MEMÓRIAS
DO
INSTITUTO de BUTANTAN
1918-19
TOMO I- FASCÍCULO 2
INSTITUTO SOROTEKÁrrCO “BUTANTAN
SÃO PAULO -(Brasil)
0A1XA POSTAL N. <i4
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
SiblioUca Central
SUMÁRIO:
I Filariose de Bancroft, pelo Dr. Afránio Amaral (com as estampas XVT
a XXIX) ;
II — Classificação dos Memosporídios, pelo Dr. Henrique B. Aragão (com
as estampas XXX a XXXIII) ;
III Contribuição à mitologia parasitária do Brasil (Duas novas espécies
de fungos produtores de maduromicose), pelo Dr. Pirajá da Silva (com
as estampas XXXIV a XXXVIII) ;
IV -Contribuição ao tratamento das úlceras atônicas e fagedénicas (Do
etnprêgo do sôro normal sêco) pelo Dr. Afránio Amaral (com as
estampas XXXIX a LTX).
ADVERTÊNCIA: - As “Memórias do Instituto de Butantan" serão
publicadas em fascículos agrupáveis em tomos e não aparecerão em datas
fixas.
A grafia portuguesa nelas adoptada está, em suas linhas gerais, consoante
as bases da reforma ortográfica, aprovada pelo Governo de Portugal, em
1 de Setembro de 1911.
Tôda correspondência deve ser dirigida ao “Dircctor do Instituto de
Butantan — Caixa postal, 65 — São Paulo — Brasil”.
SUMMARY:
1 — Bancroffs Filariasis, by Dr. Afránio Amaral (with the plates XVI to
XXIX) ;
II — Classification of the Haemosporidia, by Dr. Henrique B. Aragão (with
the plates XXX to XXXIII) ;
Hl — Contribution to the parasitic mycology of Brazil (Two new species oi
fungi vvhich produce maduromycosis), by Dr. Pirajá da Silva (with the
plates XXXIV to XXXVIII) ;
IV — Contribution to the treatment of the atonic and phagedenic ulcers —
(On the use of the normal dried serum), by Dr. Afránio Amaral (with
the plates XXXIX to LIX).
NOTICE: — The “Memórias do Instituto de Butantan” will be published
in fascicles constituting tomes and will not appear on fixed dates.
The Portuguese graphy used in the text is nearly according to the bases of
the orthographic reform approved by the Portuguese Government, the lst
■Sept. 1911.
Adress all correspondence to the “Dircctor do Instituto de Butantan
Caixa postal 65 — São Paulo — Brasil”.
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HOMENAGEM
Dr. João Florencio Gomes
Dr. João Florencio Gomes
íamos a caminho dc cumprir nossos desígnios e ora ao amparo e ao calor de
tmpulsos novos, convencidos da nobreza c do alto significado de nossa missão
sublime, descortinando novos c mais rasgados horizontes, na luta magnânima pela
conquista do ideal, sem que, mesmo no último transe amargurado, se houvesse
desfeito o princípio de nossa múltipla unidade.
Quando do insulto, em nosso meio, da mortífera epidemia universal, eram
dignos de ver-se a energia c o devotamento com que todos nos multiplicávamos
no trabalho, porfiando no tributo, por amparar a nossa população do perigo imi-
nente, pelo evitar, ou pelo arrefecer cm suas devastações. E quando, passada
a lúgubre tormenta, nos procurámos reunir c rever conjuntamente, o sossego
voltou aos espíritos e a paz aos corações, porque não tínhamos de chorar perda
nem-uma.
Mas, assim não havia de ser a alegria por todo o tempo, pois o extenso mal
continuava, dc vez cm vez, a implantar por aqui a injustiça de suas inexoráveis
sentenças. Até que, surpreendido por ele, cai justamennte aquele que dentre nós
era o melhor e o mais querido.
E, com isso, João Florencio nos iniciava no sabor de uma amargura. .. 0
vácuo inopinado que sentimos com sua morte, deu-nos a impressão dr um
desengano.
Muito moço ainda, criado ao afago dc corações bem formados e educado ao
influxo dos princípios da moral mais pura e, mais tarde, dos conselhos e do
exemplo constante dc um parente por todos os títulos venerando, João Florencio
e r a a personificação da bondade, da nobreza de carácter, da sensatez, da probi-
dade, da dedicação ao trabalho e da modéstia. Doce, na afeição; de um desinte-
resse a tôda prova, na amizade; magnânimo c altruísta, a morte arrebatou-o ao
nosso convívio amigo no momento em que sua alma mais borbulhava de
esperanças.
Primeiro, era a tendência à generalização nos estudos, era a minúcia calma c
reflectida nas pesquisas scientíficas. aue revelavam nele a verdadeira organização
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de um predestinado. Depois, a par desses antigos dotes que conservava e, multi-
plicava com justa ufania, nunca sequer entremostrada, era o calor sempre
afectuoso e delicado, mas de um convencido, com que entretecia as discussões que
travava sobre os assuntos mais diversos. Era, por fim, a placidez com que entre-
tinha a fé que alimentava cm vastos ideais, que atingiria com a actividade provei
tosa, o labor pertinaz e o multifário saber.
*
* *
Iniciou seu curso na faculdade de Medicina da Baía, transferindo-se no 4."
ano para a do Rio, na qual ultimou brilhantemente os estudos médicos, defen-
dendo, cm 1900, sobre “ Glicurias normais ”, uma tese notável, aprovada com
distinção.
Conhecedor de sua natural predilecção pelos intrincados arcanos das questões
experimentais e de sistemática, superou todas as atraeções da clínica, por maiores
que fossem os proventos por ela prometidos, c começou a cursar no Instituto
üs7ualdo Cruz, atirando-se no seio da luminosa esteira scientífica do saudoso e
grande Mestre.
Afinal, foi chamado a vir colaborar nesta Casa, norteando-se desde então para
a Canaan de seus desejos. E com a satisfacção dessa tendência, cedo começou a
mostrar os frutos de seus labores mais amados.
Em Outubro de 1913 descreveu “ Uma nova cobra venenosa do Brasil —
LACHESIS COT IA RA sp. n.” (in “Anais Paulistas de Medicina e Cirurgia ”
- vol. I ; n. 3; e in “ Colcctánca” do Instituto Butantan — 1917 ; pp. 241-247).
Foi pelo Prof. Brumpt convidado para preparador extraordinário na Facul-
dade de Medicina desta Capital; c, em colaboração com este eminente parasi-
lólogo, publicou : “ Descrição de uma espécie de TRIATOMA (T. CHAGASI )
— hospedeiro primitivo do T RYP AN OSOM A CRUZ1 Chagas’’ (in “Anais
Paulistas de Medicina c Cirurgia” — vol. III ; n. 4 — Outubro de 1914; c in
" Colcctánca ” do Instituto Butantan — 1917 ; pp. 249-260. E, em Dezembro de
1916, apresentou ao Primeiro Congresso Médico Paulista uma memória sôbre :
" Triatomas c moléstia de Chagas no Estado de São Paulo” ( in “ Colectânca” do
Instituto Butantan — 1917 ; pp. 401-426).
De 1915 datam suas primeiras publicações sôbre ofidiologia. assunto em que
era a maior autoridade brasileira, ou, quiçá, sul-americana.
Em 1914, cm visita à República Argentina, acedendo a um comute oficial,
organizou a rica rolecção herpetológica do Museu de La Plata. E, depois que de
lá voltou, pôs-se a organizar primorosamente a colecção de cobras do nosso
mostruário e reviu e classificou o abundante material também de cobras, acumu-
lado no Museu Ipiranga, bem como o do Museu Rocha, do Ceará, e o do Museu
Paraense, que lhe tinham sido remetidos.
Oriundas desses seus estudos são as seguintes monografias :
II
"Contribuição para o conhecimento dos ofídios do Brasil I — (Descrição
de 1 espécies novas e um novo género de opistóglifos ) in " Anais Paulistas de
Medicina e Cirurgia" — vol. IV; n. 6 — Junho de 1915; e in " Colectânea” do
Instituto Butantan 1917 ; pp. 261-283 ; — sendo as seguintes as espécies e o
género incriminados : ELAPOMORPHUS NASUTUS sp. n.; AP0ST0LEPJ.8
CEARENSIS sp. n.; RHINOSTOMA 1GLESIASI sp. PTYCHOPHIS n.
gen. e P. FLAVOGIRATUS sp. n.
"Contribuição para o conhecimento dos ofídios do Brasil — • II Ofídios do
Museu Rocha (Ceará)” in "Revista do Museu Paulista” — I. X; 1918.
“ Contribuição para o conhecimento dos ofídios do Brasil — 111 — (1 — Ofídios
do Museu Paraense; 2 — Descrição de duas espécies novas)”, publicada no
Fascículo tomo I, destas "Memórias";- sendo as espécies apontadas:
TACHYMENIS BRASILIENS1S sp. n. e DRVMOBIUS BRAZÍLI sp. u.
Em colaboração com Arthur Neiva, escreveu sobre : "Biologia da mosca do
Berne — (DERM AT0B1A HOMINIS) — observada cm todas as suas f ases” in
"Anais Paulistas de Medicina c Cirurgia” — vol VIII ; n. 9 — Setembro de 1917.
’A 2. a Conferência da Sociedade Sul-Americana de Higiene, Microbiologia e
Patologia, realizada no Rio, em Outubro de 1918, enviou uma interessante
memória sôbre : "Experiências do valor curativo do sôro anti-botrópico na intoxi-
cação experimental pelo veneno de LACHES1S LANCEOLATUS” .
Possuidor de extraordinária capacidade de trabalho, sobrava-lhe ainda tempo
para dedicar-se às sciencias naturais, por que tinha especial pendor, e especial-
mente à protozoologia, parasitologia e entomologia;- estava sempre ao corrente dos
progressos da bacteriologia, sendo que era autoridade no capítulo das disenterias
bacilares, onde alcançou originalidade com um processo de obtenção da toxina
disentérica. Por isso, no Instituto, além do preparo dos soros anti-botrópico, anti-
crotálico c anti-ofídico, estava desde algum tempo a seu cargo o do anti-disen-
térico polivalente e curativo.
Olthnamente estudava com afinco — - e suas pesquisas já iam bem encaminha-
das — o problema da transmissão da leishmaniose tegumentar e o atinente à des-
eriminação c identificação das diversas espécies de cobras venenosas do gênero
“LACHESIS”.
Ao dilecto amigo c inolvidável colega, esta singela página
de saudade. F.le era, de facto, um bom, sendo já um sábio.
III
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FILARIOSE DE BANCROFT
PELO
Dr. Aírânio Amaral
ASSISTENTE DO INSTITUTO
O presente artigo, baseado no protocolo das pesquisas que sòbre êsse
importante capítulo da Patologia Tropical efectuei na Baía, durante o
ano de 1916, e dei à publicidade em trabalho meu anterior (1), dêste
difere, já pela restrição da parte concernente às digressões teóricas e
questões de doutrina, já pela maior cópia de dados parasitológicos e bem
assim de observações clínicas, a que faço agora referência.
HISTÓRICO
No histórico da filariose de BANCROFT, merecem especial menção os
seguintes autores : DEMARQUAY, que, em 1863, foi o primeiro a encon-
trar os embriões da filária no líquido de uma quilocele ; OTTO WU-
CHERER (2), na Baía, em 1866, com a verificação dos mesmos embriões
na urina hémato-quilosa de uma doente do Dr. SILVA LIMA; LEWIS, na
índia, SALISBURY, na América do Norte, CREVAUX, nas Antilhas, e
SONSINO, no Cairo, com idênticas observações em pessoas atacadas de
quilúria, diarreia quilosa, etc.; MANSON, que confirmando os estudos
precedentes, já em 1875 admitia fôssem a quilúria tropical, a elefância
e a quilocele afecções dependentes de um mesmo factor etiológico — a
existência, nos linfáticos, da filária adulta, até então desconhecida;
SPENCER COBBOLD, a quem se deparou, em 1876, o feliz ensejo de
achar um ovo de filária, de-envolta com os respectivos embriões, quando
examinava uma lâmina de sangue enviada da Austrália por BANCROFT,
que teve o grande mérito de descobrir, a 21 de Dezembro de 1876, o pri-
meiro exemplar de filária adulta (9), retirando-a de um abcesso linfá-
tico do braço. Êsse facto pouco depois se repetia, mercê de te*’ BAN-
CROFT encontrado, em uma hidrocele funicular, quatro outros exempla-
res, para logo enviados a COBBOLD que, confirmando o descobrimento,
deu ao Nematelminte o nome ue Filaria Bancrofti (1877).
Novos estudos foram desde então empreendidos com sucesso : CÁRTER,
n a índia, via novo* «spécimea adultos; LEWIS, continuando suaa notá
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veis pesquisas, tinha a ventura de colhêr dois parasitos ( 3 e $ ) jun-
tos, alojados nos tecidos de uma elefãncia neviforme do escroto. Em
nosso País, WUCHERER, já citado, PEDRO SEVERIANO DE MA-
GALHÃES, SILVA LIMA, PATERSON e IÍALL, MANOEL VICTO-
RINO (3), PACIFICO PEREIRA e ALMEIDA COUTO (na Baía) e
FELICIO DOS SANTOS e JULIO DE MOURA (no Rio), aproveitan
do-se da circunstancia de entre nós existir a doença, realizaram notáveis
investigações que sempre merecem condigna referência.
Estava, portanto, bem firmada a interferência dêsses Nematelmin-
tes na determinação das afecções linfáticas que até 1863 eram tidas
por entidades mórbidas, insuladas e autónomas. E, em 1881, o genial
tropicalista PATRICK MANSON, examinando um linfo-escroto, no
sangue de cujo portador lhe não fôra dado descobrir os embriões da filá-
ria, “pôde anunciar que encontraria a adulta no escroto, obstruindo um
tronco linfático e tornando assim impossível a passagem da linfa aferente
e dos embriões à circulação geral. Dizia acertadamente : na operação
achou uma fêmea viva, in situ, em um vaso linfático dilatado à super-
fície de secção; era pegar em flagrante o verme alojado em seu verda-
deiro domicílio” — RICOT.
Continuaram depois, por todos os países, as pesquisas sôbre o trans-
cendente assunto e dessa fase até o presente carecem de citação os
seguintes nomes: JAMES e LEWIS, na índia; FAYER, MANSON (4),
COBBOLD e MACKENSIE, na Inglaterra; BANCROFT, na Austrália; LE
D0NTU, na França; FÜLLEBORN e RODENWALDT, na Alemanha;
CASTELLANI e CHALMERS, no Ceilão; LOOSS e SONS1NO, no Egito;
PROUT, na Serra Leoa e Indo43hina Francesa; SCHEUBE, MINE (5)
MIYAKE (6) e TANIGUCHI (7), no Japão; WELMAN, em Angola;
MAZAÉ-AZEMA, nas ilhas da Reunião; LEÓN AUDAIN e B. RICOT, no
Haiti; ENRIQUE NUNEZ, LEONEL MENOCAL, PLASENCIA e
GARCIA CESAGERIO, em Cuba; OZZARD e DANIELS, na Guiana
Inglesa; e, no Brasil, SILVA ARAÚJO, SILVA LIMA, PAES LEME,
ALFREDO BRITTO, JOÃO FROES, PRADO VALLADARES e ALMIR
DE OLIVEIRA.
DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA
Doença tropical por excelência, a filariose de BANCROFT estende-se
entre os paralelos de 40" L. S. e 30° L. N., achando-se assim dissemi-
nada por quási todos os continentes:
América Meridional — Teem-se assinalado casos desta doença na
Argentina, Paraguai, Chile, Perú, Colúmbia, Venezuela, e sobretudo nas
Guianas, sendo que, na Francesa, os habitantes são parasitados pela
F. Bancrofti, segundo estudos mui recentes de BRÉMONT e LÉGER
(“Bulletin de la Societé de Pathologie Exotique; N. u 10. Tomo X; 12
Dezembro 1917, p. 898”), na proporção de 27, 37 %.
No Brasil, grassa endémicamente na mor parte dos Estados, sobre-
tudo no Amazonas, Pará, Pernambuco, Maranhão, Sergipe, Alagoas,
Mato-Grosso, Minas, Rio e na Baía, cuja poipulação é filarizada na pro-
porção de 8,09 % segundo PATERSON e HALL; 9,5 % de acordo com
as investigações de ALMIR DE OLIVEIRA (8) ; e 8 % conforme os
estudos, não terminados ainda, do Prof. JOÃO FROES.
No arquivo do Hospital Santa Isabel, da Capital dêsse Estado, encon-
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trei registados 2G casos no ano de 1913, 10 em 1914, 30 em 1915, tendo
feito nesse mesmo estabelecimento, no curto prazo de 5 meses (de Junho
a Outubro de 1916) nada menos de 10 observações, baseadas todas
em provas microscópicas e pesquisas outras experimentais a que eu me
referirei neste trabalho. Êsse índice endémico filárico da cidade do Sal-
vador seria outro, muito mais elevado, se se referisse sómente a duas de
suas distritais, Calçada e Itapagipe, cujos moradores, segundo observação
de distintos clínicos baianos, por mim próprio comprovada, são filariza-
dos em mais alta proporção.
América Central e Antilhas. — Existe a filariose em alta escala em:
Haiti (9) ; Cuba (10) ; Guadalupe: índice filárico 15 % (LÉGER e GA-
LAN) ; Martinica: índice filárico (11) 5,47 % (NOC e STÉVENEL) ;
Ilha Barbada: índice filárico (12) 12,26 % (LOW) ; S. Ghristóvão:
índice filárico 32,8 % (LOW) ; etc.
América Setentrional. — Tem sido encontrada em diversos pontos
do México, da costa atlântica dos Estados Unidos e, até, em Filadélfia
e Washington e na Carolina do Sul, na Luisiana e outros Estados da União
Norte-Americana (*).
Ásia. — E’ freqáente nas regiões meridionais da China, do Cantão,
Xangai e Amoi, onde fez MANSON a maioria de seus estudos; Coréa;
Japão (13) ; Ilha Formosa; Tonquin (14) ; Cochinchina (15) ; índia; Cei-
lão — a pátria da elefáncia — (CASTELLANI) ; Arábia meridional e
em tôda a Ásia Menor.
Existe igualmente em quási tôda a África, na Oceánia, e até na Eu-
ropa, pois que se conhecem casos autóctones, observados na Turquia e
Espanha.
ETIOLOGIA
A Filaria Bancrofti COBBOLD 1877, responsável pelos omnímodos
acidentes mórbidos que se agrupam sob a designação genérica de Fila-
riose de BANCROFT ou Brancoftose, é um Nematelminte, da ordem dos
Nematoídeos, família dos Filarídeos : é a espécie embrionémica, nocturna,
do genero Filária, conhecida ainda por outras designações que, em obser-
vância ás regras de nomenclatura zoológica, passaram para a sinonímia;
a saber:
Filaria sanguinis hominis LEWIS 1872; Filana sanguinis hominis
aegyptiaca SONSINO 1875 ; Filaria Wuchereri SILVA LIMA 1877 ; Fila-
ria sanguinis hominum HALL 1885; Filaria sanguinis hominis nocturna
MANSON 1891; Filaria dcmarquayi ZUNE 1892.
No iquo tango com a Filaria dcmiathcmica SILVA Alt A U.l O 1875, mcm sequer a. iucluo na
lista, por mo parecer que os estudos deste distinto autor patrício nao se referem A fila-
niose nocturna.
Com efeito, dois argumentos principais pleteam por êsse modo de ver:
1.” Os embriões estudados por SILVA AJíAIT.IO (cujas auto-observações realizadas
quási todas no Laboratório do Química do dlospital da Baía., foram testemunhados pelo
l>rof. DOMINGOS CARLOS), provinham de material oriundo do vesículas o do papulo-
pústulas e retirado sempre durante o dia; o nessa ocasião não 6 do regra, fora de acesso
fobril, encontrarem-so os embriões da F. Bancrofti na circulação periférica;
(*) JOHNSON (in South Carol. med. Jour., VII-1015; v. 8; p. 630), examinando
400 pessoas hospitalizadas da C. do Sul, estabeleceu para essa região o índice endémico
filárico do 19, 25 %, quo 6 um dos mais elevados do todo o mundo.
p ara a bibliografia e referência dos casos do filarioso observados nas Américas Soten-
trional o Central o nas Antilhas, consulto-so: ALLEN SMITJI “Filariasis in the Américas”
— Proceedings of the 2d. Fan-Amer. Scient. Congro»»., vol. IX; pp. 53-57.
— 92 —
2.* Os exemplares, cujo desenho foi publicado, como documentação dos estudos, na
tese desse autor, diferiam muito, do ponto de vista estrutural, das microfilárias nocturnas,
sobretudo porque nem sequer possuíam bainha; o um dos caracteres específicos da M.
nocturna é ser provida dêsse órgão.
DESCRIÇÃO: Quando adulta, a filária apresenta o corpo branco,
opalino, transparente, de superfície lisa e extremidades adelgaçadas e
obtusas, bôea inerme, desprovida de papilas. E’ bissexuada: a Filaria,
S mede cêrca de 0"',040 x 0"',001, apresenta a cauda com tendência a
enrolar-se como gavinha, e possui, segundo LOOSS, três pares de papilas
post-anais, dois espículos delgados e desiguais (um mede 200 /t e o
outro 600 /í) que às vezes se exteriorizam da cloaca, cujo orifício está,
por seu turno, situado a 130 /<. da extremidade caudal. A Filaria $ , muito
maior, mede cêrca de 0, m 090 x 0, ni 03; apresenta a vulva a 0 m ,001 ou,
mais certamente, a 0 m ,0013 da extremidade anterior, em cujo termo se
encontra a bôea; e o ânus a 28 n da extremidade caudal. Possui dois tubos
uterinos, visíveis por transparência, cheio de ovos em diversas fases de
desenvolvimento e de alguns embriões alojados nas proximidades do
ostíolo uterino.
E’ ovo-vivípara (BRUMPT) e, ocasionalmente, ovípara.
As filarias gozam de movimentos múltiplos e activos.
Teem por habitat exclusivo o sistema linfático humano, em cujos ele-
mentos vasculares, superficiais ou profundos, se alojam, apresentando
entretanto especial predilecção pelo canal torácico, em cujo interior já
teem sido encontradas absolutamente enoveladas; são, em suma, lin-
fangícolas.
Ovos — De forma elipsoidal, medem 40 /i x 25 /* e deixam ver, por
transparência, o embrião animado de movimentos por vezes activos. Des-
cobertos por COBBOLD e encontrados logo após por MANSON no líquido
de adenolinfocele e linfo-escroto, teem talvez certa influência na de-
terminação da doença, graças ao seu diâmetro muito maior que o dos
embriões. Dês que, no útero materno ou, por excepção, fora dêle, se lhes
rompe a cápsula, o embrião põe-se em liberdade.
Embriões ou Microfilárias — a) Vivem quási exclusivamente nos vasos
sanguíneos : com efeito, a Filaria Bancrofti pertence ao grupo das de em-
briões sanguinícolas (LE DANTEC) ou embrionémicas (PRADO VAL-
LADARES).
Gozam da particularidade interessante de virem à circulação periférica
durante a noite, hábito êste que, valendo-lhes o nome de nocturnas, faz
que se lhes reserve a pesquisa, no sangue de doentes suspeitos, de pre-
ferência nessa fase do dia. Examinadas em preparações frescas, mos-
tram-se extremamente móveis, como minúsculas serpentes, e agitam-se
activamente, imprimindo grandes deslocamentos ás pilhas de hematias
em cujos intervalos se encontram.
São animadas, primeiramente, de muito rápido movimento de trans-
lação (LEBOEUF) e depois, fixando-se à lâmina ou ás pilhas globulares,
permanecem largo tempo em simples agitação in loco, contorcendo-se
para um e outro lado e, por fim, imobilizando-se.
Êsses movimentos, considerados pelos autores como os únicos e verda-
deiros, parece-me antes serem ocasionais, oriundos das condições artifi
ciais em que as microfilárias se encontram nos preparados comuns. Com
efeito, examinando-se uma gota de sangue, diluída em água fisiológica,
— 93 —
entre lâmina e lamínuln, sem pressão, pode-se verificar que elas se con-
servam em atitudes espirais e, céleres e ágeis, se deslocam activamente
e abandonam o campo microscópico em movimentos de circundução (Es-
tampa XV, figs. a e b). Pode-se efectuar essa observação, conforme me su-
cedeu em várias ocasiões, tanto mais fácilmente, quanto menos rico em ele-
mentos sólidos é o líquido examinado e maior a espessura de sua camada:
essas condições são realizadas com o das quiloceles ou linfoceles, espa-
lhado espontàneamente (sem pressão), entre lâmina e lamínula.
Outra interessante e original observação, por mim feita, concerne à
disposição em rosácea que as microfilárias tomam, quando examinadas
no depósito proveniente do sangue de filarióticos, retirado á noite, diluído
em água destilada e duas vezes centrifugado; aparecem elas, desta-arte,
reunidas ou aglutinadas pela extremidade caudal, verificação essa que
até então só fôra efectuada por LEBOEUF com exemplares de Microfi
laria diurna (Estampa XV ; fig. c) .
Ao cabo de um período de dois a oito dias, variante com as condições
dos preparados, as microfilárias nocturnas perdem os movimentos, mor-
rem, podendo desde então ser estudadas mais minuciosamente e mensu-
radas.
A microfilária é rodeada por membrana homogénea, flexível e deli-
cada — a bainha — que a envolve completamente, excedendo-a, no en-
tanto, por mais longa, nas duas extremidades, que ficam alternativa-
mente ocupadas ou devolutas, dobrando-se muita vez em franjas (Es-
tampa XV ; figs . : a, b e c), a cada movimento de progressão ou de retro
pulsão que por ventura o corpo embrionário efectui.
No opinar de LOOSS (16), essa bainha teria certa viscosidade, capaz do
explicar a aderência do embrião à parede interior dos vasos sanguíneos.
E’ igualmente curioso observarem-se as microfilárias em preparados
congelados, ou, conforme tenho feito, simplesmente resfriados, porquanto
em tais circunstâncias rompem, na parte anterior, a bainha, a qual às ve-
zes lhes fica aderente à extremidade caudal, como se fôra um filamento
franzido e amarlotado: éedise microfilárica (Estampa XV; fig. d) —
MANSON (17).
Quanto às suas dimensões, variam para cada observador : 300 /* de com-
primento por 8 a 11 ix de largura (MANSON) ; 265 n x 10 p (CRE-
VAUX) ; 300 a 320 x 6 /t 6 (LOOSS) ; 340 a 370 ^ x 7 a 8 ^ (LEWIS) ;
216 M x 4 n (SCHEUBE) ; 130 a 300 M x 7 a 11 (CASTELLANI) ; 125
a 300 ,i x 7 a 11 ju. (LE ROY DES BARRES) ; 164 ^ x 7 ^ (TANIGU-
CHI), ou sejam, em média, 300 ^ x 8 /*, donde decorre a possibilidade
de elas quási sempre transitarem com o sangue.
A discordância acima acentuada provêm do facto, por mim com fre-
qàência assinalado em estudos comparativos, de as microfilárias se apre-
sentarem sob variáveis tamanhos no sangue dos indivíduos parasitados:
podem-se encontrar maiores ou menores, oscilando seu comprimento en-
tre 200 /t (mínimo) e 320 n (máximo) e a largura entre 6 /i (mínima) e
10 (máxima). Essa diversidade de dimensões que, segundo opinam
EÜLLEBORN e RODENWALDT (13), decorre da diferença de idades
dos embriões, ou do maior ou menor grau de contracção somática em
que são surpreendidos no momento da confecção dos preparados, é muito
acentuada quando se comparam espécimes corados pelos processos vitais
(que os conservam mais ou menos no tamanho natural) com os prévia-
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mente fixados pelos reagentes comuns (álcool metílico ou etílico; álcool-
éter; cortante cie LEISHMAN, etc).
Com êste último proceder, tenho a-mi (ide observado que as microfilá-
rias ficam retraídas e menores e quási por completo afastadas da bainha
(Estampa XVI; figs. 1 e 2) : a parte embrionária propriamente dita di-
minui até 80 no comprimento e 4 /t na largura, formando-se entre si c a
bainha um espaço claro de l/t, 5 a 2 /x.
Eis aqui o resultado de mensurações praticadas em 5 exemplares co-
rados após fixação:
Dimensões <le mlíTofllúiiiis torneias (Em
Kxpiiiiilm
ii.” X
ICxcnipInr
n.° 2
lOxcitifilnr
li." :t
F.xrmiilnr
ii.° -1
Kxemiilur
ii.° n
Míflln
a) Bainha
Porção caudal livro .
10,00
7,60
12,50
12,50
12,50
9,00
” cefálica livre .
7,50
20,00
26,25
3,75
20,00
13,50
” lateral livre .
2,50
2,50
3,12
3,75
1,25
2,62
(um lado)
M »» M
1,25
0,62
1,25
1,25
0,00
0,87
(outro lado)
l>) Corpo do embrião
lOomprlmento . . .
237,25
253,50
255,75
255,76
256,00
251,65
Largura
4,50
5,00
3,75
3,75
6,25
4,65
c) Comp. tot. c| a bainha
254,75
281,00
294,50
272,00
288,50
278,15
d) Larg. total c| a bainha
8,25
8,12
8,12
8,75
7,50
8,14
b) Conformação das microfilárias. Na extremidade anterior ou
cefálica, teem uma saliência central convexa, de aparência cónica ou he-
misférica, munida de um filamento ou dardo central (órgão sensorial,
segundo ENRIQUE NUNEZ), dotada de movimentos de projecção e re-
traeção e cercada de uma ourela sexdenteada, com forma de prepúcio, que
a descobre e oculta alternativamente. O filamento é, por seu turno, ani-
mado de iguais movimentos e tem 12 a 16 /t de extensão.
Na posterior ou caudal, elas se tornam afiladas e terminam insensivel-
mente em ponta.
Seu corpo mostra, exteriormente, delicado e regular estriamento trans-
versal, visível com facilidade em exemplares desenvaginados ou eedíti-
cos; e, interiormente, apresenta interessante e peculiar estrutura, bem
estudada por MANSON e especialmente por FÜLLEBORN, RODEN-
WALDT (19) e MIYAKE (20), a qual se torna perceptível pelos seguin-
tes métodos principais de coloração:
a) sem fixação : l.° — o de FÜLLEBORN e RODENWALDT (colo-
ração vital), com a Azur II, ou o vermelho neutro a 1 "| nu em água destila-
da; 2." — o de MANSON, com 3 a 4 gotas de fuesina diluída em 30 cc.
de água; 3." — o de GASIS, com o azul de metilénio.
b) com fixação: l.° — álcool, com ácido acético diluído a 1:300, e
hemateína ; 2.° alcool-éter e hemateína-eosina.
Mais prática, todavia, e melhor do que qualquer dessas, é sem dúvida
a coloração pelo reactivo de LEISHMAN, pelo qual foram tratadas as
microfilárias que se vêem na Estampa XVI ; figs. 1 e 2.
— 95 —
c) Estrutura. Examinando-se ao ultra-microscópio, ou simplesmente
ao microscópico, após coloração vital e com grande aumento, o corpo em-
brionário deixa ver a superfície estriada transversalmente e o interior
cheio de núcleos, de células juxtapostas e de manchas claras (Estampa _
XV ; fig. e) . Os núcleos ou células somáticas são pequenos e mui numero-
sos; estão espalhados por todo o corpo, não atingindo, entretanto, o vér-
tice da extremidade caudal: um dos caracteres da microfilária nocturna.
As células juxtapostas, sub-cuticuUvres ou matrizes, acham-se situadas,
conforme sua designação, sob a cutícula e são pouco numerosas.
As manchas claras, de 5 a 6, encontram-se entre as células precitadas
e distinguem-se em : l.° — mancha cefálica — origem provável da extre-
midade anterior do canal digestivo ; 2.° — m. oblíqua, anular, de que vai
derivar o sistema nervoso ; 3.° — m. em V, representante de uma espessa-
mento da quitina (MATHIS), ou do sistema váculo-urinário ou geni-
tal (MANSON), ou — segundo se admite actualmente — do aparelho
excretor; é constituída por uma célula e um poro excretor que é muito
nítido nos exemplares vivos, nos quais aparece como um ponto de grande
rofrangência ; 4.° — corpo central (de MANSON), situado para trás da
parte média, bem na união dos 3/5 anteriores com os 2/5 posteriores da
microfilária, de acordo com as nossas mensurações: é o esboço do tubo
digestivo e serve de característica principal e especifica à microfilária,
nocturna; 5.° — a m. caudal, correspondente à extremidade posterior do
tubo digestivo (MANSON), ou mais acertadamente, ao aparelho ano-
genital: compõe-se de um poro anal e quatro células genitais, uma prin-
cipal e três secundárias ; 6." — enfim, a m. terminal ou inconstante — ori-
gem presumida do órgão sexual embrionário, cujo discrime depois se
estabelece.
Dado o valor que parece terem as dimensões e a disposição relativa des-
sas diversas formações intra-embrionárias, pratiquei mensurações em
cinco exemplares de Microfilária nocturna, corados pelo LEISHMAN,
tendo obtido o seguinte resultado:
Dimensões das manchas embrionárias o do sons espaços intermediários (em ^ )
Exemplar
ii. 1
Exemplar
li. 2
Exemplar
ii. :i
Exemplar
ii. 4
Exemplar
ii. 5
Mídia
Mancha cefálica . . .
3,76
3,75
3,75
3,75
3,75
3,75
Da mancha cefálica até
43,76
o m. obliqua ....
43,75
43.75
43,75
43,75
43,75
Mancha oblíqua . . .
7,25
7,25
7,25
7,25
7,25
7,25
Da mancha obliqua até a
19,60
m. em V
18,75
18,75
20,25
20,25
20,00
Mancha em V .
7,50
8,75
10,00
10,00
8,75
9,00
Da mancha em V até o
58,00
corpo central ....
57,50
53,75
62,50
53.75
62,50
Corpo central ....
17,50
25,00
25,00
25,00
25,00
23,50
Do corpo central até a
37,05
m. caudal
36,25
37,50
37,00
37,00
37,50
Mancha caudal ....
5,00
5,00
5,00
5,00
5,00
5,00
Da mancha caudal até
44,75
a oxtrern. caudal . . .
40,00
50,00
41,25
60,00
42,50
Total :
237 /t ,25
253 m ,50
255^,75
255 n, 7 5
'
256 /t ,00
251 w ,65
Deste quadro se depreende que as dimensões das manchas cefálica e
oblíqua (e seu respectivo intervalo) e da caudal são invariáveis, pouco
— 96 —
variando as do intervalo que vai do corpo central à m. caudal. Pelo con-
trário, as diferenças de comprimento do* exemplares examinados cor-
respondem às oscilações do tamanho que oferecem sobretudo o corpo
central, a m. em V, seu espaço intermediário e o que medeia da m. caudal
à extremidade posterior do embrião. Daí se pode concluir que as micro
filárias augmentam talvez de tamanho sobretudo às custas de suas por-
ções média e posterior.
Depois, pela média dêste mesmo quadro se pode conhecer a distância
em que se acham as diversas manchas, ou formações embrionárias fi-
xas, a contar da extremidade cefálica, tendo-se as seguintes porcentagens
sóbre a extensão total do embrião:
A mancha oblíqua (anel nervoso) acha-se a 18,87 (19) % da extremi-
dade cefálica;
A mancha em V (poro excretor) acha-se a 29,54 (30) % da extremi-
dade cefálica;
O corpo central acha-se a 56,16 (57) % da extremidade cefálica;
A mancha caudal (poro anal) acha-se a 80 % da extremidade cefálica.
d) Periodicidade. O facto de as microfilárias se apresentarem no san-
gue periférico quási exclusivamente durante a noite tem sido objecto de
várias interpretações, dentre as quais sómente merece referência a
de MANSON (doutrina teleológica), para quem a periodicidade seria uma
adaptação dos embriões aos hábitos noctívagos dos insectos que lhes
servem à propagação e conservação da espécie. Entretanto, a falta
de periodicidade foi assinalada por vários observadores: THORPE
— nos habitantes do Arquipélago de Tonga (Oceánia), cujos
32 % apresentam microfilária no sangue periférico durante todo o dia;
BAHR e LEIPER — em uma quarta parte dos naturais das ilhas Viti (20)
e CRAIG e ASHBURN — na população das Filipinas (21).
Todavia, essa discordância pode explicar-se, ou considerando-se os em-
briões vistos em tais casos como não pertencentes à Filaria Bancrofti, ou
afirmando-se, com PATRICK MANSON, que os desta podem, em cer
tas circunstâncias excepcionais, ser aperiódicos; isto coincidiria com o
existirem, em certas localidades, Culicídeos de hábitos nocturnos e diur-
nos, indispensáveis à evolução das microfilárias, que por êsse motivo se
tornam aperiódicas. Ao demais, a inversão da periodicidade — con-
quanto os experimentalistas que a conseguiram não hajam feito refe-
rência a ter-se ela ou não conservado e persistido depois por longo prazo
— foi infirmada pela observação de GREEN, levada a efeito em mui
tos agentes de polícia de Calcutá, os quais, a despeito da contínua inver-
são de seus períodos de sono e vigília, apresentavam, no sangue, embriões
de Filaria Bancrofti dotados sempre da periodicidade nocturna, normal.
Repugna, porém, admitir-se essa interpretação determinista do curioso
fenómeno, pois, conforme dizia ENRIQUE NUNEZ, não se pode con-
ceber essa adaptação apriorística dos embriões, antes de serem ingeri-
dos pelo mosquito que lhes tenha de imprimir os hábitos.
Finalmente, parece-me que tudo antes depende do facto de à noite
as microfilárias se acharem excitadas por influência dos produtos
tóxicos, que de preferência, a meu ver, nessa ocasião os parasitos adultos
emitem em dóses mínimas, como produto de secreção, ou de suas excre-
ções naturais.
Compadecem-se desta minha assertiva o resultado das curvas hemo-
-leucocitárias diurnas e nocturnas, que vai publicado em capítulo poste-
— 97 —
rior, e a cessação absoluta da periocidade no momento dos acessos febris
dos filarióticos, quando justamente no sangue se encontra disseminada
a toxina, que para mim é o verdadeiro factor do fenómeno. A êste res-
peito, haja à vista o facto de, cm doentes de filariose latente, sem aces-
sos febris que corram por conta da toxina filárica, mas atacados de
paludismo intercorrente, a periodicidade não se manifestar, o que é
provávelmente devido à acção da toxina plasmódica disseminada no
sangue.
e) Localização. Depois que circulam durante a noite com o san-
gue periférico, em cujo seio começam a apresentar-se à tardinha, os
embriões procuram, ao amanhecer, os órgãos profundos, nos quais se
alojam. Conhecem-se à saciedade as observações de MANSON e, depois,
as de RODENWALDT e de LEONEL PLASENCIA (Cuba), segundo as
quais a localização das microfilárias se dá, em número decrescente, nos
pulmões, carótides, coração esquerdo, rins, baço, cérebro, medula óssea,
etc., o que valeu a PRADO VALLADARES, da Baía, ensejo para uma
interpretação que em página posterior será citada.
INSECTOS VECTORES
Estudos de JAMES (22), KENNARD (23), LOW (24), FÜLLE-
BORN, THEOBALD (25) e outros teem demonstrado que a Filaria Ban-
crofti, para completar sua evolução, tem necessidade de um hospedeiro
intermediário (principal factor da distribuição geográfica da doença),
em cujo organismo o embrião se transforme em larva. Êsse hospedeiro
é um mosquito, pertencente á sub-família dos Anofelíneos ou à dos
Culicíneos. Entre os Anofelíneos, teem os observadores verificado esta-
rem em condições de propagar a bancroftose, os seguintes:
Anopheles argyrotarsis ROB. DESV. ; Anopheles alb imanas WIED;
Anopheles costalis LOEW ; Anopheles sinensis WIED ; Anopheles rossii
GILES; Myzorrhynchus nigerrimus? GILES.
E entre os Culicíneos:
Culex quinquefasciatus SAY; C. pipiem LINN ; C. sitiem WIED; C.
annulipes THEOB. ; C. gélidas THEOB.; C. tacniorrhynchus WIED; Ardes
argentem ( # ) (POIRET) DYAR & KNAB; S tegomyia albolineata
THEOB.; e provávelmente alguns outros.
Em nosso país, não obstante a freqúencia dos casos de filariose, pouco
se tem feito sôbre sua transmissão, desempenhada provávelmente pelas
espécies seguintes:
Anopheles argyrotarsis ROB. DES.; A. brasiliemis CHAGAS; Neoceüia
intermedia ROTHWELL ; Anopheles lutzi CRUZ ; Culex quinquefasciatus
SAY ; C. pipiem LINN. e, talvez, Ardes argentem D. & K., cuja dissemi-
nação no Estado da Baía é verdadeiramente espantosa ((*) **).
Evolução das microfilárias. Prevista por BANCROFT e confir
(*) A ades argentem POIBET = Stcgomyia calopus MEIQEN. Estas denominações foram
revistas e, em sua mniorin, estão ngora de ae.Ordo com as ndoptadas no excelente tra-
balho de JIOWARD, DVAlt e KNAB (20). Segundo BIGLIEEI e ARAOZ, ôsto Aiidcs 6,
na Argentina, o transmissor da Filaria tunmana (27).
(**) OASTELLANI, OHAJ/MEBS o SAMBON (28) pensam quo o Aiidcs argentem
seja um <los tranBmissoroB da filarioso; todavia, experiôncias de LEBREDO, foitas cm
Havana (2!)), do BAIIR, nas ilhas Fidji, de ASIIBURN e ORATG (30) c do FÜLLE-
BORN (81) teem demonstrado o contrã,TÍo.
— 98 —
mada por MANSON e outros, a evolução das microfilárias nocturnas
passa-se do modo seguinte: sugadas pelo mosquito, na ocasião da picada,
atingem-lhe o estômago juntamente com o sangue do indivíduo; nessa
altura, a par da hemólise que então se processa, se dá a éedise dos em-
briões que, desta-arte mais activos e graças talvez s\ sua armadura cefá-
lica, atravessam a parede do estômago do hospedeiro e, passando à cavi-
dade geral dêste, alcançam-lhe os músculos torácicos prepostos à movi-
mentação das asas e neles se deteem e evolvem.
Durante a primeira fase de sua evolução, tornam-se imóveis, mais
grossas e curtas; depois aumentam de tamanho, alongando-se e adclga-
çando-se relativamente, ao passo que os músculos, em que se acham alo-
jadas, se alteram e degeneram; em seguida, sua estrutura interna,
outrora apenas esboçada, diferencia-se; e, por fim, seus órgãos se cons-
tituem.
Ao cabo de um período variável de 8 a 45 dias, segundo as condições
ambientes, teem-se transformado em larvas, que medem: 1 ,n /‘", 5 de
comprimento — MANSON ; 1 '"/ m , 5 a 1 m / m , 8 — LOOSS ; 1 m / m , 1 — AN-
NETT e DUTTON (33) ; 1 006 — SCHEUBE, sendo que a maioria dos
parasitólogos lhes assinala 1 7 para o comprimento e 30 n para a
largura.
Penetração das larvas no organismo humano. Pensava MANSON a
princípio que, morto o mosquito na superfície das águas, seu corpo se
desintegrava e as larvas da filária se punham em liberdade, chegando
depois ao organismo do hospedeiro definitivo, o homem, quando inge-
ridas com a água dos alimentos; ideia esta que, todavia, foi logo aban-
donada por mercê dos estudos experimentais de BANCROFT, JAMES,
LOW e, mormente, de FÜLLEBORN (34), segundo os quais a penetra-
ção se dá por via cutânea. Assim: abandonando os músculos torácicos do
Culicídeo em que evolveram, as larvas atigem-lhe, por via retrógrada, a
cavidade geral e transpõem o pedúnculo céfalo-torácico, acumulando-se
sob o esófago, donde passam às regiões contíguas, a tromba e o labium
especialmente; e, coincidindo isso com uma nova picada do mosquito,
escapam-se elas do labium ao nível da membrana de DUTTON, deslisando,
graças à sua extrema mobilidade, pela superfície dos tegumentos huma-
nos que conseguem afinal atravessar por seus próprios meios — FÜLLE-
BORN (***).
Entretanto, nem todos os tropicalistas são concordes nesse modo de
ver, e em meu trabalho anterior, já citado, se podem encontrar exten-
samente referidas e comentadas tôdas as doutrinas que se teem pro-
posto a explicar o modo final de infestação do homem pelo filária.
AUDAIlN, do Haiti (35), pensa que a penetração se dê por via intesti-
nal: o nematoídeo, em estado de larva, ficaria livre no seio das águas
em que tivesse morrido o mosquito, seu hospedeiro intermediário, e
dêsse modo seria ingerido juntamente com os alimentos; atravessando
depois a parede intestinal, passaria aos linfáticos mesentéricos e atin-
giria os gânglios lombo-aórticos e pélvicos e o canal torácico, seu habitat
final.
Êsse autor cita a seu favor, primeiro, a pouca tendência à dissemina-
ção que esta doença apresenta nas regiões em que é endémica, em despro-
porção flagrante com o número de mosquitos; e, depois, a quási absoluta
(•••) Segundo estudos experimentais feitos com n Filaria immitis (32), cujo hospedeiro
é o cão.
— 99 —
localização das determinações filáricas nos membros inferiores e órgãos
genitais, indicativa de obstrução da corrente linfática, sobretudo nos
gânglios pélvicos e lombo-aórticos, relacionados de perto com o tubo
digestivo. RICOT, também do Haiti (36), julgando essa explicação insu-
ficiente para elucidar alguns casos clínicos, mostra-se ecléctico; crê na
penetração mais geral das larvas pelo intestino e, excepcionalmente, na
sua inoculação hipodérmica pelo mosquito.
PRADO VALLADARES, da Baía, quer antes acreditar na duplicidade
dos ciclos evolutivos da Filaria: um exogénico, transcorrendo no mos-
quito que póde inocular afinal as larvas no organismo humano, por via
cutânea; outro endogénico, susceptível de explicar os casos de localiza-
ção profunda do parasito, por isso que as microfilárias, tendo atraves-
sado a rêde dos capilares pulmonares, poderiam, à semelhança das lar-
vas do Ancilóstoma, passar ao aparelho respiratório e dêste ao digestivo.
Essa teoria foi por mim abraçada e largamente discutida e ampliada em
meu trabalho; para documentá-la e firmá-la devidamente, conseguí reu-
nir grande níimero de factos experimentais que, expostos concatenada-
mente, se me afiguravam então capazes de dar-lhe ganho de causa.
De-veras, a concepção de AUDAIN infirma á luz dos factos que vou
citar :
1. ° Na Ilha de S. Cristóvão, os brancos que se não servem de mos-
quiteiro, são filarizados, enquanto se conservam indemnes os que dêste
utensílio fazem uso (LOW) ;
2. ° Na Ilha Barbada, toda a população, sem distinção de raça ou de
classe, é filarizada, a despeito de na Capital, Bridgetown, os brancos só
beberem água filtrada (LOW) ;
3. " Os Chineses em geral são filarizados em grande escala, pois em
Amoi o índice filárico é em média de 12, 5 % da população, não
obstante só ingerirem chá e outros infusos aromatizados fervidos (LOW) ;
4. ° A localização da filária, mormente no trecho cis-ganglionar dos
vasos linfáticos do braço ou da perna, não pode racionalmente ser
explicada, admitindo-se que ela penetre pela rêde intestinal, isto é, pelos
quilíferos ;
5. " Seu acesso ao canal torácico e aos gânglios pélvicos e lombo-
aórticos também permaneceria inexplicado à luz dessa doutrina,
porque não se compreende fôsse dada ao verme a faculdade de transpor
as barreiras ganglionares que encontrasse pelo trajecto, cadeias mesen-
térica e mesocólica, em buscando sua sede final supra-referida;
6. ° E, admitida essa via de penetração, não se poderia dar com os
meios por que o Nematelminte se fôsse, embora por excepção, localizar
nos distritos ganglionares do membro torácico: com efeito, os linfáticos
do intestino afluem ao grande colector central, o dueto torácico, enquanto
os daquele membro vão ter ao pequeno colector, a grande veia linfática
direita.
