69:61ã.»6$l
transmissão da mauria humana por anofelinos
DA SÉRIE TARSIMACULATUS
J. A. B. DA FONSECA & FL.WIO da FONSECA
A verificação da sensibilidade de anofelinas às diversas espécies de plas-
’’'ódeos do homem, embora constituindo um dos mais importantes e dos mais
atraentes capítulos da epidemiologia e da parasitologia da plasmodeose, com ime-
•^•ata e produti\-a aplicação à profilaxia, é problema só raras vêzes abordado
Wos especializados. A razão de ser da desproporção observada entre a grande
***iportãncia das pesquisas sobre éste asstmto e o seu pequeno número repousa
duvida no fato de encobrir a aparente simplicidade da sua realização dificul-
técnicas não raro intransponíveis, entre as quais avultam a da manutenção
^ anofelinas em cativeiro cm bòas condições de ritalidade, por um prazo su-
fidente e em número elevado, a da existência simultânea de bons gametóforos
*^yrante todo o tempo que durar a experimentação e a da possibilidade da pronta
terminação sistemática de todos os espécimes infetados.
A bibliografia com contribuição positira c original sobre pesquisas dessa
®*tureza realizadas no Brasil inclue cerca de 54 verificações positi\’as, das
luais 41 feitas por brasileiros. O número de espécies de anofelinas em que, no
^*^sil. foi obtida prora de sensibilidade a plasmódeos do homem elcva-se a 12,
^bendo para todas a propriedade da observação a autores nacionais, excetuados os
^*sos de A. (Nyss.) oswaldoi e A. (Kcrtessíj) anoplus. (Vejam-se Quadres I
' II).
Embora as 54 verificações até hoje realizadas no Brasil forneçam uma série
^nsiderável de informações, as quais, somadas aos dados obtidos pela epidemio-
constituem já um precioso acervo de conhecimentos sobre o papel repre-
***itado por várias das espécies estudadas na transmissão da nwlária. a inspeção
*1^9 quadros em anexo demonstra que perduram ainda muitas lacunas cujo pre-
^^himento seria altamente desejável. Verifica-se, por exemplo, que nas proras
Infeção experimental só talvez em cinco espécies foi possível obter o delo com-
Plcto de plasmódeo de espéde conhedda, até infeção de glândulas salirares, em
*^nfelina sôbre cuja espécie não pairam dúvidas de sistemática: A. (V.) oswaldoi
i
SciELO
94
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
com Pl. faldparum (9) ; A. (.V.) albilarsis com Pl. zivax (3, 4 e 5) ; A. f.Y.)
strodei com Pl. vivax (13 e 5) ; A. (K.) cruxi com Pl. riiux (15) e A. eiseni
com Pl. falâparum (17). Outra talha acentuada é a que diz respeito às veri-
ficações com Pl. malariac, de que a literatura apenas consigna as duas experiên-
cias de Godoy e Pinto (2) em Campos, Estado do Rio, com albilarsis e com
triannulatus, não havendo outras experiências p>ositivas com anofelinas da faima
brasileira. Xota-se que com Pl. jalciparum só foram até hoje obtidas duas vêzes
infeções experimentais, de anofelinas que ocorram no Brasil, que chegassem à
fase final de esporozoito.
Reconhecendo desde cedo a importância do significado dêste problema para
o Brasil, a escola de Manguinhos, representada por Xeira, Chagas, Gomes de
Faria e Ruy Ladislao. em trabalho de pioneiros, realizado no Xerem (Estado
do Rio), comunicava já em 1909 (1) os primeiros resultados de infeções e.xpe-
rimentais, tendo assinalado a sensibilidade de Cellia argyrotarsis (albilarsis?),
Ccllia albitnana (larsimantlatus. cvansi, Iriannulalus:), Cyclolepleron iniermedius
[AnophcUs (Arribalxagaia) iniermedius] e Arribalxagaia pseudo-tnaculipes (.4.
(Arrib.) tnaculipes]. Após longos anos de intervalo, em 1922, seguiram-se ve-
rificações da mesma escola, representada agora por Godoj- e Pinto (2) obser-
vando em Campos, Estado do Rio, a infeção experimental de Celia brasiliensis
[A. (N.) albilarsis] pelo Pl. falcipantm, bem como a infeção natural da mesma
espécie por um plasmódeo indeterminado, e a infeção experimental de Cellia albi-
mana [A. (N.) Iriannulalus] pelo Pl. malariae.
Dessa data em diante (Quadros I e II) os trabalhos realizados no Brasil j>or
Boyd (1923), Davis (1925), Gomes de Faria (1926), Lobo (1930), Godoy,
Lobo e Cruz Filho (1930), Shannon (1931), Kumm (1932), Davis e Kumm
(1932), Galvão e Lane (1937/38), R. Corrêa (1939/40), Corrêa e Ramos
(1941), Lucena (1941), Coutinho (1942), Fonseca e Corrêa (1941), Fonseca
e Unti (1941) Galvão e Grieco (1941), Fonseca. Covelli e Zwinger (1941),
J. A. B. Fonseca (1942) e Freitas (1S>42), conseguiram ele^^ar a cerca de doze
o número de espécies de anofelinas brasileiras em que os plasmódeos são passi-
veis de evolução pelo menos até a fase de oocisto. montando a cêrea de seis o
número de espécies em que a infeção até a fase final de esporozoito foi observada.
Tais investigações que conseguiram demonstrar em parte o papel represen-
tado na transmissão da plasmodcose por mais de um terço das espécies assinala-
das no Brasil foram, infelizmente, prejudicadas no decurso de evolução dos
conhecimentos sóbre a sistemática das anofelinas, a qual veiu demonstrar que 4
algumas das espécies estudadas eram confundidas com outras. E' o que se ve- ll
ri fica, por exemplo, entre o antigo argyrilarsis e albilarsis, entre albilarsis e |
darlingi, entre albimana de um lado e strodei c triannulatus de outrO. Si en> i
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
(jUADSO I
INFEÇÕES experimentais OBTIDAS COM ESPÉCIES DE ANOFEUNAS REPRESENTADAS NA FAUNA BRASILEIRA
ESPÉCIE
A'#, ér
rrem^térts
trfrriimrm-
Etfécie dr
POSITIVOS
Data da
ftrimentaçio
I.OCAI.in.\DE
AUTOR
DeuomtMcde cn^mél
CarreMf^mdènciã «Ihb/
Tctêl
OacxJ-
tas
sâitiíf
Cellia argyrotarsis
A. (X.) albitarsis
P. i-nax
+
Xerem, Estado do Rio
Ladislao, R. (1)
Cellia argyrotarsis
A. (X.) albitarsis
P. falciparum
+
Xerem, Estado do Rio
Gomes dc Faria e I.adis-
lao, R. (1)
Ceilia brcsüiensis (•)
A. (X.) albitarsis
P. falciparum
,
1922
Godov, .\. c Pinto, C. (2)
CfUia brasilictuii (•)
A. albitarsis
P, matarias
19^2
Godoy, A. c Pinto, C. (2)
Cellia bratilieiuis
A. fX.) albitarsis
P. fttttX
1922
Campes, Estado do Rio
Godoy, .-\. e Pin^^ C. (2)
Anopheles (K.) albitarsis ....
A. iX.) albitarsis
8
P. tilKlX
4
4
1
1937
S.ÍO Paulo, Est. dc São Paulo
Galvão, /\. L. A. c Lane,
J. (d)
Anophetes albitarsis
A. (X.) albitarsis
5
P. rirojr
1
4-
+
1941
São Paulo, Est. dc São Paulo
Grieco, S. J, Í4)
Anopheles (S.) albitarsis ....
A. (X.) albitarsis
253
P. ii:vx
28
35
12
1941
Guarujã c Guaratinguct.á, Est.
Fonseca, J, A. B. e Unti,
dc S. Paulo
O, (5)
Anopheles argyritarsis
A. (X.) argyritarsitf
27
P. vkax
Jujuy, AfRcntina
Patterson (6)
Anopheles argyritarsis
A. (X.) argyritarsis
P. faleiparum
6
6
m:irço. 19.32
Grcnada, Índias Ocidcnt.iis
Earle, W, C, (7)
A. (X.) strodei
Cellia albimana
A. (X.) triannnlatusl
P. faleiparum
+
Xerem, Estaih) do Rio
I^idislao, R. (I)
A. (X.) tarsimaeulatns 1 ....
A. (X.) strodei
Cellia albimcna
A. (X.) triannulalusf
P. vkvx
+
.Xerem, Estado do Rio
Qiagns, C, c l^idislao. R.
.1. ?.V.^ tjrsimaeulalus
(1)
A. larsimaculatus
A. (S’.) tarsimaeulalus
.5
P. falAparum
J
.3
Panamá
Darling, S. T, (8)
A. tarsimaeulatns
A. (X.) tarsimaeulatns
P. xivax
1
1930
Estrela, Estado do Rio
Ia>bo (1)
A. (y.) oswaídoS
67
1
1
1<ui
Itaipú, Estado do R!o
A. (X,) osmildoi ayrosai . . . .-
A. ( X.) ortvaldoi ayrosai ....
.w
P. xitax
4
.3
>
1941
Guarujã e Guaratinguetá, Est,
Fonseca, J. .A. B. c Unti,
dc S. Paulo
O. (5)
A. (X.) rondoni
A. (X.) rondoni
1925?
Jujuy, Argentina
Davis, X. C. (10)
Cellia albimana
A. (S'.) Iriannulatus (**)
P. malariae
4-
1922
CamiM.s, Estado do Rio
Godoy, A. e Pinto, C. (2)
Anopheles (A.) larsimoeulalns
A. (X.) triannulalHS
Paramarilm, Guiana Holandc.^a
Bttnne c Bonnc Wcpster
1
(11)
Anopheles bachmani
A. (X.) triannulatus
18
P. rttxjx
6’
-l-
+
Panamá
Rozelroon, L. E, (12)
13
P. faleiparum
2
1935
Panam,i
•‘^HcphfUs strodti
3
P» t'hxix
r
E
1937
São Paulo, Est. de São Paulo
J. (3)
19
P. xitvx
4*
4
.3
1941
niiartijá e ( •ii.^ratinpuctá,
dc S. P,\ulo
O, (5)
Cyclolepleron intermedium . . .
A. (Arrib.) intermedius
P. faleiparum
X.
Xerem, Estad<i do Rio
.Xciva, .A.e t„ndisl.io, R. ( 1 )
Arribahagaia pseudomacniipes .
A. (.drrib.) maeulipes
P. faleiparum
■f
jan. 1925
Xerem, Estado «lo Rio
Neiva,.\.c I.adislao, R.( 1 )
Anopheles bellator
A. (K.) anoplus
150
P. xrxax
1
1
1941
,\ngra dos Reis, Est. tio Rio
Davis, N', C. (14)
Anopheles (Kertessia) bellator
A. (K.) bellator
Trinidad
Korehoon, L. E. c I.aird,
R. L. (37)
Anopheles (Kertessia) crusi .
A. (KJ eruai
29
P. xixax
2
1
1
<lor. 1940
Guarujã, Estado de São Paulo
Fonseca, l-'!. da c Corrêa,
R. R. (15)
Anopheles eiseni
A. (AJ eiseni
1
P. fírax
1 •
1
1936
Panamá
Simons, J. S. (16)
A. (Anopheles) eiseni
A. (AJ eiseni
31
P. faleiparum
s
5
1
1940/1941
Guarujã, Estado dc São Paulo
Fonseca, J. A. B. (17)
X» traboüho onftti^ de GodoT- e Pinto nSo k eocootna dadc4 •dbrc est&s duat infecde* cxperiineatAis que »io citada .1 por Pinto rm I9M) (24) c 1939 (52).
' I Sefttrdo CeMT Pinto.
IXFEÇAO NATÜR.AL VERIFICADA EM ESPÉCIES DE ANOFELINAS REPRESENTADAS NA FAUNA BRASILEIRA
ESPÉCIE
■‘inophíUs fCellia) argyritartií
^•ophíUs (CfUia) argyritarsis
Cellia argyritarsis
•‘^fopktles argyritarsis
•Itophfles (Cellia) argyritarsis
•^aaphelfs (Cellia) argyritarsis ....
•laopluUs (.-inoplieles) argyritarsis
Cellia brasUiensis
rlmopliflfj (Cellia) brasUiensis
•‘^aophrles alhitarsis
^topkeles olbitarsis
•^^ophfUs (Syuorhyntkus) olbitarsis
^*opkeles (Xyssorhynekus) olbitarsis
‘"^^opkflfj olbitarsis
^*opheles (Anopheles) darlingi
^*opkelfs darlingi
^^Pktlff darlingi
^*opkelfs darlingi
^"^Pkelfs darlingi
^*opkeles (Syu.) darlingi
^*«Pkflfs (S,) darlingi . . .
'*'^Phel,j (p/J darlingi
''•^Utelrs (Syss.) darlingi
^^Pkeles (Cellia) tarsimaculatus
^^lia alhimana
Afilia
tarsimaenlütus
^Pkelts (Cellia) ostialdoi ....
^^^eles (Xyss.) ostealdoi ....
*^flielrs (Xyss.) ostcaldoi ....
^^eles (S'yss.) ostcaldoi ....
^^elfs (Xyss.) osuvidoi metealfi
f.’‘^^^les (Xyss.) ostividoi metealfi
«thimana
(Xyss.) strodei
’**’Pbelff (Kertessia) bellator
(Kertessia) bellator
(^lysomxa) gambiae
gambiae'
Corretpemiimein ttmai
.d. (X.) albitarsisf .
A. (X.) argyrítarsis .
A. fX.) argyritarsis^
A. (X.) albitarsisf ..
A. (X.) albitarsisf . .
.d. (X.) darlingi f ...
A. (X.) argyritarsis f
.d. (X.) olbitarsis
.d. (.y.) darlingi ....
A. (X.) argyritarsis .
.d. (X.) argyritarsis .
.d. (.y.) olbitarsis
.d. (X.) olbitarsis
A. (X.) olbitarsis
A. (.y.) darlingi (scg. Kumm)
A. (X.) olbitarsis
.d. (X.) olbitarsis
.d. (X.) olbitarsis
.d. (S'.) darlingi
.d. (.y.) darlingi
.d. (X.) darlingi
A. (X.) darlingi
A. (X.) darlingi
A. (X.) darlingi
A. (X.) darlingi
A. (X.) darlingi
.d. (.\'.) darlingi
.d. (.y.) darlingi
.d. (S’.) darlingi
A. (.y.) tarsimaculatus
A. (X.) tarsimaculatus
.d. (.y.) tarsimaculatus f
A. (X.) strodei f
.d. (X.) Iriaunulatusf
.d. (X.) ostvaldoi
A. (X.) ostcaldoi metealfi ....
.1. (S'.) ostcaldoi
A. (X.) ostcaldoi
A. (X.) ostcaldoi metealfi
A. (X.) ostialdoi metealfi
.d. (X.) triannulatus ....
A. (.V.) strodei
.d. (K.) erusi
,d. (K.) bellator
A. (K.) bellator
••I. (Mysom.) gambiae ...
A. ( Mysom.) gambiae . . .
N». de
POSITIVOS
Data da verificação
LOCALIDADE
AUTOR
rrtmf^ares
eramined^s
Tottl
Esporo-
MÓitos
1904 ou 1905
Est. do Rio ou Minas Ge-
Chagas, C. ( 18)
rais
1
+
Panamá
Darling, S. T. (8)
+
+
Sta. Lucia, índias Holan-
desas
Nicholls, L. (19)
8%
1 %
Est. do Rio
Souza Pinto, G. de (20)
Porto (ias Caixas
209
+
+
Itambí, Est. do Rio
Boyd. M. F. (18)
abril-maio
276
10
10
1924
Sant’.-\na. Est. do Rio
Davis. N. C. (18)
Surinam, Guiana Holan-
Bonne c ■ Bonne Wep*-
desa
ter (11)
59
1
1
1922
Campos, Estado do Rio
Godoy, A. e Pinto, C. (2)
129
6
6
março-abril
Sanl’.'\na. Porto das Cai-
Boyd. M. F. (18)
1923
xas. Ttaubi, Est. do Ri(.
200
1
1
maio — 1930
Estrela, Est. do Rk>
Godoy, IL, I-obo, A. e
Cruz F.". O.
2-W
14
14
S. Salvador, Raia
Kunini, H. H. \V. (22)
13
1
1
1940
Harra-Tijuca, Est. do Rio
Freitas, G. e Castro, O
(9)
150
1
1
1941
Distrito Federal
Coutinh.', J. C. (23)
169
1
1
abril — 1926
Lussanvira. Illta Seca, Est.
Gomes de Faria (24)*
S. Paulo
144
12
11
4
dez. 1930 — jan. 1931
Maracai, Venezuela
BenarrtKh, E. I. (25)
240
69
66
16
fev. — 1931
França, Est. d,a Baía
Davis. N. C. e Kumm,
H. II. \V. (27)
200
44
44
9
abril — 1931
Belém, Pará
Davis, N. C. (26)
10
3
3
1931
Itapira, Baía
Kumm, H. H. VV. (22)
56
5
I
março-junho 1931
Porto Velho, .Aniazonas
Sliannon, R. C. (28)
37
3
+
jan. — 1940
Porto Feliz, Est. S. Paulo
(Torrea, R. R. (29)
118
7
7
2
junho — 1941
Represa Rio Grande, EsL
Gaivão, A. L. A. e Grie-
S. Paulo
CO, S. J. (30)
Fonseca, Fl. da. Covelli e
Zwingler (31)
33
2
2
1941
Porto Taquarí. Est. S5o
Corrêa. R. R. e Ramos,
Paulo
A. S. (32)
1904 ou 1905
Est. do Rio ou M. Gerais
Chaga.s, C. (18)
+
+
1912
Sta. Lucia, índias Holan-
Nicholls, L. (19)
desas
143
2
1
1
março-abril 1923
Magc, Est. do Rio
Boyd. M. F. (18)
13
1
1
abril — 192fi
Magc, Est. do Rio
Boyd. .\l. F. (18)
11
5
5
1940
Lontesinha, Pernambuco
Lucena. D. T. (33)
91
12
1
1
1941
Itai|>ú, Est. do Rio
Freita.s, tl. (9)
24
2
2
1941
Taijuari, Est. de S. Paulo
Corrêa, R. R. e Ramos.
.At S
1941
Barra da Tijuca, Distr.
Freitas, G. c Castro, O.
Federal
(9)
307
9
9
1
1941
Distrito Federal
Coutinlu), J. C. (23)
1
+
1922
Campos. Est. do Rio
G<KÍoy, .A. c Pinto, C. (2)
163
2
20
Marilia, Est. de S. Paulo
(Corrêa, R. R. (34)
12
1
1
1904
Paraná
Galli-Valerio (35)
398
1
1
1941
Trinidad
RozcNxmi. L. E.. Fox, L.
e Laird, R. L. (36)
72.-»
3
1
1942
Trinidad
Rozcboon, L. E. e I-aird,
R. L. (37)
172
108
102
52
maio — 1930
Natal, R. Grande do Norte
Davis. N. C (26)
397
71.5%
28.2%
1931-1932
Est. R. Grande do Norte
Pinto. G. de Souza (38)
I I Oocifttm maduro*, com ccporosditov visiveis cm um do* rccmplarr*.
J. A. B. DA Fonseca & FiAvto da Fonseca — Transmissão da malária
humana por Anofelinos da série tarsimaculalus
99
^guns casos ainda é possível fazer a revisão da sistemática e re%’alidar as ex-
periências, como sucede à verificação de Gomes de Faria em Lussanrira (1926),
«n que, segundo Galvão e Lane (1937) e Cesar Pinto (1939) a espécie em
eausa é mais pro^^avelmente darlingi e não albitarsis como figura na citação ori-
ginal, em outras experiências, entretanto, a confusão ainda perdura, tal como
sucede às verificações de Boyd, Davis, Chagas e Ruy Ladislao com argyrilarsis
c com albtmana.
As alterações ultimamente sobrerindas na sistemática dos Nyssorhynchus da
série tarsimaculalus, na qual os conseiATidores apenas reconhecem a espécie A.
{Nyss.) tarsimaculatus Goeldi, 1905, ou, no máximo, esta espécie e a subespé-
rie A. {Nyss.) tarsimaculatus oszívJdoi (Pervassú, 1932), redundaram na re-
validação da espécie osivaldoi sob o nome de A. {^Nyss.) oswaldoi (Pervassú,
1922) (= Cellia osnaldoi Pervassú, 1922) que volta a coexistir ao lado de A.
{Nyss.) tarsimaculatus Goeldi, 1905, hoje igual a A. {N.) emilianus Komp,
1^1 (39). A espécie ostcaldoi, por sua vez. foi desdobrada nas subespécies;
A. (AT.) osuxildoi [= A. (AT.) tarsimaculatus osualdoi dos A.A.], A. (A’.)
ostvaldoi metealfi (40) e A. (A.) oswaldoi noroestensis, A. (M.) osivaldoi
guarujaensis (41) e A. (iV.) ostvaldoi ayrosai (42) \-= A. (N.) tarsimacula-
tus dos A. A.]
Confirmadas tais alterações, na discussão de cujo mérito não entramos, veem
«las, somadas à possibilidade da confusão pelos autores antigos da espécie tarsi-
maculatus dos A-A. com as espécies sirodei (= nvnsi) c triannulatus (= bach-
manni), reduzir por tal forma os nossos conhecimentos sobre o papel represen-
tado pelas anofelinas da série tarsimaculatus na transmissão da nialária humana
que uma revisão dos trabalhos antigos à luz do conceito moderno se toma alta-
tnente desejável, mormente por se tratar de espéaes muito disseminadas no
Brasil.
Reconhecendo esta necessidade c aliando-a ao desejo de contribuir para o
esclarecimento do problema da transmissão da malária na V ila do Guarujá, loca-
lidade balneária próxima da cidade de Santos e muito frequentada durante o
rigor do verão e do inwmo, aproveitamos a facilidade proporcionada picla abun-
dância das subespécies guarujaensis e ostialdoi em Guaruja, onde foi executado
o presente trabalho, para proceder a investigações sõbre o comportamento ex-
perimental destas subespécies em relação às espécies de plasmódeos ali encon-
trados.
m.-\terial
Anofelinas — Todos os exemplares utilizados no presente trabalho provie-
ra de culturas e capturas feitas pelas Seções de Ecologia e de Entomologia dc
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
100
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Sers-iqo de Profilaxia da Malária, a cujos chefes, dr. A. Car\'alho Franco e sr.
Alberto S. Ramos, muito agradecemos o auxílio prestado.
Fêmeas fecundadas capturadas em Guarujá eram conser\-adas isoladas em
vidros entomológicos até terminação das posturas; os ovos, colhidos diariamente,
depois de examinados para determinação da subespécie, eram postos e eclodir
segundo a técnica de Boyd e Cain (43) e as larvas criadas até o nascimento dos
adultos. As fêmeas virgens assim obtidas eram conservadas em jejum por 24
a 72 horas, quando então se as alimentava em gametóforos. A alimentação pos-
terior era feita em cobaias, a intervalos rariáveis, só esporadicamente, tendo al-
gumas recebido como alimento água açucarada.
Os adultos utilizados pertenciam todas às subespécies A. {Nyss.) osnvldut
osTvaldoi Galvão & Lane, 1938 (2) [= A. (Kyss.) tarsimaculatus osicaláoi'
los .A..^. = Cellia oszLvldoi Pery'assú, 1922] (Microfoto 1) e A. (Xyss.) os~
Zíxildoi gtiarujaensis Ramos (no prélo) [A. {Nyss.') tarsimaculatus dos AA.
(Microfoto 2 e 3) determinados pela morfologia dos ovos e pelos caracteres de
landas e adultos.
Gametóforos utilizados — Os doentes que serviram à infeção eram todos
moradores da Ilha de Santo .-Xmaro, onde se encontra a vila balneária do Gua-
rujá, internados na Enfermaria da Séde do Serviço de Profilaxia da Malária,
em Guarujá, com exceção de um único (J. V. S.), que viera à consulta do
ambulatório.
TECXICA
.\s fêmeas em experimentação eram colocadas em ridros entomológicos da
9 X 3 cm forrados por delgada camada de algodão hidrófilo umedecido, coberta
por follia de papel dc filtro, fechados por gaze e em seguida rotulados e nume-
rados em série de acordo com o lote.
alimentação infetante era tentada, fazendo a aplicação do bocal por gaze
ao antebraço dos doentes, esperando-se que o mosquito sugasse até saciedade ou
deixando escoar lapso de tempo nunca superior a meia hora, findo o qual o mos-
quito era descartado quando recusa\-a picar.
Verificou-se que a subespéde guarujaensis sugara sempre com muito maior
aridez do que oszoaldoi.
Os vidros contendo os mosquitos alimentados eram conservados em ambiente
com grau de umidade elevado artificialmente por meio de revestimento com
camada de areia úmida, tendo a temperatura ambiente rariado entre os limites
extremos indicados abaixo.
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
*
J. A. B. DA Fonseca & Fuavio da Fonseca — Transmissão da malária
humana por Anofelinos da série tarsimaculatus
101
A temperatura obsers^ada no decurso da experimentação foi a seguinte;
Ano
ilíJ
ifárinto
Mínimo
ISMO
junho
25»
18°
1940
julho
25»
16»
1940
agosto
28*
19»
1940
setembro
25»
19»
1940
outubro
25»
19»
1940
novembro
29»
20°
1910
dezembro
3J»
23°
1941
janeiro
30®
24»
Xo dia da picada pratica\-a-se a contagem dos gametocitos do sangue perifé-
rico dos doentes, segundo a técnica de Drcyer modificada por Sinton (44) ao
mesmo tempo que era feito esfregaço onde se efetuava a contagem em relação
ao número de leucodtos e ao sexo dos gametocitos, o que possibilitará compara-
ção com resultados baseados só nesta última técnica. A comparação dos resul-
tados obtidos pelas duas técnicas não pôde ser levada a efeito por não ter sido
praticada ao mesmo tempo a contagem global de leucodtos.
A pesquisa de exflagelação dos microgametodtos, praticaoa sistematicamente
no início da experimentação, foi em seguida abandonada por ter sido verificado
que também em casos em que esta prova era negativa era possível obter infeção
de anofelinas.
A disseção dos mosquitos experimentados era praticada toda vez que o exa-
me diário matinal demonstrara a existênda de exemplares mortos ou de vitali-
dade reduzida c quando se julgava o prazo decorrido sufidentemente para que o
ddo dos plasmódeos se tivesse completado. .A operação da disseção do intestino
médio e das glândulas salivares fazia-sc segundo as técnicas habituais de tração
dos últimos segmentos abdominais para o intestino e da cabeça para os glândulas,
fazendo-se, além do exame a fresco, preparações do intestino segundo a técnica
indicada por Xeri (45) e esfregaços das glândulas infetadas.
EXPERIMEXT.AÇAO E DISCUSSÃO
Após algumas exp>eriêndas preliminares para acerto das técnicas de infeção,
Conservação dos exemplares infetados, etc., foi dado inicio à experimentação em
prindpios de junho de 1940, prolongando-se esta até fevereiro de 1941.
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
cm
1Ü2
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
I — Experiências com A. (A'.) oPicaldoi guanijaensis e Pl. vivax.
(Quadro III).
Foram utilizados 14 lotes, num total de 56 anofelinas, das quais 26 se in-
fetaram.
Dèsse total de 56 mosquitos, 19 foram experimentados no período de ju-
nho-outubro e os demais 37 exemplares pertenciam ao período de novembrc- fe-
vereiro. No primeiro desses períodos foram obtidas 12 infeções, representando
uma porcentagem de 63,1% de mosquitos infetados. No segundo período, 14
dos 37 mosquitos experimentados estavam infetados, dando assim uma porcen-
tagem de 37,8% de infeção.
O exame do Quadro III demonstra que no lote 34 composto de 8 mosquitos
alimentados em gametóforo com 450 gametocitos por mm* ou 4 á á e 16 S 8
por 100 leucócitos houve 4 infetados.
O lote 44 constou de dois mosquitos apenas, ambos mortos no 10.® dia da
infeção, mas ambos infetados, encontrando-se a explicação desta elevada percen-
tagem, muito pro\"avelmente, na circunstância de ser extraordinariamente ele%*ado
a número de gametocitos apresentado pelo doente, 3.800 por mm*, sendo igual-
mente ótima proporção de 23 3 S e 23 88 por 100 leucodtos. E’ de notar
que o doente apresentava infeção mista, mas no dia da alimentação dos mosquitos
o número de formas sexuadas de faíciparum era desprezível, não tendo sido en-
contradas durante a contagem. Aliás tais altemati\*as de predominância de uma
das espécies em detrimento da outra, em infeções mistas estão longe de ser excep-
cionais, tendo sido estudadas experímentalmente por Boyd e Kitchen (46).
Neste lote o prazo não foi manifestamente suficiente para permitir evolução até
a fase infetante.
Lote 39, com 8 e.xemplares. Com exceção do exemplar 5, que apenas teve
uma refeição infetante e apresentou esporozoitos nas glândulas salis-ares ao ser
sacrificado ao cabo de 34 dias, os restantes receberam duas refeições. Os exem-
plares 1 e 2 tiveram certamente infeção derída à 1.* refeição, dado o lapso de
tempo decorrido entre a 2.* refeição e o encontro de oocistos; o de No. 3, que
apresentou infeção das glândulas sali\’ares, também se deve ter infetado na 1.*
refeição, pois o inten*alo entre a 2.* e a disseção não foi suficiente para o per-
curso do ciclo completo. Somente com os exemplares de No. 6 e 8 pode haver
dúrída si a refeição infetante foi a 1.* ou a 2.*, pois só foram sacrificados ao
cabo de 29 dias depois da 2.* refeição. E’ de notar que os exemplares Nos. 4
e 7 déste lote não se infetaram apesar das duas refeições, o que sugere a possi-
bilidade de maior resistência de algims exemplares. Houve, portanto, neste lote
6 infeções em 8 mosquitos experimentados, apesar do número de gametocitos da
1.* refeição ser de 300 apenas por mm*, com uma relação para 100 leucodtos
de 7.8 é á e 25 9 9.
to
f
Quadro III
ANOPHELES (SYSS.) OSWALDOI GUARUJAEXSIS INFETADOS COM PL. VIVAX
» do lote
No. do exem-
plar
Gametocitos
por mm*
RELAÇAO DE CAMETO-
CITOS PARA 100 LEU-
CÓCITOS
Data da
refeição
infetante
Data da
disseção
Incubação
cxtrinseca
Doente
RESULTADO
macrofame-
tocitof
microcame-
todtos
Oocittos
Esporozóitos
34
1
450
16
4
6.6.40
10.6.40
4
J.O.
—
—
M
2
w
I*
ff
6.6.40
21.6.40
15
ff
—
—
«•
3
n
I*
ff
6.6.40
21.6.40
15
ff
+
—
m
4
n
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ff
6.6.40
21.6.40
15
ft
+
—
5
t*
f»
6.6.40
21.6.40
15
ff
—
—
M
6
ft
ff
6.6.40
25.6.40
19
tf
+
—
H
7
*•
6.6.40
26.6.40
20
ff
-f- (esporos.)
—
f«
8
*•
ff
6.6.40
2.7.40
26
ff
inutilizada
—
39
1
300
25
7.8
8.6.40
22.6.40
14-6 (•)
J.O.
+
—
M
2
f*
fO
tf
8.6.40
28.6.40
20-10
ff
+
—
1*
3
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ff
••
8.6.40
4.7.40
26-10
ff
—
+
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4
f*
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8.6.40
12.7.40
34-24
ff
—
—
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8.6.40
12.7.40
34
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8.6.40
13.7.40
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ff
—
+
*•
7
•«
ff
ff
8.6.40
17.7.40
39-29
ff
inutilizada
—
«»
8
t*
ff
ff
8.6.40
17.7.40
39-29
ff
+
44
1
3.800
23
23
17.6.40
10
e.a.
+
—
«•
2
m
••
17.6.40
27.6.40
10
ff
+
—
49
1
1.250
4
3
18.6.40
27.6.40
8
A.L.
—
—
104
2
350
10
S
7.11.40
26.6.40
16
W.O.
+
+
••
3
••
ff
*•
7.11.40
23.11.40
5
ff
—
—
4
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ff
7.11.40
22.11.40
15
ff
+
+ .
S
••
ff
ff
7.11.40
22.11.40
15
ff
—
—
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7.11.40
22.11.40
15
ff
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7.11.40
22.11.40
16
ff
+
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8
n
ff
ff
7.11,40
22.11.40
15
ff
—
+
141
1
—
—
—
26.11.40
9.11.40
13
CG.
—
—
2
—
—
26.11.40
9.12.40
ff
ff
—
—
177
7
—
7
4.5
17.12.40
21.12.40
4
P. P.
—
—
9
—
ff
ff
ff
27.12.40
10
ff
—
—
I»
10
—
ff
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21.12.40
4
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—
—
(•
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ff
ff
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—
•
12
—
ff
ff
26.12.40
9
ff
—
—
t»
13
—
ff
-
tf
23.12.40
6
ff
—
—
14
—
tf
-
ff
27.12.40
10
H
—
—
180
9
—
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3
18.12.40
26.12.40
8
M. M. S.
+
—
181
2
—
10
5
18.12.40
27.12.40
9
F.N.
+
+
n
3
—
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26.12.40
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—
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26.12.40
8
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26.12.40
8
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+
+
184
4
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18.12.40
27.12.40
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—
5
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26.12.40
8
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6
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27.12.40
9
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7
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27.12.40
9
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—
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8
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26.12.40
8
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—
185
6
9
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19.12.40
26.12.40
7
E. A.
—
—
7
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*•
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24.12.40
5
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—
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186
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0
23.12.40
28.12.40
5
A. O.
—
—
190
1
—
4
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28.12.40
9.1.41
12
N.C.
+
+
3
—
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2.1.41
5
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—
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31.12.40
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2.1.41
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—
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11
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—
—
7
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ff
ff
2.1.41
5
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+
—
9
ff
ff
ff
2.1.41
5
ff
—
—
194
1
133
2.5
1
18.1.41
22.1.41
4
J.A.
+
—
(••. O* exemplares Nos. 39*1, 39-2, 39*3, 39-4, 3SMS, 39-7 e 39-8 foram submetidos a doas refeiçdts infetastes.
' Oociftos rasios.
I, SciELO
J. A. B. DA Fonseca & Flavio da Fonseca — Transmissão da malária
humana por Anofelinos da série tarsimaculatur lOã
O lote No. 49, constou apenas de um mosquito, não tendo êste apresentado
infeção perceptível à disseção.
No lote 104, de 7 mosquitos alimentados em doente portador de um número
fclati\’amente baixo de gametocitos, ou sejam. 350 por mm* de sangue, foram
encontrados 5 mosquitos infetados, números que indicam uma porcentagem de
^1,4% de infração. Nesses exemplares 104-2, 104-4 (Microfoto 4) 104-7, 104-8
e 104-9 a infeção atingiu a fase final de esporozóitos c os prazos de incubação
extrínseca variaram entre 15 e 16 dias.
Os exames procedidos nos mosquitos dos lotes Nos. 141 e 177, comportando
nm total de 9 mosquitos, resultaram completamente negativos, dando a impressão
da má qualidade do gametóforo.
No lote 180 o único exemplar experimentado mostrou oocistos em grande
número e muito desenvolvidos (Microfotos 5 e 6) depois de um prazo de 8 dias
de incubação extrínseca.
Resultados também brilhantes foram colhidos com os exemplares do lote
181. Dos 4 exemplares désse lote, 2 mostraram-se infetados, atingindo o para-
*>ta a fase final de esporozóito dentro de prazos minimos de 8 e 9 dias de in-
chação extrínseca, prazos êsses até então nunca conseguidos por nós. £sses
exemplares apresentavam também grande número de oocistos (Microfotos 7 e 8).
Nos lotes 184, 185 e 186, num total de 8 mosquitos, apenas o exemplar
1^0. 185-7 apresentara oocistos no estômago (Microfotos 9 e 10).
Nos lotes 190 com um total de 7 mosquitos examinados, 4 se mostraram
•nfetados e no exemplar 190-4 foi surpreendida, depois de 3 dias de incubação
extrínseca, a presença de oocistos no estômago, prazo esse o menor até então
Conseguido para esta fase da infeção.
No lote 194 cm um exemplar examinado foi o mesmo encontrado parasitado.
Verifica-se assim que os lotes experimentados durante os meses de junho-
Ctubro, nos quais a temperatura variou entre 25® e 16®, foram infetados numa
Proporção de 63,1%, enquanto que aqueles experimentados durante os meses de
’>ovcmbro-fevereiro, nos quais a temperatura máxima e minima atingiram os
1'Oiites extremos de 33® e 20®, respectivamente, a porcentagem geral de infeção
ultrapassou a 37,8%.
Em contraposição a esses resultados é interessante consignar o seguinte fato :
''^s lotes alimentados em junho-outubro foram encontrados oocistos somente no
dia de incubação extrínseca e os esporozóitos foram vistos dep>ois do 25.®
dia; nos demais lotes alimentados durante os meses de novembro-fevereiro, jà
terceiro dia de incubação extrínseca puderam ser obser\'ados oocistos nas
l^ccdcs do estômago e os esporozóitos foram vistos livres nas glândulas saliva-
já no oitavo dia de incubação no mosquito.
13
106
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Como adma ficou exposto a eleração das temperaturas máximas e minima*!
dos dois períodos junho-outubro e novembro-fevereiro, trouxe como consequefi*!
da uma baixa porcentagem geral de infeção, fato êsse paradoxal, pois era de
esperar com a eleração da temperatura ambiente um aumento de vitalidade do*l
gametocitos e portanto um maior número de mosquitos infetados. Mas tal di*'|
cordãnda de comportamento podería ser explicada também por condições pr®"
prías dos portadores de gametocitos utilizados nesses dois períodos.
Fato, no entanto, que ficou bastante em relevo foi a grande rapidez co«J*l
que se desenvolveu o parasita no mosquito durante os meses em que a tempe***!
tura foi mais devada, chegando à fase final de esporozóito no prazo extraortfr*!
naríamente breve de 8 dias.
II — Experiências com A. (?Í)'sí.) osicaldoi ostcaldoi e Pl. vivax.
(Quadro IV).
No lote 39.* de um total de três mosquitos, dois apresentaram infeção da*
glândulas salivares depois de alimentados em gametóforo com 3(X) gametocito*
por mm*. Embora êstes mosquitos tivessem duas alimentações em gametófor<A
pode-se conduir quasi com certeza que a infetante foi a primeira, não só porç®*
o prazo decorrido entre a 2.* alimentação infetante e a disseção não foi suficict*"
temente dilatado para atingir o final do ddo, como também porque no exempi*^
3 já não mais existiam oocistos, o que pro\-a que a infeção já datava de ma**
tempo. O gametóforo utilizado na 1.* refeição infetante tinha infeção mis***
mas a contagem do dia não revelou Pl. falciparum. Os resultados dos lotes 39 1
e 39a, rcspcctivamentc de guarujaensis (Quadro III) e osrtMldoi (Quadro lV)>
em que as condições de experimentação foram as mesmas, revelam a grand^ |
concordância da sensibilidade* das duas subespédes.
De um total de 11 mosquitos pertencentes ao lote 84a, em três exemplat<*i|
foram encontrados oodstos no estômago.
Os excmplarey S4a-2 (Microfoto 11) e 84a-4, depois de um período de i***!
cubação de 12 e 5 dias, respecti\*amcnte, apresentaram pequenos oodstos c ®
exemplar 84a-ll (Microfoto 12) mostrou nitidos oodstos bastante pigmentad®*|
mas depois de um dilatado período de incubação de 20 dias.
Dos 8 exemplares do lote 87a. apenas o de No. 8a-5 apresentou-se coi*
oodstos no estômago, isto no oitavo dia de incubação. No lote 88a foram tíit®*
bem observados 2 exemplares infetados, 88a-13 (Microfoto 13) e 88a-20; **®
entanto a infeção não atingiu a fase final de èsporozóitos, apesar de o perio<í®
de incubação no mosquito ter sido, respectivamente, de 14 e 19 dias para êss<*
dois espécimes. Com o lote 93a todos os e.\emplares alcançaram prazos
incubação superiores a 19 dias e o gametóforo era sufidentemente rico em g*'
metodtos de ambos os sexos : 14 í á e 7 9 9 para 100 leucodtos.
14
cm
■SciELO'
0 11 12 13 14 15 16
A. B. DA Fonseca & Flavk) da Fonseca — Transmissão da malária
humana por Anofelinos da série tarsimaculalus 109
Apesar desses fatores favoráveis, dos 5 exemplares experimentados, em um
*pcnas, e, depois de 26 dias de infeção, foram encontrados esporozóitos na cavi-
geral do mosquito, mostrando-se negativos nas glândulas salirares. Um
prolongado período de incubação ocorreu durante o mês de outubro, quando
** oscilações de temperaturas \-ariaram entre os limites de 25" e 19".
Com o lote l(Ma, experimentado durante o mês de novembro, quando a tem-
^^tura oscilou entre 29" e 20°, os resultados foram bastante diferentes. Em-
^ o gametóforo que alimentou êsse lote apresentasse menores quantidades de
^****ctocitos. 10 á á e 5 9 9, foram constatados em dois dos quatros exempla-
esporozóitos nas glândulas salivares e isto em prazos muito menores. No
^emplar 104a-5 a constatação foi feita com 16 dias de incubação extrínseca e
exemplar 104a-12. com 15 dias de incubação foram encontrados oocistos (Mi-
^ofoto 14) e esporozoitos em grande quantidade (Microfoto 15). Acreditamos
tal diversidade de comportamento tenha sido motivada pela diferença dc ttm-
f*t^uras durante o decurso da obser\’ação dos dois lotes, sendo de se notar que
* totalidade dos microgametocitos foi perfeitamente constatada no exame do san-
a fresco.
Com os lotes ISOa e 181a examinados durante o mês de dezembro e com-
P®*Tando um total de oito exemplares em três dêles, foi constatada a presença de
®®<sstos. e isto dentro de prazos que \'ariaram entre 6 e 9 dias. Deve aqui mc-
*^r um reparo espedal o grau de desenvolvimento atingido pelos oqcistos no
**®niplar 180a-6 (Microfoto 16), que em 8 dias de evolução atingiu dimensões
®*ttito superiores às verificadas em outros exemplares com período de incubação
dilatado, como pode ser verificado nos espécimes 84a-2 (Microfoto 11) e
^i-11 (Microfoto 12), em que êsse período foi respecti\-amente de 12 e 20 dias.
Os lotes Nos. 34a, 45a, 67a, 89a. 90a. 91a, 94a, 99a, 101a, 154a, 171a.
177a, 184a. 185, 186a e 188a. comportando um total de 63 exemplares,
apresentaram infeção.
Nesse grupo de experiências comportando um total de 115 mosquitos foi en-
^trada uma porcentagem de infeção de 12,1%.
Fazendo uma comparação entre os lotes experimentados nos períodos de
J*»iho-outubro e novembro-fe%-ereiro, êste último período de temperaturas mais
^^das, pôde ser constatado o seguinte resultado: no período de junho-outubro
^°ram experimentados 85 exemplares, tendo sido de 9 o número de espécimes
'•'betados, representando uma porcentagem de 10,5% de infeção. Nos lotes expe-
*^entados no período de novembro-fevereiro num total de 30 mosquitos, 5 dêles
**l*'am infetados, correspondendo a uma porcentagem de 16,6% de infeção.
Como já ficou demonstrado nos grupos de A. (A^) osuvidoi guarujaensis
*^Pcrimentados, o período de incubação da infeção do mosquito foi extraordina-
*^mente menor no período de novembro-fevereiro do que em junho-outubro.
17
110
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Também nos grupos de A. (-V.) oszixüdoi oszvaldoi êsse fato toi observado,!
bora os prazos aqui obtidos não fossem tão curtos como no grupo anterior.
III — Experiências com ,-1. (.V.) osualdoi guarujaensis e Pl. falcipai
(Quadro VI).
experimentação foi feita com 42 exemplares, dos quais 12 foram enl
trados infetados, isto é, 28.5%.
Comparando-se os resultados dos lotes trabalhados nos períodos de I
nho-outubro e de novembro-fevereiro, verifica-se que no primeiro período foi
experimentados 35 exemplares com uma porcentagem de infeção de 22,8%, T
quanto que no segundo período essa porcentagem se elevou para 57,1% coij
mosquitos infetados no total de 7 experimentados.
O lote 31 constituído de 9 exemplares, foi alimentado em gametóforo
1.1(X) gametodtos por mm’. Só o exemplar 9 foi encontrado infetado, apre^|
tando oodstos no estômago, isto após 16 dias de incubação no mosquito.
Com o lote 32 foram obser\-ados os melhores resultados possíveis, pois
4 exemplares experimentados todos eles, isto é, 1CX)%, se apresentaram infetad
Dos 5 exemplares do lote 40, em 3, isto é, 60%, foi constatada a infeção!
Também com o lote 103 os resultados foram apreciáveis, pois que foi obíj
uma porcentagem de infeção de 57,1%.
Nos lotes 33, 36, 51 e 69, comportando um total de 17 exemjJares, não
verificada infeção alguma.
IV — Experiências com o A. (.V.) osualdoi osualdoi e Pl. falciparur
(Quadro V).
Foi utilizado um total de 105 exemplares, mas apenas em 4 espécimes
ser obser\-ada infeção, representando uma porcentagem inferior a 4%.
Desse total de 105 mosquitos, 99 foram experimentados no período junl
outubro e somente 6 exemplares estão incluídos no período novembro-feverc|
No primeiro desses períodos foram encontrados 4 exemplares infetados, enqc
que no segundo período não foi obtida nenhuma infeção.
Os lotes de mosquitos que constituiram êste grupo de experiências aprt
taram resultados muito irregulares, principalmcnte se compararmos com aquJ
dos demais grupos de experiêndas. Assim, dos exemplares que foram consej
dos infetados dentre os 105 experimentados, 75% pertendam ao lote
Nesse lote constituído de 5 exemplares e alimentado cm gametóforo cora de
dade de gametocito relativamente baixa. 4 9 9 e 2 á á para 1(X) leucodi
foram encontrados 3 espédmes infetados, representando uma porcentagem|
infeção para o lote de 60%.
18
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
Quadro V
ASOPHELES (NYSS.) OSWALDOI GUARUJAEKSIS INFETADOS COil PL. FALCIPARUM
*> lote
Koi do ezem*
piar
Gasietocitos
por mst*
RELAÇAO DE G.AMETO-
CITOS PARA 100 LEU-
CÓCITOS
Data da
refeieSo
infetante
Data da
dissocio
Dias de
incobaçSo
extrínseca
Doente
RESUL
TADO
macro^ame*
todto
microcaxoe*
toei to
Oocistos
Esporozóitos
31
1
1.100
4.6.40
10. 6.40
6
o.s.
—
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5.6.40
20. 6.40
15
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21. 6.40
16
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A-
—
»
4
«•
tf
tf
tf
25. 6.40
20
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+
-j- (cavidade
geral)
33
1
50-60
3
2
5.6.40
10. 6.40
5
A. C.
—
—
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2
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21. 6.40
16
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36
1
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8
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6.6.40
27. 6 40
21- 9
O. s.
—
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•
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28. 6.40
22-10
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16. 7.40
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1. 7.40
5
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E. M.
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113
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26
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O. D.
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10
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18.11.40
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—
14
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23.11.40
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-
22.11.40
17
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—
—
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- -
18
—
19
-
••
••
ff
18.11.40
13
**
A-
—
21
—
n
ff
25.11.40
20
ff
+
SciELO
i •
22
Quadro VI
ANOPHELES (SYSS.) OSIYALDOI OSWALDOI INFETADOS COM PL- FALCIPARUM
cm
exemplar 35a-4 foi alimentado duas vezes no mesmo gametóforo.
J. A. B. DA Fonseca Jt Flavio da Fonseca — Transmissão da malária
humana por Anofelinos da série larsimaculalas llã
Dos demais exemplares experimentados apenas no exemplar 70a-4 foi no-
tada a presença de oodstos no estômago e isto depois de um prazo de 19 dias
de incubação no mosquito.
Comparando os resultados dêsse lote 40a com os de seu homólogo 40 (Qwa-
dro V), verifica-se que aqui guarujaensis e oswaldoi, em condições absoluta-
mente idênticas, mostraram igtial sensibilidade. Êsse resultado contrasta no en-
tanto com aquele obtido e retirado do número total de e.xemplares dessas duas
'■ariedades experimentadas com Pl. falciparum. Para as variedades guarujaen-
■íií e osuxüdoi foram obtidas as porcentagens de infeção de 28,5% e 3,8%, res-
Pectivamente, parecendo ter corrido essa divergência de resultado mais por conta
de uma questão dependente da infctuosidade dos gametocitos do que propria-
tnente da sensibilidade de cada um dessas rariedades, pois como foi referido
linhas acima, essas duas rariedades, quando experimentadas em perfeita igual-
dade de condição e de número, apresentaram resultados perfeitamente iguais.
INFETUOSIDADE DOS G.AMETOCITOS
A capacidade infetante dos gametocitos está subordinada a uma serie de con-
dições que na prática não sabemos apreciar devidamente, tomando-se a escolhr. de
ttni bom gametóforo problema de difícil avcrigtiação.
A densidade de gametocitos por nun* de sangue nem sempre c indicc seguro
P*ra a%*aIiação das bôas qualidades do gametóforo.
Embora tenham sido mais frequentes as infeções dos mosquitos alimentados
®*n gametóforos com alta densidade de gametocitos, isso não impediu que fossem
observadas infeções quando era bastante baixo o número dêsses elementos. As-
*im aconteceu com os lotes 40 e 40a, alimentados cm gametoforo com baixa
felação de gametocitos e, no entanto, foi constatada uma porcentagem de infeção
60%.
Ocorrência interessante foi verificada com o gametóforo E. M. quando nos
'lias 31.7, 1.8, 2.8, 3.8, 5.8 e 5.8 alimentou os lotes 68a, 69a, 70a, 71a, 74a
* 75a. Em todos êsses dias o número de gametocitos por mm* de sangue foi
elevado, prindpalmente nos dias 3 e 5. Nos dias em que mais clc^’ada foi a
®®ntagem, englobando um total de 23 mosquitos (Lotes 71a, 74a e 75a), nenhum
^es foi encontrado infetado. No enranto o lote /Oa, composto apenas de 3
^emplares e alimentados em dia no qual a densidade de gametocitos foi mais
três vêzes menor do que a dos tres últimos lotes, foi encontrado um desses
^emplares infetado. O Quadro VII mostra melhor êsse contraste a que acaba-
de nos referir.
23
IIG
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Quadro VII
Lote
Gametóforo
Dia da ali-
mentaçio
Contagem de
parasito» por
mm.*
No. de mes*
qnitos disse-
cados
N<. de mos- I
quitos infe-
tados 1
68a
E.M.
31.7
700
6
0
69a
E.M.
1.8
800
.7
0
70a
E.M.
00
994
3
1
7Ia
E.M.
3.8
3.093
11
0
74a
E.M.
5.8
3.350
11
0
75a
E.M.
5.8
3.350
1
0
Procedente de S. Vicente obtivemos por criação um lote (Lote 194) col
posto de 19 mosquitos da série tarsiuiaculatus, não incluidos nos quadros de
feção por não terem sido as subespécies identificadas. Êsse lote foi alimentai
em gametóforo. J. A., que no momento de ser sugado apresentava densidade
133 gametocitos de Pl. vk-ax por mm’ de sangue e a relação desses elemcnil
para 100 glóbulos brancos era de 2,5 2 2 e 1 S $ . Desses 19 e.\emplares|
foram inutilizados no áto da dissecção, ficando o lote reduzido a 15. Dos
espécimes, 12, ou sejam 80Çó, foram encontrados fortemente parasitados e puf
ram ser obser\-ados oocistos e esporozóitos nos prazos relativamente curtos de
a 9 dias, respectivamente. As Micro fotografias 17, 18, 19, 20 e 21 referer.tl
aos e.xemplares 194-5, 194-10 e 194-16 nos dão idéia exata da intensidade cl
infeções cxasionadas por êsse gametóforo apesar da pequena densidade de gani
todtos.
Tais fatos estão, em parte, de acordo com as observações de Boyd e Thor
(47) sôbre a falta de relação entre a infeção qualitatira e o número de gair
tocitos e parecem sugerir a hipótese de que, além da receptividade das anofeiir
e do estado de maturação dos gametocitos, ainda outras condições desconhecic
são e.xigidas para que se processe a infeção. Pelo obser\-ado nos gametófoil
O S. e E. M. verifica-se como oscila de um dia para outro o número
gametcxútos.
Em algumas das verificações de Boyd, Carr e Rozeboon (48), no Quad|
II, só se pcxlerão atribuir os resultados registados à deficnência da técnica
contagem, pois chegam a referir, no caso 261,0% de 2 2 e á <J por mm’, dar
infeção de 66% de A. qmdrímaculatus com Pl. vivax... Mais abaixo (Xo. I
860) referem 0% de macrogametoentos, dando 100% de infeções, inclusive!
mosquitos com mais de 100 oocistos; como A. quadrímarulatus ingere cêrea
0 g 0032 de sangue (Boyd, Carr e Rozeboon, loc. cit.), é evidente que o núme
de macrogametocitos deveria ser de, pelo menos, 30 por mm’ para dar lugar
aparecimento de 100 oocistos.
