ISSN 0073 - 9S01
MIBUAH
GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO
SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE
COORDENAÇÃO DOS INSTITUTOS DE PESQUISA
INSTITUTO BUTANTAN
SÃO PAULO, SP - BRASIL
Memórias
do
Instituto
Butantan
VOLUME 52 NÚMERO 2, 1990
3
L
5
6
SCÍEL0 3 2.1 12 13 14 15 16
As "MEMÓRIAS DO INSTITUTO BUTANTAN" têm por finalidade a apre¬
sentação de trabalhos originais que contribuam para o progresso nos campos das
Ciências Biológicas, Médicas e Químicas, elaborados por especialistas nacionais
e estrangeiros.
São publicadas sob a orientação da Comissão Editorial, sendo que os con¬
ceitos emitidos são de inteira responsabilidade dos autores.
The "MEMÓRIAS DO INSTITUTO BUTANTAN" are the vehicle of com-
munication for original papers written by national and foreign specialists who
contribute to the progress of Biological, Medicai and Chemical Sciences.
They are published under the direction of the Editorial Board which assu¬
mes no responsibility for statements and opinions advanced by contributors.
Diretor do Instituto Butantan
Dr. Willy Beçak
Comissão Editorial
Henrique Moisés Canter - Presidente
Adolpho Brunner Júnior - Membros
Olga Bohomoletz Henriques
Raymond Zelnik
Sylvia Lucas
Denise Maria Mariotti - Bibliotecária
Indexado/lndexed: Biosis Data Base, Current Contents, Index Medicus.
Periodicidade: irregular
Permuta/Exchange: são feitas entre entidades governamentais, com publicações
congêneres, mediante consulta prévia. Exchanges with similar publications can
be settled with academic and governmental institutions through prior mutual
agreement.
Endereço/Address. Instituto Butantan — Biblioteca. Av. Vital Brasil, 1.500
05504 — São Paulo, SP — Brasil
Telefone/Telephone: (011)813-7222 - R. 129 - Telex: (011) 83325 BUTA-BR
Telefax: (011)815-1505
2 3 4
5 6
11 12 13 14 15 16
Governo do Estado de São Paulo
Secretaria de Estado da Saúde
Coordenação dos Institutos de Pesquisa
Instituto Butantan — São Paulo — SP — Brasi
MEMÓRIAS
DO
INSTITUTO BUTANTAN
Volume 52, número 2, 1990
São Paulo, SP — Brasil
1990
*
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
MEMÓRIAS do INSTITUTO BUTANTAN. (Secretaria de Estado da Saúde)
São Paulo, SP — Brasil, 1918 —
1918 - 1983/84, 1 - 47/48
Publicação interrompida de 1985 a 1986.
1987, 49 (1-3)
1988, 50(1-3, supl.)
1989, 51(1-4)
1990, 52(1-2
ISSN 0073-9901
MIBUAH CDD 614.07205
Solicita-se permuta/Exchange desired
Mem. Inst. Butantan
52 (2), 1990
SUMARIO/CONTENTS
Controle de qualidade do ONCO-BCG oral: contribuição do teste bio¬
lógico para avaliação do potencial antigênico.
Quality control of oral ONCO-BCG: contribution of the biological test
for the antigenic potential valuation.
José Luiz Bernardino MERUSSE; Idércio Luiz SINHORINI; Maria Chris- ,
tina GAVIOLLE; Gilda Almeida de SOUZA . 37
Desenvolvimento pós-embrionário de Tityus bahiensis: dados adicio¬
nais (Scorpiones, Buthidae).
Post-embryonic development of Tityus bahiensis: additional data (Scor¬
piones, Buthidae).
Fabio A. MATTHIESEN . 47
On the identity of Dendrobates quinquevittatus (Anura: Dendrobatidae)
Sobre a identidade de Dendrobates quinquevittatus (Anura: Dendro¬
batidae)
Mareio MARTINS & Célio F.B. HADDAD . 53
Esquadrinhar com a cauda: uma tática de caça da serpente Hydrody-
nastes gigas no Pantanal, Mato Grosso.
Caudal poking: a hunting tactic of the snake, Hydrodynastes gigas, in
the Pantanal region, Mato Grosso.
Christine STRÜSSMANN & Ivan SAZIMA . 57
Análise radiológica na ofiofagia de filhote de serpente Bothrops alter-
natus (Viperidae-Crotalinae).
Radiological analysis of ophiophagy in a juvenile pit viper, Bothrops al-
ternatus (Viperidae-Crotalinae).
Rubens Pinto CARDOSO JUNIOR; Luis Antonio B. de Mello LULA;
Masao IWASAKI; Sandra Maria de OLIVEIRA . 63
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
Mem. Inst. Butantan
52 (2): 37-46, 1990
CONTROLE DE QUALIDADE DO ONCO-BCG ORAL:
CONTRIBUIÇÃO DO TESTE BIOLÓGICO PARA AVALIAÇÃO
DO POTENCIAL ANTIGÊNICO
José Luiz Bernardino MERUSSE*
Idércio Luiz SINHORINI*
Maria Christina GAVIOLLE*
Gilda Almeida de SOUZA**
RESUMO: O processo de controle de qualidade do ONCO-BCG Oral in¬
clui testes de curta e longa duração. O produto é liberado para o consu¬
mo após o resultado das provas de bacterioscopia, consumo de oxigênio
e esterilidade. Essas provas asseguram um produto constituído por uma
suspensão de bacilos álcool-ácido resistentes, dispersos, vivos e sem
a presença de contaminantes. Por outro lado, essas provas por si só não
são suficientes para caracterizar um produto imunoestimulante. Essa pro¬
priedade está intimamente relacionada aos componentes lipídicos da pa¬
rede bacteriana, os quais são capazes de induzir a formação de uma
resposta inflamatória granulomatosa no coxim plantar de hamsters. 0
presente trabalho sugere um teste de controle de qualidade do ONCO-
-BCG Oral, que avalie seu potencial imunoestimulante pelo acompanha¬
mento das lesões induzidas no hamster, caracterizando, assim, uma prova
biológica de controle de qualidade.
UNITERMOS: BCG; neoplasias, tratamento adjuvante; inflamação gra¬
nulomatosa.
INTRODUÇÃO
A forma atenuada de Mycobacterium bovis, o Bacilo de Calmette Gue-
rin (BCG) tem sido amplamente empregada como terapia coadjuvante no
tratamento de diversos tipos de neoplasias 3 ' 4 ' 6 ' 7 - 8 ' 11 03,24,27
Destacamos, em particular, o tratamento do melanoma maligno, para
o qual altas doses do BCG são administradas pela via oral 17 - 26 - 34 . Essa
Departamento de Patologia. Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, Cida¬
de Universitária. 05508 — São Paulo — SP — Brasil.
Seção de Tuberculose e BCG. Instituto Butantan.
Recebido para publicação em 04.9.1989 e aceito em 23.4.1990.
SciELO
10 11 12 13
37
14
MERUSSE, J. L. B.; SINHORINI, I. L; GAVIOLLE, M. C.; SOUZA, G.A. de. Controle de qualidade do
ONCO-BCG oral; contribuição do teste biológico para avaliação do potencial antigênico. Mem.
Inst. Butantan, 52(2): 37-46, 1990.
capacidade antineoplásica, exercida através de complexa interação com
células do sistema imune, caracteriza o BCG como um imunoestimulante
não específico, capaz de ativar direta ou indiretamente os diversos com¬
ponentes do sistema 5 .
Existem, porém, diferenças quantitativas, em termos da capacidade imu¬
noestimulante, entre as diferentes cepas e preparações. Dentre as várias
cepas testadas por Mackaness & Cols. 18 , a cepa Pasteur demonstrou
maior capacidade imunoestimulante que a cepa Glaxo. Além disso, os au¬
tores notaram que o BCG em fase estacionária, nas vacinas liofilizadas,
provoca menor resposta que o proveniente diretamente das culturas em
fase logarítmica. Várias observações evidenciaram, também, que na imu-
nopotenciação pelo BCG, a presença da bactéria viva nos tecidos linfói-
des tem um papel preponderante 12 - 22 . A inoculação, em camundongos,
de amostras de BCG submetidas ao tratamento por ultra-som, apresen¬
tando portando baixo grau de agregação entre as partículas, induz a for¬
mação de anticorpos duas vezes maior, quando comparadas com amostras
não submetidas ao referido tratamento 2 .
Independentemente dos fatores acima citados, a atividade imunoesti¬
mulante do BCG está relacionada aos componentes lipídicos da
bactéria 28 - 36 , sendo que a maior parte destes, se não todos, fazem parte
da parede bacteriana 14 . Esse fato pode ser demonstrado pela análise do
padrão inflamatório e imunológico, decorrente da inoculação de BCG des¬
provido de glicolipídios na parede celular. 0 BCG delipidado provoca uma
resposta inflamatória de caráter agudo. Além disso, quando privado de seu
componente glicolipídico, o bacilo perde sua capacidade
imunoestimulante 29 .
Além de seu efeito potenciador sobre o sistema imune, destacamos o
uso do BCG no estudo da relação parasita-hospedeiro, tema sobre o qual
temos desenvolvido diversos experimentos em nosso laboratório 15 ' 21 ' 30 .
As micobactérias induzem um tipo específico de resposta inflamatória crô¬
nica denominada granulomatosa 1 ' 20 ' 31 . Particularmente, no estudo das
lesões e imunologia da tuberculose, bem como no estudo de uma reação
inflamatória granulomatosa, o hamster tem sido um dos modelos de es¬
colha pois é sensível ao BCG, o qual, na dependência da dose e da via
de inoculação, pode levar o animai à morte 9 . Histologicamente, as lesões
induzidas pelo BCG no hamster são semelhantes às decorrentes da infec¬
ção desses animais pelo bacilo humano ou bovino da tuberculose 23 , in¬
clusive com a presença de células epitelióides, característica básica da lesão
granulomatosa 20 .
O presente trabalho sintetiza alguns anos de utilização do ONCO-BCG
Oral, em especial quanto à sua capacidade de indução de lesão granulo¬
matosa no hamster. Através desse modelo, sugerimos uma prova biológi¬
ca para controle de qualidade do produto.
MATERIAL E MÉTODOS
Animais: Foram utilizados hamsters (Mesocricetus auratus, variedade
golden), machos. Os animais foram criados e mantidos em biotério tipo
convencional recebendo água e ração peletizada "ad libitum". Esses ani¬
mais foram originados pelo sistema não consangüíneo de acasalamento.
38
cm
SciELO
3 11 12 13 14 15 16
MERUSSE, J. L. B.; SINHORINI, I. L; GAVIOLLE, M. C.; SOUZA, G.A. de. Controle de qualidade do
ONCO-BCG oral; contribuição do teste biológico para avaliação do potencial antigênico. Mem.
Inst. Butantan, 52(2): 37-46, 1990.
Ao longo do experimento, 137 grupos de 10 animais foram mantidos em
caixas convencionais de polipropileno com aproximadamente 1140cm 2 de
piso. Estabeleceu-se que o peso dos animais no início do experimento se¬
ria de 100 a 110g.
