ISSN 0073 - 9901
MIBUAH
GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO
SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE
COORDENAÇÃO DOS INSTITUTOS DE PESQUISA
INSTITUTO BUTANTAN
SÃO PAULO, SP - BRASIL
Memórias
do
Instituto
Butantan
VOLUME 50 NÚMERO 2, 1988
As “MEMÓRIAS DO INSTITUTO BUTANTAN" têm por finalidade a apre¬
sentação de trabalhos originais que contribuam para o progresso nos campos das
Ciências Biológicas, Médicas e Químicas, elaborados por especialistas nacionais
e estrangeiros.
São publicadas sob a orientação da Comissão Editorial, sendo que os con¬
ceitos emitidos são de inteira responsabilidade dos autores.
The “MEMÓRIAS DO INSTITUTO BUTANTAN” are the vehicle of com-
munication for original papers written by national and foreign specialists who
contribute to the progress of Biological, Medicai and Chemical Sciences.
They are published under the direction of the Editorial Board which assu¬
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MEMÓRIAS do INSTITUTO BUTANTAN. (Secretaria de Estado da Saúde)
São Paulo, SP — Brasil, 1918 —
1918 - 1983/84, 1-47/48
Publicação interrompida de 1985 a 1986.
1987, 49(1-3)
1988, 50(1-2
ISSN 0073-9901
MIBUAH CDD 614.07205
Solicita-se permuta / Exchange desired
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50 ( 2 ), 1988
SUMÁRIO/SUMMARY
Sobre uma rara anomalia em genitália de Lutzomyia migonei
(França, 1920) (Diptera — Psychodidae — Phlebotominae).
About a rare anomaly in genitalia of Lutzomyia migonei ( França,
1920) (Diptera — Psychodidae — Phlebotominae).
Roberto Henrique Pinto MORAES; Rosa Maria de Oliveira VEI¬
GA .
Identificação e caracterização de manitol em Sargassum
cymosum Agardh, uma alga parda do litoral brasileiro.
Identification and characterization of mannitol in Sargassum
cymosum Agardh, a brown algae from the coast of south-eastern
Brazil.
Amabile Kazuko MATIDA; Raymond ZELNIK; Enrico C. de
OLIVEIRA.
Osteologia comparada de duas espécies do gênero
Crossodactytodes Cochran, 1938 (Amphibia, Anura, Leptodactyli-
dae).
Comparative osteology of two species of the genus
Crossodactylodes Cochran, 1938 (Amphibia, Anura, Leptodactyli-
dae).
Norma GOMES .
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SOBRE UMA RARA ANOMALIA EM GENITÁLIA DE
LUTZOMYIA MIGONEK FRANÇA, 1920)*
(DIPTERA — PSYCHODIDAE — PHLEBOTOMINAE)
Roberto Henrique Pinto MORAES**
Rosa Maria de Oliveira VEIGA**
RESUMO: Os autores descrevem uma anomalia na genitália de um
exemplar fêmea de Lutzomyia migonei. Capturado em levantamento en-
tomológico do Horto Oswaldo Cruz do Instituto Butantan, São Paulo,
Brasil, após diafanização, verifícou-se que o inseto apresenta três esper-
matecas. Examinados outros caracteres utilizados na classificação siste¬
mática: palpos, cibário, antenas, venação das asas etc., não se verificou
a ocorrência de nenhuma alteração morfológica. Consultada a bibliogra¬
fia especializada, constatou-se ser tal anomalia rara em flebotomíneos e
inédita nesta espécie.
São apresentados fotomicrografias e desenho esquemático.
PALAVRAS-CHAVE: Phlebotominae; Lutzomyia migonei', espermateca;
anomalia.
INTRODUÇÃO
As anomalias congênitas em flebotomíneos, assinaladas por vários au¬
tores, consistem em: nanismo do inseto; redução das nervuras das asas;
redução das asas; desaparição total de uma das asas; deformação dos seg¬
mentos palpais ou antenais; intersexualismo; deformações das gonapófi-
ses superior, média e inferior e, mais freqüentemente, alteração do número
de espinhos do dististilo, podendo ser um ou bilateral. (Barreto 1 ; Forattini 2 ;
Sherlock 4 ' 5 )
Em geral, as anomalias citadas referem-se a exemplares machos, cria¬
dos em laboratório ou coletados na natureza.
As citações sobre anomalias em genitália feminina são poucas,
destacando-se o trabalho de Sherlock 4 , referente à presença de um tubér¬
culo saliente em forma de dististilo com dois espinhos, situado no dorso do
9.° segmento.
' Trabalho apresentado no XIV Congresso Brasileiro de Zoologia, Juiz de Fora - MG, 1987.
" Seção de Parasitologia, Instituto Butantan. CP 65, 01051 - São Paulo — SP.
MORAES, R.H.P. & VEIGA, R.M.O. Sobre uma rara anomalia em genitália de Lutzomyia migonei
(França, 1920) (Diptera — Psychodidae — Phlebotominae). Mem. Inst. Butantan, 50(2): 41-45,
1988.
Mais raras ainda são as malformações observadas nas espermatecas
propriamente ditas.
Uma das únicas citações sobre esse tipo de anomalia é feita por Fraga
de Azevedo 3 , em 1946, sobre o encontro de três espermatecas em um
exemplar de Phlebotomus perniciosus, coletado em Portugal nos arredores
de Lisboa.
Em 1986, durante levantamento flebotomínico no Horto Oswaldo Cruz
do Instituto Butantan, os autores do presente trabalho assinalam, pela pri¬
meira vez em Lutzomyia migonei, o mesmo tipo de anomalia observada por
Fraga de Azevedo.
