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MEMÓRIAS
DO
b
INSTITUTO DE BUTANTAN
1925
Tomo II - Fascículo Unico
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Endereço: SÃO PAULO (Brasil) *-**£
Caixa Postal 65
SUMMARIO
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas, pelos Drs. \ ital Brazil
c J. Vellard Pa?- 5
Cm novo genero e duas especies novas de aranha do estado de S. Paulo,
pelo Dr. J. Vellard ........ » » 79
Immunisaçâo anti-tetanica pelo methodo toxoide toxina, pelo Dr. José
Lemos Monteiro
As differentes phases da autolysis do • Bacillus anthracis >, pelo Dr. J.
Lemos Monteiro ....•••••
Immunizaçâo per as contra o B. de Shiga. Contribuição ao estudo da
natureza da immunidade, pelo Dr. Kduardo Vaz ... » ■ 99
SOMMAIRE
Contribution á Pótude du venin des araignées, par les Drs. Vital Brazil
et J. Vellard • Pag. n.« 5
L'n noreau genre e deux espéces nouvelles d' araignées de 1'état de
S. Paulo, par le Dr. J. Vellard ...... » » 79
Immunisation anti-tétanique par la métbode toxoide toxine, par le Dr. J.
Lemos Monteiro ......... »»85
Les différentes phases de 1'autolyse du < B. anthracis >. par le Dr. J. Le-
mos Monteiro ......... » » 95
Immunisation per o* contre le bacille de Shiga. Contribution ã 1'étude
du mécanisme de 1'immunité, par le Dr. Eduardo Vaz . . » » 99
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CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DO VENENO
DAS ARANHAS
PELOS DOUTORES
Vital Brazil .J. vellard
DIKBCTOR A.H.HISTENTK
(Com as estampas bl 4)
INTRODUCÇÃO
A existência de aecidentes, de uma certa gravidade, no homem
e nos unimaes superiores, foi muitas vezes posta em duvida por na-
turalistas e por médicos; muitos escriptores da antiguidade jã falam
a respeito, e, em nossos dias, numerosas observações clinicas e
experimentaes foram publicadas sobre esse assumpto ; alguns au-
ctores, porem, especialmente os européos, recusam ainda admittir
a possibilidade dos mesmos.
As crenças populares são, ao contrario, muito affirmativas, e
sem admittir todas as fantasias do tarantulismo », é interessante
notar a uniformidade das mesmas em regiões completamente dis-
tinctas ; assim, as especies de tamanho medio ou assaz pequeno,
formando o genero Latrodeclus, são quasi universalmente temidas
sob differentes nomes : « lucacha » no Peru, « guina » ou « pallu »
no Chile, <: araria dei Uno a em certos pontos da Argentina, «rnalmi-
gnathe » no sul da Europa, lobo preto», « karakurt » ou «tchim»
na Ilussia oriental e meridional, menaeodi » em Madagascar, «ka-
tipo > em Nova Zeelandia, neul-rouge » e « vinte quatro horas > nas
Antilhas...
Os índios da Califórnia (* assim como os boschemans — do
sul da África v -‘ empregam macerações de aranhas no preparo do
veneno de suas flechas.
Essas opiniões contradictorias, e alguns aecidentes graves ob-
servados em diversos pontos do Brasil, nos levaram a encarar a
questão experimentalmente. Xo presente trabalho, depois d'uma ra-
pida exposição dos estudos já existentes, daremos o resultado das
primeiras pesquizas que tivemos de fazer, para nos orientar sobre
o assumpto, estabelecendo a toxicidade dos differentes grupos ele
aranhas indígenas.
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
HISTORICO
Accidentes provocados por aranhas
Dentre os antigos, já Aristóteles assignala «luas especies mais
venenosas do que as outras e descreve approxirnadamente os acci-
dentes que ellas provocam. Plinio refere-se em diversas passagens,
á « Phalangium » e á « Tarantula d , fazendo notar ser esta mais pe-
rigosa no verão e no sul d’Italia.
Na idade média grassou, em diversas regiões da Europa, so-
bretudo no sul da Italia, uma curiosa moléstia, caracterisada por
intensa agitação nervosa ; os doentes eram, a maior parte das vezes,
accommettidos de crises convulsivas de riso ou de choro; alguns
dansavam com frenesi, outros experimentavam um somno invencí-
vel ou tremores generalisados. Notava-se quasi sempre, vomitos. e,
algumas vezes, perturbações cardíacas ou visuaes ; no fim da crise
os doentes adormeciam profundamente, de nada se recordando ao
despertar. O povo attribuia esses accidentes á picadas duma ara-
nha, uma lycosa, chamada commummente « tarantula » devido á
frequência d'essa moléstia, o « tarantulismo », perto de Tarento. As-
sumindo, esses accidentes, algumas vezes um caracter epidemico,
foram explicados de vários modos e muitas vezes attribuidos ã
hysteria.
Entretanto, certos symptomas observados actualmente nos ani-
maes de laboratorio, ou nas pessoas picadas por aranhas nos levam
a crèr que talvez uma especie de aranha, provavelmente uma La-
trodectus. poderia, em certos casos, ser responsável, pelo menos em
parte, por essas perturbações nervosas.
Segundo Hecker. citado por Ozanam, duas coisas bem distinctas
foram confundidas n‘essas epidemias de tarentismo. 0 tarentismo
accidental, devido á picada de uma aranha que os auctores d'a-
quella epocha chamavam « tarantula da Palha» e o tarentismo ner-
voso devido provavelmente a uma moléstia, que, como tantas outras,
grassou sob a forma epidemica e que desappareceu, ficando, prova-
velmente encantonada no seu berço primitivo, que, segundo esses
auctores, é a província do Tigre, na Abyssinia.
Em 1601 Ulysses Aldrovandi faz uma descripçáo muito com-
pleta d’essas epidemias de tarantulismo. Em 1791, Luigi Toti (*)
cita numerosas observações de accidentes cm algumas experiencias
que realisou, em Volterra, com o veneno de Lalrodectus 13 guttatus.
Em 1787 e 1788 esse auctor teve occasião de observar o appareei-
mento de grande quantidade d'esses arachnideos, provocando nume-
rosos accidentes e desapparecendo quasi completamente depois de
rigoroso inverno, em 1789. Os symptomas observados foram aná-
logos aos posteriormente registrados para os accidentes da Lartrode-
ctus. Estes symptomas são: tremor, calefrio, retenção de urina, dor
intensa, delirio, convulsões, perturbações intestinaes, podendo ter-
em
SciELO
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Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
7
minar pela morte, se o doente não melhora depois de transpiração
profusa. A convalescença é demorada. Muitos doentes apresentaram
agitação convulsiva, com paralysia dos membros inferiores, syndro-
ma esse denominado scélotgrbe , pelos antigos auctores italianos.
Foi. mui provavelmente, esse conjuncto symptomatico e a rela-
tiva frequência de accidentes devidos a Latrodectus, observados n’a-
quella epocha. tanto no sul da I tal ia, como em outras regiões da
Europa, que determinaram a confusão entre os casos de araneismo
ou tarentismo accidental e o tarentismo nervoso.
Marmochi (♦), italiano também, descreve, em 1800, cerca de 30
casos graves iMtrodectus 13-guttatus dos quaes nenhum mortal.
O quadro clinico, por elle traçado, approxima-se muito do observado
actualmente nos accidentes provocados por outras latrodectus, L.
mactdus ou L. erebus , notando-se já perturbações, lembrando a cho-
rêa semi-paralytica, de accordo com a observação do Br. Kllis, no
caso Baerg, em 1923.
0 dr. Graells (*»). de Barcelona, nos Annaes da Sociedade de
Entomologia de France, de 1834. assignala a appariçào perto de
Tarragona, no anno de 1830. de uma grande quantidade de aranhas,
provocando numerosos accidentes, e alguns casos mortaes. Em 1833
esse mesmo auctor descreve uma nova appariçào d 'essas aranhas
perto de Barcelona; uma commissâo foi nomeada pela Academia
Real de Medicina de Barcelona para estudar esses factos, a qual clas-
sificou essa especie como Latrodectus 13 gut tatus.
Cauro, em 1833, descreve accidentes determinados na Córsega,
por essa especie de aranhas, registrando que os phenomenos obser-
vados eram analogos, porem, menos graves do que os notados no en-
venenamento pela vibora.
Segundo Olivier *), um velho de GO aiinos teria morrido nas
ilhas de Hyeres, de gangrena consecutiva a picada de aranha. Hul-
se v'), em 1839, publicou o caso muito interessante d*um homem
picado no penis, no assento de uma latrina modo de picada bas-
tante frequente por uma grand e caranguejeira , tendo apresentado
durante 24 horas fortes dôres em todo o tronco, acompanhadas de
suffocações, de vomitos, de congestão da face, tendo sarado final-
mente o doente.
Em 1856 Ozanam : ) publicou uma observação de Jahr relativa
á picada <1 'Epeira diademata, acompanhada de dôres articulares, aba-
timento geral, dôres de cabeça e perturbações intestinaes com ca-
racteres de intermitteneia e periodicidade.
Em 1852, no Chile, Miguel publicou os primeiros accidentes at-
tribuidos ao Latrodectus mactaus. accidentes, posteriormente, tantas
vezes observados, n'aquelle paiz. Tres annos mais tarde, no bol-
letim de Moscou, Motschulsky e Becker (•), estudando uma outra
especie do mesmo genero, o luitroilectus erebus da Rússia meridional,
lho attribuiam a morte de 70.000 carneiros, durante os annos de
1838-1839, entre os rebanhos dos nômades d'essa região.
Em 1870 Schtschensnowitsch ’ retomando o mesmo assumpto,
refere o seguinte numero de accidentes, devido a este latrodectus —
o Karakurt ou lobo preto dos Kalmuks: durante o verão de 1869,
n'uma pequena steppe, ao sul da província de Samará, entre o Cral
8 Memórias do Instituto de Dutantau - Tomo II -Fase. 1’nico
e o Volga, essa aranha picou 48 pessoas, tias quaes 2 vieram a fal-
lecer, 173 camelos 57 mortos . 218 cavallos 31! mortos) e 116
carneiros 14 mortos} : em seguida descreve, d’um modo muito
completo, os symptomas no homem, symptomas muito semelhantes
aos observados na Argentina e no Chile com o Latrodectus mactaus:
nenhuma reacção local, dòr forte, irradiante, profundo abatimento,
palpitações, caimhras e algumas vezes convulsões tetanicas, hypo-
thermia, perturbações cardíacas ; a morte pode sobrevir no segundo
ou terceiro dia; se isso não acontece os phenoraenos melhoram no
quarto ou quinto dia, mas a convalescença é muito longa, de duas
a tres semanas ã diversos mezes. Hm 1869, Frantzius ( l0 assignala,
na America Central, diversos casos d’ulceras e de gangrena, devido
ã a rana pira -ca vali o, uma caranguejeira que fére no pé, e algumas
vezes mata os grandes animaes: existem accidentes no homem e são
muito dolorosos. Desde então tornam-se frequentes as observações,
sobretudo na America do Sul. Holmberg ( n ), na Argentina, rita uma
picada de Segestria perfila n’uma creança, provocando febre, gan-
grena, c uma cicatriz indelevel ; o mesmo auctor attribue diversos
casos de morte por aranhas registrados annualmente pela repartição
de estatística á Lgcosa i>ampeana.
A esta especie deve-se referir, mui provavelmente, um accidente
relatado por Greco e occorrido na pessoa de um empregado do Mu-
seo de Historia Natural de Buenos Aires.
Weyemherg em 1876, observa ern Cordoba um caso de morte
pela Segestria perfi da . Na mesma épocha Dieu 11 presenciou na
Huropa diversos accidentes locaes acompanhados de febre, os quaes
attribue & mesma especie. Grube ('•), picado por uma < Chiracanthum
punctaloríum » conservou, durante duas semanas, uma placa d'anes-
thesia local. Dax ( li ). depois Guibert ( 1 *) observaram, em França,
em consequência de picadas pelo Latrodectus 13 guttatus », perturba-
ções analogas, musculares, renaes e intestinaes, mas muito menos
intensas do que as provocadas pelas outras especies do mesmo
genero.
Cremor ( K ), n'um trabalho que, infelizmente não nos foi pos-
sível consultar, cita o yaso de 4 brasileiros da mesma família, que
morreram successivamente, com um dia de intervallo, tendo o si-
gnal de duas picadas superficiaes ; minuciosa pesquiza, feita na casa
trouxe a descoberta de uma pequena aranha vagabunda, que foi
morta ; desde então nenhum accidente se reproduzio.
Segundo o dr. Sacc, de Cochambamba.t Bolívia), citado por H.
Simon (*’), algumas especies de salticidae, denominadas por este
ultimo auctor como Dendruvl, untes noxiosus e I ). Sarei, são muito
temidas, n’esta região, sob o nome de mico-mico : sua picada pro-
voca uma dòr muito forte, seguida d*inflammação ; nos casos gra-
ves, nota-se sempre hematúria e a morte pode sobrevir dentro de
algumas horas ; Sacc preconiza como tratamento o ammoniaco e as
cauterizações ígneas. Bobilier, depois Puga Borne (**), retomaram
esses estudos, no Chile; em 1892 este ultimo auctor attribue ao
Latrodectus mactaus a morte de 4 cavallos, 2 ovelhas, coelhos, co-
baios e outros animaes, citando um caso mortal no homem, e rela-
tando diversos accidentes devidos ã Epeira audax.
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
Na Argentina entretanto, é que, durante os últimos 30 annos.
esses factos foram melhor estudados. Km 1804 José Penna - re-
latava 2 rasos mortaes, sendo notável o dum jovem italiano que
picado no braço, por uma aranha, foi enviado ao hospital de isola-
mento como suspeito de febre amarella: ao lado de intensas pertur-
bações geraes, febre, icterícia, hemoglobinuria, elle tinha, no lugar
da picada, duas enormes phlyctenas que chegaram a gangrena; a
morte se deu no quinto dia. Delio Aguilar (»). “lem de suas obser-
vações pessoaes, lembra as de Brandzen, de Balbastro, d Aranguren.
de Toribio Ricardo, Lacoste, Jonas Larguia e Renedit, .cerca de 12
casos entre os quaes t> mortaes ; elle classifica, segundo sua inten-
sidade, os accidentes que poude observar, com especies nao determi-
nadas em fracos, médios (inflammação local, phlyctena. febre, apre-
sentando melhoras dentro de 24 horas), e graves, com necrose branca,
diffusa, do membro picado, vomitos, temperatura de mais de 39«,
enterorbagia, albuminúria, pulso fraco, muitas vezes congestão pul-
monar; depois 3 ou 4 semanas eliminação duma grande eschara.
Uma creança picada no hypogastrio morreu em < dias. A um trabalho
posterior, elle relata 15 outras observações, dentre as quaes 2 casos
mortaes causados pela Aranea audax. Argerich ( J - 1 , em RXte, descre-
veu um accidente devido á Segcxtria pérfida: o paciente apresentava,
alem de fortes dores locaes e vomitos. icterícia grave, accentuado es-
tado de demencia, pulso filiforme e congestão pulmonar, não melho-
rando sinão para o nono dia; formou-se, então, grande eschara que
se eliminou pouco depois. Xo anuo seguinte, Burghi -■ refere um
caso semelhante de um soldado picado por uma rolgbeles pgtlmgo-
rica e, em 1910, Mazza e Argerich («) o d um jovem bespaimoj
picado, por uma Sege síria perfídia. Ainda em 1910 Américo dei
Pino <**) publica 3 accidentes, dos quaes um mortal, attribuido a
Aranea audax. Cerutti (*«), cm duas publicações, estudou a sympto-
matologia dos accidentes provocados pela Latrodeetus maetans. das
quaes elle observou mais de 100 casos em 10 annos, em l erguminu,
província de Buenos Aires: nenhuma reacção local alem dos 2 pon-
tos vermelhos deixados pelos ferrões da aranha ; alguns minutos de-
pois do accidente começam violentas dores generalizadas, uma sen-
sação de fadiga, de oppressão precardiaca, angustia extrema acom-
panhada de tremores generalizados e movimentos contínuos; ha
hypotherraia, dyspnéa (45 a 50 movimentos respiratórios por mi-
nuto , pulso regular, com 00 pulsações ; os reflexos são exagerados,
as urinas defficientes ; não existem vomitos; depois d*um tempo
variavel, de 12 a 24 horas, sobrevem transpiração abundante e
todos os svmptomas retrocedem em 3 ou 4 dias; em todos os doen-
tes a evolução foi favorável. Xos casos frequentes de picadas pelo
mesmo latrodectus, no Chile, Gusman 57 observou, alem disso, per-
turbações mentaes, hallucinaçòes profundas, alterações das secre-
ções e da innervação, apparecendo, de alguns minutos ã 3 horas de-
pois do accidente; os tremores degeneram algumas vezes em con-
vulsões locaes; depois, essas perturbações vão melhuFaiido, mas
durante a convalescença que é longa, apparecem muitas vezes eru-
pções e desquammações ; nos casos mortaes que Guzman não oh
sérvou pessoalmente, a morte sobreveio pela aggravação dos sympto-
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Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. l'nico
mas precedentes, seguidos de paralysia e de forte hypothermia ra-
ramente de hvperthermia , algumas vezes também pelo enfraque-
cimento gradual do organismo. Este quadro clinico é perfeitamente
comparável ao traçado por Marmochi e pelos auctores russos nos
seus estudos sobre os Latrodectus 13 guttatus e erebus.
Guzman attribue igualmente a mancha gangrenosa, accidente
frequente no Chile, á picada de especies diversas, Dgsdera insidia-
trix ou Sicarius rufipes , trazendo, sobre este assumpto, suas obser-
vações pessoaes e as de Prado.
Emfim. B. Sommer e X. Grecco ( u ) publicaram dois estudos
clínicos, muitos completos, sobre accidentes provocados pelas ara-
nhas, accidentes para os quaes propuzeram, no Congresso Inter-
nacional americano de Buenos Aires, (1910), o nome d'araneidismo
ou araneismo mais apropriados do que o d'arachnoidismo, proposto
em 1907 por Mazza e Salovicz (*» t . Estes dois últimos auctores
haviam distinguido 4 typos d'araneismo; o araueismo neurotoxico,
o araneismo icterohemolytico, o araneismo necrotico e o araneismo
eruptivo; Sommer e Grecco reduziram os mesmos a tres, o ara-
neismo cutaneo-ictero-hemolytico, o araneismo exanthematico e o
araneismo-neuro-myopathico ; emfim, em 1916, Houssay (*°) con-
serva somente dois, o araneismo nervoso e o araneismo gangrenoso.
Houssay descreve igualmente um certo numero de picadas à Aranea
audax com edema considerável, placas de gangrena, delirio, icterícia
e algumas vezes erythema scarlatiforme polymorpho, tudo evoluindo
de 7 a 25 dias.
Xo Perú existe um trabalho d’Alfredo y Leon 1891 e dois
estudos de Escomel ( M ), um sobre o Ghndocranium <iasthcracanthoi -
des . pequena aranha muito commum sobretudo na base das par-
reiras, e que causa frequentes accidentes caracterizados localmente
por um edema enorme, se transformando em phlegmão diffuso, com
phlytenas, se necrosando e eliminando grandes placas cutaneas;
n’um caso de Bedregal Delgado, que elle cita, observou uma menina
picada no pescoço que morreu no nono dia com grande esphacelo da
pelle do pescoço; nos casos mortaes, que são raros, a morte so-
brevem no meio de convulsões precedidas de abatimento profundo,
com anuria e pulso incontável ; no segundo estudo, dedicado ao La-
trodectus mactans, os symptomas são diversos dos observados em
outras regiões, pela presença constante d'um edema considerável;
estes accidentes são frequentes e de ordinário, attribuidos á erysi-
pela ou á picada d'algum escorpião ou de algum sauriano inoffensivo.
Xa America do Xorte, Riley (* s ) fornecia, em 1881, uma con-
tribuição á litteratura das picadas mortaes de aranhas; em 1915
Kellog (**) relata 2 casos sérios observados pelo dr. Koleman de
Los Altos: no primeiro caso trata-se d’um homem picado no penis
por Latrodectus mactans; dentro de 10 minutos appareceu uma dor
forte, contracções clonicas dos musculos da perna e da parede abdo-
minal ; o orgão ferido tornou-se purpura, muito augmentado de vo-
lume, os batimentos cardíacos muito moderados, respiração penosa,
a face congestionada e as pupilas dilatadas ; no dia seguinte era
sensível a melhora, os accidentes locaes e a dor tinham desappare-
cido porem, um leve rash existia no corpo; 3 dias depois as pulsações
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
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cardíacas não eram ainda senão de t»4 por minuto. Mais recentemente
Baerg (**), persuadido da inocuidade do veneno de aranha, em con-
sequência de experiencias muito pouco precisas, experimentou sobre
elle proprio, o effeito da picada de uma caranguejeira, a Dugesiella
llentzi, e a do iMtrodectus mactans; provavelmente, devido ã technica
defeituosa empregada, não obteve quasi nenhum resultado com a pri-
meira especie, e a dor, muito leve, desappareceu em menos de 2
horas; elle conclue, desta tentativa e de algumas outras experien-
cias feitas segundo a mesma technica, sobre animaes de laboratorio,
haver falta de actividade do veneno (Testa especie, conclusão pouco
segura sendo dada a possibilidade da aranha haver picado, sem dei-
xai* correr o veneno. Hesultados muito fracos, obtidos mais tarde
em ratos, com o ÍMtrodectiis mactans. decidiram-n o ainda a experi-
mentar sobre si mesmo, esse veneno, Essa observação é muito im-
portante, porque demonstra dum modo irrefutável a grav idade de
taes aceidentes no homem, e a necessidade de ser muito reservado
ao examinar as conclusões de uma experiencia por picada directa :
teve algumas difficuldades para se fazer picar, tendo occasiao de
notar que as aranhas se tornavam mais aggressivas dois dias de-
pois de se haver alimentado ; foi em seguida picado no dedo rninimo
da mão esquerda ; a dor foi viva, porem, passageira ; uma hora
depois o logar do ferimento estava vermelho e coberto de gottas
de suor; na segunda hora a dor. voltando muito forte, se estendia a
todo o braço, e, apezar da applicação local de permaganato e dam-
moniaco elle entrava no hospital .4 horas depois de haver principiado
a experiencia ; durante dois dias, a dor continuou com violência,
não somente no membro ferido, mas generalizada, occupando, sobre-
tudo. a região lombar, acompanhada de suores profusos, d'um pouco
de delírio, e de forte constipação; a applicação local de pennaga-
nato foi pouco efficaz, porem banhos quentes repetidos, geraes e
locaes. acalmaram um pouco a dor; nas proximidades do terceiro
•lia esta diminuio, dando lugar a um entorpecimento e, no quarto, o
doente poude deixar o hospital ; nos dias seguintes sentio ainda uma
dor local e a temperatura que, durante a phase aguda, se tinha
mantido nas proximidades de 99°9F. oscillou durante 2 semanas en-
tre 97°6 e 99°6: o medico assistente, dr. Ellis. notou, alem d’isso,
o aspecto congestionado da face, viva phagocytose local, perturba-
ções vaso-motores e câimbras intermittentes. lembrando a claudica-
ção intermittente. A proposito desta observação. Baerg lembra o
caso muito grave de uma pessoa que foi picada no scroto, provavel-
mente por uma latrodectus.
Na Europa. Blanchard (**), Walburn t**) e Mme. Physalix (* ; )
citam na litteratura, um grande numero de aceidentes, sem relatar
nenhum caso pessoal.
No Brasil esses aceidentes não são raros, sendo, entretanto, ra-
ríssimos os casos de perfeita identificação da aranha determinadora
do accidente. Consignamos aqui algumas das mais interessantes ob-
servações de araneismo, entre nós, algumas colhidas no proprio
Instituto, outras registradas por informações de collegas.
a Um de nós (o dr. Vital Brazil) teve occasião de observar
dois casos de aceidentes por aranha em 1917, em Butantan. Nos
12
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II -Fase. ITiico
dois casos o accidente occorreu quando as victimas dormiam. A pi-
cada, em um d’elles, foi ao nivel da união do terço medio ao terço
inferior da parte interna do braço direito; no outro, foi na parte
anterior do terço inferior do braço esquerdo, quasi ao nivel da do-
bra articular. 0 primeiro caso. muito mais serio que o segundo, foi
acompanhado de fortes dores e esphacelo dos tecidos dermico e sub-
cutâneo, n’uma extensão approximada de 40 centímetros quadra-
dos, conforme se vê da estampa n.° 8 photographada da peça de
cêra modelada do paciente e depositada no Museo do Instituto. Xo
segundo caso, alem das dores que não foram tão fortes, nem tão
duradouras, como as do primeiro, observou-se forte echymose no
ponto da picada e na região circumvisinha, conforme se verifica da
estampa n.° 8 photographada da peça de cera existente no Museo
do Instituto.
Xos dois casos, alem das dores, nenhum outro symptoma geral
foi observado. O tratamento paliativo e symptomatico consistiu na
applicação de compressas d'agua phenicada, que proporcionaram ali-
vio aos pacientes. O restabelecimento foi demorado no primeiro caso
e rápido no segundo.
b) O Professor II. Kraus, durante o periodo de sua adminis-
tração do Instituto de Butantan, teve occasião de observar dois
casos de araneismo.
Por único documento d’essas observações encontramos no Ins-
tituto estampas coloridas, que representam as lesões Iocaes de taes
accidentes. O Dr. Rocha Botelho que acompanhou a observação
destes accidentes poude reconstituir a historia de um d’elles. Do
outro não foi possível fazer o mesmo, porque o paciente não tendo
deixado o endereço não poude ser encontrado Estampa n.° 10,.
Observação do Dr. Bocha Botelho:
Da. Maria Trettin, com 40 annos de idade, casada, natural da
Allemanha, residente ã rua Itapeheraba n.° 17, na Freguezia do O',
nesta Capital. Foi mordida no terço medio da face interna do braço
esquerdo, a 24 de Xovembro de 1022, em sua residência, por uma
aranha parda e de tamanho mediano. Xo momento da mordida, o
que se deu ás 3 horas da madrugada, quando procurava vestir um
casaco que se achava no chão, nada sentiu a não ser a picada, ador-
mecendo em seguida. Algumas horas depois, pela manhã, começou
a sentir ligeiras dores que foram augmentando progressivamente e
como si fòra uma queimadura. Dois dias depois da picada appareceu
n’este Instituto de Butantan, á procura de recursos. Quando aqui
chegou, apresentava o braço grandemente edemaciado, invadindo este
edema toda a parte inferior do ante-braço, indo pouco alem da região
do cotovello. Xo ponto da picada, via-se uma coloração violacea,
em fórma de X. mais ou menos de 8 centímetros de extensão, em
cujo centro estava o ponto da picada. Conforme a estampa n.° 9.
Xa 2. a figura da estampa n.° 9 nota-se o tecido fortemente echymo-
sado, sem, no entretanto, a primitiva inflammação, com inicio de ne-
crose. cuja placa cahira e que havia invadido toda a região, corres-
cm
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Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
13
pondente, principalmente, ao X da primeira figura; nota-se na 3.«
figura da estampa n.° 9 a perda da pelle, tecido cellular sub-cutaneo,
aponevrose e mesmo parte tia superfície muscular, ficando como se
diz vulgarmente, em carne viva. Xa quarta figura da estampa n.» J
<iue representa a região alguns inezes depois, vê-se a cicatrizaçao cm
forma linear. Apresenta actualmente, 2 annos após o accidente iniciai,
uma grande cicatriz com distensão do tecido, conforme a õ. a figura
da estampa n.° 9. Consistiu a therapeutica, em uma mjecçao de
serum anti-escorpionico, no primeiro dia que aqui viêra, em ap-
plicações locaes anti-scepticas e compressas de agua fria.
(1 n r refere dois casos de araneismo, occorridos em
Conceição de ltanhaem . O primeiro chegara ao seu conhecimento
por informações de pessoas da família do paciente, e dera-se cerca
de oito annos passados. Tratava-se de um homem, de cerca de 40
annos de idade, que sentando-se no chão, nas proximidades da praia,
fòra picado no pé, por uma aranha escura de tamanho medio. Apre-
sentaram-se logo phenomenos excessivamente dolorosos e contractu-
ras generalizadas, yin.l.i a fallecer dentro de seis horas aproxima-
damente. Não fòra assistido por medico, por nao haver em Itanhacm,
por essa epocha, clinico algum. O outro raso deu-se a pouco tempo,
tratando-se de um indivíduo, forte, adulto e que fòra picado no pe
atravez do ilhoz do sapato, quando trabalhava no quintal, roí um
caso leve, provavelmente pela protecção do sapato. Apresentou, en-
tretanto. dor intensa local, acompanhada de mal estar geral, dor
prccordial, câimbras nos dedos das mãos. Restabeleceu-se dentro
de dois dias, depois de suores profusos. Uma aranha remettida pelo
paciente, como idêntica á que havia determinado o accidente, fora
identificada, pelo Dr. J. Nellard a Ctenus Jerus. ... .
q i) r . José Luiz Guimarães, medico da Assistência 1 uhlica <ie
§ Paulo tem tido occasião <le soccorrer vários casos de araneismo,
fazem lo interessantes observações, que levou ultimamente ao conhe-
cimento da Sociedade de Medicina e Cirurgia de S. 1 aulo. U seu
primeiro caso, occorrido em 1903 e publicado no n.« Ida Gazeta
Clinica de S. Paulo, pag. 17, foi <» de um menino do 7 annos de
idade, que brincando junto a um poço. fòra picado no pavilhão da
orelha esuuerdaj por uma pequena aranha. Ip ouco maior do que uma
abelha. Depois de uma syihptomatologia de extrema gravidade suc-
cumbe 17 horas após o accidente. de nada tendo valido os recursos
médicos postos em uso, inclusive a injecção de 20 cc. de sòro anti-
ophidico.
Os outros casos observados por esse nosso distincto collega, e
que nos foram, por elle, referidos verbalmente, referem-se todos a
accidentes de effeitos locaes, acompanhados de esphacelos mais ou
inenos extensos, observados todos nesta Capital e devidos mui pro-
a picada da /.
De um delles, por extrema gentileza do nosso confrade, damos
uma figura, n.» 11, que mostra a extensão e gravidade que pode
produzir a picada desta especie muito frequente entre nós.
Registramos ainda dois casos de accidentes por picada de ara-
nha. observados neste anuo no Instituto de Butantan. Um delles
occorrido em pessoa residente no Instituto, mulher de um empre-
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u
Memórias do Instituto de Butantau - Tomo II - Fase. Unico
gado, é particularmente instruetivo, por nos dar a comprehender a
razão porque, em muitos casos, os accidentes são benignos a des-
peito da aranha determinadora do accidente ser perigosa. Foi o caso
que a mulher de um empregado, pela manhã ao levantar-se do leito,
procurando calçar os chinellos, fôra picada ligeiramente na extremi-
dade do dedo grande do pé direito, por uma aranha que se achava
occulta em um dos pés do calçado. 0 marido, que se achava ao lado
da paciente, poude capturar a aranha que foi determinada como um
bello exemplar de Clenus nigriventer, observando o mesmo que o ara-
chinidio deixara, sobre a pelle do ponto offendido, uma gotta de um
liquido constituído certamente pela maior parte do veneno que não
fôra inoculado. A paciente apresentou immediatamente dores muito
intensas, vindo suhmetter-se ao nosso exame. Verificamos, como
corpo de delicto do accidente. apenas ligeira arranhadura produ-
zida por um dos ferrões. A espessura da pelle do dedo offendido, ex-
plicava o facto de não haverem penetrado os dois ferrões, a despeito
da força com que picara a aranha, o que ficou demonstrado pelo
escoamento do veneno na parte exterior da pelle. A paciente depois
de algumas horas de intenso soffrimento, curou-se sem outro qual-
quer symptoma desagradavel.
0 outro caso observado em Butantan, e de que trataremos mi-
nuciosamente, mais adiante, foi o de um homem picado no pescoço
por uma aranha, provavelmente uma Lycosa. Alem dos phenomenos
dolorosos e do edema local, observados no começo do accidente, ne-
nhum outro foi notado, pois o paciente restabeleceu -se promptamente
graças ã acção do soro anti-lycosico que jã havíamos conseguido
por occasião d’este accidente. A estes casos devemos ainda aceres-
centar o do accidente de que um de nós (o Dr. J. Vellard foi
victima, quando caçava nas maltas próximas ao Instituto de Niterói,
aranhas para os estudos que emprehendiamos. Ao procurar apanhar,
com uma pinça, um Ctenus ferus, especie muito aggressiva e ex-
tremamente agil, fôra picado no pollegar da mão esquerda. Sentio
immediatamente dores muito vivas que continuaram intensas por
muitas horas e attenuadas por alguns dias. Não houve reacção local.
Alem dos phenomenos dolorosos, foram notados: frequência e irre-
gularidade do pulso, mal estar geral, trepidação muscular e contra-
ctura nos inusculos do dedo offendido, suores profusos, etc.
Só ao fim de quatro dias julgou-se o paciente apto a retomar
as suas occupaçòes hahituaes.
b) Estudos experimentaes
As pesquizas experimentaes sobre o araneismo são muito mais
raras e menos completas do que os estudos clínicos; como teremos
occasião de expor mais adiante, são ellas delicadas, sujeitas a nume-
rosas causas de erro, apresentando resultados muitas vezes contradi-
ctorios, e difficeis de serem devidamente apurados.
Já em 1689 Baglivi ' fez picar, por uma taraiitula. no labio,
um coelho, que morreu paralytico em õ dias, com um edema volu-
moso e uma eschara local. Em 1757. Clerck } *). na Suécia, depois.
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Contribuição ao estudo do veneno das araxdns
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um pouco mais tarde 1778 1 . de Geer *°), em consequência de varias
experiencias n’elles proprios e sobre insectos, concluíam que as ara-
nhas, pelo menos no norte da Europa, são inoffensivas para o
homem.
Em 1794 Luigi Totti fez picar, durante tres dias consecutivos,
uma gallinha por um Latrodectus; a cada picada seguiram-se convul-
sões, houve um grande edema, o animal não podia estar de pé, e
levou tres semanas a se restabelecer; um pombo picado na base do
bico, morreu em oito dias, paralytico; pintinhos morreram dentro
de algumas horas; um cão picado no focinho, manifestou forte dôr,
grande abatimento e se restabeleceu ; diversos animaes, cães, gatos,
coelhos, recebendo no seu alimento, latrodectus esmigalhados, não
mostraram nenhum signal de intoxicação; emfim, Totti, se deixando
picar por 4 iMtrodectus muito novas, não sentiu senão uma dòr leve,
seguida de apparição de pequenas papulas.
A. Raikem (“). em 1827, não obtem, primeiramente, nenhum
resultado fazendo picar um grande coelho por uma femea de Im-
trodectus; um segundo coelho picado por uma femea previamente
excitada se enfraqueceu pouco a pouco e morreu em cinco ou seis
dias : um terceiro coelho, picado por 4 femeas e um macho da mesma
especie não apresenta senão fracos symptomas, immediatos, porem, fi-
cando paralytico no dia seguinte, morre na noite immediata; sobre
dois pombos, um morreu em 24 horas e o outro se restabeleceu a
muito custo; um cão novo teve somente tremores generalisados.
Walckenaer 1830 . Milne Edward e A. Dugès ( M ) julgavam, ao
contrario, inoffensivas as aranhas ; Dugès faz, apenas, algumas re-
servas sobre a épocha, pouco favoravel, na qual elle fez suas expe-
riencias (temperatura fresca, no fim do verão) e nota que sempre
as aranhas ( epcira , segestria. latrodectus apertavam a pelle sem
que seus ferrões atravessassem a epiderme. Dufour, Maggridge, Lu-
cas e Van Hasselt tendo sido igualmente picados, por diversas espe-
cies, não as acreditam perigosas; Blackwall ( u ) chega mesmo a
concluir que os insectos dos quaes ellas se alimentam são mortos, não
pela acção do veneno, mas por simples traumatismo, baseando-se so-
bre um certo numero d’experiencias, em que as moscas picadas por
aranhas não morriam mais rapidamente que as testemunhas, picadas
com um alfinete. Bertkau ('*), em 1870, retomando as experiencias
de Blackwall, chega ã conclusão opposta, mas observa variações
assaz numerosas da actividade de veneno, sob diversas influencias,
menos activo, por exemplo, no tempo frio e húmido ; alem d'isso,
emquanto que Blackwall não fòra incommodado pela picada da
Aratiea diademata (ao contrario das observações de Jahr) Bertkau,
assim como Forell, (•** soffreu muito com uma picada de Chira-
canlhium subflanim. necessitando perto de 2 semanas para se res-
tabelecer.
Pollock (*•) relata que a Lycos a ingens, da Madeira, ataca e mata
lagartos bastante grandes e, segundo Doleschall * : a grande Se-
lenoscomia javanensis mata o padda pardal conirostro, senegalez
em 30 segundos, com convulsões tetanicas.
Fabre (** acha o veneno das aranhas, em geral, muito fraco para
prejudicar o homem; não obstante, um pardal novo, picado na pata
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Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
por uma Lgcosa narbonensis morreu paralytico, em 24 horas, eom
algumas convulsões; uma toupeira succumbiu em 40 horas. Eu-
gênio Simon («*), sem se ttpoiar em experiencia alguma, crê as ara-
nhas inoffensivas e acha mais simples explicar as observações de
Motschulsky por uma epizootia, dando, alem d'isto, pouco valor aos
diversos trabalhos publicados sobre o araneismo; as especies - do
genero Chiraeanthium lhe pareciam, entretanto, mais activas e- ca-
pazes de determinar accidentes, até mesmo no homem. ;>
Não é, senão, no começo d'este século, que os estudos experi-
mentaes se tornam mais abundantes e mais precisos. Kohert % so ) s
foi o primeiro a emprehender pesquizas systematicas sobrq esse as-
sumpto, mas acreditando achar no corpo inteiro das aranhas, os
princípios activos ilo veneno, em maior quantidade, trabalhou com
macerações totaes de aranhas, enveredando assim, lúima via, com-
pletamente differente; só mais tarde elle emitte algumas duvidas
sobre a identidade das duas toxinas.