Doutra parte, a penetração do verme pelos capilares linfáticos dos
tegumentos não se compadece de sua costumada localização profunda,
que se evidencia na cólica filárica, quilúria, linfo-cirsocele, quilocele,
adeno-linfocele ínguino-crural, etc..
Nestas circunstâncias tenho para mim, agora, que os factos são
diversos dos em que acreditava até pouco tempo; já não é preciso entre-
ver-se um duplo ciclo evolutivo, exogénico e endogénico, para a Filaria
100 —
Bancrofti, ideia essa um tanto forçada, em virtude de não possuir símile
perfeito na biologia de nem um outro helminte.
E, atendendo comparativamente aos complicados trajectos que no
organismo do homem descrevem, em sua migração final, vários vermes,
como sejam, entre outros, o Ancylostoma duodenalc, o Schistosomum
hematobium; e, sobretudo, o Paragonimus Weatermanni e o Dibothrioce-
phalus latiis, cuja evolução completa foi, respectivamente, estudada há
pouco tempo pelo experimentalista japonês KOAN NAKAGAWA (37) e
por JANICKI e ROSEN (38) — quero antes acreditar que as larvas da
Filaria Bancrofti, atravessando por si mesmas os tegumenos humanos em
cuja superfície ficaram depostas o se deslocaram a favor de um certo grau
de humidade, ganhem o tecido conjuntivo subcutâneo, graças à continui-
dade que êle apresenta no organismo, e se aproximem dos gânglios linfá-
ticos (por um tactismo curioso e obscuro) e, electiva e especialmente,
do canal torácico, para cujo interior se passem afinal.
Assim, atingem as filárias o estado adulto e, reunidos alguns espéci-
mes em uma mesma sede, as 9 9 são fecundadas, e depois, em chegando
a época da maturidade dos ovos, se dá a saída dos embriões.
Estes, por seu exíguo diâmetro, atravessam os gânglios que por ven-
tura encontrem e os capilares sanguíneos (SCHEUBE), quando com o
sangue vão ter à circulação periférica, ou à intimidade dos órgãos.
Parece entretanto provável que as microfilárias mais desenvolvidas
não consigam passar da grande para a pequena circulação e sejam, por
seu diâmetro às vezes muito grande em relação ao de muitos capilares
pulmonares, forçadas a penetrar nos alvéolos e na árvore respiratória,
ficando por êsse meio em condições de ser expelidas com as mucosi-
dades. Daí a razão de acreditar-se na existência de hemoptises sobrevin-
das em filarióticos e dependentes da migração anormal das microfilá-
rias para o aparelho respiratório, segundo pensava o Prof. ALFREDO
BRITTO (39), e na de bronquites ligadas a este mesmo factor, conforme
adiantam RODENWALDT e FÜLLEBORN (40). Assim também se
compreende que hajam BEUKEMA (*), no Japão, e CARBALLO (42),
em Cuba, encontrado microfilárias nocturnas em esputos de filarióticos.
* Alojadas no sistema linfático, as filárias em via de regra determi-
* * nam os distiírbios que agora passo a estudar.
PATOGENIA e ANATOMIA PATOLÓGICA
Os trabalhos de PATRICK MANSOiN, continuados pela Escola do
Haiti e por grande námero de tropicalistas, cujos nomes estão referidos
na parte histórica dêste artigo, teem conseguido, quási por completo, elu-
cidar a patogenia da filariose de BANCROFT; não obstante, êsse capítulo
foi, nos últimos tempos, objecto de revisão no já citado trabalho de
RICOT.
Sabe-se que, alojadas no sistema linfático, as filárias adultas se
comportam de duas maneiras: ou se limitam a produzir embriões, ori-
ginando o quadro da filariose latente ou filaríase, cujo cunho especial
é a simples e passageira congestão dos elementos de tal sistema; ou,
(*) LOOHS, apriorísticamente, reputa pouco provável «pio fossom da Filaria Bancrofti os
embriões encontrados por õsse tropical i st. x (41).
— 101 —
maia comumcnte, com oa embriões emitem toxina e expelem ovoa ima-
turos, determinando no organismo humano sérios distúrbios que corres-
pondem aos sintomas e lesões da filariose verdadeira.
Passando-se revista ao modo de distribuição no organismo, do siste-
ma linfático, composto de vasos e gânglios, e tendo-se presente a dupli-
cidade de colectores centrais: grande veia linfática — que recebe a
linfa de alguns territórios da porção direita do corpo, como sejam o
membro superior, a metade da cabeça e pescoço, da pleura e pulmão o
da parte correspondente aos dois primeiros intercostos na parede torá-
cica dêste mesmo lado; e canal torácico — - de que são tributários os
vasos de todos os demais distritos linfáticos do corpo; e, depois, aten
dendo-se a estreita interdependência dos elementos dêsse sistema, pode-
se compreender o modo pelo qual suas lesões se constituem.
No opinar de MANSON, a causa inicial das lesões residiria, primeiro,
na presença do parasito no interior dos vasos linfáticos, cujo endotélio,
irritado contínuamente, acabaria por inflamar-se; e, depois, na expul-
são acidental de ovos, por cuja conta se daria a obstrução da corrente,
a estagnação da linfa e a conseqüente dilatação dos elementos vascula-
res, no trecho situado a montante do obstáculo.
Mas a interferência da toxina, arguida por B. RICOT e concorde aos
estudos de BLANCHARD, explica mais racional e cabalmente todas
essas alterações. Assim, p. ex., localizando-se em um vaso qualquer, as
filarias inicialmente o obstruem num ponto; em seguida, a toxina, excre-
tada em um trecho já obstruído e disseminando se para a periferia, vai
produzir a endo-linfmgite e a ãescamação do endotélio dos linfáticos,
lesões estas capazes de, por si sómente, aumentar a obliteração. E, com o
estender-se o processo, ao mesmo tempo em que se difunde o produto tóxico
pela rêde anastomótica suplementar, originam-se a peri-linfangite, a pan-
linfangite e a hiperplasia do tecido reticulado dos gânglios.
Ao demais, se se considerarem, no desenvolvimento de todo êsse pro-
cesso mórbido, a actividade e a fácil difusão da toxina filárica — cuja
existência se manifesta pelas modificações do índice hemo-leucocitário
e pelos sérios distúrbios gerais observados nos doentes — e a exube-
rância prodigiosa de anastomoses dos vasos linfáticos, a par da impos-
sibilidade da regressão espontânea de lesões já constituídas, poder-
se-á fazer ideia perfeita de como essas perturbações aumentam cada
vez mais.
Como consequência do estabelecimento do obstáculo, por endo-linfan-
gite obliterante e por hiperplasia do tecido adenoídeo, surge a inversão
do fluxo da linfa que busca, pelas anastomoses a jusante situadas, outros
vasos que por-ventura se conservem permeáveis, embora, como quási
sempre acontece, colocados a considerável distância.
Juntem-se, depois, a êsse refluxo a sobrecarga da linfa que continua
a formar-se nos tecidos, a despeito de quaisquer empecilhos ao seu
regular deflúvio no sangue, e o sobrecréscimo da tensão nos vasos de
túnicas inflamadas e por isso mesmo pouco resistentes; e às dilatações
dos linfáticos ( linfangiectasias ) se seguirão os extravasamentos de
linfa (linf orr agias) . E assim sucessivamente.
Obstruam as filârias, por acaso, o canal torácico, a cisterna de PEC-
QUET, ou os gânglios lombo-aórticos prepostos ao território intestinal, e
assim o quilo, cuja estagnação fica iminente, ou passa aos vasos anasto-
mótiens, entre os quais se encontram os linfáticos do rim, do peritoneu,
— 102 —
dos órgãos genitais, dos membros inferiores, etc., ou retrocede; surgem,
com a causa adjuvante do aumento progressivo da pressão, no primeiro
caso, os derrames quilosos para o rim (quilinia), para a vaginal ( quilo -
ceie), para o peritoneu ( ascite quilosa), etc., e, no segundo caso, para
o próprio intestino ( diarreia quilosa).
Desta-arte se infere que as lesões só podem tender a progredir; a dila-
tação dos vasos, oriunda do obstáculo, da fragilidade de suas paredes e
do aumento de pressão na corrente da linfa, faz que se constituam as
varizes e se processe intermitentemente a rutura das paredes vasculares.
Verifica-se também, em certas circunstâncias especiais, que as microfi-
lárias não se encontram no sangue, mas na linfa ou no quilo colectados,
ou extravasados pelo mecanismo acima descrito; êste facto que indica
obliteração do grande colector, ou de um dos plexos vasculares ou gru
pos ganglionares contíguos, que formem barreira intransponível aos refe-
ridos embriões, ó explicável pela esclerose superveniente, réputada como
termo das lesões que se observam no decurso da parasitose.
Portanto, reconhecendo todos êsses distúrbios por causa principal a
toxina filárica, pode-se concluir pela unidade patogênica das lesões da
bancroftose.
Doutra parte, nas regiões dalém trópicos, onde não existe Filaria Bancro-
fti, as linfangiopatias que, como se sabe, são determinadas pelo micró-
bios banais (estafilococos, estreptococos, etc.), em nada diferem, lesional-
mente, das que a filária mesma determina: não há, por consequência,
especificidade anáto mo -patológica das lesões da bancroftose (43).
Finalmente, parece admissível se incluam no quadro da doença
certas determinações de origem igualmente tóxica, capazes, todavia, de
surgir sob aparências bem diversas daquelas sob que geralmente compa-
recem. Dizem respeito a uma desproporção flagrante e acentuada entre
os distúrbios regionais e os gerais originados pela toxina.
Assim: após alguns acessos de linfangite aguda bem configurada,
muita vez surge um novo que se caracteriza pela instantânea defervescên-
cia dos sintomas locais, seguida do brusco e alarmante agravamento do
estado geral do paciente.
E’ bem provável, conforme opinou PRADO VALLADARES, que nes-
ses casos o organismo se encontre sensibilizado pela toxina e que o novo
acesso corresponda integralmente a uma crise anafiláctica.
Por idêntico mecanismo pode enfim ser explicada a possível imuni-
zação que se observa em filarióticos acometidos de crises periódicas de
linfangite, com recrudescências toxémicas bastante características.
FORMAS CLÍNICAS
Vários ensaios teem sido realizados pelos autores com o fim de reunir
as diversas e omnímodas determinações da Filaria Bancrofti, sob crité-
rios patogênicos invariáveis.
A tentativa inicial de ENRIQUE NUNEZ resultou incompleta e imper-
feita, por trazer inclusas no grupo das varizes troncularcs a quilúria que
ao clínico impressiona sobretudo pelo derrame da linfa ou do quilo, e a
orquite filárica, que é forma realmente inflamatória.
A de RICOT, muito embora mais completa, ó ainda imperfeita, mor-
mente pelo facto de não conter as manifestações linforrágicas que, por
— 103 —
sua acuidade, são muita vez o único fenómeno capaz de impressionar o
enfermo e de despertar a atenção do médico. Talvez se replique serem
êsses acidentes consequência da linfangiectasia; mas esta o é da linfan-
go-adenoitide e o ilustre tropicalista cubano descreve-as separadamente.
Inclui ao demais no grupo das moléstias superajuntadas à filariose, a
elefftncia e os abcessos, determinações estas mui legítimas do parasito,
conforme adiante procurarei provar; e rotula de linfangiectasia vesr
cal a quilúria e a hematoquilúria, as quais teem por sede, não sómente
a bexiga, mas ainda e sobretudo os rins e os ureteres.
Posteriormente, CLARAC enfeixou as aludidas formas clínicas em 4
classes, mas não reservou referência especial à febre elefantoide e à
linfangite perniciosa, tendo-as assimilado ã linfangite aguda filárica.
Parece-me, assim, que de todos os tentames empreendidos com êsse
intuito o mais perfeito é o do Prof. PRADO VALLADARES. Ei-lo:
FORMAS CLÍNICAS DA I1AK CTÍOKTOSE
I.lnfangectátlcaa
varizes linfáticas
varlcocele linfática
linfo-escroto
aclenolinfocele
Linforráglcas
Inflamatórias
Anafiláctlcas
( linforraglas cutâneas
diarreia quilosa
quílúrla c hematoquilúria
Í qullo-torax
ascite qullosa
qullocele
craw-craw?
abcessos fllárlcos?
linfangite aguda
superficial
reticular
troncular
profunda
I lombo-aõrtico- 1 cólica
testlcular I niárlca de
lombo-aórtico- AUDiAIN
útero-ovárlca J
linfangite
crônica
I
simples
elefáncla
febre elefantoide
(de PAYREE)
linfangite perniciosa
(dos médicos brasileiros)
Essa classificação é, todavia, ainda passível de modificações; assim,
na 1.» classe incluirei o linfangioma pediculado ínguino-escrotal, para-
lelamente adenolinfocele ; da 3.“ classe tirarei o sinal de dúvida dos
abcessos filáricos que, a meu ver, teem existência inconteste; e pela
sinovite filárica (de MAITLAND) substituirei o cro-cró.
Com efeito, esta afecção (o cro-cró) nada apresenta de similar com a
filariose e o facto de ter sido observada, por SEVERIANO DE MAGA-
LHÃES, em pessoa acometida de quilúria e elefância, não lhe prova a
identidade de causa com a destas; é possível que tenha havido antes
— 104 —
méra coincidência mórbida, até porque é avesso aos hábitos da filária
nocturna produzir distúrbios da natureza dessa dermatose ; e, a par disso,
os embriões observados em tal caso e então descritos não se podem con-
fundir estruturalmente com as microfilárias nocturnas.
Quero de preferência acreditar, apoiado na opinião valiosíssima de
MANSON e de SCHEUBE, que os embriões encontrados por SILVA
ARAÚJO, O’ NEIL e NIELLY em casos de cro-cró pertençam à Acan -
thocheüonema perstans (filária), ou outra espécie vizinha, os quais,
existindo na circulação periférica, tenham sido, no momento, surpreen-
didos no sangue de pápulo-vesículas de sarna, ou de outra qualquer der
matose pruriginosa muito semelhante. E’ também o opinar de W. T.
PROUT, de Liverpool (44), corroborado mui recentemente por KERAN-
DEL (45) que pôde fazer uma completa auto-observação da referida
afecção cutânea.
Desta-arte, aceitas em suas outras linhas a classificação referida e nela
feitas as modificações que ora proponho, ficarão as formas clínicas da
doença discriminadas do modo seguinte:
superficial
I rotlcular
1 troncular
I.lnfangite aguda
profunda
( lombo-aórtlco- \
tosticular Cólica filárica
) de
lombo-aórtlco- I VUDAIN
1 fltero-ovárlca )
Formas Inflamatórias
J.lnfanglte crónica
simples
olefílncla
Sinovlte filárica
(de MAITIjAND)
Abcessos filáricos
Formas anafllActlcas
I Febre elefantoide
I (de FAYRER)
( Linfanglte perniciosa
(dos médicos brasileiros)
Formas linfangiectátlcas
Varizes linfáticas
LInfo-cirsocele
Linfo-escroto
Adeno-llnfocelo
(e adeno-quilocele)
T.infangloma pediculado
(íngulno-escrotal)
Formas llnforrágicas
' externas ou fluentes
(ou cut&neo-mucosas)
internas ou colectados
(ou sorosas)
Llnforragias cutâneas
Diarreia qullosa
Quilúria e hematoquilúria
Qullo-torax (e linfo-torax)
Ascite qullosa
Quilocele (o linfocolo vaginais)
Na descrição que ora vou empreender, considerarei resumidamente
as manifestações da parasitose, segundo a ordem natural de sua suces-
são patogênica e de acordo com os dados por mim próprio colhidos em
observação minuciosa de muitos doentes, embora me afaste, com fre-
quência, da lição dos tratadistas.
— 105 —
A — FORMAS INFLAMATÓRIAS
1.* Linfangite aguda. Ao lado dos fenómenos de congestão que a
filaria adulta determina, irritando — directamente, ou por meio dos
ovos que talvez expila em abortos acidentais — o endotélio dos linfáticos
em que esteja alojada, e determinando-lhes progressivamente a estenose,
outros há e mais importantes, produzidos também provávelmente pela
toxina que o parasito emite.
O eminente Prof. ItICOT, a quem se deve a ideia da interferência de
tal toxina, distingue, na linfangite ou linfango-adenoidite aguda filárica,
as duas formas: febril ou de origem tóxica, e apiréctica ou de causa mecâ-
nica; e, nesta, as duas variedades de obstrução linfática: uma brusca e
completa, outra progressiva e lenta; e esmiuça e analisa, segundo o pro-
cesso patogênico especial a cada caso, outras tantas diferenças que afinal
pouco valor teem na clínica.
Parece-me, no entanto, lícito esperar se reserve a denominação de
Unfago-adenoidite ã verdadeira flogose dos vasos e do tecido adenoídeo
das gânglios linfáticos, em cuja produção a toxina tem parte activa,
separando-se ela, assim, daqueles fenómenos que se caracterizam por
simples congestão destes mesmos elementos, quando irritados e depois
obstruídos, momentânea, ou permanentemente.
De qualquer modo, a adenolinfangite aguda pode ser superficial ou
profunda. A princípio troncular, pois a inflamação se inicia no ponto
de alojamento da filaria, na altura dos aneis valvulares dos troncos lin-
fáticos, ou talvez até com maior frequência, na proximidade e a jusante
dos gânglios; e em seguida reticular, por mercê da difusão do processo
flogístico pelas malhas do retículo, a linfangite superficial pode compa-
recer sob duas formas: a benigna e a grave. Na l. a os sintomas locais:
dor á pressão; calor e rubor (ora preponderante no trajecto do vaso
afectado, ora disseminado pelos elementos da rede superficial) ; prurido
mais ou menos intenso; ligeiro aumento de volume da região atingida,
devido à sufusão peri-linfática e ã reacção dos gânglios ou cadeias gan-
glionares circunvizinhas, etc.; todos estes fenómenos surgem com inten-
sidade, ao passo que os distúrbios gerais são pouco acentuados: anorexia,
cefalalgia, ascensão térmica e indisposição, momentâneas e fugazes, dis-
túrbios que, ainda mais, desaparecem de chofre, enquanto os primei-
ros se arrefecem paulatinamente.
Na forma grave, inverte-se o cortejo sintomático: as manifestações
gerais passam a ser muito intensas e as locais pouco acentuadas. Essa
diferença enquadra-se perfeitamente na seguinte descrição do eminente
Prof. MIGUEL COUTO:
'‘Ordináriamente sem pródromos, a linfangite começa por
um calefrio violento e prolongado, alta febre, de 39° 5, 40’,
41°, intensa cefalalgia supra-orbitária e frontal, sêde viva,
vómitos contínuos, precedidos de náuseas e grandes ânsias.
Logo depois aparecem os sintomas locais, dor difusa em um
membro ou segmento de membro, ou mais circunscrita a esta
ou aquela região, dor urente na lingangite superficial e gra-
vativa na profunda.
A pele da zona acometida torna-se sêca, deixa desenhar
em relevo de côr mais carregada a rêde linfática até aos gân-
— 106 —
glios engorgitados, e fica muito mais quente do que no resco
do tegumento. Se a linfangite é profunda nâo se nota o debuxo
reticular da malha linfática, mas um certo empastamento na
zona atacada.
Éste estado prolonga-se por algumas horas até um dia ou
dois, ou pouco mais e enquanto dura...” (46).
Tal duplicidade no scenário mórbido parece provir, quer das varia-
ções quantitativas de cada emissão de toxina pelo verme, quer do facto
de maior ou menor extensão de zonas linfáticas obstruídas poder existir
nos diversos casos clínicos.
Quando, p. ex., fôr completa a obliteração do território linfático em
que se encontre a filária e pequena a quantidade de toxina livre no mo-
mento, as reacçces gerais serão forçosamente mínimas, em virtude do
ter a toxina de descrever um extenso trajecto pelas vias retrógradas de
corrente suplementar, para chegar aos vasos permeáveis e, por estes, à
circulação geral.
Pelo contrário, é compreensível que tais reacções surjam ostensiva e
estrepitosamente desde o início, sempre que, ao lado de relativa per-
meabilidade das vias linfáticas, a dose da toxina, emitida, fôr notável;
desde então, sendo êsses sintomas de maior gravidade real, ou aparente,
concentram toda a atenção do doente e do clínico, a qual para logo se desvia
dos fenómenos de reacção local, ainda quando sejam activos.
Devem-se distinguir essas crises das que se observam na erisipela e
na linfangite microbiana.
Quando a reacção geral é quási absoluta, é mister primeiro excluir-se a
hipótese de um acesso de paludismo e, nos casos de reacção ganglionar
dominante, pensar-se nas manifestações iniciais da peste bubônica. Em
tais casos só as pesquisas de laboratório, de que tratarei no próximo
capitulo, poderão elucidar o diagnóstico.
2.» Linfangite profunda. Ainda conhecida pelas designações de lin-
fangite genital ou cólica filárica (de AUDA1N), é a inflamação da rêde
linfática lombo-aórtico-testicular e lombo-aórtico-útero ovárica.
Não tendo acompanhado, de pertc, nenhuma dessas crises sobrevin-
das na mulher, limitar-me-ei a descrever a forma lombo-aórtico-testicu-
lar, de que tive ensejo de observar alguns casos.
A linfangite profunda surge com sintomas um tanto idênticos aos da
superficial, todavia com algumas variantes.
A vinda do acesso é geralmente revelada ao paciente por fenómenos
pr. drómicos, consistentes, ora em raquialgia, a princípio fina e dissi-
mulada e logo depois forte, aguda, lancinante, ou torturante, e em dores
lombares que se propagam, como cinta, ao epigástrio e, em seguida, aos
cordões espcrmáticos, aos testículos, ou às coxas; ora, pelo contrario, em
simples sensação de pêso à região das bolsas.
Sem tardança e estrepitosamente, comparecem os sinais de profunda
toxemia: calefrio intenso, febre alta, cefalalgia, náuseas, vómitos, adi-
namia completa e delírio. Os sintomas locais revelam-se, de um só, ou,
com maior freqiiência, do3 dois lados (prova da difusão da toxina pelas
anastomoses), pela enorme tumescència das bolsas e intensa dor no cor-
dão espermático, a qual tem origem na intimidade mesma do testículo,
ou do epidídimo (linfangite reticular) e termina na região lombar, onde
se confunde com os fenómenos dolorosos já citados.
— 107 —
E, com a àngio-leucite reticular, sobrevêm a reacção inflamatória do
testículo que aumenta de volume, devido ao facto de se dar o derrame da
linfa, quer para o próprio parênquima do órgão (orquite), quer para a
vaginal (linfocele).
Surgem, a par de tudo isto, os epifenómenos reflexos; a anúria é, via
de regra, constante, e o timpanismo, por paresia intestinal, também com
grande frequência se apresenta. Afinal, o doente, como se não houvesse
passado por tão grandes provações, dentro em pouco e após uma pro-
fusa descarga de suor, ou de urina — sinal da eliminação da toxina —
volve ao seu primitivo estado de higidez aparente, ficando-lhe apenas
ligeiro edema do testículo com acentuado desenvolvimento e turgidez dos
vasos funiculares e flacidez das bolsas.
Depois, e como conseqüência de um primeiro ou de vários acessos sobre-
vindos repetidamente, as linfangiectasias do cordão espermático veem a
aparecer.
Esta manifestação pode-se confundir com a orquite aguda microbiana,
algumas vezes com a apendicite e, nos casos de reacção local mínima,
com o paludismo; por isso mesmo carece fazerem-se, para a elucidação
diagnóstica, as pesquisas hematológicas complementares.
A Escola do Haiti inclui no mesmo quadro a variedade apiréctica da lin-
fangite genital ou verdadeira cólica filárica, descrevendo-a ao lado da
variedade febril acima referida.
3.* Linfangite crónica: a) simples. Após as crises agudas e no
intervalo delas, os linfático? conservam-se espessados e endurecidos, em
virtude de a inflamação crónica desde logo se originar. De facto, como
característica e substracto anatómico da endo-linfangite obliterando *
da peri-linfangite, da linfango-esclerose e da obstrução ganglionar, se
processam a descamação do endotélio dos vasos linfáticos e o espessa-
mento de suas paredes, por novi-formação celular, a proliferação dos
tecidos embrionários circunjacentes e a hiperplasia do reticulado, le«ces
estas que, uma vez constituídas, em lugar de regredirem, tendem, como
de regra, a perdurar e a estender-se progressivamente a todo o território,
região, membro, ou órgão, correspondente á parte que foi em primeiro
lugar aíectada.
Desta-artc, a palpação revela, sob a pele, cordões resistentes e quási
sempre flexuosos (vasos linfáticos) e nódulos endurecidos e irregulares
(gânglios), que se podem deslocar, rolando por sob os dedos, ou resls
tem, desde que hajam contraído aderências com os tecidos confins.
A região toma-se muito volumosa após a marcha, os exercícios e 03
diversos movimentos, voltando, por assim dizer, às suas primitivas
dimensões, com o repouso prolongado.
A diagnose desta forma clínica que é, como se vê, susceptível de con-
fundir-se com muitas afecções, só pode ser firmada com segurança com o
recurso poderoso das pesquisas de laboratório.
b) Elefancia. É definida por BESNIER, do seguinte modo: "Hiper-
trofia regmral crónica, de marcha extensiva e progressiva, ligada: 1.*
à reacção inflamatória do aparelho conjuntivo- vascular sanguíneo e lin-
fático, determinando cocmas ae sorosidade espautáneamente coaguLwel,
a hiperplasia do tecido colágeno, a multiplicação celular; 2.* a transuda-
tos sorosos de origem mecânica” (47).
A hipertrofia constitui-se em 2 fases: na 1.*, o aparelho conjuntivo-
vascular é atingido, o edema sobrevem, e instala-se a hiperplasia do
— 108 —
derma e dos tecidos subcutâneos ( fase edematosa ) ; na 2.\ o tecido elás-
tico desaparece, e acentua-se a hiperplasia fibrosa ( fase esclerosa ).
A patogenia da elefância, teem-na tentado explicar 3 teorias principais:
a) a de MANSON : o processo originar-se-ia da estase linfática, produzida
pelos parasitas adultos e seus ovos (responsáveis pela obstrução vascu-
lar) e das infecções secundárias super-aj untadas; b) a de LE DANTEC
(48), que nega a interferência da filária na determinação do mal que fica,
assim, sendo resultado exclusivo da associação de 2 micróbios: o dermo-
linfococo e o estreptococo; c) a da ESCOLA DO HAITI, que considera o
processo "uma afecção microbiana favorecida habitualmente pela inflama-
ção linfática crónica permanente da zona atingida, com ou sem crises
agudas mais ou menos frequentes.”
De referência à de LE DANTEC, nenhum argumento de maior valia
se pode levantar contra a arguida especificidade da associação microbia-
na, do que o facto de vários pesquisadores haverem encontrado, no seio
dos tecidos elefantíacos, micróbios outros, considerados também causa-
dores do mal, a saber: pneumococo — RENON e BRAULT; linfococo
insulado — DUFOUGERÉ (49) ; estafilccoco, só, ou associado — TRI
BONDE AU (50) e DUBRUEL (51) ; e estreptococo — SABOURAUD.
Quanto ít explicação de MANSON, ressalta claramente a pequena
interferência que no scenário mórbido exerce a simples obstrução mecâ-
nica por ovos abortados e por parasitos adultos; agora, sobretudo, que
o trabalho de RICOT definiu o papel que a toxina filárica desempe-
nha na constituição da doença, ccm acêrto se pode substituir, na con-
cepção do notável trapicalista inglês, a errónea influência da simples
acção mecânica, pela mais racional da referida toxina: esta, provável-
mente, é que produz os diferentes distúrbios e lesões inflamatórias, cujo
grau último é a clefância.
Quanto ao mecanismo a que na doutrina de MANSON se atribui a di-
ficuldade de se descobrir microfilária no sangue de elefantiacos, ou seja
a obstrução dos gânglios pelos ovos da Filaria Bancrofti que veem a
suprimir completamente através dèles a passagem da linfa, impossibili-
tando o acesso dos embriões ao seio do sangue, critica-o TANIGUCHI,
julgando-o improvável, pois em suas experiências jamais encontrou ovos
libertados da F. Bancrofti, seja no sangue, ou na linfa, seja em qualquer
outra secreção, ou excreção. Para êste autor, a ocorrência de microfilá-
rias, em início de evolução, no sangue de elefantíacos não é tão rara
quanto afirmam os investigadores; provávelmente na perpretação deste
êrro reincidem as expedições, devido à imperfeição com que praticam os
exames de sangue. Muitos investigadores fazem tais exames, com grande
trabalho e sempre em vão, em casos de elefância já de 10 anos e nestas
condições é presumível que as Filárias adultas já tenham morrido du-
rante a evolução da moléstia (donde a inexistência de embriões), muito
embora as lesões locais por elas produzidas ainda persistam (52).
Alêm disso, não 6 talvez impossível que nesses casos se dê a imunização
do doente, que geralmente continua no mesmo foco — para com nova
infestação pela Filaria Bancrofti; donde decorre a dificuldade, quiçá im-
possibilidade de, em fase adiantada do processo mórbido, os embriões
serem de novo encontrados no sangue de indivíduos elefantíacos.
Não posso, enfim, acreditar, com a Escola do Haiti, seja a elefância
causada cxclusivamcvtc por micróbios, por mercê de existirem territó-
rios linfáticos crónicamente inflamados; acredito antes, como ecléctico.
— 109 —
seja também a Filaria Bancrofti, pelos produtos tóxicos que emite, capaz
de determiná-la.
A êste resultado só uma condição é, a meu ver, indispensável : a exis-
tência de obstrução, completa e definitiva, em todo um distrito linfático,
obstrução que é com certeza susceptível de ser observada.
Sabe-se que as filárias, localizando-se em dadas regiões, podem cau-
sar, quando o processo toxi-inflamatório se propaga, a atresia de todos
os vasos e gânglios em cujas proximidades se encontrem.
Repare-se, duma parte, que a elefãncia surge quási sempre no3 mem-
bros inferiores, escroto, pene, grandes lábios e, por vezes, nas mamas
e membros superiores, departimentos cujos plexos linfáticos procuram,
todos, duas das sedes de predilecção da filária: os gânglios ínguino-cru-
rais e axilares, respectivamente; e note-se, doutra parte, que os vasos
referidos diminuem pouco a pouco de número até defluirem no grupo
ganglionar correspondente, por um, dois ou três troncos. E assim se há
de admitir que possa muito benr a toxina do parasito, com a propagação
do processo inflamatório crónico que determina, originar a obliteração de
tais vias aferentes e em seguida a das colaterais, prepostas íi corrente
vicariante; e que desde logo, como resultado de todas essas alterações, a
elefãncia se venha a constituir.
Comprova esta asserção a observação seguinte:
OBSERVAÇÃO CLINICA (ESTAMPA XVII; fig. 1)
R. N. B., com 24 anos de idade, mestiço, solteiro, negociante, natu
ral da Baía onde reside em Itapoan, recolheu-se em 9-5-1916 ao Hospital
Santa Isabel, Enfermaria S. LuÍ3, ao serviço do Prof. ANTONTO BORJA.
Apresentava hidrccele dupla, de que foi operado no dia seguinte, sob
clorofórmio. No decurso da operação que consistiu na inversão das vagi-
nais, observei que os testículos eram considerávelmente grandes e endu-
recidos; e, tendo eu suspeitado da natureza filárica da hiperplasia. procu-
rei pouco depois colher do doente alguns dados anamnéticos elucidativos.
Informou-me então que, de 12 anos passados àquela data, sentira de
vez em quando dores lombares (de comêço à esquerda e depois dos 2 lados),
mais ou menos incómodas, que se irradiavam para o epigástrio, coxas,
cordões e testículos; que estes, em seguida, se tornaram túrgidos e, jun-
tamente com as bolsas, bastante dolorosos; tivera calefrio, alguma febre,
cefalalgia e náuseas, fenómenos que cessavam por uma crise de suor,
ou pela emissão de urinas carregadas.
Disse mais que viera ao Hospital, pelo facto de lhe haverem, numa
dessas crises, crescido os testículos por tal forma, que lhe pareceu esta-
rem muito doentes.
E, por tais informes retroôpectivos, pude levar alêm as minhas sus-
peitas e previ a possibilidade de todos êsses sintomas sobrevindos por
acessos se prenderem à linfangite genital filárica, a qual sói remanescer
em orquites hipertróficas e em derrames na vaginal.
De facto, o exame do seu sangue, retirado por mim à meia noite do
dia 20 de Maio, revelou a presença de 2 microfilárias nocturnas vivas
em um preparado. Em vista disto, quis continuar as pesquisas, mas o
doente, vendo a ferida operatória cicatrizada e alegando afazeres domés-
ticos, pediu alta e obteve-a no dia 31 do mesmo mês da entrada.
— 110 —
Estava-me, porém, reservada uma surpresa, porquanto, mais ou me-
nos 5 mesês após (a 5 de Cutubro), o paciente de novo me aparecia,
presa então de elefáncia do escroto.
Recolhido à Enfermaria, narrou-me que logo em fins de Julho suas
bolsas se haviam tornado dolorosas, tendo começado a crescer gradual-
mente na ausência quási completa de febre e a apresentar na superfície
algumas saliências que para logo confluíram e donde transudava um líqui-
do espêsso e viscoso que lhe molhava as ceroulas, mormente por ocasião do
desempenho dos afazeres costumados a que se entregava o paciente.
E observei que a pele conservava um pouco a depressão digital; estava
imóvel e aderente aos planos subjacentes e não se deixava mais pinçar
entre as polpas digitais; o próprio testículo era dificilmente descoberto
pela palpação; na parte inferior da cicatriz da intervenção realizada em
Maio para a cura da hidrocele esquerda, se via uma saliência acentuada,
globulosa e depressível, para a qual chamei a atenção de, entre outras
pessoas, o notável parasitólogo, Prof. PIRAJÁ DA SILVA.
Pois bem: puncionei essa vesícula e, por aspiração com uma seringa
de vidro, retirei 8 c. c. de um líquido claro, transparente, mais ou menos
homogéneo, que me pareceu ser linfa; tendo-o centrifugado, examinei-
lhe o depósito, em cujo seio não me foi difícil descobrir õ microfilárias
nocturnas em um preparado entre lâmina e lamínula. Retirei depois,
por diversas vezes e â meia noite, o sangue dêsse doente e nunca mais
encontrei uma só microfilária: tinha-se dado provávelmente a obstrução
do território linfático escrotal.
Os gânglios ínguino-crurais estavam crescidos e endurecidos; e um
dêles, o mais interno do grupo superior direito, tinha o eixo maior para-
lelo â arcada femoral e era doloroso.
Diante de tais circunstâncias, resolvi a operação, que pratiquei a 24
de Setembro, com o auxílio de meus dedicados colegas, Dr. RAUL GODI-
NHO (cloroformizador) e HUMBERTO JESUINO e JOSÉ NEVES.
Seguindo a técnica de LE ROY DES BARRES, ligeiramente modificada,
empreguei com sucesso a minha derivante do processo de MAC LEOD
para hemostasia preliminar, à qual posteriormente aludirei.
Tôda a porção hiperplástica retirada foi por mim conservada o mais
assépticamente possível; e, finda a operação, pretendi obter culturas
com o material, pelo que semeei cuidadosamente a sorosidade que dos
cortes da pele escoava e a linfa que surdia de todos os tecidos afectados
— em quatro tubos de caldo de carne, dois de gelose e dois de gelatina.
Entretanto, nem tim só micróbio sc desenvolveu, o que indicava clara-
mente não ser o processo microbiano.
Enviei uma das partes da peça retirada ao Prof. LEONCIO PINTO
que de bom grado se prestou a verificar-lhe as lesões, tendo sido os cor-
tes praticados pelo meu colega, Dr. EDMUNDO OLIVEIRA. Nesse
exame foi encontrado o seguinte: “intensa infiltração linfocitária (prin-
cipal lesão) ; alterações vasculares — esclerose e dilatação linfática, arte-
rial e venosa; espessamento do derma, com hiperplasia do tecido colá-
geno e diminuição das fibras elásticas; atrofia, em alguns pontos, da
camada reticulada do derma e ligeira inflamação e dissociação do darto.”
Um dêsses cortes agora reproduzo na estampa XVI ; fig. 4.
Tratava-se pois, não só clínica, bem como anátomo-patológicamente,
de um processo verdadeiro de elefáncia.
— 111 —
Firmado nesses dados, quero crer possa a elefúncia ser produzida
exclusivamente pela Filaria Bancrofti.
Mas não exagero e comprendo perfeitamente sejam também os mi-
cróbios capazes de determiná-la; por isso é que, em página anterior,
afirmei a não especificidade patogênica das lesões da bancroftose.
3. * Sinovite. Assinalada por MAITLAND que dela observou 5
casos e admitida pela maior parte dos tropicalistas, a sinovite filárica,
consequente a ãngio-leucites intensas, existe sem dúvida, dadas as
estreitas relações que as sinoviais articulares apresentam com os plexos
linfáticos; é o que pensava ENRIQUE NUNEZ, dizendo:
“siendo la filariósis una afección dei sistema linfático y
comparandose las serosas a verdaderos sacos linfáticos, debe
aceptarse la posibilidad de que la filaria determine modifi-
ciones en las sinoviales articulares, como las referidas por
MAITLAND.”
4. * Abcessos. Já produzidos pela morte dos vermes adultos, já
consecutivos à não reabsorpção dos produtos do processo linfángítico, os
abcessos filáricos teem, a despeito do opinar de PROUT (53), existên-
cia inconteste.
Assim é que, de-envolta com o conteúdo de colecções purulentas,
vários observadores, entre outros BANCROFT, JULIO DE MOURA,
FELICIO DOS SANTOS, DANIELS, MAITLAND (54) e NUNEZ,
encontraram os parasitos adultos, inteiros ou fragmentados, dos quais
se aproveitaram para estudar os caracteres.
Sem chegar ao extremo de vários autore3 que, conforme acentua
RICOT, incluem em tal rói verdadeiros focos purulentos de origem mi-
crobiana, eu compreendo perfeitamente que a filária, acantoada num
segmento restrito de linfático, proximal e distalmente obliterado, possa
eliminar, num dado momento do decurso regular de sua vida ou por
ocasião de sua morte, uma dose importante de produtos tóxicos, capazes
de, por sua acção muito irritante, produzir a mortificação, não só das
paredes do vaso em que o parasito se ache enclausurado, bem como a dos
tecidos circunjacentes, já alterados pelo processo inflamatório crónico
e extensivo, que caracteriza em geral a doença.
B) FORMAS ANAFI LÁCTICAS.
Pode acontecer, menos frequentemente é bem veTdade, que, decorrido
algum tempo após um acesso de linfangite, um outro sobrevenha, com
toaior intensidade dos fenómenos gerais e sob exteriorizações mais
íevera3 das reacções nervosas; isto sucede plausívelmente quando o
tempo mediante de um para outro é o bastante a que a toxina filárica,
despejada na circulação geral, haja terminado a sensibilização do orga-
nismo e, desta-arte, se achem preenchidas as condições essenciais ao
desenrolar da reacção anafiláctica.
— 112 —
Assim, p. ex., ora se observa, de par com sintomas gerais, o aumento
de volume da região, sede do processo mórbido, com acentuada distensão
dos tecidos e infiltração edematosa, por derrame intersticial de linfa: é
a febre elefantoide (de JOSEPH FAYRER) ; ora se nota, muito ao
envés disso, a exaltação exclusiva dos fenómenos gerais reaccionários:
é a linfangite perniciosa on endémica (dos médicos brasileiros).
Em um doepte e colega meu, com 28 anos de idade, branco e casado,
observado por mim e pelos Profs. ANTONIO BORJA e PRADO VAL-
LADARES, pude acompanhar todo o decurso de acessos filário-toxémicos
que se apresentavam sob a forma absolutamente típica da febre elefan-
toide.
C) FORMAS LINFANGIECTÁTICAS.
A obstrução anteriormente assinalada por ovos, ou, mais certamente,
por endo-linfangite de causa toxinica, faz que a linfa que progride em
direcção centrípeta, fique estagnada; é que, continuando a formar-se nos
tecidos e ficando desde logo submetida à maior pressão resultante dêsse
estorvo A sua marcha regular, tenda a retroceder, em busca de vias anas-
tomóticas, pelas quais chegue aos centros.
Justamente, por mercê dêsse movimento retroverso da linfa submetida
a uma grande pressão, é que se dá a dilatação dos linfáticos, quando
suas túnicas já se acham pouco resistentes, devido As lesões que a tóxina
do parasito aqui estudado nelas determina; e a estas alterações funcio-
nais tende a superajuntar-se, complicando-as, a insufiència valvular que
muito cedo se estabelece. Ao mesmo tempo, ou logo depois, igual distúr-
bio se passa nos gAnglioa sujeitos A influencia dos aludidos factores.
A prova desta inversão do deflúvio da linfa está em que o conteúdo dos
derrames, de origem filárica, da vaginal é geralmente quiloso; desta
mesma natureza soem ser os derrames pleurais, os peritoneais e os
observados no aparelho urinário, sobrevindos todos no decurso da doen-
ça, o que bem patenteia o retrocesso do quilo (linfa intestinal).
Entre as linfango-adenectasias, assinalam-se as varizes linfáticas super-
ficiais, o linfo-escroto, a varicocele ou, conforme prefiro di7«r, cirsocele
linfática, a adenolinfocele c o linfangioma pediculado inguino-escrotal.
1. *) Varizes linfáticas. Originam-se da dilatação das radiculas e
capilares linfáticos, quando em suplcncia funcional aos troncos obstruí-
dos. Apresentam-se sob a forma de pequenas vesículas translúcidas, pro-
tegidas pela epiderme, de volume variável, dispostas em linhas mais ou
menos irregulares; são susceptíveis de depleção pelo repouso ou pela
compressão e de repleção pelas condições inversas que, como se sabe, faci-
litam seu estado de turgidez.
Quando tronculares, mostram-se raramente sinuosas e formam, em
regra geral, relêvo seb a pele que, não obstante, se conserva íntegra.
E’ tipo dessa modalidade clínica a linfocele ínguino-crural (de LE ROY
DES BARRES).
2. *) Cirsocele 1 nfátíca. E’ a dilatação dos linfáticos funiculares,
conseqúcncia das mais freqüentcs da linfangite lombo-aórtico-testicular.
cm
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— 113 —
in.Cia-se quási sempre insidiosamente, segundo observação de BARRES,
*È !e eu corroboro, e localiza-se mais comumente à esquerda, do que à
ire*ta. Esta diversidade é devida, a meu ver, ao facto de os linfáticos
i-n.culares direitos aferirem aos diversos gânglios do grupo juxta-aór-
ICO ou ^ om bar do mesmo lado, ao passo que os da esquerda procuram,
D .° t gru P° àe gânglios correspondente, aqueles que estão mais altamente
** uado3 (CUNéO e TESTUT) : daí o facto de os primeiros apresenta-
f m c °nexões mais íntimas com a cisterna de PECQUET e o canal torá-
C ‘ C0 ' set * e Predilecta do nematelminte, da qual sede se irradiam os fenó-
menos mórbidos.
^ ^raocele dá aos dedos a sensação de um feixe de vermes flácidos,
n rt!açad°3, de superfície irregular, entremeada de dilatações e estran-
amen tos que diminuem de número e de tamanho à medida que se
Proximam do testículo. Êste, em resultado da estase linfática que em
ai se estabelece, torna-se mais túrgido e mais penso, ao passo que as boi-
ê ‘* s se distendem e se avolumam. *A pressão, o tumor varicoso reduz-se
muito, reproduzindo-se logo de cima para baixo, em direcção centrifuga,
contrário portanto do que se passa com a cirsocele venosa.
- -Semelha-se sobretudo a certas hérnias epiplóicas, sendo que a dia
* no ' e diferencial das duas só se pode firmar pelas pesquisas comple-
mentares.
^ or ma clínica, as filárias adultas acham-se quási sempre locali
a<5 nos ginglios lombares, ou em sua vizinhança.
3- ) Linfo-escroto. Anuncia-se por infiltração da pele das bolsas,
T-e de quando em quando se torna quente, avermelhada e dolorosa,
?. retu do com a ortóstase; e, às vezes, por um acesso típico de linfan-
• c superficial. Depois, começam a formar-se pequenas vesículas disse-
•nadas ; a rafe mediana proemina, toma-se dolorosa e túrgida, for-
j . an 0 a0s poucos o centro de um sistema de linhas salientes e sinuosas,
•-'Postas, ora mais ou menos irregularmente, ora paralelamente e sepa-
***** Uma 3 das outras por sulcos acentuados e interrompidos aqui e ali
Por saliências cupuliformes (vesículas) e por depressões: é a rêdc linfá-
>ca dilatada e comprometida em seus elementos até a cadeia ganglionar
nguino-crural respectiva.
I’ode também acontecer que o aumento gradual da pressão da linfa
consiga vencer a resistência das delicadas paredes dessas dilatações e
*j Ue assim ela se extravase, estabelecendo-se um novo estado interca-
e nte de repouso e de linforragias quantitativamente variáveis.
A* lesões elefantíacas costumam, por fim, constituir-se mais cedo ou
•na:.? tarde, quer sómente no escroto, quer ainda no pene, por causa da
obstrução ganglionar concomitante.
bestes casos, as filárias encontram-se em via de regra noa vasos cole-
0‘0re 3 da linfa da região (observação de MANSON), ou nos gânglios
,n ?uinais correspondentes.
A par desta variedade, assinalam-se na mulher, sob a rubrica de lin-
^ngiecUjjj especial, as varizes linfáticas da vulva, cujo aspecto clínico
^•s ou menos o mesmo do sob que comparece o linfo-escroto.
Adecoliníccele. Dilatação varicosa dos gânglios, por alteração
e seus canalfculos, e dos vasos aferentes e eferentea com íreqücncia
n °viformados, esta forma clínica, embora jã se tenha visto localizada
axilas, no pescoço, perto das epitrócleas e em outres distritoa gan-
em
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— 114 —
glionares, tem por sede mais freqúente o triângulo de SCARPA, donde a
adjectivação de ínguino-crural, que se lhe dá.
Isto pôsto, distingui-la-ei em superficial e profunda, segundo estejam
atingidos os gânglios super ou subjacentes ao folheto superficial de des-
dobramento da aponeurose da região.
Da forma superficial há duas variedades: a inguinal e a cniral, con-
forme o pedículo vascular aferente provenha das bolsas (1.* caso), ou
da coxa (2.*. caso).
Quando inguinal, o tumor fica paralelo à arcada femoral e abaixo
dela; é, pois, de direcção oblíqua para dentro e para baixo, quási trans-
versal.
Quando crural, fica circunjacente ao ligamento falciforme de ALLAN
BURNS e á crossa da safena interna; seu eixo é orientado em sentido
quási vertical. Todavia, tal distinção pouco se observa, porquanto os
nódulos confluem sem tardança.
De qualquer modo, a adeno-linfocele inguino-erural caracteriza-se por
u’a massa de tamanho variável, muita vez do volume do punho de um
adulto, maciça á percussão, irregular e entremeiada de saliências flá-
cidas e de largos sulcos, correspondentes aos diversos gânglios confluen-
tes e aos seus respectivos intervalos. E’ móvel sobre o plano profundo e
sob o superficial, a que contudo pode aderir, quando a rêde linfática da
pele ó atingida pelo processo mórbido: desta circunstância decorre a
possibilidade de a elefância enxertar-se nesta determinação.