DESCRIÇÃO DA ANOMALIA
Dos 17.895 exemplares coletados no período de outubro de 85 a outu¬
bro de 87 foram identificados 2.042; destes, apenas uma fêmea de
Lutzomyia migonei, coletada em 07.05.85 com armadilha luminosa, apre¬
sentou anomalia.
Após diafanização, constatou-se a presença de uma espermateca a
mais que a princípio seu corpo pareceu-nos de morfologia semelhante ao
das outras duas, porém, posteriormente, devido a uma descoloração do
material, o exemplar foi desmontado e corado novamente, ocasião em que
pudemos comprovar ser esse de menor tamanho, lembrando uma estrutu¬
ra atrofiada.
Para mefhor visualização da anomalia, adotamos uma numeração para
as espermatecas, tendo como parâmetro a forquilha genital: espermateca 1
— situada à esquerda da forquilha genital; espermateca 2 — situada à direi¬
ta da forquilha genital; espermateca 3 — situada à direita da forquilha geni-
FIGURA 1 — Desenho esquemático da terminália de Lutzomyia migonei apresentando as
espermatecas numeradas, fg — Forquilha genital.
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MORAES, R.H.P. & VEIGA, R.M.O. Sobre uma rara anomalia em genitália de Lutzomyia migonei
(França, 1920) (Diptera — Psychodidae — Phlebotominae). Mem. Inst. Butantan, 50(2): 41-45,
1988.
O duto comum não foi possível observá-lo, visto que a forquilha genital
encontra-se sobre ele. O duto individual da espermateca 1 aparenta ser de
comprimento menor que o das outras duas. Contudo, este fato não pode
ser constatado, em virtude da forquilha genital situar-se sobre o seu início.
Os trajetos que os dutos individuais das três espermatecas descrevem po¬
dem ser apreciados nas fotos 1 e 2 e figura 1. O corpo da espermateca 1 e
da 2 são de tamanhos equivalentes, enquanto que o da 3 é menor que es¬
tes.
Devido as três espermatecas encontrarem-se em planos diferentes, fez-
se necessário um ajuste micrométrico para a focalização de cada uma de¬
las, o que pode ser observado nas duas fotografias.
Quanto aos outros caracteres utilizados na classificação sistemática,
não se observou nenhuma alteração, estando a anomalia restrita apenas às
espermatecas.
O exemplar estudado encontra-se depositado na Coleção Entomológica
da Seção de Parasitologia do Instituto Butantan, sob n.° 0278.
FOTO 1 - Espermateca 1 focalizada e espermatecas 2 e 3 semi focalizadas (312,5 x).
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(França, 1920) (Diptera — Psychodidae — Phlebotominae). Mem. Inst. Butantan, 50(2): 41-45,
1988.
Foto 2 — Espermatecas 1 e 3 focalizadas e espermateca 2 desfocada (312,5 x)
CONCLUSÃO
Tendo em vista a bibliografia consultada, os autores concluem ser esta
anomalia rara e inédita em Lutzomyia migonei (França, 1920).
AGRADECIMENTOS
À Dra. Eumce A. B. Galati, do Depto. de Epidemiologia da Faculdade
de Saúde Pública da USP, pelas sugestões apresentadas.
Ao Dr. Fernando de A. Corrêa, do Lab. Especial de Zoonoses e Ende¬
mias Parasitárias do Instituto Butantan, pela contribuição bibliográfica.
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MORAES, R.H.P. & VEIGA, R.M.O. Sobre uma rara anomalia em genitália de Lutzomyia migonei
(França, 1920) (Diptera — Psychodidae — Phlebotominae). Mem. Inst. Butantan, 50(2): 41-45,
1988.
ABSTRACT : The authors describe a rare anomaly found in a female spe-
cimen of Lutzomyia migonei. The msect.was captured during a survey in
the Horto Oswaldo Cruz of the Institute Butantan, São Paulo, Brazil. Af-
ter diaphanization it was observed that the insect had three spermathe-
cae. No morphological alteratlons were found in the other characteristics
used in Systematics, such as palpi, cibarium, antennae, wing venation
etc. According to the pertinent literature, this type of anomaly is rare in
the Phlebotominae and is reported here for the first time for the species.
Microphotos and schematic drawings are presented as well.
KEYWORDS: Phlebotominae; Lutzomyia migonei; spermathecae; ano¬
maly.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Anomalias observadas na terminália do macho de P. alphabeticus Fonseca, 1936 e de
algumas outras espécies. (Diptera, Psychodidae) Rev. Med. Cir. do Brasil, 57:703-
710, 1943.
2. FORATTINI, O. P. Nota sobre anomalia observada na genitália masculina de
Phlebotomus whitmani Antunes Et Coutinho, 1939. (Diptera — Psychodidae). Folia
Clínica et Biologica, 2 7(6): 353-356, 1954.
3. FRAGA DE AZEVEDO, J. Uma anomalia rara verificada numa fêmea de Phlebotomus
perniciosus. An. Inst. Med. Trop. de Lisboa, 3: 183-186, 1946.
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- Psychodidae). Rev. Brasil. Biol., 7S(4):433-437, 1958.
5. SHERLOCK, I. A. Variability of the genitalia of Phlebotomus bahiensis. (Diptera,
Psychodidae). Rev. Brasil. Biol., 23(11:49-53, 1963.
Recebido para publicação em 22/02/1988 e aceito em 27/04/1988.
Mem. Inst. Butantan
50 ( 21 : 47 - 50 , 1988 .
IDENTIFICAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DE MANITOL
EM SARGASSUM CYMOSUM AGARDH, UMA
ALGA PARDA DO LITORAL BRASILEIRO.
Amabile Kazuko MATIDA* *
Raymond ZELNIK*
EuricoC.de OLIVEIRA**
RESUMO: A ocorrência do manitol foi constatada nos extratos acetônico
e etanólico de Sargassum cymosum (Phaeophyta) e sua identificação
realizada através de dados espectrais no infravermelho e comparação
direta com amostra padrão.
PALAVRAS-CHAVE: Sargassum cymosum Agardh; Phaeophyta; alga
parda; manitol.
INTRODUÇÃO
O Brasil tem uma larga tradição no estudo de suas algas marinhas (Oli¬
veira 8 ). Embora tenham sido assinaladas em nossas costas marinhas várias
espécies de potencial econômico, e algumas venham sendo explotadas há
décadas para a produção de mucilagens (Oliveira 9 ), poucos são os traba¬
lhos que tratam da extração e identificação de seus produtos químicos (Oli¬
veira 10 ).
No que diz respeito ao grupo das Phaeophyta (algas pardas), cabe men¬
cionar os trabalhos de Mandelli 5 que analisou o teor de proteínas, alginato,
cinza e iodo de três espécies de algas pardas, inclusive de Sargassum
cymosum: de Gallotti 2 que determinou o teor de iodo da referida espécie;
de Bastos et ai 1 sobre o teor protéico e de cálcio, ferro, fósforo e cloretos;
de Yokoyama e Guimarães 18 , também quanto ao teor de proteínas, sódio,
fósforo e potássio; de Oliveira e Paula 11 sobre o conteúdo de alginato e o
potencial de explotação de Sargassum cymosum no litoral de São Paulo;
de Oliveira e Quége 12 sobre o rendimento de alginato das espécies brasilei¬
ras de Laminaria: e de Teixeira et al . 75 - 76 sobre diterpenos extraídos de
espécies de Dictyota. Além destes trabalhos alguns ensaios têm sido reali¬
zados sobre a ocorrência de antibióticos em algumas espécies (e.g.
Pinheiro-Vieira e Caland-Noronha 13 ).
' Serviço de Qufmica Orgânica, Instituto Butantan.
• * Centro de Biologia Marinha e Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.
MATIDA, A.K.; ZELNIK, R.; OLIVEIRA, E.C. de. Identificação e caracterização de manitol em
Sargassun cymosum Agardh, uma alga parda do litoral brasileiro. Mem. Inst. Butantan,
50(21:47-50, 1988.
Iniciando um programa de estudos sobre produtos químicos de algas
brasileiras, apresentam-se aqui os primeiros resultados com Sargassum
cymosum, espécies de alga parda comum e abundante na costa brasileira,
que ocorre com expressiva biomassa no litoral de São Paulo 11 .
MATERIAL E MÉTODO
Os pontos de fusão foram determinados em Bloco Kofler-Reichert. Os
espectros no infravermelho (I.V.) foram registrados no espectrofotômetro
Perkin-Elmer 727-B. As algas utilizadas na elaboração do trabalho foram
coletadas em julho de 1985, em Ubatuba, litoral norte do Estado de S. Pau¬
lo, onde foram secas ao ar e transportadas para o laboratório (S. Paulo).
Tendo sido verificada a presença de espécies parasitas de pequenas al¬
gas, moluscos e crustáceos no material (2,0 Kg), este foi mergulhado em
hexano (7 litros) e estes contaminantes foram separados manualmente,
restando 450,0g de matéria-prima. Esta foi triturada e a seguir refluxada pri¬
meiro em acetona (2x6 litros) e depois em etanol (5x6 litros). Após a fil¬
tração as soluções foram concentradas em banho-maria sob pressão redu¬
zida, fornecendo 2,4g de extrato acetônico e 20,3g de extrato etanólico.
No decorrer destas operações, ocorreu a formação de cristais brancos em
forma de agulhas que aderiram à parede do balão, sendo separados por fil¬
tração, dando 3,8g de um produto de p.f. 145-166.°, que após recristaliza-
ção em metanol, passou a fundir entre 165-168.°.
Os extratos acetônico e etanólico foram tratados, separadamente, com
hexano quente, a fim de eliminar pigmentos e lipídeos, formando-se preci¬
pitados. A cromatografia em camada delgada (C.C.D.) tendo apontado a
semelhança na composição destes precipitados, estes foram reunidos dan¬
do um total de 16,7g. Uma alíquota deste (3,0g) foi submetida ao fraciona¬
mento cromatográfico em coluna de gel de Sílica (Merck 0,05-0,2mm). Dos
eluatos de acetato de etila-metanol (4:1), foi obtido um produto (365 mg)
que após cristalização em metanol forneceu um composto de p.f. 165-
168.°.
Este produto é idêntico ao composto de p.f. 165-168.° separado duran¬
te o processo de concentração dos extratos, uma vez que ambos apresen¬
tam o mesmo F f na C.C.D. e que o p.f. da mistura não é abaixado.
DISCUSSÃO
Os extratos acetônico e etanólico de Sargassum cymosum forneceram,
principalmente, uma substância cristalina de p.f. 165-168.°. Como o espec¬
tro no infravermelho registrou uma banda larga em 3380-3270cm 1 , carac¬
terística de grupo hidroxila, o produto foi acetilado pelo método usual (ani-
drido acético/piridina) fornecendo um derivado acetilado de p.f. 120-122.°;
no infravermelho a banda de absorção em torno de SSOOcrrr 1 foi substituída
por um pico em 1740cm 1 indicativo de grupo éster.