Walbum, em 1914, publicou uma longa memória sobre o veneno
das glândulas e as toxinas obtidas por maceração total da A rança
< liademata ; nàs suas experiencias realizadas fazendo picar aranhas
vivas, elle verificou que esta especie é muito activa em relação ãs
moscas, que morrem pela acção do veneno; que este ultimo se ex-
gotta, após cada picada, mas se refaz rapidamente, e que as primei-
ras gottas são as mais toxicas ; mas a injecção intravenosa, no
coelho, de 40 milligrammas d’esse veneno, diluido em soro physio-
logico, e a de <!0 milligrammas intraperitoneal, no camondongo não
determinam nenhum symptoma dlntoxicação ; conclue que as es-
pecies do norte da Europa não são nocivas ao homem e aos animaes
de sangue quente ; que as especies perigosas existem somente nos
tropicos, e que não ha relação entre o tamanho da aranha e a acti-
vidade do veneno para especies differentes como pretendia Lins-
tow 1894 Levy 41 ) em França; trabalhando com extractos de
glandulas maceradas em agua distillada ou soro physiologico, veri-
ficou que a injecção intravenosa de 12 glandulas d 'Epeira ou de
Tegenaria não determinava nenhum symptoma no coelho; (> glandu-
las de Tegenaria atrica injectadas debaixo da pelle d’um rato, não
trazia nenhuma reacçâo local, do mesmo modo que 8 glandulas de
Tegenaria pariclina na rã; fez alem disso, algumas outras experien-
cias pouco concludentes com a Epeira comuta , ZVla X-notata e Ama-
urobius ferox sobre ggrinos de rã, carangueijos, escorpiões e alguns
insectos.
Mme. Physalix tem poucos estudos pe^oa® sóbri as a ranhas;
o veneno da Cteniza sauvagei , da Córsega, [jouco activm Tlào occa-
siona, no camondongo senão uma narcose passageira, com pequena
necrose local; inj. hypod. de 2 gland.) mas, por injecção intra-
muscular é, muitas vezes, mortal para os pequenos passaras (morte
em 20 horas com asthenia profunda pela suspensão da respiração ;
o veneno de Phormictopus carcerides, do Haiti, é muito mais acti-
vo: ê um veneno narcotico. hypothermisando-e paralysando a res-
piração, que mata o camondongo em menos de uma hora por in-
jecção d’um quinto de glandula, e o pardal somente dentro de 48
horas.
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Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
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Blanchard, Calmette ( 4I citam opiniões de diversos auctores,
sem acrescentar nenhuma observação pessoal, limitando-se a reco-
nhecer a existência de accidentes no homem e nos graitdes mammi-
feros, emquanto que Berlèse acha as aranhas absolutamente inof-
fensivas.
.\a America do Sul è preciso lembrar os estudos de Puga Borne
sobre- o Latrodeclus mactans, no Chile; algumas experiencias de
Mazza e Salovicz que obtiveram, em 18 horas, a morte de um co-
baio picado por uma Arava polido uma grande caranguejeira > e as
pesquizas anatomo pathologicas de Argerich sobre animaes de labo-
ratório ; porem, os trabalhos mais importantes são os d’Escomel no
Perú, e principalmente os de Houssay em Buenos Aires.
Houssay, em diversas publicações, estudou cuidadosamente o
veneno de algumas especies da Argentina, particularmente o da Im-
siopelma grossum, Avicuhria holmbergi, Eurypelma sal valor e The-
raphosa blondi; infelizmente sua classificação não parece muito ri-
gorosa, porque a Theraphosa blondi, especie rara, da fínyanna,
pouco espalhada nas collecções, não se encontra na Argentina; se-
gundo suas experiencias, muito interessantes, as grandes Therapho-
sidae matam o camondongo em alguns minutos, com symptomas um
pouco variaveis, segundo as aranhas provavelmente de especies dif-
ferentes? mas com predomínio dos phenoinenos paralvticos, de-
vidos a uma curarisaçào cuja existência demonstrou, repetindo a
experiencia rlassica ile Cláudio Bernard : algumas d’estas aranhas
até mataram, successivamente, tres coelhos, com intervallo de 16
minutos. As Hpeiras não se mostraram perigosas para os animaes de
labcratorio ; as Polybetes e as Lycosas mataram raramente os ca-
mondongos ; um camondongo pirado por t! grandes Lycosas pam-
peana. escapou da morte, emquanto que uma outra especie não
determinada picou no mesmo dia um camondongo que morreu em
dez minutos, com signaes de paralysia e intensas convulsões, unr
coelho que morreu no dia seguinte e finalmente um segundo camon-
dongo que se restabeleceu, sem apresentar convulsões ; no dia seguinte
a mesma aranha picou um cobaio, que sobreviveu, do mesmo modo
que um camondongo e dois dias mais tarde dois ratos brancos dos
quaes um uniro morreu, era 30 horas. Com o hdrodvctu* mavlans
sempre par meio de picada directa) notou que os exemplares re-
centemente capturados mataram 85 o/o dos cobaios a mais do que os
guardados em captiveiro; os animaes de sangue frio se mostraram
absolutamente refractarios ; 8 ratos tiveram symptomas aceusados,
mas se restabelece ranr. •> «çamondongos brancos' morreram entre 5 ò
21 horas; 2 cães apresentaram somente abatimento, paresia. tremo-
res e vomitos ás vezes biliosos e sanguinolentos; os coelhos se
mostraram muito resistentes apezar de picados por 5 ou d aranhas-
os cobaios são, ao contrario, muito sensíveis, morrendo na media, em
2 ou 3 horas, por hronchospasmo e edema pulmonar de 30 minu-
tos a 30 horas : inquietações, gritos, agitação, tremores, hvperes-
thesia, espirros, depois paresia progressiva, cyanose, hvpothermia e
morte por suspensão de respiração; algumas vezes, se restabele-
ram. apezar de haverem mostrado symptomas pronunciados.
Emfim, Houssay, com macerações de glandulas, obteve resulta-
Xítm-írm» do /«íMufo d* II 'tanta**.
18
Memórias do Instituto de Botantan - Tomo II - Fase. Fnico
dos comparáveis, porem muito mais fracos, dos obtidos, pela picada
directa, conseguindo entretanto assim, a matar camondongos.
Escomel, num trabalho em que se desejaria, ás vezes maior
clareza, depois de haver feito um certo numero de observações cli-
nicas sobre a Latrodectus mactans ou Lucacha e a Ghjptocranium
gastheracanthoides emprehende experiencias com essas duas especies :
os cobaios picados pela Latrodectus ficam, primeiramente, mergulha-
dos n’um estado de estupor dando gritos frequentes ; a respiração
accelera-se, as pupillas contrahem-se ; nota-se edema local e abun-
dante secreção salivar, depois as patas posteriores entram em pare-
sia, o animal abre a bocca e morre ; ou então, depois de ter ficado,
2 ou 3 dias, n’esse estado, se restabelece pouco a pouco, o edema
desapparece, forma-se uma eschara que se elimina, numa dezena
de dias; picado, de novo, n’esse momento, por uma Latrodectus, o
animal não apresenta senão symptomas attenuados ; o sapo, mordido
pela lucacha morre em tempo variavel ; segundo Escomel a aranha
é muito sensível ao seu proprio veneno.
Xa America do X T orte, Comstock ( M ) não acredita que as aranhas
sejam perigosas, mas assegura shoubl not like to be bitten by one
of the larger tarantuler of the South», apezar de não conhecer ne-
nhum accidente bem authentico.
Kellog conseguiu matar, em 10 minutos, um gato de 8 mezes,
com convulsões elonicas, pela injecção subcutânea de 2 glandulas de
I.atrodectus, maceradas em agua distillada; elle fez, alem disso, uma
preparação de assucar de leite addicionada de solução de glandulas
em agua distillada e notou, sobre elle proprio, depois de ter absor-
vido, diariamente fracas doses d 'essa mistura, uma notável diminuição
do pulso, dilatação da pupilla, dores occipitaes e contracções dos
musculos abdominaes; até empregou, cora successo, essa preparação
para combater uma crise d’angina de peito num doente de 54 annos !
Baerg realisou diversas experiencias pouco precisas, primeira-
mente com uma caranguejeira ( Eunjpelma hentzi , depois com Age-
lena naevia e Latrodectus mactans , não obtendo senão muito fracos
resultados que o animaram a tentar as 2 auto-experiencias que re-
latamos. A Agelena naevia provocou, em ratazanas, somente pequena
sorr.nolencia ; outras ratazanas picadas pelo Latrodectus mostraram
forte reacção local, movimentos spasmodicos, depois convulsivos, res-
tabelecendo-se completamente em 12 horas; a caranguejeira, sem
acção sobre o cobaio determinou no rato, uma forte paresia, seguida
d’um periodo d'immobilidade e de estupor durante cerca de õ horas ;
todas as experiencias de Baerg foram realizadas obrigando, a ara-
nha segura na mão, a picar os animaes e, na experiencia da caran-
guejeira com o cobaio, Baerg teve de, primeiro, fazer incisão na
pelle d'este ultimo para obrigar a penetrar um dos ferrões na ferida.
Todas essas experiencias são, assim, de pouco valor, em conse-
quência de technica defeituosa, sendo d'esse facto prova evidente o
mão resultado obtido por Baerg. quando se fez picar pela Latrodectus.
De facto, quando se faz picar uma aranha, segurando-a, nem
ao menos se consegue reproduzir o accidente natural, porquanto o
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
19
animal não dispõe dos movimentos naturaes indispensáveis ao func-
cionamento do seu apparelho inoeulador. Alem d'isso, quando uma
aranha pica mesmo em condições naturaes, ignoramos por completo
a quantidade de veneno inoculado, o que traz como consequência ló-
gica a imprecisão dos resultados experimentaes.
c Natureza e propriedades physico chimicas do
veneno das aranhas
Tendo-se em vista a difficuldade de obter o veneno puro e em
quantidade sufficiente, as pesquizas sobre sua composição e proprie-
dades. physico-chimicas são muito pouco numerosas.
<js poucos auctores que abordaram esta questão concordam que
é um liquido claro, incolor, de consistência um pouco oleosa; Faust
(*•) lhe achou um gosto amargo, que Mme. Physalix não poude des-
cobrir.
Blackwall, Faust, Kobert acharam sua reacção acida ; Klinger
(«), o primeiro, achou-a neutra, ou levemente alcalina nas caran-
guejeiras ; Walbum retomando essa questão com a .1 rança diademata
e se collocando em varias condições de jejum e temperatura, obser-
vou que a reacção do veneno, sendo afastada a possibilidade de mis-
tura com a saliva (alcalina segundo Blackwall e Walbum) pode,
num mesmo exemplar e em condições que não poude determinar,
variar de um dia a outro, de fortemente acida a fortemente alcalina,
apezar de que esta ultima seja a mais frequente. Houssay, Sommer e
Grecco acreditam-n'a sempre acida.
Em 1888 Breeger( M ) indicou como principio toxico do veneno
um alcaloide, se destruindo a 60° e coagulavel pelo álcool ; Wal-
bum recolhendo o veneno n’um tubo capilar fechado em seguida e
mergulhado tempo variarei em banho maria, mostrou que a coagu-
lação começa a 85°, é forte a 70° e completa a 75°; concluindo
a presença de uma proteína, analoga chimicamente ás outras proteí-
nas ; infelizmente a pequena quantidade de veneno obtida não lhe
permittio levar mais longe suas pesquizas.
Segundo Levy o veneno resiste perfeitamente á dessecação e
as macerações das glandulas dessecadas são tão activas quanto as
das glandulas frescas : alem disso, o veneno de Tegcnaria atriea
destruído na mesma temperatura, que as albuminas, não é alteravel
pelos raios ultravioletas.
Wilson, empregando macerações de glandulas de theraphosidae
Chaetopcbna olivacea tinha obtido resultados analogos aos forneci-
dos pela picada de aranha; seguindo o mesmo methodo Houssay
preparou extractos toxicos, porem menos activos do que a picada
directa, e perdendo completamente a toxicidade quando aquecidos 30
minutos a 70°. Afim de poder comparar o veneno d'especies diffe-
rentes, Levy utilisou igualmente macerações de glandulas em agua
distillada ou em soro physiologico, empregando technica analoga à
de Mme. Physalix.
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Jlemúrias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
Pesquizando o poder hemolvtico do veneno, Walbum triturou,
em soro physiologico, moscas picadas por Araneas diadema ta. pen-
sando assim achar de novo o veneno na solução ! Elle não obser-
vou nenhuma hemolyse com globulos de coelho, com ou sem ad-
dicçâo de lecithina. Qual teria sido, aliás, sua conclusão com um
resultado positivo? ! Retomando mais tarde e com maior cuidado
essa experiencia, com veneno puro, recolhido por capillaridade, con-
tinuou negativo o resultado; tal foi igualmente a conclusão dos
estudos de Levy sobre a Aranea diademata e Segestria pérfida, e
de Houssay sobre diversas especies da Argentina.
Walbum não poude, alem disso, descobrir no veneno a presença
d’enzyma proteolytica, existindo, ao contrario, no sueco salivar, onde
já Westberg (1900) o tinha assignalado; entretanto Berland ( S7 ) for-
mula a hypothese de que o conteúdo das enormes glandulas de
Filestata capitata poderia ser o mesmo liquido com o qual essa es-
pecie, assim como muitas outras, costumam humedecer sua preza
antes de a chupar.
Emfim, diversos auctores sustentaram que a actividade do ve-
neno podia ser influenciada por varias circumstancias, taes como a
temperatura, a idade e o sexo da aranha ; porem essas observações
são ainda pouco precisas e pouco concludentes.
th Outras toxinas extrahidas das aranhas
Kobert, estudando o veneno de diversas aranhas, tinha obser-
vado em algumas especies, que a maceração total era mais activa do
que a do cephalothorax, onde estão localisadas as glandulas de ve-
neno; d’ahi vieram numerosos trabalhos. Certos experimentadores
estão persuadidos de obter, assim, maiores quantidades d'um prin-
cipio toxico annlogo ao das glandulas e espalhado em todo o orga-
nismo, ou localisado, mais particularmente, em certos orgãos; outros,
ao contrario, acreditam na existência de duas toxinas differentes e
procuram demonstrar sua independencia.
Os trabalhos de Walbum estabelecendo as propriedades da to-
xina denominada por Sachs • arachnolysina devido ás suas pro-
priedades fortemente hemolyticas, demonstrava de modo completo,
a existência de duas toxinas differentes na Aranea diademata: pri-
meiramente o veneno das glandulas, constantemente presente, despro-
vido de hemolysina e d'enzyma proteolytica e um segundo corpo,
araehnotoxina ou arachnolysina espalhado em todo o organismo, mais
abundante no abdômen, existindo exclusivamente nas femeas na épo-
ca de postura, nos ovos e nas aranhas novas extremamente liemo-
ly tico e proteolytico, susceptível de provocar a formação d'anticorpos
nos animaes immunisados com doses crescentes de extractos de
aranhas.
Os trabalhos d’Escomel, de Levy e de Houssay confirmaram
plenamente as conclusões de Walbum, ainda ampliando-as do seguinte
facto, dos mais importantes : a innoculação de doses fraccionadas de
ovos não protege contra a picada da mesma espeeie (Eseomet); um
1, | SciELO
Contribuição ao estudo do renervo das aranhas
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soro bastante activo contra os exlractos de ovos não impede os <>/-
feitos da picada (Houssatj).
Sendo nosso intuito estudar propriamente os venenos e não os
extractos das aranhas, não insistiremos mais sohre este assumpto.
ci Immunidade
Como acabamos de ver, diversos auctores immunisaram animaes
por injecção repetida e progréssiva de maceração total ou de ovos
de aranhas. Esses resultados, porem, em nada podem nos esclarecer
sohre a possibilidade de obter producção d’anticorpos com o veneno
das glandulas. Esta questão ainda não foi tratadà por nenhum auctor.
Escomel e Haerg notaram unicamente, o primeiro com o cobaio
e o segundo com o rato, que esses animaes tendo escapado uma vez
ã picada da Ixitrodectus mactans, se mostram em seguida cada vez
menos sensíveis á novas picadas; alem disso, Houssay tentou im-
munisar alguns coelhos, fazendo-os picar de 3 cm 3 dias por um, dois
até tres Latrodeclus; esses animaes, porem, definharam rapidamente,
um delles succumbiu e elle não obteve resultado algum com o
soro dos dois outros.
Diversos auctores, tendo experimentado os soros anti-ophidico e
anti-scorpionico de Butantan, de Calmette e de Lister, no tratamento
dos doentes e em experiencias de labomtorio, acharam-nos sempre
inactivos. Emfim, Levy experimentando sobre o camarão, observou
que a injecção d'uma mistura de soro sanguíneo de Tegenaria e de
uma dose mortal de veneno da mesma especie, deixados em con-
tacto, in vitro, de õ a 10 minutos, evitava a morte; experiencias
analogas com outras especies não lhe forneceram nenhum resultado
concludente, e segundo Escomel a iAitrodectus seria sensível ao seu
proprio veneno. Convem, aliás, notar que a dose mínima mortal de
soro de aranha (femeas na epoca da postura) indicada por Walhum
é para o coelho, por via venosa, de 0,03, e para o camundongo por
via intraperitoneal, de 0,04 por kilogr.
As experiencias, sobre o mesmo assumpto, feitas por C. Physa-
lix e üertrand (») offerecem pouco interesse, porque elles deixavam
em contacto, durante 1 hora, a 72°, a mistura de soro e veneno,
quando o veneno é muito fortemente attenuado sendo somente
aquecido 15 minutos a 70°.
(•) Vi.l« — j-funda parte. capitulo *.
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Memórias do Instituto de Eutantan - Tomo II - Fase. Unico
ü2
I PARTE
PESQUIZAS PRELIMINARES
A revisão que acabamos de fazer dos principaes trabalhos pu-
blicados sobre os venenos de aranhas, e o araneismo clinico ou
experimental, não dá senão uma ideia muito imperfeita do grão de
actividade e do modo de acção d’esses venenos.
Sua toxicidade, negada por alguns, é confirmada pela existência
de numerosos accidentes sempre muito bem caracterisados. Em com-
pensação, a parte experimental é completamente insufficiente, e os
resultados contradictorios que ella fornece não permittem, d’um modo
geral, verificar os dados clínicos.
Muitas causas explicam essa falta de accordo; primeiramente é
necessário notar que a maior parte dos auctores se occuparam de
especies differentes, nem sempre determinadas com a necessária
exactidão, e é natural suppor, a priori, que «as propriedades do ve-
neno se modifiquem, segundo os typos morphologicos, tanto mais
que estes pertencem a grupos ás vezes muito afastados. Os resul-
tados dependem também, consideravelmente das condições d'expe-
riencia ou de observação e os factos citados na literatura, são rara-
mente comparáveis entre si.
Até agora, nenhum outro methodo, alem da picada directa, sem-
pre incerto, foi empregado para o estudo experimental dos vene-
nos araneicos» e algumas pesquizas feitas, com solutos de veneno,
ficaram sem resultado. Antes de emprehender o estudo toxiologico
dos principaes grupos de aranhas indígenas, dentre os quaes diver-
sas especies foram accusadas de provocar accidentes graves, em
nosso paiz, ou nos paizes limitrophes, era necessário estabelecer um
methodo experimental seguro, que nos habilitasse a julgar das prin-
cipaes propriedades d’esses venenos, permittindo o estudo compa-
r.ativo dos mesmos: é o que procuramos estabelecer nesta primeira
contribuição.
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
CAPITULO I
APPARELHO DE VENENO
oi Estructura externa
O apparelho de veneno das aranhas é formado de duas glân-
dulas, em communicação com a extremidade do primeiro par de ap-
pendices, adaptado em orgão de apprehensão e de defesa. Collo-
cados na parte anterior do cephalotorax, estes appendices ou cheli-
ceras, .de papel comparável ás mandíbulas dos insectos, porem de
origem differente, são compostos somente de dois artículos, um corpo
volumoso prismático ou melhor, cylindrico-conico, encimado por um
ferrão innoculador. Sua posição permittio dividir as aranhas em
duas suh-classes: nas mygalomorphae ou caranguejeiras, são dirigi-
dos para o eixo do corpo, que o prolongam anteriormente e o gancho
dobra-se de cima para baixo; em todas as outras aranhas ou «ara-
nomorphac são perpendiculares ao eixo do corpo, collocados sob a
parte anterior do cephalothorax. e o gancho dobra-se de fóra para
dentro. São accionadas por poderosos grupos musculares, que se in-
serem na parte anterior do thorax, mas não podem se mover com
inteira liberdade senão num sentido, vertical ou transversal ; se-
gundo sua orientação.
As glandulas têm a forma de empolas cylindricas, prolongadas
cada uma por um canal excretor partindo «lo seu polo anterior; nas
< mygalomorphae», quando ellas não estão senão parcialmente cheias
de veneno, se reduzem a um longo canal, ligeiramente inchado na
parte mediana. Esta forma imperfeita corresponde á figura dada por
Duges para a « Semcxia cementaria », e reproduzida posteriormente
em quasi todos os tratados de zoologia, como typo de glandulas de
aranhas. Xo grupo primitivo das caranguejeiras ellas são completa-
mente recolhidas no corpo da chelicera, em sua concavidade antero-
dorsal ; nas verdadeiras aranhas estão collocadas inteiramente de-
baixo da parte anterior da região cephalica (Nephila cruentata) ou
parcialmente mettidas na parte basal das cheliceras (Ctenus). Vide
estampa n. 2.
As glandulas são sempre livres, sem adherencias aos orgãos
visinhos. Xas aranomorphac ■ >, porem, se encontram rodeadas por
massas musculares, partindo do thorax ás patas anteriores, represen-
tando essa disposição importante papel no seu funccionamento. O
canal excretor vem se abrir um pouco antes da extremidade do fer-
rão das cheliceras, por um pequeno orifício de forma variavel.
/o Estructura histológica
A estructura histológica d*essas glandulas foi pouco estudada e
as descripções publicadas estão longe de concordar entre si. Mac
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Memórias do Instituto de Bntantan - Tomo II - Fase. Fnico
Leod 1880 notou differenças sensíveis segundo as especies: em
algumas observou uma membrana basica, lisa, formando em outras
separações incompletas sobre as quaes repousaria um epithelium
glandular formado de cellulas ealiciformes, acompanhadas de uma
serie de cellulas glandulares, de typo mal definido que, aliás, seriam
assaz, variareis segundo as especies.
Bordas, um pouco depois, estudando as glandulas de Latrode-
ctus 13 guttatus, descreveu uma basal sobre a qual repousa um epi-
thelium formado de cellulas altas, cylindricas, de protoplasma granu-
loso em sua base, claro na extremidade, porem elle acrescenta com
razão que a secreção se effectua por fusão cellular.
Essas descripções pouco concordam entre si, e principalmente
d if ferem do que, o Dr. Dorival de Camargo, que amavelmente prom-
ptificou-se a nos prestar o seu auxilio nesta parte do trabalho, ob-
servou na Ctenus medius. Talvez esse desaccordo dependa das es-
pecies estudadas ou, mais provavelmente, do estado physiologico
«las glandulas. Estudaremos essa questão em tempo opportuno ; n'este
trabalho contentar-nos-emos em «lar a seguinte nota, redigida pelo
Dr. Dorival após uma serie de cortes «le glandulas de Ctenus medius.
em diversos períodos, de repouso e actividade, mostrando as diífe-
renteô phases da formação «lo veneno:
Estudo histologico da glandula de veneno
da Ctenus Medius
As glandulas de veneno da aranha são em numero «le duas, rol-
locadas na parte anterior do cephalo-thorax ; apresentam uma forma
variarei, conforme o estado de funccionamento, ou de repouso em <jue
se encontram.
Para o estudo histologico, colhemos material em diversos pe-
riotios: antes da extracção do veneno, logo depois, e horas «lepois.
Fixação em formol a 10 «>o e em solução saturada acida de sublimado.
Coramos pelo hematosilina e eosina e por hematoxilina Van-
Gieson.
Em cortes ao microscopio observa-se «|ue as glandulas são cons-
tituídas: por uma espessa camada muscular estriada em 2 planos,
sendo um circular e outro longitudinal : logo abaixo do plano mus-
cular interno se acha uma membrana basal bastante espessa, da
qual partem prolongamentos para o interior «la glandula ; tanto na
membrana basal, peripherica, como nos seus prolongamentos se ifi-
serem cellulas epitheliaes, «ira chatas, «ira cylindricas, conforme o es-
tado «le vasio ou de plenitude da glantlula.
Na glandula em periodo de activa secreção, observa-se junto á
membrana basal peripherica, cellulas epitheliaes, com núcleo bem
visível, rico em chromatina, parecendo em começo de mitose e com
um cytoplasma granuloso.
Nas camadas mais internas, as cellulas augmentam de volume,
o protoplasma e o núcleo são comprimidos para a peripheria e a
cellule enche-se «le granulações amorphas, contidas por uma mem-
brana bastante espessa ; no meio tlessas granulações, ainda no in-
Contribuição ao estudo do \-eneno das aranhas
25
terior de algumas cellulas. observam-se granulações maiores, de ta-
manho e forma variarei, com o aspecto de substancia colloide; com
a continuação da secreção, as cellulas rompem-se e o seu conteúdo
é derramado no interior da glandula.
A glandula cheia de veneno ou em estado de repouso, apresenta
o aspecto de um sacco, limitado pela camada muscular dupla e a
membrana basal com algumas ramificações para o interior e cheio
pelas granulações amorphas da substancia colloide e restos da ar-
mação cellular. Junto á membrana basal peripherica encontram-se
algumas cellulas epitheliaes baixas, comprimidas pelo conteúdo glan-
dular.
O producto final da secreção é constituído no interior do sacco,
pela substancia granulosa amorpha. corada em roseo pela eosina e
amarello claro pelo Van Gieson, e pela substancia colloide corada em
vermelho intenso pela eosina e em amarello intenso pelo Van Gieson,
e pelos restos das cellulas destruídas.
Pelo que observamos podemos concluir que as glandulas de ve-
neno da aranhç, são formadas de cellulas epitheliaes que secretam
uma substancia muito complexa e que se destroem para por em li-
berdade o producto de sua secreção, devendo, portanto, ser collocada
no grupo das glandulas holocrinas.
No exame dessas glandulas, não vimos formação alguma de
canal excretor, nos parecendo que ellas funccionam como um verda-
deiro sacco e que quando cheio e comprimido pelos musculos que
a envolvem, o producto de secreção é lançado em um canal contido
no interior das cheliceras e dahi projectado para o exterior. Xào
nos foi possível estudar o conteúdo das cheliceras e no unico corte
que tentamos nada conseguimos.
c) O veneno
í: um liquido claro, de aspecto untuoso. existindo, em muito
pequena quantidade, nas glandulas, e sobre cuja composição chi-
mica não ha estudos positivos. Estudaremos adiante a sua solubili-
dade em diversos líquidos, assim com*» a sua resistência ao calor e
a alguns agentes chimicos.
I ma questão muito debatida é a da reacçâo acida ou alcalina,
sobre a qual os auctores não estão de accordo. Acida para os antigos
auctores curopeos, neutra ou fracamente alcalina nas mvgales para
Klinger. acida para os argentinos. Walbum achou-a muito variavei
não somente na mesma especie, porem, até n’um mesmo indivíduo,
sem poder dar explicação satisfactoria ao caso; nenhum outro au-
ctor alem d esse ultimo fez. entretanto, pesquizas svstematicas sobre
este assumpto. A questão continuando insolúvel, abordamol-a, estu-
dando não só as variações de reacçâo em alguns exemplares guar-
dados em captiveiro, com«» o fez Walbum, mas ainda em todos os
indivíduos sacrificados por nossas outras experiencias : as glandulas
retiradas do thorax, lavadas em soro phvsiologico neutro em seguida
enxugadas ligeiramente em papel de filtro, eram abertas’ e a reacçâo
estudada com papel de tournesol muito sensível.
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Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II -Fase. Unico
Dc llaio a 8eteml»ro de H)24, no Institu to de Xiteroi, unica-
mente com as especies Ctenus Fcm Enoploetenus gennainii , Cte-
n u8 medins , e Xephila cruentata, e deixando de lado os casos duvido-
sos, praticamos 251 pesquizas, sobre exemplares de tamanhos variá-
veis, dos dois sexos, salvo com a Xephila cruentata, da qual exa-
minamos somente femeas e em condições as mais diversas. Paral-
lelamente pesquizamos em todos esses casos, a reacção do sangue,
chegando em relação a este ultimo, a resultados differentes dos de
Walbum, e nunca d’antes assignalados : . a reacçào de sangue não
é constantemente alcalina como o assegura Walbum, porem igual-
mente variaeel, embora muito menos, do que o veneno.
Xossos resultados não nos permittem, ainda, conclusões formaes ;
muitas vezes n’um mesmo lote conservado em condições idênticas,
com exemplares da mesma especie e sexo, mesmo tamanho, em je-
jum ou após as refeições, os venenos variavam de fortemente alca-
linos a fortemente ácidos; verificamos, entretanto, que no fim da es-
tação quente, em temperaturas elevadas e húmidas, todos os venenos
possuíam uma reacção accentuadamente alcalina ; deu-se uma brusca
queda de temperatura, e todas as aranhas capturadas, n’essa occa-
sião, mostraram uma reacção francamente acida, não somente no
veneno, mas também no sangue.
Desde o principio de Junho, até o fim de Setembro a tempera-
tura em Xiteroi conservou-se pouco estável, em geral bastante fresca,
e em todas as especies recolhidas foram variaveis as reacções, po-
rem com predominância de reacções acidas no veneno, mais raras
no sangue.
Experimentamos, por diversas vezes, deixar na estufa ou na
geleira, uma porção de aranhas vivas, durante tempo variavel, de
2 a 7 dias; não tivemos senão poucas perdas na geleira a 15°; na
estufa, a 37°, cinco Ctenus ferus, sobre 8, morreram em 24 horas
na primeira experiencia ; mas a temperatura de 33° é bem suppor-
tada com a condição de se conservar em atmosphera húmida as
aranhas. Os resultados foram bastante variaveis; parecendo indi-
car, entretanto, uma certa relação entre o frio e a acidez dos ve-
nenos.
Ei* nltriin* «lo* no**os protocolos :
9- VI — 18 Ctenus ferus, machos e femeas, adultos ou quasi adultos, capturados
na véspera : 6 são collocados durante 48 hora* na geleira a 10° ; 9 durante 24 horas
na estufa, a 37o ; 5 d'estes, morrem, os 4 restantes são transportados durante 24 horas
na estufa, a 33» ; 3 são guardados como testemunhas na temperatura exterior.
18-V1 — 11 Ctenus deixados õ dias, õ na geleira lá», e 6 na estufa (33°) ; um
destes últimos morre.
Soro
Estufa 4 femeas
3 acidas — 1 francamente
2 fortemente alc.
alcalina.
2 frac. alcal.
3 fort. alcal.
3 frac. alcal.
3 frac. alcal.
Geleira . 2 machos — 4 femeas.
4 fort. acidas — 1 frac.
Temp. ext. 3 íemea*
acida. 1 frac. alcal.
1 frac. alcalina. 1 fort.
acidas
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
27
Numero dc exemplares
Venenos
Soro
Estufa 33° 4 femeas adultas | 2 fort. alc. 1 neut. 1 acid. | 4 fort. alc.
1 macho adulto j ligeiramente alcalina j 1 fort. alc.
Geleira 15° 3 femeas adultas j 3 fort. acidas | 2 fort. alc.
2 machos adultos j 1 fort. acida. 1 frac. acida j 1 fort. acid. 1 alc.
27-V — 3 Ctenus feros machos adultos. 3 Ctenus medius (1 macho, 2 femeas)
deixados 7 dias na estufa a 33®.
Numero de exemplares
Estufa 33® Ctenus feros —
Ctenus medius
Venenos
3 femeas | 3 fort. acidas
2 machos j 1 fort. acida 1 fort. alc.
1 femea fort. alcalina
Soro
3 frac. alc.
1 frac. alc.
1 frac. alc. fort. alc.
A segunda d'essas experiencias ê. cie todas que executamos, a
que parece mais demonstrativa da influencia do frio, o que estaria
de accordo com nossas observações sobre as aranhas capturadas em
differentes estações. A reacção do sangue, em geral alcalina, acom-
panha mais lentamente a acidez do veneno, e parece indicar que a
reacção d’estes dois liquidos é normalmente idêntica, alcalina ; em
consequência de uma baixa da temperatura exterior, o veneno tor-
nar-se-ia assaz rapidamente acido, porem custaria mais a ficar, de
novo, alcalino, com a volta do calor; o sangue é menos sensível a
esta acção do frio; a irregularidade d’essas variantes, sobretudo nas
experiencias, depende, talvez, em parte da quantidade de veneno
contido nas glandulas antes das modificações das condições exte-
riores, ás quaes o veneno jã elaborado não deve ser sensível, mas
que modificaria os novos produetos da actiridade cellular. Esta in-
fluencia do frio, sobre a reacção, explicaria as divergências entre os
auctores citados, e parcialmente também as opiniões contradictorias
sobre a actividade dos venenos araneicos em paizes differentes, « os
venenos ácidos sendo menos aclivos do que os venenos alcalinos »,
como exporemos mais adiante.
Os limites d'este trabalho não nos permittem senão de propor,
sem examinal-a mais a fundo, esta explicação da variabilidade da
reacção do veneno e do sangue das aranhas ; este assumpto, entre-
tanto, necessita ser retomado e apoiado por experiencias precishs,
repetidas com differentes dias de intervallo, sobre as mesmas series
de exemplares collocados suceessivamente em diversas condições.
</> Funcção do apparelho de veneno
0 apparelho de veneno serve ás aranhas como meio de caça e
de defesa ; aliás, parecem não fazer uso do mesmo senão em caso
de necessidade, para matar as presas demasiadamente grandes para
serem dominadas d’outro modo, ou quando sentem-se atacadas, sem
poder fugir.
Os pequenos insectos podem ser mortos igualmente por simples
traumatismo (*), e muitas vezes, apezar de suas glandulas se acha-
is) E- b»m difficil de verificar o papel do traumativmo e do veneno no» insecto» e a< experien-
te de Blackaall.de Bertkao e de Walbum »obre mo»ca» foram explicada» n’uui sentido oo no outro.
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Mvniórias 4i> Inslituto <le Butantan - Tomo II -Fase. l*nic<>
r j
rem repletas, a aranha utilisa-se das cheliceras, sem deixar escoar
veneno, que guarda como ultimo recurso ; esta independencia do
funccionamento das glandulas e da picada é um facto importante,
frequentemente verificado em nossas experiencias, e que é preciso
levar em conta na apreciação dos resultados obtidos pela picada
directa.
CAPITULO II
ESPECIES QUE FORAM EMPREGADAS
Afim de nos orientar Cestas pesquizas preliminares, e de de-
terminar as propriedades essenciaes dos venenos de aranhas, ti-
vemos de escolher um pequeno numero de especies preenchendo
diversas condições: fáceis de se obter em quantidade sufficiente,
possuindo veneno sufficientemente activo, emfim, pertencendo a gru-
pos bastante distanciados para dar uma ideia geral do veneno ara-
neico.
Healisamos innumeras experiencias com muitas especies com-
muns nos arrabaldes do Rio de Janeiro, mas para simplificar a ques-
tão, limitar-nos-emos, Cesta primeira contribuição a quatro espe-
cies que estudamos mais particularmente, e que nos pareceram me-
lhor preencher ãs condições requeridas: são a C temas ferus. Perty,
a C. nigriventer, Keys, a Xephila cruentata, Fabri, a Trechona ve-
nosa, Latr., as 3 primeiras pertencentes ás aranomorphae e a ultima
ás mygalomorphae ou caranguejeiras.
A Ctenus ferus é uma aranha grande, a femea cinzenta escura,
o macho quasi preto, podendo a primeira attingir 42 mm., o segundo
36 mm. ; reconhece-se esta especie pelos seus olhos dispostos em
3 fileiras 2-4-2, pelas suas fortes cheliceras curvadas anteriormente,
cobertas de pellos fulvos e pelas espinhas, em serie, das patas, im-
plantadas em pontos brancos; as patas do macho são mais longas e
espinhosas do que as da femea; quando é atacada, toma uma alti-
tude ameaçadora, levantando suas patas anteriores, prompta a pular
sobre as posteriores, funccionando como uma mola. Esta especie se
encontra com muita facilidade nos arredores do Rio de Janeiro e
Xiteroi, sobre as bromelias ; é encontrada igualmente no Estado do
Espírito Santo e no litoral do Estado de S. Paulo.
A C. nigriventer è uma especie muito próxima da precedente, da
qual sn di stingue pela fôrma do apparelho genita l e pe la fa ixa am a-
reliada dalãce dorsal tio abdomem Esta especie encontra-se com
ríniílrUfrequencia na capital e no interior de S. Paulo, de Minas, do
Rio, de (ioyaz e de Matto-Grosso. Xo litoral não tem sido en-
contrada.
1, | SciELO
Contribuição ao estudo do veneno das jaranfctis v 29
A Xephila cruentata, de 25 mm., especie tròjjn^, de^fíca synoni-
tnia é muito commum em certas regiões do Brasil e principalmente
no litoral ; tece no angulo dos muros ou dos rochedos, sol) a orla
«los tectos, ás vezes nas arvores, uma grande teia cinzenta esbran-
quiçada, regular, seintillante, provida, na parte superior, de um
grande tubo sedoso, onde fica a aranha ; a fernea é facil de se re-
conhecer pelo esterno, d’um bello ama rei lo dourado ou vermelho
como o sangue, pelo enorme abdômen variando na parte dorsal, de
cinzento ao preto profundo, ornado no lado ventral, de 1 manchas
amarellas.
A Trechona venosa, que propomos de chamar popularmente ca-
ranguejeira riscada é uma grande caranguejeira de 55 mm., cinzenta
escura, com o abdômen marcado na parte dorsal por 7 listas angu-
losas, rosas ou avermelhadas; apezar de muito commum nos arra-
baldes Ho Itio de Janeiro, e fartamente distribuída pelo Brasil, é
pouco conhecida ; a descripção «lo macho acaba de ser publicada
por um de nós . Encontra-se nas proximidades da cidade de São
Paulo, uma variedade desta especie, caracterisada pelo menor tama-
nho e pela cor um tanto avermelhada.
