MEMÓRIAS
INSTITUTO BUTANTAN
1930
T O M O V
São Paulo, Brasil
Caixa Postal, 63
MEMÓRIAS
DO
INSTITUTO BUTANTAN
1930
TOMO V
São Paulo, Brasil
Caixa Postai, 65
ÍNDICE
r*o.
J. Lemos Monteiro e Raul Godinho - Do preparo da lytnpha vac-
cinica 3
J. Lemos Monteiro - Sobre o phenomeno de d'Hércllc.
O bacteriophago nas polpas vaccinicas glyceri nadas. Considerações
sobre a natureza do phenomeno 25
J. Lemos Monteiro - Estudos sobre a febre amarclla.
Modernos conhecimentos sobre a infecção experimental 40
J. Lemos Monteiro e J. Travassos - Diagnostico sorologico da febre
amarella.
Sobre a reacção de fixação do complemento 171
Aeranio do Amaral - Campanhas anti-ophidicas 193
Afranio do Amaral - Regras internacionaes de nomenclatura zoologica 233
SciELO
6 17
DO PREPARO DA LYMPHA VACCINICA
PO*
J. LEMOS MONTEIRO e RAUL GODINHO
Capitulo I
Do preparo da lympha vacdnica
E' facto incontestável que o meio seguro de se evitar a variola consiste na
vaccinação, instituída por E. JENNER, como consequência das suas observações
sobre o poder immunizante do Cmv-pox em relação ao Small-pox.
O methodo primitivo desse eminente scientista e bcmfeitor da humanidade
vem-se aperfeiçoando constantemente com o decorrer dos annos. Hoje é de pra-
tica corrente o emprego da vaccina animal, con-pox, obtida por passagens succcs-
sivas do virus vaccinico de vitello a vitcllo, e preparada, para fins prophylacticos,
por institutos especializados.
Na qualidade de toda lympha vaccinica deve predominar sempre a mais rigo-
rosa pureza, ao par de uma actividade constante. Producto biologico de indiscu-
tível importância social, a vaccina é preparada e empregada sob controle do
Estado na maioria dos paízes adiantados, quasi todos obedientes a preceitos codi-
ficados por uma sub-commissáo especial mantida junto á Commissão dc Hygiene
da Liga das Nações. Por isto mesmo, cila deve estar sempre presente ás cogita-
ções dos nossos sanitaristas e homens de laboratorio. por merecedora de crite-
rioso estudo que venha estabelecer de vez normas orientadoras para a sua estan-
dardização em nosso meio.
O presente trabalho constitue apenas um pequeno ensaio para o estabeleci-
mento das normas do preparo industrial da lympha vaccinica entre nós, pois estas
de certo virão, a seu tempo e com a collaboraçào de todos os especialistas, uni-
formizar o processo da producção da vaccina contra a variola nos differentes es-
tabelecimentos officiaes do paiz. Nesta nossa contribuição mostraremos apenas,
sem detalhes desnecessários, a pratica corrente usada no Instituto Butantan para
a producção da polpa vaccinica, assim como as technicas de purificação da lympha
que vimos empregando desde 1927, quando um de nós foi encarregado da reor-
ganização e da chefia do serviço.
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A
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Installações.
O serviço de vaccina animal do Instituto é uma dependencia da sua Secção
de Virus e acha-se installada em pavilhões especiaes e adaptados ao seu fim.
Em um pavilhão central acha-se installado o grande laboratorio industrial
para o tratamento da polpa, com os differentes apparelhos necessários para o
seu preparo, conservação e acondicionamento. Annexo, encontra-se um labora-
torio bacteriológico para as pesquizas e controle das differentes partidas prepa-
radas quanto á sua pureza e actividade do virus.
Em pavilhão ao fundo estão installadas outras dependencias relacionadas
com os animaes necessários: sala com baias para os vitellos em observação; sala
com baias para os vitellos vaccinados; sala com balança para pesagem dos ani-
maes; sala para *'toilette” dos vitellos )raspagem e preparo) ; sala para a vacci-
nação e colheita da polpa, tendo 2 mesas apropriadas á contensão dos animaes e
outras installações necessárias (agua esterilizada, etc.) ; sala com apparelhos de
esterilização do material (autoclave, forno Pasteur e apparelho para esterilização
da agua); sala-bioterio, para os pequenos animaes vaccinados (coelhos) e os
utilizados para as verificações das polpas, e, finalmente, salas para o deposito
do material e forragem. Este pavilhão tem um largo corredor central, communi-
cando com as varias dependencias assignaladas.
Esta installaçáo é provisória, pois os pavilhões foram adaptados ao seu fim
actual, estando já organizado um projecto para a installaçáo dos serviços con-
junctamente com a Secção de Virus, onde o laboratorio de vaccina animal ficará
materialmente melhor apparelhado.
Escolha dos animaes.
Hoje é de pratica corrente o emprego da vaccina animal, cow-pox, obtida
por passagens successivas do virus vaccinico de vitello a vitello.
Os vitellos destinados á vaccinação são recebidos cm lotes de 6 a 12 animaes,
escolhendo-se animaes com um peso de 80 a 150 kilos e de apparcncia sadia.
Uma vez chegados ao Instituto, ficam sob as vistas da secção de medicina vete-
rinária, onde são submettidos a differentes provas para a confirmação do seu
estado hygido, permanecendo em observação durante um certo numero de dias.
Entre as provas a que são submettidos, figuram a inoculação da tuberculina, para
elucidação da tuberculose, c exames acurados e repetidos quanto á possibilidade
da febre aphtosa. Só depois de se obter resultado negativo em todos estes exames
é que os vitellos são recolhidos á Secção para serem utilizados.
Primeiros cuidados hyirienicos.
Recolhidos á sala destinada aos vitellos em observação, antes de vaccinados,
são elles submettidos a um prévio e cuidadoso tratamento durante 2 a 3 dias.
Em primeiro logar, todo o pello do corpo é cortado com uma machina electrica
especial; depois, os vitellos são submettidos a lavagens diarias de todo o corpo,
com agua, sabão e escova, sendo-lhes então registados os pesos e as temperaturas.
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J. L. Monteiro e R. Godinho — Lympha vaccinica 5
Os vitellos que tenham, principalmente na região a ser vaccinada, muitos
carrapatos, o que se observa commummente nos nossos rebanhos, são submettidos,
ainda quando sob as vistas da secção de veterinária, a banhos carrapaticidas,
sendo então necessário augmentar o seu tempo de observação e de lavagens dia-
rias, afim de que desappareçam os traços do antiséptico utilizado e a reacção
cutanea por elle determinada.
Raspagem do vitello.
Na tarde da vespera da vaccinaçào, os vitellos a serem vaccinados, geral-
mente em numero de 2 ou 3, são levados a uma sala especial onde lhes é ras-
pada toda a região thoraco-abdominal, que depois é convenientemente lavada.
Vaccinaçào dos vitellos.
Levados para a sala destinada á vaccinaçào e colheita, os vitellos raspados
na vespera são collocados em mesas apropriadas, lavando-sc convenientemente a
região com agua esterilizada e sabão especial e neutro. Esta lavagem é feita com
escova e repetida varias vezes, sendo todo o sabão finalmente removido com agua
esterilizada. Depois de enxuto todo o campo com toalhas estercis, procedc-sc á
escarificaçáo da região a ser vaccinada. Usa-se um estilete especial ou um vac-
cinostylo commum, fazendo-se escarificações lineares, no sentido longitudinal, dc
cerca de 10 a 15 cm. de comprimento e separadas umas das outras por cerca dc
0,5 a 1 cm.
Escarif içada toda a região, com toalhas esterilizadas cnxuga-sc todo o sangue
que por ventura tenha surgido das escarificações.
Feito isto, o operador passa, com a mão protegida por luva de borracha, a
polpa-semente sobre toda a região. Cerca de 20 a 30 cc. dc polpa, conforme o
porte do animal, são sufficientes para cada vitello.
Esta technica de vaccinaçào que adoptámos depois de termos já ensaiado as
demais usadas, parece-nos a mais pratica, por sua rapidez c resultados.
Escolha da semente.
Para a vaccinaçào dos vitellos, a polpa-semente deve possuir certas quali-
dades principalmente relativas á actividadc do virus.
Utilizamos a bovo-vaccina, oriunda de partidas cuja evolução no vitello se
mostrou perfeita c normal e que foram separadas e tratadas para esse fim espe-
cial. Estas polpas são geralmente addicionadas de 3 partes de seu peso de gly-
cerina e empregadas depois de. pelo menos, 6 mezes de permanência no frigo
a -8.®C. As bovo-vaccinás são usadas desde que tenham soffrido menos de 4 pas-
sagens de vitello a vitello.
Além desta, usamos a lapino-vaccina como semente. Para este fim c também
para a exaltação da actividade do virus e sua purificação indirecta, depois de
3 a 4 passagens em vitello, fazemos uma no coelho.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Os coelhos são vaccinados pelo mesmo processo, fazendo-se, no dorso depi-
lado, as escarificações transversaes. Só são utilizadas como semente as polpas
dos animaes em que a evolução vaccinica se apresenta de um modo normal.
Período de evolução da vaccina no vitello.
Depois de vaccinados e de retidos na mesa durante uns 15 minutos, os vitel-
los, protegido o campo vaccinado com pannos esterilizados especiaes, são trans-
portados para as baias da sala a elles destinada.
A temperatura é tomada 2 vezes ao dia, pela manhã e á tarde, sendo mantida
uma permanente vigilância dos animaes, ao par da limpeza e hygiene das baias,
cujo ambiente se conserva em meia luz e isento de moscas.
Como alimentação, dá-se, além do farello, capim cortado á machina, evitan-
do-se, assim, sujar o leito da baia.
No 2.° e 4.° dias após a vaccinação, os vitellos são collocados na mesa para
exame da evolução das pustulas. Nesses dias, lava-se com agua esterilizada a
região vaccinada, e, depois de enxuta, sobre ella passa-se glycerina, com um
pincel especial.
Os campos protectores são trocados diariamente e mesmo 2 vezes ao dia, se
sujos ou molhados. Importante seria se se pudesse manter de pé, durante os 5
dias de evolução da vaccina, os vitellos. Imaginámos para isto um dispositivo
especial que não deu os resultados esperados, em virtude de serem muito baixas
as baias já existentes, tendo resolvido reserval-o para ensaio nas nossas futuras
installações.
Colheita da polpa.
E’ feita geralmente no 5.“ dia após a vaccinação. O vitello é collocado na
mesa c a região lavada varias vezes com agua esterilizada, sabão e escova. Se a
rcacção inflammatoria local é muito intensa, após a ultima lavagem applica-se
sobre toda a região um soluto de verde brilhante a I 50.000. Este ahi permanece
durante uns 15 minutos e depois é retirado com novas lavagens de agua esteri-
lizada. Se a evolução vaccinica é normal, não se observando edema ou reacção
local intensa, dispensamos o uso do verde brilhante.
Uma vez lavado o vitello e enxuto com toalhas esterilizadas, protege-se o
campo vaccinado com pannos especiaes esterilizados. Em seguida, o operador,
munido de luvas esterilizadas, procede á colheita da polpa, que é recolhida num
recipiente especial, esterilizado e previamente tarado.
A colheita é feita com uma cureta de Volkmann, a começar da zona inferior
para a superior, evitando que a polpa venha com excesso de sangue. Terminada a
colheita, o recipiente contendo a polpa é levado para o laboratorio, e sobre a
zona sangrenta do vitello applica-se um pó antiséptico e seccativo, para diminuir
o soffrimento do animal.
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J. L. Monteiro c R. Godinho — Lympha vaccinica 7
Necropsia do ritello.
Cada vitello recebe um numero annual de ordem e também um numero
mensal no casco da mão direita, sendo em seguida enviado para o matadouro
municipal, onde o seu dono o faz abater. Acompanhando o animal segue um
cartão contendo o seu numero de ordem e o numero no casco da mão direita.
Depois de abatido, o vitello é necropsiado pelos veterinários do matadouro
municipal, que devolvem ao Instituto o resultado da necropsia com a informação
sobre se o animal foi considerado bom para o consumo.
Só depois de observadas estas precauções é que a polpa fornecida pelo vi-
tello respectivo poderá ser utilizada.
Pesagem, glveerinização e 1.* trituração da polpa.
A polpa colhida é immediatamente levada para o laboratorio, onde é pesada.
Em seguida é addicionada de glycerina pura neutra (usamos actualmente com
bons resultados a glycerina Schering) na proporção de 3 a 4 partes, conforme
certas condições e o seu fim posterior.
Com uma espatula especial a polpa 6 emulsionada na glycerina c soffre uma
primeira trituração, grossa, no apparelho de Felix. Esta trituração grossa tem por
fim tornar mais intimo o contacto da glycerina com a polpa, que é então reco-
lhida num frasco, convenientemente rotulada (n.° de ordem, data da colheita,
quantidade) e levada para o apparelho frigorifico, onde é mantida cm tempera-
tura de -S*C. Todas as partidas, registadas cm livro e fichas adequadas, são cons-
tantemente mantidas nessa temperatura.
Secunda trituração, tamiiação e extraeçáo do excesso dc ar.
Depois de permanecer no frigo por espaço dc tempo superior a 4 mezes (gc-
ralmentc acima de 6 mezes) a polpa soffre uma 2. m trituração, fina, no appare-
lho de Felix, sendo cm seguida passada num tamis dc malha estreita.
A lympha tamisada 6 collocada numa proveta e levada para um apparelho
de vacuo onde soffre extraeçáo do excesso de ar.
A extraeçáo, por nós instituída, do excesso de ar que augmenta cm virtude
da tamisaçáo, é de grande vantagem, principalmente para a conservação dc uma
reacçào favoravel ao virus durante a longa permanência da polpa no frigo.
Retirado o material do apparelho de vacuo, remove-se a espuma da super-
fície contendo detrictos e pcllos que passaram pelo tamis e colloca-se a polpa num
frasco, convenientemente rotulado (n.° de ordem, data da 2.' trituração e tami-
sação e quantidade em cc.), levando-se novamente para o frigo.
Somente depois de um mez pelo menos desta ultima operação é que se ini-
ciam as pesquisas bacteriológicas e a verificação da actividade do virus.
Pesquisas bacteriológicas.
As pesquisas bacteriológicas que se procedem nas differentes partidas pre-
paradas teem por fim a verificação da presença de germes pathogenicos, prin-
cm
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Memórias do Instituto Butaman — Tomo V
cipalmente do bacillo do tétano, nas polpas e a observação do seu grau de con-
taminação, isto é, se o numero de micro-organismos associados, mesmo não pa-
thogenicos, não ultrapassa o limite de tolerância.
Para a verificação de anaeróbios e principalmente do bacillo tetânico, a pol-
pa é semeada em vários tubos contendo caldo glycosado anaerobio. Os tubos per-
manecem durante 10 dias na estufa a 37°; se se nota formação de gaz, inocula-
se então 1 cc. da cultura em cobaia para a completa eliminação da hypothese da
presença daquelle germe.
A contagem de micro-organismos é feita em placas com gelose commum e a
verificação da presença de outros germes pathogenicos é dada pela inoculação
de 0,5 a 1 cc. da polpa em cobaia de 400 gr. de peso.
Os resultados destas verificações indicarão a marcha a seguir: se a polpa
se encontra em condição de ser diluida e distribuída, ou se deverá ser submet-
tida aos processos de purificação, que estudaremos no capitulo seguinte.
Verificação da actividade do virus.
Para a verificação da actividade do virus nas differentes partidas prepara-
das usamos o coelho, fazendo escarificações em 3 regiões differentes do dorso
com a polpa diluida a 1/10, 1/100 e 1/1000. Uma polpa convenientemente activa
deve produzir pustulas, ao longo da escarificação, até nesta ultima diluição.
Mais commummente, porém, usamos para esta dosagem o methodo de Gins,
da escarificação na comea da cobaia. Geralmente as polpas que preparamos pro-
duzem a ceratite vaccinica typica em diluição ás vezes superior a 1/100.000. Estas
polpas poderão ser diluídas com 20 ou mais por cento de agua destillada antes de
serem distribuídas. Esta diluição facilita, por outro lado, o enchimento dos tubos
capillares.
Segundo o methodo de Gins, a polpa que determina uma ceratite vaccinica
na diluição de 1/5000 deve dar na pratica 100 % de resultados positivos cm pri-
mo-vaccinados.
Todas as partidas preparadas pelo Instituto apresentam, ao sahirem, uma
actividade igual ou geralmente superior á considerada favoravel, segundo o mè-
thodo de Gins.
Enchimento dos tubos, fechamento e emballagem.
Preenchidas as necessárias condições de pureza bacteriana e de actividade
co Gins positivo em diluição superior a 1 por 10.000, a polpa é diluida com 20 %
de agua destillada ou physiologica, podendo ser distribuída nos tubos capillares
ou em bisnagas para uso collectivo (100 doses).
A distribuição nos tubos capillares é feita numa caixa de vidro, cujo interior
é impregnado de vapores de ether, protegendo-se, assim, a polpa contra as con-
taminações da poeira do ambiente e da excessiva proximidade do operador.
8
J. L. Monteiro e R. Godinho — Lympha vaecinica 9
O processo de enchimento é o utilizado pelo antigo Instituto Vaccinogenico
de S. Paulo. Os maços de tubos esterilizados, em numero de 500, abertos em am-
bas as extremidades, são introduzidos num "bico de mamadeira" de borracha e
esterilizado, cuja extremidade fina termina por um tubo de vidro, onde se liga
o vacuo. A outra extremidade dos tubos é mergulhada na polpa contida num re-
cipiente esterilizado.
Uma vez cheios os tubos, são suas extremidades fechadas ao maçarico, e,
em seguida, acondicionados em blócos de madeira, contendo 10 tubinhos ou 10
doses da vaccina, que são reunidos em enveloppes contendo 5 ou 30 blocos de
madeira, respectivamente com 50 ou 300 doses individuaes.
Além deste acondicionamento em tubos capillares, a polpa é também distri-
buída em pequenas bisnagas contendo 100 doses e que são geralmente fornecidas
ás autoridades sanitarias para a vaccinaçáo em collectividades (collegios, quar-
téis, etc.).
Capitulo II
Technicas de purificação usadas no Instituto Butantan
A preoccupaçáo dos experimentadores que se dedicam ao estudo do virus
vaccinico c ao preparo da lympha immunizante, orienta-se de preferencia para a
obtenção de um produeto onde o virus activo apparcça cm estado de maior pureza,
isto é, isento, se possível, de micro-organismos associados ou pathogenicos, os
quacs quasi sempre se reconhecem como responsáveis pelos accidcntes sobrevin-
dos ao uso da vaccina animal. Assim é que, á polpa bruta, oriunda da raspagem
das pustulas desenvolvidas no vitello vaccinado, se addiciona geralmentc uma pro-
porção conveniente de glyccrina pura e neutra, collocando-se, em seguida, a mis-
tura em temperatura abaixo de 0 o durante vários mezes. Nesta temperatura a
acção da glycerina não se mostra prejudicial ao virus, o mesmo não acontecendo
com os germes estranhos, por ventura associados, os quaes diminuem de numero
com o decorrer do tempo. In felizmente esta depuração da polpa glycerinada é
muitas vezes insufficiente para a obtenção de um produeto com a pureza neces-
sária a uso generalizado como o da vaccina, principalmente cm occasiõcs de emer-
gencia, quando se é obrigado a lançar mão até de polpas reccm-colhidas. Diante
desta circunstancia foram propostos differentes methodos para a purificação das
polpas vaccinicas glycerinadas. Estes se baseam, principalmcnte, na acção de
certos antisépticos voláteis ou outras substancias chimicas, que, actuando de dif-
ferentes maneiras sobre a polpa, agem sobre os germes estranhos, destruindo-os
ou diminuindo-lhes o numero, sem manifestar acção nociva, sináo ás vezes muito
fraca, sobre o proprio virus.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Processos de purificação das polpas vaccinicas
Sem entrar na discussão de todos os processos estudados e empregados para
a purificação das polpas glycerinadas, mencionaremos apenas os que lograram
maior repercussão e dos quaes alguns já foram utilizados na pratica.
Em 1895 foi nomeada pelo governo da Prússia uma commissáo com o fim
especial de estudar os meios de purificação da vaccina; desde então começou a
ser bem conhecida a flora da vaccina, graças, principalmente, aos trabalhos de
Kirchner, Green, Sacquepée, Hallier, Zum, Keber, etc., para só citar os mais
antigos. Esses investigadores foram os primeiros a orientar os processos de pu-
rificação da vaccina para as differenças encontradas na resistência do vinis e dos
germes de associação aos agentes chimicos e physicos, o que tornava possível a
eliminação dos elementos estranhos da lympha sem prejuízo da actividade do
principio immunizante.
Processos chimicos.
Entre os methodos de purificação por meio de agentes chimicos, foi talvez
o do emprego da glycerina um dos primeiros utilizados, a partir de 1886, pelo
Real Instituto Vaccinico de Berlim, depois de verificadas as vantagens do seu poder
microbicida por Feiler c posteriormente por Kirchner. Essa verificação da acção
reductora da glycerina, que se exerce lentamente e durante longo prazo, tem sido
confirmada e aproveitada universalmente, ainda em nossos dias, por todos os la-
boratórios vaccinicos.
Tomarkin e Sercbrenikoff procuraram verificar se porventura os cffeitos ob-
servados com a glycerina também seriam produzidos pela vaselina e pela lanolina
e concluiram pela insufficicncia do poder germicida destas duas substancias. Outros
agentes chimicos tiveram, a seu tempo, applicação experimental visando o mesmo
objectivo: o sublimado corrosivo, o iodo, o cyaneto de potássio, o acido acético, a
ammonea, o chloreto de sodio. o álcool e ainda a bile, a saponina c o taurocholato
de sodio, todos elles, porém, destruindo concomitantemente o vinis vaccinico em
maior ou menor espaço de tempo. Entre os agentes purificadores diversas essên-
cias lograram despertar a attenção dos investigadores. A essencia de cravo foi
applicada á polpa vaccinica, segundo o methodo de Blaxall, por Dcgive e Antoine,
mas, embora eliminasse todos os germes, prejudicava consideravelmente o virus;
a essencia de giroffle foi estudada, entre outros, por M. J. Antoine, D. de Blasi,
M. Belin e Marcei, segundo o citado methodo de Blaxall, mas não logrou também
melhor resultado. Do mesmo modo foram ensaiados a antiformina. o toluol e o
quinosol, cuja acção pouco intensa e sem applicação na pratica foi posta em evi-
dencia pelos trabalhos de Fomet, Carini e Seiffert e Hune, respectivamente.
Melhor acceitas e de resultados incontestavelmente evidentes foram as subs-
tancias corantes, dentre as quaes se destaca o verde brilhante que, em diluições
fracas, agiria sobre os germes associados respeitando o virus, facto que. segundo
10
J. L. Monteiro e R. Godinho — Lympha vaccinica
11
as experiencias de Tyler (de Nova York) e de um de nós, se observa quando a
polpa assim tratada é mantida em temperatura abaixo de 0 o . O seu emprego é,
hoje em dia, corrente na America do Norte.
Ainda entre os corantes foram ensaiados o azul de methyleno por Tappeiner
c a eosina, bem como o vermelho neutro por Friedberger e Yamamoto.
Na lista das substancias voláteis, de mais recente experimentação, encon-
tra-se o ether sulfurico que, em 1913, foi aproveitado em Berlim com satisfactorios
resultados, segundo as publicações de Fornet. A mesma technica foi mais tarde
repetida por Noguchi e depois por Barbará em Buenos-Aires, não conseguindo
este ultimo A. esterilização absoluta da polpa vaccinica. nem mesmo depois de
30 dias de contacto com o ether, além de ter observado sensível diminuição da
actividade do viros, em opposiçáo ao effeito annunciado por Fornet. A conclusões
iguaes ás de Barbará chegou Edna Harde, no seu trabalho publicado nos "Annalcs
de 1’Institut Pasteur" em Julho de 1916.
Dignas de elevado apreço são as experiencias de Tanner de Abreu, feitas
entre nós em 1916, concluindo, por sua vez, que "em relação ao vinis vaccinico
é evidente, nos resultados de todas as experiencias, a notável attenuação soffrida
por influencia do ether sulfurico”.
Preconizada por L. Camus, a chlorethyla não sahiu do domínio experimental.
Melhor sorte teve o chloroformio proposto por Grccn, e usado, sob a forma de
vapores durante certo tempo, também no nosso antigo Instituto Vaccinogenico.
Ainda em relação aos antisépticos é indispensável uma menção especial ao
phenol. officialmente empregado nos Estados Unidos, por determinação do “Hy-
gienic Laboratory" de Washington, e cuja addição, já feita em outros paizes c
experimentada certa vez no Rio de Janeiro com resultado negativo, não se rc-
commenda cm nosso meio e clima, visto como as polpas assim tratadas devem ser
constantemente mantidas cm temperatura abaixo de 0’, mesmo após a sahida do
Instituto, para que a actividade do vinis não soffra rcducção cm prazo relativa-
mente curto.
Processos physicos.
Embora em menor numero do que os processos chimicos de purificação da
vaccina, não são, todavia, os meios physicos de inferior relevo e importância,
tanto que de longa data vèm sendo também ensaiados.
Procurando proteger as pustulas vaccinicas por meio da occlusão, visava
Paul, em 1898, a preservação contra os agentes estranhos, embora ao mesmo
passo prejudicasse a evolução normal da vaccina.
Santori. em 1904, tentou a pressão de 450 atmospheras sobre o virus vacci-
nico e verificou também os effeitos que a trituração da polpa exercia sobre sua
ulterior contaminação. Centrifugação e sedimentação foram processos tentados,
na AUemanha ainda, sem resultado aprcciavel.
II
cm
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12 .
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
A influencia de differentes especies de raios luminosos tem sido aproveitada
fartamente como meio de purificação. De referencia ao frio, nenhuma duvida
existe mais para a sua geral acceitaçào, muito embora a longa permanência da
polpa em baixa temperatura não seja sufficiente para determinar por si só uma
baixa sensível e satisfactoria do teor da sua flora microbiana.
Mais pratico e usado nos Estados Unidos é o processo de purificação da polpa
glycerinada por meio do aquecimento descontinuo a 37°, durante 1 ou 2 horas,
por alguns dias, até que o numero de germes estranhos fique reduzido a um limite
tolerável. Por este processo, ensaiado já com resultados favoráveis por um de
nós, favorece-se a acção antiséptica da glycerina sobre os germes de contami-
nação sem se provocar, com a observância rigorosa da technica, reducção consi-
derável da actividade do virus (Figs. A e B).
Processos biologicos.
Em todo caso, quer os processos chimicos de purificação da polpa glyceri-
nada, quer os processos physicos indicados, não representam o ideal que se deve
collimar, e que seria a producçáo facil e fornecimento abundante do virus puro,
isto é, isento de quaesquer germes de contaminação. Dahi as tentativas para a
cultura do virus in vitro e in vivo.
A obtenção do virus puro, in vivo, é possível e realizável pelos processos de
Noguchi (vaccina testicular) e de Levaditi (neuro-vaccina). Numerosas são, na
verdade, as contribuições ao estudo do virus obtido por inoculação e multipli-
cação no testículo de certos animaes, assim como no cerebro de coelhos. Todavia,
na pratica, a vaccina testicular, pelas difficuldades technicas do preparo, não teve
acceitaçào generalizada; de seu lado, a neuro-vaccina, apresenta, além deste,
outros inconvenientes que a não recommendariam ao uso prophylactico.
Em relação á cultura in vitro, citaremos apenas as primitivas tentativas feitas,
principalmcnte por Fornet e os trabalhos relativamente recentes de Carrel e seus
collaboradores, do Instituto Rockefcllcr. Os resultados de Carrel são sobremodo
interessantes: este illustre scientista, por meio de uma technica especial, obteve
a multiplicação do virus cm culturas, in vitro , de ccllulas embryonarias, acredi-
tando que com um embryão de gallinha se poderá obter cultura pura do virus,
em quantidade igual á fornecida por um vitello. Este processo, que representa
um grande aperfeiçoamento no preparo da vaccina e no estudo do virus, encerra,
como facilmente se comprehende, difficuldades technicas á sua industrialização,
pois exige installações especiaes nos laboratorios produetores da lympha.
Processos physico-chimicos.
Mais pratico, portanto, seria o aproveitamento do virus obtido segundo o me-
thodo commummente usado, vaccina animal, mas separado, por processos adequa-
dos. dos detrictos cellulares e germes estranhos existentes na polpa.
Entre estes processos o mais recommendavel seria o da filtração em velas
especiaes. pois que o virus vaccinico é filtravel.
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12
J. L. Monteiro e R. Godinho — Lympha vaccinica
13
Hugh K. Ward, do Departamento de Bacteriologia e Immunologia, Harvard
University Medicai School, Boston, obteve a filtração do virus, suspenso em caldo
hormonio, através da vela Berkefeld V e, mais recentemente, Hidetake Yaoi e
Hisao Kasai, fazendo, preliminarmente, a passagem, através da vela, de uma di-
luição acida de clara de ovo, de mistura com o virus, conseguiram a filtração
deste. Devemos ainda lembrar que estes dois autores japonezes já haviam em-
pregado, na purificação da vaccina. o methodo de adsorpção pelo kaolin.
Sendo o processo, que descrevemos para a obtenção do virus vaccinico puro,
baseado na sua filtrabilidade, sob certas condições, através de velas diatomaceas,
faremos a seguir algumas considerações a respeito de experiencias realizadas
neste Instituto e que constituiram objecto de um trabalho apresentado por um
de nós ao V Congresso Brasileiro de Hygiene, reunido recentemente em Recife.
Vários são os factores que influem sobre a passagem do virus vaccinico
através dos filtros: natureza e composição da vela, porosidade, carga electrica da
vela, do virus e do meio, poder de adsorpção, intensidade da pressão, tempera-
tura, etc.
No decurso de nossas pesquisas, verificamos que, suspenso em caldo glyco-
sado a 1 % (pH— 8,0), o virus atravessa com facilidade as velas Mandler (regu-
lar) de 6 lbs. de pressão. A filtração do virus se dará também, mas com certa
difficuldade, se a suspensão for feita cm caldo commum e não se dará absolu-
tamente quando cm agua physiologica. Os pormenores tcchnicos das experiencias
que realizamos e seus resultados constam do trabalho citado.
Estes resultados experimentaes evidenciaram a possibilidade do emprego do
virus puro, filtrado, dependendo apenas do estudo de certas particularidades tcch-
nicas que tornariam possível o seu aproveitamento industrial para o fim de pro-
phylaxia collectiva.
Mostraremos, a seguir, as experiencias que realizámos, com este fim, indi-
cando primeiramente, cm linhas geracs, a technica para a producção da polpa
bruta.
Producção e colheita da polpa vaccinica
O vitello é vaccinado com uma semente escolhida c cujo virus se revele
sufficientemcntc activo (Gins positivo em diluição superior a 1/50.000), de
accordo com todos os cuidados technicos usuacs, já descriptos no capitulo I.
No 5.° dia depois da vaccinaçào, estando bem desenvolvidas as pustulas, e
não se notando reacção inflammatoria local intensa ou edema, procede-sc á co-
lheita da polpa.
A polpa a ser empregada para a filtração, é escolhida entre as pustulas de
desenvolvimento mais perfeito e normal e collocada num recipiente especial, es-
terilizado e previamente tarado.
13
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17 lí
14
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Retirada a quantidade necessária para a partida a ser preparada pela filtra-
ção, continua-se a colheita da polpa que deverá ser glycerinada e manipulada
segundo o methodo habitual para a producção da vaccina animal.
A polpa bruta, separada e contida no recipiente especial, é levada para o
laboratorio, onde se iniciam immediatamente os differentes tempos para a obten-
ção do virus puro, filtrado.
Filtração do virus
Preparo da emulsão.
Colhida a polpa, é ella pesada e suspensa em caldo glycosado a l '/ c (pH=S,0)
na proporção de 10 grs. para 100 de vehiculo.
A addiçáo do caldo é feita aos poucos e á medida que se tritura num gral.
O emprego do caldo glycosado, na reacçáo de pH=8,0, mostrou-se o mais
adequado, conforme se verifica pelas experiencias do nosso citado trabalho e pelas
de Hidetake e Kasai sobre a relação entre a concentração do ionte hydrogenio e
a filtrabilidade do virus vaccinico.
A concentração da suspensão da polpa pode ser reduzida de 10 Cc, pois, con-
forme veremos adeante, os resultados que obtivemos com o emprego do virus
filtrado, nesta proporção, permittem sua maior diluição para emprego na vac-
cinaçáo. Para se evitar esta nova manipulação do producto, julgamos sufficicnte,
com as polpas bastante activas, a sua mistura na proporção de 5 grs. para 100
de caldo glycosado.
Centrifugação.
Preparada a suspensão, é ella centrifugada durante certo tempo. As partí-
culas solidas, detrictos cellulares, etc., reunem-se no fundo e o liquido é decantado
e collocado cm provetas especiaes afim de soffrer a filtração. Verifica-se então
a reacçáo do liquido, a qual, sendo diversa, se trata de reajustar para o mesmo
ponto que a do caldo primitivo, isto é, pH-=8,0, representando isto uma medida
da maxima importância para que se consiga a filtração com a devida rapidez.
E’ desnecessário dizer que todo o material, tubos centrifugadores, provetas,
etc. devem ser convenientemente esterilizados.
Filtração e distribuição.
Usamos, como foi descripto nas experiencias do nosso citado trabalho, a vela
Mandler (regular) de 6 Ibs. de pressão. A vela introduzida na proveta contendo
a emulsão é ligada a um apparelho (frasco) que recebe o filtrado, ligado, por
sua vez, a um apparelho de vacuo. A filtração é feita com a pressão negativa
de 30 a 40 cm. de Hg.
Uma vez terminada a filtração, a distribuição se faz pelo processo usual em
tacs casos. Distribuído em empolas, o liquido é semeado nos meios habituaes
de laboratorio, aerobios e anaeróbios, para a verificação de sua esterilidade em
relação aos germes estranhos cultiváveis nesses meios.
14
J. L. Monteiro e R. Godinho — Lympha vaccinica
15
Capitulo 111
Applicaçáo do virus filtrado na pratica
Para o emprego na pratica da vaccinação, era indispensável verificar as con-
dições em que o virus filtrado se conservaria melhor, o tempo de duração da sua
actividade. concentração óptima, etc.
Com este fim o virus foi distribuído, em quantidades de 1 ou 2 cc. em tubos
longos (como os usados para cultura de leptospira» e esterilizados. Os tubos dis-
tribuídos foram separados em differentes lotes, tratando-se cada um, sob varias
condições, da seguinte maneira:
1 - Os tubos contendo o virus foram submettidos á extracçào do excesso de
ar por meio do vacuo, sendo immediatamentc fechados no maçarico:
1. ° lote, conservado na temperatura do laboratorio;
2. ° lote, conservado na "frigidaire" a 5°C.;
3. ® lote, conservado no ''frigo'' a -8®C.
II - Os tubos não soffreram a previa extracçào do ar e foram apenas, depois
da distribuição, fechados ao maçarico.
4. ° lote, conservado na temperatura do laboratorio;
5. ® lote, conservado na “frigidaire" a 5®C.;
6. ® lote, conservado no “frigo" a -8®C.
A actividade do virus antes e depois da filtração foi verificada pelos metho-
dos de Gins e Groth, o mesmo acontecendo com o filtrado, mantido nas dif-
ferentes condições acima assignaladas c no fim de 1, 2 e 6 mezes. Os resultados
colhidos quanto á actividade do virus filtrado confirmaram os anteriormente obti-
dos e assignalados no nosso citado trabalho (Figs. C c D).
Quanto á conservação do virus filtrado, verificámos ser desnecessária a cx-
tracção do excesso de ar. bastando que as empolas distribuídas sejam immcdia-
tamente fechadas ao maçarico.
Quanto á temperatura óptima para a conservação do filtrado activo, os resul-
tados foram mais favoráveis com os lotes de empolas mantidos em temperatura
abaixo de CTC. Com os lotes conservados na "frigidaire”, á temperatura de 5®C.,
os resultados foram também muito favoráveis; o virus manteve sua actividade,
mesmo no fim de 6 mezes (tempo máximo até agora verificado), quando conser-
vado a -8^C.
Com os lotes de empolas conservados na temperatura do laboratorio, a veri-
ficação feita depois de um mez mostra grande redueçáo da actividade do virus:
Gins positivo apenas até a diluição de 1/100. emquanto que, neste prazo, o virus.
15
16
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
mantido nas condições óptimas assignaladas acima, se mostrou activo, por este
methodo de dosagem, em diluição superior a 1/5.000.
Pode-se ter a certeza de que o vinis puro filtrado, mantido no laboratorio
em temperatura abaixo de 0°C. e em temperatura também favoravel (5°C.) após
sua sahida para os serviços de prophylaxia, poderá ser utilizado com vantagem e
efficiencia dentro de um prazo superior a dois mezes.
Emprego do virus puro como semente e na pratica.
Para a verificação da actividade do virus puro, filtrado e dos resultados da
sua utilização como semente, servimo-nos de um vitello, vaccinando-o, em uma
zona do ventre, com o virus filtrado e, em outra zona, com a suspensão do virus
não filtrada. As duas zonas, de cerca de 10 cm 1 cada uma, foram escarificadas,
e os virus, na dose de 1 cc., foram esfregados na respectiva zona. estando o ope-
rador com luva de borracha.
Em ambas as regiões as pustulas se desenvolveram: com o virus não fil-
trado (fig. 1), notou-se reacçáo local mais intensa, ao passo que com o virus
filtrado (fig. 2), não se observou reacçáo inflammatoria e as pustulas, embora
menores, se mostraram mais typicas.
Outro vitello foi vaccinado igualmente com o virus filtrado, conservado em
condições favoráveis (abaixo de 0°C.) durante 2 mezes. A pustulação mostrou-se
bem característica, não se observando reacção inflammatoria (fig 3).
Ainda outro vitello foi vaccinado cxclusivamente com o virus puro e filtrado
(fig. 4), já para uso industrial da vaccina, com excellente resultado de desenvol-
vimento das pustulas e rendimento da polpa.
Dcante destes resultados experimentaes e da applicaçáo do virus no vitello,
tratámos primeiro de verificar a immunidade conferida pelo virus filtrado em re-
lação á lympha commum e vice-versa, em experiencias cruzadas, em coelhos, e
vitellos, para em seguida iniciarmos o emprego do nosso virus filtrado, puro, na
vaccinaçáo anti-variolica.
Essa immunidade provocada pelo virus filtrado em relação á polpa vaccinica
commum ficou bem demonstrada, tanto sob o ponto de vista experimental, por
meio das citadas observações em coelhos e vitellos, resumidas nos quadros I (A
e B) e II (A e B), como sob o ponto de vista pratico, em resultado da vaccinaçáo
de pessoas, tendo igualmente sido verificado que a vaccina commum confere
immunidade em relação ao virus filtrado.
Para a applicaçáo pratica, o virus filtrado é distribuído em empolas de 0,5
cc., de modo a se tomar facil sua utilização. Essa quantidade é sufficiente para
a vaccinaçáo de, pelo menos 5 pessoas, porquanto as empolas contêm geralmente
um excesso de producto.
Antes de se proceder á vaccinaçáo, é aconselhável fazer-se uma applicaçáo
previa de ether sobre a região a ser escarificada e isto para se reduzirem as
probabilidades de infecções secundarias. Em seguida se deposita uma pequena
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
16
J. L. Monteiro e R. Godinho — Lympha vaccinica
17
gotta do liquido contido na empola em dois pontos sufficientemente separados
(região deltoidiana de preferencia ou outro qualquer ponto que se escolha). Faz-se
então a escarificaçáo do tegumento segundo os methodos usuaes, tendo-se sempre
o cuidado de evitar o apparecimento de sangue.
Resultados clinicos.
Até agora praticamos com o virus filtrado 53 vaccinações em pessoas, adultos
e creanças, residentes em Butantan e proximidades. Os resultados são resumidos
no quadro junto.
Quanto á evolução das pustulas, não se observa a reacção local, muitas vezes
intensa, como commummente. As pustulas são bem formadas e cercadas por uma
ligeira areola pouco avermelhada. As figuras 5 e 6, mostram o aspecto das pus-
tulas vaccinicas desenvolvidas, sendo que em 2 observações se pode ver o aspecto
da cicatrizaçào após 3 mezes.
Pelas vaccinações já praticadas, verifica-se um resultado de 100 % de casos
positivos em primo-vaccinados; em 19 revaccinados, 7 tiveram a vaccina pro-
priamente dita, 1 1 tiveram reacção de immunidade c cm 1 o resultado é des-
conhecido.
Para confirmação experimental da immunidade conferida pelo vinis vaccinico
puro e filtrado, praticamos, como vimos, algum tempo depois, a inoculação da
vaccina commum cm 5 creanças que haviam sido primo-vaccinadas com o filtrado
e em todas ellas observámos reacção de immunidade typica, o mesmo acontecendo
tanto no coelho como no vitello anteriormente vaccinados com o virus puro, filtrado.
Devemos assignalar ainda que todos os indivíduos por este meio vaccinados
apresentam um processo especial de cicatriz das pustulas, que não deixa senão
uma imperceptível mancha com tendência franca ao completo apagamento (Figs.
7 e 8).
Resta-nos, agora, verificar a duração da immunidade conferida pelo emprego
do virus filtrado; isto será feito mediante repetição da prova, annualmcntc, cm
todas as pessoas por nós ha pouco immunizadas.
RESUMO E CONCLUSÕES
No presente trabalho são assignalados em conjuncto:
a) o processo de preparo industrial da vaccina animal;
b) os methodos de purificação da lympha vaccinica.
Sobre estes pontos são descriptas, de preferencia, as technicas empregadas
no serviço de vaccina animal da Secção de Virus do Instituto Butantan e, como
contribuição original, o methodo empregado para a obtenção do virus vaccinico
17
18
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
puro por^meio da filtração, assim como o resultado do seu emprego na prophy-
laxia da varíola, chegando ás seguintes conclusões:
1. - E' possível obter-se, por meio da filtração sob certas condições, o virus
vaccinico em estado de pureza e em quantidades apreciáveis;
2. - Esse virus assim obtido é passivel de applicação, com real vantagem, na
prophylaxia da varíola;
3. - E' evidente a immunidade que elle determina, nas creanças vaccinadas,
em relação a uma posterior vaccinação com a polpa vaccinica commum, o mesmo
acontecendo sob o ponto de vista experimental com a vaccinação de coelhos, co-
baias e vitellos;
4. - A cicatriz consequente á vaccinação com o virus puro, filtrado, é pouco
perceptível, não deprimida e não deformante da esthetica da região.
ABSTRACT AND CONCLUSIONS
This paper deals with a) the process of industrial production of the small-pox
vaccinc; b) the methods of purification of the vaccine lymph. In this regard the
various tcchnics used at the Instituto Butantan are described together with the
purification of the vaccine virus by means of filtration, the conclusions reachcd
at by the authors as to the practical application of the purified virus in the pre-
vention of small-pox being the following:
1. It is possible to obtain, by means of filtration under proper conditions,
the vaccine virus entircly pure and in fairly large amounts;
2. The virus thus obtained may bc applied to the prevention of small-pox
with a dccided advantagc over the common vaccine;
3. The immunity brought about in children by the purified virus may bc
demonstrated by the negative “take” of a further application of the common
vaccine. This may also be experimentally observed in rabbits, guinea-pigs
and calves;
4. The scar resulting from the application of the filtered virus is leveled,
undefacing and hardly perceptible.
18
J. L. Monteiro e R. Godinho — Lympha vaccinica
19
Observações experimentaes sobre o valor immunizante do vinis filtrado
em relação á lympha commum e vice-versa
L Vitellos
A. Immunizaçáo com a vaccina commum e ulterior inoculação do virus filtrado
N.o
Vacciaa
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Data da
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RESULTADO
Viras
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Data da
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Polpa
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14- V-30
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B. Immunizaçáo com o virus filtrado c ulterior inoculação da vaccina commum
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Viras
asado
Data da
InocnlagAo
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Filtrado
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14- V-30
Negativo: nenhum
desenvolvimento.
A.
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Immunizaçáo com a vaccina commum c ulterior inoculação do virus filtrado
N.o
Vacciaa
asada
Dilâ di Vira»
RESULTADO
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RESULTADO
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Polpa
n.o 4602
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25-111-30 . , da polpa
vimenlo normal.
n.° 4653
7- V-30
Negativo: nenhum
desenvolvimento.
B. Immunizaçáo com o virus filtrado c ulterior inoculação da vaccina commum
N.o
Virus
osado
Data da
iaoculatio
RESULTADO
Vacciaa
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Data da
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RESULTADO
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(1930
Filtrado
da polpa
n.o 4653
14 -IV -30
Positivo: desenvol-
vimento typico.
Polpa
n.o 4618
I9-IV-30
Negativo: nenhum
desenvolvimento.
19
20
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
III. Observações clinicas
A. Indivíduos primo-inoculados com o virus puro filtrado c ultcriormentc immunizados
com a vaccina commum
Nome
Idade
(annos)
Residência
Inoculação do viros
filtrado (data)
Resultado
Emprego da vaccina
commum (data)
Resultado
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Butantan
12- XII - 1929
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B. Indivíduos immunizados com a vaccina commum ha menos de 2 annos c
ultcriormentc inoculados com o virus puro filtrado
Nome
Idade
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J. L. Monteiro e R. Godinho — Lympha vaccinica
21
SERVIÇO SANITARIO DE S. PAULO
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Observações de primo- e revaccinados com o viras puro e filtrado
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Observações de primo- e revaccinados com o vinis puro e filtrado
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filtrado e puro.
22
J. L. Monteiro e R. Godinho — Lympha vaccinica
23
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SciELO
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J. L. Mosteiro e R. Godinho — Lympha vaccinica
Mem. Inst- Butantan
Vol. V. 1930
Fig. C.
Verificação da actividade da lympha em diffcrentes meios,
pelo methodo de Groth:
a) i esquerda — lympha nlo filtrada
b) i direita — lympha liltrada
I — em agua phj riologica
II em caldo commum
III — em caldo gtycosado
SciELO
J. L. Monteiro e R. Godinho — Lympha vaccinica
Alem- Inst. Butantan
Vol. V. 1930
Fig. D.
Ampliação da zona III (o e frl da Fig. C, relativa á
verificação, pelo methodo de Groth, da actividade da
lympha, não filtrada ou filtrada e suspensa em caldo
glycosado
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SOBRE O PHENOMENO DE D HÉRELLE
O BACTERIOPHAGO NAS POLPAS VACCINICAS GLYCERINADAS.
CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA DO PHENOMENO
J. LEMOS MONTEIRO
SciELO
SOBRE O PHENOMENO DE DHÉRELLE
O BACTERIOPHAGO NAS POLPAS VACCINICAS GLYCERINADAS.
CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA DO PHENOMENO (*)
POR
J. LEMOS MONTEIRO
Poucos são os trabalhos que se referem a pesquizas de princípios lyticos,
com os característicos do bactcriophago, nas polpas vaccinicas glycerinadas.
Twort, em 1915, semeando a lympha vaccinica cm tubos de gelose, verificou,
após 24 horas a 37°, areas de aspecto aquoso e observou que, nas culturas onde
se desenvolviam os micrococcos, as colonias destes tomavam-sc vitreas e trans-
parentes. Uma cultura pura de micrococco, isolado da lympha, tocada com um
fragmento da colonia transparente, tomava este aspecto, sendo logo toda invadida.
Este principio transparente, mesmo diluido a 1 por 1.000.000 cm solução
physiologica, atravessa facilmente os filtros finos de porcelana, sendo uma gotta
do filtrado, espalhada n’um tubo de gelose, sufficicntc para tornal-a imprópria
á cultura do micrococco. Se este for semeado, logo que começa a dcscnvolver-sc,
a cultura mostra pontos transparentes, que se estendem por toda a supcrficic
do meio, dependendo a intensidade do phenomeno da diluição do material original.
Este estado ou doença dos micrococcos, como o chamou Twort, pode ser
transmittido cm serie, n'um numero infinito de gerações, sempre á custa dos
micrococcos.
Esta observação de Twort 6 anterior á primeira communicaçáo de d’Hcrelle
!*obrc o phenomeno da bacteriophagia.
D’Hérelle, baseando-se na própria dcscripçáo de Twort, não identifica a veri-
ficação deste com o phenomeno que descreve pela primeira vez dois annos depois.
Assignala d Hérellc que no phenomeno de Twort "não se traía de uma lyse,
dissolução de uma bactéria”, ha uma fragmentação dos coccos, tratando-sc, pois,
de um phenomeno de bacterioclasia. Diz mais que na bacteriophagia o que se
produz é uma dissolução total do corpo microbiano, sem nenhum residuo.
(•) Trabalho entregue para publicação em agosto de 1929.
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28
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
E' surprehendente o facto de não serem bastante numerosos os trabalhos
referentes a pesquisas, segundo a technica de d’HérelIe, do bacteriophago nas
polpas vaccinicas.
Somente Gratia, tendo isolado de uma polpa vaccinica um bacteriophago
para o estaphylococco, cita pesquisas que fez a respeito e pelas quaes procura
mostrar a identidade do phenomeno de d Hérelle com o de Twort.
Segundo d'Hérelle, porém, a verificação de Gratia mostra sómente que na
polpa vaccinica podem ser encontrados os dois princípios que provocam os phe-
nomenos da bacterioclasia e o da bacteriophagia.
Sabemos que na polpa vaccinica, ao lado de elementos cellulares e do vinis,
se encontra associada uma flora microbiana, impossivel de ser evitada e na qual
predominam os coccos (micrococcos e estaphylococcos).
Por outro lado, durante o periodo de evolução das pustulas, 5 dias geral-
mente, é quasi que impossivel evitar a contaminação fecal do campo vaccinado
do vitello (região thoraco-abdominal). E antes da colheita, por maiores que
sejam os cuidados (lavagens repetidas com agua esterilizada, sabão e escova e
agua esterilizada pura, por fim) é razoavel acreditar-se na persistência dessa
contaminação da polpa, principalmente por elementos, como o bacteriophago,
por ventura existente nas fezes do vitello. Isto porque a existência deste princi-
pio, quando verificada em culturas e em condições que não falam muito a favor
da hypothese invocada por d’Hérelle - de um virus autonomo parasita das bacté-
rias, - tem sido explicada pela contaminação por este "virus’’ cujo habitat prin-
cipal é o intestino do homem e dos animaes e que é dotado de grande ubiquidade,
capaz de atravessar a parede intestinal e infectar os orgams (razão porque pode
ser encontrado em productos de origem organica, no sangue, em exudatos etc.)
e existente nas aguas dos rios, nos esgotos, na terra, c em tudo que fôr suscep-
tível de soffrer, directa ou indircctamente, a contaminação fecal.
O modo de acção de princípios lyticos porventura existentes nas polpas vac-
cinicas, nos daria indicações valiosas para o conhecimento de sua natureza e
origem.
Como pesquisas preliminares procurámos verificar a existência do bacterio-
phago no conteúdo intestinal dos vitellos normaes c vaccinados.
Resumiremos, a seguir estes resultados, apezar de já publicados alhures.
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J. L. Monteiro — Phenomcno de d’Hcrelle
29
Capitulo I
O bacteriophago no intestino dos vitellos normaes e vaccinados
E' relativamente facil a verificação da presença do bacteriophago no intes-
tino do homem e dos animaes normaes. No homem, essa presença se assignala
desde o 4.° dia após o nascimento (Vedrenne, Suranyi et Kramer), coincidindo
com o apparecimento da flora microbiana. Nos indivíduos normaes, geralmente
o principio lytico tem preferencia para o bacillo coli, hospede habitual do intes-
tino, podendo aquelle principio agir também sobre outros germes, saprophytas e
pathogenos, para os quaes o conteúdo intestinal se toma um habitat favoravel.
Entre os germes pathogenos a acção tem-se estudado principalmente em rela-
ção aos bacillos dysentericos, typhico, paratyphicos, etc.
Nos animaes e aves, a acção do phago existente no conteúdo intestinal
se exerce mais facilmente sobre os dysentericos, typhicos e paratyphicos
(d-Hérelle).
Nas verificações feitas em 6 bovinos, d'Hórcl!c nos mostra os resultados
seguintes: no l.°, vivendo numa fazenda onde havia typhose aviaria, encontrou
um bacteriophago para o bacillo dyscnterico Hiss (-j — j — [-) c bacillo gallinarum
(+) 1 no 2.°, nas mesmas condições o phago encontrado mostrou-se activo para
o bacillo coli 1-), dyscnterico Shiga (-; — f-)» Flexner (+), Hiss (+) c gal-
linarum (-f- J-) ; no 3.°, vivendo cm região indemne de doenças cpizooticas, o
phago mostrou-se activo para o bacillo coli (+), Shiga (+- J-) e Flexner (+-f);
no 4.°, nas condições do anterior, para o Shiga (-j — p) somente; no 5.°, para o
coli (-f-f), Shiga (-F4-+), Flexner (-f-f), Hiss (-f) c paratyphico B (-f-f);
e no 6.°, o phago existente mostrou-se activo para o coli (-}-) e Flexner (+)•
O autor diz possuir, alem destes, outros 42 exemplos comparáveis. Suas verifi-
cações foram feitas sobre o b. coli, b. dysentericos (typos Shiga, Flexner c Hiss),
b. typhico e paratyphicos A e B. b. do "barbonc” e b. gallinarum.
Verificações feitas em vitellos não são assignaladas por d‘Hércllc e outros.
Nossas pesquisas foram feitas em 8 vitellos normaes do serviço de vaccina
animal do Instituto, n’um dos quaes a verificação foi repetida com material ob-
tido 24 horas após a vaccinaçáo, depois da polpa ter sido colhida e, mais tarde,
com o material retirado directamente do recto, por occasião da necropsia do vitcllo.
A verificação da acção do principio lytico foi feita em relação aos germes
do grupo coli-typhico-dysenterico e a estaphylococcos isolados de polpas vacci-
nicas, ou de origem humana.
Em virtude dos resultados já assignalados por outros autores, referentes á
acção dos phagos isolados do conteúdo intestinal dos animaes e suas preferencias
para os germes do grupo coli-typhico-dysenterico, e também pelos nossos resul-
tados nos 8 animaes examinados, julgamos desnecessário, para o fim que tinha-
mos em vista, augmentar o numero de verificações.
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30
.Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Tcchnica adoptada
Com uma espatula esterilizada retiram-se cerca de 20 grs. de fezes recen-
temente emittidas pelo vitello, escolhendo-se uma parte central e que não tenha
soffrido contacto com o exterior e colloca-se n’uma placa esterilizada. Em se-
guida, este material é introduzido n’um balão contendo 100 c.c. de caldo commum
e levado para a estufa a 37°, onde se conserva durante 24 horas.
No fim deste tempo, o caldo turvo com a cultura obtida é filtrado em papel
grosso, fino e por fim em vela Chamberland L5, sob uma pressão negativa de
30 a 40 cm. de mercúrio.
Com o filtrado obtido, fazem-se as verificações da sua acção lytica em re-
lação ás differentes especies microbianas. Para avaliar, até certo limite, a acti-
vidade do principio lytico, porventura existente no filtrado, para cada typ° micro-
biano, tomamos 4 tubos com 9 c.c. de caldo commum (reacção pH«=*7,6). No !.•
collocamos I gotta do filtrado; no 2.°, 10 gottas; no 3.°, 2 c.c., e no 4.”, teste-
munha, não é collocado o filtrado. Em seguida, juntamos para cada tubo 1 c.c.
de cultura em caldo, de 18 a 24 horas, da especie microbiana a ser verificada. Os
tubos são agitados, apresentando-se, conforme o germe usado, mais ou menos
opalescentes; depois, são levados para a estufa a 37°. Após 24 horas, faz-se a
verificação dos resultados, observando-se o aspecto das culturas comparativamente
ao tubo testemunha.
Neste tubo, testemunha, costumamos semear uma alça apenas da cultura, em
vez de 1 c.c. como nos outros 3 tubos da verificação propriamente; desta forma
é muito grande a differcnça de quantidade de germes no tubo testemunha e nos
com o filtrado e mais evidente se mostrará a acção deste sobre a emulsão micro-
biana; também se saberá se o meio é bastante favoravel para o germe em apreço,
partindo-se de menor quantidade de semente ou se é lysogeno, facto que melhor
pode ser evidenciado nestas condições.
Uma vez verificado o resultado no caldo (turvação ou dissolução mais ou
menos completa), retira-se de cada tubo uma alça carregada e passa-se em estria,
sobre um tubo com gelose inclinada, que receberá o numero correspondente.
Os tubos de gelose são levados e conservados na estufa a 37® durante outras
24 horas, depois do que se verifica a existência, ao longo da estria praticada, de
colonias atypicas, influenciadas pelo bacteriophago e que são características do
phenomeno de d'Hérelle.
Depois desta verificação em meio solido é que se pode ter ideia da existência
ou não de um phago na cultura, pois muitas vezes, embora turvo o meio liquido,
só esta verificação põe em evidencia a existência do principio lytico. Quando
este é muito activo, além da dissolução dos germes no caldo, não se observa
desenvolvimento de colonias. mesmo atypicas. na estria em gelose, no tubo cor-
respondente a f gotta do filtrado; quando de actividade pequena, no tubo com 2
cc. do filtrado e turvo em caldo, se verificam na gelose raras "plages" ou raras
franjas características. Entre estes 2 extremos vèem-se os aspectos decorrentes
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J. L. Monteiro — Phenomeno de d’Hérelle
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
das diversas actividades e proporções do bacteriophago por ventura existente.
No tubo testemunha, a estria em gelose deve ter sempre o aspecto de uma cul-
tura normal.
Resultados.
Os resultados verificados com o material de 8 vitellos estão resumidos no
quadro annexo.
A actividade assignalada no quadro é a correspondente ao 2.° tubo, com 10
gottas do filtrado, após a verificação em gelose.
Os signaes significam:
-f: cultura ao longo da estria em gelose, notando-se raras zonas claras e co-
lônias atypicas;
-j — idem, observando-se numerosas zonas claras e colonias atypicas;
-j — i — {- : cultura interrompida ao longo da estria, com largos espaços claros
com colonias atypicas;
H — I — i — {- : estria quasi toda clara, observando-se apenas raras colonias aty-
picas, influenciadas;
— | — J — j — J- : não se observa colonia alguma, ficando toda a estria clara e o
meio com apparencia de esteril;
0: cultura em estria, de aspecto normal, semelhante ao tubo testemunha.
Os typos microbianos sobre os quaes foi pesquisada a acção dos filtrados
foram representados por germes do grupo coli-typhico-dysenterico (b. dysenterico
Shiga 980, da collecção, e Flexner 2, b. typhico Amparo, b. paratyphico A 145,
b. paratyphico B 3, b. coli communis 14 e coli communior 13) e coccos (estaphyl.
45E1, 45E2, 45E3, 46EI, 46E2, 46E3, 38EI, 38E2, isolados de polpas vaccinicas
e estaphyl. Sta. Casa 1 e M.C., de origem humana).
Destes resultados experimentaes verifica-se que, n'um dos vitellos, o de n. #
54, antes de ser vaccinado, isto é, no estado normal, se encontra no conteúdo
intestinal um principio lytico cuja actividade se manifesta unicamente para o ba-
cillo dysenterico, typo Flexner 2 da collecção. Realizámos 2 passagens em serie
sobre este typo microbiano e, embora a exaltação do principio lytico não se accen-
tuasse muito, apresenta elle todos os característicos do bacteriophago. Este vitello
foi escarificado na região thoraco-abdominal com o virus vaccinico, para o serviço
de vaccina animal e 24 horas depois é de novo pesquisado o bacteriophago nas
fezes. Encontra-se um principio idêntico ao verificado anteriormente. Após 10
dias da vaccinação e 5 da colheita da polpa, a pesquisa é repetida e o resultado
ainda é idêntico, parecendo, porém, ter havido uma diminuição da actividade do
phago em relação ao germe. Por fim, 15 dias após a vaccinação e 10 da colheita
da polpa, o animal é sacrificado, por exigencia do serviço de vaccina. Durante
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J. L. Monteiro — Phcnomcno de d'Hérelle
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a necropsia, é feita a colheita do material directamente do recto, depois de sec-
cionada a parede intestinal, com todos os cuidados de asepsia. Neste material,
com a mesma technica já descripta, se nota agora que o principio lytico existente
deixa de agir sobre o b. dysenterico Flexner 2, para agir sobre o b. dysenterico
Shiga 980, embora sua actividade não seja muito accentuada.
Nos outros vitellos normaes, apenas com uma excepção, se encontram prin-
cípios lyticos que agem sobre germes pertencentes ao grupo coli-typho-dysente-
rico, de preferencia para os typos Shiga e Flexner.
Em nenhum foi encontrado um bacteriophago que agisse sobre os coccos,
quer isolados de polpas vaccinas, quer de origem humana.
Quanto ao numero de especies microbianas estudadas, pode-se allegar talvez
que, se maior fosse o numero de typos de coccos (estaphylococcos, micrococcos,
etc.), possível seria encontrar algum sobre o qual a influencia se manifestaria.
No entanto, o numero de representantes do grupo coli-typhico-dysenterico foi
ainda mais reduzido do que o de coccos e mesmo assim um ou outro typo
daquelle grupo, e ás vezes mais de um, se mostrou influenciado pelo phago exis-
tente no conteúdo intestinal do animal.
A polpa vaccinica do vitello 18, recebe o numero 4538; do vitello 31, o
numero 4545; do vitello 54, o numero 4568 e do vitello 55, o numero 4569.
Nestas polpas, assim como em outras em differentes períodos de permanência
no frigo, são feitas pesquisas relativas á presença do bacteriophago e sua acção,
e os resultados serão dados a seguir.
Capitulo II
O bacteriophago nas polpas vaccinicas glvccrinadas
Veremos agora os resultados obtidos com as pesquisas praticadas nas polpas
vaccinicas glycerinadas, cm differentes períodos de permanência no frigo de -5*
a -8°C., algumas provenientes de vitellos cm cujas fezes esta verificação havia
também sido feita.
Technica adoptada.
A polpa vaccinica, depois de colhida e pesada, é geralmente addicionada de
3 a 4 partes do seu peso de glycerina pura, neutra (Schering). Depois de emul-
sionada com uma espatula é collocada no apparelho triturador, onde soffre uma
primeira trituração grossa que toma mais intimo o contacto da glycerina; em
seguida, a polpa é levada para um apparelho ‘‘frigo" onde é mantida n‘uma tempe-
ratura que oscilla entre -5 o e -8'C.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Para a pesquisa do bacteriophago na polpa vaccinica tomamos I c.c. da emul-
são glycerinada e semeamos em 100 c.c. de caldo commum. Incubação a 37°
durante 24 ou 48 horas (* (•*) ).
No fim deste tempo o caldo apresenta-se turvo em virtude do desenvolvi-
mento dos germes contidos na polpa semeada; a cultura é filtrada em papel e
em vela Chamberland L2 ou L5, sob pressão negativa de 30 a 40 cm. de mercúrio.
Com o filtrado fazem-se as verificações da sua acção lytica em relação a
culturas recentes das differentes especies microbianas.
Para cada germe tomam-se 4 tubos com 9 c.c. de caldo commum (pH=»7,6) ;
no l.°, colloca-se 1 gotta de filtrado, no 2.°, 10 gottas, no 3.°, 2 c.c. e no 4.°, que
servirá de testemunha, não se junta o filtrado. Addiciona-se em seguida, 1 c.c.
da emulsão microbiana (cultura em caldo de 18 a 24 horas). Os tubos são agi-
tados e levados para a estufa a 37°, durante 24 horas.
No tubo testemunha costumamos também semear apenas 1 alça da cultura
em caldo, em vez de 1 cc. como nos outros 3, sendo, por isso, considerável
a differença de quantidade de germes nestes em relação áquelle. Esta technica
tem a vantagem de mais seguramente evidenciar a possível acção lytica do fil-
trado; mostra também se o meio é favoravel ao desenvolvimento da cultura,
partindo de menor porção de germes e dá ainda indicações sobre se a cultura é
ou não lysogena, facto que assim melhor se revela.
Verificado o resultado no caldo, uma alça carregada de cada tubo é passada
cm estria sobre a gelose inclinada em outro tubo que receberá o numero corres-
pondente.
Os tubos de gelose são levados para a estufa a 37° durante 24 horas, verifi-
cando-se então o aspecto da cultura desenvolvida ao largo da estria (aspecto nor-
mal, existência de "plages” ou zonas claras, colonias atypicas, influenciadas, etc.)
e que nos dará informações sobre a existência e actividade do principio, de ac-
cordo com as varias proporções do filtrado ajuntado em relação ao germe cm
apreço.
Só depois desta verificação cm meio solido é que se pode ter uma ideia da
existência ou não de um phago na cultura, pois muitas vezes, embora turvo o
caldo, é ella que vem evidenciar o phenomeno.
Parte experimental.
1. Polpa n .* 4569 (proveniente do vitello 55 (•*), semeada immediatamente
após a colheita e addição de glycerina e de ter soffrido uma primeira trituração
grossa.
(•) N'uma polpa semeada em baláo que permaneceu 10 dias a 37*, verificámos
o mesmo resultado observado após 48 horas apenas.
(•*) Antes da colheita da polpa, após a lavagem, havendo reacção inflammatoria
local um pouco intensa, faz-se agir, sobre a zona vaccinada, uma solução de verde bri-
lhante a 1 : 50.000, durante 10 minutos. O corante é eliminado por varias lavagens com
agua esterilizada e o campo ó enxuto, procedendo-se a colheita.
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J. L. Monteiro — Phenomeno de d’Hérelle
35
A acção lytica do filtrado da cultura é verificada em relação aos germes
abaixo assignalados, sendo o resultado indicado observado no tubo onde se addi-
cionaram 10 gottas do filtrado:
Cultura de
Resultado
no caldo
Verificação
em gelose
Estaphyl. 45EI
L L
-4- ri- -F ri-
45E2
T
0
45E3
T
0
46E1
T
0
4-5E2
T
0
46E3
T
0
38E1
T
0
38E2
T
0
47E1
T
0
B. dys. Shiga SPO
T
0
B. dys. Flexner 2
T
0
B. tvphico Amparo
T
0
B. paratyphico A 145 ... .
T
0
B. paratyphico B 3
T
0
B. coli communis 14 ....
T
0
B. coli communior 13 ... •
T
0
Os signaes com que assignalamos os resultados com 10 gottas do filtrado
(2.® tubo) têm a seguinte significação:
T - turvaçáo (como no tubo testemunha) ;
L - lyse ou dissolução apenas perceptível;
LL - lyse ou dissolução incompleta;
LLL - lyse ou dissolução completa.
+ • cultura ao longo da estria, notando-sc raras zonas claras e colonias
atypicas;
ri — f- - idem, observando-se numerosas zonas claras e colonias atypicas;
ri--rri- - cultura interrompida ao longo da estria, com largos %spaços claros
com colonias atypicas;
ri — ! — j — f- - estria quasi toda clara, observando-se apenas raras colonias aty-
picas influenciadas;
-fri— f -fri- - não se observa colonia alguma, ficando toda a estria clara e
o meio com a apparencia de esteril;
0 - cultura em estria, de aspecto normal, semelhante ao tubo testemunha.
Esta polpa é proveniente do vitello n.® 55 em cujo conteúdo intestinal se
encontrou um bacteriophago activo (-* — r) para o bacillo dysenterico Flexner 2.
II
cm
SciELO
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36
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Verifica-se, pelo resultado acima, que ella possue, depois de emulsionada em
glycerina e antes de ter permanecido no frigo, um principio lytico que age sobre
um dos typos de estaphylococcos empregados (estaphl. 45E1), não tendo acção
sobre os outros e sobre os germes do grupo coli-typhico-dysenterico.
II. Polpa n.° 4545 (proveniente do vitello 31). Colheita, addição de gly-
cerina, primeira trituração grossa e collocação no frigo em 21/5/928.
Parte da cultura é filtrada após 48 horas e o restante após 10 dias de per-
manência a 37°.
Resultado da acção do filtrado da cultura de 4S horas:
Cultura de
Resultado
no caldo
Verificação
em gelose
Estaphvl. 45E1
T
0
45E2
T
0
45E3
T
4- 4-
4ÔE1
T
0
46E2
T
0
46E3
LLL
*+■ 4“ + +
., Sta. Casa i (*) . . .
T
0
B. dys. Shiga 980
T
0
B. dys. Flexner 2
T
0
B. typhico Amparo
T
0
B. paratyphico A 145 . . . .
T
0
B. paratyphico B 3
T
0
B. coli communis 14 ....
T
0
B. coli communior 13 ... .
T
0
Esta polpa provém do vitello n.° 31 em cujo conteúdo intestinal foi verificada
a presença de um bacteriophago para o bacillo dysenterico Shiga 980 (-r++)-
Pelo resultado acima vè-se que ella contém um bacteriophago activo para 2
dos typos de . estaphylococcos verificados (45E3, isolado desta própria polpa e
46E3) para o qual a actividade é maior, não mostrando acção sobre os outros,
mesmo d’ella também isolados (45E1 e 45E2), nem sobre os germes do grupo
coli-typhico-dysenterico.
Os 3 tubos da verificação sobre o estaphylococcos 46E3 são filtrados e, fa-
zendo-se 3 passagens em serie sobre este germe, nota-se a exaltação da activi-
dade do filtrado após cada passagem.
O resultado da actividade após a primeira passagem pode ser verificado pela
photographia da fig. 1.
(•) De origem humana.
12
SciELO
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J. L. Monteiro — Phenomeno de d’HéreUe
37
Resultado da acção do filtrado da cultura após 10 dias de estufa a 37°:
Cultura de
Resultado
no caldo
Verificação
em gelose
Estaphyl. 45E1
T
0
„ 45E2
T
0
„ 45E3
T
-r +
„ 46E1
T
0
„ 46E2
T
0
„ 4»iE3
T
-r + +
„ Sta. Casa 1 (•) . . .
T
0
B. dys. Shiga 980
T
0
B. dys. Flexner 2
T
0
B. typhico Amparo
T
0
B. paratyphico A 145 . . . .
T
0
B. paratyphico B 3
T
0
B. coli communis 14 ....
T
0
B. coli communior 13 ... .
T
0
Verifica-se assim que, após 10 dias, o principio lytico existente é semelhante
ao observado após 48 horas, parecendo apenas que sua actividade tenha dimi-
nuído um pouco.
Com este phago realizamos também 3 passagens sobre o estaph. 46E3, sendo
que sua exaltação, após as passagens, foi menos accentuada do que com o fil-
trado de 48 horas.
III. Polpa n.° 4568 (proveniente do vitello 54). Colheita, addiçáo de gly-
cerina, primeira trituração grossa e coJlocaçáo no frigo em 17/7/928.
Semeada para a pesquisa do bactcriophago após 2 mezes de permanência no
frigo. Verificação da acção lytica do filtrado da cultura após 24 horas.
No conteúdo intestinal do vitello 54 que forneceu esta polpa foram feitas
varias verificações quanto á presença do bacteriophago cm relação aos mesmos
germes do grupo coli-typhico-dys. e alguns dos estaphylococcos agora verificados.
Antes da vaccinaçáo do vitello, verificou-se a presença de um principio ly-
tico para o b. dysenterico Flexner 2, somente; principio lytico idêntico verifica-se
24 horas e 10 dias após a vaccinaçáo (actividade menor agora), ao passo que,
15 dias após a vaccinaçáo, este principio passa a agir sobre o b. dysenterico
Shiga 980.
(•) De origem humana.
13
cm
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Memórias do Instituto Butaman — Tomo V
Typos microbianos sobre os quaes foi verificada a acção e resultado obtido:
Cultura de
Resultado
no caldo
Verificação
em gelose
Estaphyl. 45E1 ....
T
+ T
»»
45E2 . . . .
T
0
45E3 . . . .
L
4" -r -r +
46E1 ....
T
0
r*
46E2 ....
T
0
46E3 . . . .
L
+ + + +
r*
38E1 ....
T
0
38E2 . . . .
T
-f
47E1 ....
T
0
52E1 ....
T
0
56E1 ....
T
0
»*
Sta. Casa 1 •
T
0
M. C. * . .
T
0
97 [•) . . .
T
0
98 *) . . .
T
0
»*
152 • . . .
T
0
M
153 •) . . .
T
4- 4-
M
184 [*) . . .
T
0
B. dysenterico Shiga 980
T
0
B. dys. Flexner . . .
*
T
0
B. typhico Amparo . .
T
0
B. paratyphico A 145 .
T
0
B. paratyphico B 3 . .
.
T
0
B. coli
communis 14 .
