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MUSEU PAULISTA
PUBLICADA
POR
H. von IHERING, Dr. med. et phil.
Director do Museu Paulista, socio honorario da Sociedade anthropologica Italiana,
da Academia de sciencias em Cordoba,
da Sociedade geographica de Bremen, da Sociedade anthropologica de Berlim,
da Academia de sciencias em Philadelphia, da Sociedade dos Naturalistas
em Moscow, da Sociedade entomologica
“de Berlim, do Museu ethnologico em Leipzig e da Sociedade scientifica do Chile
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O MUSEU PAULISTA NO ANNO DE 1896
PELO
Dr. H. von Ihering
O primeiro volume desta Revista sahiu do prelo no
mez de Janeiro de 1896, razão porque só no corrente
anno apparece o segundo volume. Não pretendo repetir
o que consta dos relatorios que apresentei em principios
de 1896 e de 1897 ao Exm. Snr. Dr. Secretario do Inte-
rior. Aloumas explicações, porém, a respeito do serviço
no anno passado são necessarias aqui.
Entre as expedições que muito contribuiram para
augmentar as collecções do Museu merecem menção es-
pecial as do Snr. Beniamino Bicego à Bahia e a varios
lugares no interior deste Estado (Sorocaba, Cerqueira
Cezar perto de Botucatú, Itapetininga) e a do Snr. João
Zech ao Piquete á Serra da Mantiqueira. Alem disto fiz,
accompanhado dos preparadores Snrs. H. Pinder e B..
Bicego, uma excursão ao municipio de S. Sebastião e
à ilha do mesmo nome. Espero que, em beneficio do
Museu, seja possivel organisar na ilha de S. Sebastião
uma estação biologica, e tentei fazel-o por meus proprios
meios, não podendo, porem, realisar a compra de um
predio afim de installar a referida estação por motivos
independentes de minha vontade.
SAN
O canal situado entre esta encantadora ilha e o
municipio de S. Sebastião é extremamente apropriado
para tal fim. No presente volume o leitor encontrará o
summario dos resultados obtidos. Convem notar que a
exploração feita representa apenas um primeiro ensaio.
Um dos resultados mais sorprehendentes desta expe-
dição é a demonstração da existencia de numerosos gene-
ros e especies de animaes marinos conhecidos até agora
sómente no Norte do Brazil e nas Ilhas Antilhas. O mes-
mo resultado deu tambem o estudo das colleeções feitas
na costa da Bahia pelo Snr. Bicego. O numero de
typos das Antilhas é grande, e são na nossa collecção re-
presentadas numerosas especies cuja existencia nesta
região do Brazil até hoje não foi conhecido. Mas isto
pouco vale em vista do conhecimento insufficiente que
a sciencia tem actualmente dos animaes marinos da costa
do Brazil. Achamos ainda na nossa costa especies do
tamanho de um ovo de gallinha desconhecidas 4 scien-
cia (Mactra Iheringi Dall) e até especies que são vendi-
das como comida nos mercados, e nestas condições
facilmente se entenderá quantos resultados inesperados
ainda promette um exame mais minucioso da vida ani-
mal da nossa costa. Não quero, porem, afirmar que o
mesmo não poderá acontecer com outros grupos do reino
animal! Assim por exemplo dei a descripção do jahú, da
nosso maior peixe d'agua doce, que era até agora des-
conhecido ä sciencia.
Voltando ao assumpto da fauna do mar, observo que
as collecções feitas perto de Bahia são extremamente
ricas em coraes dos quaes na costa de S. Paulo existem
apenas tres especies. Mas já a 10-20 leguas ao Sul da
Bahia não encontrou-se mais a mesma riqueza em coraes
e conchas, faltando já as grandes especies de Cassis e
Triton.
Ao mesmo tempo que estudei as conchas marinas
de nossa costa occupei-me tambem das conchas terciarias
que na Patagonia (St. Cruz) forão colligidas pelo Snr.
Bayes ad
Carlos Ameghino e que o seu irmão, o illustre paleonto-
logista Florentino Ameghino me enviou. E” para estranhar
a riqueza destas camadas terciarias de St. Cruz em con-
chas fosseis, e se por dezenas neste volume tenho de
descrever as especies novas, cada exploração nova naquel-
la região dará mais outras fórmas novas para a sciencia.
Foi esta a razão porque neste anno mandei o Snr.
Bicego em excursão ao Rio da Prata, esperando que tan-
to em conchas recentes como em outras petrificadas ha
de trazer boas colleccôes. Não conheço nada de conchas
fosseis da: grande parte do littoral desde o Rio da Prata
até Bahia. Combinando, porem, os dados agora conhecidos
já posso até certo ponto reconstruir a historia antiga
desta parte da fauna do Brazil.
Assim este volume é aedicado em grande parte ao
estudo das conchas marinas do Brazil e das regiões ad-
jacentes da America do Sul. Espero que até certo ponto
posso considerar neste anno como concluido esta parte dos
meus estudos, de modo que nos volumes seguintes da
Revista posso tratar dos vertebrados do Estado de S.
Paulo. Desejo quanto mais. possivel dar a este periodico
o caracter de uma publicação de utilidade para todos que
se interessam pela exploração scientifica do paiz, mas se
espero que neste sentido parte dos artigos será de inte-
resse, não poderá assim acontecer com todos, visto que
esta publicação não é orgão de instrucçäo popular, mas
o archivo dos resultados obtidos na exploração scientifica
do Brazil pelo pessoal scientifico desta repartição e pelos
numerosos especialistas que para os seus estudos recebem
materiaes colligidos pelos empregados desta repartição.
Creio que não posso fechar de melhor modo esta pe-
quena introducção do que referindo aos principios emet-
tidos sobre a administração dos Museus pelo eminente
sabio Dr. Brown-Goode, cuja morte privou no anno pas-
sado a sciencia de um dos seus mais dignos e activos
“representantes e o Museu nacional dos Estados Unidos da
America do Norte do seu admiravel e inolvidavel director.
ST VE
E a Brown-Goode que estamos devendo a elaboração |
e codificação destes principios de administração, sendo no-
tavel a sua pequena obra «The principles of Museum
administration, York 1895.
Entre as maximas principaes da organisação e admi-
nistração dos Museus elle notou :
«Para que um Museu possa ser respeitavel e util,
deve ser occupado seguido de actividade aggressiva, seja
em educação seja em investigação ou em ambas. O Museu
que não segue uma politica aggressiva e que não está se-
guido augmentando e melhorando, não é capaz de ficar com
um pessoal competente e com certeza ha de cahir em
decadencia. »
Um Museu findo é um Museu morto, e um Roo é
morto é sem valor.
Alguns dos chamados Museus são pouco mais do que ar-
mazens cheiosdas materias com que os Museusse organisam.
Um dos primeiros e mais importantes assumptos é a
especificação do plano.
Os serviços effectivos que um: Museu poderá prestar
como meio de educação e de progresso da sciencia depen-
dem da organisação de uma collecção de estudo, cuja
administração ha de ser feita com principios differentes
daquelles que são determinantes para as collecções ex-
postas. Estas colleccôes de estudo deverão guardar-se em
laboratorios não accessiveis ao publico.
Museus pequenos não podem dedicar-se á especiali-
sação como os grandes, mas os principios decisivos são
os mesmos. É o dever de cada Museu ter materiaes sobre
salientes ao menos em uma especialidade, embora seja ella
limitada.
O Museu é mais intimamente em correlação com as
massas do povo como a universidade ou as sociedades
scientificas. O Museu publico é uma necessidade em qual-
quer communidade de civilisação progredida.»
Examinando nestas condições a organisação do Mu-
seu Paulista, verifica-se que corresponde perfeitamente ás
Aie FRE
regras e principios expostos. Provam-n'o quanto a instruc-
ção as 40.000 pessoas que durante o anno de 1896 visi-
taram o Museu e as modificações que tenho feito nas
collecções expostas, especialmente no sentido de serem
substituidos os exemplares velhos e feios por outros mais
bonitos. Enriqueceram bem estas collecções pela acquisi-
ção de numerosas especies representando a fauna do
Amazonas, adqueridas no corrente anno.
E agressivo como neste sentido tambem foi o traba-
lho no sentido da exploração scientifica do Estado e das
regiões limitrophes. Está bem definido o plano pela lei
que organisou o Museu, destinando-o a esclarecer a fauna,
o reino mineral, o homem do Brazil e sua historia. Estão
separadas as colleeções expostas das de estudo, sendo
o andar terreo destinado a estas e á administração, labo-
ratorios, bibliotheca, etc., e o primeiro andar ás collecções
expostas. Do trabalho scientifico é esta Revista que ha
de dar conta, e espero que o presente volume poderá
ser considerado neste sentido como util, contribuindo para
colligir materiaes dos quaes mais tarde será possivel
organisar um quadro exacto e completo do reino animal
do Estado.
Referindo-me ao volume primeiro desta Revista 0
estudo que mais attrahiu a attenção foi o que tratou da
archeologia do Brazil.
Quanto á parte archeologica ha um ponto só que me
contestaram: a minha these que o caximbo na America
“do Sul é objecto postcolombiano. Se alguns collegas no
Chile e na Republica Argentina neste sentido divergem
na sua opinião, não achei nada que justificasse este
modo de vêr. Não disse que o fumo e o uso de fumar
estivesse desconhecido no Brazil antes da descoberta da
America, mas apenas que não se usava de caximbos. Nem
pela litteratura antiga, nem pelas investigações archeo-
logicas conheço factos que provem o contrario. Em quanto
nos «mounds» de Marajo nem nossambaquis de nossa
costa forem encontrados caximbos, temos o direito de
LATE
considerar 0 caximbo como objecto de cultura postcolom-
biana, e se estes resultados obtidos no Brazil são exactos,
é de presumir que os factos nao sejam differentes nos
paizes limitrophes.
Objecçäo mais seria me foi feita quanto a minha
opinião, que os Goyands de Piratininga pertenceram á
raça tupy. Referindo-se a este assumpto o illustre Dr.
Capistrano de Abreu disse na Gazeta de Noticias de 2.
de Maio de 1896: «que o auctor discutindo se os Goyanás
pretencem ou não ao grupo tupy-guarany inclina se a
responder pelo affirmativo. Tal opinião não é porém de- |
fensavel.
Se precisassemos de outras testemunhas, alem do ac-
cordo unanime dos chronistas, teriamos o testemunho do
inglez Thomas Knivet que a partir de 1590 mais de uma
vez foi do Rio a S. Paulo, em bandeiras, a capturar in-
dios cuja lingua fallava. Knivet diz claramente que os
Goyanás não eram tupys. Em S. Paulo assegura-se 0
contrario por causa de umas historias inventadas por Fr.
Gaspar da Madre de Deus em que entram João Ramalho,
Martim Affonso e Tibiriça; taes historias são ridicula-
mente falsas, como já o demonstrou o nosso erudito
geographo Candido Mendes de Almeida. »
«Em geral parece-nos que o Dr. H. von lhering
estende muito longe a zona em que dominaram os Tupys.
Em S. Paulo e Rio Grande do Sul sem duvida elles
estavam muito alastrados pelo interior, mas no Paraná e
Santa Catharina só os encontramos na falda oriental da
Serra do mar. Segundo todas as probabilidades, os Coroa-
dos actuaes são os descendentes dos Goyanás. »
Quanto aos Coroados do Rio Grande do Sul, insisto
na exactidão das minhas informações e fui o primeiro
para informar sobre o parentesco da lingua delles. Obser-
vo-isto porque é summamente a lamentar que as informa-
ções redigidas pelo engenheiro P. 7. Affonso Mabilde e
publicadas pelo Dr. A. Graciano de Azambuja no seu
Annuario, Anno XIII de 1897, pag. 145-167, merecem
né CUS
pouca attençäo, embora que sem duvida ricas em obser-
vações exactas. Mas estas informações estão em grande
parte contradictorias entre si, fazendo a impressão de
communicações verbaes recebidas por diversas pessoas e
combinadas e registradas sem critica.
Não posso neste sentido acompanhar ao Sur. Capis-
trano de Abreu.
Os Coroados não são tribus de civilisação mais ou
menos elevada; percorrem as mattas como os Botocudos,
cuja lingua porem é differente.
A civilisação moderna e a catechese dos Coroados data
do meiado deste nosso seculo. Explica-se assim que elles
não fizerão papel na historia do paiz como os Goyanäs
de S. Paulo. Explica-se tambem assim que as denomina-
ções geographicas, zoologicas, botanicas, etc.,no Rio Grande
do Sul todas nos vem da lingua guarany-tupy. Não
obstante de serem os Coroados actualmente os unicos in-
dios que ainda vivem no Rio Grande do Sul não influiram
elles de modo algum nas denominações mencionadas,
sendo o nome do alto Uruguay: Goio - en a unica exce-
pção, ao menos que eu saiba.
Quanto aos Coroados do Estado do Paraná existe
valiosa litteratura para que chamou a minha attenção o
Snr. Visconde de Taunay.
Não pude obter o Catalogo de objectos da Exposição
de 1882 redigido pelo Dr. A. Emelindo de Leão, mas es-
tudei com grande interesse o artigo do Snr. Taunay in-
titulado: Alfredo d'Escragnolle Taunay «os indios cain-
gangs « (Coroados de Guarapuava) Revista do Instituto
Historico, vol. 51. 1888 supplem. p. 251 — 311.
O vocabulario está em regular harmonia com aquel-
les publicados por Hensel e por Martius. E interessante
a presença já observada por Martius de algumas palavras
de origem tupy neste idioma, que está tão differente das
linguas tupy-guarany. Está confirmado ali o que foi
observado tambem no Rio Grande do Sul, que os mortos
são enterrados, ficando elevado sobre a sepultura um
TO
aterro de 10 12 palmos de altura. Confirma-me isto na
minha opinião, que os (Goyanás eram da raça tupy,
enterrando os defuntos em igacabas. No lugar mesmo
da antiga povoação de Piratininga forão no anno passado
encontradas por occasiäo de trabalhos no antigo cemite-
rio do Braz varias igaçabas com tampas contendo ossos
humanos. Numa destas igaçabas achou-se o lindo prato
bem pintado por deseuhos lineares que agora está guar-
dado nas collecções do Museu. Como sabemos, que os
Coroados enterram de modo bem differente os defuntos,
parece-me fora de duvida que os Goyanás de Piratinin-
ga, já pela simples razão de terem usado igaçabas de
enterro, pertenciam aos povos tupy-guarany.
É, porem, tanto o respeito que ligo ao eminente sabio
do Rio de Janeiro que desejava vêr examinada por pessoa
de plena competencia novamente a questão. Dirigi-me
ao Dr. Theodoro de Sampaio, que teve a gentileza de cor-
res onder ao meu pedido, apresentando-me o estudo que
adeante é publicado. Se este meu distincto e competente
amigo nesta controversa está ao meu lado, o Dr. Capis-
trano de Abreu entretanto poderá vêr o appreço em que
temos os resultados de seus estudos.
E realmente de tanta importancia para nós aqui em
São Paulo de saber quem eram estes Goyanás de Pira-
tininga, que vale esclarecer afinal o assumpto.
Dous artigos de alto valor sobre os Coroados ou
Caingangs das Missões argentinas forão publicados nestes
ultimos annos por Juan B. Ambrosetti, sendo os respecti-
vos titulos: «Los indios Kaingangues de San Pedro
(Missiones). » « Revista del Jardim zoologico Tom. II, ent,
10, Buenos Ayres, 1895» e « Materiales para el estudio
de las linguas del grupo Kaingangue (Alto Paraná) »
Boletin de la Academia nacional de ciencias de Cordoba
Tomo. XIV p. 331 ss. Buenos Ayres, 1896. Acho ali men-
cionado mais um trabalho sobre os Caingangs por Tele-
maco B. Morosini Borba « Breve noticia sobre os indios
Caingangs, acompanhado de um pequeno vocabulario da
LD yaw
liugua dos mesmos indigenas e da dos Cayguás e Cha-
vantes ». Revista mensal da secção da Sociedade de
Geographia de Lisboa no Brasil. Tomo II. 1883 p. 20 ss.
O estudo de Ambrosetti é valiosissimo, dando tambem
boas illustrações referentes 4 figura, physionomia, cultura
etc. dos Caingangs. Ali acham-se exceilentes capitulos
sobre a vida destes indigenas e sobre a industria, caça,
pesca, familia, religião, etc.
E” certo, que sobre estes Caingangs, tanto do Paraná
como do Rio Grande do Sul e das Missões, temos agora
numerosos e excellentes trabalhos, mas infelizmente é
preciso confessar, que nenhum destes estudos esclareçou
e nem ensaiou de penetrar as trevas, que ainda nos
escondem a origem e o parentesco linguístico destes
indigenas.
Não posso deixar de referir-me nesta pequena intro-
ducção á perda que a sciencia entre nós teve de regis-
trar no anno passado pela morte do eminente mineralo-
gista Dr. H. Bauer. Esta Revista não pude de modo
melhor honrar a memoria do modesto e apaixonado
naturalista do que pelo artigo aqui publicado, que a
meu pedido me cfferecerão os meus distinctos collegas e
amigos Drs. O. Derby e E. Hussak.
Outra perda sensivel no pessoal activo dos naturalis-
tas dadas 4 exploração scientifica do paiz representa a
morte inesperada do notavel botanista Dr. P. Taubert,
que a 4 de Janeiro falleceu em Manaos. Dr. Taubert des-
de muitos annos estudava a flora do Brazile veiu afinal
realisar os seus desejos estudando na riquissima região
amazonica as riquezas desta vegetação luxuriante. O
Exm. Governador do Estado do Amazonas Dr. Filetó Pires
Ferreira, aproveitando se de tão rara e boa occasião, já
tinha-se assegurada para a exploração daquelle Estado
esta capacidade, quando a morte o prostrou. A ultima pu-
blicação do Dr. Taubert (Beitrige zur Kenntniss der
Flora des centralbrasilianischen Staates Goyaz. Englers
Botan. Jahrbücher, XXI. 1895 p. 402—457 taf. II und III)
DER Tr
refere ás collecções feitas por occasiao da exploração do
planalto central do Brazil pelo Snr. E. Ule. É a opinião
do Dr. Taubert como a dos seus collaboradores que raras
vezes apparecem collecções como esta do Snr. Ule, que
embora não muito grande forneceu uma riqueza
sorprehendente de especies novas e interessantes. Assim
estas expedições se dellas não resultou a execução da
projectada mudança da capital, ao menos pelos valiosos
Relatorios da Commissão exploradora contribuiram para
a exploração scientifica do paiz.
Progrediu regularmente no anno passado a organisa-
ção da Bibliotheca do Museu, merecendo menção especial
a acquisição da serie completa do periodico «Annals and
magazin of natural history» e a obra da expedição de
Castelnau. Ataram-se já numerosas relacções de troca de
publicações e com a mais viva gratidão temos de regis-
trar as vantagens que a Bibliotheca desta repartição
obteve pela munificencia liberal de numerosas Academias
e Sociedades scientificas. Dou no seguinte a lista dos
periodicos que recebemos.
EESC PES SS TV RPE TR
La) Re RE
REVISTAS E BOLETINS RECEBIDOS
para a bibliotheca do Museu.
Autun. — Bulletin de la Societé d'histoire naturelle.
Berlim. — Sitzungs-Berichte der Gesellschaft naturfor-
schender Freunde.
Buenos-Ayres. — Anales del Museo Nacional de Buenos-
Ayres.
Cambridge. — Bulletin of the Museum of Comparative
Zoology at Harvard College.
Caen. — Memoires de la Societé Linnéenne de Normandie.
» Bulletin de la Societé Linnéenne de Normandie.
Chicago. — Field Columbian Museum.
» — The Chicago Academy of Sciencies.
Cincinnati. — Journal of the Cincinnati Society of Natu-
ral History.
Cracovie. — Bulletin International de L’Académie des
Sciences de Cracovie.
Desmoines. (Jowa). — Jowa Academy of Science.
Dresden. — Mittheilungen aus dem Kgl. Zool. Museum
zu Dresden.
» Publicationem des Kgl. Etnograph. Museum
zu Dresden.
» Abhandlungen u. Berichte des Kgl. Zool. u.
Anthropol. Ethnogr. Museums.
OE Bees
Frankfurt a. M. — Berichte über die Senckenbergische
naturforschende Gesellschaft.
> Abhandlungen der Senckenbergischen
naturforschenden Gesellschaft.
Fortaleza. — Revista trimensal do Instituto do Ceará.
Genova. — Annali del Museo Civico di Storia Naturale di
Genova.
Giessen. — Oberhessische Gasellechntt fiir Natur und
Heilkunde.
Halle. — Nova Acta Academiae Caes. Leop. Carol.
Hamburg. — Jahrbuchder Hamburgischen wissenschaft-
lichen Anstalten.
» Mittheilungen aus dem Naturhistorischen
Museum in Hamburg. .
Kassel. — Abhandlungen u. Bericht des Vereins für
Naturkunde.
London. — Journal of the Proceedings of the Lee
Society.
La Plata. —Revista de la Faculdad de Agronomia y Ve-
terinaria.
» Revista do Mason de la Plata.
» Annales del Museo de la Plata.
Montreal. — Geological and Natural History Survey of
Canada.
Montevideo. — Annales del Museu Nacional.
Muenchen. — Sitzungs-Berichte der K. Akademie der Wis-
senschaften (math. phys. Klasse).
New York. — Transactions of the New York Academy of
Sciences.
Napoli. — Mittheilungen aus der Zool. Station zu Neapel.
Porto. — Annaes de Sciencias Naturaes publ. por Augusto
Nobre.
Paris. — Bulletin du Musée d'Histoire Naturelle.
Philadelphia. — Transactions of the Wagner Free Insti-
tute of Science.
» Proceedings of the Academy of Natural Sciences.
Pará. — Boletim do Museu Paraense.
a 1
PAR LE SA
Regensburg. — Berichte des naturwissenschaftlichen
Vereines.
Rio de Janeiro. — Archivos do Museu Nacional.
» Annaes da Bibliotheca Nacional.
» Revista Pedagogica.
» Revista Brazileira.
Stuttgart. — Mittheilungen aus dem Kôüniglichen Natu-
ralien - Cabinet.
. Santiago. — Actes de la Societé Scientifique du Chili.
S. Paulo. — Revista do Instituto Historico e Geographico.
» Revista do Jardim da Infancia.
Sydney. — Records of the Australian Museum.
Torino. — Bolletino dei Musei di Zoologia ed Anatomia
comparata della Universita.
Topeka. — Transactions of the Kansas academy of Science.
Trencsin. — Evkinyve. Jahresheft des Naturwissenschaft-
lichen Vereins des Trencsiner comitates.
Tokyo. — The Zoological Magazine, Organ of the Zoologi-
cal Society of Tokyo.
Washington. — Proceedings of the Biological Society of
Washington.
Washington. — Smithsonian Report (U. S. National Mu-
seum.) 2.º part.
Washington. — Annual Report of the Bureau of Ethno-
logy by. J. W. Powell.
» Annual Report of the U.S. Geological
survey by J. W. Powell.
Wellington. — Transactions and proceedings of the New
Zealand Institute.
Wien. — Verhandlungen der K. K. Zoologisch - botanischen
Gesellschaft.
DR. HENRIQUE BAUER
ngenheiro de Minas e Socio correspondente des
14
E
rp
3
o
Naturwissenschaftlichen Vereins zu Regensburo
Peet Le AE
HENRIQUE E. BAUER
Engenheiro de Minas e socio correspondente des Naturwissen-
schaftlichen Vereins zu Regensburg
Pelos Drs. Orville A. Derby e E. Hussak
Amigo e apreciador do engenheiro Henrique Bauer,
cujo fallecimento foi noticiado no Zstado de hoje peço
espaço nas suas hospitaleiras columnas para communi-
car os poucos dados que tenho podido colligir sobre a
vida deste verdadeiro sabio e prestimoso amigo do Brazil,
e especialmente do Estado de S. Paulo, com o qual se
achava ligado por uma residencia de longos annos cheios
de valiosos e variados serviços e mais pelos laços do
casamento numa das mais distinctas familias do Valle da
Ribeira.
Henrique Ernesto Bauer, de origem bavara, formado
na Escola de Minas de Carlsruhe, contava cerca de ses-
senta annos de idade, passados, pela mór parte depois da
sua formatura, no Sul do Estado de S. Paulo, depois de
(*) O primeiro dos dous seguintes artigos foi publicado pelo Dr.
Orville A. Derby, chefe da Commissão Geographica e Geologica do
Estado de S. Paulo, em 14 de Março de 1896 e o segundo pelo Dr. E
Hussak no periodico: Berichte des naturwissenschaftlichen Vereins
zu Regensburg vol. V. pelos annos de 1894/95. Regensburg 1896
pag. 264 — 266.
Revista do Museu Paulista 2
ay NE 2
haver exercido durante alguns annos, a sua profissão
nos Estados Unidos da America do Norte. Vindo ao Bra-
zil ha mais de 30 annos, elle se estabeleceu no Valle da
Ribeira onde se casou com uma distincta senhora brazi-
leira, dedicando-se aos trabalhos da sua profissäo e da
lavoura e, nas horas vagas, ao estudo da região da
Ribeira de Iguape, debaixo de todos os pontos de vista.
Os seus mais importantes trabalhos profissionaes na ex-
ploração das minas de Iporanga e Jacupiranga € nos es-
tudos da estrada de ferro projectada pelo fallecido com-
mendador Vergueiro, já foram mencionados nas columnas
do Estado. Estes e a mediação de grande numero de
fazendas lhe deram ensejo de conhecer minuciosamente
a região, formando elementos para a elaboração de um
mappa inedito de toda a bacia da Ribeira.
Este mappa quasi exclusivamente bascado sobre as
observações do proprio auctor, é indubitavelmente o me:
lhor que existe de qualquer parte do territorio do Estado
de S. Paulo (sendo que aquella região é uma das mais
despovoadas e dificeis para tal genero de trabalho), ex-
cepto os trabalhos propriamente geodesicos feitos, 4 custa
dos cofres publicos, pela Commissão Geographica e
Geologica.
Além dos seus estudos geographicos, o dr. Bauer
occupou-se tambem com a meteorologia, fauna e flora e
mais especialmente com a geologia e mineralogia da re-
2140, communicando com o maior desinteresse as suas
valiosas collecções e observações a quem quer que lhe
fosse pedir. O seu estudo predilecto era a geologia e a
mineralogia e este foi seguido debaixo de condições que
teriam desanimado a quem não fosse dotado de paciencia,
versatilidade e habilidade mechanicas verdadeiramente
excepcionaes.
Isolado no meio das mattas espessas da Ribeira, fal-
tando-lhe quasi todos os elementos reputados necessarios
para taes estudos, e sem meios pecuniarios para os
comprar, elle proprio fabricava o que lhe faltava. Causa-
PRO
a
va verdadeiro assombro vêr-se, em sua casa (que fazia
parte de um pequeno grupo de choupanas á margem
da Ribeira), um bem montado laboratorio chimico provi-
do de apparelhos delicados, em grande parte fabricados por
elle mesmo ao lado de uma forja em que com a ma-
ior boa vontade concertava as armas e os rudes ins-
trumentos de lavoura dos seus visinhos.
Habil microscopista, logo que teve noticia dos
novos processos de petrographia microscopica, modificou
o seu microscopio para os seguir, sendo o primeiro no
Brazil, e talvez na America do Sul a iniciar este poderoso
meio de investigação. Vivendo numa região verdadeira-
mente phenomenal pela variedade e novidade dos seus
typos rochosos, elle se tornou logo mestre no assumpto,
fazendo as mais valiosas contribuições á Comissão
Geographica e Geologica do Estado, e aos petrographos
da Europa, como attestam as frequentes e honrosas re-
ferencias ao seu nome no grande tratado de petrographia
do professor H. Rosenbusch, de Heidelberg. Trabalhador
modestissimo, preferia communicar as suas mais ra-
ras amostras e mais valiosas observações a outros a fazer
figura com ellas. Assim de muito que poderia ter escripto,
só se conhecem tres despretenciosos mas valiosissimos
trabalhos communicados á Sociedade dos Naturalistas de
Regensburg, seu districto natal, e publicados na respecti-
va revista.
Ultimamente o dr. Bauer se occupava e com resulta-
dos assaz promettedores, com o estudo dos elementos
raros, no intuito de descobrir reacções caracteristicas e
simples que sirvam para o seu reconhecimento, o que é
um dos grandes desideratums da analyse mineral. A
coragem e paciencia com que este homem sem pretenções
a chimico, no meio das mattas do Iporanga, em labora-
torio do seu proprio fabrico e provavelmente sem soalho
se atirava a um problema que é o terror dos bens provi-
dos laboratorios do extrangeiro, é um dos traços mais
salientes do seu caracter,
BANC IAE
Pessoalmente o dr. Bauer era de uma modestia extre-
ma; era affavel e, até, jovial, mas com um gosto pronun-
ciado para a solidäo. Na Ribeira de Iguape era elle uma
especie de «pioneer», fugindo sempre das povoações e
indo se estabelecer e plantar a sua pequena roça no meio
do deserto. Logo que lhe appareciam uma duzia de vi-
zinhos, elle, apezar de não ser misanthropo, já cuidava
em mudar-se para mais longe. A” noite, depois dos labo-
res pesados da roca ou oficina, elle, a mulher e os vizin-
hos que vinham palestrar se occupavam em preparar
laminas microscopicas de rochas, e assim davam occupa-
ção ás mãos sem interromper a conversa.
De uma honradez a toda prova e completamente
destituído da ambição do dinheiro, vivia mui parcamente,
e morreu pobre, quando podia quasi sem esforço ter ac-
cumulado uma bella fortuna.
Para a Commissão Geographica e Geologica foi o
dr. Bauer o mais prestimoso coadjuctor, tanto na secção
geologica como na geographica e meteorologica.
Nelle perdeu o Estado de S. Paulo é o Brazil um dos
seus mais dedicados amigos e um dos mais habeis e
versateis investigadores.
ORvILLE A. DERBY
À 21 de Fevereiro deste anno falleceu repentinamente
em Xiririca, pequena cidade 4 margem do rio Ribeira, no
Estado de Sao Paulo (Brazil), na edade de 56 annos,
o engenheiro Heinrich E. Bauer, notavel investigador
da geographia e geologia da parte meridional do
Estado de S. Paulo. Estabelecido por mais de 30 annos
no valle da Ribeira, era elle um verdadeiro pioneer da
sciencia, para honra de sua antiga e amada patria e
proveito de sua patria nova, o Brazil.
Henrique E. Bauer era natural da Baviera, nascido
em Erlhammer perto de Kemnath. Depois de se occupar
ar
por algum tempo em um alto forno (Maxhütte) da Ba-
viera emigrou, com a edade de cerca de trinta annos, para
a America do Norte onde residiu apenas alguns annos.
Passando para o Brazil, estabeleceu-se em Jaguary
no valle da Ribeira, casando-se com uma brazileira, filha
de uma das principaes familias de Apiahy; n'esta peque-
na povoação, que constava de uma duzia de pequenos
ranchos, viveu segregado do mundo, porém feliz, dedi-
cando todo o seu tempo livre a estudos scientificos.
Os seus mais importantes trabalhos n'esta região são:
«Os estudos da mina de ferro de Jacupiranga» e « da
galena argentifera de Yporanga », onde elle depois se
estabeleceu; «Estudos e projecto de uma estrada de ferro
de Ytú a Iguape por Juquiá e a elaboração de um «map-
pa geographico da bacia da Ribeira», trabalho este que
só elle estava habilitado a fazer com certo grau de correc-
ção, por ter durante muitos annos viajado e feito medi-
ções nesta região ainda quasi completamente coberta da
matta virgem.
Além disto, deve-se muito a H. E. Bauer no que diz
respeito ao conhecimento da fauna e flora desta região,
sendo elle um incansavel colleccionador; o seu estudo
predilecto, porém, era a mineralogia e a geologia, e a
Commissão Geologica do Estado de São Paulo perde n'elle
o seu mais activo e seguro collaborador e seu mais
verdadeiro amigo.
Assim ficaram conhecidas pelas investigações de
Bauer sobre as jazidas de ferro magnetico Jacupiranga,
as interessantes rochas do grupo dos nepheline-syenitos,
uma serie de typos novos, e a elle deve tambem o autor
destas linhas o material dos seus estudos mineralogicos
deste districto.
O professor Rosenbusch na terceira edição recente-
mente: publicada da sua « Physiographie der massigen
Gesteine» cita muitas vezes o nome H. E. Bauer como
remettente, e sem esta cooperação não lhe teria sido pos-
sivel dar um estudo tão completo sobre as referidas rochas
ayy NR
nephelinicas. Finalmente devo mencionar que Bauer tinha
feito frequentes remessas de mineraes e insectos para a
sociedade de historia natural em Regensburg da qual era
socio correspondente, tendo tambem enriquecido o jornal
da mesma com tres valiosas contribuições sobre a geo-
logia do valle da Ribeira.
Casa de moradia do Dr. E. Bauer em Jurumirim
Nos ultimos tempos Bauer, que era excellente chi-
mico e, como antigo metallurgista, muito perito com o
macerico, occupava-se com o estudo do comportamento
na perola do macerico dos elementos raros, como cerio,
didymio, lanthano, etc. em continuação das velhas inves-
tigações de G. Rose e Wunder, chegando a resultados
muito interessantes; infelizmente, porém, a morte O sor-
prehendeu no meio destes estudos.
Pessoalmente era Bauer um dos homens mais ama-
veis e modestos, com uma disposição pronunciada para 0
isolamento, sem, comtudo, ser de modo algum misan-
thropo.
Da pequena povoação de Jaguary retirvu-se rio acima
para Jurumirim, onde construiu uma casinha que estava
estas va
completamente isolada e apenas algumas milhas distan-
te do vizinho mais proximo.
Mesmo o offerecimento de uma boa collocação não
bastaria para o attrahir 4 cidade para ser, como elle
dizia, « um criado do governo »; preferia viver sósinho,
_ porém activo na sua pequena roça, e morrer pobre bem
que podesse, sem grande esforço, ter enriquecido.
O Brazil e especialmente o Estado de São Paulo, perde
em H. E. Bauer um dos seus mais activos e habilitados
investigadores, assim como a Commissão Geologica do
dito Estado (da qual é membro o auctor destas linhas)
e a sociedade scientifica de Regensburg: perdem e choram
n'elle um dos seus mais zelosos collaboradores e um dos
seus mais leaes amigos.
Meram, 2 de Maio de 1896.
EK. Hussak
São os seguintes os titulos dos trabalhos publicados
p r Z. Bauer no periodico « Berichte des Naturmissenschaft-
lichen Vereines zu Regensburg ».
No vol. II. 1890 p. 22 — 40. «Mineralogische und
petrographische Nachrichten aus dem Thale der Ribeira
de Iguape in Südbrasilien. I. O artigo é acompanhado de
figuras e de um mappa da regiäo da Ribeira contendo
indicações da distribuição geographica das pedras de cal,
marmore e pyroxenite.
No vol. III. 1892 p. 25 —35. Segunda parte do mes-
mo estudo. No vol. IV. 1894 p. 64—82 a terceira e ulti-
ma parte do mesmo trabalho, acompanhado do mappa
das cabeceiras do Rio Ribeira com as indicaçõos da altu-
ra sobre o mar e da distribuição de granito, schistos,
cal e grés.
Existe tambem uma edição deste estudo em portu-
guez, mas infelizmente não o pude obter nesta occasião.
ER le
Os peixes da costa do mar
no Estado do Rio Grande do Sul
pelo Dr. H. von Ihering
A respeito dos peixes de nossa costa maritima até a
presente nada se tem escripto. Fui o primeiro que se
occupou com elles; mas ainda nao publiquei resultado al-
gum dos meus estudos. No anno de 1884 morei na
cidade do Rio Grande do Sul e durante esse tempo estu-
dei os peixes daquelle lugar, fornecendo-me para isso
muitos auxilios a abundante pescaria que lá se faz. Na
lista que se segue omitti todos os peixes que nao pude
classificar com rigor scientifico. Tendo sido minhas clas-
sificações examinadas no museo Britannico (British Mu-
scum) e corrigidas em parte (pelo que sou muito grato
(1) Este artigo foi publicado no Koseritz Deutscher Volkskalen-
der para o anno de 1893, e foi agora revisto, correcto e augmen-
tado pelo seu illustrado auctor expressamente para apparecer no
Annuario. Devemos sua traducção á obsequiosidade do Revm. Pa-
dre Sr. Lucas A. Hensel. A ambos agradecemos os serviços presta-
dos a este livro. No anno seguinte publicaremos outro artigo do
mesmo auctor sobre Os peixes de agua doce em nosso Estado.
(Nota da Redacção do Annuario do Estado de Rio Grande do
Sul para o anno de 1897 publicado por Graciano A. de Azambuja,
Porto Alegre 1896).
NO o EE
aos Srs. Dr. Günther e Boulenger) devem ser reputadas
certas.
Aquelles que se interessam pela pesca em nosso
Estado recommendo a leitura de um artigo que escrevi
sobre a Lagda dos Patos e do qual reproduzo aqui al-
gumas cousas essenciaes. Para uma descripção minuciosa
de todas as especies falta-me espaço, mas julgo que in-
dicando os nomes populares, os nomes scientificos, como
tambem as familias respectivas e outras breves noticias,
poderão obter as informações indispensaveis os que se :
quizerem dedicar ao assumpto. Assim dizendo penso prin-
cipalmente uas pessoas que durante o verão passam al-
gumas semanas nas praias de banhos em Tramandahy,
Cidreira etc. e que bem poderiam empregar as muitas
horas de ocio no estudo dos peixes da costa do mar. Tal-
vez haja por lá varias especies que não são encontradas ou
pescadas no Rio Grande. O estado do Rio Grande do Sul
como região de limite zoologico, offerece neste assumpto
grande interesse, e nada se sabendo, infelizmente, dos
peixes maritimos de Santa Catharina, todos os dados so-
bre a fauna de nossa costa ganham, por isso mesmo,
importancia. Para se colleccionarem specimens de nossos
peixes será preciso unicamente levar para as praias de
banhos alguns cantaros de barro com tampos que fechem
bem, ou vidros de bocca larga, uns maiores, outros me-
nores, porquanto aguardente acha-se em toda a parte.
Lavam-se os peixes, faz-se-lhes uma incisão no ventre e
poem-se-os n'um vidro cheio de aguardente. Após2 ou 3
dias será bom tiral-os deste e collocal-os, envoltos em pan-
no ou papel, seguro com um pouco de linha (mas sem pres-
são) em um outro vidro com aguardente limpa, onde são
conservados. Quando neste ultimo vidro a aguardente já
está bem impregnada, póde ser renovada, passando-se
para um dos primeiros frascos ou sendo despresada, se
ja está corrompida.
Antes de regressar aos seus lares os colleccionadores
devem ter o cuidado de empacotar bem os peixes de
fe: “op A
sorte que fiquem immoveis dentro dos vidros, enchendo-
se OS espaços vasios nestes com papel ou pedaços de panno,
e segurando a tampa dos frascos com um pedaco de be-
xiga de gado vaccum. Depois envolvem-se os vidros em
pannos ou papeis e sao encaixotados com palha. Os no-
mes communs dos peixes podem ser escriptos n'um pe-
daço de papel que se colloca na bocca do peixe, podendo-
se tambem escrever somente um numero, acerca do qual
se tomarao apontamentos em um quaderninho de regis-
tro. Por este modo as semanas de repouso e recreio se-
riam muito utilmente empregadas com uma distracção
proveitosa para a sciencia. As despezas não são grandes
e eu com muito prazer as reembolsaria a qualquer collec-
cionador que me enviasse os specimens. Carangueijos
tambem se podem conservar na aguardente, sendo util
guardar as cascas de mariscos e caracóes (caramujos),
algumas das quaes podem pôr-se em aguardente.
Convém notar que a collecta de cascas de mariscos
e caracóes, principalmente das pequenas, ha de fazer des-
cobrir muitos animaesinhos de nossa costa, desconheci-
dos até agora, pois, à excepção de mim, ninguem ainda
os colleccionou, e eu estive sómente na cidade do Rio
Grande.
Com difficuldade se póde suppôr que as 40 especies
por mim colleccionadas representem a maior parte dos
peixes da nossa costa. As circumstancias na cidade do
Rio Grande são particulares. Peixes puramente mariti-
mos apparecem dentro da Barra e junto ao porto do Rio
Grande sómente quando a agua do mar entra muito no
Canal do Norte; pois acontece que a Lagôa dos Patos
fica salgada sómente até Mostardas e ás proximidades
da foz do Camaquam. Então, estando-se em um bote vê-se
perfeitamente o fundo atravez da agua transparente,
emquanto n'outras occasides a agua não é transparente
além da profundeza de dous a tres pés. Em geral o in-
verno e a primavera são aqui o tempo das chuvas e das
enchentes e então a Lagoa corre, e pelo Canal do Norte
RES per
a agua passa Com ruido como em um rio, levando fre-
quentemente ilhas de aguapé (Pontederias). Tambem,
peixes de agua doce são muitas vezes levados pela cor-
renteza e com o aguapé, e morrem logo que entram em
agua meio salgada, perto do Rio Grande. Em taes occa-
sides tenho achado mortos na praia de S. José do Norte
numerosas trahiras e outros peixes de agua doce, em-
quanto que no caso de ficar salgada a Lagôa dos Patos
os peixes de agua doce principiam por ficar tontos e
depois morrem. Só poucos peixes supportam as mudanças
de agua doce para a salgada; o mesmo acontece aos outros
animaes e tambem ás plantas. Por isso a Lagôa dos Pa-
tos e da mesma forma a Lagôa Mirim em grande parte
não tem quasi vida animal e vegetal. Sómente um pe-
queno marisco Azara labiata M. acha-se em todos os pon-
tos destas lagõas, mas não em grande numero. Perto do
Rio Grande do Sul vive na lama ainda um outro ma-
risco (Solecurtus platensis) e nos conjunctos de algas ver-
des ou de conservas do Sacco da Mangueira um caracol ex-
tremamente pequeno (Hydrobia australis). Ajuntando-se
a estes ainda o carangueijo Siri (Neptunus diacanthus
Latr.), como tambem um pequeno numero de peixes,
tem se quasi tudo o que possue em vida animal
constante esta região tão pobremente dotada pela na-
tureza.
Quando a Lagôa fica muito salgada, animaes mari-
nhos penetram em grande parte della; então tem-se em suas
aguas, mesmo nas embocaduras dos rios, a mais esplen-
dida phosphorescencia do mar e as ondas lançam gran-
des quantidades de Ctenophoros nas ilhas da foz do Ca-
maquam. Outras vezes dá-se o contrario. Nas margens da
grande enseada perto do Rio Grande, conhecida por Sacco
da Mangueira, achei na primavera em pura agua doce
as ras desovando e numerosos gyrinos de sapos, e alguns
mezes mais tarde vi no mesmo lugar o cação (mustelus)
perseguindo em pura agua do mar o carangueijo Cata-
nhão (Helice granulata Doana).
————— =
Me Vo E;
Com tudo näo ha aqui uma fauna propria da agua
salobra : sómente a Azara póde-se, talvez, contar nesta
classe, pois que 0 outro marisco mencionado acha-se tam-
bem no mar, e 0 pequeno caracol tambem na agua doce.
O mesmo se dá com os peixes. Segundo as observações
aqui feitas poder-se-hia dizer: Nao ha especie alguma de
peixes de agua salobra, existindo sómente uma quanti:
dade de peixes marinhos e peixes de agua doce, que ou
não sentem ou sentem só muito pouco a mudança na
quantidade do sal da agua. Os peixes de agua doce que
apanhei no Camaquam e em outros lugares en. agua
meio salobra e perto do Rio Grande, no Sacco da Man-
gueira são :
Acara faceta Jen.
Girardinus Lheringii Boul.
Jenynsia lineata Jen.
Hemmigrammus Luetkent Boul.
A ultima especie, da qual infelizmente já não pos-
suo mais exemplares e que sómente lá apanhei, eu conside-
rei como Chirodon (interruptus Jen.) ao passo que Boulen-
ger a classificou entre os Tetraganopteros ; mas penso que
sem razão. Já pela linha lateral não continuada, porém in-
terrompida no meio, este peixe se distingue de todos os
Tetraganopteros. Cope creou para este peixe e outros pa-
recidos o genero Hemigrammus, modo de ver que acceito.
Os peixes maritimos que entram tambem em agua
doce, por exemplo, na embocadura do rio Camaquam e
mesmo no Guahyba são os seguintes :
Micropogon furniert Desm. (Corvina),
Pogonias Cromis L. (Burriquete),
Mugil platanus Günth. (Tainha),
Tachisurus barbus Lac. (Bagre).
A estes provavelmente ainda hao de pertencer as
especies de Achirus (linguado) por mim mencionadas. Se
AIT: dE
alguem apanhasse peixes desta denominaçäo nos rios do
Estado, eu ficaria muito grato pela remessa que me
fosse feita de alguns exemplares. Dizem que se apanha
ás vezes na foz de Camaquam o Pseudorhombus voraz,
c linguado, que de facto uma vez aqui recebi. Se no Sacco
da Mangueira ou num outro lugar perto do Rio Grande
se formassem sedimentos, nestes, junto aos peixes mari-
nhos e de agua salobra, se achariam tambem peixes d'agua
doce mortos, trazidos pelas correntezas. Por isso a con-
clusão, de que tudo que se encontra em estado fossil
em uma camada tambem viveu junto, é completamente
falsa. O que aqui podemos observar é por esta razão um
exemplo instructivo para a questão tratada por Giinther
(Handb. pag. 139). Como norma para julgar de condi-
ções biocenoticas podemos tomar sómente os animaes
viventes e neste ponto as condições do Rio (Grande são
dignas de especial consideração.
Os conchylios a este respeito offerecem em geral
menos facilmente occasião de duvida; comtudo é preciso
ter em lembrança que nas ilhas de puntederias (aguapé)
tambem se transporta toda uma fauna que lhes é pro-
pria, como por exemplo especies de Ampullaria, Limnaea,
Planorbis. A existencia de Unionidas, todavia, sempre
havia de revelar a agua doce. Do grande numero e das
enormes dimensões, em que as ilhas de pontederias vem
rio abaixo em cada enchente, não tem idéa exacta quem
as não viu.
Os peixes costeiros formam para a população da cos-
ta uma boa fonte de ganho, mas as condições de nosso
littoral, inhospito e falta de portos, faz com que sómente
possa ser explorada a industria da pescaria nos lugares
em que as aguas interiores se communicam com o mar,
e portanto no Rio Grande, na Cidreira cem Tramandahy.
Não sei com certeza para onde os pescadores destas duas
ultimas localidades vendem os seus productos: prova-
velmente vendem a maior parte para o interior do Estado.
Sómente merece consideração para a exportação a pes-
Let) APS
caria de Rio Grande onde ha varias casas de negocio que
compram ou mandam pescar peixes e os salgam e seccam.
Sobre os productos, os systemas de preparal-os e a
maneira de pescar veja-se o meu artigo sobre o Lagôa
dos Patos. Delle transcrevo aqui sómente a seguinte
passagem :
« E’ muito difficil determinar a importancia da ex-
portação dos productos da pescaria; pois não existe uma
estatistica exacta do respectivo commercio. Apezar disto,
das publiccades sobre a exportação do Rio Grande feitas
por um jornal desta cidade O Commercial, pude organi-
sar a seguinte tabella relativa ao anno de 1881:
Exportaram-se do Rio Grande nesse anno:
Tainhas salgadas . . . . . 22.198 peixes
Barris com tainhas ... 1.778 barris
BaQves a de DA E OSU. peixes
Barrisacom peixes. .0 00. 0.679 barris
Fées Celt com peixes 689 feixes
Pao nd e En RS 2 89 arrobas
Peimectcaleados, Ds . 215790 speixes
Toners com camarões .:: 4... 269 toneis.
Por esta tabella não se póde determinar com exac-
tidão a porção das diversas especies de peixes. A quan-
tidade indicada de miraguayas fica muito abaixo da real;
mas isto sem duvida provém do facto dellas estarem in-
cluidas nas rubricas peixes em feixes, saccos, etc.
A maior parte dos peixes salgados deve, talvez, com-
pôr-se de bagres, ao passo que os barris com peixes con-
tinham provavelmente em sua maioria tainhas, corvinas
e outros. Dos annos seguintes faltam-me completamente
os dados de alguns mezes, assim como tambem os de
1881 certamente não foram computados exactamente,
isto é, são inferiores á realidade. Combinando, porém, de
um lado todo o material respectivo, e de outro lado as
informações dos exportadores, fiz a seguinte tabella
DEC? ru
que exprime approximadamente as quantidades e os va-
lores dos productos da pesca exportados do Rio Grande:
Tainhas salgadas 40.000 (a 10$000 o cento) . 4:000$ rs,
Barris com tainhas 1.500 (a 15$000 o barril) . 22:500$ »
Bagres. . . . 80.000 (a 10$000 o cento) . 8:000$ »
Miraguayas, arrob. 1.000 (a 3$000 a arroba) . 3:008$ »
Preijereva, corvina etc. 4:500$ »
Camarões, barris 500 (a 125000 o barril) . 6:000$ »
Ichthyocolla de bagre, arrob.1.000 (a 128 a arr.) . 12:000$ »
Sob o nome de Preyereva etc. reuno os artigos ven-
didos em porções menores, como, por exemplo, tambem
caviar da tainha (ovas) azeite de bagre, etc. O valor to-
tal dos productos da pesca que são exportados será as-
sim approximadamente de 60 contos de réis.
Nao ha duvida de que a industria da pesca no Rio
Grande póde crescer ainda consideravelmente. Comquanto
por causa das circumstancias a exportação de peixes
salgados e seccos do Rio Grande ainda não tenha outro
mercado além do Norte do Brazil, ha entre esses produ-
ctos não poucos artigos que depressa poderiam conquistar
um lugar no mercado internacional, e seria muito util
aos interesses da população da costa do Brazil que o
Governo Brazileiro para promover a sua prosperidade, se
resolvesse a prestar a attenção devida ás pescarias ma-
ritimas, ainda tão pouco estudadas no Brazil e nas ou-
tras partes da America Meridional. Principalmente as
tainhas e os linguados, como tambem os camarões, po-
dem tornar-se algum dia importantes para a exportação
transatlantica. O unico producto que já se exporta bem e
ainda acharia compradores para qualquer quantidade
maior é a bexiga de bagre, apezar de que ella, compa-
rada com a ichthycolla curopéa, representa por cmquanto
um producto de valor muito inferior. »
No que aqui se segue dou a lista dos peixes até
agora por mim estudados no Rio Grande. Especies que
|
|
L
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POS CS
nao pude classificar mais exactamente como 0 peixe voa-
dor (Hxocoetus sp.) e outros são omittidas, esperando po-
der obter mais tarde exemplares melhores.
Sobre a litteratura pouco tenho que dizer, pois, 4
excepção do meu tratado da Lagoa dos Patos, nada se
publicou até agora acerca dos peixes da costa deste Estado.
Na seguinte exposiçäo refiro-me aos trabalhos de:
Carlos and Rosa Eigenmann. A catalogue of the fresh
water fishes of South America. Proceed. of the U. S. Na-
tional Museum, Smithsonian Institution. Vol. 14, pg. 1—81
Washington, 1870.
A. Guenther, Catalogue of fishes, Vol. 1— 8. London.
1859—0781.
A. Guenther. An introduction to the study of fishes.
Edinburgh. 1880, tambem em allemäo sob o titulo:
A. Guenther. Handbuch der Ichthyologie. Wien, 1886.
A. Guenther A contribution tothe knowledge of the
fishfauna of the Rio de La Plata. Ann. of Nat. History
(5) vol. 6, p. 7—13.
(Infelizmente conheço este pequeno trabalho impor-
tantissimo sómente pelo relatorio annual).
R. Hensel. Beiträge zur Kenntniss der Wirbelthiere
Südbrasiliens. Archiv f. Naturgeschichte. Bd. 34, 1868,
p. 356 —375, como tambem Bd. 36, 1870, vag. 50—91 (a
classificação dos dous unicos peixes marinhos menciona-
dos neste trabalho está errada).
H. von Ihering. Die Lagoa dos Patos. Deutsche Geo-
eraphische Blätter (Geograph. Gesell. Bremen). Bd. 8, 1885,
p. 164—205, Taf. III.
H. von Ihering. Ueber Brutpflege und Entwicklung des
Bagre (Arius commersonti) Biologisches Central V. Blatt.
Bd. VIII. 1888, p. 268 —271.
D. Jordan & Ch. Gilbert. Synopsis of the fishes of
North America. Washington. 1882.
G. Pfeffer. Die niedere Thierwelt des antarktischen
Ufergebietes. Ergebnisse der Deutschen Polar-Expeditio-
nen. Allgem. Theil. Bd. II, 17, p. 1—120.
Revista do Museu Paulista
CO
Ef A
A. Plagiostomata (peixes cartilaginosos).
Fam. Carcharudae
1) Carcharias terrae novae Rich.
TUBARÃO.
Guenther, Catal. VIII, p. 360.
Jordan. Synopsis, p. 24 (Scoliodon terrae novae).
Este tubarão de dentadura cortante vive na zona
desde Terra Nova e as Antilhas até o Rio Grande do Sul.
Na cidade do Rio Grande apparece ás vezes no mercado,
mas como os outros tubarões e arraias serve de alimento
sómente á classe mais pobre da população.
2) Galeus canis (Mitch.)
Cação OU CAÇONETE.
Guenther. Catal. VIII, p. 386 (Mustelus vulgaris M. H).
Jordan. Synopsis, p. 19 e 870 (Mustelus canis Mitch,
Dek.).
Tambem este peixe existe muito propagado ao longo
da costa oriental da America. Sua dentadura consiste em
dentes achatados, em fórma de calçada, com os quaes es-
maga caranguejos, conchas e outros animaes maritimos.
Fam. Sphyrnidae
3) Sphyrna zygaena (L.) M. et H.
CorNUDO.
Guenther. Catal. VIII, p. 381 (Zygaena malleus).
Jordan. Synopsis, p. 26.
Fora do Brazil é commum na Europa. India e Aus-
tralia. C. Bere julga esta especie, commum tambem em
Maldonado e Montevideo, ser tudes Cuv., tendo, porém,
o Dr. Boulenger, do British Museum, confirmado a mi-
nha determinação.
EEE E
Fam. Lamnidae.
4) Odontaspis americanus (Mitch.) Günth.
Guenther. Catal. VIII. p. 392.
Tambem este voraz tubarão pertence á classe dos
menores, chegando a ter um comprimento de 4- 6 pés.
Burmeister, segundo me communicou, encontrou-o na
foz do Prata. Elle é commum na costa Atlantico da Ame-
rica Septentrional. Ao passo que Guenther o classifica en-
tre os lamnidas, Jordan o declara representante de uma
familia especial « Odontaspidae », que tem todas as aber-
turas das guelras diante das barbatanas peitoraes, quando
os carchariidos tem a ultima acima das barbatanas pei-
toraes. Não será necessario admittir uma familia espe-
cial para o mesmo.
Fan. Rhinobatidae.
5) Rhinobatus undulatus Olf.
Guenther, Catal., p. 444.
E’ uma arraia com dentes, formando calçada, granu-
lares e embotados, e duas barbatanas dorsaes na cauda,
que se conhece tambem proveniente da Bahia.
Fam. Myliobatidue.
6) Myliobates aquila L.
Guenther. Catal. p. 489. Introduction p. 344.
E' uma arraia larga, com cauda delgada, muito com-
prida, em cujo principio ha uma barbatana curta e atraz
della um ferrão serreo. Os dentes da fórma de calçada
e octogonos da dentadura mosaica indicam a alimenta-
ção por meio de crustaceos e molluscos. No estomago
achei restos do marisco Solecurtus platensis.
A esta familia dos myliobatidos tambem pertencem
aquellas arraias gigantes da especie Dicerobates ou Cepha-
loptera, que na cabeça têm duas pequenas barbatanas
ees Yt
direitas, corniformos e das quaes tambem sabiam fallar-
me pescadores do Rio Grande. Günther (Introd. p. 348)
refere a existencia de um feto desta especie, que se con-
- serva no Museu Britannico, e que tem de largura 5 pés, pe-
sando 20 libras. A mãe, de cujo utero foi tirado, tinha 15
pés de cumprimento e de largura e uma grossura de
3—4 pés. Myliobates aquila encontra-se não sómente no
Oceano Atlantico, mas tambem no Indico até a Australia.
Fam. Trygonidae.
7) Pteroplatea maciura (Le S.) M. H.
Guenther. Catal. VIII, p. 487.
Jordan, p. 46.
Entrei em duvida se podia tomar como certa esta
classificação, por que em meu exemplar a cauda não
tinha riscas pretas, mas era de uma só côr. Talvez des-
appareçam estas quatro manchas semicirculares com
a idade do animal ou então haja uma variedade local.
Por serem muito grandes não pude conservar os exem-
plares.
Recebi estes peixes duas vezes no mercado do Rio
Grande. A largura de um exemplar era de 99, do outro
de 120 centimetros. O primeiro tinha de comprimento
56,5 cm., dos quaes 13,5 cm. eram da cauda, medida
desde o fim das barbatanas ventraes. A cauda não tinha
orla cutanea nos lados, mas uma no meio tanto em cima
como em baixo. Um pouco antes do meio da cauda tem
este peixe dous ferrões chatos e dentados, dos quaes o
posterior é o maior. O dorso é liso, amarello-pardo, todo
coberto de numerosas manchinhas escuras, entre as quaes
aleumas mais claras e redondas. O lado inferior é ama-
rellado sómente na margem das barbatanas peitoraes. No
estomago achei barbatanas assim como espinhas de peixes.
A falta de anneis pretos na cauda e de um tentaculo atraz
dos ejaculadores distingue a especie de algumas seme-
lhantes. Os labios têm na parte media numerosos dentes
pequeninos e de uma só ponta.
ea 5 ah
B. Telesteos (peixes osseos).
No que abaixo se segue as abreviaturas: D. designa
a barbatana dorsal, V. barbatana ventral, 4. barbatana
anal. O comprimento mediu-se com exclusão de C. ou da
barbatana caudal. 4. “4s quer dizer: na barbatana anal
são os tres primeiros raios fortes osseos, os outros 18
molles, articulados. Z. lat. indica a linha lateral com or-
gãos de sentidos, Z. trans. uma linha obliqua por so:
bre o meio do corpo, significando ‘x: acima da linha
lateral ha 4 escamas, abaixo dezeseis. Das familias adiante
enumeradas as dez primeiras pertencem aos acantho-
pterygios, aos pleuronectidos, aos anacanthinos,e as se-
guintes aos physostomos, com excepção das duas ultimas
familias que como plectognathos formam uma ordem espe-
cial. Sigo nesta classificação a Zntroduction de Giinther.
Fam. Percidae.
8) Epinephelus niveatus Cuv. Val.
PINTADO DO MAR
Guenther. Catal. I. pag. 131 (Serranus margaritifer).
Em meu exemplar as V não chegavam até as 4;e
apenas até o anus e sobre JD estendia-se na parte su-
perior uma quinta serie longitudinal de pintas azues.
Tendo sido classificado este exemplar no Museu Britan-
nico como margaritifer, deverá modificar-se um pouco
a diagnose de Guenther. E” peixe propriamente brazileiro.
9) Epinephelus merus Poey.
MERO
Jordan & Eigenmann, p. 362.
D. “ha A.“ L. lat. 86. De côr escura parda, as bar-
batanas mais escuras. Nao observei por mim mesmo no
AR Te PRE
Rio Grande este peixe que parece raro, nem ouvi fallar
delle ou da Cherna, nem da Garoupa (1) e do Roballo.
Fam. Sparidae.
10) Pomadasys corvinaeformis Steind.
Steindachner. Ueber einige neue Fischarten etc. 1. c
infr. p. 31.
DE AL a dn Tato DO LP SOMME
11) Pomadasys lineatus Cuv. Val.
Steindachner 1. c., pag. 33.
D. 11—12/14 4 3/10 —11. Z. lat. 54—56. L. tr. 8/1/16.
No exemplar por mim estudado o estomago estava mu-
nido de 6 appendices py:oricos (e mais um pequeno ru-
dimentar) e a bexiga natatoria tinha 2 tubosinhos la-
teraes na extremidade anterior. Isto não é o que Cuvier
e Valenciennes observaram na especie affine 2. ruber O.
V. que por esta razão não julgo identica.
12) Lobotes surinamensis (BI.) Cuv. Val.
PREIJEREVA
Guenther. Catal. I, pag. 338 (L. auctorum).
Jordan. Synopsis, p. 555 (Lobotes surinamensis (Bloch)
Cuv.
E” um dos peixes mais espalhados, que além do lit-
toral atlantico da Costa Americana existe tambem no
Mediterraneo e no Indostão. Os dentes são villiformes,
como diz Guenther, mas os da serie exterior são um pouco
mais fortes. O estomago tem 4 appendices pyloricos.
(1) Informaram-me os moradores das Torres, onde estive to-
mando banhos de mar, que ali abundam as Garoupas em um re-
cife que fica cerca de uma milha da costa, e as vezes na Torre
do meio.
Nota do Dr. Graciano.
E
Fam. Sciaenidae.
Pogonias chromis L.
MIRAGUAYA.
Guenther. Catal. II, p. 270; Introduction pag. 428.
Jordan, p. 068.
Brehms. Thierleben. Bd. 8. 1879. p. 78 (Abbildung).
Este peixe, drum (tambor) dos Norte-Americanos, tem
o costume de produzir ruidos de tambor com a bexiga
natatoria, como fazem tambem outros Scienidos. E' o
maior entre as Scienas, pois que chega a ter um com-
primento de 4—5 pés e um peso de 30—60 kilogrammos.
Apezar disto vende-se barato no mercado do Rio Grande,
porque a carne, de fibras um pouco grossas, não é deli-
cada.
Como Pogonias fasciatus Lac. foi descripto o filhote,
o Burriquete dos pescadores. Vide Guenther, Catal. pag. 270.
Infelizmente tive conhecimento da obra classica de
Jordan e Gilbert só depois de ter deixado o Rio Grande,
e por esta razão não pude verificar se é exacta (como creio)
a opinião nella manifestada, segundo a qual esta ultima
especie seria a precedente no estado juvenil, caracterisada
por 4—5 fachas pretas e perpendiculares, que desappa-
recem com a idade.
14) Micropogon Furnieri Desm.
Corvina E (na velhice) Cascupo
Guenther. Catal. II, p. 271 (refere-se 4 variedade da
America do Norte chamada wndulatus L.)
Jordan, p. 575.
R. Hensel. Bd. 36, p. 50 (« Sciaena adusta Ag. »).
Hensel enganou-se na classificaçäo desta especie. A
corvina pesca-se não poucas vezes em agua doce, por
exemplo na embocadura do rio Camaquam; apparece de
vez em quando no Guahyba. No estado de velhice este
VA =.
peixe é grande, summamente singular pelas escamas
extremamente engrossadas e chama-se Cascudo. Vi-o s6-
mente no Rio Grande. Se acaso elle não constitue uma
outra especie, dever-se-ha dizer que unicamente os pei-
xes novos entram nas fozes dos rios. O mesmo se póde
dizer da especie precedente, da qual recebi exemplares
novos da Lagoa dos Patos, até onde nunca chegam as
grandes miraguayas. As mesmas são vistas na visinhança
do Rio Grande sómente em mezes determinados, com
especialidade na primavera e no verão. Esta especie vive
tambem na Bahia, nas Antilhas e em Guatemala.
15) Menticirrus martinicensis C. V.
Papa TERRA.
Günther. Catal. II, p. 276 (Umbrina arenata C. V.)
E' uma especie das Antilhas tambem frequente em
nossa costa e muito estimada no mercado do Rio Grande
como peixe comestivel.
16) Sagenichthys ancylodon BI. Schn.
PESCADINHA
Guenther. Catal. II, p. 311 (Ancylodon jaculidens).
A barbatana caudal termina em ponta. D. 10°; -50-. Ala
Os dentes são afrechados, alguns muito fortes, na
queixada inferior quasi em uma serie, na superior em
duas series. O comprimento é de 230 m/m., a altura do
corpo de 50 m/m., o queixo sem barbella. Esta especie é
commum em S. Paulo e no Rio da Prata. Guenther des-
creveu esta ultima como An. atricauda, mas é no emtanto
a mesma. O numero dos raios da barbatana dorsal é va-
riavel,
eta RES
Fam. Trichiuridae.
17) Trichiurus lepturus L.
PEIXE ESPADA.
Guenther. Catal. II, p. 346.
Jordan, p. 422.
Brehms. Thierleben. Bd. VIII. 1879, p. 31 (Abbildung).
Haarschwana-Fisch, peixe de cauda de cabello, chama-o
Brehm, em razão da ponta muito longa da sua cauda.
A fórma de fita deste peixe e sua D. comprida com 139
raios de um exemplar por mim examinado tornam muito
facil o conhecimento desta especie. Encontra-se desde a
America do Norte até o Rio Grande do Sul.
Fam. Trichinidae
18) Percophis brasiliensis Qu. et G.
Guenther. Catal. II. p. 248.
Esta especie conhece-se até no Rio de Janeiro e no
Rio Grande. Tambem se encontra na foz do Rio da
Prata.
1
2 5
D. 58 AN 78 Ls Pr As tr:
8
Fam. Carangidae.
19) Caranx hippos L.
Guenther. Catal. II, p. 448. (C. Carangus Bl.)
Jordan, p. 437 (C. hippus Gthr.)
Este peixe tem uma propagaçäo muito extensa no
Indostäo, na Africa occidental, na costa atlantica da Ame.
rica tropical e temperada. Talvez tenha o seu limite me-
ridional no Rio Grande. Os pescadores d'aqui o conside-
ram como um hospede das regiões do norte, raro e des-
Pt >
garrado. As laminas aquilhadas da parte posterior da
linha lateral tornam muito singular este peixe e seus
aparentados.
20) Chloroscombrus chrysurus L.
JUVA
Guenther. Catal. II, p. 460 (Micropteryx chrysurus L.)
Jordan, p. 441.
1 1
D. =8 56-97. Ane 356.
Jordan menciona mais pintas escuras, das quaes eu
nada vi, e que Guenther tambem nao indica. Provavel-
mente o peixe em diversos lugares tem uma variante
de côr. O peixe vive no Rio da Prata (Weyenbergh in
Rich. Napp. Die Argent. Republik. Buenos Ayres. 1876,
p. 167, Seriola cosmopolita Cuv.) e nas aguas do Brazil
até a America do Norte, na Africa occidental e no Indostão,
21) Selene vomer (L.) Lütk.
Guenther. Catal. II, p. 458 (Argyriosus vomer).
Jordan, p. 439 (Selene vomer |L.| Lütken).
No mercado do Rio Grande vi frequentemente exem-
plares novos com o primeiro raio da D. muito comprido
e filiforme. Acha-se desde a America do Norte até o Bra-
zil meridional na costa do Atlantico.
os a
go
1
D.=7 55 A —0 — 2
22) Parona signata Jen.
Guenther. Catal. II, p. 486 (Paropsis signata).
id en
Io ==: 33) Ae Ds 55,
O corpo é coberto de escamas muito miudas. Até agora
só se conhecia na costa da Patagonia. Tem falta das bar-
batanas ventraes.
ato EE
23) Trachynotus ovatus (L.) Günth.
TAMBO.
Guenther. Catal. p. 481.
Jordan, p. 442.
Tambem esta especie está bastante espalhada. Existe
na costa atlantica da America até o Rio Grande do
Sul, nas Indias e na Australia. Sua côr é de branco ar-
gentino, tirando a preto sómente nas barbatanas. Uma
especie semelhante 7, glaucus BI. que se encontra entre
o Rio de Janeiro e a America do Norte, tem quatro fa-
_ chas pretas verticaes sobre os lados.
1
— —————— PESO ET
RE AEDT er 10. 10
O corpo lateralmente achatado e alto tem numerosas
escamas muito miudas. Os dentes são pequenos.
24) Pomatomus saltatrix (L.)
Guenther. Catal. II, p. 439 (Temnodon saltator).
Jordan, p. 448 (Pomatomus saltatrix [L.| Gill.)
EK’ uma outra especie muito propagada, commum
na costa Atlantica da America, no Indostäo e na Aus-
tralia. Jordan forma para ella uma familia — a das
pomatomidae.
1
24-26 26—28.
Cada uma das ie one -se ue de uma unica
serie de dentes muito fortes, comprimidos e desiguaes.
L.transv. ty D. = 8. IN ae
Fam. Stromateidae
25) Stromateus paru L.
Guenther. Catal. II, p. 399 (S. Gardenii BI.)
Jordan, p. 451 (Str. alepidotus).
Distingue-se da especie precedente por uma longa
D. de composiçäo homogenea sem ferräo. D. = 45, A. =
40. As barbatanas ventraes faltam. Vive na costa atlan-
tica da America tropical e temperada.
pare 44 aS
Fam. Gobiidae.
26) Guavina guavina C. V.
Guenther Catal. III, p. 124 (Eleotris guavina C. V.)
C. H. and R. Bigenmann. A list of Gobiidae ete,, p. 54.
Fam. Tryglidae.
27) Prionotus punctatus (BI.) Cuv. Val.
Guenther. Catal. II. p. 193.
Jordan, p. 134 e 956.
10
D: =—— 12. A. ne lie
Os tres primeiros raios das barbatanas peitoraes sao
isolados, engrossados e moveis. Esta especie esta espalhada
desde as Antilhas até o Rio da Prata.
Fam. Atherinidae.
28) Chirostoma bonariensis Cuv. Val.
PEIXE-REI
Guenther. Catal. III, p. 104.
1 1
D. = 4-5 DAT A = 162),
Conhece-se pela facha lateral argentina, pelo queixo
um pouco avançado, pelas barbatanas ventraes colloca-
das muito atraz, pelas 2 D. separadas. Os exemplares por
mim enviados a Londres foram classificados como Athe-
rinichthys bonarienses, especie que é talvez a mesma 4.
argentinensis, ambas do Rio da Prata. Jordan e Gilbert
p. 406 Anm. dizem que Atherinichthys é synonimo de Chi-
rostoma Sws.
DR UN La
Fan. Mugilidae.
29) Mugil platanus Günth.
TAINHA.
Guenther. Catal. III, p. 423 (M. liza Cuv. Val.)
Hensel. Bd. 36, p. 51 (Mugli liza. Cuv. Val.)
J
1 :
L. trans. 13. D, —4 Ega E Ro
Esta especie tambem se conhece no Rio da Prata.
As mugilidas têm 24 vertebras; nas atherinidas o nu-
mero não é constante, geralmente maior. Os motivos que
determinaram Guenther a separar esta especie da M. liza
não são por mim conhecidos.
Fam. Pleuronectidae.
30) Paralichthys brasiliensis Rang.
LINGUADO
Guenther. Catal. IV, p. 429 (Pseudorhombus vorax
Günth.)
Esta especie, muito espalhada na costa atlantica da
America tropical, tem os dous olhos no lado esquerdo,
uma grande curva para cima na linha lateral ede cada
lado uma barbatana peitoral e uma barbatana ventral
Recebi uma vez esta especie pescada na foz do rio Ca-
maquam. É boa comida.
31) Achirus lineatus (L.)
Guenther. Catal. IV, p. 473 (Solea maculipinnis Ag.)
Jordan, p. 841 (A. lineatus [L.] Cuv.)
C. and. R. Eigenman, p. 73.
A linha lateral é recta; as barbatanas peitoraes fal-
tam ou são atrophiadas. Esté espalhado desde a America
do Norte até o Rio Grande do Sul na costa do Oceano
Atlantico. Esta especie entra tambem nas fozes dos rios.
MAG
Segundo disseram-me pescou-se no Rio dos Sinos um
linguado provavelmente desta ou da especie precedente-
32) Achirus Garmani Jordan.
Jordan and Goss. A review of Floundres. Ann. Rep’
Comm. Fish e Fisheries f. 1886, pag. 314 (f. Eigenmann).
C. and R. Eigenmann, p. 73.
Não sei particularidades sobre esta especie e o lo-
gar onde se pesca.
Fam. Siluridae,
33) Tachyurus barbus Lac.
BAGRE.
Guenther. Catal V. p. 143 (Arius Commersonii Lac.)
C. and R. Eigenmann. p. 21 (Tachisurus barbus Lac.)
R. Hensel. Bd. 36, p. 70 (Arius Commersonii Lac.)
H. von Ihering. Ueber Brutpflege von Arius.
O bagre é um peixe maritimo frequente na costa do
mar desde a Bahia até o Rio da Prata. Varias vezes
achei exemplares mortos na costa do Rio Grande. Em
novembro elles emigram para a Lagoa dos Patos afim
de desovarem nas embocaduras dos rios, principalmente
nas do Camaquam e do Guahyba etc., tomando os
peixes de ambos os sexos na bocca os ovos grandes, do
tamanho de uma cereja, e conservando-os na mesma
até o fim do desenvolvimento. Terminado este em feve-
reiro, algumas vezes em março, os bagres deixam outra
vez a agua doce. E' peixe maritimo, não de agua doce,
que tambem se acha frequentemente perto do Rio (Grande.
Fam. Scombresocidae.
34) Hemirhamphus unifasciatus Ranz.
PEIXE AGULHA.
Guenther, Catal. VI, pag. 262.
Jordan, pag. 376.
DNS dy eee
Conhece-se facilmente pela figura baixa e prolongada
e pelo queixo inferior muito saliente em fórma de bico
esbelto. D=14—16. A=16—]7. Está muito espalhado,
vivendo tambem na costa do Pacifico e no Oceano Indico.
Uma especie semelhante, talvez esta mesma, Holmberg
encontrou no Paraná.
Fam. Clupeidae.
35) Brevoortia tyrannus (Latr.) Goode.
SAVELHA
Guenther. Catal. VIII, p. 437 (Clupea aurea (Giinth.)
Jordan, p. 269.
Jordan diz que este peixe, 0 menhaden dos Norte
Americanos, desova no Oceano, apparece em grande quan-
tidade e serve para o fabrico de azeite e estrume. Aqui
dá-se o mesmo. De facto, o dito peixe que tambem se
veude no mercado do Rio Grande, tem muitissimas es-
pinhas, e serve de estrume nas regiões em que se cul-
tiva cebola perto do Rio Grande e de S. José do Norte.
36) Stolephorus olidus Giinth.
SARDINHA OU ANCHOVA
Esta especie descripta por Guenther (Engraulis olidus),
segundo exemplares do Rio da Prata, pertence ao gene-
ro Engraulis, ao qual pertence a anchova, ao passo que
as sardinhas genuinas são especies das clupeas. O queixo
superior é muito proeminente, em fórma de focinho-
“Meus exemplares mediam 150 m/m. e tinham D.- lt e
A.=26. A garganta e o peito são um pouco aquilhados,
mas o ventre não o é.
LES (= EURE
Fam. Muraenidae.
37) Ophichthys Gomesii Cast.
Guenther. Catal. VIII, p. 60.
Jordan, p. 898 (O. chrysops Poey).
Esta enguia maritima do Brazil apparece ás vezes
no mercado do Rio Grande. Tem dentes pontudos e bar-
batanas peitoraes; as barbatanas ventraes faltam. Uma
outra especie (O. ocellatus Les.), que ha no Rio da Prata
e no Mexico, tem uma serie de pintas brancas ao longo
dos lados. E’ possivel que ella tambem seja encontrada
em nossa costa.
Fam. Sclerodermi.
38) Balistes carolinensis Gm.
Guenther. Catal. VIII, p. 217 (B. capriscus).
Jordan, p. 854.
Este é o unico representante dos peixes sclerodermos
(acaramoco em lingua tupy) que encontrei aqui. A
pelle é aspera, composta de escudinhos duros. No corpo
alto, comprimido dos dous lados, faltam as barbatanas
ventraes; tem duas barbatanas nas costas e 8 dentes
tanto em cima como em baixo. D.=3—28; A= 24-25.
Guenther menciona esta especie obtida do Mediterraneo e
do Oceano Pacifico (do Panamá). Segundo Jordan é fre-
quente no Golpho do Mexico.
Fam. Gymaodontes.
39) Lagocephalus laevigatus L.
Guenther. Catal. VIII, p. 273 (Tetrodon laevigatus L.
Jordan, p. 860 (Lagocephalus laevigatus L.)
Tendo a especie seguinte só uma lamina no queixo
inferior e no superior, a do tetrodon é dividida na linha
do meio, de maneira que ao todo são quatro. Estes peixes
AQU
podem dilatar-se com o ar recebido no esophago e chamam-
se peixes orbiculares ou ouriços do mar. Esta especie é
espinhosa sómente no ventre, em cima parda, em baixo
branco-argentina. A carne é considerada venenosa. Co-
nhece-se este peixe das costas tropicaes do Atlantico ame-
ricano, mas sua distribuição deve ser muito maior, pois
tambem foi encontrado no Japão.
40) Chilomycterus Schoepfi Walb.
Guenther. Catal. VII, p. 310 (Ch. geometricus).
Jordan, p. 863 (Ch. geometricus).
Este é um genuino ouriço do mar, inchado, todo
coberto de espinhos de trez raizes. D. 12, A. 10—1I1. E'
pardo, com pintas e riscas pretas. Segundo Guenther é
uma especie do Oceano Atlantico que se encontra desde
a America do Norte até o Brazil meridional, assim como
no Cabo de Boa Esperança. Provavelmente terá maior
distribuição.
Na litteratura achei mencionadas algumas especies
como provenientes do Rio Grande do Sul, que quasi to-
das não observei por mim mesmo, assim:
Fr. Steindachaer. Ueber einige neue und seltene
Fischarten. Denksch. d. K. Ak. d. Wissensch. zu Wien.
Mat.-nat. KI. vol, XLI. 1879.
Pomadasys corvinaeformis
p. 31. (Pristipoma corvinaeforme Steind).
(Rio Grande do Sul.—Santos).
Pomadasis exiscatus C. V.
p. 32. (Pristipoma lineatum. C. V.)
(Rio de Janeiro até Rio Grande do Sul)
Revista do Museu Paulista |
RAS: ane
D. S. Jordan and. O H. Eigenmann. A Review of the
genera and species of Serranidae. Bull. of the U. S. Fish-
Commission. Washington, vol. VIII, 1888.
p. 362. Zpinephelus merus Poey.
Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul)
C. H. and R.Eigenmann. A list of the american spe-
cies of Gobiidae and Callionymidae. Proc. of. the Calif.
Acad. 2 Ser., vol. I. 1888.
p. oll. Guavina guavina O. V.
Tendo assim terminado a synópse succinta dos peixes
maritimos até agora observados na costa do Rio Grande
do Sul, passemos a examinar suas relações com os paizes
costeiros das outras partes do Brazil e da região do Rio
da Prata. Nesta synópse fallamos de 40 especies de peixes.
Entre ellas acha-se tambem uma especie de Achirus, a
qual até o presente se encontrou sómente aqui, e uma
especie de Arius, bagre que pertence a uma familia
de peixes de agua doce, e o qual por conseguinte
preferimos não considerar nas linhas que se seguem.
Deste modo ficam-nos 38 peixes costeiros, exactamente
conhecidos, quanto 4 classificação e distribuição. Destes,
36, isto é 95°, se encontram tambem no Rio de Janeiro,
na Bahia ou ainda mais para o Norte; sómente de duas
especies não temos noticias si existem no Norte, ao passo
que sabemos que ellas se encontram no estuario do Rio
da Prata. Estas especies são:
Stolephorus olidus Guenther.
Parona signata Jen.
Deste facto poderia deduzir-se a conclusäo, que estes
peixes communs no Rio Grande e no Rio da Prata sao
especialmente caracteristicos deste littoral; mas a isto
oppõe-se uma circumstancia: é que elles não são represen-
S| igi
tantes de generos meridionaes caracteristicos, nao en-
contrados em outras partes do Brazil, pertencendo ao
menos a especie Stolephorus,a genero muito espalhado e
representado tambem no Brazil por uma serie de especies.
Unicamente da Parona signata poder-se-hia affirmar isto,
conhecendo nós a mesma sómente nas aguas da Patagonia
septentrional e do Rio Grande. Acho, porém, muito im-
provavel que esta especie falte completamente em outras
partes do littoral do Brazil meridional. Guenther escreve
(Introd. p. 289) que Paropsis signata e Percophis brasilia-
NUS SAO especies caracteristicas das costas da Patago-
nia; esta ultima, no emtanto, encontra-se ainda no Rio
de Janeiro. Ambas pertencem a generos menores com
uma só especie, e as familias que ellas representam
acham-se tambem em outros pontos da costa do Brazil;
por isso não fazem parte de um novo elemento que co-
meça no Sul, mas são provavelmente, ao contrario, rami-
ficações extremas da fauna brazileira. Que esta em parte
se estende ainda mais para o Sul, demonstra a Sciaenida
Otolithus leiarchns Cuv. Val., uma especie da costa bra-
zlleira, muito commum particularmente na Bahia, que,
segundo Pfeffer, vive na região do Estreito de Magalhães.
Chloroscombrus chrysurus L. é outra especie que existe
desde os Estados Un.dos até o Rio da Prata ao longo da
costa Atlantica da America e Prionotus punctatus é, da
mesma forma, uma especie espalhada até as Antilhas, e
provavelmente até os Estados Unidos, que occorre tam-
bem na Patagonia. Steindachner menciona Mugil liza da
Patagonia e assim ha mais outros. Para facilitar a com-
paração dou aqui uma lista dos peixes do estuario do
Rio da Prata, no sentido mais amplo da palavra, inclu-
indo a costa do Estado Oriental até Maldonado. A noticia
da existencia do Odontaspis americanus devo ao Sr. Bur-
meister, director do museu de Buenos Ayres. Outras tirei
das publicações de Lahille e de C. Berg, tendo este ulti-
mo dado a extensa lista que se segue e só com mais
algumas especies pude completar,
— 52 —
Peixes costeiros do Estuario do Rio da Prata
Exomegas macrostomus (Burm.)
Squalus acanthias L.
Lebruni (L. Vaill.)
Galeus canis (Mich.)
Galeorhinus galeus (L.)
Sphyrna tudes (Cuv.)
Carcharias americanus (Shaw.)
Squatina squatina (L.)
Rhinobatus undulatus Of.
Discopyge Tschudii. Heck.
Raja Agassizi (M. H.)
platana Gthr.
microps Gthr.
« brachyura Gthr.
Psammobatis rudis Gthr.
Sympterygia Bonapartei M. H.
Dasybatis pastinaca (L.)
Potamotrygon motoro M. H.
Myliobatis aquilla (L.)
Callor hynchus callorhynchus (L.)
Clupea pectinata (Jen.)
« maderensis Lowe.
Brevoortia tyrannus (Latrobe)
SEE “olidus (Gthr.)
Poeyi Kner
Ly he, grossidens (Ag.)
Pellona flavipinnis Val.
Tachyurus barbus (Lacép)
Leptocephalus conger (L.)
Sidera ocellata (Ag.)
Exocoetus orbignyanus C. V.
Scomberesox saurus (Walb.)
Hemirhamphus unifasciatus
Ranz.
Atherinichthys vomerina (C. V.)
2 platensis Berg.
microlepidotus
(Jen.)
Jaticlavia (C. V.)
argentinensis
(O. V.)
« bonariensis (C. V.)
Mullus barbatus L.
Coris julis (L.)
Chilodactylus macropterus (BI.
Schn.)
Pinguipes fasciatus Jen.
somnambula Berg.
Percophis brasiliensis O. G.
Eleginus maclovinus C, V.
Mugil brasiliensis Ag.
platanus Gthr.
Pomatomus saltatrix (L.)
Seriola rivoliana C. V.
Trachurus trachurus (L.)
Chloroscombrus chrysurus (L.)
Caranx hippos (L.)
Vomer setipinnis (Mich.)
Selene vomer (L.)
Trachynotus glaucus (Bl.)
Oligoplites saurus (Bl. Schn.)
Parona signata (Jen.)
Scomber scombrus L.
Sarda sarda BI. «
Trichiurus lepturus L.
Stromateus maculatus C. V.
« paru L.
Zenopsis Figueirai Berg.
Dules auriga C. V.
Centropristis formosus (L.)
Epinephelus gigas (Brunn.)
Acanthistius patagonicus (Jen.)
« brasilianus (C. V.)
Lobotes surinamensis (Bl.)
Sparus pagrus L.
Diplodus argenteus C. V.
Gerres gula C. V.
Cynoscion leiarchus Cuv. Val.
Cynoscion striatus (Cuv.)
Sagenichthys ancylodon (Bl.
Schn.)
Sciaena adusta Ag.
> Gilli Steind.
Polyclemus brasiliensis (Steind.)
Pachypops furcraeus (Lacép.)
Micropogon undulatus (L.)
« Furnieri (Desm.)
Menticirrus martinicensis (C. V.)
Umbrina Canosai Berg.
Pogonias chromis (L.)
Priacanthus bonariensis (C. V.)
Remora remora (L.)
Phycis brasiliensis Kaup.
Merluccius Gayi (Guich.)
Hippoglossina notata Berg.
Paralichthys brasiliensis (Ranz.)
Achirus Jenynsi Gthr.
Paralichthys patagonicus Jord.
Goss.
Oncopterus Darwini Steind.
RME
Ypsilonphorus sexspinosus Solea Kaupi Berg.
Steind. Symphurus plagusia (Bl. Schn.)
Thalassothia montevidensis Syngnathus acicularis Jen.
Berg. Hippocampus guttulatus Cuv.
Porichthys porosissimus (C. V.) | Balistes carolinensis Gm.
Blennius fissicornis O. G. Lagocephalus laevigatus (L.)
Genypterus blacodes (Bl. Schn.) | Chilomycterus Schoepfi (Walb.)
Prionotus punctatus (Bl.)
Não estando de harmonia o que Berg e Eigenmann
dizem a respeito do genero Potamotrygon, não tratei por
extenso delle aqui. E”, porém, assumpto da maior impor-
tancia. As especies do genero Potamotrygon, vivem nos
rios da Guyana, da Venezuela e na bacia do Amazonas,
faltando no Sul desde a Bahia, até o Rio da Prata.
Este facto nos induz a admittir que estas arraias flu-
viaes vieram da região do Amazonas pelo rio Paraguay
ao Rio da Prata, como o demonstrei a respeito da Glabaris
(Anodonta), Ampullaria, etc. do Rio da Prata, que não
representam typos proprios, mas sómente especies do
Amazonas, que faltam no Brazil meridional desde o Rio
de Janeiro até o Rio Grande. Exactamente o mesmo se dá
com os Potamotrygon, cujo nome provavelmente deve ser
antes Zuentura. No sueste do Brazil, tanto na costa como
nos rios, não ha especies de Potamotrygon, e os represen-
tantes, que só apparecem no Rio da Prata, são identicos
aos do Amazonas etc., o que, segundo Eigenmann, de
uma unica especie (7. brachyurus) até agora não foi
provado. A isto correspondem as descobertas geologicas,
porquanto ossos do Potamotrygon faltam na Argentina
terciaria, mas encontram-se no post-pampeano (1) em
agua doce, juntamente com Ampullarias, Glabaris e
outros immigrantes do Norte que não existem na fauna
antiga da Republica Argentina.
(1) Esta prova devemos a Ameghino, La antiguidade del
hombre en el Plata, Paris, vol. II, 1881, p. 81. No tempo em que
Ameghino compoz aquella obra, ainda não se haviam descripto os
Potamotrygon do Prata. Por esta razão comprehende-se facilmente
que elle attribuia á introducção por intervenção do homem a
existencia destes restos de peixes, julgados maritimos.
pe a ed
Esta lista contem 107 especies, das quaes 20 por
emquanto são conhecidas só do Rio da Prata, 2 occorrem
tambem no Rio Grande do Sul (Stol. olidus e Parona)
e 14 vivem tambem na Patagonia, no estreito de Maga-
lhäes e no Chile. O resto de 71 especies, ou 73 reunindo
a ellas as 2 especies encontradas tambem no Sul do Bra-
zil, sendo 68 por cento do total, são peixes brazileiros ou
peixes communs do mar Atlantico, de uma distribuição
vasta, em parte cosmopolita. Os peixes da Patagonia que
têm representantes no mar do Prata, sendo 14 especies
ou apenas 13 por cento da fauna total, nem todos podem
ser considerados como elementos do mar Antarctico. Na
lista de 71 peixes da região magellanica do mar Antarc-
tico, publicada por Pfeffer, acho apenas 6 especies que se
encontram tambem no Rio da Prata, deixando de conside-
rar os peixes de distribuição vasta ou cosmopolita.
Não podemos duvidar que grande parte destes poucos
peixes antarcticos, encontrados ás vezes, no mar do Prata
ali só appareçam de vez em quando. Assim diz C. Berg que
Squalus Lebruni, commum no estreito de Magalhães, uma
vez foi encontrado n'um dia de inverno no mar do Prata,
e que Chilodactylus m., Pinguipes f.e Eleginus m., raras
vezes são encontrados na embocadura do Prata e isto no
inverno.
Seria, pois, conveniente deixar fóra de discussão os
peixes, que ás vezes no inverno estendem as suas migra-
ções até a foz do Rio da Prata e os que no verão ás
vezes vindo do Norte chegam até o mesmo estuario. Posso
neste sentido affirmar que no Rio Grande do Sul o mer-
cado é pobre em especies de peixes marinhos no inverno,
e que Zrichiurus, Epinephelus e outras formas da costa
brazileira só apparecem no verão. Será assumpto de summa
importancia conhecermos melhor estas migrações dos
peixes costeiros. Desejo que estas linhas contribuam para
que sejam feitas observações exactas e estatisticas sobre
o numero e os mezes de apparecimento dos peixes ma-
ritimos.
NL
Tenho de accrescentar que a maior parte dos generos
caracteristicos e mais communs do estreito de Maga-
lhães, como por exemplo Haurpagifer bispinis e as nu-
merosas especies de Notothenia faltam absolutamente no
mar do Prata. A’ excepção de Lleginus maclovinus, de que
um ou outro exemplar foi encontrado no mar do Prata, ali
faltam completamente os representantes das familias de
_ Lycodidas, Macruridas, Trachenidas, Scorpaenidas, etc.,
como na agua doce faltam os Galaxias e os Huplochiton
da região magellanica.
Quanto aos peixes marinhos o estuario do Rio da
Prata e a costa argentina até Bahia Blanca e ao Rio
Negro pertencem á mesma região faunistica que o Rio
Grande do Sul e todo o Brazil meridional.
Reconhecendo que só estudos especiaes podem solver
esta questão, creio que pouco nos podemos enganar ac-
ceitando como limite entre a região sul-brazileira e a
patagonica a foz do Rio Negro i. e. o 41º L. Sul.
Isto é importante porque Guenther chegou a conclusão
diversa. Guenther distribuiu os peixes costeiros da America
Oriental em 5 zonas, uma arctica até 60º Lat. N.; uma
zona temperada boreal, o districto norte-americano; uma
zona equatorial; uma temperada austral de 30º a 50º
Lat. S. e uma antarctica. Se a divisão de Guenther fosse
exacta, nós aqui melhor poderiamos verifical-o, pois o
80° Lat. S. passa por nosso Estado. Mas, como vimos, não
é assim. À maioria das especies e os generos quasi sem
excepção alguma da fauna costeira do Rio Grande do
Sul e do mesmo modo do Rio da Prata acham-se tambem
no Ric de Janeiro, e familias especialmente caracteris-
ticas que permittam uma separação em duas zonas, no
sentido de Guenther, não existem. Não duvido que Guen-
ther, depois de conhecer por meu intermedio, os peixes
rio-grandenses, haja de concordar commigo neste ponto,
Guenther mesmo declara que o conhecimento dos peixes
costeiros sul-brazileiros e argentinos é ainda muito de-
ficiente,
SE eae
Daqui se segue que ao longo da costa atlantica da
America podemos admittir só 3 zonas, uma arctica, uma
antarctica e uma intermedia das latitudes tropicaes e
temperadas. A antarctica que Guenther faz chegar sómente
até 50º Lat. S. sem duvida se estende ainda mais na
costa da Patagonia, não chegando porém até o Rio da
Prata, como julgou Pfeffer. Seria importantissimo para
esta questão conhecer completamente os peixes costeiros
da Bahia Blanca, Patagonia etc., e tomo a liberdade de
chamar para este ponto de um modo especial a attenção
dos collegas argentinos. Talvez venha a mostrar-se, que
a linha divisoria coincide com a distribuição do sargaço
gigante, o qual se encontra no Sul até 43º Lat. S. e
portanto até perto do rio Chubut, dando alimento e ha-
bitação a tão grande numero de animaes, que indubita-
velmente deverá servir tambem de limite a uma grande >
parte desses animaes.
Pfeffer inclue o Rio da Prata na região antarctica e
em favor disso allega, entre outras, as seguintes razões :
« Na costa oriental a extraordinaria quantidade de agua
doce e talvez tambem de lama que o Rio da Prata leva
ao banco baixo da Patagonia põe um limite que não per-
mitte a nenhum animal fixo ou rasteiro da fauna do
Brazil meridional ir ao sul, ao passo que por outra parte
a fauna antarctica legitima pode estender-se para o norte
até 38º Lat. S.» A primeira parte não é exacta, a se-
gunda póde ser verdadeira, mas ainda não foi demons- |
trada. Ha algumas duzias de conchas maritimas, que se
acham tanto ao norte como ao sul do Rio da Prata, con-
forme já o demonstrou d'Orbigny. Das 40 especies de mol-
luscos maritimos, que conheço do Rio Grande, 12 encon-
tram se tambem na Patagonia, isto é 30". Esta propor-
ção sómente póde crescer com o augmento dos meus
conhecimentos, tendo eu omittido as especies, cuja exis-
tencia na Patagonia não me parecia sufficientemente
provada e não estando ao meu alcance, sem duvida, varias
publicações da litteratura respectiva, aqui inaccessiveis
MAY a
para mim. Estes molluscos rio-grandenses pertencem a
fauna brazileira e nem aqui nem no Rio da Prata ha
vestigio algum do elemento antarctico e, segundo penso,
“nem na Bahia Blanca. Espero que por meio de alguns
dos meus estimados collegas do Rio da Prata hei de
receber material para continuar o estudo desta questão.
Tambem relativamente ás conchas é certo que a fauna
sul-brazileira vai até o Rio da Prata e além. Onde, po-
rém, fica a linha divisoria, se no 38º Lat. S., como pensa
Pfeffer, ou mais para o Sul até 41º ou 43º Lat. S., como
julgo eu, é o que será necessario ainda de examinar.
Em opposição á opinião de Pfeffer, o facto que a agua
doce do Rio da Prata não forma um limite geographico-
zoologico prova que este estuario é de data relativamente
recente. Ainda que divirjam as opiniões acerca dos pam-
pas, comtudo aquelles que se occuparam muito nos ulti-
mos tempos com sua geologia concordam em dizer que
em geral não se trata de formação marinha, mas que
a agua doce e o vento foram os seus agentes essenciaes. As
pampas formaram-se e habitaram-se no tempo plioceno,
Ameghino compara o lugar destes processos com o grande
valle da planicie de Mojos na Bolivia; tambem Florida
poderia ser tomada para comparação. «O grande golfo,»
diz elle (vid. Antig. p. 165), que o Oceano Atlantico
forma na Bahia Blanca não existia; nem havia o estuario
do Rio da Prata, de sorte que a pé se podia percorrer o
espaço que separa as cidades modernas de Montevideo e
Buenos Ayres. As pampas estendiam-se a regiões que
hoje estão cobertas pelo oceano até uma distancia que
ainda não podemos avaliar. A grande depressão em que hoje
corre o Paraná não pode ter tido ligação com o*Oceano,
a não ser que, recebendo o Rio Uruguay continuasse 0
curso para o Sul na direcção N. S. do rio Paraguay».
Esta ultima affirmaçäo de Ameghino não está pro-
vada, e pelo menos até agora, ao que parece, nada se
sabe dos antigos cursos do Paraná. Apezar disso Ame-
ghino deve ter razão no ponto essencial, como o indicam
ee ÉMIS: RES
factos da geographia zoologica. Eu, por exemplo, descobri
no Sul do nosso Estado, perto do Rio Grande e de Pe-
lotas, duas lagartixas, que com certeza faltam na Costa
da Serra etc, e que pertencem a um grupo muito es-
palhado na Republica Argentina e no Chile. Estas duas
lagartixas são as /euanidas Liolaemus occipitalis Boul. e
Saccodeira azurea F. Miill., das quaes a ultima se achou
tambem no Estado Oriental, perto da foz do Uruguay, e
a primeira, que até agora sómente se encontrou nas dunas
do Rio Grande, provavelmente se achará ao longo de toda
a costa arenosa do Estado Oriental. Todos os outros re-
presentantes destes generos vivem na Republica Argen-
tina, na Patagonia e no Chile. O Rio da Prata, por con-
seguinte, não oppoz barreira á disseminação destas espe-
cies na costa argentina e sul-brazileira. Esta barreira
deve ser recente, isto mostra a comparação das conchas
recentes e das fosseis. Depois de concluida a formação
pliocena das pampas, houve um abaixamento da costa, 0
qual, conforme Ameghino, póde-se demonstrar desde a
Patagonia até Santos,e cujos sedimentos conhecidos na
Republica Argentina e no Uruguay pelos estudos de D'Or-
bigny e de Darwin, eu mesmo vi perto de Montevideo
e em nosso estado. Estas conchas marinhas postpliocenas
emquanto ao essencial são identicas com as hodiernas,
e, no tempo em que o mar chegava até Buenos Ayres,
viviam em Montevideo estas mesmas conchas costeiras,
que ainda hoje caracterisam todo este littoral, onde pre-
domina a agua do mar, mas que agora são repellidas de
Montevideo pela agua doce. Por conseguinte, ainda du-
rante algum tempo não havia o estuario do Rio da Prata;
este é de formação muito recente. Será tarefa para os
geologos em descobrir o antigo curso das aguas, parecendo-
me mais provavel que tenha havido antes um systema
de enormes lagos continentaes, banhados etc.; do que
uma simples transferencia ou desvio do curso inferior,
pois um leito fluvial tão grande não poderia ter desap-
parecido completamente se tivesse existido.
en
As opiniões relativas á posição z00-gevgraphica da
nossa costa rio-grandense são, portanto, muito diversas.
Uma zona de transição ou temperada meridional, no sen-
tido de Guenther, entre 30° 50° Lat. S. não se póde pro-
var. Moebius (1) por isso a omitte, mas commette o erro
de fazer chegar a fauna antarctica até 30º Lat. S., o que
se refuta igualmente pelo estudo dos peixes e dos mol-
luscos. Verdade é que se encontram phocas (Arctocephalus
Jalklandicus e talvez Otaria jubata) até em nossa costa
e mesmo na de Santa Catharina; existem tambem em
nossa costa varias aves da Patagonia (2), como sejam Lestris
crepitatus (Banks), Diomedea melanophrys Boie, Puffinus
sp, mesmo uma alca Spheniscus magellanicus (Forst.)
no Rio Grande não raras vezes entra na rêde dos pes-
cadores, e eu mesmo depois de uma tempestade achei um
exemplar morto na praia; porém estes casos de nenhum
modo podem ser considerados decisivos á vista do habito
perfeitamente brazileiro de toda a fauna costeira. Com
mais exactidão, portanto, Schmarda em seu manual (Die
geographische Verbreitung der Thierwelt. Wien, 1853. Vol.
III, p. 614) admittio a foz do Rio da Prata como limite
da parte tropical do Oceano Atlantico, sómente errando
em introduzir entre estae a regiäo antarctica uma zona
especial da parte meridional do Oceano Atlantico, que
vai do Rio da Prata até o cabo Horn. A’ esta hypothese
ja a viagem de exploraçäo feita por Cunningham tirou
todo o fundamento. Se Pfeffer tem razäo estendendo a
fauna antarctica até o 38º Lat. S., ou se ella não chega
até lá, como me inclino a crer, é um problema para
cuja solução ainda são necessarios estudos especiaes.
No Sul a fauna antarctica, correspondendo av curso
das linhas isothermicas e isochymenas, se approxi-
ma mais do equador que no norte a fauna arctica, a
qual começa quasi 20 gräos de latitude mais perto do
(1) K. Moebius. Die Thiergebiete der Erde. Berlin, 1891, (Archiv
f. Naturgeschichte).
(2) As classificações devo á bondade do Sr. H. v. Berlepsch,
ND Mg
polo boreal, sendo esta uma das razôes, porque falta no
sul uma zona temperada.
Naturalmente a distribuição aos peixes maritimos
depende até certo erdo das zonas de temperatura: comtudo
fóra das regiões circumpolares isto tem applicação parti-
cular sómente aos peixes dos bancos de coraes. De resto,
o elemento decisivo é sobretudo a antiga disposição dos
continentes e das linhas da costa, e, dominando. hoje
ainda as idéas erroneas de Wallace, os ichthyologos estão
muito longe de conhecerem não só essa disposição como
as epocas em que foi alterada. De meus estudos tirei um
resultado opposto ao de Wallace: « A America do Sul,
que se compoz de 3 partes: Archiguyana, Archibrazil e
Archiplata, unio-se com a America do Norte na formação
pliocena. A Archiplata abrange a Republica Argentina,
Chile e Perú, e estava unida no tempo mesozoico e eoceno
com a terra continental antarctica, 4 qual estavam tambem
presas a Australiae Nova Zelandia. As duas outras partes
acharam-se separadas pelo mar do valle do Amazonas,
que no periodo eoceno provavelmente communicava com
o Oceano Pacifico, ao passo que no Oriente estavam liga-
das entre si e a Africa. D'ahi provém que, apezar da
fauna antarctica prolongar-se consideravelmente nos dous
lados da America do Sul, comtudo os peixes costeiros
são diversos nas latitudes correspondentes da costa At-
lantica e Pacifica. Approximando-nos mais do equador,
vemos mudar-se este phenomeno, pois até 4 epoca da
formação piiocena, o Mar dos Caraibas ou das Antilhas
communicava com o Oceano Pacifico e havia numerosas
trocas de especies entre os dous mares. Os poucos peixes
communs ao Chile septentrional e Brazil meridional são,
por exemplo, Brevoortia tyrannus, Temnodon sallatrir,
Hemirhamphus Pleii, Sciaena adusta (1)e alguns outros,
(1) Mugil liza Cuv. correspondente ao M. Ramelsbergi do Chile,
se não é identico e assim ha outros. Ao contrario as especies de
Chirostoma, identicas nas costas chilenas e argentinas, espalharam-
se da zona antarctica.
ANT hae
provavelmente taes que, vindos das Antilhas espalharam-
se para o sul, aos dous lados da America meridional.
Emquanto ao mais os peixes costeiros são totalmente
diversos como tambem as conchas marinhas. Esta diffe-
rença já estava fortemente pronunciada no terciario mais
antigo; comtudo segundo Darwin e Sowerby ha um bom
numero de especies identicas. Os Andes que, conforme a
opinião de Wallace, formaram a ponte pela qual formas
septentrionaes avançaram para o sul, segundo meus es-
“tudos sobre agua doce, resultaram da união de duas
partes completamente heterogeneas, da Archiplata que
la até o Perú septentrional, e da porção da Archiguyana,
representada pela Republica do Equador. Unicamente na
primeira os Andes formavam um limite geographico-
zoologico para os organismos de agua doce, certamente
porque aqui a elevação começou na formação cretacea,
emquanto ali na Archiguyana a disseminação provavel-
mente eocena se realizou em tempos em que ainda não
havia vestigio da linha divisoria das aguas no lugar dos
Andes. » Para maiores desenvolvimentos e particularida-
des vejam-se os meus artigos no Ausland (1) (já traduzidos
em varias linguas) e meus estudos sobre Unionidas de
S. Paulo, que foram publicados no « Archiv für Natur-
geschichte » em 1893.
Em geral, pois, a distribuição dos peixes maritimos
offerece certas analogias com a dos animaes terrestres
sul-americanos. À maior variedade encontra-se nas regiões
equatoriaes, e para o sul a fauna e flora diminuem suc-
cessivamente. Os limites da disseminação das familias e
generos formam circulos concentricos e seria completa-
mente arbitrario tomar qualquer destes limites como
linhas divisorias entre diversas provincias. Sómente lá
onde os circulos concentricos, que partem de um outro
centro de propagação, tocam os antes mencionados, ha
verdadeiros limites naturaes. Assim em nosso Estado
(1) Das Ausland. Anno de 1890. n. 48 e 49, anno de 1891, n.º 18
EO éra
temos quatro zonas naturaes, separadas por linhas divi-
sorias; porém só a extrema pode ser considerada como
região limitrophe natural. Na linha dos myrmecophagas
achou-se o limite natural não só dos tamanduds, mas
tambem dos coatis ou subursos, dos porcos (dicotyles)
etc., emquanto na margem esquerda do rio Uruguay nas
Chinchillidas tem seu limite septentrional uma familia
argentina caracteristica. Por isso esta linha que até as
Missões é formada pelo rio Uruguay, dá o limite natu-
ral entre a fauna brazileira e a argentina.
Da mesma fórma não seria exacto marcar como
limite do Oceano Atlantico tropical uma das numerosas
linhas divisorias que manifestamente ha na costa brazi-
leira, successivamente decrescentes para o sul. Não é a
abstracção e a symetria que devem crear taes limites,
porém sim a observação e os factos, e estes nos ensinam,
que assim como a fauna atlantica tropical diminue para
o sul, assim tambem a fauna antartica decresce para 0
norte. Onde estas duas se tocam ou se cruzam em parte,
lá está o limite, faltando completamente uma região in-
termediaria da zona temperada.
O que fica exposto é bastante para demonstrar a
importancia destas investigações e o interesse com que 0
mundo scientifico deve esperar outros esclarecimentos a
respeito da nossa fauna maritima costeira.
Camaquam (Rio Grande do Sul,) 10 maio de 1892.
PS: Modifiquei alguns trechos desta traduccão, ap-
proveitando me de diversas publicações novas. Cito entre
ellas:
Carlos Berg. Enumeracion do los peces de las costas
argentina e uruguaya. Annales del Museo Nacional de
Buenos Ayres. T. IV. 1895.
No
F. Lahille. Lista de los pescados de la Plata. Revista
del Museo de la Plata. Tom. VI. 1896, pag. 265 —276.
BH. von Thering. Conchas marinas da formação pampeana
de La Plata. Revista do Museu Paulista. S. Paulo. Vol. I.
1895, pag. 223— 281.
E’ especialmente esta ultima publicação descrevendo
as conchas marinhas achadas por Ameghino na formação
pampeana, que confirma a minha opinião, que não ha
região intermediaria entre a Patagonia e o Brazil meri-
dional.
S. Paulo, março de 1896.
: mee Fe
Notes on the Coccidae,
a family of Homoptera,
with a table of the species hitherto observed in Brazil.
By T. D. A. Cockerell.
Entomologist of the New Mexico (U. S. A.) Agricultural Experiment Station.
The Coccidae (Scale-insects, Schildlaeusen, Cochenilles)
constitute a very peculiar family of Homopterous insects,
which are simply-formed through degeneration; being
highly specialised, widely departing from the primitive
Homopterous type. The males have but two wings (other |
Homoptera having four), while the females are entirrly
apterous. In the great majority of cases, the females are
stationary on the plants when mature, unable to move
even the shortest distance.
Owing to the rapid multiplication of many of the
species, and the fact that all live upon the sap of plants,
the family is most troublesome to horticulturists in
every part of the world; but especially in the tropics,
where it is very numerously represented. Between 700
and 800 species are now known for the whole world, and
less than 150 for the neotropical region; but it is pro-
bable, judging from the results obtained in the few loca-
lities which have been well searched for Coccidae, that
not less than 5000 species actually exist.
The species are mostly small, from the size of a
pin’s head to that of a grain of maize, but they are in
most cases massed in quantity on the plants, and there-
foree asy to see. They are more common on cultivated
Revista do Museu Paulista 5
Sn BE
plants than wild ones, and appear to abound more at
sea-level than in the mountains.
When making a study of them, with aview to de-
scribing new species, it is necessary to become acquainted
with the species of every country, because those of one
country so frequently appear in another. The natural
range of the species seems to be usually quite small, or
at any rate confined to one of the primary zoological
regions (1), but these insects are continually being carried
from country to country on plants, and that is why
their range becomes so wide. For example, Zecanium man-
giferae, Green, described from Ceylon, is now found in
the West Indies ; Diaspis anvygdali, Tryon, described from
Australia, is found in Ceylon, Japan, the West Indies
and North America.
The number of students at present engaged upon
the Coccidae, is not sufficient to deal with the material
coming to hand, although several workers are quite in-
dustrious. Not only are new students wanted, but more
especially observers in little-worked localities, who will
study the habits of the species, their food-plants, para-
sites, and so forth. The writer is every day more con-
vinced that no branch of zoological science can be put
ona thoroughly sound footing until we know the relation
of the species as they exist in nature, not merely as
they may be found in museums or entomological cabinets.
