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INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS DA AMAZÔNIA
BOLETIM
DO
MUSEU PARAENSE
EMÍLIO GOELDÍ
TOMO XII
niíLÉM - paiiA
BRASIL
105C
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IMSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS DA AMAZONIA
BOLETIM
DO
MUSEU PARAENSE
EMÍLIO GOELDI
TOMO XII
V
(jp-'
delCm - padA
BIIASIL
1U5G
Nimuendajú
Os Apinayé
VII
Nascido em lena, Alemanha, no ano de 1883, Curt Unkel emigrou
em 1903 para o Brasil. Dois anos mais tarde, convivia com os índios
Guarani no oeste de S. Paulo e no sul de Mato Grosso, tendo deles re-
cebido o nome de Nimuendajú, que adotou e pelo qual se tornou co-
nhecido na literatura etnológica. Trabalhou para o Museu Paulista,
então sob a direção de Hermann von Ihering, e para o recém criado
Serviço de Proteção aos índios, chefiado por Rondon. Ao mesmo tempo
ampliava seus conhecimentos sòbre a etnografia brasileira através
a leitura e a correspondência com etnólogos de nomeada. Em 1913
transferiu-se para a Amazônia e seus contactos com índios dessa re-
gião datam do ano seguinte, quando visita os Tembés, Urubus e Tim-
bíras. È então que publica seu primeiro trabalho sòbre a religião dos
Apapocuva-Guaraní (Die Sagen von der Erschaffung und Vernichtung
der Welt ais Gimndlagen der Religlon de Apapocuva Guarani, in Zeits-
chrfti für Etnologie, 46. Berlin, 1914, pp. 284-403), até o presente con-
siderado um clássico em nossa literatura etnográfica. No SPI distin-
guiu-se pela pacificação dos índios Parintintins, habitantes do rio
Madeira.
Viajando por conta própria ou em missão de museus nacionais
ou estrangeiros, entre êles o Museu Paraense Emílio Goeldi, o Museu
Nacional, e o Museu de Gotemburgo, ou associado a instituições como
a Carnegie e Universidade de Califórnia, Nimuendajú percorreu todo
0 norte e parte do nordeste, além de viagens ocasionais a outras re-
giões. Dessas expedições resultaram inúmeros trabalhos de etnografia,
linguística e arqueologia. No Museu Gceldi, ministrou cursos de antro-
pologia e durante algum tempo ocupou a chefia da secção de Etno-
grafia.
Nimuendajú faleceu em dezembro de 1945, no rio Solimões, quan-
do estudava os índios Tucunas.
Deixou cêrca de 50 trabalhos, publicados em alemão, inglês, e por-
tuguês. Nesta língua apenas alguns artigos, sendo pràticamente nula
a divulgação de suas principais obras. Além desses estudos deixou
uma série de manuscritos inéditos, atualmente em poder do Museu
Nacional, aguardando publicação.
Dentre seus estudos de maior importância, destacam-se os que
versam sòbre os vários aspectos da cultura dos índios geralmente deno-
minados de Tlmbíras, do grande grupo linguístico Jê, publicados em
sua maioria pelo antropólogo norte-americano Robert Lowie, que os
traduziu e editou em língua inglesa. O primeiro dessa série, sòbre os
índios Apinayé (The Cathollc University of America Anthropological
SciELO
VIII
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
Series n.° 8, Washington, D. C., 1939) foi considerado por Lowie como
“a primeira monografia sôbre uma tribu Jê que satisfaz as exigên-
cias modernas” * e o mais adequado a uma introdução ao conheci-
mento etnológico dêsse grupo linguístico. Êsse trabalho, em versão
portuguêsa, foi ao tempo da administração de Carlos Estevão, no Mu-
seu Goeldi, revisto, anotado e corrigido por Nimuendajú para publi-
cação por essa instituição. Circunstâncias várias, entre essas a quase
paralização de publicações pelo Museu, fizeram com que o manuscri-
to não fôsse editado.
O Museu Paraense Emilio Goeldi, atualmente sob a administração
do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, órgão do Conselho
Nacional de Pesqui-sas, retomando a publicação de seu Boletim, trás à
luz êsse trabalho de Nimuendajú, ainda inédito em nossa lingua, o
qual recomenda-se pela qualidade técnica e por ser a primeira mo-
nografia dêsse cientista a ser publicada em português. Resgata-se,
assim a uma dívida de longa data ao mesmo tempo que se proporciona
aos estudiosos de nossa etnologia um documento de primeira ordem.
VlUo Daldua, H. — Dlbllonrnfla crltlcn da Etnologia brapllclra. 3. Paulo, 1954. p.
497. Para maiores detalhes sòbre a vida de Nimuendajú, vide;
Baldus — Curt Nimuendajú. In Boletim blblloçr&flco, v. 8,
1945. S. Paulo; Nunes Pereira — Curt Nimuendajú (síntese do
uma vida e uma obra) — Belém, 1940; Pinheiro, O. — A bl-
bllogralla de Curt Nimuendajú. In Arquivos v. 5 — Manaus,
1949.
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Nimuendajú
Os Apinayé
IX
INDICA't!A() FONÉTICA
O acento agudo sôbre a vogal, indica tonicidade; o til, sôbre vo-
gais, nasalização.
ê Tem o som do nrimeiro “e”, no alemão “ehe”
ô Ê equivalente ao “o”, no alemão “ohne”
õ, ü O mesmo valor que na língua alemã
ng Semivogal
X Equivalente ao “sh” em inglês
tx Equivalente ao “ch” em espanhol
’ Indicativo de oclusão glotal (glottal stop)
Os prefixos id e i correspondem à primeira pessoa do possessivo
singular. O sufixo re indica o diminutivo, quando se passa do irmão
da mãe para o filho do irmão da mãe, e da irmã do pai para a filha
da irmã do pai; para outros graus de geração ascendente indica, pre-
sumivelmente, afeição.
Por falta de matrizes tipográficas, cuja importação acarretaria
considerável demora na edição desta obra, a notação fonética utilizada
por Nimuendajú foi simplificada e modificada. Contudo, foi feito todo
o esforço para conservar no atual texto o máximo de fidelidade foné-
tica. Não se tratando de estudo linguístico, as aproximações fonéticas
não prejudicam o valor da monografia.
No caso de post-palatização de vogais, não indicadas no texto por
falta de sinais diacriticos, relacionamos abaixo tôdas as palavras em
que tal ocorre, indicando-se a post-palatização pelo grifo:
agre-pa, akrã. Ala’ ti, Id-kramtxíí, id-kre-puã-pH, Ikrényõtxúdn
ikre-krã-jo-ti, krã, kange7z-ro-’ti kapa-kwéi, kandyê-kwéi, ka’
tám, ka-txw?ídn, katka’ta-ka, kalá-gandê, kramgêd, kambad-
pebkré, kapel-txwúdn, ken-tug, kiyê-ipognytxwádn, kra-ô-
mbedy, kre’kara, kolti-f, krúa-krã, kramtxu, krid-re, kupen-ndo-
galíli, ku’xid, kupud-kag, kure-ngri-txwúdn, kupen-gangala,
kwul-mrõ, Mõkraya, mã-tl, Matzík, mbad, Mbzid-ti, Mbaduvrí-
re, me-apare-txwúdn, men-ga-txa, me-gandê-txa, Me-gure-kri-
txwádn, Me-kupe’n-txwiídn, Me-kui-txwci, Mcn-ká-tl, me-
otála-txwúdn, Ngreba’i, ngo-kon-klid, pad, parã-kape’, para-bo,
pal-kape’, páll, Panti, peny-krã, Peb-krã-o-tl, Pitxo’-kamtx!í,
põ-krã, pu, puí, pakebye, ram, Tamgaa-ti, teb-káe, txa, txul,
txiil-putáli-txwúdn.
Nimuendajú — Os Apinayé
XI
ÍNDICE
t
I — HISTÓRICO 1
II — LÍNGUA 7
III — NOME 8
IV — A TERRA 9
V — ALDEIAS 10
Marlazinha, Cocai, Gato Prêto 10
Bacaba 12
Plano das aldeias. Casas. Acampamentos 14
Relações entre as aldeias. Unidade política .... 15
Chefes. Chefes honorários 16
O conselheiro 17
VI — ORGANIZAÇAO DUAL 18
Kolti e Kolre. — Imposição de nomes 19
Nomes grandes: Konduaká e Konduprí (Panti) . . 21
Iretí: Dança de TxoTxôre. Tamgaága 23
Tapklid: Festa de Alu’ti 24
VII — OS QUATRO KIYÊ 26
Kramgêd — Txwúl - mangatl - ngrére. 27
Forno de terra e bolo de carne 30
VIII — CLASSES DE IDADE 33
IX — INICIAÇÕES DOS NOVOS GUERREIROS 34
a) Pebkaág — Separação dos Pebkaág 34
Perfuração das orelhas e do lábio 36
Refeições em comum. Visita dos instrutores.. 37
Primeiros enfeites dos Pebkaág 38
Jogo das batatas 39
Confecção das varinhas de fuso 40
Segundos enfeites dos Pebkaág 41
Festa final 42
b) Peb-kumrédy 46
Separação dos Pemb 47
Reclusão 48
Cerimonia do Peny-tág 50
Fim da reclusão. Os cacetes dos Pemb .... 54
Festa final 56
XII
BoL. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
X — A FAMÍLIA
A parentela. Proibição de casamento 58
Levirato e Sororato 59
Relações pre-maritais 60
Noivado. Casamento 62
Divórcio e adultério 65
Luto pelo marido ausente. Vida doméstica . . 68
Divisão do trabalho
Roça. Os guardas da roça. Prece ao sol 69
Caça 71
Pesca e coleta 73
Animais domésticos. Cozinha 74
Enfeites. Danças 76
Gravidez e parto 77
Tabus 78
Parto 79
Laço mistico entre pais e filhos. Megandé-txá 80
Pais de criação 83
Avós e netos. Meninos e meninas. Brinquedos 84
XI — ESPORTES E JOGOS
Corridas de tóras 86
Corridas de pernas de pau. Máscaras 88
XII — GUERRA 91
Motivos. Tribos inimigas 91
Antropofagia. Sacrifício do prisioneiro de
guerra 92
XIII — DIREITO 98
Herança. Ferimentos graves e morte. Feitiço 99
XIV — RELIGIÃO 102
Mito do sol e da lua. O sol como deus supre-
mo. Preces. Dança de Tu’cre 103
Visões e sonhos 104
A lua. Cerimónias de Txwúl-kro e Lcl-ére 106
Eclipses. Bólides. Estrelas. Crenças em almas 107
Magia e pajés. O pajé Ka’tám 108
Akólo-Txwúdn. Teoria das causas de doenças 109
Feitiço 112
Morto e enterro 114
Preparo do cadáver. A sepultura. O enterro se-
cundário. Enterro de animais 116
Nimuendajú — Os Apinayé
XIII
APÊNDICE I: Mitos e Lendas 117
1 — 0 fogo 117
2 — Sol e Lua 120
3 — Kandyê-kwei 124
4 — Vanmegaprána 126
5 — A origem da tribo Apinayé 127
6 — Kenkutã e Akréti 128
7 — O muiído subterrâneo 131
8 — Perna de lança 131
0 — Os Kupen - ndiya 132
10 — Os Kupen - dyèb 134
11 — Os Kupen - ndôgalili 135
13 — Pitxô Kamtxwú 136
14 — O dilúvio 137
15 — Bólides 138
16 — A visita ao céu 138
17 — Fogos fátuos 139
APÊNDICE II : Termos de Parentesco 141
BIBLIOGRAFIA 143
Nota sôbre Paul Le Cointe 147
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ISImUENDAJU — Os Apinayê
I. tilSTÓRICO
Os Apinayé consideram a sua tribo uma ramificação dos Timbi-
ra do Leste do Tocantins (v. Lendas e Mitos, 5) e, era particular
dos Krinkatí (Caracaty), chamados por êles Makráya, que vivem
atualmente nas cabeceiras do rio Pindaré. Se essa tradição corres-
ponde aos fatos históricos, a separação deve datar de muitos séculos,
pois, hoje, os Apinayé se distinguem tanto linguística como cultural-
mente daquêles seus parentes a Leste, aproximando-se mais aos
Kayapó Setentrionais.
O território da tribo era o pontal entre o Rio Tocantins e o Bai-
xo Araguaia, estendendo-se para o sul, mais ou menos, até 6° 30'. É
de se supor que, temporàriamente, tenham ultrapassado êsses limites,
pelo lado Noroeste.
