, MEMÓRIAS
DO
INSTITUTO BUTANTAN
1931
T O M O VI
São Paulo, Brasil
Caixa Posta], 65
ÍNDICE
Pa*.
Noticiário I
J. LEMOS MONTEIRO — Estudos sobre o typho exanthcmatico dc
São Paulo 3
J. LEMOS MONTEIRO, F. i. v FONSECA e ALCIDES PRADO — Pes-
quisas cpidcmiologicas sobre o typho exanthematico de S. Paulo 137
AFRANIO do AMARAL — Estudos sobre ophidios ncotropicos.
— XXVIII. Commentarios a proposito de alguns boideos . . 173
(Studies of neotropical ophidia. XXVIII. Retnarks on some
boid snakes) 183
ALCIDES PRADO — Contribuições ao conhecimento dos culicidcos
de São Paulo.
— I. Notas sobre Mansonia alhifera PRADO e sobre o macho
dc M. albicosta (CHAGAS) . . . . 1 1)1
— II. Notas sobre as cspccics encontradas nos arredores da ca-
pital c sobre a determinação dc Acdes crlnlfer (THEOB.) . 199
— III. Notas sobre Psorophora ( Janthino-oma) discrucians
(WALKER) c dcscripção do exemplar macho 205
— IV. L'ma nova cspecie dc Uranotaenia . 209
J. II. ARANTES e F. da FONSECA — Pesquisas sobre trypanosomas.
— I. Trypanosoma butantar.ense, sp. n., parasita da serpente
Ophl» merremii WAGLER. 1821 213
— II. Trypanosoma manguinhensc. sp. n„ parasita do bugio
Alauatta caraya (IIt’MBOLDT, 1809) 223
— III. Trypanosoma merremii, sp. n„ parasita da serpente
Ophia merremii WAGLER. 182-1 227
t. R. ARANTES — Estudos parasitologicos.
— I. Do comportamento «Io Trypanosoma cruii no Silenns rhesus 231
— II. Ilaemogrrgarina hot-ntsnensis. sp. n., parasita da bolpe-
va. Ophis merremii WAGLER. 1821 237
AFRANIO o. > AMARAL — Pontos de vista Imsicns na lhorapcutica
do ophidismo 211
AFRANIO i>o AMARAL — O soro secco coroo cicntrizantc das ulce-
ras produzidas pelo veneno bothropico 251
J. I.F.MOS MONTEIRO c F. da FONSECA — Modernas tcchnicas
de preparo da antitoxina tctanica 2C7
DIONYSIO vos KLOBUSfTZKY — Estados sobre a unidade dar
fracçôcs albuminosas do soro 275
DIONYSIO vos KLOBCSITZKY — Cro elect ro-nltra filtro modificado 293
PREÇO DO TOMO VI — IOSOOO
cm
2 3 4 5 6 7 SCÍELO i:l 12 13 14 15 16 17 lí
MEMÓRIAS
DO
INSTITUTO BUTANTAN
1931
TOMO VI
São Paulo, Brasil
Caixa Postal, 65
ÍNDICE
Pag.
Noticiário I
J. LEMOS MONTEIRO — Estudos sobre o typho exanthcmatico de
São Paulo 3
J. LEMOS MONTEIRO. F. d* FONSECA e ALCIDES PRADO — Pes-
quisas epidemioiogicas sobre o typho exanthcmatico de S. Paulo 137
AFRANIO do AMARAL — Estudos sobre ophidios neotropicos.
— XXVIII. Commentarios a proposito de alguns boideos . 173
(Studics of neotropical ophidia. XXVIII. Remarks on some
boid snakes) 183
ALCIDES PRADO — Contribuições ao conhecimento dos culicideos
de São Paulo.
— I. Notas sobre Mansonia albifrra PRADO e sobre o macho
de M. alhieosta (CHAGAS) 191
— II. Notas sobre as especics encontradas nos arredores da ca-
pital c sobre a determinação de Aêdes erinifer (THEOB.) . 199
— III. Notas sobre Psorophora (Janthinoaoma) diserueians
(WALKER) e dcscripção do exemplar macho 205
— IV. Uma nos-a especie de Uranotaenta 209
J. H. AHANTKS c F. da FONSECA — Pesquisas sobre trypanosomas.
— I. Trypanosoma butantanenae, sp. n, parasita da serpente
Ophis merremii WAGLER. 1824 213
— II. Trypanosoma manguinhense. sp. n., parasita do bugio
Alauatta caraya (HUMBOLDT, 1809) 223
— III. Trypanosoma merremii. sp. n., parasita da serpente
Ophis merremii WAGLER. 1824 227
J. B. ARANTES — Estudos parasitologicov
— I. Do comportamento do Trypanosoma cruii no Silrnus rheaus 231
— II. tlaemogregarina bntantanenaie, sp. n., parasita da boipe-
va. Ophis merremii WAGLER. 1824 . 237
AFRANIO ■><> AMARAL Pontos de vista hasicns na thcrapcutica
do ophidismo 241
AFRANIO do AMARAL — O soro secco como cicatrizante das ulce-
ras produzidas pelo veneno botbropicn 251
J. LEMOS MONTEIRO c F. da FONSECA — Modcruas technicas
de preparo da antitoxina tetanica 267
DIONYSIO voa KLOBUSITZKV — Estudos sobre a unidade das
fraeções albuminosas do soro 275
DIONYSIO vns KLOBUSITZKY — Um clectro-ultrafiitro modificado 295
PREÇO DO TOMO VI — 10JM»
cm
SciELO
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NOTICIÁRIO
Xo período decorrido entre a publicação do tomo V destas Memórias e o
presente tomo \ I foi decretada officialmente a reorganização geral, technica e
administrativa, do Instituto Butantan, iniciada em março de 1928 por sua
actual superintendência, de accordo com o programma que, naquclla occasião,
tòra por ella apresentado ã apreciação do governo do Estado. Por essa reor-
ganização, o Instituto Butantan foi definitivamente desannexado da Directoria
Geral do Serviço Sanitario do Estado e transformado em um estabelecimento
de medicina experimental, dedicado especialmente a trabalhos de patkologia
humana, com os seguintes objectivos:
1 — realizar toda sorte de trabalhos scientifiros sobre animaes venenosos;
2 — estudar questões referentes á pathologia humana ou a ella applicaveis,
investigando cspecialmente os phenomenos de immunidade e outros que sur-
girem no decurso dos trabalhos, de accordo cora a tradição do estabelecimento;
3 — preparar produetos biologiocs necessários á defesa sanitaria c sub-
stancias empregadas em therapeutica humana;
4 — realizar investigações sobre plantas medicinaes brasileiras, tratando
de insular seus princípios ac ti vos applicaveis cm medicina humana, aproveitan-
do as installações do antigo Horto “Oswaldo Cruz”;
5 — fiscalizar o commercio de produetos biologicos, aferindo aquelles
que tiverem applicação na therapeutica ou na prophylaxia de enfermidades hu-
manas;
6 — realizar excursões scientificas ao interior para o estudo de moléstias,
dentro das finalidades do Instituto;
7 — installar e manter postos anti-ophidicos ou filines onde fór julgado
conveniente, afira de estender ás zonas ruraes o beneficio de sua influencia;
8 — organizar e manter cursos práticos de especialização e de divulgação
scicntifica, dentro de suas finalidades;
9 — divulgar amplamente, por meio de publicações, os resultados de seus
estudos;
10 — estabelecer contacto c permuta com outros centros scientificos, para
manter-se cm dia com os progressos de medicina experimental;
11 — cobrar as taxas fixadas pelo regulamento de fiscalização de produ-
etos biologicos;
12 — acceitar doações, mediante previa auctorizaçõo do Governo.
Para consecução desses objectivos, as actividadcs do Instituto ficaram afíe-
ctas a duas ordens de serviços: a) administrativos, comprehendcndo a Directoria
e as secções de Administração, Animaes immunizados. Culturas c Obras; b) te-
chnicos, sob a superintendência do director e distribuídos pelas secções se-
guintes:
1 — Ophiologia e Zoologia Medica.
2 — Immunologia Experimental c Sorotherapia, com as sub-sccçóes de So-
rotherapia: anti-venenosa, anti-toxica e anti-bacteriana.
3 — Bacteriologia Experimental e Bacteriotherapia.
1 — Virus e Virustherapia.
5 — Physico-chimica Experimental.
6 — Protozoologia e Parasitologia.
7 — Botanica Medica.
8 — Chimica e Pharmacologia Experimentaes.
9 — Physio-pathologia Experimental, com as sub-secções: Physiologia.
Endocrinologia e Histologia Pathologica.
10 — Cytologia, Embryologia e Genetica Experimental.
Dessas secções as seis primeiras foram logo providas com tecbnicos e or-
ganizadas, começando a trabalhar independentemente, embora articuladas em
suas finalidades por intermédio da superintendência. As restantes, entre as quaes
a de Cytologia, Embryologia e Genetica Experimental — de cuja installação para
pesquisas autonomas o Instituto Butantan foi o primeiro estabelecimento scien-
tifico do Brasil a cogitar — o decreto determinou que seriam organizadas á me-
dida da necessidade dos serviços e de accordo com os recursos financeiros do
Estado.
Afim de permittir o mais rápido desenvolvimento das actividades do Ins-
tituto em beneficio da collectividade, no que diz respeito ao estudo de enfermi-
dades humanas, á defesa biologica da população e outras finalidades suas de
igual importância, ficou estabelecido em lei que o excesso de producção de
soros, bacterinas, vaccinas e outras substancias que vier a preparar, o Instituto
Butantan o entregaria á senda, revertendo o resultado, conjunctamente com a
renda de analyses e de outras actividades suas, em proveito do estabelecimento.
Por isso, o Instituto começou a tratar de desenvolver sua producção industrial
e agricola e outros recursos, capazes de lhe permittir alcançar logo o equilíbrio
financeiro. Um dos pontos capitaes dessa reforma foi a annexação, pela pri-
meira vez ensaiada em nosso meio, dos trabalhos de pesquisa aos de produc-
çáo, a cargo de technicos differentes mas que collaboram entre si, complctan-
do-se mutuamente, em uma mesma secção, com a necessária amplitude de acção
e articulados com os serviços de contabilidade, o que permitte á administração
manter o necessário control da situação financeira do Instituto.
Presentemente, o pessoal superior encarregado de serviços tecbnicos do
Instituto Butantan é o seguinte:
Dircctor superintendente — Afranio do Amaral, B. Sc. & L., D. M., D. Hyg.
(Med. Trop., Harvard), Editor das “Memórias do Instituto Butantan”.
Assistentes chefes: José B. Arantcs, dipl. Phcia., D. M.
J. Lemos Monteiro, B. Sc. & L., D. M.
S. Camargo Calazans, D. M.
Dionysio von Klobusitzky, D. M.
Assistentes: Raul B. Godinho, D. M.
Joaquim Travassos, B. Sc. & L., D. M.
Cicero Neiva, B. Sc. & L-, Med. Vct..
Alcides Prado, B. Sc. & L-, D. M.
Flavio da Fonseca, D. M.
Toda correspondência scientifica, relativa ás “Memórias”, deve ser diri-
gida ao
EDITOR, MEMÓRIAS DO INSTITUTO BUTANTAN
Caixa postal 65
SAO PAULO, BRASIL
cm
SciELO
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ESTUDOS
SOBRE O TYPHO EXANTHEMATICO DE SÃO PAULO
POR
J. LEMOS MONTEIRO
(com 54 grafhicos, 6 estampas com 9 photograph.ias. send <, 1 colorida,
17 desenhos coloridos e 2 micropholografhias )
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
SUM MARIO
Cip.
Cap.
Gap.
Cap.
Cvp.
1.* Parte
Comportamento experimental e propriedades do virus
I - Introducção.
1. - Grupo das febres “ typbo-exanthrmaticas" na America:
a) no continente septentrional ;
b) no continente meridional.
2. - Relações sorologicas entre as differentes formas do typlio.
3. -0 typho exanthematico de São Paulo e seu aspecto cpidemíologico.
II - Comportamento experimental do virus em relação aos pequenos
animaes de laboratorio.
1. - Resultados experimentacs :
A) Marcha da infecção na cobaia:
a) alterações anatômicas;
b) reacção inflammatoria escrotal;
c) immunidade.
B) Comportamento do virus cm relação a outros animaes dc laboratorio:
a) coelho;
b) rato branco ;
c) camondongo branco:
d) rato cinzento;
e) gato.
2. - Discussão
3 - Conclusões.
III - Comportamento experimental do virus cm certos simios ( ilacacus .
Cebus c Alauatla).
1. - Resultados experimentacs.
2. - Resumo e conclusões.
IV - Infecção experimental por inoculação do virus na cantara anterior
do olho.
1. - Resultados experimentaes.
2 - Discussão e resumo.
3. - Conclusões.
V - Algumas propriedades do virus.
1- - Filtrabilidade.
2. - Passagem através da conjunctiva ocular intacta e D.M.I. (dose míni-
ma infectante) do virus.
3. - Resistência do virus sob varias condições:
a) resistência ao deseccamcnto ;
5
G Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
b) resistência á acção da glycerina pura e diluída a 50 % ;
c) resistenda do virus em congelação.
4. - Discussão e resumo.
5. - Conclusões.
Cap. VI - Febres exanthematicas. Estudos comparativos, em relação á cobaia,
de amostras do vinis do typho clássico do velho mundo, typho
endemico da America do Xorte e typho exanthematico de S. Paulo.
Resumo e conclusões da 1.* parte-
2.* Parte
A “Rickettsia brasiliensis” e suas relações com a infecção
Cap. VII - Introducção: Rickcttsioses e seu conceito pluralista. A rickettsia
do typho exanthematico de São Paulo.
Cap. VIII - Presença de rickettsias nas cellulas da membrana de Descemet em
animaes inoculados com o virus na camara anterior do olho.
a) technica empregada.
b) irequencia e morphologia das rickettsias nas cellulas da membrana de
Descemet.
Cap. IX - Presença de rickettsias nas cellulas mesothcliaes da parede peri-
toneal de cobaias inoculadas com o virus na cavidade.
a) technica empregada;
b) morphologia e disposição das rickettsias nas cellulas da parede peritoneal;
c) frequência das rickettsias nas cellulas mesotheliaes da parede peritoneal.
Ckp. X - Relação das ricketlsias do typho exanthematico de São Paulo com
a infecção experimental.
a) infcctuosidade da Rickettsia brasiliensis Monteiro;
b) poder antigcnico ou vaccinante das rickettsias em relação á infecção
experimental.
c) poder virucida do soro anti-rickettsico ;
d) verificação da Rickettsia brasiliensis cm carrapato {Amblyomma cajen-
nense) infectado.
Resumo e conclusões da 2.* parte.
Ribliographia.
G
1, | SciELO
614.526:614.47
ESTUDOS
SOBRE O TYPHO EXANTHEMATICO DE SÃO PAULO
POR
J. LEMOS MONTEIRO
1.* PARTE
Comportamento experimental e propriedades do virus
Capitulo I
Introducção
O premente trabalho representa o resultado de estudos realizados durante
o anno de 1931 e primeiro semestre de 1932 e que foram resumidos numa
serie de notas publicadas ím "Brasil Medico”, algumas também apresentadas ao
2.* Congresso Internacional de Pathologia Comparada, reunido em Paris cm
outubro ultimo.
Outros aspectos do problema do typho cxanthematico de S. Paulo, como
sua transmissibilidade, depositários do virus na natureza, etc., da mesma for-
ma, foram objecto de pesquisas que realizámos com a collaboração de distinc-
tos collegas do Instituto, tendo sido também resumidos em notas já publi-
cadas ou apresentadas á Sociedade de Medicina c Cirurgia de S. Paulo (Se-
mana de Laboratorio, janeiro de 1932) c á Sociedade de Biologia de S. Paulo,
constituindo assumptos de outros trabalhos mais pormenorizados.
Em algumas das nossas notas já publicadas in Brasil Medico, vol. XLV,
n* 35. pag. 805, 1931; C. R. Soc. Biologie, vol. CYTII, n.° 30, pag. 521, 1931;
Communicações ao 2.® Congresso Intern. Path. Comp. Paris, outubro de 1931 ;
Brasil Medico, vol XLV, ns. 47, 48, 49, 50 e 51, pags. 1096, 1109, 1140, 1163
e 1188, 1931; vol. XLVI, n.® 3, pag. 49, 1932, foi adoptada a designação de
"typho endemico de S. Paulo”, que foi convenientemente justificada. Tendo,
7
8 Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
porém, surgido controvérsias sobre esta denominação, como passível de con-
fusão, de um lado, com a febre typhoide e, de outro, com o typho endemico
da America do Norte (México e Estados Unidos), resolvemos, de accordo
com collegas que entre nós têm também estudado a nova modalidade do
“typhus” que surgiu no nosso Estado, empregar a primitiva designação de
“typho exanthematico de S. Paulo”.
Dada a enorme complexidade- e confusão reinantes na nomenclatura das
chamadas febres exanthcmcticas ou typhus, nem sempre de accordo com os
preceitos internacionaes de nomenclatura já acceitos, uma revisão completa do
assumpto se impõe, por muitos motivos facilmente comprehensiveis. Esse
grupo de infecções melhor se designaria pelo nome generico de rickcttsioses,
adoptando-se para o caso da modalidade observada em S. Paulo o nome de
Riekettsiose brasileira, conforme Afranio do Amaral e Cesar Pinto propuse-
ram por occasião da discussão deste assumpto numa das sessões da Sociedade
de Medicina e Cirurgia de S. Paulo (Semana de Laboratorio, janeiro de 1932).
Expondo em conjuncto e mais pormenorizadamente, como agora fazemos,
os resultados dos nossos estudos experimentacs, visamos apenas facilitar a ta-
refa dos que desejarem estudar experimentalmente um assumpto particular-
mente importante para o nosso Estado e para o país. Si este escopo for attin-
gido, considerar-nos-emos compensados dos esforços, dedicação e labor dispen-
didos durante mais de um anno de pesquisas continuas.
Retardada a publicação do presente numero das nossas “Memórias”, por
motivos independentes da nossa vontade, tendo sido os originaes entregues em
fins de 1931, o trabalho foi completado e ampliado, quer no texto, quando pos-
sível, quer em notas ao pé das paginas, com novos dados e observações oriun-
das de experiencias feitas posteriormente, não lhe alterando, porém, a primi-
tiva feição nos seus principaes resultados e conclusões.
*
*
Nestes últimos annos, o problema do typho exanthematico em geral, ou
das chamadas “febres cxanthematicas” que abrangem todo um grupo de in-
fecções dotadas de certas afíinidades, vem despertando crescente interesse, tanto
sob o ponto de vista scientiíico, como pelo lado propriamente medico-social.
Esse interesse está ligado á descripção e individualização, em differentes partes
do mundo, de um certo numero de infecções que, embora apresentem pontos
de affinidade com o “typhus” clássico do velho mundo, dellc se differenciam
pelo aspecto clinico, caracter epidemiologico e feição experimental, o que lhes
valeu algumas vezes serem consideradas, não como meras transformações da-
8
J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paulo 9
quella entidade mórbida, mas como doenças autochtonas de determinadas regiões.
Com eí feito, embora o estudo retrospectivo e histórico possa, com relação a
algumas, mostrar uma ligação original com o typho europeu, é provável que,
com o decorrer do tempo e em virtude talvez de adaptações a noras condições
e ambientes, o mal tenha adquirido uma individualização própria.
Em relação ao continente americano, este problema tem merecido interesse
de rarios pesquisadores, principalmente no hemispherio norte; no do sul, com
excepção de alguns países onde o assumpto já tem figurado em ordem do dia,
pouco se tem feito, principalmentc sob o ponto de vista experimental. Isto se
deve attribuir a muitos factores, como, entre outros, ás deficiências das orga-
nizações sanitarias locaes, cujo raio de acção raramente transpõe os limites das
capitaes e das grandes cidades, e á escassez de recursos para o estabelecimento
de diagnostico seguro, com a qual 1 um vam e ainda frequentemente lutam os
clinicos, especialmente nas zonas afastadas e, ás vezes, até em grandes centros.
Por esta razão é que, removidas essas causas, se tem ás vezes a impressão de
surgirem novas doenças que. reinando em verdade ha longo tempo, eram iden-
tificadas com os males mais em voga na occasião ou com os que clinicamentc
mais se lhes approximassem.
Desde 1929, quando foi diagnosticada, vem surgindo em São Paulo uma
infecção do tvpo das referidas “febres exanthematicas”, mas que apresenta uma
individualidade própria, pelo aspecto clinico, caracter epidcmiologico e pelo com-
portamento experimental. Neste trabalho, dividido cm duas partes c dez capí-
tulos, esta infecção, o typho exanthematico dc S. Paulo, será estudada relativa-
mente ao comportamento experimental dc seu “virus” cm relação aos animacs
dc laboratorio e quanto ao seu aspecto etiologico, com a dcscripção e estudo das
suas relações com a rickcttsia responsável, a Rickettsia brasiliensis Monteiro,
1931.
Antes, porém, faremos algumas considerações sobre o grupo de infecções
exanthematicas conhecidas c já estudadas no continente americano.
1. - Orupo das febres “typho-exanthematicas” na America.
O estudo deste grupo de infecções no novo mundo deve ser encarado se-
paradamente com referencia á America do Norte e á America do Sul.
a) Continente scptcntricnal. - No continente norte-americano podemos con-
siderar como demonstrada a existência de 3 typos de infecções pertencentes a
este grupo. Em primeiro logar, o “typho clássico”, importado do velho mundo
com a immigraçáo curopéa; em segundo logar, o “typho endemico”, conhecido
em certas regiões do sul dos Estados Unidos c no México, onde é chamado dc
"tobardillo” ou de "typho mexicano”; finalmentc, a "febre maculosa das Mon-
tanhas Rochosas”.
cm
SciELO
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10
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
O typho exanthematico clássico, embora sob um aspecto clinico benigno, pa-
rece ter sido o observado por Brill (1) em 1910, quando descreveu pela pri-
meira vez numerosos casos, surgidos em Nova York, de uma infecção de na-
tureza desconhecida.
Em 1912, Anderson e Goldberger (2) procuraram demonstrar a provável
identidade desta infecção, que foi denominada “doença de Brill”, com o typho
endemico do México, embora este modo de pensar não fosse logo por todos
acceito. Em 1923, Maxcy (3), lançando mão principalmente de experiencias
de immunização cruzada, tentou provar a identidade de ambas estas enfermi-
dades com o typho do velho continente, apesar das differenças observadas no
comportamento experimental dos “vinis” e em certos aspectos epidemiologicos
das infecções em apreço, havendo também descripto a forma do typho ende-
mico nos estados do sul.
Mooser (4), porém, oppôs-se a essa generalização, mostrando que a deno-
minação de “doença de Brill” deve ser reservada unicamente para uma forma
benigna do typho clássico, de importação, representada pelos casos descriptos
por Brill em Nova York, e que não deve ser confundida com o typho endemico,
existente em certos estados do sul e sudeste da União Americana c no México.
Apesar disso, ainda hoje muitos auctores consideram como “doença de Brill” o
typho endemico nos Estados Unidos. Todavia, o typho endemico da America
do Norte deve ser restricto á variedade conhecida em certos paises por "to-
bardillo” e cuja zona de expansão se extende do planalto do México até as
regiões baixas dos Estados Unidos, mormente o Texas, Alabama, Geórgia c
provavelmente outros estados do sul.
Esta forma talvez seja autochtona no continente americano, pelo menos
no hemispherio norte, onde parece ter sido conhecida pelos indios antes da che-
gada dos espanhóes, caracterizando- se, além do mais, por seu comportamento ex-
perimental, pois o seu "virus” provoca frequentemente, quando inoculado no
peritoneo de cobaias, uma rcacção inflammatoria cscrotal. Esta reacção não se
observa, segundo Mooser, na doença de Brill, que elle, como outros, conside-
rava como o typho clássico de natureza benigna, observado nos Estados Unidos.
Hoje, porém, está verificado que certa reacção cscrotal pode ser observada, ás
vezes, com o typho europeu, embora nunca apresente ella a intensidade e a
constância observadas no typho endemico da America do Norte.
A reacção no "tobardillo” caracteriza-se por uma proliferação endothelial
e infiltração na túnica vaginalis do testiculo e cspecialmente na folha parietal,
provocada pela presença de microorganismos intra-cellulares, descriptos por
Mooser (5) e que se assemelham á Rickettsia proxvazcki, sendo também de-
signados "corpúsculos de Mooser”. O conceito moderno sobre as relações entre
estas formas da infecção será exposto no capitulo VI.
10
J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paulo
11
O “tobardillo” ou o typho endemico dos Estados Unidos differe ainda do
typho do relho mundo pela ausência ou raridade das lesões nodulares observa-
das no cerebro dos animaes inoculados, as quaes são muito frequentes no se-
gundo. Os outros elementos usados na distineção destes typos dc typho serão
com mais pormenor tratados opportunamente.
Finalmeme, quanto ao terceiro typo de infecções do grupo exanthematico,
observado no hemispherio norte, a febre maculosa das Montanhas Rochosas, sua
zona de expansão está indicada pelo proprio nome, pois corresponde principal-
mente aos estados de Montana, Idaho, Arizona e outros, apesar de que, pelo
que se deprehende de um estudo recente de Badger, Dyer e Rumreich (6),
sua expansão e frequenda nos Estados Unidos (ou de alguma infecção afíim)
talvez seja bem maior do que geralmente se pensa. Differencia-se do “tobar-
dillo” prindpalmente pelo aspecto epidemiologico e pelo comportamento experi-
mental do “virus". Quanto a este ultimo aspecto, na febre maculosa se obser-
va, nas cobaias, mesmo que o “virus” não seja inoculado no peritoneo, uma
reacção escrotal, geralmente mais intensa, quasi sempre provocando hemorrha-
gias e necrose do escroto e, portanto, affectando a pelle do mesmo, o que só
raramente acontece com o “tobardillo”.
O “tobardillo”, pois, o typho endemico da America do Norte, infecção
autochtona, segundo Mooser, deve ser collocado entre o typho do velho mun-
do ou typho exanthematico clássico, c a febre maculosa das Montanhas Rocho-
sas. Seu estudo, sob differentes aspectos c coniparat ivamente com o typho
europeu, tem produzido na America do Norte uma grande serie dc trabalhos
expcrimentacs, cuja citação completa é desnecessária, bastando mencionar os dc
Maxcy, Pinkerton, Mooser e os realizados ou orientados pelo professor Zinsscr,
em Boston.
b) Continente meridional. - Pelos motivos já mencionados, no continente
sul-americano o problema das febres cxanthematicas não mereceu ainda o inte-
resse que desjiertou no norte, principalmente sob o ponto dc vista experimental.
E’ certo, segundo os historiadores, que o typho exanthematico foi pela
primeira vez observado na America do Sul no Pcrií, cm meados do século XVI,
durante o reinado de Huaina Capac, celebre Inca, que foi victimado juntamente
com outros membros dc sua familia c cerca de 200.000 de seus súbditos, ü
mal foi então, muito provavelmente, trazido pelos conquistadores espanhóes.
Desde essa epoca, a infecção tem reinado endcmicamente em certas regiões do
continente. Com relação ao Perú, o facto está seguramente averiguado c já
referido em trabalhos apresentados ao 5.° Congresso Medico I-atino-Amcricano,
reumdo em Lima, em 1913 (J. Gonzalez Mendoza, G. Arosemena e outros),
o mesmo podendo-se dizer com relação a certas regiões do norte do Chile.
Relativamcnte á Bolivia, a existência da endemicidade do mal é muito pro-
vável. Foi suspeitada quanto a certas partes da Argentina, cm 1916, por A.
11
cm
SciELO
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12 Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
Xeiva e B. Barbará (7), durante uma viagem de estudos que realizaram nas
provincias do norte do pais. Esta endemicidade do typho na Argentina septen-
trional foi confirmada em 1918 por Kraus, Battaglia e Barbará (8), que estu-
daram um surto epidemico na localidade de Molinos, provinda de Salta, loca-
lizando o fóco endemico no valle Calchaqui. na mesma provinda.
Battaglia e Barbará (7) assim se manifestaram em seu trabalho: “En ei
transcurso de nuestras investigadones, que no fué cosa fadl praticarias, a causa
de la falta de toda ducumentacion oficial o pjdvada, no fué mayor la primer sor-
presa con el hallazo dei tiíus petechial que reinaba en forma epidemica en ia
region, sino después de comprobar que dicha enfermidad pertenecia a la mor-
bilidad corriente desde quien sabe cuantos anos atrás, como endemia benigna”.
Além desta forma do typho endemico, autochtona de certas regiões do nor-
te do pais, o typho dassico também apparcceu na Argentina em 1896, em Entre
Rios, trazido por immigrantes russos (8).
Com respeito ao Brasil, não conhecemos estudo algum referente á exis-
tência de alguma infecção do grupo das febres typho-exanthematicas, até que
se registrassem em São Paulo, em 1929, os primeiros casos de uma infecção
' que, com elementos mais ou menos seguros, foi então diagnosticada como typho
cxanthematico, continuando até agora a surgir de um modo esporádico em cer-
tas zonas da cidade, o que provavelmente vinha de ha muito acontecendo ( *).
Esta infecção tem todos os caracteristicos de uma nova modalidade a distin-
guir-se do typho clássico do velho mundo, pelo set: aspecto clinico, epidemiolo-
gico c experimental. A designação de “typho exanthematico de São Paulo”
foi justificada pelos drs. J. T. Piza, F. e L. Salles Gomes, J. Flcury, J. Meter,
J. Castro, C. Rodrigues e H. da Rocha Lima (9), cm uma nota apresentada
á Sociedade de Biologia de São Paulo, na qual mostraram alguns caracteristi-
cos da infecção e sua diííerenciação do typho exanthematico europeu. A infec-
ção tem-se manif estado, desde então, cm forma endcmica no município da Ca-
pital, principalmente em zona suburbana ou rural da cidade; os casos têm sur-
gido esporadicamente, não sendo impossível, cm todo caso, o apparecimento dz
surtos epidêmicos, si certas condições o favorecerem.
O essencial será estabelecer as relações entre estas formas de infecções e
as do hcmisphcrio norte, para se ter a certeza da existência, também no he-
mispherio sul, do typho endemico, talvez autochtono, provavelmente encontra-
do cm vários outros paiscs.
E’ possivel que a natureza do typho endemico do Pcrú, Chile, Bolivia e
Argentina, embora escassos os estudos experimentaes, se relacione com a do
typho europeu, que originariamente grassou, como vimos, no Perú, no século
(•) Informou-nos J. T. Pira ter já estudado, em annos anteriores, dois casos pan
os quacs ponde firmar o diagnostico de typho exanthematico.
12
J. Lemos Monteiro — Typho exanthemalico de S. Paulo
13
X\ I, si bem que tenha adquirido uma feição própria, variando, talvez, segundo
as dif ferentes regiões. Isto parece ser verdadeiro pelo menos em relação ao
typho endemico da Argentina, em virtude do que se deprehende dos trabalhos
de Kraus e Barrera (11), que o estudaram experimentalmente, verificando ser
a reacção de Weil-Felix positiva em 94% dos casos e provocar o virus na
cobaia uma reacção febril “por completo semejante a la descripta por los au-
tores con el virus de Europa, África e Norte America”, e accresccntando ser
idêntico o comportamento experimental da febre petequial no Chile e no Pcrú,
de accordo, neste ultimo pais, com informações prestadas aos auctores pelo dr.
E. Ribcyro, de Lima. Kraus e Barrera julgam que “la íiebre petequial en Sud
America (Perú, Bolivia, Argentina y Chile) es producida por un virus que, a
semejanza dei de Europa, África y en Méjico, determina en el chanchito un
ascenso característico de la curva térmica (tcrmoreación)”. Idênticas conside-
ram também os dois auctores as lesões histopathologicas da pelle e as infiltra-
ções perivasculares observadas no cerebro dos doentes, embora não as reputem
especificas do typho; relativamente á infecção experimental, verificaram lesões
semelhantes “en el cerebro y las meninges de los chanchitos infectados pero sin
ser constantes ni guardar relación alguna con los pasajes”.
Talvez pela epoca em que foi feita, a descripção, dada por Krauss e Barrera,
do comportamento experimental dos “virus” argentino c chileno, responsáveis
pelo typho endemico destes paises, é insufiicientc para se julgar com segurança
quanto á natureza de ambos, embora esses auctores os considerem semelhantes
ao “virus” do velho mundo, ao qual também filiam o prior: o typho mexicano c
o typho endemico da America do Norte. Em todo caso, alguns pormenores da
descripção por clles feita, como a inconstância de lesões nodularcs no cerebro
das cobaias infectadas, parecem approximar o typho que estudaram do typho en-
demico do norte (Estados Unidos e México), e scparal-o do typho do velho
continente, no qual aqucllas lesões, como se sabe, são bem constantes.
Somente novos estudos experimentaes, orientados de accordo com os mo-
dernos conhecimentos sobre este grupo de infecções, estabelecerão a natureza
cxacta do typho endemico do norte da Argentina c do Giile, Pcrú c Bolivia,
elucidando si deverão ser considerados como infecções autochtonas do nosso
hcmispherio, iguacs ou dif ferentes nos vários paises, ou si têm a sua origem
em virtude de uma importação do velho continente, havendo, porém, adquirido
já individualidade própria que lhes daria íóros de doenças cspcciaes.
Estes estudos justificar-se-iam ainda pelos resultados das investigações, prin
cipalmente de natureza experimental, que vem sendo realizadas com o typho
exanthcmatico de São Paulo.
Este é uma infecção provavelmente autochíona, com epidemiologia pró-
pria, e, assim, de grande valor teria verificarem-se as suas relações com as
formas do typho endemico já conhecidas nas Américas do Norte e do Sul, c
13
14
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
a sua possível existência em outras regiões do nosso território e em outros
paises do continente americano; si se trata de uma entidade mórbida nova ou,
pelo contrario, si poderá ser identificada a alguma já descripta, ou á infecção
que Badger, Dyer e Rumreich estudaram nos Estados Unidos, considerando-a
muito próxima da febre maculosa das Montanhas Rochosas, com a qual, aliá>,
em trabalho mais recente, chegam a identiíical-a (12), apesar de o nosso typho
apresentar certos caracteres diíferenciaes, que serão estudados opportunamente.
2. - Relações sorologicas entre as differentes formas do typho.
Embora clinicamente apresentem certa semelhança com o typho clássico,
isto é , o typho exanthematico do velho continente, as diversas formas do
“typhus” delle divergem em outros aspectos, como também apresentam difíe-
renças entre si, de accordo com as varias regiões do mundo onde têm sido
descriptas e estudadas.
Estas difíercnças, relativamentc ao typho endemico, accentuam-se, prin-
cipalmente, quanto á epidcmiologia. Xão apresenta, geralmente, tendencia a
uma rapida disseminação, não ha evidencia segura de que se transmitte
somente por intermédio de piolhos e, alem disto, é muito provável a existência
de algum outro intermediário ainda não bem conhecido.
Outro elemento que poderia servir para o estudo' das relações entre as
diversas formas entre si e o typho clássico, seria a reacção sorologica de Weil-
Felix. Segundo estudos conhecidos, a reacção se manifesta positiva em 95Çc
dos casos de typho endemico (doença de Brill) dos Estados Unidos (Havens,
1927), em 100 dos casos de typho endemico da Austral ia (Hone, 1927; Buli,
1923 e Wheatland, 1926).
Com respeito ao typho tropicai dos Estados Malaios, Fletcher (13) e coila-
boradores (Lessler, Field, Lewthwaite) verificaram, entre os doentes, dois
grupos soroiogicos: o primeiro, que dava agglutinação positiva com o Proteus X19
(amostra Varsóvia) e representado pelos casos de zona urbatia que denominaram
grupo \V”; e o segundo, constituído pelos casos de zona rural e que somente
daram reacção positiva com a amostra K (Kingsbury) do X19, que designaram
“grupo K”.
Reccntemehtc, cm virtude da diversa epidemiologia entre estes dois grupos
de infecção, passaram a chamar o grupo urbano (W) de “Shop-typhus” e o
grupo rural (K) de “Scrub- typhus”.
Estas verificações sorologicas de Fletcher e collaboradores são da maior
importância, abrindo novos horizontes para o estudo das relações entre estes
differentes typos de infecção.
E’ preciso dizer que o typo K (Kingsbury) do Proteus X19 é uma va-
riante deste, obtida originalmente pelo dr. Kingsbury, da “Xational Collections
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J. Lemos Monteiro — Typho exanlhematico de S. Paulo
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of Type Cultures”, e constitue um novo typo do Proteus, que não produz indol e
não fermenta a saccharose e maltose, para o qual Felix e Rhodes dão a designa-
ção de Proteus XK.
Felix e Rhodes (14) confirmaram estas observações de Fletcher, verifi-
cando também que as agglutininas do typo 0 eram as responsáveis pela reacção,
tanto do Proteus X19 para o grupo \V, como do Proteus XK para o grupo K
do typho malaio, conforme já se sabia com referencia ao Weü-Felix no typho
clássico. Estes auctores verificaram ainda que as mesmas agglutininas do typo
0 eram responsáveis pela reacção positiva com o Proteus XK na “tsutsugamushi”.
Em virtude de trabalhos recentes de Spencer e Maxcy sobre a reacção de
agglutinação na febre maculosa das Montanhas Rochosas e no typho endemico
dos Estados Unidos, Felix e Rhodes acreditam, relativamente á primeira, em
duas alternativas: 1.* não ser o virus da febre maculosa antigenicamente uni-
forme, dividindo-se em variedades sorologicas como Fletcher e Lessler estabe-
leceram para o typho tropical malaio; 2* o antigeno do virus poder, então,
corresponder a outro typo de Proteus, alem dos tres já conhecidos.
Xa África do Sul já é conhecida a existência do typho endemico e de
outra infecção affim, para a qual Pijper e Dau (15) propuseram a denominação
de "tick-bite fever”. Segundo estes auctores, o primeiro produz agglutininas
para o Proteus X19 e X2 e a segunda, para estes typos c também para o Proteus
Kingsbury (XK). As cobaias atacadas de ambas as infecções apresentam agglu-
tininas para o typo Kinsgsbury e não para o X19 ou X2. Verificaram ainda
o facto interessante de haver uma “inhibição temporária”, isto é, uma reacção
que se manifesta somente após um repouso do soro durante alguns dias.
No que diz respeito ás formas de typho endemico já verificadas na America
do Sul (Argentina e Chile), parece, segundo as observações de Kraus e colla-
boradores, que se comportam sorologicamente, com relação ao Proteus X19, como
o typho endemico dos Estados Unidos e México.
Finalmente, com referencia ao typho de São Paulo, a reacção de Wcil-
Felix, praticada por J. P. Flcury com o Proteus X19, mostrou-se inconstante,
negativa em alguns casos, embora estes tivessem sido confirmados por outros
meios, como se deprehende do citado trabalho (9) cm que collaborou esse dis-
tincto collega (*). Este facto c de importância c mostra que possivelmente o
nosso typho apresenta mais de um typo sorologico, como acontece com o dos
(*) Em nota mais recente, levada ã "Semana dc Laboratorio” (janeiro de 1932),
J. T. Piza apresentou os resultados de maior numero dc rcacçõcs dc Wcil-Felix. com
o Proteus X19. praticadas no Instituto Bacteriológica. Verifica-se. agora, que na maioria
dos casos as rcacçõcs foram positivas com esse typo dc Proteus X-
No nosso laboratorio, com J. Travassos, t hemos opportunidadc dc praticar a resecáo
com 4 soros, gentilmente fornecidos por L. Salles Gomes, empregando os typos dc Proteus
X2, X19 e XK (com as respectivas variantes O e H), que nos foram enviados por A. Felix.
16
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
Estados Mala : os e, talvez, com a febre maculosa das Montanhas Rochosas, de-
vendo. em todo caso, os estudos sorologicos ser continuados, usando-se também
o Protciis XK (typo Kingsburv) para verificação da possível existência entre
o Protcus XK (* *).
Xo quadro annexo, resumimos as reacções sorologicas das varias formas
de typho e infecções affins (Quadro I).
Estudadas assim, de um modo geral, as formas do typho e infecções pró-
ximas verificadas no continente americano e, rapidamente, as relações, principal-
mente sorologicas, que apresentam com as outras já conhecidas em difíerentes
partes do mundo, passaremos a estudar mais particularmente o typho exanthe-
matico de São Paulo.
Verificamos a rcacção positiva com o Protcus X19 (e também com o Protcus XK em ti-
tulo menos elevado), sendo a agglutmação. com ambos, do typo O.
Estes estudos immunologicos sob este e sob outros aspectos (fixação do complemento,
etc.) devem ser continuados em relação ao typho exanthematico de São Paulo. Ao mesmo
tempo deverá ser tentado o isolamento de novos typos de Protcus dos doentes e animacs
cxperimentalmente inoculados, segundo nos suggeriu o prof. A. Felix que, gentilmente,
nos enviou dados sobre a tcchnica que tem empregado para esse fim e que fornecemos
também a collegas do Instituto Bacteriológico.
(•) Por extrema gentileza do prof. A. Felbc. recebemos uma copia do original de
seu ultimo trabalho, ainda inédito. " The rabbit as experimental animal in the study of
thc typhus of viruses”, no qual figuram os resultados obtidos com soros de doentes e
animacs inoculados com o viras, entre outros, do typho exanthematico de São Paulo. Apro-
veitando-nos ainda do atrazo desta publicação, é-nos grato assignalar as seguintes principaes
conclusões desse eminente pesquisador na parte que nos interessa: “The interesting feature
of these tests, howcver, is thc occurrence of group agglutinins for type XK in the majority
of thc São Paulo sera. Scra from typhus patients irom Europe. Australia and thc United
States of America never contain significant group agglutinins for XK. Agglutinins for
XK are also absent from the scrum patients belonging to FIctchcris “ Group W” of tropical
typhus. as is also sccn from thc reactions of thc Malayan and Javan scra included. The
:irus of the São Paulo endemie typhus is thus shoii.ii to represent still another entigenie
veriety; ils main antigen ir that of type X19 and it differs from other tvell k nenen typhus
liruses by ils content of group antigen of type XK". (O grypho c nosso e visa salientar
a conclusão final).
No instituto Bacteriológico de São Paulo, J. Carvalho Lima conseguiu isolar um novo
typo de Protcus X, cuja agglutinabilidade pelos soros espccificos poude verificar. Este
novo typo, enviado e ha pouco estudado também pelo prof. Felix que o denominou XL, cor-
responderia melhor ao typho exanthematico de São Paulo.
Registamos, com satisfacção, todos estes resultados experimenta es. por confirmarem
a hypothcse, suggcrida numa de nossas primeiras notas, da diversidade sorologica do typho
exanthematico dc São Paulo.
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QUADRO I
NOME
REGIÃO vector
Içulitaitfa ctm B. »rt lai I
Typo XI9 Typo XK
Typho exanthematico
íepldemlco)
Noto e relho mundo
piolho»
O.
Typho endemico itohar-
dlllo)
México
pulga* (1)
+
Typho endcmico
Estado» Unido»
pulga* (2)
Typho endcmico
Australla
?
*
Typho endemico
Italía ?
+
0
Febre exantbematlca
martelheta
Hegiâo mediterrânea
pulfia* (?)
0
Febre botooosa
Região mediterrânea
carrapato* (S)
+
0
Typho tropical (typo W)
Mataia
+
Typho tropical (typo Kt
Mala la
?
4.
Ttutsugamushi
Malaia e Sumatra
'
acariano»
+ (fraca)
Tsutsugamushl
Japão acarlanos
- 4 - (fraca)
Typho exanthematico (fe- Norte da Argentina
bre petechtal) e Chile
piolho* (4)
4 ."
0
Tlck-blte fever Sul da Afrlca
carrapato* (S)
±
+
Febre maculou da* Mon- _ . . ....
. . „ . Es lados L nldo*
tanha* Rochosa*
carrapato»
4- • *
+
Typho exanthematico de
Slo Paulo
S. Panlo (Brasil)
carrapato» (?) («)
4- (7)
4- — rcaccJo potltlea / — — reaccio negativa / — reacção parvlalmrnle potltl-
Ta /O — reaccão não praticada/? — vrctor ainda desconhecido
(1> A tr»n*ml*»Jo experimental trm tido nMlda também cora piolhos, carrapato* e percevejo».
De arcordo com a verificação de Zlnttcr, o rato \erla nm drpotltarlo do «Iria. At pnigat aio
Incriminada* em trabalho* recente*.
(2) Incriminada* em trabalhos recente* (Dyer, Ituinretch e Badger).
(3) E’ hoje Itrralmrnte retpontablllaado o Rhípicephats* tanaaiaeat (Burnet e Olmer, Duraud e
Conte!!. Ilrumpt. Blanc e Camlnopetro*. etc.).
(4) Segundo te deprehende (lo* trabalho* de Kraut e collaboradorel. derendo-te, em todo cato.
peaqultar outro* posilvel* «ecloret para at endemia* reinante* em certo* togares.
(j) Segundo Pijper e Dau, o titulo da reacçáo 4 baixo com o X13 e elevado com o XK.
(«) ObtlTemo* rrtultado* positivo* de trantmltsáo da lnfeccão experimental com certa* opcclei
de carrapato*. O AnMr*nmi caiennena* dere ter Incriminado (Monteiro e Fonseca).
(7) Segundo retultadot mal* recentemente publicado*, t potitlva com o XI» na malorli do*
rato*. O mesmo acontece com o XK. em titulo menos elevado, a te Julgar pelo* resultado* de al-
guns toro* que estudamos com J. Travassos e pelo* obtido* por A. Fellx, no Inttltuto I.itter, de
Londres.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
3.-0 typho exanthematico de São Paulo e seu aspecto epidemiologico.
Xo estudo da endemia em São Paulo e dos casos registados, ou, melhor,
somente daquelles cujo diagnostico foi de qualquer maneira confirmado, servimo-
nos das fichas clinicas organizadas e postas á nossa disposição pela Secção de
Dcmographia do Serviço Sanitario do Estado, a cuja directoria aqui consigna-
mos os nossos agradecimentos.
O primeiro caso nestas condições foi confirmado em 11.X.1929 e, até
setembro de 1931, os casos perfaziam um total de 44. Numerosos outros casos
foram suspeitados nesse período, porém tiveram outra confirmação diagnostica
(a maioria como febre typhoide e gripe). Seu estudo clinico foi feito no
Hospital de Isolamento da Capital, por J. T. Piza, e o diagnostico confirmado
bacteriologicamente, quer por meio da reacção de Weil-Felix, feita por J. P.
Fleury, quer pela inoculação em cobaias, realizada, com resultado positivo em
alguns casos, por L. Salles Gomes, no Instituto Bacteriológico, ou, ainda,
pelos exames histopathologicos realizados pelo prof. Rocha Lima e J. R. Meyer,
no Instituto Biologico (*).
De accordo com o estudo que nos foi dado realizar das fichas destes casos,
verificámos a seguinte frequência nestes últimos tres annos:
Em 1929 — 15; em 1930 — 20; em 1931 (até fins de agosto) — 9
(Total 44).
a) de accordo com a nacionalidade: brasileiros, 29; portugueses, 4; ita-
liano, 1 ; austríaco, 1 ; lithuano, 1 ; espanhol, 1 ; russo, 1 ; não registados nas
fichas, 6: b) quanto ao sexo: masculino, 17; feminino, 21; não registado-, 6;
c) quanto á cór: brancos, 30; pretos, 4; pardos, 4; não registados, 6; d)
quanto á idade: até 10 annos, 8; de 11 a 20 annos, 13; de 21 a 30 annos, 13;
dc 31 a 40, 3; acima de 40, 1; não registados, 6; e) finalmente, com relação
á zona de residência: em zona urbana, 6; em zona suburbana, 33; em zona
rural, 5 (proximidades da capital, incluindo 2 casos em municipio vizinho).
Destes 44 casos falleceram 34, o que dá á infecção a mortalidade de 77,2Çó.
Todos estes indivíduos eram residentes havia tempo no local onde contrahiram
a moléstia e, com raríssimas excepções, habitavam a mesma casa dentro do més
anterior. Poucos foram os casos em que foi possível verificar-se a presença
dc piolhos na roupa e no corpo dos pacientes.
(•) Durante a revisão das primeiras provas deste trabalho, em outubro de 1932, chegou-
nos às mãos a publicação “Typho exanthematico de São Paulo" pelos drs. J. T. Piza. J-
R. Meyer e L. Salles Gomes. O aspecto epidemiologico do mal é ahi estudado por J. T.
Piza que também relata os principaes resultados de exames clinkos e de laboratorio effe-
ct uados. assim coroo as observações clinicas dc 60 casos por clle acompanhados e estudados;
a anatomia e histologia pathologicas dos casos nccropsiados é estudada por J. R. Meyer
e por L. Salles Gomes, a parte experimental, relativa á inoculação dc material dos doentes
em animaes de laboratorio e outras pesquisas correlatas.
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J. Lemos Monteiro — Tgpho exanthematieo de S. Paulo
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Em investigações feitas com os prezados companheiros de trabalho, Fia vi o
da Fonseca e Alcides Prado, em numerosas casas e zonas onde surgiram casos
do mal, com o fim de pesquisar parasitas hematophagos, encontrámos com fre-
quência vários que poderiam ser incriminados, principalmente acarianos (mesmo
uas camas dos moradores) e carrapatos que têm sido estudados no Instituto.
Seria possivel que algum representante da ordem dos acarianos fosse res-
ponsável pela propagação, em São Paulo, do typho cujo virus poderia
ter como depositário natural algum roedor por elle também parasitado, hy-
pothese já emittida por Shelmire e Dove (16), quanto á transmissão do typho
«ademico da America do Xorte por meio de um acariano, o I.iponyssus bacoii
Hirst. que é parasita do rato cinzento ( Epintys noncgicus) e responsável pela
‘rat mite dermatitis”, cujo apparecimento «em coincidido com o do typho endê-
mico no norte e éste do Estado de Texas.
Além desta possibilidade, foram estudadas outras experimentalmente: com
varias especies de carrapatos, percevejos, pulgas, etc., estas ultimas agora in-
criminadas como responsáveis pela transmissão do typho endemico da America
do Norte; além disto, pesquisámos, com F. da Fonseca, a possibilidade da exis-
tência de depositários do virus entre diversos roedores sylvestres (ratos, preás,
lebres, etc.) e os resultados até agora obtidos, do mais alto interesse epidcmio-
logico, constam de outros trabalhos.
Este resumo sobre os casos verificados e sua zona de expansão, assim
como os possíveis meios de transmissão, dá ao typho exanthematieo de São
1’aulo um caracter proprio, que o distingue do typho clássico, caracter este
que mais se accentuará pelo estudo do comportamento experimental do virus,
como veremos nos capítulos seguintes.
Capitulo II
Comportamento experimental do virus em relação aos pequenos
animaes de laboratorio
No capitulo anterior fizemos considerações geraes sobre as differentes for-
mas do ' typhus”, principalmcnte as observadas no continente americano, assim
como sobre uma nova modalidade endêmica que surgiu cm São Paulo. Agora,
passamos a relatar as nossas observações sobre o comportamento experimental
do “virus” responsável, representando este estudo, juntamente com outros (as-
pecto clinico, histopathologico. etc.), um dos elementos pelos quaes se poderá
estabelecer a rigorosa identificação da infecção, quer justificando sua classi-
19
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
ficação entTe algumas das formas de typho já descriptas, ou. com mais pro-
babilidade, como modalidade nosoiogica á parte.
A primeira amostra do “virus” que estudámos, isolada de um dos doen-
tes recolhidos ao Hospital de Isolamento de São Paulo, foi-nos cedida peio
distincto collega L. Salles Gomes, a quem renovamos aqui os nossos agrade-
cimentos. Posteriormente, estudámos uma outra amostra, que isolámos de um
novo doente recolhido ao mesmo hospital.
O estudo do comportamento do “virus” foi feito em relação a alguns ani-
maes de laboratorio, especialmente a cobaia, sendo a inoculação praticada pelas
vias sub-cutanea, peritoneal e venosa. A seguir, estudaremos o comportamento
do virus relativamente a certos simios, pertencentes a tres ger.eros differentes
( Macactts, Ccbus e Alauatta), e, por fim, o comportamento dos animaes de
laboratorio, por inoculação por via intra-ocular, ou, melhor, na camara ante-
rior do oiho.
METHODO DE ESTUDO E MATERIAL
Para a inoculação por via peritoneal ou sub-cutanea, o “virus” era repre-
sentado por sangue de um animal infectado, colhido em periodo de reacção fe-
bril, do terceiro ao quinto dia da reacção, geralmente no quarto, ou, então, por
emulsão do ccrebro de um animal nas mesmas condições e sacrificado geral-
mente no quarto dia de reacção febril.
O sangue- era injectado “in r.atura”, immediatamente após a colheita, ci-
tratado ou desfibrinado, e nas doses de 1 a 3 cc. Para o preparo da emul-
são do cerebro infectante, tomavamos geralmente 1 gr. do orgam, colhido asepti-
camente e emulsionado cm 10 cc. de agiu physiologica, praticando a injecção
na dose dc 1 cc. (ás vezes, na dose de 2 cc.), correspondente a cerca de 0,1 gr.
do orgam fresco.
Diversos animaes eram sacrificados durante a reacção febril para fins dc
novas passagens e conservação do “virus”, deixando-se outros, afim dc se acom-
panhar a evolução da infecção experimental.
Decorridos vinte a trinta dias. mas geralmcnte neste ultimo espaço de tem-
po, os que resistiam eram reinoculados Com "virus” activo, para a prova de
immunidade.
Muitos soííriam sangrias, em differentes períodos, para estudos poste-
riores sobre phenomenos de immunidade no decurso ou em consequência da
infecção.
Os animaes sacrificados ou mortos er-im necropsiados e observadas as prm-
cipaes alterações anatômicas, sendo colhido material para exame histopatholo-
gico (usados como fixadores o íormol a 10 c /c, o liquido de Zenker e o li-
quido de Regaud), assim como para a pesquisa de “Rickettsias” em esíregaços.
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J. Lemos Moxteibo — Typho exanthematico de S. Paulo
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A temperatura rectal de todos os animaes era tomada diariamente, ás mes-
mas horas (entre 12 e 13 horas). Verificámos em nossas cobaias uma variação
individuai da media normal da temperatura, devendo-se, por isto, fazer sua de-
terminação approximada, para o que se terá uma base pela temperatura do dia
da inoculação, sendo que ás vezes foi também tomada a da vespera. Nas co-
baias em que esta temperatura era comprehendida entre 38°, 5 a 39®, 5, só fo-
ram consideradas como reacção as temperaturas acima de 40°; nos animaes cuja
temperatura inicial estava entre 37®.5 a 3S®,5 a reacção era baseada em tem-
peratura acima de 39®, S.
1. - Resultados da experimentação.
A) Marcha da infecção na cobaia. - O quadro annexo resume os re-
sultados do comportamento experimental do “virus” com relação á cobaia,
mostrando-se elle bastante pathogcnico, pois provoca nesse animal uma rcac-
ção febril característica, após certo período de incubação, terminando a infec-
ção quasi sempre pela morte (Quadro II).
Muitas cobaias, além das designadas no referido quadro, foram já ino-
culadas, num total de mais de 800 (*), cuja relação registar-se-á conjuncta-
mente com experiencias a serem descriptas neste e em outros trabalhos. As
indicadas agora, porém, em numero superior a 100, parecem sufficientes para
se julgar do comportamento experimental do “virus” do typho exanthemati-
co de São Paulo em relação a essa cspecie.
O exame do quadro annexo indica que, inoculando-se o virus por via
subcutânea, o período de incubação da infecção é um pouco mais longo do
que por via pcritoneal e que ella se processa com maior regularidade c cons-
tância empregando-se como material infcctante a emulsão de cercbro.
Tomando-se cm consideração somente os animaes que apresentaram rcac-
ção febril característica, observa-r-e que, por via peritoncal, o período de in-
cubação foi de 3 a 4 dias. cm media, tendo-se observado incubação de até
48 horas c raramente de 6 dias (apenas cm 2 casos ultrapassou 10 dias). Nas
mesmas condições c só considerando os animaes que tiveram evolução, natural
da infecção, verificou-se que o período de reacção febril variou de 3 a 8 dias,
tendo apenas uma vez perdurado 12 dias. No fim deste prazo os animaes
geralmente morrem em menos de 24 horas, cahindo-lhcs a temperatura abaixo
do normal; ás vezes observa-se nova ascensão, menos accentuada, seguida de
nova baixa thermica e da morte. Quando o restabelecimento do animal se
dá, a temperatura volta á media normal e, neste caso, elle se mostra immuni-
zado, não reagindo a uma segunda inoculação do virus activo. Esta immuni-
(•) Este numero comprehendc o total das cobaias inoculadas ale Junho de 1932.
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dade pode persistir na cobaia durante 3 meses, não estando ainda verificado
o seu praxo máximo (*). As cobaias apresentam, muitas vezes, nos últimos
dias e após a morte, phenomenos hemorrhagicos cutâneos, mais accentuados nas
extremidades dos membros, que se mostram então arroxeados.
A morte como consequência da infecção, considerando-se apenas os ani-
maes em que a evolução se processou naturalmente, dá-se em cerca de 70%
das cobaias inoculadas.
Pelo quadro II verifica-se ainda a extrema regularidade da infecção quando
utilizada como “virus” a emulsão do cerebro de um animal infectado e sa-
crificado em período propicio. Mesmo no primeiro dia de febre (cob. 2Ó0)
e quarto da inoculação, o cerebro já »e mostrava infectante. Apenas em 8
casos cm que se applicou essa emulsão, não se verificou evolução caracterís-
tica da doença experimental e, destes, somente em 3 animacs (cobs. ns. 9S,
233 e 132, a ultima não devendo ser considerada, em virtude de ter ficado
evidente que o material inoculado era avirulento), a infecção não se proces-
sou, tanto que os mesmos depois não se mostraram immunizados. Nos ou-
tros cinco casos (cobs. ns. S8, 125, 161, 251 e 259) a infecção se processou
provavelmente de um modo atypieo sem reacção febril, mas comprovada por
passagens e observação de microorganismos semelhantes a “Rickettsias” nas
cellulas endotheliaes da parede p^ritoneal. A verificação foi completa, neste
sentido, quanto á cobaia n. # 161.
Esta forma atypica da infecção, que se observa em cobaias sob determi-
nadas condições e na qual com maior facilidade se põe em evidencia a pre-
sença da “Rickcttsia” que descrevemos nas cellulas mesothcliaes do peritoneo
das cobaias com infecção característica (17), será csrudada detalhadamente na
2.* parte deste trabalho.
Ainda pelo estudo do quadro II, verifica-se que o sangue, mesmo
extrahido de animal com reacção febril, ás vezes se mostra menos virulento ou,
então, que. em certas occasiões, nelle existe o “virus” em menor concentra-
ção, sendo necessárias, para que a infecção se processe, doses mais elevadas
(até 4 cc.) ; assim mesmo, observa-se muitas vezes evolução mais benigna, isto
é, com periodo dc incubação mais longo, reacção febril por poucos dias c so-
brevivência do animal, que se mostra, cm todo caso, immunizado a uma se-
gunda inoculação virulenta.
Isto se deve explicar pelo facto de não ser constante a quantidade do
"virus” na corrente circulatória, mesmo durante o periodo de reacção febril,
ou, então que. depois de certo tempo, o elemento virulento soífra a acção de
(•) Por algumas experiências festas com maior praxo, verificámos que a immun idade
não é permanente, diminuindo e desapparccendo, a cobaia reagindo, então, cm relação a
nova inoculação virulenta-
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anticorpos que elle proprio tenha provocado, dando-se, então, a sua concentra-
ção nos organs, prindpalmcnte no cerebro.
Quando se emprega como da de introducção do “virus” a camara ante-
rior do olho de certos animaes (coelho, cobaia, macaco), consegue-se provo-
car a infecção com doses muito menores, mesmo usando-se o sangue, segun-
do mostraremos em capitulo posterior, ou quando se applica como "virus” o
humor aquoso de um animal infectado por via ocular ou o liquido de lavagem
“ raspagem peritoneal contendo "rickettsias”.
A apreciação da marcha da infecção pela sua cu rs- a thermica poderá me-
lhor ser feita nos graphicos de cobaias inoculadas annexados a este trabalho,
não sendo indicados os de todas, por desnecessários (graphicos 1 a 21).
a) Alterações anatômicas. - Designámos apenas, como bastante constan-
*s e tendo valor diagnostico, o augmento do baço das cobaias inoculadas com
0 "virus” do nosso typho, augmento ás vezes bem accentuado e apresentando-
se o orgam com coloração escura e congestionado. Observam-se frequentemen-
te hemorrhagias sub-cutaneas, vendo-se um edema, por vezes gelatinoso e hc-
morrhagico, no tecido cellular, principalmente no nivel das regiões inguinaes,
nas cobaias que apresentem reacção inflammatoria no escroto. As alterações
histopathologicas observadas nos diííerentes orgãos dos animaes infectados cs-
J ão sendo objecto de estudo (*). Apenas desejamos salientar que as lcsõc-
nodulares observadas commummente com o typho clássico europeu não são
'ncontradas, ou talvez sejam muito raras, nos ccrebros dos animaes inoculados
com o “virus” do typho de São Paulo. Os ccrebros de alguns dos nossos ani-
n^nes infectados a p:e sentaram-se histojiathologicamenie normacs, apesar de
teguramente infectados, o que se poderá attribuir á evolução muito rapida do
mal, não havendo tempo para o estabelecimento das alterações histológicas, que
teriam liastante especificas no caso do typho do velho continente.
b) Reacção inflammatoria cscrotal. - Ura symptoma a que attribuimos
'ntportanda, e que verificámos frequentemente em nossas cobaias, c um au-
fjtnento de volume com inflammação do escroto. A reacção pódc ser ligeira.
n otando-se apenas um edema mais ou menos accentuado, ou então, havendo
^cma e maior augmento de volume, iniciando-sc por uma vermelhidão da
Pclle e ficando então os testiculos retidos nas bolsas, nas reacçõcs mais inten-
5a s. Nestas observámos muitas vezes pctechias a principio pequenas, augmen-
ía ndo depois ao ponto de se fundirem, chegando 3 formar placas hemorrha-
(•) Fornecemos também a distinctos collegas histopathologistas, tanto de São Paulo
c°mo do Rio, abundante material (de cobaias c Stacacus rhesus) para estudo mais
Coo >pieto desta parte do problema, sendo que alguns dados a respeito foram já publicados
** A. Fialho ( Rcv. Med. Gr. do Brasil XL(7) .1932). do Rio de Janeiro.
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^cas. A's vezes este processo termina pela necrose da pelle. A reacção es-
^tal somente observámos quando o “viras” era inoculado por via peritoncal.
As figuras que acompanham este trabalho dão uma idéa da reacção, de
'■arias intensidades, em cobaias inoculadas com o “vírus” por essa via.
As figuras 1 c 2 (Estampa I) correspondem á reacção de pequena intcn-
Mdade, jxxlendo-se ver o edema e mesmo {lequciias petechias hemorrhagicas no
Cs croto. As figuras 3 a 4 (Estampa I) da mesma cobaia photographada de
lrc nte e perfil, mostram uma reacção mais accentuada, não podendo os tes-
tículos ser facilmente deslocados das bolsas e observando-se pequenas placas
de hemorrhagias cutaneas. A figura 1 c respectiva ampliação na figura 2
^ Estampa II) mostram uma reacção mais accentuada ainda, vendo-se nos dois
3dos do escroto vasta placa hemorrhagica, dando uma idéa da intensidade da
r eacçáo nesta cobaia, sendo melhor visível na figura I da estampa III, colorida.
•Vs figuras 3 e 4 (Estampa II) mostram outras cobaias com reacção intensa,
y endo-se uma placa hemorrhagica num dos lados do escroto e necrose. A fi-
Su^a 2, estampa III, colorida, mostra o aspecto da reacção intensa cm outra
^baia, evklenciando-se bem os pfcenomenos hemorrhagicos cutâneos.
Com o material original e nas primeiras passagens, a reacção escrotal apre-
'«itou-se com maior frequência ; posteriormente, a frequência diminuiu, sendo
fntão observada cm vários animaes, depois de uma serie de inoculações onde
«*0 era verificada, pelo menos de modo a despertar attenção. Considerando,
03 o 'ó os animaes registados no quadro annexo, como as dematis cobaias machos
J a inoculadas com o “virus”, em experiencias diversas, acreditamos que a
rca cção escrotal. em suas varias intensidades, se manifesta, com os "virus” que
Mudámos, em cerca de 20 a 25 Jc dos animaes inoculados.
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E’ possível que, com as passagens, o “vírus” tenha diminuído a sua pro-
priedade de provocar a inflammação escrota! ou, então, que com ellas tenha
desapparecido alguma causa coadjuvante que influa no processo e que possa
surgir de vez em quando
Este ponto, em todo caso, relativamente ao typho de São Paulo, precisa
de ser melhor elucidado, com o estudo de maior numero de amostras do "virus”,
sendo possível, como acontece em certas infecções do grupo (tobardillo), que
algumas possuam essa propriedade em maior gráu, embora em outras amostras
seja menos accentuada e mesmo ausente. A segunda amostra do virus que
isolámos comporta-se, a esse respeito, como a original que estudámos.
c) Immunidade. - Verifica-se, ainda pelo estudo do quadro, que as cobaias
que resistiram á infecção, tendo tido reacção febril característica, se mostram
immunizadas a uma segunda inoculação do “virus”, seguramente activo, pra-
ticada decorrido cerca de um mês. Isto só não se verifica nas cobaias que
não mostraram reacção thermica característica ou não a apresentaram de todo,
tendo sido inoculadas com material cuja avirulencia ficou demonstrada poste-
riormente. As que tiveram uma infecção ligeira, tendo sido inoculadas com
doses reduzidas de “virus” (principalmente sangue), mostraram-se também
immunizadas, nas mesmas condições.