In describing a Coccid, one has to take note of the
colour, shape, size, and so forth, and especially of the
nature of the scale, or any woolly or cottony covering
there may be. Thus the mealy-bugs ( Ductylopius ) are
furnished with hairs which usually support little masses
of white secretion. Sometimes, in this way, a species
will have white filaments at the tail and along the sides,
sometimes only at the tail, sometimes none at all, and
(1) There are some few apparent exceptions. Thus, Mr. Maskel!
believes (in litt.) that Tachardia decorella, Mask., is native both
in Australia and India.
SC ve
so forth. All these characters are valuable in classifica-
tion, and are best observed in the living insects. The
species of the subfamily Diaspinae form quite distinct
scales, in which they live like an oyster in its shell.
The cast skins of the two immature stages are retained
on the top of the scale or at one end, and are shown
in the accompanying figure of Aspidiotus sacchari, CklL.,
a species (not before figured) found on sugar-cane in
Jamaica. It will be noticed in the same figure that the
male scale is much smaller and of a different shape from
that of the female. It really represents the first and sec-
ond skins of the female, rather than the true scale,
although in this species the texture of the male scale is
like that of the female.
When the external characters have been noted, it is
necessary to boil some of the specimens in a solution
of caustic potash (liquor potassae), which renders them
transparent, so that they can be studied hy transmitted
light under the compound microscope. Then the leges
and antennae, the mouth-parts, and the different hairs
and bristles on the body, when present, have to be des-
cribed. It is especially important to state the number or
joints in the female antennae, and the relative lengths
of the several joints. With the Diaspinae, the adult fe-
males of which lack legs and antennae, the hind end of
the body, as here figured (for the first time) in Aspidiotus
mangiferae, Ckll., 1s to be described minutely. The stu-
Ci tgs
(tt @
> Ko
oS} NSE
B. A
Aspidiotus sacchari Ckll.
A female scaie ; B male scale.
Aspidiotus mangiferae Ckll.
dent can best form an idea of the methods of describing,
by studying some of the existing descriptions— especially
those of species which he possesses.
To collect Coccidae is a very simple matter. All one
has to do is to take some of the leaves or twigs, leaving
the insects in situ, and put them into envelopes or small
boxes, writing outside the name of the plant, locality,
and collector. Dry material is always better than that
preserved in alcohol, because the alcohol spoils the exter-
nal characters, such as the cotton-like covering, etc. It
is desirable to obtain a plentiful supply of each species
when possible.
The Coccidae of Brazil are so little known that a
collection from any locality would be sure to contain
many additions to the list. Some species are known to
me from immature or broken specimens only, and so
cannot be described or given a place in the following
table. I have included in the table several genera which
are almost certain to be found in Brazil, but without
citing any species. The characters given for these are
not sufficient to identify them, but are intended mera
to suggest identities to the student.
JET DER
Table of the Coccidae of Brazil.
I. GENER. A..
A. Soft species, with more or less mealy or cottony
covering, not forming any scale, segments remaining
distinct.
Su ( Palaeococcus .
Female Su à with more than 9 joints ( Ieeryat
Female Antennae with 9 joints. . . . Phenacoccus.
( Dactylopius.
© ( Orihena.
B. Species which appear to have a scale, which how-
Female Antennae with 7 on 8 joints.
ever consists of the hardened skin of the female; either
naked, or covered with glassy, cottony, or waxy
matter.
Species covered with waxy secretion. Ceroplastes.(1)
Species forming a cottony ovisac, extending some
distance behind the female. . . . Pulvinaria.
Species either naked or with an easily
deciduous glassy covering; forming
no cottony ovisac. . . .. ... Lecamum (2)
C. Species enclosedin ascale, which has a
minute fringe all round the edge. Asterolecanium.(3)
D. Species under a true scale, like oysters in their
shells, size small, scale not fringed.
(a.) Male scale of the same texture as that of the female.
Female scale round or nearly so. . Aspidiotus.
Female scale elongate, mytiliform. . Mytilaspis. -
(b.) Male scale white, unlike that of the female in
texture,
. Female scale round or nearly so
( Diaspis. (male scale unicarinate.)
( Aulacaspis. (male scale tricarinate.)
Female scale usually white, more or
less mytiliform. , . . . . . Chionaspis(4.)
| ES
2. SPECIES.
(1.) Ceroplastes.
Wax taking the form ot distinct plates, so that the
insect is rather like a little tortoise.
Twe supposed species, ©. janeirensis, Gray, 1828, and
C. psidii, Chavannes, 1848. Théy are probably
identical but janeirensis is so imperfectly des-
cribed that we cannot be certain. The digitules
of the claw in psidii are very large.
Wax scarcely or not forming distinct plates.
Waxy masses reddish-brown, 5 to 6 mm. long, 4 or
o wide, and about 5 high.
: O. Cassiae, Chavannes.
Waxy masses pale pinkish, with two white bands
down each side; size large, wax extremely thick,
different individuals with the wax often running
together.
C. albolineatus, Ckll.
Waxy masses greenish-white, irregular,
small, 4 mm. long, 4 wide, 3 high.
Two white stripes down each side.
On Raccharts. o Oe as =O. theringi ae
(2.) Lecanium.
(a.) Subglobose, divided antero posteriorly
by a shallow groove, covered with a
thin glassy scale, antennae and legs
absent in adult female. . subgenus Pseudokermes.
Smooth, ochreous, shiny; length 2 '/,, breadth 3 mm.
On Blepharocalyx. L. nitens, Ckll.
(b) Subglobose, without a thin glassy scale.
Large, diameter about 10 mm., coffee-
brown or reddish-brown. . ZL. pseudosemen, Chill.
Smaller, 4 mm. long, reddish-brown. Z. mondle, Cll.
For descriptions of the last three species, see « Ca-
nadian Entomologist », August, 1895.)
Pee EE
(c.) Nearly hemisperical, or higher, but
a little longer than broad, reddish-
brown, 2‘, mm. long, 1'/, wide. On
Coffee at Bahia. . . . . . ZL. Coffeae, Walker
(d.) Nearly circular, only moderately con-
vex, red-brown, with interrupted black
or blackish transverse stripes . or
lines On Smita UE A Le ure, CHI.
(For a description, see Journ. Trinidad Field-Natural-
ists’ Club, August, 1895.)
(e.) Much longer than broad, more or less oval, slightly
or moderately convex.
Large, 11 mm. long, dark brown’ dermis
strongly reticulated. . . . Z. reticulatum, Ckll.
Small, 4'/, mm. long, brown, dermis
with large gland pits, not reticulated
On sbaceharas See SL Baccharidisy Ok
(For descriptions of these last two see « American
Naturalist », 1895.)
(3.) Asterolecanium.
Small, nearly circular, greenish-yel-
low, fringe pinkish . . . . A. pustulans, Cklt.
(For, description and figure, see sub Plonchonia pus-
tulans, in « Science Gossip », April 1893.)
(4.) Chionaspis.
Female scale pale brownish to reddish brown.
Usually on orchids and ferns.
Chionaspis brazihensis, Signoret.
A check-list of the neotropical Coccidae will be found
in Journ. Trinidad Field-Naturalists’ Club, 1894, p. 311,
In the Bulletin of the Botanical Department of Jamaica
(to be obtained from Mr. W. Fawcett, Gorden Town, Ja-
maica) is progressing a general account of the Coccidae
ee Go
of the West Indies, which must largely resemble those
of Brazil.
For technical details concerning the genera and
species, the writings of Signoret, Maskell and Comstock
must especially be studied.
Las Cruces, New Mexico, U. S. A., Nov. 1895.
Det -
05 MOLLUSCOS MARINOS DO BRAZIL
ELO
Dr. H. von Ihering
I Arcidae, Mytilidae.
(com 7 figuras)
Fam. ARCIDAE.
E ps AE
Fam. Arcidae
As numerosas especies desta familia vivem todas no :
mar, excepto algumas da India, do genero Scaphula, que
entram nos rios. O animal tem as duas metades do manto
completamente separadas, faltando por conseguinte os
syphões. O pé é grande, dividido no meio por um sulco
longitudinal, e munido de uma glandula de bysso. E”,
porem, bastante variavel o desenvolvimento do bysso,
sendo nas especies de Arca e Barbatia grande e composto
de numerosos fios pelos quaes 0 animal se fixa ás pedras
etc. sendo, porem, em outros subgeneros pequeno e sem
importancia. As guelras são compostas de filamentos
separados.
A concha é, ás vezes, composta (Scapharca) de duas
valvas differentes em tamanho e forma. Ella é de forma
oval ou rhombica, coberta de uma epiderme forte, mais
ou menos escamosa. No lado interior a concha não é
nacarada, tendo a linha palleal simples. O ligamento é
externo, estendido entre as vertebras n'uma parte da
concha chamada area. A charneira, maisou menos recti-
linea, tem numerosos dentes pequenos. {
As arcidas säo em geral molluscos costeiros, vi-
vendo em agua baixa, muitas vezes fixados pelo bysso
ds pedras ou ás raizes do mangue. Pertencem a uma
familia das mais antigas, que já está representada na
formação siluriana.
A familia das Nuculidas, munidas tambem de nume-
rosos dentes na charneira d'ellas differe pelo manto munido
de syphões na extremidade posterior.
A familia das Arcidas divide-se em duas subfamilias:
Arcinas com a charneira direita e os dentes pequenos
quasi eguaes, e Pectunculinas com a charneira em forma
de arco com os dentes do meio pequenos ou abortivos e
os dentes exteriores grandes.
Pouco até agora se conhece das Arcas do Brazil. E’
verdade, que já o principe Max Neuwied indicou grande
numero de Arcas no seu livro «Reise im óstlichen Brasilien»
RE a os pe
II p. 86 (Arca noae, barbata, decussata, aequilatera in-
dica, rhomboidea) mas as determinações não merecem
confiança. No appendice: «Brasilien, Nachtrige etc.» von
Max Prinz zu Wied. 1850, p. 107, publicou elle uma lista
das especies determinadas por Menke que contem: A.
umbonata Lam. indica Gm., brasiliana Lam. e scapha
Lam. Esta ultima especie é indica e não foi encontrada
no Brazil nem nas Antilhas, e como n'esta lista vêm
. catalogadas especies de Harpa, Pterocera etc., julgo quasi
certo que o principe foi illudido, acceitando na sua col-
lecçäo tambem especies da India.
Informações mais certas temos por A. d'Orbigny que
apenas conheceu duas especies do Brazil. Encontram-se
algumas indicações nos trabalhos de Hidalgo, Dunker,
Smith e outros. As colleeções mais completas são as mi-
nhas, ás quaes Dall já se referiu no Nautilus, 1891, p.43,
1893, p. 109 e 1897, p. 121. Publiquei no Journal de Con-
chyliologie o meu primeiro estudo referente ao assumpto.
Dou em seguida os titulos das respectivas publicações.
Dall, W. H. Reports on the results of dredging by
the U. S. Steamer Blake. Report on Mollusca, I. Bull. of
the Museum of Comp. Zool. Cambridge vol. XII, N. 6, 1884.
Dall, W. H. A preliminary catalogue of the shell-
bearing marine Mollusks. Bulletin of the U. S. National
Museum, N. 37. Washington, 1889.
Dall, W. H. Scientific results of exploration by the
U. S. Steamer Albatross. Proceedings of the U. S. Natio-
nal Museum, vol. 12, p. 216 (Nº 773) Washington, 1889.
Dunker, W. Ueber Conhylien von Desterro, Prov. St.
Catharina, Brasilien, Jahrb. d. Deutschen Malak. Ges. II.
187%, p. 240-254.
Hidalgo J. G. Molluscos del viaje al Pacifico, II, Ma-
drid, 1869 (Bivalvos marinos.)
Ihering, H. von. Sur les Arca des côtes du Bresil et
sur la classification du genre Arca. Journ. de Conchy-
liol. Paris, 1895 p. 211-219.
ag Re
Kobelt, W. Die Gattung Arca L. System. Conch.
Cab. v. Martini. Chemnitz. VIII, 2. Nuernberg, 1891.
D'Orbigny, A. em Ramon de la Sagra. Histoire phy-
sique de l'ile de Cuba. Mollusques par A. d'Orbigny, vol.
I e II avec Atlas, Paris, 1853.
D'Orbigny, A. Voyage dans l’Amérique meridional.
Vol. V, 3 part Mollusques. Paris, 1835-1843.
Reeve, L. A. Conchologia iconica. Vol. II, London, 1843.
Smith Edg. A. Mollusca of Fernando Noronha. Journ.
of the Linn. Soc. Vol. XX, London, 1890, p. 483-503, Pl. 30.
GEN. ARCA L.
Genero caracterisado pela charneira rectilinea com
numerosos e pequenos dentes. O genero Arca foi dividido
em varios subgeneros, cujo valor ainda é duvidoso.
Os que têm representantes em nossas aguas são :
1, Arca s. str.
Concha de forma alongada, de valvas iguaes, muni-
das na borda ventral de uma excisão grande para o
enorme bysso, e providas na charneira de numerosos
dentes, pequenos e iguaes. A area ligamental é extrema-
mente larga.
ARCA NOAE L.
Arca noae Reeve Conch. Ic. sp. 72.
Arca noae Kobelt Arca p. 8, Taf. I fig. 6-8e Taf. 5
fig. 3-5.
Arca noae Dall Albatross p. 259, (Cabo S. Roque) ;
Blake p. 243.
Arca barbadensis d’Orbigny Cuba II p. 321.
Arca occidentalis (Phil.) Kobelt Arca p. 66 Taf. 19
fig. 1-4.
Concha solida alongada, inequilateral, na borda ven-
tral hiante, munida de costas distantes e de linhas con-
centricas. Uma costa mais forte e esquinada decorre da
vertebra até ao angulo da extremidade posterior, sendo
ebay, 7 FREE
a parte da concha situada acima della excavada em forma
de sulco largo. As vertebras distam muito, sendo a arca
ligamental enorme, occupada na maior parte pelo liga-
mento e munida de ca. 6 sulcos rhombicos. A concha é
branca com fachas vermelhas.
Comprim. 83 Mm., Alt. 40 Mm., Diam. 46 Mm.
Estas medidas são de um grande exemplar de Ja-
maica. A vertebra está situada á 23 Mm. de distancia
da extremidade anterior ou em 27 por cento de compri-
mento total.
Arca noae é especie conhecida no Mar Mediterraneo
e nas Antilhas, que Dall indicou no Cabo S. Roque. À
especie é representada tambem na Africa occidental por
uma variedade menos alta com as extremidades mais
attenuadas.
A ella refere-se a Arca ventricosa Moerch (nec Lam.)
da Guinea.
A relação entre esta especie e a Arca occidentalis
Phil e outras não está ainda bem estudada. Ao Sul
da Bahia não existe a Arca noae. Nas costas pacificas
da America central e meridional esta especie é represen-
tada por Arca pacifica Sow. À Arca Bouvieri Fischer da
costa occidental da Africa parece-me apenas representar
uma variedade ou abnormidade um pouco curta da A.
Noae. O representante indico desta especie é a A. navi-
cularis Brug.
D'Orbigny, Philippi, Kobelt e outros autores sepa-
ram os representantes das Antilhas etc. do typo do Medi-
terraneo. Sigo nesta questão a Dal/, não tendo porem por
ora base para formar opinião propria.
ARCA UMBONATA LAM.
Arca umbonata Dunker 1. c. p. 253.
Arca umbonata Kobelt Arca p. 63, Taf. 18 fig. 1-3.
Arca imbricata Brugière (nee Reeve) Dict. N.º 3.
Arca americana d’Orbigny (nec Gray) Voy. Am. mer.
p. 632 e Cuba II p. 317, PI. 28 fig. 1-2.
dO
Arca imbricata Ihering 1. c. p. 212.
Concha solida, alongada, de forma oval um tanto
irregular, intumecida, na borda ventral com a excissäo
para o bysso. Parte anterior curta, parte posterior com-
prida, munida de uma costa decorrente da vertebra. Desta
sahem numerosas costas munidas de granulos ou pero-
las. A area ligamental é enorme, occupada toda pelo
ligamento e mostrando apenas na sua metade anterior,
entre as vertebras, alguns sulcos. A côr da concha é
vermelho-parda, escura. As escamas amarellas da epi-
derme conservam-se especialmente bem na extremidade |
posterior.
Comprim. 56 Mm., Alt. 30 Mm., Diam. 36 Mm.
A vertebra é situada d distancia de 15 Mm. da
extremidade anterior ou à 27,,, do comprimento total.
109
Sigo o exemplo de Æobelt rejeitando o nome dado
por Prugière (A. imbricata), visto que este se referiu ás
especies parecidas da India (A. ventricosa etc.)
Arca umbonata é especie conhecida das Antilhas,
que a nossa collecção tem de Bermuda. Cuba, Bahia, Rio
de Janeiro, S. Paulo e St. Catharina. Uma variedade mais
lisa que vive no Senegal, conhecida desde Adansor sob
o nome de Mysole, é considerada por Deshayes, Dunker
e outros como synonymo de A. umbonata, e foi descripta
por Yischer sob onome de A. despecta. Adg. Smith men-
cionando A. imbricata de Fernando Noronha declara
que obteve a mesma especie tambem de Cape York,
Australia.
2. Barbatia.
Concha parecida com a do subgenero precedente, distin-
guindo-se pela epiderme mais escamosa com appendices
cabelludas. A area ligamental é menor, os dentes lateraes
são maiores que os centraes.
AS
Arca HELBLINGI CH. VE UASE
A His
id.
fé
do Md
Arca Helblingi Kobelt p. 10 Taf. 2 fig. 1, 10 e 11,
? Arca candida Gmelin.
Arca Helblingi Reeve Concha icon. sp. 90.
Arca bullata Hidalgo (nec Reeve) Molluscos viaje
pacific. II p. 1869 p. 66 (Bahia).
Arca Helblingi Ihering 1. c. p. 213.
Concha irregularmente ovai, mais ou menos com-
pressa, solida, branca, perdendo com facilidade a epi-
derme escura. À borda superior é adeante e atraz angu-
lada. A superficie é coberta de costas radiaes, granulosas,
sendo as posteriores maiores mais distantes e em parte
duplas.
Compr. 47 Mm., Alt. 37 Mm., Diam. 22 Mm.
A vertebra dista da extremidade anterior 19 Mm,,
sendo pois situada em 40,,, do comprimento.
Ao lado destes exemplares altos e compressos ha
outros menos altos e mais intumecidos. As medidas de
um desses exemplares são 33-17-16 Mm., sendo a altura
e o diametro bastante variavel. Vendo, porem, esta especie
variavel na sua forma, não acredito que aqui sejam con-
fundidas duas especies parecidas. A Arca bullata de Reeve
(sp. 107) refere a concha de côr parda com nodosidades
maiores e dispostas de outro modo.
Recebi A. Helblingi de St. Catharina, S. Paulo e
Bahia. Dall a menciona de Florida, das Antilhas etc. e
Kobelt acredita a cosmopolita, sem porem proval-o.
ARCA BARBATA L.
Arca barbata Reeve Conch. icon. sp. 83.
Arca barbata Kobelt Arca p. 36 Taf. 4 fig. 1.
Arca barbata Dall Albatross p. 259 (Abrolhos).
Concha oblonga, de forma irregular, solida, branca,
revestida de epiderme escura e barbuda. A superficie é
munida de costas radiaes granosas e de outras concen-
tricas. As vertebras são situadas bem adeante em */ do
iirc
nd it
EE RES
comprimento, approximadas entre si e pequenas. À area
é comprida e estreita. A charneira tem no meio dentes
pequenos, aos lados dentes maiores. A superficie interna
é de côr escura-azul. Comprim. 50-80 Mm.
Esta especie, commum nas costas do Portugal e no
Mar Mediterraneo, vive tambem nas costas da Florida,
do Texas, e nas Antilhas. Dall obteve-a do Brazil, das
ilhas dos Abrolhos.
ARCA ADAMSI STUTTLEW.
Arca Adamsi Edg. A. Smith 1. c. vol. XX p. 499, PI.
30, fig. 6 e 6, a.
Arca Adamsi Dall Albatross p. 259,e Blake p. 243.
Especie pequena oblonga quasi quadrada, ventruda,
solida, branca, munida na superficie de linhas radiaes
e concentricas que no lugar de cruzamento formam no-
dosidades. As vertebras säo pequenas, approximadas, situa-
das pouco adeante do meio. O lado interno é estriado; as
impressões musculares são bem marcadas e linhas ele-
vadas sahem dellas em direcção á vertebra.
Comprim. 12 Mm., Alt. 7,5 Mm., Diam. 7,5 Mm.
Esta pequena especie vive nas costas da Florida e
do Texas, e nas Antilhas. Smith obteve-a de Fernando
Noronha, Dall do Cabo de S. Roque e das ilhas dos Abro-
lhos, e eu da Bahia, e de S. Sebastião (E. de S. Paulo).
Tenho da Bahia duas valvas cujas medidas são 10-
8,5-8 e 11-8-7 Mm., sendo a vertebra situada em :,,, do
comprimento. |
ARCA DOMINGENSIS LAM.
_Arca plicata (Chemnitz) Kobelt Arca p. 195, Taf. 1
fig. “9 e Taf. 47, fig. 5.
Arca AE eee Lamarck Miia s. v. Ed. II, vol.
VI, p. 467.
Arca donaciformis Reeve Conch. ic. sp. 104.
Arca gradata (Brod.) Reeve Conch. ic. sp. 92 (St. Elena,
Columbia.)
Milan ae
Adao
Arca divaricata Reeve p. 108.
Arca divaricata Kobelt Arca p. 111, Taf. 29, fig. 6-9.
Arca pusilla (Sow) Reeve sp. 12 PI. 16.
Arca reticulata Dall Bull. 37 p. 42, Albatross p. 259
e Blake p. 242.
Concha oval ou rhomboidal, muitas vezes irregular,
tendo a extremidade anterior curta redonda, a posterior
acuminada angulada, branca, com linhas concentricas e
costas radiarias, nodosas, formando as nodosidades, devido
a sulcos concentricos, degráos. As vertebras são situadas
adeante, pouco distantes entre si e a area é estreita. A
borda interna da concha é pligada.
Compr. 22, Alt. 15, Diam. 12 Mm.
As medidas indicadas referem-se a um exemplar de
Porto Rico que tem a vertebra á distancia de 4 Mm. da
extremidade anterior ou á 18,,, do comprimento. Entre
outros exemplares do mesmo local ha um com as seguin-
tes medidas: 19-11-9 Mm. e 261...
FE’ esta uma pequena especie bastante variavel que Dall
indicou como procedente do Brazil (Cabo S. Roque e
Abrolhos). Ella vive nas costas da Florida, Texas e nas
Antilhas, sendo encontrada tambem nos oceanos indico e
pacifico.
Dall dá a ella o nome de reticulata Gm. Chemnitz.
Kobelt duvida, como me parece com razão, que isto seja
exacto. A reticulata Ch. parece ser especie um pouco
maior com costas radiarias menos numerosas e que, espe-
cialmente na extremidade posterior, são mais largas e
têm granulos em forma de peroia.
Não é, porem, certo que esta seja a Arca plicata de
Chemnitz € o nome mais proprio seria o que Zamark esco-
lheu. Pilsbry menciona A. domingensis Lam. no seu
catalogo das conchas do Japão.
3., Anomalocardia.
De forma mais curta e alta, tendo a parte anterior
e a posterior da concha quasi o mesmo comprimento.
a
Revista do Museu Paulista 6
D D) MECS
Näo tem bysso. Epiderme com as appendices menores,
como velludo.
Arca Chemnitzi Phil.
Arca bicops d’Orbigny Voy. Am. m. p. 632.
Arca antillarum Dunker in litt. test. Kobelt.
Arca rhombea Dunker (nec Born) I. e. p. 253.
Arca d'Orbignyi Kobelt 1. c. p. 57 e 102, Taf. 16 fig.
aero:
Arca Chemnitzi Thering 1. c. p. 213.
Concha trigona, crassa, com as valvas eguaes muni-
das de 27—28 costas chatas e que são mais largas do que
os espaços intermedios. A area é larga, rhombica, sem
sulcos. Comprim. 24 Mm., Alt. 25 Mm., Diam. 24 Mm.
Esta concha, extremamente commum na costa do Rio
Grande do Sul é facilmente confundida com a Arca bra-
siliana. Basta porem vêr a concha do lado interior para
distinguil-as, tendo A. Chemnitzi na borda ventral
incisões pequenas e estreitas, correspondentes ás costas,
sendo ao contrario na A. brasiliana as incisões quasi tão
largas como os intervallos ou dentes. Tenho esta especie
tambem de S. Paulo e de St. Catharina ; ella é commum
nas costas das Antilhas, da Florida, Georgia etc. até
Cape Cod. Parece-me que D'Orbigny confundiu-a com a
A. brasiliana.
ARCA AURICULATA LAM.
Arca auriculata Kobelt Arca pag. 27 Taf 8 fig. 5 e 6.
Arca auriculata Reeve conch. icon. sp. 35.
Arca auriculata Ihering 1. c p. 213.
Concha oval cordiforme, solida, ventruda, de val-
vas eguaes, brancas, ás vezes com manchas pardas pouco
distinctas. A borda superior forma em frente com a
borda anterior, e atraz com a borda posterior angulo.
As valvas têm 26 e 30 costas altas e estreitas. As
Mere Nous
vertebras säo situadas bem adiante. A area é larga,
comprida, de forma rhombica. Compr. 37 Mm., Alt. 28 Mm.,
Diam. 25 Mm.
Costa de S. Paulo, Bahia e Antilhas.
Kobelt considera esta especie como pertencente ao
subgenero Argina, 0 que näo julgo razoavel. Creio que
este subgenero ha de ser restringido ás formas sem area
ou com area muito estreita. Não ha razão para separar a
Arca auriculata da Arca Deshayesii, 4 qual está intima-
mente ligada. Parece que ha, ás vezes, exemplares um
tanto inequivalves, mas em geral como Aobelt o diz, a
concha tem as valvas eguaes, de n.odo que não. pode ser
collocada no subgenero Scapharca como W. H. Dall está
propondo.
ARCA. DESHAYESII HANLEY
Arca Deshayesii Kobelt Arca p. 52 Taf 15 fig. 1 e 2.
Arca Deshayesii Reeve Conch. icon. sp. 47.
Arca Deshayesii Hidalgo Moll. via]. pacif. II p. 66.
Arca jamaicensis Dall Albatross p. 259 e Nautilus
X. 1897 p. 128.
“Arca Deshayesii Ihering 1. ¢ p. 218.
Concha oblonga, crassa, ventruda, com as vertebras
infladas, situadas na parte anterior da concha. As tes-
tas são eguaes, tendo a borda superior terminada por
angulo em frente e atraz; tem 27 costas granuliferas.
A area é comprida e larga, munida de sulcos que for-
mam figuras rhombicas. Compr. 70 Mm., Altura 50 Mm.,
Diam. 30 Mm. |
Esta concha, conhecida nas Antilhas, ha em nossa
costa e ella tambem foi encontrada ali nos sambaquis.
Hidalgo encontrou-a na Bahia, donde a tenho tambem.
Dall obteve-a dos Abrolhos, reunindo a com jamaicen-
sis, que differe della por ter outra forma e pela posição
mais central da vertebra.
E RA Res
Arca Deshayesii é especie que muito se parece com
a A. auriculata, de modo que algum tempo julguei que
esta fosse o estado juvenil d'aquella.
“Conheço bem A. auriculata, medindo o exemplar
maior 40 Mm., contra 75 de A. Deshayesii, mas não tenho
exemplares novos desta ultima especie. Reeve, porém, diz
que estes são mais alongados que A. auriculata. Não
acho differença constante na formação das costas que em
ambas as especies são altas e separadas por intervallos
fundos e largos, e das quaes muitas vezes as primeiras
ou anteriores são divididas por suleos.
Differente é a forma, a borda dorsal sendo mais com-
prida na A. Deshayesii e a area que é quasi lisa em A.
auriculata e munida de sulcos rhombicos em A. Desha-
yesil.
Noto mais uma differença. Na A. Deshayesii os den-
tes formam uma serie continua, na A. auriculata dous
grupos, separados por uma linha obliqua sob a vertebra.
4. Scapharca.
As conchas desta secção distinguem-se pela des-
egualdade das duas valvas, das quaes uma é maior que
a outra. À concha, mesmo assim, fecha bem, não tendo
incisão ventral para o bysso, que, porém, existe.
ARCA INCONGRUA SAY VAR. BRASILIANA Lam.
Arca incongrua Kobelt, Arca p. 97 Taf. 26 fig. 9 e 6.
Arca brasiliana ( Lam.) Kobelt Arca p. 100 Taf. 27
fig, de 4,
Arca incongrua Reeve Conch. icon. sp. 90.
Arca brasiliana Reeve Conch. icon. sp. 17.
Arca brasiliana Ihering Arca p. 213,
Concha oval-rhomboidal, inflada, com uma crista
pouco marcada correndo das vertebras á extremidade
posterior. As conchas têm ca 30 costas, decorrentes da
vertebra e munidas de tuberculos ou perolas. Na con-
ee
cha direita faltam estas perolas nas costas do meio e do
lado posterior, existindo, porém, na metade esquerda da
concha. A area é larga, rhombica. Compr. 46 Mm., Al-
tura 40 Mm., Diam. 26 Mm. Sao raros exemplares tao
grandes.
Esta concha é commum desde as Antilhas até S. Pau-
lo, St". Catharina e Rio Grande do Sul.
E' certo que os exemplares do Brazil differem um
pouco daquelles dos Estados Unidos. Os do Brazil são
menores; o maior que tenho mede Compr. 43, Alt. 40,
Diam. 39 Mm., mas de A. incongrua tenho um exemplar
de Florida medindo 57-45-49 Mm. Considerado o compri-
mento da area como 100 a largura da mesma é 46 no
xemplar do Brazil, 28 no da Florida. Em geral a A.
brasiliana tem as vertebras mais intumecida, o angulo
entre a superficie externa e posterior mais saliente, a
borda ventral menos arcuada.
Tenho porém agora exemplares da Florida, do Texas,
de Guatemala e do Brazil e quanto mais material estou
examinando, tanto mais vejo as formas extremas reuni-
das, acompanhando deste modo a opinião de Dall.
Podemos considerar os representantes brazileiros co-
mo variedade : var. brasiliana (concha minore, apicibus
inflatioribus, extremitatibus abbreviatis). Nestas condições
não ha razão para separar da Arca incongrua os repre-
sentantes das costas pacificas da America, que quando
muito, podem formar outra variedade, var. cardiiformis
Sow (A. inaequivalvis Sow, A. corculum Moerch). D’ Orbi-
gny diz que a figura da A. brasiliana de Reeve (sp. 17)
refere-se 4 A. cardiiformis.
ARCA CEPOIDES REEVE
Arca cepoides Reeve Conch. Icon. sp. 66.
Arca cepoides Kobelt 1. c. p. 95 Taf. 26, fig. 12.
Concha maior do que a precedente, não muito crassa,
com as valvas muito deseguaes, munidas de 32-35 costas
noie
chatas, quasi lisas. As vertebras situadas quasi no meio.
A area 6 larga, rhombica e quasi destituida de sulcos. A
borda superior é mais inclinada antes do que atraz da
vertebra. Compr. 60 Mm., Alt. 50 Mm., Diam. 42 Mm.
Esta especie descrinta de S. Miguel, Ecuador, America
do Sul, é indicada por Aobelt, que se refere a Dunker,
existente tambem no Brazil. Nada' posso affirmar a res-
peito, não acreditando que seja exacto. Prof. E. von Mar-
tens me escreve, que o respectivo exemplar da collecção
Dunker é um pouco differente do de Reeve.
5. Argina.
Concha oval ou cordiforme, de valvas mais ou menos
deseguaes com area rudimentar ou nulla; os dentes do
meio são menores do que os dos lados, sendo quasi sem-
pre os anteriores, situados em frente da vertebra, reuni-
dos em um grupo isolado.
ARCA INDICA GM.
Arca indica Kobelt Arca p. 11 Taf. 2, fig. 2.
Arca indica Reeve Conch. ic. sp. 56.
Arca indica Ihering p. 214 (excl. syn.)
Arca americana Dall (nec Gray) Bull 37 p. 40.
Concha oval-rhomboidal, um pouco inequivalve, com
“a extremidade anterior curta, arredondada e a posterior
alongada. angulada. A côr da concha é branco-esverdeada.
As costas decorrentes da vertebra e quasi sempre divi-
didas por um sulco longitudinal são em numero de 32-
34. Não ha area. As vertebras são pequenas e approxi-
madas entre si. Compr. 40, Alt. 26, Diam. 22 Mm.
A vertebra está situada em 20 ou 25/, do compri-
mento.
Tenho esta concha das costas do Rio Grande do Sul,
de S. Paulo e das Antilhas.
he Ay ean
Dall denominou-a A. americana Gray., Avbelt porem,
mostrou que esta 6 apenas uma variedade da A. pexata
Say. Boa figura da A. americana Gray deu tambem
Reeve, que porem se enganou quanto aos sulcos que
dividem as costas e quanto ao numero destas. Tenho A.
pexata de varias localidades e parte dos exemplares têm
os sulcos bem marcados que faltam em outros. E’ variavel
tambem o numero das costas. Arca Holmesi Kurtz é
apenas uma variedade mais alta e curta de A. pexata.
Considerando 100 o comprimento da concha, a altura
é de 65-66 em A. indica e de 83-96 em A. pexata, sendo
as medidas do diametro 55-67 na Arca indica e 71-84
na outra especie. A existencia ou a falta dos sulcos di-
visorios das costas não serve para a distincção das espe-
cies, sendo este caracter variavel entre os individuos de
uma mesma localidade.
Prof. &. v. Martens me escreveu que o Museu de
Berlim tem Arca campºchiensis Gm.—indica Gm.—ameri-
cana Gray (non Orb.) de Desterro, Rio de Janeiro, Pernam-
buco e das Antilhas.
6., Noëlia.
Concha de forma oval-trigona, de valvas eguaes, com
uma carina decorrente da vertebra sobre a extremidade
posterior. Existe uma area pouco larga, que é melhor
desenvolvida em frente das vertebras e que está munida
na metade anterior de sulcos transversos.
Arca MARTINI RECL.
? Arca bisulca Lam.
Arca Martini Recluz Jour. de Conch. III 1852, p. 409
Taf. 12-fio 9-9: IV’ p. 86.
Arca Martini Kobelt Arca p. 60, Ta”. 17, fig. 7-8.
Arca Martini Ihering Arca p. 214.
ee ORR
Arca Martini Ihering Revista Museu Paulista I 1895
p. 228.
Arca Martini Dunker 1. c. p. 253.
Concha oval, oblonga, com a extremidade posterior
alongada, munida de 26-30 costas radiarias e de outras
mais finas nos intervallos. As vertebras são erectas e
tortas, e viradas para traz. Comprimento 30 Mm., Altura
15 Mm., Diametro 15 Mm.
Costa de São Paulo e do Rio Grande do Sul (v. Ihe-
ring) e Rio de Janeiro (Recluz). Foi encontrada tambem
por mim entre as conchas marinas dos depositos pam-
peanos de La Plata, e por Dunker em St". Catharina.
São estas as especies encontradas no litoral do Brazil,
especialmente na sua parte meridional.
Apresenta-se-nos assim a região atlantica desde os
Estados Unidos até ao Rio da Prata e provavelmente até
a Bahia Blanca como uma região unica e natural, con-
trastando com as Arcas da região Arctica (Arca e Bar-
batia somente) como tambem com ás da zona antarctica
(Lissarca). Parece que estes ty pos actuaes já estiveram nas
costas do Brazil representados na epoca terciaria, sendo
notavel o parentesco entre Arca brasiliana e Arca Chem-
nitzi da fauna actuale a Arca Bonplandeana da tormação
terciaria argentina. Entre todas estas especies de Arca,
sobre cuja existencia e distribuição nas costas do Brazil
temos informações certas, existe uma só que não é co-
checida nas Antilhas e nas costas atlanticas meridionaes
dos Estados Unidos a A. Martini Recl. Se porem esta
especie fosse, como os autores julgam, identica a Arca
bisulca Lam., ella viveria tambem na Guyana. Todas:
estas Arcas são, pois, membros da fauna tropical do
Aatlantico.
“a
— 89 —
GEN. PECTUNCULUS LAM.
Concha solida, mais ou menos circular, de valvas
eguaes que em toda a circumferencia fecham bem, que
na borda säo crenuladas, e na superficie externa reves-
tidas de uma epiderme felpuda. A charneira forma uma
linha arcuada, tendo os dentes maiores nos lados e os
centraes, ds vezes, rudimentaes. Acima della, entre ella
e a vertebra existe a pequena area ligamental, de forma
triangular e com sulcos incisos. Distinguem-se dous
subgeneros conforme a esculptura da superficie externa
Pectunculus s. str. com costas radiarias e Axinaea com
a superficie lisa ou com sulcos pouco marcados. Das
especies brazileiras pertence só P. pectinatus ao primeiro
subgenero, fazendo as outras parte da secção Axinaea.
PECTUNCULUS PECTINATUS GM.
Pectunculus pectiniformis d'Orbigny (nec Lam.?)
Cuba II p. 313
Pectunculus pectinatus (Lam.) Reeve Conch ic. sp. 28.
Pectunculus oculatus Reeve Conch. ic. sp. 38.
Pectunculus pectinatus Ede. Smith 1. c. p. 508.
Pectunculus pectinatus Dall Blake 1. c. p. 239.
Concha alta parecida com a de Pecten, com costas ra-
diarias, de côr avermelhada ou escura com malhas pretas,
ás vezes em forma de annel com o centro branco, irre-
gularmente distribuidas. Long. 23 Mm. O numero das
costas varia de 20-40, conforme ás localidades e varie-
dades.
Esta especie das Antilhas e do Sul dos Estados Uni-
dos foi encontrada no Brazil peia expedição do Challenger
á Ilha de Fernando Noronha, como E. Smith affirma.
PECTUNCULUS UNDATUS L.
Pectunculus undatus d'Orbigny Cuba II p. 314.
Pectunculus lineatus Reeve Conch. ic. p. 25.
BEND)? LE
Pectunculus pennaceus (Lam.) Reeve Conch. ic. sp. 24.
Pectunculus scriptus (Born) Reeve Conch. ic. sp. 6.
Pectunculus undulatus Lamarck Anim. s. vert. VI
1819, p, 50.
Pectunculus undatus Dall 1. c. Blake p. 238e Alba-
tross p. 260.
Concha bastante intumecida caracterisada por estrias
concentricas e radiarias, sendo as ultimas mais fortes. As
valvas sao de côr branca com malhas grandes e peque-
nas, irregularmente distribuidas, de côr parda e ds vezes
em forma de W como escriptas. Long. 48 Mm.
E’ especie commum das Antilhas e da Florida etc.
que foi descripta sob numerosas denominações. Dall
obteve-a do Cabo S. Roque. Creio que a esta especie per-
tence um exemplar da costa do Paraná (Paranaguá) com
signaes escriptos e duas fachas decorrentes da vertebra
com numerosas linhas finas impressas, concentricas e
linhas radiarias finas quas: obsoletas, medindo 26-28-17 Mm.
PECTUNCULUS LONGIOR Sow.
Pectunculus longior Sowerby Proc. Zool. Soc. 1833.
p. 196.
Pectunculus longior Reeve Conch. ic. sp. 10.
Pectunculus longior d’Orbigny Voy. Am. m. p. 627.
Concha elliptica, alta, com a extremidade posterior da
valva mais curta, de côr branca ou amarella com malhas
irregulares de côr parda e com duas fachas escuras decor-
rentes da vertebra sobre a extremidade posterior. Long.
25, Alt. 26, Diam. 14 Mm.
A descripção refere-se a exemplares do Brazil e
especialmente do Rio de Janeiro (d’Orbigny). Os exem-
plares que tenho de S. Paulo e de Maldonado não são
lisos como a figura de Rceve o indica, mas munidos de
costas chatas pouco marcadas. O lado interior é em maior
ou menor extensão de côr parda. Tenho apenas exemplares
estragados, achados na praia, e como Reeve diz o mesmo
RAR TRE
de seu exemplar, deixei de descrever estas minhas con-
chas como novas, esperando o resultado de melhores
pesquizas.
PECTUNCULUS TELLINAEFORMIS RVE.
Pectunculus tellinaeformis Reeve Proc. Zool. Soc.
1843 ; e Conch. ic. sp. 34 _
Concha transversalmente oval, pouco intumecida, com
costas radiarias largas pouco altas, pouco pronunciadas.
A côr varia de branco a amarello, o interior é pardo ex-
cepto a peripheria. Larg. 27 Mm.
Rio de Janeiro. (teste Reeve). Tenho da costa de S.
Paulo uma valva que corresponde 4 descripção de Reeve.
As costas sao chatas, largas e munidas perto da borda
ventral de algumas linhas impressas radiarias pouco
visiveis.
PECTUNCULUS: CASTANEUS LAM.
Pectunculus castaneus Lamarck An. s. ver. Ed. II
Vol. VI p. 443.
Pectunculus castaneus Reeve Conch. ic. sp. 32.
A concha é oval, mais comprida do que alta, mu-
nida de ca. 40 costas radiarias largas e pouco elevadas,
e alem disto de numerosas linhas finissimas impressas.
Numa costa que na borda ventral mede 1,5 Mm. de lar-
gura conto 12-14 linhas radiarias. Parte dos exemplares
tem as valvas brancas, outros só poucas e outros nume-
rosas malhas de côr parda ou castanha, ás vezes reunidas
em faxas transversaes. A epiderme é finissima. A area
“ligamental é relativamente grande, medindo 10,5 Mm.
de comprimento e 2 de altura no exemplar cujas medidas
são indicadas. O interior desde a vertebra até a metade
e côr pardo avermelhado. Compr. 30, Alt. 27, Diam. 18 Mm.
Esta especie é parecida com a P. tellinaeformis, da
qual differe pelas numerosas linhas impressas. Alem ditos
aquella especie tem a area ligamental menor e a cor
uniforme sem malhas.
Pectunculus castaneus Lam. é especie das Antilhas
e que não é rara na costa de S. Paulo.
Fam. Mytilidae
Conchas marinas e algumas ;de agua doce. Aqui no
Brazil a familia é representada apenas no mar, visto que
a indicação de uma especie de Dreissensia como vivente
no Brazil, (Dreissensia Rossmaessleri Dunker of Reeve
Mytilus sp. 4 America do Norte; e P. Fischer Journ. de
Conchyl. VII. 1859 p. 132 Brazil?) parece falsa, não existindo
especies de Dreissensia ao Sul das Antilhas e de Guatemala.
O animal tem o pé alongado, linguiforme, munido
de um sulco no meio destinado á formação dos filamen-
tos do bysso, pelo qual o animal se fixa ás pedras ou
a madeira.
A concha tem duas valvas eguaes de forma oval
ou triangular. O ligamento é linear, situado na borda,
a charneira simples sem dentes ou com alguns pequenos. À
superficie interna é mais ou menos nacarada. Existem
duas impressões de musculos «adductores», desapparecendo,
porem, o anterior ás vezes no genero Mytilus. |
Quanto á litteratura etc., veja-se a introducção do ca-
pitulo que trata das Arcidas.
Myrius L.
O animal tem um siphão anal bem curto e os orgãos
da reproducção estendidos no manto. A concha é cunei-
forme ou triangular, estando as vertebras terminaes, situa-
das na ponta da: xtremidade anterior. Os animaes deste
sem D EN
genero são comidos em todos os paizes, sendo porem
notavel que já varias vezes, por exemplo em Wilhelmsha-
fen, forão observadas doenças graves e até mortaes devi-
das a estes animaes, que serviram de alimento. Aqui na
costa de S. Paulo o sururú (Myt. perna L.) é comido, não
me constando que tal facto haja produzido consequencias
funestas.
Quanto ás numerosas especies deste genero os natu-
ralistas não distinguiram até hoje as differenças existentes
relativamente aos musculos adductores, que unindo uma
concha á outra servem para fechal-as. Os compendios
registram que os Mytilidae têm dous adductores. Isto é
exacto para o genero Modiola, mas não para Mytilus,
genero no qual ha especies com um e outras com dous
adductores. P. Fischer assim diz (Manuel de Conchylio-
logie. Paris 1887 p. 966) que no genero Mytilus ha
dous adductores, dos quaes o anterior está situado em-
baixo da vertebra. A verdade é, que no genero Mytilus
existem especies monomyarios (com um adductor) e di-
myarios. Foi preciso observar estas differenças no interesse
da distincção das especies, comquanto destas observações
não resultassem vantagens para a separação de sub-
generos. Especies de Mytilus sem adductor anterior (mo-
nomyarios) são: Myt. chorus Mol., perna L., afer Gm.,
meridionalis Krauss, latus Lam., hamatus Say, magel-
lanicus Ch.
MYTILUS PERNA L.
Sururú (costa de S. Paulo).
Mytilus perna Linné Syst. Nat. p. 1113 (t. Hanley).
Mytilus elongatus Chemnitz 1785 Conch. Cab. VIII
p. 157 Taf. 83 fig. 738.
Myt. elongatus Lamarck 1819 Anim. s. vertebr. VI
p: 122 N°12
? Myt. perna L. Reeve Conch. ic. sp. 28.
RE
Myt. perna Dunker Jahrb. D. Mal. Ges. II. 1875 p. 250.
Myt. perna L. (magellanicus Retz:) Moerch Cat. Yoldi
1852 p. 52.
Myt. perna Lam., v. Martens Jahrb. D. Mal. Ges. I.
1874 p. 124.
Myt. elongatus Ch. d’Orbigny. Voy. Am. mer. V.
1835-1843 p. 643.
Myt. afer Hidalgo (nec Gm.) Moll. Viaj. Pacifico I.
1869 pag. 50.
Myt. achatinus Lam. (var.) Chemnitz Conch. Cab
VII p. 741 (teste v. Martens),
Fig. 1 e 2 Mytilus perna L. de Rio de Janeiro.
Concha oval-alongada, com a parte apical acumi-
nada e a parte posterior redonda, vestida de uma epi-
derme de côr avermelhado-parda ou, ás vezes, verde e
munida de estrias irregulares angulosas como escriptas,
ás vezes obsoletas. A charneira contem um dente na
valva direita e dous na outra. O interior é branco.
Compr. 77, Alt. 38, Diam. 26 Mm. A impressão do musculo
retractor anterior mede neste exemplar 10,3 Mm.
Esta grande especie é commum no Rio de Janeiro,
Santos e St. Catharina. Mais ao Sul (Rio Grande do Sul,
OT
Montevideu etc.) ella já não existe mais, sendo na Pata-
gonia substituida por Myt. patagonicus d'Orb. Não sei
por ora se ella existe ainda na Bahia e mais para o Norte,
o que não parece acontecer. Ao contrario Martens e So-
werby a indicaram como provenientes da Africa meridio-
nal, caso analogo ao do Mytilus magellanicus Ch. (cre-
nulatus Lam?) tambem indicado pelos dous autores men-
cionados da Africa meridional, mas penso que ha equivoco
referindo-se aquelles autores antes ao M. afer Gm.
Dunker diz, que Linné e Chemnitz indicaram Mytilus
perna como proveniente do Estreito de Magalhães. Não me
consta que isto fosse confirmado, o que é certo é que Reeve
se enganou, indicando como a patria desta especie New
Foundland !
Quanto 4 questäo da distribuicao desta especie en-
contra-se grande difficaldade pela confusão de synonymia
e a difficuldade em distinguir certas especies affines.
Neste sentido preciso dizer, que M. chorus Mol. (ungulatus
Val.) nada tem que vêr com esta especie e outras pare-
cidas por ser especie grande de côr uniforme escuro-azul
com linhas finas longitudinaes impressas na ep terme,
com dous dentes em cada valva e com a impressão do
musculo retractor anterior pequena e oval, quasi redonda.
Os exemplares de M. latus Chemn. da Nova-Zelandia que
recebi do Dr. Suter nada fazem vêr de esculptura escripta
da epiderme e tem faxas radiarias de côr verde que M.
perna nunca tem. M. latus distingue-se pelo dente extre-
mamente forte da valva esquerda, sendo especie o duplo
maior do que M. perna, de modo que, não podem ser
confundidas. A especie que mais facilmente com M. perna
pode ser confundida é M. afer Gm., (pictus Born; africanus
Ch.) Esta especie das costas africanas é a unica que tem
as mesmas marcas escriptas da epiderme como M. perna,
da qual apenas se distingue por ser concha mais solida,
de côr mais clara e viva, de nacar semelhante á porcel-
lana e de vertebras mais estreitas e compridas. A impres-
tp
são do retractor anterior é mais estreita e situada mais
perto ao ligamento.
Observando estas differenças não será custoso de
separar as especies alliadas. E’ porém necessario de ob-
servar, que a forma da concha neste sentido tem menos
importancia, visto que ao lado de exemplares estreitos
e alongados ha outros de forma mais larga e trigona,
parecidos ao M. afer (veja-se as figuras da pag. 94).
M. perna é assim especie bastante variavel, tanto na
forma como na esculptura e na côr. Os exemplares de
Rio de Janeiro são de côr mais clara ás vezes verde e
a maior parte dos exemplares tem bem desenvolvidas as
marcas escriptas da epiderme. Ao contrario os exemplares
de Santos são mais uniformes na côr, que é castanha, e
com as marcas escriptas pouco visiveis.
Esta especie conhecida nesta costa e naquella de
Paraná sob o nome de Sururû é comido pela população.
do littoral.
MYTILUS DOMINGENSIS LAM.
Mytilus domingensis Lamarck Anim. s. vert. VI.
1810 pho Newel 0:
Mytilus exustus Lamarck (nec L.) Anim. s. vert.
VI 1819 p. 121 N° 6.
Mytilus exustus Lam., Reeve Conch. Icon. sp. 10.
Mytilus domingensis Lam., Orbigny Voy Am. mer.
pag. 645.
Mytilus domingensis Lam. d'Orbigny Cuba II p.
328 Pl. 28 fig. 8-9.
Concha oval-triangular, de côr escuro-parda, as vezes
mais amarella, um pouco compressa e munida por toda
a superficie externa de sulcos e de costas radiarias no-
dulosas e em parte bifurcadas.
Esta conhecida especie é distribuida desde a Florida
até ao Brazil.
A PEN EE eal
=
E
4
yd
— 97
Tenho a da Bahia, e d’Orbigny a menciona do Rio
de Janeiro.
E’ boa a figura de Reeve. Os meus exemplares da
Bahia säo de cor mais escura, sendo amarellos no lado
ventral á excepção da parte anterior em baixo das ver-
tebras, parte esta que é quasi lisa e de côr castanha.
Os exemplares pequenos de 15-17 Mm. de compri-
mento são amarellos; os dentes cardinaes são em numero
de 4-6 desenvolvidos na concha esquerda ; irregulares
e reduzidos em numero em exemplares maiores.
O adductor e o retractor anteriores são bem desenvol-
vidos. Os exemplares maiores da Bahia medem 42 Mm.
Toda a superficie é munida de costas fortes providas
de granulos ou perolas, sendo as linhas concentricas
pouco desenvolvidas. As costas são as vezes bifurcadas.
A borda interior contem numerosos e pequenos dentes.
O lado interno da concha é azul-escuro.
Esta conhecida especie das Antilhas tenho da Bahia,
mas não do Rio de Janeiro e como deste lugar tenho
duas especies parecidas, julgo que os presumidos exem-
plares de Rio do Janeiro pertencem realmente ao Mytilus
Muelleri Dkr.
Mytilus exustus é uma das especies que mais diffi-
culdades produziram pela synonymia. D’ Orbigny affirma
(Cuba IT p. 329), que Mytilus exustus de Linné é dif-
ferente da especie assim denominada por Lamarck. O
que é certo é, que o Myt. exustus L. de D’Orbigny (1. c.
_p. 329 e Pl. 28 pag.6e 7) refere-se não a Mytilus, mas
à Modiola sulcata Lam. Dall (Bull. Mus. Comp. Zool.
IX p. 117) diz que as conchas que 2'Orhigny figurou
como Myt. exustus L., Lavalleanus d'Orb.e dominguen-
sis d'Orb., todas pertencem a uma especie, M.exustus. Já
expliquei que isto não é exacto quanto ao M. exustus
(L.) de d’Orbigny e como tenho exemplares de M. Laval-
leanus d'Orb.. de S. Thomaz posso affirmar que esta é
especie boa, caracterisada pela fórma, pelo diametro e
pelas costas que não são granuladas.
Revista do Museu Paulista (
FOR AA
MYTILUS DARWINIANUS ORB.
Myt. Darwinianus D'Orbigny Voy. Am. merid. pag.
643 PI. 84 fig. 30-33.
Myt. magellanicus Dall Nautilus V 1891 pag. 43.
Myt. domingensis Hidalgo (nec Lam.) Viaj. Pacif.
pag. 54 Lam. 2 fig. 6.
D Orbigny diz que esta especie, de 30 Mm. de com-
primento vive desde o Rio de Janeiro até a Patagonia. Os
meus exemplares do Rio, de 25 Mm., correspondem bem
ad descripção e figura dadas por D'Orbigny. E' es-
pecie parecida ao M. exustus, tendo porém as costas mais
numerosas e finas. Comparando exemplares do mesmo
tamanho conto em M. exustus 4 e em M. Darwinianus ©
12 costas na extensão transversal de 3 M. A borda da
concha é por toda parte crenulada, sendo os dentes mais
fortes desenvolvidos na borda dorsal atraz do ligamento.
A parte ventral atraz da vertebra é lisa, de côr par-
da, seguindo depois um trecho de cor amarellada. A
impressão do retractor posterior é ligada á do addu-
ctor ; existem duas impressões grandes na extremidade
anterior.
Na valva esquerda ha 3, na outra 2 dentes cardinaes
As medidas são: Compr. 26, Alt. 15, Diam. 10 Mm.
Os exemplares desta especie que tenho de Iguape,
costa de S. Paulo, se parecem com as do Rio de Janeiro,
tendo, porém, as costas mais fortes ou largas. As costas
ora mais finas, ora mais fortes, ds vezes um pouco gra-
nulosas, são sempre cortadas por numerosas linhas con-
centricas e isso distingue bem a especie do M. domin-
gensis. A concha é de côr escuro-azul, a epiderme
escura ou preta e de côr castanha na parte ventral, logo
atraz da vertebra, que é lisa. |
E o ft
MYTILUS MUELLERI DKR.
Mytilus Muelleri Dunker 1. c. pag. 250.
Concha oval, um pouco triangular e alongada, de
_valvas tenues, cobertas na superficie externa de nume-
rosas costas estreitas e meio chatas e cortadas por
numerosas linhas concentricas. A concha onde perdeu a
epiderme que é preta, especialmente perto das vertebras
tem a côr roxa-purpurea como de cobre.
Compr. 44-46, Alt. 18-20, Diam: 12-13 Mm.
3 4.
Mytilus Muelleri Dkr.
Esta descripção de .Dunker retere-se a exemplares de
St." Catharina; os meus são de Montevideo e differem d'a-
quelles porque têm maior diametro e as costas mais ou
menos chatas e sem granulações. As medidas são: Compr.
32, Alt. 16, Diam. 12 Mm.
Esta especie está intimamente ligada ao M. Darwini-
anus d'Orb. e provavelmente representa apenas uma
variedade delle. Não tenho, porém, exemplares typicos.
MYTILUS SOLISIANUS D ORB.
Myt. Solisianus D'Orbigny Voy. Am. mer. pag. 646
PL 85 fig. 5-8.
Myt. exiguus Dunker Jahrb. D. Mal. Ges. II 1875,
pag. 251.
Myt. exiguus Dkr. Dall Nautilus VI. 1893 pag. 110.
Myt. Lavalleanus Reeve (nec Orb.) Conch. ic. sp. 54-
— 100 —
Myt. janeirensis Dunker Reise d. Oest. Fregatte
Novarra Zool. Abth. Bd. II Abth. 3 p. 16 Taf. II fig. 29
a—b. |
Esta pequena especie de 14-16 Mm. de comprimento,
de forma alongada e um pouco recurvada foi colleccionada
por d’Orbigny em Maldonado e Rio de Janeiro, por mim
em S. Paulo.
Dunker obteve-a de St." Catharina, do Mexico e das
Antilhas. Os meus exemplares de 8S. Paulo forão por Z.
v. Martens comparados com os typos de Dunker, sendo
identicos. Não vejo, porém, razão alguma para separal-os
de M. Solisianus Orbigny, cuja descripção bem corres-
ponde.
Na concha esquerda ha 2, na valva direita 3 dentes.
A impressão do adductor anterior é grande, a im-
pressão do retractor posterior está contigua a do addu-
ctor, flcando porém uma pequena impressão isolada ao
lado interior. A concha é lisa como d'Orbigny o diz,
porém na região ventral ha muitas vezes vestigios de
linhas ou sulcos radiarios, que como tambem a crenu-
lação interna da borda, especialmente da dorsal, pro-
vam ser esta especie lisa por ter perdido as costas
radiarias, o que provavelmente foi a condição original
de todas as especies de Mytilus e Modiola.
A parte ventral da concha, atraz das vertebras, é
mais clara de côr, amarella ou castanha. A concha é
de côr azul-purpurea, a epiderme preta. O lado interno
é de côr escuro-azul.
Parece-me ser esta uma especie de distribuição vas-
ta. O representante do mar mediterraneo tem o nome
de M. minimus Poli, aquelle do Japão de M. atratus Lisch-
ke e ha outras especies ora lisas ora com vestigios de
costas, que apenas deviam ser consideradas variedades
de uma especie de distribuiçäo enorme. E’ singular que
Dunker descrevesse os exemplares do Brazil duas vezes sob
denominações differentes. Não resta duvida a respeito
O
deste ponto em vista das informações que devo aos Srs.
B. v. Martens de Berlim e R. Sturany de Vienna.
Na costa do Estado de S. Paulo são abundantes em
lugares pedregosos. Dunker diz que esta especie é encon-
trada tambem nas costas do Mexico e das Antilhas.
MYTILUS EDULIS L. VAR. PLATENSIS ORB.
Mytilus eduliformis d’Orbigny. Voy. Am. mer. Pa-
laeont. 1842 p. 162.
Myt. Platensis d'Orbigny Voy. Am. mer. Moll. p. 645
PI. 85 fig. 3 e 4.
Myt. platensis Hidalgo Viaje al Pacifico II p. 53
Lam. 3 fig. 5.
Mytilus canalicus Dall (nec Hanley) Nautilus V. 1891
p. 43 e VI 1893 p. 110.
Concha oblonga um pouco triangular, pouco ventruda,
valvas tenues lisas de côr escuro-azul, nas vertebras
mais clara, com a epiderme preta; lado interno branco
com borda azul. Compr. 35, Alt. 18, Diam. 12 Mm. Ex-
emplares grandes medem 56 Mm.
Não vejo razão para separar esta especie do Mytilus
edulis L. das costas da Europa e da America do Norte.
Como aquelle esta nossa variedade tem a impressão do
adductor anterior bem desenvolvida. Já por esta razão
não pode ser reunido ao Myt. chorus Mol. ou canalicu-
lus Hanley, especie maior e sem adductor anterior.
Crosse (Journ. de Conch. 1877 p. 14) insistiu com razão
“na necessidade de observar estas differenças.
Esta especie existe conforme communicação do Snr.
Martens do Museu de Berlim, no mar da Prata perto da
Bahia Blanca. Tenho-a de Montevideo e do Rio Grande
do Sul. Dall diz que eu a mandei tambem de St: Catha-
rina, 0 que porem me parece equivoco de sua parte.
Tenho do Snr. Philippi uma concha chilena denominada
Myt. obesa Ph., que parece identica a chiloensis Dkr. e
que é o representante chileno de edulis L.
— 102: —
Mopiota Lam.
Genero parecido com o precedente, differindo apenas
pelas vertebras situadas lateralmente atraz da ponta e
não terminaes, pela forma mais oval e pela epiderme
muitas vezes felpuda.
Faz parte deste genero a M. brasiliensis Ch. que pelos
moradores da nossa costa é estimada como alimento é
conhecida vulgarmente pelo nome de « bacuct ».
MoDIOLA BRASILIENSIS CH.
Bacuct (costa de S. Paulo)
Mytilus brasiliensis Chemnitz Conch. Cab. XI. 1795
Lam. 205 fig. 2020-2021.
Modiola brasiliensis Reeve Conch. icon. Modiola fig.
31 e fig, 17 (semifusca Sow.)
Modiola brasiliensis Hidalgo Viaje al Pacifico II p.
56 Lam. III fig. 7.
Modiola guyanensis Lamarck Anim. sans vert. VI.
1819 p. 112.
Mytilus guyanensis d’Orbigny Voy. Am. mer. Moll.
p. 644.
Modiola sinuosa King Zool. Journ. V p. 337.
Modiola brasiliensis Ch.
— 103 -
Hidalgo menciona esta especie de Pernambuco e de
Panamá. D’Orbigny de Rio do Janeiro. Eu a recebi da
Bahia, Rio de Janeiro e S. Paulo.
A concha é grande, comprida, um pouco triangular,
com a parte anterior estreita e a posterior mais larga e
curvada para baixo. A superficie é munida de estrias
concentricas finas. Da vertebra sahe uma costa pouco
marcada até ao angulo inferior e posterior. À parte ante-
rior é escuro-parda, e a parte posterior preta. O interior
é de côr azul ou verde. Compr. 75, Alt. 35, Diam. 26 Mm.;
nota-se porem grande variabilidade na forma da concha.
Tambem é variavel a côr com a differença, porem, que
os exemplares do Rio do Janeiro, Santos etc. são bas-
tante escuros, sendo os da Bahia, Pernambuco etc. de côr
clara, amarella-castanha na extremidade anterior e verde
na parte posterior. Neste caso a extrema ponta anterior
é verde tambem. Fiz tambem a mesma observação quanto
aos exemplares de Santos e os do Rio de Janeiro relati-
vamente ao Mytilus perna.
Não é rara na costa, onde é comido o animal desta
concha que chamam bacucü.
Não duvido que v. Martens tenha razão escrevendo
que a especie descripta de Santos sob o nome de M.
sinuosa por King representa apenas uma deformidade de
M. brasiliensis. E”, porem, notavel, que os exemplares de
Santos são sempre mais curvados na extremidade pos-
terior, de modo que formam uma variedade distincta :
var. deformis King.
MoDIOLA TULIPA LAM.
Modiola tulipa Lamarck Anim. s. vert. VI p. 111.
Modiola tulipa Reeve Conchol. icon. Modiola fig. 5 e 15.
Modiola capax Dunker (nec Conr.) Jahrb. D. Malak.
Ges. II 1875 p. 252.
Mytilus americanus D'Orbigny Cuba II p. 329,
— 104 —
Dunker foi 0 primeiro que mencionou esta especie
conhecida do Brazil (St Catharina). Eu a tenho da
Bahia em dous exemplares novos, que nao tém a parte
posterior das valvas tão alongada como os grandes exem-
plares de capax Conr. Dos dons exemplares um é quasi
uniforme de cor roxo-pardo, o outro tem sobre fundo
amarellado a côr roxa em largas faixas radiarias. A.
extremidade posterior é felpuda.
As medidas são de um dos meus exemplares Compr.
50, Alt. 27, Diam. 28 Mm. Ha exemplares maiores que,
como D'Orbigny o diz, attingem o comprimento de 70
Mm., mas não as dimensões de Mod. capax Conr., que é
apenas o representante americano de Mod. modiolus L,,
especie com a qual Dunker confundiu os exemplares do
Brazil. Martens me escreveu que a achou na bahia do
Rio. Conhece-se com facilidade esta especie pela combina-
ção de cor parda-amarella e roxa, sendo esta ás vezes
disposta em faxa larga e outras vezes em numerosas
linhas radiarias que sahem da vertebra. Dall (Bull. 37
p. 4) indica Mod. tulipa como especie das Antilhas e das
costas da Florida, Georgia etc. Tenho esta especie tambem
da costa de S. Paulo, porem só em exemplares pequenos.
MopiroLA MARTENSI SP. N.
Modiola sulcata Dall (nec Lam.) Nautilus V 1891 p.
43. Rio Grande do Sul. |
Modiola Martensi Ih.
Mod. testa elongata, laevigata, in latere anali ra-
diatim striata; epidermide rufofusca, in latere palliale
flavicante; latere buccali obtuso, angustato; latere anali
elongato, rotundato; intus violacea, exepto latere palliale
— 105 —
albido; labro latere anali crenulato, latere palliali inte-
ero, cardine edentato.
Long. 35 Mm., Alt. 14 Mm., Diam. 12 Mm. Rio Grande
do Sul.
Esta especie não é identica 4 Modiola sulcata Lam.
como Dull o julgou. São differentes a forma e acor:
M. sulcata é mais ventruda e tem sulcos fortes e fundos
sobre toda a concha, a extremidade boccal é angulada
e munida de 2(valva esquerda) ou 3 (valva direita) dentes
fortes.
Mais assemelha-se esta á especie patagonica Modiola
Alvarezi d’Orbigny, que porem é de forma oblonga, tendo
a parte boccal da concha não attenuada, mas dilatada.
Não conheço, por ora, M. Alvarezi e assim não sei se
será possivel considerar esta nova especie comu varie-
dade d’aquella.
E' grande a impressão do adductor anterior; a do
retractor posterior é contigua com a do respectivo ad-
ductor.
“Modiola sulcata Lam. é especie da India occidental
não representada nas costas do Brazil e cuja synonymia
é a seguinte :
Modiola sulcata Lamarck Anim. s. vert. vol. IX.
Modiola sulcata Reeve Conch. ic. sp. 61 fig. 71.
Mytilus exustus L. Gmelin 1789 Sys. nat. Ed. 12 N.º
9 (teste Orbigny).
Mytilus exustus d’Orbigny Cuba II p. 329 Pl. 28 fig.
6-7 (figura optima).
MODIOLA ARBORESCENS CH.
“ Mytilus arborescens Chemnitz Conch. Cab. vol. IT Pl.
198 fig. 2016-2017.
Modiola picta Lamarck (teste Reeve).
Modiola arborescens Reeve Conch. Icon. sp. 30.
Amygdalum arborescens (Ch) Moerch Cat. Yoldi
pag. 55.
— 106 —
Concha com valvas tenues, de forma alongada, de côr
pallido-amarella e com linhas pretas cruzadas formando
redes ou ramificações na extremidade posterior.
E' especie das Antilhas, que Moerch menciona do
Brazil. Não a recebi até agora, desconfiando que existe
somente ao Norte do Brazil, caso a indicação de Moerch
venha a confirmar-se.
MODIOLA FALCATA D'ORB.
Mytilus falcatus d'Orbigny, Voy. Am. mer. pag. 645
PI. 84 fig. 38-39 («Myt. charruanus»).
Modiola strigata Hanl. Reeve sp. 33. «Philippine
Islands» (2)
M. testa oblonga, arcuata, compressa laevigata; epi-
dermide virenti, maculis viridis angulosis picta ; latere
buccali obtuso, subacuminato; latere anali elongato dila-
tato, oblique truncato; latere palliali sinuoso, inferne
convexo; intus pallide violacea, labris integris.
Long. 46 Mm.
Rio de Janeiro, Maldonado. D'Orbigny.
Não conheço exemplar tão arqueado como o que d' Or-
bigny figurou, tendo os meus exemplares apenas a borda
ventral on paliial sinuada no meio. Dous exemplares que
Modiola“falcatia Orbigny
possuo de Santa Catharina têm a epiderme Everde com
linhas de verde mais escuro. Os exemplares de Montevideo
são mais escuro «epidermide fusco-nigricanter. As valvas.
são tenues. O interior é azul-roxo, um pouco mais claro
na extremidade anterior, mas em exemplares adultos, o
— 107 —
interior é branco, como em Myt. platensis. A charneira
tem 2-3 dentes, ás vezes sub-obsoletos; a charneira é del-
cada, sendo chapa forte, solida com 4-5 dentes em Mytilus
platensis. Esta ultima tem a vertebra na ponta, a especie
de que tratamos tem a vertebra atraz da charneira. A
impressão do adductor anterior é bem desenvolvida.
Tenho esta especie de Santos, St." Catharida e Mon-
tevideo. Observei, porem, que os exemplares de St. Ca-
tharina e Montevideo são menores e mais alongados e
menos curvados formando a: varietas meridionalis.
MopioLA CHENUANA D ORB.
Modiola chenuana d'Orbigny. Voyage Am. merid.
Moll. p. 649 e Pl. 85 fig. 14-16 (sob a denominação de
Mytilus Fontaineanus).
«M. testa ovato oblonga, inflata, tenui fusco-flaves-
cente, antice posticeque radiatim striata, medio laevigata;
latere buccali dilatato, obtusissimo; latere anali elongato,
rotundato, latere palliali sinuoso». D’Orbigny.
Não conheço esta especie cuja concha mede 17 Mm.
e que, como d'Orbigny o diz, é bastante parecida ao My-
tilus discors L., da Europa, que agora faz parte do genero
Modiolaria. D'Orbigny obteve-a do Brazil por Fontaine sem
indicação exacta da proveniencia. Acredito que pertence
ao genero Modiolaria.
LITHOPHAGA BOLTEN
(Lithodomus Cuvier ).
O animal assemelha-se ao do genero Mytilus, sendo
como aquelle munido de bysso, a0 menos nos individuos
novos. O manto prolonga-se na extremidade posterior
em dous tubos compridos, os siphões, dos quaes o anal
lateralmente é fechado e o outro, o branchial é aberto,
formando uma goteira. A concha mais ou menos cylin-
drica consiste em duas valvas eguaes que se alongam
transversalmente. As vertebras são pouco salientes e
— 108 —
approximadas 4 extremidade anterior; a extremidade an-
terior é arredondada e a posterior é attenuada. O liga-
mento é comprido e situado na borda dorsal. À charneira
é lisa e sem dentes.
Essas conchas vivem escondidas, perfurando pedras,
conchas ou coraes, no interior dos quaes vivem presas,
communicando com o exterior por meio de um canal,
que forram de massa calcarea e pelo qual os siphões
chegam á agua. O animal tem no pé e nas bordas do
manto pontas silicosas pelas quaes pode perfurar pedras.
Foram estas, e não os teredens, que perfuram ma-
deira, que invadiram as columnas do templo de Serapio
a Pozzuoli no golfo de Napoles, quando por submersão
de parte da costa este edificio estava em parte coberto
pelo mar.
LITHOPHAGA BISULCATA ORB.
Lithodomus bisulcatus d'Orbigny Cuba II p. 333 PI.
28 fig. 14-16.
Lithodomus biexcavatus Reeve Conch. icon. sp. 22.
Lithodomus biexcavatus Hidalgo Viaj. Pac. II p. 57.
Lithophaga appendiculata ( Phil.) Dunker 1. c. p. 252.
A concha é quasi sempre coberta de uma crosta cal-
carea; é cylindrica, tenue, munida de dous sulcos
que sahem das vertebras e correm a extremidade poste-
rior. A epiderme é de côr castanha. Compr. 33, Alt. 13,
Diam. 11 Mm.
Esta especie é encontrada desde Florida e Texas até 4
ilha de St." Catharina donde Dunker e Hidalgo a men-
cionam. Tirei varios exemplares de um grande pedaço
de coral da ilha de S. Sebastião, costa de S. Paulo.
Não conheço outra especie deste genero no Brazil.
Da Patagonia descreveu d’Ordigny L. patagonicus
orb., e outras especies são encontradas nas Antilhas.
— 109 —
MoproLARIA BECK
O animal tem o manto aberto até ao siphäo anal,
que é comprido. O pé é cylindrico, alongado, com um
sulco no meio e com bysso. A concha é oval, inflada
assemelhando-se a um rhombo. A extremidade anterior é
curta, a vertebra dirige-se para deante e está situada
perto da extremidade anterior. A superficie das valvas é
munida de sulcos radiarios nas extremidades anterior
e posterior, existindo no meio d’ellas uma região lisa-
A charneira é crenulada, ás vezes quasi lisa.
MopDIOLARIA VIATOR ORB.
Mytilus viator d’Orbigny Voy. Am. mer. Moll. p.
644 Pl. 84 fig. 33-36.
Modiolaria viator (Orb. ) Hidalgo. Viaj. pac. IT p. 55.
Mytilus viator d'Orbigny Cuba IT p. 327.
Concha de forma transversalmente rhombiforme, bas-
tante ventruda, com valvas tenues de côr verde, ás ve-
zes com algumas manchas côr de rosa. Compr. 9, Alt.
7, Diam. 5 Mm., em geral não excedendo a 6 Mm.
Esta pequena especie, bastante parecida com a Mod.
discors L. do atlantico septentrional, foi por d’Orbigny
encontrada em Cuba e na Patagonia e por Zdalgo em
St: Catharina. D’Orbigny encontrou-a no meio de colonias
de ascidias.
MODIOLARIA OPIFEX SAY
Modiola opifex Say Iourn. Ac. Nat. Sc. Phil. IV 1825
p: 369 Pl. 19 fig. 2-2, b.
Modiola opifex Reeve Conch. ic. sp. 39.
Modiolaria opifex Hidalgo Viaj. Pacif. II p. 56.
Lithophaga opifex Dunker 1. c. p. 252.
Modiola opifex Philippi Abb. u. Beschr. n. Conch. II
Modiola p. 20 Taf. II fig. 7.
Modiola opifex Dall Blake p. 255; Bull 37 p. 38.
— 110 —
Botulina opifex Dall Nautilus X. 1897 p. 123.
Concha de forma oval-cuneiforme, com a extremidade
anterior curta arredondada e a posterior attenuada, de
côr castanha. A epiderme é na parte posterior felpuda,
com sedas compridas. A borda dorsal é provida de den-
tes perto do ligamento. Compr. 16, Alt. 9, Diam. 10 Mm.
Conforme Dall esta especie é encontrada em Flo-
rida, Cuba etc. Reeve e Pactel a obtiverão do Rio de
Janeiro, Hidalgo de St.” Catharina e eu da Bahia. Ella
vive em pequena profundidade nas pedras.
Pelos factos aqui communicados verifica-se, que a
maior parte das especies examinadas que vivem nas costas
do Brazil, são encontradas tambem nas Antilhas. Entre
12 especies de Arca cuja existencia nas costas do Brazil
é certa ha uma só, que até agora não é conhecida das
Antilhas (Arca Martini), e esta parece ser encontrada na
Guyana.
Se assim no genero Arca, genero que nas costas
argentinas não é representado, tudo dirige a nossa atten-
ção ás Antilhas, do outro lado temos entre ás especies
de Mytilus e Modiola varias que desde a Patagonia se
estendem até ao Brazil meridional. A foz do rio da Prata
não é uma divisa bem marcada entre as especies argen-
tinas e brazileiras. Só as especies do genero Árca não a
transpassam, signal que chegaram vindas do norte, só
em tempo pleistoceno, quando aquella desembocadura já
existiu. gi
A distribuição das conchas marinas e c conhecimento
da historia geologica dellas, faz nos crér, que as grandes
fozes dos rios da Prata edo Amazonas são de data muito
recente, geologicamente fallado.
RESUMÉ.
Die Behandlung der éinzelnen Arten und ihrer Sy-
nonymie bedarf keiner weiteren Erérterung, wohl aber
die geographische Verbreitung derselben.
— lll —
Im allgemeinen fällt es in hohem Masse auf, wie
ausserordentlich gross die Zahl der auch in Westindien,
Florida etc. lebenden Arten ist, so dass es schwer fällt
brasilianische und westindische Arten zu trennen, da
eben die betreffenden Arten Brasiliens nichts anderes
sind als südliche Vertreter weitverbreiteter westindischer
Arten. Sehen wir z. B. hierauf die Gattung Arca an, so
haben wir es, bei Hinweglassung einer vermuthlich
nur durch Irrthum für Brasilien angegebenen Art (A:
cepoides), mit 12 Arten zu thun, von denen 1] auch in
Westindien u. s. w. nachgewiesen sind. Die einzige dort
wie es scheint fehlende Art, Arca Martini soll mit A.
bisulca Lam. aus Guyana identisch sein, dürfte also
gleichfalls weitere Verbreitung haben.
Diese Art ist subfossil auch in Argentinien gefun-
den, wo, so viel man zur Zeit weiss, keine Arca-Arten
leben. Wir haben also die brasilianischen Arten dieser
Gattung lediglich als weit gen Siiden vorgedrungene
Antillen-Arten anzusehen, und dem entspricht die un-
gleiche Ausbreitung gen Süden, indem einige nur bis
Pernambuco reichen, wie A. noae, oder bis Bahia und
zu den Abrolhos-Inseln, wie A. Adamsi, barbata, domin-
gensis, andere aber bis S. Paulo (A. auriculata und
Deshayesi), bis St. Catharina (A. Helblingi) oder endlich
bis Rio Grande do Sul (A. incongrua, Chemnitzi, indica,
Martini). Letztere dürften wohl bis zum La Plata gehen,
aber vermuthlich nicht darüber hinaus. Dies wiirde für
eine relativ junge Ausbreitung dieser Arten nach Siiden
sprechen, da im Uebrigen die Miindung des La Plata
fiir die Mollusken, welche an den Kiisten von Rio Grande
do Sul und Argentinien leben in keiner Weise eine
Grenze bildet.
Eine Schranke bildet dieses Siisswasser-Meer eben
nur fiir solche Arten deren Verbreitung eine ganz junge
oder pleistocäne ist, wie ich das gegen Pfeffer schon
früher betont habe. Hiermit steht im Einklang die Anwe-
— 112 —
senheit mariner Conchylien in pleistocänen Bänken bei
Montevideo und bei La Plata.
Man wird aber im Auge behalten miissen, dass diese
Ausbreitung westindischer Arten gen Siiden schon im
Gange war ehe die heutige Mündung des La Plata sich
bildete, und dass somit wie bei den Fischen auch bei
den Mollusken manche'Arten bis weit gen Süden, bis
nach Patagonien, gelangen konnten. So erklärt sich die
weite Verbreitung mancher Arten von den Antillen bis
Patagonien.
Schwieriger als der Nachweis der Ausbreitung west-
indischer Arten bis Südbrasilien etc. ist die Beantwor-
tung der Frage: ob und in wie weit ein Einfluss argen-
tinischer Arten resp. eine Nordwärts-Wanderung solcher
Arten nachweisbar. Hier fehlt noch zu sehr die genauere
Kenntniss der argentinischen Küstenfauna. Modiola fal-
cata und Pectunculus longior kommen von Rio de Ja-
neiro bis zur La Platamiindung, Mytilus Darwinianus
von Rio bis Patagonien und die ihm nahestehende Form
M. Miilleri in St.” Catharina und Montevideo vor, viel-
leicht auch in Rio. Es ist aber fraglich, ob letztere nicht
etwa nur siidliche Vertreter des M. domingensis sind
und das macht die Frage so schwierig.
Arten, welche nur in Siidbrasilien, zwischen Rio de
Janeiro und Montevideo vorkommen sind: Pectunculus
longior und tellinaeformis, Modiola falcata, Mytilus perna
und Miilleri. Dagegen kommen patagonisch-argentinische
Arten noch in Rio Grande do Sul vor (Mytilus edulis-
platensis, Modiola Martensi) oder bis Rio de Janeiro
(Mytilus Darwinianus).
Ich vermuthe, dass zu diesen südlichen Formen,
welche noch in Südbrasilien vorkommen auch Mytilus
perna gehôürt, über deren Verwandtschaft wir aber vor-
liufig noch im Unklaren bleiben. Ich hoffe bald in den
Besitz yon Seeconchylien der argentinischen Küsten
zu kommen und dann diese Fragen einen Schritt weiter
voranbringen zu künnen.
TERRES
Yedenfalls kommen in Rio Grande do Sul neben For-
men, die wir von Westindien abzuleiten haben, auch
solche vor, deren Heimath von Argentinien stammt, wie
-ich dass auch an der Hand paläontologischer Daten
instructiv für die Gattune Voluta nachweisen konnte
(Nachrichts-Blatt d. Deutschen Malakozool. Gesellsch. 1896,
p. 93-99). Von einem brasilianischen Element kann kaum
die Rede sein in der Küstenfauna Brasiliens. Viel Ein-
fluss von Westindien, etwas von Patagonien—so bleiben
nur wenige Formen übrig für die wir bis auf Weiteres
noch im Unklaren bleiben; auch sie werden sich bei
Vertiefung unserer Kenntnisse noch unterbringen lassen.
. Für Schaffung einer besonderen brasilianischen marinen
Provinz des atlandischen Oceanes fehlen Anhaltspunkte.
Sao Paulo, 10 de Maio de 1897.
Revista do Museu Paulista 8
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A nação Guayaná
DA CAPITANIA DE SÃO VICENTE
Gheodoro Sampaio
Entre as questões não resolvidas da Historia Nacional,
não é, por certo, das menos interessantes, essa da nação
Guayanã, a sua lingua e o seu habitat.
Para quantos estudam as cousas patrias, e se enle-
vam na contemplação dos grandes feitos que, com o
perpassar dos seculos, se vão transfigurando sob a acção
da legenda, certo, não terá passado despercebido esse
ponto obscuro da historia do Christianismo nascente nos
campos de Piratininga.
O barbaro que primeiro ouviu dos labios de Anchie-
ta, de Manoel de Paiva, de Leonardo Nunes a palavra
do Evangelho, o catechumeno de S. Paulo de Piratininga
era, com effeito, da nação Guayanä? Tibireçá, Cayobiy,
Araguaçú, Tamandiba eram chefes Guayanãs? A lin-
gua falada pelo gentio de Piratininga era por ventura
um dialecto da lingua geral?
Os chronistas e historiadores que deste assumpto se
occuparam são obscuros e, por vezes, até contradictorios.
Os mais antigos, excepção feita de Gabriel Soares,
são de um laconismo desesperador quando enveredam
pelas questões de ethnographia. Os do seculo XVIII co-
mo Pedro Taques e Frei Gaspar da Madre Deus, já sob
a influencia da tradição legendaria, não inspiram a mes-
ma confiança. Frei Gaspar conta-nos historias taes que
— 116 —
um illustre critico, dos mais competentes entre nós, nao
trepidou em taxal-as de ridiculamente falsas. (1)
Mas de serem falsas «as historias inventadas por
Frei Gaspar da Madre Deus em que entram João Rama-
lho, Martim Affonso e Tibireçá » (2) não se segue que nos
campos de Piratininga não existissem Guayanas, nem
que estes só nestes campos penetraram em estado de
guerra ou como prisioneiros, como opina o illustre cri-
tico.
Que relativamente ao parentesco ethnographico dos
Guayanãs de Piratininga existem duvidas, já o expoz no
seu estudo o redactor desta Revista Dr. H. von Ihering
vol. I p. 110. Sou, porém, ao contrario de seu critico flu-
minense da opinião sustentada pelo Dr. v. Ihering de
que os Guavanãs pertencem ao grupo dos povos tupy-
guarany.
E' facto que, quanto á nacionalidade do gentio de
Piratininga, nenhum dos antigos historiadores ou chro-
nistas é assás explicito, mas dizem o bastante para se
fixar o habitat da nação Guayana.
Gabriel Soares, guia de quantos depois escreveram
sobre os primitivos povoadores da terra do Brazil, dá-nos
os Guayanãs como habitando os campos da Capitania
de S. Vicente. Fixando-lhes o territorio no trecho da
costa entre Angra dos Reis e Cananéa, onde confina-
vam ao norte com os Tamoyos e ao sul com os Carijós,
ajunta a proposito o autor do Roteiro: «não são os Goaia-
nazes maliciosos, nem refalsados, antes simples e bem
acondicionados, e facilimos de crer em qualquer cou-
Sa Nao costuma este gentio fazer guerra a seus
contrarios fóra dos seus limites, nem os vão buscar nas
(1) Capistrano de Abreu. Estudo critico a proposito do 1.º
volume da Revista do Museu Paulista, publicado na Gazeta de
Noticias do Rio de Janeiro de 2 de Maio de 1896.
(2) Idem, lc.
— 117 —
suas vivendas, porque näo sabem pelejar entre o matto,
se não no campo, aonde vivem».... (1)
Para o autor do Roteiro a nação campesina dos
Guayanäs até fugia de batalhar no matto onde a sua
dextresa no manejo do arco e da flecha era excedida
pela do Tamoyo, seu inimigo irreconciliavel. E vivendo
no campo, o Guayanã não construia aldeia com casas
arrumadas, como os Tamoyos seus visinhos; «mas em
covas pelo campo, onde tem fogo de noite e de dia, e fa-
zem suas camas de rama e pelles de alimarias que ma-
tam ». (2) ;
Portanto, segundo Gabriel Soares, a nação Guayanä
occupava o territorio maior da Capitania de S. Vicente,
e habitava a região dos campos.
Antes do autor do Roteiro, já Hans Staden em 1556
assignalava esta nação entre o gentio de S. Vicente e
dava-lhe o nome de Wayganná.
Antonio Knivet em 1595, tendo vivido algum tempo
no Brazil desde a expedição de Thomaz Cavendish, nar-
rando as suas admiraveis aventuras (3) fala-nos dos Way-
nasses ou Vaanasses, habitadores da Ilha Grande, do
reconcavo de Paraty, que elle nos descreve como um
povo de baixa estatura, muito barrigudo, pés chatos,
muito covarde, e de regular compleição. Não matava
ou mutilava o corpo, nem se gloriava tanto como os
Tamoyos, os Tomiminós e outros canibaes de comer carne
humana. As suas mulheres erão corpulentas e mui dis-
formes porém de bello semblante. Estas pintavam-se
no corpo e faces com a tinta do uruci. Os cabellos nos
homens como nas mulheres cahiam-lhes compridos pelos
hombros, mas no alto da cabeça cortavão-n'os em corôa
como os Frades Franciscanos. « Dormiam esses canibaes,
(1) Roteiro do Brazil, ou Tratado descriptivo do Brazil em
1587 por Gabriel Soares de Sousa, Edição de 1851, pag. 100.
(2). Roteiro, 1. c.
(3) The admirable adventures and strange fortunes of Mas-
ter Antonie Knivet.... Purchas, London, 1625.
diz o mesmo Knivet, em redes feitas de cascas de arvore,
assim tambem quando viajavam pelos sertões, tudo quan-
to possuiam transportavam ás costas em pequenas redes »,
Essa descripção do viajante inglez em alguma cousa
differe essencialmente da do autor do Roteiro, o qual
nos pinta o Guayanã como gente de pouco trabalho, muito
mollar, inimiga de carne humana, vivendo só da caça,
da pesca e dos fructos silvestres; não matava os seus
prisioneiros, mas conservava-os escravos; na cor @ pro-
porção do corpo era como o Tamoyo.
Aqui se vê que o Guayanã da descripção de Gabriel
Soares, o Guayanä do campo, quanto a constituição phy-
sica, não differe do Tamoyo que era grande de corpo e
mui robusto, mas o Guayanã do littoral, segundo Knivet,
já é bem diverso: estatura pequena, barrigudo, pés gran- _
des ou chatos e muito covarde.
E’ de suppor que esse Guayana do littoral seja do
mesmo typo daquelle que Martim Affonso de Sousa en-
contrara senhoreando a ilha de S. Vicente, gentio que
deu pouco trabalho por ser pouco bellicoso e facil de
contentar. (1)
Essas differenças de constituição physica nas tribus
indianas, ainda que consideradas da mesma nacionalida-
de, são aliás explicaveis, pois não faltam razões de clima,
habitabilidade, crusamentos repetidos com os prisioneiros
tomados em guerra, e guardados como escravos, para as
demonstrar. |
Demais, nesse trecho da costa e região interior cor-
respondente, onde dominavam os Guayanãs, não penetra-
vam tão sómente Tamoyos e Carijós como visinhos ha-
bitualmente em guerra, varias tribus dispersas se con-
tavam, ou crusando o territorio levando uma vida
nomada, ou situando-se em pontos escusos evitando
cautelosamente a lucta.
Antonio Knivet fala-nos em Zupinaquis que habita-
(1) Gabriel Soares, Roteiro do Brazil, p. 96, Edição de 1851.
à gia à
— 119 —
vam em S. Vicente. O Chronista Simão de Vasconcellos
assignala a presença de Zwpis para os lados de Cananéa,
(1) e fala-nos tambem de Zupinaquis (2), mui provavel-
mente senhores da região entre Itanhaem e o valle de
Iguape; descreve nos os Maramimis ou Guaramomis de
lingua differente da geral situados para além da Bertioga,
na costa entre S. Sebastião e S. Vicente (3); dá-nos Ta-
moyos como habitadores do valle superior do Parahyba
(4), Tupis do sertão confederados para atacar Piratininga
(5). João de Lery assignala os Tonaire para aquem dos
Carijos (6). Os camaristas da villa de S. Paulo de Pira-
tininga, em 1565, em representação dirigida a Estacio
de Sá queixando-se de duas nações gentias que sempre
viviam em hostilidade com os colonos, diziam: « E esta
Capitania de S. Vicente está entre duas gerações de gen-
tes de varias qualidades e força que ha em toda a costa
do Brazil, como são os Zamoyos e Tupininquins, e dos
Tupininquins ha quinze annos a esta parte que sempre
matam no sertão homens brancos ...» (7)
Em 1585 as camaras de Santos, S. Vicente, e S. Paulo
pedem a Jeronymo Leitão para fazer a guerra aos Cari-
jos e Tupininguins porque a terra estava muito pobre,
não tinha escravaria (8).
Em 1590 a camara municipal de S. Paulo manda
fazer fortificações no lugar Hmbodcaba para se defender
contra os ataques dos Tupinaes e Tupiniquins, (9) que
(1) P. Simao de Vasconcellos, Chronica da Comp. de Jest
no Estado do Brazil, Liv. I. p. 98.
(2) P.e Simão de Vasconcellos, Chronica, Liv. I. p. 102.
(3) P.º Simão de Vasconcellos, Vida do P. Joseph de Anchieta,
Eva Cape EV p23.” 'Or Pee Pero Rodrigues descreve os mes-
mos indios na Biographia que escreveu do P. José de Anchieta,
ainda manuscripta (1607), anterior a Vasconcellos.
(4) P.e Simão de Vasconcellos, Chronica, Livro II, p. 157.
(5) Idem, idem, p. Liv. II. p. 181.
; (6) Lery, Histoire d'un voyage, Cap. XX. Edição Gaffavrel,
1130:
(7) Archivo da Camara de S. Paulo, Liv. de Vereaneas, tit.
1565, em Azevedo Marques.
(8) Azevedo Marques, citando Archivo da Camara de E Paulo.
“Liv. de Vereanças, tit. 1585, pag. 219.
(5) Idem.
— 120 —
poucos mezes depois investiram contra a villa e nos seus
arredores queimaram a egreja de N.º S.° do Rosario dos
Pinheiros. |
Esses Zupinaes e Tupininguins habitavam para os
lados dos Carijós com quem ás vezes se alliavam, mui
provavelmente para a ribeira de Iguape-cujas cabeceiras
mais septentrionaes davam passagem para os campos de -
Piratininga: isto é, pelo valle do Juquiá e S. Lourenço
esses indios transpunham a serra do Mar junto as nas-
centes do Mboyguassú, desciam pelo valle deste rio até
Ibirapuera (Santo Amaro)e pelas varzeas do Rio de
Pinheiros e campos visinhos atacavam a villa de S. Pau-
lo do lado do Caaguassú. As fortificações de Zmbodçaba
deviam ficar nessas visinhanças.
Vê-se, portanto, do testemunho dos viajantes, histo-
riadores e até dos archivos das camaras municipaes da
Capitania de S. Vicente que nada menos de cinco nações
gentias a habitaram no primeiro seculo do descobri-
mento: Guayanãs, Tupis, Tupinaês, Tupininquis, Maramo-
mis, não fallando já dos Tamoyos do valle superior do
Parahyba.
Destas nações, a dos Guayanas, certamente, occupava
o littoral visinho de S. Vicente, como dominava nos
campos de Piratininga que o chronista Vasconcellos
chamou Campos Eliseos da gentilidade. A este respeito,
o testemunho de Gabriel Soares é de um valor incon-
testavel. E quando isso não fosse, basta ler o Padre
José de Anchieta, na sua informação do casamento dos
indios. O trecho dessa informação que passamos a
transcrever é de grande valor para o caso: « Em Pira-
tininga, da Capitania de S. Vicente, Cay obiy, velho de
muitos annos, deixou uma ( mulher) de sua nação,
tambem muito velha, da qual tinha um filho, homem
muito principal e muitas filhas casadas, segundo seu
modo, com indios principaes de toda a aldêa de Jeribã-
tiba, com muitos netos, e sem embargo disso casou com
SN \
Trees
outra que era Guayand das do mate, sua escrava tomada
em guerra, a qual tinha por mulher » (1)
Da expressão =Guayana das do mato = se infere em
boa logica que havia tambem em Piratininga o Guayand
do campo, o mesmo que o autor do Roteiro nos descreveu,
e que talvez fosse da mesma nação do velho Cay Obiy.
No mesmo sentido parece-me que se deve interpretar
o seguinte trecho da Chronica da Companhia de Jesus
do Padre Simão de Vasconcellos: « Não tinham passado
muitos dias, quando indo estes mesmos ( indios de Pira-
tininga ) 4 guerra, tomaram nella um Goayand contra-
rio: “od (2)
Comquanto, na totalidade, não fossem Guayanãs os
indios que os Padres Jesuitas catechisavam em Pirati-
ninga, para onde, segundo Vasconcellos, desceram tantos
indios de seus sertões que não cabiam já em a aldêa,
mui provavel é que o fossem em sua maioria, como a
nação mais consideravel de quantas então habitavam o
districto da Capitania de S. Vicente (3), e dominavam
nos campos. E” possivel que esses indios, repartidos
em pequenas tribus, não obstante sua indole pacifica, se
guerreassem, por vezes, entre si e que os destroçados ou
vencidos se refugiassem nas mattas até a occasiäo propi-
cia da desforra. D'ahi provavelmente os Guayanãs do
campo e os Guayanãs do matto. Por isso, Azevedo Mar-
ques que estudou o Archivo da Camara de S. Paulo, fir-
mado em dados que ahi colhera, nos dá o Guayanã como
alliado aos Tupis e Carijós no primeiro ataque á villa de
Piratininga em 1562.
Entretanto, parece fora de duvida que os Guayanäs,
no primeiro seculo que se seguio ao descobrimento e
colonisação, dominaram em Piratininga, ou, pelo menos,
foram ahi o gentio mais numeroso.
(1) Pe José de Anchieta, Informação do casamento dos In-
dios, na Revista do Instituto Hist. vol. VIII, pag. 255.
(2) Chronica da Comp.” de Jesus, Livro IT. pag. 110,
(3) Idem, idem, Livro I. p. 41.
— 122 —
Azevedo Marques diz ter encontrado no Cartorio da
Provedoria da Fazenda de S. Paulo, o titulo de uma
sesmaria de tres leguas na paragem chamada Carapi-
cuhyba, concedida por Jeronymo Leitao aos indios Gua-
yanas, oriundos de Piratininga. (1)
O mesmo autor, apoiando-se em Pedro Taques, dá-nos
a cidade de Taubaté como tendo sido em sua origem
uma aldêa de indios Guayanãs, emigrados de Piratinin-
ga. (2)
Temos para nós que o habitat dos Guayan's da Ca-
pitania de S. Vicente foram os campos de Piratininga,
e que desses indios, já por motivo de guerra, já por
necessidades do viver se encontravam tribus dispersas
no beiramar, ou nas mattas do sertão. Neste ponto pa-
recem-me mais accordes os chronistas e historiadores.
Quanto a lingua, porém, a divergencia de opiniões é
mais sensivel.
Na côr e proporção do corpo era o Guayanã como o
Tamoyo, diz-nos Gabriel Soares, e como o mais gentio
da costa tinha muitas gentilidades, mas a sua lingua
éra differente. O Padre Simão de Vasconcellos diz o
mesmo, ainda que classificando o Guayanã entre os in-
dios mansos, na mesma categoria do Tamoyo, Tupi, Ca-
rijó, Tupinaqui, e excluindo-o daquella outra nação
generica de Tapuyas onde se comprehendiam Aymorés,
Potentús, Guaitacás, Guaramomis e outros. (3)
Mas essa differença da lingua Guayanä para o tupi
ou para 0 guarany não ia além da dialectal como, a
proposito, opina o Visconde de Porto Seguro. O mesmo
Gabriel Soares assim o dá a entender quando nos diz:
«...a lingua deste gentio é different: da de seus visi-
nhos, mas entende-se com os Carijós ». (4)
(1) Apontamentos, Chronologia, pag. 218,
(2) Idem, idem, 234.
A Vasconcellos, Chronica, Livro I. das Noticias das Cousas
o Brazil, p. XC.
(4) Roteiro, pag. 100,
— 123 —
Ora,.o Caryo, chamado tambem índio dos Patos
porque ao sul habitava até as margens do rio deste
nome, era do ramo Guarany. O Padre Gay assim, com
razão, o considera. Charlevoix, relatando a viagem de
D. Alvaro Cabeça de Vacca desde Santa Catharina até
Assumpção do Paraguay, em 1542 diz que a expedição
tomou guias e iuterpretes entre os guaranys antes de
começar a travessia. Da narrativa dos primeiros nave-
gadores se colhe que Caboto em 1527 tomou entre os
Carijós os interpretes para a sua exploração no rio de
Paraguay. Antonio Herrera refere-nos que Diogo Garcia
em viagem para o rio de Soliz tambem tomava inter-
pretes ou linguas no rio dos Innocentes, em S. Vicente
provavelmente, onde um Bacharel Portuguez o provera
de refrescos. |
Mas, sendo do ramo Guarany o Carijó, e differente
a sua linguagem da dos seus visinhos, como nol-o diz o
autor do Roteiro (1), tão grande não era essa differença
que elle Carijó, segundo o mesmo autor, se não podesse
contar mui particularmente entre os Tupinambás. (2)
João de Lery dá-nos o Carijó com a mesma lingua-
gem dos Tupinanquis ou Zou oup-Toupinenquin como
elle escrevia.
Vasconcellos classificou o Carijó na mesma geração
dos Tamoyos, Tupinaquis e Tupinambás «que todos te-
nho, ajunta o chronista, que fazem só uma especie, ou
nação especifica, posto que accidentalmente diversa,
em logares e ranchos ». (3)
Já antes de Gabriel Soares e de Vasconcellos, Ma-
galhães de Gandavo escrevera que « a lingua que usavam
os indios pela costa toda é uma: ainda que em certos
vocabulos differe n'algumas partes; mas não de maneira
que deixem uns. aos outros de entender, e isto até altura
(1) Roteiro, pag. 104.
(2) Idem, I: c.
(3) Vasconcellos, Chronica, Livro I das Noticias das Cousas
do Brazil.
— 1244
de 27 gräos, que ahi por diante ha outra gentilidade de
que nós nao temos tanta noticia, que falam já outra
lingua differente ». (1)
Frei Vicente do Salvador que escreveu a sua Histo-
ria do Brazil em 1626, fallando do gentio da costa, ac-
crescenta: «... os dé 5. Vicente até o Rio da Prata são
Carijós, os do Rio de Janeiro Zamoyos . . . comtudo
todos fallam uma mesma linguagem e esta aprendem os
Religiosos que os doutrinam por uma arte de Gramma-
tica que compoz o Padre Joseph de Anchieta ». (2)
Reconhece-se, portanto, que a differença linguistica
entre os Carijós e os Tupis que lhes ficavam ao norte,
pela costa, não era senão a dialectal, a mesma que se
nota entre o Guarany, falado nas margens do Paraguay
ea lingua geral, dos primitivos habitadores do littoral
brazilico.
Mas, o facto de se entenderem os Guayanäs com os
Carijós leva-nos a filiar as duas nações no mesmo grupo,
o guarany. O Guayand, portanto, seria um dialecto do
Carijo, ou melhor do guarany.
Assim, com razão, o entendeu o Visconde de Porto
Seguro, e mais recentemente o philologo Lucien Adam,
para quem o dialecto Guayand foi o primeiro conhecido
em virtude dos trabalhos do Padre Joseph de Anchieta. (3)
Com razão, dizemos nós, porque a não tomarmos 0s
trabalhos de Anchieta como referentes 4 lingua dos
Guayanãs, o gentio principal da Capitania de S. Vicente,
extranho é que della não nos ficasse escripto algum
quando é certo que de outros dialectos menos impor-
tantes, como esse do Muiramomis, se escreveram arte e
(1) Hist. da Provincia Stº Cruz, na Revista da Inst. Hist.
vol. 21, pag. 412,
(2) Hist. do Brazil por Frei Vicente do Salvador. Nos An-
naes da Bibliotheca Nacional, vol. XIII, Fase. n. I. 1885-1886,
pags. 24 e 25 The ;
(3) Lucien Adam, Materiaux pour servir á Petablissement d'u-
ne Grammaire Comparée des dialectes de la Famille Tupi, de la Bi-
bliothêque Linguistique Americaine, Tom. XVIII, 1896,
E obs
vocabulario, deixando-se, ao contrario, perder a lingua
do povo que, por tanto tempo e mais distinctamente,
estivera em contacto com os mais emeritos catechistas.
Que a lingua Guayin& era um dialecto do Guarany,
provão-no os residuos dessa lingua que a Geographia e
a Historia paulista conservaram. Citemos alguns exem-
plos. O nome 7/b0y (cobra) de uma pequena localidade
ao poente da cidade de S. Paulo é puro guarany.
O diphtongo MB, caracteristico desta lingua e do
tupi austral ahi está patente, resistindo até hoje a lei
do menor esforço que já entre os Tupis do Norte trans-
formára esse vocabulo em boia ou doi, entre os Apiacäs
em boja, entre os Oyampis em moje. O nome Mogy (rio
das cobras), tão frequente na geographia paulista, é
ainda um vocabulo guarany, apesar da alteração porque
já passou. Mogy, em outro tempo escripto Boigy é sim-
ples corruptela dos vocabulos guaranys: mboi gy. Os
nomes Araçariguama (o Tucano que ha de ser), Paca-
embu (a aguada ou arroio da paca), Pirajú, por Pirajura
(a guela do peixe), Urubukecaba por Urubukéreçaba
(ninho de urubus) Mandahy por Comandakyra feijão
verde) são ainda vocabulos guaranys, ou palavras affe-
ctadas dos accidentes phoneticos proprios desta lingua.
Os nomes historicos: Cunhambeba por Cunhampeba,
Abarebebé por Abaréuêuê estão nos mesmos casos.
Uma objecção, entretanto, aqui tem todo o cabimento,
e é que a lingua de que a Geographia paulista tão no-
taveis vestigios ainda guarda, sendo a dos escravos indios,
pela mor parte de procedencia Carijó e Tupinaqui, lingua
que por largos annos prevalesceu nesta região, não é de
estranhar que taes elementos do guarany encerre.
Seria, com effeito, irrespondivel a objecção se Gabriel
Soares nos não houvesse transmittido que o Guayanã
do campo se fazia entender pelo Carijó, cuja boa indole
compartia.
Demais,. a Historia não nos diz que os Guayanãs,
habitadores de Piratininga, fossem jámais em tempo
— 126 —
aleum expulsos desses campos de cima da serra, ao con-
trario, com elles é que Joao Ramalho contrahira allian-
cas de sangue, delles por sem duvida, como gente muito
credula, muito pacifica, e amiga dos brancos é que os
Padres Jesuitas obtiveram os primeiro meninos catechu-
menosdevados para $. Vicente pelo Padre Leonardo Nunes.
Ainda mais, se julgarmos a lingua dos Guayanäs
pelos poucos vocabulos que Antonio Knivet nos trans-
mittio, certo, ainda confirmaremos o nosso modo de ver,
porque as palavras : wruci, yaudrapipe, eyriries por irira,
Paraty, porá pomd ergoty por pird puan repoty, que o
viajante inglez nos apresenta como da lingua dos Waya-
nasses ou Vaanasses, são todas da lingua tupy, ainda
que um pouco alteradas, algumas dellas, pela graphia
ingleza.
Que as differencas linguisticas de que nos fallam o
Chronista Vasconcellos, e o autor do Roteiro não se devem
tomar em sentido absoluto é cousa que se deprehende
da leitura das obras citadas ; é assim que Gabriel Soares,
tratando do Guaitacd, nol-o apresenta com lingua dif-
ferente da do Z'upinaqui, entretanto que faz o Papaná
entender-se com este e com aquelle.
No meio dessa diversidade de linguas, apenas esboçada
e jámais demonstrada, vê-se surgir sempre como traço
de união uma lingua media, elo de uma cadeia que
apparentemente se interrompeu. Alli no valle inferior do
Parahyba,o Guaitaed diverge do Zupinagui, mas 0 Papaná
serve-lhes de mediador plastico; aqui em S. Vicente, o
Guaganiã não se entende com o Zamoyoou Tupi,o Carijó,
porem apresenta-se ligando-os na mesma cadeia lin-
guistica. |
“O mesmo. Vasconcellos, que assignalou sem adver-
sativas essa differença entre 0 Guayan@e a lingua geral,
deixa no correr da narração bem perceber que quem
catechisava, como o irmão Pero Corrêa, a Guayanäs em
Piratininga tambem podia pregar entre Carijós, Tamoyos
e T'upinaquis.
one
A estas difficuldades a que alludimos a principio,
oriundas das informações incompletas dos Chronistas,
historiadores e viajantes, se ajunta a confusão que o em-
prego do nome Guayand para varias tribus da America
do Sul deve ter acarretado.
O vocabulo Guaganã, como o escrevia Anchieta, é
evidentemente tupi e deve ter sido empregado pelos desta
lingua para designar um povo pacifico, ou pouco belli-
coso como, de facto, o era aquelle que habitava os cam-
pos de Piratininga, gente mollar, facil de crer em tudo,
não tomando iniciativa nos ataques aos seus contrarios,
‘nao matando os seus prisioneiros.
Guayanä no guarany como no tupi significa ao pé
da lettra verdadeiramente manso, bonachão, derivado de
guaya (manso, brando, pacifico), e nã (na verdade, cer-
tamente).
Vê-se que não é um nome propriamente de nação,
mas um appellido, ou designação baseada em seu caracter
e genio, dada pelos seus visinhos.
Neste caso, o nome Guayand podia ser empregado
pelas nações tupis ou guaranis para designar os visinhos
mais fracos ou pacificos, fossem elles aparentados ou não,
fossem da mesma nação ou de geração mui differente.
Por isso, os Guayands do Salto Grande do Paraná, os do
oriente do Paraguay, os do Alto Uruguay, os do rio
Iguaçú, os do interior do Rio Grande do Sul (Guanaos)
referidos por Gay podiam ser’ guaranis, não obstante a
nota citada pelo mesmo autor, colhida de uma obra de
1612, onde se diz que o nome Guayands se attribuia a
todos os indios, que não são guaranis, nem designados
especialmente. (1) Por isso, Ruy Diaz escreve que os Tupis
do Sul chamavam Guayand quem não era da sua paren-
tella e Knivet dá como tapuyas os Vaanasses de Angra
dos Reis e Paraty. Pela mesma rasão c P.° João Daniel
nos cita Guayands como excellentes caçadores e fura-mattos
(1) Revista do Museu Paulista, vol. I, pag. 59.
no valle do Tocantins, mas talvez da nação dos Crens
ou Crans (2). Por identico motivo, pode o illustre critico,
o Snr. Capistrano de Abreu equiparar a denominacao
Guayana do sul á de Zapuya na costae 4 de Neengahiba
no Amazonas. É tambem pelo mesmo motivo, ao escrever
estas linhas, encimei-as com o titulo: 4 nação Guayana
da Capitania de 8. Vicente, para fugir a tanta confusão
e porque penso que Piratininga foi o habitat desse povo,
e que a sua lingua não foi mais que um dialecto do
guarany.
S. Paulo, 24 de Fevereiro de 1897.
(2) Thezouro Descoberto no rio das Amazonas pelo P.e Joao
Daniel, na Revista do Instituto Historico, vol. III, pag. 287.
A Ilha de S. Sebastião
POR
H. von Ihering
bs Fes
Se ea
tA NAGER & (ie PAUL O-~
Pontal de Piraiqué
l., Exposicao geographica
Nos estudos sobre a fauna de S. Paulo, até agora,
pouca attençäo pude ligar 4 fauna do mar. Querendo
agora estender os nossos estudos tambem neste sentido,
precisamos antes de tudo de um lugar, onde se achem
realisadas as condições necessarias para tal fim. Nao é
em qualquer quarto que se estabelece o laboratorio, nao
é sem apparelhos etc. que se trabalha nesse sentido. Em
todos os paizes onde os naturalistas estudam a natureza,
quando se occupam da biologia do mar fazem-n’o me-
Revista do Museu Paulista 9
—— 130 —
diante estações zoologicas ou biologicas. Mesmo na mais
modesta fórma um tal laboratorio maritimo exige espaço,
apparelhos, meios. Precisa-se de um sortimento regular
de redes, especialmente de redes de rastar (dragas) para
tirar do fundo do mar os variados organismos que ali
vivem; precisa-se de aquarios para observar estes orga-
nismos vivos, e estes aquarios precisam da renovação
regular de agua e de ar. Especialmente para o serviço de
ventilação são necessarios apparelhos complicados. Não
devem faltar vidros e reagentes chimicos indispensaveis,
mesas para preparações e para estudos microscopicos,
etc. A essas condições junta-se a necessidade de porto
seguro para pequenas embarcações.