A tradição Apinayé não informa se essa zona por éles ocupada;
teve, antes outros habitantes, exceção feita àquele povo mitológico,
os índios Morcegos (Kupen-dyêb, Lendas e Mitos, 10). Todos os Api-
nayé, porém, são unânimes cm afirmar que, em determinado lugar,
a Noroeste da aldeia de Gato Prêto, encontram-se muitos fragmen-
tos de louça, alguns com ornamentos plásticos, à superfície da ter-
ra. prova de que, pelo menos de passagem, èste lugar foi povoado por
índios de outra cultura. Ocasionalmente, os atuais Apinayé se utili-
zam dèsses fragmentos nara a fabricação das suas rodas de fuso.
Os prlmelios civilizados a alcançar essas alturas foram os je-
suítas PP. Antônio Vieira, Franclfjco Vclloso, Antônio Ribeiro e Ma-
noel Nunes, que, entre 1633 e 1658 empreenderam quatro entradas,
Tocantins acima, a fim de descerem índios para as aldeias do Pará.
Já na primeira dcs.sas viagens, passaram além da boca do Araguaia.
A entrada do P. Manoel, realizada com 450 índios das missões e 45
.soldados, no ano de 1658, foi além de 6° de latitude sul, portanto, pre-
clsamente, até o território dos Apinayé. Porém, nenhuma das indi-
cações, extremamente escassas, sôbre os índios encontrados — sobre-
tudo Tuplnambá e depois Inheyguara e Poquiguara (ou Potiguara?)
— faz supor que tivesse encontrado os Apinayé ou alguma tribo apa-
rentada. (1)
Em 1673 o bandeirante paulista Pascoal Pais de Araújo desceu
com a sua tropa pelo Tocantins até mais ou menos 4° de latitude Sul,
1 — Barrou: VIda, II, 378-285; Dclendorf; Chronlc», 110-113; Momes; História, Li-
vro VI, Capa. II/IV.
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Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
onde escravisou a tribo dos Guarajú, habitante da margem di-
reita. (2)
Em 1719 o Rio Araguaia foi navegado por Domingos Pinto de
Gaya que depois subiu também o Tocantins, segundo diz, até 12° 22’,
portanto, quase até a confluência com o Paraná. Que as suas deter-
minações de latitude não merecem muita fé, prova o fato de que,
já na boca do Araguaia, cometeu um erro de 39 minutos.
Em 1721 o Tocantins foi navegado pelo jesuíta P. Manoel Motta.
Depois de ter descoberto os Taquanhina (Tacayuna) , visitou os Otoe-
poraz “tão estranhos e verdadeiramente novos, que tinham por asco
ver homens vestidos”. O nome lembra um pouco as denominações
para a tribo dos Apinayé derivadas de óto = canto, pontal.
Em 1732 o Tocantins foi navegado em todo o seu curso pela pri-
meira vez, por três fugitivos das minas de Goiás.
Em 1746 outra bandeira paulista esteve caçando escravos nêsse
rio, tendo o seu chefe descido até o Pará.
Em 1774 deu-se o primeiro encontro històricamente comprovado
entre os Apinayé e os civilizados, quando António Luiz Tavares em-
preendeu a sua viagem de Goiás ao Pará, Tocantins abaixo; na Ca-
choeira das Três Barras viu-se rodeado de grande número de índios,
“e além dos de cerco tantos eram os que se vião pela parte de baixo na
praya da esquerda que parecião regimentos formados, andando actu-
almente três canoas a passar Índios para engrossarem o cerco. Neste
tempo tivemos algumas investidas de flechas, disparando porém al-
guns tiros, rebatemos o furor dos gentios que se puzeram mais dis-
tantes”. No dia seguinte seguiram-no em duas canóas e com um for-
te contingente por terra, disparando várias vezes, suas flechas con-
tra êle, sem resultado. Em frente à boca de Lageado, António Luiz
Tavares viu um porto com uma canóa, e na ponta setentrional da
Ilha da Serra Quebrada, encontrou índios atravessando numa ca-
noa. (3)
A colonização só muito vagarosamente avançou pelo Tocantins
acima. Em Pederneiras (3° 30’), na margem esquerda, existiu um
grande mocambo de escravos fugidos. Em 1779 foi êle transformado
em colónia.
Os Apinayé aparecem pela primeira vez sob êsse nome, em fins
do século XVIII. Faziam então correrias, Tocantins abaixo, para
apoderarem-se de ferramentas. Em consequência dessas hostilidades
fundou-se, em 1780, um pouco acima de Pederneiras, o pôsto mili-
tar de Alcobaça com seis peças de artilharia, e, depois, em 1791, um
outro pôsto junto à primeira cachoeira, no Arapary (4). Pedernei-
ras, devido às incursões dos Índios, foi abandonada.
A tradição dos Apinayé fala também de expedições guerreiras
contra os Kupen-rob (os Cupelôbos dos neobrasllelros) , tribo habltan-
2 — Frltz: Mappa; Berrrdo: Annaci., 11. 212-218.
3 — LUboit; llotrlro, 890.
4 — Vlunna: Korllflc»ví>»». 295.
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Nimuendajú — Os Apinayé
te no Lago Vermelho e mais abaixo. Do relatório de Ayres Carneiro
resulta que tais expedições ainda continuavam (1850). (5)
Em 1793 dá-nos Souza Vllla Real (6) as primeiras notícias sôbre
os “Pinagé” ou “Pinaré”. Diz êle que eram muito mais fortes e la-
boriosos que os Karayá, com os quais conviveu. Dedlcavam-se à la-
voura e tinham grandes plantações de mandioca, razão porque Villa
Real aconselhou que se flzeése as pazes com essa tribo que podia
ser de grande utilidade para a navegação do Rio. Na descida pelo
Araguaya, os Karayá que acompanhavam Villa Real roubaram tôdas
as ubás (nove) dos Apinayé encontradas na beira, como também
uma mulher e duas crianças pequenas. Observação interessante de
Vllla Real é a de que, naquela época, os Apinayé viviam em ambas
as margens do Araguaia, se bem que suas habitações não devem
ter sido localizadas imediatamente na praia, pois não se menciona
na descida. Ao contrário, na descrição da subida, diz èxpressamen-
te; "... logo adeante (no segundo dia de viagem depois da bocca do
Araguaya) da parte do occidente está outra aldeia dos mesmos
(Plnarés == Apinayé) onde os Carajás chegaram, dançaram e nego-
ciaram com os ditos Pinarés”. Também H. Coudreau (7) foi infor-
mado de que os Apinayé antlgamente apareciam num ribeirão, aflu-
ente da margem esquerda do Araguaia, logo acima da boca dêste.
Pelas notícias acima citadas não pode persistir nenhuma dúvi-
da de que os Apinayé, na época do seu primeiro aparecimento, pos-
suíam embarcações próprias, estando familiarizados com a navega-
ção fluvial. Castelnau (8), em 1844, também menciona “plusieurs pl-
rogues” no porto dos Apinayé, no Rio Araguaia. As embarcações dos
Apinayé eram do tipo “ubá”, Isto é, como as dos atuais Karayá e Gua-
jajara, feitas excluslvamente por excavação do tronco, sem abrir as
paredes à fôrça de calor e alavancas, como acontece nas do tipo
“casco", do Pará, etc.. Que os próprios Apinayé as fabricavam, não
as recebendo, por Intercâmbio com os seus vizinhos, o atesta expres-
samente, Souza e Saint Adolphe (9) . Os Apinayé eram a única tribo
Tlmbira a fabricar tais embarcações. Dos seus parentes próximos,
só as possuem as hordas ocidentais dos Kayapó do Norte, no Alto
Xlngú (10) e a Leste do Paranatlnga São Manoel (observação do
autor). Os Suyá (11) tinham canóas de casca de pau, como as tribos
dos formadores do Xlngú. Provavelmente os Apinayé aprenderam a
arte de navegação dos Xambloá-Karayá. A nova aquisição, porém,
não pôde transmudar de maneira nenhuma o seu caráter de povo
campestre típico e, quando mais tarde, pela colonização dos grandes
rios, os Apinayé recuaram para o interior, abandonando outra vez
a navegação, não sofreram com isto, visivelmente, qualquer abalo
econômico.
5 — Carneiro, 43.
« — Vllli Ucrl, viagem, 403, 409. 413 , 420, 428.
7 — Coudreau, (bl. 82.
8 — Castelnau. Illstolre, II. 485.
0 — Souza. MeniorU, 495; Saint Adolphe, Dlcclonarlo, Aplnagís.
10 — Stelnen: a. 233.
11 — Ibld., 200 BS.
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Atualmente não possuem mais nenhuma embarcação. Raras ve-
zes vão ao Tocantins e quase nunca ao Araguaia.
A partir de 1797 entraram os Apinayé em contato permanente
com os civilizados. Nêste ano o govêrno do Pará fundou na boca do
Araguaia o pôsto militar de São João das Duas Barras (hoje São
João do Araguaia) . Porém, ao invés de sc estabelecer uma paz per-
manente, começaram desde logo lutas sangrentas entre os Apinayé
e a guarnição do pôsto. Silva e Souza (12) relata que os Apinayé
mantiveram-se em paz, mas ao encontrarem alguns soldados da guar-
nição destruindo suas plantações, os mataram, sendo então as suas
aldeias cercadas e destruídas com auxílio de peças de artilharia. A
êsse respeito diz Ribeiro (13): “Já em outro tempo os Carajás e
Apinagés estiveram mais pacíficos, até iam trocar os seus gêneros
com os da capital do Pará; violências, porém, que cruel e injusta -
mente lhes foram feitas nas suas passagens pelas guarnições dos
prezídios de São João das Duas Barras e de Santa Maria de Araguaya
(no território dos primeiros), os tornaram irreconciliáveis inimigos
nossos..." Pohl (14) adianta ainda que mataram quase tôda a guar-
nição do Pôsto pelo estratagema de induzir suas mulheres a fazerem
aparentemente as vontades dos inimigos afim de prendê-los, até que
acorressem os homens para matá-los a golpes de cacête.
Nêste melo tempo, a colonização que, partindo de Caxias no Ma-
ranhão, vinha avançando rumo Oeste, alcançava também o Tocan-
tins. Em 1816 foi fundado no próprio território da tribo, por um tal
Antônio Moreira, o primeiro povoado, com a denominação de Santo
Antônio, logo abaixo da Cachoeira das Três Barras. Moravam nésse
lugar, em 1824 cento e vinte, ou segundo outra indicação, cento e cin-
coenta Apinayé junto com 81 civilizados. Êsse povoado não teve longa
existência, sendo incorporado, em 1831, ao de São Pedro de Alcân-
tara, situado mais acima, na margem oriental, tomando ambos o no-
me de Carollna.
Em 1817 a tribo foi assolada por uma epidemia de varíola, pro-
veniente de Caxias e espalhada pelos sertões afora pelos “Caplecran”
(Ramkôkamekra, Canelas). (15)
Em 1818 os Apinayé fizeram as pazes com Plácido de Carvalho,
sócio de Pinto de Magalhães, fundador de São Pedro de Alcântara.
Viviam então em três aldeias (Silva e Souza fala de cinco, em 1812),
eram tidos como pacíficos e industriosos e auxiliavam os viajantes
na pa.ssagem das cachoeiras (16). Contudo, ao que parece, nos anos
seguintes, estiveram mais cm contato com Antônio Moreira, tornan-
do-se então pômo de discórdia entre êste e o seu rival, José Maria
Belém que recebia auxilio do Pará, enquanto Moreira contava com o
apôlo do govêrno de Goiás, a quem tinha pedido socorro, porque Be-
lém o qulzcra atacar com um grupo Apinayé em 1824. Fracassada
12 — Souzn, Mfmórlp, 495.
13 — nibclro: Rotrlro, 34.
14 — Pohl: np|«c. II, 168.
15 — Ribeiro: Mrniórln, f 60; Roteiro, 45.
18 — Pohl; Relse, II, 189-190.
NlMtTENDAJÚ — Os ApINAYÉ
essa tentativa, os Apinayé se retiraram para o Araguaia, mas depois
de poucos mêses tornaram a fazer as pazes com Moreira. As intrigas
dos dois mandões só foram sustadas era 1827 (17).