Tendo em vista o fato da literatura química referir-se à presença de ma¬
nitol em várias espécies de algas pardas 6 , inclusive do gênero Sargassum
de outras zonas marítimas do mundo 4 ' 6 , fato aliado à semelhança das ca¬
racterísticas fisico-químicas entre o manitol e o produto acima descrito, as¬
sim como entre o hexaacetato de manitol e o derivado acetilado, foi efetua¬
da a comparação direta (p.f. de mistura, I.V., C.C.D.) com amostras pa-
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Sargassum cymosum Agardh, uma alga parda do litoral brasileiro. Mem. Inst. Butantan,
50(21:47-50, 1988.
drões, estabelecendo deste modo a identidade do produto isolado de
Sargassum cymossum como sendo o manitol 7 .
O manitol é um hexitol que ocorre no suco celular de algas pardas. Sua
concentração varia de 2 a 30% em diferentes gêneros e espécies 4 , assim
como nas mesmas espécies coletadas em diferentes locais e épocas do
ano 6 . Juntamente com outras substâncias de importância econômica (algi-
natos e laminaranas) extraídas de algas pardas, o manitol tem sido ampla¬
mente utilizado nas indústrias 3 : na manufatura de condensadores eletrolíti-
cos secos; na produção de resinas artificiais; na fabricação de explosivos
(hexanitrato); na preparação de alimentos para diabéticos e como
diurético 4 ’ 7 .
RESULTADO
Manitol 7: agulhas brancas, p.f. 165-168° (MeOH) (lit. 17 : 166-167.°);
v KBr cm' 1 3380-3270(OH), 1260, 1080 e 1020.
max
Rendimento: 5,83g (1,3% em relação ao peso do vegetal seco).
Hexaacetato2: p.f. 120-122° (CHCI 3 -MeOH) (lit. 17 122-123.°);
v KBr cm 1 ; 1740 (éster), 1370, 1225 e 1035
max
CH 2 OR
I
RO-CH
I
RO-CH
I
HC-OR
I
HC-OR
I
CH 2 OR
7 — R = H
2 — R = COCH 3
CONCLUSÃO
Os resultados quantitativos obtidos para o manitol (1,3%) situam-se
abaixo dos valores esperados, o que eventualmente poderá ser alterado
com uma otimização metodológica e com análises em outras épocas do
ano, uma vez que o rendimento varia sazonalmente 4 . Em virtude do Brasil
ter importado quantidades apreciáveis de manitol (1.314Kg no período de
1982-85, sendo 593kg para a indústria de semicondutores)*, justificam-se
novas pesquisas nesta área, visando conhecer o rendimento em manitol
nas outras espécies de algas da costa brasileira e sua variação ao longo do
ano.
'Dados fornecidos pela Carteira do Comércio Exterior do Banco do Brasil.
MATIDA, A.K.; ZELNIK, R.; OLIVEIRA, E.C. de. Identificação e caracterização de manitol em
Sargassum cymosum Agardh, uma alga parda do litoral brasileiro. Mem. Inst. Butantan,
50 ( 21 : 47 - 50 , 1988 .
AGRADECIMENTOS
Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo pelo auxílio financeiro (84/1813-4), ao Professor Thuioshi loneda, do
Instituto de Química da USP, por uma amostra de manitol e ao Sr. Jovelino
Francisco da Silva, pelos valiosos serviços técnicos prestados.
ABSTRACT: The occurrence of mannitol in the acetonic and ethanolic
extracts of the brown algae, Sargassum cymosum Agardh, is recorded in
this paper.
KEYWORDS: Sargassum cymosum Agardh; Phaeophyta; brown algae;
mannitol.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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farinha de algas marinhas. Arq. Ciênc. Mar., Univ. Fed. Ceará, 77:159-160, 1971.
2. GALLOTI, B.J. Pesquisa e determinação de iodo em algas marinhas que ocorrem nas
regiões costeiras dos Estados do Paraná e Santa Catarina. Trib. farm., 38. 22-25,
1970.
3. HOPPE, A.H.; LEVRING, T.; TANAKA, Y. Marine algae in pharmaceutical Science, Ber-
lin, W. de Gruyter, 1979.
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utilization. Hamburg, Gram. de Gruyter and C.°, 1969.
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8. OLIVEIRA, E.C. Algas marinhas bentônicas do Brasil. São Paulo, 1977. Tese-
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9. OLIVEIRA, E.C. A exploração de algas marinhas no Brasil; situação atual e perspectivas
futuras. Phycol. lat. amer., 7:5-18, 1981.
10. OLIVEIRA, E.C. Algas marinhas; da exploração aleatória ao cultivo racional, In: CON¬
GRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA DE PESCA, 2. Recife, 1981. Anais. p. 11-
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Recebido para publicação em 08/01 /1988 e aceito em 05/07/1988.
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50(21:51-61, 1988.
OSTEOLOGIA COMPARADA DE DUAS ESPÉCIES
DO GÊNERO CROSS ODA CTYLODES
COCHRAN, 1938 (AMPHIBIA, ANURA, LEPTODACTYLIDAE)
Norma GOMES*
RESUMO: Descreve-se a osteologia de duas espécies de
Crossodactylodes. As principais diferenças são: 1) no crânio: pré-
vômeres com dentes em C. bokermanni, sem dentes em C. izecksohni-, 2)
fusão da última vértebra pré-sacral com a sacral em C. izecksohni', 3) fu¬
são da clavícula e escápula em C. izecksohni: 4) úmero com grandes cris¬
tas em C. izecksohnr, 5) mão com pré-polex em machos e fêmeas de C.
izecksohni.