CAPITULO 111
EXPERIENCIAS POR PICADA DIRECTA
Salvo raras excepções, os auctores estudaram os venenos ara-
neicos fazendo picar directamente os auimaes de laboratorio por ara-
nhas. Este methodo póde fornecer uteis indicações, mas, não offerece
as garantias de precisão exigidas por trabalho scientifico, visando
o estudo comparativo do veneno de diversas especies de aranha.
Quasi todas as divergências notadas nos differentos trabalhos pu-
blicados, até agora, lhe devem ser attribuidos: certas especies são
muito aggressivas, outras difficilmente se resolvem a picar; o es-
tado da aranha, a temperatura, o tempo passado desde a ultima re-
feição ou ultima picada, o modo de ataque, o ponto de innoculaçào,
a espessura dos pellos ou «las pennas do animal picado, podem mo-
dificar consideravelmente «>s resultados ; sobretudo é impossível ava-
liar a quantidade de veneno innoculada, quantidade variavel não
somente segundo o tamanho e a especie, mas também conforme a
disposição mais ou menos bellicosa «la aranha, na occasião da ex-
periência.
Muitas vezes também os resultados obtidos pelo mesmo expe-
rimentador, com a mesma especie, variam em largos limites e não
<\ I)r. J. Vellanl — Estudas de Z. locia — Archiíos do Instituto Vital iiraiil T- II. faac. 2.
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Memória? do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Único
se póde comparar a acção de vários venenos ; um resultado posi-
tivo, mesmo uma unica vez é um facto convincente, porem um re-
sultado negativo não permitte conclusão alguma.
Seguindo este methodo, realisamos, com as especies escolhi-
das, e muitas outras, um certo numero de experiencias, que con-
firmaram sua irregularidade e insufficiencia : alem d'isso, notamos
um facto importante: para picar, a aranha junta suas patas anterio-
res e contra hindo-se, com força sobre esta base, segura rapidamente
a victima com seus ferrões ; se o veneno não foi despendido em ata-
ques anteriores, o effeito d'essas picadas é muito energico. Ao con-
trario, quando mantidas na mão obrigadas a picar (*) privadas do
apoio de suas patas, as aranhas se mostraram pouco perigosas, ape-
zar de ficarem muito tempo presas ás suas victimas. E possível que,
alem do ponto de apoio que tomam sobre suas patas, a contracção
das massas musculares, indo, nas aranomorpliae , da parte anterior
do thorax, ás patas dos 2 primeiros pares, auxilie a vasar a fundo
as glandulas que ellas envolvem.
De posse d’essas noções, sempre que nos foi possível, ensaia-
mos o methodo de picada directa, deixando a aranha dentro de um
vidro, de tamanho proporcional ao dos animaes, em experiencia, de
modo que o arachnideo gozasse de todos os movimentos necessários
ao exercício do seu apparelho innoculador de veneno.
Eis alguns dos nossos resultados :
Ctenus-ferus.
Exp. 1 — Uni camondongo. de ccrca de 20 gr., é preso com 1 femea
adulta, que. muito aggressiva, o morde rapidamente 5 a 7 vezes ; o animal se
agita violentamente, mas. na terceira picada, perde a agilidade característica ;
fica completamente paralytico ao receber a ultima e, após alguns movimentos con-
vulsivos. morre ; tudo se passou num minuto.
Exp. 2 — Immediatamente a pós essa experiencia, um segundo camondongo
é posto com a mesma Ctenus que. menos activa, nào o morde senão 2 ou 3
vezes (14 h. 13); o pequeno roedor grita, mostra soíírer dòr e uma forte agi-
tai, -ào. durante 3 minutos ; de|>ois se retira n'um canto, com o pello arrepiado e
as patas e cauda agitadas por tremores convulsivos e intermittentes ; a excita-
bilidade é exagerada, e qualquer contacto augmenta os tremores que degeneram,
às vezes em violentas convulsóes de typo tonico ; a salivação é abundante ; ha
um pouco de diarrhéa; uma hora depois, está conipletamente paralytico. não re-
agindo mais ás excitações, e morre durante a noite (depois de 17 h. 30>. Não
ha signal de reacçâo local.
Exp. 10 — Utiüsando a mesma Ctenus desde 3 dias em repouso ; os pellos
da cabeça d'um cobaio de 48 gr. são cortados e o mesmo introduzido n'uma
grande redoma ; a Ctenus. muito aggressiva pica diversas vezes o cobaio que
grita e se debate (9 h. 45) ; ás 9 h. 48 agitação violenta, tosse, salivação abun-
dante. sem cessar engulida ; ás 9 h. 33 a agitação augmenta. acompanhada de
saltos desordenados e de convulsões, em seguida o jogo dianteiro abate-se pouco
a pouco, os movimentos respiratórios tomam-se muito espaçados, os membros se
paralysam ; morre ás 9 h. 56, em 1 1 minutos.
Exp. 12 — O peito depennado de um pombo é collocado na entrada do
tubo onde se encontra a Ctenus. em repouso ha tres dias ; pouco activamente im-
planta uma unica vez seus ferrões ; alem dê perturbações analogas ás da
(•) K' muito difãcil fai-r picar a» aranhas nestas condições; etlas procuram se libertar e.
nem bem livre». segurar a mão que as apertava.
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
31
experiencia 7, a cabeça e o pescoço viram-se para traz em opisthotonus uma
hora após a picada ; porem, dentro de tres horas se restabelece.
Exp. 16 Utilisando uma íemea de Clentn sensivelmente igual ã das ex-
periências precedentes. A cabeça d um pombo é introduzida no tubo, e a aranha
pica. por duas vezes 9 h. 58, ; agitação leve e intermittente. abundante se-
creção salivar e Iacrymal, repetidos movimentos de deglutição (10 h. 08), grande
encolhimento das patas ( 10 h. 22) fazendo-o cahir ãs 10 h. 37 ; agitação viva.
a pata direita é distendida para traz. em tetania (11 li.); ás 13 h. prostrado
sobre o tarso, com as azas pendidas; muito melhor ãs 11 h. e completamente res-
tabelecido ás 17 horas.
Xephila cruentata.
Esta especie, muito pouco aggressiva fóra de sua teia, presta-se
muito mal ás experiencias, recusando-se a picar quando em capti-
veiro ; realisamos somente a seguinte experiencia :
K\p. 3 — Uma fémea ■ — gur» na mio « pica* um
dongo na pata (11.30); nenhuma manifestação de dor immediata. porem no fim
de 15 minutos o pequeno animal toma-se pouco activo, somnolento, arrastando-se
com esforço ; este estado persiste durante 1 hora, depois pouco a pouco melhora ;
às 16,30 está restabelecido.
Treehona venosa.
Exp. 21 — Uma íemea que ainia não chegou a seu completo desenvolvi-
mento (45 mm.), capturada 2 dias antes, em jejum, «'• collocada n‘um tubo
(10,30) com um camondougo; muito excitada fêre diversas vezes o murideo que
esfrega o lugar ferido mas não apresenta nenhum sjrmptoma.
Deaute desse resultado negativo o mesmo animal é novaniente introduzido
no tubo; a Treehona lhe implanta, levemente, um dos seus ferróes na base da
cauda, e o outro na parte superior da coxa esquenta (13,10); não apresenta
srmptomas immedialos. As 13,17 salivação abundante sempre engulida, a pata
esquerda retrahe-se sob o abdômen, immobilidade entrecortada de bruscos movi-
mentos; ás 13.30 salivação muno forte, caminha incessantemente, agitado por
espasmos periódicos, o trem posterior em paresia: ás 13.13 convulsóes, gran-
des tremores, em seguida crise do contractura geral : às 13,50 dyspnóa intensa,
a pata esquerda posterior arrasta-se para traz, inerte; ás 13,55 paraplégico; ás
11,15 paralytico. a salivação corre abundantemente, sem sor deglutida ; abun-
dante emissão de urina, clara, misturada de esperma no momento da morte, espas-
mos cada vez mais frequentes ; morte n'uma convulsão, no fim d‘uma hora e
37 minutos.
Exp. 25 — l'm cobaio, collocado sob uma campanul.i, com um outro exemplar
de Treehona não poude ser picado, por se recusar o arachnideo por-se em aeti.-
vidade, por mais que fosse excitado.
D‘essas experiencias, assim como de todas as realisadas com
outras especies, é difficil tirar conclusões seguras : a Cteiius fems,
em certos casos (Exp. 1 e 10 se mostrou particularmente perigosa
e sempre mais aggressiva do que a Treehona e, sobretudo, do que
a Xephila ; porem deve-se attribuir esse resultado ás propriedades
mais activas do veneno de Ctenus, ou á maior quantidade de ve-
neno innoculada por esta especie? Pode-se concluir que o camon-
dongo e o cobaio são mais sensíveis a esse veneno do que o pombo,
ou que as condições de experiencia são menos favoráveis, com
esse ultimo animal? Apezar de operar com a preoccupação de per-
manecer em idênticas condições de experimentação, os resultados
d’esse methodo não são comparáveis entre si, em consequência de
ficar sempre indeterminada a quantidade de veneno innoculado.
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Memórias Io Instituto <Je Butantan - Tomo II - Fase. Único
CAPITULO IV
EXPERIENCIAS POR INJECÇÃO DE SOLUTOS
DE VENENO
Se a technica precedente não pode ser empregada com vantagem
é, do mesmo modo difficil, operar com quantidade de veneno exa-
ctamente dosada; diversos experimentadores, notadamente Walbum
e Houssay procuraram recolher, seja num tubo capillar, seja com
uma substancia absorvente, papel filtro ou algodão, as pequenas got-
tas de veneno que ás vezes, se mostram na extremidade dos ferrões
das cheliceras «piando as aranhas estão muito irritadas; a quanti-
dade assim obtida é sempre muito pequena, insufficiente para se
prestar a experiencias numerosas. Walbum, recolhendo diariamente,
durante duas semanas, o veneno de 100 grandes Epeira iliademata,
obteve 80 milligrammas, seja O.mm.OõTl por dia e por aranha; esse
processo de rendimento insufficiente é pouco pratico, tendo, alem de
tudo, o inconveniente de não dar a conhecer a quantidade de ve-
neno de cada exemplar.
Outra technica, já empregada por Wilson em 1001, em se-
guida retomada por diversos experimentadores, consiste .em triturar
as glandulas de veneno em agua distillada ou em soro physiologic.o,
e injectar a suspensão obtida, filtrada ou não.
As soluções assim preparadas, segundo vários experimentado-
res, são muito menos activas do que a picada, e Houssay consegue
somente « matar camondongos em vez de cobaios e coelhos, com
symptomas idênticos aos provocados pela picada.»
Apezar d’essa reserva, resolvemos a nos utilisar, na maior
parte de nossas primeiras experiencias, «Pesse processo simples e
rápido, pennittinclo trabalhar com quantidade dosavel de veneno,
cujos resultados foram confirmados posteriormente pelo emprego de
veneno puro e dosado «le accordo com uma technica especial de
que trataremos mais adiante. Depois «le alguns ensaios preliminares
procuramos estabelecer, por numerosas experiencias, das quaes cita-
remos somente as principaes, um methodo preciso «le preparar as
soluções de veneno. Primeiramente trabalhamos muito com as ara-
nomorphae , Ctenus fenis e Sephila cnientata. As aranhas eram mor-
tas pelo chloroformio e as glandulas extrahidas do cephalo-thorax.
Para proceder-se a esta pequena operação, mantem-se forte-
mente o corpo da aranha entre o pollegar e o indicador da mão es-
querda ; por meio «le uma pinça tomam-se com a mão «lireita, as
cheliceras pela base, procurando-se dobral-as sobre o lado dorsal do
cephalo-thorax ; o tecido fino da articulação rompe-sc permittindo,
por ligeira tracção destacal-as «lo cephalo-thorax, acompanhadas das
glandulas de veneno «pie lhes ficam suspensas. Puxando-se as che-
liceras para diante ou para baixo, quasi nunca se consegue a extra-
em
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Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
33
cção das glaudulas, porque estas se rompem no polo anterior, perma-
necendo no seu ponto de implantação.
Nas primeiras tentativas que fizemos, levamos simplesmente
glandulas e cheliceras a um gral; trituramos o todo, tratando-o de-
pois por um volume conhecido de soro physiologico. Com o liquido
assim ohtido. sem filtração, procedemos a algumas experioncias, que
nos demonstraram os mesmos symptomas, embora menos intensos
do que os obtidos por picada directa. Eis o protocolo (Testas expe-
riências :
Soluto A — Duas glandulas de Clenus feras são trituradas eni 0cc,5 de
soro physiologico.
Kxp. 1 — 0,lcc. de sol. (0.4 gl.) mais (X - c,9 de ser. phys. são injoctaJos
na coxa de um camondongo de 17 gr. ; gritos, dòr, agitação iinmediala; restabe-
lecimento - ejn uma hora.
Kxi*. 2 — 0cc,2 de sol. (0,8 gl.) são injectados na ooxa d'um ramondoligo
lh,5 gr ; sem addicção de s«ir. physiologico; gritos, grande agitação immediata;
completamente molhado no dia seguinte, morre paralytico csn [touco mais de 23
horas.
Soluto I» As glandulas de duas CIcnus ferus quasi iguaes ás precedentes
são trituradas em 1 cc. dc ser. physiologico.
Kxp. 3 — Occ,3 de sol. (1,2 gl.) mais (Vr,7 ser. phys. são injectados ás
13.16 na veia d'urn pombo: agitação forte e immediata. cahe em dois minutos,
intensa secreção pelo bico, tosse; completamente paralytico á.s 13,22, as patas
estendidas |iara traz. todo o corpo em opisthotonus com algumas convulsões tô-
nicas intemiitlentes ; começa a melhorar ás 16,30; restaboJecido no dia seguinte.
Kxp. 4 — Occ,t dc sol. (0.4 gl.) mais Qcc,9 de ser. phys. são injociados
na veia dc um outro pomlio ás 13,25 : mesmos symptomas que prece<len temon te,
mas os |>erio>jo3 '{'excitação mais violentos, a paratysia menos arrentuada ; ás
16.30 a melhora é muito scnsivcl ; restabelecido no dia seguinte. -
Kxp. 5 — Occ.3 de sol. ' 1.2 gl.) mais tVr,7 ser. phys. são injectados nos
músculos [leitoraes d'um outro pomlio. ás 13,33; no local intensa trepidação mus-
cular; ás 13.35 violentos tremores generalisados, porem os symptomas são menos
accentu.vlos do que pieredentemente. somente as [alas se acham em lelania, não
ha opisthotonus ; restalielecldo no dia seguinte.
O quadro symptomatolagiro, como dissemos e se vê t Testas
experienrias é o mesmo que se observa por picada tlirecta, com a
unica differeuça de ser mais apagado, indicando um effeito menos
energtco quando applicado por injecção o veneno, do que quando é
inoculado pelos ferrões da aranha. Qual c a razão (Testa differonca?
Tres hypotbeses se nos afiguraram como podendo influir sobre a
atenuação da acção toxica tio veneno iTeste metbodo experimental :
a possível modificação da actividade do veneno pelo soro da pró-
pria aranha, soro esse acarretado para o soluto, por occasião tio ar-
rancamento das cheliceras; b o grão de concentração ou de diluição
dos solutos de veneno influindo sobre a actividade do mesmo; c', a
natureza do vehieulo empregado no preparo de solutos, podendo in-
fluir sobre a quantidade de veneno contido nos mesmos.
Examinemos cada uma «Testas hypotheses, procurando precisar o
que de verdade se poude verificar sob o ponto de vista experimen-
tal e logico.
J/Or.>J<U do /—tltoto df /» I tonto*.
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Memórias do Instituto de Butanian - Tomo II -Fase. Unico
«' Acção do soro sanguíneo da aranha sobre
o seu proprio veneno
Xormalmente nos animaes venenosos, o soro de cada especie
possue, em relação ao seu proprio veneno, um poder neutralisante
mais ou menos accentuado. Xo tirar as glandulas e as cheliceras de
aranhas uma pequena quantidade de sangue fica em volta das glan-
dulas, na base das cheliceras, e impregna igualmente a pequena por-
ção de tecido muscular que adhere às cheliceras. Para evitar essa
causa de erro, nas seguintes experiencias, lavamos, cuidadosamente,
em diversas aguas, em soro physiologico glandulas e cheliceras, en-
xugando-as em papel de filtro. Com material assim, isento de soro
de aranha, preparamos uma solução em soro physiologico.
X'uma primeira serie d'experiencias injectamos quantidade pro-
gressiva d’essa solução completada a 1 cc., pelo soro physiologico.
Numa segunda serie de verificação nos utilisamos de doses equiva-
lentes, mas depois da addicção de uma pequena quantidade de soro
sanguíneo da mesma especie, em dose muito superior a que poderia
existir nas cheliceras.
Em um animal testemunha injectamos somente o soro sem addi-
cção de veneno.
Algum tempo depois repetimos essas experiencias, utilizando
unicamente as glandulas e excluindo as cheliceras. Os resultados de
todos esses experimentos provaram que, em pequena dose, o soro
de aranha em mistura com o veneno não modifica de forma alguma
a marcha da intoxicação, não sendo por consequência a pequena
quantidade de soro nos solutos de veneno que teria contribuído para
o enfraquecimento d’este.
Eis o protocolo dVstas experiencias:
As glandulas de 2 machos e 3 femeas adultas de Clenut jenut são trituradas
em õcc. de serum phys. ; lcc. de sol. portanto, corresponde a 2 glandulas. O
soro sanguíneo é recolhido com uma pipeta depois de se haver arrancado as
cheliceras.
1.» Serie — Exp. 6 — O pombo recebe, na veia 0cc,5 de sol. (1 gl.
mais Occ.õ de soro phys. (11,07); forte secreção buccal (14,09'; cabe ás 14,12:
grande agitação, contractura generalisada, opisthotonus às 15, 05; vomitos ás 15.20;
sensíveis melhoras ás 16,00 : no dia seguinte restabelecido.
Exp. 7 — Camundongo de 22 gr. recelie. na coxa. 0cc,5 de sol. (1 gl.) anais
0cc,5 de soro phys. injectados ás 14,12; gritos, viva agitação, intensa secreção
bucal; a pata é estendida posteriormente, em tetania; ás 14,21 paresia posterior;
ás 15,25 paralysia post., hyperesthesia notável; morre paralytico em 44 horas.
Exp. 8 — Camondongo de 20,5 gr. recebe, na coxa. lcc. de sol. (2 gl.)
ás 14,20; gritos, violenta agitação, pata em tetania. forte secreção bucal, tremores
generalisados degenerando em violentas convulsões; morte em 58 minutos.
Exp. II — Cobaio pequeno recebe 0cc.7 de sol. (1 gl. 5) mais 0cc.3 de
soro phys. na ilharga ás 16.29; gritos, agitação iminediaU ; caimbras na pata
esquerda ás 16.32; abundante secreção salivar ás 16.46: durante a noite urina,
diarrhéa abundante ; o animal fica todo molhado, mas quasi restabelecido no dia
seguinte.
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Contribuição ao estudo do veneno das aranhas 35
2.» Serie — Exp. 9 — Cm camondongo de 21 gr. recebe, na coxa. lcc.
de sol. (2 gl.) inais Occ.l de soro de aranha deixan<lo em contacto 5 minutos
( 14,38) ; paralytico ás 15.20; morre cm 1 hora e 6 minutos.
Exp. 10 — Cm pombo recebe na veia, lcc. de sol. (2 gl.) mais Occ.l
de soro de aranha, deixados 5 minutos em contacto (11,52); queda immediaU;
íorte secreção salivar ; paralytico ás 15 horas com contracturas generalisadas, opis-
thotonus e convulsões tônicas intermittentes, se espaçando perto das 15,30 ; ás
16 horas ainda deitado, as patas em tetania, sem crises; restalielecido no dia
seguinte.
Exp. 10 — Camondongo de 18 grammas recebe, na coxa, 0cc,2 de soro do
aranha mais Occ.3 de agua de cal ; não apresentou syinptomns de envenenamento.
/» Effeitos do gráo de diluição
dos venenos nas soluções, sobre a intensidade
e energia de sua acção
() producto glandular, ou veneno puro é constituído por um li-
quido bastante denso, que contem cerca de 30 <>b de substancia so-
lida. Quando, para os fins cxperimentaes, se prepara um soluto de
veneno, não se consegue uma concentração igual ou idêntica ao
veneno natural. Obtem-se soluções mais ou menos diluídas, em todo
caso em gráo de concentração muito inferior ao producto da se-
creção natural.
Em certos venenos, o gráo de diluição ou o titulo da solução
não tem grande effeito sobre a energia de acção ; em outros, porem,
tem um effeito decisivo, impedindo até a observação de certos
symptomas ou de certas lesões que se verificam com o veneno in
natura. N‘este ultimo caso se encontram os venenos araneicos de
effeitos locaes como os de Sephila cruentata e da í.i/cosa ra pior ia.
Os venenos neuro-toxicos, taes como os de Ctenus e da Trechona
venosa são influenciados em gráo infinitamente menor pela diluição,
principalmente o «lesta ultima especie.
Como documentação «1’estes factos, consignamos as seguintes
experiencias :
Segunlo a technica já deecripta. preparamos uma solução de veneno de
Sephila cruentatti. triturando as glandulas de 40 fomeas adultas em 4cc. de agua
distillada.
Exp. 13 — l'm camondongo de 20,5 gr., servindo de testemunha, recebe, na
coxa. ás 14,02 0cc,l de sol. mais 0cc,9 dagua distillada : fraca manifestação de
dõr, leve agitação durante 30 minutos, seguida dlmmobilidade c de somnolencia ;
a pata injectada retrahe-se sob o abdômen; tocando-se o animal determina-so
contracções espasmódicas das patas postoriores ; ás 15,30 forte salivação, o pe-
queno animal principia a ficar levomente molhado; no dia seguinte, no lugar da
picada começo d'um edema duro, que depois se estende a -toda a parte pos-
terior do corpo, levando para fora a pata injccUla, paralysada ; a motilidade das
patas anteriores ê muito diminuída. Quando excitado, o' animal se arrasta com
difficuldade. sacudido por violentos tremores; está complctamente molhado; a
diarrhéa é abundante, a morte sobrevem em 47 horas.
0 resto da solução é deixada na estufa a 37» durante 5 dias; assim se
consegue uma pasta pardacenta, levemente viscosa, adherindo no fundo do vaso,
se dissolvendo mal na agua distillada. fracamente no soro physiologico a 8%,
e em totalidade na agua de cal.
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Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. L'nico
15 mmg. d'esse veneno secco são dissolvidas ern lcc. de soro phys., em
seguida addiccionado de Occ.õ de agua de cal; Occ.l d'essa solução corresponde
a lmmg. de veneno secco, dose essa que se approxima ã de uma glandula.
Exp. 14 — Um camondongo de 19 gr. recebe na coxa 0cc,6 de sol. ti gl.)
ás 10.08 ; leve e curta agitação seguida de somnolencia com alguns tremores
generalisados ; um pouco de paresia post. ; no dia seguinte estado geral melho-
rado, mas, á tarde, apparece um pequeno edema local, que se estende muito no
dia seguinte; morte em mais de 60 horas.
Exp. 15 — Ura pombo recebe na veia 0cc,8 de sol. (8 gl.) ás 10,14;
immediatamente leve secreção lacrymal e nasal, somnolencia ; ás 13 horas azas
cahidas. movimentos espasmódicos da cabeça e do pescoço ; completamente aba-
tido ás 16,30, sem paralysia, nem tetania ; restabelecido no dia seguinte cedo.
c) O vehiculo empregado para obtenção
dos solutos do veneno tem effeito sob a energia
de acção dos mesmos
Ctilisando os dados precedentes sobre a solubilidade, em vários
vehiculos, dos venenos dessecados, realisarnos primeiramente, diver-
sas experiencias para estabelecer o grão de actividade das soluções
de veneno em agua de cal, comparativamente ã das soluções em
soro physiologico. Assim, tratamos primeiramente por soro physio-
logico glandulas de Ctenus trituradas em areia fina; o residuo da
maceração de glandulas de Ctenus, que ficou sobre o filtro, após es-
gotamento pelo soro physiologico, foi retomado pela agua de cal e
as duas soluções assim preparadas foram injectadas em duas series
de animaes.
A experiencia inversa foi tentada esgotando as glandulas pri-
meiramente pela agua de cal e em seguida retomando o residuo pelo
soro physiologico.
Essas experiencias foram concludentes; o veneno, quasi intei-
raniente solúvel na agua de cal, o é cerca de metade menos no soro
physiologico ; as soluções em agua de cal são sufficientemente to-
xicas, embora se verifique, pelo menos, para o veneno de Cte-
nus (•), que sua acção é mais fraca, e sobretudo menos rapida do
que a própria picada da aranha.
Estes resultados são, entretanto, muito superiores aos obti-
dos, até o presente, por outros methodos. Xotamos ainda que as
.soluções, em soro physiologico são muito lirnpidas, emquanto que
as soluções em agua de cal são muito opalescentes.
Eis o protocolo <1<* algumas experiências realisadas:
1 — Solntn em agua de cal.
Sol. 11 — Veneno de Clenwi jerus. preparado segundo o methodo indicado,
com exemplares de tamanho medio, glandulas e cheliceras lavadas, trituradas, de-
pois addicionadas de agua de cal, filtração. Uma glandula corresponde a 0cc,3
da solução.
*, Sendo a Trtrbm , f rntmod pouco ampreMÍva, dificilmente podem ser comparado* o* re«ul-
tido» «*sta
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_Ew. 17 — Camundongo de 21 gr. recebe na coxa Qcc.l de glandula era
0cc,5 dagua de cal; morte em 44 minutos.
2 — Comparação «las soluções em soro physiologico e agua de cal.
As glandulas de 6 Ctenus de grande tamanho são trituradas em ficc de
soro physiologko ; lcc corresponde a duas glandulas: sol. 13. O resíduo que
ficou sobre o filtro é retomado por 6cc de agua de cal: sol. 13-A.
Sol. 13 — (soro phys.).
Exp. 31 — Camondongo de 19.5 gr. recebe, na coxa, 0ce,3 de glandula em
0cc,5 de soro phys. ; convulsões dentro do 31 minutos, morte em 57 minutos.
Exp. 32 — Camondongo de 19,6 gr. recebe, na coxa, 0,15 de glandula em
0cc,5 de soro phys. ; convulsões dentro de 52 minutos, morte em 2 horas o
8 minutos.
Sol. 13-A — (agua de cal).
Exp. 31-A — Camondongo de 19.5 gr. recebe 0.3 de glandula em 0cc,5
dagua de cal; convulsões dentro de 19 minutos, morte em 45 minutos.
Exp. 32 — Hato de 19.2 gr. recebe 0.15 de glandula cm 0cc,5 d'agua do
cal ; convulsões dentro de 2 horas c 10 minutos ; morte em 38 horas.
O soro physiologico, portanto, dissolveu um pouco mais da metade do veneno.
Sol. 19 — Preparada com veneno de 12 ctenus de tamanho medio, todos
os venenos de reacçâo fort.ni.-nto acida ; depois d’um esgotamento pela agua de
cal o resíduo ê retomado por uma quantidade igual de serutn phvaiologico
(t>ol. 19-A). ’ b
Sol. 19 — (agua de cal).
Exp. 41 — Camondongo de 20.5 grs. recebe 0.3 de glandula em Occ.5
dagua de cal ; immediata agitação violenta, gritos, salivação abundante, seguida
de paresia, grandes tremores generalisados. sem convulsões ; depois dYsses sym-
p tomas muito acrenluados elle se restal»d«se gradualmcnte.
Sol. 19-A — (soro physiologico).
K*t*. 12 — Camondongo de 20.2 grs. recebe uma glandula em 0rr,5 de
soro physiologico: immediata e fraca agitação, porem de curta duração, salivação
muito leve, não apresenta tremores nem convulsõ»»*; apezar da dose elevada
injectada os symptomas são muito pouco accentuados, e elle se restabelece ra-
pidamente.
Sol. 19-11 — A solução em agua de cal ê glycerínada a 40 »# c. pira r*>-
Ctificar o resultado, um camondongo de 21 grs. recebe no dia seguinte uma
glandula desta solução conservada, por consequência já altemiada.
Exp. 43 — Camondongo de 21 gr», recebe, na coxa. uma glandula ; para-
lysia em 15 minutos, morte em 3 horas e 15 minutos.
Exp. II — Camondongo de 20,5 grs. recebe 0.5 de glandula; apõs um
período «le viva agitação apresenta, no fim d‘uma hora, paralvsia quasi com-
pleta. entrecortada dc espasmos violentos; porem se restabelece' pouco a pouco.
Apezar da pequena actividade tia solução 15», devida ã acidez
tio veneno, essa experiencia confirma as precedentes; a solução em
agua de cal n’uma dose tres vezes mais fraca, se mostrou muito mais
activa do que a solução em soro physiologico, quasi desprovida de
actividade (Exp. 41 e 42) e, mesmo conservada se revelou muito
mais toxica (Exp. 43). A agua de cal, é pois, o melhor vehiculo,-
quando se tenha de preparar solutos de veneno, por trituração das
glandulas e cheliceras.
Conservação das soluções de veneno
Em baixa temperatura as soluções de veneno se conservam bem.
Assim, durante o curso de nossas experiencias, iivemos occasião de
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Memória» do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
conservar, por muitos dias, as soluções com que trabalhavamos,:
sem a minima alteração, no frigo a-4°. Este recurso pode ser em-
pregado, sempre que se tenha de conservar, por tempo limitado,
quantidades relativamente pequenas de veneno. Quando, porem, se
tenha de conservar grandes quantidades e por um prazo longo, como
acontece no caso das experiencias sobre immunisação, este methodo
não convem. N’este caso, valendo-nos de experiencias que tinha-
mos sobre a conservação dos solutos de veneno ophidico, empre-
gamos a glycerina como meio conservador na porcentagem de 40 °'o.
A actividade das soluções, n‘estas condições, baixa sensivelmente no
primeiro dia, muito pouco nos 2 ou 3 dias seguintes, mantendo-se
depois quasi que inalterável, por tempo bastante longo.
Convem ainda notar que, sob este ponto de vista, nem todos os
venenos se comportam de modo perfeitamente idêntico, sendo indi-
cado estudar-se, em cada um d'elles, a relação da toxicidade dos so-
lutos frescos e dos conservados.
A agua de cal é, como vimos atraz, um exeellente vehiculo.
Não deve, entretanto, ser empregada, quando se tenha de estudar a
acção hemolytiea ou coagulante dos venenos, nem tão pouco quando
se tenha de preparar grandes soluções para immunisação. No pri-
meiro caso, teria o inconveniente de falsear ou difficultar os resulta-
dos ; no segundo apresentaria o grave defeito de diminuir o poder
antigenico das soluções, de accordo com o que tivemos occasião de
observar no decurso de nossas experiencias sobre immunisação.
Como preparamos as nossas soluções de veneno
De accordo com as considerações que vimos de fazer e com a
experiencia colhida na longa pratica que tivemos, n’este genero de
trabalho, fixamos o seguinte methodo para o preparo de nossas so-
luções de veneno. As aranhas são conservadas, em jejum, durante
alguns dias, cada uma em receptáculo separado, precaução essa in-
dispensável, para evitar que se trucidem umas ãs outras. São mortas
em seguida pelo chloroformio, a que são muito sensíveis.
Tratando-se das aranhas verdadeiras, as glandulas são extrahi-
ilas do cephalo-thorax de accordo com o methodo anteriormente
descripto. Nas theraphosidae ou caranguejeiras, porem, em que as
glandulas de veneno estão mettidas no interior das cheliceras, co-
meça-se por decepar estas por meio de um golpe de tesoura, ap-
plicado no seu ponto de articulação, com o cephalo-thorax. Abrin-
do-se, então, as cheliceras e afastando-se cautelosamente as massas
musculares n'ellas contidas, descobre-se na parte profunda da con-
cavidade de cada uma d'ellas a glandula de veneno, de forma alon-
gada e que é facilmente isolada.
Colhidas as glandulas de veneno, tanto n’ura, como n’outro
caso, são ellas cautelosamente lavadas em soro physiologico, en-
xutas em papel de filtro e trituradas em um pequeno gral com
areia fina esterilisada. A pasta assim obtida, junta-se agua de cal
em quantidade proporcional ao numero de glandulas trituradas. De-
pois de intimo contacto com o vehiculo é o todo filtrado em papel
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ligeiramente humedecido pelo mesmo vehictdo • ^
solução titulada em relação a glândulas de veneno ®
1 « r ' di mesma corresponda a um certo numero de glândulas, semto
fácil' secundo as necessidades «la experienc.a fraccionar-se a solu-
. ão conhecendo-lhe o valor em glandula ou fracçao d esta.
p-jr-i evitar como causa de erro, a variação «lo volume a i
ie« t ,r <e completavamos sempre para Occ.ã as doses fraccionanas
. ‘ soluções empregadas. Assim, se tínhamos de empregar 0« c.l-
(i* o ou Occ 3 de solução, completavamos respectivamente o \olume
t Occ 3 ou Occ 2 de agua <le cal. Podendo a actividade das
expenencias Jedas com e Xe mplo, fixamos, como
fiLSX i-asts "
-p'
íl is elandulas, excluindo as cheliceras e empregando como vehicul
o soro phvsiologico. Para conhecer a toxicidade absoluta dos yene-
nos 0 ^ comparados de modo seguro, sob esse aspecto, consegu.mos,
nor meio de um aperfeiçoamento technico, obter \ enenos puro» « st
fos com os quaes nos f«.i possível estabelecer as m.mmas mortaes,
n.wo o «me trouxe mais precisão as nossas experjencias, ptr-
mittindo-nos, alem d’isso, controlar os resultados oldulos antermr-
mente.
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Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II -Fase. ITiico
II PARTE
ESTUDO DE ALGUNS VENENOS
CAPITULO I
TOXICIDADE DOS VENENOS
De posse (rum processo pratico de preparar soluções de ve-
neno muito activas, dosadas com exactidão e comparáveis entre si.
passaremos a estudar os quatro typos já escolhidos aos quaes acres-
centaremos a Li/cosa raptoria, especie de que trataremos em ultimo
lugar.
Nas experiencias empregamos o ramondongo, o rato branco, o
cobaio, o pombo, o coelho e diversos animaes de sangue frio, ser-
pentes e sapos, usando comparativamente, as vias sub-cutanea, in-
tramuscular, e a endovenosa; mais raramente as injecções intra-
dermicas. Os symptomas sempre foram idênticos aos observados por
picada directa. Com o veneno de Ctenus, porem, por via sub-cutanea,
nunca registramos mortes tão rapidas, como as produzidas pela mes-
ma especie por picada directa, e em condições favoráveis. A dimi-
nuição na acção d’esse veneno, quando em solução é explicada pela
sua grande diluição. Em todas as experiencias os resultados obtidos
foram muito regulares, perfeitamente comparáveis entre si, propor-
cionaes á quantidade de veneno injectada e, como era de prever,
muito differentes, segundo as especies de aranhas.
Emfim, tendo conseguido como dissemos anteriormente obter
veneno puro e dessecado, completamos essas pesquizas estabelecendo,
d’um modo seguro, a minima mortal de diversos venenos, para os
differentes animaes de laboratorio, verificando, assim, exactamente,
a enorme artividade de alguns d'elles.
Veneno de Ctenus ferus
É um veneno exclusivamente neuro-toxico, muito activo, sem
acção inflammatoria local ; provoca caimbras localisadas, seguidas
de tetania geral, convulsões tônicas, progressiva paralysia e morte
por suspensão de respiração. Ha sempre grande hvpothermia acom-
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas 41
panhada d’eschemia «los tegumentos, grande augmento de todas ;ts
secreções, salivar, lacrymal, etc., diarrhéa e hematúria, quando a
morte é assaz lenta. As injecções hypodermicas ou intramusculares
causam dor forte, intensa trepidação muscular, immediata paralysia,
em extensão forçada, do membro injectado, e geral e violenta imi-
tação. Esses primeiros symptomas não se apresentam quando é em-
pregada a via venosa, sendo então os primeiros signaes observados
a dyspnéa, e a hypersecreção salivar.
Segundo a actividade das soluções, dependente em grande parte,
da alcalinidade ou da acidez dos venenos, a morte sobrevem, por
injecção hvpodermica ou intramuscular, em tempo variavel, porem
sempre bem mais longo do que por picada directa. A mínima mortal
é muito próxima da maxirna mortal ; quer dizer, doses superiores ã
mais fraca, causando morte, não matam muito mais rapidamente do
que esta ultima. Abaixo da minima mortal observam-se symptomas
cada vez mais fracos, á medida que diminuem as doses «le veneno
empregadas. Por injecção intravenosa a morte é muito mais rapida,
podendo ser quasi immediata; a dose minima mortal é muito mais
fraca e enorme a differença entre as doses minima e maxirna mor-
taes. A eliminação «le veneno parece rapida pois «juando os animaes
não morrem, se restabelecem muito rapidamente. (> pombo se mos-
trou muito resistente a esse veneno, emquanto que o camon «longo,
o cobaio e c«K»lho são muito sensíveis. Um Ctenus «le tamanho me-
dio permitte matar 20 camondongos |>or via intramuscular, 100 por
via venosa, 2 cobaios (via subcutânea), 1 coelho (via venosa) e
somente 1 pombo (via venosa . Após innumeras experiencias es-
tabelecemos, como solução typica, a que, em dose «le 0,1 de glân-
dula para 1 volume de 0,õ matasse em menos d'uma hora, um
camondong«» de cerca de 20 grammas.
oi — Camundongo. Xo momento da injecção intramuscular
na coxa, o camundongo se agita fortemente, grita e a pata fica im-*
mediatamente paralysada, em extensão forçada ; depois d'um primeiro
periodo de agitação violenta, cuja duração é proporcional á activi-
dade da injecção, devido á intensidade da dor, durante a qual o
animal corre de todos os lados, gritando, «laudo pulos desordenados
que degeneram ãs vezes em convulsões epileptiformes, esfrega e
morde o lugar ferido, o murideo se acalma pouco a pouco, perde
sua habitual vivacidade, encolhe-se como se fôra uma bola, com «is
pellos eriçados, triste, dyspneico; abundante secreção salivar o obriga
a movimentos incessantes de deglutinação ; pouco a pouco appare-
cem tremores localisados nas extremidades dos membros, a principio
curtos, «le pouca extensão, em seguida cada vez mais prolongados,
logo se tomando generalisados e contínuos ; a excitação, até então
sempre crescente, «lesapparece progressivamente ; a parte posterior
«lo corpo entra em paresia; as caimbras degeneram em accessos de
contracções cada vez mais violentas, com paroxysmos, durante os
quaes o animal fica n'um estado de tetania geral; em seguida so-
brevem convulsões muito violentas : desde então a paralysia é com-
pleta, a saliva não é mais deglutida e corre abundantemente, todas
as funeções dexcreção ficam perturbadas, o animal fica molhado,
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SciELO
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Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. 1'nico
ha diarrhéa, urinas abundantes, algumas vezes sanguinolentas; quan-
do a morte se dá, uma hora após a injecção, a temperatura cahe
progressivamente, os movimentos respiratórios tomam-se espaçados,
espasmódicos, e o animal morre numa fraca convulsão.