Entrementes, tinha-se dado a declaração da Independência, em
1822, mas no território do Maranhão forças portuguésas consegui-
ram manter-se até 1823. No Tocantins encontrava-se com 76 homens
o major Francisco de Paüía Ribeiro, já tantas vezes citado como
fonte de informações sôbre os Timbíra. Contra êles se dirigiram 470
brasileiros de Pastos Bons, sob o comando de José Dias de Mattos, a
quem os Apinayé forneceram uma fõrça auxiliar de 250 guerreiros.
Na Ilha da Botica, no Tocantins, a pequena fõrça portuguêsa foi
obrigada a capitular, depois de luta renhida, sendo Paula Ribeiro
assassinado durante o transporte de volta. (18)
Apesar da guerra e da varíola, os Apinayé formavam naquela
época uma das tribos mais numerosas da região. Cunha Mattos (19)
enumera as 'quatro aldeias seguintes: Bom Jardim, légua e meia de
Carolina (Santo António das Três Barras), com 1.000 habitantes;
Santo Antônio, cinco léguas ao norte daquela, com 1.300 habitantes;
outra Santo Antônio, com 500 e a aldeia do Araguaia com 1.400 pes-
sóas, o o.ue dá um total de 4.200.
Depois da mencionada transferência do povoado junto das Três
Barras para a atual Carolina, formou-se, pouco acima, outro que se
tornou o ponto principal do intercâmbio com os Apinayé, desde aque-
la época até hoje; Bóa Vista. Em 1840 chegou ali um missionário.
Frei Francisco do Monte São Vito. Durante os primeiros anos, pelo
menos, êle deve ter-se ocupado, realmente, um pouco, com os Api-
nayé, pois, Saint Adolphe (20) relata que estabeleceu, em 1843, numa
de suas aldeias, a Missão Pacífica, estendendo-se a sua influência
sôbre outras três aldeias.
Em 1844, sòmente um ano depois, portanto, encontrou Castelnau
(21) os Apinayé na Cachoeira de Santo Antônio, visitando depois de
Bóa Vista, em companhia do missionário, as duas aldeias mais pró-
ximas. Em uma delas passou uma noite, assistindo diversas ceri-
mónias interessantes. Castelnau descreve o rigoroso regime do missio-
nário entre a população civilizada de Bôa Vista, mas de uma missão
de índios, ao que parece, nada viu nem ouviu. Se bem que me pare-
ça exagerado o juizo aniquilador de Carlota Carvalho (22) sôbre
os efeitos maléficos da atuação daquele missionário entre os índios,
por superficial que ela tenha sido, nada ví. O pouco que julgam saber
do cristianismo, o devem, os índios, ao contáto com os moradores
neobrasllelros vizinhos e não á missão.
n — Almrlda: A Carolln», 13-19; Mattos: Roteiro, 105.
18 — Mnttos; Roteiro, 107.
19 — Mnttos: ChorograiihU. 350.
20 — Snlnt Adolphe, lilrrlonnrlo, "Pacifica .
21 — Castelnau: lllstolre, II. 17, 26, 35; V, 273.
22 — Carvalho: O SertSo, 55.
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Em 1859 uma das trôs aldeias então existentes, íoi vLsitada por
Vicente Ferreira Gomes (23), que calculou o número total de índios
em 1.800 a 2.000. Em 35 anos, tinham, portanto, diminuído para
menos da metade.
H. Coudreau (24) em 1897, ouviu de três aldeias com um número
total de 400 habitantes, por conseguinte, menos de um décimo da-
quilo que Cunha Mattos indicou 73 anos antes.
Em 1899 a tribo foi visitada por Lulgi Buscalionl, e em 1926 H.
Snethlage passou alguns dias na aldeia de Gato Prêto, estimando
em 150 o número total de índios. (25)
Alguns mêses mais tarde, veio ao Pará o capitão da aldeia Ba-
caba, José Dias Matúk, com três companheiros. Foi dêles que Car-
los Estevão obteve o material para o seu trabalho “Os Apinagé do
Alto Tocantins”. Ainda no mesmo ano tentei alcançar a tribo subindo
o Tocantins, mas tive de voltar das cachoeiras, sem tê-la visto. Em
1928 atravessei o Estado do Maranhão ,e, chegando ao Tocantins, de-
morei-me dois mêses entre os Apinayé, visitando as suas quatro al-
deiazinhas e fazendo bôa amizade com todos. Também calculei o seu
número total em 150. Era manifesta a decadência econômica e social
da tribo, mas com a minha chegada, as condições melhoraram um
pouco. Em 1930 passei uma semana entre êles, e em 1931, dois mêses.
Quando os visitei novamente em 1932, demorando-me seis semanas,
notei uma recaída moral e material em consequência de uma epide-
mia de febres que deixava poucas esperanças para o futuro. Foi
porísso que, voltando em 1937, pude constatar com enorme satisfa-
ção que os Apinayé, apesar de uma epidemia de varíola no ano an-
terior, estavam criando novo alento, o seu número tinha até aumen-
tado para 160 indivíduos. Nêsse ano demorei-me com êles dois mêses.
23 — Domes: ItInerirU), Cap. 2.
24 — Coudreau, (b), 209.
35 — Buscalionl; Una rscurilone, cap. 5.
— SnetUlsge, (a), 481 — (b), 117, 142.
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II. LÍNGUA
A língua dos Apinayé forma um dialeto próprio da língua Tim-
bíra, nitidamente distinto do grupo de dialetos dos Timbíra de Leste
do Tocantins e aproximando-se muito da língua dos Kayapó Senten-
trionais. Fonèticamente as relações dos três dialetos entre si caracte-
rizam-se melhor pela tranhformação dos explosivos t, tx, p e k dos
Timbíras Orientais no Apinayé e Kayapó setentrional:
Ramkôka7nekra
Apinayé
Kayapó Set
Olho
to
ndo
no
Sol
put
mbud
mud
Agua
ko
ngo
no
Morcego
Txêp
dyéb
nyêb
Sôbre a língua dos Apinayé existem as seguintes publicações:
1. — 1844 — Do comandante de São João das Duas Barras, dado
a Castelnau (Histoire, V., 273). Consta de 38 palavras, a maioria pès-
simamente reproduzidas e em parte erradas.
2. — 1844 — Francis de Castelnau, op. cit., 177 palavras anota-
das pelo próprio autor.
3. — Oscar Leal: Viagem a um paíz de selvagens, Lisboa, 1895,
p. 125-129. Vocabulário plagiado de Castelnau com mudança parcial
da ortografia francesa para portuguesa.
4. _ 1911 — Theodoro Sampaio: “Os Kraôs do Rio Preto no Es-
tado da Bahia”. Rev. Inst. Hist. Geogr. Brazileiro. LXXV, Rio, 1912.
Vocabulário levantado na capital da Bahia com três Apinayé que se
fizeram passar por Krahô. E’ portanto puro Apinayé e não Krahô. São
206 palavras e pequenas frases.
5 . 1926 H. Snethlage: “Unter nordostbrasillanischen India-
nern”. Zcitschr. /. Ethnologic. Berlin. 1930. p. 187 ss. — 337 palavras
e pequenas frases.
6. 1926 — Carlos Estevão de Oliveira: "Os Apinagé do Alto
Tocantins”. Boi. do Museu Nacional. VI. n. 2. Rio, 1930.
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Iir. NOME
o nome da tribo foi citado pela primeira vez por Souza Vllla
Real, em 1793, na íorma de Pinarés e Pinagés. Mais tarde prevalece
a forma Apinagé. Fr. Rafael Tuggla a designa como Ouplnagees.
Hoje, pelo menos, a tribo denomina a si própria Aplnayé. Não tenho
nenhuma explicação para êsse nome. O sufixo pessoal yê dos dialetos
dos Timbira Orientais sôa no próprio Apinayé, — ya — .O nome foi-
lhes dado, provavelmente por aqueles e não pode ser autodenomina-
ção primitiva da tribo.
Afora o nome tribal Aplnayé existem outros, tanto na própria
tribo como entre os Timbira Orientais, derivados da palavra que
significa “canto” ou “pontal"; Aplnayé; ôd, ôdo, Timbira Orien-
tal: hôt, hôto, — referindo-se à sede no pontal formado pelos rios
Tocantins e Araguaia. Os próprios Apinayé usam a forma Oti (ôd-ti
= pontal grande) ; os outros Tlmbiras Hôtl, Ahôtlyê e semelhantes.
Na literatura, encontram-se êsses nomes como Afotigés, Uhitische.
Utonsché, Otogé e Aogé. (26)
Os Kayapó Setentrionais, referindo-se aos Apinayé, usam o ter-
mo Ken-tug = “pedra preta" ou “serra negra”.
26 — Pohl; Rriie 11, 162, 191;
Marquea: Apontamrntoi, Carolina.
Mattos; Choroirsphla, 332, 3S9. — Roteiro, 21, 7S.
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IV. A TERRA
o pais dos Apinayé, ligeiramente colinoso, é coberto de campos
com numerosas árvores e arbustos, sem formar propriamente “cer-
rados”. Os cursos d’água são acompanhados de matas ciliares. No
Tocantins a faixa de mata alcança em alguns lugares a largura de
cinco quilômetros, contados da beira do rio. Em outros pontos o cam-
po começa imediatamente na margem. Esta mata è ainda legitima
hylaea amazônica com grande número de palmeiras babassú ('Or-
'blgnia speciosa), tão Importantes para os indios pelas suas amên-
doas oleosas e pelas suas folhas de aplicações variadas. A região è
rica em riachos, mas pobre em lagos e pântanos.
Tanto quanto alcança a sua tradição, os Apinayé nunca tiveram
pretenções sôbre as terras ao Sul da bacia do Ribeirão da
Mombuca, que desemboca no Tocantins três quilômetros acima de
Bôa Vista. No rio Araguaia, a sua divisa meridional era até um pou-
co mais ao Norte, na Cachoeira dos Martírios, de maneira que tôda
bacia do Ribeirão das Piranhas lhes pertencia.
O divisor de águas entre o Tocantins e o Araguaia, no pais dos
Apinayé, não é nenhuma serra, como indicam os mapas, mas um
alto apenas perceptível. Mesmo a “Serra” dos Gaviões, indicada no
mapa de Castelnau, não passa de um cordão de colinas insignifi-
cantes.
Deste seu antigo território, hoje quase nada lhes resta. Em tôda
a região acham-se moradores neo-brasileiros, se bem que muito es-
palhados. Alguns se fixaram na vizinhança das aldeias dos indios.
Até há uns vinte anos passados, os Apinayé não se lembrariam de ver
nisto um perigo para o futuro da tribo. Devido à sua índole afável,
tomavam como verdadeiras, tôdas as promessas de solidariedade dos
intrusos e quando abriram os olhos já era tarde; excetuadas duas
pequenas áreas em torno das aldeias Bacaba e Gato Prêto, tôda a
terra da tribo já tinha seus donos “legais”, e também aquele pouco
que ainda lhes resta corre o perigo de ser “legalizado” por qualquer
fazendeiro suílclentemente poderoso e descarado.
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V. ALDEIAS
Quando, em 1928, visitei os Aplnayé pela primeira vez, tinham
êles quatro aldeias: Mariazinha, Cocai, Gato Prèto e Bacaba.
Marlazinha é a aldeia mais próxima ao Tocantins, pois acha-
se apenas cinco quilómetros a Oeste da Cachoeira das Três Barras.
Naquêle ano encontrei ai duas choças, sendo uma deshabitada e a ou-
tra ocupada por 14 pessôas, cujo número desceu hoje para cinco ou
seis. Não mais possuem terras próprias. O vizinho neobrasileiro mais
próximo, habita a 400 metros da aldeia.
Mariazinha, corresponde àquela aldeia onde Castelnau passou
uma noite interessantíssima e à aldeia de Bom Jardim que, em 1824,
contava 1.000 habitantes.
Cocai. Está situada a pouco mais da metade do caminho de Bôa
Vista a São Vicente, mas já em águas do Araguaia. Em 1928, compu-
nha-se de três choças com 25 habitantes. Há uns 20 e tantos anos
atrás viviam entre êles alguns Kayapó da aldeia do Arraias, a Oeste
de Conceição do Araguaia, casados com mulheres Aplnayés. Hoje só
resta um dêles. Alguns dos habitantes são visivelmente mestiços. O
seu aspecto é decadente e pouco sadio. Os costumes antigos desapa-
ceram. Tódas as noites havia, bailes com música de violão, arranja-
dos pelos vizinhos neobrasllelros da aldeia; da mesma forma, os ha-
bitantes desta não faltavam a nenhuma festa, “cristã” da vizinhança,
prlncipalmente para não perderem a ocasião de comer à farta, pois,
afóra os seus trajes civilizados, nada possuem.