A massa tumoral torna-se túrgida com a ortóstasc, com a marcha e
os demais factores que favorecem habitualmente a estase da linfa em
vasos dilatados e valvularmente insuficientes; as causas inversas deter-
minam-lhe a depleção.
E’ sempre mais freqúente e, quando bilateral, também mais volumosa
â esquerda, circunstância esta devida talvez à mesma causa que apon-
tei de referência à linfo-cirsocele.
Julgo, por fim, racional se distingam na adeno-linfocele. sob o duplo
ponto de vista de sua patogenia o da natureza do seu conteúdo, duas
formas clínicas: uma linfática; outra çuilosa . Tem-se, de feito, retirado
da hiperplasia, por meio de punções, ora simples linfa, ora quilo mais
mais ou menos puro, o que patogénicamente se explica pela diversa
localização da filária nos 2 casos. No primeiro caso, ela se deve achar,
ou nos gânglios lnguino-curais, ou nos hipogástricos; no segundo, deve
estar no canal torácico, ou na cisterna de PECQUET, estorvando completa-
mente a passagem do quilo para o seio do sangue e forçando-o a retro-
ceder para as vias colaterais subjacentes.
Donde: nos casos de conteúdo linfático, as microfilárias podem fácil-
mento ser surpreendidas na circulação periférica, por isso mesmo que
se conserva permeável o colector central ; nos de conteúdo quiloso, porem,
as microfilárias nào podem de certo chegar ao meio aanguineo, em vista
de haverem desaparecido tais condições de permeabilidade.
Estas assertivas, contrárias & opinião de NUNEZ, teem a seu favor os
factos reciprocos de observação diária, concernentes â extrema freqüen-
cia com que no seio mesmo das colecções quilosas se encontram as micro-
filárias, a contrastar com a dificuldade de seu descobrimento no seio de
colecções linfáticas.
A adonolinfocele, sendo susceptível de confusão com a hérnia crural
epiplóica. o linfoma tuberculoso, o bubão climático, o flebangioma. o
— 115 —
l:?oma, etc., só pode ser diagnosticada com segurança pelas pesquisas
Parasitoscópicas.
&•*) Liníagioma pediculado. E’ um tumor formado de vasos linfá
•003 enormemente dilatados e neoplásticos, de aspecto nodoso, multilo-
^***«0, em cujo seio por vezes se encontra tecido linfoídeo. Possui um
Podiculo, correspondente à extremidade profunda, que se continua
Com 03 va $03 pélvicos; tem o polo superficial livre, sito a diversas altu-
ra 3 do trajecto inguinal e ao lado do cordão espermático; e acompanha
•-nnude uma linfo-cirsocele, de que, todavia, é sempre independente,
foi estudado por PAES LEME, no Rio, e A. LE DENTU, na França,
•n o que êste último lhe deu o nome de ínguino-escrotal. NUNEZ, por
* urno » firmado no facto de o tumor acompanhar o trajecto do cor-
• denominava-o de funicular, distinguindo-lhe as variedades: abdo-
l *ol, inquinai, ínguino-escrotal e escrotal.
O tecido linfoídeo, como elemento de sua textura, proviria de uma novi-
ormação característica de um tumor mixto, isto é, um adeno-linfan-
•orna (R. lê DENTU); ou simplesmente de um gAnglio impelido da
«Suo P®l v »ca para o trajecto inguinal.
Qua^ 0011 * 61 ^ 0, ° ra ^ coas tit u *do por simples linfa, ora pelo próprio quilo,
a d n • ° *l u ^ oso ’ * n dica acharem-se as filarias no canal torácico, donde
niá Cr VâÇà0 - das ^ or duras absorvidas no intestino; e quando linfático, as
nas estão a jusante dêsse ponto, ou nos gAnglios juxta-aórticos cor-
3pondentes aos vasos funiculares, ou, quiçá, nos retro-crurais sitos ao
'do peritoneal do trajecto inguinal.
*P j.nas do cordão, pelo que sómente as pesquisas de laboratório poderio
uCld *r Um rfoeto notnrAva
em extremo difícil diferenciar-sc clínicamente da cpiplocele e dos
um diagnóstico desta natureza.
♦
* +
n > FORMAS UNFORRAG1CAS.
ós ruturas dos linfáticos são a derradeira conseqúcncia das lesões
* n *tórnicas que a Filaria Bancrofti determina no organismo humano;
,;’ n Por elementos causais directos a flacidez das túnicas vasculares e a
0il *ãc da linfa que dos tecidos superficiais se dirige para o centro, com
TJilo ou com a própria linfa que, cm sentido inverso e em resultado da
0b - tr uçâ° central, procura as vias suplementares periféricas.
. *'* determinações aparecem quási exclusivamente na metade infe-
r,or e partes declives do corpo, porque a corrente rctroversa centrifuga
crn aí a seu favor a força da gravidade.
A linforragia pode-se processar por solução de continuidade da parede
08 vasos linfáticos, ou por simples transsudaçio, etc. Suas formas cllni-
^ distinguem-se em: externas ou fluentes, que ainda se podem deno-
IR:nar de cutâneo-mucosas; e em internas ou colcctadae, que também se
P°dem chamar de sorosas.
*) Liníonagias fluentes.
*•' LlníotTagias cutâneas: teem por sede mais habitual a região
— 116 —
escrotal e, na mulher, a doa grandes lábios, sem embargo de se poderem
apresentar na superfície dos membros e em outras partes do corpo.
A quantidade de linfa que transvasa dos linfo-escrotos, quer em resul-
tado das causas acima assinaladas (solução de continuidade das
túnicas dos vasos e transsudação), quer por influência exclusiva da con-
tracção do darto — pode atingir 350 gra. no prazo de 1 a 2 horas: em uro
dos doentes (cuja fotografia se vê na Estampa XVII ; fig. 2) por miro
observados, a decapitação de qualquer de suas vesículas linfo-escrotais
produzia escoamento do líquido durante dois dias, ao passo que, em dois
outros, a linforragia, a-pesar- de moderada, era espontânea e conseguia
tão sómente humedecer a superfície das bolsas, a qual sempre se conser-
vava em extremo pegadiça.
Ao lado desta forma clinica, cumpre assinalar a quilorragia cutânea
que, tanto nesta, quanto nas determinações precedentemente referidas,
indica obliteração das vias colectoras centrais pelos Nematoídeos adultos,
e consequente derivação do quilo para as partes declives do corpo, poden
do desta-arte fornecer indicações mais ou menos preciosas para o trata-
mento.
2.* Quilúria (e Hémato-qu lúria) Complica a linfango-adenectasia
lombo-sacra e exprime a passagem do seu conteúdo para o interior dos
rins, dos ureteres e da bexiga, donde é expelido.
E’ que, estando obstruído o canal torácico ou a cisterna pelas filárias, |
o quilo — oriundo, como se sabe, da fonte linfática mais copiosa do org3
nismo, que é o intestino — extrava-se, devido à sua estagnação e á delga-
deza parietal dos seus condutos, e vai-se derramar em um ponto qualquer
da mucosa do aparelho urinário. Compreende-se também que a linfa das
porções subjacentes do corpo, por mercê dessa estagnação, se aproveite
da derivação pela fístula formada c surja dc-cnvolta com o quilo então
emitido. Por essa razão se explicam as diversas cambiantes do liquido I
que pode ser esbranquiçado, mais ou menos lactescente, ou pardacento; [
e, quando corado, um pouco róseo ou avermelhado, quer dizer que se
misturou com sangue proveniente da rutura dos pequenos vasa hjmpha-
ti coram.
As crises iniciais da quilúria manifestam-se com febre (produzida I
pela toxina), a qual cessa logo que se estabelece a via de extravasacáo
definitiva. A quantidade de liquido extraviado aumenta considerável-
mente no periodo das digestões e durante a marcha e os diversos movi- 1
mentos; e diminui, até não se fazer mais perceptível, com o repouso mais
ou menos prolongado: assim pude várias vezes observar que a urina dos |
pacientes até se apresenta com aparência normal, no momento de sua
emissão matutina.
Nio obstante a grande expoliação gordurosa de que são vítimas ©s|
quilúricos, seu estado geral e sua aparência conservam-se geralmente|
bons.
O gTande perigo que a aíecção lhes traz. reside nas coagulações intra-
vesicais do quilo, motivo pelo qual se lhes deve aconselhar o regime das|
micções freqúentes.
A hematoquilúria filárica pode ser, i primeira vista, confundida cora|
as hematúrias produzidas pelo Schistosomum htmatobium, ou pelo Eus-
tionçjiil-t s i-isccralis; t mais ainda com a das regiões temperadas; comi
a lipúria, etc. Em tais casos, deve-se recorrer às pesquisas complementa- 1
res para a competente elucidação diagnóstica.
cm
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Diarreia quilosa. Esta forma clinica parece apriorísticamente
*** mais frequente do que tem sido assinalada, porquanto é de-veras com-
preensível que, sendo a rêde linfática intestinal a mais extensa e impor-
tante da economia e estando em relação directa com o quilo, pelo facto
ser dèle a sede, um obstáculo no colector central sõbre ela repercuta,
niais fácilmente do que sõbre todas as demais redes linfáticas, e o retro-
eeaso do liquido se dê para o ponto de origem.
A quilorragia intestinal manifesta-se sob forma de diarreia mais ou
*nenos intermitente e é passível, por isso, de confusão com as demais
•indromes diarreicas.
h) Linforragias colectadas.
t-*) Quilocele vaginal. Na qualidade de termo geral da linfangite
Profunda, a quilocele é a mais frequente de todas as determinações linfor-
rágicas colectadas da filariose de BANCROFT. Manifesta-se, de prefe-
rência, à esquerda e resulta de um obstáculo no canal torácico, razão por
•lue as microfilárias geralmente se conservam no seio da colecção liquida.
A obliteração pode também passar-se nos gânglios lombares prepostos ao
* eterna funicular e, neste caso, a forma clínica passará a ser de natu-
reza linfática (linfocele vaginal) ; ou, pelo contrário, pode deixar de ser
completo o estorvo e então sobrevir um derrame vaginal, de origem sim-
plesmente inflamatória (hidrocele), observável após uma crise de orquite
filárica.
De qualquer modo, a quilocele comparece mais ou menos globulosa,
: om pequena quantidade de líquido que é opaco à diaíanoscopia c cuja
tensão baixa com o repouso; ao demais a tensão da vaginal, segundo S -•
VERIANO DE MAGALHÃES (55) nunca é tão acentuada, quanto na
hidrocele comum.
2.*) Ascite qu losa. Produz-se toda vez que os linfáticos perito-
Qe *is, inflamados e dilatados, passam a receber sob forte pressão o qui-
1° que retrocede, por fòrça da atresia completa do canal torácico.
O liquido colectado pode, a principio, ser límpido e tornar-se. depois,
°Paco e lactescente, conforme verificação de SIMOND, NOC c AUBERT,
0 que está a indicar serem as lesões obliterantes. com sede nos gAnghoa
Pfepostos ao sistema peritoneal, susceptíveis de estender se ató o grande
c o!ector.
A ascite quilosa filárica pode-se clínicamentc confundir com iguais der-
r wnes causados por neoplasmas ou pela tuberculose do canal torácico ^ e
Maia; su a distinção só se poderá firmar com o auxílio das investigações
que no próximo capítulo referirei.
*■•) Quilo -tórax. E\ conforme o nome está a indicar, o derrame qui-
k*° na cavidade pleural. . , .,
Sua extrema raridade provêm, a meu ver. da distribuição que a rede hn-
íãtica, aferente à primeira porção do canal torácico, afecta no aparelho
Pleuro-pulmonar: de facto, sómente do lado esquerdo, os 8 últimos inter-
c <*tos, o diafragma e os dois terços inferiores da pleura, possuem vasos
d «la tributários; alem disto, o quilo dificilmente poderia vencer as resis-
lóncias dos vasos situados acima do obstáculo central, contra a força da
fravidade, que é claramente contrária ao 6eu retrocesso dele.
Sendo, ao demais, alguns linfáticos pleurais tributários dos gânglios
tnamários externos da plêiade axilar, pode-se também prever a possibl-
lidade da constituição de um quilo tórax, consecutivamente à localização
filária nesse distrito ganglionar.
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« •
— 118 —
DETERMINAÇÃO DA SEDE DAS FILARIAS
Das linhas gerais do capítulo precedente pode-se verificar que:
1. ° tentei traduzir e descrever, com a exactidão possível, os sintomas
clínicos que colhi ao exame dos meus doentes, pelo que só me referirei
intercorrentemente às suas respectivas observações;
2. * quis também distinguir e determinar nas diversas formas clínicas
da doença a sede provável das filárias adultas, recorrendo para êsse fim
aos dados anátomo-fisiológicos e às leis de hidro-dinámica aplicáveis à
movimentação da linfa.
Assim, acreditando que tal determinação é primordial e deve estar
patente ao espírito dos patologistas e clínicos que nela tão sómente devem
basear o problema terapêutico da bancroftose, tenho por indispensável
coligir esquemáticamente, nesta parte, os dados precedentemente enun-
ciados.
SEDE DAS FILÁRIAS ADULTAS:
Formas clínicas:
Sedes:
a) Quilocele vaginal. Quiloto-
rax. Ascite quilosa. Quilúria e he-
matoquilúria.
b) Quilocele e adeno-quilocele
ínguino-crurais. Linfangioma funi-
cular (quando, por excepçáo, apre-
sente conteúdo quiloso).
Canal torácico e cisterna de PEC-
QUET. Para o quilotorax (linfoto-
rax) pode também ser nos gânglios
axilares.
c) Linfo-cirsocele (•). Linfoce-
le vaginal. Linfangioma funicular
(•*). Linfangite genital (***).
' Gânglios lombares correspondem
tes aos linfáticos testiculares.
d) Adenolinfocele. Linfocele ín-
guino-crural. Linfangites diversas;
elefftncia; sinovite e manifestações
anafilácticas. Linfangiectasias e
linforragias cutâneas.
Troncos linfáticos, ou, mais ge
ralmpnte. gânglios adjacentes ou
correspondentes a cada região em
que esteja a determinação.
e) Linfo-escroto.
( Gânglios inguinais e, às vezes,
\vas03 linfáticos das bolsas.
f) Abcessos filáricos.
{ In situ.
HEMATOLOGIA
Apenas esboçado e iniciado por CALVERT (56) e von GULLARD
(57) e continuado por LEONEL PLASENCIA (de Cuba), VICKERY,
CLERC, VASQUEZ, COLES, WHYTE (58), MINE, TANAKA (59).
(*) Excepelonalmente nos r&ngllos hipogr&strleos.
(••) Quando o llnfansloma é oriundo dos *.\n«rl!o» retro-erurats e dos vasos v!*l»
nhos. a tll&ria deva estar mais ou menos a montante dtsse ponto.
(•••) Na mulher, a looalixaj&o * a mesma
cm
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19 20
— 119.—
FüLLEBORN (60), HAPKE (61), REMLINGER, SICARD e BLAIS
e por outros autores, o estudo das alterações sanguíneas na bancroftose
foi admirávelmente refundido em 1909 por B. RICOT.
CALVERT e von GULLARD, por exames de sangue praticados
repetidamente nos mesmos doentes em prazos muitos curtos, haviam
verificado que a eosinofilia aumenta com o aparecimento das microfilá-
rias na circulação e decresce com o seu desaparecimento dêste meio (•) ;
o. das demais modificações quantitativas, a hiperleucocitose ligeira, a
eosinofilia e a linfocitose são as que se teem principalmente assinalado.
RICOT, o estudioso tropicalista haitiano acima referido, que fez sôbre
fcsta matéria estudos muito completos, chegou, como é sabido, a conclusões
interessantíssimas que, todavia, não se compadecem, em alguns pontos,
das verificações anteriores. Assim é que diz:
No intervalo dos acessos febris: o sangue líquido não apresenta modi-
ficações apreciáveis e os leucócitos são quantitativamente normais e a
numeração e a relação globulares não apresentam diferença alguma
diurna ou nocturna; a eosinofilia é constante (5 a 15 %) : os eosinófilos,
embora excepcional e momentâneamente possam aparecer em quanti-
dade normal, aumentam à custa dos mononucleares e, mormente, dos poli-
morfonucleares neutrófilos; a mononucleose é infalível e diz respeito aos
Pequenos mononucleares; não há diferença alguma em um mesmo doente
entre as fórmulas hemoleucócitárias nocturna e diurna. E durante 03
acessos febris: ainda modificações não se observam no sangue líquido;
há hiperleucocitose e, por excepção, leucopenia que, quando se observa,
á sempre anterior ao acesso e depende de causas outras, e não da pró-
pria doença; a leucocitose volta à normal no fim do acesso e, no mesmo
doente, não apresenta variações do dia para a noite; os eosinófilos desa-
parecem tardiamente e seu reaparecimento pode ser precoce; a polimor-
fonucleose é constante e acentuada, desaparecendo normalmente no fim da
crise ou perdurando se fenómenos inflamatórios persistem; não se
observa também, em um mesmo doente, diferença alguma entre as fór-
mulas hemoleucócitárias nocturna e diurna.
* * Eu também quis contribuir com meu fraco, quiçá despiciendo,
* contingente para êsse estudo; e, desejando verificar nos bancro-
ftóticos de que cuidava o quanto se havia observado anteriormente, em-
preendi pesquisas sob o seguinte critério invariável:
Exames de sangue retirado: 1 .* A) no intervalo dos acessos febris;
“) durante os acessos.
2.° fora do período das digestões, afim de serem postas à margem
P°asíveis causas de êrro, e assim, infalivelmente: a) ao meio-dia; b) à
meia-noite.
Dei, outro-sim, grande importância à presença ou ausência de vermes
mtestinais, à existência ou não de afecções brónquicas ou cutâneas e a
c, rcunstâncias outras que pudessem gerar confusão em meus resultados.
jf* * SSo de LOOSS eeta» Dalarra»: *VON GCL.LARD und CALVERT b*i denaelbea
Ooníi, n ln kOraeren Zwiachenriumen Wederholte Zlhlungen ergaben. daaa dle Eoat-
i.iK "* ralt dem Aaftreten der Filarlalanren ln Blute au-und mit Verachwlnden der-
reo wteder abnlmmt”.
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 18 19
— 120 —
A) EXAMES DE SANGUE NOS PERÍODOS APIRÊCTICOtí
OBSERVAÇÃO I (Doente l.°)
Caso clinico — Adenollntocele lngulno-crural bi-lateral.
a) AO MEIO-DIA
Exame hematimétrico
Hematlas por mm3 5.120.000
Leucócitos *' ” 8.000
Relação globular D 1
H 640
E. cromométrico
Hemoglobina (Fletschl) . 70 %
Valor globular (a) O-® 8
Índice leucocitário
Pollmorfonucleorea neutrófilos 350 70,00 %
„ eosinófilos 45 9,00 %
” basôlilos . 3 0,60 %
Mononucleares 32^ 6,4 0 %
Macrolinfócitos 35 7,00%
Microlinfócitos 30 6,00 c /c
Formas de transição 5 1,00 y«
500 100,00 %
Exame das lezes — Não (oram encontrados ovos de helmlntes intestinais.
a) 'A MEIA-NOITE
E. hcmatimétilco
Hematiaa por mm3 6.556.000
Leucócitos " " 7 - 800
Relação globular k 1
H 712
E. cromométrico
Hemoglobina 70 %
Valor globular °> G “
índice lencocitário
Pollmoríonucleares neutróíilce 200 40.00 %
* eoslnófilos 118 23,60 %
" baaóiilos 0 0,00 %
Mononucleares 47 9,40 c /e
Macrolinfócltos GG 13> GG '?
Microllnlócltos G ® 13.00
Formas de transição 10 3,00 /<
500 100,00 c /o
Microdlárias — 16 em uma só preparação entre duas lâminas.
OBSERVAÇÃO II (Doente 1.»)
Caso clinico — O mesmo da observação precedente, examinado um mês dopoi».
a) AO MEIO-DIA
E. hematimétrico
Hematlas por mm3 4.800.004
Leucócitos ” ” 8-oOu
Relação globular D 1
H 564
(a) O meu eâleulo para obtenção do valor globular ê feito sObre 4. 0?0. 000
hematia», mídia norma! por mm 3 de sangue, entre nós observada pelos Drs. OSWAWw
BARBOSA. MARIA ANDRÉA e outros.
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 121 —
E. cromcmétrico
hemcgiobina
Valor globular
Índice leucocitário
Pollmorfonucleares neutrôfilos
” eosinófilos
” basófilos .
Mononuclearea
Macrolinfócitos
Microiinfócitos
Formas de transição .
6) ’A MEIA-NOITE
E. hcmntiniétrico
hematias por mm3
Leucócitos ”
Relação globular
E. cromomí-trico
hemoglobina
Valor globular
Índice leucocitário
Polimorfonucleares neutrõfilos
n eoeinóflloe
, " basólilos .
• '^nonucleores . . . .
hacrolinfócitos
«''•roilnfôcltos
Formas de transição .
ilicrofilirias — Não foram ristas.
70 %
0,72
OBSERVAÇÃO III (Doente 2.»)
Ca« 0 clinico — Linfangite lombo-aórtlco-teeticular.
o) AO MEIO-DIA
E. hcmatimítrico
Rematias por mm3
^“'ócitos - "
«teiação globular
E. cromomótrico
hemoglobina
w °r globular
Índice leucocitário
Pollmorfonucleares neutrófilos
eoeinóflloe
u n __ " basófllos
I ° n °nuc!e«res
ÍJ^lnWcitos
p r °l-nfôcitoa ... . . ....
r ®as d e tranjijjo
273
55.60 %
66
13.20 %
2
0.40 %
20
4.00 %
60
12.00 7o
52
10.40 %
22
4.40 7o
500
100,00 7o
5.200.000
8.200
L
1
H
634
70 %
0.67
226
45.20 %
90
1S.00 %
1
0.20 %
20
4.00 %
10
8.00 7o
105
21.00 7o
18
3.60 %
500
100,00 %
4.420.000
8.200
L
1
H
639
40 %
0,45
251
50.20 %
60
12,00 %
4
0.80 %
35
7,00 %
90
18.00 %
45
9.00 %
15
3,00 %
Ria*#
600 100,00 %
áas ftzes — Ovos de Trichurit trichiurut « da Aiecris lumbricoidet.
cm
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 122 —
— 122 —
6) 'A MEIA-NOITE
E. hematimétrico
Hematias por mm3
Leucócitos ” ”
Relação globular ....
L
4.752.000
7.600
1
E. cromométrico
H
625
Hemoglobina
Valor globular
Índice leucocitário
40
0,41
Polimorfonucleares neutrófllce
„ eceinófilcs
- basófilos .
Mononucleares
Macrolinfócitos
Microlinfócitos
Formas do transição
210
72
2
40
56
104
16
42.00 %
14.40 %
0.40 %
8,00 %
11.20 <7 0
20. S0 %
3.20 %
500
100,00
Microíilárias: — 86 em uma
só preparação entre 2 lflminae.
OBSERVAÇÃO IV (Doente 2.°)
Caso clinico — o mesmo da observação precedente, examinado apó« a administra-
ção de anti-elmlnticos.
a) AO MEIO-DIA
E. hematimétrico
Hematias por mm3
Leucócitos ” "
Relação globular L
E. cromométrico
II
Hemoglobina
Valor globular
índice leucocitário
Polimorfonucleares neutróflloe 291
eosinótlloa 40
„ basófilcs 3
Mononucleares 37
Macrolinfócltos 45
Microlinfócltos 70
Formas de transição 14
500
Exame das fezes — Inexistência de orce de helmintes Intestinal*.
6) *A MEIA-NOITE
K. hcmntimétrlco
Hematias por mm3
Leucócitos ” ”
Ralação globular L
E. hematimétrlco
H
4.324.000
6.900
1
626
50 V.
0.57
58.20 %
8.00 Çf,
0.60 %
7.40 %
9.00 r e
14.00
2.S0 %
Hemoglobina
Valor globular
10
0.54
123 —
Índice leucocitário
Pollmorfoauclearea neutrófilos
„ eosinóiiloe
basólilos .
Mononncieares
MacroUnfócitos
Microliníócitoa
formas de transição .
250
50,00 Çj
5 S
11.60 %
0
0.00 %
30
6.00 r 0
27
5.40 %
120
24.00 %
15
3.00 < 3 .
500
100.00
MIcrofilária» '■ — 72 em uma *6 preparação entre 2 l&mlnas.
OBSERVAÇÃO V (Doente 3.»)
Caso clinico — Linf o-escroto,
o) AO MEIO-DIA
E. cromomí-trico
Hematlas por mm3
Leucocttos " ’•
Relação globular
E. cromomítrico
Hemoglobina
Valor globular
4.4S0.00C
6.200
L. 1
H ~ 720
65 %
0.72
Índice Icucocltárlo
Pollmorfonoeleares neutrófilos
• ecetnotlios
w * basófiloe . .
Mononncieares
Macrolinfócitos
M-croliníficitos
formas de transição .
260 52.00 %
110 22. ü0 ÇJ
3 0.60 %
20 4.00 %
30 6.00 %
62 12.<0 %
IS 3.00 %
600 100.00 %
Exame das fezes: — Não se encontraram ovos do
helmintes intestinais.
5) ’A MEIA-NOITE
E. hcmatUnítrico
Hematias por mm3
Deucôcitos ” ’*
Relação globular
3 . 920.000
6.000
D 1
K. cromométrico
Hemoglobina .... 85 %
Valor globular O - 8 3
indico leucocitário
PolUaorfonuclearea neutrófilos
» eodnófllos
* basófilos .
Mononucleires
Jíacroliafôcltoa
Mlcrolinfôcltos
fermos de transição
225
45.00
%
100
20.00
%
0
0.00
%
25
5.00
%
25
5.00
%
100
20.00
r .
25
5.00
%
500
100.00
%
MIcrofilária*: — No melo d© 5 preparaçdes feitas entre 2 lámlua* com a ltufa cio
Tí *icula^ Osicrotaiò, encontrai uma com 2 microfilária* vlvaa.
— 123 —
índice leucocitárlo
Pollmortonucleares neutrófilos
„ eOiinóíiloô
” basóíiloe .
Mononucleares
Macrollnt6cltos
Microlinfócitos
Forma3 de transição .
250 50,00 7
5S 11.60 7
0 0.00 %
30 6.00 7o
27 5.40 7o
120 24.00 7
15 3.00 7o
500 100,00 7t
Mlcrofilária* — 72 em uma êó preparação entre 2 laminas.
OBSERVAÇÃO V (Doente 3.”)
Caso clínico — Linfo-eacroto.
a) AO MEIO-DIA
E. cromomítrico
Hematlaa por mm3
Leucocuos ” ” .
Relação globular
E. ci-oniomf tricô
Hemoglobina
Valor globular
índice leucocitárlo
PolUnorfonucleares neutrófilos
m epemotUos
" baàóliloo .
Mononucleares
Macrollnfócitos
Microlinfócitos
Formas de transição .
4.4S0.006
6.200
L, 1
H 720
65 7o
0,72
260 52.00 7,
110 22.00 7 ,
3 0.60 7o
20 4.00 7>
30 6.00 %
62 12.40 %
15 3.00 To
500 100.00 To
Exame das fezes: — Não se encontraram ovos de helmlntes Intestinais.
6) *A MEIA-NOITE
E. hcmatlinílrico
Hematlas por mm3
Leucócitos ••••..
Relação globular
3.920.000
6.000
L, 1
K. crotnomé trlco
Hemoglobina .
Valor globular .
65 %
0.82
índice leucocitárlo
Pollmoríonuclearee neutrófilos
„ eo-Inófllo»
" basóíilos
Mononucleares
Macrolinfócltoa
'ermas de transição
225 45.00 %
100 20.00 7 ,
0 0.00 %
25 5.00 %
25 5.00 7>
100 20.00 7
25 5.00 7
500 100,00 7o
MtcrofIUrlas: — No meio de 5 preparaçóes feitas entre 2 lâminas com a Unia do
Te »lculaa escrotala, encontrei uma com 2 mlcrolilárlas vlvaa.
— 124 —
OBSERVAÇÃO VI (Doente 4.°)
Caso clínico: — Adeno-linfangite crural esquerda; linfangite lombo-aórtico-tes-
ticular esquerda, com quilocele.
a) AO MEIO-DIA
E. hcmatimétrico
Hematlas por mm3 6.064.000
Leucócitos ” ” 6.300
Relação globular D 1
U 803
E. cromométrlco
Hemoglobina 80 %
Valor globular 0,78
índice lcncocltário
Polimorfonucleares neutrófilos 320 64.00 %
" eosinóíilos 30 6.00 %
• basótilos 5 1.00 %
Mononuclearea 25 5.00 %
Macrolinfôcitos 35 7.00 %
Microllnfócitos 70 14.00 %
Formas de transição 15 3.00 %
500 100,00 %
Exame das íczcs — Negativo do ponto de vista de ovos de belmintes Intestinais.
6) ’A MEIA-NOITE
E. hcmatimétrico
ITematlas por mm3 4.760.000
Leucócitos ” " 6.000
Relação globular L 1
II 720
E. cromométrlco
Hemoglobina 80%
Valor globular 0.S4
Índice lcncocltário
Polimorfonuclearea neutrófilos 239 47.80 %
. efwlnótiloe 50 10.00 %
" basóíilos 1 0.20 %
Mononucleares 5 1.00 %
Macrolinfôcitos 30 6.00 %
Microllnfócitos 165 33.00 %
Formas de transição 10 2.00 %
500 100,00 %
Microfllárias — Não se encontraram no sangue; existiam em grande abundância
no liquido da quilocele.
OBSERVAÇÃO VII (Doente 5.*)
Caso clínico: — Linfo-escroto; elefãncia do pene.
a) AO MEIO-DIA
E. hcmatimétrico
Hematiaa por mm3
Leucócitos *’ ”
Relação globular .
4.800.000
8.000
L 1
H
600
— 125 —
E. cromométrico
Índice lcucocitário
Hemoglobina
Valor globular
Pollmorfonucleares neutrófilos
eosinólilos
” basófilos .
Mononucleares
Hecrolinfócitos
Hicrolinfócltos
Formas de transirão .
Exame das fezes: Negativo do ponto de vista de otos de helmintos intestinais,
b) 'A MEIA-NOITE
vo %
0,72
360
72.00 %
15
3.00 %
0
0.00 %
20
4.00 %
38
7.60 %
42
8.4 0 %
25
5.00 To
500
100,00 %
E. hcmatlmítrlco
E. cromomítrico
lndlcc lcucocitário
6 . 120.000
7.600
1
673
Hematlas por mm3
Leucócitos ”
Relação globular
Hemoglobina
'alor globular
Pollmorfonucleares nentrófllos
■ eoslnófilos
. " basófilos .
Mononuclecres
Macrollnfócitos
Microllnfôcltoa
Formas de transição .
Mlcrofilárias: — Só foram encontradas com o processo da hldro-hcmóliso — 4
«O uma preparação entre lâmina e laminula.
70 %
0,63
305
61.00 %
15
3.00 %
0
0.00 %
40
S.00 %
51
10.20 %
74
14.S0 %
15
3.00 %
500
100,00 < 7 »
OBSERVAÇÃO VIII (Doente 6.*)
Caso clinico — Adeno-linfanglte crónica crural direita,
c) AO MEIO-DIA
E. bcmatlmítrlco
V-sutlas por mm3
Leucócitos
Relação
• • ••
globular
hemoglobina
v »lor globular
E. cromomítrico
Indico lcucocitário
Poli
®orfonuelearea neutrófiloo
eosinófilos
basófilos
Hononuclearea
fjferoilnfõclios
"'“follnfócltos
0rtQa « de transição
E *axne das fezes — Não foi praticado.
3.820.000
6.200
1
734
60 %
0,78
261
52.20 %
45
9.00 %
4
0.S0 %
25
5.00 %
65
13.00 %
75
15.00 %
25
5.00 %
600
100,00 %
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
126 —
6) 'A MEIA-NOITE
E. hematimétrlco
(Diriculdade 3 ocasionais não me permitiram farer a numeração globular).
E. CTomomítrico
Hemoglobina
Índice leucocitãrio
Polimorfonuclearea nentrófilos
„ eosinófiloe
" basófilos .
Mononucleares
Macrolinfócltos
Mlcrolinfócitos
Formas de transição .
Mlcrofilárias — S em uma preparação entre 2 lâminas.
Caso clinico
o) AO MEIO-DIA
OBSERVAÇÃO IX (Doente 7.*)
Quilúrla.
E. hcmatimótrlco
Hematlas por mm3
Leucócitos ” ”
Relação globular .
E. cromomítrlco
Hemoglobina
Valor globular
lncllro leurocltárlo
Polimorfonuclearcs nentrófilos
" eoflinófllca
" basófilos .
Mononucleares
Macrolinfócltos
Microlinfócitcs
Formas de transição .
Exame da* feres — Oto 3 de Jtearú lum bricoides.
6) ’A MEIA-NOITE
(Não foi praticado).
E. liematinu-trlco
E. croniométrico
Hemoglobina
lndicc leucocitãrio
Pollmorfonucleares neutrófilos
" eosinóflloe
" basófilcs .
Mononucleares
Macrolinfócltos
Micrnlinfócitos
Formas de transição .
Microflláriae
Não fcram encontradas no sangue.
60
210
42.00 %
G0
12.00 %
0
0.00 To
30
6.00 %
70
14.00 S,
100
20.00 %
30
6.00 %
500
100,00 %
6.400.000
8.600
L
1
H
627
75 %
0.69
255
51.00 %
105
21.00 %
0
0.00 %
15
3.00 «Te
30
6.00 %
85
17.00 %
10
2.00 Te
500
100,00 %
75 «ü
223
44.60 %
105
21.00 %
0
0.40 %
10
2.00 n
50
10.00 n
100
20.00 1*0
10
2.00 %
500 100,00 %
XOTA — Filtrando em papel erpecial a urina dêcte doente, consegui descobrir,
em uma preparação, 6 microfilárlas que ficaram retida» nas malhas do papel.
cm
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 127
OBSERVAÇÃO X (Doente 7.*)
Caso clinico — O mesmo da observação precedente, examinado depois de adminis-
trados várÍ03 anti-elmlnticos.
a) AO MEIO-DIA
E. hematlmétrieo
Hematlas por mm3 6.12S.000
Leucócitos ” ” 7.700
Relação globular L 1
H 665
_ E. cromomítrlco
Hemoglobina 75 %
Valor globular 0,77
Índice Ieurocitário
Pollmorfonucleares neutróflloa 315 63.00 %
, eosinófilos 65 13,00 %
" basófllos 1 0.20 %
Mononucleares 25 5,00 %
Macrollnfócitoa 29 6,80 %
MicroUnfócltos 60 12,00 %
Pormas do transição 5 1,00 %
500 100,00 %
Exame da* fezes — InexistCncia de oros de helmintos.
b) ’A MEIA-XOITE
E. hematlmétrico c cromomótrico
(Xão mo foi possfrel praticar).
lndicc lcucocltãrio
Pollmorfonucleares neutróflloe . 245 49.00 %
" eosinófilos 90 18.00 %
* baeófiloe 0 0.00 %
Mononuclearee 23 4.60 %
«acrollnfócitos 30 6.00 %
MicroUnfócltos 105 21,00 %
Formas de transição 7 1,40 %
500 100,00 %
Mlcrofllárias — Xão foram encontradas, tanto no sangue, como na urina.
OBSERVAÇÃO XI (Doente 8.»)
Caso clínico — Linfanglectaslas e elefanda recente do escroto,
e) AO MEIO-DIA
E. hcnvatimétrlco
Hematlas por mm3
Leucócitos "
Relação globular .
4.120.000
9.800
L 1
H 429
E. rromonu-trlco
Hemoglobina .
*lor globular .
60 %
0,72
■ — 128 —
1 Índice lcucocit.írio
I Pollmorfonncleares neutrófilcs
350
70.00 %
I " eosinófiloa
35
7,oo c.
■ * basófilra
0
0.00 %
1 Mononucleares
30
6.00 %
I Macrolinfócltoe
25
5.00 %
I M!cro’.infóc:tos
10
8.00 %
I Formas de transição
20
1.00 %
500
100,00 C. I
1 Exame das fezes — Negativo, do ponto de Tista
de ovos de
helmintes.
1 6) ’A MEIA-NOITE
1 E. hematimétrico
I Hematlas por mm3
1. CIO. 000 i
| Leucócitos ” ”
9.500
I Relação globular
L
1 |
H
173
j E. cromomótrlco
I Hemoglobina
55 %
I Valor globular
0,50
1 Índice IcucociLárlo
PoIImorfonoclearee neutróflloe
303
60.60 % í
" eoslnófilos
15
9.00 %
| " basófllos
0
0.00 Ce
Mononucleares
36
7.20 %
Macrollnfócltos
60
13.80 %
Mlcrolinfócitoe
37
7.10 %
I Formas de transição
10
2.00 %
500
100.00 %
Microfllãrlas — Centrifugando a linfa extraída de uma recícula escrotal, encontrei
6 mlcroíllárias nocturnau.
OBSERVAÇÃO XII (Doente 9.*)
Caso clínico: — Adeao-IInfangíte crónica crural
aplréctica.
u) AO MEIO-DIA
E. hcinatimétrico
Hematlas por mm3
5.::o.ooo 1
I Leucócitos " "
s.ioo 1
Relação globular
L
i 1
11
CSC I
E. cromomítrlco
Hemoglobina
8 0 C 1
Valor globular
0.75 1
Índice Icucocitãrlo
Polimorfonucleares neutrófilcs
325
C3 00 <-, 1
eoslnófilos
1 5
3 00 V» 1
butótilo*
2
1
Mononucleares
10
2 oo Ce 1
Macrollnfócltos
10
s.oo n 1
Mlcrolinfócitos
100
20.00 Ce 1
Formau de transição
s
1.60 Ce 1
500
100.00 <Tv 1
Exame das fezes — Negativo.
6) \A MEIA-NOITE
E. licmatlmótrico e cromomótrlco
1
(Não me foi possível praticar).
cm
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 123 —
índice leucocitário
Pollmorfonucleares neutrôfilcs
ecsinôfilos
" baeôfilo» .
Mononucleares .
Macroliaíócitos .
Microíinfôcitos .
Formas de transirão .
2C0
52.00
20
4.00
%
0
0.00
%
25
5.00
%
50
10.00
%
130
26.00
%
15
3,00
%
500
100,00
%
Microfüárias — Apôs 9 exames negativos. um certo d!a. a 22 — X — 191C, encon-
tre * 2 embriões nocturnos, vivos, em uma preparação entre lâminas.
OBSERVAÇÃO XIII (Doente 10)
Caso clinico: — Adeno-llnfanglte crônica do braço esquerdo; adeno-llnfocele ín-
guino-crural bilateral incipiente: elelãncia do escroto, em formação.
o) AO MEIO-DIA
E. liematimétrlco
Hematias por mm3 6.200.000
*-eiic6citos ” ” 7.100
*** la Ção globular t> 1
II 732
E. cromométrlco
^•moglohlna 80 %
'alor globular 0,77
Índice Icucocilárlo
Follmorfonucleares neutrôfllca 290 58.00 %
" eosln6rr.ee 110 22.00 %
" basôfiloe 1 0 20 %
Mononucleares 15 3.00 %
«acrolinfôcltoa 24 4.S0 %
«icrolinfôcitos 55 11.00 %
*oriaas de transição 5 1,00 %
600 100,00 %
Exame das feres — Não foi praticado.
5) ’A MEIA-NOITE
E bematlmétrico
Hematias por mm3 4.92S.000
*-**ucôcltos " ’* 7.500
«elaçio globular I» 1
U C57
E. cromométrlco
^«•noalnbl-a 80 %
'•!°r globular 0,81
índice lcucocitúrlo
Follmcrfoaucleares neutrôflle» 215 43.00 %
" eodinófilos 130 2G.00 %
lt ” basôfíloe 0 0.00 %
Mononncleares 5 1.00 %
Macrollnfôcitoa 30 6.00 %
Mícrollnfócítos 95 19.00 %
ormas de transição 25 5.00 %
500 100,00 %
Microfllárlas: Apôs 14 exame» negativos, conseguí por fim surpreender 5 microfl-
****** em uma preparação, peio processo da bldro-bemôliàe.
SciELO
12 13 14 15 16 17 18 19
— 130 —
OBSERVAÇÃO XIV (Doente 11.*)
Ca*o clínico: Linfangite lombo-aórtlco-testicular esquerda.
o) AO MEIO-DIA
E. hematlmétrico e cromomótrico
(Não pratiquei).
índico leucocitário
Pollmorfonucleares neutrófílos 235 47,00 %
* eosinófllos 40 8.00 %
” basófilo® 4 0,80 %
Mononucleares 15 3,00 %
Macrollnfócltos 65 13,00 %
Micrcllnfócltos 131 26,20 %
Formas do transição 10 2,00 %
500 100,00 %
Exame das fexea: negativo.
6) 'A MEIA-NOITE
E. hematiniétrico e cromométrico
(Não pratiquei).
índice leucocitário
Pollmorfonucleares neutrófilos 210 42,00 %
- eosinófllos 61 12,20 %
" basófilos 2 0,40 %
Mononucleares 18 3,60%
MacrollntOcitos 65 11,00 %
Microllnfócitos 144 28.80 %
Formas do transição 10 2,00 %
500 100.00 %
Microfltárias — 2 em 1 preparação.
A) SANGUE DE BANCKOETõTICOS EM FASES APERÉCTICAS
Quadro dos exames homatiinétricos e cromométricos diurnos o nocturnos
Meio-dia Meia-noite
r Hematlae p. m m
3 .
.
5.120.000
5.556.000
Leucócitos p. m m
3 .
.
•
8.000
7. S00
Obs.
L
1
L
1
a
Relação globular
.
.
.
—
=
—
—
I
H
640
H
712
Hemoglobina
.
•
.
70 %
70 %
Valor globular
• •
-
•
•
0.6S
0,62
r Hematlas p. m m
3 .
4.800.000
6.200.000
Leucócitos p. m m
3 .
8.500
8.200
Obs.
L
1
L
1
<
Relação globular .
—
=
—
=
II
II
564
H
634
Hemoglobina
70 %
70 %
Valor globular
0,72
0,67
- Hematias p. m m
3 .
4.420.000
4.752.000
Loucócitce p. m m
3 .
8.200
7.600
Obs.
L
1
L
1
Relação globular .
—
—
—
=
III
H
539
H
625
Hemoglobina
40 %
40 %
Valor globular
0,45
0.41
Ob*.
IV
Obs.
V
Obs.
VI
Obs.
VII
Ob v
VIII
Obs.
IX
Obs.
X
Obs.
XI
Ob».
-XII
Obs.
XIII
f Hematias p. m m 3
4.324.000
4.560.000
Leucócitcs p. m 3
6.900
8.100
L
1
L
1
Relação globtuar .
—
=
—
=
H
626
H
562
Hemoglobina
50
50 %
Valor globular
0,57
0,54
r Hematias p. m m 3
4.4S0.000
3.920.000
Leucócitos p. m m 3
6.200
6.000
L
1
L
1
Relação globular .
—
=
—
=
H
720
H
653
Hemoglobina
65 %
65 %
. Valor globular
0.72
0,82
f Hematias p. m m 3
5.064.000
4.760.000
Leucócitos p. m m 3
6.300
6.800
L
1
L
1
Relação globular .
—
=
—
=
H
803
H
720
Hemoglobina
80 %
80 %
1 Valor globular
0.78
0,84
' Hematias p. m m 3
4.800.000
5.120.000
Leucócitos p. m m 3
8.000
7.600
L
I
1»
1
Relação globular .
—
=
—
=
H
600
H
673
Hemoglobina
70 %
70 %
Valor globular
0,72
0,69
r Hematjas p. m m 3
3.S20.000
Leucócitos p. m m 3
5.200
L
1
Relação globular .
—
=
H
734
Hemoglobina
60 %
60 %
Valor globular
0.78
f Hematias p. m m 3
6.400.000
Leucócitos p. m m 3
8.600
L
I
Relação globular .
—
=
II
627
Hemoglobina
75 %
75 %
Valor globular
0.6?
• •
....
r Hematias p. m m 3
5.128.000
Leucócltcs p. m m 3
7.700
L
1
Relação globular .
—
=
H
665
Hemoglobina
75 %
[ Valor globular
0.77
f Hematias p. m m 3
4.120.000
4.640.000
Leucócitos p. m m S
9.800
9.800
L
1
L
1
Relação globular .
—
=
—
=
H
429
H
473
Hemoglobina
60 %
65 %
Valor globular
0,72
0.59
Hematias p. m m 3
5.320.000
Leucócitos p. m m 3
8.100
L
1
Relação globular .
—
=r
H
656
Hemoglobina
80 %
Valor globular
0.75
Hematias p. m m 3
5.200.000
4. 92$. 000
Leucócitos p. m m 3
7.100
7.500
L
1
L
1
Relação globular .
—
=r
—
=
H
732
H
657
Hemoglobina
80 %
80 %
Valor globular
0.77
O.Sl
— 132 —
f Hematlas p. m m 3
Leucócitos p . m m 3
Obs..
Relação globular .
XIV
Hemoglobina
Valor globular
Assim, examinando-se êste quadro e referindo-lhe as médias às cor-
respondentes normais entre nós, deduz-se o seguinte:
a) o número das hematias, embora geralmente diminuído, aproxima-
se do normal, em que o dos leucócitos se conserva; há, portanto, hiper-
leucocitose, mas, porque muito pouco sensível e ligeira, é de certo des-
prezível ;
b) a porcentagem de hemoglobina e o valor globular são um pouco
baixos ;
c) não ha diferença apreciável entre as médias diurnas e nocturnas.
Além disto, os exames de sangue líquido que constantemente procedi,
não revelaram a existência de quaisquer alterações globulares.
Aqui, vê-se, os meus resultados concordam com os de RICOT.
* Doutra parte, examinando-se os índices leucocitários acima exara-
* * dos, percebem-se algumas variações quantitatfras mui importan-
tes. Assim, conquanto se encontre a proporção normal conservada da
referência a:
1. ° os polimorf onucUarcs ;
2. ° os monuclcarcs, considerados, quer sómente durante o dia, quer
comparativamente de dia e de noite;
3. * os macrolinfócitos, em número ora aumentado, ora diminuído;
4. ° as formas de transição;
— verificações estas que se harmonizam com as da ESCOLA DO HAITI — ;
outrotanto se não dá se se consideram as relações diurna e nocturna dos
demais glóbulos (p. neutrófilos e eosinófilos e microlinfócitos) , cujas
variações de porcentagem claramente se revelam. Vejara-se comparati-
vamente:
Obs- i
Obs. II
Obs. III
Obs. IV
Obs. V
Obs. VI
Mclo-UI.s
Mela-noit*
%
P. neutrófilos
. 70
40
" eosinófilos
9
23,6
Microlinfócitos
6
12
P. neutrófilos
. 55. S
45.2
" eosinófilos
. 13.2
13
Microlinfócitos
. 10.4
21
P. neutrófilos
. 60.3
42
" eosinófilos
. 12
14.4
Microlinfócitos
. 9
20.3
P. neutrófilos
t
. 5S.2
60
” eosinófilos
8
11.6
Microlinfócitos
14
24
P. neutrófilos
. 62
45
" eosinófilos
. 22
20
Microlinfócitos
12,4
20
P. neutrófilos
. 64
47,8
” eosinófilos
6
10
Microlinfócitos
•
14
32
— 133 —
Obs.
VII
Obi.
VIII
Obs.
IX
Obs.
X
Obs.
XI
Obs.