Não é qualquer localidade que corresponde a essas
condições. Bahias abrigadas, pouco profundas, como o
porto de Sant s, ligados ao oceano por entrada estreita
a recebendo rios de agua doce, não nos apresentam um
quadro completo da vida animal do mar. Além disto,
seria conveniente escolher uma localidade com boas con-
dições hygienicas, não exposta aos perigos da febre ama-
rella, onde haja meios de vida e pessal pratico de
marinheiros e pescadores, mas que não seja grande centro
de commercio e de navegação.
A localidade propria para taes fins deve offerecer bas-
tante variabilidade nas condições topographicas. Além da
praia de areia, queremos |on:aes com pedras; ha lugares
ondé o solo do mar é formado por lodo, por areia, por
agelomerações de massas calcareas, consistindo em
grande parte em conchas inteiras ou quebradas, e outros
onde encontramos uma rica flora de algas prevaiecendo
ora as fitas de verde claro das alvas, ora as ramificações
elegantes das fucoideas de consistencia dura como couro
ou das delgadas florideas. Procura-se lugares de agua
baixa e de agua mais funda, queremos o abrigo do porto
e a possibilidade de em tempo proprio poder alcançar
localidades expostas direitamente á onda do immenso
oceano.
— 131 —
Nesse sentido, entre Santos e Rio de Janeiro parecem
localidades apropriadas as ilhas de 8. Sebastião, a Ilha
Grande e talvez Ubatuba. Merecendo preferencia, a ilha
mencionada em primeiro lugar por motivos de communi-
cação e por pertencer ao Estado de S. Paulo, fui este
anno, acompanhado de dous preparadores do Museu e
com o necessario apparelho de redes, dragas, instrumen-
tos etc. a S. Sebastião, para proceder ali a um primeiro
exame de orientação.
O resultado correspondeu bem a minha expectiva.
Julguei, pois, util no presente artigo dar uma pequena
descripção da ilha de S. Sebastião e do canal que a
separa do continente. Tive nessa viagem occasião de co-
nhecer e apreciar um pedaço deste nosso Brazil, formado
pelos dous municipios de S. Sebastião e de Villa Bella
aos quaes pertencem as mais encantadoras paizagens da
região, de uma natureza opulenta e risonha, um pequeno
paraiso. A serra do mar de um lado, a da ilha com o
pico de Baepy e outros que se elevam a mais de 4000 pés
acima do nivel do mar, cobertas todas essas serras de
florestas soberbas e intactas; abundancia de arroios que
trazem a melhor agua possivel ás habitações e ainda aju-
dam com sua força o trabalho dos engenhos; numerosas
e bellas cascatas, e todo o littoral habitado e cultivado;
uma vegetação luxuriante e uberrima; o calor mitigado
pela brisa que soprando com regularidade limpa o ar,
garantindo a salubridade; — assim, se nos apresenta
essa região, que pelo seu canal de 14 milhas de extensão
oferece grandes e naturaes vantagens á navegação e ao
commercio.
O mappa que acompanha o presente estudo é mais ou
menos, quanto aos contornos cópia de um feito por Mou-
chez. Contem, porem, muitas indicações novas colhidas
por mim, e foi executado pelo habil desenhista Snr. R.
Avé Lallemant, a quem renovo meus agradecimentos.
— 132 —
Quanto 4 descripçäo da Ilha, encontret-a na segunda
parte de um trabalho que contém a descripção da ilha
e do littoral desde S. Sebastião até Santos. E' essa uma
pequena obra, pouco conhecida que entretanto merecia
ser mais lida, visto conter numerosas indicações que seria
dificil encontrar em outros livros. Além disto, este livri-
nho é escripto por litterato habil elevando-se a descripção
não raras vezes á altura de uma verdadeira obra de
arte poetica. Tem o titulo :
Olavio. Pelo Littoral. Santos, Typ. do Diario de San-
tos 1884.
Outra fonte importante de informações é o mappa
das costas e do canal maritimo das Comarcas de S. Se-
bastião e Villa Bella com o projecto das obras de melho:
ramento do porto de S. Sebastião, organisado na escala
de 1:10.000 em Outubro de 1892 pelo engenheiro Dr.
Casimiro Mottet. Essa planta de 2:1 M. de extensão está
guardada no edificio da Camara Municipal de S. Sebastião,
devendo sua cópia existir na capital n'uma das repar-
tições do Governo do Estado.
« Esta ilha, diz Olavio, é um pequeno paraiso, onde
a natureza circumdada de encantadora opulencia, offerece
por todos os lados os maravilhosos dons e beneficos resul-
tados de sua portentosa fertilidade.
Serras alterosas assoberbam aquella natureza possante,
correndo em toda a vastidão da ilha a traçar os arabescos
recurvados das longiquas cumieiras no azulado painel
dos vastos horizontes.
O Baepy é o Briaréo entre aquelles gigantes que
parecem sustentar sobre os hombros as regiões onde as
nuvens se agglomeram. Cachoeiras alvas e estrondosas
a tombarem enxurradas de espumas e a echoarem cla-
mores unisonos na magestade de sua imponente gran-
deza, despenham-se pelas cristas negras das penedias
correndo e erguendo mugidos atroadores, como avalan-
ches vertiginosas, em caminho do oceano.
— 133 —
Bahia dos Castelhanos =
A“Ilha de S. Sebastião, forma o termo de Villa Bella
da Princeza. Recebeu aquelle nome de Martim Affonso
de Souza aos 20 de Janeiro de 1532.
Ergue-se magestosa fronteira a cidade de S. Sebastião,
formando toda ella uma cadeia de serras imponentes a
entestarem com as nuvens. Sua posição geographica é
23° 48° 21.” Latt. S. e 47° 49' 30.” Long. O.
A sua extensão em circumferencia é de 46 milhas
maritimas, medidas em diversos pontos principaes, que
são: Ponta da Sella á Ponta das Cannas (canal) 14,0, das
Cannas 4 Ponta Grossa 3,0, Ponta Grossa 4 Chave 10,0,
Ponta da Chave á Pirassununga 2,5, Ponta de Pirassu-
nunga ao Boi 3,0, Ponta do Boi á Talhada 2,0, Ponta da
Talhada á Sepetiba 7,0, Ponta de Sepetiba á Ponta da
Sella 4,5. A Ponta do Boi é a que está mais ao S.e a
das Cannas mais ao N.
O Canal corre junto á ilha na extensão de 14 milhas,
isto é, desde o Pontal da Sella, barra do Sul, até ás
Cannas, barra do Norte. E elle é profundo medindo em sua
— 134 —
maior altura 25 braças e na menor 8. Ao meio do Canal
a profundidade varia, encontrando-se äs vezes 14 braças
e na mesma direcção com pouca distancia, 20. A lar-
gura maxima entre a ilha e a têrra firme, que é entre a
Ponta das Cannas e a do Arpoador, adiante do bairro de
S. Francisco é de 3 milhas, a media de 2, e a minima,
entre o Piraiqué e a Cidade de S. Sebastião de 1 milha.
Brotam das serras 39 cachoeiras, consideradas as
mais importantes, que com o impulsar de seu poderoso
auxilio movem 31 engenhos que existem no municipio.
São ellas — Paga dinheiro, na Villa, Engenho d'Agua,
Agua Branca, Morro do Espinho e Calheiros no Piraiqué,
formando as tres ultimas a Barra Velha, navegavel
em canôas até grande distancia ao centro. Fazenda, Ri-
beirão, para o sul; Cavaruú, Velloso, Rodamonte, Taubaté,
Terra Corrida, Lage, considerada como a principal, não
só pelo volume d'agua, como pela altura admiravel de
onde se precipita, formando em sua queda uma grande,
profunda e linda bacia. E” considerada esta Cachoeira |
como mais importante e magestosa que a da Agua Branca
que achamos lindissima e digna de admiração. Areado,
Bonête, Enxovas, Tóca, Figueira, Praia Vermelha, Caste-
lhanos (duas) uma em cada extremidade da Fazenda ;
Praia Mansa, Ribeirão e Lage do Dr. Cortez, todas na
bahia dos Castelhanos enfrentando o oceano.
Uma immensidade de praias circulam a ilha e a
maior parte d’ellas emprestaram seus nomes a diversas
cachoeiras já mencionadas e aos bairros que mais adeante
apontaremos. Encontram-se as praias seguintes: Taquan-
duba, Itagoassú, Sacco Grande, Piraiquê, Barra Velha,
Praia Grande, Bexiga, Curral, Velloso, Cavaruú, Tatam-
bora, Itapecerica, Borrifos, Frade, Terra Corrida, Bonête,
Indaiauba, Castelhanos, estas tres ultimas offerecem gran-
des pescarias de tainhas, Figueira, onde faziam antiga-
mente o desembarque dos Africanos, Sombria, Praia
Vermelha, Praia Mansa, Caveiras, Estacio, Serraria, Gua-
xima, Poço, Limo Verde, Fome, Jabaquara, Furnas, Paco-
— 135 —
hyba, Praia do Pinto, Ponta Azeda, Guarapocaia, Siriuba,
Vianna, Barreiro, Sacco do Indaiá e Prainha.
Na Ponta Azeda, é o lugar onde estão collocadas as
tão admiradas pedras sonoras, denominadas pelo vulgo
Pedras dos Sinos. Encostado ao outro extremo d'aquella
ponta, na base das montanhas, ha uma agelomeracao de
rochedos denegridos pelo embate dos tempos e cobertos
de profundas fendas pelo fustigar das ondas, entre c meio
dos quaes encontram-se admiraveis pedras qne produzam,
quando batidas por martello ou outro qualquer instru-
mento, o som metallico, alegre e vibrante de um sino a
repercutir pelos echos das serras até extinguir-se na
distancia. rncontram-se algumas planicies em toda a
ilha sendo a mais extensa e a mais povoada a do Piraiquê.
Nos Castelhanos, ha duas, sendo uma a beiramar « outra
mais para o centro, hoje matta virgem, porem, nos pri-
meiros tempos occupada por uma importante fazenda de
crear. À do Palhar, entre Indaiauba e Bonête, tambem
merece menção, porque da grande lagôa que tem é que
se forma a grande Cachoeira do Lage. Esta planicie está
no alto, assim como outra que existe no centro da ilha,
sobre a Villa, que possue igualmente uma grande lagõa.
A viagem por terra contornando a ilha é irrealiza-
vel, apenas pode obter-se viajar á cavallo dos Borrifos á
Ponta das Cannas ea pé, desde Terra corrida ao sul, até
Jabaquara á leste. EK’ bem lastimavel a falta de um ca-
minho que circulasse toda a ilha, pois existem muitos
Bairros distantes cujos habitantes têm o oceano como o
unico meio de viação. Ao outro lado da ilha, para as
bandas que olham o Atlantico, jornadeia-se por terra por
uma estrada que começa no Piraiquê, transpondo a serra
para os Castelhanos, cuja viagem faz-se em 3 horas, quér
a pé ou a cavallo. A estrada é soffrivel e foi feita á ex-
pensas do governo em 1879. Nesse tempo realizava-se a
viagem em 2 horas, hoje é mais demorada em razão
da estrada achar-se meia inutilisada pelas enxurradas
e pelo matto que vae aos poucos apoderando-se do
— 136 —
seu leito. Não obstante é bem aprazivel o caminho por
alli, porque é todo elle por baixo de mataria virgem e
sombras perpetuas. Contam-se 31 Engenhos, sendo 3 para
seccar o café e 28 para fabricação de aguardente, todos
de cylindros de ferro. Fabricam-se aproximadamente 2.000
pipas de aguardente.
sth! SOR ep ae, poe
Dies
O mercado da Cidade de Santos é continuamente
abastecido pelas Canôas da Ilha que em numero de 30,
conduzem para alli os seus generos, comportando elias
o pezo de 5 á 10 pipas. A exportação é a seguinte se-
gundo dados exactos (?) que obtivemos de pessoa intel-
ligente e de todo o criterio— Aguardente, 2,000 pipas —
— 137 —
Café, 8 mil arrobas—Feijäo, 300 saccos—Farinha, 800
alqueires—Milho, 200 ditos—Amendoim 20 ditos—Uvas,
200 arrobas— Banana da terra, 3,000 cachos—de outras
especies, 20 mil—Laranjas e limões, 500 mil—Aves, 20
mil cabegas—-Ovos, 800 mil duzias—Carás, 400 mil—Abo-
RS a AZKR
Cascata de Agua branca
boras, 300 mil—Batatas, 300 mil—Hortalicas em grande
quantidade e fructas como ariticús, abacates, mangas, etc.
As casas de negocio espalhadas pelo municipio,
são em numero de 30, sendo: 9 em Villa Bella, 8 no
Piraiquê, 5 na Praia do Pinto, 2 no Velloso, 1 em Siriuba,
— 138 —
l em Itagoasst, 1 em Barra Velha, 1 no Ilhote, 1 em
Tatambora e 1 nos Frades.
A população da ilha é orçada segundo uns em 7,000
almas e em 10,000 segundo outros. O penultimo recen-
seamento, de ha vinte e tantos annos, computava em
9,000 o numero de almas existentes em toda a ilha e
imperfeito, como dizem, ter sido feito aquelle arrolamento,
é por tanto provavel e mais exacto, com o augmento da
população, que tenha hoje attingido á cifra de 10,000. »
A ilha tem mais ou menos a forma quadrada, sendo
pocem de notar, que no meio é mais estreita em rumo,
de Oeste a Leste. Neste rumo, isto é, entre Piraiquê e
Castelhanos, a largura da ilha chega apenas a ter 1 ‘/,
legua ou ca. 10 Kilometros. Subindo a Serra, vê-se do
cume a grande bahia dos Castelhanos. Não acontece o
mesmo nos outros pontos da ilha onde, atraz da serra
que desce ao mar, existem outras cadeias de montanhas,
todas cobertas de matto grosso, destituidas de estradas
ou picadas. Acontece assim que poucas pessoas conhecem
os terrenos que possuem, como me affirmou uma das
pessoas mais conceituadas da ilha, o ill. Snr. Antonio de
Paula Moraes em Garapucaia. Os terrenos são medidos só na
costa e estendem-se do mar á vertente, não sendo porém
medidos os fundos.
Todo o interior da ilha é deshabitado, estando todos
os engenhos, as povoações e plantações situados na zona
estreita do littoral.
A ilha, embora hoje Comarca, não tem ainda boas
estradas de rodagem com pontes, nem ao menos entre
Villa Bella e as numerosas povoações e engenhos do lado
do canal, sendo os moradores obrigados sempre a recorrer
para as suas communicações, ao mar. Tambem neste sen-
tido a situação actual deixa muito a desejar. O porto
principal para a exportação da ilha é Santos. Não acceito
como fidedignos os dados estatísticos de Olavio por ter
a certeza de que ao menos em parte não são exactos.
Se bem que haja varios productos cultivados, entre os
— 139 —
quaes merecem menção, o café e a mandioca, a producçäo
principal é a aguardente, de que mais de 2000 pipas são
annualmente exportadas para Santos. Não havendo, porem,
vapores de carga de S. Sebastião para Santos, todo o
commercio é feito por canoas. Estas, em parte são bem
grandes, e chamadas «vogas». Medem 6-7 e mais palmos
de largura, sendo c comprimento 9 vezes maior do que
a largura. Carregam 6-10 pipas e vi no Bairro de S.
Francisco uma voga de perto de 9 palmos de largura que
conduzia 14 pipas.
A viagem da ilha até Santos é ao menos na parte
entre a ilha e a barra do Bertioga bastante perigosa, e
leva ás vezes devido a contrariedade do clima e do vento
muito tempo. Uma das modificações mais necessarias
para o progresso desta ilha, parece-me, seria o estabele-
cimento de uma linha de vapores entre ella e Santos.
Isto seria tanto mais facil quanto a ilha em muitos lo-
gares offerece condições das mais favoraveis para a na-
vegação. Assim, está a Villa Bella situada entre duas
bahias grandes e fundas, o sacco grande ao S. e o sacco
do indaiá ao N. que permittem aos navios e aos vapores
chegar quasi até 4 praia. Ao lado opposto da ilha existe
uma bahia propria para grande porto no lugar denomi-
nado Sombria. Esta bahia, cuja entrada não se avista do
Atlantico, servia antigamente como porto de desembarque
do trafico de escravos. Ella é muito procurada pelas em-
barcações de pescadores e foi ha cerca de 3 annos escolhida
pelo Dr. Luiz Faria para o pretendido lazareto de isola-
mento. O projecto, a que os moradores da ilha com razão
se oppuzeram, não foi executado. E’ preciso observar que
as ilhas dos alcatrazes e outras ilhas isoladas e deshabitadas,
podem offerecer as mesmas vantagens sem trazer perigo
a uma população densa e laboriosa.
Nesta occasiäo será conveniente examinar em peque-
na excursão as condições que o canal situado entre a ilha
e a cidade de S. Sebastião garante á navegação e ao
commercio. Este canal que sempre permitte aos maiores
— 140 —
navios e paquetes transito desembaraçado, offerece pela
profundidade da agua,—até 50 M.,—e pelo abrigo natu-
ral que tem pela ilha de S. Sebastião, vantagens naturaes
que garantem um futuro desenvolvimento bem differente
da actual miseria, especialmente nas condições de nave-
gação. Outra vantagem que se junta ás jd citadas é a salu-
bridade da região, que parece garantida pelos ventos e
brisas que virando com certa regularidade limpam a
atmosphera, pela falta do mangue e pela riqueza em
agua boa nascendo na Serra. Quanto ao mangue falta
no lado da ilha, sendo no lado opposto do canal reduzido
a varios lugares de pequena extensão.
Neste sentido como em qualquer outro, o lado do
canal, mais favorecido pela natureza, é o da ilha. O
canal é fundo do lado da ilha, baixo do lado de S. Se-
bastião. Se do lado da ilha os portos estão quasi promptos,
do lado de S. Sebastião serão necessarias obras de arte
de não pequena importancia. A cidade de S. Sebastião está
situada num pontal, que cresce em frente da cidade.
Existem alli, escondidas na areia as antigas escadas do
trapiche, que agora distam cerca 50 M. da beira do mar.
Calculo o crescimento deste areialem cerca de 100 M.
por 100 annos.
Ao contrario existe ao N. da cidade uma praia onde
o mar absorve terreno. AoS. da cidade parece que 0 mar
não destróe terrenos e será esta uma questão digna de
serio estudo. E” desse lado que conforme ao projecto do
engenheiro Mottet seria construido em terreno ganho por
enchimento da bahia, de pouca profundidade neste lugar,
a futura parte nova da cidade. (Quanto a mim, embora
neste sentido não possua conhecimentos e competencia,
não posso negar minha aversão contra o tal projecto,
preferinde a exemplo do p rto de Montevideo vêr creado
por dragagem o lugar do futuro porto; o que tanto no
sentido da saúde publica do futuro centro commercial, como
no interesse da segurança do porto e tambem sob 0
ponto de vista das despezas me parece mais vantajoso.
— 141 —
Em todo caso será a materia um problema que os estudos
dos respectivos engenheiros têm de resolver. E' questão
technica apenas. E se neste sentido o lado do continente
não conta com as mesmas facilidades como o da ilha,
será sem duvida S. Sebastião o ponto dado para tal porto,
visto que pode e ha de ser ligado por meio de estrada
de ferro com o Interior. Nem Ubatuba nem qualquer
outro porto do littoral neste sentido podem comparar-se
a S. Sebastião, que tem abrigo natural pela grande e alta
Praia do Barro
ilha opposta. E’ esta a garantia para o progresso futuro
de S. Sebastião—cidade que hoje só deixa impressão triste
ao viajante, que a visita, sem vida e sem recursos, onde
a cada passo se notam casas deixadas ou fechadas, casas
em ruinas. Mas o futuro ha de modificar isto.
Infelizmente até agora todos os esforços para apro-
veitar as condições vantajosas offerecidas pelo porto de
S. Sebastião não deram resultado. Nem mesmo com 0
— 142 —
auxilio de uma subvençäo pelo Governo do Estado foi
até hoje possivel doar a zona da costa deste florescente
Estado com as vantagens de uma linha regular e obri-
gatoria de navegação a vapor. São realmente antedi-
luvianas as actuaes condições de communicações na
costa de S. Paulo, sendo pessimo e irregular o respectivo
serviço dos paquetes, tristissimas as condições de em-
barque e desembarque. Faltou pouco que eu com meu
filho e os empregados do Museu que me acompanhavam
perdessemos todos a vida na noite da chegada a S.
Sebastião.
Impõe-se ao nosso Governo, aos nossos legisladores ©
a necessidade de servir á zona costeira com um serviço
especial e regular de paquetes, para o transporte não só
de passageiros mas tambem de carga, e a preços razoaveis.
(Questão não menos importante é a do porto de S.
Sebastião e da estrada de ferro que deve ligal-o á rede
de vias ferreas dos Estados de S. Paulo e Minas. Motivos
imperiosos de economia nacional exigem que todo o
commercio da capital e do interior não esteja sempre
dependente de uma unica estrada de ferro. So a concor-
rencia regula as tabellas de fretes de modo justo e conve-
niente, e se o desenvolvimento e progresso do Estado e dos
territorios visinhos exigem nesse sentido a descentralisação,
o porto que mais vantagens offerece é incontestavelmente
o de S. Sebastião. O porto de 8. Sebastião é uma riqueza
natural — oxalá que venha breve o tempo em que seja
aproveitado esse thesouro que a natureza offereceu ao
Estado de S. Paulo, em proveito da vida commercial da
região costeira. Será então mais facil tambem do que
actualmente, que os naturalistas alli estudem a vida
organica do mar de nossa costa, da qual dar uma breve
e ligeira exploração é o fim deste artigo.
— 143 — À
22 mar
Temos de notar um facto singular—a differença que
existe, quanto ás marés, entre a parte meridional da costa
do Brazil e a região central e septentrional da mesma
costa.
Nesta ultima como na America do Norte e na Europa
ha movimento regular da maré, de fluxo e refluxo, que
se succede em periodos de perto de 6 horas. Isto, porém,
não parece referir-se à região situada entre Santos e Bue-
nos Ayres. Conheço bem isto da costa do Rio Grande
do Sul e especialmente da cidade do Rio Grande do Sul,
onde a differença do nivel depende apenas do vento. A esse
respeito, veja o leitor o meu trabalho sobre a lagoa
dos patos, pag. 170.
Alli notei que as diferenças do nivel são devidas
essencialmente aos ventos, chegando comparadas as altu-
ras maximas e minimas observadas durante um anno,
a differença total a 225 M., sendo o maximo um cres-
cimento d'agua observado n'um dia 1,4 M. Póde-se rela-
tivamente ao canal do Norte, e o canal que liga a barra
ao porto de Rio Grande do Sul, dizer, que em geral a
agua cresce com ventos de S. e enche com ventos do N.
Os ventos do N. O. e N. E. têm por consequencia «va-
sante», que desaguando para o mar grande parte da agua
da lagoa diminue a profundidade nos canaes e sobre os
bancos de areia de modo que surgem difficuldades para
a navegação.
Adeante faço a exposição dos factos observados em
Santos. Não é singular a concordancia das observações
feitas nestes dous portos distando 8º de latitude entre si?!
Tambem em Santos não existe o phenomeno de
maré que nas costas da America do Norte e da Europa
tanto influe na vida da população costeira e na navegação,
repetindo-se com grande regularidade duas vezes em 24
horas. Naturalmente não faltam differenças de nivel, mas
Lie
estas säo irregulares, devidas em geral a dous factores:
ä lua e ao vento.
No porto de Santos apresentam-se os factos relativos
de modo seguinte, de accordo com as informações que
alli recolhei e pelas quaes antes de tudo sou obrigado
á Capitania do Porto. A differença de nivel entre as
aguas minimas e maximas conforme a baixa-mar e prê-
amar é de 22 ou 23 M. A agua cresce na lua cheia e
na lua nova. Quanto aos ventos, os de S. e S. O. fazem
crescer, os de N. E. diminuem as aguas. E', porem, no-
tavel que estes dous factores que influem no movimento
das aguas possam combinar-se, produzindo o maior effeito
possivel, ou combater-se, diminuindo assim ou annul-
lando o resultado. As maiores marés que são observadas
se dão com vento de Sule lua cheia. Ao contrario, acon-
tece que sendo esperado com a lua cheia ou com a lua
nova grande maré, não apparece maré alguma, devido
à influencia do vento N. E. Summamente notavel tor-
na-se o effeito da combinação indicada dos dous factores
referidos quanto antes de apparecer o effeito da lua cheia
já dous dias antes houve vento de Sul. Nessas occasiões
as aguas podem crescer de modo que chegam subindo
até ao nivel da rua de Paquetá.
Em S. Sebastião, ao contrario, existe com boa regu-
laridade o augmento e decrescimento das aguas. O mappa
do engenheiro Mottet indica como maximum de diffe-
rença entre o nivel do alto mar e baixa mar do equi-
noccio sómente 1,7 M.,o que não acredito que seja exacto.
Será mais.
A agua do mar neste ponto nada offerece de especial.
E' a agua do oceano Atlantico e a quantidade de agua
doce que no canal entra é insignificante, de modo que
não influe na vida organica.
A praia é, conforme ás localidades, de caracter dif-
ferente. Prevalecem as praias arenosas, cobertas de con-
chas mortas, algas, fucoideas e outros restos da flora e
fauna do mar. Em alguns lugares o matto desce até ao
ds.
mar Como na bella praia do Barro, lugar para tomar
banhos como nenhum outro mais lindo conheco no mundo.
De vez em vez apparecem pedras na praia, ora granito
nativo de maneira surprehendente decomposto pela acçäo
do mar e da atmosphera, ora grandes blocos de rochas
eruptivas. Outra configuração da costa é dada em certos
lugares pela presença do mangue, que não existe, que
eu saiba, no lado da ilha, mas sim em frente della perto
da cidade de S. Sebastião, ainda que em pequena extensão.
Correspondendo a esta variabilidade, tambem o solo
do mar offerece, conforme as localidades, differenças
notaveis. Ora areia pura, ora massas de conchas em
grande parte quebradas em pedaços, ora lodo fino e em
outros lugares predominancia de laminarias, ulvacéas e
outras plantas marinas. Ao lado . de S. Sebastião o mar
até a distancia de ‘,-1 : ilom. é baixo, variando de 2-10
M. Depois apparece o canal, que tem de profundidade
até 50 M. ou mais, e que é bem encostado ao lado da
ilha, de modo que alli as praias são menos extensas para
o lado do mar, descendo ás vezes o solo da praia como
em forma de barranca.
8., Geologia
A configuração da Serra da Ilha é a mesma que a
da Serra do mar do continente, a constituição geognos-
tica é identica.
>. O que me parece singular é, que em ambos os lados,
entre a Serra e a praia, existe uma pequena zona de
terrenos menos elevados que parecem ser depositados no
mar. Affirmaram-me diversas pessoas serias que nas ex-
cavaçôes profundas apparece uma qualidade de areia,
identica á das praias do mar. Parece, entretanto, que nem
ossos de baleia nem conchas marinas até agora foram
encontrados nesta areia.
Revista do Museu Paulista 10
— 146 — ,
Temos de conciuir que antigamente a ilha fez parte
do continente, que em fins da epoca terciaria, um acon-
tecimento geologico, devido a submersao dos terrenos
situados entre a Serra ea ilha, causou a separação desta,
e que este canal no principio foi mais largo ainda, dimi-
nuindo pela elevação lenta da costa, que Prova
ainda hoje continua.
“A existencia de um canal largo e homogeneo entre
a ilha e a serra de S. Sebastião é facto difficil de enten-
der. Se esta por meio de uma ramificação antigamente
se tivesse extendido até a ilha, devia haver restos desta
Serra e não um canal largo e uniforme. Parece antes
que a Serra da ilha foi antigamente parte de uma cadeia
de serras que corria parallela á actual costa da Serra e
da qual são os restos isolados esta ilha, a das Alcatrazes
e outras.
A constituição geologica é bastante simples e parece
que neste sentido não existe differença aleuma entre 0
continente e a ilha. Tambem nesta é predominante nas
serras 0 granito, que é ricoem veias de quartzo branco.
Tambem se encontra o granito á beira-mar no lado
continental. Encontrei tambem no municipio de S. Se-
bastião a «ita-una», de que logo tratarei, amphibolito e
balas de limonite («Thoneisenstein»).
A pedra chamada ita-una é tambem encontrada na
ilha, á beira do canal em varios lugares. E’ uma pedra
compacta, escura, que tem o nome scientifico de caugito-
porphyro», conforme a informação que amavelmente me
deu o Dr. O. Derby. O lugar mais conhecido onde se
encontra esta ita-una («pedra- preta») é «Pedras dos Sinos».
Ha alli agglomeração de grandes blocos desta pedra, uns
em cima dos outros e que offerecem o phenomeno de
produzir um bonito som metallico, som de sino, quando
batidos por martello ou machado. Liga-se a esta proprie-
dade uma lenda, contada por Olavio, do seguinte modo.
No anno 1730 descobriu se a propriedade harmoniosa
destas pedras, devido a um feliz acontecimento.
-
— 147 —
“Foi isto por uma noite bella, maravilhosa. Um céo
a esphacelar-se em brilhos, a chover fagulhas esplendidas
por todos os recantos illuminados daquellas profundezas
mysteriosas.
Uma lua branca, uma natureza toda luz e encantos.
Foi nesta noite de tanto esplendor e tantas alegrias pelas
alturas, que deu-se o facto que creou esta lenda. Alguns
pescadores fundeados em frente á praia estavam quasi
a concluir o labor de ee as noites. Empunhavam ja os
remos, para voltar aos lares, quando estatelados, mudos,
pararam, com o olhar e os ouvidos presos á terra que
bem pertinho avistaram, iluminada pelos clarões do céo.
Uns sons plangentes e harmoniosos, vinham da praia
em frente a qual estavam os pescadores, como a mur-
murarem-lhe aos ouvidos uns segredos que elles não
comprehendiam. Eram vozes de sinos a entoarem suas
cantilenas festivaes.
De repente a sorpreza dos pescadores chegou ao auge.
Do outro extremo da vasta bahia onde se reclina á mar-
gem das aguas a villa de São Sebastião, os sinos da
torre parochial lançavam aos échos, seus acordes como
um hymno a saudar alguma cousa de divinal que se
passava sobre a terra por aquellas horas.
Os pescadores eram estatuas do terror. Lá na villa
havia torres e sinos, mas na praia em frente, onde tinham
aleuns d'elles nascido, onde levantava-se a pobre e mo-
desta choupana com seu tecto de folhas de jiçaras dene-
geridas pelo fumo da lareira, nada disso havia.
Fugiram para o largo, esperando o romper do dia,
os pescadores aterrados. Alli, sob as arcarias illuminadas
do firmamento, nos frageis bateis balanceados pelo arfar
continuo das vagas, viram muito distante, nos limites
tracados entre o mar co céo, destacando-se vivaces, fixas
e claras, seis luzes a caminharem parallelas em direcção
ao sul.
Os pescadores contemplavam aquellas luzes a brilha-
rem nos longinquos horizontes. Alguma cousa de celeste,
— 148 —
de divino parecia circumdal-as e guial-as no rnmo que
traçavam pela vastidäo do oceano. Depois foram dimi-
nuindo até que desappareceram.
Em seguido ao redor dos pescadores reinou o silencio
magestatico dos grandes acontecimentos. Os sinos haviam
calado suas vozes e em terra na praia de onde tinham
vindo os primeiros sons festivaes que repercutiram por
aquelles échos, fez-se a mudez fria dos tumulos.
Algum tempo depois soube-se ter sido encontrado
perto de Iguape um caixão, dentro do qual foi descoberta
a imagem do Senhor Bom Jesus, que hoje alli se venerae
O caixão tinha ido dar á praia por uma noite magnifica
brilhando sobre a tempa, seis luzes, que em seu curso
pelo oceano foram avi“tadas de quasi toda a costa.
As pedras dos Sinos foram as primeiras em dar 0
signal da passagem pelo oceano da milagrosa imagem,
vindo depois os habitantes do lugar a descobrirem a
propriedade harmoniosa d'aquellas pedras, tão admiradas
por todos que as visitam.
Temos ainda, referindo-nos a tal lenda, de observar
que sómente quando batidas com certa força aquellas
pedras fazem ouvir sua voz metallica. Existem outras
qualidades de pedra que têm a mesma propriedade ; as-
sim, antes de outras, o celebre phonolitho, cujo nome
grego significa pedra sonante. Aqui no Brazil, ao menos |
em S. Paulo, não temos phonolitho; ha, porém, em
outras localidades do Estado, tambem no interior, augi-
to-porphyro e que alli tambem é conhecido por dar som
quando batido. Refiro-me ao augito-porphyro de Pira-
nhas conforme informações recebidas pelo Dr. Theodoro
de Sampaio.
4., À fauna da Ilha
Excusado é dizer, que a vegetação e os animaes
encontrados nesta ilha, situada tão perto ao continente,
em geral são identicos aos de S. Sebastião. Se bem que
sejam valiosas as colleções feitas nos municipios de São
Bes Ne es
Sebastiäo e Villa Bella, em 3-4 mezes nao se chega a um
conhecimento regular da vida animal de uma certa re-
giao. As informações recebidas pelos moradores até certo
ponto podem completar as explorações, especialmente
com referencia aos mammiferos e outros animaes mais
~. conhecidos pelo povo.
Um exemplo poderá illustrar esta opinião. Um dos
mamiieros mais interessantes desta ilha é o Cururuá,
rato do matto com espinhos, do qual pudemos obter na
Ilha uma duzia de exemplares emquanto na visinhança de
S. Sebastião nenhum obtivemos. Que isto não é mero
acaso o faz crêr a circumstancia que o Cururuá é ani-
mal damninho 4 agricultura, sendo grande apreciador
das raizes da mandioca. Este facto nos foi communicado
pelos moradores da ilha e verificado por nós, visto que
no estomago de alguns destes ratos encontremos pedaços
de raiz da mandioca. E” facto notavel em vista das pro-
priedades toxicas daquella raiz, mostrando que com o
tempo os animaes acostumam-se á comida venenosa sem
soffrer, o que aliás tambem sabe-se dos porcos e vaccas,
sendo preciso dar no principio somente em pequena
quantidade a raiz venenosa.
E' esta a razão por que os moradores da Ilha conhecem
bem o cururuá, e que pode-se acreditar na affirmação
dos moradores do municipio de S. Sebastião que alli este
rato não é encontrado, já pela razão de não serem pre-
judicadas alli por elle as plantações de mandioca.
Tenho da ilha mais um representante da familia dos
Echimyidos, da qual faz parte o cururuá, um rato de
barriga branca e sem espinhos que pelo tiro ficou tão
machucado que apenas recebi o craneo, que parece o de
uma especie de Isothrix. Informaram-me, que ainda ha
alli um cu’ irud sem rabo, costumando subir aos coqueiros
e que espero mais'tarde conseguir. 1) Esses ratos da fami-
lias dos Echimyidos tem 4 dentes molares de cada lado,
isto é, um mais que os typicos ratos. Constitue esta
1) Veja-se o annexo III.
150 —
riqueza em Echimyidos um dos caracteres mais interes-
santes da fauna desta ilha, visto que os membros desta
familia por toda a parte são raros.
Se neste sentido existe certo contraste entre a fauna
da Ilha e do continente, é isto um facto aliás em har-
monia com o que se observa em outras ilhas separadas
por mais tempo da terra firme Diminue sensivelmente
a fauna, que não recebe mais immigrantes e tomam
desenvolvimento extraordinario certos generos ou grupos.
Quanto mais remota é a data da separação, tanto mais
accentuado o caracter especial da ilha, que como neste
caso dizemos é rica em typos endemicos, sendo por esta
razão de presumir que é de data relativamente moderna
a separação da ilha, mas parece que alli conservaram-se
em abundancia algumas formas interessantes e raras, que
não existem mais na serra do mar e na zona costeira.
São estes os momentos, que nos obrigam a ligar um
interesse especial á exploração da vida animal desta ilha,
exploração apenas começada e para cuja continuação este
estudo ha de servir como base.
Quanto aos mammiferos dou em seguida a lista, não
entrando os morcegos, dos quaes só uma especie foi en-
contrada e que provavelmente não serão differentes em
ambos os lados do estreito canal,
E’ pequeno o numero de mammiferos encontrados na
ilha. Eis a lista delles.
Caxinguelê (Sciurus aestuans L.)
7 o à att.
Rato do Matto | Heshoromys longicaudata Benn
Cururuä (Loncheres nigrispina Natt.)
Rato de barriga branca (Isothrix sp.)
Capivara (Hydrochoerus capybara Erxl.)
Facca (Coelogenys pacca L.)
Gato do matto (Felis tigrina Erxl.)
Lontra (Lutra paranensis Reng.)
Ariranha (Lutra brasiliensis F. Cuv.)
Mico (Cebus cirrifer Geoff.)
— 191 —
Essa lista é sem duvida incompleta, mas só relati-
vamente aos mammiferos pequenos, morcegos etc., não
quanto ds especies grandes e conhecidas. Pela affirmação
concordante de varios moradores da ilha sei que alli não
se encontram os seguintes mammiferos :
Bugio, Mono, Sahuim e outros quadrumanos, Gambá
(Didelphys aurita Wied), anta (Tapirus americanus L.),
porcos do matto (Dicotyles), veados (Cervus), preguica
(Bradypus tridactylus L.), Tamanduds (Myrmecophaga),
aguti, ouriço-cacheiro (Sphiggurus villosus F. Cuv.)
Tapiti (Lepus brasiliensis L.) onça, sucuarana (Felis con-
color L.) e outras especies de Felis e Canis, como tambem
“os Coatis (Nasua). Talvez isto soffra duvida quanto a
preguiça. Tenho o craneo de uma especie de Isothrix.
qualidade de cururuá de rabo curto e sem espinhos e
dizem-me que existe alli um cururuá sem rabo, que
trepa nos coqueiros.
Quanto aos passaros existem, entre outros, Macuco,
Jacu-tinga, Urú, etc., mas faltam Perdiz, Codorna e Inam-
bú. De reptis existem numerosas cobras, entre ellas a
Jararaca-çú e a cobra coral; não falta o lagarto (Tupi-
nambis teguixin L.) São raros os amphibios, temos, porem;
alli encontrado a commum especie de rã (Cystignathus
ocellatus) e um sapo (Bufo sp.) Nas aguas correntes da
ilha, especialmente nos poços em baixo das cascatas,
encontram-se varios peixes pequenos como o Guarú-guarú
(Poecilia januaria Hens.) e outras, das quaes mais tarde
me occuparei. Encontrei tambem sirise camarões d'agua
doce (Palaemon) na cascata de agua branca e pequenos
caranguejos da agua doce. Nos mattos encontram-se
o grande búzio ou caramujo Bulimus grandis Martens,
a mesma especie que vive na serra ao lado de S. Sebas-
tião. E” singular, que todos os moradores affirmem que
elle no matto grite ás vezes, o que parece bem pouco
provavel. A carne deste grande mollusco é applicada
contra as doenças syphiliticas.
Se bem que estas informações sejão provisorias e
incompletas, até hoje não conhecemos nada da fauna que
não seja identica ás especies encontradas no lado opposto
ou continental do canal. Só o cururuá não vive perto
de S. Sebastião ; está, porém, conhecido de outras partes
do Estado, de modo que é de presumir que antigamente
vivia tambem no municipio de S. Sebastião. Isto nos faz
crêr que a fauna da ilha é apenas uma parte isolada da
do continente visinho, mas uma fauna empobrecida.
Para explicar taes factos podemos referir-nos a duas
hypotheses differentes : ou a fauna da ilha alli chegou
nadando respectivamente por migração activa ou passiva,
ou a ilha antigamente fez parte do continente.
Quanto 4 primeira supposição, é certo que alguns
animaes especialmente mammiferos podem ter assim alcan-
cado a ilha. Assim sei que varias vezes mataram-se onças
alli. A ultima que alli mataram ha perto de 20 annos,
foi encontrada entre Villa Bella e Piraiquê. Chegou na-
dando e tendo atravessado o mar na extensão de 2 kilo-
metros ao menos, veio tão cançada que aos moradores
foi facil pegal-a por laço e matal-a a pão. Varias vezes
foram encontrados nadando pelo canal loncras e ariranhas |
e tambem veados. Os ultimos, porém, não consegui-
ram assim estabelecer-se na ilha. Se bem seja possivel
que do mesmo modo mais um ou outro animal chegasse
ás vezes nadando á ilha, como por exemplo a capivara,
é certo que esta explicação não pode ser applicada a todos
os quadrupedes da ilha. KE’ o caso dos Micos que nem.
um rio pequeno passam nadando, e ainda menos um
braço de mar. Tambem as paccas e caxinguelês são
animaes que não podem ter chegado alli por migração,
e assim é certo que esta fauna veiu da terra firme,
quando esta se achava ligada ao continente. E” esta tam-
bem a conclusão a que chegamos examinando a presença
de especies de rãs, de Bulimus e de peixes e caranguejos
da agua doce.
— 153 —
Como annexo dou adeante a lista dos passaros cons-
tantes de nossas collecções e que junto com os que já
temos de Iguape, preparados pelo Snr. Ricardo Krone,
dão uma boa idea das condições ornithologicas do littoral.
Be A vida do mar
A flora maritima, que ainda nao parece estudada,
offerece os typos mais conhecidos que se encontram no
littoral do Atlantico, na Europa. Encontrei uma zona de
6-8 M. de profundidade onde prevalecem as fitas largas
e de verde claro das ulvaceas. Na praia encontram-se
massas de fucoideas, de florideas e de ulvaceas. E’ grande
a variedade desde as folhas delgadas mais ou menos
crêspas das ulvas até ás ramificações elegantissimas das
florideas, quasi todas de côr roxa ou vermelha. Encon-
tram-se as folhas singulares em fórma de leque da Pa-
dina, e os ramos escuros dos fucus com as suas nodosi-
dades. E' afinal uma riqueza, que nos garante ao mesmo
tempo grande variedade de vida animal.
Quanto a esta tenho de limitar-me aqui a algumas
observações introductorias. Nada reparei de cetaceos, estou,
porém, informado de que em certa epoca do anno pas-
sam balêas pelo canal e que ás vezes apparecem o peixe
boto e a toninha. Bem rico é o mar em peixes nessa
região. Estou preparando uma lista completa. Em geral,
os peixes são os mesmos que em Santos. Apparecem Ro-
balos, Garopas, etc. mas não abundantes. Os peixes que
mais prevalecem 'são entre outros os paratis (Mugil bra-
siliensis) e as tainhas (Mugil liza Cuv.)
Ha alli paratis todo o anno, mas tainhas só no in-
verno; parece que dos mezes de Agosto e Setembro em
diante vão emigrando ao Sul. Disseram-me que na bahia
de Juquery-querê estão-se criando as Tainhas. Parece
que o local é muito favoravel para a vida dos peixes, pois
existem alli tambem Chernes, Meros e outros peixes
grandes, que no canal são mais raros. Os peixes que mais
ASE
abundam neste canal, säo as Savélhas (Brevoortia tyran-
nus, Latr. Goode), Gallos (Selene vomer L.), Agulhas ou
Panaguayú (Belone truncata Less.) A Savélha é o mesmo
peixe que os americanos tratam de menhaden, aprovei-
tando-o para a fabricação de azeite e de estrume, visto
como devido & grande porção de espinhos finos que tem,
quasi não se presta para a comida. Quando eu alli estive
pegaram numa semana 60.000 numa pequena povoação
da ilha.
Ha muitos pescadores, que pescam com redes grandes
de 30-50 braças de comprimento e 3-4 braças de altura,
lançadas em posição vertical ao mar e arrastadas por
cabos á terra. Não me consta, porém, que os pescadores
tirem deste seu negocio o lucro conveniente, sendo o
peixe quasi todo consumido no mesmo lugar. No Rio
Grande do Sul, nesse sentido ha mais progresso, havendo
exportação regular de productos da pescaria. Sem duvida
aqui isso seria possivel do mesmo modo, sendo porém
necessaria a combinação entre industriaes com capital
e pescadores visto que do modo da preparação do pro-
ducto depende a conservação e o preço do mesmo..
Antes de deixar esta classe dos peixes não posso
deixar de mencionar ainda um peixinho singular que
na praia de Villa Bella tirei do mar: o Amphioxus. Dr.
C. Higenmann informou-me que a especie achada por
mim é a mesma que vive nas costas atlanticas dos Es-
tados Unidos e nas Antilhas: Branchiostoma caribacum
Sundev. Agora a Bibliotheca do Museu recebeu a impor-
tante publicação de Kirkaldi sobre as especies de Bran-
chiostoma que é indispensavel para o estudo deste grupo
de peixes.
E’ peixinho dos mais interessantes, que não tem cabeça
ou olhos, branco, sem escamas, de cerca 8-10 Centim.
de comprimento. E’ um dos animaes que mais tem
occupado a attenção do mundo scientifico e que tive
grande prazer de descobrir na nossa costa. Os, moradores
não o conheciam, dando-lhe o nome de linguado.
— 155 —
Entre os animaes evertebrados um dos grupos que
mais attrahem a attenção são os echinodermos. Na praia
encontram-se, na occasiao da vasante, quasi sempre ex-
emplares vivos do pindä (Toxopneustes variegatus (Lam.).
Existe tambem um pindä preto (Echinometra subangu-
laris A. Ag.) que vive nos lugares de pedras, e que é
comestivel, o que não acontece com os outros echino-
dermos. Na agua baixa encontra-se, na areia, e em grande
numero o corrupio (Encope emarginata (Leske) A. Ag),
um ouriço do mar de forma chata e com 8 perfurações
no disco. Temos outra especie com 5 buracos no nosso
littoral, a Mellita testudinata Klein, mas não a encon-
trei no canal de S. Sebastião.
A palavra portugueza corrupio, deriva-se do latim
e refere-se a um brinquedo de rapazes, feito de uma rodinha
de pio com dous furos no meio por onde passa um cordel
atado nas pontas.
A palavra pindi é indigena, significando na lingua
tupy-guarany: ançol. Quem tomou banhos nas praias
onde abundam esses ouriços do mar não duvidará que a
designação seja bem escolhida. O pindá quando vivo é
verde ou azul, é inteiramente coberto de espinhos del-
gados que depois da morte cahem, perdendo-se.
E' grande o numero ea variedade de estrellas do mar.
O maior entre ellas, medindo até 30 Ctm. de diametro
e 8 Ctm. de altura é o Pentaceros reticulatus Link,
especie até hoje conhecida só no Norte do Brazil e nas
Antilhas que, entretanto não é rara nesse canal, sendo não
poucas vezes apanhada nas redes pelos pescadores. Entre
as outras especies alli encontradas por mim noto : Aste-
ropecten brasiliensis M. Tr., Luidia clathrata (Say) Lütk,
Luidia senegalensis (Lam.) M. Tr. Echinaster echino-
phorus (Lam.), Asterina stelliffera Moeb. e varios ophiu-
rideas.
As ultimas, distinguidas pelo disco bem separado dos
braços que são fines, cylindricos e ondulados como pe-
quenas cobras, alli são mais raras e ainda não conheço-as
— 156 —
bem. Encontrei tambem uma holothuria e uma especie
de comatulas (Antedon brasiliensis Luetk.).
Outra classe de rica representação é a dos crustaceos,
contendo regular numero de especies comestiveis. Nesse
sentido de mais valor são as lagostas. A que eu obtive
em S. Sebastião é Senex argus Latr., especie das Anti-
lhas que até agora não foi mencionada na litteratura
como representada no Brazil. Na collecção do Museu temos
outra especie de nossa costa, Palinurus guttatus Latr.
Será necessario fazer collecções mais completas de lagostas
do Brazil, não sendo a materia bem estudada, tendo sido
descripta sobo nome de Senex laevicaudata (Latr.) Edw.
uma especie duvidosa, que talvez seja identica a uma
das duas já mencionadas.
Ha em S. Sebastião duas especies de camarões: Peneus
setiferus Edw., o camarão que se vende nos mercados de
Rio de Janeiro, Santos e Rio Grande do Sul, e Peneus
brasiliensis Latr., o camarão de Florida, Bahia e Rio de
Janeiro. Em Rio de Janeiroe S. Sebastião existem ambas
especies, sendo porem uma dellas a especie do Norte e a
outra a do Sul do Brazil. LR
Nas embocaduras dos rios encontra-seo pitú, que em
S. Sebastião chamam cutipaca, provavelmente corrompi-
do de potipaca, sendo poti o nome dos camarões em
geral e potitinga, ou petitinga como alli dizem, o nome
do camarão do mercado. O pitt (Palaemon jamaicensis
Edw.) é especie das Antilhas, divulgada até no Estado
de Santa Catharina. Outra especie parecida com os cama-
rões é a lagosta gafanhoto (Squilla scabricauda Latr.) que
assemelha-se ao gafanhoto-louvadeus e que vive no lodo,
servindo aos pescadores de Isca.
Nas praias areiosas vivem os Siris (Neptunus dia-
canthus Latr. o siri commum, e Neptunus cribrarius
Lam.), e diversos outros caranguejos que por não serem
comestiveis menos attenção merecem. Nos lugares pe:
dregosos encontram-se tres especies comestiveis, que são :
Santóla (Mithrax hispidus Edw.)
— 197 —
guaiá (Menippe rumphii De Haan)
siri-candéa (Cronius ruber Stimpson).
E’ estimada como comida especialmente a santola
que se pega de preferencia no mez de Agosto, quando
o mar vasa muito com a lua nova. Alem disto pega-se
a santola com um pedaço de páo amarrado por corda no
qual como isca é preso um peixe morto e no qual a
santola agarra-se, sendo assim tirada para fora.
Nos lugares lodosos cobertos de mangue vivem muitas
qualidades de caranguejos, sendo notavel entre elles antes
de tudo o Guaiumú ou Guaimiu (Cardisoma guanhumi
Latr.), cujos grandes buracos de 5-8 centim. de largura
alii se notam. Nas mesmas circumstancias é encontrado
o «caranguejo» (Uca cordata L.) que é muito mais apre-
ciado como alimento de que o guaiumu, e que ás vezes
é vendido aténesta capital de S. Paulo. Muito commum
é no mangue um caranguejosinho (Gelasimus moracoani
Latr.), trepando nas raizes, e que Marcgrave menciona
sob a denominação de ciecié do mangue, não me cons-
tando se aqui a essa especie dão o mesmo ou outro nome.
Occasionalmente pretendo dar uma lista completa
dos caranguejos de nossa costa; aqui apenas vou mencio-
nar mais um typo singular: a Tatuira (Hippa emerita
Fabr.). O pequeno animal vive nos areiaes, excavando
galerias subterraneas como o Tatú.
Differentes são os meios empregados para caçal-os.
As lagostas que vivem na agua funda, só por acaso
cahem nas redes. Os camarões pegam-se mediante a puça,
pequena rede em forma de funil, que se arrasta nos lugares
apropriados, especialmente onde ha limo. A maior força
delles é nos mezes de Dezembro e Janeiro, apparecendo
ás vezes em tanta abundancia que o alqueire de 40 litros
de camarão fresco é vendido por 18500 Rs. Já referi-me
á caça da santola. E” singular o modo de pegar a tama-
rutaca. Como ella vive escondida no lodo nrocura-se os
buracos assignalando a sua presença. e tirando-as com uma
“vara munida no fim de uma ponta de ferro.
— 158 —
Quanto aos outros crustaceos de nossa costa junto
alguns dados a respeito dos Cirrhipedios, segundo infor-.
mações pelas quaes sou grato ao Dr. W. Weltner do
Museu de Berlim. Não é rara uma especie de Lepas,
fixada especialmente á madeira fluctuante mediante pe-
dunculo molle e comprido e varias especies de Balanus.
Dou aqui a lista completa das especies de nossa colleeção
obtidas em varios lugares das costas do Brazil. Assim,
por exemplo, das caraccas que vivem sobre a casca da
tartaruga do mar temos apenas de Bahia, sei porem que
assim acontece tambem aqui, sendo possivel que a espe-
cie seja a mesma. 3
Lepas anserifera L. S. Sebastião.
Chelonobia testudinaria, L. Bahia.
Tetraclita porosa Gm. S. Sebastião, Santos, Rio.
Balanus tintinabulum S. Sebastião ; Tonala-Chiapas,
Guatemala.
Balanus amphitrite Darwin. Bahia; La Plata (subfossilo).
» improvisus Darwin S. Sebastião.
Quanto aos molluscos tenho de fazer as seguintes
observações, referentes á praia da Villa de S. Sebastião.
A praia em frente da propria cidade é arenosa. Grande
parte della descobre-se na occasião da vasante, offerecendo
a opportunidade para a recolta de animaes marinhos. E”,
porem, em geral só por occasião de vasante extraordinaria
que ella offerece vantagem e que os moradores da villa vão
percorrendo o lagamar, isto é, a praia descoberta pela reti-
rada temporaria do mar, para procurar molluscos e outros
animaes do mar, apreciados como comida. Acontece isto
especialmente no mez de Agosto na occasiäo da lua
nova. O mar retira-se durante a vasante nessas occasiões
mais do que em geral, deixando multos animaes DO secco,
condições especiaes que o povo não deixa de aproveitar.
Os molluscos mais procurados nesta occasião são :
Turioba. . .. Iphigenia brasiliensis Lam.
birbigão. . . . Cryptogramma brasiliana Gm.
mija-mija . . Cardium muricatum L.
— 159 —
ameixa. ... Lucina jamaicensis Lam.
Esta ultima é menos apreciada. Todos estes animaes
procuram defender-se contra a falta de seu elemento
natural, o que alcançam, sumindo-se na areia molle ou
caminhando para ganhar o mar, marcando o caminho
por sulco ou rasto. Sobresahe neste sentido o marisco
chamado mija-mija, que especialmente quando o sol
aquenta o terreno, sahe da areia e caminha em direcção
- ao mar. O animal, cheio de agua, despeja esta de vez em
vez lançando-a pelos orifícios siphonaes, costume do
qual resultou o nome vulgar acima indicado, que julgo
ser local. Em Portugal chama-se essa concha «birbigão».
A que aqui tratam de birbigão pertence, como já indi-
quei, a outra familia.
Na occasião destas vasantes extraordinarias os habi-
tantes tiram da praia, em cestos, grandes quantidades
desses mariscos, siris e outros crustaceos € mesmo, ás
vezes, peixes que ficaram em qualquer poça ou buraco
com agua. EK’ bastante variavel o caracter dessa praia, ora
prevalecendo a areia, ora conchas e mariscos mortos e
espedaçados, cobrindo tedo o solo, ora lodo ou lixo onde
se encontram as ameixas, especies de Bulla, Cerithuim
e outras.
Em varios lugares, pouco distantes da villa, ha pedras,
em parte a pedra nativa, em parte blocos maiores e
menores. Alli naturalmente a vida animal é completa-
mente diversa. As pedras estão cobertas de caracas,
pequenos crustaceos do genero Balanus, munidos de uma
concha composta de numerosas partes. À larva pequena
e quasi microscopica deste animal sedentario nada bem ;
é conhecida na sciencia sob o nome de nauplius. Tam-
bem as ostras e outros animaes do mar, fixos a pedras
ou ao solo têm larvas nadantes, que se espalham produ-
zindo a distribuição da especie. Visiter uma vez na costa
do Rio Grande do Sul, nadando o casco de um navio grande
que dera á costa. Embora que não tivessem passado mais
de 5-6 mezes, já encontrei-o tudo coberto de carracas.
— 160 —
Estas preferem os lugares expostos ás ondas só na en-
chente; fechando depois as conchas guardam humidade
sufficiente para viver até a volta da maré. Entre ellas e
na cavidade das caracas mortas encontrain-se numerosos
animaes pequenos, especialmente annelidos.
Do mesmo modo que as caracas numerosos cara-
mujos alli vivem, especialmente dos generos Litorina
e Purpura. Entre estes ha uma Purpura haemastoma var.
consul que é encontrado só na costa da ilha exposta
direitamente ao oceano e que os moradores comem, cha-
mando-a muçarate. Outro caramujo que os moradores
comem e que vive nas pedras é a rosquinha (Omphalius
viridulus Gm.). De mariscos vivem nestes lugares sururú
(Mytilus perna L.) que se encontra na Enseada e que é
munido de fios de bysso, pelos quaes, como um navio
pelo ferro, se fixa à pedra. Nestes lugares de pedra ha
tambem ostras.
Outra é a variedade animal, a fauna como dissemos,
nos lugares onde crescem plantas aquaticas especialmente
as fucoideas. Um destes lugares com limo acha-se perto
da villa na ponta de Araçá. Tambem aqui é a occasiao
melhor para a caça de animaes do mar no mez de Agosto,
quando a vasante é maior. Chega-se em canôa e tomando
banho tira-se do fundo diversos molluscos e crustaceos.
E” aqui que vive a grandee bonita especie de caramujo
conhecido por preguary e o marisco chamado tambafoli..
E’ quasi sempre preciso para buscar estas conchas, que
se sente pelo pé, mergulhar, embora a agua tenha
apenas um metro de profundidade. 3
Outras condições offerecem á vida animal as embo-
caduras dos rios. E’ só alli que se encontram as grandes
ostras (Ostrea brasiliana Lam.) conchas enormes, que
poucas vezes apparecem no mercado e que perto de São
Sebastião são encontradas no Bairro. E” alli tambem que
vive a especie maior de Palaemon, o pitti (Palaemon
jamaicensis Edw.) que em S. Sebastião chamam Cutipaca.
— 161 —
Como os molluscos em grande parte contribuem para
a alimentação da população costeira será conveniente
expôr em seguida o que a respeito observei. «
E’ interessante a comparação dos molluscos comes-
tiveis de S. Sebastião com os de Iguape, sobre os quaes
fui bem informado pelo Snr. Ricardo Krone em Igaape.
Segundo este habil observador me communicou os mol-
luscos que são vendidos no mercado naquella cidade são
os seguintes:
Gureri. (Ostrea brasiliana Lam.) grande ostra das
embocaduras dos rios onde vive no lodo.
Ostra (Ostrea parasitica Gm.) ostra pequena do man-
gue ; não apparece alli a ostra das pedras.
Bacucú (Modiola brasiliensis Ch.)
Sururú (Mytilus perna L.)
Baquigui (Azara labiata Mat.) marisco de agua salo-
bra onde vive no lodo.
Sernamby (Mesodesma mactroides Desh.) chamad
tambem «marisco» vive nas praias submergido cerca de
20 Centim. na areia. Fazem-se tambem conservas do
animal, fixando-o por cipó, salgando-o e seccando-o por
fumaça.
Ameixa (Lucina jamaicensis Lam.) vive no lodo onde
ha mangue.
Beguaba (Donax rugosa L.), que vive na areia das
praias em pouca profundidade.
Sara de pita (Cryptogramma brasiliana Gm.)
Berbigäo (Chione pectorina Lam.)
Saguarita ou Sacuritd (Purpura haemastoma L.) Ca-
ramujo que vive nas pedrase que os pescadores estimam
como isca para o espinhel. O animal contem numa glan-
dula um liquido de côr purpurea que os moradores ás
vezes aproveitam para fins de tincção, como já na anti-
guidade o fizeram os romanos e gregos.
Bet, Linguarudo, Calorim. (Olivancillaria auricularia
Lam.). Caramujo da praia que é commum nos lugares
onde abundam os beguábas e que pelos moradores da
Revista do Museu Paulista ; 11
— 162 —
- costa é comido e usado para isca, poucas vezes vendido no
mercado de Iguape.
As denominações das diversas especies recebidas pelo
Snr. R. Krone combinam mais ou menos com as colligi-
das por mim, a excepção talvez do birbigão, nome que
achei na bahia de Paranaguá e mais ao Sul usado para
a Cryptogramma. Parece, que estes nomes portuguezes,
applicados aqui a especies que alli não ha. são nas dif-
ferentes localidades de nossa costa empregados ás vezes
a conchas diversas.
Quanto aos molluscos comestíveis de São Sebastião,
eis a lista organisada segundo as informações recebidas
do Snr. Formozo Diego de Mattos, em S. Sebastião.
Sururú (Mytilus perna L.)
Tambafoli (Pholas costata L.)
Mija-mija (Cardium muricatum L.)
Ameixa (Lucina jamaicensis Lam.)
Tarioba (Iphigenia brasiliensis Lam.)
Birbigäo (Cryptogramma brasiliana Gm.)
Saguarita (Purpura haemastoma L.)
pery-guary (Strombus pugilis L.)
Rosquinho (Omphalius viridulus Gm.)
A differença que existe entre os mariscos etc. comidos
em ambas localidades, de certo não é EON ena ee só de
condicôes locaes.
O sernamby é commum e comido nas praias desde
Iguape até ao Rio do Prata, onde existe uma variedade
mais forte, grandee de epiderme amarella, que considerei
como distincta, mas que apenas é variedade (Mesodesma
mactroides var. Arechavalettai Ih.) Na costa do Rio Grande
do Sul é esse marisco o unico que os moradores comem
e que tambem é encontrado nos Sambaquis que por esta
razão ás vezes são chamados Sernamby.
Em S. Sebastião essa concha é desconhecida, como
o respectivo nome. Mas nas collecções alli feitas achei
duas valvas desta especie, mostrando que ella ainda alli
vive, embora bem rara. O mesmo temos de dizer da
— 163 —
Azara, commum e conhecida sob a denominação de ba-
quiqui em Iguape, mas faltando mais para o Norte. E
“assim. ha outras especies sendo, como Strombus cos-
tatus. Gm., Cypraea exanthema L.- (o «chave») encon-
trados na Ilha de Sebastião e não em Iguape ou mais
ao Sul.
E esse resultado parece confirmado por todos os outros
grupos de animaes marinhos. Os coraes bem representa-
dos por 3 especies em S. Sebastião, faltam mais para o
Sul. Do mesmo modo alli encontramos certas estrellas
do mar (Pentaceros), lagostas etc. que até hoje eram
conhecidas só nas Antilhas.
E' grande e variada a representação da classe dos
molluscos e notamos que não só ás differenças topogra-
phicas correspondem variações, mas que tambem sob as
mesmas circumstancias nas diversas localidades da Ilha
e do continente apparecem especies diversas. Assim en-
contra-se na Ilha o caramujo chamado chave (Cypraea
exanthema L.) que no lado continental não é encontrado.
O mesmo acontece com os coraes, dos quaes trouxe
da Ilha de S. Sebastião tres especies sendo um dos blocos
bem grande de cerca 62 centim. na extensão. Trouxe
tambem varias especies de coraes flexiveis ou Gorgonidos.
Nos areiaes não é rara uma bonita Renilla de côr
azul. Na praia achei grandes colonias de Synascidias,
Velellas e ás vezes medusas e siphonophoras. Quanto a
vida pelagica houve menos do que esperei, assim como
de esponjas, actinias, nudibranchios etc. quasi nada achei.
Estive alli pouco tempo, trabalhando só poucas vezes com
a rede rasteira, a draga.
Parecia mais rica a classe dos Annelidos. Ha varias
especies dellas que vivem em tubos cylindricos que se con-
struem cobrindo-os de pequenas conchas e pedras. Outras
especies encontraram-se nas pedras, entre Balanus etc.
Este pequeno esboço bastará para mostrar aos natu-
ralistas competentes, que o canal da Ilha de S. Sebastião
é um dos lugares mais apropriados para o estudo da
x
— 164 —
flora e da fauna do mar, tanto mais quanto mediante
excursões ás costas da ilha, expostas direitamente ao
oceano, podem entrar no reino das indagações sempre
novas regiões.
E' assim evidente que a ilha de S. Sebastião offe-
rece pela sua situação, pelo seu clima salubre e pela
riqueza da sua flora e fauna todas as condições para o
estabelecimento de uma boa estação zoologica ou biolo-
gica. Estações desta ordem ha muitas em todas as costas
da Europa e da America do Norte—nenhuma na America
do Sul.
ANNEXO 1.
Lista dos passaros caçados nos mezes de Setembro e Outubro de 1896
nos Municipios de São Sebastião e Villa Bella (*)
PELO PREPARADOR DO MUSEU
ESM DEL PINDER
Oenops aura L. (’)
Polyborus vulgaris Spix (*) (Gaviäo).
Troglodytes musculus Naum. (Curuira).
Cyclorhis ochrocephala Tsch. (°)
Progne domestica Gray. (Andorinha).
Atticora cyanoleuca Cab. (Andorinha).
Stelgidopteryx ruficollis Vieill. (Andorinha).
Geothlypis velata Vieill.
Dacnis cayana L. (Sahy).
Euphonia pectoralis Lath. (Alcaide).
Tanagra sayaca L. (Sanhaço).
Tanagra palmarum Pelz. (Sanhaço).
Tanagra ornata Sparrm. (Sanhaço).
Rhamphocoelus brasilius Bp. (Tiésangue).
Molothrus bonariensis Cab. (*) (Virabosta).
Guiraca cyanea L. (Azuläo).
Oryzoborus torridus Scop. (*) (Coirô).
Spermophila coerulescens Vieill. (Papa-roz).
Volatinia jacarini Bp. (*) (Papa-roz do Preto).
Sycalis flaveola L. (Canario).
Todirostrum poliocephalum Pr. W.
Serpophaga subcristata Vieill. (Cagasebito).
Elainea pagana Licht.
Pitangus sulphuratus L. (Bemtevi).
Megarhynchus pitangua L. (*)
Hirundinea bellicosa Vieill.
Myiobius naevius Bodd. (Marrequinha).
— 166 —
Empidochanes fuscatus Pr. W.
Empidochanes fringillaris Pelz.
Myiarchus cantans Pelz. (Caga-sebo).
Tyrannus melancholicus Vieill. (Siriri).
Chiromachaeris gutturosa Desm. (Rendeira).
Synallaxis ruficapilla Vieill.
Pyriglena leucoptera Vieill. (Tié preto).
Florisuga fusca. Reich (*) Beja-flor.
Calliphlox amethystina Gm. (*) Beja-flor.
_ Nyctidromus albicollis Gm. (Coriango).
Hydropsalis furcifer Vieill.
Ceryle americana Borie. (*) (Martim pescador).
rogon atricollis Vieill.
Campephilus robustus Licht. (*) Picapdo).
Picumnus temminckii Lafr.
Diplopterus naevius Boie. (Sassy).
Crotophaga ani L. (
Pyrrhura vittata Bp. (*) (Tiriba).
Psittacula passerina Wagl. (*) (Periquito).
Chamaepelia talpacoti Hartl. (*) (Pomba-rola).
Aegialitis collaris. Salvin (Batuira). |
Totanus flavipes Vieill. —
Sterna maxima Bodd. (Trinta-reis).
ANNEXO Il.
Lista dos Molluseos encontrados no Canal
entre S. Sebastiao e a Ilha do mesmo nome.
Ostreidae. Ostrea rhizophora Guild. (« Ostra do
mangue »).
Ostrea cristata Born.
« brasiliana Lam.
« spreta Orb.
Anomiudae. Placunanomia rudis Brod.
Spondylidae. Plicatula ramosa Lam.
Pectinidae Pecten nodosus L. (deque»).
Janira: ziczac EL.
Aviculidae Avicula atlantica Lam.
Margaritiphora radiata Lam.
Pinna listeri Orb.
Mytilidae. Mytilus perna L. («Sururtp).
« solisianus Orb.
« darwinianus Orb.
Modiola brasiliensis Ch. («Bacucú»).
« tulipa Lam.
« falcata Orb.
Lithophagus bisulcatus Orb.
Modiolaria viator Orb.
Arcidae. Arca umbonata Lam. (imbricata Brug.)
« adamsi Shuttlew.
« chemnitzi Phil.
« auriculata Lam.
« Deshayesi Hanley.
€ incongrua Say var. brasiliana Lam.
& >, indica Gi
« martini Recl.
Nuculidae. Nucula crenulata A. Ad.
— 168 —
Ledidae. Leda electa A. Ad.
Astartidae. Gouldia martinicensis Orb.
« guadeloupensis Orb.
« cerina C. B. Ad.
Lucinidae. Lucina jamaicensis Lam. («ameixa»).
« quadrisulcata Orb.
« pecten Lam.
« costata Orb.
Diplodonta semireticulata Orb. (semiaspera
Phil.)
Diplodonta guaraniana Orb.
» portesiana Orb.
Chamidae. Chama arcinella L.
« congregata Conr.
Cardiidae. Cardium muricatum L. («mija-mija»).
« bullatum L.
« laevigatum L.
Veneridae. Venus rugosa Gm.
« cribraria Conr.
« dysera L.
« portesiana Orb. var. Beaui Recl.
Cryptogramma brasiliana Gm.
Anaitis paphia L.
Cytherea (Callista) maculata L.
« (Dione) circinnata Lam.
« (Caryatis) varians Wood.
« « rostrata Koch.
Dosinia concentrica Born.
Lucinopsis tenuis Recl.
Petricolidac. Petricola robusta Sow.
Donacidae. Donax obesa Orb.
Iphigenia brasiliensis Lam. («Tarioba»).
Heterodonax bimaculata L.
Psammobiidae. Tagelus gibbus Spglr.
Sanguinolaria sanguinolenta Gm.
Tellinidae. Tellina striata Ch.
« brasiliana Spglr.
Semelidae.
— 169 —
Tellina lineata Turton.
« versicolor Cozzens.
Macoma aurora Hanley.
Strigilla pisiformis L.
« rombergi Moerch.
Semele reticulata Gm.
« variegata Lam.
Mesodesmatidae. Mesodesma mactroides Desh.
Mactridae.
Ousmdaridae.
. Corbulidae.
Wialedidae.
Dentaliidae
Argonautidae.
Tornatinidae.
Bullidae.
Siphonariidae.
Fissurellidae.
Neritidae.
“Trochidae.
Mactra fragilis Oh. (brasiliana Lam.)
« Petiti Orb.
Cuspidaria cleryana Orb.
Corbula nasuta Sow.
« caribaea Orb.
Pholas (Barnea) costata L. («tambafoli»).
Martesia striata L.
Dentalium sp.
Argonauta tuberculosa Shaw.
Cylichnella bidentata Orb.
Bulla striata Brug.
Siphonaria picta Orb.
Fissurella barbadensis Gm.
« elongata Phil.
Necitina virginea Lam.
Omphalius viridulus Gm.
Calliostoma jujubinum. ,
« jucundum.
- Phasianellidae. Phasianella umbilicata Orb.
Turbiridac.
Acmaeidae.
_ Naticidae.
Astralium Olfersi Trosch.
« latispina Phil.
Acmaea subrugosa Orb. (onychina Gld.)
Natica brunnea Link.
Calyptraeidae.
Solariidae.
Litorinidae.
Vermetidae.
Modulidae.
Cerilhiidae.
Strombidae.
Cypraeidae.
coa To RS
Natica canrena L.
Calyptraea parvula Dkr. (candeana Orb. ?)
Crepidula aculeata Gm.
Solarium bisulcatum Orb.
Litorina flava King.
“ « carinata Orb.
Vermetus varians Orb.
Modulus modulus L. var.
Cerithium atratum Born.
« literatum Born var.
Bittium varium Pfr.
Strombus costatus. Gm.
« pugilis L. («pregoary»).
Cypraea exanthema L. («chave»).
Amphiperasidae. Amphiperas (Simnia) intermedia Sow.
Doliidae.
Cassididae.
Tritoniidae.
Turbinellidae.
Scaluriudae.
Muricidae.
Buccinidae.
Columbellidae.
Fasciolariidae.
Olividae.
Terebridae.
Dolium galea L.
Cassis inflata Shaw.
.Tritonium parthenopus v. Salis.
Turbonilla turris Orb.
Scalaria lamellosa Lam. var.
Murex senegalensis Gm.
Purpura haemastoma L.
« « L. var. consul Reeve.
Sistrum nodulosum A. Ad.
Bullia cochlidium (Kien) Orb.
Columbella mercatoria Lam.
« lyrata Sow.
(4 avara Say.
Leucozonia cingulifera Lam var. brasiliana
Orb.
Fusus verrucosus Wood var. marmorata
Phil.
Oliva reticularis Lam.
Olivella jaspidea Gm.
« mutica Say var. petiolita Duel.
Terebra cinerea Born.
ANNEXO III.
Quando já estava no prelo este artigo recebi o pri-
meiro exemplar do «Cururuá sem rabo» da Ilha de São
Sebastião. E” especie do genero Mesomys Wagner, sendo
porem esta especie que chamo Mesomys thomasi sp. n.
maior que a unica especie até hoje conhecida e que
foi da região amazonica (Borba). Esse animal mede 287
Mm. de comprimento, sendo o pé posterior de 38 Mm.
de comprimento sem as unhas. ‘A côr é ruivo-parda
emcima, misturada com preto, devido ás pontas dos espi-
nhos. Em baixo é de côr cinzento-amarella. As orelhas
são bem curtas. Não ha vestigio de cauda. No volume
seguinte-espero dar a descripção completa. Infelizmente
esse cururuá não foi acompanhado do craneo. Dedico
esta especie ao eminente naturalista Snr. Oldfield. Tho-
mas, a quem estão confiadas no British Museum as ricas
collecções de mammiferos, e que já muito tem feito para
o estudo dos mammiferos do Brazil.
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OS CAMAROES DA AGUA DOCE DA AMERICA DO SUL
POR
Dr. Arnold E. Ortmann
NE ERIN C ESTONIE GN JUS, A
No presente trabalho tentamos classificar de modo
claro os camarões da agua doce da America do Sul, (1)
até agora conhecidos, tratando principalmente da possi-
bilidade de uma classificação d'estas fórmas, feita com
segurança e promptidão.
E' de esperar que nossos conhecimentos systematicos
das fórmas sul-americanas sejam de algum modo apro-
veitaveis: talvez haja especies ainda não encontradas,
e além d'ellas fórmas ainda não descriptas de maneira
lucida, as quaes por emquanto devemos incluir no numero
das duvidosas. Os nossos estudos acerca das especies sys-
tematicamente bem conhecidas apresentam ainda em
varios pontos, lacunas consideraveis: não conhecemos
bastante a distribuição geographica das diversas fórmas,
sendo principalmente impossivel verificar exactamente os
limites d'essa distribuição. Antes de tudo, porém, carece-
mos de quasi toda noticia sobre as condições bionomicas
e biologicas: é só a #. Müller que devemos informações
mais exactas sobre algumas fórmas e é de desejar que
taes observações sejam continuadas, visto como só ellas
nos permittem comprehender certas particularidades da
distribuição geographica.
(1) Essa denominação geographica comprehende aqui tambem
a America Central e as ilhas das Indias Occidentaes, convindo
notar que estes territorios, em relação á fauna dos crustaceos da
agua doce, não podem ser separados da America do Sul propria-
mente dita.
— 174 —
A classificação systematica seguinte trata principal-
mente das fórmas «bem conhecidas», (2) isto é, das formas
cujos caracteres já estudados permittem distinguil-as
com segurança de todas as outras especies do mesmo
genero, apresentando-se assim a base apropriada para
mais amplos estudos. cujo primeiro fim seria a tentativa
de explicar as fórmas «duvidosas». Quanto a estas ultimas,
citei-as adduzindo pelo menos as necessarias informações
litterarias. E’ de presumir, que na America do Sul haja.
tambem algumas novas especies scientificamente ainda
não conhecidas; descrevel-as e comparal-as com as espe-
cies já conhecidas será tarefa de trabalhos posteriores.
EK’ muito desejavel que se descreva todas as novas espe-
cies comparando-as com as conhecidas, o que se fará
melhor apresentando uma tabella, destacando-se assim
mais distinctamente os caracteres especificos. E’ só por.
este methodo que auctores e monographos posteriores
poderão formar opinião sobre uma especie sem ser obri-
gados a estudar exemplares originaes. Até agora a tal
requisito, por mais natural e indispensavel que seja, em
muitos casos infelizmente não se tem satisfeito, contentan-
do-se muitos auctores em ter estabelecido para suas novas
fórmas uma «diagnose» que não passa de uma descripção
insufficiente, abreviada e que muitas vezes não é compara-
vel ás diagnoses de especies aparentadas. Demais ha aucto-
res que no estabelecimento de novas especies muitas vezes
seguem o methodo de dar uma descripção muito exacta
e minuciosa, preciosa sem duvida, em geral, mas dispen-
savel muitas vezes para grupos bem conhecidos.
Fatiga procurar n'uma descripção tão extensa os
caracteres essenciaes frequentemente occultos. Comtudo
é natural que a este ultimo methodo de descrever espe-
(2) Em geral estas são fórmas que eu tambem conheço bem
e cujos exemplares foram examinados por mim e comparados
entre si. Em alguns casos, porém, ainda não cheguei a estudar
representantes de certas especies o que me obrigou a recorrer
então só á respectiva litteratura.
— 175 —
cies caiba a preferencia, desde que se trate de grupos
pouco estudados e, quanto á classificação, duvidosos,
havendo então mais esperança de não omittir-se nenhum
dos caracteristicos que por trabalhos monographicos pos-
teriores se manifestarem como importantes para a dis-
tinçcäo das especies.
E' preciso lembrar que a descripção de novas especies
não póde mais ser o principal fim do estudo da fauna
da agua doce da America do Sul; ao contrario, seria
muito proveitoso que não existissem outras formas além
das conhecidas. Mas como não é de suppôr que assim
succeda, devemos primeiro procurar “conhecer perfeita-
mente o verdadeiro conjuncto da fauna para ter uma
base que nos permitta comprehender a origem e o des-
envolvimento da fauna da agua dceda America do Sul-
E” claro, porém, que isso exige estudos muito mais serios
e que além da verdadeira distribuição geographica (cho-
rologia) devemos tambem tomar em consideração a ma-
neira pela qual as diversas fórmas se apresentam em
vista das condições physicas de existencia as quaes in-
fluem na distribuição dos animaes, assim como seus habitos
de vida e antes de tudo sua historia geologica. Faltando
ainda quasi totalmente taes estudos sobre os grupos de
animaes dos quaes trataremos aqui, qualquer trabalho,
por mais modesto, sobre os crustaceos da agua doce da
America do Sul, póde um dia tornar-se precioso.
Na America do Sul (com inclusão das Antilhas e da
America Central) encontram-se camarões de agua doce
de duas familias differentes : dos Atyidae e dos Palaemo-
nidae, pertencentes á divisão dos Zucyphidea (3). Para
(3) Veja-se Ortmann: Das System der Decapoden—Krebse in
Zoolog. Jahrb. Abt. f. Syst. v. 9. 1896 p. 409-453.—Os Eucyphidea
correspondem ao antigo grupo dos Caridae («Garneelen») com
- exclusão dos Penaeidea.
— 176 —
comprehender a posição systematica e as relações de
parentesco note-se o seguinte. O tronco dos Decapodes
divide-se em dous grandes grupos: os Vatantia e os
Reptantia, classificados em sub-ordens e separados uns
dos outros já muito cedo, certamente já no periodo ju-
rassico. E de suppôr que os ultimos tenham derivado
dos primeiros, desenvolvendo-se depois cada um desses
ramos principaes isoladamente. Os Natantia hoje são
representados por tres divisões : os Penacidea, os Steno-
pidea e os Eucyphidea, dos quaes os dous primeiros se
têm afastado menos dos typos primitivos, ao passo que
os Zucyphidea se tem desenvolvido mais divergentemente,
ainda que alguma das suas familias se juntem estreita-
mente aos Penacidea. A (familia da agua doce tropical)
dos Atyidae é grupo primitivo entre os Hucyphidea :
acham-se seus proximos par ntes na familia dos Acan-
thephyridae, limitados ás zonas mais profundas do mar,”
talvez a mais primitiva de todas as familias actuaes dos
Eucyphidea. Os Palaemonidae, ao contrario, collocam-se
na extremidade de um dos ramos mais extremos ds Ku-
cyphidea, representando uma familia muito moderna, da
qual muitas fórmas vivem no mar perto do littoral e
só. poucos generos, em parte, todavia, em grande numero
de especies, emigraram para a agua doce dos tropicos.
Evidente é que estes são um augmento novissimo e que
a fauna da agua doce obteve só nos ultimos periodos geo-
logicos, sendo até possivel que em nossos dias estejamos
ainda no meio do periodo da immigração d'estas fórmas
na agua doce.
A segunda sub-ordem dos Decapodes, os Reptantia,
compõe-se d'uma parte dos antigos Macruros (excluindo
os antigos Curidae e os Stenopidea), dos Anomuros e dos
Brachyuros.
Conforme ás differenças na edade phylogenetica e
geologica as duas familias de camarões que tem repre-
sentantes na America do Sul differem a fundo nos traços
principaes de sua distribuição geographica. E' verdade
A
que ambas as familias são grupos verdadeiramente tro-
picaes, mas os Atyidae, de accordo com a sua edade
consideravel, apresentam na sua distribuição particulari-
dades notaveis, ao passo que a distribuição dos Palae-
monidae, immigrantes muito modernos, chegados do lit-
toral ás regiões da agua doce, se mostra ainda estreita-
mente ligada ás condições zoologico-geographicas que
dominam no littoral. Seria demais entrar aqui na materia
deste capitulo interessante ; quanto á distribuição d’estas
duas familias, refiro-me a meus anteriores trabalhos
monographicos (4). Mais abaixo, porém, em poucas pala-
“vras farei ainda uma menção dos factos da distribuição
mais importantes.
A tabella seguinte póde servir a quem procurar
distinguir facilmente dos outros Decapodes estas duas
familias de crustaceos pertencentes á fauna da agua doce
da America do Sul. Note-se porém que n'esta tabella
figuram só os caracteristicos principaes e facilmente
visiveis, além dos quaes existem tambem outros que se
revelam só ao estudo mais exacto. As partes buccaes
principalmente (a mandibula, as maxillas e as patas ma-
xillares) assim como as branchias (a respeito da fórma e
do numero) são muito importantes para a caracterização
das divisões principaes dos Decapodes, sujeitam-se porém
ao estudo só depois de preparadas com muito trabalho.
E' por isso que nas tabellas seguintes eu não me referi
a estes orgãos sinão em caso de necessidade.
a’. A forma do corpo é mais ou menos comprimida,
o abdomen bem desenvolvido. O rostro ás mais das vezes
é comprimido, munido de dentes na margem superior
assim como na inferior, faltando raramente os dentes.
O primeiro segmento do abdomen não é consideravelmente
(4) Veja-se Zoolog. Jahrb. Abt. f. Syst. vol. 5. 1891, p. 744-748.
— Proceed. Acad. Nat. Sc. Philadelphia 1894, p. 410-416.
Revista do Museu Paulista, 12
— 178 —
menor do que os outros. As partes lateraes (chamadas
epimeros) do segundo segmento do abdomen cobrem tanto
as do primeiro como as do terceiro segmento. Das partes
thoracicas, chamadas pereiopodes, só os dous primeiros |
pares têm tenazes, sendo que estas ou são de igual tama--
nho ou as tenazes do segundo par maiores do que as do
primeiro. As patas abdominaes, chamadas pleopodes,
apresentam um forte tronco com dous appendices com-
pridos e apropriados para a natação.
Divisão : Eucyphidea.
br. Os dous pares de tenazes não são consideravel-
mente differentes. Os dedos das tenazes têm na ponta um
singular pincel de cabello. Na coxa (5) dos quatro pri-
meiros pares de pereiopodes acha-se uma mastigobran-
chia rudimentar, chamada epipodite (6). As antennas in-
teriores apresentam dous appendices filiformes terminaes.
/
Familia: Atyidae.
b>. O segundo par de tenazes é sempre mais com-
prido e ás mais das vezes tambem consideravelmente
mais forte do que o primeiro. Os dedos das tenazes não
apresentam pinceis de cabellos na ponta. As coxas dos
quatro primeiros pares de pereiopodes não têm epipodites.
As antepnas interiores apresentam tres appendices fili-
formes terminaes.
Familia : Palaemonidae.
a:. A forma do corpo não é comprimida; não falta
o abdomen que é bem desenvolvido ou reduzido e ver-
(5) Cada pata compõe-se de sete segmentos que começando da
base até á extremidade são designados pelos nomes seguintes :
coxa, base, ischium, mero, carpo, propodus, dactylus.
(6) E” este um appendice curto, rectilineo, situado no lado
exterior do segmento e que se dirige de diante para traz. E' o
ultimo resto das mastigobranchias as quaes em outros grupos se
extendem ainda até para dentro da cavidade branchial.
\
r — 179 —
“gado sob o sterno. O primeiro segmento do abdomen
é visivelmente menor (mais estreito) do que os outros;
seus epimeros não são cobertos pelos do segundo. Tres,
dous ou um dos pares de pereiopodes tem tenazes, achan-
do-se raramente um par que não as tenha; mas cada
vez que se encontra mais de um par de tenazes, as do
primeiro são muito mais fortes do que as outras. As patas
-abdominaes não são apropriadas para a natação.
Sub-ordem : Xeptantia.
Familia ; ATYIDAE Kingsley.
Diagnose: a mandibula é forte, larga, indistincta-
mente bipartida, sem synaphipode (palpo). Os quatro
primeiros pares de pereiopodes apresentam epipodites. Os
dous primeiros pares de pereiopodes têm tenazes, são
quasi de igual forma; o carpo do segundo par não é arti-
culado (7). As pontas das tenazes apresentam singulares
pinceis de cabellos. O rostro varia de comprimento, sendo
munido de dentes ou sem dentes.
Os Atyidae representam provavelmente uma velha
familia da agua doce espalhada pelos tropicos de todo o
mundo. Nenhum dos generos americanos limita-se a este
continente, mas todos os quatro encontram-se tambem
em outras partes do mundo. O genero Xiphocaris possue
ainda uma outra especie, talvez duas, na Asia Oriental
e na Australia. O genero Caridina chega a seu desenvol-
vimento principal nos tropicos do velho mundo, antes
de tudo no archipelago indo-malaio. O genero Atyoida
é representado por uma nova especie nas ilhas Sandwich
e em Tahiti. O genero Atya possue duas ou tres especies
na Indo-Malasia e nas ilhas pacificas. Outros dous generos
(7) Ha familias de Hucyphidea que apresentam este segmento
dividido em certo numero de peças separadas,
— 180 —
que nao sao americanos acham-se, sendo representados
por uma especie cada um, como relictos muito singula-
res na Europa do Sul. |
E' muito provavel que justamente d’essa familia seja
possivel encontrar ainda novas especies na America do
Sul, principalmente dos generos Xiphocaris, Caridina e
Atyoida, comprehendendo estes todos só formas menores,
de poucos centimentros de comprimento, que facilmente
escapam á vista. E’ de suppôr que a especie Atyoida
potimirim, attribuido até agora a uma só localidade,
esteja mais espalhado. Outras formas são Atya gabonensis |
e crassa, que representam os gigantes da familia e
cujo corpo tem um ou dous decimetros de compri-
mento; informações sobre estas formas seriam acolhi-
das com satisfação: não se omitta, porém, a possibili-
dade de serem estas fórmas velhos exemplares de Atya
scabra.
E' certo que todos os Atyidae se limitam 4 agua
doce. Ha só poucas especies de Caridina indo-malaias
encontradas tambem na agua salobra. N’isso, porém, reve-
lam-se com certeza adaptações secundarias, visto como
as mesmas especies vivem tambem na agua doce. Fal-
tam-nos informações sobre o desenvolvimento, o modo de
vida, o alimento etc. i excepção de Atyoida potimirim,
sobre o qual 7. Müller publicou uma serie de noticias.
Quadro synoptico dos generos americanos dos Atyidae.
a. Em todos os pereiopodes o segundo segmento tem
um exopodite (8). Os segmentos do carpo dos dous pri-
meiros pares de pereiopodes não são excavados na extre-
midade distal ou são excavados só indistinctamente. O
rostro é bem desenvolvido e munido de dentes.
(8) Este expodite corresponde ao ramo exterior das «patas
bipartidas», que caracterizam por exemplo os Schizopodes. E" este
um caracteristico muito primitivo que se tem conservado ainda
só em poucos Decapodes.
— 18] —
Genero : Xiphocaris.
a. Os pereiopodes não tem exopodites.
b'. O segmento do carpo dos primeiros pereiopodes
é excavado na extremidade distai, não sendo excavado o dos
segundos pereiopodes (fig. 6). O rostro é comprido e na
especie americana, munido de dentes só na margem
inferior.
Genero : Caridina.
D. Os segmentos carpaes dos primeiros e dos segun-
dos pereiopodes são excavados na extremidade distal. O
rostro é curto (fig. 2. 3. 4).
c'. O dedo movel da tenaz é mais curto do que a
parte immovel da mão (9), a ultima distinctamente divi-
“dida n'uma parte palmar e um dedo immovel (fig. 2 e 3).
Genero : Atyoida.
c:. Ambos os dedos são de igual tamanho articu-
lando-se um com o outro na sua extremidade posterior.
Nenhuma das partes palmares é desenvolvida (fig. 4).
Genero: Atya.
1., Genero: Xiphocaris v. Martens.
Ephyra de Haan, Miersia Kingsley, Paratya Miers.
Xiphocaris elongata (Guerin).
Hippolyte elongata Guérin, Anim. Artic. em: de la
Sagra, Hist. de Vile de Cuba, 1857. p. 54 pl. 2, fig. 16.
Oplophorus americanus Saussure, Mem. Soc. Phys.
Hist. Nat. Genève, vol, 14, 2. 1858, p. 472, pl. 4, fig. 31.
(9) A tenaz dos crustaceos é formada pelos dous ultimos seg-
mentos do respectivo par de patas e é chamada tambem mão. O
dedo movel é o dactylo, o immovel é o appendice do propodus,
que lhe é opposto. A parte basal do propodus, na qual se insere
o dactylo é a palma.
| ss 180
Xiphocaris elongata, gladiator, var. intermedia, brevi-
rostris Pocock, Annal. Magaz. Nat. Hist. (6) vol. 4, 1889.
p. 17 #, pl. 2, fig. 9-8.
Xiphocaris elongata (Guér.) Ortmann, Proceed. Acad.
Nat. Sci. Philadelphia. 1894, p. 400.
Diagnose : Faltam os espinhos supraoculares, O ros-
tro varia de comprimento, sendo mais curto do que os
troncos das antennas interiores e ás vezes mais comprido
o que todo o cephalothorax. A margem superior apre-
senta uma serie interrompida de dentes em fórma de
serra, com 9 a 18 dentes sobre a base e 3 a 6 diante da
ponta, havendo 16 a 40 dentes na margem inferior.
Pocock distinguiu tres especies e uma variedade, as
quaes, porém, se caracterizam todas só pelo comprimento
do rostro. Visto como estas suppostas especies vêm
todas da mesma localidade e no comprimento do rostro,
começando de elongata até brevirostris, apresentam todas
as gradações, é de suppôr que ellas não passem de va-
riações de uma só especie.
Até agora esta especie foi encontrada só na agua
doce das Antilhas (Cuba, Haiti, Dominica).
2. Genero: Caridina Milne-Edwards.
|
Caridina americana Guérin.
Guérin, 1. c. 1857, p. 52, pl. 2, fig. 18—Pocock, 1. c.
1889, p. 16, pl. 2, fig. 3.
Diagnose : A margem anterior do cephalothorax tem
um espinho na altura das antennas exteriores. A margem.
superior do rostro nao apresenta dentes. O segmento
carpal dos primeiros pereiopodes é só pouco mais com-
prido do que largo.
Essa especie, espalhada nas ilhas de Cuba e de Do-
minica, ainda não foi estudada com bastante exactidão,
estando principalmente por constatar mais exactamente
suas differenças de Caridina typus M. E. (veja-se Ort-
mann, |. €. p. 401) encontrada nas ilhas do Oceano Indico,
na Indo-China e na Indo-Malasia.
4
DANSE
Uma especie duvidosá é Caridina mexicana Saussure
(L c. 1858, p.“463, pl. 4, fig. 26) encontrada no Mexico,
talvez uma Atya de edade juvenil.
3., Genero: Atyoida Randall.
Atyoida potimirim F. Müller. Estampa I, fig. 1—8.
Arch. Mus. Nacion. Rio de Janeiro v. 8, 1892, p. 155
pl 9.10, à
Diagnose: O rostro é curto, munido de dentes na
margem inferior. O segmento carpal dos primeiros pereio-
podes é mais comprido do que largo. Encontra-se essa
especie em alguns lugares do Brazil: em Itajahy e perto
de São Sebastião. Da ultima localidade mandou-me o
Dr. von Ihering um exemplar pescado no mar; é possivel
que elle só por acaso tenha entrado na agua salgada.
Kingsley (Proc. Acad. Nat. Sci. Philadelphia 1878, p.
93) descreve uma Atyoida glabra da Nicaragua, talvez
uma Atya de edade juvenil.
4., Genero: Atya Leach.
Tabella das especies de americanas Atya :
a’. O rostro é mais curto do que os troncos das
antennas interiores, carece de dentes ou espinhos na
“margem superior, apresenta, porém, de cada lado uma
quilha que termina para diante n'um curto espinho.
b'. O cephalothorax não é esculpturado, é lizo ou
um pouco escabroso. O terceiro par de pereiopodes não
tem espinho na margem inferior do mero.
A. scabra.
b. O cephalothorax, principalmente na frente, é
fortemente esculpturado de listras e covas. O terceiro par
— 184 —
de patas tem um forte espinho na margem inferior do
mero (10).
A. gabonensis.
a. O rostro é tao comprido como as escamas anten-
naes, a margem superior tem 6 a 8 espinhos. A parte
anterior do cephalothorax apresenta grande numero de
espinhos e quilhas espinhosas.
A. (Evatya) crassa.
Conhecemos individuos de Atya scabra de cerca de
dez centimetros de tamanho, ao passo que gabonensis e
crassa, principalmente a ultima, excedem essa medida
consideravelmente. Das ultimas especies têm sido encon-
trados até hoje só exemplares d'este tamanho considera-
vel: não seria impossivel que não fossem outra cousa
sinão individuos mais ou menos adultos da especie scabra.
Atya scabra Leach.
Atya scabra Leach, Zoolog. Miscell. 3, 1817, p. 29,
pl. 1381.—Jhine-ELdn ards, Hist. Nat. Crust. vol. 2, 1837,
p. 942, pl. 24, fig. 15—19.
Especies synonymas: 4. mexicana Wiegmann, Aº
sulcatipes Newport, A. occidentalis Newport, A. rivalis
Smith, A. tenella Smith, A. punctata Kingsley. Veja-se as
ay mais exactasem Ortmann, Proceed. Acad. Nat.
i. Philadelphia 1894, p. 409.
Diagnose: O rostro, mais curto do que os troncos
das antennas interiores, apresenta de cada lado uma qui-
lha lateral que termina para diante n'um espinho agudo,
(10) Em outras especies, encontradas na Indo-Malasia acha-se
bem desenvolvido esse espinho só no adulto macho, sendo muito
provavel que elle falte tambem aos individuos novos de gabonensis.
Dado o caso de não ser desenvolvida tambem a esculptura do
cephalothorax, taes exemplares novos de gabonensis seriam, sem
duvida, identicos aos de scabra.
— 18 —
sendo no mais despido de espinhos. O cephalothorax é
lizo, ponteado ou um pouco escabroso, mas não tem qui-
lhas nem tuberculos ou espinhos. O terceiro par de pereio-
podes, nos individuos novos, não differe visivelmente
do quarto e do quinto, nos individuos adultos, porém,
mostra-se muito mais forte e coberto de numerosos espi-
nhos. A margem inferior do mero carece sempre de um
espinhc de tamanho consideravel.
A. Milne-Edwards menciona duas especies da Nova
Caledonia : 4. margaritacea e robusta, as quaes, segundo
diz, no primeiro e no segundo par de pereiopodes possuem
meros cobertos de pellos. Mas 4 Atya scabra tambem
parece não faltar esse caracter, sendo possivel que aquellas
duas especies sejam identicas 4 ultima e a Nova Caledonia
erradamente mencionada como lugar onde foram encon-
tradas.
A especie Atya scabra Leach está espalhada na America
Central (Mexico, Nicaragua) e nas Antilhas (Cuba, Haiti,
Jamaica, Dominica, Martinica, Tobago) sendo possivel
que se encontre tambem no continente sul-americano.
Acha-se tambem nas ilhas de Cabo Verde (São Nicolão,
São Yago), pertencendo por conseguinte ao numero das
fórmas da agua doce que existem tanto na America como
nas costas occidentaes da Africa.
Atya gabonensis Giebel.
Atya gabonensis Giebel, Zeitschr. f. d. gesamt. Naturw.
vol El "1875,;p. 52.
Evatya sculptilis Kélbel, Sitz. Ber. Akad. Wiss. Wien.
vol. 90, 1, 1884, p. 317, pl. 2, fig. 8, pl. 3.
Atya sculptata Ortmann, Zoolog. Jahrb. Syst. vol. 5,
1890, p. 465.
Essa especie distingue-se da precedente pelo tamanho
que é mais consideravel, pelo cephalothorax esculpturado
na parte anterior com quilhas e tuberculos irregulares,
assim como pelo forte espinho na margem inferior do
— 186 — |
mero dos terceiros pereiopodes. E’ possivel que essa
especie só represente os individuos adultos da prece-
dente.
Pelo que sabemos com segurança a Atya gabonensis
até hoje foi encontrada só no Orinoco e no Gabon, rio da
Africa Occidental.
Atya crassa Smith.
2, e 3, Rep. Peabody Acad. Sci. 1871, p. 95.
Diagnose : Essa especie distingue-se de todas as ou-
tras do genero pelo rostro tao comprido como as escamas
antennaes e munido na margem superior de 6 a 8 espi-
nhos. No mais é muito parecida com Atya gabonensis,
tendo, porém, a esculptura do cephalothorax ainda
mais fortemente pronunciada e augmentada com espinhos
pequenos.
Seria muito interessante ter mais informações sobre
essa especie raramente encontrada para a qual Smith
estabeleceu um genero especial (Hvatya).
Atya crassa está espalhada na Nicaragua e no Mexico
(Presidio).
Uma especie duvidosa é Atya poeyi Guérin (1. c. 1857,
p. 46, pl. 2, fig. 7), a qual, segundo dizem, se encontra
em Cuba e só representa provavelmente a fórma juvenil
da especie ordinaria das Indias Occidentaes.
Familia : PALAEMONIDAE Bate.
Diagnose: A mandibula é profundamente bipartida,
quasi sempre munida d'um synaphipode (palpus). As
terceiras patas maxillares têm a forma de pernas, sendo
cylindricas, não foliaceas. Os dous primeiros pares de
pereiopodes têm tenazes, sendo o segundo distincto e
muitas vezes consideravelmente mais forte e comprido
— 187 —
do que o primeiro. O carpo do segundo par não é
articulado. Em todos os pereiopodes faltam os epipodites.
As antennas interiores apresentam tres appendices fili-
formes terminaes, dividindo-se o appendice exterior em
duas partes ás vezes ainda reunidas na base. O rostro
é sempre comprimido, forte e munido de dentes.
_ Essa familia comprehende formas marinhas assim como
fórmas de agua salobra e de agua doce. Essencialmente
marinhos são os generos Leander e Palaemonella. Um ge-
nero, Palaemonetes, acha-se não só no mar, mas tambem
na agua salobra e na agua doce, dando-se o mesmo tam-
bem com Palaemon, o qual, porém, só excepcionalmente
se tem encontrado na agua meramente salgada; está espa-
lhado principalmente na agua doce assim como o genero
Bihynis. »
“Destes generos Palaemonella e Palaemonetes ainda
não foram verificados como pertencentes á America do
Sul, o que nos permitte deixal-os de lado aqui. Achan-
do-se, porém, Zeander no mar perto da costa brazileira
meridional e encontrando-se ás vezes no mar tambem
algumas fórmas de Palaemon, julgo necessario incluir
Leander na tabella seguinte, para que se torne possivel
distinguir, à primeira vista, com segurança, das fórmas
de Leander verdadeiramente marinhas os exemplares de
Palaemon talvez por acaso encontrados na agua salgada.
Palaemon e Lithynis são parentes muito chegados.
Limita-se Bithynis ao lado occidental da America do Sul,
ao passo que Palaemon se encontra tanto na America,
do lado oriental dos Andes (11), como em toda a parte
tropical do velho mundo (na Africa, na Asia meridional,
na Australia, nas ilhas pacificas). E’ digno de nota que
(11) Ha algumas especies que em certos lugares se encontram
do lado pacifico dos Andes; como, porém, estão mais espa-
lhadas a E'ste dos Andes, é de presumir que ellas, atravessando
a montanha, tenham transmigrado para o lado occidental.
— 188 —
as especies indo-pacificas (da Africa Oriental até as ilhas
pacificas) sejam differentes das da America Oriental, ao
passo que todas as especies de Pa/aemon da Africa Occiden-
tal até hoje conhecidas ou são identicas ás da America
Oriental ou parentes muito chegadas d’estas. O territorio
indo-pacifico (12) é extraordinariamente rico em fórmas;
na America Oriental o numero das cspecies mostra-se
talvez um pouco mais limitado, mas comtudo ainda con-
sideravel. Em geral, na America esse genero nao se-
encontra a Oeste dos Andes, sendo representado no declive
pacifico d'esta montanha (no Chile, no Perú) por Bithynis.
Para o Sul o genero não passa do territorio brazileiro
(só perto do littoral o limite é conhecido um pouco mais
exactamente), para o Norte extende-se até ao Mexico e
á Cuba, achando-se tambem na America do Norte, no
territorio do Mississippi.
Encontram-se exemplares de Palaemon dentro dos
tropicos nos arroios das montanhas, em todos os rios,
nos estuarios, nas lagoas do littoral, na agua salobra e
até na agua meramente salgada (13). Em cada um d'estes
lugares differentes, porém, não se acha sempre uma só |
especie: ainda que algumas, ao que parece, prefiram a visi-
nhança do littoral e a agua salobra, outras habitam
igualmente vastos territorios fluviaes desde a embocadura
até ás regiões das nascentes. Não conhecemos as causas |
d'essa estranha distribuição duma mesma especie nem
mesmo sabemos, se essas especies ficam permanentemente
no territorio superior ou no inferior do rio ou fazem, em
certos tempos, talvez na epoca da propagação, migrações
subindo ou descendo o rio. O que é certo é, que certas.
(12) Considerado como. região zoologico-geographica, o territo-
rio indo-pacifico pertence ao littoral marinho. Estabelecer, das
fórmas da agua doce um «territorio indo-pacifico» é cousa que só
é admittida em vista do facto de ligar-se a distribuição d’estas
fórmas de modo extraordinario á distribuição das fórmas indo-
pacificas do littoral.
(13) Os ultimos casos dão-se raramente. — Veja-se Ortmann,
Decapod. e Schizopoden der Plankton—- Expedition. 1893, p. 48.
— 189 —
especies demoram permanentemente na agua doce (14) :
tanto mais estranheza porém causa o facto do que outras
se encontrem perto do mar e no proprio mar.
As especies do genero Palaemon, por causa do tama-
nho a que attingem (é este de cerca de 100 a 200 "" sem
contar as tenazes), representam nas diversas regiões um
artigo de mercado importante e chegam em certos lugares
regularmente ao mercado de peixes (na America do Sul
por exemplo no Rio de Janeiro e no Pará). Não seria
impossivel que dos pescadores se pudesse obter informa-
ções sobre o modo de vida d'estes camarões. (Quanto ás
informações de tal origem, evidente é, que é preciso sub-
mettel-as a um exame critico rigoroso. Comtudo não quero
deixar de chamar a attenção para esse meio que talvez
nos possibilitará fazer investigações nas epocas e nos
lugares mais apropriados.
Tabella dos generos :
a. Na margem anterior do cephalothorax acham-se
de cada lado dous espinhos: um d'elles, chamado espi-
nho antennal, na mesma altura das antennas exteriores,
o outro, chamado espinho branchiostegal, debaixo do
primeiro (fig. 12). Falta o espinho hepatical. O segundo
par de patas é só pouco mais forte e comprido do que
o primeiro.
=
Genero : Leander.
a Na margem anterior do cephalothorax acha-se
de cada lado wm só espinho antennal; falta o espinho
branchiostegal. O segundo par de patas, no macho adulto.
é consideravelmente mais comprido e forte do que o
primeiro.
- (14) Veja-se F. Müller, Archiv. Mus. Nacion. Rio de Janeiro
vol. 8, 1892, p.: 179.
— 190 —
b'. Ao lado do espinho antennal, collocado para traz
e um pouco para baixo, acha-se nas partes lateraes ante-
riores do cephalothorax um espinho chamado hepatical
(fig. 7e 11). E
Genero : Palaemon.
°. Falta este espinho hepatical.
Genero. Bithynis.
1., Genero : Leander Desmarest.
As especies d’este genero, ainda que pela maior parte
marinas, entram, muitas vezes nos estuarios, acham-se
na agua salobra e até na agua doce. E' justamente uma
especie brazileira (potitinga) que pertence ao numero das
formas da agua doce, e como, além d’esta forma, até
hoje foi descripta ainda uma só especie de Leander bra-
zileira marina, eu entretanto consegui estudar uma
segunda especie que 6 nova, farei no seguinte uma
tabella e breve caracterização de todas estas tres especies _
de Leander sul-americanas. Estas são de pequeno tama-
nho, mas distinguem-se entre si facilmente já pela forma
do rostro. Distinguem-se tambem facilmente das outras
fórmas que não são americanas. As antennas interiores
parecem ser de muita importancia para a distineçäo
das especies. EK’ conhecido que estas têm tres appendices
filiformes terminaes («Geisseln»), os dous exteriores d'elles |
ainda reunidos na base; o numero d'estes segmentos
soldados assim como o dos livres do mais curto d’esses
dous appendices filiformes é muito variavel nas diversas
especies, parece porém ser constante para cada nma
(estas especies,
Tabella das especies.
a’. O rostro é muito curto, apenas tao comprido.
como os troncos das antennas interiores, rectilineo, mu-
nido emcima de 6 a 7, embaixo de 2 dentes. Os dentes
da margem superior têm igual distancia entre si.
ot:
L. brasiliensis.
a. O rostro é mais comprido, tão comprido, mais
ou menos, como a escama das antennas exteriores, ligei-
ramente curvada para cima.
bt. O rostro, na parte basal, é embaixo alargado, da
forma de lanceta. A margem superior apresenta 11, a
margem inferior 5 dentes que tem igual distancia entre
si. O corpo do segundo par de païas é pouco mais ou
menos tão comprido como a palma da tenaz.
L. paulensis.
b. O rostro não é alargado na base, rectilineo, estrei-
tando-se para a ponta só imperceptivelmente. A margem
superior é munida de 7 dentes, dos quaes seis tem igual
distancia entre si na parte basal, seguindo-se depois um
trecho sem dentes e a pouca distancia da ponta ainda
um dente. A margem inferior apresenta 5 ou 6 dentes.
O carpo do segundo par de patas é consideravelmente
mais comprido do que toda a tenaz.
L. potitinga.
_ Leander brasiliensis Ortmann—Estampa I. fig. 12.
Em : Zoolog. Jahrb. Syst. v. 5, 1890, p. 524, pl. 37,
fig. 16.
O rostro é rectilineo e apenas tão comprido como os
troncos das antennas interiores. A margem superior é
munida de 6 ou 7 dentes que têm igual distancia entre
si, estando o uitimo ainda no cephalothorax. A margem
inferior apresenta 2 dentes. O segundo par de patas é
tão comprido como a escama antennal,o carpo um pouco
mais comprido do que a tenaz, a tenaz pequena e fraca, 0
dedo mais curto do que a palma, que não é intumecida.
Os appendices filiformes terminaes exteriores são
soldados em cerca de 9 segmentos; o appendice curto
apresenta mais de 20 segment s livres.
— 192 —
Pela curteza do rostro distingue-se esta especie de
todos as outras do genero 4 primeira vista. Encontra-se
no Rio Grande do Sul; faltam-me informações mais ex-
actas sobre os lugares onde foi encontrada.
Leander paulensis nov. spec.—Estampa 1, fig. 14.
O rostro e tão comprido como as escamas antennaes,
ligeiramente curvado para cima, da fórma de lanceta,
na base alargado na margem inferior, estreitando-se
depois até 4 ponta. A margem superior é munida de 11
dentes que têm igual distancia entre si, estando os dous
ultimos ainda no cephalothorox. A margem inferior
apresenta 5 dentes.
O segundo par de patas sobrepuja com a mão a esca-
ma antennal. O carpo é mais curto do que a tenaz, mais
ou menos tão comprido como a palma. A palma é de
forma oval alongada, um pouco intumecida, o dedo del-
gado e tão comprido como a palma.
Os appendices filiformes terminaes exteriores das
antennas interiores são soldados em cerca de 8 segmentos;
o appendice curto tem cerca de 12 segmentos livres.
Esta especie approxima-se muito de algumas outras
que não são brazileiras, principalmente do adspersus
européo (veja-se Ortmann, 1890, p. 524) e‘do affinis en-
contrado perto de Bermuda, na Australia e na Nova Ze-
landia. O carpo porém mais curto, os dentes um pouco
mais numerosos do rostro, emcima e embaixo, cheguem
taivez para distinguir estas especies á primeira vista.
L. adspersus tem nas antennas interiores 9 ou 10 seg-
mentos soldados e 14 a 16 livres; Z. affinis apresenta
cerca de 10 segmentos soldados e cerca de 14 livres,
sendo por tanto pequenas as differenças. Não ha duvida
que todas estas tres especies estão em relaçõo de paren-
tesco muito intimo.