Inóculos: Utilizou-se o ONCO-BCG Oral na concentração de 100mg/ml
em meio de Sauton, Cepa Moreau, obtido do Instituo Butantan de São Paulo
(IB), preparado e submetido a provas de controle de qualidade conforme
normas padronizadas 32 - 35 . As inoculações foram realizadas com partidas
recém-fabricadas, logo após a liberação pelo Instituto. Foram utilizadas,
no total, 136 partidas de ONCO-BCG Oral, no período compreendido en¬
tre 1984 e 1988.
Após agitação do flaconete, o produto foi inoculado no tecido conjunti¬
vo subcutâneo do coxim plantar esquerdo na dose de 0,1 ml (lOmg). Du¬
rante o procedimento o produto foi mantido em recipiente original, resfriado
a 4°C.
O meio de Sauton foi também inoculado em um lote de 10 animais,
na concentração e sob as mesmas condições como empregado para a fa¬
bricação do ONCO-BCG Oral. O referido meio foi também cedido pelo IB.
As inoculações foram feitas com agulhas tipo tuberculina (13x4 ou 27G
1 / 2 ).
Acompanhamento das provas de controle de qualidade : As partidas de
ONCO-BCG Oral por nós inoculadas foram acompanhadas no referente ao
controle de qualidade efetuado pelo IB, pelas provas de bacterioscopia,
consumo de oxigênio, esterilidade, vitalidade e inocuidade. Os resultados
dessas provas foram-nos fornecidos pelo referido Instituto.
AVALIAÇÃO DAS LESÕES:
1. Mensuração — As lesões induzidas pela inoculação do produto fo¬
ram avaliadas pela mensuração do diâmetro do coxim plantar. Utilizando-
-se micrômetro marca Moore & Wrigth, mediu-se a distância entre a face
superior e a inferior da pata. As medidas foram tomadas a intervalos de
24 ou 72 horas a contar do momento da inoculação. Para todas as men-
surações observou-se intervalos de centésimos de milímetro. Os animais
foram marcados de modo a propiciar registro individual. Os valores em mm
obtidos das mensurações foram registrados em Tabelas. As médias obti¬
das dos grupos de animais a cada intervalo de tempo foram, por sua vez
registrados em gráficos. Os grupos foram acompanhados por períodos que
variaram de 20 a 60 dias.
2. Ultraestrutura — para a visualização ultraestrutural do estado geral
do inóculo do coxim plantar de hamsters, fragmentos representativos fo¬
ram coletados 20 dias após a inoculação, fixados em uma solução de glu-
taraldeído a 2% em tampão fosfato 0,1 M, pós-fixados em tetróxido de
ósmio a 1% 10 e incluídos em Araldite 502 16 .
Os cortes ultra-finos (60-70 mm de espessura), foram obtidos com na¬
valhas de vidro, através da utilização do ultramicrótomo Sorvall MT-5000,
contrastados pelo acetato de uranila 37 e citrato de chumbo 25 e visualiza¬
dos ao Microscópio Eletrônico de Transmissão EM 201, Phillips.
3. Análise estatística — As 136 partidas de ONCO-BCG Oral foram ana¬
lisadas pela intensidade da lesão induzida no coxim plantar de hamsters.
39
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
MERUSSE, J. L. B.; SINHORINI, I. L; GAVIOLLE, M. C.; SOUZA, G.A. de. Controle de qualidade do
ONCO-BCG oral; contribuição do teste biológico para avaliação do potencial antigênico. Mem.
Inst. Butantan, 52(21: 37-46, 1990.
Após a avaliação das lesões, conforme descrito no item 1 estas foram es¬
tatisticamente comparadas pela utilização do teste "t" Student 33 . A hi¬
pótese alternativa pressupunha as médias de um grupo como sendo
inferiores às médias de outro grupo. Estabeleceu-se valor de 0,05 para o
nível de rejeição da hipótese de nulidade.
RESULTADOS
Resultados das provas de controle de qualidade: Os resultados das provas
de controle de qualidade efetuadas nas partidas por nós inoculadas,
mostraram-se dentro dos padrões exigidos para o produto 32 não sendo
constatadas quaisquer anormalidades.
Resultado da inoculação do meio de Sauton: O meio de Sauton não foi
capaz de induzir qualquer alteração mensurável no coxim plantar dos ani¬
mais. O aumento de volume foi decorrência da própria inoculação. Trans¬
corrido um período de 24 horas, as medidas retornaram ao nível basal,
após o que não se registraram quaisquer alterações mensuráveis.
Características da evolução da lesão granulomatosa induzida pelo ONCO-
-BCG Oral no coxim plantar de hamsters: Com o acompanhamento das
diversas inoculações do ONCO-BCG Oral no coxim plantar do hamster,
estabeleceu-se um padrão evolutivo básico e característico desse tipo de
resposta inflamatória granulomatosa. Logo após a inoculação, iniciou-se
a fase aguda com a absorção do componente líquido do inóculo. Avante
essa fase, que perdurou até 4 ou 6 dias após a inoculação, notou-se, ma¬
croscopicamente, a diminuição do volume lesionai, partir desse ponto, ou
em período próximo, teve lugar a fase de proliferação e organização celu¬
lar formando a lesão granulomatos característica da resposta do hospe¬
deiro às micobactérias. Durante esse período notou-se um crescente
aumento no volume local. Seguiu-se a essa fase uma outra também ca¬
racterística de uma lesão granulomatosa, qual seja, a de um relativo equi¬
líbrio com o hospedeiro, e que perdurou por todo o tempo observado (60
dias em alguns casos). Nessa terceira fase, que teve início após o 14° ou
16° dia após a inoculação, o diâmetro médio do coxim plantar situou-se
entre 6 e 7mm. À lesão acima descrita convencionou-se chamar de pa¬
drão clássico de resposta granulomatosa desenvolvida no coxim plantar
do hamster ao ONCO-BCG Oral e está ilustrada no conjunto A da Figura
1. A grande maioria das partida inoculadas desenvolveu resposta inflama¬
tória que se enquadrou nesse padrão. Não foram constatadas diferenças
estatiscamente significativas entre as diversas médias do conjunto A para
um mesmo intervalo de tempo.
Por outro lado, registraram-se outros padrões de evolução das lesões
de coxim plantar em resposta à inoculação de determinadas partidas de
ONCO-BCG Oral. Constituíram-se em padrões anômalos, quando compa¬
rados ao conjunto anteriormente descrito, sendo, por isso, incluídas no
Conjunto B da Figura 1. Nesse caso, o único padrão comum a todas as
respostas foi a sua menor intensidade. Em alguns casos, o único aumento
de volume registrado foi aquele decorrente da própria inoculação; após
o período de absorção do componente líquido do inóculo, as medidas re¬
tornaram ao nível basal, não sendo verificadas, posteriormente, quaisquer
alterações mensuráveis. Em outros casos a resposta inflamatória ocorreu,
sendo, porém, menos intensa que aquela verificada com os inóculos do
Grupo A.
40
cm
SciELO
3 11 12 13 14 15 16
MERUSSE, J. L. B.; SINHORINI, I. L; GAVIOLLE, M. C.; SOUZA, G.A. de. Controle de qualidade do
ONCO-BCG oral; contribuição do teste biológico para avaliação do potencial antigênico. Mem.
Inst. Butantan, 52(2): 37-46, 1990.
Figura 1. Curvas representativas da cinética da evolução das lesões induzidas pela inocu¬
lação de ONCO-BCG Oral no coxim plantar de hamsters. Cada ponto representa
a média de 10 animais. Conjunto A. padrões clássicos de evolução; Conjunto
B. padrões anômalos de evolução.
Análise ultra-estrutural das lesões induzidas pelo ONCO-BCG Oral no co¬
xim plantar de hamsters: A análise ultra-estrutural dos sítios de inoculação
dos bacilos das diferentes partidas de ONCO BCG Oral que desenvolve¬
ram no coxim plantar do hamsters padrões inflamatórios característicos
do Conjunto A, expresso na Figura 1, apresentaram alta concentração de
bacilos no interior do citoplasma das células inflamatórias presentes na le¬
são. Além disso, apresentaram esses bacilos morfologia característica. Essas
observações sugerem um alto grau de multiplicação da micobactéria no
interior das células inflamatórias. Essas células, por outro lado, apresenta¬
ram evidentes alterações, caracterizadas pelo comprometimento e desor¬
ganização da matriz intracitoplasmática, conforme mostra a Figura 2.
As células inflamatórias presentes nas lesões desenvolvidas em decor¬
rência da inoculação do ONCO-BCG Oral proveniente das partidas cujo pa¬
drão inflamatório no coxim plantar do hamster foi classificado como anômalo
(Conjunto B, Figura 1), deixaram evidente uma relativa integridade celu¬
lar. Os poucos bacilos presentes na matriz citoplasmática pareciam fugir
dos padrões de viabilidade, apresentando-se como pequenas massas
eletron-densas, lembrando um estado de total desintegração (Figura 3).
41
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
MERUSSE, J. L. B.; SINHORINI, I, L; GAVIOLLE, M. C.; SOUZA, G.A. de. Controle de qualidade do
ONCO-BCG oral; contribuição do teste biológico para avaliação do potencial antigênico. Mem.
Inst. Butantan, 52(2): 37-46, 1990.
Figura 2. Micrografia eletrônica de célula inflamatória componente da lesão induzida pela
inoculação de ONCO-BCG Oral no coxim plantar de hamsters. Notar a intensa
multiplicação bacteriana e a conseqüente desorganização da matriz citoplasmá-
tica. Aumento (aproximado): 45.600 X.
Figura
3. Micrografia eletrônica dè célula inflamatória componente de lesão induzida no
coxim plantar de hamsters pela inoculação de ONCO-BCG Oral. Notar o compro¬
metimento dos poucos bacilos existentes e matriz celular aparentemente ínte¬
gra. Aumento (aproximado): 14.600 X.
SciELO
3 11 12 13 14 15 16
42
MERUSSE, J. L. B.; SINHORINI, I. L; GAVIOLLE, M. C.; SOUZA, G.A. de. Controle de qualidade do
ONCO-BCG oral; contribuição do teste biológico para avaliação do potencial antigênico. Mem.
Inst. Butantan, 52(2): 37-46, 1990.
DISCUSSÃO
O processo de controle de qualidade do ONCO-BCG Oral é efetuado pelas
provas de bacterioscopia, consumo de oxigênio, esterilidade, contagem
de unidades viáveis (vitalidade) e inocuidade. A liberação do produto dá-
-se pelos resultados dos testes de bacterioscopia, consumo de oxigênio
e esterilidade 32 - O teste de bacterioscopia constitui-se na execução dos
métodos de Gram e Ziehl-Nielsen, através dos quais procede-se, respecti¬
vamente, à verificação da presença eventual de contaminantes e a identi¬
ficação dos bacilos com as características tintoriais específicas. Além disso,
essa prova permite a verificação do grau de dispersão entre as bactérias,
fator importante na propriedade imunoestimulante de uma suspensão de
BCG 2 - O teste de consumo de oxigênio assegura a presença de um nú¬
mero mínimo de bacilos vivos por unidade de volume. Esse dado reveste-
se de importância, considerando-se que tanto maior será a capacidade imu¬
noestimulante do BCG quanto menores forem as manipulações desde o
meio de cultura até o hospedeiro 12 ' 22 .