24
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
J. A. B. DA Fonseca & Flavio da Fonseca — Transmissão da malária
humana por Anofelinos da série iarsimaculalus 117
SITUAÇAO DA ESTANCIA BALNEARIA DO GüARüjA EM RELA-
ÇÃO AO PROBLEMA DA TRANSMISSÃO DA PLASMODEOSE
Na ilha de Santo Amaro, litoral de S. Paulo, reina a malária (Pl. ffinj-r e
PI. falriparum) sob forma endemo-epidêmica, tendo, ainda, no ano de 1940, sobre-
tudo surto de regular intensidade.
A Seção de Entomologia do Serviço de Profilaxia da Malária em numero-
sas capturas de adultos e larvas realizadas na estância balneária do Guarujá, du-
rante os meses de março de 1939 e de janeiro a julho de 1940, abrangendo
4.844 exemplares, apenas conseguiu determinar, na Ilha de Santo Amaro, a pre-
sença de cinco anofelinas:
A. (iV.) osu-aldoi guarujaensis
A. (N.) osavldoi osu'aldoí
A. (_A.) eiseni
A. {Arr.) intermedius
A. (K.) cruci
Apesar do número elevado de exemplares capturados, não foi possível en-
*^trar até aquela ocasião A. {N.) albitarsis registado nesta ilha, em 1927, por
Prado (49).
Das espédes encontradas A. (A’’.) osvxddoi guarujaensis e A. (A^) osuxjldoi
^envidai predominam sempre sòbre as demais, quer em capturas domiciliares,
*lU'.r com isca animal, quer na fase de larra, representando estas duas anofelinas
do total capturado, cabendo a A. (N.) oswaldoi guarujactisis 57,8% sobre
® total e a /í. (N.) oswaldoi osuxddoi 27 o que bem demonstra a sua pre-
^^ominância sòbre as demais espécies.
Os anofelinos identificados como A. (^A^) larsiniaculatus têm sido diferen-
**niente apreciados no que se refere à sua importância como vetores da malária.
Darling (8) tem A. (N.) tarsimaculaius na conta de bom vetor no Panamá,
® mesmo conceito emitindo de Verteuil (50) para Trindade, Nicholls (19) e
Pirle (7) para Santa Lucia, nas índias Ocidentais, Bonne Bonne-Wepster (11)
relação a Paramaribo. Ao contrário disso, Shannon e Del Ponte (10) dizem
**r possivelmente bom transmissor em Missiones, não apresentando, porém, im-
Portância no N. O. argentino. Boyd (18) considera tarsitnaeuJalus A.A. esp)é-
de preferência zoófila e de papel secundário na eindemia que observou no
^*4ado do Rio, o mesmo juizo emitindo Davis (26) sòbre o seu piapel em Belém,
^lado do Pará. Curry (51) nega importância à subespécie aquasalis no Pana-
Cesar Pinto (52) diz que o poder de transmissão deve ser insignificante,
'^da a raridade de seu encontro em domidlios.
25
118
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
A (iV.) oswaldoi guarujaensis (= A. (A\) tarsimaculatus dos autores)r
por ser ■variedade recêm-descrita, não teve até agora ainda a sua capacidade ve-
tora devidamente apreciada.
Sôbre A. (iV.) oswaldoi oswaldoi [= A. {N.) tarsimaculatus osioaldoi
Peryassú, 1922] poucos são os autores que emitem opinião. Boyd (18) jul-
ga-o talvez pouco sensivel à infeção, embora tenha encontrado infetado um exem-
plar entre 13 dissecados no Estado do Rio. Galvão (53), confirmando obser-
\*ações de Bonne, diz ser esta anofelina zoófila e ter importância reduzida na
transmissão da malária. Freitas, entretanto, conseguiu o infeção experimentaf
com Pl. falciparum em 1941 e observou a infeção natural, no Estado do Rio e
no Distrito Federal (9).
As restantes espécies encontradas em Guarujá e em suas imediações apenas
tiveram até hoje sensibilidade compro\-ada experimentalmente; A. (Arr.) uUer-
medius para Pl. falciparum até a fase de oodsto por Xeiva e Ruy Ladislao (1)
no Xerém, Estado do Rio; A. {K.) crusí até oodsto por Davis (14) em Angra
dos Reis, Estado do Rio, atingindo a fase final de esporozóito nas experiências
de Fl. da Fonseca e R. R. Corrêa, em Guarujá (15), e, talvez, em infeção naturaV
por Galli-Valerio (35), no Paraná; A. (A.) ciseni até oocisto por Simons (16),
na Panamá, e com Pl. falciparum até esporozóito por J. A. B. Fonseca, em Gua-
rujá (17).
Das espécies capturadas sabemos que ciseni só dificilmente ataca o homem
ou animais domésticos (só foram capturados em fase de lar\-a, em número de
509); que cmsi figurou em número ínfimo (13 e.\emplares) e que intcrmcdius,-
na proporção encontrada, não bastaria para e.xplicar o intenso surto epidêmico.
A. (^^) oswaldoi oswaldoi, embora mais frequente do que as espédes já refe-
ridas, também parece não desempenhar papd de rdeváncia na transmissão da
malária em Guarujá, muito embora em provas experimentais e em igualdade de
condições com A. (iV.) oswaldoi guarujaensis (Lotes 40 e 40“), tenha apresen-
tado também idêntica sensibilidade para os plasmódeos humanos.
Capturados em domidlio obtivemos 167 exemplares, dos quais 165 foraio
identificados como A. (N-) oswaldoi guarujaensis, 1 como A. (X.) cruci. To-
dos êsses mosquitos foram dissecados, tendo sido encontrados oodstos (Miciofo-
to 22) no estômago de 3 exemplares de A. (N.) oswaldoi guarujaensis, repre-
sentando êsses números uma porcentagem de 1,3% de infeção natural para
essa •\'ariedade.
Os resultados das disseções realizados durante êsse período estão conden-
sados no Quadro VIII.
26
J. A. B. DA Fonseca & Fu^vio da Fonseca — Transmissão da malária
humana por Anofelinos da série (arsimaculalus
119
Ql-.ujbo VIII
Més
ESPÉCIE
No. de
exempl.
RESULTADO
D.\ DISSEÇÃO
Estemago
Glândula
PoeitxTO
XegatÍTO
Positiro
XegatiTo
Xov.»
A. (S,) ofwaldoi guarujaensis
112
3
93
0
107
Dez.»
A. (wV..) osxcaldoi guarujaensis
49
0
46
0
49
Jan.»
A. (K.) cruA
1
0
1
0
1
Março
A. (.V.) osKoldoi guarujaensis
1
0
1
0
1
A. (A".) osuvldoi osaxíldoi . .
1
0
1
0
1
Abril
A. (A',) osxcaldoi guarujaensis
1
0
1
0
1
Maio
A. (AT.) osicaldoi guarujaensis
1
0
1
0
1
Junho
A. (.V.) osxcaldoi
1
0
0
0
1
Tendo em \nsta a frequência com que o A. (jV.) osxvaldoi guarujactisis foi
capturado no interior de domicilies, predominando de maneira absoluta sôbre
demais espécies, onde. foi encontrado naturalmente infetado, não temos dú-
'■ida em responsabilizá-lo como o principal vetor de malária na estância baineá-
ria de Guarujá, muito embora nas proras de sensibilidade para os plasmódeos
humanos o A. {N.) osu’aldoi os-axildoi tenlu se mostrado em certas condições
>?ualmente sensivel.
Achado interessante foi por nós assinalado no exemplar 183-4. Êsse mos-
quito foi encontrado naturalmente infetado com esporozóitos nas glândulas sa-
^•'■ares. A disseção do estônu^o revelou a presença de corpo arredondado par-
cialmente enegrecido (Microfoto 23) e que julgamos ser a ca>*idade deixada na
Parede do estômago após o esvasiamento do oocisto e aparentemente in\-adida
Por cogumelos. Essa ocorrência parece não ser extremamente rara, pois em
exemplar utilizado em provas de infeção experimental, obser\'amos na pa-
ccfle do estômago inúmeros corpúsculos negros (Microfoto 24), apresentando
*Pro.\imadamente as dimensões de um oocisto.
Todas as micro fotografias do presente trabalho foram tiradas com 70 cm
altura de fole e ocular Xo. 7, tendo sido usada objetiva 8 para os pequenos
Aumentos e objeti^^a 40 para os grandes.
CONCLUSÕES
1. As profundas modificações introduzidas ultimamente no conceito da es-
^'e e subespécie das anofelinas do subgênero Nyssorhynchus, cspecialmente
^ séries tarsimaculatus, reduziram p>or tal forma os conhecimentos sôbre a
27
120
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
transmissão da malária humana, que uma rensão à luz dos conhecimentos mo-
dernos se toma altamente desejá%'el.
2. No presente trabalho foram infetados Anophcles (Nyssorhynchus) os-
waldoi osTLvldoi Galvão ct Lane, 1938, e Anophcles {Nyssorhynchus) os7i'al^
doi guarujacnsis Ramos pro\ãndos da criação de fêmeas grávidas capturadas em
Guarujá, Ilha de Sto. Amaro, S. Paulo, de julho de 1940 a fevereiro de 1941.
3. Foi obtida a infeção experimental de A. {Nyssorhynchus) oszíoJdoi
guarujacnsis em 46,4% de 56 exemplares e a de {Nyssorhynchus) osTvaldoi
osuvidoi em 12% de 115 exemplares alimentados em gametóforos com PL viz'ax.
4. Anophcles (N yssorhynchus) oszvaldoi guarujacnsis e Anophcles (Nys-
sorhynchus) oszvaldoi oszvaldoi foram infetados experimentalmente em PL fal-
cipantm, tendo a percentagem de infeções sido de 28,5% sôbre 42 exemplares
para o primeiro e de 3,8% sôbre 105 exemplares para o segundo.
5. A porcentagem total de infeções obtidas (conclusões 3 e 4) que parece
demonstrar sensibilidade menor de A. {N.) osrcaldoi oszcaldoi em relação a A.
(jV.) osTcaldoi guarujacnsis, está em desacordo com a obser%’ação de igual sen-
sibilidade sempre que as condições da experimentação foram as mesmas para as
duas subespécies, isto é, alimentação na mesma data e no mesmo gametóforo.
6. À temperatura de 16 a 28”, nos meses de junho a outubro o delo es-
porogônico de Plasmodium znvax levou 25 dias a se completar e o de Plasmo-
dium falciparum 22 dias em A. (.V.) oswaldoi guarujacnsis. O aparecimento
mais precoce de oodstos deu-se ao cabo de 10 dias com Pl. vivax e de 15 dias
com Pl. falciparum.
7. Disseções sistematicamente praticadas em mosquitos com prazo de in-
feção cada vez menor permitiram verificar que o ciclo exógeno completo de
Plasmodium zri'ax pode ter lugar em A. (-V.) oszvaldoi guarujacnsis, até com
oito dias apenas, no mês de dezembro, à temperatura de 23” a 33”C, podendo
os oocistos ser vistos a partir do 3.” dia. A mesma subespéde infetada com
Pl. falciparum apenas permitiu observar infeção de glândulas salivares 18 dias
após a refeição infetante, tendo sido vistos oocistos a partir do 13.® dia, não
tendo, entretanto, sido feita pesquisa especialmente destinada a verificar os pra-
zos minimos.
8. À temperatura de 16 a 28®, nos meses de jundo a outubro, o ciclo
c.xógeno de Pl. vivax levou, no mínimo, 25 dias a se completar e o de Pl. falct'
parum, no minimo, 33 dias, em A. (N.) osuztldoi oszvaldoi. O aparecimento
mais rápido de oocistos foi surpreendido ao cabo de 5 dias em Pl. vivax e de
19 com Pl. falciparum, não tendo com esta última espécie de plasmódeo havido
oportunidade de pesquisar especialmente o prazo minimo da evolução.
28
A. B. DA Fonseca & Flavk) da Fonseca — Transmissão da malária
humana por Anofelinos da série (arsimaculatus 121
9. A temperatura de 20-33°, nos meses de novembro a fevereiro, o ciclo
exógeno de Pl. vk-ax lei’ou, no mínimo, de 15 dias a se completar em A. (N.)
oswaldoi oxwaldoi. O aparecimento mais precoce de oocistos foi de 6 dias em
Pl. vwax.
10. Durante os meses de junho a outubro, sempre que um exemplar infe-
ro resistia durante lapso de tempo superior a 20 dias (prazo mínimo neces-
sário ao aparecimento de esporozóitos durante aquele periodo), o ciclo exógeno
se completou, com uma única exce<;ão em 11 casos.
11. Só foram encontrados oocistos até o 26.® dia após a refeição infe-
lante, excetuando o caso da conclusão anterior, no qual, apesar de decorridos
3l dias ainda havia oocistos imaturos, o que sugere a hipótese de uma parali-
^ção completa do desenvolvimento do parasito. Em outro caso, em que foi
^sto oocisto com 29 ou 39 dias de infeção, éste se encontrava já vazio.
12. O prazo máximo durante o qual as anofelinas se mostram infetantes
foi de 37 dias para A. (-V.) osivaldoi osivaldoi infetado em julho com Pl. fal-
^Parum e de 27 dias para o mesmo infetado no mesmo mês com Pl. vivax.
£ni A. (iV.) oswaldoi guarujaensis infetado em junho, o mínimo prazo foi de
^ dias para Pl. znvax e de 22 dias para Pl. falciparum, sendo de crer que, em
Oxidições normais, êsses prazos sejam mais dilatados.
13. A capacidade infetante dos gametocitos não parece diretamente pro-
Pordonal ao seu número. Resultados obtidos na presente experimentação de-
®>onstraram que o fator qualitativo c mais importante do que o quantitativo.
Também a falta de exflagelação pesquisada in ritro não mostrou índice seguro
^ falta de poder infetante do gametóforo.
14. De 167 exemplares capturados cm domidlios cm Guarujá. 165 foram
•^entificados a A. (N.) osuxUdoi guarujaensis, I a. A. (N.) oswaldoi oswaldoi
* I a Anopheles {Kertessia) cnixi.
15. Dos 165 exemplares de A. (,N.) os^ialdoi guarujaensis, 3 apresenta-
oodstos no estômago.
16. Os hábitos domidliares do A. (N.) oswaldoi guarujaensis, aliados à
*ha grande receptividade e.xpcrimcntal e ao encontro de exemplares infetados
^ domidlio, lc\-am a responsabilizá-lo como o principal vetor da malária na
^'‘calidade de Guarujá. na Ilha de Sto. .■Xmaro, durante os anos de 1940 e 1941.
RESUMO
Anopheles (.Nyssorhynchus) oswaldoi os 7 caldoi Galvão & Lane, 1938,
* Anopheles (N yssorhynchus) oswaldoi guarujaensis Ramos foram criados em
^Watório, partindo de fémeas selvagens c infetados com Plasmodium vizax c
rí
‘^nioduim falciparum.
29
122
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
O primeiro infetou-se com Pl. vizvx na proporção de 12% de 115 exem-
plares. Com Pl. falcipannn a proporção da infeção foi de 3.8% 105 exempla-
res para osu-aldoi oswaldoi e de 28.5% sôbre 42 exemplares para guarujaensis.
A diferença de sensibilidade observada entre oswaldoi osuvildoi e gua-
ru jaensis parece ser apenas aparente, pois quando era usado um mesmo doente
para infetar ambas as subespécies, os resultados eram concordantes.
Com guarujaensis foram observados oocistas de Pl. zdz-a.r após 3 dias e
de Pl. falciparum após 13 dias de evolução, no mínimo, le\’ando o ciclo completo
um mínimo de 8 dias a se completar com Pl. zrvax e de 18 dias com Pl. falc:pa~
ruiit.
Com oszialdoi oszvaldoi o aparecimento mais precoce de oocistos de Pl.
z>iz’a.r foi de 5 dias. levando o ciclo completo um minimo de 15 dias a se
completar.
O prazo máximo durante o qual as anofelinas se mostraram infetantes foi
de 37 dias. a partir da data da infeção, para oszvaldoi oszvaldoi infetado com
Pl. falciparum, e de 27 dias para o mesmo infetado com Pl. vízkjx. Com
guarujaensis êsses prazos foram de 34 dias para Pl. zdzvx e de 22 dias para
Pl. falciparum.
De 165 exemplares de guarujaensis capturados em domicílios em Guarujá,
Santos, três apresentasam oocistos no estômago. Como esta espécie predomi-
na de modo absoluto nos domícilios, deve ela ser responsabilizada pelos surtos
de malária ocorridos entre os anos de 1940 e 1941.
ABSTRACT
Anophclcs {Nyssorhynchus) oszvaldoi oszvaldoi Galvão & Lane. 193&
and Anopheles (Nyssorhynchus) oszvaldoi guarujaensis Ramos were bred in
the laboratorj' from wild female spedmens and infected with Plasmodium zizaX
and Plastnodium falciparum.
The former was infected with Pl. z-iza.r in the rate of 12% out of ll5
spedmens and the latter in the proportion of 46.4% out of 56 specimens. With
Pl. falciparum the rate of infection was of 3.8% out of 105 spedmens of
oszvaldoi oszialdoi and of 28,5% out of 42 spedmens of guarujaensis.
The difference of sensibility obser\*ed between oszvaldoi oszvaldoi and gui”
rujaensis only seems to be an apparent one, since the results were in aceof*
dance when both subspedes were submitted to experiments under same coO-
ditions.
With guarujaensis oocysts of Pl. zivax were observed after 3 days and
of Pl. falciparum after 13 days of evolution, at least, the whole cycle taking
Icast 8 days from completion with Pl. zdzv.r and 18 days with Pl. falciparu»*-
30
J- A. B. i>A Fonseca & Flauto da Fonseca — Transmissão da malária
humana por Anofelinos da série tarsimaculatus 123
With oswaldoi oswaldoi the most precodous appearence of Pl. vivax
ooc),'sts ■was stated on the fifth day, the complete cycle taking at least 15 days
^or completion.
The maximum space of time during wich the anophelines proved iníectant
"as of 37 days the date of infection for oswaldoi oswaldoi infected wth Pl.
ftdciparum, and of 27 days v.hen infected wth Pl. vtzxix. With guantjacn-
•tfj these spaces of time were of 34 days for Pl. zivax and of 22 days for
Pl. falciparum.
From the 165 specimens of guarujaensis captured in houses in Guarujá,
Santos, three presented ooc)’sts in the stomach. As this spedes predominates
^solutely in the indoors, it must be considered responsible for the malaria epi-
dcmics recorded betvveen 1940 and 1941.
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
1|
12
13
U
15
16
17
18
19
20
21
22
23
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de Profilaxia da Maliria. Eatre^e para publicação ^
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32
Mcm. In»t. Butantan
Koxsec\, J. a. B. da & Fonseca, Fu da — Transmissão da
malária humana por anofelinos da série tarsi- voi. XVI —
maculatas.
MICROFOTO 1
OiT» d* •d. ísmlJoi
MICROFOTO 2
Ovoí dr A. (X.) onnUtn
(scftindo Ramos)
33
Mcm. In»t. Htrianian
Hoxseca, J. a. B. da Jt Foxseca. Fi„ da — Transmissãu da
malária humana por anofeliiios da série tarsi-
maculatus.
Vul. XVI — 1942
MICROKOTl» }
aii-TO df lanra dr A. (X.) iWttWdoí çntr,jum4Ú
isrfundo Karno»)
MÍCROFOTO 4
Kxrmilar 4 do lolc 104. K«poro«ôitos rm a «In^ar dc .4. (.\.> rirro/dbi
çmãriÊj^rnttt
SciELO
cm
10 11 12 13 14 15
Foxsec.\, J. a. B. da Si Fonseca, Fi_ da — Transmissão da Mcm. in»t. Bu-.apuii
malária hamana por anofelinos da série tarsi- v'ol. XVI — 19-12
maculatus.
MICROFOTO S
Exemplar 9 do lo«e 180. Exlôiiuso dc A. (.V.) ortro/doi
MICROFOTO 6
Exemplar 9 do lUe 180. Fjt6ma*o de A. (.V.) onrtUvi çmtrMjtfnjU
com oocitlf» * fl- **»«■.
Fonseca, J. a. B. da & Fonseca, Fl. da — Transmissão da Mcm. in»t. Bmanun
mataria humana por anofelinos da série tarsi- voi. xvi _ 1942
maculatus.
MICROKOTO 7
Exrmplar 6 do loic 1*1. Ooci»tot cora * di»».
MtCROFOTO »
E.T*mfifar 6. lo«c ISl. « c ^"0 8 di*«. E*porc*óita« \ÍMvri« tM> inttrtnr <lm oüCi^tnA
cm
Fonseca, J. A. B. da 4 Fonseca, Fi_ da — Transmissão da Mcm. inst, Butantan
malária humana por anofelinos íla série larsi- voi. xvi 1943
maculatus.
MICROFOTO U
Exrmplar 3, lote 84a. -“f- Í.V.l ueaxt/doí Eatõtsieo cotn orcUlos de 12 dia*.
MICROFOTO 12
Exemplar II, lote 84a. Infeção de 20 dias esn estòtna^ de xf. (,V.) ora«/doi onrsldo*.
I.!
cm
Fonseca, J. A. B. da & Fonseca, Fu da — Transmissão da
malária humana por anofelinos da série tarsi-
maculatus.
Afrrn. Inst. Butantan
Vol. XVI — 19A2
MICROFOTO U
Exrmplar 13, lote <8a. um oatro cav> de infe^io retardada. Oocirto* com 14 diaa.
MICROFOTO 14
Exemplar 12. 104 a. Oocirto Ualtante enluido.
45
MICROFOTO 15
F-xnnplar 12. Io«e 104». E>|iurtxõil 09 «n ílindul» vilirar dc .4. <.V.) onrtldoi rmUot.
com 15 dia* d« ctoIuçÍo.
MICROFOTO 16
Exrmplar 6 lote 180». Oociac» «Twntxr drpci. dc 8 di». d* incuboçio.
Í7
0N'Sec.\. J. B. DA & Fok.seca. Fi_ Da — Transmissão da Mcm. inst. Bpt»m»n
malária humana por anofelinos da série tarsi- voL xvi — i»42
maculatus.
toNSECA, J. A. B. DA 4 Fonseca, Fl. da — Transmissão da Mot. iiut. Butaniu
malária humana por anofelinos da série tarsi- voí. XVI — 1942
macnlatus.
MICROFOTO 1?
Kxcmplar S, l<4c 194. Evtòraasn allanjetUe raraaita4o.
MICROFOTO 11
Exemplar 5. Io(c 194.
40
cm
Foxsec\, J. a. B. da 4 Fonseca, Fi_ da — Transmissão da Mcm. lt»i. Buuman
malária humana por anofelinos da série tarsi- voJ. XVt — 194 »
raaculatus.
MICROFOTO 19
Exrraplar 10. lote 194. Oocisto» dc uma recama attngiodo diferentes dimensões.
MICROFOTO .'0
Exemplar 16, lotr 194. Estômago centendo grande número dc oocistos.
51
^OXSECA, J. A. B. DA & FoNSEC\, F1_ Da Transmissão da Mnn- Insl. Bmaman
malária humana por anofelinos da série tarsi- Vol. XVI — 1942
maculatns.
MICROFOTO 21
Kxrniplar 16. loCe 194.
MICROFOTO 22
£«tòmai?o d« (*V«) crx^d^ çm^njacmsu cocootrado naturMmmte iaíctado.
53
In*t. Butantan
Fonseca, J. A. B. da i Fonseca, Fu da — Transmissão da
malária humana por anofelinos da série tarsi- Voi. xvi — iw2
marulatus.
MICROFOTO 23
Exemplar 4, Io«e 183. Estômago dc anofdino ciKonlrado naturalmcolc infetado; eaxidade
deixada pelo exTasiamento de oocixtox, xendo poxxiTelmente inradida por eogumelox.
MICROFOTO 24
Corpmcnlof negroa em exlomxgo de mmiaito infetado experímentalmentc.
representando provável mento oecistox invadidos por elementos de contamínagão.
5'i
2 3 4 5 6 SciELO 10 11 12 13 14 15
395.42:616.963.3
NOTAS DE ACAREOLOGIA
^OC.XI\’. Posição do gênero Liiwnissus Kolen.\ti em face das
espécies tropicais; seu desdobramento em novos gêneros
(Acari, Liponissiclae) *
POR
FL.WIO DA FOXSECA
Quando cm 1935 descrevi cinco noras espécies incluidas no gênero Lipo-
Kolenati (1) salientei a necessidade de uma revisão deste gênero, pois
'^írias espécies, entre as quais uma que então descrevia, só forçadamente nele se
'ieixavam enquadrar.
Embora seja realmente de lamentar e provoque de regra protestos menos
fundamentados, que espécies de grande importância médica ou conómica cujos
*’®uies são já familiares aos não especializados, como os de Ltponissus bursa e
^^Ponissus bacoti, de\*am mudar de gênero, este argumento não pode preralccer,
^stituindo obstáculo à evolução da sistemática. -Aliás, também Oudemans (2)
o levou em consideração ao incluir implicitamente, em 1936, no seu monu-
'•'^ntal traljalho de crítica e história da -Acareologia, todas as espécies de Lipo-
^isus, com e.\ceção única da espécie tipo, setosus, no gênero Macronvssus que
^•'lâo reralidou.
Xa verdade o conceito original de Liponissus Kolenati é uma incógnita,
contrárío do que sucede a outros genotipos de Kolenati, dos quais ainda hoje
^^stam tipos nos museus europeus, é desconheddo o paradeiro dos de Dcnm-
setosus Kolenati, espécie de tipo do gênero Lipotiisstis, cuja descrição
* deficiente demais para que se possam reconhecer os caracteres genéricos.
Por um consenso unânime dos espeaalistas, impossibilitados de reconhecer
caracteres dos gêneros de Kolenati (Macronyssus, Lcpronyssus, Liponissus,
í*) Trabalho reproduzido do toI. í( 6-7) de “ Cieociz" (M£z>oo) pr>r dIo ter *ído
'^otzda a dizfnose dot géneros em liogua de Congresso, coao fora pedido i Redaçlo.
1
150
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Ichoronyssus, Pivulonyssus e Steatonyssus) , devido à insuficiência das des
ções originais, foram êles durante muitos anos considerados sem outra
sinónimos de Liponissus e como tal tratados por Stanley Hirst em 1921 (I
O valioso trabalho de Hirst, redescrevendo vários cotipos de espécies de Koler
existentes no Museu Britânico, teve o mérito de chamar a atenção dos es|
cialistas para as diferenças entre Liponissus tomado na acepção moderna e
rios dos gêneros de Kolenati, determinando que Ewing, em 1923 (4) revalida|
o gênero Ichoronyssus Kolexati [non Hirst, 1915 (5)], dando-lhe como
notipo Ichoronyssus scutatus (Kolenati). No mesmo ano criam Ewing
o gênero Ceratonyssus Ewing, que Vitzthum, era 1931 (6), demonstrou
sinónimo de Steaionyssus Kolenati, tendo como tipo Sleatonyssus periblepl
rus Kolenati [sin. : Dcnnanyssus nmsculi Koch, Ceratonyssus «iwíd
(Koch) Ewing]. Vitzthum, em 1931, {loc. cit.) reconheceu que o gênj
Pimelonyssus Kolenati foi erigido baseado na descrição de protoninfas,
vendo, portanto, desaparecer. Na opinião externada por Oudemans em lí
(2) é êste último o único dos gêneros de Liponissidae criados por Kolenati
não pode ser mantido. A seguirmos a opinião de Oudemans devemos,
aceitar como também válido o gênero Lepronyssus Kolenati, com as esf
Lcpronyssus Icprosus Kolenati (sp. tipo), Lepronyssus flavus (Kceena"!
[sin.: Liponyssus lobalus Olt>em. (= Dennanissus lobatus Kolenati?),
Hirst, 1921], cuja caraterística mais acentuada seria a do aspecto escamoso |
placa genital. -Abstraído êste caráter e talvez o do aspecto idêntico do esc
dorsal (êste não referido por St. Hirst ao redcscrever material tipo de Kd
nati), ha praticamente coincidência com o gênero Ichoronyssus Kolenati. coI
aliás já deixou entrever Vitzthum (loc. cit.) e como se depreende também
divisão do escudo holoventral do ê de Lepronyssus flainis. Restaria, pois,
cidir a validade dos gêneros Macronyssus Kolenati e Liponissus Kolen/
sobre os quais o último a opinar foi Oudemans, em 1936, no seu Kritish
torisch Overzicht der Acarologie(2), no qual diz o seguinte:
“Macronyssus wordt door Kolenati in zijn Synopsis prodrol
der ... Carida (in: Wien. ent. Mntschr., V.2 fa. 1 p. 5; I. If
vóór Liponissus genoemd, heeft dus de prioriteit. Macronyssus
2 soorten: longitnanus en lepidopeltis, beide later, m.i. ten onred]
Liponyssus genoemd. Het is nog zeer de \Taag, of Liponyssus
ais sjTioniem von Macronyssus mag aangezien worden; want Li\
nyssus sctosus (monot>-pe!) is een totaai afwijkende soort. Ik
ervan overtuigd, dat, met uhzondering van Pimelonyssus (rug ii|
parten verdeeld: nymphae!) alie genera van Kolenati goede gcn|
zijn."
cm
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Flavio da Fonseca — Xofas de Acaroologia. XXXIV
151
Conclue-se da opinião de Oudemans que reconhece em Liponissus e Ma~
^onyssus dois gêneros distintos, julgando, entretanto, que as espécies descritas
^®mo Liponissus pelos autores modernos corresjxmdem antes a ilacronyssus,
pois é neste gênero que as inclue em sua obra, considerando Liponissus sctosus
(Kol.) espécie totalmente diferente. Que outras espécies corresponderiam ao
verdadeiro Liponissus, de que Liponissus sclosus (Kolexati) é o tipo, não diz.
Ora, Hirst, em 1921 (3), descreveu o macho do genotipo Macronyssus
^gimanus (Kolenati), proveniente de material tipo de Kolenati, déle apre-
sentando uma ótima figura da face ventral. Pdo exame dêste documento ve-
*«ico que a placa holoventral do 3 (Fig- 1) entre o 4.® par de patas e a sua
Porção anal, difere completamente da placa holoventral das espécies a que hoje
autores chamam Liponissus, tais como L. bacoti (Hirst), L. acthiopicus
Hirst, L. bursa Berlese, L. nagayoi Y.amada, L. brasiliensis Fonseca (Fig.
^). para citar só aquelas cujos 3 3 são conhecidos. De fato, a placa holoven-
Fic. I
Placa holoTCntra] do alotipo de
iíacTomyism lonçímanus (K»
LZXATt), •**. Hirst.
Fic. 2
Placa boloTcntral do ^ de
BitU^nystut bmilitntit
(Foxixea).
do alotipo 3 de Macronyssus longiinanus alarga-se consideravelmente logo
trás do 4.® par de patas, não apresentando a constrição observada no li-
com a porção anal, tal como as espécies tropicais acabadas de citar, sendo,
disso, a anal limitada da zona ventral por uma linha ine.xistcnte nas es-
referidas.
3
152
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
A conclusão a tirar é, pois, a meu vêr, a de que Ma^ronyssus corresponde
a espécies distintas daquelas espécies modernas, cujos S S são conhecidos. Afi-
gura-se-me mais provável qii^e as fêmeas de Macronyssus apresentem o aspecto
obser\-ado na placa genital de L. ellipticus (Kolenati), segundo a figura de
Hirst à p. 795 (3), i.é, tenham genital larga na extremidade posterior, caráter
que levou êste autor (loc. cif.) a julgar provável a sinonimia de L. ellipticus com
L. longimanus.
Não acompanharei, portanto, Oudemans na inclusão no gênero MacrouyssuS
de todas as espécies hoje denominadas Liponissus: reservarei Macronyssus Ko-
LEXATi para as espécies cujas fêmeas tenham genital não afilada, com uni só
par de cerdas, de superficie lisa, não escamosa (^Lepronyssus!), tibias dos 1.®
e 2.® pares de patas longas, sem outro espinho nas coxas além do dorsal da
coxa II e cujos machos apresentem a zona do holoventral situada entre as co-
xas IV e anal. dilatada e sem estrangulamento. Além de Macronyssus longi~
tnanus (Kolenati) e de ^facronyssus ellipticus (Kolenati) não conheço outia
espécie que reuna estas caraterísticas.
Si Macronyssus, sensu Kolenati, difere de Liponissus Kolenati, como
me parece provável, restaria agora decidir si Liponissus, sensu Kolenati, cor-
responde à concepção moderna deste gênero, isto é, si a espécie tipo Liponissus
setosus (Kolenati) representa um Liponissidae, cujas fêmeas tenham placa
genital afilada, com um só par de cerdas, estemal com três pares de cerdas,
sem grande alongamento da extremidade posterior da anal (ManitherionyssuS
ViTZTHUM'/), tal como as espécies bursa, bacoti, acthiopicus, venezolanus, «o-
gayoi, enulitus, iheringi, hirsti, haenuitofagus, brasiliensis, lutei, oudemansi «
monteiroi. Sendo impossível decidir esta questão com o aiLxilio das descrições
de Kolenati, as quais, como é natural, são deficientes, e sendo desconhecido o
paradeiro do material tipo de Liponyssus setosus (Kolenati), pareceria que a
solução do problema deveria ficar protelada até a descoberta dos tipos dêste
autor ou até que o conhecimento perfeito da fauna do hospedeiro tipo capturado
na localidade tipo, na Servia, viesse a demonstrar a existência de uma espéde
que justificasse o nome especifico setosus {dichtborstige Fledcrmauszecke, como
a chama Kolenati). Sucede, entretanto, que das espécies européias até hoj*
descritas no gênero Liponissus nem uma só apresenta caractéres das espéde*
tropicais acima enumeradas (as espédes norte-americanas são ainda insufidente-
mente descritas). Seria grande coincidênda que justamente Liponyssus setosuí
viesse a fazer exceção, apresentando caractéres coinddentes com os das espéde*
tropicais.
Si os Liponissus (sensu lato) tropicais constituem um grupo naturalmente
distinto das espédes européias até hoje induidas neste gênero; si os caractere*
de Liponissus, sensu Kolenati, são desconhecidos; si Liponissus setosus, es'
cm
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Flavio da Fonseca — Notas de Acareologia. XXXIV
153
PÍcie tipo do gênero Liponissus Kolenati, é esjwcie européia, sendo, portanto,
P<íuco provável que possa ser grupada junto às espécies tropicais; si a concepção
genérica dos Liponissidac de Kolenati era de ereção de gêneros restritos e si
concepção tende modemaniente a ser restabelecida pelo reconhecimento dos
gêneros de Kolenati e pela aceitação de outros gêneros, tal como Leiognathus
Canestrini, baseados em caracteres também restritos; parece que se impõe a
^eção de um gênero que inclua as espécies tropicais acima enumeradas e que
naturalmente se diferenciam das restantes, inclusive por caracteres zoogeo-
gráficos.
Proponho para êste grupo de Liponissidac, devido ao intenso hematofagis-
exercido pelos seus membros, o nome de
Bdellonyssus, gen. n.
Diagnose. Liponissidac; estemal com 3 pares de cerdas e 2 pares de po-
*'05; genital de extremidade posterior afilada, de superfície não escamosa e com
***n só par de cerdas ; escudo dorsal da 5 indiviso ; coxas sem espinhos ventrais ;
hbia I maior do que Ij/i vêzes a sua maior largura; idiosoma sem constrição
*otre o podosoma e o histerosoma; 1.® articulo dos palpos com espinho ou sem
Escudo holoventral do 3 indiviso e não dilatado na zona gênito-ventral.
Sinónimor: Liponissus Kolenati, pro parte; Macronyssus Kolenati, fro
parte.
Genotipo’ Bdcllonyssus bacoti (Hirst, 1913). Escolhemos esta espccie
^oino genotipo não só por estarem os seus tipos convenientemente prescrA-ados
**o Museu Britânico, como também por ser ela uma das melhor conhecidas e
mais importantes, pois é parasita também da espécie humana, o que, aliás,
*^bém é o caso para as espécies nagayoi, brastiicnsis e bursa.
Caberão neste gênero as seguintes espécies:
1. Bdcllonyssus bursa (Bekixse, 1888)
2. Bdcllonyssus bacoti (Hibst, 1913)
3. Bdcllonyssus aclhiopicus (Hi*st, 1921)
4. Bdcllonyssus nagayoi (Yamada, 1930)
5. Bdcllonyssus vcncsolanus (VrrzTnCM, 1931)
6. Bdcllonyssus cruditus (Fonseca, 1935)
7. Bdcllonyssus iheríngi (Fonseca, 1935)
8. Bdcllonyssus hirsii (Fonseca, 1935)
9. Bdcllonyssus hacmatophagus, (Fonseca, 1936)
10. Bdcllonyssus brasiliensts (Fonseca, 1939)
11. Bdcllonyssus lutsi (Fonseca, 1941)
12. Bdcllonyssus moniciroi (Fonseca, 1941)
13. Bdcllonyssus oudetnansi (Fonseca, 1941)
a
154
Memórias do Instituto Butantan
Tomo XVI
E’ possível que algumas das espécies norte-americanas de Banks e de Ewing
possam ainda rir a ser incluídas neste gênero, não permitindo por ora as snas
descriqões, por muito sucintas, determiná-lo com precisão.
Não são incluidas no novo gênero Bdellonyssus as esp»écies brasileiras pe-
reirai e wemecki, originalmente descritas no gênero Liponissus, pelos motivos
que passo a expor.
Liponissus wernecki Foxseca, 1935, encontrada sôbre Didelphys aurita,
Didelphys paraguayensis e Mannosa sp., especializada, portanto, no parasitisnio
de Didelfideos, o que já constitue fato singiilar entre os Liponissidae, apresenta
notável encurtamento da tibia II e arqueamento pronunciado dos ombros, tal
como os representantes do gênero Ichoronyssus Kolexati, do qual difere pof
não ser encurtada a tíbia I pela falta de divisão no escudo holoventral dos ma-
chos e pela existência, em todas as fases do ciclo evolutivo, exceto na larva, de
um espinho ventral na coxa I com um pêlo implantado, caráter que a distingue
do gênero N eoliponyssus Hirst. Para esta espécie erijo o seguinte gênero:
Ncoichoronyssus, gen. n.
Diagnose: Liponissidae; estemal com dois pares de cerdas; coxa I cotii
espinho; tíbia II com comprimento menor do que vêzes a sua largura; om-
bros pronunciados. Escudo holoventral do á e escudo dorsal do á e da 5
indivisos.
Genotipo: Liponissus wntecki Foxseca, 1935.
Liponissus pcreirai Foxseca, 1935, espécie aberrante, parasita de ratos f
de Kerodon spixi do Nordeste brasileiro, apresenta de caraterístico a existência
de um órgão infundibuliforme na placa esternal e lembra, pelo aspecto escamoso
da genital, o gênero Lepronyssus Kolexati, razão pela qual proponho para ela
o novo gênero
Lcpronyssoidcs, gen. n.
Diagnose. Liponissidae; estemal com 3 pares de cerdas e um órgão simé-
trico infundibuliforme; placa genital de superfície escamosa e com um único
par de cerdas. Genotipo: Liponissus pereirai Foxseca, 1935.
Êste gênero se distingue de Liponysclla Hirst, gênero monotípico, porqu^
em Liponysclla stertuilis (Hirst) ha três pares de cerdas na placa genital, *
qual, aliás, não é afilada como em Lcpronyssoidcs pereirai (Foxseca).
cm
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Flavio da Fonseca — Notas de Acareologia. XXXIV
155
ABSTR-ACT
The genus Liponissus Kolenati has Liponissus setosus (Kolenati) as
Bcnotj-pe, which according to Oudemans is totally different from the species
usuallj’ placed in the genus Liponissus. These species ought, in the opinion of
Oudemans, to be transferred to the genus Macronyssus Kolenati, the genotype
uí which is Macronysstts longimanus (Kolenati).
In the genus Macronyssus, however, the genital plate of the femalc and
dte holoventral of the male are different from the same plates in the tropical
species (Figs. 1 and 2), as can be seen from the drawnngs of Hirst (1921),
^ho worked with Kolenati’s H. tj-pe material. Thus the tropical species of Li-
Ponissus, bursa, bacoti, aethiopicus, nagayoi, vcnczolanus, cruditus, ihcringi,
^irsti, haewaíoplujgus, brasilicnsis, lut:d, inontciroi and oudemansi form a
^mogeneous group, distinct from the genera of Kolenati, for which the new
Kenus Bdcllonyssus is proposed, on account of the intense haematophagism of
‘*s species.
Diagnosis of Bdcllonyssus, n. gen.: Liponissidac; stemal plate with 3 pairs
setae and 2 pairs of pores; genital plate with pointed posterior cnd and
*wscaled surface, with only one pair of setae; dorsal shield of the male and
feniale undivided; coxae without ventral spines; tibia 1 larger than V /2 times
breadth ; idiosoma without constriction between the podosoma and the
•íysterosoma ; first joint of the palps with or without spine; holoventral shield
the male undivided and not widened on the genito-\ entrai zone. Genot}'pe;
^*Ponissus bacoti (Hirst, 1913).
For Liponissus icemccki Fonseca, 1935, parasite of the neotropic marsu-
P^lia, a new genus, Ncoichoronyssus, is proposed.
Diagnosis of Ncoichoronyssus, n. gen. Liponissidac; stemal plate witli
^o pairs of setae; coxa I bearing ventral spine; tibia 11 shorter in length than
times its width; pronounced shoulders; holowntral shield of the male and
•Cursai shield of the male and female undivided. Genotype: Liponissus wcrnccki
^on-seca, 1935.
For Liponissus percirai Fonseca, 1935, the new genus Lcpronyssoidcs ’s
Proposed.
Diagnosis of Lcpronyssoidcs, n. gen. — Liponissidac; stemal plate with
ptairs of setae and one sjTrunetrical, infundibuliform organ ; genital plate
'*lh scaled surface and bearing one single pair of setae. Genotype: Liponissus
f'^cirai Fonseca, 1935.
7
156
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
BIBLIOGRAFIA
Fonseca, F. da — Mem. Inst. Butantan 9 : 43.1935.
Oudemans, A. C. — Kritisch Historisch Overãcht der Acarologie III A : 275.1936
Hirst, S. — Proc, Zool. Soc. London : 769.1921
Euing, H. E. — Proc U. S. Nat. Mus. 62(13) : 1.1923.
Hirst, S. — Proc. Zool. Soc. London : 383.1915.
Vitsthum, H. Graf — Ztschr. f. Parasitenk. usw. 4(1) :1. 1931.
(Trabalho da Scçâo de Parasitologia do InÀt*tuto Butanta*' I
Entregtae para publicação em 12*1(M2 e dado â pobticida^J
era ferereiro de 1943).
cm
SciELO
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S9S.123
TREMATÓIDES DE OFÍDIOS
Liophistrema pulmonalis, n. g., n. sp.
Liophistreminae, n. subfam.
ff estella sulina, n. g., n. sp.
( PI agi orch i idae)
POR
^AULO de T. ARTIGAS; JOSÉ M. RUIZ & ARISTOTERIS T. LEAO
Estudando o material helmintológico da coleção do laboratório de Parasi-
'olofjia do Instituto Butantan, encontramos os trematóides que ser\'em de assunto
o presente trabalho.
O material proveniente da necropsia No. 680 (Lâminas No. 2.444), reali-
em 4/4/935, era constituido por numerosos trematóides do pulmão de Lio-
miliarís (L.). Esta cobra fora retirada do cobril do Instituto, razão por
permanece desconhecida a origem geográfica do material parasitológico. To-
no correr deste ano, tivemos ocasião de encontrar, de novo, o mesmo para-
eni mais necrópsias do mesmo ofídio, Liophis miliaris (L.), todos espécimes
^ebidos dos Estados do Rio Grande do Sul e Paraná. No decorrer destas úl-
*’*^s necrópsias. foi então possível observar em vida o parasito e apreciar com
*''*'dez a bolsa do cirro e a vesícula excretora.
Verificamos, desde logo, que o trematóide em observação se enquadrava na
'"^plexa familia Plagiorchiidae Lühe, 1901. Os carateristicos morfológicos do
^fasito, porém, não se ajustavam aos numerosos gêneros dessa extensa família,
I^Wtudo pela posição do poro genital. Por esta razão, pareceu-nos acertado es-
'*^^ecei um novo gênero para esta nova espéde de trematóide, para a qual propo-
respectivamente as denominações: Liophistrema, n. g., e Liophistrema pul~
^*^iis, n. sp.. Os mesmos motivos supra referidos determinaram igualmente
i^oposta de uma nova subfamilia, com o nome de Liophistreminae, n. subfam..
O material da necrópsia No. 3.192, feita em 7/5/941, correspondendo a
exemplar de Philodryas schottii (Schlegel), proveniente de Tuparaí, Rio
1
158
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Grande do Sul, constituído por numerosos exemplares de trematóides encontrai
dos na ca\'idade bucal e esôfago, também foi considerado como formando uní
nova espécie para a qual foi necessário estabelecer um novo género.
A forma e disposição da bolsa do cirro e a situação do poro genital, entr
outras particularidades morfológicas, foram os elementos essenciais para a ereçâ<|
do género Ifestclla, denominação esta dada em honra a West.
Liophistrema, n. g.
Diagnose genérica:
Plagiorchiidae : Corpo clavi forme com maior largura na metade anteriod
Cutícula espinhosa. Ventosa oral maior que o acetábulo, que é pre-equatoriaI|
Esôfago curto. Cecos alcançando o terço posterior do corpo. Testículos arre
dondados. lisos, com campos e zonas muito próximos, situados no terço médi'|
do corpo. Bolsa do cirro medianamente desenvolvida, contendo vesícula semir
mais ou menos enovelada e cirro tubular inerme. Poro genital post-acetabula^l
próximo deste órgão e ao lado da linha mediana do corpo. Ovário arredondai
liso, pre-testicular. Glândula de Mehlis e receptáculo seminal presentes. Üte
desenvolvido, com numerosas alças irregulares atingindo a e.xtremidade jwsteriti
do corpo. Vagina tubular, delgada, ^’itelinos dorsais, intra-cecais e cecais. fof|
mados por numerosos cachos de ácinos volumosos, se estendendo desde a regiá
pre-o\-ariana e post-acetabular até pouco além da zona testicular. \'esícula c-’‘l
cretora em forma de Y com o ramo impar muito curto. Parasito do pulmão <i^l
ofídio.
Espécie tipo: Liophistrema pulmonalis, n. sp.
O presente género apresenta como caráter diferencial a situação do
genital, caráter que, por si só, o afasta dos géneros conhecidos e enquadraá'^!
na família Plagiorchiidae. A fonna do corpo lembra Glossidiella Travaeí^^J
1927 ; os vitelinos são semelhantes aos de Opisthogonimus LvriE, 1900.
Liophistrema pulmonalis, n. sp.
(Figs. I. 2, 3)
Diagnose especifica:
Liophistrema: Corpo de tamanho avantajado, alongado e claviforme,
midade anterior arredondada e muito mais larga que a posterior; comprime*^!
variando entre 9.310 a 17,290mm; largura ao nivel do acetábulo entre .1.330 I
cm
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Paclo de T. Árticas; J. M. Ruiz Jt A. T. I^o — Treraatóides de Ofídios
1Õ9
2,660min. Cutícula revestida de espinhos principalmente na extremidade ante-
*^or onde atingem um comprimento próximo de 0.030mm. Ventosa oral sub-
fernunal, voltada para a face ventral, circular, com um diâmetro de 0,931
* 1.729mm. Pre-faringe com 0.053 a 0.239mm. Faringe musculoso, envolto por
^clulas de natureza glandular, medindo 0.172 a 0.266mm no sentido do com-
Pnmento p>or 0,345 a 0,399mm no sentido da largura. Esôfago curto, atingindo o
**táximo de 0,452mm de comprimento. Cecos simples, de comprimento desigual,
'^nninando a 1,729 a 3,325mm da extremidade posterior do corpo. Testículos
**"tedondados ou ligeiramente piri formes, lisos, equatoriais, com os campos e
^nas muito próximos, sub-iguais e com um diâmetro que varia entre 0.345 a
0.585mm. Vasos eferentes unindo-se ao nivel da base da bolsa do cirro. Esta é
Um órgão tubular de mediano desenvolvimento, situado obliquamente entre o
*cetábulo e o ovário; mede 0.665 a 1.197mm de comprimento, tendo uma lar-
Sura pró.xima de 0.160mm; contem vesícula seminal tubular, sinuo.sa. às vêzes
**>ovelada, seguida de longo ductus e cirro tubular e ineniie. Poro genital lateral
* post-acetabular. Abertiiras masculina e feminina contíguas. Ovário arrerlon-
*^do, liso, para-mediano, pre-testicular, medindo de 0,425 a 0,585mm de diâ-
u>ctro. Receptáculo seminal geralmente alongado, imediatamente abaixo do ová-
com dimensões variáveis, medindo de 0,345 a 0.532mm de comprimento por
^•159 a 0,266mm de largura. Glândula de Mehlis para-o\-ariana. Útero extre-
•Uamente sinuoso e desenvolvido, ocupando toda a metade posterior do corpo; o
ascendente é bem dilatado antes de se diferenciar em vagina. Esta é um
tubular, delgado, medindo de 0.532 a 0,931 mm de comprimento. Ovos
Utinierosos, de casca delgada, operculados, medindo 0.025 a 0.030mm de compri-
***cnto por 0.014 a 0.019mm de largura. Vitelinos dor.sais, intra-cecais, fonna-
por ácinos volumosos reunidos em cachos, estendendo-se da região pre-ova-
*^ana à regiáo post-testicular. ocupando todo o terço médio do corpo cm extensão,
^^cula excretora em fonna de V com o ramo ímpar muito curto.
Hospedeiro tipo: Liophis miliaris (L). Xome vulgar: “Cobra dágua”.
Habitat; Pulmão
A descrição e medidas de Liophistretna pultnonalis, n. sp., foram baseadas
^ dez exemplares cotipos fichados sob o Xo. 2.444 na coleção da Seção de Pa-
^itologia do Instituto Butantan. Mais seis lotes, oriundos de outras tantas nc-
''■ópsias serviram para comparação e se acham depositados na mesma coleção
*''!> os Xos. 5.530. 5.527. 5.523. 5.533. 5.525 c 2.443. Êste último pertence ao
**’fsmo lote que os cotipos. Todas as medidas se referem a espécimes compri-
e montados. Esta espécie foi por nós encontrada exclusiramente em
j^Phis miliaris, parece-nos haver neste caso uma estreita especificidade parasi-
o quadro seguinte dá conhecimento da origem das \-árias serpentes pa-
*^itadas c fornece os diferentes pormenores relativos ao material estudado:
3
160
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Lote Xo.
Hospedeiro
Localização
Procedência
Data
Cidade
Estado
2.443
Liophis miltaris (L.)
Pulmão
p
p
4/4/935
2.444
Liophis miliaris (L.)
Pulmão
?
p
4/4/935 ■■
5.530
Liophis miiiaris (L.)
Pulmão
Jacarezinho
Paraná
16/1/942
5.527
Liophis miiiaris (L.)
Pulmão
Curitiba
Paraná
19/1/942
5.525
Liophis miiiaris (L.)
Pulmão
Restinga Séca
Rio G. do Sul
23/1/942
5.523
Liophis miiiaris (L.)
Pulmão
Restinga Sêca
Rio G. do Sul
23/1/942
5.533
Liophis miiiaris (L.)
Pulmão
Restinga Sêca
Rio G. do Sul
23/1/942
(1) Pertencera a uma só necropsia.
Westella, n. g.
Diagnose genérica:
Plaffiorchiidae : Corpo espatulado, com maior largura na metade posteri^^
do corpo. Cutícula revestida de espinhos. Ventosas quasi iguais; acetábulo pr*"
equatorial. Esôfago curto. Cecos atingindo o terço posterior do corpo. Te*
tículos lisos ou sub-lobados, post-equatoriais, com campos afastados e zonas pa^
cialmente coincidentes. Bolsa do drro muito desenvolvida, recurvada para lais»
com uma parte basal muito dilatada; contem vesícula seminal enovelada, long®
ductus e um cirro tubular e inerme. Poro genital post-acetabular, pre-equatoriall
lateral à linha mediana do corpo. Ovário liso, menor do que os testículos, equ*'
torial e oposto ao poro genital. Vagina tubular, musculosa, recurvada extern»'
mente sôbre o ramo descendente da bolsa do cirro. Útero composto por um ratn®
descendente fino e sinuoso que atinge a extremidade jxjsterior do corpo, e ^
outro ascendente, muito calibroso, que passa entre os testículos, forma vári»*
curvas e atinge a região acetabular. \'itclinos na maioria intra-cecais e disposto^
em dois campos, mais ou menos distintos, que se estendem da zona o\-ariana *
post-testicular ; são formados por cachos de ácinos volumosos. Receptáculo ^
minai e glândula de Mehlis presentes. Parasito do esôfago e cavidade bucal ^
ofídios.
Espéde tipo: Westella sulina, n. sp.
Êste gênero é próximo de O pisthogonimus Lühe, 1900, dele se distinguiu^
principalmente, pela forma do corpo e pela posição do poro genital.
cm
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Paulo de T. Artigas; J. M. Ruiz Jfc A. T. Leão — Tremalóides de Ofidios
161-
Westella sulina, n. sp.