XII
Obs-
XIII
Obs,
XIV
Keste
” eosinófilos
Mlcrolinfódtos
eocinófilos
eosinófilos
P. neutrófilo3
” eosinófilos
P. neutrófilos
” eosinófilos
Microlinfócito3
P. neutrófilos
” eosinófilos
P. neutrófilos
” eosinóíilos
Microliníóeitos
P. neutrófilos
" eosinóíilos
72
61
3
3
8,4
14,3
42
9
12
15
20
51
44. C
21
21
17
20
63
49
13
13
12
21
70
60,6
7
9
S
7.4
65
62
3
4
20
26
5S
43
22
26
11
19
47
42
S
12.2
26,2
2S.S
^este quadro se verifica o seguinte:
Durante o dia :
Os p. eosinófilos (de 3 a 22 %) estão aumentados h custa dos p. neu-
trófilos: há hipo polimorf onucleose neutrófila e a eosinfilia 6 constante;
Os microlinfócitos apresentam grandes oscilações percentuais, aproxi-
mando-se, toda%úa, algumas vezes da normal.
Durante a noite :
Os p. eosinófilos e os microlinfócitos aumentam grandemente h custa
^° 3 P. neutrófilos: há importante hipo-polimorf onucleose neutrófila,
Qce ntuada eosinofilia e notável microlinfocitose, coincidindo, tôdas, por-
* a nto, com a fase de circulação das microfilárias.
^este ponto as minhas verificações não estão absolutamente de acôrdo
Cc:n as conclusões de RICOT, aproximando-se de algum modo das de
C -^LVERT e von GULLARD.
B) EXAMES DE SANGUE XOS rEIÍIODOS FEBRIS (a)
OBSERVAÇÃO a (Doente 1.*)
o) no lnlclo do acesso (Temperatura: 37, *5 C.)
E. hcmatimctrico
Por tnmJ
-«có«lt 01 .. ..
* U fi*o globular
II
6. 030.000
13.000
1
3S3
tf-'' pesquisa* fomm prat'c»d».« ItiTarlSrelmenfr naquela* fa**a qua ee m»
*"• IÍk! m Como o Infcln (a), o nner, (b) e o fim (f) daa crUea
°wrtvlndas em doentes por z n;zn a-miCde observados.
agudas da Untam-
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
Hemoglobina
Valor globular
Poümoríonucleares neutróflloe
» eoeinófilcs
* basófiios .
Mononucelares •
Macrolinfócitos ....
Microlintócitos -
Formas de transição .
— 134 —
E cromométrico
índico leucocitárlo
84.00
0.60
0,00
4.50
1,00
2.80
6.50
Microfllárias: O exame do sangue já fis 4 horas da Urd *i ®“ and0 ° retIre ‘'
lou-me 2 mlcroíllárias vivas em uma preparacao entre lâminas.
6) no auge do acesso (Temp.: 39*)
E. hcmatimétrico
Hematias por mm3
Leucócitos ” "
Relação globular .
Hemoglobina
Valor globular
Pollmorfonucleares neutróflloe
» eosinófllos
» basófiios .
Mononucleares •
Macrolinfócitos .
Microlinfócitos •
Formas de transição
E. cromomCtxlco
Índico leucocitárlo
c) no fim do acesso (Temp.: 37* 1)
E. hcmatimétrico
Hematias por mm3
Leucócitos ” ”
Relação globular .
Hemoglobina
Valor globular .
Pollmorfonucleares neutrôfllos
" eosinótilos
" basófilos .
Mononucleares .
Macrollnfócitos .
Microlinfócitos . . . .
Formas de tranelçáo .
E. cromométrico
índico leucocitárlo
600
100,00 c ,\
,do o retirei. revJ
4.232.00
16.00
L
1
= I
H
624
65 «J
0.7
410
82.00 Á
0
0.00 6
0
0.00 4
20
4.00 1
10
2.00 '
15
3.00
45
9.00
600
100.00 |
4.360.0
3.6
L
1
— —
H
454
70
0.
350
70.00
45
9.00
0
0.00
20
4.00
25
5.00
55
11.00
5
1.00
500 100. 001
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 18 19
— 135 —
OBSERVAÇÃO /* (Doente 2.»)
a) co inicio do acesso (Temp. 37. *5)
K. hematimétrico
Hematias por mm3
Leucócitos ”
Relação globular
Hemoglobina
Valor globular
E. cromométrico
Índice leucocltário
Pollm orlonu clear es neutrófilos
* ecslnófllo*
" basófilos .
Hononucleares
«acrolinfócitos
«icrollnfócitos
'orasaa de transição ....
6) no auge do acesso (Temp. 38*. 6)
E. hematimétrico
Hematias por mm3
Leucócitos ”
Relação globular
Hemoglobina .
•alor globular .
E. hematimétrico
Índice IcucocitÀrio
ollatorfonucleares neutrófilos
" eosinófilos
.. ’ basófilos .
JJenoaucieares
■•erolinfócitos
•Rrolinfôcitos
° r mas do transição ....
ííOTA: Deve notar-se, conforme referi anteíionaeute, >tue
epfeieataTám ovos do At ca ris e de Triekmriê.
c) no fim do acesso (Temp. 37*2)
E. hematimétrico
4.560.000
( N'lo pude praticar).
M *»Oglobina . . .
E. cromométrico
lmlice leucocitário
^^imorfonucleares neutrófilos
" coslnófilos
Roa
rjuuonucleares
JJ^olinfócitos
P‘«oli ar6citoa
° Uí de transição
basófilos
9.100
L»
1
—
=r
H
501
45 %
0,49
390
78,00 %
25
5.00 %
0
0,00 %
20
4.00 %
33
6,60 To
15
3,00 «Tc
17
3,40 %
500
100,00 Í5
4.280.000
12.400
L
1
H
345
40
0.46
395
79.00 %
15
3.00 %
0
0.00 To
15
3.00 %
25
6.00 %
15
3.00 7c
35
7,00 %
500
100,00 %
fezes deste doente
-
40 %
340
68,00 %
32
6.40 %
3
0,60 '/c
40
8.00 7c
40
S.OO %
25
6.00 %
20
4.00 7c
500 100.00 %
* •
— 13G —
OBSERVAÇÃO y (Doente 3.*)
a) no inicio do acesso (Temp. 37*, S)
E. Licmalimctrico
Hematlas por mm3
Leucócitos '
Relação globular
E. cromométrlco
Hemoglobina
Valor globular
Índice Icucocitário
Pollmorfonucleares neutrõflloe
” eoèinófilos
basóiilos .
Mononucleares .
Macroünfóciios .
Microlinfócitos .
Formas de transição .
b) no auge do acesso (Temp. 39*. 5)
E. hcmatimélrico
Hematlas por mm3
Leucócitos " ”
Relação globular
E. cromométrlco
Hemoglobina
Valor globular
lmlicc Icucocitário
Pollmorfonuclcarcs rentrófllos
" eosinófllos
" basótilos .
Mononucleares .
Marrollnfócitos .
Microlinfócitos . . .
Formas de transição .
c) no fim do acesso (Temp. 37.* 6)
E. hcmatimélrico
Hematlas por mm3
Leucócitos " ••
Relação globular
E. cromométrlco
Hemoglobina
Valor globular
índice Icucocitário
Pollmorfonuclearcs neutrófilos
eosinófllos
basóiilos .
Mononucleares .
Macrollnfócitos .
Microlinfócitos .
Formas de transição .
L
H
3SÕ
30
0
25
25
22
13
500
L
II
415
0
0
24
25
10
23
500
l.
II
364
15
0
20
31
45
25
4.168.000
12.200
1
341
70
0,S3
77.00 %
6.00 çj,
0.00 %
5.00 Ve
5.00 %
4.40 %
2.60 %
100.00 Vo
4.3S0.000
22.000
1
20S
7
0,79
83.00 %
0.00 %
0.00 %
4.S0 %
5.60 %
2.00 64
4.60 64
100,00 64
4.528.000
14.700
1
30S
70 %
0.77
72.80 %
3.00 64
0.00 64
4.00 Vo
6.20 64
9.00 64
5.00 64
600
100,00 6 *
— 137 —
OBSERVAÇÃO 8 (Doente 6.*)
a) no Inicio do acesso (Temp. 38*)
E- hematimétrlco e cromométrico
(Xào pude praticar).
Polimorfonucleares neutrófilos
eosinófilos
. " basóíilos .
«ononucle^res ....
JJacrolinfócitos ....
~icroliníõcitoa ....
Formas de transição .
Índice leucocltário
6) no auge do acesso (Temp. 38*, 5)
E. hematimétrlco
Hcmatlas por mm3
^acôcitos ”
Relação globular
hemoglobina .
elor globular .
Rolimoríonucleares neutrófilos
eosinófilos
u " basóíilos .
«ononucleares .
«fcrolinf. eitos ....
Rierollafócitos ....
°rmas de transição .
E. cromométrico
índice leucocltário
(Não pratiquei).
c) no fim do acesso (Temp. 37*)
E- hematimétrlco c cromométrico
Índice lencocitário
ollmorlonucleares neutrófilos
eosinófilos
* " basóíilos .
•joaonucleare* ....
JJfcrolinfôcitos . . . .
p cr °llaXócit03 ....
0,au de transição
3S0
76.00 %
15
3.00 %
0
0,00 %
21
4.20 %
20
4.00 <To
30
6.00 %
34
6.80 %
500
100.00 %
3.040.000
9.500
L
1
H
320
60 %
0,98
370
74.00 %
5
1.00 %
0
0.00 %
14
2. 80 Tc
31
6.20 %
40
8.00 %
40
8.00 %
500
100.00 %
320
64.00 %
20
4.00 %
0
0.00 %
25
5.00 %
50
10.00 %
70
14.00 %
15
3.00 %
500 100,00 %
OBSERVAÇÃO c (Doente 10*)
o) no inicio do acesso (Temp. 37*. 6)
E. hematimétrlco
L» 10 * 1 * 1 * por rom3
i£»c6citos ” -
‘*Çáo globular
4.200.000
9.600
L 1
H
437
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 138 —
E. cromométrlco
Hemoglobina
Valor globular
Índice leacfK.it/irio
Polimorfonucleares neutrófilos
" eosinófilos
" basófilos
Mononucleares
Macrolinfócitos
Microllnfócitos
Formas de transição
80 %
0,95
330
66.00 %
60
12,00 %
5
1,00 %
25
5.00 %
16
3,20 %
34
6.80 %
30
6.00 <?e
500
100,00 Vo
XOTA: Êsíe exame foi praticado no periodo de suspeita clinica, antee de ter en-
contrado as microfilárias que. sémente depois, pelo processo da hidro-hemólise, con-
forme assinalei anteriormente, se me depararam em número de 5 em uma pre-
paração.
b) no auge do acesso (Temp. 38.*)
E. hematimétrico
Hemátias por mm3
Leucócitos ” ”
Relação globular
E. cromomótrico
Hemoglobina
Valor globular
Índico lcucocitário
Polimorfonucleares neutróíilos
" eosinófilos
* basófilos
Mononucleares
Macrolinfócitos
Microllnfócitos
Formas de tran&içâo
c) no fim do acesso (Temp. 37*)
E- hematimétrico c croroométrico
Índice lcucocitário
4.360.000
12.200
1
357
80 %
0,91
70.00 %
9.00 %
0,00 %
4.00 %
3.00 %
6.00 %
8.00 %
500 100,00 %
(Xão procedi).
Polimorfonucleares neutrófilos
" eosinófilos
" basófilos .
Mononucleares ....
Macrolinfócitos ....
Microllnfócitos ....
Formas de transição .
57.00 #
18.00 <&
0.00 %
3.00
7.00 %
12.40 %
2.60 %
500 100.00 %
It) SANGUE RE RANCROFTóTICOS EM PERÍODOS FEBRIS
Quadro dos exames hcmatimétricos e cromométricos no início, no auge e no fim
do acesso
OBS.
f Hematias por m m 3
Leucócitos **
Relação globular .
Hemoglobina .
Valor globular
Inicio
Auge
5.020.000
4.232.000
13.000
16.000
L
1
L
1
H
383
H
264
70 %
65 %
0.69
0,76
Fim
4.360.000
9.600
1
454
70
0,80
cm
12 13 14 15 16 17 lí
19
— 139 —
OBS.
OBS.
Hematias por m m 3
Leucócitos ” "
Relação globular .
Hemoglobina .
Valor globular
Hematias por m m 3
Leucócitos ” "
Relação globular .
Hemoglobina .
Valor globular
Hematias por m m 3
Leucócitos ”
Relação globular .
Hemoglobina .
Valor globular
Hematias por m m 3
Leucócitos ’’
Relação globular .
Hemoglobina .
Valor globular
4.560.000
9.100
L 1
H
501
0,49
H
4.200.000
9 . 600
L 1
H
437
4.2S0.000
12.400
1
4.163.000
12.200
L 1
345
40 %
0,46
4.3S0.000
22.000
1
0,79
3.040.000
9.500
1
0,95
320
60 %
0,98
4.360.000
12.200
1
357
S0 Vo
0,91
40 %
4.523.000
14.700
1
303
70 Ve
0,77
* * Examinando-se comparativamente êste quadro com o correspon-
* dente A), tem-se que:
a ) o número de hematias se conserva geralmente inalterado, a des-
P e >to da maior ou menor intensidade do acesso, ao passo que o dos leu-
cócitos cresce desde o momento em que a febre se inicia: há sempre
^entuada hiperleucocitose;
ó) a percentagem da hemoglobina e o valor globular não se modi-
ficam ;
c ) a hiperleucocitose acompanha a febre, acentuando-se com a sua
elevação e diminuindo com o seu declínio.
Concordam, pois, tais conclusões com as de RICOT.
* Doutra parte, atendendo-se aos índices leucocitários durante os
* acessos, percebe-se que, símilmente ao que se passa nas fases api-
r ócticas, os polimorfonucleares basófilos, os mononuclrares, os macrolin-
fócitoa e as formas de transição não passam por mui apreciáveis altera-
5°es quantitativas, que, no entanto, em geral se notam em relação aos de-
P^aLs leucócitos: p. neutrófilos e eosinófilos e microlinfócitos. Vejam-se
c°niparativamente :
Qttad
B) SANGUE DE BAXCROFTóTICOS EM PERÍODOS FEBRIS
ro das porcentagens dos polimorfonucleares neutrófilos e eosinófilos c dos
microlinfócitos, no inicio, no auge c no fim do acesso
°b». «
Início
Augo
Fim
do acesso
do acesso
do acesso
%
%
%
P. neutrófilos ....
SI
70
” eosinófilos ....
0
9
MicrolinXócitos
. . . 2.S
3
n
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 140 —
í
P. neutrófilos
78
79
68
Obs.
P
" eosinófilos
5
3
6.4
1
Microlinfócitos
3
3
õ
f
P. neutrófilos
77
80
72.8
Obs
y
\
” eosinófilos
6
0
3
1
Microlinfócitos
4.4
2
9
f
P. neutrófilos
76
74
64
Obs.
8
" eosinófilos
3
1
4
l
Microlinfócitos
6
8
14
f
P. neutrófilos
66
70
67
Obs.
c
” eoõinófilos
12
9
18
\
Microlinfócitos
6,8
6
12.4
Pode-se fácilmente inferir dos quadres expostos que, por ocasião dos
acessos de linfangite filárica, se produzem, na percentagem leucocitá-
ria, variações de todo inversas das que, durante a noite, se observam nas
fases apirécticas; porquanto, ao passo que, com o acesso, os neutrófilos
aumentam ;\ custa dos micro-linfócitos e, mormente dos eosinófilos que
chegam geralmente a desaparecer quando a febre atinge o maior gráo,
reaparecendo progressivamente à medida que ela entra em declínio, —
com a noite, os eosinófilos e os microlinfócitos crescem de nümero, muita
vez considerávelmente, à custa dos neutrófilos (*).
Em suma, reunindo os resultados a que cheguei com os meus estudos,
aos dos vários autores, no que uns e outro3 teem de comum, direi que a
característica hematológica da filaríose de BAXCROFT é a seguinte:
Nas fases apirécticas:
a) hipo-polimorfonucleose ncutrófila, ligeira durante o dia e acen-
tuada durante a noite;
b) cosinofilia, constante e sempre mais intensa à noite;
c) microlinfocitose nocturna.
Nos períodos febris:
a) hiper-lcucocitose, paralela à marcha do acesso.
b) hipcr-polimorfonucleose ncutrófila, a contrastar absolutamente
com o decréscimo sensível dos microlinfócitos c com o desaparecimento
dos eosinófilos que se reproduzem precocemente, voltando antes de termi-
nada a crise febril.
Fica desta-arte bem patente o valor inestimável que é dado à hematolo-
gia desempenhar na diagnose da filariose de BANCROFT.
E’ o que se há de ver no capítulo seguinte.
(•) Firmado no aparecimento da microlinfocitose e no aumento da eoslnof.lia du-
rante a noite, a revelarem, a primeira. a irritação do tecido linfoldto e. a segunda, a rca-
cçâ o do organismo a toxinas que o impregnam gradualmente e em doses mínimas, eu
avento a seguinte questAo:
Nilo sera que a toxina, produto talvez de excreçSo da flUria adulta, 6 por esta emitida
durante o noite e vai. por sua passagem pelo sistema linfático. Irritar o tecido llnfotdeo
e. pelo derrame paulatino e lento na massa sanguínea, provocar a reacçâo anti-tõxlea.
determinando assim, respectivamente, a microlinfocitose e a eosinofllla nocturnas?
K. neste caso. se a eosinofllia se conserva durante o dia. embora menos acentuada,
tfio seri devido a que o período diurno 6 lnsufficiente & completa elimtnaç&o da toxina
parasitária e & perfeita cessaçlo de seus efeitos?
Ví-se que Justamente nessa circunstância firmei precedentemente a minha expllcaç#»
da periodicidade dos embriões.
— 141 —
DIAGNÓSTICO
Julgo não exagerar, dizendo que o diagnóstico de qualquer das mani-
festações da filariose de BANCROFT só se pode firmar com segurança
nas pesquisas de laboratório. Por isto mesmo me empenhei em enrique-
cer êste capítulo da doença do maior número possível de provas condu-
centes à elucidação dos casos clínicos, as quais se podem distinguir em :
I — Provas essenciais;
II — Prova acessória.
As essenciais compreendem-: A) Exames de sangue; B) Exames de
linfa, ou de quilo.
A acessória diz respeito à ••Lipemia provocada”.
I — Provas essenciais.
A) Exames de sangue:
Dentre os processos que se teem empregado, os melhores são os
seguintes :
o) Exame de sangue fresco, sem coloração, ou com coloração (c.
vital) ;
&) Exame de sangue sêco, espalhado em camada delgada e corado;
c ) Exame de sangue, após dissolução das hematias em água (hidrohe-
mólise).
a) Exame de sangue fresco sem coloração
E’ a primeira prova que se deve praticar dês que se suspeite da exis-
fencia de qualquer embrião de filária. Com êsse fim, espalham-se entre
duas lâminas 4 a 5 gotas de sangue, retirando-o de preferência à meia
n oite (ou entre as 22 e as 2 horas) e examina-se ao microscópio imedia-
tainente depois, ou logo pela manhã, empregando-se, p. ex., a combina-
do: oc. II x ob. 4 (Leitz) que aumenta 109 vezes o diâmetro, e o charriot
rçne facilita a observação sistemática de todos os campos do microscópio.
Encontrando-se, por êste modo. alguma microfilária. deve-se procurar
* a her qual é entre estas: Microfilária nocturna; M. diurna (•) ; M. ;im-
Cc ° (ou M. ozzardi — de cauda afilada) ; M. perstans (ou M. ozzardi — de
oauda truncada) M. volvulas (*•) ; M. tucumana; e desde logo deve-se fazer
a distinção da variedade. Procede-se então á verificação dos caracteres da
^nda do espécime (2.* prova) por meio de um preparado em camada
espessa, entre lâmina e lamínula : se a cauda do embrião encontrado
^ afilada, não se trata de micrófilária perstans, que a tem truncada.
Eestando, por exclusão, as microfilárias nocturna, diurna, juncea, vul-
l 'ulus e tucumana, procede-se à 3.* prova, isto é, à pesquisa da bainha;
êsse fim examina-se o procedente preparado com maior aumento
III X ob. — im. Leitz=x 840 diâmetros), ou, conforme fiz várias
12
(«. _
»]. ' Que 4 no!»e node *er encontrada no aangue; era «emu febrU, p. ex.. que lha
(Hf® * periodicidade.
' Que »e pode apretentar no rangue (BRCMPT. FCIX.EBORX)
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 142 —
vezes, levando-se o mesmo preparado ao campo do ultra-microscópio, onde
se examina com igual combinação e com o disco 10 do condensor de REI-
CHERT. Possuindo bainha o exemplar, podem-se eliminar as seguintes
microfilárias : juncea, volvidas e tucumana (•••), faltando sómente esta-
belecer-se o discrime das 2 restantes: microfilária nocturna e m. diurna.
Nesta altura das pesquisas é que se ha de recorrer ao
a) 2.° Exame de sangue fresco, com coloração vital, ou colo-
ração a fresco, conforme RODENWALDT mais precisamente a denomina.
Dentre os corantes aconselhados para êsse fim por FÜLLEBORN e
RODENWALDT (62-a) : o azul de cresil brilhante, o vermelho neutro, o
azul de metilénio e a azur II, só não experimentei o primeiro; e, dos três
últimos, o azur II e o azul de metilénio é que, em minhas mãos, deram
melhor resultado. O azur II, diluido a 1:1000 na água destilada, deu-me
sempre colorações pouco nítidas, pelo que o concentrei com vantagem
para 2:1000, verificando todavia que as microfilárias, impregnadas pelo
corante neste título, resistiam menos do que quando êle estava na 1.* di-
luição, e morriam ao cabo de 8 a 10 horas, ou sejam, em média, 6 horas
mais cedo do que com o método original. Costumo adicionar ao soluto de
azur II em água — de acordo com FÜLLEBORN (63-a) que o emprega
meio alcalinizado — algumas gotas de carbonato de patássio a 1 o/oo,
mais ou menos segundo a técnica usada com o corante de GIEMSA.
O azul de metilénio a 1 :2000 em água destilada resultou também satis-
factóriamente.
Quanto ao vermelho neutro, jamais em minhas mãos produziu bons
efeitos, nem mesmo quando eu lhe intensificava o poder corante com o
ácido clorídrico diluido, porquanto neste caso as microfilárias morriam
dentro em pouco, ficando eu impossibilitado de apreciar a impregnação
progressiva de suas células pelo corante.
Com o azur II a 2 o/oo assim se procede:
Tira-se, h meia noite, uma gota de sangue, depõe-se em uma lâmina que
se cobre logo com uma lamínula portadora de uma gota da solução corante,
tendo-se a precaução de fazer-se a preparação em camada delgada, afim
de as microfilárias ficarem livres no campo, sem o estorvo das pilhas glo-
bulares, e de poder-se acompanhar a impregnação gradual das suas célu-
las; examina-se, sem grande demora, sob imersão e de preferência
1
com a combinação Oc. III x ob. — im.
12
Vê-se a princípio que os embriões tomam atitudes interessantíssimas;
ficam mais ágeis, como que excitados, e depois se vão a pouco e pouco
imobilizando, até morrerem.
Cumpre-me também assinalar o seguinte : a impregnação pelo reagente
se faz de extremidade cefálica para a caudal do embrião; primeira-
mente se colorem as células sub-cuticulares e depois as somáticas, cujo
núcleo aparece em azul intenso e o protoplasma com o aspecto opalino; con-
servam-se claras, em destaque no meio, as diversas manchas, mormente a
(•••> A respeito dests mlerofüârla. ARAOZ * BIOLIERI. seus descobridores, penss-
ram que ela possuísse bainha; mas. depois UOSEXBUSCH verificou o contrirlo.
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 18 19
— 143
em V, com o respectivo poro excretor que, sendo saliente, é bem visível na
Parte ventral do espécime estudado; a bainha evidenciasse perfeitamente,
podendo algumas vezes romper-se na parte anterior e permitir que o cor-
po embrionário fique desnudo e livre.
E, à medida que o corante se difunde, vão-se descobrindo, com alguma
nitidez, os diversos elementos da textura interna do embrião, até mesmo
o corpo central, no caso, naturalmente, de o exemplar examinado o possuir.
(Est. XVI; fig. 3).
Quando a observação se faz ao ultramicroscópio e com o auxílio do con-
densador n.° 10, tais pormenores tornam se mais nítidos e a estriação da
bainha comparece sob o aspecto de minúscula escala graduada (Estampa
XV; fig. e e Est. XVI; fig 3).
Pode-se desta-arte distinguir a microfilária nocturna. É prudente toda-
v ia praticar-se a última pesquisa:
b) Exame de sangue, sêco e corado.
Ketira-se o sangue e espalha-se como se fôra para confecção de um ín-
dice leucocitário e cora-se por qualquer dos processos de diferenciação:
bematoxilina-eosina; de PAPPENHEIM-UNNA-FÜLLEBORN, etc. A êste
re speito, desde o começo de minhas pesquisas, pude verificar a grande van-
bn^em prática dos reagentes de LEISHMAN e GIEMSA, com o primeiro
dos quais sobretudo sempre obtive muito bom resultado.
Procedendo-se com a técnica usual (5 gotas do reagente — meio mi-
®uto; 10 gotas de água destilada — 10 m.; diferenciação e dessecação),
°b3erva-se que a bainha se separa do corpo do embrião, o qual se retrai,
ficando de permeio um espaço claro ; as diversas células ficam coradas em
v ioleta e as manchas permanecem descoradas; além disto, o corpo central
®°bressai nitidamente por sua coloração róseo-avermelhada, desde que o
ei ®brião examinado pertença à Filaria bancrofti. (Estampa XVI;
1 e 2).
O resultado destas várias provas, que se devem fazer tôda vez que se
e úcontrar uma microfilária no sangue humano, para chegar-se ao conhe-
^niento da espécie e género a que ela pertence, vai resumido no quadro
Ju nto. (Vide Quadro A).
Justamente, o corpo central é que caracteriza específicamente a micro-
fúária nocturna, pois que só ela o possui. As demais diferenças entre as
dúas variedades de microfilárias de bainha e cauda afilada — referentes
p a titude, à gracilidade das curvas, ao tamanho das células somáticas e
* üa propagação até o extremo da parte caudal, etc., são mais ou meno3
falíveis; a periodicidade, por sua vez, não deve também servir de base
® e STura para a distinção, em vista de se poder modificar sob a influência
e alguns factores, entre os quais avultam os acessos febris,
fnfelizmente, porém, para que as microfilárias se possam apanhar em
** re Parados poucos espessos, é mister que sejam abundantes no sangue,
Adição esta nem sempre observável na prática. Em tal contingência, de-
• e ui-se fazer preparados espessos, tratados pelo ácido acético diluído que
lss °lve a hemoglobina e corados pela hemateína e eosina, ou melhor pelo
42u * de metilénio e eosina, podendo-se também lançar mão do seguinte
recurs o, por mim entre todos preferido:
— 144 —
c) Processo de hidro-hemólise {de NATTAN-LARRIER e BERGERON).
Consiste em puncionar-se, na ocasião em que se presuma estejam os em-
briões circulando, qualquer veia superficial do indivíduo parasitado, pre-
ferindo-se uma das medianas, no cotovelo; e em retirarem-se, com uma
seringa de vidro, 10 cc. de sangue que se dividem em duas partes, cada uma
das quais se mistura imediatamente a 100 cc. de água destilada, contidos
respectivamente em um frasco de experimentação. Cada frasco é, por seu
turno, agitado durante 3 a 5 minutos e o líquido resultante da diluiçãtf
sanguínea, que se deve apresentar róseo-carmesinado, de todo homogéneo,
sem coalho algum fibrinoso. é repartido proporcionalmente em 4 provetas
e centrifugado logo depois, durante 15 minutos.
Obtêm-se por êsse meio um pequeno resíduo cinza-opalino, produto da
hipóstase dos leucócitos, que é distribuído em lâminas e examinado com
ou sem fixação pelos vapores de ácido ósmico.
Como complemento dessa técnica, costumo praticar o exame do resíduo
da centrifugação depois de o ter corado pelo azur II, ou pelo regente de
LEISHMAN.
Por êste processo conseguí firmar o diagnóstico da bancroftose em 2
doentes adiante referidos, cujo sangue fôra por mim próprio examinado
improficuamente com o auxílio dos demai3 métodos.
Também por êle é que cheguei a observar as microfilárias nocturnas
aglutinadas pela extremidade caudal (Estampa XV; fig. c).
b) Exames de linfa, ou quilo.
Para os casos de simples linfangiectasias, ou de linforragias externas
ou internas, é variável o modo pelo qual se lhes pode fazer a colheita do
conteúdo: assim, por exemplo, para o linfo-escroto, basta que se decapite
uma vesícula e se recolha em uma proveta o líquido que mana; para a ade-
no-linfocele e os diversos derrames colectados, uma simples punção aspi-
radora, por meio de agulha em seringa de Luer, praticada, respectiva-
mente, no gânglio doente, ou na sorosa afectada, é suficiente para forne-
cer o material necessário às várias pesquisas.
O líquido retirado de%*e logo ser, ou distribuído em l:\minas, ou centri-
fugado, para ser examinado o resíduo, no qual se podem descobrir os em-
briões.
Dêste modo é que conseguí encontrá-los no doente, presa de linfo-
escroto, cuja fotografia reproduzo na Estampa XVII, fig. 2.
Para a quilúria, deve-se seguir o conselho de LE DANTEC, fil-
trando-se em papel as urinas emitidas e examinando-se cuidadosamente,
ao microscópio, os coalhos ou grumos que ficam retidos nas malhas do
filtro.
♦
★ *
II — Prova acessória.
Sob esta designação agrupo uma ordem de pesquisas que servem de
complemento às precedentemente descritas e elucidam certos pontos
concernentes à distribuição topográfica das filárias adultas no organis-
mo humano: quero referir-me à prova da lipemia.
— 145 —
Lipemia provocada
Sabe-se que as gorduras alimentares, após as diferentes transformações
que nelas produzem os fermentos lipolíticos digestivos, são absorvidas
Pelas células das vilosidade3 intestinais e passam em sua quási totalidade
aos linfáticos da região (quilíferos) e vão ao canal torácico que as des-
peja no sangue, em cujo seio se encontram sob a forma de granulações:
hemocónias.
E’, por conseguinte, racional que uma obstrução do colector central,
o canal torácico, repercuta sôbre o derrame normal das substâncias gor-
durosas no meio sanguíneo, estorvando-o ou, quando nada, demorando-o.
Firmado nessas ideias, volvi ao terreno da experimentação, dividindo
minhas pesquisas em três partes: a) Experiências em animais; b ) Pes-
quisas em pessoas sãs ; c) Pesquisas em pessoas filarióticas.
a) Experiências em animais.
A 8 cães, de cujo estado de saúde regular me havia préviamente assegu-
rado, administrei, em diferentes ocasiões, alimentos bastante ricos em
gorduras e pesados: continham sempre 50 grs. de manteiga de tempêro,
misturada com farinha e água e com alguns fragmentos de carne desfiada
que as tornavam mais aceitávies. Decorridas 3 horas, quando o período
digestivo já estava adiantado, eu lhes retirava uma gota de sangue que
era espalhada entre lâmina e lamínula e levada ao campo escuro do ul-
tra-microscópio (disco 8 do condensador), onde a examinava com — oc.
1
I x ob. — im. Leitz — procurando contar as hemocónias que por ven-
12
tura aparecessem; e, assim, obtive a média de 15 hemocónias por campo.
Depois procurei estudar os efeitos da impermeabilização do canal torá-
cico, nos mesmos cães. E, cercando-me e ao meu ajudante de todos os cui-
dados de assepsia (afim de evitar possiveis causas de êrro, oriundas de
infecções, etc.), tentei ligar, sob clorofórmio, o canal torácico de 5 dêles,
quando estavam em adiantado período da digestão das gorduras. A prin-
cípio, intervinha logo acima da cisterna de PECQUET, por via trans-peri-
toneal, prática esta que, por ser muito trabalhosa e produzir grande cho-
que, cedo abandonei, para operar por via cervical.
Para êste fim. raspados os pêlos e antisseptizada a região ántero-lateral
do pescoço, praticava, segundo a técnica indicada por LE PLAY (64), a
incisão da pele no meio do espaço esterno-acromial esquerdo; incisava a
aponeurose à borda externa do feixe interno do músculo esterno-clido-ma-
xilo-mastoídeo que era afastado e, sob o reparo da veia jugular interna
esquerda, ia à procura da crossa do canal para trás da confluência desta
v ®ia com a sub clávia; insulava-o, ligando-o na altura da empola com fio
de seda fino e depois recompunha os vários planos por sutura em chuleio
e aplicava um penso antisséptico sôbre a ferida.
Decorridos 6 a 8 dias, levantava o penso e retirava os pontos da pele
que geralmente encontrava cicatrizada.
Depois, observadas as mesmas condições anteriormente expostas, exa-
minava o sangue dêsses cães operados. Durante um prazo de 45 a 60
dias, não logrei descobrir no campo ultra-miscoscópico uma só hemocónia ;
mas, passado êsse tempo, elas começaram a reaparecer no sangue era nú-
mero crescente, até a média de 8 por caratpo.
— 146 —
Donde, esta conclusão: a ligadura do canal torácico impede durante
algum tempo o derrame das gorduras absorvidas no sangue, de sorte que
se não podem descobrir as hemocónias ; estas, todavia, por fim reaparecem
paulatinamente, provávelmente por se estabelecer alguma corrente lin-
fática compensadora.
c) Pesquisas em pessoas filarióticas.
Concomitantemente, procedi a prova da lipemia em pessoas sãs sob
regime alimentar gorduroso, administrando-lhes, para êsse fim, 25 grs. de
manteiga no pão ; e em 50 dentre elas, entre as quais eu próprio, observei
o efeito desta alimentação, procurando obter a média de hemocónias.
Por esta forma, pude encontrar de 12 a 24, donde tirei a média normal
1
de 18 hemocónias por campo do ultramicroscópio (Oc. I x ob. —
12
im. Leitz), na terceira hora da fase digestiva. Estava, pois, apto a estudar
os resultados da mesma prova nos filarióticos por mim observados.
b) Pesquisas em pessoas sãs.
Em 8 destas (casos de adeno-linfocele ínguino-crural dupla; linfangite
genital dupla; linfo-escroto, com elefAncia do pene; elefáncia do escroto;
adeno-linfangite crónica crural apiréctica; adeno-linfangite braquial
esquerda, com adeno-linfocele inguinal dupla), as granulações se apresen-
taram em número normal: a prova da lipemia foi positiva.
Em 2 outros doentes, pelo contrário, a prova sempre resultou negativa;
a saber:
1.* “F. M., com 18 ano3, branco, solteiro, estudante, natural da Baía,
onde reside, recolheu-se a 4 — X — 1916 s\ Enf. S. José (Serviço da 2.*
Cadeira de Clínica Cirúrgica), como pensionista.
Diagnóstico: Adeno-linfangite crural esquerda; linfangite genital es-
querda, com quilocele vaginal, determinações que começaram a formar-se
havia quási 3 anos, por crises agudas de cólica filárica.
A inversão da vaginal foi praticada, sob clorofórmio, a 5 — X — 1916:
o líquido quiloso estraído foi centrifugado e, no depósito, encontrei grande
número de microfilárias nocturnas, movendo-se, em um preparado entre
lAmina e lamínula, como verdadeiras espirais.
Pesquisa das microfilárias no sangue — negativa. Prova da lipemia —
negativa”. ' . : "
2.° “C. B., com 27 anos, branco, solteiro, funcionário público, natural
da Baía, onde reside, procurou-me em Julho de 1916; queixava-se de
hémato-quilúria que datava de cerca de 6 anos e estava então bastante
adiantada.
Pesquisa das microfilárias no sangue — negativa; pesquisa delas na
urina também, a princípio, resultou negativa; todavia, depois, com o pro-
cesso de LE DANTEC (filtrando a urina em papel), pude descobrir 6 em-
briões em um só preparado.
Prova da lipemia — negativa”.
Como se vê, tais doentes apresentavam as manifestações profundas re-
veladoras de atresia do canal torácico: um tinha quilória; outro, quilocele.
— 147 —
Reflectindo-se sôbre a circunstância de nestas duas formas clinicas da
filariose ser impossível a passagem das gorduras alimentares para o san-
£ue, ao passo que, com a ligadura do canal torácico por mim efectuada
animais, tal estorvo se não manifestou definitivamente, podem-se
tirar as seguintes ilações: com a ligadura experimental, sem dúvida se
estabelece um sistema suplementar capaz de suprir as funções do canal ;
obliteração dêle pelas filárias, tal sistema vem a formar-se, mas
logo se torna insuficiente, provávelmente por se tornar presa de lesões
obliterativas determinadas pela toxina.
Vê-se que tais estudos veem, não sómente corroborar as observações fi-
siológicas sôbre o transporte para o sangue da quási totalidade das gordu-
ras absorvidas ao intestino, por intermédio do sistema linfático abdomi-
n al, mas também mostrar a sem razão do opinar de G. JANNOVICS e E.
PlCK (65), de acôrdo com o qual já se manifestava tendência em admi-
tir-se que, muito pelo contrário, tal papel fõsse dado à veia porta. .
Quero ainda acreditar possa a prova da lipemia ter outra aplicação;
^sim, tôda vez que em um filariótico se observe, por exames reiterados do
sangue, o decréscimo progressivo do número das hemocónias, pode-se afir-
mar que algum derrame quiloso se esteja formando. E, assim, dou-lhe
Uai valor prognóstico nos casos clínicos.
* Para terminar, cumpre lembrado que um certo número de doenças po-
* * dem, nos períodos febris, ser confundidas com 03 acessos da filariose
de BANCROFT.
Para o diagnóstico devem-se praticar as diferentes provas supra-assl-
naladas. Mas, quando a própria pesquisa das microfilárias resultar nega-
da. ainda resta um recurso e por sinal de grande *valor para 0 médico:
é a observação de sucessivos exames hematimétricos e de índices leucoci-
tj *rios, praticados no decurso e depois dos acessos febris que por ventura
0 doente venha a apresentar.
Se durante o acesso se verifica: a) inexistência de alterações globu-
lares; b) hiper-leucocitose absoluta; c) grande polimorfonucleose neutró-
fila; d) hipo-microlinfocitose; e) desaparecimento dos eosinófilos e seu
re aparecimento antes de terminada a crise.
E se na fase apiréctica consecutiva se encontra: a) inexistência de alte-
rações globulares; b ) hipo-polinucleose neutrófila nocturna; c) microlinfó-
citose nocturna; rf)eosinofilia constante, mas também mais acentuada
durante a noite; — se tudo isto surge com evidência, pode-se com segu-
rança firmar para 0 caso 0 diagnóstico de Filariose de BANCROFT, em
v, sta de não se conhecer outra doença possuidora de idênticas reacções
sanguíneas, nem mesmo as infecções microbianas que se possam supera-
J untar, por acaso, às verminoses intestinais, às infecções brônquicas, ou
dermatoses.
E e3tou tanto mais convicto desta conclusão, quanto já tive oportunidade
d e firmar, em dois casos, diagnóstico desta natureza, que felizmente se
%i u depois confirmado pelo descobrimento das microfilárias nocturnas.
Ei-los;
E* “A. L. R. com 30 anos, solteiro, ferreiro, natural da Baía, onde
re 3ide ao Largo de Nazaré, procurou-me, em Junho de 1916, afim de se
tr atar.
diagnóstico: Adeno-linfangite braquial esquerda (0 gânglio epitro-
c *®ano doente é representado, por uma seta. na gravura correspondente
— 148 —
a êste caso) ; adenolinfocele ínguino-crural dupla; elefància incipiente do
escroto.
Seu mal havia começado há 4 anos, por uma crise de linfangite aguda
à região inguinal esquerda.
Pratiquei, por 14 vezes, o exame de sangue à meia-noite, sem que desco-
brisse microfilárias. Mas, havendo-lhe sobrevindo um acesso de linfangita
braquial e tendo eu feito os exames do sangue nessa ocasião, pude, compa-
rando os índices leucocitários nas fases apirécticas e febril, firmar o dia-
gnóstico de filariose de BANCROFT.
Mais tarde, em Setembro, conseguí, com o processo de hidro-hemólise,
descobrir, no sangue, 2 microfilárias nocturnas, em um preparado entre
lâmina e lamínula”. (Estampa XVIII; fig. 1).
2.° “Sra. E. L. (mãe do doente anterior), com 48 anos, viuva, natural
da Baía, onde reside à Saude, procurou-me no começo de Setembro de
1916; apresentava a perna esquerda muito edemaciada, com a pele espes-
sada; era presa, de vez em quando, de acessos de linfangite, cujo primeiro
datava de 6 anos, mais ou menos. Suspeitando da natureza filárica da
doença, pesquisei por várias vezes no sangue os embriões do parasito, mas
não conseguí encontrá-los. Não obstante, a comparação de vários índices
leucocitários, praticados no decurso e no intervalo dos acessos febris, for
neceu-me base para firmar o diagnóstico de bancroftose para o caso, dia-
gnóstico que foi posteriormente confirmado, por ter descoberto as micro-
filárias nocturnas no sangue, cujo exame continuei a fazer sistemática
mente.
Diagnóstico : Adeno-linfangite crural esquerda e, talvez, cólica filárica”.
PROGNÓSTICO
Por mais impressionante que se mostre algumas vezes e por mais incó
moda que seja em sua determinações multímodas, a filariose de BAN-
CROFT nem por isto deixa de ser doença relativamente benigna.
Todavia, pelo afastamento do convívio social a que obriga os indivíduos
por ela afectados e mormente pelas complicações sépticas e letais a que
os predispõe, deve ela ser tratada em tempo e sofrer a acção de meios
terapêuticos enérgicos e eficazes.
TRATAMENTO
O imperfeito conhecimento da etio-patogenia da filariose fez que por
muito tempo se não atinasse com um tratamento racional. Cabem aqui re-
gistadas algumas ideias que não primam pelo acêrto, oriundas muito em-
bora de autores de justíssima nomeada. Para CLARAC (66), a terapêu-
tica destruidora das filarias entraria em via lógica com o emprego do 606,
capaz de “destruí-las, atacando-as directamente no sangue, como os tripa-
nosomas e as espiroquetas” ; trecho em que se descobre a alusão aos
embriões do verme que, só êles no género, vivem no meio sanguíneo, como
se fôssem os responsáveis pelas determinações de doença. RICOT pare-
ce-me não ter sido mais feliz, acreditando que “o ideal seria mergulhar
por assim dizer a filária em um banho atoxílico" e dêste modo a concepção
— 149 —
de AUDAIN, concernente às injecções intra-linfáticas de atoxil, seria a
«eu ver “o método ideal, método de futuro para o tratamento de todas as
ectasias linfácticas filáricas acessíveis, quais as grossas linfangites tron-
culares dos membros, as adeno-linfoceles, as varicoceles linfáticas”.
Mas, desta opinião eu discordo pelas razões seguintes:
Sabe-se, dum lado, que em tômo do ponto de alojamento da filária em
^ linfático, se encontra verdadeira barreira por ela produzida por pro-
cessos naturais de defesa e constituída de trombos de endotélio vascular
descamado e de tecido reticulado neoplástico; e doutro lado. que a zona
de obliteração, oriunda dêsse processo, é sempre muito mais acentuada do
Ponto em que está o parasito para a periferia, do que para o centro, ou,
Por outra, muito mais extensa distai, do que proximalmente no trajecto
do vaso.
bestas condições, o processo aludido só pode ser ineficaz, ou nocivo.
Ineficaz — se a obstrução do linfático é completa: o medicamento jamais
atinge o próprio verme, pois que se distribui pelos elementos permeáveis
da rêde anastomótica. Nocivo — se por ventura ela fôr incompleta: a
substância parasi to-tóxica, o atoxil, pode-se pôr, de chofre, em contacto
com a filária que, assim atingida, ou talvez se defenda por uma reacção
'dolenta, emitindo grande dose de toxina que — sendo reabsorvida por
causa da permeabilidade restante do vaso — vai causar, conforme se
observa em outras parasitoses, uma toxemia em massa, muita vez mortal;
0u venha a sucumbir e os produtos de sua desagregação sejam hipertóxi-
c °3, capazes portanto de pôr em perigo a vida do paciente, ou, quando
na da. de agravar-lhe sobremaneira o estado.
Outras modificações do mesmo processo não me parece também serem
Proveitosas. ’As injecções intra-linfáticas feitas no sentido centrífugo (de
um trecho profundo para um superficial em que se presuma estar o pa-
lito) deve reservar-se igual resultado: o tóxico encontra necessária-
PJente vasos anastomóticos que dêle se apoderem, privando-o da acção tão
Operada. Alêm disso, pequenas doses do medicamento que se empregas-
6e ®, seriam insuficientes para a morte dos vermes, sôbre requererem
re iteradas intervenções nos linfáticos, quási sempre intangíveis nos fila-
ri óticos, devido ao perigo das inoculações sépticas.
Outro meio terapêutico de que se poderia lançar mão, talvez fôsse a
a dministração, por via digestiva, de substâncias parasiticidas susceptíveis
d® ser absorvidas pelos quilíferos, chegando assim à sede das filárias, o
Ca nal torácico e suas dependências. E, de facto, a êle recorri, tendo-me
^rvido com êste intuito do óleo de cholmugra. Sabendo-o parasiticida, quis
v erificar se preenchia, pelo facto de ser gorduroso, a outra condição —
a de passar ao3 quilíferos.
Primeiro, dei-o a cães (dose de 15 grs. de cada vez, por via bucal),
tendo sido bem sucedido: intensa lipemia era provocada ao cabo de 2 horas
d° seu emprêgo. Depois, administrei-o a 2 dos meus doentes, na dose cres-
Ce nte de XX a LX gotas 3 vezes ao dia, no leite quente; no entretanto,
^rante o mês inteiro, não observei efeito algum benéfico: o óleo de chol-
'Pugra pareceu-me de todo ineficaz.
P assim devia ser, porquanto a barreira de obliteração vásculo-gan-
«uonar, há pouco aludida, fazia certamente que a substância oleosa não
a tingisse as filárias adultas em seu domicílio profundo.
— 150 —
De baixo de outro ponto de vista, é de lastimar não haverem alguns
tropicalisas, LOOSS (67) e RICOT (68) entre outros, atentado no papel
patogênico das microfilárias, considerando-as inócuas. Cumpre referir
que ALFREDO BRITTO (69) já havia pensado na existência de hemopti-
ses; SILVA LIMA — na de lesões arteriais (70) ; FÜLLEBORN e RO-
DENWALDT (71) — na de bronquite, distúrbios renais e certas febre3,
para que nos trópicos não há outra etiologia clara — afecções todas pro-
duzidas pelas microfilárias, as quais ainda, segundo o Imperial Instituto
Japonês de Doenças Infectuosas de Toquió (72), podem efectuar sua evo-
lução segundo dois modos: a) Evolução sem sintomas, casos nos quais o
paciente parece completamente são, embora abrigue no sangue numero-
sos embriões; b) Evolução com sintomas nervosos: palpitações cardía-
cas, acompanhadas de dores ambulatórias em músculos e articulações
mais diversos.
Desta-arte se devem visar no problema terapêutico da doença, não
sómente as filárias adultas, mas também os seus embriões.
A) Processos terapêuticos dirigidos contra as microfilárias
As microfilárias desempenham dupla acção nociva: 1.* vindo à circula-
ção periférica da pessoa parasitada, são sugadas pelos mosquitos e vão
servir à propagação da doença; 2.» irrompendo em órgãos importantes e
quiçá passando ás vias respiratórias, originam, respectivamente, distúr-
bios renais, bronquites (FÜLLEBORN e RODENWALDT) e hemóptises
(BRITTO, CARBALLO, BEUKEMA) : por isto mesmo devem ser des-
truídas.