Do Dr. von Ihering recebi tres exemplares d’esta
especie pescados na agua salgada no canal entre o con-
tinente e a ilha de São Sebastião (Estado de São Paulo)
— 193 —
O maior exemplar, uma femea com ovos, mede da ponta
do rostro até a extremidade do telson 24 mm,
Leander potitinga F. Miller.—Estampa I, fig. 13.
Em : Zoolog. Anzeig. 3, 1880, p. 153 (sem descripção).
O rostro é tão comprido como a escama antennal,
distinctamente curvado para cima, rectilineo, não alar-
gado na base, estreitando-se para a ponta só pouco a
pouco. A margem superior apresenta na parte basal 6
“dentes, que têm entre si mais ou menos igual distancia
achando-se o ultimo ainda no cephalothorax. Segue-se
na parte distal da margem superior, um trecho lizo e
sem dentes, e immediatameute diante da ponta ha ainda
um dente (raramente ainda um segundo, muito pequeno).
À margem inferior é munida de 5 ou 6 dentes, achan-
do-se o ultimo em frente do intervallo entre o quarto e
o quinto dente basal da margem superior.
No macho o segundo par de patas excede com a
tenaz a escama antennal, sendo na femea tão comprido,
mais ou menos, como esta, esbelto e fraco. O carpo é
consideravelmente mais comprido do que toda a tenaz
que mede, pouco mais ou menos, só dous terços do carpo.
A tenaz é fraca, curta e delgada, não mais espessa do
ue o carpo, o dedo um pouco mais curto do que a palma,
Os appendices filiformes terminaes exteriores das
antennas interiores têm cerca de 9 segmentos soldados,
apresentando o appendice curto cerca de 20 segmentos
livres.
Do Dr. von Ihering recebi 8 exemplares d'esta
especie colligidos pelo Dr. Fritz Miller nas proximidades
de Blumenau (Estado de Santa Catharina) na agua doce.
Refere-se portanto a caracterização acima feita a exem-
plares authenticos d'esta especie conhecida até agora só
pelo nome. O maior exemplar (uma femea com ovos)
mede 32 mm,
Revista do Museu Paulista 13
— 194 —
À principio senti-me levado a crêr que esta supposta
especie de Leander, peculiar á agua doce, pertencia
ao genero Palaemonetes muito semelhante, que é um
genero da agua doce e da agua salobra, encontrado na
Europa e na America do Norte. Palaemonctes distingue-
se de Leander só pela mandibula a que falta o palpo.
Tendo preparado as partes buccaes da especie potitinga
achei que o palpo da mandibula é bem desenvolvido, que
esta especie, portanto, é um verdadeiro Zeander.
Pela fórma do rostro esta especie distingue-se exa-
ctamente das outras duas especies brazileiras acima des-
criptas. Parece porém approximar-se muito della o Zean-
der maculatus Thallwitz (veja-se Abh. Mus. Dresden. N.º
3, 1891, p.19, pl. 1, fig. 4) da Africa Occidental, possuindo |
este tambem um segundo par de patas semelhante. Mas
o ultimo tem na margem inferior do rostro só 3 dentes
e os appendices filiformes terminaes exteriores das an-
tennas interiores são soldados em 12 ou 13 segmentos,
havendo no appendice curto só 8 segmentos livres: a
parte soldada é portanto mais comprida aqui do que a
livre o que só se encontra ainda em Z. squilla dos mares
européus.
No territorio indo-pacifico ha algumas especies que
apresentam um carpo comprido semelhante no segundo
par de patas e um trecho despido de dentes semelhante
na parte distal da margem superior do rostro; todas ellas
porém têm o rostro distinctamente mais comprido do que
a escama antennal e na ponta mais decididamente curvado
para cima. Ha, porém, ainda grande incerteza sobre as
especies indo-pacificas (veja-se Ortmann, Zoolog. Jahrb.
v. 5, 1890, p. 515517).
E’ muito provavel que além das especies de Leander
aqui mencionadas se encontrem outras mais na Ame-
rica do Sul.
— 195 —
Genero : Palaemon Fabricius (sens. strict.).
E muito difficil caracterizar as especies d’este genero.
De um lado, as especies mesmas parecem ser ainda bas-
tante variaveis, encontrando-se numerosas formas de
transição e fórmas locaes intermediarias o que se dá com
tantos animaes da agua doce, de maneira que este ge-
nero deve considerar-se como um dos chamados «poly-
morphos». De outro lado, os caracteres distinctivos não
se mostram bem desenvolvidos sinão nos machos adultos.
Estes caracteres apparecem principalmente no segundo
par das patas com tenazes e é justamente esse par
de patas que só nos machos adultos chega a seu desen-
volvimento perfeito, ao passo que os exemplares mais
novos e em parte tambem as femeas apresentam caracter
menos decidido. Distinguem-se assim os machos adultos
muitas vezes consideravelmente pela formação d’esse par
de extremidades; ás vezes é completamente impossivel
classificar exemplares novos das mesmas especies. Ainda
que a fórma do rostro e os dentes d’elle ás vezes apre-
sentem caracteres importantes para a classificação, 0
rostro das diversas especies, em geral, não varia tão
consideravelmente que n'elle se pudesse buscar uma clas-
sificação com segmrança.
Para que Se possa classificar especies d'este genero,
antes de tudo é preciso examinar machos adultos. Visto
que as fórmas de edade juvenil muitas vezes têm sido
descriptas como especies particulares, muitas vezes será
util ter à disposição todas as fórmas possiveis de qual-
quer edade e sexo pertencentes a mesma localidade e a
mesma especie, tornando-se então ás vezes possivel clas-
sificar taes especies fundadas em fórmas de edade juve-
nil. Em geral, . o estado dos conhecimentos que agora
possuimos não permitte classificar exemplares novos,
principalmente os que vêm de localidades d'onde ainda
não recebemos fórmas adultas.
— 196 —
Na tabella seguinte figuram primeiro as especies que
eu proprio pude estudar em machos adultos, depois aquel-
las tambem de que ha descripções fundadas no estudo de
taes machos os quaes eu, por meio de comparaçäo, pude
verificar satisfactoriamente, formando assim uma opi-
niäo sobre as differenças d’ellas. Já ha annos (15) referi
algumas formas de edade juvenil ás formas adultas, resta
porém certo numero de fórmas qne não posso incluir na
lista com segurança; fiz a tentativa de classifical-as o
melhor possivel. Essa tentativa, porém, termina muitas
vezes sem resultado satisfactorio e para sempre será
impossivel identificar algumas d’essas fórmas. —
Primeira tabella das especies sul-americanas
do genero Palaemon.
a. As grandes patas com tenazes dos machos adul-
tos têm a palma cylindrica, muito raramente fracamente
comprimida, sendo porem que no ultimo caso a palma
sempre é quatro vezes mais comprida do que larga.
A tenaz (mão) não é consideravelmente mais espessa
do que o carpo, e toda a fórma do segundo par de patas
é quasi cylindrica. A direita tenaz e a esquerda tem ás
mais das vezes igual tamanho, sendo raramente uma
mais forte do que a outra.
b'. O carpo das segundas patas com tenazes é quasi
regularmente cylindrico, ás mais das vezes distincta-
mente mais comprido do que o mero, raramente (na es-
pecie P. appuni) só um pouco mais comprido ou do
mesmo comprimento, nunca porém mais curto. A palma
das patas com tenazes é quasi regularmente cylindrica.
Sub-genero : Eupalaemon.
c'. O carpo, nos exemplares de todas as edades, é
distinctamente mais comprido do que o mero.
(15) Veja-se Ortmann, Zoolog. Jahrb. v. 5, 1891, p. 693 ff.
— 197 —
d'. O telson, a peça central da barbatana caudal, é
na extremidade alongado e aguçado, os espinhos lateraes
collocados diante da ponta são curtos, moveis e não attin-
gem de nenhum modo á extremidade do telson. O rostro
é comprido, curvado para cima na ponta e mais comprido
do que as escamas antennaes. Ha numerosos dentes (8 a
12) na margem superior e na inferior. O carpo das gran-
des patas com tenazes é nos individuos novos mais com-
prido do que toda a mão, nos adultos, porém, mais curto
do que esta. Nos individuos adultos a superficie do
segundo par de patas torna-se escabrosa, cobrindo-se até
de espinhos curtos, e os dedos cobrem-se d'um feltro
curto de pello.
P. amazonicus.
ad. O telson tem a extremidade obtusa ou com uma
ponta curta e larga, os interiores dos espinhos lateraes
sobrepujam ordinariamente a ponta. A margem inferior
do rostro apresenta em regra menor numero de dentes
do que a margem superior, havendo raramente mais de
7 dentes na margem inferior.
e. O segundo par de tenazes é espinhoso nos ma-
chos velhos, muitas vezes escabroso tambem nos exem-
plares novos.
J. Ambos os dedos do segundo par de tenazes são
cobertos nos individuos velhos de um feltro espesso. Os
espinhos d'este par de patas são fortes, dispostos em series
longitudinaes. O rostro é um pouco variavel, rectilineo
ou fracamente curvado para cima, tão comprido como as
escamas antennaes ou um pouco mais comprido do que
estas. Em cima ha 8 a 12, embaixo 4 a 7 dentes. O carpo
do segundo par de tenazes nem nos individuos novos
nem nos adultos é mais comprido do que a mão, mas
mais comprido do que a palma.
eit eee
P. acanthurus.
f. Os dedos das tenazes carecem de feltro. Os espi-
nhos do segundo par de patas sao delgados e collocados
irregularmente, ás mais das vezes representados só por
eraosinhos escabrosos.
g'. O rostro é mais comprido do que as escamas
antennaes, curvado para cima na ponta, munido em cima
de & a lv, embaixo de 4 a 7 dentes. O carpo, nos exem-
piares novos, é mais comprido do que toda a mão, nos
velhos mais curto do que esta, mais comprido, porém, do
que a palma.
P. mexicanus
9. O rostro e mais comprido do que os troncos das
antennas interiores, mais curto do que as escamas an-
tennaes, munido em cima de 8 a 13, embaixo de 2 a 4+
dentes. O carpo do segundo par de tenazes é, mais ou
menos, tão comprido como a palma nos individuos novos,
nos velhos, porém, mais curto do que esta.
P. nattereri.
>
e. O segundo par de tenazes nunca é espinhoso
ou escabroso. Os dedos das tenazes carecem de feltro.
(Provavelmente fórmas de edade juvenil).
P. desaussurei, P. consobrinus, P. fluvialis.
c. O carpo é, mais ou menos, tão comprido como
o mero nos exemplares novos, nos velhos, porém, só um
pouco mais comprido, sempre muito mais curto do que
a mão e, nos machos velhos, até muito mais curto do
que a palma. O rostro ê curto, munido em cima de 7 a
12, embaixo de 1 a 3 dentes. Todo o segundo par das
patas com tenazes é, nos exemplares velhos, escabroso e
até espinhoso, os dedos carecem de feltro.
— 199 —
P. appuni.
b. O carpo das segundas patas com tenazes é, na
parte distal, um pouco espessado e sempre consideravel-
mente mais curto do que o mero. A palma é cylindrica,
nos exemplares velhos, porém, fracamente comprimida,
mas não consideravelmente mais espessa do que a extre-
midade contigua do carpo.
Sub-genero : Brachycarpus.
ci. O segundo par das patas com tenazes é esca-
broso nos individuos novos, nos velhos, porém, guarnecido
de espinhos fortes. O rostro, mais ou menos tão comprido
como os troncos das antennas interiores, apresenta em-
cima 11 a lJ, embaixo 3a 5 dentes.
P. jamaicensis.
c. O segundo par das patas com tenazes é fraco e
lizo. O rostro apresenta em cima 10 ou 11, embaixo 6
dentes. (Provavelmente fórma de edade juvenil).
P. montezumae.
a. As grandes patas com tenazes dos machos adul-
tos têm a palma intumecida e comprimida, que é, quando
muito, quatro vezes mais comprida do que larga. A pal-
ma é mais espessa do que a extremidade distal espessada
do carpo. Toda a fórma d'este par de patas de nenhum
modo é cylindrica, o carpo tão comprido, mais ou menos,
como o mero. Uma das duas grandes tenazes é, em regra,
consideravelmente mais forte do que a outra.
Sub-genero : Macrobrachium.
b'. As tenazes dos machos adultos são escabrosas
ou têm espinhos curtos. Os dedos das tenazes são bastante
cerrados. À palma é tres ou quatro vezes mais comprida
— 200 —
do que larga, o rostro curto, não mais comprido do que
os troncos das antennas interiores, munido em cima de
5 a 8 embaixo de 6 a 3 dentes.
c'. Os dedos das tenazes são tão compridos como a
palma.
P. potiuna.
c’. Os dedos das tenazes são mais curtos do que a
palma.
P. iheringi.
bp. As tenazes dos machos adultos são espinhosas :
os espinhos do lado de flexão dos segmentos são collocados
quasi como os dentes de um pente e ligeiramente curva-
dos. As superficies da palma são cobertas de pello e feltro.
Os dedos das tenazes não são cerrados, o dedo movel é
curvado (fig. 10). O rostro apresenta emcima 13 ou 14,
embaixo 3 a 5 dentes.
c'. A palma é apenas duas vezes mais comprida do
que larga, o rostro mais curto do que os troncos das
antennas interiores.
|
P. olfersi.
c. A palma é mais de duas vezes mais comprida
do que larga, o rostro tão comprido como os troncos das
antennas interiores ou um pouco mais comprido.
P. faustinus.
Das especies mencionadas podemos considerar como
bem caracterizadas as seguintes: amazonicus, acanthurus,
nattereri, appuni, jamaicencis, potiuna, theringt, olfersi,
_faustinus. De todas estas, á excepção de nattereri, eu
proprio cxaminei exemplares. Não é impossivel que 2.
mexicanus seja uma forma de edade juvenil pertencente
— 201 —
a acanthurus, o que, porém, não quero affirmar positi-
vamente. Seria possivel que P. montezumae pertencesse
a jamaicensis. As outras formas, desaussurei, consobrinus,
fluvialis, são exemplares de edade juvenil perfeitamente
duvidosos.
Para facilitar a classificação dos machos adultos
apresento aqui .uma segunda tabella, na qual figuram
só as fórmas de machos bem conhecidas e só os caracteres
mais significativos.
Segunda tabella dos machos Palaemonidae adultos da
America do Sul.
a’. Não falta o espinho hepatical. O rostro sobrepuja
pelo menos ao segmento basal das antennas interiores.
(America do Sul: o lado oriental dos Andes, o Equador,
a Colombia, a America Central e as Antilhas).
b'. Ambos os dedos das tenazes são cobertos de feltro.
c'. O rostro é muito comprido, curvado para cima,
e sobrepuja muito as escamas antennaes. O segundo par
de patas é munido de espinhos delgados.
P. amazonicus.
c. O rostro é mais curto, tão comprido como as
escamas antennaes ou só um pouco mais comprido do
que estas, rectilineo ou fracamente curvado para cima.
O segundo par de patas apresenta espinhos fortes dispos-
tos em series.
P. acanthurus.
b. Os dedos das tenazes são despidos de feltro.
c'. As superficies da palma carecem de feltro.
d'. As segundas patas com tenazes são cylindricas,
principalmente o carpo é regularmente cylindrico.
e. O carpo do segundo par de patas é considera-
velmente mais comprido do que o mero.
— 202 —
P. nattereri.
e. O carpo do segundo par de patas é tão comprido
como o mero. E
P. appuni.
d. As segundas patas com tenazes não são cylin-
dricas sendo principalmente que o carpo, na parte distal,
é espessado. O carpo nunca ê consideravelmete mais
comprido do que o mero.
e'. A palma é mais de quatro vezes mais comprida
do que larga, quasi cylindrica e muito pouco comprimida.
O grande par de tenazes apresenta espinhos fortes.
P. jamaicensis.
e. A palma é, quando muito, quatro vezes mais
comprida do que larga e fracamente comprimida. O gran-
de par de tenazes é escabroso ou munido de espinhos
delgados.
P. potiuna.
Ji. A palma é quatro vezes mais comprida do que
larga. Os dedos das tenazes são tão compridos como a
palma. |
J. A palma é tres vezes mais comprida do que
larga. Os dedos das tenazes são mais curtos do que a
P. iheringi.
c. As superficies da palma, que é espessada e com-
primida, são cobertas de feltro espesso e de pello com-
prido. Os segmentos do segundo par de tenazes são intu-
mecidos e munidos de fortes espinhos.
d'. A palma é apenas duas vezes mais comprida do
que larga.
— 203 —
P. olfersi.
d. A palma é mais de duas vezes mais comprida
do que larga.
P. faustinus.
a. Falta o espinho hepatical. O rostro é muito
curto, não mais comprido do que o segmento basal das
antennas interiores. As grandes tenazes são muito desi-
guaes e espinhosas, os segmentos intumecidos. (Só no Chile
e no Perú).
Bithynis gaudichaudii.
E” digno de nota que P. jamaicensis e olfersi não
se encontrem só na America do Sul, mas tambem na
Africa Occidental e que alli mesmo 2. acanthurus seja
substituido por uma especie (16) de parentesco muito
chegado. Além destas tres especies de Palaemon não
conhecemos mais outras da Africa Occidental e o facto
de existir essa estreita connexão entre a Africa Occidental
e a America do Sul é tanto mais interessante, quanto as
especies de Palaemon da Africa Oriental apresentam cara -
cter muito differente, ligando-se, como dissemos acima,
ás fórmas indo-pacificas. Por este facto torna-se impossivel
explicar neste caso a semelhança de ambas aquellas fór-
nas pela ligação que existia em tempos remotos entre a
Africa e a America do Sul (17), o que não se admitte
tambem em vista da origem provavelmente moderna de
(16) Pal. macrobrachion Herklots, encontrado em Bontry e
na Sierra Leone (veja-se Ortmann Zoolog. Jahrb. 5. 1891, p. 722).
(17) A existencia antiga de tal ligação parece-me estar fóra
de duvida, desde que o Dr. von Ihering repetidas vezes chamou
a attenção para este assumpto. E’ de presumir que esta ligação
tenha existido no periodo mesozoico.— Veja-se v. Ihering, Berliner
Entomolog. Zeitschr. vol. 39, 1894, p. 406, 432 u. 438 (Archhelenis).
Ee o EE
toda a familia. A distribuição dos Palaemones refere-se
tão evidentemente ás condições modernas do littoral, que
é por isso tambem que somos levados a presumir que a
immigração d'este grupo para a agua doce se tenha dado
nos tempos modernos e que o facto de concordarem as
fórmas da Africa Occidental com as da America do Sul
deve explicar-se pelas relações intimas que existem entre
as respectivas faunas marinhas do littoral.
Palaemon amazonicus Heller.
P. amazonicus Heller, Sitz. Ber. Akad. Wiss. Wien.
vol. 45, 1, 1862, p. 418, pl. 2, fig. 45.
P. lamarrei de Man (não Milne-Edwards (18), Not.
Leyden Mus. vol. 1, 1879, p. 166.—Ortmann, Zoolog.
Jahrb. vol.'5, 1891, p. 701; ply 47, fio. 2.
P. ensiculus, Smith, Trans. Connecticut Acad. vol. 2,
Ton 26 plo oa
P. jelskii Miers, Proc. Zool. Soc. London 1877, p.
661 pl. 67 ia. nt.
Essa especie distingue-se de todas as outras especies
americanas pela extremidade do telson alongada e agu-
cada. Não menos caracteristicos são o rostro comprido,
curvado para cima, munido em cima e ém baixo de quasi
igual numero de dentes assim como o carpo muito com-
prido das segundas patas com tenazes, nos individuos
(18) Seguindo o exemplo dado por de Man julguei antes o
lamarrei de Milne-Edwards e de de Haan identico a esta especie
americana. Henderson (Trans. Linn. Soc. London (2) vol. 5, 1593,
p. 442) está convencido de ter recentemente reconhecido o verda-
deiro lamarrei em exemplares de Ganjam (Indias Orientaes) con-
siderando-o como fórma de edade juvenil do P. carcinus Fabr.
bem conhecido. Em todo o caso o lamarrei deve então conside-
rar-se pelo menos como fórma duvidosa que se póde referir a
diversas especies, e este nome não serve mais para a forma
americana, tendo de ser substituido pelo nome que se segue na
edade, e este é amazonicus Heller.
oO
novos mais comprido do que toda a mão, nos velhos só
um pouco mais curto do que esta. Nos individuos velhos
as segundas patas com tenazes tornam-se escabrosas e
cobrem-se de curtos espinhos, desenvolvendo-se nos dedos
um feltro curto.
Essa especie está espalhada, sem duvida, por todo o
territorio do Amazonas, desde a embocadura (o Pará)
até aos Andes do Perú (o Rio Huallaga) e do Equador
(o Rio Paute); encontra-se tambem no rio Oyapock (Gu-
yana Franceza) e no Surinam.
Palaemon acanthurus Wiegmann.
P. acanthurus Wiegmann, Archiv. für Naturgesch.
Jahrg. 2 vol. 1, 1836, p. 150.—Ortmann, 1. c. p. 720, pl.
47, fig. 5.
P. forceps Milne-Edwards, Hist. Nat. Crust. vol. 2,
1837, p. 397. |
Caracteriza-se esta especie principalmente pelo se-
gundo par das patas com tenazes munido de modo sin-
gular, nos exemplares velhos, de espinhos: os espinhos
fortes principalmente os do lado interior e do inferior
dos segmentos, são dispostos em series longitudinaes.
Ambos os dedos das tenazes são cobertos de feltro espes-
so. O carpo sempre é mais curto do que a tenaz, mas
mais comprido do que a palma. O rostro é um pouco
variavel, em geral porém ainda bastante comprido, tão
comprido como as escamas antennaes ou mais comprido
do que estas, rectilineo ou curvado para cima. Varia
tambem consideravelmente o numero dos dentes, haven-
do em cimas ail? em baixo 4 a 7.
Esta especie encontra-se nos Estados brazileiros de
São Paulo (19) e do Rio Grande do Sul (São Lourenço),
(19) A julgar pelos exemplares que eu recebi do Dr. von
Thering.-— Note-se porém que meu direito de mencionar aqui as
localidades meridionaes se funda só em exemplares novos, cuja
classificação ainda não se póde considerar como perfeitamente
correcta.
|
— 206 —
perto do Rio de Janeiro, na embocadura do Pará, nas
Antilhas, especialmente nas ilhas de Haiti e de Sao
Martinho; acha-se tambem, segundo dizem, do lado oc-
cidental dos Andes, perto de Guayaquil, no Equador e
em Panama.
Esta especie parece habitar principalmente as pro-
ximidades do littoral, encontrando-se occasionalmente
tambem na agua salgada: Cunningham pelo menos
diz tel-a encontrado no porto do Rio de Janeiro (veja-se
Trans. Linn. Soc. London. vol. 27. 1871. p. 497). Quanto
a São Lourenço, aflirma-se expressamente que esta espe-
cie existe na agua doce.
Palaemon mexicanus Saussure.
P. mexicanus Saussure, Mem. Soc. Phys. Hist. Nat.
Genève. vol. 14, 2. 1858. p. 468. pl. 4. fig. 27.— Ortmann,
Le pr DI:
P. dasydactylus Streets, Proc. Acad. Nat. Sei. Phila-
delphia. 1871. p. 225. pl. 2. fig. 3.
P. sexdentatus Streets, ibid. b. 226. pl. 2. fig. 4.
Essa especie é ainda um pouco duvidosa. Distin-
que-se da precedente só por seu tamanho, que é mais
pequeno, pela ausencia de feltro nos dedos das tenazes,
as quaes, porém, são cobertos de pellos, e pelos espinhos
pequenos do segundo par de patas, 0s quaes, são pouco
desenvolvidos, se assemelham mais a granulações. Não
se manifesta tambem distinctamente a disposição dos
espinhos em series longitudinaes. Além disso, nos exem--
plares muito novos 0 carpo é mais comprido do que a mão.
Nenhum destes caracteres prestar-se-hia a contestar
que aqui se tratasse só de exemplares novos de 2. acan-
thurus. Visto como porém ainda não sabemos, si exem-
plares adultos e bem desenvolvidos da especie P. acan-
thurus já foram encontrados nas mesmas localidades da
especie P. mexicanus, será melhor deixar esta questão
por emquanto indecisa.
— 207 —
A especie P. mexicanus esta espalhada nas costas do
Mexico, na embocadura do rio Coatzocoallcos, e nas
aguas doces de Cuba.
Palaemon nattereri Heller.
P. nattereri Heller, Sitz. Ber. Akad. Wiss. Wien.
vol. 45. 1. 1862. p. 414. pl. 2. fig. 36. 37.—Ortmann, 1. c.
p. 710.
P. brasiliensis Heller, ibid. p. 419. pl. 2. fig. 46.
O grande par das patas com tenazes é escabroso ou
munido de espinhos delgados. O carpo é mais comprido
do que o mero, nos individuos novos mais ou menos
tão comprido como a palma, nos velhos mais curto do
que esta. O rostro é mais curto do que as escamas an-
tennaes, mas mais comprido do que os troncos das an-
tennas interiores, munido em cima de 8 a 13, em baixo
de 2 a 4 dentes. Os dedos das tenazes carecem de feltro.
Pelo carpo mais curto do que a palma, pela ausen-
cia de feltro nos dedos das tenazes assim como pelo
rostro mais curto e que apresenta em baixo menor nu-
mero de dentes distingue-se esta especie do P. acanthu-
rus, com o qual parece em outros sentidos ser apparen-
tada intimamente. Está espalhada no Rio Negro, no Bra-
zil, e no River St. Laurent, na Guyana.
Palaemon appuni v. Martens.
Arch. für Naturgesch. Jahrgang 35. vol. 1. 1869. p.
41. pl. 2. fig. 5—Orémann 1. c. p. 722 pl. 47. fig. 6.
Dentro do subgenero Zupalaemon, isto é, dentro das
especies que têm o segundo par de patas cylindrico,
distingue-se esta especie de todas as outras americanas
pela curteza do carpo. Nos exemplares novos o mero, 0
carpo e a palma são de quasi igual comprimento. Com
o progresso da edade, porém, cresce principalmente a
palma, de modo que o mero e o carpo só pouco se dis-
tinguem pelo comprimento, a palma porém se torna dis-
— 208 —
tinctamente mais comprida do que o carpo. Nos exem-
plares velhos todo o segundo par das patas com tenazes
torna-se escabroso e espinhoso, os dedos, “porém, ficam
sem feltro, seus córtes não têm maiores dentes. O rostro
é curto, munido em cima de 7 a 12, embaixo de 1 a 3
dentes. |
A fórma typica apresenta em cima 12, em baixo 3
dentes. Exemplares que eu recebera do Equador, tinham ©
em cima só 7 a 10,em baixo 1—3 dentes: por esta razão
e por encontrarem-se dos dentes da margem superior só
2 ou 3 collocados detraz dos olhos em vez dos quatro,
que alli apresentam os exemplares typicos, separei os
exemplares do Equador como variedade i hace cls
(veja-se |, c. p. 723).
A especie P. appuni está espalhada na Venezuela, no
Porto Cabello e no Equador; encontra-se tambem, (20)
segundo dizem, em Dominica, o que, porém, não está
fóra de duvida.
Palaemon jamaicensis (Herbst).
P. jamaicensis (Herbst) Milne-Ldiwards, Hist. Nat.
Crust. vol. 2. 1837. p. 398.—Ortmann, |. ©. p. 729. pl.
47. fig. 7.
brachydactylus Wiegmann, Arch. für Naturg.
Jahrg. 2. vol. 1. 1836. p. 148.
P. punctatus Randall, Journ. Acad. Nat. Sci. Phila-
delphia vol. 8. 1839. p. 144.
P. aztecus Saussure, |. c. 1858. p. 466. pl. 4. fig. 29.
P. vollenhoventi Herklots, veja-se Ortmann, 1. c. p. 731.
Macrobrachium americanum Bate, Proc. Zool. Soc. Lon-
don 1868. p. 368. pl. 30.
O carpo do segundo par das patas com tenazes é
mais curto do que o mero (medindo talvez ”, do com-
primento d’este) e muito mais curto do que a palma.
(20) Veja-se Pocock, Annal. Magaz. Nat. Hist. (6) vol. 3. 1889.
Deal:
— 209 —
EK’ tambem distinctamente espessado na extremidade
distal. A palma é alongada, nao consideravelmente mais
espessa do que a parte contigua espessada do carpo,
quasi cylindrica, mas, nosexemplares velhos, um pouco
comprimida. Nos individuos velhos esse par de patas é
munido de fortes espinhos, os dedos porém ficam sem
feltro. O rostro é, mais ou menos, tão comprido como
os troncos das antennas interiores, ligeiramente curvado
para cima, munido em cimade 11 a 13, em baixode 3 a
4 dentes.
Examinando machos adultos de Kamerum conven-
ci-me de que o P. vollenhoveni da Africa Occidental é
absolutamente identico a esta especie.
Esta especie 6 talvez a mais espalhada da America
do Sul. Encontra-se em muitos lugares do Brazil: no
Rio de Janeiro (no lago do jardim botanico), em Pene-
do, no rio Sao Francisco, no Estado da Bahia, em Cara-
vellas e Pernambuco. Dentro do territorio superior do
Amazonas encontra-se no Rio Paute no Equador, na
Venezuela perto de Caracas, na America Central perto
de Panama, na Nicaragua (Polvon) e no lago de Ama-
titlan na Guatemala. Acha-se tambem nas aguas doces
da costa oriental do Mexico assim como da costa occi-
dental até ao cabo de Säo Lucas na California Inferior.
Nas Antilhas é espalhada em Dominica, Sao Martinho,
Haiti, Cuba e Jamaica.
Na Africa Occidental encontra-se esta especie nos
rios Congo e Coanza, em Kamerum, no Niger, perto de
Lagos e na Liberia.
Palaemon potiuna F. Müller.
Estampa I fig. 9.
Archiv. Mus. Nacion. Rio de Janeiro. v. 8. 1892. p.
po ste pl bl:
O segundo par das patas com tenazes é desigual.
O carpo da grande pata com tenaz é, mais cu menos,
Revista do Museu Paulista 14
— 210 —
tao comprido como 0 mero e vai-se espessando desde a
base até 4 extremidade distal. A palma é um pouco
intumescida, mais espessa do que o carpo, mais ainda
quasi cylindrica, só muito fracamente comprimida, tal-
vez quatro vezes mais comprida do que larga. Os dedos
são do comprimento da palma, quasi cerrados, da mesma
espessura desde a base até a parte immediata á ponta;
cada um dos seus córtes apresenta um dente maior na
parte proximal e alguns dentes menores e graniformes
na parte distal. Toda a pata com tenaz é, nos indivi-
duos velhos, fortemente granulada ou guarnecida de
espinhos muito delgados, principalmente no lado interior
dos segmentos; nos dedos os grãos não estão muito
apertados; a palma carece de feltro.
O rostro é, mais ou menos, tão comprido como os
troncos das antennas interiores, munido na margem su-
perior de 5 a 9, na margem inferior de 0 a 3 dentes.
O carpo do macho mede 52"" de comprimento.
Esta especie estabelece, em certo sentido, a transição
das precedentes para as que seguem, não sendo a palma
tão consideraveimente espessada e intumescida como na
especie zhering?. Approximando-se das quatro primeiras
especies pelo facto de espessar-se o carpo pouco a pouco
e não consideravelmente, distingue-se d'estas 4 primeira
vista pela curteza do carpo. N’este ultimo caracteristi-
co porém, e tambem em outros, assemelha-se ella ao
P. appuni; mas este tem o carpo e a mão regularmente
cylindricos, os dedos das tenazes mais curtos do que a
mão e despidos de dentes maiores nos córtes. P. jamai-
censis distingue-se sempre de potiuna pela palma mais
esbelta, e exemplares velhos ainda mais consideravel-
mente pelos fortes espinhos do segundo par de patas:
A especie P. potiuna encontra-se nos afluentes do
rio Itajahy (21) (Estado de Santa Catharina, Brazil).
(21) Examinei um exemplar authentico d'esta especie que fora
achado pelo Dr. /. Müller e que eu recebera do Dr. von Ihering
— 211 —
Palaemon iheringi nov. spec.
Estampa I. fig. 7 e 8
Recebi esta especie do Dr. von Ihering e julguei
primeiro reconhecer n'ella o P. potiuna. Estudando po-
rém um exemplar typico do ultimo que mais tarde re-
cebera, convenci-me de que a especie iheringi é differente
de potiuna.
P. iheringi assemelha-se perfeitamente ao 2. potiuna
excepto na fórma das grandes patas com tenazes, as
quaes, ainda que parecidas com as do P. potiuna, em
geral se distinguem d'estas pelos segmentos distaes mais
fortemente intumescidos e pelas patas com tenazes mais
curtas.
O carpo da maior das patas com tenazes não val
engrossando, como na especie potiuna, symetricamente
desde a base até a extremidade distal, mas espessa-se
perto da base quasi subitamente, sendo tambem a es-
pessura muito mais consideravel. A mão é distincta-
mente mais larga do que a extremidade distal do carpo,
a palma de forma oval alongada, talvez só tres vezes mais
comprida do que larga, intumescida e fracamente com-
primida: falta a essa especie completamente a fórma quasi
cylindrica da palma do P. potiuna. Os dedos das tenazes
são consideravelmente mais curtos do que a palma (me-
dindo só “, do comprimento desta), quasi cerrados e vão
diminuindo de espessura desde a base até a ponta. Cada
um dos córtes apresenta um forte dente, ao lado deste
ha na parte proximal alguns dentes menores, 20 passo
que na parte distal os córtes são perfeitamente lizos.
A superficie do mero, do carpo e da mão é fortemente
granulada, os grãos, principalmente nos dedos, estão
mais apertados do que na especie potiuna, tomaudo, no
lado de flexão dos segmentos, distinctamente a fórma de
espinhos curtos.
O rostro assemelha-se perfeitamente ao do P. potiu-
na, nos exemplares que eu examinei, apresenta a mar-
gem superior 9, a margem inferior 2 dentes.
— 212 —
Para facilitar a comparaçäo apresento aqui
as dimensões do potiuna
macho de iheringi femea de iheringi macho de potiuna
Comprimento do carpo 64" Eve 52%
Grande pata com tenaz 953"" 53" HAT
Coxa + base oan 40 igs
Ischium qo eee Ts
Mero Oe Du om
Carpo a 107 bi FO hu,
_-+ Palma FAT on el à mm pr ay mim
MAO | Dedo Qua, 24 gum [22 19m , 24
Na femea é o respectivo par de patas, principal-
mente a tenaz d'elle, mais fracamente desenvolvido; o
caracter geral, porém, accentua-se, principalmente nos
dedos curtos, para revelar sufficientemente na femea
tambem a differença especifica entre iheringi e potiuna.
A especie iheringi encontra-se no Estado de São
Paulo; o macho que examinei, veio do Alto da Serra, a
femea do rio Tieté.
Palaemon olfersi Wiegmann
Estampa I. fig. 10 e 11
P. olfersi Wiegmann, Arch. für Naturg. Jahre. 2.
vol. 1. 1836. p. 150.— Orémann, Zoolog. Jahrb. Syst. v. 5.
1891. p. 733. pl. 47. fig. 8.
P. spinimanus Milne-Edwards, abs Nat. Crust. v.
2. 1837. p. 399.—+. de Arch. f. Naturg. Jahrg. 35.
v. 1. 1869. p. 26. pl. 2. fig. 3.
O segundo par ae patas com tenazes é muito desi-
gual. A grande pata com tenaz é guarnecida de espi-
nhos, que são muito fortes no lado de flexão do carpo e
do mero e ligeiramente curvados para diante. O carpo
é tão comprido como o mero, ambos os segmentos um
pouco intumescidos. A palma é de fórma oval, intu-
mescida e comprimida, mais ou menos duas vezes mais
comprida do que larga, mais larga do que o carpo e
— 213 —
mais comprida do que este, guarnecida de espinhos e
em ambas as largas superficies munida de um feltro es-
pesso e curto. Além d'isso, toda a pata tem ainda pellos
bastantes compridos e setiformes. Os dedos das tenazes
não são cerrados, o dedo movel é fortemente curvado.
O rostro, munido em cima de 13 ou 14, em baixo de 3 a
5 dentes, não excede aos troncos das antennas interiores.
Encontra-se essa especie nas Antilhas (Cuba, Domi-
nica), dentro do territorio brazileiro n'um arroio perto
do Rio de Janeiro e no Estado de São Paulo (22), tam-
bem na ilha de São Thomé (pertencente 4 Africa Occi-
dental).
Palaemon faustinus Saussure.
Saussure, Mem. Soc. Phys. Hist. Nat. Genéve v- 14.
1858. p. 469. “pl. 4. fig. 30—Ortmann, Zoolog. Jahrb.
Syst. v. 5. 1891. p. 734.
Esta especie, estreitamente aparentada com a prece-
dente, representa talvez só uma firma local d’aquella.
Distingue-se da precedente pela palma mais esbelta, que
é mais de duas vezes mais comprida do que larga, e
pelo rostro um pouco mais comprido, que excede um
pouco aos troncos das antennas interiores. Foi encon-
trada até agora, pelo que sabemos, só em embocaduras
de rios em Haiti e Cuba e perto de Vera Cruz, no Me-
xico.
As especies seguintes são duvidosas e insufficien-
temente conhecidas.
Palaemon desaussurei Heller, Sitz. Ber. Akad. Wiss.
Wien. v. 45. 1. 1862. p. 420. pl. 2. fig. 47.—Ortmann,
Zoolog. Jahrb. v. 5. 1891. p. 720.—Foi encontrada na
Colombia.
22) A julgar pelos exemplares (um macho adulto e dous
novos) que recebi do Dr. von Thering.
— 214 —
Palaemon consobrinus Saussure, Mem. Soc. Phys.
Hist. Nat. Genéve. v. 14. 1858. p. 469. Foi encontrada
no Mexico, na embocadura de um rio perto de Vera
Cruz.
FE’ provavel que estas duas fórmas pertençam ao
numero des parentes do P. acanthurus. A primeira, po-
rém, tem o rostro mais curto do que este e apresen-
ta em cima maior (13 ou 14), embaixo menor numero de
dentes (3 ou 4). A ultima está descripta de modo tão
imperfeito que é impossivel identifical-a. Ambas são
fórmas de edade juvenil.
Palaemon fluvialis Streets, Proc. Acad. Philadelphia.
1871. p. 227. pl. 2. fig. 3—Foi encontrada no Mexico,
no rio Coatzocoallcos.—E’ uma forma de ee juvenil
“que não se póde identificar.
Palaemon montezumae Saussure, 1. c. p. 467. pl. 4.
fig. 28.—Foi encontrada no Mexico, na embocadura de
um rio perto de Vera Cruz. —E' talvez uma fórma de
edade juvenil do P. jamaicensis.
Genero: Bithynis Philippi.
D'este genero conhecemos até hoje só uma especie
encontrada exclusivamente nas aguas doces do lado oc-
cidental dos Andes sul-americanos, onde substitue o
genero Palaemon. Apresenta a mesma singularidade que
este no crescimento das grandes tenazes, que só nos
machos velhos chegam a perfeito desenvolvimento.
Bithynis caementaria (Poppig).
Palaemon caementarius Püppig, Arch. f. Nature. Jahrg.
2. v. 1. 1836. p. 143.
Palaemon gaudichaudü Milne-Edivards, Hist. Nat.
Crust. v. 2. 1837. p. 400.
— 215 —
Bithynis longimana Philip, Arch. f. Nature. Jabre.
26. v. 1. 1860. p. 161.
Macrobrachium africanum Bate, Proc. Zool. Soc. London
1868. p. 366. pl. 31. fig. 3.
Bithynis gaudichaudii Ortmann, Zool. Jahrb. v. 5.
1891. p. 748. :
O rostro é muito curto, não mais comprido do que
o segmento basal das antennas interiores, inclinado para
baixo, munido na margem superior de 7 ou & na mar-
gem inferior de O a 3 dentes. O grande par de tenazes
é muito desigual, guarnecido de espinhos cujo tamanho
“vai augmentando com a edade. A maior pata com tenaz
tem os segmentos intumescidos. O carpo é mais curto
do que o mero e do que a palma. Os dedos são um
pouco mais curtos do que a palma.
Encontra-se esta especie, segundo dizem, no Chile
e no Perú (no rio Aconcagua, norio La Ligua, em pan-
tanos de agua doce perto de Coquimbo, no rio Tamba e
em Lima). — N'um dos meus trabalhos anteriores citei
« Ancon no Equador » como um dos lugares onde esta
especie foi encontrada; hoje, porém, sou de opinião que
eu devia ter citado « Ancon no Perú». O rotulo dos
respectivos exemplares colligidcs pelo Dr. Reiss apresen-
tou só a palavra «Ancon» sem dar mais esclarecimento
—nota esta que agora supponho referir-se antes á cidade
do mesmo nome situada no Perú.
>is
Explicação das figuras (Estampa 1)
Fig. 1. Atyoida potimirim F. Müller, femea, ",. (Segundo
F. Müller, em: Arch. Mus.
Nac. Rio de Janeiro v. 8, 1892,
pias soco
Fig. 2. » » A tenaz do primeiro par de
patas, “4. (Segundo M.Miill 5»
LC DÉMO die. 37)
o
la,
. 14,
— 216 —
» » A tenaz do segundo par de
patas, “/. (Segundo /. Müller,
lc. pl. 10, fig: 38):
Atya moluccensis de Haan, da Indo-Malasia, tenaz
do primeiro par de patas, en-
grandecida.
(Segundo de Man, em: Weber's
Reise in Niederländ Indien, v.
2, 1892, pl. 21, fig. 20°).
Caridina typus Milne-Edivards, tenaz do primeiro
par de patas, engrandecida. (Se-
gundo de Man, 1. c. pl.’ 21, fig.
22°).
» » tenaz do segundo par de patas,
engrandecida. (Segundo de Man,
1.6. pls 21), figs 220;
Palaemon iheringi nov. espec., macho adulto, "4.
» » » » tenaz deste, ’/’.
Palaemon potiuna F. Miiller, tenaz do macho
adulto, ‘.. (Em parte segundo
A. Müller, 1. e. pl lies
em parte segundo um exem-
plar typico). |
Palaemon olfersi Wiegmann, tenaz do macho
adulto, "4. (Segundo um ex-
emplar de São Paulo).
» » parte anterior do cephalo-
thorax, -7/.
Leander brasiliensis Ortmann, parte anterior do
cephalothorax, engrandecida.
(Segundo Ortmann, em:
Zoolog. Jahrb. v. 5, 1890, pl.
Sd Mp 16),
Leander potitinga F. Müller, rostro, “A.
Leander paulensis nov. espec., rostro, “A.
OS MOLLUSCOS
terrenos terciarios da Patagonia
POR
PES EV ECO NE SERES BRT IN CA
I. Introdueção.
Se pretendemos entender a historia dos animaes
marinhos da costa do Brazil offerecem-se-nos duas vias
para a investigação : a analyse da fauna actual e das
relações que ella tem com outras regiões e o estudo das
conchas petrificadas das camadas depositadas pelo mar,
especialmente durante a epoca terciaria.
Neste sentido, assim como no outro, o presente volu -
me da Revista do Museu contem contribuições. As
collecções do Museu já adiantam muito o conhecimento
insufficiente que a sciencia hoje tem dos molluscos cos-
teiros do Brazil.
No outro sentido, porem, ainda são bem escassas as
informações, limitando-se ao estudo de Ch. A. White
sobre as conchas cretaceas e terciarias da Bahia, Ceará
etc., publicado nos Archivos do Museu nacional do Rio
de Janeiro, vol. VII, 1887. De todo o littoral do Brazil
desde Bahia até ao Rio Grande do Sul não conhecemos
camadas terciarias fossiliferas. E' só na Republica Argen-
tina, especialmente na Patagonia, que reapparecem bem
desenvolvidas camadas terciarias. Como estas estão pouco
exploradas, acceitei a honrosa offerta do Dr. Hlorentino
Ameghino em La Plata de estudar as colleccôes feitas por
seu irmão Carlos Ameghino com muito cuidado e successo
— 218 —
em Santa Cruz e em mais algumas localidades da Pata-
gonia. Agradeço ao illustre paleontologista esse favor e a
licença de ficar com parte das conchas examinadas para
a colleeção d'este Museu.
Não pretendo aqui dar uma explicação extensa da
formação terciaria da Patagonia, limitando-me apenas a
repetir o que já é conhecido. Refiro-me especialmente
ás tres publicações de Ameghino, Mercerat e Valentin.
Estão bem representadas na Patagonia duas formações
terciarias, chamadas patagonica e santacruzense. Antiga-
mente acreditavam que a primeira d'ellas fosse a mais
moderna. Foi só em 1894 que 77. Ameghino demonstrou a
verdadeira relação entre ambas essas formações, tendo
sido confirmado o resultado de seus estudos logo depois
por Mercerat.
As conchas examinadas por mim na maior parte
pertencem á formação santacruzense. Estão bem conser-
vadas, porem bastante frageis, incluidas n'uma argila
arenosa que facilmente é removida. Ao contrario a maior
parte das conchas da formação patagonica estão incluidas
n'uma rocha dura e enchidas della, da qual em geral não
é possivel separal-as ou preparal-as. Ha, porém, exempla-
res já desprendidos da rocha e recolhidos pelo collecionador
e que então se apresentam, de melhor modo ao exame.
Em geral é, pois, facil pelo aspecto conhecer a origem
das conchas. Bastante difficil é, porem, relativamente
a litteratura, separar entre as conchas alli descriptas as
que pertencem a uma ou 4 outra formação. Mas quando
se trata de conchas incluidas em rocha não resta duvida.
Na enumeração seguinte procedi com todo criterio, dei-
xando porem algumas especies sobre cuja procedencia
não existem indicações claras na lista das especies da
formação patagonica. A difficuldade neste sentido é tanto
maior, porquanto em varios lugares, como em La Cueva, as
duas formações coexistem, sendo as camadas da formação
santacruzense concordantamente sobrepostas ás da for
mação patagonica.
— 219 —
Da collecçäo examinada por mim a maior parte é
proveniente da formaçäo santacruzense das duas locali-
dades Jegua quemada e La Cueva. De La Cueva tenho
tambem conchas da formação patagonica, da qual recebi
tambem material de Jack Harvey e Santa Cruz. Estas
localidades, especialmente a de Jegua quemada, devem
ser riquissimas em conchas, e muitas especies novas temos
de certo a esperar ainda das mesmas camadas. As espe-
cies novas aqui descriptas são mais numerosas que 0
total das especies patagonicas descriptas por d’ Orbigny,
Sowerby e Philippi e mesmo assim acontece que ha espe-
cies por estes autores descriptas que nas collecções por
mim estudadas não são representadas. Alem disto deixei
ao lado uma duzia de especies novas pertencentes espe-
cialmente á familia das Trochidas (generos Gibbula, Cal-
liostoma, Leptothyra, Margarita, etc.) e que provavelmente
serão examinadas pelo Sr. M. Cossmann em Paris, fal-
tando-me o necessario material para comparações e tambem
parte da necessaria litteratura. Tenho agora de agradecer
aos distinctos collegas Drs. W. H. Dall e E. von Martens
por me terem dado as suas opiniões a respeito de algu-
mas especies que a elles mandei. Restam, mesmo assim,
duvidas sobre a determinação correcta de varias conchas,
especialmente algumas especies dos generos Voluta e
Marginella descriptas por mim.
O primeiro que estudou as conchas terciarias da
Patagonia foi A. d'Orbigny. Mais tarde fez Ch. Darwin
novas colleccôes que foram descriptas por Sowerby. Varias
especies novas acham-se descriptas na magnifica obra de
À. A. Philippi sobre os animaes fosseis do Chile. Dou,
em seguida, a lista da respectiva litteratura mais impor- -
tante. Quanto aos resultados geraes do presente estudo
julgo mais conveniente tratar delles no ultimo capitulo.
— 220 —
Litteratura principal citada.
Ameghino, Fl. Contribucion al conociemiento de los
mamiferos fosiles de la Republica Argentina. Buenos
Aires y Paris 1890.
Ameghino, Fl. Notas sobre cuestiones de Geologia y
Paleontologia Argentina. Boletin Instit. Geograf. Argen-
tino, Tomo XVII, 1896, p. 87— 119.
Burmeister, H. Description physique de la Republique
Argentine. Tom. II, 1876. Climatologie et tableau geo-
enostique du pays
Darwin, Ch. Geological observations on coral reefs,
voleanic islands and South America. London 1851.
Darwin, Ch. Geologische Beobachtungen über Siid-
Amerika. Vebers. von J. V. Carus. Stuttgart 1878. Con-
tem como appendice : G. 2. Sowerby Beschreibung fossiler
tertiaerer Muscheln aus Süd Amerika p. 372—387 Taf.
HIV. |
Jhering, H. von. Sobre la distribucion geographica
de los creodontes. Revista Argentina de HE natur. I,
Buenos Aires 1891, p. 209 ff.
Ihering, H. von. Ueber die alten Beziehungen zwi-
schen Neu-Seeland und Siid-Amerika. Das Ausland 1891.
N.° 18 e em traducção: On the ancient relations between
New-Zealand and South America. Transact. New-Zealand
Institute Vol. 24 1891, p. 431—445.
Thering, H. von. Zur Kenntniss der süd-amerikani-
schen Voluta und ihrer Geschichte. Nachr. d. Deutsch.
Malakozoolog. Gesellsch. 1896, p. 93—99.
Mercerat, A. Nuevos datos geologicos sobre la Pa-
tagonia austral. Boletin del Instituto Geograph. Argen-
tino Tom. XVII 1896, p. 392- 405.
Moeriche, W. und Steinmann, G. Die Tertiaer bil-
dugnen des noerdlichen Chile und ihre Fauna. In. Beitr,
z. Geol. u. Pal. v. Süd-Amerika IV». Neues Jahrb. f. Min.
Beilage Bd. X. Stuttgart 1896.
— 221 —
D'Orbigny, A. Voyage dans l'Amérique meridionale
Tom. III, 4 partie Paleontologie. Paris 1842.
Philippi, R. A. Los fosiles terciarios y cuaternarios
de Chile. Santiago 1887.
Philippi, R. A. Descripcion de alguncs fosiles tercia-
rios de la Republica Argentina. Anales del Museo Na-
cional de Chile II seccion 1893. p. 1—15 ce. 4 PL
Valentin, J. Bosquejo geologico de la Argentina.
Buenos Aires 1897.
IL Lamellibranchiata.
FAM. OSTREIDAE.
Ostrea percrassa sp. n.
FSI fig 58, paligonicarerrore
OSTREA PATAGONICA AUT. P. P.
Ostrea testa oblonga, crassissima, valva inferiore ex-
cavata, regulariter gradatim transversim lamellata, radia-
tim subplicata; umbonibus latis parum productis; fossula
latissima, excavata utrinque marginata.
Formatio patagonica, pars superior (Santa Cruz).
E' esta a ostra da formação patagonica, tendo eu
examinado duas valvas provenientes da parte superior
desta formação, de Santa Cruz, E’ especie que se póde
facilmente confundir com a O. patagonica, distinguin-
do-se della, porém, pela regularidade das lamellas con:
centricas dispostas como os degráos de uma escada e
pela extremidade superior larga e menos prolongada,
munida de uma fossa ligamental mais curta e mais larga
como a da O. patagonica.
Fig. 1. Ostrea pererassa Th.
(Vista do lado; 1,2 de tamanho natural)
Estas duas conchas têm as seguintes dimensões :
Compr. 107 Mm. 122 Mm.
Alt. 143 >» 155 »
Diam. 62 » 29 »
Em porcentos da altura, esta reduzida a 100, 0 com-
primento é 75 viz. 79, o diametro 43 viz. 38, sendo essas
medidas no typo de d'Orbieny 81 e 36; observo, porém,
que examinando as figuras de VOrbieny o comprimento
não é de 81 mas de 79. A borda interior não está intacta.
Se estas differenças são constantes, creio-as suf-
ficientes para separar essa ostra da formação patagonica
do typo da Ostrea patagonica de d’Orbigny. Ao principio
considerei, seguindo o exemplo dos anteriores autores, a
grande ostra da formação patagonica como a O. patago-
nica Orb.. dando á outra da form. santacruzense o nome
de O. dorbigny. Mudei, porem, de opinião, não podendo
considerar a concha aqui figurada E. IX fig. 52 differente
da de d’Orbigny.
Ostrea patagonica Orb.
ESCAX Bea CSOrbigenyis.)
Ostrea patagonica Orbigny L c. p. 133 Pl. VII, fig
14—16. |
Ostrea patagonica R. A. Philippi L c. p. 205, Pl. 48
fig. 2.
Ostrea Bourgeoisi aut. (nec Rém).
— 223 —
Ostrea testa, subtriangulari vel oblonga crassa, trans-
versim rugosa, inferne dilatata; valva inferiore crassa ;
valva superiore plana, umbonibus acutis, productis, trian-
gularibus; fossula lata, excavata, utrinque marginata.
Long. 147, Alt. 119. Diam. 72 Mm.
FORMATIO SANTACRUZENSIS (LA CUEVA).
Nesta descripção de d’Orbigny a altura é denominada
comprimento. O diametro é o da valva completa, verifi-
cando-se, pela figura, que a parte desta medida referente
a valva inferior é de 50 Mm.
Tenho 7 valvas da mesma localidade, sendo 6 infe-
riores, 1 superior, nenhuma dellas igual ás outras, como
é facil de verificar pelo quadro das medidas que dou
junto. Considerada a medida da altura por 100, 0 compri-
mento é de 46, 51, 52, 67, 73, 75 nas valvas inferiores 0
que quer dizer, que ao lado de exemplares largos ha
outros compridos e estreitos. O diametro que no exemplar
mais estreito é de 15, varia nos outros de 24—36. O
comprimento do adductor varia um pouco (de 27-35 mm),
mas a largura da fossa ligamental offerece grande va-
riação, sendo na borda cardinal num exemplar 14: 32
mm. e em outro 14: 22. Comparado com a largura da
extremidade cardinal em N.º 16 a largura desta fossa
ligamental é '/, sendo porem em outros ‘>.
er
O. patagonica Orb. Gompr. | Dic 5 g
P Je Gompr. | Alt. | Diam. ea Adduc. pe mee
(La Cueva) porcental|porcental ligauen. | cardinal
N.º 14 117 160 DT 13 Sd 36 15 ol
pet o 100 134 32 75 24 a) 2p 10
16 82 122 43 OT 30 32 14 32
17 75 144 46 52 32 a0 14 22
pe 416 92 180 45 DA 20 oY 22 31
| Re LE | 64 138 21 | 46 | 15 28 16 24 a tm
O ft a
é rSalCAL>,
EA à DS A; e é
JS © ONS
fas ; am Ca
ius (| ARY|
A
A fossa ligamental é em alguns exemplares quasi
recta, um pouco inclinada para traz, mas no n.º 18 ella
é torta como um bico de papagaio. No n.º 17, porem, ella
é quasi recta, com a ponta dirigida para deante, isto é
« prosogyro », sendo as outras conchas opistogyras. A
borda interior é simples, sem plicas ou crenulações, 9 que
se explica devido á conservação incompleta da mar-
gem, existindo vestigios de crenulação na extremidade
superior em alguns exemplares.
Temos, pois, de notar, que varios exemplares da
mesma especie e da mesma localidade offerecem grande
variabilidade quanto á forma, grossura e fossa ligamental.
Só quando tivermos informações inais exactas sobre as
outras especies do terciario argentino será possivel formar
idea exacta sobre a relação que existe entre essa especie
e as descriptas por Philippi.
Ameghino e Mercerat nas suas respectivas publicações
têm designado essa especie de Ostrea bourgeoisi Rémond.
Esta especie entretanto, é conhecida de Magellanes, perto
de Punta Arenas. Não a conheço, se não pela descripção,
mas não vejo razão em identificar com ella a ostra de
Santa Cruz. À Ostrea bourgeoisi distingue-se por ser concha
delgada. «satis tenuis» e pelas valvas ambas lisas, dae-
viusculae». E' impossivel applicar esta diagnose da O.
bourgeoisi ás conchas grossas pesadas com superficie
irregularmente rugosa e ainda munida de plicas radia-
rias de La Cueva. E do mesmo modo seria impossivel
distinguir entre as ultimas varias especies sem proceder
de modo artificial. E' porem notavel, que parte destas
conchas assemelha-se extremamente á Ostrea percrassa,
da qual provavelmente representa apenas uma variedade
mais alongada e menos grossa.
Observo ainda, que Philippi (1. c. p. 242) menciona
de Magellanes (Punta Arenas) alem da Ostrea patagonica
tambem a Ostrea bourgeoisi Rem.
Não conheço de Santa Cruz outra especie de Ostrea
do que estas duas aqui mencionadas e intimamente apa-:
— 225 —
rentadas entre si. D'Orbigny diz, que obteve a Ostrea
“patagonica de Entre Rios (La Bajada), Punta Gorda (em-
bocadura do Rio Uruguay) como do Rio Negro e de Ss.
Julian na Patagonia. Darwin indicou a mesma especie
de Santa Fé (Entre Rios) e de toda a costa:da Patagonia.
Philippi menciona de Entre Rios 5 especies de Ostrea,
sem mencionar porem O. patagonica e O. Alvarezii de
d'Orbigny ás quaes elle deu provavelmente outros nomes.
Espero breve receber ricos materiaes de Paraná e então
estudar lá de novo esse assumpto tão complicado.
A Ostrea Ferrarisi de d'Orbigny, que elle descreveu
do Rio Negro, mandou-me o Snr. Florentino Ameghino
proveniente da formação tehuelche ou «de los rodados »
de varios lugares (Santa Rosa entre Santa Cruz e San
Julian; N. de Deseado). Esta parece, pois, ser a ostra ca-
caracteristica da formação tehuelche.
Orbigny, Darvin e outros autores consideram todas
as ostras grandes da Patagonia e de Entre Rios como
uma unica especie, a O. patagonica. Philippi, ao contrario,
creou para as representantes entrerianas desta especie
varias novas especies. Se eu tenho razão, separando a
ostra da formação patagonica e a da formação santacru-
zense, só 0 futuro poderá proval-o. Só o estudo de grandes
series de exemplares póde esclarecer a difficil questão.
Fam. Pectinidae.
Alem das 3 especies encontradas em Santa Cruz e
aqui descriptas conhecem-se as seguintes especies das
camadas terciarias da Republica Argentina.
Amussium Darwinianum (Orb.)
Pecten Darwinianum d'Orbigny Voy. Am. m. Pal.
p. 138.
Pecten Darwinianus Sowerby-Darwin 1. c. p. 375
Taf. III, fig. 28—29.
Revista do Museu Paulista, 15
— 226 —
Pecten Darwinianus Philippi Anal. M. n. Chile 1893
p. 12 Lam. III, fig. 4.
S. José, Patagonia, Santa Fé e La Bajada em Entre-
rios. Parece que esta especie não é encontrada nas for-
mações patagonica e santacruzense, sendo de formações
mais modernas,
Pecten patagonensis Orb.
D'Orbigny Voy. Am. m. Pal.p. 131 Pl. VIII fig. 1—14.
Ao Sul do Rio Negro, Patagonia.
EK’ bem possivel que o P. rudis Sow. do terreno ter-
ciario chileno represente apenas variedade desta especie.
Tenho della algumas valvas esquerdas do Golfo de São
Jorge, formação patagonica, differindo da descripção de
d’Orbigny apenas pela circumstancia que na valva maior
de 29 Mm., entre as costas do meio apparece perto da
borda ventral uma costa intermediaria no intervallo.
Parece que esta especie é menor do que P. rudis, cujo
representante na fauna actual é o P. purpuratus Lam.
do Perú.
Pecten paranensis Orb.
D'Orbigny V. Am. m. p. 132 Pl. VII fig. 5—9.
Sowerby-Darwin 1, c. p. 376 Pl. III fig. 30.
La Bajada, Entrerios (Orbigny).
S. José, S. Julian, Port Desire (Darwin).
Esta especie não é differente do P. tehuelchus Orb.,
especie recente da Patagonia. Tenho P. paranensis de
uma localidade da Patagonia entre S. Jorge e Deseado
onde foi encontrado por C. Ameghino e que pertence à
formação tehuelche. Não conhecendo, porem, exemplares
typicos de Entrerios, não estou ainda certo se as deter-
minações de Sowerby e as minhas são exactas. Não parece
certo, que a figura desta especie que Sowerby publicou
realmente a ella se refire.
E SEO O y PE
Pecten actinodes Sow.
Sowerby-Darwin 1. c. p. 376 Pl. IV fig. 33.
S. José, Patagonia (Darwin).
Creio que a esta especie pertencem as valvas de um
grande Pecten de cerca 100 Mm. de altura que O. Ame
ghino colligio em Bajo de la Pava, Norte de Descado,
formação tehuelche, e em Punta Rosa entre Santa Cruz
S. Julian, form. tehueiche.
Pecten geminatus Sow.
Sowerby-Darwin l. c. p. 375 Taf. IT fig. 24..
S. Julian, Patagonia.
Nao conheco por ora esta especie que esta intimamente
ligada ao P. quemacensis adiante descripto.
Pecten nodosopiicatus sp. n.
ESCIN et
Pecten testa ovata aequilaterali aequivalvi, costis
6—8 irregularibus interdum obsoletis interdum nodulo-
sis, lirisque squamosis numerosis radiata; auriculis inae-
qualibus, anteriore maiore radiata; margine anteriore
sub incisura byssali in valva dextra dentata.
- Long. 30, Alt: 35, Diam. ('2) 9 Mm.
Form. Santacruzensis (Jegua Quemada; La Cueva).
Especie pequena com as costas um pouco mais nu-
merosas e com escamas pequenas. Tenho varias valvas
esquerdas e direitas, sendo em geral aquellas do lado
direito as mais convexas. Em algumas as costas faltam
quasi inteiramente, em outras variam de 6—8, sendo,
porem, a disposição dellas irregular, visto como algumas
são mais largas do que as outras. As nodosidades das
costas tambem são irregulares e pouco marcadas. O
numero das estrias escamadas varia de 65—75. A auri-
cula anterior é a maior e na base della existe na valva
aay ae
direita, a serra byssal, como na especie precedente, mas
com a differenca que alli a borda anterior da auricula
esta situada no mesmo plano vertical como o resto da auri-
cula, sendo porem, sinuada nesta nova especie « nodoso-
plicatus ».
O exemplar maior mede Long. 39, Alt. 49 Mm.
Parece-me que esta especie 6 antecessora do P.
nodosus e P. subnodosus.
Pecten quemadensis sp. n.
Est. VI fig. 38
Pecten testa subaequivalvi, aequilaterali ovata, liris
radiantibus circa 60 squamuliferis irregulariter geminatis
vel trigeminis munita; auriculis inaequalibus, anteriore
sub incisura byssali in valva dextra dentata.
Long. 31, Alt. 37, Diam. (‘.) 7 Mm. |
Form. santacruzensis (La Cueva; Jegua quemada).
Esta espécie é bem parecida ao Pecten geminatus
de Sowerby, de modo que ao principio julguei estas con-
chas como variedade daquella especie. E”, porem, na nossa
especie de Santa Cruz o numero das estrias muito maior,
cerca de 90 ou mais contra 22 em geminatus e alem
disto as mesmas não estão dispostas com regularidade em
pares. Existem ao lado anterior e posterior estrias finas
em numero de cerca 7—10 de cada lado. Seguem-se, depois,
as estrias maiores agerupadas ás vezes por 2 ou por 3, mas
sem regularidade, de modo que não existe differença
certa entre os intervallos que separam as costas e os:
que dividem:as estrias secundarias de um grupo. Nos
intervallos apparecem ás vezes estrias mais finas. As
estrias principiam das vertebras em numero de cerca de
30 e augmentam para a borda ventral cada vez mais. As
estrias são munidas de escamas.
Das auriculas a anterior é muito maior, sendo mu-
nida de 5—6 estrias radiarias. Em baixo da auricula
segue, na borda anterior na extensão de 3 Mm. a serra
— 229 —
byssal, composta de 6 denticulos. A superficie interior
da concha é plicada, conforme ás estrias. A valva esquer-
da é menos convexa do que a outra.
Esta especie está intimamente ligada à precedente e
não sei se bem procedi separando-as, podendo talvez am-
bas estas especies novas representar apenas variedades
de uma especie extremamente variavel.
Pecten centralis Sow.
Est. VIT es vat 9
(valva esquerda) e 48 (valva direita sob a denominaçäo “proximus,,)
Sowerby-Darwin 1. c. p. 376, Taf. III, fig. 32.
Pecten testa inaequivalvi, aequilaterali, tenui, sub- |
circulari; valva sinistra depressa, costis magnis rotundatis
5—7 et liris squamosis numerosis, in interstitiis plerum-
que obsoletis, radiatis; valva dextra convexa costis 4—6
magnis rotundatis, liris squamiferis munitis, radiatis ;
auriculis radiatim liratis subaequalibus.
Long. 160, Alt. 170, Diam. circa 80 Mm.
Form. santacruzensis (Jegua quemada).
Esta especie foi recolhida por Darwin em S. Julian,
Port Desire e Santa Cruz e descripta por Sowerby com
referencia a valva esquerda. A valva direita é mais con-
vexa e tem os intervallos entre as costas quasi lisos ou
só com alguns vestigios de linhas elevadas. Nesta valva
direita faita quasi completamente a serra byssal, sendo
apenas representada por algumas incisões pouco profundas.
A valva esquerda tem & 10 estrias escamosas nas
costas cujo numero é de 5 ou de 7. Os intervallos são,
ás vezes, lisos, ás vezes munidos de estrias escamosas e
acontece que em grandes exemplares onde os inter-
vallos são lisos, as estrias escamosas apparecem na peri-.
pheria inferior da valva. Das auriculas a anterior tem
em geral 12, a posterior 7 linhas radiarias.
— 230 —
Sao raros exemplares completos. A valva maior que
vi tem 190 Mm. de comprimento. E’ esta uma especie
do genero Pseudamussium parecida ao P. Simpsoni Phil.
do terciario chileno.
São tao differentes em férma e sculptura as duas
valvas, que ao principio considerei a valva direita como
especie differente para a qual usei o nome de P. proxi-
mus. Nunca vi concha completa das duas valvas reuni-
das, e assim não é bem certo que foi com razão que
reuni em uma especie estas valvas, o que entretanto é
provavel.
Pecten praenuncius sp. n.
Pecten testa inaequivalvi, aequilaterali, subtrigono -
oblonga; valva sinistra convexiore; valvis costis parum
elevatis subirregularibus 7—9 et striis elevatis squami-
feris numerosis radiatis.
Long. 50, Alt. 44, Diam. 14 Mm.
Formatio patagonica (Golfo de S. Jorge).
Tenho uma concha consistindo em duas valvas bem
conservadas em geral, mas com as auriculas quebradas. -
Nota-se, porem, que das auriculas anteriores a do lado
direito é menos alta, devido ä serra byssal que se nota
em baixo della. Devido ás costas que são largas e chatas
a borda ventral é ondulada. As estrias são todas cobertas
de escamas e mais ou menos iguaes, sendo, porem, meno-
res as dos intervallos entre as costas.
Creio que de especies como esta mediante cresci-
mento das costas, desapparecendo as estrias dos intervallos
podem ter-se formado as grandes valvas do Pecten cen-
tralis. Deixei de figurar esta especie porque a ee só
depois de quasi concluido este estudo.
Preciso aqui juntar algumas observações sobre essas
diversas especies de Pecten.
Ha entre ellas uma especie de Amussium (A, Darwi-
nianum Orb.) de Entre Rios e S. José que nos faz crêr
— 231 —
que a respectiva camada de S. José seja da mesma idade
como a de La Bajada em Entre Rios.
Do subgenero Pseudamussium temos o Pecten cen-
tralis Sow. da formação Santacruzense. (Creio que esta
“especie desenvolveu-se de outra que tenho da formação
patagonica do Golfo de S. José e que chamei praenun-
cius. Um representante deste grupo existe tambem nos
terrenos terciarios do Chile (Chiloë, Navidad) o P. Sim-
psoni Phil.
Pecten patagonensis Orb. foi descripto por D'Orbigny
do Rio Negro. Eu obtive-o da formação patagonica, Golfo
de S. Jorge, ou uma variedade pouco differente. Pecten
Darwinii Reeve de Santa Cruz parece especie identica ou
parentada.
Pecten paranensis Orb. não conheço bem por hora.
D'Orbigny encontrou-o somente em La Bajada, Darwin
porem mencionou-o de Santa Fé, S. José e S. Jnlian. A
figura de Orbigny faz vêr nos, que esta especie é quasi
identica com a especie vivente da Patagonia, P. tehuel-
chus Orb. Pecten actinodes Sow., se os meus exemplares
são indenticos aos de Sowerby, é especie affine ao Pecten
paranensis e podemos considerar como descendente deste
grupo de especies o P. patagonicus King.
Um ultimo grupo de especies afinal é aquelle do P.
geminatus Sow. e das especies alliadas P. quemadensis
e nodosoplicatus. Se do ultimo provalmente o Pecten
nodosus é o descendente na fauna actual, dos outros temos
uma especie apparentada na fauna actual em P. rufira-
diatus Reeve da Estrada de Magalhães.
FAM. AVICULIDAE.
Perna quadrisulcata sp. n.
Est. IX fig. 54
Perna testa crassa subquadrata, superne recta, parum
compressa, antice acute angulata, postice alata, angulato-
— 232 —
producta, sinuata, cardine lata crassa quadrisulcata,
sulcis distantibus latissimis.
Long. 123, Alt. 121, Diam. (4) 31 Mm.
Pars superior formationis patagonicae (La Cueva).
Possuo uma valva direita, que na borda anterior tem
a excisao para 0 bysso. A medida indicada do compri-
mento refere-se 4 borda ligamental; no meio da valva
a mesma medida importa apenasem 95mm. As camadas
superficiaes da concha faltam, excepto em poucos lugares,
onde partes dellas são conservadas, apparecendo squamoso-
asperas. A charneira é muito forte tendo a altura de 25
mm. Os sulcos são profundos, tendo 9—10 mm. de
largura. A impressão muscular é grande, situada perto
da borda posterior e um pouco em baixo da metade da
altura da concha.
E" esta a primeira especie de Perna, descripta do
terreno terciario da Patagonia. Parece fóra de duvida, que
essa especie viveu em mar de temperatura mais elevada
do que a do mar patagonico de nosso tempo.
FAM. MYTILIDAE.
Mytilus cf. chorus Mol.
Sst. IX fie. 55
Mytilus testa elongato-oblonga laevi, subarcuata,
margine dorsali arcuato, margine ventrali subrecto ; la-
tere anali arcuato, convexo.
Long. 150 mm., Alt. 55 mm., Diam. 36 mm.
Form. patagonica (Rio Santa Cruz).
Existe apenas o molde deste grande Mytilus, que
n'alguns lugares ainda offerece restos da concha, que
parece ter sido lisa. A borda dorsal 6 arcuada e com-
pressa, a borda ventral quasi recta nao sendo compressa
ou cortante, mas verticalmente um pouco aplanada. EK’
singular uma serie de pequenas plicas dirigidas verti-
— 233 —
calmente contra a borda ventral, distante della cerca de
1 centim. correspondendo a fixação do manto.
Esta especie é na forma parecida a uma variedade
um pouco alongada de Myt. chorus Mol. (ungulatus Val.)
ou ao Myt.. smaragdinus Lam. Existindo, porem, só o
molde, não está ainda decidido se esta é uma especie
vivente como parece, ou não. E”, porem, notavel, que
Philippt entre as especies terciarias chilenas mencione
tambem o Mytilus chorus Mol., igualmente representado
por molde.
Dos terrenos terciarios argentinos até hoje não se
conhecia especie alguma de Mytilus. Parece-me, porem,
que pertence a este genero uma especie de « Modiola »
descripta por Philippi, sendo Mytilus lepidus (Ph.); vide
as notas no genero Modiola.
Modiola Ameghinoi sp. n.
Est. VI fig: 43
Modiola testa elongato-oblonga, subtrapeziformi, lae-
vigata, haud ventricosa, latere antico compresso, mar-
gine dorsali biangulato, margine ventrali sinuato.
Long. 90 mm., Alt. 43 mm., Diam. 26 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada). |
Essa Modiola elegante e alongada, pouco ventruda,
assemelha-se entre as especies viventes quanto à firma .
da circumferencia mais 4 Mod. modiolus L., difterente,
porem, no diametro, cuja maior dimensão é encontrada
no meio do comprimento, sendo as extremidades ante-
riores compressas. A borda dorsal consiste em duas par -
tes: a anterior ou cardinal, que é ascendente, um pouco
convexa, e a posterior, concava ou sinuada, acabando
por angulo obtuso no lugar onde a extremidade posterior,
que é arqueada e compressa, principia. Outro angulo
obtuso fórma a divisa entre as duas secções da borda
superior, dos quaes a anterior é a mais comprida. As
vertebras são pouco salientes e situadas acima e pouco
— 234 —
traz da pequena extremidade anterior. Da vertebra para
traz corre uma linha impressa, que vae até ao angulo
posterior da borda dorsal. As vertebras näo estäo inta-
ctas. Temos dous exemplares muito frageis e incompletos.
Essa especie assemelha-se mais 4 variedade menos
ventruda da Mod. coquimbana Phil., que tem as verte-
bras e toda a extremidade anterior mais entumescida, e
provem do terciario chileno.
Do terreno terciario argentino conhecemos por Phi-
lippt duas especies de Entre Rios, que na nossa collecgao
não estão representadas, das quaes só uma é Modiola.
São ellas :
. Modiola platensis Ph.
R. A. Philippi Anales Mus. nac. Chile 1. c. pag. 11
Lam. IT fig. 2, especie lisa mais curta e alta que a nossa.
Modiola lepida Ph.
Veja sub Mytilus. R. A. Philippi Anales Mus. 1. c.
pag. 12 Lam, II fig. 3. Especie pequena (30 mm.)
com numerosas costas radiarias. Essa especie não me
parece ser uma Modiola, mas sim um Mytilus do
subgenero Aulacomya. Ella é tão parecida com o Myt.
exustus L. var. Mülleri Dunker do Brazil e de Montevi-
deo, que uma comparação de exemplares authenticos
talvez os demonstrará identicos.
FAM. ARCIDAE.
Limopsis insolita Sow.
Sowerby-Darwin 1. c. pag. 374 PL II fig. 20-21 (Eri-
gonocelia insolita Sow. de Santa Cruz).
R. A. Philippi Los fosiles 1. c. pag. 185, nota.
Limopsis testa subovali, crassiuscula subtiliter cre-
bricostata valde obliqua ; area ligamentali trigona late-
ribus elevatis; dentibus paucis, magnis.
Long. 27 mm., lat. 21 mm., Diam. 14 (2x7). mm.
Form, patagonica (Santa Cruz).
— 235 —
Form. Santacruzensis (La Cueva; Jeg. quemada).
Essa concha parece-me ser uma das mais caracteris-
ticas das duas formações mencionadas do terciario ar-
gentino. Ella quasi sempre apresenta-se sem a camada
mais superficial, de modo que Somerby cahiu no erro de
dizer, que o lado externo é liso. Tenho porem um exem-
plar em bom estado o qual tem parte da camada exterior
conservada, tendo ella munida de numerosos sulcos finos
um pouco ondulados, formando costas numerosas e finas,
4—5 no espaço de um millimetro.
Em exemplares bem conservados a borda superior
fórma uma linha recta com angulos bem pronunciados
tanto na extremidade anterior, como na posterior. A
serie dos dentes é no meio interrompida, existindo 9 10
dentes de cada lado. A area ligamental é triangular,
lisa, medindo na base cerca 4 mm. Das duas impressões
musculares é a anterior e superior mais profunda.
Philippi desereve do terciario chileno outra especie
deste genero (L. araucana Ph.) que é mais circular e
menor (5 mm.) Não conhecemos outra especie deste ge-
nero do terciario argentino, nem da fauna marinha actual
da Argentina ou do Brazil.
Arca patagonica sp. n.
Est. IV fig. 28 e V fig. 80.
Arca, testa elongato-oblonga, latere antico brevi,
rotundato, subtumido, latere postico oblique truncato,
. Carina obtusa ab umbone ad marginem decorrente; mar-
gine ventrali hiatu byssi vix hiante; testa radiatim
costata, costis anticis fortioribus costis mediis striis ele-
vatis longitudinalibus imbricato vel noduloso-decussatis;
umbonibus remotis; area ligamentali valde concava,
rhombo sulcifero magno.
Long. 38 mm., Alt. 21 mm., Diam. 22 (211) mm.
Form. santacruzensis (Jegua queimada).
— 236 —
Essa especie é bem parecida 4 Arca imbricata Brug.
distinguindo-se pelas costas mais distantes, pela borda
ventral quasi linear-recta e parallela 4 borda superior
e pelo rhombo sulcifero que occupa mais do que a metade
da area, contendo quatro sulcos dirigidos para deante
e quatro dirigidos para traz e que convergem para a
vertebra.
As costas mais fortes são as da extremidade ante- .
rior. As costas são mais estreitas do que os intersticios
eo numero delles é de 28-30. As bordas posterior e inferior
formam na extremidade posterior um angulo agudo.
As Arcaceas dos terrenos terciarios argentinos, até
hoje conhecidas, são as seguintes, além da A. patagonica
Ih. aqui descripta :
Arca Darwini Ph.
R. A. Philippi Los fosiles 1. c. p. 181 Lam. 36, fig.
. 3 (Santa Cruz). Parecida á Arca barbata, mas com a
superficie «densestriata» em vez de «granulosa». Será esta
a Cinha mucullaria tridentata? A figura parece um pouco
differente, a borda dorsal mais comprida e horizontal,
Arca Bonplandiana Orb.
D'Orbigny Voy. Am. mer. Geol. pag. 130 PI. 14 fig.
15-18. Patagonia (Rio Negro) e Entre Rios (Bajada).
Especie intimamente ligada a Arca Chemnitzi Phil. das
costas do Brazil.
Arca platensis Ph.
R. A. Philippi. Descrip. etc. 1. c. 1893 pag. 11 Tab.
I fig. 8. Parece um exemplar abnorme, talvez de RE
Darwini Phil. ou de chilensis Phil.
ED —
Arca lirata Ph.
R. A. Philippi. Descr. etc. 1. c. 1893 pag. 11 Tab. I
fig. 14. Não conheço especie vivente que seja identica ou
bem affine.
Cuculearia tridentata sp. n.
Mesto LV re 22 e Vies
Cucullaria testa ovata, subtrapeziformi compressius-
cula, radiatim subtiliter costata, umbonibus tumidis ;
latere anteriore brevi, rotundato, latere posteriore latiore,
rotundato-angulato; area minima ; dentibus anterioribus
2 vel 3 horizontalibus, dentibus posterioribus lamellari-
bus tribus horizontalibus ; dentibus papillaribus variis
infra umbones sitis.
Long. 42 mm., Alt. 24 mm., Diam. 2x9 mm.
Form. santacruzensis (Jegua quemada).
A concha 6 mais ou menos trapeziforme, sendo a
borda superior descendente no rumo de traz para deante.
A borda ventral é recta e no meio um pouco sinuada.
A superficie é dividida por numerosos sulcos em costas
estreitas e planas, das quaes as da extremidade posterior
no meio estão separadas por outro sulco menos profundo.
A area é extremamente estreita situada atraz da vertebra.
A charneira é larga com tres compridos dentes lamel-
liformes posteriores, com algnns dentes pequenos em
baixo da vértebra e com dous ou tres dentes anteriores
horizontaes e curtos. As impressões musculares são sim-
ples, pouco isiveis. Duas valvas um pouco desfeitas.
Do unico exemplar falta um pedaço da extremidade
anterior.
O genero Cucullaria extinguio-se e as especies conhe-
cidas sao do terciario antigo, como a U. heterodonta
Desh. da formação eocena.
Veja-se a nota em pag. 236 referente a Arca Darwini
Ph. E' provavel que Philippi não deixasse de mencionar
RENTE RES
as singularidades da charneira, se aquella especie per-
tencesse ao genero ou subg. Cucullaria.
Pectunculus pulvinatus Lam. var. cuevensis var. n.
ISG VELL AS 46e VI 46750
M. Hoernes. Die fossilen Mollusken des Tertiaer
Beckens von Wien. Bd. II p. 316 Taf. 40 fig. 1—2; Taf.
41 fig. 1—10 (P. pilosus L.) ;
O grande Pectunculus da formaçäo santacruzense
foi já denominado por mim P. cuevensis, quando pelo
estudo da obra de Hoernes verifiquei que não existe razão
em separal-a de «P. pilosus». Noto bem que os nossos
exemplares assemelham-se mais aos da bacia de Vienna
do que a exemplares recentes. Se, porem, os de Vienna
são identicos, tambem os nossos pertencem a essa especie.
Prefiro denominal-o pulvinatus Lam, especie fossil.
A forma em nossos exemplares é variavel, existindo
ao lado de exemplares quasi circulares outros que são
um tanto obliquos. Não acho entretanto differença cons-
tante e caracteristica para separar os exemplares de Santa
Cruz dos das bahias de Vienna e de Bordeaux. E' verdade
que a nossa variedade tem os sulcos convergentes bem
desenvolvidos na area, mas Hoernes assignala-as na
fig. 1, e outras figuras referentes ao pilosus. As linhas
radiarias da superficie externa são em nossos exemplares
mais notaveis » as concentricas menos desenvolvidas do
que em P. pilosus, fórma recente. Talvez a fórma de
Vienna mereça outro nome (pulvinatus Lam ?), que neste
caso seria tambem applicado a essa nossa especie, que
como a de Vienna tem a area maior do que o recente
P. pilosus.
Visto a differença da area que em nossa fórma mostra
os sulcos convergentes mais profundos do que a espe-
cie de Vienna, conservo esta como variedade distincta :
ESPOSO
Var. cuevensis var. n.
Pectunculus testa magna crassa, suborbiculari con-
vexa, longitudinaliter subtiliter striata, limeis distanti-
bus, circa 50; margine dorsali parum arcuato, dentibus
cardinalibus utrinque 10—11 ; area triangulari, sulcis
convergentibus nec non lineis horizontalibus subtilissi-
mis ornata.
Long. 106 mm., Alt. 99 mm., Diam. 2>38 mm.
Form. santacruzensis (Jeg. quemada; La Cueva).
E” esta a primeira e até agora a unica especie de
Pectunculus, encontrada nos terrenos terciarios argenti-
nos. E’ concha grossa e grande, de fórma quasi orbicular
um pouco variavel, visto como um dos exemplares de J.
queimada é um pouco transverso, sendo a extremidade
posterior um pouco alongada. As vertebras são pouco des-
envolvidas. A area ligamental mede no exemplar acima
descripto 53 mm. de comprimento tendo 9 mm. de altura;
ella tem de cada lado 4 linhas impressas, que convergem
contra a vertebra viz, contra uma linha vertical descen-
dente da vertebra. As costas longitudinaes são chatas,
separadas por sulccs finos longitudinaes, cujo numero
é de cerca de 50 ou pouco mais, sendo porém nos exemplares
grandes os das extremidades anterior e posterior pouco
visiveis; quanto ús da parte media perto da borda ventral
quasi desapparecem, devido ás numerosas linhas ondu-
ladas de accrescimento. As dentaduras da borda ventral
e os dentes da charneira (cerca 50 nos exemplares me-
nores, e 38-40 nos maiores) nada de especial oferecem.
Os dentes da charneira na parte situada em baixo da
area ligamental são pequenos e em numero de 8—10. As
impressões musculares distinguem-se pela côr mais
escura e por estarem levantados sobre o nivel da parte
anterior da concha em diversos exemplares.
Nas conchas pequenas são os sulcos longitudinaes
mais pronunciados, a borda dorsal é quast rectilinea, a
— 240 —
area ligamental pouco desenvolvida e as valvas sao
mais chatas.
Esta especie muito se parece com 0 Pectunculus pay-
tensis Orbigny do terciario de Pert, que porem tem menos
costas e as conchas mais comprimidas. Mas a comparacao
com exemplares typicos de pulvinatus Lam, obovatus
Lam etc. do terciario europeo é o que mais resultado
promette para a determinaçäo definitiva desta especie
P. obovatus Lam, parecido na forma e na superficie ex-
terna, differe na disposiçäo dos dentes da charneira. Entre
as especies recentes o P. intermedius Brod. é bastante
parecido.
Cucullaea alta Sow.
Sowerby-Darwin 1. c. p. 374 Taf. II fig. 23 (nec fig.
22 !)
«Cucullaea testa ovato-trapeziformi, subobliqua, sub-
rugosa, umbonibus distantibus, area ligamentali profun-
de sulcata, impressionis muscularis posticae margine
ventrali elevato. Port Desire, Santa Cruz» Sowerby.
Não é impossivel que seja identica com esta espe-
cie a que descrevo como multicostata Sow., mas neste
caso a descripção de Sowerby não é exacta. Presumindo
que esta descripção seja exacta a C. alta sendo «sub-
rugosa» e tendo outra area ligamental é differente.
Creio que Sowerby confundiu duas especies bem
differentes, pois a sua figura 23 parece-me pertencer
a outra especie, que aqui descrevo como C. Dalli. Esta
tem mais linhas impressas na area ‘e outra forma dos
dentes da charneira.
Cucullaea multicostata sp. n. 3
Est: IV fig. 20 ev fig. 29
Cucullaea testa ovato-trapeziformi, subobliqua, cos-
tata, sulcis radiantibus latis, costis planis; dentibus
lamellaribus 3—4 utrinque.
— 241 —
Long. cerca 38 mm., Alt. cerca 31 mm.
Form. patagonica (La Cueva).
“Tem o Museu exemplar mal conservado, cujo interior
está cheio da massa dura e argilosa da formação pa-
tagonica.
Julguei no principio este exemplar identico a espe-
cie precedente, da qual, porém, differe por ter sulcos e
costas radiarias e por ter na area ligamental apenas duas
linhas impressas. Sowerdy na figura 23 indica 5 destas
linhas convergentes e diz que a C. alta é « subrugosa ».
Nesta nossa especie existem profundos sulcos radiarios
e entre ellos costas planas. Em dous ou tres lugares são
estas costas interrompidas por linhas circulares e que
significam antigas linhas da borda ventral. Os dentes
são lamellares, 3 on 4 de cada lado.
Cucullaea Dalli sp. n.
Stl tree Te NT ES, ST
'* Cucullaea alta Sowerby-Darwin 1. c. Taf. II fig. 22
p. parte.
Cucullaea testa oblongo-rhomboidea, crassa, ventri-
cosissima radiatim striata; latere antico breviusculo, sub-
quadrato, latere postico angusto producto obtuse angu-
lato; umbonibus elevatis rotundatis; area ligamentali
magna, excavata, utrinque sulcis 9 profunde impressis,
“convergentibus, munita.
Long. 95 mm., Alt. 82 mm., Diam. 80 mm.
Form. patagonica (Jack Harvey).
Tenho da parte superior da formaçäo patagonica,
Jack Harvey, 3 exemplares completus fechados e varios
fragmentos dessa linda, nova e grande especie que tomo
a liberdade de dedicar ao eminente zoologo do U. S. Na-
tional Museum, Dr. W. H. Dall, a quem muito estou
agradecido pelo auxilio que me prestou nestes como em
outros estudos conchologicos.
Revista do Museu Paulista 16
EDAD —
A concha é lisa mas estriada no sentido dos radios,
sendo as vezes uma ou outra destas linhas impressa em
forma de sulco. Na parte superior da concha, perto das
vertebras, ha em geral sulcos ou covas, devidas 4 con-
servaçäo incompleta da concha. Na parte inferior sao
mais elevadas as estrias de accrescimento, parallelas 4
borda ventral, que no meio é sinuada.
As vertebras são altas, infladas e situadas a ? do
comprimento total. A parte anterior é alta, a posterior
menos alta, mais comprida e acaba em angulo pouco
pronunciado. |
A area mede 66 mm. de comprimento e 16 mm. de
altura em cada valva. Os sulcos occupam toda a area,
sendo nove o numero delles. A charneira “em dentes
pequenos no meio e 3 dentes horizontaes de cada lado,
sendo destes o superior liso, os outros munidos de den-
tinhos. As impressões musculares são lisas, de côr mais
escura, amarella, e a impressão posterior é elevada no
lado interior e posterior sobre o resto da superficie in-
terna.
Sowerby obteve um fragmento desta concha (fig. 22)
que elle por” engano julgou pertencer a Cucullaea alta,
a qual se refere a figura 23. A Cucullaea alta não tem
tantos sulcos na area.
Philippi descreveu (Los Fosiles 1. c. pag. 183 Pl. 40
fig. 2) uma especie muito parecida sob o nome de Cu-
cullaea chilensis Ph. Esta nossa especie é mais alongada
na extremidade posterior, mais alta e mais ventruda.
As medidas qne Philippi deu são para Long, Alt., Diam.:
95—64—59. No meu segundo exemplar estas medidas
são 100—79—76. Parece tambem que a especie chilena
tem menos sulcos na area.
— 243 —
FA Mo NU CL TD ASH:
Nucula tricesima lh.
Esto ENV ae 24 eV fies: 27
Nucula testa elevata, trigona, subaequilaterali, lae vi,
solida, margine posteriore com dorsali angulum rectum
formante ; latere postico brevissimo, subverticali ; latere
antico acuminatim producto; umbonibus subterminalibus;
lunula elongata; margine ventricali convexo, laevi.
Long. 15 mm., Alt. 14 mm. Diam. 25 mm.
Formatio santacruzensis (La Cueva). |
Tres exemplares, em parte quebrados. A charneira
consiste em duas partes que formam angulo recto.
Na borda posterior conta-se 8, na borda dorsal 15—17
dentes. O interior é naearado, a borda ventral lisa. A
vertebra é situada quasi terminal. Da vertebra sahe uma
linha elevada, que contorna a grande lunula. Da impres-
são muscular posterior passa á vertebra uma linha ele-
vada. A superficie externa é lisa, só com estrias de cres-
cimento.
Sowerby e Philippi descreveram numerosas especies.
Não obstante esta não é descripta, de modo que ás 29
especies enumeradas por Philippi ajunta-se esta com a
trigesima. Ella é caracterisada pela extrema altura, fórma
triangular, posição terminal das vertebras.
As outras especies descriptas dos terrenos terciarios
argentinos são. |
Nucula ornata Sowerby-Darwin 1. e. pag. 374 PL I
fig. 19 (Porto Desire).
Esta especie é extremamente parecida à Nucula Volk-
manni Phil. dos terrenos terciarios chilenos.
Nucula patagonica Philippi Los Fosiles |. c. pag, 191
Lam 41 fig. 8 (Santa Cruz).
Esta ultima especie assemelha-se muito à nossa
sendo, porem, menos alta, tendo para Long. e Alt. as me-
didas de 19—13 mm.
eee
Leda glabra Sow.
Est. IV fig. 24 e V fig. 31.
Sowerby Darwin 1. c. pag. Taf. II fig. 10 (« Nucula
glabra »)
« Nucula testa ovato-oblonga, glabra, nitida latere
antico breviore, postico magis acuminato, marginibus
lorsalibus declivibus. Santa Cruz. »
| Sowerby
O exemplar de Sowerby não deixava ver o interior
por ser fechado. Tenho numerosos exemplares de « La
Cueva» em parte fechados em parte representados por
valvas isoladas. A sinuosidade posterior da linha pallial
demostra que a especie pertence ao genero Leda. O exem-
plar figurado por Sowerby 6 pequeno. Exemplares maio-
res tem as vertebras mais en tumescidas, a extremidade
posterior mais comprida e o bordo ventral mais recto,
um pouco sinuado na parte posterior.
Tenho numerosos exemplares pequenos como gran-
des e que demonstram essas modificações conforme a ida-
de da concha. A concha maior mede: Long. 47 Mm.
Alt 30 mm., Diam. da uma valva 11 mm.
Estes exemplares são de «La Cueva», formação san-
tacruzense.
FAM. ASTARTIDAE.
Cardita patagonica Sow.
Sowerby Darwin |. c. pag. 374 Taf. TI fig. 17
LA
€ Cardita testa subtrapeziformi-rotunda, tumida, |
subcordiformi, subobliqua, costis radiantibus 24 angustis
angulatis, squamoso-serratis, interstitiis latioribus. Santa
Cruz. » Sowerby
Um exemplar grande, valva esquerda, que tenho da
« formação patagonica, parte superior, de La Cueva »
mede Long. 48 Mm., Alt. 52 Mm., Diam. 22 Mm,
— 245
Tenho algumas valvas menores da formaçäo Santa-
cruzense de Jeg. Quemada. Esses exemplares pequenos
são de fórma mais circular, de modo que não sei com
certeza se representam uma variedade especial, ou se a
fórma com o crescimento da concha está um pouco
modificada.
. © numero das costas varia de 2325. E’ bem no-
tavel o desenvolvimento das vertebras, que na espe-
cie seguinte são menos entumescidas. A posição da
lunula é quasi vertical de cima para baixo. As costas
são todas munidas de pequenas escamas ou tuberculos,
especialmente as costas das extremidades anterior e pos-
terior.
Tenho a observar que os exemplares typicos dessa
especie provêm da fórma patagonica ; os que tenho da
formação santacruzense são menores, provavelmente não
adultos, e mais circulares. Será preciso examinar mais
exemplares e maiores, da fórma santacruzense, para
decidir se a especie é a mesma, ou se os exemplares da
fórma santacruzense constituem variedade distincta.
Cardita inaequalis Ph.
R. A. Philipp. Los Fosiles |. c. pag. 167 Lam. 37
fig. 5.
« Testa ovata, obscure quadrangula, valde inflata,
valde inaequilatera; costae radiantes 20—22 planae, in-
terstitiis vix angustiores; extremitas utraque rotundata.
Long. 31 Mm., Alt. 26 ', Mm., Crass. 21 Mm.» Philippi.
Tenho do Jeg. Quemada e de La Cueva numerosos
exemplares todos da formaçäo santacruzense, mas todos
menores que o descripto por Philippi. E’ especie bas-
tante variavel. A forma é ás vezes redonda, ás vezes
prevalece a extensão da altura ou a do comprimento.
À relação de comprimento e altura é em 3 exemplares
medidos de 18: 18, 16: 17, 17: 16 mm. O numero das
costas em geral é 23-26, mas ds vezes 21-22. A ver-
tebra é pequena, não inflada.
— 246 —
As costas do meio da concha são cruzadas por linhas
concentricas, apresentando a costa uma serie de tuberculos,
Estestuberculos desapparecem nos exemplares maiores para
o lado da borda ventral e são menos desenvolvidos nas cos- '
tas da extremidade anterior e posterior. As costas são
chatas e mais ou menos do tamanho dos intervallos ‘ou:
maiores, mas qnanto mais cresce a valva tanto mais
largo fica o intervallo. E’ preciso ter em vista estas.
modificaçães e variações para não crear uma porção de
especies parecidas. |
Os exemplares de Philippi eram provenientes de
Santa Cruz. Nenhuma das especies chilenas é identica'
äs da Patagonia. re
FAM. CRASSATELLIDAE.
Crassatella Lyelli Sow.
Sowerby-Darwin 1. e. pag. 372 Pl. I fig. 10.
«Crassatella testa oblonga, planiuscula, | tenuiuscula,
postice angulata, margine postico dorsali declivi,: us
ficie sulcis obtusis, remotis longitudinalibus ornata.
Sowerby
Tenho um exemplar de Santa Cruz da « formação:
patagonica » (2). E” valva direita, incompleta, faltando a'
extremidade posterior. O comprimento do exemplar quando’
intacto deve ter sido de 57 mm., a altura mede. 57 mm.
a metade do diametro 10 mm. RES
O exemplar figurado por Sowerby foi o de concha
juvenil. Os sulcos da superficie externa medem cerca de:
1 mm. Entre dous sulcos concentricos eleva-se uma:
pequena crista, que, porem, não é alta. A borda ventral
é crenulada inteiramente. A charneira na região dá
vertebra mede apenas 5 mm., a concha é solida mas não
grossa. : bas
— 247 —
Crassatella longior sp. n.
Est: Ming rsÃA e, VI fix 37
Crassatella testa oblongo-trigona, elongata planiu-
scula, solida; latere antico alto rotundato, latere postico
elongato acuminato; superficie sulcis obtusis longitudi-
nalibus ornata; margine postico dorsali declivi, margine
ventrali crenulato.
Long. 80 mm., Alt. 48 mm., “> Diam. 12 mm.
Form. santacruzensis (Jegua quemada).
Essa nova especie é maior e mais solida que a pre-
cedente e muito mais alongoda. A extremidade anterior
é arredondada e alta. A vertebra está situada no fim do pri-
meiro terço do comprimento da concha. A borda dorsal
desce da vertebra tanto do lado anterior, como do lado
posterior. A borda ventral é na metade anterior convexa,
na parte posterior recta, subindo para traz, onde com a
borda posterior fórma um angulo agudo. A borda dorsal
encontra-se à pouca distancia da extremidade posterior
com a borda posterior, formando angulo obtuso. A super-
ficie tem sulcos concentricos pouco profundos que dis-
tam um do outro cerca de 1—1,5 mm.
_ A charneira é nessa especie a mesma como na pre-
cedente. Existem dous dentes cardinaes divergentes de
cima para baixo, na valva dextra. A lunula é estreita,
o scutum do mesmo modo, sendo relativamedte mais
comprido na Crass. Lyelli.
FAM. LUCINIDAE.
Lucina promaucana Ph.
Est. V fig. 32.
R. A. Philippi Los Fosiles J. c. p.175 Lam. 24 fig. 6.
«Testa suborbicularis, lenticularis, lineis elevatis con-
centricis, regularibus aspera, aequilatera; margo dorsalis
— 248 —
parum sinuatus, angulum obso:etum cum extremitate
antica, posticus rectilineus, angulum distinctum cum
extremitate postica formans; margines anticus, ventralis
et posticus in arcum circuli uniti; apices parvi, uncinati.
Long. 31, Alt. 29, Crass. 12 mm». Philippi.
Philippi descreveu essa especie de Navidad, Levu
etc. de Chili e entre ella classificou alguns moldes de
Santa Cruz. Tenho varios exemplares da formação santacru-
zense, provenientes de Jegua quemada, Jack Harvey e La
Cueva. O exemplar maior, o de Jack Harvey, tem as se-
guintes dimensões: 31—28—16 mm. Isto combina bem
com as medidas de Philippi, sendo apenas os exempla-
res da Patagonia um pouco mais inflados. Na figura de
Philippi parece a borda dorsal anterior um pouco mais
comprida, que nas conchas de Santa Cruz. Duvido porem
que estas pequenas differenças sejam sufficientes para
formar variedade distincta. Dos dentes cardinaes na
valva direita o anterior é pequeno o outro maior e duplo;
na valva esquerda o caso é o contrario sendo o dente
anterior o maior e partido. Existem dentes lateraes, não
bem conservados, como parece 2 na valva esquerda, 1
na valva opposta.
ÆE’ bem possivel que os moldes de Santa Cruz men-
cionados por Philippi pertençam a essa especie o que
seria interessante pelo apparecimento da especie no Chile
e Santa Cruz e em ambas as formações palaeogenas de
Santa Cruz. E' procurar provas certas deste facto, não
aproveital-o na discussão. Resta a provar que os moldes
a que Philippi se refere pertencem: 1., ä especie proma-
ucana Ph. e 2,4 formação patagonica. Tenho tambem um
molde da formação patagonica de Santa Cruz que
parece ser desta Lucina, mas isto não me parece suffi-
ciente para affirmar que a Lucina promaucana existe
tambem naquella formação. EK’ singular este molde, por ter
a massa enchido o lugar deixado pela concha, da qual
nada persiste, e não o do interior da concha, como com
mais frequencia acontece.
Bee AG) jt.
Fimbria patagonica Ph.
R. A. Philippi Los Fosiles p. 177 Lam. 24 fig. 11.
«Testa oblongo-ovata, aequilatera, utrinque aeque
rotundata, laevigata, modice inflata, tenuis. Long. 76,
Alt. 56, Crass. circa 42 mm. Santa Cruz. » Philippi.
A figura de Philippi refere-se a um exemplar de molde
com grande parte da concha conservada, mostrando que
essa especie provem da formaçäo patagonica.
Fimbria sp.
Tenho parte de uma valva que parece ser a de uma
Corbis, de um dos subgeneros de concha lisa, ou talvez
finamente estriada concentrican.ente. A vertebra é en-
tumescida, e antes e atraz della existe um sulco profundo,
dos quaes um provavelmente corresponde ao limite da
lunula e o outro ao ligamento. Parece que a concha foi
mais alta e redonda que a F. patagonica. Ella é de Santa
Cruz, formação santacruzense (Jeg. quemada).
FAM. CARDIIDAE.
Cardium Philippii sp. n.
Est. VI fig. 40
Cardium multiradiatum Ph. p. p. (Los Fosiles 1. c.
p: 171 Pl. 30 fig, 3).
Cardium testa magna subglobosa, costis radianti-
bus 45 angulatis anticis duplis latioribus, posticis pla-
nulatis distantibus, tuberculigeris; margine denticulato.
Long. 78 mm., Alt. 78 mm., Diam. 229 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada).
Esta grande e bonita especie é bastante afine com
Cardium multiradiatum Sowerby (1. c. pag. 374 Taf. II
fig. 16) com o qual Philippi a reuniu. Os exemplares de
Sowerby eram do Chile; Philippi, porem, obteve tambem
250 —
um pequeno exemplar de Santa Cruz. O numero das cos-
tas é nos exemplares do Chili 52—55, sendo nos argen-
tinos 42—45. A vertebra nos exemplares chilenos é maior
e situada mais para deante inclinando-se para deante, sendo
menor e subcentral na nossa especie.
A disposição das costas nesta nossa especie é a se-
guinte: Na extremidade anterior ha 7—8 dos quaes as
3—4 primeiros são chatas e simples, sendo os 4 seguintes
reunidas em 2 grupos ou costas duplas, contiguas, de modo
que o intervallo desappareceu ou é representado apenas
por um sulco linear. As costas seguintes são altas e lisas,
as da extremidade posterior são mais finas, com interval-
los mais amplos e munidas de uma serie de papillas.
Esta disposição das costas não está em harmonia com a
descripção de Philippi.
Julgo, pois, que estas são duas especies affines, mas
distinctas. Dedicoa nova especie ao celebre nestor dos
naturalistas da America Meridional, cuja obra sobre a
paleontologia chilena é a base para o conhecimento
do assumpto.
Se Philipp tem razão indicando para Santa Cruz a
existencia de C. multiradiatum Sow., alli coexistem am-
bos. Conhecendo, porem, só esta especie por ora acredito
que ha duas especies affines e correspondentes. Constando
pelas indicações de Philippi (p. 116) que o seu exemplar
de C. multiradiatum de Santa Cruz é proveniente da
formação patagonica a relação será esta, que dessas duas
especies affines C. multiradiatum é da form. patagonica
e C. Philippi da form. santacruzense.
As outras especies de Cardium já descriptas dos
terrenos terciarios argentinos são :
Cardium platense d'Orb.
D'Orbigny Voy. Am. mer. Paléontol. pag. 120 PI. 14
fig. 12—14. SUN 7
Especie grande (107 mm.) caracterisada pelo lado
posterior liso, sem costas. O Cardium Bravardi Philippi
— 291 —
(Anales Mus. nac. Chile 1893 pag. 10 Lam. I fig. 11)
representa apenas uma variedade menos alta de La Ba-
jada, Górrientes, condes no d'Orbigny oiteve os seus
core
Bias Sc pas Cardium bonariense Ph.
Philippi Anales Mus. nac. Chile 1893 pag. 11 Lam. I
io 10 La Bajada, Corrientes. Especie caracterisada pelas
frias pie e D. em numero de 35.
Cardium puelchum Sow.
*. _ Sowerby-Darwin 1. c. pag. 373 Pl. II fig. 15. Especie
de forma subglobosa, com carina na extreinidade posterior
e com numerosas estrias. Achada em Santa Cruz.
Cardium pisum Ph.
Philippi Los Fosiles 1. c. pag. 172 Lam. 39 fig. 9.
Especie pequena (10 mm.) com 20 sulcos radiarios, de
Santa Cruz. Talvez uma variedade de C. puelchum Sow.
FAM. VENERIDAE.
date meridionais Sow:
Sowerby-Darwin 1. e. pag. 373 PL IT fig. 13—(Santa
Cruz; Navidad).
ne À. A Los eT c. pag. 115 Lam. 14
«Venus testa oval; pino convexa, concentrice striata,
obiolate striatis, margiue miffaticsiiie O »
Pe LME SOWerDy
“Penho duas valvas desta especie, provenientes da
een Santacruzense, Jegua'quemada. A maior Bellas
medé Long: 27 mm., Alt. 22 mm., ‘; Diam. 8 mm.
“Os diversos line são tanto na forma geral
como na disposição das lamellas concentricas um pouco
— 252 —
differentes. E’ singular que estas lamellas em geral distem
uma da outra 0,5—1.0 mm., mostrando bem desenvolvi-
dos os pequenos e curtos sulcos radiarios interrompidos
pelas lamellas. Ha outras zonas da concha onde as
lamellas concentricas são muito juntas, quasi sem inter-
vallo. Outro caracter notavel dessa especie é a lunula,
bem marcada e prominente, sendo a linha de contorno
da lunula convexa e a continuação da borda anterior.
Não acontece o mesmo nas outras especies de Venus do
terciario argentino, visto como todas têm a lunula exca-
vada, concava.
Ajulgar pela figura de Sowerby esta especie alcança
o tamanho de 37 mm. de comprimento, sendo por con-
seguinte uma das menores, visto como as outras a que
em seguida me refiro alcançam “o comprimento de 70 e
80 mm. | |
Philippi encontrou a Venus meridionalis em Navidad |
e outras localidades chilenas; Sowerby e o193q0 de
Navidad e de Santa Cruz, Patagonia, donde tambem vieram
essas nossas valvas. N'uma pedra contendo numerosas
Turritellas achei um exemplar de Venus meridionalis,
provando que ella existe tambem na formação patagonica.
As lamellas são distantes e dispostas com regularidade.
”
Venus Volkmanni Ph. var. argentina vr. n.
Est. VII fig. 45
R. A. Philippi Los Fosiles 1. c. pag. 115 Lam. XIV
fig ;
Testa suborbicularis, satis convexa, lineis elevatis
concentricis striisque radiantibus confertis sculpta; apices
fere mediani; margo dorsalis posticus fere rectilineus
cum margine postico angulum formans; margo posticus
ventralis et anticus in arcum circuli uniti; lunula late
cordata, medio elevato; area angusta, canalem parum
profundum formans. Long. 48, alt. 44, crass. 27 mm»
Philippi
— 253 —
Recebi da formaçäo patagonica da Patagonia por
Ameghino uma valva esquerda dessa especie, que porem
na fórma differe bastante para formar uma nova varie-
dade. Esta valva mede: Long. 73, alt 71, ‘; diam. 26
mm. Philippi diz, que a vertebra é situada quasi no meio.
Pela figura, porem, acho a vertebra situada em “fo do
comprimento, sendo em “o no nosso exemplar. À borda
dorsal é no nosso exemplar no meio um pouco convexa,
mais curta e com angulo menos marcado no fim. A
borda dorsal, em frente da vertebra, é rectilinea e declive,
sendo na fórma typica mais convexa.
Só por comparação com exemplares typicos sera pos-
sivel decidir se a nossa valva da Patagonia representa
apenas como julgo, uma variedade, ou se ha de ser con-
siderada como especie distincta.
O sino pallial é obtuso triangular, sendo dirigida a
linha central deste sino para cima cortando a borda ao
fim anterior da lunula. Esta tem o comprimento de 17
mm. e a largura (i.e. numa valva só) de 6 mm. sendo
quasi chata ou pouco convexa.
Na fauna actual essa especie é representada nas cos-
tas da Patagonia e do Chile por Venus antiqua King
(discrepans Ph. nec Sow.; costellata Sow.) da qual, a
meu ver, Venus Alvarezi Orb. é synonymo.
Venus striatolamellata sp. n.
Est. VII fig. 44
Venus testa magna ovata subtriangulari compressa,
lamellis elevatis transversis distantibus striisque con-
centricis in interstitiis ornata; apicibus uncinatis ad
quartam longitudinis partem sitis; margine dorsali pos-
tico arcuato, cum extremitate postico angulum formante;
margine ventrali regulariter curvato non crenulato ;
lunula cordato-lanceolata profundata, nymphis immersis.
Long. 79 mm., Alt. 68 mm., Diam. 24 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada).
— 254 —
Tenho 4 conchas grandes e 2 pequenas, todas de valvas
isoladas. A fórma varia um pouco, medindo um, dos
exemplares 79—64—23 mm., sendo por conseguinte mais
alto. A distancia das lamellas importa de 1,5—3 mm.