(Figs. 4 e 5)
Diagnose específica:
^Vestella: Corpo de tamanho médio, espatulado, com o terço anterior mais
'^cígado; comprimento de 6,93 a 7,53mm. Largura ao nivel do acetabulo ^•a-
*^^do entre 1,33 e l,91mm. Cutícula revestida de espinhos dispostos em filas
transversais, mais ou menos densos no terço anterior do corpo e faltando nas
®^remidades. Ventosa oral sub-terminal, voltada para a face ventral, circular,
®'edindo 0,424 a 0,692mm de diâmetro. Acetábulo circular, imediatamente su-
P^or à linha divisória dos terços médio e superior, medindo 0,537 a 0,636mm
diâmetro. Distância entre as ventosas rariando de 1,908 a 2,403nun. Dis-
tada da bifurcação cecal ao acetábulo de 1,272 a l,626mm. Pre-faringe com
'^ca de 0,150mm. Faringe musculoso, trapezóide, medindo 0,141 a 0,183mm
comprimento por 0,183 a 0,240mm de largura. Esôfago curto com 0,169 a
®"2&2mm de comprimento. Cecos sub-iguais, distando de 0,848 a l,484mm da
^^remidade posterior do corpo. Testículos sub-iguais, arredondados ou ligeira-
**’®’te lobados, imediatamente post-equatoriais, intra-cecais e cecais, com campos
“•tiito afastados e zonas parcialmente coinddentes, medindo 0,449 a 0,820mm de
'^primento por 0,353 a 0,452mm de largura ; testículo anterior com campo coin-
^'fentc com o poro genital ; testículo posterior com campo coincidente com o ovâ-
Vasos eferentes unindo-se na base da bolsa do cirro. Esta é um órgão
desenvohndo, apresenta uma parte basal dilatada, situando-se do lado ova-
*^ 0 , da qual se origina um ramo mais delgado que se dirige para o lado oposto,
^^ndo em seu percurso uma cui^^a em forma de U voltado para baixo e tcr-
'*'**iando próximo â linha cecal. onde se situa o poro genital ; contem uma vesícula
**”’>nal tubular e mais ou menos enovelada, que ocupa cêrca de um quarto do
'^'''primento total da bolsa, segue-lhe um longo ductus que se continua por
^ cirro medianamente calibroso e inerme. Mede a bolsa do cirro 1.696 a
‘■^^Imm de comprimento por uma largura máxima de 0,166 a 0.339mm. Ová-
^ ^'•alado, liso, post-acctabular, pre-tcsticular, medindo cérca de 0,353mm de
'^^Primento por 0,254mm de largura. O útero é extremamente caraterístico;
'I^resenta um ramo fino que, descendo por um dos lados, forma numerosas circun-
^luçôes na parte posterior do corpo, ascendendo pelo lado oposto; a uma certa
'^^'Jra o ramo ascendente avoluma-se bruscamente e, formando três ou quatro cur-
insinua-se entre os testículos, atinge a zona acetabular e dirige-se para o lado
*^inando ao nivel da vagina. Este órgão é tubular, muito volumoso e rodeado
^ células glandulares, recur\ado sôbre o ramo descendente da bolsa do cirro;
cérca de 0,777mm de comprimento por cerca de 0,197mm de largura. Re-
*^|^lo seminal o\’alado, para-orariano, medindo 0,183 a 0,452mm de compri-
por 0,141 a 0,31 Imm de largura. Glândula de Mehlis entre o receptáculo
5
162
Memórias do Instituto Butantan
Tomo XVI
seminal e o ovário, ^'itelinos dorsais, intra-cecais e cecais. divididos em dois
campos mais ou menos distintos, formados por numerosos cachos de ácinos vo-
lumosos que se estendem desde a zona ovariana até a região post-testicular, pouc®
além da linha que divide os terços médio e posterior. Ovos numerosos, ovai»>
de casca delgada, operculados. medindo 0.018 a 0.028mm de comprimento por
0,011 a 0,017mm de largura.
Hospedeiro tipo: Philodryas sclioltii (Schlegel). Xome \-ulgar: *‘Pare-
lheira”.
Localização: Cavidade bucal e esôfago.
Localidade tipo: Tuparai — Rio Grande do Sul — Brasil.
A descrição e medidas apresentadas para a presente espécie foram baseadas
em seis espécimes comprimidos e montados, fichados sob o Xo. 5.316 e deposi-
tados na coleção de Parasitologia do Instituto Butantan.
DISCUSSÃO ■
a) Posição sistemática do gênero Westclla:
Pelas caraterísticas morfológicas, o novo gênero Westclla deve ser incor-
porado à subfamilia Opisthogoniminae Travassos, 1928, de acordo com os têr-
mos da definição diagnóstica estabelecida por Mehra (1931). Desta forma. ^
referida subfamilia passaria a ficar integrada pelos gêneros O pisthogoniia*^
Lühe, 1900, e Westclla, n. g..
b) Posição sistemática do gênero IJophistrema:
Nas diferentes subfamilias dos Plagiorchüdae não é possível eiujuadrar êst*
novo gênero de trematóides. A caraterística essencial do gênero Liophistremo r
a localização post-acetabular do poro genital. Esta larticularidade é comparti'
lhada pelos gêneros Opisthogonitmis Lühe, 1900. c Lissorchis Magath, 1918-
O gênero Opisthogonimus. tipo da subfamilia Opisthogoniminae tem, toda*
via, particularidades morfológicas que o afastam de modo decisivo de Liophif'
trefna : ao passo que naquele gênero o poro genital é post-o\-ariano e. em ger»*-
de situação testicular, no gênero Liophistrema o poro genital é pre-orariano ^
pouco distante do acetábulo. De outro lado, a fonna. disposição, situação ‘
tamanho da bolsa do cirro são outros caracteres que devem ser levados ei»
consideração.
O gênero Lissorchis, criado por Magath (1918) e que serve de tipo à í*'
milia Lissorchiidae Poche, 1926, embora participe da particularidade de ter
poro genital post-acetabular, apresenta \-árias caraterísticas que o distanciam co*’"
''ideravclmente de Liophistrema; são entre outros: a posição nitidamente latef**
G
Paulo de T. Artigas; J. M. Ruiz Jt A. T. Leão — Tremalóides de Ofídios
163
poro genital, a forma fortemente lobada do ovário, a disposição dos vitelinos.
^ disposição e situação dos testículos no terço posterior do corpo.
Assim sendo, embora sem procurar elementos de ordem evolutiva, como o
conhecimento das formas larvárias e a anatomia perfeita do aparelho excretor.
P®rece-nos razoável propor o estabelecimento, dentro da família PlagiorchUdac,
subfamilia Liophistreminac, n. subfam., com os s^[uintes caracteres:
Liophistreminae, n. subfam.
Plaffiorchiidac: Poro genital de situação post-acetabular e pre-orariana.
focalizado ligeiramente para fora da linha mediana na espécie tipo do gênero tipo.
f^olsa do cirro pequena, pre-ovariana. dirigindo-se do lado do ovário jara o <lo
*cctabulo. Ovário arredondado, de super ficie lisa. Receptáculo seminal pre-
mente. testículos ligeiramente piriformes. de superfície lisa, de situação eqi;a-
*orial. Vitelinos dorsais, intra-cecais, foniiados de cachos de ácinos volumosos.
Vesícula excretora em forma de Y, com o ramo impar muito curto.
Gênero tipo: Liophisirema, g. n.
RESUMO
1 . Xeste trabalho são descritas duas novas espécies de trematóides, para as-
quais foram propostos novos gêneros: Liophisirctr.a pulmonalis, n. g..
n. sp.. parasita do pulmão de Liophis mliarís (L.), e Westella sulina,
n. g., n. sp., parasita da boca e esôfago de Philodryas scholtii Schlegel.
2. O gênero LiopUistrema tem como elemento essencial de diferenciaçãí) a
situação do poro genital post-acetabular.
3. O género IPesiella. próximo de O pislhogonimus LChe. 1900, distin-
gue-se essencialmente pela posição do poro genital e pela conformação da
bolsa do cirro.
4. O gênero Liophistrcma não se enquadra nas várias subfamilias dos Pla-
giorchiidac, sendo então proposta para êste gênero a subfamilia Lio-
phistreminae. n. subfam..
5. O gênero Westella se enquadra na subfamilia Opistlwgoniminae Tra-
VAssos, 1928.
ABSTRACT
1 . In this paper two trematode genera and two new species are described :
Liophistrema pulmomlis, n. g., n. sp.. parasite of the lungs of Liophis
7
164 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
tniliaris (L.), and Westella sulina, n. g., n. sp., parasite of the moutb
and oesophagus of Philodryas schottii (Schlegel).
2. The post-acetabular position of the genital pore is one of the most
important diaracteristics in the differentiation of Liophistrema, n. g.
3. Westella, n. g., has the position of the genital pore and the morpholog)'
of the diTus pouch as essential diaracteristics; it is related to Opistho^
gonimus Lühe, 1900.
4. Liophistrema, n. g., has no place in the subfamilies of Plagiorchiidat
and the new subfamily Liophistreminae is proposed for this genus.
5. Westella is well located in the subfamily Opisthogoniniinae Trav.\s.sos,
1928.
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(Trabalho colaboração doa Laboraiónoa de ParatiteJocia
do Instituto Butaotan e da Faculdade de Farmácia e
Odontolofia da Unirtraidade de Slo Paulo. Entrrj^ue
para publicaçáo em e dado á publicidade cm íe*
vereiro de 1943).
9
Fic. 3
Licf^kistrrm^ n. u., t
*P- — Pormenor da bo*»a do cirra
Desenho feito in snro
^ Fic. 1
^imcnmUs, n. g., n. »p. — TÍfta total
cm
SciELO
Pauu) de T. Artigas; Jcsê M. Huiz & Ahistotehis T. Le.\o
— Trematúides de Ofidios.
Mcni
in<t.
Rutantan
\’ol
XVÍ — 1942
Fic, 2
Li^tki*trrm<t fnJfmomúJis, n. n. sp. — rista de
meio perfil
Mrm. last, Butantan
í*allo de T. Ahtigas; José M. Ruiz i Aristoteris T. Le.ão
— Trematóides de Ofídios.
Vol. XVI — 1M2
Kic. 4
suItMM, n.
— tot^.
•P.
Fic. S
H*iSltUa suUmé, n. Q- * 0 . Pormenor <U bolia do cirro.
13
5»5.122
NOTAS HELMINTOLÓGICAS
Três novas espécies de Opisthogonimus parasitas de ofídios
brasileiros {Trematoda: Plagiorchiidae)
POR
JOSÉ M. RUIZ & ARISTOTERIS T. LEAO
Estudando os trcmatóides encontrados em centenas de serpentes necropsia-
no laboratório da Set;ão de Parasitologia do Instituto Butantan, provenientes
'•árias localidades dos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa
^tarina e Rio Grande do Sul, chamaram-nos a atenção, entre outras, as três
**Pécies de Opisthogonimus que passamos a descrever, por nos parecerem novas,
os nomes de Opisthogonimus artigasi, n. sp., Opisthogonimus fonsecai, n. sp..
® Opisthogonimus pereirai, n. sp.. As duas primeiras homenageiam os parasito-
*®?istas Profs. Paulo de Toledo Artigas e Flavio da Fonseca, aos quais descemos,
parte, a realização dêste trabalho. A terceira espécie dedicamos ao Prof.
^^^«niente Pereira, a quem muito deve o progresso da helmintologia cm nosso
Pais.
Opisthogonimus artigasi, n. sp.
Diagnose especifica: Opisthogonimus. Corpo de tamanho medio, extremi-
^es arredondadas: extremidade anterior mais larga, atingindo o máximo de
^’’gura na zona acetabular, adelgaçando progressivamente para a extremidade
P'^sterior, medindo 3,50 a 6,25mm de comprimento por 1,00 a 1.84mm de lar-
Cuticula revestida de pequenos espinhos principalmentc na região ante-
Ventosa oral subterminal. voltada para a face ventral, medindo de 0,470
* ®.850mm no sentido longitudinal por 0,497 a 0,884mm no sentido transversal,
^^ttábulo forte. na metade anterior do corpo e próximo da linha dinsória desta
a posterior, medindo 0,552 a 0.644mm no sentido longitudinal por 0,515 a
cm
SciELO
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172
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
0,644niin no sentido transversal. A distância entre as \-entosas varia de 0.S28
a l,085nim.
Pre-faringe nulo ou pequeno, com cérca de 0,030mm. Faringe musculoso,
arredondado, com 0,087 a 0,189mm no sentido do comprimento e 0,167 a.
0,228mm no sentido da largura. Esôfago curto ou médio, com 0,330 a
0,912mm de comprimento. Cecos simples, relati\-amente curtos, terminando a
cérca de 0,460 a l,096mm da extremidade posterior do corpo. Bifurcação cecal
distando de 0,470 a 1.096mm do bordo anterior do acetábulo. Testículos lisos
ou ligeiramente irregulares, arredondados ou ovalados, situados na linha divisória
do terço médio e posterior do corpo, intra-cecais e cecais, com campos afastados
e zonas coincidindo parcial- ou totalmente ; medem os testículos de 0,368 a 0,644nuO
no sentido do comprimento por 0,184 a 0,497mm no sentido da largura.
Bolsa do cirro muito longa e delgada, com exceção do quarto basal que é alar-
gado, pelo menos duas vêzes mais grosso que o ramo descendente, recuirada.
com um ramo pequeno, ascendente, um ramo transverso e outro descendente bem
longo; inida-se na zona acetabular e termina próximo da margem posterior da
zona testicular, com trajeto intra- ou extra-testicular, contendo vesícula seminal
alongada e recurvada sôbre si mesma, longo canal ejaculador e drro tubular ^
inerme; mede a bolsa do cirro de 1,637 a 2,300mm de comprimento por cérca
de 0,170mm de maior largura. Poro genital próximo da linha mediana, testi-
cular ou post-testicular. Ovário arredondado, para-mediano ou lateral, equato-
rial. na zona acetabular ou inferior ã mesma, medindo de 0,257 a 0,460mm no
sentido longitudinal por 0,184 a 0,368mm no sentido transversal. Receptáculo
seminal o^•aIado, logo abaixo do orário, com cérca dc 0,190 a 0.368mm de com-
primento por 0,083 a 0,147mm de largura. Glândula de Mehlis pouco distinta-
Ütero se estendendo da zona ovariana á extremidade posterior do corpo ; consiste
de um volumoso ramo mediano e de várias alças post-testiculares. Vagina lon-
ga. paralela e externa ao ramo descendente da bolsa do cirro, de musculatut*
media, medindo de 0,920 a l,067mm de comprimento. Ovos numerosos, acas-
tanhados, operculados, medindo cérca de 0,027mm de comprimento por 0,015 *
0,01 7mm de largura. Vitelinos dorsais, intra-cecais, cecais e ligeíramente extra*
cecais, formados por numerosos ádnos reunidos em cachos mais ou menos irregu*
lares, indo da zona acetabular ao limite posterior da zona testicular. Poro e-’C'
cretor mediano e na extremidade posterior do corpo.
Hospedeiro tipo: Dryophylax fallidus (L.) — Nome vulgar: "Corre cam*
po” ou “Corredeira”. j
Habitat : Esófago.
Localidade tipo: Restinga Séca — Rio Grande do Sul — Brasil.
A descrição desta espécie foi baseada em quatro exemplares capturados n<>
esôfago de dois hospedeiros da mesma localidade (Lâminas Nos. 3.708 e 3.709)-
2
José M. Ruiz & Aristoterjs T. Leão — Notas Helminlológicas. 1
173
os quais foram comparados com 21 exemplares paratipos capturados na cavidade
l>ucal e no esôfago das seguintes espécies de cobras: Dryophylax palltdus (L.),
proveniente de Marechal Mallet, Paraná (Lâminas Nos. 5.129 e 5.130);
^f^yophylax pallidus (L.), da mesma proveniência (Lâmina No. 5.181); To-
"todon dorsafus Duméril & Bibron, proveniente de .Araucária, Paraná (Lâmina
Xo. 3.695).
As lâminas acima referidas acham-se depositadas ra coleção de parasitolc^ia
tio Instituto Butantan.
•As medidas foram tomadas em material comprimido e montado.
.A presente espécie se distingue de todas as outras principalmente:
a) Pela morfologia da bolsa do cirro, a qual apresenta a parte basal muito
•lilatada e com espessura pelo menos duas vêzes maior que a dos ramos trans-
verso e descendente; êste caráter não existe em nenhum outro Opisthogonimus.
b) Pela disseminação dos vitelinos que atingem francamente a região ace-
**bular e que não ultrapassam de muito a zona post-testicular.
Opisthogonimus fonsccai, n. sp.
Diagnose específica: Opisthogonimus. Trematóide de tamanho médio, de
***usculatura bem desenvolvida, de forma ovalar, extremidades arredondadas, sen-
a posterior ligeiramente mais afilada. Comprimento \'ariando entre 3,312 e
■'•l40mm. Maior largura na região acetabular, \*ariando de 1,527 a l,656ram.
\'entosa oral subterminal, voltada para a face Nxntral. circular, com 0.474
* 0,552mm no sentido longitudinal por 0,460 a 0,552mm no sentido transversal,
^r^e-faringe quasi nulo. Faringe musculoso, trapezóide, rodeado de células de
^v^tureza glandular e medindo de 0,182 a 0.205mm no sentido do comprimento
P^r 0.243 a 0.258mm no sentido da largura. Esôfago rudimentar ou ausente.
^*cos simples, muito largos e formando numerosas dobras cm todo o seu per-
'*>fso, terminando muito próximo da extremidade posterior do corpo. Testículos
^•sos ou ligeiramente lobados. arredondados, situados na metade posterior do cor-
cecais e intra-cecais, com campos bem afastados e zonas jMrcial- ou totalmente
®^nadentes; medem de 0,312 a 0,456mm no sentido do coinprimento por 0,386
' 0.515mm no sentido da largura. Bolsa do arro longa, recur\’ada, indo da
acetabular até próximo do limite superior da zona testicular, medindo cerca
1.380 a l,748mm de comprimento; contem vesicula seminal tubular e recur-
^da sôbre si mesma e longo cirro tubular, inerme c protractil. Poro genital
^tral. submediano. próximo do limite superior da zona testicular. Ovário ar-
redondado ou ovalar, às vezes, levemente lobado, com zona coincidente parcial-
^ totalmente com o acetábulo, medindo de 0,220 a 0.312mm no sentido do
cm
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
comprimento por 0^20 a 0,294mni no sentido da largura. Receptáculo seminal
alongalo, post-ovariano, lateral ou para-mediano medindo 0,152 a 0,228mm cc
comprimento por 0,091 a 0,167 mm de largura. Glândula de Mehlis para-ort-
riana pouco distinta. Útero muito desenvolvido, consistindo de lun grosso ramo
mediano, recurvado à maneira de um ptonto de interrogação, indo da zona ace-
tabular até a extremidade posterior do corpo, e de algumas alças post-testiculares.
Vagina relativamente curta e grossa, frequentemente ondulada, acompanhando
extemamente o ramo descendente da bolsa do cirro em sua porção mais distai,
mede de 0.452 a 0,760mm de comprimento. Ovos muito numerosos, acasta-
nhados, de membrana fina e com pequeno opérculo, medindo cêrea de 0,030mni
de comprimento por 0,01 5mm de largura. Vitelinos dorsais, principalmente
intra-cecais, com campos indistintos, formados por ácinos dispostos mais ou me-
nos irregularmente em pequenos cachos, indo da zona post-os^ariana até pouco
além da zona post-testicular. Poro excretor mediano e sub-terminal.
Hospedeiro tipo: Xenodon merremii (Wacler) — Nome vulgar: Boipéva.
Habitat : Cavidade bucal e esôfago.
Localidade tipo: Suzano — São Paulo — Brasil.
As medidas foram tomadas em material comprimido e montado.
A descrição desta espécie foi Itaseada em cinco cotipos, provenientes de u^
único lote. ficliado sob o No. 5.325 na coleção de parasitologia do Instituto Bn-
tantan.
Esta espécie se distingue das demais existentes no género pelos seguintes
caracteres principais:
a) Forma e tamanho do corpo.
b) Posição, tamanho c forma dos testículos.
c) Conformação e comprimento dos cecos.
d) Posição do poro genital.
Ofnsthorjonimus percirai, n. sp.
Diagnose especifica: Opisthogonimus. Trematóide grande, de forma aloO'
gada e de extremidades arredondadas: extremidade posterior mais atenuad*-
Cuticula densamente revestida de espinhos, com exceção das extremidades. ^
corpo é guarnecido por uma musculatura bem desenvolvida. Mede de 9,50 *
12.0mm de comprimento por 225 a 2.75mm de largura na região acetabult^-
Ventosas circulares: ventosa oral subterminal. voltada para a face ventral, n»«*
dindo l,104mm no sentido longitudinal por 1,1CM a l,196mm no sentido tran*"
^•ersal ; ventosa ventral situada na metade anterior do corpo, medindo de 0,920 *
l,012mm de diâmetro. A distância entre as ventosas \-aria de 1,527 a 2,944m0’'
cm
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Pre-faringc nulo ou rudimentar. Faringe musculoso, trapezóide, medindo de
0.137 a 0.324mm no sentido do comprimento por 0,152 a 0,418mm no sentido
largura. Esôfago pequeno, com cerca de 0.200mm de comprimento. Cecos
íimples. terminando a cerca de 1,258 a 2,484mm da extremidade posterior do
^po. Bifurcação cecal distando mais ou menos 1,049 a 2,024mm do bordo
*nterior da ventosa ventral. Testiculos lisos, arredondados, sul>-iguais, situados
**0 terço médio do corpo, intra-cecais e cecais, com campos pouco afastados e
*®nas coincidin.io pardalmente, medindo de 0,920 a l,012mm de comprimento
0,582 a 0,828mm de largura. Canais eferentes calibrosos, com a parte
^sal formando um pedúnculo avolumado na superficie dos testiculos. Bolsa do
**tTo tubular, longa e recurvada, com a extremidatle basal afilada, medindo de
~.(i68 a 3,220mm de comprimento por 0,184 a 0,312inm de largura na região
vesicula seminal ; contem vesícula seminal longa e tubular, enovelada, longo
'^nal ejaculador e cirro tubular e inerme. Poro genital próximo da linha media-
do corpo, no limite superior da zona do testículo posterior, distando de 1,288
^ 1.656mm do bordo posterior da ventosa ventral. Ovário liso. arreclondado.
•ateral ou submediano, inferior e próximo da ventosa ventral. medindo de 0.460
* 0.88mm no sentido longitudinal por 0.423 a 0.533mm no sentido transversal.
^*permateca o\*alada, logo aliaixo do orário, medindo de 0,114 a 0.320mm no
'^tido do comprimento por mais ou menos 0.212mm no sentido da largttra. Glân-
dula de Mehlis situada entre o ovário e o receptáculo seminal. Útero formando
^>■138 circunvoluções post-testiculares. inclinarias c no sentido longitudinal do
ocupando toda a porção posterior, mascarando, cm parte, as terminações
'''^is c ascendendo, em um ramo volumoso c rccur\-ado. ate a \-agina. Vagina
lubular, muito calihrosa, pouco distinta, recurvada. ]nralcla c externa ao ramo
"d^endente da bolsa do cino: mede mais ou menos de 0,376 a l,104mm de com-
ru^itnento. Ovos numerosos, castanho-claros, de casca delgada, operculados, me-
'd'ndo de 0.026 a 0.034mm de comprimento por 0,01 5mm de largura. \'itclinos
'dorsais intra-cecais. formados jxir ácinos arredondados c volumosos que se agru-
pa em cachos compactos, á maneira dos cachos de u\’as. indo da zona ovariana
pouco alem da zona testicular. Poro cxcrctor mediano c terminal.
Hospedeiro tipo: Chiromus carínaíus (L.) — Xome vulgar: Cobra cipó.
Habitat : Esôfago.
Localidade tipo: Suzano — São Paulo — Brasil.
As medidas foram tomadas em material comprimido e montado.
Baseia-se a descrição desta espécie cm 4 exemplares depositados na coleção
parasitologia do Instituto Butantan, sob No. 5.151.
OHsthogonitmis pcrcirai, n. sp.. sc aproxima Instante de Opisthogommm
^^'^odryadum (West, 1896). diferindo, no entanto, prindpalmentc pelo tamanho
Corpo c pela forma e disposição dos ritelinos : éstes se dispõem cm cachos com-
em
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
pactos, formados por grande número de ácinos volumosos e arredondados, que
estendem em dois campos geralmente bem distintos.
ABSTR,-\CT
Three new Trematoda spedes are described, belonging to the genus Opistho-
ffonitnus and parasiting Brazilian snakes.
1 — Opisthogonimus artigasi, n. sp. — The present species is recognized
by the following characteristics: the cirrus pouch has the basal portion ver?'
widely inflated and nvice or more as broad as the transversal and descending
branches. "rbis aspect is not seen in any other species of the genus.
The sntellaria acini are seen írom the acetabular zone up to the testiculat
^cgion; they scarcely reach the post-testicular region.
2 — Opislhogonimus fonsccai, n. sp. — It is distinguished by :
The shape and size of the body; the situation. size and morphology of tK
testis; the morphologj’ and length of the ceca, and the situation of the geni»*
porus.
3 — Opisthogommus pereira!, n. sp. — This species and O. philodryadu**
are vety alike, however O. pcreirai can be distinguished by the size of the bodf
and the situation and morphologj- of the vitellaria which are formed by many com-
part. large and somewhat spherical adni, disposed in two quite inJependent ficlds-
BIBLIOGRAFÍ.\
1 — Lüke, M. — Ccntr. f. Bakt. Parasit. Infekt. 28 : 555.1900.
2 — XUolt, If 'iJliam — Proc. Zool. Soc. London 1:142.1914.
3 — ■ Cordero, H. 6r Vogelsang, //, G. — Cuarta Rnmton de Ia Soc. Argentina de Patologi*
Regional dei Norte : 636.1928.
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5 — Pereira. Clemente — Revista do Museu Paulista 16.1929.
(Tralnibo ix cnliloneâo do« Laboralirios d<
da Factddade de Farmácia e Odootoloeia da
dade de Sáo Paulo c do lostitoto Batantan. FntrrS^
para poblicacáo em 27 de março de 1942 e dado á 9**
blicidade em ferereiro de 1943).
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NOTAS HELMINTOLÓGICAS
Alvfumas considerações em tômo do gênero Leptopkyllum
CoHN, 1902 (Trematoda: Plagiorchüdae )
FOR
JOSÉ M. RUIZ & ARISTOTERIS T. LEAO
Em 1902, Cohn, examinando a porção terminal do intestino de Chirottius
f“Jcus (L.) (= Herpetodryas fuscus), cobra proveniente da América do Sul,
**'controu numerosos trematóides que descreveu sob o nome de Leptophyllum
^^*nocotyle, estabelecendo assim um novo gênero.
Em 1929, Pereira, estudando os trematóides das serpentes brasileiras,
^''^ntrou um c.xemplar dc Plagiorchüdae^ no intestino de Xenodon merremü
^''agi,er), proveniente do Instituto Butantan, descrevendo-o sob o nome de
^'n-trema travircma, n. g., n. sp.. Êste mesmo autor considerou o gênero Trav-
próximo de Enodiotrnna Looss, dando a seguinte diagnose genérica:
"Plagiorchüdae: Corpo pouco alongado, com maior diâmetro na altura da
'®’ião dos dois terços anteriores com o terço posterior; acetábulo prc-equatorial :
^0 genital lateral, pre-acetabular ; bolsa do cirro globosa e muito muscular, pre-
*^abular, contendo vesícula seminal bem desenvohdda e parte pro«tática alon-
cirro imperceptível: vagina piri forme c grande, apresentando uma luz no-
'^'^elmente franjada; útero pouco espesso, descrevendo numerosas alças no terço
^'[^sierior do corpo ; orârio kteral, atingindo o limite posterior da zona acctabular ;
^'linos dispostos em dois grupos laterais, constituidos cada um por cérca de
dezena de áddos volumosos, cecais, intra- e extracecais, pouco excedendo os
'*^‘tes da zona tcsticular; cecos apenas atingindo o terço posterior do corpo”.
^ O desenho que acompanha a descrição mostra, em seu pormenor da bolsa
rirro, uma vesícula seminal bem desenvoldda, uma parte prostática delgada c
órgão tubular, calibroso, guarnecido de espinhos fortes, que representa a por-
terminal da bolsa. Contrariando a afirmação do autor, não vemos neste
cm
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188
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
órgão mais que um forte e bem desenvohndo cirro guarnecido de esndente arnU'
dura espinhosa.
Por outro lado, cremos que Pereira não tivesse tomado conhecimento do tra-
balho de Cohn que criava o gênero Leptophyllum, cuja descrição coincide em
grande (xirte com a do gênero Travtrcma^ que julgamos não dera prevaleccf-
Para a nova espécie de Pereira, e de acôrdo com as Regras Internacionais de
Nomenclatura Zoológica, seria cabível, uma vez diferenciada especificamentc, *
denominação Leptophyllum travtrema (Pereir.\, 1929).
Mcintosh, em 1939, encontrou no reto e cloaca da cobra Agkistrodon pisc^~
vorus, nos Estados Unidos, exemplares de trematóides que descreveu sob o non>c
de Leptophyllum tamiamiensís. Êste autor fazendo considerações cm torno do
gênero o aproxima também (como já o havia feito Cohn) do gênero EnodtO'
treitui: “On account of the heavily armed cirrus (presence of spines not men*
tioned by Cohn but from h;s figure they appear to have been present) there
appear to bc little doubt that the genus should be assigned to the Enodiotrcnuiilntt*
Baer. 1924”.
No mesmo ano, Byrd c Roudabush descreveram a espécie Leptophyll»*^
ovalis do intestino delgado da cobra Xatrix taxispilota (Holbrook), proveniente
de Flórida (Est. Unidos), como sendo a terceira espéde de Leptophyllum des- •
crita até então. (
Tanto Mcintosh como Byrd e Roudabush desconheciam o trabalho de
reira, cuja espécie coincide em todos os detalhes com as espécies dos referido*
autores.
Mas por outro lado Byrd e Roudabush afirmam: “The present spccie*
rescmbles very closely the two species assigne<l to the genus in regards to everf ,
detail of its anatomy, but differs in regards to both the habitat and host • \
Considerando o próprio ponto de vista destes autores o gênero Leptophyllum e*' >
taria integrado pelas espédes: L. stenocotyle Coiix. 1902, L. tamiamíerts»
McIntosii, 1939, L. otvlls Byrd c RouDABrsn, 1939, e L. travtrema (F®*
REIRA, 1929).
Tivemos ocasião de fazer obsei^-ações pessoais trabalhando com oito lot**
de Leptophyllum de várias procedências. Dos inúmeros exemplares examinado'
não nos foi possível diferenciar mais de uma espécie, por não haver um carátf*^
de natureza constante que o permitisse, considerando unicamente os detalb^
anatômicos. Esta espécie poderá ser descrita nos seguinte.s têrmos: TrciP*'
tóide de pequeno talhe. Corpo de aspecto foliáceo com extremidades arredo**'
dadas; e.xtremidade posterior mais larga. Cutícula inerme. Comprimento '■*'
riando de 0.975 a 3.220mm. Largura máxima ao nivel da zona testicul*^
rariando de 0.644 a 1 .564mm : medidas tomadas em exemplares comprimido*’
Ventosa oral subterminal. voltada para a face ventral. medindo de O.lS’^ *
, 0.4(Mmm no sentido longitudinal por 0,102 a 0,423mm no sentido transvef**^
•)
Josá M. Rfiz & Akistotehis T. Leão — Notas Helraintológicas. 2
189
Ventosa ventral muito desenvolvida, situada geralmente na metade anterior do
corpo, às vêzes atingindo a região equatorial, medindo de 03)2 a 0,47Smm no
*cntido longitudinal por 0,347 a 0,699mm no sentido transversal. A distância
'^ttrc as ventosas varia de 03)2 a 0.717mm. Pre- faringe nulo. Faringe mus-
goso, arredondado, medindo 0,060 a 0,083mm no sentido longitudinal por 0,129
* 0.167mm no sentido transversal. Esôfago geralmente pequeno, às vêzes nulo.
Ungindo o comprimento máximo de 0,076mm. Cecos simples, delgados, esten-
')cndo-se até a zona testicular ou ultrapassando-a de leve; a distância da e.xtre-
'*tidade do corpo aos cecos \-aria entre 0.129 e 1.288mm. Tcsticulos de forma e
*^tnanho muito variáveis, sempre irregulares no contòrno; situam-se na metade
posterior do corpo, intra-cecais, com campos afastados e zonas coincidentes, em-
muitas vêzes o sejam em parte. O testiculo direito c sempre menor, me-
•lindo de 0,184 a 0,553mm no sentido longitudinal por 0.129 a 0,405mm no
*<ntido transversal. O testiculo esquerdo tem seu campo em coincidência com
^ ot-ário e mede de 0,184 a 0,553mm no sentido longitudinal por 0,184 a 0.407mm
sentido transversal. Bolsa do cirro muito desenvolvida, dilatada e de aspecto
^Sciramente fusiforme, situada entre a ventosa ventral e a bifurcação cecal, tem
sentido transverso, sendo ligeiramente recur\'ada. indo do quadrante súpero-
***tral esquerdo da ventosa ventral à abertura genital: metle 0.294 a 0,644mm
comprimento, tendo uma largura compreendida entre 0,092 c 0.220tnm (lar-
^ta máxima). Contem uma vesícula seminal muito desenvolvida. bilot>ada. o
anterior sendo geralmente arredondado c mais volumoso: encerra grande
^wtncro de espermatozóides que lhe dão um aspecto enovelado, quando exami-
"^da com forte aumento: a seguir \-amos encontrar uma parte prostática tubular,
^jo comprimento ê variável; finalmente um drro muito desenvolvido constitue
* part»* terminal: êste ê giamecido de forte armadura espinhosa: os espinhos
^^tcsentam uma |«rte basal globosa c se dispõe em fileiras longitudinais, não
'^'lito regulares: a porção l>asal do cirro c mais calibrosa e nessa altura inten-
''^'cam-sc as projeções espinhosas. No interior «la bolsa do cirro notamos inú-
cêlulas que envolvem as partes descritas, parecendo de natureza glandular.
^ poro genital situa-se latcralmcnte ao nivcl da linha cecal c na zona comprccn-
«mtre a ventosa ventral e a bifurcação intestinal. Ovário liso. arredon-
cu ovalado, com o sentido de maior diâmetro geralmente inclinado; situa-
latcralmcnte na porção compreendida entre o quadrante inferior da ventosa
'*tUral c o testiculo esquerdo: mc«lc de 0.092 a 0.276mm <le comprimento por
^))73 a 0.239mm de largura. O receptáculo seminal apresenta-se com uma
^''ttria e um tamanho muito \-anaveis ; localiza-se inferior- e lateralmcntc ao
*^rio. dirigindo-se para baixo no sentido da linha mediana do corpo: mede
*^•*10 a 0,294mm de comprimento por 0.055 a 0257mm de largura. Glândula
^ ^lehlis presente, {ara-ovariana. Canal de I-aurcr presente. Útero formado
um ramo descendente entre os tcsticulos que. insinuando-sc cm circunvolu-
cm
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
ções irregulares, vae ocupar quasi toda a região posterior do corpo, ascendendo
pelo mesmo curso, contornando o acetábulo do lado direito, e terminando na
\-agina. O limite entre êsses dois órgãos nem sempre é bem nitido. A vagina
é um órgão bem desenvohndo e calibroso, de contômo sinuoso ou irregular-
mente denteado; com as extremidades relati^^amente delgadas, alarga-se na parte
mediana; é ligeiramente tortuosa, e se estende desde o nivel da ventosa ventral
até o poro genital, tendo uma posição lateral e do lado oposto ao da bolsa do
cirro; possue uma luz muito franjada e é rodeada por intensa camada de células
de natureza glandular; mede 0,257 a 0.552mm de comprimento por 0,073 a
0,184mm de largura máxima. Ovos numerosos, castanho-claros, de casca forte
e com visivel opérculo, medindo 0.043 a 0.064mm de comprimento por 0.022 a
0.034mm de largura. Vitelinos constituídos por foliculos volumosos grupados
irrcgularmente, em pequeno número, nas margens laterais do corpo, cecais r
extra-cecais, muitas vêzes intra-cecais, estendendo-se desde o nivel inferior da
ventosa ventral ao limite inferior da zona testicular, não raro ultrapassando-a
um pouco. O lado esquerdo apresenta geralmente menor número de foliculos,
quando muito igual, porém nunca maior do que o lado direito; o número de
foliculos para o lado esquerdo é de 7 a 12; para o direito 10 a 15. Não foi
feito estudo do aparelho excretor do qual só observamos o poro; situa-se pos-
terior- e subterminalmente na linha mediana do corpo.
••\inda atendendo o ponto de vista de Ryrd e Roudabush, e como um dos
lotes foi encontrado no intestino de Xenodon merremii, esta espécie seria L-
trovtrcma. Estamos de acórdo que a descrição desta espécie se ajusta à por
nós observa<la nessa cobra, de um modo geral ; porém ajusta-sc igualmentc ás
dos demais lotes, que no entanto provem de quatro outras espécies dc cobras,
embora a localização seja a mesma (Quadro No. 1). Potleriamos dizer o mes-
mo com referencia às outras espécies descritas, considerando o ponto de vis»
morfológico, conforme a descrição que acabamos de expor.
As espécies encontradas nos lotes 3.660, 3.661. 5.142. 5.314, 5.395 e 5.493.
si considerarmos o fator “hospedeiro”, tanto se distanciam de todas as es{)éde*
do gênero quanto se distanciam entre si ; não é possivel, portanto, criar un»
nora espécie para cada hospedeiro.
O fator “especificidade” perde o seu prestigio neste exemplo. .-Miás, êsse
fato é comum; já o temos observado cm outros trematóides parasitas de cobra*
(gêneros Opisthogonimus e Renifer, por exemplo). Da descrição dada poder-
se-a notar a variação de talhe a que está sujeita a espécie. O comprimento do
corpo raria de 0,975 a 3.220mm, e seria difícil, dentro desses limites, estabclcccf
mais de uma espécie com a mesma morfologia, a mesma localhafão, e apci»*
com hospedeiro diverso (porém do mesmo grupo).
Em trabalho recente (1940), Brad, Parker e Reiber, autores americano*,
ao criarem um novo gênero: Paurophyllum, muito próximo de Lcptophyll'*^
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(diferenda-se pela ausênda de espinhos no drro) tecem considerações em tôrno
dos dois gêneros e com reíerênda às espédes deste último, com que fizeram
exame comparado, assim de expressam: “ — The material at our disposal
Í-. lamüwiicnsis McIntosh, 1939, and L. ozHtlis Byrd & Roudabush. 1939,
^form remarkably to the description of L. stenocotylc Cohií, 1902, and as
**iSgested by McIntosh they may prove to be identical. The variations from
Cohn’s spedes noted for the nvo more recent forms seem, however, to be of
Qcaoko Xo. 1
Procedência
Hospedeiro
Localização
Xo. de
exemplares
Cidade
Estado
São Leopoldo .
R. G. do Sul
XenodoH merrernii (Wacle*) . .
Intest. grosso
5
.Araucária
Paraná
Tomodon dorsatus (D. & B.) .
Intest. grosso
20
Restinga Seca .
R. G. do Sul
Dryofkylax fallidut (L.)
Intest. grosso
17
.Araçatuba
São Paulo
Leimadofhis foecilogynu (W.) .
Intest. grosso
10
Tuparaí
R. G. do Sul
Philodryas schollü (S.)
Intest. grosso
23
Plinio Prado . .
São Paulo
PhUodryas schoUii (S.)
Intest. grosso
130
Boa Esperança .
São Paulo
Philodryas schottii (S.)
Intest. grosso
67
Restinga Seca .
R. G. do Sul
Dryofhylax faUidus (L.)
Intest. grosso
3
**tffident importance to neccssitatc the establishment of distinct spedes". —
Tais variações, com relação ao comprimento, estão compreendidas entre mais
menos 1,0 c l,97mm.
Também c necessário frisar que Cohn trabalhou com material conser^^ado
**o corpo do hospeddro, fixado em álcool, durante 10 anos. Embora o autor
afirme estar o material em boas condições, o que não c de duvidar à vista do
"^^senhe que apresenta, devemos ter em mente que as medidas não foram toma-
das em exemplares devidamente comprimidos e que os órgãos internos devem
sofrido sariações, graças à retração sempre provocada pelos fixadores em
condições.
Analisando o desenho dado por Cohn, notamos também tratar-se, possi\-el-
‘**^te. de um exemplar não completamente desenvolrido, a julgar pelo número
de ovos e o desenvolvimento do útero.
cm
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192
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Comparando as figuras dadas por Cohn (Fig. 1), Pereira (Fig. 2 e 3),
^Iclntosh (Fig. 4), Byrd e Roudabush (Fig. 5), nota-se uma semelhança cho-
cante; publicamos tais desenhos para melhor esclarecimento e juntamos dots
outros feitos pwr nós de exemplares pertencentes a dois dos lotes examinados
(Nos. 5.314 e 3.660 — Figs. 6 e 7, respectis-amente) .
A seguir damos relação das medidas tomadas sôbre 20 espécimes escolhi-
dos arbitrariamente dos referidos lotes e que vão representadas no Quadro No. 3-
Considerando, pois. a identidade morfológica muito estreita das espéc.cs
de Cohn, Pereira. Mcintosh e Byrd & Roudabush; considerando o valor relati\'0
da especificidade dos hospedeiros; considerando ainda que a localização das es-
pécies cm questão sofre, praticamente, pequena alteração (se não fôr a mesma).
e levando-se em conta as variações possíveis de talhe, será muito difícil a sepa-
ração cas três espécies mencionadas da espécie tipo L. stcnocotylc Cohn, 1902.
Talvez só o exame de todas as espécies tipo. mais minucioso e comparado, per-
mita dar uma opinião segura. Entretanto não nos admiraria a confirmação de
tratar-se de uma única espécie.
Quanto à \-alidade do gênero Leptophylium houve dúvida da parte de
Travassos (1924) que afirma: “No gênero Leptophylium Cohn, 1902, jxircce
ter ha\-ido engano quanto à posição do ovário, pois o aspecto do conjunto é de
Dicrococlidae, bem como a vcsicula excretora. como está representada. Tivemo'
a impressão que êsse gênero corresponde ao gênero Infidum”.
Êsse mesmo autor, quatro anos depois (1928). conser\-a o mesmo ponto dc
vista e assim se expressa: “Quanto ao gênero Leptophylium Cohn nos parecí,
como já referimos em trabalho anterior (1924), tratar-se de um engano seme-
lhante ao de Nicoll para o Xenopharynx, sendo Leptophylium um Dicrocoeliidoe
c igual a Infidum Tr.w.”.
Cremos haver engano da parte de Travassos, pois que as observações de
Cohn foram confirmadas posteriormente por Pereira, Mcintosh, Byrd & Rou-
dabush, B>Td, Parker & Rcilter, bem como por nós mesmos.
Quanto à validade e posição sistemática deste gênero, portanto, parece não
haver mais motivo de dúvidas. Byrd, Parker ít Reiber fizeram recentemente
um acurado estudo sôbre o aparelho excretor de L. tamiamiensis, sendo por êlc*
colocado entre os Plagiorchiidae, como já o havia feito Baer em 1924. Mas au
passo que Baer, apoiado por Mcintosh (1939), o incluia na subfamilia Enodio"
trematinae B.ser. 1924, êstes autores o colocam em uma nova subfamilia. Lept<y
phyllinae, que possue os gêneros Leptophylium e Paurophyllum.
G
194
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
RESUMO E CONXLUSÕES
Foram comparados os caracteres que definem os gêneros Leplophylltii*
CouN, 1902, e Travtretna Pereira, 1929, chegando-se à conclusão de que não
é possível admitir a sua separação em dois gêneros distintos, sendo êste últim»
considerado sinônimo do primeiro.
Uma vez provada a validade especifica da espécie de Pereira, deveria
esta denominada Leptophyllum travtrenuí, constituindo a segunda espécie do
género. As espédes L. tamiamicnsis McIntosh, 1939, e L. ovalis Byrd
Roudabush, 1939, seriam respectivamente a terceira e quarta espédes do rcfe*
rido gênero.
Trabalhando com oito lotes de Leptophyllum. coledonados no Instituto Bu-
tantan e provenientes dos Estados de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul-
localizados no intestino grosso de dnco diferentes espédes de cobras, não íu*
possível dicemir mais de uma espêde, cujo comprimento osdla de 0.975 *
3.220mm. Foi deste modo posto em eddénda o \-alor muito duddoso da espe*
dfiddade de hospedador e a difidl separação de mais de uma espécie dentro <1*
limites mais ou menos amplos.
Comparando os desenhos de Cohn, Pereira, Mcintosh, Byrd & Roudabusl*
com os exemplares examinados por nós, verificamos serem morfolc^cament^
idênticos dentro das pequenas variações, sempre possíveis numa mesma espéd*
obsers-ada em condições diversas e por diferentes autores.
Em vi^sta de tais obsers-ações será difícil separar as espécies L. travtrcma, í"
tamiamicnsis e L. oialis da espécie tipo L. stcnocotyle, avaliando as condições eiu
que trabalhou Cohn.
Com referência à validade do gênero Leptophyllum não parece ser possí'"*^
a existência de dúvidas, estando sua posição sistemática assegurada na fainfl**
Ploffiorch i idae.
.•VBSTRACT AND CONCLUSIONS
The characters presented by the genera Leptophyllum Cohn, 1902, au<l
Trazirema Pereira, 1929, have been compared, showing thaí it is not possih**
to separate them into two distinct genera. the latter being considered as a s>i'*’‘
nim of the former.
The specific \-alidity of Percira’s species being proved, it should be call*^
Leptophyllum trazirenm. constituting the second species of the genus. The
cies L. tamiamicnsis McIntosh. 1939, and L. ozvlis Byrd and RomABfS**
1939, would be the third and fourth species respectively of the mentioned gei»>^
8
José M. Ruiz & Aristoteris T. Leão — Notas Helmintológicas. 2 195
Working on cight lots of LeptophyUutn oí the cx)llection of the Instituto
^utantan. and provenient from the States of São Paulo, Paraná and Rio Gran-
•le do Sul, found in the large intestine of 5 different spedes of snakes, the au-
^rs were not able to discover more than one spedes, the length of which
^ed from 0,975 to 3,220mm. Thus the very unccrtain value of the hosts
*pcdfidty was eddendated as well as the difficult separation of more than one
*Pedes wlthin the somewhat b:oad limits.
By the comparison of the drawnngs of Cohn, Pereira, Mcintosh, Byrd and
^^dabush with the spedmens examined, it is stated that they were morpholo-
Pcally identical, with small variations that always oceur in the same spedes
*^cr\-ed under different conditions and by different authors.
In view of these obser^^ations it will be difficult to distinguish the species
travtrcma, L. tamiamitnsis and L. ovalis from the t)’pc spedes L. stcnocotyle,
^lizing the conditions under which Cohn worked.
As to the \'alidity of the genus Leptophyllum. it seems that no doubts are
its systematic position being in the family Plagiochüdae.
1
BIBLIOGRAFIA
Cohn, Ludxcig — Centr. Balct. I. Abt. Orig. 32:877.1902.
' Baer, J. G. — Parasitology 16.1924.
'■ Travassos, L. — Scienda Medica 2(11) : 618.1924.
^ "■ Travassos, L. — Mem. Inst. Osw. Cruz 21(2) : 309.1928.
^ Pereira, C. — Boletim Biológico 16:92.1929.
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' Byrd, E. E. & Roudabush, R. L. — Jour. Parasitology 25(6) :471. 1939.
' " Byrd. E. E.; Parker, .U. V. & Reiber, R. J. — Jonr. Parasitology 26(2) :111 .1940.
(Tnbalbo dr calabora«So <ki Labontinot de Par»»iloloct»
da Faetildade dc Farmicia r Odootoloala da Uniwrai-
dade de Sio Paolo e dc Inrtilnto Botantan. EnltefW
rtn 27 de maixo de 1942 e dado i pu*
Uicidade rm ferereiro de 1942).
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Fic. 2
Fic. I
^ftp^kylímm sitnoct^yU, riftj toul
•efon<k> Cohn.
Trotlrfm^ twtrrmú (=: tftnircmã); S^fuodo
PerHra, vttU toUl
Fic
T*’€rirtma tr^remã (= L. ; ScfWKio Pcrrir*, f^^rmrtior da
boJ»a do cirro.
cm
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José M. Ruiz Jt Aristoteris T. Le.\o — Solas Helminlolõyicas. 2 in»t. Baunun
Vol. XVI — 1942
José M. Rciz i Ahistotebis T. Leão — Solas Uelminlolôgicas. 2
Mnn. Tn>t. Jtnt^ntan
Vol. XVI — 194»
Fic. 6
<Jo intntÍDo cros»o Phii&dry^ ukcitu
^»L*cu.) (IJmina No. 5.J14). Ori|inai.
FiC.
Matcnu do ínicttino croMo d« Tcmcd^ d&rsêtnt
D. tt B. (Lixnina No. i.660). Orífmal.
cm
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595.122
NOTAS HELMINTOLÓGICAS
Nova espécie de trematóide do gênero Infindum Travassos,
1916 (Dicrocoeliidae) , parasita de ofídio brasileiro.
POR
JOSÉ M. RUIZ & ARISTOTERIS T. LEAO
O gênero Infidutn foi criado por Travassos em 1916 que nele incluiu as
**Pêcies I. tnftdum (Faria, 1910) ( = Dicrocoelium infidutn) e /. similis Tra-
vassos, 1916, ambas parasitas das vias biliares de cobras brasileiras.
Em 1939, Mcintosh descreve uma terceira espécie da vesicula biliar de
^'ophis (Dromicus) hoodcnsis, cobra capturada no ano anterior nas Ilhas Ga-
^Pagos, sob o nome I. luckeri McIntosh, 1939. Desse modo ficou o referido
^fncro integrado por três espécies.
Ao e.xaminar os trematóides por nós coletados em 4/12/42 (necropsia
3052 da Seqão de Parasitologia do Instituto Butantan), tivemos ocasião de
'''^ontrar alguns exemplares que após exame foram colocados no gênero Infidutn,
‘^'ferindo, no entanto, das espécies já descritas por alguns detalhes morfológicos
julgamos de suficiente importância para justificar a ereção de uma no\*a
**Pêcie. Passamos a descrevê-la sob o nome de
Infidutn intertnedium, n. sp.
Diagnose espedfica.
Infidutn: Trematóide de corpo tipicamente piriforme, com a extremidade
*'*lcrior afilada e posterior arredondada, medindo 2,87 a 3,99mm de compri-
•»>cnto por uma largura variando entre 1,19 e 1.86mm. Medidas tomadas cm
***mplares comprimidos. Cuticula inerme. Ventosa oral sub-tcrminal, voltada
a face ventral, medindo 0,282 a 0,424mm no sentido do comprimento por
a 0,480mm no sentido da largura. Ventosa ventral logo acima da linha
^|P*Atorial, mediana, circular, com um diâmetro compreendido entre 0,424 a
•^mm. Distância entre as ventosas de 0,707 a 0,989mm. Faringe pequeno,
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2U4
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
medin io 0.084 a 0,113mm no sentido do comprimento por 0.098 a 0.155mm de |
largura. Em continuação existe um esôfago bem desenvolvido, cuja porção basaJ
é mais dilatada; mede 0.311 a 0,480mm de comprimento e sua largura é próxiffl» I
da do faringe. Cecos simples, praticamente iguais, estendendo-se até bem próxim® |
da extremidade posterior do corpo, como em I. infidum, distando desta O,565nuo
em média. A porção terminal é bem mais dilatada. Testículos lobados mais oU
menos intensamente, de situação imediatamente superior à linha equatorial, bof'
dos parcialmcnte coincidentes com a margem do acetábulo. intra-cecais, com caiu*
pos afastados e zonas coincidentes: o testículo do lado orariano tende a ser mais
volumoso: medem 0.226 a 0.296mm no sentido do comprimento por 0,123 3
0.264mm de largura. Vasos eferentes unindose ao nivel da base da bolsa tio
cirro. Esta é um órgão tubular com a base mais dilatada; inicia-se próximo 'lo
bordo suijerior do acetábulo, na linha mediana do corpo e dirige-se no scntitl*^
súpero-latcral : mede 0,367 a 0,494mm de comprimento e cérca de O.llSmm d-
largura máxima; contem uma vesícula seminal ovalada com cérca de 0,185mm tle
comprimento e 0,098mm de largura ; seguem-lhe uma curta parte prostática e uin
cirro tubulares. Poro genital ligeiramente lateral, ao nivel da bifurcação e iin**
diatamente para fóra do ramo cecal. Ovário arredondado ou alongado, inclinado-
post-acetabular. sul>-mediano, com zona parcialmcnte coincidente com os testículo^
e não raro cont o acetábulo: mede 0.240 a 0,296mm no sentido do comprimeníO
por 0,183 a 0.240mm no sentido tia largura. Glândula de Mehlis para-o\-arian»-
Receptáculo seminal e canal de Laurer não foram observados. Útero constituitlo
por numerosas dobras irregulares que se estendem desde o nivel da linha equato*
rial até muito próximo da extremidade posterior do corpo, ocupando toda a áre»
intra-cccal e cobrindo grande parte dos cecos, os quais ultrafassa lateral- e jx)stf'
riormente. O ramo ascendente margeia a linha mediana do corpo, afila-sc e
mina numa vagina delgada e longa paralela e externa à bolsa do cirro. As altc^'
turas masculina e feminina são contíguas. Ovos muito numerosos, medindo 0.0->'
a 0,025mm de comprimento por 0,011 a 0,014mm de largura. Vitelinos le foni>*
dendritica, laterais, no terço medio do corpo, estendendo-se des<le o nivel sujicrio^
(lo acetábulo até o nivel superior do terço inferior do corpo. \'iteloductos voli*"
mosos. Poro e.xcretor mediano e sub-terminal.