Outros aspectos relativos á immunidade no typho endemico de São Paulo,
reacções sorologicas, etc., estão sendo estudados.
B) Comportamento do "virus” cm relação a outros animaes de labora-
torio. - Resumiremos apenas os resultados obtidos com a inoculação de alguns
outros animaes.
a) Coelho. - O “virus” inoculado, quer por via sub-cutanea, peritoneal
ou endo- venosa, provoca uma infecção, geralmente não mortal e que se caracte-
riza por um periodo de incubação de 3 a 4 dias c um período de reacção febril
perdurando geralmcnte de 4 a 6 dias.
Os dois graphicos (22 e 23), correspondentes aos coelhos 7 e 14, mostram
a evolução da infecção nestes animaes, de par com sua curva thermica e immu-
nidade a uma segunda inoculação do virus.
b) Ralo branco. - Dos vanos exemplares inoculados com o virus, por
via sub-cutanea ou peritoneal, pudemos verificar que a infecção se manifesta de
forma geralmcnte inapparente; ás vezes, pode-se observar pequena reacção ther-
mica pouco acima da media nesse animal que, de outro modo, nada de anormal
apresenta. O virus persiste durante certo tempo no organismo do rato e, trans-
ferido para a cobaia, determina infecção experimental característica neste
animal.
Das varias observações nesse sentido, citamos a experiencia com o rato
branco 6, inoculado cm 2-IV-932 com 3 cc. de sangue da cobaia 666, infectada
40
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
com o “virus”. A temperatura do rato não se modificou da media normal, de
36 # ,6 a 37°.4. Depois de 10 dias da inoculação, o rato, com a temperatura de
37*, 3, foi sangrado, sendo inoculada a cobaia 705, em 12-IV-932. A cobaia
705 apresentou infecção característica, com reacção febril durante 8 dias, após
incubação de 6 dias, tendo sido sacrificada em 26-IV-932 e sendo obtidas noras
gerações deste virus, passado pelo rato.
Verificações semelhantes t hemos com a inoculação do cerebro de ratos,
sacrificados alguns dias após a inoculação do virus.
c) Camondongo branco. - Apparentemeníe nada de anormal apresenta
como consequência da inoculação, pelo menos a se julgar pelos resultados
obtidos com alguns exemplares.
d) Rato cimento (Epimys norvegicus). - Foram inoculados alguns
exemplares. O primeiro (E. ttonvgiais 1) foi inoculado por via peritoneal
com o “virus” (emulsão de cerebro de cobaia infectada), em 16-IV-931.
Apresentou uma pequena reacção thermica acima da media normal no terceiro
dia após a inoculação, perdurando 6 dias, com uma oscillação no terceiro dia
c volta ao normal no nono dia da inoculação. Uma cobaia (X.° 184) inoculada
com sangue do rato (2 cc.), colhido em 24-IV-931, ultimo dia em que a tempe-
ratura se mostrou ainda acima da media normal, não apresentou reacção febril
e não houve indicio de immunidade quanto a uma segunda inoculação do “virus”
Este rato ficou muito mal e foi sacrificado em 13-V-931, sendo inoculada com
emulsão do seu cerebro a colma n.° 216. A’ necropsia do rato verificou-se um
abcesso eneystado produzindo uma adherencia do baço com a parede perito-
neal. A cobaia 216 não apresentou reacção alguma como consequência da
inoculação do cerebro do rato, porém reagiu caracteristicamentc, morrendo
dentro de 8 dias quando reinoculada, decorridos 28 dias, com o “virus”, não
se mostrando, pois, immunizada.
O resultado obtido com o outro rato (3/W rattus 2) foi mais interessante.
Inoculado com “virus” activo, por via peritoneal, em 16-1 V-931, não permittiu
que fosse tomada a temperatura, por ser exemplar pequeno. Apparentemente,
não mostrou symptoma algum, sendo sacrificado cm 6- V-931, isto é, 20 dias
depois da inoculação, quando foi inoculada com emulsão de seu cerebro a cobaia
n.° 215, cm 13-V-31. Esta teve reacção febril característica, amanhecendo
morta em 21-V-31. Com emulsão de cerebro foi feita nova passagem para a
cobaia n.° 229, que teve também reacção escrotal e morreu na noite do sexto
para o sétimo dia da inoculação.
Verifica-se, portanto, que o “virus” pode persistir no organismo do rato.
tornando infcctantc o seu cerebro, mesmo no fim de 20 dias, embora não deter-
mine uma infecção apparcnte.
Outro exemplar ( Epimys norvegicus 3) foi inoculado com o virus (emul-
são cer. da cob. 448) cm 23-X-931 ; nos 3 primeiros dias a media de sua teni-
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peratura foi de 37°,l-37\5, no 4.° d:'a foi de 38°5. mantendo-se entre 38°,4 a 38", 7,
durante 8 dias, quando foi sangrado, morrendo acddentalmente durante esta
operação. O seu sangue foi inoculado na cobaia 491 que, decorridos 4 dias,
apresentou reacção febril (40*) durante 4 dias. Resistindo á infecção, foi
reinoculada com o vinis activo (emul. cer. da cob. 508) no fim de 20 dias. não
apresentando reacção, mostrando-se, pois, immunizada.
Estas verificações embora reduzidas em numero, apresentam grande im-
Portanda epidemiologica, pois indicam que os ratos (Mus e Epimys) pode-
rão servir de depositários do vinis, podendo-se, por isto, acreditar na pos-
sibilidade da transmissão deste ao homem por intermédio de parasitas hemato-
pbagos (pulgas, acarianos, etc.), communs nestes roedores (*).
e) Gaio. - O unico inoculado por via peritoneal, em 25-VI-931, não de-
nunciou nenhum symptoma clinico ou reacção febril. Seu sangue, inoculado na
cobaia 290, decorridos 13 dias, não lhe provocou reacção febril nem immuni-
dade ao virus activo.
f) Carneiro. - Não apresentou nenhuma reacção caracteristica e não nos
«oi possivel rehaver o virus, após 10 dias, por inoculação do sangue desse ani-
«fcal em cobaia.
Uma gallinha também inoculada não apresentou nada de anormal; também
0 seu sangue, no fim de 12 dias, não provocou reacção febril ou immunidade
cobaia 206. com elle inoculada, cm relação ao virus activo.
“• ■ Discussão.
Desde 1912, graças aos trabalhos de Nicolle (18) c collaboradores, em
Tiinis, e de Gavino e Girard (19) no México, se tornou bem conhecida a
^asibilidade apresentada ao typho pela cobaia, que desde então é o animal de
Acolha para o estudo desta infecção e de infecções affins.
Pelos nossos estudos experimentaes expostos, e que anteriormente já
Criamos resumido (20), verifica-se a extrema sensibilidade da cobaia ao virus
(*) Em outro trabalho foi estudado com minúcia este aspecto do problema rclati-
•^mente ao typho exanthematico de São Paulo. Mostrámos que. embora possam ser con-
l) derados como depositários, outros deverão ser pesquisados na iona suburbana c rural
'k cidade, onde a infecção característica se tem manifestado de preferencia. Os ratos
'ktta zona são pouco parasitados por pulgas e o transmissor que maiores probabilidades
^cra. segundo nossos estudos experimentaes, é o carrapato, principalmcntc o Amblyomma
ta )**nensf.
Por outro lado. de ratos da zona urbana da cidade, intensamente parasitados por
'-«gas. foi isolado um virus differente. cujas propriedades e relações com o typho exan-
^utatico de São Paulo (virus de doentes da zona suburbana ou rural) são estudadas
«“ 0r Tncnorúadamcnte nesse outro trabalho.
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do typho exanthematico de São Paulo, que lhe provoca, após uma incubação
de 2 a 6 dias, uma reacção febril perdurando geralmente 4 a 8 dias e termi-
nando com a morte de cerca de 70% dos animaes inoculados. As cobaias ma-
chos, quando inoculadas no peritor.eo, em proporção de 20 a 25%, apresentam
uma reacção escrotal caracterizada por edema e inflammação do escroto, po-
dendo ser, ou ligeira (apenas vermelhidão e edema), ou, ás vezes, mais intensa;
augmento accentuado do volume do orgam, retenção dos testículos, petechias e
placas hemorrhagicas e, embora raramente, mesmo necrose da pelle.
Esta synthese do comportamento experimental da cobaia com relação ao
nosso typhus é sufficiente para mostrar as suas difíercnças com as outras for-
mas do typho endemico e do typho clássico do velho continente.
Deste ultimo se distingue, sob tal aspecto, por apresentar menor período
de incubação e de reacção febril, e por ser muito mais grave. Ainda histolo-
gicamente delle se distingue, pela ausência ou extrema raridade das lesões no-
dulares no cerebro, o que se explica talvez pela evolução mais rapida da infecção,
assemelhando-se, quanto ao aspecto assignalado, a certas formas de typho en-
demico da America do Norte.
O typho exanthematico de São Paulo apresenta, relativamente á infecção
na cobaia, alguns outros aspectos que o differcnciam do typho endemico da
America do Norte ou do tobardillo. Segundo Maxcy (21), a incubação no
typho endemico dos Estados Unidos é, em media, de 6 a 7 dias (a menor de
4 c a maior de 14 dias) e a duração media da reacção febril de 7 dias,
nunca tendo excedido a 14 dias Estes períodos são um pouco mais curtos
no nosso typho. A presença da reacção escrotal verificada primeiramenie por
Ncill (22), em 1918. e muito bem estudada por Mooser (5), observámol-a no
nosso typho cm menor proporção (cerca de 20 a 25%) do que a assignalada
por Neill (70%) c Mooser (92,5%) nas cobaias inoculadas com o typho me-
xicano e por Maxcy (90%) nas inoculadas com o typho do sul dos Estados
Unidos.
No typho endemico do norte, muito raramente se observam phenomenos
hemorrhagicos intensos na região escrotal durante a reacção; no nosso são mais
frequentes, observando-se nos últimos dias também nas partes glabras (patas
principalmcntc) e podendo, em relação á região escrotal, terminar até pela ne-
crose da pelle, embora isto só aconteça raramente. Como na infecção da Ame-
rica do Norte, a reacção escrotal só se verifica nas cobaias inoculadas no peri-
toneo, ao contrario do que acontece com a febre maculosa das Montanhas
Rochosas, cujo vinis parece ter tendcncia á localização escrotal, pois provoca
ahi reacção mesmo quando inoculado por via sub-cutanca; alem disto, a reacção
é geralmente mais accentuada, mais intensos os phenomenos hemorrhagicos.
havendo, na maioria dos casos, necrose da pelle.
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Mooser e outros têm assignalado raças de vinis do typho norte-americano
(tobardillo) que provocam reacção escrotal em geral ligeira ou mesmo imper-
ceptível, ao passo que, com outras raças, tal phenomeno é constante e mesmo
fcdo como pathognomonico ; em certos casos, a reacção desapparece após uma
5ç ne de passagens para resurgir durante algumas gerações.
Com o typho exanthematico de São Paulo, verificámos a reacção de um
“todo mais ou menos constante, nas primeiras passagens; mais tarde, tornou-se
ç * ; a inconstante, reapparecendo em alguns animaes, após uma serie de passagens
00 que não se observava de uma maneira evidente.
Não podemos ainda formar uma opinião definitiva sobre a reacção escrotal
n ° typho exanthematico de São Paulo, para o que seria necessário um estudo
^perimental de numerosas amostras do virus, o que não nos foi possivel rca-
li*ar. Apenas assignalámos os resultados obtidos com as 2 amostras que estu-
damos e que são objectivados nas photographias que acompanham este trabalho
(Estampas I, II e III).
Com relação á febre maculosa das Montanhas Rochosas, verificam-se seme-
Ihanças em alguns pontos, como a presença, embora não constante, no nosso
^■pho. de phenomenos hemorrhagicos cutâneos, podendo terminar pela necrose
c a accentuada pathogenicidade do virus.
Relativamente ao comportamento experimental do virus para com outros
in :maes de laboratorio, verificou-se com o typho de São Paulo, no coelho, uma
rc acção febril durante uma media de 5 dias após incubação de 4, não termi-
^ndo, em geral, a infecção pela morte. No rato branco, ou cinzento, a in-
ação é, geralmente, inapparente, evoluindo sem reacção febril que pode, ás
Ye * cs > manifestar-se de modo pouco accentuado, ou inapparente, podendo tam-
° Cln . como mostrámos, esses roedores (Mus e Efimys ) scr depositários do
^nis.
As observações sobre o comportamento experimental do virus do typho
^nthematico de São Paulo parecem justificar a sua separação como modali-
^de mórbida á parte, provavelmente de natureza autochtona, embora perten-
ce ao grupo geral das febres exanthematicas, com algumas das quacs se
^Crará, talvez, immunologicamente relacionado, não sendo impossível a sua
üíüra identificação com alguma das formas já descriptas de typho. Esta
pPatação a nosso ver se justifica, por enquanto, não só pelos dados assigna-
0s c por outros que serão mencionados, como pela diversidade do seu mais
P r °vavel agente transmissor, elemento que consideramos como bom critério para
4 difftrcnciação das infecções desse grupo.
4. .
Conclusões.
Estudando o comportamento experimental do virus do typho exanthema-
° 0 de São Paulo cm relação aos animaes de laboratorio, observámos a grande
45
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
sensibilidade da cobaia, animal de escolha para o estudo da infecção, pois ella
apresenta, após incubação media de 3 a 4 dias, um 2 reacção febril característica
durante 4 a 8 dias, terminando a infecção pela morte em cerca de 70% dos
animaes inoculados.
As cobaias machos, inoculadas no peritoneo com o virus, apresentam, em
proporção de cerca de 20 a 25%, uma reacção escrotal, caracterizada por edema
e inílammação do escroto, podendo-se observar phenomeno hemorrhagicos (pete-
chias e placas hemorrhagicas) nas reacções mais intensas; estes phenomenos he-
morrhagicos são observados muitao vezes também em certas partes glabras do
animal (patas principalmente), no ultimo período da infecção e são então
muito evidentes logo após a morte.
Os coelhos apresentam reacção febril durante vários dias, após certa in-
cubação, não sendo, geralmente, a infecção mortal.
Com os ratos dá-se, muito provavelmente, uma infecção inapparente, po-
dendo estes roedores desempenhar o papel de possiveis depositários do virus-
Embora considerando o typho exanthematico de São Paulo uma modali-
dade á parte, mostramos e discutimos as suas possiveis relações com outras
infecções do grupo do typho, principalmente com o typho endemico da America
do Norte (tobardillo) e a febre maculosa das Montanhas Rochosas, ou cotC
uma infecção aliiada a esta e recentemente assignalada nos Estados Unidos
Capitulo III
Comportamento experimental do virus em certos simios (Si/enus,
Cebus e Alauatta)
Mostraremos agora o comportamento experimental do virus com relaçá°
a certos macacos pertencentes a tres generos ( SUenus , Cebus e Alauatta), rcsul'
tados já anteriormente resumidos (24) e que agora serão melhor exposto*
Foram ate agora inoculados 11 Silatus (Macacus) rhesus Goldf., 1820, 2 Ceb*
apclla Lin. c 1 Alauatta carayo Humb.
Dc referencia ás experiências com os rhesus, registaremos sómente os tf
sultados colhidos com a inoculação dc 8 exemplares por via pcritoncal (*)
(•) Posteriormente outros Macacus rhesus foram inoculados com as duas amostri*
de virus que estudámos. Estes macacos, nos. XII. XIII e XIV, tiveram todos infccC* 8
característica, mortal, e forneceram excellente material para passagens e para pesqui***
histopathologicas.
A designação dc Macacus rhesus foi também adoptada na texto, por ser ccmmemc 0 * 1
empregada, embora a denominação exacta desse simio seja Silcnus rhesus Goldf.. 1^
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J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paulo
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outros 3 serviram a experiencia de inoculação do vinis pela camara anterior
do olho e por isto serão referidos no capitulo seguinte.
O vinis era contido em sangue colhido em período propicio e em emulção
de cerebro de animal infectado, sacrificado em condições favoráveis, e inoculado
«gundo a technica já exposta.
*• * Resultados da experimentação.
O quadro annexo resume os resultados de nossas experiencias sobre o com-
portamento do vinis com relação a estes simios, sendo consignados também os
resultados obtidos em cobaias inoculadas com material delles proveniente e que
c °mprovam a infecção dos animaes (Quadro III).
Pelo estudo do quadro verifica-se que o Macacus rhesus é bastante sen-
tei ao vinis do nosso typho. Após uma incubação de 2 a 4 dias, obscrva->e
“nia reacção thermica característica perdurando uns 4 dias e cahindo brasca-
n*nte no fim deste tempo, seguida de collapso e morte do animal.
A evolução clinica da infecção assemelha-se á infecção amarillica expe-
nt nental, parecendo, embora não tenha sido muito elevado o numero de rhesus
'noculados, que o viras do nosso typho é para elles mais pathogeno do que o
amarillico, mesmo o de origem africana (amostra Asibi).
A infecção neste animal apresenta-se, ás vezes, com caracter grave, vc-
r ‘ficando-se hemorrhagias cutaneas que dão a certas partes mais glabras do
COr po (bolsa escrotal, face, etc.) uma coloração arroxeada, com aspecto de
^hymoses, em alguns pontos mais evidentes no ultimo dia c logo após a
Ol0rt e (Estampa IV).
Sóinente um dos animaes, Mac. rhesus X, não apresentou reacção febril
^ractcristica, sendo muito provável, pelos resultados da reinoculação viralcn-
**» que tenha tido uma forma benigna, inapparente, apesar do resultado ne-
^bvo da inoculação de uma cobaia com o seu sangue, colhido no 11.® dia, o
se poderia attribuir ao facto de não existir na occasião o viras na cor-
rent c circulatória ou existir cm muito pequena concentração, incapaz de pro-
Vocar a immunidade mesmo da cobaia.
Os Cebus também são sensíveis: dos 2 inoculados, um suecumbiu á in-
fec tfo. tendo tido reacção febril após incubação de 2 dias, e o outro teve
*I*nas reacção febril durante 10 dias, provocando também a infecção e im-
unidade de uma cobaia inoculada com o seu sangue.
Quanto ao representante do genero Alauatta, teve elle, após 3 dias de
'ncubação, reacção febril durante 3 dias e morte. Este animal, quando veiu
^* ra o nosso laboratorio, apresentava temperatura elevada (40° em media),
íu ° sendo, porisso, logo inoculado. Em esfregaços de sangue, verificaram os
^ r '- J- B. Arantes e F. da Fonseca estar elle infectado com certo trypanosoma
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52 Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
( Trypanosoma manguinhense Fonseca et Arantes, 1932), embora em pequeno
numero e difíicilmente encontrado em preparações coradas. Depois de alguns
dias, quando foi inoculado com o vinis, a temperatura se mantinha em me-
dia de 39°,2, não sendo mais verificada a presença de trypanosomas, quer em
esfregaços ou em exames directos, e sendo negativas as culturas feitas com
o sangue do macaco para isolamento desse protozoário.
Embora estes Cebideos existentes entre nós pareçam sensíveis, somente o
estudo com maior numero de exemplares permittirá um juizo exacto sobre sua
reacção ao vinis do typho exanthematico de S. Paulo. Os graphicos annexos
mostram as reacções dos simios Inoculados, assim como as de algumas cobaia*
com material delles proveniente (Graphicos 24 a 38).
O estudo histopathologico, como acontece com as cobaias, apresenta ele*
mentos (ausência ou extrema raridade de lesões nodulares no cerebro, etc-,'
de distineção com o typho clássico do velho continente.
Esse estudo com o material dos nossos macacos foi feito por J. R. Meye'-
que provavelmente relatará os seus resultados. Communicou-me este colleg 2 3
ter observado nos macacos lesões semelhantes ás que havia verificado em ca-
sos humanos por elle necropsiados e estudados.
O simples comportamento experimental do vinis, com relação ao macaco- 1
como vimos no quadro annexo e pelo que já foi assignalado relativamente *
cobaia, é sufiiciente para dar ao nosso typho uma individualidade própria q 1 * j
o distingue do typho clássico e mesmo de outras formas do typho endemia
já descriptas e estudadas. Esta distineção apoia-se principalmente numa mai' ,í |
virulência c pathogenicidade do vinis.
2 - Resumo e conclusões.
A sensibilidade de macacos ao vinis das varias infecções pertencentes M
grupo do typho tem sido assignalada por differentes auctores. Em geral,
animal apenas apresenta reacção febril após cena incubação e muito raramc fi, ‘[
a infecção termina pela morte.
Estudámos o comportamento do vinis do typho exanthematico de São P aSJ '’ I
relativamcntc a simios pertencentes a tres generos ( SUcnus , Cebus e Alaual^l
Quanto aos dois últimos, embora ficasse evidente a sua sensibilidade ao v.i"- |
nada pudemos concluir cm definitivo, por termos trabalhado com um nufl
muito reduzido de exemplares. Com relação ao Silenus rhesus, foram assig
lados os resultados obtidos pela inoculação, por ria peritoncal, de 8 exemf
res c os das passagens, comprovadoras da infecção, feitas em cobaias.
Como consequência da inoculação do vinis, verifica-se, após uma ir
ção de 2 a 4 dias, uma reacção febril característica perdurando cerca <**
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dias, sendo que, geralmente, a temperatura desce bruscamente, cahindo o ani-
mal em collapso seguido de morte. Sob este aspecto a infecção se assemelha
á provocada pelo virus amarillico, parecendo, todavia, ser o do nosso typho
mais pathogeno ainda para esse animal.
Alguns dos nossos rhcsus apresentaram infecção de caracter mais grave,
verificando-se hemorrhagias cutaneas, manifestadas pela coloração arroxeada de
certas partes do corpo (partes mais glabras, face, escroto, etc.), ás vezes, com
aspecto de vastas ecchymoses, mais evidentes no ultimo dia e após a morte.
Estes estudos experimentaes, completando os obtidos com outros ani-
maes de laboratorio, especialmentc a cobaia, justificam as considerações que já
fizemos sobre a caracterização do typho exanthematico de São Paulo e suas re-
lações com as outras formas do typho.
Capitulo IV
Infecção experimental por inoculação do virus na camara
anterior do olho
Tendo sido estudado, nos capirulos anteriores, o comportamento experimen-
tal do virus do typho exanthematico de São Paulo com relação ao> animaes de
laboratorio e a certos macacos, mostraremos agora a marcha da infecção quando
se emprega como via de inoculação a camara anterior do olho destes animaes.
A proposito devemos declarar que essa inoculação visava especialmentc a pes-
quisa de rickettsias nas cellulas cndotheliaes da membrana de Descemet e no
humor aquoso dos animaes inoculados, o que nos foi suggerido pelos trabalhos
de M. Nagayo e collaboradores, no que concerne á tsutsugamushi (25) e ao
typho exanthematico (26).
Os primeiros resultados dessa pesquisa foram communicados em nota á
Sociedade de Biologia (10) e os estudos feitos no particular serão relatados
na 2.* parte deste trabalho.
Virus empregado e technica
Empregámos como virus: sangue citratado ou desfibrinado de cobaias, in-
fectadas, colhido em período de reacção febril e geralmcnte no seu 4.® dia;
emulsão de cerebro de cobaias e de Silcnus rhesus infectados e sacrificados em
occasião favoravel, sendo o orgam triturado e suspenso em solução physiologica
na proporção de 1 gr. para 10 cc. ; e, finalmente, humor aquoso de cobaias,
coelhos e rhcstu infectados por via ocular.
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J. Lemos Monteiro — Typho cxanthematico de S. Paulo
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A quantidade inoculada foi geralmente de 0,1 cc. ou menos, raramente de
cc,, em alguns coelhos. Na injecção utilizámos uma seringa apropriada,
sumida de agulha fina, immobilizando o globo ocular do animal, que era anesthe-
stado com ether ou chloroíormio, e retirando previamente uma quantidade cor-
r espondente de humor aquoso.
A reacção local (ocular) e geral do animal inoculado era observada e a
“nfecçâo confirmada pelo resultado positivo apresentado, pelas passagens para
°uteos animaes, feitas com humor aquoso ou emulsão de cerebro. ou pela prova
immunidade praticada nos que resistiam á infecção.
!• • Resultados da experimentação.
O quadro annexo resume os nossos estudos expcrimentaes e as passa-
gens realizadas por meio de inoculação do virus por via ocular, assim como as
^Periencias accessorias relativas á inoculação de emulsão de cerebro dos ani-
les infectados por aquella via (Quadro IV).
Verifica-se, pelo estudo destes resultados, que a evolução da infecção, após
a inoculação do virus pela camara anterior do olho, é mais ou menos idêntica
a que se observa pela inoculação por outras rias (sub-cutanea, peritoneal e ve-
aosa ). conforme se deprehende de alguns graphicos annexos, nos quaes, aliás,
Se notam pequenas variações, explicáveis, porem, pela reacção individual ou pela
c °ncentração do virus no material inoculado (graphicos 39 a 54).
Com a inoculação por via ocular, a infecção se processa com quantidades
Amimas de virus (menores que 0,1 cc.), talvez insuíficicntes (tratando-se de
sangue), muitas vezes, para provocal-a por outra ria, mesmo a peritoneal.
Em certas cobaias inoculadas por via ocular com o sangue virulento, embora
tendo apresentado reacção local e geral característica, verificámos que o virus
P°óia ter soffrido uma attenuação, como nos casos das cobaias 32 e 33, e, na
Pesagem com emulsão de cerebro, apenas determinava uma infecção ligeira, com
mcubação longa, sem provocar immunidade do animal. Este facto é idêntico ao
que se observa ás vezes com o emprego desse material (sangue) em vez de
^ntulsão de cerebro, mesmo por outras vias, visto nelle não ser constante a
'‘irulcncia ou, melhor, a concentração de virus em todos os periodos da infecção.
Sempre que a infecção se processe de modo característico, isto é, com
re acçâo febril, os animaes, quando resistem, se mostram immunizados quanto
a uma segunda inoculação virulenta feita dentro de um mês; não havendo
feacção febril, a immunidade não occorre, nem mesmo quando se nota reacção
ocular, que terá outra causa, provavelmente contaminação por germes estranhos.
Por isto, sempre consideramos como reacção local positiva a seguida de reacção
febril característica.
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71
A reacção geral, isto é, febril, provocada pela inoculação do virus na ca-
anterior do olho das cobaias, coelhos e Macacus rhesus, é indicada no
rfadro, de modo que apenas diremos algumas palavras a respeito da reacção
l°cal, ocular, nestes animaes.
Reacção ocular - Após a inoculação do virus na camara anterior do olho,
certos symptomas oculares que podem ser considerados como especi-
I «os e que apparecem do 2.® ao 5.® dia, geralmente tendo o máximo de inten-
te correspondente ao da reacção geral.
No coelho a reacção ocular não é muito accentuada, em geral observa-se
nejamento, congestão pericorneal e uma irite aguda, com aspecto de irite
ro «. cm virtude do augmento de volume do humor e da tensão intra-ocular ;
opacidade da córnea é ligeira ou inexiste, podendo-se, por isto, facilmente
0i signaes da irite; estes signaes desapparecem depois de alguns dias, geral-
5 ‘ e com a volta da temperatura ao normal, podendo apenas persistir, ás
es . ligeira nebula.
Na cobaia, os symptomas são muito mais accentuados: a inflammação é
Js aguda e maiores o edema e congestão da conjunctiva, secreção e lacrimc-
ato; os signaes da irite são mais difficeis de ser verificados, pela colo-
pigmentar do olho deste animal e porque a opacidade da córnea, mais ou
15 accentuada, é mais precoce; ás vezes, a reacção é muito intensa, havendo
phtalmia em virtude do augmento muito pronunciado do humor e da tensão
,r a-ocular. Verificámos, em algumas cobaias, contaminação do humor por
estranhos, geralmente um diplococco Gram-positivo, depois de algumas
'^gcns, o que se pode attribuir á maior difficuldade technica da inoculação
Ca oiara anterior do olho destes animaes.
No Silcnus rhesus, a reacção é localmente pouco accentuada, mais com-
ly d á que se observa no coelho, talvez ainda menor.
Imntunidadc - Verificámos, por muitas experiencias, que os animaes que
e sen ta vam reacção local e geral característica e sobreviviam, se mostravam
Gizados relativamente a uma segunda inoculação do virus.
^ erificámos ainda que as cobaias immunizadas em consequência da inocula-
do virus por via peritoncal rão reagiram, quando applicada uma segunda
1 Ção por via ocular. Estas experiencias foram feitas, entre outras, nas
aas 4 e 31, que não reagiram febrilmente, embora tivessem tido reacção
* provavelmente traumatica, atypica.
kstes resultados de immunização cruzados das rias de inoculação, mostram
Pela ocular, a infecção se processa nas mesmas condições que pelas outras.
discussão e resumo.
Conforme acontece com o virus da tsutsugamushi e do typho exanthema-
'■ íc gundo as verificações de Xagayo e collaboradores (25, 26). o virus do
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72 Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
typho exanthematico de São Paulo provoca, quando inoculado na camara ante-
rior do olho de certos animaes (cobaias, coelho e Silcntis rhesus ) uma reac-
ção ocular característica. Este phenomeno é seguido também de reacção g € "
ral, febril, semelhante á provocada nesses animaes pela inoculação do vim*
por via peritoneal.
Os nossos resultados, já ameriormente resumidos (27) são consignados
no quadro que acompanha o presente trabalho. Verifica-se que o comporta-
mento experimental do virus do typhus de São Paulo, quando inoculado pe**
via ocular, corresponde mais ou menos ao provocado pela inoculação por outras
vias; á reacção geral, febril, dos animaes e á marcha da infecção já assigna*
ladas, accrescc uma reacção local, nitida, no olho inoculado, caracterizada po f
inflammação e congestão da conjunctiva, lacrimejamento e opacidade mais °' J
menos accentuada da córnea e signaes de irite. Estes symptomas, geralmente
mais intensos na cobaia do que no coelho e rhesus, manifestam-se do 2.® ao -•
dia da inoculação, acccntuando-se durante a reacção geral do animal e persistindo
durante alguns dias.
A reacção ocular e a infecção processam-se, por essa via, pela inoculaçã 0
de doses pequenas (0,1 cc. e menos) do vinis (sangue virulento ou emulsão
de cerebro de animaes infectados colhidos em occasião propicia), muitas veze 5
incapazes, principalmente tratando-se de sangue, de determinar a infecção pd 3
via sub-cutanea e peritoneal. A infecção provocada por via ocular determin 3 *
nos animaes que sobrevivem, uma immunidade quanto á inoculação pelas outr3*
vias e, da mesma forma, os immunizados por estas e reinoculados na camar*
anterior do olho não apresentam a reacção local característica acompanhada de
reacção geral, febril.
Registámos inoculações do virus por via ocular c algumas passagens, utih'
zando-nos na inoculação somente do humor aquoso de um animal anteriormen te
infectado por essa via.
Estes estudos, realizados principalmente com o fim de pesquisar nos a* - *
macs inoculados a presença de rickettsias ou microorganismos semelhantes 5135
ccllulas epitheliaes da membrana de Descemet e no humor aquoso, representa* 51,
como se vê, uma confirmação dos trabalhos de Xagayo e collaboradores, real 1 *
zados com infecção aí fim. Quanto ao fim visado, diremos apenas que, naqu^'
las ccllulas c mesmo em macrophagos encontrados no humor, podem ser posW*
cm evidencia microorganismos que não se distinguem das rickettsias, de accot*
do com as descripções dos auctores que delias se têm occupado, devendo,
pesquisa, o animal ser sacrificado em occasião favoravel e que corresponda 31,1
máximo de intensidade da reacção local e geral.
Sendo a via intra -ocular também favoravel á infecção experimental, de**
ser a preferida sempre que se tentar o isolamento do virus, afim de se ve* 1 '
ficar si este, no sangue dos doentes, apresenta comportamento experimen^
72
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73
r-kiU:co ao manifestado após passagem pelos animaes de laboratorio. Tal facto
P 05 o demonstramos com a amostra do virus que isolámos. O sangue citratado
p UJ na doente (virus W), inoculado na cantara anterior do olho de cobaias e
f JC-hos, determinou a infecção nas mesmas condições que após a inoculação
itoneal.
' Conclusões.
I* O virus do typho exanthematico de São Paulo, inoculado na camara an-
f tri °r do olho de certos animaes (cobaia, coelho e Silcnus rhcsus) determina
| Sna reacção ocular característica e reacção geral, febril, semelhante á provo-
por sua inoculação por via peritoneal.
II. Estas reacções são especificas da infecção pelo virus, em virtude dos
Atados das passagens obtidos pela inoculação de sangue ou emulsão de ce-
pkro co baias infectadas por via ocular e da immunidade dos animaes que
p 5) stiam á reinoculação do mesmo virus pelas outras vias.
III. O virus pode ser transmittido em serie por via ocular, utilizando-se
^ a inoculação o humor aquoso de um animal anteriormente injectado por
I ‘ via.
Capitulo V
Algumas propriedades do virus
Embora já resumidas em nota anterior (28), mostraremos agora com mais
/menor algumas propriedades do virus que estudámos, entre as quacs a sua
| l-,r abilidade, passagem através das mucosas, resistência ao dcseccamcnto, á
| da glycerina pura ou diluida e á congelação.
Alguns destes estudos representam a confirmação de factos já estabelecidos
im relação ao typho clássico e certas infecções affins; apresentam, cm todo
I' ’• r * interesse de terem s : ! > realiza los com uma n »vn tnodali la !e le infecção
i^upo das “febres typho-exanthematicas”. Correspondem também a rcsul-
I *o» preliminares de estudos ainda não definitivanicntc concluídos.
1'iltrabilidade do virus.
•Ifa/erín/ e technica. - As experiencias de filtração foram feitas com velas
l^fcelana (Chamberland U e li) e diatomaceas (Mandler, de 7 lbs. de
ç ' 5 ão, e Berkeíeld N). As Chamberland e Mandler, embora já utilizadas
73
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
74
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
anteriormente, verificámos estarem em boas condições pela esterilidade dos fil-
trados do liquido previamente addicionado de uma cultura microbiana (esta-
phylococco). A Berkefeld usada era nova, sendo sua integridade verificada da
mesma forma. A filtração foi feita sob pressão negativa de 30 a 40 cm. de
Hg.. O virus era constituido por cerebro de cobaia infectada, colhido em occa-
sião propicia (4.° dia da reacção febril), emulsionado rigorosamente em agua
physiologica e caldo glycosado a 1% (pH=8,0) na proporção de 1 gr. do orgam
para 10 e 20 cc. do vehiculo. O sangue virulento foi citratado e diluido antes
da filtração em agua physiologica na proporção de 1 para 2, sendo utilizado em
uma experiencia. Os resultados obtidos podem assim ser resumidos:
Experiência I. - Cobaia 15: inoculada em 21-1-931 com 5 cc. de filtrado,
em vela Chamberland L3, de emulsão, em agua physiologica (1 gr. para 10 cc.),
do cerebro da cobaia 8, infectada. Não apresentou reacção febril e foi reino-
culada, em 25-11-931, com o virus activo (emulsão de cerebro do S. rhesus
IV), não se mostrando immunizada, tendo tido, após 4 dias de incubação,
reacção febril e morrendo durante a noite de 11 para 12-III-931.
Experiencia II. - Cobaia 16: inoculada em 21-1-931 com 5 cc. de filtrado
em vela Chamberland L3, de emulsão, em caldo glycosado (1 gr. em 10 cc.) de
cerebro da cobaia 8, infectada. A cobaia não apresentou qualquer reacção fe-
bril como consequência da inoculação do filtrado, pelo que, em 25-11-931, foi
reinoculada com o virus activo (emulsão de cerebro do V. rhesus IV).
Como consequência, após incubação de 4 dias, teve reacção febril durante 6
dias, resistindo, porém, á infecção e permanecendo em observação durante longo
tempo.
Experiencia III. - Cobaia 36: inoculada em 7-II-931 com 1 cc. do fil-
trado (em vela Mandler de 7 lbs. de pressão) de emulsão, em agua physiologica
(1 gr. em 20 cc.), de cerebro da cobaia 24 (sacrificada no 6.° dia após a ino-
culação, 4.° da reacção, com a temperatura de 40°, 6). O liquido ficou quasi
todo retido, apenas pequena porção passando e com grande difficuldade. A
cobaia não apresentou reacção febril, pelo que foi, em 25-11-931, reinoculada
com o virus activo (emulsão de cerebro do S. rhesus IV), que causou, após
4 dias, uma reacção febril durante 5 dias e morte ás 12 horas de 8-1 II 931.
Experiencia 1\ . - Cobaia 3/: inoculada em 7—1 1—93 1 com 8 cc. de fihrado
(em vela Mandler de 7 lbs. de pressão) de emulsão, em caldo glycosado (1 gr-
em 20 cc.), de cerebro da cobaia 24. A filtração, com este vehiculo, dá-se com
relativa facilidade e em pouco tempo. Esta cobaia também não apresentou
reacção febril, sendo reinoculada em 25-11-931 com o virus (emulsão de cere-
bro do S. rhesus IV), que determinou, após incubação de 4 dias, uma reac-
ção febril característica durante 5 dias e morte na manhã de 8-1 11-931.
74
cm
SciELO
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J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paulo 75
Experiência V - Sangue citratado da cobaia 307, colhido em 24-VII-931, no
6.* dia da inoculação e 3.* da reacção febril (40°,5) foi diluido em agua physio-
logica na proporção de 1 2. Immediatamente foi inoculada a cobaia 312 com
3 cc. da diluição, correspondente h 1 cc. de sangue in natura. Iniciou-se a fil-
tração em vela Berkefeld N, sob pressão negativa de 40 cm. de Hg., processan-
do-se ella com difficuldade. Xo lim de 2 yí horas haviam passado 3 cc. do
liquido, sendo este filtrado (correspondente a 1 cc. do sangue in natura ) ino-
culado no peritoneo da cobaia 313. Na mesma occasião, isto é, decorridas
2 J4 horas após a colheita, outra cobaia, 314, foi inoculada com 3 cc. do res-
tante do liquido que deixara de passar, afim de se assegurar si esse lapso
de tempo não prejudicaria o virus e, portanto, a experiencia. Eis os resulta-
dos obtidos :
Cobaia 312: inoculada em 24-VII-931 com o sangue citratado diluido da co-
ba:a 307, immediatamente após a colheita: reacção febril característica durante
3 dias, após 2 de incubação, e morte ás 12 horas de 30-VII-931.
Cobaia 313: inoculada em 24-VII-931 com o filtrado de sangue citratado di-
vido da cobaia 307 : não apresentou reacção alguma, tendo morrido por outra
causa no fim de alguns dias. Emulsão de seu cerebro foi inoculada na cobaia
316 que, por sua vez, nenhuma reacção apresentou e nem se mostrou immuni-
za da. Este resultado confirma a não infecção da cobaia 313 e que o virus não
havia atravessado a vela.
Cobaia 314: inoculada em 24-VII-931 com sangue citratado diluido da cobaia
307, após 2 y 2 horas da colheita, isto é, com o mesmo lapso de tempo que o fil-
trado também inoculado em outra cobaia: reacção febril característica durante
^ dias, após 3 de incubação, e morte ás 11 horas de l-VIII-931.
Nas experiencias com emulsão de cerebro a actividade do virus nella exis-
tfi nte antes da filtração foi também verificada, como se pode vêr em protocollos
I a assignalados no capitulo II. Pelas experiencias descriptas verifica-se que o
Vlr us existente em emulsão de cerebro, mesmo usando como vehiculo o caldo
Slycosado, e no sangue, nas condições assignaladas, não atravessa as velas Cham-
herland L3 e L5, Mandler de 7 lbs. e Berkefeld N.
2* - Passagem através da conjunctiva ocular intacta e D.M.I. (dose minima
infectante) do virus.
Certos virus atravessam, com relativa facilidade, a conjunctiva ocular e
^stno a própria pelle intacta. Procurámos, por isso, verificar esse facto com
rela Ção ao typho exanthematico de São Paulo, assim como a D. M. I. do virus,
l6l) do obtido os seguintes resultados:
75
1, | SciELO
7G
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
Experiência VI - Passagem através da conjunctiva ocular. Em 25-III-931
collocámos uma grossa gotta de emulsão de cerebro da cobaia 129 (1 gr. do
orgam para 10 cc. de agua physiologica) na conjunctiva ocular da cobaia 140.
A gotta permaneceu durante cerca de 15 minutos sobre o olho do animal, man-
tido em posição e sendo feitos movimentos palpebraes para que a emulsão fi-
casse em contacto com todo o sacco conjunctival ; a gotta, tendo escorrido, foi
renovada uma vez. Como consequência, não se observou qualquer reacção local
e geral da cobaia. Em 22-IV-931 foi, por isto, reinoculada com o virus por
via peritoneal (emulsão de cerebro da cobaia 169) : após incubação de 2 dias,
apresentou reacção febril característica durante 9 dias, morrendo durante a noite
de 3 para 4-V-931. A presença do virus, em dose infectante, nas gottas deposita-
das, demonstrou-se pelas experiencias seguintes referentes á sua D. M. I..
D. M. I. do virus — Varias cobaias são inoculadas por via peritoneal com o
vinis em varias diluições. Al.* considerada a 1 por 10 (sendo de facto menor)
foi preparada, tomando 1 gr. de cerebro da cobaia 129 (sacrificada no 5.° dia da
inoculação e 2.° da reacção febril) para 10 cc. de agua physiologica; a emulsão
foi feita cuidadosamente em gral de porcelana. Desta, foram obtidas as outras
diluições, usando-se, para cada uma. nova pipeta, afim de serem evitadas causas
de erros na diluição do virus. Foi inoculado 1 cc. das diluições do virus a 1
por 10, 1 por 1000, 1 por 10.000 e 1 por 1.000.000.
Experiência VII - Cobaia 135: inoculada em 25-111-931 em emulsão de
cerebro da cobaia 129 (dil. a 1:10), por via peritoneal. Após incubação de 2
dias, apresentou reacção febril característica durante 5 dias, sendo sacrificada e®
l-IV-931 para novas passagens do virus.
Cobaia 141 : também foi inoculada nas mesmas condições, porém por via
subcutânea; após 4 dias, teve reacção febril durante outros 4, sendo também
sacrificada para passagens em 2-IV-931.
Experiência VIII - Cobaia 136: inoculada em 25-III-931 com emulsão de
cerebro da cobaia 129, diluida a 1 por 1000. Após incubação de 5 dias, apre-
sentou reacção febril acima de 40° durante outros 2 e amanheceu morta em
5-IV-931, 10 dias após a inoculação.
Experiência IX - Cobaia 13/ : inoculada em 25—1 11—93 1 com emulsão de
cerebro da cobaia 129, diluida a 1 por 10.000. Após incubação de 6 dias, reac-
ção febril durante 3 dias e morte na noite de 5 para 6-IV-931, isto é, 11 dias
após a inoculação.
Experiência X - Cobaia 13S: inoculada em 25—1 11—93 1 com emulsão di-
luida a 1 por 1 .000.00, do cerebro da cobaia 129. Xão apresentou reacção febrd
pelo que em 22-IV-931 foi reinoculada com o virus activo (emulsão de cerebro
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2
3
5
6
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Z
cm
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
QUADRO V
Resistência do vírus do typho exanthematico de São Paulo
ao deseccamento no vacuo
N.° do
animal
Virus secco
inoculado
Dose,
grs.
Dias de
conser-
vação
Resul-
tado da ■
inocula-
ção
Cobaia 53
(18-11-31)
Cerebro
da cobaia 2
0,105
29
nega- |
tivo
Cobaia 54
(18-11-31)
Sangue da
cobaia 19
0,120
18
nega-
tivo
Cobaia 55
(18-11-31)
Sangue do
rhesus I
0,380
7
Amanhe-
ceu mor-
ta em
20-11-31
Cobaia 56
(19-11-31)
Cerebro do
rhesus II
0.400
i
negativo,
por não
apresen-
tar reac-
ção fe-
bril
Cobaia 62
(21-11-31)
Sangue do
rhesus I
0,120
1
10
nega-
tivo
Cobaia 73
(24-11-31)
Cerebro do
rhesus II
0,400
6
nega-
tivo
Observações
Em 20-1 11-31 foi reinoculada
com o vinis activo (emul.
cer. cob. 113), tendo tido
reacção febril característica
após 3 dias de incubação.
Em 20-III-31 foi reinoculada
com o vinis activo (emul
cer. cob. 113). tendo tido in-
fecção característica, febre
por 6 dias, após 3 de incu-
bação e morte.
A causa da morte foi perito-
nite, verificada na necro-
psia, não sendo este resulta-
do tomado em consideração-
Em 20-III-31 foi reinoculada
com o virus activo (emul
cer. cob. 113). Não apresen-
tou reacção febril durante
longa observação, mostran-
do-se, pois, immunizada.
Em 20-III-31 foi reinoculada
com o virus activo (er°t*-
cer. cob. 113), tendo inf eC '
ção característica após
dias de incubação.
Em 25-III-31 foi reinocul
.lada
iuL
com o virus activo ( enl
cer. cob. 129), tendo re^Ç
ção febril característica aP® 5
4 dias de incubação.
78
J. Lemos Monteiro — Typho exanthemalico de S. Paulo
79
O virus dos animaes, utilizado no dcseccamento, mostrou-se activo ao ser
inoculado fresco, isto é, após a colheita e nas condições que já assignalámos
anteriormente.
Verifica-se pelo quadro acima que o virus do typho exanthematico de São
Paulo, quando no sangue ou cerebro de animaes infectados, depois de secco no
vacuo, sob acido sulfurico. não resiste a uma conservação em condições favo-
ráveis (abaixo de 0°C) por prazo superior a 24 horas. Neste prazo, 24 horas,
° virus secco não provocou reacção febril, porém, a immunidade do animal, ve-
rificada 30 dias depois, em relação a nova inoculação do virus activo, poden-
do-se, portanto, acreditar que tenha apenas provocado uma infecção benigna.
Já em 6 dias de conservação, não só não provoca reacção alguma da cobaia,
como esta não se mostra mais immur.izada em relação á segunda inoculação do
'orus activo. E’ preciso notar que as doses do virus secco inoculado (em 2
e xperiencias de quasi y 2 gramma) foram badante elevadas si se tiver em mente
a dose infectante, principalmente de cerebro fresco, como já mostrámos.
b) Resistência do virus na glyccrina pura e na glycerina a 50%. - Em
u ma nova serie de experiencias procurámos verificar a resistência do virus na
Slycerina pura e na glycerina a 50 %, em condições favoráveis de temperatura
(5°C), meios que, como se sabe, são empregados para a conservação de diver-
503 virus. A glycerina utilizada foi a mesma usada no serviço de vaccina ani-
m al do Instituto (embora sua reacção tenha se mostrado acida em verificação
,e 'ta posteriormente), distribuida em tubos, pura, ou diluida a 50 % com agua
destillada. Introduzido o virus (pedaços de cerebro de animaes infectados, sa-
cr ificados em occasião propicia) eram os tubos lacrados e conservados no frigo,
^corridos vários períodos de tempo, pequena porção era retirada, lavada, emul-
s 'onada em agua physiologica e inoculada em cobaias para verificação da
ac tividade.
Os resultados são resumidos no quadro VI, que segue.
79
cm
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LO 11 12 13 14 15 16
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
QUADRO VI
Resistência do virus em glycerina dilui Ja a 50 %
N.* do
animal
e data
Virus
empregado
Dias de
conser-
vação
Resultado da
inoculação
Observações
Cobaia 76
(24-11-31)
Cerebro do
rhesus II
7
Reacção febril ca-
racterística duran-
te 5 dias. após uma
incubação de 7 c
morte ás 13 hs. de
9-III-31.
Cobaia 77
(24-2-31)
Cerebro do
rhesus I
12
Reacção febril,
após incubação
de 5 dias. Resis-
tiu á infecção.
Em 25-III-31 foi reinoculada
com o virus activo (emul.
cer. cob. 129), não apresen-
tando reacção febril e raos-
trando-se, pois, immunizada-
Cobaia 78
(24-11-31)
Cerebro da
cobaia 19
24
negativo
Em 25- II 1-31 foi reinoculada
com o virus (emul cer.
cob. 129). Apresentou reac-
çâo febril característica após
4 dias de incubação, tendo
tido inflammação escrotal.
com placas hcmorrhagicas
nos últimos dias.
Cobaia 79
(24-11-31)
Cerebro da
cobaia 8
34
negativo
Em 25-III-31 foi reinoculada
com o virus (emul. cer.
cob. 129). tendo tido infec-
ção característica após 4 dias
de incubação. Também apre-
sentou reacção escrotal com
placas hcmorrhagicas nos úl-
timos dias.
Resistência na glycerina pura
Cobaia 75
Cerebro do
7
negativo
Em 25-1 11-31 foi reinoculada
(24-11-31)
rhesus II
com o virus (emul. cer.
cob. 129). Apresentou rcac-
ção febril característica, após
incubação dc 4 dias.
80
cm
SciELO
11 12 13 14 15 16 17
J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paulo
81
Verifica-se assim que o virus, quando no cerebro, conserva sua vitalidade
cm glycerina diluida a 50 % e em condições favoráveis de temperatura, durante
12 dias. Neste prazo talvez esteja já um pouco attenuado, provocando a in-
fecção com incubação maior do que commummente. Em 7 dias, neste meio,
5Ua actividade é igual á do orgam fresco e em 24 dias se mostrou avirulento,
não provocando nem a immunidade do animal.
Na glycerina pura sua resistência é menor, pois que em 7 dias se mostrou
avirulento (o mesmo virus que, neste prazo e em glycerina a 50 %, se compor-
tou como virus fresco), não provocando siquer a immunidade da cobaia. Neste
nieio não foi verificada a resistência após menor prazo. E’ possivel que me-
lhores condições de reacção favoreçam a sobrevivência do virus neste meio. Em
todo caso estes resultados são sufficientes para mostrar que. com relação á sua
conservação em glycerina pura ou diluida, o virus do typho de São Paulo não se
comporta ccmo os verdadeiros virus chamados filtráveis.
c) Resistência do virus á congelação. - Finalmente, para terminar o es-
tudo de algumas das propriedades do virus do nosso typho e que deverá ser
completado pelo de muitas outras, procurámos verificar o seu comportamento
com relação á congelação do orgam virulento.
Para esse fim, pedaços de cerebro de cobaia infectada eram collocados em
Pequenos tubos que eram simplesmente arrolhados, lacrados e conservados em
congelação (-5° a -10°C). Decorndo certo numero de dias, uma pequena porção
er a retirada, emulsionada em agua physiologica e immediatamcntc inoculada cm
Uf na cobaia normal.
Os resultados até agora observados são resumidos no quadro VII, se-
guinte:
81
82
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
QUADRO VH
Resistência do virus em congelação
N* do
animal
Viras em
congelação
e data
Dias de
conser-
vação
Resultado da inoculação
Observações
Cobaia 219
(14- V-31)
Cerebro
cob. 201
(12-V-31)
2
Reacção febril caracteristica
durante 4 dias, após incubação
de 4 dias c morte durante a
noite de 23 para 24-V-931.
Cobaia 220
(14-V-31)
Cerebro
cob. 19
(6-V-31)
8
Reacção febril caracteristica
durante 4 dias após 3 de in-
cubação e morte na noite de
21 para 22-V-931.
Cobaia 221
(14-V-31)
Cerebro 15
cob. 182
(29-1 V-31)
Reacção febril caracteristica
durante 3 dias após 3 de in-
cubação e morte pela manhã
de 22-V-31.
Cobaia 222
(14-V-31 ,
Cerebro
cob. 112
(18-1 V-31)
26
Reacção febril typica durante
7 dias. após 3 de inctiação e
morte na noite de 25 para
26-V-931.
Cobaia 223
(14- V-31)
Cerebro
cob. 141
(2-1 V-31)
Reacção febril caracteristica
durante 5 dias. após 4 de in-
cubação e morte na noite de
23 para 24-V-931.
Cobaia 261
(22- VI -31)
Cerebro
cob. 135
(l-IV-31)
82
Não apresentou reacção cara-
cterística. mostrando- se nega-
tivo o resultado da inoculação.
Foi reinoculada
com o virus acti-
vo (cm. cer. cob.
275), cm 14-VII-31:
após 2 dias de in-
cubação. apresen-
tou reacção carac-
teristica durante 4
dias e morreu na
manhã de 23-VII-31J
82
J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paulo 83
r. *-•'
Verifica-se por estes resultados que o vinis do typho exanthematico de
São Paulo no orgam (cerebro) em congelação manteve sua vitalidade e viru-
lência durante um período de tempo superior a 42 dias e inferior, numa expe-
nencia, a 82 dias. O prazo exacto precisa ser ainda verificado por maior por-
centagem de cerebros infectantes, o que presentemente está sendo feito (*).
Esta verificação é de interesse pratico, pois facilita e toma mais economica
a conservação do viras no laboratorio e mostra um meio pelo qual poderá elle
* er transportado, em viagens mesmo longas, sem perda da sua virulência.
- Discussão e resumo.
Embora considerado como pertencente ao grupo de infecções causadas
Pdos chamados “viras filtráveis”, o typho em suas varias modalidades apre-
sta certas particularidades pelas quaes se evidenciam differenças que auctori-
* a m sua inclusão em um grupo á parte. Em primeiro logar se col locam suas
r dações, de causa e ef feito, com as rickettsias, embora ainda não tenha sido
^•ta a ultima palavra sobre estes elementos, sua biologia, evolução, etc.; em
Sç guida, certas propriedades do “viras” do typho não correspondem perfeita-
m cnte ás dos viras verdadeiros. Procurámos estudar, em relação ao “viras”
'1° typho exanthematico de São Paulo, algumas destas propriedades, entre as
l^aes a sua filtrabilidade, passagem através das mucosas e D. M. I., resisten-
C!a ao deseccamento, á acção da glycerina pura ou diluida e resistência á
^ngelação.
Em relação á filtrabilidade, verificámos que o viras, quando no orgam (cc-
r ebro) virulento, diluido em agua physiologica ou em caldo glycosado, meio
1 Ue favorece a filtrabilidade do viras vacei nico, segundo verificámos juntamen-
ie «>m R. Godinho (29), assim como no sangue virulento diluido, não atra-
Vt5 sa as velas Chamberland L3 e L5 e as velas diatomaceas Mandler, de 7 Ibs.
e Bcrkefeld N.
Estes resultados concordam com os de muitos auetores, como Ricketts e
^ilder (30), Olitsky (31), Zinsser e Batchcldcr (32) e mostram que o agente
typho não pode ser considerado filtravcl, como, cm idênticas condições, acon-
iece » por exemplo, com o viras do herpes e o da vaccina, segundo verificaram
01 dois últimos auetores. Alguns resultados duvidosos de filtração assignala-
< ^ 0s Por Nicolle, Conor c Conscil (33) e alguns positivos de Xicollc e Labailly
fazem pensar que o agente seja menor do que as bactérias communs ou
tÇnha phases cm que o é, podendo ás vezes atravessar certos filtros, mas que
a ° maiores do que os verdadeiros viras filtráveis. Isto se justifica pelo que já
** conhece sobre o pleomorphinno, tamanho e outras particularidades das
^cmsias.
e ^f*) Em experiências posteriores, verificámos que o vinis se mantem virulento, nas
^*t'ÇÕes assignaladas (em congelação, em frio sccco) no fim de quasi 1 anno. quando ain-
Pfovocou. numa experiência, reacçáo ligeira, após incubação mais longa.
83
84
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
Outro facto que se observa geralmente com os virus é sua passagem atra-
vés da mucosa ocular intacta, o que, em uma experiencia, não conseguimos com
o virus do nosso typho, apesar de que sua concentração no material depositado
na mucosa ocular era sufficiente para provocar, por outra via, a infecção. Isto
se evidenciou pela determinação da D. M. I. (dose minima infectante) que cor-
respondeu a uma diluição superior a 1/10.000 e inferior a 1/1 .000.000 da emul-
são cerebral. Sparrow e Lombroso (35) conseguiram, em algumas experiên-
cias, infectar cobaias com o virus do typho clássico através da mucosa nasai.
principalmente repetindo as applicações, e obtiveram resultados inconstantes c
duvidosos por ria conjunctival, sendo que nos casos considerados positivos a in-
fecção era attenuada. com longa incubação e fraca elevação tbermica e não
seguida sempre de immunidade do animal.
Em relação a outra propriedade que estudámos, a resistência ao doecca-
rnento, é um facto geralmente verificado com os virus verdadeiros e, nestes
últimos annos, ficou bem estabelecido para o da febre amarella que, dest»
forma, no vacuo e em baixa temperatura, se conserva por longo tempo, e era
já conhecida em relação ao virus vaccrnico, ao da encephalomyelite enzootk*
(doença de Borna). etc.. O ultimo, segundo verificação de Xicolau e collabo-
radores (36) se conserva em estado secco, mesmo com temperatura de 16* í
20“C e não ao abrigo da luz, pelo menos durante 373 dias.
A nossa verificação neste sentido, em relação ao virus do typho de Sá-'
Paulo, apresenta certa importância epidemiologica, pois, não resistindo elle p° r
alguns dias ao deseccamento, quando, por exemplo, se acha nas fezes de hem< v
sugadores (piolhos, percevejos, carrapatos, etc.), a sua transmissão por e>*
meio através da pelle sã ou com erosões não é provável que se dê, ao contrari»’
do que já foi verificado experimentalmente em relação ao virus amarillico quan-
do nas fezes de Aid cs acgypti (37) e Cimcx lectularhis (38) infectados, a n»* 1
ser que na sua phasc de rickettsia, encontrada no transmissor habitual, sua
sistencia ao deseccamento seja maior.
A outra propriedade estudada que possuem os virus quando, especialmetii*i
em condições favoráveis de temperatura, foi a resistência á glyccrina pura
diluida a 50 % Estes meios são utilizados para a conservação de certos viru>
A este respeito verificámos que o virus do typho exanthematico de São Paul''-
quando no cerebro infectante e em condições favoráveis de temperatura (5*6 1
não resiste durante 7 dias na glycerina pura e que na glyccrina diluida a 5CK* I
bom agua destinada conserva sua virulência durante 12 dias (reacção febril c r
ractcristica ai>ós incubação um pouco mais longa, de 5 dia', e immunidade
animal), estando destruido cm 24 dias e, muito provavelmente, antes deste pra** I
verificado. Esta verificação deve em todo caso, ser repetida com glycerina c: ' \
melhores condições de reacção.
Finalmente, em relação 4 soa vitalidade no organi (cerebro) nwntido c* 1 I
cm
SciELO
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84
J. Lemos Monteiro — Tgpho exanthematico de S. Pauto
85
congelação, verificámos que o viras do typho de São Paulo reriste durante um
prazo de cerca de 1 anno, r.egundo verificação posterior ás experiencias citadas.
Este facto apresenta interesse pratico, pois a congelação do cerebro in-
fectante (simplesmente collocado num frasco ou tubo arrolhado e em tem-
peratura de -5 o a -10" C) torna mais economica a conservação do viras no
iaboratorio, dispensando as passagens successivas em animaes, e indica um meio
pelo qual poderá ser transportado a grandes distancias, sem perda da sua vi-
rulência.
São estas algumas características do viras do typho exanthematico de São
Paulo, devendo ser continuado o estudo de outras das suas propriedades (*).
5. - Conclusões.
I. O viras do typho exanthematico de São Paulo, quando no sangue ci-
tratado ou no cerebro emulsionado em agua physiologica ou caldo glycosado,
nas condições experimentaes assignaladas neste trabalho, não passa através das
velas Chamberland L3 e L5, Mandlcr de 7 lbs. c Berkefeld X.
II. Xão conseguimos mfectar a cobaia pela deposição do viras (emulsão
de cerebro) na mucosa ocular intacta, embora no material depositado sua con-
centração fosse sufficiente para provocar, por outra via. a infecção.
III. A D. M. I. (doso mínima iníectante) do virus correspondeu a uma
diluição superior a 1 por 10.000 e inferior a 1 por 1 .000.000 da emulsão
cerebral.
IV. Quando secco no vacuo, sob acido sulfurico c conservado tamlicm
no vacuo e em tcmjieratura inferior a 0"C, o virus (sangue ou cerebro)
perde sua vitalidade cm prazo pouco superior a 24 horas, quando apenas pro-
vocou infecção benigna c immunidadc do animal ; cm 6 dias já sc achava des-
truído, não provocando siquer immunidadc.
V. Em glycerina diluída a 50% c em temperatura de 5®C o virus (no
cerebro) apresenta vitalidade e virulência no 12.° dia c não no 24.® dia.
VI. Xas mesmas condições, porém cm glycerina pura, já havia perdido
$ua actividade em 7 dias.
VII. Quando no orgam (cerebro) congelado, o virus do typho cxanthc-
niatico de São Paulo conserva sua vitalidade e virulência por cerca de 1 anno.
(•) Com a collaboração do distincto collcga D. von Klobusitzky. tivemos opportu-
tndade de realizar também algumas experiencias de cataphorcsc com o virus do nosso typho.
Estes resultados serão dcscripto» cm outro trabalho. Diremos apenas que cm soluto
tampão neutro ( pH =6,967) e após 1 horas de corrente o virus passa para o polo
Uegatrvo. sendo, portanto, de carga eléctrica positiva. As experiências com emulsão do
virus cm tampões ácidos c alcalinos e consequente mar dia do virus vara o cathodo e
anodo serão descriptas com pormenor no trahalho assignalado
85
86
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
VIII. A congelação do cerebro virulento é, em virtude da conclusão aci-
ma, um meio favoravel para o transporte do virus e, sob o ponto de vista pra-
tico, torna mais economica sua conservação no laboratorio, por trazer uma re-
ducção do numero de animaes necessários para sua manutenção por passagens
successivas.
Capitulo VI
Febres exanthematicas
Estudos comparativos, em relação á cobaia, de amostras do virus
do typho clássico do velho mundo, typho endemico da America do
Norte e typho exanthematico de São Paulo
O conceito sobre a diversidade da infecção exanthematica no velho e no
novo mundo sofíreu ultimamente certas modificações, sendo a primeira consi-
derada como a forma epidemlca, transmitrida pelo piolho e tendo o homem
como depositário do virus e a segunda como a forma endemica. transmittida
pela pulga e tendo como depositário do virus na natureza o rato.
O proprio Mooser (39) modificou alguns dos seus pontos de vista ante-
riormente emittidos e pensa que o virus responsável pelo typho exanthema-
tico clássico tem também uma origem murina e que sua passagem prolongada
pela pulga e sobretudo pela pulga transferida de rato a rato faz com que adqui-
ra as propriedades do virus americano, isto é, da forma endemica. Por outro
lado, o virus responsável por esta forma (virus americano) augmenta sua vi-
rulência pela passagem prolongada pelo piolho-homem, dando a forma epidê-
mica com as características do virus do typho do velho mundo.
Esta supposição, que Mooser pensa ter verificado cxpcrimcntalmente, pa-
receria encontrar confirmação nos resultados obtidos por diversos auetores no
velho continente, em virtude do isolamento, em pulgas e ratos de certos lugares
(Athenas, Pircu, Toulon c mesmo Paris), de amostras de virus com os cara-
cteres experimentaes do typho endemico ou americano (Lcpinc, Mercandicr e
Pirot, Caminopctros e Pangalos, Brumpt).
Apczar destas possibilidades, achamos que se deve manter a diversidade
das duas variedades, tanto sob o ponto de vista scientiíico, por apresentarem
differenças clinicas, experimentaes e cpidcmiologicas, como sob o ponto de vis-
ta pratico para o estabelecimento das medidas de prophylaxia adequadas a cada
uma. Este modo de pensar ainda se justifica pelo que se sabe hoje sobre
as mutações e variações microbianas em geral. No caso do typho exanthema-
tico, a passagem prolongada por novo transmissor e depositário daria á rickettsia
responsável novas propriedades, modificando-lhe a biologia e individualizando,
assim, a forma resultante, causadora da nova forma da infecção.
86
J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paulo
87
São numerosos na microbiologia os exemplos desta natureza e mesmo en-
tre os vírus verdadeiros é conhecida a mudança da biologia e propriedades do
virus variolico pela passagem em especies animaes diversas, dando entre outros
o virus vaccinico. Ambos apresentam atfinidades, demonstradas pelas provas
d* immunidade cruzada e de reversão, pela passagem prolongada do virus va-
riolico em vitellos. Sob o ponto de vista scientifico c pratico, porém, a diver-
sidade de ambos está estabelecida enquanto a própria identidade ainda não é
ac ceita por todos os experimentadores.
Os conhecimentos das relações vario! o- vacei na poderão scr applicados aos
das do typho exanthematico do velho mundo (epidemico) e do typho améri-
co (endemico).
O typho endemico, igualmente verificado em outras regiões além da Ame-
rica, ainda se distinguiria do typho murino (enzootieo nos ratos) e que póde
também, pelas pulgas, transmittido ao homem, provocando uma infecção
Wgna (doença de Brill, typho náutico, febre marsclhesa).
Ao lado deste primeiro grupo, que tem por typo o typho epidemico, clás-
sico. do velho mundo, temos o segundo, cuja infecção typo é a febre ma-
culosa das Montanhas Rochosas e onde se encontram a febre botonosa, o typho
d« S. Paulo, a tick-bite-fever, etc.; e finalmentc, consideramos um terceiro gru-
P®. cuja infecção typo é a “tsutsugamushi” e cujos transmissores são larvas de
rertos trombidiideos.