O reduzido prazo de validade do ONCO-BCG Oral (25 dias), faz com que
se tenha um também reduzido período disponível para a execução dos testes
de controle de qualidade. Dessa forma, o produto é liberado para o consu¬
mo dispondo-se apenas de dados que assegurem as características acima
mencionadas, quais sejam, uma suspensão dispersa de bacilos álcool-ácido
resistentes, vivos e sem a presença de contaminantes.
A propriedade imunoestimulante do produto não pode, no entanto, ser
detectada através das provas mencionadas. Comfirma esse fato ausência
de correlação entre as provas de controle de qualidade e os padrões de
evolução das lesões por nós observados: todas as partidas de ONCO-BCG
Oral utilizadas mostraram-se dentro dos padrões para essas provas; deter¬
minadas partidas induziram respostas anômalas (Figura 1-B). Por outro
lado, essa capacidade imunopotencializadora está limitada aos com¬
ponentes lipídicos da parede micobacteriana, os quais são também os
responsáveis pela indução da resposta inflamatória granulomatosa no
hospedeiro 14 ' 28 ' 29 - 36 .
Neste contexto, a avaliação das lesões granulomatosas induzidas no
coxim plantar dos hamsters assume a configuração de uma prova biológi¬
ca sensível para avaliar o potencial imunoestimulante do ONCO-BCG Oral.
A presença de bacilos álcool-ácido resistentes vivos, característica co¬
mum a todas as partidas de ONCO-BCG Oral estudadas não significa ne¬
cessariamente capacidade imunoestimulante. O fato de que determinadas
partidas de ONCO-BCG Oral tenham desenvolvido cinética lesionai dife¬
rente do que estabelecemos como normal, indica uma drástica redução
nos constituintes lipídicos da parede micobacteriana 28,29 6( consequen¬
temente, da capacidade imunoestimulante dessas partidas.
A observação ultraestrutural dos componentes celulares das lesões foi
suficiente para confirmar os dados obtidos pelo acompanhamento das le¬
sões induzidas pelas diversas partidas de ONCO-BCG Oral. Micobactérias
multiplicam-se no interior de células do hospedeiro, comprometendo-as
estrutural e funcionalmente; já foi demonstrado que somente micobacté¬
rias íntegras em sua parede conseguem sobreviver e multiplicar nesse meio
29 . A concentração de bacilos íntegros no interior do citoplasma das cé¬
lulas inflamatórias, bem como o comprometimento citoplasmático dessas,
43
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
MERUSSE, J. L. B.; SINHORINI, I. L; GAVIOLLE, M. C.; SOUZA, G.A. de. Controle de qualidade do
ONCO-BCG oral; contribuição do teste biológico para avaliação do potencial antigênico. Mem.
Inst. Butantan, 52(2): 37-46, 1990.
conforme ocorrido em resposta a determinadas partidas de ONCO-BCG Oral,
atestam a integridade dessas bactérias (Fig. 1-A; Fig. 2). Em contraparti¬
da, bacilos de outras amostras de ONCO-BCG Oral, incapazes de provo¬
car uma resposta inflamatória conforme os padrões clássicos no coxim
plantar do hamster (Fig. 1-B) exibiram-se em baixo número e, ultraestru-
turalmente, em formas incompatíveis com a viabilidade no interior de cé¬
lulas inflamatórias cuja morfologia correspondeu a um padrão
aparentemente inalterado (Figura 3).
A simples comparação das mensurações das lesões do coxim plantar
fornecem parâmetros suficientes para a avaliação do potencial antigênico
e imunoestimulante do ONCO-BCG Oral. À semelhança das provas de vi¬
talidade e inocuidade, a avaliação do potencial antigênico através da ino¬
culação em hamster, também é um teste de longa duração, embora menos
demorado que estes, sendo necessários apenas 15 dias para a constitui¬
ção da celularidade característica de uma lesão granulomatosa. Em virtu¬
de da simplicidade do método e da importância dos resultados por ele
fornecidos, consideramos viável sua aplicação periódica nos laboratórios
de controle de qualidade de ONCO-BCG Oral.
AGRADECIMENTOS
À Diva Flelena Melchiori Nogueira pelo excelente trabalho de datilografia.
ABSTRACT: The quality control process of oral ONCO-BCG includes short
time and long time proofs. The product is released for use after results
obtained in the following proofs: bacterioscopy, oxygem comsumption
and sterelity these tests guarantee that the producfs a contaminant —
free suspension of disperse, live acid-fast bacilli. On the other hand, these
assays alone are insuficient to characterize an immunostimulant product.
This property is closely related to the fattyacid components of the bac¬
téria^ cell wall, witch can induce a granulomatous ínfiammatory response
in the foot pad of hamster. The present study suggests a quality control
test for Oral ONCO-BCG. Considering its immunostimulant properties
through the kinetics of the lesions induced in hamsters thus establishing
a biological quality control proof.
KEYWORDS: BCG; neoplasias, adjuvant treatment; granulomatous in-
flammation.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. ADAMS, D.O. The granulomatous Ínfiammatory response. Amer. J. Path., 84: 164-91,
1976.
2. BROWN, C.A. L. & BROWN, I.N. Mycobacterium bovis BCG modulation of murine an-
tibody response: influence of dose and degree of aggregation of live or dead organ-
isms. Brit. J. Exp. Path., 63: 133-43, 1982.
3. COMSTOCK, G.W. Leukaemias and BCG. A controlled trial. Lancet, 2: 1062-3, 1971.
4. COMSTOCK, G.; MARTINEZ, I.; LIVESAY, V.T. Efficacy of BCG vacination in preven-
tion of câncer. J.Nat. Câncer Inst., 54: 835-9, 1975.
5. DAVIES, M. BCG as a anti-tumor agent. The interaction with cells of mammalian im-
mune system. Biochim.Biophis.Acta, 651: 143-74, 1982.
6. DAVIGNON, L; ROBILLARD, D.; LEMONDE, P.; FRAPIER, A. BCG vaccination and leu-
kaemia mortality. Lancet, 2: 638, 1970.
44
cm
[SciELO
3 11 12 13 14 15 16
MERUSSE, J. L. B.; SINHORINI, I. L; GAVIOLLE, M. C.; SOUZA, G.A. de. Controle de qualidade do
ONCO-BCG oral; contribuição do teste biológico para avaliação do potencial antigênico. Mem.
Inst. Butantan, 52(2); 37-46, 1990.
7. FARACI, R.P.; BARONE, J.J; MARRONE, J.C.; SCHOUR, L. In vitro evidence of specific
BCG induced immunity to malignant melanoma in BALB/C mice. J.Nat. Câncer Inst.,
52: 1913-5, 1974.
8. FARACI, R.P. & SCPIOUR, L. Malignant melanoma: specific immunity induced by BCG
in BALB/C mice. Science, 185: 68-9, 1974.
9. HAUDUROY, P. & ROSSET, W. Sensibilité du hamster au bacille BCG. Presse Med.,
59: 121, 1951.
10. PIAYAT, M.A. Fixation for Electron Microscopy. New York, Academic Press, Inc., 1984.
501 p.
11. HUDSON, M.A.; RATLIEF, T.L.; GILLEN, D.P.; HAAF, E.O.; DRESNER, S.M.; CATA-
LONE, W.J. Single course versus mantenaince BCG the rapy for superficial bladder
tumors: A prospective, randomized trial. J.Urol., 738:295-8, 1987.
12. ISHIBASHI, T.; HARADA, Y.; HARADA, S.; YAMADA, H.; TAKAMOTO, M.; SUGYA-
MA, K. Mode of immunopotenciating action of BCG: Persistence and spread of BCG
infection. Jap.J.Exp.Med., 48: 227-32, 1978.
13. LAMM, D.L. Bacillus Calmette-Guerin immunotherapy. J.Urol., 138: 291-2, 1987.
14. LEDERER, E. Structure de constituants mycobactériens: relatíon avec 1'activité im-
munologique. Ann.Microbiol. (Inst. Pasteur), 129-A: 91-3, 1978.
15. LOMBARDINI, F.; BOTTINO, J.A.; SINHORINI, I.L.; MERUSSE, J.L.B. GAVIOLLE, M.C.;
GRECCHI, R. Preliminary study on a new immunostimulant by examining lymphatic
cells formula and distribution in hamster. Zoot. Intern., 70:52-4, 1988.
16. LUFT, J.H. Improvements in epoxy resin embedding methods. J. Biophys. Biochem,
Cytol., N. York, 9: 409-17, 1961.
17. MAC GREGOR, A.B.; FALK, R.; LANDI, S.; AMBUS, U.; LANGER, B. Oral BCG im-
munostimulation in malignant melanoma. Surg.Gynecol. Obstet., 747:747-54,
1975.
18. MACKANESS, G.B.; AUCLAIR, D.J.; LAGRANE, P.H. Immunopotentiation with BCG.
Immune response to different strains and preparations. J.Nat. Câncer Inst.,
57:1655-67, 1973.
19. MARIANO, M. Functional caracterization and possible role played by E-macrophages
(epitelioid cells) in experimental granulomas. In: WILLIAMS, W.J. & DAVIES, B.H.
Sarcoidosis and other granulomatous diseases. Cardif, Alfa-Omega, 1980. p. 68-74.
20. MARIANO, M. The experimental granuloma. Em fase de redação.
21. MERUSSE, J.L.B. Influência do sexo e da gestação na cinética do granuloma experimen¬
tal induzido pelo BCG no hamster. São Paulo, 1988. 66 p. Tese de Doutoramento
— Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo.
22. NETTELESHIP, E.M.; COLLON, J.L.; LUM, G. Studies on the mechanism of BCG acti-
vation for immunotherapy. Boi.Assoe.Med.P.Rico, 73: 168-72, 1981.
23. NICOD, J.L. Hamster et BCG. Rev. Immunol. (Paris), 79:330-6, 1955.
24. PANSADORO, V. & De PAULA, F. Intravesical BCG in the treatment of superficial tran-
sitional cell carcinoma of the bladder. J.Urol., 738:299-301, 1987.
25. REYNOLDS, E.S. The use of lead citrate at high pas an eletron opaque stain in electron
microscopy. J.Cell.Biol., 77:208-13, 1963.
26. RODRIGUES NETTO JR.; REINATO, J.S.; TEIXEIRA, L.C.; DEBELLIS, N. Imunoterapia
pelo BCG Oral no câncer da bexiga. Rev.Ass.Med.Bras., 24: 358-60, 1978.
27. ROSENTHAL, S.R. BCG in câncer and leukaemia treatment and prophylaxis a review.
J.Med., 6: 193-212, 1975.
28. SILVA, C.L. Inflammation induced by mycolic acid-containing glycolipids of M.bovis
(BCG). Brit.J.Med.Biol.Res., 78:327-35, 1985.
29. SILVA, C.L.; EKIZLERIAN, S.M.; FRAZIOLI, R.A. Role of cordfactor in the modulation
of infection caused by mycobacteria. Amer.J.Path., 7 78:238-47, 1985.
30. SINHORINI, I.L. Formação do granuloma induzido pelo BCG no hamster. Influência da
hipersensibilidade tardia e da administração do PPD na evolução e no número de
bactérias das lesões. São Paulo, 1983, 84 p. Tese de Doutoramento — Faculdade
de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo.