Com êste fim, teem-se experimentado vários medicamentos, dentre os
quais destacarei um, cuja eficácia pude comprovar. E’ o azul de metilénio
que já fôra administrado por via digestiva, na dose de 30 centgrs. por
dia. Eu, porém, lancei mão de seu soluto a 1 % em água destilada esterili-
zada, fazendo diáriamente 3 injecções intra-venosas de 10 cc., ou sejam
10 centigrs. de cada vez. O tratamento era continuado durante 10 dias e
suspenso durante 5, depois recomeçado, afim de num mês se terem prati-
cado 60 injecções, descançando o doente 10 dias. Dêste modo observei
que os embriões desapareciam rápidamente da circulação, voltando a ela,
todavia, gradativamente, 10 a 15 dias depois de finda a série de injecções.
Em um dos meus doentes, presa de linfangite genital com hidrocele (Es-
tampa XVIII; fig. 2), o número primitivo de microfilárias de 72, 86, 101,
respectivamente, por preparado, passou a ser de 3 a 4, no fim de 10 dia3
de tratamento. Eis a observação dêle:
‘•A. J. F., com 25 anos, pardo, casado, empregado, natural da Feira
de Santana e residente na capital da Baía, entrou para a Enf. S. Luís,
serviço do Prof. BORJA (Hospital S. Isabel), a 8 — IX — 1916.
Apresentava: linfangite genital dupla, com hidrocele esquerda.
Os primeiros acessos já datavam de 2 anos, e 6 mêses antes verificara
que o testículo esquerdo havia aumentado: na vaginal se tinha dado um
derrame soroso.
A pesquisa nocturna do sangue revelou-me desusada abundância de
microfilárias, que começavam a surgir na circulação periférica, às 18
horas e desapareciam, no dia seguinte, às 6 horas.
Fiz-lhe 2 séries de injecções intra-venosas de azul de metilénio, conse-
guindo observar a quási completa ausência dos embriões, na circulação.
I
— lõl —
A 9 — X — 1916, fiz-lhe, sob estovaína, a inversão da vaginal e, no mês
seguinte, o doente pediu alta, voltando ao Hospital, 2 vezes por semana,
Para aplicações radioterápicas”.
Daí, a razão de considerar o método realmente vantajoso, não sómente
Para a colectividade, por impedir a disseminação da doença (papel pro-
filáctico idêntico ao da miiaterase e conopoterase), mas também para o
Próprio indivíduo, por o livrar de novos padecimentos.
B) Terapêutica da füariose de BANCROFT.
Divide-se em médica e cirúgica.
1.* Terapêutica médica. Nela se distinguem a sintomática, a patogé-
nica e a etiocrática. A sintomática, a que se recorre sobretudo no mo-
mento dos acessos febris, condensa grande número de medicamentos:
anti-térmicos, analgésicos e sedativos, anti-eméticos etc., todos aplicáveis
de acordo com a sucessão dos sintomas ; êles são bastante conhecidos.
Outro meio dêsse teor de que se lança mão, é o da mudança do doente
Para um clima frio que evita o aparecimento dos acessos, pondo, ao que
Parece, os vermes adultos em estado latente e até matando-os.
’A processual ou patogênica pertencem: os sudoríficos e os diuréticos,
indicados para eliminar a toxina que nas crises agudas impregna o orga-
nismo dos doentes; e, depois, os diversos anti-flogísticos, a compressão
metódica da região ou membro, o repouso, as maçagens, as injecções
^clerolíticas — CASTELLANI (73), as aplicações de corrente de alta
freqüência — BROCQ; e a electrólise — MONCORVO FILHO E SILVA
ARAÚJO; e muitos outros mais ou menos paliativos e aleatórios. Mais
v antajoso e eficaz do que todos êles parece-me ser a radioterapia, de
Que logo me ocuparei.
Terapêutica etiocrática ou causal. E’ quási interminável a lista dos
agentes terapêuticos que se teem empregado contra as filárias adultas,
sem que nenhum dêles tenha alcançado o menor êxito. Posso, portanto,
r eferir-me sómente a dois processos modernos que, por sinal, muito
Pouco se teem usado com êsse fim : são a radium-tcrapia e a rádio-terapia.
A primeira foi empregada por HAVELOCK CHASLES e A. WARDEN
*m um caso de adeno-linfocele, com real sucesso.
A radioterapia, entretanto, por mais acessível, é que a meu ver resolve
0 Problema do tratamento da filariose. Alguns ensaios teem sido feitos,
e mbora não tenham sido acompanhados de provas elucidativas dos resul-
tndos, como sejam as pesquisas das microfilárias, a observação compara-
tiva das reacções sanguíneas, etc.. NUNEZ referia que ALBERTINI, de
Havana, empregara os raios X em um caso de adeno-linfocele, não tendo
todavia dado divulgação ao resultado do tratamento. O Dr. JORGE
DORDSWORTH (74), do Rio, serviu-se do mesmo método em casos de
Quilúria e hematoquilúria, observados em curto praso, em alguns dos
Quais já tinha alcançado a cura e em outros melhoras sensíveis, quando
íoi levado a dar à publicidade o seu trabalho.
Por estes estudos, tive a ideia de empregar a rádio-terapia em todas
as formas clinicas da filariose de BANCROFT, mormente nas profundas,
agora reputadas inacessíveis ; e creio tanto mais racional a minha
^eia, quanto me parece possuirem os raios X, por assim dizer, acção espe-
c ífica contra a parasitose que estudo.
Julgo, com efeito, ter deixado provado em linhas precedentes que o
a ctor da inacessibilidade da filária aos meios terapêuticos usuais é a im-
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 18 19
— 152
permeabilização das vias linfáticas, consecutiva à endo-linfangite obli-
terante e à obstrução ganglionar, por hiperplasia do tecido reticulado,
verdadeiras barreiras, cuja formação o próprio parasito provoca e com
elas se protege contra os meios de defesa do organismo.
Pois bem; por seu duplo efeito, os raios X se me afiguram bastante
proveitosos: l.° Repermeabilizando as vias linfáticas, por facilitarem a
reabsorpção dos trombos e do tecido adenoídeo hiperplástico ; 2.° Des-
truindo as filárias, causa inicial de todo êsse cortejo de lesões.
A repermeabilização dos linfáticos justifica-se pelo facto de terem sido
tratados casos de quilúria por êste processo: se as gorduras deixaram de
passar ao aparelho urinário, é que de certo lhes era dado trajectar de novo
pelo canal torácico repermeabilizado. E assim deve ser. Os raios X, a cuja
acção se mostram muito susceptíveis — conforme, se lê em artigo recen-
te de ARTUR HOLDING (75) — os tecidos linfoídeos do baço, gânglios
e folículos linfáticos, o timo, o epitélio espermatogenético, os folículos
de GRAAF, as células endoteliais e embrionárias, etc., beneficiam de-veras
casos de tal natureza.
Rememore-se, de passagem, a notável influência que exercem sôbre as
enormes esplenomegalias, os adenomas, os carcinomas ganglionares metas*
táticos, os linfadenomas, os bócios (76), reduzidos considerávelmente e
até curados por êles, o que se explica pela diminuição ou desapareci-
mento do tecido reticulado hiperplástico (e até dos tecidos neoplásticos)
que é substituído, por influência do tratamento, pelo tecido conjuntivo.
Se, pois, as causas obstrutivas do sistema linfático residem sobretudo
na proliferação do referido tecido, não se pode duvidar da acção benéfica,
contra-lesional, da radioterapia nas diversas formas clínicas (com
excepção talvez da elefância) da filariose de BANCROFT.
A destruição das filárias, por sua vez, deve também ser possível. Com
efeito, os raios de ROENTGEN, segundo regra conhecida de fisioterapia»
teem acção tanto mais nociva sôbre os parasitos, quanto menos complexa
é a organização dêles; e teem-se verificado que o Dibothriocephalus latus,
verme inferiormente situado na escala em relação à Filaria Bancrofti
pode ser destruído pelas radiações. Outro tanto se dá com o Ascaiis luM-
bricoides e outros vermes. E’, por conseguinte, racional acreditar-se na
acção benéfica, etiocrática ou filaricida, da radioterapia; por isto é
que em páginas anteriores eu me demorei em extensas referências à de-
terminação da séde das filárias adultas, em cada forma clínica da doença-
E, assim, os raios X devem ser dirigidos para o ponto em que se calcula
estejam elas, p. ex. : para a região ínguino-crural — nos casos de adeno-
linfangite e adeno-linfocele correspondentes e de linfo-escroto ; para a
parte declive das fossas ilíacas — nos linfangiomas funiculares; para a
axila — nas adeno-linfoceles correspondentes, nas linfangiectasias ma-
márias e braquiais; para a região lombar — nas diversas manifestaçõ eS
de sede profunda : cólicas filárica, quilocele vaginal, quilúria e hémato-qm*
lúria e outras formas de quilorragia, reveladoras de obstrução do
canal torácico e de seus afluentes mais directos ; enfim, para a sede V T °'
vável do verme — nos casos de linfangite e dilatações linfáticas super#'
ciais; aqui ou ali, neste ou naquele ponto, etc..
Ainda bem que a própria natureza auxilia êste método terapêutico, P° r '
quanto não existem gânglios (que são a sede mais frequente das filárias)
nas paredes laterais da bacia, nos hipocóndrios e noutras regiões, síti° 3
de órgãos importantes que seriam influenciados nocivamente pelos raio 5
— 153 —
X, tôda vez que fôsse mister aplicarem-se por via abdominal anterior. Os
territórios linfáticos profundos abdominais são a êles acessíveis pela via
lombar, conforme o Dr. DORDSWORTH demonstrou nos casos de qui-
lúria.
Tudo agora depende da técnica a seguir, da intensidade dos raies e
da área em que êles devem actuar, condições sempre variáveis para as
diferentes modalidades clínicas.
Talvez que para as localizações profundas se possa empregar a rádio-
-terapia pelo "sistema de fogos cruzados, sem passar nunca da raia II do
rádio-cromómetro de BORDIER” conforme últimamente tem usado o Prof.
GONZALEZ — RINCGNES, de Caracas, em casos de esquistosomose
americana, com o fim de tornar estéreis os esquitosomas adultos (77).
Por minha parte, na Baía, onde fiz estes estudos, comecei a tratar 03
meus aoentes pelo referido processo, mas não pude, infelizmente, chegar
a um resultado decisivo, por me. haver muito cedo de lá afastado.
E hoje, que se conhece grande número de provas auxiliares do diagnós-
tico: lipemia provocada, exames hematimétricos, índices leucocitários,
Processos diversos para a pesquisa das microfilárias, ele., pode-se acom
Panhar racionalmente a influência do tratamento, verificando-se repe
tidas vezes se êle possui de facto a acção que de boa-mente lhe empresto.
Vantagens.
A radioterapia possui a inestimável vantagem de visar o agente da
doença (t. etiocrática) e as lesões que êle produz (t. patogênica) ; sendo
a ‘èm disso um tratamento conservador por excelência e pouco incómodo.
Desvantagens.
tnfelizmente, sua acção é demorada e seu emprego é difícil em meios
atrasados que são justamente os em que a filariose grassa endémicamente.
0r consequência, á terapêutica cirúrgica, por mais pronta e muita vez
s cisiva, é que se há de recorrer para remediarem-se certos acidentes da
doença.
2. 1 Terapêutica cirúrgica.
Apresenta, conforme disse, a vantagem de em pouco tempo extirpar
r rnia Ções muito incómodas, curando-as a um só tempo, quando consegue
mover, com elas, as filárias adultas. Sem embargo desta afirmação, a
' iv g .* a é ineficaz na cura de certas determinações.
ivide-se também em sintomática, processual e causal, sendo que a pri-
ag lra n ão tem importância, ao passo que os processos de que se servem
s duas últimas, sendo específicos, merecem registo especial,
etn 3S ^ m ’ deve-se preliminarmente observar — como indicação formal
E énr Ua ^ Jer caso d e intervenção no sistema linfático, cujas complicações
jjj , ICas sa ° sempre temíveis — a mais perfeita assepsia ou a antissepsia
Pil^. r ^ oro 3a. Em seguida, determinada em um linfático a sede da
vá^ 13 ’ P 0 de-se dirigir para êsse ponto o tentame operatório. E’ o que
v ez 0 * aut °res teem feito, entre os quais MANSON qúe pela primeira
c ro : 1881. conseguiu retirar, no decurso de uma operação por lmfo-es-
p ’ Uma Filaria Bancrofti 2 , cuja existência previra.
trai-T' e ' Se a £° ra revista às formas clínicas em que se pode empregar c
cai *ento cirúrgico.
— 154 —
1.* Abcessos filáricos.
Indicam formalmente a intervenção, devendo ser dilatados e bem es-
purgados do conteúdo (em cujo seio se pode achar alguma filária morta)
e depois drainados por cêrca de 2 dias.
2. m Linfangioma funicular.
E’ passível de cura por uma operação: incisão idêntica à da celotomia
inguinal; dissecção lenta e cuidadosa, a mais perfeita possível, dos ele-
mentos do tumor, até o ponto de partida do pedículo que se deve seccionar
entre duas ligaduras; reconstituição das paredes do trajecto inguinal pe-
los processos clássicos (de BASSINI, GIRARD, etc.), afim de se evitar a
formação de uma hérnia futura; drainagem com fio de crina como pre-
venção da linforragia que frequentemente sobrevêm no período post-
-operatório; sutura cutânea.
LE DENTU aconselha, em caso de necessidade, uma intervenção mais
larga, estendendo-se a incisão até muito acima do orifício profundo do
trajecto inguinal, afim de se verificar a extensão e o ponto de partida do
processo mórbido que desta forma pode ser atacado com segurança.
3.* Cirsocele linfática.
Incisão no sentido do trajecto do cordão espermático, até as vizinhan-
ças do testículo que sempre se deve examinar; dissecção meticulosa dos
elementos do cordão; insulamento das ectasias linfáticas que se seccio-
nam entre duas ligaduras, no ponto mais distante possível, superior e
inferiormente; resecção do3 tecidos doentes; sutura e drainagem. A or-
quiopexia indica-se igualmente como complemento operatório.
Alguns autores aconselham, nos casos de lesões muito adiantadas e ex-
tensas, a intervenção larga segundo o processo extra-peritoneal, empre-
gado por CHEVASSU (78) nos casos de neoplasmas testiculares, fa-
zendo então a orquiectomia total, com dissecção dos elementos do cordão
até os gânglios lombares que, se fcr possível, se retiram; mas, em alguns
casos, pode-se conservar o testículo.
4.* Adeno-linfocele.
Para a cura da variedade mais freqüente, a ínguino-crural, há vários
processos operatórios, cujos principais são: a ablação do tumor e a anas-
tomose linfo-venosa, preconizada por MANSON.
a) Ablação do tumor: prccede-se em 4 tempos: incisão — que se pode
fazer segundo os 3 processos (o, b e c) indicados na estampa XIX, entre os
quais o de BARRES é o melhor — seguida de dissecção dos retalhos cutâ-
neos; dissecção meticulosa e gradual da linfadenectasia, a iniciar-se pelo
ponto mais acessível e a terminar-se pela secção dos pcdiculos entre duas
ligaduras ; sutura da pele e drainagem com fios de crina, depois do que se
faz aplicação de um penso compressivo, para evitar-se a linforragia.
Lancei mão dêste processo no seguinte caso (Estampa XX; fig. 1) :
•‘F. S. C., com 16 anos, pardo, solteiro, aprendiz-marinheiro, natural
de Cururipe (Alagoas) e residente na Baía, recolheu-se, no dia 30 — Vi
— 155 —
— 1916, à Enf. S. Luís do Hospital Santa Isabel — serviço do Prof. BORJA.
Diagnóstico: Adenolinfocele ínguino-crural dupla, iniciada já havia cerca
de 5 para 6 anos, tendo 4 anos mais tarde aumentado consideravelmente.
Ao primeiro exame nocturno do sangue, encontrei 2 microfilárias em
um preparado entre lâminas; e ao 2.° exame — 16 microfilárias. Fiz-lhe
2 séries de injecções intra-venosas de azul de metilénio, com o que as mi-
crofilárias chegaram a desaparecer da circulação, tendo reaparecido mais
tarde. Pratiquei as provas hematológicas complementares durante os aces-
803 de que foi presa.
A 8 — X — 1916 fiz-lhe, sob clorofórmio, a ablação meticulosa da ade-
nectasia esquerda, segundo o processo de LE ROY DES BARRES.
Depois de a ferida ter cicatrizado, as microfilárias persistiam na cir-
culação, pelo que lhe fiz várias aplicações radioterápicas”.
b) Anastomose linf o-venosa.
indicada restritamente nos casos em que o tumor exprime atresia do
canal torácico e é formado per vasos anastomóticos desenvolvidos por
suplência funcional, consiste em seccionar-se obliqiiamente um dos lin-
fáticos constituintes do tumor na altura dum do3 seu3 anéis, no segmento
cisvalvular, e em suturar-se término-lateralmente à veia mais próxima,
cujo calibre lhe permita a introdução da extremidade seccionada.
Foi praticada com bom êxito por GODLEE, MANSON, NUNEZ.
MENOCAL.
5.* Quilocele vaginal.
De todos os processos aconselhados, o melhor é a inversão da vaginal
cm cujo seio se colectou o derrame, operação que se pratica conforme a
Genica usual.
6.* Ascite quilosa e quilo-tórax.
A paracentese evacuadora, que é de-veras uma intervenção cirúrgica,
Segura-lhes a cura, embora momentàneamente, pois que em geral tais
derrames se reproduzem.
7/ Linfangiectasias superficiais.
A sua ablação, terapêutica processual por excelência, produz melhoras
Passageiras.
8.* Linfo-escroto.
Quando volumoso e incómodo, carece de ser extirpado parcialmente por
Uma operação que deve ser efectuada até alêm dos tecidos afectados, evi-
tando-se assim a reprodução do mal.
9.* Elefància.
E’ a mais freqüente de todas as determinações da filariose de BAN-
t-ROFT e aquela também para cujo tratamento é especialmente indicado
0 método operatório. Vejam-se suas localizações:
15G —
а) Elefância dos seios. Quando pelo volume e pêso excessivo, estes
órgãos eiefantíacos se tornam insuportáveis, devem ser extirpados por
completo; a técnica aconselhável é a mesma que se observa em casos
de neoplasmas, podendo-se, como aqui, terminar pela limpesa ou ablação
dos gânglios axilares doentes, nos quais se podem talvez encontrar as
filárias adultas.
б) . Elefância do testículo (ou, melhor, orquite hipertrófica filárica) : >
a orquiectomia total ou parcial, feita de acordo com a técnica usual, é indi-
cada tôda vez que o processo é muito acentuado e molesto. Das duas, a par-
cial é preferível, porquanto um fragmento do órgão que fique pode
ter, na expressão muito feliz de BARRES, um efeito moral.
c) Elefância dos membros. Requere dois processos de tratamento:
l.° o mutilador — a amputação que se deve, todavia, reservar aos casos
em que existam lesões muito adiantadas, determinando neuralgias atro-
zes e placas esclerosas extensas ou ulcerações, pelas quais se possam dar
inoculações sépticas capazes de pôr em perigo a vida dos doentes;
seria indicado para o caso por mim observado em fins de 1914 (no serviço
clínico do Prof. BRAZ DO AMARAL; Enf. Santa Maria do Hospital da
Baía) e cuja fotografia mostra o pé e a perna direitos em estado adian-
tado de elefância (Estampa XX; fig. 2);
2.° o conservador, indicado no demais casos que são felizmente a
maioria; permite ccnservar-se o membro, cujas funções podem melho-
rar, e consiste em incisões longitudinais da pele, tirando-se as por-
ções mais esclerosas e suturando-se depois. Ou, recorre-se ao pro-
cesso de RAIMUNDO MENCCAL, de Cuba (que LE DANTEC
erroneamente atribui a LEMOINE, do Taiti), cuja reprodução se vê
na — Estampa XIX, fig. d — : para isto cortam-se, na direcção do eixo
do membro, todos os tecidos doentes até a aponeurose (3), excluída;
disseca-se a pele (1) para os lados da incisão, extirpa-se a maior parte
do tecido sub cutâneo esclerosado (2), deixando-se desnuda a referida
aponeurose; cortam-se por fim os retalhos sobressalentes de pele (4)
e suturam-se os bordos da ferida cutânea resultante.
Em sessões subsequentes “se decorticam novas porções de tecido elô-
íantíaco, logrando-se dêsse modo reduzir lesões monstruosas que impossi-
bilitam a função do membro e constituem uma ameaça constante pelas
complicações a que dão lugar” — NUNEZ.
Tal processo seria aplicável ao doente da Estampa XXI, por mim obser-
vado em Outubro de ano passado no serviço clínico do Prof. ANTONIO
BORJA :
“A. V. C. com 35 anos, mestiço, solteiro, marítimo, natural da Baía e
residente na Ilha de Itrparica. . . cr.trcu a 4 — X — 1917 para a Enfer-
ria São Luís (Hospital de Misericórdia). Seu mal se iniciara havia cêrca
de 20 anos per crises febris repetidas e consistia em elefância do pé e
da perna esquerdos. Pesquisa das microfilárias — negativa — ”
Além destes dois processos conservadores, pode-se lançar mão dos
seguintes:
A) Da linfangioplastia de HANDLEY (79), que se procede com fios
de seda, imersos no tecido hipodérmico desde a parte distai da região
afectada até o ponto de confluência ds linfáticos (axila ou virilha), fies
que beneficiam ao doente por mercê da acção capilar que exercem. Em-
bora empregada com sucesso por LEXER, MITCHELL, SCHOEMA-
— 157 —
KER, BILIX-KOLOSOWSKY, BEKETOX, MATAS e outros operado,
res de nomeada, a linfongioplastia só resulta satisfactóriamente na ele-
gância do membro superior, pois que na do inferior a forte estase linfática,
favorecida pela acção da gravidade e adicionada de certas alterações
histológicas, locais e preexistentes, embaraça o êxito desta operação
Paliativa, tão logo o paciente reenceta seus trabalhos costumeiros.
B) Da derivação linfática do tecido sub-cutáneo para 03 músculos
Que em tais casos se conservam mais ou menos indemnes, através da
aponeurose préviamente incisa e em parte excisa — processo de LAXZ
(80) ; pr. de incisão cutânea romboidal de ROSAXOW (81) ; pr. de KOX-
BOLEON (82), de Atenas, empregado com sucesso por MATAS (83),
GESSXER e outros cirurgiões americanos.
d) Elefáncia dos órgãos genitais. O escroto e 0 pene podem-se apre-
sentar, separada ou juntamente, afectados. Xa cura desta determinação
3 preceitos pre-operatórios se -devem observar :
1. ° anestesia geral: indispensável nas intervenções por grandes tumo-
res, contanto que 0 doente a suporte; no caso contrário, deve-se empre-
gar a anestesia por via raqueana, ou a regional pela estovaína, a novo-
caina, etc.;
2. ° assepsia : tão perfeita quanto possível, ou então antissépsia bastante
rigorosa ;
3.- hemostasia preliminar: embora condenada por alguns cirurgiões,
ceve muita vez ser tentada, afim de se evitarem perdas inúteis de san-
8 u e aos doentes, quási sempre enfraquecidos. Ela pode ser obtida por 3
métodos principais: 0 de PATRIDGE — já vetusto e justamente
a bandonado; 0 de MOMBURG — por meio de cintas abdominais cons-
tfictoras — é nefasto e deve ser proscrito (RIGOLLET) ; finalmente,
° de MAC-LEOD — por meio de um tubo de borracha, cujas 2 extremi-
ades se cruzam ao pube e ao períneo e disposto como se vê na Estampa
1 e 2: NUNEZ considerava-o útil e muito bom. Eu, porém, sem
embargo de reconhecer sua real vantagem hemostática, nele descubro
a 'ffuns inconvenientes.
Vantagem: sendo a irrigação dos tecidos em que se desenvolve a elefftn-
cia da região escroto-peniana, assegurada pelas artérias pudendas exter-
n as, superior e inferior (ramos da femoral), perineal superficial e dor-
aa j do pene (ramos da pudenda interna) e, pro parte, funicular (ramo da
c Pigástr:ca) que acompanha 0 cordão espermático; tal processo é útil, por-
Que determina a compressão de quási toda3 estes vaso3 e assim se pode
* er uma hemóstase mais ou menos perfeita.
inconvenientes: l.° 0 tubo que comprime intensamente a região funi-
? u ' ar pode produzir a constricção e depois a gangrena de alguma alça
| n testinal que rão se tenha pedido perceber na altura do pedículo do
u mor, resultando daí a morte do paciente (caso de WEBBIX) ; 2.° o
Resino tubo, passando abaixo do orifício exterior do trajecto inguinal,
permite 0 insulsir.ento do cordão espermático, nem a conservação
esse reparo seguro para 0 descobrimnto e separação do testículo, como
de boa técnica fazer-se; 3.° e, finalmente, seu entrecruzamento adiante
0 Pube impede de recorrer-se à pele desta região para 0 caso de ser
P-cessária uma autopiastia ou tunelizaçào, por uma nova túnica para
0 Pene.
Por todos estes motivos, julgo vantajoso suprimir-se 0 cruzamento da
— 158 —
alça constrictora na região púbica, deixando-se assim campo à dissecção
doa cordões espermáticos e à confecção dos retalhos autoplásticos. As
duas figuras 1 e 2 da Estampa XXIII elucidam à saciedade a modificação
que ora proponho.
Terminados os preparativos, passa-se aos tempos operatórios própria-
mente ditos, cujo principal é o primeiro, correspondente ao traçado das
incisões. Assim:
Elcfãncia do pene. Os processos variam, segundo seja a afecção par-
cial, ou total ; se o prepúcio sómente está doente, uma simples postectomia
é bastante; no caso contrário, deve-se preceder a extirpação de toda a
pele do órgão e depois a autcplastia cem um retalho da pele da região
púbica, ou a tunelização subcutânea do pene nessa região.
Elefância do escroto. Vários casos podem-se apresentar: l.° a hiper-
plasia limita-se ao escroto e o pene está livre; 2.° o pene acha-se afogado
no seio do tumor escrotal; 3.* ambos estão afectado3, mas independentes.
1. ° Caso : Se o pene se apresentar indemne e livre, dois processos de os-
queotomia ou osquectomia, conforme proponho dizer-se, são aconselhados
— o de SABCIA e o de BARRES (Estampa XIX ; figs. e e /) ; dêste último
é que me servi na crerarão do deente a que me refiro na descrição da
elefúncia, no capítulo das formas clínicas; e neste outro (Estampa XXIV,
fig. 1):
“A F. S., com 43 annos, pardo, solteiro, operário, natural de
Sergipe, residente à Boa Viagem (capital da Baía) desde vá-
rios anos passados, recolheu-se à Enf. S. Luis, serviço do Prof.
BORJA, no dia 4 — VIII — 1916.
Diagnóstico: Linfo-escroto e elefância do pene, que evolve-
ram em 5 anos, tendo começado no escroto.
As pesquisas de microfilárias, pelo processo ordinário, resul-
taram negativas; mas pela hidro-hemólise (com 5 cc. de sangue,
retirados à meia-noite) conseguí encontrar 4 exemplares vi-
vos em um dos preparados.
A 22 — IX — 1916 fiz a ablação (com anestesia local pel3
ureo-quinina), da pele elefantíaca do pene, terminando por
uma sutura cutâneo-mucosa.
E a 8 — X — 1916, sob clorofórmio, pratiquei a osquectomia,
segundo o processo de BARREIS, empregando hemostasia pre-
liminar pelo processo de MAC LEOD por mim modificado.
Cicatrizada a ferida por 1/ intenção, o paciente pediu alta,
retirando-se completamente curado (Estampa XXIV, fig. 2)”.
2. ° Se o pene e o escroto estão confusos no tumor, deve-se preferir o
processo de ABBLART, cujas linhas gerais estão íeproduzidas na — Es-
tampa XXV, fig. 1 — a qual diz respeito à seguinte observação:
M. \. L ., com 56 anos, pardo, solteiro, catraeiro, natural
da Baía, onde residia (Pilar), internou-se a 12 — XI 1914
no Hospital Santa Isabel, leito n.» 32 da Enf. São José — ser
viço do Prof. BORJA.
Diagnose: Elefância do pene e escroto e das pernas.
A elefância dos órgãos genitais datava de 20 anos e a das
pernas de 15. Foi operado em Fevereiro de 1915 da osqueo-
calasia pelo Prof. BORJA, segundo o processo de ABBLART,
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 18 19
— 159 —
ligeiramente modificado. A ferida cicatrizou por primeira inten-
ção e o doente, estando já curado, retirou-se a 3 de Maio do mes-
mo ano.” (Estampa XXV, fig. 2).
O mesmo processo foi empregado no seguinte caso:
“T. A .R., com 40 anos, preto, solteiro, negociante ambu-
lante, natural de Minas Gerais, residente em Santa Rita do
Jequitinhonha; entrou a 26 — IV — 1917 para o Hospital alu-
dido e Enfermaria São Luís. ao serviço do Prof. BORJA, por
quem foi operado.
Diagnose: Elefância do escroto e do pene, iniciada havia 10
anos.
Saiu curado a 30 de Junho do mesmo ano.
A pesquisa das microfilárias foi positiva” (Veja-se a Estam-
pa XXVI; figs. 1 e*2).
Seria o processo de ABBLART igualmente aconselhável para êste outro
caso que observei:
“J. R. A., com 54 ano3, pardo, viuvo, empregado no comér-
cio, natural da Capital da Baía, onde reside; entrou para o ser-
viço clínico do Prof. BORJA a 29 — IX — 1917.
Diagnose: Elefância do escroto e pene, a qual se iniciara
no escroto por crises febris intensas e repetidas, havia 12 anos,
e depois se estendera ao pene que aos poucos fôra desapa-
recendo no meio do tumor (Estampa XXVIII; fig. 1).
3.° Caso:
Se o escroto e o pene estão ambos afectados, mas independentes,
deve-se preferir o processo de BARRES (com autoplastia por tunclização
do pene sob a pele da região púbica), representado na Estampa XIX, figs.
O e h; processo perfeitamente aplicável a estes dois casos:
1. * -P. F. S., com 29 anos, mestiço, solteiro, lavrador, natu-
ral do Estado da Baia, residente cm Santa Bárbara, entrou
para a Enf. São José do Hospital de Misericórdia (serviço do
Prof. FERNANDO LUZ) em 28 — II — 1913.
Diagnose: Elefância do escroto e pene, de que foi operado
pelo Dr. FERNANDO LUZ, retirando-se curado a 22 de De-
zembro do mesmo ano.” (Veja-se a Estampa XXVII).
2. ° “C. T., com 45 anos, pardo, solteiro, roceiro, residente
em Aramari, entrou para o Hospital de Misericórdia (Enf.
São Luís, serviço do Prof. BRAZ DO AMARAL) a 20 — V
— 1913.
Diagnose: Elefância do escroto e pene.
Não querendo sujeitar-se à operação, pediu alta a 15 de Junho
do mesmo ano.” (Veja-se Estampa XXVIII, fig. 2).
Dêsse modo é que se podem curar certos doentes, cuja osqueocalasia
ftiuita vez lhes impossibilita até a marcha, conforme acontecia com aquele
* que diz respeito a Estampa XXIX, de cujo enorme tumor, coberto de uma
— 160 —
toalha, o próprio dcente se servia para fazer sessões de espiritismo e
explorar a crendice popular, em proveito de sua manutenção. (Observação
interessante do Prof. BORJA).
* Enfim, talvez que à Cirurgia, dado o assombroso aperfeiçoamento de
* * seus métodos, esteja de futuro reservada a cura de maior número
de determinações filáricas, desde que ela possa agir sôbre o próprio canal
torácico, extirpando-lhe a porção obliterada e substituindo-a, homo ou
hetefoplásticamente, por órgão são, praticando em suma um verdadeiro
enxèrto vascular.
São Paulo, Março de 1918.
SUMMARY
Eancroft> Filariasis Is an endemic diresce Ia Braill. principally la the Northern
(a d Centrai States; ia Bahia, for instance, the filaiial eademic Index is about 9 per
eent.
The Filaria bancrojti produces eggs. embryos and perhaps toxin. The embryos
(Mlcrofiiaria: nocturna-) are eanguinicular and present a moTemeat of circumdu-
ctioa iike spirale. "lheir petiodiciiy is prcbably a factor of a larger nightly issue
p toxin by the adult *orm. They are agglomcratcd by the extremity of the tall,
aeans cf tydrotcn clysis; they are stalced by the dlfferent reactors, while
t-«Ishman's and Giemsa's render the central vbcus quite nitid and its presenco dis-
t-cguiohes them specifícally from the other embryo» of Filarhe. They comp ete the
•ro.utive cycle in the organkm of various mocquitoes, of whlch, on the occaslon
01 i, 11 * *tlng. they get íree. already in the State of larves.
The penetration of the larves of Filaria bancrofli in a person, takes place by a
iran^tegumentary way and their acee. s to the lymphatic glands and vocês occura
Probably through the sub-cutaneous coanective tlsiue, in favour of the continuity
w “ich such tkeue offers in the buman organkm.
^The inílammatory and obliterating lesions of Filariasis are determined by the
P*e^ence of the adu'.t parasites in the lymphatic systcm. by their eggs and may be
°h a larger scale through their own toxic produots.
Mechanic cause» favour the stagnation and extrarasation cf the lymph which
ooes not . top its formation in the tiques, lncreasing the pressure of the lymphatic
T ases and thus complicating the lesions of the disease.
Therc are rcasons for includíng in the clinic table of this disease the anaphylactic
r °rms be. Ide infiammatory ones; perniclous lymphangitls is one of them.
The adult Filaria; may be the cause of abccsses; the craw-craw, on the contrary,
r** no pathogenic connection with them. ElephantiasU may be produced excluslveiy
the Filaria bancrofti.
There are motives for distinguishing — in adenolymphocele. chylocele. chylo-tho-
ra *. etc. — a íorm of lymphatic extravasation and another of cbylous extrava-
Mtion.
The determination of the seat of the adult Filaria; has the utmost importance in
therapeutic problem of the disease.
Bancroft's Filariasis ha» a hematologic characteristic that may serve as basis for
diagncsis and cont-ists cf:
*) in the npyrcctlc pcriods: inexlítence of globular alterations; reduction of
‘be neutrophíle polymorphonuciear leucocytes. with increase of the micro-lympho-
>'te.i during the night; and constam increase of the ecsinophlles. more accented,
bvwever. at night;
b) i n the feverbh pcriods: inexktence of globular alterations; absolute increase
* the Ieucor >' tes l increase of the neatropbile polymorphonuciear leucocytce. with
««ctlon of the micro-iymphocytes; and diminution or absence of the eosíaophiles
w bich return before the access has passed.
The proof of lipemy supplies elemento for the diagnostic of the obstructlon of
thoracic duet by the adult Filaria;.
j» T ^e raethod cf treatment by intra-lymphatic or intra-venous injectlons or by
Keot.on of parasiticide oubstances. is not fixed on rational base*}.
Surgery may radicolly cure certaln very cold and trcublescme determinatione of
ncroffs Filariasis; but the bem therapeutic procets for eueh parasiteoia seems
10 be radic-therapy.
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(20
) LEIPER
(21
) ASHBURN &
(21
a) CRAIG
(21
b) GRAIG
(22
) JAMES
(23
) KENNARD
(24
) LOW
(24
a)
<25
) THEOBALD
(26
) HOWARD. 1
(27
) BIGLIERI í
(28
) SAMBON
(29
) LEBREDO
(30
) ASHBURN
(31
) FÜLLEBOR
(31 a)
'32
(33 )
)
JANICKI
& ROSEN
LOOSS
E. NUNE7.
RENfi LE DENTU
«6 ) W. T. PROUT
(< 5 ) KERANDFL
164 —
(40 ) DUFOUGERÊ
(50 ) TRIBONDEAU
(51 ) DUBRUEL
(52 ) TANIGUCHI
) W. T. PROET
(5S ) WHYTE
(53 ) TANAKA
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(60
(61
(62
(63 a! FCLLEBORN
(63 b) ROSENBUSCH
) LE PLAY
) GRALL & CLARAC
) LOOSS
) RICOT
(75
(76
(77
cm
2 3 4
12 13 14 15 16 17 18 19
— 16 õ —
(78
(73
(80
(80
(81
(S2
(82
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a)
) ROSAXOW
) KOXDOLEÕN
) MATAS
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can Journal of trop. diseases and preventive Medi-
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índice das gravuras
Estampa
XV;
figs. a
e
b
••
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XVI
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-
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-
XXIII
-
1 e 2 :
XXIV
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1 e 2 :
*
XXV
-
1 e 2 :
-
XXVI
-
1 e 2 ;
-
XXVII
-
única ;
*•
XXVIII
M
I :
*•
«•
2
XXIX
•
única :
Representação do movimento das mícroíllárías no-
cturnas.
Representação da aglutinação das mesmas pela ex-
tremidade caudal.
Representação da écdise de uma microfilárla no-
cturna.
Representação da estructura de uma microfilária
nocturna (col. vital).
Exemplares de microfilárla nocturna, corados pelo
reagente de Leishman.
Exemplar de microfilárla nocturna, corado pelo
azur II a 2 o/oo.
Corte de uma elefáncia filárica do escroto, corado
pela hematefna-eosina.
Caso de elefáncia de origem exclusivamente filárica.
Caso de llnío-escroto.
Caso de adeno-linfocele inguinal dupla, com inicio
de elefáncia no escroto e adeno-linfangite bra-
quial esquerda. (A flecha indica um gânglio epl-
trocleano túrgido).
Caso de linfangite genital, com hidrocele esquerda.
Representação das incisões de LE DENTU. AUDAlN
e LE ROY DES BARRES, respectivamente, para
a ablação de adeno-linfocele lngulno-crural.
Representação do processo de MEXOCAL para o
tratamento conservador da elefáncia dos mem-
bros: 1) pele; 2) t. celular sub-cutáneo a ser
conservado; 2,) idem a ser extirpado; 3) mús-
culos e aponeurose; 4) incisões finais para os
retalhos de pele sobressalentes.
Processos de SABOIA e de BARRES, respectlva-
mente, para osquectomia total.
Idem de BARRES, para osquectomia total e abla-
ção de elefáncia do pene.
Caso de adenolinfocele Inguino-crural dupla.
Caso de elefáncia da perna e do pé (forma escle-
rosa).
Outro caso semelhante, porém mais desenvolvido
(forma edematosa).
Vistas anterior e posterior do processo de MAC-
LEOD, para hemostasla preliminar.
Idem, segundo a modificação que proponho.
Caso de llnfo-escroto e elefáncia do pene (antes
e depois da operação).
Caso de elefáncia do escroto e pene, operado se-
gundo o processo de ABBLART (antes e depois
da operação).
Caso de elefáncia do escroto e pene. também ope-
rado segundo o processo de ABBLART (antes
e depois da operação).
Caso de elefáncia do escroto e do pene. separados-
Caso de elefáncia do escroto e pene.
Outro caso semelhante.
Caso de elefáncia do escroto e pene. (O doente
6ervia-se do tumor, como mé3a, para sessões de
espiritismo) — Cópia de uma fotografia um
tanto estragada.
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 18 19
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TOMO I — 101S
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TOMO I — 1018
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12 13 14 15 16 17 18 19
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TOMO I — 1918
ESTAMPA XXII
cm
2 3 4
5 6 7
12 13
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tomo I — 1918
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TOMO I — 191S
ESTAMPA XXVIII
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SciELO
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cm
2 13 14 15 16 17 18 19 20
CLASSIFICAÇÃO DOS HEMOSPORÍDIOS
pelo Dr. Henrique de Beaurepaire Araoão
CHEFE DE SERVIÇO DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ
A-pesar-do grande interesse que sempre houve, por parte dos proto-
íoologistas, pelo estudo dos hemosporídios, por causa do importante
P a Pel desempenhado por êles na patologia humana e animal, observa-se
*inda hoje certa confusão na sua sistemática, devida ao pouco conheci-
mento do ciclo de alguns dêsses parasitas, às dúvidas existentes a respeito
suas relações filogenéticas e, não pouco também, à consideração de-
masiada, às vezes emprestada, a caracteres morfológicos como elemen-
*°3 preponderantes para a classificação de tais protozoários.
Resultam destes diversos factores profundas e frequentes modifica-
is na orientação seguida pelos autores a respeito do modo de conside-
rar não só a posição sistemática de todo êsse grupo de parasitas, assim
c ^mo ao que se refere ao3 diferentes géneros e famílias entre si. Assim
® comum vermos os hemosporídios, ora colocados entre os esporozoá-
ora junto aos flagelados; não menos freqüentemente são 03 géneros
Lei skmania e Toxoplasma classificados entre os piroplasmas e os géne-
r °s Haemoproteus e Leucocytozoon reunidos aos Plasmodidae por certos
tutores, quando outros os elevam ao grau de famílias autónomas, afas-
^das umas das outras, no sistema tomado em consideração. Tais exem-
plos aparecem em maior ou menor proporção em todas as classificações
hemocitozoários, dando a impressão de uma extrema complicação a
Çoem se dedica ao trabalho de passar uma vista de olhos no assunto.
Parece-nos, no entanto, que, diante dos conhecimentos actualmente
e *istentes a respeito dos chamados hemosporídios ou hemocitozoários,
e Postas de lado as interpretações teóricas e as imperfeitamente com-
Provadas sôbre tais parasitas, é possível estabelecer para êles uma clas-
*ificação bastante homogénea e lógica, fundada especialmente no ciclo
-volutivo já conhecido de muitos dêsses parasitas, e, subsidiáriamente,
n ° 3 caracteres morfológicos dêles, na sua filogenia, etc..
Para se conseguir tal desiderato, deve-se, desde logo, separar os proto-
2 °ários parasitas do sangue em dous grandes grupamentos independem
te *» sendo um constituído pelos flagelados adaptados à vida parasitária
r *° sangue, como 03 tripanosomas, o outro filogenéticamente ligado às
c °ccídias e formando a ordem Haemocytozoa DANILEWSKY 1885
(*== Haemosporidida LABBE’ 1894), a qual, por sua vez, se desdobra
várias famílias e géneros.
— 163 —
No presente trabalho nos ocuparemos especialmente do3 Haemocyto-
soa propriamente ditos, tratando só dos demais protozoários do sangu®
pela necessidade de estudar as classificações em que os diversos tipos
de parasitas se encontram reunidos.
Durante muito tempo estiveram concordes os protozoologistas em se-
parar ccmpletamente os hemosporídios dos hemoflagelados, quer pelos
caracteres morfológicos, quer pelas condições de vida e evolução dêsses
dòus grupos de parasitas.
Tal orientação parecia sólidamente estabelecida em sciência, quando,
em 1904, apareceu o célebre trabalho de SCHAUDINN sôbre as gera-
ções alternantes entre os hematozoários e hemoflagelados. Estabeleceu
então SCHAUDINN as mais estreitas ligações entre êsses diferentes
protozoários, quer sob o ponto de vista morfológico, assim como baseado
em novos dados sôbre o ciclo evolutivo de alguns dêles. Mercê da grand®
competência e do acatamento que, como protozoologista, merecia
SCHAUDINN, os novos factos, por êle apresentados, foram muito bem
recebidos pela grande maioria dos scientistas.
Não tardaram mesmo a aparecer algumas pesquisas de autoridades
de indiscutível valor como, por exemplo, BILLET e os irmãos SER-
GENT, corroborando os factos assinalados pelo protozoologista alemão,
assim como também, sob a influência das suas ideas, surgiram vário»
trabalhos, relativos aos hematozoários, entre os quais, os de WOOD*
COCK, MINCHIN, LUEHE, etc..
A morte prematura de SCHAUDINN não permitiu que suas pesqui-
sas sôbre tão interessante assunto fossem alêm do trabalho inicial. Com
o desaparecimento do notável protozoologista alemão, suas ideas conti-
nuaram a ser defendidas por alguns do3 seus discípulos, especialmente
por HARTMANN e v. PROWAZEK e também por MAYER, JOL-
LOS, AWERINZEW, SAMBON, CASTELLANI e CHALMERS e
SEITZ. A-pesar, porém, do valor de SCHAUDINN e daqueles que acom-
panham as suas teorias, não tardou a surgir uma forte corrente contrá-
ria a estas, tanto na Alemanha, como em outros países, merecendo a êsse
respeito especial menção o memorável trabalho de G. NOVY e MAC
NEAL sôbre tripanosomas dos pássaros.
Devido a esta precoce oposição e ao facto de não terem encontrado
fácil e inobjectável verificação as pesquisas de SCHAUDINN, não pro-
grediu como fôra de esperar o número de adeptos à3 suas doutrinas.
Acresce ainda que as pesquisas feitas com o fim de verificar os fa-
ctos assinalados por SCHAUDINN no mesmo material de que êle se
servira, não trouxeram, nas mãos de MINCHIN nem nas nossas a espe-
rada confirmação das gerações alternantes, e os próprios SERGENT, que,
a princípio, pareciam ter tido resultados favoráveis a respeito, mais tar-
de reconheciam haverem sido induzidos a engano e a conclusões um tanto
apressadas.
Alêm disso, não só os ciclos já conhecidos de alguns hemosporídios,
ao tempo do aparecimento do trabalho sôbre as gerações alternantes,
assim como os de mais recente aquisição sôbre Hacmoprotcus, Thcilcria>
Piroplasma e Hacmogrcgarina, longe de revelarem fases flageladas in-
dubitáveis como fôra de esperar, se mostraram, ao contrário, muito mais
de acordo com as teorias daqueles que atribuíam a êsses parasitas um 3
filiação coccidiana. E’ verdade que as verificações de MAYER e as de V.
PROWAZEK sôbre os Lcucocytozoon parecem confirmar a doutrina dai
— 169 —
gerações alternantes entre hematozoários e hemo-flagelados, mas é preciso
acentuar que êsses autores não se puseram ao abrigo da suspeita, muito
plausível, de que as aves com que trabalhavam, se achassem infectadas
com mais de um parasita, como, aliás, também sucedeu ao eminente
criador da doutrina.
Deixando de lado a questão da falta de confirmação das gerações al-
ternantes e abordando o argumento da presença de formas análogas a
blefarcplastcs em certos hemosporídics e que era apresentado como
muito favorável à doutrina da transformação em hemoflagelados de tais
parasitas, vamos ver que êle também não é tão sólido como a princípio
Parece.
Ma verdade, se observa, junto ao núcleo de certo3 Hacmoprotcus e Leu-
cocytozoon, especialmente nas formas novas e nas femininas um pequeno
corpúsculo juxta-nuclear, lembrando, de alguma fórma, um blefaroplas-
t°» e como tal o consideraram alguns autores. Mas ainda aqui vieram
contraditar essa suposição ás pesquisas de DEBASIEUX sôbre as coc-
cídias e as feitas em hemcgregarinas e leucocytozoos por WOODCOCK
e REICHNCW, mostrando que estes corpúsculos não são verdadeiros
blefaroplastos e sim carioscmas excéntricamente colocados no núcleo
de tais parasitas e tomando o aspecto de um pequeno cinetonúcleo.
Ainda aqui, portanto, tal facto, longe de aproximar os hemocitozoários
dos flagelados, mais evidencia suas relações com as coccídias.
Do que ficou dito se infere que não há razões muito sólidas para fi-
liar os hemospcrídics acs flagelados de acordo com as doutrinas de
SCHAUDINN e seus adeptos.
E’ evidente que, existindo as duas doutrinas, acima mencionadas, se
ressintam as classificações dos hemocitozoários da sua influência e daí
0 aparecimento de classificações filiadas a uma e outra. Cumpre-nos, por-
tanto, passar em revista o que de mais importante existe a respeito.
Foi no já mencionado trabalho de SCHAUDINN de 1904, no qual,
Pela primeira vez, apareceram os hemosporídios classificados entre os
flagelados, sendo os géneros Hacmoproteus e Lcucocytozoon considerados
respectivamente sinónimos de Tnjpatwsoma e Spirochacta.