PALAVRAS-CHAVE: Osteologia comparada, Crossodactylodes
bokermanni, Crossodactylodes izecksohni.
INTRODUÇÃO
O gênero Crossodactylodes Cochran, 1938, era considerado monoes-
pecífico, com a espécie pintoi, até 1982 quando Peixoto descreveu mais
duas espécies, izecksohni e bokermanni.
A localidade-tipo de Crossodactylodes pmtoi é Macaé, Rio de Janeiro,
enquanto as duas espécies descritas por Peixoto foram coletadas em tre¬
cho de mata Atlântica na região de Santa Tereza, Espírito Santo, em bro-
mélias epífitas e terrestres.
Aspectos da osteologia destas duas espécies chamaram atenção por
sua acentuada diferença, justificando, por isso, uma descrição comparati¬
va.
MATERIAL E MÉTODO
Todo material utilizado foi coletado por O.L. Peixoto em um trecho de
mata Atlântica na região de Santa Tereza, ES.
Foram utilizados para dissecção exemplares diafamzados e coloridos
por alizarina red-s ou conservados em álcool. As ilustrações foram feitas
‘Museu de Zoologia, Universidade de São Paulo. Av. Nazaré, 481 — 04263 — São Paulo - SP.
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(Amphibia, Anura, Leptodactylidae). Mem. Inst. Butantan, 50(21:51-61, 1988.
sob lupa binocular, com base em fotografias ampliadas (8x) dos exempla¬
res diafanizados.
A variação do comprimento rostro-anal do material examinado foi a se¬
guinte: C. bokermanm, cJc?14,0 a 17,0mm,?Ç 13,0 a 14,0mm; C. izecksohni
üp'4,0a 14,3rmm,9? 13,0 a 14,0mm.
RESULTADOS
O crânio de Crossodactylodes, em função de suas amplas aberturas,
tem aparência frágil; é mais largo que longo e, em vista lateral, é pouco ele¬
vado.
O crânio de C. bokermanm é ligeiramente mais alongado que o de C.
izecksohni e em vista lateral apresenta-se mais achatado.
Numa rápida descrição dos ossos do crânio serão ressaltadas as dife¬
renças apresentadas pelas duas espécies.
A pré-maxila tem o processo alar dirigido em sentido posterior, o pro¬
cesso palatino alongado e uma linha de dentes na superfície ventral.
A maxila possui dentes na sua lâmina ventral, dorsalmente é pouco ex¬
pandida e posteriormente estende-se em forma de barra.
O nasal é grosseiramente retangular, com bordas ligeiramente arredon¬
dadas, que não entram em contato estreito, medialmente entre si, nem
posteriormente com os fronto-parietais.
O fronto-panetal não apresenta fontanella, recobrindo por completo o
esfenoetmoide, o contato medial é fraco. Refletindo a forma geral do crâ¬
nio, o fronto-panetal é mais alongado em C. bokermanm e a sutura fronto-
parietal-otoccipital faz-se através de uma linha mais alongada e inclinada
em relação à linha média dorsal do crânio.
O escamosal, trirradiado, mostra diferença quanto à proporção de seus
processos, entre as duas espécies. Em C. izecksohni os processos são mais
longos; em vista dorsal (fig. 1, I), observa-se que a extremidade do proces¬
so zigomático fica próxima ao angulo formado pelo contato maxila-
pterigoide.
Os pré-vômeres, bastante reduzidos, ficam separados medialmente.
Em C. izecksohni, são mais largos anteriormente, não possuindo dentes;
em C. bokermanm, possuem dentes na porção posterior que se apoia sobre
o esfenoetmoide.
O par de palatinos, reduzido a uma barra situada entre a maxila e o esfe¬
noetmoide, é amplamente separado medialmente.
O pterigoide tem o processo anterior alongado, alcançando a maxila
próximo ao contato desta com o palatino; o processo medial curto entra
em contato com a cápsula ótica (proótico), imediatamente posterior ao
forame-proótico; o processo posterior fica em contato com quadrado-jugal
ao nível da articulação mandibular.
O parasfenoide diferencia-se nas duas espécies associado à forma geral
do crânio. Em C. bokermanm é mais alongado e delgado; em C. izecksohni
é mais largo desde a extremidade anterior até as expansões laterais, que
dispõem-se em ângulo reto, ao passo que em C. bokermanm formam ân¬
gulos obtusos.
Nas duas espécies o parasfenoide recobre ventralmente o neurocrânio,
de modo que este só aparece na porção anterior do assoalho craniano co¬
mo esfenoetmoide e lateralmente como parte do proótico; em nenhuma
das espécies o osso chega à altura da base dos pré-vômeres.
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GOMES, N. Osteologia comparada de duas espécies do gênero Crossodactylodes Cochran, 1938
(Amphibia, Anura, Leptodactylidae). Mem. Inst. Butantan, 50(2): 51-61,1988.
O quadrado-jugal reduzido, situa-se ao nível da articulação mandibular
entre a extremidade posterior da maxila e o processo ótico do escamosal.
O esfenoetmoide só é observado em vista ventral e lateral do crânio
(fig. 1, II e III); dorsalmente é todo recoberto pelo fronto-parietal.