31. SINHORINI, I.L. Comunicação Pessoal.
32. SOERENSEN, B.; PEREIRA, M.M.M.; SOUZA, G.A.; YAMAGUSHI, I.K.; SCALABREL-
Ll, R. Normas para a preparação do BCG Oral destinado ao tratamento coadjuvante
das neoplasias. Vac. Soros, 1: 64-70, 1985.
SciELO
10 11 12
45
14
MERUSSE, J. L. B.; SINHORINI, I. L; GAVIOLLE, M. C.; SOUZA, G.A. de. Controle de qualidade do
ONCO-BCG oral; contribuição do teste biológico para avaliação do potencial antigênico. Mem.
Inst. Butantan, 52(2): 37-46, 1990.
33. SPIEGEL, M.R. Estatística. São Paulo, McGraw-Hill, 1972. 580p.
34. VARELA, A.D.; BANDIERA, D.; AMORIM, A.R.; CALVIS, L; SANTOS, I.O.; ESCALEIRA,
N.; GENTIL, F. Treatment of disseminated malignant melanoma with high dose of
oral BCG. Câncer, 48: 1353-62, 1981. •
35. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Tecnical Report Series, n? 638, Geneva, 1979.
36. WATSON, M.L. Staining of tissue sections for electron microscopy with heavy metais.
J.Biophys.Biochem.Cytol. (N.York),4: 475-8, 1958.
37. YARKONI, E.; WANG, L.; BEKIERKUNST, A. Stimulation of macrophages by cordfac-
tor and by heat killed and living BCG. Inf.lmmun., 16: 1-8, 1977.
46
jSciELO, i 1 !
14
Mem. Inst. Butantan
52 (2): 47-52, 1990
DESENVOLVIMENTO PÓS-EMBRIONÁRIO DE TITYUS BAHIENSIS:
DADOS ADICIONAIS (SCORPIONES, BUTHIDAE)
Fabio A. MATTHIESEN
RESUMO: Exemplares de Tityus bahiensis (Perty, 1834) nascidos no la¬
boratório foram criados nessas condições chegando quatro deles a pas¬
sar pela 4 a ecdise. A 2 a muda ocorreu quando os jovens contavam entre
68 e 365 dias de idade, considerando-se 13 indivíduos; a 3 a , entre 299
e 429 dias, considerando-se 9. A 4 a , para 4 jovens, ocorreu respectiva¬
mente com as idades de: 631, 477, 443 e 440 dias. A idade máxima
registrada foi 882 dias. São apresentadas medidas do comprimento to¬
tal e do comprimento do dedo móvel dos pedipalpos de exúvias e de
6 exemplares.
UNITERMOS: Scorpiones, desenvolvimento pós-embrionário, Tityus ba¬
hiensis.
INTRODUÇÃO
O primeiro trabalho a se referir ao desenvolvimento pós-embrionário de
Tityus bahiensis foi o de Piza 8 , em que esse aspecto foi tratado de modo
muito breve. Os de Matthiesen 4 ' 5 ' 6 foram mais amplos nesse sentido e
basearam-se em observações sobre exemplares nascidos e criados em ca¬
tiveiro, estando depois dos de Schultze 9 , Angermann 1 e Auber 2 , entre os
primeiros efetuados em escorpiões.
Com o intuito de conseguir novos dados, além dos contidos nos traba¬
lhos sobre T. bahiensis acima mencionados, fiz outras tentativas cujos re¬
sultados constituem o objeto deste artigo.
MATERIAL E MÉTODOS
As 18 fêmeas de Tityus bahiensis (Perty, 1834) foram coletadas em
Rio Claro (SP) e cidades próximas. Serviram como terrários, cristalizado-
Departamento de Zoologia. Instituto de Biociências. UNESP - Campus de Rio Claro, CP 178 - 13.500 - Rio Claro - SP.
Recebido para publicação em 5.5.1988 e aceito em 24.4.1990.
SciELO
12
47
14
MATTHIESEN, F. A. Desenvolvimento pós-embrionário de Tityus bahiensis ; dados adicionais (Scor-
piones, Buthidae). Mem. Inst. Butantan, 52(21:47-52, 1990.
res de 25cm de diâmetro por 10cm de altura, com tampa de tela, prepa¬
rados de maneira semelhante à já descrita (Matthiesen 4 , isto é, com fun¬
do coberto de terra, cacos de telha para abrigo e uma placa de Petri com
água e cacos de telha. Os escorpiões permaneceram em quarto escuro,
levemente aquecido nos dias mais frios. As temperaturas máximas varia¬
ram de 16°C a 32°C, as mínimas de 12°C a 28°C e a umidade relativa,
de 80% a 96% e 48% a 74%. Exemplares de Periplaneta americana ser¬
viram como alimento, sendo utilizados para os jovens, pedaços dessas ba¬
ratas ou ninfas pequenas. Após abandonarem a mãe, os filhotes foram
alojados em cristalizadores comuns e separados em frascos individuais,
à medida que passavam pela segunda ecdise. Quanto à identificação das
fêmeas, o primeiro número empregado indicava o ano de coleta; o segun¬
do^ exemplar propriamente. Os números das fêmeas, acrescidos de uma
letra, serviram para identificar os jovens (Tabelas I e II).
Sempre que possível, as exúvias e os exemplares mortos foram guar¬
dados e posteriormente examinados. O comprimento total foi medido com
compasso e o do dedo móvel, sob lupa, com ocular micrométrica.
RESULTADOS
Onze fêmeas deram à luz uma só vez em cativeiro; três, duas vezes e
quatro, três vezes. Quatro jovens não ultrapassaram a 2 a ecdise, nove atin¬
giram a 3 a e quatro a 4 a (Tabela I). O total de partos foi, portanto, 29,
e o de filhotes recém-nascidos, aproximadamente 220.
Considerando-se 13 indivíduos, a 2 a ecdise ocorreu quando tinham em
média, 199,8 dias de idade. Quanto à 3 a ecdise, os extremos foram 299
e 429, sendo a média 343,5 dias, corísiderando-se 9 exemplares. A 4 a ,
para quatro jovens, ocorreu quando contavam respectivamente, 631,477,
443, 440 dias, a média sendo de 497,7 dias.
A Tabela II mostra medidas do comprimento total e do comprimento
do dedo móvel do pedipalpo esquerdo de exúvias e de alguns escorpiões
medidos depois de mortos.
Nenhum exemplar apresentou caracteres sexuais secundários de macho.
DISCUSSÃO
As contagens dos recém-nascidos foram aproximadas pois, contagens
rigorosas exigiriam que eles fossem retirados das costas de suas mães.
No tocante às idades dos exemplares e suas respectivas ecdises,
comparando-se entre si os dados da Tabela I, e estes, com os anterior¬
mente obtidos (Matthiesen 4 - 5 - 6 ) registraram-se em alguns casos enormes
variações de um indivíduo para outro. Assim, por exemplo, na Tabela I,
o exemplar 84/7a, mais precoce, passou pela 2 a ecdise com 68 dias de
idade, enquanto 84/6d, mais tardio, o fez com 375. Considerando-se to¬
dos os dados disponíveis neste e em outros trabalhos já citados, as idades
extremas registradas foram: 2 a ecdise, 38 — 375; 3 a , 117 — 429; 4°,
194 — 631. Os exemplares cujas idades foram 375 dias para 2 a ecdise,
429, para 3 a e 631, para 4 a (Tabela I), foram os mais tardios conhecidos
até agora. Um indíviduo mencionado em outro trabalho (Matthiesen 5 ),
passou pela 3 a ecdise com a idade de 586 dias, tempo este superior ao
máximo acima indicado. Fora, porém, submetido a outras experiências,
o que pode ter retardado a ocorrência do processo.
48
cm
SciELO
3 11 12 13 14 15 16
Tityus bahiensis. Exemplares nascidos e criados em cativeiro. Datas em que exuviaram e duração total de cada exemplar. As colunas encimadas por i.d.
indicam a idade do exemplar (em dias) quando ocorreu o acontecimento indicado na coluna situada imediatamente à esquerda.
MATTHIESEN, F. A. Desenvolvimento pós-embrionário de Tityus bahiensis-, dados adicionais (Scor-
piones, Buthidae). Mem. Inst. Butantan, 52(21:47-52, 1990.
O
CO
(D
CM
M"
LO
CO
LO
1
00
00
-q
O
O
O
00
O
CM
CM
T-
CD
1
o
T -
CO
CO
00
CM
CM
M"
LO
CD
CD
CD
CO
LO
M"
CD
LO
LO
CD
CD
CD
CD
CD
CD
CD
00
CO
CO
oq
CO
CO
CO
oq
CO
CO
CO
cq
CM
CM
T—
CD
CO
CD
CNÍ
I
CD
ò
o
q
q
q
q
q
q
q
<"q
q
1
q
'■q
CM
CD
ò
CM
*—■
r—
CD
LO
CD
CM
o
CM
CO
o
O
CM
O
CO
O
~ó
|
|
|
CO
1
1
|
|
1
I
M-
CD
'sj-
M"
CD
LO
CD
CD
CD
CO
CO
CO
CO
cq
'~o
1
i
q
1
1
CO
I
I
1
I
^r
CD
1
1
1
t—
1
1
q
1
1
1
1
q
q
(D •
CM
q
CO
ò
Sj-
CM
CD
CD
CD
LO
LO
CO
CO
LO
"D
CD
CM
|
CD
1
1
T-
CO
LO
|
CO
T-
CM
M-
CO
CO
CO
CO
CO
CO
CO
CD
CO
LO
LO
CD
CD
CD
LO
LO
CO
CO
cq
oq
CO
cq
cq
cq
CO
CO
~o
Ç_)
CM
LO
I
CM
1
1
6
CM
CO
CO
I
CM
CM
CD
q
1
q
1
1
<"q
q
q
q
1
'■q
T—
CD
CD
LO
ò
M-
00
CD
CO
CM
o
CM
CO
o
CM
CM
O
CD
CM
o
LO
00
o
■q
CD
CD
LO
00
'—
M"
00
CM
CO
CD
00
CM
CM
CM
CM
CM
CO
CD
CO
CO
CO
LO
LO
LO
LO
LO
LO
CD
LO
LO
CO
CO
00
oq
CO
CO
CO
oq
00
CO
CO
oq
cq
CO
"O
o
Ò
T—
CM
q
CD
CO
ò
T—■
T—
CD
'■q
*—
q
q
q
q
T—
*"q
q
q
q
«3 •
CD
q
LO
CO
CO
ò
CD
LO
q
LO
CO
LO
CM
CM
O
O
CM
o
O
CO
CO
CO
LO
M-
LO
LO
LO
LO
LO
LO
c
CD
CO
CO
CO
CO
oq
CO
co
oq
oq
cq
cq
CO
CO
£
CO
CO
CO
CM
CO
r—
q
M-
T—
T—
q
q
q
q
q
r—
T—
q
q
q
q
q
q
CO
CM
LO
ò
CD
CD
LO
LO
LO
LO
LO
LO
CD
O
o
o
CM
T-
T-
t —
o
o
O
o
CM
CM
z
CD
CD
CD
JD
CD
CD
CD
JD
CD
JD
O
"O
CD
JD
Q.