A descrição e medidas foram ba.seadas em cinco exemplares cotipos
na No. 5.540) tomados entre quinze e.xemplares paratipos montados sob os
5.123, 5.125 e 5.126 (Necropsia No. 3.052). pertencentes á coleção da Seqão ‘J'
Parasitologia do Instituto Butantan.
Hospedeiro tipo : Lchnadophis poecilogyrus (\\ ied)
Habitat : Pâncreas, fígado e canal coledoco
Localidade tipo; Guararapes — São Paulo — Brasil.
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205
RESUMO
No presente trabalho c descrita uma no\'a espécie de trematóide do gênero
f»fidum (Dicrococliidae) , parasita das vias biliares da serpente Lcititadophis tot-
^ogyrus (Wied), de São Paulo, Brasil. O material tipo se acha depositado na
da Seção de Parasitologia do Instituto Butantan (Lâmina No. 5.540).
As quatro espécies podem ser separadas pela seguinte chave dada por Mcintosh
^ ampliada por nós :
1 — Vitelinos estendendo-se anteriormente até o nivel do poro genital ou
ultrapassando-o Infidum infidutn (Faria, 1910)
Vitelinos estendendo-se anteriormente até a margem superior do ace-
tábulo 2
2 — Distânda da extremidade do intestino ao nivel da zona dos vitelinos
quasi igual ao comprimento dos vitelinos 3
Distânda da extremidade do intestino ao nivel da zona dos vitelinos
muito menor que o comprimento dos ritelinos
Infidum luckeri McIxtosh
3 — Vitelinos estendendo-se acima da linha «juatorial Infidutn similis Trav.
V'itelinos estendendo-se, igualmente, para dma e jara liaixo da linha
equatorial Infidum intermedium, sf. n.
ABSTRACT
In the present paper a ncw tremato<le si)edes of the genus Infidum {Dicro~
^^tliidac), parasite of the biliar tracts of the snake, I.eimadopUis poccilogyrtis
^'■om São Paulo, Brazil, is described. The type material is kept in the colleaion
lhe Department of Parasitology of the Instituto Butantan (slide No. 5.540).
The four spedes may be distinguished by the following key presenteil by
^^flntosh and enlarged by us:
1 — Vitellaria extending anteriorly to levei of genital pore or beyond
Infidum infidum (Faria. 1910)
Vitellaria extending anteriorly only as far as levei of anterior margin
of acetabulum ~
2 — Distance from t-p of intestine to levei of vitelline zone about equal to
ler.gth of 3
Distance from tip of intestine to levei of vitelline zone much shorter
than length of vitellaria Infidum luckcri McIntosh
3
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206
Memórias do Instituto Butantan — Tomo X\T
3 — Vitellaria extending up to the equatorial line . . Infidum sitnilis TraV-
Vitellaria extending also up and downwards of the equatorial line •
Infidum intennediumt n. sp-
BIBLIOGRAFIA
Fariú, Gomes de — Mexn. Inst. Osw. Cruz 2(1} :22. 1910.
Trcn^sos, Lauro — Brasil-Mcdico (30). 1916.
Mcintüsh, Allen — Smithsonian Misccllancous Collcctions 98(16). 1939.
(Trabalho de colaboraçio dct Laboratórioa de ParasitoloC*
da Facoldade de Fannicia e Odootolor» da
dade de S2o Patdo e da Seçio de Parasitolofia do
titnto Botantan. Eotre^oe para pobltcaçio em 20 ^
maio de 1942 e dado à publicidade em ferereiro de 1943)*
I
f
4
595.122
iNOTAS HELMINTOLÓGICAS
Choledocystus vesicalis, n. sp., parasita da vesícula biliar de
Bufo marinus (L.). {Trematoda: Plagiorchiidae)
POR
JOSÉ M. RUIZ & ARISTOTERIS T. LEAO
O material que ora nos propomos descrever, proveniente de uma necropsia
efetuada em 2 de outubro de 1940, por algum tempo deixou-nos indecisos quanto
* sua posição sistemática num dos gêneros dos Plagiorchiidae conhecidos ate
*ntão.
A sua inclusão no gênero Glypihelmins Staffxird, 1905. parecia-nos, a prin-
^Pio, provável. Ao tomarmos conhecimento do trabalho de Pereira & Cuocolo
(1’rocesso papilomatoso das \nas biliares de Leptodactylus ocellatus (L.), <le-
*^rminado p>or Choledocyslus cucharis, n. g., n. sp., {Trcnuitodai Plagiorchiidae)
■^fch. Inst. 3iol. S. Paulo 12:311.1941), criando o gênero Choledocyslus,
*’'uito próxinx) de Glypthclmins Stafford, 1905, diferenciando-se deste principal-
•^mtc pela ausência de receptáculo seminal, julgamos acertado colocar no refe-
ndo gênero a espêae que, por nos parecer nora, passamos a descrever sob o
titjmc de :
Choledocyslus vesicalis, n. sp.
Diagnose especifica:
Plagiorchiidae de pequenas dimensões, o\*alado ou ligeiramente pirifomie.
®>«dindo 1,597 a 1,71 Imm de comprimento por 0,881 a l,067mm de largura má-
*inia, ao nivel equatoríal. Cutícula revestida de pequenos espinhos delgados,
•lirigidos no sentido ãntero-posterior do corpo c estendendo-se por toda a su-
P^fície do mesmo, sendo menos numerosos na extremidade posterior. Apre-
*^tam a mesma dimensão em todo o comprimento do corpo. Vetitosa oral
cm
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210 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
drcular, sub-terminaJ. voltada para a face ventral, com um diâmetro \-ariando
entre 0.205 e 0.213mni. Pre-faringe praticamente nulo. seguido de um fa-
ringe musculoso que mede 0.106 a 0,114mm de comprimento px>r 0,137 a 0,177mm
de largura. Esôfago curto, com cérca de 0,038 a 0,053 de comprimento. Nu-
merosas células de natureza glandular envolvem a região esofagiana. Cecos
longos, sub-iguais, atingindo a distânda de 0,092 a 0.221 mm da extremidade
ixjsterior do corpo. Ventosa ventral mediana, situada imediatamente adma da
linha equatorial, drcular, com um diâmetro de 0.198 a 0.281 mm. Testículos
o\-alados. situados imediatamente abaixo da linha equatorial, intra-cecais e cc-
cais, com campos afastados e zonas quasi coinddentes. Testículo direito coni
campo em coincidência com o ovário, medindo 0.198 a 0,266mm de comprimento
por 0,152 a 0.228mm de largura. Testículo esquerdo geralmcntc num nivd
mais superior, medindo 0.228 a 0.266mm de comprimento por 0,186 a 0.228mni
de largura. Bolsa do cirro muito desenvolvida, arqueada em C. com a concad-
dade voltada para a esquerda; inicia-se em altura s-ariável ã direita da vcnto-a
ventral e dirige-se para a região súpero-lateral esquerda do mesmo órgão, ao
nivel do ceco. onde se situa o átrio genital. Mede a lx)lsa do cirro 0,380 a
0.456mm de comprimento por 0,099 a 0,129 de largura máxima lu porção l) 3 sal-
O seu conteúdo não foi bem obsecrado; impediu-o o grande número de glândulas
prostáticas ai existentes, entretanto, é evidente uma vesícula seminal globosa.
na {Kirte basal, seguida por uma dilatação menor da qual .se origina o duto eja-
culador. cuja trajetória não nos foi dado obserrar. CHário sub-esfcrico ou li-
geiramente pi ri forme, ao lado direito da ventosa ventral, com zona coincidindo
ou não com êste órgão; menor que os testículos. me<lc 0.175 a 0.190mm de com-
primento por 0.114 a 0,142mm de largura. Glândula de Mehlis para-ovariana.
Receptáculo seminal au.sente. Útero e.xtrema- e irregularmer.te contorcido, in-
tra- e extra-cccal, na porção post-equatorial. O ramo ascendente ultrapassa esta
região e termina numa ragina musculosa, recurvada e contornada por numero-
sas células glandulares em toda sua extensão, medindo 0,190 a 0.243mm de com-
primento. Ovos de cór acastanhada, operculados, de casca delgada, medindo
0,026 a 0,030mm de comprimento por 0,015 de largura. Vitelinos formados pot
numerosos foliculos de tamanho médio, dispondo-se de ambos os lados da*
áreas cxtra-cecais e disseminados numa extensão igual ao comprimento dos
cecos, cujo limite posterior é atingido de leve. Os dutos vitelinicos centrais qu^
se unem na linha mediana, são formados pela confluenda de dois ou três duto*
secundários que se ligam na altura da região equatorial.
O aparelho excretor foi obserrado apenas cm parte, pois o material, já mon-
tado e em pequeno número, de que dispúnhamos não permitiu a obserraçáo
acurada dos menores detalhes. O poro excretor é mediano, situado na região
sub-ventral da extremidade posterior. \’esicula excretora cm forma de Y, cotO
os ramos par muito curto e impar longo; a bifurcação tem lugar no nivel supo*
O
José M. Riiz Jt Aristoteris T. LfAo — Xotas Heltninlológicas. 4
211
nor da zona testicular, isto é. na linha equatorial; teni um comprimento que
'^ria entre 0.644 a 0,828mm. De cada lado da bifurcação parte um ramo cole-
tor primário, delgado, que se dirige no sentido do prolongamento do Y ; ao atin-
pr uma situação entre os ritelinos e os cecos, já ao nivel da ventosa ventral, bi-
furca-se em dois ramos coletores secundários quasi do mesmo calibre, que se di-
^gem em sentidos opostos, um para a parte superior e o outro para a inferior.
Seguindo o percurso do ramo secundário superior nota-se, ao nivel do limite
zona acetabular, a primeira bifurcação e consequente formação de um ramo
*frciário que se dirige para laixo e se bifurca depois; logo acima, já ao nivel
tagina. percel)e-se a segunda bifurcação do ramo secundário; finalmente ao
•tJvcl do esôfago dá-se a terceira bifurcação em finos canais de terceira ordem
<lue se dirigem para cima. O percurso do ramo secundário inferior é mais di<<
ficil de ser acompanhado; percebe-se a primeira ramificação logo abaixo, e a
*^unda ao nivel da zona testicular; proravel mente existe uma terceira ramifi-
cação na zona jx>.st-te.sticular. que não foi obsertada, como não o foram em to<lo
c trajeto as ramificações de terceira ordem, com exceção da primeira do ramo
secundário sui>erior e a segunda do ramo inferior; estas .se dividem em dois
c^os. ntas c possível que a divisão seja em três ramos, um dos quais não foi
•observado. E as.sim seria 2 ((3 -j- 3 + 3) + ri- ^ -f ^)1 «"s fómiula do
s'stema excretor. Mas pelo que nos foi dado verificar. rc|)etimos. a terceira ra-
'•tificação não existe. Desse modo o aparelho e.xcretor seria idêntico ao dos Di-
Cfocoelideos. ou seja subordinado à fórmula 2 [2 2 2) -r (2 2 -j-2)].
^ aspecto do conjunto ê. aliás, idêntico ao por nós obscr\ado em Mesococlium
^^icrocoeliidac). Como não tivemos, entretanto, oix>rtunidade de observar
^*í<los os detalhes até as células vibráteis, não nos é autorizado afirmar da ver-
'^deira fórmula que dera corresponder à presente espécie, .^guardamos es-
*t>dos posteriores que venham dar mais esclarecimentos a esta contribui-
ndo. Entretanto, desde já podemos afirmar que a mesma ê sem dúvida do tipo
+ X -t- x) -f (x -f X -f- x)].
Hospedeiro: Bufo marínus (L.).
I-ocalidade tipo; Butantan — Capital — São Paulo.
Localização; Vesiaila biliar.
Diagnose diferencial:
Choledoeystus vcsicalis. n. sp., se diferencia de C. cucliaris, espécie tipo do
?cnero. pelos caracteres seguintes próprios à nova espécie:
1) Menor tamanho do corpo.
2) Situação da ventosa ventral.
3) Situação post-equatorial dos testículos.
4) Extensão dos vitelinos.
.n ) Hospedeiro.
cm
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212
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
A descrição de Choledocystus vesicalis, n. sp., foi baseada em quatro exem-
plares cotipos, comprimidos e montados, um dos quais fragmentado, fichados
sob o No. 3.6&4^ na coleção da Seção de Parasitologia do Instituto Butantan.
RESUMO
1 . No presente trabalho é descrita uma nova espécie de trematóide, CholedO'
cystus vesicalis. n. sp., parasita das vias biliares do sapo. Bufo marinus
(L.) e que constitue a segxmda espécie do gênero Choledocystus Pereira &
CuoooLo, 1941, gênero êste muito próximo de Glyfthelmins Stafford, 1905.
2. A presente espécie se diferencia de C. eucharis Pereira & CuocoLO, 1941»
pelos seguintes caracteres: situação da ventosa ventral; situação post-eqn*'
torial dos testículos; extensão dos vitelinos e hospedeiro.
3. É feita uma descrição parcial do aparelho excretor, cujos detalhes não ÍO"
ram observados, mas chega-se à conclusão que a fórmula representativa
é do tipo 2 [(x 4- ^ -p 3c) -p (x + x -j- x)].
ABSTRACT
1 . In the present paper a new trematode species, Choledocystus vesicalis, n-
sp., parasite of the biliary ducts of the toad. Bufo inarinus (L.), is dcs-
cribed, bcing the second species of the genus Choledocystus Pereir.\ &
CuoooijO, 1941, this one ver>* similar to Glyfthelmins St.\fford, 1905.
2. The present species is distinguished from C. eucharis Pereira & CuocotO/
1941, by the following characteristícs: position of the ventral sucker; post-
equatorial position of the testis; extension of the vitellaria and host.
3. A partial description is made of the excretor)* system, the details of which
could not be e.xamined thoroughly, rcaching. however, the conclusion that
the representative formula is of t)*pe 2 [ (x -f- x -f- x) -j- (x x x)]*
(TrabaJlM áe col^boraçio átn Laboratório*
do Inatitato Butantan e da Faculdade de Fam^ci* *
OdoetolofU <U Cnirersidade de Slo Paulo. Entrrf^
para píAlicaçio «n 2-9-42 e dado 1 publicidade c®
rereiro de 1943).
4
0,50 mm
M. Rl-,z; Ahistotehis T. Le-\o — Xotas Helmintológicas. 4
Mrra. last. Butantan
Vol, XVI — 1942
Fic* 1
C. vciifiiSt n- «r** — Tifta total
SciELO
^'‘SÉ M. Rviz; Aristoteris T. Le-\o — Notas Helmintológicas. 4
Mexn. Ifitt. BatADtAa
VoL XVI — 1942
Fic. 2
C. wnraiú, n. *p*. — Dt^tnho esquemitko
Bc = Bo*m do cirro; C = Ceco»; E = Eiòfaco; F = Farinfc; Cc = Glindol* da
'• Cf — Glindola» pcrí-farinfcanat; M = mctratertoo; Or s Oriritx Pe — Poro cacrcto»;
^ TcstictiJo direito; T2 — TcsticiJo e*qoerdo; U — Ctero; V = Vttelíno»; Ve = Vesícula
excretora; Vo ~ Vento*a oral; V» ^ \c*ícala seminal; \r * \ entota renlraL
7
0,50 mm
José M. Ruiz; Aristotekis T. Lkão — Notas Helmintológicas. 4
Mcm. Iiut. Batantsn
Vol. XVI — 1*42
Fio. J
f . vriicúíU, o. ip., — * D«ctibo «qucmilko. Pormenor do a|urelho eacreior.
9
591.19:612 492
I^RESENÇA de hormônio antidiurético na hipófise
DE SERPENTES DO GÊNERO PHILODRYAS
POR
ANAXI.JiS PORTO & MANOEL FERR.AZ
INTRODUÇÃO
A presença de hormônio antidiurético no lobo posterior da hipófise tem sido
J* assinalada, além dos mami feros, inclusive o homem, nas aves por De I^wder,
^arr e Geilling (1) e Heller (2); nos peixes por Heller (2), Bovd c Dingwall
( 3 ), e nos anfibios por Heller (2). Segundo éste último a hipófise dos ma-
"biferos teria poder antidiurético oito vezes maior do <jue a dos outros vertebra-
Em diferentes espécies, na urina também tem sido revelada a presença
<leste fator post-hipofisário, entre outros por Gilman e Goodman (4) ; Hare,
R*ckey e Hare (5), etc. Por outro lado uma substância antidiurética existiria
fígado bovino, como o demonstraram Theobald e White (6) ; Schaf fer,
^^den e Stander (7).
No presente trabalho demonstramos a presença desse honnónio na hipófise
ofídios, grupo zoológico, ao que nos parece, ainda não estudado neste par-
*í^lar.
M.\TERIAL E MÉTODO
Escolhemos para éste estudo a hipófise de serjiente ovipara, não venenosa.
^*^tncente ao gênero Philodryas. Após decapitação, no momento da exf)c-
de exemplares adultos, de ambos os sexos, a hij)ófisc era retirada c,
trituração, suspensa em sôro fisiológico.
Usamos o tesl preconizado por Bum (8). A pro\-a se liascia no emprego
^ ^tos machos de 150-200 gramas, colocados numa gaiola cnm dispositivo
coleta de urina, medida de 15 em 15 minutos, durante um tempo deter-
**’*t>ado. Limitamos nossa obsers'ação a 3 horas, por se tratar de uma pro\a
'^'«Jitatira (Fig 1).
cm
SciELO
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220
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Fic. 1
GaioiM para ccl ta t mrdída de oríoa
Fazíamos ao mesmo tempo 4 lotes, dos quais um recebia hipófise e o*
outros três cérebro ou tiróide, ambos de Philodryas sp., sóro fisiológico, hip-^**'
talamo bovino e ainda pitressina Parke, Davis.
Os ratos ficavam em jejum por 18 a 24 horas, inclusive privados de águ*
e no momento da experiência recebiam por sonda gástrica 5 cm* de água, lige*'
ramente aquecida, para cada 100 gramas de peso corporal. O material a
testado era injetado subeutaneamente em volume de 0.2 cm* e nas doses, p»*^
cada animal, de 2 hipófises, 1 tiróide, 4 mg de pó de hipotálamo bovino. 2 *
4 mg de cérebro e 0.004 U de pitressina pwr 100 gramas de p>eso.
Realizamos 5 experiências, com um total de 32 ratos, divididos em 8 lot«*
de 4 animais. Para maior segurança nos resultados obser\’ados, utilizavamos
mesmo lote. em dias diferentes, de tal maneira que o tratado com hipófise ^
primeiro dia na outra experiência tomava sõro fisiológico. Dêste modo, al^
do controle de outros grupos, o próprio lote servia de controle (cross-test).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Na apreciação dos resultados mais importantes que o volume total elimina*^
pos 180 minutos ê o tempo de maior aumento, pois é compreensível que qua"**’
mais potente fôr a preparação, mais tardiamente aparece o maior débito
urina, num dos intervalos de 15 minutos.
cm
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0 11 12 13 14 15 16
Ananias Porto & Manoel Fehr.az — Presença de hormônio anlidiurélico
na hipófise de serpentes do gênero Philodryas
221
No Quadro I, que exprime a média aritmética dos volumes encontrados
on nossas experiências, podemos notar a grande diferença no total eliminado
entre os tratados com hipófise e os controles, durante o tempo de nossa ob-
servação.
A Fig. 2 dá idéia mais objeti\-a dos resultados encontnidos.
Pode-se notar que a tiróide produriu um leve aumento no total eliminado,
^ela curs*a de excreção (Fig. 2) podemos deduzir a grande riqueza do principio
^ hipófise, mormente si considerarmos o total nos 180 minutos. No entanto
^ívem recordar que o material, injetado em suspensão, pode perfeit^ente ser
*hsor\’ido mais lentamente, o que interfere não só intensidade como na du-
*^ão do efeito. Si analizarmos a curva, verificamos que a ação da hipófise é
***3is prolongada, mas não tão intensa quanto a da pitressina. Com efeito, já
*•*^5 primeiros 15 minutos ha presença de urina nos tratados com hipófise, ao
Pisso que tal acontece, nos que receberam pitressina, só a partir do 30.® minuto,
■'^inda mais, o maior aumento no lote tratado com hipófise aparecendo aos 45
*”>nutos não significa necessariamente aquela ação diurética assinalada por
^lagnus e Schãfer (9), nem menor riqueza do prindpio, mas pode correr por
^ta da não absorção da substância ati^'a.
cm
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Ananias Porto i Manoel Feril^z — Presença de bomiõnio anlidiurélico
na hipófise de serpentes do gênero Philodryas
223
A escolha do pó de diencéfalo bovino, do qual usamos uma área de um
^timetro de diâmetro na zona hipotalámica de implantação do pediculo hipo-
fisário, nas experiências controles, foi baseada no interesse em se examinar êste
pó, dadas as relações existentes entre esta parte do sistema nervoso e o aparelho
^cnal, na patologia humana. Nas nossas condições experimentais encontramos
*í*na ação inibidora intensa, mas de pequena duração.
Das experiências realizadas pode-se concluir pela presença de uma subs-
*^cia antidiurêtica na hipófise de serpentes do gênero Philodryas.
RESUMO
Os autores, usando o método proposto por Bum, estudam a ação antidiu-
fética da hipófise total de serpentes oviparas, não venenosas, do gênero Philo-
ABSTRACT
According to the method of Bum and with the dosis of 2 glands for each
subcutaneously injected, it was obtained an antidiuretic action with the hy-
Pophysis of oviparous snakes belonging to the genus Philodryas.
BIBLIOGRAFIA
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(Trabalho <U S«eSa de Endocrinolocia do Inititato Batanun.
Eotreroe para pablkacSo em 12-10-42 e dado i publi-
cidade cm ferereiro de 194}).
cm
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591.19:612.192
SUBSTANCIAS ANDROGENICAS NAS GONADAS DE
SERPENTES DOS GÊNEROS BOTUROPS E CROTALUS
POK
JOSÉ R. VALLE & LUIZ A. R. VALLE
A presença de hormônio masculino nos testiculos de vertebrados tem sido
Assinalada, desde os trabalhos de Martins e Rocha e Siha (1), Moore, Gallagher
* Koch (2). Apesar de relativamente baixa a concentração de substâncias an-
*lrogênicas nas glândulas sexuais de touros e de caprinos, já foi referida a exis-
*^ticia delas em testiculos de peixes, pelo grupo de Chicago, e mais recente-
*'^te no salmão por Hazfeton e Goodrich (3).
Themos a oportunidade de preparar um e.xtrato de testiculos de ofidios e
ensaiá-lo com resultado positivo em capões e ratos castrados. Nesta nota
^^umimos o método seguido e os resultados encontrados. O ensáio quantita-
*•'^0 de substâncias estrogênicas nos ovários será objeto de próxima publicação.
MATERIAL E EXTRAÇAO
No período de março a maio foram autopsiadas 324 cascavéis e jararacas
***‘írtas no serpentário deste Instituto. As gônadas dos 79 exemplares machos,
I*^ndo no total 107g, foram trituradas e coletadas em álcool a 96%. Ter-
****nado aquele período, o álcool foi filtrado e o material glandular extraido com
**^'0 volume de akool em aparelho de refluxo durante 4 horas. As frações
^oólicas foram reunidas e distiladas e o bagaço, pesando seco 12g, desprezado.
^ liquido xaroposo obtido, a%'eimelhado e de cheiro prommciado, foi extraido
^ funil de separação 4 vêzes com 20 cm* de éter de cada vez. As frações
**^eas foram e5aporadas e o residuo oleoso, misturado a quente com óleo de
*®»«ndoim até o volume de 10.7 cm* (1 cm* = 10 g de órgãos frescos).
Pesquisamos a atividade androgêmea deste extrato em ratos castrados tia-
com colchidna e em capões Lcghom. No primeiro caso seguimos em li-
gerais o método estudado primeiramente por Martins (4) e ha pouco por
cm
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226
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Burkhart (5). O test em capões foi feito conforme as normas propostas pof
Gallagher e Koch (6).
RESULTADOS E COMENTÁRIOS
a) Peso vesicular e mitoses na próstata de ratos castrados.
Empregamos um total de 10 ratos castrados 40 a 50 dias antes e pesando
de 91 a 136 g. O material a ensaiar foi injetado nas doses de 0.2 a 2.0 cm*
e a autópsia feita 48 horas após a última injeção e 7 horas depois da injeção
subcutânea de colchicina (0.2 mg/100 g). Os resultados vêm sumariados no
Quadro I.
Não se obser%‘ou diferença entre o peso das \-esiculas dos animais conrrôles
injetados com óleo puro e dos animais tratados com o extrato. A presença de
substâncias androgênicas foi deduzida, porém, da contagem das células em mi'
tose no epitélio prostático. Nos animais testemunhas achamos a média de 6-3
figuras mitóticas, enquanto que nos tratados com o extrato a média foi mmor.
embora incluindo os animais que receberam doses insuficientes de 2 e 5 gran»*
de tecido testicular fresco. Não foram contadas as mitoses observadas no te-
ddo conjuntivo muscular (Fig. 1).
Quaobo I
Preparação
Volume injetado
(cm*)
Peso do rato
(g)
Peso das ve-
sículas (mg)
Número de
mitoses na
próstata
ôleo puro
1 XO. 2 = 0.2
91
6
7
4X0.5 = 2.0
132
7
5
n *•
4X0.5 = 2.0
101
5
7
f» *•
1 XO. 2 = 0.2
94
6
6
Média
104.5
6
6.3
Extrato test.
1 XO. 2 = 0.2
96
10
5
f* »
2X0.25 = 0.5
136
7
7
n n
2X0.25 = 0.5
100
4
10
ft N
2X0.5 = 1.0
120
6
17
f* **
2X0.5 = 1.0
118
5
16
m m
4X0.5 = 2.0
141
7
16
Média
118.5
6.5
11.8
o
José R. Valle &. Luiz A. R. Valle — Substâncias androgênicas nas
gônadas de serpentes dos gêneros Bothrops e Crolatus
227
b) Crescimento da crista de capões.
Empregamos 3 galos castrados: 2 injetados com 1 cm* do extrato, rep;ir-
Rdo em injeções diárias de 0.2 aii* intramusculanneme e o 3.“, como controle,
'om extrato ovariano após seijaração das substâncias estrogénicas.üs caiiõcs fo-
mantidos alguns dias antes e durante o tratamento nas mesmas condições
iluminação.
A diferença entre as s<jmas do comprimento c da altura da crista no 1.” e
6.® dia serviu de critério para a avaliação da atisndade <lo extrato (ver
Quadro II). Um crescimento da crista de 5 mm na soma do comprimento
**’ais a altura corresponde aproximadamente a 10 unidades de aiidrostenma. N.a-
•uralmente. êste dado quantitativo é apenas aproximado. Valores mais exatos
*^iam obtidos si fossem feitas dosagens (laralelas coni o hormônio sintético.
Os resultados jwsitivos de Hazleton e Goodrich (3) foram oliserAados cm
'^pões na dose corresjxnidentc a cérca <le (X) g de glândulas frescas. Xos nos-
ensaios o extrato testicular foi ativo, como vimos, na dose 6 vézes menor,
^éni disso, aqueles autores colheram o material glandular na éjxxa de repro-
^^'Kião «tos salnuícs, enquanto que os nossos ofidios foram autopsiados no outono.
cm
SciELO
228
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Quadro II
Capão
Xo.
Peso
(g)
Preparação
Dose
Crista em imn
Unid.
galo capão
I.® dia
C + A
6* dia
C + A
Dif.
imn
7
2.100
Ext. test.
lctn»=: lOg
80
82
+ 2
4
35
1.90C
-
•*
83
88
-h 5
10
71
1.900
Ext. o«r.
Icm» = lOOg
61
64
_1j
L_l_
Como não sal)cmos de maneira segura si a ati\ndade sexual destas crota-
lideas independe das estações, seria interessante o estudo comparativo do teor
cm andrógenos de testículos obtidos nas diversas épocas do ano. Por outr®
lado. Moore (7) lembra a possibilidade de certos reptis das regiões tropica»*
terem a sua atividade reprodutora independente da estação anual.
Do que ficou exposto podemos concluir que nos testículos das Crotaliàn*
existem substâncias androgênicas ativas em aves e mamíferos.
RESUMO
Ensaiamos cm cajAÍcs e em ratos castrados tratados com colchicina um c-X-
trato de testículos de 79 cascavéis e jararacas. Com doses cfiuivalcntcs a 10 f
de tecido glandular fresco cm 1 cnP de óleo de amendoim, foram obscr\-ados
resultados positivos. Os testículos de Crotalidac contêm, portanto, substãnctaí
androgênicas ativas em aves c manú feros.
ABSTR.\CT
An alcoholic tcsticular cxtract of 79 snakes {Bothrops jararaca and
talus tcrrificus tcrrijicus) was assayed in caiwns by the comb mcthod and
spaycd colchicine treated rats. AVith a total dosis of 10 g of glandular tis-suc
in 1 cm» of arachnis oil a positive effect was obseixed in both tests. Tcsticula^
cxtract of Crotalidac, therefore, has androgenie activity in fowis and mamtnals-
1 .
bibliogr.vfia
Martins, Th. & htocha e Sihv. A. — Action des c-xtraits lesticulaires sur les vesico-e*
séiiiinalci des souris chalrées — C. R- Soc. Bk>logÍc 1 0?; 48^.1929,
cm
SciELO
0 11 12 13 14 15 16
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gônadas de serpentes dos gêneros Bothrops e Crolalus 229
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Baltimore, \V. Wilkins O)., 1939.
(Trabalho da Seçio de Endocríoolocia do Inslituio But^nUo.
Entregue para puUicaçio cm 12*10*42 e dado i puUtridade
cm f c Tcrc i ro de 1942).
cm
SciELO
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612.492
TENEUR EN PROLACTINE DE L’HYPOPHYSE HUMAINE
SELON LE SÊXE
PAR
JOSÉ R. VALLE et LUIZ A. R. VALLE
La préscnce de la prolactine dans Thypophyse et dans les liquides organiques
de certains vertébrés a été r^nie par Riddle et Bates (1) et plus rccemment
*ocore, par Riddle (2). En 1935, Lyons et Page (3) ont etc les premiers à
^ler 1’hormone de 1’urine des femmes lactantes et Lyons (4) de celle des
®ouveaux-nés. Morató, Albrieux et Fraenkel (5), emploj*ant la mcthode pro-
Posée par Tun de nous, ont dcmontré la préscnce de ITionnone dans ITiypophyse
lactants. Chance, Rowlands et Young (6) ont compare la teneur en thyro-
irophine. gonadotrophine et prolactine des hj-pophyses humaines, bovines, equi-
''es, porcines et ovines. LTijqxiphyse la plus riche en prolactine est celle du
**H)uton, puis celle du boeuf, de ITiomme, du porc et, en demier, celle du dieval.
Selon ces auteurs la teneur en prolactine de la poudre du lobe antcrieur des
^ypophyses humaines sechées à lacétone serait de 59 milles unités intematio-
®^les par 100 g ou 0.59 u.i. par mg. Nous avons eu 1’occasion de vérificr
^activitc galactogcnique des hypophyses humaines selon Ic scxc et nous présen-
lons ici les rcsultats de nos déterminations.
MATÉRIEL ET MÉTHODE
Nos essais ont été laits avec le matériel glandulaire obtenu, par deux fois,
*^’autopsies humaines. A la premiére, en Mai de 1941, nous avons assembles
hj-pophyses de cadavres d’adultes sans regarder le sêxe, et à la seconde, au
^'^nuncncemcnt de ITiiver entre 14 Juin et 24 Juillet, nous avons reuni 36 hy-
l*^hyses d’homme de 18 à 85 ans et 23 hypophyses de femmes non lactantes
18 à 95 ans des quelles 10 au dessus de 40 ans.
Les hypophyses ainsi que les morceaux de foie pour les expériences de
^tròle ont été mises dans 1’acétone et chaque semaine, on les apportait au
cm
SciELO
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232
Memórias do Instituto Butantan — Tomo X\T
laboratoire, pour être rcplacées dans une nouvelle quantité dacétone et ensuit^
remisées au refrigerateur jusqu’à son exnploi. Après la trituration du matérid
nous avons pu avoir quatre portions: a) poudre de foie humain; b) 5300 fí<í
de poudre d’hj-pophyse totale (poids moyen de la glande sèche 79 mg) ; c)
mg de poudre du lobe antérieur de ITiypophyse masculine (poids moyen du lo^^
antérieur sec 40 mg) : d) 1072 mg de poudre du lobe antérieur de Thypophyse
féminine (poids moyen du lobe antérieur 47 mg).
La deu.xième portion extraite avec une solution akoolique alcaline à pH 9
jusqu'à 11, et prédpitée à pH 6, sui\-ant la méthode de Bates et Riddle (7)
nous a donné 690 mg d’une préparation que nous appelons extrait initiel.
autres portions, extraites au moment de Temp^oi avec une solution aqueuse
caline. ont été centrifugées, et Tinsoluble écarté. Nous avons pris toutes nos
précautions pour que 1’extraction fut la méme non seulement celle de la jxiudrt
des h}qx)physes mais aussi celle de la poudre de foie employée dans nos expé*
rienccs de controle. Commc test, nous avons employés un total de 63 pigec«i*
adultes des deu.x sèxes, fistulés. injectés subcutanément pcndant 4 jours et au-
topsiés 96 heures après la première injection pour la pesée des bourses laterale*
du jabot. La valeur quantitative de la réponse a été déduite de la courbe ob-
tenue dans notre Laboratoire avec la préparation intcmationale de la prolactine.
suisTint la méthode décrite minutieusement dans un tra\-ail antérieur (8). Ltí
essais ont été faits en Juin et Aoút de 1941 et répétés en Mai de 1942; pcndafll
cet inters*alle les préparations ont été consers’ées à basse température.
RÉSULT.ATS ET COMENTAIRES
a) Foie humain: Dans une première série nous avons employé
total de 20 mg pour chacun des 2 pigeons et le poids moyen des engluvie*
fút de 729 mg. Dans un sécond groupe de 4 pigeons, en injectant la mén«
dose, Ic poids moyen des englus-ics fút de 831 mg. Ces poids sont les mênK*
de la valeur normale des bourses laterales des jabots des pigeons non traitc*-
b) Extrait initiel: Dans une première série nous avons employé la do**
totale de 20 mg pour chacun des 4 pigeons injeaés. Le poids moyen des cfl'
gluvies a été 4907 mg pour 300 g de poids corporel, ce qui réprescnte quanti*
tativement dans nos conditions expérimentales. 1’effet de plus de 55 u.i., c'est-ã'
dirc. au moins 2.7 u.i. par mg. Un essai fait de nouvcau une semaine api^
mais emplo)’ant la dose totale de 10 mg pour chacun des 4 pigeons injectés, *
donné comme poids moyen des bourses laterales du jabot 2718 mg pour 300 í
de poids corporel, ce qui répresente un total de 18 u.i. E>ans le troisièmc ess**
2
José R. Valle & Luiz A. R. Vaixe — Teneur en Prolacline de Thypo-
physc humaine selon le sèxe
233
10 mg pour chacim des 3 pigeons traités, les englu\-ies ont pesées 3745 mg,
^ qui corresjxjnd á 34 u.i.
A cause de la variation des résuluts: 2.7, 1.8 et 3.4 u.i. par mg, et pour
plus grand soin dans rinterpretation quantitative des réponses, nous avons
^tés 5 nouveaux groupes de pigeons avec des doses croissantes de 2, 4, 6, 8
10 mg de la méme préparation. On peut voir dans le Tableau I les résultats
®btenus. L’activité moyenne de Vextrait intltel comme dans les cas précédents
de 2.6 u.i. par mg.
Tabueaü I
Groupe
Xombre
ác
pigeons
Dose
(mg)
Poids moyen
à Tautop-
sie (g)
Poids moyen
des engluvies
(mg/300 g)
Poids moyen des
engluvies après fi-
xation au Bouin
(mg/300 g)
U.Í. par
mg
A
3
2
277
1244
991
2.5
B
4
4
298
1970
1445
2.5
C
4
6
292
2300
1933
2.3
D
4
8
290
2954
2634
3.0
E
3
10
285
2988
2571
2.5
c) Hypophyses d'hommes: En deux series de dcterminations, cmplojant
^ dose totale de 20 mg de la poudre du lobe antcrieur pour chacun des 4 pigeons
*^s avons obtenu 2326 et 2016 mg pour le poids moyen des bourses lateralcs.
valeurs se rapportcnt respectivement à 14 et 12 u.i., moyenne de 0.65 u.i.
prolactine par mg.
d) Hypophyses de femmes: Les essais ont etc faits au même temps que
précédents. Chaque fois nous avons cmployé la méme dose de poudre et
méme nombre de pigeons. Le poids des cngluries ont été de 3204 et 3028
■valeurs qui se rapportcnt à 25 et 24 u.i. de prolactine, la moyenne de 1.2
Ü I
•*. par mg.
Quoique les résultats décrits soient trés intéressants puisqu'ils aceusent une
Wus grande concentration hormonalc chez Thj-pophyses des femmes, nous nous
*®*mncs deddés à des nouvelles constatations en cmploj^ant un plus grand nom-
de pigeons et en nous astreignant à la méthode statistique quant à 1’analysc
résultats obtenus. Dans le Tableau II nous présentons ces résultats. On y
*^®marqucra que la moyenne des poids des cngluvics est plus clcvéc dans le grou-
^ de pigeons traités par 1’extrait dTij-pophyses féminines; nonobstant, cette
différence est plus basse que ccllc enregistrée dans les essais préliminaires.
^Application de la formule m'-m" / £2 x mise en discussion par
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
234
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Bum (9), révèle que cette différence peut à peine dépendre de la variatioo
individuelle aux réponses à ITiormone.
Tabu. AU II
Pigeon
Xo.
Foids à
1'autopsie
(g)
Préparation
Dose
(mg)
Poids des
engluvies
(mg/300 g)
U. L par
mg (•)
1
298
H>T>ophyse 3
20
1791
->
293
••
-
1093
3
272
••
••
1781
4
325
*•
•*
1306
5
270
•*
1350
6
280
*•
*•
1451
7
322
**
••
1309
0.25
Moycnne
295 ± 13.5
1441 ± 162
1
231
Hypophyse 9
20
1536
“7
314
n
1734
3
295
»*
1688
4
335
n
1478
5
332
•e
*•
1889
6
280
«•
1296
7
243
••
«•
1438
S
304
*•
1579
Moyennc
294 21.6
1580 ± 118
0.40
(*) L’actÍTÍtc «t dc txaocoup pio» qoe «l'e <>ai » «lí oblrnut *ox tsuii prí!;iain»ir«*- ^
cause peul «Ire due i une «xtractioa moins ccnplíte ou i la rídtsctioci dc ractirití par le tciupe dc conserc**'^'
Les seules données dont nous disposons pour les comparer avec les rcsul*
tats décrits antérieurement sont celles de Giance, Rowlands et Young (6). ^
supposant qu’ils aient employé une égalc quantité d’hypophyses masculines
feminines, le contenu trouvé de 0.59 u.i. par mg s’cloigne un peu des ^•aleu^*
de notre demier essai de 0.25 u.i. par mg pour les djçophyses masculines ^
0.40 u.i. par mg pour les h>TX>physes féminines. Une comparaison plus e.<actÇ
pourra être faite avec Tactivité de Vextrait initiel vu que ces auteurs ont
cssayé une préparation similaire á la notre, obtenue par la méthode de Bat**
et Riddle. Chance, Roívlands et Young donnent la teneur de 22 milles unité*
intemationales pour 100 g avec une préparation représentant 14.5% de poudf*
initiclle. Avec 5300 mg de poudre d'hypophyse totale nous avons obtenu 69®
4
•íosÉ R. Valle & Luiz A. R. Yalle — Teneur en Prolacline de 1’hypo-
pbyse humaine selon le scxe
•235
(13%) d’un exirait iniiicl dosant 2.6 u.i. par mg c€ qui correspond à peu
Près à 34 milles unités pour 100 g d’h}-pophyses dessechées.
On comprendra que Ics donnces citccs plus haut n’ont qu’une valeur rela-
^'•e. II n'a pas étc possible, par exemple, de selectioner le matériel selon Tâge
la “causa moriis” des donneurs, encore en trop petit nombre. On ne peut
Pas naturellement conclure qu’il n’existe pas une différence dans la teneur en
Prolactine de Thj-pophyse humaine selon les conditions physiologiqucs. Chez la
^«mme, comme il arrive chez d'autres especes, la concentration hormonale doit
'^rier, par exemple, ã 1’occasion de la grossesse et de la lactation. Ainsi
Ehrhardt et Voller (10) ont étudié la concentration de la prolactine dans le
**ng et 1’urine des femmes pendant le cycle menstruei et ont verifié qu’elle est
P*us forte dans les pcriodes de rosnilation et de la menstruation.
Uexistence de la prolactine dans les h)*pophyses masculines n’a rien d’ex-
Ifaordinaire puisque rhormone n’exerce pas seulcment une action lactogénique
Torganisme. Riddle (11) a déjà noté que le nom de 1’hormone a cté im-
P*'npremcnt choisi, à cause des actions métaboliques générales qui sont indépen-
^^tes du phcnomène de la lactation.
RÉSUMÉ
De 1'essai comparatií sur des pigeons, de la teneur en prolactine des hy-
P^Physes humaines, il a pu ctre determine dans les conditions cxpcrimentales
'^ites, que 1a concentration de rhormone dans 1’hypophyse feminine est plus
^nde que dans les h>-pophyscs masculines. Au point de vue statistique, cepen-
cette différence ne peut pas étre considerée comme significative.
La poudre du lobe anterieur des h>‘pophyses des cadavres humains d’adultcs
P®»sédc une activité lactogénique correspondante au moins à 0.32 u.i. par mg.
extrait initiel obtenu selon la méthode de Bates ct Riddle a montre racti>*ité
rapportant a 2.6 u.i. par mg.
Ces données ont naturellement une valeur relative puisque la teneur en
^olactine de 1’hypophyse humaine doit souffrir des %-ariations notamment dans
^ différentes conditions physiologiqucs de la fcmme.
Kous remmercions Mr. le Prof. Paulo Tibiriçá, de Ia Faculte de Médecine, le
“***ériel humain mis à notre disposition et Mr. le Prof. Walter Leser Tanalyse sta-
“*^ue des résultats obtenus.
RESUMO
Do ensaio comparativo, cm pombos, do teor cm prolactina de hipófises hu-
pudemos determinar, nas condições experimentais descritas, que a con-
cm
SciELO
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236
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
centração do hormônio na hipófise feminina é maior do que na dipófise mas-
culina. Esta diferença, entretanto, analisada estatisticamente, não se mostroti
significativa.
O pó de lobo anterior de hipófises de cadáveres humanos adultos possue
ati\-idade lactogênica correspondente a pelo menos 0.32 u. i. por mg. Um cx~
trato inicial, obtido segundo o método de Bates e Riddle, mostrou atividade
equivalente a 2.6 u.i. por mg. Êstes ralores, entretanto, são relativos, pois o
teor em prolactina da hipófise humana de\e sofrer variações, principalmente
nas diversas condições fisiológicas da mulher.
BIBLIOGR.\PHIE
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2276.1940.
(Tratttltia da S*cio dr EndocríDolocia do Initituto Butao*^
Entrrrtie j>ara poblicaeia em 12-10.42 e dado i J"**’*’”
áttde tm fcTcreiro de 1943).
6
6i:. 019:599. 74442
Efeitos do tratamento prolongado de cadelas
COM 0 PROPIONATO DE TESTOSTERONA
POK
TH,\LES MARTINS; JOSÉ R. VALLE & ANANIAS PORTO
Há tempos vínhamos estudando na Se^o de Endocrinologia do Instituto
^utantan o fenômeno da micção em cães, obseivando para isto animais dos dois
*^os: inteiros, castrados e tratados com propionato de testosterona. É sabido
•lue nos cães há um verdadeiro “dimorfismo” funcional quanto á postura no mo-
•ttento da emissão da urina; os machos ao atingirem a puberdade começam a uri-
de maneira "sui generis”, le^-antando uma das patas trazeiras. A influen-
^ hormonal não ficou, porém, manifesta: os castrados continua^'am a urinar
os normais, e as fêmeas, apesar do tratamento prolongado com a substân-
androgcnica, a exibir o mesmo comportamento feminino no ato da micção.
^ experiêndas, em curso, iniciamos o tratamento de animais de idade mais
para eliminar a possível precoddade da diferendação. Todaria, o ma-
**rial desta série foi aprovdtado para um estudo dos efdtos morfológicos do
l^opionato de testosterona nas cadelas, e que aqui vão resumidos.
MATERIAL E RESULTADOS
Empregamos 5 cadelas: uma controle e quatro tratadas, das quais duas in-
'''ras, mãe e filha, e duas castradas.
Cadelas No. 1 e No. 2: Nasddas em 10 de junho de 1939, da mesma ni-
**^da tipo Fox. A de No. 1 serviu de controle e a de No. 2 foi tratada com
^^•^ionato de testosterona (*), S a 10 mg semanalmente em injeções subeutâ-
c intramusculares, durante o período de 16 de agosto de 1939 a 20 de fe-
(*) Eraprcgainos o Tesloviron da Casa Schering e agradecemos aqui as amostras gen-
cedidas.
cm
SciELO
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238
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
vereiro de 1940. Após a segunda injet;ão a s-uh'a da tratada já se apresentava
mais volumosa e o clitóris bem maior e mais rubro do que na controle. No fi®
do tratamento o orgão tinha o aspecto peniforme da fotografia. Vér na Fig- 1
as fotografias A e B, que, aliás, já foram publicadas, com os nossos resultados,
na tése do Dr. Delascio (1). A curva ponderai vem registada no Gráfico anexo
fFig. 2). É provável que o hormonio masculino tenha influido no ritmo de
crescimento da injetada, questão que já tem sido discutida para outras espédcs,
por exemplo o rato (2). Um mês depois de terminado o tratamento houve do e
fecundação, e, em maio de 1940, parto normal de 5 filhotes: 3 machos e 2
fêmeas.
Cadela Xo. 3 : Filha da anterior No. 2. No período de 27 de setembro de
1940 a 5 de fevereiro de 1941, recebeu 20 injeções num total de 100 mg de
propionato de testosterona. O peso corporal aumentou de 4.7 a 8.0 kg no final
do tratamento. Em 29 de outubro de 1941, o ditórís já esta^•a bem crescido e
a vulra túrgida com secreção abundante. Embora decorridos quasi dois anos
de terminado o tratamento, o clitóris ainda se mantem desenvolrído e peni-
soide. Em coelhas, no entanto, Hu e Frazier (33) observaram a regressão do
orgão uma vez cessadas as injeções.
Cadela No. 4 : .Adulta de 7.0 kg, castrada em 9 de setembro de 1942. D*
27 de setembro a 30 de outubro do mesmo ano recebeu 50 mg de propionato de
testosterona, repartidos em 8 injeções subcutâneas. Já na segunda injeção a
vulva se apresentava edemadada e o ditórís congesto. No dia da castração
havia corpos amarelos nos ovários e o endométrio estara em condições progtó*
tacionais (Fig. 3). Novo corte do útero no final do tratamento mostrou atro-
fia do orgão com reduzido número de glândulas endometriais. Embora se saiba
das propriedades progestadonais da testosterona (4), não houve efeito neste
caso. O tempo decorrido entre a castração e o inido de tratamento póde ter
prejudicado a observação, mas também Hartman (5), cm macacas, não obteve
endométrio progestadonal, mesmo depois do emprego de grandes dóses de tes-
tosterona.
Cadela No. 5: Infantil de 2.6 kg. foi castrada e tratada como a anterior,
durante o mesmo período de tempo. Findo o tratamento o ditórís estava p^
nisoide, comparati^•amente mais cresddo do que o da de No. 4.
Em resumo, o desenvolvimento penisoide do ditórís de cadelas tratadas co®
testosterona se obtem tanto nas fêmeas adultas quanto nas infantis, inteiras oU
castradas. Numa cadela inteira o orgão não regrediu mesmo depois de 20 mêstí
de terminadas as injeções.
Não foram observadas modificações do comportamento feminino no ato da
micção e nem consequêndas, num animal inteiro, quanto às funções reproduto*
2
Tuales Martins; José B. Valle & Ananias Porto — Efeitos do trata-
mento prolongado de cadelas com o propionato de testosterona
239
^3- Xiun caso, ainda, o tratamento não manteve as condições progestadonais
do endométrio, observadas no dia da castração e nem impediu os fenômenos re-
P^essivos do útero.
BIBLIOGRAFIA
3.
4 .
Delascio, D. — Tratamento da hemorragia uterina disfundonal (forma hiperfuncion.il)
pelo propionato de testosterona. 137 pp., -17 figs. Tip. Siqueira, S. Paulo, 1942.
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of testosterooe propionate in the castrate albino rat — Endocrinology 28:229.1941.
Hu, C. K. & Fradtr, C. .V. — Masculinization oí adult female rabbit folio wing injection
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Klein, M. 6r Parkes, A. S. — Progesterone-like action of testosterone and certain relatcd
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Hartman, C. G. — Effect of testosterone on monkey uterus and administration of ste-
roidal horroones in form of Deanesly- Parkes pcllets — Endocrinology 26:449.1940.
(Trabalho da de Endocríoolofia do loMitato Hutantan
Eotre^e para poblicaçSo ea corembro de 1942 e dado
i ptdiliesdade ns ferereiro dc 1942).
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
616. 9S7:132. 34322
alguns aspectos da evolução do cretinismo e do
MONGOLISMO
POR
J. I. LOBO & LüCIANO DfiCOURT
Entre o cretinismo (hipotiroidismo congênito) e o mongolismo (idiotia
***ongóIica) existem semelhanças que tomam, por vêzes, dificil a diferença entre
^^liíos, sobretudo quando os elementos peculiares a cada uma destas condições
justamente os mais apagados dentro do conjunto sintomático.
Recentes estudos histopatológicos de casos de mongolismo autopsiados nos
fumeiros dias ou meses de vida têm demonstrado (1) alterações da tiróidc. de
^rãter de hiperatindade e de exhaustão da glândula. Porisso, a hipótese dum
parentesco entre as duas afeções volta a parecer plausivel e talvez c.vpli-
*)ue que determinados sintomas lhes sejam comuns.
A evolução, tanto espontânea como subordinada ao tratamento homional
(tireoglobulina) revela, porém, diferenças marcadas entre ambas as condições
* *sto se toma de particular interêsse para aqueles casos limítrofes, em que um
’®**co ou poucos exames não conseguem, de inicio, dirimir a dú\nda diagnóstica.
É nestas circunstâncias que as particularidades da evolução de cada caso e,
especial, o tipo de resposta ao tratamento instituído permitem um adequa-
esclarecimento.
Neste trabalho estudamos a evolução de três casos típicos de cretinismo
Í2-C., A.O.P. e L.M.P.. respecth^amente. casos I, II e III) e um quarto
que, inicialmente, houve dúsnda si se tratas-a de uma fomia incompleta de
^Potiroidismo infantil ou de uma idiotia mongólica (.\.M.A., caso IV) c o
***udo de cuja evolução nos convenceu pertencer antes a esta última.
Êstes quatro casos já foram objeto de publicação por parte de um de nós
Í2) em trabalho onde êles figuras-am num conjunto de casos de nanismo da
s-ariada etiologia e, apenas como tais, eram estudados.
cm
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244
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Dos três casos indiscutíveis de cretinismo, o primeiro, Z. C., era diffli*
criança de 5 anos, que nunca recebera tratamento específico e, porisso, apresen-
tara o quadro integral do mixedema congênito ; o segundo e o terceiro já ha%Tam
sido tratados, embora irregularmente, com tiróide dessecada; o quarto caso taffl-
bêm tomara tiróide durante curto tempo.
CASO I — Z. C., íem-, 5 a. 3m.
Antecedtnies: Kasccu a tênno, tirada a forccps, sendo muito grande. O desenvolvi-
mento até os 8 meses de idade processou-se normalmente, conseguindo nesse tenip<i
sentar-se com ajuda (sic). Mais ou menos quando tinha 1 ano os pais notaram d®*
a paciente não se desenvolvia bem. Xão gatinhava, não falava; a pele apresentava-s*
enrugada e não irrompiam os dentes. Além disso, apatia acentuada e sonolênci*-
Assim permaneceu até os 2 anos, sem quasi crescer, sem falar, sem andar. Data
dessa época uma fotografia (Fig. 1) exibida pelos pais. Xessa ocasião (2 anos)
ponfou o primeiro dente, que, porém, não se desenvolveu. Mais tarde irrompiam outro^
dentes, que, também, não se desenvolviam.
.■\ssim tem permanecido até hoje (5 a.), pois ainda não fala, não anda. Parec^
cada vez mais inchada e os cabelos caem com facilidade. O pai informa que *
paciente sofre de prisão de ventre acentuada (5 a 6 d:as). Nunca fez qualqu*^
tratamento. Emite sons graves, roucos e guturais.
Exame objelko: É uma criança disforme, de genuino tipo mi.xedematoso e íai***
cretino (Fig. 2). Alt. 73 cm 6: distância vertex-pubis: 44.6 cm; púbico-plantar 29 eu*
Pele bastante seca c enrugada. Eczema seco no couro cabeludo; exfoliação furfurare**
predominando nas porções superiores do corpo, principalmente rosto. Infiltração miJ^^
dematosa generalizada; alguns pelos na região sacra e no dorso. Penugem no pub>*
e na face anterior do abdômen. Unhas quebradiças. Marmorização da pele. Font»'
nela bregmática aberta. Fenda palpebral estreita. Boca entreaberta. Lingua gros»*
Hipertrofia amigdaliana. Ausência dos caninos, dos incisivos laterais superiores *
dos segundos pre-molares. Tiróide não palpável. Ectasias venosas no torax.
qucncia de pulso 90. .Abdômen proeminente. Extremidades frias.