Este ponto de vista é o que adoptamos no momento, por considerarmos
Çuc melhor corresponde aos resultados de estudos feitos ultimamente em dif-
erentes países.
Como complemento da primeira parte deste trabalho sobre o typho exan-
thenatico de São Paulo, resumiremos, no quadro seguinte, uma serie de ca-
^cteres que apresenta, rclarivamentc á cobaia, o respectivo virus, compara ti va-
^ente com amostras de virus do typho exanthematico clássico europeu (amos-
tras Wolbach e Breil) e do typho endemico da America do Norte (amostras
^fooser e Maxcy).
Os dados referentes aos dois últimos foram retirados dc trabalhos de di-
v crsos auetores que se têm occupado do assumpto c os relativos ao typho
de São Paulo, dos nossos estudos pessoaes assignalados no presente trabalho.
Além destas differenças quanto ao comportamento experimental na co-
baia, outras existem rclativamcntc á histologia pathologica c epidemiologia destas
diversas formas. Quanto a este ultimo aspecto, pode-se considerar como esta-
belecido que o typho do velho mundo, epidemico, c transmittido pelo piolho;
0 typho americano, endemico. pela pulga c o typho de São Paulo, muito pro-
vaveln v-nt r pelo carrapato Amblyomma cajcnncnsc, segundo nossos estudos cx-
P^rimentaes (-10) e certas observações clinicas e epidcmiologicas de J. T. Piza.
Eis o quadro relativo ao comportamento na cobaia (Quadro VIII):
87
cm
ISciELO
D 11 12 13 14 15 16
90
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
RESUMO E CONCLUSÕES DA 1.» PARTE
Al.* parte deste trahalho, que reune os resultados que obtivemos até ago**|
com o estudo experimental do typho exanthematico de São Paulo, está dividio#|
em 5 capítulos, abrangendo cada um determinada serie de pesquisas.
Xo capitulo I, como introducção, fizemos considerações geraes sobre
diversas modalidades da infecção do grupo do “typhus” ou das chamadas "tí"l
bres exanthematicas”, principalmente as encontradas no continente american®!
Mostrámos as formas encontrados no hemispherio norte, onde têm sio®!
bastante estudadas (typho clássico, typho endemico da America do Xorte. ta-' 3 '!
bem denominado typho mexicano ou tobardillo, e febre maculosa das Monta - 1
nhas Rochosas) e os principaes característicos que as distinguem entre si. Cc®|
relação ao liemispherio sul, fizemos considerações sobre as formas do typ^l
endemico já assigraladas principalmente no norte da Argentina, Chile e Pe^l
mostrando as suas possíveis relações com o typho endemico da America d I
X'orte, assim como com as varias outras formas do typho já estudadas **[
outras partes do mundo, especialmente sob o ponto de vista de suas relaçó^l
sorologicas.
Assignalámos, finalmente, a nova modalidade que appareceu em S. Pa^l
e cujos primeiros casos foram diagnosticados em 1929. Trata-se de uma ' r
fecção provavelmente autochtona, distinguindo-se do typho clássico pelo seu * } T
pecto clinico, epidemiologico e pelo comportamento experimental do virus CSM
sador. Julgamos de grande importância proceder-se ao estudo das suas ** I
lações com as formas do typho endemico já conhecidas nas Américas
Xorte c do Sul e da sua possivel existência em outras regiões do nosso **n
ritorio c em outros paises do continente americano, bem como verificar
se trata, como parece, de uma modalidade mórbida nova ou, então, si I
ser identificada com alguma forma do typho endemico já descripta, ou
a infecção -estudada nos Estados Unidos por Badger, Dyer e Rumrcich e
estes auctores consideram muito aí fim e, conforme verificaram ultimam £*^1
idêntica á febre maculosa das Montanhas Rochosas, embora o no^so tyf*|
apresente certos caracteres diífercnciaes.
Os casos confirmados e registados em São Paulo desde 1929 até ag°fl
de 1931 foram cm numero de 44, com uma mortalidade de 77,2 %, sendo
provável que esse numero seja na realidade muito maior e que, mesmo afl *|
daquella cpoca, o mal existisse, embora não diagnosticado conven: I
Quanto ao possivel transmissor intermediário da infecção, mostrámos q^ e I
poderia acreditar no papel de certos acarianos que, alem dos piolhos,
sendo estudados no Instituto, e em ourros possíveis vectores, entre os
90
cm
SciELO 1
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J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paulo 91
certos Ixodideos, Cimicideos e Pulicideos, assim como na possibilidade da exis-
tência de depositários do viras entre os roedores silvestres (ratos e preás). Em
outros trabalhos referentes a estes assumptos ficou experimentalmente eviden-
ciado que o carrapato, principalmente o Amblyomma cajenncnsc, pode ser res-
ponsabilizado como transmissor da infecção.
A zona de expansão e o aspecto epidemiologico do mal, assim como seu
Aspecto clinico com a elevada mortalidade, dão ao typho exanthematico de
São Paulo um caracter proprio que o distingue do typho clássico, caracter este
lue mais se accentúa com o estudo do comportamento experimental do viras.
O capitulo II refere-se ao comportamento experimental do virus em rela-
to aos pequenos animaes de laboratorio (cobaia, coelho, rato. etc.).
Em relação á cobaia, que é o animal de escolha para estudos experimentaes,
0 virus do typho de São Paulo mostra-se bastante pathogeno, provocando a
nior te de cerca de 70$c dos exemplares inoculados, os quaes apresentam, após
^ certo periodo de incubação, em media de 3 a 4 dias, uma rcacção febril
^racteristica que dura de 4 a 8 dias. As cobaias machos inoculadas no peri-
toneo com o virus, apresentam, em proporção de cerca de 20 a 25 $c, uma reaç-
ão inflammatoria escrotal, podendo-se obsersar phenomenos hemorrhagicos (pe-
techias e placas hemorrhagicas) nas reacções mais intensas. Estes phenomenos
hemorrhagicos, dando uma coloração arroxeada ao tegumento, são observados
n, uitas vezes também em certas partes glabras (patas principalmente), no ulti-
010 periodo da infecção e são, então, muito evidentes logo após a morte.
Os coelhos apresentam reacção febril durante vários dias, após curta in-
chação, não sendo nelles, geralmentc, a infecção mortal.
Nos ratos, verifica-se geralmentc uma infecção inapparente.
Considerando, embora, o typho exanthematico de São Paulo uma moda-
hdade do grupo do “typhus”. mostrámos c discutimos suas possiveis relações
Cotr > outras modalidades de infecções do mesmo grupo, principalmcnte com o
typho endêmico do norte (typho mexicano e do sul dos Estados Unidos) e a
khrc maculosa das Montanhas Rochosas.
O capitulo III refere-se ao comportamento experimental do virus cm rc-
^ão a certos simios, para os quaes se mostra bastante pathogcnico.
Estudámos este comportamento em relação a simios pertencentes a 3 gc-
aer °á ( Silcnus , Cebus e Alauatti). Quanto aos dois últimos, embora ficasse
ev >dcnte a sua sensibilidade, somente a inoculação de maior numero de exem-
Pkfcs permittirá juizo seguro. Os Silcnus rhesus, apenas com uma cxccpção
devida provavelmente a unta infecção inapparente), succumbiram á inoculação
< ‘° virus. Como consequência desta, observa-se, decorridos 2 a 4 dias de in-
^Ção, um periodo de rcacção febril característica, de 4 dias geralmentc, dan-
então o collapso e a morte do animal. A’s vezes a infecção apresenta
91
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
um caracter mais grave, verificando-se em certas partes do corpo phenomenos
hemorrhagicos mais evidentes no ultimo dia e após a morte (partes glabras, fa-
ce, escroto, etc ).
O capitulo IV mostra os resultados do comportamento experimental do
vinis como consequência da sua inoculação na camara anterior do olho dos
animaes (cobaia, coelho e Silenus rhesus). Verificámos a este respeito que de-
termina uma reacção ocular característica e reacção geral, febril, semelhante á
provocada por sua inoculação por via peritoneal; estas reacções são especifica»
da infecção pelo vinis, em virtude dos resultados das passagens obtidos pela
inoculação de sangue ou emulsão de cerebro das cobaias infectadas por via
ocular e da immunidade dos animaes que resistiam á reinoculação do mesmo
virus pelas outras vias, virus que póde ser transmittido em serie por via
ocular, utilizando-se para a inoculação o humor aquoso de um animal anterior-
mente injectado por essa via.
O capitulo V mostra os resultados dos nossos estudos sobre algumas das
propriedades do virus, entre as quaes sua filtrabilidade. passagem através da
mucosa ocular e dose minima infectaníe, resistência ao deseccamento, á acção
da glycerina e em congelação.
Os resultados obtidos foram commentados no texto e podem ser resumi-
do» nas seguintes conclusões:
O virus do typho exanthemarico de São Paulo, quando no cangue citratado
ou no cerebro emulsionado em agua physiologica ou cm caldo glycosado, nas con-
dições experimentaes assignaladas neste trabalho, não passa através das vela»
Chamberland L3 c L5, Mandler de 7 lbs. e Berkeíeld X ;
não conseguimos infectar a cobaia pela deposição do virus (emulsão dc
cerebro) na mucosa ocular intacta, embora no material depositado sua concen-
tração fosse sufficiente para provocar, por outra via, a infecção;
a D. M. I. (dose minima infectante) do vinis correspondeu a uma diluiç* 0
superior a 1 por 10.000 c inferior a 1 por 1.000.000 da emulsão cerebral;
quando secco no vacuo, sobre acido sulfurico c conservado também no vacti 1
e cm temperatura inferior a 0“C, o virus (sangue ou cerebro) jierde sua vital»'
dade cm prazo pouco superior a 2-1 horas, quando apenas provocou infecção be-
nigna c immur.idade do animal ; em 6 dias já se achara destruído, não provo-
cando siquer immunidade;
em glycerina diluida a 50% c em temperatura de 5“C o virus (no cerebro)
apresenta vitalidade e virulência no 12.® dia e não no 24.® dia:
nas mesmas condições, porém em glycerina pura, já havia perdido »ua ati-
vidade cm 7 dias;
quando no orgam (cerebro) congelado, o virus do typho de São Paulo cot»
set va sua vitalidade e virulência por cerca de 1 anuo;
92
cm
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J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paulo
93
a congelação do cerebro virulento é, em virtude da conclusão acima, um
o favoravel para o transporte do virus e, sob o ponto de vista pratico, toma
5 economica sua conservação no laboratorio, por trazer uma reducção do nu-
o de animaes necessários para sua manutenção por passagens successivas.
Finalmente, no capitulo VI, resumimos, num quadro, o estudo comparativo,
rivamente á cobaia, de amostras dos virus do typho exanthematico clássico
'opeu (amostras Wolbach e Breil), typho endemico da America do Xorte
' imo>tra Mooser e Maxcy) e do typho exanthematico de São Paulo, no qual
poderá vêr rapidamente uma serie de caracteres differenciaes entre elles.
^'gnalámos também o conceito que adoptamos relativamente ás “febres exan-
ticas”, que são separadas em 3 grandes grupos, aos quaes filiamos cer-
formas, bem estudadas, dessas infecções.
O estudo das propriedades do virus do typho de São Paulo deve ser conti-
% assim como estudados novos aspectos resultantes da infecção cxpcri-
93
614 . 526 : 611.47
ESTUDOS
SOBRE O TYPHO EXANTHEMATICO DE SÃO PAULO
2* PARTE
A
Rickettsia brasiliensis e suas relações com a infecção
Capitulo VII
Introducção: Rickettsioses e seu conceito pluralista. A rickettsia
do typho exanthematico de São Paulo
O grupo de infecções representado pelas chamadas "febres typho-exanthe-
maticas” ou “typhus” merece, no estado actual dos nossos conhecimentos, ser
desligado do das infecções causadas pelos verdadeiros virus, para constituir um
grupo autonomo. Isto se justifica pelo facto de o virus do “typhus” (de um
modo geral), quando no sangue ou nes organs (cercbro) dos doentes ou animacs
infectados, não apresentar, como vimos, todos os caracteres csscnciaes dos ver-
dadeiros virus filtráveis, dos quaes sem duvida dif ferem em muitos pontos os
microorganismos do genero Rickettsia, cujas relações ctiologicas com varias in-
fecções daquelle grupo são geralmcntc admittidas hoje em dia. Portanto, não
s e trataria, naquelle caso, de “virus”, porém da existência, no meio circulante
e nos organs, do agente infectuoso sob uma forma, talvez granular, como alguns
Creditam, e que representaria una phasc da evolução das rickcttsias, facilmente
'isiveis c encontradas em outras condições.
Por outro lado, o facto de oão ter sido possivel cultivarem-se artificial-
mente as rickettsias de um modo pratico, a não ser em meio de tecidos (*), o
(•) Oj trabalhos relativos á multiplicação das rickcttsias em culturas de tecidos, prin-
^Palirente os realiiados ultimamente, tem fornecido elementos valiosos, assim ao melhor
c °nhecimcnto da biologia, como da diffcrcnciaçáo das varias especies. Dentre esses tra-
o:,
96
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
que não permitte, por enquanto, sua utilização, segundo os processos bacterioló-
gicos communs, para o estudo da biologia, acção sobre hydrocarbonatos, etc., vem
diííicultando a differenciação biologica destes microorganismos e sua classifi-
cação de accordo ccm a nomenclatura bacteriológica.
Enquanto isto não acontece, sua distincção systematica sómente poderá ser
tentada pelo estudo do comportamento em relação aos animaes sensíveis, a syn-
drome clinica que determinam no homem, os meios de sim transmissão e conser-
vação na natureza ou, melhor, pelo estudo epidemioiogico das formas de in-
fecção pelas quaes são responsáveis.
Baseado nestes elementos, é já possível fazer-se uma distincção entre as
rickettsias responsáveis pdas varias infecções do grupo do “typhus”, embora
certas modalidades clinicas apresentem relações immunologicas e alguns cara-
cteres communs, que indicam a mesma origem primitiva. E’ o que acontece
com o typho exanthematico clássico, do velho mundo, e o typho endemico na
America do Xorte (México e Estados Unidos), para os quaes a dualidade foi já
admittida por alguns e parece justificar-se pelo que se conhece dos estudos
clássicos sobre o typho do velho mundo e pelos dos auctores que trabalham na
America do Xorte (Mooser, Maxcy, Zinsser, Castaneda, etc.), sobre o typho
endemico no continente septentrional, no que diz respei.o principalmente ao com-
portamento experimental dos virus, localização e frequência das rickettsias c
epidemiologia das infecções.
Julgamos que, mesmo assim, o conceito dualista em relação ás infecções
do grupo do “typhus” é ainda restricto. A este grupo pertencem, sem duvida,
outras infecções que se devem distinguir, pelos elementos assignalados e por
outros, das duas modalidades mencionadas. E’ o que acontece com a febre
maculosa das Montanhas Rochosas, com a febre marselhesa, com a febre bo-
ba lHo.< devemos assignalar aperras os publicados mais recentemente por Pinkerton e Hass
(J. Exp Med. LIV (3): 307. 1931; LVI (1): 131. 1932; LVI (1): 145. 1932 et
LVI (1): 151. 1932) e de Xigg e Landsteiner (J. Exp Med. LV (4): 563. 1932).
A localização das rickettsias nas cellulas mesotheliaes dos animaes e a que se veri-
fica nas cellulas dos tecidos cm cultura ín i-itro mostram certas di ff crenças segundo o
grupo de infecções que occasionam. Assim as rickettsias do typho epdemico (.Rickettsia
frouvzeki) e a do typho endemico (corpúsculos de Mooser ou Rickettsia mooscri) so-
mente se localizam, tanto nas culturas de tecidos, quanto nas cellulas mesotheliaes in rfrJ.
no cytoplasma cellular; a rickettsia da febre maculosa das Montanhas Rochosas ( Riekettsi »
riekettsi ) c a de certas infecções affins (febre maculosa, typho leste, de Minnesota), na*
culturas de tecidos, embora encontradas também no cytoplasma. tem uma apparentc pre-
dilecção pelos núcleos das cellulas (Pinkerton e Hass).
Rclativamcntc á rickettsia do typho de São Paulo (Rickettsia brasiliensis), já ini-
ciámos uma série de expericncias para sua cultura em tecidos m r ilro, afim de veri-
ficar si, nestas condições, cila apresenta também predilecção nuclear, ao contrario do que
acontece m ttVo. nas cellulas mesotheliaes da parede peritoneal da cobaia.
96
J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paulo
97
tonosa de Tunis, com a tsutsugamushi e lambem com o typho exanthematico
de São Paulo, para somente citar algumas que apresentam distincções mais evi-
dentes quanto ao comportamento experimental, presença e localização de ricket-
tsias e aspecto epidemiologico.
Como nenhuma concepção é definitiva em biologia, na justa expressão de Ni-
colle e Sparrow (41), parece-nos razoa ve! que se torne pluralista o conceito
sobre este grupo de infecções, que se convencionou chamar “typhus”, mas que
melhor se denominaria de “rickettsioses”, pois que a presença de formas dos
microorganismos primeiramente estudados por H. da Rocha Lima na infecção
typo, o typho exanthematico do velho mundo, constitue elemento de distincçáo
já estabelecido em relação a algumas formas clinicas e que provavelmente ainda
será assignalado em outras infecções do mesmo grupo.
Relativamente ao typho exanthematico de S. Paulo, embora não se possa
ainda concluir em definitivo, parecem maiores suas relações com o grupo da
febre maculosa das Montanhas Rochosas, constituindo, talvez, uma nova moda-
lidade da infecção, em virtude do comportamento experimental do "vinis” e
outros caracteres já assignalados (42) e estudados na 1.* parte deste tra-
balho, como pela localização das rickettsias nos animacs infectados, pela diver-
sidade do transmissor intermediário e, finalmente, por constituir o seu virus, se-
gundo A. Felix, uma nova variedade sorologica.
Ass m sendo, até que novos estudos sejam emprehendidos, os “corpúsculos
de Mooser”, que melhor se denominariam Rickettsia mooscri, como homenagem
ao illustre pesquisador que tão bem os estudou no typho mexicano, deverão con-
siderar-se distinctos da Rickettsia brasiliensis. responsável pelo typho exanthe-
matico de S. Paulo. O mesmo poder-se-á dizer, embora maiores suas afíini-
da.ies, cm relação á Rickettsia ( Pcrmaccntro.rcnus ) rickcttsi Wolbach, respon-
sável peia rickettsiose das Montanhas Rochosas, assim como em rc ação as ou-
tras cspecies descriptas, pertencentes ao genero creado pelo prof. Rocha Lima
(43) c responsáveis por outras rickettsioses.
Exposto assim o nosso modo de pensar sobre este importante problema da
Pathologia, passaremos aos resultados das no-sa? pesquisas sobre a presença c
localização da Rickettsia que descrevemos no typho exanthematico de S. Paulo
e das suas relações com a infecção.
Um estudo geral das dffercntcs rickettsias já descriptas c estudadas justi-
ficar-se-ia, talvez, mas o consideramos desnecessário, pois mais proveitoso será
Para o leitor interessado recorrer aos estudos já feitos a respeito, principalmcntc
°o trabalho de Wolbach e ao de Rocha Lima (44), onde, no ultimo, são es-
tudadas de um modo geral as differentes especies conhecidas até então, mais
Particularmente a espccie typo, a Rickettsia prowazeki.
97
98
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
Estudando a Rickettsia manchuriae, como causadora do chamado typho da
Manchuria. e sua localização nas cellulas epitheliaes do estomago das pulgas, os
auctores japoneses Kodama, Kono e Takahashi (45) fizeram, recentemente, al-
gumas considerações sobre as relações entre o typho epidemico, clássico, do
velho mundo e o typho endemico, principalmente conhecido no México e Estados
Unidos e estudado também em outras regiões. Esse trabalho, em sua traducção
inglesa publicada, é confuso em certos pontos. Em todo caso, os auctores consi-
deram o typho manchuriano distincío do typho genuino e idêntico ao typho
endemico mexicano e ao typho brasileiro, achando que sua distincção repousa
principalmente na differença de transmissor entre as duas modalidades.
Si, por certos aspectos (relações antigenicas do grupo ^ dessas infecções,
typho exanthematico clássico (epidemico) e typho endemico, se pode pensar
que possuem uma mesma origem primitiva, o simples facto da diversidade de
transmissor justifica uma distincção, igualmente apoiada pelo comportamento ex-
perimental dos respectivos vinis. Xestas condições, as rickettsias responsáveis
seriam distinctas, como as consideramos no texto.
A confusão dos auctores japoneses surge igualmente ao ligarem ao typho
endemico da America do Norte o typho exanthematico de S. Paulo, que elles
mencionam como typho brasileiro, ligação talvez originada pelo facto de esses
auctores desconhecerem os outros trabalhos nossos, referentes ao comportamento
experimental do virus e transmissibilidade da infecção brasileira. Por estes as-
pectos e por outros dados já conhecidos de observação clinica (J. T. Piza),
histo-pathologicos (J. R. Meyer) e epidemiologicos, o typho de S. Paulo não
deve ser confundido com o typho endemico (México, Estados Unidos, Man-
churia, etc.), permanecendo como modalidade á parte, talvez mais relacionada
com a febre maculosa das Montanhas Rochosas, da qual, no entanto, se dis-
tingue em muitos aspectos.
O typho exanthematico de S. Paulo não é transmittido pelo piolho ou pela
pulga, porem, com bastante evidencia, pelo carrapato ( Amblyomma cajenncnst)<
como assignalámos em paginas seguintes deste trabalho e cm outros já pubü*
cados ou cm vias de publicação.
Nestas condições, a sua rickettsia, por nós descripta como Rickcttsia bra-
silicnsis, distinguir-se-á, como especic á parte, da rickettsia responsável pc'°
typho endemico ( corpúsculos de Mooser, que chamamos de Rickcttsia tnoosc^
da qual seria synonymo a Rickcttsia manchuriae, dos auctores japoneses), assim
como da responsável pelo typho clássico ( Rickcttsia pronxiseki) ou da causa*
dora da febre maculosa das Montanhas Rochosas ( Rickettsia rickettsi).
98
/
J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paalo 99
A rickettsia do typho exanthematico de São Paulo
Desde que iniciámos, em principio de 1931, estudos experimentaes sobre a
modalidade do “typhus” que surgiu na capital de S. Paulo, as nossas vistas se
dirigiram para a pesquisa de rickettsias nos animaes (cobaias) inoculados com o
rirus (sangue ou emulsão de cerebro de animaes infectados). Assignalando
•°go de inicio a reacção escrotal em muitos animaes, as nossas experiencias, muito
naturalmente, se orientaram para a pesquisa nas cellulas da túnica vaginal do
testículo. Estas pesquisas iniciaes, feitas em condições óptimas muitas veres,
ao contrario do que occorre com o “tobardillo”, foram geralmente negativas,
iniciámos, então, concomitantemente, a mesma pesquisa nas cellulas da parede
Parietal do peritoneo, obtidas pela raspagem, que era utilizada para os esf regaços.
Facilmente, então, e com frequenda, dependendo do período da infecção, era
v « ri ficada a presença de microorganismos que não se distinguiam morphologica-
«nente das “rickettsias”, segundo as descripções dos difíerentes auctores que
delias se têm occupado, prindpalmente Rocha Lima, Wolbach, Mooser, Zinsser
e collaboradores, Pinkerton e outros, e que denominamos Rickettsia brasiliensis.
Também verificámos que estes elementos podem ser evidenciados nas cellulas
da membrana de Descemet, após a inoculação do “virus” na camara anterior do
°lho dos animaes, confirmando as verificações de Nagayo e collaboradores, em
r elação ao typho clássico e á tsutsugamushi.
Mostraremos, separadamente, os resultados destas duas series de pesquisas.
Capitulo VIII
^ r esença de rickettsias nas cellulas da membrana de Descemet
^ animaes inoculados com o virus na camara anterior do olho
Nagayo, Tamiya, Mitamura e Sato (46), no Japão, verificaram que a ino-
^lação do virus da tsutsugamushi na camara anterior do olho de cobaias e
^Ihos provoca uma reacção local característica e que se podia, então, obscr-
Var nas cellulas da membrana de Descemet a presença de microorganismos sc-
^Ihantes ás rickettsias. Estes elementos e suas relações com a infecção fo-
^ estudados por aquelles auctores e por Hazato c Imamura (47) que os de-
nominaram Rickettsia orientalis.
Tambcm verificaram os auctores japoneses (Nagayo, Tamiya, Mitamura c
^**ato) que o mesmo occorria com o typho exanthematico (48), no qual a
99
100
Memórias do Instituto Butantan
Tomo VI
reacção ocular cra seguida de reacção geral, febril, sendo também possível evi-
denciar-se a presença da Rickeltsia prosi-azeki nas cellulas da membrana de
Descemer.
Repetimos os trabalhos destes auctores com o virus do typho exanthema-
tico de São Paulo.
a) Tcchnica empregada. - Como virus empregámos para as inoculações
sangue citratado ou desfibrinado de cobaia infectada, colhido em período febril:
emulsão de cerebro de Silentes rhesus infectado e humor aquoso de coelho, co-
baia e rhesus infectados por via ocular.
A technica da inoculação na camara anterior do olho, assim como a reac-
ção local e geral que determina, foi anteriormente exposta (49) e tratada com
maior minúcia no capitulo IV.
Para a pesquisa de rickettsias na membrana de Descemet assim proce-
demos: no 2.® ao 5.® dia da inoculação, quando mais intensa se mostrava a
reacção ocular o animal era sacriiicado e o globo ocular enucleado com oí
maiores cuidados de asepsia. Depois de tocar-se num ponto da comea com um
estilete aquecido, introduzia-sc ahi a agulha da seringa especial com a qual - e
retirava pequena porção do humor aquoso para a nova passagem do vim?
Com o auxilio de pinças e tesoura iinas, cortava-se do globo ocular, circular*
mente, toda a córnea que era destacada. Com um canivete delicado, a parte
posterior da córnea era raspada e o produeto da raspagem espalhado em la-
minas convenientemente limpas.
Numa das laminas procedíamos, em seguida, á coloração pelo mcthodo de
Castaneda, para prompto conhecimento da presença dos elementos pesquisados-
Dependendo deste resultado, as outras laminas eram também coradas pela mes-
ma tcchnica ou então pelo mcthodo de Giemsa, que descreveremos adiante, e
que nos fornece coloração com melhores detalhes e mais próprias para con-
servação.
b) Frequência e morphologia das " rickettsias " nas cellulas da membrtn'"'
de Descemet. - A verificação das rickettsias nas cellulas cpithcliacs da mem-
brana de Descemet depende do período em que a pesquisa fòr feita. Geral-
mente, do 2.® ao 5.® dia, quando mais intensa fòr a reacção ocular, coincidindo
com a geral, esses elementos são mais facilmente encontrados.
Em 25 animaes (cobaias, coelhos e Mac. rhesus) pesquisados nestas con-
dições, verificámos cellulas parasitadas em 15, dando uma proporção de 60$í-
Nas pesquisas feitas, muito cedo ou tardiamente, a presença de cellulas para-
sitadas era muito rara e difficilmente verificada.
No conjuncto dos animaes cm que esta pesquisa foi feita, cm numero de
36, a proporção dos resultados positivos foi de 4 7Çí>. Neste total, assignalámo*
100
J. Lemos Monteiro — Typho exanthemalico de S. Paulo
101
11 vezes a presença de germes de contaminação, facilmente distmguiveis mor-
phologicamente (geralmente diplococcos Gram positivo) e pelas culturas, nos
meios communs, obtidas pela semeadura do humor aquoso. Quando não exis-
tiam estas contaminações intensas, as semeaduras do humor aquoso, ou de pro-
ducto da raspagem da face posterior da córnea, foram sempre negativas, mes-
mo nos casos em que era facilmente observada a presença de cellulas rica-
em rickettsias na membrana e no humor aquoso. O mesmo aconteceu com o
emprego de meios especiaes, com soro, ascite, sangue e meio de Xoguchi.
Além deste caracter de não serem cultivadas nos meios artificiaes, as
rickettsias se distinguiam pela sua morphologia e pela localização intracellular
que geralmente apresentam. Morphologicamente se assemelham ás outras er-
pecies descriptas, apresentando também um certo pleomorphismo. Geralmente
são elementos pequenos, de 0,5 micron e até menos, coccoides ou bacillares, aos
pares muitas vezes, com o aspecto bipolar, não ultrapassando os dois elemen-
tos de 1 micron ou, ás vezes, 1,4 micron.
Pela coloração de Castaneda apresentam-se azuladas, distinguindo-se d.»
resto da cellula, cujo protoplasma toma uma coloração roseo clara e roseo car-
regado o nucclo. Pelo methodo de Giemsa, tomam uma totalidade roseo-azu-
lada ou violeta, dependendo da bòa technica da coloração.
A estampa V mostra uma serie de cellulas de preparados obtidos pela ras-
pagem das cellulas da membrana de Descemet, onde melhor se poderá verificar
a morphologia e disposição das rickettsias que descrevemos. Nesta estampa as
figuras 1 a 5 foram obtidas de preparados corados pelo methodo de Castaneda,
e as figuras 6 e 7 pelo methodo de Giemsa. As figuras 1, 2, 3, 4, 6 e 7 mos-
tram o aspecto geralmente encontrado e a figura 5, elementos bacillares, finos,
ás vezes filamentosos, verificados mais raramente.
As relações destes elementos com a infecção, pelas diffcuklades tcchni-
cas da sua obtenção em quantidades convenientes, não podem ser rigorosamente
estabelecidas, como acontece com as rickettsias encontradas nas cellulas mcsothc-
liaes do peritonco, como veremos adiante. Todavia, a rcacção local e geral con-
sequente á inoculação do virus n.i camara anterior do olho, como já assignalá-
mos anteriormente e o facto dc não termos encontrado m : croorganismos se-
melhantes em alguns animaes não inoculados com o virus (emulsão de ccrcbro
cobaia normal), fazem acreditar na sua relação etiologica ou, pelo menos,
que sua formação só se processe sob a influencia do "virus” especifico.
101
102
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
Capitulo IX
Presença de rickettsias nas cellulas mesotheliaes da parede
peritoneal de cobaias inoculadas com o virus na cavidade
Bem mais interessante é a pesquisa da rickettsia nas cellulas da parede pe-
ritoneal dos animaes inoculados ca cavidade com o virus (sangue de cobaias
em reacção febril ou de doentes ou emulsão de cerebro de animaes infectados
e sacrificados durante a reacção).
Tendo verificado, desde o inicio, a reacção escrotal em algumas cobaias
inoculadas, as pesquisas originaes foram feitas, como dissemos, nas cellulas de
raspagem das folhas parietal e visceral da túnica vaginal. Ao contrario do que
se verificaria com o typho endemico na America do Norte, as nossas primeiras
verificações foram geralmente negativas, mesmo nos casos de reacção escrotal
intensa e a colheita feita logo que ella se evidenciava.
A este respeito, o virus do nosso typho parecia differenciar-se do typho do
continente septentrional, approximando-se do typho do velho mundo, onde as
rickettsias podem ser vistas na túnica vaginal mais rara e difficilmente, sendo
necessário que a pesquisa seja feita em certa occasião óptima.
Apesar de Zinsser e Castaneda (50) considerarem a presença de rickett-
sias na túnica vaginal relacionada a certas condições, principalmente a uma me-
nor temperatura do testiculo, começámos também a fazer pesquisas nas cellulas
da raspagem da parede peritoneal. Estes microorganismos começaram então a
ser encontrados com relativa facilidade, mesmo nas cobaias já com reacção febril.
Os primeiros resultados de nossas verificações foram resumidos em nota
(51), onde estes microorganismos foram chamados de Rickettsia brasilicnsis e
sobre cuja posição systematica já expusemos o nosso modo de pensar em pa-
ginas atrás.
Mostraremos, agora, a technica que empregámos para sua pesquisa, estudo
da morphologia e frequência, nos animaes inoculados, assim como as suas re-
lações com o typho exanthematico de São Paulo.
a) Technica empregada. - A cobaia a ser pesquisada é sacrificada com
chloroformio e necropsiada com os cuidados usuaes em pesquisas desta natureza.
Deslocada a pelle e tecido cellular sub-cutaneo, o peritoneo é posto á mostra
e pinçado num ponto central, sendo aberto transvcrsalmentc com tesoura. Sus-
pensa pela pinça a parede, para destacal-a dos orgãos abdominacs, raspa-se com
bisturi a folha parietal num dos pontos, fazendo-se logo cs f regaços, bem es-
palhados, em laminas novas e cor.vcnientemente limpas. O mesmo se faz na*
102
J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Pauln
103
outras regiões da perede parietal, de modo a se prepararem umas 8 a 12 la-
minas de cada animal.
Pesquisa-se então qualquer alteração macroscópica dos organs abdominaes
(augmento do baço, quasi sempre verificado) ou a presença de derrame na ca-
vidade e colhem-se fragmentos dos organs para exame histologico. O cerebro
e depois retirado com os cuidados necessários, fragmentos são fixados também,
pequena porção é separada e usada para nova passagem e o restante conservado
em congelação, apenas num pequeno tubo esteril e convenientemente arrolhado.
Uma ou duas das laminas preparadas são immediatamente coradas segundo
o methodo de Castaneda. Este methodo (52) tem a vantagem de nos forne-
cer resultados rápidos sobre a presença de rickeitsias características, nas cel-
lulas mesotheliaes, ou da existência de contaminação que, pela sua abundancia,
dispensaria outras colorações.
Si a coloração pelo methodo de Castaneda indicasse a presença de nume-
rosas cellulas parasitadas, outras laminas eram coradas por este methodo ou,
então, pelo methodo de Giemsa, que fornece bellos preparados mais apropria-
dos para conservação.
Por não ser bastante conhecido entre nós, resumimos a seguir o methodo
de Castaneda para coloração de rickcttsias.
Methodo de Castaneda. - Consiste em duas soluções tampões:
A. Phosphato de sodi-, 23,86 grs.
Agua destillada 1000 cc.
B. Phosphato monopotassico 11,34 grs.
Agua destillada 1000 cc.
Tara o preparo da solução tampão, tomar:
Solução A 88 partes
Solução B 12 partes
Filtrar cm vela Bcrkefcld e addicionar ao filtrado, como preservativo,
2 % de formol. A reacção antes da addição do formol deve ser pH = 7,6.
A coloração e fixação se processa ao mesmo tempo, empregando-se:
Solução tampão 20 cc.
Formol 1 cc.
Azul de methylenio Loeffler 3 gottas
Coloração por 2 ou 3 minutos. Lavar por 30 segundos.
Segue-se a coloração de contraste:
103
104
Memórias ilo Instituto Butantan — Tomo VI
Solução aquosa de saíranina, por 1 a 2 segundos e lavar.
Esta é a technica indicada por Casíanecla. Xas nossas colorações ge-
ralmente empregámos na formula acima 4 a 6 gottas do azul de meíhylenio
de Loeffler:
Azul de methylenio U. S. P 21 grs.
Álcool ethylico a 95% 300 cc.
após uma noite, juntar:
Agua desti liada contendo potassa caustica a
1 tlO.OOO 1000 cc.
Usar somente depois de uma semana (*).
Com o methodo de coloração de Giemsa, convenientemente praticado, as
preparações nos fornecem maiores detalhes e melhor se prestam á conservação:
Methodo de Giemsa. - Pode ser utilizada a technica commum de coloração
por este methodo, fazendo-se a diluição do corante em agua destillada (1 ou 3
gottas por cc.). Geralmente, porém, o exsudato existente na parede e que se
cora, diíficulta muitas vezes a verificação das rickettsias e, quando ha excesso
de deposito de matéria corante exigindo lavagem mais prolongada, também os
elementos se descoram, perdendo a coloração rósea e tomando um tom mais
azulado.
Conseguimos boas preparações usando para a diluição do Giemsa a solu-
ção tampão de Castaneda. Melhores resultados, porém, obtivemos com o em-
prego de urna solução tampão, cuja indicação nos foi feita por O. Castro, da
Instituto Biologico. Esta solução é preparada da seguinte maneira:
A. Phosphato mono-porassico (KH : PO»), seg.
Sohrensen-Kahlbaum 9,078 grs.
Agua destillada 1000 cc.
lí. Phosphato di-sodico ( Xa 3 PO«) .... 11,876 grs.
Agua destillada 1000 cc.
(*) Rivcrs apresenta uma modificação da technica de Castaneda, que a simplif* 3 "
E‘ a seguinte :
Phosphato tampão pH = 7.0 ... . 95 cc.
Azul de methylenio de Loeffler .... 10 cc.
Formalina 5 cc.
Corar durante 2 a 5 minutos, lavar e contracorar por 10 segundos com solução aquos*
de safranina a 1
104
J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paulo 105
Para a solução tampão (onde se junta o corante: 1 gotta por cc.) tomar:
4 partes da solução A e 6 partes da solução I» para 10 a 20 vezes o volume
de agua destillada, cujo pH deve ser de 6,8 a 7,0.
As preparações são fixadas com álcool methylico ou ethylico e a colora-
ção feita durante 1/2 a 2 horas, com um volume 10 vezes maior de agua des-
hllada, ou durante uma noite, com o volume de 20 vezes, seguindo-se uma la-
rgem conveniente em agiu corrente.
Vejamos, agora, o aspecto das rickettsias nas cellulas da parede peritoneal.
b) ,\f ornitologia e disposição das rickettsias nas cellulas da parede peri -
toneal. - As rickettsias do typho exanrhematico de S. Paulo, nas cellulas da
parede peritoneal, apresentam a morphologia e tamanho característicos destes
elementos, já descriptos, embora com diversa localização, em outras rickettsioses
e correspondem ás que descrevemos nas cellulas da membrana de Descemet.
Apenas no peritoneo não verificámos formas mais longas, porém somente os
elementos typicos.
São geralmente coccoides ou pequenos bastonetes de 0,5 micron , reunidos pe-
las extremidades, ás vezes mostrando coloração bipolar, indicando que o par cor-
r csp<>nde a um só elemento, quando o tamanho attingc a 1 e 1.4 micron de com-
primento. Outras vezes correspondem somente a pequenos bastonetes finos,
•autos e independentes. Não apresentam uma disposição especial nas cellulas;
‘>calizam-se, ás vezes, cm grupos em certa zona do protoplasma, outras se es-
palham uniformemente. Geralmente são intracellulares, podendo-se ver também
Mementos fóra das cellulas, devido ao rompimento destas, ou quando o seu nu-
mero é muito elevado, como acontece cm certos animaes, com infecção atypica,
H- m reacção febril, e nos quacs não só as cél ulas da parede como o exsudato
Peritoneal se mostram muito ricos em rickettsias.
Pelo methodo de Castaneda. o protoplasma cellular se cora cm rosco claro,
0 núcleo cm roseo carregado c as rickettsias em azul.
Pelo methodo de Giemsa e nas preparações bem coradas, as rickettsias apre-
^ntam-se coradas cm roseo ou violeta, dentro de um protoplasma azulado; nas
preparações em que a coloração não f:cou perfeita, os microorganismos, com
‘na morphologia typica, apresentam um tom azulado. A affinidade corante, com
methodo, depende da technica da coloração c do fixador usado.
Melhor do que qualquer dcscripçáo, esta morphologia e disposição das ri-
c ^cttsias nas cellulas mcsothcliacs da parede peritoneal podem ser vistas nos
desenhos apresentados na estampa VI. Os desenhos foram feitos de preparados
c °rados pelo methodo de Castaneda nas figuras 1, 2, 3, 4 e 5 e mortram diffc-
rc ntes cellulas desenhadas c a disposição dos microorganismos, assim como um
^mpo desenhado, onde se vê um polycariocyto contendo rickettsias phagocyladas.
Muito raramente encontrámos rickettsias cm phagocytos, o que parece estar
* e accordo com a verificação de Pinkerton (5.3) sobre o typo das cellubs pa-
105
106
Memórias do Inslituto Butantan — Tomo VI
rasitadas. Precsa ainda ser feito este estudo cytologico, em relação ao nosso
typho. As figuras 6. 7, 8 e 9 representam desenhos feitos de preparados
corados pelo methodo de Giemsa acima indicado. A figura 6 mostra uma cellula
com os elementos com coloração de aspecto bipolar; num ponto da cellula no-
ta-se u’a massa de pontinhos corados em vermelho que, talvez, representem as
rickettsias numa forma de evolução granular. As figuras 7 e 8 mostram cellulas
contendo elementos bacillares finos e curtos, isolados, vendo-se apenas raros
com aspecto bipolar. A figura 9 mostra parte desenhada de um campo microscó-
pico A estampa VII reproduz microphotographias, mais ampliadas, de 2 cellu-
las contendo rickettsias; a fig. 1 corresponde a uma cellula desenhada (Est. VI,
fig. 8) e a fig. 2 á outra cellula em preparado de outra cobaia. Todos os dese-
nhos foram feitos usando-se o microseopio Zeiss, oc. 4, obj. imm. 1/12, dando
uma ampliação de 940 diâmetros e empregando-se como fonte de illuminação
a Leitz Speziallampe (6 volts e 5 amp.).
Desejamos deixar bem assignalado qeu todas as tentativas de cultura destas
rickettsias em meios communs de laboratorio e mesmo em meios especiaes, e
foram até agora numerosas, deram sempre resultado negativo. Isto quer se
empregasse exsudato peritoneal, quer material de raspagem da parede contendo
cellulas parasitadas. As culturas ás vezes obtidas eram sempre constituídas por
germes de contaminação e que nenhuma relação morphologica ou outra pode-
riam ter com as rickettsias intracellulares descriptas ou com a infecção.
Vejamos agora a írequenda com que são encontradas estas rickettsias eni
consequência da inoculação do virus no peritoneo.
c) Frequência das rickettsias nas cellulas mcsotheliaes da parede perita-
neal. - Quando se tem em vista principalmente a pesquisa da rickettsia, a cobaia
inoculada com o virus no peritoneo deve ser sacrificada pouco antes da reacção
febril (no 3.® ou 4.® dia após a inoculação) ou nos primeiros dias da pyrexia
que. manifestando-se assim, representa nova confirmação da infecção caracte-
rística .
Depois do 4.® dia de reacção febril, as cellulas parasitadas são mais diííi*
cilmcnte encontradas. Com a volta da temperatura ao normal, decorridos vario*
dias, isto é, na convalescença, estes microorganismos não mais são vistos.
Praticámos a pesquisa de rickettsias, não só nesses períodos favoravci*.
como na maioria das cobaias inoculadas e que succumbiram em resultado da i°'
fccção ou que foram sacrificadas para fins de passagem do virus.
Diversas cobaias normaes ou inoculadas no peritoneo com sangue ou emul'
são de cerebro de animaes normaes foram também examinadas, sendo negat vo»
os resultados.
Em duas cobaias inoculadas com o virus por via sub-cutanea e sacrificada*
durante a reacção febril, a pesquisa no peritoneo foi negativa. Embora esta
verificação precise de ser repetida com maior numero de animaes, talvez soment*
106
J. Lemos Monteiro — Typho exanthcmalico de S. Paulo
107
a inoculação do vírus na cavidade da serosa é que provoca o apparecimento das
nckettsias especificas em cellulas de revertimento. Assim sendo, muito prova-
velmente a inoculação do vinis na cavidade pleural ou pericardica. por exempo,
provocará o apparecimento das rickettsias em certas das suas cellulas de revesti-
mento. Esta hypothese merece verificação e também será interessante saber-se
si este facto é proprio ao virus do typho exanthematico de São Paulo ou si é
commum a todas as rickettsioses.
Registamos, a seguir, a pesquisa de rickettsias em mais de 200 cobaias ino-
culadas no peritoneo com o virus.
Os resultados que vamos mostrar e que são resumidos no quadro IX repre-
sentam os verificados em exames relativamente rápidos, não ultrapassando 10
a 15 minutos para cada pesquisa. De modo que as proporções seriam maiores
si, nos casos em que este exame foi considerado negativo, ainda se prolongasse
a pesquisa, correndo-se toda a lamina ou varias delias com material do mesmo
animal.
Nos resultados positivos estão incluídos todos os casos em que se encontra-
ram cellulas parasitadas, desde os em que as rickettsias eram raras (+) e difíi-
cilmente encontradas até os, menos numerosos, em que ellas eram muito abun-
dantes (-| — | — i — f-) e facilmente visiveis em quasi todos os campos microscópicos.
Eis os resultados :
107
108
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
QUADRO IX
Grupo Período da pesquisa
Cobaias Resulta- Resulta-
exami- do po- do ne-
nadas sitivo gativo
Antes da reacção febril ou
que não a apresentaram
após vários dias (formas
atypicas)
21
15
Porcentagem dos
resultados po-
sitivos
71.4%
II
III
Sacrificadas no 1* dia de
reacção febril
Sacrificadas no 2* dia dc 32
reacção febril
30
100 %
93.7%
IV Sacrificadas no 3* dia de
reacção febril
38 4
90.4%
V Sacrificadas no 4* dia de
reacção febril
40
28 12
70%
VI Sacrificadas depois do 4*
dia de reacção febril ou
que succumbiram depois
deste período.
72
40
32 55.5 %
VII
Cobaias sacrificadas cm
convalescença, isto é. mui-
tos dias depois da volta
da temperatura ao normal.
8
O
00
o
Total das cobaias exami-
nadas, não incluindo as
do grupo VII
212 156 56
73 5%
108
J. Lemos Monteiro — Typho exaiithe medico de S. Paulo
109
Yeri fica-se, pelo quadro acima, que no total das cobaias inoculadas no pe-
ntoneo com o virus do typho de São Paulo, pudemos descobrir a presença de
n ckettsias nas cellulas mesotheliaes da parede peritoneal em 73, 5% dos animaes.
Ebta porcentagem augmen:a quando a pesquisa é feita em periodo favoravel,
*■*» é, mais precocemeníe. A proporção foi de 71,4 % de resultados positivos
^ animaes sacrificados antes de se ter manifestado a rcacção febril. Neste
SHjpo foram incluídos, não só os casos de infecção atvpica, sem reacção ther-
m >ca, quando as rickettsias são abundantes, mesmo no exsudato peritoneal, que
au gmenta nestes casos, mas também as sacrificadas depois de decorridos alguns
dias, e cuja temperatura não se tinha elevado typica mente, a‘em de um animal,
de resultado negativo, sacrificado, talvez cedo demais, no 2.° dia da inoculação.
A proporção de resultados positivos foi de 100% nas cobaias sacrificadas
°° 1.® dia de reacção febril, sendo variavel, mas geralmente de 3 a 5 dias, o nu-
mero de dias decorridos da inoculação, de accordo com a incubação.
Nos sacrificados no 2.° dia tíe rcacção febril, a proporção foi de 93.7%;
°° 3.° dia de reacção febril, de 90,4%. A proporção foi de 70% no grupo de
Cli baias sacrificadas durante o 4.® dia e de 55,5% nas sacrificadas no 5.® dia
nos dias subsequentes, mas ainda pyrelicas ou então que succumbiram á in-
*feção depois do periodo de rcacção.
Estes resultados correspondem ao 1.® virus (L) que estudámos e que se
^hava então na sua 68.® geração. Com a segunda amostra de virus (W), na
!{$.* geração, num total de 30 cohatas examinadas, foram encontradas as rickettsias
6111 60% dos animaes, cuja maioria se incluiu nos grupos V e VI do quadro (*).
bambem nas cellulas da parede peritoneal de Macacus rhesus, inoculados com
0 v ‘>us no peritoneo, pudemos evidenciar a presença de rickettsias.
Si outros elementos não existissem, liastaria a frequência acima assignalada
^ rickettsias nos animaes inoculados para mostrar sua especificidade c relação
Coa i a infecção.
Com a continuação das nossas cxpcncncias com o exame dc maior numero
^ animaes (superior a 600) c nos quacs a pesquisa foi feita gcralmcnte cm
k-iodo mais avançado, na maioria das vezes depois do 4.® dia de reacção febril
quando succumbiam, somos forçados a acreditar que não existe verdadeira-
fr <ntc um periodo optimo para qut as rickettsias sejam encontradas, embora o
feito mais precocemeníe facilite a pesquisa, como foi assignalado. A sua
^sença deve, muito provavelmente, estar relacionada, não somente ao “virus”
i!H *ulado, como a algum fac.or de natureza individual, variavel, ás vezes, com os
‘* v ersos animaes inoculados. Gcralmcnte depois dc uma grande serie dc passa-
somente com emulsão cerebral, as rickettsias são difficilmcnte encontradas,
Estes virus, em junho de 1932. se encontravam, rcspcctivamcntc. na 91.* c 45.* ge-
109
110
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
reapparecendo. com abimdancia em certos animaes, após algumas passagens com
sangue virulento, e mantendo-se sua presença em novas passagens, mesmo com
cerebro.
Esse factor individual, de natureza ainda não determinada, deve ser levado
cm consideração, parecendo sua existência justificar-se pelos resultados de ex-
periências relativas á influencia que certas substancas, como o benzol, ou una
dieta de carência ou acção de raios X a que se submettem previamente os ani-
maes, exercem sobre o apparecimento das ricketísias especificas.
Com material de ras pagem da túnica vaginal, em numerosas e novas pes-
quisas feitas, mesmo em casos com reacção escroial, menos frequentemente pu-
demos verificar a presença de cellulas contendo ricketísias.
Relativamente á pesquisa nas cellulas da parede peritoneal, os nossos re-
sultados têm sido confirmados por L. Salles Gomes, do Instituto Bacteriológico.
J. R. Meyer, O. Bier, O. Castro, do Instituto Biologico, e outros collegas em Bu-
tantan (*).
Estudadas, assim, a morphoíogia e a frequência da Rickcttsias brasiliensis,
indicaremos a seguir alguns ensaios já feitos para melhor verificação das sua 5
relações com o typho exanthematico de São Paulo.
Capitulo X
Relação das ricketísias do typho exanthematico de São Paul°
com a infecção experimental
Alem da relação entre a rickettsia descripta e a infecção experimental, tra-
duzida pela elevada proporção em que estes microorganismos são encontrado?,
seria do maior interesse a sua determinação pelos meios immunologicos c outroí
de que se dispõe. Para isto, recorremos á verificação do poder infectante e da 5
relações antigenicas que pudessem elles ter em relação á infecção experimental-
(*) Mais Tcccntcmcnte. L Saltes Gomes conseguiu pôr cm evidencia a presença
rickcttsias cm cortes dc organs (íesiicuios). localizando- se os elementos nas paredes vas-
culares (Ccmm. ã Soc. de Biologia de São Paulo, 8-II 1*932). Esta localização é de a 3 *
pertancia pata o estudo das relações histológicas do nosso typho com infecções nfún? -
princ'palmentc com a febre maculosa das Montanhas Rochosas. Em pesquisas feitas cc**
material dc varias cobaias infectadas, pudemos também evidenciar esta localização <1**
rickcttsias. que sc dispõem, cm massas ás vezes consideráveis, na túnica media e 1,0
cndothelio dos vasos.
110
J. Lemos Monteiro — Typho cxanlhemalico de S. Paulo 111
Para o primeiro fim visado, seria indispensável a obtenção das rickettsias
livres do “virus”, phase provavelmente também existente na peritoneo; para a
segunda averiguação do problema, recorrémos ao preparo de uma vaccina com
material rico em rickettsias, segundo a tcchnica já ensaiada por Zinsser e Cas-
taneda (53), cujo poder immunizante em relação ao virus seria verificado, ou
então pelo registo da acção neutralizante in z-itro do soro de um animal immu-
nizado com as rickettsias em relação ao virus.
Vejamos, a esse respeito, as experiencias que até agora realizámos e os
seus resultados.
a) Infectuosidade da ridiettsia. - Para esta verificação, sacrificam-se co-
baias inoculadas por via peritoneal com o virus, isto é, com sangue ou emulsão
de cerebro de animal infectado e sacrificado em occasião favoravel. O perito-
neo é lavado com certa quantidade de agua physiologica, sendo a folha parietal
convenientemente raspada para desprendimento de maior numero possível de cellu-
las parasitadas. Verificada previamente a presença de rickettsias nas cellulas,
a emulsão assim obtida é fortemente agitada num frasco contendo bolas de
'idro, para o maior rompimento possível das cellulas e libertação dos micro-
organismos.
A confirmação da infecção no animal sacrificado é feita pela inoculação de
emulsão do seu cerebro.
Depois de bem agitada, a emulsão peritoneal contendo rickettsias é inocula-
da para verificação da sua pathogenicidade, que, neste caso, poderia ser também
a ttribuida á presença do “virus”. Para eliminação desta ultima hypothese, a
emulsão é centrifugada em alta velocidade e lavada com agua physiologica, sendo
a centrifugação e lavagem do deposito repetidas cerca de 6 a 10 vezes, de modo
a se eliminar o “virus” que já não existiria ou somente cm diluição minima,
incapaz de provocar a infecção exper xnental.
Como controle da expericncia, repetimos a mesma verificação com outra
cobaia, inoculada por via subcutânea c cm cujo peritoneo não foi verificada a
presença de rickettsia.
Resumimos os resultados obfdos:
Experiência I - Cobaia 242: Inoculada em 10-VI-931, no peritoneo, com
'irus (emulsão de cerebro do Ccbus I). Depois de 2 dias de incubação, ini-
riou-se a reacção febril, acima de 40". Foi sacrificada cm 18-VI-931, no 6.® dia
de reacção. A presença de rickettsia foi verificada nos es í regaços da parede.
Porém o numero de cellulas parasitadas era reduzido. Mesmo assim foi apro-
ntado o liquido de lavagem e raspagem pcritoncas obtido pela tcchnica acima
descripta. A infecção do animal confirmou-se pela inoculação de emulsão de
seu cerebro na cobaia 254. A emulsão peritoneal obtida foi inoculada na co-
baia 252. A mesma emulsão depois de 2 lavagens apenas do deposito da ccn-
111
112
Memórias do Instituto üutantan — Tomo VI
trifugação, foi inoculada na cobaia 256, e, depois de 10 lavagens e centrifugações
successivas, foi inoculada na cobaia 257.
Cobaia 254: Inoculada com emulsão de cerebro da cobaia 242 em 1S-VI-931.
Incubação de 3 dias, reacção febril durante 4 dias, sacrificada em 25-VI-931, após
ter sido picada por Ornithodoros. Com emulsão de seu cerebro foi inoculada a
cobaia 27 1 e com o sangue a cobaia 277. Estas ultimas tiveram infecção ca-
racterística.
Cobaia 252: Inoculada em 18- VI -931 com 1 cc. de liquido de lavagem peri-
toneal da cobaia 242. Incubação de 3 dias; temperaturas: 38°, 8, dia da ino-
culação, 38",5; 3S°,6; 3S®,5; 3 dias de reacção febril (40*. 5 ; 39", 8; 40°), e
morreu na manhã de 24-VI-931. Rickcttsias no peritoneo (-j — 1 —
Cobaia 256: Inoculada em 18-VI-931 com 2 cc. de emulsão de produeto de
raspagem e lavagem peritoneal após duas centrifugações. Incubação de 5 dias,
reacção febril durante 5 dias, vclta da temperatura ao normal. Resist u a
infecção.
Cobaia 2 57: Inoculada em 18-VI-931 com 2 cc. de emulsão do produeto de
raspagem peritoneal após 10 lavagens e centrifugações successivas. Incubação de
4 dias e 2 de reacção não muito alta (temperatura: 38",6, no dia de inoculação:
38°.5; 38", 6; 39"; 38", 3; 39®, 7 ; 39", 8). Morreu ás 11 horas da manhã de
25-VI-931. Rickettsias no peritoneo (+).
Verificou-se assim que o liquido peritoneal era infectuoso mesmo depois
de 10 lavagens e centrifugações successivas. Cada lavagem era feita em tubo
ccntrifugador com capacidade para 20 cc. O resultado positivo após 2 lavagens
pode ser ainda attribuido á presença do “virus” no liquido; o mesmo não acon-
tece após a 10.* lavagem, pois o "virus” estaria diluido demais e, assim, a in-
fecção só correria por conta das rickettsias existentes, embora não abundantes
prim tivamentc, e que por serem mais densas, se depositam com os detritos cellu-
lares após cada centrifugação.
Para controle desta cxperiencia, no mesmo dia, fez-se idêntica verifica-
ção com material da cobaia 243, inoculada por via subcutânea, com o mesmo ma-
terial infcctante.
Expkriencta II - Cobaia 243: Inoculada em 10-VI-931, por via subcutâ-
nea com emulsão de cerebro do Ccbus I. Incubação de 4 dias e 4 de reacção fe-
bril. No ultimo dia, em 18-VI-93I, foi sacrificada c aproveitado o material do
peritoneo pela forma indicada. Nos esfregaços da raspagem peritoneal a pes-
quisa de rickettsias foi negativa. Inoculou-se emulsão de cerebro, para confir-
mação da infecção, na cobaia 255; o liquido obtido da lavagem peritoneal, na
dose de 2 cc., foi inoculado na cobaia 253; o mesmo material, após ter sofftido
10 centrifugações e lavagens successivas, foi inoculado na cobaia 258.
112
J. Lemos Monteiro — Typho exanlhematico de S. Paulo
113
Os resultados destas inoculações, feitas todas por via pcritoneal, foram os
seguintes :
Cobaia 255: Inoculada em 18-VI-931 com emulsão de cerebro de cobaia
243. Incubação de 5 dias, reacção febril durante 3 dias, quando foi sacrifi-
cada. Rickettsias no peritoneo ( — ).
Cobaia 253: Inoculada em 18-VI-931 com material (2 cc.) de lavagem e ras-
pagem peritoneal após 2 centrifugações. Incubação de 4 dias, reacção febril
durante 4 dias e morte durante a noite de 27 para 28-VI-931, não tendo sido
feita a pesquisa de rickettsias no peritoneo.
Cobaia 258: Inoculada em 18-V 1-931 com 2 cc. de emulsão de material de
lavagem e raspagem peritoneal após 10 centrifugações suecessivas. Não apre-
sentou reacção febril caracterisrica. Decorridos 22 dias, em 10-VII-931, foi
reinoculada com o virus activo (emulsão de cerebro da cobaia 278) : após 3 dias
de incubação, iniciou-se reacção febril que perdurou 6 dias, morrendo o ani-
mal 4 dias depois, na manhã de 23- VI 1-931. A pesquisa da rickettsias no perito-
nco foi negativa, talvez pelo facto de ter sido tardia.
Como se vê pelos resultados acima, a ausência de rickettsia no material da
raspagem e lavagem peritoneal evita a infecção depois de 10 centrifugações sue-
cessivas (cobaia 258) ; o resultado positivo após 2 centrifugações somente (co-
baia 253) pode ser attribuido ao virus, ainda não sufficicntemcnte diluido e,
Portanto, capaz de provocar a infecção.
Outra experiencia foi emprchendida, sendo a colheita do material do peri-
toneo feita em periodo mais favoravel, e as rickettsias foram mais abundante-
mente encontradas.
Experiencia III - Cobaia 260: Inoculada cm 18-VI-931 com emulsão de
cerebro da cobaia 243; no 4.° dia da inoculação c l.° de reacção febril, foi
mjcctada com 20 cc. de agua physiologica no peritoneo c, cm seguida, sacrificada,
*cndo o liquido do peritoneo recolhido, depois de raspada a parede. Para con-
firmação da infecção foi inoculada com o cerebro a cobaia 263. O liquido de
ia vagem peritoneal contendo rickettsias foi inoculado na cobaia 262. Depois de
6 centrifugações suecessivas e outras tantas lavagens com agua physiologica. a
emulsão do material peritoneal foi inoculada na cobaia 264.
Os resultados destas inoculações, todas por via peritoneal, foram os
seguintes:
Cobaia 263: Inoculada em 22-VI-931 com emulsão de cerebro da cobaia
260, colhido no 1.® dia de reacção febril: incubação de 3 dias, reacção febril
durante 5 dias. Amanheceu morta cm 2-VII-931.
Cobaia 262: Inoculada em 22-VI-931 com 2 cc. do liquido de lavagem c
Apagem peritoneal da cobaia 260: incubação de 3 dias, reacção febril durante
/ dias: foi sacrificada cm 2-VII-931, sendo inoculada uma emulsão de seu cerebro
113
114
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
na cobaia 283, que teve infecção typica com 4 dias de incubação, 2 de reacção
febril e morte na manhã de 9-VII-931 ; a passagem do vinis foi continuada atra-
vés de outras cobaias.
Cobaia 264: Inoculada em 23-VI-931 com 2 cc. de emulsão de raspagem c
lavagem peritoneal após 6 centrifugações successivas. Depois de nova centri-
fugação a emulsão foi feita em agua physiologica formolada a 0,2%, sendo em-
polada e conservada na geladeira para posteriores experiencias de vaccinação.
Depois de uma incubação de 7 dias (num dos quaes a temperatura se elevou 3
40°, 9, para voltar á med«a normal nos dois dias seguintes), iniciou-se a reacção
febril acima de 40°, perdurando 7 dias. Houve mais 5 dias de temperatura
próxima á normal e a cobaia morreu na manha de 13-VII-931.
A infecção desta cobaia deve ser attribuida também ás rickettsias presentes
no material inoculado, embora o numero de lavagens não tenha sido tão elevado
como na experiencia I.
OrTRAs experiencias. - Outras experiencias feitas mostraram de modo evi-
dente a infectuosidade do matéria! obtido de raspagem peritoneal, infectuosidade
geralmente maior do que a da emulsão cerebral, quando era muito rico «n
rickettsias. Citemos, apenas, as seguintes:
Cobaia 170: Inoculada em 14-IV-931, no peritoneo, com 1 cc. de derranií
peritoneal da cobaia 161. Esta ultima teve infecção typica, sem reacção febril
até o 6.° dia da inoculação, quando succumbiu; veriíioou-se abundante derrame
no peritoneo, de aspecto soro-hemorrhagico e baço augmenrado de modo caracte-
rístico. Tanto nos esfregaços de raspagem da parede, como no derrame, e fl '
contra ram-se rickettsias em abundancia (-| — 1 — j— t-). A cobaia 170, inoculada,
apresentou, após 2 dias de incubação, reacção característica durante 5 dias, quando
foi sacrificada, em 21-IV-931, para novas passagens.
Cobaia 230: Foi inoculada no peritoneo, em 21-5-931, com emulsão àc
ccrebro da cobaia 224. No 4.® dia da inoculação, com a temperatura de 39. V»
foi sacrificada. Os esfregaços de raspagem peritoneal mostraram rickettsias
grande abundancia (4 — | — f- + ). O peritoneo foi lavado e raspado, c o materi^
emulsionado cm 20 cc. de agua physiologica. Com 1 cc. desta emulsão foi m 0 "
culada a cobaia 232.
Cobaia 2 32: Inoculada cm 26-V-931 com 1 cc. de liquido de lavagem p cf1 *
toneal da cobaia 230. A reacção desta cobaia foi a seguinte, nos dias que **
seguiram: 3S®,5; 39®7 ; 40" ; 40®,2; 40\1. Morreu na noite de 31 para l-VI-931*
Cobaia 329: Foi inoculada em 21 -VI 1 1-93 1 com liquido de lavagem e rasp*'
gem peritoneal (emulsão cm 20 cc. de agua physiologica), na dose de 1 cc. &
uma diluição a 1% (na realidade maior) da emulsão original. Teve incubaç* 0
de 5 dias c reacção febril de 6 dias, resistindo á infecção, mostrando-se, porc^ -
114
cm
SciELO
0 11 12 13 14 15 16
J. Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paulo
115
®tmunizada em relação a uma segunda inoculação do virus activo feita em
1&-IX-931.
Por todos estes resultados fica evidente a infectuosidade do material de
^P^gem peritoneal e que as rickettsias, desembaraçadas o mais possivel do
^rus”, são capazes de determinar na cobaia a infecção experimental caracte-
^Mica, da mesma forma que quando se emprega o sangue ou emulsão de cerebro
^5 uma cobaia infectada.
Outra comprovação da relação etiologica da rickettsia que descrevemos com
0 typho exanthematico de São Paulo seria a verificação do seu valor antigenico
com a infecção experimental.
Vejamos a seguir as experiencias que fizemos neste sentido e seus resultados.
b) Poder antigenico ou vacei nante das rickettsias cm relação á infecção
tx Penmental. - Todas as tentativas, aliás numerosas, que fizemos para a immu-
auação de cobaias com vaccinas preparadas com o cerebro de animaes infectados,
^ 0r am negativas. Desnecessária se torna agora a descripção completa destas ex-
pendas. Diremos apenas que preparámos a vaccina de accordo com as techni-
^ empregadas para o preparo da vaccina amarillica (com formol, chloroformio,
«'•), com algumas modificações aconselhadas na occasião. Os animaes vacci-
^dos com 1, 2 e 3 doses, espaçadas de uma semana, não resistiam á inoculação
^ prova, com o virus activo, feita gcralmente um mês depois da ultima
sn °culação.
A forma do "virus” representada pela rickettsia possue, porém, proprieda-
antigenicas segundo já havia s;do verifcado por H. da Rocha Lima, com a
^*kettsia proveaseki existente nos piolhos infectados, suggcrindo o preparo de
vaccina com emulsão destes transmissor es, por Spencer c Parker (55) c
^tnor (56), em relação á febre macaosa das Montanhas Rochosas, com o em-
Pre 8o de carrapatos infectados, e, mais reccntementc, por Zinsser e Castancda
^)» que conseguiram o preparo de uma vaccina íormolada dotada de propric-
vaccinantes, com material de túnica vaginal e peritoneo, rico em “corpus-
^-•os <j e Mooser”, tornando estes elementos mais abundantes por meio de in-
jtc Ções de benzol (58) ou por uma dieta especial de carência (59) ou, ultima-
5lent «. submettendo os animaes, previamente, á acção de raios X (GO).