Com veneno alcalino, fresco, a morte sobrevem em menos d'uma
hora, em media em 25 a 40 minutos, seja qual for a dose injectada ;
com veneno acido, ou soluções glycerinadas com antecedencia de
alguns dias, a morte pode ser muito demorada pois, embora as con-
vulsões appareçam quasi sempre em menos d'uma hora, o periodo
agonisante de paralysia se prolonga, então, por tempo variavel, al-
gumas vezes de 24 horas.
Se a dose de veneno é insufficiente, após o primeiro estado de
agitação, segue-se um periodo mais ou menos longo de somnolencia
ou de paresia, com uma serie de caimbras mais ou menos extensas,
seguidas ou não de paralysia ; mas não apparecem as convulsões ;
desde o momento que ellas se apresentem, o prognostico é fatal,
porque precedem a suspensão da respiração ; quando não apparecem
convulsões o animal se restabelece muito rapidamente, dentro de
poucas horas, mesmo após haver estado completamente paralytico.
Com injecção endovenosa os symptomas são idênticos, porem
a morte é mais rapida, proporcional á quantidade de veneno injectada,
podendo sobrevir em menos de 5 minutos ; o periodo de agitação
inicial não se dá e os primeiros symptomas são a abundante sali-
vação, as caimbras e a paralysia immediatamente seguida pelas con-
vulsões.
A minima mortal por via intramuscular é em media de 0,1 de
glailHula; por via intravenosa, 5 vezes mais fraca.
Eis alguns <los nossos protocolos:
I’or picada directa um camondongo de cerca de 20 grs. morre n'um minuto.
Injecção intramuscular.
Sol. 17, fresca, preparada com 9 Ctenus grandes ou médios; todas as
glandulas alcalinas.
E. \P. 18 — Camondougo de 24 grs. rec. 2 glandulas ; morle em menos de
34 minutos.
Exp. 17 — Camondongo de 21 gr. rec. I glandula ; convulsões em 19 mi-
nutos. paralysia em 29 e morte em 35 minutos.
Exp. 18 — Camondongo de 19 gr. 5 rec. l / } de giandula; morle em 27
minutos.
Exp. 19 — Camondongo de 22 gr. rec. 0,1 de glandula; morte em 44
minutos.
Exp. 21 — Camondongo de 20 gr. rec. 1 /jo gl- ; leve salivação, hyperexcitaçâo
seguida de paresia ; restabelecido «n 12 boras.
Exp. 22 — Camondongo de 18 gr. rec. gb; um pouco de paresia,
restabelecido em 12 horas.
Esta solução preparada e em seguida glycerinada, a 22 de Maio, serve
para novas experiencias a 24. 27 e 28; sua actividade depois de ter baixado
enomiemente nos 3 primeiros dias, se manteve, em seguida igual.
24-V.
F. XP. 24 — Camoudongo rec. 0.1 gl. ; tremores generalisados e contracções
espasmódicas em 19 minutos, paralysia em 30 minutos ; melhora dentro de 3
horas e restabelecimento em 48 horas.
Contribuição ao estudo do veneno da.- aranhas
43
Exp. 25 — Camondougo rec. 1 ' l5 gl. ; >yraptomas mais fracos do que os da
exp. 24, tremores menos violentos, forte paresia sem paralysia, restaMecido
dentro de 24 horas.
27- V.
Exp. 27 — Camondongo de 18.5 gr. rec. 0,1 gl. ; caimbraa e contracções
sem [.aralvsia em 1 hora, notável melhora em 2 horas ; restabelecido em 24 horas.
Exp. 28 — Camondongo de 19 gr. rec. 0.2 gl. : em ll! minutos intensa
salivação, forte paresia. paralytico em 45 min. ; cahido de costas, entregue a vio-
lentas crises de contracção, durando cada uma 2 a 3 min. ; começa a melhorar
em 1 h. 30 e procura levantar-se; restabelecido no dia seguinte.
28- V.
Exp. 29 — Camondongo de 18,5 gr. recebe 0,3 gl. ; convulsões dentro de
23 minutos, morte em 32 minutos.
A -Çii i ■ • atando um precipitado assas abundante õ filtrada e a me-
tade d’essê precipitado retomado por loc. de agua de cal; 0cc.5 são injectad<>*
n’um rato c não provocam nenhum symptoma. (Exp. 34).
Venenos ácidos
Com veneno de Cl. ferus de reacçâo acida realisamos diversas
experiencias; apresentamos as 3 seguintes, ile 5) e 18 de Junho,
feitas com venenos dos qoaes estudamos detalhadamente as reacções ;
totlos os nossos outros resultados conrordam com estes.
Sol. de 9-vi : 3 veneno* ale., 10 francamente ácidos; todas as a ranhai de
grande tamanho.
Exp. 45 — Camondongo de 18 gr. rec. 0,25 gl. (sol. fresca) ; violentos tre-
mores generalisados, salivação, paresia seguida de paralysia post. ; restabelecido
em 24 horas.
Exp. 46 — Camondongo de 18 gr. rec. 0.7.» gl. mesma sol. glycerinada
conservada 26 horas); em 20 minutos, convulsões em 1 h. 20, |>aralysia com-
pleta. hematúria, morte em 2 h. 15.
Sol. m 18- vi : to Clenn tamanho; 3 venenos ale., i quasi
neutro, 6 ácidos.
Exp. 17 — Camondongo de 16,3 gr. rec. 0.43 gl. (solução glycerinada no
momento) ; convulsões em 35 minutos, morte em 1 h. 30.
Injccções endovenosas
(em uma das veias caudaes do camondongo)
Pesquizas realisadas com uma única solução preparada com 5
Ctenus de tamanho medio.
Testemjnhas — Exp. 117 — Camondongo de 17,3 gr. rec. 0,3 intramuscular;
paralytico em 1 h. 03, morre em 1 h. 38.
Exp. 128 — Camondongo de 18 gr. rec. 0,15 intramuscular; em 28 minu-
tos forte tetania de toda a parte posterior do corjio, em 30 minutos paralysia
quasi completa; após 2 h. 30 começa a melhorar; quasi restabelecido em C h.
Exp. 129 — Camondongo de 16 gr. rec. 0,1 gl. intramuscular, svmptomas
quasi tão accentuados quanto os da exp. procedente, restabelecido ao mesmo
tempo.
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v
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II -Fase. 1'nico
Via venosa.
Exp. 125 — Camondongo de 23 gr., rec. 0,15 gl. ; immediatamente lorte
dyspnéa, salivação abundante ; em 2 min. convulsões, seguidas de contracções ue-
neralisadas e de completa paralysia ; morte em 19 minutos.
Exp. 126 — Camondongo de 14 gr. recebe 0.06 gl. ; salivação immoliala.
dyspnéa, caimbras nas 4 patas, as post. em extensão forçada, tremores muito
violentos, convulsões em 24 min., morte em 26 min.
Exp. 127 — Camondongo rec. 0,02 gl. ; unicamente algumas caimbras leves
nas patas ant. e pequena salivação; restabelecido em 1 hora.
Exp. 131 — Camondongo de 18 gr. rec. 0,04 gl.: salivação assaz forte,
algumas caimbras nas patas ant. seguidas de grande soranolencia ; restabelecido
em 3 horas.
Exp. 132 — Camondongo de 20,5 gr. rec. 0,04 gl. ; tristeza, grande sali-
vação, tremores general isados ; restabelecido em 3 horas.
Exp, 133 — Camondongo de 20,5 gr. rec. 0,35 gl. ; immediata salivação e
dyspnéa intensa, tremores general isados, contracções violentas em todo o corpo, di-
minuição dos movimentos respiratórios, eschemia accentuada das orelhas e do fo-
cinho; convulsões e morte em 4 minutos e 45 segundos.
b — Cobaio. — O cobaio é bastante sensível a esse veneno, e
os symptomas cjuasi completamente idênticos aos observados no ca-
mondongo, porem é mais fraco o período de agitação, a paralysia
mais completa.
A mínima mortal é apenas superior a 1 glandula por via sub-
cutânea.
Exp. 23 — Cobaio de 355 gr. rec. t glandula; (1 sol. fresca 0.1 mata 1
rato em 44 min.); immediatamente gritos, violenta agitação, pulos desordenados,
expirações violentas, tosse ; uma hora após a saliva corre abundantemonte. tetania
generalisada com crises espasmódicas; uma hora e meia depois da injecçâo a
paralysia é completa, a morte parece imminente; entretanto, no dia seguinte cedo
o animal está muito melhor, podendo ficar de pé, as caimbras não apparecondo
senão por occasiâo dos movimentos voluntários; diarrhéa abundante; restabele-
cido em 48 horas.
Exp. 26 — Cobaio de 270 grs. (mesma solução que na exp. 23) rec. 1
gl. 2; violenta agitação seguida de paresia, convulsões em 1 h. 02. paralysia e
morte em 1 h. 35. Temp. rectal ás 13.55, no momento da injecçâo 37°3; ás
13,45, 36° 8 ; ás 14,07, 37°6; ás 14.37 o thermometro marcando 36°5. não
sóbe; morte ás 15,20.
Pombo. — As primeiras experiencias sobre esse animal,
seja por picada directa, seja com soluções em soro physiologico
não deram senão resultados medíocres. Retomando essas pesquizas
com soluções em agua de cal verificamos a grande resistência do
pombo a essa especie de veneno. A minima mortal por via endo-
venosa, é cerca de 2 glandulas.
Exp. 20 — Pombo rec. na veia 1 glandula (sol. fresca matando 1 rato em
44 minutos) ; immediatamente muito abundante secreção pelo bico e pelas nari-
nas ; cahe em urn minuto agitado por tremores violentos ; 5 minutos após con-
tracções generalisadas, opisthotonus. extensão forçada das patas ; alongadas |“>s-
terionnente (íig. 13); dyspnéa muito forte, violenta expiração, tosse; esse es-
tado persiste durante 2 horas, entrecortado de curtos períodos de grande agi-
tação; depois a paralysia completa-se pouco a pouco, e a morte parece imn»:-
nente ; entretanto, no dia seguinte cedo. a melhora é notável : o [>ombo, ainda
c-ahido, é agitado por contínuos tremores, tendo as patas em posição normal ; as
contracções desapparecem : quasi restabelecido na manhã do outro dia, notando-se
apenas que qualquer excitação determina uma serie de caimbras nas azas.
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
45
Kxp. 124 — Pombo rec. 2 gl. |x>r via endovenosa; imme<liatamente cabe
[■ara diante com as azas abertas, as patas primeiro dobradas, depois em extensão
forçada (4 minutos); 9 minutos após a injecçâo, tetania geral, as patas alon-
gadas post., as - 1 T.SS estendidas, o jiescoço dobrado, a cauda distendida, convul-
sões intensas ; os movimentos respiratório? se tomam espasnxxlicos. muito espaça-
dos; em 20 minutos o animal está completamente paralytiro, quasi apneico ;
morre em 36 minutos n'um quasi completo estalo de algidez.
Kxp. 119 — Pombo rec. nos museulos |>e:toraes 2 glândulas da solução
precedente (exp. 124); cahe immediatamente sobre o tarso, com as patas con-
tractadas, abundante secreção pelo bico e as narinas; intenso tremor muscular,
caimbras na aza correspondente ; no dia seguinte está ainda rahido sobre o
tarso, com um pequeno tremor intermitlente na aza correspondente ã injecçâo ; os
outros symptomxs desappareceram ; restalielecido em 48 horas.
d) — Coelho. — Para esse animal a mínima mortal é por via
venosa, de cerca de 1 gl. 5.
Kxp. 62 — Coelho de 1,655 grs. recebe 1 gl. 2 por via endovenosa; 3
minutos após a injecçâo accusa grande paresia dos membros post., tomando dif-
ficil o andar, o obrigando a se deitar logo; em 18 minutos a paralysia é completa,
as l patas estiradas, rigidas; 1 hora e 30 minutos após a injecçâo, entretanto,
a .melhora é sensível, as patas não estão mais em tetania; porem, existe grando
-■ereção bureal e accessos inlennittentes do caimbras localisadas ; depois se res-
tabelece gradualmente, achando-se em estado normal no dia seguinte.
Trsion mu — Kxp. 48 — Camondongo de 14,5 cr. rec. 0.3 gl. intramus-
cular ; morre em 1 h. 55.
Necropsia dos animaes mortos por este veneno
e ) — N’este primeiro trabalho limitar-nos-emos a constatar
as lesões macroscópicas, idênticas no cobaio e no camondongo.
Xo lugar da injecçâo nenhuma reacção; pela abertura da ca-
vidade abdominal nota-se leve derramamento seroso no peritoneo
(igualmente em todas as outras serosas, pleuras, pericárdio e menin-
geas ; figado com abundante pontilhado hemorrhagico, intestino del-
gado muito congestionado, contendo liquido abundante; os rins são
a sede de intensa congestão, muitas vezes com infartus hemorrhagi-
ros; em certos casos o conteúdo da bexiga é fortemente hematurico e
nota-se, alem d’isso, abundante secreção bronchica e tracheal, em-
baraçando as vias respiratórias; as meningeas e os hemispherios
eerebraes muito congestionados; os outros orgãos normaes. (*)
A Cienus nigrivenler é uma especie morphologicamente muito
vizinha da Cteini * fenis que ella substitue nos arrabaldes de S.
Paulo, onde é commum em casas velhas, nas casas de tennites ou
cupim. As propriedades d'esse veneno são sob todos os pontos de
vista, muito semelhantes ás da Ctenn« ferus, porem ainda mais ac-
centuadas como o demonstram as seguintes experiências. D’estas
Veneno de Ctenus nigriventer
(*) X» necropsia dos animaco
I 0 .- 0 » hemorrhizieos.
46
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fa.sc. l'nico
experiências e das realisadas com veneno secco, e que relataremos
mais tarde, deduzimos as seguintes minimas mortaes. Para o cobaio
e para o rato, por injecção subcutânea, um pouco menos de 0,4 de
glaudula ; e 2/3 glandula para o coelho e o pombo, por via en-
dovenosa.
Exp. 202 — Cobaio de 290 gr. rec. 1 gl. 2 intramuscular; grilos iminedia-
tos, n’um minuto paralysia completa entrecortada por íracos espasmos e convul-
sões; morte em 35 minutos.
Exp. 203 — Cobaio de 250 grs. rec. 0,6 glandula intramuscular: gritos, viva
agitação, abundante salivação (lã minutos), convulsões 30 minutos', paralysia
e morte em 1 hoira e 5 minutos.
Unto branco — Exp. 230 — Itato de 181 gr. rec. 1 gl. intramusccular ;
immediatamente a pata estira-se para traz, sobrevem viva agitação, intensa hyper-
secreçâo, forte paresia em 20 minutos ; serie de violentas convulsões em 40
minutos; paralysia e morte em l h. 30.
Exp. 203 — Rato de 123 gr. rec. 0.5 gl. intramuscular; gritos, incessantes
agitações, salivação abundante, convulsões (em 1 hora 13), paralysia e morte
em 2 horas 58.
Coelho — Exp. 204 — Coelho de 1145 gr. rec. I gl. 2 por via endovenosa;
immediatamente forte paresia post. ; e, 10 minutos paraplegia, incoordenação dos
movimentos: dyspnéa intensa, respiração estertorosa. querendo avançar receia, va-
cilla; paralysia em 15 minutos, morte em 27 minutos. n’uma fraca convulsão.
Pombo — Exp. 206 — Pombo rec. 2 glandulas. |*>r via endovenosa; im-
mediatamente paralytico, morre em 12 minutos.
Exp. 207 — Pombo rec. 1 gl. |*>r via endovenosa; immediatamente paraly-
tico, tetania” geral com paroxismos violentos; apezar da morte parecer imminente.
se restabelece gradnalmenle. achando-se completamente normal no dia seguinte
pela manhã.
Os animaes de sangue frio são pouco sensíveis a esse veneno;
um grande sapo ( Bufo agua) de perca de 200 grs., recebendo 1
glandula em injecção subcutânea, no lado int. tia coxa. não apre-
senta senão algumas caimbras locaes e tremores fibrillares (exp.
229); uma Phglodrias shooti não accusou symptoma algum (exp.
228); um Drgmobius bifossatus (254) tendo recebido 2 mg. de ve-
neno secco por injecção intracardiaca, e um Xenodon Merremii de
grandes dimensões, tendo recebido a mesma dose intracraneana 2õ.V
não apresentaram nenhum signa 1 de envenenamento.
Veneno de Trechona venosa Latr.
{'. um outro veneno exclusivamente neurotoxico, extremamente
activo, provocando violentas convulsões tônicas, intenso estado de
tetania, seguido de paralysia e morte acompanhada de grandes per-
turbações de todas as secreções, notadamente nos intestinos, de derra-
mamento abundante em todas as serosas ; a dyspnéa é muito forte
e a hyperesthesia notável no começo; não existe signal de reacção
local, porem, tendencia a hemorrhagias (exp. 226-231 ).
A minima mortal por via intravenosa é muito próxima da mí-
nima por via intramuscular. n'este ultimo caso a marcha da intoxi-
cação é muito mais lenta ; abaixo do limite mortal os symptomas são
apenas sensíveis; a máxima mortal é muito afastada da minima e
Coniribuiçâo ao «studo do vcoeno das aranhas
47
segundo a quantidade de veneno injectada, a morte pode ser imme-
diata ou a appariçâo dos symptomas muito retardada, seguida de
grande sobrevivência; desde a appariçâo dos symptomas geraes, sa-
livação forte, paresia e contracção dos membros inferiores, a morte
é quasi certa, com os venenos frescos, porem, com venenos modifi- ♦
cados por diversos agentes physicos ou cbimtcos, o animal pode se
restabelecer, depois de ter apresentado notáveis perturbações. A con-
centração mais ou menos grande das soluções não exerce senão
pouca influencia sobre sua toxicidade.
0 pombo é muito sensível a esse veneno, o camoudongo e prin-
cipalmente o rato o são muito menos; a sensibilidade do cobaio, em
relação ao peso é pouco diversa da do rato; os animaes de sangue
frio são assaz sensíveis. O conteúdo das glandulas d‘um exemplar
adulto dessa aranha é sufficiente para matar 200 pombos, 100 ra-*
tos, 4 coelhos e somente 2 cobaios.
Sendo o pombo dotado d'uma sensibilidade maior e mais re-
gular para esse veneno, escolhemos, como solução /unirão, uma so-
lução em que. na dose de 0.05 glandula, mata. por via intravenosa,
*um pombo adulto em menos d'uma hora.
a Pombo. — Após haver recebido uma dose media de ve-
neno de Trechona o poml>o fica primeiramente immovel; por in-
jecção intramuscular nota-se simplesmente tremor muscular local
muito forte, e a aza correspondente, a principio levantada, pela
violenta contracção dos musculos motores, fica em seguida, pendente
e agitada por continuo tremor; logo apparecem os phenomenos ge-
raes ; o animal sente certa difficuldade de ficar de pé, os dedos se
contrahem em flexão, tropeça continuamente, muda sem cessar de
posição, depois vacilla, cahe, as patas esticadas com tendência a se
collocar em extensão e após ter procurado diversas vezes se levan-
tar é preso de convulsões tônicas de variada intensidade segundo
a dose de veneno; finalmente cahe definitivamente, completamente
parai ytico, rígido, em opisthotonus, sacudido por tremores genera-
lisados e contínuos ; todo o corpo em extensão forçada, as patas
tesas alongadas para traz. as azas semi-abertas, a cauda aberta em
leque, durante as crises paroxysticas, a cabeça voltada para traz ;
é a crise tetanicà com paroxysmos violentos determinados pela me-
nor excitação e que não se finalisu senão, pela morte, no meio de
intensas convulsões.
Antes da queda do animal nota-se jã o escoamento pelo bico
e pelas narinas, de uma pequena quantidade de liquido mucoso re-
geitado, em certos momentos, por bruscas expirações ; nos casos
não morta es essa hypersecreção e uma leve contracção passageira
nas patas são os únicos symptomas notáveis; mas quando o pombo
jã está paralytico, um espesso liquido muito abundante corre fora
do bico, muitas vezes misturado com detrictos alimentícios, os mo-
vimentos respiratórios são precipitados, a respiração penosa, emba-
raçada pela mucosidade bronchica ; quando a morte é assaz lenta
existe sempre diarrhéa abundante.
Com uma dose media de 0.04 a 0,2 de glandula esse quadro
evolue em uma ou duas horas e em menos de 30 minutos o animal
4' .Memórias do Instituto <ie Butantan - Tomo II -Fase. L'nico
fica paralrtico; com venenos modificados uu doses muito fracas a
morte pode sobrevir muito lentamente e os primeiros symptomas não
apparecem senão 24 lioras após a injecção. Uma dose massiça,
cerca de uma glandula injectada na veia, provoca uma violenta con-
vulsão e o animal morre em menos d'um minuto, no estado de
contracção, característico d’esse envenenamento. A minima mortal
é muito fraca, cerca de 0,01' de glandula por via venosa ; muito
pouco mais elevada por via intramuscular.
Solnçflo I — ] r.-| arada com exemplares femeas, attingidas á* metade de
seu tamanho normal.
Kxp. 80 — Pombo rec. |>or via venosa, 1 glandula ; immcdiatamente con-
vulsões, morte em menos d’nm minuto com uma forte contracção.
Exp. 79 — Pombo rec. por via venosa 0,2 gl. ; convulsões e paralysia em
1 minuto, morte em 7 minutos.
Kxp. 89 — Pombo rec. por via venosa 0,05 gl. ; convulsões e paralysia em
9 minutos, morte em l h. 14.
Exp. 91 — Pombo rec. por via venosa 0,01 gl. ; sobrevive, quasi sem apre-
sentar symptoma algum.
Exp. 81 — Pombo rec. por via intramuscular 1 gl. ; convulsões e paralysia
em 18 min., morte em 58 min.
A mesma solução é glycerinada, sol. 1.», c utilisada 24 lioras depois.
Exp. 92 — Pombo rec. por via intramuscular 1 gl. ; convulsões e paralysia
em 20. min., morte em 55 min.
Solução 2 — preparada com exemplares de mesmo tamanho.
Exp. 98 — Pombo rec. por via venosa 0,02 gl. (ás 13 h. 55); paralysia o
convulsões em 30 minutos, morte durante a noite.
Exp. 101 — Pombo rec. intramuscularmente 0,5 gl. ; paralysia e convulsões
em 22 min., morte em 45 min.
A mesma solução glycerinada é utilisada 21 horas mais tarde. Sot. 2-A.
Exp. 102 — Pombo rec. intramuscular 0,5 gl. ; paralysia e convulsões em
25 min., morte em 55 min.
Exp. 103 — rec. intramuscular 0.1 gl. ; paralysia e convulsões em 32 min.,
morte em 65 min.
Exp. — 101 — Pombo rec. intramuscular 0,05 gl. ; paralysia e convulsões em
1 h. 30, morte em 20 horas.
Kxp. 105 — Pombo rec. intramuscular 0,02 gl. 'ás 12.20); encontrado pa-
ralytico no dia seguinte cedo, morre em cerca de 36 horas.
Solução 3 — prepararia com 2 grandes exemplares adultos.
Exp. 116 — Pombo rec. por via venosa 0,05 gl. ; convulsões e paralysia em
9 min., morte em 31 minutos.
Exp. 147 — Pombo rec. por via venosa 0.01 gl. ; convulsões e paralysia em
54 min., morte era 3 h. 24.
Exp. 150 — Pombo rec. intramuscular 0,01 gl. ; leve paresia, caimbras inter-
miltentes nas patas, cabido mas sem paralysia nem contracções general i sadas ; res-
tabelecido em 21 horas.
Exp. 154 — Pombo rec. intramuscular 0,02 gl. ; convulsões e paralysia em
1 h. 15, morte entre 60 e 72 horas.
b Caiuondoiigo. Xo camondongo os symptomas são as-
sa/ proximos dos observados no pombo, os accesso? tetânicos, po-
rem. são menos violentos, mais lentos a appareoer e menos genera-
Iisados, com predomínio da paralysia sobre os outros symptomas. Um
camondongo recebendo na coxa, por via intramuscular, uma dose
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
49
media de 0,05 a 0,2 de glandula, grita durante a injecçào, nem
hem livre se mostra muito excitado, mordendo a pata que inune-
diatamente se colloca em extensão posterior, completa ; depois de
acalmada a primeira dor, sobrevem um periodo d’inquietação, du-
rante a qual o animal anda sem parar, não fazendo senão muito
curtas pausas.
Quando a dose de veneno injectada é inferior á 0,05 de glan-
dula (mínima mortal) não se nota nenhum outro symptoma e o ani-
mal se restabelece rapidamente ; com uma dose superior, perde
pouco a pouco a vivacidade natural, a parte posterior do corpo en-
tra em paresia, o pequeno roedor fica immovel ; a pata injectada ó
sede frequente de caimbras locaes, durante as quaes permanece
estirada, rigida para traz, emquanto que nos intervallos das crises
arrasta-se inerte; então, em outros pontos apparecem caimbras, na
cauda, patas posteriores, em seguida anteriores, focinho, pellos do
focinho eriçados, accionados de movimentos anormaes, acompanha-
dos de violentos tremores, de salivação, d'emissão de urinas e
fezes ; logo essas caimbras se approximam, se generalisam, o animal
fica- completamente entregue á tetania, com paroxysmos, deitado de
lado, não reagindo mais ás excitações, tendo somente leves caim-
bras nas patas ; os movimentos respiratórios são espasmódicos, muito
espaçados e a morte se dá numa convulsão.
Com injecção endovenosa, esse quadro se desenvolve mais ra-
pidamente, a apparição da salivação é quasi immediata, e após uma
curta phase de agitação, as 2 patas post. se alongam, rígidas; so-
brevem, então, tremores generalisados, caimbras, a paralysia au-
gmenta rapidamente; produzem-se alguns violentos espasmos dia-
phragmaticos e a morte é muito mais rapida cio que por via in-
tramuscular. A minima mortal é de cerca de 0,05 de glandula por
via intramuscular, um pouco menos por via venosa.
Solução I — Exp. 77 — Camondongo ili> 91 gr. 5 roc. I gl. intramuscular ;
morre em 20 min.
Exp. 78 — Camondongo *!e t8 gr. 5 rec. 0.2 gl. intramuscular; morre
em 1 h. 20.
Solução 2 — Exp. 99 — Camondoli-o <Ie 21 gr. roc. 0,05 gl. intramuscular
solução fresca): pele apenas andar 3 horas mais tarde. morro durante a noite,
em mais de 5 horas.
Exp. 101 — Testem I NH a : Pombo roc. 0,05 gl. da mesma solução glyceri-
nad* ha 21 h. sol. 2-A) intramuscular; morre em 20 horas.
Solução .3 — Exp. 146 — Testeminha: Pombo rec. 0,05 gl. intravenosa;
morre em 31 min.
Exp. 151 — Testemi NHA : Pombo rec. 0,02 gl. intramuscular; morre em
72 horas.
Exp. 151 — Camondongo de 19 gr. rec. 0.01 intramuscular; leve paresia
posl. e fracas caimbras; restabelecido em 18 horas.
Exp. 152 — Camondongo de 18 gr. rec. 0,01 gl. intravenosa; immediata
agitação, notável salivação; restabelecido em 20 hora«.
Exp. 155 — Camondongo de 17,6 gr. rec. 0,02 gl. intramuscular; leve pa-
resia post. e caimbras fracas; restabelecido em 24 horas.
Solução I — Exp. 170 — Tfsumiviu: Poml*> rec. 0,02 gl. intramuscular :
paresia e caimbras fortes; restabelecido em 48 horas.
I » do /««Mwfo d* H tnntan.
50
.Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II -Fase. 1'nico
Exp. 175 — Testemunha: Pombo rec. 0,05 gl. intravenosa; paralvsia em
25 minutos, morte em 1 h. 30.
Exp. 172 — Çamomiongo de 19 gr. rec. 0,05 gl. intramuscular; pares ia e
caimbras fortes; restabelecido em 3 dias.
Exp. 173 — Camondongo de 18,6 gr. rec. 0,02 gl. intravenosa; salivação
e caimbras immediatas, morte em 60 horas.
Exp. 174 — Camondongo de 19,5 gr. rec. 0,03 gl. intravenosa; paralvsia
em 6 h., morte em 24 horas.
c) — Rato branco. — Os symptomas, n’este animal, são quasi
idênticos aos observados no camondongo com predomínio de pheno-
menos paraly ticos ; notamos sempre alem d'isso, hemorrhagias oc-
culares. A minima mortal é um pouco superior a meia glandula.
Solução G — Exp. 224 — Testemunha: Poml>o rec. 0,05 gl. intravenosa;
morre em 35 min.
Exp. 226 — Hato de 255 gr. rec. 1 gl. intramuscular; paralytico em 60
min., morre em 1 h. 34. (Hemorrhagia occular em 1 h.).
Exp. 231 — Rato de 246 gr. rec. 0,5 gl. intramuscular; forte paresia em
3 horas, quasi paralytico em 6 horas, hemorrhagia occular no dia seguinte cedo ;
quasi restabelecido em 48 horas.
d) - - Coelho. — 0 coelho é muito sensível a esse veneno e
morre com menos de meia glandula por injecção na veia ; com os
mesmos symptomas que o cobaio e o camondongo.
Mesma testemunha que para o rato (exp. 221).
Exp. 225 — Coelho de 735 gr. rec. 1 gl. intravenosa ; morre em 7 minuto*.
Exp. 227 — Coelho de 1.100 gr. rec. 0,5 gl. intravenosa; morre em 2h. 30.
e) — Cobaio. — Este animal é bastante resistente ao veneno
de Trechona; a morte com doses elevadas (mais d’uma glandula)
é sempre lenta e os primeiros symptomas podem não apparecer se-
não 24 horas após a injecção. A minima mortal é, mais ou menos
<le 1 glandula.
Solução t — Exp. 81 — Testemunha: Pombo rec. 1 gl. intramuscular: pa-
ralytico em 18 minutos, morre em 58 minutos.
Exp. 82 — Cobaio de 454 gr. rec. 1.5 gl. sub-cutanea (14 h. 11); gritos
e inquietação immediatos; 2 horas depois leve paresia e secreção salivar; 3 ho-
ras mais tarde hypersecreção forte, paralvsia post. completa, forte paresia ant., tre-
mores contínuos e generalisados ; morre durante a noite.
Exp. 88 — Cobaio de 413 gr. rec. 1 gl. sub-cutanea (10 h.); pequena sa-
livação e paresia post., 2 horas após a injecção; ás 16 h. tremores generali-
sados. salivação intensa, paresia posterior muito accentuada. Morte durante a noite.
Solução l-.V — (Solução 1 glycerina/la).
Exp. 93 — Cobaio de 473 gr. rec. 1 gl. sub-cutanea; 24 horas mais tarde
começa a se apresentar leve salivação seguida d‘um periodo d'inquietação, du-
rante o qual o animal anda incessantemente, sacudido por tremores espasmódicas
(temp. 3602); morre em 36 horas, mais ou menos.
Solução 2 — Exp. 100 — Cobaio de 418 gr. rec. 0,5 gl. sub-cutanea:
nenhum symptoma, alem d’uma leve salivação, muito passageira.
/ — Animnes de sangue frio. — Os animaes de sangue frio
são, como dissemos, sensíveis a esse veneno ; meia glandula é suf-
cm
SciELO
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Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
51
ficiente para matar um grande sapo, e 0,3 de glandula provoca já
accidentes graves nos ophidios.
Exp. 176 — Bujo arenarum de 200 gr. rec. 0,5 glândula, em injecção sub-
cutânea, no lado int. da coxa (26-X ás 9 h. 20); o animal primeiro fica im-
movel, fortemente dyspneico ; tremor fihrillar e caimbras na pata ; 30 minutos mais
tarde forte secreção buccal ; 1 hora depois frequentes caimbras, andar difficil, no-
tável paresia post. ; no dia seguinte a pata está meio paralytica e séde de caim-
bras repetidas; no outro dia o animal está paraplégico; complelamrate paralytico
no quarto dia; e morre mais ou menos em 78 horas (29-X-15 h.).
Exp. 186 — fírymobius ln/o*mlus, adulto (comprimento, 1 . m. 55, peso
400 gr.; rec. 0,3 gl. sub-cutanea; (13 h. 50) perto das 14 h. 30 já se nota
a existência d’uma paralysia post. progressiva, quasi completa ás 15,50; ás
19 h. está completamente immovel, n'um estado de morte apparcnte, não reagindo
mais ás excitações ; começa a melhorar no dia seguinte cedo ; complctainento
restabelecido* em 48 horas.
Necropsia dos animaes mortos por este veneno
Por occasião da necropsia dos animaes: camondongos, ratos,
coelhos, cobaios, encontra-se pequeno derramamento liquido, em to-
das as serosas ; os bronchios e a trachéa cheios de mucosidadcs.
Todos os orgãos fortemente congestionados, o baço e o figado com
abundante pontilhado hemorrhagieo ; os pulmões retrahidos, com
pontos congestionados, e ás vezes com pequenos fócos hemorrhagi-
cos; o rim normal. O rato branco apresentou sempre hemorrhagia
occular notável.
Veneno de nephila cruentata
Ao contrario dos dois precedentes, o veneno de Xepliila crueii-
tata é quasi desprovido de acção geral ; possue, entretanto, notável
acção local. A injecção sub-cutanea d‘uma solução de 2 glandulas
provoca, no cobaio, viva reacção no ponto inoculado, vermelhidão,
edema extenso, com pequena papula central, não chegando a formar
eschara, uma grande fadiga geral e leve hypersecreção ; o edema
não começa a retrogradar, senão dentro de 3 ou 4 dias; com dose
idêntica o edema, no camondongo, se estende, em 21 horas, a toda
a parte posterior do corpo e a morte pode sobrevir até mesmo em
2 ou 3 dias ; a hypersecreção e a fadiga são mais accentuados e
nos casos graves ha sempre diarrhéa.
A injecção intravenosa de 2 glandulas, no camondongo, não
provoca senão perturbações passageiras, pouco sensíveis.
Xo pombo, 2 glandulas injectadas na veia não determinam ne-
nhum symptòma ; doses massiças (8-12-16 glandulas) trazem no-
tável hypersecreção, espasmos mais ou menos violentos e ás vezes
vomitos ; o animal cahe para deante com o pescoço estirado, o bico
aberto, em seguida sobrevem convulsões mais violentas acompanha-
das de paralysia ; a morte se dá em poucos instantes ou após ter fi-
cado, 10 a 15 minutos, neste estado, o pombo procura se levan-
tar e se restabelecer em menos d'uma hora, não apresentando senão
uma grande fadiga.
cm
SciELO
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52 Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
Xo coelho a injecção endovenosa de 8 glandulas não provoca
senão fadiga passageira.
Afim de melhor verificar a acção local d’esse veneno, appro-
ximando-nos o mais possível das condições naturaes da picada, in-
jectamos algumas gottas de solução na espessura do derma de um
cobaio; os resultados foram mais claros, e obtivemos de cada vez,
um edema considerável com uma zona central de tegumentos seccos
e enrugados; pouco a pouco forma-se em volta d’esse ponto um
sulco d’eliminaçào e uma pequena eschara s'elimina em alguns dias.
Recentemente retomamos essas experiencias, modificando um
pouco o methodo experimental.
As glandulas, separadas das cheliceras, são trituradas n’um vi-
dro de relogio com pequeno bastão de vidro.
Toma-se um pouco de veneno liquido do qual se injecta uma
gotta, seja puro, seja após a addicção de uma gotta de glycerina na
pelle do abdômen. Salivação e fadiga passageira; 1 hora mais tarde
sensível reacção local, edema e papula; no dia seguinte, o edema
toma a metade post. do abdômen; localmente a pelle está secca sem
eschara, estado geral bom; no quarto dia o edema começa a di-
minuir.
Exp. 68 — Camondongo rec. 1 gl. 2 sub-cutanea ; muito leve edema na
mesma tarde, notável no dia seguinte; principiando a diminuir no outro dia; ne-
nhuma perturbação geral.
Exp. 69 — Cobaio rec. 3 gl. intradermica, na parte lateral do abdômen ;
3 horas após leve edema; no dia seguinte o edema é enorme, occupando grande
parte do abdômen ; começa a se formar pequena eschara ; no quarto dia apparece
um sulco deliminaçâo e a eschara cabe.
Solução 3 fresca) — E\r. 73 — Coelho de 1.012 gr. rec. 8 gl. |>or via ve-
nosa; nenhum symptoma alem de leve fadiga.
Exp. 71 — Pombo rec. 8 gl. por via venosa; immediatamente o |>escoço
alongado, o bico alierto; convulsões e completa paralysia em 5 minutos; 15
minutos depois da injecção procura se levantar, 20 minutos depois da injecção
consegue ficar de pé e 1 hora mais tarde não mostra senão uma pequena som-
nolencia.
Exp. 75 — Pombo rec. 11 gl. por via venosa; convulsões e paralysia em
3 minutos, vomitos; restabelecido dentro d'uma hora.