CM
CM
CO
qf
q
CD
CD
CD
co
r-
E
CO
CO
CO
5-
M"
M-
?
M"
5-
(D
x
CO
00
00
00
00
00
00
CO
00
00
00
00
00
LU
49
SciELO
MATTHIESEN, F. A. Desenvolvimento pós-embrionário de Tityus bahiensis ; dados adicionais (Scor-
piones, Buthidae). Mem. Inst. Butantan, 52(2):47-52, 1990.
CD
co'
^j- CD lo - - 05
■sr co ' ' lo' lo'
00
o o I I. T- o
00 CN CO 1 1 LO LO
00
'sT
C0_ LO^
CO
^ o
CO CO
o o co oo | . co co lo , cq lo
«sf co' co' ' co' co' co' co' ' co co
or^Lor^ I iLOLO^-r^ i
00 CN CN CN 1 1 CN CN CN CN 1 CM CM
cn cm | co oo o o o 05 oo^ ^ q
co' co' 1 co' cm' co' co' co' co' CN cn co co'
^ CN ICNOOCD'— OOOCMCN
CN CN 1 CN CN CN '— CNCNCNCNCNCN
.Ç/j
c r>
c
.QJ
C0
-Q
co
£
co
co
_Q
co
CO
co
J3
CO
-Q
o
~o
co
_Q
CN
CN
CO
co
CO
co
co
r^-
CO
co
co
íF
mF
?
5
00
00
co
00
00
00
00
00
00
00
00
00
co
50
SciELO
MATTHIESEN, F. A. Desenvolvimento pós-embrionário de Tityus bahiensis- dados adicionais (Scor-
piones, Buthidae). Mem. Inst. Butantan, 52(21:47-52, 1990.
Embora o comprimento total varie devido à segmentação, as medidas
obtidas dão, mesmo assim, uma idéia do tamanho. As medidas do dedo
móvel são mais exatas por se tratar de uma estrutura única, não sujeita
a tais variações.
Os dados aqui presentes são insuficientes para uma conclusão definiti¬
va. As médias, particularmente, foram tomadas com base em poucos nú¬
meros e não são, reconheço, suficientemente significativas. Como estas
informações e as resultantes de meus estudos anteriores são as únicas exis¬
tentes sobre desenvolvimento pós-embrionário de T. bahiensis, novos e
mais completos estudos serão necessários para o conhecimento desse as¬
sunto. A grande mortalidade de jovens desta espécie nas criações em ca¬
tiveiro é, indubitavelmente, uma grande barreira, razão pela qual, de cerca
de 220 indivíduos, apenas 13 foram acompanhados. No que diz respeito
à manutenção em laboratório, talvez a alta taxa de mortalidade possa ser
compensada com a criação de um número mais elevado de ninhadas. Por
outro lado, levando-se em conta a quantidade de partos e o número de
filhotes por ninhada (Matthiesen 5 ), poder-se-ia supor que os adultos, em¬
bora não raros, deveriam ser bem mais comuns na natureza. Não fiz e não
conheço nenhuma observação específica sobre isso. Mas, sou levado a
acreditar que a taxa de mortalidade entre filhotes é elevada também entre
indivíduos não cativos. Um estudo mais aprofundado nesse sentido seria
altamente desejável. Resta ainda responder à pergunta: "até onde os re¬
sultados obtidos com escorpiões cativos correspondem ao que ocorre com
os que vivem em liberdade?". Já Maccary 3 chamara a atenção para es¬
se ponto quando, em suas palavras, citadas também por Millot & Vachon,
7 , disse: "Aucun insecte, dans I' immense République de la Nature n' ai-
me sa liberté avec plus cTardeur que le Scorpion..."
AGRADECIMENTOS
Agradeço à Dra. Sylvia M. Lucas, Diretora da Divisão de Biologia do
Instituto Butantan, pela leitura crítica do texto.
ABSTRACT: Individuais of Tityus bahiensis (Perty, 1834) which were bom
in the laboratory, were kept on these conditions.
Second molt took place when the scorpions were between 68 and 375
days old, considering 13 individuais; third molt, between 299 and 429
days old, considering 9. Four individuais reached fourth ecdys|s at the
ages of 631,477, 443 and 440 days respectively. The largest age record-
ed was 882 days.
Measurements of total length and of the movable pedipalp fingers length
are presented.
KEYWORDS: Scorpiones, post-embryonic development, Tityus bahiensis.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. ANGERMANN, H. Über Verhalten, Spermatophorenbildung und Sinnesphysiologie von
Euscorpius italicus Flost und verwandten Arten (Scorpiones, Chactidae). Zeitschrift
Tierpsychologie, 74(3): 276 — 302, 1957.
2. AUBER, M. Observations sur le biotope et la biologie du scorpion aveugle: Belisarius
xambeui E. Simon. Vie et Milieu, 70(2): 160 - 167, 1959.
3. MACCARY, A. Mémoire sur le scorpion qui se trouve sur la montagne de Cette. Paris,
Gabon édit., 1810. 48p.
51
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
MATTHIESEN, F. A. Desenvolvimento pós-embrionário de Tityus bahiensis; dados adicionais (Scorpi-
ones, Buthidae). Mem. Inst. Butantan, 52(21:47-52, 1990.
4. MATTHIESEN, F.A. Notas sobre escorpiões. Rev. Agric., 36(3): 139 — 147, 1961.
5. MATTHIESEN, F.A. Aspectos morfológicos e biológicos dos escorpiões. São Paulo, 1966.
115p. (Tese de Doutoramento — Faculdade de Filosofia Ciências e Letras — USP).
6. MATTHIESEN, F.A. Le développement post-embryonnaire du scorpion buthidae: Tityus
bahiensis (Perty, 1834). Buli. Mus. Nat. Hist. natur., 2 e sér., 47(6): 1367 — 1370,
1969.
7. MILLOT, J. & VACHON, M. Ordre des scorpions. In: Grassé, P.P. Traité de Zoologie.
Paris, Masson et Cie édit., 1949, v. 6, p. 386-436.
8. PIZA JR, S. de T. Estudos anatômicos em escorpiões brasileiros. III — A) Tityus bahien¬
sis. Parição, variação da posição do umbigo dorsal, número de filhotes e de embri¬
ões, primeira muda... Rev. Agric., 75(5/6): 214-228, 1940.
9. SCHULTZE, W. Biology of the large Philippine forest scorpion. Philip. J. Sei., 33(3): 375
- 390, 1927.
52
cm
SciELO
3 11 12 13 14 15 16
Mem. Inst. Butantan
52 (2): 53-56, 1990
ON THE IDENTITY OF DENDROBATES QUINQUEVITTATUS
(ANURA: DENDROBATIDAE)
Mareio MARTINS*
Célio F. B. HADDAD**
ABSTRACT: We call attention to the wrong usage of the name Dendro-
bates quinquevittatus. Specimens from Samuel, State of Rondônia, North¬
ern Brazil, 150km from the type locality, fit perfectly the original
description of D. quinquevittatus and differ in several features from those
specimens currently referred to as D. quinquevittatus in the literature.
KEYWORDS: Taxonomy; Amphibia: Dendrobatidae; Dendrobates quin¬
quevittatus.
INTRODUCTION
Steindachner 8 described with many details the color pattern of a small
dendrobatid collected at Salto do Girao ( = Jirau), Rio Madeira, Rondônia,
Brazil, by J. Natterer in the beginning of the past century, and named it
Dendrobates tinctorius var. quinquevittatus. The name quinquevittatus was
extracted from a L. J. Fitzinger labei. Lutz and Kloss 4 used the name quin¬
quevittatus for some small, striped dendrobatids from the upper Amazo¬
nas region, identified by E. R. Dunn. Silverstone 7 reviewing the genus
Dendrobates used the name quinquevittatus for several small specimens
with distinct color patterns in a conservative way, since some species of
this genus are actually very variable in color and color pattern. Lescure and
Bechter 3 applied the name quinquevittatus to several specimens from
Amazônia and briefly commented the polymorphism in some populations.
Myers 6 , in a partial revision of the quinquevittatus group, removed two spe¬
cies from the synonymy of D. quinquevittatus and described three new
species.
Departamento de Zoologia, Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas, Caixa Postal 6109, 13081
— Campinas — SP, Brasil.
Departamento de Zoologia, Instituto de Biociências, Universidade Estadual Paulista, Caixa Postal 178, 13500
— Rio Claro — SP, Brasil.
Recebido para publicação em 5.2.1990 e aceito em 25.4.1990.
SciELO
10 11 12 13
I
MARTINS, M. & HADDAD, C. F. B. On the identity of Dendrobates quinquevittatus (Anura:
Dendrobatidae), Mem. Inst. Butantan, 52(2): 53-56, 1990.
The purpose of this note is to call attention for the wrong usage of the
name quinquevittatus. Pending a revision of the quinquevittatus group by
Myers®, we briefly diagnose here some specimens from Samuel, 150 km
from Salto do Jirau, and compare them to information in the literature con-
cerning specimens referred to as D. quinquevittatus.
MATERIAL AND METHODS
Recently we had the opportunity to examine several live and preserved
specimens of a Dendrobates from Samuel (8°46' S, 63°27' W), Rio Jamari,
Rondônia, which fit Steindachner 8 description and illustration quite per-
fectly, and also the illustrations of the holotype of D. quinquevittatus provided
by Silverstone 7 . These specimens from Samuel differ in several features
from those currently referred to as D. quinquevittatus in the literature (e.g.,
Plate 1 in 2 ; Figures 4-8 in 3 ; Figures IA and 7B in 6 ; Frontispice II in 7 ).
Measuring procedures are those of Myers 6 . Specimens examined are:
ZUEC (Museu de História Natural, Universidade Estadual de Campinas)
7815-7826; MNRJ (Museu Nacional do Rio de Janeiro) 4995 and 4996.
RESULTS
Dendrobates quinquevittatus Steindachner, 1864.
Dendrobates tinctorius var. quinquevittatus Steindachner, 1864:261,
plate XV, Figure 2, holotype: NHMW (Naturistorisches Museum, Vienna)
16517, Salto do Girao, Brasil.
Dendrobates quinquevittatus (part.). Silverstone, 1975:33, Figures 12A
and 14D. (Only the holotype of D. quinquevittatus).
Diagnosis. A small Dendrobates (15.9-18.9mm snout-vent length con-
sidering both sexes) with slightly granular skin (Figure 1). Large finger discs;
second finger slightly longer than first. In life, greenish to yellowish white
middorsal, dorsolateral, and lateral stripes on deep black dorsum and flanks.
Limbs brownish yellow with scattered and variable sized, small black spots.
The spots are less numerous on hands, feet, and ventral surfaces of the
limbs, which are less brownish than the dorsal surfaces. Metallic, golden
orange "flash” marks in the axila and groin. Venter with variable sized and
shaped, deep black blotches on a greenish to yellowish white ground (see
a color photograph of a specimen of D. quinquevittatus from Samuel in
5 ). In preservative all colors, except black, fade to white. Measurements
of 14 specimens from Samuel are presented in Table 1.
DISCUSSION
As mentioned above, the specimens of D. quinquevittatus from Samuel
perfectly fit SteindachnePs 8 detailed original description and illustration.