Desde então, essa aldeia peideu por morte e emigração, mais ou
menos a metade dos seus habitantes. Hoje não possue mais um pal-
mo de terra e se acha apertada pelos vizinhos civilizados por todos
os lados. As três choças ainda existiam em 1937, raramente, porem,
se encontrava algum morador em casa: viviam quase constantemente
"encostados” aos seus vizinhos neobrasllelros.
É e.sta, hoje, a aldeia do Araguaia que, em 1824, tinha 1.400 ha-
bitantes I
Gato Prêto, sòbre a margem direita do Ribeirão da Botica, con-
tava no tempo da minha primeira visita, em 1928, sete casas com 61
habitantes. Dois casais tinham emigrado da aldeia para a fábrica
de cachaça de Carreira de Pedras, algumas léguas mais ao Norte.
Mais tarde, Infellzmente, outros lhes .seguiram o exemplo. Em 1935,
porém, todos os que ainda estavam vivos voltaram para Gato Prêto.
Pela situação e número do sseus habitantes, que subiu a 80, em 1937,
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esta aldeia podia estar em condições muito melhores, se o seu chefe,
Pebkób (Pedro Corredor) quizesse — e pudesse — refreiar o alcoolis-
mo. Infelizmente, é por demais viciado, tornando-se um rixador bru-
tal quando intoxicado. A consequência é que alguns índios dessa al-
deia se mudaram para Bacaba e, de mais a mais, se estabeleceu o cos-
tume de cada um morar p^rmanentemente em sua roça, muitas
vêzes distante da aldeia, em vez de ficarem todos reunidos, segundo
o costume antigo. Essa aldeia ainda possue algumas poucas terras.
Em 1923, Gato Prêto foi saqueada pelos Timbíra-Krahô, que em
número de 400, habitam quatro aldeias nos formadores do Rio Ma-
noel Alves Pequeno, a Leste do Tocantins. Êste fato deu-se de ma-
neira um pouco diferente daquela relatada por H. Snethlage. (27)
Sobreveiu, em pouco tempo, na aldeia, um numero de óbitos que os
índios acreditaram, só se explicaria por efeito de feitiço. Como sem-
pre a suspeita recaiu sôbre índios estranhos agregados à aldeia.
Então, 0 chefe Pebkób mandou matar primeiro dois dos Kayapó, mas
outros óbitos se seguiram. De repente começaram a desconfiar de
um índio de nome Chico, da tribo Krahô. Pebkób não hesitou em
ordenar também a sua execução. O Krahô, porém, desconfiou e fu-
giu para as aldeias da sua tribo, açulando-a contra os Apinayé. Logo
uma turma de 40 guerreiros Krahô, armados de espingardas e cacê-
tes, marchou contra a aldeia de Gato Préto. Os Apinayé de Bacaba
com os quais Pebkób se tinha incompatibilizado por atos de violên-
cia, não se acharam na obrigação de socorrê-lo. Assim, teve de fugir
com os seus, de sobressalto, para u’a mata pantanosa, longe da al-
deia, onde todos ficaram escondidos.
Os Krahô saquearam a aldeia, mataram os animais domésticos
que tinham ficado, e destruiram as plantações. Depois tentaram, sem
violência, roubar também a aldeia de Bacaba, pois, até hoje, se jul-
gam com o direito de saquear as outras tribos, desde que, no começo
do século passado, receberam do fundador de São Pedro de Alcântara,
a bem dizer, o monopólio para isto e para as caçadas de escravos.
Porém, 0 chefe de Bacaba, José Dias Matúk, apesar do número di-
minuto dos seus guerreiros, os enfrentou com tanta decisão e cal-
ma, que, os Krahô, se retiraram sem nada fazer.
Decorridos cinco anos, mais ou menos, aquêle Chico Krahô foi
vitimado por seus próprios companheiros de tribo, sob a acusação
de ter morto gente com feitiço. Então, o chefe dos Krahô, Krapté,
mandou por meu intermédio, em 1930, uma mensagem de paz e ami-
zade aos Apinayé, pela morte de Chico Krahô tinha desaparecido
todo motivo de hostilidade; as duas tribos deviam, doravante, viver
outra vez cm bôas relações c élc convidava os Apinayé para uma vi-
sita à sua aldeia. Matúk, porém, .se mostrou pouco dl.sposto a aceitar
tal convite, e quanto a Pebkób nem se fala. Os Krahô esperaram pa-
clentemente durante sete anos. depois mela dúzia dêles fez uma
visita pacifica nos Apinayé, isto é, só ã aideia de Matúk, onde per-
27 — Snethlnge: seuunclo P. Vciierl, 497.
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suadiram oito homens e mulheres a acompanhá-los no seu retôrno>
às aldeias Krahô para pagarem assim, a visita. Dois anos depois êsses
Apinayé ainda não tinham voltado, e nãO sei qual será a sua sorte,
em vista da pronunciada tendência dos Krahô de explorar todos os
membros de outras tribos que lhes caem nas mãos.
Bacaba está situada na confluência dos Ribeirões de São José e
da Bacaba, a 18 quilômetros a Oeste de Bôa Vista. Castelnau en-
controu alí, em 1844 uma aldeia de 21 casas com 850 habitantes;
Ferreira Gomes, 15 anos depois, viu 30 a 40 choças com 600 habi-
tantes. Em 1928, o numero ainda era de 50 pessoas; em 1937 se ele-
vou novamente a 70.
Bacaba se levanta e cai com o seu chefe José Dias Matúk. Em
1927 a aldeiazinha não desapareceu por um triz, da lista dos povoa-
dos indígenas. Ano após ano o seu território la se enchendo de morado-
res neobraslleiros, que agora não mais se introduziram sob a máscara
da amizade, mas tomavam atitudes de donos das terras, iludindo
os índios de que o próprio govêrno lh’as havia vendido. Debalde Ma-
túk se queixou a quantas autoridades estavam ao seu alcance, para
pôr têrmo à avidez dos intrusos. Em 1926 encontrei-o no Pará (v. C.
Estevão; frontispício do livro) . Em 1927 resolveu fazer a longa via-
gem ao Rio para apresentar suas queixas ao Presidente da República,
úma vez que na capital de Goiás não fôra satisfeito. Em São Paulo.
Matúk adoeceu gravemente e teve de voltar, recebendo, porém, al-
gum auxilio do Serviço de Proteção aos índios. Apressadamente, des-
ceu o Araguaia rumo às terras dos Apinayé. Por pouco chegava tarde
demais. Durante a sua longa ausência a aldeia, sem chefe, decaiu rapi-
damente. Ninguém mais trabalhou, todos ficaram esperando ansiosa-
mente a volta de Matúk. Os vizinhos civilizados, interessados no es-
facelamento da aldeia, meteram na cabeça dos índios que ele havia
sido assassinado em viagem. Então o núcleo se dispersou: uns se mu-
daram para Gato Prêto, outros, em seu desespero, já se tinham pos-
to a caminho para pedir asilo entre os Krahô, quando finalmente
Matúk voltou. Imediatamente reuniu a aldeia, dando uma grande
festa à maneira cristã, em que se bebeu multa cachaça e se dançou
muito ao som do violão, afluindo de longe os moradores neobrasi-
lelros para asslstí-la, pois Matúk queria impôr-sc com tal empreen-
dimento. Das suas viagens êle trouxe a convicção — se bem que um
tanto vacilante — de que a única salvação para a sua tribo consis-
tia em macaquearem incondlclonalmentc os seus vizinhos cristãos.
Contudo, dificilmente poderia arralgar-se uma tal convicção na ca-
beça de um índio que, com profundo respeito, quase caiu de Joelhos,
quando um dia lhe apareceu em uma visão o deus solar da sua tribo,
sob forma humana. De fato, bastou a minha estada de dois meses
entre os Apinayé, em 1928, para fazer tabula raza daquela “convic-
ção", suplantando-a por uma atitude afirmativa para com a antiga
cultura tribal que eu mesmo tinha assumido desde a chegada.
Quando avistei Bacaba pela primeira vez, essa aldeia tinha um
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aspecto triste: dnco choças iralfeltas rodeavam uma praça coberta
«de mato. A vida ruidosa e movimentada que caracterizava as aldeias
•dos Timbíras havia desaparecido. Receberam-me, porém, com extre-
ma amabilidade, como a um velho conhecido por quem se cansou de
•esperar.
Apesar disso, não tive gyandes esperanças de que a melhora se-
ria duradoura. Tanto mais me alegrei quando, por ocasião de minha
segunda visita, em 1930, verifiquei iraediatamente que, na realidade,
as condições da aldeia tinham melhorado em muitos aspectos: o nú-
mero de casas havia aumentado para sete, formando outra vez um
■verdadeiro circulo de aldeia; a praça, ao centro, estava limpa, e nu-
merosas tóras de corrida provavam que o antigo esporte nacional dos
Timbíras estava novamente em voga. Matük tinha-se convencido
da Inutilidade das suas viagens, dedicando-se com todos os seus com-
panheiros à lavoura, que lhes proporcionava uma alimentação abun-
dante, Em consequência disso, cessara também a grande mortalidade
infantil, cuja causa principal estava na alimentação insuficiente
e má. Sete nascimentos figuravam durante a minha ausência, contra
um óbito. Matük, que, felizmente, nunca foi um alcoólatra, tinha
renunciado completamente à cachaça, proibindo a sua venda na
aldeia.
Abstive-me de qualquer conselho, exceto um: que fizessem as
pazes com o chefe Pebkób, de Gato Prêto. A paz se fez, e Pebkób nos
visitou com a sua gente cm Bacaba, onde há longos anos não punha
os pés.
Em 1931, festejaram, durante a minha ausência, um número de
cerimônias do estilo antigo, inteiramente por iniciativa própria; em
1937, celebraram pela primeira vez, em 15 anos, a iniciação dos novos
guerreiros. É verdadeiramente admirável a tenacidade com que êsse
miserável resto de uma tribo outróra tão numerosa, se agarra às suas
tradições, mesmo se sabendo que todas as tribos Timbíra são extre-
mamente conservadoras.
A principal dificuldade para o cumprimento dos usos antigos, en-
tre os Apinayé, está no seu número diminuto. Com os grupinhos de
Cocai e Mariazinha ninguém mais pode contar, Bacaba e Gato Prêto,
reunidas, têm uns 150 habitantes, sendo a distância em linha reta
entre as duas aldeias de mais de 20 quilômetros. Em se tratando de
questões hodiernas, o problema é sempre êste: a forma .sob a qual
um dado costume se apresenta hoje será a sua forma original, ou
teria a diminuição de número causado alguma .simplificação? Po-
rém. o fato de ter este grupo de índios conservado até hoje uma or-
ganização tão complicada como a dos quatro klyê exógamos, leva à
conclusão de que as concessões à deficiência numérica pouco modi-
ficaram 0 seu caráter original.
A maioria dos meus dados, se refere à aldeia Bacaba, onde o
melhor informante foi o chefe Matúk e, depois dêle o velho con-
selheiro Ngoklúa que, Infelizmente, morreu de varíola cm 1936 e a
filha dêste, Iretl.
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Os Apinayé nunca localizam suas aldeias na mata. mas sempre
no campo alto e aberto, a uma distância de pelo menos 500 metros
da água. As suas aguadas são sempre os ribeirões fortes e de curso
permanente. Éles não se satisfazem com pequenos córregos, como os
u.sados pelos Xerente da Aldeia Providência, ou com as cacimbas dos
seus vizinhos a leste: os Timbira Krinkati das cabeceiras do rio Pin-
daré.
No mais, o plano da aldeia é Intelramente igual àquele das tri-
bos campestres dos Timbira Orientais: as casas estão dispostas apro-
ximadamente em círculo, ficando o lado mais comprido virado para
a praça situada no centro. Um caminho largo que denominarei "rua”
corre diante das casas ao redor do circulo interior. No centro acha-se
o que chamarei de “praça”, ligada a cada casa por um caminho
radial, reto e limpo. Em Gato Prêto, todo o espaço rodeado pelas ca-
sas está limpo de qualquer vegetação, de maneira que não se dis-
tinguem praça, rua e caminhos radiais.