Os intersticios são occupados por lamellas finas. menos
altas e concentricas. Na area que é estreita e um tanto
excavada faltam as lamellas, sendo representadas, por
linhas pouco elevadas. E’ notavel a lunula por ser pro-
fundamente excavada. A charneira é a de Venus, sem
dentes lateraes. O sino pallial é pequeno correspondendo
na sua extensão mais ou menos ao diametro da impres-
“são do adductor anterior. A borda não é crenulada, mas
lisa. 5. hoe IAE
Essa especie assemelha-se bastante a Venus navida-
dis Ph. que porem na figura deixa ver a lunula, que é
menos profunda. Podia, porem, acontecer que uma com-
paração de typos autenticos demonstraria a identidade,
Entre as especies viventes assemelha-se á . Venus
exalbida Ch., que porem tem as lamellas menos elevadas
e a lunula menos profunda. Entre as especies terciarias
chilenas Venus navidadis Ph, e colchaguensis Ph. pare-
cem bastante affines, mas como acredito differem ambas
pela vertebra e pela lunula. _ Pagu
Alem das especies mencionadas conhecemos, pela
literatura mais as seguintes especies da a formação terciaria
patagonica :
| Venus Muensteri Orb.
Pn: Voy. Am. mer. Paléont. pag. 121 PL a
. 1O—11.
R. A. Philippi Los Fosilos pag. 121 Lam. 14 fig. I.
Entre Rios (La Bajada); Patagonia; Chile (Levu). © |
Venus patagonica Ph.
R. A. Philippi Los Fosiles pag. 115 Lam. 17. fg. 3
Com lamellas fortes, distantes. Santa Cruz.
nor
Venus Darwini Ph.
R. A. Philippi Los Fosiles pag. 116 Lam. 17 fig. 2.
Santa Cruz. Pertence ao grupo das especies V. meridiona-
lis, Volkmanni, crassula, Muensteri etc. representada na
fauna actual por Venus antiqua, Dombeyi etc.
Cytherea splendida sp. n.
Est MM fie As
Cytherea testa magna subinflata, transversim sul-
cata; apicibus parum prominentibus, ad tertiam longi-
tudinis partem sitis; margine dorsali antico recto, pos-
tico parum arcuato; extremitate antica breviore rotundata,
postica subrostrata, lunula linea parum impressa cir-
cumscripta.
Long. 102 mm., Alt. 87 mm. Diam. ('/:) 29 mm.
Form. santacruzensis (Jegua quemada e La Cueva).
Que eu saiba é essa a primeira especie do genero
Cytherea descripta do terreno terciario patagonico. EK’
parecida com a Cyth. tehuelcha Orb. da actual fauna
patagonica, porem menos alta, menos triangular. À su-
perficie tem sulcos concentricos mais finos em cima, mais
distantes e irregulares para o lado ventral. O ponto ter-
minal ou angulo do sino pallial é situado na mesma
distancia da impressão do adductor posterior e do addu-
ctor anterior. A borda ventral é lisa, a lunula pouco
distingue-se do resto da superficie sendo circumscripta
por uma linha pouco marcada delgada, e percorido no
meio por um sulco chato.
A lunula é estreita medindo na valva por nós me-
dida 22: 6 mm.
A charneira é grossa. Dos tres dentes cardinaes 0
posterior e o anterior são delgados lamellares, o do meio
é mais forte. Este ultimo está em cima em connexão com
o dente do meio, tomando a fórma de V. O dente lateral
.da valva esquerda é lamellar, compresso, forte, medindo
— 256 —
8 mm. de comprimento, correndo parallelo ao contorno
da lunula.
Dosinia meridionalis sp. n.
Est. VI fig a
cf. Artemis ponderosa Reeve. Conch. Icon. sp. 4.
cf. À. A. Philippi Los Fosiles pag. 107 Lam. 16 fig. 5.
| Dosinia testa orbiculari, compressiuscula, paululum
latiore quam alta, concentrice sulcata, sulcis medio fere
obsoletis, area ligamentali simplice, lunula oblongo-
cordata, brevi, concavo-impressa.
Long. 83, Alt. 74, Diam. ('/.) 21 Mm.
Form. santacruzensis (Jegua quemada).
Varios exemplares. Os exemplares da Patagonia pare-
cem um pouco differentes dos outros do mar pacifico
denominados ponderosa, especialmente quanto 4 lunula.
A borda correspondente á lunula forma nas figuras de:
Reeve e de Philippi um angulo recto, nas nossas valvas
porem angulo obtuso. Quanto á superficie externa appa-
rece ella um tanto variavel, conforme aos sulcos mais
ou menos obsoletos no meio, que porem nunca faltam.
Neste sentido esta nossa especie assemelha-se á Dos.
concentrica, que porem tem a lunula menor, os sulcos
mais profundos, e o dente lateral mais approximado ao
dente cardinal anterior. Na nossa especie este dente
lateral anterior é remoto daquelle dente, um pouco mais
perto ao angulo que a lunula forma com a borda anterior.
Sendo os exemplares figurados por Reeve e Philippi
muito maiores (124 mm.), é bem possivel que a lunula
conforme ao augmento da valva modifica-se um pouco.
Dosinia ? laeviuscula Ph.
Artemis? laeviuscula Philippi Los Fosiles pag. 109
Lam. 19 fig: 1.
Especie duvidosa (moldes) de Santa Cruz.
— 257 —
Amathusia angulata Ph.
R. A. Philippi Los Fosiles |. e. pag. 130 Lam. 25
it e Lam. 29 figs E ¥
«Testa magna, satis solida ventricosa subcordata,
irregulariter transversim striata valde inaequilatera ;
apices ad tertiam longitudinis partem siti ; margo dor-
salis anticus rectilineus, posticus primum fere rectilineus
et horizontalis, deinde oblique declivis, cum margine
ventrali rostrum formans.
Long. 140, Alt. 111. Crass. 85—94 mm. Navidad. »
Philippi
Tenho: da formação santacruzense (Jegua quemada)
duas valvas esquerdas, ambas quebradas. Infelizmente
nenhuma dellas faz vêr a parte da charneira e do liga-
mento em estado intacto. A parte central da charneira
tem um dente forte e alto, em frente delle uma fossa
maior e mais alta e atraz delle outra menor, porem mais
profunda. Se não existisse indicação certa de Philippi
eu teria antes julgado que esta concha tinha ligamento
interno, e nada de dentes lateraes. Como, porem, estas
partes caracteristicas nos dous exemplares da Patagonia
estão em pedaços e incompletas, faço bem em repetir aqui
a diagnose generica de Prilip pi, que é a seguinte:
Gen. Amathusia Ph. 1887
«Concha bivalva equivalva, enteramente cerrada.
Ligamento esterior. Dos dicntes cardinales en cada valva,
1 un diente lateral en la parte posterior, detras del
ligamento. Dos impresiones musculares, impresion paliar
sin seno, pero que forma un anguio recto en la estre-
midad posterior. Superficie lisa, marcada solo por las
estrias do crecimiento. Borde liso». Philippi considera
esse genero como membro da familia Veneridae.
Revista do Museu Paulista 17
— 258 —
Fig. 2. Amathusia angulata Ph.
= =
(217 do tamanho natural)
Dos dous exemplares que tenho de Santa Cruz mede
um 225 co outro 210 mm., sendo a forma um pouco dif-
ferente. O ultimo, que estä melhor conservado tem as se-
guintes medidas: 210—168—60 mm.Comparando isto com
as medidas indicadas por Philippi a proporção é a mesma,
sendo em porcentos do comprimento a altura 80, o dia-
metro completo 60. Se bem que os meus exemplares
sejão maiores do que os de Philippi não tenho du vida
que a especie seja a mesma. A lunula do exemplar
de 210 mm. comprimento mede 82: 20 mm. A lunula
é bem visivel porem sem linha impressa de limite, sendo
na circumferencia da lunula a superficie da concha mar-
cada por um angulo obtuso. A linha pallial desce da
circumferencia interior da impressão do adductor poste-
rior em rumo vertical. Quanto á charneira observo ainda
que acima da fossa profunda que mencionei existe um
pequeno tuberculo qne, como Philippi o disse, representa
o vestigio de um segundo dente cardinal da valva es-
querda.
— 259 —
FAM. TELLINIDAE.
Tellina perplana sp. n.
Est. VI fig. 39
Tellina testa oblonga subtrigona, inaequivalve, laeve,
inaequilaterale, tenue, valvula sinistra complanata, val-
vula dextra profundiore; latere antico breviusculo rotun-
dato, alto, sulco ineonspicuo radiato; latere postico pro-
ducto, subattenuato, sulco lato radiate; margine dorsali
declive; margine ventrale convexo, postice sursum ac-
clive; dentibus lateralibus obsoletis.
Long. 72 mm., Alt. 50 mm. '> Diam. 8 mm.
Form. santacruzensis (La Cueva). .
A valva esquerda, por ser muito chata faz crer
que a outra foi mais profunda. E” singular a forma desta
especie, por ser a extremidade posterior mais comprida
que a anterior. À superficie é mais ou menos lisa, porem
‘com as linhas de crescimento bem desenvolvidas. Na
extremidade anterior corre da vertebra um sulco largo
e chato pouco visivel, na extremidade posterior existe
outro sulco mais largo e mais fundo, correndo até ao
angulo da extremidade posterior. E” fundo o sulco que
marca a inserção do ligamento. Em baixo do processo
destinado para o ligamento existe um processo alongado
que parece ser o dente lateral posterior. Em Laixo da
vertebra existem tres dentes ou processos dentiformes e
divergentes para baixo dos quaes 0 anterior parece cor-
responder a um dente lateral approximado aos cardinaes.
Na valva dextra existem dous dentes só, sendo o posterior
bifido.
Essa especie de Tellina é singular pelo grande des-
envolvimento da extremidade posterior, assemelhando-se
neste sentido á Tellina acuminata Reeve.
Do terreno terciario da Republica Argentina conhe-
cemos mais uma Tellina, sendo
— 260 —
Tellina platensis Ph.
R. A. Philippi Anales Mus. nac. pag. 9 Lam. I fig. 6
de Corrientes.
E' especie delgada com as duas extremidades quasi
iguaes e redondas. Não a tenho, encontrei porem entre as
conchas da Form. Santacruzense mais duas especies pe-
quenas que em seguida descrevo.
Tellina jeguaensis sp. r.
Striata Turton var?
Pst OVERS iow
Tellina testa tenue subpyriforme, laevigata; latere
antico rotundato inflato, latere postico compresso acumi-
nato prope marginem radiatim angulato, margine car-
dinale subcrasso.
Long. 25 mm., Alt. 16 mm., Diam. 4 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada).
A concha é estriada, sendo porem as estrias concen-
tricas pouco profundas; a impressão que a concha faz, é
a de ser lisa. A vertebra é pequena, está situada a */ do
comprimento. A metade anterior é inflada, a extremidade
posterior compressa. Do angulo da extremidade posterior
corre uma costa para a vertebra e adiante della existe
uma depressão chata. Outra costa segue atraz da men-
cionada. Quanto ao lado interno não acho differença alguma
com Tellina lineata. O sino pallial é grande, não alcan-
cando porem a impressão do adductor anterior.
Parece-me bem provavel que essa especie seja apenas
uma variedade menor de Tellina striata Turton. que
porem tem a superficie estriada. Tellina complanata Ph.
de Navidad é parecida, mas tem a vertebra situada mais
adeante.
— 261
Tellina patagonica sp. n.
Est WM fies 85
Tellina testa ovata subtenue, inflata, minute concer-
trice striata; latere postico breviore, angulato, termino
subtruncato, margine dorsale subdeclive; latere antico
longiore, subobliquo, margine dorsale subdeclive, margine
ventrale antico convexo, dentibus lateralibus elongatis.
Long. 18 mm., Alt. 13 mm., Diam. 3 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada).
Essa pequena especie assemelha-se na forma a Tel-
lina aurora, della differindo porem tante pela charneira
como pela superficie externa que nao é lisa, mas fina-
mente estriada. A extremidade posterior não é compressa
como na especie precedente, mas de mesmo modo inflada
como o resto da concha e munida de duas costas radia-
rias obtusas, resultando ficar a concha adulta na extre-
midade posterior biangulada.
Os dentes lateraes são compridos. E’ notavel a grande
distancia entre o sino pallial e o musculo adductor
anterior, distancia esta que corresponde ao comprimento
da impressão do adductor anterior.
Psammobia patagonica Ph.
R. A. Philippi Los Fosiles 1. c. p. 137 Lam. 26 fig.
17 (bis).
Especie de Santa Cruz qne não conheço e que pro-
vavelmente é da formação patagonica, representada por
moldes na collecção de Philippi.
FAM. MACTRIDAE.
A familia das Mactridas, tão ricamente representada
nos terrenos terciarios chilenos, quasi não tem represen-
tantes no terciario patagonico. Encontrei apenas algumas
conchas pequenas extremamente frageis e de certo de
— 262 — y
exemplares juvenis entre as conchas de Santa Cruz, que
provavelmente pertencem a especie seguinte.
Mactra Darwini Sow.
Sowerby-Darwin 1. c. pag. 372 Taf. IT fig. 9.
«Mactra testa ovali, subaequilaterali subventricosa,
tenuiuscula, laevi, concentrice striata, antice rotundata,
postice obsoletissime subquadrata.» Sowerby
Infelizmente Sowerby não poude examinar a charneira,
sendo duvidoso por essa razão que a concha por elle repre-
sentada pertence ao genero Mactra. A julgar pelas indi-
cações de Sowerby é provavel que essa especie pertença
á formação patagonica.
Mactra indistincta sp. n.
Mactra testa ovato-trigona, satis compressa, inaequi-
laterale tenue, laeve, concentrice striata; extremitate an-
teriore longiore, rotundata; extremitate posteriore sub-
truncata, carina obtusa parum distincta ab apice ad
angulum inferiorem decurrente.
Long. 10, Alt. 7,5, Diam. (>) 3 mm.
Form. santacruzense (Jegua quemada).
Fig. 3. Mactra indistineta Th.
(411 do tamanho natural)
A concha é lisa, tendo porem algumas das linhas:
de crescimento engrossadas. A extremidade anterior é
mais comprida e arredondada, a extremidade posterior é
mais curta, truncada e munida de uma costa decorrente
da vertebra até ao angulo pouco marcado, formado pelas
— 263 —
bordas posterior e ventral. Essa costa é pouco pronun-
ciada, perdendo-se quasi por baixo. A charneira é pouco
arqueada formando quasi uma linha recta. Neste sentido
differe das especies actuaes desta região a excepção da
M. patagonica. Será pois conveniente examinar mais tarde
com material mais completo a relação entre essa especie
e a M. patagonica. E' pequeno o sino pallial.
E’ bem possivel que os exemplares que tenho sejam
novos. O maior, que é incompleto, calculo que quando
completo media 15 mm.
Tenho mais uma valva de 8 mm. de comprimento
que distingue-se por ser mais triangular, mais alta e
inflada. Parece-me porem apenas ser variedade da especie
aqui descripta.
Mactra rugata Sow.
Sowerby-Darwin 1. c. pag. 372 Taf. II fig. 8.
Rk. A. Philippi Los Fosilesl.c. pag. 143 Lam. 32 fig. 6.
Sowerby obteve essa especie grande (91 mm.) de
Santa Cruz, Philippi de Levu no Chile. Nenhum dos
dous viu a charneira, e estou convencido que a concha
não pertence ao genero Mactra.
Mactra bonariensis Ph.
R. A. Philippi Anales Mus. nac. 1. c. pag. 8 Lam. I
fig. 5.
Como Philippi diz que a extremidade posterior é
menos alta que a anterior, não poderá ser a mesma espe-
cie da qual descrevi alguns exemplares. Essa especie é
de Entre Rios.
FAM. SOLENIDAE.
Solen elytron Ph.
R. A. Fhilippi Los Fosiles |. c. p. 162 Lam. 34 fig.
10—11.
— 264 —
«Testa linearis recta, utrinque rotundata, postico
vix angustior, apex extremitati anticac proximus; sulcus
obliquus ab apice ad marginem ventralem descendens ;
margo anticus arcuatus. Long. 36, Alt. 7 mm. et multo
maior.» Philippi
Os exemplares de Philippi são de Navidad, Algarrobo
etc de Chile, tanto da formação cretacea como da terciaria.
O meu exemplar, uma valva esquerda, é da formação
Santacruzense (Jegua quemada). Long. 72, Alt. 16, Diam.
(2) 6 mm. E’ pois esse exemplar apenas um pouco mais
alto do que o de Philippi.
Essa especie é bem parecida com Solen vagina L., tendo
porem a extremidade anterior mais procminente, de borda
arqueada e com o sulco decorrente da vertebra mais afas-
tado da borda anterior. Alem disto a extremidade pos-
terior é um pouco atteuuada, menos alta que a parte
anterior. |
E' esta a primeira especie de Solen descoberta nos
terrenos terciarios da Patagonia, e, pois, identica a espe-
cie chilena das camadas cretaceas e terciarias.
FAM. GLYCIMERIDAE.
Glycimeris quemadensis sp. n.
Glycimeris testa oblonga, solida, leviter concentrice
rugata, inaequilaterale, antice parum postice satis hiante;
latere antico rotundato, latere postico angustiusculo,
elongato, truncato ; apicibus ad mediam longitudinis
partem sitis.
Long. 111, Alt. 70, Diam. (';) 25 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada).
Na sua férma geral essa especie assemelha-se 4 Glyc.
Faujasii Men. do terciario europeo, distinguindo-se porem
pela extremidade anterior mais alta e mais redonda.
Vista de cima a concha é pouco inchada, correspondendo
mais ou menos á Glyc. Menardi, com a differença, porem»
Fig. 4. Glycimeris quemadensis Ih.
(213 do tamanho natural) Ê
que a vertebra está n'essa nossa especie situada quasi no
meio do comprimento. Tenho apenas uma valva esquerda
incompleta, sem charneira. A concha é pouco inflada e
no meio um pouco aplanada.
E” essa a primeira e unica Glycimeris encontrada
até hoje no terciario patagonico.
FAM. PHOLADIDAE.
Pholas paucispina sp. n.
Pholas testa tenue, antice aperta, elongata, antice
angusta acuminata, spinis imbricatis costata, postice
rotundata; margine dorsale antice reflexo.
Long. 30, Alt. 11, Diam. (') 3 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada).
Tenho varias conchas todas incompletas dessa especie
fragil, que pertence áquelle grupo de especies de Pholas
com processo umbonal simples que Fischer denominou
Holopholas, nada constando-me a respeito das conchas
accessorias. À concha é lisa, munida de estrias distantes
eoncentricas e munida só na extremidade anterior de
espinhos, dispostos em series que sahem da vertebra. A
extremidade anterior termina em angulo agudo. A julgar
— 266 —
por um dos fragmentos essa especie attinge o compri-
mento de 50 mm. ou mais. Ella parece-se um pouco a
Pholas candida, mas a extremidade anterior da concha
é mais pontaguda e mais hiante. Essa nossa especie talvez
pertença a secção Barnea.
Fig. 5. Pholas paucispina Th.
(11 do tamanho natural)
De outras especies de Pholadidae do terciario pata-
gonico conhecemos apenas
Martesia patagonica Ph.
Pholas patagonica Philippi. Los Fosiles 1. c. pag. 164
Lam. 42 fig. 8.
Tambem de Santa Cruz. Molde transformado em
Chalcedonia, proveniente provavelmente da formação pa-
tagonica.
HE. Seaphopoda e Brachispoda.
Dentalium octocostatum sp. n.
Wst. LV Mes 116
Dentalium testa teretre modice arcuata, costis lon-
gitudinalibus angustis 8 vel 9 distantibus laqueata, in-
terstiis laevibus latis planatis; apice laeve.
Long. 31, Crass. 3 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada).
Essa especie é parecida ao Dent. novemcostatum L.
da Europa, que, porem, é concha mais solida, mais curta
Op
e grossa. Na especie europea a distancia do lugar com
diametro de 1 mm. até ao com diametro de 2,5 mm.
importa em 15 mm. contra 26 mm. no D. octocostatum. Esta
ultima tem a concha mais delgada e de parede mais
tenue. O apex da concha é liso e sem incisão. Na dis-
tancia de 2—3 mm. delle já estão principiando as costas
no numero de 8. Essas costas são parecidas áquellas de
D. novemcostatum porem um pouco mais estreitas, e os
intersticios bem largos não são estriados, mas lisos. Tenho,
porém, um exemplar onde nos intersticios do lado con-
cavo existem outras costas mais finas, isto é, uma no
meio do interstício. E’ essa pois uma das especie do
grupo formado por Dent. octogonum, novemcostatum etc.
Alem desta especie conhecemos dos terrenos tercia-
rios da Patagonia mais ©
Dentalium sulcosum Sow.
Sowerby-Darivin |. c. p. 386 Pl. If fig. 2.
R. A. Philippi Los Fosiles | c. p. 100 Pl. XII fig. 10
Navidad em Chile; Santa Cruz.
Essa especie de 130 mm. de comprimento e 19 de
grossura tem 14 costas. Os pedaços de Santa Cruz só
têm 3 mm., conforme diz Philippi. Os pedaços maiores
que tenho da especie precedente não excedem a 4 mm-
quanto ao diametro.
Magellania patagonica Sow.
Terebratula patagonica Somwerby-Darivin |. c. p. 375
Taf. II fig. 26—27.
Terebratula patagonica R. A. Philippi Los Fosiles
p. 210 Pl. 49 fig. 2 (copia).
cTerebratula testa ovali, laevi, valvis fere aequaliter
convexis, dorsali producta, incurva, formine magno, ad
marginem valvarum fere parallelo; deltidiis mediocribus;
area cardinali concava, ‘, longitudinis testae; margine
antico integro.
— 268 —
S. José e S. Julian, Patagonia.» Sowerby
Tenho numerosos exemplares, todos da formação
patagonica. E’ notavel a variabilidade da forma, existindo
ao lado de exemplares mais curtos, outros mais estreitos
e compridos. Assim dou a medida de 3 exemplares, indi-
cando a primeira cifra o comprimento, a segunda a lar-
gura, isto é: 4934, 4931, 4430.
A abertura apical é grande, mas não tanto como
na Terebratula macrostoma.
As valvas são ambas ventrudas, lisas, raras vezes na
extremidade um pouco sinuadas e truncadas.
Entre as especies recentes a Ter. Fontainei Orb. pa-
rece-me bastante semelhante, tendo porem o orifício menor.
O septo mediano da valva dorsal é simples, isto é, sem
braços lateraes em fórma de cruz.
Magellania globosa Lam.
« Terebratula testa ovato-globosa, olivaceo-cornea,
rostro producto, subacute incurvo subtus utrinque exca-
vato-depresso, foramine parvo, interdum minuto; deltidio
partito, radiatim sulcato, transversim concentrice rugato;
valvis obsolete malleatis, obscurissime tripartitim flexuo-
sis, lineis increménti plerumque rudibus; apophyse am-
pliter producta et reflexa. » Reeve
Comparo a essa especie recente uma Terebratula da
formação patagonica, do Golfo de S. Jorge, que se dis-
tingue pela valva ventral indistinctamente carinada
no meio, pelo rostro aplanado no lado do deltidio, que
é munido de sulcos radiaes e ainda de algumas linhas ele-
vadas transversas. O orifício é bem pequeno. O exemplar
maior mede comprimento 42, largura 37, diam. 21 mm;
diam. do orificio apical 1,7 mm.
Bouchardia Zitteli sp. n.
Bouchardia testa ovata, depressa, laevigata, rostro
curto trigono-acuminato, foramine parvo, terminale, del-
— 269 —
tidio obsoleti, area planiuscula medio excavato-sulcata ;
valva dorsali convexiore, medio obtuso carinata; cardine
valde callosa; septo mediano valvae dorsalis calloso,
simplice.
Long. 19, Lat. 15, Diam. 8 'mm..
Form. patagonica.
A forma é mais ou menos oval, ás vezes com os
lados quasi rectos, formando angulo com a area. A valva
dorsal é menos convexa do que -a outra, que no meio
tem uma carina obtusa. O rostro é curto, mas largo,
aplanado no lado superior, onde é excavado no meio, isto
é, na região onde devia existir o deltidio. O orifício é
pequeno e terminal. As relações da charneira verificam-se
pela figura junta.
Fig. 6. Bouchardia Zitteli Ih.
@r1 do tamanho natural)
Observo que o apparelho apophysario é extremamente
reduzido, consistindo apenas n'um septo mediano da valva
dorsal, sendo pouco marcadas duas eminencias lateraes,
que talvez correspondam aos braços da figura de ancora
que Xeeve indicou. Observo, porem, que a figura que
Reeve (Terebratula Pl. VIII fig. 33,e) deu do lado interior
da valva dorsal de Bouchardia tulipa não corresponde
ás valvas dos exemplares dessa especie encontrada na
costa de S. Paulo, nem a figura de Fischer (Manuel de
Conchyliologie p. 1326). E”, pois, de presumir que a espe-
cie estudada pelo erudito Reeve seja differente da nossa.
“Tenho numerosos exemplares da formação patagonica.
Näo conhecendo exemplares typicos de Bouchardia
fibula Rve. e Cumingi Davids. da Australia e da Nova
Zealandia, não posso dizer se pertencem, como acredito,
ao genero Bouchardia, ou, como P. Fischer acredita, ao
genero Magasella. €
Parece- -me, que esse novo representante de um genero,
desconhecido até agora em estado fossil, é uma das
descobertas mais interessantes, e tenho muito prazer em
dedicar essa especie nova ao eminente naturalista de
Muenchen, Dr. Carlos Zittel, cuja obra classica sobre pa-
leontologia é de um valor inestimavel para todos os es-
tudos sobre organismos extinctos.
Rhynchonella plicigera sp. n.
Rhynchonella testa trigono-ovata, gibbosa, radiatim
costata, rostro attenuato-incurvo, foramine minuto; del-
tidio parviusculo late partito; valva dorsali globoso-inflata,
valva ventrali planiuscula, medio flexuoso-canaliculata.
Long. 19, Lat. 18, Diam 11 mm.
Form. patagonica (Golfo de S. Jorge).
Fig, 7. Rhynehonella plicigera Th.
@ri do tamanho natural)
Essa Rhynchonella é parecida com uma especie
encontrada ainda hoje nessa região, a Rhynch. nigricans
Sow. distinguindo-se pela fórma menos transversa, pelo
rostro mais estreito e acuminado e pelo orifício menor.
Esse orifício é estreito, mais comprido do que largo, e
— 271 —
pequeno, confinado nos lados pelos braços finos do del-
tidio que acima não se reunem. As valvas são mais
ou menos tripartidas. Na valva dorsal ha no meio 5—6
costas e de cada lado 7—8, sendo a valva convexa e
ventruda. Na valva dorsal, que é mais ou menos chata
ha uma depressão larga, devido 4 qual a borda e dentada
e sinuada no meio.
Tenho varios exemplares de S. Jorge.
IV. Gastropoda.
BAMBU LLAIDA E.
Bulla patagonica sp. n.
Bulla testa subcylindracea apice profunde umbilicata,
anfractibus occultis ; extremitate superiore angustiore,
extremitate inferiore lineis impressis transversim sulcata;
apertura superius angusta, a medio inde dilatata.
Long. 11, Diam. 5,6 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada).
Fig. S. Bulla patagonica Ih.
(211 do tamanho natural)
Essa pequena Bulla, de fórma subcylindrica, porem
não muito comprida, assemelha-se pela sua fórma e pela
abertura estreita em cima e bastante larga em baixo com
a Bulla Remondi Ph. do terciario chileno, distinguindo-se,
porem, pela columella lisa e sem dente, e pelas estrias
ee
transversaes da extremidade inferior. Estas estrias come-
cam mais ou menos na metade da concha e alli estão
mais distantes do que perto da extremidade : contam-se
10—12 estrias. Na especie chilena mencionada as linhas
transversaes estendem-se por toda a superficie da valva.
FAM. TRQCEHEDAES
Gibbula Dalli sp. n.
EstssHil- fest ie Este IN IE
Gibbula testa depresso-conica, late umbilicata; an-
fractibus plano-convexis spiraliter striatis liriquis aequi-
distantibus cinctis, costis obliquis subobsoletis prope su-
turam ornatis ; anfractu ultimo obtuse carinato, basi
striis spiralibus exarata; apertura rhomboidea, labio in-
terno incrassato.
Diam. 63, Alt. 35 mm.
Form Santacruzensis (Jack Harvey).
Tenho varios exemplares dessa grande e bonita especie;
ella é parecida 4 Gibbula collaris Sow., mas munida de
muitas linhas espiraes, finas e numerosas no lado supe-
rior, largas na base, onde devido ás estrias de incremento
apparecem nodulosas. Perto da sutura existem pequenos
tuberculos nas voltas iniciaes, que nas ultimas tres voltas
formam costas longitudinaes um pouco obliquas, exten-
dendo-se para baixo sobre a metade da volta, não alcan-
cando, por conseguinte, a sutura inferior. O numero destas
costas é de 22—27 na penultima volta, sendo as costas
obsoletas na ultima volta.
E”, porem, notavel a differença que neste sentido
existe entre os diversos exemplares, tendo alguns delles
as costas bem e outros as mesmas pouco desenvolvidas.
E' largo o umbigo tendo como limite interior uma
plica cortante da qual sahem para fóra linhas obliquas,
formando uma zona de 4 mm. de largura. ACima desta
— 273 —
plica, no interior do umbigo segue outra costa espiral
mais larga e entre ellas ha uma zona lisa excavada. As
duas pligas extendem-se até ao labio interno que é um
tanto incrassado. O numero das linhas espiraes da base
é de 11—13.
Gibbula collaris Sow.
Trochus collaris Sowerby-Darivin 1. c. pag. 378 Taf.
HI fig. 44 e 45 Guy.)
Trochus laevis Sowerby-Darwin |. c. pag. 379 (adulto)
Taf. III fig. 46 e 47.
Trochus laevis Philippi Los Fosiles 1. c. p. 95 Lam.
XII fig. 5.
«Testa conica, laevi, anfractibus subaequalibus pos-
tice turgidiusculis, antice tenuissime striatis, junioribus
serie tuberculorum minutorum ad suturam ornatis, ultimo
subconcavo spiraliter tenuiter striato; apertura rhom-
boidea, angulo externo acuto; umbilico mediocri, intus
laevissimo; labio interno subincrassato. Alt. 38, Diam.
50 mm. » Philippi
Como Philippi bem o demonstrou o Trochus collaris
de Sowerby é o estado juvenil de seu Trochus laevis.
Darwin encontrou essa especie em Santa Cruz e Navidad,
Philippi obteve-a de Levu e Navidad. Não a temos em
nossa collecção.
Gibbula fracta sp. n.
Est. II fig. 2
Gibbula testa tenui depresso-conica, late umbilicata;
anfractibus plano-convexis superne spiraliter striatis et
tuberculis costiformibus ornatis; inferne liris duabus latis
elevatis cinctis; anfractu ultimo obtuse carinato : basi
striis 7 nodulosis exarata.
Diam. 27 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada).
Revista do Museu Paulista 18
— 274 —
4
Essa especie é representada apenas por fragmentos
de um exemplar, mas a esculptura é bem caracteristica.
Na fórma é parecida com a Gibbula Dalli, e como aquella
possue na metade superior da volta em baixo da sutura
costas que porem aqui são maiores, como parece no
numero de 18-20 na volta. Na metade inferior ou ante-
rior da volta existem duas largas e elevadas costas espi-
raes, separadas por sulco largo. Só na ultima parte do
circuito as costas longitudinaes extendem-se sobre a costa
espiral superior. Na base, que é plana, ha 7 linhas espiraes.
Tenho de La Cueva outra especie de Gibbula que
talvez represente variedade da G. fracta. A parte superior
das voltas entre a sutura e as costas é excavada e ha
outra depressão mais larga perto da peripheria entre ella
e o fim posterior das costas, faltando, porém, a segunda
ou superior costa espiral. Designo essa fórma, que me
foi indicada como proveniente da formação santacruzense,
com varietas cuevensis, ficando a decidir só mais tarde
com mais materiaes se assim está bem feito, ou se será
necessario considerar essa forma como especie distincta,
Gibbula cuevensis.
E’ extremamente rica a representação das Trochidas
nessa formação de Santa Cruz. Tenhoainda varias espe-
cies novas de Gibbula, Calliostoma, Leptothyra, Marga-
rita etc., deixando por ora de determinal-as, visto como
de quasi todas estas especies o meu actual material é
insufficiente, tendo esperança de obter mais ainda neste
anno. |
Parece que esse grupo de especies de Gibbula, cara-
cterisadas pelas costas longitudinaes e estrias espiraes
combinadas, não está representado nos terrenos terciarios
do Chile.
F A Mc PY RA MTDEL ADE E.
Eulima subventricosa sp. n.
Eulima testa solida fusiformi laevi, subventricosa,
recta, acuminata, anfractibus planiusculis, ultimo rotun-
— 275 —
dato; apertura ovata angusta, vix quartam altitudinis
partem aequante; labro rectiusculo vix incrassato.
Long. 19, Diam. 5 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada).
Fig. 9. Eulima subventricosa Th.
@r1 do tamanho natural)
O exemplar de que dei a descripção tem 15 voltas
que são quasi chatas, produzindo apenas a sutura uma
depressão pouco sensivel. A superficie é lisa, ainda lus-
trosa. A espira é recta. A abertura mede 5 mm. no
comprimento, 2 na largura. Não ha umbigo, nem varices.
Não se conhece até agora outra especie desse genero
do terciario argentino. Philippi descreveu do terciario
chileno uma especie menor, E. antarctica, que julga iden-
tica a E. subalata Don. do Mar Mediterraneo.
Odostomia suturalis sp. n.
Odostomia testa solidula pyramidali, turrita laevi ;
anfractibus 9 planulatis ad suturam angulatis, ultimo
rotundato ; apertura angusta oblonga, antice producta,
labio interno reflexo uniplicato.
Long. 19, Diam. 7 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada).
A superficie é só na ultima volta bem conservada
e de apparencia lustrosa. As voltas são quasi planas, perto
da sutura anguladas, A abertura é na extremidade an-
Fig. 10. Odostomia suturalis Th. ;
(41 do tamanho natural)
terior produzida e reflexa. O labio externo é pouco ar-
queado e não apparece encrassado. O labio interno é
reflexo e no meio munido de uma plica. No unico! exem-
plar a parte embryonal, falta, mas parece que foi hete-.
rostropho. | |
Turbonilla cuevensis sp. n.
Turb. testa elongata, subcylindrica, longitudinaliter
costata, spiraliter sulcata; anfractibus complanatis sub-
scalaribus; sutura profunda excavata; apertura subrhom-
boidali; labro haud tenui, subreflexo, columella recta.
“Long. 5,0, Diam. 1,5, Diam. aperturae 1,1 mm.
Form. Santacruzensis (La Cueva).
Fig. 11. Turbonilla euevensis Th.
(2 do tamanho natural)
— 271 —
Tenho apenas um exemplar dessa pequena especie,
que conta 7 voltas, faltando porem o apex. A columella
é simples, sem dentes. Na ultima volta existem 15 costas
longitudinaes, que não se extendem sobre a base, que é
munida de estrias espiraes. A forma das voltas, formando
como degráos ea sutura profunda distinguem essa espe-
cie da T. turris Orb., que tem a abertura relativamente
menor.
FAM. SCALARIIDAE.
Scalaria rugulosa Sow.
Sorwerby-Darivin 1. c. pag. 378 Taf. HI fig. 42--43.
RAL Philipp Los Fosiles L'c.:p..171 Lam..9 fig. 15.
«Scalaria testa acuminato-pyramidali crassiuscula, ©
omnino rugulosa; varicibus numerosis, crassis, rotunda-
tis; interstiis spiraliter obsolete sulcatis. (Ultimo anfra-
ctu infra medium spiraliter unicostato).» Sowerby
Sowerby obteve essa especie de S. Julian, Patagonia,
da formação patagonica, Philippi de Navidad, Matanzas,
Levu no Chile. Eu a tenho de Santa Cruz, de La Cueva
e Jegua quemada, ambas da formação santacruzense. O
numero dos circuitos de exemplares completos deve ser
13 e o comprimento de 37 mm. com o diametro de 18
mm. O numero das costas varia entre 12—14 e os inter-
sticios são, ás vezes, munidos de sulcos bem marcados,
ás vezes quasi lisos por serem obsoletos os sulcos.
Tenho essa especie tambem da formação patagonica.
O exemplar maior que é incompleto tem 69 mm de com-
primento e deve ter quando completo 16 voltas e 82
mm. de comprimento.
“Tenho tambem um pedaço dessa especie da formação
tehuelche de Santa Rosa entre Santa Cruz e S. Julian,
e no qual as estrias espiraes faltam quasi completamente,
de modo que pode ser designado de var. obsoleta. Parece,
pois, que essa especie teve o seu desenvolvimento maior
— 278 —
na formação patagonica, diminuindo nas formações se-
guintes os exemplares em tamanho e ficando menos
marcados os sulcos espiraes. Mas sempre fica bem des-
envolvida a costa espiral na base da ultima volta, que
caracterisa o subgenero Opalia. Ao mesmo pertence tam-
bem a unica Scalaria do Estreito de Magalhães Sc. ma-
gellanica Ph. Creio que Sc. lamellosa Lam. e outras
especies do subgenero Clathrus deviam ser reunidas a
Opalia, subgenero cosmopolita, que actualmente parece
disposto a ganhar uma distribuição essencialmente bipolar.
af
FAM. CALYPTRAEIDAE.
Crepidula gregaria Sow.
Sowerby-Darwin |. c. pag. 376 Taf. III fig. 34.
Philippi, R. A. Los Fosiles 1. c. pag. 88 Lam. XII
fig. le
Crepidula uncinata Philippi 1. c. pag. 88 Lam. XI
fig. 6.
Cr. testa oblonga intorta crassa, subrugosa, septo
elongato laevi, concavo; vertice marginale, in junioribus
terminale.
Long. 43 mm., latit. 26 mm., altit. 17 mm.
Form. Santacruzensis (J. quemada et La Cueva).
Sowerby chamou essa especie gregaria porque a
encontrou reunida em grupos. Eu, como Philippi, en-
contrei-a em exemplares soltos. O rico material que tenho .
me poe na possibilidade de esclarecer 0 modo de cresci-
mento. A concha pequena de 15—18 mm. de comprimento
tem o vertex terminal em posiçäo quasi vertical. D’aqui
em deante a concha cresce de modo desigual, desenvol-
vendo-se mais no lado direito do que no lado esquerdo.
Assim a pequena espira que no principio era terminal
e vertical, assume successivamente a posiçäo horizontal
e lateral. Alem disso temos a observar, que tambem
essa espira nas conchas pequenas é bastante variavel,
— 279 —
sendo, ás vezes, mais comprida do que em geral. N’um
exemplar desse foi que Philippi baseou a sua especie Cr.
uncinata.
Philippi encontrou essa especie em Levu, Matanzas,
Guayacan do terciario chileno. Essa especie terciaria esta
intimameute ligada 4 Crepidula dilatata Lam. do Chile
e do Estreito de Magalhäes, que apenas se distingue por
ser de fórma mais redonda. A razão porque Sowerby
encontrou essa especie reunida em grupos é devida á pro-
cedencia da respectiva pedra da formação patagonica.
D'Orbigny (Voy. Am. m.Pl. 58 fig. 6) figurou grupos de
Cr. dilatata, que correspondem exactamente á figura que
Sowerby deu da Cr. gregaria, tambem em grupos affixos
á pedra. Dizendo d’Orbigny que, nesse caso, Cr. dilatata
assume fórma mais estreita etc. parece-me bastante dif-
ficil que as duas especies aqui discutidas não formem
em verdade uma só.
Trochita corrugata Reeve.
Est IV fig. 18 e Est. Vv. fig. 26
Reeve Conchologia iconica Vol. XI London 1859 Tro-
chita sp. 9.
Trochita testa orbiculare conica, pileiforme, extus
radiatim corrugato-lirata, intus concava, appendice spi-
raliter septiforme. -
Altit. 15 mm., Diam. 24 mm.
Form. Santacruzensis (J. quemada).
Especie um tanto variavel. Alguns exemplares são
munidos de costas fortes, cuja largura mais ou menos
corresponde aos intervallos que as separam, outras são
quasi lisas, mas restam sempre vestigios das costas. E’
variavel tambem a fórma, ás vezes mais alta do que o
typo ordinario. O que é singular são umas linhas espiraes
nas voltas que cruzem e dividem as costas sem correr
parallelas á sutura. Notam-se essas mesmas linhas ou cos-
tas transversaes tambem na figura da Tr. corrugata de
— 280 —
Reeve e na especie Trochita radians Lam. que vive na
costa chilena.
Essas linhas transversaes, as costas radiaes e o appen-
dice interno septiforme trochiforme *aracterisam bem
esse pequeno grupo de especies intimamente aliadas,
representadas somente na America meridional, tanto
recentes como fosseis. Esse grupo de especies que vive
hoje desde a terra de fogo até a California foi na epoca
terciaria bem representado na costa argentina.
Trochita magellanica Gray.
Est. IV fig. 17 e Est. V fig 25 («clypeolum Rve,»)
Trochita clypeolum Xeece Conchol. iconic. Vol. XI
1869. Trochita sp. 14.
Clypeola magellanica Gray Proc. Zool. Soc. 1867
pag. 735.
Troch. testa orbiculari-depressa, apice submamillare,
concentrice rude striata; appendice ampla, septiforme,
parum reflexa.
Altit. 21 mm,, Eno 54 mm.
Form. SR RE J. quemada.
Tenho dous exemplares; um delles faz crér que as
costas concentricas em verdade são custas radiaes bem
transversaes. Não vejo razão para separar essa especie
da mencionada vivente, a não ser que a especie fossil
attinja dimensões um pouco maiores.
RUN ENT EN OA TU CIN ARE
Natica solida Sow.
Soxerby-Darivin 1. e. pag. 378 Taf. III fig. 40 e 41.
Philippi, R. A. Los Fosiles l.c. pag. 85 Lam. X fig. 16.
Moeriche u. Steinmann |. e. p. 558.
? Natica Orbignyi Hupé Gay Hist. Chile Zool. VII
p. 224 (sine figura).
— 28] —
Natica testa subglobosa crassa laeve; spira breve;
anfractibus quinque, sutura subinconspicua ; apertura
ovali ; labro coiumeliari postice crassissimo ; umbilico
mediocri; callo parvo.
Alt. 37 mm., Diam. 38 mm.
Form. Santacruzensis (La Cueva et J. quemada).
Tenho numerosos exemplares dessa especie; que é
um pouco variavel, tendo o diametro ds vezes igual ou
maior, ás vezes menor do que a altura. Exemplares gran-
des têm o umbigo grande, aberto, com uma callosidade
umbilical que é larga e pouco alta, mas que nunca falta.
Essa callosidade ás vezes é pouco saliente no labio colu-
mellar, outras vezes bem distincta. Nesse sentido ha
pouca differença entre individuos pequenos e grandes.
A ultima volta tem em exemplares grandes perto do
umbigo as estrias de incremento bem marcadas, mas não
tão fortes como na especie seguinte. O labio columellar
na sua parte livre e anterior, quando completo, é reverso
e largo.
Sowerby e Philippi obtiveram essa especie do Chile
e da Patagonia, mas a figura 18 Lam. X de Philippi,
que este julga ser de Nat. solida provavelmente pertence
a outra qualquer especie, pela razão de não ter vestigio
de callosidade umbilical. Creio que pertence á Natica
ovoidea Ph.
Como Moericke diz essa especie foi encontrada tam-
bem nos terrenos terciarios da Nova Zealandia conforme
consta pelo trabalho de Zittel, parte paleontologica da
Expedição da Novarra p. 42 PI. XV fig. 6.
Julgo bem provavel que essa especie seja identica
a Natica Orbignyi Hupé, que é grande, com umbigo
aberto e an labro columellari bisinuato», o que se póde
referir ás duas sinuosidades que c callo umbilical pro-
duz no labio columellar.
Parece, a julgar pelo que diz Philippi, que os exem-
plares dessa especie, encontrados no Chile têm a callosi-
— 282 —
dade umbilical obsoleta, emquanto os da Patagonia a
mostram, sempre embora pouco desenvolvida.
Natica obtecta Phil.
Philippi, R. A. Los Fosiles 1. c. pag. 82, Lam. X
fig. 2 a, b.
Natica testa semiovata crassa, spira breve; callo um-
bilicale crasso bipartito, umbilicum amplum non omnino
tegente.
Alt. 30 mm., crass. obliqua 32 mm., Alt. individui
maximi 68 mm., Diam. 63 mm.
Form. Santacruzensis (La Cueva e Jegua quemada).
O exemplar grande de que dei as medidas tem 0
umbigo quasi todo coberto de uma massa callosa grossa,
ficando, porem, um resto de umbigo de 3,5 mm. de dia-
metro aberto. O que é notavel, são umas costas elevadas
na ultima volta, representando as partes anteriores dos
successivos labios da abertura.
Philippi indica como altura 30 mm. apenas, como
em Nat. pachystoma, dizendo, porem, que ella fica maior
do que aquella e as figuras tambem representam uma
especie grande. O que é preciso notar, é que os exem-
plares pequenos de 30 mm. e menos são bastante diffe-
rentes, por ter o umbigo bem aberto e a callosidade colu-
mellar pouco desenvolvida. Philippi teve essa especie de
Santa Cruz e do terciario chileno.
A's vezes falta nos exemplares maiores dessa especie
como da precedente, a parte da concha que acompanha
a sutura, de modo que a sutura apparece muito pro-
funda, excavada. E' questão de eee e muitos
exemplares são perfeitamente intacto
Preciso notar, que a gee. que Moericke (1. e
p. 556 Taf. XI fig. 25—27) deu dessa especie, realmente
nao se refere a ella, representando antes uma variedade da
Nat. pachystoma Hupé. Isto fica provado pela indicação
cumbigo completamente coberto». Na Natica obtecta 0
umbigo existe sempre, embora pequeno.
— 283 —
A Nat. obtecta Moericke (nec Phil.) differe da typica
Nat. pachystoma pelo sulco transverso da callosidade e
pode ser designada como uma var. Moerickei da Natica
pachystoma, a que pertence sem duvida Nat. Barrosi
Ph. (1. c. p. 83 Lam. X fig. 9) e Nat. obectiformis Moeri-
cke (1. c. p. 557 Taf. XI fig. 22—23). Julgo porem muito
provavel, que o exame de uma serie grande de exem-
plares da Nat. pachystoma demostrará que esse sulco
transverso n°0 tem a importancia que J/oericke a elle
liga, sendo nesse caso tanto obtecta Moericke como obte-
ctiformis Moericke synonymos de Nat. pachystoma.
Natica consimilis sp. n.
Natica testa parvula, subglobosa, solidula, laevi ;
spira obtusa circa quartam altitudinis partem occupante,
anfractibus obtusis, sutura profunda, labro columellari
postive vix incrassato, antice subreflexo; umbilico angu-
stato callo nullo.
Alt. 17, Diam. obliquus 16, Diam. aperturae 13 mm. -
Form. Santacruzensis (La Cueva).
Fig. 12. Natica consimilis Ih.
(Tamanho natural)
Essa pequena Natica tem 5 voltas e distingue-se
pelo umbigo aberto mas estreito e sem callosidade. O labio
columellar é tenue na parte reflexa e annexa ä ultima
volta, e encrassado e um pouco reflexo na parte livre.
As voltas são convexas, mas um pouco anguladas perto
da sutura que é profunda.
Essa pequena especie é extremamente parecida com
a Natica limbata Orb., especie recente da Patagonia, que
apenas differe pela fórma um pouco diversa da espira.
— 284
Natica subtenuis sp. n.
Natica testa oviformi-subglobosa, tenue, laeve; angu-
ste umbilicata ; spira fere quartam partem altitudinis
occupante, sutura subinconspicua ; apertura ampla, labro
columellari vix incrassato; callo nullo.
Alt. 34, Diam. obliquus 31, Diam. aperturae 27 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada). À
Fig. 13. Natica subtenuis Ih.
(Tamanho natural)
Essa especie é bem caracterisada pela concha tenue,
pelo umbigo estreito, pela falta de callosidade no labio .
columellar e pela sutura linear pouco visivel. A concha
grande cujas dimensões indiquei tem 6 voltas. E' notavel
a existencia de costas longitudinaes na ultima volta, que
entram no umbigo e representam o labio interno das
aberturas antigas.
Tenho de La Cueva, da formação santacruzense uma
Natica que descrevi como Natica consimilis, por ter a
espira mais larga e curta e a sutura profunda, exca-
vada. Como, porem, parece que a sutura de Nat. subtenuis
é profunda tambem e somente coberta mais tarde por
massa calcarea será melhor esperar mais material,
Observo que essa variedade (consimilis mihi) asse-
melha-se muito com uma especie que ainda vive na
costa da Patagonia, Natica limbata Orbigny, que só co-
nheço pela figura de d'Orbigny, de modo que não Poe
dizer se ha identidade de especies..
— 285 —
Natica vidali Ph.
R. A. Philippi Los Fosiles 1. c. p. 85 Lam. X fig. 17.
«Testa magna, satis tenuis subglobosa, umbilicata ;
spira vix quartam altitudinis partem occupans; umbilicus
mediocris pervius, omnes anfractus ostendens; labium
vix callosum. Alt. 48 mm., Diam. obliquus totidem; alt.
aperturae 35 mm.
Santa Cruz.»
Não conheço essa especie, distinguida pelo largo
umbigo.
Natica famula Ph.
des A.’ Phitinpy Los Fosiles 1 c. p. 84 Lam. X. fig.
13 a-b.
«Testa parvula oblongo-conoidea, laevissima, nitida
perforata ; spira tertiam altitudinis partem occupans,
conica, acuta; umbilicus sulco circumscriptus; callus
labialis crassus, longitudine dimidiae colummellae. Alt.
16, diam. obliquus 13 '. mm., apertura 9 mm. alta. Na-
vidad, Levu, Santa Cruz.»
Especie alongada, não representada na nossa collecção.
Ajunto algumas observações sobre a posição syste-
matica das especies de Natica aqui descriptas.
Ha entre ellas um representante do subgenero Na-
tica, a N. solida Sow. Natica obtecta Ph. faz parte, a
meu vêr, do subgenero Polinices, a que pertence tambem
N. famula Ph Não concordo, pois, nesse sentido com
Moericke que colocou N. obtecta no subgenero Neverita,
formado por especies mais deprimidas com o funiculo
“umbilical bem desenvolvido.
As outras especies mencionadas pertencem ao sub-
genero Lunatia, com umbigo e sem funiculo. A esse sub-
genero pertencem tambem as poucas especies viventes
actualmente nas costas da Patagonia.
— 286 —
FAM. TURRITELLIDAE.
Turritella ambulacrum Sow.
Sowerby-Dariwin 1. e. pag. 379 PI. III fig. 49.
Philippi, R. A. Los Fosiles 1. c. pag. 71 Lam. IX
Heaven).
Turritella elongata turrita, anfractibus 10—11 spira-
liter tricostatis, posterioribus costis aequalibus, anterio-
rum costa antica postica maioribus, media minore, costis
minoribus interpositis; sutura in sulco profundo posita.
Long. 45 mm., Diam. 13 mm.
Form. Santacruzensis (La Cueva e J. quemada).
O exemplar maior mede 50 mm. de comprimento
com 15,5 mm. de diametro. Tenho numerosos exemplares
de J. quemada. E” bem característico o sulco profundo
no qual está situada a sutura. E’ bastante variavel o
numero e o tamanho das costas espiraes. Ha exemplares
com 3 costas bem desenvolvidas e outros com numerosas
costas subiguaes, sendo porem, nesse caso, a costa inter-
media um pouco mais alta do que as outras, todas pouco
elevadas.
Philippi diz que essa especie é encontrada em Navi-
dad, Matanzas e Chiloé; mas elle parece acreditar que a
especie de Sowerby tem apenas 2 costas espiraes, porque
a figura de Sowerby não faz vêr outras. Isso me faz
duvidar, do mesmo modo como a fig. 1 de Est. 9, que
os exemplares chilenos em verdade sejam identicos aos
de Santa Cruz. Como já disse nesses sempre existem
alem das 3 costas maiores, cujo desenvolvimento é variavel,
outras intermedias mais finas.
Turritella argentina sp. n.
Turritella testa elongata turriculata; anfractibus un-
decim planulatis, liris numerosis minoribus et tribus
altioribus tenuibus distantibus crenulatis ornatis; sutura
profunda in sulco posita,
— 287 —
Long. 35 mm., Diam. 9 mm.
Form. patagonica (Rio Santa Cruz). |
Tenho numerosos exemplares contidos n'uma pedra
argilosa. Duvidei que essa especie fosse identica a pre-
cedente. Ella é mais alongada, tem o sulco das suturas
menos profundo e as costas elegantemente granuladas.
Assemelha-se em fórma a Turr. affinis Hupé, que em
vez de estrias espiraes tem sulcos. Da Turritella Steimanni
differe pelas costas mais numerosas em parte granula-
das e pela grande differença que existe entre as tres
costas maiores e as intermedias, que são 5 entre duas
grandes. Estão mal conservados os exemplares a que se
refere a descripção faltando na maior parte a camada
superficial das conchas.
Turritella patagonica Sow.
Sowerby-Darivin |. c. pag. 379 Taf. IIL fig. 48.
Philipp, R. A. Los Fosiles |. c. pag. 72.
Turritella testa elongato-conica, anfractibus decem
tri-ad-quadri-costatis, costis intermedia antica-que sub-
obsoleta, minoribus, postica subacuta subgranosa maiori,
tertia carinam efformante; sutura indistincta..
Long. 35 mm., Diam. 11 mm.
Sowerby indica essa especie de Navidad (Chile) e de
Porto Desire (Patagonia). Não a conheço. Parece-me dis-
tincta pelo incremento rapido das voltas, que é de 31
por cento—contra 19—23 em Turr. tricincta—e pela sutura
pouco distincta. Esse ultimo caracter torna pouco prova-
vel que seja ella uma variedade de Turr. ambulacrum, como
Philippi a julga. Parece-me, porem, certo que a affinidade
da Turr. patagonica com a Turr. ambulacrum é mais
pronunciada do que com outra qualquer especie.
Turritella tricincta sp. n.
Esgeltifie. S
Turr. testa magna, clongata; anfractibus septemdecim
lente crescentibus, ad suturam constrictis, cingulis tribus
— 288 —
elevatis tumidis, interstitiis maioribus, subcontiguis,
postico maiori, ornatis.
Long. 52 mm., Diam. 10 mm.
Form. Santacruzensis (J. quemada).
O exemplar maior, tendo a ultima volta quebrada,
parece ter tido mais de 60 mm. de comprimento. A forma
elegante e as tres costas espiraes, das quaes a posterior
ou superior é maior do que as outras, distinguem bem
essa nova especie.
Essa especie é parecida com a Turr. cingulata Sow.,
mas é mais alongada e as costas são mais largas e não
chatas e afastadas como naquella especie do Chile. Os
meus exemplares da Turr. cingulata têm o diametro de
34 por cento do comprimento; o exemplar que Recve
figurou tem apenas 30 por cento ou menos, mas na
especie nova tricincta o diametro tem apenas 19-22
por cento. As costas crescem relativamente ao seu dia-
metro no rumo de adeante para traz, sendo a ultima
costa a mais larga e alta. Nas primeiras voltas ha 2, nas
seguintes 3 e nas ultimas duas voltas 4 costas espi-
raes, sendo as costas novas ou accessorias as anteriores.
Entre essas costas grandes existem nas ultimas voltas
algumas intermedias mais delgadas.
Turritella Breantiana d'Orb.
D'Orbigny Voy. Pole Sud. Geole. Lam. V fig. 37—38.
R. A. Philippi Los Fosiles |. c. p. 73 Lam. 9 fig. 1,b.
cTesta magna: anfractus ad suturam constricti, me-
dio plani seu concaviusculi, cingulis tribus granulatis
distantibns, medio multo minore, ornati. Long. 70, crass.
17 mm.
Chiloë, Santa Cruz. » Philippi
Talvez a nossa T. argentina seja a mesma, tondo,
porem, as costas espiraes mais finas e subiguaes, e outras
menores 3—5 interpostas. A figura de Philippi nao
combina bem com os nossos exemplares.
— 289 —
Turritella Steinmanni sp. n.
Turritella affinis Moericke (nec Hupé) L c. p. 555
Taí. XI: fe. 3.
Turritella testa elongata, turriculata ; anfractibus
9—10 planulatis, costis spiralibus laevibus 5 maioribus
et circa 6 intermediis minoribus ornatis; sutura profunda
in sulco posita.
Long. 36, Diam. 1] mm.
Form. patagonica.
Esta Turritella é sem duvida intimamente ligada à
T. ambulacrum Sow. da formação patagonica, da qual
se distingue pela sutura menos profunda e pelas costas
espiraes mais iguaes entre si. O meu exemplar neste
sentido combina bem com a figura de Moeriche. Ha neste
meu exemplar 9 costas, entre as quaes 3—4 mais fortes,
Moeriche identificou o seu exemplar com a T.affinis
Ph. que provavelmente é a mesma de affinis Hupé.
A figura de Philippi mostra 5 costas iguaes, distantes e
sem costas intermediarias e, alem disto, as costas são
granuladas.
Como Moeriche o diz essa especie é de Navidad, sendo
encontrada tambem na formação cretacea do Chile. E”,
porem, preciso notar que Moericke confunde duas espe-
cies differentes.
RENTE Sole Re Uh TH TO E AR TTD Arr:
Struthiolaria Ameghinoi sp. n.
Struth. testa pyramidali-ovata, spira subturrita, an-
fractibus transversim striatis et sulcatis, superne decli-
vibus subangulatis, ad angulum nodulis costiformibus
“decurrentibus ornatis; anfractu ultimo antice liris eleva-
tis spiralibus senis ornato; sutura profunda, columella
callosa, labro vix incrassato.
Long. 70 mm., Diam. 38 mm.
Form. Santacruzensis (La Cueva et Santa Cruz).
Revista do Museu Paulista 19
— 290 —
Sowerby já mencionou moldes dessa grande especie,
que é distinguida pelas nodosidades em fórma de costas
e pelas estrias espiraes bem desenvolvidas. Na ultima
volta temos na parte superior que é occupada pelos no-
dulos 8-9 linhas espiraes elevadas e em baixo dellas no
meio da volta 6 outras duplas e mais largas seguindo-se em
baixo destas na, extremidade anterior, mais 3—4 linhas
espiraes mais finas.
Fig. 14. Struthiolaria ameghinoi Th.
(Tamanho natural)
Essa especie assemelha-se bastante à Struthiolaria
chilensis Philippi (1. c. pag. 32 Lam. I fig. 4), que porem
tem estrias muito mais finas (ctenuissime transversim
striata») e nodulos mais pequenos cuneiformes («nudos
puntiagudos»). Não resta todavia a minima duvida, de
que essa nossa nova especie esteja intimamente ligada a
especie do terciario chileno, representando talvez só uma
variedade della.
Tenho mais de uma duzia de exemplares bonitos da
collecçäo Ameghino.
Entre as especies viventes é Struth. mirabilis Smith
(Annals a. Mag. of nat. hist. 1875 p.67; Journ. d. Conchyl.
1877 pag. 7) parecida, tendo porem esta especie recente
a concha tenue, delgada.
— 291 —
Recebi essa especie da formaçäo santacruzense e mais
alguns exemplares como provenientes da formaçäo pata-
gonica. Estes exemplares estao cheios de argila molle,
quasi como aquelles da Gibbula Dalli, o que me faz crér
que houve alli um engano é que de facto provém elles
da formaçäo santacruzense.
Struthiolaria ornata Sow.
Sowerby-Darwin |. c. pag. 382 Pl. IV fig. 62.
Philipp, R. A. Los Fosiles 1.c. pag. 33 Lam. I fig. 5.
Struth. testa ovata apice acuminato, anfractibus senis,
spiraliter striatis prope suturam canaliculatis, longitu-
dinaliter costatis, costis parvis obtusis; anfractu antico
liris duabus elevatis spiralibus ante mediam positis
sutura profunda.
Long. 17 mm., Diam. 11 mm.
Form. patagonica (La Cueva).
Tenho uma pedra cheia de numerosos exemplares
dessa especie, porem nenhum bem conservado ou mos-
trando o labio. São porem sufficientes para affirmar, que
a figura publicada por Sewerby é pessima, referente a
um exemplar cuja columella falta. Assim aconteceu que
Philippi julgou St. ornata munida de umbigo, que não
existe. A forma, tambem da abertura é quasi a mesma;
como na especie precedente. O que antes de tudo cara-
cterisa essa especie, é a canaliculação da sutura, e a
existencia de duas costas espiraes bem fortes. As costas
não se extendem até as estrias espiraes de modo que
entre ambas resta uma zona lisa um ponco excavada,
como outra em baixo das referidas estrias.
Reuno com essa especie os exemplares que tenho de
uma Struthiolaria da formação patagonica, transformados
em chalcedonio, e que formam uma variedade que chamo
var. densestriata.
Fig. 15. Ntruthiolaria ornata var. densestriata Th.
(tamanho natural)
Os respectivos exemplares são incompletos e podem
ter tido o comprimento de 30 mm. mais ou menos, assim
como a S. ornata, á qual se ligam pelo profundo canal
em que está situada a sutura. As costas espiraes da ulti-
ma volta são fortes e iguaes. Da St. Ameghinoi distin-
gue-se por ser menor e pelas costas espiraes mais nume-
rosas que na quinta volta existem em numero de cerca
de 15 contra 10 na outra especie, e pela sutura. Considero
essa especie como precursora da St. Ameghinoi.
Ha nessa variedade entre os tuberculos grandes e a
sutura 4 costas espiraes, mas na St. Ameghinoi 1—2
apenas.
FAM. TRITONIDAE.
Essa familia quasi não é representada na fauna pa-
tagonica actual, onde apenas existe uma especie de Ar-
gobuccinum, e parece que não foi outra a representação
durante o periodo terciario. A unica especie de Triton
que foi descripta dos terrenos terciarios da Patagonia,
Triton leucostomoides Sow., não é um Triton, mas um
Urosalpinx ou Trophon.
Ha porem uma pequena especie ce Argobuccinum,
isto é, do mesmo genero que ainda hoje alli está repre-
sentado por uma especie (A. magellanicum Ch.) e que
descrevo em seguida.
— 293 —
Triton (Argobuccinum) Dautzenbergi sp. n.
Triton testa ovato-oblonga, spira brevi; anfractibus
costis obtusis longitudinalibus instructis transversim sub-
tiliter liratis; columella laevi, canali brevi, recurvo.
Long. 18 mm., Diam. 9 mm.
Form. Santacruzensis (Jegua quemada).
Fig. 16. Argobuccinum Dautzenbergi Ih.
@r1 do tamanho natural)
Essa pequena especie tem 6 voltas, com 10—llI costas
longitudinaes na volta, e que são crazadas por numerosas
estrias espiraes. Na ultima volta no lado opposto ao labio
externo da abertura duas costas são bem approximadas,
quasi formando uma, dividida no meio. A columella é
simples, o labio munido de dentes no lado interior. Na
ultima meia volta as costas longitudinaes são obsoletas.
O comprimento da abertura é de 9,5 mm. AH
Dedico essa especie ao eminente collega francez a
quem muito sou obrigado pelo auxilio que me prestou na
publicação deste estudo, Mr. Ph. Dautzenberg em Paris.
FEM DOLLIEDA E.
Ficula carolina Orb.
Est. IV fig. 19 («carolinensis»)
Pyrula carolina D’ Orbigny Voy. Pole Sud. Geol. Lam.
V fig. 34—35, (teste Philippi).
— 294 —
Ficula carolina d'Orb. Philippi Los Fosiles pag. 49
PIS IV ee
Fic. testa elongato-pyriformi, gracili, spira subex-
serta, liris transversis planodepressis aequedistantibus
cingulata, lirarum interstitiis striis longitudinalibus
cancellatis.
Long. 36 mm., Diam. 18 mm.
Form. Santacruzense (Jegua quemada).
As linhas longitudinaes confundem-se nas voltas da
espira com as costas espiraes; na ultima volta, porem,
prevalecem as costas espiraes, sendo os intersticios mu-
nidos de estrias longitudinaes pouco elevadas. As costas
são largas, chatas, dispostas em distancias iguaes, tendo
o numero total de 20—30, visto como os dous exemplares
maiores que tenho neste sentido differem, sendo porem
o que tem menos costas incompleto por falta de parte
do canal. Não ha costas menores intermediarias. A dis-
tancia entre ellas é na extremidade anterior igual á
largura da costa, sendo o duplo no meio da ultima volta.
Parece que essa especie não augmenta mais de volume.
Tem 4 '/. voltas. Philippi figura um exemplar incompleto
do mesmo tamanho como o maior dos que tenho. Philippi
obteve a especie de Navidad no Chile e da foz do Rio
Santa Cruz na Patagonia. Outra especie (F. distans Sow.)
é commum no terciario chileno.
FAM. MURICIDAE.
Trophon laciniatus Mart. var. santacruzensis var. n.
Est. III fig. 4
Tr. testa fusiformi-ovata, anfractibus superne depres-
so-planis, lamellis grandibus subdistantibus erectis con-
centrice fimbriatis, quarum interstitiis subclathratis ;
canali recurvo aperturae longitudini subaequante.
Form. patagonica (La Cueva, J. quemada)
— 295 —
Essa concha 6 muito semelhante a Trophon laci-
niatus Mart. ou lamellosus Gm., de que talvez s6 répre-
sente uma variedade. As lamellas são mais distantes—8
contra 12 em lamellosus na ultima volta—a parte chata
aplanada das voltas é mais larga, não extendendo-se sobre
ella as lamellas, como succede na outra especie mencio-
nada; os intersticios são munidos de numerosas estrias
e sulcos espiraes pouco pronunciados, e o canal é mais
longo, sendo o seu comprimento igual ao da abertura, o
que não acontece na referida especie vivente.
Tenho 2 exemplares pequenos e 2 maiores incom-
pletos. O comprimento total do exemplar maior pode ser
calculado em 80 min. À
Essa especie distingue-se da Trophon patagonicus
Sow. (Fusus patagonicus 1. c. pag. 382 Pl. IV fig. 60)
pela forma mais alongada, numero menor de lamellas e
pelo canal mais comprido. A parte aplanada da volta 6,
em nossa especie, ascendente contra a espira, mas exca-
vada ou descendente no Tr. patagonicus.
Nao tendo as necessarias informa, es sobre a varia-
bilidade do Tr. laciniatus convem notar que é bem pos-
sivel que essa nova variedade seja desnessessaria o que
só com materiaes mais ricos será possivei elucidar.
Trophon pyriformis sp. n.
Est tie iS
Tr. testa oblongo-ovata pyriformi, spira breviuscula,
transversim fortiter costata, costis tribus reliquis fortio-
ribus, multifariam varicosa, varicibus simplicibus lami-
niferis, canali breviusculo subrecto, labro incrassato du-
plo. Long. 22 mm., Diam. 13 mm.
Form. Santacruzense (J. quemada).
Tenho um exemplar de 13 mm. de comprimento,
provavelmente filhote, de modo que não se póde dizer
qual a configuração do labio no estudo adulto. A espe-
ARCO Je
cie assemelha-se muito ao Trophon labiosus Gray, e
parece-me bem possivel: que quando crescendo terá o
labio incrassato como aquella especie. (Quanto ás costas
espiraes na ultima volta apresentam-se do modo seguinte:
As tres primeiras, perto da sutura, são fracas como as
6—7 da base, sendo porem tres costas do meio da volta
mais fortes. O canal é curto, aberto e quasi recto. O nu-
mero dos varices é de 9 na ultima volta.
Tenho mais um exemplar bonito de 22 mm. de com-
primento que tem o labio duplo e incrassato. O novo
labio está situado por dentro do outro e ha vestígio de
terceiro. I’ assim tambem que o labio de Trophon labio-
sus está crescendo, ficando ‘a abertura cada vez menor.
Tenho um pedaço de outro exempiar que calculo em 25
mm. de comprimento total 6 que mesmo assim é filhote,
tendo o labio simples. E, pois, evidente que a especie
attinge em outros individuos a proporções maiores.
Trophon patagonicus Sow.
Fusus patagonicus Sowerby-Darivin |. e pag. 382
JP AY te Ent
«Fusus testa ovato oblonga tenuinscula, multifariam
varicosa, anfractibus postice angulatis; varicibus lamel-
liformibus, antice deflexis postice acuminatis, interstitiis
transversim sulcatis; apertura subcirculari, canali bre-
viuscule, umbilico valido».
Sowerby nao indicou a proveniencia dessa especie
que, porem, deve ser da Patagonia e provavelmente de
Santa Cruz, representando apenas uma variedade de Tr.
Geversianus Pall.
Trophon varians @rb.
Murex varians d Orbigny Voy. Am. m. Moll. p. 452
Pl, 62 fig. 4—7.
Trophon testa oblonga ventricosa, crassa, late umbi-
licata, alba, trasversim costata; anfractibus postice sub-
— 297 —
angulatis; apertura ovali; labro simplici. Long. 80 mm.,
Lat. 50 mm.
Creio ‘que d'Orhiqny teve razão, considerando essa
uma boa especie, differente de T. Geversianus Pall. e
intermedium H. Ad. Tenho exemplares perfeitamente con-
formes à figura de Orbigny, da formação patagonica. Tenho
exemplares identicos da form. tehuelche de Santa Rosa
entre canta «Cruz e S Julian, |e, mais um, exemplar,
pouco differente da form. tehuelche, colligido entre San
Jorge e Deseado, e que tem a parte posterior das voitas,
perto da sutura, aplanada formando um angulo com o
resto da volta e que designei como car. gradata.
Trophon leucostomoides Sow.
Triton leucostomoides Sowerby-Darivin 1. e. pag. 383
Taf. IV fig. 64 (Huafo, Chile).
Fusus Sowerbyanus Philipp: Los Fosiles L €. p. 45
Lam. III fig. 16 (Navidad, Chile).
«Tr. testa ovato-oblonga, spira obtusa; anfractibus
senis snbventricosis spiraliter sulcatis ct longitudinaliter
costatis; varicibus sub-irregularibus rotundatis, transver-
sim sulcatis.» Sowerby
Essa pequena especie foi considerada de modo bem
differente pelos diversos naturalistas que a examinaram.
Foi julgada pertencer ao genero Triton por Sowerby, a
Fusus por 2. A. Philippi, e a Coralliophila por Dall,
conforme 116 escreveu a respeito do exemplar que a elle
enviel. Como se nao fosse sufficiente tanta divergencia
de opinides ainda preciso emittir outra opiniao, consi-
derando a nossa especie como pertencente ao genero
Trophon ou à secção desse genero denominada Urosalpinx.
A conformação da abertura e da columella combinada
com a falta absoluta de varices que são differentes das
costas longitudinaes, excluem a especie do genero Tri-
ton. Com o genero Coralliophila não julgo em harmonia
a forma regular da espira, o canal nao muito curto etc,
— 298 —
e alem disso é pouco provavel que pertença essa especie
duvidosa a um genero que vive em coraes, grupo de
animaes que alli faz falta quasi completa. Não acho na
espira e na abertura razão alguma para separar essa
especie dos Trophon do grupo Urosalpinx, de que fazem
parte Tr. cinereus Say da America do Norte e Tr. Haneti
Petit do Brazil.
Parece-me conveniente chamar nessa occasiäo a at-
tenção para a confusão que actualmente ainda existe relati-
vamente aos generos Ocinebra e Trophon, sendo a mesma
especie considerada por uns como de Ocinebra, por outros
como dos generos Trophon ou Urosalpinx. Talvez seja
possivel limitar o genero Ocinebra ás especies de canal
mais ou menos fechado, d'elle excluindo as especies de
canal largamente aberto como, por exemplo, Ocinebra
calcarea Dkr. do Japão, que a meu vêr pertence a Uro-
salpinx.
Proponho que se limite o genero Trophon ás especies
com varices lamelliformes e que se inclua as outras com
varices sub-obsoletas em fórma de costas longitudinaes e
ainda munidas de estrias espiraes, no genero Urosalpinx.
Se assim fôr conveniente as especies do terciario patago-
nico serão as seguintes :
Trophon patagonicus Sow.
» santacruzensis Ih.
Urosalpinx varians Orb.
» pyriformis Ih.
» leucostomoides Sow.
FAM. FUSIDAE.
Siphonalia noachina (Sow.)
Fusus noachinus Sowerby-Dariwin 1. c. p 381 Taf.
IV fig. 58—59.
Œusus testa ovato-fusiforme, utraque subacuminata,
aequali, anfractibus quinque, spiraliter sulcatis, sulcis
— 299. —
plerumque seriatim pertusis; posticis longitudinaliter
obtuse costatis; canali mediocri, subascendente: sutura
distincta.
S. Julian, Patagonia.» Sowerby
Não conheço essa especie, que me parece affine da
Siphonalia fusiformis Rve. do Japão, d'elle distinguindo-
se, porem, pela espira mais curta.
Siphonalia cf. nodosa Mart.
Fusus nodosus Reeve Conch. ic. sp. 41.
Tenho um molde da formação patagonica, (Golfo de
S. Jorge) da Chalcedonia com partes da concha, pouco
espessa, adherentes, molde esse que talvez pertença á
especie supra mencionada ou represente outra affine. As
voltas têm no meio uma serie de grandes tuberculos, 9 no
circuito e na ultima volta, maispara deante, uma serie
correspondente de tuberculos menores. A superficie da
concha é ornada de sulcos espiraes, em geral combinados
em grupos de 2.
Creio que a maior parte dos Fusus descriptos por
Philippi do terciario chileno pertence ao genero Sipho-
nalia, que actualmente tem quasi a totalidade das suas
especies no Japão, na Australia, Nova Zealandia e na
California, mas que no principio do periodo terciario
estava bem representado no mar da Patagonia e do Chile,
como segundo pensa Zittel, estavam esse genero e o de
Chrysodomus bem representados nos terrenos terciarios
da Europa e até na formação cretacea.
Nesse sentido vale a pena comparar as especies recen-
tes e fosseis. Verificamos assim que: Siphonalia cf. nodosus,
da formação patagonica, corresponde bem a mesma especie
que vive na Nova Zealandia, estando representada nas
camadas terciarias do Chile por S. macsporrani Ph. etc;
Siphonalia Domeykoana Ph. do terciario chileno é affine
— 300 —
ou talvez identica com a S. dilatata Quoy, vivente na
Nova Zealandia, Siphonalia subrefleca Soi, Sleinmanni
Moer. e as especies alliadas terciarias do Chile corres-
pondem-á S. Kelleti Forbes do Japão, 8. Remondi Ph. e
Cleryana Ph. à S. mandarina Ducl, da Neva Zealandia.
Muito mais raras são as especies do genero Fusus
s. str., da qual tenho, da formação patagonica, o fragmento
de uma especie nova, da qual faz parte F. ischnos Ph.
do terciario chileno.
FAM. VOLUTIDAE.
Até agora conhecem-se dessa familia tres especies
encontradas nas formações terciarias da Patagonia: a
Voluta alta, achada por Darwin em Santa Cruz e tambem
no Chile, em Navidad e duas especies de Santa Cruz,
descriptas por Philippi (V. Dorbignyana e gracilis). Não
estão representadas essas especies na vossa collecçäo, ha,
porem, 2 outras novas as quaes descrevo em seguida.
Nos depositos terciarios chilenos encontrou R. A.
Philippi numerosas especies de Voluta. Uma destas, V.
obesa Phil. parece affine ä V. brasiliana e ás outras
especies da secção Cymbiola, as demais são todas especies
alongadas que se parecem a certas especies da secção
Alcithoë, porem munidas sómente de 2—3 plicas da colu-
mella. Dal! (Transact. Wagner Free Institute. Philadelphia
V. III 1890 p. 57 ss.) considera essas especies como perten-
centes ao genero Volutilithes, e trata-as como pliocenas.
Nesse ponto não o posso acompanhar. As Volutas que Phi-
lippi figurou tem a extremidade igual a espira, o nucleus
ou apex, defeituoso, porem o exemplar da especie do
mesmo grupo que chamei V. quemadensis está nesse
sentido mais completo, provando que o apex foi pupi-
forme e não pequeno, de modo que tambem nesse sentido
temos de comparar essas especies ás da secção Alcithoë.
Quanto á idade geologica, essa não é bem conhecida
em relação aos depositos terciarios do Chile. Sendo, porem
/
— 301 —
melhor estulada a stratiorvaiphia na Patagonia, temos ci
comparal-as as especies identicas, como a V. alta e outras,
que provam que a formação a que pertencem é eocena
ou, ao menos, faz parte do terciario antigo.
As especies chilenas são :
Vol. obesa Phil.
» Philipiana Dall. (gracilis Phil.)
» Dorbignyana Phil.
» triplicata Sow.
» alta Sow.
» Domeykoana Phil.
Nos depositos terciarios da Patagonia temos a Vol.
alta Sow. de Santa Cruz e as tres especies novas que
aqui são descriptas.
E” interessante a historia das Volutas sul-americanas.
Temos agora no Brazil, a excepção do extremo Sul, tres
especies: Vol. americana Reeve, V. hebraea L., que vive
tambem na costa occidental da Africa, e Vol. musica L.
especie conhecida das Antilhas. Do Rio Grande do Sul
até ao Estreito de Magalhães vivem especies de uma
secção singular do genero, isto é, da secção Cymbiola
Swains. Parece, conforme ás investigações de Dall, que
essas Volutas pertencem ao genero Scaphella Dall. Ora,
como já Philippi o declarou, provavelmente essas especies
da Patagonia derivem das especies terciarias já menciona-
das, perdendo as estrias espiraes e tornando-se maiores
e mais grossas. Assim das especies terciarias de Alcithoé
desenvolveram-se as Volutas pesadas da secção Cymbiola.
No Chile, porem, não se conservaram especies de Voluta,
nem no Perú e nas costas pacíficas do resto da America.
Julgo de grande interesse o estudo da distribuição
geographica e geologica do genero Voluta. A respeito
das Volutas americanas foram nos ultimos annos publi-
cados dous trabalhos importantes: o estudo de Da// refe-
rente especialmente ao desenvoivimento do nucleus, e a
primeira parte de um trabalho de #. Lahille (Contribu-
— 302 —
cion al estudio de las Volutas argentinas I. Revista del
Museo de La Plata Tom. VI 1895. pag. 293 ss.), sobre as
Volutas argentinas. Serä de grande interesse obter mais
informações sobre a anatomia e o desenvolvimento das
Volutas argentinas, sendo bem pouco o que a respeito
por ora sabemos,
Voluta Ameghinoi sp. n.
v. Jhering Z. Kenntn. Voluta 1. c. p. 97.
Vol. testa subgloboso-ovata, ventricosa, spira brevi-
ssima, apice papillari; anfractibus lineis incrementi rude
notatis, margine nodis squamiformibus magnis ornatis ;
apertura patula, columella biplicata.
Long. 156 mm., Diam. 100 mm.
Form. Santacruzense (La Cueva).
Fig. 17. Voluta Ameghinoi Th.
(213 do tamanho natural)
Kssa Voluta grossa e forte assemelha extremamente
ä Vol. brasiliana, distinguindo-se porem pela forma dos
grandes tuberculos que sao parecidos com as dobras escami-
formes de certas especies de Cybium. A segunda diffe-
rença é formada pela abertura mais alta, elevando-se o
— 303 —
labio externo até acima dos tuberculos, sendo por essa
razäo a respectiva parte da abertura prolongada, quasi
formando um canal posterior, como acontece em muitas
especiesde Ranella. Explica-se assim que à espira, embora
bem parecida äquella da especie recente, apparece mais
curta.
O maior entre 3 exemplares mede 156 mm. de com-
primento.
Se bem que as differenças indicadas pareçam sufficientes
para considerar essa Voluta como representante de uma
especie distincta, mesmo assim não resta duvida alguma
que ella está intimamente alliada á Voluta brasiliana, de
modo que ha de ser considerada como precursora dessa
especie recente tão commum nas costas argentinas.
Voluta alta Sow.
Sowerby-Darwin 1. c. p. 385 PL IV fig. 75.
R. A. Philippi Los Fosiles L c. p. 65 PL VII fig. 6.
Voluta testa elongato-oblonga, spira attenuata anfra-
ctibus senis gracilibus, spiraliter confertim striatis, prope
suturas adpressis deinde subventricosis; apertura oblonga,
labio externo crassiori subreflexo; columella laevi plicis
duabus acutiusculis, perobliquis.
Long. 7,0 , Lat 2,45” circa.
Navidad, Chile; Santa Cruz, Patagonia (form. pata-
gonica ?)
Não está representada essa especie na collecgao exa-
minada.
Voluta dorbignyana Ph.
R. A. Philippi Los Fosiles p. 65 Lam. VII fig. 7.
«Testa oblongo-fusiformis, transversim sulcato-striata;
anfractus parum convexi posterius undatim plicati, plicis
in ultimo demum evanescentibus; anfractus ultimus ma-
ximus, spiram saltem ter, aequans.
Long. 15—16 cent., crass. 7 cent.» Philippi
— 304 —
Form. patagonica ? (Santa Cruz).
E’ provavel que se refere a essa especie o molde de
uma grande Voluta que tenho da formação patagonica.
Esse molde que representa apenas a ultima volta mede
81 mm. de comprimento e 51 de diametro. São bem
marcadas as costas longitudinaes em numero de 17 na
ultima volta e 3 plicas da columella. A espira, porem,
parece ter sido mais alongada nesse exemplar do que
na figura de Philippi. As costas extendem-se até perto
da sutura, como na figura de d’ Orbigny.
Voluta quemadensis sp. n.
Poste TL aS Oy
Di RM Nes ROD RR AR (6 AR ACL D RON
Voluia testa fusiformi, spira exserta clongata, anfra-
ctibus duobus primis papillam sculptam formantibus,
anfractibus caeteris quatuor transversim striatis, longi-
tudinaliter costatis, costis subobsoletis aequedistantibus
suturam et basin versus evanidis; columella biplicata,
apertura oblonga parviuscula.
Long. 60 mm., Diam. 20 mm.
Form. Santacruzense (Jegua quemada).
Essa Voluta fusiforme-alongada parece pertencer a
secção Alcithoé Adams. Infelizmente não está bem conser-
vado o apex, sendo porem evidente que consiste em 2
voltas e que excedendo um pouco nas dimensões a volta
terceira deve ter formado um « apex papillaris ». As
voltas são munidas de linhas elevadas espiraes e de um
“sulco acima da sutura. As costas longitudinaes são largas,
symetricas, mais altas no meio e desapparecem perto da
sutura e da base. Na abertura que é estreita e no lado
interior ou da espira, coberta por callo, observam-se duas
plicas, sendo a inferior mais forte. O labio externo, de-
feituoso na maior parte de seu comprimento, parece ser
simples.
— 305 —
Essa especie é bastante affine da Voluta Philippiana
Dall (gracilis Phil.), que porem tema espira menos com-
prida e mais larga e a abertura na extremidade anterior
mais estreita. Nessa parte da abertura a nossa especie se
parece mais com a Vol. Domeykoana Phil. que tem as costas
na parte posterior finidas como cortadas, quasi em forma
de espinho ou tuberculo.
K’, porem, certo que o grupo natural formado pela
Voluta quemadensis e a especie affine Philippiana tem um
representante caracteristico na formação terciaria do
Chile, na Vol. Domeykoana, e talvez tambem na Voluta
triplicata Sow.
E" possivel que essa especie aqui descripta seja reco-
nhecida mais tarde identica a V. Philippiana, mas
nesse caso a figura publicada por Philippi ha de ser
reconhecida como inexacta na reconstrucção da espira e
incompleta quanto á excisão terminal da abertura. Será,
por conseguinte, só com materiaes mais completos que
poderá ser decidido se ha duas especies pouco differentes
na espira e na abertura, ou se V. quemadensis entra na
synonymia de V. Philippiana, ou se talvez essa ultima é
a forma juvenil da V. Dorbignyana Ph.
Voluta Philippiana Dall.
Voluta gracilis R. A. Philippi Los Fosiles pag. 66
Lam. VII fig. 13.
Voluta Philippiana Dall. Preliminary report on the
Mollusca of the Exploration of the «Albatross.» Proc. U.
S. Nat. Mus. Vol. XII. Washington 1889 pag. 314, Pl. 9
fio. 4.
«Testa angusta fusiformis, transversim striata; costis
circa quatuordecim, undulatis, interstitia subaequantibus,
postice versus suturam sensim evanescentibus ornata ;
anfractus ultimus spiram subaequans, antice ecostatus.»
Philippi
Santa Cruz.
Revista do Museu Panlista 20
— 306 —
Talvez represente a especie aqui descripta por mim
sob a denominação de V. quemadensis apenas uma varie-
dade mais alongada da V. Philippiana a qual está inti-
mamente ligada.
Os exemplares figurados por Philippi da V. Dorbi-
BR + : =
onyana e «gracilis» sao ambos incompletos e nao acho
em harmonia a descripção de Philipp: quanto a relação
entre a espira e o ultimo circuito com as respectivas
figuras. Não é impossivel que V. Dorbignyana e gra-
cilis pertençam á mesma especie.
O nome gracilis applicado a essa especie por Philippi
já foi dado por Swainson a uma Voluta da Nova Zealan-
dia, e já antes a outra por Lea, conforme Da!l affirma.
Se Dall tiver razão essa especie fossil é identica a
uma recente encontrada a 677 braças de profundidade
no mar chileno e que conforme Dall julga pertence ao
genero Volutilithes.
Voluta patagonica sp. n.
Est. E figos
Vol. testa fusiformi subgracili, spira exserta, apice
parva, papillari; anfractibus minutissime striatis, basi
sulcatis, ad suturas depressis deinde longitudinaliter
costatis, columella 4 vel 5 plicata, apertura angusta, labro
subincrassato.
Long. 30 mm., Diam. 13 mm.
Form. Santacruzense (Jegua quemada).
Essa pequena Voluta é parecida a uma Mitra, espe-
cialmente pela razão de ser das quatro plicas columel-
lares a ultima ou anterior mais fina do que as outras
situadas mais para o lado da espira. Entre a 2 e 3 plica
apparece, em alguns exemplares, mais uma plica um tanto
menor. |
A parte um pouco depressa em baixo da sntura:é
munida de linhas espiraes finas. Essas linhas faltam na
— 307 —
extensäo das costas longitudinaes e apparecem mais fortes
na base.
A abertura é estreita, ficando para baixo mais larga
e munida de uma excisão basal pouco profunda. O nu-
mero das costas longitudinaes é de 22 na ultima volta.
O apex é pequeno, trochiforme. O apex, a forma da aber-
tura e das costas demonstram a posição dessa concha
entre as especies do genero Voluta. Existem + voltas
munidas de costas iongitudinaes e 2 do apex.
FAM: MARGINELLIDA E.
Marginella quemadensis sp. n.
SCA" Se Est. IN iis 14
Marg. testa abbreviato-conica subinflata, laeve, soli-
diuscula, spira depressiuscula, apice elato, acuto; apertura
longissima, columella quadriplicata; labro subincrassato,
intus laeve.
Long. 18,5, Diam. 11, Long. aperturae 16 mm. :
Form. Santacruzense (Jegua quemada).
A especie mais commum desse genero esta represen-
“tada por 5 exemplares. As primeiras voltas, da espira, as
embryonarias, são lisas, as duas seguintes têm vestigios de
costas longitudinaes pouco elevadas.
Marginelia confinis sp. n.
Est. III fig. 8
Mare. precedenti similis, testa majore oblongo-ovata,
anfractibus superne angulatis, ad suturam depresso-ex-
cavatis, et dense striatis, spira brevi, anfractibus primis
nodulis uniseriatim oruatis.
Long. 21 (—23) mm., Diam. 12 mm.
Form. Santacruzense (La Cueva).
— 308 —
Especie bastante affine 4 precedente, orem maior,
espira mais comprida e voltas anguladas e uma excavacao
perto da sutura tornam-n'a bem differente. As linhas espi-
raes Impressas existem só na zona excavada que acom-
panha a sutura. Alem disso a especie muito se parece com
a Imbricaria chiloénsis Philippi, que porem por toda a parte
é estriada. Sendo essa a unica differença entre as duas
especies, não póde existir duvida alguma que Marginella
affinis é o representante atlantico, pouco modificado, da
especie chilena.
Marginella gracilior sp. n.
Marg. testa oblongo-ovata, subcylindracea, solidiu-
scula, laeve, spira breve mucronata; anfractibus nodulis
obtusis uniseriatim ornatis, in ultimo obsoletis; columella
quadriplicata.
Long. 23 mm., Diam. 12 mm.
Form. Santacruzense (Jegua quemada).
Fig. 1S. Marginella gracilior Ih.
(Tamanho natural)
Especie bem caracterisada pela fórma alongada. O.
comprimento da abertura é de 16 mm.
Marginella plicifera sp. n.
Mare. testa oblongo-ovata, solida spira breviuscula
anfractibus costellato-; licatis ad suturam linea impressa
munitis; columella quadriplicata.
Long. 31, Diam. 16, Long. aperturae 20 mm.
Form. Santacruzense (Jegua quemada),
— 309 —
Fig. 19. Marginella plicifera Th.
(Tamanho natural)
A especie maior é mais solida, com a espira mais
alongada. Faltam as duas extremidades, de modo que
não é possivel dizer com certeza se na parte anterior
existe a incisão da abertura encontrada nas outras tres
especies, mas parece, que existiu, sendo, porem, menor do
que nas outras especies descriptas. A espira mais alon-
gada, munida de nodosidades bem desenvolvidas e de
uma linha impressa acompanhando a sutura, e que falta
na ultima volta, caracterisam essa especie.
Parece-me que todas essas especies quando vivas
tiveram a superficie lisa, lustrosa, sem epiderme. Como
nas especies descriptas de Eulima e Odostomia esse lustro
não conservou-se bem, apparecendo, porem, em alguns
exemplares. Considerei essas especies como pertencentes
ao genero Imbricaria, desistind» desse modo de vêr devido
a opposição de eminentes collegas. Não posso, porem, deixar
de mencionar que R. A. Philippi é, quanto á especie
parecida do terciario chileno (Mitra chiloênsis Ph.), da
mesma opinião. Se essa fôr correcta, o facto da rica repre-
sentação de Imbricaria nas camadas terciarias da Pata-
gonia e do Chile demostra a origem antarctica do genero
Imbricaria. O numero das plicas columeilares é em todas
essas especies 0 mesmo, isto é, 4 sendo a primeira ou
anterior a mais forte como nas Mitras.
— 310 —
FAM: CANCELLARIIDAE.
Cancellaria Ameghinoi sp. n.
Bst Wine 42 e Est IVe ss
Canc. testa oblongo-ovata, tenui, imperforata, spira
parva subobtusa; anfractibus plano-convexis, longitudi-
naliter obsolete costatis, costis in anfractu ultimo obso-
letis, spiraliter regulariter sulcatis; sutura profunda ;
apertura ovata, fauce laeve, columella biplicata.
Long. 10,5, Diam. 6,5. mm.
Form. Santacruzense (Jegua quemada).
Temos 4—5 exemplares, sendo o maior de 10,5 mm.
de comprimento. Os sulcos largos e profundos espiraes
prevalecem, sendo as costas longitudinaes numerosas |
porem pouco marcadas, faltando no circuito ultimo. Ha
na columella duas plicas não muito fortes, não contan-
do-se porem o fim da columella como plica. O canal é
direito, cortado, curto. O labio externo é liso, porem em
um dos exemplares vém-se nelle sulcos espiraes, 0 que,
pois, não parece ser a regra. O numero das voltas 65 ‘>.
Cancellaria gracilis sp. n.
ES Site elites hit
Canc. testa ovato-turrita, elongata, acuminata, imper-
forata, anfractibus costatis superne angulatis, lineis ele-
vatis decussatis; sutura profunda; apertura ovale, labro
intus sulcato, columella biplicata, plicis sue
minutis; canali inflexo.
Long. 14, Diam. 7,5 mm.
Form. Santacruzense (La Cueva).
Essa pequena concha parece pertencer a uma nova
especie de pequeno tamanho, visto como tem 5 ', voltas.
E’ parecida á Cancellaria elata Hinds que, porem, está
munida de umbigo e de tres plicas que são mais fortes.
— 31 —
O numero das costas longitudinaes na ultima volta é de
11 e de mesmo modo na penultima. O labio interno é
reflexo deixando em baixo uma pequena fissura linear,
que não póde ser chamada umbigo.
Cancellaria vidali Ph.
«Testa ovato-fusiformis, umbilicato-perforata; anfra-
ctus convexi, lineis elevatis transversis costisque circa
duodecim in quovis anfractu, quae dimidium intersti-
tiorum aequant, ornati; anfractus ultimus spiram sub-
aequans; labium valde callosum; columella biplicata.
Long. 31 mm., crass. 21 mm» Philippi
Santa Cruz.
Parece que essa é uma especie maior e menos alon-
gada do que C. gracilis, a qual está intimamente ligada.
FAM. TEREBRIDAE.
Terebra costellata Sow.
Sowerby-Darwin |. c. p. 384 Taf. IV fig. 70—71.
REA Philipp Los, Posiles l/c: p. 63 Lam: Vilitig. 3.
«Terebra testa turrita, laeviuscula, anfractibus medio
tumidiusculis, postice linea impressa obsolete notatis,
costellis numerosis longitudinalibus elevatis; apertura
columellaque laevibus.
Navidad, Chile.» Sowerby
Tenho tres exemplares da formação santacruzense,
um de La Cueva e dous de J. quemada, sendo os dous
maiores de 20—23 mm. de comprimento. Esses dous exem-
plares são um tanto differentes. O de J. quemada tem a
abertura e a columella mais compridas e as costas longitu-
dinses extendidas de sutura á sutura. As voltas são quasi
chatas. Designo essa variedade de var. quemadensis.
A outra, que designo var. santacruzensis, corresponde
na fórma melhor ao typo, mas as costas são pouco desen-
volvidas em baixo da sutura, de modo que ahi ha uma
— 312 —
zona quasi lisa, separada por sulco pouco marcado do resto
da volta que é mais ventruda e munida das costas. Dessa
variedade tenho um exemplar pequeno tambem de Jegua
quemada.
Essa especie até agora era conhecida sómente das
camadas terciarias chilenas. E” bem provavel que repre-
sente a precursora da T. patagonica Orb., especie que
vive na costa da Patagonia e do Brazil meridional.
FAM. PLEUROTOMIDA E.
Pleurotoma discors Sow.
Sowerby-Darwin 1. c. p. 380 PL IV fig. 54.
R. A. Philippi Los Fosiles L c. p. 41 Lam. II fig. 5
(Fusus discors).
«Pleurotoma testa fusiformi-turrita, spira acuminata,
anfractibus octo, postice tenuissime transversim striatis,
medio tuberculatis, ultimo antice striis crassis subtuber-
culatis instructo; canali elongato, tenuiter transversim
striato; columella recta. Long. 1,8; Lat. 0,62 poll. Na-
vidad.» Sowerby
Um exemplar de 17 mm. de comprimento de Jegua
quemada. No meio da volta existe uma serie de tuber-
culos e nessa região as linhas de crescimento apresentam
uma sinuosidade, que não me deixa duvida que Sowerby
considerou com razão essa especie como pertencente ao
genero Pleurotoma. No nosso exemplar ha, conforme
a descripção de Sowerby, estrias espiraes em baixo da
serie de tuberculos da ultima volta. Observo, porem, que
entre ellas a primeira, logo em baixo dos tuberculos, é
duplo mais forte do que as seguintes. Por essa razão
trato a nossa forma como variedade nova: var. unifascialis.
Essa especie até agora era conhecida sómente do
terciario chileno,
— 313 —
Genota cuevensis sp. n.
Ei Stour wii 10
Gen. testa fusiforme-turrita: anfractibus superne con-
cavis, longitudinaliter plicatis, interstitiis subtiliter stria-
tis, spiraliter liris lineisque nodulosis cinctis ; canali
breve, leviter recurvo.
Long. 32, Diam. 14 mm.
Form. Santacruzense (La Cueva, Santa Cruz).
Tenho um exemplar de La Cueva, outro menor de
Santa Cruz. O primeiro tem o comprimento da abertura
de 18 mm., a largura da mesma é de 5 mm. As costas
longitudinaes, bem desenvolvidas tambem em toda a cir-
cumferenvia da ultima volta importam em 18 nessa volta.
Os intersticios são verticalmente e finamente estriados.
Ha numerosas linhas espiraes, parte dellas mais fortes,
as outras nos intersticios mais finas e nodulosas. O
numero das voltas é de 7. A excisão quasi obsoleta é larga
e pouco profunda e situada na parte concava da volta,
em baixo da sutura. A abertura é mais larga em cima
do que em baixo, na extremidade anterior. O canal é largo,
curto e recurvo, nesse sentido differindo um pouco das
outras especies recentes do genero. Se a fórma é parecida
á de uma mitra, o comprimento da abertura e a escul-
ptura («decussata») são em favor da classificação dessa
especie como Genota, a fórma do canal é um tanto dif-
erente, mais como em certas especies de Clavatula viz.
Perrona.
V. Considerações geraes.
Das formações terciarias da Patagonia contem as
colleções de Florentino Ameghino que pude estudar mol-
luscos de 4 formações differentes: form. do pyrotherium,
patagonica,santacruzense tehuelche. Vou successivamente
— 314 —
adeante dar as listas das especies observadas para dep'is
discutir a provavel edade dessas formações.
Formação do Pyrotherium.
As camadas com Pyrotherium são concordantemente
sobrepostas pelas da formação patagonica e foram explo-
radas por Carlos Ameghino no rio Neuquen, em Chubut
etc.-e na costa do Oceano, como no Golfo de San Jorge.
Outro naturalista que as examinou é A. Mercerat do
Museu de Plata. As conclusões a que elle chegou e as
de Florentino Ameghino não combinam.
Mercerat diz que os ossos de Dinosaurios e a madeira
silicada da formação guaranitica representam a parte
superior do systema cretaceo, e que as camadas com
restos de Pyrotherium pertencem ao systema patagonico
notando-se a mesma transição insensivel das camadas
da era secundaria ás da era terciaria como nas celebres
camadas de Laramie na America do Norte (1. c. p. 396).
Se nesse sentido Hlorentino Ameghino é da mesma
opinião todavia considera elle as camadas com Pyrothe-
rium como cretaceas. N'uma publicação nova (Mammifères
cretacés de [Argentine Bol. Inst. Geogr. Argentin. Tom.
XVII. 1897 p. 406 ss.) explica elle (p. 409) que as camadas
argilosas com Pyrotherium não representam uma forma-
ção differente e independente da guaranitica, mas apenas
camadas intercaladas entre grês de côr vermelha que
contem os ossos de dinosaurios e a madeira silicada.
Assim é essa uma questão que só novos estudos geolo-
gicos poderão decidir. Ameghino menciona em favor da sua
opinião, que os restos de peixes encontrados com os ossos
dos Pyrotherios são declarados por Smith Woodward, que
os examinou, como cretaceos.
Infelizmente os poucos molluscos alli collecionados
nada adiantam, visto como pertencem a generos e especies
que tão bem podem ser cretaceos como terciarios. Nessas
condições é conveniente ligar por occasião de novas pes-
quizas uma attenção especial ás conchas. Se essas camadas
— 315 —
de Pyrotherium effectivamente são da formação creta-
cea, nellas, como é de presumir, não devem faltar especies de
Inoceramus, Gryphaea, Trigonia, Pholadomya e cephalo-
podos mesozoicos como Ammonites, Hamites e Baculites.
Entre as que examinei alem de uma Astarte mal
conservada ha apenas uma ostra e um Cerithium. Esse
ultimo que designo como Potumides patagonensis sp. n.
infelizmente é representado por exemplares incompletos,
nenhum apresentando a abertura completa. O apex falta
Fig. 20. Potamides patagonensis Ih.
(Tamanho 'natural)
em todos, medindo a parte conservada 30 mm., e apre-
sentando 6 voltas, separadas por sutura bem marcada.
Cada volta tem 5 linhas elevadas espiraes e 14 costas
longitudinaes um pouco obliquas e nodulosas que des-
apparecem na base do ultimo circuito. São provenientes
de Lehuen-ark. A columella é sem plica e a abertura
pela parte conservada deve ter tido na extremidade pos-
terior um dente no labio columellar. E’ essa a razão
porque essa concha não póde ser especie de Cerithidea,
a que se assemelha.
Ostrea pyrotheriorum sp. n.
Ostrea testa crassa inaequivalve trigona, ad extremi-
tatem cardinalem attenuata, margine ventrale sinuato-
undulato; valva inferiore vel sinistra cônvexa, superficie
radiatim obtuse costata, margine postico breve concavo,
margine anteriore subrecto, margine ventrale rotundato;
— 316 —
valva superiore subplana subtorta, depressione latissima
in medio sulcata, marginibus lateralibus crassis vertica-
liter costatis; umbonibus acuminatis, incurvis; impres-
sione musculare latissima excentrice marginem versus
sita.
Long. val. sup. 105 mm., Alt. 100 mm. Long. impres-
sionis adductoris 48 mm., Alt. 16 mm.
Form. pyrotheriorum (Golfo de S. Jorge).
Fig. 20. Ostrea pyrotheriorum Ih.
(12 do tamanho natural)
As margens lateraes são munidas de dentes na valva
superior, de covas correspondentes na valva inferior. A
vertebra é opisthogyra. E" essa uma Ostrea, um pouco
assemelhando-se a uma Exogyra, que me parece dif-
ferente de todas as outras especies descriptas dos terrenos
terciarios do Chile e da Patagonia.
Nessas condições tudo que conhecemos das camadas
com Pyrotherium consiste em
Ostrea pyrotheriorum Ih.
Astarte sp.
Potamides patagonensis Ih.
Se bem que isso seja pouco ao menos representa especies
caracteristicas que faltam nas formações seguintes. A
— 317 —
ostra pela sua figura curta e triangular é facil a dis-
tinguir das especies terciarias acima descriptas e 0 repre-
sentante dos generos Cerithium ou Potamides é bem
notavel, visto como a familia das Cerithiidas não está
representada na fauna actual da Patagonia nem na fauna
extincta terciaria.
Formação patagonica
Essa formação, sobre a qual já dei algumas explica-
ções no primeiro capitulo representa na Patagonia as
camadas eocenas da Europa. Já disse que ella antiga-
mente foi considerada como mais nova do que a formação
santacruzense, erro que foi corrigido por Ameghino e
Mercerat desde 1894.
Muito grande não parece ser a differença no caracter
geral das suas faunas, especialmente dos mammiferos,
visto como nem Ameghino nem Ziltel observaram o en-
gano pelo aspecto da fauna. Que a formaçäo patagonica
realmente é a mais antiga dessas duas formações, que
ambas são bem desenvolvidas em Santa Cruz, é confir-
mado pelo exame das conchas fosseis.
Conchas da formação patagonica de Santa Cruz.
As especies que não conheço por estudo proprio ou
cuja existencia nessa formação—ou na que segue—não
é bem certa, estão marcadas por asterisco. As especies
que são communs a form. santacruzense estão grypha-
das. Quando a especie occorre tambem no Chile, a loca-
lidade chilena onde foi encontrada segue em parenthesis
Ostrea percrassa Ih. («patagonica» Aut. nec Oro.
Pecten patagonensis Orb.
» praenuncius Ih.
(!) Mytilus cf. chorus Mol. (Corral, Valdivia)
Perna quadrisulcata Th.
Limopsis insolita Soi.
— 318 —
* Cucullaea alta Sow.
> dalli Th.
» multicostata Ih.
*Nucula patagonica Ph.
*(Nucula ornata Sow. Port Desire, Patagonia).
Cardita patagonica Soi.
Astarte sp.
Crassatella Lyelli Sow.
* Corbis patagonica Ph.
Lucina sp. (promaucana Ph. ?)
*Cardium multiradiatum Sow. (Navidad).
PER puelchum Sow.
» pisum Ph.
Venus meridionalis Sow. (Navidad. Ancud).
* » patagonica Ph.
» Darwini Ph.
» Volkmanni Ph. var. argentina Ih. (Levu, Tubal).
* Dosinia laeviuscula Ph.
*Psammobia patagonica Ph.
* Mactra Darwini Sow.
* » rugata Sow. (Levu).
* Martesia patagonica Ph.
*
*
Magellania patagonica Sow.
» elobosa Lam.
Bouchardia Zitteli Ih.
Rhynchonella plicigera Ih.
* Gibbula collaris Sow. (Navidad).
Scalaria rugulosa Sow. (Navidad).
Crepidula gregaria Sow. (Levu).
*Natica Vidali Ph.
* » famula Ph. (Navidad).
Turritella argentina Ih.
5 » patagonica Sow. (Navidad),
— 319 —
E » breantiana Orb. (Chiloë).
» Steinmanni Ih. (Navidad).
Struthiolaria ornata Sow.
(?) » ameghinoi Th.
1 Trophon luciniatus var. santacruzensis Ih.
ere D patagonicus Sow.
Re varians Orb.
* Siphonalia noachina Sow.
» cf. nodosa Mart.
* Voluta alta Sow. (Navidad).
» dorbignyana Ph.
Algumas observações sobre as conchas colligidas por
seu irmão Carlos já fez Florentino Ameghino (1. c. Bol.
1896 p. 102), mencionando a interessantt descoberta de
uma especie de Perna (sob a denominação de Crenatula).
Formação santacruzense.
Até agora as conchas dessa formação e da precedente
foram sempre confundidas. Aos irmãos Ameghino devemos
o progresso que se nota nesse estudo que concorreu para
que fossem separadas as conchas das duas formações neoge-
neas de Santa Cruz. E”, porem, preciso notar, que só para as
especies por mim examinadas as listas presentes mere-
cem plena confiança, sendo possivel que entre as que não
conheço uma ou outra não esteja correctamente collocada.
Entre as que examinei já o material em que estão con-
servadas dá informação valiosa, ficando-me, porem, duvidas
sobre uma especie, Struthiolaria Ameghinoi, cheia de
uma argilla molle, de côr cinzenta e que foi designada
como procedente da «form. patagonica». Só a Gibbula
Dalli de Jack Harvey mostra-se cheia de uma argilla
bem semelhante e se, como desconfio, ambas são da for-
mação santacruzense servirá a Struthiolaria Ameghinoi
de um excellente fossil diagnostico para a formação san-
tacruzense. Em vista dessas minhas duvidas e não tendo
entre as conchas provenientes com certeza da formação
— 320 —
patagonica outra Struthiolaria do que a S. crnata, nao
inclui a S. Ameghinoi na lista das conchas da form.
patagonica.
Conchas da formação santacruzense de Santa Cruz.
As especies que não conheço por estudo proprio são
marcadas por asterisco. As especies que são communs
com a form. patagonica são gryphadas. Quando a especie
occorre tambem no Chile a localidade chilena onde foi
encontrada segue em parenthesis.
Ostrea patagonica Orb. (O. Bourgeosi aut. nec Rém).
Pecten centralis Sow.
» nodosoplicatus Ih.
» quemadensis Ih.
Modiola Ameghinoi Ih
Limopsis insolita Soin.
Arca patagonica Ih.
* » Darwini Ph.
Cucullaria tridentada Th.
Pectunculus pulvinatus Lam. var. cuevensis Ih.
Nucula tricesima Ih.
Leda glabra Sow.
Crassatella longior Ih.
Cardita inaequalis Ph.
» patagonica Sow. var.
Lucina promaucana Ph. (Navidad).
Corbis sp.
Cardium philippii Th.
Tellina perplana Th.
» patagonica Ih.
» jequaensis Ih.
Venus meridionalis Sow. (Navidad, Ancud).
» striatolamellata Ih.
Cytherea splendida th.
Dosinia meridionalis Ih.
Amathusia angulata Ph. (Navidad).
— 321 —
Mactra indistincta Ih.
Solen elytron Ph. (Navidad etc.)
Glycimeris quemadensis Ih.
Pholas paucispina Ih.
Dentalium octocostatum Th..
E » sulcosum Sow. (Navidad).
Bulla patagonica Ih.
Fissurella sp.
Gibbula Dalli Th.
» fracta Th.
Eulima subventricosa Ih.
Odostomia suturalis Th.
Turbonilla cuevensis Th.
Scalaria rugulosa Sow. (Navidad).
Crepidula gregaria Sow. (Levu).
! Trochita corrugata Rve.
ieee) magellanica Gray.
Natica solida Sow. (Navidad).
» obtecta Ph. (Navidad).
» consimilis Ih.
» subtenuis Ih.
Turritella ambulacrum Sow. (Navidad).
» tricincta Th.
Struthiolaria ameghinoi Lh.
Triton (Argobuccinum) dautzenbergi Ih.
Ficula carolina Orb. (Navidad).
! Trophon laciniatus var. santacruzensis Lh.
» pyriformis Ih.
» leucostomoides Sow. (Navidad).
Voluta Ameghinoi Ih.
» —quemadensis Ih.
Rep Phvippii Th,
» patagonica Ih.
Revista do Museu Paulitsa al
Columbella (Anachis) sp. teste Dall.
Marginella quemadensis Th.
» confinis Ih.