Larger size, limbs not reticulated, differences in, and little variation of, color
and color pattern easily distinguish the specimens from Samuel from those
referred to as D quinquevittatus by Lescure and Bechter 3 , Lutz and Kloss 4 ,
Myers 6 , and Silverstone 7 (except the holotype of D. quinquevittatus). The
specimens found by Duellman 2 at Santa Cecilia, Ecuador, also have spot-
ted limbs, but differ in all other features mentioned above. Considering these
differences, we conclude that all these specimens are not D. quinquevitta¬
tus (except the holotype in 7 ).
Identifying recently caught anurans by comparing them with the type-
specimens is frequently a difficult task, since many types are from the
3
5 6
11 12 13 14 15 16
f
54
MARTINS, M. & HADDAD, C, F. B. On the identity of Dendrobates quinquevittatus (Anura:
Dendrobatidae). Mem. Inst. Butantan, 52(2): 53-56, 1990.
TABLE 1
Means (x) standard deviations (SD), and ranges for the measurements of 14 specimens
of Dendrobates quinquevittatus from Samuel, Rondônia, Brazil. All measurements are in
millimeters.
X
SD
range
snout-vent length
17.71
0.99
15.9-18.9
head width
5.46
0.21
5.0-5.8
head length
5.74
0.20
5.4 -6.1
thigh length
7.65
0.38
7.1-8.3
tibia length
7.68
0.26
7.3-8.1
feet length
7.07
0.26
6.8-7.6
hand length
4.43
0.19
4.2-4.9
eye diameter
2.03
0.11
1 .8-2.2
tympanum diameter
0.98
0.10
0.8-1 .1
eye to nostril distance
1.86
0.06
1 .8-2.0
internarial distance
2.45
0.13
2.2-2.6
Fig. 1. A live specimen of Dendrobates quinquevittatus from Samuel, Rio Jamari, State
of Rondônia, northern Brazil. Photo by I. Sazima.
55
MARTINS, M. & HADDAD, C. F. B. On the identity of Dendrobates quinquevittatus (Anura:
Dendrobatidae). Mem. Inst. Butantan, 52(21: 53-56, 1990.
past two centuries and, consequently, color, color pattern, and occasion-
aly morphology are in poor conditions. Misidentifications may be a com-
mon occurrence in such instances. Except for those species whose type
localities are unknown, vague or wrong, the practice of looking for a spe¬
cies in its type locality has proven to be a valuable tool in solving problems
of anuran proper identification 1 .
RESUMO. Chamamos a atenção para o uso incorreto do nome Dendro¬
bates quinquevittatus. Exemplares de Samuel, Estado de Rondônia, dis¬
tante 150km da localidade-tipo, concordam perfeitamente com a
descrição original de D. quinquevittatus e diferem em diversas característi¬
cas daqueles correntemente referidos como D. quinquevittatus na
literatura.
UNITERMOS. Taxonomia; Amphibia: Dendrobatidae; Dendrobates quin¬
quevittatus.
ACKNOWLEDGEMENTS
We thank Radenka Batistic and Augusto Abe for the opportunity to ex¬
amine live and preserved specimens from Samuel; Werner Bokermann and
Ivan Sazima for helpful comments on earlier drafts of this manuscript.
REFERENCES
1. CARDOSO, A. J. & VIELLIARD, J. M. E. Caracterização de uma população topotípica
de Hyia rubicundula (Amphibia, Anura). Rev. bras. Zool., 2:423-426, 1985.
2. DUELLMAN, W. E. The biology of an equatorial herpetofauna in Amazonian Ecuador.
Misc. Publ. Mus. Nat. Hist. Univ. Kansas, 65: 1-352, 1978.
3. LESCURE, J. & BECHTER, R. Le comportement de reproduction en captivité et le poly-
morphisme de Dendrobates quinquevittatus Steindachner (Amphibia, Anura, Den¬
drobatidae) Rev. Fr. Aquariol., 8:107-118, 1981 (1982).
4. LUTZ, B. & KLOSS, R. Short notes on some frogs from the upper Amazonas and a few
vicariant forms. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, 50: 629-678, 1952.
5. MARTINS, M. & SAZIMA, I. Dendrobatídeos: cores e venenos. Ciência Hoje, 9(531:34-38,
1989.
6. MYERS, C.W. Spotted poison frogs: descriptions of three new Dendrobates from western
Amazónia, and resurrection of a lost species from "Chiriqui". Am. Mus. Novit.,
2727:1-23, 1982.
7. SILVERSTONE, P. A. A revision of the poison-arrow frogs of the genus Dendrobates
Wagler. Nat. Hist. Mus. Los Angeles Co. Sei. Buli., 27:1-55, 1975.
8. STEINDACHNER, F. Batrachologische Mittheilungen. Verh. Zool. Bot. Ges. Wien,
74:239-288, 1864.
56
cm
SciELO
3 11 12 13 14 15 16
Mem. Inst. Butantan
52 (2): 57-61, 1990
ESQUADRINHAR COM A CAUDA:
UMA TÁTICA DE CAÇA DA SERPENTE HYDRODYNASTES GIGAS
NO PANTANAL, MATO GROSSO
Christine STRÜSSMANN*
Ivan SAZIMA**
RESUMO: A serpente Hydrodynastes gigas foi observada forrageando
em ambiente alagado no Pantanal, Mato Grosso. Na caça a anuros jo¬
vens, Leptodactylus sp.(Leptodactylidae), a serpente esquadrinha o subs¬
trato com a cauda. Essa tática pode ser considerada como uso de parte
do corpo como método de caça. Repertório variado de táticas de caça
pode ser freqüente entre serpentes facultativamente aquáticas, que vi¬
vem em ambientes fortemente influenciados por inundação sazonal.
UNITERMOS: História natural, comportamento alimentar, Colubridae.
INTRODUÇÃO
Hydrodynastes gigas ( = Cyclagras gigas 5 ) é uma serpente Colubridae
de grande porte, até 250cm, hábitos semi-aquáticos e atividade diurna,
que se alimenta basicamente de anfíbios e peixes 1 < 2 . Sua distribuição geo¬
gráfica estende-se desde o Peru até o norte da Argentina, incluindo Bolí¬
via, Paraguai, o sudeste e o oeste do Brasil 1 - 2 .
Na parte norte do Pantanal, extensa planície inundável situada nos es¬
tados de Mato Grosso (MT) e Mato Grosso do Sul (MS), H. gigas é um
dos ofídios avistados com maior freqüência. A denominação popular
"surucucu-do-Pantanal”, por vezes atribuída a esse colubrídeo 1 - 10 pa¬
rece não ser empregada pelo homem pantaneiro da região de Poconé (MT),
que a trata por "jaracussu-piau”, "jaracussu-do-brejo" ou, simplesmen¬
te, "jaracussu” (observações pessoais).
Pouco há disponível, na literatura, sobre história natural de H. gigas e
a maioria das informações está baseada em animais cativos, incluindo ma¬
nutenção, alimentação e reprodução 2 - 3 - 8 - 10 .
' Fundação Estadual do Meio Ambiente. 78000 Cuiabá — Mato Grosso
** Departamento de Zoologia, Universidade Estadual de Campinas, 13081 Campinas — São Paulo
Recebido para publicação em 27.3.1990 e aceito em 15.5.1990.
SciELO
10 11 12 13
STRÜSSMANN, C. & SAZIMA, I. Esquadrinhar com a cauda: uma tática de caça da serpente Hydrody-
nastes gigas no Pantanal, Mato Grosso. Mem. Inst. Butantan, 52(2): 57-61, 1990.
Apresentamos aqui observações sobre a tática de esquadrinhar o subs¬
trato com a cauda, usada por H. gigas no Pantanal, durante caça a anuros
de pequeno porte (Leptodactylus sp.).
PROCEDIMENTO
O trabalho de campo foi feito em maio de 1989, na Fazenda Santa Inês,
região do Pantanal de Poconé, Mato Grosso (c. 16° 30' S, 56° 45' W).
Dois indivíduos de H. gigas foram observados em duas ocasiões diferen¬
tes; um deles com 195cm de comprimento rostro-anal e outro com c.
200cm de comprimento total. As observações foram feitas por um de nós
(CS), acompanhando a serpente enquanto em atividade de caça, na bor¬
da alagada de "capões de acuris" (Figura 1). Cada um desses capões cons¬
titui uma unidade fitofisionômica insular, florestal e de âmbito
aproximadamente circular, formada por terras mais altas que o campo inun-
dável adjacente. O "acuri” (Sheelea phalerata, Palmae) é a espécie domi¬
nante, havendo, em muitos capões, uma faixa periférica de gravatás
Bromelia sp., Bromeliaceae).
As áreas de gravatazal estavam semi-alagadas e serviam de abrigo a
numerosos indivíduos jovens da rã Leptodactylus sp. (aff. ocellatus), Lep-
todactylidae, com c. 4cm de comprimento total. Coivaras e manchas densas
de gravatás abrigavam maiores concentrações de rãs e, à passagem do
observador, diversas dessas rãs saltavam nas poças rasas entre as plantas.
Fig. 1. Borda de um capão de acuris, ambiente usado por Hydrodynastes gigas, em área
alagada no pantanal de Poconé, Mato Grosso. Em primeiro plano gravatás, Brome¬
lia sp. (à direita) e folhas de acuri, Sheelea phalerata (acima); ao fundo, vista par¬
cial de outros capões.
cm
[SciELO
3 11 12 13 14 15 16
STRÜSSMANN, C. & SAZIMA, I. Esquadrinhar com a cauda: uma tática de caça da serpente Hydrody-
nastes gigas no Pantanal, Mato Grosso. Mem. Inst. Butantan, 52(21: 57-61, 1990.
RESULTADOS
Dois indivíduos de H. gigas foram observados ativos em horas quentes
do dia, entre 11:30 e 14:30h, a temperaturas do ar de 29-30°C e da água,
37-39°C.
Um dos indivíduos estava deslocando-se em meio a um gravatazal, pro¬
gredindo de modo contínuo e esquadrinhando o substrato com o focinho.
Por vezes, procurava sob a água rasa mas, com maior freqüência, pouco
acima da superfície. No decorrer dessa atividade, o ritmo de emissão de
língua (dardejar) era de 60-70/min. Ao longo do trajeto e, particularmen¬
te, em locais com maior concentração de Leptodactylus jovens, a serpen¬
te detinha-se por alguns momentos. Em duas dessas ocasiões, ficou
estacionária, com o corpo e a cauda submersos e a cabeça emersa, ele¬
vada a poucos centímetros da superfície. Nessa postura movimentava o
terço final do corpo e com a extremidade da cauda sondava diferentes lo¬
cais do substrato circundante (Figura 2). Esses movimentos de cauda pro¬
vocavam a fuga das rãs aí abrigadas, algumas das quais a serpente
imediatamente percebia e procurava capturar, acompanhando os seus sal¬
tos com elevar e baixar de cabeça. Em sete investidas, a serpente apresou
duas rãs (c. 30% de sucesso).
Fig. 2. Hydrodynastes gigas ao esquadrinhar o substrato com a cauda, durante caça a jo¬
vens de Leptodactylus sp., entre gravatás. O pontilhado representa duas das posi¬
ções da cauda durante esse comportamento.