Buscalloni conta que as casas da aldeia por êle visitada forma-
vam um quadrado. Se a irregularidade do círculo pôde de fato cau-
sar essa impressão, de certo isto não era intencional.
A tradição dos Apinayé não dá a conhecer nas aldeias fixas, ou-
tras casas senão do tipo daquelas ainda hoje em uso: retangulares,
com cumieira e cobertas de palha de palmeira, idênticas às dos nco-
braslleiros mais pobres da região. As.slm era em 1844, ao tempo da
visita de Castelnau. As paredes nunca são de enchimento de barro,
como entre os Xerênte. São feitas com pouco esmêro, remendadas,
frequentemente, com esteiras. Se Buscalloni encontrou, na aldeia que
visitou, abrigos feitos apenas de folhas de palmeira enco.stadas con-
tra uma trave.s.sa armada horizontalmente (p. 230), foi cortamente,
por se tratar de uma aldeia nova, cujas moradas, ainda não e.stavam
tôdas prontas. Só raramente, durante caçadas demoradas, constroem
os Apinayé a choça em forma de cúpula.
Às vezes encontram-se no interior das casas paredes de esteiras
separando os espaços ocupados pelas diversas famílias, se bem que
muito Insuficlentcmente. No mais, o interior é semelhante ao das
casas dos Timbira Orientais: os mesmos jiraus baixos com esteiras
de buriti, um para cada casal; as mesmas camas de metro e meio a
dois metros de altura, cercadas de paredes de esteiras, para moças.
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Também para cachorros — e, num caso, até para uma seriema man-
sa — existem pequenos jiraus na parede. Diante, ou entre os jiraus,
estão as fogueiras. Pelo que pude observar, um único Apinayé dor-
mia numa rêde de fabricação neobrasileira. A observação de Castel-
nau de que os Apinayé teciarh rédes, deve ser um equívoco, por certo,
pois essa tribo não tem a menor idéia da arte de tecer com fios, nem
siquer na sua forma mais rudimentar. Quando muito, fazem nos
seus acampamentos no mato, rédes provisórias entrelaçando as pontas
de duas folhas de buriti, como o fazem também os Timbíra Orientais
e os Xerénte.
Os Apinayé dormem no chão sómente durante as viagens. As
mulheres limpam um lugar no campo, nivelam o terreno e nele fa-
zem as camas de folhas de palmeira, justapostas. Entre duas destas
camas fazem sempre uma fogueira, a semelhança dos acampamentos,
volantes dos Kayapó Setentrionais.
A lenda dos índios Morcêgos (Kupen-dyêb, v. Mitos e Lendas, 10)
menciona expressamente, que para a guerra de extermínio contra
aquêle inimigo, se reuniram tôdas as quatro aldeias, dos Apinayé. A
guerra, portanto, deve ter sido considerada antlgamente assunto per-
tinente a tôda a tribo. Hoje, porém, não conheço motivo algum que
possa levar as diversas aldeias a uma ação conjunta. Isto ficou de-
monstrado pela invasão dos Krahô em 1923, acima relatada. Em con-
sequência da restauração dos usos antigos, desde 1931, os Apinayé
conceberam o plano de festejar outra vez a iniciação dos guerreiros
novos. Reconheceram também a necessidade que tinham as aldeias
de Bacaba e Gato Préto de se reunirem para êsse fim. Mas assim
que cu virava as costas, a antiga aversão de Matúk e sua gente con-
tra os modos de Pebkób, de Gato Préto, ganhava vulto, para o que, êste
último, dava sobejos motivos, pelas suas constantes violências cometi-
das durante a embriaguêz. Finalmente, ein 1937. celebraram-se as ini-
ciações, mas a ação conjunta das duas aldeias não deixou de ser de-
ficiente.
Por motivos que de.sconheço, existe também uma certa aversão
entre as habitantes de Bacaba e os de Marlazinha, enquanto que
éstes últimos se dão bem com os de Gato Préto. Os habitantes de
Cocai, por sua vez, entretinham melhores relações com os de Baca-
ba do que com os de Gato Préto ou Marlazinha.
A únidadc política dos Apinayé é, portanto, pelo menos hoje, a
comunidade da aldeia. Como entre os Xerénte, a terra pertence a ela
e não à tribo, à metade (divisão dual da tribo) , ou ã família. Fa-
mílias c pessoas avulsas são consideradas como pertencentes à co-
munidade onde possuem as suas plantações. Somente enquanto fór
aproveitável a terra cultivada, o direito sobre cia pertence ao culti-
vador ou á família cultivadora. Existe plena liberdade de se mudar
de uma aldeia, liberdade de que a gente moça e solteira faz uso
largamente. Mus a noção de pertencer a determinada comunidade
acha-se multo mais fortemente desenvolvida entre os Apinayé do
que entre os Xerénte, e a gente nova, vagando de aldeia cm aldeia,
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as mais das vezes volta para a comunidade à qual pertence, quandc
alcança Idade mais madura,
Duas personalidades tém um papel saliente em cada aldeia dos;
Apinayé que ainda conserva a organização antiga: o chefe (pai, pai-
ti) e 0 conselheiro (kapêl-txwúdn ^ “orador”) . Um chefe que go-
vema.sse tôda a tribo, parece nunca ter existido, pois Villa Real enu-
mera em 1793 três chefes <28), Pinto de Magalhães (29) era 1813,
dezesseis “chefes de guerra” dos Apinayé, pelos seus nomes, mas
nenhum conheceu um chefe supremo.
O chefe da comunidade é sempre um membro da metade Kol-ti.
Assim já o determinou o deus .solar (Mbud-tí) quando, juntamente
com o deus lunar (Mbuduvri-re) levantou a primeira aldeia (v. Mi-
tos e Lendas, 2,1).
Como sucessor do chefe conta-se em primeiro lugar o filho
de sua irmã, mas essa succ.ssão pode ser modificada em favor de
pessôas mais habilitadas, se assim o exigir o bem estar da comu-
nidade. Como requisito principal, é preciso que o candidato tenha
demonstrado Interêsse pela sorte da comunidade. “Pai-ti i-ame wa-
pombú” =< o chefe nos olha, dizem éles. O cargo de chefe é vitalício.
Depois das dificuldades que Pebkób, de Gato Prèto, teve com os
Krahô e com os seus próprios companheiros de tribo, as autoridades
locais de Bõa Vista houveram por bem, substituí-lo por outro ho-
mem mais novo, provàvelmentc aquéie a quem .se refere Snethlage.
Mas apesar de ser moralmente muito superior a Pebkób, nunca pôde
exercer o cargo para o qual foi nomeado pelas autoridades: o único
chefe de Gato Prèto é e será até a morte, Pebkób, apesar de todos os
seus defeitos.
Sendo os Apinayé, ao contrário dos Xerénte, um povo muito
acomodado e honesto, o cargo de chefe de comunidade 6 relativa-
mente leve, e mais leve ainda o tomavam os seus representantes, irelo
menos até a uns tempos atrás, por considerarem desnece.ssário e des-
elegante qualquer atitude cm defesa das .suas terras contra os In-
trusos, assunto que hoje .se toma o seu principal cuidado.
O negócio interno de maior responsabilidade que cabe ao chefe
decidir foi sempre a execução de feiticeiros matadores. Porém, essa
execução depende sempre do consentimento de pelo menos uma gran-
de maioria dos habitantes da aldeia. O chefe não goza de nenhuma
prerrogativa e trabalha para o seu sustento como qualquer outro
indlo. Talvez, que, na distribuição cerimoniai de mantimentos se lhe
dô um pouco mais que aos comuns.
Antlgamente o chefe era secundado por um conselho dos velhos
da aldeia, cspeclalmente no que dissesse respeito a festa e cerimonial.
A gripe de 1918 acabou com és.sc ".senado”.
Uma instituição que os Apinayé emprestaram, provavelmente,
dos Tlmblra Orientais é a dos chefes honorários. É tida como uma
garantia de paz entre duas tribos. Se a embaixada de uma tribo cs-
38 — VlAtnn, 432
29 — Almeida; CatoMna, 59 .
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tranha, especialmente depois de hostilidades anteriores, visita uma
aldeia, os habitantes desta escolhem entre os visitantes um homem
novo, — geralmente um sobrinho ou filho do chefe, — nomeando-o
solenemente na praça, seu chefe honorário. Caso venha um dia a
retribuir a visita, o costume^ exige que a tribo do chefe honorário,
distinga por maneira igual um dos visitantes. Assim, aconteceu, que
os Apinayé de Bacaba fizeram seu chefe honorário, entre os guer-
reiros Krahò, que foram contra a aldeia de Gato Prêto, ao filho do
chefe Kratpê. Quando, em 1930, Kratpê lhes mandou por meu inter-
médio a mencionada mensagem de paz e amizade, lembrou expressa-
mente êste fato. O chefe honorário é uma espécie de cônsul da tribo
que o elegeu junto à tribo a que pertence. Espera-se dèle que, no
caso de surgir qualquer desentendimento entre membros das duas
tribos, interceda em favor dos que o elegeram.
O conselheiro Apinayé é uma figura tôda particular à essa tribo.
A sua função consi.ste em exortar os habitantes da aldeia ao cum-
primento da antiga tradição e ordem, e em geral, dos bons costumes
antigos. Para isto torna-se necessário que êle próprio conheça bem
as tradições tribais e que possua algum talento oratório. A escolha
dêsse conselheiro não depende nem de metade nem de familia. Quan-
do acontece passar o cargo do pai para o filho, é simplesmente por-
que, êste último, pelo exemplo constante do seu genitor, desenvolveu
as qualidades necessárias desde pequeno. A escolha era feita ejii
.segredo pelo chefe e o “senado”. Sem comunicação alguma ao eleito,
prepara-se um bolo de carne que à noite é levado à sua casa, onde
SC chora a morte do seu antecessor. Na manhã seguinte, o novo
eleito fala, então, pela primeira vez em público, na praça.
Quase diàriamente, de manhã cedo, podia-se vêr em Bacaba, o
velho conselheiro Ngôklua andar com passos largos de cima para
baixo, pela praça, explicando, em voz alto e incitante, aos moradores
da aldeia, o que deviam fazer. Era êle quem fiscalizava o andamento
de todo o cerimonial, em que, as mais das vêzes, tinha papel sali-
ente. O seu cargo era tido em alta conta e por ocasião da distribui-
ção da comida, durante as festas, êle recebia, no mínimo, tanto
quanto o chefe. Êste mesmo cuidava para que o velho conselheiro
recebesse bastante e em primeiro lugar. Infellzmente Ngôklua morreu
em 1936, vitimado pela varíola. Não teve mais sucessor.
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VI. ORGANIZAÇÃO DUAL
Os Aplnayé de ambos os sexos são divididos em metades men-ga-
txa matrilineais e matrilocals, que, antigamente, . tinham sua locali-
zação em cada aldeia: a metade que habitava o lado setentrional
do círculo de casas tinha o nome de Kol-ti ou Kolo-ti = Sapucaya
ÍLecythls ollaria), a suplementar se chama Kol-re ou Kólo-re = Cas-
tanha do Pará (Bcrtholletia excelsa) .
O primeiro destes nomes figura na literatura do começo do século
XIX na forma de Corti ou Corlty como nome de uma tribo que ha-
bitava entre o Tocantins e o Araguaia. (30) A tradição dos Ramkd-
kamekra-Canelas só refere que os Koltl eram índios que moravam
muito longe, pelo lado do poente, e que eram notáveis pela sua vo-
racidade. Provavelmente o nome refere-se aos Aplnayé que tiveram
a mesma sorte dos Kaingang do Sul do Brasil, que também durante
longos anos só eram conhecidos pelo nome de uma suas metades:
Kamé. Existe, porém, também uma sub-tribo dos Kayapó Setentrio-
nais com o mesmo nome, ou na sua própria pronúncia, Goro-ti, ou
com 0 sufixo diminutivo Goro-tl-re.
Às vezes, os Aplnayé dão também o nome de “Aldeia de cima”
à metade Kolti, qualificando a outra como “Aldeia de baixo", isto sem
nenhuma referência às condições topográficas da aldeia.