Para a verificação do valor antigenico ou vaccinante da rickettsia do nosso
^ho, preparámos algumas partidas de vaccina com material de raspagem per-
rico nestes microorganismos.
Eis uma das experiencias, a mais completa da serie, c a tcchnica empregada
Preparo:
Tcchnica do preparo da ixiccina. A cobaia 190 foi sacrificada cm 8-V-931,
5* dia após ter sido inoculada, no peritoneo, com o virus (emulsão cere-
Vu
d* cobaia 185), estando no !.• dia da rcacção febril. A caridade peritoneal
115
116 Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
foi lavada com 20 cc. de agua physiologica formolada a 0,2%, sendo a folha
parietal raspada para que maior numero de cellulas se destacassem. O liquido
obtido foi agitado e lavado com a mesma solução, sendo o deposito da centri-
fugação, rico em rickettsias, emulsionado em 20 cc. da solução formolada e dis-
tribuído em ampolas de 2 cc., que foram conservadas no frigo.
Experiência dc vaccinação. - No dia 13-Y-931, isto é, 5 dias após o preparo
da vaccina, foi iniciada a vaccinação de 2 cobaias, uma com 2 doses e outra coci
3 doses, sendo o virus activo inoculado, para verificação da immunidade. cerca
de 20 dias depois da ultima injecção. Eis os resultados da experiencia:
Cobaia 21 7: Soffreu 3 injecções da vaccina: a 1.* de 4 cc., por via sub-
cutânea, em 13-V-931 ; a 2.* de 4 cc., por via peritoneal, cm 18-V-931 e a 3.* àe
2,5 cc., por via subcutânea, em 23-V-931. Após a l. a inoculação observou-se
rcacção local, com edema, motivo por que a 2." dose foi feita no peritoneo
Como consequência das injecções a cobaia não apresentou reacção febril. Eu 1
17-YI-931, decorridos 25 dias da ultima dose. foi inoculada com o virus segura-
mente activo (emulsão de cerebro da cobaia 244), não apresentando reacção
febril e mostrando-se, pois, immunizada.
Cobaia 218: Soffreu apenas 2 injecções da vaccina: a 1.* dc 4 cc., por via
subcutânea, cm 13-Y-931 e a 2.*, por via peritoneal e na mesma dose, em 1S-Y-931
A 1.* inoculação provocou, talvez devido ao formol, reacção local e ligeira ne-
crose da pelle. A cobaia, porém, não apresentou reacção febril. Decorridos
dias, em 10-YI-931, foi inoculada com o virus activo (emulsão de cerebro &
cobaia 239). Como consequência, a temperatura não passou da media nonu* 1
durante longa observação, mostrando-se, pois, a cobaia immunizada. O virus cr*
seguramente activo, pois serviram como testemunhas da inoculação deste dia ■*
cobaia 244 e o Alauatla I (bugio), que tiveram infecção característica, inclu»:'-
com provas de passagens.
Estas duas experiências, alem dos outros elementos que já estudámos, m°'‘
tram também as relações das rickettsias que descrevemos com o typho de Sã* 7
Paulo, em virtude do poder antigcnico em relação á infecção experimental n* 3 '
nif estado por uma vaccina contendo estes microorganismos.
Finalmente, para completarmos este cyclo de demonstrações, uma vez <F J
as rickettsias provocam uma immunidade activa, tornando, portanto, possive! 1
prophylaxia da infecção por meio de uma vaccina, faltava-nos verificar si
soro de um animal com ellas inoculado teria alguma acção sobre o prop 1 ^
“virus”.
Iniciámos nesse sentido uma serie de expericncias, cujos primeiros res i:
tados, embora sejam os mais animadores, não nos auctorizam ainda a uma C* 1
clusão definitiva.
110
J. Lemos Monteiro — Typho cxanthemalico de S . Paulo 117
i
i
Em todo caso, merecem registo desde já, pois talvez encerrem a solução da
therapeutica especifica das “rickettsioses” em geral.
c) Poder virucida do soro anti-rickcitsico. - E’ facto conhecido, depois dos
trabalhos de Nicolle e Conseil (61), que o soro de convalescentes do typho clássi-
co possue propriedades preventivas em relação á infecção. Estas propriedades só
são, de um modo certo, presentes no soro do convalescente como consequência
da infecção, apresentando variações conforme a intensidade desta. E’ o que
acontece também com os animaes sensiveis, embora os anticorpos preventivos ou
neutralizantes do vinis desappareçam depois de certo tempo. Com relação ao
“virus” do typho endemico da America do Norte, Zinsser e Batchelder (62)
verificaram sua neutralização “in vitro” com soro de cobaia, desde que a sangria
fosse feita do l.° ao 10.® dia da deíervescencia sómente. Julgam que se trata
antes de uma immunização activa pelo virus, talvez attenuado, mas ainda existen-
te, do que de uma immunização passiva pelo soro.
O soro de convalescente não apresenta propriedade curativa e não se con-
seguiu, até hoje, o preparo de um soro activo com a inoculação do virus em
anitnaes (*).
Tendo verificado que o asno pode apresentar uma infecção inapparcntc,
após a inoculação do virus, e mesmo reacção febril pela inoculação por via ve-
nosa, Nicolle e Conseil (63) obtiveram com este animal um soro dotado de algum
poder preventivo.
Geralmente todas as numerosas tentativas para a obtenção de um soro
contra o “typhus” são baseados na inoculação em animaes (carneiro, caval os,
etc.) do virus representado pelo sangue ou emulsão de organs (cerebro princi-
palmente) de doentes ou animaes sensiveis infectados cxpcrimentalmente. Estas
tentativas têm talvez falhado pelo facto de, não sendo os grandes animaes susce-
ptíveis ao virus, este se destruir ou se inactivar logo após a inoculação, não
podendo, pois, determinar a formação de anticorpos. Esta occorrcncia se
justifica pelo facto de uma vaccina preparada com emulsão de cerebro de cobaia,
como assignalámos, não proteger estes animaes contra a infecção experimental,
talvez pela circumstancia de, segundo hypothescs suggcridas por A. do Amaral,
oceorrer, no caso da inoculação de cerebro virulento de animal infectado, qualquer
dos dois phenomenos seguintes:
1. ou tuna phase anantigcnica da evolução das rickcttsias;
2. ou a intervenção da conhecida acção phylactica dos lipoides, que impos-
sibilitaria o proprio exercício do poder antigenico do virus inoculado. Em qual-
(•) Mais rcccntemcnte. alguns auctores. entre clles Píaijr c Iermain, referem re-
sultados favoráveis com o emprego do sangue total de convalescente no tratamento da
“ febre exanthematica".
118
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
quer das hypotheses, occorreria a impossibilidade da formação dos anticorpos cor-
respondentes ao virus.
O mesmo não se poderá dizer quando se lança mão, como vimos, das ricket
tsias que são seguramente dotadas de propriedades immunizantes em relação á
infecção experimental. O soro de um animal immunizado com estes elementos
deveria possuir também alguma influencia sobre o “virus” e, portanto, sobre a
infecção, embora não se possa ainda nutrir grandes esperanças quanto a seu
valor curativo, de que é desprovido o proprio soro de convalescente.
Baseado nas considerações expostas, resolvémos immunizar 2 carneiros ;
sendo um com o virus somente e outro com material rico em rickettsias e veri-
ficar si os soros destes animaes possuiam alguma acção neutralizante in vitro
sobre o virus.
Estes animaes soffreram um numero restricto de inoculações, de modo que
os resultados que vamos resumir são somente preliminares, não auctorizando,
como já dissemos, a conclusão definitiva.
Technica empregada. - O virus que serviu para a inoculação do carneiro I
era representado por emulsão de cerebro de cobaias infectadas e sacrificadas em
periodo de reacção febril, geralmente no 4.* dia, emulsionado em agua physiolo-
gica c passado em gaze, sendo a inoculação praticada por via subcutânea. A 1“
dose foi representada por cerebro de uma cobaia e as seguintes por 2 cérebros,
sendo as inoculações espaçadas de vários dias.
As rickettsias que serviam para a inoculação do carneiro II eram represen-
tadas por lavagem peritoneal e emulsão de toda a folha parietal, triturada em
areia, onde os microorganismos eram encontrados com facilidade. A emulsão
assim obtida era centrifugada por poucos minutos e a pequena velocidade, para
depositar os tecidos. O liquido era inoculado por via subcutânea, em doses
crescentes, com o emprego de maior numero de peritoneos e intervallados d<
vanos dias.
Os carneiros não apresentaram reacção febril accentuada alem da media
normal; apenas perderam peso, »> que se poderá attribuir ao facto de terem
ficado presos, pois que viviam soltos no pasto.
Depois de 13 dias da 3.® inoculação, foram sangrados em cerca de 500 cc.
de sangue cada um. Para maior rendimento do soro, o sangue foi recebido cm
balão contendo bolas de vidro e desfibrinado, sendo, em seguida, centrifugado c
o soro separado. Uma parte, usada nas experiencias que vamos descrever, foi
separada e o restante, depois de phenolado a 0,4^ó, foi filtrado cm papel fino c
distribuído cm ampolas de 5 cc.
Para a verificação do poder neutralizante dos dois soros, doses diversas
(2,5 e 10 cc.) eram addidonadas ao virus (emulsão de cerebro infectantc diluido
na dose de 1 gr. do orgam para 10 cc. de agua physiologica, sendo a emulsão
118
cm
SciELO
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Passada em gaze) ; depois de um contacto de meia hora na temperatura ambiente,
a mistura era inoculada no peritoneo de cobaias e coelhos normaes.
Como testemunhas foram usados soros normaes de carneiro e de cavallo.
Resultados preliminares. - Das varias experiencias até agora realizadas com
os soros da primeira sangria destes carneiros, feita depois de 13 dias da 3.* ino-
culação dos antigenos indicados acima, e as testemunhas com soro destes ani-
les tomado antes da immunização e com soro normal de cavallo, pudemos veri-
ficar que, na menor dose usada (2 cc.), somente o soro do carneiro II possuia
°c“o poder virudda "in vitro”.
E’ preciso lembrar, em todo caso, que soros normaes de certos animaes
Podem apresentar poder neutralizante em relação ao virus verdadeiro. Isto ve-
rificámos, ha tempo, com o virus vaccinico, sobre o qual o soro de vitello normal
puro e mesmo diluido a 1/10 apresenta acção “in vitro", sendo que o indice de
Por outro lado, é preciso ver que a quantidade do virus (emulsão de ce-
^'"ez, muito mais de 1000 D. M. I. (doses minimas infectantes) . Mesmo nestas
Audições, por esses resultados preliminares, parece ter havido a formação de
an ticorpos vinicidas em cerra prooerção somente no soro do carneiro II immu-
Somente a continuação dos ensaios, sob outras condições experimentaes (*),
Independente, porém, da confirmação desta ultima hypothese, julgamos ter
demonstrado, pelos resultados obtidos nas diversas phases descriptas das nossas
Cx periencias, o estreita relação e':ologica existente entre a rickettsia que des-
ovemos, Rickettsia brasiliensis, e o typho cxanthcmatico de São Paulo.
d) Verificação da Rickettsia brasiliensis cm carrapato (Amblyomma ca-
(*) Com estr obiect ivo. temos em andamento outras nesoui&ai Entre estas, nssrra-
lf nm unidade (nos vitellos já vaccinados) é indicado pelo poder virucida em titulo
a 1/50 ou 1/100 em relação ao virus de determinada actividade (Gins positivo a
1 / 1000 ).
r ebro) infectanre misturada ao soro era excessivamente elevada, representando.
uizado, como vimos, com material contendo rickettsias.
P°derá fornecer conclusões mais seguras relativamente á possibilidade de se
°bter também uma immunidade passis-a, portanto um soro anti-rickettsico, dota-
'1° de propriedades virucidas e, talvez, preventivas em relação ao virus.
,ett nense) infectado. - Em trabahos anteriores (64 e 65) foram relata-
Prctcndemos igualmcnte. empregar. para a obtenção de material rico para as inocula-
de grandes animaes (carneiro e cavallo). os mcthodos de enriquecimento in vivo, já
e da rickettsia desenvolvida cm carrapatos ( Amblyomma cojennenst) infectados
* °°* quacs são encontradas cm grande quantidade.
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Memórias do Instituto Butantan — • Tomo VI
das as pesquisas realizadas no nosso Instituto sobre a possibilidade da trans-
missão experimental do virus por Ixodidae e as realizadas com alguns arthro-
podos (pediculideos, pulicideos, acarianos, etc.) sob condições naturaes. Os re-
sultados des.es estudos, tendentes a elucidar aspectos epidemiologicos da infec-
ção, os referentes á pesquisa de depositários do vinis na natureza (66) e o es-
tudo de um virus isolado de ratos da zona urbana da cidade, acham-se expostos
em outros trabalhos especiaes e pormenorizados.
Continuando as nossas pesquisas sobre os possíveis transmissores do typh"'
exanthematico de S. Paulo, realizámos uma nova serie de pesquisas com car-
rapatos, com a efficiente collaboração de Flavio da Fonseca, distincto compa-
nheiro de trabalho. Os nossos resultados, bastante intere^antes e que se apoiaffl
na experimentação, são expostos com minúcia em trabalho á parte (67).
Ainda com o fim de accentuar aqui, com novos dados além dos já expos-
tos, a relação etiologica da rickettsia que descrevemos com o typho de S. Paulc,
diremos algumas palavras sobre essas pesquisas.
A infecção experimental pode ser transmittida por intermédio de carrapa-
tos c, dentre as especies encontradas na zona infectada, pelo Boophihis micro-
pius e pelo Amblyomma cajetimnse.
Com o Amblyomma cajcnnense obtivemos a infecção não somente pd a
inoculação de carrapatos infectados, como também pela picada.
Verificámos, em esfrcgaços de ovos de Amblyomma infectado, a presenÇ 1
de microorganismos semelhantes r rickettsia e também a infecção pea inocula-
ção de ovos em cobaia, observando a presença de rickettsias nas cellulas o 3
parede abdominal deste animal. Confirmamos, assim, os resultado- de nossas
anteriores pesquisas, quanto á transmissão hereditária do ‘‘virus” neste car-
rapato. •»
Finalmente, em cortes de Amblyomma infectado pudemos pôr em evi-
dencia a presença de microorganismos, em numero considerável, semelhantes a$
rickettsias e cuja morphologia e localização no organismo do carrapato estão
sendo estudadas e serão descriptas em trabalho a ser publicado cm collaboraçã 0
com aquelle distincto collega (*).
(•) Em nota á margem, num trabalho anterior, apresentado, cm 8-VH-1932. á S 1 *-
Biol. dc São Paulo (“Novas experiências sobre a transmissão experimental do sirus ó->
typho exanthematico de São Paulo por carrapatos”), assignalamos jà este facto. E**“
mnando ma or numero de exemplares infectados expcrimcntalmentc. desde 7 dias após 0
fim da alimentação infectante até prazo superior a 30 dias, quando os carrapatos era*®
lixados, pudemos melhor estabelecer a localização da Rickdlsia brasilLmsis nesse IxodkW 5 '
No inicio se apresentam, com sua morphologia typica. corados em violeta pelo Gietn** -
enchendo numerosas cellulas no interior do intestino (divcrticuloO. cellulas longas e
-e dispõem em columnas partindo da parede e que contém os produetos alimentares
vias dc digestão; nas paredes os micro-organismos são encontrados tambem no cs-topla»***
cellular. As rickettsias são encontradas em outros organs. de sorte que um estudo tlU "
minucioso está sendo feito c constituirá, como dissemos, objecto dc um trabalho á pa***
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Assignalando a presença da Rickettsia brasilicnsis no carrapato ( Amblyotn -
cajennense), seu mais provável transmissor intermediário, que havia sugado
um animal infectado experimentalmente, completamos os estudos que empre-
hendemos sobre suas relações com o typho exanthematico de S. Paulo e damos
c °mo concluida a 2.* parte desta mooographia.
Resumo e conclusões da 2.* parte
A 2.* parte deste trabalho representa um estudo de conjuncto sobre a ricket-
^'•a que descrevemos no typho exanthematico de São Paulo, sua frequência
e relação com a infecção experimental.
Numa introducção, fizemos considerações geraes sobre o grupo de in-
tecções que constituem as “febres typho-exanthematicas” ou "typhus”, mos-
hando a conveniência de ser elle desligado do grupo dos verdadeiros virus fil-
háveis para constituir um grupo á parte, ao qual caberia melhor a designação
'* e “rickettsioses”. Mostrámos também que o conceito unicista em relação aos
a g«Ues etiologicos das rickettsioses e mesmo o conceito dualista, deve ser substi-
h«do por um conceito pluralista. Isto porque a este grupo pertencem, sem
duvida, outras infecções, como a febre maculosa das Montanhas Rochosas, a
itbre marselhesa, a botonosa de Tunis, a tsutsugamushi c o typho exanthematico
dc São Paulo, entre outras, que se diffcrenciam por vários aspectos, principal-
^nte de caracter experimental e epidcmiologieo.
Nesta ordem de ideas também as “rickettsias” responsáveis pelas varias
®fccções se diííerenciariam pelo aspecto clinico destas, pelo comportamento
^Perimental e localização e pelos seus agentes transmissores até que tenhamos
^ mão outros elementos, ate agora não obtidos de um modo praticamente utili-
** v *l para esse fim, como a cultura em meios artificiaes, para sua distineção
St *»undo a technica bacteriológica. Da mesma forma que a simples identidade
^rphologica e mesmo certa especificidade antigenica, não podem, por si sós,
‘denti ficar di ff crentes germes em vários grupos microbianos, que se differen-
^m c se classificam por outros caracteres que podem ser estudados de accordo
c ° n i a technica moderna, provavelmente os microorganismos responsáveis pelas
^ettsioses virão a ser melhor distinguíveis quando possivel se tomar a appli-
^*0, cm seu estudo systemarico, de tacs mcthodos aperfeiçoados. No cn-
7 **o, os elementos até agora assignalados parecem sufficientcs para impór sua
^hdncção.
Relativamente ao typho exanthematico de S. Paulo, embora não se possa
4ln 'ia concluir em definitivo, parecem maiores suas relações com o grupo da
,^:e maculosa das Montanhas Rochosas, constituído, talvez, uma nova moda-
‘ ; dade da infecção, em virtude do comportamento experimental do “virus" c
° tttr os caracteres que assignalámos.
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Memórias .do Instituto Butantan — Tomo VI
Assim sendo, até que novos estudos sejam emprehendidos. os “corpúsculos
de Mooser”, que melhor se denominariam Rickcttsia tnooscri , como homena-
gem ao illustre pesquisador que tão bem os estudou no typho mexicano, deverão
considerar-se distinctos da Rickettsia brasiiicnsis, responsável pelo typho exan-
thematico de S. Paulo. O mesmo poder-se-á dizer, embora maiores suas aííi-
nidades, também em relação á Rickcttsia ( Dcrmcccntroxemis ) rickcttsi Wolbach,
responsável pela rickcttsiosc das Montanhas Rochosas, assim como em relação
ás outras especies descriptas, pertencentes ao genero creado pelo prof. Rocha
Lima, responsáveis por outras rickettsioses.
Fizemos um estudo detalhado da rickettsia do typho exanthematico de S.
Paulo dando os resultados da pesquisa destes elementos, primeiramente nas
cellulas endotheliaes da membrana de Descemet, após a inoculação do “virus”
na camara anterior do olho de animaes (cobaia, coelho e Macacus rhcsiis ) I
em seguida, nas cellulas mesothcliaes da parede peritoneal de cobaias após a
inoculação do "virus” no peritoneo. Descrevémos a technica que empregámos
para a pesquisa da rickettsia e os methodos para a coloração destes elementos
(methodo de Castaneda e Giemsa). Assignalámos a morphologia da Rickettsia
brasiiicnsis, sendo a descripção d»:umentada com numerosos desenhos e micro-
photographias.
Relativamente á frequência da rickettsia nas cellulas da parede peritoneal.
após a inoculação do virus no peritoneo, obtivemos resultados positivos e®
73,5 % num total de 212 cobaias examinadas. Esta porcentagem é maior quando
a pesquisa é feita em occasião favoravel.
Estudámos as relações da rickettsia, já evidentes pela sua frequência, cota
a infecção, verificando suas propriedades antigenicas. Mostrámos que a ri-
ckettsia, desembaraçada do virus existente no peritoneo, por meio de lavagens
e centrifugações successivas, é pathogenica, causando infecção experimental
typica e possue evidentes propriedades vaccinantes em relação ao virus. Indi-
cámos a technica para o preparo da vaccina e os resultados da vaccinação de
cobaias comparativamente com os negativos obtidos com uma vaccina prcparad*
com o “virus” (cérebro).
Por fim, em experiencias preliminares, mostrámos que a rickettsia, a ! éto
desta immunidade activa, determina também uma immunidade passiva, ná°
sendo irrazoavel al mentar-se esperança no preparo de um soro, sinão dotado de
propriedades curativas, pelo menos com poder preventivo e ncutralizante e®
relação ao "virus” e á infecção.
Finalmcnte, assignalámos a verificação da presença da Rickcttsia bro&‘
liensis em ovos que se mostraram infectames e em cortes de carrapato (A#'
blyomma cajcnncnsc ) que havia sugado um animal infectado e capaz de tra®'
mitt r. pela picada, a infecção experimental, experiencias estas realizadas com *
collaboraçáo de F. da Fonseca e que serão objccto de trabalho especial.
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As conclusões dos estudos experimentaes, constantes da 2.* parte deste
trabalho, podem asrim ser resumidas:
I. A rickettsia que descrevemos no typho exanthematico de São Paulo,
Rickettsia brasilietisis, pela sua frequência e evidentes relações antigenicas que
apresenta com a infecção, representa o seu agente etiologico ou uma das phases
do “virus”.
n. Como consequenda da inoculação do virus na camara anterior do olho
de certos animaes, a rickettsia pode ser evidenciada nas cellulas endotheliaes da
membrana de Descemet.
III. Após a inoculação do virus no peritoneo, a rickettsia se evidencia,
de preferencia, nas cellulas mesothtliaes da parede periPoneal.
IV. No peritoneo, num total de 212 cobaias, sua frequência foi verificada
e >n 73,5% dos animaes, sendo maior quando a pesquisa é feita em periodo
favorável, sendo respectivamente de 71,4%, 100%, 93,7% e 90,4% nos animaes
sacrificados antes da reacção febril, no l.°, no 2.° e no 3.® dia de reacção, c dc
55,5% nos sacrificados depois do 4.® dia de reacção febril.
V. A rickettsia encontrada no peritoneo é dotada de pathogenicidadc.
Provocando infecção experimental característica quando, desembaraçada do virus
Por meio de lavagens e centrifugações successivas, é inoculada em cobaias.
VI. A rickettsia possue propriedades antigenicas em relação ao “virus”,
Podendo-se obter uma immunizaçâo activa de cobaias com uma vaccina com
ella preparada, e também determina a formação de anticorpos virucidas cm
a n:tnaes immunizados.
VII. A Rickettsia brasiliensis foi verificada, em cortes, no organismo de
carrapato ( Amblyomma cajcnnense ) infectado experimentalmcntc e que convi-
êramos o mais provável transmissor da infecção. Esta conclusão é baseada
dn estudos experimentaes que serão relatados em outro trabalho, onde será
kmbem estudada a disposição c localização da Rickettsia nos carrapatos in-
fectados.
STUDIES OF THE SÃO PAULO TYPHUS
BY
J. LEMOS MONTEIRO
11 »h 54 charts. 6 plates icith 9 fhotographs. of tchich 1 í* colours , 2 micro fhoiogrjfhs
and 17 draxcings.
GENERAL SUMMARY
Pakt I
Experimental behaviour and properties of the virus
‘-Hapteji I - Introduction.
1. - Group of thc “ typhus-cxanthcmatic” fevers in America:
a) in the Septentrional Contincnt; b) in the Merklional Continen:
2. - Serological relationship of thc diffcrcnt forms of typhus.
3. - The São Paulo typhus and its cpidcmiological feature.
* ,,a *tkb II - Behaviour of the virus in thc course of experimcnts on small
laboratory animais.
1. - Results of experimcnts:
A) Course of the infcction in the guinea-ping: a) anatomical
lesions; b) inflammatory rcaction in thc scrotum; c) im-
munity.
B) Behaviour of tlic virus m othcr laboratory animais: a) rabbit;
b) white rat; e) whitc mouse; d) grcy rat; c) cat
2. - Discussion.
3 - Conclusions.
■‘•'PTEn III - Behaviour of the virus in thc course of experimcnts on certain
monkeys ( Silenus , Cebus, Alaualla ).
1. - Results of thc experimcnts.
2. - Summary and conclusions.
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Chapter IV - Experimental infection by inoculating the vinis into the anterior
chamber of tbe eye.
1. - Results of the experiments.
2. - Discussion and summary.
3. - Conclusions.
Chapter V - Some properties of the virus.
1. - Filterability.
2. - Passage of the virus through the intact ocular conjunctiva and
M I.D. (min : mum infecting dose).
3. - Resistance of the virus under various conditions: a) resistance to
drying; b) resistance against the action of glycerin pure or diluted
to 50%; c) resistance after freeztng.
4. - Discussion and summary.
5. - Conclusions.
Chapter VI - I.xanthematic fevers. Comparativc testing on guinea-pigs of the
virus of the classical typhus (of the old world) with tbat
of the endemic typhus (or North America) and that of the
exantbematic typhus of São Paulo.
Summary and conclusions of PART I.
Part II
Rickettsia brasiliensis and its relationship with the infection
Chapter VII - Introduction : Rickettsioses and their pluralistic conccpt. The
Rickettsia of the exantheraatic typhus of São Paulo.
Chapter VIII - Presence of Rickcttsiae in the cclls of the Descemefs membrane
in animais inoculated with the virus in the eye anterior
chamber.
tl. - Tcchnique cmployed.
2. - Frequcncy and morphology of the Rickcttsiae in the celts of tbe
Desccmct's membrane.
Chapter IX - Presence of Rickettsiae in the mcsothelial cells of the pcritoneal
wall of guinea-pigs inoculated in that cavity with the virus-
1. - Tcchnique cmployed.
2. - Morphology and arrangemcnt of Rickcttsiae in the cells of the
pcritoneal wall
3. - Frequency of Rickettsiae in the mesothelial cells of the pcritoneal wtll.
Chapter X - Relation of the Rickettsiae of the exanthemalic typhus of São
Paulo with the experimental infection.
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Bibliography.
1. - Infectiveness of Rickettsia brastlicnsis Monteiro.
2. - Ant'genic or vaccinating power oí the Rickettsiae in connexion with
the experimental infection.
3. - Virulicidal power of the anti-rickettsia serum.
4. - Presence of the Rickettsia brasilútisis in infectcd ticks, viz.. Am-
hlvomma cajenstense.
5. - Sranmary and conclusions oí PART II.
ABSTRACT
Part I
I. The prescnt paper is the rcsult of rescarches, made during the year
1931 and the first semester of 1932, most of which have been summarized
: n a series of notes published in “Brasil-Medico”, some, however, having been
Pr^ented to the 2nd International Congress of Comparative Pathology, held in
Paris in October 1931. Such features of the São Paulo typhus as its transmis-
5, veness, hosts to the virus in nature, etc., have likewise been investigated in
^peration with other assistanfs at the Instituto Butantan; a résumé of such
Itlv cstigations has also been published as presented to the “Sociedade de Medi-
ana e Cirurgia de São Paulo” (Laboratory Week, January, 1932) and to the
Sociedade de Biologia de São Paulo”, the subjects dealt with at thosc mecb-
ln gs having, nevertheless, been more throroughly analysed elsewhere.
This English translation covcrs but thosc chaptcrs which dcal particularly
**th the Author's personal contriburion from an experimental standpont and
^ose in which his views are set forth as to the character of the typhus problem
ln our midst. The remaining points referred to in the General Summary
to gether wirh the detailed protocols oí the cxperiments made may bc íound in
ll, c Portuguese text.
— S nce 1929, when it was diagnosed, therc lias appcarcd in São Paulo
infection of the group of the “exanthematic fcvcrs”, which, however, has
lls own individuality, as jier its clinicai and epidcmiological fcature and bchaviour
ttnder experimental conditions. In the prescnt paper, which is divided into two
Parts and ten chapters, the São Paulo tyfltus is analysed with regard tr the
^perimental behaviour of its “virus” on animais and to its etiological featurc
a* well. which includes a description and a study of its relationsh p with the
re ípon«ible rickettsia, Rickettsia brasiliensis Monteiro, 1931.
The designations “typho endêmico de S. Paulo” (S. Paulo endenre typhus)
"typho exanthematico de S. Paulo” (S. Paulo exanthematic typhus) had
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been adopted but the name “S. Paulo typhus” is now used in their stead to
be in conformity with the English nomenclature of this group of diseases.
A comparative study of the exanthematic fevers thus far reported in several
countries of the western world gives ground for the S. Paulo typhus to be
eonsidered as distinct from any of these fevers as it is from the European of
epidemic typhus.
II. In regard to the experimental infectiousness of the vinis for the
various laboratory animais, it seems to be most matked in the guinca-pig since
the virus produces, on inoculation into this animal and after an incubation
period of 3 to 4 days, a íebrile reaction lasting generally from 3 to 8 days
and ending by death in about 70 % of the cases. Just before death the tem-
perature of the iníected guinca-pigs drops to below normal, sometimes rising
for a while to drop definitely. In case of recovery their temperature returas
to normal and they resist further inoculation of the active virus thus showing
to have acquired immunity. This may last for at leasr 3 moníhs but is not
indefinite as it gradually decreases and disappears, the guinea-pigs becoming
again susceptible to the virus.
Among the anatonrcal lesions found in guinea-pigs inoculated with tlie
vini" the splccn enlargement is most marked and constant; subcutaneous hemor-
rhages with jelly-like oedema may also occur especiaily at the inguinal regions
when scrotum inflammation is present; histological alterations such as nodular
lesions of the brain seem to be rare or ab*ent contrary to what prevails in rhe
European typhus.
Upon intrapcritoneal inoculation male guinea-pigs develop in 20 to 25^
of the instances a reaction charactcrized by swelling of the scrotum, either
light with but rcddcning and oedema, or marked, sometimes with great enlarge-
ment, petechiae and purpura, testicle retention and even necrosis of the
local skin.
The behaviour of the S. Paulo typhus as regards the guinea-pig serves
as a means of disiincrion of this infection from other typcs of exanthem-
atic fevers. In this respect the former may indecd be separatcd from the
classical typhus, pathogenically by its shorter period of incubation and ícvcr
and grcatcr severity, and hhtologically by the abscncc or great rarity of brain
nodular lesions. This may be duc to a more rapid evolution in the S. Paulo
tyohus which in this respect resembles certain forms of North American endcmtc
typhus. Howcver, the S. Paulo typhus also d ffers from both the North
American endemic typhus and the “tobardillo” not only in bearing a somewhat
shorter pyrexia but also in being followed by scrotum reaction in a lower
proportion of the cases: 20 to 25 % as against 90$» (Maxcy) in the Southern
typhus of the United States and 70 % (Ncill) to 92 , 5 % (Mooscr) in the
Mexican typhus. Moreover, hemorrhages in the scrotum and even in some
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other bare regions (foot plants) are more írequent in our typhus and are
complicated, although seldom, by necrosis of the local skin. The virus of both
the Xorth .American and the S. Paulo typhuses cause this scrotum reaction in
guinea-pigs only upon intraperitoneal inoculation, \vh:lst that of the Rocky
Mountain spotted fever causes it even on hypodermic injection due to its
more marked tropism for the scrotum and apparently greater hemorrhagiparou*
and cytolytic power.
Rabbits are more resistant as they develop a rather short feverish reaction,
preceeded by a short incubation and seldom followed by death. Rats generally
nndergo an inapparen: infection.
III. The inoculation of the S. Paulo virus into Silenus rhesus monkeys
' s followed by a 2-4 day incubation period and a typical pyrexia usually last-
ln g 4 days and ending in collapsus and death; in some specimens the infection
ls more severe and appears complicated with hemorrhagic phenomena (face,
^rotum, etc.) particularly accentuated on their last day of life and right after
'fcath.Other simia, such as Ccbus and Alcualta, seem also to be susceptible,
^though the number of inoculations is not sufficient ro permit a conclusion.
IV'. Inoculation into the anteror chamber of the eye of guinea-pigs,
mbbits and rhesus monkeys brings about not only a cliaracteristic ocular reaction
kut a feverish general infection similar to that which cnsues its intraperitoneal
•noculation. That such reactions are speciftc is shown by the successful transfer
°f the virus to normal animais by means of an injection of cither blood or
kniin cmulsion of guinea-pigs thus infected as well as by the resistancc to the
as injected into the eye on the part of guinea-pigs that werc alrcady
tmniune; it is also shown by the serial transfer, by the eye channel, of the
v 'tus as containcd in tlic aqueous humour of an animal alrcady ocularly
mfccted:
V. Comparatively with the real filtcrabJc viruses the agcnt of the São
^*aulo typhus bears the following peculiar properties:
a) it did not pass thrcugh the 1-3 and L5 Chambcrland, 7 II*. Mandler
* n d N IJcrkcfcld filtcrs when it was found in citratcd blood, or brain cmulsion
,fl saline or in glucose broth, under the conditions dcscribcd in the text ;
b) it secmed not to infcct guinca-piga when a drop of virulent brain
ett >ulsion, in a concentration capable of cau>ing a tjqiical infection by any other
^nnei, was placcd on their normal eye mucosa;
c) its M. I. D. (minimum infccting dose) corrcspondcd to a dilution
s > re ater than 1 per 10000 and lesser than 1 per 1000000 of brain cmulsion;
d) when found in the blood or brain dried in vacuum over sulfuric acid
4r) d kept in vacuum bclow 0°C it lost its virulence in less than 24 hours, l>ecom-
ln g apt to cause but a mild infection ad immunity in guinea-pigs;
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e) in 6 days it was already dead and caused not even immunity;
f) preserved in pure glycerin at 5°C it (viruient brain) lost its virulence
in less than 7 days; in 50^0 glycerin at the same temperature it lost both
vitality and virulence in more than 12 and less than 24 days;
g) in frozen brain it has been preserved for about 1 year; therefore, the
treezing of viruient brains represents the best means for both the eonservation
in laboratory and transportation of the virus as it is cheaper than the maintenance
by successive transfers from animal to animal.
VI. In view of its clinicai, experimental and ep : demiological peculiarities
the S. Paulo typhus should be given individuality to bc p’aced, together with
the Rocky Mountain spotted íever, the eruptive fever and the tick-bite fever,
in one of the subgroups now recognized in the exanthematic fevers. The other
subgroups would be represented respect vely by those infections which bear
the European or classical typhus as type and by the “tsutsugamushi” and
allied infections in which the larvae of certain írombidiid play the rôle of
virus carriers.
Indeed, in spite of Mooseris arguments, in favour of the reciprocai
reversibleness of the viruses of the epdemic and endemic typhuses. th3t
pluralistic concept seems to be more in conformity w!th various facts of
seientifie ob-'ervation regarding the etio-pathogeny of the exanthematic fevers.
Part II
This section deals with the rickettsia found in the S. Paulo typhus, its
frequency and rclationslvp with the experimental infecrion.
Prom a nomenclatural standpoint the group of infections called “exan-
thematic fevers” no doubt must be separated from the diseases ca use d by real
filterabls viruses so as to form a special group for which the name “rickeítsiosis"
seems to be fitting.
From an etio-pathogenic standpoint this group should be subdivided, a*
shown before, into at least threc subgroups. This pluralistic conception scetn 5
to be fully jusíificd, not only by the clinicai feature of the corresponding
infections but by the experimental infectiousncss, localization and transniis*
siveness of their respective Rickctlsiac as well, until other means such as cultiva*
tion of these organisms in artificial media be made acccss : blc to be applied to
their differeniiation. Until some more satisfactory methods based in th*
modern laboratory technic be developed, the S. Paulo typhus individualization
must bc based on the evidence at hand as already shown. In view of th*
experimental behaviour and other characteristics of its “virus” this discas*
seems to 1« mostly related to the Rocky Mountain spotted fever of which l£
may represent a ncw varicty.
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In the light of the newer knowledge of the various rickettsia-like organisms
it 5€ems indicated for the so-called “Mooser’s bodies” to be named Rickettsia
rnooseri after the distinguished investigator who so well studied them in the
Mexican typhus. In this respect there is little doubt but that this Rickettsia
be diííerent from that found in the S. Paulo typhus, which, although much
closer to, seems to be also distinct from, R. ( Dcnnaccntroxcnus ) rickcttsi
Wolbach, responsible for the Rocky Mountain spotted fever.
The detailed study of the rickettsiae of the S. Paulo typhus is based a) on
their aspect in the endothelial cells of Descemet’s membrane after inoculation
of the “virus” into the anterior chamber of the eye of guinea-pigs, rabbits
and rhesus monkeys and also in the mesothelial cells of the peritoneal wall
after intraperitoneal inoculation and b) on their morphology after staining
*>y Castaneda’s and Giemsa's methods as found in the enclosed drawings and
microphotographs. This study shows that R. brasilicnsis Monteiro, 1931 may
he found in the mesothelial cells of the peritoneal wall of 73,5% out of 212
guinea-pigs intraperitoneally inoculated and examined, that this percentagc is
still higher when the research is made at the right moment. These cell contained
or free rickettsiae, after repeated washing and centrifuging to free them from
the "vinis” perchance existing in the peritoneum, again set up the discase
Upon injection into normal guinea-pigs: likewise, a bactcrin preparcd with them
contrary to what occurs if brain material is uscd, is capablc of producing
immunity by the formation of virucidal antibodies. The S. Paulo rickettsia
antigenic power is prover, by this capacity to bring about active immunity and
to confer passive immunity as well so as to make possible the preparation of
an anti-serum, if not curative, at least preventivc as regards the virus or
the infcction.
Finally, the prcsence of R. brasilicnsis has been discloscd not only in
sections of ticks ( Amblyontma cajennensc ) that have fed on infected guinca-
pigs but in their eggs that also prove to be infecting, this tick being able to carry
the infection under experimental conditions.
From these experiments the following conclusions may be drawn:
a) Rickettsia brasilicnsis represents either the causative agent or one of
the stages of the "virus” of the S. Paulo typhus in vicw of its írcqucncy and
a n:igcnic relationship with this infection;
b) it occurs in the endothelial cells of Desccmefs membrane after inocula-
tion of the virus into the anterior chimbcr of the eye of certain laboratory
>nimals as well as in the mesothelial cells of the peritoneal wall after intra-
peritoneal inoculation;
c) in the latter instance its frequcncy reaches 73,5% of the guinea-pigs
moculated, but this incidcnce is still higher if the research is made at a more
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Memórias do Instituto Butantan
Tomo VI
favourable period: 90,4% on the 3rd day of reaction, 93,7 % on the 2nd day
and 100% on the lst day.
d) it is also decidedly pathogenic for guinea-pigs in which it causes a
typical infection experimentally even though it be previously frecd from the
“virus” by repeated washing and centrifuging;
e) it bears antigenic properties and so may be used in the preparation
of a bacterin to be applied in actively immunizing guinea-pigs and in stimulating
the formation of specific virucidal antibodies;
f) it has been found in sections of experimentally infected ticks (A. cajen-
ncnse), which seem to be the most likely carrier of the S. Paulo typhus under
natural conditions.
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R I B L I O G R A P H I A
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
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(Trabalbo da SeccAo de Vírus e Virustberapla do In»d"
tutu DulanUn, julho de 1342),
134
LEGENDA DAS GRAVURAS
Estampa I
Figs. 1 2 — Reacção escrotal de pecjuena intensidade.
Figs. 3, 4 — Reacção escrotal mais acccntuada: frente e perfil.
Estampa II
Figs. 1, 2 — Reacção escrotal intensa, vendo-se melhor, na figura 2. ampliada, as zonas de
hemorrhagia e necrose.
Figs. 3. 4 — Reacção escrotal intensa em cobaia, com phenomenos hemorrhagicos e necrose
da pelle.
Estampa III
/
Fig. 1 — Photographia colorida da Est. II. fig. 2. salientando o aspecto da reacção.
Fig. 2 — Reacção escrotal intensa em outra cobaia, com phenomenos hemorrhagicos cutâneos;
o processo terminou pela necrose da pelle.
Estampa IV
Figs. 1, 2. 3, 4 — Aspectos da Rickettsia brosiliensis era diversas ccllulas colhidas, pela ras-
pagem da membrana de Descem et. cm animaes inoculados com o “ vírus" na camara
anterior do olho: coloração de Castancda.
Fig. 5 — Elementos mais ou menos filamentosos, observados em uma cellula c?a membrana
de Descemet: coloração de Castaneda.
Figs. 6, 7 — Ccllulas da membrana de Descemet contendo rickettsias: coloração de Giemsa.
Estampa V
Figs. 1. 2. 3. 4 — Aspectos da Rickettsia brosiliensis em ccllulas mesothcliaes da parede peri-
toncal de cobaias inoculadas com o " virus" pelo peritoneo. Coloração de Castaneda
Fig. 5 — Campo mcroscopico de idêntico material: duas ccllulas com rickettsias; um po-
lycariócyto com esses elcmmtos. Coloração de Castaneda.
Figs. 6. 7, 8 — Cellulas mesothebaes da parede peritoneal com rickettsias. Coloração de
Giemsa.
Fig. 9 — Parte de um campo microscopico, revelando diversas ccllulas com rickettsias.
Estampa VI
Figs. 1, 2 — Microphotographias de duas cellulas mesotheliaes da parede peritoneal, ricas em
rickettsias: a figura 1 corresponde ao desenho representado pela Estampa V, fig. 8.
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Lemos Monteiro — Typho exanthematico de S. Paulo Mrm. imi. Hutanian
■ Vol. VI. 1931
ESTAMPA I
Ei*. I
Mrm. Insl. Itiraintnn
J- Lemos Monteiro
Typho extuilhemalico de S. Paulo
Voi. vi, is.li
ESTAMPA \ I
rig. :
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PESQUISAS EPIDEMIOLOGICAS
SOBRE O TYPHO EXANTHEMATICO DE SÃO PAULO
POR
J. LEMOS MONTEIRO, F. da FONSECA e ALCIDES PRADO
( Com 10 graphitos t 2 fhotogrophias)
614426
PESQUISAS EPIDEMIOLOGICAS
SOBRE O TYPHO EXANTHEMATICO DE SÃO PAULO
PoK
J. LEMOS MONTEIRO, F. da FONSECA e ALCIDES PRADO
Possibilidade da transmissão experimental do virus por Ixodidae
Como consequência do interesse ulttmamentc observado pelo typho exan-
^niatico, appareceram na literatura deste anno vários trabalhos referentes á
^'ibilidade de infecção, na ural ou experimental, de carrapatos com virus de
^rias das modalidades dessa moléstia.
Depois dos trabalhos fur.damentaes que demonstraram ser a febre das Mon-
^has Rochosas transmittida por Ixodideos e de verificação semelhante feita
*°® r e uma infecção dos ruminantes (heart-water), a primeira demonstração da
^.«missão de infecções deste grupo por carrapato foi dada, no corrente anno,
*'° r Paul Durand e E. Conseil (1), no Ins.ituto Pasteur de Tunis, ficando pro-
q ue 0 virus da febre botonosa se encontra no Rhipicephalus sanguineus
^ r -. carrapato muito commum, e, que, capturado sobre o cão, triturado c ino-
^do no homem, reproduz a infecção. Verificaram ainda estes pesquisadores
s J e o virus pode permanecer var as semanas no Rhipicephalus sanguineus.
Ainda este anno verificaram Georges Blanc e J. Caminopetros (2) que a
‘Secção é transmittida hereditariamente pela femea do Rhipicephalus sangui-
Kr ^’ s ã sua prole, sendo infeaantcs. não só os ovos, como as larvas dclles oriundas,
^fieação esta da mais alta importância para a ep dcmiologia da infecção, pois
t ' n "* mostrar a desnecessidade do contacto do carrapato inícctantc com o doen-
^ * Possibilidade de grande propagação da infecção, bem como a possibilidade
P^sistencia do virus em determinadas regiões, mesmo na ausência de doentes.
Charles Joyeux e J. Picri, finalmcntc (3), acabam de verificar que o
faephalus sanguineus pode conservar durante lapso de tempo rcla.ivamente
3
HO
Memórias do Instituto Butantan
Tomo VI
longo o virus da febre exanthematica mediterrânea, ainda se mostrando infectan-
te depois de hibernar durante uma parte do anno.
Não só em relação á forma mediterrânea do typho exanthematico possuimos
hoje dados sobre o papel desempenhado pelos carrapatos ; também os temos «obre
o typho endemico norte-americano. Hans Zinsser e Ruiz Castaneda (4) con-
seguem infectar experimentalmente carrapatos ( Dennacentor nitens, Dcrmacentor
andcrsoni e Amblyomma sp.) com o virus e transmittir z infecção a animaes de
laboratorio, verificando que os carrapatos podem permanecer infectados durante
o lapso de 14 dias.
Experiências negativas não têm, certamente, faltado. Mooser e Dummer
(5), trabalhando com o typho dos Estados do Atlântico do Sul, não consegui-
ram infectar, fazendo-os sugar cobaias doentes, os seguintes carrapatos: Ani-
blyomma americanum, Amblyomma cajennense, Rhipicephalus sanguineus, Orni-
thodoros talaje e Oniithodoros turicuta.
Interessado o Instituto Butantan, na pesquisa da modalidade paulista do
“typhus”, que nelle vem sendo estudado desde o inicio de 1931 por um dos signa-
tários do presente trabalho, decidimos emprehender algumas experiencias no
sentido de verificar si os Ixodidac também são sensiveis ao virus brasileiro, que
sob muitos aspectos differe do europeu e mesmo do norte-americano.
O presente trabalho representa o relatorio das verificações empre-
hendidas.
Technica empregada
Utilizámos nestas pesquisas Ixodidac pertencentes á sub-íamilia Argasitiat :
o Omithodoros rostralus Aragão e o Argas pcrsicus (Oken) e ã sub-íamilia
Ixodidac : o Amblyomma cajennense (Fabr.).
A techn ca seguida para a inoculação dos carrapatos constou de lavagem
em solução physiologica dos exemplares a utilizar, trituração destes em gral com
solução isotonica, filtração através de gaze e consecutiva inoculação na cavidade
peri oneal de cobaias. As experitncias de picadas foram feitas com numerosas
larvas de Amblyomma cajennense collocadas sobre cobaias cujos pelos do dorso
tinham sido prevameme raspados e deixadas para sugar por espaço de 2 dias,
quando se colheram os exemplares, cheios ou não, aliás encontrados em numero
reduzido. As experiencias de picada com Omithodoros rostratus foram acom-
panhadas de perto durante todo o tempo, o que é facil, sabido como é que
este Ixodida suga rapidamente, abandonando o hospedeiro cm 1 ou 2 horas,
mais ou menos (figs. 1 e 2). As cobaias que serviram á infecção dos carra-
patos achavam-se sempre cm plena phase de reacção febril.
A verificação da immunidade. praticada em todas as cobaias, era feita sem-
pre com testemunhas normacs, que. sem excepçôes, funccionaram regularmente.
cm
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MoNTEir.o, Fonseca e Prado — Typho eianthematico m
Praticava-se essa prova depois dc submctter as cobaias em experiências a rigo-
roso controle, durante pelo menos 20 dias, constando de curva thcrmica traçada
durante todo o período de obser\-açâo e verificação do apparecimento de reacçáo
escrotal e passagem do virus para novo animal, no caso de rcacçâo febril.
Depois de decorrido o necessário lapso de tempo, eram os animacs em experiên-
cias submettidos á pru\-a de immunidade. inoculando-se- hes emulsão de cére-
bro de cobaias seguramente infectadas com o virus. em dose perto dc 1000 vezes
superior á necessária para determinar a infecção de cobaias norma.', contro-
lando-se a inoculação, como já ficou dito, com varias testemunhas. A observa-
ção era então proseguida nos mesmos moldes já citados até a morte do animal
ou durante lapso de tempo sempre superior a 1 mes, quando estes sobreviviam.
Morto o animal, era necropsiado, verificando-se as dimensões do baço e a exis-
tência de derrames cavitarios, fazendo-se a pesquisa dc ricketisias no raspado
do peritoneo e conser\ando-se material para exame histo-pithologico, Ixrm como
para verificação parasitologicas c bacteriológicas, sempre que havia suspeita de
infecção concomitante.
Ao iniciar estas experiencias, fizemos inoemação de 6 A inblyotntna cajcv -
neme normaes, capturados sobre cavallos do Instituto, cm uma cobaia, para ve-
rificar si a inoculação deste material provocasa, nos antmacs inoculado^, algum.,
reacção que pudesse perturbar as observações. Xão sendo verificada reacçáo
alguma, febril ou outra, durante 2o dias, foi esta testemunha submcttida á in-
fecção com material de SUcnus rhesits ( syn. J/acj.aj rhes.t;) infectado, rea-
gindo typicamente ao cabo dc 6 dias.
farte experimental
Para maior clareza, dividimos as experiencias que reai.zámos segundo o ma-
terial utilizado e o fim que se tinha em vista.
1) Experiencias com AtnbíyonttM eajtnncnse (Tabr.).
a) Receptividade ao virus
b) Poder infectante das fezes.
c) Transmissão hereditária do virus.
2) Experiencias com Argas pcrsicus (Oken).
3) Experiencias com Ornithodoros restrjtus Aragão.
a) Receptividade ao virus.
b) Tmnsmissão por picada.
c) Duração do poder infectante.
d) Poder infectante do liquido coxal.
5
142
Memórias do Instituto Butantan
Tomo VI
1) Experiências com Amblyomma cajamensc (Fabr.)
Os exemplares de Amblyomma cajenttcnsc utilizados nas experiencias foram
obtidos de cavallos do Instituto, ^nde são frequentes,
a) Receptividade do Amblyomma cajennense.
Foram feitas 3 tentativas de infecção, inoculando-se 2, 3 e 1 exemplares de
A, cajennense, respectivamente nas cobaias 39, 40 e 97, os quaes tinham sido
alimentados havia 11, 13 e 60 dias na cobaia infectada n. # 19.
Destas apenas reagiu, mostrando-se infectada, a cobaia n.° 40, que apresen-
Gmphl.-o 1
tou reacção typica do 6.° ao 10. c dia após a inoculação dos carrapatos, como
se verifica pelo graphico n.° 1, tendo-se mostrado, além disso, immune a uma
segunda inoculação, em dose seguramente infectante do virus, praticada 1 mês
após a primeira. As cobaias 39 e 97 morreram, respectivamente, 5 e 1 dia
após a inoculação dos carrapatos, o que prejudicou a observação.
Ficou assim demonstrado que o Amblyomtna cajennense, alimentado em
cobaia infectante em periodo febril, pode conservar em seu organismo, pelo
espaço de 13 dias pelo menos, o germe do typho exanthematico de São Paulo.
Que se trata, não de simples conservação do virus no organismo do canupato,
mas de verdadeira infecção do acariano, demonstra-o a experiencia c), bem como
o facto de ser provavelmente insufficicnte a dose de sangue ingerida pelo aca-
riano para provocar infecção na cobaia.
b) Poder infectante das fezes do Amblyomtna cajennense.
Com o fim de verificar si o virus não só permaneceria no organismo, mas
si era também eliminado com os excreta, foi feita uma experiencia nos molde»
habituató, aproveitando-se fezes emittidas nos 3 primeiros dias que se seguiram
ã infecção do Ixodida, tendo sido negativos os resultados. O pequeno prazo
decorrido entre a ingestão do sangue e o periodo cm que puderam ser colhidas
as fezes, porém, não auctoriza a conclusão alguma sobre a passagem do vinis
pelas fezes.
6
Monteiro, Fonseca e Prado
Typho exanthematico
143
c) Transmissão hereditária da infecção ás larvas do Amblyomma cajeimcnse.
Para verificar si a prole dos carrapatos submettidos á refeição infectante
adquire hereditariamente a infecção, como succede frequentes vezes em outras
parasitoses, instituiram-se 5 experiencias, das quaes 3 com inoculação na ca-
vidade peritoneal de larvas provenientes de exemplar de Amblyomma infectado
e 2 expondo cobaia normaes ás picadas das larvas.
A unica experiencia positiva foi a feita com a cobaia n.° 166, inoculada
com emulsão de 10 larvas provenientes de ovos postos por uma femea de
Amblyomma infectada na cobaia 19, cerca de 2 meses antes, larvas estas que já
haviam sido alimentadas em cobaia normal. A cobaia 166 não apresentou reacção
até 11 dias depois de inoculada, o que nos levou a sacrifical-a, inoculando a emul-
são de seu cerebro na cobaia 179, a qual, ao cabo de 5 dias, reagiu typica-
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25 5è27
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30
Grmphlco 3
mente, apresentando curva febril durante 4 dias, cahindo em crise e morrendo no
10. # dia após a inoculação. Mostram os graphicos 2 c 3 o decurso desta ex-
periencia, na qual a cobaia inoculada com as larvas apresentou infecção inappa-
rente, como sóe ás vezes acontecer, c a cobaia de passagem 179 teve reacção
característica.
Das experiencias com larvas de Amblyomma cajcnnensc oriundas de femeas
alimentadas em cobaias infectadas verificou-sc, pois, ser possivel a transmissão
hereditária do virus, não tendo, todavia, sido possivel obter infecção de cobaias
pela picada de grande numero de larvas. Deixaremos, todavia, por prudência,
rcsalvada a hypothese de uma contaminação das larvas por fezes infectadas,
caso haja eliminação do virus por esses excreta. Por analogia com outras in-
fecções é, porém, mais certa a infecção hereditária por nós verificada.
2) Experiencias com Argas pcrsicus (Oken).
Com este Argasineo foi feita apenas 1 experiencia, que constou da alimen-
tação de 2 exemplares em cobaia em periodo febril de infecção, seguida de
cm
SciELO
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144
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
trituração dos 2 exemplares, 8 dias após sita alimentação e inoculação em cobaia
normal, que não teve reacção e não se mostrou immunizada ao ser feita a
prova de immunidade, após 40 dias de observação.
A experiencia, foi, portanto, negativa.
3) Experiências com Ornithodoros rostrr.tus Aragãô.
Os exemplares de Ornithodoros rostratus Aragâo empregados ne«tas expe-
riências provinham do Estado de Matto Grosso, tendo sido verificado não es-
tarem infectados com espirochetas.
a) Demonstração da receptividade do Ornithodoros rostratus Aragão.
Nas 3 experiencias que foram instituídas, fazendo-se alimentar 3 Ornitho-
doros em cobaias em período infectante e inoculando-se 8, 13 e 18 dias após a
alimentação, respectivamente, nas cobaias 244, 292, 283 e 28 7, não foi conse-
guida infecção, não apresentando as cobaias reacção durante os 20 dias de obser-
vação, motivo pelo qual foram inoculadas com vinis, prova esta que mostrou
não estarem immunizadas. As 3 experiencias foram, portanto, negativas, o que
não quer dizer que os Ornithodoros rostratus não sejam receptiveis, como o
mostraram as experiencias b) e c).
b) Infecção da cobaia pela picada do Ornithodoros rostratus infectado.
Foram feitas neste sentido 9 experiencias, só uma das quaes foi positiva,
como se verá abaixo, resultado este plenamente demonstrado, pois não só a
cobaia picada reagiu typicamcntc, como o seu sangue c ccrcbro inoculados em
outras cobaias provocaram infecção característica, tendo, alem disso, sido in-
fectante o liquido coxal do carrapato que a sugara, como se verá em d).
O decurso da experiencia foi o seguinte: um exemplar de Ornithodoros
rostratus foi alimentado na cobaia 244, em pleno período febril; 13 dias depois
foi posto sobre a cobaia normal 275, alimentando-se abundantemente, pois pe-
sava antes da refeição apenas 0gr..05 e depois delia Ogr.,25. A cobaia 275 apre-
sentou, 13 dias após a picada infectante reacção typica (graphico 4). morrendo
4 dias após em consequência de uma sangria feita para passagem do vinis.
Foi necropsiada, sendo inoculada» as cobaias 297, 298 e 299, aquella com san-
gue e as duas ultimas com emulsão de ccrcbro da n. fc 275, tendo todas cilas rea-
gido typicamente, como se ve pelos graphicos 5. 6 e 7.
Alem desta, foram feitas tentativas de infecção por picada com Ornitho-
doros rostratus que haviam sugado cobaia ou homem doente cm numero de dias
variavcl: 7, 8, 9, 13, 18, 20, 22 c 23 dias utilizando-se para cada experiencia
uma nova cobaia, sendo todas submettidas á pro%’a de immunidade. Em todas
estas experiencias foi negativo o resultado observado.
Como se deprchende destas experiencias, a infecção do Ornithodoros ros-
tratus é possivel após sua alimentação em coliaia infectante, porém não se dá
sempre, sendo menor o numero de casos positivos do que o dos negativos.
Monteiho, Fonseca f. Piiado — Typho exanthemalico
115
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c) Duração do poder infectaute do Ornithodoros rostratus.
Com o fim de verificar si o poder infcctantc c duradouro ou si, ao con-
trario. é passageiro em Omithodcros rostratus, ícz-se o mesmo exemplar, que
já infectara a cobaia 275 por picada, 13 dias após a refeição infcctantc, picar,
agora 28 dia»: depois de se ter infectado, a col>aia 301. Esta ultima cobaia,
porém, observada durante 1 mês, nenhum symptoma apresentou de infecção;
foi então submettida á prova de immunidadc, inoculando-se-lhe virus represen-
tado pelo triturado do cerebro da cobaia infectada n* 321, o que determinou
apparecimento de reacção typica 3 d. as depois.
Por esta experiência se conclue que, ou bem o poder infectante do Ornitho-
doros rostratus pouco dura. pois um exemplar que, 13 dias depois de infectar-se.
transmittia seguramente a infecção, já não mais a transmitte 15 dias depois,
ou bem nem todas as picadas de utn exemplar infectado são capazes de transmit-
tir o virus.
cm
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Memórias do Instituto Butantan
Tomo VI
HO
d) Poder infectante do liquido coxal do Ornithodoros rostratus.
Sabido, como é, que o liquido coxal dos carrapatos é muitas vezes infectan-
te, foi neste sentido instituida uma experiencia, da qual resultou demonstrar-se
a possibilidade da transmissão do v : rus por este mechanismo. Foi para isto
aproveitado o liquido coxal do mesmo carrapato que já infectara a cobaia 2 75,
liquido este eliminado no momento tm que o acariano sugava esta cobaia. O
liquido colhido em pipeta foi diluido em solução physiologica e inoculado na
cobaia 276, a qual, observada durante 26 dias. não apresentou reacção febril
Submettida, porém, á prova de immunidade, inoculando-se-lhe vírus da cobaia
infectada 307, mostrou-se immunizada. não tendo reagido a es.a ultima inocula-
ção. Isto demonstra que a inoculação do liquido coxal tinha determinado uma
infecção benigna, inapparente, seguida de immunidade.
RESUMO
Esta 1.* parte das pesquisas epidemioiogicas pode ser resumida do seguinte
modo:
1. O Amblyotnnia cajcnncnse (Fabr.) alimentado em cobaia infectada com
typho exanthematico de São Paulo, é susceptível de adquirir a infecção, trans-
mittindo-a á cobaia, quando triturado e inoculado nesse animal 13 dias depois
de infectar-se, não sendo, porém, constante a infecção do Ixodideo.
2. Larvas provenientes de ovos postos por uma íemea infectada de Am-
blyomma cajcnncnse, inoculadas em cobaias, provocaram nestas uma infecção
inapparente, o que ficou demonstrado pela inoculação do cerebro da primeira
cobaia em uma segunda.
3. A unica tentativa de infecção de Argas pcrsicus (Oken) foi negativa.
4. E’ possivel, embora não sempre, conseguir-se infectar experimental-
mente Ornithodoros rostratus Aragão, alimentando-o em cobaia em phase in-
fectante.
5. A picada do Ornithodoros rostratus é infectante para a cobaia 13 dias
após sua infecção.
6. Um Ornithodoros rostratus, infectante 13 dias após sua alimentação em
cobaia doente, póde não infectar quando sugar 28 dias depois de contaminado.
7. No liquido coxal dc Ornithodorns rostratus infectado existe o virus
com capacidade infectante (immunizante) para a cobaia.
8. O período de incubação na infecção experimental da cobaia pela pi*
cada do Ornithodoros rostratus infectado é mais longo do que o periodo de in-
cubação geralmente observado após injecção do virus na cavidade peritoneal.
10
Monteiro, Fonseca e Prado — Typho exanthemalico
147
II
Pesquisa do viras em alguns arthropodos sob condições naturaes.
Recentes pesquisas sobre rickettsioses deixaram bem patente que a transmis-
são dos agentes desse grupo de infecções pode correr por conta de outros ar-
thropodos além do Pcdiculus vestimenti, piolho das roupas e do PedicuJus capi-
tis, piolho de cabeça, transmissores da RUkettsia prozvaxeki Rocha Lima, 1916,
agente do typho clássico do \ elho Mundo.
Relativamente ao typho exanthematico de S. Paulo, que ha alguns annos
vem sendo observado nesta cidade, com pequena disseminação, mas com eleva-
díssimo indice lethal, que orça por mais de 70 decidimos emprehender uma
serie de pesquisas tendentes a verificar a infecção natural de alguns arthropodos
parasitas do homem ou de animaes, domésticos ou não, assumpto este que consti-
tue uma das numerosas incógnitas que obscurecem a epidemiologia do nosso “ty-
phus” e que corresponde exactamentc aos objectivos deste Instituto, votado como
é ao estudo da pathologia humana.
Ao iniciarmos taes verificações, não ignoravamos a serie de difíiculdades
com as quaes deveriamos contar, peculiares a es:e genero de pesquisas c oriundas,
quer da difficil obtenção do material para estudo, quer do grttndc numero de
animaes sensíveis necessários á experimentação em larga escala, ou do perigo
que apresenta a pesquisa do transmissor de um agente morbigeno dotado da vi-
rulência do causador do typho de São Paulo. De todas as diíficuldadcs, porém,
a maior, ao que já previamos, seria a que reside na diluição dos transmissores
naturalmente infectados em relação ao« indivíduos não infectados da mesma es-
pecie, diluição esta que se deduz dever ser muito elevada, dada a relativa rari-
dade dos casos observados c o seu espaçamento, a menos que se trate de arthro-
podos que só raramente entrem cm contacto com o homem.
Algumas das difficuldades apontadas foram, aliás, contornadas, graças ao
apparelhamento do Instituto Butantan para este genero de pesquisas c graças ao
auxilio por nós recebido da Secção de Moléstias Infcctuosas do Serviço Sanitario
do Estado, cujo Inspector-chefe, dr. Francisco Salles Gomes c Inspectores, drs.
Sampaio Corrêa e César Diogo, bem como o Inspector Geral da capital,
dr. Eloy Lessa, são credores do nosso agradecimento, extensivo á turma de ca-
Ptura de ratos chefiada pelo Sr. Jove Gomes e posta á nossa disposição durante
algum tempo, a qual nos forneceu material precioso para as pesquisas até agora
r ealizadas.
11
143
Memórias do Instituto Bulantan — Tomo VI
Resumo das pesquisas effectuadas
Tivemos occasião de pesquisar, nos últimos meses, pediculideos. pulicideos
e cimicideos colhidos, quer sobre os proprios doentes, ou sobre o leito em que es-
tes se encontravam, quer em suas casas, bem como pediculideos, pulicideos, ixo-
dideos e outros acarianos capturados sobre animaes, domésticos ou não. exis-
tentes nas habitações onde se tinham verificado casos de typho exanthematico ou
em suas vizinhanças, no bairro mais infectado da cidade, limitrophe com a zona
rural.
Os trabalhos mais recentes sobre a transmissão de rickettsioses outras que
não o typho exanthematico clássico do Velho Mundo, accusam vários arthropo-
dos da transmissão dessas infecções: as pulgas dos ratos no caso do typho en-
dêmico norte-americano e o Rhipicephalus sanguincus, carrapato do cão, no caso
da febre botonosa de Tunis e da febre exanthematica de Marselha; alem desses,
o acariano Dcrmanyssidac, Liponyssus bacoti (Hirst, 1913), tem sido incrimina-
do de transmittir o “typhus” dos Estados Unidos e a moléstia de Brill do Medi-
terrâneo. Está demonstrado, alem disso, ha mais tempo, que a rickettsiose co-
nhecida por febre das Montanhas Rochosas é transmittida pelos carrapatos ücr-
macentor andcrsoni e Dcrmacentor variabüis e que o “tsutsugamushi” japonês,
outra infecção pertencente ao mesmo grupo, tem sua disseminação assegurada
pelas larvas do acariano Trombicula akamushi.
Vejamos, em rápido golpe de vista, quaes desses arthropodos occorrem na
zona mais infectada da cidade, isto é, zona suburbana e rural.
Em nossas investigações, observámos que justamente no bairro mais infec-
tado de São Paulo as pulgas de ratos são de extrema raridade, embora abundem
em outros bairros, apenas tendo sido capturados, na zona de Pinheiros e limirro-
phes, 1 Xcnopsylla cheopis e 22 Crancopsylla min erva em 128 ratos desta zona
pesquisados, ao passo que a oolheita de pulgas em ratos da zona mais central da
cidade, onde tem sido muito mais raro o “typhus”, foi sempre abundante.
Só raramente foi capturado Rhipicephalus sanguincus sobre cães nas casas
dos doentes e os exemplares pesquisados, bem como outras especies de ixodideos
examinados, não se achavam infectados.
Entre os acarianos encontrámos com grande frequência parasitando ratos:
Echinolaclaps echidninus ( Berlese, 1887) e Laelaps nutlalli Hirst, 1915, e só mui-
to raramente Liponyssus bacoti (Hirst, 1913).