Dados comf-Iementares I Qilcsterot no sóro 208 mg 5»; M. B. impraticável. RadiograC^’
a) punho e mão: auseneb de todas as epifises do metacarpo e das falanges. Ausêncí*
de todos os ossos do carpo, com e.xccção de um leve esbôço de ossificaçáo do gva»
osso. .Ausènc'a da epífise distai do rádio; b) cotovelo: ausência de todas as epitisf*'
c) joelho: epifises inferior do fêmur e superior da tibia pouco desenvolvidas; d)
nozelo: ausência das epifises distais da tibia e do perôneo. .Astragalo e calcáo*'
presentes. Idade óssea: 3 meses, no máximo.
Evolução: Com o uso de tiróide Merck, na dóse de 0.025 em dias
nados, as melhoras foram espetaculares e rápidas; desinfiltração completa,
dança da fisionomia, etc. (Fig. 3).
O período de observação estende-se pelo prazo de 1 ano, durante o
apesar de doenças intercorrentes, os progressos realizados podem ser esqucif*'
tizados da seguinte maneira;
2
I. Lobo & Luciaxo Dêcourt — Alguns aspectos da evolução do cre-
tinismo e do raongolismo 24ã
Idade cronológica
Estatura
Ossificofão
5 a. 3 m.
73.6cm.
leve esbôço do grande osso. Idade óssea: 3
meses (Fig. 5).
5 a. 6 m.
78
franco desenvolvimento do grande osso; idade
óssea: 6 meses (Fig. 6).
6 a.
81
esbóço do unciforme e aparecimento da epífise
distai do rádio; idade óssea: 1 ano.
6 a. 3 ni.
81.4
franco desenvolvimento do unciforme e da epifise
radial; idade óssea: 1 para 1 } ano (Fig. 7).
Os incrementos estaturais em função do tempo (deste como dos casos se-
Ktiintes) são bem visualizados através da curra respectiva representada na l*>g.
•9, onde também se representa a curva de crescimento minimo normal entre 1
* 10 anos de idade.
Quanto à psicomotilidade, os progressos de Z. C. foram: com 1 mês de
l^tamento, vivacidade no olhar e nos movimentos espontâneos; após 2 tncses,
^^ttieça a gatinhar ; após 3 méses. já beija a mãe, fala várias palavras e sustem-se
pé com ajuda.
£m s^uida, sobrevem um período de quasi 3 meses, durante os quais a
^^^^tte se subtraiu á nossa observação, tendo a mãe suspendido a administração
tiróide: o mixedema, como era de esperar, rea{)areceu.
Reiniciado dq>ois o tratamento, voltaram as melhoras, si l>em que em ritmo
j lento.
Após cérca de 9 meses, desde o inido do tratamento, Z. C. caminha com
**otilio de terceiros.
Dos outros sinais, deve-se ainda mendonar o abaixamento do peso c sua
**lleríor regularização, o fechamento da fontanela bregmática, o crescimento dos
^líclos (Fig. 4) e, após 1 ano de tratamento, a presença de todos os dentes
'^duais.
C.ASO II — A. O. P., masc, 6 i anos.
Antecedentes-. Nasceu pesando 5 kg; até 5 meses ainda parecia um recém-nascido.
Jl^otinuou engordando sempre, era muito mole e a cabeça pendia facilmente para os
Aos 2 anos ainda nSo conseguia sentar-se e muito menos andar e falar. NSo
***ndia a cousa alguma. Dos médicos consultados, uns icluvam que o menino era
^nitico, outros que sofria da tiróide. Começou nessa ocasião a tomar tiroidina
**'*’ck, 0.02S por dia. em dias alternados. A mãe informa que as melhoras só se
*'’*^***ram sensíveis aos 3 i anos. quando principiou a andar e a falar. O crescimento
** l*zia, porém, muito lento e por etapas. Sempre que suspendia a tiróide engordava,
. 'l*>e aconteceu várias véacs. A dentição iniciou-se aos 4 anos. Teve algumas doenças
^Wcorrentes mal definidas, inclusive uma que ocasionou internação em hospital c
'”**^ntc a qual foi suspensa a medicação pela tiróide. .Atualmente se encontra de
3
I
2^6 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
novo sob a ação do hormônio e, desde então, voltou a emagrecer e a mostrar maior
disiK>sicão para brincar.
Exame objelrvo: É uma criança de desenvolvimento mental muito retardado, coto
fácies apalermado, ainda fala com embaraço. £statura reduzida, ventre proeminente*
Mede 89.2 cm de altura; dist. vertex-pubis: 49 cm; púbico-plantar: 40.2 cm; peso-
15.880 kg. Pele seca; cabeça grande; língua idem. Presentes os dentes deciduai*-
Tiróide impalpável. Pulso 92 (chorando). Genitália externa muito pouco desenvol-
vida: circuncizado. .-Aspecto íisico retratado na Fig. 9.
Dados comflemenlares: Qjlestero: no soro: 316mg%. M.B impraticás-el. Radii>-
grafia de punho e mão (Fig. 11): ausência de todas as epífises dos meUcarpianos «
falanges. No carpo apenas o grande osso, o unciforme, o piramidal e a epífise distai
do rádio. Idade óssea: 2è anos. Fotografia anterior, tirada ao lado de sua irmã D-
2 anos mais moça que o paciente, documenta que, pelo menos desde os 3 anos d*
idade, êste apresenta realmente uma estatura reduzida (Fig. 8).
Evolução: A dose de tiróide foi ajustada para 0,05 por dia, com o que 4
íretiuência do pulso se mantinha em tômo de 90 por minuto e o peso se con-
sen-a\-a em proporção com a altura que ia sendo alcançada. Os progressos d*
estatura e ossificação foram os seguintes:
Idade cronológica
Estatura
Ossificação
6 } anos
89.2 cm.
epífise distai do rádio; grande osso, unciforme *
piramidal Idade óssea: 21 anos (Fig. 11).
7 a.
92
71
95
aparecimento do semilunar, das epifises do*
metacarpianos II a V, das primeiras falanges
4 dedos II a V, da falange distai do poleí**^’
idade óssea: 3 1 anos.
8 a.
97
epifises das falangetas do 3.* e 4.* dedo; desei*'
volvimento progressivo das epifises pre-existent«*
Idade óssea: 4 anos (Fig. 12).
81
98
sem modificação importante.
O peso oscilou em tômo de 17.3 e 18.5 kg quando a altura atingiu resp*^
tivamente a 95 e 98 cm.
Houve três períodos de interrupção da tiróide, cada qual de um mês dc du'
ração, e separados um do outro por um interti-alo aproximado de 6 meses.
Durante cada um dêles, houve nitido aumento do peso, apatia e sonolê®'
cia; tendo um dêsses períodos coincidido com o inverno, o paciente acusou u**’*
excepcional hipersensibilidade ao frio.
Dentição; Aos 8 anos, erupção do 1.® molar.
Psicomotilidade e inteligência: Discretos progressos na fala e na
preensão; gestos e olhar tun pouco mais vivos.
4
•í- I. Lobo & Luciano Dêcourt — Alguns aspectos da evolução do cre-
tinisrao e do mongolismo
247
CASO III — L. M. P, fem., 81a.
AntectíUnles: Desde os 2 meses de idade que a mãe começou a notar o deficiente
•lesenvolvimento somático da paciente; com 6m. apresentava peso muito reduzido, pouco
*®Perior ao de quando nasceu (4.200 kg mais ou menos), exibia uma fisionomia apar-
valhada, com a boca sempre entreaberta, a lingua pendente; inchaço das pálpebras e
•lo rosto, palidez, pele seca e áspera. Sofre ainda desde os primeiros meses de vida
•1® prisão de ventre habitual, passando em média 8 dias sem es’acuar. Estava sempre
choramingando, irritada e não podia dormir. Assim permaneceu até a idade de 1 ano.
*Poca em que começou a articular as primeiras palavras (somente “papai” e “mamãe").
l*Assou o segundo ano de vida da mesma maneira. Com 2 anos principiou a dar os
Primeiros passos, sendo seu andar pesado, bamboleante, com quedas frequentes. Con-
•nltou um médico que fez diagnóstico de mixedema e receitou Elytiran. Tomava 1 com-
Primido ao dia durante 30 dias e descansava também 30 dias. Durante 2 1 anos fez
Iratamento com Elytiran (6 tubos), tendo melhorado bastante. Tornou-se mais ativa.
Cresceu, passou a dormir bem. Mais tarde, a conselho médico tomou um vidro de
^ireoidal, não tendo tão bons resultados como com Elytiran. Quando a paciente
h^tnava Elytiran ficava murchinha (sic). Ultimamente tomou Pluriglandular, que fez
acentuando-se o inchaço. Apesar dos tratamentos realizados, a criança continua
* ipresentar pequeno desenvolvimento, ar aparvalhado, inchaço no rosto, principalmente
***s pálpebras, e prisão de ventre (3 a 4 dias). Há 3 anos encontrava-se cm tratamento
com Salvarsan e bismuto (1 série de Salvarsan c 3 cxs. de lodo-bisman). Não toma
Elytiran ha 4 anos. Nestes últimos anos tem tomado tónicos, cálcio, banho de luz
* o tratamento antiluético já assinalado. Somente depois de 1 ano de idade é que
*Pareceram os primeiros dentes. É analfabeta, ainda fala com bastante dificuldaile
Examf objetivo: Menina com ar aparvalhado, estatura reduzida, palidez do tegumento,
Pele séca e áspera, infiltração mixedematosa difusa não muito acentuada. Pelos nos
*h*mbros e no dorso. Altura: 96.3 cm; vertex-pubis : 52.8; púbico-plantar: 43.5.
^**o; 16.940 kg. Boca entreaberta. lingua pendente. Estão presentes ainda todos os
^tes deciduais exceto o inc. inf. lat dir. c os dois 1.® prc-mol. inf. que já cairam.
^s dentes permanentes, já irromperam os primeiros grandes molares. Pescoço grosfo.
I^tróide impalpável Pulso: 72. Mãos grandes, largas, dedos curtos e grossos (Fig. 13).
Dados complementares: Colestcn.l no sóro: 370mg%. Hb: 72%. Radiografia:
punho e mão: todas as epifises dos metacarpianos e falanges estão presentes, bem
c^o o grande osso, o unciforme, o piramidal e o semi-lunar. Faltam, para a idade
Cfonológica da paciente, o escafóide, o trapézio, o trapezóide e a epífise inferior do
cãbito; b) cotovelo: presente o condilo humeral, faltando, nas mesmas condições, a
''heça do rádio. Idade óssea: 4 a 5 anos.
Evolução: Uso continuo de tiróide dessecada, na dose media de 0.10 por
dia : curtos períodos de interrupção (10 dias) foram intercalados, isto quantltt a
i‘*rícnte se toma\’a muito agitada ou o peso tendia a cair em demasia.
Crescimento e ossificação foram os seguintes:
^'^e cronológica
8i a.
Estatura Ossificação
96.3 cm. Presentes todas as epifises dos metacarpianos e
das falanges; grande osso, unciforme. piramidal
e semi-lunar; epifise inferior do rádio. Idade
óssea: 4 para 5 anos (Fig. 14).
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
248
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
' cronológica
Estatura
Ossijicação
9 a.
100
9i a.
102.5
10 a.
106.5
Presença do trapézio, trapezóide, escafóide e ep>'
fise inferior do cúbito. Idade óssea: 7
8 anos (Fig. 15).
As cifras ponderais correspondentes às estaturas supra mencionadas foranv
em média, as seguintes; 16.9 kg; 18 kg e 19.4 kg.
Dentição: Durante 1J4 ano de obsersação houve erupção dos seguintes
dentes permanentes: os 2 inc. sup. por volta dos 9 anos e os 2 inc. med. inf-
por volta dos 9j4 anos; os 4 incisivos desenvolveram-se satisfatoriamente.
inteligência e psicomotilidadc : Progressos escassos. paciente ó ex-
tremamente irrequieta A fala melhorou, embora pouco; o vocabulário enriqvc-
ceti-se. Atende aos outros com mais presteza.
Outros sinais: A anemia melhorou com uso de Fe; o colesterol, com o it*'
tamento hormonal, baixou a 224 mg %,
CASO IV — ,A. M, A., fem., 3 a.
Antecedentes: Diz a mãe qtic a criança desde 6 meses de idade não sc desens"oI^ _
satisfatoriamente. Já teve sarampo e coqueluche; dos 6 meses até 2 anos sofreu êl*
bronquite. Começou a andar aos 2 è anos. Os primeiros dentes surgiram aos 13 meses*
Está começando agora a falar. ,Dis'ersos tratamentos não tis'eram sucesso; someo**
um tratamento com tiroidina deu algum resultado. E’ uma criança com ar aparva-
lhado, sempre com a boca entreaberta, indiferente ao meio ambiente.
Dados objetivos; .Mtura: 84. 5; dist. vertex-pubis : 48; púbico-plantar : 36.5. P«<’-
13.850 kg. Discreto edema das extremidades inf. Fontanelas fechadas. Crãneo lartru-
testa alta e larga, bossas frontais algo proeminentes; a face c chata e o nariz em sela-
Boca entreaberta, lingua pendente; amigdalas hipertrofiadas e vegetações adenoide*-
Dentes de implantação normal, faltando apenas os segundos pre-molares superiore*-
Tiróide impalpável. Sopro sistólico rude e intenso sóbre o precórdio. com maior tf*
tensidade sóbre o foco da pulmonar, sem propagação para os vasos do pescoÇts
Ventre abaulado.
Dados complementares: Colesterol ty» sóro: 125mg%. Radiografb: a) punho *
mão; ausência de epifises dos metacarpianos e falanges, i.é., leve atraso da ossifica<*^
(cerca de 6 meses). Carpo: epifise distai do rádio, gr. osso, unciforme e piram'd*^
presentes; b) joelho: epifises distai do fêmur e sup. da tibia, presentes; rótula *
epifise sup. do perôneo, ausentes (normal para a idade); c) tornozelo: epifises dist*^
da tíbia e perôneo presentes; astragalo, calcáneo, cubóide e terceiro cuneiforme,
sentes; ausência das epifises dos metacarpianos (leve atraso, cêrea de 6 mese*h
d) coração: grande aumento global da área cardíaca. Ecg: espessamentos em QR-^-
que está alargado. Predominância esquerda.
6
I. Lobo Jt Luciaxo Décourt — Alguns aspectos da evolução do cre-
tinismo e do mongolismo
249
Evolução: Processou-se do s^uinte modo, de acordo com a natureza e as
*tapas do tratamento:
A) Aos 3 anos (dados iniciais):
• Altura: 84.5 cm. Peso: 13.85 kg.
Ossificação: epífise distai do rádio, grande osso, unciforme e pira-
midal (Fig. 16).
Idade óssea: 21 anos.
Tratamento até B): tiróide na dose diária de 0.10 durante um total de 57 dias
^tn intermitências.
B) Aos 3 anos e 5 meses:
Altura: 85.5 cm. Peso: 14.2 kg.
Ossificação: aparecimento da epífise do segundo metacarpiano e
dum leve esboço do semi-lunar; crescimento da epífise radial
e das diáfises da mão.
Idade óssea: 3 anos.
Observação: intercurrcncia de gripe e frequentes diarreias com
reação febril.
Tratamento até C): amigdalectomia e adenoidectomia aos 3 a. 6m.; tiróide na
^*e diária de 0.075 durante um total de 95 dias, com intermitências regulares;
****pensão dêste tratamento nos dois últimos mêses.
C) Aos 4 anos:
Altura: 90.2 cm. Peso: 15.6 kg.
Ossificação: todas as epifises dos metacarpianos e das falanges
(exceto da falange proximal do polegar e das falanges I e II
do dedo mínimo); franco crescimento do semi-lunar.
Idade óssea: de 31 para 4 anos.
Dentição: erupção dos dois premolares super.
Fala: discreto progresso.
Tratamento até D): Uso esporádico de sais de Ca e de vitamina D; abstenção
®®*»pleta de tiróide.
D) Aos 4 anos e 5 meses:
.■Mtura: 91.4 cm. Peso: 16.6 kg.
Ossificação: aparecimento das restantes epifises dos dedos; presença
do trapézio; desenvolvimento das epifises preexistentes.
Idade óssea: pelo menos 4 i para 5 anos (Fig. 17).
Colesterol no sôro: 3I7mg%.
Psicomotilidade: apatia, maior sonolência, quedas durante a marcha
Outros dados: peiora da prisão de ventre: pele mais sêca; não
houve aparecimento de mixedema.
Fácies: (ver Fig. 18).
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
250
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
DISCUSSÃO
Época de início dos sintomas: Excesso de peso ao nascer foi obserra<í®
nos casos I, II e III, que são típicos de cretluismo. Deficiência de crescimento
foi notado mais ou menos aos 8, 5, 2 e 6 meses de idade, respectiramente, cm
cada caso. Os sinais morfol^cos próprios do mixedema congênito e rtlatí*
vos ao aspecto físico (ar aparvalhado, Ixxra entreaberta, lingua pendente,
áspera, cabelos escassos e quebradiços, etc., e a própria infiltração mixedemato^
do tegmento) só aparecem em geral alguns meses (de 3 a 6) após o nascimento.
Nem sempre se trata duma observação defeituosa por parte dos pais, porquanto
a fotografia da paciente Z. C., tirada aos 2 anos de idade, documenta que, cim*
quanto o mixedema já seja evidente, faltam ainda vários dos outros sinais r.icn*
donados de hipotiroidismo : em especial compare-se o fades nessa idade com °
que apresentava 3 anos mais tarde (Fig 2). As defidêndas da psicomotilidadc.
como é óbvio, também vão se fazendo sentir mais tarde e de modo gradativo,
pois a criança não executa os movimentos à medida que transcorre o tempo-
Como durante as 10 primeiras semanas de vida os movimentos da criança são
sobretudo do segmento cefálico (e dos olhos em particular), é raro que sua
ausênda fira muito a atenção dos pais. Só nas semanas posteriores, quando
também os braços e a porção superior do tronco deixam de executar movime®'
tos espontâneos é que se toma clara a situação de defidênda tiroidiana.
defidênda do desenvolvimento motor culmina com a incapaddade de falar,
tinhar e caminhar. Em todos os casos estudados, ela se apresentou de mantir*
nítida e desde as épocas que deviam marcar o inído dos atos normais: assit®
foi para os movimentos dos membros, para a marcha e para a fala, todos clc*
surgidos com grande atraso.
O caso I, que é dum cretinismo não tratado durante 5 anos, apresenta
êsse ponto de vista uma particularidade digna de menção, que é o fato de *
criança haver conseguido sentar-se com ajuda aos 8 meses, conforme relato n’*'
temo. Mesmo pondo-se em dúvida a afirmativa, a fotografia tirada aos 2
de idade mostra que pdo menos a criança se mantem sentada no colo da ifá*-
Na realidade trata-se aqui antes da preservação parcial da tonicidade muscul»*^
(menos afetada no hipotiroidismo) do que do próprio desenvolvimento m''tof-
De forma alguma cabe a hipótese que o mixedema só se houvesse instalati®
mais tarde, i.é., não fosse congênito, pois a isso se opõe a total ausência
ossificação post-natal desta paciente.
Da anamnese dos casos II e III se infere bem o atraso psico-motor dc.'.s**
crianças e a época em que foi notado. O mesmo vale para o caso IV, apes**^
das informações sumárias fornecidas: os casos tipicos de mongolismo são, ^
cm
SciELO
0 11 12 13 14 15 16
I. I^BO & Luciano Décourt
Alguns aspectos da evolução do cre-
tinismo e do mongolismo
251
Etral, reconhecidos logo ao nascer através dos caracteres morfológicos do fades
c crâneo. Isto estabelece uma diferença com o hipotiroidismo, mas, na reali-
*lade, nem sempre êstes caracteres são bem marcados. O atraso na fala e no
•nido dos modmentos é comum a ambas as condições. Para a explicação do
fato de, no cretinismo, a criança não se apresentar, logo ao nascer, com o as-
Pccto mixedematoso típico e com os expressivos sinais tegumentares da doença,
deve-se apelar para a suplèncu do hormônio materno na dda intra-uterini e,
fílvez, para a alimentação natural nos primdros mêses após o nasdmento Os
íenômenos de insufidência da tiróide não se fazem sentir logo após a supressão
do seu hormônio; êste é um fato que se observa ate em adultos sob tratamento
com preparados tiroidianos, quando a administração destes é interrompida.
Crescimento estatura! : O crescimento estatural destes 4 casos está repre-
sentado nas curvas respectivas da Fig. 19, em paraldo com a curva de cresd-
•tiento minimo duma criança normal. Da inspeção ddas, várias condusões se
firau. Primeiramente, a defidênda de altura dos 3 casos incontestes de creti-
•iismo é, a qualquer tempo, muito mais acentuada do que a do caso de mongo-
lismo. Em segundo lugar, o progresso de cresdmento de A. M. A. foi bem
*ttaior dos 3yí a 4 anos, predsamente num período em que o tratamento p-da
liróide foi mais intenso. Sob êste ponto de vista os incrementos estaturais de
A. M. A. podem ser assim repartidos em função do tratamento :
1 ) Dos 3 aos 3^ anos, 37 dias de uso do hormônio, cresdmento de 1 un ;
2) Dos 3J4 aos 4 anos, 95 dias de tratamento, cresdmento de 4.7 cm ;
3) Dos 4 aos 4J4 anos, sem tratamento pela tiróide, crescimento de 1.2 cm.
Xote-se que o término do tratamento foi sempre de cerca de 2 meses antes
'lo fim do período considerado, de modo a se dar tempo a que os efdtos da me-
dicação fossem observados dentro do período em que ministrada. Parece, assim.
a tiróide teve um efdto favorável sôbre o crescimento durante o segimdo
período, mas não se compreende por que agiu pouco durante o primdro (inter-
''Jrrénda das infeções?).
Talvez ainda o progresso estatural observado dos 3)4 aos 4 anos deva ser
*®>putado em parte à amigdalectomia e adenoidectomia a que a padento foi
*übmetida no inído do semestre considerado.
Das 4 curvas exibidas, a mais íngreme em seu conjunto é a de L. M. P.
**guindo-se a de Z. C. e. finalmente, as de A.M..A. e A.O.P. que se equivalem :
® grau de inclinação espelha os progressos alcançados. É claro que o mdhor re-
•ttltado obtido inidalmente por Z. C. advêm de que êle exprime as primida.-; do
^tamento hormonal, pois esta criança, ao contrário do que ocorria com as ou-
nunca tomára preparados de tiróide. Também a melhor resposta de L.M.P.
relação a A.O.P. (ambos casos de cretinismo típico já tratados) deve ser
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
tíõ2 Memórias cio Instituto Butantau — Tomo XVI
atribuída em parte à melhor condic^o social da paciente, o que lhe garante i:ma
alimcmtação melhor e hábitos mais higiênicos.
Pode-se prever que nenhuma destas crianqas atingirá uma estatura normal,
pois é improvável que os incrementos futuros aumentem a ponto de a cur>'a rcs-
pectira atingir a curva normal. Quando o cretinismo é tratado desde os primei-
ros meses, duma maneira constante e acertada, a curva de crescimento se man-
tem muito próxima da normal: isto não aconteceu em nenhum dos 3 c.isos.
Quanto ao caso de mongolismo. sua situação já é bem mais perto da curva nor-
mal: sal)e-se. não obstante, que estes enfermos não atingem em regra uma esta-
tura inteiramente satisfatória.
O tratamento do mixedema congênito pela tiróide impede que o crescir.;cnto
estacione, ou melhor, que se processe num ritmo muito lento; mas si êle se inicia
quando já ha marcado déficit èstatural, não consegue acelerar o crescimento de
modo a normalizar de todo a estatura: daí o quasi paralelismo cias curvas em
relação à curva normal.
Na verdade, no inicio do tratamento dum nanismo tiroidiano (quando êste
inicio é tardio) existe uma aceleração do crescimento, maior do que a corres-
pondente à itbde cronohvgica do paciente, e maior mesmo do que a correspon-
dente à sua ichde estatural (i.ê., à que têm as crianças normais de sua estatora)-
Exemplificando: Z. C. cresceu nos primeiros 6 meses de tratamento cêrea de
7 cm, o que é um incremento muito superior à média duma criança de sua idade
(5 anos) durante igual lapso de tempo, e também um pouco maior do quc o
incremento relativo a 15 meses, que é (no máximo) a idade estatural «iesta
paciente.
Esta aceleração mais acentuada ocorre, porém, como dissemos, só no ;u:cio
do tratamento ou então quando, como no caso III, o tratamento é reiniciado .".pós
um pcriotlo longo de interrupção.
Depois, os incrementos diminuem e passam a ser (nas melhores condições)
proximamente iguais aos incrementos normais da idade atual. Note-se que, nof'
malmente, dos 3 anos em diante até a pre-puberdade. os incrententos anuais da
estatura são praticamente iguais entre si, ou melhor, são só levemente decres-
centes (observe-se a curra normal), de sorte que não importa muito afinn'ir
o crescimento destas crianças com hipotiroidismo ent tratamento se faz conform*
o ritmo de sua idade cronológica ou conforme o de sua estatura atual.
Finalmente, merece ser mencionado que um mixedema congênito não it*'
tado durante 5 anos e 3 meses (caso I) pode crescer cêrea de 23 cm em ah.it^
admitindo-se que esta criança tenha nasddo com 50 cm, como o habitual.
altura de 73 cm é, em condições normais, a de uma criança de 15 meses no má-
ximo. Através das informações {^atemas se apura que o crescimento de Z. ^
se deteve de todo aos 2 anos: provavelmente, pois, aqueles 23 cm foram coo-
10
•f- I. Lobo & Luciano Décourt — Alguns aspeclos da evolução do cre-
tinismo e do raongolismo
253
*eguidos neste lapso de tempo e o foram, pode-se dizer, por óbra da hipófise
*óbre as cartilagens dos ossos longos, já que o caso é duna atireose completa;
Ou então, à semelhança do que ocorre com os ratos hipofisectomizados aos 21-24
*ltas, o crescimento longitudinal dos ossos se fez nos primeiros meses de vida
c de modo autônomo, i é., independente do controle hipofisário (3) e até mesmo
do próprio esboço das cartilagens epifisárias existentes (4).
Ossificação: O exame periódico da ossificação em casos de mixedema e
de mongolismo é o melhor meio de distinguir estas duas afeções e permite apre-
ciar, da maneira a mais objetiva, a resposta ao tratamento instituido.
O caso I demonstra de modo evidente que. na ausência duma tiróide «un-
cionante, não ha aparecimento dc novos núcleos de ossificação. pofs e.sta criança,
com 5 anos e 3 meses de idade, tem uma idade óssea igual a zero ou. no máximo,
a 3 meses de vida post-natal, si se quer levar em conta o ligeiro eslwço do
grande osso do carpo. .\o cabo de 1 ano de tratamento pela tiróide. a idade
óssea passa a ser de pouco mais de 1 ano, i.é., seu avanço foi igual ou pouco
Superior ao da idade cronológica : o tratamento portanto reiniciou a ossificação
uias ainda não a acelerou, pelo menos de modo notável.
O caso III foi o que melhores resultados apre.sentou : a idade óssea progre-
diu de cerca de 3 anos durante 1 Yi ano de tratamento. O atraso inicial da ossi-
íicação neste ca.so se deve a que a criança ficára anterionnente 4 anos sem tra-
tamento honnonal; reiniciado êste, a ossificação se acelerou dc modo quasi com-
pensador. Deve-se recordar que também foi este caso o que exibiu maior in-
cremento na altura, ambas as cousas devendo ser atribuiilas à regularidade do
tratamento e a melhores condições dc nutrição tia jiaciente.
Os casos II c IV têm a mesma idade óssea inicial, a saber, anos. mas
'una grande diferença na idade cronológica: e 3 anos, respectivanicnte.
Caso II, após \Yí ano de tratamento regular pela tiróide. realiza progressos
equivalentes a um pouco menos de 2 anos dc ossificação: ajiarecimcnto das epi-
ftses dos metacarpianos. das falanges e dc algumas faiangetas. bem como do nú-
eJeo do semi-lunar. Caso IV, durante o mesmo tempo, apresenta epifises em
Uuiior número de dedos e. além do semi-lunar. aparecimento do trapézio; wr-
tanto, maior progresso que o caso II. .Além disso, a idade óssea do ca.so IV
*c igualou inteiramente à sua idade cronológica (4}ó anos) e isto a despeito de.
último semestre da evolução (durante o qual prosseguiram os progressos .tia
®^sificação) haver cessado o uso tia tiróide: èste fato c (jue fala utais a favor
diagnóstico de mongolismo.
Um confronto entre a ossificação c o crescimento esbarra com certas difi-
^Idades, quais sejam, o fato dc. já cm condições normais, o crescimento esta-
*Ural ser um fenômeno continuo que obedece a um ritmo mais regular, ao passo
11
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
2Õ4
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
que a ossificação (pelo menos as-aliada através do aparecimento dos respectivos
núcleos) é fenômeno descontínuo, cujos surtos apresentam entre si intervalos
diferentes de tempo. A consequência disto é que o aparecimento de um ou dois
pontos de ossificação pode determinar lun acréscimo grande e abrupto na idade
óssea do paciente. Além disso, o tempo normal de aparecimento de alguns pon-
tos de ossificação é sujeito a uma ampla margem de variação, maior às vézcs
que a correspondente às osdlaçõcs estaturais. Um terceiro elemento que difi-
culta a comparação projetada é a inversão que se nota no hipotiroidismo, e tal-
vez no mongolismo, da ordem normal de aparecimento de alguns núcleos de
ossificação. Por exemplo. A.O.P. e A.M.A. já apresentavam, de início, o osso
piramidal, quando ainda não tinham nenhuma epífise dos metacarpianos e das
falanges, ao contrário do que se obseo-a comumente. Êste fenômeno já foi assi-
nalado por Vianna Giuria (5) no hipotiroidismo, tratado ou não, e em algumas
outras condições. Todos êstes fatos dificultam, portanto, uma comparação exata
entre os progressos da idade óssea e os do crescimento estaturai, obrigando-nos ^
um confronto aproximado.
Xão obstante, si se quizer ter uma idéia objetira a êste respeito, será pre-
ciso traduzir em lermos cronológicos os dados relativos ao progresso em altura,
que são expressos em unidades lineares. Com isto se introduz a noção de idade
estatural, que é a idade duma enança normal que tivesse a altura do paciente
considerado.
Através do gráfico da Fig. 19 pode-se deduzir a idade estatural de cada
caso apresentado, confrontando as cur\-as respectic^as com a curva de crescimento
mínimo normal. Assim, por exemplo, A.O.P. tem, no início da obserc-ação, ^
altura duma criança de 2 anos e 10 meses e, ao cabo de 2 anos de observaçã'v 3
altura duma criança de 4 anos e 3 meses, i.é, houve, durante êsse lapso de tempo»
ganho de 1 ano e 5 meses na idade estatural. Em conformidade com o e.xposto,
foi organizada a Tabela I.
Tabela I
CASO
esfatnnü
Ganbo toCal
Tnnpo de
obscrraçSo
Gaabo médio
em 12 meaet
inteia]
final
Z. C.
la. 3 m.
2 a.
9 m.
9 m.
12 tn.
A. O. P.
2 a. 10 m.
4 a. 3 m.
la. Sm.
2 a.
8im.
L. M. P.
3 a. 10 m.
5 a. 7 m.
1 a. 9 m.
la. 6 m.
14 m.
A. M. ,\.
2 a. 3 m.
3 a. 3 m.
1 a.
la. 6 m.
8 m.
Por processo equivalente se aprecia o progresso da idade óssea e, unica-
mente para que os resultados sejam comparáveis, reduz-se, aqui também, a uto
12
J. I. Lobo & Luciano Décocrt — Alguns aspectos da evolução do cre-
tinismo e do mongolismo
255
mesmo período de tempo (1 ano) o avanço conseguido, embora se saiba que
tanto os progressos da altura, como os da ossificação, não se fazem uniforme-
mente. A Tabela II regista os dados relativos à idade óssea:
Tabeia II
CASO
Idade
ósed
Ganho total
Tempo de
obsenra^o
Ganho médio
em 12 me»es
Iniôal
Fizul
Z. C.
3 m.
1 a. 6 rn.
1 a. 3 RI.
1 a.
15 m.
A. o. P.
2 a. 6 m.
4 a.
1 a. 6m.
la. 6 m.
12 m.
L. M. P.
4 a. 6m.
7 a. 6 m.
3 a.
la. 6 m.
24 m.
A M. A.
2 a. 6 m.
4 a. 9 m.
2 a. 3 ni.
1 a. 5 m.
19 m.
Do e.xame de cada uma das tabelas e do seu confronto, várias conclusões
‘^csultam :
a) O ganho médio em altura foi superior ao normal (i.é. maior do que 12
meses) no caso III, em que a terapêutica foi reiniciada após 4 anos de intenup-
*ȋo; igual ao normal no caso I, em que o tratamento hormonal se instituia pela
primeira vez; e inferior ao normal nos outros dois, sendo um pouco mais pre-
judicado no caso IV, que é o de mongolismo. Objetiva-se aqui, numericamente,
reparos já feitos a propósito da aceleração do crescimento estatural.
b) O progresso na idade óssea foi acelerado nos casos I, III e IV e rea-
lizado em lapso nonnal de tempo no caso II. Também aqui a aceleração notada
®os casos I e III se deve, respecti\amente. ao inicio c ao reinicio (após longa
Pausa) da terapêutica; a aceleração do caso IV, mesmo com uma terapêutica
mtencionalmente interrompida, demonstra que êste caso deve ser de natureza
'iiversa dos demais e é um argumento a favor do diagnóstico do mongolismo.
c) Em todos os casos os progressos da ossificação foram maiores do que os
'io crescimento; mas onde esta divergência é mais acentuada é no caso de n*on-
Solismo. Acresce (o que é importante) que nos casos de mixedema, apesar dos
ganhos alcançados, a idade óssea ainda ficou por baixo da idade aluai dos pa-
'joites, ao passo que no caso de mongolismo, ambas se igualaram.
Dentição: A condição inicial e os progressos realizados em cada caso. no
^uc concerne à dentição, podem ser assim sumariados;
Caso I com 5 anos e 3 meses tem os 4 inc. cent., os 2 inc. lat. inf. e os 4
pre-mol.. o que equivale a mais ou menos 12 a 15 meses de "idade dentária";
*Pós 1 ano de tratamento, todos os restantes dentes dedduais.
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25C
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
j
Caso II, com 634 anos, tem todos os dentes deciduais e ainda nenhum
manente; aos 8 anos irrompe o primeiro grande molar que, normalmente, rcrnpc
aos 6.
Caso III, com 834 anos. tem ou teve todos os deciduais e mais os primeiros
grandes molares. Aos 10 anos tem os 4 inc. med. dos permanentes, que eur-
gem, em casos normais, aos 7 anos.
Caso I\', com 3 anos de idade, tem todos os deciduais, exceto os dois ptf'
molares sup.. que irrompem aos 4 anos.
Portanto, o maior atraso inicial, como era de esperar, ocorreu no caso I-
Nos casos II e III sabe-se. através da anamnese, que a dentição se iniciou tani'
bém tarde, após 4 e 1 anos de idade, respecti\'amente. Por ocasião da matrieul*
no sersnço, ainda ha\na atraso de alguns anos, sendo êste mais acentuado tio
caso II. O tratamento melhorou bastante, mas não chegou ainda a normalizar
completamente a dentição destes pacientes. Por fim, o caso IV é o que nv.nor
atraso inicial apresenta e progrediu de modo satisfatório.
Vê-se, pois, que existe uma certa concordância com o que se passa coni a
ossificação esquelética, não só no que toca aos atrasos iniciais e aos progre.<so$
de cada caso, como no que diz respeito ao confronto entre êles e a influeiio*
do tratamento.
Psico-motilidade e inteligência: No cretinismo, o desenvolvimento psico-
motor. inclusive a fala. não se processa enquanto não se institue a teraj>éut'<^
substitutiva: é o que exemplifica a paciente do caso I que, aos 5 anos de idade
somente consegue manter-se sentada. Nos casos II e III, também, o sentar-se.
o 'uster-se de pé, e sobretudo o caminhar e o falar, só começam depois dos 3
anos de idade, época do inicio do tratamento.
No caso I\' os primeiros passos foram dados aos 234 anos e as primeira*
palavras pronunciadas aos 3 anos. É precisamente no terreno da psico-motilf
dade e da inteligência que o mongolismo apresenta maior cópia de sintoma*
comuns ao hipotiroidismo. a gravidade dêles dependendo do grau de deficiência
mental. A análise de tais sintomas não oferece, pois. muita margem para dis'
tinção entre ambas as afeções, inas a resposta ao tratamento pode, contudo,
ajudar no diagnóstico diferendal. No que toca ao desenvolvimento motor, cm
especial, a ação favorável do tratamento pela tiróide em casos de mixedema c
\Tsivel. Assim foi no caso I que, tendo, de inicio, apenas alguns movimento*
desordenados dos membros, póde começar a gatinhar e a caminhar com ajiKÍ*
respectiramente aos 2 e aos 9 meses de tratamento.
Os casos II e III já se apresentaram, por ocasião da matrícula, com
desenvolvimento motor mais ou menos nonnalizado e isto por obra do trata-
mento. anterior. Os progressos obscr\-ados nestes casos foram, pois. só referd’'
tes à fala e êles foram, aliás, discretos, conquanto inegáveis.
14
í
J* I. Lobo & Luciano Dêcourt — Alguns aspectos da evolução do cre-
tinismo c do luongolismo
O tratamento anterior pela tiróide no caso I\" parece ter dado resultados
parciais, segundo as informações colhidas. Xa evolução ulterior, a influência
*ôbre a fala foi pequena: mas também nos casos de hipotiroidismo, a melhoria da
íala juntamente com a do nivel mental é o que mais dificilmente se con.segue,
de sorte que, neste particular, a evolução dos casos não nos auxilia muito a dis-
hnguir o mongolismo do hipotiroidismo.
É irrecusável que a administração de tiróide no UKMigolismo tem uiu efeito
^>cncfico sóbre a zniMcidade psiquica e motora, corrigindo a sonolência e a apa-
lia; isto pôde ser observado por ocasião da supressão do hormônio no caso IV ;
uma ação pronunciada e direta sôbre o desenvolvimento motor propiia-
•Qente dito parece que sô se observa nos genuinos casos de hipotiroidismo, como
3 primeiros.
O baixo nivel intelectual nas duas condições é o fenômeno mais resistente
*0 tratamento; todavia, no mongolismo êle o é ainda mais do que no hipoti-
*'oidismo.
Mixedenuj, alterações tegumentares e outros sinats: Com a supressão da
**!^pêutica hormonal, êstes sinais reaparem, em casos de hipotiroidismo, den-
de 1, 2 ou. no máximo, 3 meses. A supressão de tiróide durante 8 meses
**0 caso I\’ determinou certo grau de secura da pele. peiora da prisão de ventre,
não determinou aparecimento de mixedema.
Por outro lado deve-se notar que o fácies não se alterou, mesmo durante o
Pcrio<lo de tratamento: a criança manteve sempre uma expressão algo estúpida,
a boca entreaberta.
COMENTÁRIOS
I) Diferenciação diagnóstica através da evolução: O mongolismo c o
^potiroidismo se distinguem facilmente um do outro quando, cm dctemuiiado
os caracteres próprios a cada um estão presentes, com exclu.são dos omros.
Means (6) organizou, a êste respeito, um quadro de diagnóstico diferençai,
^sta aqui lembrar que o fades utongólico (olhos oblíquos c epicanthus) no-
**^50 já desde o nasdmento e o não aparecimento ulterior de mixetleina são as
^racteristicas próprias da primeira daquelas afeções, enquanto o mixedema. a
**'luidão da pele e um considerável atraso da ossificação e dentição são apaná-
do hipotiroidismo. Assim é. porém, nos casos extremos. Mas como -im-
^ as afeções têm de comum a defidênda mental, o atraso no inicio da fala
* >io desenvolrimento psicomotor c como, por outro lado, casos ha de mr.^-go-
*^mo e de hipotiroidismo em que aqueles sintomas distintivos se acham atenua-
para só sobressaírem os que são comuns a um e a outro, compreende-se
difidl se toma a diferendação entre ambos.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
G)m efeito, de forma algtima é essencial para a identificação da idiotia
mongólica, a obliqtndade dos olhos e o epicanthus (7). Os caracteres morfoló-
gicos do crâneo (testa alta, bossas frontais salientes, caridade orbitaria pequena
distância inter-orbitária menor que o normal, face chata, etc.) são dados de
maior importância, mas sua apreciação pode às vêzes difidl, e é a idiotia, coffl
sua repercussão sobre o fisico e o psíquico, que domina então o quadro sinto-
mático.
No caso IV observado, os elementos que, de inído, fala^^am a favor do
mongolismo eram o fades e a conformação craneana (não, porém, dum modo
persuasivo), a presença duma cardiopatia congênita (bastante frequente nesW
afeção), a pouca resistênda às infeções e o nivel de colesterol sanguíneo dentro
de limites normais. Por outro lado havia, ainda inidalmente, um atráso, em-
bora leve, na ossificação e no cresdmento (o qual está também, de regra, algo re-
tardado no mongolismo) e a dedaração materna de que um tratamento anterior
com tiroidina dera “algum resultado”. Êstes dados faziam pensar em hipoó*
roidismo frusto.
A evolução demonstrou, porém, que a ossificação se normalizou dentro de
pouco mais de 1 ano, que a administração de preparados tiroidianos não chegoo
a modificar substancialmente o aspecto da paciente, em particular o seu fácies,
bem como não melhorou, de modo claro, a fala e a compreensão e, sobretudo,
que a supressão posterior do hormônio durante 8 meses não retardou o pro-
gresso na ossificação (*). Êstes fatos, si confrontados com o que se passo»
nos outros casos observados (sobretudo o caso I), mostram que o retardo d*
psicomotilidade e, principalmente, a deficiência mental da pequena paciente náo
podem ser atribuidos a um hipotiroidismo, pelo menos de modo e.xclusivo, e le*
vam porisso, junto com os dados preliminares já apontados, ao diagnóstico de
mongolismo.
Entretanto, é inegável que a administração de tiróide teve um efeito fs^o*
rável: a) sôbre o crescimento estatural; b) sobre o temperamento e a condu»t
que se tomaram mais vivazes; c) sôbre a atonia intestinal, pois as três cousa*
melhoraram durante o período de tratamento, para peiorarem durante o da s»'
pressão do mesmo. Isto nos leva a crer que, ou neste caso havia, concomita»*
temente, uma deficiência leve da tiróide, que só por aqueles três sintomas **
denunda%*a, ou então que. também no mongolismo (como acontece em algt»**
(•) A propõrito do critério a adotar^e na aprcciacio da influência do tratamento adbre a
cafio, nda noa atemoa la aegnintea regraa: ai a oaaifkacio catl muito atrasada (3 anoa ou maia) * *
com o tratamento recebe novo impulso* nÍo temos dÔTula cm reccmbeccr uma rdaçio ác causa a
ainda qtxando o tempo gasto nesse avanço seja ifua] ao dom caso normal. St» porém» o atraso
íòr leve. a melhoria da idade óssea só poderi ser imputada ao tratamento, si ela tc operar aceUf»^
mente, L í.» si. ao fim do período considerado, ela se bouver igualado de todo i idade croodóffica
tanto, si o lapso de tempo dispendido fôr menor do que o dum caso normal) oo» melhor ainda. ** *
processo observado se detiver novamente com a interrupçio do tratamento.
16
I. I^BO & Luciaxo Décovrt — Alguns aspectos da evolução do cre-
tinismo e do mongolismo
259
estados fora do hipotíroidismo) um suprimento extra de tireoglobulina pode
corrigir (farmacologicamente?) algumas de suas manifestações.
2) Patogenia do mongolismo-. Para esclarecimento da patogenia e etio-
logia do mongolismo, diversas teorias têm sido levantadas, quasi todas baseadas
nos resultados da pesquisa anátomo-patológica. Esta se endereçou, a principio,
para o exame do encéfalo, que mostrou as mais variadas alterações: circunvo-
iuções pouco nítidas, estrutura do tipo embrionário, menor desenvolvimento das
fibras tangenciais, nódulos de substância cinzenta no cerebelo, etc. (8). Ulti-
niamente, Benda tem realizado estudos sistematizados sõbre o assunto, focali-
zando, de preferência, as alterações encontradas na glândula tiróide (1), na hi-
Pófise (9) e no crâneo (10). Em resumo, os achados principais foram os se-
guintes: tiróide não aumentada de volume, mas com sinais histológicos de hi-
Peratiridade em alguns pontos e de involução em outros, ambas as cousas de-
'^do ter ocorrido antes do nascimento, pois a maior parte dos casos autopsia-
rmos era de crianças de alguns dias ou meses de vida, o que parece dar razão a
Clark (11), que considerava o mongolismo “um hipertiroidismo fetal que cessa
*>o nascimento”. Na hipófise foi observado um aumento no número das cê-
fulas eosinófilas e uma deficiência no das basófilas e cromófobas; como esta
glândula não está aumentada e como não existem no mongolismo sinais de
m*iperfunção das eosinófilas, a deficiência das duas outras espécies celulares
Parece ser a alteração principal, o que condiciona um “tipo particular de distúr-
pituitário”. Finalmente, as desordens observadas no crâneo foram: pro-
ffferação deficiente e ossificação defeituosa dos ossos da base (ctmóidc, esfonóide
^ escama do occipital) que são ossos cartilaginosos; porlsso a base não se des-
envolve e, como os ossos membranosos (temporal, parietal) não são acometidos
Pelo mesmo retardamento, o comprimento do crâneo permanece menor do que
habitual, o que determina a braquicefalia dos mongolóides. Estas alterações,
^stas nas sincondroses esfeno-etmoidal e esfeno-occipital, também são obser-
^veis, em grau variável, nas articulações dos membros, o que é causa dum cresci-
•nento retardado e realizado por etapas. A diferença com a condrodisf^asia reside
*ni que, nesta, a cartilagem ê preinaturamente absorvida e substituída por tecido
'^seo; no hipotíroidismo. os centros de ossificação não comparecem e, porisso,
espaços cartilaginosos permanecem muito abertos. No mongolismo não ha
uma cousa nem outra: as cartilagens se conservam, mas proliferam lenta-
'•'«nte; os núcleos de ossificação aparecem, mas crescem detagar e de modo
*rregular. Alem disso, notam-se diferenças histol^icas quanto à estrutura
^Plfisária. entre o cretinismo e o mongolismo.
Si estas alterações da osteogenese (sobretudo craneana) são porém a
'^sequência duma mutação no plasma germinal, como pensam uns, ou si são
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
desndas a desordens endócrinas do organismo materno, como opinam outros,
é questão até hoje não resolvida ’ , <
Depois de ponderar os fatos observados, muitos dos quais parecem entre s*
contraditórios, Benda limita-se a uma conclusão de ordem geral, a saber, qo^
“a deficiência mongoloide parece ser dependente da ausência ou da deficiência
congênita daqueles agentes que, duma fonte hipofisária ou extra-hipofisária,
estimulam a diferenciação e o crescimento”.
RESUMO
Estuda-se a evolução de 3 casos tipicos de cretinismo e de um quart.") óe
mongolismo, o qual se prestava à confusão com o quadro dum hipotiroidismo
parcial.
.A análise retrospectira dos casos e a obser\-ação do decurso posterior dos
mesmos, revelam alguns pontos interessantes; a exteriorização plena do niix®*
dema congênito só se dá alguns ou vários meses após nascimento, o que e
atribuível ao efeito residual (acumulativo) do hormônio materno durante 3
gestação. Instalado o quadro integral do hipotiroidismo congénito, o doente po<R
sobreviver vários anos sem medicação substituti\*a, mas nenhum dos sint-uuas
peculiares regride até que esta seja instituída; em particular, nenhum novo núcle®
de ossificação aparece, enquanto o paciente não é tratado. O crescimento
estatural, entretanto, continua por 1 ou 2 anos no máximo, o que se deve o
ação ou da hipófise ou das substâncias indutoras presentes nos tecidos cm desen*
volvimento. O tratamento hormonal age favoravelmente sobre o crescimento. >
ossificação e a dentição; corrige completamente o mixedema; normaliza o dese***
volvimento motor, e tem ação menos favorável sôbre a inteligência.
Um confronto entre ossificação e crescimento demonstra que aquela ê niuit®
mais dócil ao tratamento do que éste. Esta divergência parece maior no -i^on*
golismo, embora, em \alores absulutos, tanto uma como o outro estejam, nest*
afeção, muito menos comprometidos do que no hipotiroidismo.
Propõem-se um critério objetivo para comparar os progressos da ossificaÇ*®
com os do crescimento e bem assim as regras para apreciar a influência
tratamento sôbre aquela.
O estudo da evolução do cretinismo e do mongolismo mostra diferenç**
entre ambos, sobretudo qmnto aos efeitos do tratamento pela tiróide, que
decisivos no primeiro e apenas parciais no segundo.
Uma súmula dos atuais conhecimentos potogenêticos no mongolismo sugc*^
que esta afeção seja ocasionada por uma deficienda pre-natal daqueles fatore*»
endôerinos ou extra-endôerinos, que estimulam o desenvolvimento ósseo, afetan<^^
de modo especial as sincondroses da base do crâneo.
18
J- I. Lobo Sí Lkciano Décourt — .Alguns aspectos da evolução do
tinismo e do mongolismo
cre-
261
ABSTRACT
Three typical cases of cretinism and one of mongolian idiocj' with a folIo\v-up
from one to two years are reported. One of the h>-poth>TOÍd cases was a
prl, five years old, that never had l)een treated. exhibiting therefore a full
Picture of congenital msTcedema. The other two cases had previously received
^3rroid therapy. The mongolian case appeared, at just sight, to be a mild case
h>-pothyroidism ; but the'lack of effective response to the hormonal treatment
**>nvinced us that we were dealing wth the condition known as mongolism. On
^thdrawal of thjToid tablets it was indecd obsers’ed an aggravation of the
•ntestinal stasis and a moderate decrease in gro^sth rate, hut ossification proceeded
^ formerly. This is a way to distinguish the t\^o conditions in borderline cases.
The study of the past story and the e.xamination of previous photographs
these children led us to some interesting conclusions; the fui! picture of
*^genital myxedema does not appear at birth but only after several months
*^d sometimes only one year later. The fact may be e.xplaincd by a residual effcct
the maternal hormone supplicd to the fetus during pregnancj’ or perhaps
^rough the mother’s milk in the post -natal life.
Cretins may survive several years without treatment, but with an increasing
*8Rra\-ation of mjTcedema. impairment of motility and mental deficiency. Untreated
'^scs e.xhibit some growth in length in the first two years of life: this is to be
**cribed to the anterior pituitary or to growth promoting substances present
^thin the body cclls. Neither however is able to promote the appearence of new
^ification centers.
Undcr thjToid therapy the condition is completely changed: myxedema
'^ppears. growth receives a new impulse, ossification is resumed, motility
** placed undcr control and mental levei improves although at a much lesser
^tent than the other sj-mptoms.
A precedure is proposed to make a suitablc comparison betwcen the ossifi-
'^lion and growth rates. Some rulcs are also established in order to appre-
'^te the real influence of treatment on the ossification process. Such a pro-
cure shows that undcr hormonal treatment, ossification is much more improved
statural growth. This difference is still more pronounced in mongolism
in hypothyroidism, although in the former both ossification and growth
far less affected than in the latter.
Our present knowledgc of the etiologj’ and pathogenesis of mongolian idiocy
confined to the recognition that this affcction is caused hy a prc-natal defi-
of those factors, endocrine or non-endocrine in nature. u’hich stimulate
dcvehpment, affecting in epeaa! manner the sj-nchondrosis of the base
the skull.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
BIBLIOGRAFIA
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Eatrtcoe para pnblicaçío em novembro de 1942 e dad»
i poblicidade em fevereiro de 1943).
20
I. Lobo &. L. Décoirt — Alguns aspectos da evolução do
cretinismo e do mongolismo.
Mrra. In»t. Butanton
Vol. XVI — 1942
Fio. 1
Z. C. tot 2 ano» do lOadc.
Fic. 2
Z. C ao* S ano» c S inncs, por ocatiio da
matricula no icnri^
21
Mrm. Inst. Butantan
I. Lobo A L. Decoiiít — .Wguiix uspeclox da evo/iição do
cretinismo c do ntongolixmo.
Vol. XVI — 1942
Fic. S
r mão dc Z. C. aof* 5 ano» r J mrtc* dc
corTc»p»>Ttlcnt- m> mixireo a J
mc*<* U tdaíjc.
Punho r mJlo dc Z. C. dcpoi» de 3 me»r% oe tra>
lamento: franca rridênciacfto do
Fic. 7
e mão de Z. C. ao» 6 anoa e 3 me^^»
Idade 6»«^a: I para ano.
Fic. 8
A etqucrda. A.O.P. ao« 3 ano» de idade, ao lado
«te sua írmà. normal, com 1 ano. Notar a diferença
no *4bar. na expre»»io fi«ionómtca e oa orientaçAo
fia cah;ça. A« altnra» qua^í »e equivalem.