» gracilior Th.
» plicifera Th.
Cancellaria Ameghinoi Ih.
» gracilis Ih.
» Vidali Ph.
Terebra costellata Sow. (Navidad).
Pleurotoma discors Sow. (Navidad).
Genota cuevensis Ih.
Algumas observações relativas aos molluscos da for-
mação santacruzense já fez Ameghino |. c. Bol. 1896 p.
102, já mencionando a grande Amathusia, de certo entre
as descobertas que devemos a Carlos Ameghino uma
das mais importantes.
Conchas da formação tehuelche.
Até agora não se conhecia nada de conchas preve-
nientes dessa formação que é considerada miocena por
Ameghino, pliocena por Mercerat e pleisthocena por San-
tiago Roth. As conchas provêm de 3 localidades chama-
das: Punta Rasa entre S. Julian e Santa Cruz, Bajo de
la Pava N. de Deseado, e «entre S. Jorge y Deseado», às
quaes me refirei em abreviaturas.
Ostrea Ferrarisi Orb. (P*. Rasa e Bajo). Duas valvas
superiores bem typicas. Entre as ostras das formações
mais antigas não encontrei essa especie.
Ostrea patagonica Orb. var. tehuelcha mihi(S Jorge).
Tenho diversas conchas, entre ellas uma inferior de 155
mm. de comprimento e com cerca de uma duzia de costas *
longitudinaes altas e separadas por sulcos largos e fun-
dos. Ao lado desse exemplar ha outros menos compridos
e com as costas mais baixas e pouco pronunciadas que
se assemelham inteiramente a certos exemplares de
Ostrea patagonica Orb. E” essa a razão porque ja ÆVoren-
— 323 —
tino Ameghino assignalou a presença da Ostrea patagonica
na formação tehuelche (1. c. p. 104) o que Mercerat (1.
c. p. 393) poz em duvida, como acredito, sem razão.
Pecten paranensis Orb. var. (S. Jorge).
Pecten actinodes Sow. (P. Rasa e Bajo).
Pecten sp. cf. centralis Soi. (Bajo) mas de forma mais
curta e mais grossa.
Pecten sp. cf nodosus L. (S. Jorge).
A valva direita embora que com poucas nodosidades
combina com a especie indicada; tem 10 costas. A valva
esquerda e mais differente, tendo as costas mais altas sem
nodosidades. Talvez o precursor do P. nodosus L.
Balanus sp. (P. Rasa, Bajo).
Terebratula sp. parte de uma concha bastante curta
e larga. (S. Jorge).
Venus Muensteri Orb. (Bajo), nao sendo porem essa
uma determinação certa, visto como apenas se trata da
impressão da concha e de sua superficie bem marcada
no interior de uma massa de Balanus. A esculptura, po-
rem, como a fórma da concha são a da V. Muensteri.
Venus Muensteri Orb. var. (S. Jorge), variedade mais
comprida, com os sulcos radiaes pouco desenvolvidos.
Scalaria rugulosa Sow. var. obsoleta n. (P. Rasa).
Especie parecida a Sc. rugulosa porem menor, com 11—12
costas no circuito e com os sulcos espiraes obsoletos.
Trophon varians Orb. (P. Rasa), identica ao typo re-
cente e aos exemplares da formação patagonica.
Trophon varians Orb. var. gradata n.(S. Jorge), varie-
dade aberrante, com as voltas um tanto carinadas e apla-
nadas perto da sutura.
Essa pequena collecçäo é de um interesse extraor-
dinario para a sciencia. Apresenta-nos varias especies
colligidas por d'Orbigny e Darwin e que não estavam
representadas nas formações paleogeneas por mim exami-
nadas. Tres das especies acima mencionadas (Venus Muen-
steri, Pecten paranensis, Ostrea patagonica) foram encon-
tradas em La Bajada por Darwin e D' Orbigny. Quanto
— 324 —
as outras especies encontradas em La Bajada sabemos
por Darwin que existem tambem em S. José e Rio Negro.
Parece assim provado que a formaçäo de La Bajada
corresponde, em grande parte, à tehuelche. Nesse sentido
tenho de fazer uma observação referente ás Scutellas.
E' commum na costa argentina nos depositos terciarios
a Scutellida sobre a qual Zahille publicou uma mono-
graphia: Monophora Darwini. Como ella não existe nas
collecções por mim examinadas das formações patagonica
e santacruzense acho provavel que ella seja especie
da formação tehuelche. Em favor dessa hypothese posso
dizer que nas duas formações paleogeneas ha só represen-
tantes do genero Scutella (S. patagonica Des.), mas que em
camadas que correspondem ás de La Bajada apparece a Mo-
nophora, como está provado pela descripção e figura da Scu-
tella geometrica Ph. e que é exactamente a Monophora
Darwini, em cuja synonymia a presumida nova especie
tem de entrar. A meu vêr, pois, são synchronicas as
formações tehuelche e entreriana (La Bajada).
Mercerat, como acima mencionei, não acredita que
na formação tehuelche se encontre a Ostrea patagonica
Orb. da formação santacruzense e antes está disposto a
suppôr que haja formações «de los rodados» mais antigas
e que de uma dellas provem a tal Ostrea patagonica.
Mas qual a razão ?
E' verdade que Mercerat como os outros geologos
argentinos está a acostumado a considerar as ostras como
o meio mais certo para separar as diversas formações.
Esse axioma é baseado na idea de que, como acontece com
os mammiferos, tambem com as conchas devia cada for-
mação differente ter as suas especies distinctas. Isso,
porem, não é verdade. Não ha só diversas especies que
são communs ás formações patagonica e santacruzense
mas tambem ha algumas especies recentes que já estão
representadas nas camadas eocenas.
E' mister porem, observar nessa occasião que a questão
das ostras terciarias da Republica Argentina não está de
— 325 —
modo algum resolvida. D'Orbigny e Darwin indicaram
a Ostrea patagonica de todos os terrenos terciarios argen-
tinos, tambem de La Bajada; Philippi, porem, tratando
das ostras de La Bajada não menciona a O. patagonica
e descreve novas especies em numero elevado. Esperando
materiaes ricos de Entre Rios e da Patagonia, colleccio-
nados pelo naturalista desse Museu Snr. Bicego, vol-
tarei abaixo ao assumpto.
Não quero, pois, dizer cousa alguma de definitivo
sobre a distribuição da O. patagonica, nem contestar ao
Snr. Mercerat que póde haver formações «de los rodados» de
diversos systemas, mas julgo necessario rejeitar 0 ar-
gumento tirado da presença de especies conhecidas em
formações mais antigas em outras formações mais novas.
Do modo como actuaimente se nos apresentam os
factos temos, a meu vêr, de considerar as formações
tehuelche e de La Bajada como synchrenicas e como
pertencentes ao terciario neogeno. Excusado é dizer que
nesse sentido sou da opinião de Ameghino e de Mercerat,
considerando a formação de los rodados como marinha.
A’ idea de Santiago Roth, que entende que aquella for-
mação é de origem glacial e de idade pleisthocena o
estudo das conchas fosseis se oppõe da maneira mais
absoluta.
A formação paranense.
E' bem conhecida e celebre entre os naturalistas a
localidade de Santa Fé La Bajada, hoje denominada Pa-
raná, capital de Entre Rios, pelos numerosos restos de
animaes fosseis da era terciaria que alli se encontram. A
primeira investigação foi feita por A. d'Orbigny, cuja
obra citada contem no terceiro volume a parte geologica
(3.º parte) e paleontologia (4.º parte). Uma exposição boa
da geologia do Paraná deu tambem Purmeister '). As
1) Burmeister, H. Reise durch die La Plata Staaten. Bd. I.
1861 p. 410—432 e Description physique de la Republique Argen-
tine Tom II Paris 1876 p. 219 ss.
— 326 —
observações de Darwin (l.c. p. 128—134) pouco adiantam
o assumpto. Collecgdes importantes alli fez Bravard, ')
que, porem, não publicou a descripção das especies nomi-
naes mencionadas na sua obra.
Quanto aos mammiferos além de Burmeister Ame-
ghino tratou delles em varias publicações. Quanto ás
conchas k. A. Philippi publicou um estudo sobre ellas,
em parte contendo especies colleccionadas e classificadas
por Bravard, cujo titulo já indiquei (Anales Mus. nac.
Chile 1893).
Foi para mim nessas condições uma necessidade
conhecer tambem as conchas petrificadas dessa localidade
e mandei o naturalista do Museu Paulista Snr. B. Bicego
ao Paraná para fazer uma collecção dessas petrificações.
A explendida collecção feita alli nesse anno pelo Snr.
Bicego chegou aqui quando já o manuscripto desse
capitulo estava no prelo, mas foi possivel acabar em
tempo o estudo da respectiva collecção e assim dou aqui
a minha opinião sobre ella, deixando de lado as especies
novas que vou mandar ao Dr. Steinmaun em Friburgo,
que se está occupando do estudo dos materiaes per-
tencentes ao Museu de Buenos Ayres, provenientes de
Bravard.
Ostrea patagonica d'Orb.
Ostrea Ferrarisi d'Orbigny 1. e. p. 134 Pl. 7 fig. 17
e 18 (juvenis).
Ostrea Burmeisteri 2. A. Philippi Anales 1. e. p. 13
Lam. IV fig. 1.
Ostrea Bravardi Philippi |. c. p. 13 Lam. iV fig. 2.
Ostrea longa Philippi L c. p. 14 Lam. HI fig. 1.
1) Augusto Bravard Monographia de los terrenos marinos
terciarios del Paraná. Buenos Ayres 1858 e reimpresso. Anales del
Museo nacional de Buenos Ayres vol. III I8S3— 1891. No mesmo
volume dos Anales deu Burmeister p. 95—174 a descripçäo dos
mammiferos e reptis da colleeção Bravard, entre elles restos de
Emys paranensis Brav., Platemys torrentium Burm., Crocodilus
australis Brav. e Rhamphostoma neogaea Burm.
— 327 —
| Ostrea aglutinans (Srav.) Philippi 1. e. p. 14 Lam.
III fig. 2.
Ostrea adsociata Philippi |. c. p. 14 Lam. IT fig. 1.
Tenho de confirmar a minha descripção anterior (p.
222). A especie é a mesma como em Santa Cruz, variando
como alli, mas não existindo a variedade descripta por
mim como Ostrea percrassa da formação patagonica. Em
geral os exemplares de Santa Cruz têm a impressão do
adductor situada mais para a borda ventral, mas em
alguns exemplares de Paraná a situação é a mesma.
Ha exemplares completos com as duas valvas cerradas
em numero avultado. Alguns delles são bem grandes,
medindo 23—24 centim. de comprimento e uma valva
inferior mede 26 centim.
Verifiquei que essa especie tem as bordas munidas
de papillas oblongas na valva dorsal e das covas corres-
pondentes na valva inferior. Em geral essas marcas fal-
tam em conchas isoladas mais ou menos mutiladas na
região marginal. Mesmo nesse caso observa-se aos lados
costas verticaes que correspondem ás papillas das antigas
margens. KE’ nessas condições evidente que falta toda e
qualquer razão para separar a Ostrea Ferrarisi Orb. da
O. patagonica, da qual apenas representa a idade juvenil.
A valva inferior é as vezes lisa, ás vezes munida
de costas longitudinaes pouco regulares, havendo largas
e estreitas. O mesmo acontece com a valva dorsal, que
is vezes tem costas radiarias bem finas em grande nu-
mero, mas não continuas, sendo interrompidas pelas linhas
de incremento e faltando em certas zonas. Em individu:s
desses, bastante largos, está baseada a Ostrea Burmeisteri
Phil. em exemplares estreitos a Ostrea longa Phil. Tenho
todas essas modificações e mais ainda para descrever
duzias de «especies novas».
Não posso, devido aos meus estudos, admittir que
existem no Paraná mais de duas especies de Ostrea, essa
e a que segue.
— 328 —
Ostrea Alvarezi d'Orb.
Essa especie é descripta por d@’ Orbigny (À. c. p. 134 PL.
VII fig. 19). Do Paraná recebi numerosos exemplares.
A valva inferior distingue-se pelas numerosas costas
iguaes e pela crenulação da margem. A valva dorsal está
munida muitas vezes de dobras transversaes, onduladas,
em numero de 3—8 perto do vertice. Essa especie não
fica tão grande nem tão pesada como a precedente. O
exemplar maior tem o comprimento de cerca 10 centim.
(97 mm.)
Talvez nem sempre possamos distinguir as valvas
superiores das duas especies mencionadas de Ostrea.
Placunanomia papyracea (Phil.)
Osteophorus papyraceus Phil. R. A. Philippi |. c. p.
14 Lam. IV fig. 3.
Philippi acceitando o novo genero de Pravard nada
poude dizer sobre o lado interior. A grande area muscular
nos meus exemplares é igual a do genero Placunanomia,
com o qual julgo identico o genero Osteophorus. Nesse
caso, porem, as conchas examinadas por Philippi e por
mim todas seriam valvas esquerdas, e isso representa
uma objecção seria contra o meu modo de vêr. O nome,
porem, dado por Bravard faz crêr que elle viu as duas
" valvas reunidas e verificou a existencia do ossiculo an-
nexo á valva direita, propondo por essa razão o nome de
Osteophorus (munido de ossiculo byssal).
Pecten paranensis d'Orb.
Veja-se p. 226. Os exemplares de Paraná correspondem
perfeitamente 4 descripção de d’Orbigny. O maior entre
elles mede na altura 56 mm. contra 58 mm. de compri-
mento. Um exemplar pequeno de 18 mm. de altura tem
22 costas. Nos exemplares adultos ha 18—19 costas, tendo
— 329 —
as costas extremas das partes anterior e posterior ficado
radimentares. |
Os exemplares da formaçäo tehuelche (cf. p. 227) nao
sao typicos, sendo um pouco mais altos, com numero
um pouco maior de costas e com uma costa intermediaria
forte e larga entre duas costas principaes. Designo essa
variedade de P. paranensis como var. deseadensis.
Amussium Darwinianum d'Orb.
Veja-se pag. 225. Varios exemplares mais ou menos
em pedaços. Alguns delles fazem crêr que a concha foi
de diversas côres, visto como os raios largos contidos
entre as costas internas são em parte de côr escura, em
parte de côr clara. O exemplar maior mede 120 mm. de
comprimento, 115 mm. de altura. O numero das costas
do lado interno importa em 21, as costas do meio são sim-
ples, as dos lados são bifurcadas perto da borda.
Lithodomus platensis Ph.
R. A. Philippi \. c. p. 12 Lam. IT fig. 3. (Lithopha-
gus platensis).
Dous exemplares que correspondem á descripção de
Philippi.
Arca Bonplandiana d’Orb.
D'Orbigny 1. c. p. 130 Pl. 14 fig. 15—18.
Arca lirata Philippi 1. c. p. 11 Lam. I fig. 14.
Veja-se p. 236.
Tenho numerosos exemplares tanto da concha como
dos moldes. A concha passa durante o desenvolvimento
por modificações importantes, devido 4 formação de uma
carina obtusa sahinda do vertice e ao crescimento enor-
me da area que em exemplares de 17 mm. falta quasi
por completo. Explica-se assim que Philippi desse um nome
especial 4 concha juvenil
— 330 —
Arca platensis Ph.
Veja-se p. 236. E” especie boa, caracteristica, Tenho
o molde com alguns vestigios da concha medindo 66
mm. de comprimento. O sino no meio da borda ventral
existe como no exemplar de Philipp: e não representa,
pois, abnormidade individual. 4
Cardium platense d'Orb.
Veja-se pag. 250. Numerosos moldes, em parte com
restos da concha. O exemplar maior mede 120 mm. de
altura.
Cardium bonariense Ph.
Veja-se p. 251. Alguns moldes, medindo o maior 54
mm. de altura.
Cardium Bravardi Ph.
RAC Philip lsc. p.. LO Wain. Meio E
Especie parecida ao C. platense, mas de fórma mais
transversa, menos alta. Dous moldes.
Cytherea oblonga (Brav.) Ph.
RAS Phyl Ac. p18 Lam PME A
Varios moldes e uma concha, que pela charneira
parece-me pertencer ao subgenero Tivela. O exemplar
maior mede 73 mm. de comprimento.
Venus Muensteri d'Orb.
Venus pacheia #. A. Philippi |. c. p. 10 Lam I fig.
2, (molde)
Veja-se pag. 254.
Essa especie é commum em Paraná, tanto a concha
quanto os moldes e impressões da superficie externa, A
— 331 —
forma é um pouco variavel. O molde da forma mais alta
foi descripto por Philippi como «Venus pacheia».
Venus Bravardi Ph.
R. A. Philippi 1. c. p. 9 Lam. I fig. 4.
Creio que a essa especie pertençam dous moldes; um
delles tem a superficie da concha conservada em vesti-
ios, com linhas concentricas e radiarias.
Cryptogramma flexuosa L.
issa especie vivente, a Venus brasiliensis de Gmelin,
é representada por uma valva. Que essa seja identica
à especie mencionada parece-me certo, mas se ella pro-
vem do mesmo horizonte com as outras é o que convem
examinar. Sabe-se por d'Orbigny que essa especie é en-
contrada viva na foz do Rio da Prata e subfossil na
mesma região. Tambem Darwin refere-se a essa especie
(Il. ©. p. 2 e 3) mas por equivoco sob a denominação de
Venus sinuosa Lam. E”, pois, possivel e até provavel que
o exemplar da minha colleeção seja proveniente de
camadas mais modernas que, porem, até agora não foram
examinadas.
Dosinia meridionalis lh.
Veja-se p. 256. Varios moldes, 0 maior medindo na
altura 80 mm., e uma valva pequena de 10 mm. Os
moldes não bastam para decidir a posição systematica
dessa especie.
Corbula pulchella Ph.
R. Ay Philippi 1. e. p. 8 Lam. I fig. 7.
Diversos moldes e uma concha completa de 11 mm.
de comprimento.
— 332 —
Oliva platensis Ph.
R. A. Philippi 1. c. p. 8 Lam. I fig. 12.
Tenho diversos moldes, talvez referentes a essa especie.
Purpura alveolata Rve.
Reeve Conch. ic. Purpura sp. 60.
Um exemplar de 34 mm. de comprimento, bem con-
servado, bastante solido, com quatro series de tuberculos
grossos e sulcos espiraes.
Turritella sp. cf. Steinmanni lh.
2 Cerithium americanum Bravard.
Ha numerosos exemplares de uma Turritella repre-
sentada por moldes. Em 2 entre esses ainda achei con-
servada parte da concha. A sutura é profunda, mas não
canaliculada. Ha 7 costas espiraes no circuito um pouco
differentes em tamanho, não sendo, porem, algumas entre
ellas mais notaveis pelo tamanho. E' especie de 2—3
centim. de comprimento para cuja descripção e determi-
nação serão necessarios exemplares melhores. Acredito
que essa seja o Cerithium americanum de Bravard ao
qual Burmeister (1. c. p. 230) se refere.
Alem das especies mencionadas ha moldes de uma
Voluta com duas plicas columellares, de Natica e outros
generos. Entre elles merecem menção especial os moldes
de um Bulimus ou Strophocheilus que parece ser o Str.
(Borus) oblongus Mill. uma variedade menor, talvez a
var. crassa d'Orb. O molde tem o comprimento de 70 mm.
Outros moldes referem-se ao genero Ampullaria e talvez
á especie ainda commum alli, A. canaliculata Lam. Essas
conchas terrestres e d'agua doce talvez provenham da ca-
mada que Burmeister (Description etc. 1. c. p. 227) men-
cionou como contendo pedaços de conchas fluviaes pare-
cidas ao genero Cytherina ou a exemplares juvenis de
Unio.
— 333 —
Péde ser que entre os moldes que tenho haja tam-
bem os de Corbicula, mas seria preciso fazer um exame
especial das respectivas camadas para separar as conchas
marinhas e as d’agua doce.
Achei tambem dous fragmentos da parte apical de
um Strombus parecido ao Str. luhuanus. Acho tal facto
singular visto como entre as conchas fosseis encontrei
tambem algumas especies subfosseis mas ainda com as cores
naturaes que de certo não provêm da formação paranense.
Caso aqui não haja um quiproquo é essa uma desco-
berta das mais sorprehendentes, pois, achei exemplares
de Strombus luhuanus L., Nerita albicilla L. e Monodonta
labeo L. que são especies do Japão e do Oceano indico.
Não podendo, por ora, explicar a occorencia dessas
especies indicas, não posso ligar importancia ao facto, que
desconfio proveniente de engano accidental ou proposital.
Dou em seguida a lista completa das conchas da
formação paranense, deixando de lado as fórmas comple-
tamente duvidosas como a «? Brocchia argentina» de Phi-
lippi (1. c. p. 7 Lam. I fig. 9) e as pretendidas Scalaria,
Littorina, Cerithium etc. de Bravard, o que já se recom-
menda pelo facto de não ter o autor publicado as des-
cripções dessas especies nominaes, que provavelmente em
parte pertencem a generos e familias differentes das com
que Bravard as classificou. Do mesmo modo a especie
«Asterias du Gratii», de Bravard, pertence as Ophiuridas,
genero Ophiothrix, como Burmeister affirmou.
Conchas da formação paranense do Parana, Entre Rios.
Ostrea patagonica d’Orb. (Rio Negro, S. Julian —d'Orb.
S. José— Darwin).
Ostrea Alvarezi d'Orb. (S. José—Darwin).
Placunanomia papyracea Ph.
Pecten oblongus Ph.
» paranensis d'Orb. (S. José, S. Julian, P. Desire
— Darwin).
— 334 —
Amussium Darwinianum d’Orb. (S. José
Lithodomus platensis Ph.
Modiola lepida Ph.
» plateusis Ph.
Arca Bonplandiana d'Orb. (Rio Negro—d'Orb.)
» platensis Ph.
Cardium platense Ph.
» bonariense Ph.
» Bravardi Ph.
Lucina symmetrica Ph.
Cytherea oblonga (Brav.) Ph.
Venus Muensteri d’Orb. (Rio negro t. d’Orb.)
» Bravardi Ph. |
Cryptogramma flexuosa L.
Dosinia meridionalis Ih.
Mactra bonariensis Ph.
Tellina platensis Ph.
Corbula pulchella Ph.
Darwin).
Trochus lepidus Ph.
Turritella cf. Steinmanni Ih.
Strombus ef. luhuanus L.
Purpura alveolata Rve.
Oliva platensis Ph.
Voluta alta Sow. (?)
Strophocheilus oblongus Mull. var. crassa d’Orb.
Ampullaria canaliculata Lam.
Sete entre essas especies do Paraná foram encontradas
tambem na costa da Patagonia por d'Orbigny e Darwin,
conforme notei em parenthesis. Outro argumento que
demonstra a relação que existe entre a formação paranense
e certas camadas terciarias da Patagonia é o grande
roedor Megamys patagoniensis Lam. encontrado por d'Or-
bigny no Rio Negro e por Bravard e Ameghino no Paraná.
— 335 —
De grande importancia seria o conhecimento dos
Echinodermes do Paraná. Burmeister menciona uma Scu-
tella, a qual desconfio ser a Monophora Darwin.
Outro grupo de certa importancia para formar juizo
a respeito da idade dessas camadas é o dos peixes. Temos
a respeito uma publicação de G. de Alessandri ') des-
crevendo dentes de Odontaspis, Carcharias, Corax, Acrodus
e Myliobates. O autor conclue que o piso paranense como
parte da formação patagonica corresponde ao eoceno.
Não estão dados no momento os necessarios esclare-
cimentos para formar uma opinião mais ou menos exacta
a respeito das camadas terciarias de Paraná. Em geral a
fauna que alli se nos apresenta está toda extincta. Mas
existem certas relações intimas com especies viventes
correspondendo a certas especies fosseis como Pecten
paranensis d’Orb., Modiola lepida Ph., Dosinia meridio-
nalis Ih. as especies recentes viventes ainda na mesma
região: Pecten tehuelchus d'Orb. Mytilus Rodriguez
d’Orb., Dosinia concentrica Born. Não me refiro aqui ás
especies viventes encontradas na minha collecçäo por
julgal-as provenientes de outro horizonte mais moderno
da mesma localidade.
Quanto ás relações com as formações de Santa Cruz
não se deve só tirar em consideração a possibilidade da
contemporaneidade, mas tambem a differença que resulta
da temperatura, devido a grande distancia.
EK’ de presumir que o material agora estudado pelo
Dr. Steinmonn adiantará o assumpto, mas informações
completas e fidedignas só podem ser fornecidas por novos
estudos geologicos feitos no Paraná.
') Giulio de Alessandri. Ricerche sui pesei fossili di Paraná
Republica Argentina. Accademia Reale di Scienze di Torino. Vol.
31, 1595-1896 pag. 17, c. Estampa.
ESSO =
Echinodermes e Crustaceos.
Para o conhecimento dessas camadas terciarias são
de importancia os Hchinidos, a respeito dos quaes tenho
de fazer algumas observações. As especies até hoje conhe-
cidas são as seguintes.
Hypechinus patagonicus Des.
Echinus patagonensis d’Orbigny Voy. Am. m. Paléont.
Pl. 6 fig. 14—16 pag. 135.
S. Julian (com Ostrea patagonica).
Essa especie que deve ter o nome de patagonensis
(d’Orb.) parece-me differente da especie de Echinus que
tenho do Golfo de S. Jorge e que não combina com a
figura de d’Orbigny por ter os tuberculos dos interam-
bulacros em 4 series, tendo a especie de d Orbigny só
duas series de tuberculos muito maiores (três grands).
Parece pois que ha varias especies de Echinus. (Vide
Dujardin et Hupé Histoire naturelle des Zoophytes Echi-
dermes. Paris 1862 p. 530).
Echinarachnius juliensis Des.
Dujardin et Hupé 1. c. p. 568.
Desor Bull. Soc. Geol. Fr. 2 Ser. tom. 4 p. 287.
Porto San Julian. Tenho essa especie da formação
patagonica. E” especie bastante variavel, especialmente
quanto aos ambulacros. Esses têm em geral a fórma de
uma lyra, fechando-se quasi na parte distal para depois
abrir-se de novo. A parte terminal, aquella onde as linhas
de poros de novo divergem é rudimentar, sendo variavel
o numero e a distancia dos poros. Acontece, que no
mesmo exemplar parte dos ambulacros é quasi fechada
e outra aberta. Ha exemplares onde a ultima secção
terminal divergente falta quasi completamente, e esses
exemplares representam já o genero Scutella.
— 337 —
Scutella patagonensis Desor.
Dujardin et Hupé 1. c. p. 564.
Do Porto St. Desiré.
Tenho essa Scutella da formação santacruzense de
Jegua quemada. O ano é como na especie precedente
inframarginal, distante cerca de 2 mm. da margem. Pa-
rece-me certo que ella é descendente da especie prece-
dente, com a qual tem de commum uma singularidade pela
qual differe das especies europeas cuja descripção ou
figura conheço. Na Sc. subrotunda Lam., por exemplo, os
troncos principaes em que se divide cada sulco ambu-
lacral tem ramificações só nos lados exteriores, mas aqui
existem ramificações tambem no intervallo entre os troncos
de um ambulacro.
Monophora Darwini Desor.
Dujardin et Hupé 1. ce. p. 564.
Ff. Lahille. Variabilité et affinités du Monophora
Darwini. Revista del Museo de la Plata. Tom. VII (La
Plata 1896 p. 409 ff.)
Scutella geometrica (Bravard) R. 4. Philippi Anales
Mus. nac. Chile 1. c. p. 15 Lam. II fig. 5.
Sobre essa especie temos a notavel monographia de
Lahille. Seria summamente util fazer um estudo critico
analogo das numerosas especies de Scutella descriptas
por Agassiz, Desor e outros. As minhas experiencias con-
firmam perfeitamente os resultados obtidos por Lahdlle,
quanto ds Scutellas etc. fosseis e 4 Encope emarginata
(Leske) do Brazil.
Infelizmente essa especie não é conhecida quanto ao
horizonte geologico a que pertence. Philippi diz que os
exemplares de Bravard por elle examinados provêm do
Rio Chubut, mas que a idade das respectivas camadas
corresponde a das camadas de La Bajada. Acredito que
isso seja exacto, visto como nas ricas colleeções por mim
Revista do Museu Paulista 22
— 338 —
examinadas das formações patagonica e santacruzense
nao ha Monophora alguma.
A essas especies tenho de ajuntar das collecgdes de
Ameghino mais uma da familia das Spatangidas,
Schizaster Ameghinoi sp. n.
Do Golfo de S. Jorge.
Merece menção que o genero Schizaster e alguns
generos affines ainda hoje estejam representados no mar
magellanico. Talvez a especie fossil tenha parentesco com
uma dessas fórmas vivas. Especie bastante parecida ou
talvez identica foi descripta por Philippi (Fosiles 1. e. p.
223 Lam. 52 fig. 2) sob a denominação de Micraster ata-
camensis Ph. e que, como acredito, não pertence ao genero
Micraster, mas sim a Schizaster pela excentricidade do
apex e falta de symetria dos petalos ambulacraes.
Essa especie caracterisa-se pela carina que se eleva
entre os ambulacros posteriores e por uma serie de
tuberculos situados no ambulacro anterior entre as duas
series de poros de cada lado. Long. 37, Lat. 36, Alt. 21
mm. Distancia do apex da extremidade posterior 16, da
anterior 21 mm.
Philippi descreve tambem uma especie de Encope
(E. chilensis Ph.) do terciario de Caldera parecida a E.
Michelini das Antilhas. Essa especie do plioceno de certo
veiu da America Central. No terciario antigo do Chile
faltam as Scutellidas.
Entre os Echinodermes mencionados é de interesse
bem pronunciado a familia das Scutellidas. Temos especies
recentes dessa familia essencialmente americana no litoral
brasileiro até ao Rio Grande do Sul, até onde se extende
a Encope emarginata Leske. Hoje na região patagonica
e magellanica não está mais representada a familia
das Scutellidas.
Sabe-se que os estados juvenis de Encope, Mellita
e outros generos cujo disco é perfurado por clunula» e
— 339 —
mais orificios, são destituidos dessas perfurações. Depois
apparece a lunula impar, representando a Encope emar-
ginata quando de 9 mm. apenas o estado de Monophora,
e esse como os outros generos principia o desenvolvimento
como simples disco sem perfurações. A esse desenvolvi-
mento embryonal corresponde perfeitamente a evolução
phylogenetica do grupo. As especies do terciario antigo
são pequenas e com o disco simples, tendo em parte o
ano situado entre a bocca e a margem e os petalos am-
bulacraes abertos. O genero Scutella principia no oligo-
ceno. Os generos munidos de perfurações apparecem no
mioceno. Não podemos, pois, admittir que as camadas
que contêm a Monophora sejam de idade mais remota
do que a miocena, e a formação santacruzense com refe-
rencia ás Scutellas póde ser oligocena ou miocena, mas
não eocena.
Nessas condições as Scutellidas são um dos grupos
mais apreciaveis para formar juizo sobre a idade geolo-
gica das formações. E’ grupo quasi exclusivamente ter-
ciario, existindo fórmas parecidas da familia das Cly-
peastridae na formação cretacea. As diversas «Scutellas»
descriptas do eoceno foram reconhecidas como pertencentes
a outros generos.
As Scutellas não apparecendo antes do oligoceno não
podemos reconhecer idade mais alta á formação santa-
cruzense, representando a formação patagonica o eoceno
ou eoceno superior, e a formação tehuelche, com a qual
provavelmente é synchronica a formação paranáense, 0
mioceno.
Pouco mais tenho a accrescentar em referencia aos
outros grupos dos Evertebrados. Ha varias especies
de Balanus nessa collecção entre ellas achando-se repre-
sentado por fragmento o Bal. varians Sow. da formação
patagonica e uma especie da form. santacruzense que o
Dr. Weltner a quem a entreguei classificou com o Bal.
laevis Brug., especie actualmente encontrada nas costas
do Chile e Perú, Predominam os Balanus na formação te-
— 340 —
huelche, mostrando que os respectivos organismos vive-
ram em agua baixa.
O dedo da tenaz de um caranqueijo da formaçäo
santacruzense póde ser proveniente do Cancer patagonicus
Ph. (Philippi 1. c. Fosiles p. 213 Lam. 50 fig. 1).
Ha mais diversos fragmentos de Bryozoos e um de
uma especie de coral que parece ser do genero Oculina.
Restos de coraes, pois, alli parecem ser ainda mais escas-
sas do que em Navidad. Extranho que nem um unico
otolitho de peixe encontrei nessa collecção de organismos
fosseis da Patagonia. Parece-me signal de que peixes com
otolithos grandes não houve alli naquella epoca, e que
ao menos não houve Sciaenidae, cujos otolithos não pu-
dessem ter escapado ao Snr. Carlos Ameghino.
Discussão comparativa
Comparando entre si as duas formações terciarias da
Patagonia nota-se grande analogia. Faltam na formação
santacruzense a excepção de alguns fragmentos os Bra-
chiopodes e na formação patagonica as Dentaliidae, dif-
ferença que, ccm o augmento dos conhecimentos, de certo
desapparecerá. |
Os generos representados na formaçäo patagonica
existem tambem na formação santacruzense, a excepção
só de dous: Cucullaea e Siphonalia, ambos ainda viventes,
mas em outras regiões do globo. E’, porem, notavel que
as especies de Cucullaea, e especialmente a grande C.
Dalli Ih. que se assemelha á C. crassatina Lam. da bacia
eocena de Paris dêem um caracter mais archaico á formação
patagonica, sendo substituidas por especies de Arca e
Pectunculus na form. santacruzense. Ao contrario na
formação santacruzense apparecem muitos generos que
ainda não foram encontrados na formação subjacente.
Nas listas aqui publicadas ha 50 especies da form.
patagonica e 70 da form. santacruzense, sendo 7 especies
communs a ambas, Podem ser observadas, entretanto, as
— 341 —
duvidas que emetti sobre a occurencia da Struthiolaria
Ameghinoi na form. patagonica e sobre a identidade da
Cardita patagonica nas duas formações
De especies recentes temos na formação patagonica:
Magellania globosa Lam.
Trophon laciniatus Mart.
» varians d’Orb.
e talvez o Mytilus chorus, sendo porem preciso dizer
que não conheço exemplares recentes da Magellania
mencionada, não sendo certa a determinação. Quanto ás
duas especies de Trophon não resta duvida.
Da formação santacruzense temos na nossa lista 70
especies das quaes ainda vivem:
Trochita corrugata Rve.
» magellanica Gray
Trophon laciniatus Mart.
O Trophon varians d'Orb. que já tenho das formações
que precedem e succedem ad form. santacruzense, sem
duvida ha de ser encontrado nella ainda, como deve
acontecer com a Magellania. Se, pois, a essas duas especies
ajuntarmos as outras mencionadas temos de especies vi-
ventes na
form. patagonica 3 ou 6 “4%.
form. santacruzense 5 ou 7ºh.
Não convem de modo algum ligar muita importancia
a taes resultados, visto como tenho boa collecçäo de con-.
chas fosseis de Santa Cruz e cousa alguma de conchas
recentes da mesma localidade, sendo como já Philippi o disse
quasi nada conhecido dos molluscos viventes nas costas
argentinas. Espero que a expedição que para encher essa
lacuna foi organisada por esse Museu terá bom exito e
então poderei de novo e sobre bases mais solidas oc-
cupar-me desse assumpto.
Em todo caso, porem, podemos dizer, que as collecções
aqui examinadas e discutidas provam a idade paleogena
das camadas terciarias de Santa Cruz, tendo sido encon-
tradas especies ainda vivas entre as fosseis, embora
— 342 —
em numero reduzido. Darwin e d Orbigny acreditavam
que especies ainda vivas faltassem completamente nessas
camadas.
E' bastante difficil a determinação da idade geologica
das formações terciarias da Patagonia, não sendo jara
estranhar a divergencia que a tal respeito ha entre as
opiniões dos diversos autores. Não pretendo repetir a
respeito o que é conhecido e vou me referir só aos autores
mais modernos. Só esses distinguem entre as formações
patagonica e santacruzense, quando Darwin, d Orbigny
etc. consideraram as differentes formações da Patagonia
como uma unica, que julgaram ser eocena (Darwin) ou
miocena (d@ Orbigny). A formação patagonica é considerada
eocena por Ameghino como por Mercerat, a formação
santacruzense que Ameghino classificou tambem como
eocena é miocena na opinião de Mercerat. Zattel e Stein-
mann consideram as duas formações terciarias de Santa
Cruz como correspondentes ao oligoceno e mioceno europeo.
Sujeitando a um estudo critico os argumentos em
que essas opiniões estão baseadas veriflca-se que os mam-
miferos pouco se prestam para uma determinação exacta
da idade geologica. A prova mais evidente disso é o
facto, que nem Ameghino nem Zittel pelas comparações
das diversas faunas o tem verificado, que as duas for-
mações de Santa Cruz estavam trocadas no seu lugar,
sendo até a pouco a patagonica considerada como a mais
nova, quando em verdade ella está situada em baixo da
outra.
Que discussões geraes dessa ordem pouco podem
valer mostra-o ainda o exemplo de Schlosser que, como
Koken ') diz, concluindo pelo caracter gerai dos roëdores
etc. da formação patagonica affirmou ser de idade plio-
cena aquella formação.
Realmente as circumstancias fazem a discussão muito
mais difficil para a Patagonia como para a Europa. Nesse
') E. Koken Die Vorwelt. Leipzig. 1895 p. 457.
— 343 —
ultimo continente as differentes faunas estavam em rela-
ções de migração seguida com os continentes adjacentes
e alem disso as camadas com ossos petrificados muitas
vezes por transgressão do mar foram cobertas de sedi-
mentos marinhos, que facilitam o exame da idade geo-
logica.
Na Patagonia, porem, temos uma rica fauna de mam-
miferos que ficou isolada durante a formação eocena e
assim conservou-se até ao principio do plioceno. Pro-
vem dessas condições que houve um desenvolvimento
continuo e pouco marcado e que as duas faunas de mam-
miferos, iguaes entre si no caracter geral, e ambas
contendo apenas um ou outro genero recente, não offe-
recem momentos evidentes para a comparação com as
faunas contemporaneas de outras regiões do globo.
Acontece quasi o mesmo com os molluscos. O ca-
racter geral das duas faunas é o mesmo, são poucos os
generos extinctos, e ha em ambas representação de algumas
especies recentes. Ha uma familia só que no meu vêr
offerece dados certos, momentos para a distincção entre
uma fauna mais antiga e outra mais moderna, a das
Arcidas. Na formação patagonica ha uma especie de Cucul-
laria, subgenero de Arca, representada na formação eocena
da bacia de Paris e diversas especies de Cucullaea, entre
ellas a singular C. Dalli Ih. que muito se assemelha a
C. crassatina Lam. do eoceno da França. Na formação
santacruzense ao contrario encontramos especies de
Arca e Pectunculus, isto é, dos generos ainda hoje repre-
sentados no littoral atlantico da America Meridional.
Alem disso apparecem na formação santacruzense mais
generos novos, modernos e especies que ainda vivem ou
que se ligam intimamente a especies vivas.
Na formação santacruzense encontram-se entre 70
especies 7 ou 10 * do total da fauna que são communs
ä formação patagonica, as outras 90 ° das especies
são differentes. Isso combinado com os factos já acima
indicados demonstra uma grande e importante differença
Le AAA
faunistica, como outra igual não é conhecida no desen-
volvimento das faunas marinhas terciarias da Patagonia.
E” essa a razão porque não posso acreditar que WI. Ame-
ghino tenha razão quando considera ambas essas faunas
eogeneas da Patagonia como eocenas. A fauna da for-
mação santacruzense é posteocena, e nesse sentido vejo-
me em harmonia com Steinmann e Moerike, que declaram
as camadas de Navidad de idade oligocena ou mioceno-
inferior e synchronicas com as de Santa Cruz.
O que é preciso para chegar a resultado correcto e
firme é deixar de lado as considerações geraes sobre o
caracter das faunas e procurar os factos realmente deci-
sivos. Nesse sentido, como já expuz, estamos luctando
com difficuldades extraordinarias relativamente as for-
mações terciarias da Patagonia. Um desses momentos
negativos, que tornam mais difficil a discussão, é a falta
completa de nummulithos nas formações neogeneas da
Patagonia e do Chile. E' esse assumpto, que merece um
estudo comparativo especial, visto como parece que os
nummulithos são encontrados só nas formações eogeneas
do velho mundo e da America do Norte, faltando aos
depositos terciarios do hemispherio austral.
Os momentos decisivos a que me refiri são na minha
opinião os seguintes:
1., A presença de ossos de dinosaurios e de peixes
cretaceos na formação guaranitica, que é cretacea. Resta
decidir se a formação do Pyrotherium é postguara-
nitica, como Mercerat o diz, ou guaranitica como #7.
Ameghino o declara. Sendo Ameghino e Mercerat conformes
na declaração de que essa transição dos depositos cretaceos
aos terciarios é tão insensivel como nos depositos de
Laramie, não podemos duvidar que a opinião sustentada
por ambos os naturalistas argentinos seja correcta e que a
formação patagonica é eocena. As conchas por mim exa-
minadas da formação de pyrotherium são differentes
das da formação patagonica, mas isso e a falta de typos
cretaceos nada quer dizer em vista do numero restricto
— 345 —
de duas a tres especies. Mais collecções das conchas
dessa formação são necessarias e promettem interessante
resultado.
2., A presença das Scutellas, que como Zittel affir-
ma na Europa são limitadas ás formações oligocena e
miocena. Cotteau, porem, (Paléontologie française 1891)
admitte 3 especies de Scutella como eocenas, de modo que
tambem a Sc. patagonica podia ser do eoceno superior.
Está formando esse genero mais uma relação entre o
terciario europeo e patagonico, sendo notavel a falta de
Scutella no terciario chileno.
3. O apparecimento de mammiferos pliocenos de
origem norte-americana na formação araucana e pam-
peana. Foi esse um facto que attrahio a attenção de
todo o mundo scientifico para as importantissimas desco-
bertas de Wlorentino Ameghino depositadas em numerosas
publicações e especialmente na sua grande obra ) de
1889. Alli está a prova de que no terciario antigo da
Patagonia ha ao lado de grupos extinctos generos que
são os precursores dos actuaes desdentados, roêdores etc.
da America Meridional, ede que a começar da formação
araucana entraram typos novos como veados e porcos do
matto, lamas, gatos e outros carnivoros que chegaram
da America do Norte. Essa fauna nova corresponde
como Zittel o diz 4 fauna mais antiga do plioceno euro-
peo. Que as duas Americas durante a era cretacea e
terciaria estavam separadas até ao principio do plioceno
ou ao mioceno superior, questão que deu origem a uma dis-
cussão entre Ameghino e mim, actualmente pessoa alguma
contesta e Ameghino mesmo assim ha pouco o reconheceu.
Está assim provado que a formação pampeana onde
apparecem os animaes pliocenos da America do Norte é
pliocena, embora abrangendo provavelmente tambem
o pleistoceno. Está em completa harmonia com essa des-
1) Fl. Ameghino Contribucion al conocimiento de los mami-
feros fosiles de la Republica Argentina. Buenos Ayres 1889, (Aetas
de la Acad. de ciencias de Cordoba. Tom. VI.)
— 346 —
coberta o facto, de terem sido encontrado na formação plio-
cena da America do Norte mammiferos pampeanos, cons-
tituindo formações de ossos fosseis em certos lugares,
sobrepostos por camadas marinhas com conchas pliocenas.
Parece-me que esses são os momentos mais decisivos.
A analogia entre as formações synchronicas de Santa
Cruz, form. santacruzense, e de Navidad no Chile pouco
nos adiantam visto como não é conhecida a idade exacta
daquellas camadas. Se, porem, Steinmann e Moerike enten-
dem que aquella formação é de idade oligocena ou mio-
cena inferior, isso exactamente corresponde ás conclusões
a que por minha parte cheguei. E”, porem, provavel que
a investigação das formações terciarias do Chile tenha mais
a ganhar com os estudos referentes á Patagonia do que
esses com aquellas. Provavelmente será possivel em Levu,
Navidad etc. demonstrar a existeneia tambem de duas for-
mações eogeneas, e os naturalistas que com esse assumpto
se querem occupar têm de ligar attenção especial a
distribuição stratigraphica dos generos Cucullaea, Arca
e Pectunculus.
Creio que a seguinte tabella da idade relativa das
diversas formações discutidas não está muito distante
da possivel exactidão de classificação.
Formação Idade geologica
Guaranitica cretacea
Pyrotheriorum eoceno inferior
Patagonica eoceno superior
Santacruzense oligoceno e mioceno inferior
Tehuelche
Paranense MD q
Pampeana plioceno
Consideremos agora a fauna do terciario paleogeneo
da Patagonia pelos seus caracteres geraes, sem distincção
das duas formações.
— 347 —
As familias que predominam nos depositos paleoge-
neos de Santa Cruz sao quanto aos gastropodos: Pleuro-
tomidae, Terebridae, Cancellariidae, Muricidae, Fusidae,
Volutidae, Marginellidae, Columbellidae, Ficulidae, Stru-
thiolariidae, Tritonidae, Naticidae, Calyptraeidae, Tur-
ritellidae, Scalariidae, Pyramidellidae, Trochidae, Fissu-
rellidae, Bullidae, e quanto ds bivalvas: Pholadidae, So-
lenidae, Saxicavidae, Mactridae, Tellinidae, Veneridae,
Cardiidae, Lucinidae, Astartidae, Mytilidae, Aviculidae,
Arcidae, Nuculidae, Ledidae, Pectinidae, Ostreidae, e de
outros grupos Dentaliidae, Terebratulidae, Rhynchonel-
lidae.
Quasi todas essas familias tém ainda hoje represen-
tantes no mar patagonico ou magellanico. A familia das
Struthiolariidae foi bem representada nas camadas ter-
ciarias da Patagonia, do Chile e da Nova Zealandia; as
poucas especies viventes sao encontradas sémente na
Nova Zealandia e no mar antarctico. Antigamente reu-
niu-se o genero Struthiolaria 4 familia Strombidae, da
qual differe pela anatomia e pela radula bastante dif-
ferente. Creio que a radula melhor póde servir para
esclarecer as verdadeiras relações de parentesco desse
genero aberrante. A familia Strombidae restringe-se aos
mares quentes subtropicaes e não foi representada na
Patagonia nem na era terciaria nem na fauna actual.
Outro genero dos mares tropicaes é Ficula, representado
durante o terciario antigo por varias especies na Pata-
gonia e no Chile onde actualmente a respectiva familia
não tem representantes.
Se, pois, essas familias desappareceram dom piano
da fauna patagonica ou magellanica ha outras que des-
appareceram quasi completamente, sendo ainda repre-
sentadas por uma ou outra especie. Da familia Cardiidae,
que tão boa representação teve na fauna terciaria do
Chile e da Patagonia existem actualmente nessas regiões
só duas especies pequenas Cardium parvulum Dkr. do
mar magellanico e C. pygmaeum Ph. da costa do norte
— 348 —
do Chile. Da familia Aviculidae existe uma especie de
Pinna (P. patagonica d’Orb.) na costa da Patagonia (Rio
Negro), mas näo me consta qne seja encontrada mais ao
Sul e no mar magellanico. Na era terciaria, porem, viveu
em Santa Cruz uma grande e bonita especie de Perna,
genero do qual especie alguma é conhecida fora da
zona tropical ou subtropical dos grandes oceanos. Acon-
tece quasi o mesmo com as Arcidas, antigamente tão
ricamente representadas na região de Santa Cruz e da
qual alem de 1—2 especies de Pectunculus não se conhece
outra especie do mar magellanico senão uma Arca um
pouco aberrante, a Lissarca rubrofusca Smith, especie
conhecida tambem em outras partes do mar antarctico.
A Arca magellanica Ch., que pelo nome póde ser supposta
de origem do Estreito de Magalhães alli vive tão pouco,
como o Conus magellanicus Hwass, que é das Antilhas
ou Pecten magellanicus Gm. da America do Norte.
Em geral é sorprehendente a analogia ou concor-
dancia que existe entre a fauna extincta e a recente de
Santa Cruz. Não só as familias alli hoje representadas
o foram já no tempo do terciario antigo, e até existem
algumas especies que ainda vivem e já estavam alli
estabelecidas na formação eocena, como tambem nas fami-
lias predominantes os grupos, generos etc. são quasi
sempre os mesmos como na fauna actual. Assim das
Muricidas ha só o genero Trophon, das Tritoniidas o
genero Argobuccinum, que encontramos, seja recente, seja
fossil. Entre as Naticas já no paleogeneo como na actualidade
alli predomina o subgenero Lunatia. As Volutas fosseis
têm de ser consideradas precursoras das especies que na
mesma região ainda hoje vivem.
Dos generos que naquella epoca viveram em Santa
Cruz, como já foi mencionado, alguns hoje são encontrados
só nos mares tropicaes. Outros como a Struthiolaria ex-
tinguiram-se, conservando, porem, representantes nas
Ilhas Kergueles e na Nova Zealandia. Mais ou menos
parecido é o caso das especies de Siphonalia, genero que
— 349 —
não tem mais representantes na Patagonia e cujas espe-
cies vivas são encontradas na Nova Zealandia, na Aus-
tralia e no Japão.
Algumas especies representadas naquelle tempo em
Santa Cruz hoje alli não existem, mas fazem parte da
fauna actual do Chile. Trochita corrugata Rve. e magel-
lanica Gray são duas especies do mar chileno que até
hoje não foram encontradas fosseis no Chile, mas sim no
terciario patagonico. A Crepidula gregaria Sow., do ter-
ciario argentino está intimamente ligada a Cr. dilatata
Lam., especie recente chilena. As Turritellas fosseis do
terciario argentino pertencem ao grupo representado por
Turr. cingulata Sow., da fauna actual do Chile.
| Não posso repetir aqui o que consta dos capitulos
antecedentes, mas de alguns generos julgo conveniente
tratar mais especialmente.
Genero cuja representação é rica e bem interessante
é Trophon. As especies desse genero em geral vivem nas
zonas antarctica e arctica, facto do qual podiam ser dedu-
zidos argumentos em favor da theoria do bipolarismo.
kK’ porem preciso notar, que especies varias desse genero,
embora das menos typicas, occorrem no Japão e no mar
Mediterraneo. O que vale mais é, que na Europa central
o genero tambem estava representado durante o periodo
terciario, a começar ao menos da formação oligocena.
Isso nos prova, que o genero Trophon não é genero ca-
racteristico dos mares frios e que se actualmente as
especies tendem a conservar-se somente nas zonas frias,
isso é uma phase mais moderna na historia do genero
mencionado.
Entre as diversas especies viventes de Trophon da
região magellanica merecem menção especial as seguintes:
Trophon Geversianus Pall., do qualo Tr. patagonicus
Sow. da formação patagonica apenas representa uma
variedade pouco differente.
Trophon laciniatus Mart., representado nas formações
patagonica e santacruzense, se bem que resterá a decidir,
— 350 —
se em exemplares typicos ou por uma variedade pouco
differente (var. santacruzensis Ih.)
Trophon varians Orb. do que recebi exemplares das
formaçôes patagonica e tehuelche.
Trophon intermedius Gay do Estreito de Magalhães
assemelha-se pela forma e pelas costas espiraes ao Tr.
pyriformis Ih. da formação patagonica e pelo labio externo
encrassado ao Tr. labiosus Gray do Chile.
Trophon cancellinus Ph. da região magellanica faz
parte do genero Urosalpinx com que reuni Tr. leucosto-
moldes Sow. e mais duas especies terciarias.
Assim é singular que todos os diversos typos de
Trophon que caracterisam a actual fauna da região ma-
gellanica já são representados por especies afflnes ou
identicos nas camadas terciarias de Santa Cruz.
E' bastante interessante a historia das Calyptracidas
da America do Sul. Actualmente vivem na Patagonia
representantes dos generos Crepidula e Trochita, e o
mesmo acontece no Chile, onde, porem, alem dessas ainda
ha especies de Crucibulum e na costa do Perú tambem
existem especies de Calyptraea. Desses dous generos
mencionados em ultimo lugar e que são caracterisados
por um appendice interno da concha em fórma de funil,
não é encontrada uma unica especie nos terrenos terciarios
da Patagonia ou do Chile. As especies que actualmente
vivem nas costas do Chile e Perú desses generos Cruci-
bulum e Calyptraea por conseguinte alli devem ter im-
migrados em tempo relativamente moderno. Uma especie
de Crucibulum é encontrada no Cabo Horn, que deve
ter chegado-do Chile, visto como na Nova Zealandia,
na Patagonia etc. faltam especies desse genero.
Nos terrenos paleogeneos da Patagonia existe uma
Crepidula (Cr. gregaria Sow.) que talvez é identica com
Cr. dilatata Lam. do mar do Chile e do Estreito de Ma-
galhães e que como essa teve o costume de fixar-se em
grupos á pedras de modo que a figura que d Orbigny
deu de uma pedra occupada por uma colonia de Cr.
— 351 —
dilatata corresponde perfeitamente com a figura de
Sowerby referente 4 especie fossil.
Philippi menciona do terciario chileno outra especie,
Cr. unguiformis Lam., que agora não vive mais no mar
chileno, porem ainda vive no mar Atlantico, donde a
tenho de Santa Catharina, e na costa da Nova Zealandia,
como na costa pacifica da America em Panamá.
Trochita corrugata Rve., que tenho da formação pata-
gonica, não vive mais na Patagonia, mas nas costas
pacificas da America Meridional, como tambem a especie
affine Tr. radians Lam., e um acaso singular o deu, que
as temos fosseis da Patagonia onde não vivem mais e
que não foram ainda encontradas fosseis no Chile. O
mesmo tenho de dizer de Trochita clypeolum Reeve. Espe-
cies parecidas ainda vivem na Nova Zealandia.
“Temos, pois, nessa familia um grupo de especies que
desde o principio da formação terciaria viveram na Pa-
tagonia e no Chile e mais outro grupo (Crucibulum e
Calyptraea) que apenas existem no Perú, Chile e até ao
Cabo Horn, mas que faltam nas camadas terciarias do
Chile e da Patagonia e que devem ter alli chegados por
immigração moderna.
O quadro aqui delineado da fauna antiga da Pata-
gonia e das suas relações com a fauna actual não seria
completo, se não fossem tomadas em consideração tambem
os caracteres negativos, as familias que nem ua actual
nem na extincta fauna são e eram representadas.
Temos de mencionar aqui uma serie de familias que
tambem na fauna actual fazem falta na Patagonia e na
região magellanica, e que são:
Fasciolariidae, Turbinellidae, Harpidae, Coralliophi-
lidae, Conidae, Cassididae, Doliidae, Cypraeidae, Lamel-
lariidae, Vermetidae, Strombidae, Planaxidae, Neritidae,
Haliotidae, Myidae, Gastrochaenidae, Scrobiculariidae,
Trigoniidae, Tridacnidae, Vulsellidae, Anomiidae.
E' notavel que essas familias faltam tambem 4 actual
fauna do Chile, a excepção das Scrobiculariidae, bem
— 352 —
representadas alli por especies de Amphidesma e Cumin-
gia, mas que faltam em Navidad etc. sendo possivel
que as especies fosseis do Chile pertençam ao terciario
mais novo. Uma especie de Cypraea foi encontrada em
Caldera, terciario neogeneo, que sem duvida veiu do Norte
para o Chile. O mesmo deve ter acontecido com as espe-
cies de Conus, Cassis, Pyrula, Vermetus, Nerita, Chenopus,
Sigaretus e Anomia que foram encontradas em Navidad,
sendo signal de uma temperatura bem elevada do oceano
e de uma immigraçäo de typos caracteristicos dos ocea-
nos tropicaes até ao Sul do Chile. -
Temos, pois, de um lado grande semelhanga e até
identidade de especies entre as conchas terciarias de Santa
Cruz e Navidad, e do outro lado typos tropicaes em
Navidad que fazem falta em Santa Cruz, o que pouco
será para extranhar, visto como a localidade patagonica
está situada 15º de latitude mais para o Sul, distancia
consideravel, 4 qual deve ter correspondida uma differença
notavel da temperatura e da fauna. Se, todavia, a con-
formidade, entre essas faunas distantes é grande, temos
nesse facto uma certa garantia para a exactidão tambem
das conclusões tiradas de caracteres negativos. Sem duvida
investigações novas têm de ampliar e modificar o quadro
aqui apresentado da fauna terciaria de Santa Cruz, mas
essas modificações têm de ser mais ou menos em con-
formidade com os resultados obtidos pela comparação das
fannas de Santa Cruz e Navidad.
Quanto aos generos ou familias representadas na
fauna actual e que fazem falta nas camadas terciarias
tratarei delles logo depois, discutindo a composição da
fauna actual. Antes de fazel-o preciso ajuntar algumas
observações sobre a fauna terciaria do Chile.
Sobre os organismos marinhos terciarios do Chile
estamos bem informados por diversas publicações entre
as quaes antes de tudo a excellente obra de R. A. Phi-
lippi é notavel. O estudo mencionado de Steinmann e
Moericke adianta o assumpto estudado por Darwin, Gay,
— 303 —
Philippi e outros relativamente ä idade geologica, demons-
trando a distincçäo necessaria entre o terciario antigo
ou paleogeneo de Navidad, Levu etc. e as camadas mais
modernas, neogeneas, de Coquimbo e Caldera. Isso já é
um progresso, mas parece-me certo que novas investi-
gações geologicas darão o resultado, que tambem no Chile
como na Patagonia podem duas formações paleogeneas
ser distinguidas, uma que como a de Navidad é compa-
ravel á formação santacruzense e outra mais antiga,
comparavel á formação patagonica. E’ provavel que como
na Patagonia as Cucullaeas caracterisem a formação mais
antiga, as Arcas e Pectunculus a outra mais nova.
A analogia que existe entre as formações paleogeneas
de Santa Cruz e Navidad já foi observada por Darwin
e Sowerby, e confirmada por todos os outros naturalistas
que do assumpto trataram. O estudo presente fornece
nesse sentido esclarecimentos mais exactas. Entre as con-
chas da formação patagonica ha 12 entre 50 ou 24%, e
entre as da formação santacruzense 14 entre 70 ou 20 %
de especies que são encontradas tambem no terciario
chileno. As familias representadas nas formações paleo-
geneas de Santa Cruz existem todas em Navidad, a ex-
cepção de duas: Marginellidae e Fissurellidae. Lembro
aqui as minhas observações sobre essas Marginellas pro-
blematicas, que vo. Martens considerou como Voluta e
que na obra de Philippi são mencionadas entre as Mi-
tridae. Quanto ao genero Fissurella tão ricamente repre-
sentado na fauna actual do Chile e faltando completa-
mente nas camadas terciarias do Chile, achei apenas uma
unica especie pequena.
A analogia entre as duas faunas extinctas de Santa
Cruz e do Chile é documentada tambem pela descoberta
do genero Amathusia Ph. que junto com Dicolpus Ph.
representa alli os generos terciarios extinctos. Quanto
ao genero Dicolpus não vejo tazão para separal-o do
genero conhecido Columbellina d’Orb., genero cretaceo
Revista do Museu Paulista 23
— 394 —
que, se eu tiver razão, no Chile conservou-se ainda du-
rante parte da era terciaria, faltando na Patagonia.
O genero Amathusia occorre somente no terciario
chileno e patagonico. São conchas de mais de 26 centim.
de comprimento. Não é certa a posição systematica do
genero, que Philippi classificou com as Veneridae. Nao
acredito que essa seja a verdadeira posição systematica
do genero. Não vejo vestigio de dentes lateraes nem nas
figuras de Philippi nem na charneira concertada por
mim por reunião de fragmentos. Existe ligamento externo
e na charneira um dente cardinal em uma valva, uma
cova profunda com dous dentes no lado opposto. A valva
é cerrada, a linha pallial não tem sino mas é direita-
mente descendente da impressão do adductor posterior,
de modo que faz vêr que houve syphão, mas pouco volu-
moso. Tudo isso me faz crêr, que Amathusia é apenas
uma Glycimeris (ou Panopaea) com o syphão pouco des-
envolvido, de modo que a valva não é hiante nas extre-
midades. Seja como fôr—é facto interessante que esse
genero extincto chileno tambem viveu no mar terciario
da Patagonia.
As camadas de Navidad passam, se nesse sentido
acompanhamos Steinmann e Moeriche, por paleogeneas,
provavelmente oligocenas ou do mioceno inferior, sendo
as de Coquimbo mais modernas, do mioceno superior ou
plioceno. Philipp: menciona dessas camadas paleogeneas
apenas duas especies recentes entre 291 de Navidad
(Crepidula unguiformis Lam. e Nucula cuneata Sow.) e
duas ainda viventes entre 153 de Tubul e Levu(Nucula
cuneata Sow. e Monoceros ou Chorus giganteus Less), 0
que apenas representa 1º, mais ou menos de especies
ainda vivas.
Questão que ainda resta a resolver é a origem dos
generos Monoceros e Concholepas. Steinmann e Moeriche
são da opinião, que esses generos no Chile apparecem
só nas formações neogeneas, acreditando que a presença
de duas especies de Monoceros nos terrenos terciarios de
— 355 —
Tubul seja explicada pela supposta coexistencia de cama-
das paleogeneas e neogeneas. Isso é possivel, mas não é
provado. Seja como fôr, o que é certo é, que nas camadas
paleogeneas do Chile especies de Monoceros são raras ou
faltam, apparecendo em grande abundancia nos terrenos
neogeneos de Coquimbo. Mais ou menos o mesmo pode
ser affirmado dos generos Purpura, Mactra sect. Mulinia,
Cumingia.
Ao contrario desses generos e familias ha outros que
não são de importancia pequena na fauna actual do
Chile, e que fazem falta completa nas camadas terciarias
do mesmo paiz, apparecendo apenas na formação quar-
taria. E’ esse o caso das familias: Patellidae, Acmaeidae,
Fissurellidae, Gadiniidae, Siphonariidae e do genero
Bullia. Essas familias, conforme a tabella de PAclippi,
na fauna actual do Chile estao representadas por 47
especies 0 que comparado com o total de 360 especies
representa 13 porcento.
Não podemos nessas condições duvidar do que essas
familias que do mesmo modo fazem falta completa no
terciario argentino, immigraram nas aguas chilenas
apenas depois da era terciaria.
E’ certo que a fauna marinha da costa chilena tanto
durante a formação terciaria como logo depois della pas-
sou por modificações importantissimas. A fauna paleoge-
nea do Chile, essa mesma que em grande parte é identica
a de Santa Cruz, differe daquella de Coquimbó, que é
neogenea, de modo que em quanto a ultima é de caracter
pacifico a outra offerece o caracter da fauna Mediterranea
como Philippi o diz, ou da fauna atlantica conforme
Sieinmann e Moericke. Não deve, entretanto, ser exage-
rado esse resultado, visto como ao lado de ty pos atlanticos
ja existem na fauna de Navidad, Tubul etc. generos
antarcticos como Struthiolaria, ou pacíficos como Cumin-
eia é Monoceros, embora que fracamente representados.
Essa differença não é proveniente de mudança de
clima, mas sim das modificações na configuração geo-
— 356 —
graphica da America Meridional. Durante a formação
eocena o Oceano Atlantico ainda cobria, como na epoca
cretacea, grande parte da America Central e Meridional,
separando completamente as duas Americas. Naturalmente
entrou então a fauna atlantica ás costas do Chile. Na
segunda metade da era terciaria, porem, ficou interrom-
pida essa communicação e afinal as especies costeiras
californicas puderam bem chegar até ao Chile sem entra-
rem no Golfo do Mexico. Julgo provavel que junto com
essas modificações geographicas deram-se transformações
radicaes no rumo das grandes correntes oceanicas, espe-
cialmente da do golfo. Se a corrente do golfo antigamente
passou pela America Central seguindo a costa pacifica da
America Meridional a temperatura do mar nas costas
chilenas, deve ter sido mais alta, como realmente parece
demonstrado pelas conchas, por exemplo pelas especies
de Cypraea e Conus.
Seria assim facilmente a entender como pela decli-
nação da corrente do golfo a temperatura no periodo
postplioceno abaixou sensivelmente nas costas chilenas.
Foi demonstrado por À. A. Philippi, que entre a fauna
terciaria e a quartaria das costas chilenas existe differença
mui notavel. « Não menos», diz Philippi, Los Fosiles
p. 247, «de 39 entre os 93 generos que povoaram o mar
terciario, isto e, quasi a metade, não existem mais actual-
mente em nossas costas... Houve uma mudança repentina
da fauna, não ha indício algum de uma transição suc-
cessiva dos molluscos chilenos da formação terciaria à
da actualidade. »
Voltarei ainda ao as impto do clima viz. das mu-
danças da temperatura do Oceano nas costas chilenas.
Sinto que não posso examinar e discutir as relações
que existem entre as conchas terciarias de Santa Cruz
e as da ova Zealandia, por falta de litteratura. Stein-
mann e Moericke declaram (p. 596), que Zittel (Exped. da
Novarra. Paleontologia) demonstrou entre as conchas ter-
ciarias, provavelmente miocenas, da Nova Zealandia
poe SE
algumas especies do terciario patagonico com » Limopsis
insolita Sow. e Natica solida Sow. e provavelmente tam-
bem Scalaria rugulosa Sow. e Crepidula gregaria Sow.
Recebi uma pequena colleeção de conchas pliocenas da
Nova Zealandia pelo Snr. Suter, que, porem, como não
é para extranhar, não offerecem analogias com as ter-
ciarias de Santa Cruz.
Temos agora de examinar as relações que existem
entre a fauna actual e a terciaria da Patagonia. Já indi-
quei, p. 347, as familias da fauna actual que já estavam
na mesma região representadas durante a era terciaria
e, p. 951, as familias que nem naquella epoca nem na
fauna actual tiveram representantes.
As familias de moliuscos que compõem a actual fauna
da região magellanica pertencem quanto a sua origem
a dous grupos bem differentes e que são: 1°, as que ja
estavam representadas durante » primeira parte da era
terciaria na mesma região e ~’., as que oriundas em
outra região do globo alli chegaram mais tarde por im-
migração.
Entre as familias que constituem a primeira secção
temos de distinguir dous grupos differentes. Parte dessas
familias alli estavam já na formação eocena representadas
por especies que ainda vivem ou que se ligam intima-
mente a especies recentes. Algumas especies de Trophon
como Tr. laciniatus Mart. e varians d'Orb. representam
o primeiro caso, diversas especies de Voluta o segundo,
sendo por exemplo V. Ameghinoi a precursora da Vol.
brasiliana. Em geral podemos considerar as especies vi-
ventes na costa patagonica dos generos Voluta, Trophon,
Turritella, Natica, Venus, Cytherea, Dosinia, Pecten etc.
como descendentes das especies terciarias que nessa zona
existiam.
Não podemos, porem, extender essa explicação á
totalidade das familias e generos. Ha outros generos que
actualmente têm uma representação fraca nessa região
e que não podemos considerar como derivada das especies
— 358 —
terciarias. Assim o genero Cardium, antigamente repre-
sentado alli por grandes especies hoje alli é representado
apenas por uma unica bem pequena especie, que talvez
represente um immigrante mais moderno. O genero Arca
que está no mesmo caso não está mais representado por
especies parecidas às da era terciaria, mas por uma espe-
cie da secção Lissarca e a mesma especie (L. rubrofusca
Sm.) é encontrada tambem na Nova Georgia e nas ilhas
Kerguelas. E’ essa, pois, uma especie antarctica que por
immigração veiu para a Patogonia, estabelecendo assim
de novo o genero Arca antigamente alli representado e
extinguindo-se depois. Faltam nos depositos terciarios
da Patagonia especies de Fissurella, tendo eu apenas
visto um pequeno exemplar demonstrando que aquella |
familia então alli teve um representante. Mas não pode-
mos suppôr, que todos os actuaes representantes do
genero sejam descendentes dessa especie. O caso quasi é
o mesmo como no Chile, onde ha na actualidade nume-
rosas especies de Fissurella e onde nenhuma foi encon-
trada nas camadas terciarias.
A familia das Mactridas foi representada na era ter-
Ciaria, mas as grandes especies da secção Mulinia na
actual fauna são immigrantes que chegaram do Chile.
A familia Mytilidae teve boa representação terciaria e
aleumas das especies viventes parecem descendentes de
especies terciarias, mas o grande Mytilus magellanicus
Ch. encontrado tambem nas ilhas Kerguelas, em Nova
Zealandia e ao Cabo de Boa Esperança, é de certo um
immigrante antarctico, como tambem prova a sua falta
nos terrenos terciarios do Chile e da Patagonia.
Assim estamos verificando que algumas familias de
molluscos estavam representadas no mar patagonico ter-
Clario, mas que depois extinguiram-se, sendo mais tarde
substituídos novamente por especies que chegaram im-
migrando da zona antarctica. Essas familias são as se-
œuintes: Cardiidae, Cerithiidae, Fissurellidae e os generos
Arca e Mactra (Mulinia).
As familias representadas na fauna actual da região
magellanica e que alli faltam nas camadas terciarias
são: Buccinidae, Purpuridae, Olividae, Mitridae, Litori-
nidae, Rissoidae, Patellidae, Acmaeidae, Siphonariidae,
Gadiniidae, Chitonidae, Anatinidae, Chamidae, Unguli-
nidae, Laseidae, Solemyidae, Paphiidae, Limidae.
EK’ certo que tambem essas familias não tiveram
todas a mesma procedencia. Especies de Purpura, Mono-
ceros, Concholepas etc. já occorrem nos terrenos terciarios
do Chile, em numero limitado nas formações antigas,
em abundancia nos terrenos neogeneos de Coquimbo e
Caldera. Não resta nessas condições duvida alguma, que
as especies de Purpuridae da região magellanica, em
parte identicas ás do Chile, são especies chilenas que
emigraram ao Estreito de Magalhães.
E' provavel que o mesmo aconteça com mais algu-
mas familias. Já assim o disse quanto ás grandes especies
de Mactra da secção Mulinia.
Ha, porem, além desses generos representados no
terciario chileno, outros que completamente fazem falta
nas camadas terciarias do Chile e da Patagonia e cuja
immigração deve datar apenas da epoca quartaria. Já
chamei a attenção ao facto, que as numerosas especies
de Patella, Acmaea, Fissurella, Siphonaria e Gadinia da
actual fauna chilena não têm um unico representante
ou precursor na formação terciaria do Chile. Donde vie-
ram? E’ o que só as paginas da chronica paleontologica
nos podem dizer com certeza. Ha, entretanto, alguns
momentos que parecem dar boas informações.
Varias especies de Patella, Acmaea etc. são communs
ao districto magellanico com a Nova Zealancia ou com
o Cabo de Boa Esperança, ou com as ilhas Kerguelas e
Nova Georgia. Isso nos faz crêr que essas especies origi-
naram da região antarctica. Posso explicar isso mediante
um exemplo instructivo. Ha muito poucas especies com-
muns ás costas argentina e chilena. A mais notavel entre
ellas é Siphonaria Lessoni Blvl, Se ella estivesse um mem-
— 360 —
bro das especies communs a ambas essas costas na era
terciaria, devia ter sido encontrado em estado fossil, o
que nao acontece nem para ella nem para outra qual-
quer especie de Siphonaria. E”, pois, especie antarctica
que desde o Cabo Horn successivamente extendeu-se em
ambos os lados da America Meridional. Essas emigrações
provavelmente já occoreram durante a segunda metade
da era terciaria e então sob outras condições, especial-
mente da temperatura. Podemos suppôr que assim houve
migrações de especies nos dous lados da America Meri-
dional e que essas especies durante a epoca glacial extin-
guiram-se na região magellanica, conservando-se nas
zonas mais temperadas tanto do Chile como do Brazil e
da Argentina. Isso é o caso da distribuição das especies
de Bullia (secção Buccinanops), communs e caracteristicas
nas regiões mencionadas sem serem representadas alli
em estado fossil.
A distribuição das especies de Monoceros, Concho-
lepas e Crucibulum nos faz crér que na epoca quartaria
as condições foram mais favoraveis para migrações ao
longo de toda a costa pacifica da America. Mas as im-
migrações mais importantes, as que mais influiram na
modificação da fauna, parecem ter sido as que originaram
da região antarctica. Assim por exemplo é a familia das
Litorinidas representada por uma especie só em Navidad,
por nenhuma em Santa Cruz. A unica especie até hoje
conhecida do districto magellanico, Laevilitorina cali-
ginosa Gld. é encontrada tambem em Nova Georgia e
nas Kerguelas e pertence a um grupo de generos ou
secções de familia cujos membros na sua distribuição
geographica são todos antarcticos. Não podemos, pois,
duvidar que essa Litorina não é originaria da Patagonia,
mas que ella veiu alli por immigração da zona antarctica.
O mesmo podemos assegurar de Modiolarca.
Questão importante relacionada com o assumpto do
que trata esse estudo é 0 do clima da região patagonica
durante a primeira metade da formação patagonica. Nesse
— 36] —
sentido temos de excluir da consideração os generos e as
especies intimamente ligadas ás que actualmente vivem
ha mesma região. Certas especies, como verifiquemos,
existem no mar de Santa Cruz desde a formação eocena
até hoje, e não podemos duvidar que ellas successivamente
se acostumaram a condições differentes do clima. Temos
na região magellanica ainda hoje especies de Voluta,
Marginella, Columbella, Mitra e até de Chama--caso o
Habitat esteja exacto—que em geral preferem os mares
de temperatura mais calida.
Não sofre, entretanto, duvida, que grande parte dos
molluscos das formações terciarias de Santa Cruz cor-
responde a um clima mais quente do que é o actual
dessa região. As grandes especies de Cardium e Tellina
correspondem como as de Bulla ao clima mais temperado.
Existem especies excellentes de Ficula e de Perna, como
não se encontram senão em mares tropicaes. E” signifi-
cante a representação das Arcidae. Especies de Cucullaea
e de Cucullaria parecidas ás da formação santacruzense
encontram-se na formação eocena de Paris, e na formação
santacruzense essas estão substituidas por especies typicas
de Arca e por um grande Pectunculus do grupo de P.
pulvinatus. Não ha razão para crêr, que essas especies
tão parecidas e talvez identicas ás da bacia eocena de
Paris tivessem existido sob condições climatericas muito
differentes, e o mesmo temos de dizer quanto aos Echi-
nodermes. As especies de Scutella viviam em mares de
temperatura muito mais elevada do que é a da região
magellanica actual.
Não queremos affirmar que a temperatura do mar
paleogeneo de Santa Cruz era tropical, mas não ha duvida
que foi subtropical, e que para encontrar condições na
costa atlantica apropriadas para a existencia dessa fauna
terciaria de Santa Cruz, ao menos teria-se de ir até a
Santa Catharina, ou mais ou menos 20°—22° de L. mais
ao Norte.
— 362 —
Essa mesma questão já foi discutida varias vezes
quanto ao clima de Navidad no Chile relativamente á
formação terciaria. D’Orbigny (1. c. p. 171—173) diz, que
durante a formação cretacea (piso neocomio) a Colombia
teve 50 *, de especies intimamente ligadas a especies da
bacia eocena de Paris e até 20°, de especies identicas,
em quanto que o mar magellanico naquella epoca offerecia
na sua fauna grande analogia com a do mar Mediter-
raneo. Só depois da formação cretacea principiou a sepa-
ração das faunas locaes marinhas conforme ás condições
climaticas. «Les mêmes espèces ne se retrouvent plus
d'un côté 4 l’autre du monde.» As faunas viventes a
ambos os lados da Cordilhera na formação terciaria são
differentes daquella da bacia de Paris, não obstante de
ambas consistir de especies caracteristicas dos mares
tropicaes.
Uma opinião bem differente sustentou Darwin (1. e.
p. 200). As conchas terciarias de Santa Cruz e de Navidad
parecem-lhe sufficientes para confirmar a theoria de Zyell
«que as causas do clima tropical que caracterisou o ter-
ciario antigo da Europa eram de caracter local e não
extenderam-se sobre todo o globo. Se o mar terciario de
Navidad era mais quente do que o actual, isso é devido
à corrente polar meridional» Os dados positivos em que
Darwin fundou a sua opinião eram insufficientes.
Philippi acompanha mais ou menos a Darwin nessa
questão. No seu estudo sobre o terciario chileno 1) diz
que o clima do Chile deve ter sido mais ou menos igual
ao actual durante o periodo terciario, visto como entre
as conchas fosseis fazem falta os representantes dos ge-
neros característicos dos mares tropicaes como Conus,
Mitra, Oliva, Terebra, Lucina, Avicula, Chama, Strombus,
Cypraea. E” singular que Philippi mais tarde (Los Fosiles,
p. 249) conservou ainda essa opinião pouco exacta, não
obstante que elle mesmo descobriu representantes dos
1) R. A. Philippi. Zeitschrift f. d. gesammten Naturwissen-
schaften. Bd. 51, 1878 p. 674,
— 363 —
primeiros 6 desses generos nas camadas paleogeneas do
Chile. Descreveu tambem o molde de uma indubitavel
especie de Cypraea, mas essa proveniente de camadas
neogeneas de Coquimbo, e de Strombus proveniente da
formação cretacea.
Não se entende como a conclusão pode ser a mesma
sendo completamente alterada a base da investigação. As
explendidas especies de Conus, de Cassis, de Ficula, de
Perna, etc. não deixam duvida sobre o caracter tropical
ou subtropical da fauna paleogenea de Navidad.
O mesmo deve ser declarado quanto a fauna de Santa
Cruz com a modificação, porém, que correspondendo á
grande distancia de 16º L. não se encontram em Santa
Cruz especies de Conus, Cassis e de outros generos.
Se Veumayer (Erdgeschichte IT p.492) seguindo nesse
sentido a d'Orbigny e Darivin é da opinião que não ha
relações entre o terciario patagonico e europeo, tal idea
não pode ser mais sustentada em vista das novas desco-
bertas aqui communicadas.
Com o exame dos molluscos terciarios de Santa Cruz
liga-se uma questão interessante e bastante discutida: a
da occorrencia de especies e generos identicos nas zonas
circumpolares do globo. Essa questão do «bipolarismo »
entra em nova phase devida ás informações que actual-
mente temos sobre a historia da fauna marinha da Pata-
gonia meridional pelo estudo presente.
Na segunda metade desse seculo começou o estudo
dos animaes que vivem em grande profundidade no
oceano e das condições physicas nas quaes alli existem
os organismos. Um dos primeiros resultados foi a des-
coberta de uma temperatura baixa e constante nas grandes
profundidades do Oceano e já em 1853 Schmarda " disse,
que devido a temperatura baixa e constante do mar em
grandes profundidades existem no Oceano Atlantico ani-
maes que na parte septentrional do mesmo Oceano vivem
1) K. L. Schmarda. Die geographische Verbreitung der Thiere,
Wien 1853. Bd. III p. 556.
— 364 —
em agua baixa. As dragagens effectuadas nos ultimos 3
dezennios confirmaram em parte essa opinião, visto como
perto do Senegal, ás ilhas Azoras etc. foram encontradas
especies conhecidas do mar do Norte. Mas essas observações
não devem ser generalisadas, visto como a fauna abyssal
ou de grande profundidade não é homogenea e identica
nas differentes regiões dos Oceanos. Assim já em 1880
Dall 9, veferindo-se ás explorações feitas pelo paquete
Blake no golfo do Mexico, provou, que as especies abys-
saes desse golfo correspondem aos grupos representados
no litoral da mesma região e que não existe a supposta
fauna abyssal universal. Do mesmo modo Murray |),
baseando-se nas explorações do «Challenger» contestou a
supposição de uma distribuição vastissima ou universal
em sentido horizontal dos animaes abyssaes, provando
que a distribuição da maior parte das especies esteja
local e não geral. Entre as 523 especies abyssaes encon-
tradas no hemispherio meridional ha 41 ou 8 porcento
encontradas tambem na região tropical eno hemispherio
septentrional, e 43 especies ou 8 porcento que faltando
na zona tropical reapparecem no hemispherio septen-
trional.
Examinando a questão relativamente á fauna da
região magellanica, alli achamos varias especies encon-
tradas tambem na zona arctica, ou nas costas da America
ou da Europa boreal, e que são as seguintes:
Saxicava arctica L.
Lasea rubra Mont.
Puncturella noachina L.
Mytilus edulis L.
Pecten vitreus Ch.
) Dall W. IT. Reports on the results of Dredging in the
Gulf of Mexico 1877—1878 by the U. S. Steamer Blake. General
Conclusions. Bull. Mus. Cambridge Vol. 6 N.º 3.
> Murray, J. On the deep and shallow water marine fauna of
the Kerguelen region. Transact. Royal Soc. Edinburgh V. 38 Part
2, 1896 p. 494.
— 365 —
Tomando em consideração toda a região antarctica
podemos ainda accrescentar:
Kellia suborbicularis Mtg. (Ilhas Kerguelas, Europa).
Scissurella crispata Flem. (Kerguelas, N. Europa, N.
America).
Natica groenlandica Beck (Kerguelas, N. Europa).
Dentalium entalis L. (Kerguelas, Europa).
Essa enumeração podia ser bastante augmentada.
Vale mais, entretanto, examinar as condições dessa distri-
buição vasta. Sahindo das Antilhas encontra-se ao longo
da costa sul-americana numerosas especies da India Oc-
cidental. No genero Strombus por exemplo das especies
viventes no mar das Antilhas St. gigas L. parece na sua
distribuição restricta ás Antilhas; Str. gallus L. tenho
da Bahia, Str. costatus Gm. de S. Sebastião e Str. pugi-
lis L. ainda occorre em Santa Catharina. Ha outras espe-
cies de uma distribuição mais vasta, occorrendo desde a
Patagonia até ás Antilhas, a Florida e mais ao Norte
nas costas dos Estados Unidos. Especies encontradas na
costa atlantica da America até às Atilhas e até a New
Jersey são por exemplo: Pholas costata L., Tagelus gibbus
Spengl., Labiosa canaliculata Say, Plicatula ramosa Lam.,
Lucina filosa Stimps. Ha outras que na costa norte-ame-
ricana só extendem-se até ä Virginia como Poromya sub-
levis Verril!. Thracia distorta Mont. encontrado na foz
do Rio da Prata occorre tambem em Honduras e Florida
como na Europa.
Temos, pois, ao lado de especies de uma distribuição
tropical, outras de distribuição mais vasta e até sobre as
costas atlanticas de quasi toda a America. Esse resultado
nos faz duvidar quanto ao bipolarismo, e um exame
critico realmente demonstra que as especies «bipolares»
todas são especies de uma distribuição enorme, mais
ou menos universal. Mytilus edulis é especie commum
da Europa e da America do Norte que occorre na Africa
do Sul, em ambos os lados da America Meridional, na
Nova Zealandia etc., não havendo representação nos
— 366 —
mares tropicaes. I’ isso, pois, uma especie cosmopolita
que actualmente prefere as zonas temperadas e frias,
mas que como o prova a distribuição enorme, antiga-
mente viveu tambem na zona tropical, caso que alli não
existe ainda, mas descripta sob outra denominação. A
mesma distribuição enorme tem Saxicava arctica L.
(Estreito de Magalhães, Kerguelas, Santa Catharina, Ame-
rica do Norte, Europa do N.) Lasea rubra Mont. (Estreito
de Magalhães, Kerguelas, Nova Caledonia, Cabo de Boa
Esperança, Ilhas Canares, Europa) e Pecten vitreus Gm.
(Estreito de Magalhães, Japão, Philippinas, America do
N., Europa).
Não se encontrou até hoje uma unica especie antar-
ctica puramente bipolar e que não occorresse tambem
nos mares temperados ou tropicaes. Parece, porem, que
algumas dessas especies cosmopolitas, encontradas nas
zonas temperadas e frias em agua baixa da costa, nas
regiões subtropicaes occorrem só nas grandes profundi-
dades do Oceano. Para essas especies podemos bem admittir
que chegaram de uma região polar á outra, mediante
migração no fundo do Oceano.
Para conhecer o numero das especies as quaes essa
explicação é bem applicavel examinei a lista dos mol-
luscos colligidos na parte septentrional do Oceano Atlan-
tico em profundidade de mais de 2000 m., conforme a lista
publicada por Norman '). Entre 202 especies contem essa
lista as seguintes que tambem foram observadas na região
magellanica:
Saxicava rugosa L.
Kelliella miliaris Ph.
Scissurella crispata Flem. °)
Puncturella noachina L. (Japão).
') Rev. Norman. Die Tiefseefauna. Nachrichts-Blatt d. D.
malakoz. Ges. XVI. 1884 p. 75—S1 (cf. Transact. Nat. Hist. Soc.
Northumberland Vol. VIII p. 1).
*) Essa especie encontrada nas Ilhas Kerguelas nao me consta
ainda que tambem fosse encontrada na regiao magellanica como
o sei das outras,
— 307 —
Todas essas especies vivem na regiäo circumpolar,
tambem na agua baixa das costas, e algumas dellas, como
já o verifiquemos, têm uma distribuição geographica quasi
universal. São pois apenas 4 entre 200 especies ou 2
porcento entre essas conchas do Oceano Atlantico do
Norte a que é applicavel a theoria indicada da divulgação
de polo a polo mediante a zona abyssal do Oceano.
Dall observou que entre as conchas colligidas pelo
«Blake» ha cerca 20 porcento de especies que na sua
distribuição vertical se extendem da zona litoral até a
profundidade de 2000 braças. Isso explica bem a occor-
rencia de especies da região polar em aguas profundas
da zona tropical, mas tanto as observações emcima indi-
cadas sobre as especies abyssaes do Oceano Atlantico do
Norte como as de Dall e Murray sobre a falta de uma
fauna abyssal geral, devem impedir-nos a generalisar os
exemplos citados de distribuição de polo a polo.
E' pois impossivel de suppor que a fauna antarctica
seja identica á arctica mediante immigração pela zona
profunda do Oceano. Um exame critico nem Cemonstra
essa identidade das faunas, supposta e ao menos muito
exagerada por Pfeffer. Ha generos antarcticos que não
occorrem na região arctica como Modiolarca, Photinula,
Struthiolaria, e generos articos que não são observados
na zona antarctica como Volutharpa, Buccinopsis, Lacuna,
Moelleria, Cyprina, Mya. Além disso prevalecem na região
polar generos que na região antarctica quasi faltam como
Buccinum, Neptunea, Sipho, Margarita Trichotropis,
Astarte, Cardium. Ha generos que só no hemispherio do
Norte entram na região circumpolar como Chenopus,
Bulla, Anomia e outros que só tem representação nas
aguas frias da costa no hemispherio meridional como Mo-
noceros, Ranella, Fissurella, Marginella, Bullia.
Assim é provado, que a semelhança entre as faunas
arctica e antarctica não é tão grande como alguns autores
a julgam. Não existem especies bipolares, mas sim espe-
cies de uma distribuição vasta e especies que nas regiões
— 368 —
circumpolares entram na ona littoral preferindo nas
zonas intermediarias a agua fria das grandes profundi-
dades. Ha generos como Trophon, Admete, Margarita,
Yoldia etc. que estão quasi limitados aos mares frios,
mas quasi sempre ha tambem nesses generos algumas
especies em mares temperados e até tropicaes. São gene-
ros que como a geologia nos o demonstra antigamente
tiveram uma distribuição mais vasta e que actualmente
preferem os mares circumpolares ou as grandes profnn-
didades dos oceanos.
Apresenta-se nos assim a questão desse «bipolarismo»
como um problema bastante complexo sobre o qual os
estudos mais valiosos foram publicados por A. Ortmann '),
com cujos resultados mais combinam os meus.
As diversas causas que contribuiram ao actual estado
da distribuição dos organismos arcticos e antarcticoo são
as seguintes :
l., Theoria de Schmarda. Animaes que nas zonas
frias circumpolares vivem na zona litoral entram nas
zonas temperadas e tropicaes em agua fria das grandes
profundidades. E” desse modo que migrações de polo
a polo se podem realisar e como temos verificado se têm
provavelmente dado em certos, mas em restricto numero
de casos.
2., Theoria de Theel, Pfeffer e Murray. Certos ge-
neros antigamente universalmente distribuidos, restrin-
giram-se na sua distribuição durante a era terciaria e
de modo como as actuaes zonas climaticas se desenvol-
veram as regiões circumpolares. As considerações hypo-
theticas e meramente subjectivas sobre as condições
physicas que favoreciam ou retardiam as transformações
deixo ao lado. Será porém preciso modificar essa theoria,
que sem duvida representa a razão mais decisiva nessas
transformações geographicas, no sentido, do que não foi
1) A. E Ortmann Grundzuege der marinen Thiergeographie.
Jena 1896 e do mesmo autor: Ueber Bipolaritaet in der Verbrei-
tung mariner Thiere. Zoolog. Jahrb, Bd. IX. 1896. p. 571595,
— 369 —
na era terciaria. mas na quartaria que essas differenças
mais se accentuaram devido sem duvida ao poderoso
phenomeno da epoca glacial, que, como no hemispherio
do Norte, tambem no do Sul se fez sentir, embora
em condições menos grandiosas, como ainda ha pouco
foi confirmado por Steinmann ') e Nordenskjocld ”). Se a
fauna actual de Santa Cruz é a do Estreito de Magalhães
e antarctica, a fauna terciaria da mesma localidade nada
ainda disso faz vêr.
“3, Theoria de Ortmann’) e Bouvier '). Ao longo da
costa pacifica da America e como Ortmann acredita tam-
bem da costa atlantica da Africa deram-se migrações de
animaes arcticos para o polo Sul.
A essa theoria oppõe-se o facto, de que na America
Central existe uma fauna litoral tropical muito differente
das que se seguem ao Norte e ao Sul. Ha generos eury-
thermos isto é, pouco sensiveis contra as differenças de
temperatura e aos quaes uma explicação como essa podia
ser applicavel. Assim as especies de Monoceros exten-
deram-se desde o Estreito de Magalhães nas costas paci-
ficas até a California, mas não até ao Alaska e especies
de Haliotis occorrem desde o Japão até a California, mas
não existem e nunca existiram nas costas do Chile e da
Patagonia tendo, porem, desde o Japão se distribuido até
ao Mediterraneo, a Australia e Nova Zealandia. As
conchas pleistocenas da California e do Chile não favo-
recem essa idea. Parece-me que para defendel-a, ao menos,
não se devia tomar em consideração as condições actuaes,
mas as que reinavam durante a epoca glacial. Mesmo
') Steinmann enganou-se referindo a formação de los rodados
ou tehuelche ao pleistoceno. Naquelle tempo, porem, nada se
conhecia das conchas contidas nessa formação.
> O. Nordenskjoeld. Algunos datos sobre la naturaleza de la
region magellanica. Anales Soc. scient. Argentina. Tom. 41. Buenos
Ayres 1897 p. 190—198.
*) Ortmann. Bipolaritaet 1. €. p. 583.
*) E L. Bouvier. Sur la classification des lithodinés et sur
leur distribution dans les Océans. Ann. d Sciences nat. Zoologie
VIII Scr. Tom. 1. 1866 p. 1—46. À
Revista do Museu Paulista 24
assim é notavel que o phenomeno glacial importante na
Europa e nos Estados atlanticos da America do Norte nao
se tenha feito sentir na costa pacifica da America e na
Asia Oriental.
Se bem que estou disposto a referir a uma explicação
dessa ordem alguns factos na distribuição geographica
dos molluscos não se extende-a, no meu vêr, ás formas
arcticas e antarcticas propriamente ditas.
Toda essa discussão entrou em nova phase pelo estudo
presente. Em vez de fundar a argumentação em hypo-
theses mais ou menos engenhosas temos para os molluscos
costeiros da Patagonia e do Chile actualmente dados certos,
fornecidos pela geologia ou paleontologia. Temos verifi-
cado os generos e especies que originaram na mesma
região na qual actualmente vivem e separado delles os
que não têm representação alguma nas camadas terciarias
da America do Sul e que só ao fim da epoca terciaria
e durante a epoca quartaria immigraram para as costas
desse continente, vindo da região antarctica. Parte entre
esses immigrantes, como as especies de Bullia, estabelece-
ram-se nas costas do Brazil e do Perú perdendo um tanto
o antigo domicilio magellanico, outros alli permaneceram
ou extenderam-se num lado só do continente e outros
seguiram como a Siphonaria Lessoni Blvl. desde a Terra
de Fogo ambas as costas da America Meridional. Assim
a combinação dos resultados de estudos geologicos e
zoogeographicos deu ao quadro a jui delineado da historia
da fauna marinha da região patagonica uma base solida
e que será de utilidade tambem para estudos referentes
aos (lecapodes e outros grupos do reino animal menos
favorecidos, como os molluscos, quanto ao material paleon-
tologico.
Fechando essas considerações geraes não posso deixar
de chamar ainda a attenção para a importancia que a elles
se liga devido a uma questão geologico-cosmica. Devido
ao contraste em que está a elevada temperatura que
durante a era terciaria reinou em Groenlandia e outros
— 371 —
paizes arctico8, com a temperatura relativamente baixa
que demonstra a flora terciaria do Japão, chegou Vuthorst,
e mais tarde Veumayr, a singular hypothese de que a
posição geographica do polo do Norte, durante a era ter-
ciaria, foi outra do que actualmente, differindo a decli-
nação supposta em 15—20° L. da actual. Como prova
dessa hypothese foi mencionada tambem a conclusão de
Philippi, dizendo que a temperatura do mar terciario de
Navidad não foi mais alta do que actualmente.
Já verifiquemos que a base da argumentação de
Philippi por estudos posteri res foi modificada por elle
mesmo, e o estudo presente não deixa duvida alguma de
que a temperatura do mar durante as formações paleo-
geneas de Santa Cruz alli foi consideravelmente mais
alta do que agora.
Esse resultado é confirmado pelo caracter subtropico
da vegetação examinada por Zngelhardt e colleccionada
por Ochsenius em Coronel no Chile (37º L.) e Potosi na
Bolivia na altura de cerca de 4000 M. Tambem as folhas
colleccionadas por Ochsenius em Punta Arenas e exami-
nadas por Schenk correspondem a um clima mais quente
do que o actual. Uma boa discussão desse problema deu
Koken '). As investigações presentes confirmam as duvidas
que já Aoken exprimiu a respeito dessa theoria de Na-
thorst.
A existencia de um antigo continente antarctico
supposta por Hutton, Ameghino e por mim, Já for quanto a
flora, demonstrada por Hooker e uma confirmação impor-
tante forneceram os vegetaes terciarios das Ilhas Kergue-
las entre os quaes segundo Schenk *) temos de mencionar
dous coniferos: Cupressoxylon Kerguelense Crié e Arau-
carioxylon Schleinitzii Goeppert. A ultima especie foi
encontrada tambem no Estreito de Magalhães e como
i) E. Koken Die Vorwelt. Leipzig 1803 p. 537 ss.
2) K. Zittel. Handbuch der Palacontoiogte. Il Abth. Palaco-
phytologie von W. Ph. Schimper und A, Schenk, Muenchen 1590
p. 569 e 904,
— 372
Schenk diz a Araucaria imbricata da Amerita Meridional
ha de ser considerada como especie que antigamente teve
uma distribuição muito mais extensa.
Como na Groenlandia durante a epoca terciaria cres-
ceram magnolias e laurineas e mais tarde ainda carva-
lhos e nogueiras. assim tambem houve na Terra do Fogo
e nas Ilhas Kerguelas que hoje estão privados de bosques, .
pinheiros que não deixam duvida de que naquella
epoca essas ilhas estavam ligadas entre si e com outras
regiões antarcticas. Ao longo das costas desse continente
terciario extenderam-se especies identicas de molluscos
desde a Nova Zealandia até a Terra do Fogo. E’ a prova
para uma theoria boa que os resultados de investigações
feitas em materias e terrenos bastante differentes conduzem
afinal à mesma conclusão e assim em nosso caso Os
dados palcontologicos confirmam as conclusões deduzidas
de factos zoogeographicos.
CONCEUSTON Os
The foregoing investigation has made it possible to
distinguish and characterize by means of the molluses
also, the different Tertiary formations of Patagonia and
Argentine. While d'Orbigny and Darwin considered the
Santa Cruz formation as a single one the Argentinian-
investigators divide itinto two, namely, the Patagonian
and Santa Cruz. We owe much to the colletions of
Carlos Ameghino which his brother Morentino has entrust-
ed to my study because they have not only given us
a knowledge of a large number of new species but also
enabled us to establish for the majority of the species
they contained the formations in which they had their
origin. We now know 50 species from the Patagonian
and 70 from the Santa Cruz formations. Seven species
are common to both and the general character is the
same. The number of living forms is very small, 6°, in
nr
the Patagonian and 7º in the Santa Cruz formation (Tro-
chita corrugata Rve. and magellanica Gray; Trophon la-
ciniatus Mart. and varians Orb.; Magellanica globosa Lam.)
In general the character of the molluscan fauna of
both formations offers with difficulty means of determin-
ing their relative age. In this connection the Arcidae
are always interesting which are represented in the
older Patagonian formation by Cucullaea and Cucullaria
and in the Santa Cruz formation by Arca and Pectun-
culus. A single extinct genus occurs, Amathusia Phil.,
which has a striking form and has been placed by Phi-
lippt with the Veneridae and by me, from the character
of the hinge which has only cardinal teeth, with the
Glycimeris having poorly developed siphons and, there-
fore, no gaping shell. The variety Amathusia angulata
Phil. from Santa Cruz is a very large shell, 25 em. long.
Neither the conclusion of d'Orbigny and Darwin
that living forms are wholly wanting, nor that of Weu-
mayer that there exists no relation to the European Ter-
tiary are substantiated. The large Cucullaea Dalii Th.
corresponds very much to the C. crassatina Lam. of the
Paris Basin and only in the latter do species of Arca
and Cucullaria occur. The gigantic Pectunculus of the
Santa Cruz formation is probably to be considered with
P. pulvinatus Lam., and a further decided connection
with the European Tertiary is to be found in the presence
of Scutella.
We may expect a further tracing out of this con-
‘nection with the European Tertiary to throw considerable
light upon the question of the age of the different Pata-
gonian formations. Until the present this question has
been discussed exclusively from the standpoint of fossil :
mammais and these seem poorly suited for this purpose.
Not only were the Ungulates and Rodents of the Pa-
tagonian formation, from their character, placed by Ame-
ghino in the Eocene, by Zittel in the Miocene and by
Schlosser in the Pliocene, but also all these investigators
mistook the older for the newer formation.
Not until 1894 was it shown by Ameghino and soon
after by Mercerat that the Patagonian formation is in
reality the older. In order to properly appreciate the
existing difficulties one must remember that South
America became isolated in the beginning of the Tertiary
and remained so until the beginning of the Pliocene. It,
therefore, lacks those changes in the relations to faunas
of other territories which one finds in Europe and North
America for the determination of the age of the dif-
ferent formations.
As important facts in determining the age of the
different Patagonian strata the following may be given:
1. The occurence of Dinosaurians and Cretaceous
fishes in the Guaranic formation which concludes the
Upper Chalk. The limited number of molluses at my
disposal has not enabled me to forma decision in regard
to the formation with Pyrotherium, which according to
Mercerat follows, and according to Ameghino is an inter-
calated stage of this formation.
2. The relation of Scutella, Pectunculus cf, pulvi-
natus, Cucullae Dalli ete. to the older European Tertiary.
3. The occurence of maminals, which, according to
Zittel, correspond to those ofthe older European Pliocene
in the Araucanic layer of the Pampas formation. This
fact, together with the occurence of typical Pampas
mammals in North American Pliocene have largely
established the Pliocene age of the Pampas formation.
If, accordingly, we compare the layers containing
Pyrotherium with the Lower, and the Patagonian form-
ation with the Upper Eocene, and as cribe the Oligeocene
and Lower Miocene ages to the Santa Cruz formation
we shall probably come very near the truth.
Of peculiar interest is the relation that exists be-
tween the Patagonian layers of Santa Cruz and those of
Chile, especially Navidad. According to my investigations
— 315 —
24°, of the species of the Patagonian formation and
20°, of those of the Santa Cruz occur also in the Chilian
Tertiary of Navidad. To these are to be added the already
mentioned genus Amathusia, which is common to both
localities, and the many corresponding species. The
families represented in Santa Cruz are almost without
exception also found in Navidad.
Ziltel called attention to the relation of the Santa
Cruz Tertiary with that of New Zealand and has named
several identical species. Unfortunately I.do not have
access to the literature bearing on the Tertiary fauna
of New Zealand.
The present contribution to the knowledge of the
Tertiary fauna of Patagonia together with Philippi's
excellent work on the Tertiary fauna of Chile and the
works of Steinmann and Moericke will enable us in a
large measure to work out the history of the molluses
of the Magellan district. Many genera have here become
extinct since the Tertiary times or, like Strüthiolaria,
have survived only in New Zealand. We can show that
the representatives of the genera Voluta, Trophon, Tur-
ritella, Natica, Venus, Cytherea, Dosinia, Pecten etc. at
present living in southern Patagonia and the Magellan
District are the derivatives of species that represented
these same genera in older Tertiary times. But it also
occurs that genera that were represented in older Tertiary
are also represented now, but by species or sections that
point to a different origin. Typical Arca occur in Santa
Cruz Tertiary but the only present representative of the
genus (Lissarca rubrofusca Lam.) belonges toa different
section and points from its distribution over New Geor-
gia and Kerguelen Island to an antarctic origin of a
later date. The genus Cardium. represented today in the
Magellan fauna and Chile by a very small species was
represented in both places during Tertiary times by
large, heavy and by other species. The families that
were already present in Tertiary times and which were
#
St
displaced during later periods are Carididae, Cerithiidae,
Fissurellidae and the genera Arca and Mactra (Mulinia).
This condition indicates the additions that have
been made to the fauna through migration. In this are
to be counted, in the first place, those genera that are
represented in the Chilisn Tertiary, and fail in the
Argentinian or, asin the caseof Mactra, were represented
by species of different sections. Besides others, we have
the genera Purpura, Monoceros, Concholepas and Mulinia
which were represented inthe Chilian Tertiary but later
migrated to the Magellan District. -
A number of species seem also to have migrated
from more northern latitudes, but Ishall return to this
point later. Immediately after this there occured also a
late Tertiary or, what is more probable, a Pleistocene im-
migration from Antarctic regions which to a large extent
pme the general character of the fauna. It is not
possible to derive the entire rich representation of the
genus Fissurella iv the Magellan District and Chile from
the single small representative in the Patagonian Ter-
tiary. Apart from this, Fissurella species are not repre-
sented in the Tertiary of Patagonia and Chile, and
species of the genera Acmaea, Patella, Gadinia, Siphonaria,
Bullia are wholly wanting in the Argentinian and
Chilian Tertiary. The wide distribution of many of the
species considered in this connection over the Antarctic
District to New Zealand (Siphonaria redimiculum Rye.),
Cape of Good Hope (Patella barbara L,) Kerguelen, New
Zealand islands etc. (Patella aenea Gm.) points toa rela-
tively late immigration out of Antarctic regions. One
species (Siphonaria Lessoni Blvl.) considered in this con-
nection occurs on the Patagonia-Argentinian coast and
also on the Pacific coast of South America and, indeed,
extends here a great deal farther north than on the
Argentinian coast, following the more northerly position
of the Isotherme. If a form thus distributed on two sides
of the continent becomes extinct at its point of origin
2
— 377 —
as a result of a decrease in temperature it will retain
either its direct or specifically modified form on the coast
of Chile and Perû on the one side, and on the southern
coast of Brazil on the other. This is the case with
Bullia. In this instance we do not have to do with a
member of an ancient common fauna of the Tertiary
times, because species of Bullia are wanting in both
‘hile and Patagonia as are those of Siphonaria. Laevi-
litorina caliginosa Gld., the only Litorina of the Ma-
gellan Province, occurs also alongside the other species
of this genus in New-Georgia and Kerguelen Island
while, as far as is now known, forms of Litorina are
wholly wanting in the Patagonian Tertiary. In this way
palaeontological and zoogeographical facts complement
each other to establish the fact that through a recent
-immigration of an antarctic element the ancient fauna
of the Magellan District was greatly modified, and we
would scarcely err if we attributed the cause of this
migration to the ice period, concerning the extention of
which in Patagonia Sfeënmann and Wordenskjoeld have
recently given us extensive accounts. No wonder, then,
that, as Philippi has said, the transition from Tertiary
to Quaternary was a sudden and not a gradual one.
This addition from the south has affected and modi-
fied the Magellan and Chilian fauna to a much greater
extent than that of the Argentinian coast, from which
I have important new data from which to correct the
many erroneous statements of Pfeffer. The mouth of the
La Platta, as I have previously shown, is not a zoogeo-
graphical barrier; the boundary between the Argentine-
South Brazilian and the Patagonian fauna is the Rio
Negro.
A question intimately connected with those here
discussed is the existence of bipolar species and genera.
The following 5 species of Molluses from the Magellan
Province also occur in the Arctic Regions: Saxicava
arctica L., Lasea rubra Mont., Puncturella noochina L.,
Mytilus edulis L., Pecten vitreus Ch. and if other Ant-
arctic regions are included the follownig species must
be added to the above: Keliella suborbicularis Me., Scis-
surella crispata Flem., Natica groenlandica Beck, Den-
talium cntalis L. This list, which could be greatly
enlarged if we included species of wide though not
distinctly bipolar distribution, is composed almost wholly
of species that have a wide yes universal distribution.
Many of these doubtless found their way from pole to
pole through the cold strata of the deepsea. To get an idea
of the extent of such supposed migration to the Magellan
fauna T examined Norman's list of the North Atlantic
species of Molluses that occur below the 2000 M. line
and found that out of 202 such species, 4 of the Magellan
fauna occured, that is only 2°. These are, besides the
two above mentioned widely di-tributed species of Saxi-
cavaand Scissurella, Keliella miliaris Phil. and Puncturella
noachina L.
Real bipolar species do, therefore, not exist apd the
same may be said of those genera which belong to these
high latitudes since they are usually also represented
by a number of species in the Temperate zone or the
Tropics. There are Antarctic genera such as Photinula,
Struthiolaria, Modiolarca which are not represented in
the Arctic fauna; and vice versa, Arctic genera such as
Volutharpa Buccinopsis, Lacuna, Moelleria, Cyprina, Mya
etc. are wanting in the Antarctic fauna. Many genera, like
Buccinum, Sipho, Margarita, Astarte, Cardium which are
such important factors in the Arctic fauna are meagerly
represented, often by only cne or two species, in the
Antarctic region. Many genera of wide distribution (Che-
nopus, Bulla, Anomia) enter the polar zone of the
northern hemisphere only, and similarly others (Monoce-
ros, Bullia, Ranella, Marginelia, Fissurella) enter that of
the southern hemisphere only. We must, therefore, guard
against overrating the analogy existing between the two
circumpolar faunas.
ae SS
— 379 —
We have largely failed in the proper interpretation
of these analogies because of our attempt to explain
them from a single standpoint. In reality it is a com-
plicated problem in the solution of which, according to
Ortmann, these conditions must be taken into conside-
ration, namely. (1) The migration of artic litoral forms
via the cold strata of the deepsea to the Antartic zone
and vice-versa. (2) The gradual adaptation of once wide-
ly distributed genera to the conditions of high latitudes,
(3) Migration along the Pacific coast of America and
along the west coast of Africa.
| The last explanation, proposed at the same time by
Bouvier and Ortmann, is contradicted by the fact that
wholly different faunas succeed each other along the Pacific
coast of America, and finds no support through what
we know concerning the Pleistocene Molluses of California
and Chile.
All these explanations have entered upon a new era
through the foregoing investigations which in the place
of the hypotheses, furnish a substantial foundation for
the historical development of the Magellan fauna. Those
investigators who are engaged in the study of the dis-
tribution of marine animal groups that offer little
Palaeontological material will not fail to follow with
interest the results here obtained.
One more point may be mentioned. The presence of
subtropical genera like Perna, Ficula, Seutella, etc. in
the Patagonian Tertiary leaves no doubt that a consider-
ably warmer climate then existed in this region, which,
according to my calculations, amounted to about 20
degrees. That the same conditions obtained in Navidad,
is shown by the presence of the genera Conus, Mitra,
Oliva, Terebra, Lucina, Avicula.
This point is important because many geologists
bring forward as an argument for the Wathorst Theory
of the ‘shifting of the Pole during the Tertiary period
the relatively cold climate of Chile which we see is
— 380 —
untrue. At the same time these results confirm the already
published views of myself, Hutton, Ameghino and others
that during Tertiary times there yet existed a continental
Antarctic landmass to which the neighboring teritories
were. joined in changed succession. Phytogeographical
and palaeontological observations as well as the occu-
rence of Tertiary conifers on the treeless Kerguelen Island
of to day, and the fact that the fossil species Arauca-
rioxylon Schleinitzii Goeppert of this island also occurs
‘in the Magellan Straight go to prove the same fact.
S" Paulo, Oct., 31. 1897.
Explicação das estampas.
As figuras das estampas III—VI representam as
conchas em tamanho natural, as do est. VII em “h,e as
do est. VIII e IX em ‘, do tamanho natural.
Est. III Fig. 1 Gibbula Dalli Ih. cf. p. 272.
2 Gibbula fracta Ih. var. cuevensis Th. cf.
p. 274. :
» 3 Turritella tricincta Th.-cf. p. 287.