O segundo indivíduo percorreu cerca de 20m em meio ao gravatazal,
caçando de modo semelhante ao primeiro. Em particular, apresentou o
mesmo comportamento de esquadrinhar o substrato com a cauda, provo¬
cando a fuga de rãs jovens abrigadas na base dos gravatás, expondo-as
assim às suas investidas.
59
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
STRÜSSMANN, C. & SAZIMA, I. Esquadrinhar com a cauda: uma tática de caça da serpente Hydrody-
nastes gigas no Pantanal, Mato Grosso. Mem. Inst. Butantan, 5212): 57-61, 1990.
DISCUSSÃO
O comportamento de usar a cauda para sondar o ambiente e espantar
presas potenciais, observado em Hydrodynastes gigas durante a caça, pa¬
rece constituir um caso adicional de uso dessa parte do corpo em táticas
de caça. Outro exemplo é o comportamento de atrair presas com movi¬
mentos sinuosos da cauda ("caudal luring"), registrado principalmente para
indivíduos jovens de Viperidae 7 .
Em H. gigas, esquadrinhar com a cauda poderia estar relacionado à ne¬
cessidade da presa estar em movimento para que a seqüência predatória
seja eliciada 4 . Entretanto, essa serpente apresenta hábitos necrófagos 9 e,
portanto, possui a capacidade de perceber e aproveitar animais imóveis.
A tática aqui descrita possivelmente não é usada frente a outras presas
(e.g. sapos, mussuns e outros peixes, roedores), das quais H. gigas se
alimenta quando as bordas dos capões estão secas e as rãs jovens não
estão presentes (observações pessoais).
Gillingham & Rush 6 , ao registrarem comportamento oportunístico de
pesca em Natrix (= Nerodia) spp., comentam que serpentes aquáticas pa¬
recem exibir métodos de caça não estereotipados, variando o comporta¬
mento em função do habitat. É provável que táticas variadas de caça
também ocorram entre serpentes facultativamente aquáticas, que habitam
áreas com grande variação sazonal do nível de água, como é o caso de
H. gigas no Pantanal.
AGRADECIMENTOS
Somos gratos a Augusto S. Abe, Bill Magnusson e Márcio Martins, pe¬
las críticas e sugestões ao manuscrito; a Oswaldo Cid, pelas facilidades
na Faz. Santa Inês e pelo auxílio nos trabalhos de campo; a Esmeralda Z.
Borghi, pelo acabamento do desenho original; ao CNPq (proc. 300992/79),
pelo auxílio financeiro (IS).
ABSTRACT: The colubrid snake, Hydrodynastes gigas, was observed
while foraging in flooded habitats at the Pantanal in Mato Grosso, western
Brazil. In shallow water near the shores this snake poked with its tail
among bromeliad clumps, a favoured hiding-place of young Leptodac-
tyius frogs. The poking behaviour often caused the frogs to flee, after
which some of them were pursued by the snake. This tactic may be
regarded as another instance of use of a bodily part as a hunting method
(caudal luring is the best known example within this category). Varied
foraging repertoire may be common among semiaquatic snakes living
in seasonaliy flooded habitats.
KEYWORDS: Natural history, feeding behaviour, Colubridae.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. AMARAL, A. do. Serpentes do Brasil, iconografia colorida. São Paulo, Ed. Melhora¬
mentos & Ed. Univ. São Paulo, 1977.
2. BELS, V.L. Observations of the courtship and mating behaviour of the snake Hydrody¬
nastes gigas. J. Herpetol., 27:350-352, 1987.
3. CAMPBELL, J.A. & MURPHY, I.E. Reproduction of five species of Paraguayan colu-
brids. Trans. Kansas Acad. Sei., 87: 63-65, 1984.
60
cm
[SciELO
} 11 12 13 14 15 16
STRÜSSMANN, C. & SAZIMA, I. Esquadrinhar com a ca.uda: uma tática de caça da serpente Hydrody-
nastes gigas no Pantanal, Mato Grosso. Mem. Inst. Butantan, 52(2): 57-61, 1990.
4. CZAPLICKI, J.A. & PORTER, R.H. Visual cues mediating the selection of goldfish (Ca-
rassius auratus) by two species of Natrix. J. Herpetot., 8: 129-134, 1974.
5. DOWLING, H.G. & GIBSON, F.W. Relationship of the neotropical snakes Hydrodynas-
tes bicinctus and Cyctagras gigas. Herp. Rev. 2: 37-38, 1970.
6. GILLINGHAM, J.C. & RUSH, T. Notes on the fishing behavior of water snakes. J. Her-
petol., 8: 384-385, 1974.
7. HEATWOLE, H. & DAVISON, E. A review of caudal luring in snakes with notes on its
occurrence in the Saharan sand viper, Cerastes vipera. Herpetologica, 32: 332-336,
1976.
8. HONEGGER, R. Beitrãge zur Biologie von Hydrodynastes gigas (Cyctagras gigas) in Ter-
rarium. In: BELS, V.L. & VAN DEN SANDE, A.P. ed. Maintenance and reproduc-
tion ofreptiles in captivity. Antverps, Acta Zool. Pathol. Antverpiensia, 1: 237-244,
1984.
9. SAZIMA, I. & STRÜSSMANN, C. Necrofagia em serpentes brasileiras: exemplos e pre¬
visões. Rev. bras. Biol., 50 (no prelo), 1990.
10. VOGEL, Z. Surucucu do Pantanal. Aguar. Terrar. Zeitschr., 7 7:178-181, 1958.
61
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
Mem. Inst. Butantan
52 (2): 63-68, 1990
ANÁLISE RADIOLÓGICA NA OFIOFAGIA DE
FILHOTE DE SERPENTE
BOTHROPS ALTERNATUS (VIPERIDAE — CROTALINAE)
Rubens Pinto CARDOSO JÚNIOR'
Luiz Antonio B. de Mello LULA'
Masao IWASAKI*'
Sandra Maria de OLIVEIRA*'
RESUMO: Os autores relatam o acompanhamento de um caso de ofio-
fagia em filhote de Bothrops alternatus, através do método radiológico
para avaliação do tempo decorrido entre a ingestão e a eliminação total
dos resíduos alimentares, bem como das vantagens da sua utilização,
comparada com outros métodos.
UNITERMOS: Ofiofagia, serpente, Bothrops alternatus, Viperidae-
-Crotalinae.
INTRODUÇÃO
O processo digestivo em serpentes está relacionado ao tipo e à quanti¬
dade de alimento consumido 3,5,15,16, com a temperatura ambiente 10 U7
e a ausência ou a presença de veneno inoculado na presa 19 .
Vários métodos são utilizados para análise da digestão em répteis, en¬
tre eles, a avaliação direta do conteúdo estomacal na autópsia do animal
1 , 6 , 11 , 12 , 13 , palpação do estômago para regurgitação do conteúdo esto¬
macal 5 ' 16 , implantação de cânula no estômago 7 -°, gastroendoscopia 18
e radiologia 3,5,16.
As descrições de casos de ofiofagia em serpentes estão restritas à cita¬
ção do fato 2,4,9,14, nac |a abordando sobre o processo digestivo que so¬
frem as presas. O presente trabalho relata o acompanhamento de um caso
em filhote de Bothrops alternatus, através de método radiológico, para ava¬
liação do tempo decorrido entre a ingestão e a eliminação completa dos
resíduos alimentares.
* Seção de Venenos — Instituto Butantan
# * Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo
Recebido para publicação em 20.11.1989 e aceito em 15.5.1990.
63
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
CARDOSO JÚNIOR, R. P.; LULA, L.A.B. de M.; IWASAKI, M.; OLIVEIRA, S. M. de Análise radiológi-
ca na ofiofagia de filhote de serpente Bothrops alternatus (Viperidae — Crotalinae). Mem. Inst.
Butantan, 52 (21:63-68, 1990.
MATERIAL E MÉTODOS
Um total de 23 serpentes, Bothrops alternatus, nascidas em cativeiro,
na Seção de Venenos do Instituto Butantan em 02/04/88, foram agrupa¬
das duas a duas em caixas de polipropileno. Após 22 dias de nascidas,
foram alimentadas separadamente com camundongos albinos de um dia.
Depois de alimentadas, as serpentes foram reagrupadas e mantidas em
biotério com temperatura média de 23°C. Em uma das caixas foi consta¬
tado caso de ofiofagia, tendo um dos filhotes ingerido o outro.
O caso foi acompanhado por 1 2 radiografias da serpente e sua presa,
nas posições lateral e dorso-ventral, sendo utilizada a técnica de 40 kv e
2,5 mAs em aparelho Chenonceaux CGR 300 mA.
RESULTADOS
A análise das radiografias mostrou que a ingestão da presa começou
pela cauda (Figura 1).
Durante o processo de digestão da serpente ingerida, foi observado que
até o 14° dia a ação das enzimas ocorreu a nível de tecido mole. Em se¬
guida, foram constatadas modificações na disposição da coluna vertebral
com enovelamento e sinais de perda de relação entre os ossos do crânio
e da coluna (Figura 2). O processo acentuou-se e no 18° dia houve defe-
cação da região caudal. Após o 27° dia, parte da coluna vertebral foi ex¬
cretada (Figura 3). No 43° dia, o restante da coluna foi defecado juntamente
com a parte do crânio não digerida, permanecendo no intestino apenas
formações com densidades compatíveis a outros fragmentos ósseos. A
excreção das partes ósseas não absorvidas ocorreu no 50° dia (Figura 4).
Fig. 1 — Ofiofagia em Bothrops alternatus jovem. Posição da presa no tubo digestivo da
serpente ofiófaga.
64
cm
[SciELO
3 11 12 13 14 15 16
CARDOSO JÚNIOR, R. P.; LULA, L.A.B. de M.; IWASAKI, M.; OLIVEIRA, S. M. de Análise radiológi-
ca na ofiofagia de filhote de serpente Bothrops alternatus (Viperidae — Crotalinae). Mem. Inst.
Butantan, 52 (21:63-68, 1990.
Fig. 2 — Enovelamento da presa e perda de relação entre os ossos do crânio e da coluna
vertebral, no tubo digestivo da serpente ofiófaga.
Fig. 3 — Acentua-se a perda de relação entre os ossos do crânio, e da coluna vertebral;
excreção da parte final da presa.
SciELO
CARDOSO JÚNIOR, R. P.; LULA, L.A.B. de M.; IWASAKI, M.; OLIVEIRA, S, M. de Análise radiológi-
ca na ofiofagia de filhote de serpente Bothrops alternatus (Viperidae — Crotalinae). Mem. Inst.
Butantan, 52 (21:63-68, 1990.
Excreção das partes ósseas não absorvidas, pela serpente ofiófaga.
COMENTÁRIOS E DISCUSSÃO
Casos de ofiofagia, que ocasionalmente ocorrem em laboratório, em
geral são conseqüentes da disputa de alimento, quando duas serpentes
mantidas em uma mesma caixa começam a ingerir um mesmo camun¬
dongo ou presa e terminam por uma ingerir a outra. Este fato não se verifi¬
cou no caso presente, pois o filhote ofiófago, como registrado em radiografia
(Figura 1), iniciou a ingestão da serpente irmã pela cauda.