Exp. 76 — Pombo rec. 16 gl. por via venosa; morte immeliata n'uma con-
vulsão.
Solução 4 — Exp. 136 — Camondong ) rec. 2 gl. sub-cutanca ; fadiga, no-
tável salivação ; grande edema no dia seguinte.
Exp. 137 — Camondongo rec. 1 gl. por via venosa; nenhum symptoma.
Exp. 139 — Camondongo rec. 2 gl. por via venosa ; leve dyspnéa, somno-
lencia e salivação. Restabelecido era l hora.
Solução 5 — Exp. 201 — Cobaio; injecção intradermica no lado externo
da coxa direita (Tuma gota d'uma maceração de glandulas em glycerina; na mesma
tarde enorme edema ; no dia seguinte placa de necrose e formação d'um sulco
dVlirainação ; 5 dias mais tarde cahe a eschara.
Actividade do veneno puro e secco,
indicada ponderalmente
Afim de conhecer a exacta actividade desses venenos consegui-
mos preparar veneno puro e secco, nos permittindo dosar exacta-
mente as quantidades empregadas; as soluções preparadas com ve-
em
SciELO
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53
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
neno secco são mais activas do que as soluções preparadas pelo pro-
cesso precedente, no qual uma parte do veneno fica retida na areia.
Para obter o veneno em estado de pureza isolamos as glân-
dulas de alguns exemplares de cada especie, e, depois de ;is ter se-
parado das cheliceras seccamol-as, na estufa, a 37° (ellas perdem
assim, cerca de metade a 2 3 de seu peso ; as glandulas foram em
seguida pesadas, depois tratadas por soro physiologico (a agua de
cal não apresenta vantagem nesse processo e o veneno extraindo
por meio de uma leve pressão, com um bastão de vidro. As glan-
dulas assim esvasiadas foram de novo seccadas e pesadas ; a diffe-
rença entre essas duas, pesadas, corresponde ao veneno dissolvido
no soro physiologico. Operando com uma quantidade conhecida do
vehiculo, facil é deduzir o peso de veneno empregado em cada in-
jecção.
Os venenos de Ctenus ferus. Ctenus nigriventer e de Trechona
Venosa, que assim estudamos, se mostraram de uma actividade com-
parável á dos venenos ophidicos, o veneno de Sephüa eruentata,
porem, de acção fraca, exclusivamente local.
Quatro glandulas de 2 exemplares ferneas de grande tamanho
são tratadas, segundo a technica indicada. O peso de cada glân-
dula é de 2,16 mmg. — —
Kxp. 320 — Coelho 19 peso 1.900 cr. . ree. 0,32.» mine. na veia; sym-
ptomas immediatos. paraplecia ; começa a restatieleeer-se depois dc uma hora.
Exp. 326 — Coelho 32 (peso 1.130 gr.}, rec. 0.4 mg. na veia; paraplégico
em 15 minutos ; morre durante a noite.
F.xp. 321 — Cobaio 62 (peso 300 cr.), rec. 0.16 mg. intramuscular; dys-
pnéa forte, paralytico em uma hora ; restabelecido no dia seguinte.
Exp. 333 — Cobaio 11 (peso 330 gr.', rec. 0,25 mg. intramuscular; morro
em 1 hora e 3 minutos.
Exp. 326 — Coelho 32 ( peso 1.130 cr.', rec. 0,4 mg. na veia; paraplégico
em 1 hora, hemorrhagia occular ; restabelecido no dia seguinte.
Exp. 334 — Rato 15 (peso 90 gr.), rec. 0.1 mg. intramuscular: morre em
1 hora e 5 minutos.
Exp. 328 — Camundongo 9, branco, de 21 gr., rec. 0,03 mg. intramuscular;
agitação violenta, paraplegia ; começa a melhorar 4 horas depois da injecção.
Exp. 330 — Camondongo 11. de 25 gr., rec. 0.04 mg. intramuscular; morro
em 37 minutos.
Exp. 332 — Pombo 69, rec. 1,3 mg. por via venosa ; paralytico em 5 mi-
nutos ; restabelecido no dia seguinte.
Exp. 331 — Pombo 128. rec. 1.4 mg.; morre em 14 minutos.
Oito glandulas de exemplares de differentes tamanhos (gran-
des e médios são tratadas, segundo a technica indicada; o peso de
veneno puro e secco. contido nas 8 glandulas, é de lOmgs.
Veneno de Ctenus ferus
Veneno de Ctenus nigriventer
Exp. 247 — Coelho de 920 gr. rec.
em 1 minuto, morte em 8 minutos.
2 mg. (1 g|. 6) intravenosa; convulsões
54
Memória» do Instituto de Butantan - Tomo II -Fase. Unico
Exp. 248 — Coelho de 950 gr. rec. X me. 0,8 gl.) intravenosa : morre em
21 minntos.
Exp. 300 — ■ Coelho de 1.100 gr. rec. 0,3 mg. (0,26 gl.) intravenosa; morre
em 1 hora e 10 minutos.
Exp. 301 — Coelho rec. 1 mg. (0,8 gl.) intramuscular; morre em 1 hora.
Exp. 350 — Coelho rec. 1 mg. 5, (1,2 gl.) intradermica; morre em 1 hora.
Exp. 247 — Coelho de 920 gr. rec. 2 mg. (1 gl. 6) intravenosa; convulsões
violentas, paralysia; morte em 12 minutos.
Exp. 251 — Cobaio de 230 gr. rec. 0,5 mg. subcutânea (0,4 gl.); morte
em 35 minutos.
Exp. 302 — Cobaio de 286 gr. rec. 0.3 mg. (0,26 gl.) intramuscular; mçrre
em 42 minutos.
Exp. 252 — Pombo rec. 1 mg. intravenosa (0,8 gl.); morte em 16 minutos.
Exp. 253 — Pombo rec. 0,5 mg. intravenosa (0,4 gl.); quasi nenhum svm-
ptoma.
Veneno de Trechona venosa
Tres glandulas de exemplares meio adultos são tratadas se-
gundo o processo indicado. 0 peso do veneno secco e puro contido
nas 3 glandulas é de 2mgs.õ.
Exp. 261 — Pombo rec. 0,0625 mg. (0,075 gl.) intravenosa; paralytico em
17 minutos; morte em 52 minutos.
Exp. 263 — Pombo rec. 0,025 mg. (0,03 gl.) intravenosa; paralytico em
15 minutos ; morre durante a noite.
Exp. 262 — Coelho de 945 gr. rec. 0,250 mg. (0,03 gl.) intravenosa; quasi
nenhum symptoraa.
Exp. 266 — Coelho de 970 gr. rec. 0,625 mg. (0,75 gl.) intravenosa; for-
temente paretico, 2 horas após a injecçâo, completamente cahido á tarde, grande
diarrhéa durante a noite; um pouco melhor no dia seguinte, restabelecido cm
4 dias.
Exp. 269 — Cobaio de 300 gr. recebe 0,6 mg. ; morre durante a noite.
Veneno de Nephila cruentata
Exp. 380 — Coelho branco, 209, rec. 7,5 mg. em 0ec,5 de soro physiologico
em injecçâo intradermica na orelha; no dia seguinte forte edema local, sem es-
chara. desapparecendo em 48 horas.
Exp. 381 — Coelho branco 107, rec. 15 mg. em lcc. no mesmo ponto;
no dia seguinte, edema forte e grande echymose, nas duas faces da orelha: 48
horas depois da injecçâo grande eschara de 2c. de comprimento, visivel na face
inferior,- cahindo dois dias depois, produzindo larga perfuração da orelha.
As mínimas mortaes com veneno puro e secco são, portanto, as
seguintes :
Ctenus nigriventer: Coelho de 1 kilog., 0,3 mmg. por via venosa.
Coelho de 1 kilog., lmmg. por via intram.
Coelho de 1 kilog., um pouco acima de 1 mmg.
por via intradermica. -
Cobaio de 300 grs., 0,3 mmg. por via intramus-
cular.
Pombo 1 mmg. por via venosa.
^Peso medio do veneno de 1 glandula = 1,25 mmg.
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas 53
Ctenus ferus: Coelho de 1 kilog., 0,4 mmg. por via venosa.
Cobaio de 300 grs., 0,25 mmg. por via intramuscular.
Rato de 100 grs., 0,4 mmg. por via intramuscular.
Camondongo de 25 grs., 0,04nimg. por via intramus-
cular.
Pombo, 1,45 mmg. por via venosa.
Peso medio do veneno de 1 glandula 2.16 mmg.
Trechona venosa: Pombo, 0,025 mmg. por via venosa.
Coelho de 1 kilog., um pouco superior a 0,628
mmg.
Cobaia de 300grs., 0,6 mmg. por via intramus-
cular.
Peso medio do veneno de uma glandula 1,25 mmg.
Nephila cruentata: Por injecção intradennica, na orelha do coelho,
15 mmg. provocam, em 48 h., uma larga eschara
e perfuração da orelha.
CAPITULO II
PODER HEMOLYTICO
Pesquizamos o poder hemolytico dos venenos de Ctenus fe-
rus , Ctenus tnedius, Enoploctenus gennanii e Ileteropodia renatoria
e Xephila cruentata; os 3 primeiros exclusivamente neurotoxicos,
os 2 outros agindo sobretudo localmente. *)
Todos se mostraram desprovidos de acção hemolytica.
As glandulas de cada especie separadas das cheliceras e lavadas
foram trituradas separadamente em um gral depois da addicção do
serum physiologico e a solução obtida, filtrada em papel.
De cada veneno preparou-se 3 soluções: Solução A — 5gl.
por 1 cc ; Solução IJ — gl 0,5 por 1 cc. — Solução C — 0,05
por 1 cc.
Os globulos empregados foram os de coelho em suspensão a
5 por 100; juntou-se a cada tubo 0cc,2 de soro de cavallo inacti-
vado, por aquecimento de 20 minutos a 58°.
Cada reacção comporta 5 tubos.
T. 1 — Sol. A — Occ.l (0,5 gl.) mais 0cc,2 soro cavallo mais
0cc,7 ser. phys.
I*) Fosterionnente estudando o» veneno» de Grammostola aeteon (Pocock), Acanthoscuria
sternali» (Pocock . Sclenops Spixii Perty . Ctenus nigriventer Key, . llrteropoda venatoria I. .
Polybetes, maculatus (Keys), SeosconeUa volucripes Key* . Trechona venosa (Latr.l, Enoploctemis
gennanii iSinon . Lycosa raptoria. tValck . Corinna nit-i.s (Keye). verificamos <iue os venenos de
Acanthoscuria sternalis. Sclenops spixii. Polybeti - n-vculatu*. Net - om lla volncripes, Trechona
venosa. Lycosa Raptoria e Corinna nitens. possuem uma acção hemolytica muito fraca (ligeiro
traço de hemolyse depois de 24 horas na estufa a 37*; todos são desprovidas de acção proteolytica
ou coagulante.
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
òti
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo lí -Fase. 1’aico
T. 2 — Sol r B — Orc.l (0,05 gl.) mais 0cc,2 soro cavallo mais
Occ, 7 ser. pbys.
T. 3 — Sol. (' — Orc.l (0,005 gl.) mais 0cc,2 soro cavallo mais
0cc,7 ser. phys.
T. 4 — Testemunha — 0cc,2 serum cavallo mais Occ. 8 soro
physiologico.
T. 5 — Testemunha — Occ.l sol. B (0,05 gl.) mais 0cc,0 soro
physiologico.
A cada tubo junta-se 1 cc. de hematias de coelho.
Nenhum signal de hemolyse em nenhum dos tubos depois de
uma permanência de 6 horas na estufa a 37».
As soluções em agua de cal não podem ser empregadas para
estas pesquizas porque esta hemolysa os glolmlos. 1 cc. de agua de
cal mais 1 cc. glolmlos em contacto 1 hora na estufa a 37° — he-
molyse total.
CAPITULO III
PODER COAGULANTE
Sob o ponto de vista da acção coagulante, os venenos da
Ctenus ferus e da Nephila cruentata , foram os únicos estudados so-
bre o plasma citratado com o emprego de soluções preparadas com
Irituratus de glandulas.
Nem um nem outro d’estes venenos revelou qualquer acção
coagulante.
Soluções frescas em soro physiologico: 1 cc. da solução, de
Ctenus corresponde a 10 glandulas. 1 cr. da solução de Nephila
corresponde a 7 glandulas. O plasma empregado foi o de carneiro,
citratado a 2 o o.
Para cada reacção, foram tomados quatro tubos :
T. 1 — 2cc. de plasma mais Occ, 1 da sol. de veneno.
T. 2 — 2cc. de plasma mais Occ, 2 da sol. de veneno.
T. 3 — 2cc. de plasma mais 0cc,3 da sol. de veneno.
T. 4 — Testemunha — 2ec. de plasma.
15 minutos depois da juneção do veneno ao plasma, nenhum
traço de coagulação foi observado.
CAPITULO IV
PODER PROTEOLYTICO
Nem o veneno de Ctenns ferus, nem o da Nephila cruentata,
possue acção proteolytica sobre a gelatina. N'uma primeira serie de
experiencias foram utilisadas as mesmas soluções de veneno, que
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas 57
haviam sido empregadas nas pesquizas da acção coagulante, e a ge-
latina a 20 o/o, mentholada a 2 °o. -Vuma segunda serie, com duas
novas soluções de veneno da mesma dosagem das precedentes, foi
ensaiada a acção protelytica sobre a gelatina a 20 «o, sem addicção
de menthol ou thymol.
Para cada veneno foram empregados quatro tubos, cada tubo
com 2cc. de gelatina e doses crescentes de veneno e um tubo tes-
temunha, sem veneno. Depois de duas horas de observação, na tem-
peratura ambiente, os tubos não tendo apresentado traço algum de
digestão, foram collocados duas horas na estufa a 37° e depois dei-
xados, durante a noite na geleira; para facilitar a leitura.
Em todos os casos o resultado foi negativo.
Ctenus ferus
T.
1
2
cc.
de
gelatina
mais
0cc,l
sol. de
T.
2
2
cc.
»
»
»
Occ.l
» »
T.
3
2
cc.
»
»
»
Occ.l
» »
T.
3
2
cc.
»
»
»
0cc,l
» »
T.
4
2
cc.
»
»
»
testemunha
Nephila
cruentata
T.
1
2
cc.
de
gelatina
mais
0cc,l
de sol.
T.
o
2
cc.
»
»
»
0cc,2
» »
T.
3
_ 2
cc.
»
»
0cc,3
» »
T.
4
2
cc.
»
»
»
0cc,4
» »
T.
5
2
cc.
»
»
»
0cc,5
» J>
T.
f*
2
cc.
»
»
testemunha
Proteolyse
Preteolysc
Reacção da gelatina — neutra. Reacção tias soluções de ve-
neno — fracamente alcalina.
CAPITELO V
FORMAÇÃO DE ANTI-CORPOS
Os nossos primeiros ensaios de immunisaçao com veneno de
aranha, foram feitos, em um carneiro, tendo empregado as soluções
de veneno de Ctenus ferus em agua de cal. Si bem tjue n 'estas pri-
meiras tentativas, não tivéssemos, por falta de material, proseguido,
por largo tempo, o tratamento do animal immunisado, conseguimos,
comtudo, chegar a resultado concludente. A injecção de doses cres-
centes de veneno provocou a formação de anti-corpos, permittindo
obter um soro capaz de neutralizar quantidade apreciável de veneno.
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
5 *
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
«' Immunisação
Seguindo o methodo de injecção diaria de pequenas doses ini-
ciaes, progressivamente crescentes, injectamos, em duas semanas 85
glandulas de Ctemis jerus e Ctenus medius (solução glycerinada),
sem notar reacção local, nem perturbações geraes. As injecções, sub-
cutâneas, na <ace interna da coxa, foram bem supportadas, produ-
zindo dor fraca e de curta duração. A solução de veneno utilisada
dosava 2gl. 8 por centímetro cubico e as doses inferiores a 2cc‘.
eram completadas com soro physiologico para este volume.
Protocolo
l.°
dia
Occ.05
0.14
gl.
8.°
dia
3cc,2
8,96
gl-
2.°
»
0cc,l
0,28
gl-
9.°
»
4cc,
11,2
gl-
3.°
»
Occ, 2
0.56
gl-
10.°
»
occ, =
14
gL
4.°
»
0cc.4
1.12
gl-
11°
»
4cc, =
11
gl.
5.°
»
0cc,8
2,24
gl-
12.°
5cc, —
14
gl-
6.°
»
lcc,6
4.48
gl-
13.°
»
6cc, =
16,8
gl.
7.°
»
repouso
14.
»
repouso
' 84 gl.,
98. do
dia
9 ao dia
22
de Junho.
b) Dosagem do soro
Quatro dias depois da ultima injecção, o carneiro foi sangrado,
tendo preparado uma certa quantidade de soro, cuja actividade foi
avaliada pelo methodo seguinte:
1. » Serie — Soro recei
iieno preparada no momento de ser usada.
Exp. 48 — Testemunha: Camondongo de 14,5 gr., recebe por injecção in-
tramuscular, 0,3 gl. mais 0cc,4 de agua de cal. Morte em 1 hora e 23 minutos.
F.xp. 49 — Camondongo de 12.9 gr. recebe por injecção intramuscular 0,3
gl. mais Occ, 1 de soro a dosar. Mistura no momento da injecção. Paralytico em
6 horas ; morte em 48 horas.
Exp. 50 — Camondongo de 12 gr. recebe 0,6 gl. mais Occ, 3 de soro.
Convulsões em 12 minutos e morte em 15 minutos.
Exp. 51 — Testemunha: Camondongo de 16,5 gr. recebe por injecção in-
tramuscular 0,15 gl. mais 0cc,5 de soro physiologico; excitação íorte seguida de
paresia; quasi completamentc paralytico na manhã seguinte, restabelecendo-se
lentamente em mais de 72 horas.
Exp. 52 — Camondongo de 15 gr. recebe 0.15 gl. mais Occ, 5 do soro a
dosar ; excitação seguida de paresia menos accentuada do que o testemunha. Xa
manhã seguinte a diílerença entre os dois é notável á primeira vista. Ainda que
menos activo, não apresenta paralysia, mas caimhras localisadas e intermittentes.
Completamente restabelecido em 48 horas.
2. » Serie Soro phonirado — Outra solução de veneno muito activa,
glycerinada a 8 dias.
Exp. 56 — Testemunha: Camondongo de 19,3 gr. recebe 0.3 gl. mais
Occ.5 de soro physiologico, deixados uma hora de contacto, na estufa a 37°.
Morte em 30 minutos.
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
59
Exp. 58 — Cainondongo de 19,5 gr. recebe 0,3 gi. roais 0cc,5 do soro
a dosar. Contacto durante uma hora na estufa a 37 ®. Morte era 47 minutos.
Exp. 59 — Testemunha : Caroondongo de 20,5 gr. recebe 0,2 gl. mais
0cc,4 de soro phrsioiogico. Morte em 2 horas.
Exp. 60 — Camondongo de 18 gr. recebe 0,2 gl. mais 0cc,4 de soro a
dosar. Injecção logo após a mistura. Somnolencia, paresia, salivação; não com-
pletamente normal no dia seguinte. Restabelecido cm 48 horas.
Exp. 61 — Camondongo de 17,5 gr. recebe 0.2 gl. mais 0cc,4 do soro a
dosar. Contacto na estufa a 37®, durante uma hora ; symptomas idênticos aos
da experiencia anterior. Restabelecimento completo em 48 horas.
Apezar do curto - tempo de immunisação, o soro obtido revela-se
dotado de propriedades anti-toxicas assaz apreciáveis, neutralisando
uma minima mortal e consequentemente demonstrando a possibilidade
de conseguir-se soros sufficientemente activos contra o veneno ara-
neico.
CAPITULO VI
SORO DAS ARANHAS
Já vimos anteriormente (*) que a addicção de pequena quan-
tidade de soro sanguíneo de aranhas ao veneno, não exerce influen-
cia alguma sobre a marcha do envenenamento ; por outro lado,
numerosos autores tem estudado as propriedades toxicas do sangue,
acreditando encontrar n’este os princípios do proprio veneno (Ko-
bert ou assignalando a existência de toxinas de natureza completa-
mente differente Walbum).
Resolvemos, pois, examinar esta questão, referindo algumas
das nossas experiencias sobre a toxicidade do soro de Ctenus feras,
da Xephila cruentata, e da Trechona venosa, sufficientes para de-
monstrar a natureza completamente differente do veneno e do soro
das aranhas.
O soro não é toxico senão em altas doses; não existe relação
alguma entre a actividade de um e a de outro. Assim o soro de
Xephila cruentata. cujo veneno é quasi completamente destituído de
acção geral, é quasi duas vezes mais activo do que o soro de Ctenus
feras e do Trechona venosa, que possuem venenos neuro-toxicos
extremamente activos. Os symptomas de intoxicação, pelo soro são
completamente diversos dos observados pela acção do veneno da
aranha, emquanto que são idênticos para o soro das tres especies re-
feridas.
O pombo é o animal sensível por excellencia, emquanto que o
camondongo se revela muito resistente. Vão conseguimos matar ani-
mal algum por via intramuscular, mas exclusivamente por via ve-
nosa. Éis a technica que empregamos:
(*) Tarte geral — Cap. V.
GO
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo 'II - Fase. Único
O sangue é colhido com pipettas, depois do arrancamento das
cheliceras, por occasrâo da extracção das glandulas de veneno. K
um liquido de um ligeiro tom de cinza, de reacção frequente alca-
lina, algumas vezes neutra e raramente acida. Deixado em repouso
coagula, separando-se o soro com finos flocos de fibrina em sus-
pensão.
A quantidade de sangue que se pode obter de um exemplar de
aranha é extremamente variavel, podendo ir de alguns décimos de
centímetro cubico a quasi 2 cc. Empregamos em nossas experiencias
exclusivamente o soro, depois da separação do deposito fihrinoso.
o Soro da Ctenus ferus
Exp. G3 — Camondongo recebe Occ.õ de soro na coxa. Foram observados
ligeiros symptomas geraes. sem reacção alguma no ponto de injecção.
Exp. 117 — Pombo recebe Occ.õ de soro por injecção endovenosa.
Cahe immediatamente paralytico. apresenta tosse, movimentos respiratórios
muito diminuídos. Morre cm 10 minutos, sem ter apresentado caimbras ou con-
tracturas.
b Soro de Nephila cruentata
Exp. 134 — Pombo recel>e Oor.õ do soro, por injecção endovenosa. Violenta
agitação da cabeça, debate-se ligeiramente e morre em 1 minuto, sem contractura.
Exp. 13õ — Pombo recebe, por injecção endovenosa, 0cc,2 do soro mais
0cc,3 de soro physiologico ás 10 horas e 4õ minutos. Fica a principio immovel,
depois estende convulsivamente o pescoço para frente, fazendo violentos movimen-
tos para vomitar; apoia-se pouco a pouco sobre o tarso, cahe e morre durantn
a noite, sem ter apresentado convulsões.
c) Soro dc Trechona venosa
Exp. 94 — Pombo recebe Occ.õ do soro por injecção endovenosa. Fica a
principio immovel. depois cahe gradualmente e depois de debater-se ligeiramente,
fica paralytico. Dyspnéa intensa, tremores ueneralisados. Morre em 8 minutos, sem
contractura.
Exp. 96 — Pombo rec. 0cc,3 do soro mais 0cc,2 de soro physiologico. Immobi-
lisa-se a principio, notando-se ao cabo de 20 minutos que o animal tem diffi-
culdade de manter-se sobre as patas. Cahe. mas levanta-se dentro de pouco
tempo, não apresentando ao cabo de uma hora, senão ligeira sornnolencia.
Exp. 96 — Pombo recebe Occ.l do soro mais 0cc,4 de soro physiologico.
Symptomas inteiramente semelhantes aos da experiencia precedente. Restabele-
cimento no mesmo tempo.
Exp. 14õ — Pombo recebe por injecção intramuscular Occ.õ do soro. Ob-
serva-se apenas um pouco de sornnolencia que desapparece ao fim de 4 horas.
Exp. 97 — Camondongo recebe 0cc,2 <lo soro mais 0cc.3 de soro physiologico,
|>or injecção intramuscular. Não apresentou symptoma algum de envenenamento.
Exp. llõ — Camondongo recebe 0cc,2 do soro mais Occ.3 de soro physio-
logico. em uma das veias da cauda. Ligeira sornnolencia e restabelecimento
dentro de 3 horas.
As injecções de soro de aranhas em dose não mortal, parecem
não exercer influencia alguma protectora ou preventiva contra o pró-
prio veneno. Alem das experiencias referidas na parte geral, fize-
mos mais as seguintes com o veneno de Trechona.
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
61
Exp. 101 — Testemunha: Pombo recebe 0cc,5 de gl. por injecçào intra-
muscular. Morte em 45 minutos.
Exp. 102 — Pombo da experiencia 96, tendo recebido na vespera 0cc,l do
soro, reeel>e 24 horas depois, 0,5 gl. nos musculos peitoraes. Morre em 55 minutos.
A mistura de soro e veneno, na unira experiencia realisada, com
uma dose mortal de soro addicionada de uma dose mortal de veneno,
matou o pombo mais rapidamente do que o veneno puro e mais
lentamente do que o soro só.
Exp. 103 — Pombo da experiencia 97, tendo recebido na vespera 0cc,3 do
soro, recebe 0,1 de gl. nos musculos peitoraes. Morte em 65 minutos.
Exp. £9 — Testemunha: Pombo recebe, por injecçào endmrenosa o,o."> de
gl. Morte em 1 hora e 14 minutos.
Exp. 90 — Pombo recebe 0,05 de gl. mais 0cc,5 de soro. Morte em 35 min.
CAPITULO VII
ACÇÃO NEUTRALISANTE
DOS SOROS ANTI-PEÇONHENTOS E DO SORO
ANTI-ESCORPIONICO
Os differentes soros anti-peçonhentos, mostraram-se quasi ina-
rtivos contra o veneno das aranhas. Apenas o soro anti-bothropico
retardou ligeiramente a morte e n'um caso mesmo a impediu, si bem
que o animal tivesse apresentado symptomas muito graves. Opera-
mos, quer deixando em contacto, iti vilro, as misturas de soro e ve-
neno, durante uma hora, na estufa a 37°, quer fazendo injecçào im-
mediata das misturas.
Com o primeiro procedimento os resultados foram mais demons-
trativos.
Soro anti-bothropico
Veneno de Cteuus íerus
Exp. 29 — Testemunha: Camon longo de 18,3 gr. recebe 0,3 gl. por in-
jecção intramuscular ; morte em 32 minutos.
Exp. 30 — Camondongo de 20 gr. recebe 0.3 gl. mais Occ.õ de soro onti-
Lothropico, deixados em contacto durante ■> minutos. Morte em 3 horas e 55 min.
Veneno de Treelionn venosa
Exp. 182 — Testemunha: Pombo receie- 0,06 gl. por injecçào intramuscular.
Cahe paralytico em 5 horas e morre durante a noite.
Exp. 185 — Pombo recebe 0,06 gl. mais lcc. de soro anti-bothropico em
injecçào Intramuscular; symptomas immediatos, menos acccntuados do que no
testemunha; cahe 5 horas depois. Forte diarrhéa na manhã seguinte; paraly-
tico no segundo dia, come;ando a se restabelecer no 4.» dia.
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
62
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
Soro anti-crotalico
Exp. 146 — Testemunha : Pombo recebe O.Oõ gl. de Treebona venosa,
por injecção endovenosa. Morte em 31 minutos.
Exr. 148 — Pombo (novo. menor do que o testemunha) recebe, por injecção
endovenosa. 0,05 gl. mais lcc. de soro anti-crotalico, depois de 5 minutos d-
contacto. Morte em 21 minuios.
Exp. 149 — Pombo recebe, por injecção endovenosa 0,05 gl. mais lcc. de
soro anti-crotalico, depois de uma hora de contacto a 37®. Morre em 48 minutos.
Soro anti-escorpionico
Exp. 177 — Testemunha: Pombo recebe 0,15 gl. de Trechona venosa, por
injecção intramuscular. Paralytico em 40 minutos e morto em 1 hora e 19 min.
Exp. 180 — Pombo recebe, por injecção intramuscular 0,15 gl. mais lcc.
de soro anti-escorpionico, depois de l hora de contacto. Morte em 2 horas e
27 minutos.
Exp. 184 — Pombo recebe por injecção intramuscular 0,06 gl. mais lcc.
de soro anti-escorpionico ; cahe quasi que em seguida completamente paralytico
ás 5 horas e morto durante a noite. 'Soro anti-escorpionico n.° 4 do Instituto
de Itutantan. muito fraco, dosando apenas 2 gl. por cc.).
CAPITULO VIII
RESISTÊNCIA DOS VENENOS ARANEICOS
Á ACÇÃO DOS AGENTES PHYSICO-CHIMICOS
Agentes physicos
Já vimos que as soluções de veneno se conservam bem em tem-
peratura de 4 o abaixo de zero, assim como se conservam activos.
quando dessecadas na estufa a 37°.
Estudaremos em seguida a influencia de temperaturas mais ele-
vadas sobre as soluções de veneno e ponto em que são completa-
mente inactivadas. Houssay estudando esta questão obteve soluções
completamente inactivas aquecendo-as durante 30 minutos a 70°
(soluções fracas de veneno de theraphosidae, em soro physiologieo,
pennittindo matar, quando muito camondongos . Em nossas experiên-
cias verificamos que os venenos se attenuam gradualmente, á medida
que a temperatura se eleva, sendo completamente destruídos ao
nivel de 100°. A dose minima mortal já attenuada a 65° deixada
15 minutos a 70° não provoca senão ligeiros syrnptomas, o que con-
firma os resultados de Houssay, por operar-se como este experimen-
tador com doses fracas, pouco superiores á minima mortal.
Empregando-se, porem, uma dose duas vezes mais forte de ve-
neno, não se consegue destruil-o pelo aquecimento a 75°, pelo mesmo
lapso de tempo. Com o veneno de Trechona attenuado pelo calor
pode-se observar ao contrario do que se dá com o veneno fresco.
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
Conlribuiçãa ao estudo do veneno das aranhas
f.3
symptomas mais ou menos graves, sem, comtuclo, chegar á morte.
A medida que se utilisa temperaturas mais elevadas, a mínima
mortal se eleva progressivamente.
0 tempo de aquecimento, entretanto, acima de 15 minutos, pa-
rece não exercer influencia alguma sobre os resultados. As soluções
de venenos que empregamos eram preparadas com o conjuncto de
glandulas e cheliceras de sorte que a partir do aquecimento a 70°
se formava um coagulo. Para evitar que uma parte do veneno fosse
retida por este, procuravamos liomogenisar as soluções, por ocra-
sião das injecções, tendo tido, entretanto, occasião de verificar que
o mesmo liquido que sobrenada independente do coagulo é por si
mesmo toxico.
Veneno de Trechona venosa
1.' Serie de experiências — Solução de vem-no fra< a preparada rum exem-
plares muito novos. Dose de veneno a mesma, temperatura variarei.
_Exp. 105 — Testemunha: Pombo recebe 0,1 gl. por injecção endovenosa.
Cabe em 7 minutos, paralytico em 1 hora. Morte á noite em menos do 18 horas.
Exp. 106 — Pombo recebe por injecção endovenosa 0.1 gl. aquecido |>or
60° durante lã minutos. Cabe em 12 minutos, paralytico em 1 hora; morte á
noite, ao mesmo tempo que o testemunha.
Exp. 107 — Pombo recebe por injecção endovenosa 0,1 gl., aquecimento
durante 15 minutos a 65®. Calie em 21 minutos, paralytico em 2 horas, morto
em mais de 20 horas.
Exp. 108 — Pombo recebe 0.1 gl. intramuscular; aquecimento durante 15
minutos a S0®. Ligeira paralysia das patas, salivação. Hestabolece-se cm 21 horas.
2.3 Serie de experiencias — Solução glycerinada de artividade media. To-
das as injecções são feitas no3 musculos [«‘itoracs. Quantidades de veneno e
temperatura variaveis.
Exp. 109 — Testemunha: Pombo recebe 0,1 gl. por injecção intramuscular.
Morte em 1 hora e 55 minutos.
Exp. 110 — Pombo recebe 0,1 gl.; aquecimento durante 15 minutos a 70®.
Paralysia ligeira das patas, salivação; restabelecimento em 21 horas.
Exp. 111 — Pombo recebe 0.2 gl. ; aquecimento durante 15 minutos a 75®.
Caimbra immediata. diíficuldade de se manter em pé, paralytico em 20 horas,
diarrhéa abundante, morte em 98 horas.
Exp. 112 — Pombo recebe 0.1 gl.; aquecimento durante 15 minutos a 75®.
Morre durante a noite.
Exp. 113 — Pombo recebe 0,1 gl. ; aquecimento a 90®, durante 15 minutos
Salivação, caimbras das azas, ligeira paralysia das patas, restabelecimento em
mais de 21 horas.
Exp. 114 — Pombo recebe 0,8 gl. ; aquecimento a 90®, durante 15 minutos.
Symptomas muito accusados. agitação convulsiva, caimbras muito fortes, incapa-
cidade de se manter sobre as patas, uma hora depois da injecção; ligeira me-
lhora em 21 horas e restabelecimento em 48 horas.
Exp. 116 — Pombo recebe 2 gl., depois de aquecimento a 100». durante
15 minutos. Symptomas quasi nullos.
Veneno de Ctenus feros
Exp. 158 — Testemunha: Camonlongo de 175 gr.; recebe por injecção i
tramuscular 0,3 gl. ; uma mínima mortal. Morte em 1 hora e 50 minutos.
Exp. 159 — Camondongo sensivelmente do mesmo peso que o precedente, re-
cebe por injecção intramuscular 1.2 gl., 4 minimas moríaes. Aquecimento a 75®
durante 15 minutos. Symptomas muito graves durante 5 horas : salivação, para-
lysia do trem posterior quasi completa tremores, espasmos nervosos. Restabeleci-
mento em mais de 21 horas.
m-
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
64
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
Exp. 160 — Camundongo igual aos 2 primeiros, recebe por injecçâo intra-
muscular, 2,2 gl., 7 minimas mortaes. Aquecimento a 90° por 15 minutos. Sym-
ptomas ainda mais accentuados do que no de n.° 159. Salivação muito abun-
dante. tremores violentos, quasi completamente paralytico ein duas horas ; 24
horas mais tarde persiste ainda accentuada paresia do trem posterior. Restabele-
cimento em 48 horas.
A attenuação com os 2 venenos ensaiados, é, pois, progressiva,
começando a 65 até a destruição completa da acção toxica a 100.
b) Agentes chimicos
Estudamos a acção de differentes agentes chimicos sobre o ve-
neno de Trechona venosa, tomando como prova das modificações,
a acção sobre o pombo por via intramuscular. A mistura de veneno
e do agente cbimico era feita cinco minutos antes da injecçâo. Os
melhores resultados foram os obtidos com a solução de perman-
ganato de potássio a 1 «o, que foi unica que se mostrou capaz de im-
pedir a morte, sem comtudo supprimir o apparecimento de graves
symptomas. Em segundo lugar esteve a solução decinormal de soda,
que deu longa sobrevivência e em terceiro o ammoniaeo em so-
lução a 2õo,'o. O hyposulfito de sodio a. '50 o/o, o acido chromico,
o ammoniaeo em solução a 1 o/o são muito pouco activos.
1. » Serio — Exp. 161 — Testemi nHa: Pombo recebe 0,2 gl. ; paralytico
em 1 hora, morto em 2 horas.
Exp. 163 — Pombo recebe 0,2 gl. mais 2cc., da sol. de acido chromico.
Paralytico em 2 horas e 50 minutos; morto em 4 horas e 55 minutos.
Exp. 164 — Pombo recebe 0,2 gl. mais lcc. a 1 °b de ammoniaeo. Para-
lytico a 1 hora e 10 minutos. Morto em 2 horas e 5 minutos.
Exp. 165 — Pombo recebe 0,2 gl. mais lcc. a 25 °« de ammoniaeo. Pa-
ralytico cm 3 horas, morto durante a noite.
Exp. 166 — Pombo recebe 0,2 gl. mais lcc. de sol. Xa OH deci-normal.
Paralytico em 3 horas e 30 minutos. Morto em 50 horas.
Exp. 167 — Pombo recebe 0,2 gl. mais lcc. de solução a 1 °o de perman-
ganato de potássio; 1.» crise de tetania ás 2 horas e 30 minutos. Melhor na
manhã seguinte ; restabelecido em 48 horas.
2. » Serie — Exp. 177 — Testemunha : Pombo recebe 0,15 gl. Paralytico
em 40 minutos, morto em 1 hora e 19 minutos.
Exp. 179 — Pombo recebe 0,15 gl. mais 0cc,l de hyposulfito de sodio, so-
lução a 50 »/o. Morre em 4 horas e 28 minutos.
Exp. 181 — Pombo recebe 0,15 gl. mais 0cc,5 de hyposulfito de sodio,
sol. a 50 «o. Morre em 5 horas.
Xão nos foi possível ensaiar a acção da agua oxygenada, por-
quanto verificamos que a injecçâo intramuscular de lcc. d’este pro-
dueto mata rapidamente o pombo.
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
65
CAPITULO IX
VENENO DA LYCOSA RAPTORLA, Walckenaer
Aranha de tamanho medio, medindo a femea de 15 a 30 milli-
metros; o macho um pouco menor, de còr pardacenta no dorso,
com uma faixa esbranquiçada no cephalo-thorax, e uma outra na
parte antero dorsal do abdômen, de còr escura, continuada poste-
riormente, por algumas linhas transversaes. A còr geral é um tanto
variavel, podendo ir do pardo claro ao pardo muito escuro, quasi
negro, havendo alguns exemplares «pie apresentam a face dorsal do
abdômen de um pardo amarello ou avermelhado. A face ventral
apresenta-se sempre de còr escura. A formula occular é 4 + 2 + 2.
O apparelho genital da femea é formado por uma placa basal ovoide,
truncada na parte posterior, escavada na parte mediana em duas de-
pressões reniformes, orientadas no sentido antero-posterior, separa-
das por um septo mediano em forma de T invertido, ligeiramente
espessado na parte mediana. O palpo fio macho é pequeno, cobrindo
um bulbo simples, sem espinhos ou apophysis.