Algum tempo depois apareceu a classificação de SAMBON que divi-
diu os Hacmoprotozoa em duas secções: Eucystina e Acystina conforme
0 occineto se encistasse ou não. Entre os Eucystina foram colocadas
fis famílias Hacmogregarinidae e Plasmodidae, a primeira com o género
Hacmogrcgarina e a segunda com os géneros Plasmodium e Lavcrania.
Os Acystina compreendiam a família Spirochaudinnidac SAMBON 1901
com os géneros Lcucocytozoon, Spirochaudinnia SAMBON 1907 e Trepo-
*ema SCHAUDINN 1905 e a família Hacmoproteidac SAMBON 1906,
subdividida em duas sub-famílias: Hacmoprotcinac SAMBON 1906 e
Try panos ominae SAMBON 1906. A 1.* sub-família era representada
Pelo género Hacmoprotcus e a segunda pelos géneros Babesia, Lcishma-
n m, Trypanosoma, Trypanoplasma .
Contemporâneo da classificação anterior é o sistema de protozoários
de HARTMANN, no qual êle cria a ordem Binuclcata e nela inclui não
s ú os tripanosomas e formas aliadas a estes flagelados, como também 03
hemosporídios. A êste trabalho seguiu-se um mais completo de HART-
toANN e JOLLOS, em que é feita a organização das diversas famílias da
°rdem Binuclcata da seguinte forma:
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 170
Famílias
ORDEM BI XE CEE ATA
Géneros
I. Trypanoplasmidae
II. Trypanosomidae .
III. Haltcridae
TV. Leucocytozoidae .
V. Eaemogregarinidae
VI. Piroplasmidae
. | ProtcazeTia
l Irypanopiasma
Leptomonas
Eerpetomonas
. • Trypanosoma
Schizotrypanum
E ndotrypanum
. -j Eaemoproteus
. •{ Leucocylozoon
{ Eaemogregarina ( pro parte)
Karyolysus
Lankcsterella
Leishmania
. ■ Toioplasma
Babesia
f Achromaticus
VII. Plasmodidae j Polychromophilus
1 Proteasoma
[ Platmodium
Nesta classificação observamos alguns pontos que não podem deixar
de merecer reparo. Assim, desde logo se verifica a não inclusão do gé-
nero Chritidia entre os Trypanosomidae e a colocação dos géneros Leish-
mania e Toxoplasma entre 03 Piroplasmidae, quando 0 primeiro é uni
flagelado típico e 0 segundo não se enquadra entre as Piroplasmidae,
quer pela morfologia, quer pelo que se conhece do ciclo evolutivo e para-
sitismo. Também não se sabe muito bem porque HARTMANN e JOL-
t jOS incluem 0 género Achromaticus entre as Plasmodidae, quando, n3
verdade, a afinidade dêsses parasitas é com os Piroplasmas.
Não se pense que somos contrários á creação da ordem Binucleata,
pois, na verdade, achamo-la razoavelmente fundada, mas tão sómente
para os verdadeiros flagelados providos de núcleo e blefaroplasto (in-
dependente da presunção de ser êste um 2.° núcleo) que nela se enqua-
dram perfeitamente, ao contrário do que acontece aos hematozoários que
aí só forçadamente podem ser colocados e com verdadeiro esquecimento
das suas relações filogenéticas, evidentemente muito mais estreitas com
as coccídias do que com qualquer flagelado. Mesmo que os hemospo-
rídios tivessem fases flageladas, 0 que não e3tá provado com pesquisas
verdadeiramente convincentes, ainda assim não seria razão para classi-
ficá-los entre os Binucleata, pelo mesmo motivo por que não se incluem
entre os mastigóforos todos os demais protozoários que, em sua evolu-
ção, apresentam fases flageladas. De acordo com êste modo de ver, con-
sideramos a ordem Binucleata HARTMANN 1910 constituída apenas pela3
famílias e géneros seguintes:
ORDE.M BINUCLEATA
Farr.íüas
Géneros
Trypanoplasmidae
Trypanophis
Bodo ( = Proicasekia)
Irypanopiasma
— 171 —
T rypanosomiãae
1
Lrptomonat
LeUhmania
Ucrpctomona*
Chritidia
Trypai.osoma
Eixdolnjpar.um
A classificação de hemoflagelados de WOODCOCK de 1909 é baseada
IU3 doutrinas de SCHAUDINN, então admitidas por ês se autor, que
nela cria a ordem Lissoflagellata com duas sub-ordens: Monadina e He-
teromastigina. Na primeira sub-ordem inclúi WOODCOCK o género
Trypanomorpha com a espécie Trypanomorpha noctuae (= Haemopro-
teus noctuae) e na segunda sub-ordem são colocados os géneros Trypa-
nophis, Trypanoplasma e Trypanosoma.
Ulteriormente, reconhecendo WOODCOCK a pouca valia da doutrina
das gerações alterantes entre os hemoparasitas, deixou de ser adepto
dela.
Em seu recente trabalho, "Manual of tropical Medicine”, CASTELLA-
NI e CHALMERS seguem na classificação dos hemoparasitas as ideas
adoptadas por SAMBON com poucas alterações, como, por exemplo a
substituição da ordem Haemoprotozoa pela classe Binuclcata para enfei-
xar a sistemática dos parasitas do sangue.
Não nos parece que a classificação de SAMBON, embora aceita por
CASTELLANI e CHALMERS torne admissível a inclusão dos hemopa-
rasitas entre os flagelados; ela tem a grande desvantagem de separar,
no sistema, famílias evidentemente muito próximas como as Plasmodi-
dae e Haemoproteidae que muito pouco se enquadram aliás entre os Bi-
nucleata .
Entre os autores que acham plausíveis as estreitas relações entre os
hemosporídios e os hemoflagelados não devemos esquecer S. AWERIN-
2EW e SEITZ, se bem que não nos pareçam muito convincentes os ar-
gumentos por êles expendidos diante da falta de confirmação evidente
das teorias de gerações alternantes entre tripanosomas e hemocitozoários.
Agora que passámos em revista as opiniões dos principais autores
Que admitem as doutrinas de SCHAUDINN, vejamos quais as mais va-
liosas opiniões dentre 03 que colocam os hemocitozoários entre os es-
Porozoários, aproximando -03 das coccídias.
Cabe indubitávelmente a DANILEWSKY o mérito de haver iniciado
a corrente scientífica neste sentido. Desde 1885 criou êle a ordem Hae-
** ocytozoa (= Hemosporídios) e nela incluiu os diversos hemocitozoá-
rios então conhecidos e representados pelos seguintes géneros: Hacma-
*** eba , Haemogrcgarina e Halteridium .
Em 1894 surgiu o trabalho mais amplo de LABBE’, no qual aparecem
03 parasitas do sangue divididos em 2 secções, a saber: Gimnosporídios
c °m os géneros Halteridium, Proteosoma, Haemamcba, Dactylosoma e
Acystis e Hemosporídios com os géneros Drcpanidum, Karyolysus e Da-
Kilcivska .
Tratando dos esporozoários no “Das Tierreich”, em 1899, LABBE’
a Presenta a sua classificação anterior com um carácter definitivo e mais
Científico. Aparecem os esporozoários do sangue divididos em duas or-
dens: Haemosporidiida e Gymnosporidiida, a primeira com os géneros
L&nkesterclla, Karyolysus e Haemogrcgarina e a segunda com os géne-
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ros Caryophagus, Halteridium, Haemoproteus, Plasmodium, Laverania
e Cytameba.
Em 1901 vamos encontrar SCHAUDINN advogando fortemente as
relações entre as coccídias e hemosporídios, estribado em pesquisas pró-
prias sôbre o assunto e na opinião dos mais reputados parasitologistas
da época em relação ao hematozoário do impaludismo.
E’ da mesma data a classificação de NEVEU-LEMAIRE, apresenta-
da em sua tese à Facu>dade de Paris e orientada nas ideas de LABBE’,
aparecendo nela a ordem Haemosporidiida subdividida em 2 sub-ordens:
HaemosporidUda e Gymnosporidiida, subdivisão abandonada actual-
mente, com 4 famíUas: a 1.* Haemogregarinidae, com os géneros Haemo-
gregarina, Lankesterella e Karyolysus, a 2.* Haemamebidae com os gé-
neros Plasmodium , Laverania e Haemamcba, a 3.* H alteridiidae com
os géneros Halteridium e Polychromophilus e a 4.* Achromaticidae com
os géneros Achromaticus, Dactylosoma, Caryophagus, Cytameba e Pi-
roplasma.
Data também de 1901 a 1.* edição da Protozoologia de DOFLEIN, na
qual se encontram os esporozoários coccidiformes divididos em duas sub-
ordens: Coccidia e Haemosporidia. Mais recentemente DOFLEIN ain-
da admite a sub-ordem Haemosporidia, mas só inclui nela os géneros
Plasmodium e Piroplasma, preferindo separar do primitivo sistema os
géneros Hemogregarina e Leucocytozoon e colocá-lo directamente entre
as coccídias.
Ocupando-se dos esporozoários, no tratado de zoologia de RAY LAN-
KESTER, apresenta MINCHIN um esboço de classificação baseando-
se, como NEVEU-LEMAIRE, na orientação seguida por LABBE’. Êle
admite a ordem Haemosporidia e a divide em 2 sub-ordens: Haemospori-
dia e Acystosporca, tendo a 1.* os géneros Lankesterella, Karyolysus e
Haemogrcganna, e a 2.* os géneros Plasmodium, Laverania, Haemopro-
teus, Halteridium e Piroplasma.
A classificação de LAVERAN reduz muito o sistema dos Haemocyto -
zoa, pois êle só admite 3 géneros: Haemamcba, Piroplasma, e Haemo-
gregarina, incluindo no primeiro os géneros Leucocytozoon e Halteri-
dium. Neste trabalho se mostra LAVERAN muito reservado em rela-
ção às l.gaçces dos hemosporídios com os flagelados.
Mais recentemente ainda na escola francesa, vamos encontrar o tra-
balho de MESNIL com as mesmas ideas sobre as relações dos hemos-
poridios com as coccídias, se bem que o sábio biologista francês não
seja favorável à inclusão de todo3 os parasitos dèste grupo em uma or-
dem especial, como o fazem os demai3 autores.
Influenciado pela leitura do trabalho de ADDIE, que até agora não
encontrou confirmação, julga MESNIL muito mais estreitas do que
realmente o são, a3 relações entre os géneros Plasmodium e Haemopro-
teus, e, por isso, propõe seja êste considerado como sub-género daquele,
o que não nos parece de todo razoável, diante do que se sabe com cer-
teza a respeito do ciclo do Haemoproteus.
Quanto ao género Leucocytozoon, coloca-o MESNIL, assim como o gé-
nero Haemoproteus, na família Haemamebidae e não acha muito justifica-
da a criação do género Hacmocystidium.
No que se refere à classificação das Haemogregarinidae, mostra MES-
NIL quão difícil é localizá-las tôdas entre as coccídias segundo as ideas
de LEGER, admitidas recentemente por POCHE, porque, se algumas se
— 173 —
aproximam evidentemente das coccídias do tipo Adclca como a H. ste-
panoici, outras muito dificilmente aí se poderiam incluir de acordo com o
que se sabe a respeito da sua evolução.
Na mesma corrente de ideas e com os mais convincentes argumentos,
estuda MINCHIN a questão, mostrando quão pouco razoável é querer
colocar os hemosporídios na ordem Binucleata ao que, segundo êle, se
opce tudo quanto se sabe a respeito de tais organismos.
Acentua MINCHIN, no seu trabalho, a grande analogia que existe en-
tre os hemosporídios e as coccídias, quer os do tipo adeleano, quer os do
tipo eimeriano e mostra quão perigosas e passíveis de confusão foram as
conclusões de SCHAUDINN baseadas nos estudos feitos por êste pro-
tozoologista em aves ( Athene noctuae ) infectadas com múltiplos para-
sitas.
Argumenta ainda o sábio zoologista inglês, com evidente razão, que
nada prova, mesmo admitindo se originarem os hemosporídios dentre
os flagelados, provirem êles especialmente dos Binucleata de preferência
s qualquer outro grupo de mastigóforos. Como conclusão ao seu modo
de ver, estabelece MINCHIN õ tipos entre os hemosporídios que são
Hacmameba, Leucocytozoon, Halteridium. Ilacmogregarhia e Piroplasma.
Na sua completa revisão sistemática dos protozaários, estuda POCHE
os hemocitozoários entre os esporozoários do grupo das Coccídias, quer
os do tipo Adelea, quer os do tipo Eimcria. Assim as Hemogregarinas
são colocadas por POCHE em uma super-fimília Haemogregarinidca
POCHE 1913, filiada à ordem Adelcuidae POCHE 1913 e os demais
hemocitozoários na sub-ordem Hacmospondia DOFLEIN 1901, filiada
à ordem Eimcridca POCHE e tendo como representantes as famílias
Plasmodidae, Halterididac, Lcucocytozoidac e Bábesiidac.
Em um recente trabalho "Sur la classification des Hémosporidies”
apresenta C. FRANÇA uma nova classificação de hemocitozoários ba-
seada de um modo geral nas ideas apresentadas por LAVERAN em
19C5, mas remodelada de acõrdo com as novas aquisições. Nessa clas-
sificação divide FRANÇA a ordem Ilacmosporidia em 4 famílias, a sa-
her: Hacmogregarinidae NEVEU-LEMAIRE 1901, Piroplasmidac
FRANÇA 1909, Hacmamcbidac ROSS 1899 e Toxoplasmidac FRAN-
ÇA 1917.
Na primeira família são colocados os 2 géneros: Hacmogregarina e
Hcpatozoon, na 2.* família os géneros Piroplasma, Thcilcria, Nuttalia,
Smithia, Rossiella, Rangclia, Ellcipsisoma e Achromaticus, na 3.* fa-
mília os géneros Lcucocgtozoon, Ilacmoprotcus e Haemocystidium e final-
mente, na última, o género Toxoplasma.
Embora julguemos a classificação de FRANÇA bastante razoável,
® muito bons os seus argumentos a favor da manutenção da ordem Hac-
mosporidia, pensamos que poderia, com vantagem, ser mais desenvolvida
* homogénea. Assim, de acõrdo com Ô3se modo de pensar, preferiríamos
v 'er os géneros Leucocytozoon e Hacmoproteus elevados ao grau de famí-
lias a parte, do que incluídos na família Hacmamebidae como o faz o autor
português, uma vez que os ciclos conhecidos dêsses parasitos são bastante
típicos para autorizar uma tal orientação.
As considerações apresentadas a respeito das diferentes classificações
de hemocitozoários e um estudo crítico delas nos convenceram de que
seria possível organizar um novo sistema para tais parasitos, orientan-
do-o de acõrdo com a generalidade dos conhecimentos actualmente exis-
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tentes a seu respeito, quer sob o ponto de vista das suas afinidades uns
com os outros, quer sob o ponto de vista da sua evolução morfológica e
relações filcgenéticas.
Foi êsse desiderato que procurámos realizar nas linhas que se vão
seguir, em que apresentamos nossa opinião sôbre o assunto, justifican-
do-a ccm considerações e argumentos que nos parecem razoáveis.
Assim, de acordo com as ideas de DANILEWSKY, LABBE’, LAVE-
ran, grassi, minchin, woodcock, doflein, brumpt,
FRANÇA, etc., e a própria opinião primitiva de SCHAUDINN, pensa-
mos que 03 parasites dos glóbulos brancos e vermelhos dos vertebrados
devem ser colccados em um grupamento especial, a sub-ordem Haemo-
cytozoa (= Haemosporidida LABBE’ 1894). Esta sub ordem, na noss3
opinião, deve ser colccada juntamente com a sub-ordem Coccidia como
representantes da ordem Coccidomorpha do sistema de DOFLEIN.
Devemos desde lego dizer que nem todos os autores modernos, LA-
VERAN e MESNIL entre outros, aceitam a colocação dos hemosporí-
dios em uma sub-ordem especial, ou por julgarem desnecessária a cria-
ção de uma subdivisão própria para tais parasitas, ou por acharem que
êles assim reunidos, ficam mal situados no sistema. Alguns autores
como LEGER, DOFLEIN e POCHE, embora aceitem a criação de uma
sub-divisão especia 1 ( Haemocytozoa ou Haemosporidia) para os hemato-
zoários, separam dela as hemegregarinas e as colocam entre as coccí-
dias do tipo Adelea.
Preferimos acompanhar aqueles que, como MINCHIN, FRANÇA etc.,
julgam os hemosporídios um grupamento perfeitamente homogéneo e com
caracteres próprios que lhes conferem segura antonomia, não sendo possí-
vel localizar com precisão os diferentes hemocitozoários conhecidos directa-
mente entre as coccídias como o querem alguns autores. Assim mesmo
sómente em relação ás hemogregarinas só as do tipo H. stepanowi se
enquadram bem entre as coccídias do tipo Adelea; as demais já di-
ficilmente se enquadram no sistema dêsses esporozoários como assinala
MESNIL. Da mesma fórma mostra MINCHIN quão difícil seria colo-
car os Plasmodidae e os Babesiidae em um dado grupamento de coccí-
dias, em se querendo seguir uma tal orientação.
Não há dúvida que existem estreitas relações entre 03 hemocitozoá-
rios e as ccccídias pela origem comum dêsses parasitas, mas isso não
pre-estabe'ece que exista uma filiação determinada dêste ou daquele gru-
po. Alêm disso, pelas condições especiais de parasitismo muito diferen-
ciado, como a mudança de hospedeiro etc., os hemosporídios adquiriram,
com o correr dos tempos, caracteres muito especiais que justificam plena-
mente sua separação dentre as coccídias e a sua colocação em um grupa-
mento especial.
De acordo com estas considerações, foi que incluímos todos os hemos-
porídios, na nossa classificação, da mesma forma que o teem feito ou-
tros autores, em uma sub-ordem especial Haemocytozoa DANILEWSKY
1885.
Os representantes desta sub-ordem se caracterizam por serem parasi-
tas de eritro e leucócitos, por terem esporozoitos livre3, não encerrados
em esporos, por possuírem zigotos móveis, penetrando em outras célu-
las e por se fazer sua evolução assexuada num hospedeiro vertebrado e
a sexuada em um outro hospedeiro, invertebrado.
Esta sub-ordem comporta perfeitamente, segundo pensamos, 4 super-
— 175 —
famílias, a saber Haemogregarinoidea POCHE 1913, Babesioidea nov.
snperfam., Plasmodoidea nov. superfam., Toxoplasmoidea nov. super-
fam., sendo que esta mais como um apêndice ao sistema. A criação des-
tas superf£míli 2 s nos parece justificada pe*as analogias das famílias
em que elas se desdobram, o que permite separá-las no sistema em 4
grupamentos distintos.
A superfamília Haemogregarinoidea POCHE 1913 nós a subdividi-
mos em duas famílias : Haemogregarinidae NEVEU-LEMAIRE 1901,
Leucocytozoidae HARTMANN e JOLLOS 1910.
A família Haemogregarinidae compreende hematozoários vermicula-
res, parasitas de hamatias ou leucócitos, não pigmentados, com esquizo-
gonia nos órgãos e nas hematias, fecundação como nas coccídias do tipo
Adclea e com hospedeiro intermediário já conhecido para alguns para-
sitas e no qual se passa a evolução esporogónica.
Quanto ii família Leucocytozoidae HARTMANN e JOLLOS 1910, lo-
calizada por muitos autore3-entre as Plasmodidae por causa do modo de
fecundação, pensamos ser mais justificado aproximá-la da família
haemogregarinidae acompanhando as novas adquisições sôbre o ciclo
de tais parasitas, em parte, de FANTHAM e MALDOVAN, no que se re-
fere á sua esquizogonia, e 03 trabalhos comparativos, feitos por E. REI-
CHNOW, sôbre a morfologia do oocineto dêste parasita e 0 do Ka-
ryolysns lacertae.
De acôrdo com as verificações destes autores, os Leucocytozoa do tipo
L. Ziemanni devem ser considerados como uma hemogregarina com a
fecundação semelhante à das Plasmodidae e Haemoproteidac, ao contrário
dos demais parasitas do grupo cuja fecundação se faz por processo seme-
diante ao das coccídias do tipo Adelea.
A família Leucocytozoidae se caracteriza por ser constituída por he-
matozoários alongados ou esféricos, parasitas de eritroblastos ou hema-
tias, não pigmentados, com esquizogonia nos órgãos como nas hemogre-
garinas, fecundação como nas Plasmodidae, zigoto semelhante aos das
hemogregarinas do género Karyolysus e tendo muito provávelmente
como hospedeiro intermediário um mosquito.
Na família Haemogregarinidae admitimos como bem estabelecidos os
géneros Haemogrcgarina DANILEWSKY 1885. Lankcstcrclla LABBE’
1894, Karyolysus LABBE’ 1894, e Hcpatozoon MILLER 1908, de acôrdo
com 0 que se sabe a respeito do ciclo dêsses parasitas em virtude dos traba-
ftos de LUTZ, REICHNOW, MILLER, HARTMANN e CHAGAS,
KOELLER, ROBERTSON, CHATTON e ROUBAUD etc..
Na família Leucocytozoidae 0 único género conhecido é Lcucocytozoon
DANILEWSKY 1889.
Para melhor esclarecimento das diferenças que existem entre as fa-
mílias Hemogregarinidac e Leucocytozoidae chamamos aqui a atenção
Para os esquemas 1 e 2 (Estampa XXX) juntos ao texto.
A 2.* super-família da nossa classificação é Achromaticoidea ( — Ba-
besioidea ARAG. 1818) nov. superfamíl. Esta superfamília compreen-
de todos os hematozoários do tipo dos parasitas dos géneros Achromati-
Cfcs, Babesia ou Piroplasma, etc..
Na classificação de NEVEU-LEMAIRE em 1901 aparece a nova fa-
mília Achromaticidae compreendendo os géneros Achromaticus e Piro-
plasma; como, porém, a maioria dos autores continuou a colocar 0 gé-
r, ero Achromaticus DIONISI 1898 entre as Plasmodidae, caiu. pôde-se
dizer, no esquecimento a família Achromaticidae, preferindo por isso os
— 176 —
especialistas criar as famílias Piroplasmidae e Babesiidae para nelas co-
locar os géneros Babesia, TheUeria, Nicollia etc.. Não havendo, porém, a
mínima razão para deixar o género Achromaticus entre as Plasmodidae,
porquanto seus representantes são piroplasmídeos típicos, torna-se ne-
ces-ário retomar a família Achromaticidae NEVEU-LEMAIRE em vir-
tude das leis de prioridade scientífica e, por isso, de acordo com o esta-
belecido em zoologia, a superfamília, criada para tais parasitas, deve
tomar o nome de Achromaticoidea .
Esta super-família ccmpreende todos os parasitos do tipo Babesia
ou piroplasmas e acromáticos, que são hematozoários em geral peque-
nos, não pigmentados, em forma de pera, anel ou de bastonetes afilados
em uma extremidade, geralmente dispostos aos pares, na 3 hematias, e
possuindo divisão binária e esquizcgónica, esta às vezes muito abundan-
te nn» érgãcs do animal infectado. A evolução sexuada completa ou in-
eompleta se dá em um hospedeiro intermediário que é um carrapato
nos casos até hoje tem estabelecidos.
Dividimos a superfamília Achromatocoidca em 2 famílias: Achroma-
ticidae NEVEU LEMAIRE 1901, e Theilcrídae nov. fam., perfeita-
mente distintas uma da outra pelo c : clo evolutivo de seus representan-
tes. Assim, na família Achromaticidae existe nos representantes bem
estudados ( Babesia ) uma esporogonia perfeitamente caracterizada, no
» ibo d gestivo e tec:dos das carranatos, como demonstraram 03 traba-
lhos de KCCH e os de CHRISTOPHERS, ao passo que na família Theile-
ridac a evolução sexuada no carrapato não vai além da constituição de uma
espécie de zigoto, dando-se 0 resto da evolução no organismo do 3 boví-
deos para onde passa muito provávelmente ê3se ooccineto por ocasião
da picada do carrapato infectado. A maneira de evoluir das Theilcrídae,
tanto nos bovídeos, como no carrapato transmissor, muito se aproxima
de um modo geral, de acôrdo com as verificações de GONDER, com 0
que descrevémos em relação ao Hacmoproteus cnlumbae. Tanto num
como noutro caso se dá a evolução sexuada no invertebrado transmis-
sor, mas o z:goto formado, ao envés-de penetrar no tubo digestivo dêste
e ai passar pelas fases de esporogonia, como ocorre nos Plasmodidae. é
de novo lançado no organismo do hospedador vertebrado e nele evolui no
intarior de células, sofrendo uma multiplicação intensa, e transforman-
do-se. finalmente, em numerosos pequenos elementos (gametos) que
penetram nas hematias nas quais se desenvolvem até a forma adulta. E’
interessante esta semelhança de ciclo evolutivo entre parasitas tão di
versos, 0 que mostra quão razoável é a sua colocação no masmo grupa
mento zcoiógico (Hacmocytozca) , em vista das acentuadas afinidades
entre êles existentes e que aqui se patenteam tão claramente. N 03 eâ-
quemas 3 (Estampa XXXI) e 4 (Estampa XXXII), juntos ao texto, rC'
presentamos 0 ciclo evolutivo dos parasitos da famílias Achromaticidae e
Theilcrídae que podem ser assim fác^mente comparados.
Admitimos como pertencendo à família Achromaticidae, de acordo
com 03 nossos conhecimentos actuais, os seguintes géneros: Babesia
STARCOVICI 1893, Nuttalia FRANÇA 1909, Smithia FRANÇA 1909,
Ranrjelia CARINI e MACIEL 1914. Rossiclla NUTTAL 1912, Nicollia
FRANÇA 1910, Achromaticus DIONISI 1900, Ellcipsisoma FRAN-
‘ A 1910. E muito provável, senão quási certo, que com 0 avanço dos
nossos conhcc mento3 a respeito destes diferentes géneros alguns dèles,
pelo menos, tenham que ser retirados dentre a família Achromaticidae
— 177 —
Para a família Theileridae ou para novas famílias a serem criadas con-
forme os esclarecimentos obtidos a respeito do seu ciclo evolutivo.
Quanto aos géneros Paraplasma SEIDELIN 1912 e Anaplasma THEI-
LER 1910, não achamos razoável a sua inclusão na família Achromatici-
dae, como o fazem muitos autores. De acordo com a opinião de SCHIL-
LING TORGAU, julgamos que tais géneros não teem existência real, en-
trando na sua constituição pseudo-parasitas representados por forma-
ções estructurais primitivas das hematias. Nossos trabalhos, feitos com
0 Dr. EZEQUIEL DIAS, em relação aos anaplasmas não deixam dúvi-
das a respeito.
A família Theileridae compreende apenas ura género, Theileria
FRANVA 19C9, cuja evolução foi bem estudada e perfeitamente escla-
recida por GONDER, no Transvaal.
A 3.* super-familia que criamos na nossa classificação é Plasmoidoidca.
Compreende parasitas de vertebrados, dotados de movimentos amiboi-
des com pigmento melánico'e a propriedade de formar gametos flage-
liformes. Pensamos que esta superfamíHa pode ser dividida em duas
famílias: Hacmoproteidae SAMBON 1906 e Plasmodidae MESNIL 1903.
A família Hacmoproteidae SAMBON 1906 compreende hemocitozoá-
rios que no estado adulto teem a forma de haltere, ou de crescente, apre-
sentam pigmento e são diferenciados em gâmetes masculinos e femini-
nos. Teem como transmissores conhecidos os hipoboscídeos e, muito
Provávelmente, os mosquitos também desempenham êsse papel. No
tubo digestivo do transmissor se dá a fecundação dos gâmetes e forma-
ção de zigoto móvel. O oocineto, depois de sofrer um processo de re-
dução e expulsão de pigmento, não penetra na parede do tubo digestivo
do transmissor, como sucede nos Plasmodidae, sendo lançado pelo inse-
cto no organismo do vertebrado e aí evolui sofrendo intensa multipHca-
Ção, de que resulta a formação de grandes quistos cheios de pequenos
gametócitos. Estes, rompendo os quistos, passam para o sangue circu-
lante e penetram nas hematias, transformando-se, aos poucos, nos ele-
mentos em forma de haltere.
Os trabalhos de ADDIE, assinalando uma evolução esporogónica do
z -goto3 dos Hacmoproteus nas hipoboscídias, não são, segundo pensamos,
isentos de êrro. As pesquisas anteriores que a êste respeito já tínha-
mos feito e as de SERGENT, GONDER, etc., assim como as repetidas
contraprovas que, apes o aparecimento do trabalho de ADDIE fizemos
a respeito, não nos trouxeram a convicção de que seja real a existência
de esporogonia no hospedeiro intermediário dos Hacmoproteidae.
A família Hacmoproteidae compreende um só género. Hacmoproteus
KTíUSE 1390. Quanto ao género Haltcridium DANILEWSKI 1890,
considerado por alguns como diferente do Hacmoproteus e no qual cer-
t<*3 autores querem colocar os parasitos do tipo do Haltcridium noctuae
e symii, somos de opinião que deve cair em sinonímia com Hacmopro-
teus por não nos parecer real a doutrina da transformação dêstes pa-
rasitas em flagelados do tipo tripanosoma.
A família Plasmodidae MESNIL 1903 compreende hematozoários
mniboides pigmentados com uma evolução esquizpgónica e gametogóni-
Ca no hospedeiro vertebrado e uma esporogónica nas paredes do tubo
digestivo do artrópode transmissor, em conseqúência de evoluir aí o zi-
8°to móvel proveniente da fecundação dos gâmetes. Os transmissores
conhecidos das Plasmodidae são mosquitos. A família compreende o gé
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nero Plasmodium, que é perfeitamente caracterizado, e encerra, alêm
de numerosos hematozoários, os causadores do impaludismo humano.
Alguns autores separam em género a-parte, ou melhor sub-género,
com a denominação Laverania, o hematozoário do impaludismo tropical.
O género Protcosoma deve ser considerado sinónimo de Plasmodium.
pois quer morfologicamente, quer pelo ciclo evolutivo, os representantes
dêste género não se distinguem do género Plasmodium.
Quanto ao género Haemocijstidium CASTELLANI-WILLIEY, nós o
aceitamos como representante das Plasmodidae do tipo do Haemocysti-
dium SIMONDI que, segundo as pesquisas de C. DOBBEL, tem uma
divisão em 4 e'ementos, bem diferente da esquizogonia das Plasmodi-
dae; mas não concordamos com a inclusão neste género dos verdadeiros
Plasmodia de animais de sangue frio, como. por exemplo, o Plasmo-
dium diplogcossi e Tropiduri (= Minasense CARINI), que são parasitos
lípicos do primeiro género da família aqui estudada.
Pelo exame dos esquemas 5 (Estampa XXXI) e 6 (Estampa XXXIII)»
insertos neste trabalho, se poderá muito bem compreender os caracteres
diferenciais existentes entre as famílias Haemoproteidae e Plasmodidae.
Finalmente temos de nos ocupar do último grupo de parasitos, que
incluímos entre os Haemocytozoa e que são os conhecidos pelo nome ge-
nérico de Toxoplasma. Todos os autores estudam estes parasitas entre
03 hemosporídios, ora em uma, ora em outra família, sem um critério
muito seguro, porque, de facto, êles não se aproximam de nenhum dos
diferentes tipcs désses protozoários e teem o seu cicio evolutivo muito
pouco conhecido.
Nós pensamos que o mais acertado é colocá-los em uma superfamília
Toxoplasmoidca, que consideramos como um apêndice e com um cará-
cter um tanto provisório entre os Hemocytosoa.
A superfamília Toxcplasmoidea encerra uma só família, Toxoplasmi-
dae com um único género, Toxoplasma, e diversas espécies.
Os parasitos do género Toxoplasma são pequenos organismos falci-
formes, imóveis, dividindo-se bináriamente e localizando-se de prefe-
Tência nos órgãos internos dos animais infectados. Muito pouco se co-
nhece a respeito da evolução dos parasitas do género Toxoplasma.
Sabe-se que êles se reproduzem por divisões binárias sucessivas e que
mesmo as chamadas esquizogonias dêsses parasitas não são mais do
que produtos dêsse processo de divisão aglomerados nos mais variados
tecidos do animal infectado.
Frequentemente as hematias nas aves experimentalmenté infectadas
aparecem invadidas pelo parasita. Em relação à existência de trans-
missores intermediários, fenómenos sexuados, etc., a nossa ignorância
é ainda completa.
Não há muito tempo MARULLAZ, estudando uma hemogregarina
( Hcpatozoon ) de um pardal, ao qual, em trabalho anterior, já havía-
mos dado o nome de Hacmogregarina Addiei, achou que êsse parasita
não se distinguia de um toxoplasma e não hesitou, por isso, em dar-lhe
o nome de Toxoplasma avium. Mais recentemente, FRANÇA, baseado
nestas pesquisas de MARULLAZ, achou razoável passar para o genéro
Toxoplasma as hemogregarinas das aves que havíamos descrito em
1911.
Não nos parece muito razoável a orientação seguida por MARUL-
LAZ a FRANÇA, na classificação de tais parasitas, porquanto, se êles
— 179 —
teem uma morfologia um tanto semelhante, se distinguem por outro
lado perfeitamente, uns dos outros, por caracteres diferenciais de in-
contestável valor. Assim basta lembrar o seguinte: 1.® os hemogrega-
r -nídeos das aves não são transmissíveis por simples inoculação, como
acontece aos toxoplasmas- 2.° ao passo que os parasitas das aves são
móveis, os toxoplasmas não possuem mobilidade; 3.° os toxoplasmas só
6e segmentam bináriamente, ao passo que as hemogregarinas, que des-
crevémos nas aves, possuem uma esquizogonia típica nos órgãos dos ani-
mais infectados. Fica, portanto, como carácter comum entre os dois
Srupos de parasitas, a morfologia um tanto semelhante dêles, o que não
Pode ser decisivo para a questão, como o querem MARULLAZ e FRANÇA.
Não deve também ser esquecido que os hemogregarinídeos das aves
teem uma semelhança de parasitismo celular muito mais acentuada com
Hepatozoon ou Leucocytogregarína do que com os parasitas do género
toxoplasma.
Na figura 7 (Estampa XXXIII), inserta no texto, procurámos dar um
esquema da evolução dos parasitas do género Toxoplasma de acordo com
03 conhecimentos que a respeito possuímos actua ! mente.
Alcançamos aqui o termo do nosso trabalho, esperando que com a
orientação seguida se possa ter uma classificação mais homogénea dos
nemocitczoários. E’ claro que ela não pode ter um carácter definitivo,
devendo por isso ser alterada à medida que novos estudos sôbre tão impor-
tante grupo de parasitas venham esclarecer os numerosos pontos ainda
°kscuros a respeito das suas verdadeiras relações uns com os outros.
Rio, Setevibro de 1017.
CHAVE PARA CLASSIFICAÇÃO DOS HEMOSPORÍDIOS
Sub-ordem
nneirofvtoroa
DANILEWSKY
1SSÚ
Haemosporidida
LABBE 1894
Super-famílla Família
Género
Haemogregari-
noidea PO-
CHE 1913
Haemcgregari- f HaemoeTesrarina DANILEWSKY 1SS5
nidae NE- I Lankestereüa LABBE’ 1S94
VEU-LE- } Karyolysus LABBE’ 1894
MAIRE 1901 [ Hepatcioon MILLEB 1908
Leueoeytozoi- f
dae •{ Leneoeytozoon DANILEWSKY 1SS9
Aehromatleoi-
dea nov. sup.
fam.
Aehromatiei-
dae NEVEU-
LEMAIRE
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Babesia STARCOVICI 1893
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NieoIIia FRANÇA 1910
Smithia FRANÇA 1910
EUeipsisoma FRANÇA 1910
Rossiella NUTTALL 1912
Range Ua CARINI & MACIEL 1914
Tbeileridae
nor. fam.
BITTENCOURT.
Tbeileria FRANÇA &
BORGES 1909
Plarmodoidea
r.ov.sup. fam.
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Toxoplasraoi-
dea noT. sup.
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YAKIMOFF. STALXIKOFF 19;i
& KOUL-YAKIMOFF
Contribntion à 1’étnde sar A. Tesperagtnis.
Ajrch. f. Protistenk. Bd. 24.
SmiMARY
A great divergency exits among specialists with regard to the system
of Haemosporidia ; it seems, however, that with the knowledge actually
possessed about such parasites, it is possible to classify thera in a suffi-
ciently logic manner. It is, however, necessary, in the first place, to sepa-
r ate the Haemosporidia from the Haemoflagellata, since the close rela-
tions, established by SCHAUDINN in his work on alternate generations,
do not exist among such protozoa. Thus, the keeping of the Haemospo-
ridia together with the Haemoflagellata, does not appear reasonable, in
the Binucleata order, as proposed by HARTMANN. This order, however,
®ay be kept as regards the Flagellata possessors of nucleus and blepha-
roplastus (independently of the hypothesis of its being a second nucleus
of cellules), thus becoming constituted of 2 families: Trypanoplasmidae
with 9 genera as follows: Trypanophis, Bodo (= Prowazekia), Trypano-
plasma, Leptomonas, Leishmania, Herpetomonas, Chritidia, Trypanosoma
and Endotrypanum,
Reviewing the different classifications of the Haemosporidia, it is ve-
rified that in general they tend, by preference, to group their constitu-
tive elements, rather to the morphological characters of parasites, than
to the indications given by their evolutive cycle; thence arises the want
of homogeneity which is observed in the classifications of Haemosporidia.
The Author, basing himself not only on the morphological characters
of the different haematozoa, but particularly on the knowledge which is
Possessed respecting their evolutive cycle, proposes a new systhematical
grouping for the sub-order of the Hasmocytozoa, dividing it in 4 super-fa-
milies as follows: Haemogregarinoidea, POCHE, 1913, Achromaticoidea
nov. superfam., Plasmodoidea nov. superfam., Toxoplasmoidea, nov. su-
perfam..
The Haemogregarinoidea superfamily is divided into two families, that
is: Haemogregarinidae with the genera: Haemogregarina, Lankeste-
rella, Karyolysus, and Hepatozoon; and the Leucocytozoidae family with
the genus Leucocytozoon. The Achromaticoidea super-family includes 2
families: the Achromaticidae with the genera Achromaticus, Smithia,
Elleipsisoma, Rossiella and Rangelia; and Theileridae family tu f. with
the genus Theileria.
The Plasmodoidea super-family is subdivided into 2 families: Haemo-
proteidae with the genus Haemoproteus, and Plasmodidae with the ge-
nera Plasmodium and Haemocystidium and the sub-genus Laverania.
The Toxoplasmoidea super-family. which is considered by the Author
as an appendix, in the Haemosporidia system, includes one family only,
the Toxoplasmidae, and one only genus, the Toxoplasma. The Author is
of opinion that the Toxoplasma avium MARULLAZ, 1913, is not a real
toxoplasma but rather a Haemogregarinideus of the Hepatozoon type.
cm
SciELO
ESTAMPA XXX
50 *errruTo de butantan
‘OMO
1918
ESTAMPA XXXI
°° LNSTTTUTO de butantan
Tomo i -• i9is
MC. Dt * AT I f 6AAAMICAA - A. AAUkO
ESTAMPA XXXII!
.
cm
CONTRIBUIÇÃO à MICOLOGIA PARASITÁRIA do BRASIL
DUAS NOVAS ESPÉCIES DE FUNGOS PRODUTORES
DE MADURO MICOSE
PELO
Professor Pirajá da Silva
TRABALHO DO LABORATÓRIO DE HISTÓRIA NATURAL MÉDICA DA FACULDADE
DE MEDICINA DA BAIA
Venho trazer ao conhecimento dos que se interessam pelo estudo da
nossa nosologia e, particularmente, dos que não se limitam às observa-
ções clínicas, mas se dedicam também às questões de laboratório, pro-
curando desvendar as verdadeiras causas das doenças, estas ligeiras con-
tribuições aos problemas das maduromicoses ou, como as chama o Prof.
SEVERIANO DE MAGALHÃES, do Rio, -micetomas podais”.
O primeiro caso que estudei foi um doente da clínica do Prof. CAIO
MOURA, da Baía, em 1917. A seu pedido, fiz os exames de laboratório,
primeiramente, para firmar o diagnóstico da doença, depois, para deter-
minar qual a espécie do fungo responsável pelas lesões anatomo-patoló-
gicas do referido caso. Antes de relatar as observações, convêm declarar
que meu primeiro observado era portador de um micetoma podai de
grãos branco-amarelados. O segundo paciente, para o qual foi solicitada
a minha atenção, da clínica do Prof. BORJA, da Baía, era portador de
um micetoma podai de grãos negros.
O pé de Madura, denominação mais geralmente conhecida da doença
de que me vou ocupar, é, na opinião de BEURMANN e GOUGEROT.
uma síndrome:
“ Pied de Madura n’est qu’une expression anatomo-clinique, un syn-
drome relévant de parasites différents: à coté de3 pieds de Madura oos-
poriques, on connait des pieds de Madura dus à des aspergillus etc.”
Realmente, num relancear de olhes no rol das espécies de fungos res-
ponsáveis pela síndrome maduromicósica, conseguem-se apurar, mais ou
menos, as seguintes, incluídas em géneros diferentes:
Género Discomyces : madurae, semalcnsis, Freeri, brasiliensis (joelho),
Pelletieri (pé, joelho e tórax).
Género Madureüa : micetomi, Tozeuri, Bovoi, Osiccddoi.
Género Indiella : Mansoni e Reynieri.
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 18 19
— 188 —
Género Sterigmatocystis nidulcnis, var. Nicollei.
Género Aspergillus: Bouffardi.
Género Glenospora: kartumiiensis CHALMERS.
Género Scedosporium: apiospermum SACCARDO.
CASTELLANI distingue três tipos principais de Maduromicoses :
tipo ocroide, melanoide e vermelho. As variedades clínicas, quanto á
coloração dos grânulos, se encerram nesses très tipos.
“Às lesões de aparência actinomicósica, encerrando grânulos amare-
los, não dependem de um só e mesmo parasito.
E’ indispensável proseguir o estudo micológico de cada caso que se
observar, e assim talvez se cheguem a estabelecer algumas distinções clí-
nicas em relação com a natureza do cogumelo”.
Meditando sôbre esta sentença do Prof. ROGER, penso que todas as
observações clínicas de actinomicose, de maduromicose, ou de micoses
em geral, devem ser estudadas do ponto de vista parasitológico, pois
é bem possível que tais casos sejam produzidos por fungos novos, ainda
não estudados.
Já de algum tempo a esta parte vem sendo feito o estudo da maduro-
micose no Brasil.
Procurando dizer algo sôbre o que se tem feito na Baía, não deixarei,
entretanto, de me referir aos estudos brasileiros em geral.
Convêm desde já acentuar que êsses estudos são, em geral, quanto à
feição, mais clínicos, do que propriamente micológicos.
E’ de grande vantagem que a atenção dos observadores se volte para
a questão da sistemática das espécies de cogumelos causadores de madu-
romicose no Brasil.
O micetoma podai não é doença das mais comuns; porém, em certos
pontos do país, parece-me que ela se apresenta mais amiúde, não sendo
para desprezar o estudo das causas que para isso concorram.
O estudo da micologia dos vegetais das catingas, ou dos logares em
que são frequentes os casos de maduromicose, provávelmente haveria de
trazer luzes ao problema étio-patogênico da doença.
Os tratadistas que se ocupam da maduromicose são acordes em atri-
buir o início da doença a traumatismos causados por pequenos seixos, por
espinhos das acácias, das mimosas, etc..
Conviria estudar os fungos que se desenvolvem em algumas das nos-
sas plantas já sêcas e também nas verdes, e neste sentido lembraria: a
unha de gato, Acacia panicidata; a sensitiva, Mimosa pudica; os caluro-
bis, os espinhos das cactáceas, etc.. Em 79 espécies de Ospora ou Dis-
comyces coleccionadas por SACCARDO, 27 foram encontradas 18 vezes
em folhas ou frutos e 17 vezes sôbre a madeira morta.
Encarando os veículadores de outra natureza, merece lembrada a
Dermotophilus penctrans.
E’ bem possível que a dificuldade de se obter cultura proveniente de
grãos micetómicos venha da inobservância das regras aconselhadas
pela técnica micológica.
A semeadura dos grãos deve ser feita em diferentes meios de cultur3,
pois o mesmo meio nem sempre serve para qualquer espécie de cogu-
melo, indiferentemente.
Os cogumelos teem seu meio de cultura óptimo; o mesmo se observa
no que diz respeito à temperatura, etc.: é o que já deixavam entrever
as celebres experiências de RAULIN.
— 189 —
A semeadura dos grãos de micetoma deve ser feita, portanto, em
grande número de tubos e em meios diversos.
De alguma vantagem para o bom êxito da esperiência será o esma-
gamento do grão nos meios de cultura, como a batata, etc..
Por vezes, a demora do desenvolvimento das primeiras culturas pode
levar o observador a pensar que o cogumelo não se adaptou ao novo
meio, não existe no produto patológico, ou está morto.
As culturas iniciais do Discomyces por mim estudado desenvolve-
ram-se muito lentamente; e, só depois de muitas semanas, é que se
manifestaram.
Entretanto, as culturas que se seguiram à segunda .semeadura pros-
peraram com mais presteza.
E, com relação ao Discomyces madurae, facto análogo foi assinalado
Pelo Prof. GEDOELST:
- — "Les prémiêres cultures de ce champignon em milieux artificieis
se montrent médiocres, mais elles deviennent plus prospères à la suite
d’encemencements successifs”.
Julgo cabíveis essas considerações, para evitar que se desprezem logo
a s primeiras culturas.
Estudando o Discomyces produtor da doença no paciente da primeira
observação, verifiquei ser a batata inglesa o melhor meio de cultura;
não se desenvolvendo êle no meio de SABOURAUD, na gelose glicerinada,
nem glicosada, nem tampouco na gelose raspadurada.
COLLEEROOK, BOLLINGALL e CÁRTER foram os primeiros a
estudar o pé de Madura.
BARKELY determinou a natureza micósica dos grãos negros de
cárter. Em sua excelente monografia sôbre o parasito da maduro-
micose, publicada em Março de 1894, nos Anais do Instituto Pasteur
de Paris, escreveu M. H. VINCENT que a afecção já vinha sendo estu-
dada há uns vinte anos, quási que exclusivamente pelos médicos ingle-
8 es, aos quais se deve a descrição da doença.
A princípio julgou-se que a doença fòsse exclusivamente indiana, e
até peculiar a certos e determinados pontos dêsse país — Madura, Hei-
s ar, Bicanir, Delhi, Bombaim, Baraptur, circunscrevendo-se a sua dis-
tribuição geográfica a essas localidades.
Diz BABES que a doença foi descrita por KAEMPFER, em 1712, e
em seguida por HEYSE, COLLEBROOK, etc.. Mais tarde, COLLAS
r econheceu-a em Pondicheri, assinalando-a também em todo o Indostão.
Existe na África, em Argélia, onde foi estudada em 1892 por GEMY
e VINCENT, com o titulo de “afecção parasitária do pé, análoga,
senão idêntica, á doença chamada de Madura”.
Nos naturais do Senegal foi o pé de Madura observado por BEREN-
GER-FERAULT, BOURGAREL e BORIUS. No próprio hospital de
S- Luis muitos casos foram notados por DUVAL, CARPOT, DURAND.
Em Setembro de 1916, CHALMERS e ARCHIBALD descreveram
e m Cartum, no Sudão anglo-egípcio, um caso de maduromicose de grãos
Pretos. O fungo produtor da doença, depois de por êles cultivado e iso-
kdo, foi classificado como Gletwspora Uartumnensis.
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Em Julho de 1911, o Prof. J. BRAULT comunicou à Sociedade de Ci-
rurgia de Paris um caso, observado na Argélia, de micetoma de grãos
pretos. Conseguiu isolar a iladureUa mycetomi, identificada depois pelo
Dr. PINOY.