■í- I. Lobo 4 L. Decourt — Alguns aspectos da evolução do Mcm. Intt. Buunun
crelinismo e do mongolismo. VoL xvi — 1942
FIO. 9
com ano«. ao 9€t matriculado ao
já tob influência dum Iratamcoto ^tctior.
A genitália c puuco dcscnvolirida.
I .BI.-—
e.rl> >.J
Fic. 10
A. 0.1*., com 81^ anoa. ao lado da meanu imxi
mala moca com que foi folo(ra(ado aoa d anoa.
FIC. 11
c mão de A.O.P. aoa 6Ü anoa. Idade
óaaea: 2H anoa.
Fic. 12
Puobo e mão de .\.O.P. aoa 8 aaoa. Aparece-
ram quaai lodaa aa eplfiaca meiacarpianaa e di«i-
laia e maia o iemi4unar. Idade óaaea: 4 anoa.
SciELO
cm
Mcm. In»l. Butantan
I- Lobo & L. DÊcoriiT — Alguns aspectos da evolução do
crelinismo e do mongoUsmo.
Vol. XVI
1942
FiC. IJ
da paciítitr I.,M.|’., cara'rii*(ica« dc hipn4ircHdi«nM>.
27
J- I. Lobo & L. Dêcourt — Alguns aspectos da evolm'ão do
cretinismo e do mongolismo.
Mrm. Inst. But^ntan
VoL XVI — 1942
V
Ftc. 16
^•olio e mão do A.M.A. ao» J ano» de idade.
atruo da oauficacio (cerca de 6 meses)
'***>»do peli ausência das epífises metacarpianas
e difitaif.
Fic. 17
Punbo e mio de A.M.A. aos 4 anos e S meses.
Fresen^a das epífises metacaipianas e digitais, do
semilunar e do trapéaiow Desenvolvimento dos
núcleos preexistentes. Idade óssea: entre 4yí e
5 anos.
Fic. 18
A.M.A. aos 4H anos de idade, após I ano da amigda-
lectomia e adeooídrctcioia. e 8 meses de suspensão do uso
de preparados tiroidianos. Observe-se o fácies; não ha,
porém, mixedema.
29
cm
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10 11 12 13 14 15 16
616.63
NOVAS OBSERVAÇÕES SÔBRE O DIABETE INSÍPIDO
POR
J. I. LOBO & LUCIAXO DÉCOURT
Em trabalho anterior (1) fizemos alguns comentários acerca do tratamento
^0 diabete insipido. No presente trabalho vimos trazer o resultado de no\"as obser-
vações relativas àquela entidade mórbida. Desde então até hoje apresentaram-se
nosso serviço três novos casos, todos éles de diabete insipido idiopático, per-
^*2endo, pois, com os dois anteriores, o total de 5 casos em tratamento. Preli-
'**'narmente vejamos, em resumo, as observações dos três novos casos acima d-
**dos.
CASO I — J. Dt fem., 19 a, branca. brasiU s<Jt
QMfisa : Paliúría e polidipsia ha 4 ) anos ; ingere, em média, 5 a 6 litros de água
* Urina 7 a 8 litros nas 24 horas. Não relaciona o aparecimento desses sintomas a
«Walquer causa. Nunca fez tratamento algum.
'A sejrual: menarca aos 131 anos; após 1 ano de menstruaçSe.s regulares instalou-se
amenorréia que persiste até hoje c que coincidiu com o aparecimento da doença.
Oesentvltimfnlo somálteo e Psiquicoí normais.
Antecedentes mórbidos pessoais: sem importância.
Não conta, entre os parentes, qualquer caso semelhante.
Apetite conservado. .Alimentação variada.
Ptso: 48.450.
AU.-. 151.4.
Tegumento cutâneo: quente e úmido. Efélides no rosta Pêlos norraalmcntc presentes
**** axilas e pubis. Paniculo adiposo regularmente desenvolvido e com distribuição normal ;
^unilo nas mamas.
Isentes mal conservados com numerosas falhas. Amígdalas ligeiramente hipertrófiadas.
Tireoide: palpável, não dolorosa e de volume e consistência normais.
Infamas: bastante desenvolvidas em virtude de acúmulo de gordura.
Ap. circulatório: sõpro sistólico leve em toda a área.
Pulso: 72 T. art. = 116 X 86.
Nada de particular nos demais aparelhos.
cm
10 11 12 13 14 15 16
276
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Ex. ginecológico : genitália extema : normal.
Genitália interna (toque retal) : útero em anteverso-flexão exagerada e de volus*
ligeiramente dimimrido. Anexos não palpáveis.
Exame radiológfco do cràneo: sela túrcia um tanto diminuida.
Reação de W e K: negativas.
Volume urinário nas 24 horas; 8 litros. Densidade: 1005.
CASO II — ]■ T., masc., 26 a., branco, brasil., solt, condutor.
Queixai Poliúria e polidipsia intensas (10 a 15 1.). Doente há cerca de 1 1
De um modo abrupto começou a sentir necessidade de beber água a todo instante, ber’
como de urinar. A noite, urina 3 a 4 vèies e ingere água outras tantas vezes. Tcntard*’
permanecer sem ingerir água sente todo o corpo sêco (sic), principalmente a garganta-
Nunca se submeteu a qualquer tratamento. Apresenta bõa disposição para o trabalhe*
(em média trabalha 10 a 11 horas diariamente).
//. sexual: nada de anormal.
Desenvoliimento somático e psiquico: normais.
Antecedentes mórbidos pessoais: sem importância. Entre os parentes não ha caso
melhante ao seu.
.-\pctite bom. Alimenta-se suficiente e variadamente.
Peso: 56.350.
Alt.: 164.5.
Tegumento cutâneo: quente e úmido. Distribuição pilosa normal. Paniculo adipe***
distribuição e desenvolvimento normais.
Boca: dentes em máu estado e com numerosas falhas.
Tireoide: palpável e não aumentada.
Ap. circulatório: escuta normal. Pulso 66. T. art. = 125 X 78.
Xada de anormal nos demais aparelhos.
Genitália extema normalmente desenvolvida.
Reação de \V. e K.; negativas.
Urina: vol. nas 24 horas: 10 litros. Densidade: 1005.
CASO III — L. S. fem. 13 a., branca, bras., solL.
Queixa: Poliúria e polidipsia há 8 anos. Cefaléias de quando em vez. Refere q'>^_
doença teve inicio repentino, não sabendo a que atribui-la. A diurese era, inicialmente, maK’*’
10 a 12 litros — , diminuindo depois de modo a ser, no momento, mais ou menos 8 litt®**
II. sexual: menarca há pouco mais de 1 ano e posteriormente menstruada apenas 2 vér<*
sendo a última precisamente há 1 ano. Corrimento branco.
Desenvolvimento somático e psiquico: normais.
Antecedentes mórbidos pessoais: Parotidite epidêmica há 1 ano. Sofreu amigdalecto»"^
Entre os parentes não existem casos semelhantes, sendo a mãe portadora de um bócio sinip!**'
.\petite consers-ado. .Alimentação variada.
Peso: 42.900.
Alt.: 145.7.
Tegumento cutâneo: quente e úmida Pêlos pubianos presentes com dcsenvoirini«f**^
lelatiso á idade. Pêlos axilares incipientes. Paniculo adiposo regularmente desenvolsi'^'^
distribuido.
2
J- I. Lobo & Lucia.no Décourt — Novas observações sôbre o diabete
insípido
277
Boca: Dentes mal cooservados.
Mamas: Desenvolvimento de acordo com a idade; desde os 12 anos.
jip. circulatório: nada de particular. Pulso 78. T. art.: 120 X
Beação de IK.: negatis-a.
Urina: vol. nas 24 horas: 8-9 litros. Densidade: 1004.
Essas observações não requerem maiores comentários, a não ser na parte
feferente aos distúrbios menstruais. É interessante assinalarmos que os três
Osos de diabete insipido em mulheres revelam perturbações menstruais. No
Qso C. C-, referido em trabalho anterior, existiam períodos de amenorréia
<lue dura\’am 3 a 6 meses, sendo que essas anormalidades data\*am de 10 anos.
Nos dois casos presentes, caso I (J. D.) e o caso III (L. S.) também consta-
támos irregularidades menstruais ; no caso I é digno de nota o fato de a amenorréia
ter-se instalado ao mesmo tempo que o início da doença e ter perdurado até o
presente. No caso III, a paciente foi menstruada somente duas vézes após a me-
ttarca, sendo que a última menstruação sobreveio precisamente há 1 ano. Se
l>cm que essas perturbações menstruais sejam extraordinariamente frequentes,
procurámos apenas salientar o fato da sua existência em todos os trés casos
úe diabete insipido em mulheres, deixando para o futuro a sua explicação; tra-
tar-se-ia de simples coincidência ou até que ponto o distúrbio diabético poderia
•nfluir sôbre o ciclo menstrml?
Em vista dos magníficos resultados obtidos, nos dois casos do trabalho an-
terior, com o emprégo do p>ó de hipófise posterior bovina, em inalações, essa
*ubstância foi imediatamente empregada nos trés presentes casos. Confirmando
» já conhecida efidéneia dessa terapêutica houve, desde o inído, acentuada re-
tlução da poliúria e de outros sintomas, como se pode verificar pelo esquema
abaixo :
Antn do tratannito
Em tralamcnlo
Diamc
Densidade
Diarree
Densidade
^450
I ....
8 litros nas
24 horas
1005
2 papeis ao dia. de pó
lobo post. de hypófises
bovinas (20 nig rada)
1.5 litros nas
24 horas
1021
C»So
II ...
15 litros nas
24 horas
1005
r*
4.5 litros nas
24 horas
1009
III ..
9 litros nas
24 horac
1004
••
1.5 litros nas
24 horas
1018
A normalização da diurese foi acompanhada de sensação de bem estar e
^ desaparecimento da polidipsia, como era de se esperar, pois, esta é secun-
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
278
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
dáría, sendo a poliúria o fenômeno primário. Os pacientes que, em geral, não
conseguiam dormir a noite toda, forçados a acordarem para urinar e ingerir
água, passavam a não urinar siquer uma vez durante a noite, o que muito coo-
tribuia para a euforia apresentada durante o tratamento.
Na observação desses pacientes (os 3 presentes e os 2 anterior) tivenW*
ocasião de observar alguns itens de particular importância e que veremos 2
seguir :
1. Resistência ao tratamento — No caso 2 (C. C.) do trabalho anterior,
o uso de 3 papeis diários, de 16 mg cada, de hipófise posterior bovina, mantinha
a excreção urinária, durante as 24 horas, mais ou menos entre 2 a 3 litros e a
paciente livre de sintomas desagradáveis. Com o uso continuado dessa medi-
cação notou-se, após algims meses, que a diurese começa\'a a elevar-se, como
pode ser verificado no esquema anexo:
Tratamento
DaUs
Dinrrse nas 24 b.
3 papeis dc pó de
hipófise diários . .
16.6.941
16.9.941
24.2.942
2 a 3 litros
5 a 6
6
4 papeis
21.9.942
5.5 litros
Constata-se, assim, que no período de 8 meses a diurese aumentou de 2 *
3 litros para 6 litros, com o emprego de um mesmo número de papeis dc P®
de lobo posterior,
Se bem que em certas ocasiões a paciente se apresentasse resfriada, podendo,
portanto, o aumento da diurese, nessas condições, correr por conta de uma dÜ'"
culdade na absorção do pó pela mucosa nasal, em outras êsse fator não poud*
ser invocado.
Rutherford e Gríffith (2) verificaram a existência, no sôro de um pacicnt*
com diabete insipido, de uma substância que inibia a ação antidiurética dos
tratos de lobo posterior de hipófise. Trata>a-se de um caso de diabete insip*d®
transitório, sendo que em 2 casos de diabete insipido crônico essa substãnc»*
não foi encontrada no sôro dos pacientes. No caso presente pudemos verifi^
uma resistência ao tratamento, aparecendo após algum tempo (10 meses), *
que não foi ainda convenientemente explicada, estando, todavia, sendo fc>‘®*
estudos experimentais com o sôro dessa paciente em comparação com sôro
indiríduos normais, cujos resultados serão publicados mais tarde.
4
J. l. I^BO & LfcuNO Décolrt — Novas observações sobre o diabete
insípido
279
Procurando ainda verificar se essa resistência não estaria ligada a um dis-
túrbio da absorção nasal, fizemos injeções de Pitressin Parke Davis (duas ao
dia), que, apesar de serem seguidas de reações desagradáveis, não determinaram
redução na quantidade de urina eliminada nas 24 horas.
2. Tanato de pitressina — Os efeitos desagradáveis das injeções de Pi-
tressin para tratamento do diabete insipido são vários e bem conhecidos. Assim,
as reações locais, as cefaléias, cólicas intestinais, palidez, etc., ao lado de seu
efeito fugaz, durando apenas poucas horas e exigindo o emprego de várias (3
a 4) injeções diárias para controle dos sintomas, tomam o tratamento difícil
de ser mantido. Greene e Januarj* (3) procuraram afastar a maioria desses in-
convenientes com o emprego do tanato de pitressina, em óleo, que, s^undo aque-
íts autores, não apresentaria as desvantagens do Pitressin e teria ação prolon-
gada, perdurando seus efeitos pelo espaço de 30 a 82 horas. As observações
de Greene e Januarj- foram, posteriormente, corroboradas por Stephens (4) que,
com uma única injeção désse preparado, obteve efeito antidiurético pelo espaço
de 24 a 96 horas, e por Thom e Stein (5) que, em três pacientes, com uma só
injeção, controlaram a poHúria e polidipsia, por um período de 24 a 48 horas.
Êsises autores observaram ainda que a administração continuada de quantidades
excessivas de tanato de pitressina em óleo provocav-a o aparecimento de sinais
de intoxicação aquosa. Êste último fato também foi verificado por Blotner (6),
'lue constatou ser a injeção diária seguida de efeito antidiurético acumulativo,
diminuindo o volume urinário abaixo da média normal. Observou, ainda, cm
*eus sete casos, a duração do efeito antidiurético, que variou de 48 a 60 horas;
botou, também, aumento na salivação e melhora do apetite e da digestão. Não
^ouve reações secundárias desagradáveis, tais como irritação local, palidez e có-
licas intestinais. Em nosso trabalho anterior já tínhamos pensado em empregar
'ssa substância, mas, dadas as dificuldades da obtenção do tanato de pitressina
briginal de Parke Davis, foi o mesmo preparado na Seção de Endocrínologia
Instituto Butantan, a partir do "Pitressin” por predpitação com ácido tâ-
bico. O precipitado séco em acetona era susjjenso em óleo de sésamo. Nessas
'^dições, como então assinalámos, por partir-se de pequena quantidade, não
^ possível obter-se uma suspensão ativa e os resultados foram insatisfatórios.
Posteriormente, conseguimos obter algumas empolas do tanato de Pitressin
Parke Davis. Dado o pequeno número de empolas disponível só foi possível
emprégo, por pouco tempo, em apenas 2 casos (J. D. e C. C.). Os resulta-
'^•>5 podem ser apreciados no esquema abaixo:
cm
SciELO
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280
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Caso I — J. D.
Terapfotica
Diurese nos 24 bs.
Densidade
Observação
Sem tratamento
8-9 litros
1005
—
24 a 25 = 1 litro
passa bem
Injeção de 1 emp.
25 a 26 = 1 litro
1022
ft ••
de tanato de Pi-
26 a 27 = 2 litros
*» f«
tressina em 24-8-42
27a28= S.S "
1007
polidipsia noturna.
boca sêca
Injeção de 1 emp.
28 a 29 = 1 litro
1026
passa bem
de t. P. P. D. em
29 a 30 = 2 litros
—
n rt
28-8-42
30 a 31 = 9 ”
1003
mal estar
Paciente C. C. (Caso II do trabalho anterior)
Terapêutica
Diurese nas 24 ba.
Densidade
Sem tratamento
á: 17 litros
1001
3-9-942
3 a 4 = 3 litros
1020
1 injeção de tatano
4 a 5 = 5 "
—
de Pitres. Parfce
5 a 6 = 13 "
1005
Davis
6 a 7 = 16 ”
1002
Tivemos, assim, a oportunidade de, proravelmente, pela primeira vêz, cO'
tre nós, observar os resultados do tratamento do diabete insipido com o tanat®
de Pitressina. Os resultados obtidos concordam, in totum, com os obser%‘ado*
pelos autores já citados. Não houve, a não ser uma única vez, reação local *
os outros inconvenientes (palidez, cólicas intestinais, etc.) do Pitressin foram
períeitamente afastados com o emprêgo do tanato. Entretanto, a maior «nta-
gem dêste tratamento reside no fato de se poder controlar todos os sintomas «i®
diabete insipido com injeções feitas a longos intervalos.
A duração do efeito antidiurético de uma única injeção \'ariou em nosso*
casos de 48 a 72 horas. Em relação â densidade urinária, sua ação é notável*
em um dos casos (C. C.) a densidade, que era antes do tratamento 1001, subm
nara 1020. Com o tanato de Pitressina cons^ue-se, pois, manter normais *
diurese e ingestão de água, em pacientes com diabete insipido, de modo tão sa'
6
J. I. Lobo & Llxiano Décourt — Novas obsenxções sobre o diabete
insípido
281
tisfatório e simples como talvez não se obtenha com nenhum outro processo
terapêutico.
3. Hipófises humanas — Tendo sido sempre por nós empregado o pó
íeito a partir de hipófises bovinas, tentámos comparar o efeito antidiurético de
outras hipófises com o das adma citadas. Experimentalmente, Ananias Por-
to (7) já constatou o notável efeito antidiurético de hipófises humanas. Está
claro que tivemos intúito puramente especulativo, pois, essas hipófises nunca
poderiam constituir fonte fádl e abundante para preparo do pó. O efeito anti-
diurético foi ligdramente inferior ao da hipófise bodna; no paciente W. N.
— Caso I do nosso trabalho anterior — em que foi empregado, na dose de 3
papeis diários, a diurese, nas 24 horas, foi de 1 litro. Idêntico resultado obti-
uha-se, nesse padente, com o emprégo diário de 2 ou mesmo 1J4 papeis de pó
de hipófise bodnas. Com o uso de apenas 2 papeis de pó de hipófises humanas
o padente sentia muita séde e não havia perfeito controle da sua diurese.
4. Vias de introdução — O uso intranasal do pó de hipófise posterior,
cin nossa experiência, mostrou constituir um processo bastante satisfatório, por-
quanto evita o emprégo de injeqõcs e pode ser facilmente repetido várias vêzes
^ dia. Os efdtos são, entretanto, de pequena dura<;ão e às TCzes o paciente
torna-se sensivel ao pó assim inalado, apresentando fenômenos de irritação na-
^1, espirros e aumento da secreção mucosa, que tomam a absorção, por essa via,
difidl, irregular e diminuta.
Diante dêsse fato procurámos verificar se outras das de absorção pode-
riam ser utilizadas. Primeiramente fizemos uma suspensão do pó em álcool e
Cítperimentámos a absorção pela mucosa gengival na paciente J. D. (Caso I).
A diurese, fóra de qualquer tratamento, era, nesse caso. de 8 litros e a densidade
1005. Durante o período cm que a paciente fez uso dessa suspensão alcoólica,
* diurese foi de 7.5 litros e a densidade 1001. Não houve, pois, qualquer me-
lhora apreciável de modo a autorizar o emprégo rotineiro dessa via; pelo con-
trário, quasi não houve \-aríaçâo consistente entre os periodos com e sem tra-
tamento.
No caso II (C. C.) do trabalho anterior também experimentámos da quasi
*<lêntica. Nesta paciente a suspensão alcoólica foi posta, ao invés de nas gen-
givas, debaixo da lingua, onde, dada a rica rede «scular, podería haver absor-
to e efeito satisfatórios. Tal, no entanto, não aconteceu. diurese que, sem
^tamento, v^ariava de 9 a 10 litros nas 24 horas foi a 12 litros, tendo a densi-
*l*de se conservado muito baixa (1001).
Foi tentada, então, a administração por via oral, dando-se o pó em cápsu-
^ gelatinosas, apesar de saber-se que, certamente, não se obteria resultado sa-
*r*íatórío. .\dmitindo-se a priori uma sensivel destruição do p>ó no trato gastro-
cm
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10 11 12 13 14 15 16
282
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
intestinal, administrou-se quantidade 3 vezes maior do que que a usada por
nasal. Xos dois casos (J. T. e \V. X.)em que foi utilizada essa \-ia, os resul-
tados foram nulos.
5. Outras fontes de preparo do pó — Em virtude da íntima conexão íu®'
cional entre o lobo posterior da hipófise e o hipotálamo, tentou-se também co-
nhecer a atividade antidiurética de pós fabricados a partir do hipotálamo. Xa
Seqão de Endocrinologia do Instituto Butantan foram preparados, então, dois
tipos de pós de hipotálamo; um fabricado a custa da porqão hipotalámica jus-
taposta à haste hipofisária e outro a partir de porções hipotalámicas situadas
mais afastadas da hipófise. Com qiuilquer um desses pós, por inalação, não se
obteve efeito antidiurético.
RESUMO
Os autores apresentam o resultado de novas observações acerca do diabete
insipido, realizadas em 5 pacientes, que podem ser assim sintetizadas:
1. ®) O pó de hipófise posterior bovina, em inhalações, mostrou-se ativo
nos 5 casos.
2. ®) Em um caso, após 10 meses de tratamento, houve diminuição do
efeito antidiurético que parece correr por conta de uma resistência ao tratamenta
estando sendo feitos estudos experimentais para elucidação do caso.
3. ®) O tanato de pitressina, usado em 2 casos, revelou ser ótimo agente
terapêutico no tratamento do diabete insípido, perdurando seu efeito antidiurc*
tico pelo espaço de 48 a 72 horas.
4. ®) Pós obtidos a partir de hipófises humanas revelaram apreciável efc>*
to antidiurético, si bem que inferior ao verificado com o uso do pó de hip®"
fise bovina.
5. ®) A tentati\'a feita para aproveitamento de outras vias de absorção (g^*
gi\-al, lingual e oral) que não a mucosa nasal não foi coroada de êxito.
6. ®) Pós obtidos a partir do hipotálamo (zonas próximas e afastada*
da hipófise) também não revelaram efeito antidiurético.
ABSTRACT
Xew observations were made on 5 cases of Diabetes insipidus which ca®
be summarized as follows:
1. Inhalations of powdered bovine posterior hipophysis proved active i®
all the patients.
cm
SciELO
0 11 12 13 14 15 16
■I- I. Lobo & Luclkno Découkt
Novas observações sõbre o diabete
insípido 283
2. In one case, after a 10 months treatnient, a decrease of the anti-diure-
tic effect was stated which seems to be due to a resistence against the treatment,
cxperiments being carried on to elucidate this problem.
3. Pitressin tannate in oil, employed in two cases, proved an optimum
^erapeutic agent, its anti-diuretic effect lasting from 48 to 72 hours.
4. The powders from human hypophysis showed a considerable anti-diu-
fetic effect, in spite of being inferior to that obtained snth the use of powder of
líovine hypophysis.
5. Any attempt of using other routes of absorption (gingival, lingual and
Oral), excepting the nasal mucosa, was insuccessful.
6. Powders prepared from the bovine hj-pothalamus (regions proximate
*nd distant from the hs^pophysis) also did not present any anti-diuretic effect.
BIBLIOGR.AlFIA
1. Lobo, J. I. & Dicourt, Lucíoho — Mem. Inst. Butantan 15 : 37.1941.
2. Ruihtrford, R. B. & Criffith, Jr., J. Q. — J. Oin. Endoc. 1:916.1941.
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Stfphens, D. /. — J. Oin. Invcst. 20 : 463.1941 apuá. J. Amer. Mcr. Assn. 119:995.1942.
5. Thom, G. \V. <5- Stcin, K. E. — J. Qin. Endoc. 1:680.1941.
6. B/otnfr, H. — J. Amcr. Med. Assn. 119 : 995.1942.
'• Porto, A. — Comunicação pessoal. •
(Trabalho a Scçio de Endccrino*ocia do Jrttitoto Bctantao.
Entrccoc para pubitcaçlo em tiorembro de 1942 e dado
4 publicidade em fereretro de 1942).
cm
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SÔRO ANTI-RICKETTSIA NA FEBRE MACULOSA
EXPERIMENTAL
POR
J. TRAVASSOS & A. VALLEJO-FREIRE
As pesquisas preliminares de Nicolle e Conscil (1), confirmando exj>eri-
nientalmente a já então presumida aqão prevcntira dos sôros de convalescentes
de tifo exantemático, deram margem a ser julgado possivel o preparo de sôros
Hiperimunes capazes de prevenir ou mesmo curar a infeqão no homem. Não
foi no entretanto possivel obter sôros eficientes, em animais de grande porte.
Todas as tentativas feitas nesse sentido por Nicolle e colaboradores (2), usando
como antigenos vinis-tecido morto ou vivo (sangue ou órgão de animais de
iaboratório infetados), não deram resultado satisfatório.
Ante êsse insucesso, chegou-se a acreditar que as propriedades protetoras
só se desenvolveriam no sôro de animais sensiveis ao virus. nos quais a infeção
lífica é do tipo febril (homem, macaco, cobaia), não se as evidenciando nos
sôros de animais insensiveis e nem mesmo naqueles que sofrem uma infeção
do tipo inaparente (rato, coelho) (3).
Duas condições seriam, assim, indispensáveis para o preparo dos sôros hi-
I^rimunes: a) animal sensivel ao virus e que apresente uma infeção do tipo
febril e b ) virus-tecido ^^vo.
O asno, talvez .seria o animal de grande porte, de escolha para o preparo
de anti-sóro, pois. confonne demonstraram Nicolle e Conscil (4). êle apresen-
taria uma infeção do tipo febril.
Embora as pesquisas iniciais de Rocha Lima (5) stibre a possibilidade de
imunizarem animais contra o tifo experimental, usando-se como \-acinas cmul-
*ôes ricas em rickettsias mortas (fcnoladas) oriundas de piolhos infetados, ti-
'‘csscm sido desde logo confirmadas por Weigl (6) c Weil e Breinl (7) c in-
firmadas por Doerr e Schnabel (8), alguns autores preferiram antes emprestar
Propriedades especiais ao que chamaram “rirus-piolho” (poder antigênico quan-
do morto, aglutinação pelo sôro de convalescentes, produção de aglutininas
P^ra o Proteus X19). do que aceitar definitivamente a Rickettsia Proivaccki
^Omo agente etiológico do tifo exantcntático europeu. O problema ficou cm
*'í'penso mesmo depois da aplicação das vacinas de Weigl (9) e de Si>encer-
cm
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286
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Parker (10) ao homem, \-acinas estas preparadas com triturados fenolados de
piolhos ou de carrapatos infetados; modificou-se no entretanto definitivamente e
tomou a orientação inicial de Rocha Lima, quando se obtiveram culturas de
rickettsias em tecido pelos métodos desenvolvidos principalmente por Oara Xigg
e I^ndsteiner (11), que tomaram possivel mantê-las ininterruptas durante tres
a quatro anos sem perda de virulência e antigenicidade.
Zinsser e colaboradores (12) lograram prorar a possibilidade de se vacinar
animais, usando como antigenos grandes quantidades de rickettsias mortas, obti-
das não nos artrópodos transmissores, mas em raginais de cobaias infetadas.
Tatos irradiados com raios X ou em culturas de tecidos. Foi igualmente po»'
sivel preparar sôros hiperimunes com ricktettsias formoladas.
Procurou-se desde logo obter grandes quantidades de rickettsias que ser-
viriam como antigenos não só para obtenção de \-acinas, como para imunização
de animais, afim de se prepararem sôros hiperimunes. As culturas em tecidos
nas mãos de Zinsser e seus colaboradores (13) deram resultados promissores;
de Co.x (14) na vitelina de embriões de galinha são. no momento, o meio mais
prático de obtenção de rickettsias em larga escala. O grande número de rickett-
sias obtido por meio de pneumonias e.xperimentais. método sugerido por Castanc-
da (15) e experimentado por Durand e Sparrow (16) serviram não só para ésses
autores, como para Durand e Balozet (17) estudarem o preparo de uma
cina e de sôros hiperimunes.
Relati\amente ao preparo de sôros hiperimunes contra a febre maculosa, ss
tentatiras preliminares de Ricketts e Heincmann e as de Heincmann e Moore (iS)
não foram promissoras, dado que usaram como antigenos sangue de cobaias m*
fetadas.
Iremos Monteiro, em 1931 (19), relata as suas primeiras tentatiras para °
preparo de sôro hiperimune em carneiro inoculado com raspados de vaginais o**
lavadura peritoneal de cobaias infetadas, nos quais se encontravam rickettsias
regular número. Verificou Lemos Monteiro que êsse sôro possuia algum podef
protetor pela neutralização que exercia sõbre o virus tn vitro. Igualmente cons-
tatou que em sôro de um carneiro inoculado com emulsões de cérebro de cobai*
infetada ésse poder era nulo. Xesse trabalho. Lemos Monteiro se propunha. ^
maneira de Zinsser, usar novos métodos de enriquecimento de rickettsias ín
e empregar, também, como antigenos, triturados de carrapatos infetados, méto-
dos pelos quais é possível obterem-se rickettsias em grandes quantidades.
Em 1940, Topping (20) consegpiiu obter sôros hiperimunes de coelhos io'
oculados com triturados de carrapatos infetados, nos quais evidenciou propne*
dades curati^-as satisfatórias.
Tendo o nosso laboratório conseguido a criação, em larga escala. ^
Amblyomma cajennense infetados e que se destinam ao preparo da \-acina contf*
o
J. In-WASsos Si A. Vallejo-Fkkire — Sôro anti-rickettsia na febre raacu-
losa experimental
287
a febre maculosa em S. Paulo, foi possível agora prosseguir as experiências ini-
ciadas no Instituto Butantan por Lemos Monteiroí usando-se como antígenos tri-
turados de carrapatos infetados, muito ricos em rickettsias, para o preparo de
sõros hiperimunes.
Xeste trabalhe descreveremos as nossas obserraqões preliminares .sôbre
n preparo em coelhos de um sôro contra a febre maculosa e estudaremos seus
efeitos preventivo e curativo.
Em futura publicação, trataremos da possibilidade de obter êsses soros
eni carneiros, cabras e ca\-alos, bem como de certas questões relativas ao seu
mecanismo de ação propriamente dito. ^
TÉCNICA
Utilizamos coelhos primeiramente inoculados com virus-sanguc de cobaia
e que, além de servirem para a alimentação de Amblyomma cajcnncnsc adul-
fos infetados que se destinam ao preparo da \acina contra a febre maculosa,
foram, posterionnente, por \árias vêzes, picados e inoculados com emulsão de
intestino de novos I.xodidas, também infetados. Assim, em coelhos previa-
niente inoculados com virus-sangue de cobaia, colocavamos, por meio tle dis-
positivo especial, duzentos carrapatos adultos infetados previamente nas fases <le
larva e ninfa, de modo a permitir uma alimentação parcial desses exemplares. Dc-
Pois de cuidadosa remoção dos carrapatos que eram separados jara o prejaro
'la tacina. os coelhos entratam cm repouso, .\ixis dois mêses. os ix)ucos
®n'mais sobreviventes sofriam novas c repetidas sucções de outros pequenos
lotes de I.xodidas infetados. Retirados esses carrapatos jarcialmente alimen-
tados c. decorridos 8 dias, eram êles triturados e inoculados por via subaitânca
nesses mesmos coelhos, para o que se procedia da seguinte fonna: apõs rápida
*lesinfcção da carapaça externa por meio de éter, os Ixodidas eram cuidadosa-
tnente abertos, cortando-se com tesouras finas os bordos laterais da carapaça;
afastada a parte dorsal da parte vcntral, retira\-a-se com pequena espátula o
Conteúdo interno formado na sua maior parte pelos intestinos, ria de regra
•nuito ricos cm rickettsias. O material assim obtido era finamente triturado c
•tiisturado com solução salina, para cm seguida ser inoculado nesses mesmos
^nelhos.
.V inoculação désse material foi repetida no minimo quatro vêzes antes do
•nicio das sangrias, que se sucederam após noras reinoculações de quantidades
^cscentes de triturados de I.xodidas, até atingir o máximo de quinze por coelho,
^^seguimos ultimamente aumentar o número de coelhos que resistem a essas
•noculações, assim como à longa permanência nos compartimentos do bioterio,
^*zctido cuidadosa alimentação enriquecida com óleo de figado de cação, con-
cm
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288 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
tendo no mínimo 2.000 unidades de s-itamina A por ml. além de vitamina D.
A colheita do sangue era feita por punção cardíaca, retirando-se cada vei
20 ml de sangue, aproximadamente. Os sôros, após permanência na geladeira
por uma noite, eram centrifugados e misturados, procedendo-se depois à filtração
em discos Seitz EK. Acumulamos como resultados de várias sangrias, dois lotes
de sôro anti-rickettsia. O primeiro lote, que denominamos A, de cêrca de 200
ml, é a mistura dos sôros obtidos das primeiras sangrias; o outro lote, B, irunr
total de cêrca de 350 ml, ê proveniente da mistrura de sôros obtidos nas últi*
mas sangrias.
Com uma pequena quantidade dessa mistura procuramos, como fez Top-
ping, concentrar o sôro anti-rickettsia pelo método de Felton, mas essas expe*
riências preliminares não nos mostraram resultados satisfatórios. Emprega*
mos, assim, em nossas pesquisas, somente sôro in tiatura, não concentrado.
As cobaias usadas em nossas experiências foram sempre cuidadosamente
escolhidas, procurando-se usar lotes de animais, de peso aproximadamente igual
e proveniente do mesmo biotêrio de criação. Sempre que possível, usamos excrn*
piares machos com o fim de facilitar a observação das reações escrotais. Êsses
animais em exp>eriência eram mantidos, cada um, em compartimento isolado <1^
nosso biotêrio, alimentados do mesmo modo e suas temperaturas tomadas
mesma ocasião.
O nuterial infetante utilizado nestas investigações era constituído de san-
gue citratado de cobaias infetadas, colhido por punção cardíaca no segundo
ou terceiro dia da reação térmica. Em quasi todas as experiências, a quan-
tidade de sangue a se utilizar era superior a que se pwleria obter de um único
animal. Previsto o tipo de experiência e a quantidade de virus-sangue ne-
cessária, inoculáramos previamente várias cobaias com virus de passagem <1^
um mesmo animal, sendo estas posteriormente sangradas no dia e.xato c ^
mistura de seus sangues usada para inocular as cobaias de prora. Provas
esterilidade do sangue afastaram a possibilidade de contaminações eventuais.
As nossas experiências podem ser assim resumidas;
A) Xcutralhação "in vitro”.
1 . Mistura de sôro e virus e inoculação após 30 minutos de contacto, pc*"'
manecendo a mistura durante êsse tempo à temperatura ambiente.
2. Mistura de sôro e rirus e inoculação após 30 minutos de contacto, pc*"'
manecendo a mistura durante êsse tempo à temperatura de 37° C
3. Mistura de sôro e virus e inoculação após permanência no frigo
uma noite.
•t
J. Tbwassos & A. Vau-ejo-Freire — Sôro anti-rickettsia na febre niacu-
losa experimental 289
B) Neutralização "in vivo".
1. Mistura de sôro e virus e inoculação imediata em cobaias.
2. \'irus por via peritoneal e sôro por \-ia subcutânea.
3. \'irus por \-ia subcutânea e sôro por \-ia peritoneal.
C) Ação preventiva.
1. Cobaias inoculadas com o sôro são infetadas em diferentes períodos
com o virus.
D) Ação preventiva no período de incubação.
1 . Cobaias infetadas recebem o sôro em diferentes dias antes da rea-
ção térmica.
E) Ação curativa.
1. Coliaias infetadas recebem o sôro uma ou mais vezes cm diferentes dias
da reação térmica.
RESULTADOS
A) Neutralização “in vitro’
Xuma exei>eriência preliminar procuramos avaliar a capacidade de neutra-
lização do virus pelo nosso sôro. Assim, quantidades v^ariáveis do sôro foram
*nisturadas a 0.5 ml de um virus-sangue de cobaia, titulado no mesmo momen-
lo. Êsse virus demonstrou segura atividade até na diluição de 1 para 100, po-
dcndo-sc, por ésse modo, presumir que naquela dose de 0.5 ml usado na exj)e-
ríência, tinhamos no minimo 50 doses infetantes. Os resultados obtidos de-
•iirmstraram que o nosso sôro era capaz de proteger 50^0 tias colaias de prova,
^ dose de 0.1 ml. Essa experiência serviu-nos para orientar as doses de sôro
® serem usadas nas experiências ulteriores.
1 . Mistura de sôro e virus e inoculação após 30 minutos de contacto à
temperatura ambiente.
Quatro cobaias foram inoculadas, duas por via subcutãneii e duas por via
peritoneal, com 1 ml da mistura em partes iguais de sôro anti-rickettsia e virus-
sangue obtido de coliaia infetada e em plena reação febril. A mi.stura. antes
ser inoculada, permaneceu por ^ minutos à temperatura ambiente. Duas
®utras cobaias testemunhas foram inoculadas na mesma ocasião com 1 ml cb
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI -
mistura em partes igimis de sôro de coelho normal e virus-sangue, nas mesnus
condi qões.
O Gráfico No. 1 mostra os resultados obtidos, observando-se completa pro-
teqão das cobaias inoculadas com a mistura sôro anti-rickettsia-virus. As tes-
temunhas reagem febrilmente, mas sobrevivem.
Oráftco Nq. 1
.•\s cobaias de prova mostraram-se imunes quando posteriormente inocub'
das com virus seguramente ativo, como evidenciam os gráficos das testcniU'
nhas do virus usado na reinoculação.
2. Mistura de sôro-iirus c inoculação após 30 minutos de contacto à
peratura de 37° C.
Duas cobaias foram inoculadas com 1 ml da mistura sôro anti-rickettsia-vit'*^
nas condkjões acima e. duas outras, testemunhas, foram inoculadas com a mistuf*
sôro nonnal-virus, tm idênticas condições.
G
■J. Travassos & A. Vallejo-Freire — Sõro anti-rickellsia na febre macu-
losa experimental
291
No mesmo Gráfico No. 1 as cobaias que receberam o sôro anti-rickettsia se
tnostram perfeitamente protegidas, enquanto que uma das testemunhas apresenta
tea<;ão fraca e sobre\-ida. Ambas cobaias de prora foram posteriormente reino-
Cüladas, mostrando-se perfeitamente imunes ao virus de passagem.
3. -Mistura de sôro e znrus e inoculação após permanência no frigo por
uma noite.
Quatro cobaias foram inoculadas com mistura sôro anti-rickettsia-virus que
permaneceu na geladeira a 2.® C. durante 15 horas. O Gráfico No. 1 mostra a
completa prote«;ão das cobaias que receberam o sôro anti-rickettsia e, quando
posteriormente reinoculadas com o virus de passagem, uma imunidade satisfa-
tória. As testemunhas apresentaram, também, infeções ligeiras e sobreviveram.
As experiencias do Gráfico No. 1 ficaram aparentemente inconclurivas. O
'^rus usado nas misturas que permaneceram quer por 30 minutos na tempera-
tóra ambiente, quer por uma noite na geladeira, aparentemente não estavam em
Condições satisfatórias de virulência, pois as testemunhas que receberam a mis-
*ura sôro normal-virus, não reagiram convenientemente.
Entretanto, o fato das cobaias de prova mostrarem uma sólida imunidade
*pós a reinoculação de virus de alta virulência, o que contrasta com o que se
observa em geral na prática, chamou a nossa atenção. Como não tivéssemos
frito testemunhas do virus-sangue utilizado, sem mistura in vitro com o sôro de
Coelho normal, precisavamos inicialmcnte saber si, na realidade, haviamos tra-
l*tlhado com virus pouco ativo ou si o sôro normal, naquelas condições das
•bisturas, era capaz de por si só atenuar a virulência do virus. Procuramos
'^cri ficar, então, si o mesmo fato se repetiria cm nova experiência, tanto mais
tóteressante quanto se observa no Gráfico No. 3 que as cobaias testemunhas —
■boculadas com sôro normal-virus imediatamente após a mistura — não mos-
haram um comportamento semelhante.
No Gráfico No. 2 vêm-se os resultados da repetição dessas experiências que
risaram esclarecer essas dúvidas. Assim, as duas cobaias testemunhas, 15.488
' 15.489, inoculadas somente com o virus, uma por via subcutânea c outra
Por via peritoneal, mostraram infeção tipica.
Duas outras cobaias que testemunharam a ação das temperaturas a 37° C.
Por meia hora e 2.° C por 15 horas (cobaias 15.490 e 15.491) mostraram tam-
f*rin infeção e incubação tipica, excluindo dêsse modo uma possível ação des-
temperaturas sobre o virus em experiência. Ao contrário, as cobaias tes-
tóniunhas da mistura sôro normal-virus e permanência a 37° C por 30 minu-
tós ou permanência a 2° C por 15 horas, confirmaram o fenómeno observado na
^periência anterior, isto é, uma certa ação do sôro normal de coelho sôbre o
'^rus-sangue de cobaia infetada, quando mantidas as misturas em contacto du-
cm
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■292 Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
rante algum tempo, antes da inoculação nos animais de prova. As testemu-
nhas da mistura sôro normal-\-irus imediatamente inoculadas — Gráfico Xo. 3 —
e, também, as testemunhas Xos. 15.484 e 15.487, nas quais o soro normal to*
injetado por via diferente da do virus — Gráfico Xo. 2 — , mas na mesm»
ocasião, dizem-nos que esta ação de neutralização parcial do sôro normal sobre
'AÇÃO PROTETORA DO
5ÕRO
ANTI-RICKETTSIA
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Gr&fico No. 2
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■o virus não se manifesta in tiVo, evidenciando-se, porém, somente, após pré''*'^
<ontacto «« litro, por detenninado tempo.
Si aquelas experiências de ação protetora do sôro anti-rickettsia ficam
êsse fato, em parte, prejudicadas, contudo, não se pode negar uma definiti'"®
ação de neutralização, pois não só as cobaias de prova do Gráfico Xo. 3. cotU^’
ainda as cobaias, de prora (15.842, 83, 85 e 86 do Gráfico Xo. 2) da aÇÚ'’
protetora in zizv do sóro anti-rickettsia, em que êste foi inoculado por via
ferente do virus infetante, mas no mesmo momento, esclarecem de modo defitt*'
tivo essa neutralização e e.xcluem qualquer interferência que o sóro normal
8
J- TawAssos & A. Vallejo-F'ri;ire — Sòro anti-rickettsia febre niacu-
losa experiraental
293
sa exercer, o que, aliás, só foi obserrado nas experiências de mistura sòro nor-
*>ia]-virus, com permanência mais ou menos prolongada tn zitro.
Em trabalho ulterior descreveremos experiências atualmente em andamento
<lue \-isam esclarecer êsse fato.
A julgar pelos resultados dessas experiências, o sòro anti-rickettsia apre-
senta um eridente poder neutralizante in n'/ro.
B) Neutralização “in vivo”.
1 . Mistura de sòro e vírus e inoculação imediata.
Quatro cobaias foram inoculadas com 1 ml da mistura em partes iguais de
*ôro do lote A e virus-sangue, imediatamente após a mistura, sendo que duas
eobaias por ria peritoneal e as duas outras por via subcutânea. Como teste-
biunhas, duas cobaias, receberam 1 ml de uma mistura em partes iguais de virus
' sóro de coelho normal, uma por via peritoneal e outra por via subcutânea.
Xo Gráfico Xo. 3 podemos ver os resultados. .As cobaias que recel>eram
® mistura sòro anti-rickettsia-virus não reagiram febrilmente e. posterionnente,
<luando rcinoculadas com virus-sangue de passagem, mostraram-se imunes. .As
*luas cobaias testemunhas, inoculadas com a mistura sòro noniul-virus, não só
*‘cagiram febrilmente, como morreram de febre maculosa, apresentando espleno-
‘^tegalia e reação escrotal típica.
Gráfico Xo. J
2. Firus por ria pcritoiuaí e sòro por via subcutânea.
Duas cobaias receberam 1 ml de sóro anti-rickettsia por ria subcutânea e,
mesmo momento, 1 ml de virus-sangue por ria peritoneal. A testemunha foi
*toculada nas mesmas condições com 1 ml de sóro normal. O Gráfico Xo. 2
**^stra os resultados favoráveis dessas experiências: as cobaias de pro\"a foram
Protegidas enquanto que a que recebeu sóro normal apresentou reações típicas e
‘‘'Qrreu da infeção.
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Memórias do Inslituto Butanlan — Tomo XVI
3. Virus por ina subcutânea e soro por via pcritoncal.
Duas cobaias foram injetadas com 1 ml de %-inis-sangue por via subcutâ-
nea e, na mesma ocasião, receberam 1 ml de sôro-anti-rickettsia por \-ia pe*^'
toneal. O Gráfico Xo. 2 mostra-nos que somente uma das cobaias revelou uni»
pequena altera<;ão de temperatura após o longo período de incubação de 16 dias-
Sacrí ficada, mostrou lesões de febre maculosa de pequena intensidade. A outr»
cobaia de prora não demonstrou nenhuma alteração, enquanto que a testemu-
nha, inoculada nas mesmas condições com sôro normal, apresentou reação f^'
bril típica, mas sobreviveu à infeção.
Como se vê pelos resultados dessas experiências, a neutralização do ríru*
se processa, também, in vivo, ainda mesmo quando o sôro e o virus são injeta-
dos por vias diferentes.
C) Ação preventiva.
1 . Cobaias inoculadas com o sôro são infetadas cm diferentes períodos
com o zdrus.
Numa primeira e.\periência doze cobaias foram injetadas com 1 ml de soro
anti-rickettsia do lote A e, posteriormente, decorridas 15 horas, 2, 3, 4, 6, 8, H-
14. 16 e 19 dias. receberam 0.5 ml de virus-sangue por via peritoneal.
— £ VIAUd
Gráfico No. 4
10
J. Ta\\ASsos Jc A. Vallejo-Fheire ■ — Sôro anti>ricketlsia na febre macu-
losa experimental
295
O Gráfico Xo. 4, onde estão e.xpostos os resultados, mostra que somente
a partir de 11 dias após a inoculação do sôro é que as cobaias começam a rea-
gir francamente ao ^^rus, mostrando-se desprotegidas. Pelo comportamento
das testemunhas, cuja maioria apresentou uma infeção típica com morte, po-
de -se deduzir, desde logo que, realmente, o sôro anti-rickettsia apresenta um
nitido poder preventivo.
Uma nova experiência semelhante a esta foi realizada com sôro do lote
sendo que as testemunhas desta experiência foram previamente inoculadas
sôro normal de coelho, afim de ser afastada uma possível causa de erro,
que não tinha sido realizado nas testemunhas da experiência anterior. Assim,
22 colaias foram divididas em dois lotes, as cobaias de um déles receberam 2 ml
de sôro anti-rickettsia e as do segundo lote (testemunhas) focam injetadas com
2 ml de sôro normal. Essas cobaias receberam posteriormente virus-sangue no
5.®, 6.°, 7 °, 8.°. 10.®, 11.®, e 12.® dia, após a inoculação dos sôros.
O Gráfico Xo. 5 revela, em primeiro lugar, a nenhuma influência protetora
do sôro normal de coelho sôbre o desenvolvimento da infeção maculosa. Ao
Contrário, as cobaias que foram presnamente tratadas com o sôro anti-rickettsia,
•bostram segura proteção nos primeiros dias, essa proteção tomando-se irre-
Cráf»co Na S
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
guiar a partir do 7.° dia, apresentando as cobaias ou infeção nitida, como no
caso da cobaia 11.611, ou proteção parcial com alongamento no periodo de íD'
cubação, como nas cobaias 11.613 e 11.615.
Essas experiências preliminares permitem, desde logo, obseraar um nitido
poder preventivo do sôro anti-rickettsia. É claro que elas não podem precisat
o limite de proteção passi\*a do sôro. pois, de um lado, a aarulcncia ^ariável dos
virus inoculados nos diferentes dias não permite uma uniformidade experime**"
tal e. de outro lado, a pequena quantidade de sôro de que dispúnhamos não pcf'
mitiu inocular maior número de cobaias ou usar maiores doses de sôros, dc
modo tal que, para um mesmo dia e com um mesmo virus, grupos de pelo menoS
10 cobaias de prova e outras tantas testemunhas, permitissem uma melhor apre*
ciação dos resultados.
.■Vté que ponto, depois de uma inoculação de virus, o sôro anti-rickettsia ptO"
tege contra a infeção, o item seguinte procura esclarecer.
D) Ação preventiva no período de incubação.
1 . Cobaias infetadas recebem o sôro em diferentes dias. antes da rra(^^
térmica.
Xo item B já se pode considerar estudada a primeira parte desta experiéí>*
cia. isto é. cobaias infetadas pelo \nrus recebem na mesma ocasião sôro anti*
rickettsia por via diferente. Procedemos a novas experiêndas. alongando o e*'
paço de tempo entre a inoculação preliminar do virus e a injeção do sôro.
Xuma primdra experiênda, 1 ml de sôro anti-rickettsia do lote A foi
jetado em quatro cobaias por via peritoneal, 2 e 3 dias após a inoculação do '■’*
rus por via subcutânea. Quatro cobaias testemunhas foram tratacbs nas nic*'
mas condições com sôro normal.
O Gráfico Xo. 6 mostra que. enquanto essas testemunhas revelaram uio*
infeção tipica. morrendo três delas de febre maculosa. somente uma das quatrO
cobaias de prora, a que recebeu o sôro protetor no 3.° dia. apresentou rcaçá<>
térmica, sobrevivendo à infeção.
X'una segunda experiência, sete cobaias inoculadas previamente com vim-'
sangue por via subcutânea receberam após 1 a 7 dias da inoculação do vim^'
2 ml de sôro anti-rickettsia do lote B por via peritoneal. Três cobaias testenm*
nhas. também inoculadas com drus-sangue por da subcutânea, receberam 2 f”*
de sôro normal no 2.®, 5.® e 7.® dia após a inoculação do drus.
Das três cobaias testemunhas, duas mostraram uma reação térmica
longada. mas sobreviveram à infeção, enquanto que a terceira teve uma
ção mortal, mostrando à necropsia lesões tipicas.
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J. Travassos & A. Vallejo-Freire
Sôro anti-rickettsia na febre tnacu-
losa experimental
297
Xo Gráfico Xo. 7 vcm-sc os resultados.
Das cobaias de pro%a as quatro primeiras inoculadas com o sôro anti-ri-
^ttsia do l.° ao 4.® dia, mostraram-se protegidas. .As cobaias inoculadas no
6.® e 7.® dia sofreram una infe<;ão comparável à das testemunhas.
Os resultados destas pesquisas mostram-nos, de modo mais ou menos ní-
a proteção que ainda pode exercer o sôro quando inoculado no período de
'•'cubação e tanto mais eficaz quanto nais precoce fôr a sua aplicação. Èlas são
*^^forçadas pelos resultados de una outra experiência feita no limite desse pe-
hodo, isto é, no 4.® dia ap>ôs a inoculação do vírus, dia em que já a primeira
'^'^ifestação térmica da infeção pode ser observada em grande número de ani-
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Memórias do Instituto Butantan
Tomo XVI
Grifico Nd. 7
mais. Essa experiência, que é descrita com minúcia no item seguinte e cujo*
resultados estão expostos no Gráfico No. 9, mostra, de modo nitido, a
te<;ão eficiente do sòro anti-rickettsia ainda quando inoculado tardiamente ^
período de incubaqão ou mesmo quando a primeira manifestação térmica da *0'
feção é observada.
Êsses resultados, parece-nos, não deixam lugar a dú-vidas sobre o
\aIor profilático do sôro.
14
J. TavvASsos 4 A. Vallejo-Freire — Sôro anti-rickettsia na febre tnacu-
losa experimental
E) Ação curativa.
299
1. Cobaias infetadas recebem o sôro uma ou mais vcces em diferentes
dias da reação térmica.
Numa pesquisa preliminar tomou-se em consideração, para início das ex-
periências sôbrc o poder curativo do sôro, o fato de, nas infeções e.xperimen-
íaii das cobaias, a reação térmica se evidenciar, em geral, a partir do 3° ou
4.® dia da inoculação infetante. Tratando-se de vinis mantido em laboratório
por passagens sucessiras em cobaias e de alta virulência, o período de incubação
raramente se prolonga além do 6.° dia. Assim, lerando em consideração êsse
fato, uma primeira experiência foi realizada com doze cobaias infetadas, por
via subcutânea, com 0.5 ml de virus-sangue. Essas cobaias foram dindidas em
<lois lotes de seis cada um, o primeiro para as provas com o sôro anti-rickettsia
« o segundo, como lote-testemunha, recebendo sôro de coelho normal.
Nas cobaias do primeiro lote, injetou-se diariamente 1 ml do sôro anti-
rickettsia do lote A, duas cobaias a partir do 4.° dia da inoculação do virus e
durante 4 dias seguidos; duas outras a partir do 5.® dia e também 4 dias segui-
dos; e, finalmente, as duas restantes, a partir do 6.® dia e durante 5 dias se-
guidos. -As cobaias do segundo lote, testemunhas, foram tratadas de modo aná-
Jogo, com sôro normal.
O Gráfico No. 8, no qual se vêm os resultados da ação terapêutica do sôro,
tealizada pela administração de pequenas doses sucessi\'as, mostra, já de inicio,
üm grande contraste; enquanto que das seis testemunhas tratadas com sôro
normal somente uma sobreviveu à infeção, das seis cobaias tratadas pelo sôro
15
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
anti-rickettsia somente uma morreu, não mostrando esta última, à necrópsiar
apesar de sua curva térmica ter sido típica de febre maculosa experimental, le-
sões macroscópicas apreciáveis, morrendo de pneumonia secundária. As teste-
munhas. ao contrário, mostraram lesões tipicas e pronunciadas, com uma única
exce<;ão, a da cobaia Xo. 11.261.