Conta uma lenda dos Aplnayé como os Koltl foram criados pelo
Sol e os Kolre pela Lua, e como o Sol e a Lua os localizaram na par-
te setentrional do círculo da aldeia, a primeira, e na parte meridio-
nal, a segunda (Mitos e Lendas, 2, 1). Os Koltl se distinguem pelo uso
da côr vermelha (tinta de urucú), os Kolre pela côr prêta (latex
vegetal com pó de carvão). Formam uma exceção, as borlas nas
pontas das testeiras usadas nas iniciações dos novos guerreiros que
os Kolre tingem de vermelho o os Koltl de préto, trocando, portanto,
as côres. Já mencionei que o chefe da aldeia pertence sempre à me-
tade Koltl. Aos Koltl cabe também a precedência cm todos os casos
em que as metade têm de funcionar slmultãneamcnte, justamente
como acontece com a metade setentrional dos Xerénte. Sòmente pa-
ra determinadas cerimônias, de maior Importância, cada uma das
metade possue um dirigente próprio.
Nos jogos e esportes, cspcclalmente nas corridas de tóra, formam
as metades os dois partidos competidores. No mais suas funções são
30 — .Mnttos: Chorotraplila TT. 21.
Almeida: A Carollna, 17, SJ, SO, 03.
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sobretudo de natureza cerimonial. Não cabe às metades nenhuma
função religiosa ou econômica. Os Apinayé não possuem nenhuma
organização que, como tal, exerça qualquer função econômica, que
corresponda às funções dos clubes Xerénte ou das classes de idade
dos Timbira Orientais.
As metades dos. Apinayé pão são exogâmicas. A exogamia nesta
tribo é regulada por uma outra organização que não apresenta dua-
lismo algum.
IMPOSIÇÃO DE NOMES
Cada metade possue a sua série de nomes pessoais, masculinos e
femininos. Os Apinayé distinguem entre “nomes grandes” e “nomes
pequenos”. São transmitidos pelo tio materno ao sobrinho e pela tia
materna à sobrinha, em grupos de três ou quatro, que freqüentemen-
te não são mais que ligeiras modificações de um e mesmo nome. Em
lugar da tia materna ,a avó materna ou alguma irmã desta, trans-
mite muitas vezes, os nomes; como também, se substitue o tio ma-
terno pelo tio materno desta última, isto é, saltando uma geração.
Isto acontece especialmente com a primeira sobrinha em segundo
grau ou a primeira neta, ou respectivamente, com o primeiro sobri-
nho em segundo grau de uma pessôa.
TRANSMISSÃO DE NOMES
Multas vezes o irmão ou a irmã de uma mulher gravida, não
tendo paciência para esperar o nascimento da criança, impõe, na
sua alegria, desde logo, o seu nome à criança ainda por nascer. Natu-
ralmente, o sexo da criança pode não ser bem aquêlc que se espe-
rava. Conheço entre os Apinayé três mulheres com nomes masculi-
nos: na primeira ocasião elas o transmitem aos filhos de suas irmãs.
A transml.são dos nomes às crianças pequenas é feita antes do
clarear do dia, quando finda a costumeira dança da madrugada, na
praça da aldeia. A mãe ou tia que carrega a criança fica em pé sôbre
uma esteira e a pessôa transmissôra defronte a ela, com as mãos
juntas atrás da cabeça. A cerimônia noturna descrita por Castel-
nau ( 31 ) foi provavelmente uma transmissão de nomes:
“... Une longue llgne d’hommes et de femmes s’avançait devant
le feu entre les danseurs; chaque Indlvldue tenalt Tune des extre-
mltés d’unc hamac dans Icquel étalt étendu un enfant nouveau-né
dont on entendait les vaglssements, et que le pèrc et la mère venaient
offrlr à Tastre de la nult (a lua em zenith foi provàvelmente uma
circunstância fortuita) ; arrlvés à Tcxtrémlté de la .llgne chaque
couple balança le hamac en aceompagnant ce mouvement de chants
que tous répétalent à Tunison, et qul, par leur ton monotone, ne sem-
blalcnt être composés que de trols mots répétes sans discontlnuer (as
três formas de nome?) Blentôt une volx aigue se flt entendre et
31 — CRiteliiBU: lllXoltc, II, 32.
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une affreuse vleille femme dont le corps ressemblait à un esquelette,
se presenta les bras élévés au-dessus de la tête (a avó transmissora
do nome?) et flt plusieurs fois le tour de Tassemblée pour disparaitre
ensuite silencieusement. .
Que de fato as cerimônias são mais complicadas em se tratando
de “nomes grandes”, pude experimentar pessoalmente. Já em 1928
decidiram os Apinayé receber-me na tribo. Isto se fez, adotando-me
como seu filho, uma velha índia, Pembre, mãe do chefe de Bacaba,
José Dias Matúk. Em consequência, fiquei pertencendo à metade Kolti,
como ela e Matúk, e o irmão de Pembre, Tamgaága, devia ter-me
transmitido os seus nomes. Mas êle morava em Gato Prèto, e como
Pembre tinha muita pre-ssa, — talvez recelasse que algum outro pudes-
se antecipadamente surrupiar-lhe o precioso filho adotivo — ela man-
dou-me transmitir o nome Tamgaága pelo conselheiro Ngôklua. Só
mais tarde chegaram diversos índios de Gato Prêto para visitar-nos,
entre êles aquele irmão de Pembre, meu tio materno, Tamgaága, que
eu ainda não conhecia pessoalmente. Enquanto os outros visitantes me
procuravam para cumprimentar, Tamgaága mandou-me dizer que
fosse ter com êle. Fui, e êle me perguntou com muita formalidade, co-
mo me chamava. Dei o meu nome Tamgaá-tí, ao que respondeu:
“Tamgaá-tl sou eu! Tu és meu sobrinho! Eu vim agora lhe transmitir
todos os meus nomes!”
À tarde fomos ambos à casa de Pembre, onde nos enfeitaram. Pin-
taram nos.sos pés com urucú, grudando-nos, com látex, listas largas,
com as beiras dentadas, de lã de patí, sòbre o corpo e os membros.
A isto juntaram os peitorais, as ligas de penas nos joelhos o nos tor-
nozelos e os outros enfeites comuns. Doze homens formaram na pra-
ça uma frente, com número igual de mulheres atrás dèles. Um can-
tador cantou diante desta fileira dupla, com voz surda e acompa-
nhamento do seu mnracá. Os dançadores .sairam da linha, um de
cada vez, dançando na frente dela, -os homens com as armas ,as mu-
lheres com as mãos vazias levantadas para o alto. Meu tio, um moço
que Igualmente tinha o nome de Tamgaága, e eu, estavamos em pé,
frente aos dançadores. Depois fomos, os três na frente e os dança-
dores atrás, à casa de Pembre onde, perto da porta, no interior da casa,
estava estendida uma esteira no chão sòbre a qual tomamos posição,
eu e 0 moço, lado a lado, com o rosto virado para o Oriente e meu
tio na no.s.sa frente. Devagar e solenemcnte êste pronunciou então
as cinco formas de nome Tamgaága: “Tamgaá-tl! Tamgaá-glú'tl!
Tamgaága-rcrég-tl! Tamgaága-ràtém-ti! Tamgaága-rál-ti!” — Com
isto findou a cerimônia.
Por “nomes grandes” entendem os Apinayé aquêlcs que obrigam
ao portador ou à portadora a certas cerimônias que só a êles com-
pete. Alguns dêsses nomes formam pares, se o respectivo cerimonial
exige a função simultânea de duas pessôas, uma de cada metade.
Dos portadores de nomes a.sslm ligados, o Kolti trata o seu parceiro
de Id-krã-tuin ( avô materno, tio materno), sendo tratado de id-
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-krã-duw pelo Kolre, sem consideração alguma ao verdadeiro pa-
rentesco nem à idade. Tais nomes masculinos são por exemplo;
Vanmen (Kolti) e Ka’tám (Kolre). Aos seus portadores compete na
corrida de tora tomar em primeiro lugar a tora do seu partido ao
ombro. Por is.so êsses dois nomes se tornam geralmente sinônimos
dos dois partidos nos jogos e esportes, em lugar de Kolti e Kolre.
Tegatóro (Kolti) e Rãreké (Kolre) são os dois cabos dos guerrei-
ros novos durante a iniciação e depois, enquanto èles formam a clas-
se dos Pemb.
As portadoras dos nomes Amdyí (Kolti) e kokô (Kolre) assistem
como me-kúi-txwéi às Iniciações dos moços.
Um outro papel compçte aos portadores dos nomes Konduaká
(Kolti) e Konduprin (Kolre), que em certas ocasiões ocupam deter-
minado lugar na praça, uns em frente aos outros. Çabe-lhes o di-
reito de exigir, para as festas, determinadas comidas a seu bei pra-
zer, podendo esfregar nas cabeças dos seus portadores, as comidas
que não satisfaçam às suas exigências. Numa velha tapera dos Apl-
nayé, a Leste do Ribeirão de São José, mostraram-me, — no lugar
que coube aos Konduaká — um grupo de jutaizeiros (Hymenaea sp.)
que brotaram das sementes espalhadas, quando os Konduaká, por
ocasião de uma festa, mandaram preparar grande quantidade de
farinha de jutaí misturada com mel.
O nome feminino Panti (Kolti) obriga o pai da portadora à or-
ganização de uma festa para a qual tem de fazer uma roça especial.
Quando estiver maduro o milho plantado, convlda-se os habitantes
de tòdas as aldeias. O mensageiro que leva o convite traz as mu-
nhecas enroladas em cordões de mlssangas. Pela manhã .seguinte,
depois da sua chegada à outra aldeia, homens e mulheres formam em
duas fileiras na praça; êle expõe, então, o motivo da sua vinda, mar-
cando o dia em que se devem apresentar na aldeia onde se realizará
a festa. No dia marcado os convidados se apresentam; dançam com
os hospedeiros durante tôda a noite até o amanhecer; enquanto isso,
se preparam os bolos de carne. Pela manhã vão todos — convidados
e os da aldeia — à roça destinada à festa, onde colhem o milho.
Nesta oca.sião é considerado lícito o Intercurso sexual extra-matri-
monial. Antes de voltarem com o milho colhido, eles são enfeitados
pelas mães das Pánti.
Assim voltam à aldeia — as Pánti com os guerreiros (pemb) na
frente, — cantando as cantigas de Me-amnia, no trajeto e depois na
praça. O final é dado por uma procissão de Pánti com os guerreiros
c um cantador, pela rua da aldeia ,onde param e cantam diante
de cada casa, detendo-.se as Panti a uma distância de uns 40 me-
tros adiante dos guerreiros, com as mãos postas atrás da cabeça.
Nc.sta ocasião os guerreiros levam nas mãos varas de talos de milho
com uma borla de folhas amarrada na ponta.
De maneira semelhante, porém, com outras cantigas, celebra-se
a festas das portadoras de nome Ngrérl (Kolre).
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Na dança Txo’-txóre que antigamente se celebrava por volta
de Maio, mais ou menos, quando se Incendiava pela primeira vez o
campo para cercar a caça com fogo, cabia um papel importante às
portadoras do nome Iretí (Kolre). Os participantes formavam um
circulo ao redor de uma fogueira noturna, com o cantador no ponto
oriental da periféria, dançando todos simultaneamente para diante
e para traz, de maneira que o . círculo constantemente se apertava
e alargava, jogando os dançadores com os pés ao avançar, a areia
dentro da fogueira. Na manhã seguinte saiam os caçadores para in-
cendiar o campo, primeiro pelo lado oriental da aldeia. Enquanto
a fumaça subia, quatro portadoras do nome Iretí ,com os enfeites
próprios do seu nome, ficavam em pé na parte oriental da aldeia, o
rosto virado para o poente, em fileira, uma atrás da outra. A pri-
meira juntava as mãos atrás da cabeça e cantava; depois
saia e se punha no fim da fileira. Tôdas as outras cantavam
novamente o Txo’-txóre e pela manhã repetia-se a mesma cerimônia
das Iretí na parte ocidental da aldeia, enquanto os caçadores incen-
diavam 0 campo nesta direção.
Talvez se referissem a esta cerimônia as informações que os
Apinayé deram a Carlos Estevão de Oliveira (32) sôbre uma “festa
de fogo”.
O enfeite característico das Iretí consiste num par de peitorais,
cada um com uma varinha de um palmo de comprimento, que fica
pendurada horizontalmente debaixo do braço da portadora. As va-
rinhas estão enroladas em fio de algodão, cujas pontas compridas
pendem em forma de franjas.
As portadoras do nome Amdyág (Kolre) funcionam como can-
tadoras numa outra cerimônia complicada de nome Ro’ród, da qual
só assisti o final.