Em 1917, BLANC e BOUGUET publicaram no "Bulletin de la Société
de Pathologie Exotique”, um interessante estudo sôbre o micetoma na
Tunísia: “Un cas de Mycetome — la Nocardia Madurae — observé en
Tunisie”.
Em 8 de Maio de 1918, MONXIER apresentou à Sociedade de Pato-
logia Exótica de Paris uma observação de pé de Madura, feita em “Fort-
Dauphin”, Madagascar.
Em 1886, LIBOUROUX assinalou em Constantinopla um caso de de-
formação do pé, e diagnosticou de maduromicose. BABES, porém, consi-
derou duvidoso o diagnóstico, dizendo poder-se pensar em trofoneurose.
BASSINI, em 1888, viu um caso em Pádua.
KLEMPERER em 1876, assinalou casos de maduromicose nos Esta-
dos Unidos, e LAYÉT um caso em Valparaiso. O caso de LAYÉT pode-se
prestar a outra interpretação, por não ser bem característica a obser-
vação.
Em Campinas. S. Paulo, ha uma doença do pé, que ataca a população
pobre; '‘cupim” é o seu nome vulgar, e DAUNTRE pensa que se trata de
maduromicose, sem entretanto trazer a favor desta suposição uma prova
de valor.
DELBANCO afirmou a existência da maduromicose na América,
estribado nos exames de muitas preparações enviadas ao laboratório
de UNNA por ADAMI e HYDE.
A meu ver, os primeiros casos observados no Brasil foram os do velho
clínico inglês Dr. RICARDO DE GUMBLETON DAUNTRE, que viveu
longos anos em Campinas.
Descreve o Dr. DAUNTRE nas suas Med. Letters from Brazil, publica-
das em Dublin no ano de 1861, a tal doença chamada “ cupim ”, de mar-
cha lenta, e por êle identificada à maduromicose.
A êsse trabalho se refere o Dr. LINDEXBERGE em sua memória sô-
bre "Dermatomicoses brasileiras”, apresentada ao IV Congresso Mé-
dico Latino-Americano e o Dr. DURVAL OLYMPIO DE AZEVEDO,
em sua tese inaugural: — “Alguns estudos sobre o micetoma”, 1911.
Baía.
Em 1876, MAXOEL VICTORINO, se bem que não tivesse observado
a doença em nosso meio, fez na sua tese inaugural — "Moléstias parasi-
tárias nos climas intertropicais” — um estudo sobre o Chionyphe Car-
ten, reunindo as ideas até então dominantes sôbre a questão.
Xa Baía, o primeiro caso foi observado pelo Dr. PACHECO MEN-
DES, em 1894. O segundo, em 1901, ainda o foi pelo mesmo Professor-
Essas duas observações, sem estudo parasitológico, veem assinaladas na
tese inaugural do Dr. JOSAPHAT DA SILVEIRA BRANDÃO, Baís-
‘•Do Micetoma”. Duas fotografias acompanham essas observações.
JULIANO MOREIRA relatou um caso por êle observado na Baía, em
1902.
Em 1907, GOXÇALO MOXIZ estudou um caso na enfermaria de São
José do Hospital Santa Isabel. Essa minuciosa observação foi apresen-
tada pelo autor à Sociedade de Medicina da Baía em 1910. GOXÇALO
MOXIZ diagnosticou o caso de maduromicose de VLXCENT, a-pesar-d*
não ter conseguido cultivar e isolar o fungo.
— 191 —
Essa diagnose foi confirmada pelo notável dermatologista Dr. ADOL-
PHO LINDENBERG.
Assim se exprime o Dr. LINDENBERG, finalizando o seu exame his-
tológico sóbre esta observação :
‘‘Concluindo, parece-nos que os dados histológicos fornecidos pelo exa-
me da peça e sobretudo o último detalhe assinalado (a zona irradiada),
reunidos aos fornecidos pelo exame microscópico, feito em esfregaços das
granulações pelo ilustre Prof. Dr. GONÇALO MONIZ, autorizam a iden-
tificar o caso presente ao micetoma branco de VINCENT, produzido pelo
Discomyces Madurae, visto ser esta a única variedade em que até agora
se encontrou essa disposição irradiada na periferia das granulações. E’
muito possível, porém, que ela exista também em outras variedades ainda
não estudadas.
Para completar esta classificação seriam, naturalmente, necessárias
culturas e inoculações em animais.
Na ausência dessas, não mais nos resta senão confirmar o diagnóstico
de pé de Madura, e de VINCENT. Pelo menos estamos para isto mais
autorizados do que o Snr. BRUMPT na sua clássica monografia d’en-
semble, assimilando o caso descrito por SOMMER em Buenos-Aires à
mesma variedade”.
Vê-se, pelo exposto, que o dito caso de pé de Madura foi produzido
provávelmente pelo Streptothrix de VINCENT, o que, entretanto, não se
pode afirmar categoricamente por não ter sido o mesmo cultivado e iso-
lado. Fez-se apenas o exame microscópico.
Em 1914 o Dr. JOÃO PONDÉ observou, num seu cliente morador na
Vila de Campos, Rio Real, Sergipe, a maduromicose de grãos amarelos.
0 doente sofria há muitos anos e até então só havia feito uso do iodeto
de potássio.
Em 1916, o Dr. GENESIO SALLES descreveu um caso clínico de mice-
toma de grãos vermelhos, e o apresentou à Sociedade Médica dos Hospi-
tais da Baía. Essa observação serviu de assunto à tese inaugural do Dr.
ALPHEU TOURINHO, em 1917 (Baía) “Sóbre um caso de Micetoma
de grãos vermelhos”. Infelizmente nada ficou apurado consoante à parte
Parasitológica, porquanto o fungo não foi isolado, nem estudado.
Em 1916, diagnostiquei um caso de maduromicose de grãos amarelos
em material que me apresentou o Dr. AFRANIO AMARAL. O exame
tornou-se bem patente depois que as preparações dos grãos foram sub
metidas ao ultra-microscópio.
Os últimos casos de maduromicose aparecidos na Baía são os que ser-
vem de tema às presentes observações.
O excelente estudo do Dr. LINDENBERG — “Un nouveau Myceto-
me” — não trata de um caso de pé de Madura, pois a localização da
doença se fez na perna, deixando indemne o pé.
O eminente parasitologista brasileiro. Prof. SEVERIANO DE MAGA-
LHÃES, publicou em 1916 nos Anais da Policlínica Geral do Rio de
Janeiro, uma observação magistral, sóbre “Um caso de Micetoma podai
de grânulos branco-amarelados”.
Em 1916, o Dr. DEMOCRITO LINHARES observou dois casos de
maduromicose no Rio de Janeiro e em 1917, o Dr. HERACLES DE
SOUZA ARAÚJO publicou um outro caso.
O Dr. LORDI publicou em 1918 no Boletim da Sociedade de Médi-
cina e Cirurgia de São Paulo um caso de pé de Madura. Diz o Dr. LOR-
Dl que “histológicamente este caso poderia ser classificado como de
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actinomicose do pé provocando os mesmos sintomas do micetoma do
Oriente.
No que diz respeito aos traços deferenciais, conseguidos principal
mente pela cultura, silenciamos porque não nos foi dado obtê-los”.
Recentemente, tive conhecimento, pela leitura do parecer do Dr. EMÍ-
LIO GOMES, apresentado à Academia Nacional de Medicina em Junho
de 1918, do isolamento e classificação de uma nova madurela — Madu~
relia Osicaldoi — pelo notável micologista Dr. PARREIRAS HORTA.
O material que serviu para êste estudo foi retirado e trazido do Acre
pelo sábio OSWALDO CRUZ, de um doente de maduromicose de grãos
pretos.
O pé de Madura, diz CASTELLANI, foi confundido por muito tempo
com afecções tuberculares e com a elefantíase do pé; êste êrro não é
mais possível com os modernos métodos de pesquisas microscópicas, os
quais também permitem distinguir esta doença das afecções framboési
cas dos pés.
NOEL MARTIN e A. LAURENT citam uma observação feita num
indígena de Oued-Atménia — Constantina, que apresentava um tumor
elefantíaco do pé, com o aspecto de um pé de Madura. A perna foi ampu-
tada e a crença dos observadores era que se tratava de um pé de Madura.
Teem-se observado casos de doenças outras que simulam o pé de Ma-
dura ou pé de Cochim.
Em 1818, percorrendo o naturalista bavaro MARTIUS, o distrito dia-
mantífero, em Minas Gerais, observou uma doença bastante frequente
nos negros que se ocupavam na mineração.
Eis a descripção por êle feita em sua monumental obra -Reise in Bra-
silien”.
“O grande número de negros que habita o distrito, infelizmente, apre-
senta, e de modo muito freqüente, o triste quadro da elefantíase, de que
muitos são atacados”. Não quero nem devo discutir se os casos observa-
dos por MARTIUS eram de natureza filariósica, micósica ou outra; a
isto não me atrevo, alêm do mais, por ser discussão inútil aqui.
E, se me refiro a essas notas que abaixo transcrevo é com o só intuito
de reviver a questão para ser melhor estudada.
Aos colegas residentes naquelas paragens: Lavras da Bandeirinh3,
Itambé, Curralinho, Linguiça, Serviço de Mata-Mata, no Ribeirão do
Inferno, etc., segundo a enumeração de MARTIUS, cabe observar e veri-
ficar se ainda por lá existem, na população actual, casos da referida
doença, afim de lhe precisar a natureza.
Eis a observação a que nos vimos de referir:
“A elefantíase consiste numa enorme inchação dos pés, joe-
lhos para baixo, até aos dedos, correndo paralelamente com o
endurecimento e espessamento do epitélio e com a diminuição
da sensibilidade.
A locomoção é únicamente embaraçada por causa do volu-
me do membro. ’As vezes, apresenta-se o pé de quási igual es-
pessura em toda a sua extensão, e observámos que o diâmetro
é de 8-10 polegadas e que os dedos se perdem quási completa-
— 193 —
mente na massa enormemente aumentada. Muitas vezes se
encontrava um só pé afectado em tão alto gráo. A doença se
apresentava mais em homens do que em mulheres, estando
assim de algum modo em oposição com a papeira, doença endé-
mica em S. Paulo, que aí é mais freqüente nas mulheres. Em
homens brancos nunca observámos esta doença. Parece-nos que
nestes (nos brancos) semelhantes colecções e hiperplasias se
dão mais na esfera dos orgãos grandulares do que no sistema
cutâneo.
A doença de que nos vínhamos ocupando (elefantíase)
quanto à sua marcha, morosa e indolente, e à pouca parte que
nela toma o resto do organismo, parece ter muita semelhança
com formas numerosas da lepra, e no Brasil é em geral consi-
derada com uma espécie dela. Dizem, porém, que ela é muito
menos contagiosa do que a lepra. Não nos atrevemos a conside-
rar se ela provêm de uma discrasia leprosa ou sifilítica. Mas,
de certo, parece que a sua patogenia consiste, principalmente,
numa inflamação dos vasos linfáticos das extremidades e numa
consequente obturação dos mesmos por uma linfa mais espessa,
num derramamento no tecido celular, e na inflamação daí pro-
veniente de todos os tecidos epidérmicos. Embora a doença já
esteja bem desenvolvida, contudo nem sempre existe a febre.
Mas, uma expressão de fraqueza e de prostração, falta de ape-
tite, inflamação ou corrimento dos olhos indicam a doença, que
pode durar muitos anos, até passar a um estado tísico ou hi-
drópico.
A epiderme é tensa, dura, insensível, ora sem excrescência
alguma, ora coberta de verrugas, calosidades, fendas, herpes,
escamas, pústulas e crostas. A côr da epiderme raras vezes se
acha modificada, ou então passa do preto para o preto acin-
zentado. Não sabemos se esta doença está em especial relação
com o sistema sexual, contudo nunca a observámos antes da
puberdade, porém, as mais das vezes, entre 36-50 anos de
idade.
A existência da elafantíase nos planaltos de Minas, onde a
encontrámos muito mais freqíientemente do que em outros
logares, parece confirmar a observação já feita por vários
médicos de que a doença domina regiões abertas e sem flores-
tas. E’ sabido que ela é frequente em várias ilhas das Anti-
lhas, como em Barbados e Antígua (*).
Pesa-nos dizer que encontrámos muitos doentes no mais
completo abandono, porque os infelizes foram alforriados por
seus senhores para não contaminarem outros escravos.
No Brasil recomendam como remédio mais eficaz o antimó-
nio e o arsénio, e êste método parece concordar com o do Snr.
MATTOS que prescreve, com muito sucesso, pílulas de pimenta
e goma arábica com um grão de arsénio, durante 5 dias. jun-
tamente com uma infusão de raizes. Cf. ALARD, “De 1’inflam-
(*) “A inchação leucoflegmástica dos pês, a partir dos joelhos para baixo, que
é frequente em muitos logares da índia oriental como, por exemplo, em Cochim
(chamando-se ai os pês inchados "Pês de Cochim"), parece ter uma patogenia
diferente. Incrimina-se sobretudo o uso das Ãguas e a alimentação de peixes. Cf.
ALARD, segunda viagem na Pérsia, de MORIER".
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mation des vaisseaux lymphatiques dermoídes, maladie dési-
gnée par les auteurs sous le nom dÉléphantiasis, etc. Par.
1824”.
OBSERVAÇÃO DE UM CASO DE MADUROMICOSE DE GRÂNULOS
BRANCO - AMARELADOS
Pratiquei alguns exames de laboratório para firmar o diagnóstico «
determinar qual a espécie do fungo responsável pela lesões de um caso
de maduromicose de que era portador um doente da clínica nosocomial
cirúrgica do Prof. ÇAIO MOURA, da Faculdade de Médicina da Baía.
Eis a observação do que precedeu ás pesquisas micológicas:
J. T. C., 52 anos, branco, natural de Sergipe, fazenda Jacurici, *
margem do Rio Real, no município de Campos, casado, lavrador e
criador.
Deu entrada na enfermaria S. José. a 31 de Maio de 1917.
O estado geral era bom.
O paciente apresentava o pé esquerdo bastante hipertrofiado, com
muitas fístulas, pelas quais se eliminava pus, às vezes sanguinolento,
contendo grânulos branco-amarelados.
Alguns pontos, sedes de antigas fístulas, achavam -se cicatrizados',
outros despigmentados.
Notavam-se muitos botões de cór vinhosa. Na planta do pé, na região
correspondente à raiz dos dedos, e um pouco mais abaixo, observava-se
uma pequena saliência bastante intumescida, parecendo um abcesso,
prestes a se abrir (Estampa XXXIV; figs. 1 e 2).
Informando-me de como ,se iniciara a doença, referiu-me o paciente
que desde 1900. notara um pequeno tumor, a princípio julgado um lombi-
nho (*), do tamanho de um caroço de cajá. situado no pé esquerdo, entre
o quarto e o quinto dedos, quatro a cinco centímetros acima da raiz dos
mesmos.
A pele que o revestia apresentava a cór normal.
Algum tempo depois, apareceram mais dous povos tumores semelhan-
tes ao primeiro.
O pé começou a aumentar de volume e outros tumores apareceram:
êstes abriam-se e transformavam-se em crateras que eliminavam um
líquido viscoso encerrando grânulos branco-amarelados.
Referiu-me o paciente que em tempo sofrera uma espetadela no dorso
do pé, não se recordando, precisamente, do ponto lesado.
O tumor desenvolveu-se lentamente até chegar a dificultar o uso do
calçado.
Antes da doença, não usava constantemente do calçado, e só o fez
depois do seu aparecimento para proteger o pé lesado. Mais tarde foi
obrigado a andar descalço novamente, em consequência do exagerado
volume a que atingiu o pé (Estampa XXXIV; fig. 3).
Acrescenta o doente que, quando são, se ocupava em percorrer as
catingas, à procura de gado.
E’ por demais conhecida a natureza da flora das nossas catingas, ricas
de vegetais espinhentos, cactáceas e de plantas outras rupestres.
(*) I.ombinho (nome popular do cisto sebáceo).
— 195 —
Inümeros foram os traumatismos que sofrera nos pés.
Amador de caçadas, especialmente das de veado campeiro, interna-
va-se pelas catingas; e, p ara não espantar o animal, com o estalido das
folhas sêcas e dos gravetos, costumava ir sempre descalço.
Descrevendo a marcha da doença, eis o que de mais importante refe-
nu o doente: em derredor do primitivo tumor, apareceram muitos ou-
tros pequenos, a princípio três, depois mais cinco e, finalmente, outros
Muitos, que abcedavam, e deixavam fluir um pus contendo sempre gr.V
nulos branco-amarelados.
As fístulas continuavam sempre eliminando pus, não em abundância.
Porém, encerrando sempre os referidos grânulos, ora maiores, ora meno-
res, semelhantes a lêndeas, no dizer do doente.
Na planta do pé. em ponto diametralmente oposto ao primitivo tumor.
*urgiram muitos outros, pequenos, que também supuraram expelindo
ST&nulos.
O mesmo se deu em quási toda a extensão do pé, que foi invadida,
ficando apenas isentos o calcanhar e o têrço posterior da planta (Estam-
pa XXXIV; fig. 4).
Das fístulas, umas sararam, completa e definitivamente: outras reno-
varam-se, depois de aparentemente curadas.
Uma só vez, disse o doente, sentira dores profundas no pé; isso mesmo
há dez anos passados.
Hipertrofia sempre houve, desde o começo; de febre, jamais se res-
sentira.
A atrofia dos másculos da perna esquerda começou a se acentuar, há
dez anos.
Essa atrofia, actualmente bem patente, estende-se até a coxa corres-
pondente.
No pé doente contei cérca de 55 fístulas. Referiu o doente que havia
•"Jdorese abundante no pé e perna correspondentes.
Em 11 de Outubro de 1917 o paciente sofreu a amputação da perna,
no têrço inferior. Por êle soube que na cidade de Campos. Sergipe, mo-
rava um senhor, acometido de doença semelhante ã sua. Ha quatro anos
viera à Baía, consultar-se com o Dr. JOÃO PONDÉ. Em conversa com
colega, tive não só a confirmação do informe, como ainda de que
®e tratava de um caso de pé Madura clínicamente diagnosticado.
O doente usou diversos medicamentos: iodeto de potássio per os:
iodeto de sódio em injecções endoflébicas. O título da solução foi a
fO %. As injecções foram feitas, no comêço. em doses de 0,5 e de 1,0,
alternadamente, chegando-se a fazer duas injecções de 6.0 cada uma.
Não se observou o menor efeito favorável.
Exame radiológico. Vê-se, pela radiografia, que o terceiro e o quarto
metatarsianos denotam diminuição de espessura, estão bastante rarefei
tos. mesmo comparados ao quinto metatarsiano.
As articulações dos terceiro, quarto e quinto metatarsianos com as
falanges respectivas não se mostram normais.
Na extremidade do quinto metatarsiano, próximo á articulação meta-
tarso-falangiana correspondente, parece haver perda de substância
óssea; igualmente se verifica não estarem normais a falange, a falangi-
Pha e a falangeta do quarto dedo do pé (Estampa XXXV; fig. 1).
Exame dos grânulos. Os grânulos são branco-amarelados e de tama
nho variável.
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Os esfregaços feitos com o material dos grânulos tomaram o Gram.
Notei um intrincado de filamentos, muito delgados, verdadeiramente
ramificados, não septados, e, no micélio, muitas granulações pequenís-
simas, ora esféricas, ora em forma de bastonetes.
Não consegui ver clavas, nem órgãos de frutificação.
• •
Discomyces bahiensis. sp. n. Afim de obter culturas puras do para-
sito, prccurei retirar os grânulos das crateras por onde se elimi-
navam. Êsses grânulos, de ccr amarelada, foram lavados em agua desti-
lada e fervida, sendo depois transportados para os diversos meios de
cultura, onde uns eram esmagados, e outros conservados inteiros.
Os meios de cultura foram: as geloses de SABOURAUD, glicerinala,
maltosada e raspadurada, a batata inglesa, a batata doce, a bananá dá
terra, o inhame, a infusão de palha e a água de batata, etc..
No fim de alguns dias começou a se desenvolver, em roda do grão
semeado na batata inglesa, um cogumelo que pelos seus caracteres cul-
turais muito se assemelhava ao Discomyces Madurae de VINCENT.
Muitos tubos de cultura foram abandonados, por se acharem poluídos
por cogumelos outros, que invadiram logo todo o meio; isso, porém, não
se deu com outros tubos — batata inglesa — , nos quais pude observar
o desenvolvimento em torno dos grão3 e do3 fragmentos dos mesmos
grãos esmagados.
Amputada a perna, pude servir-me da peça e dela procurei retirar o
material, em melhores condições, para novas pesquisas.
Auxiliado pelo Prof. MARIO ANDRÉA, abri diversos focos e com
todos os cuidados de assepsia retirei os grânulos, que foram semeados
em muitos tubos de gelose SABOURAUD e na batata inglesa.
Na gelose de SABOURAUD o cogumelo não se desenvolveu; porém na
batata inglesa, se bem que mui lentamente, o fungo desenvolveu-se, e as
culturas apresentaram o mesmo aspecto já observado nas primeiras cul-
turas obtidas.
Batata inglesa. Os grânulos retirados e rigorosamente tratados, segundo
ordena a técnica micológica, foram colocados sôbre a batata inglesa onde
observei que se desenvolveram muito lentamente: três mêses, mais ou
menos, foram necessários para que as culturas se manifestassem pujantes.
As culturas, obtidas depois pela repicagem, desenvolveram-se mais
rápidamente; algumas conservavam sempre a côr esbranquiçada, como
se cobertas de polvilho.
E’ provável, como acertadamente disse BODIN, que sendo variada «
composição do meio, os cogumelos não apresentem caracteres absoluta-
mente constantes. Assim refere o mesmo autor, quando trata do Disco-
myces asteroides, cultivado na batata: “Colonies verruqueuses, rapide-
ment confluentes, grisâtre3 ou ocre-jaunes, suivant la composition de la
pomme de terre”.
As colónias do Discomyces que isolei e estudei, no comêço apresen-
tam-se ligeiramente róseas, tornando-se rubras depois (Estampa XXXVI;
fig. 1).
Essa coloração rubra conserva-se, ficando mais escura, à proporção
que a cultura envelhece.
— 197 —
Nas culturas muito antigas a côr escura é bem acentuada (Estampa
XXXVI; fig. 2).
O aspecto típico, das culturas na batata inglesa, é amoriforme.
Cultivando o Discomyccs Madurae neste mesmo meio, veja-se o que
observaram BLANC e BOUQUET — “La pomme de terre — Nôtre No-
cardia y donne en moins d’une semaine de colonies cérébriformes, dont
Ia majorité se colorent rapidement en rose et qui, en vieillissant, pren-
oent un aspect blanc, efflorescent, puis desséché”.
Do que tenho observado, concluo ser a batata o meio óptimo para êsse
cogumelo. Na água dos tubos com batata, o Discomyces bahiensis se
desenvolve em forma de grânulos brancos, muitas vezes colados às pare-
des do tubo, ou no fundo.
Batata doce. O resultado aí não foi vantajoso.
Nas geloses maltosada, glicerinada e respadurada, até agora não obtive
resultado.
Meio de Sabouraud. Até hoje não consegui cultivar, nesse meio, o
novo parasito, sendo de notar que nele se. desenvolve o Discomyces
Madurae, dando culturas bránco-acinzentadas.
Banana da terra. O cogumelo não se desenvolveu nesse meio.
Inhame. O cogumelo desenvolveu-se muito lentamente; depois de 40
dias de trasplantado, observei que as culturas eram de coloração róseo-
csbranquiçada, umas, e rósea mais intensa, outras.
Cenoura. As culturas a princípio se apresentavam esbranquiçadas,
húmidas, tornando-se depois ligeiramente róseas. O meio conserva a
mesma côr.
Infusão de palha. Desenvolvem-se grânulos brancos, aderentes às
Paredes dos tubos e depositados no fundo.
Água de batata inglesa. No fim de alguns dias notam-se flocos esbran-
quiçados. Em preparações coradas feitas com o líquido dessas culturas o
Parasito apresenta-se com aspecto baciliforme.
As preparações feitas com o cogumelo das culturas revelaram filamen-
tos muito delgados e ramificados (Estampa XXXV; fig. 2).
A espessura desses filamentos micelianos variava de 1^,4 limite supe-
rior, sendo, porém, mais freqàentes os de 1^ e 1 /j,2.
Corado pelo Ziehl, pelo Gram e pelo violeta de genciana não parece
haver septação no micélio; entretanto, no interior observa-se o proto-
Plasmo retraído ou fragmentado em granulações finíssimas, que se
coram intensamente.
Entre estas granulações, em forma de cócos ou baciliformes, existem
Pequenos espaços vazios de extensão variável.
Nos filamentos vazios distingue-se claramente a membrana externa
menos corada.
Nas mesmas preparações havia pequenos corpos redondos, isolados, e
hastonetes, os quais podem ser considerados, estes, como artículos, fra-
gmentos do micélio; aqueles, como endósporos, que se libertam. Os
hastonetes podem ser também considerados como estado inicial de desen-
volvimento dos esporos livres.
Estudando o Discomyces que conseguí isolar, comparativamente ao
Discomyces Madurae, cheguei a concluir que a sua evolução demorada.
— 198 —
o aspecto da sua cultura na batata inglesa, e o não desenvolvimento no
meio de SABOURAUD, entre outros factos observados, podem bastar para
caracterizá-lo como uma nova espécie. E assim o apresento, propondo
de logo a denominação de Discomyces bahiensis, já empregada no curso
da descrição que acabo de fazer.
MADUROMICOSE DE GRÂNULOS PRETOS
Observação do Prof. BORJA
-Em 18 de Fevereiro de 1918, deu entrada ao Hospital Santa Izabel
P. G. S., com 23 anos, pardo, casado, lavrador, residente em Sta. Luzia,
no Estado da Baía.
Interrogado sôbre os motivos por que veio ter ao Hospital, informou
que há cêrca de dez anos lhe surgiram umas rachaduras no sulco dígito*
plantar do pé direito e, após, um pequeno nódulo na extremidade plan-
tar do quarto dedo do aludido pé, nódulo incolor, apresentando as dimen-
sões um pouco maiores que as de um grão de milho ; foi seguido de outros
que se gruparam derredor daquele, orientando-se da face externa do
referido dedo para o dorso do pé.
O nódulo primitivo se não ulcerou ; não sucedendo o mesmo com o 3
seus satélites que, sob a influência de medicacãt tópica (cataplasmas cte
farinha de mandioca, sucos vegetais, etc.) se abriram em crateras, P° r
onde surdiu sorosidade esbranquiçada, viscosa, de mistura com umas
granulações pretas, semelhantes a pólvora de caça.
Dores vagas ao princípio sentia o doente nos pontos em que existiam
os tubérculos irradiados por todo o pé; depois, de tempos em tempos,
surgiam sintomas dolorosos que muito lhe faziam sofrer. Essas dor* 3
periódicas coincidiam com fenómenos inflamatórios da região afectada-
Ainda como informe, disse-nos o doente que como trabalhador do
campo e andando com os pés descalços, muitas vezes fôra ferido pelo 3
acúleos de diversas plantas da flora sertaneja, como a sensitiva, o jua-
zeiro, jurema e outras, não podendo, porém, afirmar se a êsses trauma-
tismos se seguiu o aparecimento das lesões, na íntima relação de causa
e efeito.
P. G. S. que é um pardo, dotado de boa constituição, não tendo sofrido
de moléstias venéreas, exibe o quarto dedo do pé direito sensivelmente
deformado e aumentado de volume.
Em toda extensão dêsse dedo e nas suas diversas faces observam-® 0
pequenos nódulos de dimensões variáveis, os maiores não excedendo a<?
tamanho de um grão de milho, todos, porém, mais ou menos pigmenta-
dos de pequenas granulações pretas, como se fossem pólvora encistad*-
Na face dorsal do terceiro dedo, ao nível da parte média da falaníte.
percebe-se apenas um pequeno tubérculo.
Na região dorsal do pé direito, em continuação ao quarto dedo, obser-
va-se um entumescimento em cuja superfície estão situados cinco nódu
los ulcerados (Estampa XXXV; fig. 3).
Nessa região a pele apresenta-se com uma pigmentação mais acen
tuada; nas partes vizinhas ao processo mórbido, ela se conserva normal-
A intumescência acima descrita deslisa sôbre os planos profundo®,
parecendo não ter aderência com os músculos, as aponeuroses e os ten-
dões subjacentes.
— 199 —
Os diâmetros do pé, bem como os da perna, a não ser nos pontos em
Que existe a tumefacção, são iguais aos do membro são.
As unhas não apresentam alteração alguma especial.
O sistema linfático parece não estar comprometido; não se percebe
adenopatia.
íntegros eram os movimentos das diversas articulações do pé, e no
que toca ao sistema ósseo, não nos pareceu que houvesse qualquer alte-
ração.
Com o intúito de colher as granulações pretas que se percebiam in-
crustadas no tecido patológico, permitia o paciente que fizéssemos a
expressão dos tubérculos, depois de destruir, com a ponta do bisturi, del-
tfada membrana, que às vezes forrava as crateras, sem que acusasse
sofrimento.
Os tecidos assim tratados quási não angravam; apenas uma sorosi-
dade de leve corada pelo sangue aparecia, trazendo em suspensão as
referidas granulações de côr preta.
Estas eram de consistência dura e, quando esmagadas na lâminas das
Preparações, se reduziam a delgadas películas.
Não pudemos submeter o nosso doente às provas radiográficas e radio-
íágicas.
Com os dados colhidos e expostos em largos traços, não nos foi difícil
íirmar o diagnóstico clínico de micose podai enquanto esperávamos a
confirmação do laboratório.
Ao Prof. PIRAJÁ DA SILVA confiámos a pesquisa do cogumelo.
Depois de longos e pacientes estudos, conseguiu o Prof. PIRAJÁ DA
SILVA isolar e classificar o parasito como uma espécie nova.
Pudemjs no decurso da intervenção observar macroscópicamente as
lesões produzidas pelo cogumelo.
Sómente a pele e o tecido celular subcutâneo apresentavam alterações.
A pele estava espessada, dura, apresentando pequenas lojas cheias de
um tecido mucilaginoso, de coloração amarelada, sulcada de numerosas
estrias negras, emaranhadas, como se fossem mechas de cabelo finíssimo.
Em alguns pontoe notavam-se pequenos cistos contendo granulações
negras; em outros, nódulos amarelados.
O tecido celular subcutâneo, duro e espesso, apresentava as mesmas
ulterações.
TRATAMENTO. O doente foi submetido ao tratamento por meio de
Preparações iodadas, empregadas interna e externamente, sem resultado,
fizemos em torno do fóco injecções de iodargol, em pura perda.
Por fim resolvemos intervir cirúrgicamente com intuitos conser-
vadores.
As lesões não eram tão adiantadas a ponto de contraindicarem uma
intervenção económica; fizemo-la. Praticámos a desarticulação do dedo
& fectado, a ablação dos tecidos contaminados e tratámos as superfícies
sangrentas com o termocautério em demorado contacto.
Fizemos correr, em abundância, tintura de iodo sôbre a ferida, reti-
f ando em seguida com álcool o excesso de iodo.
Procurámos por meio de alguns pontos de sutura aproximar os teci-
dos e colocámos um penso húmido iodado que se renovava todos os dias.
A cicatrização fez-se por segunda intenção. O paciente teve alta curado.
Será definitiva a sua cura? O tempo encarregar-se-á de responder”.
ESTUDO HISTO-PATHOLÔGICO DOS DOIS CASOS DE
MADUROMICOSE
Maduromicose de grânulos pretos
-Em derredor do parasito, se estabelece uma verdadeira zona de
separação constituída de uma porção de tecido de delgada fibrilaçá 0
colágena suportando um parênquima entretecido de polimorfonucleares,
linfócitos e elementos fibroplásticos.
Depara-se-nos, a seguir, outro tecido de granulação composto de ele-
mentos epitelioides em vasta cópia e células gigantes em menor número,
testificando a natureza da lesão.
Por entre êstes elementos, os vasos antigos e de formação recente são
contornados por linfócitos em massas compactas.
As células epitelioides, muita vez, dispõem-se em mosaico e infiltram-
se de granulações pigmentares, a ponto de, em algumas células, abran-
gerem a área do citoplasma, deslocarem o núcleo, emprestando-lhes, des-
ta arte, a feição de células pigmentares.
Com respeito à natureza do pigmento, a suposição é que seja do prd"
prio cogumelo, fagocitado pelas células epitelioides. Estes elementos,
nados do endotélio dos vasos sanguineos e linfáticos, sofrem a miude
modificações nutritivas em seu citoplasma, as mais das vezes muito V T<y
nunciadas.
O estroma da lesão é formado de tecido colágeno disposto em faixa 3 ’
hiperplasiado, com degeneração hialina em muitos pontos, abrigand 0
por entre suas traves verdadeiros cordões de linfócitos.
Os vasos e os nervos são atingidos freqüentemente pela degeneração
hialina.
As fibrilas elásticas, em alguns logares, conservam-se íntegras; ao apr 0-
ximar-nos, porém, do fóco do parasito, encontramo-las desagregadas (E 3 *
tampa XXXVII; figs. 1 e 2).
Maduromicose de grânulos amarelos
A reacçào nesse caso enquadrasse no tipo das inflamações nodulareâ.
sem células gigantes, sem afluxo de células epitelioides.
Encontram-se estas últimas em reduzido número, dispostas discreta-
mente ao pé de alguns capilares. Circundam o parasito vasta camad3 d®
linfócitos e alguma forma recente de elementos fibroplásticos. Os vaso - 4
e nervos sofrem em muitos pontos freqúentes invasões dos elemento 3
inflamatórios.
O tecido colágeno apresenta, em alguns distritos, hiperplasia de « uaJ
fibras.
— 201 —
Estudando-se comparativamente as duas doenças, vê-se que no caso
da dos grânulos amarelos a inflamação não é tão intensa como na de grâ-
nulos pretos. Ausência de células gigantes.
Não ha pigmentos visíveis ao microscópio. O tecido colágeno não é tão
atacado como na de grânulos pretos” (Estampa XXXVII; fig. 3).
Ao Professor LEONCIO PINTO devo a gentileza dêste estudo histo-
-patológico das lesões produzidas pela MadureUa Rainiroi n. sp. e pelo
Discomyces bahiensis n. sp.
MadureUa Ramiroi sp. n.
Dei essa denominação à MadureUa que estudei no caso de Maduromi-
cose de grãos negros, em homenagem â memória do Cons. RAMIRO
AFFONSO MONTEIRO, notável professor de Clinica Médica da Facul
dade de Medicina da Baía.
Meios em que cultivei a MadureUa Ramiroi
Banana da terra. O desenvolvimento das culturas nesse meio foi
insignificante. No líquido de dois tubos notei grandes flocos brancos, no
centro de cada um dos quais havia um ponto negro, visível a olhos
desarmados.
O líquido era ligeiramente escuro.
Inhame. As culturas desenvolveram-se regularmente; entretanto não
apresentaram a mesma pujança que na batata inglesa, de que adiante
tratarei.
As culturas, de côr pardo-escura no centro e cinzenta nos bordos pòli-
cíclicos, são de aspecto liquenoide.
Na água dos tubos havia muitos flocos brancos, de diversos tamanhos,
com os mesmos pontos já assinalados, no centro dos flocos. Muitos dês-
ícs flocos aderiram á parede dos tubos, na parte inferior que contêm
água.
Batata doce. O cogumelo desenvolve-se melhor nesse meio do que na
banana da terra; porém, não se mostra ainda tão viçoso como na batata
•nglesa.
O meio de cultura enegrece à proporção que a cultura envelhece. Há
no líquido os mesmos flocos brancos, tendo pontos negros no centro,
como já disse.
Cenoura. Desenvolvem-se as culturas regularmente, nesse meio,
enegrecendo-o. São elas de coloração pardo-acinzentada, tendo a superfície
irregular, verrucosa.
Batata inglesa. Dos meios de cultura em que se desenvolve o fungo, é
^te um dos melhores.
O aspecto da cultura é irregular, côr de ocra, e o meio escurece cada
v ez mais, à proporção que a cultura envelhece. O mesmo se observa no
líquido do tubo (Estampa XXXVI; fig. 3). No fim de algum tempo o
líquido e a batata ficam negros como o nanquim.
Convêm notar que essa coloração é devida ao fungo que aí se desen-
v °lve no líquido, comunicando-lhe essa côr, devida a um pigmento negro.
Na água de batata, o desenvolvimento também é abundante, formando-
— 202
se tufos que crescem e, no fim de certo tempo, se cobrem de pequenas
granulações negras (Estampa XXXVI; fig. 4).
Infusão de palha. As culturas do cogumelo nesse meio se desenvolvem,
formando tufos brancos, aderentes às paredes do tubo ou depositados no
fundo. Depois de muito tempo transformam-se em grãos negros, 03 quais
eliminados pelas crateras do pé de Madura de grão 3 pretos, como no
caso que é assunto desta observação (Estampa XXXVI; fig. 5).
Gelose glicosada de Sabouraud. O desenvolvimento é relativamente
rápido; as culturas são escuras e de aspecto cerebriforme. O meio
enegrece nos pontos em que se acham implantadas as culturas (Estampa
XXXVI; figs. 6 e 7).
Na gelose maltosada, a Madurella Ramiroi também se desenvolve com
facilidade, tomando 0 aspecto cerebriforme (Estampa XXXVI; fig. 8).
O cogumelo, estudado nas culturas em gota pendente, é estéril; os fila-
mentos são septados; uns delgados e regulares e outros mais espessos,
formados de artículos moniliformes e irregulares, tendo no máximo 2/*,71
de largura.
Os filamentos mais delgados são constituídos por artículos cilíndricos
e originam-se muita vez dos clamidósporos, intercalares ou terminais e
dos filamentos de artículos moniliformes (Estampa XXXVIII; fig. 1).
Encontram-se muitas e grandes células esféricas, destacadas, princi-
palmente nos esclerotos, medindo no máximo 22/i,14 (Estampa
XXXVIII; fig. 2).
Provávelmente são grandes clamidósporos idênticos aos que se encon-
tram no centro dos cortes dos grãos negros, no caso da maduromicose
de que me ocupo.
Os clamidósporos e as oídias que ainda não se dissociaram, podem emi-
tir brotos que se transformam em filamentos mui delgados comparativa-
mente aos mais antigos.
Notei impregnação do protoplasma do micélio por uma substância
corante amarelo-pardacenta (tirosinase?). Também se encontram incluí-
das no protoplasma numerosas gotígulas de uma substância oleosa, corá-
vel pelo Sudan III (Estampa XXXVIII; fig. 3).
Jamais consegui culturas cm três a quatro dias, nas primeiras sem es-
duras : e, nem em vinte e quatro horas, nas repicagens, como disse
BRAULT ter obtido com a Madurella mycetomi.
As minhas culturas foram feitas na temperatura ambiente.
PINOY, quando estudou a Madurella mycetomi, diz ter observado, nas
culturas em gota pendente, formação de clamidósporos, na extremidade
de filamentos mais ou menos compridos, comparáveis aos clous faviqu* *.
O mesmo autor cultivou a Madurella mycetomi no meio de SABOU-
RAUD e assim se expressa : “En gélose de Sabouraud, il se forme un duvet
fin, gris, blanchfttre, devenant jaunâtre en vieillissant”.
Ainda ao que concerne à cultura da Madurella mycetomi, no meio de
SABOURAUD, diz BRAULT: “Au bout de trente-six heures, la culture est
dejá très apréciable, elle se développe en formant de3 touffes discoídes
bianches, avec une aréole unie”.
Não observei êsses caracteres culturais na Madurella Ramiroi.
Procurando distinguir a Madurella Tozeuri da Madurella mycetomi
escreveu PINOY: “Ce qui distingue nettement ce parasite de YOospora
— 203 —
Tozeuri dans les milieux de culture, c’est précisement ce qui l’en distin-
gue au point de vue clinique.
En effet, du même que dans les humaines, os constate la formation à
l’intérieur de la gélose de sclerotes noirs, parfois très nombreux, d’un
demi à 1 millimetre de diamètre.
La gélose en est comrae farde.
Dans les sclerotes, les articles mycéliens plus ou moins cylindriques,
parfois presque sphériques peuvent atteindre jusqu’à 10/t de diamètre.
Ces articles ne renferment, généralement, qu’un noyau.
Quoiqu’ayant poursuivi longtemps 1’étude de se champignon, nous
n’avons jamais pu observer de fructifications supérieures à 1’intérieur
des sclerotes. Dans VO. Tozeuri, on n’observe que très rarement à la sur-
face de la gélose des ébauches de sclerotes”.
Procurando, por sua vez, estabelecer também as diferenças culturais
entre essas mesmas Madurelas. BRAULT, em junho de 1911, já dizia:
“Au point de vue cultural, il y a certaines différences assez sensibles.
Les cultures de VOospon Tozeuri poussent plus vite, sont luxuriantes ;
elles sont blanche3, un peu pulvérulentes, comme farineuses.
Les nôtres (o A. se refere á M. mycetomi) sont plus discrètes, gri-
ses, duveteuses, radiées; parfois elles présentent plusieurs cercles con-
centrinues. elles dissocient mieux que les précedentes. En veillissant, sur
gélose glycosée, sur gélose glycosée glycerinée. nos cultures forment une
sorte de membrane couleur amadou qui se plisse: il n’est pas de même
pour YOospo^a Tozeuri sur les mêmes milieux”.
Para maior firmeza do meu"iuízo submeti as culturas à respeitável
opinião do Dr. PARREIRAS HORTA.
Pensa o notável micologista brasileiro, aue se trata de uma espécie de
MadureUa, diferente das Madurelas Osicaldoi e Tozeuri, pelas culturas
que teem côr e aspectos diversos: ainda mais, nota diferenças flagrantes
entre a MadureUa mycetomi e a Madurella Ramiroi como sejam: a gran-
de quantidade de esclerotos e a pequena porção de pigmento que secreta
aquela. relativamente a esta. De facto, sempre encontrei nas culturas da
MadureUa Ramiroi, ao lado de esclerotos, quantidade de pigmento ver-
dadeiramente notável.
A Madurella Bovoi até hoje não foi cultivada. Das Madurelas cultiva-
das. a Madurella Ramiroi é a quarta conhecida, até esta data.
Fiz inoculações em pombos, ratos, morcegos, etc., mas até hoje não
obtive resultado, a-pesar-de ter procurado, em minhas experiências, imi-
tar o que provávelmente se deve dar na infecção natural, isto é, intro-
duzi nas patas destes animais, por meio de espinhos de madeira, os novos
cogumelos por mim isolados e cultivados.
Pretendo continuar estas pesquisas, mas. agora, limito-me em apre-
sentar aos competentes êste esboço de estudo.
Baia, Setembro de 1918.
SUMMARY
The subject of this paper consista of two interesting cases or Madura-
foot, observed in Bahia, documented by clinicai examination (and one
of them by radiography) , by anatomo-pathological study and by micro-
scopical research of the fungi that have produced the lesions.
The first case is a podai mycetoma of yellowish-white granules. The
author found and succeeded in isolating a Discomyces that develops itself
v ery slowly in the cultural media, assuming a mulberry-like look on
Pctato. It does not grow at all on Sabouraud’s médium.
By these characters the author considers this fungus to be different
from the Discomyces madurae Vincent and he describes it as new species,
that he names Discomyces bahiensis.
The second case is a podai mycetoma of black granules, from which
the author succeeded in isolating, in pure culture, another fungus that
develops easily on several media, above all on Sabouraud’s glucose-agar,
on potato and in straw infusion. Such fungus secretes sclerotia and a
Kreat quantity of pigment that alters the colouring of the culture mé-
dium, rapidly darkening it.
It is a new species of Madureüa, that the author calls Madureüa
Ramiroi.
The experimental inoculation of the Discomyces bahietisis as well as
that of the Madureüa Ramiroi were attempted in pigeons, rats and bats,
hut fruitlessly.
Information regarding the works on Maduromycosis, made in Brazil,
is given in the text.
cm
'■•Us DO INSTITUTO DE BUTAXTAN
TOMO 1 — 1918
ESTAMPA XXXIV
Fig. 2
Fig. 1
Fig
Fig. 4
SciELO
^Rias do instituto de butaxtan
TOMO 1 — 1918
Fio. I
Fio. 1
ESTAMPA XXXVI 1
Fio. J
cm 1 2 3 4 5 6 7
Estampa XXXIV;
XXXV;
XXXVI;
XXXVII;
XXXVIII:
Explicações das Estampas:
fig. 1 — Maduromicose de grãos branco-amarelados (Foto-
grafia do pé do doente. Aspecto da região plantar).
” 2 — Mesmo caso: aspecto do bordo interno do pé.
” 3 — Mesmo caso: aspecto do bordo externo do pé.
” 4 — Mesmo caso: aspecto do região calcaneana.
" 1 — Mesmo caso: radiografia do pé.
" 2 — Discomyces bahiensis: aspecto microscópico, segun-
do um preparado corado, oriundo de cultura pura
1
(Leitz oc 1 X ob. — im.).
12
" 3 — Maduromicose de grãos pretos: fotografia do pé
do doente.
" 1 — Discomyces bahiensis: cultura nova em batata
inglesa.
" 2 — Discomyces bahiensis: cultura antiga em batata
inglesa.
” 3 — Madurella Ramlroi: cultura em batata inglesa.
"4 — " " : cultura em água de batata.
" S — " " : cultura em infuso de palha.
"6 — " " : cultura no meio glicosado de
SABOURAUD, em tubo.
"7 — " " : cultura no meio glicosado de
SAUBOURAUD, em tubo (ou-
tro aspecto).
» g — " " : cultura em meio maltosado
de SABOURAUD. em balão
de ERLENMEYER.
» i — Maduromicose de grãos pretos: aspecto do corte
de um grão nos tecidos, segundo uma fotomicro-
grafia.
- ? — Maduromicose de grãos pretos: aspecto do corte de
um grão nos tecidos; fixação pelo liquido de BOUIN
1
(Leitz oc. 1 X ob. — im.).
12
« 3 — Maduromicose de gi-ios branco-amarelados: aspe-
cto do corte de um grão nos tecidos, segundo um
1
preparado corado (Leitz oc. 1 X ob. — im.).
12
- i — Madurella Ramirol, segundo um preparado nãoco-
1
rado, oriundo de cultura pura (Leitz oc.l X ob. — im.).
12
” 2 — Madurella Ramirol, segundo um preparado, oriundo
de cultura pura, corado pelo azul “coton" (Leitz
1
oc. 1 X ob. — im.).
12
•• 3 — Madurella Ramirol, segundo um preparado, oriundo
de cultura pura, corado pelo Sudan III (Leitz
1
oc 1 X ob. — im.).
12
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
6ri as do instituto de butantan
TOMO I — 1918
ESTAMPA XXXVIII
«C>
0
Fio. J
cm
2 3 4 5 6 7
SciELO
12 13 14 15 16 17 18 19 20
CONTRIBUIÇÃO AO TRATAMENTO DAS ÚLCERAS
ATÔNICAS E FAGEDÉNICAS
(DO EMPRÊGO DO SÔRO NORMAL SÊCO)
PELO
Dr. Afránio Amaral
ASSISTENTE DO INSTITUTO
No momento em que, ao exemplo decisivo de São Paulo, nossos
governos começam a encarar devidamente o problema do saneamento
do nosso povo, para livrá-lo dos males terríveis que o cercam e dos
parasitos inúmeros que lhe estiolam as energias, reduzindo-lhe ou aniqui-
lando por completo a soma de trabalho produtivo; no momento em que
esforços se congregam, na eficiência vencedora da união, para resolver
as dificuldades oriundas da angústia e da falta de acomodações nos esta-
belecimentos de caridade em nossa terra, tenho para mim como tarefa
algo oportuna trazer esta pequena contribuição ao tratamento das
úlceras, de que a nossa gente tanto padece, devido à sua ignorância dos
mais comezinhos preceitos de higiene, ou às suas condições de debilidade,
anemia e depauperamento.