T
0
B. coli communior 13 .
T
0
Pelo quadro acima vè-sc que, após 2 mezes de permanência no frigo, na
polpa proveniente deste vitello, não se constata a presença de phago para esses
germes e sim para vários dos estaphylococcos examinados, um dellcs de origem
humana (var. citrcus , de um caso de furunculose) .
IV. Polpa n.° 4538 (proveniente do vitello 18). Colheita, addição de gly-
cerina, primeira trituração grossa e collocação no frigo em 20/3/928.
Semeada em caldo na proporção de 1 por 100, para pesquisa do bacterio-
phago, após 3 mezes e 20 dias.
Cultura a 37° durante 48 horas.
(•) Isolados de casos diversos de origem humana.
14
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J. L. Monteiro — Phenomeno de d'Hérelle
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Resultado da verificação da acção lytica do filtrado sobre differentes typos
microbianos:
Cultura de
Resultado
no caldo
Verificação
em gelose
Estaphyl. 45E1
L
+ 4-4-
„ 45E2
L
4-4-4-
„ 45E3
LL
4-4-4-
„ 46E1
L
4-4-
46E2
T
+
., 46E3
L LL
t -h
38EI
T
0
38E2
LL
+ * (••) r + -f
„ Sta. Casa 1 • .
T
0
B. dys. Shiga 980. . . .
T
0
B. dys. Flexner 2. . . .
T
0
B. typhico Amparo . . .
T
0
B. paratyphico A 145 . .
T
0
B. paratyphico B 3 . . .
T
0
B. coli communis 14. . .
T
0
B. coli communior 13 . .
T
1
No conteúdo intestinal do vitello 18, que forneceu esta polpa foi verificada
a presença de um bacteriophago activo para o b. dyscnterico FIcxncr 2 (++).
Vè-se que na polpa glyccrinada, colhida deste vitello, após ter permanecido
mais de 3 mezes a -8°C-, não se constata phago para os germes do grupo coli-
typhico-dysenterico, mas sim para diversos estaphylococcos empregados, com cx-
cepção de 2 apenas (um, typo Sta. Casa, isolado de um caso de phlcgmào da
coxa e outro typo 38E1, isolado da própria polpa). Os outros typos de estaphy-
lococcos são oriundos de polpas vaccinicas, sendo o 38E2 da polpa homologa (••).
As photographias das figuras 2, 3 c 4 mostram os resultados obtidos com o
principio lytico da polpa n.” 4538 cm relação aos estaphylococcos sobre os quaes
mostrou acção, sendo apenas vistos os resultados da verificação cm gelose nos
tubos aos quaes se juntaram, respectivamente, 10 gottas e 2 c.c. do filtrado, com-
parativamente com o tubo testemunha.
V. Polpa n.“ 4512 colhida em 27 9 927. Depois de submettida ás diversas
phases do preparo, soffreu a 2.* trituração fina. tamisação e extraeção do excesso
(•) De origem humana.
(••) Os numeros dados aos estaphylococcos isolados de polpas correspondem aos
dois algarismos finaes da polpa donde provém, sendo os seus dois primeiros algarismos
0 numero 45. Assim o estaphylococco 38E1 provem da polpa n.* 4538; o cstaphylococco
45E| provem da polpa 4545 e assim por diante.
15
40
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
de ar, sendo conservada no frigo, para experiencias sobre o tempo de duração
da actividade do vinis.
Em 27/8/928, isto é. 1 1 mezes após a permanência no frigo, é semeada na
proporção de I c.c. de polpa para 100 de caldo commum, para a pesquisa do bac-
teriophago. Incubação a 37° durante 48 horas; filtração em Chamberland L2 e
verificação da acção lytica do filtrado sobre os germes constantes do quadro
abaixo, com os respectivos resultados:
Cultura de
Resultado
no caldo
Verificação
em gelose
Estaphyl. 45E1 . . .
L
0
,. 45E2. . .
T
0
„ 45E3 . . .
L
+ + +
„ 46E1. . .
T
0
46E2. . .
T
0
,. 46E3 . . .
T
+ +
„ 38E1 . . .
T
0
„ 38E2 . . .
T
0
„ 47E1 . . .
T
+
52E1 . . .
T
0
„ 56E1. . .
T
0
Sta. Casa 1
(•)
L
0
,. M. C. (•' .
LLL
T + T +
„ 97 (•) . .
T
0
„ 98 (•) . .
T
0
„ 152 <•) . .
T
0
„ 153 (•) . .
LL
++ +
„ 184 (•) . .
T
+ -r
B. dys. Shiga 980. .
T
0
B. dys. Flexner 2. .
T
0
B. typhico Amparo .
T
0
B. paratyphico A 145
T
0
B. paratyphico B 3 .
T
0
B. coli communis 14
T
0
B. coli communior 13
T
0
Verifica-se assim que, mesmo após quasi 1 anno de permanência a -8°C,
nesta polpa, apenas com a cultura de pequena quantidade em caldo durante 43
horas e filtração, se evidencia um principio lytico capaz de agir sobre culturas
recentes de diversos typos de estaphylococcos, vários de origem humana, o qual
não manifesta acção sobre germes do grupo coli-typhico-dysenterico. A activi-
dade da polpa vaccinica 4512, verificado mais ou menos nesta occasião (18/8/28),
segundo o methodo de Gins, dá uma reacção positiva (J — [-) até a diluição de (*)
(*) De origem humana.
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J. L. Monteiro — Phenomeno de d'Hirelle
41
I 10.000. O numero de germes por c.c. de polpa bruta glycerinada (portanto,
não diluída; é de 120.000.
No quadro acima observa-se que, ás vezes, pela simples inspecção do resul-
tado em caldo pode-se pensar na dissolução, lyse, das bactérias e que é indis-
pensável, para se ter a certeza da acção bacteriophagica, proceder-se a verifi-
cação em gelose.
VI. Polpa n.° 4545 (2.* verificação) após 110 dias de permanência no frigo.
Os resultados da verificação da acção Iytica do filtrado constam do quadro
seguinte:
Cultura de
Resultado
no caldo
Verificação
em gelose
Estaphyl. 45E1
T
+ +
„ 45E2
T
0
„ 45E3
T
+ + +
46E1
T
0
„ 46E2
T
0
„ 46E3
T
0
„ 38EI
T
0
„ 38E2
T
+ +
47EI
T
0
„ 52E1
T
0
„ 56EI
T
0
„ Sta. Casa 1 (•) . . .
T
0
M. C. (*)
T
0
n 97 (•)
T
0
» 98 (*) I
T
0
152 (•» ]
T
0
„ 153 f)
T
0
184 (•)
T
0
B. dys. Shiga 980
T
0
B. dys. Flcxner 2 |
T
0
B. typhico Amparo
T
0
B. para typhico A 145 . . .
T
0
B. paratyphico B 3
T
0
B. coli communis 14
T
0
B. coli communior 13 ... . |
T
0
Esta polpa é proveniente de um vitello cm cujo conteúdo intestinal se evi-
denciou um bacteriophago para o b. dysenterico Shiga 980 (-f~f-f). No fim dc
16 dias de permanência no frigo a acção do phago n'ella existente está indicada
na expcricncia II. Agora, depois de 110 dias dc permanência a -8°C, esta acção
differe um pouco da verificada n'aquella occasiáo, como se pode ver comparando
05 2 resultados. Com 16 dias, actua sobre os typos 45E3 (isolado da própria
(•) De origem humana.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
polpa) e 46E3; com 110 dias, age sobre os typos 45E1 e 45E3 (isolados da pró-
pria polpa) e sobre o 38E2. Em ambas as occasiões, agiu sobre o estaphylococ-
co 45E3; com 16 dias, deixou de agir sobre o 45E1 e com 110 dias deixou de ter
acção sobre o estaphylococco 46E3.
Este facto é interessante e mostra que modificações do meio, operadas du-
rante o periodo de permanência no frigo, devem ter influído na elaboração e mo-
dificação da actividade do principio da lyse transmissível.
Antes de passar á discussão destes resultados experimentaes, devemos dizer
que todos os germes empregados nestas experiencias soffreram, antes da sua
utilização, numerosas repicagens em caldo commum e gelose inclinada, dando
sempre culturas de aspecto normal. Sómente 2 typos se mostravam lysogenos e
foram logo eliminados das verificações: um de origem humana (Estaphyl. 183)
e outro isolado de uma polpa vaccinica (Estaphyl. 52E2).
Capitulo III
Discussão e considerações sobre a natureza do phenomeno
Verificamos, nas pesquisas preliminares, que no conteúdo intestinal dos vi-
tellos normaes se encontra um bacteriophago que age sobre germes do grupo co-
li-typhico-dysenterico e que em nenhuma occasião manifestou acção sobre os
coccos (estaphylococcos). Vemos agora que, nas polpas vaccinicas glycerinadas,
em differentes períodos de permanência no frigo (de 16 dias e II mezes) e mes-
mo immediatamente após a colheita e addiçáo de glycerina, se evidencia facil-
mente, pela technica que descrevemos, a presença de princípios lyticos que so-
mente agem sobre os estaphylococcos e que em nenhuma occasião manifesta-
ram acção sobre os germes do grupo coli-typhico-dysenterico, mesmo quando as
polpas de onde foram isolados eram provenientes de vitellos em cujo conteúdo
intestinal haviamos previamente verificado a presença de um bacteriophago pa-
ra germes deste ultimo grupo.
Acceitando-sc a hypothesc de d'Hérelle, é muito razoavel, como assignalá-
mos no inicio deste trabalho, pensar-se n'uma contaminação fecal da polpa vac-
cinica, onde se deveria encontrar um protobio semelhante ao existente no con-
teúdo intestinal do vitello.
Mesmo na hypothese de uma adaptação do virus ao novo meio (impossível
pela experiencia I), a natureza de um organismo preformado e parasita, como
quer d'Hérelle, não pode receber o apoio destes nossos resultados experimentaes.
Sabemos que quanto mais simples é o ser vivo, maior é a sua faculdade de
adaptação e, como consequência, maior a sua variabilidade. Segundo d’Hérclle,
18
cm
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J. L. Monteiro — Phenomeno de d’HérelIe
43
o bacteriophago ( Protobio bacteriophagus, syn. Bactcriophagum intestinalc) pos-
sue estes attributos. alem de outros que sáo apanagio dos seres vivos. Nesta hy-
pothese, podendo adaptar-se ao novo meio (polpa glycerinada) e agir sobre ger-
mes nelle contidos, o "vírus” nào deveria perder seus caracteres originaes, quan-
do em condições propicias. Por isto, em contacto novamente com germes do gru-
po coli-typhico-dysenterico, para os quaes agia antes desta adaptação a germes
de natureza differente (estaphylococcos), deveria evidenciar sua acção primitiva.
Acceitando-se a possibilidade de uma contaminação fecal, sempre tão facil
e lembrada em estudos sobre o bacteriophago, devemos admittir então que este
"virus", proveniente do intestino do vitello, se tenha inactivado ou morrido na
polpa vaccinica glycerinada, mesmo na recemcolhida, surgindo outro de natureza
e modo de acção differentes.
E’ evidente a existência de uma certa relação entre o bacteriophago isolado
e os germes existentes no meio, quer normalmente, quer sob determinadas cir-
cunstancias, e na sua elaboração a influencia da flora microbiana é incontestá-
vel, não sendo dcsrazoavel acreditar-se no papel da concorrência vital entre as
varias especies e outras "influencias”, tanto do meio, como dos germes.
Nestas condições, se poderia considerar o "virus" bacteriophago como um
elemento oriundo dos proprios germes, cuja formação seria provocada por “in-
fluencias” que se encontram no conteúdo intestinal dos animaes, na polpa vacci-
nica glycerinada. na agua dos rios, nos esgotos, na terra, etc., onde este principio
lytico tem sido verificado.
Se os resultados experimentaes assignalados não autorizam, por si sõs, esta
dedueçáo sobre a natureza do phenomeno, parece-nos ser cila pcrfcitamcntc ac-
ccitavel tendo-se em conta também os trabalhos experimentaes de grande nume-
ro de autores.
N'uma revisão da já vasta bibliographia sobre a bacteriophagia c das dif-
ferentes hypotheses propostas para a explicação do phenomeno, um facto rcsalta
quasi sempre: as características vitaes do principio lytico, postas cm evidencia
principalmcnte por d'Hérelle.
Por outro lado. se recordarmos os estudos sobre o metabolismo bactcriano,
tanto no organismo animal, como in vitro, sobre as mutações que podem soffrcr
as bactérias em differentes condições, sobre o phenomeno da dissociação micro-
biana. tão bem estudado por P. Hadlcy, se juntarmos a todos estes estudos os
do nosso eminente patrício Antonio Fontes, sobre as phases da evolução do ba-
cillo de Koch e sobre o cyclo vital das bactérias c tantos outros, veremos quão
complexa é a cyclogcnia bacteriana c qual a importância que devem merecer
cm nossos dias novos capitulos da bacteriologia relacionados com a biologia dos
micro-organismos.
O phenomeno da bacteriophagia ou da Iyse transmissível deve ser também
collocado entre os que se relacionam com a biologia microbiana. Das differentes
theorias propostas para a explicação do phenomeno de d’Hérellc, as chamadas
Mtogcnas, isto é, para as quaes o principio lytico é oriundo da própria cellula
19
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
bacteriana e theorias defendidas, sob differentes modalidades, por Twort, Ka-
beshima, Bordet, Ciuca e Renau, Wollman etc., tomaram em nossos dias a theo-
ria parasitaria de difficil sustentação.
Juntem-se a isso os trabalhos de Bumet, verificando uma coordenação en-
tre a capacidade de absorpção de agglutininas de certos microorganismos e o que
se poderia chamar sua capacidade de absorpção phagica, falando a favor de uma
independencia biologica das partículas bacteriophagicas em contradicçào com a uni-
dade biologica da theoria de d’Hérelle; também em contraposição a esta unidade
biologica, a descoberta de Koser relativa a um bacteriophago para uma especie
thermophila, agindo a uma temperatura que destroe a maioria dos germes não
esporulados e a de Elder e Tanner, com o seu bacteriophago psychophilico, agin-
do na temperatura de 4°C.
Estes factos e muitos outros que poderiam ser citados, mostram que o ba-
cteriophago está em relação com a cultura onde se desenvolve, e por isto, com a
flora microbiana, como assignalamos em nosso trabalho.
As pesquisas, referentes á presença do bacteriophago em culturas de dif-
ferentes germes, de Bail, Otto e Munter, Lemos Monteiro e outros; as de Hadley,
Klimak e Kiescwetter, mostrando que o agente lytico pode ser gerado n’um tubo
de caldo unicamente por uma serie de culturas e filtrações successivas; as de
Bõguet, sobre a influencia da variação da pressão osmotica entre as colloides
microbianas e do meio, tendo-se em conta os phenomenos de adsorpção e ten-
são superficial, na elaboração phenomeno lytico, etc., todas cilas apoiam esse
modo de ver.
A cellula microbiana não deve mais ser considerada como uma unidade vital,
mas sim constituída por um conjuncto de unidades vitaes que, para certos ger-
mes e sob certas condições ou "influencias", se multiplicariam neste estado pri-
mordial, invisível, da matéria viva. Nestas condições, poder-se-ia admittir a hy-
pothesc de que a bacteriophagia seria a manifestação da multiplicação destas
formas invisíveis do proprio germe, assim surgindo sob certas condições c capa-
zes, quando em contacto com formas normacs c visíveis, de transmittir a estas a
mesma propriedade.
A relação existente entre o bacteriophago especifico e a cultura onde se
desenvolve, suggerindo que o protoplasmo do agente se continua com o da cel-
lula microbiana, serviu a Hadley para formular sua interessante theoria para a
explicação do phenomeno. Segundo esta theoria, que Hadley denomina de "ho-
mogamica da acção bactcriophagica", ambos os elementos, principio lytico e bacté-
ria sensivel, são componentes necessários a um mechanismo de reproducção que
muitas, senão todas, as bactérias possuem.
Em summa, as controvérsias existentes sobre o assumpto não repousam no
reconhecimento de factos estabelecidos, mas na sua interpretação e não dimi-
nuem o valor do incomparável trabalho de d'Hérelle.
20
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J. L. Monteiro — Phenomeno de d’Hérelle
45
CONCLUSÕES
I. No conteúdo intestinal de vitellos normaes encontra-se quasi sempre um
bacteriophago, cuja acçáo se manifesta para germes do grupo coli-typhico-dysen-
terico.
II. A acção deste principio lytico em nenhuma occasião se manifestou so-
bre os coccos (estaphylococcos), quer isolados de polpas vaccinicas, quer de ori-
gem humana.
III. Nas polpas vaccinicas glycerinadas mantidas a -8°C. desde alguns dias
até quasi um anno, encontra-se um “bacteriophago” cuja acção se manifesta pa-
ra os coccos (estaphylococcos), quer isolados de polpas vaccinicas, quer de ori-
gem humana.
IV. Em nenhuma occasião sua acção se manifestou sobre germes do grupo
coli-typhico-dysenterico, mesmo quando a polpa vaccinica é oriunda de vitello em
cujo intestino se encontra um principio lytico agindo sobre germes deste grupo.
V. E’ evidente a existência de uma relação entre o principio lytico isolado c
a flora microbiana predominante do meio.
RESUMO
J. Lemos Monteiro (Instituto Rutantan. Sào Paulo). —
Sobre o phenomeno de d'Hérelle. O hartrriophacn na« pol-
pas \arriniras gtyrerinada*; considerações sobre a natureza
do phenomeno.
O autor fez a pesquisa de princípios lyticos com os caractcristicos do bacte-
riophago nas polpas vaccinicas glycerinadas em differentes períodos de perma-
nência do frigo a -8"C (de II dias a quasi I anno), indicando a tcchnica de que
se serviu. Muitas das polpas verificadas eram oriundas de vitellos em cujo conteúdo
intestinal idênticas pesquisas haviam sido feitas e são também descriptas.
A acção dos phagos existentes nas polpas glycerinadas foi verificada cm re-
lação a germes do grupo coli-typhico-dysenterico c a differentes amostras de cs-
taphylococcos.
Ao contrario do que acontece com o principio lytico existente nas fezes do
v 'teIlo, o verificado nas polpas vaccinicas glycerinadas manifesta acção sobre os
estaphylococcos e em nenhuma occasião sobre os germes do grupo coli-typhico-
dysenterico, mesmo na recem-colhida.
Sabe-se como é difficil, impossível mesmo, por maiores que sejam os cui-
dados, evitar a contaminação fecal do campo vaccinado do vitello. Pela hypothc-
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se de d’Hérelle para a explicação do phenomeno, isto é, de um "virus” parasita
das bactérias, este elemento existente no conteúdo intestinal do vitello deveria
ser encontrado nas polpas vaccinicas e agir sobre os mesmos germes para os
quaes agia anteriormente. Isto também porque, segundo os defensores desta theo-
ria parasitaria, o bacteriophago é dotado de grande ubiquidade, podendo ser en-
contrado em tudo que fòr capaz de soffrer directa ou indirectamente a contami-
nação fecal. O A. verificou que assim não acontece; o bacteriophago encontrado
nas polpas vaccinicas sempre mostrou acção sobre os estaphylococcos, isolado de
polpas ou de origem humana, e em nenhuma occasião agiu sobre os germes do
grupo coli-typhico-dysenterico, mesmo quando oriundas de vitellos em cujo con-
teúdo intestinal havia verificado a existência de principio Iytico para germes deste
ultimo grupo. Em virtude dos resultados experimentaes deste e de outros traba-
lhos e dos de numerosos experimentadores, o A. mostra uma hypothese que lhe
parece razoavel para a explicação de tão interessante phenomeno, que conside-
ra ligado á biologia e cyclogenia microbianas.
ABSTRACT
Lytic principies bearing bacteriophage characteristics werc found in the
glyccrin-vaccin lymph as kcpt in the ice-box at -8°C for a period varying from
1 1 days to I year. Several batches of the lymph werc obtaincd from calves on
whose intestinal contcnts the scarch for the bacteriophage was also made, in
both cases the action of the phage being investigatcd in regard to staphylococci
and gcrms of the coli-typhoid-dysentery group.
The lytic principie found in the vaccin lymph, evcn from a reccnt batch,
acts on staphylococci but not on the coli-typhoid-dysentery group, whilst that
found in the faeces of calves shows a reverse action. It is known how difficult
it is to avoid fecal contamination of the vaccinated region of a calf in spitc of
any precautions that may be taken in this regard. Should the phage be acceptcd
as a parasite of bactéria, in the light of d’Hércllc's explanation, then the clement
found in the calfs intestinal content ought to be also found in the vaccin lymph
and thus keep its original lytic action on the germs under the same conditions,
inasmuch as, in the light of that theory, the bacteriophage is quite ubiquitous, as
it uses to occur in any object or place liable of contamination by faeces. This.
however, is not the case since the phage found in the vaccin lymph always shows
its action on staphylococci of any origin. whilst it never acts on germs of the
coli-typhoid-dysentery group even though the lymph proceeds from calves in
whose faeces the lytic principie for the latter germs has been found.
The phenomenon seems rather to be related to a special fcature of the
bactéria cycle life.
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Men» Inst. ButantAO
Vo i. V. 1930
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J. L. jMonteiro — Phenomeno dc d'Hêrelle
Mem. tiut. Butantin
Vol. V. 1930
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ESTUDOS SOBRE A FEBRE AMARELLA
MODERNOS CONHECIMENTOS SOBRE A INFECÇÃO EXPERIMENTAL
POR
J. LEMOS MONTEIRO
(Con 44 trcphicei t IO grararat no Itxte)
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SUMMARIO
Introducção.
Cap. I • O virus da febre amarella.
I - Animes sensíveis á infecção.
II - Virus americano. Parle experimental.
III - Vinis africano. Parte experimental.
IV - Identidade dos virus africano e rmericano.
V - Conservação e propriedades do virus da febre amarella.
1. * - Contensão e inoculação de Macacus rhrstis.
2. ® - Conservação do virus ia luttara.
3. * - Conservação do virus secco.
4. ° - Resistência do virus.
5. * - Resistência á acção de antisépticos sob certas condições.
6. * - Filtrabilidadc do virus.
7. ® - Passagem do virus através da pcllc.
VI - Virus neurotropico c sensibilidade do camondongo.
Cap. II . Transmissores e vehiculadores do virus araarillico.
I - Transmissão pelo /irdes aegypti.
II - Transmissão por outros mosquitos além do Aêdes aegypti.
III - Transmissão pelas feres de Aêdes infectados.
IV' - Possibilidade da passagem do virus de mosquito a mosquito e infecção
do /ledes macho.
V' • Experiências com percevejos. Transmissão do virus da febre amarella
pelas fezes de percevejos, Cimex lectuUrius, infectados.
VI . Possibilidade da existência de depositários do virus amarillico entre os
animaes domésticos, a) experiências com o cachorro; b ) experiên-
cias com os gatos.
Cap. III . Anatomia e histologia pathologiea da febre amarella experimental.
Cap. IV - Immunologia na febre amarella.
I • Vaccina amarilliea.
1. ® - Technica de Hindle.
2. ® - Technica de Aragão.
3. ® • Vaccina chloroformada.
II - Sõro anti-amarillico.
III - Diagnostico da febre amarella.
1. ® - Desvio do complemento.
2. ® - Diminuição da alexina.
3. ® • Modificações da coagulação sanguinca.
4. ® - Reacção de agglutinação não especifica.
Cap. V - Associações microbianas e biotropismo de certos microorganismos no de-
curso da febre amarella humana e experimental.
I - Considerações geracs.
II - Bacillas hepalo-dyitrophicans Kuczynski.
III - Verificações de Costa Cruz sobre o germe de Kuczynski.
IV - Pesquisas de microorganismos no sangue de Macacos rhesus infectados
com o virus amarillico e de outros animaes inoculados.
1. ® - Corynebaeterium R44s.
2. ® - Corynebaeterium Cls.
Resumo e conclusões geraes.
Bibliographia.
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ESTUDOS SOBRE A FEBRE AMARELLA
MODERNOS CONHECIMENTOS SOBRE A INFECÇÃO EXPERIMENTAL
POR
J. LEMOS MONTEIRO
INTRODUCÇÀO
A protobiologia, assim podendo denominar-se o ramo da bacteriologia que
estuda os virus chamados filtráveis, vem, nestes últimos annos, alargando consi-
deravelmente os seus horizontes.
Embora o conceito da filtrabilidade deva ser encarado de um modo relativo,
grande tem sido o progresso obtido no conhecimento desses elementos filtráveis,
responsáveis por numerosas infecções, tanto dos animaes, como dos vegetaes. Isto
se deve ás contribuições surgidas cm differentes paizes e que se iniciaram, prin-
cipalmente, em 1908, depois dos trabalhos de Landstciner c Popper sobre a polio-
niyelite, quando estes pesquisadores conseguiram infectar macacos com emulsão
de medulla de um caso humano c demonstraram a natureza filtravel do virus;
esses trabalhos foram confirmados mais tarde por Flcxner e Lcwis. Continuaram
«s contribuições sobre o assumpto com os trabalhos de Rous sobre o sarcoma da
gallinha e sua natureza filtravel; os de Flcxner e Noguchi ainda sobre a polio-
myclite; os de Rocha Lima e os de Noguchi sobre a verruga peruana e febre de
Oroya; os de Straus e Loewe e os de Levaditi, Harvicr e Nicolau sobre a cncc-
phalite epidemica; os de McKinlcy c Holden, mostrando a identidade do virus
da enccphalite com o do herpes; os de d’Hcrelle. sobre o bactcriophago, dando
origem a numerosas e valiosas contribuições, c, finalmentc, culminaram em nossos
dias, com os estudos de Stokes, Baucr c Hudson sobre a febre amarclla.
Por todos estes trabalhos e outros que poderiam ser lembrados, assim como
pelas contribuições a que deram origem, a technica do estudo dos virus vem-sc
aperfeiçoando sob o ponto de vista experimental. Grande numero de virus 6 já,
com relativa facilidade, manejado c conservado nos laboratorios e, assim, são
estudadas suas propriedades, sua pathogenicidade e as reacções que provoca cm
organismos sensíveis.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Embora a natureza destes protobios continue ainda no terreno das hypothe-
ses, não devemos estar muito longe de vel-a elucidada, sendo possível que então
sejam modificadas muitas das nossas theorias fundamentaes da vida e da evo-
lução (McKinley).
No que diz respeito a febre amarella, o descobrimento do seu agente etiolo-
gico de ha muito vem pondo á prova a dedicação e perspicácia dos experimen-
tadores.
Como causa do terrível typho amarillico, tem sido incriminado grande numero
de microorganismos, de natureza diversa, que, apenas por momentos, preoccu-
param a attençáo e interesse dos estudiosos.
Todos, desde o Cryptococcus xanthogenicus, de Domingos Freire, até a Lep -
tospira icteroides, de Noguchi, tèm tido vida ephemera, não podendo manter-se,
deante de novos factos experimentaes, no pedestal a que foram elevados pelos
seus descobridores e enthusiastas dos primeiros tempos.
Com a febre amarella é justo attribuir-se o facto, em grande parte, a não ter
sido conhecido, até ha pouco, um animal de laboratorío sensível ao mal e que,
inoculado e infectado, revelasse lesões histo-pathologicas semelhantes ás que se
encontram na doença humana.
Isto somente aconteceu em fins de 1927, quando Stokes, Bauer e Hudson,
membros da commissào americana que estudava a febre amarella na África, pu-
blicaram os resultados das suas investigações. A estes scientistas devemos, não
somente o conhecimento da sensibilidade de certos simios asiaticos ( Macacus
rhesus e sinicus ) á infecção, quando inoculados com sangue de doentes ou picados
por mosquitos (Acdes aegypti) infectados, como também a demonstração da fil-
trabilidade do agente etiologico quando no sangue dos animaes infectados (*).
Já assignalámos cm outra occasiáo que, na historia da febre amarella, os
dois factos culminantes por suas consequências praticas, foram a descoberta do
egente transmissor da infecção e a de um animal de laboratorío sensível ao virus.
A theoria da transmissibilidade da febre amarella por meio do mosquito, for-
mulada em 1881, por Carlos J. Finlay, comprovada experimentalmente, alguns
(*) Este facto não diminue o valor dos trabalhos dos investigadores anteriores
e principalmente os do mallogrado sabio japonez, os quaes tão justa repercussão alcan-
çaram. Em publicação mais recente, Sawyer, Kitchen, Frobisher e Lloyd assignalaram,
entre os casos diagnosticados como febre amarella na ultima epidemia do Rio de Ja-
neiro, a presença da icterícia leptospirica (doença de Weil ) , comprovada pelo isola-
mento da Leptospira por Müller e Tilden, do sangue de dois doentes e pela demons-
tração que aquelles autores fizeram do poder protector do sòro de duas pessoas, positivo
em relação á Leptospira e negativo em relação ao virus amarillico. A Leptospira icte-
roides, isolada por Noguchi, cuja identidade com a Leptospira ictero-hemorrhagiae é
hoje geralmente acceita, não seria, segundo esses autores, um simples agente secundário
no decurso da febre amarella. mas responsável por uma forma de icterícia infectuosa
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J. Lemos Monteiho — Febre amarella experimentai
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annos depois, por Walter Reed. James Carrol, Jesse Lazear e Aristide Agramonte,
e já sustentada entre nós por E. Ribas, A. Lutz. P. Barreto e pela commissáo do
Instituto Pasteur. forneceu bases solidas e scientificas á verdadeira prophylaxia
do mal, tomando possíveis e victoriosas as memoráveis campanhas de Gorgas,
Emilio Ribas, Oswaldo Cruz e, ainda recentemente, a de Clementino Fraga.
O descobrimento feito por Stokes, Bauer e Hudson. da sensibilidade do ma-
caco asiatico, Macacus rhesus, ao mal, collocou a febre amarella no dominio ver-
dadeiramente experimental, trazendo-nos também a esperança de que seja com-
pletamente dominada em futuro não remoto.
A administração sanitaria do Estado, mantendo as suas tradições na defesa
da saúde publica, facilitou ao Instituto Butantan todo o material e installaçôes
necessárias para que, durante o ultimo surto de febre amarella na Capital Fe-
deral, fosse o problema estudado entre nós, não só quanto ao seu lado pratico,
relativo ao estudo e preparo da vaccina preventiva e do sôro curativo, como
quanto ao seu aspecto scientifico, á luz dos recentes trabalhos da commissáo
americana na África.
Para este fim foram cncommendados 100 exemplares dc Macacus rhesus,
cuja primeira remessa chegou ao Instituto em fevereiro de 1929.
Destes animacs, em virtude de mortes occorridas durante a viagem, ou por
outros motivos, somente foram aproveitados 82. Posteriormente, em princípios
do corrente anno, recebemos uma nova partida dc 25 macacos utilizáveis.
Os que estão familiarizados com os estudos expcrimcntaes da febre amarella,
hão de reconhecer quão reduzido é este numero dc animacs para as pesquisas
sobre tão importante problema, onde cada verificação nos apresenta novos as-
P«ctos. particularidades outras, carecedoras também de investigação e capazes de
mostrar sem demora differentes faces a desafiar solução, sendo por isso neces-
sários abundantes animaes de experimentação e numerosos investigadores espe-
cializados.
(doença de Veil), muitas vezes fatal e cujo apparecimento pode coincidir com o da
febre amarella typica. de que cm geral não se distingue clinicamentc.
Entre nós. Toledo Piza e L. Salles Comes conseguiram diagnosticar a doença de
Veil em dois casos, um dos quaes, considerado suspeito de febre amarella, teve o diag-
nostico confirmado retrospectivamente pela pesquisa da leptospira cm material (rim)
conservado da necropsia.
Assim sendo, as verificações de Noguchi passam a ter certa importância epidemio-
logica, pois que, em futuras epidemias suspeitas de febre amarella, a existência das
duas formas de icterícia, uma devida ao virus da febre amarella e outra á Leptospira,
deverá ser tomada em consideração, somente a primeira exigindo as medidas de pro-
phylaxia em relação aos mosquitos.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo V'
Com o presente trabalho mostraremos os resultados experimentaes a que
chegamos, estudando o problema sob alguns dos seus aspectos, com os Macacus
rhesus importados pelo Instituto.
Faremos sobre os pontos de maior interesse uma resenha do que se conhece
sobre a febre amarella experimental, encarada á luz das modernas acquisições,
c mostraremos, de preferencia, os resultados e as deducções das nossas pesquisas
pessoaes realizadas no Butantan e que, em parte, serviram de assumpto a tra-
balhos já publicados e de communicações á 4.* Conferencia Sul-Americana de
Microbiologia, Hygiene e Pathologia (reunida no Rio de Janeiro em julho de
1929), á Sociedade de Medicina e Cirurgia de S. Paulo e á Sociedade de Biologia
de S. Paulo.
No final indicaremos a bibliographia das principaes contribuições referentes
á febre amarella. principalmente sob o ponto de vista experimental, além daquellas
sobre as quaes fizemos referendas no decorrer do nosso trabalho, e isto com o
intuito de servir aos estudiosos que se interessarem pelo problema.
Capitulo 1
O vinis da febre amarella
1 - Animaes sensíveis á infecção
O trabalho fundamental, que assignala uma nova phase no estudo da febre
amarella foi publicado em 28 de janeiro de 1928 no "Journal of the American
Medicai Association" por Stokes, Bauer e Hudson, sob o titulo "The transmission
of yellow fever to Macacus rhesus. Prcliminary note". Pouco depois, em março,
os mesmos autores publicam sobre seus estudos no "American Journal of Tropical
Medicine”, um trabalho mais pormenorizado e intitulado “Experimental trans-
mission of yellow fever to laboratory animais”.
Estas contribuições, ao par do seu valor historico e scientifico e da impor-
tância de suas consequências praticas, nos trazem também á lembrança o nome
de um dos seus autores, Adrían Stokes, morto de infecção amarillica, contra-
hida durante as experiencias em seu laboratorio, em Lagos. A sciencia e a hu-
manidade deploram ainda a morte dos eminentes scientistas H. Noguchi, W. A.
Young e P. A. Lewis, também victimados pela febre amarella, no decurso de
trabalhos experimentaes.
Stokes, Bauer e Hudson, membros da Fundação Rockefcller, no desempenho
de sua commissão para o estudo da febre amarella na África Occidental, ini-
ciaram os trabalhos numa epidemia em Larteh, na Costa de Ouro.
Inocularam 6 Macacus sinicus (maio de 1927) com sangue de doentes. Cinco
dos animaes tiveram febre e morreram e um não apresentou signaes de infecção.
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J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
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Sub-inoculações foram praticadas em tres outros macacos da mesma especie, dos
quaes dois tiveram apenas febre e o terceiro mostrou-se refractario.
Mais tarde (junho de 1927), fizeram experiencias com outro macaco asiatico,
o Macacus rhesus, verificando que era muito sensivel. Um rhcsus, inoculado com
sangue de um caso benigno, morreu em 5 dias, mostrando-se positivas também
as sub-inoculações. Conseguiram, com esta especie, 30 passagens da infecção de
macaco a macaco pela inoculação do sangue ou do sôro. Com uma excepçáo
apenas, a infecção foi sempre fatal. Ao mesmo tempo. 22 outros rhesus foram
infectados, sendo transmittida a infecção de um a outro animal, por meio de
picadas de Aêdes aegypti. Os mosquitos, depois de picarem os rhesus no l.° ou
2* dia de febre, tornavam-se infectantes cm seguida a um certo periodo de incu-
bação (que os autores verificaram não chegar até o 16.® dia) c assim perma-
neciam emquanto tinham vida.
Verificaram que o chimpanzé e outros macacos africanos, assim como as co-
baias e outros animaes de Iaboratorio, eram refractarios á infecção.
A primeira confirmação destes resultados experimentaes devemos a Mathis,
Sellards e Laigret, que conseguiram transmittir a febre amarella ao Macacus
rhesus, por meio da picada de um Acdcs infectado, ou pela inoculação de sangue
de um caso benigno occorrido em Dakar, na pessoa de um syrio de 17 annos. O
vinis, assim isolado, foi mantido na África, por passagens de macaco a macaco,
por Sellards e Hindlc durante tres mezes e transportado á Europa.
A conferencia sobre a febre amarella reunida cm Dakar (23 de abril a I dc
tnaio de 1928). sob a oresidencia dc Lasnct. encareceu, entre outros pontos
importantes, a sensibilidade do Macacus rhesus á febre amarella.
Com o apparecimcnto dos primeiros casos de febre amarella no Rio dc Ja-
neiro. Henrique Aragáo, do Instituto Oswaldo Cruz, apresentou, na sessão dc 19
de junho dc 1928, da Sociedade dc Medicina c Cirurgia do Rio de Janeiro, os pri-
meiros resultados dc suas verificações, confirmando os trabalhos americanos, mos-
trando a sensibilidade do Macacus rhesus ao viras responsável pelo surto epidê-
mico do Rio de Janeiro (viras americano) c verificando lambem a sensibilidade
do Macacus cynomolgus.
Nestes primeiros ensaios, o pesquisador patricio inoculou tres rhesus com
sangue de doentes: dois com sangue do 2.® para o 3.® dia c o terceiro com sangue
do 3.® para o 4.® dia da infecção. Nenhum se infectou. Inoculou depois um Ma-
cacos rhesus e um Macacus cynomolgus com sangue de um caso benigno, colhido
do I.® para o 2.® dia da doença. Ambos morreram; o primeiro no 5.® dia e o
outro no 7.° dia após a inoculação. Os symptomas e as verificações histo-patho-
logicas confirmavam a infecção amarillica dos animaes, c eram semelhantes ás
observadas na África.
Em relação ao viras americano, a sensibilidade do Macacus rhesus foi ainda
confirmada entre nós por A. Marques da Cunha e Julio Muniz. no Rio; por N. C.
Davis e A. VT. Burke, na Bahia, e por nós. cm S. Paulo.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
O virus responsável pela febre atnarella na África e representado por suas
duas principaes amostras, isoladas respectivamente por Stokes, Bauer e Hudson
e por Mathis, Sellards e Laigret, tem sido estudado, não só naquelle continente,
como também na Europa e na America. A sensibilidade dos rhesus tem recebido
confirmação, entre outros, com os trabalhos de A. W. Sellards e E. Hindle; A.
Pettit, G. Stefanopoulo e C. Aguessy; A. Pettit, G. Stefanopoulo e C. Kolochine;
E. Marchoux; J. E. Dinger; os dos experimentadores do Instituto Rockefeller,
em Nova York e na Bahia; os de H. Aragáo, Marques da Cunha e Julio Muniz,
no Rio, e os nossos, em S. Paulo.
Consideram-se ainda sensíveis ao virus amarillico o Macacus sinicus e tam-
bém, de accordo com novos trabalhos de Davis e Shannon, um simio sul-ameri-
cano, o Cebus macrocephalus, embora os rhesus, pela sua maior sensibilidade,
continuem a ser os animaes preferidos para os estudos experimentaes. Davis
também conseguiu infectar o Saimiri sciureus com o virus amarillico, tanto pela
inoculação de sangue, como pela picada de mosquitos infectados. Alguns dos ani-
maes morrem e apresentam lesões, inclusive necrose hepatica, parecidas com as
da infecção humana e experimental do rhesus. Verificou a possibilidade do virus
passar também pelo Ateleus ater, embora não se verifique necrose no figado dos
animaes sacrificados. Quanto ao Lagothrix lagotrica, de 12 exemplares estudados,
somente 3 reagiram com elevação de temperatura á inoculação do virus. Apenas
em um caso conseguiu transferir novamente o virus para o rhesus. Os sôros
destes animaes experimentados manifestam uma acção protectora em relação ao
virus amarillico.
Pesquisando a sensibilidade de quatro differentes especies de macacos afri-
canos ( Cercopithecus tantalus, Cercocebus torquatus, Erythroccbus patas e Cer-
copithecus mora), Bauer e Mahaffy verificaram que os animaes não succumbiam
á infecção, embora pudessem conservar o virus durante um certo numero de dias,
transmittindo-o mesmo aos mosquitos (conforme experiencias com os dois pri-
meiros) que infectariam o rhesus, ou apenas pela inoculação do sangue como
com o Erythrocebus patas. Com o Cercopithecus mora não conseguiram a rein-
fecçáo nem mesmo pela injecçào de sangue.
Theiler publicou seus resultados experimentaes, segundo os quaes os camon-
dongos brancos são susceptíveis ao virus da febre amarella, que pode ser trans-
mittido indefinidamente do cerebro de um camondongo infectado a um camon-
dongo normal. Confirmámos os trabalhos de Theiler sobre ser o virus amarillico
neurotropico para o camondongo como relataremos, opportunamente, em capitulo
especial.
Estudando a possibilidade de depositários do virus amarillico entre os ani-
maes domésticos, verificámos que gatos inoculados manifestam, ás vezes, sympto-
mas pelos quaes se poderia crer na sua sensibilidade (reacção febril depois de certo
periodo de incubação, tristeza, inappetencia. phenomenos de paresia, etc.), embora
não succumbissem á infecção. Durante o periodo febril, o virus do gato poude
ser transmittido ao rhesus, determinando neste uma typica infecção amarillica.
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Embora não possamos ainda affirmar. com segurança, que os gatos sejam
sensíveis ao virus, todavia procuraremos mostrar os resultados experimentaes
obtidos sobre este caso particular, quando tratarmos especialmente dos deposi-
tários de virus.
Os resultados que alcançámos com o gato, assim como os obtidos com o cão,
mostram que, mesmo em animaes morphologicamente afastados do .Macacus, o
virus pode persistir durante um certo numero de dias, como acontece cm generos
mais proximos ( Cercopithecus , Cercocebus, Erythtoccbus) , como vimos acima,
á luz das observações de Bauer e Mahaffy.
Pelas verificações dos que trabalharam com os dois virus, africano e ame-
ricano, é evidente, principalmente pelas experiencias de immunidadc cruzada e
pelas lesões histo-pathologicas observadas nos animaes, a identidade dos dois virus,
embora se apresentem differenças no seu comportamento em relação á infecção
experimental.
Faremos, por isto, um estudo separado do comportamento experimental desses
virus, cm relação ao .Macacas rhesus, mostrando de preferencia os resultados da
nossa observação pessoal.
II • Virus americano
E’ esta denominação que se tem applicado ao virus responsável pela febre
amarella no Brasil, onde tem sido estudado com cuidado.
Como vimos, esse virus foi primeiro isolado e estudado por H. Aragão, que
verificou ser menos pathogeno para o .Macacus rhesus que o virus isolado na
África. Aragão posteriormente inoculou sangue de 21 doentes de febre amarella
cm 26 .Macacas rhesus c um Macacus cynomolgus. Cinco dos doentes já ultra-
passavam as 72 horas da infecção e os resultados da inoculação foram negativos.
Com os 16 macacos restantes os resultados foram variaveis: 4 tiveram infecção
mortal, noutros a inoculação foi seguida de symptomas febris mais ou menos ty-
picos, que os immunizaram cm relação a posterior injccçào do virus. Alguns
succumbiram, quando injcctados com a nova dose. Em um caso, o sangue colhido
36 horas apõs o inicio da febre de um doente (que falleccu) c injcctado cm ma-
caco cm 2 dias seguidos, causou a morte do animal, cmquanto que o sangue co-
lhido desse mesmo doente apenas depois de 10 horas do inicio da febre c inocu-
lado noutro macaco, produziu somente oscillaçáo febril atypica, de que resultou,
cm todo caso. immunidadc em relação a nova inoculação do virus. As 4 infecções
mortaes cm macacos, foram devidas á injecção de sangue oriundo, cm tres, de
casos benignos e, numa somente, de um caso grave fatal.
Aragão verificou também a sensibilidade do .Macacus speciosus, inoculado
com emulsão de fígado de um rhesus infectado com o virus americano e assig-
nalou que a infecção experimental não é sempre mortal com este virus, que pode
mais facilmente ser isolado de casos benignos da doença.
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Memórias do Instituto Butactan — Tomo V
Marques da Cunha e Julio Muniz, estudando também o virus americano, fi-
zeram verificações interessantes. Um Macacus rhesus que inocularam com sangue
do 2.” dia de um caso benigno, morreu no fim de 12 dias, com symptomas e lesões
histo-pathologicas typicas. Um segundo macaco, inoculado com material deste,
foi sacrificado no 8.° dia, apresentando temperatura sub-normal e symptomas da
infecção; pelo exame histo-pathologico, porém, não se verificou traço de necrose
no figado, degeneração gordurosa ou infiltração polymorphonuclear. Outro, ino-
culado com material do segundo rhesus, apresentou de novo symptomas e lesões
typicas.
Os autores fizeram 8 passagens, e assignalaram que, para se saber si o ani-
mal apresentava ou não febre, era necessário que se conhecesse previamente a
temperatura normal de cada um, visto que esta apresenta grande variação indi-
vidual. Observaram que rhesus inoculados com material que continha segura-
mente o virus, conforme verificação feita por meio de passagens, e sacrificados
antes da queda final da temperatura, podiam não apresentar as lesões caracte-
rísticas no figado, pelo que, muitas vezes, seria difficil reconhecer o virus brasi-
leiro apenas pelo exame desse orgam. Notaram ainda estes autores o facto, por
nós também verificado, de que a infecção apresentava algumas vezes uma incu-
bação longa, de 10 dias, e que outras vezes os rhesus succumbiam sem apresentar
nenhuma elevação da temperatura.
Davis e Burke, estudando o virus americano, na Bahia, accentuaram que elle
exigia o cuidado especial de manutenção por passagens de macaco a macaco,
necessitando-se para isto de abundancia de animaes.
Este comportamento do virus americano, sua menor pathogenicidade para o
Macacus rhesus em relação ao virus africano e a evolução atypica que ás vezes
determina, pudemos verificar com a amostra que conseguimos isolar em S. Paulo,
de um doente vindo do Rio de Janeiro já em periodo de incubação do mal, e in-
ternado para observação no Hospital do Isolamento, onde teve o 1.® dia de febre,
podendo assim ser acompanhado durante toda a evolução.
1’arte experimental.
O caso assim estudado foi o de um húngaro que viera de um fóco então
existente no Rio de Janeiro, acompanhando uma sua irmã doente que depois fal-
leceu de febre amarella no Hospital do Isolamento desta Capital.
Foi elle internado, para observação e para os effeitos de vigilância, no dia
1 -II- 1 929.
Tratava-se do doente n.° 41, 1. C, de 40 annos, branco. Nos dois primeiros
dias de observação no hospital apresentou temperatura e pulso normaes. Em
3-1 1- 1 929, pela madrugada a temperatura se elevou, continuando a infecção cli-
nicamente característica e fallecendo o doente na manhã de 12-11-1929.
O sangue deste doente, colhido no 1.® dia da febre, foi-nos immcdiatamente
remettido pelo medico interno do hospital, dr. J. de Toledo Piza, e conservado
em nosso laboratorio num frigo “Nizer” na temperatura 8®C. abaixo de 0.
12
cm
SciELO
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J. Lemos Monieibo — Febre amarella experimental
61
Esteve assim congelado durante 18 dias até a chegada dos nossos primeiros
Macacas rhcsus (Fig. 1).
Recebemos diariamente sangue deste doente, sendo que com o colhido nos
tres primeiros dias de febre foram inoculados os macacos, cujas observações são
em seguida resumidas:
Macacas rhesas N.® 1
<19291
Graphico 1
I.* - Macacus rhcsus 1. Inoculado com 2 cc. de sangue, via sub-cutanea. do
dia do doente 41, em 21*11-1929.
O graphico 1 mostra a evolução da infecção deste macaco: depois de S dias,
a temperatura attingiu 40*. voltando ao normal no dia seguinte, e apresentando.
13
cm
SciELO
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62
.Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
consecutivamente, ascensão para 40" .2 e queda brusca, até que, em 6-III-29, ama-
nheceu com a temperatura de 35° ,5 e com os symptomas da infecção amarillica
experimental (Fig. 2). Na manhã desse dia, o animal foi sacrificado, 13 dias de-
pois da inoculação.
A verificação histo-pathologica confirmou a infecção.
Uma emulsão de figado foi inoculada no rhesas 8.
2. ° - Macacus rhcsus 2. Inoculado por via peritoneal em 21-11-1929 com 1 cc.
de sangue do 1.® dia do mesmo doente. Durante muitos dias de observação, o
rhesus não denotou symptomas typicos, embora, em certos dias, sua temperatura
tivesse attingido 40", parecendo pois, ter resistido á infecção.
Em 27-111-1929 foi inoculado com o vinis africano activo (2 cc. de sangue
do rhcsus 9), tendo resistido também a esta inoculação, conforme se evidenciou
durante um longo periodo de observação.
O rhesus 2, embora não tenha tido uma infecção monal como consequência
da inoculação do sangue do doente, mostrou-se immunizado em relação a nova
inoculação do virus africano.
3. ° - Macacus rhcsus 3. Inoculado em 21-11-1929 com 2 cc. de sangue, injec-
ção subcutânea, do 2.° dia de febre do mesmo doente. Não apresentou symptomas
clinicos que denunciassem a infecção, pelo que em 27-111-1929 foi inoculado com
o virus africano (2 cc. de sangue do rhcsus 9). Como consequência desta 2.* ino-
culação, verificou-se uma infecção característica, de que resultou a morte do
rhesus no 7.® dia.
Assim, pois, a inoculação primitiva não determinou infecção, nem mesmo
ligeira como no rhcsus 2, nem a consequente immunidade em relação ao virus
africano.
4. ® - Macacus rhesus 4. Inoculado em 21-II-I929, por via peritoneal, com 2
cc. de sangue, colhido no 2.® dia de febre do mesmo doente, não apresentou reac-
ção febril ou signaes clinicos característicos; em 27-1 II- 1929 foi inoculado com o
virus africano (2 cc. de sangue do rhesus 9). Como consequência desta inoculação
o rhesus apresentou, 6 dias depois, reacçào febril, que perdurou durante tres dias,
para voltar á media normal, resistindo o animal durante uma observação de vários
meses. O graphico 2, mostra a curva thermica deste rhesus como consequência
das inoculações recebidas, até depois do primeiro mês de observação.-
5. ® - Macacus rhesus õ. Inoculado em 1 -II 1-1929 com 3 cc. de sangue do 3.®
dia addicionado com o restante de sangue dos 1.® e 2.® dias de febre do mesmo
doente. O sangue dos 3 primeiros dias, pois, foi misturado em 10 cc. de agua
physiologica e inoculado no peritoneo do macaco.
A temperatura do rhesus attingiu algumas vezes a 40° mas não mostrou a
curva característica da infecção. No fim de 22 dias da inoculação apresentou-se
triste, com symptomas que faziam suspeitar a infecção e a temperatura começou
14
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Macjfui rhtiui
( 1028)
64
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
a descer (graphico 3). Amanheceu morto na gaiola na noite de 25 para 26-111-
1929, ou 25 dias depois da inoculação.
Pela necropsia, os organs (figado principalmente) apresentam o aspecto que
se costuma observar na infecção experimental.
6.° - Macacus rhesus 8. Inoculado em 7-1II-1929 com emulsão de figado do
Macacus rhesus 1, para nova passagem do virus americano (S. Paulo).
Macacus rhesus N.* 5
(1929)
T 44 *c
43*
42*
40*
39 •
33 •
37 *
36 •
3Õ»
34 •
Ut_ JJ_ .1
Graphico 3
Ao ser inoculado o rhesus, em virtude de se ter debatido muito para a cap-
tura, apresentou 39", 6. No dia seguinte a temperatura foi de 38° e 38°, 5, assim
se mantendo no 3." dia; no 4.” dia, á tarde, subiu a 39°, 4, depois desceu e se man-
teve em media normal ou pouco abaixo. Em 18-111-1929 desceu a 37® para se
elevar no dia seguinte a 38®; em 20-111-1929 começou a descer, accentuando-se
esse declínio em 21-111-1929, quando chegou a 35® á tarde (graphico 4), apre-
sentando o animal os symptomas característicos da infecção. Estava então triste,
não se alimentando e mal podendo supportar-se em pé. Este estado accentuou-se
(Fig. 3), sendo o animal sacrificado e necropsiado. Pela necropsia se verificou
16
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J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
65
o aspecto semelhante ao observado na infecção experimental, o que foi confir-
mado pelo exame histo-pathologico.
Um pedaço de figado deste animal foi emulsionado e inoculado no rhesus
14 para nova passagem do nosso virus.
Macacas rhesus N.* 8
(1929)
7.* - Macacus rhesus 14. Inoculado em 21-111-1929 com emulsão de figado
do rhesus 8. No 3.® dia após a inoculação, a temperatura subiu além de 40®, attin-
gindo 41* na tarde do dia immediato. .Manteve-se em ascensão alguns dias, com
oscillações tendentes a voltar dias após i media mais ou menos normal, como se
y ê no graphico 5. tomado durante um mês de observação.
17
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66
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
No fim de mais de 2 meses, mantendo-se a temperatura sempre na media
normal, o macaco foi inoculado, em 30-V-1929, com o vinis africano. Como con-
sequência desta inoculação, a temperatura não se alterou da media normal, resis-
tindo o animal e mostrando-se, pois, immunizado em relação a este vinis activo.
Em virtude deste comportamento do vinis americano, que estudámos, resol-
vémos não insistir nas passagens em macacos, visto não ser muito elevado o
numero dos que podíamos dispôr, necessários para outras pesquisas que tínhamos
em vista realizar com o vinis africano, para o qual os rhesus se mostravam mais
sensíveis. Isto estava de accordo com as observações feitas no Rio de Janeiro e
na Bahia, em viras isolados nesses logares.
Macacus rhesus N.* 14
(1929)
Craphico 5
111 • Vírus africano
Foi isolado pela primeira vez por Stokes, Bauer e Hudson e depois por Ma-
this, Sellards e Laigret, constituindo essas duas amostras as principacs com que
se vem realizando a grande maioria dos estudos experimentaes a respeito da febre
amarclla.
O comportamento experimental destas duas amostras é idêntico: vêm sendo
mantidas, por passagens successivas de macaco a macaco, nos differentes labora-
tórios que se têm occupado do assumpto. Como é sabido, o virus (sangue ou
18
J. Lê-mos Monteiro — Febre amarella experimental
67
fígado), secco e mantido em cenas condições, retem sua actividade por vários
meses e assim o seu estudo e conservação se tornam mais fáceis e economicos.
Em relação á virulência do virus, não se observa uma relação entre a infec-
ção humana c a do macaco.
O virus africano, que se mostra tão infcctante para o macaco, foi isolado de
um caso benigno de infecção humana; o mesmo facto verificou Aragão em re-
lação ao virus americano.
.Macaca* rhesas N.® 6
(1929)
.Macacas rhesas N.® 9
(19291
MtS
tLu-í.0
T-44 * c
43'
X
42'
41
40'
39'
38'
37 «
38 '
33*
1£L
BT-IB rfR 'V3ME3
ir- ■■■■■■
■ n :■■■■■■
iti i i ii ll
**'1 = 1 IMF
ii
IA
£
Ti
Craphico
A DJOl. do virus, no sangue ou no figado dos rhesas infectados, varia sob
a influencia de causas numerosas, ainda não perfeitamente estabelecidas, entre
as quacs sobresae a questão da receptividade, condicionada por factores indivi-
duaes. Stokes, Baucr e Hudson conseguiram infectar macacos com 0,00001 cc.
19
cm
SciELO
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68
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
de sangue e, em algumas experiencias, Hindle obteve infecção com 0,000001 gr.
de figado infectante.
A marcha seguida pela infecção resultante das amostras do virus africano
já é bem conhecida; a inoculação delias no macaco rhesus determina a infecção
em prazos mais ou menos longos, e apresenta a característica evolução clinica.
Assim é que se observa geralmente, após a inoculação, um período de incubação
que dura de 2 a 6 dias, quando a temperatura sóbe além de 40', permanece ele-
Macacas rhesus N.* 12
(1929)
Macacus rhesus N.® 16
(1929)
vtl
Março .
T.= 44 • c
43<
42*
41*
40*
39.®
38*
37*
36."
35 •
34 •
.•
1L
.
Craphico 9
vada entre I e 4 dias, cahindo depois bruscamente. Occorrem então o collapso
e a morte do animal. Quando elle resiste á infecção, restabelecendo-se, a tempe-
ratura, em vez de declinar para a sub-normal, desce apenas até a media normal
e ahi se mantém.
20
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
J. Lemos .Monteiro — Febre amarella experimental
69
.Mostraremos, a seguir, os resultados das inoculações feitas por nós com o
vírus africano, e que melhor poderão ser verificados pelos graphicos inclusos
neste trabalho.
Parte experimental.
A amostra que estudámos, da raça Asibi, isolada em Lagos, Nigéria, é pro-
veniente do Instituto Rockefeller de Nova York c foi-nos cedida pelo dr. Henrique
i
Macacas rhesus N.* 38
(1929)
Macacas rhesus N.* 26
(1929)
/Vagão, do Instituto Oswaldo Crux. O material que nos forneceu este distincto
mestre c amigo consistiu cm sangue e figado seccos, conservados no vacuo, cm
baixa temperatura, e por clle colhidos do seu rhesus 198. Posteriormente, dellc
obtivemos sangue secco proveniente do seu rhesus 373.
21
cm
SciELO
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70
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
No nosso laboratorio o primeiro material foi mantido a -8°C. No fim de 107
dias de sua colheita, o tubo que continha o sangue foi aberto e o material, depois
de convenientemente diluido, inoculado num rhesus.
As experiencias seguintes mostram as differentes passagens que realizámos
com este virus, e os seus resultados experimentaes em condições differentes.
Macacus rhesus N.* 44
(1929)
Graphico 12
Macacus rhesus N.° 62
(1929)
Graphico 13
1.® - Macacus rhesus 6. Inoculado em 1-1II-1929 com sangue secco diluido
do rhesus -198 (Aragão) depois de 107 dias de conservação no vacuo e em baixa
temperatura.
Teve uma infecção clinicamente característica (graphico 6 e fig. 4) e morreu
no fim de 6 dias. A necropsia revelou o aspecto commummente encontrado na
infecção experimental e o estudo histo-pathologico confirmou-a.
22
J. Lemos Monteibo — Febre amarella experimental
71
2.® - .Vacaras rhesus 9. Inoculado em 7-I1I-1929, no peritonio, com 2 cc. de
sangue do rhesus 6, colhido do coração durante a necropsia.
Evolução typica da infecção (graphico 7 e fig. 5) e morte no fim de 7 dias.
3* - .Vacaras rhesus 12. Inoculado em 21-111-1929 com 0,01 gr. de sangue
secco do rhesus 9, colhido no 4.® dia da infecção deste.
Macacos rhesus N.® 66
(1929)
Macacas rhesus N.® 69
(1929)
Evolução typica da infecção (graphico 8) e morte durante a noite do 4.®
para o 5.® dia.
4.® - .Vacaras rhesus 16. Inoculado em 27-III- 1929 com 2 cc. de sangue do
rhesus 9, depois de ter permanecido em congelação durante 13 dias.
Evoluyão característica (graphico 9) c morte em 8 dias.
23
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
72
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
5. ° - Macacus rhesus 26. Inoculado em 22-IV-1929, no peritonio, com sangue
secco diluído do rhesus 6, colhido no 2.° dia da reacção febril.
Evolução typica da infecção (graphico 10) e morte em 5 dias.
6. ° - Macacus rhesus 38. Inoculado em I9-VI-1929 com o vinis secco e con-
servado hn 2 meses.
Macacos rhesus N.* 80
(19291
Macacus rhesus N.* 40
(1929)
Evolução característica da infecção e morte em 9 dias (graphico 11).
7.” - Macacus rhesus 44. Inoculado em 10-V1I-1929 com sangue secco diluído
do rhesus 35, que resistiu á infecção, sendo o sangue colhido no 2.° dia de reacção
febril e 4.° da inoculação.
Evolução característica da infecção (graphico 12 e figs. 6 e 7) e morte em
7 dias.
24
cm
SciELO
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J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
73
8. ® - Macacas rhesus 62. Inoculado no peritonio em l-VIIl-1929 com sangue
secco do rhesus 38 (colhido em 25-VI-1929).
O graphico 13 mostra a curva da infecção deste rhesus, que morreu em 5 dias.
9. ® - .Macacas rhesus 66. Inoculado no peritonio, em 22-VIII-1929, com emul-
são de fígado secco do rhesus 62, colhido em 6-VI1I-1929.
Evolução característica da infecção (graphico 14) c morte em 8 dias.
10. ® - Macacus rhesus 69. Inoculado no peritonio, em 30-VI1I-1929, com
emulsão de fígado fresco do rhesus 66.
Evolução característica da infecção (graphico 15) e morte em 5 dias.
.Macacas rhesus N.*
(1929)
11. ® - Macacus rhesus 80. Inoculado em I9-X-I929. no peritonio, com sangue
secco diluído do rhesus 66, colhido no I.® e 2.® dias de reacção febril, cm 27 e
28-VIII-29.
Evolução rapida da infecção, por ter sido elevada a dose, visto o animal ser
de grande porte. O graphico 16 mostra esta evolução. Morte em 3 dias.
12. ® - Macacas rhesus 40. Inoculado cm 28-V1-I929, por via sub-cutanca,
com emulsão de fígado fresco do rhesus 38. O graphico 17 mostra a curva thcrmica
do animal, que amanheceu morto na gaiola no 5.® dia depois da inoculação.
23
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
74
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Nos casos assignalados a infecção teve sempre evolução fatal, confirmada
pela necropsia e pelos exames histopathologicos feitos no nosso laboratorio pelo
dr. J. B. Arantes.
Verificámos que, mesmo com o virus africano e em certas circunstancias, a
infecção pode não ser fatal. O animal apresenta reacção febril característica e,
no fim de alguns dias, a temperatura, em vez de cahir para a sub-normal, man-
tem-se na media normal. Outras vezes não se observa a reacção febril e o
animal nada apresenta de anormal. Em todos estes casos, porém, a inoculação
posterior do virus fresco, seguramente activo, fica sem effeito, o que mostra a
resistência adquirida pelo animal em virtude da primeira inoculação. Sem duvida,
Macacas rhesus N.* 32
(1929)
» ■ — *
Graphico 19
este phenomeno de immunidade deve decorrer do poder antigenico da primeira
injecçáo que fora apenas capaz de determinar uma infecção ligeira, clinicamente
inapparente. Este facto foi observado com os seguintes ensaios:
13.® - Macacus rhesus 13. Inoculado cm 21-111-1929 com figado secco do
rhesus 198 (Aragão), colhido em I2-XI-1928. O macaco apresentou reacção pouco
acccntuada e restabeleceu-se. E' provável que tenha havido attenuaçáo grande
do virus depois deste prazo de mais de 4 meses, pois, segundo vimos, o mesmo
com 107 dias se mostrou muito activo (experiencia !.*, rhesus 6). Em 4-V-1929,
foi inoculado com o virus africano fresco e resistiu á infecção, mostrando-se pois
immunizado.
26
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
J. Lemos Monteiro — Febre amarellx experimental
75
14. ® - Macacas rhesus 27. Inoculado em 27-IV-I929, por via sub-cutanea. com
emulsão de figado do rhesus 26. Depois de 3 dias de incubação, a temperatura
subiu além de 40°, parecendo o evoluir característico da infecção. A queda, porém,
deu-se mais lentamente e a temperatura manteve-se, com uma oscillaçáo, na
media normal. O graphico 18 mostra a curva da reacção deste macaco durante
um mês de observação. Em 17-VI1-1929 o rhesus foi inoculado com o virus (emul-
são de figado do rhesus 44), mostrando-se immunizado em relação á infecção.
15. ® - Macacus rhesus 32. Inoculado em 9-V-1929, via peritoneal, com 0,1 gr.
de sangue secco do rhesus 9, colhido no 1.® dia de temperatura elevada. Depois
Macacus rhesus N.® 35
(1929)
Graphico 20
de 15 dias de incubação, o rhesus apresentou reacção febril que durou alguns
dias, em seguida aos quaes voltou ao normal. O graphico 19 mostra a curva du-
rante o primeiro mês de observação. Em 17-VI1-1929 foi inoculado com o virus
activo, fresco, mostrando-se immunizado.
16.® - Macacus rhesus 35. Inoculado em 30-V-1929 com sangue secco do
rhesus 3, depois de 2 meses de conservação. No 3.® dia a temperatura subiu além
de 40°, attingindo 41®, 3 no 4.® dia. Depois de mais 2 dias de reacção e volta á
temperatura normal, observou-se novamente um periodo de reacção por vários dias
c retomo ao normal. O graphico 20 mostra as reacções sobrevindas durante I
mês de observação. Em 17-VII-1929 foi inoculado com o virus activo fresco (san-
gue do rhesus 44), resistindo á inoculação.
27
76
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
17.° - Macacus rhesus 41. Inoculado em 8-VI1-1929 com sangue e figado do
rhesus 38, depois de ter permanecido durante 10 dias, não congelado, somente
na geladeira. Não apresentou reacção thermica característica; em 30-VI1I-1929
foi inoculado com vinis activo fresco t emulsão de figado do rhesus 66), mos-
trando-se immunizado.
Macacus rhesus N.* 101
(1930)
Graphico 22
Macacus rhesus N.® 102
(1930)
18.® - Macacus rhesus 46. Inoculado em 13-VII-1929, por via sub-cutanea,
com 5 cc. de sangue desfibrínado do rhesus 44, colhido nesse dia durante a
reacção febril. Este rhesus não apresentou reacção febril durante longa observa-
ção; em 30-VIII-1929 foi inoculado com vinis activo fresco (emulsão de figado
do rhesus 66), que não occasionou também reacção característica. O graphico 21
mostra a curva thermica do macaco até 20 dias após a 2.® inoculação, indicando
2N
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
77
sua immunidade, devida, provavelmente, a uma infecção benigna, inapparente,
que resultou da 1.* inoculação, feita com o sangue de um macaco, cuja doença
teve evolução typica, fatal.
19.° - Macacus rhesus 67. Inoculado em 22-V1II-1929 com vinis secco, san-
gue do rhesus 44. colhido na necropsia e conservado durante mais de um mès.
Macacus rhesus N.* 105
(1930)
Macacus rhesus N.° 108
(1930)
Não apresentou também reacção thermica, mostrando-se porém immunizado em
relação a uma nova inoculação do virus activo.
Com os macacos do 2.° lote que recebémos no inicio do corrente anno, reali-
zamos mais algumas passagens, não só para a conservação do virus, como para
novas pesquisas. Estas passagens assim podem ser resumidas:
29
cm
2 3
ISciELO
D 11 12 13 14 15 16
78
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
20. ° - Macacus rhesus 101. Inoculado em 27-VI-1930 com o virus (sangue
seccol conservado ha 48 dias. Evolução característica da infecção e morte no
fim de 5 dias (graphico 22).
21. ° - Macacus rhesus 102. Inoculado em 2-VII-1930 com emulsão de figado
do rhesus 101. Evolução característica da infecção e morte em 5 dias (gra-
phico 23).
Macacus rhesus N.® 109
(1930)
Macacus rhesus N.® 1 10
(1930)
Graphico 27
22. ® - Macacus rhesus 105. Inoculado em 17-VII-1930 com sangue secco do
rhesus 102, conservado desde 9-VII-I930. Evolução característica da infecção e
morte em 5 dias (graphico 24).
23. ® - Macacus rhesus 108. Inoculado em 22-V11-1930 com 2 cc. de sangue
do rhesus 105. Infecção característica com evolução rapida e morte em 3 dias
(graphico 25).
30
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
79
24. ° - Macacus rhesus 109. Inoculado em 25-VII-1930 com 2 cc. de sangue
do rhesus 106 (em experiencia) colhido em periodo de reacção febril. Infecção
característica, morte em 4 dias (graphico 26).
25. ° - Macacus rhesus 110. Inoculado em 26-VII-1930 com emulsão de fí-
gado do rhesus 106. Infecção característica e morte em 3 dias (graphico 27).
■Macaca* rhesus N.* 118
(19301
Graphico 28
Macacus rhesus N.* 119
(1930)
Graphico 29
26. ° - Macacus rhesus 118. Inoculado em 5-VIII-1930 com emulsão de cere-
bro do camondongo branco 3 (virus da 3.* passagem no camondongo), por via
peritoneal. Evolução característica da infecção e morte no 5.° dia (graphico 28).
27. ® - Macacas rhesus 119. Inoculado em 9-VI 1 1- 1 930 com sangue do rhesus
118, colhido em reacção febril. Evolução característica da infecção e morte em
4 dias (graphico 29).
31
80
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
28. ® - Macacus rhesus 122. Inoculado em 13-V1II-I930 com sangue do rhe-
sus 119, colhido do coração durante a necropsia. Evolução typica e morte em 8
dias (graphico 30).
29. ® - Macacus rhesus 124. Inoculado em 2 1-Vll 1-1930 com emulsão de fi-
gado do rhesus 122. Infecção amarillica característica e morte em 5 dias (gra-
phico 31).
.Macacus rhesus N.° 122
(1930)
Macacus rhesus N.* 124
(1930)
Graphico 31
As passagens estão sendo continuadas.
Nesta 2.* serie de inoculações, dois macacos até agora resistiram á inocu-
lação virulenta:
30." - Macacus rhesus 103. Inoculado em 8-VII-1930 com pequena porção de
emulsão de figado do rhesus 102. Não teve reacção febril que passasse de 39",6
32
81
v
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
(no 4.® dia), permanecendo em estado apparentemente normal; mostrou-se immu-
nizado em relação ao virus activo, inoculado no fim de 20 dias. Depois de quasi
2 meses de observação, foi sangrado a branco para o aproveitamento do sôro em
estudos sorologicos. A reacção do desvio de complemento, praticada então, foi
fortemente positiva, conforme mostraremos juntamente com diversas outras reac-
Ções, em capitulo áparte.
31.° - Macacus rhesus 112. Inoculado em 29-VU-1930 com 1 cc. de sangue
do rhesus 109, colhido do coração durante a necropsia. Este animal mostrou-se,
posteriormente, também immunizado em relação á nova injecçáo de virus, resul-
tando fortemente positiva a reacção do desvio de complemento praticada com o
seu sôro.
IV - Identidade dos virus africano e americano
Aragáo mostrou, em primeiro logar, a identidade do virus responsável pelo
surto epidemico do Rio de Janeiro com o virus africano, por meio de experiên-
cias de immunização cruzada.
Davis chegou também á conclusão de que, immunologicamente, as amostras
africana e brasileira do virus da febre amarella são idênticas.
Pelas nossas experiencias acima descriptas a identidade dos dois virus ficou
: gualmente estabelecida. Os rhesus que resistiram á infecção com o virus ame-
ricano mostraram-se immunizados em relação ao africano, com uma excepção
apenas.
Também o Macacus rhesus 10, inoculado em 1 5-III- 1 929 com 1 cc. da vaccina
Preparada com material do rhesus 1 (virus americano), segundo a tcchnica de
Aragáo, mostrou-se immunizado em relação ao virus activo africano inoculado 12
dias depois.
A menor sensibilidade dos rhesus ao virus americano deve ser attribuida ao
facto de, por motivos desconhecidos, não se ter ainda conseguido obter uma
amostra perfeitamente adaptavel a estes animaes, apezar do grande esforço dis-
Pendido neste sentido, principalmente, por Davis e Burke, na Bahia e por Aragáo,
no Rio de Janeiro.
Outra confirmação da identidade dos dois virus é fornecida pelos estudos
sorologicos realizados já por differentes autores c pelo facto de um antigeno, pre-
parado com figado de animal victimado pelo virus africano, mostrar sensibilidade
em relação á infecção no nosso continente, traduzida pela reacção do desvio do
complemento com sôros de convalescentes e de pessoas naturalmente immunizadas,
segundo as verificações de Frobisher e as nossas realizadas em collaboraçáo com
J- Travassos.
V' - Conservação e propriedades do virus da febre amarella
Ao contrario do que occorre no homem, onde somente se apresenta nos tres
Primeiros dias da infecção, desapparecendo do sangue nos dias immediatos e não
33
82
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
sendo também encontrado nos orgams, o virus amarillico apparece no sangue dos
rhcsus inoculados desde o 2.° dia e talvez antes, mas principalmente depois que
se inicia a reacção febril e perdura durante todo o tempo da infecção, sendo
também encontrado nos orgams.
Nestas condições, o seu meio de conservação ideal é o organismo destes ani-
maes sensíveis, cujo sangue e orgams conservados sob certas condições se cos-
tumam utilizar durante um tempo determinado.
Vejamos, pois, os methodos de conservação do virus.
1.* - Contensão e inoculação do .Macacos rhesus.
O manejo dos Macacus rhesus é relativamente facil, exigindo apenas uma
certa pratica do pessoal encarregado.
Varias technicas têm sido propostas para o manejo destes animaes, quando
infectados principalmente, afim de que se reduzam ao minimo os riscos que cor-
rem os experimentadores e seus auxiliares.