Um cerimonial extremamente rico parece ligar-se ao nome mas-
culino Tamgaága (planeta Venus. Kolti). Apesar de eu próprio ser
portador dêste nome e de ser grande o número dos meus “xarás”,
nunca chegamos a realizar a festa dos Tamgaága, e já se passaram
muitos anos desde a sua última celebração. Como cerimônia mai.s
importante desta festa, Indicaram-me uma que tem o nome de Me-
ngre-ru-ti, na qual três Tamgaága, um velho e dois novos, ficam
deitados com a cabeça para o Oriente sôbre uma esteira. Aos seus
pés sentam-se dois homens que sopram pequenas flautas de taboca
com uma cabacinha esférica aposta e dois furos para os dedos (33) .
Entre si têm os três Tamgaága um objeto mágico que só a éles per-
tence: capim do campo enrolado num núcleo comprido de pau e
amarrado com fios de algodão, formando tudo um pequeno rolo de
5 cms. de comprimento por três de grossura (põ-krã). Segundo me
consta, também durante esta festa, é considerado lícito o Intercurso
sexual extra-matrimonial.
32 — Ollvelr», 6C.
33 — Izlltowlu: 3S8. tlL’. 223 b).
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A pessoa principal da festa de Alu'tí é o portador de nome Tapklíd
(Kolti). Pretensamente os Apinayé aprenderam a cantiga de Alu’tí
numa ocasião em que estando a procura das Kupen-ndiya (Amazo-
nas) chegaram aos Kupen-gangála (tribo estranha das abelhas tata-
hira. V. Mitos e Lendas, 9 b), o que não passa de uma associação ar-
bitrária, secundàriamente estabelecida, para explicar uma cerimô-
nia hoje não mais compreendida. A festa de AIu’tí continua muito
em voga ainda hoje entre os Apinayé, onde a assistí duas vezes, em
1931 e 1937.
Na parte setentrional da praça, levantou-se um poste de trés me-
tros e meio de altura com ponto em forma de forquilha, fincando-se,
depois, em circulo, ao redor dêle, folhas de babaçú, cujas pontas
vergadas para o meio, eram unidas na forquilha, amarradas, de ma-
neira que formavam uma choça redonda em forma de cúpula com
esteio central (Ikré-krã-po-ti: ikrc =* casa, krã » cabeça, cúpula,
po largo e chato, ti grande) .
No dia seguinte o dirigente dos Kolti entrou nesta choça onde
começou a cantar para juntar os participantes. Formou-se um grupe
de 13 dançadores, dos quais 6 mulheres. Todos estavam pintados e
enfeitados com uma lã esbranquiçada, grudada no corpo, que se
obtem raspando os talos das folhas da palmeira patí; além disso
traziam os seus enfeites de penas. Os dançadores formaram em pares,
uns atrás dos outros, os Kolti à esquerda e os Kolre à direita. Os pri-
meiros eram encabeçados pelo dirigente da festa, os segundos por
um índio que se distinguia por duas compridas penas de cauda da
arára, metidas atrás do nó da testeira. Em segundo lugar, se postava
à esquerda, a principal figura de tôda a festa, Tapklíd, um moço de
17 anos. Trazia nas mãos um arco Igualmente enfeitado de lã de
patí e uma flecha, armas puramente cerimoniais, imprestáveis para
qualquer fim prático. Nesta posição Tapklíd, — fóra disto gcralmente
tratado por Alu’ti-krangêd-tl, — tinha o título de Abkê-ti o da
esquerda. A direita, ao lado dêle, estava um dançador Kolti, scguln-
do-se atrás, aos pares, os demais homens e, finalmente, as mulheres.
Cantou-se 10 ou 12 cantigas, enquanto o grupo dos dançadores, na
ordem de.scrlta, corria, num trote curto, para os pontos meridional,
ocidental, setentrional e oriental da rua da aldeia, voltando cada vez
à praça. Então vieram do lado oriental o dirigente dos Kolre e o
velho conselheiro Ngóklua, representando os Kupen-gangála-Alu’tl,
com o grito característico dèstes; “llo-ho-pu-ha!” Os dançadores de-
pois de mais 4 cantigas formaram roda na praça, cada metade ocu-
pando a parte da perlférla que lhe competia. No melo deles com arco
e flecha na mão, dançara o kramgcd-ti; o índio que tinha primeiro
dançado ao lado déle, saiu do grupo, olhando de fóra como os outros
dançavam no redor de Tapklíd. Súbito os dois dirigentes das meta-
des, dançando com os braços abertos, trocaram os lugares e. Ime-
diatamente duns mulheres do circulo dos dançadores, levantando os
braços ao alto, fizeram o mesmo. Com isto findou a dança. Do todas
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as casas traziam comida para a praça onde os participantes trocavam
entre si o Que tinham recebido.
Na festa de Alu’ti, que assistí em 1937, os Kupen-gangála-Alu’ti
esperaram o momento de se apresentarem na choça da festa, dentro
da qual, cantaram, igualmen^ em círculo; esta é, provavelmente, a
forma correta da cerimónia que, em 1931 só não se realizou por falta
de participantes.
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VII. OS QUATRO KIYÊ
Independente da sua organização dual, a tribo dos Apinayé é di-
vidida em quatro kiyê. O sentido comum desta palavra é banda ou
partido. Os nomes dos KIYÊ são:
A. Ipôg-nyõ-txwúdn
B. Ikré-nyõ-txwúdn
C. Krã-ô-mbédy
D. Kré’kára
Ipôg quer dizer “centro”, txwúdn de.signa a pessoa qualificada
pela palavra que lhe precede, nyõ é partícula do genitivo. Ipôg-nyõ-
txwúdn significa, portanto, literalmente, “pcssóa do centro”. Não sei
em que se baseia essa denominação, nem os Apinayé podem ex-
pllcá-la.
Ikré significa “casa”, Ikré-nyõ-txwúdn, portanto, “pessoa da
casa”. Também esta denominação não posso explicar.
Krã-ô-mbédy significa “cabelo íkrã-ô) bonito (mbédy). Êste
nome se refere ao enfeite do cabelo dos membros de klyé, que têm
êsse nome; consiste num pó de casca de caramujo .socado, com que
se cobre a calota do cabelo acima do sulco horizontal .depois de té-
la untado com resina de almacega.
Kre’kára quer dizer “goteira da casa”. Talvez o nome se refira
também a uma peça característica dos enfeites de kiyê e que consiste
em pequenas e curtas penas de arára que pendem vertlcalmente de
uma corda que se amarra ao redor do sulco do cabelo e que se com-
parou à beirada da cobertura de uma casa.
Do que foi dito, já resulta que os kiyê se distinguem pelos seus
enfeites. Os Ikrenyõtxwúdn usam pintura completa e uma pena
curta de rabo de arára, presa a uma corda, em cada antebraço. Os
Ipôgnyôtxwúdn pintam-se em listas, ou sòmentc numa metade do
corpo, tendo nas cordas dos antebraços penas compridas de arára.
Quando os Ipôgnyôtxwúdn como tais aparecem cm alguma festa,
por exemplo, nas iniciações ou na cerimônia de Pltxô-kantxwú, êles
se comportam de uma maneira que lembra grandemontc a conduta
dos membros da sociedade dos palhaços entre os Ramkôkamekra —
Canelas: cometem tôda sorte de travessuras, às vezes multo obcenas
para os civilizados, mentem, e furtam, o que niguém leva a mal.
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Os Kiyê são exogàmicos, de maneira que os homens de um Kiyê
só casam com mulheres de um determinado Kiyê, dos três restantes,
sendo a ordem a seguinte:
A casa com B; B com C; C com D; D com A.
Disto resulta para as mulheres a ordem inversa:
D casa com C; C com B; B com A; A com D.
Mas os quatro Kiyê não são absolutamente clãs unilaterais e sim
organizações BILINEARES, sendo que, os filhos de um casal perten-
cem ao Kiyê paterno e as filhas ao Kiyê materno. O kiyê A compõem-
se, portanto, de
Filhos de pais A 4- mães B
Filhas de mãe/ A + pais D
Os Kiyê não têm nenhuma relação com os pontos cardiais, nem
são sistematicamente localizados quando funcionam.
Fóra da exogamia o fato de pertencer a determinado Kiyê é
ainda decisivo para a seguinte relação social:
Chegando uma criança à idade de cinco anos, mais ou menos,
os pais ou avós escolhem duas pessoas que lhes são simpáticas, um
homem e uma mulher, para entrar com a criança na relação de
Kramgêd (masculino: Kramgêd-tí, feminino: Kramgêdy). A diferen-
ça de idade entre êsses Kramgêd e a criança chamada por êles (pa-)
kram é sempre de uns dez anos, pelo menos. Ora, o Kramged-ti per-
tence aos Kiyê paterno, a Kramgêdy ao Kiyê materno da criança.
Pelo Kram são ambos tratados com a mesma consideração que se
dispensa aos pais e avós. Como êstes, não se tratam pelo nome indi-
vidual, os Kramgêd, por sua vez só empregam o termo pa-kram quan-
do se dirigem à criança. Tanto o casamento como o Intercurso sexual
extramatrimonlal entre Kramgêd e Kram é até hoje estrltamente
proibido.
O convite dos pais ou avós às duas pessoas que terão a relação
de kramgêd para com a criança, é feito na forma de um pedido para
que elaborem os enfeites usados por todos os membros da tribo, e
nisto consiste, a meu ver, a principal obrigação dêsses Kramgêd. Os
enfeites que são os mesmos para ambos os sexos, compõem-se ge-
ralmente de sete peças:
1. o cordão do pescoço com penas de arára (me-o-prepré).
2. os cordões dos antebraços (katxad-reúlu) .
3. as penas do antebraço (mbádn-yambl) .
4. 1 par de peitorais dc contas (me-arapô).
5. Jarretclras com penas (amblédy).
6. Cordões para as mesmas (mc-káln).
7. Ligas para os tornozelos, com penas (me-te-dyê).
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Exemplo da relação de Kram-Krangéd
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A estas peças juntam-se algumas outras condicionadas pelo Kiyê
e o nome da criança, como também para as do sexo feminino, três
a quatro pares de pulseiras de madeira (me-in) . Por ocasião da entre-
ga dêstes primeiros enfeites tribais, a Kramgêdy corta também, pela
primeira vez o sulco do cabelo da criança. Mais tarde isto é feito
pela mãe desta. ^
No começo da puberdade recebem os Kram dos seus Kramgêd
outros enfeites idênticos àqueles, porém de dimensões adequadas.
Nesta ocasião, as mocinhas recebem o cinto de cordões (me-pré).
Pela fabricação dos enfeites os Kramgêd são sempre recompen-
sados com um bolo de carne de dimensões verdadeiramente fantás-
ticas, fornecido pelo tio paterno do Kram e sua mulher. Descreverei
essa festa chamada Txwu-mengati-ngrére (cantiga do bolo grande)
como assistí em 1931, quando a um rapaz de 14 anos, por nome
Ngreba’! do Kiyê Ipôgnyõtxwúdn foi conferida a segunda série de
enfeites. Como seus pais e avós já tivessem morrido figurou em lu-
gar dêles uma irmã da avó materna, a velha Iré, do Kiyê Ikrenyõtx-
wúdn. A kramgêdy de Ngrebal que lhe tinha apresentado os enfei-
tes era uma certa Kokôtí (Ikrenyõtxwúdn) ; e seu Kramgêd-tl cha-
mava-se Vanmengrí (Ipôgnyõtxwúdn) e era casualmente um filho
da Irmã de Kokôti. No mais era Matiik, pai de Vanmengrí, ao mesmo
tempo Kramgêd-tl de Kokôtí, cujo pai, por sua vez, tinha sido
o kramgêd-ti de Matúk. (V. diagrama) . Perguntei a êste úl
timo si os Kramgêd-tl eram de preferência escolhidos entre os pa-
rentes mais próximos, ao que me respondeu que, antlgamente, era
justamente o contrário e se hoje assim acontecia era devido ao ta-
manho diminuto da tribo, que não permitia grande escolha.
Pela manhã do dia da festa, antes do romper do dia, houve uma
lamentação fúnebre pelo finado pai de Ngreba’í, em casa da mãe
dèste. Ao romper do dia foi Ngreba'i lavado; despejaram-lhe água
por cima, diante da ca.sa da sua Kramgêdy, Kokôtí. As suas parcn-
tas do parte de mãe (Ikrcnyõwúdn) prepararam a massa de man-
dioca para o bolo de carne. Quando Matúk e cu (tios paternos de
Ngreba’i, Ipôgnyõtxwúdn) nos aproximamos, elas correram ao nos.so
encontro, tirando-nos todos os enfeites que trazíamos na ocasião.