Ao contrario disso, porém, foi Liponyssus bacoti encontrado com grande
frequência c abundancia sobre o preá ( Cavia aperea), cavideo muito commum
nos arredores de São Paulo, tendo sido verificada 6 vezes a sua presença em 9
preás capturados na zona infectada, chegando a ser observada a existência de
cerca de 500 exemplares sobre um mesmo preá. Além disso, foi Liponyssus
12
Monteiro, Fonseca e Prado — Typho exanthematico
149
bacoti capturado uma vez parasitando uma creança em casa donde acabava de
sahir doente de typho exanthematico.
Alem das pesquisas com ecto-parasitas capturados na zona suburbana ou
mesmo rural, estão em andamento outras, com pulicideos capturados sobre ratos
de zona urbana, da rua Florida, onde occorrera um caso de “typhus”, tendo sido
identificadas as seguintes especies de pulgas: Xcnopsylla cheopis, Xenopsylla
brasüiensis, Ctenopsyllus musculi, Ccratophyllus fasciatus e Ctcnoccphalidcs fclis.
Durante as pesquisas até agora realizadas foram examinados os seguintes ar-
thropodos, os quaes, depois de triturados em gral com solução physiologica, eram
injectados na cavidade peritoneal de cobaias:
1.* Serie (da zona suburbana e rural) :
26 Pulex irritans colhidos em roupas de camas de onde acabavam de sahir
doentes com typho exanthematico; inoculados em 3 cobaias.
97 Ctenoccphalidcs fclis capturados sobre cães e gatos de casas de doentes;
inoculados em 4 cobaias.
16 Crancopsylla mincrva capturados sobre ratos; inoculados em 1 cobaia.
6 Pcdiculus capitis colhidos sobre 2 doentes de typho exanthematico na
ultima phase da moléstia ; inoculados em 1 cobaia.
20 Pedicuius capitis colhidos sobre creanças de casas de doentes; inocula-
dos em 1 cobaia.
10 Linocjnathus piliferus, piolhos de cão, capturados sobre cães de casa dc
doente.
120 Cimcx Icctularius colhidos, quer no proprio leito dos doentes, quer cm
camas de outros habitantes da casa infectada, tendo sido feita a ino-
culação, não só do triturado, como também de fezes, submettendo-se,
alem disso, cobaias á picada dos hemipteros, experiencias estas pratica-
das em 7 cobaias.
350 larvas de Boophilus microplus colhidos na vegetação da zona infectada;
inoculadas em 2 cobaias.
4 Rhipiccphahts sanguincus colhidos em cães de um dos doentes; inoculados
em 1 cobaia.
13 Amblyomma ovale de igual procedência; inoculados em 2 cobaias.
100 Liponyssus bacoti capturados sobre 5 preás da zona infectada; inoculados
em 2 cobaias.
600 Echinolaclaps echidninus e Laelaps nuttalli capturados sobre ratos da zona
infectada; inoculados ou obrigados a picar cobaias, utilizando-se 9
cobaias.
13
150 Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
4 Liponyssus bursa, capturados sobre gallinhas de casas de doentes de typho
exanthematico ; inoculados em 1 cobaia.
2* Serie (zona urbana) :
75 Ctenopsyllus ntusculi; inoculados em 4 cobaias.
69 Xenopsylla cheopis; inoculados em 4 cobaias.
2 Xenopsylla brasiliensis ; inoculados em 1 cobaia.
1 Ceratophyllus fasciatus; inoculado em 1 cobaia.
1 Ctenocephalides felis; inoculado em 1 cobaia.
As cobaias utilizadas para essas experiendas foram todas submettidas a
observação rigorosa, traçando-se a curva de temperatura durante um prazo
minimo de 20 a 30 dias, findos os quaes eram submettidas á prova de immunida-
de Sempre que havia reacção febril a cobaia era sangrada no coração e o san-
gue inoculado em outra, para passagem do virus, afim de verificar si teria sido
esta a causa da reacção.
Para a prova de immunidade inoculava-se, por via peritoneal, virus de pas-
sagem, isolado de doente proveniente da zona rural, virus já descripto por um
dos auctores em trabalhos anteriores e representado por emulsão de cerebro de
cobaia infectada, em dose seguramente infectante, havendo sempre testemunhas
das inoculações.
Resultados :
Pelas experiendas realizadas, tomando, como critério de verificação positi-
va, reacção febril de mais de um gráo centígrado adma da media individual da
cobaia ou a immunidade apresentada contra a infecção por dose de virus cerca
de 1000 vezes superior á dose minima infectante, verificámos que nenhuma das
cobaias inoculadas, com pediculideos, pulicideos, cimicideos, ixodideos ou aca-
rianos, se apresentou infectada, pois nem uma só das 37 cobaias utilizadas apre-
sentou reacção febril typica e todas as já submettidas á prova de immunidade
reagiram fortemente, demonstrando não terem ficado immunizadas após a ino-
culação com aquelles arthropodos.
Discussão
Maxcy, em 1929 (6), estudando o “fyphus” do sul dos Estados Unidos,
julga que o virus não é transmittido pelo Pcdiculus humanus, acreditando, basea-
do em considerações de ordem epidemiologica, que a transmissão deve correr por
conta de arachnideos (carrapatos ou outros acarianos), aventando a hypothese de
serem roedores os depositários do virus.
14
Monteiro, Fonseca e Prado — Typho exanthemalico
131
Mooser e Dummer, em 1930 (5), estabeleceram a possibilidade da infecção
experimental do piolho do homem com o vinis do typho dos estados do Atlântico
Sul (America do Norte).
Castaneda e Zinsser, em 1930 (7), infectaram experimentalmente perceve-
jos (por via rectal, pelo methodo de Weigl), os quaes, injectados em cobaias,
a estas conferiam infecções typicas. Os resultados de tentativas de infecção de
cobaias pela picada ou pelas fezes dos percevejos foram, entretanto, negativas.
Conseguiram ainda os mesmos pesquisadores infectar piolhos utilizando a mes-
ma technica, verificando que os pediculideos inoculados em cobaias determina-
vam infecção.
Durand e Conseil (8), em 1931, provaram ser o Rhipicephatus sanguincus,
carrapato do cão, o responsável pela transmissão da febre marselhesa ou botono«a
de Tunis.
Em 1931, Dyer e Badger (9) deram, pela primeira vez, a prova de que exis-
te, naturalmente infectado, um outro insecto que não o Pcdiculus humanas, capaz
de transmittir o “typhus” do Novo Mundo. Conseguiram estes pesquisadores
capturar, em Baltimore, pulgas do rato, que trituradas e inoculadas em cobaias
conferiram a estas infecção typica, apresentando-se as cobaias, restabelecidas da
infecção, immunes a nova infecção provocada pela raça norte-americana do vi-
nis. A verificação de Dyer e Badger constitue uma contribuição da mais alta
relevância para a elucidação dos problemas epidemiologicos relacionados com a
forma norte-americana do typho exanthematico, representando uma prova deci-
siva de sua distincção do typho clássico da Europa.
Complemento de grande valor da verificação de Dyer e Badger c a prova
que acabam de dar Mooser, Castaneda e Zinsser (10), de que a propagação do
“typhus” americano do norte entre os ratos, seus depositários naturaes, é devida
ao piolho Polyplax spinulosa, parasita do rato dos esgotos, ficando desse modo
fechado o cyclo da modalidade norte-americana da infecção, o que não quer, to-
davia, dizer que não venha a ser demonstrada a possibilidade da existência de
outros vectores.
Está, além disso, bem estabelecido por pesquisas mais antigas que a rickett-
siose conhecida por febre das Montanhas Rochosas é transmittida pelo Denna-
centor andersoni e pelo Demutcenlor modestas, encontrados naturalmente infe-
ctados, respectivamente, por Ricketts e por Maver. Sabe-se também, ha muito,
serem Trombicula akamushi e Trombicula dcliensis, respectivamente, os trans-
missores do "tsutsugamushi” japonês e do “pseudo-typhus” das índias Hollan-
desas.
Em relação ao typho de S. Paulo, assignalámos no capitulo anterior, que,
experimentalmente, é possível a transmissão do virus por intermédio do Am-
blyomma cajenncnsc e Ornithodoros rostralus.
15
152
Memórias do Instituto Butantan
Tomo VI
Em condições naturaes, porém, não pudemos, até agora, chegar a uma
conclusão definitiva em relação á existência do virus em uma grande serie de
arthropodos examinados.
Estes resultados, entretanto, permittem concluir que, para a transmissão na-
tural do typho exanthematico de S. Paulo, é muito pequena a probabilidade de
ser este papel desempenhado por Pediculus capitis, Pulcx irrifans ou Cimex lc-
ctularius, que são os ectoparasitas que apresentam relações mais immeditas com
o homem, entre nós. Estes insectos foram capturados em flagrante parasitismo
dos doentes, quer sobre elles proprios, quer nos seus leitos, ou sobre pessoas ou
leitos de casas onde acabavam de ser assignalados novos casos, havendo, portan-
to. toda a probabilidade de que se achassem infectados, caso fossem susceptíveis
á infecção, o que não se verificou.
Necessário, porém, se faz resalvar a hypothese de exigirem elles um prazo
de incubação maior, para transm itirem a infecção, do que o que lhes foi con-
cedido. Os exemplares examinados foram em regra colhidos, em media, cerca
de uma semana após o inicio da infecção dos doentes, sendo inoculados no mes-
mo dia ou no dia seguinte ao da captura. Sabendo-se que em condições natu-
raes esses parasitas se alimentam com frequência, a probabilidade é de que o vi-
rus já tivesse tido tempo de soffrer multiplicação sufíiciente para que o insecto
se tornasse infectante, caso fosse receptivel.
E’ sabido, como o assignalou Rocha Lima (11). que os piolhos alimentados
cm doentes de typho exanthermatico europeu exigem prazo de 4 a 5 dias para se
tornar infectantes, falhando, porém, ás vezes essa regra e só vindo a apresentar
infecção demonstrável depois de 8 dias. Não é impossível que, no caso do
typho de S. Paulo, o prazo habitual de incubação seja mas longo do que o exi-
gido para o “typhus” do Velho Mundo, nisso residindo a razão de não ter sido
obtida a infecção, quer com os piolhos, quer com as pulgas e os percevejos exa-
minados.
Não é, alem disso, conhecido o gráo de receptividade que porventura pos-
sam apresentar no caso do typho de S. Paulo, não sendo impossivel, embora seja
menos provável, que só um numero muito pequeno de exemplares se torne in-
fectante, o que se verifica em menor escala, aliás, com o typho exanthematico
clássico, em que nem todos cs piolhos se infectam ao sugar o doente em phase
infectante. Nesse caso só o exame de um numero muito maor de exemplares
capturados sobre doentes poderia conduzir a resultado definitivo.
São estas, porém, meras hypotheses, que aventamos apenas para deixar
bem patente não considerarmos definitivos os resultados a que até agora che-
gámos.
Fomos levados, no decurso das pesquisas, a algumas conclusões de interes-
se, baseados no estudo da fauna de ectoparasitas dos roedores examinados.
Monteiro, Fonseca e Prado — Typho exanlhemalico 153
t
Notável contraste foi observado relativamente ao indice pulicideano dos
ratos capturados nas zonas suburbanas ou mesmo rural e na zona propriamente
urbana da cidade. Nos ratos daquellas zonas (suburbana e rural) foi inteira-
mente excepcional o encontro de publicideos (1 Xrnopsylla cheopis e 22 Cra-
neopsylla minerva em 128 ratos), os quaes, entretanto, parasitam abundante-
mente os ratos da zona urbana (*).
Occorrendo o maior numero de casos de “typhus” justamente nas zonas su-
burbana e rural, onde se reveste de particular gravidade, zonas estas nas quaes
quasi não são encontradas pulgas parasitando ratos, somos forçados a concluir
que é pequena a probabilidade de serem as pulgas dos ratos os transmissores ha-
biruaes do “typhus” observado nessas zonas. Existindo, entretanto, as pulgas
em abunclancia nos ratos da zona urbana, onde o typho também occorre, si bem
que mais raramente e talvez sob forma mais benigna, torna-se acceitavel a hypo-
these de representarem o pape! de transmissores da infecção na zona urbana.
Por outro lado. segundo tivemos opportunidade de verificar (12), existe
Uas zonas suburbana e rural de S. Paulo um pequeno cavideo, o preá, Cavia
operea, frequente e intensamente parasitado por Liponyssus bacoli, acariano pa-
•asita também do rato e do homem. Este acariano vem sendo incriminado com
insistência de transmittir ao homem o typho norte-americano, tendo ficado pro-
vado, em novembro do anno findo, por Dove e Shelmire (13), que, experimen-
talmente, elle pode ser infectado ao alimentar-se sobre um animal doente, trans-
niittindo então a infecção pela picada.
Diante desses dados é perfetamente licito perguntar si em São Paulo não
será o typho da zona urbana, onde abundam as pulgas dos ratos, transmittido ao
bomem por estes syphonopteros, tal como succede na America do Norte, segun-
do o provaram Dyer e Badgcr (9) e si o typho das zonas suburbana c rural,
onde as pulgas de ratos são extremamente raras, não terá como transmissor o
Liponyssus bacoli (como o querem Dove e Shelmire) ou algum outro acariano,
eomo, p. ex., as larvas de carrapatos, que verificámos serem sensíveis ao “ty-
phus” experimental.
Succederia nesta hypothese com o typho exanthematico de S. Paulo o
niesmo que já está verificado para o typho tropical dos Estados Malaios, onde
occorre uma forma urbana e uma rural da infecção.
Tal hypothese. porem, somente poderá ser defendida após um estudo so-
rologico das duas possíveis formas da infecção, bem como após verificações
®curadas do comportamento experimental dos respectivos virus.
(•) As designações de urbana, sub-urbana e rura! por nós empregadas não devem
**r interpretadas como correspondentes ás divisões admin : strativas da cidade c do Estado,
5! gnificando apenas o grao de densidade dr hab tações e o aspecto da zona cm questão,
factores de importância no estudo que emprchendemos.
17
154
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
RESUMO
1. Tendo inoculado, em cobaias, exemplares de Pcdiculus capitis, Pulcx
irritans e Cimex lectularius, colhidos sobre doentes ou pessoas da casa e nas
camas dos mesmos, acreditam os auctores ser muito pouco provável que estes
hematophagos desempenhem o papel de transmissores habituaes do typho exan-
thematico de S. Paulo.
2. Foram negativas as experiencias tendentes a demonstrar a presença
do virus, em condições naturaes, nos seguintes arthropodos, capturados em li-
berdade ou em parasitismo em ratos, cães, gatos e gallinaceos das zonas in-
fectadas :
Pulicideos: Xenopsylla cheopis, Xcnopsylla brasiliensis, Ctenopsyllus inns-
culi, Ceratophyllus fasciatus e Craneopsylla minerra, capturados sobre rato c
Ctctwcepltalides fclis capturados sobre cão, gato e rato.
Pediculideos : Linognathus pilifcrus, piolho do cão.
Ixodideos: Amblyomma ovale e Rhipicephalus sanguineus, carrapatos do
cão e Boophilus microplus, carrapato do boi, este em phase de lana e captu-
rado quando em liberdade.
Acarianos Dennanyssidae : Echinolaehps echxdninus, Laelaps nuttalli e Li-
ponyssus bacoti capturados sobre ratos e o ultimo também sobre preás; Lipo-
nyssus bursa capturado sobre gallinaceos.
3. O estudo da fauna de ectoparasitas das zonas da cidade onde occorre
a infecção, a suburbana ou rural e a urbana, alliado a razões de ordem epide-
miologica e de comportamento experimental do virus, parece indicar que o trans-
missor habitual do virus deve ser a pulga dos ratos na zona urbana e um acaria-
no, Dennanyssidae ( Liponyssus bacoti) ou Ixodidae, na zona suburbana ou ru-
ral, facto que, sendo verdadeiro, coincidirá com uma possível diversidade do vi-
rus nas duas zonas, tornando-se necessárias outras pesquisas para que se confir-
me a hypothesc.
III
Os ratos como possíveis depositários do virus.
A existência de outros depositários de “virus”, alem do proprio homem, na
natureza é facto hoje acceito em relação a varias “rickettsioses”. Para a febre
maculosa das Montanhas Rochosas são incriminados vários roedores silvestres,
principalmente coelhos selvagens; no caso do “tsutsugamushi”, do Japão, o roe-
Monteiro, Fonseca e Prado — Typho exanthematico 155
dor Microtus montebelloi e outros; quanto ao typho endemico da America do
Xorte (Estados Unidos e México) os estudos recentes (1931) de Mooser, Cas-
íaneta e Zinsser (14), no México, provaram ser os ratos depositários do vinis,
graças á inoculação de emulsão de cerebro destes animaes em cobaias e confir-
mando, deste modo, as verificações de Dyer e Badger (15) quanto á fonte natu-
ral de infecção das pulgas, incriminadas por estes como transmissores do virus
ao homem.
A transmissibilidade por intermédio das pulgas dos ratos foi confirmada
por Mooser, Zinsser e Castaneda, nos Estados Unidos e, logo depois, por
Kemp (16).
A infecção de rato a rato é entretida não só por meio das pulgas, mas prin-
cipalmente, segundo Mooser, Castaneda e Zinsser (10), por meio do piolho do
rato, o Polyplax spimdosa.
Estudando o typho exanthematico de S. Paulo sob vários dos seus aspe-
ctos, não podíamos deixar de emprehender a pesquisa de possíveis depositários
naturaes do seu virus. Nossos estudos neste sentido foram iniciados antes de
termos tomado conhecimento dos recentes trabalhos dos auctores americanos, e
se justificavam em virtude do aspecto epidemiologico da própria infecção.
Nos capitulos anteriores foram relatados os resultados da transmissão expe-
rimental do virus por meio de Ixodideos e os das pesquisas feitas para a verifica-
ção de infecção natural em arthropodos diversos: Pulicideos, Pediculideos, Cimi-
cideos, Ixodideos e outros acarianos.
Mostraremos, agora, os resultados obtidos para a verificação da possibilida-
de de serem os ratos depositários naturaes do virus do typho de S. Paulo.
Technica empregada
Ratos capturados na zona infectada da cidade e enviados vivos ao Instituto
pela Secção de Prophylaxia de Moléstias Infectuosas do Serviço Sanitario do
Estado eram immediatamente examinados. Com os cuidados technicos neces-
sários, eram colhidos os ectoparasitas porventura existentes, separados de accor-
do com a especie, para estudo estatístico da frequência com que eram verificados,
sacrificando-se e necropsiando-se em seguida os hospedeiros. Durante a necro-
psia era colhido material, inclusive de hematozoarios e Leptospiras, visando o
conhecimento dos parasitas dos ratos da zona correspondente. Nos exemplares
que apresentaram alguma lesão evidente macroscópica, eram colhidos fragmen-
tos de organs diversos para estudo histo-pathologico. O cerebro de todos os
fatos era retirado asepticamente e collocado em placas de Petri esterilizadas.
Em seguida era feita emulsão, em agua physiologica, do cerebro, sendo esta im-
tneditamente inoculada em cobaia por via peritoneal. Para economia de ani-
19
Pesquisas epidemioJogicas sobre o typho exanthematico
cm
7 SCÍELO, 2.1 12 13 14 15 16 17
PROVA DK IMMUNIDADE
cm
7 SCÍELO, 2.1 12 13 14 15 16 17
PROVA DE IMMUNIDADE
cm
7 SCÍELO, 2.1 12 13 14 15 16 17
cm
7 SCÍELO, 2.1 12 13 14 15 16 17
(*) Halos provenientes da zona urbana da cidade.
Monteiro, Fonseca e Prado
Typho cxanthematico
165
maes reactivos, era geralmente inoculada a emulsão de cerebro de vários ratos
em cada cobaia, dividindo-se em regra o material de accordo com a especie do
rato e sua proveniência. As cobaias eram submettidas a observação, sendo sua
temperatura registada diariamente e sempre á mesma hora. Decorridos, em
media, 20 a 30 dias, eram submettidas á prova de immunidade, com a inocula-
ção de virus de passagem, seguramente activo e sempre com testemunhas, re-
presentando a dose inoculada mais de 1000 D. M. I. (doses minimas infectantes).
A existência da immunidade nesta prova com a testemunha positiva era
considerada indicio da infecção, embora benigna e muitas vezes sem reacção fe-
bril, determinada pela inoculação dos cerebros dos ratos. As que apresentavam
reacção febril eram sangradas para passagem do virus porventura existente.
Resultados das inoculações experimentaes e discussão
Fizemos até agora inoculação de cerebros de 128 ratos capturados na zona
suburbana ou rural (em casas de onde haviam sahido casos confirmados, ou em
suas proximidades) e 24 ratos provenientes da zona urbana da cidade. O qua-
dro annexo resume as experiencias.
Da 1.* serie (zona suburbana ou rural) apenas podemos concluir pela exis-
tência do virus em 2 grupos; o grupo constituído pelos Epimys norvegicus 8 e
9, capturados ao mesmo tempo em uma mesma casa da zona infectada, na rua
do Futuro, em Villa Magdalena, os quaes, foram sacrificados sendo a emulsão
dos cerebros de ambos inoculada na cobaia 377, a qual não apresentou reacção
febril, mas se mostrou immunizada ao ser reinoculada, 26 dias depois, com dose
elevada do virus, infectante para muitas testemunhas.
O segundo grupo é o constituído pelos Epimys norvegicus 98, 99 e 100,
dos quaes os dois primeiros provinham da Estrada do Cotia e o ultimo da rua
Oscar Freire. A emulsão do cerebro desses ratos, inoculada na cobaia 469, não
determinou infecção apparente, mas a cobaia mostrou-se, do mesmo modo que
a 377, perfeitamente immune a uma nova inoculação de dose massiça do virus
feita 21 dias depois.
E’ sabido que a immunidade nas infecções do grupo do “typhus”, desde
<jue não seja obtida com as “rickettsias”, que possuem propriedades antigenicas,
só se estabelece como consequência de uma infecção, mesmo benigna.
Isto provavelmente aconteceu com os resultados positivos assignalados, nos
Quaes o “virus” inoculado com o cerebro dos ratos provocou uma infecção be-
nigna, com ligeira reacção febril ás vezes, sem reacção outras, porém sufficientc
Para determinar a immunidade da cobaia em relação a dose seguramente infe-
ctante do virus de passagem.
29
1G6
Memórias do Instituto Butantan
Tomo VI
Mesmo nesta hypothese, verifica-se que a porcentagem de ratos possíveis
portadores do vinis e provenientes da zona suburbana e rural é pequena, ape-
nas 1,5 %.
Um dos resultados, considerado duvidoso, com cerebro dos ratos 125 a
12P, somente não é dado como positivo em virtude de termos verificado conco-
mitante infecção da cobaia com toxoplasma, apezar de termos obtido passagem
da infecção para um segundo animal, sendo que na terceira passagem a morte
da inoculada teve logar prematuramente, apresentando o animal phenomenos
de paralysia.
Xos casos de resultado considerado positivo, póde ser objectado que a
cobaia, depois de inoculada com o vinis para prova de immunidade, tenha
tido uma infecção inapparente, e que se deveria ter feito inoculação do seu sangue
em outras cobaias para provar a ausência do virus. Reconhecemos a validade
da objecção, embora a raridade destas formas e a dose elevada do vinis ino-
culada torne pouco provável a hypothese invocada, pois outras cobaias e a tes-
temunha inoculadas no mesmo dia, como se vê no quadro, apresentaram infecção
característica.
Por estes resultados seria licito considerar o rato como possivel depositário
do virus, sendo muito provável que outros existam entre os roedores silvestres,
talvez mesmo desempenhando entre nós papel mais importante na propagação
da infecção na zona rural ou suburbana da capital. Este modo de ver encontra
justificativa no facto de os ratos colhidos nessa zona da cidade, fóco da in-
fecção, serem muito pobres em pulgas, apontadas como transmissoras do typho
endemico, quasi também não sendo parasitadas pelo acariano Liponyssus bacoti
(Hirst), responsabiüzado também pela sua transmissão, porém, somente pelo
Echinolaelaps echidninus e Laclaps nuttalli, ainda não incriminado em qualquer
parte do mundo.
Por outro lado, verificámos que o Liponyssus bacoti é extraordinariamente
frequente nas preás, Cavia aperca, que são facilmente encontradas nesta prin-
cipal zona infectada.
Sómente novos estudos, já iniciados, mostrarão si estes outros roedores
podem também desempenhar o papel de depositários do virus e a importância
que poderá ter o Liponyssus bacoti assim como outros acarianos, como trans-
missores do typho de São Paulo.
Os resultados da 2.* serie de experiencias apresentam também interesse não
pequeno, tendo sido feitas com ratos provenientes da zona urbana da cidade
(Rua Florida), capturados em uma casa, donde sahira um caso da infecção e
num moinho de trigo e deposito de cereaes da vizinhança. O caso clinico fo?
confirmado e se manifestou de forma benigna.
Os ratos desta proveniência eram extremamente parasitados por pulgas.
Monteiro, Fonseca e Prado
Typho cxanthematico
167
A pesquisa do virus no cerebro foi feita somente em 24 destes roedores (*).
Xeste numero, reduzido relativamente ao da primeira serie, já obtivemos,
pelo menos, um resultado de certa significação.
Os cerebros dos ratos ( Epimys norvegicus) 132 e 133 inoculados na
cobaia 529, determinaram reacção febril acima do normal depois de um período
de incubação de 8 dias. A evolução da reacção não foi, porém, muito seme-
lhante á provocada pelos virus que estudámos (isolados de doentes da zona su-
burbana ou rural) ; a temperatura, embora acima da media normal, mostrou
o máximo de 39°S e apresentou remissões durante certos dias (graphico 8).
A existência deste outro typo de virus, determinando na cobaia uma infecção
com evolução mais lenta e mais benigna, ficou bem demontsrada pelas passa-
gens já feitas, em numero de 4 até agora. A cobaia 529, no 12.° dia após a
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Graphico 8
inoculação dos cerebros de ratos, com a temperatura de 39°4, foi sangrada
no coração e 4 cc. de sangue foram inoculados na cobaia 544. Esta ultima
(graphico 9), após incubação de 13 dias, apresentou reacção febril durante vários
dias, attingindo em alguns a temperatura 40*1. Xo 3.° dia de reacção febril
(*) Por um lapso foi dado anteriormcnte este numero, o que agora corrigimos, rccti-
ficanao-o para 20. Esse menor numero dos exemplares pesquisados mais salienta a pro-
porção de resultados positivos com estes roedores da zona urbana.
31
168
Memórias do Instituto Butantan
Tomo VT
firaphico 9
Graphlr» 10
3U
Monteiro, Fonseca e Prado — Typho exantbemalico 169
foi sangrada, sendo inoculada com seu sangue (4 cc.) a cobaia 559. Esta apre-
sentou, no 6.® dia da inoculação, 39“9; no 7°, 39°; no 8.®, 41®; no 9.°, 39"5
e no 10.®, 41.®, graphico 10. Neste dia foi sacrificada, notando-se na necropsia
a existência de esplenomegalia característica, sendo inoculadas, para 4.® passagem
do vinis, a cobaia 573, com 4 cc. de sangue e a cobaia 574, com emulsão de
cerebro. Estas duas estão, ao ser escripta esta nota, no 4.® dia de inoculação.
A primitiva cobaia, 529, foi reinoculada com o virus de passagem segura-
mente activo e proveniente do doente da zona suburbana ou rural, depois de 35
dias da inoculação com os cerebros dos ratos. Não apresentou reacção febril
característica (apenas um dia teve 40°), porém morreu na noite do 6.® para
o 7.® dia. A pesquisa de rickettsia no peritoneo foi positiva.
Também a cobaia da 2.* passagem foi reinoculada com o mesmo virus de-
corridos 23 dias. Apresentou reacção no 3.® e 4.® dias (40 e 39®7), con-
tinuando viva.
A pesquisa de rickettsia no peritoneo na cobaia da 3.* passagem (virus
urbano) e que foi sacrificada, deu resultado negativo.
As pesquisas com este novo virus, proveniente de ratos capturados na zona
urbana da cidade, estão sendo continuadas. Do que já foi verificado e resu-
mido acima, póde-se pensar que, immunologicamente, o virus da zona urbana
seja também differente do virus oriundo de doentes da zona suburbana ou rural.
De outro grupo de ratos (ns. 138 e 139) foi isolado novo virus murino, apre-
sentando o mesmo comportamento (*).
Estes resultados experimentaes, embora sob certo ponto de vista não possam
ser considerados definitivos, trazem algum apoio á hypothese, já emittida por
um de nós (17), da possibilidade de o typho exanthem3tico de S. Paulo se
manifestar sob duas formas, talvez distinctas pelo seu aspecto clinico, immuno-
logico, pathogenico e epidemiologico, como acontece com o typho tropical dos
Estados Malaios. Neste, as duas formas (urbana e rural) foram definidas,
primeiramente, em virtude dos resultados da reacção de Weil-Felix praticada
com os typos de Proteus X19 e XK (Kingsbury) e, depois, pelo estudo expe-
rimental dos virus.
Estes estudos devem ser continuados entre nós e emprehendidos novos,
afim de serem bem estabelecidas as relações entre estas duas possíveis formas
da infecção; si representam apenas uma variação de virulência do mesmo virus
ou si são devidas a virus differentes, sendo diversas as infecções, embora per-
tencentes ao mesmo grupo.
RESUMO
1. Baseados em provas de immunidade e no resultado de pesqui?as an-
teriormente feitas e já assignaladas, somos levados a acreditar na possibilidade
(*) O estudo deste virus consta de outro trabalho onde foram feitas as conside-
rações e conclusões que comporta.
33
170
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
de serem os ratos, talvez, depositários do vinis do typho exanthematico de São
Paulo.
2. Em relação á infecção manifestada na zona suburbana ou rural da
capital, embora admittido o pape! dos ratos, outros possíveis depositários do
virus devem ser pesquisados entre roedores silvestres, conforme indicação dos
resultados do estudo da fauna de ectoparasitas nelles encontrada.
3. Quanto á infecção manifestada na zona urbana, o papel do rato como
depositário do virus, parece-nos ter sido o melhor demonstrado, embora ainda
não definitivamente.
4. A hypothese de uma diversidade de infecções, de accordo com o meio
suburbano ou rural e urbano, justifica-se pelo comportamento dos respectivos
virus, sendo o que foi isolado de ratos da zona urbana, já na 4.* geração, muito
menos pathogenico para a cobaia do que o já estudado e isolado de doentes pro-
venientes da zona suburbana ou rural.
5. Somente os resultados de estudos clínicos e immunologicos (reacções
sorologicas com os differentes typos de Proteus X), assim como a continuação
das pesquisas experimentaes e epidemiologicas, confirmarão de modo definitivo
a hypothese suggerida na conclusão anterior.
ABSTRACT
In the course of three new series of experiments undertaken with a view
to finding out not only if certain species of Ixodid might carry the São Paulo
typhus under experimental conditions (series I) and if some Arthropoda were
naturally infected with its virus (series II), but also if rats might play the
rôle of host to the virus (series III), new facrs ha ve come to light which
may bc summarized as follows:
Series I
1. Amblyomma cnjennensc (Fabr.) fed on a guinea-pig infected with the
São Paulo typhus is capable of transmitting this infcction to another guinea-pig,
provided that it be crushed thirteen days after its fecding and be inoculated
into this animal; the infection of this Ixodid, however, is not constant.
2. Larvac, hatched from eggs laid by an infected female of Amblyomma
cajennense, upon inoculation into guinea-pigs, cause these to develop an inapparent
infection as shown by the inoculation of the brain of these pigs into normal ones.
3. The only attempt to infect Ar nas persicus (Oken) was negative.
4. Ornithodoros rostratus Aragão may occasionally become infected by
experimentally feeding on a guinea-pig at the infecting stage.
5. The sting of Ornithodoros rostratus thirteen days following its infection
is infecting for the guinea-pig.
Monteiro, Fonseca e Prado — Typho exanthemalico
171
6. The sting of the sam; specimen of Ornithodoros rostratus, however,
may not be infecting twenty-eight days following its contaminating feeding.
7. In the coxal liquid of an infected Ornithodoros rostratus is found the
virus with infecting (immunizing) power for the guinea-pig.
8. The period of incubation in the guinea-pig’s experimental infection by
sting of an infected Ornithodoros rostratus is longer than that generally following
intra-peritoneal inoculation of the virus into a guinea-pig.
Series II
1. It is very unlikely for Pcdiculus capitis, Pulex irritans and Cimc.v
Icctularius to play the róle of natural carriers of the virus of the São Paulo
typhus, to judge from experiments made with the inoculation, into guinea-pigs,
of specimens taken from patients, their beds or members of their family.
2. This conclusion holds good also for the following Arthropoda as
captured in freedom or on rats, dogs, cats and chicken at infected places:
Pulicidae: Xcnopsylla cheopis, Xenopsylla brasiliensis, Ctenopsyllus iiius-
culi, Ceratophyüus fasciatus and Craneopsylla minerva, as captured from rats
and Ctcnocephalidcs fclis from dogs, cats and rats.
Pediculidae: Linognathus pilifcrus, dog’s lousc.
Ixodidae: AnMyomma ozule and Rhipiccphalus sangumcus, dog's ticks, and
Boophiius microplus, ox’ tick, the latter at larval stage and captured in freedom.
Parasitidae and Dermanyssidae : Echinolaclaps echidninus, Laclaps nuitalli and
Liponyssus bacoti, as captured on rats, the last species also on '“preás” (Caria
apcrea); Liponyssus bursa, as captured on chicken.
3. In the light of the fauna of ectoparasites found in the city districts,
either rural or urban, where the infection has been reported, it appears that the
ordinary carrier of the virus must be the rat’s fleas in the urban districs, whilst
this rôle must be played by some mite, either Dermanyssid (Liponyssus bacoti)
or Ixodid, in the rural section. This hypothesis seems to be justified both by
the epidemiology of the São Paulo typhus and the experimental behaviour of
its virus; anyway, it coincides with the apparent specificity of the virus found
in either section, thus rendering necessary the undertaking of ncw experiments
in this regard.
Series III
1. Rats seem to be the hosts of the virus of the São Paulo typhus to
judge both from immunological cross-reactions and from the result of experi-
ments previously reported on.
2. The ectoparasitic fauna found on some wild rodents seems to indicate
that these may play the róle of host to the virus in the rural section of this city.
35
172
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
3. However, house rats chieíly seem to play this rôle in the urban section
according to experiments made although not very condusive yet.
4. The behaviour of the virus isolated either in the rural or in the urban
districts is different, the latter having become, in its fourth generation, much
less pathogenic for the guinea-pig than the íormer.
5. The confirmation of the diversity of the type of typhus infection
found in the urban districts from that reported from the rural section depends
on further clinicai and epidemiological study supplemented with a more complete
experimentation.
BIBLIOGRAPHIA
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Kemp, ff. A. — J. Amer Med. Assn. XCVII(ll) :775.1931.
Monteiro. J. Lemos — Brasil Medico XLV(47) :1906.1931 ; Mem. Inst. Butantan VI:
1.* art.1931.
12 .
15
Este trabalho, agora revisto, foi apresentado á Semana
de Laboratorio da Soe. Med. * Cir. de S. Paulo
(Janeiro de 19321, em 3 Xotas, resumidas em publi*
cações in Brasil Medico XLVI (3): 19.1932; XLVI (8):
169.1932 e XLVI (9) : 193.1932.
(Trabalho das Secções de Virus e de Parasitologia do
Instituto Butantan, dezembro de 1931).
36
cm
SciELQ
11 12 13 14 15 16 17
ESTUDOS
XXVIII.
SOBRE OPHIDIOS NEOTROPICOS
Commentarios a proposito de alguns boldeos
POR
AFRAXIO no AMARAL
398.12
ESTUDOS SOBRE OPHIDIOS NEOTROPICOS
XXVIII. Commentarios a proposito de alguns boideos
POR
AFRAXIO do AMARAL
Em um artigo publicado recentemente no Bulletin oi the Antivenin Instituto
oi America (1). a distincta ophiologa, Olive G. StulI, criticou minha maneira
de encarar algumas formas neotropicas de Boideos, versadas em tres de minhas
ultimas publicações (2, 3, 4).
Embora limitado sobretudo ao genero Tropidophis e nelle directamente
interessado, o artigo de Stuli contém certos reparos, particularmente a proposito
da synonymização por mim usada ao tratar da maioria das “formas das índias
Oecidentaes, que quasi não se acham representadas nos museus sul-americanos”
e “daquellas que se conhecem apenas pela literatura”, de sorte que me acho na
obrigação de examinar esses pontos antes de iniciar a analyse de seu trabalho.
Desde 1922, quando comecei meu estudo de revisão das serpentes neofcro-
picas no Museu de Zoologia Comparada (Universidade de Harvard), graças á
generosa hospitalidade do professor Thomas Barbour, até 1928, quando voltei
finalmente para o Brasil, tratei de aproveitar da melhor maneira o meu tempo
e a opportunidadc que se me deparava, para examinar criticamente e tomar notas
sobre grande numero dc exemplares existentes na collecção daquella instituição,
que é bastante rica em material antilhano. Visitei igualmente, em varias occa-
siões, o Museu Nacional dos Estados Unidos (Instituição Smithsoniana) e ali
examinei muitos exemplares, inclusive, naturalmente, numerosas especies ca-
raibas, nelle tão bem representadas; porisso, apresento aqui meus agradeci-
mentos ao dr. Leonhard Stejneger e sua assistente Doris Cochran, pelas fa-
cilidades de que cercaram o meu estudo. Ainda mais. antes dc preparar minha
Lista Remissiva dc Ophidios Neotropicos (publicada no t. IV destas Memó-
rias), consultei toda a bibliographia da matéria e tive a rara felicidade de poder
completar a minha experiencia pelo exame, virtualmente, dc todos os typos de
°phidios neotropicos contidos nos museus sul-americanos, norte-americanos e
.1
176
Memórias do Instituto Butantan
Tomo VI
europeus; as únicas excepções a essa regra eram representadas por aquelles
typos que, no momento de minhas visitas, estavam ausentes por empréstimo
ou não puderam ser encontrados por motivos vários.
Por conseguinte, Stull estava enganada quando acreditou que a minha expe-
riencia dos ophidios antilhanos repousava em especimes porventura representados
"nos museus sul-americanos” ou, então, apenas em meu conhecimento da “lite-
ratura”. Apparentemente, Stull, ou não leu os trabalhos que citou, ou, si os
leu, não comprehendeu o que eu escrevi ; do contrario, ella teria achado a sobre-
dita explicação do plano que eu segui no meu trabalho de revisão, na introducção
mesma dos tres artigos que ella citou em sua nota (2, 3, 4).
Tratando agora da parte propriamente systematica de seu artigo, devo accen-
tuar desde logo que, embora dedicando metade do seu trabalho á discussão de
alguns pontos concernentes ao genero Tropidophis — talvez porque este já fôra
objecto de sua unica revisão (5), Stull affirmou que os erros menos justifi-
cáveis e mais importantes por mim commettidos no tratamento dos Boideos
d r ziam respeito ao genero Epicrates, exemplificando essa sua affirmação com
as especies H. stríatus Fischer, E. monensis Zenneck, E. subflavus Stejneger,
E. xvieningeri Steindachner e E. sabogae Barbour.
Quanto a H. stríatus Fischer, eu apenas segui o parecer de Meerwarth (6)
que, em 1901, mostrou ser esta uma variedade, especificamente synonyma de
E. angulifer Bibron. Ao que eu saiba, nenhum outro especialista desde então
se occupou daquella forma e ninguém provou, por meio de uma revisão satis-
factoria, a incorrecção do opinar de Meerwarth. Portanto, agi da maneira mais
sensata possível em collocando H. stríatus na synonymia de E. angulifer Bibron.
Sem duvida, entre diversos enganos commettidos na primeira edição de
minha Lista Remissiva, o nome “Santo Domingo”, que representa seguramente
a localidade mais importante na distribuição de angulifer, foi omittido em minha
correcção de provas, na qual passaram sem emenda as graphias incorrectas
nrightii, em vez de svrighti, e semicincta, em logar de semicinctus. Cumpre-
me, pois, agradecer a Stull a indicação destes enganos, coherente com um pedido
que fiz, na introducção daquella minha monographia (4), aos meus collegas, para
que assignalasscm quaesquer erros ou omissões que encontrassem no texto, con-
tribuindo, assim, para a melhora da Lista Remissiva, em beneficio de todos os
especialistas.
Em seguida, Stull accentuou: “A forma chrysogaster Cope, representada
por quatro exemplares do Museu de Zoologia Comparada de Harvard, e que
cu considero subespecie valida de stríatus, não é siquer mencionada”.
Em resposta devo dizer que, na synonymia de Epicrates fordii (Günther),
citei sem restricção o nome usado no tratado de Boulcnger. Desde que eu não
accrescentei uma nota “ pro parte" ou " partim” áquelle nome, pensava que
todos os biologos comprehenderiam que eu havia concordado automaticamente
com a synonymia de fordii, constante do trabalho de Boulenger, inclusive, por-
4
A FR AN IO do Amaral — Ophidios neolropicos
177
tanto, H. chrysogaster Cope. Assim sendo, deve-se concluir que Stull, ou não
comprehende, ou não segue, o systema universal de citações em matéria de
nomenclatura. Igualmente quando terminei minha Lista RemissiA^ dos Ophidios
Xeotropicos, em maio de 1930, não poderia eu prever que chrysogaster viesse
a se tornar subespecie valida de striatus, porquanto Stull só emittiu sua opinião
a esse respeito em setembro de 1931. Todavia, mesmo que eu possuísse o
dom de adivinhar, eu não estaria obrigado a concordar com o seu ponto de vista,
si ella não houvesse delle demonstrado a razão de ser de uma maneira satis-
factoria. Indiscutivelmente escapa ás finalidades de qualquer lista remissiva
propor alterações ou mesmo seguir apressadamente modificações outras que não
hajam ainda resistido á prova do tempo.
De referencia a E. inonensis, Stull af firmou que: “A forma Epicrates
inonensis Zenneck apparece na synonymia de E. fordii (Günther), embora delia
se possa distinguir, não só pela coloração, sobretudo pelo numero bem menor
de manchas dorsaes, mas também pelas diííerenças appareníemente constantes
no numero de escamas dorsaes, de ventraes e caudaes, o que pareceria justificar-
lhe pelo menos uma collocação subcspecifica”.
Por consequência, Stull não estava ainda bem segura, quer da constância
dos caracteres differenciaes que indicou, quer da posição systcmatica a ser
occupada pela forma cuja validez ella defende. Neste particular também acom-
panhei Meerwarth (loc. cit., p. 8), que considerou inonensis apenas como va-
riedade de E. fordii. Desde que, por motivos obvios, não é usual, nem acon-
selhável, incluirem-se variedades em listas remissivas, aquella forma de Zenneck
foi posta na synonymia de fordii, dada a inexistência de qualquer revisão satis-
factoria a respeito. Ainda sobre este ponto eu deveria accentuar que o proprio
Sdimidt (7), que acceita a validez de inonensis, indicou rccentcmente que "o
esclarecimento do estado das relações desta especie caberá a um revisor do genero,
que tenha á mão exemplares das varias especies dominicanas”.
No tocante a E. subflavus Stejneger, achei preferível não a reconhecer
como tal, para não precipitar o meu juizo, na falta de uma revisão, sobre a
sua validez, tanto mais quanto são bem conhecidas as enormes variações apre-
sentadas pelas serpentes insulares, variações que explicam a extrema subd visão
que a fauna ophiologica antilhana tem sofírido nas mãos de vários herpetologos.
E’ certo haver Stejneger baseado a diagnose de subflavns sobretudo no
intimo contacto das prefrontaes com a preocular; todavia, o material que teve
em mão pareceu-lhe insufficiente a uma completa verificação diagnostica, con-
forme se deprehende da seguinte annotação (8) :
“A coloração também é bastante differente e ha outros numerosos
caracteres na escutellação, cuja constância só se póde demonstrar em face
de um material mais abundante do que o presente no momento”. Portanto,
a inclusão de subflavns na synonymia de inomatus talvez tenha a vantagem
5
178
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
real de provocar uma revisão meticulosa deste grupo, sobremodo confuso, de
serpentes e facilitar, assim, o trabalho de futuros especialistas.
A proposito de minha maneira de encarar E. zeieningeri, eis o commentario
de Stull: “Efncratcs zeieningeri Steindachner, especie paraguaya conhecida so-
mente pelo typo, foi fundida com Eunectes notaeus Cope simplesmente talvez
porque occorre na patria de notaeus e apresenta um numero correspondente dc
filas de escamas e um desenho algo semelhante”.
Ainda aqui, Stull, ou não leu o que eu escrevi acerca de zeieningeri, ou.
si o leu, não poude ligar as idéas por mim expostas. Embora E. zeieningeri não
possa de maneira alguma ser incluída entre ‘‘formas antilhanas que não estão,
quasi inteiramente, representadas nos museus sul-americanos”, porquanto, pri-
meiro, ella procede do Paraguay (facto que Stull deve conhecer) e, segundo,
representa um estricto synonymo de E. notaeus Cope (forma relativamente com-
mum em nossas collecções), ainda assim não posso deixar passar sem reparo o
facto de eu não me ter referido a qualquer “desenho”, ao comparar zeieningeri
com notaeus. Conseguintemente, a affirmação de Stull no particular é intei-
ramente gratuita. A opinião por mim emittida (p. 9) sobre E. zeieningeri, em
meu trabalho (2), foi, textualmente, a seguinte: “Esta especie, baseada num
exemplar jovem procedente de Altos, no Paraguay, caracteriza-se principal-
mente pela presença de 47 filas de escamas dorsaes. Trata-se, indiscutivelmente,
de um mero synonymo de Eunectes notaeus, especie que é a representante
do genero no valle do Paraguay, enquanto E. murinus é própria dos valles do
Amazonas. São Francisco e Paraná”. Ao examinar o typo de zeieningeri no
Museu de Historia Natural de Vienna, em presença de meus prezados collegas
Otto Wettstein e Franz Werner, aos quaes demonstrei o engano commettido
por Steindachner, verifiquei com segurança ser aquelle typo um estricto syno-
nymo de notaeus. Esta foi realmente a idea que eu procurei justificar.
Desde que estou a occupar-me desta especie, devo aproveitar o ensejo
para dizer que a variação de suas placas subcaudaes vae de 46 a 59, o numero
mais baixo tendo surgido a Serié (9, 10), em uma serie de exemplares por
elle examinada, c o mais alto, em outra ora á minha disposição e cujo nu-
mero de ventraes oscilla entre 218 e 244. Nestas condições, a variação de*
finitiva de 55 a 59 para as subcaudaes e a de 218 a 231 para as ventraes,
ambas citadas por Stull, estão incorrectas. A pequena differença encontrada
no numero das subcaudaes (64, inclusive diversas placas divididas, no typo de
Steindachner, a contrastar com 59, encontrado em duas series relativamente pe-
quenas de notaeus ) não justifica a validez de zeieningeri, que não se póde dis-
tinguir da typica notaeus por qualquer outro caracter.
Stull considera que a inclusão de E. sabogae Barbour na synonymia de
Constrictor constrictor imperator está em desaccordo com o meu reconhecimento
de subespecies brasileiras, baseadas apenas em côr, e isto porque: “Deve-se
lembrar que nada menos de oito nova> subespecies de Botlirops nc.tzeiedii Wagle'
Afranio do Amaral — Ophidios neolropicos
170
foram descriptas, em correspondência com outros tantos Estados brasileiros,
no trabalho do doutor Amaral, relativo a envenenamento por accidentes, baseadas
em differenças de desenho e coloração, e que todas ellas foram conservadas nos
artigos ora discutidos.”
Como resposta, devo dizer, em primeiro logar, que esta nota difficilmeute
me é applicavel, pois presumo que uma analyse imparcial da moderna litera-
tura ophiologica mostraria, não somente que eu tenho sido um dos especia-
listas mais avessos a descripções baseadas apenas em coloração — attitude essa
que tem até sido objecto de critica (11) — , sinão também que eu fui talvez
o primeiro ophiologo a recorrer a provas de precipitina e a estudos physio-immu-
nologicos de venenos, como auxilio ao estabelecimento da diagnose de serpentes
(12, 13 e 14). Em segundo logar, não devo deixar patssar esta opportu-
nidade para declarar que, ao me decidir a publicar a descripção daquellas subes-
pecies de Bothrops netnmedü, eu já havia tomado a precaução de praticar provas
de soro-precipitação, para poder conferir as conclusões a que chegara, ao exame
de uma grande serie de exemplares vivos daquellas formas. Este trabalho, por
mim iniciado em 1921-1922, está sendo continuado em coiiaboração com um
dos assistentes (J. Travassos) deste Instituto e está produzindo resultados bem
interessantes, cuja publicação reservamos para muito breve.
Tendo até agora visto mais de cem mil serpentes vivas (só este anno o
Instituto Butantan recebeu cerca de vinte mil exemplares nessas condições),
tornei-me tão >ceptico a respeito do valor e caracteres chromaticos que, quando
possivel, recorro a quaesquer outros meios de identificação. Sem duvida, fui
coherente ao synonymizar li. sabogac com C. conslrictor impcrator, da qual a
primeira não se póde distinguir: as variações encontradiças no colorido de
formas insulares são tão profusas (capazes até de affectar, igualmente, certos
caracteres anatômicos de menor valia), que considero apenas natural que exem-
plares de impcrator, procedentes da ilha Saboga, apresentem um colorido mais
■ndefinido ou pallido do que os oriundos do continente.
Infelizmente, Stull estava tão compenetrada do valor de coloração como
caracter distinctivo, que a elle recorreu como argumento em todo o seu trabalho,
confirmando, portanto, essa tendencia, já bem demonstrada ao versar o genero
Tropidophis (5). Para provar esta minha affirmação, devo lembrar o com-
nientario já feito a proposito de haver-me a auctora imputado, no caso de
li. zvieningeri, um argumento de ordem chromatica (differenças de desenho)
em que eu siquer jamais pensei ; cabe-me, em seguida, convidar o leitor a ler
criticamente a monographia da auctora, sobre Tropidophis, e a defesa por ella
apresentada (1) de todas as formas que reconheceu em 1928: basta isto para
convencer qualquer especialista do abuso, por ella praticado, de differenças
chromaticas na identificação de serpentes insulares.
Aos fins visados neste artigo resta-me agora declarar o meu scepticismo
quanto ao valor porventura apresentado pelos caracteres dos dentes e pela con-
i
180
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
formação dos hemipenes, na dif ferenciação, assim de serpentes tão nitidamente
atrophiadas como as Tropidophis, como de exemplares conservados, idêntico*'
aos que Stull examinou para preparar a sua sobredita monographia.
Quanto aos caracteres dentários, certamente todos os ophiologos experi-
mentados conhecem os innumeros erros commettidos em descripções e oriundos
das causas seguintes: dissecções imperfeitas de material improprio; esquecimento
das differenças decorrentes da idade e das faltas da dentição devidas a luctas
ou á alimentação; omissão de dentes não desenvolvidos ou de falhas naturaes
na mandíbula de exemplares estudados, etc.
No tocante aos caracteres hemipenianos, tenho encontrado differenças tão
nitidas, mesmo em material preparado de exemplares vivos, que, por mais que
eu me sinta tentado pela abundancia de especimes á mão, eu os tenho evitado
usar na dif ferenciação de serpentes. A essa variação accresce a circunstancia
de serem muitas espedes de ophidios conhecidas apenas pelo typo, que fre-
quentes vezes é uma femea ( ^ ) ; portanto, caso prevalecesse o critério da
identificação das especies pelos caracteres penianos, daquella circunstancia decor-
reria a impossibilidade da classificação definitiva de taes exemplares, a menos que
se estabelecesse e logo se generalizasse em herpetologia um processo seguro de des-
cripção de “formas provisórias”, cuja incorporação final em systematica fi-
casse a depender da applicação daquelle critério phallologico. O risco que se
corre é naturalmcnte muito maior quando se u?3 este caracter peniano á luz
da dissecção de exemplares conservados. Para provar esta minha affirmação
cu poderia simplesmente aconselhar o leitor que procedesse a uma analyse critica
de certas gravuras constantes da monographia fundamental de Cope sobre
classificação de serpentes de accordo com a sua estruetura hemipeniana. Para
mostrar, com ef feito, que, até em especies de grandes dimensões, a conformação
dos hemipenes representa um critério bastante falho para a distineção delias,
cu indicaria uma comparação, por exemplo, entre pl. XVI, fig. 7 e pl. XXI
fig. 1 (da monographia de Cope), ambas pertencentes d mesma especie Chironius
fuscus (L.) ; entre pl. XVIII, fig. 2 e pl. XVIII, fig. 3, ambas concernentes
a Drymobius boddaerlii (Sentzen) e, especial mente, entre pl. XVII, fig. 6 c
pl. XIX, fig. 2, ambas relativas á especie Drytnobius der.drophis ( Schlcgel) . . •
A precariedade de tal caracter ainda mais se revela cm serpentes pequenas, con-
forme parece sempre acontecer com as do gencro Tropidophis.
Finalmente, devo declarar que, ao ler a monographia de Stull, achei inaccei-
taveis os grupos básicos A e AA propostos em sua “Chave das especies c
subespecies do genero Tropidophis", em virtude de haver cila baseado o pri-
meiro grupo na presença de “escamas dorsaes lisas, hemipenes bifurcados" *
caracterizado o segundo pela presença de "escamas dorsaes carinadas. pelo menos
nas filas vertebraes, hemipenes quadrifurcados”, isto apesar de não ter exa-
minado hemipenis algum das especies paucisquamis e taczanoveskyi, nem visto
um exemplar siquer de ambas, como, aliás, francamente confessou. Pouco
Afkaxio do Amaral — Ophidios neolropicos
181
tempo depois de ter assim encarado o trabalho de Stull, deparou-se-me ensejo
de confirmar minha recusa á acceitação daquella sua chave synoptica: ao
examinar um exemplar vivo de T. paucisquamis, verifiquei positivamente (16)
que as escamas dorsaes desta especie são de facto carinadas, ao contrario, pois,
do que a auctora havia antecipado. Nessa occasião, cu escrevi: “Da revisão
de Stull resultou o esclarecimento de algumas questões relativas, quer á dis-
tineção, quer á identidade de varias formas de Tropidophis. Infelizmente,
algumas conclusões de seu trabalho deram-me a impressão de ser demasiado
apressadas, a saber: a subdivisão extrema da especie pardalis, a descripção de
wrighti como especie nova, baseada num unico exemplar que pode bem repre-
sentar uma variação extrema de pardalis, e a separação, em dois grupos, das
especies continentaes paucisquamis e taczanozvskyi. Em sua opinião, esses dois
grupos, cujos typos são, respectivamente, maculai us e pardalis, podiam caracte-
rizar-se da seguinte maneira:
A. Escamas dorsaes lisas; hemipenes bifurcados — grupo maculatus.
AA. Escamas dorsaes carinadas, pelo menos na fila vertebral ; hemipenes
quadrifurcados — grupo pardalis.
“Desde que Stull declarou em seu trabalho não haver visto exemplar al-
gum, seja de paucisquamis, seja de taczancnvskyi, e desde que nenhum outro
auctor jamais descreveu os caracteres penianos de qualquer destas especies, a
separação delias á luz desses caracteres não se justificaria de modo algum.
Estou certo igualmente de que, á luz da carinação das escamas, paucisquamis c
taccanowskyi não se podem agrupar separadamente, porquanto já verifiquei que
o exemplar de paucisquamis, actualmente na collccção do Instituto Butantan,
apresenta escamas carinadas sobre o dorso, justamente como acontece oom
tacsatunvskyi
Consequentemente, da revisão de Stull apenas restam as variações numé-
ricas das escamas para lhe confirmar as conclusões relativas á subdivisão de
Tropidophis. Este é o ponto que eu, baseado no conhecimento que tenho do
genero, resolvi não acceitar, deixando-o primeiro resistir á prova do tempo.
Concluindo, direi que, .antes de algum revisor confirmar as conclusões de
Stull, tenho por perfeitamente justificada a deliberação que tomei de omittir de
minha Lista Remissiva de Ophidios Ncotropicos os novos nomes errados pela
auctora.
»
393.121
STUDIES OF NEOTROPICAL OPHIDIA
XX VI II. Remarks on some boid snakes
r.v
AFRAXIO no AMARAL
TRAXSLATIOX
In a recent article published in the Bulletin of the Antivcnin Institute of
America (1), the distinguished ophiologist, Olive G. Stull, criticized my views
on some of the neotropical íorms of Boidae as set forth in three of my
latest publications (2, 3, 4).
Although mainly confincd to and directly interested in the gcnus Tropi-
dopltis, Stull made some general criticai statements particularly on my “ill-advised
synonymizing” in dealing with most of “the West-Indian íorms, which are
almost unreprcsented in the South American muscums”, “as well as those
known only from the literature”. The accuracy of thesc statements merits
being examined before I enter into the analysis of her paper.
Since 1922, when I commcnccd my revisionary work on neotropical snakes
at the Museum of Comparativc Zoology, thanks to Prof. Thomas Barbour’s
generous hospitality in his laboratory, until 1928, when I definitcly rctunied
to Brazil, I made the best use of my time and the opportunity to examine
critically and to take notes on a great tnany specimcns in the collection of that
institution, which is quite rich in Antiüean material. On various occasions I
also visited the United States National Museum and examined inany spccimens,
iiKluding, of course, a great many West-Indian íorms which are also well
represented there. I am gratcful to Dr. Lconhard Stejneger and Miss Doris
Cochran for permission to do so. Moroover, before preparing my Chcck-list
of Neotropical Snakes, I was successíul in gaining access to the complete bibliogra-
phy of the subject and to supplement my expcrience by the examination of
virfually all types of neotropical ophidia as contained in the South American,
North American and Europcan museums, the only exceptions being tliosc types
II
181
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
which either were away on loan or could not be locaíed at the time of my
visits.
Therefore, StulI misrepresented the matter when she rhought my experienct
of Antillean ophidia to be based on specimens perchance represented “in the
South American museums” or elsc on my knowledge oí “the literature".
Apparently Stull either did not read the papers she quoted, or, if she read
them, did not understand what I wrote, otherwise she would have found the
explanation I gave above of the plan I followed in my revisionary work, in
the ver)- introduction of all of the three papers she cited in her article (2, 3, 4).
Turning now to the very scientific statements of her criticai article, I may
first say that, although devoting half of her article to the discussion of some
points regarding the genus Tropidophis, perhaps be cause this had already been
reviewed by herself (5), Stull stated that the least justiíiable and the greatest
errors I made in dealing with the Boidae are found in the genus Epicrates, a
statement she exemplified with the species H. striatus Fischer, E. monensis
Zenncck, E. subflavus Stejneger, E. r cienmgeri Steindachner and E. sabogac
Barbou r.
In regard to H. striatus Fischer I followed Meerwarth (6) who, in 1901,
showed that this is a variety and the name a synonym of Epicrates angulifer
Bibron. As far as I am aware no other specialist has since dealt with this
forni, nor has anyone pnoved, through a satisíactory revision, Meerwarth’s
finding to be incorrect. Therefore, I followed the most sensible course in the
matter on placing H. striatus in the synonymy of E. angulifer Bibron.
Xo doubt, among many slips found in my List, the name “Santo Domingo",
which is of course the most important locality in the angulifer range, was omitted
in my proof-reading, in which the incorrect spellings zvrightii (instead of
xvnghti ) and seniicincta f instead of semicinctus) also jassed unnoticcd. I aro
rnuch indebted to Stull for pointing out these mistakcs. As I wrote in the
introduction of the first edition of my monograph (4), I asked all my collcagues
the spccial favour of pointing out any errors or omissions they might find in
the texr so as to help improve that List for the benefit of all.
Stull next wrote: "The form chrysogastcr Cope, represented by four
spccimcns in the Museum of Comparative Zoology at Harvard, and which I
consider a valid subspecies of striatus, is not even mentioned”.
In dealing with the synonymy of Epicrates fordii (Günthcr), I quoted
without restriction the name given it in Bou!enger’s catalogue. Since I did not
add a "pro parte” or “ partim " to the quotation of that name I thought that
every biologist would understand that I had automatically agreed with the
synonymy of fordii as recognizcd by Boulcnger, including of course H.
chrysogaster Cope. Therefore, it is apparent that Stull either does not com-
prehend or does not follow the universal system of nomenclatorial quotations.
On the other hand, when I finished my check-list of neotTopical ophidia in
Afranio do Amarai. — Xeolropical ophidia
185
May, 1930, I could not foresee that chrysogaslcr would ever bccome a valid
subspecies of striatus, because Stull made her opinion known only in September,
1931. Even had I possessed such a divinatory instinct, I was not obliged to
agree with her if she had not proved the correctness of her standpoint in a
sarisfactory manner. Indeed, it is not the scope of any check-list to initiate
or even to follow hastily any proposed modifications that have not yet stood
the test of time.
In reference to E. monensis, Stull stated that: “The form Efncrates mo-
nensis Zenneck is synonymized with E. fordii (Gõnther), although it can bc
dininguished from the latter not only by its coloration, particularly the consi-
derably smaller number of dorsal spots, but also by apparently constant
differences in the numbcrs of scale rows, ventrals, and caudais, which would
seem to entirfe it to at least subspecific rank”.
Therefore, Stull was not yet sure about either the constancy of those
differences she indicated or the rank to be dcfinitely assigned to the form
the validity oi which she defended.
In this case I also followcd Meerwarth ( loc . cit., page 8) who considered
monensis but as a variety of E. fordii. Since, for obvious reasons, it is neither
customary nor advisable for check-lists to rccognize varieties, Zcnneck’s form
was included in the synonymy of fordii, in the abscnce of a satisfactory revision
of same. In this connexion I may as well point out that even Schmidt (7), who
accepts monensis as a good spccics, has rccently indicated that “the clearing
up of the status of the relations of this species must be left to a reviser of
the genus, with spccimens of the several Santo Domingan spccics at hand”.
In vicw of the well -known wide variations borne by island snakes, a fact
which seems to bc responsiblc for the considerablc splitting that the Antillean
ophiological fauna has undergone in the hand- of several herpetologists, I found
it to bc advisable not to acccpt E. subflavus Stcjncger as a full spccics, pending
a revision that might prove its validity.
To bc sure, Stejncger bascd the diagnosis of subflavtis cspecially in the
broad contact of the prefrontal with the preocular, but the material hc had al
hand appeared to be insufficient to any complete diagnostic vcriíication for he
(8) clearly stated: “The coloration is also quite diffcrent, and there are nu-
merous other charactcrs in the scutellation, the constancy of which can only bc
demonstrated by a larger material than I lm-e access to at present”. The
placing of subflavus in the synonymy of inomatus may have the real merit of
provoking a thorough revis r on of this most confusing group of serpents so as
to facilitate the work of future specialists.
In relation to my treatment of E. zvieningeri, Stull wrote: ” Epicrat cs
tuim ingeri Steindachncr, a species from Paraguay known only from the typc,
is referred to Euncctes nolaeus Cope, apparently simply because it occurs w.thin
13
186 Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
lhe range of notaeus and has a corresponding number of «cale rows and a so-
me what similar pattern”.
Here again Stull either did not read what I wrote about -uieningeri or, if
she did, she could not make out my opinion. Although E. ivieningeri could
not in any way be included among “West-Indian forms, whkh are almost
entirely unreprcsented in South American museums” «ince it proceeds from
Paraguay — a fact of whkh Stull is aware — and is a strict synonym of E-
notaeus Cope — a íorm rather common in our collections — yet I cannot help
pointing out that in my text I did not mention any “pattern” in the comparison
I made between Tvicningcri and notaeus. Therefore, Stull’s statement in this
regard is entirely gratuitous. Indeed, the opinion I rendered (page 9) on E.
* aeningeri in my paper (2) is the following in plain English: “This species,
as based on one young specimen proceeding from Altos, in Paraguay, is
characterized principally by the presence of 47 rows of dorsal «cales. It is
undoubtedly a mere synonym of Eunectes notaeus, which is the representative
of the genus in the Paraguay valley, whilst E. murinus i« the one found in the
Amazon, the São Francisco and the Paraná valleys”. Having examined the
type of xdeningeri in the Vienna Museum in the presence of my esteemed
colleagues Otto Wettstein and Franz Werner to whom I showed SteindachnerV
mistake. I positively verified that it was a strict synonym of notaeus. This is
the thought I really tried to convey.
Since I am dealing with this forni it may be proper to point out that the
varia tion of its subcaudal count is 46-59, the former figure having been found
by Serié (9, 10) in a series he examined and the latter in another I have at
hand, the vcntral count varying from 218 to 244. Therefore, Stull’s definite
figures 55-59 for the caudais and 218-231 for the ventrals are not correct. The
slight diffcrence noted in the number of subcaudals (64, including scvcral divided
shields, in Steindachneris type, as against 59 found in two by no means large
series of notaeus ) does not justify the validity of xvieningeri, which can not be
distinguished from typical notaeus by any other character.
Stull considers the inclusion of E. sabogae Barbour in the synonymy of
Conslrictor constríctor imperator to be highly inconsistcnt with my policy of
rcoognizing Brazilian subspecies only by colour and this because “It will be
remembered that no less than eight new subspecies of Bolhrops neutvirdii
Wagler, convenicntly corresponding to as many Brazilian States, are describcd
in Doctor Amarais paper on snake poisoning on the basis of differences in
pattern and coloration, and these are all recognized in the papers under
discussion”.