A
B
Figura 1. Crânio e mandíbula. A- C. bokermanni, B- C. izecksohni, I. vista dorsal, II. vista
ventral, III. vista lateral, IV. vista dorsal da mandíbula de C. bokermanni: a- angular, co-
côndilo occipital, d- dentário, es- escamosal, es,- ramo ótico, es 2 - ramo ventral, es 3 - ramo
zigótico, esf- esfenoetmóide, fo- forame occipital, foi?- forame óptico, fp- fronto parietal,
fpo- forame proótico, mx- maxila, n-nasal, o- otocciptal, pa- palatino, pm- pré-maxila, po-
proótico, ps- parasfenóide, pt- pterigóide, pv- pré-vômer, qj- quadrado-jugal, s- sinficial
(Cartilagem de Meckel).
Errata:
GOMES, N. Osteologia comparada de duas espécies do gênero Crossodactylodes Cochran, 1938 (Am-
phibia, Anura, Leptodactylidae). Mem. Inst. Butantan, 50(2):51 -61, 1988.
As figuras 1 e 3, páginas 53 e 57 foram reduzidas em 28 e 39%, respectivamente, a critério da gráfica edi¬
tora.
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GOMES, N. Osteologia comparada de duas espécies do gênero Crossodactylodes Cochran, 1938
(Amphibia, Anura, Leptodactylidae). Mem. Inst. Inst. Butantan, 50(2): 51-61,1988.
Em C. izecksohni, onde o parasfenoide é ligeiramente mais curto, o es-
fenoetmoide pode ser visto um pouco mais anteriormente.
O octoccipital, fusão do proótico e exoccipitai, forma dorsalmente pla¬
cas retangulares, situadas de ambos os lados dos bordos posteriores do
fronto-parietal. Em vista ventral e lateral do crânio pode-se observar a por¬
ção correspondente ao proótico, que forma também as cápsulas auditivas.
O exoccipitai corresponde à porção mais posterior que inclui o côndilo oc¬
cipital.
A diferença entre as duas espécies se reflete na placa dorsal e no côndi-
lo occipital. A placa dorsal é mais alongada e estreita em C. bokermanni
formando um retângulo; em C. izecksohni é quase tão larga quanto longa.
A abertura do côndilo occipital é mais pronunciada em C. izecksohni, sen¬
do mais larga e escavada.
A columela está ausente nas duas espécies.
Mandíbula (fig. 1, IV)
A mandíbula alongada, em forma de uma barra arqueada anteriormen¬
te, não apresenta nenhuma variação especial; o sinficial é arredondado, a
porção articular formada pelo angular é levemente dilatada.
Hioide (fig. 2, I)
O hioide, situado dorsalmente à placa ventral da cintura escapular (epi-
coracoide e omosterno), consiste de uma placa relativamente bem desen¬
volvida, em forma de escudo, com as córnuas anteriores e posteriores ra¬
zoavelmente expandidas.
As córnuas posteriores, ósseas, são separadas medialmente; sendo em
exemplares diafanizados os únicos elementos que se tornam coloridos, o
restante da estrutura é translúcido.
A diferença apresentada pelo hioide nas duas espécies de
Crossodactylodes é quanto à disposição geral; em C. bokermanni é mais
alongado, em C. izecksohni tem aspecto mais robusto com suas córnuas
posteriores estendendo-se mais no sentido lateral do que no ventral.
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A
B
I
Figura 2. Hióide e coluna vertebral. A- C. bokermanni, B- C. izecksohni, I e II. vista ventral,
III. vista dorsal: u- uróstilo (cocxi), vs- vértebra sacral.
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(Amphibia, Anura, Leptodactylidae). Mem. Inst. Butantan, 50(2): 51-61,1988.
A coluna vertebral, constituída por nove vértebras procélicas, mostra
uma notável diferença entre as duas espécies; em C. izecksohni há fusão
da última pré-sacral com a sacral. Anteriormente não ocorre fusão em ne¬
nhuma das duas espécies, a vértebra cervical e a segunda vértebra pré-
sacral são separadas.
A vértebra cervical é mais alta do que as demais e não possui processo
transverso; os processos transversos das vértebras 3 e 4 são mais expandi¬
dos lateralmente, mais expandidos até que o processo transverso das sa-
crais.
Vértebra sacral (fig. 2 e 3)
A vértebra sacral é marcadamente diferente nas duas espécies.
A primeira diferença, assinalada acima, consiste na fusão da sacral com
a última vértebra pré-sacral em C. izecksohni.
A segunda diferença reside na dilatação da diapófise sacral. Em C.
bokermanni não há praticamente dilatação, as diapófises são cilíndricas e o
contato com o ílio é mínimo; em C. izecksohni a diapófise é dilatada, as ex¬
tremidades do ílio repousam em pelo menos 1 /3 de sua superfície ventral.
Cintura peitoral (fig. 3, I)
A cintura peitoral difere bastante nas duas espécies de
Crossodactylodes. A diferença está associada tanto à forma geral, quanto
à variação individual dos componentes.
No aspecto geral pode-se dizer que C. izecksohni tem uma cintura pei¬
toral mais compacta, com os elementos ósseos mais desenvolvidos, ao
passo que C. bokermanni apresenta uma cintura de aparência mais frágil.
Há variação nos elementos cartilaginosos, incluindo aqui omosterno e
esterno, e também nos elementos ósseos.
O par de cartilagens que forma os epicoracoides superpõe-se na altura
da linha média ventral, podendo-se observar que há variação individual, ora
o lado direito recobre o esquerdo, ora ocorre o oposto. Outra diferença,
quanto ao epicoracoide, é mais curto e largo em C. bokermanni, em C.
izecksohnié alongado e estreito.
Em relação ao omosterno e esterno, em C. bokermanni estes se desen¬
volvem mais no sentido da altura dando à estrutura toda uma forma mais
alongada. Estas cartilagens têm forma aproximadamente triangular e pode-
se dizer que em C. izecksohni os triângulos são mais próximos a equiláte¬
ros, suas formas são portanto mais achatadas.