Diversos autores citam que, na serpente, o processo de digestão total
de uma presa varia de 01 a 14 dias, de acordo com a temperatura am¬
biente e o tipo de alimento ingerido 1-3,15,16,19 |sj as observações citadas
acima, o final da digestão é marcado pela data da defecação 3 , mas se¬
gundo Skoczylas 18 , isto não deve ser levado em conta, pois muitos ani¬
mais só defecam quando recebem a alimentação seguinte. No caso da
ofiofagia, ora relatada, o tempo necessário para a passagem do alimento
pelo trato digestivo foi de 50 dias, período considerado extremamente longo
quando comparado com resultados obtidos por outros autores.
Segundo Blain e Campbell 3 , o alimento ingerido por serpentes é reti¬
do no estômago até sua total digestão. No presente caso, o mesmo não
ocorreu na totalidade, porque as proporções da presa acarretaram seu alo¬
jamento em parte do intestino. O que nele se encontrava sofreu digestão
parcial, pois parte da cauda foi defecada no 18° dia.
cm
SciELO
3 11 12 13 14 15 16
CARDOSO JÚNIOR, R. P.; LULA, L.A.B. de M.; IWASAKI, M.; OLIVEIRA, S.
ca na ofiofagia de filhote de serpente Bothrops alternatus (Viperidae —
Butantan, 52 (21:63-68, 1990.
M. de Análise radiológi-
Crotalinae). Mem. Inst.
A utilização do método radiológico, no estudo da ofiofagia, comparado
com outros métodos empregados, possibilitou a manipulação da serpente
sem a utilização de anestésicos. Desta forma, o processo digestivo pode
ser acompanhado sem traumatizar nem colocar em risco a vida do animal.
ABSTRACT : An instance of ophiophagy by a juvenile pit viper, Bothrops
alternatus, in reported using X-ray as method for assessment of the time
elapsed between ingestion and complete elimination of alimentary
residues, as well as to affirm the advantages of its utilization when com-
pared to other methods.
KEYWORDS: Ophiophagy, snake, Bothrops alternatus, Viperidae-
Crotalinae.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. ALGAUFfARI, A.E.I. Experimental studies on the blood sugar in reptiles. Effects of fast-
ing, temperature and insulin administration in Psammophis sibilans. Z. Vergl. Phys-
iol. 54: 395-399, 1967.
2. BARTON, A.J. Ophiophagy by a juvenile copperhead. Copeia, (3): 232, 1949.
3. BLAIN, A.W. & CAMPBELL, K.N. A study of digestive phenomena in snake with the
AIDof the Roentgen Ray. Amer. J. Roentgenology Radiumtherapy, 48(2): 229-239,
1942.
(Ophidia, Viperidae) na
, Juiz de Fora, MG, 1987.
4. BRITES, V.L.C. Ofiofagia de Bothrops moojeni Floge, 1961
natureza. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ZOOLOGIA, 14.,
Resumos. Juiz de Fora, 1987. p. 137.
5. BROWN, E.E. Feeding habits of the northen water snake Natrix sipedon sipedon Lin-
naeus. Zoologica, NY. 43: 55-71, 1958.
6. CARPENTER, C.C. Comparative ecology of the common garter snake (Thamnophis sir-
talis sirtalis), Butler's garter snake (Thamnophis butlerl) in mixed populations. Eco-
logical Monographs, 22 (4): 235-258, 1952.
7. DIEFENBACFI, C.O.C. Gastric function in Caiman crocodilus (Crocodylia: Reptilia) —
I. Rate of gastric digestion and gastric motility as a function of temperature. Comp.
Biochem. Physiol., 57a: 259-265, 1975.
8. DIEFENBACFI, C.O.C. Gastric function in Caiman crocodilus (Crocodylia: Reptilia) —
II. Effects of temperature on ph and proteolysis. Comp. Biochem. Physiol., 57a:
267-274, 1975.
9. FEDERSONI JR., P.A.; BUONONATO, M.A.; PUORTO, G.; DE BIASI, P. Bothrops in-
sularis — Exame de conteúdo estomacal de um jovem (Serpentes: Viperidae: Crota-
linae). In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ZOOLOGIA, 14., Juiz de Fora, MG, 1987.
Resumos. Juiz de Fora, 1987. p. 138.
10. FIENDERSON, R.W. Feeding behavior, digestion and water requirements of Diadophis
punctatus arnyi Kennicott. Herpetologica, 26(4): 520-526, 1970.
11. KEENLYNE, K.D. Sexual differences in feeding habits of Crotalus horridus horridus.
J. Herpetol., 6: 234-237, 1972.
12. KEENLYNE, K.D. & BEER, J.R. Food habits of Sistrurus catenatus catenatus. J. Her¬
petol., 4: 382-384, 1973.
13. MACARTNEY, J.M. Diet of the Northen Pacific rattlesnake, Crotalus viridis oreganus,
in British Columbia. Herpetologica, 45(3): 299-304, 1989.
14. PUORTO, G. & CORDEIRO, C.L. Leptodeira annulata annulata (Linnaeus, 1758) como
conteúdo estomacal de Bothropsatrox (Linnaeus, 1758) (Serpentes). In: CONGRES¬
SO BRASILEIRO DE ZOOLOGIA, 14., Juiz de Fora, MG, 1987. Resumos. Juiz de
Fora, 1987. p. 136.
15. ROOT, H.D. Gastric digestion with hypothermia. Observation and applications. Thesis,
Univ. Minnesota, 1961.
16. SKOCZYLAS, R. Influence of temperature on gastric digestion in the grass snake, Natrix
natrix L. Comp. Biochem. Physiol., 33: 793-804, 1970.
67
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15
CARDOSO JÚNIOR, R. P.; LULA, L.A.B. de M.; IWASAKI, M.; OLIVEIRA, S. M. de Análise radiológi-
ca na ofiofagia de filhote de serpente Bothrops alternatus (Viperidae — Crotalinae). Mem. Inst.
Butantan, 52 (21:63-68, 1990.
17. SKOCZYLAS, R. Salivary and gastric juice secretion in the grass snake, Natrix natrix
L. Comp. Biochem. Physiol. 35: 885-903, 1970.
18. SKOCZYLAS, R. Physiology of the Digestive Tract. In: GANS, C. ed. Biology of the
Reptilia. Physiology B. London/New York, Academic Press, 1978. V. 8. p. 589-717.
19. THOMAS, R.G. & HARVEY-POUGH, F. The role of snake venom in prey digestion. Amer.
Zool., 7 7(4): 947, 1977.
68
jSciELO, i 1 !
14
INSTRUÇÕES AOS AUTORES
1. Somente serão aceitos trabalhos inéditos e que se destinem exclusivamente à revista. É proibida a reprodução
com fins lucrativos. Os artigos de revisão serão publicados a convite da Comissão Editorial.
2. Os trabalhos deverão ser redigidos em português, inglês ou francês, datilografados preferencialmente em má¬
quina elétrica, em espaço duplo em 3 (três) vias, cm papel formato ofício e numerados no ângulo superior direi¬
to.
3. No preparo do original será observada, sempre que possível, a seguinte estrutura: Página de rosto: título do arti¬
go, nome(s) do(s) autor(es) e filiação científica. Texto: introdução, material e métodos, resultados, discussão,
conclusões, agradecimentos c referência bibliográfica. Material de referência: resumos (em português e inglês);
unitermos (palavras ou expressões que identificam o conteúdo do artigo; devem ser incluídas até um limite máxi¬
mo de três. cm português e inglês).
4. As referências bibliográficas deverão ser ordenadas alfabeticamente e numeradas.
Exemplqs:
Para livros: autor, título, edição, local de publicação, editor, ano, páginas.
7. BIER, O. Microbiologia e imunologia. 24.ed. São Paulo, Melhoramentos, 1985. 1234p.
Para artigos: autor, título do artigo, título do periódico, volume, página inicial e final, ano.
8. MACHADO, J.C. & SILVEIRA F.°, J.F. Obtenção experimental da pancreatite hemorrágica aguda no cão
por veneno escorpiônico. Mem. Inst. Butantan, 40/41: 1-9, 1976/77.
As citações no texto devem ser por números-índices correspondentes às respectivas referências bibliográficas.
Exemplos:
... método derivado de simplificação de armadilha de Disney 1
... segundo vários autores 2 - 3 4
5. As ilustrações (fotos, tabelas, gráficos etc.) deverão ser originais e acompanhadas de legendas explicativas. As le¬
gendas serão numeradas e reunidas cm folha à parte. Os desenhos deverão ser a nanquim e as fotografias bem
nítidas, trazendo no verso o nome do autor e a indicação numérica da ordem a ser obedecida no texto. As ilustra¬
ções deverão ser organizadas de modo a permitir sua reprodução dentro da mancha da revista (22 x 12,5cm).
6. Os artigos deverão conter no máximo 6 (seis) ilustrações (branco e preto). De cada trabalho serão impressas 50
(cinquenta) separatas, sendo 10 para a Biblioteca do Instituto e 40 para os autores.
7. Os textos originais não serão devolvidos e os originais das ilustrações estarão à disposição dos autores.
INSTRUCTIONS TO AUTHORS
1. Manuscripts submitted to the Editorial Board should be unpublished texts and should not be under considera-
tion for publication elsewhere. Reproduction for commercial purposes is not allowed. The Editorial Board will
plan the publication of revision articles.
2. The original and two copies of papers should be typewritten in Portuguese, English or French, double spaced,
on typing paper (31 x 21cm). Pages should be numbered consecutively at the upper rigjn corner.
3. The following structure should be considered in the preparation of the manuscript: Title page: with article ti-
tle, name of aurhor(s), professional address. Text: wíth introduction, material and methods. results, discus-
sion, conclusions, acknowledgments, references, abstraets (in Portuguese and English), and keywords. A maximal
number of 03 keywords should be included in Portuguese and English.
4. Referentes in alphabetical order should be numbered consecutively.
Examples:
Books
7. BIER, O. Microbiologia e imunologia. 24.ed. São Paulo, Melhoramentos, 1985. 1234p.
Articles
8. MACHADO, J.C. & SILVEIRA F.°, J.F. Obtenção experimental da pancreatite hemorrágica aguda no cão
por veneno escorpiônico. Mem. Inst. Butantan, 40/41: 1-9, 1976/77.
Citations in the text should be idemified by the reference number.
Examples:
... método derivado de simplificação de armadilha de Disney 1
... segundo vários autores 2,3,4
5. lllustrations (photographs, tables, figures etc.) should be the originais and legends should be submitted typew¬
ritten on a separate sheet. Line-drawings should be with China ink and photographs must be of top quality. On
the back of each figure or photograph the name of the author(s) should be lighly written and the number indi-
cating the sequence in the text. lllustrations should fit in a page measuring 22 x 12,5cm.
6. No more than 6 illustrations will be accepted and photographs should be black and whitc. Fifty reprints of each
article are provided without charge, and 10 will be kept at the library.
7. Submitted manuscripts will not be returned to the author(s) but the original illustrations are available to au-
thor(s) by request.
cm
2 3 4
5 6 7
14
17
IMPRENSA OFICIAL
DO ESTADO S.A. IMESP
SÂO PAULO - BRASIL
1990
NOVO TEMPO
TRABALHO E DlStNVOLVlMENTO