In reply, may I say, first, that this remark is hardly applicable to me,
liecause I feel tliat an impartial analysis of the modern literature on snakes
would disclose not only tliat I have been one of those who have shown the
greatest dislike for descriptions of forms based onlv on colouration — an
A franjo do Amarai. — Neotropical ophidia
187
attitude that has, as a matter oi íact, been criticized (11), but also that I was
jierhapá the first spedalist to resort to predpitin tests and venoni physio-immuno-
lical analysis as a help in the establishment of diagnosis of snakes (11, 13, 14),
Second, I must take this opportunity to State that, when I decided to publish my
article on the subspedes of Bothrofs ncutviedi í, I had already taken the precaurion
of checking the condusions I arrived at on the examination of fairly large
series of lhe specimcns, with the necessary scrum precipitin tests. This work,
which I started in 1921-192 2, bas of late been continued in collaboration with
one of my assistants (J. Travassos) at this Institute and is yielding very in-
teresting results, the publication of which we anticipate for the near future.
Having thus far seen over one hundred thousand live snakes (this year
alone the Instituto Butantan has received over 20,000 of such specimens), I
have become so skeptical about colour characters that whenever possible I resort
to some other means of Identification. Therefore, I was consistent when I
synonymized E. sabogac with C. constrictor imperator, from which the former
can not be distinguished. The \ariations found in the colour of island forms
are so profound (they sometimes may aftect certain minor anatomical characters
as wdl) that it is only natural that specimens of imperator taken on Sabogn
Island bear a more indefinite or pallid shade than the mainland ones.
Unfortunately, Stull was so imbucd with the idea of colourarion as a
distinctive cliaracter, that she brought this forth as an arguinent throughout her
paper in the samc way thar she did in dealing with the gcnus Tropidophis (3).
To prove this point I have already commcnted on her having imputcd to me,
in rcgard to E. t vUnmgeri, a pattern difícrence of which I cvcn ncvcr thought.
The reader is now invited to criticaly examine her monograph on Tropidophis
and the deíense she madc (1) of all forms she recognizcd in 1928, to bc con-
vinccd of how much she abuscd of colour differcnccs in scparating island snakes.
For the purposc of this article it seems to suffice now for me to State that,
in the case of such nitidly dwarfed snakes as the Tropidophcs as well as in the
case oi preserved material such as that Stull had access to in the preparation of
her monograph, I am sceptical also about differcnccs in tooth characters and
hemipenia! structurc.
Indeed, in regard to tooth characters, all thosc who have sufficicnt experience
with snakes know that many errors have crept into descriptions from the following
causes: imperfect dissections of improper material: overlooking of age difíe-
rences as wdl as of losses of teeth due to fights or feeding: omission of
undeveloped teeth or else of natural gaps in both the maxillary and the mandiblc
of the specimens under consideration, etc..
As rcgards hcmipenial characters, I have found such wide differcnccs, cvcn
in malcrial mountcd frotn lhe specimens, that much as I have been tempted
by the abundance of material I have at hand, I have refrained from using them
in the differentiation of snakes. To this variation I may add the fact of
15
188
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
many species of serpents to be known only from the type, which oftentimes is
a j? ; therefore, should this criterion of identification of species in the light of
their penial characters prevail, it would be impossible definitely to classify those
type specimens unless a sound process of descnption of “provisional forms
were established and generally accepted in herpetology, the final incorporation
of these forms into systematies remaining dependent on the applkation of that
phallological criterion.
The risk one takes in attempting to use this phallic character as revealed
by the dissection of preserved specimens is naturally much greater. To prove
this contention I could refer the reader to a criticai analysis of some of the
figures in Cope’s fundamental monograph (15) on the classiíication of snakes
of which belong to Drymobius boddacrtii (Sentzen), and parricularly between
pl. XVI, fig. 7 and pl. XXI, fig. 1, both of which belong to the same species
Chironius fiiscus (L.) ; between pl. XVIII, fig. 2 and pl. XVIII, fig. 3. both
of which belong to Drymobius boddacrtii (Sentzen), and particulary between
pl. XVII, fig. 6, and pl. XIX, fig. 2, both of which belong to Drymobius
dcndrophis (Schlegel), are sufíicient to sbow ihat even in large forms as those
cited above, the hemipenis strueture is a very uncertain criterion to be followed
in the distinction of snakes. The precariousncss of this character is naturally
still more marked when one deals with small individuais as seems always to be
the case with those of the genus Tropidophis.
Finally, I am obliged to State that, upon rcading Stull’s monograph, I could
not accept the main groups A and AA as proposed in her “Key to the species
and subspccies of the genus Tropidophis", becausc she based the former in the
presence of "dorsal scales smooth, hemipenis bifurcate”, and the latter, in the
presencc oi “dorsal scales kcelcd, at least in the vertebral row, hemipenes qua-
drifurcatc”, despite the fact that she had neither examined any hemipenis of
paucisquamis or of tacsanozvskyi nor sccn one single specimen of eithcr, as she
frankly admitted. A latcr development proved that I was correct in refusing
to accept her synoptic key; it carne about with the veriíication I made (16) that
the dorsal scales of paucisquamis are really carinated. Thcn I wrote: "In
consequencc oi Miss Stul)’s revision, quite a few questions concerning either the
distinction or the identity of various forms of Tropidophis bccame settled.
Unfortunatcly. a few conclusions stated in her paper strike me as being perhaps
a little too hasty, to wit: the extreme subdivision of the species pardalis, the
description of wrighti as a new species based on a single specimen which may
as well represent an extreme variation of pardalis, and the separation of the
continental species paucisquamis and tacsanawskyi into two groups. In her
opinion, these groups which bear maculatus and pardalis as their rcspcctive
types, might be characterized as follows:
A. Dorsal scales smooth; hemipenes bifurcate — maculatus group
Afraxio do Amarai. — Neotropical ophidia
189
AA. Dorsal scales keeled, at least in the vertebral ro’.v ; hemipenes
quadrifurcate — pardalis group
“Since Stull wrote in her paper that she had not seen any specimen oi
either paucisquamis or tacsanozvskyi, and since nobody else has ever described
the penial character of either species, the separation of these forms in the light
of their penis formation appears to be entirely umvarranted. That paucisquamis
could not be separated from tacsanowskyi in the light of scale carination I am
siso quite sure, because I have found that the specimen of paucisquamis, now in
the collection of the Instituto Butantan, bears keeled scales in the dorsum just as
is the case with tacsanmvskyi” .
Consequently there remain in Stull’s revision but the scale counts to
confirm her conclusions on the subdivision of Tropidophis. This I have
decided, on the knowledge I have of the genus, not to accept, but let it stand
the test of time. Before some reviser confirms her findings I feel that I am
Pcrfectly justified in the action 1 took when I omitted Stull’s new nomes from
oiy Check-list of Neotropical Ophidia.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
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13
14
15
(Trabalho da Secçio de Ophlologla do InsUtuto Butaa*
tan, dezembro de 1931.
(From the Ophiolo*kal Department of the Instituto B°*
tantan, December, 1331).
18
cm
SciELO,
11 12 13 14 15 16 17
5Í5.771
CONTRIBUIÇÕES AO
CONHECIMENTO DOS CUUCIDEOS DE SÃO PAULO
I. Notas sobre Mansonia albifera Prado e sobre o macho
de Mansonia a/bicosta (Chagas)
por
ALCIDES TRADO
Entre os mosquitos capturados cm Butantan, durante o mês de março do
corrente anno, identifiquei as seguintes cspecics de Mansonia: Mansonia (Rhyn-
chotacnia), juxtamansonia (Chagas), Mansonia ( Rhynchotacnia ) fasciolata
(Lynch Arribalzaga), Mansonia ( Mansonia ) amazonensis (Theobald) c uma es-
pccie que me pareceu nova, para cuja dcscripção me utilizei de exemplares dos
dois sexos. Os criadouros de mosquitos Mansonia são provavelmente os charcos
das proximidades do rio Pinheiros, em Butantan, onde as plantas aquaticas da
familia das Araccac existem abundantemente. Segundo Costa Lima, as larvas
de Mansonia apresentam na extremidade do syphão dois pequenos ganchos mo-
veis, que podem ser introduzidos nas partes submersas das plantas aquaticas : uma
vez fixado o syphão, a larva aspira o ar dos canaliculos acri feros, muito desen-
volvidos nestas plantas.
Ao anoitecer, os alados desse genero procuram as habitações próximas ou
distantes, onde são facilmente capturados. Em Butantan, as capturas se faziam
nas partes teladas das janelas, em casas de empregados do Instituto.
Mansonia (Rhynchotacnia) albifera Trado
(mosquito novo capturado em Butantan)
Femca — Proboscida longa, negra, com um largo anel branco pouco alem
do meio; ponta, com exclusão dos labellos, branca. Palpos curtos, negros, com
escamas brancas no apice do ultimo articulo. Antennas mais curtas que a pro-
boscida, negras e pilosas. Toros amarellos, com algumas escamas escuras no
3
194
Memórias do Instituto Butantan
Tomo VI
lado interno. Clypeo negro, glabro. Ocdpicio pardo-escuro, com escamas bran-
co-amarelladas e curvas, em mistura com outras negras e erectas ; vertice com
um pequeno grupo de escamas branco-amarelladas. Lobos prothoracicos negros,
não muito salientes e com algumas escamas branco-amarelladas. Mesonoto pardo-
escuro, com escamas pallido-doiradas, na parte anterior; e'sas escamas se dif fun-
dem para os lados na parte mediana; ainda escamas pallido-doiradas em forma
de pequenas estrias na parte posterior, alem de estrias iguaes nos lados, onde
também se notam escamas pardo-escuras. Escutello pardo-escuro, trilobado, com
um reduzido numero de escamas pallido-doiradas sobre o lobo medio. Metn-
noto pardo-escuro e nú. Balancins inteiramente branco-pallidos. Pleuras com
duas nitidas separações pardo-escuras e com tufos de escamas brancas. Abdome
recoberto de escamas escuras e com cintas basaes brancas, estreitas, alargando-se
lateralmente, em todos os segmentos; ventre da mesma côr, com leve faixa
branca apicilar dos segmentos. Pernas pardo-escuras ; coxas e trochantéres pardo-
escuros, com algumas escamas brancas; femores da mesma côr, com um anel
branco subapicilar e os ápices levemente brancos, possuindo todos, na face interna,
uma larga faixa de escamas pallido-esbranquiçadas ; tibias pardo-escuras, com
os ápices ligeiramente brancos e face interna de todas, com uma estreita linha de
escamas pallido-esbranquiçadas; tarsos pardo-escuros, com aneis brancos en-
volvendo ambas as extremidades das junta-. Unhas iguaes c simples. Azas
revestidas de escamas escuras, ovaes estreitas, características; um pequeno grupo
de escamas branco-amarelladas inserido na parte basal da primeira nervura lon-
gitudinal ; primeira cellula submarginal mais comprida e ligeiramente mais es-
treita que a segunda posterior; peciolo da primeira cellula pouco menor que a
metade do comprimento da cellula ; peciolo da segunda cellula cerca de um terço
do comprimento da cellula.
Macho — Proboscida longa, negra, com anel branco pouco alem do meio:
ponta, com exclusão dos labellos, branca. Palpos longos não excedendo o com-
primento da proboscida, negros, com algumas escamas brancas na base; um largo
anel branco entre o primeiro e segundo articulos ; dois outros menores, da mesma
côr, respcctivamente, na base do terceiro c quarto articulos. Antennas mais
curtas que a proboscida, pardo-amarelladas e com plumas da mesma côr. Gypeo
negro, com raras escamas branca'. Occipicio c lobos prothoracicos como na
femea. Mesonoto pardo-acastanhado e com ornamentação mais ou menos idên-
tica á da femea. Abdome, pernas e aza< como na femea.
HyPopygio (Fig. 1) — Peça basilar quasi duas vezes mais longa que lar-
ga; lobo basilar pequeno, um tanto arredondado, supporta um espinho muito
mais longo que clle; um denso tufo de finas ccrdas collocado pouco acima
do lobo basilar. Pinça (clasper) larga, deprimida na base, angulosa c com
uma ponta portadora de um pequeno dente forte e terminal. Décimos ester-
nitos estreitos, fortemente chitinizados. tendo na extremidade seis dentes dis-
postos em ordem decrescente. Nonos tergitos acuminado3, encerram nove a
Alcides Prado — Culicldeos de São Paulo
195
dez cerdas. Mesosoma com dois pares de appendices: par interno chitinizado,
erecto, expandido na ponta; par externo também chitinizado, divergente e ligei-
mmente triangular.
Comprimento da femea e do macho: 5 mm.
Holotypo e allotypo, femea e macho, se acham na collecção do Instituto
Butantan, São Paulo.
Larva — desconhecida.
Alansonia (Rhynchotaenia) albicosta (Chagas, in PeryassÍ*. 1908)
(descripção do exemplar macho)
Tive occasião de encontrar numa caixa com insectos, no In?tituto Butantan,
um exemplar macho de Aíansonia albicosta. Apenas constava como referencia,
que o mesmo fôra capturado em Butantan, no anno de 1918. Exemplar mal
conservado, mas integro ; delle pude conseguir uma boa preparação do hypopygio,
conforme desenho junto, obtido do original, em camara clara. A seguir, passo
á descripção summaria do adulto em questão, com seu respectivo hypopygio,
risto não ter sido feita, ao que eu saiba, até esta data.
Macho — Proboscida moderada, negra, com um largo anel branco alem
do meio; ponta, sem os labellos branca. Palpos longos, excedendo cm com-
primento a proboscida, pardos, com poucas escamas brancas na base; um largo
anel branco entre o primeiro e segundo articulos ; aneis brancos menores, res-
pectivamente, na base dos dois últimos articulos. Occipicio negro, com escamas
brancas e curvas c outras negras c crectas. Mcsonoto pardo-escuro, com escamas
pallido-doiradas formando tres faixas, uma longitudinal mediana c duas pa-
mllelas lateraes; faixa mediana larga e as lateraes apenas constituídas por es-
camas mais ou menos esparsas. Abdome pardo-escuro, com leves manchas de
escamas brancas, nas partes latero-basaes dos segmentos; ventre com escamas
pardo-escuras e um pequeno grupo de escamas brancas na parte media dos
segmentos. Pernas negras; femores da mesma cór, com um estreito anel branco
subapicilar; tibias manchadas de branco, formando no par posterior, lado interno,
a ma linha da mesma cór; tarsos com aneis brancos envolvendo ambas as extre-
midades das juntas. Azas com escamas escuras, ovacs estreitas, características;
Primeira nervura longitudinal com uma fileira de escamas branco-amarelladas
todo o quarto basilar; primeira cellula submarginal mais comprida e ligeira-
mente mais estreita que a segunda posterior.
Hypopygio (Fig. 2) — Peça basilar mais ou menos longa e arredonda-
da no apice; lobo basilar curto, um tanto conico, supporta um espinho muito
mais longo que clle e apparentemente curvo. Pinça (clasper) grande, delgada
sua metade basilar e entumecida na outra, onde se notam raros pêlos; um
dente terminal alongado e forte. Décimos esternitos estreitos, chitinizados, com
5
196
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
cinco dentes divergentes na extremidade. Nonos tergitos acuminados, com cerca
de nove a dez cerdas. Mesosoma com dois pares de appendices: o interno cm
columna, erecto, expandido na ponta, onde também se observa uma serie de
denticulos; o externo, divergente, curto e curvo.
Lan>a — desconhecida.
RESUMO E COMMENTARIOS
Os exemplares que serviram para a descripção de M. albifcra, foram ca-
pturados em Butantan, durante o mês de março do corrente anno.
Essa especie é affim de Aíansonia albicosta (Chagas), distinguindo-se desta
ultima pelos caracteres especificos seguintes: côr geral das tibias, naquella —
pardo-escura, nesta — manchada de branco; coloração das azas: naquella — um
pequeno grupo de escamas branco-amarelladas na base da primeira nervura lon-
gitudinal, nesta — uma fileira de escamas da mesma côr, occupando mais ou
menos o quarto basilar da nervura.
Differe de AI. chrysonotum (Peryassú), considerada próxima de AI. ol-
bicosta, pela coloração do mesonoto. Em Aí. chrysonotum as escamas doiradas
do mesonoto formam tres largas faixas medianas e parallelas, unidas, que sc
extendem desde a parte anterior do mesonoto até pouco além do meio; na
metade posterior as escamas doiradas formam manchas em continuação ás faixa 4
anteriores ou adiante da raiz das azas; lateralmente e posteriormente escamas
escuras. Em Aí. albifcra as escamas pallido-doiradas da parte anterior do
mesonoto, apenas se dif fundem para os lados na parte mediana; pequenas estrias
de escamas da mesma côr nas partes lateraes e posteriores, alem de escamas
pardo-escuras lateraes.
Distingue-se de Aí. juxtamansonia (Chagas), pelo mesonoto que, nesta es-
pecie, é constituido por escamas pallido-doiradas distribuídas em estreitas linhas
longitudinaes ; pelas tibias que nesta espccie, ao contrario de albifcra, são man-
chadas de branco, com uma linha da mesma côr no lado interno do par posterior;
ainda pela coloração das azas que nesta especie é caracterizada pela presença
de escamas ovaes estreitas, brancas e pretas misturadas.
Finalmente, Aí. albifcra não poderá confundir-se com Aí. fasciolata (Lynch
Arrib.), pela ornamentação de mesonoto que é um pouco differente, como espe*
cialmente pela côr das tibias. Enquanto que as tibias de Aí. albifcra, cotn
cxcepção dos ápices, são pardo-escuras, as de Aí. fasciolata são salpicadas de
branco.
O hypopygio de albifcra tem caracteres firmes e typicos, o que dispensa
qualquer comparação.
Quanto á AI. albicosta, o macho desta especie parece muito idêntico á femea
respectiva, descripta por Chagas. O exemplar que serviu para a presente des-
cripção foi encontrado por mim em uma caixa com insectos, no Instituto Bu-
Alcides Prado — Culicideos de São Paulo
197
tantan, apenas constando ter sido o mesmo capturado no proprio Butantan. no
anno de 1918.
O hypopygio de albicosta parece também bastante característico, não se
confundindo com o de outras especies consideradas próximas e pertencentes ao
mesmo subgenero.
ABSTRACT
Mansonia albifcra Prado seems to be closest to M. albicosta (Chagas), J /.
chrysonotum (Peryassú), M. juxtamansonia (Chagas) and M. fasciolata ( Lynch
Arrib.), from all of which it can be easily separated by the hypopygium characters,
besides some other points discussed in the text.
Mansonia albicosta (Chagas) seemed to be known thus far only from the
female so that the male is described and its hypopygium represented for the
first time, showing this species to be easily distinguishable from all of those
included in the same subgenus.
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do Instituto Dutanlan, agosto de 1931).
I
Alcides Prato — Culicideos de São Paulo
Mrm. In»l. Hnlant.m
Vol. VI, 1931
1
rir. i
Hypo;»jrgio dr M. albifrra Pra.lo
ri«. J
HjP*>p>gio dr M. albiraala «Chlga»
593.771
CONTRIBUIÇÕES AO
CONHECIMENTO DOS CULICIDEOS DE SÃO PAULO
II. Notas sobre as especles encontradas nos arredores da capital
e sobre a determinação de Aêdes crinifer (Tiieob.)
por
ALCIDES PRADO
A partir do verão do anno passado, iniciei uma serie de pesquisas para o
estudo das especies de mosquitos existentes nos arredores de São Paulo. Estendi
esses trabalhos aos bairros do Jardim America, Jardim Europa, Itahim, Cidade
Jardim, Varzca do Ticté, Casa Verde, Pinheiros e Butantan. Si mais dilatada
fo^se a arca percorrida c mais {requentes essas pesquisas, certamente a lista de
Culicideos, que ora apresento, estaria grandemente augmentada. Entretanto, quer
de exemplares obtidos de larvas, quer dos obtidos por meio de capturas, as
especies discriminadas são, em sua maioria, interessantes c raras, razão pela quai
não me arrependo do tempo gasto neste mister.
Vários entomologos tem-se occupado da distribuição dos mosquitos cm São
Paulo, a começar por Lutz, que apresenta valiosa contribuição, conforme se 1c
«n Pcryassú. As larvas, grandes de preferencia, trazidas ao laboratorio, foram
separadas por mim, em boccaes de vidro, contendo geralmente agia do proprio
fóco. Depois da primeira metamorphose as exuvias respectivas eram montadas;
algumas vezes o mesmo se fazia cm relação ás exuvias nymphaes. Após a emer-
gencia dos adultos, eram elles fixados em alfinetes entomologicos, debaixo para
rima. entre os pares de patas e em seguida collocados em vidros apropriados,
numerados e fichados. Os hypopygios, da mesma forma, foram conveniente-
mente preparados e colleecionados.
Adoptando tal critério, pude determinar as seguintes especies de mosquitos
cm São Paulo :
Dos mosquitos domcstkos, nas aguas estagnadas impuras, em valias e vallc-
tas, depressões de terreno, recipientes diversos, as larvas mais communs eram
9
200
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
as de Culex ( Culex ) quinqucfasciatus Say e Culex ( Culex ) coronator Dyar &
Knab; em aguas da mesma natureza, somente em um ou outro fóco, em zona
povoada, me foi dada occasião de encontrar o Aêdes ( Stegomyia ) acgypti
(Linnaeus). Influencias sazonaes e outras, elevam de muito pouco o numero
dos fócos dos mosquitos dessa ultima especie em Sãc Paulo. Antes mesmo da
organização actual do serviço de policia de fócos, notára que mesmo em bairros
de população densa, em pleno verão, o indice estegomico não excedia nunca de
2 %, na capital.
Adultos das duas primeiras especies citadas, em certos bairros, predomi-
naram sempre dentro das habitações, sendo conhecidas como as mais importunas.
Especies silvestres, algumas das quaes também importunas, predominaram
nos bairros ou arcas afastadas da cidade. As larvas desses mosquitos abun-
daram nas aguas temporárias das depressões de terreno, agias de fonte, charcos
com vegetação aquatica: Uranotaenia geomctríca (Theobald). Uranotaenia pul-
chcmma Lynch Arribalzaga, este ultimo assignalado num fóco da Cidade Jardim,
nas proximidades do rio Pinheiros; Lutxia bigoti (Bellardi) e Lu teia brasilia e
Dyar, ambos igualmente communs em São Paulo: Psorophora ( Psorophora )
cilipcs (Fabricius), Psorophora ( Psorophora ) ciliata (Fabricius), Psorophora
( Janthinosoma ) discrucians (Walker), Psorophora ( Janlhinosoma ) ferox (Hum-
boldt ) .Psorophora ( Janthinosoma ) lutzii (Theobald), Psorophora (Janlhinosoma)
eyantscens (Coquillett), sendo alguns adultos dessas especies capturados no horto
c na mata em Butantan; Aêdes ( Ochlerotatus ) serrams (Theobald), Aêdes
( Ochlerolatus ) scapularis (Rondani ), Aêdes ( Ochlerotatus ) erinifer (Theobald).
especies quasi sempre obt : das em fócos temporários (aguas de chuva), muito
dis«eminadas; Mansonia ( Mansonia ) amazonensis (Theobald), Mansonia (Man-
sonia) tilillans (Walker), Mansonia ( Mansonia ) pseudotitillar.s (Theobald),
Mansonia ( Rhynehotacnia ) juxtamansnnia (Chairas). Mansonia ( Rhynchotut -
«ia) fasciolata (Lynch Arribalzaga), Mansonia ( Rhynehotacnia ) albifera Prado,
adultos quasi sempre capturados ao anoitecer, na parte exterior telada das ja-
nelas, em casas de empregados em Butantan. Obtive innumeros exemplares
de algumas das citadas especies, cspecialmentc nos meses de abril c maio deste
anno, após as grandes chuvas do verão. Acredito que esses mosquitos sejam
provenientes dos grandes charcos marginaes ao rio Pinheiros, onde existe uma
vegetação aquatica mu to rica. Entre os anophelineos citarei as seguintes es-
pecies: Anophcles ( Nyssorhynchus ) argyritarsis Robineau-Desvoidy, Anophe-
les (Nyssorhynchus) tarsimaculatus Goeldi, Anophcles ( Nyssorhynchus ) albi-
tarsis (Lynch Arribalzaga), Anophcles ( Nyssorhynchus ) cransi (Brethés), Ano-
phcles ( Anophcles ) maculipcs (Theobald), sendo das mais frequentes a especic
A. evansi. Chagasia fajurdoi (Lutz) existe na mata em Butantan, onde f 01
capturada no outomno. Das especies bromelicolas, quasi todas obtidas de
larvas colhidas em bromelias, na mata, em Butantan, mencionarei : 1 1’yeoinyia
(IV ycomyia) longirostris Theobald, U'yeomyia (Dyartna) tripartita Bonne-
Alcides Prado — Culicideos de São Paulo
201
Wepster & Bonne, Myamyia ( Cleobonnea ) negrcnsis (Gordon & Evans),
Afegarhinus ( Ankylorhynchus ) trichopygus (Wiedmann), Isostomyia paranensis
(Brethés), Sabcthes remipusculus Dy ar e Culcx (Síicroculcx) imitalor Theobald.
.As larvas das especies bromdicolas, geralmente vivem longo tempo no
laboratorio, em agua do proprio fóco, não renovada. Nessas condições difficil-
mente morrem. Sua meíamorphose se dá lentamente, mesmo com farta alimen-
tação e temperatura favoravel.
DepoÍ3 da determinação que acabo de fazer das especies de mosquitos dos
arredores da capital e de estudar certos factos relativos á biologia de algumas
das especies enumeradas, quero referir-me ás especies de Acdcs mais frequentes
cm São Paulo e das mais importantes sob o ponto de vista epidemiologico: A.
scapularis, A. serratus e A. crinifcr. Martini, em um dos seus últimos tra-
balhos, estuda o A. scapularis e o A. serratus, acompanhados de desenhos
dos respectivos hypopygios, não deixa duvida quanto á sua identificação, porém
nada referindo sobre A. crinifer, cuja determinação, a não ser pelos caracteres
geraes do adulto, ainda me parece um tanto confusa c incerta. Para estudar
com pa ra t i va me n te as tres especies, começo por reproduzir adiante a microphoto-
graphia do hypopygio de A. serratus (Fig. 3), perfeitamente individualizada
por Dy ar e Martini. A seguir, a microphotographia do hypopygio de A. scapu-
iarij (Fig. 4). cujo desenho no trabalho de Martini é perfeito, mas que na
ntonographia de Dyar presumo não o seja. As microphotographias que se seguem
são do hypopygio de A. crinifer (Fig. 5) e larva da mesma cspecic (Fig.
b). Tenho a impressão de que, na monographia de Dyar, o desenho do
hypopygio de A. crinifer deve pertencer a A. scapularis. A especic A. crinifer
descripta por Theobald em 1903, de dois exemplares que lhe foram enviados
de São Paulo, por Lutz, c facilmente reconhecível pela sua ornamentação thora-
eica. Quanto á larva, creio apenas existir uma mxrophotographia, essa devida
a Peryassú e estampada em seu livro, em 1908. Dessa maneira pelos caracteres
do hypopygio e da larva me foi difficil determinar os primeiros exemplares
da referida especie.
Faço, em seguida, um resumo dos caracteres específicos de A. crinifer, ba-
seado em varias preparações montadas do hypopygio c lana.
Hypopygio de A. crinifer — Peça lateral longa c estreita, levemente arre-
dondada no apice ; lobo apicilar redondo, saliente, continuando em baixo ate formar
o lobo basilar, igualmente saliente, acuminado e com pequenas cerdas inseridas sobre
grandes tubérculos; uma grande c espessa espinha adjacente. Pinccta (claspette),
com uma longa haste levemente incurvada e entumecida na ponta; filamento
longo, dobrado em angulo ao meio, para terminar em ponta, tendo um entalhe
inferior muito pronunciado, onde se notam alguns dentes recurvados. Pinça
(clasper) longa, afilada na extremidade c com espinho alongado e fino. Décimos
estemitos moderados, fortemente chitinizados e espessos na ponta, onde, em
cada um, ha um dente apparentemente voltado para os lados. Nonos tergitos
11
202
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
pequenos, quadrados, com quatro espinhos. Mesosoma cylindro-conico e com
uma pequena abertura no apice.
Lan\i dc .4. crinifcr — Cabeça arredondada e enfunada dos lados, cerdas
superiores da cabeça múltiplas, em numero de cinco; cerdas inferiores tam-
bém múltiplas, em numero de tres. Tufo ante-antennai múltiplo. Anten-
na moderada, delgada, com um pequeno tufo antes do meio. Pente lateral
do oitavo segmento, com numerosas escamas, em mancha triangular e em nu-
mero de vinte e duas ou mais; algumas dessas escamas apresentam ponta es-
pessa, aguda; outras com pontas rectas ou ligeiramente curvas, ornadas todas
de espinhas lateraes muito delicadas. Tubo aereo (syphão respiratório) curto
e duas vezes mais comprido que largo; pente excedendo o meio do tubo e
seguido de um tufo múltiplo; dorsalmente, com tres pares de tufos, de cada
lado. Segmento anal cercado por uma placa chitinosa e com uma escova
ventral posterior. Tufo dorsal acompanhado de uma longa cerda de cada lado;
cerda lateral simples, pequena. Branchias anaes muito longas, levemente sinuosas,
finas e pontudas.
RESUMO
Iniciando, a partir do verão do anno passado, uma serie de pesquisas para
o estudo dos mosquitos dos arredores de São Paulo, pude determinar a presença
dc vários culicideos, alguns dos quaes interessantes e raros.
Depois de estudar ligeiramente factos relativos á biologia de algumas das
espedes citadas, quiz referir-me á determinação de Aidcs scafularis, A. scmUus
e A. crinifcr, muito disseminadas e importantes, sob o ponto de vista epidenrio-
logico.
Quanto a A. crinifcr, cuja determinação pelos caracteres específicos do
macho e larva me parece ainda um tanto confusa e incerta, procurei esclareci-
mentos nas preparações montadas do hypopygio e exuvia larval desta especie-
ABSTRACT
In the course of a revisionary study of the mosquitoe3 found in the suburbs
o í São Paulo severa! specimens of Culicidae were encountered some of which
proved to bc cspecially interesting. Besides many other species the biology of
which is discussed in the text, Aidcs scapularis, A. serratus and A. crinifcr were
particularly scrutinized due to their epidemiological importance.
A. crinifcr, the status of which seemed to be in a rather confusing and
uncertain condition, was closely investigated in the light of its hypopygial and
larval characters which leave no doubt as to its validity.
BIBLIOGRAPHIA
1. TheobaU. F. I . — A monograph of the Culicidae, III. 1903.
2. Peryassv. A. G. — Os Culicideos do Brasil. Rio, 1908.
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4. Dyar, H. G. — The Mosquitoes of thc Américas. 1923.
5. Pinio. C. — Mosquitos da região neotropica — Mem. Inst. Oswaldo Crui, XXIII(3):
153.1930.
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Bahia. Saneamento. 8(11)1930.
7. Shannon, R. C. — Relatorio de uma rapida investigação de mosquitos cm Recife.
Saneamento. 8(12). 1930.
8. Marúni, /:. — L'cber einigc síklameriVanische Culiciden. Rcv. de Entom. 1(2) :199.1931
(Trabalho da Srcçâo de Protoioologla e TaraiItolo«le
do Inatltulo de Dutantan. outubro de 1331).
13
Alcides Prado — Cidicideos de São Paulo
Mrni. Inst. Bulantan
VoL VI, 1931
FIs. S
Hypopyjti» de A. »c rralní
Fi*. I
Itypopyjdo dr A. ícapulirli
Ti». «
L.U'a Jc A- crinitar
Ff*. 7
Lirvi Uc A. crinlfrr
5S5.771
CONTRIBUIÇÕES AO
CONHECIMENTO DOS CULICIDEOS DE SÃO PAULO
III. Notas sobre Psorophora (Janthinosoma) d/scrucíans
(Walker) e descripção do exemplar macho.
POR
ALCIDES PRADO
No decurso do mês de dezembro ultimo, pude, com o auxilio dos srs. Arnaldo
França e Edison A. Dias, capturar, em Butantan, numerosos adultos da especie
cujo nome encima estas notas. Durante dias consecutivos, em capturas diurnas
e nocturnas, collcctaram-sc algumas dezenas de mosquitos dessa especie, com a
presença apenas de um macho, que serviu de base para esta dcscripção.
Até á presente data, parcce-me não ter sido descripto o macho de Ps.
discrucians, segundo bibliographia que consultei, restando, porém, desconhecida
a larva respectiva.
Psorophora (Janthinosoma) discnicians (Walker)
Macho — Proboscida delgada, negra, com reflexos purpurinos. Palpos mais
longos que a proboscida, negros, com reflexos egualmcnte purpurinos e com a
extremidade voltada para cima; porção apicilar do penúltimo e ultimo articulos
com pêlos innumcros. Antcnnas escuras, longo-plumosas. Toros negros, brilhan-
tes e inteiramente nús. Oecipicio todo revestido de escamas amarello-acobreadas.
Mesonoto negro, brilhante, com escamas curvas pardo-bronzeada.', ao meio; es-
camas fusiformes, amarello-doiradas lateralmente. Escutello negro, brilhante e
com algumas escamas fusiformes amarello-doiradas; algumas ccrdas apenas sobre
os lobos. Pleuras e coxas com escamas amarello-esbranquiçadas. Abdome es-
curo, purpurino, com manchas branco-amarelladas na parte lateral dos segmen-
tos ; ventre da mesma côr, com os auices de todos os segmentos branco-amarellados.
15
206
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
Pernas escuras, com brilho purpurino; femores com raras escamas branco-cinzas
na ponta; quarto articulo tarsal do par posterior branco nos seus 2/3 basilares.
Azas ennegrecidas, com escamas estreitas e escuras; primeira cellula sub-
marginal pouco mais comprida, porem muito mais estreita que a segunda poste-
rior ; peciolo da primeira cellula pouco mais da metade do comprimento da cellu-
la; nervura transversal media muito próxima da nervura transversal posterior.
Hypopygio (Est., fig. 1) — Pega lateral mais ou menos cylindrica, com a
junta truncada, pilosa. Pinceta (claspette) delgada, fortemente curva com uma
expansão sub-apicilar em sua face interna, constituida por cerca de nove cerdas
rectilineas; ponta com tres visiveis appendices: um externo, espesso e curvo e
dois internos, sendo o primeiro anelado e membranoso e o segundo em forma de
íoliolo. Pinça (clasper) entumecido, estreito na base e no apice, terminando
com um espinho alongado. Décimos esternitos fortemente chitinizados, estreitos;
ponta espessa onde se contam cerca de quatro denticulos. Nonos tergitos re-
duzidos. Mesosoma cylindrico, ligeiramente estreito, exteriormente.
O hypopygio differe pouco de ferox, lutzii e champerico, assignalados os
tres na monographia de Dyar, 1928.
Comprimento — 6mm.50.
Larva — desconhecida.
RESUMO E COMMENTARIOS
Neste trabalho limito-me a descrever o macho de Ps. discrucians, capturado
em Butantan. A descripção que ora faço do adulto é summaria, pois clle apre-
senta o colorido geral da femea já descripta. Dif fercncia-se de Psorophoro
varipes (Coquillett), espccic norte-americana, por não possuir de cõr branco-
prateada as pontas dos femores posteriores. Pelo exame do hypopygio esta
difíerença com Ps. varipes è ainda mais evidente.
O hypopygio de Ps. discrucians, ao meu ver, differe de ferox, lutzii e cham-
perico apenas pelos appendices da ponta da pinceta. Em Ps. discrucians são
tres os appendices: um externo, espesso e curvo e dois internos, sendo um ane-
lado e membranoso e outro em forma de foüolo; em Ps. ferox. Ps. lutzii e P s -
champerico, segundo os desenhos publicados por Dyar, são apenas dois esses
appendices : um externo, espesso e curvo e outro interno anelado c membranoso-
ABSTRACT
A male spedmen of Psorophora discrucians, captured at Butantan, **
described and its hypopygium represented in the text so as to show its dif fer-
entation from Ps. varipes, lutzii and champerico.
Blanchard,
Throbald.
Prryasiú,
Dyar , II.
BIBLIOGRAPHIA
, R. — Les rooustkjucs : 232-253. 1905.
F. V. — A monograph of the Cullcklac V :121 . 1911.
A. G. — Folha Medica IV:70.1923.
G. — The mosq. of the Américas: 120.1928.
(Trabalho da Secção de Protoroologla e l*ara»itolo*ta
do Instituto Rutantan, dnembro de 1931).
17
595.771
CONTRIBUIÇÕES AO
CONHECIMENTO DOS CULICIDEOS DE SÃO PAULO
IV. Uma nova especie de Uranotaenia (Diptera, Culicidae)
POR
ALCIDES PRADO
Em julho deste anno, quando muito reduzida era a densidade dos mosquitos
adultos, pude, auxiliado pelo sr. Domingos Yered, capturar nas matas de Bu-
tantan, alguns exemplares de Chagasia fajardoi (Lutz) e uma femea e dois
machos de uma especie nova de Uranotaenia, cuja descripção constitue o objceto
deste estudo. Xo mesmo local, cm differentes estações do anno, reuni interes-
santes especimes da fauna culicidica, inclusive Aêdes, que tem grande impor-
tância epidcmiologica na febre amarclla.
Dessa forma, com material proveniente cm grande parte dos arredores desta
capital, consegui iniciar o trabalho de reorganização da collecção cntomologica
do Instituto.
Uranotaenia ditaenionota, sp. n.
Femea — Proboscida longa, pardo-escura; ponta entumecida da mesma
cõr. Palpos curtos, inteiramente pardo-escuros. Antennas pilosas, pardas ;
toros pardo-amarellados, nús. Clypeo pardo-escuro, glabro. Occipicio revesti-
do de escamas chatas, negras; outras crcctas c bifurcadas da mesma cõr, espar-
sas; larga faixa de escamas chatas, pallido-azuladas, delimitando os olhos, do
vertice adiante, e, de cada lado, seguindo cm direcção aos lobos prothoracicos.
Lobos prothoracicos pouco salientes, pardo-escuros, com uma mancha consti-
tuída de escamas pallido-azuladas. Mesonoto pardo-escuro e com escamas es-
treitas, delgadas, quasi rectas, levemente acobreadas e disseminadas; larga faixa
de escamas chatas, pallido-azuladas, desde o angulo anterior á base da aza. cm
ambos os lados; pleuras pardo-amarelladas ; cada uma com nitida separação
19
210
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
pardo-escura, apparecendo, ao centro, uma mancha de escamas chatas, pallido-
azuladas. Escutei lo visivelmente trilobado, pardo- amarellado, brilhante, cpnl
escamas chatas da mesma côr, especialmente sobre o lobo medio e com tres
ccrdas marginaes sobre cada um dos lobos. Metanoto pardo-escuro e comple-
tamente nú. Ralancins pardo-escuros, com os capítulos de tonalidade mais
carregada do que os pedúnculos respectivos. Abdome quasi negro e com brilho
metallico, devido ao seu revestimento de escamas chatas e negras, com excepção
da base de todos os segmentos, esta com uma larga faixa de escamas chatas e de
côr branco-perola ; ventre pardo-amarellado e sensivelmente mais claro que o
dorso. Pernas negras, de brilho metallico; coxas e trochanteres amarello-palli-
dos; parte inferior dos femores amarelio-desmaiado ; par posterior com a metade
apicilar do 3.°, todo o 4.® e 5.® artículos inteiramente brancos; juntas articulares
branco-pallidas. Unhas eguaes, delgadas e simples. Azas membranosas, sem
villosidades, com escamas lanceoladas longas, pardo-claras, em toda a porção
apicilar da 1.*, 2.® e 4.® nervura longitudinaes c ao longo da 3.*: escamas espatu-
ladas curtas, escuras, em toda porção basilar da 1.®, 2.*, e 4.® nervuras longitu-
dinaes e ao longo das demais nervuras; 1.® cellula submarginal pouco menor c
mais estreita do que a 2.® posterior; peciolo da 1.® cellula quasi duas vezes mais
comprido do que a cellula; peciolo da 2.® cellula uma e meia vez mais comprido
do que a cellula; nervura transversal supranumerária formando com a transver-
sal media um angulo obtuso; nervura transversal posterior distante da trans-
versal media duas vezes seu comprimento; nervura anal não ultrapassando a for-
quilha do cubito.
Macho — Proboscida longa, pardo-escura; ponta entumecida da me-ma côr.
Palpos muito curtos, inteiramente pardo-escuros. Antennas plumosas, pardas;
toros pardo-amarellados, nús. Gypeo pardo-escuro, nú. Occipicio revestido
de escamas chatas negras; outras ercctas e bifurcadas da mesma côr, esparsas;
larga faixa de escamas chatas, pallido-azuladas, delimitando os olhos, do vertice
adiante, e. de cada lado, seguindo em direcção aos lobos prothoracicos. Lobos
prothoracicos pouco salientes, pardo-escuros, com uma mancha formada de esca-
mas pallido-azuladas. Mcsonoto pardo-escuro c com ornamentação idêntica a
da femea. Abdome, pernas c azas como na íemea.
Hyf>of>ygio — Peça lateral curta e um tanto cônica; lado basilar projectado
lateralmentc, acuminado e com a inserção de algumas cerdas longas. Pinça
(clasper) forte, exeavada na ponta e com um espinho curvo, terminal. Ramo
divergente longo, espesso e denticulado. Mesosoma com suas placas lateraes se-
paradas ; par interno (cada placa elevada em columna espessa) tendo a formação
de tres dentes muito curvos para o lado de fóra; par externo (cada placa pouco
elevada) tendo dois dentes cm forma de bico de passaro, igualmente voltados
para o lado de fóra (Est., fig. 2).
Comprimento da femea e do macho: 4 mm.
Larva — Desconhecida.
20
Alcides Prado — CtdiciJeos de São Paulo
211
Holotypo e allotypo, femea e macho, montados e conservados em vidros,
respectivamente, sob os n°». 175 e 176, na collecção do Instituto Butantan, São
Paulo. Paratypo, macho, conservado em vidro, sob o n.° 177 e o hypopygio
montado do allotypo, em lamina, sob n. 176, na mesma collerção.
COMMENTARIOS
Pela configuração exterior do adulto, Uranotaenia ditaenionota, n. sp. parece
affim de Uranotaenia lozvii Theobald e de Uranotaenia calosomata Dy ar &
Knab, ambas encontradas no Brasil. Embora o revestimento externo de Urano-
taenia Icnvii seja mais ou menos semelhante ao de Uranotaenia ditaenionota, ha
a distingu : l-a o colorido do mesonoto. O mesonoto de Uranotaenia lown é
pardo-acastanhado, brilhante, com uma lista negra central ; uma mancha da mesma
cõr adiante da base da ara, com um centro de escamas chatas, azul-prateadas.
em ambos os lados. O mesonoto de Uranotaenia ditaenionota é, entretanto,
pardo-escuro, com escamas estreitas, delgadas, quasi rectas, levemente acobreadas
e disseminadas; larga faixa de escamas chatas, pallido-azulada-, vae desde o
angulo anterior do mesonoto á base da aza, em aml>os os lados.
Uranotaenia calosomata, alem de outros caracteres diífcrenciacs específicos,
tem seu mesonoto pardo-escuro, com uma estreita linha dc escamas chatas c
brancas, que vae desde o angulo anterior á base da aza, cm ambos os lados, o
que certamente diverge, pelo colorido, de Uranotaenia ditaenionota. Ainda, o
abdome de Uranotaenia calosomata que c negro, apresenta uma larga faixa apici-
lar de escamas chatas, branco-amarclhdas, em toslos os segmentos, enquanto cm
Uranotaenia ditaenionota ha uma larga faixa basilar de escamas chatas e dc côr
branco-pcrola, cm todos os segmentos. Os caracteres específicos do hypopygio
de Uranotaenia ditaenionota são de tal forma evidentes, que dispensam confronto
com os existentes nas espccics próximas, citadas.
RESUMO
Neste trabalho, utilizando-mc de exemplares dos dois sexos, descrevo uma
espccie nova dc Uranotaenia, capturada nas matas de Butantan. durante o mês
de julho do corrente anno, conjunctamente com alguns exemplares de Chagasia
fajardoi (Lutz).
Uranotaenia ditaenionota, sp. n., affim de Uranotaenia tmini Theobald e de
Uranotaenia calosomata Dyar & Knab, ambas encontradas no Brasil, difíerc
destas ultimas, pelo revestimento exterior do adulto, como também pelos caracte-
res específicos do hypopygio.
21
\l.ClDKS PRADO
Cuhcidcos tlc Sâo Paulo
Mrm. In*l. fUilantan
\ol. VI, 1931
llyPWglo <Jc L ranotar nia ditarni.n.ta. » p
cm
SciELO
Hypopynlo <Ir p. dUrraciana (Walker)
PESQUISAS SOBRE TRYPANOSOMAS
POR
J. 13. ARANTES E FLAVIO da FONSECA
393.16:616 961
PESQUISAS SOBRE TRYPANOSOMAS
I. Trypanosoma butantanense, sp. n., parasita da serpente
Ophis merremii Wagler, 1824
POR
J. B. ARANTES e FLAVIO da FONSECA
Entre muitas dezenas de exemplares de Ophis merremii Wagler, 1824, de
proveniência diversa, cujo sangue peripherico foi examinado, tivemos opportu-
nidade de encontrar em alguns duas es peei es diversas de Trypanosoma.
Uma das especies, Trypanosoma merremii, constituc objccto de uma outra
nota. No presente trabalho occupar-nos-cmos do Trypanosoma butantanense, sp.
n., o qual foi objccto de estudo mais acurado, aliás ainda cm andamento.
Trypanosoma butantanense, encontrado por 4 vezes cm infecção natural e
pura, differe totalmentc da outra especic de Trypanosoma que oceorre cm
Ophis merremii, pois trata-se aqui de uma especic menor, dotada fie grande poly-
morphismo, multiphcando-sc activamcnte no sangue peripherico, onde é encon-
trado cm grande abundancia em infecção natural c em numero ainda maior em
certos casos de infecção experimental, onde o seu numero chega a ser superior ao
de globulos vermelhos (Est. II, fig. 18, photographia de preparado obtido de ser-
pente viva), divergindo ainda pela enorme mobilidade de que é dotado. Esses ca-
racteres difíerenciaes, alem de outros de menor importância, bem como o facto
de serem os dois Trypanosomas encontrados cm estado de pureza, serviram de
base á distineçáo que estabelecemos, embora occorram na mesma espede de ophidio.
MORPHOLOOIA
Exame a fresco — Trypanosoma butantanense apresenta grande mobilida-
de, quando visto 3 fresco, sendo mais moveis as formas do typo 1. Alem do mo-
vimento de propulsão observa-se também, nas formas longas, movimento retro-
grado, quando encontrado algum obstáculo.
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
216
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
Também se observam a fresco formas de reproducção, assistindo-se com
frequência os esforços levados a ef feito para terminar a separação dos elemen-
tos em phase final de divisão.
Exame após coloração — O estudo comparado das 4 amostras desta espe-
cie de Trypanosouxa, feito em laminas de sangue obtido, quer dos exemplares
naturalmente infectados, quer de outros ophidios inoculados, permitte distin-
guir um certo numero de typos, dos quaes nos oc cu paremos separadamente.
A distineção destes typos foi baseada apenas cm exemplares adultos, i. é,
apresentando já a morphologia perfeita dos representantes do genero, não sendo
tomada em consideração a morphologia variada de exemplares em phase de
divisão ou em phases atrazadas de desenvolvimento, como a phase de crithidia,
leptomonas e outras, que também são observadas no sangue peripherico de
cobras vivas. E’ possível que os tres typos morphologicamente distinctos que
descrevemos constituam algumas phases de evolução do typo mais adiantado.
TYPO I
ESTAMPA I
Neste typo foram incluídas as formas apparentemente mais adiantadas, ca-
racterizadas pelo maior comprimento do corpo, que se apresenta naturalmente
alongado, perdendo em largura o que ganha em comprimento, com núcleo peque-
no muito mais proximo da extremidade anterior do que da posterior, cineto-
plasta muito volumoso, occu pando toda a largura do Trypanosoma e também
muito afastado da extremidade posterior; a porção posterior ao cinetoplasta
apresenta-se espiralada. O corpo apresenta numerosas granulações azuladas em
toda a porção situada adiante do cinetoplasta. A coloração é violeta pallida. O
núcleo é avermelhado c o cinetoplasta vermelho carregado. A membrana nitida.
muito estreita, e pouco sinuosa acompanha um dos bordos do corpo desde o cine-
toplasta até a extremidade anterior (fig. 1).
Foram medidos 3 exemplares:
DIMENSÕES
» *
Mrdia
Máxima
Min ima
Comprimento total excluído o flagello
45.9
48.5
44.6
Largura ao nivcl do núcleo
2.4
245
2.1
Distancia do cinetoplasta á extremidade posterior . .
17.5
17.5
17.5
( Comprimento
Nucle ° I Largura
2.4
LO
2.6
1.0
2.1
1.0
i Comprimento
U
U
U
Cmetoplasta J, jrgura
0.4
0.4
0.4
Flagcllo livre
8.1
8.75
7.0
Arantks e Fonseca — Pesquisas sobre trypanosomas
211
TYPO II
A este typo correspondem os exemplares adultos de tamanho medio, dif fe-
rindo dos do typo I não só por esse caracter, como também pela largura maior
do corpo ao nivel do núcleo, pelo menor comprimento relativo da zona posterior
ao cinetoplasta, que é espiralada, presença de grande numero de granulações
nessa porção do corpo, menor comprimento do flagello livre e dimensões rela-
tivamente maiores do cinetoplasta, maior largura do núcleo e situação mais
central do núcleo em relação ao comprimento do flagellado (Fig. 2).
DIMENSÕES
As medidas de 3 exemplares deram os seguintes resultados:
Comprimento total excluído o flagello ....
Largura ao nivel do núcleo
Distancia do cinetoplasta á extremidade posterior
Comprimento
Largura
Nocleo
f Comprimento
Cinetoplasta .
Flagello livre
Mrdu
Masima
3/im'ma
21,9
23.1
20.5
26
245
2.6
7.8
8 7
7.0
2,6
2.6
Z6
1.7
17
17
U
U
U
0.4
0.4
0.4
6,6
7.8
57
TYPO III
O typo que nos occupa c representado por exemplares ainda menores do que
os precedentes e, proporcionalmente ao tamanho, ainda mais largos. Um dos
aspectos mais característicos desse typo é a proximidade do cinetoplasta do
núcleo. As dimensões do núcleo e do cinetoplasta não variando sensivelmente
nos differentes typos, succede que também aqui, cm relação ás dimensões do
corpo, se apresentam estes elementos maiores. Também o flagello é longo, rcla-
tivamente ás dimensões do Trypanosoma. O protoplasma parece ser mais pobre
em granulações do que o das formas restantes.
O protoplasma cora-se cm violeta mais pallido do que os do typo I e o
núcleo em tom vermelho habitual, sendo o cinetoplasta vermelho mais vivo
(Fig. 3).
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
21S Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
DIMENSÕES
Comprimento total excluído o flagello ....
Largura ao nível do núcleo
Distancia do cinetoplasta á extremidade posterior
( Comprimento
Núcleo ; .
) Largura
! Comprimento
Largura
Flagello livre
Medio
Maxima
Mínimo
137
15 2
12.6
22
2.6
2.1
37
4J
37
2.1
2.1
2.1
1,8
2.1
17
U
U
U
0.4
0.4
0.4
6.4
7.0
6.1
Formas de reproducção
No Trypanosoma butantancnse uma das verificações mais interessantes é o
numero extraordinário das formas de reproducção que occorrem no sangue pe-
ripherico. Assumem estas formas os aspectos mais variados, indo desde a forma
arredondada da Lcishmcnia (Fig. 4), até a forma perfeita do Trypanoso-
ma, passando pelas formas intermediarias de Leptomonas e Crithidia
(Figs. 5 e 6). A impressão que se tem á primeira vista é a de estar examinando
uma cultura e não uma lamina de sangue. Chamamos muito a attenção para o
facto de tratar-se de sangue retirado de serpentes vivas e não (como se poderia
suppor, devido á apparição de formas de Lcishmania, Leptomonas e Crithidia)
de sangue retirado para exame após a morte do animal, quando o trypanosoma
se comportaria como meio de cultura artificial, apresentando então as formas de-
nunciadoras de sua derivação phylogenetica.
A reproducção no sangue peripherico effectua-se quasi sempre pela forma
binaria, predominando, porem, as formas anômalas, nas quaes os resultantes de
divisão são desiguaes (Figs. 7 e 8). Por excepção, divisão múltipla em
tres e quatro, neste caso divisão múltipla do cinetoplasta ou do núcleo em pri-
meiro logar c posteriormente separação do protoplasma (Figs. 9 e 10).
Alem desta frequente anomalia, observa-se também o facto, em contradicção
com a morphologia geral dos Trypanosomas, de preceder muitas vezes a divisão
do núcleo á do cinetoplasta, vendo-se frequentemente o núcleo perfeitamente
dividido e já afastados os dois núcleos filhos, ao passo que o cinetoplasta apenas
teve sua divisão esboçada (Figs. 11, 12, 13 e 14).
As formas que mais frequentemente são vistas cm reproducção são formas
cujo cinetoplasta se encontra na mesma altura do núcleo, parecendo formas em
transição entre Crithidia e Trypanosoma. Os resultantes dessa divisão são dois
6
Arantes e Fonseca — Pesquisas sobre trupanosomas
219
elementos, um dos quaes é uma Crithidia, sendo o outro ura Trypanosoma
(fig. 8).
Seguem-se por ordem de frequência, entre as formas vistas em divisão, as
que se acham em phase de Crithidia (fig. 7), vindo depois os verdadeiros
Trypanosomata (fig. 8) aos quaes se seguem as Leptomonas (fig. 6) e fi-
nalmente a de Leishmania (fig. 5).
Além das citadas, são ainda vistas muitas outras fôrmas, quer representando
variantes de um dos typos descriptos, quer fôrmas anômalas que não se enqua-
dram nestes typos (figs. 15-20).
ESTAMPA II
Coloração pelo methodo de Rosenbusch — Pelo methodo de coloração de
Rosenbusch. observa-se, nos exemplares dos 3 typos descriptos, que o cineto-
plasta apresenta forma mais linear do que a dos preparados corados pelo metho-
do de Giemsa: o núcleo em repouso tem zona de sueco nuclear mais rica e um
caryosoma bastante volumoso, central e redondo (figs. 1, 2, 3), sendo fre-
quente ver-se um vacuolo na metade posterior do parasita.
As figuras 4, 5, 6 e 7 representam, rcspcctivamente, formas dc leishmania,
leptomoi.»: c crithidia.
As figuras 8 e 9 mostram formas de divisão dando resultantes de tamanho
desigual, sendo que na fig. 8 está representada uma phase mais atrazada de
divisão, na qual os dois caryosomas filhos ainda se apresentam ligados pela
centrodcsmose c a fig. 9 uma phase terminal do processo.
O facto, assignalado paginas atrás, de terminar-se a divisão nuclear antes
da do cinetoplasta, é confirmado também pelo exame dc preparados corados pela
hematoxylina, como se verifica nas figs. 10, 11, 12.
Foi-nos igualmcntc dado observar, em preparados fixados a húmido, formas
dc reproducção em que um dos resultantes é um trypanosoma, ao passo que o
outro está ainda cm phase dc crithidia (figs 9, 13, 14).
As figs. 15, 16. 17 representam formas anômalas coradas pelo methodo
de Rosenbusch.
BIOLOGIA
Inoculações experimentaes
Trypanosoma butantanense é facilmente inoculavel, tendo sido obtidos ino-
culações positivas, quer com sangue, quer com culturas nas seguintes espccies de
ophidios: Ophis merremii, Drymobius bifossatus, S pilotes pulIaJus, Leimadophis
poecilogyrus, Chlorosoma schottii c Pseudoboa trígemina entre as não venenosa?
e Bothrops jararaca, Bothrops atrox e Bothrops altemata entre as venenosas
Mostraram-se refractarias : Constrictor constrictor e Epicrates cenchria. Chiro-
cm
SciELO
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220
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
mus carinatus foi inoculada uma só vez, não tendo sido obtida infecção, nada
se podendo concluir, porque também em Ophis merremii, embora excepcionalmen-
te, falhou a inoculação. Crotalus terrificus foi inoculado varias vezes, como,
porém, morre em poucos dias, quando manipulado com frequência, nada se pode
concluir quanto á sua sensibilidade á infecção experimental.
Alem de ophidios, foi também obtida a inoculação em um batrachio. Bufo
paracnemis Lutz. De 5 exemplares, inoculados com sangue de Ophis merremii
infectada, um apresentou infecção. Em 2 exemplares de Bufo marinus não foi
obtida infecção.
As cobras infectadas pareceram sofírer pouco com o parasitismo, tendo-se a
impressão de que a virulência é diminuta, pois as cobras duram ainda muito
tempo, apesar do numero colossal, muitas vezes, de Trypanosomata presentes
na circulação.
Cultura artificial
Foram obtidos, aliás com certa difficuldade inicial, culturas em meio de
NNN, preparado com sangue de coelho e com sangue de cobra, attribuindo-se a
contaminação, tão frequentemente observada, a uma possivel bacteriemia das
cobras conservadas em captiveiro em condições precarias de saúde.
Uma vez obtidas, as culturas se desenvolveram em geral com exhuberan-
cia, casos havendo, porém, de mau desenvolvimento.
As culturas persistem vivas durante quasi todo o tempo em que existe agua
de condensação no meio.
Continuamos a manter I. bulantanense no laboratorio, por meio de inocula-
ções successivas em serpentes e de culturas; estamos tentando ainda sua trans-
missão por meio do Ixodideo, Amblyomma dissitnile.
RESUMO
No sangue de exemplares, naturalmcnte infectados, de Boipeva (Ophis
merremii Wagler, 1824) foi encontrado um trypanosoma que, por seus caracte-
res morphologicos e propriedades biológicas, representa uma nova especie a ser
chamada de Trypanosoma bulantanense, n. sp.. Na phase adulta, este trypano-
soma apresenta 3 typos differentes de morphologia; reproduz-se activamente no
sangue de serpentes natural ou experimentalmente infectadas, apresentando então
todas as phases conhecidas do cyclo evolutivo dos trypanosomas ; infecta facil*
mente %*arias especies de ophidios que, todavia, não parecem ser por elle moles-
tadas; finalmcnte, mostrou-se cultivavel no meio NNN, no qual sobreviveu em-
quanto havia presença de agua de condensação.
Abastes e Fonseca — Pesquisas sobre trypanosomas
221
ABSTRACT
Trypanosoma butantanense, n. sp. has been íound in naturally infested
'pecimens of the Boipeva snake ( Ophis merremü Wagler, 1824) and differs
írom T. boipcvae (described elscwhere in this issue) by its smal! size, type of
motility, polymorphism, heavier infestation (Pl. II, fig. 18), besides other mor-
phological and physiological peoiliaritics.
Comparison of specimens in adult stage ( T ry panos oma- f orm ) discloses 3
different tvpes : Type I bears a body larger and proportionately narrower,
with a small nucleus, lying nearer the anterior end, a voluminous kinetoplasta at
a great distance f rora the posterior extremity ; the body is spiral-like behind the
kinetoplasta; protoplasma granulous, pale violet. Nucleus red and kinetoplasta
deeplv red. Undulanting membrane narrow with little pronounced sinuosities,
well visible (Pl- I, fig- 1). In type II the total length in decrcased and the
width increased; the length of the body behind the kinetoplasta is smallcr and
this portion *is not spiral-like as in type I ; the kinetoplasta is relativcly larger ;
the nucleus is widcr and occupies a more central position ; the flagcllum is shorter
(fig. 2). In type III the body is still shorter and widcr than in type
II and kinetoplasta lies at a shorter distance from the nucleus. In comparison
with the length the nucleus and the kinetoplasta are of larger size (fig. 3).
Reproduction takes place vcry actively in the blood of the naturally or
experimentally infcctcd snakcs, a feature which is cliaracteristic of this new
species. The forms found in the blood of living snakcs rcpresent all stages
known in the liíc-cycle of Trypanosomata: Lcishmar.ia — (fig. 4), Leptomo-
nas, Crit hidia — ( figs. 5 and 6) and T rypanosoma-íoun, so as to appcar
as a real artificial culture of the parasite rather tlxan anything cise.
It must be emphasized that this aspect was seen in living snakcs; therefore, it
has nothing in common with a simple culture that may occur in the blood of
dead animais.
Reproduction is almost always binary and the resulting individuais are
unequal (figs. 7 and 8). Exccptionnally multiplc d i vision may be seen (figs.
9-10). Division of the nucleus may prccccd that of the kinetoplasta (figs. 11, 12.
13. 14), a fact that is also seen in blood-films staincd by hematoxylin (figs. 10.
11, 12). The most frequent reproduction form bears the kino'eplasia at the
levei of the nucleus and scems to bc an intermediate form bctwecn Cri: hidia and
Trypanosoma, a Crithidia and a Trypanosoma (figs. 8, 9, 13, 14) resulting from
the samc division. Anomalous forms are seen in Pl. I. figs. 15-20 and PI. II,
figs. 15-17.
Trypanosoma butantanense in both blood and cultures is readily inoculablc
to other species of snakes, the following species having been found to be
susceptible: Ophis merremii, Drymobius bifossatus, S pilotes pullatus, Leima-
cm
SciELO
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222
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
dophis poccilogyrus, Chloroscmc schottii, Pseudoboa trigemina, Bothrops jararaca,
Bothrops atrox and Bothrops altemata. In Constrictor constrictor, Epicrates
ccnchría, Chironius carinatus and Crotalus terríficus the experimental infection
was unsuccessful.
One toad out oí five ( Bufo paracncmis) also became infectetd but in Bufo
marinus it was not possible to obtain infection.
The infected snakes seemed to li ve about as long as those used as Controls.
Culture was easily obíained in NNN médium (with rabbit’s or snake’s
blood), and remained alive so long as condensation water was present in the
médium.
(TraLallio da StvçSo de Protozooiogia e Parasitologia
do Instituto Butantan, dezembro de 1331).
10
592.16:616.961
PESQUISAS SOBRE TRYP AN OSOMAS
II. Trypanosoma manguinhense , sp. n., parasita do bugio
Alauatta caraya (Humboldt, 1809)
POR
J. B. ARANTES e FLAVIO da FONSECA
Muito pequeno é o numero de es peei es do gencro Trypanosoma observadas
em macacos brasileiros, cifrando-se os até hoje descriptos a Trypanosoma crusi
Chagas, 1909 (1), Trypanosoma minasense Chagas, 1908 (2, 3 e 4) e Trypano-
soma prozcascki Behrenberg — Gossler, 1908 (5).
Em Junho de 1931, examinando preparados, corados pelo liquido de Giemsa,
de sangue de bugio da especie Alaualta caraya (Humboldt, 1809), encontrámos
um Trypanosoma de morphologia bastante diversa dos acima citados.
Provinha o macaco cm questão da localidade denominada Ccrqueira Ccsar,
Est. de São Paulo, tendo sido offerecido ao Instituto Butantan pelo sr. Augusto
R. D. Arruda, ao qual agradecemos tão interessante material.
O trypanosoma alludido era extremamente raro nos esíregaços, nos quacs
apenas foram vistos poucos exemplares.
Como se deprehende da gravura e dn descripgâo abaixo, distingue-se o
Trypanosomideo, por nós verificado em Alauatta caraya, com facilidade dos
outros Trypanosomata assigi -.alados cm macacos brasileiros (Est. I. fig. 21).
Do Trypanosoma prcnoaseki Behrenberg — Gossler, 1908, dif ferencia-sc
com facilidade, pois este, além de dimensões muito menores, apresenta blepharo-
plasta terminal, tal como Trypanosoma crusi Chagas, 1908, do qual muito se
approxima.
Com o Trypanosoma crusi também não c comparável, dif ferindo totalmen-
le na morphologia.
Approxima-se mais do Trypanosoma minasense Chagas, 1908, do qual to-
davia se distingue pelos caracteres seguintes: cm Trypanosoma minasense
11
cm
SciELO
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224
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
a largura do corpo ao nivel do núcleo é maior e variavel, bem como ao nivel do
cinetoplasta, segundo se deprehende das dimensões apresentadas por A. Carini
(loc. cit.) e do exame da gravura apresentada por este pesquisador; o núcleo tem
maior diâmetro transversal e não toca os bordos do corpo; o cinetoplasta é
mais ou menos central, ao contrario do que succede ao Trypanosoma de Alauatta
caraya, em que este é marginal ou sub-marginal.
O nome especifico, T rypanosoma manguinhense, é dado em homenagem ao
Instituto Oswaldo Cruz, antigo Instituto de Manguinhos, no qual foram reali-
zadas pesquisas da maior relevância sobre Trypanosomas.
ASPECTO GERAL: — T rypanosoma relativamente grande e largo, apre-
sentando-se o protoplasma bem corado em azul, ás vezes de aspecto finamente
granulado e com zonas vacuolares localizadas principalmente nas proximidades
do núcleo.
O núcleo é volumoso, occupa toda a largura do flagellado, apresentando
coloração homogenea, vermelha pallida. O cinetoplasta é pequeno, de situação
predominantemente marginal, arredondado e situado a meia distancia entre o
núcleo e a extremidade posterior. A membrana ondulante, bem nitida, é estreita
c se estende desde proximo do cinetoplasta até a extremidade anterior, descre-
vendo sinuosidades muito pronunciadas. O flagello, bem visivel desde o cineto-
plasta, acompanha o bordo externo da membrana ondulante e se toma livre na
extremidade anterior, onde apresenta comprimento variavel.