A velha crença paradoxal, arraigada no ânimo dos ulcerosos, de que a
conservação de uma ferida, pela qual se vão a escapar os maus humores
do organismo, é sempre necessária, senão indispensável, à integridade
da saúde, não me permitiu publicar todo o acervo de minhas observações,
Pois que muitos dêles, mal verificavam os surpreendentes efeitos do
remédio, começavam a alegar necessidade de voltar para casa, onde me
prometiam “continuar o tratamento”, e insistentemente me pediam alta
e um pouquinho do “pó secativo”... E eu, de minha parte, afinal tinha
que ceder, muito embora convencido da improcedência do pretexto.
Todavia, os nove casos de úlcera atônica e os dois de úlcera fagedénica,
cujo tratamento foi, sem excepção, coroado dos mais brilhantes e defini-
tivos resultados — e cujas observações, dadas agora à publicidade, foram
efectuadas, em sua maioria, no serviço que êste Instituto mantêm anexo
à clínica do Dr. Ribeiro de Almeida, na 2.* Enfermaria de Medicina de
mulheres, na Santa Casa desta Capital — parece-me serem bastantes,
não sómente para consentir, senão também para justificar as conclusões
* que pretendo chegar com a presente monografia.
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
Em se tratando de processos médicos, ou cirúrgicos, aplicáveis ao
tratamento das úlceras, já não é mais oportuna a descrição dos antigos
métodos das pulverizações fenoladas — de LA TOURETTE (1), das
maçagens de MAYLARD (2), eflúvio eléctrico — de MARQUANT (3),
incisões marginais — de HOGDEÍN e DOLBEAU, ou circulares — de
MORESCHI , faixas de esparadrapo — de BAYNTON (4), e outros
muitos ; nem é asada a referência ao vasto arsenal de pomadas : — de
Réclus, — de ictiol, — de sub-carbonato de ferro, unguento estoraque
etc., tôdas bastante conhecidas e ainda hoje empregadas em nossos meios
hospitalares pelos enfermeiros habilitados, a cujos desvelos se vêem
afinal entregues os infelizes portadores daquele mal tão incómodo.
Pára bem da sciência médica e, sobretudo, para felicidade dos doentes,
quási todos, por mais ou menos aleatórios e muita vez ineficazes ou
contraproducentes, já fizeram sua época. E, hoje em dia, sómente estão
a merecer menção especial, por fazerem parte da prática diária, os
processos dos enxertos, cujos principais são o de TIERSCH e o de
REVERDIN.
Todavia as vantagens que apresentam não são de molde a descon-
sentirem discussões, nem a que os façam ser considerados ideais; porque,
de facto, êles não podem ser aplicados em todos os casos, nem, quando
aplicáveis, dão sempre resultado.
Assim, p. ex., ao melhor dos dois, que é sem duvida o de TIERSCH, se
podem arguir estas tres principais desvantagens:
a) De ser um tratamento operatório e, portanto, sempre grave o
dispendioso, mormente para as pessoas que se não podem hospitalizar;
b) De ser doloroso e, pois, de em via de regra exigir anestesia geral;
c) De carecer de retalhos dermo-epidérmicos tirados a outra parte
do corpo e, assim, de determinar nova lesão nos tegumentos do doente.
E nem é mister insistir sôbre a importância destes pontos. Basta
reparar-se que os pobres e os mendigos, duma parte, os velhos e os
esclerosos, doutra, são as pessoas que com maior frequência padecem de
úlceras, graças ao seu estado e condição especiais; e, se assim, a 3
indicações dos enxertos necessáriamente não podem pretender à
generalização. Doutro modo, o problema da cura de milhares de
ulcerosos, constante e quási indefinidamente internados nos diversos
hospitais do País, estaria de há muito resolvido.
Nessa conjuntura é que — baseado no facto de ser o sôro sanguíneo,
pelos inúmeros princípios activos que contêm, o excitante natural das
defesas do organismo e da actividade dos elementos celulares, de cujo
equilíbrio funciona! é êle o veículo — resolvi observar os efeitos que o
sôro normal sêco exerceria em aplicações sôbre as feridas, tentando,
— 211 —
destarte, um método de tratamento, simples, prático, realizável em todos
os meios e acessível a qualquer pessoa. E hoje só tenho que me louvar
dessa decisão.
Abandonando em absoluto quaisquer antissépticos, faço as aplicações
com a técnica seguinte :
Asseio cuidadosamente, por ensaboamento, a pele que circunda a
solução de continuidade;
Limpo meticulosamente a úlcera com uma gaza asséptica, embebida
em água fisiológica esterilizada e presa numa pinça, fazendo a ablação
completa das crostas, exsudatos e fragmentos de tecidos necrosados; e
enxugo a superfície com uma nova gaza sêca;
Pulverizo depois o sôro, disseminando-o em camada mais ou menos
regular sóbre tôda a área da úlcera;
Finalmente, aplico um penso com gaza asséptica, quando a úlcera é
profunda, ou com faixas de esparadrapo, quando rasa e lisa.
Renovo o penso, a princípio diáriamente ; de 2 em 2 dias, após a 4.* ou
a 6.* aplicação; e, de então por diante, de 3 em 3 dias, espaçando os
curativos, afim de não destruir os botões carnosos confluentes, mas
nunca exuberantes, nem as ilhotas de epitélio de neo-formação, que já
nesse momento costumam estar formados.
Os efeitos benéficos dêste tratamento não se fizeram esperar nos casos
de úlcera atônica e nos de fagedénica, em que o empreguei.
Procedi ainda sistemáticamente a pesquisa microscópica do material
retirado da lesão, o exame hematológico e o coprológico e bem assim a
reacção de Wassermann, juntando 03 respectivos resultados às diversas
observações, na perspectiva de estudar, duma parte, as modificações que
surgissem para êsse lado, e de verificar, doutra parte, se a persistência
de qualquer das -causas predisponentes do mal influiria desfavorável-
mente sóbre 0 resultado do tratamento.
Eis as observações:
A) ÚLCERAS ATÔNICAS
Observarão I
M. M., com 20 anno3. branca, solteira, natural dêste Estado e residente
em Santa Clara, entrou a 8-V-1918 para a 2.» Enfermaria de Medicina,
leito n.* 30.
DIAGNÓSTICO: Apresentava uma úlcera atônica, subsequente à decapitação
de uma vesicula, situada â região interna da còxa esquerda, perto
do vértice do triângulo de Scarpa. irregularmcnte arredondada,
tendo o grande diâmetro orientado no sentido transversal, de
bordos violáceos e framidos, coberta de exsudato amarelado e
abundante; com as seguintes dimensões: 5 cm. X 4 cm. larg. ; c
datando de cerca de 11 meses.
PESQUISA MICROSCÓPICA: Germes banais de supuração.
Jâ havia usado vários remédios, inclusive a pomada de tártaro
emético, mas sem tirar proveito.
EXAME DAS FEZES: Ovos de Ancylostomum duodtnalt (+ + + ) e dt
HymtnoUfú sp. (+ +), e larvas de Slronçyloidfi iltrecralii.
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
212 —
1.* EXAME HEMATIMÉTRICO:
Hematias por mm. 3 3.892.000
Leucócitos „ „ 6.800
L 1
Relação globular — =
H 572
1.* EXAME HEMOCROMOMÊTRICO:
Hemoglobina — 60 % (TALLQVIST)
Valor globular = 0,77
1. * IXDICE LEUCOCITARIO (em 500 leucócitos) :
Polimorfonudeares neutrófilos 48,0 5*
_ « eosinófilos 8,4 c Áo
Formas intermediárias 2,0 %
Mononucleares 6.0 %
Macrolinfócitos 9,4 &
Microlintócitos 26,2 íi
100 *
REACÇAO DE WASSERMANN : negativa ( — ).
TRATAMENTO: Procedi o tratamento da úlcera pelo sóro seco, e ela, ao cabo
de 10 aplicações, feitas no período de 23 dias, estava completa-
mente cicatrizada.
2. * EXAME HEMATIMÉTRICO (a 11 — Julho):
Hematias por mm. 3 4.084.000
Leucócitos „ 6.100
L 1
Relação globular — =
H 669
2* EXAME HEMOCROMOMÊTRICO
Hemoglobina — 65 % (TALLQVIST)
Valor globular = 0,79
2.* ÍNDICE LEUCOCITARIO (cm 500) :
Polimorfonudeares neutrófilos 57,0 5*
„ eosinófilos 6,0 í*
Formas intermediárias 3,2 **
Mononucleares 4.6 ^
Macrolinfócitos 8,0 5*
Microlinfódtos 212 ***
100 %
Fez então uso de vermifugos e de tónicos, retirando-se curad»
no dia 4-YTII-1918.
NOTA: Neste caso não me foi possível obter fotografia, nera
molde em cera, porque, estando a lesão situada cm região pudenda,
a doente, tôda melindres, não me consentiu fazê-lo.
Observação 11
A. Q., com 16 anos, branca, solteira, natural dêste Estado e residente
em S. Manoel, de profissão doméstica, entrou a 26-VI-1918 para a 2.* Enf-
de Medicina, leito n. # 3 bis.
DIAGNÓSTICO: ^Clccra atônica na perna esquerda (conforme a estampa
XXXIX, molde em cera n.* I) ; datando de 8 meses.
PESQUISA MICROSCÓPICA: Germes banais de supuração.
Usou vários remédios, indusive a pomada de tártaro, » ta>
resultado.
cm
'12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 218 —
EXAME DAS^ FEZES (a 26-Junho); Ovos de Aneylostomum duodenale
1* EXAME HEMATIMÊTRICO (a 25- Agosto).
Hematias por tnni. s .
Leucócitos „ „ . .
!■* EXAME HEMOCROMOMÊTRICO:
L
Relação globular —
H
4.160.000
6.700
1
620
Hemoglobina — 55 % (TALLQVIST)
Valor globular = 0.66
1.* 1XDICE LEUCOCITARIO (era £00) :
Polimorfonucleares neutrófilos
. r. eosinófilos
Formas intermediárias
Mononucleares
Macrolinfócitos
Microlinfócitos
61.4 %
9 2 %
3.4 %
2.0 fé
3.0 %
21.0 %
iUU vo
REACÇAO DE WASSERM ANN : negativa ( ).
Sobre a ulcera fir 11 aplicações de sôro e. no fim de 26 dias. ela
estava cicatrizada (Veja-se a estampa XL. molde n. 2).
Z* EXAME HEMATIMÊTRICO (a 17-Setembro) :
2 .*
Hematias por mm.®
Leucócitos „ „
L
Relação globular —
H
EXAME HEMOCROMOMÊTRICO :
5.068.000
5.600
1
905
Hemoglobina — 70 % (TALLQVIST)
Valor globular = 0,60
2. ÍNDICE LEUCOCITARIO (em 200) :
Polimorfonucleares neutrófilos . .
. . 685 fé
_ » eosinófilos . .
Formas intermediárias
Mononucleares
. . 4.0 %
4.5 %
3.0 %
3.0 %
. . 17.0 %
Macrolinfócitos
Microlinfócitos ’ '
100 %
Administrei então vermífugos.
Esta doente retirou-se curada a 28 — IX — 1918.
Observação III
F. G.. com 15 anos, branca, solteira, natural dêste Estado e residente
na Capital, de profissão doméstica, entrou a 26-IX-1918 para a 2.' Enf.
Medicina, leito n. # 32 bis.
DIAGNOSTICO: 2 úlceras atônica, na perna e<querda. subsequentes a ectiraa •
datando de a meses. (Veja-se a estampa XLI ; molde 3).
PESQLI5A MICROSCÓPICA: Gtrme ba mis de suparaçio.
EXAME DAS FEZES: Oyos da Asearit lumbrítoidtj ( + ) e de Antyloj-
I n m <4 aa n u nn * ttm I» I •+. \ *
L* EXAME HEMATIMÊTRICO (a l.*-Outubro) :
Hematias por mm.® 4 544 qoo
Leucócitos „ ' 8 200
Relação globular — =
H 554
— 214 —
1* EXAME HEMOCROMOMÊTRICO:
Hemoglobina — 70 54 (TALLQVIST).
Valor globular = 0,76
1. * ÍNDICE LEUCOCITARIO (em 500) :
Polimorfonucleares neutrófilos 39.8 54
" eosinófilos 19,0 54
Formas intermediárias 52 %
Mononticleares 3,8 54
Macrolinfócitos T2 54
Microlinfócitos 25,0 ^
100 54
TRATAMENTO: após 10 aplicações de sôro sêco, as úlceras estavam de todo
cicatrizadas (estampa XLII ; molde 3-A).
2. * EXAME HEMATIMÊTRICO (a 10-- Novembro) :
Hematias por mm. 3 4.468.000
Leucócito» „ 6.800
L 1
Relação globular — =
H 655
2.* EXAME HEMOCROMOMÊTRICO:
Hemoglobina — 70 54 (TALLQVIST)
Valor globular = 0,78
2.* ÍNDICE LEUCOCITARIO (em 500) :
Polimorfonucleares neutrófilos 47.0 54
" eosinófilos 14.2 54
Formas intermediárias 3,8 54
Mononncleares 4.0 54
Macrolinfócitos 9.0 54
Microlinfócitos 2? n 54
100 54
Tomou então um vermífugo.
Retrou-se curada a 14-XI-1918.
NOTA: As observações IV e V que constavam de minha “Nota Prévia" (5) comuni-
cada à 2.‘ Conferencia da Sociedade Sul-Americana de Higiene. Microbiologia e Pato-
gia, não puderam ser concluidas, porque as doentes respectivas, à semelhança do que se
deu com algumas outras, abandonaram o tratamento, quando já adiantado.
Observação VI
B. M., com 78 anos, preta, viuva, natural dêste Estado e residente na
Capital, de profissão doméstica, entrou a 12-IX-1918 para a 2.* Enf-
Medicina, leito n.° 14.
DIAGNÓSTICO: Úlcera atônica à retriáo maleolar externa direita — conforme
mostra a estampa XLIII ; desenho A — datando de 5 meses e
proveniente de traumatismo por ocasião de uma queda.
Usou diversa pomadas, sem o menor resultado.
PESQUISA MICROSCÓPICA: Germes banais de supuração.
EXAME DAS FEZES: Ovos de Aiearis lumbricoidrs ( + +).
L* EXAME HEMATIMÊTRICO (a 26-Setembro>.
Hematias por mm. 3 2.960.000
Leucócitos „ 6.800
L 1
Relação globular —
H 435
Hemoglobina — 70 54 (TALLQVIST)
Valor globular = 1,18
cm
'12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 215 —
1* ÍNDICE LEUCOCITÁRIO («n 200) :
•
Polimorfonudeares neutrófilos 36.0 %
„ eosinófilos 17,0 9c
Formas intermediárias 5,5 %
Mononucleares 1,5 %
Macrolinfódtos 8.0 %
Microliníócitos 32,0 9c
100 %
REACÇAO DE WASSERMANN : positiva (++)
TRATAMENTO: Não foi submetida a tratamento anti-sifilítico. Cora 9
aplicações locais de sôro séco, a úlcera cicatrizou completamente
(Estampa XLIII; desenho B).
2.* EXAME HEMATIMÉTRICO (a 4 — Outubro):
Hematias por mm.* 3.560.000
Leucócitos „ „ 6.800
L 1
Relação globular — = —
H 523
2.* EXAME HEMOCROMOMÊTRICO:
Hemoglobina — 70 % (TAI.LQVIST)
Valor globular — 0,98
2.* ÍNDICE LEUCOCITÁRIO (em 200) :
Polimorfonudeares neutrófilos 41,0 %
„ eosinóíilos 12,8 9c
Formas intermediárias 2,0 9c
Mononucleares 22 %
Macrolinfócitos 9,0 %
Microlinfócitos 33,0 %
100 %
Z‘ REACÇAO DE WASSERMANN : positiva ( + + )
Tomou então 2 vermífugos.
Retirou-se, curada da úlcera, a 14-X-1918.
Observação VII
A. M., com 25 anos, preta, solteira, natural deste Estado e residente
em Sorocaba, de profissão doméstica, entrou a 20-IX-1918 para a 2 * Enf.
Medicina, leito n.° 9 bis.
DIAGNÓSTICO: Clcera atônica logo acima da região ir.ter-maleolar esquerda,
quási circular, de maior diâmetro transversal, (conforme se depara
na estampa XLIV, molde 7), datando de 4 anos.
Intemou-se por 2 vezes no Hospital de Sorocaba, ficando muito
tempo em tratamento, sem resultado definitivo.
PESQUISA MICROSCÓPICA: Germes de supuração.
EXAME DAS FEZES: Ovos de Ascõris hmbrieoides (+ + ).
I.* EXAME HEMATIMÉTRICO (a 28-Setembro) :
Hematias por mm.* 4.508.000
Leucócitos „ 5.900
L 1
Relação globular — =
H 764
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 216 —
1.* EXAME HEMOCROMOMÊTRICO:
Hemoglobina — 70 íc (TALLQVIST)
Valor globular = 077
1. * ÍNDICE LEUCOCITARIO (em 200) :
Polimorfonucleares neutrófilos Jrr <7
eosinófilos ^ 5
Formas intermediárias Vn ^
Mononucleares £
Macrolinfócitos £
Microlinfócitos
100 %
REACÇAO DE WASSERMAXX : positiva ( + + + )
TRATAMENTO : A estampa XLV, molde 8, mostra a úlcera quando se
achava reduzida a cerca de X do tamanho primitivo, ja coberta
de botões carnosos e, conforme a flecha indica, com idiotas
epiteliais enxertadas naturalmente ; esse molde foi tirado a 4 *
Outubro, após 9 aplicações locais de sóro seco, em 1- dias oe
tratamento.
Não fiz tratamento algum auxiliar contra a sifile, de que apresen-
tava sinais evidentes.
2. * EXAME HEMATIMÊTRICO (a 30 — Novembro) :
Hematias por mm. 3
Leucócitos 0.2W
L 1
Relação globular — =
H
704
Z • EXAME HEMOCROMOMÊTRICO:
Hemoglobina — 70 % (TALLQVIST)
Valor globular = 0,80.
2.* ÍNDICE LEUCOCITARIO (em 200) :
Polimorfonucleares neutrófilos 41,0
„ eosinófilos ' • . 21.0 %
Formas intermediárias 5.8 J
Mononucleares 6.0 *
Macrolinfócitos 7 2
Microlinfócitos 19,0 %
100 %
2.* REACÇAO DE WASSERMANN : (positiva (+ + +).
NOTA : Quando, após 36 aplicações locais de sóro sèco, a úlcera
já estava quási cicatrizada — pois sómente uma pequena zona de
3 cm. 5 de diâmetro, acima do maléolo interno, ainda não estava
coberta de epiderme — a doente, que era também tuberculosa, foi
atacada de gripe, vindo a falecer no dia 7 de Dezembro de 1918:
por isso mesmo não me foi possivel obter o molde nessa ocasião.
Observação VIII
C. M. J., com 50 anos, preta, viuva, natural deste Estado e residente
na Capital, de profissão doméstica, entrou a 17-IX-1918, para a 2.» Enf.
Medicina, leito n.* 30.
DIAGNÓSTICO: Clcera atônica na perna direita, datando de eèrca de 12 anos.
irregular e neerótica, ccm a configuração e aspecto indicados na
estampa XLVL molde n. 9.
Já esteve por duas vezes recolhida á Santa Casa, tratando-»*-
ser.do que por último passou 8 meses, sem tirar proveito.
PESQUISA MICROSCÓPICA: Germes de supuração, extraordináriamente
abundantes.
cm
'12 13 14 15 16 17 lí
19 20
217 —
EXAME DAS FEZES: Ovos de Trichuris trickiurus.
1.* EXAME HEMATIMÉTRICO (a 22-Setembro) :
Hematias por mm* 2.968.000
Leucócitos „ 8.400
L 1
Relação globular — =
H 363
1.* EXAME HEMOCROMOMÊTRICO:
Hemoglobina — 70 (TALLQVIST)
Valor globular = 1,01.
1.* ÍNDICE LEUCOCITARIO (em 200) :
Polimorfonucleares neutrófilos 54,0 %
„ eosinófüos 3,0 %
Formas intermediárias . . • 3,0 %
Mononuclcares 2,0 %
Macrolinfócitos 7.0 %
Microlinfócitos 31,0
100 %
REACÇAO DE WASSERMANN : negativa (— ).
NOTA: Esta doente não foi medicada contra os vermes, nem
contra a artério-esclerose generalizada de que sofria.
A 4 de Outubro, após 10 aplicações locais de sôro sêco, feitas era
14 dias de tratamento, a úlcera estava reduzida à metade, limpa,
coberta de botões carnosos confluídos e com ilhotas epiteliais era
seu centro, de acordo com o que se nota na estampa XLVII —
molde 10.
A cicatrização completa fez-se com 57 aplicações de sôro séco
(Estampa XLVIII; molde 10-A).
2.* EXAME HEMATIMÉTRICO:
Hematias por mm* 3.320.000
Leucócitos 7.900
L 1
Relação globular — =
H 420
2.* EXAME HEMOCROMOMÊTRICO:
Hemoglobina — 65 % (TALLQVIST)
. Valor globular = 0,97
2.* ÍNDICE LEUCOCITARIO (em 200) :
Polimorfonucleares neutrófilos 55,0 %
„ eosinófüos ......... 3,2 %
Formas intermediárias 3.0 %
Mononuclearcs 4,0 %
Macrolinfócitos 8,0 %
Microlinfócitos 26,8 %
100 r.
Em fins de Janeiro de 1919, a doente, já curada, começou a
trabalhar na própria Santa Casa, como ajudante de cosinheira.
Observação IX
S. T., com 48 anos, branca, casada, natural de Treviso (Itália),
residente em Fernando Prestes, colona, entrou a 28 — I — 1919 para a
2.* Enf. Medicina, leito n. # 6.
DIAGNÓSTICO: Úlceras atônicas no pê esquer 'o. oriundas de uma piodermite
uleerosa crónica que datava de um ano— (Gravura XLIX.
molde 14).
— 218 —
Submeteu-se durante algum tempo a tratamento por pomadas
ácatriaantes, sem tirar proveito. A 11 de Março, comecei a fazer as
aplicações locais de sõro seco.
PESQUISA MICROSCÓPICA: Germes de supuração, em abundância desusada.
EXAME DAS FEZES : negativo, quanto a vermes intestinais.
1.* EXAME HEMATIMÊTRICO (a 10— Março):
Hematias por mm.* 4.548.000
Leucócitos „ 6.100
L 1
Relação globular — =
H 745
L* EXAME HEMOCROMOMÊTRICO :
Hemoglobina — 70 % (TALLQVIST)
Valor globular — 0,76
1/ 1KDICE LEUCOCITÁRIO (em 500) :
Polimorfonucleares neutrófilos 52,4 96
„ eosinófilos 3,2 9»
Formas intermediárias 1.2 56
Mononucleares 3,0 %
Macrolinfócitos W J
Microlinfócitos 31X1 »
100 96
1. * REACÇAO DE WASSERMANN: fortemente positiva (+ + + +)•
TRATAMENTO: Após 18 aplicações de sôro sêco, em 40 dias de tratamento,
tódas as úlceras estavam cicatrizadas (Estampa L; molde 15).
2. * EXAME HEMATIMÊTRICO (a 20 — Abril):
Hematias por mm.* 4.472.000
Leucócitos „ 6.400
L 1
Relação globular — =
H 698
2.* EXAME HEMOCROMOMÊTRICO:
Hemoglobina — 80 % (TALLQVIST)
Valor globular = 0,89
2.* ÍNDICE LEUCOCITÁRIO (em 500) :
Polimorfonucleares neutrófilos 53,0 96
„ eosinófilos 2,0 9»
Formas intermediárias 3.0 J
Mononucleares 2,0 <
Macrolinfócitos W J
Microlinfócitos 34,0 %
100 *
2.* REACÇAO DE WASSERMANN : Fortemente positiva (+ + + +).
Esta doente teve alta. curada das úlceras, no dia 21 de Abril
de 1919.
Observação X
A. M. F., preta, solteira, brasileira (S. Paulo), cora 67 anos, residente
nesta Capital, à rua Santo António, entrou a 21 — III — 1919 para
a 2 .' Enf. Medicina, leito n.° 11.
DIAGNÓSTICO: Úlcera atônica na perna esquerda, datando de vários mcsf*
(Estampa LI; molde 16).
cm
'12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 219 —
Além de uma pequena ao joanete esquerdo, apresentava na perna
direita, outra úlcera que eu conservei sem tratamento, como teste-
munha, afim de verificar se o efeito do sôro era local exclusiva-
mente, ou se também geraL
PESQUISA MICROSCÓPICA : Germes banais de supuração.
EXAME DAS FEZES: Negativo, quanto a vermes intestinais.
1.* EXAME HEMATIMÊTRICO (a 29 — Março):
Hematias por mm. 1 3.860.000
Leucócitos 9.300
L 1
Relação globular — —
„ H 415
I* EXAME HEMOCROMOMÉTRICO :
Hemoglobina — 55 % (TALLQVIST)
Valor globular = 0,71
1.* ÍNDICE LEUCOCITARIO (em 200):
Polimorfonucleares neutrófilos ........ 52.8 %
„ eosinófilos 9,0 %
Formas intermediárias 5,0 %
Mononucleares 4.2 %
Macrolinfócitos 9,0 %
Microlinfódtos 20,0 %
100 %
1. * REACÇAO DE WASSERMANN: fortemente positiva (+ + + + ).
TRATAMENTO: A 2 de Maio, após 12 aplicações de sôro, a úlcera da perna
esquerda estava cicatrizada (Estampa LII ; molde 17). Nessa
ocasião comecei a tratar a outra úlcera (testemunha) que não
estava em nada modificada, parecendo assim que a acção do sôro
é simplesmente local.
2. * EXAME HEMATIMÊTRICO (a 14 — Maio):
Hematias por mm. 1 4.120.000
Leucócitos „ 7.100
L 1
Relação globular — =
H £80
2.* EXAME HEMOCROMOMÉTRICO:
Hemoglobina - 60 % (TALLQVIST)
Valor globular = 0,72
2.* ÍNDICE LEUCOCITARIO (em 200) :
Polimorfonucleares neutrófilos 560 %
„ eosinófilos 4.6 %
Formas intermediárias 3.0 %
Mononucleares 4.0 %
Macrolinfócitos 8.0 %
Microlinfócitos ’ 24 4 ho
100 %
2.* REACÇAO DE WASERMANN: fortemente positiva (+ + + +).
Esta doente teve alta. curada das úlceras, no dia 16 de Maio
de 1919.
Observação XI
A. G. P., com 56 anos, branco, casado, português (Ilha da Madeira),
lavrador, residente nesta Capital, entrou a 15 — II — 1919 para
a 1.* Enf. Cirurgia, leito n.* 1 bis, serviço do dr. Salles Gomes Junior.
cm
SciELO
12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 220 —
DIAGNÓSTICO: Úlcera atônica, quási circular, na perna direita (Estampa
LIII; molde 18), datando de mais de 25 anos.
Havia ainda outras duas úlceras atônicas ao nivel da região
intermaleolar esquerda, das quais não cuidei logo no começo,
afira de observar se a acção do sôro sobre elas repercutia Come-
cei a tratar da 1.*, no dia 25 de Março.
PESQUISA MICROSCÓPICA: Germes banais de supuração, muito abundantes.
1.* EXAME DAS FEZES: Ovos de Ancylostomum duodenale (+ + +).
1.* EXAME HEMATIMÊTRICO (a 25 — Março):
Hematias por mm. 3 3.500.000
Leucócitos „ „ 6.200
L 1
Relação globular — =
H 364
1.* EXAME HEMOCROMOMÉTRICO:
Hemoglobina — 60 % (TALLQVIST)
Valor globular = 0,85
1. * ÍNDICE LEUCOCITARIO (era 200) :
Polimorfonucleares neutrófilos 46,0 %
» eosinófilos 17,0 %
Formas intermediárias 22 %
Mononuclcares 3,0 %
Macrolinfóchos 5,8 %
Microlinfócitos 26,0 %
100 %
REACÇAO DE WASSERMÀNN: negativa (— ).
TRATAMENTO: Após 49 aplicações locais de sôro sèco, em cérca de 3 méses
de tratamento, a grande úlcera da perna direita está quási cicatri-
zada, reduzida ao que se vê na estampa LIV; molde 19.
Tendo verificado que o sôro não exercia acção à distância, sóbre
as úlceras da outra perna, resolvi tratá-las: a menor fechou logo e
a maior, correspondente ao maléolo interno, está reduzida a V* do
tamanho primitivo, na ocasião em que escrevo èste trabalho.
Êste doente tomou uma dose de óleo de Chenopodium (45 gotas).
2. * EXAME DAS FEZES: Ovos de Ancylottomum duodenalt ( + ).
2.* EXAME HEMATIMÊTRICO (a 14 — Junho):
Hematias por mm. 3 .
Leucócitos „ „ .
2: EXAME HEMOCROMOMÉTRICO:
Relação globular —
H
3.960.000
8.100
I
488
Hemoglobina — 65 % (TALLQVIST)
Valor globular = 032
2.* ÍNDICE LEUCOCITARIO (em 200) :
Polimorfonucleares neutrófilos 54,0 %
m eosinófilos 11,0 %
Formas intermediárias 3,0 %
Mononuclcares 3 ^ %
Macrolinfócitos 9,0 %
Microlinfócitos 20Í0 %
O doente continua em tratamento.
100 %
cm
'12 13 14 15 16 17 lí
19 20
— 221 —
B) ÚLCERAS FAGEDÉNICAS
Observação A
M. B., com 23 anos, branca, casada, natural dêste Estado e residente
em Birigui, lavradora, entrou a 26-IX-1918 para a 2/ Enf. Medicina,
leito n.° 27.
DIAGNÓSTICO: 2 úlceras fagedénicas, na coxa e na perna esquerda, respecti-
vamente. (Estampa LV; molde 11). Ambas desenvolveram-se do
mesmo modo, de urna pequena pústula que se inflamou; a 1.* a
aparecer foi a da coxa e, oito dias mais tarde, surgiu a da perna,
augmentando rápidamente e acompanhando-se de muita febre.
Das duas, a 2.* sobretudo estava em pleno desenvolvimento,
coberta de abundante cxsudato difteroide, grandemente aderente
ao fundo da ulceração, que tinha o aspecto nccrótico, bastante típico,
da úlcera tropical.
PESQUISA MICROSCÓPICA: Veiu confirmar a suspeita clinica.
Com efeito, o exame de esfregaços feitos com material retirado
. da ferida no 1.* dia. antes de qualquer tratamento, revelou um
número extraordinário de bacilos fusiformes, polimorfos, muitos
deles formando verdadeiras cadeias muito longas e outros dispostos
em forma de filamento.
Ao 2.* exame, procedido após uma aplicação de sõro séco, os
mesmos germes se revelaram, notando-se, no entanto, grande dimi-
nuição das formas filamentosas. Deve-se notar que nessa ocasião o
cxsudato já se desprendia com relativa facilidade.
Depois da 4.* aplicação, quando o cxsudato já quisi não existia,
renovei a pesquisa e observei o desaparecimento quási absoluto dos
fuso-bacilos, substituídos então por espiroquetas ( Sfirochaela
tchaudinni v. PROWAZEK 1907) muito numerosos.
Finalraentc, após o d. curativo, não logrei encontrar mais nenhum
bacilo, nem espiroqueta.
Cumpre-me ressaltar a importância destes factos, cm virtude de
ter sido muito rápida e decisiva a acção que o sõro scco exerceu
sobre os agentes da doença.
EXAME DAS FEZES: Ovos de Aneyhjt emum dnodenalt ( + ).
1.* EXAME HEMATIMÊTRICO (a 28-Setembro) :
Hematias por mm* 3.564.000
Leucócitos „ 6.800
L 1
Relação globular — =
H 524
1* EXAME HEMOCROMOMÊTRICO:
Hemoglobina — 50 % (TALLQVIST)
Valor globular = 0,70
1.* ÍNDICE LEUCOCITARIO (em 500) :
Polimorfonuclearcs neutrófilos 60,2 %
„ eosinófilos 13.6 %
Formas intermediárias 4.2 %
Mononucleares 1,0 9»
Macrolinfódtos 7,0 %
Microlinfócitos 14,0 %
100 %
cm
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222 —
REACÇAO DE WASSERMAXN : fortemente positiva ( *t — r 4 — H ).
TRATAMENTO: As duas ulcerações, após 6 aplicações de sõro sêco (a 4 de
Outubro) já apresentavam adiantada cicatrização, estando cobertas
de botões carnosos confluentes e tendo diminuido de Jí do tamanho
primitivo. (Veja-se a estampa LVI; molde n. 12).
E com 17 aplicações cicatrizaram completamente, conforme st
observa na estampa LVII, molde 13.
2.* EXAME HEMAT1MÉTRICO :
Hematias por mm. 3 .
Leucócitos „ „
2.* EXAME HEMOCROMOMÉTRICO:
3.752.000
6.300
L 1
Relação globular — —
H 595
Hemoglobina — 65 Vo (TALLQVIST)
Valor globular — 0,86
2.* ÍNDICE LEUCOCITARIO (em 500) :
Polimorfonucleares neutrófilos 60,0
„ eosinófilos 9,8 %
Formas intermediárias 2.0 5»
Mononucleares 1,2 5*
Macrolinfócitos 6,0 ‘To
Microlinfócitos 21,0 %
100 %
2.* REACÇAO DE WASSERMANN : fortemente positiva (+ + + + ).
Fez uso de um vermifugo: e, não tendo querido demorar-se para
fazer o tratamento anti-sifilitico, retirou-se, curada das úlceras, a
22-X-1918.
Observação B
A. P., com 21 anos, branca, casada italiana (de Perúgia), roceira,
procedente de Araçatuba, entrou a 5-IV-1919, para a 2.* Enf. Medicina,
leito n. # 7.
DIAGNÓSTICO: Ülcera íagedentea, típica, na perna direita: de fundo
nccrótico, de margens roxo-anegrados, coberta de exsudato diíte-
roide abundante e muito aderente, hastante fétida (Estampa XVIII ;
molde 20).
PESQUISA MICROSCÓPICA: Bacilos fusiformes polimorfos, muito nume-
rosos. A medida que ia aplicando o sõro sêco, fazia novas pesquisas
do material da ferida; e observei: depois da 2.* aplicação, os bacilos
eram pouco abundantes c estavam associados aos espiroquetas ;
depois da 5.* aplicação, todos os bacilos tinham desaparecido, persis-
tindo sómente os espiroquetas ; e com a 7.* aplicação a ferida ficou
completamente limpa, coberta de granulações confluentes, regulares
e cora as margens vivas e sangrentas (Estampa LIX; molde 21).
EXAME DAS FEZES : Larvas de Strongyloida jltrcoraüj.
1.* EXAME HEMATIMÊTRICO (a 12 — Abril):
Hematias por mm. 3 5.240.000
Leucócitos „ 7.300
L 1
Relação globular — =
H 717
1.* EXAME HEMOCROMOMÉTRICO:
Hemoglobina — 75 % (TALLQVIST)
Valor globular — 0,70
cm
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— 223 —
1.* ÍNDICE LEUCOCITÁRIO (era SOO) :
Polimoríonucleares neutróíilos 62,0 SÓ
„ eosinófilos 5,6 Só
Formas intermediárias 1.2 Só
Mononucleares 3,0 %
Macrolinfócitos 8,2 %
Micro! iníócitos 20,0 Só
i;o só
REACÇAO DE WASSERM AXN : negativa (— ).
TRATAMENTO: Com 43 aplicações de sõro sêco, a úlcera cicatrizou comple-
tamente (Estampa LX; molde 22).
2/ EXAME HEMATIMÊTRICO (a 13-VI-1919) :
Hematias por mm. s 5.052.000
Leucócitos „ „ 6.800
L 1
Relação globular — =
H 7 42
2.* EXAME HEMOCROMOMÊTRICO :
Hemoglobina — 80 SÓ (TALLQVIST)
Valor globular = 0,72
2.* ÍNDICE LEUCOCITÁRIO (em 500) :
Polimortonucleares neutrófilos 59,0 Só
„ eosinófilos 5.0 Só
Formas intermediárias 2,0 Só
Mononucleares 3.0 Só
Macrolinfócitos 62 Só
Microlinfócitos 243 %
100 S ó
Esta doente retirou-se, curada, no dia 12 de Julho de 1919.
Referindo-se estas duas últimas observações a casos de úlcera fage-
dénica, que é determinada por uma associação fuso-espirilar, ou, com
maior precisão, fuso-espiroquetal, vem muito a propósito lembrar a
discussão em que TUNICLIFF e MCHLENS se empenharam, afirmando
o primeiro que os espiroquetas (e êle se referia ao Spirochaeta Vinccnti
BLANCHARD 1906) se originavam dos fuso-bacilos, conforme julgava
ter observado em culturas artificiais de produtos de angina (6) ; e
dizendo o segundo que, muito ao-envés disso, os espiroquetas (tanto o
Sp. Vinccnti, das anginas, quanto o Sp. Schandinni, da úlcera tropical)
nada tinham que ver com os fuso-bacilos, encontrando-se já preformados
nos produtos postos a desenvolver nos meios artificiais.
Tendo-se agora em vista que, nestes dois casos de úlcera tropical, os
bacilos fusiformes desapareceram com a queda do exsudato e que, depois
disso, foram encontrados os espiroquetas, é provável que a razão estivesse
com MüHLENS, pois, com efeito, parece que dos dois microorganismos
os bacilos sejam menos resistentes e os espiroquetas mais exigentes, até
nos meios de culturas naturais — lesões da doença, e que, acompanhando
o exsudato da ferida, aqueles se mostrem e desaparecem também maia
depressa do que estes .
— 224 —
Cumpre-me agora chamar a atenção para a cura dessas úlceras
fagedénicas pelo sôro sêco. Basta dizer que os processos maÍ3 recente-
mente propostos com êsse fim, ou pelo menos que tenham chegado ao
meu conhecimento, são : o de G. BOUFFARD — aplicações tópicas de um
soluto a 3 % de “Novarsenobenzol” em 2 ou 3 sessões, e, depois, penso
de ácido pícrico a 1 % e, porfim, cauterização, pelo nitrato de prata, dos
botões carnosos por-ventura exuberantes (8) ; e o de FÉLIX SAPORTE
— nos 3 primeiros dias de tratamento, banho antisséptico das úlceras com
soluto quente de per-manganato de potásio a 1/400 — durante 2 horas;
pulverização da mistura de hipo-clorito de cal e ácido bórico (pó de
VINCENT) ; excisão a tesoura do induto difteroide ou, mais raramente,
termocauterização ; repouso, medicação tónica (9).
Se se comparam agora êsses dois processos ao por mim empregado,
verificam-se logo as grandes vantagens oriundas da simplicidade de
técnica, facilidade de aplicação e comodidade de tratamento que êste
apresenta sôbre aqueles.
COMENTÁRIO :
O exame comparativo dos documentos que ilustram a presente mono-
grafia dá uma idea clara da rapidez e da facilidade com que o sôro actua
e dos benefícios que as úlceras auferem de sua aplicação.
Logo que se aplica o sôro, grande quantidade de plasma começa a
surdir de tôda a superfície da ferida, de sorte que na sessão seguinte, ao
se retirar o penso, se encontra a lesão imersa em um líquido amarelado,
puri forme, às vezes com o cheiro do próprio sôro sêco, isto é, comparável
ao do hipo-clorito.
Se a ferida está sendo tratada cuidadosamente, o exame microscópico
e a prova cultural do sedimento da centrifugação dêsse líquido revela
diminuição progressiva, até completo desaparecimento, da flora micro-
biana. A êste respeito, cumpre assinalar que o meu saudoso colega, Dr.
JOAO FLORENCIO, e eu observámos que, da 6.* para 10.* aplicação, a
úlcera, se não é muito extensa, nem anfractuosa, pode até ficar asséptica.
Tal acção esterilizadora é provávelmente de ordem biológica e resultante
da excitação local exercida pelo sôro sôbre as células conjuntivas e outros
elementos de defesa, ou, em pequena parte, de ordem mecânica e pro-
veniente da já referida corrente de plasma que sem cessar sai da ferida.
Ao cabo de alguns dias, o fundo das úlceras, constituído pelos botões
carnosos confluentes, sempre regulares e nunca exuberantes que se
formaram, começa a cobrir-se de uma delgada membrana ou película,
lisa e amarelada, que lhe ocupa tôda a extensão e que, quando pelo atrio
se desprende, deixa sangrenta a superfície descoberta.
Os córtes histológicos dessa membrana, praticados pelo meu colega do
Instituto, Dr. DORIVAL PENTEADO, indicam tratar-se de um produto
de processo inflamatório asséptico, isto é, de uma verdadeira e intensa
reacção de cicatrização, dada a abundância, que nela se nota, de células
•mbrionárias, de fibroblastos (Bildung3zellen) e de capilares em via de
desenvolvimento.
cm
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— 225 —
A cicatrização de tais úlceras dá-se, não sómente por desenvolvimento
da camada granulosa e por invasão centrípeta do epitélio marginal, mas
também por desenvolvimento de ilhotas centrais de tecido epitelial:
vejam-se a estampa XLV, prestando-se atenção à flecha do molde 8
correspondente, e a estampa XLVII, molde 10.
Certo, não se observa aí a transformação do tecido conjuntivo embrio-
nário em epitelial, porquanto hoje, do ponto de vista da hlstogénese, se
admite que a teoria da indiferença celular de VIRCHOW só é aplicável
a casos muito diversos dêste e êsses mesmos bastante excepcionais;
devendo-se antes acreditar que tais ilhotas epiteliais provenham de
verdadeiras enxertias de células oriundas da epiderme circunvizinha
sôbre a superfície granulosa da ferida, ou da transformação da parede
endotelial dos capilares novos e das glândulas sudoríparas, ou, final-
mente, de células da rede de Malpighi, que por acaso tenham persistido.
** * Repare-se agora que a doente da observação I era parasitada por
Ancylostomum, Hymcnolepis e Strongyloides; a da observação III o era
por Ancylostomum e Ascaris; o da observação XI — por Ancylostomum;
a da observação VI — por Ascaris e com reacção de Wassermann positiva
( 4 --f) ; a da observação VII — igualmente por Ascaris e com reacção
de Wassermann positiva ( + + + ); e as das observações IX e X, respe-
ctivamente, com reacção de Wassermann fortemente positiva ( + + + + );
e, finalmente, a da observação VIII tinha artério-csclerose generalizada
e um certo grau de elefància na perna doente; e que a eficácia do sôro
nesses casos se manifestou decisivamente, a despeito de eu ter conservado,
muito de propósito, sem tratamento tais causas predisponentes das
úlceras atônicas.
Penso, pois, não ser exagero acreditar que o sôro sêco chegue a
constituir a base de um método terapêutico que se pode dizer vantajoso,
pois revivifica os tecidos, restaurando-lhes a vitalidade de há muito
perdida, estimulando-lhes a funcção e determinando, como resultado
final dessa acção benéfica, a formação de cicatrizes regulares, lisas, não
retrácteis e sólidas.
Depois, reune a um só tempo as trê3 principais qualidades de qualquer
processo terapêutico que vise alguma vida a saber:
a) facilidade de aplicação;
b) rapidez de acção;
c) redução de despesa.
Quanto a primeira, é fácilmente compreensível pela só leitura da
técnica que emprego: o processo é acessível a todos e em qualquer meio.
A segunda vantagem, talvez a principal, é correlata com o rápido
recobro da vitalidade da ferida, que fica ás vezes livre de germes; é de
todo inestimável.
Pelo conjunto de meus casos já posso avaliar em cerca de 0m.003 o
aumento da cicatriz que em tôda a orla da ferida sucede a cada sessão
dc tratamento. Repare-se que nem se pode discutir o valor prognóstico
aproximado de tal avaliação, porque ela torna possíveis muitos sucessos
no exercício da clínica.
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— 226 —
Finalmente, a última vantagem, referente ao pouco dispêndio, é
igualmente decisiva, pois que cada vez que se tratar de uma úlcera de,
p. x., 5 cms. de diâmetro se poderão gastar 0 gr. 50 de sôro ou pouco
mais; e, sendo necessárias em média 12 aplicações, a despesa ficará
reduzida a uma ou duas dezenas de mil réis.
Ampliando o campo de acção dêste processo, eu o tenho usado com
sucesso em casos de feridas traumáticas, de queimaduras e de soluções
de continuidade dos tegumentos em geral; e já o estou empregando em
um caso de cancro fagedénico da região peniana e em um de úlcert
venérea, resistente aos demais tratamentos. Os resultados finais que
obtiver, em tempo oportuno eu os darei à publicidade.
São Paulo, Julho de 1919.
CONCLUSÕES:
I — As úlceras atônicas acometem em grande escala os pobres e os
mendigos, os velhos e os esclerosos;
II — Por isto, o tratamento delas pelos enxertos de Tiersch, embora
dê resultado em alguns casos, apresenta as principais desvan-
tagens seguintes:
a) de ser sempre grave e dispendioso ;
b) de exigir anestesia geral;
c) de determinar nova lesão nos togumentos do doente.
III — O tratamento por aplicações locais de sôro sêco preenche todas
as condições de um bom processo, por ser muito simples, prático
e pouco dispendioso;
IV — Com êste tratamento, não se observam alterações sensíveis na
relação e no valor globulares, nem na percentagem geral dos
leucócitos; nota-se sómente pequena diminuição dos eosinófilos,
motivada provávelmente pelo desaparecimento da ferida;
V — í: êle um meio terapêutico processual por excelência, podendo até
ser considerado etiocrático, cm virtude de combater as infecções
que entreteem, ou as que determinam o processo ulceroso;
VI — Activa a cicratização das úlceras atônicas e a das fagedénicas,
restaurando a actividade dos tecidos, a despeito da persistência
de causas predisponentes, tais como a sifile, as verminoses e a
artério-esclerose ; e dando resultado em casos que tenham
resistido a muitos outros meios de tratamento;
VII — No tratamento das úlceras fagedénicas, parece ser superior aos
vários métodos até agora usados;
VIII — A acção que o sôro sêco exerce é exclusivamente local; não
repercute sôbre o estado geral do doente, nem se manifesta à
distância da região afectada;
IX — Determina em cada sessão um avanço da camada epidérmica
circunvizinha, corresponde a cêrca de 0m.003;
X — É finalmente aplicável sem associação de qualquer antisséptico,
podendo concorrer e ser equipado ao método de tratamento das
feridas operatórias e traumáticas ou de evolução aguda, pelos
líquidos de Carrel e de Dakin (10), pela pasta de dicloramina — T
de Daufresne (11), ou pelas polpas de glândulas — processo
de Voronoff rf- Bostwick (12) sôbre os quais apriorfsticamente
apresenta a vantagem de ser mais prático e acessível.
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SUMMARY:
In this article the author describes the treatment of atonic ulcers and
phagedenic ulcers by means of local applications of normal dried scrum,
without the concomitant use of any antiseptic substance.
On the very first applications of the serum, the ulcers begin to change in
appearance, becoming clean and regular and the tissues recover thcir
complete activity; and, when the dressings are applied with care, some of
them become aseptic. An intense reaction of cicatrization is produced without
delay, and the sore begins at once to take on a covering of epidcrmis, until
it is completely and radically healed.
In cases of phagedenic ulcers, a complete destruction of the fuso-spiro-
chactal association is observed, as the Plaut-Vicent’s fusiform bacilli disap-
pear first, then the Spirochata schaudinni v. Prowazek.
This being a ver}* simplc and praticai process, of rapid and decisive results,
that may be applied in any surroundings and accessible to all paticnts, the
author considers it superior to all other processes used for the same purposc.
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!>T' »
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