Quanto aos elementos ósseos a maior diferença está na fusão da escá¬
pula e clavícula que ocorre em C. izecksohni, não havendo sutura aparente
entre estes dois ossos.
Outra diferença está na presença de uma crista, bem desenvolvida, que
se estende de forma quase contínua na clavícula, escápula e supra-
escápula de C. izecksohni-, a estrutura na supra-escápula de C. izecksohni
deve corresponder ao cleithrum. Em C. bokermanni a crista só aparece na
clavícula.
Ainda quanto à supra-escápula, apresenta uma superfície de ossifica-
ção mais desenvolvida em C. izecksohni ; o coracoide também é mais ro¬
busto nesta espécie.
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B
A
st
II
III
eav
Figura 3. Cinturas. A- C. bokermanni, B- C. izecksohni, I. vista ventral da cintura peitoral, II.
vista ventral da cintura pélvica e vértebra sacral, III. vista lateral direita da cintura pélvica: cl-
clavícula, cr-coracóide, ct- cleithrum, e- escápula, ead- expansão acetabular dorsal, eav. ex¬
pansão acetabular ventral, ep-epicoracóide, fa- fossa acetabular, fg- fossa glenóide, i- ílio,
is-Isquio, om- omosterno, se- supra-escápula, st- esterno, vs- vértebra sacral.
A cintura pélvica não apresenta, praticamente, diferenças entre as duas
espécies.
Ambas têm ílio alongado, sem cristas dorsais, as duas apresentam
grande fusão dos elementos ósseos e variam pouco na região acetabular.
C. izecksohni tem as expansões acetabulares dorsal e ventral (nomenclatu¬
ra de Lynch 2 ) ligeiramente mais proeminentes, e o encontro destas se faz
através de uma linha mais curva.
Membros
Membro anterior (fig. 4)
Há uma diferença marcante no desenvolvimento do membro anterior
nas duas espécies, refletida pelo úmero e pela mão.
O úmero do macho de C. izecksohni é altamente modificado pela pre¬
sença de cristas bem proeminentes; o úmero da fêmea não difere do de C.
bokermanni, é alongado como um úmero típico de anuro.
A mão diferencia-se pela presença de um pré-polex bem desenvolvido
no macho de C. izecksohni; e, embora Lynch 2 afirme que esse caráter não
se manifesta nas fêmeas, o pré-polex está presente nas fêmeas de C.
izecksohni, ainda que pouco evidente.
Em C. bokermanni a presença do pré-polex é variável no macho, quan¬
do presente é pouco desenvolvido; na fêmea está sempre ausente.
A mão é alongada nas duas espécies, com a forma falangeal 2-2-3-3; as
falanges terminais são em forma de T.
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(Amphibia, Anura, Leptodactylidae). Mem. Inst. Butantan, 50(2): 51-61, 1988.
Membro posterior (fig. 5)
Não há, praticamente, diferenças entre os ossos que constituem o
membro posterior nas duas espécies de Crossodactylodes, exceto, como
observado nos demais ossos, estes parecem mais robustos em C.
izecksohni. O pé com cinco dedos tem a forma falangeal de 2-3-3-4-3, as
falanges terminais têm a forma de T.
G)
íl
'0
B
Figura 5. Membro posterior. A- C. bokermanni, B- C. izecksohni, I- fêmur, II. tíbia e fíbula,
III. pé: f- fibulare, ti-tibiale, mt- metatarsais.
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DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
Lynch 2 acentua, através da análise cuidadosa de uma grande série de
caracteres osteológicos, a importância dos mesmos em diagnósticos a
nível de sub-fámílias, famílias e gêneros. Por essa razão, considero neces¬
sário ressaltar as diferenças encontradas entre as duas espécies de
Crossodactylodes.
A variação dos elementos do crânio está muitas vezes associada às pro¬
porções; assim, o fronto-panetal é mais alongado em C. bokermanni, o
mesmo ocorrendo com o parasfenoide mais longo e estreito nesta espécie.
Acompanhando a variação do parasfenoide, o esfenoetmoide é menos
recoberto anteriormente em C. izecksohm. A diferença observada no otoc-
cipital é refletida pela placa dorsal, retangular em C. bokermannt, quase
quadrada em C. izecksohm; pelo côndilo occipital com abertura mais pro¬
nunciada em C. izecksohm.
A presença de dentes no pré-vomer em C. bokermanrv é talvez a dife¬
rença mais marcante quanto aos caracteres do crânio.
Com relação à coluna vertebral a grande diferença assinalada é a fusão
da última vértebra pré-sacral com a sacral em C. izecksohm; outra diferen¬
ça é uma maior dilatação das diapófises sacrais que ocorre nesta mesma
espécie. A ocorrência desta fusão torna-se mais notável segundo a afirma¬
ção de Lynch 2 de que em Leptodactylidae não ocorre incorporação das
vértebras pré-sacrais como acontece em Bufonidae. Trueb 4 também cita a
fusão como ocorrendo em alguns gêneros de Bufonidae e exemplifica com
Oreophryne/la. Quanto à dilatação das diapófises a autora afirma que dia¬
pófises arredondadas, quase cilíndricas, ocorrem em espécies mais evo¬
luídas dentro de algumas famílias.
A cintura peitoral arcífera também se diferencia marcadamente nas
duas espécies, em C. izecksohni ocorre fusão da escápula e clavícula.
Trueb 4 cita este tipo de fusão, como só ocorrendo em Pipidae e Bufonidae,
também sem comentar o caráter.