Os animaes são mantidos em gaiolas especiaes, de preferencia fechadas la-
teralmente, para evitar que se agitem muito á approximação de qualquer pes-
soa. As temperaturas devem ser tomadas duas vezes ao dia, pela manhã e á
tarde, evitando-se que o animal se debata muito, o que faria, por si só, elevar a
temperatura.
Para evitar estes inconvenientes, imaginámos uma pinça especial, curta e
curva na parte que prende o animal e com longos cabos, em forma de tezoura
(Fig. 8).
Si o animal está em gaiola fechada nos lados, retira-se primeiro da parte
anterior (com tela) a bandeja de cerca de 10 cm. de altura que é livre e apenas
presa por um gancho lateral. Pela abertura formada, que não deixa sahir o ma-
caco, introduz-se a pinça e prende-se o animal pelas costas. Feito isto, abre-se
a porta da gaiola, dando-se sahida ao animal preso pela pinça. Levando-se o
macaco de encontro ao chão, pode-se facilmente segural-o pela cabeça e, soltan-
do-se a pinça, retel-o com uma só mão, sendo apenas necessário manter-lhe os
dois braços virados para as costas. Com a mão livre, o auxiliar segura as pernas,
podendo então o operador fazer a inoculação desejada ou ser tomada a tempe-
ratura rectal.
Si a gaiola for aberta, de grades, a pinça é passada através destas e o ani-
mal é mantido preso, podendo ser tomada a temperatura através das grades, sem
necessidade de se retirar o animal.
Para as sangrias, no coração de preferencia, o animal é mantido deitado
numa taboa, com os braços amarrados para traz e as pernas presas em furos
apropriados da taboa.
As sangrias, necropsias e inoculações de material virulento devem ser feitas
com o máximo cuidado. O operador deve usar luvas de borracha e tomar todas
as precauções para evitar dispersão do material infectante, o que poderia ter
funestas consequências.
34
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
83
Os animaes infectados são mantidos isolados e em installações adequadas,
ao abrigo de mosquitos e insectos hematophagos.
2.* - Conservação do vinis in natura.
O vinis pode conservar-se no sangue ou no orgam (figado) in natura durante
um certo numero de dias.
Sawyer, LIoyd e Kitchen verificaram que o virus pode conservar-se no san-
gue coagulado ou no citratado durante 30, e mesmo 35 dias, se for mantido no
refrigerador de I o a 4“C. Segundo estes autores, no sangue glycerinado (partes
iguaes), o virus ainda é activo no fim de 60 dias, embora dilate o periodo de
incubação da infecção; em 100 dias. já não infecta, mas immuniza o macaco.
Com o figado congelado, a -12"C., estes autores verificaram que a actividade
do virus se manifestava ainda ao cabo de 30 dias.
Quando congelado, no sangue, segundo verificámos, o virus americano se
conservou activo até 18 dias, agindo depois como vaccina. Idêntico resultado já
havia obtido Hindle.
2-* - Conservação do virus secco.
Seccando o sangue ou figado que o contém, o virus amarillico melhor se
conserva, podendo resistir por muitos meses. Hindle acredita que a conservação
Por este meio seja quasi indefinida.
Verificámos, com o virus africano que Aragão nos cedeu, a sua actividade,
nestas condições, depois de 107 dias.
Esta resistência, também verificada com outros virus já estudados, muito
facilita sua manutenção nos laboratorios, tornando-a mais economica, pois é
sobremodo elevado o preço dos animaes sensíveis necessários para as passagens
constantes.
O sangue, desfibrinado ou não, ou o figado cortado em finas fatias é collo-
cado em capsulas de Petri largas e levado para um seccador de vacuo, contendo
a cido sulfurico ou chloreto de cálcio, sendo que empregamos somente o acido
sulfurico.
Estabelecido o vacuo, geralmente a seccagem é completa e perfeita no fim
24 horas, se a camada do material for fina e convenientemente disposta; não
ha em nosso meio, necessidades do apparelho ser mantido nesse tempo em baixa
temperatura.
Retirado o material do apparelho, o sangue ou figado seccos são destacados
c °m espatula especial, com o maior cuidado para evitar que qualquer partícula
Fossa ser lançada fora e contaminar o operador. O virus secco é então collocado
efn tubos fortes, esterilizados, previamente estrangulados numa estremidade; faz-se
0 vacuo nesses tubos, depois do que elles são fechados ao maçarico em o nivel
d ° estrangulamento e, em seguida, parafinados para maior garantia e conservados
n ° frigo em temperatura abaixo de 0*.
35
84
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
4.* - Resistência do virus.
O estudo da resistência do virus da febre amarella aos agentes physicos e
chimicos ainda não foi feito de um modo completo.
Sabe-se que é pouco resistente ao calor, que o destróe a 56°, e também aos
agentes chimicos. O formol, o phenol e a glycerina o attenuam e destróem, o
mesmo acontecendo com o chloroformio puro, segundo verificámos. Esta acção
dos antisépticos se manifesta mais rapidamente na temperatura ambiente ou em
temperatura que não seja muito próxima á óptima para conservação do virus,
caso em que sua attenuação é mais prolongada.
5.* - Resistência á acção dos antisépticos sob certas condições.
E’ facto conhecido que certos virus (o vaccinico, por exemplo) mantidos sob
certas condições, de temperatura principalmente, apresentam maior resistência á
acção de certos antisépticos.
O virus vaccinico, numa polpa glycerinada, mesmo addicionada de certa pro-
porção de phenol, capaz de prejudicar outros microorganismos, conserva sua acti-
vidade por um tempo relativamente longo, se é mantido em condições óptimas
de temperatura (abaixo de 0®C.). .Muitos laboratorios, principalmente nos Esta-
dos Unidos, empregam uma vaccina glycerinada e phenolada. O mesmo acontece
com o verde brilhante, também usado na purificação da polpa vaccinica e que
age, como já verificamos, sobre as bactérias associadas, respeitando o virus, na-
quellas condições. Se, porem, taes condições óptimas não são mantidas (simples
conservação da polpa durante algumas semanas na temperatura do laboratorio),
o virus é perturbado cm sua actividade e mesmo destruído. Dahi, a necessidade
de serem as vaccinas phenoladas utilizadas no mais breve prazo possível depois
da sua sahida do laboratorio, o que as torna impróprias para uso entre nós.
Por isto, a verificação da resistência do virus amarillico, quando conservado
sob certas condições oprimas, seria, a nosso vêr, de grande interesse.
Para esta pesquisa, o material virulento (figado especialmente) de um ani-
mal infectado com o virus africano e sacrificado no período pre-agonico, foi co-
lhido asepticamente, pesado e triturado finamente num gral com areia. Separada
uma parte para a experiência em vista, foi ella addicionada com 5 vezes o seu peso
de agua distillada phenolada a 5 °/«o e formolada a 2 Voo- Depois de bem emul-
sionado e collocado num balão, permaneceu o material em maceração na Frigi-
daire a 2®C. (condições favoráveis) durante 7 dias, ou na estufa a 37° (condições
desfavoráveis), durante o mesmo prazo. No fim deste periodo de maceração, du-
rante o qual soffreu agitações diarias, o material foi filtrado em funil com 4
dobras de gaze, distribuído em empolas que foram immediatamente fechadas á
lampada, para isolar do ar athmospherico, sendo em seguida levadas para a Frigi-
daire onde foram conservadas.
As nossas verificações foram feitas com o virus de 3 rhesus, todos com in-
fecção clinicamente typica e com confirmação histo-pathologica.
36
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
85
Resumiremos os resultados obtidos:
a) Material proveniente do Macacus rhesus 6 permaneceu, depois de phe-
nolado e formolado, em maceração na temperatura de 2°C. durante 6 dias e, nas
mesmas condições, outros 2 depois de empolado, ao total 8 dias após a colheita.
Foi inoculado na dose de lcc. no rhesus 11, que morreu no fim de 8 dias, não
apresentando reacção thermica, como se vê do graphico 32.
b) No fim de mais 8 dias (as empolas sempre conservadas a 2°C.) ou sejam
16 dias após a colheita, o mesmo material na dose de lcc. também foi inoculado
Macacas rhesus N.* 1 1
(1929)
.Macacus rhesus N.* 15
(1929)
no Macacus rhesus 15 que, por sua vez, morreu no fim de 1 1 /i dias, não apre-
sentando também reacção febril, a não ser cm um dia, quando a temperatura
•ttingiu a 40", como se vê do graphico 33.
c) Emulsão de figado deste macaco ( rhesus 15) foi inoculada no Macacus
r besas 20. Este teve uma evolução typica da infecção amarillica experimental,
c omo se vê no graphico 34. morrendo cm 4 J/J dias. Verificou-se assim que o
v ' r us, mesmo sob a acção dos antisépticos, porem mantido em condições favo-
r *veis. continuava activo no fim de 16 dias. provocando uma infecção inapparente,
37
86
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V'
sem reacção febril. Todavia a sua virulência se exaltou novamente com a pas-
sagem feita.
d) Material proveniente de outro Macacus rhesus (n.* 3), preparado e con-
servado como foi assignalado, foi inoculado na dose de 1 cc. no Macacus rhesus
28, depois de decorridos 27 dias da colheita. Este animal não apresentou reacção
thermica característica, embora a febre nos primeiros dias tivesse attingido 40 a .
No fim de 33 dias após a inoculação, apresentou-se triste, não se alimentando.
No dia seguinte amanheceu moribundo, sendo sacrificado e necropsiado. O exame
anatomico e histo-pathologico confirmou ter havido infecção pelo virus.
e ) Material proveniente de outro Macacus rhe-
sus (n.° 16) e tratado nas mesmas condições, tendo
soffrido, porem, maceração durante 7 dias na estufa
a 37", depois empolado e conservado na Frigidaire
a 2"C. foi, decorridos 25 dias da colheita, inoculado
no Macacus rhesus 29. Este macaco nada apresentou
de anormal e continua vivo.
Os 2 rhesus 28 e 29 foram inoculados no mesmo
dia. No fim de 20 dias, como nada apresentassem de
anormal, soffreram uma 2.* inoculação de sangue
desfibrinado do rhesus 33 que havia sido inoculado
com material avirulento e que não se mostrou infec-
tado, como se verificou também pelo resultado da
inoculação de um rhesus testemunha feita na mesma
occasião.
Verifica-se assim que o virus, mesmo tratado por
certos antisépticos, segundo o modo que acaba de ser
assignalado, porém mantido em condições óptimas ou
favoráveis de temperatura, pode não morrer e ainda
determinar infecção inapparente, (comprovada por
passagem, no fim de 16 dias), mesmo no fim de 27
dias. Isto não aconteceu no fim de 25 dias, com o
virus nas mesmas condições, desde que houve uma
permanência durante alguns dias na temperatura
de 37".
6.* - Filtrabilidadc do virus amarillien.
Em seu trabalho fundamental, Stokes, Bauer e Hudson verificaram que no
sangue dos animaes infectados, o virus atravessava as velas Berkfeld V e N e
o filtro de asbestos de Seitz, não atravessando a vela W. Quando no organismo
do mosquito, o virus não atravessa estas velas, o que poderia fazer pensar numa
qualquer modificação da sua morphologia. pelo menos quanto ao tamanho, du-
rante sua evolução no insecto vehiculador. Acreditamos porém que se trata de
differenças physico-chimicas de meio, que facilitam ou impedem a retenção do
K acacus rhesus N.* 20
(1929)
38
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
87
vírus pelas velas. Emulsionando mosquitos infectados em meios especiaes. caldo
glycosado (pH=8) ou em extractos de orgams, é provável que o virus atravesse
os filtros, da mesma forma que o faz quando no sangue e orgams dos animaes.
Autorizam este modo de ver as nossas experiencias feitas com R. Godinho sobre
a filtrabilidade do virus vaccinico. Esta supposição foi em parte confirmada re-
centemente por Sawyer e Frobisher que verificaram a filtrabilidade do virus
quando em mosquitos, fazendo a emulsão dos insectos em sôro de macaco normal
em vez de em solução physiologica. Nestas condições o virus atravessa as velas
Berkfeld N, como acontece quando no sangue dos macacos infectados.
Em trabalho recente, Bauer e Mahaffy assignalaram que o virus amarillico,
tanto no sangue, como nos mosquitos infectados, é filtravel através das velas
Berkfeld de todos os graus e também a de Chamberland L2. Verificaram que o
virus é pouco resistente, quando em solução physiologica a 0,9 por 100 (o que
é discutível), solução de Locke e Ringer, caldo hormonico ou agua distillada, e
que a addição de sôro normal de macaco, na proporção a 10 r ' c ou mais, reduz
o effeito viricida destes meios.
T* - Passagem do virus através da pelle e mucosas.
Entre os pontos assignalados e discutidos na conferencia sobre a febre ama-
fella cm Dakar (23 de abril a l.° de maio de 1928) figura a possibilidade do
virus amarillico, contido no sangue dos doentes no periodo infectante ou dos rhc-
sus infectados, atravessar a pelle.
Marchoux. trabalhando com o virus de Sellards, não conseguiu a infecção
do macaco collocando o virus sobre a pelle intacta; conseguiu, porem, a infecção
depositando o material na superfície da pelle, depois de escarificada, ou na con-
junctiva do animal.
Bauer e Hudson também fizeram experiencias nesse sentido. Tomaram 3
r hcsus e os infectaram, collocando sangue virulento, respectivamente sobre a
Pelle intacta, raspada a navalha e escarificada. Uma segunda experiencia, sem
escarificaçáo, foi negativa, o que attribuiram a uma concentração insufficiente
do virus, pois que, repetida com virus activo, deu resultado positivo. Depositaram
uma gotta de sangue virulento na conjunctiva de um macaco, e 0.5 cc. na bocca de
ü m outro; nenhum dos dois se infectou. Com emulsão de mosquitos infectados,
depositada sobre a pelle, só verificaram a infecção quando a superfície havia
sido anteriormente escarificada.
Aragão e Costa Lima verificaram ser possível a infecção de rhesus, através
da pelle e da mucosa ocular intactas, por meio do virus eliminado nas fezes por
Mosquitos infectados.
Por todos estes factos, está demonstrada a possibilidade do virus da febre
a niarella atravessar a pelle e a mucosa ocular, mesmo intactas. E’ provável ter
s, do este o mechanismo da infecção de illustres bacteriologistas no decurso das
suas experiencias. Apezar dos cuidados de que se cercaram, não se deve eliminar
a possibilidade de se terem infectado com material virulento desse modo ou então
39
88
Memórias do Instituto Butaman — Tomo V
por meio do vinis depositado com as fezes de algum insecto hematophago não
estudado ainda.
Muitas incógnitas ainda estão desafiando solução por parte dos investigado-
res, no que diz respeito aos vários aspectos do problema da transmissibilidade
da febre amarella.
VI • Virus amarillieo nenrotropico e sensibilidade do camondontto
Theiler, em publicações recentes, mostrou os resultados bastante interessan-
tes de suas investigações relativamente á sensibilidade do camondongo branco
ao virus amarillieo.
Empregando uma technica semelhante á usada por Andervont no estudo do
virus herpetico e seu comportamento nos camondongos, poude Theiler verificar a
sensibilidade desses animaes ao virus amarillieo, quando inoculado por via cerebral.
Desde novembro de 1928, quando iniciou seus estudos, até janeiro de 1930,
durante um período de 14 meses, Theiler praticou 75 passagens do virus de ca-
mondongo a camondongo, pela inoculação cerebral de pequena quantidade de
emulsão de cerebro do animal infectado, morto ou sacrificado já no período final
da infecção.
Os camondongos não apresentavam qualquer symptoma característico; no
dia em que a infecção se approximava do período final, observava-se perda da
actividade do animal; nesse dia, ou no seguinte, seu estado aggravava-se e obser-
vava-se muitas vezes paralysia dos membros posteriores e morte dentro de pouco
tempo.
Theiler verificou um augmento da virulência do virus depois de algumas pas-
sagens: até a 5.®, a morte se dava no 7.® ou 8.® dia; da 5.® passagem em diante,
a virulência augmentava gradativamente, sendo que, na 20.® passagem, o período
da evolução da infecção era de 6 ou 7 dias; na 30.*, reduzia-se a 6 dias geral-
mente; e, nas ultimas passagens, esse período era de 5 dias, pois então os ani-
maes inoculados já haviam morrido ou estavam prestes a morrer.
Em relação ás differentes vias de infecção dos camondongos, a de resultados
mais constantes foi a via intra-cerebral. A injecção cerebral do camondongo exige
cuidados technicos espcciaes. Para a infecção basta uma quantidade minima do
material virulento: apenas 0,05 a 0,02 de cc. ou menos da emulsão, preparada
com um cerebro infectante em 5 cc. de agua physiologica.
Depois de alguma pratica das inoculações cerebraes em camondongos, estes
resistem perfeitamente ao traumatismo; se isto não acontece, a morte dar-se-á
immediatamente ou dentro de pouco tempo.
As vias intra-ocular e intra-espinhal podem ser usadas, porém apresentam
maiores difficuldades technicas. os resultados são inconstantes, e. quando a in-
fecção se processa, a evolução é mais longa do que pela via cerebral; por via
intra-cutanea, muscular ou testicular, os resultados são negativos, porém um certo
numero dos animaes mostra-se immunizado em relação á infecção cerebral.
40
J. Lemos .Monteiro — Febre amaiellx experimenta!
89
Por via peritoneal, Theiler verificou a sensibilidade do joven camondongo,
desde o nascer até duas semanas de idade, sendo a infecção de 1 a 5 dias mais
longa do que nos testemunhas infectados por via cerebral, porém o virus mantem
a mesma distribuição que por esta ultima via, sendo já encontrado no cerebro do
joven camondongo 24 horas após a inoculação.
O virus torna-se neurotropico para o camondongo, no qual pode ser encon-
trado no cerebro, medulla, nervo sciatico e glandula supra-renal, e ausente, ou
apenas em proporções minimas, no sangue, figado, baço, rim e testículos. A pas-
Sa gem do virus pelo systema nervoso é centrifuga. Theiler verificou que a medulla
é já infectante no 3.” dia após a inoculação cerebral, ao passo que o nervo sciatico
e supra renal só o são no 5." dia.
O virus amarillico neurotropico do camondongo conserva-se, segundo ainda as
verificações de Theiler, durante 160 dias quando mantido a -8®C., havendo uma
diminuição progressiva da virulência; em agua glycerinada a 50 % e na tempe-
ratura de 2 a 4°C., durante 58 dias; em agua physiologica e nesta temperatura,
o virus mostrou-se activo depois de 53 dias e não em 100 dias.
Um facto interessante em relação ao virus do camondongo reside na attc-
nuaçào de sua actividade para o Macacus rhesus depois de algumas passagens.
Theiler fez as seguintes verificações neste sentido:
1. * - Virus do camondongo, da 3.* passagem, inoculado em Macacus rhesus
determinou infecção experimental característica e morte do animal em 5 dias;
2. ® - Virus da 29.* passagem, sendo inoculado, apenas provocou no rhesus
temperatura no 6.” e 7.® dias; o animal resiste e mostra-se immunizado em relação
a nova inoculação virulenta feita no 22.® dia;
3. ® - Virus da 42.® passagem não determinou reacçào febril, nem outro symp-
toma até o 47.® dia, quando o animal se apresentou doente, amanhecendo morto
no dia seguinte. O exame histo-pathologico mostrou lesões discretas, com inclu-
sões intranucleares nas cellulas hepaticas.
Theiler verificou a acção do sôro immune e do sõro de convalescente sobre
0 virus, empregando este após centrifugação da emulsão e contacto com o sôro
durante 20 minutos a 2 horas, seguindo-se a inoculação intra-cerebral.
Em resumo verificou esse pesquisador: com o sôro immune, de 10 animaes
•njectados 2 morreram e 8 resistiram á infecção; 12 testemunhas (com sôro
normal) injectados, todos morreram. Com o sôro de convalescentes, excluídos
animaes que morreram antes do 3.® dia, de 5 injectados 4 foram protegidos
e I morreu, após um período de incubação mais longo.
Nestas verificações tem certa importância a technica do preparo da emulsão
virulenta, que deve ser centrifugada, não tendo influencia sobre os resultados o
•empo de contacto do virus com o sôro, antes da inoculação. Em relação á ana-
,0 mia e histologia pathologica, Theiler verificou poucas lesões macroscópicas.
Não se observou icterícia, sendo commummente encontrados signaes de hemor-
ragia no estomago. As lesões histológicas observadas no cerebro eram as de uma
41
90
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
encephalite: proliferação do endothelio vascular e infiltração perivascular de cel-
lulas mononucleares. Muito características são as alterações nucleares das cellulas
ganglionares semelhantes ás observadas nas cellulas do figado dos rhesus infec-
tados e descriptas por M. Torres.
Parte experimental.
Logo que tivemos conhecimento da primeira nota publicada por Theiler, pro-
curámos verificar os seus resultados, quanto á sensibilidade do camondongo branco
ao virus amarillico.
O nosso primeiro camondongo foi inoculado em 8-VII-1930 com uma emulsão
de figado de um rhesus infectado e necropsiado nesse dia. Inoculámos 3 camon-
dongos com 0,02 cc. da emulsão e apenas 1 não succumbiu em poucos minutos.
Este morreu na noite do 6.° para o 7.® dia, sendo inoculados 3 novos camondon-
gos com emulsão do cerebro. Ainda desta vez, apenas 1 resistiu ao traumatismo
da injecçáo e conseguimos a 2.* passagem do virus no camondongo, cuja infecção
durou 10 dias. Para a 3.® passagem já a nossa technica era melhor. O unico
camondongo inoculado teve a infecção cuja evolução foi também de 10 dias.
Para as inoculações cerebraes no camondongo empregámos uma seringa gra-
duada em centésimos de cc., como as usadas para injecçáo de tuberculina, c mu-
nida de uma agulha fina. e com a curva de apenas 2 millimetros. A emulsão foi
feita de modo a sc ter um cerebro em cerca de 5 cc. de solução physiologica,
tendo sido o orgam triturado num gral e a agua addicionada aos poucos. Prepa-
rada a seringa com a emulsão, o camondongo foi anesthesiado pelo ether. A ino-
culação foi então feita, sendo a pelle e o osso atravessados facilmente, tendo-se
o cuidado de virar a agulha para cima, em direcção á parede interna do osso,
logo que se sentia que este fora atravessado. Isto diminue a compressão exercida
directamente sobre o cerebro e os animaes resistem facilmente á injecçáo. A
quantidade do liquido injectada deve ser pequena, não superior a 0,05 cc. Geral-
mente inoculámos 0,01 a 0,02 cc..
Com o virus da 3.® passagem no camondongo, foram inoculados: 1 Macacus
rhesus, 2 novos camondongos brancos, 1 coelho e 1 cobaia.
O rhesus, inoculado por via peritoneal, teve uma infecção amarillica carac-
terística, morrendo em 5 dias, tendo sido feita nova passagem do virus para outro
rhesus.
Os 2 camondongos inoculados para a 4.® passagem tiveram uma infecção de
7 dias. O coelho e a cobaia, também inoculados por via cerebral, nada de anor-
mal apresentaram durante longa observação.
Os camondongos (2) inoculados para a 5.® passagem morreram também em
7 dias; o da 6.® passagem também em 7 dias, o mesmo acontecendo com o da S.®
passagem.
Com o virus da 4." passagem, além de camondongos brancos foram inocu-
lados um gato e um ratinho do campo. Este ultimo morreu em 3 dias, sendo
42
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
91
feita passagem para um camondongo branco que resistiu á infecção. O gato
nada apparentemente demonstrou de anormal. Com sangue do rhesus infectado
com virus da 3.* passagem em camondongo, foram inoculados, além de novo
rhesus, um gato e um ratinho do campo. Aquelle nada apresentou de anormal
e este amanheceu morto no 2° dia. A causa da morte foi tida como acciden-
tal, sendo o cerebro conservado em agua glycerinada a 50 ^ó. Em virtude do
resultado obtido com outro ratinho da mesma especie inoculado com o virus, da
4.* passagem, resolvemos inocular o material conservado depois de 4 dias num
camondongo branco. Este teve infecção apparentemente semelhante á obtida com
o virus, morrendo em 5 dias. Novo camondongo, porém, inoculado para passagem,
resistiu á infecção.
As passagens que até agora realizámos com o virus e alguns pormenores
experimentaes poderão ser resumidos no eschema junto, onde não incluímos as
experiências accessorias, como inoculação de gatos, rato do campo, coelho e cobaia,
°ias somente camondongos brancos e também o rhesus para confirmação da in-
fecção daquelles pelo virus amarillico:
43
92
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Camondongo branco t
Inoculação cerebral com virus amarilico emulsào de figado do rhesus 102
em 8-VII-1930. Amanheceu morto em 16-VH-1930.
I
Camondongo branco 2
Inoculação cerebral com emulsão de cerebro do camondongo branco 1 em 16-V11-1930.
Em 26-V1I-1930 apresentou-se mal: phenomenos de paralysia dos membros posteriores,
movimentos giratórios para a esquerda e excessiva coceira após qualquer excitação,
perdurando uns 15 minutos. Foi sacrificado nesse dia.
I
Camondongo branco 3
Inoculação cerebral com emulsão de cerebro do camondongo branco 2 em 2Ô-VII-1930.
Em 5-V1II-1930 apresentou-se triste, arrepiado com paralysia dos membros posteriores,
sendo sacrificado.
I
I t t
Camondongo branco 4
Inocul. cerebral com emul-
são cerebro camondongo
branco 3 em 5-V1II-1930.
Em 1 l-VIII-1930 iniciou-se
a paralysia dos membros
posteriores. Em 12-VI1I-
1930 amanheceu morto.
Camondongo branco 6
Inocul. cerebral com emul-
são cerebros camondon-
gos brancos 4 e 5 em
12-VII1-1930. Amanheceu
morto em 19-VIII-1930.
í
Camondongo branco 10
Inocul. cerebral com emul-
são cerebro camondongo
branco 6 em 19-VIII-1930.
Paralysia dos membros
posteriores em 26-VIII-
1930. sendo sacrificado á
tarde desse dia.
I
Camondongo branco 12
Inocul. cerebral com emul-
são cerebro do camon-
dongo branco 10 em
26-VIII-1930.
Camondongo branco 5
Inocul. cerebral com emul-
são cerebro camondongo
branco 3 em 5-VI1I-1930.
Evolução e morte, como
para o camondongo bran-
co 4.
J
Camondongo branco 7
Inocul. cerebral com emul-
são cerebros camondon-
gos brancos 4 e 5 em
I2-VII1-1930.
Macacas rhesus 118
Inocul. peritoneal com
emulsão cerebro do ca-
mondongo branco 3 em
5-VI1J-I930. Em 9-VIII-I930.
com reacção febril, foi
sangrado. Em 10-VIII-1930
amanheceu morto na
gaiola.
I
Macacus rhesus 119
Inocul. peritoneal com 2cc.
de sangue do rhesus 118
em9-YTII-1930. Eml3-VI!l-
1930 já em hypothermia foi
sacrificado e necropsiado.
44
J. Lemos Monteiro — Febre amarclla experimental
93
O eschema acima mostra-nos que o symptoma clinico, geralmente observado
nos camondongos, é a paralysia dos membros posteriores, que precede á morte
do animal; disto podem dar uma idéa as figuras 9 e 10.
A primeira passagem que obtivemos, teve uma evolução de 8 dias; as 2.*
e 3.» de 10 dias; as 4.*, 5.*, 6.* de 7 dias.
Com o vinis da 3.* passagem em camondongo infectámos um rhesus, sendo
a infecção confirmada, não só pelo exame histo-pathologico, como pela passagem
para novo macaco (graphicos 28, 29, 30 e 31).
As passagens do vinis em camondongos estão sendo continuadas. As veri-
ficações histo-pathologicas já feitas em cones de cerebros de alguns dos animaes
confirmam as de Theiler em relação ás lesões de encephalite e inclusões intra-
nucleares semelhantes ás estudadas por Torres.
Iniciámos igualmente, com o nosso vinis neurotropico para o camondongo,
uma serie de pesquisas, cujos resultados serão dados em trabalhos posteriores.
Do que deixámos assignalado acima sobre as verificações por nós feitas até
agora, em confirmação dos trabalhos de Theiler, se pode concluir pela sensibili-
dade do camondongo branco ao vinis amarillico quando inoculado por via cerebral,
c pela possibilidade de manter-se o vinis nesse animal por passagens successivas
de cerebro a cerebro, sendo que o vinis da 3.* passagem ainda é capaz de pro-
vocar no Macacus rhesus uma infecção amarillica característica.
Capitulo II
Transmissores e vehiculadores do vinis amarillico
!•* - Transmissão do vírus pelos mosquitos Acdes aegypti.
A theoria da transmissibilidade da febre amarclla pelos mosquitos Aêdcs
(Stegomyia) aegypti foi novamente confirmada no que diz respeito á infecção
experimental do Macacus rhesus.
Bauer e Hudson verificaram que, depois de ingerido pelo mosquito, o vinis
necessita de um certo periodo de tempo para que possa ser por elle transmittido
a outro animal. Esse periodo de incubação do vinis no mosquito 6 gcralmente
de 12 dias, sendo provável poder ser elle menor em certas condições, de tempe-
^tura principalmente.
Aragão e Costa Lima descreveram algumas experiencias sobre a transmissão
do virus pela picada, tomando precauções para evitar a possibilidade da infecção
Pelas fezes dos mosquitos. Depois de experiencias negativas com a picada após
4 e 6 dias, obtiveram um resultado positivo com mosquitos infectados 4 dias
a ntes. Embora não conseguissem esclarecer definitivamente a questão, parece
lue. dependendo de futuras verificações, se pode admittir a possibilidade de os
45
94
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
mosquitos se tomarem infectantes antes daquelle período, acceito geralmente como
limite minimo, de accordo com os trabalhos antigos.
O mosquito, uma vez infectado, continua infectante durante toda a sua vida.
As experiencias de transmissão experimental do viras americano foram feitas
entre nós principalmente por Aragão, no Rio, e Davis e Shannon, na Bahia.
A quantidade do viras no Aèdes infectado é bastante grande. Aragão e Costa
Lima tomaram 3 mosquitos infectados, emulsionaram-nos em 10 cc. de agua dis-
tillada e depois levaram esta diluição até 1.000.000, conseguindo ainda assim
obter a infecção do Macacus rhesus.
A transmissão hereditária do viras pelos A. aegypti não é provável, de accor-
do com verificações feitas, entre outros, por C. B. Philip.
2.* - Transmissão por outros mosquitos alem do Aèdes aegypti.
Bauer procurou verificar a possibilidade da transmissão do viras por outras
especies de mosquitos pertencentes ao genero Aèdes e a diversos outros, com-
mummente encontrados na África. Verificou que o Aèdes luteocephalus e o
Aedes apicoannulatus transmittem o viras da febre amarella da mesma forma
que o Aèdes aegypti.
Com um lote de Erctmopotides chrysogaster infectado transmittiu a infecção
a um rhesus normal; com outro lote dos mesmos mosquitos já não aconteceu tal.
conseguindo somente infectar rhesus quando os inoculou com emulsão de mos-
quitos. A infecção assim determinada teve uma incubação mais longa, de 10 dias,
mas as lesões histo-pathologicas foram idênticas ás que se observam na febre
amarella experimental.
Não deixa, pois, de ser possível a infecção e transmissibilidade do viras por
mosquitos pertencentes a outros generos além do Aèdes. Mais provavelmente
deverão agir apenas como possíveis vehiculadores do viras, transmittindo-o pelas
fezes, como acontece com o Aèdes aegypti e outros hcmatophagos, taes como o
percevejo.
Mais recentemente, Davis c Shannon publicaram os seus resultados obtidos
na Bahia: conseguiram a transmissão do viras de macaco a macaco pela picada
do Aèdes ( Ochlerolatus ) scapularis; com o Aèdes ( Ochlerolatus ) serratus, provo-
caram a infecção pela injecçào da emulsão de mosquitos e com o Aèdes ( Tae -
niorrhynchus) taeniorrynchus, nas mesmas condições, uma infecção benigna. Com
o Culex quinquefasciatus (C. fatigans), tanto a picada como a inoculação dos mos-
quitos infectados não provoca a infecção, mas alguns dos macacos mostraram-se
relativamente immunizados cm relação a inoculação posterior do viras activo.
Acreditamos que, conforme acontece com outros insectos hematophagos (o
percevejo, por exemplo), muitos mosquitos, além do Aèdes, sejam possíveis ve-
hiculadores do viras, eliminando-o com as fezes, que, assim seriam infectantes.
A infecção por esse mechanismo, embora possivel, deve ser provavelmente rara
cm condições naturaes.
J. Lemos .Monteiro — Febre amarella experimental
95
3.* - Transmissão pelas fezes de mosquitos ( Ardes aegyptií infectados.
Aragão e Costa Lima verificaram que as dejecções dos mosquitos infectam
quando elles já são infectantes pelas suas picadas. Como pode acontecer com as
picadas, as dejecções nem sempre determinam a morte, mas sim a infecção, quer
benigna, quer grave.
Verificaram estes scientistas patrícios que as dejecções de mosquitos infec-
tados, depositadas sobre a pelle ou na conjunctiva ocular, intactas, também in-
fectam o Macacus rhesus; observaram ainda que os excreta se mostravam infec-
tantes depois de 5 e 7 dias da picada do mosquito em animal doente, acreditando
que isto possa dar-se até mais cedo.
Aragão e Costa Lima, lançando mão de uma technica especial e delicada,
verificaram ainda que a haemolympha colhida na camara pericardica de mosquitos
infectados é também infectante. ao contrario do que Hindle havia concluído de
suas experiencias. Assim, pois, antes de chegar ás glandulas salivares e poder
ser transmittido pela picada, o vinis do tubo digestivo passa para a cavidade
celomica do mosquito.
*•* - Possibilidades da passagem do virus de mosquito a mosquito e infecção do Ardes
macho.
Numa serie de experiencias interessantes e de grande valor pelas suas con-
sequências praticas, Aragão c Costa Lima verificaram ainda ser possível a infcc-
Çào de Aédes machos, addicionando um pouco de mel a sangue desfibrinado de
um rhesus infectado e dando-lhes a mistura como alimento. A emulsão de mos-
quitos assim alimentados, feita no fim de 12 dias, provocou a infecção num rhesus
normal.
Observaram ainda, ao cabo de alguns dias, a infecção adquirida por AèJrs
fachos normaes, collocados numa pequena gaiola de vidro com femeas infecta-
das, porquanto, emulsionados os machos e inoculados num rhesus, lhe provocaram
* infecção typica amarillica. Também femeas normaes collocadas cm gaiola con-
tudo machos infectados, acabaram por se infectar c foram capazes de transmittir
0 virus ao Macacus rhesus.
Assim se evidencia a possibilidade da passagem do virus de mosquito a mos-
quito, sem necessidade da passagem pelo homem, o que é de grande importância
s °b o ponto de vista epidemiologico.
- Experiencias com percevejos. Transmissão do virus da febre amarella pelas fezes
de percevejos infectados.
Desde que iniciámos os nossos estudos experimentaes sobre a febre ama-
re *ia. entre os problemas que tínhamos em vista verificar, estava o da possibili-
te da transmissão experimental do virus por outros intermediários, além do
aegypti. Esta possibilidade se justificava por certos factos epidcmiologicos
Muitas vezes observados em surtos de febre amarella. Entre os possíveis vehi-
47
96
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
culadores do vírus, chamou-nos a attenção, em primeiro lugar, o percevejo da
cama, Cimex lectularius. Estes hemipteros sugadores de sangue tèm sido respon-
sabilizados pela transmissão dos agentes etiologicos de varias enfermidades; essa
transmissão, por via de regra, se faz por meio das fezes dos insectos infectados,
quando depositadas sobre a pelle ou mucosas de animaes ou indivíduos sãos.
Pareceu-nos, pois, de grande importância verificar si o virus da febre ama-
relia poderia também atravessar o tubo gastro-intestinal do percevejo, tornando
seus excreta infectantes; isto, principalmente porque se sabe que esse virus pode
atravessar a pelle e as mucosas. Desde que fosse verificado o facto, os perce-
vejos se tomariam também dignos dos cuidados da prophylaxia amarillica.
A picada de um percevejo dura geralmente uns 3 minutos e é acompanhada
por phenomenos reaccionarios, muitas vezes violentos, variaveis segundo a sus-
ceptibilidade individual. Após a picada, observa-se commummente, no homem,
uma papula esbranquiçada de 2 millimetros de diâmetro, envolvida por uma zona
de vaso-dilatação de 15 millimetros (Brumpt).
Muitas vezes, depois de alimentado, o percevejo defeca no lugar da picada
ou em suas proximidades, facto esse verificado frequentemente nas nossas expe-
riências.
Na hypothese de um percevejo ter picado um doente nos tres primeiros dias
da infecção, poderia dar-se o seguinte: muitos dias depois, em uma nova alimen-
tação, feita em individuo são, o percevejo poderia, uma vez cheio, depositar o
virus com as fezes cmittidas: esse vinis teria facilidade em penetrar através da
pelle em virtude das condições reaccionarias locaes, occasionadas pela própria
picada, e sobretudo, pelo facto de poder o material depositado ser esfregado pela
própria pcssôa ao coçar-se por causa da irritação sentida. Além da possibilidade
assignalada que tornaria mais provável a infecção, a simples existência de ex-
creta infectantes no leito de uma pessôa não eliminaria de todo tal possibilidade.
Para a verificação experimental destes factos fizemos uma serie de experiencias
que descrevemos a seguir:
Em 27-VI-1929 dois percevejos ( Cimex lectularius) (•) foram alimentados
no Macacus rhesus 38, que estava infectado e em periodo de reacçáo febril. A
evolução da infecção do rhesus 38 foi a que se vè no graphico 11. Depois de
cheios, os insectos foram retirados e collocados num pequeno tubo esterilizado.
No fim de 24 horas, depois de removidos os percevejos para outro tubo, as fezes
por elles depositadas, facilmente visíveis nas paredes do tubinho, foram emulsio-
(•) Informou-nos, posteriormente, o distincto collega dr. Ccsar Pinto da existên-
cia de outra especie de percevejo de cama commum na Capital Federal; trata-se do
Cimex hemipterus.
Os percevejos que utilizámos nas experiencias foram oriundos, no inicio, de pe-
quena colheita feita no albergue nocturno e depois com insectos creados no laboratorio.
Ignorando, na occasiio, a existência dessa outra especie entre nós, não procuramos
fazer, por intermédio de especialistas no assumpto, a identificação rigorosa da especie
por nós utilizada, o que, em todo caso, é de interesse secundário.
48
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
97
nadas em agua physiologica e a emulsão inoculada num rhesus normal. Isto foi
repetido no fim de 12, 22 e 35 dias depois da picada infectante. Tendo morrido
nm dos insectos no 28.° dia, foi todo elle emulsionado e juntamente inoculado.
Neste periodo de tempo os percevejos foram alimentados por 2 vezes em macacos
normaes.
Experiência I. - Em 28-VI-1929, isto é, no dia seguinte á alimentação infec-
<ante, os excreta encontrados no tubo foram emulsionados e inoculados no Macacas
Mccacas rhesus N.® 39
(1929)
Graphico 35
rf, *sus 39. Como consequência da injccção o rhesus não apresentou rcacçáo fe- '
a não ser num dia apenas, o que se poderã attribuir i excitação produzida
captura. Decorridos 12 dias, o rhesus 39 foi inoculado com o virus africano
* ct ' v o (sangue do rhesus 35, colhido no 2.® dia de febre). Como consequência
segunda injecçáo, o rhesus apresentou uma typica infecção amarillica, mor-
rend ° em 9 dias. O graphico 35 mostra as reacçôes deste macaco, consequentes
** inoculações recebidas.
49
98
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Nestas condições, verifica-se que neste período de tempo, 24 horas, o vinis
ainda não havia começado a ser eliminado pelas fezes do insecto; isto porque não
só não provocou a infecção de um rhesas, como não lhe determinou immunidade
em relação a uma injecção posterior do viras activo. As dejecções existentes no
tubinho nestas primeiras 24 horas eram, pois, oriundas de alimentação anterior, e
já estavam na extremidade final do tubo intestinal, sendo eliminadas nesse decurso.
Macacas rhesus N.* 43
( 1929)
Experiência II. - Em 9-VII-1929, o Macacas rhesus 43 foi inoculado com
fezes dos dois percevejos, emittidas depois do 2.° até o 12.° dia em seguida á
alimentação infectante. Os resultados des-
ta experiencia foram objecto de uma nota
preliminar que publicamos e são os se-
guintes: o Macacus rhesus 43 apresentou
uma infecção amarillica clinicamente ca-
racterística e com confirmação histo-pa-
thologica. Após 3 dias de incubação teve
inicio o período de reacçáo febril, attin-
gindo a temperatura a 40°, 1 em 13-V1I-
1929, mantendo-se acima do normal para
se elevar a 41°, 2 em 18-VII-1929 pela
manhã, 40°, 1 á tarde e cahir para 36°, I
pela manhã de I9-VII-1929. O graphico
36 mostra a curva thermica do macaco.
Nessa occasiáo, o animal apresentou-se
triste, não se alimentou, supportando-se
em pé com difficuldade e não se mos-
trando em condições de resistir durante
muitas horas. Foi sacrificado e necrop-
siado nesse dia. Macroscopicamente os
orgáos apresentavam o aspecto que se
encontra na infecção experimental, o que
foi confirmado pelo exame histo-patholo-
gico do figado.
Graphico 36
O Macacus rhesus 43, nos dias 13 e 18-V11-I929, quando a temperatura esteve
mais elevada, foi sangrado no coração, sendo com o sangue inoculados os rhesus
• 45 e 49. Também com emulsão de um pedaço do figado foi inoculado o rhesus
53, em I9-V11-1929. Os resultados destas inoculações, que demonstrariam também
a infecção amarillica do rhesus 43, foram os seguintes:
Rhesus 45 (graphico 37), inoculado com sangue em 13-V1I-29, apresentou
uma infecção clinicamente atypica, não apresentando reacçáo febril nem outros
symptomas, porém morreu durante a noite de 27 para 28-V11-1929. O exam®
histo-pathologico do figado mostrou lesões discretas, porém indicadoras da infecção.
50
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
99
Rhesus 49 (graphico 38), inoculado no peritonio com o sangue de 18-VIl-
•929, da sangria do rhesus 43 quando este apresentava a temperatura dc 41°,2:
no dia seguinte a temperatura deste rhesus attingiu e se manteve em 40°,1; em
20-VII-29 attingiu 40°, 9 pela manhã e 41° á tarde; em 21-V1I-1929, pela manhã,
a temperatura cahiu a 35°,8, apresentando o animal o aspecto clinico característico
da infecção; ás 14 horas deste dia, a temperatura estava em 35°,2 quando o ani-
mal foi sacrificado e necropsiado. O exame histo-pathologico confirmou o infec-
Çào amarillica.
Macacus rhesus N.® 45
(1929)
Macacus rhesus N.® 49
(1929)
Graphico 38
Rhesus 53 (graphico 39), inoculado com emulsão de figado do rhesus 43 em
•9-VIM929. A infecção deste macaco teve evolução clinica também caracteris-
,lc a. morrendo o animal em 23-V1I-1929 e sendo a infecção confirmada pelo
e **mc histo-pathologico.
Verifica-se assim que os percevejos infectados por meio da alimentação em
Macacus rhesus infectado, eliminaram o virus amarillico juntamente com as de-
• ec Ções depois de 24 horas até o 12.® dia; esse virus foi capaz de infectar um
rfle *us normal, dc modo perfeitamente característico, e produzir passagens posi-
,lv *s em novos macacos, tanto com a inoculação do sangue, como com a emulsão
de figado.
51
100
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Não se pode, pela experiencia acima, dizer quando começou a eliminação
do virus; apenas que elle persiste activo desde o 2.° até o 12.® dias que se se-
guiram á alimentação infectante, quando accumulado nas fezes emittidas pelos
percevejos.
Experiencia III. - Em 19-VI 1-1929, removidos os percevejos, as fezes accu-
muladas do 13." ao 22.° dias após a alimentação infectante foram emulsionadas em
2 cc. de agua physiologica. Metade da diluição (1 cc.) foi inoculada debaixo da
pelle do Macacus rhesus 51 e a outra metade (1 cc.)
foi depositada aos poucos e esfregada com luva de
borracha na pelle do abdome, raspada com navalha,
do Macacus rhesus 52. O rhesus 51 não apresentou
reacçào thermica característica da infecção, pelo que,
em 6-VI 1 1- 1 929, foi inoculado com o virus activo
(emulsão de figado do rhesus 62). Esta 2.* injecção
determinou reacçào thermica que se iniciou no 4.° dia,
perdurou, menos accentuada. ainda no dia seguinte e
manteve-se depois em media normal, resistindo afinal
o macaco.
O Macacus rhesus 52 que recebeu a emulsão das
fezes através da pelle, apresentou reacçào local in-
tensa e, talvez por este motivo, também reacçào ther-
mica, mas não característica, no fim de alguns dias.
Em 6-V1II-I929 foi também inoculado com o vi-
nis activo (figado do rhesus 62), tendo uma typica
infecção amarillica.
Desta maneira, talvez o virus porventura accumu-
lado nas fezes dos percevejos do 13." ao 22." dia es-
tivesse attenuado no fim desse período, ou a quanti-
dade depositada então fosse tão pequena que apenas
talvez conseguisse augmentar a resistência do rhesus,
inoculado subeutaneamente, em relação a nova inocu-
lação virulenta feita 18 dias depois; o mesmo já não
aconteceu com o outro animal, inoculado através da
pelle, e neste caso é provável que tenha concorrido
a consequente reacçào inflammatoria local.
Experiencia IV. - Em 20-VII-I929, os percevejos foram alimentados pela 2.*
vez, ou sejam 23 dias após a alimentação infectante e 1 1 da ultima alimentação.
Foi utilizado o rhesus normal 54. Um dos insectos, depois de cheio, defecou na
parede abdominal nas proximidades do ponto da picada. A gotticula escura de
fezes foi ahi deixada, sem manobra alguma, sendo o animal collocado na gaiola.
Muitos dias depois, em 7 e 9-V1U-1929, a temperatura do rhesus subiu a 40\3
Macacus rhesus N.° 53
(1929)
Graphico 39
52
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
101
e 40" respectivamente. Em I2-V1II-1929 o animal foi sangrado, sendo inoculado
o rhesus 64.
A temperatura do rhesus 54 manteve-se em media mais ou menos normal.
O mesmo aconteceu com o rhesus 64, inoculado com o seu sangue de 12-VIII-
•929. Este macaco, depois de 18 dias, foi inoculado com o virus (emulsáo de
fígado do rhesus 66); teve uma infecção característica e morreu 5 dias depois.
Nestas condições, as fezes eliminadas pelo percevejo no 23.® dia após a pi-
cada infectante já não continham virus. ou, si o continham, não conseguiram de-
terminar a infecção de um macaco quando depositadas sobre a pelle.
Este resultado parece justificar a hypothese formulada no commentario da
experiencia III, de ter sido o virus eliminado somente no inicio do período com-
Prehendido entre o 13.® e o 22.® dia da picada infectante.
Experiencia V e VI. - Nestas experiências os rhesus foram inoculados res-
pectivamente com emulsáo de um percevejo total, que amanheceu morto no 28.®
di* após a picada infectante, e com diluição de fezes emittidas c accumuladas
depois do 23.® dia, sendo que, por um dos insectos, até o 35." dia depois. Foram
utilizados os rhesus 57 e 61 que não apresentavam clinicamentc reacção caracte-
rística de infecção especifica, embora o inoculado com a emulsão do percevejo
tenha tido sua temperatura elevada a 40® algumas vezes.
Numa nova serie de expericncias com percevejos foram inoculados mais
dois rhesus. Seis percevejos foram alimentados cm 28-VIII-1929 no Macacus rhesus
no 2.® dia de reacção febril, e, immediatamcntc depois de cheios, collocados
ttum tubo.
Experiencia VII. - Neste mesmo dia. as fezes eliminadas nas primeiras 4
horas que se seguiram á alimentação infectante foram, depois de diluídas, inocu-
las no rhesus 68, que não apresentou durante vários dias reacção thcrmica ca-
raterística. Em 1I-1X-1929, foi clle de novo inoculado com as dcjccções dos
ttiesmos percevejos accumuladas no tubinho durante os 14 dias decorridos. Esse
Macaco durante muitos dias não apresentou reacção febril; no fim de 30 dias
'••-X-1929) da segunda inoculação a temperatura subiu a 40°, 5 á tarde; no dia
^guinte foi de 39®,7 e 39",8 para subir no immediato a 40® e 40®,2, mantendo-se
depois em media mais ou menos normal durante vários dias. Em 22-X-1929 o
'hesus 68 foi inoculado com o virus activo (emulsão de figado do rhesus 80),
na o apresentando reacção febril e, assim, mostrando-se immunizado em relação
*° virus.
Verifica-se, pois, que o virus não existente nas fezes emittidas pelos pcrce-
Ve jos nas primeiras horas que se seguiram á alimentação infectante, existia nas
dejecções accumuladas durante 14 dias, provocando uma infecção benigna depois
d e um longo período de inoculação, infecção que foi confirmada pela immunidade
do rhesus em relação a nova inoculação de virus activo.
Experiencia VIII. - Em ll-IX-1929 os seis percevejos foram alimentados em
° u ‘ro rhesus e, uma vez cheios, immediatamente retirados e collocados num tu-
53
102
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
binho. As fezes emittidas nas 2 horas que se seguiram a esta alimentação, e que,
por conseguinte, foram eliminadas pelos insectos no 15.° dia após a picada infec-
tante, e recentes, foram diluidas e inoculadas no Macacus rhesus 70. Este macaco
não apresentou reacção febril. Em 22-X-1929 foi inoculado com o virus activo
(emulsão de figado do rhesus 80); não apresentou reacção, mostrando-se immu-
nizado em relação á infecção. Logo, neste prazo de 15 dias, o virus foi eliminado
em pequena quantidade, tanto que não provocou a infecção, mesmo ligeira, e sim
a immunidade do rhesus. E’ provável que este prazo esteja no limite da elimi-
nação do virus após a alimentação infectante, iniciando-se depois do 2.° dia.
Pelas experiencias descriptas é evidente que o virus da febre amarella é
capaz de atravessar o tubo gastro-intcstinal de um insecto hematophago, o per-
cevejo ( Cimex lectularius), quando absorvido pela picada em um animal infectado
e ser eliminado pelas fezes do insecto depois de um certo prazo, tornando-as
infectantes para animaes sensíveis normaes. O tempo de duração da eliminação
do virus não ultrapassa, talvez, 15 dias, dependendo do tamanho do insecto, quan-
tidade de sangue virulento ingerido, concentração do virus nelle contido, e outras
condições. Esta eliminação será provavelmente constante si as subsequentes ali-
mentações forem também em animaes infectados em periodo favoravel.
Da mesma forma que com os mosquitos, deverá acontecer com os percevejos;
quando a infecção não se dá pela picada ou com as fezes é porque falta concen-
tração ao virus ou lhe são necessários outros factores ainda não perfeitamente
determinados e a clle inherentes.
Vô-sc, por todos esses ensaios feitos, que nem sempre é permittido tirar-se
uma conclusão dos resultados negativos; o mesmo não acontece com os positivos,
que devem ser tomados em consideração.
No organismo do percevejo o virus provavelmente não soffre qualquer evo-
lução ou multiplicação; pode apenas atravessar o tubo gastro-intestinal do insecto
c ser eliminado ainda activo; neste caso, o percevejo é um mero vchiculador.
Isto, provavelmente, poderá acontecer com outros insectos hematophagos, devendo
ser excepcional a infecção por esse mechanismo, nas condições naturaes.
Entretanto, sob o ponto de vista pratico, os nossos resultados não são desti-
tuídos de importância. O facto já verificado de que o virus amarillico pode atra-
vessar a pelle, principalmente se esta foi irritada, c que o percevejo, depois de
cheio, geralmente elimina fezes, que podem ser infectantes por alimentação an-
terior, no periodo propicio, em indivíduo doente, indica que os serviços de pro-
phylaxia amarillica não devem descuidar estes insectos, por ventura existentes
nas habitações de onde são removidos doentes de febre amarella.
Aragão e Aragão e Costa Lima fizeram verificações sobre a possibilidade
da passagem do virus de mosquito a mosquito e também da infectuosidade das
fezes dos Aêdes aegypti infectados; nós verificámos a possibilidade de ser o
virus amarillico eliminado pelas fezes de percevejos infectados; estas obser-
vações podem explicar certos factos epidemiologicos, commummente observados
na febre amarella, taes como o apparecimento de novos casos em focos expur-
54
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
103
gados, desde que os processos empregados auctorizem a suppor que, em certas
circunstancias, os percevejos possam resistir á desinfecção ou encontrem condi-
ções mais favoráveis a uma sobrevivência.
6-* - Possibilidades da existeneia de depositários do virus amarillico entre os animaes
domésticos.
O problema de depositários de virus é dos mais importantes sob o ponto de
vista epidemiologico. A experiencia tendente a verificar si certos animaes do-
mésticos podem ser depositários do virus da febre amarella foi-nos suggerida pelo
dr. Arthur Neiva.
Fizemos a respeito, com o cachorro, algumas experiencias preliminares que,
embora o autorizassem, não puderam ser continuadas na occasiâo por se ter es-
gotado o stock de animaes de que então dispúnhamos.
Posteriormente, tendo recebido mais alguns macacos, realizámos com gatos
nova serie de experiencias, cujos resultados foram mais interessantes, como se
verá opportunamente.
a) Experiencias com o cão.
Mostraremos a seguir, de um modo resumido, os nossos resultados prelimi-
nares obtidos com o cachorro.
As experiencias foram realizadas cm uma cadella que soffrcu 2 inoculações
de virus amarillico (sangue c emulsão de figado de rhesus infectado), sendo
sangrada em differentes intervallos e o sangue inoculado cm Macacas rhesus
normaes. Em 13-VII-I929 a cadella foi inoculada, sob a pellc, com 10 cc. de
sangue desfibrinado do Macacas rhesus 44, sangrado em período de reacção febril.
Experiencia /. - Em 16-VII-1929, isto 6, após 3 dias, a cadella foi sangrada
no coração e 5 cc. de sangue foram immediatamente inoculados debaixo da pelle
do rhesus 47.
A temperatura mais elevada que teve este macaco foi de 39°, 9, no 4.° dia
a P<5s a injecçáo, mantendo-se depois em media mais ou menos normal. Decor-
ridos 21 dias, em 6-VIII- 1929. o rhesus 47 foi inoculado com o virus amarillico
**«0 e convenientemente conservado (figado do rhesus 62) depois de emulsio-
nado. Este virus era seguramente activo, pois causou a infecção typica e morte,
c, n 8 dias. do rhesus 66 inoculado em 22-V1 1-1929, como testemunha.
Como consequência da inoculação virulenta, o rhesus 47 não apresentou
facção febril; o máximo da temperatura attingiu 39*. 8, mantendo-se geralmente
e ni media normal. Esse macaco, no fim de quasi um mez de observação, começou
8 emagrecer muito, apresentou diarrhéa, iniciando-se elevações thermicas ves-
peraes, o que nos fez pensar numa infecção tuberculosa. Foi sacrificado, obser-
v*ndo-sc pela necropsia o aspecto de uma tuberculose mesenterica, com genera-
lização, confirmada pela presença de bacillos alcool-acido-resistentes em esfre-
gaços de gânglios mesentericos caseosos, pelos nodulos do figado e pela inoculação
eni cobaia.
55
104
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
O exame histo-pathologico do figado nào mostrou as lesões determinadas
pelo vinis amarillico.
• O rhesus 47, inoculado com o sangue da cadella, mostrou-se, pois, immunizado
em relação ao virus amarillico, indicando a presença deste no sangue do animal
refractario que o havia recebido 3 dias antes. Nessas condições, o virus não pro-
vocou uma infecção apparente, porem a immunidade do animal sensivel ao virus.
Este resultado não deve ser explicado por uma possível immunizaçào passiva
do rhesus pelo sangue do cachorro previamente inoculado com o virus. Isto
porque após somente 3 dias não haveria tempo sufficiente para a formação de
anticorpos em porção tal que produzisse esse effeito na dose inoculada e, em 2.°
logar, mesmo admittida esta hypothese, a immunidade passiva já nào deveria
provavelmente perdurar depois do 20." dia, quando a injecção do vinis foi feita.
Experiência II. - Em 25-V1I-I929, isto é, 12 dias após ter sido inoculada
com virus, a cadella foi de novo sangrada, sendo 5 cc. de sangue immediatamente
inoculados no peritonio do Macacus rhesus 56. Como consequência da injecção,
a temperatura do rhesus não se modificou da media normal; apenas no 15" dia
attingiu 39", 8, voltando á media. Em 1 2-VI 1 1- 1 929 foi o rhesus inoculado com o
virus (emulsão de figado do rhesus 52) e em 30-V111-1929 novamente (emulsão
de figado do rhesus 66). A temperatura mais elevada que teve este macaco foi
de 39°,8, mantendo-se depois em media mais ou menos normal. Nesta expe-
riencia, a immunidade do macaco em relação á 2." inoculação do virus (segura-
mente activo, com testemunha positiva) poderá ser attribuida á anteriormente
feita, julgando-se então que o virus estivesse nella attenuado, razão por que a
experiência não é concludente.
Em 6-V11I-1929 a cadella foi de novo inoculada com o virus amarillico (emul-
são fresca de figado do rhesus 62) para repetição das experiencias, na hypothese
do primitivo virus (sangue) não se ter apresentado sufficientemente activo. A
inoculação foi feita debaixo da pelle e, dias depois, notou-se formação de um
abcesso suppurado, cuja abertura foi provocada pelo animal.
Experiência III. - Em 10-V1I1-1929, isto é, 4 dias após a inoculação do virus,
e antes de se notar a suppuraçào, a cadella foi sangrada no coração e 5 cc. de
sangue immediatamente inoculados no peritonio do Macacus rhesus 63. Este ma-
caco, antes da inoculação, apresentava 38®, 5. Sua temperatura subiu a 39",9 na
tarde do 3." dia: no 4.® dia teve 39® ,8 e 40®. 1 á tarde; no 5.® dia. 39® .7 e 40® á tar-
de; no 6.® dia 39®, 6 e 39®, 3 á tarde; no 7.® dia 39® e 39®, 4 mantendo-se nos dias
seguintes nesta media, attingindo uma vez, dias depois, 40“,3.
Em 30-V111-I929, isto é, 20 dias depois de ter sido inoculado com o sangue
do cachorro, é o rhesus 63 inoculado com o virus amarillico (emulsão de figado
do rhesus 66), seguramente activo, pois provocou na mesma dose a infecção ty-
pica e a morte, em 5 dias, do rhesus 69, testemunha.
Como consequência desta inoculação virulenta, o rhesus não apresentou
reacçào que indicasse a infecção e continuou em boas condições, mostrando-se,
56
J. Lemos Monteiro — Febre anarclla experimental
105
Pois. immunizado em relação ao vinis activo. Esta immunidade, pelas conside-
rações já feitas, somente poderá ser attribuida a uma immunização activa pelo
virus existente no sangue do cachorro. Este vinis provocou no macaco uma
reacçáo febril, embora não determinasse uma infecção mortal.
Infelizmente a falta de animaes sensíveis não nos permittiu a inoculação
comprovadora da existência do vinis no sangue do macaco, durante o periodo da
teacção febril, consequente á inoculação do sangue do cachorro.
Experiência IV. - Em 16-VI11-1929, isto é, 10 dias após a 2.® inoculação do
vinis, a cadella foi de novo sangrada no coração e 5 cc. de sangue foram imme-
diatamente inoculados no peritonio do Macacus rhesus 65. Este macaco não
apresentou reacçáo. Em 30-VI11-1929, ou sejam 14 dias após, foi inoculado com
0 virus (emulsão de figado dd rhesus 66). No 3.® dia após esta inoculação a tem-
peratura do macaco attingiu, á tarde, 40®,2; no 4.° dia, 40",4 e 40°; no 5.® dia
e 39°,8; no 6.® 39®, 2 e 39®, 6, mantendo-se depois nesta media ou pouco
abaixo, tendo havido, após vários dias, raras ascenções seguidas de volta ao normal.
A segunda inoculação parece, pois, ter provocado no macaco uma infecção
■tnarillica não mortal, embora não tenha sido feita passagem para outro animal
Pelo motivo já exposto.
Assim sendo, o virus porventura existente no sangue da cadella no 10.® dia
a Pós a injecção, já estaria destruído ou existiria em tão pequena quantidade, que
*e mostrou incapaz de provocar, pelo menos, uma immunidade completa do rhe-
Sus - Talvez, para explicação deste resultado, convenha recordar que a 2.® ino-
vação do cachorro foi feita com emulsão de figado c por via sub-cutanea c
no lugar da inoculação houve, dias após, formação de um abcesso, que sup-
Pürou, sendo o local constantemente lambido pelo animal, o que deu em resultado
“ma ulceração extensa na zona. E' provável, por isto, que a reacçào intensa c
Mippuraçáo tenham contribuído para a destruição do virus no fim dos 10 dias,
0 que não havia ainda acontecido em 4 dias, quando certa quantidade já entrá-
ra Para a corrente circulatória, contribuindo para o resultado da experiência 111.
b) Experiências com gatos.
Bem mais interessantes e demonstrativas foram as experiencias que rcalizá-
m °s ultimamente com gatos e que aqui serão apenas resumidas, devendo consti-
f uir objecto de um trabalho mais minucioso a ser publicado opportunamentc.
Experiência I. - Em 5-V1I-1930 foi inoculado o gato 1. por via peritoneal.
c °tn 2 cc. de sangue do Macacus rhesus 102, infectado com o virus amarillico e
Agrado durante o periodo de reacção febril. No decurso da primeira semana
0 gaio nada apresentou de anormal, sendo a temperatura rectal tomada diaria-
^tnte ás 13 horas. No 8.® dia a temperatura foi de 39®,2; no 9.® dia, de 39®, 5; no
,0 -\ de 39®,6; no li.®, de 40®,2; no 12.®, de 40®, 0; no 13.®. de 39», I; no 14.°. de
3; no 15.®, de 39®, 5; no 16.®, de 39® ,0; no 17.®, de 38®,5, mantendo-se depois
ní Ma media normal durante longa observação, como melhor se vê pelo graphico 40.
57
106
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Logo que a temperatura do gato começou a subir e quando se manteve ele-
vada, nos 10.“, 11.® e 12.® dias principalmente, o animal apresentou-se doente,
sempre triste, deitado num canto da gaiola e não procurou alimentar-se. Seu
estado voltou ao habitual com a descida da temperatura á media normal.
No 12.® dia, com a temperatura de 40®, o gato foi sangrado no coração, reti-
rando-se 20 cc. de sangue. Parte deste sangue foi desseccada e parte utilizada
para semeaduras em differentes meios culturaes e inoculações no Macacas rhesus
106 e gato 4. No fim de 30 dias de inoculação, o gato 1 foi novamente sangrado,
sendo inoculado o rhesus 114.
Gato N.® 1
(1930)
Graphico 40
Os resultados destas inoculações e as experiencias delias decorrentes foram
os seguintes:
Macacus rhesus 106 - Recebeu em 17-VI1-1930, por via peritoneal, 5 cc. de
sangue desfibrinado do gato I, sangrado após 12 dias da sua inoculação com o
virus amarillico. Como consequência teve o macaco uma infecção amarillica ca-
racterística, morrendo em 9 dias (graphico 41). A infecção foi confirmada pelo
exame histo-pathologico e pelas passagens nos Macacus rhesus 109 (inoculado,
em 25-VI 1-1930, com 2cc. de sangue colhido durante a reacçáo febril e morto em
4 dias - graphico 42) e Macacus rhesus 110 (inoculado, em 26-VII-1930, com
emulsão de figado e morto no 3.® dia - graphico 43).
58
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
107
Com 4 cc. de sangue desfibrinado do rhesus 106 foi também inoculado o
Eato 5, em 25-VII-1930. Este gato nada de anormal apresentou. No 11.° dia. em
--VIII-1930, foi sangrado, sendo 5 cc. do sangue inoculado no Macacas rhesus
H7, por via peritoneal. Este macaco não apresentou reacção febril, mas em 18-
VIII-1930 a reacção do desvio de complemento, praticada com seu sôro, foi po-
sitiva (-! — e, em 26-YMI1-1930, inoculado com o vinis activo, não reagiu, mos-
trando-se immunizado.
Gato 4 - Inoculado também em 17-
^11-1930 com 4 cc. de sangue do gato I.
colhido no 12." dia. Não apresentou reac-
ção febril. No fim de 18 dias. em 4-VIII-
1930 foi sangrado, sendo inoculado o
Macacas rhesus 1 1 5 com 5 cc. de san-
8 u c, por via peritoneal. Em 18-VI11-1930
a reacção do desvio de complemento com
0 sôro deste rhesus foi positiva H — 1 — }-)
e cm 26-VI1 1-1930, inoculado com o vi-
rus activo, resistiu á infecção, mostran-
do-se immunizado.
Nestas condições, o virus, mesmo
Passando por 2 gatos, embora não deter-
minasse uma infecção typica dos rhesus,
f °i ainda capaz de immunizal-os contra
* infecção.
Macacus rhesus 114 - inoculado cm
*'VI1I-|930, isto é. depois de 30 dias
da inoculação com o virus, com 5 cc. de
? angue do gato I. Não apresentou reaç-
ão febril; em 18-VII 1-1930, a reacção
d° desvio de complemento foi fortemen-
,e positiva (-j — | — | — (-) e, cm 26-VIII-
Macacus rhesus N.* 106
(19301
*930, inoculado com o virus activo, mos-
frou-se immunizado. Isto revela que,
•mda no fim desse prazo (como ao cabo de 12 dias), a presença do virus no san-
Süe d 0 gato embora incapaz de provocar a infecção typica. é sufficiente para im-
munizar o rhesus contra uma nova infecção experimental.
A difficuldade de obtenção de animacs de experimentação impediu-nos de
^terminar outros factos de interesse e também o tempo que o virus pode per-
S| stir, depois de 30 dias, no organismo do gato, para determinar, pelo menos, uma
‘"imunidade em relação á infecção.
O eschema junto mostra melhor os resultados até agora obtidos nesta pri-
meira serie de experiencias:
59
febril e outros symptomas durante certo periodo e volta ao estado normal.
108
Memórias do Instimro Butantan — Tomo V
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60
J. Lemos Mosteiro — Febre amarella experimental
109
Interessantes também foram os resultados das semeaduras feitas com o san-
gue do gato I, colhido no 12.° dia, durante a reacção febril. Em meios anaeróbios
•caldo glycosado com pedaços de musculo cardíaco no fundo do tubo), obteve-se
cultura pura de um Corynebacterium, dotado de propriedades interessantes e que
Macacus rhesus N.° 109
(1930)
Graphico 42
Macacus rhesus N.* 1 10
(1930)
s crá descripto em capitulo especial. A este germe denominamos Corynebacterium
indicando sua origem (sangue do gato I).
Experiência II. - Em 5-VII-I930 foi o gato 2 inoculado, por via sub-cutanea,
c °tn 2 cc. de sangue do Macacus rhesus 102, infectado com o vinis amarillico e
5an grado em reacção febril. Ao contrario do anterior, este gato não apresentou
re *cçào febril; apezar disto, durante um certo numero de dias (em 17, 18 e 19-
61
110
.Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
VTI-1930), correspondentes aos 12.°, 13.° e 14.® dias após a inoculação, elle se
mostrou com aspecto de doente, triste, sempre deitado e sem se alimentar, vol-
tando mais tarde ao normal. O aspecto de doente reappareceu, sem reacção febril,
decorridos 28 dias da inoculação (em 2-V111-1930), estado que se accentuou em
4-V11 1-1930, quando se notou paresia do membro posterior direito e hypothermia
(35®, 5) pela manhã. Em vista destes symptomas, parecia que o gato succumbiria,
de sorte que resolvémos esperar o exito fatal. Isto, porém, não occorreu, pois á
tarde a temperatura era já de 38®, 5 e, dentro de mais alguns dias, o gato read-
quiriu seu aspecto normal.
O gato 2 foi sangrado no 4.® e no 30.® dias após a inoculação, sendo com seu
sangue inoculados respectivamente os Macacus rhesus 104 e 116.
Os resultados destas inoculações foram os seguintes:
Macacus rhesus 104 - Inoculado em 9-VI1-1930 com 4 cc. de sangue do gato
2. Nada de anormal apresentou. Decorridos 20 dias, em 29-V11-1930, foi inocu-
lado com o virus activo (2 cc. de sangue do rhesus 109). Como consequência
desta inoculação, nenhuma reacção apresentou, mostrando-se immunizado em
relação ao virus.
Macacus rhesus 116 - Inoculado em 4-V1II-1930 com 5 cc. de sangue do
gato 2. Não apresentou reacção febril. A reacção do desvio de complemento
praticada em 1 8-VI 1 1- 1 930, com o seu sôro foi positiva (-} — j — [-) e, em 26-VI1I-
1930, inoculado com o virus activo (emulsão de figado do rhesus 124), não apre-
sentou reacção, mostrando-se também immunizado.
Outras experiências: Também em 5-VU-1930 foi inoculado o gato 3, por via
cerebral, com 0,5 cc. de sangue do rhesus 102, infectado pelo virus amarillico e
sangrado em reacção febril. Por esta via o gato nada de anormal apparente-
mente apresentou, tanto em relação á temperatura, como ao seu aspecto. Por
este motivo e pela escassez de animaes, não foram praticadas reinoculações.
Em 9-VIII-1930 foi inoculado o gato 7, por via peritoneal com 5 cc. de san-
gue do Macacus rhesus 118, infectado com virus amarillico neurotropico e da 3.*
passagem pelo camondongo branco. Este gato apresentou evidentes signaes de
doente; desde o 2.® dia apresentou-se triste, não se alimentando, apenas bebendo
agua repetidas vezes e com ligeira paresia dos membros posteriores. Este es-
tado perdurou nos dias seguintes, e sua temperatura manteve-se mais baixa que
a media geralmente observada nestes animaes. Somente em 16-VIII-I930 come-
çou a alimentar-se e o seu estado a melhorar até a volta ao normal.
O gato 8, alimentado com figado de rhesus que succumbira da infecção ama-
rillica, não apresentou reacção ou outro symptoma anormal, o mesmo acontecendo
com o gato 9, inoculado com emulsão de cerebro dos camondongos brancos 4 e
5 (da 4.® passagem do virus por este animal).
Estas experiencias. assim como outras realizadas com gatinhos recemnascidos
(de I. 6 e mais dias de idade), estão sendo continuadas c deverão ser relatadas
em posterior publicação, se puderem ser proseguidas.
62
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental 111
Discussão: As experiencias acima descriptas e seus resultados parecem in-
dicar que o virus amarillico inoculado num animal domestico, que não lhe é sen-
sível, o cachorro, pode persistir em seu organismo, sendo capaz de, transferido
novamente para um animal sensível, o Macacus rhesus, provocar neste uma reac-
Ção thermica como se observa na infecção experimental; pode produzir também
immunidade em relação a nova inoculação de virus seguramente activo. A reacção
lhermica mais ou menos característica como consequência da inoculação do sangue
do cachorro assim tratado pode não existir, porém o rhesus com elle inoculado
a Presenta uma immunidade em relação a uma posterior inoculação do virus feita
directamente.
Em todo caso, estes resultados preliminares permittem, em relação ao cão,
8 supposição de que este animal possa ser depositário do virus da febre amarella,
durante um certo numero de dias.
Mais interessantes foram os resultados obtidos com o gato. Embora nenhum
dos nossos animaes inoculados tenha succumbido á injecção do virus amarillico,
8lguns apresentaram symptomas clínicos e reacção febril (depois de certo periodo
de incubação), em virtude dos quaes se poderia acreditar em sua sensibilidade
*o virus.
Este persistiu no organismo do gato, sendo capaz de, no 12.° dia, provocar
uma infecção amarillica característica quando transferido para o Macacus rhesus,
ou a immunidade deste macaco, quando inoculado nelle depois de decorridos 30
dias de sua permanência no gato.
O virus poude ainda ser transportado de gato a gato e depois provocar,
quando passado para o rhesus, a immunidade deste, manifestada pela reacção
do desvio de complemento c pela resistência a uma nova inoculação do virus
•ctivo.