Esta especie encontra-se com mais frequência, na zona tempe-
rada e fria. Habita as casas velhas, jardins e em outros lugares,
onde acha alimentação facil, preferindo os terrenos seccos. Vive
em baixo de pedras, de paus podres, em buracos de barrancos, etc.
A fecundação não foi observada. O cocon completamente re-
dondo, é carregado pela aranha, que o traz collado ãs fiandeiras.
Os filhotes, logo depois de nascidos são carregados no dorso
pela femea.
Accidentes determinados por esta especie
O estudo d'este veneno é importante na pratica, pois, numerosos
accidentes mais ou menos graves lhe devem ser attribuidos.
Observamos pessoalmente diversos casos cie araneismo em São
Paulo, assim como obtivemos de diversos collegas preciosas obser-
vações sobre os accidentes locaes determinados pelas aranhas nesta
capital e em seus arredores. A symptomatologia de todos esses ca-
sos é bastante uniforme, para nos levar a acreditar que fossem de-
terminados pela mesma especie de aranha. O doente sente, no mo-
mento da picada, uma dor assaz viva, mas passageira; pouco a
pouco o membro ferido começa a tumefazer-se, ao mesmo tempo
que a dor volta lancinante ; no dia seguinte nota-se um edema con-
siderável, com suffusão sanguínea, em cujo centro se distingue o
logar da picada, pela presença de uma pequena eschara ; não ha,
em via de regra, hyperthermia ; por vezes observa-se urticaria ge-
neralisada. mas sem reacções ganglionaes; o estado geral é, em via
de regra bom; nos dias seguintes o edema se estende ainda mais,
5 Mfmt/ritu do Juptituto d< Butantan.
cm
SciELO
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Memórias do Instituto de Biitantan - Tomo II - Fase. Único
podendo occupar todo o membro, acompanhado algumas vezes de
phlyctenas ; pouco a pouco a eschara augmenta, um sulco de elimi-
nação se forma e uma placa de tecido necrosado, muitas vezes con-
siderável, se elimina; a cura é lenta, a cicatriz indelevel e frequen-
temente retrátil e dolorosa. Xos casos mais benignos, attribuiveis
talvez a outras especies, nota-se uma tiunefação passageira, que
pode ser acompanhada de urticaria.
Quando os pacientes vêm a aranha determinadora do accidente
descrevem-n'a de tamanho medio, cor de cinza ou cinzento escuro.
A paciente a que se refere um caso observado pelo Prof. Kraus e
pelo Dr. Rocha Botelho, se propoz a nos enviar alguns exemplares
de aranha que a havia picado; eram de Lycosa raptoria. Fomos,
assim, levados a pensar que, sendo esta especie a mais cornmum nas
velhas casas, e nos jardins da capital e dos seus arrabaldes, fosse
realmente a responsável por estes accidentes.
Estudo experimental
Para verificar experimentalmente este facto, retiramos, segundo
a technica já indicada, as glandulas de diversos exemplares de Ly-
cosa raptoria e depois de tritural-as com areia fina esterilisada,
tratamol-as por agua de cal, filtrando o todo. As soluções assim pre-
paradas foram injectadas em diversos animaes de laboratorio, quer
por via venosa, quer por via hypodermica, quer por via intramus-
cular.
A despeito de havermos empregado doses assaz elevadas, os
resultados foram hem mediocres. Por via venosa foi necessário exag-
gerar-se enormemente as doses, para conseguir-se matar o animal
em experiencia; por via hypodermica ou intramuscular, contra a
nossa espectativa, não tivemos senão fraquíssima reacção local. Mo-
dificamos a nossa technica empregando o soro physiologico como
vehiculo, ao em vez da agua de cal; isso, porem, sem melhor resul-
tado. Afim de nos approximar o mais possível das condições natu-
racs, em que se verificam os accidentes de araneismo, nas quaes,
em virtude da exiguidade dos ferrões e da rapidez do ataque, o derma
é exclusivamente interessado, praticamos, no cobaio, varias injecções
intradermicas, provocando reacções mais ou menos accentuadas, sem,
todavia, chegar á necrose.
Foi, então, que desconfiando que a diluição de nossas soluções
fosse talvez a causa destes insuccessos, separamos um certo nu-
mero de glandulas frescas de Lycosa e procuramos obter o veneno
puro por compressão directa das glandulas, servindo-nos, para isso,
de um pequeno bastão de vidro. Para facilitar a injecção, juntamos ao
veneno puro, duas ou tres gottas de glycerina. Fm decimo de centí-
metro cubico deste liquido injectado no derma de um cobaio, deter-
minou em 24 horas, uma larga eschara e tumefação de toda a re-
gião, sendo de aspecto idêntico ás observadas ordinariamente nos
accidentes naturaes. O veneno applicado directamente sobre a pelle
escharificada, não determina lesões tão características, como as que
são observadas por injecção intradermica.
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Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
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A Lycosa raptoria pode, pois, ser accusada, pelo menos, como
responsável pela maioria dos accidentes locaes observados entre nós,
em consequência de picadas de aranha.
A acção geral d’este veneno é fraquíssima. Assim é que, por
via venosa, no pombo, a dose elevada de 2 »/. milligrammas, não de-
termina symptomas de envenenamento. Na dose de 3 milligrammas
fulmina este animal.
Estabelecendo o papel desempenhado por esta especie nos ac-
cidentes naturaes, pensamos, como era natural, em preparar um soro
especifico contra este veneno. Uma primeira experiencia de immuni-
sação levada a effeito no «Instituto Vital Brazil», em Niterói, nos
havia demonstrado a possibilidade de obter-se um soro activo contra
os venenos de aranha.
Uma solução de veneno em agua de cal, glycerinado a 40 o/o, do-
sando seis glandulas por centímetro cubico, foi preparado e amadu-
recido durante um mez. Para animal de experiencia, tomamos, como
da primeira vez, o carneiro.
A immunisação do carneiro B durou tres mezes; de 12 de Ja-
neiro a 28 de Março, com injecções diarias, tendo-se começado com
dose extremamente fraca e augmentando-se diariamente segundo uma
progressão arithmetica, e de uma semana para outra, segundo uma
progressão geométrica. No começo do processo de immunisação, ti-
vemos de suspender as injecções por alguns dias em consequência de
apresentar-se o animal com diarrhéa. Retomadas depois do resta-
belecimento do animal, foram as injecções feitas, com a maior regu-
laridade, durante todo o periodo da immunisação, sem modificação
notável do peso e da temperatura dò animal. A dose inicial foi de
0,1 de glandula e a ultima dose de 140 glandulas.
Methodo de dosagem do soro anti-lycosico
Sendo de acção local intensa, ao lado de effeito geral nullo, o
caracter principal do veneno de Lycosa , não seria logico empregar-se
para dosagem do soro anti-lycosico, o mesmo methodo que emprega-
mos para dosagem dos soros contra o veneno das serpentes, cuja
acção geral é a dominante.
A diluição do veneno influindo sobre os phenomenos locaes de-
ver-se-ia evitar a mistura de soro veneno, como empregamos nos
outros methodos de dosagem. Procuramos, pois, estabelecer em pri-
meiro logar as condições e a dose de veneno capazes de produzir,
de modo seguro e constante, phenomenos locaes intensos acompa-
nhados de necrose. Depois de varias experiencias fixamos a dose
de õ milligrammas de veneno secco. dissolvidas em 1 cc. de soro
pliysíõlcgico, como a mais conveniente. De facto, já na dose de 2
miiligrammas de veneno secco, em 1 cc. de soro physiologico, este
veneno determina, em 24 horas, a formação de uma eschara de um
centímetro de diâmetro.
Immunisação
CtS
Memórias do Instituto de Butantan - Tonw II -Fase. Unico
Uma outra consideração que nos levou a fixar em 5 milligram-
mas de veneno secco, a dose padrão para medida do soro, foi tomar
uma dose seguramente superior á media, que podem fornecer as
aranhas, podendo assim uniformisar nosso methodo de dosagem, de
modo a empregal-o para todos os venenos de effeitos locaes.
Mesmo os maiores exemplares de Lyeosa raptoria fornecem, em
/ media, dois milligrammas de veneno, não excedendo a 4 milligram-
mas a quantidade que se pode obter das maiores aranhas que te-
mos estudado; de sorte que, a dose de 5 milligrammas seria mais
que sufficiente para nivelar possíveis differenças de capacidade glan-
dular.
Verificamos então que o soro que havíamos preparado contra
0 veneno de Lyeosa raptoria, impedia a acção necrotica iTeste, quando
injectado na veia do animal em experiencia. Podemos assim estabe-
lecer como unidade anti-necrosante, a quantidade de soro capaz de
impedir a acção necrosante do veneno, na dose de 5 milligrammas,
quando injectada no derma do animal.
O numero de unidades anti-necrosantes era fornecido pela di-
luição do soro, como no caso da dosagem do soro anti-diphterico.
Como animal de experiencia tomamos o coelho, que se presta
melhor que o cobaio ás injecções intradermicas, elegendo para ponto
de inoculação a orelha, não só pela maior facilidade das injecções,
como pela da leitura dos resultados.
Para a primeira dosagem tomamos quatro coelhos de cerca de
1 kilo e 200 grs. de peso. O primeiro coelho, servindo de testemu-
nha recebeu õ milligrammas de veneno secco de Lyeosa, dissolvido
em 1 cc. de soro physiologico, no derma da face superior de uma das
orelhas; 3 horas depois a orelha tinha dobrado de volume na base;
toda a face superior, violacea e quente, era séde de um edema consi-
derável ; no dia seguinte, o centro d’este edema era marcado por uma
placa branca de necrose, visivel na face inferior da orelha : nos dias
seguintes o edema começou a diminuir, emquanto que se formava
sobre as duas faces da orelha uma larga eschara, que se eliminou
depois de muitos dias, deixando um grande orifício na orelha do
coelho.
Um segundo coelho recebeu por via intradermica a mesma quan-
tidade de veneno que o testemunha e immediatamente depois, por
via venosa 1 cc. do soro a dosar.
Um terceiro coelho recebeu primeiro 1 cc. do soro por via en-
dovenosa e uma hora depois a injecção intradermica do veneno.
Um quarto e ultimo coelho recebeu, primeiro veneno, por in-
jecção intradermica e uma hora depois o soro sempre por via venosa.
Nos tres animaes tratados pelo soro, quer preventivamente,
quer simultaneamente, quer posteriormente á injecção de veneno, os
resultados foram semelhantes : 3 horas depois da injecção nota-
ra-se um edema moderado da orelha, a face superior muito verme-
lha era séde de uma leueoeytose intensa e de abundante serosidade,
que minava atravez do ponto de inoculação ; na manhã seguinte o
edema havia quasi desapparecido e não se notava traço algum de
eschara; 48 horas depois, não persistia senão uma ligeira vermelhi-
dão local, não houve accidente algum tardio. O soro injectado, por
cm
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Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
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via venosa, mesmo uma hora depois da inoculação do veneno, se
mostrou capaz de impedir a acção necrosante d'este ultimo, reduzin-
do-a a simples phenomenos de defeza local, acompanhada de in-
tensa leucocytose.
Estes primeiros resultados obtidos, nos levaram a procurar a
verificar segundo o methodo indicado, a dosagem exacta do soro.
Foram assim preparadas duas diluições do soro; uma ao decimo
e outra ao centesimo. Dois coelhos receberam, cada um õ milligram-
mas do veneno no derma da orelha e 15 minutos depois, por via
venosa 1 cc. respectivamente da primeira e da segunda diluições.
Estes dois animaes não apresentaram senão uma ligeira reacção lo-
cal, sem formação de eschara e sem necrose consecutiva.
A dosagem procurada estava, pois, superior a 100 unidades.
Tomamos mais 2 coelhos, injectando em cada um d elles, a dose de
veneno no derma e respectivamente, na veia l cc. das diluições a
1 por 500 e a 1 por 1000. O que recebeu a 1 por 500 teve ura
edema bastante intenso, pouca serosidade e flois dias depois da in-
jecção uma pequena placa de necrose, seguida tle eschara muito li-
mitada. O outro coelho que recebeu soro a t por 1000 apresentou
forte edema, acompanhado de fraco corrimento seroso e de uma
placa de necrose e eschara assaz extensa, si bem que menor da que
foi observada no animal testemunha e não interessando senão a face
superior da orelha.
Estas ultimas experiencias nos levaram a considerar a actividade
do soro entre 100 e 500 unidades. Ensaiamol-o, pois, com 250
unidades. 0 coelho que nos serviu para esta verificação não apre-
sentou, com effeito, senão uma reacção local fraca, acompanhada de
intensa reacção leucocytaria e não apresentou formação alguma de
eschara ou de placa necrotica.
O soro obtido é, pois, capaz de proteger contra a necrose, en
uma diluição a 1 por 250, dosando assim, pelo menos duzentas e
cincoenta unidades por centímetro cubico, dosagem esta por nós
adoptada.
1,' applicação do soro anti-lycosico no homem
Já estavam escriptas estas notas, quando fomos procurados em
Butantan, por um homem, forte, de 40 annos de idade, pouco mais
ou menos, de nacionalidade portugueza, negociante ambulante de leite,
residente na estrada de Santo Amaro. Referio-nos elle haver sido
picado por uma aranha escura, de tamanho medio, nas seguintes cir-
cumstancias :
Depois de haver vendido o leite pela manhã, regressava elle
para casa, em seu pequeno vehiculo, onde collocara um cacho de
bananas que havia comprado: uma aranha que se escondia muito
provavelmente no cacho de bananas, sentindo-se encommodada com
a trepidação do vehiculo, sahira do seu esconderijo e subira sem que
o presentisse, pelas pernas até attingir-lhe o pescoço; n'esse ponto
sentindo o contacto do repugnante arachnideo, instinctivamente lan-
çara-lhe a mão e fòra por elle picado.
70
Memórias âo Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
Duas horas depois do accidente apresentava-se o paciente em
Butantan á procura de soccorro medico. Accusava dor intensa na
região offendida, dor essa que se irradiava para a cabeça e para as
espaduas; tinha o pescoço immobilisado pela defesa natural contra
a dor e contra a reacção local n’esse momento bastante intensa.
Examinando-lhe a parte offendida encontramos forte erythema,
acompanhado de edema muito pronunciado, na região intra-thyroi-
diana anterior, limitado por um espaço triangular com cerca de 5
centímetros da base ao vertice e em cujo centro conseguimos divi- ■
sar um pequeno ferimento produzido pelo ferrão da aranha. O es-
tado geral do paciente era bom; temperatura e pulso normaes. Só
dor intensa e phenomenos locaes.
Pensamos, pois, tratar-se muito provavelmente de um accidente
determinado pela Lycosa raptoria.
Era uma excedente opportunidade de ensaiar, pela primeira vez,
no homem, o nosso soro anti-lycosico. Foi o que fizemos. Injecta-
mos subcutaneamente no braço esquerdo do paciente 10 cc. de soro.
Mandamol-o para casa recommendando-lhe repouso. No dia se-
guinte, logo pela manhã, fomos visitar o nosso doente anciosos por
verificar o effeito therapeutico do soro. Não encontramol-o mais
em casa, pois o doente dormira bem a noite e sentindo-se bem, ao
despertar, sahira para suas occupações diarias.
Tendo deixado recado, para que o doente nos procurasse, mais
tarde, em Butantan, tivemos occasião de examinal-o algumas horas
depois.
Os phenomenos locaes haviam regredido completamente, de sorte
que apenas notava-se ligeira vermelhidão no logar da picada. Infor-
mou-nos o paciente que as dores continuaram ainda, por algumas
horas, depois da injecção do soro, até que á noite tendo-se attenuado
progressivamente, conseguira conciliar o somno e dormir profun-
damente.
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
71
C0NTR1BUTI0N fl L'ÉTUDE DU VEN1N
DES ARfllGNÉES
PAR LKS D uh.
VITAL BRAZIL J. V K L L A R I)
UIRECTKCR ARRIRTAXT
(Flanfht» 1-14)
SOMMAIRE
1 — Depuis 1'antiquité, les accidents provoques par les arai*
gnées sont connus en diverses régions ; de nos jours ces notions se
retrouvent chez les peuples les plus divers.
Au moyen ãge, disperses affections nerveuses étaient confondues
avec les cas d’aranéisme ; le tareniulisme ou tarenlistne nerveux,
névrose encore existante en Abyssinie tiyretier ) sévit sous fonne
épidémique en divers pays d’Europe, confondu avec le larentisme
aecidentel dü à la piqúre d'une araignée; ces 2 affections différentes
étaient attrihuées par le peuple & la piqure d‘une Lycose, quoique le
tarentisme aecidentel fut cause plus probablement par de petites
araignées du genre Latrodectus, qui actuellement apparaissent encore
périodiquement en grande abondance, en certaines régions, provoejuant
de nombreux accidents, parfois mortels. La iittérature moderne, sur-
tout en Amérique du Sud, contient de nombreuses obsenrations d’a-
ranéisme; au Brésil, à São Paulo et aux environs, ces cas sont fré-
quents, pouvant se rapporter à 2 types principaux, Paranéisme nécro-
sant et 1'aranéisme neurotoxique.
2 — L'étude expérimentale de raraneisme a été essayée par di-
vers auteurs; mais, par suite de la difficulté d'obtenir le venin en
quantité suffisante, du peu d'unifomiité des techniques employées
et de ridentification souvent défectueuse des espèces étudiées, les
résultats obtenus sont contradictoires, ne permettant pas en général
de confirmer les données de la clinique.
3 — Dans le travail actuel destine ã orienter des recherches
postèrieures plus completes, les Auteurs ont étudié le venin de
õ espèces différentes d’araignées, C te nus ferus, Perty, Ctenus nigri-
venter, Keys., Trechona venosa, Latr., Xephila eruentata, Fabr., et
Lyeosa raptoria, Walck.
Par piqúre directe les résultats sont très variableà, suivant les -
conditions de la piqúre, 1'état de 1'araignée, la température, etc.
Pour obvier à cet inconvenient et uniformiser leurs recherches,
les auteurs ont préparé diverses Solutions de venin. Les Solutions,
Memórias do Instituto de Butantan- Tomo II -Fase. Unico
par suite de la grande diluition des príncipes toxiques, fournissent
en général des résultats un peu moins actifs que ceux obtenus par
piqúre directe; avec Ie venin sec préparé en desséchant les glan-
des à 1’étuve à 37° et en les traitant ensuite par du sertim physio-
logique, les résultats se rapprochent davantage de ceux obtenus en
condition naturelle.
4 — Le venin de Ctenus ferus et de Ctenus nigriventer sont
três actifs, agissant exclusivement sur le système nerveux. Les
doses mínimas mortelles sont les suivantes.
Lapin d’l kilog. par voie veineuse: Ct. ferus 0,4 tnmg., Ct. ni-
griventer 0,3 mmg.
Pigeon par voie veineuse: Ct. ferus 1,45 mg., Ct. nigriventer
1 ra 8- . . . .
Cobaie de 350gr. : par voie intramusculaire, Ct. ferus 0,2õmg. #
Ct. nigriventer 0,3 mg.
Les animaux meurent paralytiques, après de violentes con-
vulsions.
Le venin de Trechona venosa est encore um venin neuro-toxique,
des plus actifs, mais plus actifs pour le pigeon que pour le lapin:
Pigeon, par voie veineuse, 0,025 mg.
Lapin d’l kilog par voie veineuse, 0,65 mg.
Le venin de Nephila cruentala est au contraire des précédents,
un venin peu actif, d’action exclusivement locale et faible; pour
étudier ce venin les Auteurs se servent d’injection intradermique
dans Poreille du lapin; 15 mg., dans 1 cc. de serum physiologique,
furent nécessaire pour amener en 48 heures la formation d’une grande
escharre et perforation de Poreille.
Le venin de L;/cosa raptoria est encore un venin d'action nécro-
sante locale mais três actif; c’est à cette espèce que doivent ètre
attribués les accidents d’aranéisme nécrosant observés á São Paulo;
à la suite de diverses tentatives les auteurs réussirent à reproduire
par injection intradermique des accidents analogues à ceux observés
dans la clinique; la concentration des Solutions a une grande in-
fluence sur 1’activité de ce venin.
Certains venins cParaignées, d’action neuro-toxique sont donc
d'activité comparable à celle des venins ophidiques les plus actifs ;
(Pautres moins dangereux ne produisent que des gangrenes locales
plus ou moins étendues.
5 — Les venins cParaignées etudiés plus de 20 espèces. sont
presque tous dépourvus d'action hémolytique sur les hematies de
lapin ; seulement quelques venins ont produit une légère trace cPhé-
molyse après un séjour de 24 heures à Pétuve ã 37°; tous les
venins étudiés sont dépourvus d’action protéolytique ou coagulante.
6 — 11 est possible d'obtenir un serum extrêmement actif contre
les venins cParaignées. Dans une prémière tentative, le serum d'un
mouton ayant reçu durant 2 semaines des injections quotidiennes de
venin de Ctenus ferus neutralisait déjá une quantité apréciable de
venin. Postérieurement les Auteurs obtinrent un serum três actif
contre le venin de Lycosa raptoria Injection quotidienne au rnou-
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
73
ton de venin avec des doses croissantes suivant une progression arith-
métique chaque jour, et géométrique chaque semaine), capahle à
1 diluition de 1 250 et injectée dans la veine, d’empêcher la dose
élevée de 5 mg. de venin dissoute dans 1 cc. de serum physiolo-
gique de produire la nécrose par injection intradermique (Nouveau
procédé de dosage des Auteurs).
L’action de ce serum est strictement spécifique et ne protege
pas contre le venin d’autres espéces ; de mème les autres serum anti
venimeux, anti ophidiques ou anti-scorpioniques, sont sans action
sur le venin d’araignées.
7 — II est difficile d’étudier raction neutralisante du serum san-
guin des araignées vis ã vis du propre venin; à dose faible 0cc,l de
serum esfsans action sur le venin; une dose plus elevée 0cc,5) ce
serum est fortement toxique.
Les symptòmes provoques par l'injection au pigeon de serum
sanguin de diverses espéces d'araignées sont identiques, t and is (jue
1’action du venin est variáble avec chaque espèce; il n’y a pas, de
relation entre 1’aetivité de l’un et de 1'autre.
8 — Les venins d’araignées sont trés résistants aux basses tem-
pératures; soumis à 1’action de la chaleur, ils commencent à s'at-
ténuer à 65 o -, mais ne sont entiérement détruits qu’aux environs
de 100°.
9 — Les venins d’araignées se montrèrent trés résistants aux
divers agents chimiques employés pour les atténuer; les plus actifs
sont le permanganate de potasse (solution à 1 <>o qui, seul, a pu
éviter la mort mais avec des symptòmes accusés, aprés un contact de
5 minutes in vitro avec l <lose de venin un peu supérieure à la
minima mortelle), puis Ia solution décinormale de soude et l*ammo-
niaque à 25 o/o; rhyposulfite de soude à 50 o„, 1'acide chromique,
1’ammoniaque à 1 «o sont trés peu actifs.
10 — En cas d accidents jiar araignée , le traitement xérot he-
ra pique spécifique s impose.
Butantan, 1 de Junho de 1925.
74
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
t
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sobre las picaduras de las aranas venenosas. Semana Medica
1917 — N.° 13 — Ano XXIV — 29 Marzo — p. 382.
76
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo If-Fasc. Unico
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Houssay B. .4. — y Negrete J. — Estúdios experimentales so-
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sobre la accion fisiológica de las ponzonas de las aranas.
Revista dei Instituto Bacteriológico dei Dt. Nal. de Higiene, 1919,
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31 Eseomel — Le Glyptocranium gastheracanthoides, araignée ve-
nimeuse du Pérou — Étude clinique ex experimentale de Ta-
ction du venin in Buli. Soc. Path. Exot. 1908 — - Pg. 136-150 —
New Orleans, med. e surg. Joum. 1917 - Le latrodectus mactans
ou Lucacha du Perou, Etud. clin. et exp. — Buli. Soc. Path.
Exot. 1919 — Pg. 702-720.
32 Hiley — A contribution to the litterature of fatal spider Bi-
tes — Proc. ent. soc. Washington 1889 — N.° 139.
Iiiley — W. .4. and Johannsev Handhook of medicai entorno-
logy 1915.
33 — Kellog Spider poison — Joum. of Parasitologv 1: 110-111
— 1915.
34 Baerg 2 contributions: Joum. Parasitologv 1922 — Pg.
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Marçh 1923.
35 — Blanchard — 1890 — Zoologie médicale. T. 2 — pag. 350-
358-371.
36 - Walbum — Zeitschr. f. Immunitatsforsch. Bd. 12, 1912
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f. Imm. forsch. I. Teil Orig. Bd. 23 — 1915 — Pg. 565 —684.
37 — .1. Ime. PhysaUx — Animaux venimeux et venins, t. I.
38 — Baglivi — Dissert. de anat. morsu et effectibus Tarentulae.
Op. omn. Numberg 1751.
39 — Clerek — Aranei suecici, descriptionibus et figures 1757.
40 — De Géer — Mémoires pour servir á l histoire naturelle des
insectes — 1778.
41 — A. Raikem, cité par Walbum.
42 — .4. Dugès — Annales des Sciences naturelles 1836 — 2ème.
Série — Tome 6.
43 — Blackwall — Experiments and observations on the poison of
the animais of the order araneida, in Trans. of the Linnean Soc.
of London XXI pag. SH-37.
44 — Ph. Bertkau — Ueber den Bau und die Funktion der Ober-
kiefer bei den Spinnen, Trochels Arch. f. Naturg, 1870, XXXVI,
p. 92-126.
Ueber den Verdauungsapparat der Spinnen, Arch. f. mik. ant.,
1855, XXIV. Ueber das Vorkommen einer Giftspinne in Deutsch-
land, Verh. d. Natur. Ver. 1891 — XLVIII.
Contribuição ao estudo do veneno das aranhas
77
45 — Forell — Buli. Soc. Vaudoise de Sc. natur. vol. XIV.
46 — Pollock — Ann. and Mag. Nat. Hist. Oct. 1S72.
47 _ Doleschaü — Naturwk. Tydschr. voor Xederl. Ind. vol. XII,
pag. 507.
48 — Fabre — Xouveaux souvenirs entomologiques — Paris 1S82
— Chap. IX.
49 _ Eug. Simon — Hist. nat. Araignées: Tome I page 556 —
Tome II — page 81 et 342.
50 — Kobert — 1°, Beitrage zur Kenntniss der Giftspinnen —
Wien Med. Woch. 1902, N.» 26, Pag. 678 — 20. Araneengifte. Eu-
lenburgs Enzvklop. 1903. p. 36-30. Lebrburh der Intoxikationen
1S93. Stuttgart p. 320 — 29 — 4.", Uber die giftigen Spinnen
Russlajuls, Biol. Centralblatt, 1888 p. 287.
51 Levy Contributíon à 1'étude des toxines ch(
Thèse de doctorates Sciences, Paris 1916 (réimp. Ann. sc. natu-
relles zoologie 1916 — 10.“ serie I. p. 1 2.58.
52 — Calmette — Les venins, 1907 - Pag- 289-91.
53 — Comstock — The spider Book-Doubleday Page and Co. 1912.
54 — Faust — Die tierischen Gifte, Braunschweig 1906 — Btocbe-
mischen Arbeitsmethoden 1910.
55 — Klinger — cité par Walbum.
56 — Breeger — Spider poisou iu <cbc. America 17 nov. 1888,
V, p. 310. . ,
57 — L. llcrlaml — Contributíon ã 1'étude de la biologte des arai-
gnées; Ann. Soc. Ent. Fr. Vol. XCI, 1922, 3e. trimestre.
58 - Sachs — 1." Zur Kenntnis der Kreuzspinnengifte, Hofmeisters
Beit. Bd. 2. 1902. 2.» Kolle und Wassermann Bd. II, t. 2, pg.
1406-1453.
59 — C. Physalix ct fíertrawl — cité par Mme. Physalix.
'
I.* pb»ie
cm
Estampa 1
Memórias do Instituto de Butantau — Tomo II - fase. 1
Exlrocçõo dos glondulos de uma aranha >crdadeira.
E.\traction des glandes d'une araignéc \raie.
2.* ph&ff*
3.* pha<e
■SciELO
cm 1
LO 11 12 13 14 15 16
Memórias do Instituto de Rutantan — Tomo II - fase. 1
Estampa 2
Fxlracçôo das qlandula* dc uma aranha cnranqueijrira.
Ixfraclion dc* glande* d a unc M>qalc.
A* cholicera!» »ão cortadas com tc*oura.
I.e* cbélicèrrs sont coupée* avoc «te» ci«oaux.
Glândula
n osculo
Glândula
Typo de iclandula d*» vcm*no
d** aninha carnmrueijcim.
Type de ulandr dc vnnn
dc Mysralc.
A lusculo
T\|m» dc idandula dc vene
ilc aranha verdadeira-
Trechona venosa
Tyi»e de vlande dc vcnii
d'araik r nce vraie.
fl.yrosa raplnria*
2 3 4
cm
SciELO
0 11 12 13 14 15 16
Memórias «lo Instituto de Butantan — Tomo II - fase. I
Estampa 4
augm. 100 X
nuo r.scxsfc **
Glandula d«» aranha jwriodo de actividaclc.
Glande d*af*i|mée en période dactivité.
Estampa 5
Memórias cio Instituto de Butantan — Tomo II - fase. 1
cm
SciELO
Clenus nigrivenler. Keys. J Clenus ferus. Perty.
Memórias do Instituto de Butantan — Tomo II - fase. 1
Estampa d
Tamanho
natural
cruenlato. Fobr.
Tamanho
natural
Ctenus nigrivenler,
cm posição dc defeso,
cn posilion de défcnsc.
2 3 4
5
cm
SciELO
0 11 12 13 14 15 16
Memórias do Instituto de Butantan — Tomo II • fase. 1 Estampa 7
Tamanho natural
?
*jo
Trcchono vcnoMJ, Lolr.
cm
SciELO
Memórias do Instituto de Butantan — Tomo II taac. 1
Estampa S
ricfrnçin profunda *1° braço.
ricónUion profonde do brns-
Mordeduras dc aranhas.
Morsurcs d’oroiqnés.
Casos observados i**lo Pr. \ ital 1’raxil.
('as observes i»ar le Dr. \ ital J»raxil.
Caso leve não checando á gangrena.
Cas léger n*arrivant pas à la gangrene.
Segundo peças de eí-ra do Mu«ou do Instituto.
Estampa 9
Memórias «lo Instituto de Kutantan — Tomo II - fase. L
Mordedura de aranha. Morsure d’araignéc.
Caso observado pelo Prof. Dr. R. Kraus e Dr. Rocha Rotelho.
' 7 * Cas observé par le Prof. Dr. R. Kraus et Dr. Rocha Rotclbo.
Aspecto no 2.° dia depois do accidente
A*|*ect le 2.® jour après la morsure.
Km consequência da mordedura, o braço
autfmentou seu diâmetro cerca de 50° 0 .
Aspecto no 7.° dia de|iois «la
mordedura.
Aspect le 7." jour après la morsure.
Aspecto no 2.».* dia iIpiniíh da
— mordedura.
Asjx»ot le 25.* jour après la mo oure.
Aspecto cerca cie õ n»e*es depois da
mordedura.
Aspect õ mois environ après la moouro.
(cicatrizado) (cicatrice)
L
.A... -
ívuundo do Miiomi do !n«tituto
RUO ISCMCR. M.
Aspecto cerca de 2 annos depois da mordedura
Aspcct 2 ans environ après la morsure
Memórias do Instituto de Butantan — Tomo II - fase. 1
Estampa 10
Mordedura de aranha.
Morsure d'araignée.
Caio observado pelo Prof. Ur. R. Kraus e Ur. R.scha Botelho.
Cas observe par te Prof. Ur. R. Kraus et Ur. Rocha Botelho.
Aspecto no l.“ dia depois «la mordedura-
Aspect le 4.» jour après la inorsure.
Aspecto no 6.° dia depois da mordedura.
Aspect le G."> jour après la morsure.
RUO F1SCHER. <•!.
Segundo desenhos do Museu do Instituto.
Estampa 11
Memórias do Instituto de Butantan — Tomo II - fase. 1
Mordedura de aranha Morsure d'araignée
Caso observado pelo Dr. J. L. Guimarães Cas observí par le Dr. J. I- Guimarães
(Sta. Casa de São Paulo)
s
RUO F1SCHER. 4**-
Memórias do Instituto de Butantan — Tomo II - fase. 1
Estampa 12
LevVs provocada* por injecçie» intrndermica* de veneno de I.ycow» raptaria.
•> - *
m
<
I/»ion« provoquiV* par iajrrtions inlnMlortniqut** tli* vw»in tio I.yruMt rnptnria.
3.° tlia tlopois da inoculação.
3 * j‘»«ir aprés Tinocnlation.
Memórias do Instituto de Butantan — Tomo II
fase. 1
Estampa 13
cm
Altitude «Ir um |x>n»bo que recebeu veneno «le Trecliona venosa.
Attitiidc d’un pígeon ayant reçu oue injeciioii de veniu de Irecliona venosa.
15
UM NOVO GENERO E DUAS ESPECIES NOVAS
DE ARANHA DO ESTADO DE S. PAULO
PELO
Dk. .J. Vellard
( Estampa » 15, 1>>)
FAMÍLIA das barychelidae
Gen. Neostothis, gen. nov.
Cephalothorax convexo na femea, baixo no maclio, fossetta pos-
terior grande, oval transversa.
Olhos ant. em linha medianamente procurva, os medianos pouco
maiores do que os lateraes ; Ml* muito menores que os lateraes post. ;
lat. ant. e post. separados uns dos outros apenas 1 , diâmetro ; cly-
peus hem maior que os LA. Ilastellum pouco desenvolvido, formado
de espinhos setiformes e de crinas irregulares; labium mais largo
do que comprido, armado na femea, de 2-5 espinulas apicaes e de
2 somente no macho, impressões posteriores do sternum marginaes,
circulares.
Patas robustas, espinhosas, compridas na femea, c muito longas
no macho : tibias e protarsos dos 4 pares direitos, normaes nos dois
sexos; escopulas inteiras a i, ii e iii. face inf. do tarso iv occupado ~
por uma larga faixa de crinas deixando de cada lado uma linha es-
treita de escopulas ; fascículos uiigueaes pequenos, mal contendo 2
grandes unhas, armadas de 2 series de 5 (lentes .
Tihia ant. do macho com 1 pequeníssima espinha int. não
tuherculada, igual ás outras espinhas do segmento, sem aponhvses.
Fiandeiras curtas, o segmento basal igual ao 2.° e ao 3.° re-
unidos, o apical muito curto.
Bulho curto, ligeiramente deprimido do lado, terminado por
uma ponta fina maior que o tegulum.
Typo: Xcostothis gigas, sp. nov. — Patria: Est. de São Paulo.
Differe sobretudo dos generos Stothis e Psalitops pelo grande
comprimento do clypeus, as escopulas de 3 pares qnt. inteiras e
a larga faixa de crinas no tarso post.
Neostothis gigas, sp. nov.
Femea: Comp. 37; Cephth. sem cheliceras) larg. post.
7, larg. ant. 9; cheliceras 3; St. T /ií Abd. »•/, s ; i = 37, ii 33,
iii -32, iv = 43.
i = 1 1.7. 7. 7. 5
iv 12.6.8.12.5.
Memórias do Instituto de Butantan.- Tomo II-Fasci Único
M>
Cephath. bem convexo, região cephalica limitada por um sulco
em V largamente aberto post., indo até os ângulos da fossetta que
é grande, oval e profunda ; tubérculo ocular assaz elevado, mais
largo do que comprido (1,5x2).
Olhos: MA separados entre si por 1 ' i diâmetro, menos de me-
tade dos LA ; LP ligeiramente menores que os LA contíguos aos MP.
Cheliceras medíocres ; maxillas com uma pequena area basal
de fortes espinulas bem separadas.
Patas: tíbias e protarsos i e ii pouco espinhosos, iii e iv com
numerosos espinhos irregulares.
Face int. dos femurs i e iv, glabro, brilhante.
Coloração : toda a aranha é coberta de densos pellos cinzento
escuro, misturados de alguns pellos cinzentos amarellados na face
inf. das patas.
Macho: Comp. 26; Cephatb. * s /,<*, 5 (av. chelic. 16), larg. ant.
5,5, post. 5,5; St. 5,54,5; i == 41, ii 3S,5, iii = 38, iv 48,5.
i = 11.6,5.8.10.5,5; iv = 12.5,5.10.15,5.5,5.
Cephth. muito baixo, quasi que em linha recta dorsalmente : fos-
setta post. muito larga e profunda.
Olhos semelhantes aos da femea, mas os MA sensivelmente
maiores que os LA e estes maiores que os LP; labium com 2 es-
pinulas apicaes (in. ex. un)
Patas compridas e finas; todos os segmentos são direitos, sem
deformação.
Apparelho genital: patellas com 2 espinhas lateraes ext. e 1
int. ; tibia sem rastellum nem granulações, com numerosas e fortes
espinhas sobretudo apicaes, tarso curto, bilobado, passando um pouco
o bulbo.
Coloração semelhante á da femea.
Numerosas femeas adultas e 1 macho, da collecção do Inst.
de Butantan, N.° 104, foram capturadas no Alto da Serra, Itaiz
da Serra e' Anna Dias. (Est. de São Paulo).
FAMÍLIA das drassidae
Laroniu maculipes, sp. nov.
Femea: Comp. 5 mm. ; Cephth. 2 1,5; larg. ant. 1; St. 1,5/1:
Abd. 3,5/2, 1.
i = 4,3, iv*=5,2.
Cephalothorax assaz convexo com uma estria mediana, curta
e algumas estrias irradiantes pouco distinctas.
Olhos em duas linhas; a ant. fortemente procurva bord. ant.
MA tangente ao centro LA), a post., bem recurvada (Bord. post.
M/ tangente ao centro LP , os medianos formando 1 quadrilátero
um pouco mais largo post. do que alto, mais estreito anteriormente ;
MA iguaes aos MP, cerca de */» menores que os LA dos quaes são
distantes de >/* diâmetro, separados entre elles e dos MP por seu
diâmetro ; MP separados entre elles de uma vez e meia seu dia-
metro e do seu diâmetro dos LP, que são ligeiramente menores que
os LA.