Xo que diz respeito ao efeito do sôro sobre a reação térmica, a curva da
cobaia Xo. 11.257, a única que não reagiu febrilmente, pode ser interpretada
ou como uma infeção inaparente, ou como efeito inibidor do sôro, uma vez que
ela foi inoculada antes da alteração nítida da temperatura, inoculação, portanto,
no período de incubação. A cur\a térmica da cobaia 11.259 parece mostrar, por
sua benignidade, um certo efeito do sôro, mas isto certamente contrastada com
as cur\as térmicas das demais cobaias, nas quais ésse fato não foi verificado.
X'uma segunda experiência, foi dimimúdo o número de injeções, porém,
aumentadas as doses de sôro anti-rickettsia. Trinta e duas cobaias, todas ma-
chos e de peso oscilando entre 350 e 450 g, foram inoculadas na mesma ocasião
com virus-sangue proveniente de várias cobaias infetadas e em pleno período fe-
bril. Cada cobaia recebeu 0.5 ml da mistura sanguínea citratada (virus-sanguc)
por ria subcutânea e foi individualmente colocada em compartimento separado
de nosso biotério, sendo as temperaturas tomadas na mesma hora, com termó-
metros mantidos em soluções antissépticas antes do uso em cada animal.
Essas 32 cobaias foram divididas em dois grandes lotes: o primeiro tratado
com sôro anti-rickettsia e o segundo com sôro de coelhos normais. Das cobaias
tratadas com sôro anti-rickettsia. oito receberam duas injeções de sôro, com in-
ters-alo de 48 horas, a primeira de 2 ml no 4.® dia e a segunda de 1.5 ml no 6.®
dia da inoculação infetante. .\s outras oito cobaias dêsse mesmo lote receberam
três injeções de sôro anti-rickettsia, no 5.®, 7.® e 9.® dia após a inoculação infe-
tante, sendo a primeira de 2 ml, a segunda de 1.5 e a terceira de 1 ml.
-•\s testemunhas, grupadas de maneira idêntica, foram inoculadas de modo
análogo com sôro obtido de coelhos normais.
Comparando-se as reações febris verificadas no primeiro lote de animais
tratados com sôro anti-rickettsia com as testemunhas correspondentes (Grá-
fico Xo. 9). verifica-se desde logo uma manifesta ação do sôro sôbre a rcaçã®
febril. Xos animais de prora que receberam o sôro antes da elevação pronuO*
ciada da temperatura, esta ou não mais se evidenciou, ou então, mostrou-s*
pouco elevada, apenas por um ou dois dias. Xaqueias cobaias, nas quais o sôr®
foi inoculado no mesmo dia da primeira elevação da temperatura, verificou-®^
ou a volta à normalidade ou, então, o encurtamento do período febril. Ê^tc
efeito sôbre a temperatura é menos nitido nas cobaias de prora do segundo
grupo, que receberam o sôro anti-rickettsia a partir do 5.® dia.
Quanto à ação do sôro anti-rickettsia, impedindo a alta mortalidade p^
culiar á febre maculosa experimental em cobaias, o contraste é evidente, p®'^
16
•I. Travassos & A. Vallejo-Freihe — Sôro anti-ricketisia na febre niacu-
losa experimental 301
Crifico Na 9
•Jue. entre aquelas cobaias tratadas coin duas doses de sôro anti-rickettsia, so-
*iiente duas morreram e, à necropsia, as lesões macroscópicas apresentadas eram
de infeção fraca, mostrando apenas uma discreta esplenomcgalia, parecendo, pela
Rrande congestão pulmonar concomitantemente observada, que a causa uiortis
leria decorrido de uma infe<;ão secundária (pneumonia). Pelo contrário, das
testemunhas correspwndentes, somente uma sobreviveu e as sete demais
apresentaram ao exame macroscópico lesões graves de febre maculosa.
cm
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Outro fato que se reveste de interesse, tratando-se de experiências feitas
somente com o emprego de cobaias machos, é a presença de reações escrotais em
cinco das oito cobaias testemunhas. Entre os animais injetados com o sôro anti-
rickettsia, ao contrário, nenhum apresentou reação escrotal. Parece, pois, e«-
dente a ação do sôro, não só em relação à curva térmica e à diminuição da mor-
talidade, como também sôbre a reação escrotal.
No segundo grupo de cobaias desta mesma experiência, isto é, nas tratadas
com três doses de sôro anti-rickettsia, iniciando-se o tratamento após decorridos
cinco dias da injeção infetante, os resultados são semelhantes aos do grupo an-
terior, no que diz respeito à proteção exercida pelo sôro. Entre os animais tra-
tados, dois morreram com sintomas discretos de febre maculosa, sobre\’ivendo
os restantes, o que contrasta nitidamente com o que se observa no grupo das
testemunhas tratadas com sôro normal, nas quais, ao contrário, somente um
sobreviveu, mostrando todas as demais sintomas intensos de febre maculosa, in-
clusive. em cinco das oito cobaias contrôles, reações escrotais evidentes.
.-\ ação do sôro nos casos em que a sua aplicação coincidiu com a primeira
elevação da temperatura, sempre influiu sôbre a evolução da curva térmica.
Quando, pelo contrário, a inoculação do sôro coincidiu com o 2.® ou 3.® dia da
reação febril, a sua ação protetora não se fez sentir de maneira apreciável .sôbre
1 curva térmica.
Nessas experiências foi possível observar, assim, não só uma nitida in-
fluência do sôro sôbre a reação térmica dos animais, ação essa tanto mais acen-
tuada quanto mais precoce foi iniciado o tratamento, como, também, uma nítida
ação do sôro sôbre o desenvolvimento das lesões orgânicas, acentuadamentc
sôbre a esplenomegalia e a reação escrotal. Ainda uma nítida ação anti-letal.
Com o sôro do lote B procuramos repetir a experiência anterior, porém,
fazendo coincidir a primeira inoculação do sôro com o primeiro dia em que a
temperatura atinge 40°C ou mais, ao invés de inidar o tratamento decorrido
um prazo certo após a injeção infetante.
Tomados idênticos cuidados aos da experiénda anterior em relação a®®
animais de prova, 32 cobaias, infelizmente quasi todas fémeas, o que veio prc*
judicar a observação referente às reações escrotais, foram inoculadas com vinis*
sangue obtido de várias cobaias infetadas com uma mesma amostra de virus-
Cada uma das 32 cobaias recebeu 0.5 ml da mistura de sangue dtratado, p®*^
vil subcutânea.
A metade’ das cobaias de prova recebeu 2 ml de sôro anti-rickettsia no pri*
meiro dia em que a temperatura atingiu 40®C ou mais e, decorridas 48 horas
(seis cobaias) ou 72 horas (duas cobaias), mais 1 ml. A outra metade do lote
de prova recebeu, nas mesmas condições, uma primeira injeção de 4 ml de sôr®
anti-rickettsia e, decorridas 48 horas (cinco cobaias) ou 72 horas (duas cobaia-s).
uma segunda injeção de 2 ml.
18
J. Trwassos Jt A. Vallejo-Freire — Sôro anti-ncketlsia na febre macu-
losa experimental 303
As testemunhas foram tratadas de maneira semelhante com sôro normal.
O Gráfico No. 10, que resume os resultados, mostra, tal como nas expe-
riências anteriores, que a maioria das cobaias tratadas com sôro anti-rickettsia
sobrevive à infeção. Assim, enquanto que, das dezesseis testemunhas, quinze
não resistem à infeção mortal de febre maculosa, das tratadas com sôro, doze
sobrerivem. Vê-se, igualmente, embora de modo muito menos nítido do que na
experiência anterior, que as cobaias que receberam maior quantidade de sôro
19
2 3
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(Secundo fotocrafia do
304
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
restabeleceram-se, no que diz respeito à reação térmica, mais prontamente do
que as que receberam menor dose. Esta experiência veio, assim, confirmar a
anterior.
Não se pode negar, pelos resultados dessas experiências, que o sôro anti-
rickettsia tem um e\-idente poder curativo sôbre a infeção maculosa e.xperimcn-
tal da cobaia. Como ê natural, êsse efeito protetor é tanto mais evidenciávcl,
quanto mais precocemente forem tratados os animais infetados. Nas nossas
e.xperiências feitas a partir do 5.° dia de febre, nenhum resultado nítido sc
obtem, morrendo os animais quasi que na mesma proporção dos testemunhas.
Em se tratando de ^nrus de alta \’irulência, com uma evolução clinica grave e
quasi sempre mortal, melhores resultados não poderiam ser esperados.
CO.MENT.-^RIOS
.■\s experiências expostas neste trabalho, que \âsam mais uma vez demons-
trar a possibilidade de ser preparado um sôro hiperimune, eficaz em seus efeito»
preventivo e, quiçá, curativo, contra uma das mais virulentas modalidades de
rickettsiose, a febre maculosa, abrem um caminho sem dúvida interessante
ulteriores investigações.
Os insucessos primitivamente obtidos pelos experimentadores que \-isaram
preparar anti-sôros contra o tyf>hus decorreram do emprêgo de antigenos ina*
dequados. Assim, aos nítidos efeitos protetores dos sôros de convalescentes oU
de animais sensíveis experimentalmente infetados, quando sangrados dentro da»
duas primeiras semanas após a queda de temperatura, contrapunham-se os resul-
tados praticamente negativos obtidos com sôros de animais de maior porte (car-
neiro. cavalo) repetidamente inoculados com sangue ou triturados de órgãos de
cobaias infetadas, isto é. com virus-tecido vivo ou morto. Mesmo naqueles ani-
mais que reagem febrilmente ao virus, quando repetidamente \acinados cooi
emulsões de órgãos ou sangue, destruída a vitalidade do rirus pelo calor ou
processo químico, não se conseguiu imunizá-los contra ulterior inoculação do
virus. Êsses fatos fizeram, então presumir que somente os aninuis verdado*
mente infetados, com hipertermia, eram capazes de gerar anticorpos protetores-
Excluia-se, assim desde logo. para o preparo de sôros hiperiniunes. a possibih-
dade de usar-se como antigenos virus-tecido morto e, também, o emprêgo de
animal que não reagisse febrilmente à inoculação infetante. Nesse particular,
Nicolle seledonou o asno como animal de grande porte para essa ordem de tra-
balhos, uma vez que êle reagia febrilmente às inoculações do rirus.
Confirmados que foram os trabalhos iniciais de Rocha Lima sôbre a possi'
bilidade de se \*acinarem animais contra o lyphus experimental, usando-se coiu®
>acinas emulsões ricas em rickettsias, mesmo mortas (fenoladas), tal como
20
J. Travassos Jt A. Valxejo-Freire — Sôro anti-rickettsia na febre macu-
losa experimental
305
cou perfeitamente demonstrado pelos estudos em tômo das vacinas de Weigl e
Spencer-Parker, as pesquisas ulteriores orientaram-se nesse sentido. Zinsser e
sua escola trataram desde logo de obter grandes quantidades de rickettsias a se-
rem usadas como antígenos, e o emprego de diferentes meios técnicos veio de-
monstrar que não só no artrópodo vetor é possivel consegui-las. Nos próprios
animais de laboratório, ou em culturas-tecido, conseguem-se hoje emulsões muito
ricas em rickettsias, que podem ser utilizadas como antígenos, não só para o
preparo de \-acinas, como para o de sôros hiperimunes.
Nas tentativas já feitas nesse sentido têm-se usado ora o coelho, ora o ca-
valo, como animais capazes de se hiperimunizarem e fornecerem sóros com
apreciáveis propriedades protetoras. O emprego dêsse último animal, que res-
ponde apreciavelmente às inoculações do antigeno-rickettsia, exclue. também,
a suposição de que só naqueles animais que apresentam uma infeção típica, com
desenvolvimento febril, pudessem ser encontrados os anticorpos protetores em
teor apreciável. No momento, estamos imunizando cavalos por inoculações re-
petidas de antigeno-rickettsia e já jxxlemos afirmar, pelas provas preliminares
que temos realizado, que esses animais respondem ao antigeno com um desen-
volvimento apreciável de anticorpos protetores. Em trabalho a ser publicado a
seguir, mostraremos essa possibilidade, bem como as proNas que usamos para
a\aliação do teor de anticorpos.
Neste trabalho expusemos as nossas pesquisas preliminares sõbrc a possi-
bilidade de se preparar sôros hiperimunes cm coelhos. Hoje, esses animais já são
empregados rotineiramente nos laboratórios que se dedicam ao fabrico do sôro
anti-pneumocócico, não sendo assim, portanto, um animal a desprezar pelo seu
pequeno porte, uma vez que êle se revele de valia na produção de sôros hiperi-
niunes eficazes.
Nas e.xperiéncias. expostas neste trabalho, obtivemos resultados animadores
eom o emprego do sôro preparado em coelhos, já como elemento preventivo da
•doença, quando aplicado nos primeiros dias que decorrem da inoculação infe-
'ante, já como elemento profilático, para evitar por certo tempo uma provável
e ulterior infeção. Neste último caso, as atuais pesquisas fazem presumir que
essa prevenção, por meio do sôro, se realiza por cérca de uma semana, tempo,
sem dúvida, já suficiente para que se possa recorrer a uma imunização ati\'a
pela vacina, sempre mais eficaz.
As nossas experiências sóbre o poder curativo, tais como as de Topping,
*ambém foram animadoras, sobretudo aquelas em que o sôro foi inoculado nos
ptimeiros dias da reação febril.
Enfim, essas experiências animam-nos a prosseguir nessa ordem de pes-
quisas.
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306
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
CONXLUSÕES
Um sôro anti-rickettsia, preparado em coelhos, mostrou evidente poder
neutralizante sõbre o \’irus da febre maculosa, tanto tn vilro como tii rrro.
Também puderam ser demonstrados efeitos preventivo e curativo sõbre a infe-
ção experimental da cobaia.
ABSTR.AlCT
The experiences performed in 1931 by Lemos Monteiro, at the Instituto
Butantan, in regard to the obtention of h}-perimmune anti-Rickettsia sera active
against the “São Paulo t>-phus” (Spotted fever in São Paulo) were continued
by the authors, who were able to prepare a serum in rabbits of evident preven-
tive and curative properties, such, as that recently obtained by Topping, in the
United States.
The technic employed is described in detail. Rabbits infected with virus-
blood and used for the feeding of Amblyomma cajennense spedmens destinatcd
for the preparation of the vaccine, were employed for the obtention of the se-
rum after a two months rest. After being submitted to repeated bites and
inoculated with triturations of ne^v lots of infected adult Ixodidac, they were
bled several times. The tests were made in experimentally infected guinea pigs-
The serum thus obtained showed: 1) Xeutralizing power on the rirus’
action, both in vilro and in vivo; 2) effectiveness in immunizing passively íor
about a week; 3) effectiveness in preventing the infection when inoculated during
the incubation period ; 4) curative action when inoctilated in the first days of the
thermic reaction, evidenciated, mainly, the lessened intensity of the organic
lesions and distinct fali of mortality.
BIBLIOGRAFIA
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22
J. Travassos & A. Vallejo-Freire — Sõro anti-rickettsia na febre macu-
losa experimental
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18. Heinemann. lí'. & Morre — J. Inf. Dis. 10:294.1911
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20. Topping, .V. U. — U. S. Publ. Health Rep. 55:41.1940.
(Trabalho da de Vinu c Vinisterapia do Tnstitot»
Butaman. Apresentado i Soc. de Biol. de S. P:>u'o»
tessio de S-4-941. Entregue para publicação eni novem-
bro de I94J c dado â publicidade em fevereiro de 1943>.
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537.87
AÇÃO DA PRATA ELETROUSADA SÔBRE CERTAS TOXINAS,
VENENOS, PROTOZOÁRIOS, RICKETTSIAS, VIRUS
FILTRÁVEIS E BACTERIÓFAGOS
prévia)
POR
J. TRAVASSOS & E. BIOCCA
Uma corrente elétrica contínua, passando entre eletrodos de prata imersos
água. provoca uma dissociação iônica desse metal. A quantidade de prata
<lissociada é regulada pela lei de Faraday e corresponde teoricamente a 4.023 g
por hora. si a intensidade elétrica for de 1 Ampere.
As pesquisas de Krause e outros demonstraram que esses ions de prata são
'lotados de potentissima ação bactericida.
As aplicações désscs estudos no campo da higiene são hoje inúmeras. Sa-
1^-sc que. por ésse meio. se conseguem destruir rapidamente nas águas as for-
**tas vcgetativas das bactérias e aquelas, assim tratadas, mantêm por muito tempo
^ atividade esterilizante. Segundo citam .Alessandrini e Labranca. seria sufi-
^«ite uma quantidade de prata eletrolisada inferior a lOOy para esterilizar 1
l'tro de água potável; 150 — 200y para água de piscinas e 400y para fabricação
'Ic gêlo. .Até mesmo as algas de vegetações verdes perderiam rapidamente a
'italidade nas piscinas, cujas águas são tratadas pelo método eletrocatadínito.
esporos das bactérias, ao contrário, não seriam inati\'ados.
Ultimamente têm sido propostas aplicações dêste método no campo da imu-
•'ologia. Assim, Rainsford. em 1937, mostrou que era possível preparar ótimas
'■acinas com bactérias mortas pela ação da prata eletrolisada, sem nenhuma mo-
*lificação de suas propriedades antigcnicas. Mesmo os antigenos ntais lábeis
seriam por ela influenciados. Foi assim que se conseguiram preparar fa-
^Iniente s^adnas e antisôros com o antigeno Vi da E. typhi, tão sensível a todos
agentes físicos e químicos (Rainsford, Labranca, etc.).
cm
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:iio
A ação da prata eletrolisada sôbre toxinas, venenos, protozoários, rickett-
sias, virus filtráveis e bacteriófagos é ainda pouco conhecida. Procuramos veri-
ficar essa ação e nesta nota damos os resultados de nossas primeiras expe-
riências.
TÉCNICA
Um pequeno aparelho constando de uma pilha elétrica de 1.5 Volt, coiu
2 eletrodos de prata, medindo cada um 8 cm de comprimento e cêrea de 2 niru
de diâmetro, foi por nós empregado para ativar geralmente cêrea de 5 ml de
água de torneira, por um tempo ^•ariavel de 30 a 90 minutos. Nestas primeira®
pro\’as não fizemos dosagens da quantidade de prata dissociada. Os diferentes
materiais a estudar eram misturados, nas doses convenientes, a essa água assim
ativada e após cêrea de 30, 60 ou 90 minutos de contacto, é que iniciav’amos as
provas. Os controles para verificar si a água estara realmente ativa, eram ge-
ralmente feitos com emulsões de estafilicocos.
Adotamos essa técnica por termos verificado que, eletrolisando a prata di-
retamente na diluição em água do material em estudo, pode-se observar conco-
mitantemente um fenômeno de cataforese, com fixação do material ativo em um
dos polos, dando impressão errônea dos resultados, .^ssim, nas nossas priíiiO'
ras provas feitas por eletrocatadinização direta de diluições de toxinas difterica
e tetânica, por 1 hora. foi notada, tanto numas como noutras, notável diminui':á<i
do poder tóxico, podendo essa alteração atingir 20 D.M.L., o máximo exp«f'
mentado. Com venenos de serpentes {Bothrops jararaca e Crotalus terrifi^
tcrrificus), em diluições de 2 até 30 D.M.L.. o mesmo acontece. O fato I®*
melhor verificado com soluções de nitrato de estrienina e de uma azo-estrienin**
obserrando-se em um dos eletrodos a cristalização do alcalóide puro. após *
quebra dos ligames nitrato e diazoico. perdendo o liquido, depois do trataiucutu-
grande parte de seu poder tóxico.
RESULTADOS
Toxinas — Diluições de toxinas tetânica e diftérica misturavam-se à agr>*
previamente catadinizada, por cêrea de 1 hora. Após 60 minutos de contac**^'
inocula\'amos os animais de pro\’a, que morreram em tempo certo, a partir
2 D.M.L., tal como os testemunhas inoculados com as diluições corresponde*'"
tes das toxinas feitas em água não catadinizada.
Não foram feitas experiências com maior ternpo de contacto, não se
dendo saber, assim, si uma ação mais prolongada da prata teria modificado o*
resultados.
o
J. TawAssos i E. Biocc-a — Ação da praia eletrolisada sobre certas
toxinas, venenos, etc... 311
Fenenos — Nas pro^^as feitas com venenos de Jararaca e Cascavel, usan-
do-se técnica semelhante, a desintoxicação não se operou a partir de 2 D.M.L..
^»as doses de e 1 D.M.L. algims pombos sobreviveram.
\’ê-se, por essas experiêndas, que tanto as toxinas como os venenos mostra-
^^-se resistentes ao tratamento pela prata ionizada, sendo mínima, talvez, a
*Çâo desintoxicante.
Protosoários — Os protozoários, pelo menos aqueles por nós obseni'ados
(tripanosomas, leishmanias em culturas, ciliados e flagelados das águas), são
^uasi que imediatamente inativados. Aqui devemos fazer notar que, dada a
grande sensibilidade dos tripanosomas e leishmanias às soluções não isotôni-
^s, excluimos essa causa de erro, tomando isotônica a água previamente cata-
^inizada, pela adição da quantidade requerida de sal. Os controles mostraram
*)ue essa adição de sal à água previamente catadinizada não diminuia de modo
®itido e rápido a sua ação bacteridda. Nestas condições, a ação da prata sôbre
protozoários fazia-se notar já em poucos minutos, tomando-os imóveis.
Rickettsias — Para as nossas provas da ação da prata sôbre Rickettsias,
'isamos emulsões de lavaduras e raspagens peritoneais e vaginais de cobaias in-
jetadas pelo vims da febre maculosa. .As emulsões, passadas cm gaze, mistu-
tsvam-se em partes iguais à ágtia já catadinizada ; ficavam cm contacto por 30
hiinutos e então eram inoculadas em cobaias. Os animais reagiram tipicamente,
*tH>strando-se as Rickettsias, assim, aparentemente resistentes ao método cle-
't^ícatadinico.
Firus fiUráveis — Nestas nossas primeiras experiências com vims filtrá-
lançamos mão de uma linfa vacinica, recentemente colhida de vitelo vaci-
’'*do. Escolhemos a linfa nessas condições, não somente para verificar a resis-
*cicia que ofereceria o virus vacínico, como, também, pelo fato de, na linfa,
drus estar associado a numerosas bactérias, o que serviria facilmente de con-
*fôle da atividade da água.
Meio grama de polpa vacinica, recentemente raspada de vitelo vacinado,
emulsionado em 4.5 ml de água tratada. Outro meio grama, misturado com
* biesma quantidade de água não tratada, serviu para os controles. Após 1 hora
"j* contacto à temperatura ambiente e as emulsões passadas em gaze, foram fei-
controles bacteriológico e de atividade do vims. Êstes mesmos controles fo-
repetidos depois de períodos de 1, 2 e 3 meses, durante os quais as emul-
*^s permaneceram na geladeira a 0®C.
As provas de vitalidade do váms foram feitas por escarificação da. pele de
^^hos; os controles bacteriológicos foram executados, semeando uma alça do
'^terial cm tubos de agar simples. No quadro abaixo podem-se ver os re-
*'*jtados :
cm
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Tempo de ação da prata
L^i «N 1 « \
V.VCIXTCA
sôbre
1 hora
30 dias a
0”C
60 dias a
0®C
90 dias a
0“C
yirus, atividade
para o coelho
-f-f-h
...
—
TRATAD.\
fíacterias, aeróbias
_
cultiváveis e m
agar
!'irus, atividade
p:ra o coelho
++-H
-f-r-r
+++
-I-++
XAO
TR.ATAUA
Hactfrias, ajróbi.t',
cultiváveis e m
+++
-!-++
-|-t-+
agar
Já 1 hora depois da mistura da linfa com a água contendo ions de prat*-.
eletrolisada, os controles em agar mostraram-se negativos. Ao contrário.
controles da mistura da linfa com água não tratada, uma cultura espessa dcsen*
volveu-se na superfície do agar. formada pela confluência de numerosas colO"
nias de bactérias diversas.
Pelos resultados que a tabela revela, vê-se que a ação da prata eletrolisa‘^
sôbre o virus varínico foi relatiramente muito fraca, pois, mesmo após 2 meses f
%’irus ainda se mantinha rivo. Com o tempo, também a sua atiridade foi desa*
parecendo, o que indica uma ação da prata sôbre o virus, mas em proporçó^
enormemente inferiores do que sôbre as bactérias.
Esta resistência que o virus \-acínico oferece aos ions de prata pemiitc-ní*®
purificá-lo com relatira facilidade. Conhecem-se as dificuldades, atê hoje
ticamente ainda não superadas, com que se luta nos laboratórios espedaliz^*^^
para a purificação rápida da linfa vacinica. principalmente em certas ocasió^
de emergência, como no caso de grandes epidemias, em que se é obrigado a 1^”
çar mão até de polpa recém-colhida. Neste particular, muitos métodos
sido projx)stos com êsse objetivo, inclusive o de Lemos Monteiro — laseado ^
filtração do virus — até agora adotado neste Instituto.
Si outros virus oferecerem a mesma resistência à ação da prata elotrolisaíl*’
o método eletrocatadínico tomaria grande importância em virulogia e viria ^
solver um dos problemas que apresenta, por vêzes, grandes dificuldades ted»
4
•í. Travassos & E. Bioccv
Ação dá prata eletrolisada sôbre certas
toxinas, venenos, etc...
.tl3
cas a transpor, isto é, purificar e quiçá isolar facilmente um virus em material
contaminado por bactérias aeróbias.
Bacteriófagos — Já o casal Wollman tinha observado que, sob a ação oli-
godinâmica da prata, os bacteriófagos mostram-se muito mais resistentes do que
as bactérias correspondentes.
Provas que realizamos com bacteriófagos de diferentes liactérias intestinais,
tiiluidos em ágtia prériamente catadinizada, revelaram, confirmando os tral)a-
ilios já começados por P. Biocca, terem êles uma resistência notavelmente su-
perior aos germes correspondentes. Nestas nossas e.xperiências, mesmo após
contacto de 3 dias com a água catadinizada. os bacteriófagos se mostraram
itivos.
RESUMO •
Nesta nota prévia mostram-se os resultados de experiências iniciais da
sção da prata clotrolizada sóbre certas toxinas, venenos, protozoários, rickett-
*>as, virus filtráveis, e bacteriófagos. .Afim de eritar uma concomitante ação
'le cataforese, adotou-se o método de eletro-catadinizar préviamente a água an-
les de misturá-la com o material em estudo. Dada a grande sensibilidade dos
'ripanosomas e leishmanias às soluções não isotónicas. foi excluida essa causa
erro, tomando isotónica a água previamente catadinizada. pela adição da
lüantidade requerida de sal. Nestas condições, a ação da prata sôbre os pro-
tozoários, fazia-sc notar já cm poucos minutos, tomando-os imóveis.
-As toxinas diftérica e tetânica e os venenos de Bothrops jararaca e de
^''otalus tcrrificus tcrrificus, mostraram notável resistência à ação da prata
^ctrolisada. Uma análoga resistêncb revelaram as rickettsias da febre ma-
viosa, o virus \acinico c bacteriófagos de bactérias intestinais. O rirus va-
t^ico, 2 meses após o tratamento, ainda esta\-a ativo para o coelho. .Aprovei-
tando esta resistência e dada a potentissima ação bactericida da prata eletroli-
propõe-se empregar o método eletrocatadinico para purificação da linfa
tônica e, quiçá, de outros virus, desde que êles também se mostrem resistentes
^ ação da prata eletrolisada.
ABSTR.ACT
In this prerious paper the rcsults of initial e.xperiences conceming the
^'on of the electrolyzed silver on certain toxins, venoms. protozoa, rickettsiac,
^^terable vimses and bacteriophages are reported. In order to avoid a conco-
'*’'ttant cataphoretic action, the water was acti\ated with clectro-katadme l)cforc
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Memórias tio Instituto Butantan — Tomo XVI
mixing it with the material under study. Owng to the high sensibility of the
tr)'panosomes and leishmania against the non-isotonic solution, this cause o*
error was excluded by making the previously activated water isotonic by
addition of the required amount of salt. Under these circumstances, the actioo
of the silver on the studied protozoa was noticeable within a few minutes, by
their immobilization.
The diphtheric and tetanic toxins, as well as the venoms of Bothrops jo^'
raca and Crolalus tcrrificus terrificus showed remarkable resistance against the
action of the electrolyzed silver. A similar resistance was noticed with the spottcd
fever rickettsiae, the s-accine virus and bacteriophages of intestinal bactena-
The \-accine virus proved still active for the rabbit 2 months after the treatmef*-
In view of this resistance and the most powerful bactericide action, the authofS
suggest the employement of this method for the purification of the ^•acclne
lymph and, perhaps, of other viruses, in case they prove resistant to the actioo
of the electrolyzed silver.
BIBLIOGRAFIA
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Montnro, J. Lemos — Arch. Hyg. 4(1) -.67.1930.
lEntrciru* parr. poblica^âo <ni 9*1
«u íevr^eiro àt 194JJ.
I
616.01
CARATERIZAÇÃO SOROLÓGICA DOS MENINGOCOCOS
POR
JOSÉ CARLOS RIBAS
HISTÓRICO
Dopter (8) foi o primeiro a iniciar a classificação sorologica dos incningo-
^ocos quando, em 1909, verificou a existência de amostras de meningococos que
*^50 eram aglutinadas por um sôro monovalente e que não se distinguiam dos
®utros meningococos pelos seus caracteres morfológicos, culturais e bioquímicos.
Inicialmente, Dopter diridiu os meningococos em dois grupos sorológicos:
oieningococos e parameningococos.
Em 1914, com Pauron (9,10) subdividiu, por meio da saturação das aglu-
**ninas, os referidos parameningococos em três sul^rupos, reconhecendo a exis-
^«íncia de muitas raças de um só e mesmo germe e em cada uma delas um só
^tígeno.
Vários pesquisadores confirmaram a existência de dois grupos sorológicos
•íistintos de meningococos, entre êles Griffith (15), Scott (23), Ellis (12),
^drewes (1), Arlovright (2), Fildes (13), etc..
Gordon e Murray (14), no decorrer de 1915, empregando a técnica de
absorção das aglutininas, subdividiram os dois grupos sorológicos em quatro
*'pos (I, II, III e IV).
A seguir, em 1918, Nicolle, Debains e Jouan (19), baseados somente na
*^®ação de aglutinação, classificaram os meningococos em quatro tipos: A, B,
^ e D, de acordo com a opinião que sustentavam, pois “consideram todo o mi-
^óbio não somente como um mosaico de propriedades biológicas, mas ainda
*^o um mosáico de antigenos. A associação destes anrigenos caracteriza a
**pécie e a predominância habitual de um entre os outros o tipo antigênico, ou
outra, a existência de diversos antigenos em cada meningococo”.
A opinião acima transcrita está de pleno acordo com as observações primi-
bvas de Grulier e Durliam (16). cm 1896, que ensinaram que a especificidade d.i
*^*®Ção de aglutinação não era absoluta no sentido biológico. Por exemplo, quan-
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
316
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
do o bacilo coli foi distintamente diierendado do bacilo tifico e ambos de certos
vibriões, êstes vibriões não foram tão claramente distinguidos entre si.
Durham (11), em 1901, ccmo resultado de um estudo mais minucioso destas
aglutinações de grupo, enunciou com toda clareza a hipótese de uma multiplici-
dade de antigenos (um mosaico de antigenos como êle o chamou), dentro de
uma só célula bacteriana.
O fato de uma só célula bacteriana conter muitos antigenos foi verificado,
portanto, durante os primeiros estudos sôbre a reação de aglutinação e confir-
mado em nossos dias, tanto por pesquisas biol^cas como quimicas.
Zozoya (25), em 1931, Miller e Boor (18), em 1934, verificaram sereni
estas bactérias constituidas por uma mistura em proporções %'ariáveis, de maté-
rias albuminoides, corpos graxos e substâncias glucidicas.
Como vemos, a estrutura antigênica dos meningococos é muito mais com-
plexa do que supunha primitivamente Dopter, como ficou demonstrado nos tra-
balhos de Rake e Scherp (21,22), feitos em 1933,
Cada amostra de meningococo contem vários componentes antigênicos em
diversas jiroporções, uma verdadeira miscelânia de antigenos e um pequeno ex-
cesso de um dêles, o qual vai caracterizar o tipo antigénico.
A classificação de Gordon e Murray, geralmente aceita entre nós, baseada
na técnica de absorção das aglutininas, é laboriosa, muito sujeita a erros e en-
ganos e requer anti-soros feitos com amostras cuidadosamente escolhidas.
Como assinalou Fildes (13) “os tipos I e III e os tipos II e IV de Gordon
e Murray estão tão estreitamente relacionados, que de uma mudança nos p»'
drões pode resultar uma mudança de tipo. A classificação dos meningococos
é real c não depende de uma seleção arbitrária de padrões. Mas a seleção de
padrões para determinação dos subtipos é arbitrária e pode levar a muita con-
fusão si um mesmo padrão não for mantido”.
Xa Alemanha, vários pesquisadores, entre os quais Jõtten, Kortmann (17),
afirmam que as amostras de meningococos apresentam características sorológic^*
variáveis de uma região para outra, não havendo homogeneidade de resultados*
Classificam suas amostras cm sete tipos, sem correlação alguma com os tipo*
fraiKêses ou ingléses.
• * *
As primeiras verificações sorológicas sôbre os meningococos em São Paulo
foram feitas em 1923 por Assunção (5), no Instituto Butantan, utilizando ao*'*
sòros francéses e achando, em 33 amostras experimentadas, 30 do tipo A o ^
do tipo B.
Prosseguindo em tais estudos. Assunção (6) examinou mais 54 amostra^
isoladas no decorrer dos anos de 1924, 1925 e 1926, em r dação a anti-sôros anic'
•)
I SciELO
José Carlos Riras — Caralerizaçâo sorológica dos meningococos
317
ricanos, constatando-se que nem todas as amostras eram aglutináveis, sendo en-
contrado prcdominio do grupo I (tipo I e tipo III), do tipo I (53%) ; tipo II
(7,4%); tipo III (20%) e amostras não aglutináveis (18,5%).
Assis (3), em 1924, no Instituto Vit?.! Brazil, em Niterói, e.xamina 20
amostras de meningococos. sendo 10 de São Paulo, utilizando sôros aglutinantes
fornecidos pelo Instituto Pasteur de Paris, verificando a seguinte porcentagem,
tipo (55%) e tipo B (5%). Notando ainda, que a temperatura de 55“C
não convem a esta experimentação.
No Instituto Butantan, em 1929-30, Travassos (24) estuda 50 amostras
de meningococos. empregando anti-sôros americanos, franceses e nacionais e
chega às seguintes conclusões: “um grupo I (26%) corre«pondente aos tipos
I americano e francês, um tipo II (30%) pouco influenciado pelo anti-sôro
II americano e um tipo III (12%) correspondente ao tipo C francês. Dentro
do grupo I foram encontrados 2 subtipos: Ia (18%) e Ib (6%), o primeiro é
superponivel ao tipo III americano e o segundo diferencia-se dêste pela preva
de absorção das aglutininas. Quatro amostras comportaram-se irrcgularmente
(8%), uma dentro do grupo I e 3 dentro do grupo II”.
m.\ti:ri.\l
A constituição antigênica dos meningococos ê uma questão de máxima im-
portância prática j»r estar diretamente relacionada à produção do sõro anti-mc-
ningocócko terapêutico e influir seguramente nos resultados de seu emprêgo.
Tal arcunstânda nos levou a estudar a caracterização sorológica das amos-
fras com que trabalhamos na ocasião. Nesse estudo empregamos sôros aglu-
tinantes preparados com amostras padrões da classificação de Gordon e
^lurray, respectiramente: tipo I — No. 331. tipo II — No. 173, tipo III —
N'o. 302 e tipo IV — No. 158 (•). recebidas dos Estados Unidos, onde conen-
temente são usadas como antigenos, segundo Zinsser e Bayne-Jones (26),
®tn provas dessa natureza.
Preparo dos sôros aglutinantes. Com as citadas amostras padrões foram
•tnunizados quatro cavalos, uma para cada tipo, afim de obtermos sôros mono-
'■alentes; escolhemos para êsse fim cavalos normais, tendo o cuidado de a cri-
ticar que seus sôros se mostra\'am capazes de aglutinar as diferentes amos-
tras antes de iniciarmos as inoculações.
(•) Af unestras acima foram enriada» por interm^io da Dra, Sarah Drahan* do Public Health
^errice, Wathinctcn. D.C., e recebidas em Butantan pelo Dr. B. M. Mourio. a quem tomos rrato.
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
318
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Cada cavalo recebeu, por via venosa, com sete dias de intervalo, oito doses
que variaram progressivaraente de 10 e 2.000 bilhões, num total de um trilhão
de meningococos vivos, cultura de 24 horas, do tipo padrão correspondente.
As emulsões foram uniformes, todos tendo recebido idênticas séries de
doses, com o mesmo intei^alo de tempo. Preparamos, assim, sôros com títulos
aglutinantes aproximadamente iguais, propositalmente não muito elevados para
evitar o mais possivel as coaglutininas em títulos elevados.
PROTOCOLOS
Título aglutinante do sóro do cavalo 25, imunizado com a amostra padrão
tipo I — Xo. 331, em relação à amostra homóloga (tipo I — Xo. 331) e as
heterólogas (tipo II — Xo. 173, tipo III — Xo. 302 e tipo IV — Xo. 158) :
SÔTO%
tipo»
1/20
1/40
T 1 T IT
1/80
LOS
1/160
1/320
I
4
4
4
4
4
II
4
4
4
0
0
III
4
4
4
4
0
IV
4
4
4
0
0
1/640
4
0
0
0
Te».
0
Titulo aglutinante do sôro do cavalo 24b, imunizado com a amostra padrão
tipo II — Xo. 173, em relação à amostra homóloga (tipo II — Xo. 173) e as
heterólogas (tipo I — 331, tipo III — Xo. 302 e tipo IV — Xo. 158) ;
Sôrtw
tipo»
1/20
1/40
títulos
1/80 1/160
1/320
1/640
I
4
4
4
4
0
0
II
4
4
4
4
4
4
III
4
4
4
0
0
0
IV
4
4
4
0
0
0
T«3t
0
Titulo aglutinante do sóro ca\'alo 26, imunizado com a amostra padrão tip®
III — X’o, 302, em relação à amostra homóloga (tipo III — Xo. 302) e a®
heterólogas (tipo I — Xo. 331, tipo II — Xo. 173 e tipo IV — Xo. 158) :
Soro»
tipo»
1/20
1/40
T I T U
1/80
LOS
1/160
1/320
1/640
T«t
I
0
0
0
0
0
0
0
II
4
0
0
0
0
0
III
4
4
4
4
4
4
IV
4
4
4
4
0
0
4
José C.\rlos Rib.\s — Caraterização sorológica dos meningococos
319
•Titulo aglutinante do sôro do caralo 20b, imunizado com a amostra padrão
tipo IV — No. 158, em relação à amostra homóloga (tipo IV — No. 158) e as
heterólogas (tipo I
— No. 331, tipo II —
- No. 173 e tipo II —
No. 302) :
Sôros
tipos
1/20 1/40
T 1 T U
1/80
LOS
1/160
1/220
1/640
Tcit
I
0 0
0
0
0
0
0
II
4 0
0
0
0
0
III
4 4
4
4
0
0
IV
4 4
4
4
<
T
4
Afim de controlar de certo modo os
nossos
sôros e
verificar ainda a corre
lação existente entre os tipos da classificação de Gordon e Murray e os tipos
da classificação de Nicolle, Dubains e Jouan, as duas mais conhecidas e as únicas
aceitas, procedemos à aglutinação das amostras A, B e C da classificação fran-
cesa (*), em relação aos sôros por nós preparados; cujos resultados são os
seguintes :
Com o meningococo, tipo A
francês:
Sôros
ItpOf
1/40
1/80
títulos
1/160 1/J20
1/640
TcM
I
4
4
4 4
4
0
II
4
4
4 0
0
III
4
4
4 4
0
IV
4
0
0 0
0
Com o meningococo.
tipo B
francês :
S6roa
• tipoa
1/40
1/80
títulos
1/160 1/J20
1/640
Tcit
I
4
4
0 0
0
0
II
4
4
4 3
2
III
4
2
0 0
0
IV
4
4
2 0
0
Com o meningococo.
tipo C
francês :
Sôros
tipoft
1/40
1/80
títulos
1M60 1/220
1/640
Tcil
I
4
4
4 0
0
0
II
0
0
0 0
0
III
4
4
4 4
4
IV
0
0
0 0
0
(•) Al unoitru tipo* A. B e C francÍMi dcmnoi i tatilcu do Dr. Vitil Bruil. a <juím
•oito a^adcconci.
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
3ao
Segundo os protocolos existe de fato uma pequena predominância de um
dos antígenos em relação aos demais, o que deve caracterizar o tipo antigénico,
e uma estreita correlação entre os tipos I e A. II e B, III e C.
As duas primeiras correlações são por demais conhecidas e a correlação exis-
tente entre os tipos III e C já se verifica nos trabalhos de Assis (4) e Travassos.
TÉCNICA
Todas as amostras de nieningococos do presente trabalho foram recebidas
do Instituto Adolfo Lutz, isoladas de liquido céfalo-raquidiano de doentes in*
ternados no Hospital Emilio Ribas.
Foram identificadas bioquimicaraente, usando-se para tanto glicose, Icvu-
lose e maltose.
Para as aglutinações usamos correntemente culturas em agar de Truchc.
meio recomendado por Nicolle (19) ou em agar glicosado a 5%, com peptona
Evans. pH 7.6, crescidas 24 horas a 37“C.
Previamente retiramos a água de condensação dos tubos, adicionamos p^
quena quantidade de salina e abandonamos em repouso durante cerca de 10 m»'
nutos, tempo necessário ao desprendimento dos germes, rotamos com delicadeza
os tubos, obtendo, assim, uma emulsão regular, a seguir filtrada em gase, para
reter pequenos grumos.
Finalmente, dei.xamos cair salina em quantidade sufidente para igualar
em opacidade o No. 3 do nefelómetro de McFarland, correspondendo a 900
milhões de nieningococos, suspensão bastante fraca, mas de maior conveniência.
A técnica de que nos servimos foi a seguinte: as aglutinações foram sempre
realizadas á temperatura de 37”C., em banho-maria, durante duas horas, jx:mia-
necendo o tempo restante na “frigidaire” a 4° adma de zero, sendo realizada a
leitura no dia imediato.
Demos preferência a esta técnica porque, s^undo Pittmann e outros (20)-
a incubação a 56®C. durante 18 horas é inespecifica e a aglutinação a 37‘C e
espedfica e a que mantem mais estreita relação com a prova de proteção cn’
camondongos e a produção de halo.
A revisão bibliográfica que tivemos oportunidade de realizar e a própr*^
experiência decorrente destes trabalhos, levou-nos à conclusão de que os
sõros monovalentes — preparados indiferentemente eni cavalos ou coelhos —
nunca são estritamente espedficos, isto é, todos os anti-sõros monovalentes apt«‘
sentam aglutininas ou coaglutininas para os tipos heterólogos — uns mais do
outros — ao lado das aglutininas especificas. Empregada a técnica de absorção
de aglutininas, verifica-se que é frequente a absorção não só das coaglutininas.
f>
José C\rlos Ribas — Caraterízação sorológica dos meningococos
321
oomo também das aglutininas específicas, o que nos levou a dispensar o em-
prego desta última técnica, que neste grupo de germes poderia mesmo levar
a grandes confusões, segundo já o fez vêr Fildes (13).
IDENTIFICAÇ.^0
Com sòros assim controlados, realizamos provas sorológicas para classifi-
cação de uma primeira série de 27 meningococos todos isolados de liquido
céfalo-raquidiano de doentes, cujos números figuram na relação abaixo, in-
ternados no Hospital Emilio Ribas, do Estado de São Paulo, durante o ano
de 1939.
Tipo I
Tipo II
Tipo III
Tipo IV
199
207
201
194
225
82
290
947
548
87
652
1002
142
685
181
301
186
306
676
686
763
816
922
940
164
191
296
8 (29.6%)
13 (48%)
4 (14.8%)
2 (7
Foram, portanto, classificados no grupo I (tipos I e III) :
12 amostras de meningococos (44.4%).
Qassificados no grupo II (tipos II c IV) :
15 amostras de meningococos (55.5%).
Com os mesmos sòros aglutinantes verificamos uma segunda série de 33
tiieningococos, todos isolados do liquido céfalo-raquidiano de doentes internados
*10 Hospital Emilio Ribas durante os anos de 1940, 1941 e 1942.
•Apresentamos um protocolo bastante minucioso das aglutinações realizadas,
Onde se poderão apreciar detalhadamente diversos aspectos: amostras mais e
*Oenos aglutináveis, predominância de certos aglutinógeno® e ausência de outros.
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
322
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
PROTOCOLOS
títulos
Antt-sôros
IMO
1/80
1/160
1/320
1/640
Test
Tipo»
Doente
I
3
3
3
2
0
0
No. 131
II
4
4
4
4
4
II
7-6-40
III
3
1
0
0
0
IV
1
0
0
0
0
Doente
I
4
3
3
0
0
0
No. 154
II
4
4
4
4
4
II
24-6-40
III
1
0
0
0
0
IV
2
0
0
0
0
Doente
í
4
4
3
3
0
0
No. 216
II
4
2
0
0
0
7-8-40
III
4
3
2
2
0
IV
4
4
4
4
4
IV
Doente
I
4
4
4
3
0
0
II
No. 276
II
4
4
4
4
4
11-9-40
III
1
0
0
0
0
IV
4
4
3
2
0
Doente
I
4
4
4
3
2
0
1
No. 332
II
4
4
•
1
1
0
26-10-40
III
2
1
1
0
0
IV
2
2
1
0
0
Doente
I
4
3
1
1
0
0
No. 335
II
4
4
4
2
1
29-10-40
III
2
0
0
0
0
IV
4
4
4
4
4
IV
Doente
I
4
3
3
2
0
0
II
No. 200
II
4
4
4
4
4
28-12-40
III
1
0
0
0
0
IV
1
0
0
0
0
Doente
I
4
4
4
0
0
0
II
No. 156
II
4
4
4
4
4
15-3-41
III
0
0
0
0
0
IV
4
3
0
0
0
Doente
I
4
4
4
2
0
0
II
No. 222
II
4
4
4
4
3
27-6-41
III
2
2
0
0
0
IV
4
4
2
2 .
0
8
324
Memórias do
Instituto
Butantan
— Tomo XVI
TÍTULOS
Anti-firos
1/40
1/80
1/160
1/320
1/640
T«t
Tip«
Doente
I
4
4
1
1
0
>,’o. 395
II
4
3
1
0
0
«-10-41
III
4
4
4
4
4
III
IV
4
4
0
0
0
Doente
I
4
4
4
0
0
0
>:o. 437
II
4
4
4
4
0
10-9-41
III
4
4
4
4
4
III
IV
4
4
4
4
0
Doente
I
4
0
0
0
0
0
No. 403
II
4
4
4
0
0
18-10-41
III
4
4
4
4
4
III
IV
4
0
0
0
0
Doente
I
4
4
4
4
2
0
I
Ruth
II
4
4
4
4
0
10-1-42
III
4
I
0
0
0
IV
3
1
0
0
0
Doente
I
1
1
0
0
0
0
Antonieta
II
1
0
0
0
0
13-1-42
III
4
4
4
0
0
III
IV
4
0
0
0
0
Doente
I
4
4
4
4
0
0
No. 11
II
4
4
4
4
4
II
13-1-42
III
0
0
0
0
0
IV
4
4
4
0
0
Doente
I
2
0
0
0
0
0
No. 73
II
4
4
4
4
4
II
11-2-42
III
0
0
0
0
0
IV
4
2
0
0
0
Doente
I
4
0
0
0
0
0
00
II
4
4
0
0
0
0
23-2-42
III
4
0
0
0
0
II
IV
1
0
0
0
0
Doente
I
2
I
0
0
0
0
No. 86
II
2
0
0
0
0
24-2-42
III
4
4
4
4
0
IV
4
4
4
4
4
iv
Doente
I
2
2
2
0
0
0
No. 112
II
2
2
2
2
0
(II
29-4-42
III
4
4
4
4
4
IV
4
4
4
4
0
•10
1 José Carix)s Ribas —
- Caralerização sorológica dos meningococos
325 1
TITULO
s
Anti-sóros 1/40 1/SO
1/160 1/120
1/640
Tat
Tipo* 1
Uoente
I
0
0
0 0
0
0
130
II
4
2
1 0
0
28-5-42
III
4
4
4 4
4
III
IV
4
4
0 0
0
1 Dotnte
I
4
1
0 0
0
0
^’o. 132
II
4
4
4 4
1
II
2-6-42
III
4
1
0 0
0
IV
4
1
0 0
0
1 I^nte
I
4
0
0 0
0
0
^'o. 811
II
4
4
4 4
4
II
III
4
4
0 0
0
II
4
4
4 0
0
1 t^oente
I
4
4
4 4
3
0
I
^'o. 227
II
4
4
4 4
0
III
4
3
2 1
1
IV .
4
0
0 0
0
RESUMO
Tipo I
Tipo 11
Tipo III
Tipo IV
332
131
396
216
304
154
395
335
316
276
437
317
370
200
.\ntonieta
420
403
156
112
86
Ruth
222
130
227
49
309
822
330
11
73
85
132
’
811
•
7 (24.
2%)
15(45.4%) 6(18%)
5(15%)
1 Foram, portanto,
classificadas no
grupo I (tipos I
e III) :
13 amostras de meningococo (39.3^).
1 Qassificadas no grupo
II (tipos II e IV):
20 amostras de meningococo (60.6%).
11
cm
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Como demonstram os protocolos, desde o inicio de nossas verificações —
de meados de 1939 até esta data — encontramos sempre uma predominância df
meningococos pertencentes ao grupo II, isto é, aos tipos II e IV'.
As conhecidas diferenças imunológicas do grupo II, principalmente de%'id3®
à sua pobreza antigênica, nos levaram sempre a preparar no Instituto Butantan
um sôro anti-meningocócico terapêutico polivalente, usando correntemente conK>
antigeno amostras recentemente isoladas desse grupo, nas devidas proporções-
Ainda em 1940. Cohen (7) faz um interessante estudo de 35 amostras do
grupo II. procurando resolver o problema da produção do sôro terapêutico de
maior atividade e de poder mais elevado para amostrar dêste grupo, e^den-
ciando tipos imunológicos nitidamente distintos.
A necessidade de serem utilizadas, como antigeno, amostras locais, recciO'
isoladas é aconselhada por Belfanti (27) desde 1917.
Cantacuzêne (28), em 1931 e 1933, e Xicolau (29), em 1936, redram ®
assunto e não só confirmaram aquela necessidade, como aconselharam ainda *
renovação perpétua das amostras empregadas no preparo do sôro terapêutico-
Tõten e Kortmann (17), por sua vez, verificaram que os meningococos
dem as suas propriedades antigênicas iniciais pelo envelhecimento nos meios õc
cultura.
CONCLUSÕES
1 . Trabalhando com 60 amostras de meningococos isolados de liquido céfalo*
raquidiano e identificadas por provas bioquímicas, foram encontrados, por pro'"*
de aglutinação levada a efeito em banho-maria a 37®C por duas horas, os
guintes tipos: tipo I: 15 amostras (25%); tipo II: 39 amostras (63Çi)
III: 10 amostras (16.69c); tipo IV: 7 amostras (11.6%).
2. Como consequência dessa verificação são utilizadas, como antigeno. ó**
imunizações para preparo do sôro polivalente terapêutico, emulsões de mcning*^
cocos \-ivos e recentemente isolados, em que predominam as amostras do tipo
e dos restantes tipos nas proporções em que são encontradas.
CONCLUSIONS
1 . Working with 60 strains of meningococei isolated from the cephaí®*
rachidian liquid and identified by biochemical tests, the following tipes
found by agglutination test cared on in waterbath at 37®C. during 2 houf*'
t)-pe I: 15 strains (25%); type II: 38 strains (63%); tj-pe III: 10 stra^**
(16.6%); type IV: 7 strains (11.6%).
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José Carjx)S Ribas — Caralerização sorológica dos meningococos
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2. Consequently to this statement, in the immunizations for the prepara-
tion of the poI>-valent therapeutic serum, emulsions oí living and recently isolated
*eningococd in vvhich the strains of type II predominate and of other t}’i>es
the proportions in vvhich thej- are found, are employed as antigen.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
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(Trabalho da Seção de Bacteriologia; Pette e Coco»
negativos do Instituto Butantan. Entregue para
cação rm setembro de 194J e dado ã publicidade em f**
vereiro de 194J).
14
614.542:616.246
TIPOS DE BACILO DE KOCH NA TUBERCULOSE
PULMONAR HUMANA (*)
POR
PLIXIO MARTINS RODRIGUES
Desde a célebre declaração de Koch, por ocasião do Congresso Britânico de
T^uberculose, reunido em Londres, em 1901, pela qual afirma\a o grande expe-
rimentador ser a raça bovina do bacilo da tuberculose destituida de poder pa-
togênico para o homem, esforçaram-se os pesquisadores nas diversas partes do
•nundo, dada a enorme importância prática da controvérsia imediatamente su.sd-
tida a respeito, para determinar o tipo do germe nas mais variadas formas da
mfeção humana.