Recentemente, Bauer e Mahaffy publicaram os resultados das tentativas que
fizeram para infectar, com o virus amarillico, certas especies de macacos afri-
canos, quer pela injecção de sangue de um rhesus infectado, quer pela picada
de Aedes aegypti infectados. Suas experiencias foram feitas com quatro espe-
cies differentes: Cercopithecus tantalus, Ccrcopithccus mona, Cercoccbus torqua-
,u * e Erythrocebus palas. Nenhum dos animaes succumbiu á infecção, mas, durante
um certo numero de dias, o virus persistiu no sangue de todos, excepto no do
Cercopithecus mona e poude ser transferido novamente ao rhesus pela injecção
de sangue. Duas das especies, Cercopithecus tantalus e Cercoccbus torquatus,
foram capazes de transmittir a infecção a mosquitos normaes.
Embora não effcctuassemos experiencias com mosquitos, os nossos resultados
dc infecções experimentaes approximam-se dos obtidos por Bauer e Mahaffy,
apezar de realizadas as nossas experiencias com animaes domésticos (com o gato
sobretudo» morphologicamente muito afastados dos macacos.
A este respeito e principalmente por terem sido feitas com animaes de hábitos
domésticos, podendo provavelmente ser picados por mosquitos de casa, as nossas
63
112
.Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
experiências apresentam resultados de certa importância no problema da epide-
miologia da febre amarella, como facilmente se comprehende: os animaes do-
mésticos, o gato sobretudo, poderiam, nesse caso, desempenhar algum papel na
propagação do typho amarillico, quer conservando o virus activo e podendo trans-
mittil-o, por intermédio dos mosquitos, a pessoas sensíveis, quer transmittindo-o
já attenuado e contribuir, assim, para a immunização das pessoas.
Na primeira hypothese, os animaes domésticos concorreriam, embora indirec-
tamente, para a propagação de epidemias, ao lado de outros factores já perfei-
tamente estabelecidos; na segunda, o virus attenuado, de que poderiam ser de-
positários durante certo tempo, concorreria para a paulatina immunização dos
naturaes dos paizes de endemicidade amarillica. Este mechanismo poderá ser
também realizado por outros prováveis depositários do virus, entre os quaes, e
principalmente, o proprio homem nas suas infecções muitas vezes inapparentes.
A' luz das nossas experiencias, não podemos, por emquanto, concluir pela
sensibilidade do gato ao virus amarillico adaptado ao Macacus rhesus, embora
tenhamos base para consideral-o como um possível depositário do virus durante
certo tempo. E’ bem verdade, porém, que as reacções e symptomas sobrevindos
em alguns gatos por nós inoculados indicam que as experiencias e estudos com
esses animaes merecem ser continuados.
E' possível que o virus, pelas passagens successivas nos rhesus, tenha per-
dido sua virulência cm relação a estes felinos c mesmo para o proprio homem,
pois isso acontece com o virus amarillico neurotropico que, depois de diversas
passagens pelo camondongo branco, perde sua virulência para o Macacus rhesus.
Nestas condições, julgamos que estes estudos devem ser repetidos em zonas
onde ainda persista o mal, praticando-se, porém, a inoculação do sangue de doentes
em gatos oriundos de zonas indemnes e, pois, não possivelmente immunizados.
E’ interessante notar que estes factos talvez permittam explicar, sinão con-
firmar, certas observações feitas pelo povo do nordeste do Brasil, de os surtos
epidêmicos de febre amarella coincidirem ás vezes com uma curiosa mortalidade
de gatos e ratos.
Ainda recentemente, tivemos opportunidade de receber, em nosso laboratorio,
a visita do Dr. J. de Barros Barreto, secretario do Departamento Nacional de
Saúde Publica, e mostrar-lhe os resultados das nossas experiencias acima relata-
das. Interessando-se vivamente por ellas, contou-nos esse distincto collega que
o Departamento tivera conhecimento de uma pequena epidemia occorrida no in-
terior de Pernambuco e precedida de uma mortandade de gatos e ratos, que foi
attribuida á peste. No entanto, a necropsia de dois casos fataes veiu mostrar
que se tratava de febre amarella.
Assignalamos esta interessantíssima observação para justificar, não somente
o nosso modo de ver quanto á significação dos nossos resultados, mas ainda a
necessidade de se estudar o assumpto em melhores condições experimentaes.
64
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
113
Capitulo III
Anatomia e histologia pathologica da febre amarella experimental
A pathologia da febre amarella experimental no Macacas rhesus foi estudada
primeiramente por Paul Hudson, e, em seguida a elle, por numerosos autores,
que sobre o assumpto apresentam valiosas contribuições.
Entre nós, este estudo vem merecendo especialmente a attenção dos patho-
logistas do Instituto Oswaldo Cruz, destacando-se os trabalhos e verificações de
Margarinos Torres. Em S. Paulo têm tratado do assumpto o prof. Rocha Lima
e os drs. J. Meyer e J. B. Arantes.
Pela histologia pathologica, que apresenta o máximo interesse na febre ama-
relia, verifica-se, nos rhesus infectados com o virus, uma serie de alterações e
lesões que correspondem ao chamado "signal de Rocha Lima”, característico da
mfecção amarillica humana.
Não entraremos em detalhes c commentarios sobre a pathologia da febre
a ntarclla experimental e suas modernas aequisições, assumpto fóra da nossa al-
Çada e para o qual nos falta a necessária competência.
As verificações anatomo- c histo-pathologicas dos nossos macacos infectados
f°ram feitas, no Butantan, por J. B. Arantes, nosso distincto companheiro de
trabalho.
O nosso material foi enviado ao professor Rocha Lima, cm cujo laboratorio
também foi estudado pelo eminente mestre e pelo Dr. J. R. Meyer. Esse estudo
do material que enviámos c referentes aos rhesus infectados com fezes de perce-
Ve jos, confirmou, de maneira evidente, a infecção e os nossos resultados expe-
^mentaes já descriptos.
A respeito de histologia pathologica limitar-nos-emos, pois, a transcrever os
Multados obtidos pelo dr. Juvenal Meyer, com o material de rhesus inoculado
c °m fezes de percevejos infectados.
Macacus rhesus 33 - Foi inoculado com o virus africano e serviu para a in-
ação de 2 percevejos que nelle sugaram durante a reacção febril.
Resultado do exame histo-pathologico feito pelo dr. J. R. Meyer:
Exame n.° 261
•'I Jterial: pedaços de figado, rim e baço de um Macacus rhesus registado no Ins-
tituto Butantan sob o n.® 38.
Laudo histo-pathologico
'Wdo: A estruetura do orgão está bastante alterada. Grande numero de cellulas
acha-se reduzido a restos granulosos corados em roseo pela eosina. Outros
65
114
.Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
elementos apresentam vacuolos e um protoplasma intensamente corado pela
eosina, de fôrma ameboide. Os núcleos estão alterados em muitas cellulas.
No seu interior, ao lado do nucleolo, vèem-se, ás vezes, pequenas massas irre-
gulares coradas em roseo. Espalhados irregularmente pelo parenchyma vè-
em-se pequenos grupos de leucocytos neutrophilos.
Baço: Nota-se na polpa vermelha que fica na peripheria do baço, intensa hype-
remia dos seios venosos. Os seios sanguíneos dessa porção desappareceram
por completo devido á presença de um material corado homogeneamente em
roseo. Na mesma porção e junto a esse material vèem-se as cellulas reti-
culares do orgáo e um certo numero de pequenos focos de leucocytos neu-
trophilos. Bem visíveis, os corpúsculos de Malpighi mostram, as mais das
vezes, um centro formado por cellulas grandes e claras contendo de permeio
abundante quantidade de restos de chromatina sob forma de grânulos.
Rim: Glomerulos poupados. Tubulos tortuosos em sua maioria atapetados por
cellulas tomadas de inchação turva. Tubulos collectores conteem raros cy-
lindros corados homogeneamente em azul muito pallido.
Diagnostico :
Inclusões oxy-chromaticas do núcleo.
Infiltração leucocytaria do fígado.
Infiltração leucocytaria do baço.
Macacus rhesus 43 • Inoculado com fezes cmittidas e accumuladas do 2.° ao
12." dias após a alimentação infectante de 2 percevejos no rhesus 38.
Resultado do exame histo-pathologico feito pelo dr. Juvenal R. Meyer:
Exame n* 273
Material: pedaços de coração, figado, rim e baço de Macacus rhesus registado
sob o n.° 43 no Instituto Butantan.
Laudo histo-pathologico
Coração: Praticamente normal.
Figado: As cellulas hepaticas em sua grande maioria estão bastante alteradas,
sendo que na maior parte se apresentam muito vacuolisadas.
Na parte peripherica dos lobulos pouco se distinguem os espaços portaes.
As veias centraes são mais visíveis e apresentam a seu redor uma pequena
porção de cellulas hepaticas que. alem da vacuolisação produzida pelo accu-
mulo de gorduras, nada mais mostram digno de reparos.
Para fóra dessa porção, ao lado dos elementos vacuolisados vèem-se restos
de cellulas, desprovidas de núcleo e com protoplasma fortemente corado etn
roseo homogeneo.
66
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
115
Entre esses elementos que ás vezes não mais se collocam com a disposição
normal, em cordões, vèem-se numerosos polymorphonucleares.
Bim : Além de vários tubulos contomeados revestidos por cellulas tomadas de dege-
neração parenchymatosa, nada se encontra que mereça reparos.
Baço: Polpa vermelha mostra-se extremamente hyperemiada. Os corpúsculos de
Malpighi em sua maioria estão providos de centros germinativos e occasio-
nalmente exhibem, na sua parte externa, pequenos fócos compostos de cel-
lulas tendo em seu protoplasma numerosas granulações de chromatina appa-
rentemente phagocytada.
diagnostico:
1 - Necroses extensas com desagregação de cellulas hepaticas e de leu-
cocytos neutrophilos.
II - Alguns núcleos contendo substancia oxychromatica.
Macacus rhcsus 49 - Inoculado com sangue do rhesus 43 e sangrado em
Periodo de reacção febril.
Exame histo-pathologico feito pelo dr. Juvenal R. Meyer:
Exame n.° 274
Material: pedaços de figado, baço e rim de um Macacus rhcsus, registado no Ins-
tituto Butantan sob o n.” 49.
Laudo histo-pathologico
ligado: Acha-se muito alterada a estruetura trabeculada dos acinos. As cellulas
hepaticas ás mais das vezes estão dissociadas de modo a não mais formarem
cordões contínuos. Assim, dispostas isoladamente, estas cellulas mostram res-
tos de protoplasma, corados fortemente cm roseo, ora sob a fôrma de ele-
mentos arredondados, ora sob forma de material granuloso. Nos logares cm
que as cellulas estão mais conservadas, vèem-se vacuolos no interior do pro-
toplasma. Os núcleos em sua maioria estão tomados de chromatolyse pelo
que se apresentam muito pallidamente corados. Em toda a extensão do pa-
renchyma, depara-se franca infiltração por leucocytos neutrophilos.
h-
lrn ■ Glomerulos praticamente normaes. Os tubulos contomeados apresentam um
revestimento formado por cellulas tumefeitas e turvas. Muitas dessas cellulas
apenas mostram uma ligeira sombra azulada na pane correspondente ao nú-
cleo. Nos tubulos collectores vèem-se, com relativa frequência, diversos cy-
lindros de aspecto hyalino e algumas cellulas arredondadas.
f ‘aço: Chama attençáo a intensa hyperemia que se encontra em toda a polpa
vermelha. Os seios estão totalmente occupados por uma substancia hyalina
e rosea em cujo interior além dos restos das cellulas primitivas se vêcm nu-
67
116
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
merosos leucocytos neutrophilos. Nos corpúsculos de Malpighi encontram-se
centros claros contendo, alguns, grande numero de granulações phagocytadas
no interior das cellulas de aspecto endothelial. Nesses corpúsculos ás vezes
se depara pequena quantidade de um pigmento castanho amarellado.
Diagnostico :
Dissociação das cellulas hepaticas.
Necroses salpicadas do figado.
Infiltração leucocytaria diffusa do parenchyma hepático por leucocytos
neutrophilos.
Macacus rhcsus 53 - Inoculado com emulsão de figado do rhesus 43.
Exame histo-pathologico feito pelo dr. Juvenal R. Meyer.
Exame n.° 279
Material: pedaços de figado. baço e rim de um .Macacus rhesus registado sob
n.° 53 no Instituto Butantan.
Laudo histo-pathologico
Figado: Apenas se mostram mais conservadas as cellulas hepaticas que ficam na
visinhança immediata das veias centraes e dos espaços de Kieman. As tra-
béculas que se extendem entre essas duas partes dos lobulos, mostram-se
formadas por elementos com limites pouco nítidos, protoplasma vacuolizado
ou carregado de grânulos vermelhos. Muitos destes elementos não apresen-
tam núcleos. Entre as cellulas assim alteradas encontram-se numerosos po-
lynucleares. As cellulas da zona peripherica apresentam grande quantidade
de gordura. Nos núcleos das cellulas hepaticas encontram-se raras inclusões
oxychromaticas.
Baco: Os seios da polpa vermelha são bem visíveis devido á considerável espes-
sidáo das paredes que os formam. Em seu interior vêem-se alguns elemen-
tos mononucleados e em suas paredes um numero muito grande de polynu-
cleares. Os corpúsculos de Malpighi são pequenos e raramente dotados de
pequenos centros claros, contendo restos de chromatina.
Rim: Nos tubulos contomeados vèem-se cellulas grandes de protoplasma tume-
feito e turvo. Os demais canaliculos ora apresentam um material granuloso,
corado em roseo, dentro de sua cavidade, ora cylindros hyalinos.
Diagnostico :
1 - Necroses em grande quantidade na zona intermediana deixando
apenas, em torno á veia central e espaços inter-lobulares, uma del-
gada camada de cellulas de aspecto normal c contendo gordura.
2 - Estcatose predominando na parte peripherica.
3 - Grande quantidade de leucocytos em desagregação na zona imermedi*-
68
J. Lemos Monteiro — Febre amareUa experimental
117
Estes resultados, como se vê, confirmam os nossos resultados experimentaes
'elativos á infectuosidade das fezes de percevejos que haviam picado um rhesus
infectado, e são assignalados apenas por se referirem a assumpto que julgamos
de importância.
Capitulo IV
Immunologia da febre amarella
Numerosos são os problemas, relacionados a phenomenos de immunidade, que
Poderão ser estudados na febre amarella e que nos proporcionam indicações e
resultados do maior interesse ao serem encarados sob o ponto de vista estricta-
niente scientifico; pelo seu lado pratico também, no que diz respeito ao diagnos-
hco, esses resultados e indicações nos fornecem armas valiosas para o combate
do terrivel typho amarillico.
E’ um facto muito conhecido que um ataque de febre amarella confere,
Seralmente, ao indivíduo uma immunidade permanente cm relação á infecção.
Em seu trabalho fundamental sobre a febre amarella experimental, Stokes,
Bauer e Hudson verificaram que pequenas porções de sôro de convalescentes,
Hiestno 0,1 cc., eram capazes de proteger os animaes contra doses mortaes de
sangue virulento e contra a picada de mosquitos infectados.
Este facto serviu a Aragáo para elucidar ou confirmar diagnósticos de casos
duvidosos, bem como a Theiller e Sellards para mostrar a identidade dos virus
•mericano e africano.
Desde que se descobriu um animal sensível ao virus e no qual se reproduzia
tx Pcrimentalmente o seu modo de agir, procuraram os pesquisadores tirar deste
facto o melhor partido possível em beneficio da humanidade, preparando uma
v *ccina preventiva da moléstia.
Verificado o facto de que o virus se multiplica no organismo do animal até
' Ua morte e que é encontrado nos orgams, foram estes utilizados para esse fim.
I - Yaccina amarillica
*• ‘ Tethnica dc Hindle.
De accordo com as dircctrizes seguidas para o preparo de vaccinas contra
Cer tas epizootias, Hindle preparou sua vaccina contra a febre amarella utilizando
f*?ado e baço de macacos infectados. Dois são os typos da vaccina de Hindle:
Urn a fazendo a attenuação do virus com formol e outra com glycerina e phenol.
A vaccina formolada é preparada pela trituração do figado e baço de um
•ninial que tenha morrido da infecção; emulsiona-se a pasta formada em 5 vezes
0 seu peso de agua physiologica addicionada a formol até se obter uma concen-
,ra çào a 1 */ t0 , depois do que a emulsão é filtrada em gaze.
«9
118
Memórias do Instituto Butar.tan — Tomo V
Para a vaccina glycerinada e phenolada, o figado e baço são cortados em
pequenos pedaços e lavados em agua physiologica; depois de triturados é a pasta
addicionada a 4 vezes o seu peso de uma mistura de: glycerina - 600 cc., phenol
t 5 % - 100 cc. e agua distillada - 100 cc. A mistura é agitada, filtrada em panno,
mantida uma semana na temperatura do Iaboratorio e depois na geladeira.
Para o preparo da vaccina. Hindle empregava figado que continha 10.000
doses mortaes por gramma. Mais tarde recommendou o emprego do dobro de
formol usado a principio.
Com estas vaccinas, principalmente com a preparada pela segunda technica,
o autor obteve resultados favoráveis quanto á protecção dos macacos em relação
ao virus activo. Verificou que a immunidade conferida pela vaccina dura ao mí-
nimo 4 Zi meses. Hindle acredita que a protecção conferida pela vaccina seja
também devida a uma immunidade tissular, pois verificou que o figado e baço
de animaes restabelecidos da infecção, retirados e lavados em solução de Ringer
para eliminar-se todo o sangue, também são capazes de vaccinar contra a infecção.
Verificou ainda que, em animaes hyperimmunizados com doses repetidas de
emulsão de figado. a inoculação de uma grande dose de figado virulento foi se-
guida de morte rapida. em 48 horas, facto que elle attribue a um typo especial
de anaphylaxia.
2.* - Technica de Aragão.
Antes de conhecer os trabalhos e resultados de Hindle, Aragão já havia ini-
ciado o preparo de uma vaccina. utilizando também orgams de rhesus infectados
e empregando uma technica semelhante á que usa para o preparo da vaccina
contra a espirochetose das gallinhas (por meio de vapores de formol». Depois
começou a preparar uma vaccina formolada a 2 •/*«. e phenolada a 5 °/oo» q uc
lhe deu bons resultados experimentaes e que começou a ser empregada no homem.
A technica para o preparo desta vaccina é em suas linhas geraes a seguinte:
quando o animal infectado entra na phase de hypothermia, é sacrificado. Os
orgams são immcdiatamente retirados com a maxima asepsia, usando-se no pre-
paro da vaccina o figado, rins, baço e cerebro que são collocados cm placas
grandes de Petri. Desde que são reconhecidos perfeitamente sadios, são lavados
em agua physiologica. enxutos em papel de filtro esteril e pesados. Em seguida
são cortados em pequenos fragmentos que são collocados em um gral com areia
lavada, esteril, sendo então cuidadosamente esmagados. Feito isto, addicionam-se
para uma parte de orgam 5 de agua distillada esterilizada formolada a 2 */ 00 e
phenolada a 5 # /o-„ agitando-se e descollando-se o material até se obter uma
emulsão fina c homogenea. que é filtrada em 4 folhas de gaze e recebida em um
balão esteril. Permanece durante 5 dias na geladeira a 8°C-, verificando-se sua
esterilidade por semeadura e inoculação de 0,5 cc. em 2 cobaias. Estando esteril-
é a vaccina distribuída em empolas de 2 cc. e semeada novamente. Si a esteri-
lidade é perfeita e se as cobaias permanecem sadias decorrido o prazo de til®
mês, a vaccina é considerada prompta para o emprego no homem.
70
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
119
Julga Aragâo que a dose melhor para a vaccinaçào do homem é de 4 cc.
em uma só vez, ou em duas injecções com 10 dias de intervallo.
Mais tarde, para tomar mais activas as propriedades antigenicas da vaccina,
Aragâo passou a empregar, para uma parte de orgams 4 de vehiculo e para cada
2 litros de vaccina addicionava ainda 50 cc. de sangue desfibrinado e formolado
colhido em rhesus doentes em differentes estados da infecção amarillica.
Os resultados experimentaes obtidos com a vaccina foram os mais satisfac-
torios. E' ainda cedo para se formar um juizo definitivo sobre seus resultados
°a prophylaxia amarillica, embora sejam elles animadores em algumas estatísticas
já publicadas.
Preparamos diversas partidas da vaccina amarillica segundo a technica de
Aragâo e pudemos verificar os seus resultados favoráveis na protecção de ma-
cacos em relação a doses seguramente mortaes do virus. Também uma partida
Preparada segundo esta technica e que soffreu, além disso, maceração durante
' dias na estufa a 37°, conservou suas propriedades antigenicas.
2-* - Vaccina chloroformada.
Em virtude das nossas observações quanto a resistência do virus, mantido
em condições óptimas de temperatura, á acção dos antisépticos, procurámos ve-
rificar a acção que sobre elle exercia o chloroformio puro, naquellas mesmas
condições, visto ter sido já utilizado por Kelser no preparo da sua vaccina contra
a peste bovina (rinder-pest). Kelser c seus collaboradorcs verificaram que o virus
da rinder-pest em tal vaccina morre promptamente, sem prejuizo do produeto,
podendo ser usada immediatamcnte após o preparo e conscrvando-sc bastante
■ctiva pelo menos durante um anno. Como a vaccina preparada apenas com o
Sangue dos animaes, não tem valor immunizantc (o que só se observa quando
preparada com os orgams: gânglios lymphaticos, baço, fígado), acredita Kelser
Rue o principio activo da vaccina não seja somente o virus morto, mas também
um sub-produeto da reacção entre o tecido e o virus. ou o proprio virus da rinder-
P«t. modificado de alguma maneira especial pela actividade dos tecidos solidos.
Esta supposição parece de accordo com o que Hindle chama immuniJaJc tis-
* u lar , em relação á febre amarella.
Rodier verificou que quando a vaccina de Kelser é preparada com tecidos
a ltamente virulentos determina uma immunidade segura dos animaes sensíveis
a Penas com uma injecçâo de 20 cc. para os carabús em relação á infecção expe-
r 'mental e que, com a metade desta dose, pode ser protegido o gado susceptível
á infecção.
No preparo da nossa vaccina chloroformada contra a febre amarella. esta-
belecemos a technica simples que descrevemos a seguir:
a) Colher asepticamente os orgams (somente figado e baço) de um Macacus
rf, esus infectado com evolução característica e sacrificado em periodo de hypo-
^ermia. Pesar e collocar os orgams em grandes placas de Petri esterilizadas;
71
120
.Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
b ) Mergulhar em solução de phenol a 5 % durante 15 minutos;
c) Lavar, pelo menos duas vezes, em agua physiologica esteril;
d) Cortar em pequenos pedaços e triturar cuidadosamente em um gral com
areia lavada e esterilizada;
e) Addicionar 5 partes de agua physiologica em relação ao peso e emul-
sionar bem;
/) Filtrar em um funil com 4 folhas de gaze c verificar o volume obtido;
g) Collocar a emulsão em um frasco com rolha esmerilhada, evitando que
molhe o gargalo;
h) Addicionar chloroformio na proporção de l %;
i) Fechar o frasco e collocar num apparelho agitador que funccionará du-
rante duas horas;
j) Retirar e deixar o frasco durante o resto do dia e a noite na frigidaire;
k) No dia seguinte, agitar o frasco, filtrar o liquido novamente em gaze
num apparelho para distribuição;
l ) Distribuir em empolas de 2 cc., agitando de vez em quando o apparelho;
m) Verificar a esterilidade do producto pela semeadura em meios aerobios
e anaeróbios e sua pathogenicidade pela inoculação de 0,5 cc. em cobaia;
n) Verificar seu poder immunizante na dose de 1 cc. para o Macacas rhesus
em relação ao virus activo inoculado 15 a 20 dias mais tarde.
No estudo desta vaccina verificamos que o chloroformio puro tem acção des-
truidora sobre o virus amarillico, mesmo quando mantido em condições favorá-
veis de temperatura (2® C.), no fim de muito pouco tempo, sendo também evi-
dente a acção immunizante da vaccina.
Resumamos algumas das nossas verificações:
Macacus rhesus 30. — Inoculado, em 30-1V-1929, com 1 cc. de vaccina chlo-
roformada (partida 6) preparada com material do rhesus 26, depois de 3 dias
do preparo. O animal não apresenta reacçào alguma como consequência da in-
jecçào. No fim de quasi 3 meses é inoculado com o virus africano activo ( fíga-
do do rhesus 44), mostrando-se immunizado.
O rhesus 30 havia recebido antes desta injecçáo uma outra de sangue de um
rhesus, que não se mostrou posteriormente infectado.
Macacus rhesus 50. - Inoculado em 18-V1I-1929 com 1 cc. de vaccina chlo-
roformada (partida 9) preparada na vespera (tendo pois 24 horas apenas) com
material do rhesus 44. O macaco nada apresentou clinicamente de anormal, em-
bora tenha tido, no fim de muitos dias, pequenas reacções febris passageiras.
Em 22-X-1929 foi inoculado com o virus activo (emulsão de figado do rhesus 80);
nada apresentou de anormal, mostrando-se immunizado.
Vè-se pois, que a acção do chloroformio sobre o vinis é rapida, mesmo em
24 horas, e que a vaccina preparada segundo a technica indicada apresenta evi-
dente poder antigenico.
72
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
121
Em todo caso, não ha vantagem em se utilizar, no homem, producto muito
recentemente preparado; isto não acontece porque somente depois das varias
verificações a que são submettidas as differentes partidas da vaccina é que se
Poderão dar por concluídas; no fim de um mês pelo menos, é que a vaccina po-
derá ser entregue ao consumo.
Nesse prazo, mais efficaz se manifestará a acção do chloroformio e aconse-
lhamos que, depois de distribuídas, as empolas sejam conservadas durante uma
semana pelo menos na temperatura do laboratorio, num armario, e depois na
geladeira.
Assignalamos esta technica que em nossas mãos deu bons resultados expe-
rimentaes, para que possa ser estudada por outros e para que sejam verificadas
suas possíveis vantagens praticas.
II - Soro anti-amarillico
Pettit, Stefanopoulo e Frasey começaram a preparar o sôro anti-amarillico
'noculando animaes com doses grandes de emulsão de figado de rhcsus infecta-
dos com o virus amarillico. Fizeram as experiencias cm 2 cavallos. duas especics
de “baboons" ipapio e hamadryas) e um Cercopiihecus.
Em outro trabalho, os autores mostraram os resultados obtidos em 10 ma-
ncos, com o emprego do sôro dos animaes assim tratados: 5 inoculados com o
^ro de "baboons" e 5 com sôro de cavallo. Em duas experiencias o sôro foi
'njectado um dia antes da dose do virus; nas outras o sôro foi dado no mesmo
dia que o virus, no dia seguinte e 3 dias depois, sendo as injecções repetidas
P° r 3 ou 4 dias. Nenhum dos animaes se infectou e todos resistiram a uma
^gunda inoculação de virus feita 14 dias depois da primeira. De dois rhesus
: noculados com o virus, como testemunhas, um morreu e o outro se rcstabele-
Ceu de um grave ataque da infecção.
Sinval Lins não verificou resultados curativos apreciáveis com o sôro de
c °nvalescentes, o mesmo acontecendo com o sôro de cavallo, immunizado pelo
^ r - H. Aragão com repetidas injecções de virus da febre amarella (sangue c fi-
?»do de macacos infectados).
Fizemos também a immunizaçáo de um cavallo. inoculando-o repetidas vezes
com doses crescentes de virus amarillico. Este cavallo recebeu 9 inoculações no
espaço de 2 meses, sendo sangrado uma vez.
Nada poderemos dizer sobre o valor deste sôro, mesmo sob o ponto de vista
^Perimental, para a verificação dos resultados de Pettit e seus collaboradores,
P° r nos terem escasseado os animaes necessários.
Em todo caso, deante dos resultados já obtidos no Rio. o sôro anti-amarillico
a, é agora não desperta grandes esperanças para o tratamento da febre amarella.
73
122
Memórias do Instituto Butar.tan — Tomo V
III - Diasrnostico da febre amarella
Se o diagnostico post-mortem da febre amarella não apresenta grandes dif-
ficuldades, graças principalmente ás publicações de Rocha Lima. o mesmo não
acontece com o diagnostico intra-vitam, principalmente no inicio de epidemias e
nos casos benignos ou frustros, que são em geral clinicamente de difficil reco-
nhecimento, porque geralmente terminam pela cura e, assim, não permittem a
confirmação histo-pathologica.
O estabelecimento de um diagnostico seguro, nas condições assignaladas, é
de grande importância para a prophylaxia efficaz do mal.
Na phase actual do estudo da febre amarella, este aspecto do problema tam-
bém realisou os mais notáveis progressos quanto á sua solução.
Mostraremos, de um modo resumido, os methodos ultimamente estudados
para o diagnostico immunologico da febre amarella humana e experimental.
I.* - Desrio do complemento.
Desde que iniciou seus estudos sobre a febre amarella, Aragão procurou esta-
belecer um methodo de desvio do complemento para o fim de diagnostico. To-
mou como antigeno sôro de amarellento nos primeiros dias da infecção e extrac-
tos phenoiados de figado de rhesus infectado. Nenhum resultado apreciável obte-
ve. o mesmo acontecendo com Arèa Leão, que usou extractos glycerinados.
Moses obteve resultados mais apreciáveis com o auxilio de coctoantigenos
contendo vinis c, lançando mão de uma technica que permitte avaliar o resul-
tado da hemolyse e da precipitação, concluiu que é possível, deste modo, veri-
ficar a presença de precipitinas c de anticorpos fixadores do complemento no
sôro de doentes de febre amarella; que os anticorpos fixadores do complemento
são encontrados desde o 3.“ até o 24.° dias, formando-se com mais intensidade nos
primeiros dias (5.° c 6.° dia) e diminuindo em seguida até desapparecer; que
estes anticorpos são ausentes no sôro de indivíduos não infectados pela febre
amarella e também não são postos em evidencia nos doentes, quando o coctoan-
tigeno é preparado com orgam normal.
Joaquim Travassos, neste Instituto, não obteve resultados favoráveis com o
emprego dos cocto-antigenos, preparados segundo a technica de Kraus e Takaki-
Frobisher. por meio de uma reacçáo de desvio de complemento, obteve re-
sultados mais apreciáveis, usando como antigeno o figado de rhesus infectado,
tratado a principio, por um soluto de NaCl a 9 r í; este soluto, no fim de algum
tempo, foi diluido com agua distillada para chegar á concentração physiologica.
Segundo este autor, o methodo descripto offerece um meio para se identificarem,
pelo menos em porcentagem util, os convalescentes de febre amarella.
Pesquisas pessoaes com J. Travassos
Hindle havia já verificado que o melhor meio de se obter o vinis do figado
era o de se provocar a cytolyse. Para isto o figado é triturado e addicionado com
74
\
J. Lemos MosteíRO — Febre amarella experimental
123
soluto de NaCl a 9 'T , ficando algumas horas na geladeira, depois do que se
junta agua distillada para se ter uma concentração de NaCl a 9 .A mudança
brusca da pressão osmotica, rompendo as cellulas, liberta o virus em maior quan-
tidade e a sua actividade não é diminuída.
Baseados nesse facto, preparamos eu e J. Travassos, um antigeno com o qual
realizámos uma serie de ensaios, cujos resultados foram os mais animadores;
esses ensaies constituem objecto de um trabalho que publicámos e. por isto, ape-
n as serão aqui resumidos.
Antigeno : Logo que se inicia a queda da temperatura de um macaco infectado,
eüe é sacrificado; seu figado é pesado e cortado em pequenos pedaços, que são
lavados varias vezes em agua physiologica. Os fragmentos são, então, collocados
num gral e finamente triturados com areia esteril. Para cada gramma de orgam
junta-se 1 cc. de um soluto hypertonico, esterilizado, de chloreto de sodio. de
titulo conhecido (usamos a 10 'r). Mistura-se bem, colloca-se num frasco com
folha esmerilhada e contendo pérolas de vidro e deixa-se no frigo durante 24
boras. Junta-se, então, agua distillada esteril em quantidade sufficiente para que,
Adicionada á emulsão hypertonica. tome physiologico o soluto, isto é, com uma
c oncentraçáo final de NaCl correspondente a 8,5 V . A quantidade de agua ne-
cessária é addicionada rapidamente á emulsão do figado preparada na vespera.
Agita-se energicamente o frasco durante uma hora. Centrifuga-se ou filtra-se
a emulsão em papel e depois em vela Mandler, de 14 libras de pressão. O fil-
•fado obtido, de côr amarellada, é distribuído asepticamente cm empolas; verifi-
ca-se sua esterilidade e conserva-se no "frigo". Esse filtrado constitue o anti-
quo para a rcacção.
Estudando as propriedades do antigeno assim preparado, verificámos que,
n a dose de 0,2 cc. e em face de 2 unidades complementares, cllc é desprovido
de acção anti-complementar; também, nessa dose. é desprovido de acção hemo-
'Vtica. isoladamente ou em presença de um sóro.
Verificámos que 0,05 era a dose minima de antigeno, necessária para que.
Cni presença de 0.2 de sôro e de 2 unidades complementares, produzisse completa
fixação do complemento, sendo a leitura feita 10 minutos depois do apparecimento
'k hemolyse total no tubo testemunha do sôro.
Em face deste antigeno os soros específicos só precipitam quando usados os
elementos em partes iguaes. condição que deve ser observada ao se proceder
8 feacçáo.
Posteriormente verificámos que os antigenos preparados segundo a tcchnica
*cima. porem apenas filtrados em papel e phenolados a 0.3 T são mais activos,
F°dendo ser usados com vantagem.
Sôro a examinar: Verificámos em nossos ensaios, que alguns soros, mesmo
*<}üecidos a 55“ em banho-maria, eram dotados de propriedades anti-complemen-
* ar cs; outros produziam hemolyse, ora rapida (de 10 a 15 minutos», ora demorada,
0 Çue poderia correr por conta de hemolysinas naturaes que contivessem.
75
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
124
t
Entretanto, estas hemolysinas não exercem grande influencia na reacção,
segundo a technica que adoptamos, pois que, em alguns sôros cujas testemunhas
se hemolysavam rapidamente com uma ou duas unidades complementares, tivemos
resultados francos de fixação de complemento, usando 3 ou 4 unidades comple-
mentares.
Complemento : São sangradas 3 cobaias machos, e o sôro, separado e conser-
vado no frigo por 24 horas, é dosado principalmente em presença do antigeno e
de um soro certamente negativo, de preferencia de um estrangeiro recemchegado
ao paiz. A technica que adoptamos, permitte avaliar, em face do sôro, a maior
ou menor contribuição deste no phenomeno da hemolyse.
Na dose de 0,2, o nosso antigeno accelera a acção da alexina, mas. em pre-
sença de um sôro, mesmo negativo, elle contribue para a formação de um com-
plexo que fixa ligeiramente o complemento; dahi a necessidade de se empregar
a technica que descreveremos adiante.
Systcma hemolytico : A hemolysina empregada é a de coelho, anti-carneiro,
usando-se 3 a 4 unidades hemolyticas.
Os giobulos vermelhos são lavados e diluídos a 5 %.
Technica da reacção : No nosso trabalho com J. Travassos, sobre este as-
sumpto, estudámos pormenorizadamente a technica e os motivos da sua adopção,
razão por que não serão aqui reproduzidos.
Em rapidas palavras, a technica da reacção é a seguinte: a uma quantidade
igual do sôro a ser examinado (0,2 cc.) c de antigeno (0,2 cc.) addicionam-se
quantidades crescentes de complemento. Estas quantidades de complemento são
avaliadas por unidades e a distribuição é feita de maneira a se ter uma serie
crescente em unidades complementares.
A cada tubo da reacção deve corresponder um testemunha do sôro, ambos
com idêntica quantidade de unidades complementares. O volume é completado
para 1,5 cc. com agua physiologica c os tubos são incubados em banho-maria a
37°-38®, durante I /i hora, na 1.* phase da reacção, podendo esta incubação ser
feita durante 4 a 5 horas na temperatura do laboratorio ou por uma noite na
geladeira a 8°-I0°C.
As hematias, sensibilizadas com 3 a 4 unidades hemolyticas, são addicio-
nadas na 2.* phase da reacção. em volume de 1 cc., seguindo-se nova incubação.
A leitura da reacção se fará cerca de 10 minutos depois que o tubo teste-
munha do sôro respectivo, correspondente em unidades complementares, apre-
sente hemolyse completa, o mesmo acontecendo com um testemunha geral da
serie, dosado também por unidades complementares, para o que se tomará utn
sôro certamente negativo, de preferencia de um estrangeiro recemchegado ao paiz-
76
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
125
Figurada a hypothese da unidade complementar ser 0,3 o eschema abaixo
dará uma idéa da reacção:
Sóro a
dotar
Antigeao
Complemento a 1/2*
Unidade»
complemen- Qaantidade
Um
A(an ptajr-
liologlca
k
a
Globnlot a 5» •
3 a 4 unidade»
hemol) ticat
n
Reacção
02
0,2
1
1
0.3
0.8
rz
1 cc.
<
1 • de sôro 1
0.2
1
02
1,0
«
1 cc.
Reacção
0.2
02
2
í
0.6
0,5
5
1 cc.
D
T. de sôro
0,2
1
0.6
0,7
1 cc
f—
Reacção
0.2
02
3
i
0,9
0,2
rz
.Q
1 cc.
QJ
*• de sôro
02
1
0.9
0,4
z
1 cc.
-J
Reacção
0.2
0.2
4
{
1.2
ri
U
1 cc.
T. de sôro
0.2
1.2
o.t
1 cc.
etc.
etc.
etc
etc.
etc.
etc.
etc
Leitura da reacção
A leitura da reacção é feita cerca de 10 minutos depois que o testemunha
*<> sôro respectivo apresenta hemolyse completa. Com esta pratica conseguimos
®fastar os ligeiros impedimentos da hemolyse, que são observados, principalmente,
n °s tubos que contêm uma ou duas unidades complementares. A leitura realizada
24 horas após. sendo os tubos conservados no frigo, corresponde á feita na vés-
pera, principalmcnte nos tubos de menores unidades complementares.
Para avaliação da intensidade da reacção tomamos como norma o resultado
d° 2.° tubo em diante, isto é. os resultados com 2, 3, 4 c 5 unidades complemen-
tes, no caso de o sôro não mostrar impedimento. Nos sôros impedientes, o
r esultado corresponde á differença de gráu de hemolyse; neste caso, só são
tomadas em consideração as grandes differenças entre os tubos testemunha do
*ôro e da reacção propriamente dita c a leitura 6 feita após Yi hora de incubação,
tompo em que é avaliada a unidade complementar.
Na segunda serie das nossas experiencias, somente empregámos esta tcch-
n, ca para os sôros dotados de propriedades anti-complementares. Para os outros,
a technica foi a geralmente usada na reacção de fixação, tomando-se doses dc-
Cr escentes de sôros (0,2; 0,1 e 0,05 cc.), quantidade fixa de antigeno (0,2 cc.)
e duas unidades complementares.
Resultados experimentaes
Praticamos a reacção com sôros de doentes c convalescentes de febre ama-
tolla, de Macacus rhesus infectados e immunizados, com sôros de doentes de
0u, ras infecções, de indivíduos normaes residentes ou não em zonas onde a febre
77
12õ
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
amarella tem existido e, finalmente, com sôros de estrangeiros recemchegados
ao paiz.
Os quadros abaixo resumem os resultados experimentaes que obtivemos e que
poderão melhor ser apreciados no trabalho sobre o "Diagnostico sorologico da
febre amarella", também publicado em outra parte destas .Memórias:
1. Na febre amarella humana:
Soroí de
Posit. fracos
Posit- fortes
Suspeitos, diagnostico
não confirmado
3 0
I No de resultado po-
sitivo. a necroscopia
revelou impaludismo.
Febre amarella diag-
nostico clinico
1 1 2
9
0
Convalescentes
0
i
4
Após 4 a 20 mezes da
infecção
i
3
II
11. Na febre amarella experimental:
MACACUS RHESUS
Total
Negativos
%
Positivos
fracos
■*
Positivos
fortes
%
Normaes. . . . j
3
3
100
0
0
o
o
Apôs 3 a 5 dias
12
7
583
5
41,6
0
0
Após 6 a 9 dias
8
3
37.5
4
50,0
1
123
Após10a30dias
26
0
0
3
113
23
88.4
Após 31 a 70 dias
5
0
0
0
0
5
100
Mais de 1 anno
11
2
18.1
5
45.4
4
36,3
Positivos fracos : reacção 4-
Positivos fortes : reacção -r-
e + +
+ 4- e
*r + -t* H
III. Com soros de pessoas residentes em zona endemica do mal (Bahia).
Os resultados obtidos com o estudo de 67 soros de pessoas normaes, resi-
dentes em Salvador, são aqui resumidos:
Negativos
%
Positivos fracos
%
Positivos fortes
34
50,7
13
19.4
20
29,8
IV. Com sôros de estrangeiros recemchegados ao paiz.
Foram examinados 20 soros de Lithuanos e Japonezes que 24 horas antes
haviam desembarcado em Santos. Em todos o resultado da reacção foi negativo.
78
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
127
V. Com soros de doentes de outras infecções:
Soro, de doente, de
N reativos
Po,iti<ro, fraco.
Positivos fortes
Febre typhoide ....
18
0
2
Typho exanthematico . .
5
1
0
Doenças febris ....
13
1
2
Quasi todos estes soros foram enviados ao Instituto Bacteriológico para eluci-
dação de diagnostico e nos foram fornecidos com os resultados dos exames feitos.
Soros de pessoas normaes residentes em São Paulo, levados ao Instituto
^acteriologico para a pratica da reacção de VTassermann, foram também por nós
estudados, sendo as seguintes as percentagens medias que obtivemos: negativos,
positivos fracos, 13,3%; positivos fortes, 4,5%.
Estes resultados são commentados no trabalho feito em collaboração com
J- Travassos. A percentagem, embora pequena, de resultados positivos com soros
de pessoas residentes em S. Paulo e de doentes de outras infecções, explicar-se-ia
Pela circumstancia de algumas destas pessoas terem, possivelmente, residido em
*onas onde a febre amarella tenha existido cndemicamente; apezar de não nos
*er sido possível apurar o facto, elle se justifica, em todo caso, pelos resultados
°btidos com os soros de pessoas residentes na Bahia.
Verificámos que os soros de pessoas normaes residentes na Bahia c que
P°ssuem quantidade elevada de anticorpos fixadores de complemento (reacção
++++) são capazes de proteger o rhesus cm relação á infecção experimental,
c omo suecede com o soro de convalescente. O quadro abaixo mostra o resultado
desta verificação:
Soro de
P. N„ conva-
■escente de fe-
bre amarella.
A. P. Guima-
r *es. normal, re-
sidente na Bahia.
J- Magalhã es,
n °rmal. residen-
,e na Bahia.
Rnnllado, da
reieflo
Animar, de prara
Testemaabas
Resultados da
prolecçâo
Rhesu, 107. inocul. c/
2cc. de soro P. F. N„
cm 21-7-30; inocul. c/
virus 2cc. sangue do
rhesus 105 , cm 22-7-30.
Nada de anormal apre-
sentou.
Rhesus 108. ino-
cul. em 22-7-30
C/ virus 2cc.
sangue do rhe-
sus 105 . Morte
em 25-7-30 c/ le-
sões typicas.
Positivo
Rhesus 120, inocul. em
12-8-30 cl 2cc. de soro
O. A. P. O.; cm 13-8-30
inocul. cl virus (2cc.
de sangue rhesus 119 .
Nada de anormal apre-
sentou.
Rhesus 122, ino-
cul. em 13-8-30
c/ virus (2cc.
sangue do rhe-
sus 119,. Evolu-
ção característi-
ca, hypothermia,
sacrificado em
Positivo
■+ + ++•
Rhesus 121, inocul. em
12-8-30 cl 2cc. de soro
J. M.: em 13-8-30 inocul.
c virus 2cc. sangue do
rhesus 119 . Nada de
anormal apresentou.
21-8-30, apresen-
tando lesões ty-
picas.
Positivo
79
128
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Como os resultados destas verificações e as considerações que despertaram
constam de trabalho também encontrado neste volume, apenas transcrevemos, a
seguir, as conclusões a que chegamos:
I. A infecção amarillica, tanto humana como experimental, depois de certo
período da evolução, na convalescença e nos immunizados, pode ser diagnosti-
cada por uma reacçáo baseada na fixação do complemento.
II. Para esta reacção o antigeno será preparado com figado de rhesus infec-
tado, tratado por processo especial que liberte a maior quantidade possível do
vinis. Este antigeno apresenta especificidade e sensibilidade na infecção, tanto
humana, como experimental.
III. Os soros de nacionaes residentes em zonas onde o mal é endemico, em
proporção de quasi 50 'c. contém anticorpos fixadores do complemento, o que
não acontece com os soros de estrangeiros recemchegados ao paiz.
IV. Conforme se passa com os soros de convalescentes, os soros de nacio-
naes contendo anticorpos fixadores do complemento (reacção com -4 — j — j — [-), são
capazes de proteger o Macacus rhesus em relação á infecção experimental.
V. Tratando-se de soros de nacionaes oriundos de zonas de endemia amaril-
lica, este facto poderá falsear os resultados da reacção quanto ao diagnostico post-
infecçáo, mas isto também se dará da mesma forma com a simples prova de
protecção do rhesus pelo soro de convalescentes.
2.’ - Diminuição da alexina.
J. da Costa Cruz, procurou verificar se as propriedades alcxicas do sôro não
se encontravam alteradas na febre amarella; notou uma diminuição considerável
da alexina no sôro dos amarellentos, em relação aos indivíduos normaes, e a sua
regeneração rapida nos convalescentes. Costa Cruz tira deste facto elementos
para um methodo de diagnostico da febre amarella, o qual também pode servir
como orientador do prognostico.
Verificando que o sôro dos indivíduos normaes produz hemolyse total na
dose de 0,06-0,08 e mesmo em alguns casos de 0,04 em 30 a 40 minutos a 37*.
Costa Cruz toma como prova da insufficiencia da alexina (limite da reacçáo
positiva na febre amarella) a dose de 0.1 cc. de sôro.
O diagnostico da febre amarella pela dosagem da alexina forneceu a Costa
Cruz 93,6 °ó de resultados concordes com o diagnostico clinico. Dentre os 6,4
em desaccordo, em 5,7 % o diagnostico pela dosagem da alexina foi positivo, ao
passo que o diagnostico clinico foi negativo; e em 0,97 % de casos o diagnostico
clinico foi positivo e o da dosagem alexina negativo.
A dosagem da alexina serve também para o diagnostico na febre amarella
experimental do Macacus rhesus.
A reacção de Costa Cruz, ensaiada com resultados favoráveis também em
S. Paulo, por Luiz Salles Gomes, representa uma contribuição de valor, trazida
ao problema da febre amarella na actual phase do seu estudo.
80
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
129
Além da febre amarella, raros são os estados morbidos em que se pode ve-
rificar esta diminuição da alexina. Costa Cruz poude verifical-a na atrophia aguda
>marella do figado e em um doente de malaria dentre vários examinados. L.
Salles Gomes a verificou em soros de doentes de typho exanthematico, em 3
casos estudados: no 1.*, com reacção de Weil-Felix positiva a 1/800, observou
ausência completa de alexina; no 2.° convalescente, com Weil-Felix positiva a
1/10.000, ausência parcial e no 3.°, com Weil-Felix positiva a 1/200, o teor da
alexina mostrava-se normal.
Mesmo assim, a reacção de Costa Cruz, constitue um elemento de grande
valor para o diagnostico da febre amarella durante a evolução da infecção.
3-* - Modificações da coagulação sanguínea.
J. Vellard e M. Vianna verificaram que o poder coagulante do sôro não
apresenta modificações particulares no decurso da febre amarella, e que, pelo
contrario, a coagulabilidade do plasma é diminuída. Já accentuada no 2.° dia,
esta diminuição progride até o 7.* e 8.” dias, para depois voltar rapidamente ao
oormal, durante a convalescença.
A estas interessantes modificações da coagulação sanguínea, os autores não
'ucontram equivalentes cm outros estados morbidos, acreditando poderem ser
ellas utilizadas para o diagnostico precoce da febre amarella.
*•* - Diagnostico bacterio-immunologieo. Reacção de agglutinação não especifica.
Baseados no facto, hoje admittido, da existência do "biotropismo" de certos
Pcrmes, no decurso de algumas affccçòcs c infecções, principalmente devidas aos
rirus filtráveis, procurámos verificar se na febre amarella, tanto humana, como
ç *Perimental, não se encontraria algum microorganismo que se comportasse, para
com a infecção, como o Proteus XI9 em relação ao typho exanthematico, segundo
0 testemunho da reacção de Weil-Felix. Esse microorganismo poderia ser, então,
•Proveitado com fins de diagnostico, se o seu comportamento assim o autorizasse.
Nossas pesquisas sobre este ponto foram iniciadas no laboratorio de Henrique
^ r *gão, no Instituto Oswaldo Cruz e depois continuadas em S. Paulo. Sobre
e »as apresentámos um trabalho pormenorizado á 4.* Conferencia Sul Americana
^ Microbiologia. Hygienc e Pathologia, reunida em julho do anno passado no
* io de Janeiro.
As pesquisas foram feitas em relação a germes da flora microbiana intes-
,In al e urinaria de casos clínicos e de infecção experimental em Macacus rhesus.
microorganismos assim isolados pudemos verificar que os do genero Cory-
ne bacterium apresentam maior interesse, não mostrando os representantes do
^Po coli-typhico-dysenterico, entre os quacs o Proteus XI 9, nenhuma relação
,ni munologica dotada de certa especificidade.
Um typo microbiano isolado de caso clinico occorrido no Hospital de Isola-
^'nto de São Paulo, onde poude ser acompanhado durante toda a evolução do
81
130 Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
mal. foi estudado mais particularmente. Esse typo microbiano que recebeu o
numero FH4 e que denominámos Corynebacterium paraicteroides, mostrou evi-
dentes relações com a infecção, tanto humana, como experimental, sendo agglu-
tinado no titulo de até 1 por 1280 e com elevada porcentagem, pelos sòros dos
doentes depois do 3.° dia de temperatura, pelos de convalescentes e pelos de
animaes infectados e immunizados em relação ao vinis.
A technica da reacçào, os detalhes dos resultados obtidos e as considerações
que a respeito fizémos constam do trabalho referido.
Infelizmente, estas propriedades do typo microbiano estudado diminuem com
a repetição das repicagens, sendo, por isto, muitas vezes difficil a interpretação
dos resultados da reacção. Verificámos este facto em culturas datando de mais
de 3 meses.
Além dos elementos já assignalados, de que hoje se dispõe, para firmar-se
o diagnostico da febre amarella, de accordo com exames de laboratorio, é de
grande vantagem também, na occasião de epidemias, o isolamento de typos mi-
crobianos semelhantes ao que descrevémos e que poderão igualmente, verificada
a especificidade de suas propriedades agglutinantes em relação a sôros de conva-
lescentes ou da infecção experimental, ser utilizados para o diagnostico bacterio-
immunologico da febre amarella, segundo a reacção por nós assignalada.
Frobisher, mais recentemente, mostrou os resultados de reacções de agglu-
tinaçào que praticou com soros de doentes e convalescentes, empregando germes
isolados de fezes de macacos infectados, assim como typos do grupo coli-typhico-
dysenterico. entre os quaes o Proieus XI9 e o Proteus X2. Verificou frequente-
mente a agglutinaçáo, não havendo, porém, especificidade com qualquer destes
typos. Aos mesmos resultados havíamos chegado com o estudo de typos micro-
bianos semelhantes áquelles e com um Proteus X]9. Todavia, esse autor não
encaminhou suas pesquisas para outros grupos de micro-organismos (principal -
mente o Corynebacterium) . passíveis também de ser isolados dos doentes e dos
rhcsus infectados, conforme succedeu com o typo microbiano cujas relações iffl'
munologicas estudámos.
Capitulo V
Associações microbianas e biotropismo de certos microorganismos no
decurso da febre amarella humana e experimental
I - Considerações geraes
No decurso das doenças infectuosas. vários são os factores occasionaes o <
mais ou menos constantes, que contribuem para a sua pathogenia, ao lado
ngente etiologico. Alguns delles são inherentes ao organismo infectado: s
ceptibilidade, gráu de resistência, etc; outros dependem das condições do mei®
82
J. Lemos Monteiro — Febre amarclla experimental
131
e ainda outros são elementos super-ajuntados. Entre estes últimos, merecem at-
•er.ção especial as infecções secundarias ou sub-infecções, cujo estudo, muitas
vezes, apresenta grande interesse scientifico.
Justamente essa questão de associações microbianas, em nossos dias, occupa
lugar de destaque, principalmente por causa do interesse provocado pelos estudos
J obre o metabolismo microbiano e das relações das bactérias entre si e com o
meio onde vivem. Neste particular são bem conhecidos os phenomenos designa-
dos pelas expressões de symbiose, quando um germe favorece o desenvolvimen-
to de outro ou quando ambos são beneficiados, se juntos; metabiose, quando a
acção de um é seguida pela de outro microorganismo, e antibiose ou antagonismo,
guando a acção de um é prejudicial ao outro. Como o mechanismo intimo destas
relações não é ainda perfeitamente conhecido, VT. L. Holman julga ser mais con-
veniente empregarem-se os termos “associação", para indicar o phenomeno de
um modo geral, e “synergismo”, introduzido por Kammerer, para a relação en-
tre dois ou mais microorganismos, podendo o synergismo ser benefico ou anta-
gônico.
E’ já vastíssima a literatura sobre o "synergismo" bacteriano. quer encarado
sob o ponto de vista experimental, quer em referencia á flora microbiana do
°rganismo animal.
No caso das doenças infectuosas, estas noções estão intimamente ligadas ao
biotropismo” de Milian, no qual podemos enquadrar as “infecções de sahida",
de Nicolle.
Na verdade, podemos acceitar a existência de um polymicrobismo latente no
Or ganismo animal e conceber as doenças infectuosas como resultantes de uma
concorrência biologica, da qual resulta quasi sempre o triumpho de uma cspecic,
preexistente ou invasora, embora outras possam deixar acccntuados vestígios de
Su a acção (Jausion, Pecker e Mcersemanni.
Varias são as causas, physicas, chimicas e biológicas que, promovendo no
Or ganismo um estado de anergia, são capazes de provocar a manifestação deste
Polymicrobismo latente, constituído por agentes visiveis c ultra-visivcis.
Entre as de natureza biologica. que mais nos interessam no momento, deve-
collocar os virus chamados filtráveis.
São, na verdade, bem conhecidas c estudadas as infecções secundarias ou,
generalizando mais, o “biotropismo" de certos germes, verificado em infecções
c *usadas por virus filtráveis. Citemos alguns exemplos: sob a influencia do virus
'k influenza, desencadeia-se principalmente a acção de germes provocadores de
Pneumopathias (estreptococcos. pneumococcos, bacillo de Pfeiffer); também,
Como consequências, póde manifestar-se o virus da encephalite epidêmica.
O virus da varíola e da vaccina facilita a acção de estaphylococcos e estrep-
,0 coccos; bem como, no caso do ultimo, e em certas circunstancias, segundo al-
autores, a de outro virus, o da encephalite post-vaccinica. assumpto que
83
132
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
ultimamente vem preoccupando a attenção dos experimentadores, de vários paizes
da Europa sobretudo.
A’s vezes se observa a predominância de determinado grupo de germes ou
mesmo de determinada especie, como consequência da influencia do i’irus invasor.
Na peste porcina, sob a influencia de um vinis, entram em campo cocco-bacillos,
pasteurella, por muito tempo tidos como verdadeira causa da infecção.
No hog-cholera, facto semelhante occorre com predominância de uma salmo-
nella, como germe de sahida.
O mesmo facto pudemos verificar, juntamente com J. B. Arantes, em relação
á rinder-pest (peste bovina), por occasião da epizootia em S. Paulo, em 1920.
Alguns autores, baseados em idéas modernas concernentes ás fôrmas filtrá-
veis das bactérias, chegam a admittir a hypothese, ainda um pouco ousada, de
que os virus provocadores não sejam mais do que formas filtráveis e invisíveis
dos microbios cujo biotropismo põem em evidencia sob uma forma visivel.
Grandes progressos precisam ser ainda realizados, com o estabelecimento de
novos methodos experimentaes, para que se possa chegar á perfeita interpretação
e explicação de factos experimentaes, apparentemente em desaccordo com noções
classicas. Assim se poderá dizer dos trabalhos de Bronislava Fejgin sobre o typho
exanthematico e das relações do virus com o Proteus X/9 e a Rickettsia prowazeki,
os de Friedberger sobre a febre typhoide; os referentes á possível relação do
virus da verruga peruana e febre de Oroya com a bartonclla de Noguchi, etc.
A este respeito é justo mencionar um trabalho de Mayer (Martin) e Kikuth
(VFalter) do Instituto de Medicina Tropical de Hamburgo, referente á etiologia
da verruga peruana e febre de Oroya; nesse trabalho elles approximam as bar-
tonellas ás inclusões cellulares características encontradas nos nodulos da verruga;
essas inclusões estariam em connexào etiologica com o mal, representando uma
forma do virus que determina a formação tumoral. Os autores citados não podem
assegurar se estas inclusões serão o primeiro estagio da evolução das bartonellas
livres ou se as próprias bartonellas terão penetrado nos angioblastos, multipli-
cando-se ahi.
Esta evolução dos nossos conhecimentos sobre a biologia microbiana impõe-sc
também em vista dos modernos estudos realizados por Hadley sobre a dissociação
microbiana, dos trabalhos de Fontes sobre as differentes phases da evolução das
bactérias, e. finalmente, dos recentes estudos sobre as formas filtráveis das bac-
térias.
Por todos esses motivos é que julgamos ser interessante verificar se, entre
os microorganismos da flora microbiana intestinal e urinaria, existiria, na febre
amarella humana e experimental, algum que de qualquer maneira pudesse mostrar
relações com a infecção pelo facto de ter o seu biotropismo exaltado sob a influ-
encia do virus invasor; seria preciso então que elle se comportasse como 0
Proteus X/9 cm relação ao typho exanthematico, conforme o testemunho da reac-
cáo de Weil-Felix.
84
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
133
Ao lado do interesse scientifico destes estudos, cuja importância o prof. J.
C. G. Ledingham salientou em discussão na Royal Society, de Londres, este seu
ultimo aspecto nos traria indicações de caracter pratico, merecedoras de verifi-
cação.
As pesquisas que realizámos sobre a flora microbiana intestinal e urinaria,
Por terem sido já publicadas com seus pormenores e resultados, não serão repro-
duzidas novamente. Transcreveremos apenas as conclusões desse trabalho, que
foram as seguintes:
I - Em nossos dias. deve merecer maior cuidado, o estudo da flora micro-
biana de todo o organismo no decurso das doenças infectuosas e outros estados
morbidos.
II - Na febre amarella podem ser isolados, nestas condições, microorganis-
mos que apresentam certa relação immunologica com a infecção.
III - No decurso da febre amarella, tanto humana como experimental, os mi-
croorganismos do grupo dos Corynebacterium apresentam maior interesse pelo
facto de serem mais evidentes e constantes as suas relações immunologicas com
a infecção, em virtude do provável “biotropismo” por elles manifestado sob a
'nflucncia do vírus invasor.
IV - Um representante deste grupo, isolado de um caso clinicamente ty-
Pico e com confirmação histo-pathologica, soffreu de um modo constante a influ-
e ncia dos soros de doentes seguramente attingidos do mal, de convalescentes c
de Macacus rhesus experimentalmente infectados ou immunizados, não sendo in-
fluenciado pelos sôros normaes e, sõmente em proporção minima e inconstante-
mente, pelos de doentes de outras infecções.
V • Entre os principaes característicos desse germe destaca-se a modificação
de suas propriedades biológicas de accordo com o meio em que é artificialmentc
mantido, assim como o poder lytico in vitro de suas culturas e filtrados cm rc-
'*Çào ás hematias humanas e do Macacus rhesus (acção hcmolytica).
VI - A acção manifestada pelo Corynebacterium isolado c evidenciada pela
facção de agglutinaçào, poderá servir como elemento accessorio para o diagnos-
,ic o da febre amarella humana e experimental.
VII - Esta propriedade agglutinante pode-se alterar com a idade e repicagens
Su ccessivas cm meios artificiacs, donde a conveniência de a cultura ser relati-
'amente recente.
VIII - Sómente o estudo de numerosos casos, com o isolamento de novos
typos microbianos semelhantes, e outras pesquisas, determinarão com exactidào
0 Papel porventura desempenhado por este microorganismo no desenrolar da in-
ação pelo vírus amarillico, assim como a natureza da reacçáo com clle mani-
atada e a importância que poderá ter o seu emprego com o fim de diagnostico.
No presente trabalho descreveremos, porém, as pesquisas que realizámos
*°bre a possível existência de microorganismos no sangue de .Macacas rhesus
85
134
■Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
infectados com o vinis, pesquisas a que fomos conduzidos depois de conhecer os
trabalhos do professor Kuczynski sobre a etiologia da febre amarella.
Antes, porém, resumiremos os resultados desse autor, assim como os de Costa
Cruz, sobre o assumpto.
II • Bacillus hepato-dystrophicans Kuczynski
Kuczynski e sua collaboradora Hohenadel publicaram, em princípios do anno
passado, os resultados das suas investigações referentes á etiologia e pathogenia
da febre amarella, trabalho que logrou grande repercussão, taes as suas conclu-
sões sobre o assumpto.
Assim é que conseguiram, empregando meios culturaes especiaes semelhantes
ao que haviam usado para a cultura de Bartonellas e Rickettsias, o isolamento,
tanto na febre amarella humana, como na experimental, de um microorganismo
que denominaram Bacillus hepato-dystrophicans e que julgam ser o agente etio-
logico da infecção.
Conseguiram cultival-o, quer fosse do sangue, quer dos orgams dos animaes
infectados e o descreveram como um pequenino germe, de forma variavel, geral-
mente coccoide, que se apresenta ás vezes como finos bacillos de formas irre-
gulares. A cultura é a principio Gram negativa; mais tarde, principalmente nas
culturas velhas, esta propriedade é variavel.
Affirmam os autores que uma amostra do germe, n.° 312, isolada da 11.* pas-
sagem, após 19 dias de permanência na estufa a 37", e inoculada num Macacus
rhesus, determinou a infecção e morte do animal em 13 dias, com as lesões carac-
terísticas. As passagens subsequentes da cultura em macaco não determinaram
a infecção, porém a immunidade em relação ao sangue virulento.
Os autores, mais tarde, conseguiram isolar amostra mais virulenta com a qual
prepararam uma vaccina que disseram ter protegido o macaco contra a infecção
experimental. Assignalaram também que a cultura modifica suas propriedades
nos meios artificiaes.
Considerando o Bacillus hepato-dystrophicans como o agente etiologico da fe-
bre amarella, alem da sua forma de viras, Kuczynski mostra o seu modo de pen-
sar referente á pathogenia do mal.
Kuczynski foi convidado a vir ao Brasil para fazer a demonstração dos seus
resultados e estudar o mal em nosso meio. Chegado ao Rio de Janeiro, em com-
panhia de sua collaboradora, durante muito tempo guardou suas culturas, não as
fornecendo para estudo e confirmação, mesmo aos technicos do Instituto Oswaldo
Cruz, onde havia organizado o seu laboratorio.
Na capital Federal, perante a Academia de Medicina e na 4.* Conferencia
Sul-Americana de Microbiologia. Hygiene e Pathologia, fez a exposição dos seus
resultados e das suas theorias a respeito do palpitante assumpto.
Nessa occasião solicitamos a Kuczynski as suas culturas para nossos estudos
em S. Paulo, porém não fomos, neste intento, mais felizes que os collegas dc
86
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
135
Manguinhos. Só mais tarde, de accordo com os desejos do director do Instituto
Oswaldo Cruz, o prof. Kuczynski accedeu em fornecer culturas do seu germe a
Costa Cruz, illustre assistente daquelle Instituto.
111 - Verificações de Costa Cruz sobre o bacillo de Kuczynski
Costa Cruz communicou á Sociedade Brasileira de Biologia, os primeiros
resultados dos seus estudos bacteriológicos sobre as culturas que lhe foram for-
necidas.
Pelo seu interesse, resumiremos os resultados a que chegou Costa Cruz e
°.ue foram os seguintes:
Morphologia do germe: - Amostra 645 do Bacillus hepato-dystrophicans. Apre-
senta-se em geral como pequenos bastonetes de 1 a 3 micra de comprimento, por
0,3 a 0,7 de micron de largura. Immoveis, não produzem esporos, coram-se fa-
cilmente pelas cores básicas da anilina, retém bem o Gram; em meios menos
favoráveis são Gram-duvidosos. Nos esfregaços, encontram-se isolados ou em pe-
quenas agglomerações, ás vezes em pequenas cadeias de 3 elementos, podendo
®cr confundidos com formas bacillares longas. Formas ramificadas em V e Y
não são raras.
Culturas: Não se desenvolvem em aerobiose nos meios habituaes (caldo
simples, caldo sôro, gelose ascite sangue, sóro coagulado, sôro de leite, meio de
Noguchi com c sem hemoglobina). Nos meios de Kuczynski, com orgam, desen-
volvem-se bem em 2 ou 3 dias: filamentos numerosos nascem do orgam, lem-
brando cogumelos. Nesses meios, mas privados de orgam, só se observa desen-
volvimento se a semeadura é muito abundante; a parte turva de 2 ou 3 cm. da
5 cmentc augmenta e ganha profundidade. Em anaerobiose, a amostra desenvol-
ve-se em todos os meios.
O meio de escolha é o caldo glycosado acido, em anaerobiose, com pH pro-
*imo a 6,4. Ha turvaçào entre 24 e 48 horas e grande deposito no fundo. A tem-
Peratura óptima é 37", no meio de escolha; também se desenvolve a 26° (tem-
Peratura do laboratorio), porém mais lentamente. A 20° não se desenvolve. Em
gelose glycosada a 1 % (pH— 6,4), em camada alta, o desenvolvimento se faz
a, é 1 cm. da superfície, turvando o meio. Na superfície, não ha proliferação. Em
rocios para fermentação de assucares (agua peptonada Martin- pH — 6,4, assu-
ntes a 1 %), observa-se fermentação intensa da glycose, glycerina e galactose
fcom producção de acido e gazes». Em presença da maltose. mannita, arabinose,
ra ffinose, inulina, dextrina, lactose ou saccharose, o desenvolvimento é lento,
sendo difficil dizer-se se houve, mesmo no fim de 20 dias, leve acidificaçáo dos
roeios. Não coagula o leite e não liquefaz a gelatina.
Resistência ao calor : Não resiste a 55” durante meia hora. Em 20 minutos
a, nda ha germes vivos, podendo proliferar com repicagens abundantes (1,5 cc.).
Ô7
136
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Filtrabilidade : Em velas Chamberland F, pressão de 40 cm., os germes ficam
retidos e estereis as semeaduras.
Poder pathogenico: O germe não se mostrou pathogeno para o camondongo,
cobaia, coelho e Macacus rhesus.
Propriedades antigenicas: Em agua physiologica é agglutinado com sôros hu-
manos, tanto normaes, como de convalescentes de febre amarella, ao titulo de
1/20 ou 1/40. Com sòro de 2 rhesus hyperimmunizados não houve agglutinação
mesmo a 1/20.
Dois rhesus inoculados, um com 5 cc. de cultura de 5 dias em caldo simples
e outro com 10 cc. de cultura abundante em caldo acido, contendo hemoglobina
de coelho, não apresentaram alterações de saúde.
Decorridos 20 dias, o 1“ foi inoculado com 2 cc. de sangue do rhesus 14,
colhido no 1.® dia da febre (virus amarillico) e o 2.® com I cc. do mesmo sangue.
Ambos succumbiram de infecção amarillica, typica do ponto de vista clinico e
histo-pathologico.
Conclusão: As propriedades encontradas no Bacillus hepato-dystrophicans
Kuczynski, amostra 645, não autorizam concluir que haja uma relação etiologica
entre esta bactéria e a febre amarella. Trata-se de um bacillo diphteroide, parente
muito proximo do Corynebacterium lymphophilutn Torrey, 1916 (J. of Med. Res.
1916, vol. 34 p.655), da qual não se distingue pela fermentação dos assucares.
IV - Pesquisas de microorganismos no sangue de Macacus rhesus
infectados com o vinis amarillico
Depois que tivemos conhecimento pessoal dos trabalhos do prof. Kuczynski,
por ouvir sua exposição feita por occasiáo dos congressos commemorativos do
Centenário da Academia Nacional de Medicina em julho do anno passado, resol-
vémos iniciar a pesquisa de microorganismos no sangue dos nossos macacos ex-
perimentalmente infectados com o virus.
Os nossos primeiros resultados foram resumidos numa ligeira nota que anne-
xamos ao nosso trabalho publicado nos “Archivos de Hygiene”. Mostrámos nella
ter isolado do sangue de um rhesus infectado um germe que muito se asseme-
lhava ao descripto por Kuczynski e que classificámos como um Corynebacterium.
Escrevémos então:
"Continuando nossas pesquisas relativas á presença de microorganismos na
corrente circulatória de rhesus experimental infectado pelo “virus” amarillico, fi-
zemos ultimamente algumas observações que julgamos de interesse assignalar.
Como meios culturaes. alem dos commummente usados, empregamos agora um
meio preparado segundo a formula indicada pelo prof. Kuczynski. De algumas
experiências realizadas tivemos até agora somente um resultado positivo.
88
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
137
Sangue do coração do rhesus 44, colhido durante um período de reacção fe-
bril, é semeado nos differentes meios. No fim de 4 dias, somente nos tubos com
0 novo meio cultural, se observa ao microscopio a presença de microorganismos.
Nas preparações coradas pelo methodo de Gram e Giemsa, verificam-se pequenos
bacillos ou melhor coccobacillos e elementos coccoides, Gram positivos, reunidos
geralmente em grupos. Nas primeiras repicagens para o mesmo meio, assim
como para gelose-sôro e gelose sangue, o germe mantem mais ou menos o mesmo
*specto morphologico. Já na 3.* sub-cultura, tanto em meio original, como nos
°utros assignalados e também no caldo glycosado, se verificam, alem dos ele-
mentos coccoides, bastonetes Gram positivo, com a disposição e outros caracte-
risticos morphologicos do grupo Corynebacterium.
A adaptação do germe aos meios que não sejam o original se faz com diffi-
culdade. Ella está sendo continuada e também estudadas as differentes proprie-
dades do microorganismo.
Um estudo minucioso a respeito deste germe, assim como das outras pesqui-
585 realizadas com o mesmo fim em outros rhesus infectados, será objecto de
,r abalho posterior.
Em todo caso, o facto do isolamento de germes com o aspecto de "Coryne-
bactcrium”, do sangue de rhesus infectado vem corroborar a nossa conclusão de
rçue “estes microorganismos têm provavelmente o seu "biotropismo” exaltado sob
8 influencia do virus amarillico e que somente a continuação dos estudos nos in-
dicará a sua verdadeira influencia no processo morbido amarillico".
Por esta descripçào summaria, verifica-se que o germe que isolámos do rhc-
Su s 44, embora fosse um Corynebacterium, segundo confirmação de pesquisas
Posteriores, apresenta algumas differenças biológicas com o isolado por Kuczynski
e estudado por Costa Cruz. A principal differença é que o germe de Kuczynski
n *o se cultiva, absolutamente, em meios aerobios. O mesmo parecia acontecer
c ®m o germe que estudámos; porém, como assignalámos. com difficuldade con-
íc guimos sua adaptação aos meios que não fossem o original. Assim é que, em
Relose-sangue a nossa amostra se cultiva cm aerobiosc, com relativa facilidade,
0 niesmo acontecendo com o meio gelose-sangue-glycosado e gclose-sangue-cho-
c ®late.
Dado o interesse despertado pela verificação de Corynebacterium na febre
8r narella, em seguida áquella nossa descripçào de um typo isolado da flora intes-
bnal de um amarellento e possuidor de certa relação immunologica com a infec-
to humana c experimental, e em resultado das observações feitas sobre o germe
Kuczynski pelo nosso estimado collega Costa Cruz, parece-nos necessário dar-
11,05 os resultados das pesquisas que realizámos de microorganismos no sangue
rhesus experimentalmente infectados com o virus, assim como em outros ani-
a,8 's inoculados.
89
138
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Technica empregada.
As semeaduras foram feitas com sangue de 4 Macacas rhesus experimental-
mente infectados com o vinis amarillieo. Foram usados os rhesus nos. 43, 44,
53 e 62, cuja historia clinica já foi feita em outra parte deste trabalho.
O sangue colhido por puncção cardíaca, com todos os cuidados de asepsia,
foi immediatamente distribuído em tubos contendo os vários meios culturaes.