DIMENSÕES
Foram computados cinco exemplares que deram as medidas abaixo:
J tedii
Maximj
Miiiitr.a
Comp. total cxcluido o flagello
livre
34
micra
54
36 micra 30
32 micra
37
Largura ao nivel do núcleo .
• •
3
micra
£0
3 micra 50
3 micra
50
Distancia do cinetoplasta à cxt.
post.
11
micra
12
14 micra 0
10 micra
50
Comprimento do núcleo
4
micra
35
5 micra 25
3 micra
50
Dimensão do cinetoplasta. .
0
micra
50
0 micra 50
0 micra
50
Comprimento do flagello livre .
.
7
micra
52
10 micra 50
3 micra
50
Com sangue obtido por puneção cardíaca foram inoculados um Silenus rhesus
(Macacus rhesus) jovem, com 5 cc. de sangue por via peritoneal, e duas cobaias,
com 2cc.5 de sangue pela mesma sua, uma das quaes morreu acddentalmente
no dia seguinte.
Nenhum desses animaes, porém, apresentou infecção, mesmo após exames
prolongados e repetidos até data muito posterior.
Ahantes e Fonseca — Pesquisas sobre trypanosomas
22Õ
Posteriormente foram feitas tentativas de isolamento do trypanosoma em
questão em meios artificiaes, semeando-se sangue obtido por puncção cardiaca
em sete tubos com meio de Noguchi para leptospiras e dez tubos de XNN.
No dia em que foram semeados taes meios, porém, não foi mais possível ver
trypanosoma no sangue pelo exame a fresco, o que correu certamente por conta
do facto de ter sido o macaco dias antes inoculado com virus do typho exanthe-
matico de fórma paulista, tendo apresentado forte reacção febril, achando-se nos
últimos dias de vida quando foi sangrado.
Seja pelo facto de não mais existirem trypanosomas na circulação, seja
pela maior difficuldade opposta por esta especie ao cultivo artificial, não foi
possível o seu isolamento, tendo-se conservado estereis os tubos.
RESUMO
E’ descripta uma nova especie de trypanosoma, Trypanosoma manguinhense
sp. n., parasita do bugio de S. Paulo, Alauatta caraya (Humboldt, 180)).
Não foram conseguidas inoculações ou culturas do novo parasita.
ABSTRACT
Trypanosoma manguinhense, sp. n., is describcd as a parasite found in a
Brazilian howler-monkey, Alauatta caraya (Humboldt, 1809). As pointed out
in the text, this new specics differs from all the other species hithcrto
describcd of Brazilian monkeys, thus: body broad and large; protoplasm
coloured in blue by Gicmsa, vacuolated near the nuclcus and finely granulous;
nucleus voluminous, as broad as the body itself ; kinctoplasta small, gencrally
marginal, rounded, lying halfway from nucleus and posterior end; undulanting
membrane sinuous, narrow, extending from near the kinctoplasta to the anterior
end; flagcllum distinct, with variable lcngth (PI. I, fig. 21).
Total lcngth. flagcllum cxcltrlc '
Brcadth at nuclear levei . . .
Distance klnetoplasta-postcrior en<l
Lcngth of núcleo»
Length of kinctoplasta . . .
Length of flagellum ....
Measurements :
AverOije
34 micra 54
3 micra 50
II mera 12
4 micra 35
0 micra 50
7 micra 52
yfúximum
36 micra 30
3 micra 50
14 micra
5 micra 25
0 micra 50
10 micra 50
Miiiimum
32 micra 37
3 micra 50
10 micra 50
mtera
micra
micra
Culture in NNN and Noguchi’s médium as well as inoculation in a young
SUcttus rhesus (syn. Macacus rhesus) were negative.
13
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
BIBLIOGRAPHIA
1. Chagas. C. — Arch. f. Schiffs-u. T ropenhyg. XII(4) :120.1909; Scicncia Medica
11(2) :7S. 1924; C. R. Soc. BioJogie XC(12) :873.1924.
2. Chagas, C. — Brasil Medico XXII(48) :471 . 1906 ; Arch. i. Schiffs-u. Tropenhyg.
XIII (4) .*120.1909; Buli. Soc. Path. Exotiquc V(2) :304.1912.
3. Carim. A. — Arch f. Schiffs-u. T ropenhyg. XII :447. 1909.
4. Ccrqueira, D. — Scicncia Medica 11(3) :155. 1924
5. Bthrtnbtrg & Cossler — Arch. f. Schiffs-u. T ropenhyg. XII :541 . 1908 ; Maiaria 1(1):
53.1908; Laveran & Mcsnil — Trypanosomes et Trypanosomiases :8 12. 1912.
(Trabalho da Sec<ão de Protozoologia e Parasltologia
do Instituto Butantao, dezembro de 1931).
593 16:616.961
PESQUISAS SOBRE TRYP ANOSOMAS
m. Trypanosoma merremi/, sp. n., parasita da serpente
Ophis merremi / Wagler. 1824
POR
J. B. ARANTES e FLAVIO da FONSECA
Por occasião de estudos parasitologicos em ophidios, tivemos opportunidade
de observar cm Ophis tmrremü Wagler, 1824 (boipcva) parasitismo por um
flagellado do genero Trypanosoma, que foi verificado por seis vezes em condi-
ções naturaes, no sangue peripherico de exemplares de procedência diversa.
Verificámos posteriormcnte que a especic de ophidio cm questão, também
póde ser parasitada por um outro Trypanosoma, de caracteres perfeitamente dis-
tinctos, que será objecto de uma communicação á parte.
A especic que descrevemos é rara, pois elevou-se a muitas dezenas o nume-
ro de exemplares de Ophis merremii examinados.
Exame a fresco — O trypanosoma é pouco abundante no sangue peri-
pherico em condições naturaes, sendo dotado de pequena mobilidade, custando
a deslocar-se, o que talvez corresse em parte por conta da compressão da lami-
nula sobre seu volumoso corpo. A extremidade do flagello é gcralmente curta,
dando impressão de que a membrana ondulante quasi attinge sua porção terminal.
O núcleo é visivel sob a fôrma do corpo granuloso c refrigente. Cineto-
plasta visivel sob a fôrma de agglomerado de granulações, situadas no inicio da
porção mais estreitada do corpo, no ponto em que tem inicio a membrana
ondulante.
Vêem-se granulações esparsas por todo o corpo, mais numerosas na extre-
midade posterior.
15
cm
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228
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
Exame após coloração pelo Giemsa
ASPECTO GERAL — Trypanosoma de grandes dimensões, apresentando
grande tendencia para enrolar-se sobre si mesmo, corando-se com facilidade. O
protoplasma toma coloração violeta pallida, apresentando-se finamente granuloso,
oodendo mostrar zonas vacuolares. ás vezes numerosas, porém de pequenas
dimensões.
O núcleo é alongado no sentido do grande eixo, collocado mais ou menos a
meia distancia das duas extremidades, não tocando os bordos do corpo; cora-se
em vermelho, apresentando granulações de aspecto uniforme por toda sua massa,
intensamente coradas em vermelho.
O cinetoplasta é marginal, situado bem mais proximo do núcleo do que da
extremidade posterior do parasita, de maior dimensão transversal e de colora-
ção mais viva do que o núcleo. A membrana ondulante, muito nitida e larga, é
bastante ondulada e percorre toda a margem do corpo desde o cinetoplasta até a
extremidade anterior.
O ílagello, adherente á margem externa da membrana onduiinte, é muito
nitido, sendo sua porção livre relativamente reduzida (Est. I, fig. 22).
Este Trypanosoma caracteriza-se, portanto, pelo seu constante monomor-
phismo, bem como pela ausência de fôrmas de reproducção no sangue periphe-
rico
dimensões:
Foram medidos setet exemplares, dos quaes se calcularam os dados abaixo:
Media
3 ias ima
Minima
Comprimento total excluído o flagello
70
micra
8
77 micra 8
64 micra 7
Largura ao nivcl do núcleo . . . .
S
micra
1
10 micra 5
6 micra
Distancia do cinetoplasta á extremidade post
32
micra
0
36 micra 6
26 micra ~
t Comprimento
NTuc,co j Largura
.
8
micra
24
10 micra 0
7 micra 0
.
4
mera
8
6 micra 1
3 micra 5
( Comprimento . . . .
1
micra
4
1 micra 7
0 micra 8
Cinetoplasta / Largue
0 micra
7
0 micra 8
0 micra 5
Flagello livre
4
micra
6
8 micra 7
0 micra ©
Para o Trypanosoma que acabamos de descrever propomos o nome de Try-
panosoma nurremii, sp. n., do nome especifico do ophidio em que é encontrado.
Por varias vezes tentada a obtenção de culturas em meios apropriados
(N N N original e N N N com cangue de boipeva c meio de Noguchi para
leptospiras), sempre sem resultado, apesar de não terem os meios sido con-
taminados.
Da mesma fôrma foram infructiícras as tentativas dc inoculação desse try-
panosoma cm serpentes da mesma especie.
Arantes e Fonseca — Pesquisas sobre tnjpanosomas
229
A especie em questão não póde, pelos motivos apresentados, ser mantida
viva no laboratorio.
Nos seis casos em que nos foi dado observar parasitismo pelo Try panos osr.a
em causa, pareceu-nos ser este relativamente bem tolerado pelas serpentes.
RESUMO
Os auctores descrevem uma nova especie de ttypanosoma, Trypanosome.
merremu, sp. n. parasita de Ophis merremii Wagler, 1824, observador por dua>
vezes em infecção natural entre muitas dezenas de cobras examinadas.
Não foram conseguidas culturas, nem foi obtida inoculação positiva em
outros ophidios da mesma especie.
ABSTRACT
Trypatwsoma mtrrenui, sp. n. is described as a parasite found in the snake
Ophis merremii Wagler, 1824. When stained by Giemsa its protoplasm appears
íinely granulous, vacuolated and coloured in pale violet. Its nucleus is elongated
and lies about halfway bctween the anterior and posterior extremities; it is
narrower than the body, appearing coloured in red and granulous. The kineto-
plasta lies nearer the nucleus than the posterior extremity, is broader than long and
has a more deeply red color than the nucleus. The undulanting membrane is
broad, wavy and distinguishable from the kinetoplasta at the anterior extremity
oi the body. The flagellum is short. This Trypanosoma secms to be strictly
monomorphic; division forms were not seen in the pcriphcral blood (Pl. I,
tig. 22).
MEASUBEMENTS:
Aieragt
Maximum
Minimum
70 micra
8
77 micra 8
64 micra 7
8 micra
1
10 micra S
6 micra 0
32 micra
0
36 micra 6
26 micra 2
8 micra
24
10 micra 0
7 micra 0
4 micra
8
6 micra 1
3 micra 5
1 micra
4
1 micra 7
0 micra 8
0 micra
7
0 micra 8
0 micra 5
4 micra
6
8 micra 7
0 micra 0
Total Icngth. flagellum excluded . .
Breadth at nucleus levei
!):>tance kinetoplasta-post. extremity . . .
I length
.Nucleus l
kmetoplast, J hr(a * h
Flagellum
Cultures in NNN (with snake or rabbit blood) and Noguchi’s médium, as
well as inoculation in snakes of the same species were negative.
(Trabalhos da Secção de ProtozoologU e ParasllotoKla
do Instituto Butantan, dezembro de 1931).
Estas 3 Notas foram apresentadas A Semana de Ubo-
ratorlo (Soc. Med. 4 Clrurgiz. S. Paulo), Janeiro de
1932.
17
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
Arastes e Fonseca
I Trypanosoma butantanense. sp. n.
I T. manyuinhense, sp. n.; T. merremii.
sp.
n.
Mcm. Insl. Itutantan
Vo L vi. is»
ESTAMPA I
“t. (lli) prriplm.
^ »pt. 142 <fl*> «po<hr«m.
I.rit* 2 mm-
SciELO
Arastes e Fonseca — Trypanosmiuj Imlantnncnxe. sp. n. MüD* In '’ nmantan
Vol. VI. 1931
ESTAMPA II
^ r\
wtCft.a m.Cf
ESTUDOS PARASITOLOGICOS
POR
J. B. ARANTES
616 . 96 : 593.16
ESTUDOS PARASITOLOGICOS
I. Do comportamento do Trypanosoma Cruz i no
Silenus rhesus
POR
J. B. ARANTES
Trabalhando com Trypanosoma cru:i existente cm “barbeiros” da especie
Triatoma infestans, encontrados numa casa velha duma fazenda do municipio di
Orlandia, neste Estado, pelo sr. Theophilo Martins, quando, em serviço deste
Instituto, fôra escolher animaes para immunização, verificamos seu alto gráu
pathogenico para Silenus rhesits, provocando infecção fatal cm seis destes animaes
experimentados.
Os primeiros dois macacos foram inoculados com sangue infectante de
cobaias que haviam sido injectadas com fézes de barbeiros abundantes em formas
em crithidia.
O macaco n. 3 foi injcctado com sangue do n. 1, quando mostrava em seu
sangue peripherico numero regular de parasitas.
O n. 4 foi injcctado com fezes de barbeiros com estadia de seis meses
no laboratorio, alimentados nesre periodo em cobaia. Os dois últimos, ns. 5 e 6
foram injectados com sangue de coração do macaco n. 4, quando mostrava em
seu sangue 4 a 5 trypanosomas por campo visto com grande augmento a sccco.
Todos os seis macacos inoculados o foram subeutaneamente com 1 cc. de
material infectante: um com fézes de barbeiros diluídas cm sôro physiologico,
dois com sangue de cobaia, tres com sangue de outro macaco.
A duração destes animaes injectados variou de rrinta e dois dias, como
prazo minimo, para o n. 1 e, máximo, de 83 dias para o n. 5.
Não houve uniformidade mesmo naquelles injectados da mesma fórma;
dos tres injectados com sangue de outro macaco: o n. 6 durou trinta e cinco dias;
o n. 3 resistiu mais, morrendo depois de 65 ; o n. 5 mais ainda, pois só morreu
83 dias depois da inoculação, o mesmo acontecendo com dois inoculados cont
cm
SciELO
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23 1
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
sangue de cobaia infectada : o n. 1 durou trinta e dois dias e outro, n. 2, setenta
e dois. Depois duma semana de inoculação é que foram encontrados os pri-
meiros trypanosomas em exames a fresco do sangue peripherico, em outros
animacs só após dezeseis dias como orazo máximo. Inicialmente eram raros ; após
tempo variavel augmentavam de numero, nos mais abundantes a seis em media
por campo visto com grande augmenío microscopico a secco. Nessa occasião
todos os macacos apresentaram a temperatura elevada: approximadamente 41°.
O numero de parasitas no sangue, depois de attingir um máximo, tende a di-
minuir e mesmo desapparecer. A temperatura também decahe: antes de morrer
apresenta-se o animal em hypothermia.
Não pareceu haver nestes casos moléstia intercurrente. Na occasião da
necropsia de cada animal, preparados a fresco eram feitos para exame imme-
diato, esfregaços e preparados por impressão dos diversos organs que também
forneceram material para fixação, inclusão e córtes.
O exame assim feito mostrou, desde o primeiro material examinado, grande
abundancia de parasitas, em fórma de leishmania ou intermediaria, mas prin-
palmente fôrmas adultas em material colhido do coração, musculo peitoral c
outros musculos.
Esta observação foi confirmada depois pelo exame dos córtes corados, feito
em material dos seis animaes necropsiados.
Com pequeno poder ampliador já se verifica a presença de grandes e nu-
merosas zonas mais coradas pelas còrcs ba^icas, destacando-se do resto do mus-
culo. Com maior augmento verifica-se que muitas fibras são quasi inteira-
mente occupadas por trypanosomas ou na fórma de leishmania de transição, ou
pHncipalmente na fórma adulta. Também se verificam parasitas isolados es-
parsos, em numero não pequeno sob as diversas fôrmas de evolução, dentro c
fóra da fibra muscular. Em algumas fibras onde existiram grandes agrupamentos
c que pela ruptura deram sahida aos trypanosomas, seu tecido nobre c substi-
tuído por tecido de cicatrização. Em outros pontos ha verdadeiros fócos de
necrose.
Est. I, fig. 1 : córtc de coração de SUenus rhesits, fixado pelo formol a
10 % c corado pelo processo de Giemsa: vê-se uma fibra cardíaca abundante-
mente parasitada pela forma adulta do Tryfanosoma crua.
Microphotographias, Est. 11. íigs. 1, 2 e 3: córtc longitudinal de musculo pei-
toral. fixado pelo sublimado-alcool de Schaudinn, corado pelo Giemsa; na fig. 1
vc-se uma fibra muscular estriada, parasitada em seu centro j?or formas cm
leishmania; na fig. 2 vê-;e uma fibra muscular estriada, intensamente pa-
rasitada por formas adultas; na fig. 3 vc-se outra fibra muscular es-
triada. compJctanicnte cheia de T rypanosoma crusi em differentes estados de
evolução c di ff iceis de se distinguir devido ao accumulo de parasitas; as figs.
4, 5 c 6 representam cortes longitudinaes de coração, fixados pelo formol a
lO^ó e corados pelo Giemsa : nestas tres microphotographias vêcm-se fibras mus-
J. B. Auvntes — Estudos parasitologicos
235
culares cardiacas geralmente prejudicadas na sua textura por infestação intensa
pelo T rypanosoma cruzi que apparece com predomínio manifesto da forma
adulta.
Pelo exame de algumas destas photogTaphias, verificamos o predomínio das
fôrmas adultas que apparecem com o cinetoplasta redondo intensameníe co-
rado, e menos apparentes núcleo e protoplasma, não se vendo nitidamente todo o
parasita adulto pela diííerença de nivel em que ficam no córte suas partes
componentes.
As formas em leishmania apparecem em menor numero c apparentam
maior tamanho, pois, sendo fôrmas arrendondadas, são vistos em conjuncto pro-
toplasma, núcleo e cinetoplasta que neste caso geralmente é em bastonete.
RESUMO
Verificamos uma amostra de Trypanosoma cruzi ser muito pathogenica para
o Silenus rhesus; dentre seis animaes inoculados: um, directamcnte com fé/. es
de Triatoma infestans, dois, por meio de sangue de cobaia infectada, tres, com
sangue de macaco já infestado, todos tiveram moléstia experimental com 100 %>
de morte.
Ao grande parasitismo dos musculos cardíacos e estriados pelo Trypano-
soma crua accrcsce a particularidade da predominância dos agrupamentos cm
fôrma adulta sobre os de forma intermediaria e de leishmania.
ABSTRACT
A sample oí Trypanosoma cruzi has becn cncountercd which is vcry patho-
genic for Silenus rhesus. In a group oí six Silenus mpnkcys, of which one was
inoculated dircctly with faeces oí Triatoma infestans, Iwo with blood of an in-
fected guinea-pig and three with blood oí an infected Silenus, all developed thc
infection and died írom it (100$o mortality).
Besides the marked parasitic infestation of both the skclctal and thc cardiac
muscles by Trypanosoma cruzi, the lesions found wcre characterized by the
definite prcponderancy of groups of thc adult fomis over thosc of both thc
intermediate and thc Ieishmania-like fonns (PI. I, íig. 1; pl. II, figs. 1-6).
(Trabalho da Sccçio de Protaaoologta c Paraaltolagla
do Inatltuto BaUntan, draembro de 1331).
cm
SciELO
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393. 19:616.9 til
ESTUDOS PARASITOLOGICOS
n.
Haemogregarina butantanens/s, sp. n., parasita da
boipeva, Ophis m errem // Wagler, 1824
POR
J. B. ARANTES
Ha vários annos vimos praticando exames de es f regaços de sangue, humano
e animal, á procura de hemo- parasitas. Examinando recentcmcnte o sangue
]>eripherico de exemplares de Ophis tnerremii Wagler, 1824, especic conhecida
vulgarmente pelo nome “boipeva”, tivemos occasião de encontrar uma hemo-
gregarina encapsulada em infestação muito adiantada.
Os parasitas, quando cndoglobulares, localizavam-se, na maioria das vezes,
parallelamcnte ao maior diâmetro do núcleo do crythrocyto ; quando existiam
dois num só globulo, deixavam o núcleo de permeio, como vemos nos desenhos
(Est. I, fig. 2) ou latcralmcntc (fig. 3). Existindo tres parasitas, o núcleo cn-
contrava-se cm geral muito comprimido lateralmentc (fig. 4). A’s vezes tam-
bém acontecia cncontrarem-sc os parasitas entrccruzados (fig. 5), cm vez dc
parallelos, quando occorriam dois no mesmo crythrocyto.
Dentro dos globulos essa hemogregarina apresentava-se sempre encapsu-
lada; cila abandonava essa capsula cm sua phase vermkular, raramente dentro
do proprio globulo (fig. 6) ; na maioria das vezes, ella deixava o globulo, ainda
colierta com a capsula (fig. 7), da qual procurava dcsprcndcr-sc dobrando-sc e
distendendo-se bruscamente. Esse movimento, operado sobre o maior diâmetro,
forçava a capsula, que ficava assim muito esticada na direcção da pressão que
se exercia sobre as suas extremidades; em um dado momento, rompia-se a
capsula por uma das pontas c delia sahia o parasita (figs. 8, 9. 10 c 11). Si
a abertura da capsula era muito estreita, o parasita sahia por meio de movi-
mentos ameboides; si, porém, era bastante larga, ellc apresentas-a apenas o mo-
vimento commum de reptação, parecendo que, de qualquer maneira, sua extre-
midade posterior, mais estreita, servia de orientador: percebia-se perfeitamente
movimento antecipado dessa extremidade para a direita ou para a esquerda,
antes mesmo que o parasita tomasse qualquer direcção definitiva.
cm
SciELO
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Memórias do Instituto Butantan
Tomo VI
Ao exame a fresco, além de se notar o que acaba de ser referido, perce-
bia-se igualmente que a extremidade mais grossa do parasita era a anterior e
que seu núcleo se achava mais perto da extremidade posterior, mais afilada.
Nos es f regaços fixados pelo sublimado-alcool de Schaudinn e corados pela
hematoxylina ferrica de Heidenhain ou de Rosenbusch, as capsulas não se co-
ravam, ficando apenas em seu logar um espaço vazio, ao redor dos parasitas,
quando ainda em phase propicia.
Ao exame desses esfregaços devidamente corados, verificava-se que as di-
mensões do parasita, quando encapsulado, eram em media de 0,87 X 3,9 micra;
fora da capsula, suas dimensões eram em media de 0,5 X 5,25 micra, tendo
seu núcleo, de maior diâmetro, no sentido longitudinal, 0,5 X 1,3 micra. Via-se,
assim, que o parasita era mais comprido fóra da capsula, o que indicava, por-
tanto, achar-se elle mais ou menos comprimido dentro delia, cuja distensão e
rompimento eram assim facilitados.
O parasita que acabamos de descrever, não só não havia ainda sido assigna-
lado na Boipeva ( Ophis mcrremii), mas ainda tinha um processo de eclosão da
capsula bem caracteristico, conforme se vê ao exame dos desenhos annexos e
da Photographia n. 1 ; além disso, apresentava elle fôrmas eschizogonicas por
nós encontradas em cortes do coração, alem daquellas já assignaladas, em re-
lação a outras espccies, prindpalmente no pulmão e no figado. Essas formas
eschizogonicas, descobertas no coração (Est. II, figs. 8, 9), apparentemente
nellc não produzem reacção, pelo menos aecentuada; todavia, quando existentes
cm grande numero, é provável que não o deixem de prejudicar, pelo menos pelo
ef feito mecânico de compressão que sobre elle exercerão. Em córtes do co-
ração descobrem-se pequenos espaços vazios, correspondentes, em aspecto e ta-
manho, aos occupados pelas formas eschizogonicas; pela evolução destas formas
e sua destruição cm seguida á formação dos merozoitos, aquelles espaços trans-
formar-se-iam cm pequenas cavidades.
As formas eschizogonicas apresentavam as dimensões medias de 16,7 X 22.7
micra c, quando já formados, os merozoitos contavam-se em numero de 14 a 26
indivíduos.
Conquanto a serpente parasitada tenha durado muito tempo em captiveiro,
é provável que a hemogregarina não a tenha deixado de prejudicar pela inten-
sidade da infecção, porquanto havia invadido grande numero de erythrocytos
que mais tarde rompia c destruía, ao se libertar dclles: na Est. II, fig. 7 perce-
bem-se residuos de erythrocytos em plena destruição.
Os esfregaços correspondentes aos desenhos c Est. II, fig. 7 foram fixados
pelo alc-xjl absoluto e corados pelo methodo de Giemsa.
O córte de coração, representado nas figs. 8. 9 (Est. II) foi feito em material
fixado pelo formol a 10 %, incluído em parafina e corado pela hematoxy-
lina-cosina e hematoxvlina de van Gieson.
J. B. Arantes — Estudos parasilologicos
239
Em virtude dos caracteres acima descriptos, achamos que se tratava de
uma nova especie que descrevemos agora com o nome de Haemogregarir.a bu-
fantanensis, sp. n..
RESUMO
No sangue peripherico de um exemplar de Ophis merrcmii, serpente aglypha,
foi encontrada uma hemogregarina que se apresenta sempre encapsulada quando se
acha dentro do erythrocyto. Haetnogrcgarina butar.tanensis, sp. n., sae, ainda
encapsulada, do interior do globulo; sua capsula é bem coravel pelo methodo
de Giemsa, mas não o é pela hematoxylina íerrica.
O parasita descripto deve corresponder a uma nova especie, não só por
ainda não ter sido assignalado na Ophis merremii, como por apresentar um pro-
cesso especial de ruptura da capsula, bem visivel nos desenhos (Esr. I e Est.
II, fig. 7), e também pela presença de formas eschizogonicas encontradass em
cortes do coração (Est. II, figs. 8, 9). A perfuração produzida pelas hemogre-
garinas encapsuladas, ao se libertarem, determina uma grande destruição de gló-
bulos vermelhos. As dimensões medias do parasita eram : a) quando encapsu-
lado — 0,87 X 3,9 micra ; b) fóra da capsula — 0,5 X 5,25 micra ; núcleo,
de diâmetro maior no sentido longitudinal, 0,5 X 1,3 micra; formas eschizo-
gonicas — 16,7 X 22.7 micra; numero de merozoitos resultantes — de 14 a 26.
ABSTRACT
In the pcriphcral blood of the aglyph snake, Ophis tnerremii, thcre lias bccn
found a ncw hemogregarina always bearing a capsule whcn inside of the cry-
throcyte. Haemogregarina butontoncnsis , sp. n. is still encapsulated at the mo-
ment it Icaves the erythrocyte ; the capsule stains wcll by Giemsa but not so by
ferric hcmatoxylin.
This blood parasite seems to represem a new specics, not only for not
having been yet rcported in Ophis tnerremii, but also for showing a peculiar
process of capsule rupturc as clearly indicated in the encloscd drawings and photo
no. 1 as well as for bearing schizogonic forms to be found in sections oi the
heart. The average size of this parasite is the following: a) when cncapsu-
lated — 0,87 X 3, 9 micra; b) whcn free — 0,5 X 5,25 micra; nucleus, of
greater longitudinal diameter, 0,5 X 1,3 micra; shizogonic forms — 16,7 X 2 2,7
micra; number of resulting merozoits — from 14 to 26 (Pl. I, figs. 2-11 ; pl. II,
figs. 7-9).
(Trabalho da Seeçio de Protocoologla e Paradtolo-
(la do Instituto Butantan — deiembro de 1931).
Nota* apresentada* A Semana de t-aboratorlo (Soe. Med.
A Cirurgia S. Paulo), Janeiro de 1932.
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
Mrlii. Inst. Hulantau
| Trypanosoma cruzi
Abantes
Vol. VI. 1931
I Haemogregarina bnlanlanensis, sp. n.
ESTAMPA I
Tr)pino«om» cru*»
JSciELO
cm
\juntfs ^ TriJiiaiutsoma cnizi
I U aemogregarina bulanlanensis , xj>. n.
Mrm. In»t. llji.mtuti
VoL VI, 1931
ESTAMPA II
<!•»> ptripUn. L»il»
Obj. ,pt. i,jí <»•„ ,p efhrom . L , iu ,
mra.
PONTOS DE VISTA BÁSICOS
NA THERAPEUTICA DO OPHIDISMO
POR
AFRANIO no AMARAL
615J7 :612.31t.õl : 391.69
PONTOS DE VISTA BÁSICOS
NA THERAPEUTICA DO OPHIDISMO
POR
AFRANIO do AMARAL
O cuidadoso estudo feito, nestes últimos annos, de estatísticas realizadas no
Brasil e nos Estados Unidos, sobre a evolução clinica de innumeros casos de acci-
dentes ophidicos e de sua resposta ao tratamento especifico, tem permittido re-
saltar o papel que certos factores, até ha pouco relativamente desprezados, podem
representar no caso ora discutido.
Esses factores são os seguintes:
1* Constante gravidade maior do envenenamento em crianças c pequenos
animaes ;
2. ® uso de medicação popular de urgência;
3. ° via de applicação do soro especifico;
4. ® repetição das injecçõcs a curtos intervallos;
5. ® cicatrização das ulceras resultantes de certos envenenamentos.
Examinemos esses pontos separadamente.
Constante gravidade maior do envenenamento em crianças e pequenos animaes
Em trabalho recente (1) mostrei que, qualquer que seja o typo de envene-
namento, a dose de antiveneno a empregar cm caso de picada em crianças e pe-
quenos animaes deve ser sempre maior do que a indicada para adultos e grandes
animaes, ou, por outra, deve ser inversamente proporcional ao tamanho ou peso
da victima: o volume do soro deve ser tanto maior quanto mais leve for o fa~
ciente.
A explicação deste facto reside em que a cobra, ao picar, trata apenas de
defender-se contra um provável aggressor. Sem ter meios de discernir entre um
inimigo grande c um pequeno e, pois, mais ou menos tcmivel, a serpente não
3
244
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
gradua a quantidade de veneno a inocular. Dessa circunstancia resulta que, em
geral, a dose de peçonha injectada é mais ou menos a mesma, qualquer que seja
a victima.
Si nós considerarmos agora que todos os venenos matam quando attingem nos
tecidos uma concentração mais ou menos fixa, o que em toxicologia e immuno-
logia se chama de dose minima letal (DML), é facil comprehendermos que,
quanto menor for a pessoa ou o animal of fendido, mais depressa e facilmente
essa concentração será attingida. E’ isso, de facto, o que a pratica tem demons-
trado e o que se pode reproduzir do ponto de vista experimental.
Assim, si se tomam vários animaes (cães, por exemplo) de pesos diíferentes
e se injecta em cada um delles a mesma quantidade de um determinado veneno,
se verifica que, sem excepção, os symptomas conducentes á morte são tanto mais
graves e mais depressa apparecem quanto menor é o animal. Si, porém, se in-
vertem os termos da experiencia e, tomando-se alguns animaes do mesmo peso,
se injecta em cada um delles uma dose differente de um determinado veneno, se
observa que os symptomas conducentes á morte são mais graves e occorrem mais
depressa justamente naquelle que recebe maior quantidade de veneno em relação
ao seu peso.
Si neste segundo grupo, de animaes de igual peso, se inocula a mesma dose
de veneno, procurando-se salvar a todos por meio do soro especifico dado pela
via mais adequada, verifica-se o seguinte:
A. — Si os animaes são tratados no mesmo intervallo, com dose idêntica de
antiveneno, todos recuperam mais ou menos ao mesmo tempo.
B. — Si, porém, são tratados em intervallos differentes, recupera primeiro
aquellc que mais depressa é inoculado com o soro. Outrosim, nestas condições,
a dose curativa do especifico passa necessariamente a variar na mesma ordem:
é tanto maior quanto mais tardiamente é empregada, porque, neste caso, a into-
xicação dos tecidos se acha mais adiantada e as lesões mais acccntuadas.
Não se tendo em vista estes factos, poder-se-ia pensar que, por simples in-
jecção, nas crianças e pequenos animaes, de uma dose de soro correspondente as
minimas mortacs do veneno nclles inoculadas pela serpente, se evitaria comple-
tamenfe o effeito toxico. Isto, porém, não se dá na pratica, porque intervém
então no caso o íactor tempo que actua na ordem inverna do peso: a intoxicação
geral é tanto mais rapida quanto mais leve ou menor é a victima, isto é, quanto
menor for a massa do corpo que a peçonha tem de impregnar. Na verdade, é
devido á concorrência desses factores que as crianças e os pequenos animaes ás
vezes morrem, a despeito mesmo do tratamento.
E’ isto pelo menos o que as recentes estatísticas do Instituto Butantan re-
velam a um exame menos superficial. Considerando-se, por exemplo, cngloba-
damente os casos de picada, communicados ao Instituto e tratados por antivenenos
nestes 6 últimos annos (1926-1931), verifica-se que seu numero ascende a 1.520.
A. do Amaral — Therapeulica do ophidismo
245
Desse total de casos tratados, 969 correspondem a pessoas adultas ; 294, a crian-
ças até 15 annos; 257, a animaes de todas as especies. A mortalidade, que foi
apenas de 2,48% entre os adultos, chegou a 4,42% entre as crianças e a 8.94%
entre os animaes, sendo de notar que, entre estes, só os cães contribuiram com
mais de 1/3. Sem duvida, nos dois últimos grupos, alem do pequeno porte ou
peso (massa do corpo), contribuem para difficultar o tratamento as seguintes
circunstancias: as crianças, quando picadas, só raramente podem contar com
exactidão o que lhes succedeu e, por isso, não facilitam a applicação do soro espe-
cifico, facto que entre os animaes occorre com o aggra vante de geralmente só
rirem elles a ser tratados quando alguém lhes dá pela falta e, pois, quando
a intoxicação já lhes está muito adiantada: num caso, indecisão do tratamento,
complicada, no outro caso, por demora de sua applicação, a concorrer para a
elevação da mortalidade nesses dois grupos.
Nestas condiçõeõs. geralmente, quando o soro é administrado, o envenena-
mento já tem produzido, nos centros vitaes da economia, lesões tanto mais graves
e irreparáveis quanto maior for a concentração em que actuou a peçonha.
Assim sendo, o único meio que se pode empregar para contrabalançar até
certo ponto essa desvantagem da parte das crianças e pequenos animaes é dar-
lhes doses sempre maiores de soro.
E’ bem verdade que, á luz dos nossos actuaes conhecimentos, a ef ficada do
tratamento especifico está ligada também a certos factores, taes como:
a) dependentes das victimas — relativa avidez dos tecidos para com certos
princípios dos venenos, concorrência de lesões preexistentes, grau de immunidadc
adquirida, etc.;
b) dependentes do antiveneno — actividade especifica, relativa avidez para
cora os elementos vitaes afícctados ou os princípios toxicos, densidade, concen-
tração ionica ou composição elcctrolytica, etc.. Esses factores, porém, ou exer-
cem influencia pouco decisiva no caso, ou são convenientemente comprehendidos
na technica de preparo dos soros curativos.
Uso de medicação popular de urgência
Nunca é demasiado insistir na necessidade de se contraindicarem cm abso-
luto os remedios caseiros a que, assim os lavradores nacionaes, como os trabalha-
dores estrangeiros, costumam recorrer cm casos de envenenamento ophidico.
Esses tratamentos empíricos consistem, sobretudo, no uso de beberagens as mais
diversas com base de álcool e kcrozene. O álcool é cm geral administrado de
mistura com produetos de origem vegetal, taes como alho, cebola, fumo, araticum
e muitas outras substancias, cujo numero no Brasil deve andar por perto de uma
centena. O kerozenc é administrado também por via gastrica e em doses variá-
veis, de accordo com a maior ou menor ignorância dos curandeiros.
5
246
Memórias do Instituto Butantan
Tomo VI
No uso de retnedios akoolicos cumpre distinguir o que corre por coma dos
princípios vegetaes e o que é devido ao excipiente. Dentre as innumeras plantas
no particular recotnmendadas entre nós, não se poude demonstrar ate agora cm
nenhuma a menor influencia therapeutica. Ainda ha pouco tempo Mhaskar e
Caius (2) chegaram a idêntica conclusão no estudo que fizeram de 314 vege-
taes usados na índia pelo povo no tratamento de picadas de cobra. E’ destes
auctores a seguinte affinnação: “Nenhuma das plantas indianas recommen-
dadas para o tratamento de picadas de cobra exerce no caso qualquer et feito pre-
ventivo, neutralizante ou therapeutico”.
No referente á acção do vehiculo alcoolico, é sabido que ella é apenas nociva.
Longe de curar ou siquer facilitar a marcha do envenenamento, o álcool, pelo
contrario, a difficulta, porque, determinando num primeiro tempo um augmento
da tensão arterial, favorece a absorpção do veneno; causando, numa segunda
phase, uma baixa da pressão sanguinca, retarda a reacção do organismo e a eli-
minação do toxico. Porisso, administrado sob qualquer forma, o álcool produz
dois ef feitos oppostos ao que se deve obter na cura do envenenamento e que é a
parada da absorpção do veneno seguida de sua eliminação mais rapida possível.
Em certos casos o álcool é empregado com o proposito de embriagar a
victima, tirando-lhe a consciência do perigo ou embotando-lhe a dor. Todavia,
quando esse ef feito é attingido, a acção nociva acima assignalada, sobre a ab-
sorpção e eliminação do toxico, torna-se muito maior.
Quanto ao kerozene, seus ef feitos são mais prejudiciaes ainda. Sobre não
exercer qualquer acção bcncfica no envenenamento, este derivado do pelrolco
aggrava, pelo contrario, os symptomas, porquanto por si só é capas de causar
uma intoxicação aguda com destruição do sangue e degeneração do figado.
\ ia de applicação do soro especifico
Dada a diversidade de efieitos e do modo de absorpção das peçonhas, é
indispensável que em todos os casos se procure determinar com cuidado o typo
do envenenamento, tanto mais quanto desse conhecimento decorre a escolha da
via de infroducção do soro curativo.
E’ sabido que os ophidios que em nosso meio causam maior numero de
accidentes, se reunem, do ponto de vista zoologico e immunologico, em dois
grupos principacs: o crotalico e o bothropico. O veneno crotalico neotropico
(sobretudo o sul-americano) é absorvido muito rapidamente e attinge os centros
vitaes por intermédio dos troncos nervosos. Possuindo uma acção quasi que
estrictamente neurotropica, embora seja muito activo, este veneno não determina
maior reacção, nem qualquer destruição de tecido ao nivel da picada (3).
Os venenos bothropicos e os crotalicos nearcticos (sobretudo os norte-ame-
ricanos), por seu lado, penetram na economia mais lentamente e são absorvidos
cm grande parte por via lymphatica, de envolta com os proprios produetos de
A. uo Amaral — . Therapeutica do ophidismo
247
destruição cellular. Sendo especialmente cytolyticas, estas peçonhas dão origem
a grande reacção inflammatoria, com gradativa destruição dos tecidos, a partir
do ponto em que são inoculadas pelas especies correspondentes.
Dada essa diversidade de mecanismo c natural que, no envenenamento cro-
talico sul-americano, se faça a injccção do soro em qualquer ponto do corpo, de
preferencia por via muscular ou intravenosa, de accordo com a gravidade do acci-
dente, facilitando-se, assim, o rápido contacto do especifico com os princípios
leti feros. Ao invés disso, nos envetienamentos bothropicos c nos crotalicos norte-
americanos, se deve empregar pelo menos uma parte do soro cm redor do ponto
attingido, formando-se a esse nivel unta verdadeira barragem, para se delimitar
a destruição dos tecidos ; deve-se reservar a outra parte para injecção á distancia,
afim de se reduzir a acção que sobre os centros vitaes possa exercer a porção do
veneno já porventura absorvida. A proposito, tenho verificado que, em casos
tratados sem demora, a injecção local do soro, feita em dose apropriada, deter-
mina uma cura rapida e sem maiores incidentes.
Repetição das injecções a curtos intervallos
A quantidade de veneno oscilla de cspccie a espede c, num mesmo exem-
plar, varia de accordo com a idade, prévia alimentação, frequência de luetas e
outros factores, resultando disso tudo que nunca se pode determinar previamente
e com exactidão a dose de antiveneno que se deve empregar para curar o
paciente.
E’ indispensável, portanto, que, depois de se applicar uma primeira dose
em quantidade inversa ao tamanho do paciente, se procure observar com cuidado
a marcha dos symptomas. Em geral a primeira injecção determina uma melhora
subjectis-a e objectiva, que, si a dose não foi suíficiente — o que frequentemente
acontece — , dentro em pouco dcsapparcce, voltando então a aggravar-se o estado
do paciente.
Assim sendo, é indispensável que, si em resultado da primeira injecção as
melhoras não são definitivas, se procure repetir a mesma dose de soro de tres em
tres horas, até que se haja inoculado um volume de soro sufficiente para effecttiar
a cura completa do caso. Dessa maneira, não somente se pode assegurar uma
efficacia de 100% no tratamento especifico, sinão também se consegue evitar o
desperdício de soro que resultaria necessariamente, em certos casos, si se pro-
curasse attingir de inicio a dose óptima.
Cicatrização das ulceras resultantes de certos envenenamentos
A experiencia tem mostrado, de um lado, que, em resultado de sua intensa
acção cylolytica, os venenos bothropicos (neotropicos) e os crotalicos da região
nearctica costumam determinar gangrenas mais ou menos extensas em redor dos
7
24 S
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
pontos picados, sempre que não se recorre ao tratamento especifico, ou quando
este não é feito de accordo com os preceitos da technica moderna. Doutro lado,
se tem verificado que, em resultado da diminuição da vitalidade dos tecidos
affectados, a cicatrização das ulceras, resultantes dessas gangrenas mais ou menos
parciaes, é muito demorada e precaria.
Impressionado com esse facto, eu tenho, nesses últimos annos, recorrido em
taes casos ao soro normal secco em applicações locaes. Em todas as observações
que tenho feito, o soro sccco tem demonstrado aquclle mesmo rápido effcito cica-
trizante que assigmlei em um outro trabalho que versazn sobre as ulceras atônicas
e phagedenicas (4).
Mesmo em ulceras bastante extensas, resultantes de gangrenas que haviam
causado desínrções musculares e nervo-vasculares importantes, como num caso
de minha recente observação (5), o pó do soro normal tem estimulado a
r cocção do organismo e produzido, em um espaço bastante curto, a cicatrização
completa da região attingida, sem necessidade do recurso a enxertos ou outros
processos que taes, de ef feito mais ou menos demorado.
ABSTRACT
An analysis of the recent statisties on the clinicai evolution of cases of
snakc bites and their response to the specific treatment by antivenins discloses
many interesting facts which may be briefly summarized as follows:
1. Snake poisoning is much more severe on children and small animais:
this severity is inversely proportional to the size, weight or body mass of the
rictim. For this reason the volume of antivenin to be given must be as great as the
patient be small. Application of this principie has already resulted in the saving
of many lives.
2. Of the many empirical treatments, consisting of the application of
alcoholic beverages, vegetable infusions and Chemical Solutions, as resorted to in
cases of snake-bite, none seems to be really efficacious. In this rcspect both
alcohol and kerozene must be absolutely condemncd.
3. In cases of neurotoxic type of poisoning antivenin must be given intra-
muscularly or intra-venously so as to come rapidly in contact with the poison
principies in the blood or in the tissues. In cases of proteolytic and hemor-
rhagiparous type of poisoning, otherwise, the injection must be given (in part at
least) around the site of the bite so as to prevent the absorption of the poison
and rcducc the destruction of both tissues and blood; in Iate cases this must be
done together with an injection of the serum given away from the site of the
bite.
4. In view of the difficulty encountered in determining the approximate
amount of venon a snake is apt to inoculate at a bite it is necessary for the
A. do Amarai. — Therapetilica do ophidismo
249
injection of antivenin to be repeated at three hour intervals so as to ensure
the complete neutralization of the poison principies and a 100% efficacy in the
treatment. The injection of a very large dose of antivenin at once may represent
a waste in many cases such as those in which the amount of poison is not large
enough to cause death or serious symptoms.
5. Local application of dried normal serum appears to be the quickest and
most economic process for the healing of ulcers as resulting from the necrotic
effects of poisons on the externai tissues.
BIBLIOGRAPHIA
1. Atnaral, A. do — Animaes venenosos do Brasil :36. 1930.
2- Mhaskar. K. S. &■ Caius. J. F. — Indian plant remedies used in snake-bite in Ind.
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3. Amoral, A. do — Phjlogeny oí the rattlcsnakes in Buli. Antiv. Inst. America 111(7)
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5. Amaral. A. do — O soro secco como cicatriza nte das ulceras produzidas pelo veneno
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(Trabalho djt Secçfie» de Optilologla e Imimiologla
tio Instituto Butantan, terminado em dezembro de
1931 e apresentado A Semana do Laboratorlo, Soc.
Med. A Cirurgia S. Baulo, Janeiro 1932).
cm
'SciELO
0 11 12 13 14 15 16
61 3 . 67: £1 2 314 - 5 : 616.97
0 SORO SECCO COMO CICATRIZANTE
DAS ULCERAS PRODUZIDAS PELO VENENO BOTHROPICO
POR
AFRAXIO do AMARAL
Considerações geraes
E’ facto sobremodo conhecido de todos aquelles que acompanham de perto
a marcha do envenenamento bothropico experimental, ou observam, com o ne-
cessário critério scientifko, successivos casos clinicos de intoxicação pelo veneno
de serpentes do genero Bothrops, taes como, entre nós, a jararaca (B. jararaca ),
a jararacassú (B. jararacussu) , a caissaca (B. alrox), a urutú ( B . altcmata),
a jararaca pintada (B. neuxaedii) c a cotiara (B. coiiara), que a administração
do antiveneno especifico, feita á distancia do ponto picado, de accordo com a
pratica corrente, não consegue, em via de regra, cri ta r completamente a gan-
grena resultante da acção proteolytica e cytolytica exercida sobre os tecidos cir-
cunjaccntes á zona attingida. Estudando melhor esta questão, verifiquei que
a razão de tal incfíicacia do soro cm attender os phenomenos locacs do envene-
namento bothropico reside na demora do agente therapeutico cm chegar cm con-
tacto com os tecidos affectados, permittindo dess’arte a acção mais ou menos
integral dos princípios biochimicos constitutivos da peçonha, no exercício mesmo
de sua affinidade para com os elementos cellulares.
No envenenamento experimental sobre cães, Florencio Gomes (1) já havia
verificado que, para salvar todos os exemplares preriamente inoculados com a
peçonha da jararaca, era mister que o antiveneno, sendo dado por via hypo-
dermica, fosse administrado dentro de uma hora após a inoculação do toxico,
o que bem mostra a rapidez da própria acção geral da peçonha sobre o orga-
nismo animal. Na sua opinião, em casos semelhantes de envenenamento expe-
rimental se poderiam esperar resultados mais seguros com a applicação intrave-
nosa do soro em dose equivalente ao dobro do veneno injectado.
Baseado no estudo analytico de varias centenas de boletins de accidentes
bothropicos, oommunicados ao Instituto por pessoas residentes no interior, e em
3
254
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
muitas observações por mim proprio realizadas, resolvi ha dois annos modificar
no particular as instrucções já antiquadas, contidas nas bulias que acompanham
as empolas de antivenenos entregues ao consumo, no sentido de aconselhar a
applicação local de uma porção do especifico nos casos de intoxicação bothro-
pica e a injecção de doses inversamente proporcionacs ao tamanho ou peso do
paciente. Dada a importância que o assumpto offerece para as populações ru-
raes, não me parece fora de proposito que aproveite esta opportunidade para citar
na integra as affirmações por mim feitas sobre o caso em um dos meus últimos
trabalhos :
"Já desde 1919 eu venho verificando, assim em experiencias de labo-
ratorio, como pela observação de pacientes, que as doses até ha
pouco recommendadas pelo Instituto Butantan para o tratamento de
accidentes ophidkos em crianças e em certos animaes de pequeno ta-
manho, eram insufficientes. Por isso mesmo é que nas novas ins-
trucções a serem expedidas pelo Instituto sobre o methodo de tra-
tamento e as doses a empregar em taes casos, aconselhamos, con-
forme se lê abaixo, o repetição das injccçõcs cm intervallos de duas
horas, sempre que o accidente seja grave, e quantidades de antive-
neno tanto maiores quanto menores e mais jovens forem as victi-
mos. Assim, nas crianças c nos cãcs é necessário que se injecte
pelo menos uma dose inicial de 40 a 60 cc., desde que, pelo quadro
symptomatico, se verifique a gravidade dos casos. Alem disto, c
aconselharei, segundo observações que venho fazendo ha algum
tempo, injectar-se em tomo do ponto of fendido pelo menos uma
parte da dose do soro indicada, nos casos de picada pela jararaca
e outras serpentes do mestno gencro ( Bothrops ), a acção necrosante
de cujo veneno sobre os tecidos é bem conhecida " (2).
Envenenamento pelas serpentes
Quasi todas as serpentes são capazes de produzir picadas dolorosas e isto
porque são dotadas de pequenos dentes aguçados, dispostos gcralmente em 4
fileiras do lado de cima (1 fila maxillar e 1 fila palatino-pterygoidea de cada
lado, na maioria dos typos) e 2 do lado de baixo (fila mandibular). Todos
esses dentes têm a ponta dirigida para trás, para o fundo da bocca, de sorte
a tornar difficil a escapa dos animaes que os ophidios caçam para comer.
A mordedura de qualquer serpente, portanto, costuma produzir lesões dos
tegumentos, nelles deixando certos signaes que servem para o diagnostico diffe-
rencial do typo causador da picada. Acontece, porém, que muitas mordidas
são causadas por cspecies desprovida? de presas ou apparelho inoculador e, pois.
A. do Amaral — Envenenamento bothropico
são susceptíveis de sarar rapidamente, mesmo sem qualquer applicação medica-
mentosa. Sabedores deste facto, o<s nossos espertos curandeiros exploram a
ignorância do povo, a quem convencem do alto valor de suas mesinhas costu-
meiras e da verdade mesma de seus milagres repetidos.
Os casos de envenenamento ophidico observados no Brasil são produzidos
por especies de Elapideos, representantes da serie proteróglypha, e de Crota-
lideos, correspondentes á serie solenóglypha. Conforme se tem verificado os
accidentes determinados pelos nossos Elapideos, vulgarmente conhecidos pelo
nome de “cobras coraes verdadeiras”, são absolutamente excepcionaes, devido a
•varias circunstancias peculiares a elles. De qualquer modo, cumpre dizer que
as picadas destas serpentes de typo elapidico, são frequentemente muito graves
e caracterizam-se por intensa dor na região attingida, acompanhada de salivação
abundante, lacrimejamento, diarrhéa, paresia da zona aííectada e asthenia mais
ou menos profunda.
De seu lado, as serpentes solcnóglyphas brasileiras, que se distinguem logo
á primeira vista pela presença de 2 orifícios de cada lado do focinho, causam
dois typos bem diversos de envenenamento: o crotalico e o bothropico, sem
mencionar o lachefico, produzido pela surucutinga (Lachcsis muta ) c que é
muito raro.
Os principacs symptomas de envenenamento do typo crotalico, isto c, deter-
minados pela cascavel ( Crotalus terrificus), são geralmente os seguintes:
Dor local quasi nulla; fraqueza progressiva e rapida; paresia ou paralysia
das palpebras, com perturbações da visão, até completa cegueira; impressão de
pescoço quebrado (cabeça cahida), devido á paralysia dos musculos cervicacs;
vomitos ou. ás vezes, diarrhéa e urinas sanguinolentas (hematúria) ; pulso fraco
e capillar; algidez, principalmente das extremidades; somnolcncla profunda e,
nos casos graves, morte por parada da respiração.
Os príneipaes symptomas de envenenamento do typo bothropico, que resulta
da picada da jararaca, caissaca, jararacussú, urutu, cotiara c outras especies de
Bothrops, são em resumo os seguintes:
Dor intensa na região attingida; edema hemorrhagico ascendente, com for-
mação de bolhas (phlyctcnas) ; engorgitamento ganglionar; hemorrhagia pelas
mucosas, taes como a da bocca, ouvido e estomago, intestino, rim. etc. ou, nas
mulheres, a do útero, acompanhada de suspensão das regras; destruição pro-
gressiva dos tecidos mais de perto affectados, com formação de eschara, alcan-
çando os tecidos profundos, e, por vezes, quando a picada aftinge os membros,
com perda dos segmentos (mãos ou braço, pé ou perna), devida á gangrena ex-
tensiva que se installa; finalmente, morte, nos casos mais graves, principalmcntc
observados em crianças e pequenos animaes.
5
256
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
Tratamento dos accidentes ophidicos
O tratamento dos accidentes ophidicos baseia-se na applicação dos antive-
nenos ou soros especificos e comprehende uma serie de cuidados e medidas que
se podem assim resumir:
a) Primeiros cuidados — O primeiro cuidado de tratamento dos acciden-
tes ophidicos é transportar o of fendido para logar onde possa receber os necessá-
rios soccorros, devendo-se evitar nesse transporte, tanto quanto possivel, gran-
des abalos para o paciente. Em seguida, deve-se desapertar toda a roupa e collo-
car o of fendido em uma cama ou maca, ou mesmo sobre o sólo, extendido e com
a cabeça baixa.
Si o paciente estiver muito abatido, pode-se dar-lhe a beber uma chicara
de café quente.
Antes de mais nada, é de toda convenienda verificar a especie de serpente
causadora do accidente, pois esse conhedmento será de grande utilidade na es-
colha do espedfico a empregar.
b) Escolha do antiveneno a empregar — Deve-se empregar o soro anti-
crotalico nos accidentes de typo crotalico, isto é, determinados pela cascavel: o
soro anti-bothropico, nos envenenamentos de typo bothropico, isto é, produzidos
pela jararaca, caissaca, jararacussú, urutú, cotiara, etc.; o soro anti-bothropico
mono valente, nas picadas pela jararaca, devendo-se reservar o soro mixto ou
polyvalente, soro anti-ophidico, para os casos de não se reconhecer a serpente
que mordeu.
c) Opportunidadc do tratamento — A rapidez com que se recorre ao trata-
mento espedfico tem grande influencia sobre o seu resultado e sobre a quantida-
de de soro a empregar: quanto mais cedo for injectado o soro, tanto maior a
probabilidade de cura e menor a dose necessária para neutralizar o veneno
inoculado.
Em via de regra, mesmo nos casos graves, a primeira injecção poderá ser
coroada de exito completo si for feita em dose suffidente e dentro das duas
primeiras horas após o acddente.
d) Doses indicadas — Xos casos de envenenamento de extrema gravidade,
ou naquelks em que os symptomas se apresentam rapidamente, conforme succe-
de nas crianças e nos pequenos animaes, deve-se injectar logo 40 ou 60 c.c. de
soro ; nos de media intensidade, metade destas doses (20 a 30 c.c.) ; nos benignos,
cerca de um terço (10 a 20 c.c.).
Desde que cada empola contém 10 c.c. de soro, é necessário injectar o con-
teúdo de 4 a 6 empolas, nos casos mais graves ; 2 a 3 empolas, nos casos médios ;
1 a 2 empolas, nos casos benignos.
A. do Amaral — Envenenamento bothropico
257
Para as crianças e os pequenos animaes a dose de soro deve ser sempre
maior do que para os adultos e os grandes animaes, isto é, deve ser sempre
tanto maior quanto menor for o paciente.
e) Local da injecção — Possuindo o soro effeito geral, a injecção póde ser
feita por via sub-cutanea (hypodermica) em qualquer parte do corpo, devendo-
se, entretanto, preferir região de pelle distensivel e pouco movei, como as costas,
no intervallo das espaduas, ou os lados do ventre (flancos). Nos casos de
envenenamento do typo bothropico é indicado, porém, injectar-se uma parte da
dose em redor do ponto picado, pois assim se circunscreve mais facilmente a
destruição dos tecidos.
Nos casos graves e nas crianças e pequenos animaes, a injecção deve ser
feita por via venosa, ou peritoneal desde que o calibre das veias seja diminuto.
Afim de facilitar-se a eliminação do veneno e a reacção do doente, é necessário
que, nos casos graves, alem do soro ou de mistura com elle. se injectc agua phy-
siologica com adrenalina (100 a 250 c.c. de agua physiologica para 1 c.c. de
soluto de chlorhydrato de adrenalina a 1 :1000). Nos casos de extrema gravi-
dade ou nos que se apresentam com tendência a collapso é bom fazer também
injecções de cafeina e estrychnina.
f) Escolha c preparo da seringa — Qualquer seringa grande e esterilizavel
pode servir para a injecção dos soros anti-peçonhentos.
Antes de se encher com o soro, a seringa deve ser fervida conjunctanicnte
com as agulhas. Para isso, col!ocam-se seringa e agulhas cm uma pequena va-
silha com agua em quantidade sufficiente para as cobrir completmcnte c ferve-
rem-se durante 5 a 10 minutos pelo menos. Vasa-se depois cuidadosamcntc parte
da agua, deixando-se esfriar um pouco, antes de retirar a seringa. Esta não
deve ser posta na agua já a ferver, porque pode partir, nem deve ser cheia
quando ainda quente, porque, alem de ficar sujeita a quehrar, pode coagular
o soro.
g) Modo de encher a seringa — Para se transvasar o soro, basta quebrar-se
a extremidade afilada da empola e aspirar-se o conteúdo por meio da seringa.
h) Preparo da região — Escolhido o ponto a ser injcctado, nas costas ou
perto da picada, lava-se cuidadosamente com agua c sabão e um pouco de antisépti-
co ou, na falta deste, mesmo com aguardente.
i) Modo de injectar o soro — Preparado o ponto onde se vai fazer a in-
jecção, trata-se de levantar, com a mão esquerda, a pelle, de modo a formar uma
dobra ou cone, em cuja base se implanta uma das agulhas que acompanham a
seringa (e que devem também ter sido esterilizadas), depois de retirado o pequeno
fio metallico que lhe garante o funccionamento.
A agulha deve atravessar completamente a pelle, o que se verifica pela
impressão que dá, de estar já com a ponta livre e dentro do tecido subcutâneo.
7
258
Memórias do Instituto Gutantan — Tomo VI
Retiram-se então as bolhas de ar que porventura tenham ficado no interior da
seringa, a qual então se liga á agulha implantada, injectando-se o soro por um
movimento de propulsão lento de embolo.
Si a seringa não tem a capacidade sufficiente para injectar de uma só vez
toda a dose do soro, deve-se, ao terminar a injecção da primeira quantidade, se-
parar a seringa da agulha e conservar esta implantada para evitar nova picada,
inteiramente desnecessária. Separada a seringa, trata-se de adaptar a ella a
outra agulha esterilizada e proceder ao seu enchimento com nova quantidade de
soro, findo o que se passa a ligar á agulha já implantada, e assim successivamente.
j) Cuidados com a seringa — Depois de occupada, a seringa deve ser
cuidadosamente lavada em agua, afim de serem remov.dos os traços de soro
porventura depositados em suas paredes, os quaes, pelo deseccamento, poderiam
inutilizal-a completamente.
k) Cuidados com o paciente — Terminada a injecção, o paciente deve ser
deixado na C3ma, no mais completo repouso, evitando-se qualquer causa de
excitação.
Si a dose injectada é sufficiente e feita em tempo opportuno, as melhoras
apresentam-se dentro de 3 a 6 horas. Si, porém, não for sufficiente, nem admi-
nistrada bastante cedo, é necessário repetir-se a injecção cada 3 ou 6 horas até
que se complete a dose necessária á cura do caso.
Xos accidentes determinados pela cascavel acontece ás vezes que os pheno-
menos de intoxicação, depois de cederem app ar ent emente sob a influencia do
tratamento, a ponto de darem ao paciente a impressão de cura completa, sobre-
vêm novamente, com certa intensidade e podem determinar a morte, caso não
se faça logo nova injecção de soro. E', pois, necessário, nos envenenamentos de
typo crotalico, prolongar a observação por 3 semanas no mínimo, ou então admi-
nistrar, logo no começo, uma grande dóse de antiveneno.
Enquanto estiver sob a influencia da intoxicação, a pessoa picada deve ser
mantida em dieta liquida, constituída por leite, caldos, café, chá.
Do segundo para o terceiro dia, caso já tenha melhorado, o paciente deve
tomar um purgativo salino brando, como sulfato de sodio ou citrato de magnésio.
l ) Instrucções sobre os soros — Embora os antivenenos entregues ao con-
sumo pelo Instituto Butantan sejam geralmente concentrados, c frequente for-
mar-se um pequeno precipitado que se deposita sobre a parede ou fundo das
empolas. Esse precipitado não indica alteração do produeto e representa a
parte que não possue eí feito therapeutico, de sorte que é preferível não agitar as
empolas antes de ser extravasado o seu conteúdo.
Conservados em empolas intactas, ao abrigo da luz e em logar fresco, os
soros mantêm suas propriedades curativas por muitos annos, tendo-se verificado
no Instituto que, mesmo depois de 25 annos, ainda podem ser empregados. Por
A. do Amaral — Envenenamento bothropico
259
esse motivo c que não se acceitam em devolução os antivencnos entregues ao
consumo publico.
Isto quanto ao tratamento scientiíico das picadas.
Tratamentos empíricos
E’ sabido, porém, que, especialmente entre a classe baixa, muita gente ainda
acredita que mordedura de cobra passa com remedios caseiros, cuja base é em
via de regra o álcool ou kerozene. Assim, tanto no Brasil, como nos demais
países americanos, é frequente se verem pessoas, picadas por serpentes, procurar
beberagens com base de álcool, sendo que nos Estados Unidos, em virtude da
lei secca, muitos pretos se fazem propositalmente picar por cobras não venenosas
só para terem direito a uma dose de whiskey de que sentem tanta falta... No
entanto, experiencias realizadas com todo o rigor scientiíico têm demonstrado
que o álcool, longe de curar ou siquer facilitar a cura, pelo contrario a diífi-
culta, porque a principio favorece a absorpção do veneno e, mais tarde, em
resultado da baixa da pressão sanguínea, retarda a reacção do organismo e a
eliminação do toxico.
No que diz com o kerozene, os effeiros observados ainda são mais prejudi-
ciaes. Além de não ter qualquer acção beneíica sobre o envenenamento, o kero-
zene, ingerido nas doses que o povo emprega, complica os symptomas, porque
por si só produz uma intoxicação aguda, com destruição do sangue e degeneração
do figado.
Ha 2 annos tive ensejo de soccorrer a um trabalhador, reccnchegado de
Portugal, que, ao ser picado por uma cascavel nos arredores da cidade de São
Paulo, foi obrigado a ingerir cerca de meia garrafa de kerozene que lhe adminis-
traram os companheiros de trabalho. Apezar da applicaçào intensiva do antive-
neno especifico (soro anti-crotalico) , esse paciente não poude reagir, vindo a
fallecer no dia seguinte com todos os symptomas de envenenamento pelo kero-
zene. Ainda ha pouco tempo, tive sob observação uma franzina menina de 7
annos, residente á margem da estrada de São Paulo a Itú e que, depois de um
copioso almoço, foi, em certo domingo, picada por uma cascavel que mataram c
trouxeram ao Instituto para identificação. Ao examinar o ophidio, dei pela
falta do crepitacuJum (chocalho) e, ao ser notificado da morte da doente, apezar
do tratamento especifico, tratei de averiguar o que os parentes da victima haviam
feito com esse appcndicc. Fui informado de que o mesmo havia sido triturado
e posto em um copo de kerozene que foi dado a beber á desventurada criança.
Logo depois deste caso, observei um outro de um rnemino de 12 annos de
idade, residente em um velho sitio além do Ypiranga, no município de São
Paulo, o qual fora mordido por uma cascavel, no momento em que estava traba-
lhando na roça. Soccorrido pelo pai que conseguiu matar a serpente causadora
do accidente, recebeu essa criança como medicação de urgência uma "boa dose”
9
2C0
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
de cachaça com alho grande, na crença de ter ingerido um antídoto efíicaz. Não
havendo naturalmente o remedio produzido o effeito desejado, foi a victíma, ja
em estado grave, trazida ao Instituto Butantan pelo proprio pai que, ao ser in-
quirido sobre o accidentc e a medicação usada, declarou que administrara um
cálice de pinga com alho, só não tendo augmentado a dose para um copo, por se
ter o of fendido recusado a ingerir mais, devido aos vomitos que provocara o
“remedio’’. Para fazer face ao envenenamento dessa criança foram necessá-
rias 9 empolas de soro anti-crotalico injectadas por via sub-cutanea, intravenosa
e intraperitoneal, de mistura com cerca de meio litro de agua physiologica com
adrenalina, seguido de estrychnina e caíeina.
A minha primeira experiencia com tratamentos dessa natureza passou-se ha
cerca de nove annos, quando tive conhecimento de um caso de envenenamento
ophidico cuja unica “medicação” consistira em couro de jacaré administrado
com "pinga e oleo de candeia (3).
Enquanto não se generalizar o conhecimento das novas instrucções e a<
doses dc antiveneno bothropico continuarem a ser integralmente administradas
á distancia da região of fendida surgirão novos casos de mutilação mais ou menos
extensa, consequente ao empeçonhamento de pessoas ou animaes. In felizmente,
em taes circunstancias, o veneno não se limita a destruir os tecidos por elle di-
rectamente affectados, sinão leva alem a sua acção e eterniza, muita vez pela
vida do mutilado, o effeito deleterio, antitrophico, de seus princípios biochimi-
cos, representado por ulcerações de caracter atonico e resistentes aos tratamentos
ordinários.
>
Tratamentos usuaes de ulcerações atônicas
N'o tratamento das ulcerações de caracter torpido, provenientes do envenena-
mento bothropico, como no das ulceras atônicas cm geral, a maioria dos medico?
continua, para infelicidade dos doentes, a lançar mão dos recursos da velha anti-
sepsia, representada pelas pulverizações phenoladas de La Tourette e pelo inesgo-
tável arsenal dc pomadas da velha pharmacopéa, desde a de Réclus até a de
Unna; só por cxcepção é que algum mais avisado e moderno recorre ás maça-
gens de Maylard, ao effluvio eléctrico de Marquant. á diathermia ou ás applica-
ções de ar quente e de raios ultra-violetas ou aos proprios enxertos de Thiersch
c Rcvcrdin. cujo emprego tem, todavia, suas naturaes e frequentes limitações.