» 4 Trophon laciniatus Mart. var. santacru-
zensis Ih. (Tr. santacruzensis Th.) ef. p. 294-
» 5 Trophon pyriformis Ih. cf. p. 295.
» 6 Voluta patagonica Th. cf. p. 306.
» 7 Voluta quemadensis Ih. ef. p. 304.
» 8 Marginella confinis Ih. cf. p. 307.
» 9 Marginella quemadensis Ih. cf. p. 307.
» 10 Genota cuevensis Th. cf. p. 313. ,
» 11 Cancellaria gracilis Th. cf. p. 310.
» 12 Cancellaria Ameghinoi Ih. cf. p. 310.
Est. IV Fig. 13 Gibbula: Dalli Th. cf. p. 272. à
» 14 Marginella quemadensis Ih. cf. p. 307.
» 15 Cancellaria Ameghinoi Ih. cf. p. 310.
» 16 Dentalium octocostatum Ih. cf. p. 266.
y
Prof
yo ks
» 19
» 20
p 21
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p23
|
Est. V Fig. 25
» 26
DD
208
p29
es OS)
pro
D oe
D rs
» 34
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» 190
Est. VI Fig. 37
D os
E 49
» 40
ier
ye
poe
Est. VII Fig. 44
Hi. 7455
» 46
DO
— 381 —
Trochita magellanica Gray («clypeolum
Rve.») cf. p. 280.
Trochita corrugata Rve. cf. p. 279.
Ficula carolina d'Orb. (« carolinensis
d'Orb. ») cf. p. 293. -
Cucullaea multicostata Ih. cf, p. 240.
Nucula tricesima Ih. cf. p. 243.
Cucullaria tridentata Ih. cf. p. 237.
Arca patagonica lh. cf. p. 235.
Leda glabra Sow. cf. p. 244.
Trochita magellanica Gray (- clypeolum
Rve.») cf. p. 280.
Trochita corrugata Rve. cf. p. 279.
Nucula tricesima Ih. cf. p. 243.
Cucullaria tridentata Ih. cf. p. 237.
Cucullaea multicostata Th. cf. p. 240.
) Arca patagonica Ih. cf. p. 235.
Leda glabra Sow. cf. p. 244.
Lucina promaucana Phil. ef. p. 247.
Tellina jeguaensis Ih. cf. p. 260.
Crassatella longior Ih. cf. p. 247.
Tellina patagonica Ih. cf. p. 261.
Crassatella longior. Ih. cf. p. 247.
Pecten quemadensis Ih. cf. p. 228.
9 Tellina perplana Ih. cf. p. 259.
Cardium Philippir Th. ef. p. 249.
Dosinia meridionalis th. cf. p. 256.
Cytherea splendida Th. cf. p. 255.
Modiola Ameghinoi Th. cf. p. 233.
Venus striatolamellata Ih. cf. p. 253.
Venus Volkmanni Phil. var. argentina
The, p. 292:
Pectunculus pulvinatus Lam, var. cue-
vensis Ih. («cuevensis Ih.») cf. p. 238.
Cucullaea Dalli Ih. cf. p. 241.
— 382 —
Est. VIII Fig. 48 Pecten centralis Sow. valv. dextra («pro-
»
»
Est. IX Fig.
»
»
dd
99
ximus-T[h») cf. p. 229.
Pecten centralis Sow. (valv. sinistra) ef.
p.229)
Pectunculus pulvinatus Lam. var. cue-
vensis Ih. («cuevensis Ih.) ef. p. 238.
Cucullaea Dalli Th. cf. p. 241.
Ostrea patagonica d'Orb. («Orbignyi Ih»)
Cf “po: 222,
Ostrea percrassa Ih. («patagonica Il»)
cl. p. 221.
Perna quadrisulcata Ih. cf p. 231.
Mytilus chorus Mol. cf. p. 232.
AMI NTN A AT SRE SODA ea
( 9
|
Further notes on Coccidae from Brazil.
By T. D. A. Cockerell.
Entomologist of the New Mexico Agricultural Experiment Station.
Dr. von Ihering has been so good as to send me
some species of Coccidae recently found in Brazil, being
new for that country.
(1) Pseudoparlatoria parlatorioides (Comstock). N.º
93, on leaves of œuava (Psidium) in some numbers on
the under side of the leaf. This species was originally
described by Comstock in 1883, from specimens found
by Dr. Turner on Persea carolinensis in Florida. It was
next found on leaves of Coconut palm from Acapulco,
Mexico, received from Mr. Alex. Craw. Recently I have
received specimens from the Division of Entomology of
the U. S. Department of Agriculture which were found
on the orchid Oncidium caricosum in cultivation at
Washington, D. C. Itisan addition to the fauna of Bra-
Al. The genus Pseudoparlatoria, Ckll.. has but one other
known species, namely 2. ostreata, Ckll., which is des-
tructive to Acalypha in Jamaica.
(2.) Chionaspis aspidistrac, Signoret.- On leaves of
orange, both male (n.º 94)and female (n.°95)scales. The
male scales are white, those of the female brown, and
quite differently shaped. This is ordinary aspidistrae, not
the form Zafus (Ckll), nor brasiliensis (Signoret), which
is now considered a variety of aspidistrae. The occurence
of the insect upon orange leaves is quite interesting;
ordinarily it infests such plants as Aspidistra. The female
scale might be confused with Mytilaspis citricola, but
it is smoother, and of a livelier brown; while the male
— 384 —
scale is quite different. C. Aspidistrae is the type of the
subgenus Z/emichionaspis, Ckll.
(3.) Lecanium viride Green. Ent. Mo. Mag., 1889, p.
248. S. Paulo; on coffee. The discovery of this species
in Brazil is of great importance. It is well known in
Ceylon, where, according to Mr. E. E. Green, it «occurs
on various trees, including Cinchona, orange, Gardenia,
etc; but it more especially affects the coffee tree, its
connection with which has been so disastrous that in
many parts of the island it has been necessary to aban-
don the cultivation of this product.
The scale may. be known by its small size, oval
form, and green color. The Brasilian specimens are smaller
than those reported from Ceylon, and in having the
third joint of the antenna longer thau the fourth, differ
from Mr. Green’s description of viride. I possess, howerer,
some Ceylon examples of viride, sent by Mr. Green
himself, and they agree in all essential points with the
Brazilian form, and do not have the fourth antennal
joint longest. The skin is beset. with many large gland-
pits.
(4) Aspidiotus punicae, Ckil., var.—S. Paulo, on a
small cultivated palm. This is the palm-inhabiting variety
of the West Indian A. punicac. It belongs, I am now
persuaded, to the subgenus Hemiberlesia rather than to
Diaspidiolus. From A. cydoniae it differs by the pale
exuviae, and the iobes of the: end of the body not being
notched on the inner side. There are four groups of
ventral glands. The speciinens are badly affected by a
fungus.
Mesilla, New Mexico, U. S. A. Sept. 9, 1897.
Os piolhos vegetaes (Phytophthires)
DO BRAZIL
POR
ET NV ON | det LIN CG.
A grande ordem dos Hemipteros ou « Rhynchota »
_contem insectos caracterisados pela metamorphose incom-
pleta e pela tromba ou ferrao, que quasi sempre é seg-
mentado, consistindo em uma bainha articulada, com
3—4 juntos, e 4 cerdas rigidas e elasticas incluidas na
bainha.
Distinguem-se quatro sub-ordens :
1., Parasitica. Insectos parasiticos destituidos de
azas com o ferrão grosso quasi sem segmentação e retra-
ctil por invaginação. São os piolhos do homem e dos
mammiferos.
2., Heteropteros. Os typicos persevejos, caracterisados
pelas azas anteriores ou elytros cruzados, solidas ou co-
riaceas na parte basal, transparentes e membranaceas na
parte terminal, e collocadas horizontalmente no dorso.
O ferrão nasce na parte anterior da cabeça atraz da frente.
3, Homopteros. Nesse grupo reunem-se os insectos
munidos de azas homogeneas. As azas anteriores são, ás
vezes coriaceas, ás vezes transparentes, mas na sua tex-
tura homogeneas desde a base até a ponta da aza. As
azas estão collocadas no insecto, quando não voando, incli-
nadas no dorso, como as duas metades de um telhado. O
ferrão nasce na parte posterior da cabeça. Os tarsos têm
3 articul s. Esse grupo abrange as cigarras (fam. Cicadidae)
e a famosa jequitiranamboia. Noto, com referencia ao
Revista do Museu Paulista 25
— 386 —
insecto agora mencionado, que os exemplares que conheco
de S Paulo e do Rio Grande do Sul não pertencem à
especie Fulgora laternaria L., que é do Surinam, mas 4
Fulgora lucifera Germ., e que não ha prova que o inse-
cto seja venenoso nem que possa emittir luz pela sua
lanterna.
4, Phytophthires. Insectos pequenos intimamente
ligados aos do grupo precedente, que vivem sobre plantas,
chupando-lhes a seiva e prejudicando-as muitas vezes
de modo extraordinario. Distinguem-se pelo ferrão que
parece nascer atraz da cabeça, tendo a sua origem appa-
rente entre o primeiro par de pernas, por estar accrescido
do prothorax. As antennas que no grupo precedente
são bastante pequenas e sediformes são regularmente
compridas com numero variavel de articulos (3—11). Os
tarsos têm | ou 2 artículos.
Muitos naturalistas reunem os Phytophthires aos
Homopteros, dos quaes apenas representam um grupo
especialisado pela vida parasitica sobre plantas. Mas nesse
caso é preciso dividir os Homopteros em duas secções :
Cicadiformes e Phytophthires.
Se nesse estudo pretendo tratar dos piolhos vegetaes
do Brazil, não o faço por julgar-me especialista nesse
grupo, nem porque mais do que a metade de tudo que
nesse sentido até hoje é conhecido fosse colligida por mim,
mas simplesmente na intenção de reunir os materiaes,
distribuidos pela immensa litteratura e assim em com-
binação com os artigos do Snr. Cockerell crear uma
certa base para o actual conhecimento, que como espero
em pouco tempo será ampliado e completado. Provavel-
mente no territorio do Brazil o numero de especies inci-
genas só para os Coccidas excede a 200, das quaes na
nossa lista apenas 21 especies estão classificadas.
Sendo minha intenção continuar nesses estudos, e
pretendendo analysar esses insectos o entomologista
deste Museu Snr. A. Hempel, peço ás pessoas que ao as-
sumpto ligam interesse a remessa de amostras desses
— 387 —
insectos com as respectivas folhas, galhos etc. e com
informações sobre o nome da planta affectada.
O grupo dos Phytophthires abrange as quatro seguin-
tes familias, para cuja distincção serve a chave:
a.
bb.
CC.
aa.
Os tarsos consistem em 2 articulos, as azas, quando
presentes, existem em numero de quatro.
As azas são opacas, enbranquecidas, cobertas como
o corpo de uma poeira branca. Antennas de sete
articulos. Pés com tres unhas, das quaes a do meio
é menor.
Aleurodidae
As azas são transparentes.
As pernas posteriores appropriadas para pular. An-
tennas de 9—10 articulos. Pés com duas unhas e
um appendice em fórma de leque entre ellas.
Psyllidae
As pernas posteriores compridas e finas não appro-
priadas para pular. Antennas de 3—7 artículos. Pés
com duas unhas.
Aphididae
Os tarsos consistem em um só articulo. O macho
não tem ferrão; possue duas azas ou nao as tem. A
femea, sem azas, tem 0 corpo em forma de escama ou
galha, fixada immovel na planta, ás vezes coberta. por
um escudo ou por massa de cera. Antennas ordina-
riamente com 7—11 articulos.
Coccidae
Dou adeante a lista da litteratura mais necessaria e
consultada, depois a descripção das diversas familias e
das especies brazileiras e finalmente observações sobre a
distribuição geographica, o prejuizo causado por certas
especies e os meios para debellar essas pestes,
1.
En
ET.
13.
— 388 —
Litteratura sobre Phytophthires.
7. D. A. Cockerell. Notes on Lecanium with a List
»
»
»
»
»
of the West Indian Species. Trans. Am.
Ent. Soc. XX April 1893 p. 49-56.
A new subspecies of Ceroplastes from
Mexico. Zoe. Vol. IV. 1893 p. 100—103.
Descriptions of New Coccidae. Entomo-
logical News June 1894 p. 203—204.
The distribution of Coccidae. Annals
and Mag. of Natural Hist. London 6
Ser. Vol. 14. 1894 p- 76—80.
Coccidae or Scale Insects V. Bull. ofthe
Botanical Department, Jamaica Vol. I.
Kingston 1894 p. 69—73.
Some observations on the distribution
of Coccidae. The American Naturalist
1894 p. 1050—1054.
A new wax-scale found in Jamaica. En-
tomological News 1894 p. 157.
Notes on some Trinidad Coccidae. Journ.
of the Trinidad Field Naturalists Club.
Vol. I N.° 12. 1894 p. 306—310.
A Check List of the Coccidae of the
neotropical Region. Journ. Trinidad
Field Naturalists Club. Vol. I. 1894 p.
311—312.
Coccidae or Scale Insects VI. Bulletin
Botanical Department, Jamaica. King-
ston Vol. II. 1895. p. 5—8.
Coccidae or Scale Insects VII. Bulletin
Botanical Department, Jamaica. King-
ston Vol. II. 1895 p. 100—103.
Three new species of Coccidae. The
Entomologist. London 1895 p. 100—101.
On the subglobular species of Lecanium
14.
15.
18.
19.
20.
Al.
pipe
»
»
ae shee
The Canadian Entomologist. Vol. 27
London 1895 p. 201—204.
Two New Species of Lecanium from
Brazil. The American Naturalist 1895
p. 174—175.
Notes on the geographical distribution
of Scale Insects. Proceedings of the U.
S. National Museum Vol. XVII. Wash-
ington 1895 p. 615—625.
The food plants of Scale Insects (Coc-
cidae) Proceedings of the U. S. National
Museum Vol. XIX. Washington 1897
p. 725—785.
The San José Scale and its nearest allies.
U. S. Department of Agriculture. Divi-
sion of Entomology. Technical Series
N.º 6. Washington 1897.
Notes on the Coccidae, a family of Ho-
moptera with a table of the species
hitherto observed in Brazil. Revista do
Museu Paulista Vol. II. S. Paulo 1897
p. 65—72.
Further notes on Coccidae from Brazil.
Revista do Museu Paulista Vol. II. São
Paulo 1897 p. 383—384.
Comstock and Howard. Report on Scale Insects (Coc-
cidae) on the collection of the U. S.
Department of Agriculture. Washington
1881.
J. H. and A. B. Comstock. A Manual for the Study
of Insects: Jthaca N. Y. 1895.
Goeldi, Æ. A. Beitraege zur Kenntniss der kleinen
und kleinsten Gliederthierwelt Brasi-
hens. Mittheilungen d. schweiz. entomol.
Gesellsch. Bd. 7. 1886 p. 231—255. (p.
233 Tingis; p. 241 Aleurodes ; p. 250
Dorthesia).
— 390 —
23. Goeldi, E. A. Apontamentos de Zoologia agricola e
horticultura. Jornal do Agricultor. Tom.
XIV, Rio de Janeiro, 1886 p. 110—111.1.
Dorthesia urticae.
24. » Relatorio sobre a molestia do cafeeiro
na provincia do Rio de Janeiro. Archi-
vos do Museu Nacional do Rio de Janeiro
Vol. VIII. 1892 p. 1—121 e Est. I—IV.
25. Maskell W. M. Further Coccid Notes. Transact and
Proc. New Zealand Institute Vol. 25.
Wellington 1893 p. 201—252 PL. 11 -18.
26. » Further Coccid Notes. Ibid. Vol. 26. 1894
p. 65—105 Pl. 3—8.
21. » Further Coccid Notes. Ibid. Vol. 28. 1896
p. 380—411 Pl. 16—23.
28. » Contributions towards a Monograph of
the Aleurodidae, a Family of Hemiptera-
Homoptera. Ibid. Vol. 28. 1896 p. 411—
449 PI. 24—35.
29. » Notes on some Genera and Sspecies of
Coccidae. Annals and Mag. of Nat. Hist.
6 Ser. Vol. 16. 1895 p. 120—133 (1.
Genus Dactylopius ; 2., Genus Plancho-
nia; 3., Antennal joints of Coccidae).
30. Scott, J. Description of a new genus and two new
species of Psyllidae from South America.
Transact. Entomol. Soc. London 1883
p. 443--448 T. 18.
31. Signoret, V. Essai sur les Cochenilles. Paris 1868-
1876.
32. Wiepen, E. Die geographische Verbreitung der Co-
chenillezucht. Coeln 1889.
FAM. ALEURODIDAE.
Os insectos que compõem essa familia estavam an-
tigamente reunidos com as Coccidas, ds quaes se asse-
— 391 —
melham bastante, e das quaes se distinguem pelos in-
sectos adultos que sao alados em ambos os sexos. Ha
dous pares de azas que sao transparentes, mas cobertas
por uma qualidade de poeira fina e branca como farinha
a que se refere o nome scientifico, visto como na lingua
grega o vocabulo aleuron significa farinha.
As azas são de importancia para a distincção das es-
pecies e até de subgeneros, tendo a aza anterior uma
veia no meio, da qual sahe só um ramo basal (Aleurodes)
ou mais um ramo terminal (Aleurodicus). As manchas:
ou riscas de diversas côres que se notam nas differentes
especies são de utilidade para a distincção das especies,
offerecendo ao contrario as larvas grande variabilidade,
apreciavel para a classificação.
Na cabeça observam-se dous olhos reniformes de côr
rôxa ás vezes bipartidos e um olho simples ou ocellus
de cada lado do olho composto. As antennas têm 7 arti-
culos, dos quaes os dous primeiros são pequenos, os ou-
tros maiores ultrapassando muitas vezes o terceiro seg-
mento os outros em comprimento. O ferrão existe em
ambos os sexos. As pernas têm o tarso composto de dois
segmentos e com tres unhas das quaes a do meio é me-
nor do que as outras. Na extremidade do abdomen estão
situadas as partes genitaes e no lado dorsal o orgão de
Maskell do qual tratarei.
A larva e a nympha, que da primeira pouco se dis-
tingu®, têm a forma de uma Coceida, p. ex. de um Le-
canium, representando um escudosinho oval echato com
uma borda marginal de fios de cera. Perto da /extremi-
dade posterior observa-se no dorso um orgão singular
denominado o orgão de Maskell, que a elle deu o nome
- pouco significativo de « vasiforme orifice ». Consiste em
uma cova ou abertura (« vasiforme orifice ») coberta por
uma chapa («perculum ») sob a qual se nota uma
papilla ou tubo (« lingula »). Só um exame histologico
póde explicar para que serve esse apparelho. Talvez cor-
responda elle ao tubo que em certas Coccidas na extre-
Se ROD a
midade posterior deixa sahir gottas de um liquido
doce. No lado inferior da larva vê-se o ferrão entre os
tres pares de pernas curtas grossas e de côr escura, em
frente dellas de cada lado um olho e na extremidade
posterior o ano.
Em geral as larvas e pupas, que ficam immoveis
no lugar onde são fixados, são encontradas só do lado in-
ferior das folhas. Mas a especie nova aqui descripta re-
presenta nesse sentido uma excepção, por ser encontrada
em ambos os lados das folhas. Os ovos são pedunculados
e affixos ás folhas.
Quanto á litteratura referente a esses insectos temos
a excellente monographia de Maskell (28) e em refe-
rencia ás especies do Brazil um estudo de Goeldi (22), que
se occupa das que encontrou no Rio de Janeiro. Não
conheço outra especie, além das 4 aqui mencionadas, da
America do Sul, sendo evidente que investigações mais
acuradas descobrirão ainda muitas especies. A lista de
Maskell contem 66 especies, infelizmente sem indicação
de sua procedencia. Uma das especies (A. phalaenoides
Blanch.) parece proveniente do Chile, diversas especies
são conhecidas no Mexico e nas Antilhas.
Na lista seguinte das especies do Brazil não admitti,
por não estar descripta, uma especie mencionada por
Signoret sob a denominação de Aleurodes Lacertae en-
contrada na estufa do jardim botanico sobre as folhas
da planta brazileira Anona silvatica, não sendo certo
que a planta quando importada já estivesse infeccionada
pelo insecto. (Cf. V. Signoret. Ann. Soc. Entom. France
(6) Tom. I. 1881 p. CLVI ss.).
1., Aleurodes filicum Goeldi.
Goeldi 22 p. 247.
Douglas Entom. Month. Mag. 1891 p. 41.
Essa especie que vive no lado inferior das folhas de
Aspleninm cuneatum e de outros fetos do Brazil foi en-
contrada por Goeldi no Jardim Botanico do Rio de Ja-
— 393 —
neiro. A larva que mede 0,5 mm., é de côr verde, tem
a borda de fios de cera dupla como a A. Cockerelli, della
distinguindo-se, porém, por 5 pares de compridas sedas
adhesivas no lado ventral. Douglas encontrou essa espe-
cie na Inglaterra em fetos tropicaes importados como
Pteris quadriolata e Oleandra articulata.
2., Aleurodes goiabae Goeldi.
Goeldi 22 p. 248.
Especie parecida com a precedente e do mesmo ta-
manho, differente pela borda marginal da larva, que tem
o contorno exterior dentado, em vez de rectilineo como na
especie precedente e em A. Cockerelli e pelas sedas do
lado ventral que são menores, não indo alem de um
terço da largura do corpo.
Essa especie foi encontrada por Goeldi nas goiabeiras
e abacateiros, no lado inferior das folhas, no Rio de
Janeiro nos mezes de Agosto e Setembro.
3., Aleurodes aipim Goeldi.
Goeldi 22 p. 250.
A larva differe da precedente pelas sedas rudimen-
tares, apparecendo bem só o ultimo par. Vive no aipim
ou mandioca doce no Rio de Janeiro.
4. Aleurodes Cockerelli sp. n.
Larva nigra, limbo albo angusto munita, inferne
viridis, setis destituta. Long. 1,2 mm.
Ny
Aleurodes Cockerelli sp. n.
Tamanho 45,1 e 1,1 (folha).
— 394 —
As larvas dessa bonita e relativamente grande es-
pecie sao de côr preta em cima, verde em baixo e muni-
das na margem de uma borda branca, regular, consistindo
em fios de cera. No meio do dorso ha uma carina obtusa
e alguns sulcos transversaes. A carina acaba para traz
numa papilla a base da qual se observa de cada lado
uma seda curta. Ha tambem um par de sedas curtas
nas extremidades anterior e posterior. A papilla men-
cionada corresponde ao operculo do « vasiforme orifice »
de Maskell. No lado ventral que é de côr verde não
ha sedas adhesivas. O ferrão e as pernas são escuras, Os
olhos pequenos, de côr rôxa. A larva mede 1,2 mm. ou
1,6 mm. com a zona marginal.
Encontrei essa especie no lado inferior de alguns
arbustos do matto e mais em Baccharis paucifloscula D.
C., pequeno arbustosinho que achei escondido entre cer-
tas « vassouras » e onde numerosas larvas dessa especie
occupavam o lado inferior e superior das folhas. Novem-
bro de 1897 em terrenos do Museu Paulista, na collina
do Ypiranga, São Paulo. -
Dedico essa especie ao Dr. 7. D. A. Cockerrell em
Mesilla N. M. que tanto adeantou o conhecimento das
Coccidas do Brazil e da America em geral.
FAM. PSYLLIDAE.
Os insectos desta familia têm a apparencia de pe-
quenas cicadas, de 2-3 mm. de comprimento, e realmen-
te representam entre os Phytophthires o grupo que me-
nos se tem afastado dos typicos Homopteros, dos quaes
os piolhos vegetaes estão derivados. A figura é a de uma
pequena cigarra, differindo, entretanto, as Psyllidas como
já na introducção foi indicado pelos pés que não têm 3
articulos como os das cigarras mas dous, e pelo ferrão
nascendo atraz da cabeça entre o primeiro par de per- -
nas e annexo ao prothorax. As antennas são compostas
de 9-10 articulos e munidas de sedas terminaes filifor-
— 395 —
mes e do tamanho do corpo no genero Psylla, curtas com
o segmento basal maior e entumecido no genero Livia.
As azas anteriores são mais espessas do que as poste-
riores ou coriaceas e percorridas por diversas veias que
as dividem em cellulas.
Esses pequenos insectos vivem sobre plantas em ge-
ral; as diversas especies têm as suas plantas predilectas
ou plantas nas quaes exclusivamente são encontradas.
Alli vivem, pulando de folha a folha, alli a femea depõe
os ovos, dos quaes sahem larvas de pernas curtas e com
antennas simples não segmentados, que ás vezes são co-
bertos de uma excreção branca como de algodão crú.
Acontece assim como Maskell o expoz (28 p. 421)
que a larva de uma Psyllida p. ex. de Trioza pode ser
confundido com larvas de Aleurodes. A” sua aptidão para
pular devem o nome de pulgas falsas ou psyllidas,
visto que psylla na lingua grega significa pulga,
Nas plantas em que vivem muitas vezes produzem ex-
crescencias ou galhas. Assim p. ex. Livia juncorum L.
que na Europa vive em juncos produz inflorescencias
abnormes.
Em geral não prejudicam muito as plantas em que
vivem. À especie que mais prejuizo produz é Psylla piri
L., podendo as larvas, que são pouco ageis e sem azas,
quando reunidas em colonias numerosas ao redor dos
raminhos novos da pereira, produzir-lhe a morte. Psylla
ficus L. vive na figueira. Não é em geral muito difficil
matar esses insectos e sua cria. O melhor meio é a ap-
plicação da emulsão de kerosene, especialmente na pri-
mavera quando as folhas novas brotam.
Essa familia não é muito rica de especiês e as que
são descriptas, cerca de 200—250 especies na maior parte
vivem na Europa. Não posso examinar as numerosas pu-
blicações relativas ao assumpto de 4. Hoerster, Fr. Loew
e outros autores, e assim não posso dar a lista das especies
sul-americanas, provavelmente bem modesta. Conheço
apenas pela litteratura as seguintes especies do Brazil;
— 396 —
1., Livia sp. Brazil Burmeister Handbuch d. Ento-
mologie Bd. IT 1834 p. 97 (sobre juncos ?)
2., Psylla duvauae Scott (30 p. 443 e fig.). Especie
que produz galhas nas folhas de Duvaua dependens em
Buenos Ayres. Como na mesma arvore essas galhas ob-
servei no Rio Grande do Sul onde a esse arbusto cha-
mam de « molho », acceitei a especie entre as do Brazil,
não sendo certo se a mesma observação póde ser feita
relativamente á especie que se segue. Sobre as galhas da
Psylla duvauae compare-se 0 meu artigo: 77. von Lhering
Die Gallaepfel des suedbrasilianischen Molho-Strauches.
Entomolog. Nachrichten von Dr. Karsch. Berlin XI. 1885
p. 129-132.
3., Neolithus fasciatus Scott (30 p. 446 e fig.) de
Uruguay e Buenos Ayres, que esta produzindo galhas
nos ramos da arvore Sapinum aucuparium.
FAM. APHIDAE.
Piolhos vegetaes denominados pulgões ou morilhões,
bastante nocivos a numerosas plantas cultivadas, que
vivem sobre as folhas e ramos ou sobre as raizes,
como a Phylloxera, a peste horrivel da videira. São
piolhos de corpo molle, em geral de côr verde com pernas
compridas e delgadas que se movem lentamente. As
antennas são compridas com 3—7 articulos. À bainha do
ferrão tem 3 articulos, os pés têm tarsos de 2 artículos.
As quatro azas, quando presentes, são fracas e transpa-
rentes. Na extremidade posterior notam-se em varios
generos dous tubos curtos que fazem sahir um excreto
liquido; e além disso expellem pelo anus gottas de um
succo doce, ambos muito procurados pelas formigas.
Acredita-se, que as formigas que assim aproveitam-se
dos pulgões como o homem dos animaes domesticos,
sejam por sua parte de utilidade aos piolhos, defen-
dendo-as contra os seus inimigos. À respeito dessa sup-
posição não existem por ora experiencias exactas e as
— 397 —
minhas proprias nao sao favoraveis a essa hypothese
seductora. No Brazil as formigas que mais gostam do
succo doce dos morilhões são as especies de Camponotus e
creio mesmo que varias especies desse genero não se
nutrem de outro modo.
Na primavera apparecem esses piolhos na fórma
privada de azas, que sem fecundação por machos, se pro-
pagam com uma fertilidade admiravel. Produzem não ovos
mas larvas vivas, que 4 vezes já nascem prenhes com
embryões na barriga. Assim podem durante o verão se-
guir-se 8 -9 gerações « parthenogeneticas » e viviparas,
até que apparecem os animaes sexuaes, munidos de azas,
e então a femea fecundada põe os ovos que conservam
a especie durante o inverno e dos quaes na primavera
sahem de novo os piolhos sem azas.
Onde em grande numero se acham e multiplicam nas
plantas, prejudicam-n'as sensivelmente. As folhas ficam
crespas ou então enrolam-se, ficam abnormes, murcham
e cahem. O humor doce e viscoso que secretam sobre as
folhas e os ramos, conserva adherente a epiderme da quai
as larvas nas diversas mudas despem-se, e crescem afi-
nal nesse galho cogumelos 9. Em geral os piolhos prefe-
rem o lado inferior da folha porque nella vivem abriga-
dos dos raios ardentes do sol. Quando o numero aug-
menta demasiado pódem matar a planta. Felizmente quanto
mais se propagam tanto mais são dezimados pelos seus
inimigos naturaes, entre os quaes convem mencionar 0s
Ichneumonidos, vespas parasiticas que no corpo do pul-
gão se desenvolvem e as larvas de certas moscas (Syr-
phidae), Neuropteros (Hemerobius) e Coleopteros (Cocci-
nellidae), que delles se nutrem.
Os aphidios parecem ser um grupo de insectos que
se originaram no hemisphetïo septentrional e que mais ou
menos a elle se limitam na sua distribuição geographica.
') Comstock (21 p. 161) diz que o cogumelo que se desenvolve
na massa doce produzida por colonias de Schizoneura lanigera é
a especie Scorias spongiosum, formando massas esponjosas,
- — 398 —
Näo conheco nem por experiencia propria, nem pela
litteratura, especie alguma, que seja indigena da America
Meridional. Infelizmente, porem, já importamos grande
numero delles no Brazil, junto com as plantas em que
vivem. Assim vêem-se esses morilhões nas roseiras e
nas espirradeiras, nos pecegueiros e laranjeiras, no repo-
lho e em outros hortaliços. As especies são as conhecidas
da Europa, e sobre ellas temos uma monographia ex-
cellente de Buckton. Não ha razão para ocenpar-me dellas
em minucia, 4 excepção de duas especies, que são dam-
ninhos de um modo extraordinario.
A primeira é a Phylloxera vostatrir Pl., piolho das
raizes da videira, bem caracterisado pelo numero de
articulos das antennas, restringido a tres. Não pretendo
tratar aqui dessa peste horrivel, que destruio grande
parte das vinhas da França e contra a qual até hoje o
governo da Allemanha defendeu com successo as zonas
viticulas do Rheno por medidas energicas e com grandes
sacrifícios. E” só paiz rico e com população densa e rela-
tivamente instruida que póde obter um successo como
esse. Sob as condições actuaes do Brazil seria impossivel
ensaiar 0 mesmo. O que, porem, é facil e deve ser acon-
selhado é isto: impedir a importação de tão horrivel
peste. Voltarei ao assumpto e observo que como um dos
membros da commissão da phylloxera tive occasião de
verificar que em varios pontos do Estado, nas plantações
de videiras, existe a phylloxera.
Para mais informações a respeito desse assumpto
compare-se o artigo do Relatorio de Campinas 9. Foi
verificada pelo Instituto Agronomico em 1893 a existencia
da phylloxera nos vinhedos do Caracol no E. de Minas
Geraes e na fronteira com o E. de S. Paulo, e no anno
seguinte em diversas localidades desse Estado (Campinas,
S. Paulo, Itaicy etc.) No anno de 1894 verificou o Snr. C.
') Relatorio annual do Instituto Agronomico de Campinas,
publicado pelo Dr. F. W. Dafert, 1894-1595 Vol, VII e VIII. São
Paulo 1896 p. 329,
— 399 —
Brunnemann a existencia da phylloxera no E. de Minas
Geraes, no municipio de Caldas. Em todos e-ses casos
poude ser reconhecida a origem da infecção, devido a
videiras estrangeiras importadas em 1889-1890 pela
casa commercial «Loja do Japão» em S. Paulo.
Já faz annos que ao Congresso Federal foi apresen-
tado o projecto de uma lei prohibindo a importação de
mudas e cepas de videiras ou ao menos sujeitando-as ao
exame rigoroso por facultativos competentes no estabe-
lecimento de uma horta vinicula do governo. O Congresso,
porém, não tratou dessa lei, a phylloxera está importada
e póde continuar a ser importada a gosto,
A outra especie de Aphidios de que preciso fallar
pertence ao genero Schizoneura, cujas antennas não
têm 7 articulos como as de Aphis, mas 4—6. As especies
desse genero que não têm os tubos de mel no abdomen
vivem em arvores, escondendo-se sob a casca. Distin-
guem-se pela massa branca como algodão cri na qual
vivem escondidas. Algumas especies vivem em galhas,
outras produzem o enrolamento das folhas e uma especie,
a mais damninha, Schizoneura lanigera Hausm., vive na
casta das macieiras especialmente das mais novas. pro-
duzindo-lhes muitas vezes a morte.
Não duvido que a essa especie, cuja existencia nos
pomares do Chile 2. A. Philippi mencionou, se refire
a doença das jaboticabeiras do Estado de São Paulo, da
qual tratou /. de Campos Novaes ). A descripçäo insuf-
ficiente trata de um aphidio que vive sob a casca envol-
vida com os seus ovos «iuma teia ou pennugem de côr
alvo-sordida». «Conheço» diz o mesmo autor, «um vizinho
que possuia com orgulho um frutal de 70 « fruteiras »
por excellencia, debaixo das quaes segundo um bello
costume paulista, tinha o prazer de reunir na época da
maxima fructificação em novembro, os parentes e amigos
É 9 J. de Campos Novaes. Uma doença das Jaboticabeiras. Re-
vista Brazileira Tom, XI. Rio de Janeiro 1597 p. 1131158,
— 400 —
para se fartarem das saborosas jaboticabas... Em certo
tempo porém um mal desconhecido invadiu as suas pre-
ciosas fruteiras e exactamente as mais estimadas; 0 seu
thesouro desappareceu gradualmente em poucos annos,
restando apenas umas tristes plantas escamosas e carco-
midas no campo dessa desoladora devastação».
As jaboticabeiras do Snr. Campos Novaes soffreram
da mesma doença desde 3-4 annos e elle fez grandes
esforços para limpar as arvores doentes dos piolhos e
salval-as. Parece pouco provavel que o autor e o Dr. 7.
Noak, phytopathologista, tomassem uma Coccida. e nesse
caso provavelmente do genero Zcerya, por aphidio, visto
que examinavam tambem os individuos alados, que têm
um par de azas nas Coccidas e dous pares nos aphidios.
Suppondo, pois, que não se desse tal engano, não posso
duvidar que o piolho, que está produzindo a doença das
jaboticabeiras, seja a Schizoneura lanigera, que nesse caso |
foi importada por macieiras, atacando depois ontras
fruteiras.
Infelizmente a Schizoneura é uma peste das mais
damninhas, de modo que não posso acompanhar ao Snr.
Campos Novaes nas suas esperanças um pouco optimistas
quanto ao tratamento. Além de outras difficuldades a
Sch. lanigera como tambem a Phylloxera, tem duas
fórmas vitaes, individuos que vivem nas folhas e ra-
mos e outros das raizes e que alli produzem nodosi-
dades e que não é possivel matar sem prejudicar a
arvore. Uma autoridade como Comstock (21 p. 162) diz a
respeito desse assumpto: «Realmente, a não tratar-se de
uma arvore excepcionalmente valiosa, não acreditamos |
que pague o trabalho de salvar uma arvore fortemente
infeccionada pela Schizoneura lanigera. Será melhor cor-
tar e tirar a arvore e destinar o solo para outra plantação
qualquer menos a macicira ».
Noto, porém, que as experiencias feitas pa Europa,
para onde essa especie foi importada em 1787, são mais
favoraveis e que se recommenda a maior limpeza, remo-
— 401 —
ção de casca morta e lavagens com solução de sabão ou
de sabão com enxofre.
FAM. COCCIDAE.
E’ esta uma grande familia dos Phytophthires, pro-
vavelmente a que contem maior numero de especies,
calculado actualmente em 800 mais ou menos, ') e que
contem numerosas especies nocivas à lavoura como a
todas as culturas de jardim e de arvoredo. O que an-
tes de tudo caracterisa essa familia é o grande contraste
que se nota entre os machos e as femeas e a completa
fixação das femeas nas folhas e galhos dos vegetaes em
que vivem e que prejudicam tirando-lhes a seiva.
Os machos são alados, tendo porém apenas um par
de azas, sendo a aza munida de uma veia só que no
meio é bifurcada. O segundo par de azas é rudimentar e
em forma de sedas, e ha tambem especies nas quaes 0
macho é privado de azas. Ponto singular da sua orga-
nisação é a falta do ferrão que bem desenvolvido na
larva desapparece na nympha, de modo que o macho
não se póde alimentar. A vida delle consiste apenas nas
excursões que voando faz para procurar a femea, com
a qual se liga em copula prolongada de algumas horas,
morrendo depois. O macho passa, ao contrario do que é
a regra entre os Homopteros, por uma metamorphose
completa, ficando algum tempo immovel em estado de
nympha, incluido n'um «puparium» que na fórma é dif-
ferente do da femea.
A femea fica toda a vida no mesmo lugar onde
em estado de larva se fixou, mettendo o ferrão nos te-
cidos molles da planta e nutrindo-se da sua seiva. O
ferrão é comprido, às vezes 3—4 vezes mais comprido
do que o corpo, send» no interior do abdomen disposto
1) cf Cockerell. A Check List of the Coccidae. Bull. Illin. State
Laboratory Nat. Hist. vol. 4. 1896 p. 318 (enumerando 773 especies).
Revista do Museu Paulista 26
ES Ano —
em forma de laço. As antennas são mais curtas tendo 6—10
segmentos e um menos do que o macho. As pernas são
curtas e na subfamilia das Diaspinae desapparecem quasi
sempre totalmente. O tarso das pernas consiste em um
articulo, munido de uma unica unha. Na extremidade
posterior ha um tubo pelo qual sahe como excreto um
fluido doce, uma qualidade de mel que é muito procurada
pelas formigas.
A fórma externa da femea é bastante differente nos
diversos generos. Nas Coccinas 0 corpo conserva-se molle
com indicações de segmentação e coberto as mais das vezes
por uma massa branca como algodão crú. Nas Lecaninas
o integumento dorsal do corpo transforma-se em escudo.
mais ou menos convexo e duro, e nas Diaspinas 0 corpo
por excreção forma uma capa, um escudo embaixo do
qual o animal vive. Esse escudo contem no meio (Aspi-
diotus) ou na extremidade posterior (Mytilaspis Chionas-
pis) as pelliculas do que o insecto por muda se defez, tendo
o escudo do macho uma e a da femea duas dessas «exuviae».
Os ovos que a femea põe são guardados embaixo do
corpo, que ainda depois da morte da mãe dá abrigo à
cria. As larvas movem-se com facilidade na planta até
que afinal se fixam no lugar onde vão-se transformar em
femea e morrer. À extremidade posterior da larva é mu-
nida de tuberculos ou sedas em fórma differente que é
aproveitavel para a classificação. (Vide Maskell, 26 p.
362 PL io A7)
E” esse um grupo de insectos excessivamente dam-
ninhos às culturas, especialmente de arvores cultivadas.
Vivem alli em grande numero, chupando a seiva, en-
fraquecendo e muitas vezes matando a arvore infeccio-
nada. Além disso cobrem os ramos de suas excreções do-
ces, que attrahem as formigas e nas quaes muitas vezes
crescem cogumelos. Já me referi quando tratando dos Aphi-
dios ás massas esponjosas de Scorias spongiosum e Gocidi
notou (22 p. 253) que o cogumelo Cladosporium fumago
— 403 —
cresce nas folhas e galhos em que vivem Coccidas tanto
no Brazil como na Europa.
As larvas movem-se com facilidade, mas é pouco
provavel que ellas possam fazer grandes migrações pelos
campos. jardins etc., servindo essa sua agilidade para
distribuil-as sobre todas as partes da arvore e as que com
ellas por ventura estão em contacto na copa. E” facil
comprehender que os machos, por serem alados, podem
extender as suas excursões pelas diversas regiões dos
pomares, mas é difficil que espalhem-se as femeas pelas
plantações e de uma arvore a outra, talvez bastante re-
mota, Sabemos agora, que o meio que está produzindo
tal distribuição são os insectos e os passaros, que sem
sabel-o dão passagem ás larvas das Coccidas, transpor-
tando-as de uma arvore a outra, de um pomar ao outro.
Howard 2 Marlatt ') observaram, que um besouro da
familia Coccinellidae, Pentilia misella, que muito voraz
destruiu numerosas Coccidas da perigosa especie Aspi-
diotus perniciosus Comstock, a conhecida «San José scale»,
sempre trouxe larvas desse piolho no dorso, as vezes 3—4.
Tambem nas formigas dos arvores, infeccionadas por es-
ses piolhos, observam-se as larvas, adherentes ao seu corpo.
E aquelle piolho não devasta só as pereiras e macieiras,
mas tambem as roseiras e outros arbustos. E' singular,
realmente, que os insectos que são os inimigos mais ter-
riveis dessas cochonilhas, no mesmo tempo sirvam á con-
servação e distribuição dellas, como para em tempos fu-
turos não se privarem d'essa sua presa, cuja exterminação
completa lhes seria fatal. K’ desse modo que a natureza
procede para limitar e mitigar os excessos na lucta pela
vida e para estabelecer o estado de equilibrio entre as
creaturas e as suas condições de existencia.
Adeante dou a lista das Coccidas até hoje observa-
das no Brazil. A unica até hoje publicada, a de Cockerell
Y Howard L. O. and Marlatt C. L. The San Jose Scale. U.S.
Dep. of Agriculture. Division of Entomology Bull, N, 3, New Series
Washington 1896 p. 49,
— 404 —
(9), refere-se a toda a região neotropical incluindo as
Antilhas e o Mexico, e menciona 117 especies. Entre
essas ha 5 do Brazil e que. ao menos quanto ao genero
Ceroplastes, não estão suficientemente descriptas e pro-
vavelmente em parte synonimas. Espero que daqui a
poucos annos o assumpto já esteja mais esclarecido,
ao menos cuanto a região deS. Paulo, onde o entomolo-
gista desse Museu, Snr. A. Hempel, Já descobriu varias
especies novas não incluidas nessa lista e continuará |
nesse estudo.
A. ORTHEZIINAE.
1., Orthezia urticae L.
Brehms Thierleben Bd. 9. 1877 p. 579 (Dorthesia ur-
ticae).
Goeldi 22 p. 250 e 23.
Douglas J. W. On the species of the genus Orthesia.
Entom. Monthly Mag. Vol. 18, 1881 p. 172—176 e p. 203 :
— 205.
| Gocldi achou essa conhecida especie europea no Rio
de Janeiro sobre folhas de Coluas e Croton. Temol-a tam-
bem aqui em S. Paulo, sendo porem preciso uma com-
paração minuciosa com os typos europeos e com as espe-
cies alliadas. Douglas distingue duas especies affines O.
Signoreti B. White = cataphracta Westw. e O. urticae
A. et S. = Aphis urticae L. Não dispondo da necessaria
litteratura não posso dar informações exactas sobre os:
exemplares de S. Paulo.
B. COCCINAE.
2., Coccus cacti L.
Brehms Thierleben Bd. IX, 1877 p. 574.
Weenen, Ciel. No 29: |
— 405 —
Nas Opuntias do Sul do Rio Grande do Sul, especial-
mente na minha ilha na foz do Rio Camaquam, observei
essa conhecida especie não indicada por ora do Brazil,
mas que Wiepen indicou de Tucuman, Rep. Argentina,
onde já fizeram experiencia de colher «cochenilha» que,
porém, não deu resultado satisfactorio.
3., Dactylopius citri Bdv.
Comstork 21 p. 167 fig. 208.
Dactylopius destructor Comstock t. Cockerell 16 p. 738.
Cockerell 16 p. 733.
Eu vi essa especie, que é commum nas larangeiras
limeiras etc. na Colonia de Mundo Novo, Rio Grande do
Sul no lado inferior de folhas. Cockerell diz que é
encontrada tambem no cafeeiro. |
Parece que as opinides dos diversos autores por ora
pouco concordam quanto á distincção das especies affines
desse genero. Cockerell julga D. longispinus Targ. Tarz.
e D. longifilis Comstock (21 p. 167 fig. 204) synonymos
do D. adonidum. Maskell porém (29 p. 131) considera
D. adonidum L. como especie distincta. A opinião da
_ identidade de D. citri e adonidum é defendida tambem
por Z. Lichtenstein (Les Pucerons des orangers. Ass. France
Avanc. Sc. Congrés d' Alger 1881 Tom. X p. 676 —679
e La Provence Agric. 1881). Parece, entretanto, que o
verdadeiro D. adonidum (cf. figura 159 de Chenu, Anne-
lés Paris 1885 p. 1888) tem 2 appendices de '/; de
comprimento do corpo na extremidade posterior, que fal-
tam ao D. citri. Vide Berlese, A. Le Cocciniglie Italian.
I Dactylopius. Avellino 1898.
Goeldi (24 p. 75 e fig. 43-44) figura a larva de uma
Coccida, encontrada nas raizes do cafeeiro, confirmando
a observação do Barão de Capanema, que ella alli não
fez estragos e referindo-se a XY. Loew julga-a larva
de uma especie de Dactylopius, provavelmente de D.
adonidum L. Comparando, porém, a figura de Goeldi
(VG. mes
com as de Maskell não posso accreditar que a sup-
posição seja exacta. Nenhuma figura das larvas exami- —
nadas por Maskell faz vêr tão grande numero de se-
das nos dous grandes tuberculos ‘da extremidade poste-
rior como a fies de Gocldi as delinéa.
4., Asterolecanium pustulans Ckil.
Planchonia pustulans Cockerell Science Gossip April
1893. Asterolecanium pustulans Cockerell 18 p. 71 Brazil
teste Cockerell. Não conheço a respectiva descripção e
figura. 3
C. LECANIINAE.
5., Lecanium nitens Cockerell.
Cockerell 13 p. 203 e 18 p. 6.
Rio Grande do Sul; encontrada em murta (Blepharo-
calyx Tweedii).
6., Lecanium pseudosemen Ckil.
Cockerell 13 p, 202 .e 18 p. 6.
Sao Paulo; encontrada numa especie espinhosa da
familia Solaneae.
7., Lecanium monile Ckil.
Cockerell 13 p. 203 e 18 p. 6. São Paulo.
8., Lecanium hemisphaericum L.
Lecanium coffeae Walk. Cockerell 5 p. 21 e 16 p.
752.
Especie encontrada em cafeeiros na Bahia, como
tambem na india e em Ceylao. A côr do escudinho é
— 407 —
parda. Na Bahia esse insecto causou grandes estragos
nos cafesaes e o mesmo dizem da India e do Ceylão.
Parece que nos Estados do Rio de Janeiro e de S. Paulo
não foi ainda observado.
9., Lecanium virideGreen.
Ff. E. Green. Observations on the Green-scale Bug
in connection with the Cultivation of Coffee. Ceylon 1886.
Cockerell 16 p. 752 e 19 p. 384.
Os estragos que esse insecto, de escudo verde, cau-
sou nas plantações de café em Ceylão foram tão gran-
des que em varios districtos foi necessario abandonar a
cultura desse producto. Aqui foi recolhido em S. Anto-
nio perto de Campinas pelo Dr. %. Noack do Instituto
Agronomico, que me mandou exemplares. Não sou in-
formado se o insecto aqui tambem causou damnos. Va-
lia a pena examinar o modo como essa peste aqui foi
introduzida, provavelmente com mudas de cafeeiro da
India ou do Ceylão.
Ha mais um Lecanium, L. nigrum Nietner, de côr
preta, nocivo ao cufeeiro do que não me consta que já
foi observado no Brazil. De outras Coccidas observadas
no cafeeiro nota-se ainda: Dactylopius citri dvl, Or-
thezia insignis Dougl., Aspidiotus articulatus Morgan.
10., Lecanium erythrinae sp. n.
Lecanium de forma subglobular, grande, de 6 mm.
de comprimento, de côr pardo-roxa e nos exemplares
adultos preta, com a base achatada que encontrei no Rio
Grande do Sul sob a casca velha das corticeiras (Eryth-
rina crista galli L.), onde vivem em colonias chupando
a seiva dessa arvore de madeira molle. KE’ essa a unica
especie de Coccidas que encontrei sob casca de arvore.
Infelizmente não tenho mais exemplares e peço aos
amigos de Rio Grande do Sul que m'os enviem afim
de completar a descripção.
— 408 —
1f., Lecanium Urichi Ckil.
Cockerell 3 p. 203 e 5 p. 69:
Essa especie descripta por Cockerell conforme | exem-
plares encontrados em Trinidad no ninho de uma for-
miga, Crematogaster brevispinosa Mayr, foi colleccionada
por mim na barra do Rio Camaquam, Rio Grande do
Sul, onde vivia em Japecanga (Smilax campestris Griseb.)
12., Lecanium reticulatum Ckil.
Cockerell 14 p. 174 e 18 p. 7.
Encontrei em S. Paulo em arbusto para mim desco-
nhecido. O escudo mede 11 mm. de comprimento, 5 de
largura, e distingue-se por signaes reticulares.
13., Lecanium baccharidis Ckil.
Cockerell 14 p. 174 e 18 p. 7.
Commum nas «vassouras», diversas especies de Bac-
charis, do Rio Grande do Sul e de S. Paulo (Baccharis
dracunculifolia D. C.)
14. Ceroplastes janeirensis Gray
Cockerell 2 p. 105 e 18 p. 6 (C. janeirensis Gray 1828).
Cockerell 2 p. 104 e 18 p. 6 (C. psidit Chavannes 1848).
Essa especie é encontrada nas goiabeiras (Psidium
guava) c como Cockerell acredita, C. psidii Chav. é syno-
nymo de janeirensis Gray.
15., Ceroplastes ceriferus Anderson.
Ceroplastes ceriferus And. Maskell 25 p. 216 PI. XII
fig. 11—16.
Ceroplastes ceriferus And. Cockerell 10 p. 7.
Ceroplastes cassiae Chavannes Cockerell 18 p. 6.
— 409 —
Ceroplastes Fairmairei Targioni (1858) teste Mas-
Rell. 25 p. 2177.
No Brazil em varias especies de Cassia. Cockerell e
Maskell são de opinião que a especie de Chavannes seja
identica a C. ceriferus da India, que é especie muito co-
nhecida sob a denominação de «the indian wax scale»,
visto como a cera que os insectos produzem e que os co-
bre, confundindo ás vezes a de diversos individuos numa
unica massa, tem sido apreciada pelos indigenas na
India. O escudo da femea. limpado da cera, faz vêr atraz
um processo corniforme que nunca notei tão enorme
nas especies brazileiras. O C. ceriferus é especie de grande
distribuição, sendo encontrada na Australia, India, An-
tigua e no Mexico. C. Fairmairei de Montevideo é iden-
tica ao ceriferus, conforme o diz Maskell. Creio que
só estudos mais exactos esclarecerão essa questão. O que
é certo é que temos numerosas especies de Ceroplastes
no Brazil, em parte bastante semelhantes entre si.
16., Ceroplastes albolineatus Ckil.
Cocrere A O, Derk; 44, pe QO 18 pe: 6:
A massa de cera que cobre o insecto é branca, as
vezes avermelhada. No lado inferior observam-se de cada
lado duas linhas transversaes brancas. À cera dos diver-
sos individuos conflue ás vezes. Não me consta, que no
Brazil a cera desses insectos fosse empregada nem pelos
indigenas. Essa especie é encontrada em S. Paulo em di-
versos arbustos como a aroeira (Schinus sp.) e vassouras,
especialmente em Baccharis.
17., Ceroplastes Jheringi Ckil.
Cockerell 12 p. 100 e 18 p. 6.
Achei essa especie no Rio Grande do Sul em Baccha-
ris platensis Griseb.e cm S. Paulo. A antenna da femea
tem 8 segmentos; na especie affine, C. ceriferus, o nu-
— 410 —
mero dos segmentos na antenna é de 6. O processo cor-
niforme alli comprido, aqui é pequeno, pouco saliente.
D. DIASPINAE.
18., Pseudoparlatoria parlatorioides (Comst).
Cockerell 19 p. 388.
Em folhas de goiabeira, S. Paulo.
19., Aspidiotus punicae Ckil.
Cockerell 19, p. 384.
S. Paulo, em folhas de um coqueiro cultivado.
20., Chionaspis aspidistrae Signoret.
Cockerell 19, p. 388.
S. Paulo, em folhas de larangeira, tambem na su-
perficie das fructas.
21., Chionaspis brasiliensis Sign.
Signoret Essai p. 126 Pl. XI fig. 10—15.
Maskell 25 p. 210 e 26 p. 68.
Cockerell 18 p. 9 e 19 p. 383 e 8 p. 306.
- Não é conhecida a planta em que os exemplares da
Bahia foram achados. Os das Antilhas, da Australia e do
Ceylão foram encontrados em fetos e orchideas.
Cockerell considera essa especie como variedade da
precedente.
Quanto a Distribuição geographica dos Phytophthires,
as familias Aleurodidae e Psylridae parecem mais ou
menos cosmopolitas, sendo, porém, a das Aphidae da
região holarctica Só da Europa conhecem-se cerca de 360
especies desses piolhos e tanto alli, como na America do
Norte, foram encontradas especies fosseis terciarias, espe-
cialmente oligocenas. Como parece, as especies de Aphi-
— 411 —
dae encontradas na America do Sul são todas importadas
com as plantas em que vivem.
A familia que mais interesse excita nesse sentido é
a das Coccidae. Cockerell tratou do assumpto em varias
publicações sem que a insufficiencia dos materiaes
conhecidos permittisse considerações geraes. Só a re-
gião polar, parte das Antilhas, a Australia e Nova
Zealandia são melhor conhecidas. Especialmente essa ul-
tima região é rica em typos proprios, como as nu-
merosas especies de Brachyscelis da Australia, notaveis
pelas galhas que produzem nas folhas, e os generos Cte-
nochiton, Lecanochiton etc. da Nova Zealandia. A sec-
ção das Orthezinae falta na região australiana, sendo pos-
sivel que o grupo seja originario da região polar.
Quanto a America do Sul pouco poude reunir de
especies verificadas no Brazil e quasi nada conhecemos das
de outros paizes da America Meridional. Não conheço estudo
como o presente em referencia aos outros paizes da Ame-
rica do Sul. As especies importadas do Chile foram men-
cionadas por R. A. Philippi ') e varias outras especies
novas forao descriptas por A. Giard *), Cockerell e outros
dando eu em seguida a lista das especies do Chile conhe-
cidas até hoje.
Coccidios do Chile.
Orthezia sp.
Dactylopius adonidum L.
Dactylopius vitium Niedelsky.
Margarodes vitium A. Giard ?.
Lecanium hesperidum L.
Ceroplastes chilensis Gray.
/
1) R. A. Philippi. Ueber die-Veraenderungen welche der Men-
sch in der Fauna Chili’s bewirkt hat. Festschrift d. Vereins f. Na-
turkunde zu Cassel 1886. p. 1—20.
*) A. Giard. Actes de la Soe. Scientif, du Chili Tom. 5. 1895
p. CXLVII e nas mesmas Actes varias publicaçãos de 4. Giard,
Lataste, Cockerell etc. referentes, na maior parte, ao Margarodes,
SP Atos
Aspidiotus nerii Bouché.
» Bowreyi Ckll.
» Latastei Ckll.
» perniciosus Comstock.
Aulacaspis rosae Bouché.
Aonidia lauri Bouché.
São notaveis entre esses insectos damninhos: A. per-
niciosus das pereiras, macieiras etc., tendo sido ventilada |
a questão da patria dessa perigosa especie, importada da
California para o Chile, mas endemica no Japão, e Marga-
rodes, especie que vive nas raizes da videira onde produz
excrescencias 6cas, «cystes». Verificaram nos ultimos
annos que à mesma praga existe em Entre Rios, onde é
encontrada nas raizes de numerosas plantas que a suppor-
tam bem, á excepção da videira, que morre.
Quanto ás Republicas da Prata não conheço publi-
cações relativas aos phytophthires. Entre as especies cita-
das na litteratura notamos:
Leachia brasiliensis Walk.
Ceroplastes ceriferus And. (Fairmairei Targ.) Mon-
tevideo.
Lecanium verrusosum Sign. Montevideo.
Margarodes vitium Giard Entre Rios.
Coccus cacti L. Tucuman (cf. Wiepen).
Nessa pequena lista é interessante o representante
de Leachia. genero que é conhecido da Nova Zealandia
e da Europa. Talvez apresentem os Coccidios da Pata-
gonia mais analogia com os da Nova Zealandia e nesse
sentido o exame das Coccidae das Republicas Argentina
e Chile talvez nos guarde alguma surpreza. Quanto ao
Brazil grande parte das especies mencionadas por mim
é importada, de modo que por ora não estou certo que
as Diaspinae tomem parte na composição da fanna do
Brazil. Os generos predominantes são Ceroplastes e Le-
canium e provavelmente esses generos e especies estão
em relações com os da Africa, que durante a era meso-,
zoica estava ligada ao Brazil.
— 413 —
Parte dos Coccidios é de utilidade para o homem
achando uso nas industrias. Uma das mais notaveis
especies é Coccus lacca Kerr, que vive na India sobre Ficus
religiosa e cujas secreções são a gomma lacca, muito
usada para vernizes e lacre.
Coceus manniparus Ehrbg. fornece uma qualidade
de maná e Coceus cacti L., a verdadeira Cochonilha
fornece o carmim. Essa preciosa côr foi antigamente
muito usada, sendo cultivado o util piolho no Mexico e
mais tarde nas Ilhas Canarias, na Hespanha etc. sobre
opuntias ou «nopab. Actualmente a cultura da cocho-
nilha diminue cada vez mais devido á concurrencia das
côres preparadas com alcatrão. Assim a cochonilha, que
substituiu o Kermes da Europa e a purpura, tirada dos
caracoes Murex e Purpura na antiguidade, por sua parte
é substituida por côres artificiaes, como acontece com
quasi todas as côres vegetaes e cultivadas.
Quanto ao prejuizo causado pelos phytophthires e
aos meios para debellal-os, para alguns delles bastam
lavagens com agua a qual se mistura um pouco de ex-
tracto de fumo, sarro de pita etc., de sabão ou de po-
tassa. Para os Coccidios, pórem, são necessarios agentes mais
fortes. As arvores que no inverno perdem as folhas lim-
pa-se e trata-se no inverno ou pouco antes da prima-
vera. As arvores que não largam as folhas no inverno
estão em condições mais difficeis. As larangeiras limpa-
se ás vezes mediante gazes venenosos, especialmente
sulfureto de carbono ou formicida, cobrindo a copa da
larangeira com um toldo ou encerado e fazendo evaporar
em baixo delle o gaz venenoso.
'O meio mais usado actualmente para envenenar us
Coccidios e outros piolhos vegetaes é a Emulsão de Ke-
_rosene. A applicação do kerosene mata junto com os in-
sectos tambem a arvore. E' nessas condições mistér di-
luir o kerosene, o que ao mesmo tempo tem a vantagem
de fazer menos dispendioso o respectivo processo. Para
tal fim prepara-se do modo seguinte a emulsão ;
— 414 —
Sabao, 590 grammas, dissolvidas em 5 litros de agua
fervente. A essa soluçäo quente ajuntam-se pouco a
pouco 10 litros de kerosene, mexendo em seguida até que
se forme um liquido parecido a nata que fica consis-
tente quando frio e se conserva bem por semanas. Para
a applicação aquece-se e dilue-se o preparado com 6 até
10 vezes mais agua morna. Para plantas delicadas a
diluição póde ser de 12-14. A solução é applicada na
fórma da mais fina chuva (spray), produzida por pulveri-
sador. Vendem-se as necessarias bombas («cyclone nozzlep),
muito usadas na America do Norte, nas casas que impor-
tam utensilios para lavoura. A applicação se faz em
tempo sem chuva, mas em de dia ceo encoberto. À agua
usada para a emulsão ha de ser potavel ou de chuva. A
applicação repete-se 2—3 vezes com intervallos de 2—3
. semanas. À arvore tratada ha de ser molhada por toda,
parte de modo mais completo.
Ao lado desses esforços para matar os insectos dam-
ninhos por lavagens etc., ha nos ultimos annos outros,
que têm por fim confiar a destruição dos piolhos aos,
inimigos naturaes delles. Dado caso que com mudas
de arvores fruteiras um Coccidio pernicioso seja impor-
tado por um paiz onde essa especie não exista, o desenvol-.
vimento do piolho vegetal pode tornar-se tanto mais
perigosc como nas condições novas fazem falta os inimi-
gos naturaes e os insectos que como parasitas destroem
taes piolhos na sua terra natal. E', pois, uma indicação
logica importar os inimigos e parasitas dos insectos
damnosos. E” isso que no ultimo decennio foi feito em
varios paizes com bom successo.
Quasi todos os successos obtidos nesse sentido
ligam-se ao nome do entomologista norte-americano 4.
Koebele. Mandado pelo governo da California 4 Australia
e á Nova Zealandia a procura de inimigos naturaes do
Coccidio Icerya purchasi, descobriu elle na Nova Zea-
landia um besouro da familia Coccinellidae, Vedalia
cardinalis, muito proprio para tal fim, e do qual levou .
— 415 —
grande porção para a California acclimando-o com grande
successo nos pomares infeccionados. Em outra viagem
foi procurar insectos appropriados para a destruição do
Aspidiotus perniociosus que na California representa
grande calamidade, introduzindo com successo regular
Orcus chalibeus, Rhizobius ventralis e outros coleopteros.
Mais sensação fez o successo que elle obteve nas Ilhas
Hawai. Acham-se em numerosos periodicos informações
sobre o assumpto, acceitando eu por ser já traduzido em
portuguez a seguinte informação dada pelo Dr. À. Gra-
ciano de Azambuja. ”)
« Poucos paizes, diz o mencionado trabalho, têm
sido mais prejudicados com a importação de insectos e
animaes nocivos do que as Ilhas de Hawaii. Em nenhum
outro tambem teve melhores resultados a introducção
de animaes beneficos para destruição d'aquelles. Os mais
notaveis daquella classe e até agora os mais damninhos
foram 0s scale-insects. O numero de especies deste grupo
que invadiram as ilhas é notavel e não menos digno de
nota é a enorme multiplicação dos individuos de muitas
ou da maior parte destas especies.
“« À primeira importação de Coccinellidae para des-
truir esses flagellos se fez em 1890, quando Vedalia car-
dinalis (Muls.), natural da Australia, foi enviada pelo
Sr. Albert Koeberle. Nessa occasião muitas arvores esta-
vam em condições deploraveis, por causa dos ataques de
Jcerya, as sapukaias, com especialidade, se achando com-
pletamente infestadas, de modo tal que muitas arvores
eram cortadas por estarem de todo perdidas. A Vedalia
') Graciano A. de Azambuja. As pragas dos nossos pomares
e sua destruição. Annuario do Estado do Rio Grande do Sul
para 1898 por Graciano A. de Azambuja. Anno XIV, Porto Ale-
gre, 1897, p. 231—234. E’ tirado da memoria escripta pelo secre-
tario da Commissão que a Sociedade Real de Londres e a Asso-
ciação Britannica para o progresso das sciencias enviaram ás
ilhas de Sandwich para estudar a sua fauna. Compare-se tambem
«Illustrirte Wochenschrift fuer Entomologie Bd, II, 1897 N,° 19
p. 289 ss,»
— 416 —
toi um completo successo, Naturalisou-se com facilidade,
augmentou prodigiosamente, limpou as arvores, e depois
como diminuiu a quantidade de Zcerya, decresceu tam-
bem o numero de Vedalia. Antes deste facto ji o mesmo
msecto tinha prestado excellente serviço nos pomares da
California. |
«O successo completo desta primeira experiencia
teve como resultado 0 engajameuto do Sr. Koeberle pelo
governo de Hawaii e muitos agricultores para durante
algus annos combater outras pragas não menos nocivas
do que Zcerya. O acerto deste procedimento é digno dos
maiores encomios, quando comparado com a indifferença
de muitos paizes que estão em circumstancias similares.
«O Sr. Koeberle, depos de estudar as necessidades
do archipelago, com o seu conhecimento sem rival dos
habitos das Coccinellidae, introduzio varias outras espe-
cies, no anno de 1894, das quaes, se algumas deixaram de
naturalisar-se, outras se acclimataram perfeitamente e
fizerem serviços esplendidos.
« Autes de mencionar essas especies, póde dizer-se
que os dous productos do archipelago são assucar e café.
Tambem ha grande cultura de fructas, e esta em escala
ascendente. Todos estes ramos de agricultura estavam
ameaçados de destruição, em consequencia dos estragos
feitos pelos animaes importados.
« Voltando agora aos insectos destruidores: Um dos
mais uteis foi Coccinella repanda (Thun.), natural de
Ceylão, da China, Australia, etc., c que se alimenta com
Aphides. Os serviços desta especie não podem ser assaz
assignalados. Na ilha Kauai a canna de assucar foi ata-
cada recentemente por tal modo por um Aphis, que todos
os cultivadores se alarmaram. A Coccinella, ahi intro-
duzida, tem augmentado em tal escala que não resta
duvida alguma de que as plantações ficarão purgadas dos
seus inimigos. Na mesma ilha, em outra occasião, vi as
arvores fructiferas, especialmente laranjeiras e limeiras,
em um bello jardim, no peior estado imaginavel, em vir-
— 417 —
tude dos ataques de Aphis de varias especies. Seu dono
stava seringando as arvores com insecticidas. Aconselhei-o
então a introduzir os coleopteros. Em poucas semanas.
elles augmentaram de fórma prodigiosa. E quando voltei,
após seis semanas, as arvores infestadas estavam todas
em perfeitas condições, cheias de flores e fructos. Não
menos numeroso do que a precedente é um Cryptolemus
(OC. montrouzieri), introduzido da Australia e completa-
mente naturalisado, que ataca as especies muito dam-
ninhas de Pulvinaria. Quando visitei o districto de Kona
(em Hawaii), em 1892, muitas arvores estavam com a
casca litteralmente coberta desta praga e pareciam em
ponto de succumbir. Em 1894 foram introduzidos os co-
leopteros e em pouco tempo tinha mudado totalmente o
estado de cousas e as arvores enfraquecidas se restabe-
leceram promptamente. Para mostrar o grande augmento
desta especie de coleopteros, posso affirmar que em junho
do corrente anno, muitas grandes arvores na cidade de
Honolulú tinham muitos pés quadrados de sua casca in-
teiramente cobertos pelas larvas, que formavam grandes
massas brancas. Agora (novembro) esta especie e Cocci-
nella repanda são as mais notaveis eabundantes das Coc-
conellidae importadas, qualquer delles excedendo em nu-
mero os mais abundantes dos insectos indigenas. Sua
vasta distribuição é notavel, pois dão-se tanto nas terras
baixas, como nas montanhosas e florestas de 4e 5.000 pés
acima do nivel do mar.»
Não ha outro grupo de insectos em referencia ao
qual ja existisse numero tão elevado de leis especiaes como
o dos Phytophthires. Não só os Governos dos diversos
grandes paizes, mas tambem muitas Provincias, Es-
tados, Comarcas têm editado leis especiaes para a des-
truição desses insectos prejudiciaes ou para impedir a
sua importação. E” dificil achar reunidas essas disposi-
ções a excepção dos Estados Unidos da America do Norte ').
é 1) D: S. Dept. Divis. Entomology. Bull N.º 33. Legislation
against Injurious Insects; a compilation of the Laws and Regu-
lations in the U. S. and British Colombia, By L. O, Howard.
Revista do Museu Paulista 27
— 418 —
Além disso nos grandes paizes civilisados ha Institutos
centraes de Agricultura com secçôes de Entomologia
a nao fallar nas numerosissimas Academias de Agricultura.
Examinando o que nesse sentido entre nós se tem
feito infelizmente quasi nada temos a dizer, a não se in-
sistir na necessidade de não continuar nesse « laisser
aller », nesse descuido para com a lavoura a qual é e será
por muito tempo a principal base da producção e da ri-
queza do paiz. Visto as condições geraes do paiz creio
que ha de ser considerado tambem nesse sentido um dos
mais favorecidos do mundo. Não temos a praga dos ga-
fanhotos que devasta as culturas na America do Norte
como nas Republicas Platinas e que só em pontos do Rio
Grande do Sul attinge o nosso territorio; estamos livres
de muitas doenças dos vegetaes e pestes de animaes dam-
ninhos que em outros paizes causam grandes estragos e
tambem em relação aos phytophthires estamos — por
ora — em condições muito mais favoraveis do que a
maior parte dos paizes da America do Norte ou do velho
Mundo. Temos as formigas, a sauva, mas ha meios de
debellal-as e ellas não impedem o augmento já excessivo
da cultura do café.
Estamos assim em geral em boas condições e temos
a vantagem para os insectos nocivos e outras pestes e
doenças importadas de podermos aproveitar as experien-
cias feitas em outros paizes. Mas essa falta de precaução
não poderá trazer-nos qualquer dia perigos serios, pre-
juizos immensos, se já não os tem talvez produzido?
Vendo centenas de leguas antigamente destinadas a
cultura do café hoje privadas da possibilidade dessa cul-
tura no Estado do Rio de Janeiro por um parasita das
raizes, a Heterodera radicicola Greef, que tambem na Eu-
ropa causou grandes estragos—não deviam continuar os
estudos bem principiados pelo Dr. #. Goeldi para achar
meio de cura, não deviam ao menos os Estados limitro-
phes defender-se contra a importação da mais terrivel
doença até hoje conhecida na lavoura do Brazil por leis,
— AE
prohibindo o transporte, a importação de mudas de ar-
vores e arbustos? A falta de qualquer medida legisla-
tiva, não tem ja nos causado a importação da phyl-
loxera nas vinhas dos Estados de S. Paulo e de Minas?
Hoje é o Coccidio pardo que importamos do Ceylão nos
cafesaes da Bahia, amanhã o Coccidio verde que da mesma
localidade da India é importado nos cafesaes de S. Paulo,
um dia são as Jaboticabeiras adoentadas e morrendo
por causa de Phytophthires, provavelmente por causa
da extremamente nociva Schizoneura lanigera, outro dia
talvez as larangeiras, já infeccionadas por diversos pio-
lhos vegetaes, embora até agora não dos mais perigosos. -
Parece que as damninhas especies de Icerya )e a horrivel
San José Scale, Aspidiotus perniciosus, não forão ainda
importadas, mas não o podem sel-o qualquer dia ?
Ha doenças das plantas culturaes, ha pragas que
o paiz que assaltam prejudicam quasi do mesmo modo
como uma guerra perdida. Só na França a phyl-
loxera aruinou a viticultura em cerca de | milhão de
hectares e a Allemanha em 20 annos para defender o
paiz contra a mesma phylloxera gastou 10.000 contos
de reis. Não vale mais providenciar em tempo, não pare-
cerá conveniente aqui tambem impedir certas pragas
susceptiveis de devastar a nossa lavoura ?
Não seria difficil alcançar o necessario. O Governo
federal devia ter ao seu lado uma repartição agrono-
mica composta de profissionaes competentes e por pratica
versados no assumpto, entre elles dous entomologistas.
Devia ser prohibida a importação de mudas e cepas de
arvores e de arbustos, e os que por ventura só nessas
condições pudessem ser importados deviam ser entre-
gues ao horto de experiencias do mencionado insti-
!) Sobre as diversas especies desse genero de Coccidae veja-
se Riley O V. e Howard L. O. Some new Iceryas, Insecte Life.
Vol. III N.º 3 Washington 1890 p. 92-106 contendo pag. 106 a sy-
nopse das especies conhecidas e a sua distincção,
— 420 —
tuto. Esse devia examinar as doenças das culturas e os
meios para o tratamento, fornecer informações a parti-
culares, preparar as leis necessarias e conforme ás usadas
em outros paizes. Assumpto de serio estudo seria tambem
agenciar medidas contra a continua e insensata de-
vastacäo dos mattos, excluindo os que estão situados em
morros declives de córte para roça, fazendo dependente o
córte da roca de uma licença municipal, conservando e
-engrandecendo os mattos do Governo, dos quaes nos Es-
tados já regularmente povoados nem um palmo mais
devia ser vendido.
Não será sem prejuizo do futuro do paiz em
continuar nesse «laisser aller». Por essa razão qual-
quer contribuição para abrir rua ao progresso será de
utilidade — é necessario convencer parte dos estadistas,
| responsaveis pela situação, de que o auxilio a lavoura
não se presta só pelos bancos, mas muito mais ainda
pela sciencia.
Os Camarões da agua doce
DO BRAZIL
PORT Er
ENO AN TEL EE" LIN Cr:
Ao completo estudo que sobre o assumpto neste
volume p. 173 ss. publicou o Dr. Ortmann preciso ajuntar
apenas algumas observações, conforme ás experiencias
que sobre a materia tenho.
Posso completar aquelle artigo com mais alguns
esclarecimentos a respeito das especies nominaes men-
cionadas por Yritr Mueller no seu estudo sobre Palaemon
potiuna, Archivos Mus. Nacional, Rio de Janeiro. Vol.
VII. 1892 p. 191 ff Algumas especies alli mencio-
nadas por Fritz Mueller e que elle a meu pedido me
mandou acham-se descriptas por Ortmann, quanto ás
outras tenho a notar que pelos exemplares authenticos
que o eminente naturalista de Blumenau me enviou pude
verificar que têm de entrar na synonymia, sendo :
Palaemon potiporanga Fritz Mueller == P. Olfersi
Wiegm.
Palaemon potieté Fr. Mueller — P.acanthurus Wiegm.
Quanto äs diversas especies brazileiras tenho a
accrescentar informações sobre as localidades em que
foram encontradas.
Atoida potimirim Fr. Mueller.
Temos exemplares de Blumenau, do Rio Itajahy, que
nos mandou Fritz Mueller e outros de S. Sebastião pes-
cados no mar. Nao foi isso acaso e antes considero essa
especie como do mar e da agua salobra, como de agua
doce. No Rio Itajahy encontram-se ao lado dessa Atoida
mais outros animaes que, em geral, são marinhos, como
uma especie de Syngnathus, que na collecção do Museu
está guardada sob a denominação de Siphonostoma Muel-
leri Ih. sp. n.e que se distingue pelo numero reduzido
de escudos ventraes, sendo a formula dos anneis do corpo
12—35, e o numero dos raios da D. 33.
Leander brasiliensis Ortm.
Especie encontrada por mim na foz do Rio Camaquam,
Rio Grande do Sul, em agua doce, ás vezes salobra, entre
plantas aquaticas.
Leander paulensis Ortm.
Coiligido por mim no canal entre a Ilha de São
Sebastião e o continente, em agua do mar.
Leander potitinga Fr. Mueller.
Conheço só os exemplares colligidos em Blumenau
por Fritz Mueller e aos quaes se refere a descripção de
Ortmann.
Palaemon acanthurus Wiegm.
Os exemplares que recebi de #7. Mueller sob o nome
de P. potieté provém do Rio Itajahy. Os exemplares que
colligi em 8. Lourenço (Rio Grande do Sul) são de agua
doce do Arroio S. Lourenço, na sua foz, onde a agua, ás
vezes, é salobra e os que colligi na Ilha de S. Sebastião
provêm da agua salobra do arroio a Piraiquê, perto
da embocadura ao mar. Tenho tambem um exemplar de
Cubatão, perto de Santos, da agua doce, mas não distante
do mar. Os exemplares da Bahia provêm do mar e alli
— 423 —
essa especie abunda sendo comida e vendida no mercado.
Os exemplares da Bahia são grandes, maiores que os
de Santa Catharina e Rio Grande do Sul. Quanto a esses
ultimos só conheço individuos juvenis.
Palaemon Olfersi Wiegm.
Os nossos exemplares da Bahia, da barra de um.
arroio perto de Piraiquê na Ilha de São Sebastião e de
Santos provêm da agua salobra ou do mar; só os que
Fritz Mueller colligiu no Rio Itajahy, Estado de Santa
Catharina, são da agua doce.
Palaemon potiuna Fr. Mueller.
Além dos exemplares do Rio Itajahy que recebemos
por Fritz Mueller temos outros que o Dr. Schwacke, Di-
rector da Escola de Pharmacia em Ouro Preto colligiu
perto de Joinville, Estado de Santa Catharina, no arroio
Pirahy Mirim. Essa especie é, pois, conhecida sómente
no E. de Santa Catharina, sendo substituida no E. de
S Paulo por P. Iheringi, que é especie maior e com a
tenaz differente.
Palaemon lheringi Ortmann.
Especie do E. de S. Paulo que temos das seguintes
localidades: Raiz da Serra, Campo Grande, S. Paulo no
Rio Tieté, Perús e Piquete. Dessas localidades a pri-
meira pertence ao systema hydrographico do littoral, a
ultima ao do Rio Parahyba e as outras ao do Rio Tieté,
affluente do Rio Paraná. O ovo é menor (1,7 mm.) do que
em P. potiuna, o numero total delles é maior.
Palaemon jamaicensis (Herbst).
Especie grande da costa de S. Paulo que temos de
Iguape e de S. Sebastião onde esse caranguejo é encon-
a ADA —
trado nos lugares das embocaduras dos rios e arroios. O
povo o chama «pitú», estimando-o como bôa comida. Yritz
Mueller menciona essa especie de Santa Catharina, do
Rio Itajahy. No Rio Grande do Sul não é encontrada.
Palaemon Borelli Nobili.
Nobili, Giuseppe. Viaggio del Dr. A. Borelli Repub.
Arg. Crostacei decapodi. Bolletino dei Musei di Zoologia
ed Anatomia comp. di Torino. Vol. XI. 1890 N.º 229, (da
Republica Argentina).
O Dr. Ortmann a quem mandei a descripção dessa
especie, é da opinião que provavelmente seja identica
ao P. acanthurus, baseando-se em exemplares juvenis, e
lembrando a existencia dessa especie no Rio Grande do
Sul. Os exemplares desse ultimo Estado foram colligidos
por mim e creio que são de idade juvenil. Não posso,
como Ortmann, achar differenças que permitam separar
a fórma, provavelmente mais pequena, do Rio Grande do
Sul dos typicos P. acanthurus, deixando, porem, de pé a
questão até que se conheçam machos adultos.
Quanto ao genero Palaemon acceitando em todo o
sentido a classificação do Dr. Ortmann preciso notar,
conforme as minhas observações, que no sentido biologico
a divisão das especies é toda outra. Temos nesse sentido
dous grupos, um de especies marinhas eda agua salobra
que tambem extendem as suas migrações ao curso infe-
rior dos grandes rios, e outro de especies que vivem
exclusivamente na agua doce. Essas differenças do modo
de viver se fazem sentir tambem no modo da propagação:
As especies marinhas têm numerosos ovos que são, como
tambem nas outras especies da familia, guardados sob o
abdomen da femea. Mritz Mueller diz (1. e. p. 192) que
examinando uma femea de Palaemon Olfersi de 15 mm.
de comprimento contou nella 1197 ovos em quanto 0
— 425 —
numero dos ovos de uma femea de 14 centim. de com-
primento da especie Pal. jamaicensis foi por elle calcu-
lado em 77531, variando 0 numero dos ovos nas femeas
de Pal. potiuna de 8—29. Noto que só em. exemplares
novos o numero dos ovos é tao diminuto; em exemplares
grandes do Pirahy Mirim contei 31 até 33.
Para mais esclarecer essas differenças determinei
tambem o tamanho e o peso relativo dos ovos nesses 2
grupos de Palaemon. O ovo do P. acanthurus de 116
mm. de comprimento mede 0,5 mm. ou 0,43 por cento
do comprimento, o de P. potiuna mede 2 mm. ou 6 por
cento do comprimento. Quanto ao peso achei que a 0,1
eramma correspondem 56 ovos de P. potiuna e 830 de
P. acanthurus, sendo o peso de um ovo por conseguinte
0,0018 gramma em P. potiuna e 0,00012 eram. na outra
especie. Considerando em 1000 o peso do corpo o peso
relativo e 0,008 em P acanthurus e 2,5 em P. potiuna,
sendo 300 vezes maior na especie da agua doce do
que na do mar. A essas differenças de peso do ovo
correspondem as do desenvolvimento sahindo do ovo de
P. acanthurus etc. uma larva mui pequena, a Zoëa, e
do ovo do Pal. potiuna um camarãosinho já bem des-
envolvido. O ovo do P. iheringi é quasi do mesmo modo
grande como o do P. potiuna.
E' essa observação geral que se faz, que os animaes
da agua doce são viviparos ou têm meios especiaes para
abrigar e criar 0s ovos pouco numerosos, quando os do
mar têm numerosos ovos pequenos, dos quaes sahem
larvas que são muito differentes na sua organisação da
mãe. A suppressão da metamorphose nos animaes da agua
doce corresponde ás condições mais difficeis e perigosas
no seu elemento de vida em comparação ás do mar.
As differenças indicadas offerecem-nos um meio de
examinar o modo em que certos organismos estão ada-
ptados á vida da agua doce, sendo essa adaptação tanto
mais completa quanto mais tempo se passou desde que
os respectivos organismos entraram do Oceano nos rios
— 426 —
e lagos. Nesse sentido podemos dizer que Pal. potiuna e
Iheringi devem habitar já desde muito tempo a agua
doce, visto como a sua distribuição geographica não cor-
responde ao actual systema hydrographico. Pal. Iheringi
habita nos arroios da Serra do mar, que desaguam dire-
ctamente ao Oceano. no systema do Rio Tieté e na
do Rio Parahyba. Como a mesma observação é feita a
respeito de outros animaes da agua doce é certo que
esses animaes da agua doce foram testemunhas de gran-
des modificações geologicas no E. de S. Paulo. E” prova-
vel que antigamente o Rio Parahyba era affluente do
Rio Tieté, sendo pelas ultimas modificações geologicas
que elevaram as serras a sua actual altura e crearam
os actuaes systemas hydrographicos desligado do systema
do Rio Tieté e invertido no seu curso. EK" provavel que a
exploração geologica desse Estado mais tarde nos offere-
ça provas dessas modificações; actualmente a respeito
desses acontecimentos não temos outros argumentos do
que a distribuição dos organismos da agua doce que
para essa parte do globo é reconhecida tão importante
como em muitas outras que são melhor estudadas quanto
á sua geologia.
Referindo-me á exposição de Ortmann p. 203 pare-
ce-me que não ha razão para duvidar, que a identidade
de diversas especies de Palaemon na costa occidental da
Africa e do Brazil, seja devida á antiga ligação desses
dous continentes. Não é só nesse grupo de crustaceos
que se notam taes analogias. Um argumento ponderoso é
a existencia das mesmas especies de Rhizophora e Avi-
cennia, isto é do mangue nas costas atlanticas da Africa
e do Brazil. Como essas especies são encontradas tambem
na costa pacifica da America Central é evidente que
essas plantas se conservaram atravez de grandes periodos
geologicos que completamente transformaram a geogra-
phia da America. Como essas plantas e numerosos ani-
maes que vivem nas suas raizes tambem os peixes boi
(Manatus) dessas costas oppostas conservaram-se e assim
En
tambem os Palaemon. E’ provavel que essa antiga comu-
nicação entre as costas da Africa e do Brazil se tenha
dado ainda em parte da era terciaria.
Que os camarões das costas do Brazil pertencem ao
genero Peneus eu já o provei a pag. 156. Tambem as
especies de Palaemon onde em numero sufficiente são
encontradas, servem de comida, sendo especialmente
estimado o pitú, Palaemon jamaicensis. No mercado da
Bahia vende-se como estimada comida Pal. acanthurus.
Os verdadeiros camarões do genero Peneus têm o dorso
compresso dos lados com uma quilha no meio, sendo nos
Palaemon o dorso sem quilha.
Infelizmente nada conheço dos camarões da agua
doce nos Estados ao Norte do Rio de Janeiro. Informou-
me o Snr. Ziburtino Mondim Pestana que no seu Estado
natal, em Sergipe, ha no Rio Piauhy e acima da cacho-
eira na agua doce diversas especies de camarões, sendo
notaveis o pitú que vive escondido em baixo de pedras
e a aratanha que, as vezes, apparece em grandes cardumes,
sendo então pescado em grande quantidade por pequenas
rêdes de fórma conica, chamadas «gereré» e que corres-
pondem à puça ou pyça de S. Sebastião. Eu espero que
esse distincto Snr. algum dia me aranjará exemplares
desses caranguejos como do aratú e outros que os acom-
panham e que devido a esse estudo tambem outras pes-
soas se dignem de mandar-nos, guardados em alcool ou
aguardente, vidros com caranguejos dos rios do Norte
do Brazil.
Resumé.
Die Ortmann'sche hier veroffentlichte Arbeit bedarf
im Alleemeinen einer solchen Uebersicht der Resultate
nicht. Ebenso sind die hier von mir zur Erginzung mit-
eetheilten Thatsachen, soweit sie auf Synonymie, neue
Fundorte ete. sich beziehen, ebenfalls leicht auch fiir
den vyerstiindlich, welcher mit der portugiesischen
Sprache nicht vertraut ist. Dagegen müchte ich gewisse
alleemeine Verhältnisse hier um so lieber erürtern, als
in diesem Punkte unsere beiderseitige Auffassung etwas
different ist. :
Zuniichst ist Ortmann, pag. 203, der Ansicht, das Vor-
kommen von Palaemon jamaicensis, Olfersi und acanthu-
rus in Westafrika und Brasilien kônne nicht der alten
Landyerbindunge zwischen Africa und Siidamerika zu-
geschrieben werden, fiir welche von mir der Name Arch-
helenis eingeführt wurde. Dass dieselbe in der mesozo-
ischen Periode bestand ist ja richtig, aber sie kann sich
auch noch während eines Theiles der Tertiärzeit erhal-
ten haben, lange genug, um die Anwesenheit identischer
oder analoger Species von Krebsen und Mollusken wie
auch Seesiiugethieren (Manatus) an der Kiiste und von
entsprechenden Siisswasserfaunen, auch Fischen, in bei-
den Gebieten zu erkliren. Ich verweise auch auf die
tertiiren Korallen. Die Arten Mangrove sind in Ost-
und West-Africa ganz verschieden, aber die westafrika-
nischen stimmen iiberein mit den amerikanischen. Diess
weist auf alte Küstenlinien hin und kann schon des-
halb nicht auf neuere Ereignisse, etwa die heutigen
Meeresstrômungen, zurückgeführt werden, weil die näm-
lichen Arten Mangrove-Pflanzen auch an der pacifischen
Kiiste des tropischen Amerikas angetroffen werden und
mithin die letzten entscheidenden geographischen Um-
.
La AD Rd
änderungen des Continentes miteemacht haben. Zu den
Krebsen der Mangrove-facies gehóren auch diese Palae-
mon-Arten, wenn auch nicht streng an sie gebunden.
In Bezug auf die Süsswasserkrebse Südamerikas hat
Ortmann an anderer Stelle die Meinung ausgespro-
chen, dass die Verbreitung der Potamobiiden und Paras-
“taciden darauf hinweise, dass es sich um eine alte Gruppe
von Siisswasserkrebsen handele, von denen jetzt die eine
auf die nérdliche die andere auf die siidliche Hemis-
phäre beschraenkt sei, welche aber bevor die Scheidung
-in die beiden getrennten Familien erfolet sei, auch
über die Tropen verbreitet gewesen sein miisse. Als
Grund warum sie sich nicht in den Tropen erhielten
sieht Ortmann die Concurrenz der Flusskrabben an.
Ich habe meinerseits fiir die alleemeinen Verhältnisse
in der Verbreitung der Siisswasserfauna von Südamerika
eine andere Erklärung anfgestellt, welche wohl auch
fiir die Dekapoden das Verhältniss besser verstindlich
macht. Die Süsswassermollusken von Argentinien und
Südbrasilien bestehen aus Gattungen die auch in Chile
zum Theil in den nämlichen Arten vorkommen Unio,
Chilina. etc. und aus solchen diedort fehlen aber im tro-
pischen südüstlichen Brasilien weite Verbreitung haben,
wie Mutelidae und Ampullariidae, und bei denen viel-
fach die Identitit der Arten des Paraguay-Systemes
mit solchen des Amazonasgebietes klar auf relativ spite
Zuwanderung: von Norden her hinweist. Natürlich konn-
ten diese Arten leicht bis gegen Patagonien hin sich
ausbreiten, nicht aber die Cordilheren überschreiten
weshalb sie in Chili fehlen. Die alte Fauna des Plata-
gebietes ist somit in Chili rein erhalten geblieben, in
Argentinien aber nach Hebung der Anden mit bropi-
schen Zuwanderern durchsetzt worden.
') A. E. Ortmann. Ueber Bipolaritaet in der Verbreitung mari-
ner Thiere, Zoolog. Jahrbücher Bd, 9. p. 555 ff, ome
— 430 —
Diese Erklärung passt auch gut auf die Siisswasser-
krebse, zumal die Dekapoden. Das alte Archiplata-ele-
ment ist uns repräsentirt durch die Gattungen Aeglea
und Parastacus. Aeglea laevis Leach ist in Chile und Ar-
gentinien bekannt, in Rio Grande d. S., St. Catharina
und auch von S. Paulo von wo wir sie von St. Amaro und
Os Perus haben, also aus nächster Nähe von der Haupt-
stadt S. Paulo. Parastacus hatdieselbe Verbreitung, kommt
noch in Rio Grande d. S. und St. Catharina vor, nicht
aber in S. Paulo.
Dagegen ist Potamocarcinus eine rein tropische
Gruppe Südamerikas, die nach Ortmann in Innerafrika
durch Acanthothelphusa vertreten wird nnd in Süd-
brasilien fehlt, wo mehrere Arten von Trichodactylus und
Orthostoma, incl. Sylviocarcinus und Dilocarcinus, vor-
kommen, bezüglich deren Ortmann die Arbeit von Goeldh,
Archiv f. Naturgesch. 1886, entgangen ist und auch unser
Museum neues Material besitzt. Diese Krabben trifft
man mit Aeglea zusammen an und auch Parastacus kann
schwerlich von ihnen verdrängt sein, denn er hat eine
andre Lebensweise. : |
Im Gegensatz zu den Fluss- und Bachkrabben liebt
Parastacus sumpfige Niederungen, wo er im schlammigen
Boden seine Gänge gräbt die nach aussen münden und
die von einem schornsteinartigen Aufsatz überdeckt sind.
(cf. meine Parastacus Abhandlung 9.
Es sind somit nicht Concurrenzerscheinungen im
Kampf ums Daseins, welche die Verhältnisse der geogra-
phischen Verbreitung bei diesen Siisswasserkrebsen erkla-
ren, sondern die Bedingungen welche durch die alte
Geographie des (Continentes gegeben wurden. Für
diese werden wir bei den Dekapoden kaum auf aus-
') H. von Ihering. Parastacus. Congrès international de
Zoologie. II, Session 4 Moscow. 2. partie Moscow 1593 p. 4350,
— 431 —
reichendes palaentologisches Material zu rechnen haben,
so dass die hei den Mollusken gewonnenen Resultate
heranzuziehen sind. Diese weisen uns schon mesozoisch
die nearktische und neotropische Süsswasserfauna total
different. Es ist daher ausgeschlossen, für die Verbrei-
tung der Parastaciden alte central-amerikanische Binde-
glieder zu Hülfe zn nehmen. Die tropischen Mittelglieder,
welche ich in Uebereinstimmung mit Ortmann voraus-
setze, dürften nur auf der asiatisch-australischen Hemis-
phaere zu suchen sein, wo ja auch Vertreter in Asien,
Madagaskar, Australien etc. bekannt sind.
Was die Palaemon betrifft, so sind selbe in zwei
biologisch differente Gruppen zu zerlegen, littorale- und
Siisswasser-Formen. Bei ersteren sind die Eier sehr klein,
bei letzteren gross (0,008 pro mille des Kérpergewichtes
bei P. acanthurus und 2,5 pro mille bei P. potiuna), bei
ersteren entschlüpft dem Ei die Zoëa, bei letzteren durch
Ausfall der Metamorphose eine junge Krabbe. Dass letz-
tere speciell P. potiuna und Iheringi relativ alte, schon
lan e dem Leben im Siisswasseran gepasste, Formen sind,
beweist ihr Vorkommen in den verschiedenen jetzt ganz
getrennten hydrographischen Systemen der einzelnen
Staaten. So kommt z. B. P. Iheringiin den kleinen Küsten-
bächen des Staates S. Paulo vor, sowie im Rio Tieté
und im Rio Parahyba.
Im allgemeinen sind die im Kiistengebiet von Bra-
lien auf den Markt kommenden Garneelen Peneusarten
und zwar P. setiferus Edw. von Rio Grande d. S. bis
Rio de Janeiro, P. brasiliensis Latr. von Rio bis Florida.
Auch noch in S. Sebastião coexistiren beide Arten, die
sehr gross und schmackhaft sind. Von marinen Palaemon-
arten werden an der Kiiste gern gegessen P. jamaicensis
- der «pitú», und in Bahia P. acanthurus; von Siisswasser-
arten sollen in Sergipe einige gegessen werden. Die
marinen Palaemon gehen zum Theil auch eine Strecke
weit in den Unterlauf der Fliisse, sind aber desshalb so
wenig als Siisswasserformen anzusehen wie etwa Lupea
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ja, , “diacantha Latr., die auch im Uiterlaufe des lo Ca
“quam, Rio Grande d. S., lebt. Als echte. Si “ie
formen sollten wohl nur jene gelten, bei d
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morphose unterdriickt ist. APE es El
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(HISTORIA NATURAL E ANTHROPOLOGIA)
Correspondendo aos desejos exprimidos em varias criticas
do primeiro Volume dessa Revista dei mais desenvolvimento a
essa secção. E” bom notar, especialmente em referencia aos
periodicos, que só pude tratar dos que foram recebidos pela Biblio-
theca do Museu ou por mim pessoalmente.
A. Periodicos da America do Sul.
Boletim do Museu Paraense. Vol. J N° 3 e 4. Para
1896 e Vol. IT N.º 1. Pará 1897.
Continúa com regularidade e como excellente archivo
para todos os dados relativos ä historia natural e ethno-
graphia da região amazonica o « Boletim» do Museu
Paraense, em boa hora organisado pelo Dr. Zawro Sodré,
sob a direcção competente do Dr. Zmilio Goeldi que tem
ajudantes e collaboradores svientificos nas pessoas dos
Drs. Huber, Katzer e Meermarth.
Os novos numeros do Boletim contêm artigos ja
anteriormente publicados e traduzidos na lingua portu-
gueza como os de Wallace sobre os simios da Ama-
zunia, de Wasmann sobre os hospedes das formigas e
dos termitos e de #7. Dahl «a fauna do Para». Esse
ultimo estudo, resultado de uma visita de menos de 15
dias ao Pará tem pouca importancia, sendo o mais inte-
ressante do artigo as notas que a elle juntou o Dr. Goeldi.
Mais ou menos póde dizer-se o mesmo do artigo do Snr. Z.
Grunelle, entomologista francez, que passou um mez no
Revista do Museu Paulista, 28
— 434 —
Parä caçando coleopteros, dando uma primeira informacäo
a qual, como é de esperar, seguir-se-á um artigo com
dados exactos e listas das especies.
Artigos de orientação geral fornece o Dr. #. Goeldi
cavifauna do Pará» e «reptis do Brazil». Dr. Huber con-
tribuiu com alguns artigos entre os quaes é notavel o
da «geographia botanica do litoral da Guayana entre o
Amazonas e o Rio Agapoe, contendo uma estampa ma-
gnifica colorida de «uma paizagem de Podostemaceas
(Mourera fluviatilis)», dando uma excellente idea dessas
plantas aquaticas da zona tropical. Outro artigo interessan-
te versa «sobre a flora das saprophitas do Pará». Entre
os artigos do Dr. Xatzer é interessante o que trata das
«camadas fossiliferas mais antigas da região Amazonica»,
participando que descobriu entre as collecções feitas no
valle do Maecurú pelo Dr. João Coelho Graptolithos da
formação do Silurio superior.
Preciso mencionar afinal a biographia do naturalista
Johannes von Natterer por E. Goeldi, accompanhada de
retrato. E' para nós de um interesse especial, visto que
o Dr. Watterer viajou nos annos de 1820-1824 no Es-
tado de S. Paulo, fazendo aqui magnificas collecções que
formaram a base para o conhecimento da zoologia de
S. Paulo. O Museu Paulista guarda entre as suas precio-
sidades historicas uma carta autographica de Natterer
referente. a certo auxilio que nas viagens lhe offereceu
o governo.
E' de interesse especial tambem o artigo do Dr. Goeldi
sobre o Lepidosiren paradoxa, participando que um
exemplar de 60 centim. de comprimento foi encontrado
pelo Dr. Vicente C. de Miranda na Ilha de Marajó. O
Dr. Goeldi diz que esse é o setimo exemplar conhecido
até 1896, mas o Prof. Ahlers’) em 1894 examinou 30
exemplares que o Dr. Bols collecionou no Rio Paraguay
') Nachrichten d, K, Ges. d. Wissenschaften zu Goettingen
1894 N.º 2, ;
Se ee ee
à bte +
— 435 —
e dos quaes o maior era de 72 centim., tendo, porém, o
Dr. Bols examinado exemplares de mais de um metro
de comprimento. Posso aqui chamar a attenção a outra
noticia relativa, feita por Holmberg (Bolet. Ac. Nac. Scien.
Cordoba Vol. X. 1887 p. 35), que diz que Solari pescou
no Rio Paraguay um exemplar pequeno desse singular
peixe. Seria bom que o Dr. Goeldi continuasse a examinar
os nomes indigenas dados ao Lepidosiren e a sua ety-
mologia.
. Acompanhamos sempre com muita sympathia a obra
scientifica do Museu do Pará.
Revista Brazileira. Anno II e II. Vol. V— XII. Rio
de Janeiro 1896— 1897.
Essa Revista em geral não é orgão para estudos
especiaes, contendo, entretanto, no grande numero de
artigos, varios interessantes referentes a historia natural.
Esses em geral são baseados em litteratura nova euro-
pea, como os dos Snrs. Drs. Domingos Freire, O. Euler,
Oruls e outros; acham-se não obstante no numero desses
artigos alguns que contêm observações novas e impor-
tantes e dos quaes aqui menciono os que me despertaram
um interesse especial.
Das cegonhas do Brazil trata Z. Goeldi (Tom. XII
p. 238 ss.). A um capitulo da geologia brazileira dos mais
difficeis é dedicado o estudo de John O. Branner «a sup-
posta glaciação do Brazil» (Tom. VI pag. 49 e 106 ss.)
publicado tambem em «The Journal of Geology » 1893.
(Veja tambem Annuario do E. do Rio Grande do Sul por
A. Graciano de Azambuja XIV. 1898 p. 262) onde é dada
uma exposição de trabalhos de Branner referentes ao
Brazil.
Esse artigo de Branner é a refutação definitiva das
ideas de A. Agassize Hartt sobre os phenomenos glaciaes
no Brazil. Observo nessa occasião, que a questão dos
— 436 —
suppostos blocos erraticos é evidente; ha um ponto mais
difficil, a presença de camadas de calhaus e cascalhos no
meio dos terrenos argilosos modernos. A explicação pelo
«drift» em casos como esses é bem seductora. Pranner
diz, porém, não ter encontrado seixos estriados nesses
materiaes. Admittindo que Branner tenha razão dizendo
que são «materiaes gastos e transportados pelas aguas»,
não me parece que elle tenha dado uma explicação satisfa-
ctoria desses factos para cujo estudo recommendo a zona
percorrida pela estrada de ferro de Rio Grande do Syl a
Bagé.
Ao artigo de J. de Campos Novaes já me referi antes
(p. 399).
Um extenso artigo, e provavelmente o mais importante
que a Revista tem publicado nos Volumes VI e VII, é o
estudo do Dr. Nina Rodrigues «o animismo fetichista
dos negros bahianos » expondo o modo por que as antigas
crenças e cerimonias religiosas da Africa conservaram-se
até a nossos dias na população negra da Bahia. EK’ um
estudo pelo qual com sorpreza estamos informados de
uma pagina da vida popular do Brazil até hoje apenas
conhecida. O que torna tão importante esse estudo an-
thropologico é o conhecimento da respectiva litteratura
de Tylor e outros autores que se têm oeccupado do ani-
mismo, de modo queo Dr. Nina Rodrigues está do mesmo
tempo nos introduzindo nos mysterios dos candomblés
e expondo os motivos e analogias demonstradas pela
investigação ethnographica e comparativa.
Em outro artigo (Tom. IX p. 321) «llusões da Cate-
chese no Brazil» resumindo os mesmos factos o autor
diz: « Continuar a affirmar, em face de todos esses
documentos, que os negros bahianos são catholicos e que
tem existido no Brazil a tentativa de conversão, é, por-
tanto, alimentar uma illusão que póde ser cara aos bons
intuitos de quem tinha interesse de que as coisas se
tivessem passado assim, mas certamente não está confor-
me a realidade dos factos. »
— 437 —
O Dr. Domingos Freire publicou um artigo interes-
sante: «Factos da vida dos insectos» na Revista Brazileira
II anno, Tom. VI. 1896.
Deixando de lado as observações geraes sobre biologia
achamos bem interessante o artigo «Fauna dos cadaveres»,
seguindo as varias phases da decomposição do organismo
e os insectos que dessa obra participam são especial-
mente Dipteros, Coleopteros, Microlepidopteros (do genero
Aglossa) e Acarios.
Sinto que o distincto medico especialmente nos co-
munique os factos observados na Europa devendo elle ter
observações proprias tambem sobre certas questões des-
conhecidas ainda na sciencia. Falla elle assim nos besouros
que vivem de cadaveres, mas o Corynetes coeruleus de
Geer (ou Necrobia e.) e o Necrophorus interruptus Steph.
(fossor Erich.) a que se refere, são especies da Allemanha.
Eu até hoje procurei em vão especies de Necrophorus no
Brazil, tendo porem na collecção do Museu uma especie
da Bolivia (N. didymus Brullé). Creio, pois, que tambem
no Brazil devem existir esses coleopteros e provavelmente
outros cujas propriedades biolozicas por ora não conhe-
cemos.
O que a respeito de melhor sabemos, acha-se no
livro do Dr. P. Megnin ') «La faune des cadavres», mas
tudo isso refere-se á Europa. Vale a pena estudar tambem
aqui o assumpto.
Comissão geographica e geologica de 8. Paulo. Bol.
AA ASI6, NS Lee 13: 1897.
Desses diversos Boletins contem o primeiro o «Ensaio
para uma distribuição dos vegetaes nos diversos grupos
floristicos do E. de S. Paulo» por A. Loefyren e o «n-
') ef. Ill. Wochenschr. f. Entomologie I. Neudamm N.º 12,
1896 pag. 194,
— 438 —
dice das plantas do Herbario da Commissäo», organisado
por G. Ediwall. Os dous seguintes apresentam as pri-
meiras partes da «Flora Paulista», tratando no N.º I
(Bol. 12) da Fam. Compositae o Snr. Locfgren e no N.º
II (Bol. 13) das Fam. Solanaceae e Scrophulariaceae o
Snr. Zdwall. Especialmente essas ultimas duas publicações
são de grande utilidade, dando em lingua portugueza a
descripção das respectivas plantas do E. de S. Paulo e
dos Estados visinhos, baseada na grande obra «Flora Bra-
siliensis», que por ser volumosa, e muito cara e escripta
em latim não póde ser aproveitada geralmente. Chaves
de generos e especies elevam o valor da publicação a qual
desejamos adeantamento.
Brastlianische Bienenpflege. Herausgegeben von Emil
Schenk. I Jahrg. Curityba 1897.
Modesto periodico mensal, que é dedicado exclusiva-
mente aos interesses da apicultura no Brazil. Desejando
que o orgao dos abelheiros a elles seja de grande
utilidade, näo podemos por nossa parte deixar de expri-
mir a esperança de que tambem o estudo e, se fôr possivel,
a cultura das abelhas indigenas do Brazil com esses
esforços tenha de ganhar.
Graciano A. de Azambuja. Annuario do E. do Rio
Grande do Sul para o anno de 1897. Porto Alegre.
. O Dr. Graciano de Azambuja entendeu dar valor
scientifico a modesta obra que cada anno publica. Não
existe outra publicação analoga no Brazil que a esse
annuario seja comparavel. Tambem o novo volume é rico
em artigos de valor, como veremos.
Um dos artigos mais importantes e que só no anno
futuro será doneluido é o do fallecido engenheiro P. 7.
Afonso Mabilde sobre os Coroados do Rio (Grande do
Sul, entre os quaes elle por 5 mezes viveu, e sobre os
— 439 —
quaes tambem teve occasides de colligir informacües.
Infelizmente essas informações pouco adeantam, sendo
cheias de observações duvidosas e contradictorias. Refere-
se elle por exemplo á bonita lenda da punição mortal
das adulteras, em quanto nos relata a facilidade com
que os Coroados concediam em troco de qualquer presente
aos estrangeiros as suas mulheres. Parece que o autor
tomou notas, ás vezes contradictorias, de varias pessoas
e combinou-as no seu relatorio sem critica.
Não podemos de modo algum acreditar como o Snr.
Mabilde que 70", das creanças femininas morrem e que
a relação entre os dous sexos seja entre os coroados de
27:100, isto é, para cem individuos masculinos apenas 27
de sexo feminino. O autor confirma o que já foi supposto,
que os aterros circulares são tumulos de caciques.
O meu artigo «Peixes da Costa do mar do Rio Grande»
foi reproduzido nessa Revista.
Obtemos informações, felizmente boas, sobre o pro-
gresso da producção de carvão de pedra em S. Jeronymo.
Noto nessa occasião que por informação recebida pelo
Snr. Eugenio Dachne a exportação foi em
1894 de 6.329 tonneladas
1895 » 11.012 »
1896 » 18.000 »
Afinal o successo e progresso ! Parabens !
Outro estudo interessante é o do Dr. hr. Araujo sobre
plantas medicinaes. Desejamos vêr bem progredir esse
estudo. Seja-me porem permittido nesse sentido dirigir
ao illustre autor um pedido: verificar as determinações por
um especialista que conta com material de comparação
para as regiões limitrophes, como por exemplo o Dr.
Federico Kurtz, em Cordoba. O páo ferro da região Pelo-
tas-Camaquam está conforme a determinação do Dr. Tau-
bert Myrrhinium sp., sendo porem Felicianea rubriflora
conforme Araujo. O que é preciso é succesivamente for-
necer elementos para o conhecimento da flora rio-gran-
dense. Deixe-se a descripção de especies novas aos espe-
— 440 —
cialistas. Quem nao dispôe de grande herbario e rica
bibliotheca nao podera dispensar 0 auxilio dos especialistas-
Faça boa collecção e descripção, averiguando nomes indige-
nas, propriedade etc., e forneça ao especialista plantas bem
preparadas com flores e se fór possivel com fructos.
A prova de que isso é necessario nos dá no mesmo
annuario, pag. 144,0 Snr. Lucio Cidade, descrevendo um
arbusto novo a que dá em honra ao Dr. Julio de Castilhos
o nome de Castillea acasta (sic!). Não é porem genero novo
— que aliás não é permittido baptisar sem dar a dia-
gnose—nem especie nova, nem nome formado conforme
ás regras. Trata-se da Calliandra Tweedei Benth var.
Sancti pauli Hassk. Além dessa conhecida especie de
flor vermelha existe outra no E. do Rio Grande do Sul
de flores côr de rosa, sendo branca na base : Calliandra
bicolor Benth., ambas especies bellissimas, chamadas
Quebra-fouce.
Nesse sentido, pois, o redactor fará bem em proceder
com mais prudencia.
Anales del Museo Nacional de Montevideo. Publ. p.
J. Arechavaleta Vol. I. fasc. 4—7. Montevideo 1896— 1897.
Com os novos fasciculos fecha o primeiro Volume
dos Anales. Esses fasciculos contêm a continuação do
grande estudo de Arechavaleta sobre as gramineas de
Uruguay e um artigo de Vicente Curci «Nuevo fermento
butyrico», dando figuras etc. dos respectivos bacillos e
saccharomyces.
Anales del Museo Nacional de Buenos Ayres. Tom.
V (Ser. 2. Tom. Il). Buenos Ayres 1896—1897 publ. p.