Além dos meios commummente usados em bacteriologia (meios communs, com
sôro. ascite e glycosados) empregámos meios especiaes preparados segundo a for-
mula indicada pelo prof. Kuczynski na sua communicação á 4.* Conferencia Sul-
Americana (meios com e sem orgam). As culturas foram mantidas na estufa a
37° e examinadas constantemente para a verificação da presença de microorga-
nismos por ventura desenvolvidos.
Resultados.
Com o sangue de dois rhesus (53 e 62) observou-se o desenvolvimento de
germes que não apresentavam os característicos do descripto por Kuczynski. Num
observou-se o desenvolvimento, mesmo em meio não especial, de uma bactéria
Gram positiva e noutro (alem de outros elementos), de um germe Gram negativo,
este com os característicos de uma Pasteurella. Estes dois rhesus estavam em hy-
pothermia e, provavelmente, já teria havido invasão microbiana do sangue. O
mesmo se verificou com orgams (figado) colhidos na necropsia e também semea-
dos nos meios.
Com sangue, colhido em período de reacçáo febril, do rhesus 43 não se obser-
vou desenvolvimento microbiano.
Com o do rhesus 44, colhido em período de reacção febril, observou-se no
fim de alguns dias e nos meios especiaes somente, a proliferação de um micro-
organismo que, pelos seus caracteres morphologicos e culturaes. se approximava
do descripto por Kuczynski, merecendo, por isto, um estudo mais accurado.
Faremos a seguir a descripçáo das principaes características morphologicas
e biológicas deste germe, que denominámos R44s, c sua classificação.
Posteriormente, a pesquisa de micro-organismos foi praticada com sangue,
colhido cm reacção febril, de 3 outros rhesus infectados com o virus, sendo nega-
tivos os resultados das culturas.
1.* - Corjncbacterium Rtts. Isolamento.
Em 15-VII-1929 foi sangrado, por puncção cardíaca, o rhesus 44, na occasiáo
em que a temperatura estava a 40°, sendo o sangue immediatamente semeado
nos differentes meios. Em I7-VII-1929 foi o animal sacrificado, por se achar n»
phase hypothermica; por occasiáo da necropsia semeou-se ainda o sangue do co-
ração e figado. No dia seguinte, como resultado desta segunda semeadura.
90
J. Lemos Monteiro — Febre amaiella experimental
133
observou-se em todos os tubos o desenvolvimento microbiano de um bacillo Gram
negativo, provavelmente germe de invasão.
O resultado da cultura da primeira semeadura, em 15-Y r Il-1929, quando o
animal estava em reacçáo thermica. despertou maior interesse.
Em 20-VI1-1929, examinadas as culturas, verificou-se nos meios de Kuczynski,
e m esfregaços corados pelo methodo de Gram, a presença exclusiva de microor-
ganismos muito pequenos, coccoides ou cocco-bacillos Gram positivos, reunidos
geralmente em grupos, vendo-se alguns elementos isolados.
Nas sub-culturas verificou-se que o germe não se desenvolvia facilmente
nos meios communs em aerobiose. O seu desenvolvimento se dava no meio de
Kuczynski, com o mesmo aspecto de elementos coccoides. Observou-se também
que $e desenvolvia nos meios com sôro, gelose sôro em aerobiose, mas com dif-
iculdade, formando inducto quasi que invisível; ainda assim desenvolvia-se um
pouco melhor em meio com sangue, isto é, na gelose-sangue. Em meios líquidos
(caldo sôro), observou-se no fim de alguns dias uma turvação ligeira e deposito;
em caldo glycosado também se notou ligeira turvação e deposito viscoso no fim
de alguns dias. Em qualquer destes meios e em aerobiose foi difficil a conser-
vação do germe. Esta dificuldade foi, porém, menor em gelose-sangue onde
era a bactéria mais facilmente mantida quando resemeada semanalmente, ou
cada 15 dias. o mesmo acontecendo com gelose-sangue-glycosada c gelose-san-
Sue-chocolate.
2-* - Descripção do Corynebaetcrium Rl Ir.
O germe em questão apresenta um grande pleomorphismo, de modo que seu
•specto morphologico differe segundo o meio em que vegeta.
Em meios com ascite (de Kuczynski c gelose ascite i apresenta-se como pe-
quenos elementos coccoides, não se observando, sinào muito raramente, elementos
bacillares. Estes pequeninos elementos coccoides são geralmcnte reunidos em
lassas onde se apresentam como numerosos pontos. São Gram positivos, não
re $istindo porém a uma descoloração muito intensa. Lembram também o aspecto
das Rickettsias, quando coradas pelo azul de Loeffler.
Em gelose-sangue, porém, o seu aspecto já é outro: apresenta-se como ba-
cillos, geralmente pequenos, Gram positivos, com pontos mais escuros. Notam-se
^«mentos finos em uma das extremidades e largos na outra, piriformes, ou em
(°nna de halteres e tomando disposição varia, em “palissade ”, em V, etc.
Colorindo-se pelo methodo de Ncisser, verificam-se granulações metachro-
‘fiaticas numerosas, com tamanho e disposição que acompanham o corpo bacillar.
•'lesmo pelo Giemsa e azul de Loeffler estas granulações se evidenciam, co-
r *ndo-se mais intensamente.
Tem-se a impressão de que. nos meios com ascite, só se córam estas granu-
’*Çòes; dahi a forma coccoide dos elementos, e em razão de se confundirem os
Cor Pos bacillares na massa dos elementos.
91
MO
Memórias do Instituto Butantsn — Tomo V
Acção sobre os assacares.
Em meio agua-sôro. usando como indicador o vermelho phenol, verificámos
a acção do germe em relação a alguns assucares. Os resultados constam do qua-
dro abaixo:
ASSUCAR
RESULTADO NO FIM DE Dl FFERENTES
DIAS NA
ESTUFA A
57»
24 horas 48 horas
3 dias 4 dias
s dias
7 dia»
12 dias
15 dias
1 Maltose . .
2 Glycose . .
3 Levulose .
4 Saccharose
5 Lactose . .
+ ' +
+ +
- 1 “
1 v + 1 1
-rC
-rC
tC
Legenda i — nio acidifica •+• acidifica
-r acidifica ligeiramente — C acidifica e coagula o adro.
Verifica-se pelo quadro acima que o R44s não fermenta a maltose nem a
lactose mesmo no fim de 15 dias a 37°; a glycose começa a ser fermentada ao
cabo de 48 horas e, depois de 5 dias. observa-se, além da fermentação, a coagu-
lação do sôro; a levulose é fermentada em 24 horas e a saccharose somente no
fim de 12 dias. Não fizemos ainda a verificação em relação a outros hydrocar-
bonados.
Classificação.
Com os elementos já mencionados classificamos o nosso R44s como um Co-
ryncbactcrium. Quanto á especie, encontramos difficuldade em filial-o a alguma
já descripta e do nosso conhecimento. Pelo seu aspecto morphologico e cultural
em certos meios verifica-se que se pode approximar ao microorganismo semelhante
a Rickcttsia (RickettsiaAike organism) descripto por A. W. Sellards como agente
etiologico da “tsutsu-gamushi", ou febre das enchentes do Japão, transmittida por
certas especies de percevejos, conhecidos naquelle paiz pelo nome vulgar de
“akamushi", infecção que se assemelha com o typho exanthematico e com a febre
das montanhas rochosas, as quaes se differenciam principalmente pelo compor-
tamento experimental do virus em relação ás cobaias.
Como differenças mais notáveis entre o nosso e o microorganismo descripto
por Sellards. verifica-se ser o ultimo Gram negativo (no nosso, isto acontece se
se prolongar a descoloração pelo álcool) e ter apenas 2 granulações collocadas
geralmente uma em cada polo. Em relação aos assucares, o comportamento do que
isolamos está descripto no quadro acima; o descripto por Sellards fermenta a
glycose, maltose e dextrina com formação de acido (sem gaz) e não modifica a
lactose e saccharose.
92
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
141
Somente um estudo mais detalhado do germe que isolámos poderá permittir
s ua verdadeira collocaçáo systematica. Apresenta elementos essenciaes para sua
classificação entre os Corynebacterium ; por outro lado, não são poucas as suas
características (em certos meios culturaes) que o approximam das Rickettsia, de
accordo com descripções de diversos autores.
Nestas condições, para o momento, designaremos o nosso microorganismo
Por Corynebacterium R44s, que indica sua origem (sangue do rhesus 44».
Pathogenicidade.
A pathogenicidade do Corynebacterium R44s foi verificada em relação á
cobaia, ao coelho e ao Macacus rhesus.
Cobaia 475 inoculada com 2 cc. de cultura em caldo glycosado (proveniente
da 3.* sub-cultura em gelose-sangue) de 3 dias; inoculação sub-cutanea em 30-
^ II- 1 929. Esta cobaia não apresentou reacçáo febril, porém morreu na manhã de
16-VIII-I929. Na necropsia observaram-se phenomenos congestivos nos orgams,
ligado principalmente.
Os orgams, examinados pelo dr. J. R. Meyer, "não apresentavam alterações
histo-pathologicas dignas de reparo".
Cobaia 342 - Inoculada em 30-VI 1-1929 com a mesma cultura que a anterior,
Porém por via peritoneal, não mostrou alteração thermica até 3-VIH-1929; nessa
°ccasiào apresentou parcsia c temperatura de 35\2, sendo sacrificada e necrop-
Sl *da nesse dia.
Pela necropsia notou-se: figado congestionado, baço de aspecto normal; su-
Pfa-renaes de coloração amarella, não congestas, talvez ligeiramente augmen-
l *das. Vesícula biliar cheia. Bexiga cheia; a urina não continha albumina.
Sangue do coração e exudato peritoneal, semeados em meios communs, não deram
Altura. Pelo exame directo no exudato peritoneal não se observaram germes.
Estudados também pelo dr. J. R. Meyer, os orgams desta cobaia, “em nu-
merosos cortes examinados, não apresentavam lesões importantes; apenas no
Pulmão se vè generalizado processo congestivo e nos rins, bem como no figado,
^generaçào parcnchymatosa dos epithelios".
0 sangue do coração destas 2 cobaias, retirado durante a necropsia, foi se-
cado em differentes meios communs, não se obtendo culturas.
Coelho 446 - Inoculado como as cobaias, porém na veia (2 cc.) também em
^Vl M929, nada apresentou de anormal durante longa observação.
Macacus rhesus 59 - Inoculado com a cultura do R44s em caldo glycosado
* Proveniente da 3.* sub-cultura em gelose sangue» de 48 horas. Inoculação sub-
^tanea de 5 cc. em 29-V1I-1929.
Como se vê do graphico 44, o rhesus não apresentou reacçáo febril durante
u m mês de observação; passado esse tempo, em 30-VIII-1929 foi inoculado com
vir us amarillico (emulsão de figado do rhesus 66». seguramente activo e com
,ç stemunha positivo ( rhesus 69).
93
Miicacus rhesus
Gruphico 44
J. Le.v.os Montetro — Febre amarella experimental
143
Depois de 4 dias de incubação o macaco apresentou uma infecção amarillica;
a temperatura attingiu 40®,6 em 4-X-1929; cahiu a 38’. 7 no dia seguinte e depois
se manteve em media normal, resistindo o macaco á infecção.
Macacus rhesus 71 - Inoculado em I2-1X-1929 com emulsão de um tubo de
cultura do Corynebacterium R44s em gelose ascite (2.* sub-cultura neste meio,
tendo vindo da gelose-sangue;. Emulsão em 5 cc. de agua physiologica e ino-
culação intra-peritoneal.
O rhesus não apresentou reacçào febril nem qualquer symptoma anormal.
Em 22-X-I929 foi inoculado com o vinis (emulsão de figado do rhesus 80).
Como consequência desta inoculação, verificou-se depois de vários dias pequena
elevação thermica até 40° e volta ao normal, resistindo o macaco á infecção.
Macacus rhesus 72 - Inoculado em 12-IX-1929 com emulsão de um tubo de
cultura de 24 horas do Corynebacterium R44s em gelose-sangue, onde vem sof-
rendo repetidas repicagens. Emulsão em 5 cc. de agua physiologica e inoculação
Peritoneal. No 2.° dia a temperatura attingiu 40 .2 e voltou ao normal, onde per-
maneceu por vários dias, no fim dos quaes tornou a attingir 40®. Verificaram-se
voltas da temperatura ao normal e varias ascensões além de 40®, permanecendo
Porém o animal sem outros signaes quaesquer de infecção.
Em 22-X-1929 foi inoculado com o virus amarillico (emulsão de figado do
r hcsLs 80;, tendo tido apenas reacçào febril acima de 40". No 4." dia da inocu-
kçâo a temperatura voltou á media normal e ahi permaneceu.
Como se vè por estes resultados, o R44s apresenta certa pathogenicidade para
os animaes de laboratorio. Duas cobaias, inoculadas com cultura ainda recente,
succumbiram á injecçáo. Para o coelho o germe não se mostrou pathogeno. Em
r cIaçào ao Macacus rhesus o mesmo se poderia dizer; apenas a cultura cm gelose-
sangue, meio aerobio que se mostrou mais favoravel ao seu desenvolvimento,
determinou reacçào febril do animal, reacçào que nada de característico apre-
sentou em relação á infecção amarillica.
Propriedades antijtenieas e relações eom a febre amarella.
De grande importância seria o verificar se o Corynebacterium isolado apre-
sentava, nas culturas em meios artificiaes. qualquer relação com a febre amarella
experimental; isto se poderia observar pela sua acção antigenica em relação ao
virus, manifestada pela protecção dos rhesus inoculados anteriormente com elles,
° u pela agglutinação soffrida sob a acção de sôros de convalescentes ou de ma-
ncos immunizados.
Quanto ao primeiro aspecto da questão, verificámos, como se vê acima, que
'"n rhesus, o n.° 59. inoculado com a cultura em caldo glycosado, não se mostrou
'"imunizado em relação ao virus, tendo tido infecção amarillica, caracterizada
Pela curva thermica, embora não mortal.
Outros dois rhesus também foram inoculados com cultura; o de n.® 71, com
Altura em gelose-ascite e o de n.® 72, com cultura em gelose-sangue; ambos re-
95
144
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
sistiram a uma segunda inoculação do virus, podendo-se dizer que apenas tiveram
uma infecção ligeira. Náo acreditamos numa relação verdadeiramente especifica
do germe em relação á infecção experimental, pois, além de o ultimo virus ino-
culado poder estar attenuado, náo se usou testemunha por falta de macacos nor-
maes na occasiáo (o que inoculámos com esse fim foi dos primeiros já usados
e se mostrou refractario).
Além disto, obtivemos idêntico resultado com a inoculação da cultura do
outro Corynebacterium que isolámos das fezes de um doente. Esse germe mostrou
relações immunologicas com a infecção, soffrendo agglutinações em titulos ele-
vados, com os sòros de convalescentes e de macacos immunizados, como já assig-
nalámos em paginas anteriores.
Dos resultados obtidos com este germe. FH4, ( Corynebacterium paraicte-
roides ) descrevemos o seguinte:
Macacas rhcsus 60 - Inoculado por via sub-cutanea, em 29-VII-1929, com
5 cc. de cultura em caldo glycosado, de 48 horas, do Corynebacterium FH4 (cul-
tura após 5 meses do isolamento). Não apresentou reacçáo febril, nem outro
symptoma qualquer e em 30-VIII-1929 foi inoculado com o virus amarillico (emul-
são de figado do rhesus 66) seguramente activo, com testemunha positivo ( rhe -
sus 69). No 4.° dia após esta inoculação, a temperatura esteve a 39°,6 e 39°,8;
no dia seguinte, 39°,9 e 39'\3, mantendo-se depois em media normal ao nivel de
39° durante longa observação. Assim, pois, o rhcsus parece ter tido uma infecção
benigna cm relação ao virus activo, resistindo á sua acção.
Resultado mais ou menos semelhante obtivemos com outro rhesus (n.° 19)
oue recebeu varias inoculações do FH4 (de cultura mais recente) entre as quacs
a 2.* determinou reacçáo febril; o animal resistiu a uma inoculação do virus
amarillico. feita mais de 3 meses depois.
Estes resultados e os que descrevemos a seguir, nos autorizam a explicar o
facto como devido a um poder antigenico náo especifico destes germes ( Coryne-
bacterium ), os quaes tèm, possivelmente, seu biotropismo exaltado, como já accen-
tuámos, por influencia do virus invasor, motivo pelo qual agiriam augmentando
a resistência do animal em relação ao virus.
Agglutinaçáo - E' difficil proceder-se a esta reacçáo com o Corynebacterium
R44s, visto não ser muito abundante o crescimento do germe nos meios mais
adequados para isto. Náo utilizámos a gelose-sangue ou gelose-sôro, porque
estes elementos alterariam as propriedades do germe nas repicagens, e não for-
neceriam portanto indicações seguras. Em caldo glycosado, embora o desenvol-
vimento fosse muito escasso, seria o meio mais adequado para se obterem as
emulsões microbianas e este já havíamos utilizado com outro Corynebacterium
(FH4).
Assim, para a pratica da reacçáo lançámos mão das culturas em caldo gly-
cosado, centrifugadas, sendo a emulsão dos germes feita em agua distillada e a
dos sôros em agua physiologica a 8 4 / w . de modo a se ter uma concentração final
96
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental 145
de NaCl de 4 , mais favoravel para se obter emulsões estáveis, não auto-
•gglutinaveis.
Verificámos que o germe apresenta agglutinação em relação a certos sôros
e que esta propriedade se modifica com as repicagens, desapparecendo no fim
de certo tempo. Por algumas reacções, que praticámos juntamente com J. Tra-
'■assos, verificámos que de vários sôros examinados, apenas dois, de convalescen-
tes. agglutinavam a emulsão; os outros, tanto de doentes (sôros já antigos), como
de Macacus rhesus immunizados, não soffreram acção alguma.
A agglutinação manifestada não se manteve nos dias seguintes, após novas
fepicagens mesmo com o sôro com o qual era a principio observada. Assim, o
r esu!tado com um destes sôros, foi o seguinte em 3 verificações:
Em 1 -V 1 1 1- 1 929 titulo de agglutinação 1/640 (+- f)
Em 4-VIII-1929 „ „ „ 1/640 (++)
Em 14-V1U-1929 1/20 (++)
A pesquisa de anticorpos fixadores do complemento com antigeno preparado
c °m o Corynebacierium R44s, foi negativa.
V - Pesquisas em outros animaes inoculados com o virus
Em outros animaes, alem do Macacus rhesus, também inoculados com o virus
^sangue de rhesus infectados) foram feitas algumas verificações no tocante ao
,s olamento de microorganismo na corrente circulatória.
Dentre estes animaes, considerados refractarios ao virus, as pesquisas foram
fe >tas em um cão, 3 gatos e 3 cobaias.
Com o cão e as cobaias, que nenhuma rcacçáo apresentaram em consequen-
Cl * da inoculação do virus, as semeaduras foram feitas com sangue colhido por
Puncçáo cardíaca depois de decorridos 7 e 20 dias da inoculação, sendo constan-
le, tiente negativos os resultados da cultura, em meios, tanto aerobios, como anae-
r °bios.
Resultado negativo obtivémos tambem em 2 gatos. No terceiro gato exami-
n *do (gato I) e que teve reacçáo febril, sendo a puneçáo cardíaca praticada nesta
0<:ca siào (12* dia), o resultado da cultura foi positivo. Effectivamente, decor-
adas 48 horas de estufa a 37°, observou-se, somente em caldo glycosado anaeróbio
tubos contendo ao fundo pequenos pedaços de musculo cardíaco e a superfície
COtI > uma camada de oleo de vaselina) o desenvolvimento de cultura, com turvaçào
1 deposito no fim de alguns dias.
O interesse deste resultado reside em que a cultura pura obtida era de um
Microorganismo que. por seus caracteres morphologicos e tinctoriaes, se identi-
‘ lc *va facilmente a um Corynebacterium. Esse germe designamos por Corynebac-
lrr 'um G I s, para indicar sua origem (sangue do gato 1), como já havíamos feito
Corn o isolado do rhesus 44.
97
146
.Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Coryncbacicrium G 1 s - Não faremos, no entanto, uma descripção minuciosa
deste microorganismo, porque seu estudo está ainda em andamento, devendo ser
objecto de um trabalho posterior. Apenas assignalaremos algumas das suas ca-
racterísticas principaes.
O Coryncbacterium G 1 s somente se desenvolve em meios anaeróbios, de
preferencia glycosados. Em gelose sangue, simples e glycosada, em aerobiose, o
desenvolvimento, mesmo depois de 2 repicagens, é nullo, não sendo possível,
mesmo com o auxilio de uma lente, verificar a presença de colonias. Não conse-
guimos, por enquanto, a adaptação do germe neste meio, conforme aconteceu
com o anteriormente estudado.
O Corynebacicrium G 1 s é Gram-positivo. não resistindo, porém, a uma
descoloração muito intensa. Corado pelo Giemsa, azul de Loeffler ou pelo Neisser,
cada bacillo revela a presença de 2 granulações metachromaticas em situação
polar, approximando-se neste aspecto ao microorganismo já citado e descripto por
Sellards. Este aspecto é o que se observa na cultura em caldo glycosado anaerobio
original; nas das sub-culturas subsequentes, o aspecto é idêntico, apenas as gra-
nulações parecem um pouco menores.
1‘athojrcnicidade e relação com a febre amarella.
Uma cultura em caldo glycosado da 6.* repicagem foi inoculada, por diffc-
rentes vias, em cobaias, coelhos e gato, na dose de 1 a 3 cc„ e num Macacus
rhesus, por via peritoneal, na dose de 5 cc.
Em resultado destas inoculações os animaes nada apresentaram de anormal
(reacçào febril ou outro symptoma), podendo-se concluir pela não pathogenici-
dade do Coryncbacterium nas condições experimentaes descriptas. Suas relações
com a febre amarella não se evidenciaram, pelo menos a julgar pelo resultado
do unico rhesus inoculado.
Este (Macacus rhesus 113) foi inoculado com aquelle germe em 30-7-30 e.
3té o momento, decorridos mais de 30 dias, nenhum signal denotou da infecção-
&S
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
147
Nestas condições, julgamos acertado no momento conservar a conclusão, já
emittida em trabalho anterior, de que esses typos de Corynebactcrium apresentam
um provável "biotropismo” sob a influencia do virus amarillico.
Somente novos estudos, baseados nas idéas modernas sobre a dissociação
nticrobiana e differentes phases da evolução das bactérias, poderão um dia es-
tabelecer definitivamente o verdadeiro papel representado pelos corynebacterios
°u, mais particularmente, por algum dos seus representantes no decurso do typho
amarillico; esses novos estudos poderão também, o que é mais provável, mostrar
que esses microorganismos são meros saprophytas existentes no organismo e cujo
biotropismo” se exaltou sob a influencia do virus; isto viria esclarecer as rela-
ções immunologicas, que podem ser observadas entre elles e a infecção, relações
^sas que seriam de natureza não especifica e devidas a formação de anticorpos
collateraes por elles provocada.
SUMMARIO E CONCLUSÕES GERAES
Na introducçào mostramos a importância que apresenta em nossos dias a
pfotobiologia (assim podendo denominar-se o ramo da bacteriologia que estuda
05 virus chamados filtráveis) e os progressos realizados nestes últimos annos no
fstudo destes elementos.
No que diz respeito á febre amarella. a verificação de Stokes, Baucr e
^udson, referente á natureza do agente etiologico, assim como á sensibilidade de
Urtl simio asiatico á infecção, representa um novo passo no estudo dos virus, cons-
•'hiindo também um dos factos culminantes na historia da febre amarella que,
c °nio consequência, entrou para o terreno verdadeiramente experimental.
Explicamos os motivos da realização dos nossos estudos em Butantan, accrcs-
Ce ntando que faremos uma resenha das modernas contribuições á febre amarella
^Perimental, consequentes aos estudos fundamentaes da commissào americana
na África, e que assignalaremos de preferencia as pesquisas pessoacs que rea-
támos sobre o assumpto.
O trabalho é dividido em 5 capítulos:
O 1 trata do virus da febre amarella; o II. dos transmissores e vehiculadores
w ° virus; o III, da anatomia e histologia pathologica na infecção experimental; o
da immunologia da febre amarella e. finalmente, o V, das associações micro-
l8 nas e biotropismo de certos germes no decurso da infecção humana e experi-
mental.
I. O capitulo I é dividido em varias partes, nas quaes são estudados os virus
^ericano, africano, sua identidade, conservação e propriedades e o virus arnaril-
c ° neurotropico.
99
148
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Em relação ao virus americano, verifica-se, pelas experiencias descriptas,
o isolamento do virus responsável pela febre amarella no Brasil; esse virus foi
isolado em S. Paulo de um doente vindo do Rio de Janeiro já no periodo de in-
cubação do mal. Este virus poude resistir activo, determinando a infecção, depois
de ter permanecido em congelação a -S C. durante 18 dias.
Os rhesus apresentaram menor sensibilidade ao virus americano; o periodo
de incubação é geralmente mais longo e a infecção pode evoluir, ás vezes, sem
elevação thermica.
Dois rhesus foram inoculados com sangue do doente, colhido no 1.® dia de
febre. Um dos animaes teve a infecção amarillica, conseguindo-se 3 passagens
do virus de macaco a macaco, entre as quaes a segunda também foi mortal; o
outro rhesus teve uma infecção benigna, mostrando-se immunizado em relação ao
virus africano inoculado posteriormente.
Dois rhesus foram inoculados com sangue do doente, colhido no 2.® dia de
febre, um resistiu a uma segunda inoculação do virus africano, mostrando-se
immunizado; o outro não. Um rhesus inoculado com uma mistura de sangue do
doente, colhido nos l.°, 2.° e 3.° dias, apresentou uma infecção atypica, sem ele-
vação de temperatura.
Outro facto que se observa nos resultados experimentaes obtidos é a iden-
tidade dos virus responsáveis pela febre amarella entre nós e na África. Os rhe-
sus que resistiram á infecção com o virus americano mostraram-se, com uma
excepçáo apenas, immunizados em relação ao virus africano, seguramente activo
inoculado posteriormente.
O virus africano estudado foi o da raça Asibi, proveniente de Lagos, Nigéria.
O seu comportamento experimental foi estudado em numerosas passagens de
macaco a macaco, quer usando o material fresco, in natura, quer depois de seceo
e conservado cm condições óptimas.
Resultados mais seguros na infecção experimental foram conseguidos com *
inoculação de sangue fresco, colhido no periodo de reacção febril do macaco in-
fectado, e com a inoculação de emulsão de fígado, colhido após o animal ter sido
sacrificado em periodo de hypothermía. A actividade do virus pode apresentar
variações decorrentes de diversos factores, entre os quaes também se deve col*
locar a sensibilidade individual dos animaes.
O virus sccco, convenientemente obtido e conservado, manteve sua actividade
por mais de 3 meses, e determinou, no fim deste prazo, a infecção com evolução
característica.
Por motivos vários, o virus pode-se attenuar e, neste caso, apenas determin* f
reacção febril, quando inoculado; outras vezes, essa reacção pode não existir»
sendo a infecção inapparente, porém o animal se mostra immunizado em relaçá®
a uma segunda inoculação de virus seguramente activo.
Para o estudo do virus amarillico, indicamos a technica empregada par*
a contcnsão, inoculação e sangrias dos Macacus rhesus, assim como os mei
para a conservação do virus in natura e do virus secco no vacuo.
100
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
149
Uma parte de interesse nos estudos realizados sobre as propriedades do virus,
t a que se refere á sua resistência á acção dos antisépticos. Mostramos em por-
menor as experiencias realizadas; nellas evidenciamos que o virus africano (figado
de rhesus infectado) mesmo emulsionado em agua phenolada a 5 Voo e formolada
a “ Voo* porém mantido em condições óptimas ou próximas de temperatura (2°C),
é capaz de. mesmo no fim de 27 dias. determinar a infecção com evolução clinica
inapparente (comprovada com passagem positiva no fim de 16 dias).
A permanência em condições desfavoráveis de temperatura durante certo
tempo destróe o virus, embora a emulsão conserve suas propriedades antigenicas.
O facto de não se ter conseguido a filtrabilidade do virus, quando no orga-
nismo do mosquito, attribuimos ás condições de meio em que as experiencias
foram realizadas por outros autores. Se as emulsões dos insectos infectados
forem feitas em meios favoráveis, diminuindo os phenomenos physico-chimicos
que acarretam a retenção do elemento activo, os resultados serão provavelmente
favoráveis, e mostramos os resultados que a respeito obtiveram posteriormente
outros pesquisadores.
Assignalamos os ensaios realizados por differentes autores, que mostram a
Possibilidade da passagem do virus através da pelle e das mucosas, mesmo intactas.
Estudamos, por fim. o virus neurotropico para o camondongo branco, confir-
mando so trabalhos de Theiler. Mostramos a este respeito as passagens que con-
seguimos fazer até o momento, tendo observado também a infecção amarillica
d o Macacus rhesus pela inoculação do virus depois da 3.* passagem pelo cerebro
fo camondongo branco.
II. Em seguida são estudados os transmissores e vchiculadores do virus ama-
r 'Hico, sendo o assumpto encarado sob differentes aspectos. Assignalamos a con-
firmação, sob o ponto de vista experimental, da transmissibilidade do virus pela
Picada do Aédcs aegypti. As modernas aequisições scientificas sobre a trans-
missibilidade do virus são revistas: a possibilidade da transmissão do virus por
°utras espccies de Acdes, além do aegypti e por mosquitos de outros generos
Segundo as verificações de Bauer e os mais recentes resultados obtidos por Davis
e Shannon; os trabalhos de Aragào c Costa Lima, pelos quaes se verifica a pos-
sibilidade de o virus ser vehiculado pelas fezes de Aedes aegypti infectados, da
Passagem do virus de mosquito a mosquito e da infecção do Aedes macho.
Mostramos depois os resultados das nossas experiencias quanto á possibili-
dade de o virus amarillico ser vehiculado pelas fezes de percevejos ( Cimcx lectu-
hrtus)' Com effeito. verificamos que percevejos alimentados em rhesus infectados
e em periodo de reacção febril, eliminam, depois de alguns dias, o virus pelas
fezes, que se tornam infectantes e determinam a infecção experimental caracteris-
,Ic a. quando inoculadas em rhesus normaes. O tempo de eliminação do virus pelas
k*es dos percevejos não deve ser superior a 15 dias, c depende de certas con-
dões. como o tamanho do insecto, a quantidade de sangue infectante ingerida,
e,c -; deve perdurar, provavelmente, durante todo o tempo em que houver elimi-
101
150
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
nação dos productos oriundos da alimentação. O viras não soffre evolução no
organismo do percevejo, nem se multiplica nelle; apenas resiste na sua passagem
pelo tubo gastro-intestinal, sendo o insecto, pois, um mero vehiculador.
Sabendo-se que o percevejo, depois de cheio, geralmente defeca no lugar da
picada ou em suas proximidades, esta possível vehiculação do viras tem impor-
tância epidemiologica. Na hypothese de a alimentação anterior ter sido num indi-
víduo doente, em período propicio, o percevejo poderá depositar, por occasião de
uma picada em indivíduo são, fezes que seriam virulentas. O viras, então, atra-
vessaria a pelle, principalmente estando esta irritada como consequência da pica-
da; isto poderia ainda ser facilitado pelo facto de poder o material ser esfregado
pela própria pessôa ao coçar-se por causa do prurido. As experiencias descriptas
faliam a favor dessa possibilidade.
Um rhesus normal foi inoculado com emulsão de fezes de percevejos, reu-
nidas do 2° ao 12.° dia após a picada infectante num Macacus rhesus em período
de reacçáo febril.
A infecção teve evolução clinica característica e confirmação histo-patholo-
gica. Passagens positivas foram conseguidas pela inoculação de sangue, colhido
em período febril, e de emulsão de figado do macaco assim infectado.
A’s vezes pode não existir a infecção clinicamente typica, porém os animaes
inoculados com as dejecções emittidas dentro do prazo em que estas poderiam
conter o viras mostram-se immunizados em relação a uma segunda inoculação
de viras activo.
Deantc destas verificações experimentaes é justo que os serviços de prophy*
laxia amarillica não se descuidem destes insectos (Cimex lectularius ) , por ven-
tura existentes nas habitações de onde são removidos doentes de febre amarella.
E' possível que, por este mechanismo, outros hematophagos também possam
vehicular o viras amarillico.
Tal facto que verificamos, assim como os observados por Aragáo e Costa
Lima (de que as fezes do Aèdes são também infectantes e que o viras se pode
transmittir directamente de mosquito a mosquito) vem explicar certos casos da
epidemiologia da febre amarella, até então inexplicáveis.
Mostramos depois o resultado das pesquisas preliminares, que realizamos
para a verificação da possibilidade da existência de depositários do viras entre
os animaes domésticos. As experiencias foram feitas com o cão e, embora não
autorizem conclusões definitivas, fazem suppor que durante um certo numero
de dias esse animal pode ser um depositário do viras amarillico.
As experiencias com gatos foram mais interessantes sob este ponto de vista-
De um destes animaes, inoculado com o viras e que apresentou reacção febril
e outros symptomas, colhemos sangue no 12° dia, obtendo, pela sua inoculação
no Macacus rhesus, uma infecção amarillica característica.
Segundo indicam as provas de immunizaçào dos rhesus inoculados com o san-
gue de gatos, depois de decorridos 30 dias, é provável que o viras possa persistir
no organismo destes felinos por período superior a este prazo.
102
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
151
Assignalamos os resultados semelhantes sob certos pontos de vista, obtidos
por Bauer e Mahaffy, com a inoculação de certos macacos africanos.
Accentuamos a importância que, sob o ponto de vista epidemiologico da febre
amarella, possam ter os resultados experimentaes obtidos e a necessidade do
Proseguimento destes estudos sob outras condições.
III. Em relação á anatomia e histologia pathologica, nos limitamos a trans-
crever os laudos dos exames histo-pathologicos, praticados pelo dr. Juvenal R.
Meyer, em material de rhesus inoculados com fezes de percevejos infectados.
Estes laudos confirmam a infecção amarillica assim obtida e, portanto, os resul-
tados experimentaes que assignalamos no capitulo anterior.
IV. Depois são estudados vários aspectos do problema da immunologia da
febre amarella. De inicio mostramos a importância destes estudos, não só sob
0 ponto de vista scientifico, como também do ponto de vista pratico, no que diz
respeito ao diagnostico da infecção e preparo de elementos com que se poderá
combater o mal.
A respeito da vaccinaçào preventiva, estudamos as differentes technicas
para o preparo da vaccina: technica de Hindle, technica de Aragáo c a technica
que empregamos.
Como consequência de estudos experimentaes e pelos resultados obtidos no
Preparo da vaccina contra outros virus ( rinder-pest ), empregamos o chloroformio
como elemento para a attenuaçào ou destruição do virus nas emulsões vaccinicas.
A technica para o preparo da vaccina amarillica, segundo o methodo que
Preconizamos, é dada em todos os seus pormenores. Mostramos ainda os resul-
tados experimentaes que obtivemos e pelos quaes se evidencia a innocuidade da
v accina e o poder protector dos rhesus em relação ao virus amarillico segura-
mente activo.
Referimo-nos ao sôro anti-amarillico de Pettit e seus collaboradores, assim
como ao que obtivemos pela immunização de um cavallo, não depositando, en-
tretanto, grandes esperanças nesse meio therapeutico.
Em relação ao diagnostico da febre amarella mostramos a importância de
Poder ser elle estabelecido com segurança ainda em vida do doente, principal-
mente no inicio das epidemias e nas formas frustras do mal, quando apresenta
Cinicamente grandes difficuldades.
Dos methodos de laboratorio que surgiram como consequência dos modernos
estudos assignalamos, em primeiro lugar, as rcacções baseadas no desvio do com-
plemento. Mostramos a nova technica que estudamos juntamente com J. Travasos,
nosso companheiro de trabalho e cujos resultados são os mais animadores possi-
v eis. Este methodo se baseia no emprego de um antigeno amarillico (fígado de
Macaco infectado, tratado sob certas condições) de grande especificidade, e pela
feitura da reacção praticada com um numero crescente de unidades complemen-
tes comparada com a do testemunha do sôro, com numero idêntico de unidades
c °rnplementares, quando os sôros são dotados de propriedades anti-complemcntares.
103
152
Memórias do Instituto Butantan — Tonto V
Pelos resultados obtidos, a reacção poderá servir para o diagnostico da in-
fecção, tanto humana, como experimental, mas principalmente para a verificação
dos convalescentes e dos rhesus immunizados. Outra vantagem, decorrente dos
estudos praticados com soros de naturaes do paiz, residentes em zonas onde o mal
tem surgido, e de extrangeiros recemchegados e sensiveis, é que poderá fornecer
indicações sobre as pessoas naturalmente immunizadas e as que não o são, ser-
vindo, portanto, para seleccionar os indivíduos que necessitam da vaccinaçáo pre-
ventiva contra a febre amarella.
Os sôros dos nacionaes normaes e residentes em zonas onde o mal é endê-
mico (Bahia), apresentam, na proporção de quasi 50 anticorpos fixadores do
complemento, ao passo que os de extrangeiros recemchegados dão resultados
sempre negativos.
Por conseguinte, o estabelecimento do diagnostico, pelo desvio do comple-
mento. no primeiro grupo, deve ser cercado de certas reservas, conforme, aliás,
também deve acontecer quando se recorre á prova do poder protector dos sôros
em relação á infecção experimental, porquanto aquelles soros se mostram capazes
de proteger o Macacus rhesus, desde que sejam também dotados de anticorpos
fixadores.
Assignalamos, em seguida, a reacção de Costa Cruz, baseada na dosagem da
slexina, que é diminuída na febre amarella em evolução; as modificações da
coagulação sanguínea estudadas por Vellard e Vianna e finalmente a reacção
que estudamos, baseada na agglutinaçào não especifica, manifestada por certo
Coryncbactcrium em relação aos sôros de doentes, convalescentes e de Macacus
rhesus experimentalmente infectados.
V. No capitulo V estudamos uma face interessante do problema da febre ama-
rella, que trata das associações microbianas e do biotropismo de certos germes
sob a influencia do vinis amarillico. O assumpto é tratado de um modo geral
á luz dos conhecimentos modernos sobre os phenomenos de dissociação micro-
biana, mutações e formas filtráveis das bactérias. De um modo mais especial e
em virtude das experiencias pessoaes, estudamos o problema das associações mi-
crobianas e o biotropismo dos Coryncbactcrium sob a influencia do virus, facto
que provoca no organismo a formação de anticorpos collateraes, que podem ser
evidenciados.
Mostramos depois os resultados obtidos por Kuczynski, e as verificações de
Costa Cruz relativas ao Bacillus hcpato-dystrophicans, considerado um Coryncbac-
terium.
Finalmente, descrevemos nossos resultados experimentaes sobre a pesquis*
de microorganismo no sangue dos Macacus rhesus infectados e de outros animaes
inoculados. Assim é que conseguimos isolar dois typos de Corynebacterium,
cujos caracteres e propriedades são estudados; pelo comportamento experimental
104
J. Lemos Monteiro — Febre amarclla experimental
153
destes germes apenas confirmamos nossa conclusão anterior de que microorga-
nismos desse grupo poderão ter o seu biotropismo exaltado sob a influencia do
virus amarillico.
• m
Concluindo este trabalho sobre os modernos conhecimentos a respeito da
febre amarella experimental e os estudos que realizamos em Butantan desde
Principios de 1929, desejamos expressar o nosso agradecimento a todos os com-
panheiros de trabalho no Instituto, particularmente a J. B. Arantes, J. Travassos
e R. Godinho, pelo constante auxilio que nos prestaram, e a J. R. Meyer, do Ins-
tituto Biologico.
Ainda todo o nosso reconhecimento aos prezados mestres prof. H. da Rocha
Lima e H. de B. Aragão, a cujo saber e experiencia muitas vezes recorremos e,
muito especialmente a Afranio do Amaral que, facilitando as nossas pesquisas
c om o material e apparelhamento necessários, assim como pelos seus conselhos
e orientação, vem cumprindo também um dos pontos capitaes da sua actual e
Proveitosa administração em Butantan: o estudo dos problemas relacionados com
a pathologia humana e que mais de perto interessam a nossa nosologia.
105
1Í4
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
“ESTUDOS SOBRE A FEBRE AMARELLA
Modernos conhecimentos sobre a infecção experimental”
br
J. LEMOS MONTEIRO
S U M M A R Y
Introduction
Chapter I
The yellow fever Tirus
I • Susceptible animais.
II - The American virus (experimental part).
III - The African virus (experimental part).
IV - Identity of the African and American viruses.
V - Preservation and properties of the yellow fever virus.
1 - Contention and inoculation of Macacos rhesus.
2 - Preservation of the virus in na t ura.
3 - Preservation of the dried virus.
4 - Virus resistance.
5 - Its resistance to the action of antiseptic under certain conditions.
6 • Virus fiitrability.
7 - Virus penetration through the skin.
V'I - Neurotropic yellow fever virus and mouse sensitiveness.
Chapter II
Hosts and carriers of the yellow fever virus
I - Transmission by Aêdes aegypti.
II - Transmission by others mosquitoes than Aêdes aegypti.
III - Transmission by the faeces of infected Aêdes.
IV - Possibility of the virus transfer from mosquito to mosquito and infection of
male Aêdes.
V • Experiments with bed-bugs. Transmission of the yellow fever virus by the faeces
of infected bed-bugs, Cimex lectularius.
VI - Possibility of the existence of carriers of the yellow fever virus among domestií
animais: a) experiments with the dog; b) experiments with the cat.
Chapter III
PatholoRical histology of experimental yellow fever
Chapter IV
Immunity in yellow fever
I - Yellow fever vaccine.
1 - Hindie’s technic.
2 - Aragão’s technic.
3 - Chloroform vaccine.
II - Anti-yellow fever serum.
106
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
155
III . Biological reactions.
1 - Complement fixation.
2 • Alexine reductíon.
3 • Changes in blood coagulation.
4 - Non-specific agglutination.
Chapter V
Bacterial associations and biotropism of some microorganismo
in lhe course of human and experimental yellow fever
I - General considerations.
II - Bacillas hepato-dystrophicans Kuczynski.
III - Costa Cruz verifications about Kuczynski's gcrm.
IV - Microorganisms in the blood of .Macacos rhesus infected with yellow fever viras
and of other animais inoculated with it.
1 - Corynebacterium R44s.
2 - Corynebacterium G I s.
Abstract and general conclusions
Bibliography
ABSTRACT AND CONCLUSIONS
The A. first shows the importancc bomc nowadays by protobiology, that
^ r *nch of bacteriology dcaling with the filterable viroses. This is shown by the
Pfogress recently made in the study of these organisms, especially in regard to
yellow fever as provcn by the work done by Stokcs, Bauer and Hudson concem-
,n g the nature of its etiological factor and the susceptibility of an Asiatic monkey
,0 it. Both of these facts represem importam steps in the history of yellow fever
v hich has definitely cntered into the experimental stage.
This monograph based on various experimental investigations made at the
Instituto Butantan begins with a revision of many recent observations on experi-
mental yellow fever as derived from the fundamental work done by the American
Commission in VTest África. The present contribution is divided into 5 chapters:
ehapter I dealing with the yellow fever viros; chapter II, with hosts and carriers
°I the viros; chapter III. with the pathological fcature of experimental yellow
^ cv er; chapter IV, with immunity in yellow fever; chapter V, with bacterial
as sociation and biotropism of certain germs isolated in the course of the disease,
human and experimental.
I - The first chapter is divided into several sections in which the characters
°1 the viros, of both the African and the American strains, are discussed together
v, *h their identity, properties and means of preservation. The American strain
the one responsible for the late epidemics of yellow fever in Rio. whence a
107
156
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
patient in the incubation period of the disease came to São Paulo. The virus
isolated from this patient, after having been kept in ice box at -8°C. for 18 days,
caused the infection of a rhesus monkey.
However, upon inoculation. specimens of Macacus rhesus proved to be less
sensitive to the American virus, than to the African, thç incubation period of
the former in general being longer and the infection induced by it sometimes
developing no feve r .
Of two monkeys inoculated with that patient’s blood taken on the first day
of fever, one developed a typical infection which enabled three successive
transfers of the virus from monkey to monkey, the second transfer also being
fatal, whilst the other developed a mild infection and resisted a later inocula-
tion of the African virus.
Of two rhesus inoculated with human blood taken on the second day of
fever. one resisted a further inoculation with the African virus, thus showing to
have become immune, whilst the other did not resist it. A rhesus inoculated
with a mixture of blood taken from the same patient on his first, second and
third days of fever, developed an atypical infection characterized by absence
cf fever. With only one exception all the rhesus injected with the American
strain resisted further inoculations with the highly virulent African strain, a fact
which confirms the identity of these two strains.
The action of the African strain (Asibi strain), isolated in Lagos, Nigéria,
was investigated, through numerous transfere from monkey to monkey, by using
virulent material either fresh or dried and preserved under optimal conditions.
Best results were secured in the attempts to experimentally reproduce the infect-
ion by using either fresh blood taken in the couree of the febrile period froffl
an infected monkey or an emulsion of liver taken from a monkey killed during
the latest or hypothermic period of infection. Several facts appear to influence
the activity of the virus, and there seem to exist some individual variations in
the susceptibility of the rhesus to the virus.
The dried virus, if conveniently prepared. was active after three months of
preservation, then being still able to cause a typical infection. The activity of
the virus becomes attenuated under various conditions so as to cause but s
febrile reaction on inoculation; sometimes, however, this reaction does not appear
(non-apparent infection) but the monkey becomcs immune to a further inocula-
tion of the active virus.
The A. describes the technic he used in holding, injecting and bleeding the
rhesus monkeys as well as in preserving the virus both in natura and after des-
sication in the vacuum. In the light of the experiments made. the resistance of
the virus to antisepties is very interesting: an emulsion made in water with the
liver of a rhesus infected with the African strain plus 0.5^ phenol and 0.2 'e
formalin and kept under optimal or nearly optimal conditions (2°C.), was able.
even at the end of 27 days, to bring about the infection, clinically non-apparent.
108
J. Lemos Mosteiro — Febre amarella experimental
157
>'et proved by a positive transfer of the virus to another monkey, this being
inoculated with the 16 day-old liver emulsion.
Keeping the virus for some time under unfavourable temperature conditions
* s detrimental to the maintenance of its virulence but not to the retention of its
antigenic power.
The unfilterability of the virus when this is found in the body of the mosquito
Síems to be due to some improper conditions under which the various investi-
Bators have tried the experiment. That the virus is filterable while in the mos-
quito is anticipated, provided that some precautions be taken to diminish the
influence of the physico-chemical phenomena responsible for the retention of the
'irus by the candle. In this connexion the results obtained by Bauer and Mahaffy
are quoted as compared with those obtained by the A. in the filtration of the
cow pox virus (vaccine virus) when found in a proper médium such as glucose
broth, pH— 8.0. The penetrability of the virus through the normal skin and the
uiucous membranes confirms what has been demonstrated in this respect by nu-
u^erous experiments conducted by previous investigators.
Finally, Theiler’s experiments on white mice are confirmed by the successful
inoculation of rhcsus with the neurotropic virus from the 3rd. transfer through
mice.
II - In the second chapter, concerning hosts and carriers of the yellow
fever virus, the transmission by the sting of the Aèdes aegypti is cited, while
°ther fcatures of our newer knowledge of the virus propagation in nature are
also reviewed, special reference being made to the following topics: transmission
°f the virus both by species of Aèdes besides aegypti and by mosquitocs of other
Kcnera as verified by Bauer and still more rccently by Davis and Shannon; pos-
aibility of the virus being carried by the faeces of infectcd Aèdes aegypti or
^ e ing transferred from mosquito to mosquito and even from a female mosquito
,0 a male as found by Aragão and Costa Lima.
Several experiments are described in detail to show the possibility of the
v 'rus also being carried by the faeces of bed-bugs ( Cimex lectularius) . Bed-bugs
fed on monkeys infected with yellow fevcr during the fcbrile period, a few days
'ater begin eliminating the virus with their faeces; these become so virulent as
*° cause a typical infection when experimentally injected into normal rhesus.
The period of the virus elimination by the bed-bug faeces scems not to last over
*5 days and depend upon such conditions as the insect size, amount of infectcd
blood sucked etc.; it is very likely to last only so long as the excretion of the
'ufected faeces goes on. Anyway, the virus appears not to undergo any evolution
n °r to multiply in the bed-bug body, but it resists passing through the intestines
this insect. For this reason it is assumed that the bed-bug may serve as a
c *rrier to the virus. Indeed, it is known that after its feeding the bed-bug usually
'acretes on the site of its sting or near it so as to represem a rôle of certain
: mportance in the epidemiology of yellow fever. Should the previous feeding of
109
158
Memórias do Instituto Butar.tan — Tomo V
a bed-bug be made on a yellow fever patient during the septicaemic period, the
faeces excreted by it while feeding on another person may then leave the virus
on the site of the Iatter sting. In the light of the experiments made, this mecha-
nism explains how the virus may penetrate into the system after Crossing the
skin, an action which seems to be favoured both by the irritation caused by the
sting itself and by the scratching made by the patient.
A normal rhesus, inoculated with an emulsion of bed-bug faeces. secured
from the 2d to the 12th day following the bug feeding on another infected and
feverish rhesus, developed a typical infection confirmed after death by the pre-
sence of specific histological lesions. Successful transfers were also obtained
afterwards through the inoculation of both the blood taken in the febrile period
snd the emulsion of the liver of this monkey. Sometimes the infection does not
follow a typical couree, yet the animais which have been inoculated with faeces
probably contaminated with the virus, show immunity to further inoculation with
the active virus.
It is necessary to bear in mind all these observations at the time of epidemics
of yellow fever, and include into its prophylaxis the destruction of any bed-bugs
which may be found in the houses whence patients of yellow fever have been
removed.
It is possible that other blood-sucking insects will carry the virus in the same
way as describcd for the bed-bug. Anyhow, this fact togethcr with those observed
by Aragão and Costa Lima in regard to both the infectiveness of the Aédes faeces
and the direct transmissibleness of the virus from mosquito to mosquito, may
explain certain features in the epidemiology of yellow fever which have been
found rather puzzling.
Various attempts were made to discover carriere of the virus among domestic
animais. From some preliminary experiments made on the dog it seems indicated
to assume that this animal may keep the virus in its body for at least a few
days. Experiments made on cats proved to be still more interesting. Blood taken
from a cat on the I2th day of a febrile infection as brought about by the inocu-
lation of active virus, caused a typical yellow fever infection in a normal rhesus.
Furthermore. the virus may keep in the body of the cats for over one month as
shown by the immune reactions bome by monkeys inoculated with cats blood
taken 30 days after the infection. These results although based upon observa-
tions made on domestic animais, morphologically unrelated to the simia, seem to
corroborate those obtained by Bauer and Mahaffy with the inoculation of certain
African monkeys.
In víew of the importance of the ròle played by all these animais in the
epidemiology of yellow fever it seems advisable to continue with these investi*
gations to throw further light on the mechanism of the preservation and trans-
mission of the yellow fever virus under natural conditions.
110
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
159
111 - In regard to the pathological feature of experimental yellow fever, as
shoun in the third chapter only the histological lesions found in monkeys inocu-
lated with virulent faeces of infected bed-bugs, were examined by Dr. J. R. Meyer,
*hose protocols confirmed the infection and thus the diagnosis made and the
conclusions reached at, in the course of this study.
IV’ - The fourth chapter concerns various immunological aspects of yellow
fever which were also investigated with a view to finding some new method
seientifically sound and easy to apply, that might, on the one hand, be efficacious
in combating the disease and, on the other hand, help in the establishment of
its diagnosis.
In connexion with the prophylaxis of yellow fever by means of vaccines, an
analysis is made of the various technics used in their preparation such as Hindle’s,
Aragão's and the Author's. Based on various observr.tions on the vinis resistance
•o antiseptics and also on one of the methods of preparation of rinder-pest vac-
ine, chloroform was used as a means of attenuating or rather destroying the
v 'irus in the vaccine. The technic employed in the preparation of the chloroform
vaccine is given in detail as well as the results obtained by its application show*
ing it to be innocuous and capable to protect a rhcsus monkey against a funher
inoculation with the active vinis.
Reference is made to the anti-yellow fever serum as prepared by Pcttit and
his co-workers and by the A. who. however, does not trust much its efficacy.
As regards the diagnosis, it is most importam that it be definitely established
v hile the patient is still alive especially in the beginning of epidcmics and also
in cases of the mild form of the infection. Since clinicai diagnosis of thesc cases
is virtually impracticable. various methods have been tried to solve the problem.
Among the laboratory methods developcd in the course of the late epidcmics
°f yellow fever, complemcnt fixation seems to be one of the most trustworthy.
This method was applied by the A., in collaboration with J. Travassos, with the
most successful results. It is based in the use of a specific antigen prepared
from livers secured from infected monkeys and triturated under spccial physical
c onditions. From the results obtained. the complemcnt fixation test seems to
serve as a safe method to be applied in the diagnosis of yellow fever either
hunian or experimental and most particularly in the discovery of persons conval-
escing from, or rhesus monkeys recently immunized against, the infection. The
*era of normal natives living in cities like Bahia where yellow fever has been
more or less endemic for some time show complemcnt fixing antibodies in a
Proportion as high as 50 %, whilst those of newly arrived foreigners give nega-
*' v e results in all cases. This fact indicates that the application of the complemcnt
^úcation reaction in places where yellow fever is endemic must be resortcd to
v, th certain precautions to avoid errors. No doubt even the proof based on the
Protecting power of the serum in regard to the experimental infection is liable
111
160
Memórias do Instituto Butar.un — Tomo V
of misleading results in endemic centers because those sera which may protect
the rhesus usually bear complement fixing antibodies.
Other laboratory methods applicable to the diagnosis are reviewed: the de-
termination of the alexine which is lowered in the course of yellow fever, as
found by Costa Cruz; the modifications in the blood coagulation, as investigated
by Vellard and Vianna and, finally, the non-specific agglutination of a Coryne-
bacterium in presence of serum from either convalescents or rhesus experimen-
tally infected.
V - The fifth chapter concerns another interesting feature of yellow fever,
e.g., the bacterial association and the biotropism of certain gerais in presence
of the yellow fever virus. This subject is dealt with in the light of our newer
knowledge of the evolution of bactéria, their dissociation, mutation and filterable
stage, particularly emphasizing the ròle played by the Corynebacteria under the
influence of the virus, a fact that brings about the presence of collateral anti-
bodies in the blood.
Kuczynskis investigations on his Bacillus hepato-dystrophicans are discussed,
quoting Costa Cruz’ view who regards this germ as a Corynebacterium.
Finally, various experiments are described about the presence of microor-
ganisms in the blood of infected monkeys (Macacas rhesus) and other animais
experimentally inoculated with the virus. Two types of bactéria were thus isolated
and proved to belong in the genus Corynebacterium; their behaviour confirmed
the previous observation conceraing the biotropism exaltation of these germs
under the influence of the yellow fever virus.
112
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimenta!
161
B1BLIOGRAPH1A
Esta bibliographia encerra referencias a numerosas publicações, posteriores,
não somente aos trabalhos fundamentaes de Stokes, Bauer e Hudson, mas tam-
b*tn, em parte, ás próprias pesquisas discutidas no texto. Deste modo ficará
facilitada a tarefa daquclles que desejarem fazer estudos sobre a febre amarella
c *perimental á luz dos modernos conhecimentos.
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infectados. 4. Possibilidade da existência de depositários do virus amarillico
entre os animaes domésticos. 5. Sobre uma nova technica pera o preparo da vac-
cina amarillica. 6. Pesquises de microorganismos no sangue de Macacus rhesus
infectado com o virus amarillico. (Notas apresente das á Soc. de Biologia de S.
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122
J- Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
Mem. Inst. But anlan
Vol. V. 1930
Fig- 1 - Macacas rhcsus normal
Fig. 2 - Macacus rhcsus N.» I, no ultimo
período de febre amarella experimental
J- Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
Mun . Inst. Butantan
Vol. V. 1990
Fig. 3 - Macacus rhesus N.* 8, prestes a
morrer de febre amarella experimental
Fig. 4 - Macacus rhesus N.* 6, em período de
adynamia na febre amarella experimental
J. Lemos Monteiro — Febre amarella experimental
Mem. Inst. ButanHn
Vol. V. 1930
«
Fig. 5 - Macacas rhesus N.° 9, cm pcriodo dc
adynamia na febre amarella experimental
Fig. 6 - Macacas rhesus N.* 44, cm periodo dc
adynamia na febre amarella experimental
J- Lemos Monteiro — Febre amarclla experimental
•Mtm. Inst. Butanlan
Vol. V. 1930
Fig. 7 - Macacuj rhesus N.* 44. prestes a morrer
de febre amarclla experimental
Fig. 8 - Pinça para prchensão de macacos
J- Lemos .Monteiro — Febre amarella experimental
Mtm. Inst. Butan tan
Vol. V. 1930
Fig. 10 - Camondongo N.* 3, na phase paralytica da
infecção pelo virus amarillico ncurotropico
DIAGNOSTICO SOROLOGICO DA FEBRE AMARELLA
SOBRE A REACÇÃO DE FIXAÇAO DO COMPLEMENTO
POR
J. LEMOS MONTEIRO e J. TRAVASSOS
174
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
auxílios em período mais adeantado da doença e para a verificação de conva-
lescentes.
A prova da infectuosidade do sangue do doente em relação ao Macacus
rhesus, embora de resultados tardios e dispendiosa, deve ser executada, sempre
que for possível, mormente nos primeiros casos do apparecimento do mal, pois,
dentre as demais, quando positiva, é a unica fiel.
Se o desfecho clinico é a morte, a histologia pathologica confirma ou infirma
o diagnostico, com a verificação do conjuncto de lesões que se convencionou
chamar de signal de Rocha Lima. Na convalescença ou depois da cura clinica
do doente, só se poderão colher elementos para o diagnostico com os methodos
que visam a pesquisa dos anticorpos no sangue ou com a prova do poder pro-
tector do sôro. Infelizmente, esta ultima, para ser prova fiel, necessita não só
de um virus sufficientemente activo para o rhesus, como de ser realizada em
vários animaes e respectivas testemunhas, o que a torna dispendiosa (•).
As provas baseadas na pesquisa dos anticorpos, alem de serem especificas e
facilmente realizáveis, reduziriam a questão a uma simples manipulação de labo-
ratorio, com grandes vantagens e real proveito pratico.
Essas vantagens praticas, alem de outras, como seja a acquisiçào de mais
uma prova para a verificação da identidade dos virus africano e americano, já
demonstrada por Theiler, Sellards e VTatson, Hudson, Bauer e Philip, por Aragào
e por um de nós. justificariam a tentativa de novas pesquisas experimentaes em
torno do assumpto.
O poder protector do sôro de convalescentes de febre amarella, já assigna-
lado por Marchoux, Salimbeni e Simond em o seu trabalho de 1903, provado
experimentalmente por Hudson, Bauer e Philip e entre nós por Aragào, mostra-
va-nos que não seria impossível a pesquisa de anticorpos nesses sôros, mesmo
usados os methodos de que actualmente dispomos para essa ordem de investi-
gações. A pesquisa que realizámos, de agglutininas não especificas, para certo
Corynebacterium, abriu-nos o caminho e falou desde logo a favor dessa possi-
bilidade. Por isso é que. numa outra ordem de estudos, nos propusemos a pes-
quisar os anticorpos específicos fixadores do complemento nos sôros de doentes,
convalescentes e de indivíduos clinicamente curados do mal e ainda nos sôros
dos M. rhesus inoculados com o virus amarillico. afim de verificar se colhería-
mos dados que pudessem ser uteis. A maior difficuldade a resolver estava no
preparo do antigeno a usar na reacção. Sabendo-se com segurança que o virus
<*> Na segunda parte deste trabalho (2.* notai, discutimos o valor desta prova,
em virtude dos resultados obtidos com soros de indivíduos naturalmente (?) immuni*
zados (residentes em zonas endemicas do ma! i e possuidores de anti-corpos fixadores
do complemento.
4
J. L- .Monteiro e J. Travassos — Diagnostico sorologico da febre amarella 175
*e encontra principalmente no figado, este organt deveria ser o escolhido para
o preparo do antigeno.
Em pesquisas preliminares empregamos os antigenos salinos phenolados,
formolados e chloroformados. usados nos solutos vaccinantes. sem que obtivés-
semos qualquer resultado animador, o que vem confirmar as verificações de
Aragào e outros. Usámos, de idêntico modo, o sangue do macaco infectado, co-
lhido em franca reacção febril, com os mesmos resultados. Passámos aos cocto-
antigenos, ultimamente aconselhados por Moses, preparados conforme a technica
descripta por Krause e Takaki, mas, a despeito de termos obtido fixações ligeiras
com os sôros específicos, os resultados finaes não foram apreciáveis.
Tratando-se de uma doença de agente etiologico desconhecido, que se inclue
na classe dos virus filtráveis, procurámos entre as suas similares uma em que
a prova da fixação do complemento tivesse dado melhores resultados para termos,
assim, elementos de orientação em nossos estudos preliminares. No particular,
chamaram-nos a attenção as pesquisas de Ciuca. na febre aphtosa, demonstrando
Çue um bom antigeno era conseguido pela maceração séptica do cpithelio das
'esiculas, cujo poder altamente infectuoso já tinha sido provado pelas pesquisas
d e Vallée, Carré e Rinjard. Por tal processo tratava-se de obter as substancias
advindas da desintegração cellular por um processo de autolyse e. talvez mesmo,
unia modificação do estado colloidal das proteínas que, segundo Ciuca, offere-
ceriam desta maneira menor embaraço á reacção de fixação do complemento
do que quando em suas primitivas condições. Essas vantagens, no entanto, a
nosso ver, eram algo embaraçadas pela presença e cultivo de germes dc nenhuma
cclaçào com o mal e cuja actividade biologica seria aproveitada na desintegração
•issular, indo formar antigenos outros, que agiriam sob a influencia de determi-
nados sôros e em condições especiaes. Obteríamos, desse modo, antigenos col-
lateraes de que nos faliam Schultz. Bullock e Lawrcnce.
As investigações de Hindlc (2), mostrando que se póde obter uma maior
quantidade de virus dos figados de animaes infectados provocando-sc o rompi-
mento cellular por differença de pressão osmotica, deu-nos orientação para a
•echnica do preparo de um antigeno, que teria provavelmente as qualidades esson-
ciaes do de Ciuca. com a vantagem de reduzir as affinidades collateracs. A desin-
,e graçào cellular. realizada assim por um processo physico-chimico, permittiria
°bter em solução o contéudo cellular e com elle a substancia antigenica.
Frobisher Jor., com orientação idêntica, conseguira já resultados animadores.
Technica para o preparo do antigeno
Para o preparo do antigeno procedemos do seguinte modo: figado de Ma-
Ca cus rhesas infectado pelo virus africano (amostra da raça Asibi), colhido por
^asiào da necropsia realizada logo após a queda da temperatura e sacrifício
d ° animal, é pesado, cortado em pequenas fatias de 2 a 3 millimetros dc espes-
*Ura e lavado em agua physiologica renovada por varias vezes. A ultima porção
5
176
.Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
da agua de lavagem é decantada e os fragmentos do orgam sáo collocados em um
almofariz e triturados com areia esteril. Para cada gramma de figado addiciona-se
1 cc. de uma solução esterilizada hypertonica e de titulo conhecido de chloreto
de sodio (usamos a 10 mistura-se bem e deixa-se 24 horas no frigo em
um frasco com rolha de esmeril, esterilizado e contendo pérolas de vidro. Junta-se,
então, agua destillada esterilizada em quantidade tal, que reduza a 8,5 por mil a
concentração final do chloreto de sodio no soluto salino empregado. Junta-se a
quantidade dc agua á emulsão de figado rapidamente e agita-se o frasco o mais
energicamente possivel por espaço de I hora. Centrifuga-se ou filtra-se em
papel e depois em vela Mandler, de 14 libras de pressão. O filtrado, que guarda
uma côr amarellada, é distribuído asepticamente em empolas estereis, e, semeado
em meios aerobios e anaeróbios, deve mostrar-se completamente desprovido de
germes, constituindo o antigeno, que é conservado no frigo.
Ensaios preliminares
Procurando verificar a acção anti-complementar desse antigeno, observámos
que elle é totalmente desprovido dessa propriedade desde a dose de 0,5 cc., em
face de 2 unidades complementares. Nessa mesma quantidade é desprovido de
acção hemolytica, isoladamente ou cm face de um sôro.
Em um primeiro ensaio experimentámos o antigeno assim preparado na dose
de 0,2 cc. com um sôro de convalescente de febre amarella, com um de um
rhesus que resistiu á infecção e um outro humano, dc indivíduo normal c que
sempre residiu em zona indemne do mal. Em face de 2 unidades complementares,
os 2 primeiros soros ensaiados fixaram o complemento; o do indivíduo normal,
immediatamente após a hemolyse do testemunha do sôro, mostrou uma fixação
ligeira e 3 minutos após já estava totalmcntc hemolysado. Esse primeiro ensaio
estimulou-nos a proseguir nas pesquisas, pelo que desde logo procurámos esta-
belecer a unidade antigenica. Para isso, ensaiámos com o sôro de P. F. N.. con-
valescente de febre amarella, cujo resultado anterior fora perfeitamente satis-
factorio: verificámos que 0.05 cc. era a dóse minima de antigeno necessária
para que, cm face de 2 unidades complementares, houvesse completa fixação do
complemento, a leitura sendo feita 10 minutos após o apparecimento dc hemoly**
total no testemunha do sôro.
Procurando, em seguida, outras propriedades desse mesmo sôro em face do
antigeno. notámos o phenomeno da precipitação, sómente no tubo em que os dois
elementos se encontravam em partes iguaes, emquanto que nos demais, com dós* 5
menores de antigeno, nada observámos. Com o sôro normal, testemunha, con-
servados os elementos na mesma quantidade, nenhum precipitado foi verificado,
mostrando-se o liquido perfeitamente claro. Esses ensaios levaram-nos a usar em
nossos estudos o sôro a examinar e o antigeno, em partes eguaes.
ó
J. L. Monteiro e J. Travassos — Diagnostico sorotogico da febre amarella 177
Outros elementos da reaeção
Os vários outros elementos constantes da reaeção foram assim preparados:
Sòro a examinar - Os primeiros sòros que examinámos, de doentes e rhesus
infectados pelo virus africano, vinham sendo conservados em empolas e no frigo;
muitos delles mesmo aquecidos a 55° mostraram-se anti-complementares. Os de-
mais sôros, colhidos quando já estavamos em trabalho sobre o assumpto e quando
não eram utilizados logo no dia immediato, soffriam um aquecimento prévio de
15 minutos a 55°. No dia em que praticavamos as reacções, todos os sôros eram
aquecidos. Em alguns desses sôros notamos uma hemolyse rapida, já perfeita-
mente visível em 10-15 minutos. Em outros, ao contrario, era tardia, indo até 30
minutos e mais. Essas differenças devem correr por conta das hemolysinas natu-
r aes anti-carneiro que aquelles podem conter. Pensamos, entretanto, que ellas
não exercem grande influencia na reaeção propriamente dita, pois em alguns
sôros, cujo testemunha hemolysava rapidamente com uma e duas unidades comple-
mentares, tivemos resultados francos de fixação, usando tres e mesmo quatro uni-
dades complementares. A quantidade de sôro usada nas reacções foi a de 0.2 cc.
Complemento - Tres cobaias (machos) eram sangradas na tarde da vespera.
Coagulado o sangue, separava-se o sôro, centrifugava-sc c guardava-sc no frigo
*lé a manhã seguinte, quando era dosado. A dosagem do complemento é assumpto
c »pital nas reacções de fixação. Já é da pratica corrente fazer-se a dosagem em
face do antigeno em dóse idêntica á que se vae usar na reaeção. Aconteceu,
Porem, que o nosso antigeno accclerava a acção da alexina e. de outro lado,
c ontribuia para a formação de um complexo que fixava ligeiramente o comple-
mento, quando em presença de um sôro negativo. Dahi a necessidade de se dosar
0 complemento em face do antigeno e de um sôro negativo, escolhendo-se de pre-
ferencia os de extrangeiros, recentemente chegados ao paiz. Entre esses se se-
lecionam os que, por si sós. não accelerem demasiadamente o phenomeno da
hemolyse. Usámos como unidade complementar a menor quantidade de comple-
mento necessária para se obter a hemolyse completa dos globulos em meia hora,
em face de um sôro negativo, do antigeno e de 3 a 4 unidades hcmolyticas.
Systema hemolytico - A hemolysina empregada foi a de coelho anti-carneiro,
üs *da na dóse de tres a quatro unidades hemolyticas. Os globulos de carneiro
Cr *m lavados varias vezes e diluídos a 5^1.
Technica da reaeção
Sabida que é a possível fallibilidadc deste mcthodo sorologico nas doenças
Afectuosas e dada a difficuldade de sua realização em virtude da serie de elemen-
de maior ou menor variabilidade, com que o pesquisador tem de lidar, somente
''Pois de estabelecida a uniformidade da technica se poderiam colher ensinamentos
Uf eis ao diagnostico. Foi o que procuramos fazer, adoptando, após vários ensaios,
7
178
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
a technica que passamos a expòr, por ser, não só a mais adaptavel ás condições
do material com que iniciámos as nossas pesquisas (soros velhos, conservados no
frigo), como também constante em os seus resultados. E’ superponivel á technica
de Mclntosh Fields para os sôros anti-complementares e basea-se nos mesmos
princípios do methodo de Browning e McKenzie, Calmette e Massol, etc.
Entre os inconvenientes dessa technica contam-se o uso de maior quantidade
de sóro e de complemento, e ainda a difficuldade na leitura quando se trabalha
com muitos sôros a um só tempo. No nosso caso, porém, estas desvantagens tor-
nam-se nullas, por isso que as duas primeiras são perfeitamente sanaveis, o mesmo
acontecendo quanto á difficuldade na leitura, pois poucas seriam as vezes em que
teríamos de examinar muitos sôros a um só tempo. Por outro lado, as vantagens
que nos poderiam advir de seu caracter estrictamente quantitativo e da possibili-
dade de examinar sôros providos de propriedades anti-complementares, como era
o nosso caso, superavam os obstáculos por ventura esperados. Eis porque a adop-
tamos.
A technica consiste no seguinte: a uma mesma quantidade de sôro a exa-
minar (0,2 cc.) e de antigeno (0,2 cc.). addicionam-se quantidades crescentes de
complemento, avaliadas por unidades e completa-se o volume para 1,5 cc. com
agua physiologica, pondo-se os tubos em banho maria a 37°-38° durante 1 /i hora.
A cada tubo da reacção deve corresponder um testemunha do sôro, com idêntica
quantidade de unidades complementares. O tempo de incubação da primeira phase
tem uma certa importância no resultado final da reacção. As nossas observações
demonstraram que elle deve ser de 1 */$ - 2 horas a 37°, de 3 a 4 horas á tempe-
ratura ambiente e de uma noite a 10° (na geladeira).
As hematias, sensibilizadas com 3 a 4 unidades hemolyticas, são addicionadas,
na segunda phase da reacção, num volume de 1 cc., seguindo-se nova incubação.
Concomitantemente fazem-se tubos testemunhas com sôros seguramente negativos
e positivos, obedecendo o mesmo critério de numero crescente de unidades- com-
plementares.
A leitura immediata da reacção deverá fazer-se 10 minutos depois que os
testemunhas preparados com os sôros negativos apresentarem hemolyse completa.
Os testemunhas dos sôros a examinar (sem antigeno), orientarão o technico sobre
a capacidade anti-complementar do sôro e sobre a possibilidade de poder ou não
ser realizada a leitura no tempo indicado acima, devendo, de accordo com a marcha
da reacção, ser prolongado o periodo de incubação. De qualquer modo, deve
fazer-se uma leitura tardia, isto é, 24 horas depois e quando os tubos são conser-
vados na geladeira.
Para a avaliação da intensidade da reacção, tomamos como norma o compor-
tamento do segundo tubo em deante, isto é, o resultado de 2, 3, 4 e 5 unidades
complementares, no caso de o sôro não mostrar impedimento. Nos sôros anti-com-
plementares. o resultado nos é dado por differença do grau de hemolyse e só de-
verão ser tomadas em consideração as grandes differenças, entre os tubos teste-
8
J. L. Monteiro e J. Travassos — Diagnostico sorologico da febre amarclla 179
munhas do sôro e da reacçáo propriamente dita, sendo a leitura feita após meia
hora de incubação.
O eschema seguinte, figurada a hypothese de a unidade complementar ser
0.3 cc., dará uma idéa da reacção:
Corapirmento
%
^ « _« n
n
c
diluído
%
«■31=
TUBO
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Tubo reacção .