Ao ler, logo que ingressei no terreno da sorologia, o excellcnte manual de
Darier (4), fiquei impressionado com a multiplicidade de applicações, ainda não
convenientemente exploradas peh clinica, do soro normal como excitador da nu-
trição geral, da hematogenese c da actividade phagocytaria. Dahi resultou o pri-
meiro ensaio que fiz no anno de 1917, de curar, pelo soro normal equino, uma
ulcera atônica da perna dc um paciente e, logo depois, um profundo ferimento
deformante numa das phalanges de outra pe-soa, por signal que ajudante de
A. do Amaral — Envenenamento boihropico
261
carpinteiro em Butaman, havendo o resultado, em ambos os casos, excedido as
espectativas mais optimistas. Em seguida a esses dois ensaios procurei aper-
feiçoar o methodo e generalizar sua applicação a condições correlatai da neces-
sidade de se estimular a proliferação cellular com intuitos de activar a cicatri-
zação, havendo por final communicado a uma sociedade local o resultado de mi-
nhas observações (5).
Para gáudio meu. sinão para honra da sciencia nacional, esse methodo, que
tão de perto attendia á economia dos doentes, por ser de facil applicação, de
preço pouco elevado e de effeito seguro na grande maioria dos casos, se tem
generalizado em nosso meio e tem recebido mesmo o favor de comprovações no
estrangeiro, segundo se deprehende, por exemplo, de um artigo (6) publicado,
em 1923, pelo eminente collega de Lausanne, Dr. R. Feissly, que assim se ma-
nifestou :
“J’eus 1'idée d’cssayer à mon tour le traitement du Dr. Amaral,
et je fis préparer à 1’Institut sérothérapique de Berne la poudre de
cheval qui m’était néccs-aire.
Le résultat de son application a été ce que je viens de dire; il
confirme donc cntièrement les observations de mon conírcre brési-
lien, car il est diíficile d’invoquer ici une coincidcnce entre les dates
de 1’application de sérum et un proccssus de réparation spontanéc.
II ne me parait pas non plus qu’on puisse attribuer cette cicatrisation
rapide. att tulle gras si précieux, de Lumière, car il ne faut pas oublier
que mon observation ne fait que s’ajouter aux nombrcux cas d’ulcè-
res phagédéniques publiés par le Dr. Amaral, dont 1’évolution a cté
semblable sous 1’unique influence du sérum sec.”
1 ^
A proposito, cumpre referir que, por ter o meu trabalho sido publicado cm
português — conhecido tumulo do pensamento humano — de 1920 a esta pane o
processo de tratamento das ulceras pelo soro normal tem sido victima de novos
“descobrimentos” por parte de profissionaes de outras paragens, ignorantes de
nossa bibliographia scientifica. Para não me alongar em citações, basta dizer
que, ha apenas pouco mais de dois annos, surgiu, no conceituado orgam da Asso-
ciação Medica Norte-Americana, um artigo de dois collegas de Nova York (7)
sobre o tratamento de queimaduras por meio de soro normal equino. Embora
a idéa não fosse original, conforme accentuei em carta dirigida aos alludidos col-
legas e ao editor que a publicou em numero ulterior daquelle periodico (J. Amcr.
Med. Assn. vol. 93, n.° 6, pag. 476, 1929), o processo empregado, que consistiu
na applicação local do soro normal cm estado liquido e addicionado de 0.35ÇÓ de
cresol como preservativo, é indiscutivelmente inferior ao por mim descripto, isto
é, á applicação do soro deseccado em pó e sem addição de qualquer substancia
antiséptica, porquanto, nestas condições, a acção do medicamento é muito mais
11
202
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
intensa e prolongada e, pois, mais economica, alem de que a ausência de preser-
vativo evita qualquer destruição cellular e acção retardante, por minima que seja,
sobre a marcha da cicatrização da ferida, ao contrario do que se passa com o uso
do soro liquido e cresolado. De qualquer sorte e apezar destes dois inconve-
nientes apontados, a applicação do soro normal (mesmo liquido e cresolado como
no caso em apreço) produz resultados superiores aos de quaesquer outros pro-
cessos até agora aconselhados no tratamento de queimaduras (e, por extensão,
no de outras ulcerações e perdas de tegumento), conforme se deprehende das
seguintes conclusões do trabalho de Monteith & Gock ora commentado:
“ 1 . The method oí treating bums with normal horse serum
as here described is simple and easily applied. It does not soil bed
linen or cloíhing.
2. In our hands, this method has yielded íar better end-results
than any other method that we ha ve employed for the treatment of
burns due to fire, hot water or acids.
3. The important advantages of this method of treating burns
are (a) absence of scar tissue; (b) rapidity of formation of new
epidermal tissue in all parts of the wound; (c) freedom from pain;
(d) prevention of infection, and (e) climination of toxemia by pre-
venting the absorption of the toxins.
4. Even when the destruction of tissue involves a large area,
the wound becomes covercd with sound, hcalthy tissue and there is
no contraction with rcsulting deformity; splints, traction or skin
grafts are not required.
5. When bums are treated by our method, bactcrial growth is
inhibited by the cresol in the serum and pus formation is minimized.
6. When bums of the skin bearing hair are treated with normal
horse serum by our method, the denuded arca becomes covered with
hcalthy epidermal tissue which again bears hair.
7. Wc would cmphasize the value of the preliminary bath oí
warm physiologic solution of sodium chloride. It not only facilitates
remo vai of the devitalized tissue but also prevents absorption of the
toxins gencratcd in the bumed area.
8. Normal horse serum containing cresol, when sprayed on the
bumed arca, coagulates the exuding tissue plasma and thus provides
the hcalthy cclls with physiologic food. so that the cells can proliferate
and form new, hcalthy epidermal tissue.
9. The serum should be applied at least twice daily to prevent
drying of the tissues in the bumed arca, which would cause death of
the cells.
A. do Amarai. — Envenenamento bothropico
263
10. After the normal horse serum has been applied, thc
wounded surface is protected with rubber tissue, which prevents
evaporation and thus insures prolonged acrion of tlie serum”.
Soro secco e gangrena por envenenamento bothropico
Estas considerações vêm a proposito de um interesante e gravíssimo caso
de envenenamento bothropico determinado pela jararacassú (D. jararacussu)
observado na pessoa do Sr. A. K., brasileiro, de 42 annos de idade e residente
nesta capital, onde se entrega á profissão de dentista.
O paciente achava-se, no dia 23 de julho p. passado, a passeio no interior
do estado, perto da localidade Presidente Epitacio, á margem do rio Paraná,
no exercido, calmo e distrahido de seu predilecto desporto venatorio, quando, ao
se baixar para colher algo de sobre o solo, foi picado por uma enorme jarara-
cassú que elle, com grande presença de espirito, conseguiu matar e medir, veri-
ficando ter cerca de um metro e meio de comprimento.
Ambas as presas da serpente attingiram-lhe profundamente os tecidos molles
da porção distai da região interna do antebraço direito a cerca de 6 centímetros
acima da dobra do punho, causando-lhe intensa dor, e profundos soffrimentos
durante longo tempo. Apczar de gravemente empeçonhado, o paciente só poude
ser soccorrido cerca de 2 horas mais tarde, quando recebeu o antiveneno bothro-
pico polyvalente. A injecção foi-lhe applicada na região inter-escapular, por
via hypodermica e na dose de 3 empolas do especifico, quando, em virtude da
gravidade do caso, parecia indicado ter a applicação sido feita por via venosa
(ou cm redor do ponto picado, conforme julgo preferível em taes circunstancias)
e em dose duas ou tres vezes maior, afim de poder neutralizar o ef feito da quan-
tidade de veneno, em excesso da capacidade normal dos tecidos humanos e que
medeia por um milligrammo por kilo de peso. Ora, c sabido que a jararacussú
pode inocular de vez de 100 a 300 milligrammos de veneno e, portanto, de 30 a
230 milligrammos alem da capacidade de resistência do organismo. Nestas con-
dições. é indispensável que nos casos em que se presuma ou se tenha presente
uma inoculação completa de peçonha por parte da cobra, se procurem dar ao
of fendido doses repetidas de soro, ate attingir-sc a quantidade capaz de fazer
face ao excesso de veneno injectado pelo ophidio.
Infelizmente bem poucos são aquellcs que vão caçar no interior perfeita-
mente munidos do remedio protector, de sorte que, sem embargo da constante e
generalizada campanha desenvolvida neste sentido pelo Instituto Butantan, ainda
de vez em quando occorrem casos como o de que trato no momento.
Continuando a aggravar-se os soffrimentos do paciente, foram-lhe applica-
das mais duas empolas do soro especifico, e isto só no dia seguinte, quando já
era demasiado tarde para evitar ou siquer remediar o damno causado pelo ophi-
dio. Assim, não é de admirar que, a despeito de todos os esforços e dedicação
13
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
2<U
dos médicos consultados, a gangrena se houvesse installado extensivamente e em
marcha ascendente pelo antebraço e braço até perto da axilla, havendo o edema
invadido a própria parede thoracica do lado correspondente, pelo que se chegou
a pensar na necessidade urgente de amputação do membro. Felizmente, cinco dias
mais tarde a gangrena estava bem delimitada ; para facilitar a queda do esphacelo,
fez-se necessária uma pequena intervenção cirúrgica que, de seu lado, facilitou
a drenagem do pús. Demorando a reacção cicatricial e apresentando a ulceração
um caracter pouco satisfactorio, aconselharam os médicos que o paciente vol-
vesse a esta capital onde encontraria melhores recursos para tratar-se. Por esse
motivo, veiu elle á minha procura na ultima semana de agosto (um mês após o
accidente), quando lhe examinei. Nesse momento a ulceração alongara-se desde
o punho até o terço medio do braço pela face interna, estendendo-se até a ex-
terna do antebraço, na qual existia então uma faixa, de cerca de cinco centíme-
tros de largura, de tegumento. O exame attento da região revelou ter havido
destruição completa dos tendões do pequeno palmar e do cubital anterior, do
nervo cubital c da artéria e veias que o acompanham normalmente e lesão parcial
do flexor superficial commum e do longo supinador, tudo conforme ficou gra-
vado na photographia que no momento fiz tirar para a necessária documentação
do caso (Fig. 1).
Tratamento — Apezar da extensão formidável da lesão e da profunda des-
truição de tecidos, não hesitei em lançar mão de applicações locaes de soro secco,
precedidas de lavagens com agua physiologica, em detrimento de quaesquer
substancias antisépticas ou pomadas, cujo emprego rae cada vez mais cahindo em
desuso, por anti-economico ou mesmo prejudicial aos pacientes. Desde então,
tenho feito o curativo duas vezes por semana e protegido a região, quer por
meio de uma membrana de gutapercha, quer especialmente por meio de um
penso occlusivo de esparadrapo, com o fim de conservar o mais possível a acção
do soro posto cm contacto com os tecidos lesados. Ultimamente, a conselho meu,
o paciente tem submettido o membro afíectado a maçagens manuaes e eléctri-
cas, com o fim de estimular a cinética da região, atirn de que elle possa voltar
ainda a exercer a sua profissão de dentista.
E’ bem verdade que elle está avisado da impossibilidade de uma completa
restitutio cd integrum, em virtude das grandes lesões nervo-vasculares e mus-
culares de que foi victima. Em todo caso é de esperar que, dentro em pouco,
a cicatrização da pclle já esteja ultimada e elle possa então submetter-se a uma
mcchanotherapia mais intensiva para poder retomar os trabalhos de sua profissão.
Actualmente a cicatrização da extensa zona ulcerada está quasi completa, con-
forme se vê na Fig. 2.
A. do Amaral — Envenenamento bothropico
265
ABSTRACT
Application oi dried normal serum on an extensive ulceration with deep
de5truction of skin, muscles, nerve and vessels of the fore-arm (Fig. 1), result-
ing from the cytotTopic, proteolytic and hemolytic efíects of the poison of
Bothrops jararacussu has been followed by a gradual and satisfactory healing
of the lesion (Fig. 2) with nearly complete recovery, by the patient under obser-
vation, of the motion of his fore-arm and hand.
BIBLIOGRAPHIA
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mental pelo veneno da Lachesis lanceolatus in Ann. Paul. Med. Cir. XI(7) :149-
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'Trabalho dai Sceçóe» de Ophlologla e ImmunoIogl.i
do Instituto Dutantan. terminado em novembro de
1931 e eommunlcado á Soc. Med. Cirurgia. S. Pau-
lo. 1-XIM932. Nota in Boi. Soc. Med. ar. S. Pau-
lo XV (18): 3S2 -395. 1931).
15
A. do Amaral
Envenenamento bothropico
Mrm. Inst Butautan
Vai. VI, 1931
SciELO
cm
MODERNAS TECHNICAS
DE PREPARO DA ANTITOXINA TETANICA
POR
J. LEMOS MONTEIRO e FLAVIO da FONSECA
61 2.393.3: 61 6.S U
MODERNAS TECHNICAS
DE PREPARO DA ANTITOXINA TETANICA
POR
J. LEMOS MONTEIRO e FLAVIO da FONSECA
Grande tem sido nos últimos annos o progresso da sorotherapia antitetanica
e notável a excellencia das antitoxinas produzidas pela technica moderna, em
relação ás obtidas com os processos menos recentes, o que trouxe como con-
sequência a progressiva melhora nas estatísticas da therapeutica do tétano.
O progresso observado nos últimos annos originou-se das verificações basicas
de Ramon (1) sobre o augmento do titulo antitoxico do soro de cavallos que
apresentavam, accidentalmente, um abcesso no ponto da inoculação da toxina
diphterica no decurso da immunização. Procurando estabelecer um processo de
immunizaçâo em que pudesse ser obtido experimentalmentc um resultado idên-
tico, este auctor verificou, após múltiplos ensaios, que a addição, ao antigeno
diphterico, de pó de tapioca esterilizada provoca\*a apparccimcnto de edema e
af fluxo leucocytario no ponto de inoculação, acompanhado de lenta absorpção do
antigeno, do que resultava producção muito mais intensa de antitoxina.
Applicando esse methodo nos animaes produetores de soro antitetanico, ve-
rificaram Ramon e Descomby (2) que o teor cm antitoxina dos cavallos assim
immunizados augmentava também de modo notável, tornando-se esse o processo
de escolha para a obtenção de antitoxinas de alto valor.
Glenny, Pope, Waddington e Wallacc, em 1926 (3), observaram que os
precipitados insolúveis obtidos das toxinas addicionadas de alume de potássio
gozam de elevado poder antigenico; Ramon, em 1927 (4), demonstrou a possi-
bilidade de obtenção de antitoxinas tetanicas dotadas de notável acção ncutra-
lizantc, por meio de immunização com anatoxina tetanica addictonada de pó
de tapioca. Representam taes trabalhos outras tantas contribu ções de mui alta
valia para o progresso da sorotherapia antitetanica, porquanto desse modo ficava
também reduzido de muito o prazo necessário á completa immunização dos ani-
maes produetores de antitoxina.
3
270
Memórias do Instituto Butantan
Tomo VI
Esses resultados deram logar ao apparecimento, na literatura sorologica, de
larga copia de artigos, todos tendentes a comprovar e ampliar as verificações
fundamentaes que acima citámos.
I
Immunização de cavallos por meio de toxina addicionada
de alume de potássio
Acompanhando de perto o progresso realizado no particular, têm sido
ensaiadas e estão em vigor no Instituto Butantan as technicas aciualmente mais
preconizadas para a obtenção das antitoxinas tetanicas, cujos títulos ultrapassam
de muito os até ha pouco obtidos.
Representa esta nota a summula dos resultados verificados com a applicação,
na 1* phase da immunização de cavallos, de anatoxina adsorvida pelo alume de
potássio, seguida de inoculações de toxina precipitada por essa mesma substancia.
Alem dos resultados obtidos com essa technica, apresentamos também os
observados com a applicação do methodo já em 1925 (5) aconselhado por Glenny,
Pope, Waddington e Wallace, isto é, da instituição de um repouso de um mês
que deve ser concedido aos animaes em inicio de immunização antitetanica, re-
pouso que dá em resultado uma elevação notável do poder antitoxico. Este
methodo constitue um precursor da recente technica de Ramon e Lemétayer,
vinda á luz em 1931 (6) e baseada na verificação de que os cavallos submet-
tidos um anno antes á vaccinação antitetanica com anatoxina addicionada de
tapioca, administrada em duas injecções de 10 c.c. seguidas por intervallo de
um mês, forneciam, ao serem definitivamente immunizados, antitoxina de titulo
que superara todos os outros processos atê então utilizados. Experiências nesse
sentido foram também instituidas em Butantan, tendo sido feitas cerca de 250
immunizações preparatórias em cavallos, pela technica actualmente aconselhada.
O quadro seguinte mostra os titulos obtidos em alguns animaes antes e
depois de utilizada a technica da addição de alume de potássio a 0gr.,5Çó
aos antigenos tetankos.
L. Monteiro e F. da Fonseca — Antitoxina tetanica
271
N* do
cavallo
Maior titulo obtido na immti-
Maior titulo obtido após addi-
nizaçáo por ana toxina seguida
çáo de OgT.,5% de alume á
de toxina pura
ana toxina e á toxina
SOI
200 u. a. por cc.
600 u. a. por cc
504
200 u. a. por cc
400 u. a. por c.c
506
200 u. a. por cc.
400 u. a. por c.c
510
? u. a. por c.c
1500 u. a. por cc
512
100 n. a. por cc
500 u. a. por c.c
516
350 u. a. por cc
900 u. a. por cc
318
250 u. a. por cc
1000 a a. por c.c.
520
400 u. a. por cc
900 a a. por cc
524
200 a a. por cc
500 u. a. por c.c
525
150 u. a. por cc
800 u. a. por cc.
527
350 u. a. por cc
1400 u. a. por cc
528
200 u. a. por cc
800 u. a. por c.c.
529
550 u. a. por cc.
1000 u. a. por cc
550
300 u. a. por cc
600 u. a. por cc.
Ltgtnda : u. a. — unidade antitoxica expressa de accordo com o mcüiodo de
Rosenau e Anderson.
Segundo se deprehende do quadro acima, dos 14 cavallos em que foi feita
a experiencia, todos apresentaram augmento extraordinário do titulo antitoxico,
tendo triplicado a media geral dos valores. No caso do cavallo n. 510 não foi
estabelecido o limite máximo da dosagem anterior, apenas existindo nos pro-
tocollos a verificação de ter o seu sôro doscado 100 u. a..
5
272
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
II
Augmento do poder antitoxico do plasma de animaes submettidos
a repouso de um mês no inicio da immunização
Em outra experiencia, destinada a pôr em pratica a technica do re-
pouso no inicio da immunização, foram tomados 2 cavallos novos (ns. 536
c 537), cuja immunização obedeceu á seguinte norma:
50 c.c. anatoxina tetanica -f- alume de potássio a 1 %
150 c.c. anatoxina tetanica + alume de potássio a 0.5 %
300 c.c. anatoxina tetanica -f- alume de potássio a 0,5 %
Estas injecções eram separadas por 8 dias de intervallo.
Após 1 mês de repouso, foi iniciada a immunização com toxina, segundo
a tabella abaixo, com inoculações separadas por uma semana de intervallo:
50 c.c. toxina tetanica + alume de potássio a 0,5%
100 c.c. toxina tetanica -f- alume de potássio a 0.5%
200 c-c. toxina tetanica + alume de potássio a 0.5%
300 c.c. toxina tetanica -f- alume de potássio a 0.5%
400 c.c. toxina tetanica -f- alume de potássio a 0,5%
Sangrados 15 dias após a ultima inoculação, verifeou-se o titulo de 800 u.a.
para o cavallo n. 536 e 1000 u.a. para o de n. 537. Fizeram-se mais 3 sangrias
acompanhadas da inoculação de 500 c.c. de toxina e alume, seguida de 15 dias
de intervallo, tendo sido os mais altos titulos obtidos o de 1400 u.a. para o
n. 536 e o de 1500 u.a. para o n. 537.
O cavallo n. 537, depois do repouso de 5 meses, submettido a reimmuni-
zação com 30, 50, 100, 150, 300 e 350 c.c. de toxina + alume de potássio
a Ogr., 5% forneceu, 15 dias após a ultima injecção, soro de 1600 u.a..
Os titulos antitoxicos assignalados são representados em Unidades Ameri-
canas. de accordo com o methodo de dosagem de Rosenau e Anderson, adoptado
entre nós, o qual representa o dobro de Unidades Intemacionaes, designação
esta ultima acceita pelo Comité de Hygiene da Liga das Nações e que figura
em muitos soros encontrados no commercio. O conhecimento desta distineção
é de grande importância para o medico, em beneficio proprio e do seu doente.
JSciELO 0
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6
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BIBLIOGRAPHIA
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CVI(l) :21 . 1931. Sur une méthode de production intensive de 1'antitoxine tétanique
— C. R. Soc. Biologie CVTíl) :23.1931.
(.Trabalho da Secção de Immunologla do Instituto Bu-
tantan, terminado em dezembro de 1331 e commu-
nleado á Semana de Laboratorio da Soc. Med.
Cirurgia, S. Paulo, Janeiro de 1333).
ESTUDOS SOBRE A UNIDADE
DAS FRACÇÕES ALBUMINOSAS DO SORO
POR
DIONYSIO vos KLOBUSITZKY
612-393.12:612.121
ESTUDOS SOBRE A UNIDADE
DAS FRACÇÕES ALBUMINOSAS DO SORO
POR
DIONYSIO vos KLOBUSITZKY
A maior parte das experiencias sobre soro normal é constituida por tra-
balhos que se relacionam com compostos albuminosos existentes no soro. A
causa do interesse e attenção especial despertados por estes corpos, tanto
na actualidade como no passado, — abstrahida sua importância medica e bioló-
gica — reside em primeiro logar nas múltiplas difficuldades c impecilhos que
se deparam aos investigadores. Essas difficuldades, na maioria, podem ser attri-
buidas a uma causa unica, isto é, ao enorme volume da molrcula c ao conse-
quente estado colloidal destes corpos. O excessivo peso molecular explica o
facto de não ser conhecida, até a epoca presente, nem mesmo de modo appro-
ximado, a constituição chimica dos corpos albuminosos; sua classificação ou
identificação, destituída de base chimica systematica, apoia-sc em outras pro-
priedades, até mesmo na procedência anatómica, o que nos parece ainda mais
deficiente, sob o ponto de vista sdentifico. E’ mais facil approximar-se da
precisão exigida pelo espirito das sciencias naturaes por meio da verificação
das propriedades physico-chimicas, devendo-se, porém, ter constantemente pre-
sente a noção de que numa identificação obtida á custa de um processo indi-
recto como este não basta a concordância de uma unica constante physico-chimica
para se concluir que dois corpos também não são diversos quanto ás suas pro-
priedades, até mesmo na procedência anatómica, o que nos parece .ainda mais
varias constantes physico-chimicas, só sendo possivel af firmar com alguma pro-
babilidade de acerto a identidade chimica dos dois corpos quando não houver
divergência essencial. Seria igualmente erroneo seguir o caminho contrario, isto
é, comprehender como idênticos corpos dotados de propriedades physico-chimicas
muito differentes.
A incerteza ainda hoje reinante em sorologia relativamente ás relações de
parentesco chimico porventura existentes entre os compostos albuminosos do
3
278
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
soro que apresentam estabilidade variavel em relação a saes neutros, tem por
causa principal o facto de serem os resultados de pesquisas physico-chimicas, ora
levados em consideração demasiada, ora desprezados. A validade do grupamento
dos compostos albuminosos baseados nos vários methodos de floculação salina
é questão ainda não resolvida, não se sabendo si se trata de estabilidade va-
riavel das mesmas fracções ou de modificações de um mesmo composto albu-
minoso ou então si exprimem realmente a existência de corpos perfeitamente
distinctos, sob o ponto de vista chimico, que, no máximo, tenham origem bio-
lógica commum.
No presente trabalho propomo-nos a esclarecer este problema, baseado em
parte na literatura chimica e physico-chimica já existente e em parte em nossas
próprias experiencias, pesquisando o assumpto tão completamente quanto nos
permittirem os dados de que dispomos.
Passando revista á historia da sorologia normal, verificaremos que até a
primeira metade do século XIX apenas ha noticia de um corpo albuminoso,
denominado seralbumina. Foi Liebig, o notável chimico alemão, o primeiro
a observar que a addição de algumas gottas de addo acético ao soro dava logar
a uma turvação ligeira, mas sem duvida devida á albumina. Preoccupadissimo com
outros estudos, não teve Liebig occasião de dedicar maior attenção a esta obser-
vação, tendo, todavia, publicado suas experiencias, despertando a curiosidade de
Zimmermann sobre o problema. Este, em 1846, não só repetiu os trabalhos de
Liebig, como também os ampliou, tendo filtrado o precipitado, diluido forte-
mente o soro clareado em agua destillada e deixado longo tempo em repouso,
depois do que verificou apparecer ainda no soro nova turvação.
Os trabalhos dos dois pesquisadores não tiveram, porém, repercussão, o que
determinou que o medico escandinavo Panum, em 1851, redescrevesse esse phe-
nomeno, dando-o como novo. Segundo confessa, fez a observação por acaso,
juntando pequena quantidade de soro a um vidro com agua, surprehendendo-se
ao ver que o conteúdo se turvava, dando deposito amarello esbranquiçado. No
fim de 24 horas filtrou o deposito facilmente, verificando ser elle solúvel em
alcali diluido, acido acético diluido e bicarbonato de sodio, ao passo que se
mostrara insolúvel em álcool, ether e agua destillada. Concluiu, pela consistên-
cia do deposito e pelas propriedades de solubilidade, tratar-se seguramente de
um composto albuminoso ainda desconhecido. Não externou a principio um
juizo preciso sobre a natureza desse composto albuminoso, considerando varias
possibilidades, como a albumina de Mulder, então conhecida por bioxydo de
proteina, o albuminato de sodio, a caseina. Mais tarde, baseado em pesquisas
mais apropriadas, concluiu tratar-se de uma qualquer modificação da albumina,
dando certeza de ser um composto independente, ao qual chamou sero-casei-
na (4). Panum determinou, ao mesmo tempo, que a quantidade de precipitado
de um soro diluido augmenta consideravelmente quando se acidifica a diluição,
Dionysio vos Kloblsitzky — Fracções albttminosas 279
quer pela addição de algumas gottas de acido acético, quer fazendo passar por
elle uma corrente de CO 5 .
Este phenomeno foi observado e descripto quasi ao mesmo tempo por
Scherer e Denis (5) que, completando e controlando os trabalhos do ultimo
relativos ás albuminas vegetaes, applicaram essas verificações ao soro. A des-
coberta de Pa num foi em primeiro logar examinada por Schmidt, que lhe
ampliou as pesquisas, verificando que o precipitado se redissoive quando o
anhydrido carbonico (CO 5 ) é expulsado por um gas inerte, como o azotico.
Apoiando-se na opinião de Lehmann (7), tomou Schmidt esta albumina por glo-
bulina de Berzelius (Berzelius deu o nome de globulina á albumina dissolvida,
de caracter albuminoide, extrahida por pressão do coagulo sanguineo (8)), dando-
lhe o nome de substancia fibrinoplastica, para exprimir a relação, na sua opinião
existente, entre esta albumina e a formação da íibrina.
Alguns annos mais tarde, verificou Kuehne (9), ao controlar os trabalhos
de Panum, que os corpos albuminosos obtidos com o processo deste nenhum
papel representam na formação da fibrina, sendo, portanto, completamente
erradas as denominações de corpos albuminosos de Berzelius ou substancia fi-
brino-plastica. Kuehne tinha os corpos albuminosos precipitáveis pelo anhy-
drido carbonico e pelo acido acético na conta de duas fracções diversas, recom-
mendando para o primeiro a designação de globulina ou paraglobulina e para
o ultimo a de albumina to de sodio. Interpretação idêntica foi a de Eichwald ( 10),
que dividiu os corpos albuminosos do soro em tres grupos, distinguindo a sero-
caseina, a seroglobulina e a seralbumina, e acceitando, portanto, tal como Kuehne,
duas fracções de globulina. O proprio Panum adoptou o ponto de vista unitário
em relação ás fracções de globulina, alliando-sc mais tarde á sua interpretação
Heynsius (11), Bruecke (12) e mesmo Kuehne. Conseguiram os citados aucto-
res demonstrar, por um lado, que muitos dos casos de formação de fibrina no
soro correm por conta de impurezas e que o soro puro não contem substancia
geradora de fibrina; e, por outro lado, que a pesquisa das restantes proprie-
dades (principalmente de solubilidade) da paraglobulina de Kuhne e do albu-
minato de sodio não revelava entre os dois differenças esscnciaes, o que os
levou a considerar a globulina como substancia una.
Os trabalhos assim originados e os debates dclles decorrentes despertaram
logo o interesse por essa fracção labil do soro, determinando na literatura o
apparecimento de um numero sempre crescente de trabalhos sobre este assumpto.
Dos trabalhos mais antigos só consideramos, porém, necessário citar os que apre-
sentarem importância basica para o ponto de vista hoje acceito.
Entre os últimos figura o trabalho de Heynsius, que, em sua communicação
acima citada, demonstrou não ser possivel, pelo processo de Panum, separar
do soro todas as substancias que não apresentem caracter albuminoso, ficando
sempre uma parte, precipitavel pelo chloreto de sodio saturado. Considerou as
5
280
Memórias do Inslituto Butantan — Tomo VI
duas fracções como uma única, descrevendo-a sob o nome de globulina. Digno
de nota é também o trabalho de Weyl (13), não só porque apresentou o primeiro
processo de purificação da albumina de Panum, como também porque originou
o nome, hoje de emprego generalizado, de seroglobulina, dado a essa albumina,
Weyl fora discipulo de Hoppe-Seyler (14), que denominava globulmas a todos
os corpos albuminoides que se precipitam á diluição com agua destillada, vol-
tando a dissolver-se em solutos alcalinos neutros.
E’ dessa epoca (1870-1880) que datam os methodos ainda hoje applicados
na separação das globulinas e albuminas. Em 1878 Hammarsten (15) intro-
duziu, para a precipitação da globulina pelo sal, a solução saturada de sulfato
de magnésio e, oito annos mais tarde, publicou Kauder (16) as experiencias
de Hofmeister sobre o fraccionamento pelo sulfato de ammonio, processo este que
constituiu o ponto de partida para as numerosas pesquisas emprehendidas por
um grupo de investigadores, os quaes proseguiram no fraccionamento da sero-
globulina.
Mais um adiantamento na pesquisa da globulina foi a verificação de que
pela dialyse é precipitada apenas uma parte da mesma com sulfato de ammonio
parcialmente saturado, ou com sulfato de magnésio saturado, de maneira que
a insolubilidade na agua, considerada propriedade característica da globulina, é
observada somente numa parte delia (Hammarsten (15), Burckhardt (17), Mar-
cus (18), etc.). Hofmeister denominou euglobulina a parte precipitada pela
dialyse e pseudoglobulina a parte solúvel. Hammarsten accresccntou, ás duas
fracções que se podem precipitar com o minimo de 33% e o máximo de 505o
de soluto de sulfato de ammonia saturado, uma terceira, a íibrinoglobulina,
nome pelo qual se comprehcnde o corpo albuminoso residual das soluções de
fibrinogeno terminada a formação da fibrina. Deu-se-lhe o nome de fibrino-
globulina por possuir as propriedades do fibrinogeno (isto é, ser precipitavcl com
28-33% de soluto de suliato de ammonia), assemelhando-se, porém, mais á glo-
bulina, quanto a não formar fibrina.
A classificação indicada por Hofmeister determinou a separação das glo-
bulinas cm grupos distinctos. A divisão mais generalizada comprchendc — não
inclusa a íibrinoglobulina — tres grupos ( Docrr-Berger (20), Halliburton (21),
Kimura (22), Porges-Spiro (23), etc.). O primeiro, constituido pela parte
precipitavcl em 30-36% de soluto de sulfato de ammonio saturado; o segundo,
em 37-43% e o terceiro, cm 44-50% do mesmo soluto. A primeira pane cor-
responde approximadamente á euglobulina precipitada pela dialyse; a segunda e
a terceira diíferenciam-se ordinariamente por pseudoglobulina I e pseudoglobu-
lina II. Alguns auctores, entre elles B. Burckhardt (17), admittem ainda como
grupo distincto a parte precipitada pela passagem da corrente de anhydrido car-
bônico ou em soluto de sulfato de ammonio saturado a 30%, denominando-a
paraglobulina. Existiriam, portanto, quatro especies de globulina, a saber: para-
ti
2 3 4
5 6 7
I -I 1 -I 1 >w/ I
11 12 13 14 15 16
Dionysio von Klobisitzky — Fracções albuminosos
281
globulina, predpitavel por diluição, corrente de CO 2 ou em 30 % de soluto
saturado de sulfato de ammonio; euglobulina, predpitavel pela dialyse ou em
30 -365o de sulfato de ammonio; pseudoglobulina I, predpitivel em 37-43% de
sulfato de ammonio saturado e, finalmente, pseudoglobulina II, predpitavel em
44-50% de sulfato de ammonio ou em soluto de sulfato de magnésio saturado
(reacção neutra).
Essa divergência do primitivo conceito monistico de Panum não se res-
tringiu ás globulinas, pois no decorrer do tempo um numero sempre crescente
de pesquisadores pôs em duvida também a unidade da seralbumina. O primeiro
a adoptar a classificação das seralbuminas em grupos foi Halliburton (21).
Chegou á conclusão de que na seralbumina crystallizada pelo methodo de Gruber,
quanto a seu comportamento na coagulação pela calor, se podem distinguir tres
grupos : seralbuminas Alpha, Beta e Gamma, coagulando respectivamente a
70-73°C, 76-78°C e 82-85"C. Hoje não podemos mais admittir como exactos os
resultados de Halliburton, visto como em sua epoca não existia ainda o processo
da dialyse, pelo qual se obtêm solutos albuminosos completamente livres de sal e o
sal exerce influencia considerável sobre a temperatura de coagulação. A unidade da
seralbumina hoje em dia é contestada, não em face das experiências de Halli-
burton, mas sobretudo pela observação de que é impossível quantitativamente
crystallizar-se a seralbumina. Este corpo assemelha-se á ovalbumina, isto é,
póde-se obter a crystallização de uma parte apenas, ou sejam no máximo 40%
do material primitivo, segundo as experiências de Robertson (24), Dahi a dis-
cordância sobre si a seralbumina crystallizavel é ou não, sob o ponto de vista
chimico, idêntica á não crystallizave!.
Ao lado dessas duas questões, a unidade da seralbumina c a da seroglo-
bulina, surgiu ha cerca de 10 ou 15 annos uma terceira, sobre a possibilidade
da transformação da albumina cm globulina ou vice-versa, na corrente sanguinea
ou in vitro. Xo decurso de experiências clinicas, tacs como pesquisas de immu-
nidade, fez-se frequentemente a observação de que a quantidade do corpo albu-
minoso, que pelo seu comportamento na floculação de sulfato de magnésio ou
sulfato de ammonio deve ser incluido entre as globulinas, augmenta considera-
velmente. Em parte dos casos [Locbncr (25), Galchr (26), Gussio (27)] dá-se
es'c accrescimo de globulina sem o augmento do conteúdo total de albumina.
Seria, portanto, natural a supposição de que nesses casos a albumina se con-
verte em globulina, dentro da corrente do sangue. As analyses chimicas provam,
como veremos, que as globulinas e as albuminas são corpos albuminosos
distinctos. E\ pois, de importância capital a questão da transformação das
albuminas em globulinas, pelo que tratarei desse assumpto em primeiro logar.
— O modo mais racional de encarar a questão c começar pela comparação
das experiencias physicas c physico-chimicas relativas á albumina e á globulina,
pois esse processo nos permitte determinar immediatamente si a albumina e a
282
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
globulina são apenas modificações do mesmo corpo albuminoso ou si realmente
constituem corpos distinctos sob todos os pontos de susta.
Desejo ainda fazer notar que se trata, sempre que não houver indicação
em contrario, de corpos albuminosos obtidos de sangue de cavallo, entendendo-
se por globulina sempre a globulina solúvel em agua, isto é, a mistura das pseu-
doglobulinas I e II.
As analyses chimicas — conforme se evidencia pela tabella I — não são,
infelizmente, numerosas, nem recentes, porém, visto como os resultados coin-
cidem exactamente, podemos consideral-os positivos.
TABELLA I
Composição porcentual dos corpos albuminosos
C H
N S O
Autor
Scroglobulina
5Z71 7.01
15.85 1.11 23.52
Hammarstcn (28)
Scralbumina
53.04 1 7.10
15.71 1.86 I 2229
Michel (29)
Scralbumina
53.05 6£S
16.01 1.71 ! 2229
Starkc (30)
Scralbumina crystallizada .
53.06 7.05
15.60 1.89 22-51
Maxiraowhsch (31)
Pela comparação dos dados verificamos primeiramente que a composição da
parte crystallizavel da scralbumina coincide com a da parte não crystallizavcl.
Confrontando os resultados relativos á globulina e á albumina, encontra-se
differença apenas quanto ao teor de enxofre, o qual está seguramente alem do
limite dos erros analyticos.
Uma notável differença entre a globulina e a albumina foi encontrada também
por auctores que examinaram o conteúdo de acido aminado desses dois corpos.
A tabella abaLxo é constituída pelos resultados de auctores diversos, porque o
isolamento dos vários ácidos aminados é um processo tão difficil e moroso que
toma quasi impossível a determinação numa substancia albuminosa de mais
de um ou dois desses corpos.
8
2 3 4
5 6 7
' V—' — J — -I 1 -I — I I
11 12 13 14 15 16
Dionysio von' Klobcsitzky — Fracções albaminosas
283
TABELLA II
Porcentagem de acido aminado contido nos corpos albuminosos
Acido aminado
Seroglobulina
Seralbumina
Auctores
t
Glycocolla ....
3.5
0.0
Alanina
22
Z7
Valina
traços
Leucina
18.7
20.0
Phenylalaninr. . . .
3.8
3.1
Tyrosina
2J
Z\
Abdcrfialdcn (32) (35)
Scrina
0.0
0.6
Abderhalden c
C >-5 ti na
1.5
ZS
Samucly (33)
Moerner (34)
Prolina
2.8
1.0
Addo asparaginico .
u
3.1
Acido glutaminico .
8.5
w
Histidma
28
3.4
Arginina
3.9 5
4.9
Lysina
8.95
13.2
Em vista, não eó de serem os resultados apresentados por auctores diversos,
mas terem estes também trabalhado com methodos differentcs, deve-se attribuir
importância somente a uma divergência pronunciada. Ha quatro pontos de dis-
cordância que se devem considerar: 1. A globulina contem glycocolla, ao passo
9
284
Memórias do Instituto Gutantan — Tomo VI
que na albumina este acido, o mais commum dos ácidos aminados, não se en-
contra em absoluto. 2. A globulina contem muito menos cystina do que a
albumina, o que está de accordo com os resultados das analyses elementares,
pois tanto a globulina como a albumina só contêm enxofre em forma de cystina
[Mõmer (36)]. 3. A seralbumina é muito mais pobre em Drolina do que a
soroglobulina. 4. A globulina contem 30% menos lysina que a albumina.
Esta ultima indicação foi confirmada pelas experiencias em que era determi-
nada apenas a quantidade do nitrogênio que apparecia em diversas ligações [Ki-
mura (22), Thomas e Lock (23)].
Alem disso, verificou-se ainda que na albumina ha mais nitrogênio titu-
lavel com formol, segundo Sõrensen (38), do que na globulina, pois o quo-
ciente do nitrogênio total e do nitrogênio titulavel com formol é na primeira
13, na segunda 21 [Obermayer e Wilhelm (39)].
Diversos pesquisadores estudaram a questão da fixação de halogenio e
cálcio desses corpos albuminosos, indicando suas experiencias que deve existir
uma differença chimica entre soroglobulina e soroalbumina. A globulina, por
exemplo, pode ligar cerca de 25% menos iodo do que a albumina [Blum (40)].
Blum e Strauss (41) mostraram que ha differença, não só relativamente á
quantidade total do iodo combinado, mas lambem quanto á distribuição do
iodo. No caso de iodização completa (em meios alcalinos), a soroglobulina liga
8,3% de iodo, dos quaes 6.64% passam para o annel de tyrosina e 1.66%
tomam o logar de um hydrogenio d 0 grupo NH 2 . Na albumina a quantidade
total de iodo é de 8,96%, sendo 223 %, quasi 50% mais do que na globu-
lina, ligados ao grupo NH 2 . Quanto á fixação de cálcio. Csapó e Faubl (42)
verificaram que 100 grs. de seroglobulina podem ligar 37,5 mgrs. e 100 grs. de
seralbumina 78.0 mgrs. de cálcio, no máximo.
Rclativamente ao peso molecular, podem-se considerar como os mais exa-
ctos os resultados de Svedberg c Sjõgren (43), que usaram nas suas expe-
riencias o ultracentrifugador de Svedberg (44). Segundo as observações dos
citados auctores, o peso molecular de seralbumina com pH 4,8 obtido com
soluto tampão, c de 67 500, o de seroglobulina, com pH de 5,5, de 103 800.
Ha differença entre os corpos albuminoides também quanto á temperatura
de coagulação. A temperatura de coagulação maxima de seroglobulina con-
tendo 5-10% de chloreto de sodio, segundo verificação de Hammarsten (45),
c de 75°C; a da albumina, nas mesmas condições, é de 85°C. Spiegel-Adolí
(46) observou que a seroglobulina coagulada pelo calor perde definitivamente
a solubilidade na agua, o que não sc dá com a seralbumina.
Determinou-se também por repetidas vezes a capacidade rotativa óptica
desses dois corpos albuminosos. Os resultados, entretanto, são contradictorios,
devido á difíiculdade da obtenção de solutos perfeitamente homogêneos, trans-
parentes. Só soluções fortemente diluídas, de 2-3%, são bastante homogêneas
para se poderem usar na determinação da capacidade rotativa. A rotação ma-
Dionysio von* Klobcsitzky — Fracções albuminosos
285
xima de taes soluções é de 1-2°, o que naturalmente não permitte uma leitura
exacta, podendo, pois, occorrer graves erros. Das medições recentes as mais
precisas parecem ser as de Hafner (47), que determinou a rotação a 20,5®C,
á luz vermelha, amarella, verde e azul. Segundo suas indicações, a differença
da capacidade rotativa especifica á luz azul e á luz vermelha é, na seroglobu-
lina, 78°, 5, o quociente sendo de 2,1, ao passo que na seralbumina essa diffe-
rença é de 66°, 5 e o quodente 2,3.
A refracção da globulina é também mais intensa do que a da albumina,
conforme demonstrou Schretter (48). Em relação á absorpção, Svedberg e Sjõ-
gren provaram não ser igual nos dois corpos albuminosos, visto como a curva
do coefíiciente de absorpção da globulina é muito mais ascendente do que a da
albumina. Tratando-se de globulina, os coefficientes de absorpção máximo e
minimo, isto é, o valor do log 1/1 1 era, respectivamente, 1,35 e 0,63, enquanto
para a albumina era de 0,68 e 0,45.
O facto, ha muito conhecido, de que esses dois corpos dif ferem conside-
ravelmente também pelos seus pontos isoelectricos, foi ultimamente confirmado
por Pauli e Valkó (49), que fizeram as determinações em corpos albuminosos
electrodialysados, sendo sua pureza controlada com repetidas medições de con-
duetividade. Segundo estes auctores, o ponto isoclectrico da globulina corres-
ponde ao pH 5,5, o da albumina ao pH 4,99.
Relativamente á conductividade especifica, concentração dos iões de hy-
drogenio, condições de dissociação, viscosidade e comportamento da globulina c
da albumina para com saes neutros, os quadros abaixo apresentam os resul-
tados por mim obtidos. Os dados referem-se, quando não houver indicação
espedal, a solutos absolutamente livres de sal, obtidos pela electrodialyse (50).
TABELLA III
Conductividade especifica dos corpos albuminosos
Concentração
percentual
Conductirida-
de reciproca
C H
Pseudoglobulina
151
1,90.10-*
8.90. 107
Pseudoglobulina
277
326.10*
1.09.10*
Albumina do soro
1.72
3.42.10*
8.12.10*
Albumina do soro
277
3.98.10*
924.10*
11
286
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
TABELLA IV
Viscosidade relativa das substancias albuminosas do soro (a 25’C)
Concentração
percentual
Pseudoglobulina
1
1.0008
PscudoglobuUna
2
1.1886
Albumina do soro
*
1.0590
Albumina do soro
2
1.1139
Ha unia difíerença bem pronunciada entre os dois corpos albuminosos
quanto ás constantes de dissociação calculadas pela conductividade, velocidade
de movimento, concentração dos iões de hydrogenio e concentração molecular,
pois a globulina é mais fortemente dissociada numa solução a 3%, correspon-
dendo a parte dissociada (*) a mais de 80% da concentração total.
Sendo a concentração superior ou inferior a 3%, a dissolução (percentual)
diminue; assim, p. ex., numa solução de 0,95% são dissociados apenas 34% e
55% numa solução de 5,49%, ao passo que na albumina do soro a diminuição
está cm razão directa do augmento da concentração total. Albumina de soro
a 0,49% dissocia 43% ; a 1,72%, 20% e a 3.33%, pouco menos de 15%. Quanto
á diversa sensibilidade em relação a soluções salinas neutras posso estabelecer
o seguinte (51): para se produzir numa solução albuminosa constituida por
euglobulina e pseudo-globulina e contendo 0,9% de XaCl (cuja concentração
era graduada de 3,69 a 5,39%, por meio de 2,5 de soluções salinas normaes,
cm temperatura ambiente, dentro de uma hora), uma turvação filtravel, são
precisos 2,2 cc. de n/30 II NO 3 ou HO. usando-se Xa J S0 4 0,0, XH 4 S0 4 0,3,
XaCl 0,5 c MgSO 4 .
(*) Os cálculos são baseados na theoria de Pauli, da dissociação dos corpos albu-
minosos. A concentração dos iões de hydrogenio foi considerada como causada totalmente
pelas partes ionizadas e a quantidade dos iões ampholyticos calculada por meio da formula
K”.1000
A — 4- A + = — » sendo K” = K-K\ 10 = velocidade de movimento do ião de
10 + 10
C H 360.
albumina. K' = 360 = som ma da velocidade de movimento do ião de hydroge-
1000
nio (350) com a do ião de albumina (10).
12
v
SciELO
I
Dioxysio von Klobcsitzky — Fracções albuminosax
287
Experiências festas pelo mesmo methodo com albuminas de soro mostra-
ram que Na 2 S0 4 flocula sem addicionamento de acido, NaCl após accrescimo
de 0,6 (XH 4 ) s S0 4 de 1,S cc.. ao passo que que MgSO 4 era ainda inactivo ao
addicionamento de 3,0 cc. de addo.
Após os dados acima, que indicam claramente a diversidade, sob todos os
pontos de vista, da albumina e da globulina do soro, consideremos os factos
experimentalmente provados e geralmente apontados como indicios da unici-
dade dos dois corpos albuminosos.
Segundo Moll (52), um dos primeiros pesquisadores que procurou provar
a identidade da albumina com a globulina, tanto os clínicos, como os theoristas,
fundam suas affirmações em que ou a albumina é mais labil para com saes
neutros, ou a chamada euglobulina é solúvel em agua. A alterada sensibilidade
da albumina para com os saes neutros não pode, entretanto, constituir argu-
mento contra as determinações chimicas, physicas e physico-chimicas, visto de-
pender a floculação pelos saes de um colloide, em primeiro logar, do grau da
dispersão. Quanto mais dividido for um colloide lyophilo, tanto maiores devem
ser as concentrações do sal afim de ser destabilizado. Si bem que não conhe-
çamos ainda a sensibilidade do mecanismo da actuação do sal, está íóra de
duvida que ao menos parcialmente se baseia na deshydratação, isto c, na sub-
tracção do meio solúvel, ou seja da agua. Quanto mais íraccionado for o
corpo albuminoso, maior é sua superfície, cctcris faribus a energia superficial
com que fixa a agua, e tanto mais difficil se toma a deshydratação. O facto,
porem, de a albumina destabilizar-se a qualquer intervenção pela acção de con-
centrações salinas menores do que as gcralmentc usadas ou antes de qualquer
intervenção, indica apenas que na sua dispersão occorreu alguma alteração, isto
é, alguma impureza. A floculação do sal não é, de resto, um methodo perfeito
para separação das globulinas e albuminas, por ser muito provável que á addição
de um sal, p. ex., sulfato de ammonio meio saturado, por maior que seja o
cuidado empregado, se instabilize uma parte de albumina, ficando ao mesmo
tempo uma pequena quantidade de globulina em solução. Esta circunstancia,
a meu ver, explica os pequenos erros de analyse. Posso provar esta minha
affirmação pelo seguinte: é da natureza dos corpos colloidacs que o tamanho
das partes dispersadas, mesmo quando nada influe sobre a solução, se altere
constantemente, dentro de certos limites. E\ portanto, perfeitamente plausível
que numa solução de globulinas e albuminas haja também partículas de glo-
bulina que no momento de ser addicionado o sal sejam mais finamente disper-
sadas do que a media geral, podendo simultaneamente existir na solução
particulas de albumina cujo grau de dispersão seja também menor do que o
da maioria das particulas de albumina. Addicionando-se a um soro uma con-
centração salina que é boa concentração de limiar para instabilizar a globulina,
as partes de globulina finamente dispersadas não se destabilizam, mas sim as
particulas de albumina mais grosseiramente dispersadas. A concentração salina
13
288
Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
necessária á instabilização determina apenas o grau de dispersão. E\ entre-
tanto, erroneo concluir-se que a diminuída estabilidade é indicio de uma trans-
formação chimica. Na floculação com sulfato de ammonio devemos ainda levar
em consideração o modo de preparar a solução de (NH 4 ) 2 SO 2 . O (NH 4 )SÜ 4
decompõe-sc ao calor (a solução acidifica), podendo-se, pois, considerar so-
mente os resultados obtidos com soluções saturadas em temperatura am-
biente. «
As experiencias de Fanconi (53) provaram cabalmente que é erro acredi-
tar-se numa transformação da albumina só pelo facto de se destabilizar com
maior facilidade. Este auctor conseguiu preparar globulina artificial com uma
parte de albumina obtida de soro de sangue, pelo methodo de Moll (52) modi-
ficado por Ruppel (54), e que consiste essencialmente na alcalinização. Pela
comparação de suas propriedades physicas com as da albumina preparada com
o mesmo soro e com a globulina natural, verificou que eram iguaes ás da
globulina natural somente quanto á floculação de sulfato de ammonio, sendo as
demais propriedades diversas das da globulina natural e semelhantes ás da
albumina. •
Alguns auctores relatam casos de transformação da albumina em glo-
bulina, nos quaes a albumina floculada era sujeita a qualquer influencia, p. ex.,
por meio de ácidos gordurosos [Jarisch (55) e Katsumura (56)] ou sendo
electrodialysada a óO^C (Gutzeit (57) etc.] (58). Julgamos desnecessário
provar que por tão sensiveis influencias são alterados, não só a dispersibilidade,
mas também outras propriedades dos corpos albuminosos. A circunstancia de
não terem os auctores observado sinão a alteração da precipitação é devida ao
facto de não haverem examinado outras propriedades da “albumina convertida”.
Também os casos, bastante frequentes, de augmento da globulina in vivo
(moléstias infcctuosas, inanição, immunização, irradiações, etc.) ficou em parte
provado que são motivados unicamente pelo augmento do grau de dispersão
[Knipping c Kowitz (59)]. Também nos casos cm que — como, p. ex., num
certo estado das doenças infectuosas — existe de facto um augmento de globu-
lina, isso não se traduz necessariamente por uma transformação da albumina,
pois é muito mais lógica a explicação de que nesses casos as cellulas do orga-
nismo — por um motivo que ainda desconhecemos — synthetizam e fazem
passar para a corrente sanguínea maior quantidade de globulina do que em
condições physiologicas.
Em resumo, posso determinar que a albumina e a globulina são corpos albu-
minosos chimica e physico-chimicamente diversos e que em absoluto não se
convertem um no outro, quer in vitro, quer in vivo, sendo errôneas todas as
conclusões nesse sentido, por se basearem, ou em resultados experimentaes que
permitem uma conclusão apenas sobre a modificação do grau de dispersão, ou
em experiencias nas quaes a molécula soffrera alguma alteração profunda.
2
4 5 6 7
' V— ' I J 1 -I 1 >w/ I
11 12 13 14 15 16 17
14
Dioxysio von Klobusitzky — Fracções albutninosas
289
A questão da identidade das albuminas de soro crystallizavel e não crys-
talüzavel não pode ainda ser resolvida de modo satisfactorio, por não dispormos
por ora de resultados comparativos precisos sobre albumina crystallizada e não
crystallizada preparadas do mesmo soro. As analyses chimicas de Maxtmo-
vitsch a que acima me referi não indicam differença alguma entre as duas
modificações da albumina. Alem disso, o facto de a albumina do soro, ao
contrario da hemoglobina, só se crystallizar na presença de uma considerável
quantidade de sal e de serem as formas de crystaes muito differentes, indica
que a albumina do soro crystallizada não é uma substancia pura, mas forma
com o sal qualquer combinação, provavelmente de adsorpção. E’ por esse
motivo que nessa questão não posso attribuir importância á crystallização. As
experiencias feitas com a crystallização [Wichmann (60), Gürber (61), Michel
(62)] não deram resultados regulares, não constituindo prova para a plurali-
dade da albumina do soro. As analyses hoje á nossa disposição, determinações
physico-chimicas, etc., ao contrario, evidenciam a unidade da albumina.
Seguindo o programma estabelecido, trataremos agora da unicidade das
fracções de globulina. Nessa questão o ponto mais discutido é a posição desta-
cada da euglobulina, pelo que iniciaremos por ahi a nossa exposição.
Sobre as diversas fracções da globulina conhecem-se ainda menos dados do
que sobre a globulina total. O quadro a seguir apresenta alguns dos elementos
conhecidos.
Conforme essa tabella, somente Porges e Spiro encontraram differenças
notáveis, mas também estas apenas relativamcntc ao conteúdo de C c N das
duas ultimas fracções. As indicações de Kimura, que não encontrou grandes
differenças, coincidem com os resultados das analyses de fracções de globulina
de Hartley (63) e Woodmann (64). Alem disso, Woodmann determinou
ainda a actividade óptica da euglobulina e pseudoglobulina, sem encontrar diffc-
rença entre as duas fracções.
TABELLA V
Concentração do
sulfato de immo-
C
H
N
S
Auctor
nio percentual
30-37
5168
7.65
16.03
1.13
37-44
50.48
7.78
15-50
0.98
Porges e Spiro (23 í
44-50
47,52
8.14
14.40
0.92
25-29
5US
7.56
16.19
128
30-36
5122
733
15.98
125
37-43
50.53
7.48
15.90
121
Kimura (22)
44-50
50,15
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Memórias do Instituto Butantan
Tomo VI
E’ compleíamente errada a separação da globulina em euglobulina e pseudo-
globulina de conformidade com a precipitação pelo sulfato de ammonio. Todas
as causas de erro na separação das globulinas e albuminas, de que adma já
tratámos mais detidamente, desempenham papel muito mais importante, porque
a dispersão da globulina é muito mais variavel do que a da albumina, pois a
globulina em si já é um corpo albuminoso bem mais labil do que a albumina.
Pelas minhas experiencias que, no tocante á precipitabilidade da albumina e da
globulina, foram feitas com differentes saes neutros e CH diverso (65), ficou
bem evidente que a globulina é muito mais sensível á variação do CH do que a
albumina, o que é indicio de que existe na solução uma verdadeira escala de
proporções da globulina.
A quantidade de globulina precipitada por uma certa concentração da solução
salina é, por conseguinte, muito mais determinada pelo acaso do que a separação
de albumina e globulina. A separação dos saes não constitue, pois, uma prova
para a diversidade da globulina e da albumina.
E’ muito mais convincente o argumento de a euglobulina ser insolúvel na
agua, ao passo que a pseudoglobulina, conforme se observa no quadro III,
possue uma conductibilidade que equivale quasi á da agua destillada. Electro-
dialysando-se uma solução de globulina precipitada com (NH 4 ) SO 4 saturada
a 50%, ella não se dissolve por completo, mas fica sempre uma parte do preci-
pitado de albumina que só se dissolve com o addicionamento de pequenas quan-
tidades de sal. Sou de opinião que é exacta a distineção das íraeções solúveis
e das não solúveis em agua, por ser a solubilidade uma propriedade caracte-
rística das ligações chimicas. O facto de na composição chimica e na activi-
dade óptica não terem sido encontradas differenças não pode ser considerado
um argumento tão importante que exclua a pluralidade dos dois corpos albu-
minosos, tanto mais quanto os resultados das determinações da actividade
óptica, como já ficou dito, são pouco seguros.
Segundo Hartley (66), também se póde dissolver a euglobulina na agua,
quando o soro houver sido extrahido pelo processo de Hardy e Gardiner (67).
Os resultados de Hartley, porem, não podem comprovar a solubilidade da euglo-
bulina na agua, pois não podemos considerar os corpos albuminosos assim prepa-
rados como naturaes. O processo consiste na precipitação dos corpos albumi-
nosos no soro por meio de álcool e ether, sendo o precipitado primeiramente
lavado com ether quente e depois seccado no vacuo sobre H*S0 4 . O fim destas
experiencias era originalmente a obtenção de corpos albuminosos livres de lipoi-
des. O corpo albuminoso precipitado com saes neutros adsorve uma parte dos
lipoides, os quacs, segundo diversos auctores [Mansíeld (68), Forssmann (69),
etc.], são muito difficeis de ser separados dos corpos albuminosos. Confir-
mou-se ainda que os lipoides são adsorvidos principalmente pelas globulinas.
Essa determinação — apesar de que nunca foi provado si as globulinas circu-
lantes no sangue adsorvem os lipoides ou não — fez com que alguns auctores,
Dionysio von Klobusitzky — Fracções albuminosos 291
como Sõrensen (70) e Hartley (66), considerassem as globulinas como com-
postos de corpos albuminosos e lipoides.
O passo seguinte seria examinar-se a parte precipitavel pela passagem da
corrente de CO*, a paraglobulina de Burckhardt, que forma uma parte do preci-
pitado de euglobulina. Sobre as propriedades physicas e physico-chimicas da
mesma não estamos ainda bem orientados, não me sendo, porisso, possivel dar
uma opinião sobre si este corpo albuminoso forma uma fracção unica, a
mais labil da euglobulina, ou si é um corpo albuminoso independente. E’ um
acido muito mais fraco do que a euglobulina, approximando-se também seu
ponto isoelectrico muito mais da reacção neutra do que o desta substancia. Esta
é a unica explicação razoavel do facto de até um acido tão fraco como o acido
carbomco lhe produzir a floculação. Seria de grande vantagem que se fizessem
experiendas mais aprofundadas sobre esse ponto.
Os dados de que hoje dispomos nos auctorizam apenas a considerar a euglo-
bulina, por ser insolúvel na agua, diversa da pseudoglobulina solúvel na agua.
A paraglobulina de Burckhardt — até prova contraria — só pode ser designada
como fracção da euglobulina.
O terceiro e ultimo problema é a questão da subdivisão da pseudoglobu-
lina. Sobre essa questão só temos a dizer que até hoje não ha prova nenhuma
que permita estabelecer-se definitivamente a pluralidade da globulina solúvel
na agua. Todos os argumentos apresentados a favor do grupamento da pseu-
doglobulina, como, p. ex., a alteração das differentes fracções nas moléstias
infectuosas, a distribuição diversa dos corpos immunes e anticorpos, etc., só
indicam uma modificação da dispersão, ou da homogeneidade da dispersão, mas
de maneira alguma a classificação chimica especifica. E’ de lamentar que só se
tenham feito muito poucas experiencias physico-chimicas sobre as fracções da
globulina precipitáveis em concentrações salinas diversas; essas, porém, como,
p. ex., no referido trabalho de Woodmann sobre a capacidade rotativa óptica ou
nas determinações de Rciner (71) relativas ao ponto isoelectrico, indicam todas o
contrario, isto é, a unidade da pseudoglobulina.
O enorme trabalho empregado na identificação deus corpos albuminosos do
soro só nos deram resultados positivos quanto á diversidade da globulina c da
albumina, contrariando, pois, o principio da transformação de um desses corpos
no outro. Em virtude dos resultados actuaes — si bem que pouco satisíactorios
— devemos considerar a pseudoglobulina e a euglobulina corpos albuminosos
differentes um do outro, mas a subdivisão tanto da pseudoglobulina como da
euglobulina em fracções chimicamente distinctas considero-a inexacta e desti-
tuída de fundamento. Com isto não quero, entretanto, dizer que a theoria do
grupamento mais minucioso seja de todo infundada e inútil, mas sou de opinião
que não se podem considerar as diversas fracções como globuiinas differentes
e independentes. Principalmente no isolamento dos corpos immunes o processo
do fraccionamento é utilíssimo, porque, segundo as experiencias praticas, os
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
corpos immunes são precipitados com as globulinas de proporções determinadas ;
assim, p. ex., esse methodo pode ser de grande utilidade e muito pratico na con-
centração dos corpos immunes. Não se deve, contudo, perder de vista que a
capacidade de adsorpção de um colloide depende prindpalmente da proporção de
suas particulas.
A ultima palavra na questão do fraccionamento das globulinas só pode
ser dita quando tivermos uma idéa precisa ao menos sobre o teor de acido
aminado de cada fracção.
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VI V|
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
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(Trabalho da Secção de Physico-Chlmica do Instituto
Butantan, terminado em março de 1931 e publicado
cm alemão in KoUoidchem-Beihefte XXXII (7-13) ;
382-403.1931).
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UM ELECTRO-ULTRAFILTRO MODIFICADO
POR
DIONYSIO vos- KLOBUSITZKY
542-67 : 621.332.9 : 612.393.12
UM ELECTRO-ULTRAFILTRO MODIFICADO
POR
DIONYSIO vox KLOBUSITZKY
A electro-ultrafiltração de Bechhold (H. Bechhold- «n Zschr. £. physik.
Qiemie LX:257.1907) que, como é sabido, dá rapida dialyse concentTando ao
mesmo tempo a solução, sendo, por isso, de grande utilidade num laboratorio
de chimica e de physico-chimica, tem para nós a desvantagem de ser feita com
apparelhos de porcellana Bechhold-Kõnig, somente fabricada na Alemanha. Isso
torna necessária a compra de peças sobresalentes ou, em caso de alguma que-
brar, a interrupção do trabalho por certo tempo. A primeira alternativa é muito
dispendiosa e a segunda atrapalha a pesquisa. Meu objectivo foi, portanto,
construir um clectro-ultra filtro com peças de uso e montagem fáceis.
Como orientação servi-me do electro-ultrafiltro de Bechhold, modelo grande,
com sucção numa só direcção. Usei como recipiente para a solução um cylindro
de vidro forte tendo um gargalo numa das extremidades. Este recipiente é
fechado com uma membrana de pergaminho amarrada por um barbante, afim
de evitar a entrada de agua, podendo-se, caso seja necessário, parafinar ou então
cobrir, com uma camada de uma mistura derretida de cera e colophonia, a
parte superior do pergaminho. No recipiente colloca-se uma vela de porcellana
de qualquer fabricante (*). Esta vela é toda vidrada com exccpção da parte
de baixo. E’ fechada com uma rolha de borracha contendo dois furos, num
dos quaes está ligado um dectrodo de platina, chegando ate o fundo e, no outro,
um tubo de vidro em forma de também chegando até o fundo. A parede
de baixo da vela é, como no recipiente de Bechhold-Kõnig, primeiramente embe-
bida numa solução a lOjb de collodio cm acido acético e depois endurecida c
lavada cm agua até desapparecercm todos os traços de acido. Assim ficam os
dois recipientes impermeáveis a colloides. Debaixo da membrana de perga-
(•) A* velai empregadas foram fabricadas e offerccidas a titulo de experiência pelo
»r. Ranzini (São Paulo), tendo cilas dado bons resultados. Assim, este Instituto só tem
a agradecer a gentileza desse industrial.
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Memórias do Instituto Butantan — Tomo VI
minho colloca-se um electrodo de prata; no recipiente de vidro, um agitador e
um thermometro, sendo todo o apparelho immerso numa vasilha contendo agua
destillada. Liga-se a uma corrente continua, no máximo de 110 Volts e 0,5
Ampères: o polo positivo, ao electrodo interno de platina; o polo negativo, ao
externo de prata. O tubo em forma de — 1 é ligado a uma trompa de agua. A
reacção do soluto que dialysa pode ser regulada pela intensidade da sucção
Quando o colloide contém electrolytos, precisa-se augmentar a distancia do ele-
ctrodo de prata á membrana de pergaminho, afim de evitar que aqueça e assim
coagule. No mais a manipulação, a especie de dialyse, a capacidade funccional
são iguaes ás do apparelho de Bechhold.
A montagem do apparelho pode ser vista no eschema annexo.
RESUMO
Descreve-se e figura-se um apparelho para electro-ultrafiltração, de uso e
montagem fáceis.
(Trabalho da Secção de Phyalco-chlmlca do Imtltuto
Butaotau, dezembro de 1931, a ler publicado em
lnglfi ln J. of Phyaícal Chemljtry XXXVI (U) .1932».