C. Berg.
Entre os numerosos trabalhos desse novo Volume ha
alguns referentes a geologia da Republica Argentina por
— 44] —
Valentin, Aguirre e Mercerat, um de O. Spegazzini tra-
tando das plantas colligidas na Terra do Fogo e outros
referentes á fauna argentina. Aos crustaceos entomostra-
cos refere-se a publicação de Z. Richard, aos arachnidos
da Terra do Fogo a de Simon. O Dr. C. Berg descreve
novos insectos especialmente lepidopteros e hemipteros,
sendo de lastimar que o autor não deu figuras coloridas
das especies novas. (Caso singular é o da distribuição
œeographica de Ophioderes materna (L) Bsd., borboleta
da Africa, India, Australia etc. que é encontrada tambem
a Rio de Janeiro e na Rep. Argentina. Berg participa
que no ovo de uma ema (Rhea americana) foi encontrado
vivo um verme de 77 centim. de comprimento (Filaria
horrida Dies.) E” sabido que ás vezes ,sao encontrados
desses parasitas em ovos de gallinha; são parasitas intes-
tinaes que chegando ao oviducto alli entram na clara
do ovo.
Segue-se um estudo interessante do Dr. Berg sobre
peixes do Rio da Prata. Relativamente a esse assumpto
preciso fazer uma observação. Não é sufficiente o estudo
que o autor fez a respeito das especies de Girardinus
O Dr. Berg a meu vêr não fez bem em seguiro trabalho
de Garman que, util quanto aos outros generos, é insuf-
ficiente quanto aos Poecilias etc. da America do Sul.
Um engano essencial de Garman consiste na supposição
de que os machos adultos de Cnesterodon sejam desti-
tuidos na barbatana anal de pinça. O macho de 21 mm.
não a tem ainda, mas sim o de 25 mm. A união «fraca,
mais ou menos firme, etc.» das duas metades do queixo
inferior é caracter bem incerto e não appropriado para
crear «generos». Em vez de crear mais dous novos ge-
neros desnecessarios, como o fez Garman, convem reunir
Girardinus com Poecilia, que não differem essencialmente
na dentadura. Vale a pena o Snr. Berg tomar o assumpto
novamente em consideração.
Um estudo importante é, finalmente, o do mesmo autor
e director do Museu de Buenos Ayres sobre os batrachios
— 442 —
da Rep. Argentina, trabalho de grande utilidade tambem
para nós, se qualquer dia nos for possivel continuar
no estudo das nossas riquissimas collecções de rãs e sapos.
Anales de la Sociedad Cientifica Argentina. Buenos
Ayres. Tom. 44. Entr. 1—4. 1897.
Dos artigos dessa publicação já mencionei a p. 369 o
de O. Nordenskjold sobre a glaciação da região magel-
lanica. Outro artigo geologico é o de Valentin - sobre
esqueletos de Hoplophorus achados na pampa. Trabalho
excellente é o do Snr. 8. A. Lafone Quevedo « Tesoro
de catamarqueñismos » com a etymologia dos nomes
geographicos etc. de Tucuman. Seria para desejar que
qualquer dia tivessemos estudo critico analogo sobre
a lingua tupy. Noto, enfim, um artigo de Valery Mayet
sobre a peste da videira Margarodes vitium Giard, con-
tendo á pag. 253 figuras do animalsinho, isto é. a femea.
Menciona tambem o Dactylopius vitis Niedelsky, impor-
tado da Europa para o Chile nas videiras.
Boletin del Instituto Geographico Argentino, publ por
D. A. Sorondo. Tomo XVI. Buenos Ayres 1895. Tom. XVII
1896. Tom. XVIII. 1897, (publ. p. Fr. Segui).
O tom. XVI contem artigos de 8. 4. Lafone Quevedo
sobre a lingua Vilela ou Chulupi e outras linguas do
Chaco. Outros artigos tratam do terremoto de 27 de Outubro
de 1894 em S. Juan e Rioja, dos limites com o Chile
e contribuições para a prehistoria por Z 4. Ambrosetti
das quaes ainda vou tratar na secção referente á an-
thropologia. E' de um interesse especial o artigo desse
autor sobre os petroglyphos de Salta, sendo as figuras
de guerreiros, lamas e outros animaes bem reproduzidos.
São figuras cheias, bem coloridas, bastante differentes das
que temos no Brazil.
— 443 —
Os outros dous estudos archeologicos tambem sao
ricamente illustrados. Convem chamar a attenção para o
objecto singular, p. 268, fig. 9 representando uma quali-
“dade de funil feito de barro cozido. Parece bem acertada
a explicação dada por #. Castro, que julga que esse
apparelho em forma de collo de garafa estava applicado
em parte no interior de um couro («bota») destinada
para chiche ou outro liquido, conforme a figura copiada.
Veja Ameghino «Antiguedad del hombre» I pag. 285
onde refere-se a «cuellos de botijas» descriptos por Mo-
reno. Talvez que possa ser comparado aqui o adorno phal-
liforme figurado por Zadislao Netto (p. 333). Apparelho
parecido em fórma de funil foi figurado por 4. Schupp
TE PIT fe 14,
Vale a pena prestar no futuro attenção a esses arte-
factos singulares. |
- O Vol. XVII contem os trabalhos de FI. Ameghino e
de Mercerat sobre a Geologia da Patagonia dos quaes já
tratei no meu estudo sobre as conchas terciarias da Pa-
tagonia e um artigo importante da Direcção do Instituto
Geographico a respeito da projectada canalisação dos rios
Atuel, Chadi-Leuvú e Colorado desde a projectada Villa
Azara (Paso de los Chaiiares) até ao Oceano Atlantico.
O canal, de 909 kilom., devia transformar em uma nova
provincia a pampa central — realmente um projecto
grandioso. (cf. p. 63 ss. com mappa).
Entre os artigos archeologicos é interessante um do
Dr. Adan Quiroga sobre as antiguidades calchaquis da
rica collecção Zavaleta, julgando o autor (pag. 178) os
Calchaquis de «origem guarany». Não posso deixar de
mencionar, afinal, o artigo bem illustrado de JZ. A.
Ambrosetti sobre a viticultura de Salta com figuras dos
vasos usados, prensas etc. de typo antigo e moderno.
O Vol. XVIII contem o estudo de Fl. Ameghino a
que já me referi sobre os mammiferos cretaceos, a con-
tinuação do artigo de Ambrosetti sobre antiguidades Cal-
chaquis e outros a que na parte anthropologica da Bi-
LV ARE
bliographia vou me referir. Um artigo interessante 6 0
do engenheiro Fr. Segui « Las regiones polares », util
especialmente pelos mappas e informações que fornece da
região antarctica.
Revista del Museo de La Plata. Publ. p. Fr. P. Moreno.
Tom. VII. La Plata 1896.
Parte dos artigos desse volume trata de assumptos
topographicos e geologicos, tendo por autores os Des.
Rk. Hauthal, J. Valentin e G. Bodenbender. Contribuições
para a flora da Terra do Fogo publica W. Alboff. Sobre
assumpto de osteologia ethnica trata ten Kate, sobre a
lingua Toba S. A. Lafone Quevedo. Aos reptis de Buenos
Ayres e da Patagonia referem-se dous artigos de Kos-
lowsky. Ao estudo de F. Lahille sobre a variabilidade da
Monophora Darwini ') já me referi no meu artigo sobre
as conchas terciarias da Patagonia. Do Snr. Lahille vem
publicado tambem um artigo sobre a pescaria no Mar
da Prata, que contem indicações valiosas. E’ provavel que
o Governo Argentino possa dar grande desenvolvimento
á pescaria nas suas costas, aproveitando esses estudos
e mandando examinar as condições biologicas da fauna
marinha. O peso total dos productos da pescaria do porto
do Mar da Plata nos mezes de Janeiro até Setembro
de 1895 era de 203.370 Kilogrammas.
Revista de la Faculdad de Agronomia y Veterinaria
de La Plata. Anno 11. La Plata 1896.
No numero XIX desta Revista, correspondente ao
mez de Julho, achamos um artigo de grande importancia
). Achei esse echinoderme fossil entre a nova collecçäo que
do Parana me trouxe o Snr. Bicego. Quanto as diversas conchas
indicas que mencionei (p. 333) provém de um marinheiro que as
trouxe da India. A Monophora Darwini confirma assim o que disse
a respeito da idade da formação de Paraná, sendo ella e as
contemporaneas do Rio Negro etc. mais modernas do quea form.
santacruzense,
— 445 —
intitulado : «Hongos de la Caña de azucar» por Dr. O.
Spegazzini. Devido à peste denominada « polvillo» que
nos annos de 1894 e 1895 na provincia de Tucuman
produziu grandes estragos nas plantações de canna o
autor examinou os fungos, observados pa canna como
parasitas e saprofitas e que importam em 69 especies, das
quaes parte é bem conhecida e de distribuição vasta,
sendo algumas especies novas na Rep. Argentina e des-
conhecidas pela sciencia.
Boletin de la Academia Nacional de Ciencias en Cor-
doba (Rep. Argentina). Tom. XV Buenos Ayres 1897.
Recebi infelizmente com irregularidade esse impor-
tante periodico, tendo obtido nos ultimos dous annos apenas
Entr. 2—3 do Vol. XV. Essa entrega contem parte do
grande estudo de Samuel A. Lafone Quevedo sobre os
indios abipon e seu idioma e um artigo de G. Boden-
bender sobre «Devono y Gondmana en la Republica Ar-
gentina», estudo geologico interessante baseado em grande
parte nas descobertas importantes do botanico Wr. Kurtz
de Cordoba, da flora de Glossopteris na Republica Argen-
tina, demonstrando relações inesperadas com a formação
carbonifera da India (Gondwana). Até as especies das
formações carboniferas desses territorios tão remotos são
em grande parte identicas. Essas descobertas do Dr. Awrtz
já estão geralmente discutidas embora, se estou bem infor-
mado, o estudo proprio com as descripções etc. ainda
não esteja publicado.
Congreso cientifico jeneral chileno de 1894. Santiago
1895. 8.º
Entre os diversos artigos convem mencionar os se-
guintes :
p. 11) Z. Vergara Flores. Craneos de indigenas boli-
vianos com Lam 12 e 13.
CAR 1 No
Refere-se a 10 craneos de indigenas, tirados de cemi-
terios antigos em Quillagua, situado no limite das pro-
vincias Tarapacá e Antofogasta. Existem nessa zona
numerosas huacas ou sepulturas. Diz o autor que se trata
de uma raza de aimaras, provavelmente quechuas anti-
gos que já não tinham o costume de achatar a cabeça.
Mas o que é certo é que o craneo no I é deformado. E'
de lastimar que não sejam melhores as figuras que só
se referem á norma lateralis.
p. 68) 7. Lataste. Les cornes des mammifères, dans
leur axe osseux aussi bien que dans leur revêtement
corné, sont des productions cutanées.
p. 93) G. Dehors. Quelques cas tératologiques obser-
vés à l’abattoire de Santiago. |
p. 237) J. Cornelio Guzman. Accidentes causados por
insectos pozonosos de Chile. O autor na pag. 245 nos da
a lista das aranhas perigosas do Chile, alem do Latro-
dectes formidabilis varias especies de Mygale, Lycosa,
Theridion, Glubiona e Epeira.
Parece que no Chile os accessos produzidos por mor-
dedura de aranhas são mais numerosos do que aqui. Os
medicos tratam esses casos de « mancha gangrenosa. »
Principia do lugar da picadura a desenvolver-se a inflam-
mação e a ferida gangrenosa, que muitas vezes destroem
parte dos musculos. O autor nos dá, p. 242, uma boa
figura de um paciente com enorme ferida gangrenosa no
braço. O tratamento consiste em applicar solução de
nitrato de prata ou cataplasmas antisepticos e preparações
de quina para 6 uso interno. Não produz a morte, mas
a cura demora bastante.
Actes de la Societé scientifique du Chile. Santiago.
Tom. IV. 1894. 4º Livro, contem:
L. A. Solis Varella. Algunas medidas del craneo y
de la cara tomadas en Chilenos.
— 447 —
F. Lataste. La question de l’Effraye du Chile Strix
perlata Licht. ou Strix flammea.
O Snr. Lataste sem duvida tem razão dizendo que
os diversos exemplares do Museu em Santiago pertencem
a uma especie só, mas a distineção zoologica refere-se só
ao tamanho differente, o que apenas justificaria fallar
de Strix perlata como variedade da especie conhecida na
Europa, Strix flammea. A questão é de interesse tambem
para nós, que nas galerias abertas do Museu todos os
dias encontramos os restos de comidas lançadas por essa
coruja, que se esconde entre os capiteis das columnas
do Monumento do Ypiranga.
F. Lataste. Reflexions sur la respiration de certains
animaux parasites dans des milieux en apparence dépour-
vus d'oxygène.
D. Benavente. Contribucion al estudo del aparato
hioideo y de sus funciones.
_ Entre as noticias pequenas ha uma de grande inte-
resse pag. CXLIII do Dr. Puga Borne, La Trichinosis en
Chile. No anno de 1894 foi entregue ao Instituto de
Hygiene a amostra de um presunto, que foi suspeito de
ter causado doenças serias n'uma familia morrendo um
dos doentes. O presunto, que vein dos campos de San
Fernando, estava cheio de Trichina spiralis. E' essa
a primeira observação feita que cami a respeito da
Trichina na America do Sul.
Seguem-se communicações de Lataste sobre chifres
multiplos e sobre Margarodes.
Idem Tom. V. 1895—1897.
O volume contem notas relativas 4 zoologia do Chile
como de Giard sobre Margarodes, Trouessart sobre o
acaridio Rizoglyphus, de Giard sobre Termes chilensis,
de Selys-Longchamp sobre os neuropteros do Chile, espe-
cialmente os Odonatos, de Lataste sobre aves, de Guard
pag. LXXX sobre os parasitas da videira e sobre Aphis
vitis Scopoli, de Lataste sobre Stronyglus longevaginatus,
parasita do porco no Chile, de Giard (p. CI) sobre Lucilia
— 448 —
macellaria, de Dehors sobre Trichina spiralis, de Giard
sobre Coccidas e Thysanuras do Chile.
Dos Isopodes do Chile trata 4. Dol/fuss, dos Cetaceos
C Perez Canto, do ovo da coruja Strix perlata Zataste,
das formigas do Chile € Emery. Entre os artigos geo-
logicos temos de notar o de 4. F. Noguês sobre a formação
de Arauco que corresponde á de Laramie. Daniel Barros
Grez communica a figura de um idolo supposto ser o
do deus Viracocha. O Dr. Z. Vergara Flores apresentou
um craneo boliviano como prova de que a syphilis já
existiu na America do Sul antes da descoberta, sendo,
porém, rejeitado esse argumento pelo Dr. Murillo que
nega o caracter syphilitico dos respectivos osteophytos
como tambem a idade precolombiana do craneo, julgando
mais provavel que a syphilis como as bexigas fossem
importadas pela America na epocha da conquista.
Idem Tom. VI. 1896-1897, contem:
A. Finot. Catalogue des orthoptêres de |’ Amérique
Meridionale decrits jusqu' 4 ce jour. 1895. I partie For-
ficulidae. Trabalho summamente util, que desejamos vêr
continuado.
Costa Sena. Note sur un gisement d’Actinote aux
environs d'Ouro Preto, à Minas Geraes (Brézil).
C. Perez Canto. Sobre la embriologia del Margarodes
vitium Giard.
F. Lataste. Le Margarodes vitium est il originaire
du Chile ou de la Republique Argentine?
A nova doença da videira já não é limitada ao Chile
mas foi observada tambem na Republica Argentina em
Santa Anna (Entre Rios). M. de Marval diz a respeito
cEncontram-se os cystos de Margarodes por toda parte ;
acham-se elles nas raizes da casuarina e de outras arvo-
res e arbustos; em todas essas plantas a doença parece
pouco prejudicial, sómente a videira morre devido á ella .»
Baron de Hamonville. Descripcion de los huevos de
la Strix flammea e de la Strix perlata. A fórma do ovo é
oval na primeira e quasi espherica na segunda, que tem .
— 449 —
o ovo maior (44 mm.) Nesse sentido o autor confirma a
opinião de Zataste de que a forma chilena, Strix perlata,
é especie differente da forma europea, e no mesmo sen-
tião exprime-se Xavier Raspail.
C. Porter. Lista de Himenopteros com 4 especies
nuevas. (Magachile Porteri, Caupolicana interrupta, Prio-
cnemis chilensis, Paniscus Spinolae, sem descripção).
Ph. Dautzenbery. Lista de molluscos chilenos.
F. Lataste achou em vinhas chilenas Helix pulchella
Mueller, especie europea alli introduzida. O Dr. Zrouessar)
falla sobre Acaridios marinhos, X&. Simon sobre os
arachnidos do Chile. 7. Lataste encontrou o verme parasita
Gordius chilensis num Louva-Deus do genero Mantis.
F. Lataste publica um estudo sobre a fecondidade da
langosta do Chile em comparação a seu tamanho.
à Anales del Museo Nacional del Chile. Descripcion de
los idolos peruanos de greda cocida, por Dr. À. A. Phi-
lippi. Com 7 laminas. Santiago 1895.
Anales del Museo Nacional de Chile. Primeira Sec-
cion. Zoologia Entr. 12. R. A. Philippi, Los Craneos de
los Delfines chilenos. Com 6 Laminas. Santiago 1896 e
Entr. 13 R. 4. Philippi. Descripcion de los mammiferos
traidos del viaje a Tarapaca por F. Philipp. Com 7 la-
minas. Santiago 1896.
A primeira dessas publicações apresenta em excel-
lente reproducção colorida idolos peruanos, todos prove-
nientes do littoral. Os idolos são feitos de barro cozido
e representam na maior parte figuras do sexo feminino
sem vestimenta. Têm certa analogia com objectos do
Mexico.
O segundo estudo contem a descripção e as figuras
dos craneos das numerosas especies de delfines dos ge-
neros Tursio, Globiocephalus, Phocaena etc., que devem
formar uma das riquezas mais apreciadas do Museu
chileno.
Revista do Museu Paulista 29
— 450 —
A terceira publicaçäo insere a descripçäo dos mam-
miferos novos, colligidos em 1884—1885 pelo Dr. Y. Phi-
hypi no deserto de Atacama e em Tarapacá, especialmente
especies novas de Hesperomys e Lagidium. No appendice
estão enumeradas as aves caçadas naquella viagem, 98
especies.
B. BOTANICA.
J. Barbosa Rodrigues. Plantas novas cultivadas no
Jardim Botanico do Rio de Janeiro. 11891, lle III 1893,
TV. 1894. 4.º com numerosas estampas.
Kk’ com grande interesse que estamos acompanhando
a publicação dessa obra scientifica do illustre director
do Jardim Botanico do Rio de Janeiro, a quem desejamos.
que seja feliz na legitima defeza dos interesses que
lhe estão confiados, cuidando da conservação e do pro-
gresso de um dos primeiros e mais celebres institutos
scientificos da Capital Federal.
Não é assumpto para ser exposto em relatorio curto
essas descripções acompanhadas de boas estampas; noto,
entretanto, que o autor trata tambem das Butiás do Rio
Grande do Sul, que julga differentes das de Minas Geraes,
chamando a especie maior, cultivada nos quintaes e
estimada pelas saborosas fructas Cocos odorata sp. n. €
Cocos pulposa sp. n., a outra menor e rasteira que na
região entre Porto Alegre e o Rio Camaquam existe em
certos campos em abundancia. Será preciso examinar de
novo as determinações das Butiás usadas hoje no Rio
Grande do Sul.
Fritz Mueller. Einige Bemerkungen ueber Bromelia-
ceen. Flora Vol. 82. 1896 pag. 314—328.
Observações criticas referentes ao trabalho de Mez
tratando na «Flora brasiliensis» das Bromeliaceas, de um
— 451 — ce :
SY à
modo que não encontrou o apoio do eminente naturalista ~—
brazileiro, e que como ninguem mais no. Brazil estudou
desde muitos annos aquellas parasitas das arvores do
matto.
P. Taubert. Beitraege zur Kenntniss der Flora des
central-brasilianischen Staates Goyaz. Mit einer pflanzen-
geographischen Skizze von E. Ule. Botan. Jakrb. v. Engler
Bd. 21. 1895, p. 402—457. Taf. IL.
E' esta quanto 4 exploração scientifica do planalto
brazileiro a publicação mais valiosa e ao mesmo tempo
a ultima que devemos ao talentoso moço e excellente
conhecedor da flora do Brazil Dr. P. Zaubert, que infe-
lizmente falleceu no anno passado em Manaos. À collecção
que o Snr. Z. Ule como membro da Commissäo explora-
dora do planalto central fez é, embora pouco extensa, rica
em typos novos e interessantes. Sobre as condições geraes
da vegetação de Goyaz já publicou o Sar. Ule um esboço
no Relatorio daquella Commissão.
E. Ule. Ueber die Bltiiheneinrichtung von Purpurella
cleistoflora, einer neuen Melastomacee. Berichte d. Deutsch.
Botan. Gesellseh. Bd. 13. 1895 p. 416—420 e Taf. 32;
Bd. 14. 1896 p.169 e178 ; Taf. 13.
É. Ule. Ueber Blüthenverschluss bei Bromeliaceen.
1bid. Bd. 14. 1896 p. 407—422. Taf. 23.
EB. Ule. Ueber Verlängerung der Achsengebilde des
Bliithenstandes zur Verbreitung der Samen. Ibid. Bd. 14.
1896 p. 255—260.
E. Ule. Ueber die Bliitheneinrichtung von Dipladenia.
lbid. Bd. 14. 1896 p. 178—179, Taf. 8.
A maior parte desses estudos trata das flores cha-
madas «kleistoflores», o que quer dizer que sempre ficam
fechadas, Mesmo assim não ésempre impossivel e fecun-
/
— 452 —
daçäo por pollen de outras plantas da mesma especie, visto
como ha insectos que na base da flor abrem um buraco
para fazer entrar a tromba. A fecundaçäo da Purp. cleis-
topetala é effectuada pelas formigas. Tambem na familia
das Bromeliaceas existem especies kleistoflores, que até
agora foram consideradas como flores ainda não comple-
tamente abertas. Esse é o caso do Nidularium longiflo-
rum Ule.
A. Almeida Q. Telles. Industria nacional de madeira,
seu emprego, corte e qualidades. S. Paulo (Espindola, 51-
queira e C.) 1896. 8º. 23 pag.
O folheto menciona 80 especies de madeiras das mais
valiosas do E. de S. Paulo. O competente industrial diz,
que em vez de importarmos muita madeira da Suecia
e Noruega, podemos exportar em grande escala excel-
lentes madeiras. Como meio para obter um resultado tão
desejavel o autor julga necessario: 1., elevar o imposto
das madeiras importadas do estrangeiro; 2. melhorar as
condições actuaes de PRN EDONtes de madeiras nas estra-
das de ferro.
A questão é complicada. E” certo que desejamos vêr
empregada a nossa riqueza natural das mattas conve-
nientemente, mas não ha razão para pagar madeira das
mesmas qualidades como as importadas mais cara, somente
pela razão de ser nacional. A elevação do imposto só
teria o resultado de fazer subir os preços das madeiras,
nacionaes como estrangeiras, e issso se embora acarretasse
bom resultado para aiguns industriaes, traria prejuizo
lamentavel para o publico. O problema é: elevar a pro-
ducção e o consumo de madeiras nacionaes, sem elevação
ou com diminuição do preço.
Para tal fim o imposto será o peior meio. Ao con-
trario é muito justo o que o autor diz a respeito das
difficuldades de transporte. Nesse sentido tudo é trans-
torno para os nossos industriaes. As tarifas das estradas
— 453 —
de ferro são altas, as referidas estradas não dispõem do
necessario material rodante e muitas vezes de carros
appropriados para o transporte de toros compridos. E essa
difficuidade*cresce cada vez mais com a distancia da
estação por falta de boas estradas de rodagem.
Seria engano, julgar vergonhoso para nós a impor-
tação de madeiras. Não ha paiz no mundo, mesmo entre
os que mais madeira exportam, onde não haja tambem
importação de madeiras, visto como extremamente varia-
veis são as propriedades das diversas arvores. E temos
de admittir, que se bem que tenhamos riqueza em ma-
deiras de lei, estamos pobres em madeiras de coniferos,
não podendo o pinho nacional, de modo algum, compa-
rar-se com o pinho sueco, riga etc., que são menos
expostos a rachar e empenar.
Acompanhamos com muita sympathia os esforços
patrioticos e uteis do distincto industrial, mas julgamos
que ha só dous caminhos para conseguir o resultado
desejado : melhoramento nas condições de transporte e
cultura de mattas em localidades apropriadas.
Spegazani, Carlos. Contribucion al estudo de la flora
de la Sierra de La Ventana. La Plata 1896, 8º p. 86.
A Serra de La Ventana é o centro de um grupo de
montanhas situadas ao Sul da planície dos pampas. A
elevação dos picos é de 800—900 M., e até 1630 M. (Cerro
de La Ventana e Cerro de los tres picos). Correspondendo
“á conformação um tanto uniforme relativamente á geo-
logia (schistos e quartzitos), a flora é pouco variada. Não
ha arvores altas, ficando os arbustos pequenos e espi-
nhosos. Foram em 10 dias colleccionadas 350 especies de
plantas phanerogamas, o que provavelmente representa
mais de */; dessa flora até agora desconhecida.
Spegazzini descreve varias especies novas.
— 454 —
Spegazeini, Carlos. Plantae per Fuegiam anno 1882
collectae. Anales del Museo Nacional de Buenos Ayres.
Tomo V. 1896, pag. 39—104. .
Descripção ou enumeração de 313 especies de plantas
colligidas pelo autor durante a expedicão italo-argentina,
sob a direcção do tenente D. Santiago Bove.
o
Federico Kurtz. Dos Viajes botânicos al Rio Salado
Superior. Bol. Acad. Nac. de Ciencias. Cordoba Tom. XII.
1893 p. 171 ss. |
F. Kurtz. Bericht über zwei Reisen zum Gebiet des
oberen Rio Salado. Abhandl. Botan. Ver. Brandenburg
Bd. 35. 1894 p. 95-120.
Relatorio sobre as viagens feitas em 1891—1893 pelo
autor e pelos Snrs. Bodenbendere Kuntze 4 Cordilheira de
Mendoza. O interesse do estudo consiste essencialmente
nas descripções da vegetação nas differentes alturas da
serra, da flora subandina, andina media e superior.
R. A. Phibippi. Botanische Excursion in das Arauca-
nerland. 4., Bericht d. Vereins f. Naturkunde zu Kassel.
1896 p. 1- 31.
Descripçäo e discussäo dos mais interessantes resul-
tados da viagem feita em 1889 ao Rio Cautin pelo autor.
R. A. Philippi. Plantas nuevas chilenas. Anales de
la Universidad de Chile. Tom. 90 e 91. Santiago de Chile
ISOG HS.
Descripçäo de muitas plantas novas do Chile, entre
as quaes especies novas de Fagus, Hedera, Ceratophyllum
etc. Mais um estudo admiravel do incansavel nestor dos
naturalistas sul-americanos. 7
— 455 —
Loesener, Th. Beiträge zur Kenntniss der Matepflan-
zen. Berichte d. Deutsch. Pharmaceut. Gesellsch. VI. 1896
Berlin.
Estudo excellente sobre as varias especies de Ilex,
que são usadas para a fabricação da herva maté. O autor
estudou a anatomia microscopica das folhas dessas espe-
cies e verificou pelo estudo das amostras de herva maté
que além da Ilex paraguariensis St. Hil. contem folhas
de Ilex amara e dumosa. |
Quanto a essas especies nota-se 0 seguite :
Il. paraguariensis St. Hil.
São synonymos : I. paraguariensis aut, I. domestica
Reiss, I. sorbilis Reiss, I. vestita Reiss, I. curitibensis
Miers, I. Bonplandiana Munter.
Especie divulgada nos Es‘ados de Minas, S. Paulo
até as republicas Argentina e Paraguay, sob os nomes
de maté ou congonha (caaguazu em Paraguay).
Il. amara (Vellozo) Loes.
São synonymos: I. paraguariensis Reiss e Martius, I.
nigropunctata Miers, I. Humboldtiana Bonpl., I. ovalifolia
Bonpl., I. brevifolia Bonpl., I. crepitans Bonpl.
Distribuida desde a Bahia até ao Rio Grande do Sul
e Corrientes chamada Cauna Congonha (Caachiri gua-
rani, Bonpland).
Il. dumosa Reiss.
Il. affinis Gardn. Bahia até S. Paulo.
Il. theezans Masrt.
Sao synonymos: I. aerodonta Reiss, I. fertilis Reiss,
I. gigantea Bonpl.
Especie mais parecida a Il. paraguariensis e com a
mesma distribuição geographica chamada cauna amarga
ou de folha larga. (N. B. Posso affirmar que a cauna
do Rio Grande do Sul é I. ovalifolia Bonpl., sendo, por-
tanto, synonymo de amarga).
— 456 —
Säo essas as especies mais importantes. Observo,
porém, que a mistura de folhas de cauna 4 herva é de
considerar como uma falsificação da herva, visto como
as de cauna são amargas de mais.
Loesener recommenda a cultura da herva maté para
as colonias allemãs, notando, porem, a difficuldade que
até agora se tem encontrada para a introducção do uso
do mate na Europa. Zoesener tem razão dizendo nesse
sentido, que, para seccar as folhas, não devia ser applicado
o fogo com fumaça, mas sómente o calor produzido por
estufa appropriada. Só assim pode ser evitado aquelle gosto
de fumaça que tanto prejudica o valor da herva.
Loesener diz que é difficil a germinação da semente.
Posso affirmar que, devido ás ultimas experiencias feitas
no Rio Grande do Sul, a difficuldade já não existe. Sinto
que não sou autorisado pelo respectivo inventor publicar
o processo pelo qual obteve resultado tão lisongeiro e de
summa importancia.
P. Hennings. Ueber s. q. Thierpflanzen (Cordiceps).
Naturwissensch. Wochenschrift. Berlin. Nº 27 1896 pag.
317-319.
Sob o nome de «Thierpflanzen » ou plantas de ani-
maes entendem-se certos cogumelos ou fungos, que se
desenvolvem nos insectos. Especialmente os bezouros,
vespas, formigas e as lagartas e nymphas de borboletas
são atacados e destruidos por esta peste. Consiste ella
no desenvolvimento de hyphas do fungo no interior do
corpo do insecto. Este, passando por folhas podres,
musgos etc. que cobrem o chão, carrega-se de esporas
desses cogumelos. As esporas, desenvolvendo-se, entram
no corpo do insecto ou da lagarta, que afinal morrendo se.
transforme em sclerotium duro, guardando, porém, a forma
antiga. Afinal sahem deste sclerotio vegetações cylin-
dricas ou arboriformes de 5-6 centimetros de comprimento,
— 457 —
conforme á especie menores ou maiores, que produzem
de novo as esporas.
- Todos esses cogumelos pertencem ao genero Cordi-
ceps, do qual se conhece já cerca de 70 especies. Algu-
mas novas vêm descriptas no trabalho de Hennings. As
especies achadas no Brazil são Cordiceps militaris Lk.
e Cord. submilitaris}P. Henn. ambas desenvolvendo-se em
larvas de coleopteros, Cord. Moelleri P. Henn. e Cord.
Glaziovii P. Henn. que se desenvolvem em lagartas de
borboletas, sendo a primeira achada por Æ/oeller em Blu-
— 458 —
menau, E. de Santa Catharina, a segunda por Glaziou
no Rio de Janeiro. Dou aqui as respectivas figuras para
chamar a attencao dos leitores, pedindo que as que forem
encontradas nos sejam enviadas seccas ou em alcool.
C. GEOLOGIA E PALEONTOLOGIA.
Relatorio apresentado ao Governador do Estado de Per-
nambuco José Alexandre Barbosa Lima pelo Dr. Rodolpho
Galvão, secretario dos negocios do Interior. Recife 1895. 8º
(Typog. de Manoel Figueiroa de Faria e Filhos).
Esse relatorio dando conta do progresso nos diversos
ramos do serviço publico é de um interesse especial pelo
relatorio do chefe da commissão geographica e geologica
do Estado, Dr. L. Lombard, referente a explorações feitas
na parte sul do Estado entre Palmares « Bom Conselho,
acompanhado de mappas. Noto como singular a noticia
de uma resina encontrada em bolas redondas na terra
vegetal da Serra do Gigante. Outro relatorio do mesmo
engenheiro refere-se 4 exploração mineralogica de Gara-
nhaus á Buique e da zona salitrosa de Buique. Predo-
mina na constituição mineralogica das serras e do pla-
nalto o gneiss e o granito. As serras a noroéste de Bui-
que são formadas de gres «cujas camadas foram levan-
tadas de 10º a 15º para S. E. pelo levantamento granitico
da serra de Buique». Assim tambem as serras da Ando-
rinha e do Chapéo. Algumas camadas de gres são sal-
gadas, apparecendo florescencias visiveis na superficie
da rocha. O Dr. Lombard julga este sal de origem ma-
rinha, «depositado nos intersticios do gres por evapora-
ções successivas dos mares da epoca primitiva ou pre-
cambiana nas quaes depositou-se o gres». Não posso
deixar de registrar aqui minhas duvidas, tanto á sup-
posta origem como á idade, que não será tão remota,
— 459 —
Infelizmente o Dr. Lombard näo encontrou petrefactos.
Os sertanejos recolhem o sal que precisam para uso
domestico, lavando o sal ou a terra salgada e obtendo
o sal por evaporação da agua | industria que mal com-
- pensa o trabalho. A extracção industrial se faz na lagoa
de Puiú, açude de 1500 m : 209 m. de extensão e com
agua salobra, recebendo agua doce de varias fontes e
que só raras vezes secca completamente depois de annos
consecutivos de seccas.
Em certos lugares sahe do interior da rocha uma
resina transformada, preta, chamada borra.
Nas serras do Coqueiro e de S. José encontra-se sa-
litre em florescencias vermelhas, por causa do oxydo
de ferro. A quantidade de salitre é avaliada em 3000 to-
neladas. A exploração é feita em pequena escala. O salitre
preparado é empregado na fabricação da polvora. Entre
as industrias nota-se a fabricação de corda de caroatá,
importando em cerca de 50.000 peças de corda por anno.
E” interessante tambem a reproducção de inscripções
indigenas das serras Rajada e Mina Grande, feitas em
parte com tinta vermelha em parte com tinta branca.
Concluindo este artigo não posso deixar de exprimir
a esperança de que o governo do Estado de Pernam-
buco ligue attenção tambem á exploração zoologica do
Estado—deste mesmo Estado onde lia mais de dous se-
culos trabalhavam Marcgrav e Piso, e que desde aquelle
tempo ficou terra incognita para a sciencia, existindo
muitas duvidas a respeito da obra de Marcgrav que so-
mente por estudos mesmo em Pernambuco podem ser
esclarecidas.
John C. Branner. Decomposition of Rocks in Brazil.
Bull. of the Geolog. Soc. of America vol. 7. pag. 255—
314 PI. 10—14 Rochester 1896 (cf. tambem Revista Bra-
zileira Tom. 7. 1896. p. 139). :
A decomposição das rochas extende-se até a profun-
didade de 100 e ás vezes até 300 pés. Factores de im-
— 460 —
portancia são a temperatura, as chuvas, os insectos e as
plantas que atacam as rochas. As chuvas — 974,6 mm.
a Rio de Janeiro, 3576 mm. na Serra do Mar do E. de
S. Paulo — levam ao solo acido carbonico e acido nitrico
em grande quantidade.
A. Smith Woodward. On the Quadrate Bone of a
Gigantic Pterodacty: discovered by I. Mawson in the cre-
taceous of Bahia, Brazil. Ann. and Mag. Nat. Hist. O Ser.
Vol. 17. London 1896 p. 255—257.
Por uma nova descoberta fica confirmado o que o
autor já publicou no mesmo Jornal, 1891, Vol. 8 p. 314.
Tendo sido encontrado apenas um osso do craneo nada
de positivo póde ser declarado; parece, entretanto, que
esse reptil fossil pertence á especie maior de Pteroda-
ctylidae até hoje conhecida, excedendo ainda a especie
gigantesca de Pteranodon da America do Norte, cujo
craneo, ás vezes, attinge o comprimento de 4 pés.
Fr. katzer. Der strittige Golddistrikt von Brasilia-
nisch—Guiana. Oesterr. Zeitschr. f. Berg—u. Hiitteniwesen
45. Jahrg. Wien 1897 p. 1—16.
Fr. Katzer. Beitrag zur Kentniss des aelteren Palaco-
zoicums im Amazonasgebiete. Silzungs Ber. d. K. Bocha.
Ges. d. Wissensch. Math. nat. Classe 1896. Prag. 1896.
p. 1—26.-
Fr. Katzer. Das Wasser des unteren Amazonas. Sit-
cungs Ber. d. k. Boehm. Ges. d. Wissensch. Math. nat.
Classe 1896. Prag. p. 1—38. (cf. Revista Brazileira Tom.
XII 1897 p. 245 ss.)
No primeiro desses artigos o auctor trata da existen-
cia de ouro no districto litigioso do Amapá, discutindo os
mineraes alli existentes. O valor do ouro ganho nessa
parte do Brazil no anno de 1896 é calculado em cerca
Se ee. SC
— 461 —
de 4 milhões de francos, um pouco mais do que na Guy-
ana franceza, e só uma parte relativamente pequena da
producção total do mundo em 1896, que foi de 850 mi-
lhões de francos.
O segundo artigo refere-se ao assumpto já tratado no
vol. I do Boletim do Museo do Pará.
O terceiro estudo diz respeito á composição da agua
do Rio Amazonas e delle deu na Revista Brazileira o
Dr. Cruls um bom relatorio, do aual tiro os dados seguintes:
A agua do Amazonas perto de Obidos é extraordinaria-
mente pobre em substancias dissolvidas, de maneira que
o Amazonas deve ser considerado como um dos rios mais
limpos do mundo. Apezar disto a quantidade de materias
em solução e suspensas que leva ao oceano, é immensa.
Admitttindo que cerca de 100.000 metros cubicos de
agua passam em cada segundo pelo estreito de Obidos,
temos que o Amazonas transporta por este estreito, na
media e por anno, 149.796.000 toneladas de substancias
dissolvidas e 468.359.000 toneladas de materias suspen-
sas. E’ por isso de 618.155.600 toneladas a quantidade
de substancias solidas, dissolvidas e suspensas, que só
pelo estreito de Obidos o Amazonas annualmente leva
para o oceano.
Seriam diariamente precisos 5645 trens de carga de
30 carros de 10 toneladas cada um, para transportar as
materias dissolvidas e suspensas que passam pelo estreito
de Obidos.
A influencia do mar extende-se muito no rio acima
notando -se ainda no canal de Breves, cerca de 200 kilo-
metros da foz, uma mistura da agua amazonica com a
do oceano.
Dr. L. von Ammon. Devonische Versteineruugen von
Lagoinha in Matto Grosso. Zeitschrift d. Gesellsch f:
— 462 —
Erdkunde. Berlin 1894 Vol. 28 pag. 15 e fig. 7 (Referido
no Journal de Conchyliologie vol. 43. 1895 p. 129.
As petrificações a que se refere este trabalho forão
recolhidas em Lagoinha e St. Anna da Chapada e con-
sistem em um Bellerophon (B. chapadensis v. Amm.), Ten-
taculites cellulus v. Amm., fragmentos de uma Nucula e
varios Brachiopodos sendo: Discina Baini Sharpe Cho-
netes Falclandica Morr. et Sharpe, Spirifer Vogeli v. Amm.
e Leptocoelia flabellites Conr. Esta pequena fauna per-
tence ao Devoniano inferior. Vale a pena fazer alli novas
collecções.
Juan Valentin. Bosquejo geologico de la Argentina. Do
Diccionario Geographico Argentino de Latzina. 3 ed. Bue-
nos Ayres 1897 (artigo gea.).
Artigo de grande utilidade que trata das diversas
formações geologicas da Rep. Argentina sempre refe-
rindo-se á litteratura, da qual é dada a bibliographia
completa.
Æ. 7. Blanford. Recent Discoveries of fossil Plants
in Argentina. Extract of a letter from Dr. F. Kurt.
Geological Magazine De IV. Vol. 3 p. 446 ss. Oct. 1896.
Já me referi a interessante descoberta do Dr. Kurtz,
demonstrando na Bepubl. Argentina uma flora fossil da
formação de carvão de pedra em grande parte identica
à do Gondwana inferior da India, dos Ecka-Kimberley-
beds do Cabo da Boa Esperança e a outras da Australia
e Tasmania. A publicação de Kurtz (Revista Mus. La
Plata VI. 1894 p. 117 ss.) tratava da flora fossil de Bajo
de Velis. Essa carta contem notas supplementares como
Rhipidopsis gingkoides Schmalh. e R. densinervis Fstm,,
duas especies encontradas tambem na India.
Na Sierra de Los Llanos e Sierra de La Rioja colligiu
o Dr. Bodenbender plantas fosseis determinadas por Kurtz
— 463 —
do modo seguinte: Neuro teridium validum Fstm., Glos-
sopteris communis Fstm. e retifera Fstm., Phyllotheca
Bodenbenderi Kurtz, Lepidodendron Pedroanum Szajn. e
Sternbergi Brong., Noeggerathiopsis Hislopi Fstm., Cy-
clopitys dichotoma Fstm.
Outras collecções provêm de Cacheuta.
kK’ summamente interessante o apparecimento do ge-
nero Glossopteris.
Zeiller, M. R. Note sur la flore fossile des gisements
houillers de Rio Grande do Sul (Brézil meridionale). Bul-
letin de la Soc. Géolog. de France 3. ser. Tom. XXIII.
1895 pag. 601—629 Pl. VIII—X.
Finalmente eis um estudo especial por parte de um
distincto especialista de plena competencia sobre a flora
das minas de carvao de pedra do Rio Grande do Sul!
E' a seguinte a respectiva litteratura mais importante:
Nathaniel Plant. The Brazilian Coal Fields. Geolog.
Mag. Tom. VI. 1869 p. 147—150.
Caruthers. On the plant-remains from the Brazilian
Coal-bed with remarks on the genus Flemingites. Geo-
logical Magaz. Tom. VI. 1869 p. 151—156 Pl. Ve VI.
L. Agassiz. Scientific results of a Journey in Brazil.
Geology and phys. geography by C. FW. Hartt. Boston-
Londres 1870 pag. 521—527.
F#. Liais. Climats, geologie, faune et geographie
botanique du Brézil. Paris 1872 pag. 208.
A. Hettener. Das súdlichste Brasilien (Rio Grande do
Sul). Zeitschr. d. Ges. f Erdkunde zu Berlin. Tom. XXVI
pag. 84—114.
Eugenio Daehne. Relatorio das explorações geologicas
e mediçäo das datas mineraes feitas por ordem da Com-
panhia de minas de carväo de pedra do Arroio dos Ratos.
Rio de Janeiro 1887. 4.° 30 pag., 1 Estampa.
Eugenio Daehne. A mineração de carvão e as con-
cessões da Companhia de Jistrada de Ferro e Minas de
— 464 —
S. Jeronymo no Estado do Rio Grande do Sul. Porto
Alegre 1893 4° com 4 PI.
M. R. Zoiller. Sur quelques empreintes vegetales des
gisements houillers du Brézil meridionale. Comptes Rend-
ues de l’Acad. des Sciences. Paris 1895, p. 22971.
Os matcriaes examinados consistem nas colleeções
da Condessa d'Eu e do Museu em Berlim. O autor de-
monstrou que os depositos de carvão de pedra das diversas
bacias do Rio Grande do Sul pertencem todos à mesma
formação e idade, que é da formação carbonifera, depo-
sito superior ou principio da formação permiana. São
o os depositos de carvão de pedra no Estado do Rio
Grande do Sul, sendo um perto de Jaguarão (hacia da
Candiota), um em Torres e tres no valle do Rio Jacuhy:
bacia do Jacuhy, do Herval e do Arroio dos Ratos. Só esse
ultimo é explorado, sendo das varias camadas aproveitado
somente uma, de 1,5 até 2,5 M. de grossura.
Dos restos vegetaes já descriptos por Carruthers :
Flemingites Pedroanus pertence ao genero Lepidodendron.
Uma especie até agora não indicada para o Rio Grande
do Sul é Lepidophloios laricinus Sternberg, especie com-
mum na formação carbonifera da Europa. Odontopteris
plantiana Carr. é affine com a outra especie da formação
permiana da Russia. Noegeerathia obovata Carr. é pro-
vavelmente identica a Euryphyllum Whittianum Feist-
mantel da formação carbonifera indica de Karharbari.
Sigillarias, que Dachne menciona, não foram encontra-
das em restos certos. Como Dadoxylon Pedroi o autor
descreve uma madeira silificada. A planta mais interes-
sante da collecção é Gangamopteris cyclopteroides Feistm.
var. attenuata. Essa especie do grupo dos fetos, encontrada
tambem por XY. Kurtz em Bajo de Velis, Prov. S. Luiz
na Republica Argentina, é commum na formação carbo-
nifera da India (Talchir e Karharbari), da Tasmania e
da Africa meridional (Kimberley). A vasta distribuição
no hemispherio austral e na India dessa flora carbonifera
ou permiana chamada flora de Glossopteris é um dos
— 465 —
factos de maior interesse entre as descobertas modernas
da geologia.
O Estado do Rio Grande do Sul porém é por ora o
unico lugar onde os elementos dessa flora de Glossopteris
se encontram reunidos com especies conhecidas no he-
mispherio septentrional. Ajunto aqui, que numa nota
apresentada a 23 de Março de 1896 á Academia de Paris
o mesmo autor demonstrou que as Vertebrarias da flora
de Glossopteris são os rhizomas de Glossopteris. O Prof.
Koken já tinha, na publicação de Hetiner, communicado a
existencia da flora de Glossopteris no Rio Grande do Sulou
antes confirmado a mesma declaração já feita por W. Plant.
Na Exposição Brazileira-Allemã em Porto Alegre de
1882 estava exposto um lindo tronco de Lepidodendron,
que me serviu de argumento para provar a idade carbo-
nica das camadas do Arroio dos Ratos. A opposição contra
o carvão de pedra nacional naquella data tratou-me de
modo infame na imprensa. Passou-se a intriga, causada
por motivos baixos e hoje não existe duvida alguma que
no Brazil meridional temos formação carbonifera e car-
vão de pedra.
B. Renault. Notice sur une Lycopodia ée arborescente
du terrain houiller du Bresil. Bull. de la Soc. @hist. nat.
de Autun. Tom. III. 1890 p. 1—16 Pl. IX (ef. tambem
Compt. Rend. Acad. d. Sciences Paris 14. avril 1890).
O autor recebeu do Dr. Derby varios objectos silifi-
cados de Piracicaba, sendo madeira de cordaite e partes
de tronco e de casca de uma especie nova, que Renault
denomina Lycopodiopsis Derbyi B. R., julgando que esses
restos pertenceram á familia dos Lycopodiaceas. Compa-
rando as figuras referentes a Lycopodiopsis e ao Lyco-
podium pachystachia, especie recente, a analogia é tão
pouco evidente, que custa acreditar que a comparação
“seja feliz. Os annos proximos nos darão mais informações
sobre «Lycopodiopsis».
Revista do Museu Paulista 30
— 466 —
Florentino Ameghino. Sur l'évolution des dents des
mammifères. Boletin de la Academia Nacional de Ciencias
de Cordoba. Tom. XIV, pag. 381 ss. Buenos Ayres 1896.
Kstudo critico sobre 0 assumpto tratado nos ultimos
annos por Roese, Osborn, Leche e outros. Quanto 4 clas-
sificação o autor julga confirmadas as ideas expostas antes
por elle: a classe dos mammiferos não póde ser dividida
em subclasses, se não em duas: Monotremata e Ditremata,
sendo essa ultima formada pelos marsupiaes e pelos pla-
centarios. Cope na sua publicação Synopsis of the fami-
lies of Vertebrata, Outubro de 1889, divide da mesma
maneira os mammiferos em 2 subclasses Prototheria
(Monotremata) e Eutheria. que correspondem aos Ditre-
mata de Ameghino tendo as denominações de Ameghino
a prioridade.
Os Ditremos de Ameghino são por elle, conforme à
dentadura, subdivididos em Homalodonta a dentes simples
e uniformes (Desdentados e cetaceos) e Heterodonta com
dentes complicados (o resto dos placentalios e os marsu-
piaes). Os Creodontes formam o grupo intermediario entre
os masurpiaes e os carnivoros placentalios.
A theoria, defendida .como theoria nova, o que não
é, por Roese e Kiikenthal, já foi bem exposta em 1884
por 7. Ameghino e já antes, embora que incompletamente
por Owen, Gaudry e outros. A outra theoria hoje mais
acceita e defendida por Cope, Osborn e outros, considera
o dente molar producto de um processo que modificou o
dente simples.
Seja mencionada emfim a boa exposição (p. 113 ss.)
sobre os recentes trabalhos de Zeche, Roese etc., referentes
ús duas dentaduras, mostrando que tambem os mammi-
feros monophyodontes (ou com uma classe de dentes:
cetaceos, desdentados etc.) no estado embryonal são diphyo-
dontes. A dentadura dos Didelphidos é a dentadura de
leite, sendo um molar somente substituido por dente
definitivo, ficando destruídos por atrophia os outros ele-
ae LE
— 467 —
mentos da segunda dentadura. Os molares dos mammi-
feros typicos, que nunca são substituidos por outros
dentes, pertencem á primeira dentadura, de modo que só
parte dos dentes fica substituida por dentes persistentes.
D. ANTHROPOLOGIA.
Bibliothèque linguistique americaine. Tom. XVII. Ma-
tériaux pour servir a l'établissement d'une grammaire
comparée des dialectes de la famille Caribe par Lucien Adam.
Paris 1893, e Tom. XVIII. Matériaux pour servir a l'éta-
blissement d'une grammaire comparée des dialectes de la
famille Tupi par Lucien Adam. Paris 1896.
Essa importante bibliotheca que em volumes ante-
riores tratou das linguas Chibcha, Goajira, Baures, Arrua-
que, Antis ou Campas etc. trata nos dous volumes, acima
mencionados, de assumptos que para nós têm um inte-
resse especial. O primeiro é dirigido contra os principios
emittidos por C. von den Steinen a respeito da gram-
matica Caraiba. De tribus brazileiras encontramos tratados
entre outros: os Macusis e outros do Rio Branco (Nat-
terer, Condreau) e do Rio Jauapery (João Barboza Rodri-
guez), Palmellas (João Severiano da Fonseca), Bonaris
(Nino Alvares de Couto).
O segundo trabalho parece-me indispensavel para
todos que querem fazer estudos serios das linguas do
grupo tupy-guarany: KE’ uma grammatica comparativa, se-
guindo-se um diccionariocritico, cujo fim não entendo bem,
visto como contem apenas 358 vocabulos, estes porém tra-
tados de modo comparativo. Não posso deixar dar aqui
ao menos parte da introducção em tradueçäo : «No mo-
mento da descoberta o numero de dialectos da familia
Tupy correspondeu provavelmente a das tribus indicadas
por Brinton, .
— 468 —
O primeiro conhecido foi o dos Guayanazes
((guayaneses») (cf. P. Anchieta), o segundo o dos
Tupinambas (P. Figueira), o terceiro o dos Guaranys
(P. de Montoya).
Esses dialectos reunidos representam o que tratarei
de Abañeënga ou tupy antigo, opposto ao Neêngatu ou
tupy moderno e ao Abañeême ou guarany moderno.
Em quanto o Abañeënga do Sul ou guarany f-
cava restringido ao Paraguay e á provincia de Corrientes,
o Abaneénga do Norte tornou-se logo depois a lingua
das missões do Brazil, donde vem a denominação de din-
gua geral» que hoje se entende somente com o Neêngatu.
Independente dos tres dialectos antigos e dos dous
modernos conhecemos actualmente certo numero de dia-
lectos, dos quaes os mais importantes são o Oyampi e 0
Chiriguane. » —
A litteratura parece ser bem estudada e assim p. ex.
para Neêngatu achamos consultadas as obras de Couto de
Magalhäes. Amaro Cavalcanti, Barboza Rodrigues e outros.
Uma observação final! Seria tempo de nos occu-
parmos da ortographia tupy. Nem dous ou tres livros
dão a mesma orthographia, de modo que é summamente
difficil escrever as palavras de origem tupy de modo a
não ser contestado. Não precisamos, ao meu vêr, O
grande numero de signaes phoneticos que os linguistas
applicam e podemos aproveitar-nos do alphabeto da lin-
gua portugueza. Sobre essa base certa combinação ha de
ser facil. Agora tudo é confusão. Todos p. ex. escrevemos
capyvara e capim, mas Lucien Adam não conhece o C e
escreve Ka-pil.
O que precisamos neste sentido é antes uma com-
binação de convenção do que o modo mais correcto, e
esta convenção ha de ser em certa harmonia com a ortho-
graphia usada na nossa litteratura.
— 469 —
Conferencias sobre Anchieta. Dr. Theodoro Sampaio. São
Paulo no tempo do Anchieta.— General Couto de Maga-
thies.—A ichieta, as raças e linguas indigenas. 8º S. Paulo
1897.
_ Na serie das conferencias que nesta capital houve
em 1896 em honra ao benemerito padre Anchieta me-
recem um interesse especial as duas aqui indicadas. O
Dr. Sampa em discurso eloquente e elegantemente es-
cripto descreve as primeiras origens da cultura luso-bra-
zileira na Caïitania de S. Vincente e o general Couto de
Magalhães trata das raças e linguas indigenas, sem po-
rem discutir os problemas estudados nessa revista a res-
peito da nacionalidade dos Guayañas. Esse estudo é acom-
panhado de um Mappa do Pindorama que é, conforme
Couto de Magalhaes o nome antigo do Brazil. No folheto
do General Couto de Magalhäes ha a p. 25 uma obser-
vação que na Europa fez sensação, é a communicação,
de que existe um livro «Vocabulario da lingua tupy tal
qual era fallada em S. Paulo no seculo xvr, pelo padre
Joseph de Anchieta,» estando, porém, a edição ha muitos
annos exgotada e compromettendo-se o Snr. Couto de
Magalhães de mandar reimprimil-o, o que realmente se-
ria um serviço importante prestado 4 sciencia. O Snr. /.
Platzmann, sabio muito competente nas linguas tupys,
escreveu-me que pela primeira vez soube por essa
publicação que existe um vocabulario impresso de An-
chieta.
José H. Figueira. Los primitivos habitantes del Uru-
guay. Montevideo. (Imprenta de Dornaleche y Reyes) 1894.
Este estudo completa bem os de Ambrosetti, Lafone
Quevedo etc. sobre a historia primitiva da Republica Ar-
gentina e o meu sobre a do Rio Grande do Sul. E”, po-
rém, sempre a mesma dificuldade que lá como aqui se
nos apresenta: a falta de informações exactas sobre as lin-
guas dos gentios a que se referem os historiadores,
o
Esta publicação é uma boa monographia da tribu
dos Charrúas. Contrario neste sentido a Lafone Quevedo,
Figueira considera os Guenoas differentes dos Minuanos.
Quanto ás tribus guaranys do territorio oriental eram
representados alli apenas pelos Arachanes. A respeito
delles o autor diz que habitavam o Estado Oriental e o
Rio Grande do Sul ao redor da Lagoa Mirim e que
estavam quasi sempre em guerra com os charrúas e com
cs guayanaes («todos los indios que no eram guaranies»).
Samuel A. Lafone Quevedo. Los Indios Chanases y su
lengua. Bol. del Instit. Geograf. Tom. XVIII Buenos Ay-
res 1897 p. 1—42 c. 1 mapa etnico del Rio de La Plata.
O Snr. Lafone Quevedo, distincto linguista Argentino,
teve a sorte de obter um valioso manuscripto sobre a
lingua dos Chanãs aqui publicada e discutida. O manus-
cripto pertenceu ao conhecido Padre Zarrañaga em Mon-
tevideo distincto sacerdote que, no seu tempo, foi um
dos homens mais eruditos do Rio da Plata.
Não obstante ser muito incompleto basta para provar
que os Chanãs nada têm que vêr com os guaranys, nem
com os Araucanos, mas antes offerecem relações lin-
guisticas com os povos que d Orbigny tratou de pam-
peanos e Lafone-Quevedo de chaco guaycurú. Os Chanas
estão intimamente ligados aos Timbús, tendo ambas as
tribus o costume de perfurar 0 nariz.
Os Guaranys que houve nas Republicas Argentinas
e Oriental e especialmente nas ilhas da costa oriental
eram Carios e Chandús. Quanto aos outros gentios, que
nada têm com a lingua guarany cita o auctor para a
região platina :
Charrúas (com os Bohanes e Martidanes).
Varos. ETA pe
Minunanos ou Guanoas (ou Giienoas).
Querandis.
Chands e Timbis.
— 471 —
Corondas, Caracaraes e Mbequas.
Quiloasas e Caltis.
Lafone-Quevedo é de opinião que essas linguas fo-
ram influenciadas pelo dialecto guarany, mas especial-
mente depois da descoberta. «Como em Tucuman os pa-
dres Jesuitas converteram em quichua os gentios cacán,
assim no Rio da Prata a lingua geral era a guarany, des-
apparecendo perante ella as outras. Sustento, porem, que
quando entraram os hespanhoes fallava-se a lingua gua-
rany apenas nas ilhas entre os rios Uruguay e Paraná,
reapparecendo depois na região entre os rios Paraná e
Paraguay».
Em certa epoca foi guarany toda a zona do estuario
da Prata, até que entraram as hordas de typo guaicurú
arrojando elles como os Charrúas e outros ao norte a
«raça caria», salvando-se apenas alguns nas ilhas e ser-
vindo outros capturados como lavradores. O cario era
guerreiro, mas sem as armas dos hespanhoes era inferior
aos Guaycuris do Chaco». A palavra chandu parece
guarany che—andii—o que me comprehende.
“Fecho esta pequena relação com outro trecho do
mesmo autor. «Hm qualquer caso, hoje, devido a sua
lingua o indio chaná, ha de ser o centro e o ponto de
partida para a ethnologia do Rio da Prata. Esta publi-
cação é o golpe mortal para a ethnologia errada baseada
nas deducções infelizes do sabio Azara».
Juan B. Ambrosetti. Paraderos precolombianos de Gogá
(Provincia de Corrientes) Boletin del Instit. Geogr. Ar-
gentino Tom. 15. Buenos Ayres 1894 p. 401—422 e Est.
Jd. Los cementerios prehistoricos del Alto Parana
(Misiones). Ibid. Tom. 16. 1895 p. 227 - 271 com figuras.
Id. Las grutas pintadas y los Petroglyphos de la
Prov. de Salta. Ibid. Tom. XVI. 1895 p. 311— 342,
Id. Un flechazo prelnstorico. Ibid. Tom. XVIII 1896
NET
— 472 —
Id. El simbolo de la serpiente en la alfareria fune-
raria de la region calchaqui. Ibid. Tom. XVI. 1896
Nº 4—6.
Id. Notas de archeologia calchaqui. Ibid. p. 1—82.
Id. Los monumentos megaliticos del Valle de Tafi
(Tucuman) Ibid. Tom. XVIII 1897 p. 3—12.
Id. La antigua cidad de Quilmes (valle Calchaqui).
Ihid. Tom. XVIII. 1397 40 p.
Todas estas numerosas publicações de Ambrosetti re-
presentam valiosas contribuições para a archeologia da
America meridional, acompanhadas de illustrações ins-
tructivas. Assim é de grande interesse a que re-
presenta duas costellas humanas unidas por callo, in-
cluindo a ponta de flecha, que tinha produzido o feri-
mento do guerreiro prehistorico.
De summo interesse são as descripções dos antigos
edificios, muros etc. da antiga cidade de Quilmes e as
figuras de antiguidades calchaquis, das quaes por ex-
tenso tratei no vol. I desta revista. Tendo como pri-
meiro insistido nas analogias que esta cultura offerece
com a dos mounds de Marajó, não posso deixar de
mencionar aqui uma figura de Ambrosetti, que neste
sentido me parece apropriada para confirmar a minha
opinião. E’ uma figura de sexo feminino, cum idolo fu-.
nerario» como Ambrosetti diz, (fig. 3 Not. archeol. calch.
p. 11), que no lugar das partes pudendas traz um trian-
gulo invertido. Este triangulo, «symbolisando o sexo fe-
minino,» a meu vêr só póde representar a tanga, chapa
triangular de barro cosido commum entre as antigui-
dades de Marajó. Se entre os objectos achados nos valles
dos Calchaques faltam taes tangas, este idolo entretanto
demonstra-a, sendo, porém, de presumir que as tangas
usadas entres os calchaquis fossem de tecido ou de casca.
Pretendo em outro lugar occupar-me novamente
destas analogias entre as antiguidades de Marajó e
dos valles dos Calchaquis. Aqui apenas julgo necessaria
mais uma observação. Thomas Wilson, na sua excellente
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monographia «The swastica» (Report of the U.S. Natio-
nal Museum for 1894 Washington 1896) diz pag. 904 e
referindo-se á autoridade do ministro do Brazil, Snr. Men-
donça, que o nome destas chapas triangulares é «tunga»,
palavra de origem africana, sendo provavel que por mi-
grações prehistoricas da Africa occidental ao Brazil che-
gasse o termo tunga, lembrando tunga, em atang ou
tamantiatang, nome que os indigenas dao ä tunga».
Temos, porém, a notar que a palavra tunga é palavra
tupy significando bicho do pé, e que a palavra tanga
talvez seja de origem portugueza. Acredito que «ctunga»
por tanga é devido apenas a um erro de orthographia.
O que resta a verificar é a origem da palavra tanga que
Martius tem no diccionario tupy, que porem falta em
outros diccionarios, sendo as explicações relativas con-
tradictorias.
Juan B. Ambrosetti. La leyenda del yaquareté-aba
(el indio tigre). Anales de la Socied. cientific. Argentina
Tom AT pel A896:
Id. Materiales para el estudio del folk. lore misionero.
Revista del Jardin zoolog. de Buenos Ayres Tom. Tent. 5
1894 p. 129—160.
Id. Los Indios Cainguá del Alto Paraná. Boletin del
Instituto Geograf. Argentino. Tom. XV. Buenos Ayres
1895 p. 501—744.
Id. Los indios Kaingangues de S. Pedro (Misiones).
Revista del Jardin zoolog. Tom. II. Buenos Ayres 1895
p. 305— 387.
Td. Materiales para el estudio de las lenguas del grupo
Kaingangue (Alto Paranda). Boletin de la Avad. Nac. de
Ciencias de Cordoba Tom. XIV Cordoba 1896 p. 331—383.
Os dous primeiros estudos do eminente anthropologo
argentino tratam da «folk-lore», da poesia e das lendas
populares nas missões e com referencia á litteratura
se occupa dos guaranys, quichuas ete. No primeiro
estudo o autor examina as lendas relativas á onça
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pintada «o yaguaraté—abä», isto é onça-homem que pelo
povo guarany asssim como pelos Guayanás de villa Azara
(dos Guayands son Guaranies» p. 326!) é considerado
como pessoa morta que se transformou em onça. Como
essas crenças e lendas se repetem em diversos lugares
distantes assim como entre os guaranys e os quechuás
da região calchaqui, o autor entende que em tempos
prehistoricos houve invasão de guaranys na zona
calchaqui. Elle diz mais: «A palavra quechua yaguar
== sangue, não terá relação com a palavra guarany
yaguá = tigre?». O autor enganou se, porém, julgando
yaguá a palavra daquelle carnivoro felino; a palavra é
yaguara ou jagwd-r-a como Lucien Adam . escreve,
dizendo que a sua significação e de onça (tigre) ou ca-
chorro. Isso provavelmente é falso, sendo yaguara ==
cachorro e jaguar-etê = onça pintada, significando etê =
muito. Vale a pena estudar essas relações entrê as
linguas guarany e quechua as quaes Martius já se referiu.
Na lingua quechua encontramos as palavras tupys tuyuy ú
(= jabirú) e acaraçú, significando a ultima palavra um
peixe acará (acará açú). ;
No segundo estudo trata o autor das lendas da caa-
pora, da ave Jasy-yateré (que passaro será esse ?), do
Mboi-tatá, do lobishomem e de outras superstições, co-
uhecidas em grande parte tambem entre nós.
As duas monographias referentes aos Kaingangues
(os « Coroados » do Rio Grande do Sul) e aos Cainguás
(ou Cayuás como aqui estamos acostumados a escrever)
representam o melhor e o mais completo que desde muito
sobre indigenas da America do Sul foi escripto. São
trabalhos extensos, munidos de boas illustrações, e que
tratam sob todos os pontos de vista da ethnographia
dessas tribus e de sua vida cultural e social.
— 475 —
Rk. Martin. Altpatagonische Schädel. VierteYahrsschr.
d. Naturf. Gesellsch. in Zürich. Mit. 2. Tafeln. 1896
cf. Central Blatt f. Anthropol. II. 1897, p. 139).
Descripçäo de craneos antigos de indigenas da Pata-
sonia. Não conheço esse estudo. O Snr. Bicego, empre-
gado do Museu Paulista, trouxe para elle um craneo bem
conservado, que encontrou num paradeiro do Rio Negro.
J. D. E. Schmeltz. Das Schivirrholz. Verh. d. Vereines
f. naturm. Unterhaltung cu Hamburg Bd. IX. 1896 pag.
92—128.
O sabio director do Archivo Internacional de Ethno-
eraphia, e director do Museu Ethnographico, em Leiden,
nos dá nessa pequena monographia informações valiosas
sobre um instrumento que chama Schwirrholz, que
quer dizer madeira que zune, madeira que faz ruido. E'
um pedaço de madeira que preso por fio num cabo
mediante um movimento de rotação faz barulho ou ruido
singular.
O. von den Steinen encontrou varias vezes nas suas
viagens ao Rio Xingu esse instrumento chamado matápu
pelos indios Nahuquá e Mehinakú, e yélo pelos bakairi,
sem que, porém, o uso do instrumento tivesse signi-
ficação mysteriosa. .
Ao contrario o uso do instrumento é mysterioso nas
povoações dos Bororós de S. Lourenço. As mulheres têm
medo daquella madeira e escondem-se na occasiäo de
ella ser usada, 0 que acontece especialmente por occasião
de obitos. A idea predominante é o medo que a alma do
fallecido volte para buscar outras pessoas e o ruido da
madeira tem o fim de afastal-a. E' singular que a mesma
idea permaneça em paizes tão distantes como no Brazil,
na Nova Guinea e na Australia. Alli ha o mesmo, o mesmo —
cuidado para que as mulheres e creanças não estejam
presentes á cerimonia—mais uma prova, que À. Bastian
sd 6} pees
tem razão mostrando que ideas analogas se estão fer-
mando entre povos differentes de mesino modo e indie
pendentemente.
Não encontrei cousa alguma a respeito dessa c2rimonia
e do instrumento na litteratura sobre os indios guarany: e
tupy do littoral do Brazil. Peço aos conhecedores da nos-a
litteratura communicar-me o que nelia a respeito censt ir
além das observações de Steinen e Ehrenreich.
E. ZOOLOGIA.
Deixo de tratar de diversas publicações relativas ao
Brazil por não conterem observações novas. Refere-se isso
especialmente a trabalhos de Entomologia, “cujos peri -
dicos são ricos em artigos que expõem o que ja se sab».
Bolletino dei Museiedi Zoologia ed Anatomia comp :-
rata della R. Universita di Torino. Vol. X. 1895 Torino. 82
Esse Volume tem um interesse especial para o «c-
nhesimento da natureza da A. meridional por conter à
publicação dos estudos baseados nas collecções feitas pelo
Dr. 4. Borelli na Republica Argentina e no Paraguay,
sendo os respectivos artigos os seguintes :
Griffini, A. Ditiscidi.
Peracca, M. G. Rettili ed Anfibi.
Boulenger, G. A. Poissons.
Borelli, A. Planarie d’acqua dolce.
Silvestri, F. Chilopodi e Diplopodi
Rosa, D. Oligocheti terricole.
Salvadori, T. Uccelli (190 sp.).
Soerensen, W. Opiliones laniatores.
Pavesi, P. Aracnidi.
Montandon, L. Hemiptêres heteroptêres.
Dos outros artigos referem-se em parte a America
do Sul os de 4. Griffini sobre Umbonia (Membracidae) e
sobre Haiobates.
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Quanto ao estudo de Borelli sobre Planarias não é
ex cto que ao sul do Orenocco nada até hoje fosse collec-
cicnado. Lembro aqui a Planaria Iheringi que encontrei
perto de Porto Alegre re Guahyba, descripta por Boch:
ru; no Zo logischer Anzeiger de 1887.
Vol. XT. 1896 contem da viagem do Dr. Borelli :
obili, G. Crostacet decapodi I.
Lin R. Odonates.
Bla. ch vd, R. Hirundinées.
Nobili, ©. Crostacei decapodi II.
Vol. X/1. 4:97 da mesma viagem :
reracca, M. G. ntili ed Anfibi.
Loulenger,. G. A. Poissons.
Vi terzejski, A. Aeglea laev:s.
Sulvestri, F. Chilopodi e Diptcnodi.
Bt relli, A. Planarie d'acqua doive.
Ditifuss, A. Isopodes terrestres.
Sa vadori, 1. Uccelli.
Forsyth Major. Der centralamerthe rische Fischotter
und sein. nächs!n Verwandten. Zoolo,. Anzeiger Bd. XX.
1897 p. 136—142.
O attor trata da lontra da America central e diz
que das :ontras da America do Sul teve rico material
que provi que todas pertencem a uma só especie: Lutra
enhydris F. Cuv., da qual säo synonymas L. paranensis,
platensis e L. brasiliensis Gray. O autor separa dessa ul-
tima L. brasilieasis Zimm., sub-genero Pteronura, (que sera
a cariranha»). Mais ou menos do mesmo modo procede C.
Grevé. Die geographische Verbreitung der jetzt lebenden
Raubthiere. Nova Acta Acad. Caes. Leop. Carol. Tom. 63.
Halle 1895 p. 209, separando da ariranha, Lutra brasi-
liensis Zinm,, distinguida «pela cauda achatada» a Lutra
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canadensis F. Cuv. var. latifrons Nehring, a nossa lontra.
Forsyth Major differe, separando a variedade sul-ameri-
cana como especie distincta.
O. Thomas. On new small Mammals from the Nectro-
pical Region. Ann. a. mag. Nat. Hist. 6 Ser. Vol. 18. 1896,
pag. 301—314.
Além de outros pequenos mammiferos de Colombia e,
Venezuela descreve o autor nesse estudo as seguintes
especies novas: Ctenomys Perrensi de Corrientes na Rep.
Argentina, Oxymytcerus [heringi do Taquara, Rio Grande
do Sul. O novo genero Blarinomys é baseado em Oxy-
mycterus breviceps Winge e colligido por Gueldi em The-
resopolis, Estado do Rio ade Janeiro.
No mesmo periodico, vol. 20. 1897, pag. 214—221, o
autor descreve pequenos mammiferos da Rep. Argentina.
SS eee
O. Thomas. On the genera of Rodents. Proceed. of
the Zoolog. Soc. of London. 1896, p. 1012—1028.
Lista util dos generos hoje admittidos dos Roedores,
infelizmente sem Sas de determinacao.
O. Thomas. Notes on some S. American Muridae.
Ann. a. Mag. Nat. Mist. 6. Ser. Vol. 19.1897 p. 494—501.
Além de observações sobre o genero Nectomys e novas:
especies delle contem esse artigo a descripção de tres
novas especies colligidas na região do curso inferior do
Rio Amazonas pelo Dr. Goeldi, Orizomys Goeldi(i), Holo-
chilus nanus e Akodon fuscinus.
Kiikenthal, W. Die Arten der Gattung Manatus. Zool.
Anzeiger Bd. 20. 1897 p.. 38-40.
O autor distingue quatro especies de peixes-boi Ma-
natus senegalensis Desm. da Africa occidental, Manatus
PA
Ro a
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latirostris Harl. do Mexico e Surinam, Man. inunguis
Natt, do Amazonas e Orenoco e M. Koellikeri Kükenth.
do Surinam.
Nathusius, W. von. Zur Zoologie der Rhea-Arten.
Journ. f. Ornith. ©. Reichenow. 44. Jahrg. 1896, pag. 257
— 9278.
O autor examinou diversos ovos de ema da Republica
Argentina, Patagonia, etc. e accredita que além das 3
especies já classificadas é preciso reconhecer duas diffe-
rentes, reunidas sob Rhea americana.
Examinando varios ovos que agura recebi dessa
especie de Paraná em Entre Rios, acho grandes diferenças
na estructura da casca, havendo ao lado de ovos com
poros grandes outros onde além de ses ha poros em fórma
de ponto, de modo que não seria dilficil estabelecer, con -
forme dos poros da casca, mais especies.
Tenho tambem dous ovos de Rhea Darwini, de Santa
Cruz, bastante differentes no tamanho (comprimento de
um 120 mm. do outro 135 mm.) ambos pela cor verde-
esbranquecida differentes dos ovos de Paraná de cór ama-
rella ou amarello-esbranquecida. O ovo da Rhea Darwini
é mais lustroso na superficie. Os ovos da Rhea americana
de Paraná medem 135—140 mm.
Goeldi, E. A. Ornithological Results of a Naturalist's
Visit to the Coast region of South Guyana. Ibis Ser. VII
Vol. LIT 1897 p. 149—165.
Goeldi, E. A. On the Nesting of Nyctibius jamaicensis
and Sclerurus umbretta. Ibis Ser. VIL Vol. II. 1896, pag.
299—309.
No primeiro dos dous artigos 0 auctor expõe as obser-
vações feitas em viagem ao districto do Amapá, no outro
descreve os ninhos e ovos de duas aves pouco conhecidas
- nesse sentido. Do Nyctibius jamaicensis, o «Urutao», foi
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observado pelo autor na Colonia Alpina perto do Rio de
Janeiro o ninho que é apenas a depressão central nium
tôco de pão. O ovo mede 41,5 mm., sendo branco com
algumas manchas ao polo obtuso. Na mesma localidade
foi observado o ninho do passarinho «vira-folha» Sclerurus
umbretta, consistindo numa galeria horizontal entrando
como canal numa barranca e contendo na camara ter-
minal o ninho com dous ovos brancos de 28 mm. de
comprimento.
Philippi, R. A. Dos animales nuevos de la Fauna
chilena. Anales de la Universidad. Santiago 1896, p. 1—8.
Descripçäo de um cação (Carcharias aethiops Ph.) e ~
de uma especie nova de cachorro do matto Canis (Pseuda-
lopex) lycoides Ph. Seguem-se algumas notas criticas
sobre as especies sul-americanas de Canis.
Guenther, A. Note on some reptils and a Frog from
Argentina. Ann. and Mag. Nat. Hist. 6 Ser. V. 28. 1897
p. 365—366.
Pequena lista de especies de Santa Fé, e descripção
de Phyllomedusa Rickettsii. As especies Lepidosteraum
affine Boettger e Boettgeri Boul. são identicas a L. Guen-
theri Strauch.
Werner, F. Die Iguanidengattune Anisolepis Blngr.
Verh. À. K. Zool-bot. Ges. Wien Bd. 46, 1896 p. 470 —473.
Distincção de 3 especies, sendo uma nova, Anisolepis
lionatus.
Werner, F. Ueber einige noch unbeschriebene Repti-
lien und Batrachier. Zool. Anz. Bd. 20 1896 p. 261—267.
Borborocoetes bolitoglossus, especie nova de ra de
Blumenau, Santa Catharina, sendo além dessa especie.
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só conhecida mais uma especie desse genero B. (Thoropa)
miliaris Spix. Outra especie interessante aqui descripta
é Spelerpes palmatus do Equador, affine ao Spelerpes
altamazonicus Cope.
Peracca, M. G. Nuovo genero di Colubridae aglifo
dell America meridionale. Bollet. der Muser di Zool. ed
Anat. comp. di Torino. Vol. XI. 1896 Nº 266.
Peracca, M. G. Sopra alcuni Ofidir nuovi o poco noti
dell America meridionale. Ibid. Vol. XI. N° 252.
Peracca, M. G. Sopra un nuovo genero di Colubridae
opistoglifo della Repubca Argentina. Ibid Vol. XII. 1897
NOIS.
Peracca, M. G. Intorno ad una nuova specie di Ofidio
di 8. Paulo (Brasile). Ibid. Vol. XII. 1897 Nº 282.
Peracca, M. G. Intorno ad un nuovo genero di Iguanide
del Brasile. Ibid. Vol. XII. 1897. Nº 299.
Desses cinco artigos o primeiro trata da cobra Syno-
phis bicolor, genero e especie nova affim ao genero Stre-
ptophorus D. B., o segundo de duas especies de Atractus
e de Liophis sagittifer Jan., o terceiro descreve o novo
- genero Pseudotomodon, intermediario entre Tomodon e
Philodryas, o quarto descreve uma especie do genero
Uromacer, até hoje conhecido só na Ilha de S. Domingos.
Essa nova especie U. Ricardinii foi colligida em S. Paulo
pelo Dr. Ricardimi, junto com Rhadinaea Jaegeri Gthr. as-
sim como a nova especie da familia Iguanide, Aperopristis
Paronae, typo de um genero novo affim a Liosaurus.
Boulenger G. A. Description of a new Siluroid Fish
from the Organ Mountains, Brazil. Annals and Magas. of
Nat. Hist. VI. Series Vol 18. 1896 pag. 154 ss.
Trichomycterus Goeldii Blgr. Esta nova especie foi
collecionada na Colonia Alpina, E. do Rio de Janeiro,
por &. Goeldi. As outras encontradas junto com esse pei-
xinho, de 99 mm. de comprimento, na mesma localidade
são: Heros acaroides Hens., Plecostomus microps Steind.,
Revista do Museu Paulista 31
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Characidium fasciatum Reinh., Tetragonopterus fasciatus
Cuv. e Xiphorhamphus hepsetus Cuv.
Boulenger, G. A. On a collection og fishes from the
Rio Paraguay. Trans. Zool. Soc. London vol. 14 p. 25—39.
Trata de 97 peixes do Rio Paraguay. No mesmo pe-
riodico trata #. Ray Lankester p. 11—24 do Lepidosiren
do Rio Paraguay.
Ortmann A. E. Carcinologische Studien. Zoolog. Jahr-
bücher Bd. X. 1897 p. 258 —372. Jaf. 17. |
Esse estudo, baseado nas collecções do Museu da Aca-
demia em Philadelphia, trata de numerosos generos de
Decapodes, entre elles de especies representadas no Bra-
zil dos generos Palinurus, Scyllarus, Petrolisthes, Se-
sarma, Oedipleura gen. nov. synonymo de Uca de Latr.,
Uca Leach, Gecarcinus, Ocy poda. Uma das especies novas,
Petrolisthes Jheringi, provem das colleccôes feitas por
mim em S. Sebastião. De grande valor é para nós a
parte que trata dos siris d'agua doce do Brazil, da fa-
milia Potamonidae Ortm. (Thelphusidae Miln. Edw.), com
as sub-familias Potamoninae, contendo as Thelphusas ou |
Potamon dos rios do mundo velho tropical, Potamocar-
cininae representada na região entre a America central
e o Rio Amazonas e Trichodactylinae, que são do Brazil.
A ultima secção consiste em dous generos: Trichodactylus
e Orthostoma, sendo os generos Sylviocarcinus e Dilo-
carcinus synonymos de Orthostoma Randall.
Jules Richard. Entomostracés de l'Amérique du Sud,
recueilhs par M. M. U. Deiters, H. von Thering, G. W.
Mueller et C. O. Poppe. Mémoires de la Societé Zoologique
de France. Tom. X. 1897 p. 263-301 (com 45 figuras).
Foi com prazer especial que recebemos e analysamos
este estudo do competente especialista francez, que ao
— 483 —
mesmo tempo nos enviou outro estudo seu referente aos
crustaceos entomostracos da Republica Argentina (Sur
quelques entomostracés d’eau douce des environs de Bue-
nos Ayres. Annales del Museu Nacional de Buenos Ayres
tom. V 1897 p. 321-332».
Já no volume I dessa revista tratando dos crustaceos
phyllopodes do Brazil referi-me a essa publicação como
esperada a qual junto com a de Wierze)ski contribuiu para
encher a lacuna deixada na exploração scientifica da Ame-
rica meridional pela falta quasi completa de estudos refe-
rentes a esses crustaceos pequenos e transparentes conhe-
cidos na Europa sob a denominação de «pulgas d'agua».
As especies colligidas por mim provêm todas do Rio
Grande do Sul. Nada até agora consta nesse sentido do
E. de S. Paulo. Depois de descrever numerosas especies no-
vas e tratar do material colligido por mim no Rio Grande
do Sul., por Miiller em Santa Catharina, por Deiters em
La Plata e Poppe no Chile o autor apresenta a lista com-
pleta de tudo que até agora é conhecido relativamente a
esses crustaceos e sua distribuição geographica na Ame-
rica do Sul. Essa lista contem 35 especies de Copepodes
e 52 de Cladoceras.
Desejamos que um estudo analogo seja dedicado aos
Ostracodes da America meridional.
Cambridge, F. O. Pickard. On The Teraphosidae of
the Lower Amazonas. Proc. Zool. Soc. London 1896 p. 716-
766 Pl. 23-25. (cf. Zoolog. Central Blatt IV. 1897
“p. 786 ss.)
O material para esse estudo foi colligido pelo autor
durante a expedição do « Faraday » ao Rio Amazonas e
consiste em cerca de 200 especies. O autor é da opinião
de que actualmente da fauna arachnologica do Brazil se
conheçe « pouco mais do que nada »—affirmação exage-
rada que não liga a attenção que merecem ás publica-
ções de Keyserling, Peckham e outros,
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Cambridge, #. O. Pickard. On cteni form spiders from
the Lower Amazonas etc. Ann. a. Mag. Nat. Hist. 6 Ser.
Vol. 19. 1897 p. 52—105 e Pl. LUI—IV.
E este um estudo monographico contendo a des- .
cripção de especies novas a chave e mais informações
para determinação dos generos e das especies até hoje co-
nhecidas na America meridional.
Pockoch, R. J. Report upon the Scorpiones and Pedi-
palpi obtained on the Lower Amazonas by. Mr. Ansten
and Pickard Cambridge. Ann. and Mag. Nat. Hist. 6 Ser.
Vol. 19. 1897, p. 357—308.
Descripção de especies noyas de Tarantulidae, ae
phonidae e Scorpionidae do Amazonas inferior.
Broelemann, H. W. Un mystérieux Myriapode Sco-
lopendropsis bahiensis Brandt. Bullet. Soc. Zoologique de
France Tom 22. 1897 p. 142.
Especie rara de 23 segmentos munida do ocellos e
provavelmente identica ao Pithopus inermis Pocock que
tem 21 segmentos ou pares de extremidades. Colligido
em 1889 por Gouwnelle na Bahia.
Peters, H. T. Naturalistische Aufzeichnungen aus der
Provinz Rio de Janeiro in Brasilien. Illustr. Wochenchrift
f. Entomol. I. 1896 Nº 15, 18 e 20. ss.
O autor passou nos annos de 1870-1872 algum tempo
em Novo Friburgo. As recordações de viagem e obser-
vações sobre borboletas, plantas etc. são, como afinal todo
o artigo, sem valor scientifico. Acompanham o trabalho
algumas figuras como as de Midas Giganteus Wiedem.
(mosca grande), Acrocinus longimanus Fabr. (besouro de
figueira), Anisoscelis bilineata Lat. (persevejo com tibias
posteriores alargadas).
— 485 —
Joh. Schmidt. Aufrachlung der von Herrn Professor
+. Sahlberg in Brasilien gesammelten Histeriden. Berliner
Entomolog. Zeitschrift. Bd. 41 Jahrg 1896 p. 55—66.
Enumeração e descripcao de 64 especies de besouros
pequenos da familia Histeridae colleccionadas nos annos
de 1849—1850 pelo Prof. Sahlberg no Estado de Rio de
Janeiro. Parte desses pequenos coleopteros vivem como
parasitas em colonias de formigas.
Wandolleck. Ueber einen Kiefer mit stechenden Fiih-
lern. Sitzungs. Ber. d. Ges. naturf. Freunde zu Berlin
1896 pag. 51.
Um besouro da Bahia do grupo dos coleopteros longi-
cornios, Onychocerus albitarsis, tem o segmento terminal
da antenna curvo e acuminado, de modo que póde servir
para ferir como um ferrão. No interior deste segmento ter-
minal que tem uma capa forte chitinosa existem dous ca-
naes, provavelmente sahindo de uma glandula. Vale a pena
examinar o insecto vivo e conservado em alcohol e obser-
var a biologia. (cf. Naturw. Wochenschr. 1896 pag. 300.
| Kirby, W. F. List of the Neuroptera collected by
Mr. E. EB. Austen on the Amazonas. Mag. Nat. Hist. ,6.
Ser. Vol. 19. 1897 p. 598— 617.
- Trata das mariposas (Odonata) do Amazonas.
Grouvelle, A. Nitidulides, Colydiides, Cucujides et Par-
nides racoltés por M. E. Gounelle au Brésil. Ann. Soc.
Entom. France Vol. 65 1896 p. 177 — 216.
Descripção de 50 novas especies illustradas com 25
figuras.
Kerremans, Ch. Buprestides receuilhes dans les tabacs
par les soins de M. B. Gounelle; Sumatra, Brésil. Ann.
Soc. Entom. France Vol. 65 p. 138—176.
Enumera 55 especies do Brazil entre as quaes 42 novas,
— 486 —
Williston, S. W. Diptera Brasiliana. Part. IV Kansas
Univ. Quart. Vol. 6 Ser. A. 1897 p. 1—12.
Descripçäo dos novos generos Paramyia, Beckeriella,
Gastrops. Um catalogo completo das « Calyptrate Musci-
dae » foi publicado por Zowsend, C. H. Tyler 1893 nos
Ann. N. York Ac. 4. Vol. 7. p. 1—44.
Czerwinski, K. Beitracge zur Kenntniss der Termiten.
Zoolog. Anzeiger 1897 p. 199—202.
O autor examinando as Termitidas por mim colli-
gidas no E. do Rio Grande do Sul, descreve as larvas
dos soldados e dos « nasuti ». A glandula frontal, situada
atraz do cerebro, existe não só nos «nasuti » ou nari-
gudos, mas tambem nos individuos alados e nas obreiras.
Fox, William I. Contributions to a Knowledge of the
Hymenoptera of Braul. N° 1. Scoliidae Proceed. of the
Acad. of Nat. Sc. of Philadelphia 1896 p. 292—307; e
Nº 2 Pompilidae. Ibid. 1897 p. 229—283 e Pl. 4.
O material examinado nesse estudo foi colligido
pelo naturalista Herbert Smith que como o autor com razão
diz fez as collecgdes mais importantes de insectos no Bra-
zil, sendo-lhe comparavel nesse sentido apenas HZ. W. Bates.
A maior parte das vespas solitarias por elle colligidas é
“proveniente de Chapada, 30 milhas a N. E. de Cuyabá. O
Snr. Fox examinou bem essas ricas collecções, descrevendo
numerosas especies novas e dando chave de determinação |
para diversos generos dos mais importantes. Apenas é
para lastimar que não nos desse boas figuras das especies
novas. Desejamos que o Snr. Yor continúe nesses estudos
importantes sobre os hymenopeteros brazileiros.
H. von Jhering. Zur Biologie der socialen Wespen Bra-
siliens, Zoologischer Anzeiger Bd. 19 N. 516. 1896 p. 449 —
453. Traduzido para o inglez em Annals and Mag. Nat.
Hist. 6 Ser. 1897 p. 133—138. Vejam tambem Zoologisches
— 487 —
Central Blatt. IV. 1897 N° 16; e Bull. Societé Zoolog. de
France Tom. 21. 1896 p. 159—162; e Journ. R. Micr.
Soc. London 1897 p. 32; e Biologisch. Central Blatt.
BSD. 1897. po 267488.)
As condições biologicas das colonias de vespas, co-
nhecidas hoje sómente pelas investigações referentes ás
especies e generos europeus, são bastante differentes no
Brazil, paiz muito mais rico em typos diversos desta fa-
milia do que a Europa.
Na Europa o estado das vespas dissolve-se no prin-
cipio do inverno, no Brazil acontece isso sómente com
as especies de Polistes, e desses mesmo foram observadas
no E. de S. Paulo vespeiras com vespas ao fim do in-
verno. As Polybias passam bem o inverno nos seus ves-
peiros fechados e, ás vezes, quando o tempo é bonito, sa-
hem delles á procura do nutrimento. Differente do modo
por que a colonia nova é formada na Europa Polybia scu-
tellaris e outras especies de Polybia do Brazil formam
novas colonias por meio de enxame como as abelhas.
Começam então a formar o novo vespeiro que rapidamente
na construcção progride, sendo em 2—3 semanas feito
ao ponto de consistir em 4—5 camadas de cellulas ou
favos,e só então começa a femea a pôr os ovos. Para o nu-
trimento das larvas busca a P. scutellaris moscas e for-
migas, cortando-lhes as azas e ás vezes as pernas.
E' grande a variedade dos typos de vespeiros no
Brazil; os de fórma mais simples carecem de capa e con-
sistem em uma camada de cellulas apenas. Assim é 0
ninho de Polistes, Myschocyttarus e de algumas especies
de Polybia (P. vicina Sauss. e ignobilis Hal.) As outras
vespas sociaes do Brazil constroem vespeiros complicados,
defendidos contra a chuva etc. por capa ou envolucro.
Abrindo esse envolucro encontram-se os favos em grande
numero ou uma camada só applicada contra a casca
da arvore, que é o caso da vespa Tatú (Synoeca cyanea
Fabr.). Onde ha numerosos favos esses estão dispostos
— 488 —
horizontalmente (Chatergus apicalis Fabr.) ou em capas
concentricas (Polybia, Nectarinia). :
Quanto ao cyclo biologico o autor divide as vespas
sociaes do Brazil em 2 grupos: estados annuaes ou do
verão (Polistes, Myschocyttarus, Pseudopolybia i. e genero
novo para as Polybias que tém os vespeiros simples como
Polistes) e estados perennes que se multiplicam por
enxames, representados no E. de S. Paulo pelos generos
Polybia, Apoica, Tatua, Synoeca, Chatergus, Nectarinia.
Os machos das vespas sociaes do Brazil têm de cada
lado 3 tubos testiculares, ao contrario do genero vespa
da Europa que delles têm 200300, differença que tal-
vez justifique a separação em duas familias.
Schupp, Pe A. Leben und Nest der Canguaxi. Natur
und Offenbarung Vol. IV Münster 1896 pag. 143—151.
Estudo sobre a biologia da vespa Polybia scutellaris
White que, conforme as minhas informações, tem o nome
de Camoatim, no Rio Grande do Sul, e em S. Paulo o
de «inxu». Descreve o modo como estas vespas pe-
gam as moscas e constroem o vespeiro. E' engano do
autor julgar que esses vespeiros careçam de rainha. Têm
até muitas, mas tão pouco differentes das obreiras, que é.
necessario 0 exame anatomico, feito muitas vezes por
mim, verificando o sperma no receptaculo.
Algumas notas relativas a esse estudo publicou
Wasmann Zoolog. Anzeiger Bd. 20. 1897 p. 276.
Boenninghausen, Victor von. Beitrag cur Kenntniss
der Lepidopteren-fauna von Rio de Janeiro. Verhandl. d.
Vereines f. naturw. Unterhaltung cu Hamburg. Bd. 1X
(23 pag.).
Não ha pessoa mais competente para dar-nos a lista
das borboletas de Rio de Janeiro do que o Snr. v. Boen-
ninghausen, que é possuidor de uma das mais beilas col-
lecções de borboletas do Brazil e que tantos annos as col-
— 489 —
leccionou no Rio de Janeiro e Petropolis, onde como seu
successor continúa nos mesmos estudos o Snr. G. Foetterle.
Depois de informações geraes sobre a paizagem,
topographia e clima o autor nos dá algumas observa-
ções valiosas sobre a classificação, baseando-se nas ob-
servações que fez sobre o desenvolvimento das borboletas.
Da grande familia das nymphalidas o autor afasta
as seguintes secções: as Apaturae, Anacae, Pseudonym-
phalidae de Schatz formando dellas a familia Apaturidae.
As lagartas das Nymphalidas são munidas de espinhos,
a nympha é esquinada, tendo cantos. As lagartas das Apa-
turidas são nuas, privadas de espinhos tendo, porém, mu-
nida a cabeça de appendices em fórma de chifres, a extre-
midade posterior é bifida, munida de 2 appendices for-
mando uma forca e a nympha. é cylindrica sem cantos.
Ao contrario têm as lagartas das Acraeidas e Helic-
onidas tanta semelhança com as de Argynnis, Vanessa
etc. que não ha razão para fazer destes grupos familias
em vez de subordinal-as 4 familia das Nymphalidas.
A familia das Brassolidas fica restringida aos gene-
ros Brassolis e Penetes, estando os generos Opsiphanes,
Dynastor, Caligo, Eryphanis, Dasyophthalma e Narope |
como secção das Pavonidas incluidos na familia das Apa-
turidas. Affins ás Apaturidas são as Satyridas.
A familia das Morphidas deve consistir sómente em
generos americanos, formando os 11 generos do velho
mundo, até agora com esses reunidos, a familia das
Thaumantidae.
As familias das Lycaenidas, Erycinidas e Hesperidas
não são incluidas neste trabalho, devido ás difficuldades
da determinação.
O trabalho incançavel do Snr. v. Boenninghausen
assim nos forneceu um conhecimento quasi completo
dessa parte da fauna do Rio de Janeiro (273 especies) e
ao mesmo tempo completa os nossos conhecimentos do
desenvolvimento de varias familias das Rhopaloceras do
Brazil,
— 490 —
Infelizmente o autor nada nos diz sobre a litteratura
ä existente relativa ás Rhopaloceras do Findo do Rio
de Janeiro.
Mabilde, P. Borboletas do Estado do Rio Grande do
Sul. Porto Alegre. Gundlach e Schuldt 1896. 8º 238 pag.
e 24 estampas.
Weymer, G. Exotische Lepidopteren VIM. Bae zur
Lepidopteren-fauna von Rio Grande do Sul. Entomologische
Zeitschrift zu Stettin 55. Jahrg. 1894. Nº 10—12 BS 311
—333.
Temos aqui de registrar duas publicações referentes
ás borboletas do Estado do Rio Grande do Sul, ambas de
grande utilidade. O Sur. Weymer dá a lista das especies
por elle determinadas, descrevendo varias especies novas:
Papilio extendatus, Phalae tellina, Anteloba carnea, Artace
alma e o novo genero Anteloba. Esse estudo menciona
178 especies sem dar descripções. As respectivas collecções
provêm da Serra Geral perto de Porto Alegre.
O livro de Mabilde contem cerca de 1.000 especies e
dá as descripções. As 24 estampas representam differentes
typos de borboletas, lagartas e chrysalidas. EK’ essa uma
utilissima publicação para a qual chamo a especial attenção
do leitor. O professor para fins de ensino, o colleccionador
para fins de determinação precisam de um livro como
esse e não conheço outro igual na nossa litteratura.
Não obstante tenho de fazer algumas observações,
dando-as na idea do que talvez com o tempo far-se-à ne-
cessaria outra edição do livro sendo preferivel intercalar
nelle estampas coloridas. O autor dá os nomes dos ge-
neros no plural, de modo que o leitor não póde sempre
formar idea correcta do nome; lemos Euryades e Papilios,
acabando a primeira palavra com e, a segunda com s.
A's vezes ainda o plural é mal formado (Sphinxes em vez
de Sphinges). Seria tambem para desejar a inclusão dos
nomes synonymos mais conhecidos. Nas descripções de-
viam entrar mais informações caracteristicas a respeito
Re Cr RN
— 491 —
das familias etc., isso, por exemplo, quanto ao estado
regular ou rudimentar das pernas, caracter dos mais
importantes dos lepidopteros diurnos.
Ha nessa obra para os que pretendem occupar-se da
caça, creação e preparação das borboletas uma base boa,
quanto ao lado scientifico muito falta ainda afim de
que ao menos possamos ter das borboletas diurnas de-
terminações exactas.
Preparei, ha muito, uma publicação sobre o mesmo
assumpto, fazendo a minha rica collecçäo agora parte
da secção entomologica do Museu Paulista. Nessas con-
dições posso verificar que nesse sentido entre as deter-
minações de Weymer, Mabilde e as minhas ha relativa-
menté a certas especies grande divergencia. Se, por exem-
plo, considerarmos as especies do genero Adelpha temos
duas especies enumeradas na minha lista como nas de
Weymer e Mabilde, sendo A. syma Godt. e mythra Godt.
Além disso temos na lista de
. Weymer. A. calliphicla Butl. (= cytherea Cram. nec L.)
Mabilde. A. hyas Boisd.
» A. catharina var, Stdgr.
Jhering. A. Serpa Boisd.
» A. Zea Hew:
» A. basilea Cram. var. ephesa Mén.
Não me resta a minima duvida que nesse sentido
ha grande confusão de determinação e como eu possuo
mais especies de Adelpha do Rio Grande do Sul, como
os outros mencionados colleccionadores, não duvido que
tenho as especies por eiles mencionadas, mas sob outro
nome. Nesse sentido fique o Snr. Mabilde convencido que
muito ainda ha para fazer e desejo que elle não descance
para cada vez esclarecer mais essa parte da fauna do
Brazil meridional. Mais de “/ dessas especies rio-crandenses
vivem tambem em S. Paulo.
Junto mais uma observação quanto ás do autor, refe-
rentes á Jequitiranaboya. Conta o autor uma historia
sobre a origem dessa palavra, que alguns estrangeiros
— 492 —
deram como appellido a um caboclo que por meio desse
vocabulo a elles avisou a approximação de uma gibdia,
durante uma expediçäo ao Amazonas. Tal historia merece
ser destruida logo no começo. Na lingua tupy designa
— cf. Martius, diccionario tupy —
jakyrana = cigarra
jakyranam-boya = cigarra-cobra.
A nossa jakyranamboya é Fulgora lucifera Germ. e
não Fulgora laternaria L., especie da Cayenna que aqui
não existe. A especie do Rio Grande do Sul é a mesma.
Passa por venenosa, mas ninguem examinou o facto por
experiencias e assim apenas vale registrar as duvidas.
Dr. Affonso de Azevedo. Relatorio apresentado é Ca-
mara Municipal de Limeira. S. Paulo 1896.
O relatorio informa «a Camara sobre as condições
hygienicas do municipio. O autor, porém, cuidou com
interesse raro do lado scientifico do assumpto, de modo
que contem observações de importancia tambem para ,
a zoologia. O autor ligou um interesse especial ao Mata-
douro e communica observações interessantes a respeito
dos parasitas. E’ bem singular a observação seguinte:
« Uma porca examinada estava cheia de cysticercos (sapi-
nhos). A porca achava-se prenhe de seis leitões, e esses
estavam crivados de cysticercos. À transmissão aqui deu-se
pela via placentaria, o que constitue um phenomeno
curioso de physiopatkologia. Em compendio algum vi
facto identico relatado. » Essa ultima observação posso
confirmar. Congratulo-me como illustre medico pelo valor
que soube dar aos seus estudos profissionaes, desejando
que aproveite a boa occasião que lhe proporciona. para
taes estudos o matadouro para o conhecimento dos pa-
rasitas de nossos animaes domesticos.
P. 8. de Magalhães. Notes d'Helminthologie Brési-
lienne. 6. Sur la Filaria Mansoni Cobb. Bulletin de la
Societé Zoolog. de France. Tom. XX. 1895, p. 241— 244.
E
Taies
— O eminente lente da Academia de Medicina de Rio
de Janeiro nos dá a descripção completa do singular
parasita (14—18 mm. de comprimento) que vive no olho
do gallo e do paväo e que foi encontrado nas mesmas
condições na China.
O mesmo autor obsequiou-me com seu interessante
estudo : Subsidio ao estudo das Myases. Rio de Janeiro
1892 (Comp. Typographica do Brazil, Rua dos Invalidos
93), que trata:
1., Do Bicheiro produzido pela mosca Lucilia homi-
nivorax Coquerel, pondo essa mosca os seus ovos na
fossa nasal ou na cavidade buccal, onde as larvas se
desenvolvem, produzindo phenomenos serios e ás vezes
a morte. Ao contrario da estatistica dos medicos francezes
que dão 50°), de casos fataes, Jagalhães na sua propria
experiencia não os observou ;
2., Da Berne. Questão muito mais complicada—até o
proprio nome julgado derivando-se de verme (?) precisa
da explicação etymologica. Sob o ponto de vista zoologico
a questão é ainda bem duvidosa, julgando Magalhães com
Blanchard que sejam. 4 especies differentes. Como, po-
rém, se distinguem apenas pelas larvas restam duvidas
e será preciso conhecer as respectivas moscas. Nesse
ponto o Dr. Jagalhäes encalhou do mesmo modo como
eu e outros; 0 bicho da berne não gosta de acabar a sua
metamorphose nos laboratorios.
Affirmaram-me pessoas de competencia que os caipi-
ras e colonos no interior do E. de S. Paulo mettem acima
da ferida um pedaço de toucinho e que então o verme
sahe, entrando na isca. Baseando-me nessas observações
experimentei crear a mosca — mas em vão, como Maga-
lhes tambem. Mas vale a pena continuar nas experiencias.
Plate, L. Ueber die Anatomie des Bulimus ovatus
Sch. und proximus Sow. Sitzungs Ber. Ges. Naturf. Freun-
de Berlin 1896 p. 149—150.
Observações anatomicas.
— 494 —
Pilsbry H. A. Notes on new species of Amnicolidae
collected by Dr. Rush in Uruguay. Nautilus. Vol. X. 1896
pag. S6—90.
Pilsbry H. A. List, with Notes, of Land and Fresh
water Shells collected by Dr. W. Rush in Uruguay and
Argentina. Nautilus Vol. X. 1896, p. T6—81.
Os dous artigos tratam bem das conchas e caracoes
da agua doce de Maldonado, Montevideo e Rio Uruguay ete.
O autor descreve grande numero de especies novas
de Potamolithus gen. n. formado sem necessidade para
Paludestrina de d’Orbigny, que nao é synonymo de Lit-
toridina. As descripções completas etc. devem-se achar
nos Proceedings of the Academy of Nat. Hist. Philadel- —
phia de 1897 que ainda não recebi. Veja-se tambem
nesses Proceed. 1896, p. 561 ss.
Pilsbry H. A. List of Mollusks collected in Maldo-
nado Bay. Uruguay by Dr. W. H. Rush Nautilus Vol.
VI. 1897 p. 6—9.
Lista das conchas marinhas de Maldonado, contendo
a descripção de algumas especies novas.
Dall, W. H. List of species collected at Bahia, Br ay.
by Dr. H. von Ihering. Nautilus Vol. X. 1897 p.121—123.
Lista de parte das conchas colligidas na Bahia pelo
naturalista desse museu Snr. Bicego, em 1896, que pre-
tendo mais tarde dar completa. O autor comunica tam-
bem a diagnose da nova especie Mactrella Iheringi da |
costa de S. Paulo.
Esse artigo completa os do mesmo autor sobre con-
chas mari iiss por mim colligidas na costa do Brazil
meridional e publicados no mesmo periodico. Nautilus
vol. V. 1891, p. 42 ss. e vol. VI. 1893, p. 109 ss.
SF, o! E cd À + +" "Les
AT. E Set Sê ur x " 27 . 5 x NET
Ss 4 ae : Ea A > Ds a à Te cão Em ra da al co te ERES us ts VED eee à ao
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de aa MA aid AS end cio à ve OU NS, hf ph e = Pe gk See +
He Ra DAS.
/
Näo tendo lido sempre a segunda correctura ficaram
mais erratas do que devia ser. À maior parte explica-se
por si mesmo como do em vez de da etc., noto entretanto
as seguintes, devendo-se lêr:
granuloso em vez de granoso
controversia » controversa
affins » affines
intumescido » intumecido
arqueado » arcuado
arrastar » rastar
directamente » direitamente
anzóes » ançol
arenosa » areiosa
todo coberto » tudo c.
Zelandia » Zealandia
plica » pliga
pag. 316: fig. 21 » fig. 20
Observo entretanto que äs vezes preferi de proposito
a forma menos usada como fauna marina em vez de
marinha, ca. em vez de cerca de, concordantamente em
vez de concordamente, para conservar os termos techni-
cos usados na discussão scientifica universalmente.
Hom IH.
Pag. 3. — H. von Lhering. — O Museu Paulista no anno
de 1897.
» 17. — Orville A. Derby e E. Hussak. — Henrique
E. Bauer.
» 25. — H. von Lhering. — Os peixes da costa do mar
no Estado do Rio Grande do Sul. 7
» 65. — 7. D. A. Cockerell. — Notes on the Coccidae,
a family of Homoptera, with a table of the
species hitherto observed in Brazil.
« 73. — H. von Ihering. — Os molluscos marinhos do
Brazil. I Arcidae, Mytilidae.
» 115. — Theodoro Sampaio. — A nação Guayanã da
Capitania de São Vicente.
» 129. — H. von Thering. — A Ilha de São Sebastião,
Com 3 annexos e um mappa, estampa II.
» 173. — A. E. Ortmann. — Os camarões da agua
doce da America do Sul. Com estampa I.
» 217. — H. von Ihering. — Os molluscos dos terrenos:
terciarios da Patagonia. Com estampas IIJ—IX
e 21 figuras.(cf. nota pag. 444), :
» 383. — 7! D. A. Cockerell. — Further notes on Coc-
cidae from Brazil.
» 385. — HA. von Jhering. — Os piolhos vegetaes (Phy-
tophthires) do Brazil.
» 421. — A. von Lhering. — Os camarões da agua doce
do Brazil.
» 433. — H. von Lhering. — Bibliographia.
Revista do Museu Paulista II.
R. Weber, del.
1897.
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Revista do Museu Paulista II.
1
2
3
1
Gibbula Dalli, Ihering.
Gibbula fracta, Ihering; var. cuevensis.
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Turritella tricincta, Ihering.
Trophon santacruzensis, Ihering.
Trophon pyriformis, Ihering.
Voluta patagonica, [hering.
Ese ult
Phototypie Berthaud, ‘Paris.
7. Voluta quemadensis, Ihering.
8. Marginella confinis, Ihering.
G. Marginella quemadensis, Ihering.
10. Genota cuevensis, Ihering.
11. Cancellaria gracilis, Ihering.
12. Cancellaria Ameghinoi, Ihering.
Revista do Museu Paulista II.
Gibbula Dalli, Ihering.
Marginella quemadensis, Ihering.
Cancellaria Ameghinoi, Ihering.
Dentalium octocostatum, Ihering.
Trochita clypeolum, Reeve.
Trochita corrugata, Reeve.
SL
20.
PAIE
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29
me
23.
24.
Est, INE
Ficula carolinensis, d’Orbigny.
Cucullzea multicostata, Ihering.
Nucula tricesima, Ihering.
Cucullaria tridentata, Ihering.
Arca patagonica, Ihering.
Leda glabra, Sowerby.
Revista do Museu Paulista II.
25. Trochita clypeolum, Reeve.
26. Trochita corrugata, Reeve.
27. Nucula tricesima, Ihering.
28. Cucullaria tridentata, Ihering.
29. Cucullaea multicostata, Ihering.
30. Arca patagonica, Ihering.
99:
Leda glabra, Sowerby.
Lucina promaucana, Ihering.
Tellina jeguaensis, Ihering.
Crassatella longior, Ihering.
Tellina patagonica, Thering.
Pecten nodosoplicatus.
Revista do Museu Paulista II. Est) VIE
37. Crassatella longior, Ihering. | 41. Dosinia meridionalis, Ihering.
38. Pecten quemadensis, Ihering. 42. Cytherea splendida, Ihering.
39. Tellina perplana, Ihering. 43. Modolia Ameghinoi, Ihering.
40. Cardium Philippii, Ihering.
v
GAS AU PA MZ mus EM
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À Re LA
Revista do Museu Paulista II. Est. VIE
47
44. Venus striatolamellata, Ihering. 46. Pectunculus cuevensis, Ihering.
45. Venus Volkmanni, var. argentina. 47. Cucullæa Dalli, Ihering.
Revista do Museu Paulista II. et Est. VIII
48. Pecten proximus, Ihering. 50. Pectunculus cuevensis, Ihering.
49. Pecten centralis, Sowerby. 51. Cucullæa Dalli, Ihering.
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Revista do Museu Paulista II. Est. IX.
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52. Ostrea Orbignvi, Ihering. 54. Perna quadrisulcata, Ihering.
93. Ostrea patagonica, Ihering. do. Mytilus chorus, Molina.
Phototypie Berthaud, 9, rue Cadet. - Paris.
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PUBLICADA:
POR
H. von IHERING, Dr. med. et phil.
; Director do Museu Paulista, socio honorario da Sociedade anthropologica Italiana,
SEE da Academia de sciencias em Cordoba, :
| da Sociedade geographica de Bremen, da Sociedade anthropologica de Berlim,
da Academia de sciencias em Philadelphia, da Sociedade dos Naturalistas
em Moscow, da Sociedade entomologica
de Berlim, do Museu ethnologico em Leipzig e da Sociedade scientifica do Chile
MUSEU PAULISTA]
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