Um novo çenero e duas especies novas de aranha do estado de S. Paulo 81
Patas curtas, 4-1-2-3; trochantera iii e sobretudo iv muito
maiores que i e ii iv o dobro de i); tibias e protarsos com es-
pinhos ventraes dispostos em pares (3 nas tib. ant., õ nas post.) e
espinhos lateraes faltando nas patas anteriores ; os tarsos armados
de pellos espinhosos.
Epigyno em forma de fossetta lanceolada.
Abdômen ovoide, mais largo posteriormente.
Coloração: Cephth. castanho avermelhado, as margens casta-
nho escuro; labium, maxillas, sternum, coxas i e ii castanho aver-
melhado, coxas iii, e iv castanho amarellado, todos os trochantes
brancos.
As patas variam do castanho amarellado para o castanho es-
curo, as patellas i e ii amárelladas, iii e iv brancas com uma pe-
quena mancha castanha.
Abdômen castanho escuro, com tegumentos rugosos, com rugas
transversaes ; quasi glabro, com raros pellos escuros; na parte ant.
2 grandes manchas lateraes quasi confluentes amarelladas (sendo
attenuadas em álcool .
Ventre com um grande espaço triangular da mesma cor, ás
vezes pouco distincto.
Macho: Comp. 3,5; Abd. 2.
Menor, mas muito semelhante á femea, os olhos um pouco mais
agrupados (MA contíguos ao LA LP menos separados dos LA,
cerca de 1 , menores que os últimos. Patas mais longas e mais es-
pinhosas.
Apparelho genital: Tibia curta, do mesmo comprimento que a
patella, armado com um forte apophyse latero dorsal do mesmo
comprimento que a tibia, e ligeiramente curvo na parte apical;
tarso volumoso, passando um bulbo muito simples, armado de cri-
nas rijas no apex.
Coloração : como a da femea. o abdômen sem manchas hasaes.
2 machos e 2 femeas, n.° 79 da collecção do Inst. de Butan-
tan, foram encontrados numa bromeliacea perto do Instituto.
L. Maculipes, a primeira especie brasileira deste grupo eleva
a 3 o numero das especies sul americanas de Laronia actualmente
descriptas; estas 3 especies distinguem-se facilmente com o auxilio
do quadro seguinte :
A — Olhos medianos ant. e post. subiguaes aos lateraes (ou
pouco maiores).
L. rufithorax. Sim. Venezuela .
B — Olhos medianos ant. e post. nitidamente menores que os
lateraes.
1 — Coxa, trochantera e patas brancas.
L. maculipes , sp. nov. (Brasil .
2 — Patas inteiramente avermelhadas, os tarsos quasi pretos.
L. cariegala. Sim. Uruguay).
Butantan, 12 de Fevereiro de 1925.
Ç Mt mórias do Instituto dt Butantan.
82
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
UN NOVEAU GENRE ET DEUX ESPECES NOUVELLES
D’ARAIGNÉES DE L’ETAT DE 5. PAULO
PAR CE
Dh. J. Yellard
(Planche 15 et 16)
FAMILLE DES BARYCHELIDAE
Gen. Xeostothis, gen. nov.
Céphalothorax convexe chez la femelle, bas chez le màle ; fos-
sette post. grande, ovale, transverse. Veux ant. en ligne moyenne-
inent procurve, les médians légérement plus gros que les latéraux ;
MP beaucoup plus petits que les latéraux postérieurs ; latéraux ant.
et post. distants da peine leur derai diamètre ; clypeus bien plus
grand que les LA. Rastellum assez peu dévéloppé, formé d'épines
sétiformes et de crins irréguliers; labium plus large que long armé
chez la femelle de 2-5 spinules apicales, de 2 chez le m&le ; irnpres-
sions sternales post. marginales, circulaires. Pattes robustes, épi-
neuses, longues chez la femelle, três longues chez le màle ; tíbias et
protarses des 4 paires droits, normaux dans les deux sexes; scopu-
les entières à i, ii et iii; face inf. du tarse iv occupée par 1 large
bande de crins rejetant latéralement 1 étroite bande de scopule ;
fascicules unguéaux petits, cachant mal 2 grands ongles, armés de
2 séries de 5 dents. Tibia ant. du màle avec 1 trés petite épine
int. non tuberculée semblable aux autres, sans apophyses. Filières
courtes. le segment basal égalant le 2émé. et le 3éme. reunis, 1'api-
cal trés court. Bulbe court, legèrement déprimé lat. terminé par 1
pointe fine plus longue que le tegulum.
Type : Neoslothis giyas, sp. nov. — Patrie: Estado de São
Paulo.
Diffère surtout des genres Stothis et Psalitops par la gran-
de Iargeur du clypeus. les scopules des 3 paires ant. entières et
la large bande de crins des tarses post.
Xeostothis gigas, sp. nov.
Femelle: Long. 37; Céphth. 'sans chélic. 14 larg. post.
7, larg. ant. 9; chélicères 3; St. T /*J Abd. “Z,, ; i = 37. ii = 33».
iii = 32, iv = 43.
i = 11.7.7.7.5 iv= 12.6.8.12.5.
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
Um novo genero e duas especies novas de aranha do estado de S. Paulo 83
Céphth. bien convexe; région céphalique limitée par 1 sillon
en V largement ouvert post., aboutissant aux angles de la fossette
qui est large, ovale et proíonde; mamelon occulaire assez élévé,
plus large que long (1,5x2).
Yeux: - MA séparés entre eux de leur 1 . diamètre, moitié moins
des LA ; LP légérement plus petits que les LA subcontigus aux
MP. Chélicères médiocres; maxilles avec 1 petite aire basale de
grosses spinules bien séparées. Pattes : tibias et protarses i e ii peu
êpineux, iii et iv avec de nombreux épines irrégulières.
Face int. des femurs i et iv, glabre, brillante.
Coloration: Toute 1'araignée recouverte de dense pubescence gris
noir mélangée de quelques poils cris jaune á la face inf. des pattes.
Mâle: Long. 26; Céphth. 13 10,5 av. chélic. 16), larg. ant.
5,5, post. 5,5; St. 5,5 4,5; i =» 41, ii = 38,5, iii 38, iv 48,5;
i = 11.6,5.8.10.5,5 ; iv 12.5,5.10. 15,5.5,5.
Céphth. três bas, presque en ligue droite dorsalement ; fossette
post. três large et proíonde.
Yeux semblables à ceux de la feinelle, mais les MA sensiblement
plus gros que les LA et ceux-ci plus gros que les LP ; labium avec
2 spinules apicales in. ex. un. .
Pattes longues et fines ; tous les segments droits, sans défor-
mation. Appareil genital: patelle avec 2 épines lat. ext. et l int.;
tibia sans rastellum ni granulations, avec de nombreuses et fortes
épines surtout apicales tarse court, bilobé, dépassant peu le bulbe.
Coloration semblable ã celle de la femelle.
Nombreuses femelles adultes et 1 mâle, dans la coll. de 1'lns-
titut de Butantan, n.® 104. provenant de Alto da Serra, Raiz da
Serra et Anna Dias. E. S. P.
FAMILLE DES DRASSIDAE
Laronia maculipes, sp. nov.
Femelle: Long. 5 mm. ; Céphth. 2 1.5; larg. ant. I; St. 1,5/1;
Abd. 3, 5/2,1: i 4,3, iv = 5,2.
Céphalothorax assex convexe, pourvu d'une strie médiane cour-
te et de quelques stries irradiantes peu distinctes. Yeux sur 2 li-
gnes; 1'ant. fortement procurve bord ant. MA vers le centre LA',
la post, bien recurve bord. post. MP vers le centre LP); les mé-
dians formant 1 quadrilatère un peu plus large post. que haut, plus
étroit ant. ; MA égaux aux MP, 1 , env. plus petits que les LA dont
ils sont eloignés de leur demi-diamètre, séparés entre eux et des
MP par leur diamètre MP séparés entre eux d'une fois et demie
leur diamètre et de leur diamètre des LP que sont légérement plus
petits que les LA. Pattes courtes, 4-1-2-3; troehantera iii et sur-
tout iv beaucoup plus Iongs que i et ii iv double de i ; tibias
et protarses avec des épines ventrales disposées par paires (3 aux
84
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
tib. ant., 5 aux post.) et des épines latérales manquant aux pattes
ant. ; les tarses armés en dessous de poils spiniformes. Epigyne
en forme de fossette lancéolée.
Abdômen ovoide, plus large posterieurement.
Coloration : Céphth. brun ronge, les marges brim noir; labium,
maxilles, sternum, coxae i et ii brun rouge, coxae iii et iv brun
jaune, tous les trochantera blanc pur. Pattes variant du brun rouge
au brun noir, les patelles i et ii jaunàtres, iii et iv blanc pur avec
une petite tache apicale brune. Abdômen brun noir, de téguments
rugueux, ridés transversalement, presque nu avec quelques trés
rares poils obscurs ; ã la partie ant. 2 grandes taches latérales
presque confluentes jaunàtres Vatténuant dans 1'alcool . Ventre avec
un grand champ triangulaire de mème couleur, souvent peu distinct.
Màle: Long. 3,õ, Abd. 2.
Plus petit, mais presque semblable à la femelle, les yeux un
peu plus groupés (MA contigus aux LA ; LP moins éloignés des
LA, */, env. plus petits que ces derniers . Pattes plus longues et
plus épineuses. Appareil genital: Tibia court. de mème longeur que
la patelle, pourvu ext. d'un éperon latéro-dorsal de mème longeur
que le tibia, légèrement coudé à sa partie apicale; tarse volumi-
neux dépassant 1 bulbe assez simple, armé de crins raides à 1'apex.
Coloration semblable à celle de la femelle, 1'abdomen sans taches
basales.
2 màles et 2 femelles, n.° 7!) de la coll. de 1’lnstituto de Bu-
tantan, trouvés dans 1 broméliacée prés de Plnstitut.
L. maculipes, la premiére espèce brésilienne de ce groupe
porte à 3 le nombre des espèces sud-américaines de Laronia actuel-
lement décrites; ces 3 espèces se distinguent facilement à 1’aide du
tableau suivant :
A — Yeux médians ant. et post. subégaux aux latéraux ou
à peine plus grands).
L. rufithorax , Sim. (Venezuela \
B — Yeux médians ant. et post. nettement plus petits que les
latéraux :
1 — Coxae, trochantera et patellae blancs.
L. maculipes, sp. nov. (Brasil).
2 — Pattes entièrement rougeàtres, les tarses ant. presque
noirs:
L. varie gata. Sim. Uruguay .
Butantan, 12 Février 1925.
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
cm
Memórias do Instituto de Butantan — Tomo II • fase. 1
Estampa 16
RUO. F1SCHER.
Loronia maculipes, sp. nov.
IMMUNISAÇAO ANTI-TETANICA PELO METHODO
TOXOIDE-TOXINA
I» E I. O
Dr. José Lemos Moxteiro
lASSISTEXTK DO INSTITCTOl
N’um trabalho anterior ( l ), tratamos do preparo de toxoides te-
tânicos pelo methodo da fonnalina, preconisado por Loewenstein e
V. Eisler e assignalamos que a proporção de fonnalina indicada
por estes autores e usada por Sordelli '*], em Buenos Ayres, não
podia ser por nós empregada, visto como a toxina tetanica que obte-
mos em Butantan, geralmente de I). M. M. <Ô,0005cc., assim tra-
tada, permanecia toxica para a cobaya, mesmo depois de uma per-
manência de muitos mezes na estufa a 37°.
A permanência assim prolongada n'essa temperatura prejudicaria
certamente o poder antigenico do toxoide, mesmo se fosse possível
a sua obtenção com a proporção de formalina indicada (1,5 por
1000 ).
O necessário seria a obtenção mais ou menos rapida do to-
xoide.
No nosso trabalho ennumeramos a longa serie de experiencias
que realizamos com o fim de estabelecer uma proporção de forma-
lina que, juntada á toxina preparada segundo a techniea por nós
adoptada, a transformasse em toxoide no fim de poucos dias, isto é,
que a tornasse atoxica para a cobaya, embora fossem conservadas
as suas propriedades antigenicas.
É bastante dizer, no momento, que, das differentes proporções
de formalina, consideramos a mais conveniente a de 5%* para a
attenuação da toxina e sua transformação em toxoide.
E o preparo do toxoide assim se resume: filtrada a toxina te-
tanica, junta-se formalina na proporção de 5 0 „ e colloca-se na
estufa a 37°.
No fim de 8 a 10 dias retira-se da estufa e verifica-se sua
toxidez para a cobaya de 330 a 360 grs., injectando õcc. Se o animal
sobreviver sem symptomas de tétano, durante uma semana de obser-
vação, o toxoide está preparado ; se não (declarando-se os sympto-
mas na cobaya) colloca-se novamente na estufa onde se deixa mais
alguns dias, no fim dos quaes repete-se a inoculação.
(*) J. Luios Momcrao — Preparo de toxoide* tetânico* pelo methodo da formalina — Annaes
Paulistas de Med. e Cir. (Vol. XII, n. 1. Janeiro 1921).
o A. SoaocLi .1 — Kevi-ta d» Instituto Hacteriologico. 1. Vol. n. t (A»o«to, 191’').
86
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
Geralmente em menos de 15 dias a attenuação da toxina é
completa, conservando o toxoide tetânico assim preparado, as suas
propriedades antigenicas, como verificamos.
O toxoide preparado é conservado em frasco escuro na gela-
deira.
O fim principal d’este trabalho é assignalar, apresentando alguns
protocolos, os resultados da immunisação de cavallos por este me-
thodo, que chamaremos de toxoide-toxina tetanica.
Embora o numero de observações não seja muito elevado, é
sufficiente para justificar algumas considerações sobre as vanta-
gens do methodo.
Daremos a seguir uma serie de protocolos de animaes immu-
nisados, pelos quaes se verá a marcha da immunisação.
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
Imrounisação inti-tetanica pelo methodo toxoide-toxina
87
I — Cavallo n. 70
I
I
Idade: 9 annos.
Procedência : XaeümaL
DATA
TOXOIDE TOXINA
IXJECTADO IXJECTADA oA.lulUSo
Valor do sòro
e observações
Junho
15
100 CC.
21
100 CC.
28
200 CC.
Reacçâo local
Julho
5
Exploradora
Não dosa 1 u. a.
8
200 cc.
Reacçâo local
15
50 cc. Exploradora
Dosa + 1 u. a.
22
100 cc.
30
100 cc.
Agosto
4
200 cc. Exploradora
Dosa + 50 u. a.
*
10
300 cc.
16
Exploradora
Dosa 100 u. a.
17
400 cc.
28
500 cc.
Setembro
11
6 litros
14
550 cc.
25
6 litros
28
600 cc.
Outubro
4
Exploradora
Dosa — 100 n. a.
13
650 cc.
19
700 cc. Exploradora
Dosa - 100 u. a.
25
Exploradora
Dosa + 100 u. a.
29
750 cc.
Novembro
12
6 litros
13
400 cc.
18
Explorodora
Dosa 150 u. a.
30
.300 cc.
Dezembro
9
Exploradora
Dosa 150 u. a.
15
6 litros
28
400 cc.
Janeiro
1
Exploradora
Dosa — 100 u. a.
12
200 cc. |
19
Exploradora
Dosa 100 u. a.
24
300 cc.
Fevereiro
4
6 litros
14
400 cc. I I
21
Exploradora
Dosa — 100 u. a.
Março
2
400 cc.
16
Exploradora
Dosa + 100 u. a.
22
6 litros
28
400 cc.
II
Cavallo n. 303
| Idade: 9 aunou.
j Procedendo: Xadonal.
DATA
TOXOIPE TOXINA eivmiic
INJECTADO IXJECTADA OAAUHIA»
Valor do sfiro
e observações
Junho
15
100 CC.
21
100 cc.
28
200 cc.
Reacçâo local
Julho
5
Exploradora
Não dosa 1 u. a.
8
200 cc.
Reacçâo local
15
50 cc. Exploradora
Dosa 1 u. a.
22
100 cc.
30
100 cc.
88
Memórias do Instituto de Butantan ■
( Continuação )
Tomo II - Fase. Único
DATA
TOXOIDE
INJECTADO
TOXINA
IXJECTAD.V
SANGRIAS
Valor do sòro
e observações
Agosto 4
200 CC.
5
Exploradora
Dosa — 50 u. a.
10
300 cc.
Exploradora
Dosa 50 u. a.
17
300 cc.
26
Exploradora
Dosa 100 u. a.
28
50»! cc.
Setembro 1 1
Expl. e 6 lit.
Dosa 150 u. a.
14
550 cc.
25
litros
28
600 cc.
Outubro 4
Exploradora
Dosa 150 u. a.
8
500 cc.
19
600 cc.
29
650 cc.
Novembro 12
6 litros
13
400 cc.
18
Exploradora
Dosa + 100 u. a.
30
300 cc.
Dezembro 9
Explorapora
Dosa + 100 u. a.
15
6 litros
28
400 cc.
Janeiro 4
Exploradora
Dosa + 200 u. a.
13
6 litros
19
Explorodora
Dosa + 100 u: a.
24
300 cc.
Fevereiro 4
6 litros
11
300 cc.
17
200 cc.
21
Exploradora
Dosa + 100 u. a.
Março 1
6 litros
3
300 cc.
16
Exploradora
Dosa 300 u. a.
22
6 litros
... ,, - no I Idade: 12 annos.
III l avalio n. 308 j Pneedencia; NacioHaL
DATA
TOXOIDE
INJECTADO
SANGRIAS
Valor do sòro
e observações
Julho 25
50 CC.
| Qedema na zona
30
50 cc.
j da inoculação
Agosto 4
50 cc.
9
100 cc.
15
200 cc.
Exploradora
Dosa 1 u. a.
22
50 cc.
27
100 cc.
Setembro 2
150 cc.
9
200 cc. Exploradora
Dosa — 50 u. a.
15
250 cc.
22
300 cc.
30
Exploradora
Dosa + de 50 u. a.
Outubro 1
350 cc.
8
400 cc.
15
Exploradora
Dosa + de 80 u. a.
22
500 cc.
Novembro 1
Exploradora
Dosa 4- de 100 u. a.
8
600 cc.
17
6 litros
Dosa + de 150 u. a.
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
V Ca v alio n
DATA
Agosto
8
16
23
30
Setembro 10
13
| Idade: 9 mino*.
| Procedência: Xacional .
toxoide toxina SANGRIAS
ISJECTADO 1 IN.IECTAOA i
Exploradora
50 cc.
50 cc.
100 cc.
100 cc.
200 cc.
200 cc.
Outubro
20
25
27
4
1 1
16
18
25
200 cc.
50
CC.
50
cc.
100
cc.
150
cc.
200
cc.
Exploradora
Exploradora
Valor do sôro
e observações
Dosa — 1 u. a.
Dosa 1 u. a.
Dosa 10 u. a.
-SciELO 0
2
3
5
6
11
12
13
14
15
16
L
cm
92 Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II -Fase. Unico
( Continuação )
DATA
TOXOIDE
IXJECTADO
TOXINA sANfRU Valor do sôro
INJECTADA ‘ ‘ e observações
Fevereiro 7
250 cc. Exploradora Dosa 80 u. a.
13
300 cc.
20
300 cc.
27
350 cc.
Março 5
350 cc. Exploradora Dosa + 100 u. a.
18
(l.a) 5 litros
ix- ... I Idade: 16 annos.
. a» a o n. ( . | Procedência : Nacional.
DATA
TOXOIDE
IXJECTADO
TOXINA
INJECTADA
SANGRIAS
Valor do sôro
e observaçães
1925
Janeiro 30
50 cc.
Fevereiro 6
50 cc.
12
100 cc.
19
150 cc.
26
200 cc.
Exploradora
Dosa + 1 u. a.
Março 5
50 cc.
12
50 cc.
19
100 cc.
26
150 cc.
Abril 2
200 cc.
8
250 cc.
15
300 cc.
Exploradora
Dosa 4- 100 u. a.
22
350 cc.
29
400 cc.
Exploradora
Dosa 300 u. a.
Maio 14
1.» definitiva
5 litros
Dosa 300 u. r.
0 valor anti-toxico do soro, após a immunisação por este me-
thodo, dos animaes considerados bons productores, variava de 100
a 300 u.a. por cc. em sangria directa, valor mais que sufficiente
para a obtenção de soros de alto poder, com os processos de con-
centração que o Instituto adopta.
Estes mesmos cavallos, em reimmunisações posteriores, attin-
giram dosagens mais elevadas (300 e 400 u.a. por cc.).
É preciso assignalar que, em immunidade, o faclor individual
(*) Já haviam sido entregues os originaes deste trabalho, para a publicação nas ' MEMÓ-
RIAS”. quando terminamos a immunização. pelo processo descripto. de uma turma de 3 animaes.
Em virtude do atrazo da publicação, julgamos conveniente juntar ao trabalho mais esta ob-
servação.
Estes cavallos. ns. 210. 276 e 234 estiveram em serviço de diphteria, onde os dois primeiros
eram regulares e o ultimo, (n. 284), muito bom productor de anti-toxina.
Os de ns. 210 e 276 fizemos voltar ao primitivo serviço, por não se mostrarem bons produ-
ctores de anti-toxina tetanica. Receberam ambos 6 injecções de toxoide, não apresentando, após
isto, 1 u. a. em cc. de soro.
Emquanto isto, o de n- 284, após a 1.* injecçáo de toxoide, accusava em seu sôro 4- 1 u. a.
por cc.
Resolvemos, por isto. em virtude da nossa não pequena experiencia anterior, só continuar
com a immunização do n. 284.
O resultado obtido, mais uma vez, confirmou a nossa supposição, dosando este cavallo, no
curto prazo de 3 mezes e meio. 300 u. a. por cc.
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
Immunisação anti-tetanica pelo methodo toxoide-toxina
93
é de grande importância. Com maior numero de animaes, certamente
se encontraria algum cujo soro dosasse 400, õ00 e mesmo 600 u.a.
por cc., o que é raríssimo observar nos serviços de sorotherapia
anti-tetanica dos differentes Institutos.
Sabemos já terem sido encontrados cavallos dosando 600 e
até 800 u.a. por cc. Isto representa excepções em centenares de ca-
vallos experimentados.
A verificação do poder anti-toxico do soro deve ser feita pelo
methodo, officialmente adoptado entre nós, de Rosenau e Anderson.
Differenças de technica empregada para a dosagem ou outros metho-
dos menos seguros poderão explicar resultados mais animadores com
0 soro anti-tetanico.
Para o soro anti-diphterico é mais facil e commum obter-se
dosagem muito mais elevada, pelo methodo de Ehrlich.
A immunisação com toxoides deve ser continuada até que o
soro do animal contenha 1 u.a. por cc., sem o que não se deve
iniciar a injecção de toxina pura.
Não se conseguindo isto com os toxoides até a 5.» ou 6. a ino-
culação, desnecessário se torna o desperdício de toxina, pois pro-
vavelmente o animal não será bom productor de anti-toxina. Isto
verificamos com diversos cavallos, cujos soros não dosavam mais
de 50 u.a. por cc. no final de immunisação e que haviam recebido
maior numero de injecções de toxoides, até «pie o soro contivesse
1 u.a. por cc.
Com a immunisação anti-tetanica por meio de toxina pura, pre-
cedidas, as primeiras doses, de injecções de soro anti-tetanico, me-
thodo mais demorado e que nos expõe mais a acridentes, conse-
guíamos valores mais ou menos idênticos, isto é, soros cujo valor os-
cillava de 100 a 400 u.a. por cc. em sangria directa, nos animaes
considerados bons productores.
Apresentamos estes dados para uma comparação entre os dois
methodos.
Em conclusão, verifica-se que a vantagem do methodo de im-
munisação por meio de toxoides se apoia na economia que se faz de
soro anti-tetanico (necessário para o outro methodo), na maior ra-
pidez da immunisação e na possibilidade de se verificar, desde logo,
quaes os animaes bons productores de anti-toxina.
Butantan, Novembro de 1924.
\
94
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II -Fase. Unico
X
IMMUNISATION ANTI-TÉTANIQUE PAR LA MÉTHODE
TOXOIDE -TOXINE
La proportion de formol indiquée par Lovenstein et von Eisler
pour la préparation de toxoide tétanique, 1,5 pour 1000, ne peut ètre
utilisée à Butantan, car la toxine ainsi traitée, généralement de
D. M. M. < 0,0005 cc., reste encore toxique pour le cobaye aprés
un séjour de plusieurs mois à 1’étuve.
Pour obtenir la transformation rapide de la toxine en toxoi-
de sans perte du pouvoir antigénique, 1’Auteur employe une pro-
portion de 5 °/oo de formol; aprés un séjour de 15 jours à 1’étuve
l’atténuation est en général complete vérification avec le cobaye .
L’Auteur donne ensuite les protocoles d’immunisation d’un cer-
tain nombre de chevaux par cette méthode ; les animaux qui, aprés
avoir reçu 5 ou 6 injections de toxoide, ne présentent pas 1 u.a.
dans leur serum, doivent étre rejetés comrne mauvais producteurs;
lorsque le serum de 1’animal contient 1 u.a. rimmunisation est con-
tinuée avec la toxine pure.
Cette méthode d'immunisation est plus rapide et expose à
moins d'accidents que la méthode par toxine pure, précédée d’in-
jection de serum anti-tétanique, lors des premières doses.
En relation au dosage final des serums obtenus, ces 2 méthodes
sont équivalentes (méthode de dosage de Rosenau-Anderson .
PAR I.K
Dr. .1. Lemos Moxteiro
SOMMAIRE
AS DIFFERENTES PHASES DA AUTOLYSIS
DO “BAC1LLUS ANTHRACIS’’
PKLO
Dh. .T. Lemos Monteiro
(Com as estampas 17 e 18)
Em culturas velhas, ile 30 a 40 dias, em gelose inclinada, de
bacilhts anthracis. pudemos pôr em evidencia a presença de um prin-
cipio lytico 1 , que agia sobre emulsões recentes de bacillos, repro-
duzindo a lyses em serie, e que se manifestava sem acção, como
verificamos posteriormente, sobre emulsões de esporos.
Durante estes estudos, tivemos opportunidade de acompanhar
as phases successivas da autolysis do baciUus anthracis, á medida
que a cultura vae envelhecendo.
Julgamos não ser destituída de interesse a publicação dos nos-
sos resultados.
A technica que usamos consistia no exame da cultura, emulsio-
nada em agua physiologica. estendida em uma lamina e corada pelo
raethodo de Ziehl-Kontes-Giemsa.
Com esta technica de coloração, os esporos eram corados, logo
que estivessem formados e os detalhes do bacillo e do fundo da
preparação se evidenciavam da melhor forma.
Numa cultura de carbúnculo hematico em gelose inclinada,
depois de certo tempo, 30 a 40 dias, (Fig. 1), começam a appare-
cer zonas claras, como assignalamos no nosso trabalho, parecendo
haver, n'estes pontos, uma dissolução de bacillos.
Acompanhando a evolução da cultura desde as 24 horas de
permanência a 37° e depois de muitos dias e mezes de permanência
na temperatura do laboratorio, observam-se factos de bastante inte-
resse para o estudo de biologia do bacillo.
Em 24 horas a cultura tem o aspecto normal característico, como
mostra a microphotographia da fig. 2.
No fim de 16 dias o aspecto da cultura é bem differente, como
mostra a fig. 3. Notam-se já as formas bacillares, com o aspecto
característico das culturas influenciadas pelo bacteriophago : os ba-
cillos ora se apresentam inchados, ora com perdas de substancia,
onde tomam com menor intensidade a matéria corante ; no fundo da
(*) .1. Lkko* MmuR) — Brasil Mtdico - X. 23, Junho 1922. pag. 297.
%
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Único
preparação já se observam cletrictos bacillares, que se evidenciam
pelo methodo de coloração empregado.
No fim de 31 dias, como mostra a microphotographia da fig.
4, o aspecto bacillar é idêntico, notando-se os detrictos bacillares.
No fim de 70 dias (fig. õ), os detrictos bacillares predominam
na preparação, notando-se as formas bacillares grossas, influencia-
das pela lysina.
No fim de 90 dias (fig. 6), o mesmo aspecto dos bacillos e
grande abundancia de detrictos bacillares.
Em 115 dias, como se vê na microphotographia da fig. 7, ha
uma modificação brusca do aspecto da preparação. Se observam raras
formas bacillares, são muito raros os detrictos bacillares, e em seu
lugar se vêm numerosíssimos esporos.
A formação de esporos nas culturas conservadas na tempera-
tura do laboratorio é mais ou menos lenta, conforme as condições
do meio. A formação d’estas formas de resistência de certos ger-
mes, os phenomenos intimos que a presidem, não são ainda per-
feitamente elucidados.
Assim, pois, o desapparecimento quasi completo dos detrictos
bacillares, tão abundantes na cultura ainda com 90 dias, e o appa-
recimento dos esporos na cultura com 115 dias, parece ser de grande
significação.
Tem-se a impressão de que os esporos se formaram a custa dos
detrictos bacillares, oriundos dos bacillos atacados pela lysina exis-
tente na cultura.
Verificamos que a lysina actua sobre os bacillos, e que não tem
acção sobre os seus esporos.
1’arece por isto que, quando na cultura a quantidade de lysina
torna-se muito grande, ameaçando a vida da especie, os esporos,
formas resistentes á lysina, se formam a custa dos detrictos bacil-
lares, perpetuando assim a vida do germem.
Isto não acontece com os germes que são incapazes de produzir
esporos; o augmento da lysina, sempre a custa dos novos bacillos
atacados, poderá causar o aniquilamento da especie. No meio se
encontrará a lysina, que irá actuar sobre novas emulsões recentes,
reproduzindo, com maior ou menor intensidade, a lysis em serie.
Em lysados de bacillos Shiga + bacteriophago anti-Shiga, se
observam após centrifugação abundante, e coloração apropriada, de-
trictos bacillares, cuja abundancia está em relação com a maior ou
menor intensidade da emulsão lysada.
Estes resíduos bacillares, como que cinzas dos bacillos, são ge-
ralmente transparentes, dando á emulsão o seu aspecto lysado, mas
são presentes na cultura e podem ser verificados.
No caso do carbúnculo, elles desapparecem quando os’ esporos
se apresentam, parecendo que d’elles se originam.
Estas observações representam um apoio a uma das hypothe-
ses que expandimos no nosso citado trabalho e de que o principio
ly tico parece proveniente do bacillo, encontrando-se quer nas culturas
ou no organismo, quando as condições do meio são favoráveis á sua
elaboração á custa dos proprios germes.
Outro facto que se pode deduzir d’estas observações é que
As diiíerentes phases da autholysis do « Bacillus anthracis» 97
estas partículas ou detrictos bacillares apresentara vitalidade, pois
que delles parece se originar um elemento vivo, o esporo.
Para os germes que não possuem esta propriedade de produzir
esporo, os seus detrictos, em certas condições que não se pode per-
feitamente determinar, podem dar origem a formas bacillares, seme-
lhantes á especie original ou á ella differentes e lysino-resistentes.
Parece ser este o motivo porque Paul Handuroy (*) e outros ex-
perimentadores têm observado o desenvolvimento (íe culturas se-
cundarias nos filtrados conservados no laboratorio ; a possivel pas-
sagem d’estes detrictos atravez os filtros, daria em resultado, se as
condições são favoráveis, a cultura e turvação do filtrado.
A natureza d’este principio ly tico que, incontestavelmente des-
empenha papel importante nos phenomenos de immunidade, em-
bora producto de elaboração microbiana, ainda não está perfei-
tamente determinada; assim como o mechanismo intimo do pheno-
rneno da lysis em serie, que permanece no terreno das hypotheses.
Butantan, Julho de 1925.
(*) Paul IUsdcbot — Compte* R«*&du« Soc. Biologir, toI. XCI, N. 31, 1924, pç. 1209.
Mtmtjrias do Instituto d « Jftitonfan.
98
Memórias do Instituto de Bntantan - Tomo II - Fase. Unico
LE5 DIFFÉRENTES PHASES DE L’AUTOLYSE
DU “B. ANTHRACIS”
PAR LE
Dk. ,T. Lemos Monteiro
(rtaneke 17 et 1H)
SOMMAIRE
Dans cies eultures de b. anthracis sur gélose inclinée, datant
de 30 ã 40 jours, l'A. avait déjà mis en évidence un príncipe ly-
tic[ue agissant sur des émulsions recentes de bacilles, reproduisant
la lyse en série, mais sans action sur les spores.
En émulsionnant des parcelles de eultures dans de 1’eau phy-
siologique et en colorant par la méthode Ziehl-Fontes-Giemsa, l’A.
a pu suivre les phases cie 1’autolyse du B. anthracis depuis 24
heures de séjour à 1'étuve à 37" jusqifaprès plusieurs mois á la
température du laboratoire.
Au 16ème. jour 1’aspect est celui d’une culture influencée par
le bactériopbage et il y a déjà des débris cellulaires; jusqu’au
90ème. jour les débris sont de plus en plus abondants ; au 1 lõème.
jour 1’aspect change brusquement, les formes bacillaires sont ra-
res, les débris encore plus rares .et ã leur place on voit de nom-
breuses spores.
La formation de ces spores et les phénomènes intimes y pré-
sidant ne sont pas bien connus, mais leur apparition coincidant avec
la disparition des débris cellulaires parait un fait três significatif
à l’A. qui pense que les débris cellulaires, qui seraient ainsi des
éléments doués de vitalité, donnent naissance, lorsque la lysine
est assez abundante pour menacer Ia vie de l’espèce, aux spores,
éléments lysino résistants; quant au príncipe lytique il semble pro-
venir du propre bacille et se former ã ses clépens quand les con-
ditions sont favorables.
Les germes incapables de produire des spores peuvent au con-
traire être entièrement détruits; mais en certaines conditions, en-
core peu connues, les débris cellulaires de ces germes peuvent
clonner naissance à des formes bacillaires semblables ou non à
1'espèce originaire, ce qui expliquerait le développement de eultures
secondaires dans des filtrats conservés au laboratoire observé par
quelques auteurs.
La nature du príncipe lytique, de ròle certainement impor-
tant dans l’immunité, ainsi que le mécanisme de la lyse en série
demeurent encore dans le terrain des hypothèses.
cm
■SciELO
0 11 12 13 14 15 16
Fie-
Fie. 6
cm 123456
■SciELO
Estampa IS
fase. 1
Tomo II
Memórias do Instituto de Butantan
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Immunização per os contra o B. de Shiga
CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA NATUREZA DA IMMUNIDADE
PELO
Dh. Eduardo Va/,
(aKKIXTKXTK DO IXHTirt-To)
Numa memória de 11)08. Shiga f expõe os resultados de três
annos de trabalho sobre dysenteria, visando o combate aos fócos
endemicos que existem no Japão.
Levado pela premencia de vaccinar, procurara elle todos os
meios de nttenuar o poder irritante, mesmo necrosante da toxina
dysenterica, impecilho sério ã vaccinação sub-cutanea.
Não podendo remover o obstáculo, o pesquisador japonês tor-
neou-o. Baseado no augmento de resistência á intoxicação dysen-
terica, que conseguira conferir a coelhos, por ingestão de bacil-
los mortos, applicou o methodo ao homem. Foram bons os resul-
tados. Chamou de local ou histogenica a immunidade obtida por
esse processo.
Em que se fundou esta idéa, não se sabe bem. Não era razoavel
ser illação das suas experiencias, em que a prova de immunidade
constou de inoculação venosa de toxina.
Provavelmente foi reportada dos trabalhos de Wassermann e
Cilron (* e *), de Loeffler ('), em (pie se encadeiam bem as idéas
de vaccinação per os, immunização local enterica, e immunidade
do intestino, a elle restricta, independente dos factores da geral.
Do estudo simultâneo desses trabalhos, muito nitida fica a
idéa de que a experiencia domina a imaginação, de que a experien-
cia corrige hypotheses, e orienta o pesquisador.
É bem interessante de, ver-se quão diversos foram os cami-
nhos trilhados.
Wassermann e Cilron (*), levados pela idéa. imperante na épo-
ca, de que immunidade era anticorpo, tinham em mira estabelecer
qual a via de introducção de antigenio, no organismo, que maior
teor em anticorpos produzisse. Verificaram que, numericamente, não
havia egual repartição dos anticorpos pelos orgãos. Em superioridade
sempre se mostrava aquelle que, em primeiro logar, tivesse sof-
frido o contacto do antigenio, em estado mais integro, em quantidade
maior.
Esta verificação induzia a que se utilizasse, como via de in-
gresso da substancia vaccinante, aquella que mais promptamente
attingisse o orgão, o ponto vulnerável do organismo, variavel, está
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Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II -Fase. Único
visto, com as affinidades, as predileções microbianas. Fortalecia-se
com mais anticorpo o ponto em que o germe deveria actuar, ou
por onde, habitualmente, faz a sua penetração no organismo. Era
a idéa de immunização local, pelos factores da immunidade geral.
Destas cogitações, em que tão bem as idéas se associam, sur-
giu uma razoavel explicação para a immunidade dos portadores de
B. typhico, pela immunização provocada ou espontânea do intes-
tino, porta habitual de entrada de tal germe.
Depois (’), sequencia desses estudos, elles relatam casos em
que, a despeito da falta de anticorpos no local e no sangue, foi
obtida a immunidade. Dahi a affirmativa — ha uma immunidade
local, do tecido, que independe da geral, exteriorizada por anti-
corpos.
A esta mesma idéa chegou Loeffler, fazendo rota diversa.
De experieneias comparativas sobre o valor das vias sub-cutanea,
peritoneal e buccal, na immunização de ratos do campo contra ty-
phi-murio, conseguiu, tão somente, por esta via, immunidade, com
tratamento reiterado por germes mortos. Ausência de agglutininas,
ausência de anticorpos bacterioly ticos. Meditando sobre os factos,
pensou decorresse a immunidade de factores ainda desconhecidos,
e mais ainda, que a superfície interna do canal digestivo, previamente
banhada com bacillos mortos, adquirisse a propriedade de impedir a
penetração do bacillo na parede intestinal (acção ceUular, cellulas
epitheliaes ou leucocytos).