0.2
0.2
i
0.3
0.8
I
1 cc.
is
Ü
Test. sôro . .
0.2
0.3
1.0
1
1 cc.
U 3
o E
Tubo reacçáo .
02
0.2
2
0.6
0.5
rs
«D
1 cc.
■3Ü
c X
Test. sôro . .
0-2
0.6
0.7
i
1 cc.
3
Ç*
Tubo reacçáo .
02
0.2
3
0.9
0.2
98
rs
1 cc.
o
o" 3
Test. sôro . .
0.2
0.9
0.4
O
1 cc.
JSS
rs
Tubo reacçáo .
0.2
0.2
4
>•2
M
1 cc.
-c
3
Test. sôro . .
0.2
1.2
0.1
rs
1 cc.
jSS
etc.
etc.
etc '
etc.
etc.
etc.
Uma serie idêntica será feita para os testemunhas, positivo e negativo, da
rt *cçào. Para o primeiro, poderá ser empregado um sôro de convalescentes de
f tbre amarclla ou de um rhesus immunizado; para o segundo, devem ser prefe-
r 'dos os de extrangeiros recentemente chegados ao paiz.
Resultado» experimentar»
Praticamos a reacção com sôros de doentes e convalescentes de febre ama-
e ha, de Macacus rhesus infectados e immunizados, de doentes de outras infec-
de indivíduos normaes, residentes ou não em zonas onde a febre amarclla
,tTr > existido e, finalmente, com sôros de extrangeiros recentemente chegados ao
Paiz.
9
180
Memórias do Instituto Buuntan — Tomo V
O quadro abaixo resume os resultados e percentagens até agora obtidos:
Sôros de
Resultados
Observações
PoSitíVOS
Secativos
Casos de febre amarella e
convalescentes
81.8
18.1
O o-> Ce sôros examinados (oi reduzido
(11). Outros se mostram anti-comple-
men tares.
Rhesus infectados e immuni-
zados
95.8
4,1
Nos rbesBi infectados a reacçio mostra-
se positiva desde o quarto dia.
Doentes de outras infecções .
143
85,4
Febre typhoide (com Widal positivo):
doentes tebris (com \Tidal negativo);
typho ezantheraatico (Weil-Feliz posi-
tivo) e syphilis fWassermann positivo).
Nacionaes normaes residen-
tes ou não em zonas onde
tem havido febre ama-
rella (•)
28,9
71.0
Residentes em S- Pauio. alguns tendo
vívido no norte do paiz; de pessoas
residentes na Bahia.
Extrangeiros recem-chegados
ao paiz
0
100
Lithuanos e japoneses chegados em
Santos na vespera da colheita do
sangue.
A simples vista do quadro acima dá-nos uma idéa da especificidade e sefl*
sibilidade da reacção e da possibilidade das indicações que poderá fornecer.
Quando iniciámos os nossos estudos sobre a fixação do complemento n*
febre amarclla, já declinava francamente o surto epidemico verificado na capit»!
do paiz e, por isto. poucos foram os sôros conseguidos para a nossa reacção. O*
que tinham sidos guardados no frigo, mostravam-se na maioria anticomplcmen-
tarcs. motivo por que 9 desses sôros foram inutilizados. Como não pudemos dispo f
de sôros colhidos em dias seguidos durante a evolução do mal. não conseguimo*
determinar em relação á infecção humana, desde quando a reacção começa *
mostrar-se positiva. A quasi totalidade de sôros de amarellcntos, por nós es*'
minados, provinha de convalescentes e nos havia sido fornecida pelo dr. H*
Aragão.
No que diz respeito á febre amarclla experimental, tivemos opportunidade
de examinar sôros de 25 rhesus, tendo sido possível acompanhar a evolução d*
reacção. Somente após o 4.® dia é que se puderam obter fixações do compl*"
mento, de pequena intensidade, augmentando gradativamente no 6.® e no 10.® di*-
(•) Para o estudo destes sôros, muito devemos á gentileza do Dr. Eduardo Aratil?-
director do Instit. Oswatdo Cruz da Bahia, que nos enviou 100 sôros de pessoas r**£
dentes em Salvador. Neste numero estão incluídos sôros de extrangeiros, geralmen
portugueses, porém residentes ha annos na capital bahiana. Não foram ainda tod
estudados, o que está sendo feito, de modo que a estatística publicada poderá ser aM*|
rada em futuras publicações. Sôros de nacionaes residentes em zona indemne, colhiá
de pessoas que nunca sahiram de S. Paulo, foram todos negativos.
10
J. L. Monteiro e J. Travassos — Diagnostico sorologico da febre amarella 181
O graphico abaixo dá uma idéa da marcha da reacçào na infecção experi-
mental.
| DIAS 1 2 3*56
7 8 9 10
20
30 40
50
60
70
1
| Pctiliva intensa
Positiva ^
_ /
fraca _ f
^•gaiiva
'
Nos doentes de outras infecções, cuja percentagem de resultados positivos
se elevou a 14,5 devemos levar em conta que se tratava, na maioria, de nacio-
naes. Com effeito, é possível que alguns nacionaes cujo sôro foi ensaiado, apre-
sentassem relativa immunidade pelo facto de talvez terem residido em antigos
focos da infecção. Isto é tanto mais verdade quanto ficou apurado que, entre as
Pessoas ainda residentes em zonas endcmicas, a percentagem de positivos se ele-
v ou a quasi 30 %.
De 20 sôros de extrangeiros examinados, lithuanos c japoneses, recemche-
fcados ao paiz (24 horas antes), não obtivemos nenhum resultado positivo.
Frobisher Jor. (3). trabalhando sob os auspícios da Fundação Rockefcller de
New York e baseado, como nós, na observação de Hindlc, preparou o seu anti-
Keno salino, provocando, pela differença de pressão osmotica. a ruptura das cél-
ulas hcpaticas contendo o virus. Os seus resultados concordam com os que obtí-
amos.
Pelos resultados acima descriptos, verifica-se que a reacçào apresenta espe-
cificidade em relação á febre amarella humana c experimental, mostrando tam-
pem a identidade dos virus africano e americano. Ella poderá servir igualmcnte
P»ra a verificação da immunidade de pessôas, principalmente nacionaes, resi-
dentes em zonas onde o mal tenha existido.
Para maior facilidade de preparação do antigeno pelos laboratorios não es-
pecializados, pensamos que poderia ser utilizado o material secco e conservado
n ° vacuo e no frigo.
As nossas experiencias realizadas com antigeno salino de figado secco, pre-
gado sob a mesma technica descripta acima, demonstram essa possibilidade, se
kem que os resultados sejam muito inferiores.
II
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
182
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
SEGUNDA NOTA
Na nota anterior, que já havia sido publicada (I), mostrámos a possibilidade
da pesquisa de anticorpos fixadores do complemento, na febre amarella humana
t na experimental do Macacus rhesus. Para isso se faz mister o uso de um anti-
geno salino adequado, cujo preparo é baseado nas observações de Hindle (2).
que demonstrou que se póde obter uma maior quantidade de virus dos figados
de animaes infectados provocando-se o rompimento cellular por differença de
pressão osmotica.
Esse antigeno mostra-se desprovido de acção anti-complementar desde a dóse
de 0,5 cc. em presença de 2 unidades complementares, bem como de acção he-
molytica, isoladamente ou em face de um sôro. Como tivéssemos trabalhado com
sòros antigos, conservados em empolas no frigo, mostrando-se muitos delles com
elevado poder anti-complementar, fomos obrigados a usar uma technica (a de
Mclntosh Fields) que nos permittiu fazer as leituras com segurança.
Os resultados das reacções effectuadas até então, com sòros diversos, foram
dados em resumo na nota anterior e concordavam com os de Frobisher Jor. (3)
que os expoz cm um trabalho publicado antes do nosso.
Agora daremos os resultados dos ensaios que realizámos posteriormente.
Além de pequenas modificações de technica. tivemos a opportunidade de estudar
mais alguns sòros de indivíduos que tiveram febre amarella no ultimo surto
epidemico do Rio de Janeiro, e de proceder um maior numero de verificações,
seja no decurso da infecção experimental do Macacus rhesus, seja em sòros de
nacionacs residentes em localidades como a Bahia, onde a febre amarella parece
existir endemicamente. Emfim, effectuámos algumas provas de protecção do rheso*
com sòros que nos deram resultados positivos, conforme exporemos em seguida-
Noras verificações sobre o preparo do antigeno
São as seguintes as observações realizadas:
a) Segundo fez Frobisher Jor., pode-se empregar uma solução hypertonic*
de chloreto de sodio a 8.5 %, o que tem a vantagem de facilitar o calculo;
b) As nossas experiências demonstraram que não ha maior vantagem em f**'
trar o antigeno em vela, mas sim em passal-o simplesmente em papel fíl tr °
juntando-lhe phenol e guardando-o no frigo : assim cllc se conserva bem, mo 5 "
tra-se mais activo, permittindo a obtenção de resultados muito nítidos, o que de'*
correr por conta de uma maior riqueza em virus;
c) Na escolha do material para o preparo do antigeno, deve-se dar pref^
rencia a figados (de rhesus) que se mostrem mais attingidos, com a côr camurt*
disseminada por todo o orgão, convindo sacrificar-se o animal logo após a qué3*
da temperatura e retirar do coração a maior quantidade possivel de sangue p ar *
que o figado fique bastante exsangue;
12
J. L. Monteiro e J. Travas soí — Diagnostico sorologico da febre amarella 183
d) Os antigenos preparados com fígados seccos, conservados no vacuo e no
frigo, são muito menos activos;
e) As tentativas que realizámos de extracção da substancia antigenica pelo
álcool, ether, etc., têm a desvantagem de imprimir ao antigeno a propriedade
polytropica, apresentando, concomitantemente, affinidades para os anticorpos lipoi-
dophilos dos sôros dos syphiliticos.
Techniea da reacção
Como nesta nova serie tivéssemos empregado sòros mais recentes, empregá-
mos a techniea geralmente usada nessa ordem de pesquisa, isto é, quantidades
fixas de antigeno (0,2) e de complemento, em face de dóses decrescentes de
sôro a estudar (0,2-0, 1-0,05 cc.). O complemento, previamente dosado na
manhã do dia em que praticavamos as reacções, em presença do antigeno, era
usado na dóse correspondente a 2 unidades complementares.
Os sôros a pesquisar soffriam um prévio aquecimento a 55° antes de serem
utilizados na reacção. Para testemunhar o poder anti-complemcntar do sôro.
usámos a dóse de 0,4 cc.. A hcmolysina era empregada na dóse de 3 a 4 uni-
dades e as hematias de carneiro, em suspensão a 5 %. Volume total de 2.5 cc..
A 1.* incubação durava I 1/2 a 2 horas e a segunda, apenas 1/2 hora. Fize-
mos sempre uma leitura immediata e uma outra após uma noite na geleira, de
sorte que os resultados expostos neste trabalho são baseados sempre na ultima
leitura.
Os sôros que se mostraram anti-complemcntarcs foram posteriormente en-
saiados segundo a techniea que expusémos em nossa 1.* nota.
Damos a seguir os resultados obtidos com sôros diversos, empregando um
antigeno preparado com as modificações acima. Por elles se poderá ter idéa do
valor pratico do mcthodo e, para que isto melhor se evidencie, os sôros são se-
parados em differentes grupos, de accordo com sua procedência.
Resultados obtidos na febre amarella humana
Conforme assignalámos no I.* trabalho, quando iniciámos os nossos estudos
sobre a fixação do complemento na febre amarella já declinava francamente o
surto epidemico verificado na Capital do paiz e, por isto, poucos foram os sôros
que conseguimos estudar. Os que tinham sido guardados no frigo, quasi todos
em diminuta quantidade, mostraram-se. na maioria, francamente anti-complemen-
tares. motivo por que 9 dentre elles foram regeitados.
Como não conseguimos soros colhidos em dias seguidos durante a evolução
do mal, não poude ser determinado, em relação á infecção humana, o período em
que a reacção começa a apresentar resultados positivos nos casos confirmados
13
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
184
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
da moléstia. A quasi totalidade dos sôros examinados provinha de convalescen-
tes e de pessoas immunes; as amostras do 1.® grupo foram-nos enviadas pelo
Dr. Henrique Aragão. do Instituto Oswaldo Cruz e as do 2.° foram colhidas por
pessoa indicada pelo Dr. J. Barros Barreto, do Departamento Nacional de Saúde
Publica. A estes distinctos collegas apresentamos aqui nossos agradecimentos.
O quadro abaixo resume os resultados obtidos:
Sôros de
Negativo*
Positivos
fracos
Positivo*
fortes
Suspeitos, diagnostico nào
confirmado
3
0
1
, No de resultado positivo,
a necToscopia revelou im-
paludismo-
Febre amarella diagnostico
clinico)
1
2
0
Convalescentes
0
1
4
Após 4 a 20 mezes da in-
fecção
1
3
11
Resultados na febre amarella experimental do .Macacus rhesus
Em nosso trabalho anterior demos os resultados obtidos na febre amarella
experimental, segundo estudo feito em 25 rhesus no periodo de infecção e já im-
munizados. Verificámos que os anticorpos fixadores do complemento se mostram
cm maior quantidade do 10.® dia após a inoculação do vinis, perdurando poste-
riormente pelo menos até o 70.® dia (periodo da pesquisa).
Nesta nova serie de ensaios tivemos a opportunidade de realizar maior nu
mero de verificações, estudando sôros de rhesus em varias phases da evolução
da doença c de rhesus immunizados, datando de mais de 12 mezes a infecção de
alguns.
O quadro abaixo resume os resultados até agora obtidos:
Macaeus rhesus
Total
Negativos
°/o
Positivos
fracos
°/o
Positivos
fortes
o/o
Normaes
3
3
100
0
0
0
0
Após 3 a 5 dias ....
12
7
58,3
5
41.6
0
0
Após 6 a 9 dias. . . .
8
3
37.5
4
50,0
1
12.5
Após 10 a 30 dias . . .
0
0
3
11.5 !
23
88.4
Após 31 a 70 dias . . .
5
0
0
o
°
5
100.0
Mais de 1 anno ....
11
2
18.1
5
4M|
4
36,3
Positivos fraco*: >eac(io + e — f-
Poaitivo* forte* : reacçio -r+-f e —
14
cm
'SciELO
0 11 12 13 14 15 16
J. L. Monteiro e J. Travassos — Diagnostico soroiogico da fetre amarella 165
Ainda por estes resultados se verifica que, na infecção experimental, a
reacção se póde mostrar positiva desde o 4.® dia após a inoculação do vinis.
Tudo faz crer que os anticorpos fixadores do complemento augmentam. até um
certo limite, no organismo do animal, permanecendo, na convalescença e nos im-
niunizados, por largo espaço de tempo e provavelmente decrescendo em seguida.
Do 10.” dia em deante os anticorpos fixadores do complemento já são em
grande numero, mas depois de 1 anno parece que vão desapparecendo, apresen-
tando alguns animaes rcacções negativas ou fracamente positivas.
Resultados cora sôros dc pessoas residentes na Bahia
Para o estudo da reacção em material proveniente de indivíduos normaes,
de logares onde a febre amarella tem existido mais ou menos endemicamcnte,
obtivemos por especial gentileza do director do Instituto Oswaldo Cruz da Bahia.
Dr. Eduardo Araújo, a quem somos muito gratos pelo auxilio prestado, vários so-
r os de pessoas residentes em Salvador, capital daquelle Estado.
Em nossa primeira nota apresentámos os resultados percentuaes de alguns
(20» desses sôros já examinados por aquella occasiào. Agóra damos um estudo
completo desses sòros, num total de 67:
Negativos o o Positivos traços
°/o
Positivos fortes o/o
34 50,7 | 13
19,4
20 29,8
Por idade foram os seguintes os resultados percentuaes:
IDADES
Negativos
0/0
Positivos frteos
e/o
Positivo* fortes
e/o
De 12 a 20 annos. .
8
11,9
1
1,5
2
3.0
De 21 a 30 annos. .
15
22.4
8
11.9
10
14.9
De 31 a 70 annos. .
»
16.4
4
64)
8
11.9
^)e accordo com o sexo, os resultados foram
os s
eguintes:
SEXO
Negativos
•/.
Positivo» fracos
°/o
Positivos fortes
e/o
Masculino
18
26,8
5
7,5
ü
16.4
Feminino
16
23,9
8
11.9
13.4
Resultados com sõros de pc«soas residentes em São Paulo
Do Instituto Bacteriológico obtivemos vários sôros de indivíduos aqui resi-
ste* e remettidos áquelle estabelecimento para nelles ser praticada a reacção
^'assermann, cujos resultados nos foram juntamente enviados. Procedémos
* facção de fixação do complemento com antigeno amarillico nesses sôros e
15
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
186
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
ainda em muitos outros que conseguimos de pessoas que habitam São Paulo
muitos annos, tendo, entretanto, algumas delias passado temporadas no Rio
Janeiro. Não pudemos fazer um inquérito satisfactorio de todos, motivo por qu
damos aqui somente os resultados obtidos:
SOROS
Negativos
°/o
Positivos
fracos
°/o
Positivos
fortes
o/o
Soros c Wassermann + + + +
. ; 7
87.5
1
124
0
0
Soros c/ Wassermann negativo
16
80,0
3
15,0
1
5.0
Diversos
19
79,1
3
125
2
84
Média
42
822
7
134
3
4.5
Resultados com sòros de estrangeiros recem-chegados ao paiz
De 20 sòros extrangeiros examinados, lithuanos e japoneses, recemchegad
ao paiz (24 horas antes), não obtivemos nenhum resultado positivo.
Resultados com sõros de outras infecções
Com o intuito de estudar a especificidade do antigeno amarillico, realizáfl
varias provas em sòros de doentes de febre typhoide, de typho exanthematico
de outras doenças febris.
O quadro abaixo dá os resultados que obtivemos:
Soros de doentes de
Negativos
Positivos
fracos
Positivos
fortes
Febre typhoide . . .
. . 18
0
2
Typho exanthematico .
. . 5
1
0
Doenças febris. . . .
. . 13
1
2
Os commentarios que fizemos em nosso primeiro trabalho cabem aqui
a explicação da percentagem, embora pequena, de resultados positiyos com
de pessoas residentes em S. Paulo e de doentes de outras infecções: taes
tados explicar-se-iam pelo facto de algumas destas pessoas terem, possiveln
residido em zonas onde a febre amarella haja existido endemicamente, ap
de que não nos foi possível confirmar esta suspeita que se justifica, em
caso, pelos resultados com os sòros das pessoas residentes na Bahia.
CONSIDERAÇÕES EM TORNO DO ANTIGENO E DOS
ANTICORPOS AMARILLICOS
Hadjopoulos e Burbank (4) consideram um antigeno como composto í ‘ i |
moléculas dissimilares: a molécula immunogenica, isto é, fracção productof*
anticorpos e a molécula immunophilica ou fracção reactora aos anticorpos-
16
cm
'SciELO
0 11 12 13 14 15 16
J. L. Monteiro e J. Travassos — Diagnostico sorologico da febre amarella 187
mer (5), do mesmo modo, julga necessário discutir o papel de um antigeno sob
dois aspectos: em relação á producçáo de anticorpos e em relação á inter-reacção
com anticorpos in vitro no que diz com a fixação do complemento.
No caso presente, directamente só poderemos estudar a qualidade antigenica
do nosso soluto in vitro, isto é, em relação aos anticorpos fixadores do comple-
mento ou. como diria Burbank, á sua fracçáo immunophilica, por isso que, sendo
o nosso antigeno um soluto chimicamente complexo, onde proteínas, lipoides, hy-
dratos de carbono, etc. formam compostos indefinidos ou ainda não estudados,
não poderiamos saber a qual destes está ligado o papel de antigeno. Se, com
effeito, injectarmos em animaes de especies differentes, em dóses crescentes, o
soluto antigenico e, após o preparo do animal, procurarmos no sôro anticorpos
fixadores, usando como antigeno o mesmo soluto, é forçoso que os encontrare-
mos, por isso que os complexos proteino-lipoidicos, lipoides livres, e outros, por
si sós, independentemente da substancia especifica, são capazes de provocar a
formação de anticorpos. Não resta duvida de que o sôro de cavallo inoculado
com o viras (fígado), que goza, de accordo com as verificações de Pcttit e seus
collaboradores (6), de poder protector para o rhesus, contém anticorpos fixadores
do complemento, como se pode verificar no quadro abaixo:
Testemunhas do soro:
Reacç-lo :
Soros asti-aaarillico do
Unidade* complementam
Unidade* complementam
2 í 4
•J 3 4 5
Instituto Pasteur. . .
+ 1 — I — I — + + + + + | + -
Instituto Butantan . .
— — — —
— — * — | — + n- ) + +| +
Mas, como poderemos affirmar que esses anticorpos fixadores do comple-
mento são específicos para a porção immunogenica do antigeno, se como anti-
geno na reacção usamos o mesmo complexo chimico que foi inoculado no animal?
Os anticorpos fixadores poderiam ser específicos, tanto para o virus propriamente
dito, como para os complexos proteino-lipoides do figado.
lndirectamentc, porém, podemos ter a prova de que o nosso antigeno possúc
a fracçáo immunogenica: com effeito, dos rhesus, inoculados com figados que nos
serviram para o preparo do antigeno, alguns ficaram infectados c morreram de
febre amarella, outros resistiram á infecção e apresentaram em seu sôro quanti-
dade apreciável de anticorpos que fixam o complemento em face de um antigeno
preparado com o figado de rhesus infectado, mas que não o fixam em face de
um antigeno preparado com figado de rhesus normal, conforme as verificações
também de Frobisher Jor. Por outro lado, sabe-se que os sôros de rhesus immuni-
zados e os de convalescentes de febre amarella gozam da propriedade de proteger
os animaes sensíveis contra o virus e. pelas verificações por nós realizadas, esses
sôros possuem, em regular quantidade, anticorpos fixadores do complemento.
Isso não quer dizer, entretanto, que o poder de protecção corra só por conta dos
anticorpos fixadores do complemento, mas que estes dois anticorpos podem exis-
17
cm
SciELO
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188
.Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
tir concomitantemente, sobretudo no período de convalescença, podendo perdurar
por período mais ou menos longo, sendo os últimos (os fixadores do complemento)
mais facilmente eliminados, conforme as nossas investigações nesse sentido.
O antigeno contém seguramente o vinis amarillico, conforme se demonstra
pela inoculação do figado, de que foi preparado, em Macacus rhesus. Um dos
antigenos com que realizámos a maioria das reacções deste trabalho, provinha do
rhesus 102, cujo vinis fora utilizado para inoculação do rhesus 105, que teve in-
fecção característica e morte em 5 dias, sendo transferido para o rhesus 108 que
também morreu em 5 dias, após infecção typica, e. assim por diante, através de
outras passagens; o rhesus 103, inoculado com dose muito reduzida de uma emul-
são de figado do mesmo rhesus 102, teve apenas reacção febril, resistindo á in-
fecção, mas a reacção praticada então com o seu sòro (apenas 0,05 cc.) deu
resultado fortemente positivo (-Ç--J — | — }-).
Por outro lado, poder-se-ia provar indirectamentc a existência da fracçào
immunogenica no antigeno, pela prova de protecção dos sòros contendo anticorpos
fixadores do complemento em relação á infecção experimental. O quadro abaixo
mostra esta verificação por nós realizada e o resultado obtido:
Prova de protecção do Macacas rhesus cora sôros contendo anticorpos
fixadores do complemento
Soro de
Rrtoltado» da
rcacçio
Aaimati de prova
P. F. N., conva-
lescente de fe-
bre amarella.
+ + + +
Rhesus 107, inocul. c/
2cc. de soro P. F. N.,
em 21-7-30; inocul. c/ ]
virus 2cc. sangue do
rhesus 105 . em 22-7-30.
Nada de anormal apre-
sentou.
0. A. P. Guima-
rães, normal, re-
sidente na Bahia.
+ + + +
Rhesus 120, inocul. em
12-8-30 c / 2cc. de soro
0. A. P. O.; em 13-8-30
inocul. c/ virus (2cc.
de sangue rhesus 119 .
Nada de anormal apre-
sentou.
J. Magalhães,
normal, residen-
te na Bahia.
Rhesus 121, inocul. em
12-8-30 d 2cc. de soro
J. M.: em 13-8-30 inocul.
c virus 2cc. sangue do
rhesus 119. Nada de
anormal apresentou.
Tettcmantui
Resaludot da
protccçlo
Rhesus 108. ino-
cul. em 22-7-30
c/ virus 2cc.
sangue do rhe-
sus 105 . Morte
em 25-7-30 c/ le-
sões typicas.
Rhesus 122. ino-
cul. em 13-8-30
c / virus 2cc.
sangue do rhe-
sus 119 . Evolu-
ção característi-
ca, hypothermia,
sacrificado em
21-8-30. apresen-
tando lesões ty-
picas.
Positivo
Positivo
Positivo
Indirectamente, pois, poderemos provar que no nosso antigeno existe a frac-
çào immunogenica.
Para o estudo da fracção immunophilica basta verificar os resultados d* s
reacções nos sôros dos rhesus immunizados, das pessoas convalescentes e d* s
18
J. L. Monteiro e J. Travassos — Diagnostico sorologico da febre amarella 189
immunes i febre amarella. A percentagem elevada de resultados positivos dis-
pensa-nos qualquer commentario.
Tratando-se, contudo, de um antigeno chimicamente complexo, não podemos
assegurar que este se fixa unicamente ao anticorpo especifico amarillico, por ven-
tura existente nos sôros humanos. A prova realizada nos sôros de extrangeiros
recentemente chegados ao paiz que. como se sabe, são os mais sujeitos á infec-
ção, dá-nos margem, entretanto, para julgarmos que o antigeno possue certa es-
pecificidade.
DISCUSSÃO E SUMMARIO
As considerações feitas no inicio da nossa I.* nota mostram a importância
que apresenta o estabelecimento de um diagnostico sõrologico da febre amarella
Para a confirmação do diagnostico clinico, nos casos em que este apresenta dif-
ficuldades, como acontece no principio das epidemias, nos casos benignos, formas
frustras, etc..
Assignalamos também as pesquisas que, nesta nova phase do estudo da febre
amarella. foram feitas por differentes pesquisadores.
Os resultados obtidos com a reacção de fixação do complemento, com sôros
de pessoas convalescentes de febre amarella e de immunes, com sôros de rhesus
nos vários períodos da infecção, bem demonstram a possibilidade de um diag-
nostico post-infecçáo, muitas vezes necessário para comprovar a suspeita de um
caso que se revele por uma forma clinica frustra ou susceptível dc confusão com
°utros estados morbidos. A prova de protecção realizada cm rhesus é dispendiosa
e muitas vezes inaccessivel entre nós, por falta dc animaes cm abundancia.
A reacção de fixação do complemento sendo positiva no decurso ou depois
dc uma infecção suspeita clinicamente poderá ser discutida, quando se tratar de
u m nacional residente ou tendo residido em zona cm que a febre amarella é en-
dêmica. Tratando-se, porém, de um extrangeiro rccentcmentc chegado ao paiz
e provindo de região indemne, o resultado positivo parece revelar seguramente
a infecção.
Como referimos no decorrer deste trabalho, o antigeno que usamos deve
a Presentar em sua molécula as fracçôes immunogenica e immunophilica, o que
'he empresta valor de especificidade, mas não podemos assegurar que nos sôros
humanos não existam outros anticorpos, além do especifico ao virus, capazes por
s ua vez de, em presença deste, fixarem o complemento. As provas dc protecção
realizadas nos rhesus com sôros de nacionaes que apresentavam um resultado
^rtemente positivo, alem dos resultados sempre negativos da reacção em sôros
tJe extrangeiros recentemente chegados ao paiz, falam, entretanto, a favor de
ü ma certa especificidade desses anticorpos. Essas mesmas provas vém mostrar
também ha causa de erro na prova de protecção: tratando-se de um doente,
na cionaI e oriundo de fóco endemico, cila perde o valor, do mesmo modo que a
Prova de fixação do complemento.
19
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
190
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
CONCLUSÕES
I. A infecção amarillica. tanto humana como experimental, depois de certo
período da evolução, na convalescença e nos immunizados, pode ser diagnosti-
cada por uma reacçáo baseada na fixação do complemento.
II. Para esta reacçáo o antigeno será preparado com figado de rhesus in-
fectado, tratado por processo especial que liberte a maior quantidade possível do
virus. Este antigeno apresenta especificidade e sensibilidade na infecção, tanto
humana como experimental.
III. Os sôros de nacionaes residentes em zonas onde o mal é endemico, em
proporção de quasi 50 contêm anticorpos fixadores do complemento, o que
não acontece com os sôros de extrangeiros recemchegados ao paiz.
IV. Conforme se passa com os sôros de convalescentes, os sôros de nacio-
naes contendo anticorpos fixadores do complemento (reacçáo com -( — j — 1 — [-).
são capazes de proteger o Macacus rhesus em relação á infecção experimental.
V. Tratando-se de sôros de nacionaes oriundos de zonas de endemia ama-
rillica, este facto poderá falsear os resultados da reacção quanto ao diagnostico
post-infecçáo, o que também se dará com a simples prova de protecção do rhesus
pelo sôro de convalescente.
CONCLUSIONS
I. The diagnosis of yellow fever, both human and experimental may be
based on the complement fixation reaction made in the course of the infection,
in the convalescence and after complete recovery.
II. The antigen for this reaction must be prepared from the liver taken
from infected rhesus monkeys and ground in a way that may set frce as mucb
virus as possible. The antigen thus prepared shows both specificity and sensiti-
veness to the infection.
III. The sera of natives living in places where the disease is endemic sho»'
complement-fixing antibodies in about 50 % of the cases, whilst those of newly
arrived foreigners give negative results.
IV. The sera of natives containing complement-fixing antibodies (-j — | —
reactions), like those of convalescents, afford the rhesus protection against
yellow fever.
V. This indeed may mislead one in the interpretation of the results, should
the reaction be made on material from persons living in the endemic zone, but
the rhesus protection test made with convalescenfs serum will act likewise.
20
CAMPANHAS ANTI-OPHIDICAS
PO»
AFRAMO DO AMARAL
CAMPANHAS ANTI - 0 PHI DIGAS
PO 8
AFRANIO DO AMARAL (*)
SERPENTES VENENOSAS
Ames de tratar propriamente de campanhas anti-ophidicas, parece-me razoá-
vel que eu diga algumas palavras sobre o conceito scientifico de serpentes ve-
nenosas. Aqui cumpre distinguir entre o critério especulativo e o pratico. Do
Ponto de vista physiologico e anatomico, venenosos sáo quasi todos os ophidios,
Porquanto possuem glandulas que secretam productos capazes de exercer toxici-
dade sobre esta ou aquella especie animal. No entanto, do ponto de vista medico
e hygienico, só se devem considerar venenosas aquellas serpentes que, por possuí-
am abundante secreção e serem dotadas de apparelho inoculador cm ligação com
' glandula de veneno, são capazes de injectar facilmente este producto nos tecidos
*nimaes. Estão neste caso os ophidios pertencentes á serie dos protcróglyphos
°u á dos solenóglyphos, a primeira das quaes se caracteriza pela presença de
dentes maxillares anteriores (presas) chanfrados ou mais ou menos perfurados
(Fig. 1), e a segunda, pelo encurtamento do osso maxillar que, alem disso, é
^ovel perpendicularmcnte em relação ao cctoptcrygoide e ligado de cada lado a
ti ma grande presa tubular, cujo canal communica com o dueto excretor de ve-
ne no (Fig. 2).
A serie proteróglypha é representada no Brasil apenas pelas chamadas “Co-
^as coraes verdadeiras”, as quaes, todavia, por não serem propensas a picar c
Por viverem rarissimamente na superfície do solo, não constituem problema para
0 hygienista.
A serie solenóglypha corresponde em nosso meio á familia das Crotalideas,
41 quaes se distinguem das demais pela presença de dois orificios de cada lado
focinho: um anterior que é a narina e outro posterior que é a fosseta lacrimal
,p ig. 3). Sestas condições, para a immediata distincçâo dos ophidios não vcnc-
(•) Os dados constantes deste trabalho foram usados, em grande parte, na con-
vencia que, sobre o assumpto, realiiei perante o V Congresso Brasileiro de Hygienc.
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
196
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
nosos e venenosos é da maxima importância a observação desses dois orifícios I
faciaes, porquanto nenhum outro grupo de ophidios, alem das Crotalideas, ncm\
mesmo o das “ Corães venenosas", os apresenta.
As Crotalideas, divididas em duas subfamilias (Crotalineas e Lachesineasl.l
estão até agora representadas no nosso território por tres generos, subdivididos |
pelas dezeseis especies seguintes:
I. Genero Crotalus Linneu, representado por uma só especie no Brasil:
1. C. terrificus ( Laurentiusi, a Cascavel, abundantíssima em todas a*|
zonas seccas ou altas do pais.
II. Genero Lachcsis Dai din, que é monotypico, isto é, possue uma unica|
especie :
2. L. muta (Linneu), a Surucucu, encontradiça nas mattas do centro,
littoral (do Rio para o norte) e valle do Amazonas e Paraguay. E' esta a ser- 1
pente solenóglypha que attinge maior comprimento em todo o mundo ( pelo menos |
tres metros).
III. Genero Bothrops M’agler, cujas especies podem ser assim discrimina-
das, pela ordem de sua abundancia e importância medica ou cconomica:
3. B. jararaca (Wied), a Jararaca, muitó commum desde a Bahia e
o planalto central até o extremo sul, onde habita os campos e logares relativa-
mente planos.
4. B. atrox (Linneu), a Caissaca, abundante desde São Paulo, Min* 5
Geraes e Matto Grosso até o extremo norte, onde substitue a Jararaca.
5. B. jararacussu Lacerda, a Jararacussú, encontrada em logares baixo* |
e húmidos, frequentemente á margem de rios e banhados.
6. B. altcrnata Duméril & Bibron, a Urutu, que é própria da zon* I
central e meridional, onde vive em logares seccos ou pedregosos, preferindo * [
chamada zona de terra vermelha.
7. B. ncuwiedii Wagler, a Jararaca pintada, distribuída desde o R ,fl
Grande do Sul e Matto Grosso até o nordeste, onde substitue a Urutu, pois tato* |
bem occorre em logares seccos ou mesmo semi-aridos e pedregosos.
8. B. cotiara (Gomes), a Cotiara. que se encontra desde a região d*l
Serra do Mar no sudeste de Minas, e de São Paulo para o sul, especialme ntf I
no Paraná e Santa Catharina.
9. B. bilincata (Mied), a Surucucu de patioba, própria do norte
Rio de Janeiro até a região nordestina e o valle do Amazonas.
10. B. itapctiningac (Boulenger), a Cotiarinha, especie própria do > í '|
terior de São Paulo (Fig. 13).
11. B ■ castelnaudi Duméril & Bibron, a Jararaca cinzenta, relati' 1 I
mente rara mesmo nos valles do Amazonas e Paraguay e no planalto centr*' , |
donde 6 originaria (Fig. 14).
cm
'SciELO
0 11 12 13 14 15 16
A. do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
197
12. B. insularis (Amaral), a Jararaca ilhoa, restricta á Ilha da Quei-
mada Grande no littoral de Sáo Paulo (Fig. 15).
13. B. erythromelas Amaral, a Jararaca da secca, até agora assignalada
apenas na zona secca do nordeste (Bahia até Ceará) (Fig. 16».
14. B. iglesiasi Amaral, oriunda do sertão do Piauhy (Fig. 17).
15. B. pirajai Amaral, procedente da região meridional da Bahia
(Fig. 18).
16. B. neglecta Amaral, também originaria da Bahia (Fig. 19).
TRATAMENTOS EMPÍRICOS
E’ sabido que, especialmente entre a classe baixa, muita gente ainda acre-
dita que mordedura de cobra passa com remedios caseiros, cuja base é em via
de regra o álcool ou o kerozene. Assim, tanto no Brasil, como nos demais países
*mericanos. é frequente se verem pessoas, picadas por serpentes, procurar bcbc-
r *gens com base de álcool, sendo que nos Estados Unidos, em virtude da lei secca,
muitos pretos se fazem propositalmente picar por cobras não venenosas só para
•crem direito a uma dose de whiskey de que sentem tanta falta... No entanto,
mcperiencias realizadas com todo o rigor scicntifico tôm demonstrado que o álcool,
longe de curar ou siquer facilitar a cura, pelo contrario a difficulta, porque a
Principio favorece a absorpçáo do veneno e, mais tarde, cm resultado da baixa
da pressão sanguínea, retarda a rcacção do organismo c a eliminação do toxico.
No que diz com o kerozene, os effeitos observados ainda sáo mais preju-
diciaes. Alem de não ter acção qualquer benefica sobre o envenenamento, o kc-
tozene, ingerido nas doses que o povo emprega, complica os symptomas, porque
Por si só produz uma intoxicação aguda, com destruição do sangue e degeneração
do figado.
Ha dois annos, tive ensejo de soccorrer a um trabalhador, rccemchegado
'fe Portugal, que, ao ser picado por uma cascavel nos arredores da cidade de
São Paulo, foi obrigado a ingerir cerca de meia garrafa de kerozene que lhe
•^ministraram os companheiros de trabalho. Apezar da applicaçáo intensiva do
*ntivcneno especifico (sôro anti-crotalico), esse paciente não poude reagir, vindo
* fallecer no dia seguinte com todos os symptomas de envenenamento pelo kcro-
* en e. Ainda ha pouco tempo, tive sob observação uma franzina menina de 7
*nnos, residente á margem da estrada de São Paulo a Itú c que, depois de um
c °Pioso almoço, se viu, em certo domingo, picada por uma cascavel que foi morta
e trazida ao Instituto para identificação. Ao examinar o ophidio, dei pela falta do
Cre pitaculum (chocalho) e, ao ser notificado da morte da doente, apezar do tra-
^ento especifico, tratei de averiguar o que os parentes da victima haviam feito
Coni esse appendice. Fui então informado de que o mesmo havia sido triturado
e Posto em um copo de kerozene que foi dado a beber á desventurada criança.
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
198
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Logo depois deste caso, observei um outro de um menino de 12 annos de
idade residente em um velho sitio alem do Ypiranga, no município de São Paulo, o
qual fora mordido por uma cascavel no momento em que estava trabalhando na
roça. Soccorrido pelo pai que conseguiu matar a serpente causadora do accidente,
recebeu essa criança, como medicação de urgência, uma "boa dose" de cachaça
com alho grande, na crença de ter ingerido um antídoto efficaz. Não havendo
naturalmente o remedio produzido o effeito desejado, foi a victima, já em estado
grave, trazida ao Instituto Butantan pelo proprio pai que, ao ser inquirido sobre
o accidente e a medicação usada, declarou que administrara a pinga com alho,
só não tendo augmentado a dose para um copo, por se ter o offendido recusado
a ingerir mais, devido aos vomitos que provocava. Para fazer face ao envene-
namento dessa criança foram necessárias 9 empolas de sôro anti-crotalico injec-
tadas por via sub-cutanea, intravenosa e intraperitoneal, de mistura com cerca
de meio litro de agua physiologica com adrenalina, seguido de estrychnina e ca-
feína.
A minha primeira experiencia com tratamentos dessa natureza passou-se ha
cerca de nove annos, quando tive conhecimento de um caso de envenenamento
ophidico cuja unica 'medicação" consistira em couro de jacaré administrado com
"pinga e oleo de candeia". Bem se vê que, enquanto perdurar tamanha ignorân-
cia entre o povo, ha de ser moroso o progresso que poderemos fazer em nossas
campanhas de prophylaxia. No sul do Brasil, nos pontos em que a instrucçá®
está mais disseminada, e nos Estados Unidos, onde todos procuram aprender par*
melhorar e enriquecer, os resultados da campanha anti-ophidica têm sido pr°"
porcionacs ao adiantamento do meio.
COMBATE AO OPH1D1SMO
No combate ao ophidismo estão comprehendidas varias medidas, todas cor-
relatas e interdependentes, mas que devem ser postas em execução gradativa e
systematicamente afim de se assegurar o completo exito da campanha:
1. * Determinação das especies de serpentes venenosas de importância m**
dica c estudo de sua distribuição geographica.
2. * Captura systematica de taes serpentes, vivas.
3. * Pesquisa dos phenomenos physiologicos e immunologicos dos veneno*-
4. * Preparo de antivenenos (sôros anti-peçonhentos) de accordo com ° 5
typos mais importantes de peçonha, e emprego de meios mechanicos comp'*”
mentares de defesa contra as picadas.
5. * Organização de estatística sobre ophidismo e sobre o resultado da app' 1
cação de antivenenos no tratamento de picadas.
6
A. do Amaral — Campanhas anti-o phidicas
199
Infelizmente, os únicos países que tèm seguido consistentemente essa orien-
tação na lucta contra os ophidios venenosos, tèm sido o Brasil e os Estados Unidos.
Entre nós, graças á visão de Vital Brazil que cedo se deu conta da importância
do problema do ophidismo para as populações ruraes do país, creou-se no Insti-
tuto Butantan, sob a sua orientação, uma organização capaz de levar avante a
patriótica campanha que tão assignalados resultados tem produzido, conforme
vou tentar demonstrar neste trabalho, repetindo muito embora alguns factos sobe-
jamente conhecidos. Nos Estados Unidos, em resultado da crescente actividade
do Antivenin Institute of America, cuja organização, bastante vasta e elastica,
tem permittido um ataque á questão nos diversos pontos de sua immensa zona
rural, os fructos colhidos tèm sido tantos e tão importantes, que permittem espe-
rar-se para breve a completa eliminação do ophidismo como factor de mortalidade.
Aqui, como ali, a campanha tem sido orientada nos modelos por mim acima
apontados, já estando em franca execução, entre nós ha mais de 25 annos, e na
America do Norte ha apenas tres annos, as medidas referentes ao estudo e á
captura de serpentes venenosas e as pesquisas sobre venenos e preparo de anti-
venenos. Quanto á ultima medida indicada e que se refere á organização de
estatísticas sobre o ophidismo e sobre o resultado do tratamento especifico, o
Instituto Butantan tem delia, cm vezes varias, cogitado, conforme publicações
feitas por alguns de seus membros. De seu lado, o Antivenin Institute of America
»caba de demonstrar, no numero 2, vol. 111 do seu "Bulletin ', o surprchendcnte
e rápido successo da actividade que se vem exercendo naquelle país amigo.
O OPHIDISMO NO BRASIL
Vejamos, em primeiro logar, como no particular se tem exercido a actividade
do Instituto Butantan, á luz dos annexos graphicos, referentes á entrada de ser-
pentes, englobadamente ou por especies e grupos, á producçào de antivenenos e
* mortalidade por picadas.
a) Entrada» de serpentes
O Instituto prepara actualmente e em larga escala os seguintes antivenenos
°Phidicos (sflros contra picada de serpentes) para distribuição, sobretudo á zona
rttr »l do sul do Brasil:
1. Antiveneno crotalico (sôro anti-crotalico) monovalente, contra a nossa es-
teie de Cascavel, Crotalus tcrrificus ( Laurentius).
2. Antiveneno bothropico (sôro anti-bothropico) monovalente, contra a Jara-
,,c *i Bothrops jararaca ( Wied ) .
3. Antiveneno bothropico (sôro anti-bothropico) polyvalente, contra as espe-
res mais communs de Bothrops brasileiras, isto é. a Jararaca ou Bothrops jara-
0(9 (^’ied). a Caissaca ou Bothrops atrox (Linneu), a Jararacussú ou Bothrops
7
QUADRO DEMONSTRATIVO
DAS
QUADRO
SERPENTES RECEBIDAS
I I
PELO INSTITUTO BUTANTAN
DE 1901 A
1929
ESPECIES
O
C|
Cs
Os
>
C;
Cs
11
£
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Os
n
Os
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Os
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Cl
Os
K.
Cl
o
1
i ^
! Si
Cl
£
T otaes
1 — C. terríficas (Laurenti.)
120
380
960 955 1 .258
1.30!
1.732
1.305
1.636
1.463 1.12!
1.616 1.96
2.002 2.428
2.33'
2.477
2.396
2.187
2.08C
2.37:
3.262
4.627
5.209
47.198
2 — fí- jararaca (Wied) ....
46
251
39S
35C
46:
682
1.032
913
1.013
1.198 1.612
1.72:
I.65Í
2.64Í
4.477
3.75Í
5.587
4 690
3.161
4.226
5.701
4.417
5.751
7.579
63.340
3 — B. aüemata D. <S B
24
106
155
180
222
267
311
281
284
322
295
301
372
342
1 310
32.7
423
254
25»
265
347
349
347
440
6.776
— B. atrox (L) . . ,
! 57
79
70
142
172
69
111
1 18
133
82
116
144
174
19»
210
1(34
113
120
191
179
320
427
3.387
® B- jararacuszu Lacerda
4
19
42
39
50
83
170
183
161
122
127
147
10»
129
185
111
149
1(32
123
6(3
138
176
224
291
3.007
® B. cofiara (Gomes)
-
17
60
46
28
54
144
217
169
193
197
189
270
202
187
213
2.18(3
7 B. ncuwiedii Wagler
5
11
93
72
144
198
309
263
336
224
207
191
235
348
404
351
370
321
215
265
284
325
537
590
6.298
B. itapetiningae (Boulenger) . . .
3
9
9
8
3
5
2
7
5
3
2
7
4
25
4
5
12
4
8
3
11
11
150
B. insularís (Amaral)
_
97
10*3
141
95
40
24
503
*0 — B. iglcsiasi (Amaral)
21
— -
21
** B. bilincata (Wied)
1
2
, —
2
5
* 2 ti. tryfhromrlas Amaral
2
2 B. negtccta Amaral
1
— B. pirajai Amaral
2
Lachrsis muta (L.)
1
2
1
,
3
1
1
3
1
4
1
2
21
— Micrurus coralUnus (Wied) ....
14
17
II
27
15
30
21
36
24
58
92
158
130
83
52
52
47
60
40
967
17 — M. frontalis (D. & B.)
9
13
17
21
10
4
14
14
12
17
15
29
15
15
12
29
22
25
34
327
~~ Al. Irmniscalus (L.)
2
1
1
2
1
2
4
4
3
7
8
3
5
14
11
15
17
100
— Al. decoratus (Jan)
1
3
1
-
1
1
8
2
1
18
^ — AL fischeri (Amaral)
1
2 * — Al. filiformis (Günther)
1
22 — Especies não venenosas
-
19
71
307
315
476
612
971
1.480
1.916
1.430
1.289
2.184
1.734
1.952
3.030
2.20o
2 253
1.997
1.249
1.781
2.(338
2.309
2.836
3.177
38.232
23 — Nio classificadas
64
140
159
146
449
543
8
5
10
5
1.535
24 — Especies venenosas extrangeiras .
1
12
(30
143
216
23 — Especies não venenosas extrangeiras
1
16
382
398
TOTAES . . .
64
140
159
146
449
761 ;
849
2.02S
2 039
2.695
3 322
4.744
4 530 5.514
1.928
4.8S76.328I
3.389;
L769
1.400
1.721
1.883 10345-
•627'
1.063
2 053
11.317
5.0 18 18.554
174.692
cm
10 11 12 13 14
SciELO,
19 20 21 22 23 24 25 26 27 21
29 30 31 32
A. DO Amaral — Campanhas anti-ophidicas
201
jararacussu Lacerda, a Urutú ou Bothrops altcrnata Dm. & Bibr., a Jararaca pin-
tada ou Bothrops neunnedii Wagler e a Cotiara ou Bothrops cotiara (Gomes).
Afim de attender á intensa procura de seus antivenenos, o Instituto tem ne-
cessidade de manter um grande stock de venenos, convenientemente preparados
para fazer face á immunizaçáo de muitos animaes. Por esta razão, ao tempo que
distribue folhetos e gravuras de propaganda cpntra o ophidismo, o Butantan
remette a todos os interessados laços e caixas destinados, respectivamente, á
captura e ao transporte de ophidios da zona rural para sua séde. Esse serviço,
organizado por Vital Brazil, logo após a fundação do Instituto, tem sido grada-
tivamente ampliado e aperfeiçoado afim de attender ás necessidades do momento.
Em resultado da intensiva campanha que vem fazendo junto aos agricultores
para a captura systematica de serpentes e sobretudo das especies venenosas,
porventura encontradas em suas plantações e culturas, o Instituto tem conseguido
um numero crescente de exemplares, cuja discriminação consta do quadro I.
A analyse do quadro I revela que a curva de entrada de serpentes tem su-
bido progressivamente, havendo apenas soffrido ligeiras oscillaçõcs para menos,
em 1913, 1915 e 1916 e havendo depois baixado mais nitidamente em 1921, 1923-
1924 e 1927, annos esses que correspondem a mudanças na directoria do Insti-
tuto. De outro lado, houve uma reacção com nitido avanço nas entradas, em
1922 e 1926, em resultado da normalização do serviço e especialmcnte em 1920
e 1928, em consequência da intensificação da propaganda anti-ophidica pela zona
rural, nessas occasiões. Devo acrescentar que o record attingido neste anno,
quando recebemos 18.554 serpentes, será ainda ultrapassado no anno proximo,
a julgar pelo interesse demonstrado por grande numero de pessoas residentes no
interior.
b) Entradas de serpentes por especies
Um relancear d'olhos pela columna que no quadro II representa o numero
total de serpentes, por exemplares recebidos até 1929 pelo Instituto Butantan,
revela que, fazendo-se abstracçào das não venenosas que occupam o terceiro
logar na estatística, a Jararaca vem em primeiro logar com 63.340 especimes c
a Cascavel apparece logo em seguida com 47.198 especimes, surgindo depois, em
ordem decrescente, a Urutú. a Jararaca pintada, a Caissaca, a Jararacussu, a
Jararaca ilhoa, a Cotiarinha e outras menos communs. No gencro Lachcsis, sua
unica especie, L. muta (Linneu), é representada apenas por 21 exemplares. No
grupo das Corães venenosas (serie proteróglypha), a especie que concorreu com
tnaior numero foi Micrurus corallinus (Tied), vindo em seguida, em ordem de-
crescente, as especies Af. Icmniscatus (Linneu) e AI. decoratus (Jan).
Dada a importância que no problema ophidico brasileiro representam algu-
mas das especies acima registadas, parece-me razoavel que cu dê aqui uma lista
de seus nomes scientificos, ao lado de suas denominações populares:
9
202
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
A. Nome scientifico: Crotalus terrificus Laurentius
(Fi*. 4)
Designações vulgares: (•) Cascavel, Cascavel de quatro ventas (no Nor-
deste), Boicininga (Boiçuninga, Boicinunga ou Boiçununga), Maracá, Maracaboia
e Boiquira.
B. Nome scientifico: Lachesis muta (Linneu)
(Fi*. 5)
Designações vulgares: Surucucu, Surucucu de fogo, Surucucú pico de jaca,
Surucucutinga e Surucutinga.
C. Nome scientifico: Bothrops jararaca (Wied)
(Fi*. 6*
Designações vulgares: Jararaca, nome aliás que nalguns pontos do Norte do
Brasil se applica também á Caissaca (B. atrox), Jararaca dormideira, Jararaca
preguiçosa. Jararaca da matta virgem, Jararaca do cerrado. Jararaca do campo,
Jaraca e Jaracá.
Nota: Si as estatísticas de Butantan dissessem respeito mais ao Norte do que
ao Sul do Brasil, o logar nellas occupado pela Jararaca seria certamente tomado
pela Caissaca, espccie abundantíssima na zona septentrional.
D. Nome scientifico: Bothrops atrox (Linneu)
(FI*. 7)
Designação vulgar: Caissaca, nome que em alguns pontos do norte do Brasil
é substituído pelo de Jararaca.
<
E. Nome scientifico: Bothrops jararacussu Lacerda
(Fi*. s>
Designações vulgares: Jararacussu e Jararacussú verdadeiro. Esta especie é
ainda conhecida pelos nomes de Jararacussú cabeça de sapo, Jararacussú malha
de sapo, Jararacussú cabeça de patrona. Patrona, no Nordeste e especialmente
na Bahia; Jararacussú tapete, Surucucú tapete. Cobra tapete. Tapete, Urutú.
Urutú dourado, Urutú preto, Urutú amarello, Urutú estrella e Surucucú dourado,
na região sudestina e especialmente nas zonas baixas dos Estados do Rio e Minas
e no chamado "Norte" (Leste) de São Paulo, zona da Estrada de Ferro Central
do Brasil.
(*) A respeito da significação e distribuição da maioria destes nomes vulgares
no Brasil consulte-se: — Amaral, Afranio do — Nomes vulgares de ophidios do Brasil-
Boletim do Museu Nacional II (2). 1926.
10
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
A. do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
203
F. Nome scientifico: Bothrops alternata Duméril & Bibron
(F!f. 9)
Designações vulgares: Urutu, Cruzeiro ou Cruzeira e Cotiara ou Coatiara.
Jararaca rabo de porco (extremo sul do Brasil) e Jararaca de agosto (região da
Lagoa dos Patos).
G. Nome scientifico: Bothrops ncuwicdii VCagler
<Fi*. 10)
Designações vulgares: Jararaca pintada. Boca de sapo, conforme é conhecida
especialmente em Matto Grosso, e Rabo de osso, segundo é chamada no sertão
de Goyaz.
Nota: Esta especie tem sido também chamada Jararaca de rabo branco, de-
nominação que. alem de exprimir incorrectamente um caracter, tem o grande
defeito de provocar confusão entre esta cobra e exemplares immaturos de Ja-
raraca ( Bothrops jararaca ), os quaes têm a ponta da cauda branca. Na verdade,
parece que um bom numero dos casos de accidentes attribuidos á “Jararaca de
rabo branco”, nos boletins recebidos pelo Instituto, foi determinado pela B. jara-
raca e não pela B. ncuuiedii.
H. Nome scientifico: Bothrops cotiara (Gomes)
(Hf. II)
Designações vulgares: Cotiara ou Coatiara. Boiquatiara, e Jararaca preta
(no centro de Santa Catharina).
/. Nome scientifico: Bothrops bilincata (VTied)
<Flf. 12)
Designações vulgares: Surucucu de patioba. Surucucu de pindoba, Patioba.
Surucucu pinta de ouro (no sertão da Bahia), Jararaca verde e Ouricana ou Uri-
cana.
Nota: Embora na estatística de Butantan não constem accidentes que se
possam attribuir a esta especie, é certo que cila, por ser dendricola e possuir
coloração protectora, constitue serio perigo sobretudo na região do Rio Doce e
na zona cacaueira da Bahia, onde é frequente.
c ) Entrada de serpentes por grupos
Fazendo-se a discriminação, em grupos, das serpentes mais importantes re-
gistadas nos Quadros I e II, obtem-se o quadro III que revela os seguintes por-
menores relativos á curva de entradas:
O genero Crotalus, representado pela nossa Cascavel, esteve cm ascençáo
constante no período de 1916 a 1921, quando começou a abaixar até o anno de
II
Curva das entradas de Crotalus, linthrops, não venenosas c Micrurus de 1010 a 1929
204
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
12
A. do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
205
QUADRO I V
Entrada de Crotalus e Bothrops de 1910 a 1929
13
192 ?
206
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
1925, reagindo desde então até 1927 e especialmente em 1928 e 1929, annos em
que attingiu a mais do dobro do indicado pelo apice (1922) da curva de fluctua-
cão anterior.
O genero Bothrops , representado pela Jararaca e especies affins, soffreu
uma forte ascenção do periodo 1919 a 1920, descençáo em 1921, havendo decli-
nado abruptamente em 1923-1924 e em 1927 e augmentado, na mesma pro-
porção, em 1925-1926 e em 1928 e 1929.
O genero Micrurus, representado pelas nossas Corães venenosas, tem sof-
frido apenas ligeiras oscillações, havendo augmentado em 1921 e 1922, em resul-
tado da intensiva campanha feita em 1920 e começo de 1921 em certas zonas
em que, baseado na zoogeographia, sabíamos serem abundantes essas serpentes.
O grupo das não venenosas, representado por grande numero de generos e es-
pecies, de que, no periodo de 1906 a 1929 foram recebidos 38.232 exemplares,
tem apresentado algumas fluctuações, das quaes as mais nitidas foram os aug-
mentos observados em 1914, 1917, 1920, 1926, 1928 e 1929 e as diminuições
observadas em 1916 e 1918, 1921. 1923-1924 e 1927.
Sendo os venenos crotalico e bothropico mixto os mais necessários ao Ins-
tituto, por servirem ao preparo de dois de seus antivenenos ophidicos, empre-
gando-se o primeiro no dos antivenenos crotalico e ophidico e o segundo no dos
antivenenos bothropico e ophidico, cumpre analysadas separadamente as curvas
de entrada de serpentes dos dois generos Crotalus e Bothrops, conforme demons-
tração contida no quadro IV. Esse quadro indica mais claramente do que seus
anteriores as oscillações que essa curva tem soffrido, cumprindo-me apenas in-
formar agora que a ascenção, observada em relação a 1928 nas duas curvas, se
reproduziu ainda mais intensamente no anno findo.
d) 1'roducção de antivenenos
Effectivamente. o Instituto immuniza cavallos para o preparo dos vários typos
de antivenenos especificos (sôros anti-peçonhentos), com o veneno obtido do
grande numero de serpentes que recebe.
Feita a necessária revisão na estatística de producção de antivenenos c dis-
criminadas especialmente as partidas de sôros fortes, isto é. cujo poder antitoxico
é superior ou pelo menos igual á minima ha muitos annos estabelecida no Ins-
tituto (0,8 mgr. por cc. para o sóro anti-crotalico, 1,5 mgr. por cc. para o sôro
anti-bothropico e | ° J por cc. para o anti-ophidico), das partidas de sôros fracos,
isto é, aquelles cujo poder antitoxico estava aquem dessa minima ou correspon-
diam a lotes preparados nos primeiros annos, quando eram distribuídos ainda em
empolas de 20 cc. e sua technica de preparo e doseamento não estava ainda
definitivamente estabelecida, obtem-se um novo graphico em que se vê essa pr°'
ducçào acompanhar de perto a entrada de serpentes venenosas.
14
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
Relação entre a entrada de serpentes venenosas c a producção de antivenenos
A. do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
207
15
208
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Os dados constantes dessa comparação podem ser claramente representados
em forma de curva, conforme se vê no quadro V. A analyse deste quadro revela
os seguintes factos principaes:
1. ° A curva de entrada de serpentes venenosas reproduz quasi exactamente
a que está representada no quadro II, relativo ao numero total de serpentes, de
quaesquer typos, recebidas pelo Butantan desde 1901.
2. ° A producção de antivenenos foi relativa e constantemente maior do que
a entrada de serpentes, isto até o anno de 1918, quando aquella producção come-
çou a decrescer. Este facto está ligado principalmente á reducção volumétrica
que a producção de antivenenos soffreu em resultado da concentração mais ou
menos systematica das partidas de plasma e cujo inicio se verificou por volta
de 1917. Reduzido o volume desses plasmas em consequência da refinação, era
natural que sua producção total ficasse reduzida em relação á do periodo anterior.
3. ® A diminuição da producção de antivenenos nos annos de 1919, 1921,
1924, 1927 e 1928, correspondeu exactamente a alterações verificadas na orien-
tação do Instituto, em resultado das constantes mudanças de directoria observadas
entre 1919 e 1928.
4. ® A reacçáo de augmento da producção surgiu em 1926, quando os anti-
venenos, apezar de concentrados por sua maior parte, ultrapassaram em quan-
tidade a cifra verificada cm 1918. Devo dizer que essa reacçáo observada em
1926 foi reproduzida no corrente anno.
e) Mortalidade por ophidismo
Naturalmente que é impossível saber-se em nosso país quantas pessoas mor-
rem annualmentc em resultado de picada por serpentes venenosas. Os cálculos
que se fazem a esse respeito representam provavelmente apenas uma vaga appro-
ximaçáo da verdade, para mais ou para menos. Em seus primitivos trabalhos.
Vital Brazil (1) achava que se poderia acceitar para cada Estado do Brasil a media
annual de 200 obitos ligados ao ophidismo; mais tarde, baseado nos dados esta-
tísticos referentes ao Estado de São Paulo, avaliou em 4.800 o numero global
provável de mortes por ophidismo em todo o Brasil, annualmentc, sobre um total
de cerca de 19.200 accidentes ophidicos.
Compulsando-se as estatísticas vitaes do Estado de São Paulo obtêm-se os
dados constantes do quadro VI e referentes á mortalidade geral e a por animaes
peçonhentos, cuja maioria é naturalmente representada por serpentes.
Por esse quadro se verifica que o coefficiente por 1.000, de mortalidade
por animaes peçonhentos, se manteve em redor de 2.6 a 2.0 desde que todos os
municípios do Estado começaram a enviar estatísticas (isto é, em 1906) até 1912-
e que, depois dessa época, decresceu rapidamente, mantendo-se nos últimos ®
annos em tomo de 0,8 a 1,1.
16
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
A. zo Amaral — Campanhas an:i-ophidicas
209
QUADRO VI
Relação entre a mortalidade geral e a por picada de animaes
peçonhentos no Estado de São Paulo
ASNO
Mortalidade
geral
Mortalidade
por peçcnhaj
Coefíiciente
por 1.000 obilos
NUMERO DE MUNICÍPIOS QUE
ENVIARAM ESTATÍSTICAS
1902
50.693
w
1.0
128 municípios (17 incompletos)
1903
41.091
89
2.1
120
tf
1904
484)41
123
225
154
H
1905
57.507
148
2.5
171
ft
1906
64.434
156
2.4
172
n
(completos)
1907
59.059
155
2.6
172
tf
ff
1908
59.874
143
23
172
ti
ff
1909
59.515
149
2.5
172
ff
1910
62.401
126
24)
172
tf
ff
1911
64.324
146
2,2
173
M
tf
1912
71.611
150
24)
174
M
M
1913
69.104
127
1,9
175
tf
tf
1914
68.693
97
1.4
179
tf
ff
1915
66.302
80
13
181
f*
tf
1916
70.938
74
1.0
185
ff
1917
76.680
71
0,9
187
tf
(1 incompleto)
1918
89.545
84
0,9
194
ft
(2 incompletos)
1919
81.938
111
13
199
tf
(I incompleto)
1920
80.777
82
1.0
204
tf
(completos)
1921
93.434
78
0,8
204
tf
ft
1922
85.450
115
13
211
tf
ff
1923
91.966
75
0,8
216
tf
ff
1924
96024
84
0,9
219
ff
ff
1925
92.172
82
0,9
229
•f
tf
1926
92.147
84
0.9
241
ft
1927
95.767
80
03
246
••
ff
1928
102.029
101
0,9
251
ff
ff
1929
101.834
m
...
259
ff
~
17
210
.Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Tendo-se em vista a imperfeição das estatisticas vitaes ha cerca de 20 ou
25 annos, devido ás difficuldades de communicação então existentes e o pouco
interesse revelado no caso pelas municipalidades naquelle tempo, pode-se calcular
em cerca de 2,5 a 3 por 1.000 o primitivo coefficiente de mortalidade por picada
de animaes peçonhentos, no Estado de S. Paulo, chegando-se á conclusão de que
a campanha do Instituto Butantan tem conseguido reduzir essa cifra a. pelo me-
nos, 1/3 do original. Em outros termos, pode-se dizer que, só nesse terreno, o
Instituto tem contribuído para a economia local com cerca de Rs. 4.000 :000$000
annuaes, calculando-se em Rs. 20:000$000 o valor medio actual de cada pessoa
salva.
Aliás o Instituto Butantan possue um meio indirecto, embora também apenas
approximativo, de avaliar os accidentes ophidicos propriamente ditos e a mortali-
dade delles decorrente, graças aos boletins que envia conjunctamente com as em-
polas de sôro para serem preenchidos pelas pessoas que recorrem ao tratamento
especifico. Esses boletins obedecem ao typo constante do modelo que aqui apre-
sento:
18
cm
SciELO
LO 11 12 13 14 15 16
A. DO Amaral — Campanhas anti-ophidicas
211
INSTITUTO BUT A X T A X
CAIXA POHTAL «13 — H. 1‘ACLO
BOLETIM PARA OBSERVAÇÃO DE ACCIDENTE OPHIDICO
Tratamento feito pelo Sr.
Ponto do corpo em que foi mordido
l.o — Qual o nome da cobra que mordeu?
R. -
2.° — Qual o numero de horas decorridas entre a hora cm que se
deu o accidente e a da l. a injecção?
3. ° — Qual a qualidade do soro empregado? Quantas empolas?
R. - —
4. ° — Qual o resultado do tratamento? Cura?
R. -
5. ° — Houve cegueira?
R. —
ó.o — Houve hemorrhagia?
R. —
7.0 — Houve paralysia?
R. -
8.° — Houve inchação no logar mordido?
R. -
9.0 — Em que data occorreu o accidente?
R. — de de 19
Obsen-ações :
N. B. — No caso Je ter sido applicado em animal, laçam-se aa alterardes necessárias.
O Director do Instituto, desejando colher elementos para a organiuçjo da estatística dos accidentes
*Phidicos tratados pelo soro, pede instantemente ls pessoas que tiserem tido a opportunidade de applicar
e»«e recurso tberapeutico, o obséquio de encherem este boletim, dcrolvendo-o em seguida a este estabeleci-
mento, acompanhado de todos os esclarecimentos que julgarem util accrescentar aos que constam das
Perguntas acima.
Residente em
Na pessoa de
no Estado de
de annos de edade.
R. —
19
212
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
QUADRO VII
Accidentes ophidicos tratados por anmenenos de 1902 a 1929,
segundo boletins recebidos pelo Instituto Butantan
ANNO
CASOS CURADOS
CASOS FATAES
Homens
Mulheres
Crianças
Animaes
TOTAL
Homens
Mulheres
Crianças
Animaes
TOTAL
1902
11
1
4
16
_
_
1903
14
6
3
23
1904
8
1
7
-
16
1905
11
4
3
18
1906
-
1907
29
9
11
5
54
i
1
1
3
1908
55
«»
21
12
99
3
1
4
1909
57
2
21
3
83
1
3
4
8
1910
68
9
30
28
135
1
3
4
1911
102
11
31
18
162
3
1
1
2
7
1912
95
16
29
18
158
3
3
1913
55
»
26
24
116
1
1
3
5
1914
98
15
31
25
169
-
I
2
3
1915
81
21
27
28
157
4
2
6
1916
103
11
32
28
174
4
t
1
1
7
1917
97
19
30
18
164
I
3
4
1918
87
23
32
19
161
3
_
1
8
12
1919
76
8
22
25
131
4
1
3
8
1920
56
17
23
21
117
1
1
2
4
1921
54
10
10
14
88
1
2
2
5
1922
74
27
40
22
163
3
3
1
7
1923
66
17
19
25
127
1924
48
15
25
21
109
2
1
2
5
1925
86
13
31
15
145
5
2
1
i
9
1926
115
36
59
29
239
1
2
5
8
1927
91
22
36
18
167
3
1
3
2
9
1928
112
22
39
38
211
4
1
1
6
1929
123
»
51
57
257
I 2
3
4
9
1.872
385
688
514
3.459
46
10
26
54
136
20
A. co Amaral — Campanhas anti-ophidicas
213
A revisáo que acabo de fazer dos boletins recebidos pelo Instituto desde
1902, sobre accidentes ophidicos tratados por antivenenos específicos, fomeceu-me
elementos para organizar o quadro VII, cuja analyse revela os seguintes factos
referentes aos casos que terminaram pela morte, apezar do tratamento especifico:
1. ” Os homens contribuem com mais de metade dos accidentes curados (cerca
de 54 ^í); as mulheres, com cerca de II ' ; as crianças, com 20 ^ e os ani-
maes, com 15 í .
2. ° A mortalidade relativa entre os casos tratados é mais alta entre os ani-
maes (cerca de 40 ( l) do que em qualquer dos outros 3 grupos de victimas. Os
homens, as mulheres e as crianças contribuem, respectivamente, com cerca de
34 7 % e 19 \í para o total das fatalidades, embora possa haver, neste ponto,
engano quanto á distincção das pessoas offendidas em crianças e adultos, por-
quanto algumas mulheres, nem mesmo sob a influencia da peçonha ophidica, dei-
xam de diminuir a edade.
3. ® O envenenamento ophidico é sempre muito grave nas crianças e espe-
cialmente nos pequenos animaes, o que é, sem duvida, devido á maior concen-
tração sob que o veneno das serpentes actua sobre taes organismos de pequeno
peso. Na verdade, verifica-se, pela analyse dos 54 casos de animaes mortos em
resultado de picadas e apezar do tratamento, que só os cães concorreram com
20 ou seja 36 do obituário desse grupo.
Já desde 1919 eu venho verificando, assim em experiências de laboratorio,
como pela observação de pacientes, que as doses até ha pouco rccommendadas
pelo Instituto Butantan para o tratamento de accidentes ophidicos em crianças
e em certos animaes de pequeno tamanho, eram insufficientes. Por isso mesmo
é que nas novas instrucçôes a serem expedidas pelo Instituto sobre o methodo
de tratamento e as doses a empregar cm taes casos, aconselhamos, conforme se
lê abaixo, a repetição das injccçõcs cm intervallos de duas horas, sempre que o
accidcnte seja grave, e quantidades de antiveneno tanto maiores quanto menores
e mais jovens forem as victimas. Assim, nas crianças e nos cães c necessário
que se injecte pelo menos uma dose inicial de 40 a 60 cc., desde que, pelo
quadro symptomatico, se verifique a gravidade dos casos. Alem disto, é aconse-
lhável, segundo observações que venho fazendo ha algum tempo, injcctar-se cm
torno do ponto offendido pelo menos uma parte da dose do sôro indicada, nos
c asos de picada pela Jararaca c outras serpentes do mesmo genero (Bothrops),
c uja acção necrosante sobre os tecidos c bem conhecida.
Só por este meio e pela suppressáo do emprego do álcool, do kerozene e de
°utras "medicações de urgência' que taes, se poderá fazer baixar ainda o coef-
iciente de mortalidade por ophidismo.
Alem do menor peso, concorre nas crianças e nos pequenos animaes, para
0 aggravamento do accidente e para a difficuldade da cura. o facto de em taes
^sos não ser geralmente possível, sinào pela marcha dos symptomas, rcconhe-
c *r-se a especie de ophidio que causou o envenenamento, donde decorre quasi
21
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
.Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
cm
Accidcntes ophidicos tratados por antivcncnos de 1902-1029, conforme boletins recebidos pelo
Instituto Butantan c classificados por victimas c por cspecies mordedoras
A- do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
215
23
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
216
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
*
sempre a applicação tardia do remedio. Alem disso, acontece que não são poucas
as vezes cm que taes accidentes são erroneamente tratados por sòros não espe-
cificos. Assim sendo, não é de estranhar que, a despeito de todos os esforços
empregados pelo Instituto para vencer a ignorância do povo e melhor distribuir
as empolas de antiveneno, a porcentagem de mortalidade de casos tratados pareça
ter chegado a um limite (entre 3 r í; e 5 f t ) de que talvez difficilmente venha
a baixar.
Todavia, o resultado favoravcl da applicação dos antivenenos no tratamento
das picadas de serpentes transparece facilmente dos quadros apresentados, por-
euanto, apezar de a mortalidade geral do Estado de São Paulo estar augmentando,
embora não siga parallelamente com o rápido crescimento da população, a mor-
talidade por ophidismo (incluída na rubrica “Picadas de animaes peçonhentos")
tem decrescido na ordem quasi inversa. Esse resultado é, por sem duvida, devido
ao emprego dos antivenenos cuja producçào é cm grande pane enviada para a
zona rural do Brasil, cm permuta pelas serpentes que, em numero crescente, o
Instituto dali recebe.
No quadro VU1 pode-se ver a relação existente entre a mortalidade por
ophidismo c a producçào de antivenenos, à luz das estatísticas do Instituto Bu-
tantan.
.Mais interessantes ainda são os ensinamentos que decorrem do estudo com-
parativo dos accidentes ophidicos segundo as especies de serpentes e a qualidade
de suas victimas. Esses dados encontram-se resumidos no quadro IX, cuja ana-
lvse mostra vários factos dignos de maiores commentarios.
Assim é que dclle resalta mais uma vez que, pelo menos para o sul do
Brasil, a Jararaca é a especic que determina maior numero de accidentes. Isto
é naturalmcntc devido ao facto de ser cila a especic mais abundante, alem de
viver nos campos c frequentar logares abertos, facilmente accessiveis ao homem.