Ainda em 1908. era um dos principais argumentos de Koch, em apoio da
opinião, o fato de que, até então, não havia sido comprovada de modo cabal
* responsabilidade etiológica da raça borina, cm caso algum da mais importante
'ias formas de tuberculose humana, a tísica pulmonar.
As pesquisas de A. A. Griffith, membro da “Ro>-al Commission” nomeada
pilo governo inglês para esclarecer o assunto, vieram tirar ao argumento de Koch
seu carater absoluto, conseguindo aquele experimentador, dentre 29 caso de
t*ibcrculose pulmonar, isolar repetidas vezes de dois pacientes a raça bovina,
'‘áo sendo encontrada a raça humana.
Em breves anos, graças principalmente às pesquisas levadas a efeito na In-
^terra e Escócia, ficada demonstrado, de maneira dcfiniti^•a, que a raça bovina
bacilo de Koch tinha uma parte scnsivcl de responsabilidade na etiologia de
'luasi todas as formas de tuberculose humana.
Mas ainda em 1922, isto é "treze anos depois que os primeiros casos inglê-
tinham sido descobertos”, somente "quatro casos de tuberculose pulmonar
*^ribuiveis a bacilos de tipo bovino tinham sido relatados, na Grã-Bretanha, e
Poucos casos duvidosos de infeção mista com bacilos de tipo humano e bovino.
Continente” (1).
l*) Acnidfceinc* â SnL Minnic P- o saxllio prrtíado duruite a cxccuçi® da parte técnica
trabalho.
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Memórias ilo Instituto Butantan — Tomo XVI
Já. em 1930 (2), porém, tinha sido comprovada, na Escócia, a presença
da raça bo\nna de bacilo em treze doentes de tuberculose pulmonar, ao passo
que na mesma épKxa, no mundo inteiro, com exceção da Grã-Bretanha, já 926
casos da mesma enfermidade tinham sido investigados quanto à sua etiologia,
e, somente em tres, foram encontrados bacilos de raça bovina, sendo que dois
déles eram de infeção mista com a raça humana (3).
Dez anos mais tarde, os resultados das pesquisas inglèsas já eram sufi-
cientes para dar uma ideia aproximada da incidência, na Escócia, do tipo bo-
vino de bacilos no escarro de doentes de tuberculose pulmonar: 6%, em 515
casos de Griffith, e 5%, em 11/0 casos de Munro (1), relativos todos ao centro
e sul e 9,1%, om 34z casos fie Griffith e Smith (4), relativos ao nordeste da-
quele pais.
Beattie e Nicewongen (5), como resumo da leitura de aproximadamente
cem trabalhos da literatura especializada, publicaram algarismos relativos à fre-
quência do bacilo bovino no escarro, em várias partes do mundo. Para a Es-
cócia, os dados encontrados, nos quais devem estar naturalmente incluidos os
acima citados, foram: 5% entre 1934 casos examinados. Para a Inglaterra,
que, com a Escócia, constitue a região do mundo onde mais tem sido estuda-
da a questão da tuberculose humana de origem bo\nna, a incidência achada foi
de 2% entre 2.630 raças isoladas.
Resultado interessante dessa revisão de literatura é a constatação de fre-
quência, na Dinamarca, mais elevada ainda que na Escócia: 6,1% entre 1975
raças examinadas. Porcentagem mais elevada que esta. só conhecemos. a citada
por B. Lange (3): 11,2%, mas relativa a número (89) bem menor de casos
examinados em cidade holandesa (?), isso si desprezarmos outros dados, men-
cionados ainda por êste último autor, por serem escassos demais (8 raças das
quais 2 bovinas). Quanto à Alemanha, a frequência encontrada pelos autores
americanos na revisão de literatura citada foi 3,4%, relati\-a ao total de 561 amos-
tras identificadas, enquanto Lange (3) calcula ser de 1% a incidência provz-
vel nesse pais. Nos Estados Unidos, na Irlanda e na França não foi encontra-
da, entre centenas de casos examinados, nenhuma raça bovina, igualmente ausen-
te no material e.xaminado no Canadá, na Austrália e cm Trindade, em dezenas
de casos.
Dos pesquisadores nacionais, só Rosemberg (16), ao que sabemos, refere ter
isolado de escarro o bacilo de tipo bovino. Foi examinado material vário (e.scar-
ro, liquido de lavagem gástrica, etc.) proveniente de 58 tuberculosos. Em tres
casos de tuberculose pulmonar foi isolado do escarro o bacilo bovino. O autor do
trabalho não especifica, porém, em quantos dos 58 casos foi o escarro o material
e.\aminado.
Sendo o conhecimento da incidência do tipo bovino de bacilo na tísica pul-
monar humana de interesse para a solução do problema da tuberculose, sob múl-
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Plínio Martins Rodrigues — Tipos de bacilo de Koch na tuberculose
pulmonar bumana
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tiplos aspectos, profilático, epidemiológico, econômico, etc., iniciámos ha dois
anos pesquisa a respeito, em nosso meio. Publicamos agora os primeiros resulta-
dos dêsse trabalho.
MATERIAL E MÉTODO
Foram realizadas culturas com escarro de 132 doentes de tuberculose pulmo-
nar, todos adultos em tratamento no Hospital S. Luiz de Gonzaga, de Jaçanã,
S. Paulo (*).
A pesquisa bacterioscópica prévia revelou em todos a presença de bacilos
alcool-áddo-resistentes. O meio de cultura empregado foi o de Petragnani com
verde malaquita (6). Para cada caso, durante todo o decorrer da pesquisa,
foram utilizados, para a cultura inicial, tres tubos de Petragnani com e tres sem
glicerina; além desses meios, foram empregados no início do trabalho, para o
isolamento, meios de Dorset e Lubenau, a seguir abandonados para a ailtura ini-
cial devido à elevada porcentagem de contaminação, apesar do tratamento prévio
do escarro. Para êste tratamento foi empregada a técnica simplificada de Grif-
fith (1) ; junção ao escarro de volume igual de uma solução de KOH a 4^,
sendo a mistura, a seguir, bem agitada e colocada em estufa a 37° por hs.
Xo fim dêsse tempo, eram semeadas com pipeta uma ou duas pequenas gotas da
mistura bem fluidificada e não neutralizada.
Uma vez observados o crescimento eugõnico das culturas e a ação favo-
rável exercida sôbre o mesmo pela glicerina, eram elas repicadas a partir sempre
de meios sem glicerina e, às vezes, também de meios glicerinados, para novos
tubos de Petragnani com e sem glicerina e para batata glicerinada, além de,
ocasionalmente, para meio de Bordet-Gengou, Lõwenstein, caldo glicerinado, Sau-
ton, etc. . O diagnóstico das raças humanas eugônicas foi feito sempre facilmente
por processo cultural, tendo sido apenas necessário repetir repiques ocasional-
mente negativos para dissipar toda e qualquer dúvida.
Com as amostras que se comportaram de modo disgônico quanto ao aspecto
geral do seu crescimento, foram realizadas sub-culturas com a técnica habitual
e com técnica apropriada à obtenção de colônias isoladas (7) e foram injeta-
dos coelhos nas doses de 10 mgs, subcutancamente. e, na veia, 0,01 mg e,
ocasionalmente, 0,1 e mesmo 1 mg.
Inoculámos numerosas cobaias, diretamente com escarro, subeutaneamente.
após tratamento com XaOH e neutralização subsequente com H*SO^, assim como
com culturas, para verificação não só da rirulência da raça como de suas carate-
rísticas culturais, após passagem em animal.
(*) Deixamos aqoi consignados os nossos agradecimentos ao prof. Moacjrr de Freitas Amorfm» cliefe
do laboratorio <k> Hospttal S. Ltiia de Gonzaga, pelas iacf idades que aí nos foram ccocedidas.
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Memórias do Instituto Butantan
Tomo XVI
— RESULTADOS —
De cada um dos 132 doentes cujo escarro foi semeado, foi obtida cultura
de bacilo de Koch. Em vinte casos, foi o germe isolado mais de uma vez de
material do mesmo paciente, tendo sido o diagnóstico de tipo confirmado em
todas as repetições.
As raças correspondentes a 126 desses doentes pertenciam ao tipo humano
eugônico. Xão foi encontrada nenhuma raça bovina. As amostras obtidas dos
seis pacientes restantes eram do bacilo humano disgônico, tendo sido, em tres
desses casos, obtida cultura em dois exames sucessivos, em dois outros em
tres ocasiões diversas e no restante em quatro.
Em um desses casos, o inters^alo máximo com que foram examinadas duas
amostras sucessivas de escarro chegou a ano e meio; nos outros, foi, respectira-
mente de 9j4. 3j4. 2. 2 meses e, finalmente, apenas alguns dias. A persistên-
cia dos caracteres culturais do bacilo humano disgônico, após períodos vários
de desenvolvimento dêste “ih riro" — verificada assim, em vários casos, em exa-
me de diversas amostras de material proveniente de um mesmo paciente —
jiarece encontrar confirmação no fato do parentesco de pai a filho de dois dos
pacientes incluidos no grupo desses seis casos, pois é provável pelo inquérito
realizado que um deles, o pai. tenha sido a fonte de contaminação do outro.
Em regra, o crescimento, em Petragnani glicerínado. das amostras pertencen-
tes a êsses seis casos, foi sempre muito mais abundante do que no mesmo
meio sem glicerina, chegando a formar, em sub-cultura. ou mesmo em cultura
inicial, camada tres ou quatro vezes mais espessa no primeiro do que no se-
gundo. N'o entanto, esse crescimento, em cultura inicial, não adquiriu nunca, em
seu conjunto, o aspecto rugoso. nem a exuberância do da raça eugônica tipicá
(Foto 1). e, mesmo em sub-cultura, diferenciara-se êle nitidamente, de regra, do
de uma cultura eugônica (Foto 2) ; quando formando camada uniforme (Foto
3. lado esquerdo), era. por vezes, quasi indistinguível do da raça bovina em sub-
cultura em Petragnani. quanto ao seu aspecto liso e uniforme, sendo, no en-
tanto. mais abundante do que o desta.
A hipótese de se tratar de raças bovinas para as quais não se verifica o
])oder inibidor (8), característico da glicerina sôbre o crescimento, pôde, contudo,
ser afastada, já pelo estudo cultural, vindo as inoculações em animais confirmar
o íliagnóstico de raças humanas disgónicas.
De fato, quando observadas isoladamente, em culturas iniciais ou em sub-
culturas obtidas com técnica apropriada, as colômas p>ertencentes a essas raças
disgónicas apresentavam, em sua grande maioria, asp>ectc bem distinto do das coló-
nias tipicas de bacilo bovino, abobadadas e de superfície perfeitamente lisa e espe-
lhada. Desde algumas colónias, perfeitamente iguais as da raça humana eugô-
I SciELO
4
Plixio ^L\RTIxs Rodrigues
Tipos de bacilo de Koch na tuberculose
pulmonar humana 333
nica típica, bem rugosas e bem crescidas, obserrava-se transição gradual para
outras — as mais numerosas — mais disgônicas e menos rugosas (Foto 4), até
se obter, em raros casos (Fotos 5 e 11), colônias de aspecto bem semelhante ao
das de tipo bosnno. Se obseiradas separadamente e a olho nú, tais colônias po-
deriam talvez ser consideradas como pertencentes a êste tipo mas, estudadas em
conjunto com as restantes, via-se muitas vezes de maneira nitida que elas não
representavam senão um grau avançado na transição “rugoso-liso”, sendo sempre
possível, com uma lupa, perceber não ser a sua superfície tão homogênea como
a das pertencentes à raça bovina.
A maioria era constituída, assim, quer de colônias pequenas, (Foto 3, à di-
reita), medindo, quando em pleno desenvolvimento. 0,1 a 0,5 mm de diâmetro,
arredondadas ou de contorno irregular, ligeiramente elev'adas sôbre o meio, de
aspecto pouco rugoso, quer de colônias de diâmetro total bem maior mas igual-
mente pouco elevadas: apenas, sobresaindo, um “núcleo” central, e, em tomo.
constituindo a maior parte da colônia, fina película que. ora se destaca ainda do
meio (Foto 6), ora neste se perde gradualmente, dêle afinal se distinguindo, a
olho nú. graças apenas ao corante (verde malaquita). Quando muito numero-
sas. tais colônias fonnaram pela fusão das respectivas películas marginais, cama-
da contínua onde era ainda possivel distinguir saliências correspondentes aos
"núcleos” das colônias isoladas.
Essa variedade de aspecto das colónias poude ser melhor obser\-ada cm
culturas escolhidas, obtidas, de preferência, por meio de repique, apôs diluição
em série, de suspensão de cultura em camada ou de colônias isoladas.
Foram assim selecionadas verdadeiras escalas de transição de colônia rugosa
para lisa (Fotos 8 e 9).
Outras vezes, só com auxílio de uma lupa (aumento x5. xlO) era possivel
percelier gradação na rugosidade das colônias entre os dois extremos (Fotos
10 e 11).
Nos inúmeros repiques praticados com essas raças disgônicas em Petragnani
glicerinado, a jartir de meios quer com. quer sem glicerina, na naioria das
vezes o crescimento obtido foi cm camada em geral espessa, algumas vezes per-
feitamente lisa, outras vezes menos homogênea, mostrando ainda, na superfície,
mesmo após incubação prolongada, irregularidades e saliências, resíduos das
colônias inidalmente isoladas.
Em alguns dos seis casos, as diferentes amostras obtidas de cada paciente,
mostravam, em cultura inicial, ora exclusi\-amente poucas colônias isoladas bem
rugosas. ora numerosas colônias que se apresentavam, quando observadas a olho
nú. a maioria, com aspecto disgônico. e, uma ou outra, com aspecto eugônico.
de diâmetro até cinco, seis vezes maior do que o das disgônicas, todas elas.
quando examinadas com lupa. revelando-se como graus diversos de transição de
cm
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
colônia disgônica pequena, mas pouco rugosa, para colônia eugônica, grande, bem
rugosa.
Só uma vez obtivemos crescimento em batata glicerinada, em repique de
meio sem glicerina, de amostra ainda não cultirada em meio glicerinado, corres-
pondente a um desses seis casos; apenas uma colônia na superficie da batata e
véu pouco extenso mas espesso sobre o caldo. As culturas obtidas, a partir
dessa batata, apresentaram-se abundantes, rugosas, indistinguiveis das do tipo
humano eugônico.
Para cada uma das raças disgônicas, a prora de cultura em liatata foi
repetida numerosas vezes, dada a sua importância (9) para a diferenciação dos
tipos. Mesmo após hábito prolongado em meio glicerinado, o repique em batata
foi, de regra, negativo, com as amostras correspondentes a tres dos seis casos
estudados: apenas uma vez, para cada um desses tres casos, entre as inúme-
ras tentati^'as feitas, conseguimos obter cultura em batata: num déles, crescimen-
to augõnico, após ano e meio de passagem em Petragnani glicerinado e, nos
dois outros, crescimento disgônico, após duas passagens.
Com amostra correspondente a outro dos seis pacientes acima, conseguimos
cm latata por semeadura da cultura inicial em Petragnani glicerinado, cresci-
mento eugônico, mantido a seguir com o mesmo aspecto em repiques em série,
quer em batata, quer em Petragnani; com outra amostra pertencente ao mes-
mo caso, obtivemos crescimento disgônico em batata, transplante igualmentc de
cultura inicial em Petragnani glicerinado. No entanto, a repetição, em e.scala
maior, da pro\-a. com várias culturas inidais em Petragnani glicerinado, cor-
respondentes ao mesmo caso. deu sempre resultado nativo.
As culturas inidais em Petragnani glicerinado, obtidas em duas ocasiões
diversas de material pertencente ao quinto padente. repicadas para vários tubos
de batata, deram origem a cresdmento disgônico: duas ou tres colônias, que,
transplantadas, forneceram culturas de aspecto eugônico mantido a seguir em
sub-culturas em série.
Finalmente, com amostra jjertencente ao último caso, obtivemos em Bor-
det-Gengou glicerinado, a partir de cultura inicial em Petragnani com glicerina,
cresdmento liso em camada espessa que, semeado em Petragnari e batata,
forneceu cresdmento rugoso eugônico tipico, mantido igualmente em sub-cul-
tura.
Com outra amostra pertencente a êste último caso, observámos, em meio
de Lowenstein com glicerina, — repique de cultura inicial, em camada esj>essa
mas lisa em Petragnani glicerinado — transformação, após incubação prolonga-
da. do aspecto do crescimento. Durante tres meses, cultura disgônica, forman-
do camada sôbre a qual sobresaiam ligdramente algumas pequenas colônias, às
vezes simples pontos, desenvolveu-se repentinamente em cultura de aspecto eugô-
nico, com numerosas colônias acentuadamente rugosas que sobresaiam nit?da-
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Plixio Martixs Rodrigues — Tipos de bacilo de Koch na tuberculose
pulmonar humana
335
mente sôbre o nivel do meio de cultura, enfim em cultura de tipo humano
eugônico.
A ciJtura em Lõwenstein, quando ainda apresentando aspecto disgônico,
foi inoculada em cobaia; readquirida desta, a raça mostrou ainda, em Petragna-
ni com glicerina, crescimento disgônico (Foto 7) mas perfeitamente diferen-
ciavel, de uma cultura do tipo bovino.
Em resumo, já pelas pro\’as culturais — aspecto geral do crescimento,
influência da glicerina e, principalmente, pro^-a em batata glicerinada e estu-
do detalhado de colônias que se apresenta\'am isoladamente ou eram assim
obtidas mediante técnica apropriada — foi possivel, para as raças classifica-
das como disgônicas humanas, fazer o diagnóstico diferencial com o tipo bo-
rino. Do tipo humano eugônico, puderam as raças em estudo ser distinguidas,
graças à ausênda de crescimento, em geral (sw uma vez crescimento eugô-
nico), em batata, quando ainda não habituadas à glicerina e pelo dcsenvolri-
mento, quando considerado em conjunto, muito mais disgônico e menos rugo-
so em Petragnani glicerinado que o das raças humanas eugônicas.
Até o momento não conseguimos obter com essas raças dissodação, em
cultura pura, em colônias rugosas e lisas; prosseguimos atualmente estudo a
respeito que pretendemos, para o futuro, detalhar juntamente com o resulta-
do de experiéndas em animais, sôbre a virulénda das culturas de aspecto
vário, obtidas a partir das raças inicialmente classificadas como humanas dis-
gônicas.
A respdto das inoculações já feitas, relataremos apenas o que interessa di-
reíamente ao diagnóstico diferendal entre raça humana e bovina.
Foram inoculados ao todo 38 coelhos, sendo 26 na veia e 12 sub-cutanca-
mente. Dos primeiros, 16 receberam 0,01 mg, dois 0,1 e oito 1 mg de baci-
los; dos últimos, dnco receberam 10 mg, tres foram injetados com o cre.sd-
mento total de cultura — de 24 dias em dois casos e de tres meses no ter-
ceiro — e quatro com escarro tratado pela NaOH e neutralizado pelo H~SO^.
O exame bacterioscópico prério revelou a presença de bacilos alcool-ácido re-
sistentes no escarro nos quatro casos.
A autópsia foi geralmente realizada aos tres meses após a inoculação, sen-
do uma pequena maioria sacrificada com dois, quatro ou dnco meses.
Apenas alguns dos coelhos que receberam um mg de badlos isolados de
dois dos seis casos em estudo, apresentaram lesões generalizadas de tuberculose.
Outros coelhos inoculados com igual dose de raças pertencentes a êsses mes-
mos dois casos, ou aos restantes, apresentaram apenas alguns tuberculosos isola-
dos nos pulmões. Todos os coelhos inoculados na veia com as doses menores
ou nada apresentavam à autópsia ou apenas lesões isoladas e não caseifica-
das.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
Os coelhos inoculados sub-cutaneamente, à exceção de dois que revelaram
à autopsia lesões orgânicas pouco extensas, quer nada apresentavam quer ape-
nas abcesso local no ponto de inoculação, na maioria das vezes já íibrosadr. ou
contendo apenas pequena quantidade de pús espesso, cremoso, no qual o exa-
me bacterioscópico revelas^a raros bacilos ou, mesmo apenas restos de substân-
cia alcool-ácido-resistente.
Todas as raças inoculadas mostraram-se virulentas para a cobaia.
COMENTÁRIO
C>5 nossos resultados veem aumentar o número de investigações qae, em
vários paises do mundo, têm constatado a ausência do bacilo bovino em
escarro de doentes de tuberculose pulmonar, em número variavel de casos.
Como vimos, na primeira parte dêste trabalho, em tres dêles (Estados Uni-
dos. Irlanda e França) a pesquisa do bacilo bovino já atingiu um número ra-
zoável de casos. .\liás no primeiro, a possibilidade de infeção humana pelo
bacilo de origem bovina é hoje minima, graças aos resultados extraordinários
obtidos na luta contra a tuberculose do gado.
No que diz respeito ao nosso pais, é preciso que se multipliquem as
investigações, para que se px)ssa concluir, de resultado análago a odêste tra-
balho, nâo exercer o bacilo bovino grande papiel entre nós na etiologia da tu-
berculose pulmonar. É sabido, pielo exemplo da Escócia e Inglaterra, como
pxxJc variar, em regiões vizinhas, a incidência da tuberculose pulmonar de ori-
gem bovina, segundo os hábitos peculiares às respectivas pxjpulações.
Em S. Paulo. A Melo e N. Mastrofrancisco (10) encontraram, entre cem
amostras de leite cru entregue ao consumo da px)pulação da capital do Esta-
do. trinta contaminadas p>elo bacilo de Koch vivo. Tal achado, aliado à consta-
tação do alto Índice (40%) de sensibilidade â tuberculina que. segundo êstes
técnicos, apresenta o gado leiteiro dos estábulos situados no municipio de S.
Paulo, dava já uma idéia do pjerigo de contaminação do homem entre nós
pelo germe de origem bovina. A investigação de Rangel Pestana (11) vem
provar que tal infeção realmente se verifica: entre 121 raças de Mycobaclc-
ríum tubcrculosis isoladas de amostras de liquido cefalo-raquidiano, exairuna-
das no Instituto Bacteriológico de S. Paulo, hoje Instituto .Adolfo Lutz, foram
encontradas 16 (13,2%) pjertencentes ao tip» bovino.
Sabe-se, no entanto, que a parcela de respxjnsabilidade do bacilo bovino como
fator etiológico da tuberculose humana é muito menor na tisica pulmonar que
nas formas extra-pulmonares da infeção.
De qualquer forma, seria de todo injustificável pretender abolir entre nós
a prática da pasteurização do leite. Talvez sejam os Estados Unidos o único
«
I SciELO
Plínio Martins Rodrigues — Tipos de bacilo de Koch na tuberculose
pulmonar humana 337
país do mundo em condições de, com perfeita segurança, poder no momento
tomar tal medida, pois só lá foi, por enquanto, a tuberculose bovina pratica-
mente extinta.
Como auxilio ao esclarecimento do problema da piasteurização, ainda re-
centemente debatido entre nós, traduzimos aqui as palavras de Bruno Lange
(3), com as quais o eminente diretor do Instituto Roberto Koch, de Berlim,
conclue os seus comentários, referentes à questão da importância etiológica do
bacilo bosnno na patologia humana:
“Ao esclarecer o povo sobre os perigos de uma infeção com o bacilo
da tuberculose bo\nna e a sua prevenção, deve ser combatido o preconceito
largamente disseminado segundo o qual o leite pasteurizado ou rapidamente fer-
z-ido é prejudicial ao lactente. Já ha muito, numerosos lactentes são criados,
nas grandes cidades alemãs assim como no estrangeiro, apenas com leite pasteu-
rizado sem que, tenham sido obsenvdas perturbações de saude ligadas a tal
procedimento. A perda de vitamina C que, segundo Bessau, é capaz de pre-
judicar a vitalidade da criança e principalmente elevar a sua predisposição à
infeção, pode ser perfeitamente compensada, fomecendo-se-lhe outros alimen-
tos ricos em vitamina”.
Quanto às raças humanas disgônicas, a frequência cm nossos casos (4,5%)
não difere muito da citada por Griffith (8) : “aproximadamente 3% do número
total de raças do tipo humano”. Devido à sua semelhança com as raças hu-
manas eugônicas, no que diz respeito à virulência e a alguns caracteres cultu-
rais. e à sua frequência baixa quando comparada com a destas, foram as
raças humanas disgônicas consideradas piela “Rojai Comission” como \arian-
tes das primeiras.
Mas mais tarde. Griffith (12), entre 50 raças de bacilo de Koch isoladas
na Nigéria, encontrou nada menos que 28 pertencentes ao grujx) disgônico hu-
mano. o que indica jxxler diferir, nas diversas partes do mundo, o conceito do
que seja raça tijx> e raça variante, desde que se tome a frequência relativa
como critério determinante.
Tais raças provenientes da Nigéria apresentam, pela descrição feita (13),
maior semelhança com as jior nós isoladas, que as estudadas pela “Rojai Com-
mission”, pxsis são as primeiras “disgônicas em todos os meios” enquanto que
as últimas “em meios com soro ou ovo crescem como bacilos eugônicos huma-
nos” e não se assemelham a raça bovinas em “nada exceto em crescer com
dificuldade em agar, batata e caldo glicerinado” (14).
Aliás entre as diversas raças disgônicas por nós isoladas foi piossivel esta-
belecer diferença quanto ao vigor do crescimento. Assim, parece que, como
queria Eastwood (15), entre as raças bovinas disgônicas e as humanas eugôni-
cas todas as formas de transição são encontradas. Tal escala de transição parece
9
I SciELO
338
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
existir não apenas quanto ao ^^go^ do crescimento tomado no seu conjunto mas
também quando se consideram as colônias isoladamente.
Com efeito, de um lado, as raças disgônicas por nós isoladas mostraram
nas primeiras sub-culturas e, algumas vezes, em cultura inicial, mistura, em di-
versas proporções, de colônias as mais diversas quanto ao seu aspecto mais
ou menos rugoso ; de outro lado, as raças bo\nnas e' humanas típicas apresentam
nas primeiras culturas, aquelas, colônias perfeitamente lisas e disgônicas e, estas,
colônias bem rugosas e eugônicas, formas essas sempre presentes em cultura
em enorme predominância ou exclusividade (pois parece não haver na litera-
tura referência a achado de colônia lisa e disgônica em meio a uma cultura eugô-
nica humana).
Tais raças disgônicas, consideradas habitualmente atípicas e recentemente
achadas, como vimos, em alta porcentagem (56%) entre amostras da Nigéria,
despertam agora novo interesse após a observação de Griffith (12) relativa à
sua mais alta frequência na tuberculose pulmonar humana, nos distritos rurais
de certa região da Escócia, que em outras partes da Grã-Bretanha, de maneira
análoga ao que se passa com a raça bovina. A possibilidade que elas desem-
penhem papel a parte na epidemiologia da tuberculose humana merece ser in-
vestigada. Os casos por nós estudados, em número por demais reduzido, não
proporcionaram, a respeito dessa questão, nenhum dado utilizável.
RESUMO
1. ° — Foi determinado o tipo de culturas de bacilo de Koch isoladas, em
alguns casos repetidamente, de 132 doentes de tuberculose pulmonar em tra-
tamento no Hospital S. Luiz de Gonzaga, Jaçanã, S. Paulo.
2. ® Não foi encontrada nenhuma raça bovma.
3. ° — As raças isoladas repetidamente de 6 pacientes foram classifica-
das como humanas disgônicas.
4. ® — As raças isoladas dos doentes restantes (126) pertenciam ao tipo
humano eugônico.
5. ® — Foram descritos os caracteres gerais das raças humanas disgônicas
isoladas, tendo sido dada especial atenção ao estudo morfológico de colônias iso-
ladas.
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TYPES OF TUBERCLE BACILLI ISOLATED FROM SPUTUM
BY
PLÍNIO MARTINS RODRIGUES
In the Brazilian medicai literature there is as far as we know only one paper
wherein referente is made to the isolation of the bovine type of tubercle bacilius
from the sputum of patients suffering from pulmonary tuberculosis. Roseni-
berg (16) referred therein having isolated bovine bacilli from sputum of three
such patients but no mention is made of the total number of cases for which the
same material was examined.
The results for tj^jing tubercle bacilius strains isolated from 132 patients
suffering from pulmonary tuberculosis are reported in this paper. AH of them
were grown-up people under treatment.in “Hospital S. Luiz de Gonzaga”, Ja-
çanã, S. Paulo.
MATERIAL AND METHOD
Three tubes of malachit-green Petragnani (6) médium containing glyce-
rin and three others free from it were used throughout the work for the pri-
mar)' culture. Dorset and Lubenau media were also made use of when the
first samples of sputum were examincd, but were later given up bccause of ex-
tensive contamination in spite of previous treatment of the sputum with 4%
KOH according to Griffith’s simplified technique (1) employed by us in every
case.
Subcultures were made for every strain from Petragnani ^%•ith glycerin and
sometimes additionally from Petragnani without glycerin to both kinds of media
and now and then also to Bordet-Gengou» Loewenstein, Sauton, glycerin boil-
lon, etc.
The human eugonic strains have always been easily typed on cultural grounds
only. Occasionally negative subculturings were repeated and so every doubt was
set aside.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
All strains that grew dysgonically were submitted to subculturing carried
out as usual and with a spedal technique (7) for gro\ving separated colonies.
Everyone of them was inoculated into rabbits on the dose of 10 mg subcuta-
neously and 0.01 and occasionally 0.1 and even 1 mg intravenously.
Guinea-pigs were inoculated subcutaneously with sputum not only after
being treated first wth NaOH and then neutralized with H 2 SO 4 , but also \\-ith
cultures’in order to ascertain the virulence of the strain and the constancy of its
characteristics after animal passage.
RESÜLTS
A culture \\as obtained from the sputum of every patient. In twenty of
the 132 cases a tubercle bacillus strain was isolated more than once from the
same person, and the result of typing was always the same for every repeti-
tion.
Alcohol-acid-fast bacilli were found on smears of all samples of sputum
submitted to culturing.
The strains from 126 of these patients were classified as human eugonic;
no bovine strain was met with. Strains obtained repeatedly from everyone of
the six remaining people belongcd to the human dysgonic type; a primary cul-
ture was obtained twice from three of them, thrice from two others and four
times from the last.
The longest internai between two e.xaminations of sputum from the same
person was a year and a half for one of these six cases, and 9>^. 3yí, 2, 2
months and some days for the remainder.
Two of these six patients were father and son. This fact seems to con-
firm the observation once more made in the cases herein reported conceming the
type stability of the tubercle bacilli as dctermined on different occasions when
growing in the animal or human body. Indeed it seems probable through the
inquiry made that the father was the source of contamination for the son. Both
cases have shown a favourable clinicai course.
The amount of growth of human dysgonic strains on glycerin Petragnani
médium was as a rule much greater than on the same médium without gly-
cerin. When a layer was formed it was on secondaty' or even on primarj’ cul-
ture three or four times as thick on the former kind of médium as on the
latter.
The growth of such strains was on primar)' cultures however never so lu-
xurious as is usual with typical human eugonic bacilli (Photo 1 ). Even on
subcultures it was as a rule easy to distinguish between both types of growth
(Photo 2). The layer sometimes formed by the dysgonic strains (Photo, 3 to
12
1'UNio Martins Rodrigues — Types of tubercle bacilli isolated from
spulura
341
the left) ^^•as verj' similar to the one presented usually by secondarj- cultures of
bo\*ine bacilli on Petragnani as far as the evenness of the growth is concer-
ned but 'was much thicker.
The study of the cultural characteristics was already suffident to discard
for such dysgonic strains the possible altemative diagnosis of bovine strains which
are not inhibited in their gro\v-th by glycerin (8). In fact, the colonies appea-
ring separately on primary cultures or so obtained on subcultures by means
of a special technique were in great majority quite different from the perfectly
smooth, shining, dome-shaped ones, typical of bodne strains.
All transitional grades were observed in the same strain or in different
strains obtained from the same patient: at one end some colonies identical to
thcse belonging to the tN-pical human eugonic strains, ver>' rough and well de-
veloped, in the míddle in greater number, dysgonic and less rough ones (Photo
4), at the other end smooth bovine-like form of colony, rarely met with
(Photo 5).
If single colonies of the latter form were obser\-ed by the naked eye. they
would perhaps be typed as bovine ones. But when they were considered together
with all the others in the same tube, one could easily perceive that they were
buí almost an extreme step in the graduation “smooth-rough”. It was always
possible to see with the aid of a hand-lens that their surface was not so even
as that of the tj*pical bovine colonies.
The majority of the colonies belonged then to either of the followãng tj-pes.
Some were cirailar or irregularly outlined, flat, small colonies with diameters
ranging from -0.1 to 0.5 mm (Photo 3. to the right). Others had a much
greater diametcr and presented a central, someAvhat raised zone, a “nucleus”
and a marginal one, flat, much larger than the first, now veil-like merging it-
self gradually into the médium, now still quite distinct from this (Photo 6).
It was sometimes possible to observe gradual transition from the colonies
of the latter description to typical rough colonies as the.margin gre\v smaller
and smaller and the “nucleus” raised higher and higher.
On the other hand when a great numher of such colonies had a small
“nucleus” and wide borders, these could run together so as to form a conti-
nuous layer whereon one could still see raised points which indicated the
central areas of the previous single colonies.
This variety of colony-forms could be better observed on selected subcultu-
res obtained by inoculating dilutions of suspensions prepared with layers of
growth or with single colonies. It has thus been possible to select true scales from
smooth to rough colonies (Photos 8 and 9).
On other occasions only with a hand-lens (magnific. x5, xlO) it was pos-
sible to perceive a graduation in the roughness of the colonies between the two
extremes (Photos 10 and 11).
13
I SciELO
342
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
The growth displayed by these dysgonic strains on glycerin Petragnani in
a great number of transplantations from media either -with or without glycerin
was commonly a layer that was seldom perfectly smooth, appeared generally
not so even and presented still on its surface the remnants of the previona
single colonies, even after prolonged incubation. Some primary cultures iso-
lated from the six patients referred to above showed exdusively a fe\v isolated
rough colonies, whereas another or other primary cultures from the same person
displayed numerous colonies of which the great majority were dysgonic. but a
few looked eugonic and were five, six times as great. Here again it was
possible to perceive a gradual transition from small, slightly rough dysgonic co-
lonies to large rough eugonic ones.
Only once a strain typed as dj'sgonic human and not yet accustomed to
glycerin, grew on glycerin potato, giving one colony on the surface of the po-
tato and a thick but small veil on the bouillon. Rough, luxuriously gro%ving
cultures quite undistinguishable from those of the human eugonic tj-pe were
obtained by transplanting from the glycerin-potato-tube.
This growth-test on glycerin potato was repeated very often due to its im-
portance (9) for t\-pe determination. Xo growth appeared as a rule for the
strains isolated from three of the six patients already referred to, even after
prolonged training on glycerin media. Only once for each of these three
strains, the transplantation gave a growth after being rep>eated a great many
times: for one of them eugonic growth after a year and a half subculturing
on glycerin Petragnani and, for the two others, eugonic growth after two
transplantations.
By subculturing from glycerin Petragnani a strain isolated from another
of the six cases herein studied, an etigonic growih was obtained on glycerin
potato and then maintained with the same appearance through a series of
transplantations. either on potato or on Petragnani. Another strain from
the same patient grew likewise dysgonically on glycerin potato on being trans-
planted from a primar)* culture on glycerin Petragnani. The repetition of the
test by employing several primar)* ailtures on glycerin Petragnani from the
same cases was however al\\*ays negative.
dysgonic growth appeared on several glycerin potato tubes sown with ma-
terial from glycerin Petragnani primai*)* cultures isolated on two different occa-
sions from the fifth case. There developed only tw*o or three colonies that on
being transplanted gave eugonic growth carried with the same aspect through a
series of subcultures.
.•\ strain isolated on glycerin Petragnani from the last case was transplan-
ted to glycerin Bordet-Gengou and gre^v here into a smooth, thick layer,
that on being subcultured to glycerin potato and Petragnani, gave a typical
rough eugonic growth maintained then through a senes of transplantations.
14
I SciELO
Plínio Martins Rodrigues — Types of tubercle baciili isolated frorn
sputum
343
Another strain isolated on glycerin Petragnani gre\v into a thick but smooth
layer and was then transplanted to glycerin Loewenstein. Here it had during
three months a dysgonic appearance, forming a layer above which some sniall
colonies rose that were sometimes mere points and it then changed its tj-pe of
grow-th. It developed itself suddenly into a luxuriously growing culture, dis-
playing numerous verj’ rough colonies which rose high above the levei of the
médium, that is to say into an eugonic human type of culture.
The Loewenstein culture was inoculated into a guinea-pig when it still grew
dysgonically ; it A\-as later recovered and went on growing dysgonically on
glycerin Petragnani (Photo 7), but in such a way as to be possible to distin-
guish betAveen it and a bovine culture.
The results of the animal-inoculation tests with the dysgonic strains con-
firmed the tj^ping based on the study of the cultural characteristics. Twcnty-six
rabbits were inoculated intravenously and twelve intracutaneously. From the
former si.xteen were injected with 0.01 mg, two with 0,1 and eight with 1 mg
of liacilli : from the latter five received 10 mg, three were inoculated with the
entire gro-wth of a culture, tAventy-four days old in two cases and three months in
the third, and four with sputum previously treatcd first with XaOH and then
neutralized with HjSOi. Alcohol-acid fast baciili were found on slide prepara-
tions in all these four spedmens of sputum.
Autopsy was generally carried out three months after the inoculation; a
small number of animais were Idlled after two. four or five months.
Generalized tuberculous lesions were found only in some of the rabbits in-
oculated wth 1 mg of baciili isolated from two of the six cases under study.
Other rabbits which were injected with strains isolated either from the same two
cases or from the remainder, and in the same dose, had only isolated tubercles
in the lungs. All the animais that were inoculated intravenously with the snuller
doses had at autopsy either nothing or only isolated and non-caseating lesions.
The rabbits which were injected subcutaneously had at autopsy either no-
thing or only a localized abcess at the point of inoculation, already healed through
fibrosis or then containing some thick creamy pus that on slide preparations
showed only rare stabs or even only remnants of an alcohol-acid material.
COMMENT
This paper adds to the number of those which have reported the absence
of bovine strains amongst tubercle bacillus cultures isolated from patients suf-
fering from pulmonary phthisis.
As far as the human dysgonic strains are concemed the frequcncy in the
cases herein reported does not differ very much from that quoted by Griffith
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
(8) : "about 3 per cent of the total strains of human type”. But later on
Griffith (12) found no less than 28 human dysgonic strains among a group
of 50 isolated in Xigeria. These findings indicate that the concept of t>-pical
and at\-pical strains when based only on their relative frequencj- may s^ary in
different countries.
Such Nigerian strains are according to description (13) much more like
those studied by us than those detailed by the “Ro>-al Commission” appointed
in England to inquire into the relations of human and animal tuherculosis. Whe-
reas the latter “resemble bosdne strains in nothing except in growing wdth dif-
ficulty on glycerin-agar, potato and broth” and “on serum and egg media they
grow like eugonic human bacilli” (14) the former were dysgonic on all media.
Besides it was possihle to distinguish between the different dysgonic strains
isolated by us as far as the s-igor of their growth is concemed. Thus it ap-
pears as Eastwood maintained (15) that all transitional forms are found bet-
ween the bovine dysgonic and the human eugonic strains. Such scale seems to
exist not only when one considers the growth as a whole but also when iso-
lated colonies are obser\-ed.
In fact, on the one hand the dysgonic strains herein described displayed
on the first transplantations and sometimes on the initial culture the most dif-
ferent colonies as far as the vigor of their growth and their more or less rough
appearance are concemed. On the other hand the tjqiical bovine and human
strains present on the first cultures, the former perfectly smooth and dysgonic
and the latter markedly rough and eugonic colonies. all forms that prevail in
each case in a striking u-ay or exist alone (for it seems that no reference is
found in the literature regarding any smooth and dysgonic colony in the midst
of a human eugonic culture).
The dysgonic human type that recently as we saw was isolated in a high
percentage (56^) in Nigéria gained a ne^v interest through Giffith’s renwrk
that it is more frequently found in cases of pulmonary tuherculosis in the
rural districts of a certain region in Scotland tlian in other parts of Great
Britain in a similar way to what is observed with the borine t>'pe.
Whether or not these dysgonic strains have a peculiar rôle in the epi-
demiolog}' of tuherculosis is a feature that deserves further inquiry. The
number of the cases we have studied is as yet far too small to allow of any
serviceable obserration conceming this question.
SUMM.-\RY
1. The type of tubercle bacillus isolated. in some cases repeatedly. from
132 patients suffering from pulmonary tuherculosis under treatment in the
“Hospital S. Luiz Gonzaga”, São Paulo, was detemiined.
16
Pi.iNio ^L\RTI^•s Rodrigues — Types of tubercle bacilli isolaled írom
sputum 345
2. Xo bovine strain was found.
3. The strains isolated repeatedly írom 6 patients were classified as humaií
dysgonic.
.4. The strains isolated from the remaining patients (126) were typed as
human eugonic.
5. The general characteristics of the isolated human dysgonic strains have
been described, and special attention %ras dedicated to the morpholcçical study of
isolated colonies.
BIBLIOGRAFIA
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
FOTOGRAFIAS
*
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Foto 2
Foto 3
Foto ■»
Foto 5
Foto 6
Foto 7
Esclarecimentos.
— Ca*turas iniciais de mesma idade em Petragnani ^icerinado.
A esqurrda: raça bomana engònica.
A dirriíai raça C humana disgônica, mostrando crescimento em camada.
— Em bairoz raças 157, C. c 157 disgônicas humanas.
Em cima: crescimento eugónico e rugoso da raça 71 inicialmente classificada como
disgônica bomana.
^ A esqu^da: raça F bomana disgônica com nomerosas colônias, fundidas em camad.i
lisa, na maior parte do meio.
A direUa: mesma raça mostrando colônias isoladas.
— Raça humana disgônica F.
Mistura de colônias disgônicas e de colônias eugônicas e rugosas.
— Raça humana disgônica 157.
Mistura de colônias eugônicas e disgônicas; no canto inferior esquerdo e no centro
colônias semelhantes is do tipo boriíso.
— Repiques duma mesma cultura humana disgônica (raça F).
À ãireüa: semeadura com suspensão düuida de colônias em soro fisiológico, vendou
colônias isoladas com * 000100 ** central e película marginal.
A esqnrrda: semeadura com alça “carregada", rendo-s; crescimento em camada.
— Raça 71 classificada inicialmente como humana disgônica. Culturas prorenientrs dum
mesmo crescimento em meio de Loewenstcin.
À esquerda: cultura descendente de repique obtido do crescimento em Loewenstein quando
este ainda apresentava aspecto disgôoíco. Crescimento disgônico pontilhado de nu-
merosas colônias, confluidas em algumas partes do meia
À dirrt/u: cultura isolada de cobaia inoculada coen o crescimento em Loewerstein apòf
sua transformação em cultura eugòníca. Crescimento eugónico e rugosa
Fotos 8 x 9 — Raças 157 e 71 humanas disgônicas.
Transição “liso-rugoso "de colônia a colônia duma mesma cultura.
Foto? 10 i 11 — Raças 57 e 157 humanas disgônicas.
Transição de colônia lisa para rugosa.
Explanations of thc photograptis
■ Primary cullurt, o( the mne »ft oo glyctrin Petiapiani.
To thé Itft: buman eugoote strain.
To tkt rigkt: fauman dysgooic strain C, showing a laycr of growth.
• Btíow: human drsgonic strains 157, C snd 157.
Above: eugonic and rough growth of the strain 71 at fírst classified as human
drsgonic.
To ike lefí: human d^sgonic strain F showing numeroos colooies that ran togetaer
in the greatest part of the médium.
To tko rigkí: the same strain showing isdated coloniea.
Photo 1
Photo 2
Photo 3
18
SciELO
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cm
PiiNio Martins Rodrigues — Types of tubercle bacillí isolated from
sputum
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Photo 4 — Hom^ stnra F.
Mixtare of dji^cníc cdooies and of rasonic a^d roufli on^
Photo 5 — Humaa drstonic »traia 157.
Mixtare of cagonic and drsffonic co'ooies. On lower left comer and io the
middle fome colooies re$emb*inf thoae of the borine type.
Photo 6 — Transplanta of the same hoznan dT>ffOQÍc cnltnre (straio F).
7*0 tht rigkti seedios carríed oat with a dOuted tospession of colontes tn saline; ene
sees ifdated colooies with centra] "nocletis* and marfinal irtil.
To tkt left: seeding carríed oot with a loofrfo! of bacüli; one sees a larer of ^r^th.
Photo 7 — Strain 71» at first classified as hmnan dnconic. Both cnltores came from the
same growth oo Loewenstein medíttm.
To the lefii transplant from a coltare that came from the Lo*wenstcin cuUare when
this grew stilt d/sconicallf. Djscooic rrowth dotted with nnmerous colonies
that ran together in some parts of the médium.
To the righti culture recorered from a fuinea-pig that was inoculat^d with the
Loewenstein growth after this had changed ifito an eugonic ctilture. Eugonic
and roagh growth.
Pkotos S A.XD 9 — Homan d/sgonic strains 157 and 71.
^Smooth-rough* transitíon from co*oaj to colonj of the same caltnre. *
Fhotos 10 AHD 11 •>- Human d^sgonic strains 57 and 157.
Transition from smooth to roagh coloof.
19
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Plínio Martins Rodrigues — Tipos de bacilo de Koch na Mcm. in»t. Butantan
tuberculose pulmonar humana. vj. xvi 1942
Foto I
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SciELO
SciELOi'o
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L
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Plínio Mabtins Rodrigces — Tipos de bacilo de Koch na
tuberculose pulmonar humana.
Foro 8
Foto 9
Mcm. Tnst. Butantan
Vol. XVI —
1942
cm
5S1.634
CONTRIBUIÇÃO À MATÉRIA MÉDICA VEGETAL DO BRASIL
8. Complemento ao estudo farmacognóstico e terapêutico das
várias espécies do gênero Jacaranda {Bipioniaceae)
POR
FERNANDO PAES de BARROS
I
Entre as famílias botânicas mais ricas em espécies medicinais está, incon-
testavelmente, a das Bignoniaceae, na qual assume preponderância, pelo número
e pelas múltiplas propriedades terapêuticas dos vegetais que nele se grupam,
o gênero Jacaranda, cujo estudo foi iniciado pelo incansável pesquisador que era
Theodoro Peckolt e continuado pelo seu neto, Waldcmar Peckolt, no Instituto
Butantan.
O conhecimento empírico das virtudes curati\'as das jacarandas vem de era
remota. Na América do Sul, e principalmente no Brasil, os colonizadores eu-
ropeus vieram encontrá-lo já di\’ulgado entre as nações indígenas, mas foi muito
mais tarde, em 1866 , que êsse conhecimento se difundiu, cientificamente, pelos
trabalhos do velho Peckolt, que foi quem iniciou no Brasil as análises quimicas
las plantas tidas como de utilidade médica.
Tão ricas de propriedades medicinais são as plantas que se classificam no
gênero Jacaranda, que julgamos dever prosseguir no seu estudo, do ponto de
rista terapêutico. O presente marca o início desse tentamem e tem como ob-
jetivo uma homenagem mais a Waldemar Peckolt.
Conhecendo, demonstrado pelo seu avô, o grande valor das jacarandas, êste
nosso antecessor e organizador da Seçao de Botânica Médica do Instituto Bu-
tantan, p>assou a se dedicar ao estudo das mesmas, e, especialmente, à espécie
por êle tida como sendo a Jacaranda decurrens Cham., porém, guiou as suas
experiências para um lado ainda não explorado anteriormente, o das proprieda-
I SciELO
1
358
Memórias do Instituto Butantan — Tomo XVI
des parasiticidas da planta. Prosseguindo com êste objetivo, W. Peckolt o atin-
giu plenamente, colhendo os resultados positivos que publicou nas “Memórias
do Instituto Butantan” com o Dr. Alcides Prado, do ser\'iço de parasitologia,
que se encarregou da parte referente a essa especialidade com toda a profi-
ciência.
Entretanto, um engano, que de forma alguma poderá desmerecer o trabalho
daquele cientista, foi por ele cometido, trazendo isso alguma confusão, por ser
um equívoco de ordem sistemática, que precisa ser reparado.
Embora continuem desaparecidos os cadernos de notas deixados pelo sau-
doso pesquisador, por rários dados por nós encontrados, ao tomarmos conta da
sua Seção, podemos dizer que a espécie que serviu para os estudos e experiências
de W. Peckolt, nos seus trabalhos químicos e farmacêuticos, de que resultou a
descoberta de um novo tratamento, seguro, fácil e econômico, das amibioses e
de muitas outras protozooses intestinais, não foi a Jacoranda decurrens Cuam.,
conforme êle julgou, mas sim a Jacaranda caroba (Vell.) P. DC.
A simples observação das figuras esclarece a questão.
E' em homenagem à memória e ao saber daquele nosso ilustrado colega que
fazemos esta correção, necessária para completar o seu valioso trabalho. Nin-
guém, por um simples equivoco na classificação de um vegetal, cousa bastante
comum, mesmo entre os que se dedicam somente à botânica, poderá por em dúvida
a capacidade cientifica de um pesquisador, cuja ati\ndade se repartia entre a quí-
mica, a farmacologia e a clinica médica.
Waldemar Peckolt era tudo isso e, por essa razão, a humanidade muito lhe
deve; basta, si mais não houvesse feito, esta sua descoberta que tem restituído
a saúde a centenas de doentes condenados a tratamentos penosos e grandemente
dispendiosos. Foi um dos últimos trabalhos que realizou, quando o seu orga-
nismo, já depauperado, lutava contra o mal que, não muito longe, iria por termo
a sua atividade terrena.
E’ taml)cm ainda em homenagem àquele \’aloroso colega que aproveitamos
a ojjortunidade de entrarmos na sua tão apreciada seara para fazer a retificação
de um lapso verificado na publicação do mesmo trabalho de Peckolt, que escapou
à revisão, do qual, temos quasi certeza, não cabe culpa ao autor.
Na sua publicação — VI. Esludo pharnhicognostico e therapcutico da Ja-
caranda decurrens Cham. (Bignoniaccae) MEMÓRIAS DO ISSTITUTO BU-
TANTAN, tomo IX, 1935, à página 307, primeira linha — está escrito: “A
carobina é uma glicosida, que não nos foi possível obter crj^stallizada, sinão
amorpha.”
Mais abaixo, na mesma página, encontra-se o seguinte: “Filtra-se e e\-a-
pora-se o resíduo até crystalisar, em temperatura que não exceda a mais de
80° C. Separam-se os cr>-staes do liquido...”.
2
Pernaxdo Paes de Badros — Contribuição à matéria médica vegetal
do Brasil. 8 359
Indubitavelmente, o autor, pela sua integridade moral e cientifica, seria
incaptaz de escrever êste período e os que se lhe seguem, depois daquela afir-
mativa; “não nos foi possível obter crystallizada, stnão amorpha.”
Waldemar Peckolt teria escrito, nos seus originais: “Filtra-se e evapo-
ra-se o residuo até precipitar, etc.”. E, depois, abai.xo: "O liquido separado
do precipitado da primeira precipitação não dará mais carabina amorpha e for-
ma, etc.”.
Como dissemos, não nos move outro intuito que o de render mais uma ho-
menagem a Waldemar Peckolt, ao corrigirmos êstes senões, que desfiguram o
seu trabalho, escoimando-o, assim, de pontos de apoio para qualquer juizo menos
justo quanto à competência indiscutivel do seu autor.
Assim deve ser encarado êste gesto, que nos parece ser um dever de cole-
guismo e lealdade e um preito de admiração.
\ microfotografia que ilustra o presente, do servnço especializado do Ins-
tituto Butantan, foi e.xecutada com preparado confecionado pelo Dr. Domingos
Yêred, a quem esteve entregue o serviço histológico da Seção, atê os primeiros
mêses do ano passado.
RESUMO
Com o presente, procura-se retificar dous enganos verificados nas partes
botânica e farmacoquimica do trabalho: VI — Estudo phannacognostico c thc-
rapeutico da jacaranda decurrens Cham. (Bignoniaceae), publicado nas ME-
MÓRIAS DO INSTITUTO BUTANTAN, tomo IX, 1935, página 299, por
Waldemar Peckolt e Alcides Prado.
(Trabalho da Srçio dc Botânica Medica do Inrtituto Butan.
lan. Entrrcne para publicacâo cm 28*5-942 c dado â
pub'icidad« cm (ermiro dc 1945).
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
Feiin'ando Paes de Bahhos — Contribuição à matéria mé-
dica vegetal do Brasil. 8 .
^fcm. Inst. Butaoton
Vd. XVI
1942
Fic. 1
JacaranJa decurrtns
(\V. PECKOLT)
Kio 2
decnrrens
(\V. PECKOLT)
Fic. 3
Jacãrumd* dfcurrenj
(MARTIUS)
JiACúrúmda C4rp6€
(Foto dc um prrrarado cocootrado
ca SccSo).
cm
SciELO
Fernando Paes de Babros — Cuntribuiçõo á matéria mé-
dica vegetal do Brasil. 8.
Mem. In«t. ButantAn
Vd. XVI
194’
Fic. 5
iétaramJa JfCtirrems
Corte <le pcck4«>
(MARTIUS)
Fic. 6
C''Tie do pecido
«YF.Rf.Di
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
cm 1
SciELO
0 11 12 13 14 15 16
Iml*rfS9c na
£, C. •*Rcii*ta dos Tribmnmj** Lida.
Sãa Faulo