A outra grande diferença entre as duas espécies está no membro ante¬
rior. O úmero e a mão do macho de C. izecksohm são altamente modifica¬
dos, pela presença de grandes cristas no primeiro e pela presença de um
pré-polex bem desenvolvido na mão. Um fato que chama atenção é a pre¬
sença, ainda que pouco desenvolvida, do pré-polex na fêmea. Lynch 2 , que
examinou apenas C. pintoi, afirma que esse caráter não se manifesta na fê¬
mea. Deve-se ressaltar também a variação do caráter nos machos de C.
bokermanni, onde ele, embora pouco desenvolvido, pode estar ou não pre¬
sente. Esta variação pode estar associada à presença, assinalada por Peixo¬
to 3 , de espinhos agregados ou não.
Segundo Lynch 2 , de certa maneira, o modo de vida de um anfíbio
reflete-se na proporção de seus ossos longos. Como explicar então uma di¬
ferença tão marcante no desenvolvimento das cristas do úmero em espé¬
cies que, segundo Peixoto 3 , só se diferenciam, ecologicamente, por ser C.
bokermanni a única encontrada nas bromélias situadas ao nível das copas
das árvores (de 15 a 20m de altura), tendo densidade menor nas bromélias
de níveis mais baixos?
Para concluir, as duas espécies são comparadas com C. pintoi.
Com relação ao crânio apenas um caráter, a presença de dentes pré-
vomerianos separa nitidamente C. bokermanni das outras espécies.
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Quanto à coluna vertebral, só C. izecksohrv apresenta fusão sacral, mas
C. pintoi também tem diapófises sacrais dilatadas em contraste com C. bo¬
kermanni.
A cintura peitoral só apresenta fusão de elementos em C. izecksohni.
O membro anterior tem o úmero com cristas em C. pintoi e C.
izecksohm, e o pré-polex está presente na mão das três espécies. Com rela¬
ção ao último caráter, não posso afirmar se ele é variável em C. pintoi, por
ter examinado apenas um macho, e por Lynch 2 não mencioná-lo.
Falanges terminais em forma de T são encontradas nas três espécies.
Pela insuficiência de exemplares de C. pintoi fica difícil uma compara¬
ção mais detalhada entre as três espécies. Segundo as diferenças assinala¬
das acima, ele poderia estar mais próximo de C. izecksohni. Por outro lado
a fusão de ossos parece um caráter marcante, diferenciando C. izecksohni.
Heyer 1 menciona a necessidade de se obter mais dados em vários gru¬
pos de Leptodactylidae; Trueb 5 aponta a importância de assinalar a varia¬
ção individual de caracteres numa única população de anuros. Por estas ra¬
zões seria precipitado analisar o significado das diferenças osteológicas
apresentadas pelas três espécies de Crossodactcylodes. A fusão de ele¬
mentos ósseos, por exemplo, poderia ser melhor compreendida através de
estudo do desenvolvimento ontogenético.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a L.O. Peixoto pelo fornecimento de todo material utilizado
neste trabalho e a W. R. Heyer pela leitura crítica do mesmo.
ABSTRACT: The osteology 'of two species of Crossodactylodes is des-
cribed. The main differences are: 1) on the skull: pre-vomers teeth in C.
bokermanni, edendate in C. izecksohni; 2) fusion of the last pre-sacral
vertebrae with sacral ig C. izecksohni; 3) fusion of clavicle and scapula in
C. izecksohni; 4) humeruswith large crests in C. izecksohni; 5) handwith
pre-polex on male and female of C. izecksohni.
KEYWORDS: comparative osteology, Crossodactylodes bokermanni,
Crossodactylodes izecksohni.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. HEYER, W.R. A preliminary analysis of the intergeneric relationship of the frog family
Leptodactylidae. Smithson. contr.Zooi, 799.T-55, 1975.
2. LYNCH, J.D. Evolutionary relationships, osteology and zoogeography of Leptodactyli¬
dae frogs. Misc. Publs. Mus. nat. Hist. Univ. Kans., 53.T-238, 1971.
3. PEIXOTO, O.L. Duas novas espécies de Crossodactylodes de Santa Tereza, Estado do
Espírito Santo, Brasil (Amphibia, Anura, Leptodactylidae). Rev. bras. Biol.,
42(31:619-626, 1982.
4. TRUEB, L. Bones, frogs and evolution. In: VIAL, J.L. ed. Evolutionary biology of the
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1973, 170p.
5. TRUEB, L. Osteology and anuran systematics: intrapopulational variation in Hyla lanci-
formis. Syst. Zool. 26: 165-184, 1977.
Recebido para publicação em 10.2.1988 e aceito em 4.4.1988.
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7. BIER, O. Microbiologia e imunologia. 24.ed. São Paulo, Melhoramentos, 1985. 1234p.
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8. MACHADO, J.C. & SILVEIRA F.°, J.E. Obtenção experimental da pancreatite hemorrágica aguda no cão
por veneno escorpiônico. Mcm. Inst. Butantan, 40/41 : 1-9, 1976/77.
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... método derivado de simplificação de armadilha de Disney 1
... segundo vários autores-' 3 '*
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7. BIER, O. Microbiologia e imunologia. 24.ed. São Paulo, Melhoramentos, 1985. 1234p.
Articles
8. MACHADO, J.C. & SILVEIRA F.°, J.F. Obtenção experimental da pancreatite hemorrágica aguda no cão
por veneno escorpiônico. Mera. Inst. Butantan, 40/41: 1-9, 1976/77.
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ISSN 0073 - 9901