Apezar disto, é bem provável que, dada a ignorância do nosso trabalhador rural,
vários casos tenham sido attribuidos á Jararaca, quando na verdade a especie
causadora do accidente haja sido outra qualquer, como a 8. nenmedii, a 8. atrox,
etc. No caso particular da 8. ncuu-icdii, é possível também que o numero de
accidentes registado esteja alem da realidade, porquanto parece ter havido con-
fusão. desde os primeiros trabalhos feitos cm Butantan, no tocante á denominação
vulgar desta especie, á qual se tem applicado a denominação “Jararaca de rabo
branco", que o povo do interior costuma empregar em relação aos exemplares
immaturos da 8. jararaca.
Esta estatística ainda mostra que a Cascavel apparece em segundo logar
entre as serpentes devidamente identificadas como causadoras de accidentes. E’
cila. na verdade, encontrada com alguma frequência nas terras seccas e espe-
cialmentc nos cafczaes e outras culturas, onde encontra numero sufficiente de
roedores, de que se alimenta.
24
A. DO Amaral — Campanhas anti-ophidicas
217
Logo em seguida surge a Jararacussú, nome que é ás vezes applicado, erro-
neamente, pelo povo, aos exemplares velhos da Jararaca e da Caissaca, de sorte
que é possível que. neste particular, a estatística não seja bastante rigorosa.
Esta especie frequenta os logares baixos ou alagadiços e apparece por vezes nas
margens de rios e banhados, onde constitue seria ameaça aos pescadores e á
criação em geral.
A Urutú concorre com menos de 7 'é dos casos communicados, sendo geral-
mente considerada pelos lavradores como especie perigosissima, sobre cuja picada
dizem “quando não mata, aleija". Effectivamente, a B. altcrnata é uma especie
excessivamente irascível que se costuma encontrar em attitude de defesa e prestes
a picar. Sóe encontrar-se entre paus. sob pedras ou especialmente em buracos,
habito que propicia a picada de cães de caça.
Depois da B. ncuaicdii de que falei acima, vêm a Caissaca e a Cotiara, a
primeira das quaes contribue com um numero diminuto de accidentes para a es-
tatística de Butantan, porque esta se refere mais particularmente á zona meri-
dional do Brasil, onde a especie é rara. Já disse que fòra do norte e na região
amazônica que estivessemos empreendendo a lucta contra o ophidismo c forço-
samente a Caissaca tomaria o logar da Jararaca, especie que até agora não foi
assignalada ao norte da Bahia e do planalto central do Brasil.
A Lachcsis muta, a celebre Surucutinga ou Surucucú de fogo, tão temivcl
dos nossos caçadores e lenhadores, por seu tamanho e aggrcssividade. contribue
com um coefficiente quasi negligivel para a estatística. Isto é devido ao facto
de esta serpente habitar logares ermos, especialmentc mattas c florestas, e viver
tm buracos de tatús onde só é molestada pelos cães de caça e caçadores menos
cautos. Naturalmente que, occorrcndo em grande extensão da zona estrictamcnte
tropical, a Surucutinga deve causar um numero muito maior de accidentes c
muitos dclles fataes, embora não communicados ao Instituto, nem talvez siquer
conhecidos dos centros populosos. Tenho para mim que as nossas selvas guardam
também o segredo do que se passa com as pessoas e animaes picados por essa
cobra.
As Corães, embora muito frequentes no sul do Brasil, apenas determinaram
9 accidentes communicados ao Instituto no período de 28 annos (1902-1929), o
que vem demonstrar a raridade de sua picada. Devido a isto, o Instituto Bu-
tantan deixou, ha muitos annos, de preparar o antiveneno elapidico (“sôro anti-
elapineo") que não teve procura por parte da população rural, e trata de desen-
volver apenas a produeçáo dos demais antivenenos, cuja necessidade está cabal-
mente demonstrada pelos proprios dados estatísticos que venho commentando.
/) Producçâo de veneno por especie»
Alem da idade e tamanho da victima. influem na gravidade do envenenamento
ophidico certos factores que dizem respeito, uns á própria victima, outros á ser-
pente ou á especie causadora do accidente. Entre os primeiros se incluem a re-
25
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
218
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
gião do corpo attingida, a via de penetração do veneno, a condição ou estado do
paciente. Assim é que o envenenamento é tanto mais grave quanto mais perto
do tronco e, pois, dos centros vitaes é feita a picada; do mesmo modo a gravidade
augmenta quando o veneno é inoculado directamente na circulação (o que fe-
lizmente parece dar-se rarissimamente) e quando a victima está com o estomago
cheio, ou soffre de lesão cardíaca ou renal, ou então é mulher em adiantado
estado de gravidez, pois, nestes casos, a eliminação do veneno é mais difficil.
Entre os segundos estão comprehendidos o tamanho da serpente causadora
do accidente e a especie a que cila pertence. Assim é que, de um modo geral,
se tem verificado que os exemplares adultos secretam maior quantidade de veneno
do que os jcvens e do que os já envelhecidos, embora seja verdade que, em certas
especies, os indivíduos já completamente desenvolvidos é que secretam mais ve-
neno. A variação por especie está ligada á toxicidez de cada veneno, a qual é
mais accentuada na cascavel do que nas outras serpentes crotalideas brasileiras.
Felizmente a cascavel é, de todas as especies communs, aquella que secreta menos
veneno de cada vez, conforme se depara do seguinte quadro organizado segundo
os dados publicados por Vital Brazil (1914) e no qual, ao lado da quantidade
(volume) de veneno secretada pelas serpentes, se encontra o peso do mesmo de-
pois de deseccamento no laboratorio:
ESPECIES
Volume em c. c.
Pex> em milligrs.
Crotalus tmificus . . .
0.1
33
fíothrops jararaca . . .
0.2
66
fí. jararacassu ....
1.0
330
fí. altemata
0.5
165
fí. ncuwicdii
0.1
33
fí. atrox
0.3
99
fí. cofiara
0.4
120
Por esse quadro também se verifica que, sendo cxtrahido de serpentes em
condições mais ou menos normaes, o veneno perde cerca de 2/3 de seu peso ao
ser descccado, ou, em outros termos, a parte solida (parte activa) representa ap-
proximadamente 1/3 do total do veneno.
Este resultado, todavia, se modifica com a repetição das extracções de ve-
neno dos mesmos exemplares, porquanto, então, não somente se reduz a media
de produeçáo por indivíduo (e especie, consequentemente), mas ainda o veneno
fica menos concentrado, passando a parte solida a representar apenas 1/4 ou
1/5 do peso total do veneno, conforme se verifica pelos seguintes quadros, ba-
seados em algumas dezenas de milhares de extracções dentre as registadas na
Secção de Ophiologia do Instituto no periodo de 1912 a 1930:
26
A. DO Amaral — Campanhas anti-ophidicas
219
Producção de Teneno pelas especies mais communs do Brasil
(Veneno liquido)
No. d* extracçSes
Volume tm c. c. j
Media em e. c.
por eiemplar
Crotalus tenificus . . .
28-527
3.001
0,10
Bothrops jararaca . . .
43.823
4.1933
0.09
B. jararaeussu
2.044
895,4
0,43
B. altemata
2.514
588.6
033
B. neuwiedii
3.418
3223
0,09
B. atrox
2.761
6003
0,21
B. cotiara
968
12435
0,13
Producção de veneno pelas especies mais communs do Brasil
(Veneno deseccado)
No. de extracçftes
Volume cm c. C-
Media em millgr*.
por exemplar
Crotalus terrificus . . .
12.755
297,099
23 mgr.
Bothrops jararaca . . .
29375
686.022
22 mgr.
B. jararaeussu
506
52,870
104 mgr.
B. altemata
1.251
58,757
47 mgr.
B. neuwiedii
1.408
29.664
21 mgr.
B. atrox
1.012
48.544
47 mgr.
B. cotiara
1328
33352
27 mgr.
A analyse dos dados constantes destes quadros, alem de reforçar as infor-
mações, exaradas em paginas anteriores, sobre a grande toxicidade do veneno
da cascavel, sobre a frequência das picadas por esta especie e pela jararaca c
sobre a gravidade do envenenamento causado pela jararacussú, urutú e jararaca
pintada, vem justificar cabalmente a praxe adoptada pelo Instituto Butantan de
não expor a consumo sinão antivenenos (sóros anti-peçonhentos) ophidicos de
poder antitoxico relativamente elevado. Na verdade, diante dos elementos esta-
tísticos representados neste trabalho, não se poderia justificar, no tratamento de
accidcntcs ophidicos, o emprego de sóros cujo poder antitoxico fosse inferior aos
seguintes valores: 8 millgrs. de veneno de cascavel por 10 cc., para o anti-crota-
lico; 15 millgrs. de veneno de jararaca por 10 cc., para o anti-bothropico; 4
millgrs. de veneno de cascavel X 10 millgrs. de veneno de jararaca por 10 cc.,
para o anti-o phidico.
g) Frequência das picadas pelas regiões do corpo
Analysando-se os 3595 boletins de nccidentes ophidicos, recebidos pelo Ins-
tituto Butantan no periodo de 1902 a 1929, os quaes dão uma idéa apenas appro-
ximada da frequência das picadas entre nós, porque é sabido que a maioria das
27
220
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
pessoas chamadas a tratal-as. deixam, por esquecimento ou negligencia, de com-
munical-as ao Instituto, pode-se ter, ainda assim, uma idéa da distribuição das
picadas pelas varias regiões do corpo. Pondo-se á margem 569 casos de picadas
assignaladas em animaes. observa-se, pela analyse dos restantes 3026 casos, todos
humanos, que nelles as picadas se distribuiram do seguinte modo:
Casos humanos de picadas por serpentes venenosas, tratados por soros
específicos, segundo boletins recebidos pelo Instituto Butantan
Rfi Jo oftendida Numero <Je casos
°/o
1460
48.241
Perna
668
22.07 = 70,87»/.
Coxa
17
0.56'
Nadega
5
0.16
Tronco
6
0,19
Mão
496
16.391
Antebraço
19
0,62 = 17.57 »,
Braço
11
0.36 '
Cabeça
2
0,06
Labio
4
0.13
Região não declarada. .
322
10.64
Picadas complexas . . .
16
0.52
Pelo quadro acima se verifica que, no total das picadas humanas, communi-
cadas ao Instituto até agora, os membros inferiores foram attingidos em cerca
de 71 % dos casos; os membros superiores cm cerca de 17 %; regiões não de-
claradas cm cerca de 11 %, ficando o excedente 1 'c repartido pelo resto do
corpo. D’outro lado, desprezando-se, em relação aos membros, os casos de picada
na coxa, antebraço e braço, chega-se á conclusão de que, á luz de nossas esta-
tísticas, cerca de 70 % das picadas se passam no membro inferior, para baixo do
joelho c que, pelo menos em 16 % das vezes, as mordidas attingem a mão.
Fazendo-se, porém, a devida abstracção dos casos referentes a picadas com-
plexas c a regiões não declaradas e computando-se os restantes 2688 boletins,
correspondentes a accidentes ophidicos registados com certo cuidado, obtêm-se
resultados que provavelmente se approximam mais da verdade do que os acima
assignalados. Assim é que, nestas condições, os accidentes dos membros inferio-
res passam a representar cerca de 79,79 % do total (ou 79,16% para o pé e a
perna, isto é, para baixo do joelho), enquanto os dos membros superiores se
elevam a 19,56% (ou 19,16% só para a mão e o antebraço, isto é. para baixo
do cotovello), ficando a fracção excedente para o resto do corpo (Fig. 20).
Um estudo mais particularizado de taes boletins mostra ainda o seguinte
(Fig. 21):
28
A. do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
221
!. que o uso constante de botina evita cerca de 54 ’c das picadas, mas que
a botina deve ser de couro e desprovida de elástico, pois, do contrario, a presa
das serpentes pode attingir o pé, conforme já nos tem sido communicado;
2. que, alem da botina, as pessoas que trabalham ou andam em logares in-
festados pelos nossos ophidios venenosos, devem usar perneira de couro, pois,
assim podem evitar que as pernas sejam attingidas em quasi 25 fó das vezes;
3. que, de referencia ás picadas na mão, cuja porcentagem é de 18,45, as
crianças e mulheres são relativamente muito mais sujeitas do que os homens e
isto porque, de um lado, as crianças estão em contacto mais directo com o solo,
por occasião de seus divertimentos ou trabalhos de roça e porque, de outro lado,
as mulheres se entregam mais a miude ao serviço de fazer lenha e de catar café
sobre a terra ou colher certos cereaes;
4. que a urutú ( Bothrops alternata ) é a especie que relativamentc produz
maior numero de accidentes nas mãos, o que parece ser devido ao facto de ella
viver nos logares em que as mulheres e as crianças se entregam ao labor agrí-
cola e especialmcnte nos cafezaes;
5. que, na maioria dos raros casos de picadas nas nadegas, o accidentc oc-
corre quando o paciente se acha de cocoras, a limpar covas de café;
6. finalmente, que, na quasi totalidade dos casos fataes, o tratamento pelos
sôros específicos é feito tarde ou, com mais frequência, em dose insufficicntc.
No tocante ao ophidismo, não é exaggero affirmar que, se o exemplo do
Butantan fruetif içasse, seus ensinamentos fossem sempre observados á risca pela
população rural e a iniciativa de São Paulo fosse seguida pelos demais Estados
da federação, o Brasil poderia, dentro de poucos annos, reduzir consideravelmente
as perdas decorrentes da picada de nossas serpentes venenosas c as estatísticas
sobre ophidismo passariam a ter uma percentagem de letalidade inferior a 3,7,
indice constante do alludido quadro IX, em que estão computados accidentes
quasi exclusivamentc do centro-sul do Brasil.
A’ luz da experiencia adquirida no decorrer de seus trabalhos sobre o ophi-
dismo no Brasil, o Instituto Butantan aconselha actualmente o seguinte:
.METHODO DE TRATAMENTO DAS PICADAS
a) Primeiros cuidados
O primeiro cuidado de tratamento dos accidentes ophidicos é transportar o
offendido para logar onde possa receber os necessários soccorros, devendo-se
evitar nesse transporte, tanto quanto possível, grandes abalos para o paciente.
Em seguida, deve-se desapertar toda a roupa e collocar o offendido em uma cama
ou maca, ou mesmo sobre o sólo, extendido e com a cabeça baixa.
Antes de mais nada, é de toda conveniência verificar a especie de serpente
causadora do accidente. pois esse conhecimento será de grande utilidade na es-
colha do especifico a empregar.
29
222
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Se o paciente estiver muito abatido, pode-se dar-lhe a beber uma chicara
de café quente.
fi) Symptomas de envenenamento ophidico
As serpentes solenóglyphas do Brasil causam dois typos bem diversos de
envenenamento: o crotalico e o bothropico, sem mencionar o lachetico (produzido
pela surucutingat que, conforme vimos acima, é muito raro.
Os principaes symptomas de envenenamento do typo crotalico são geralmente
os seguintes :
Dor local quasi nulla; fraqueza progressiva e rapida; paresia ou paralysia
das palpebras, com perturbações da visão até completa cegueira; impressão de
pescoço quebrado, devido á paralysia dos musculos cervicaes; vomitos ou, ás
vezes, diarrhéa e urinas sanguinolentas (hematúria); pulso fraco e capillar; al-
gidez principalmente das extremidades; somnolencia profunda e, nos casos graves,
morte por parada da respiração.
Os principaes symptomas de envenenamento do typo bothropico são em re-
sumo os seguintes:
Dor intensa na região attingida; edema hemorrhagico ascendente, com for-
mação de bolhas (phlyctcnas) ; engorgitamento ganglionar; hemorrhagia pelas mu-
cosas, taes como as da bocca, ouvido e estomago, intestino, rim. etc. ou, nas mu-
lheres. a do utero, acompanhada de suspensão das regras; destruição progressiva
dos tecidos mais de perto affectados, com formação de eschara e, por vezes
quando a picada attinge os membros, com perda dos segmentos (mão ou braço,
pé ou pcma), devido á gangrena que se installa.
c) Medidas contra-indicadas
1) Agitar o corpo, trabalhando, correndo ou gritando, pois do contrario se
estimularia a circulação c se facilitaria a absorpçáo do veneno.
2 ) Tomar qualquer bebida alcoolica, pelo mesmo motivo.
3) Beber kerozene que, alem de altamente toxico para o figado e o sangue,
pode tomar inefficaz o emprego do sòro especifico. Em grandes doses o kerozene
é talvez mais nocivo do que os proprios venenos.
4) Ingerir infusos de alho e de plantas medicinaes, ou outros remedios ca-
seiros. os quaes não têm acção alguma sobre os venenos.
5) lnjectar permanganato de potássio ou outra qualquer substancia chimica.
pois seria perder tempo.
d i Escolha do sòro a empregar
Deve-se empregar o sòro anti-crotalico nos accidentes de typo crotalico, isto
é, determinado pela cascavel; o sòro anti-bothropico polyvalente, nos envenena-
mentos de typo bothropico. isto é, produzidos pela jararaca, caissaca, jararacussú,
urutu, cotiara, etc.; o sôro anti-bothropico monovalente, nas picadas pela jararaca.
30
A. do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
223
devendo-se reservar o soro mixto ou polyvalente, sôro anti-ophidico, para os
casos de não se reconhecer a serpente que mordeu.
e ) Opportunidade do tratamento
A rapidez com que se recorre ao tratamento especifico tem grande influencia
sobre o seu resultado e sobre a quantidade de sôro a empregar: quanto mais
cedo for infectado o sôro, tanto maior a probabilidade de cura e menor a dose
necessária para neutralizar o veneno inoculado.
Em via de regra, mesmo nos casos graves, a primeira injecção poderá ser
coroada de exito se for feita em dose sufficiente e dentro das duas primeiras
horas após o accidente.
/) Doses indicadas
Nos casos de envenenamento de extrema gravidade, ou naquelles em que os
symptomas se apresentam rapidamente, conforme succede nas crianças e nos pe-
quenos animaes, devem-se injectar logo 40 ou 60 cc. de sôro; nos de media in-
tensidade, metade destas doses (20 a 30 cc.); nos benignos, cerca de um terço
(10 a 20 cc.).
Desde que cada empola contém 10 cc. de sôro, é necessário injectar o con-
teúdo de 4 a 6 empolas, nos casos muito graves; 2 a 3 empolas, nos casos médios;
1 a 2 empolas, nos casos benignos.
Para as crianças e os pequenos animaes ( cães e patos, por exemplo ), a
dose de sôro deve ser maior de que para os adultos e os grandes animaes: a
quantidade de sôro a infectar é inversamente proporcional ao peso do paciente.
g ) Local da injecção
Possuindo o sôro effeito geral, a injecção pode ser feita por via sub-cutanca
(hypodermica) cm qualquer parte do corpo, devendo-sc, entretanto, preferir re-
gião de pelle distensivel e pouco movei, como as costas, no intcrvallo das espá-
duas, ou os lados do ventre (flancos). Nos casos de envenenamento do typo
bothropico é indicado também injectar-se uma parte da dose em redor do ponto
picado, pois assim se circunscreve mais facilmente a destruição dos tecidos.
Nos casos graves e nas crianças e pequenos animaes, a injecção deve ser
feita por via venosa ou peritoneal, desde que o calibre das veias seja diminuto.
Afim de facilitar-se a eliminação do veneno e a reacção do doente, é necessário
que, nos casos graves, alem do sôro ou de mistura com elle, se injccte agua
physiologica com adrenalina (100 a 250 cc. de agua physiologica para 1 cc. de
soluto de chlorhydrato de adrenalina a 1:1000). Nos casos de extrema gravidade
ou nos que se apresentam com tendencia a collapso, é bom fazer também injec-
ções de cafeina e estrychnina.
31
224
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
h ) Escolha e preparo da seringa
Qualquer seringa grande e esterilizavel pode servir para a injecçáo dos
sòros anti-peçonhentos.
Antes de se encher com o sõro, a seringa deve ser fervida conjunctamente
com as agulhas. Para isso, collocam-se seringa e agulhas em uma pequena va-
silha com agua em quantidade sufficiente para as cobrir completamente e fer-
vem-se durante 5 a 10 minutos pelo menos. Vasa-se depois cuidadosamente
parte da agua, deixando-se esfriar um pouco, antes de retirar a seringa. Esta
não deve ser posta na agua já a ferver, porque pode partir, nem deve ser cheia
quando ainda quente, porque, alem de ficar sujeita a quebrar, pode coagular o
sõro-
i) Modo de encher a seringa
Para se transvasar o sôro, basta quebrar-se a extremidade afilada da empola
e aspirar-se o conteúdo por meio da seringa, conforme indica a figura 22.
/) Preparo da região
Escolhido o ponto a ser injectado, nas costas ou no ventre, lava-se cuidado-
samente com agua e sabão e um pouco de antiséptico ou, na falta deste, mesmo
com aguardente.
k> Modo de injectar o sõro
Preparado o ponto onde se vae fazer a injecçáo, trata-se de levantar, com a
mão esquerda, a pelle, de modo a formar uma dobra ou cone. em cuja base se
implanta uma das agulhas que acompanham a seringa (e que devem também ter
sido esterilizadas), depois de retirado o pequeno fio metallico que lhe garante o
funccionamcnto.
A agulha deve atravessar completamente a pelle (fig. 24), o que se verifica
pela impressão que dá, de estar já com a ponta livre e dentro do tecido sub-cu-
taneo. Retiram-se então as bolhas de ar que porventura tenham ficado no inte-
rior da seringa, a qual então se liga á agulha implantada, injectando-se o sôro
por um movimento de propulsão lento do embolo.
Se a seringa não tem a capacidade sufficiente para injectar de uma só vez
toda a dose do sôro, deve-se, ao terminar a injecçáo da primeira quantidade se-
parar a seringa da agulha e conservar esta implantada para evitar nova picada,
inteiramente desnecessária. Separada a seringa, trata-se de adaptar a ella a outra
agulha esterilizada e proceder ao seu enchimento com nova quantidade de sôro,
findo o que se passa a ligar á agulha já implantada, e assim successivamente
32
A. do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
225
l) Cuidado com a seringa
Depois de occupada, a seringa deve ser cuidadosamente lavada em agua,
sfim de serem removidos os traços de sòro porventura depositados em suas pa-
redes, os quaes, pelo deseccamento, poderiam inutilizal-a completamcnte.
m) Cuidados com o paciente
Terminada a injecçâo, o paciente deve ser deixado na cama, no mais com-
pleto repouso, evitando-se qualquer causa de excitação.
Se a dose injectada é sufflciente e feita cm tempo opportuno, as melhoras
apresentam-se dentro de 3 a 6 horas. Se, porém, não for sufficicnte, nem admi-
nistrada bastante cedo, é necessário repetir-se a injecçâo cada 3 ou 6 horas até
que se complete a dose necessária á cura do caso.
Nos accidentes determinados pela cascavel acontece ás vezes que os phe-
nomenos de intoxicação, depois de cederem apparentemente sob a influencia do
tratamento, a ponto de darem ao paciente a impressão de cura completa, sobre-
vêm novamente, com certa intensidade e podem determinar a morte, caso não
se faça logo nova injecçâo de sôro. E’, pois, necessário, nos envenenamentos de
typo crotalico, prolongar a observação por 3 semanas no minimo, ou então admi-
nistrar, logo no começo, uma grande dose de sôro.
Enquanto estiver sob a influencia da intoxicação, a pessoa picada deve ser
mantida em dieta liquida, constituída por leite, caldos, café, chá.
Do segundo para o terceiro dia, caso já tenha melhorado, o paciente deve
tomar um purgativo salino brando, como sulfato dc sodio ou citrato de magnésio.
n) Instrucções sobre os sõros
Embora os antivenenos entregues ao consumo pelo Instituto Butantan sejam
geralmente concentrados, é frequente formar-sc um pequeno precipitado que se
deposita sobre a parede ou fundo das empolas. Esse precipitado não indica al-
teração do produeto e representa a parte que não possue ef feito therapeutico,
de sorte que é preferivel não agitar as empolas antes de ser extravasado o seu
conteúdo.
Conservados cm empolas intactas, ao abrigo da lu; e cm logar fresco, os
sôros, mantêm suas propriedades curativas por muitos annos, tendo-sc verificado
no Instituto que, mesmo depois de 12 annos, ainda podem ser empregados. Por
esse motivo c que não se acceitam em devolução os antivenenos entregues ao
consumo publico.
33
226
Memórias do instituto Butantan — Tomo V
O OPHIDISMO NA AMERICA DO NORTE E CENTRAL
Até o nnno de 1925 nada se havia feito em matéria de prophylaxia contra
o ophidismo na America do Norte, nem tão pouco na America Central. De esta-
tísticas a unica que até então se havia organizado fòra a de P. Willson (2), pu-
blicada já ha muitos annos e baseada no estudo de 740 casos de picadas de que
havia noticia na literatura medica norte-americana. Esse trabalho quasi nenhum
facto novo trouxe á luz, por se ter baseado inteiramente em casos pregressos e
por não haver o seu auctor travado conhecimento directo com a questão.
a) Accidentes ophidicos
Nos Estados Unidos, o problema ophidico, que já existia antes da guerra
mundial, aggravou-sc cnormemente em consequência delia, cm virtude de haver
o governo norte-americano iniciado forte campanha junto aos agricultores do sul
e do oeste para que intensificassem as suas culturas, afim de proverem ao abas-
tecimento, assim das tropas enviadas para a Europa, como da própria população
do país, tornando-o independente da producção estrangeira, permittindo-lhe ficar,
como se diz ali, “self-sufficicnt“. Em resultado disto, as serpentes, que até então
habitavam principalmcntc os desertos do sudoeste ou as zonas baixas do sudeste
c do centro, começaram a invadir as plantações cm busca de alimento mais facil
c abundante, constituído de roedores. Logo depois, cm consequência do adensa-
mento da população rural, começou a augmentar o numero dos casos de picada.
Outro factor que tem contribuído para a importância do problema foi a existência
de inúmeros campos de concentração do exercito na região do Rio Grande, por
toda a fronteira com o México, de sorte que até os soldados tôm contribuído
também com o seu quinhão para a picada dos ophidios.
Durante os trabalhos que realizei na America do Norte, tive ensejo de viajar
extensamente pelos Estados Unidos c pela America Central e procurei colher
dados sobre o ophidismo, directamente, dos hospitacs, das sociedades medicas,
dos serviços de estatística vital dos vários Estados c das associações recreativas
c de vida ao ar livre. Em relação á America Central, bem pouco pude apurar
com exactidào sobre a importância do ophidismo e isto devido ao grande atrazo
em que permanece aquella parte do globo, podendo, porém, dizer que, com o
inicio dos serviços ali e com a installaçáo de um serpentário e estação experi-
mental em Honduras, os casos de picada tèm apparecido em numero sempre
crescente, graças sobretudo ao interesse tomado na questão pelas companhias
interessadas no desenvolvimento agrícola daquella região e entre as quaes merece
destaque especial a United Fruit Co.
Nos Estados Unidos, já isto não aconteceu, porquanto, em resultado de meus
estudos, comecei a publicar desde 1927 estatísticas sobre o numero approximado
de accidentes ophidicos ali occorridos e sobre a mortalidade delles resultante.
34
A. DO Amaral — Campanhas anti-ophidicas
227
A respeito pode-se dizer, em resumo, que naquelle país o numero de accidentes
ophidicos deve orçar por mais de 3.000 casos annualmente, com uma mortalidade
que varia de accordo com as diversas zonas. Assim é que a letalidade sóbe
apenas a 10 % na nordeste, no centro-oeste e no noroeste, ao passo que attinge
25 % no sudeste e 35 % no sudoeste, especialmente no Texas e no Novo México.
Esta variação da mortalidade é devida á diversidade de especies de ophidios cau-
sadoras de accidentes. Effectivamente, occorrem lá especies de tamanhos os mais
differentes, desde a diminuta Cascavel de Willard (Crotalus n-illardi) que apenas
alcança 2 palmos de comprimento, até a descommunal Cascavel da Florida que
chega a attingir 2 metros e 70 cm.. Ha ainda a considerar no caso a quantidade
de veneno secretado pelas varias especies e o seu relativo valor toxico.
Conforme mostrei em trabalhos ali publicados (3), só no Texas pudemos
obter dados sobre 150 casos de picadas por serpentes venenosas, cm resultado
da actividade desenvolvida durante o primeiro anno de nossa campanha, isto é,
de julho de 1926 a junho de 1927. Por esses dados se verifica que para mais
de 50 % dos casos observados naquelle Estado provinham do districto de Santo
Antonio (onde o Antivcnin Institutc of America, por mim fundado, mantém a sua
estação ou laboratorio mais cfficientc) c dos condados vizinhos, situados na região
centro-meridional do Texas, o que vem mostrar que, com o desenvolvimento do
serviço e com a disseminação das noticias sobre a actividade exercida pelo labo-
ratorio local, o numero de accidentes communicados pelo menos duplicará futu-
ramente. Não será de admirar que, em breve, se venha a ter noticia de uns 300
casos de ophidismo registados annualmente só no Estado do Texas, ultrapassando-
se, assim, as cifras observadas no Estado de São Paulo.
As conclusões geraes do trabalho que então publiquei a respeito foram as
seguintes:
1. Casos de picadas por serpentes occorrem cm todos os pontos do Texas,
nos districtos áridos assim como nos campos cultivados, dentro de mattas como
na proximidade de corregos e pantanos. nos trechos incultos como dentro das
cidades e até no interior das casas.
2. A cascavel concorre com a grande maioria das picadas.
3. A população do Estado parece não estar ainda acostumada a usar sapatos
nem tão pouco perneiras e, por isso, as extremidades inferiores são attingidas
pela maioria das picadas.
4. Picadas das extremidades superiores são sobretudo frequentes em crianças.
b) Serpente» solenoglypha» norte-americana»
Segundo a revisão que fiz dos ophidios solenoglyphos norte-americanos (4),
as Crotalideas estão nos Estados Unidos representadas pelas duas subfamilias
Lachesineas e Crotalineas e por tres generos, subdivididos cm 15 especies a saber:
35
228
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
I. Genero Agkistrodon Beauvois:
1. /4. mokasen Beauvois
Nome vulgar: Copperhead.
2. A. piscivorus (Lacépède)
Nome vulgar: Cotton-mouth Moccasin.
II. Genero Sistrurus Garman:
3. S. catenatus (Rafinesque) e suas raças.
Nome vulgar: Massasauga.
4. S. miliarius (Linneu)
Nome vulgar: Pygmy rattlcr.
III. Genero Crotalus Linneu:
5. C. adamantcus Beauvois
Nome vulgar: Eastem diamond-back rattlcr.
6. C. atrox Baird & Girard
Nome vulgar: Western diamond-back rattlcr.
7. C. cevastes Hallowell
Nome vulgar: Sidewinder.
8. C. conflucntus Say e suas raças.
Nome vulgar: Prairie rattler.
9. C. cxsul Garman
Nome vulgar: Red rattler.
10. C. horridus Linneu
Nome vulgar: Timber rattler.
11. C. lepidus (Kennicott)
Nome vulgar: Green rattler.
12. C. molossus Baird & Girard
Nome vulgar: Black-tail rattler.
36
A. do Amabal — Campanhas anti-ophidicas
229
13. C. tigris Kennicott
Nome vulgar: Tiger rattler.
14. C. triseriatus (Wagler)
Nome vulgar: Spotted rattler.
15. C. willardi Meck
Nome vulgar: \C'illard’s rattler.
c) Producção de venenos por espeeies
De accordo com os estudos por mim feitos no laboratorio central do Anti-
venin Institute of America, as Crotalideas norte-americanas secretam maior quan-
tidade de veneno do que as brasileiras, embora, esta vantagem seja compensada
pela menor toxicidade dessa secreção naqucllas serpentes. Comparando os dados
obtidos ali, no decurso de meus trabalhos, verifiquei que a parte solida dos ve-
nenos americanos representam de 1/3 a 1/4 do peso total, conforme se depre-
hende do quadro C.
QUADRO C
Quantidade media do veneno speretada pelas Crotalideas nearcticas
Evptcimc*
Especimes
Espécimes
Especitnes
jovem
adultos
velhos
**ccpcionact
Liquido
Secco
Liquido
Secco
Liquido
Secco
1 Liquido
Secco
c- c.
Kr*-
c c.
tn-
C.C.
Cr*.
c.c.
S'S-
Agkistrodon mokasen.
0.M
0.040
0.18
0.050
0.21
0.060
0.26
0.075
Agkistrodon pi sei vo ms
0.32
0.090
0.42
0.120
02)3
0.150
1.05
0.300
Crotalus adamanteus.
0.84
0.240
14)5
0.300
2.10
0.600
2.65
0.750
Crotalus atrox . . .
- 1 0.30
0.04
0.090
0.40
0.120
0.80
0.240
200
0.600
Crotalus errastes . .
0.012
0.06
0.018
Crotalus confluentus .
0.18
0.050
0.120
0.32
0.090
Crotalus exsul . . .
0.36
0.72
0.240
1.35
0.450
1.65
0.550
Crotalus horridus . .
0.21
0.060
0.32
0.090
0.63
0.180
Crotalus lepidus . .
0.1
0.03
Crotalus mitchellli .
0.18
0.060
0.30
0.100
0.48
0.160
0.80
0.265
Crotalus molossus
0.60
0.180
Crotalus oreganus. .
0.14
0.040
0.23
0.065
0.32
0.090
0.44
0.125
Crotalus tigris . . .
0.18
0.060
Sistmrus miliarius .
0.08
0.02
De referencia á especie Crotalus adamanteus (cascavel da Florida) pode-se
dizer que exemplares bem desenvolvidos e conservados em boas condições che-
gam a secretar maior quantidade de veneno do que a que se acha assignalada
no quadro acima, o mesmo acontecendo ás vezes com certos exemplares de Cro-
talus atrox (cascavel do Texas). Na verdade, segundo verificação feita no in-
37
230
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
vemo de 1929, pelo Sr. R. E. Stadelman. technico do Antivenin Institute of
America (in Buli. Antivenin Institute of America 111.1:29.1929), a primeira es-
pecie chega a secretar 4 cc. de veneno liquido, correspondentes a 864 millgrs.
de veneno secco e a segunda produz ás vezes quasi 2 cc. de veneno liquido, cor-
respondentes a cerca de 600 millgrs. de veneno solido.
d) Estatísticas recentes
E’-me grato assignalar agora que, em resultado da intensiva campanha que
o Antivenin Institute of America tem emprehendido com o auxilio de elementos
officiaes e de grande numero de associações scientificas e organizações finan-
ceiras, no sentido de reduzir o problema ophidico a suas devidas proporções, a
mortalidade se está a reduzir rapidamente, conforme eu verifiquei pessoalmente
nos Estados Unidos, á luz dos dados que acabam de ser publicados (5) por R.
H. Hutchison, Secretario daquelle Instituto.
Essa estatística veiu mostrar que, durante o anno de 1928, o Antivenin Ins-
titute conseguiu communicação de 607 casos de- envenenamento ophidico occor-
ridos nos Estados Unidos e trouxe á luz vários factos bastante interessantes, cujo
resumo parece ser digno de divulgação. Assim é que, em mais de dois terços,
isto é, em 451, dos casos publicados, foi verificada a especie de serpente que
determinou o accidente. Nesses, a discriminação das especies foi a seguinte, pela
ordem de frequência relativa:
1. A. mokasen 171 casos
2. C. atrox 100 casos
3. A. piscivorus 43 casos
4. C. horridus 43 casos
5. C. conflucntus conflucntus •. . . 37 casos
6. C. conflucntus oreganus 27 casos
7. S. miliarius 18 casos
8. C. adamanteus 12 casos
9. C. cerastcs 5 casos
10. S. catcnatus 2 casos
O estudo da distribuição desses casos de ophidismo pelos vários Estados da
União norte-americana revela que a grande maioria delles provém de centros re-
lativamente populosos, onde naturalmente já se fez sentir mais intensamente a
campanha desenvolvida pelos membros do Antivenin Institute e pelas associações
que estão com elle philanthropicamente cooperando, o que está a corroborar a
affirmação, por mim feita em pagina anterior, de que, com o desenvolvimento
do serviço, se virá a ter noticia de um numero pelo menos duplo, sinão triplo,
de casos occorridos naquellc pais. Elle também revela que, na distribuição dos
accidentes, o Estado de Texas, onde por signal se encontra a estação ou labora-
38
A. do Amaral — Campanhas anli-ophidicas
231
torio mais activo do Instituto, occupa o primeiro logar, com 163 casos; o Estado
de Alabama, o segundo logar, com 49 casos; o Estado de Pennsyl vania, o terceiro
logar, com 42 casos; o Estado de Geórgia, o quarto logar, com 31 casos; o Estado
de Califórnia, o quinto logar, com 30 casos; o Estado de Florida, o sexto logar,
com 28 casos; o Estado de Virgínia, o sétimo logar, com 24 casos; o Estado de
North Carolina, o oitavo logar, com 23 casos e, assim por diante, em ordem de-
crescente, os demais Estados, inclusive Vermont, Delauare, Wisconsin, Iowa,
North Dakota, Oregon e Washington, de cada um dos quaes o Instituto conseguiu
apenas communicação de um caso. Reunidos os Estados por grupos, chega-se á
conclusão de que para o total de 607 casos a região do sudeste e do Golfo do
México concorreu com 249 accidentcs; a do centro-oeste e sudoeste, com 222
accidentes; a do Atlântico norte, com 91 accidentes e a das Montanhas Rochosas
e da costa do Pacifico, com 45 casos, o que vem justificar a maior actividade
exercida pelo Instituto no sul e no sudoeste da União americana.
A estatística revela também que os accidentes, virtualmentc inexistentes no
mès de fevereiro, começam progressivamente a augmentar em março, attingindo
o apice da curva de incidência em julho, isto é, em pleno verão, e diminuindo
depois gradualmcntc até os meses do inverno. Alem disso, cila mostra que mais
de 50 % dos accidentes foram observados em pessoas de menos de 20 annos de
idade; que os indivíduos de sexo masculino foram victimas cm cerca de 69 %
de vezes, ao passo que os de sexo feminino o foram cm cerca de 31 %; que a
picada attingiu os membros inferiores, especialmcntc os pés, em 57,8 dos casos,
os membros superiores, sobretudo as mãos, cm 41 Çí dos casos, a cabeça e o
tronco, apenas cm 3 e 2 casos, rcspcctivamente.
Quanto ao tratamento, as communicações recebidas pelo Antivenin Institute
no anno de 1928 revelam que entre 433 casos medicados com o antiveneno es-
pecifico (sôro polyvalente), só occorrcram 13 mortes, o que dá uma mortalidade
de 3 r / c . Esta cifra fala bem claro do rápido successo da campanha anti-ophidica
realizada nos Estados Unidos da America do Norte, onde, cm apenas 2 annos de
trabalho, já se conseguiu um resultado que se pode comparar com vantagem
áquelle obtido pelo Instituto Butantan, para a zona centro-meridional do Brasil,
em um periodo muito mais longo, segundo se vê no quadro IX acima exarado.
Vem a proposito narrar que, nos Estados Unidos como no Brasil, a campanha
anti-ophidica tem seus tropeços, embora muito menos frequentes lá do que cá.
A maior difficuldadc que ali temos encontrado é oriunda da crença generalizada
de que o álcool tem effeito curativo sobre a picada, não sendo, pois, de admirar
que, por isto ou sináo pelo desejo de burlar a lei secca, muita gente se embria-
gue em seguida a accidentes ophidicos c, assim, fique em condições de não poder
procurar um hospital ou buscar immcdiatamcntc uma injccçâo de antiveneno. Ao
demais, existem ali pessoas e algumas de regular cultura que ainda acreditam
que o permanganato de potássio possuc effeito neutralizante sobre a peçonha.
Ha até uma firma que expõe á venda sob a denominação de " Anti-vcnom" ou
39
232
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
“Snake-bite kit” um remedio cuja base é o permanganato. Ainda recentemente,
um ex-conservador (“keeper”) - que a nossa imprensa, ao noticiar o facto, em
sua costumeira projecção de coisas estrangeiras, transformou logo em "doutor
e actual director" do Jardim Zoologico de Nova York - vendo-se picado por uma
Cascavel, C. horridus, quando caçava em fins da primavera passada, tratou de
se injectar com esse tal remedio ‘'Anti-venom" e só procurou o hospital para
receber o devido tratamento especifico depois de ter feito uma enorme caminhada
e quando já era tarde demais para que o sôro manifestasse seu effeito curativo.
Apezar de alguns óbices desta natureza, o emprego do antiveneno vai-se
generalizando ali, graças aos meios de propaganda de que o Instituto lança mão,
aos recursos materiaes do país e ao manifesto desejo de grande parte da popu-
lação de experimentar tudo quanto é novo e recommendado pela sciencia.
(Trabalho da Secção de Ophiologia do Instituto
Butantan, terminado em setembro de 1930).
BIBLIOGRAPHIA
(1) Brazil, V. — Contribuição ao estudo do veneno ophidico, in Collcctanea Inst. Bu-
tantan 1:12.1906.1901-1917; La Défense contre 1'Ophidisme M2.1914.
(2) Willson, P. — Snake poisoning in the United States, in Arch. Int. Mcd. 1:516.1908.
(3) Amaral, A. do — The snake-bite problem in the United States and in Central Ame-
rica, in Buli. Antiv. Inst. America 1(2) :31 . 1927; The anti-snake-bite campaign
in Texas and in the sub-tropical United States, in loc. cit. 1(3) :77. 1927.
(4) Amaral, /l. do — Notes on Nearctic poisonous snakes and treatment of their bites,
in Buli. Antiv. Inst. America 1(3) :61 .1927; Key to the rattlesnakcs of the gcnus
Crotalus Linné, 1758, in loc. cit. 111(1) :4. 1929.
(5) Hutchison, R. H. — On the incidence of snake poisoning in the United States and
the results of the newer methods of treatment, in Buli. Antiv. Inst. America III
(2) :43. 1929.
40
A. do Amaral — Campanhas anli-ophidicas
Mem. Inst.
Vol. \
_5erie prole roglyphà
Família. E lò. pldcVS
App&relho de veneno
Cork transverso da, presa, no
terço superior
BuUnton
1930
A. DO Amaral — Campanhas anti-ophidicas
Mem. Inst. Butantan
Vol. V. 1930
Serie solen ogjy pha.
Fam i I i a Cx 0 1 cX 1 l (j. òc
Apparelh.0 de veneno
Coríe transverso da pre^a. rvo Terço
5u penor
F;g.2.
A. do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
Mem. Inst. BulinHn
Vol. V. 1930
Cl 05
aciaes de ser
typo dfc família, C rotaJi d&e
Typo das demais j"
Fig-3
A. do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
Mem. Intt. Butantan
VÕT V. 1930
P‘8- 0 - Jararaca. Bothrops jararaca (U'ied).
Fig. 7 - Caissaca. Bothrops atrox (Linneu).
Fig. 8 - Jararacussú. Bothrops jararacussu Lacerda.
SciELO 0
12
cm
SciELOo
2
3
5
6
11
12
13
14
15
16
L
cm
A. do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
■Mem. Imt. Butanlan
Vol. V. I93U
Fig. 12 - Surucucu dc patioba. Bothrops bilincata (Wied).
Fig. 13 - Cotiarinha. Bothrops itapetiningae (Boulenger).
SciELO
10 11 12 13
Fig. 15 - Jararaca ilhoa. Bothrops insularis (Amaral).
A. do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
Mcm ■ : ntan
Vol. V. 1930
Fig. 14 - Jararaca cinzenta. Bothrops castelnaudi D. & B.
cm
A. DO Amarai — Campanhas anti-ophidicas
Mem. Inst. Butantan
Vo!. V. 1990
Fig. 16 - Jararaca do sertão. Bothrops erythromelas Amaral.
Fig. 17 - Bothrops iglesiasi Amaral
Fig. 19 - Bothrops neglecta Amaral
A. do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
Fig. 18 - Bothrops pirajai Amaral
Mem. Inst. Butantan
Vol. V. IMO
cm
A. DO Amaral — Campanhas anti-ophidicas
Mem. Inst. Butantan
Vol. V. 1930
cm
do Amaral — Campanhas anti-ophidicas
Mem. Insl. Butantan
Vol. V. 1930
Fig- 22 - Enchendo a seringa
Fig. 23 - Injectando o soro
SciELO
10 11 12 13
REGRAS INTERNACIONAES DE NOMENCLATURA ZOOLOGICA
TRADUCÇiO PARA O PORTUGUÊS
POR
AFRAMO DO AMARAL
1» EDIÇÃO
REGRAS INTERNACIONAES DE NOMENCLATURA ZOOLOGICA
TRADUCÇÃO PARA O PORTUGUÊS
POR
AFRANIO DO AMARAL
Oirector do Instituto BuUstan e do
Antreenin Institute oi America
JUSTIFICAÇÃO
Ha muitos annos se vem fazendo sentir nos meios sciemificos do Brasil c
de Portugal a necessidade duma edição portuguesa das Regras Internacionaes
de Nomenclatura Zoologica, obrigados como se vèem os technicos dos dois pafses
ao manuseio constante de edições em linguas estrangeiras, com cujas particula-
ridades nem sempre têm elles a ventura de estar familiarizados. A crescente
contribuição, oriunda de Portugal e especialmente do Brasil, ao progresso da
zoologia em geral e da zoologia medica cm particular, justifica por sem duvida
o esforço que resolvi fazer ao traduzir aquellas Regras para nossa lingua.
Na verdade, deste assumpto já me venho occupando ha alguns annos. Assim
é que. em 1925 e 1926. publiquei, na Revista do Museu Paulista, varias notas
sobre Questões de Nomenclatura Ophiologica, para justificar a passagem, para
a synonymia, de algumas especies de ophidios consideradas até então como va-
lidas. Também em 1925 o Harvard Institute for Tropical Biology and Medicine
reuniu no volume II de suas ‘'Contributions" uma serie de artigos meus, em
alguns dos quaes tratava eu de repôr em seus devidos termos outras questões
attinentes á nomenclatura de ophidios neotropicos.
Ao ter conhecimento desses trabalhos que estavam a revelar um provável
interesse por este assumpto em nosso meio, o secretario da Commissão Interna-
cional de Nomenclatura Zoologica e membro do Instituto Nacional de Saúde de
Washington, Prof. Charles W. Stiles, me convidou, em fins de 1927. a traduzir
para o português o importante Codigo. que tão precioso auxilio tem prestado a
quantos trabalham em systematica zoologica.
Parece-me desnecessário encarecer a necessidade da introducçáo de um Co-
digo dessa natureza em nossa lingua, porquanto ao nosso meio é perfeitamente
applicavel a opinião, expressa por aquella Commissão, de que se pode com segu-
3
236
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
rança asseverar que relativamente poucos zoologos, ao começarem a sua carreira
profissional, fazem uma idéa, perfunctoria que seja, das questões de nomencla-
tura, devido especialmente a que não se exige ainda, em nossos Collegios ou
Faculdades, qualquer conhecimento de grammatica zoologica por parte daquelles
que se candidatam a um diploma scientifico. Por isso mesmo, é de esperar que
a presente edição receba benevolo acolhimento da parte dos zoologos brasileiros
e portugueses, cujas suggestões serão tomadas no devido apreço para a progres-
siva melhora do trabalho em futuras tiragens.
São Paulo, setembro de 1930
4
REGRAS INTERNACIONAES DE NOMENCLATURA ZOOLOGICA
REGRAS E RECOMMENDAÇOES
CONSIDERAÇÕES CERAES
Artigo 1 - A nomenclatura zoologica é independente da nomenclatura bota-
nica no sentido de que o nome de um animal não se rejeita simplesmente por ser
idêntico ao nome de uma planta. Si, todavia, um organismo é transferido do
reino vegetal para o animal, seus nomes botânicos devem ser acceitos em nomen-
clatura zoologica com seu valor botânico original; e si um organismo é trans-
ferido do reino animal para o vegetal, seus nomes retém o valor zoologico.
Recommendaçáo - Faz-se bem em evitar a introducçio em zoologia de nomes gene-
ricos já em uso em botanica.
Artigo 2 - A designação scientifica de animaes é uninominal para subge-
neros e todos os grupos mais altos, binominal para especies e trinominal para
subespecies.
Vide Opiniões Nos. 19, 20, 24, 35, 43, 46, ÍO, 54.
Artigo 3 - Como nomes scientificos de animaes se devem usar palavras que
sejam latinas ou latinizadas, ou então consideradas e tratadas como taes, no caso
de não serem de origem classica.
NOMES DE FAMÍLIAS E SUBFAMILIAS
Artigo 4-0 nome de uma familia se forma pela addição da terminação
idac e o de uma subfamilia pela addição de inae, á raiz do nome de seu genero
typo.
Artigo 5-0 nome de uma familia ou subfamilia deve ser mudado quando
se troca o nome de seu genero typo.
5
238
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
NOMES GENERICOS E SUBGENERICOS
Artigo 6 - Os nomes genericos e subgenericos estão sujeitos ás mesmas
regras e recommendações e, do ponto de vista da nomenclatura, são coordenados,
isto é, possuem o mesmo valor.
Vide Opinião No. 72.
Artigo 7 - Um nome generico toma-se subgenerico, quando o genero cor-
respondente passa a subgenero, e vice-versa.
Artigo 8 - Um nome generico deve consistir de uma só palavra, simples
ou composta, escripta com letra maiuscula inicial e empregada como substantivo
no nominativo singular. Exemplos: Canis, Perca, Ceratodus, Hymenolepis-
Recommendação - Certos grupos biologicos, propostos dístinctamente como grupos
collectivos c não como unidades systematicas, podem ser tratados por conveniência como
si fossem generos, mas sem requererem especie typo. Exemplos: Agamodistomum,
Amphistomulum, Agamofilaria, Agamomermis, Sparganum.
Vide Opinião No. 44.
Recommendações - As seguintes palavras podem ser usadas como nomes genericos:
a) Substantivos gregos, com os quaes se devem seguir as regras de transcripçâo
latina [transliteraçào (vide Appendice F) ]. Exemplos: Ancylus, Amphibola, Aplysia,
Pompholyx, Physa, Cylichna.
b) Vocábulos gregos compostos, nos quaes o attributivo deve preceder a palavra
principal. Exemplos: Stenogyra, Pleurobranchus, Tylodina, Cyclostomum, Sarcoeyslis,
Pelodytes, Hydrophilas, Rhizobius.
Isto, todavia, não exclue vocábulos formados á maneira de Hippopotamas, isto é,
vocábulos em que o attributivo segue a palavra principal. Exemplos: Philydrus, Biorhiza.
c) Substantivos latinos. Exemplos: Ancilla, Aurícula, Dolium, Harpa, Oliva. Ad-
jcctivos ( Prasina ) e participios passados I Productus) não são recommendados.
d) Vocábulos latinos compostos. Exemplos: Stiligcr, Dolabrifer, Semifusus.
e) Derivados gregos ou latinos que exprimam diminuição, comparação, semelhança,
ou posse. Exemplos: Dolium, Doliolum ; Strongylus, Eustrongylus; Umax, Limacella,
Limada, Limacina, Umacites, Umacula ; Lingula, Lingulella, Lingulepis, Ungulina, Lin-
gulops, Lingulopsis; Xeomenia, Proneomenia; Buteo, Archibuteo; Gordius, Paragordius,
Polygordius.
f - Nomes mythologicos ou heroicos. Exemplos: O siris, Venus, Brisinga, Velleda,
Crimora. Si não forem latinos, taes nomes devem receber uma terminação latina (Ae-
girus, Gõndulia).
g) Nomes proprios usados pelos antigos. Exemplos: Cleópatra, Belisarius, Me-
iania.
h) Patronymicos modernos, aos quaes se junta uma terminação que denote dedi'
catoria :
o. Nomes que acabam por uma consoante, recebem a terminação ius, ia, ou
ium. Exemplos: Selysius, Lamarckia, Kõllikeria, Mülleria, Stalia, Krayeria, Ibanezia.
(J. Nomes que acabam pelas vogaes e, i, o, u, ou y, recebem a terminação us,
a ou um. Exemplos: Blainvillea, Wyvillea, Cavolinia, Fatioa, Bernaya, Quoya, Schulzea-
y. Nomes que acabam por a, recebem a terminação ia. Exemplo: Danaia.
6
A. do Amaral — Regras internacionacs dc nomenclatura zoologica
239
3. Em nomes genericos formados de patronymicos, omittem-sc as partículas
que não estejam ligadas com o nome, mas retêm-se os artigos. Exemplos: Blainvillea,
Bencdenia, Chiajea, Laccpcdea, Dumcrilia.
(• Com patronymicos que consistam de dois vocábulos, apenas um destes se
usa na formação de um nome generico. Exemplos: Selysius, Targionia, Edwardsia, Du-
thiersia.
{. O uso dc substantivos proprios na formação de nomes genericos compostos
c objectavel. Exemplos: Eugrimmia, Buchiceras, Heromorpha, Mõbiusispongia.
i) Nomes de navios que se devem considerar como mythologicos (Frgu) ou como
patronymicos modernos. Exemplos: Blakca, Hirondellca , Challengeria.
j) Nomes barbaros, isto é, de origem não classica. Exemplos: Vanikoro, Chilosa.
Taes palavras podem receber uma terminação latina. Exemplos: Yctus, Fossarus.
k) Palavras formadas por combinação arbitraria de letras. Exemplos: Ncda, Clan-
culus, Salifa , Torix.
l) Nomes formados por anagramma. Exemplos: Dacclo, Verlusia, Linospa.
Artigo 9 - Si um genero é dividido cm subgeneros, o nome do subgencro
typico deve ser o mesmo que o do genero (vide Art. 25).
Artigo 10 - Quando se deseja citar o nome dc um subgencro, colloca-sc
esse nome entre parentheses depois do generico c antes do especifico. Exemplos:
Vcnessa ( Pyramcis ) cardui.
NOMES ESPECÍFICOS E SUBESPECIF1COS
Artigo 11 - Os nomes específicos c subespecificos estão sujeitos ás mesmas
regras c recommendações e, do ponto dc vista da nomenclatura, são coordenados,
isto 6, possuem o mesmo valor.
Artigo 12 - Um nome especifico toma-se subespecifico, quando a especie
correspondente passa a subespecie, e vier versa.
Artigo 13 - Embora substantivos específicos derivados de nomes de pessoas
se possam escrever com letra maiuscula inicial, todos os demais nomes especí-
ficos devem ser escriptos com minuscula inicial. Exemplos: Rhizostoma Cuvieri
ou Rh. cuvieri, Francolinus Lucani ou F. lucani , Hypoderma Diana ou H. diana,
Laophontc Mohammcd ou L. mohammcd, (Estrus ovis, Corvus corax.
Artigo 14 - São nomes específicos:
a) Adjectivos que grammaticalmente devem concordar com o nome gene-
rico. Exemplo: Felis marmorata.
b) Substantivos no nominativo em apposiçáo ao nome generico. Exemplo
Felis leo.
c) Substantivos no genitivo. Exemplos: rosae, sturionis, antillarum, galliae ,
sancti-pauli, sanctac-helcnae.
7
240
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Si o nome é escolhido como dedicatória a uma ou mais pessoas, forma-se o
genitivo de accordo com as regras de declinação latina desde que o nome tenha
sido empregado e declinado em latim. Exemplos: plinii, aristotclis, victoris, an-
tonii, clisabethac, pciri (nome dado).
Si o nome é um patronymico moderno, forma-se sempre o genitivo pela
addição, ao nome exacto e completo, de i si a pessoa for homem ou de ac si a
pessoa for mulher, mesmo que o nome tenha uma forma latina; colloca-se no
plural si a dedicatória comprehende varias pessoas do mesmo nome. Exemplos:
cuvicri, mõbiusi, nunezi, mcrianac, sarasinorum, bosi (não bovis), salmoni (não
salmonis).
Recommendação - O melhor nome especifico c um adjectivo latino, curto, cupho-
nico c de facil pronuncia. Vocábulos gregos latinizados ou barbaros podem, todavia,
ser usados. Exemplos: gymnocephalus, echinococcus , ziczac, aguti, hoactli, urubitinga.
E’ bom evitar-se a introducção dos nomes typicus c typus para designar especies
ou subespccies novas, porquanto tacs nomes são sempre capazes de produzir confusão
futura.
\'idc Opiniões Nos. 8, 50, 64.
Artigo 15-0 emprego de nomes proprios compostos que indiquem dedi-
catória, ou de vocábulos compostos que indiquem comparação com um objecto
simples não representa excepçáo ao Art. 2. Nestes casos, os dois vocábulos que
compõem o nome especifico são escriptos como uma só palavra com ou sem
hyphen. Exemplos: Sanctac-Catharinac ou sanctaecatharinae, jan-maycni ou
janmaycni, cornu-pastoris ou cornupastoris, cor-anguinum ou coranguinum, cedo-
nulli ou cedonulli.
Expressões como rudis planusquc não são admissíveis como nomes específicos.
Vide Opinião No. 50.
Artigo 16 - Nomes geographicos devem ser empregados como substantivos
no genitivo, ou collocados em forma adjectiva. Exemplos: sancti-pauli, sanctae-
-hclcnac, cdtvardiensis, diemenensis, mageUanicus, burdigalcnsis, vindobonensis.
Recommendação - Nomes geographicos usados pelos romanos ou escriptores latinos
da edade media devem ser adoptados de preferencia a formas mais recentes. Palavras
como bordcausiacus e viennensis são más, todavia não devem ser rejeitadas por isso.
Artigo 17 - Si se deseja citar o nome subespecifico, deve-se escrever
tal nome immediatamente após o especifico, sem a interposição de qualquer
signa! de pontuação. Exemplo: Rana cscalcnta mar mor ata Hallowell, mas não
Rana csculenta ( marmorata ) ou Rana marmorata Hallowell.
Artigo 18 - A notação de hybridos pode-se fazer de varias maneiras; em
todos os casos o nome do pai precede o da mãi, com ou sem os symbolos do sexo:
a) Os nomes dos dois pais são unidos pelo signal de multiplicação (X).
Exemplo: Capra hircus X Ovis aries ç e Capra hircus X Ovis aries são for-
mas igualmente boas.
8
A. do Amaral — Regras internacionaes dc nomenclatura zoologica
241
b) Podem-se também citar hybridos sob forma de fracção, ficando o pai
como numerador e a mãi como denominador. Exemplo : ~ . Este segundo
methodo é preferível, tanto mais quanto permitte a citação da pessoa que primeiro
publicou a forma hybrida como tal. Exemplo: Brrnlc,accnüJr "“ s Rabé.
c) A forma de fracção também é preferivel quando um dos pais é hybrido.
Exemplo: Tc — ’ • Todavia, para o ultimo caso se podem usar pa-
rentheses- Exemplo: ( Tctrao tetrix X Tctrao urogallus) X Gallus gallus.
d) Quando os pais do hybrido não são conhecidos como taes [pais], o hy-
brido recebe provisoriamente o nome especifico como si fosse uma verdadeira
especie e não um hybrido; todavia, o nome generico é precedido pelo signal dc
multiplicação. Exemplo: X Coregonus dolosus Fatio.
FORMAÇÃO, DERIVAÇÃO E ORTHOGRAPHIA DE
NOMES ZOOLOGICOS
Artigo 19 - A orthographia original de um nome deve ser conservada a
menos que deixe transparecer um erro de transcripção, um lapsus calami ou um
erro typographico.
Vide Opiniões Nos. 8, 26, 27. 29, 34, 36, 41, 60, 61, 63, 70.
Rccommcndaçáo - Na graphia dc nomes scicntificos é aconsclhavcl o uso dc carac-
teres differentes dos empregados no texto. Exemplo: Rana esculenia [itálicos] Linncu,
1758, vive na Europa.
Artigo 20 - Na formação de nomes derivados de linguas cm que se usa o
alphabeto latino, deve-se conservar exactamente a graphia original, inclusive
signaes diacriticos. Exemplos: Sclysius , Lamarckia, Kiillikcria, Müllcria, Stulia.
Krpycria, Ibanczia, mõbiusi, mediei, cijieki, spitzbcrgensis, islandicus, paraguay-
ensis, patagonicus, barbadensis, fàrõcnsis.
Recommendafõcs - Os prefixos sub e pseudo devem ser usados somente com ad-
jectivos e substantivos, sub com vocábulos latinos, pseudo com vocábulos gregos c não
devem appareccr ligados a nomes proprios. Exemplos: subviridis, subchclatus, Pseu-
dacanthus, Pseudophis, Pseudomys. Palavras como sub-wilsoni e pseudo-graleloupana
não são recommendadas.
As terminações oides e ides só devem ser empregadas em combinação com sub-
stantivos gregos ou latinos; não o devem em combinação com nomes proprios.
Nomes geographicos e patronymicos dc países que não têm orthographia reconhe-
cida ou que não usam o alphabeto latino, devem ser transcriptos para o latim de accordo
com as regras adoptadas pela Sociedade Gcographica de Paris. (Vide Appcndicc G).
Na crcaçáo de novas designações baseadas cm nomes proprios de pessoas, escriptos
algumas vezes com ã, õ ou ü, outras vezes com ae, oe e ue, recommcnda-se que os
auctores adoptem ae, oe c ue. Exemplo muelleri dc preferencia a mülleri.
9
242
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
NOME DE AUCTOR
Artigo 21-0 auctor de um nome scientifico é aquella pessoa que primeiro
publica o nome ligado a uma indicação, definição, ou descripção, a menos que
esteja claro no texto da publicação que alguma outra pessoa é responsável por
tal nome e sua indicação, definição, ou descripção.
Artigo 22 - Desejando-se citar, o nome do auctor deve seguir o nome scien-
tifico sem interposição dc qualquer signal de pontuação; outras citações que se
desejem (data, sp. n., emend., sensu stricto, etc.) devem seguir o nome do auctor,
ficando delle separadas por virgula ou parentheses. Exemplos: Primatcs Linneu,
1758, ou Primatcs Linneu (1758).
Rccommcndaçào - Na abreviação do nome do auctor de uma designação seienti-
fica, o escriptor andará bem si seguir a lista dc abreviaturas publicada pelo Museu
Zoologico de Berlim O.
Artigo 23 - Quando se transfere uma especie para um genero differente
do original ou se combina o nome especifico com qualquer nome generico diffe-
rente daquelle com que o primeiro foi publicado originalmente, deve-se reter na
notação, mas collocar entre parentheses, o nome do auctor de tal designação es-
pecifica. Exemplos: Tacnia lata Linneu, 1758, e Dibothriocephalus latas (Lin-
neu, 1758); Fasciola hcpatica Linneu, 1758, c Distoma hcpaticum (Linneu, 1758).
Desejando-sc citar o auctor da nova combinação, escreve-se-lhe o nome depois
dos parentheses. Exemplo: Limnatis nilotica (Savigny, 1820) .Moquin-Tandon, 1826.
Artigo 24 - Quando se divide uma especie, as especies restrictas a que
estava ligado o nome especifico original da especie primitiva, podem receber
uma notação que indique, tanto o nome do auctor original, quanto o do revisor.
Exemplo: Tacnia solium Linneu, partim. Goczc.
LEI DE PRIORIDADE
Artigo 25-0 nome valido de um genero ou especie só pode ser aquellc
sob que um genero ou especie foi primeiro designado, contanto que:
a) Tal nome tenha sido publicado e acompanhado de uma indicação, ou
definição, ou descripção; e
b) O auctor tenha applicado os principios de nomenclatura binaria.
Vide Opiniões Nos. I, 2. 4, 5, 9. 10, 12, 13, 15-17, 19-21, 24, 28, 37-40, 4*>, 49-54.
5*5-59, 65-67, 73-78, 84. 85, 87, 88, 90.
(D Liste der Autoren zoologischer Art-und Gattungsnamen zusammengestcllt vott
den Zoologen des Museum für Naturkundc in Berlin. Bcrlin, 2. vcrmehrtc Auflagc, 8*.
189*5.
10
A. do Amaral — Regras internacionaes de nomenclatura zoologica
243
NOTA DO TRADUCTOR: Devo frisar aqui que a redacção deste ar-
tigo 25, sobre a lei de prioridade, foi modificada e ampliada pelo Congresso
Internacional de Zoologia reunido em Budapest, Hungria, de 4 a 9 de se-
tembro de 1927. Com as modificações introduzidas, conforme recommendação
unanime da Commissáo Internacional de Nomenclatura Zoologica, este ar-
tigo 25 ficou assim redigido:
Ártico 25-0 nome valido de um genero ou especie só pode ser
aquelle sob que um genero ou especie foi primeiro designado, contanto que:
a) tal nome (antes de 1.* de janeiro de 1931) tenha sido publicado
c acompanhado de uma indicação, ou definição, ou descripçào; e
b) o auctor tenha applicado os princípios de nomenclatura binaria.
c) Todavia, qualquer nome generico ou especifico publicado após 31
de dezembro de 1930 só terá caracter de aproveitabilidade (e, portanto,
também de validez) á luz das Regras, si for, e somente depois que for,
publicado,
(1) com um resumo de caracteres (ou diagnose; ou definição; ou
descripçào condensada) que differencie ou distinga o genero ou a especie,
de outro genero ou especie;
(2) ou com uma clara citação bibliographica de tal resumo dc carac-
teres (ou diagnose; ou definição; ou descripção condensada). Ainda mais,
(3) tratando-se de um nome generico, com a designação definida c
clara da especie typo (ou genotypo; ou autogenotypo; ou orthotypo).
Outrosim. a alludida Commissáo adoptou ainda a seguinte resolução:
a) pede-se a qualquer auctor que, ao publicar um nome como novo,
declare positivamente que elle é novo, que faça esta declaração apenas em
uma publicação (isto é, na primeira), e que não junte a data ao nome no
momento de sua primeira publicação.
b) pede-se a qualquer auctor que, ao citar um nome generico, espe-
cifico, ou subespecifico, indique pelo menos uma vez o do auctor e o anno
da publicação do nome citado, ou uma indicação bibliographica completa.
APPLICAÇÂO DA LEI DE PRIORIDADE
Artigo 26 - A decima edição do Systcma Xaturae de Linneu (1758) é o
trabalho que iniciou a applicaçáo geral consistente da nomenclatura binaria em
zoologia. Portanto, a data 1758 é acceita como ponto de partida da nomenclatura
zoologica e da Lei de Prioridade.
Vide Opiniões Nos. 3, 12. 13, 15, 16, 51, 52.
Artigo 27 - A Lei de Prioridade prevalece e por consequência o mais an-
tigo nome aproveitável se retém:
a) Quando se designa qualquer parte de um animal antes do proprio animal;
b) Quando se designa qualquer phase evolutiva antes do adulto;
c) Quando os dois sexos de um animal se tèm considerado como especies
distinctas ou mesmo como pertencentes a generos differentes;
1
244
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
d) Quando um animal representa uma successão regular de gerações disse-
melhantes que se têm considerado como pertencentes a especies distinctas ou
mesmo a generos differentes.
Vide Opiniões Nos. 44, 48.
Ártico 28 - Um genero formado pela fusão de dois ou mais generos ou
subgeneros recebe o nome valido mais velho, generico ou subgenerico, de seus
componentes. Si os nomes tiverem a mesma data, prevalecerá o escolhido pelo
primeiro revisor.
A mesma regra é applicavel quando se unem duas ou mais especies ou sub-
especies para formar uma só especie ou subespecie.
Recommcndação - Na ausência de quaiqutr revisão previa, recommenda-se o esta-
belecimento da precedencia pelo seguinte processo:
a) Um nome generico acompanhado de especificação de um typo tem precedencia
a um nome sem tal especificação. Si todos os generos tiverem, ou nenhum tiver, typos
especificados, dá-se preferencia áqueile nome generico cuja diagnose for a mais apro-
priada.
b) Um nome especifico acompanhado de descripção e gravura tem preferencia a
outro acompanhado só de diagnose, ou só de gravura.
c) Em igualdade de condições, deve-se preferir aquelle nome que apparece pri-
meiro na publicação (precedencia de paginai.
Vide Opinião No. 40.
Artigo 29 - Si se divide um genero em dois ou mais generos restrictos, o
nome valido deve ser retido para um dos generos restrictos. Si um typo tiver
sido estabelecido originalmente para tal genero, retém-se o nome generico para
o genero restricto que contenha esse typo.
Recommcndação - Para facilitar a citação, recommenda-se que, quando se tomar
uma especie mais antiga como typo de um genero novo, se combine realmente o nome
delia com o novo nome generico que se citarã também com o nome antigo do genero.
Exemplo: Gilbertella Eigcnmann, 1903, Smithsonian Misc. Coll., v.45, p.147, typos Gil-
bertella alata <Steindachner)= Anacyrlus alatus Steindachner.
Vide Opinião No. 10.
Artigo 30 - A designação da especie typo de generos deve obedecer ás
seguintes regras (a-gl, applicaveis na seguinte ordem de precedencia:
Vide Opiniões Nos. 11, 14. 18, 23, 31-33, 42, 43, 45, 62, 68. 69, 71, 79, 81, 86.
I. Casos em que o typo generico é acceito apenas por motivo da publicação
original:
a) Quando, na publicação original de um genero. uma das espcctes c posi-
tivamente designada como typo, essa especie será acceita como typo. a despeito
de quaesquer outras considerações (Typo por designação original > . (Vide Opi-
nião No. 7)-
b) Si, na publicação original de um genero, o termo typicus ou typus for
usado como um novo nome especifico para uma das especies, este será tomado
como "typo por designação original ".
12
A. do Amaral — Regras internacionaes de nomenclatura zoologica
245
c) Um genero proposto com uma só especie original toma essa especie
como typo (Generos monotypicos). (Vide Opiniões 6, 9, 22, 30, 42, 47).
d) Si um genero, sem typo originalmente designado (como em a) ou indi-
cado (como em b), contém entre suas especies originaes uma que possua com
o caracter especifico ou subespecifico o nome generico, seja elle valido ou syno-
nymo, tal especie ou subespecie se torna ipso facto typo do genero (Typo por
tautonymia absoluta). (Vide Opiniões Nos. 16, 33, 35).
II. Casos em que o typo generico não é acceito apenas por motivo da pu-
blicação original:
e) Excluem-se de consideração as seguintes especies na determinação de
typos de generos (Vide Opiniões Nos. 14, 32, 35, 56):
a. Especies que não estavam incluídas sob o nome generico por occasiáo
da publicação original.
p. Especies que eram especies inquirendac no ponto de vista do auctor
do nome generico, por occasiáo da publicação.
y. Especies que o auctor ligou em duvida ao proprio genero por elle
creado.
f) Caso um nome generico sem typo originalmente designado seja pro-
posto como substituto para outro nome generico, com ou sem typo, o typo de
qualquer dos dois, uma vez estabelecido, toma-se ipso facto typo do outro. (Vide
Opiniões Nos. 9, 46).
g) Si um auctor, ao publicar um genero com mais de uma especie valida,
deixa de designar (como em a), ou de indicar teomo em b e J) o typo. este
pode ser escolhido por qualquer auctor subsequente e tal designação não está
sujeita a mudança (Typo por designação subsequente). (Vide Opiniões Nos. 6,
9, 10, 32, 56).
O sentido da expressão "escolher o typo" deve ser tomado ao pé da letra.
Menção de uma especie como illustraçâo ou exemplo de um genero, não con-
stitue selecçáo de um typo.
III. Rccommcndacões - Na escolha de typos por designação subsequente, os auc-
tores farão bem em seguir as seguintes recommendaçôes:
h) Em caso de gçneros linneanos, escolher como typo a especie mais commum
ou a medicinal (Regra linneana, 1751).
i) Si um genero sem typo designado contém entre as suas especies originaes uma
que possua como designação especifica ou subespecifica, quer valida, quer synonyma,
um nome que seja virtualmente o mesmo que o generico, ou da mesma origem ou da
mesma significação que elle, a escolha deve recahir em tal especie no acto da desig-
nação do typo, a menos que tal escolha seja fortemente conrraindicada por outros fac-
tores (Typo por tautonymia virtual). Exemplos: Bos taurus, Equus caballus, Ovis aries.
Scombcr scombrus, Sphaerostoma globiporum ; contraindicada em Dipetalonema (com-
parar com a especie Filaria dipetala, de que apenas foi descripto um sexo, baseado cm
um exemplar e não estudado minuciosamente).
j) Si o genero contém especies exóticas e não exóticas no ponto de vista do
auctor original, a escolha do typo deve recahir em especie não exótica.