De tal modo interpretando as suas experieneias, lançou a idéa
duma nova immunidade, uma immunidade do orgão, vestíbulo da
infecção.
Com visão larga, deixou entrever que a dysenteria, cr cholera,
o typho, teriam um elemento de combate, nesta immunidade, em
que muito importa, mais do que tudo, o auxilio ás forças defensivas,
collocadas nos pontos avançados.
Como era differente a mira destes homens ao encetar as suas
experieneias !
Naquelle tempo, embora sustentadas pela prova de laboratorio,
estas idéas não poderiam vingar, pois, a recalcá-las, estava a noção
de anticorpo, expressão unica de immunidade.
Aqui e acolá, com fitos differentes, foram se realizando expe-
riências de immunização per os. Dentre ellas, sobresaem as de
Kutscher e Meinicke (*), em 1906, em que a ingestão de paratypho
protege cobaio, em 90 »<, dos casos contra paratypho, em 66 o 0
contra typhi-murio, em 0 o/o contra typho.
Ingestão de typhi-murio protege contra typhi-murio em 100 o/o,
contra paratypho em 100 */o, contra enteritis paratyphi em 100 o/ 0 .
Ingestão de typho não protege contra typho, typhi-murio e pa-
ratypho.
Esta citação é necessária para que esta experiencia não fique no
olvido, em favor da originalidade das de Besredka e Mlle. Bassè-
ehes (*).
Sem o desejo de alongar a noticia dos estudos que põem marco
importante na historia da immunidade local, ainda cabe aqui logar
para referencia a Dopter (•), que conseguiu immunizar camondon-
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Immunização per os contra o B. de Shiga
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gos contra a dysenteria, por via digestiva. Iramunidade solida á
prova infectuosa, por via subdermica.
Da objecção de Briickner (•) a uma interpretação de Lippmann
(®), ha occasião para se enveredar, logicamente, para o caminho da
nova concepção de immunidade, conforme as idéas de hoje.
Lippmann (*) conseguiu vaccinar camondongos, por ingestão de
dóses, progressivamente crescentes, de toxina botulinica, contra do-
ses 10 vezes a minima mortal, pela bocca. Por via sub-cutanea nem
a minima mortal; os camondongos morreram com os testemunhas.
Lippmann diz que é possível, por uma immunidade da porta de en-
trada, proteger pura e seguramente o intestino contra um verdadeiro
veneno bacteriano, sem que resulte uma immunidade geral.
A idéa accentua-se, e resiste ao que objecta Briickner ( ! ), par-
tindo da interpretação de suas próprias experiencias com B. para-
typho B. Observando que os animaes, vaccinados pela bocca, resis-
tiam á prova por via sub-cutanea concluiu que a immunidade é
geral e não local, não se tratando de immunidade tissular.
Em verdade, a immunidade é geral, porque o animal resiste ã
prova geral. Poderia existir, então, uma immunidade especifica, ad-
quirida, sem anticorpos? Sem duvida. O facto existia, mas a theo-
ria não o explicava, elle não se enquadrava na immunidade geral,
cuja exteriorização se faz á custa de anticorpos.
Impunha-se a explicação da nova immunidade.
Associar;un-se logo as idéas de vaccinação local do orgão, de
natureza local, visto ter sido o facto observado na vaccinação per os
contra germe enterotropo. Mas, por que a organo-immunização, res-
tricta, dá immunidade geral, comprovada por ulterior inoculação por
via sub-cutanea?
A explicação, trouxe-a Bcsredka. Estas experiencias foram re-
tomadas por um feliz acaso. Em falta de camondongos não experi-
mentados ainda com B. paratypho B.. Besredka , tendo necessidade
de experimentar o poder patbogenico de algumas amostras por via
sub-cutanea, utilizou camondongos que haviam resistido & prova
por ingestão, um mês antes. A immunidade de todos á prova sub-
cutanea fê-lo retomar o assumpto, completá-lo, ampliá-lo, dando-lhe
feição nova, trazendo o laço que deveria unir a immunidade local
e a geral com e sem anticorpo.
A immunidade é geral, não pelo mecanismo da immunidade
geral, mas pela immunização local.
A immunidade é geral para os seus effeitos, é local por sua
origem.
Immunidade geral por immunização local.
Para Besredka (*), a immunidade local processa-se em o orgão
sensível que cada animal possue a cada germe. No seu dizer:
« cada virus tem seu orgão, cada orgão sua immunidade ».
A immunidade local resulta da vaccinação do orgão receptivo,
de modo a collocar o animal a salvo de uma infecção pelo germe
contra o qual foi vaccinado. Immunizado o orgão sensível, o orgão
capaz de receber e acommodar o germe, offerecendo-lbe condições
de virulência, ipso facto está o germe sem guarida, incapacitado de
agir, obrigado a luctar contra a nova disposição das cellulas suas
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Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II -Fase. Unico
preferidas, a se defender do ataque dos leucocytos, a resistir ao na-
tural poder bactericida dos humores. Bem se compreende que da
introducção do germe, por qualquer via que seja, não decorra a
infecção. Ha uma immunidade geral no seu effeito, por uma im-
munidade local na sua origem, proveniente da organo-immunização.
Partiu Besredka da organotropia, da infecção localizada á im-
munidade do orgão.
Na mesma sequencia, faremos o nosso estudo; organo-tropismo,
organo-immunização, immunidade geral por immunização local.
0 B. de Sbiga é enterotropo. Por qualquer via que seja ino-
culado, elle é pathogenico, agindo no intestino, lesando de preferen-
cia o cecum. O intestino, neste caso particular, não é a simples
porta habitual da infecção, mas é a séde do processo morbido, o
orgão sensível, o orgão receptivo.
Esses conhecimentos já estão integrados em sciencia. Não obs-
tante, para afastar qualquer duvida, suscitada por algumas experiên-
cias constantes da literatura, repetimo-las, para, com bastante se-
gurança, partirmos ao estudo das outras premissas.
Tomamos 3 amostras differentes de « Bacteríum dysenteriae,
mitiga», com as quaes conseguimos determinar a infecção a coelhos,
tanto por via buccal, mesmo com dóse pequena, como por via ve-
nosa, peritoneal, sub-cutanea.
Mostrou-se differente a actividade das tres amostras, sendo as-
sim necessário determinar as dóses seguramente mortaes, de accordo
com a via de introducção, para cada amostra, para bom julgamento
das provas de poder anti-infectuoso, na verificação da immunidade.
Pudemos nos alistar entre os que affirmam não ser o dysente-
rico um bacillo septicemico.
Como prova do que ficou dito, registamos alguns dos nossos
protocollos.
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Na interpretação dessas nossas experiencias, houve accordo com
Besredka. quanto á prestancia do bacillo dysenterico ás experiencias
de immunização enterica. com o fito de obter imnnmidade local.
Iniciamos, assim, os ensaios de immunização.
Mãos á obra, e, cedo, veiu ensejo de verificar que a vaccina
de germe morto não é destituída de toxicidade ao coelho, como con-
cluira Kami ( ,0 ). Besredka havia já referido o facto, mas de modo
grosseiro: «Grandes dóses matam, pequenas nada causam, a julgar
pela falta de symptomas. Tal insensibilidade é, apenas, apparente,
visto como ellas produzem lesões ligeiras do intestino, pequenos
fócos hemorrhagicos.
Muitos dos nossos animaes succumbiam, no emtanto, a dóses pe-
quenas, mesmo fraccionadas. A questão, veja-se adeante, não estava
restricta á dose, mas á resistência maior ou menor dos animaes, e
sim também, e principalmente, á toxicidade da amostra de germe.
Com a amostra Fujimoto, realizamos 17 experiencias de in-
gestão de germe morto. Succumbiram antes da prova de iminuni-
dade — 7; após a prova — 7. Apenas 3 sobreviveram á vaccinação
e á prova anti-infectuosa. Morte por intoxicação — 41,17 o o.
Por falta de immunidade, possivelmente alliada a certo grão
de intoxicação — 41,17 o; 0 . Sobrevivência — 17,04 <>«,.
Com a amostra 2 da collecção do Instituto Vital Brazil, pro-
veniente do Instituto Oswaldo Cruz (I.O.C.l), montam a 21 os en-
saios de immunização, com os seguintes resultados: 14 coelhos
mortos antes da prova de immunidade, desses necropsiamos 5, ve-
rificando coccidiosc hepato-intestinal em 4, a par, em 3, com lesões
intestinaes dysentericas. Houve sempre quéda sensível de peso, salvo
no 5.° dos necropsiados, em que a mortd se deu 24 horas após
a 2.» inoculação de dóse relativamente forte, verificando-se degene-
ração hepatica e forte congestão do intestino delgado.
A prova de immunidade foi effectuada em 7, succumbindo um
de accidente, no acto da inoculação, e outro no dia seguinte. Sobrevi-
veram õ. sendo 3 a duas provas com prasos differentes, com a
amostra homologa e com a Fujimoto.
Sommando as causas desfavoráveis, como seja o estado or-
gânico dos animaes portadores de coccidiose, verificada apenas em
alguns, a dóse excessiva de outro, com os casos de intoxicação pura
pelo germe, temos o numero de 66 o/o.
Assim, esta amostra que, á primeira vista, sem estudo meditado
dos protocollos das experiencias, parece muito toxica e imprestável
para a immunização sem riscos, é, no emtanto, em dóses proporcio-
nalmente maiores, menos toxica que a Fujimoto, e mais immunizante.
De 7, experimentados com dóses mortaes de dysenterico, õ ad-
quiriram immunidade, e um succumbiu a accidente. Mesmo con-
tando este caso como se fòra de falha, a percentagem de sobrevivên-
cia é melhor que a do Fujimoto — 33,33 o' 0 .
A amostra I.O.C.l é mais manejavel que a japonesa: menos
toxica, mais immunizante. O estudo destas duas circumstancias
parece indicar o caminho a seguir, no momento, para melhor exito
da immunização de coelhos, por via buccal, contra a dysenteria.
lOtí Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Unico
0 encontro de amostra de toxicidade baixa e poder immunizante
alto é capital, para progredir mais e muito.
Com uma terceira amostra, de proveniência allemã, enviada
por Fickcr ,(15( da col. I. Vital Brazil), com 7 experiencias, a con-
clusão não foi favoravel, pois õ animaes succumbiram antes e 2
depois da prova anti-infectuosa.
Como que a frisar mais, insistimos na necessidade de estabe-
lecimento de dóses que vaccinem seguramente, sem o risco de into-
xicarem. É ponto importante a procura de amostra em que os dois
poderes se distanciem bem, pequeno o toxico, grande o immunizante.
Neste trabalho, trazemos, apenas, as experiencias mais con-
cludentes, para o ponto, agora visado, e as experiencias novas, sem
registo ainda, deixando de parte grande numero que interessa a
outros pontos, não tratados aqui, e ventilados em trabalhos anterio-
res 11 e 12).
No quadro 2, contamos com as experiencias* em que se obteve
immunidade, e algumas em que tal não se conseguiu, mas que têm
importância para o estudo da natureza da immunidade.
* Immunizaçâo com culturas em agar, de 24 hs. a 37®, e suspensas em soluto pbysiologico
estéril, mortas 1 b. a 60®.
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PROVA DE 1MMUN1DADK COM QERME VIVO
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Memórias cio Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. Único
Xo estudo particularizado de cada experiencia do quadro pre-
cedente, vamos tirar os fundamentos de conclusões do nosso tra-
balho experimental.
.1 experiencia n. 1 nos ensina que a immunização per os, com
cultura morta da amostra Fujimoto. não é sem inconveniente para
o coelho, mesmo com dóses pequenas, intervalladas de 48 horas,
a julgar pela quéda de peso. Em 26 dias, cahiu de 1.650 grs. a 1.270.
X’esse tempo não continha o seu sangue propriedades agglutinantes
e anti-toxicas, (exp. n. 3 do protocollo n. 1). Experimentado com
dóse segura mortal (test. I do mesmo quadro) da amostra homologa,
por via huccal, succumbiu em menos de 24 horas, com lesões intes-
tinaes dysentericas. Morte por infecção dysenterica no curso de
intoxicação da mesma natureza. Xem augmento da resistência local
enterica, nem immunidade geral, coincidindo com falta de anticorpos
(agglutininas e anti-toxinas).
A experiencia n. 2 , realizada em condições idênticas ás da
n. 1, falia de intoxicação pela perda de 715 grs., mostra ausência de
poder agglutinante e algum poder neutralizador da toxina dysente-
rica (retardamento da morte do coelho 4 do prot. n. 1). Resistiu
48 hs. á prova anti-infeetuosa, por via huccal, analoga á do n. 1.
Com 24 hs., installou-se paralysia dos memhros posteriores, que ra-
pidamente attingiu os quatro memhros. Á necropse, lesões intestinaes
dysentericas. Falta de resistência do intestino, via de introducção do
germe vivo. Falta de immunidade geral, coincidindo com a proprie-
dade do sôro, quando misturado a toxina, de retardar, apenas, a
morte.
.4 experiencia n. 3 não revela, como as precedentes, quéda sen-
sível de peso. Com 26 dias, poderes agglutinante e anti-toxico nul-
los (exp. 2 do prot. 1). Prova de immunidade por via venosa, com
amostra homologa á da vaccinaçâo (Fujimoto), em dóse segura
mortal (test. 11 — quadro 2.). Com 48 hs., phenomenos de into-
xicação nervosa: paralysia dos memhros posteriores, mais tarde te-
traplegia, dyspnéa, paralysia vesical. Xo dia seguinte, sacrificado
para tentativa de insulamento do germe do intestino. Ainda neste
caso a coincidência já referida.
A experiencia 4, nas mesmas condições que a antecedente, con-
corda quanto á inexistência de agglutininas. Xo emtanto, o sòro do
coelho possue poder de neutralizar in viiro toxina dysenterica (exp.
n. 1 do prot. n. 1). Existência de anti-toxina; consecução de immu-
nidade contra inoculação de dóse mortal da amostra Fujimoto, por
via venosa. Emquanto que o testemunha (II do quadro 2), mais pe-
sado, dentro de 24 hs. apresentou paralysia dos memhros anterio-
res. paresia dos posteriores, e, em 48 hs., tetraplégico, dyspneico,
succumbiu, o coelho entero-vaccinado sobreviveu 51 dias, sem ne-
nhum symptoma da syndrome.
.4 experiencia n. 5 pertence a outra serie de immunização,
agora com a amostra 2 da collecção do I. Vital Brazil. com a indi-
cação original de Instituto Oswaldo Cruz n. 1 (I.O.C.l). Com 22
dias perda pequena de peso, poder agglutinante nullo. O neutraliza-
dor não foi feito por falta de coelhos. Com 4 tubos de germe vivo
(am. I.O.C.l). per os, sobrevivência de 21 dias. sem symptoma, ao
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Immunização per on contra o B. do Shiga
passo que o testemunha, mais pesado (test. III q. 2), com 1 tubo,
48 hs. após teve diarrhéa, 72 bs. — paralysia, e morte na noite do
4.o para o õ.° dia. 0 testemunha de 4 tubos. 300 grs. mais pesado
(test. IV, q. 2), em dois dias paralytico e diarrheico, succumbiu ao
3.o, com lesões intestinaes dysentericas. Immunidade comprovada.
Xa experiencia n. G as dós es vaccinantes são duas vezes mais
fortes que na anterior. 0 animal supportou bem, sem mostras de sen-
sibilidade, perda quasi nenhuma de peso. Com 20 dias, poder ag-
glutinante nullo. Não se procurou o anti-toxioo (falta de coelhos).
A prova de immunidade foi idêntica á do n. 5. Sobrevivência, sem
symptomas, por 14 dias. Tanto este como o õ perderam muito
peso a contar da data da inoculação, prova da lucta contra tão
formidável (4 tubos de cultura viva) dóse de germe activo, toxico.
A necropse demonstrou, aqui e acolá, pequenos fócos circumscriptos
de hemorrhagia, sem outra lesão. Immunidade. Morte por intoxi-
cação massiça.
,-ls experiencias 7 e 8 nos fornecem prova de immunidade
solida, com ausência de agglutininas e presença de poder anti-to-
xico (prot. 2), 38 dias do inicio da immunização, 24 do termino.
A prova de immunidade foi por via sub-cutanea para o 7 e venosa
para o 8. com a amostra homologa (I.0.C.1 em dóse segura mortal
(tests. V e VI, quadro 2).
Decorridos 28 dias, nova prova, pelas mesmas vias. com Fuji*
moto, em dóse mortal. 0 7 sobreviveu 15 dias, sem symptomas; o
8 durante 13 dias á inoculação venosa, sem symptomas, emquanto o
testemunha (VIII q. 2), com a mesma dóse. por via sub-cutanea. em
3 dias se apresentou com diarrhéa e esboço de paralysia, para com
quatro dias completar a syndrome com a classica paralysia dos
membros posteriores. No õ.° dia, morte. Estas duas experiencias cha-
mam a attenção para a solidez da immunidade á amostra homo-
loga, a heterologa, mais activa. Note-se, em concordância com poder
neutralizador do sòro.
A experiencia 9 obedeceu ao mesmo plano das duas ultimas.
Passavam 5 dias da ultima inoculação, quando o animal se apresen-
tou com paralysia dos membros posteriores. Houve regressão rapida,
em poucos dias. No dia que os outros foram sangrados, para pro-
cura dos anticorpos, elle também. Ausência de agglutinina, pre-
sença de poder neutralizador in vilro. Dois dias após, no acto da ino-
culação de prova, que deveria ser por via buccal, o animal morreu
de accidente. Asphyxia por introducção da canula na trachéa. Ópti-
ma experiencia perdida.
O coelho n. 10. immunizado com I.O.C.l, não resistiu á prova
com Fujimoto por via venosa. Em 4 dias tetraplegia, morte. Lesões
intestinaes, paralysia vesical. Cultura da bile-positiva.
Xa experiencia 11, com a mesma amostra, em dóses menores,
o coelho perdeu de peso 450 grs., em 26 dias. Quanto aos anti-
corpos — ausência de agglutininas. presença de algum poder anti-to*
xico (veja-se o protocollo 3). Immunidade solida a dóse mortal, pela
veia, de Fujimoto (test. VIII q. 2). Decorridos 25 dias da prova, o
peso subiu a 250 grs. Depois de 42 dias deixou de ser observado.
Nesta experiencia. onde a coincidência que vimos notando não é
112
Memórias do Instiluto de Butanlan - Tomo II - Fase. Unico
tão flagrante, seria possível admittir com Besredka um papel ao
orgão electivo do germe, sem, no emtanto, prová-lo.
As experiencias 12 e 13 foram realizadas com a amostra Fi-
cker (n. lõ da col. I. Vital Brazil). Na 12, uma unica inoculação
fez com que 15 dias depois o indice agglutinante fosse de 1 : 200.
Por falta de animaes, não foi feita a pesquisa do poder anti-toxico.
Prova de immunidade, 19 dias depois, com 1 tubo de Fujimoto, pela
bocca (test. III). Passados 4 dias, paralysia dos membros posterio-
res. Com 7 dias, morte. Nesse prazo, perda de 200 grs. de peso. A
immunização foi defficiente. A prova foi muito severa, pois 1 , tubo,
verificação posterior, mata em 2 dias (test. IX), com lesões intesti-
naes dysentericas. Na n. 13, foram as dóses fraccionadas. Não havia
poder anti-toxico. Não havia immunidade. Morte em 24 hs. Lesões
intestinaes dysentericas.
As ultimas experiencias deste quadro n. 2 foram effectuadas
em Butantan, com a amostra Fujimoto, com coelhos muito pequenos.
O 14, o 15, o 16 e o 17 não resistiram á immunização. 0 18
sobreviveu á inoculação de 1 2 tubo de cultura per os, da amostra
homologa (test. IX). Sem symptomas, morte passado um mês. O
19 foi sangrado a 7 de junho. Poder agglutinante — não. Poder
neutralizador — sim (prot. n. 4). Immunidade — sim. Passados
28 dias da prova, nova sangria exploradora (15-VII-25). Poder ag-
glutinante — não. Poder neutralizador — sim (prot. 5). Immuni-
dade — sim (prova — dóse mortal de Fujimoto sob a pelle (test. X).
Poder neutralizador do sôro dos coelhos vaccinados per os
Protocollo X. 1 ( referente ás eorps. 1, 2, 3 e 4 do Quadro X. 2).
COELHO
INOCULAÇÃO VENOSA
SYMPTOMAS
RESULTADO
N . Peso
Data
Dóse
I
1.5*)
24-1V-24
0,2 tox. -f* 022 sôro do
coelho 4 (1 h. 37*. »?m
mistura).
nenhum
Sobrevivência
2
1.630
*
0,7 tox. -r 0J2 sôro do
co«lho 3 (1 h. 37», em
mistura).
26-1 V - pare tico
d 2627-1 V
3
1.5SO
0.2 tox. — 0.2 sôro do
coelho 1 (1 h. 37°, em
mistura).
27-1 V - diarrhéa
+ 27-IV-24
4
1.710
>
0,2 tox. 4- 0,2 sôro do
coelho 2 (1 h. 37® f em
mistura).
27- 1 V - paretico
28- 1V - diarrhéa
+ l-V-24
5
Test.
1.790
*
02! de toxina = 1 d. m.m.
27-1 V - tetraplegia,
paralysia geral*
+ 27-1 V
Protocollo X. 2 (referente ás exps. 8, 9, e 10 do Quadro X. 2).
Experiência a 18-XII-23 — Os coelhos inoculados com a mistura
de sôro (1 cc.) e toxina (0,1), incubada lh. a 37°, sobreviveram
todos. O testemunha succumbiu a 21-X1I-24. Na data dessa ex-
periencia, a actividade da toxina era a de 0,1 como minima mortal.
Se augmentamos a dóse de sôro, foi por ser mais vantajoso ao fito
Immunização .per os conlra o B. de Shiça
113
da experiencia. Com mais razão seria excluída a participação de an-
ticorpos na genesis da immunidade, se os coelhos succumbissem.
Se os animaes sobrevivessem, como de facto sobreviveram, nenhuma
duvida ficaria sobre o excesso de anticorpos circulantes, a garantir,
consoante Ehrlich, a immunidade. A duvida persistiu pela falta de
symptomas do testemunha, que succumbiu. A experiencia, no em-
tanto, não ficou invalidada, pelo conhecimento de que a dóse em-
pregada correspondia, mesmo, á minima mortal, por provas frequen-
tes de julgamento do valôr do sòro de cavallos immunizados contra
dysenteria.
Protocollo X. -i (referente ii eap. 12 do Quadro X. 2).
COELHO
INOCULAÇÃO VENOSA
SYMPTOMAS
RESULTADO
N.
Pmo
Data
Dóse
i
1610
18-III-21
0,2 tox. -f 022 róro coa-
lho N. 12 do Quadro 2.
Mistura 1 h..37".
23 III - paresia muito
ligeira dos membros an-
teriores. 21-III • bom.
Sobreviveu
o
1620
18-III21
0,2 tox . -f 0,2 sôro coe-
lho N. 12 do Quadro 2.
Incubação da mistura 1 h.
a 37*.
23-III - ligeira parecia
dos membro* ants.
24 III - pela . I
{•aresia aceentuada ; A
tard<* - tetraplegia.
+ 21 25-111
3
Test. I
1780
15-111-21
0.2 de toxina = 1 d.ru m-
18-11 1 - parai) tico, pe-
la manhã.
+ 16-111-21
4
Test. II
1760
15-111 21
0,2 t . - 0.2 sòro do cav.
133.
17-III - paralytico, pe-
la manhã.
+ 17/18-III 21
Testemunhavam a actividade da toxina, na dóse empregada, as
experiencias effectuadas 3 dias antes, para julgamento do valor
do sòro anti-dysenterico do cavallo 133, em curso de immunização.
O sòro não dosou, pondo claro o poder da toxina.
Protocollo X. -I (referente n ej-p, 20 do Quadro X. 2)
COELHO
INOCULAÇÃO VENOSA
SYMPTOMAS
RESULTADO
Peso
Data
Dóse
. 1
-
7-VI-25
0.2 tôro -f toxina
(mistura 1 h., 37*).
10- VI • («aralysia mem-
bros posts.
+ ll-VI-25
0
7-VI-25
03 sóro -f 03 toxina
(mistura 1 h., 37»)-
Nenhum
Sobreviveu
3
7-VI-25
0,4 sòro — 03 toxina
(mistura 1 h., 37°). *
Nenhum
Sobreviveu
4
-
7-VI-25
0.4 sóro -f 03 toxina
(mistura 1 h. t 37«).
Nenhum
.Sobreviveu
TeM. I
6- VI 25
03 de toxina, sendo 0.4
a dóse minima mortal.
8-VI-2Õ - par. m. post.
+ 9-VI-25
6
Test. II
6-VI-25
03 de toxina.
8-VI-2Ô - par. m. post.
-f 0-VI-2Õ
NOTA — No momento tia in*»culaç.\o do coelho n. 2. a agulha sahiu da veia. indo, assim,
parte da mistura, por via sub-cutan*a. Então, propositalmcntc. reiartimos para o n. 3, a inocula-
ção, parte veuosa, parte sub-dermica.
Metf/rinn do Instituto d* líid(i»düM.
114
Memórias <lu Iustitulu de BuLurtan - Tomo II - Fase. Uaico
Protocollo X. õ (referente n 2.“ sangria do coelho 20 do Quadro X. 2.)
COELHO
INOCULAÇÃO VENOSA
SYMPTOMAS
RESULTADO
N . | Pe*o
Data
Dose
i
Test. I
10Õ0
16-VII-2S
0,1 tox — 1 d.m.m.
18- VII - Par. m. posU.
diarrhéa.
19- VII - Não foi obser-
vado.
+ 19/20-VII
O
970 gr.
16-VII-25
0,2 6Ôro + 0,1 tox. (1 h.
37®)
Xcnhtuu
Sobrevivência
25- VII - 25
(continuava
bom)
3
970
I6-VII-2Õ
0,4 soro + 0,1 tox. (1 h.
37®)
18- VII - Diarrhéa *
19- VII - Não foi obser-
vado.
20- VII - Botu.
Sobrevivência
25- V 11-25
(continuava
bom)
Não se póde af firmar que a immunização per os confira im-
mimidade local, dada a coincidência referida.
A affirmativa de Besredka, de que ella se processava indepen-
dente de anticorpo, é illação duma experiencia mal interpretada.
Excluia a natureza geral da immunidade, por ausência de aggluti-
ninas e de poder anti-infectuoso. Immunizou coelho. Tomou 1 cc.
do sòro deste animal. Injectou em camondongo. Inocula dósc mor-
tal de germe nos dois animaes. 0 coelho sobrevive, o camondongo
morre. Póde indicar a morte deste camondongo que não havia
anticorpos no sòro do coelho? Absolutamente, não. E possível que
1 cc. deste sòro não contenha a quantidade necessária de anticorpos
para impedir a infecção.
É licito concluir-se por esta prova, que o vaccinado resistiu á
infecção sem ser por iuterferencia de anticorpos? Não. Ê possível
que os anticorpos, contidos em toda a massa sanguínea, sejam em
numero capaz de impedir a infecção, que os existentes em lcc. não
conseguem.
Assim sendo, a ausência de poder anti-infectuoso não implica
na inexistência de anticorpos, no sòro do coelho vaccinado.
Este sòro age mais como anti-toxico do que como anti-micro-
biano, e, a determinação do seu teor em anti-toxina, como meio de
julgamento do seu valor, é mais segura pelo estabelecimento do seu
poder neutralizador in vitro (incubação da mistura de sòro e toxina),
do seu poder curativo, in vivo (toxina depois sòro), do que o seu
poder anti-infectuoso, por possível acção directa sobre o germe, por
neutralização da quantidade indeterminada de toxina que delle sahir.
Não se póde estabelecer relação entre os tres poderes do sòro:
neutralizador, curativo, anti-infectuoso. A escolher, para julgamento
não só da existência, mas do titulo de anti-toxina no sòro dos ani-
maes vaccinados, as provas dos poderes neutralizador e curativo
são preferíveis.
A mais simples, a do poder neutralizador, em que fica de lado a
possível causa de erro do grão de avidez da toxina pelos tecidos,
existente na prova de poder curativo, ainda é delicada.
Immunização per os contra o B. de Shiga
U5
Se, por exemplo, 0,2 de sôro neutralizarem Sd.m.m. de toxina,
0,4 não neutralizam 6, e 0,1 pôde neutralizar 2.
Quanto mais se augmentar, proporcionalmente, sôro e toxina,
menos evidente se torna o poder neutralizado r, até que se mostra
nullo. Abaixando-se, occorre o facto inverso.
É preciso fixar a dóse de sôro que neutraliza 1 d.m.m. de
toxina.
A determinação do numero de dóses minimas mortaes neutra-
lizadas informa da riqueza do sôro em anti-toxina. A determinação
da dóse menor de sôro que neutraliza uma mínima mortal nos dá
noticia desse poder. É compreensível que com o mesmo sôro e a
mesma toxina, os resultados variem, a ponto de um negar a existên-
cia de anti-toxina (0.4 de sòro-f-0 d.m.m. de toxina), e outro re-
velá-la (0,1 de sôro + 2 d.m.m. de toxina).
Se, aqui, a prova é delicada, quanto mais com o poder anti-
infectuoso, em que se ignora a quantidade e a actividade da toxina,
produzida pelos germes inoculados.
Não foi, pois, de admirar que também Combiesco, Magheni e
Calalb (»*) verificassem a existência de anti-toxina, no sôro dos seus
animaes entero-vaecinados.
Pelas experiencias, com germe vivo (quadro 1), nos capacitámos:
a) da actividade de três amostras differentes de B. de Shiga; h)
da sua acção electiva sobre o intestino, independendo da via de ino-
culação; c) da sua falta de desenvolvimento no sangue, por hemocul-
tnras procedidas 1 2 e 1 h. após a inoculação venosa, por hemo-
cultura 24 e 48 bs. após inoculação sub-cutanea, por culturas de
sangue do coração, nas necropses «los animaes inoculados por diffe-
rentes vias (todas as exps. em que é feita referencia á necropse);
d) da sua acção segura, por inoculação digestiva.
Com esses dados partimos em busca «la immunidade localizada
ao orgão receptivo, por immunização directa, local, enterica, per os.
Das experiencias de immunização (germe morto) chegámos ás
CONCLUSÕES
1 — Consegue-se immunizar coelhos por via buccal com B.
de Shiga, morto.
2 — Muitos animaes succumbem no decurso da vaccinação, ou
no periodo intercallar de vaccinação e prova de immunidade.
3 — A julgar pela quéda sensível de peso, manifestações dys-
entericas em alguns, lesões em outros, a morte se «lá por intoxicação.
4 — A gravidade «lesta intoxicação depende do estado orgâ-
nico do animal (a coccidiose hepato-intestinal sendo um «los facto-
res de menor resistência); depende das dôses de germe morto; de-
pende «las amostras, havendo grandes differenças de toxicidade entre
uma e outra.
5 — Para o encontro «le amostra pouco toxica e muito immu-
nizante devem se v«dtar as experiencias.
1 10 Memórias do Instituto de Bntantan - Tomo II - Fase. Tniro
0 — Conseguimos immunizar animaes, com uma amostra me-
nos toxica que outra, contra essa outra, mais activa e mais toxica,
hem como contra as duas, em provas separadas.
7 — Temos obtido immunidade solida, com as amostras I.0.C.1
e Fujimoto, contra prova infectuosa por via venosa, sub-cutanea
ou buccal.
8 Sempre que ba immunidade, ha poder anti-toxico do sôro,
com ausência de poder agglutinante.
9 — Quando não ha poder anti-toxico não ha immunidade, nem
mesmo contra a prova por via buccal. Não ha um augmento de re-
sistência local intestinal capaz de impedir a infecção. Nem immuni-
dade local nem geral.
10 — A immunização por via buccal contra a dysenteria é um
processo de immunização geral.
cm
SciELO
0 11 12 13 14 15 16
Immuniz-ição ;«*/■ os conlra o II. <|e Shiga
117
Immunisation per os contre le bacille de Shiga
CONTRIBUTION À L EIUDE DU MECflNISME DE L IMMUHITÉ
PA R I. K
Dií. E d üa H do Va/.
SOMMAIRE
\ prés a vo ir rappelé les différents travaux publiés antérieurc-
ment sur 1’immunité locale, l’A. expose la théorie moderno «lo Bcs-
redka: immunité générale par ses effets, mais d’origine lorale due
à 1’immunisation de 1’organe sensible. ...
Pour étudier le mécanisme intime de 1'immunité locale, l’A.
expose ensuite le résultat «le ses recherches avec le B. «le Shiga.
f e choix de 1’échantillon de B. de Shiga est três important et il
cst avant tout nécessaire d établir les d.m.m. par différentes voies,
hucrale, souscutanée et endoveineuse avec les germes vivants; eer-
tains échantillons sont três toxiques et peu immunisants; il faut
rechercher mi type de faihle pouvoir toxique et de pouvoir antigé-
ni«|ue^e^eve.rencont ré „„ échantillon remplissaiit ces conditions, l’A.
réalisa de nombreuses expériences d inummisation par voie buccale
chez le lapin: chaque animal recevait 3 ou t doses croissantes de
germes morts, à 2 ou 3 jours d’iutervalle; après un délai mini-
nnim de 2 semaines, la preuve d immunité ctait faitc par voie bue-
cale, endoveineuse ou souscutanée avec des germes vivants soit du
mème échantillon, soit «1 origine différente.
Chaque fois que cela füt possible, 1 A. rechercha également
le pouvoir neutralisant i/i vitro, ainsi «juc le pouvoir agglutinant du
serum des animaux immunisés.
De ces expériences l'A. tire les conclusions suivantes:
1 ... Ou peut immuniser des lapins par vote buccale avec. le
B. «le Shiga mort.
o.o _ De nombreux animaux meureut pendant la vaccination.
ou dans 1'intervalle entre la vaccination et la preuve d immunité.
3 .o — A en juger par la perte sensible de poids, «les manifesta-
tions dysentériques chez quelques uns. des lésions chez «1'autres, la
mort se produit par intoxication.
4 _o La gravite de cette intoxication dépend — o) «le l'état
organique de l animal (la cocciiliose hépato intestinale etánt un des
118
Memórias do Instituto de Butantan - Tomo II - Fase. ITnico
facteurs de diminution de la résistance); b ) des doses de germes
morts; c) des échantillons de germes, de grandes différences exis-
tant entre chaque échantillon.
õ.o — Seules des séries d'expérienees permettent de trouver
un échantillon peu toxique et de pouvoir immunisant élévé.
G.° — 11 a été possible d'immuniser des animaux avec un échan-
tillon moins toxique et actif qu'un autre contre ce dernier, ou con-
tre les deux (préuves d’immunité separées).
7.o — Avec 2 échantillons (I.O.C.l e Fujimoto), il a été ob-
tenu une immunité solide contre 1'épreuve d'infection par voie vei-
neuse, souscutanée ou buccale.
8. " — Toutes les fois qifil y a immunité, il y a pouvoir anti-
toxique du serum, mais absence de pouvoir agglutinant.
9. ° — Quand il n'y a pas de pouvoir anti-toxique, il n’y a pas
d’immunité, mème pas contre la preuve par voie buccale; il n'y
a pas d’augmentation de la résistance locale intestinale, capable d'em-
pècher 1’infection. il n'y a ni immunité locale, ni immunité gé-
nerale.
10. » — L’immunisation par voie buccale contre la dysentérie
est une méthode d’immunisation générale.
Trabalhos citados
1 — SUiqa — Ueber die aktive Immunisierung per os Saikingaku-
Zassi, 1908, N.o 38 Apu.l Cenf. f. Bakt., 1909, 1 AbL, Bd. 42.
N.o 1. 3, S. 419.
2 Wassennann and Citron — «Ueber die Bildungastatten der
Typhusimmunkorper — Ein Beitrag zur Frage der lokalen
Immunitat der Gewebe. Zeit. f. Hyg., 1905. Bd. 50, S. 331.
3 Wassennann and Citron Die lokale InununiUit der Ge-
webe und ibre praktische Wichtigkeit — Deut. Med. Woch.,
1905, N.o 15. Apud Hyg. Rund., 1906, N.° 1. S. 193.
I Loeffler — Ueber Immunisierung per os — Gedenkscbrift
fur Budolph V. Leuthold Bd. 1, S. 247. Apud Hyg. Rund.
1906, N." 1, S. 193.
5 Dopter Vaccination anti-dysentérique expérimentale par
les voies digestives . Compt. Bend. Soc. Biol., 16. \ . 1908.
Dopter in Ues dysentéries ».
6 Hesredka — De l'immunité locale > suite et fin)» Buli. Insl.
Past. 1924. t. 22. p. 265.
7 Bruekner Ueber orale Immunisierung Versuche Zeit. f.
Im.. Bd. 8. S. 439 — Apud Cent. f. Bakt., 1911. Bd. 49, S. 550.
Itumunização per os contra o B. de Shiça
119
3 Lippinaiin (II) — «Ueber lokale Immunisierung der Eiu-
eanespforten Infektioneii — Med. Klin.. 1910, A.” 38, S. 11 <t,
Apud Cent. f. Bakt., 1911, Bd. 49, S. Õ49.
y Besredka — «Immunité générale par immunisation locale».
Boi. Inst. Past., 1922, t. 20, Ns. 12 e 13, pp. 475 e 513.
10 Kami — «Dysentery immunisation in rabbits by the oral and
subcutaneous methods». Brit. Med. Journ. Exp. Patli., 1921, 2,
p. 256. Apud Cent. f. Bakt. 1923, Bd. 74, n. 19/20, S. 459.
11 \ r az (E.) — «Dysenteria e immunização anti-dysenterica por
via buccal». Arch. Inst. Vital Brazil, 1924, t. 2, fase. 2, p. 191.
12 _ y az (E.) — «Immunidade local». Rio — Typ. Rev. Trib., 1924.
13 Combiesco — Maghcru et Calalb — «Vaccination préventive
cbntre la dysentérie par voie digestive, cliez le lapin > Compt.
Rend. Soc. Biol. 1923, 88, n.« 12, p. 904.
Trabalho recebido para publicarão em 25 . VII. 192».
SciELO
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