13
246
Memórias do Instituto Butantan — "tomo V
k) Si algumas das especies originaes tiverem sido depois classificadas em outros
generos, deve-se dar preferencia ás especies que houverem permanecido no genero ori-
gina! (Typo por eliminação).
l) Especies baseadas em exemplares sexualmente maduros devem ter precedencia
a especies baseadas em formas larvarias ou immaturas.
m) Dar preferencia a especies designadas pelos nomes communis, vulgaris, medi-
cinalis ou officinalis.
n) Dar preferencia á especie mais bem descripta, figurada, ou conhecida, ou mais
facilmente obtenível ou áquella de que se pode obter um exemplar typo.
o) Dar preferencia a uma especie pertencente a um grupo que contenha um nu-
mero tão grande quanto possível de especies (Regra de De Candolle).
p) Em generos parasitados escolher, si possível, uma especie que occorra no ho-
mem ou algum animal usado como alimento, ou em alguma especie hospedeira muito
commum e espalhada.
q) Em igualdade de condições, preferir uma especie que o auctor do genero tenha
realmcnte estudado quando, ou antes que, propôs o genero.
r) Tratando-se de escriptores que costumavam collocar como cabeça (“chef de
file”) uma certa especie principal ou typica e descrever as demais por meio de citação
comparativa com cila, a escolha do typo deve recahir na alludida especie.
s) Tratando-se de auctores que adoptavam a “regra da primeira especie” como
critério para a fixação dos typos genericos, as primeiras especies por elles designadas
devem ser tomadas como typos dos respectivos generos.
t) Em igualdade de condições, deve prevalecer a precedencia de pagina na es-
colha do typo.
Artigo 31 - A divisão de uma especie em duas ou mais especies restrictas
está sujeita ás mesmas regras que a divisão de um genero. Mas um nome espe-
cifico que indubitavelmente se baseie em um erro de identificação, não pode ser
retido para a especie mal determinada mesmo que ella seja mais tarde collocada
em genero differente. Exemplo: Tacnia pectinata Goeze, 1782— Cittotaenia
pcctinata (Goeze), porém a especie erroneamente determinada por Zeder, 1800,
como “Tacnia pcctinata Goeze '— Andrya rhopalocephala (Riehm); a especie
de Zeder não recebe o nome de Andrya pcctinata (Zeder).
Vide Opinião No. 13.
REJEIÇÃO DE NOMES
Artigo 32 - Um nome generico ou especifico, uma vez publicado, não pode
ser rejeitado por motivo de falta de propriedade, nem mesmo por seu auctor.
Exemplos: Nomes como Polyodon, Apys, albus . etc., uma vez publicados, não
devem ser rejeitados pela allegaçáo de que indicam caracteres contradictorios
aos apresentados pelos animaes assim denominados.
Artigo 33 - Um nome deve ser rejeitado por causa de tautonymia, isto é,
por serem idênticos ao nome generico o nome especifico ou o subespecifico.
Exemplos: Trutta trutta, Apns apus apus.
14
A. do Amaral — Regras inlcrnacionaes de nomenclatura zoologica
247
Artigo 34 - Um nome generico deve ser rejeitado como homonymo quando
houver sido previamente usado para algum outro genero u) de animaes. Exemplo:
Trichina Owen, 1835, nematoide, é rejeitado como homonymo de Trichina Meigen,
1830, insecto.
Vide Opiniões Nos. 12, 29, 83.
CODIGO DE ETH1CA
Sem se arrogar a arbitro de pontos de ethica geral, a Commissáo está persuadida
de que ha uma face deste assumpto sobre que ella é competente para falar, c, assim,
a respeito suggere ao Congresso a adopeão da seguinte resolução:
Considerando que - a experiencia tem demonstrado que auctores não raramente pu-
blicam por inadvertência, como novas designações de generos ou espccies, nomes que
estão preoccupados, e
Considerando que - a experiencia tem demonstrado que outros auctores, ao desco-
brirem tal homonymia, têm publicado novos nomes para substituir aqueltes homonymos,
Fica resolvido que - quando algum zoologo notar que o nome generico ou especi-
fico publicado por qualquer auctor vivo como novo é realmcntc um homonymo c, pois,
inaproveitavel á luz dos artigos 34 e 36 das Regras de Nomenclatura, sua acção no caso
deve ser, do ponto de vista da ethica profissional, notificar ao alludido auctor os factos
encontrados c dar-lhe ensejo amplo de propor um nome em substituição.
O Além de revistas c “nomenclatorcs” cspcciacs sobre vários grupos, as seguintes
publicações são de grande utilidade para os auctores. porque indicam si um dado nome
subgcncrico, generico ou supergenerico, está preoccupado e, assim, sua consulta antes
da crcaçáo de novos nomes evitará muita confusão c futura mudança de designações:
— C. D. Sherborn. Index animalium sive index nominum quac ab A. D. 1758, genc-
ribus et speciebus animalium imposita sunt. Societatibus eruditorum adjuvantibus a Cario
Davis Sherborn confectus. Sectio I a kalcndis januariis, 1758, usque ad finem dcccm-
bris, 1800. Cantabrigiae, 1902, 8*.
A continuação sobre 1801-1850 está agora apparecendo cm partes.
— S. H. Scudoer. Nomenclator zoologicus. Lista alphabetica de todos os nomes ge-
néricos que têm sido empregados por naturalistas para animaes recentes e fosseis desde
os tempos mais remotos até o fim do anno de 1879. Em 2 partes: I. Lista supplementar.
II. Index universal. Washington, 1882, 8*.
— C. O. Waterhouse. Index zoologicus. Lista alphabetica de generos e subgeneros
propostos para uso em zoologia e citados no Zoological Record, 1880-1900 e 1901-1910,
juntamente com outros nomes não incluídos no Nomenclator Zoologicus de S. H. Scud-
der. Compilado ••• por Charles 0»en Waterhouse e editado por David Sharp. Londres,
1902 e 1912, 8*.
— The Zoological Record, XXXVIII let seq. I. Contém citações de literatura zoolo-
gica relativa sobretudo ao anno de 1901 ( et seq.). Londres, 1902 [et seq.), 8 o . índice
de nomes de novos generos e subgeneros.
— Register zum zoologischer Anzeiger. Publicado por J. V. Carus, Annos 1-10(1878-
1887), 11-15(1888-1892), 16-20(1893-1897», 21-25(1898-1902). Lipsia, 1889, 1893,
1899, 1903, 8*.
— Nomenclator animalium generum et subgenerum. Está agora (1926 et seq.) sendo
publicado em partes pela Preussische Akademie der Wissenschaften zu Bcrlin.
15
248
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Artigo 35 - Um nome especifico deve ser rejeitado como homonymo quando
tiver sido previamente usado para alguma outra especie ou subespecie do mesmo
genero. Exemplo: Taenia ovilla Rivolta, 1878 (n. sp.) é rejeitado como homo-
nymo de T. ovilla Gmelin, 1790.
Quando, por consequência da união de dois generos, dois animaes diffe-
rentes, que possuam o mesmo nome especifico ou subespecifico, são incluídos
em um genero, o nome especifico ou subespecifico mais recente deve ser rejei-
tado como homonymo.
Nomes específicos da mesma origem e significação serão considerados ho-
monymos si se distinguirem entre si apenas pelas seguintes differenças:
a) Uso de ac, oe e c, como caeruleus, coeruleus, ceraleus; ei, i e y, como
chiropus, cheiropus; c e k como microdon, mikrodon.
b) Aspiração ou não aspiração de uma consoante, como oxyryncus, ox y-
rhyncus-
c) Presença ou ausência de um c antes de f, como autumnalis, auctumnalis.
d) Consoante simples ou geminada: litoralis, littoralis.
e) Terminações ensis e iensis em nomes geographicos, como timorensis,
timoriensis.
Artigo 36 - Homonymos rejeitados não podem ser usados. Synonymos re-
jeitados podem ser usados de novo no caso de restauração de grupos erronea-
mente suppressos. Exemplo: Taenia giardi Moniez, 1879 foi suppresso como sy-
nonymo de Taenia ovilla Rivolta, 1878; mais tarde foi descoberto que Taenia
ovilla estava preoccupado ( Taenia ovilla Gmelin, 1790). Taenia ovilla, 1878, é
suppresso como homonymo e não pode ser mais usado; considerado “natimorto ",
não pode ser revivido mesmo que a especie seja collocada em outro genero (Thy-
sanosoma). Taenia giardi, 1879, que foi suppresso como synonymo, torna-se va-
lido cm resultado da suppressáo do homonymo Taenia ovilla Rivolta.
Rccommcndaçôcs - E' conveniente evitar a introducçio de novos nomes genéricos
que diffiram de nomes genéricos já cm uso pela terminação ou por uma pequena varia-
ção na orthographia que possa determinar confusão. Todavia, uma vez introduzidos, taes
nomes não devem ser rejeitados por essa razão. Exemplos: Picus, Pica; Polyodus, Po -
lyodon, Polyodonta, Polyodontas, Polyodontus; Macrodon, Microdon.
A mesma recommendação applica-se a novos nomes específicos em qualquer ge-
nero. Exemplos: nccator, nccatrix; furcigera, furcifera; rhopalocephala, rhopalioccphala.
Si dois ou mais adjectivos são derivados da radical de um nome geographico, não
é aconselhável usar mais de um delles como nome especifico no mesmo genero, mas.
uma vez introduzidos, não se devem rejeitar por essa razão. Exemplos: hispanas, his-
panicus; moluccensis, moluccanus ; sinensis, sinicas, chinensis; ceylonicus, zeylanicus-
Esta recommendação applica-se também a outras palavras derivadas da mes-
ma radical e distinctas entre si apenas pela terminação ou por uma simples mudanç*
na orthographia.
16
A. do Amaral — Regras internacionaes de nomenclatura ;oologica 249
SUSPENSÃO DAS RECRAS EM CERTOS CASOS
Fica resolvido:- Que, por este documento, se confere poder plenário á
Commissão Internacional sobre Nomenclatura Zoologica, para, em nome deste
Congresso, suspender as Regras quando applicadas em um caso dado qualquer,
desde que, em seu julgamento, da estricta applicação das Regras resulte clara-
mente maior confusão do que uniformidade, com a condição, todavia, dc que,
durante pelo menos um anno, se dè noticia em duas ou mais das seguintes pu-
blicações, Bulletin de la Societé Zoologique de France, Monitore Zoologico, Na-
ture: Science (N. Y.) e Zoologischer Anzeiger; de que se está considerando a pos-
sibilidade da suspensão das Regras applicadas a tal caso, tomando-se assim
possível a zoologos, principalmente especialistas no grupo em jogo, apresentarem
argumentos a favor ou contra a suspensão em estudo; e também com a condição
de que a votação na Commissão resulte unanime em favor da suspensão; e final-
mente com a condição de que, si da alludida votação resultar uma maioria de
dois terços da Commissão completa, mas não unanimidade a favor da suspensão,
a Commissão fique desde logo auctorizada a submetter os factos á consideração
do primeiro Congresso Internacional;
Fica resolvido:- Que, no caso de uma questão ser affecta ao Congresso,
nas condições acima descriptas, com uma maioria de dois terços da Commissão
em favor da suspensão, mas sem um voto unanime, caberá ao Presidente da
Secção de Nomenclatura nomear um conselho especial de 3 membros, dos quaes
dois pertencentes á Commissão (um que tenha votado de um modo e outro que
o tenha feito de modo opposto na questão) e o terceiro um ex-membro da Com-
missão que não tenha expresso em publico sua opinião sobre o caso; c que este
conselho especial deverá rever os factos apresentados e seu rclatorio, adoptado
por maioria ou por unanimidade, será final e inappellavcl no que concerne ao
Congresso;
Fica resolvido:- Que a auctoridade precitada trate, na primeira occasião
e especialmente, de questões de nomes de phases lanarias e da transferencia
de nomes de um genero para outro; e
Fica resolvido:- Que o Congresso não somente approva inteiramente o plano
que foi iniciado pela Commissão, de tratar com comitês especiaes a respeito de
determinados grupos em qualquer caso, mas ainda auctoriza e instrue a Com-
missão a continuar e desenvolver essa orientação.
Vide Opiniões Nos. 76, 80, 82, 89, 90.
APPENDICE
A. - E' muito desejável que a proposta de cada novo grupo systematico seja acom-
panhada de uma diagnose, tanto individual quanto differencial, do grupo, em inglês,
francês, alemão, italiano, ou latim.
17
250
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Esta diagnose deve declinar o nome do museu em que o exemplar typo foi depo-
sitado e dar o numero (catalogo do museu) do referido exemplar.
Recommenda-se que nas descripções publicadas de uma nova especie ou subes-
pecie, se designe e rotule como typo apenas um exemplar, ficando como paratypos os
demais exemplares examinados pelo auctor na mesma occasião.
B. • Em publicações feitas em outras linguas que não o inglês, francês, alemão,
italiano, ou latim, é desejável que a explicação das gravuras appareça traduzida em
uma destas linguas.
C. - O systema métrico de pesos e medidas e o thermometro centígrado de Celsius
são adoptados como padrão. O micron (0,001 mm.), representado pela letra grega u,
é adoptado como unidade de medida em trabalhos de microscopio.
D. - A indicação de augmento ou de redueçáo, tão necessária á comprehensão de
uma illustração, deve ser expressa antes em algarismos do que pela menção do systema
de lentes usado.
E. - A indicação de augmento ou redueçáo de um objecto é geralmente linear.
Usa-sc o signal de multiplicação para augmento e o de fracção para redueçáo. Exem-
plos: x 50 indica que o objecto está augmentado £0 vezes. ' M significa que elle está
reduzido 50 vezes.
Si se deseja especificar que o augmento é em linha, superficie, ou massa, deve-se
representar assim: X 50' para indicar augmento numa dimensão; X 502 para indicar
augmento em area; x 50» para indicar augmento cm volume.
F. - Transliteração de palavras gregas - A seguinte lista indica a maneira por que
se devem translitcrar palavras gregas:
C
1
=
c
final
V
=
a
>
i
=
th
i
K
c
(
=
X
P
r=
r
V
r=
y
CU
=
ae
au
=
au
Cl
=
i
cr
=
eu
W
• oi
=
oe
final
Of
=
um
final
=
us
ou
=
u
77
ng
7X
=
nch
7*
=
nc
b
=
rh
<
he
(í-áXtos) Hyal ea, c não Hyalaea
(rcif^i-rj) Pirena, e não Pirir.a
(jrcipçn;) Pirenc, e não Pirene
(r>;(Vs) Terftys, e não Tefys
(jSoAíov) Balia, e não Balea
(ínroKpíjvij) Hippocrena, e não Hippocftrenes
(ítw) .Vénus, Xcnophora
(jTTípòr) Pterum
(i/3ó*) Hybolithus, e não Hibolites
(Aiproios) Limnaea, e não Limnea
(■yAov*ó?) Glaucus
(\nAos) Chilostomum. e não Cheilostcma
(tipos) Eiirus
(««cu) Dioeca, Dendroeca, e não Dioica, Dendroica
(«ÇxV irior) Ephippium, e não Ephippion
(õpÇ>oAn«) Euomphalus, e não Euomphalos
(ÀoiTj/pior) Luterium, e não Loterium
(âyyaptía) Angaria, e não Aggaria
(<iy\iarofior) Ancftistomum, c não Angistcma
(Jynurrpoíori Ancistrodon, e não Agfcistrodon
(^<a) Rhea
(ipfiaía) He rmaea, c não Ermaea
G. - Transliteração de nomes geographicos e proprios - Os nomes geographicos
de países que empregam caracteres latinos se devem escrever com a orthographia da
região cm que se originam.
18
A. do Amaral — Regras internacionaes de nomenclatura zoologica
251
Os seguintes paragraphos applicam-se somente aos nomes geographicos de países
que não têm alphabeto verdadeiro ou usa^| letras differentes das latinas.
Nomes de logares, estabelecidos por longo uso, conservam sua orthographia usual.
Exemplos: Argel, Moscoa.
1. As vogaes a, e, i e o pronunciam-se como em írancès, italiano, espanhol [e
português], ou alemão. A letra e nunca é muda.
2. O som francês u é representado por ü com dierese, como cm alemão.
3. O som francês ou é representado por u, como em italiano, espanhol [ou por-
tuguês], alemão, etc.
4. O som francês eu é representado por oe, pronunciado como na palavra fran-
cesa oeil.
5. O som longo de uma vogal é indicado por um accento circumflexo; o som in-
terrompido é indicado por um apostropho.
6. As consoantes b, d, f, j, k, l, m, n, p, q, r, t, v, c : são pronunciadas como
em francês.
7. As letras g e s têm sempre o som duro, como nas vogaes francesas gamellc
e sirop.
8. O som representado em francês por ch í designado por sh. Exemplos: Shé-
rif, Kashgar.
9. Kk representa a guttural aspera e gh a guttural branda dos arabes.
10. Ph representa o som com que termina a palavra inglesa paih ( em grego).
Dh representa o som inicial do vocábulo inglês those ( { em grego).
11. Fora de tal emprego (9 e 10) da letra h modificando a que a precede, h é
sempre aspirado; o apostropho, por conseguinte, não se usa jamais antes de uma pala-
vra que comece por h.
12. A semivogal representada por y é pronunciada como em yole.
13. A semivogal »• é pronunciada como no vocábulo inglês William.
14. Os sons duplos dj, tch, ts, etc., indicam-se por letras correspondentes aos sons
que os compõem. Exemplo: Matshim.
15. O n é pronunciado gn como no francês seigneur [nh em português].
16. As letras x, c e q não se usam por serem duplicatas de outras letras que re-
presentam os mesmos sons; mas q pode servir para indicar o arabc qaf e a aspirada
branda pode ser empregada para representar o arabc ain.
Deve-se tentar indicar, tão cxactamentc quanto possível, por meio das letras ci-
tadas acima, a pronuncia local, sem procurar dar uma representação completa de todos
os sons que se ouvem.
NOTA DO TRADUCTOR: - Algumas destas indicações dirigem-se na-
turalmente aos povos de lingua inglesa.
RESUMOS DE OPINIÕES EMITT1DAS
1. Significação da palavra " indicação ” no Ari. 25a. - A palavra “ indicação ’’ no
Art. 25a. deve ser interpretada como segue:
A. Em relação a nomes específicos corresponde a uma “ indicação (1) uma
citação bibliographica, ou (2) uma gras-ura publicada (illustraçào), ou (3) uma citação
definida de um nome anterior para o qual se propõe uma nova designação.
B. Em relação a nomes genéricos: (1) uma citação bibliographica, ou (2) uma
citação definida de um nome anterior para o qual se propõe uma nova designação, ou
(3) a citação ou designação de uma especie typo.
252
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Em caso algum se deve considerar a palavra “indicação” como correspondente a
rotulos de museu, exemplares de museu, ou ^nomes vernáculos.
2. Natureza de um nome systematico. - A Commissão é de opinião unanime que
um nome, no sentido do Codigo, corresponde á designação pela qual são conhecidos os
objectos rcaes. Em outras palavras, nós designamos os proprios objectos, e não a nossa
concepção de taes objectos. Nomes baseados em formas hypotheticas, por conseguinte,
não têm significação em nomenclatura e de nenhum modo merecem consideração á luz
da Lei de Prioridade.
Exemplos: Pithecanthropas Haeckel, 1866, sendo o nome de um gencro hypothe-
tico, não tem significação á luz do Codigo e, portanto, não invalida Pithecanthropus
Dubois, 1894; Gigantopora minuta Loose, 1907, n.g., n.sp., não tem significação alguma
á luz do Codigo, porquanto é considerado como nome de uma unidade phantastica, ba-
seada em nenhum objecto real.
3. Situação de publicações datadas de 1758. - A decima edição do “Systema Na-
turae” de Linneu appareceu muito cedo no anno de 1758 e, por motivos práticos, pode-se
presumir que esta data seja: primeiro de janeiro de 1758. Assim, quaesquer outras
publicações zoologicas, datadas de 1758, se podem presumir como tendo apparecido de-
pois do dia primeiro de janeiro. No que respeita á data, todas essas publicações podem,
portanto, ser consideradas merecedoras de consideração debaixo da Lei de Prioridade.
4. Situação de certos nomes publicados como manuscriptos. - Nomes manuscriptos
tem entrada em nomenclatura quando impressos cm ligação com as disposições do Art.
25, e a questão de sua validez não é influenciada pelo facto de taes nomes serem
acceitos ou rejeitados pelo auctor responsável por sua publicação.
5. Situação de certos nomes pre-linneanos reimpressos após 1757. - Um nome
pre-linneano, inelegível por causa de sua publicação antes de 1758, não se torna elegível
simplesmente por ser citado ou reimpresso, com sua diagnose original, depois de 1757.
Para tornarem-se elegíveis sob o Codigo, taes nomes devem ser reforçados por adopção
ou acceitação por parte do auctor que publica a reimpressão. Exemplos: A citação, pos-
terior a 1757, de uma referencia bibliographica sobre um trabalho anterior a 1758 não
firma nomes technicos por ventura contidos na alludida referencia; a situação syno-
nymica de nomes pre-linneanos, como occorre na decima edição do “Systema Naturae"
de Linneu. não firma taes nomes sob o Codigo.
6. No caso de um genero A Linneu, 1753, com duas especies Ab e Ac. - Quando
um auctor subsequente divide o genero A, especies Ab e Ac, deixando o genero A apenas
com a especie Ab e o genero C, monotypico, com a especie Cc, esse auctor deve ser
considerado como tendo fixado o typo do genero A (Vide Artigo 30).
7. Sobre a interpretação da expressão "n.g., n*p.” á luz do Artigo 30(a) - A
expressão “n.g., n.sp.” usada na publicação de um novo genero, do qual nenhuma outra
especie è aliis designada como genotypo, deve ser acceita como designação, á luz d
Artigo 30(a).
8. Sobre a retenção de ii ou i em nomes específicos patronymicos sob o Artig
14(c) e Artigo 19. - Patronymicos específicos, publicados originalmentc com a termi
nação ii (como schrankii, ebbesbornii ) devem, de accordo com o Artigo 19, ser conser
vados em sua forma original, a despeito do Artigo 14 í c ) que estabelece que elles devia
ter sido formados apenas com um i.
9. Applicação do nome dc um genero composto a um dos seus elementos que n
cessite de nome. - Depende de varias circunstancias a decisão sobre si o nome de u
genero composto, quando formado inteiramente de generos mais velhos, é applicavel
20
A. do Amaral — Regras intcrnacionaes de nomenclatura zoologiea
253
um dos seus elementos componentes que necessite de um nome. Ha circunstancias sob
que ta! nome pode ser usado, outras sob que não o pode ser (Art. 30).
10. Designação de genotypos para gêneros publicados com idênticos limites. - Si
dois generos com os mesmos limites são formados independentemente por differentes
auctores, sem designação de genotypos, qualquer auctor subsequente pode designar os
genotypos (Art. 30g), e, si os typos designados não são idênticos especificamente, os
dois nomes genericos podem (em igualdade de condições) ser usados para generos res-
trictos que contenham os alludidos typos (Art. 25).
11. Designação de genotypos por Latreille, 1810. - A “Table des genres avec
1’indication de l’espèce que leur serr de type”, in "Considérations gcnérales” de La-
treille (1810), deve ser acceita como designação de typos dos generos nella incluidos
(Art. 30).
12. Stephanoceros fimbriatus (Coldfuss, 1820) vs. Stephanoceros eichhornii
Ehrenberg, 1832. - O nome generico Stephanoceros, 1832, deve ser usado de preferencia
a Coronella, 1820 (preoccupado, 1768); o nome especifico fimbriatus, 1820 tem prece-
dencia a eichhornii, 1832, que é considerado (Ehrenberg, 1832 b, 125, e 1838 a, 400-
401) como redenominação de fimbriatus, 1820. Ehrenberg teve razão cm rejeitar Co-
ronella, 1820, mas errou em rejeitar fimbriatus, 1820, não havendo razão apparente para
perpetuar o seu erro.
13. Nome especifico do carangueijo da areia. - O nome pre-linneano (1743) are-
narius de Catesby não c aproveitável á luz do Codigo, embora tenha sido “reimpresso”
em 1771; quadratus 1793 affirma-sc que está preoccupado; albicans 1802. sendo o nome
especifico immediato na lista, toma-se valido diante dos argumentos apresentados.
14. Especie typo de Etheostoma Rafinesque, 1819. - A designação de E. blenni -
oides Rafinesque. 1819, como typo de Etheostoma Rafinesque, 1819, conforme fez Agas-
siz em 1854. não c invalidada, por ter Agassiz usado, como base para sua diagnose ge-
nérica, caracteres tirados de uma errônea determinação especifica de 1839. Não somente
Agassiz affirmou claramente que “ Eth . blennioides Raf.” era typo de “ Etheostoma Raf.”,
mas ainda, mesmo que se tome em consideração a questão da identificação errônea de
E. blennioides por Kirtland, a conclusão a tirar é que esta identificação errônea não
excluiu deste nome especifico os exemplares originaes de E. blennioides; pelo contrario,
o nome usado por Kirtland, 1839, ainda incluia os exemplares typo; retirando-se agora
os exemplares erroneamente determinados cm 1839, os quaes pelo Artigo 30c ( tt ) são
excluídos de consideração na designação de genotypo, permanecem os exemplares typo
originaes de 1819, os quaes, diante dos argumentos apresentados, representam o typo
do genero.
15. Crasoedacusta sosterbii Lankester, 1880, n.g., n.sp., vs. Li.monocodium victoria
Allman, 1880, n.g., n.sp., Medusa de agua doce. - Craspedacusta sou-erbii Lankester, 17
de junho de 1880, tem nitida prioridade sobre Limnocodium victoria Allman, 24 de junho
de 1880. A apresentação de um trabalho a uma sociedade scientifica não constituo pu-
blicação no sentido do Codigo. A Commissáo não tem auctoridade para sanccionar uso
que infrinja as disposições do Codigo. [Cf. Capitulo “Suspensão das Regras”, p. 249],
16. Situação de nomes específicos pre-binominaes ( publicados antes de 1758)
sob o Art. 30 d. - Ao se decidir sobre a presença de um caso de absoluta tautonymia
(sob o Art. 30d), deve-se acceitar a citação, em synonymia, de um nome especifico
prebinominal claro, como prova de sua conformidade com as exigências do Art. 30d.
Exemplos: Equus caballus ( Equus citado em synonymia no sentido do “cavallo”), Alca
torda < Alca citado em synonymia no sentido da “Alca”).
254
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
17. Devem acceitar-se os generos de Weber, 1795? - O Nomenclator Entomolo-
gicus de VTeber, 1795, satisfaz os requisitos do Artigo 25 e, pois, devem ser acceitos
os generos nelle incluidos desde que individualmente estejam de accordo com as con-
dições do Codigo.
18. Typo de Hydrus Schncider, 1799. - De accordo com os argumentos, caspius
Schneider, syn. hydrus Palias, é o typo de Hydrus Schneider. (Art. 30d).
19. Plesiops vs. P h aropteryx. - Diante dos dados, não está claro si, por sua na-
tureza, este caso é de nomenclatura ou de zoologia. Tanto quanto a evidencia permitte
julgar, a pergunta sobre si Rüppell errou em acceitar Plesiops como idêntico a Pharo-
ptcryx deve ser respondida do ponto de vista systematico. Si, em face de nossa actual
concepção dos limites ger.ericos, Rüppell tinha razão, não ha motivo apparente para não
se acceitar a sua decisão no terreno da nomenclatura.
20. Devem-se acceitar os generos de Gronow, 1763? - Gronow, 1763, é binário,
embora não consistentemente binominal. O Artigo 25 requere que um auctor seja binário
e o Artigo 2 requere que os nomes genericos sejam uninominaes. A’ luz destes Artigos,
os generos de Gronow devem ser acceitos como preenchendo as condições prescriptas
pelo Codigo para o competente aproveitamento de um nome [Cf. Opinião 89J.
21. Devem-se acceitar os generos de Klein, 1744, reimpressos por Walbaam, 1792?
- Quando Walbaum cm 1792 reimprimiu em forma condensada (mas não acceitou) os
generos de Klein de 1744, clle com esse acto não deu aos generos de Klein situação
alguma em nomenclatura e, por conseguinte, os generos de Klein não se tornam apro-
veitáveis á luz do Codigo presente, pelo facto de terem sido citados por VPalbaum.
22. Ceraticthys vs. Cliola. - Quaesquer que tenham sido as intenções originaes
de Baird, elle c Girard publicaram inicialmente (1853) Ceraticthys como um genero
monotypico, descrevendo o genotypo (C. vigilax ) e não dando indicação alguma de que
não pretendiam com isso publicar um "n.g., n.sp.”. Diante do Artigo 30c, vigilax é o
typo de Ceraticthys.
23. Aspro vs. Cheilodipterus ou Ambassis. - Diante dos argumentos apresentados,
Centropomus macrodon pode ser considerado typo de Aspro 1802, supprimindo-se este
ultimo como synonymo de Cheilodipterus c salvando-se, assim, Ambassis.
24. Antennarius Commerson, 1798, e Cuvier, 1817, vs. Histrio Fischer, 1813. -
Antennarius Commerson é um nome uninominal (Art. 2) de um auctor que usou uma
nomenclatura binaria (embora não binominal) (Art. 25). Adquiriu valor nomenclatorial
em virtude de sua publicação por Lacépède em 1798 e deve trazer esta indicação ao invés
de Cuvier, 1817. Portanto, não c necessário supprimi!-o em beneficio de Histrio, 1813.
[Cf. Opinião 89].
25. Damesiella Tornquist, 1899, vs. Damesella Walcott, 1905. - Diante das Rc-
commendaçôes do Artigo 36, não é necessário rejeitar Damesella, 1905, em virtude da
existência de Damesiella, 1898 (1899?).
26. Cypsilurus vs. Cypselurus. - Em vista do numero de erros typographicos
em Swainson, 1838 e 1839, a Commissão é de opinião que Cypsilurus é um erro ty
graphico evidente que deve ser correcto para Cypsclurus.
27. Ruppelia e Rupellia vs. Rüppellia. - Desde que é evidente um erro
graphico, Ruppelia c Rupellia devem ser correctos para Rüppellia.
28. Deve-se dar prioridade á "Souvelle Classification” de Meigen, 1800, em re
tapão d sua " Vcrsuch ” de 1803? - Os nomes genericos contidos na “Nouvelle Classi
fication" de Meigen, 1800, devem ter precedencia aos usados em sua “Versuch” 1
22
A. do Amaral — Regras internacionacs de nomenclatura zoologica
255
em todos os casos em que os primeiros forem considerados validos sob o Codigo Inter-
nacional.
29. Pachynathus vs. Pachycnathus. - Baseada no argumento constante da Opi-
nião 26 e na existência do nome anterior Pachygnathus, 1834, Arach., a Commissão é
de parecer que Pachygnathus Swainson, 1839 deve ser suppresso.
30. Generos de aves de Swainson, 1827. - Os generos de aves, publicados por
Swainson no Philosophical Magazine de 1827, são monotypicos e, de accordo com o Ar-
tigo 30c, as especies ali mencionadas são typos dos seus respectivos generos. Por con-
sequência, estes typos devem ter precedencia aos typos de Swainson designados mais
tarde, no Zoological Journal de 1827.
31. Columbina vs. Chaemepelia. - Em 1840 Cray designou Columba passerina
Linneu como typo de Columbina Spix. Como esta especic não é uma das originaes de
Columbina Spix, a designação do typo por Cray não é valida e Columbina^ *> permanece
sem um typo designado. O typo valido de Chaemepelia Swainson é Columba passerina
Linneu, designada por Gray em 1841.
[<*) Nota escripta por Stcjneger (membro da Commissão): ao ser re-
digida a Opinião 31, o auctor não tinha visto a segunda edição dos Generos
de Aves de Gray, publicada em 1841, nem os documentos apresentados na
occasião tratavam claramente da questão c. porisso, lhe escapou que Colum-
bina slrepitans Spix fora designada por Gray cm 1841, p.75, como typo de
Columbina. Este acto de Gray é indubitavelmente valido c, portanto, o typo
de Columbina é C. strepitans Spix. Em vista deste facto trazido ao conheci-
mento da Commissão pelo Sr. W. E. Clyde Todd, a Opinião 31 fica aqui
mudada de accordo com elle c será submettida aos membros para a devida
approvrçào.
Allcn, 1911, Science, 336, designou griseola Spix como typo de Co-
lumbina Spix, 1825].
32. Typo do genero Sphex. - De accordo com os argumentos apresentados, sabu-
losa é o typo de Sphex Linneu, 1758.
33. Typo do genero Rutilus Rafinesque, 1820. - Cyprinus rutilus é o typo de
Rutilus Rafinesque, 1820. Rutilus plargyrus é o typo de Plargyrus Rafinesque, 1820.
34. jEshna vs. ^Eschna. - Desde que a publicação original não evidencia a de-
rivação da palavra, a graphia original .JZshna deve ser conservada.
35. Typos de generos de auctores binários mas não binominaes. - Na determinação
do typo dc um genero, a selccção deve limitar-se is especies incluidas no nome genérico
por occasião dc sua publicação original, tivessem ou não ellas sido designadas bino-
minalmente. Si, todavia, um nome genérico é proposto distinctamente como substituto
para outro nome generico anterior, as especies deste devem ser tomadas cm consideração.
36. Emenda de Trioxocera, Dioxocera e Pentoxocera. - A Commissão é de pa-
recer que a publicação original de Trioxocera, Dioxocera e Pentoxocera evidencia a pre-
sença dc ura erro dc transcripçáo (ou transliteraçáo) e que estes nomes devem ser
emendados para Triozocera, Dioxocera c Pentoxocera.
37. Devem acceitar-se os generos da "Ornithologia " de Brisson, 1760? - Os no-
mes genericos de aves usados por Brisson ( 1760) são aproveitáveis sob o Codigo.
38. Situação dos nomes latinos em Tunstall, 1771. - Os nomes latinos usados na
Ornithologia Britannica de Tunstall, 1761, são aproveitáveis desde que sejam identifi-
23
cm
7 SCÍELO) 2.1 12 13 14 15 16 17
256
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
caveis por meio das referencias que fez de bibliographia, paginas e illustrações, ou
pelas citações de nomes ingleses de Pennant, 1768, ou de nomes franceses de Brisson,
1760.
39. Situação dos nomes latinos em Cuvier, 1800. - Os nomes latinos dos quadros
systematicos usados por Cuvier, 1800 (Leçons d’anatomie comparée), são aproveitáveis
desde que sejam identificáveis por meio das citações bibliographicas constantes da pa-
gina xix da Introducção.
40. Salmo eriox vs. S. trutta e S. fario; Eniochus acuminatus vs. H. macro-
lepidotus. - Diante dos argumentos apresentados, não é necessário substituir fario ou
trutta por eriox; a selecção de macrolepidotus por Cuvier (18171 tem precedencia sobre
a selecção de acuminatus por Jordan & Seale, 1908.
41. Athlennes vs. Ablennes. - Desde que a publicação original revela um evi-
dente lapsus calami, o nome Athlennes deve ser correcto para Ablennes.
42. Typo de Carapus Rafinesque, 1810. - Carapus Rafinesque, 1810, é monotypico,
typo Gymnctus acus Linneu.
43. Situação de generos cujas especies typo estão citadas sem descripção addi •
cional. - Os caracteres attribuidos a Teleogmus, Isoplata, Alloderma, e Aphobetoideus
abrangem os generos c as especies typo, e os nomes genericos específicos respectivos
estão publicados no sentido do Codigo.
44. Leptocephalus vs. Conger. - Lcptocephalus Gronovius, 1763, e Gmelin, 1789,
typo morrisii, tem precedencia a qualquer nome generico posterior, pelo qual se tenha
designado a phase adulta deste animal. [Cf. Opinião 89].
45. Typo de Syngnathus Linneu, 1758. - Até onde se pode julgar pelos argu-
mentos apresentados, o typo de Syngnathus Linneu, 1758, não foi jamais claramente
designado c não ha objecção a que se designe como tal a especie acus Linneu, em obser-
vância ao costume e conveniência geraes.
46. Situação de generos publicados originalmente sem designação clara de alguma
especie. - Em generos publicados sem menção nominal de qualquer especie, nenhuma
especie é aproveitável como genotypo, a menos que possa ser reconhecida pela publi-
cação gencrica original; si apenas uma especie está em jogo, a descripção genérica é
equivalente á publicação de “X-us albus, n.g., n.sp.,”; si varias especies são referidas,
mas não mencionadas pelo nome, uma delias deve ser tomada como typo; si (como em
Aclastus Foerster, 1868) na publicação original do gencro não ha evidencia de quantas
especies estão em jogo, esse genero contém todas as especies do mundo que possam
caber na descripção generica conforme foi publicado originalmentc, e a primeira es-
pecie publicada em ligação com o genero (como Aclastus rufipes Ashmead, 1902) ipso
facto torna-se typo.
47. Carcharias, Carcharhinus e Carch arodon. - Carcharias Rafinesque, 1810,
é monotypico, typo Carcharias taurus Rafinesque.
48. Situação de certos nomes genericos de aves publicados por Brehm in /sis, 1828
e 1830. - Desde que os nomes de Brehm, 1828 e 1830 dependem exclusivamente de
designações vernáculas, elles são nomina nuda e não merecem citação.
49. Siphonophora asclepi ADiFOLii vs. Nectarophora asclepiaiws. - Diante dos
dados apresentados, asclepiadifolii Thomas, 1879, é preferível a asclepiadis Cowen, 1895.
50. Aphis aqlilegiae flava vs. Aphis trirhoda. - Desde que o nome Aphis aqui-
legiae flava KittelI, 1827, é multinominal e inaproveitavel sob o Codigo, Aphis trirhoda
VTalker, 1849, é o nome correcto para esta especie.
24
i
A. do Amaral — Regras intcrnacionacs de nomenclatura zoologica
257
51. Devem acceitar-se os nomes do Museam Calonnianum, 1797? - O Museum
Calonnianum, 1797, nâo é acceitavel como base para qualquer trabalho nomenclatorial.
52. Semotilus corporalis vs. Semotilus blllaris. - Diante dos argumentos apre-
sentados, corporalis tem prioridade sobre bullaris. Nào é possível á Commissão exarar
uma opinião sobre a pergunta: Que constitue uma descripçáo adequada? A citação
da localidade typo de uma especie nào é sufficiente para estabelecer um nome á luz
do Ari. 25a do Codigo. Si são apresentados caracteres específicos em additamento á
localidade typo, esta se torna uma parte da descripçáo e deve ser considerada como
um elemento importante na determinação da identidade da cspecie.
53. Halica.mpus koilomatodon vs. Halicampus crayi. - O nome especifico grayi
Kaup, 1856 tem prioridade sobre koilomatodon Bleeker, “cerca de 1865”.
54. Phoxinus Rafinesquc vs. Phoxinus Agassiz. - Os generos Dobula, Phoxinus
e Alburnus foram creação de Rafinesque, 1820. Jordan & Evermann, 1896, allegam que
Phoxinus Agassiz, 1835, é idêntico a Phoxinus Rafinesque 1820, e, portanto, proclamam
ter reconhecido Phoxinus 1820. Esta allegaçáo deve ser considerada correcta até que
se prove o contrario e Cyprinus phoxinus fica como typo de Phoxinus 1820 c de Pho-
xinus 1835. Si se allega que Alburnus 1820 é idêntico a Alburnus 1840, Cyprinus al-
burnus torna-se typo de Alburnus 1820.
55. Typo do genero Ondatra Link. - Diante dos argumentos apresentados, zibe-
thicus i o typo de Ondatra Link.
56. Typo de Filaria Mueller, 1787. - Mueller (1787, pp. 64 e 70) cita, visivel-
mente por erro, a mesma gravura (estampa 9, fig. 1) de Redi para Ascaris renalis
Gmel. e Filaria martis de Gmel.. Gmelin (1790a, pp.3032 c 3040) conservou este lapso.
Rudolphi (1809a, p.69l reconheceu e corrigiu o erro e. desde então. Filaria martis tem
sido consistentemente distinguida de Ascaris renalis, nào havendo actualmentc motivo
para não se reconhecer a correcçâo do lapso de Mueller por parte de Rudolphi. Assim
sendo, F. martis fica como typo de Filaria e Filaria nào é mudada para Dioctophyme,
Dioctophyma ou Eustrongylus.
57. Somes oriundos do “ Iter Palaestinum" de Hasselquist, 1757, e da traducçào
de 1762, são insustentáveis. - O “Iter Palaestinum” foi publicado antes de 1758 e edi-
tado, em relação á sua nomenclatura, por Linneu. A traducçào alemã por Gadebusch,
publicada em 1762, nào confere validez aos nomes publicados na edição original de 1757.
58. Esox, Luctus e Belone. - “Considerando-se com severidade”, nem Rafinesque
(1810, Caratteri, p.59), nem Cuvier (1817, p.183» designou o typo de Esox Linneu,
1758; Jordan 5: Gilbcrt, 1882, p.352, escolheram Esox lucius Linneu como typo de Esox.
59. Data de Amphimerus. - O nome do trematoide Amphimerus Barker não data
do apparecimento das separatas (“tirés à part”l, mas do tempo da publicação dos Stu-
dies from the Zoological Laboratory, The University of Nebraska, No. 103.
60. Salmo iridia vs. Salmo irideus. - Salmo iridia é evidentemente um lapsus
calami ou um erro typographico c pode ser emendado para Salmo irideus.
61. Emenda de Chaemepelia para Chamaepelia. - A palavra Chaemepelia Swain-
son, 1827, deve ser emendada para Chamaepelia.
62. Espeeies typo de outros generos não estão excluídas de consideração na se-
lecfdo do typo de um genero. - Desde que o Artigo 30 não exclue de consideração as
espeeies typo de outros generos na selecçáo do typo de um genero dado, as seguintes
espeeies typo, designados por Cray, são, em face dos dados apresentados, os typos va-
lidos dos seguintes generos: Fulmarus, typo Procellaria glacialis; Thalasseus, typo Sterna
258
.Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
cantiaca; Herodias, typo Ardea garzetta; Catharista, typo V altar aura; Morphnus, typo
Falco urubitinga; Helinaia, typo MotacUla vermivora.
63. Leuciscus hakuensis vs. Leuciscus hakonensis. - Leuciscus hakuensis deve
ser correcto para Lcuciscus hakoncnsis, em virtude de ter occorrido com o primeiro, seja
um lapsus calami, seja um erro typographico.
64. Letras seriadas taes como a, b, c, etc. não são acceitaveis como nomes espe-
cíficos. - Letras seriadas como a, b, c, etc., não se devem considerar como verdadeiros
nomes específicos.
65. Caso de um genero baseado em especie erroneamente determinada. - Si um
auctor designa uma certa espccie como gcnotypo, deve-se presumir que sua determinação
da espccie esteja correcta; si se apresenta um caso em que pareça que um auctor baseou
o seu genero sobre determinados exemplares, ao invés de o fazer sobre uma especie,
seria bom submettcr-sc o caso, com todos os pormenores, á Commissão. Presentemente
é difficil estabelecer-se uma regra geral para taes casos.
66. Nomes de N ematoideos e Gordiaceos collocados na Lista Official de Nomes
Genericos. - Os seguintes nomes de Nematoda e Gordiacea são por este meio collocados
na Lista Official de Nomes Genericos: Ancylostoma, Ascaris, Dracunculus, Gnatho-
storna. Necator , Strongyloides, Trichostrongylus, Goidius, e Paragordius.
67. Cento e dois nomes de Aves collocados na Lista Official de Nomes Genericos.
- Os cento e dois nomes seguintes de aves são por este meio collocados na Lista Offi-
cial de Nomes Genericos: Acryllium, .JCchmophorus, JEgithina, AZgotheles, JEpyornis,
Aix, Alauda, Anas, Apaloderma , Aptcnodytes, Apteryx, Aramas, Ardea, Astrapia, Astu -
rina, Aulacorhynchus, Balaeniceps, Batrachostomus, Brotogeris, Bubo, Barhinus, Cai-
rina, Campephaga, Capito , Cathartes, Ccntrocercus, Cephalopterus, Cereopsis, Chauna,
Chrysolophus, Cicinnurus, Circuit as, Clamator, Coccyzus, Coereba, Colaptes, Colluri-
cincla, Coturnix, Crotophaga, Diomedea, Dromas, Ectopistes, Egretta, Elanus, Eurylai-
mus, Eurynorhynchus, Eurypyga, Falmaras, Gallinago, Gampsonyx, Goura, Gypaitus,
Haematopus, Haliaeetus, Haliastur, Heliornis, Ibidorhyncha, Jynx, Lanius , Leistes, .Mj-
nucodia, Musophaga, Neophron, Notornis, Numida, Nictea, CEdicncmus, Opisthocomus,
Oriolus, Pachycephala, Pandion, Parotia, Parus, Pezoporus, Phaêthon, Pharomachras,
Phoenicopterus, Platalea, Platycercus, Polyplectron, Porzana, Psittacus, Psophia, Ptero-
glossus, Ptiloris, Rallus, Recurvirostra, Sericulus, Sitta, Sphenorynchus, Spindalis, Stri-
gops, Struthio, Sturnclla, Sturnus, Sarnia, Syrrhaptes, Tachyphonas, Thamnophilus,
Trichoglossus, Uratelornis, Vireo.
68. Especies typo de Pleuronectes Linnca, 1758. - Fleming, 1828, 196, não de-
signa o typo de Pleuronectes.
69. Especie typo de Sparus Linneu, 1758. - Fleming, 1828, 211, não designa o
typo de Sparus.
70. Caso de Libellula americana L., 1758, vs. Libellula americanus Drury,
1773. - Em virtude de scr Libellula americanas Drury, 1773 um lapsus calami evidente
em logar de Gryllus americanus, este lapso deve ser correcto e o nome especifico no
caso, americanus 1773, não está invalidado por Libellula americana 1758.
71. Interpretação da expressão “Especies ty picas” na Synopsis de H 'estwood,
1840. - As especies citrdas por Westwood, 1840 ("An Introduction to the Modern Clas-
sification of Insects”, Vol. 2, Synopsis, paginação separada, pags. 1 a 158», como
"especies typicas”, devem ser acceitas como designações claras de genotypos para os
generos respectivos. Quanto ao facto de uma determinada especie considerada repre-
sentar ou não o gcnotypo valido, isto depende de dois factores: primeiro, de si a es-
26
A. do Amaral — Regras internacionaes de nomenclatura zoologica
259
pecie era aproveitável como genotypo; segundo, de si a sua designação em 1840 era
precedida por qualquer outra denominação.
72. Formulas zoologicas de Herrera. - As designações de animaes de accordo com
o systema proposto por Herrera, no caso submettido a consideração, são formulas e
não nomes. Portanto, ellas não têm valor em nomenclatura c, assim, não estão sujeitas
a consideração sob a Lei de Prioridade. Nenhum auctor é obrigado a citar essas de-
signações em qualquer quadro de synonymia, indice ou outras listas de nomes.
73. Cinco nomes genéricos de Crinoideos, oitenta e seis nomes genericos de
Crustáceos e oito nomes genericos de Acarinos, collocados na Lista Official de Somes
Genericos. - Os seguintes nomes são por este meio collocados na Lista Official de Nomes
Genericos: CRINOIDEA: Antedon, Bathycrinus, Holopus, Metacrinus, Rhizocrinus.
CRUSTACEA: Acanthocyclus, Actaea, Actaeomorpha, Actumnus, Arcania, Archias, Are -
naeus, Atzrgatis, Atergatopsis, Banareia, Bathynectes, Bellia, Benthochascon, Caphyra,
Carpilius, Carpilodes, Carpoporus, Carupa, Chlorodopsis, Coenophthalmus, Corysto.des,
Cryptocnemus, Cyclodius, Cymo, Dacryopilumnus, Daira, Deckenia, Domecia, Ebalia,
Ep.lobocera, Epimelus, Erimacrus, Erimetopus, Euphylax, Farus, Gecarcinucus, Hepa-
tella, Heterolithadia, Heteronucia, Heterozius , Hydrothelphusa, lliacantha, Iphiculus,
Iphis, Ixa, Leucosilia, Lissocarcinus, Lithadla, Lupocyclus, Merocryptus, Myrodes, Sucia,
Sursia, Sursilia, Onychomorpha, Oreophorus, Osachila, Parasyclois, Parathelphusa, Pa -
rathranites, Parilia, Pariphiculus, Persephona, Phlyxia, Pirimela, Platymera, Podoph-
thalmus, Polybius, Portumnus, Potamocarcinus, Potamonautes, Pseudophilyra, Pseudo -
thelphusa, Randalia, Scylla, Speloeophorus, Sphaerocarcinus, Telmessus, Thalamita,
Thalamitoides, Thalamonyx, Tios, Trachycarcinus, Trichodactylus, Trichopeltarion, Vai-
divia. ACARINA: Amblyomma, Argas, Dermacentor, Haemaphysalis, Hyalomma, Ixodes,
Rhipicentor, Rhipicephalus.
74. Lista de Somina Conscrvanda de Apstein, 1915. - A Commissio não tem po-
deres para adoptar cm bloco a lista proposta de Nomina Conscrvanda de Apstein, mas
está prompta a considerar separadamente nomes que lhe forem apresentados com provas
razoavelmente completas.
75. Vinte c sete nomes genericos de Protozoários, Vermes, Peixes, Repteis e
Mammiferos incluídos na Lista Official de Somes Zoologicos. - Os vinte e sete nomes
genericos seguintes são por este meio collocados na Lista Official de Nomes Zoologicos,
com as espccies typo dadas no corpo desta Opinião: PROTOZOA: Volvox. VERMES:
Hirudo, Lumbricus. PISCES: Ammodytes, Anarhichas, Athcrina, Fistularia, Mugil, My-
xine, Trachinus, Uranoscopus, Xiphias. REPTIL! A: Draco. MAMMALIA: Balaena, Bos,
Castor, Delphinus, Erinaceus, Hippopotamus, Hystrix, Monodon, Moschus, Ovis, Phoca,
Sus, Taipa, Ursus.
76. Situação de Pyrosoma vs. Monophora; Ctclosalpa vs. Holothuria; Salpa
vs. Dacysa; Doliolum, Appendicularia e Fritillaria. - O Secretario está auctorizado
e aconselhado a insistir sobre o seguinte:- casos apresentados em busca de opinião
devem ser acompanhados de dados razoavelmente completos que permittam uma con-
sideração justa dos pontos em jogo. Pyrosoma 1804 tem prioridade sobre Monophora
1804. Cyclosalpa 1827 não é invalidado por Holothuria 1758 (typo physalis ), que,
todavia, invalida Physalia 1801. O uso actual de Holothuria (typo fabulosa) cm re-
lação a echinodermas não está de accordo com as Regras, mas é aconselhável que os
auctores usem Physalia 1801 para o siphonophoro português e Holothuria 1791 como
genero do “pepino marinho” t“sea cucumber"), até que se resolvam possivelmente
suspender as Regras nestes dois casos. Como a apresentação dos casos de Salpa, Ap-
pendieularia. Doliolum e Fritillaria é incompleta e contem erros, estes casos ficam
260
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
lançados na lista indefinidamente, mas sem juizo formado; as Regras devem ser im-
postas nestes casos, a menos que fique demonstrado que de sua applicação resulta
maior confusão do que uniformidade' [Cf. Opiniões 77 e 80],
77. Trinta e cinco nomes genericos de Protozoários, Celenterados, Trematodeos,
Cestoidcos, Cirripedios, Tunicados e Peixes, coüocados na Lista Official de Nomes Ge-
néricos. - Os seguintes nomes são por este meio collocados na Lista Official de Nomes
Genericos: PROTOZOA: Arcella. COELENTERATA:: Hydra. TREMATODA: Hemiurus,
Schistosoma. CESTODA: Anoplocephala, Hymenolepis, Moniezia, Stilesia, Thysanosoma.
CIRRIPEDIA: Lcpas. TUNICATA: Pyrosoma. PISCES: Acipenser, Callionymus, Chi-
maera. Clupea, Coryphaena, Cottus, Cyclopterus, Cyprinas, Diodon, Gadus, Gasterosteus,
Gobins, Lophius, Mormyrus, Mullus, Muraena, Osmerns, Perca, Salmo, Scomber, Scor-
paena, Silurus, Syngnathas, Zeus.
78. Caso de Dermacentor andersoni vs. Dermacentor venustus. - Diante dos
argumentos apresentados, a Commissáo é de opinião que Dermacentor venustus procede
de Marx in Neumann, 1897, exemplar typo - No. 122 da Collecçáo Marx (Museu Na-
cional dos Estados Unidos) colhido de Ovis aries, Texas, e que Dermacentor andersoni
provém de Stiles, 1908, holotypo No. 9467 U. S. P. H. & M. H.S. (Serviço da Saude
Publica e do Hospital de Marinha dos Estados Unidos), oriundo de Woodman, Montana.
79. Caso do “Système des Animaux sans Vertibres” de Lamarck, 1801a. - “Con-
siderando-se com severidade", o “Système des Animaux sans Vertèbrcs” de Lamarck,
1801a, não deve ser acceito como designação de especies typ°-
80. Suspensão das Regras no caso de Holothuria e Physalia. - Ficam por este
meio collocados na Lista Official de Nomes Genericos o genero de Echinodermas Ho-
lothuria Linn., 1767, restr. Bruguicre, 1791, typo H. tremula 1767= H. tubulosa 1790,
e o genero de Siphonophoros Physalia Lamarck 1801, typo P. pelagica 1801= Holothuria
physalis 1758.
81. Genotypo de CiMEX, Acanthia, Clinocoris e Klinophilos. - Diante dos ar-
gumentos apresentados á Commissáo, o percevejo commum da Europa, Cimex lectu-
larius, é o genotypo de Cimex 1758, Acanthia 1775, Clinocoris 1829 e Klinophilos 1899
( Clinophilus 1903) e a sua designação technica apropriada sob as Regras é Cimex lec-
tnlarius. Cimex Linn., 1758, typo C. lectularius, é por este modo collocado na Lista
Official de Nomes Genericos.
82. Suspensão das Regras para Musca Linneu, 1758a, typo M. domestica. - Por
força dos poderes conferidos á Commissáo pelo 9.° Congresso Internacional de Zoologia
para suspender as Regras em qualquer caso determinado, quando, a juizo seu, da ap-
plicaçáo restricta das Regras resulte claramcnte maior confusão do que uniformidade,
o Artigo 30 fica aqui suspenso em relação a Musca Linneu. 1758; e Musca domestica
Linneu, 1758, passa a ser designado como typo de Musca, sem opinião preformada em
relação a outros casos.
83. Acanthiza pyrrhopygia 1'igors c Horsfield, 1827, vs. Acanthiza pyrrho-
pycia Gould, 1848. - A Regra de Homonymos tem por principio que qualquer nome
idêntico, regularmente publicado, de data posterior c “nati-morto e não pode ser revi-
vido”. Acanthiza pyrrhopygia Vigors e Horsfield, 1827, invalida Acanthiza pyrrhopygia
Gould, 1848.
84. Nomes de Trematodeos, Cestoidcos e Acantocephalos collocados na Lista
Official dc Nomes Genericos. - Os seguintes nomes são por este meio collocados na Lista
Official de Nomes Genericos: TREMATODA : Dicrocoelium, Fasciola, Gastrodiscus,
Hetcrophyes. CESTODA: Dawainea, Dipylidium, Echinococcus, Taenia. ACANTHOCE-
PHALA: Gigantorhynchus.
28
A. do Amaral — Regras inlernacionaes de nomenclatura zoologica
261
85. Noventa e oito nomes genericos de Crustáceos collocados na Lista Official de
Nomes Genericos. - Os seguintes nomes são por este meio collocados na Lista Official
de Nomes Genericos: CRUSTACEA: Acmaeopleura, Asthenognathus, Bathyplax, Camp-
tandrium, Camptoplax, Catoptrus, Ceratoplax, Chasmagnathus, Chasmocarcinus, Clis-
tocoeloma, Cyrtograpsus , Dissodactylus, Durckheimia, Epixanthus, Euchirograpsus, Eu-
crate, Eucratodes, Eucratopsis, Euryetisus, Euryplax, Eurytium, Fabia, Galene, Geryon,
Glyptograpsus, Glyptoplax, Gomeza, Goneplax, Halimede, Helice, Hephthopelta, Hexapus,
Holometopus, Holothuriophilus, Homalaspis, Lachnopodus, Leptodius, Liagore, Libystes,
Liomera, Lipaesthesius, Litocheira, Lophopanopeus, Lophopilumnus, Lybia, Melybia, .Me-
tasesarma, Metopocarcinus, Micropanope, Notonyx, Oediplax, Ommatocarcinus, Opistho-
pus, Orphnoxanthus, Panoplax, Paragalene, Parapanope, Parapleirophrycoidcs, Paraxan -
thus, Percnon, Perigrapsus, Pilumnoides, Pilumnus, Pinnaxodes, Pinnixa, Pinnotherelia,
Pinnothcres, Planes, Platychirograpsus, Platy pilumnus, Platyxanthus, Polydectus, Prio-
noplax, Pseudocarcinus, Pseudopinnixa, Pseudorhombila, Psopheticus, Ptychognathus,
Pyxidognathus, Rhithropanopeus, Rhizopa, Ruppellioides, Sarmatium, Scalopidia, Sclero-
plax, Speocarcinus, Sphaerozius, Tetraxanthas, Tetrias, Thaumastoplax, Utica, V ar una,
Xanthasia, Xanthodius, Xenophthalmodes, Xenophthalmus, Zosimus, Zosymodes.
86. Conulinus von Martens, 1895. - O nome gencrico Conulinus von Martcns,
1895, toma como typo Buliminus ( Conulinus ) conulus Rv., e não é necessariamente in-
validado pelo nome Conulina Bronn.
87. Situação de paginas de prova em nomenclatura. - Paginas de prova de im-
pressor não constituem publicação e, portanto, não têm valor debaixo das Regras Inter-
nacionaes de Nomenclatura Zoologica.
88. Otarion diffractum vs. Cyphaspis burmeisteri. - O nome de uma espccie
não se desqualifica, simplesmente porque o auctor incluiu em sua concepção partes de
corpo de mais de uma espccie. O nome de um genero baseado cm tal especie é, por-
tanto, aproveitável. Otarion diffractum Zenker é valido. Atarion deve ser preferido a
Cyphaspis; e C. burmeisteri Barr. é synonymo de O. diffractum.
89. Suspensão das Regras no caso de Gronow 1763, Commerson 1803, Gesellschaft
Schauplatz 1775 a 1781, Catesby 1771, Browne 1789, Valmont de Bomare 17*58 a 1775. -
Em virtude de suspensão das regras cm qualquer caso em que tal suspensão possa
ser considerada necessária de accordo com a interpretação adoptada, agora e mais tarde,
pela Commissão, declaram-se os seguintes trabalhos ou publicações eliminados de con-
sideração no que concerne aos seus nomes systematicos e segundo as respectivas datas:
Gronow 1763, Commerson 1803, Gesellschaft Schauplatz 1775 a 1781, Catesby 1771,
Browne 1789, Valmont de Bomare 1768 a 1775.
90. Relatório sobte dezeseis nomes genericos de Mammiferos para os quaes se
solicitou suspensão das Regras. - Nenhum dos dezeseis nomes recebeu voto unanime
para suspensão: por consequência, a Commissão não tem poderes para suspender as
Regras em relação a elles. Seis nomes (a saber Cercopithecus, Gazella, Hippotragus,
Lagidium, Nycteris e Manatus) receberam a maioria de dois terços ou mais para sus-
pensão e, pois, devem ser levados á decisão final de um comitê especial de tres membros,
a ser nomeado pelo Presidente da secção de nomenclatura do proximo Congresso Inter-
nacional. Dez nomes (a saber: Echidna, Anthropopithecus, Coelogenys, Chiromys, Da -
sypus, Dicotyles, Galeopithecus, Hapale, Rhytina c Simia l deixaram de receber na vo-
tação a maioria de dois terços para a suspensão e, pois, a Lei de Prioridade não se
applica em taes casos. <*>
1*) NOTA DO TRADUCTOR: Veja-se a respeito a recente monogra-
phia publicada pelo Secretario da Commissão Internacional de Nomencla-
tura Zoologica, Dr. Ch. VTardell Stiles com a collaboraçáo de M. B. Orleman
in Hygienic Laboratory Bulletin No. 145 (U. S. Public Health Service).
262
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
91. Trinta c cinco nomes genéricos de Mammiferos collocados na Lista Official
de Nomes Genéricos. - Os seguintes nomes sio por este modo collocados na Lista Of-
ficial de Nomes Genericos: Alces, Arricola, Ateies, Bison, Bradypus, Canis, Capra, Ce-
bus, Cervus, Choloepus, Condylura, Cricetus, Crocidura, Cystophora, Dasyprocta, Didel-
phis, Ercthizon, Felis, Guio, Halichoerus, Lepus, Lynx, Mus, Myrmecophaga, Nasua,
Ovibos, Phyllostomus, Procyon, Putorius, Rangifer, Rhinolophus, Rupicapra, Sciurus,
Sorcx, Vespertilio.
92. Dczeseis nomes genericos de Peixes, Amphibios e Repteis collocados na Lista
Official de Nomes Genericos. - Os seguintes nomes são por este meio collocados na
Lista Official de Nomes Genericos: PISCES: Blennius, Echeneis, Esox, Ophidion. AM-
PHIBIA: Cryptobranchus, Desmognathus, Siren. REPTILIA: Alligator, Calamaria, Che-
lydra, Crotalas, Dermochelys, Eremias, Lacerta, Mabuya, Phrynosoma.
93. Doze nomes genericos de Peixes collocados na Lista Official por força de
Suspensão das Regras. - Os seguintes 12 nomes genericos de peixes são por este meio
collocados na Lista Official de Nomes Genericos, de accordo com o Poder Plenário para
Suspensão das Regras: Conger Cuv., 1817 {Muraena conger L.); Coregonus Linn., 1758
( Salmo lavaretus L.); Eleotris Bloch & Schneider, 1801 (gyrinus Cuv. & Vai.); Epir.e-
phclus Bloch, 1792 ( marginalis Bloch); Gymnothorax Bloch, 1795 (reticularis Bloch i;
Malapterurus Lacépcde, 1803 ( Silurus electricus L.) ; Mustelus Linck, 1790 ( Squalus
mustelus L. 1= Mustelus laei’is] ) ; Polynemus Linn., 1758 ( paradisacus L.); Sciacna
Linn., 1758 ( umbra L-= Cheilodipterus aquila Lacép. segundo restr. de Cuvier, 1815»;
Serranus Cuv. ( Perca cabrilla L. > ; Stolephorus Lacép., 1803 (commersonianus Lacép.);
Teuthis Linn., 1766 ( javus L.).
Os nomes agora correntes não devem ser abandonados a menos que haja razões
indiscutíveis para sua mudança.
94. 1'inte e dois nomes de Molluscos e Tunicados collocados na Lista Official de
Nomes Genericos. - Os seguintes nomes são por este modo collocados na Lista Official
de Nomes Genericos: MOLLITSCA: Anodonta, Argonauta, Buccinum, Calyptraea, Co-
lumbella, Dentaliam, Helix, Limax, Mactra, Mya, Mytilus, Ostrea, Physa, Sepia, Sphae-
rium, Succinea, Tcredo. TUNICATA: Botryllus, Clavelina, Diazona, Distaptia, Molgula.
95. Dois nomes genericos de Protozoários collocados na Lista Official de Nomes
Genericos. - Os seguintes nomes são por este meio collocados na Lista Official de Nomes
Genericos - PROTOZOA: Endamoeba, Trypanosoma.
96. Muscum Boltenianum. - A Commissáo acceita o Museum Boltenianum 1798
como sendo aproveitável do ponto de vista nomcnclatorial á luz das Regras Internacio-
naes.
97. O Tentamen de Hübner, 1806 creou gêneros monotypicos? - O Tentamen de
Hübner, 1806 foi sem duvida preparado essencialmente como um manuscripto multíplice,
ou como uma pagina de prova (Vide Opinião No. 87), para exame e critica por um
grupo restricto de peritos, isto é. em Lepidoptera, e não para distribuição geral como
um registo em zoologia. Por consequência, c discutível a conclusão de que foi publi-
cada em 1806. Mesmo que se admitta como premissa sua publicação em 1806, é discu-
tível que os binomios nelle contidos se devam interpretar como nomes genericos ligados
a específicos. Mesmo que se admitta que taes binomios representam combinações de
nomes genericos com específicos, elles são essencialmente nomina nuda (tendo-se em
vista a data que trazem), desde que os auctores, que não possuem informações esoté-
ricas a seu respeito, não podem interpretal-os definitivamente sem consultarem a lite-
ratura mais recente. Si publicados mais tarde com dados mais positivos, esses nomes
passam a ser aproveitáveis na data de sua republicação.
30
A. do Amaral — Regras internacionaes de nomenclatura zoologica 263
98. - Brauer e Bergenstamm. - Interpretando-se com rigor, Brauer e Bergenstamm
(1889-1894) não fixaram os typos para os nomes genericos mais antigos, excepto nos
casos em que affirmam claramente que a especie mencionada é o typo do genero.
99. Endamoeba Leidy, 1879 vs. Entamoeba Casagrandi e Barbagallo, 1895. - Enta-
moeba 1895, com blattae como typo por designação subsequente (1912), é absolutamente
synonyma de Endamoeba Leidy, 1879a, p.300, tvpo blattae, e invalida Entamoeba 1895,
typo por designação subsequente (1913): hominis=coli.
100. Suspensão das Regras, Spirifer e Syringothyris. - Em virtude de Suspensão
das Regras, Anomia striata Martin fica estabelecido como genotypo de Spirifer Sowerby,
1816, e Syringothyris typa VPinchell ( = Spirifer carteri Hall) fica estabelecido como
genotypo de Syringothyris U'inchell, 1863.
101. Situação nomenclatorial de Danilewsky - “Contribution â Vétude de la micro-
biosc malarique ’’ in Annales de VInstitut Pasteur, 1891, Vol. 5, paginas 758-782. - As
designações technicas latinas, usadas por Danilewsky, 1891, Annales de 1’Institut Pas-
teur, Vol. 5 (12), pp. 758-782, não estão sujeitas a citação sob a Lei de Prioridade á
luz da alludida publicação.
102. Proteocephala Blainville, 1828, vs. Proteocephalus Weinland, 1S58. - Um
nome generico (exemplo Proteocephalus, 1858) não é invalidado pela publicação an-
terior de um nome idêntico ou semelhante de collocaçào systematica mais elevada
(exemplo Proteocephala, 1828). Si Tacnia ambígua (tp. de Proteocephalus, 1858) c
congenerico de ocetlata (tp. de Ichthyotaenia, 1894), Ichthyotaenia é um synonymo sub-
jectivo de Proteocephalus.
103. O nome generico Grus, typo Ardea crus. - O typo de Grus Palias, 1767, c
Ardeu grus Linn., 1758, por tautonymia absoluta. Grus é por este modo collocado na
Lista Official de Nomes Genericos.
104. Cincoenta e sete nomes genericos collocados na Lista Official. - Os seguintes
57 nomes genericos, com cspecies typo citadas, são por este modo collocados na Lista
Official de Nomes Genericos: PROTOZOA: Bursaria, Eimeria, Laverania, Plasmodium,
Sarcocystis. CESTODA: Ligula. NEMATODA: Filaria, Heterodera, Rhabditis, Stron-
gylus, Syngamus. OLIGOCHAETA: Enchytraeus. HIRUD1NEA: llaemadipsa, Umnatis.
CRUSTACEA: Armadillidium, Astacus, Câncer, Diaptomus, Gammarus, Homarus, Re-
phrops, Oniscus, Pandalus, Pcnaeus, Porcellio. X1PHOSURA: Limulus. SC0RP10N1-
DEA: Scorpio. ARANEAE ou ARANEIDA: Avicularia, Dcndryphantes, Dysdera, Latro-
dectus, Segestr.a. ACARINA: Cheyletus, Chorioptes, Dcmodex, Dermanyssus, Glyci-
phagus, Polydesmus, Psoroptes, Rhizoglyphus, Trombidium. THYSANURA: Lepisma.
COLLEMBOLA: Podura. ORTHOPTERA: Blatta, Ectobius, Gryllus, Periplaneta. ANO-
PLURA: Pediculus, Phthirus. HEM1PTERA: Anthocoris, Rabis, Rotonecta, Reduvius,
Triatoma. DERMAPTERA: Forficula. SUCTOR1A s. SIPHONAPTERA s. APHANI-
PTERA: Pulex. MAMMALIA: Cercopithecus.
105. Romes de Crustáceos por Dybowski (1926), suppressos. - Fica resolvido que
novos nomes publicados no trabalho de Dybowski, “Synoptisches Verzeichnis mit kurzer
Besprechung der Gattungcn und Arten dieser Abtcilung der Baikalflohkrebsc" (Bul.
internat. Acad. polonaise d. Sei. et d. Lettres, 1926, No. l-2b, jan.-fev., pp.l-77), são
por este meio suppressos, de accordo com Suspensão das Regras, por isso que a appli-
cação das Regras para sua acceitação “resultará evidentemente em maior confusão do
que uniformidade”.
106. O typo de Oestrus Linn., 1758, é O. ovts. - O typo de Oestrus Linn., 1758,
é O. ovis (Art. 30g). A designação de Oestrus equi Fabr. por Latreille como typo de
31
264
Memórias do Instituto Butantan — Tomo V
Oestrus não é valido (Art. 30g>. Os 5 seguintes nomes de generos de Dipteros são por
este meio collocados na Lista Official de Nomes Genericos: Cephenemyia (typo trompe ),
Gasterophilas (typo equi de Clark, synonymo de intestinalis de Geer), Hypoderma (typo
bovis ) , Oedemagena (typo tarandi I, e Oestrus ( typo ovis ).
107. Echinocvamus fusillus vs. Echinocyamus minutus. - O caso de Echino-
cyamus pusillus vs. Echinocyamus minutus é objecto de duas interpretações diame-
tralmente oppostas. Baseando-se no principio de que um nome em uso corrente não
deve ser supplantado por um anterior mas raramente adoptado, ou por um nome não
adoptado, a menos que o argumento seja ambiguo e que as premissas não estejam su-
jeitas a differenças de opinião, a Commissão, tendo em vista a situação algo incerta
de minutus, é de Opinião que pusillus 1776 não deve ser suppresso por minutus 1774.
108. Suspensão das Regras para Gazella 1816. - De accordo com a Suspensão das
Regras, Gazella Blainville, 1816, especie typo Capra dorcas Linn., 1758a, é adoptada de
preferencia a Oryx, e por este modo é collocada na Lista Official de Nomes Genericos.
109. Suspensão das Regras para Hippotragus 1846. - De accordo com a Suspensão
das Regras (si for preciso», Hippotragus Sundevall, 1846, especie typo Antílope leuco-
phaea Palias, 1776, é adoptada de preferencia a Egocerus Desmarest, 1822, e a Ozanna
Reichenbach, 1845 (não Aegoceros Palias, 1811), sendo por este modo collocada na Lista
Official de Nomes Genericos.
110. Suspensão das Regras para Lagidium 1833. - De accordo com a Suspensão
das Regras, Lagidium Meyen, 1833, especie typo Lagidium peruanum Meyen, é adoptado
de preferencia a Viscaccia Oken, 1816, genotypo " Lepus chilensis Molina", e por este
modo é collocada na Lista Official de Nomes Genericos.
111. Suspensão das Regras para Nycteris 1795. - De accordo com a Suspensão
das Regras, Nycteris Cuvier & Geoffroy, 1795, especie typo Vespertilio hispidus Schre-
ber, 1774, i adoptado de preferencia a Petalia Cray, 1838, genotypo Sycteria javanica
Geoffroy, e é por este modo collocada na Lista Official de Nomes Genericos.
112. Não foi acceita a Suspensão para Manatus 1772 vs. Trichechus 1758. -
Não foi acceita a Suspensão das Regras para o caso de Manatus Brünnich, 1772, especie
typo Trichechus manatus Linn., 1758a, localidade typo Antilhas, versus Trichechus Linn.,
1758a, monotypo T. manatus; por consequência, o nome Trichechus é applicado ao
peixe-boi em vez de ã morsa. Trichechus Linn., 1758a, typo T. manatus, é por este
modo collocado na Lista Official de Nomes Genericos.
113. Sarcoptes Latreille, 1802, typo scabiei, collocado na Lista Official. - Sar-
coptes Latreille data de 1802, em vez de 1804 ou 1806, como é frequentemente citado.
Foi originalmentc monotypico, contendo somente Acarus scabiei. A designação, feita em
1810, do typo de Acarus passerinus é invalida de accordo com o Artigo 30c e 30ea. A
acceitação de Acarus scabiei como especie typo de Acarus é invalidada pelo Artigo 30g,
donde Acarus siro (syn. farinae ) é o typo de Acarus. Sarcoptes Latr., 1802, typo sca-
biei é por este modo collocado na Lista Official de Nomes Genericos.
114. De accordo com a Suspensão, Símia, Símia satyrus e Pithecus são sup-
pressos. - De accordo com a Suspensão das Regras os nomes Simia, Simia satyrus, e
Pithecus são por este modo suppressos, baseando-se em que sua retenção, de accordo
com as Regras, produzirá maior confusão do que uniformidade.
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