Depois foi Matúk em busca de lenha com cinco parentes por parte
de pai (Ipònyõtxwúdn) de Ngreba’í: os outros foram cortar as folhas
de sororoca (Ravcnala gulmiensis Endl.) necessárias à feitura do
bolo de carne. Estas folhas, — multo semelhantes às folhas da bana-
neira, com um comprimento de mais de dois metros c melo,
são colocadas no chão, cruzadas cm forma de estrela, até formarem
um disco circular; no centro dêsse dl.sco se espalha uma camada
de dois dedos de massa dc mandioca. Nesta se mete uma bòa quan-
tidade de pedacinhos de carne de veado do tamanho dc uma a duas
polegadas, espalhadas sõbre toda a ma.ssa e cobertos por outra ca-
mada desta. Depois dobram-se as pontas das folhas para o centro,
cobrindo completamcnte a massa. Amarra-se tudo com cipós finos.
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Preparação do bolo de carne
A — Folhas de sororoca são colocadas no chão, formando um disco.
No centro se espalha uma camada de massa de mandioca e sobre
esta, pedacinhos de carne de veado, que são recobertos por outra
camada de massa.
B — Dobram-se as pontas das folhas para o centro e amarra-se com
cipós finos, formando um embrulho chato c arredondado.
C — Uma fogueira é acesa e nela colocados pedaços de barro. Os res-
tos da fogueira são varridos e sobre o chão quente deposita-se o
bolo de carne, recobrindo-o com os pedaços de barro aquecidos.
D — Cobre-se tudo com terra, e deixa-se o bolo assar.
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Os Apinayé
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de maneira que o bolo se apresenta como um embrulho de folhas,
chato e redondo de mais de metro de diâmetro. Nêste melo tempo,
acaba de queimar uma grande fogueira sôbre a qual se tinha posto
uns vinte pedaços de barro duro do tamanho de um punho fechado,
da casa de cupim do campo. Os restos da fogueira são postos de lado,
o lugar por ela aquecido é varrido e forrado com folhas de sororoca,
sôbre as quais se deposita o pacote com o bolo de carne. Sôbre éste
se colocam os pedaços de barro quente, cobrindo-se com folhas e es-
teiras velhas, e, cavando em redor, cobre-se tudo com uma grossa
camada de terra, que não deixa escapar nenhum fio de fumaça. Dèste
modo 0 forno toma o aspecto de sepultura nova.
Este éo tipo de forno de terra (kia) de uso generalizado entre
todos os Jê do Nordeste e do Centro, em que se “estufa” a comida
entre o chão quente e pedaços de barro ou pedras aquecidas. Por-
tanto, não é nenhuma “cova no chão”; devo salientar isto porque
tôda uma série de investigadores (34) falam delas como em uso entre
os Kayapó, Tlmbíra e Xavante. Krause diz não ter presenciado o
processo, e, provàvelmente, os outros quatro autores tampouco o assis-
tiram de visu, pois a técnica que descrevem, ou é de todo impraticável
ou, pelo menos, extremamente Ineficiente. Talvez a terra cavada ao
redor do forno lhes tivesse causado a impressão de uma cova.
A tarde o bolo já estava pronto. Removeram a coberta e, metendo
duas varas por baixo do pacote, em cujas pontas pegaram quatro
homens, suspenderam o bolo e o tiraram-no para fóra.
Pelas duas e meia da tarde, Ngreba’í e a velha Iré, — em lugar
da mãe ou avó já falecidas — se postaram em frente da casa de
Matúk, tio de Ngreba’1, um ao lado do outro. Vanmengri, o Kramgêd-
ti de Ngreba’í, pintado de prêto com latex e pó de carvão, despejou
uma grande cabaça de água sôbre a cabeça de seu Kram, o mesmo
fazendo a kramgôdy do rapaz, Kokôtí, à velha Iré. Depois Vanmengri
entregou a sua “pinta” a Ngreba’i, renunciando com isto ao uso
pessoal dela. Enquanto enfeitavam o rapaz na casa de seu tio, Van-
mêngrí, deitado ao lado, observava a cena. Ngreba’í estava sentado
numa esteira, e Kokôtí com outras três mulheres, pintavam-no com
tinta de urucii. Untaram-lhe a calota de cabelos com uma mi-stura
de resina de almacega com látex eníeitando-a com pontos azul-cla-
ros, feitos com um pó de casca de òvo de nambú tóna (Tinamus tão
Temm.) pulverizada, e puzeram-lhe um anel de corda ao redor da
cabeça, pelo sulco do cabelo. Depois copiaram sôbre o fundo verme-
lho os ornamentos pretos da pintura de Vanmengri. Finalmentc lhe
puzeram os enfeites de penas e mlssangas que Kokôtí havia feito
para èles. Assim que acabaram de enfeitá-lo, quatro mulheres carre-
garam com dificuldade o enorme bolo de carne para a cíisa de Kokô-
tí. Atrás delas corria, chorando desesperadamente, um índio de certa
idade de nome Peb-krã-ô-ti. Assim que o bolo entrou pela porta a
34 — Ribeiro: MemorU, $ 15, 73. — Pohl: Reise, I, 404. II, 30. — Krnuse; In den
Wllrinisscn, 388. — Snethlage: Nordostbras. Indiancr, 156. — Froes Abreu:
Terra das Palmeiras, 177.
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Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
dentro começou um grande pranto fúnebre pelos finados pais de
Ngreba’í. Kokótí, porém, não tomou parte nessas lamentações; o refe-
rido Peb-krã-ô-tí, chorou por ela, apesar de não ser nenhum pa-
rente, nem dela nem dos defuntos pranteados, pois é membro do
Kiyê Krã-õ-mbédy. Com isto findou a cerimônia.
À parte sobrevivente dos que estão em relação de Kram-Kram-
gêd cabe enfeitar o cadáver e enterrá-lo. Realizavam, também em
tempos passados, o enterro secundário. Em compensação recebiam a
maior parte da herança do defunto, sendo pois seus principais her-
deiros.
Em cada uma das duas fases da iniciação dos guerreiros novos,
os pais de todos os participantes escolhem para êstes novos Kramgêd,
que lhes farão determinados enfeites: cavilhas auriculares e o cordão
para o cabelo na primeira fase e a borduna cerimonial na segunda.
Não nos parece, tenham outras obrigações, além desta.
O convite é feito pelos jovens e suas moças auxiliares, que próxi-
mo da cerimônia, vão de casa em casa para entregar aos escolhidos
um cilindro de aroeira (Krid-re), de 10 cm. de comprimento por 3 cm.
de grossura. Também nêste caso o Kramgêd-tí é do kiyê paterno e a
Kramgédy do kiyê materno.
A iniciação dos Pebkaág é a melhor ocasião para se observar o
funcionamento da organização dos kiyê, tanto pelas travessuras que
fazem os Ipôgnyõtxwúdn no decorrer dela, como também, pela dife-
rença dos enfeites e a localização separada dos kiyê por ocasião da
limneza simbólica dos caminhos radiais (v. pg. 43) da casa ma-
terna de cada Pebkaág, que é feita pelo kiyê de que êle faz parte.
Nesta cerimónia colocam-se os habitantes da aldeia à beira
da praça, separados segundo os kiyê. Não possuem, porém, ali, lu-
gares determinados, cada kiyê se coloca na boca do caminho radial
que pretende limpar em primeiro lugar. Foi êste o único caso em que
ví os índios separados segundo os kiyê.
Nimuendajú — Os Apinayé
33
VIII. CLASSES DE IDADE
Os Apinayê não possuem classes de idade no sentido das dos
Timbíras Orientais, e a parte feminina da tribo, afóra a metade e o
klyê, não apresenta qualquer vestígio de organização. A parte mas-
culina é dividida nas seguintes classes:
1. Meninos (me’prí-re) antes das iniciações, portanto até quin-
ze anos mais ou menos. Ao contrário dos seus colegas, entre os Tim-
bíra Orientais, não possuem nenhuma organização.
2. Guerreiros (pemb), do começo da segunda fase das suas ini-
ciações até o fim da segunda fase das iniciações do primeiro grupo
de guerreiros novos, portanto, até 25 anos de idade mais ou menos.
A primeira fase das iniciações (pebkaág) forma o estado de tran-
sição dos meninos para os guerreiros.
3. Homens maduros íuyapè). A entrada nesta classe se dá,
automaticamente, quando da in.strução completa de uma nova tur-
ma de guerreiros, que conclui a segunda fase das suas iniciações. A
sua saída é determinada pela incapacidade de tomar parte ativa nos
exercícios esportivos, especialmente nas corridas de tóra, que se ma-
nifesta com idade avançada. Tem lugar, sem cerimonial algum, na
idade de 50 anos, mais ou menos.
4. Velhos (me-pengêd-ya). Antigamente devem ter formado um
senado semelhante aos Men-ká-ti dos Ramkôkamekra — Canelas.
Era proibido o casamento antes de terminar completamente as
Iniciações, mas não marcava nenhuma transposição do indivíduo pa-
ra uma outra classe: havia guerreiros casados e solteiros.
Das quatro classes de idade sòmente a segunda tinha verdadei-
ramente uma organização, que, com seus dois cabos (35) formava
um grupo duplo e fechado. Mas assim que a turma passava para a
cla.sse dos homens maduros, os cabos perdiam a sua Importância, c
a turma, a solidariedade especial.
25 — Nlmuendiiju unii o termo r»bo, no ítentldo de lldcr do grupo, poesivelmente o
terln tomado do portuguèa falado pelos Apinayé. (NR).
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IX. INICIAÇÕES DOS NOVOS GUERREIROS
Como os Timbíra Orientais, os Apinayé submetem a totalidade
dos meninos a iniciações, das quais faz parte, também, um número
limitado de meninas. Estas iniciações se davam em intervalos de mais
ou menos dez anos, de maneira que a diferença na idade dos parti-
cipantes era bastante grande.
A iniciação se processa em duas fases, geralmente realizadas uma
logo após a outra, o que juntas cobrem o espaço de um ano. Atual-
mente, esse tempo de duração foi reduzido.
a ) Pebkaág
Êste nome significa "semelhante (kaág) a guerreiro (pemb)” ou
“imitando guerreiros”,
Quando os velhos e homens maduros reconhecem que a nova
geração alcançou a idade necessária, combinam, em .segredo, o co-
meço das iniciações. O primeiro ato consiste na nomeação, ou melhor,
investidura dos dois instrutores íPeb-kaág-krãtúm), um de cada
metade, membros da classe dos guerreiros. São sempre os cabos das
iniciações anteriores. A cerimônia da investidura ocorre da manei-
ra seguinte: alguns dos Uyapê, que têm sobrinhos a Iniciar, caçam
um animal que não esquartejam e do qual mandam fazer bolos de
carne. Suas irmãs, mães dos futuros Pebkaág, levam os bolos aos dois
Instrutores, comunicando-lhes a sua investidura. O distintivo dêsses
Pebkaág-krãtúm consiste num bastão de quatro quinas, findando
em ponta, com mais de metro de comprimento.
Separação dos Pebkaág — Ainda na mesma tarde, os dois assu-
mem a direção do cerimonial, marcando para a manhã seguinte, an-
tes do romper do dia, uma dança na praça. Um dos guerreiros, en-
carregado por êles, vai de casa em casa, com a Incumbência de fazer
vir à praça todos os meninos a serem Iniciados. Finda a dança, ao
romper do dia, os instrutores tomam pelos braços o futuro cabo dos
Pebkaág da metade Kolti, colocam-no, por um instante na praça, con-
duzlndo-o depois à casa materna, seguidos de todos os guerreiros,
cantando pelo caminho: "Ha-ha-ha katamã yalipe". Na porta param
e cantam: "Yekrã ku’nõre katamã yallpc’”. Nêste melo tempo a mãe do
futuro cabo dos Pebkaág estende uma esteira perto da porta, den-
tro da casa, sõbre a qual deitam o moço; êle deverá permanecer ai
Nimuendajú
Os Apinayé
35
por algum tempo. Voltam todos à praça para trazer, sob o mesmo ce-
rimonial, o futuro cabo dos Pebkaág da metade Kolre, com o qual
procedem de maneira idêntica. Algum tempo depois os dois novos
cabos se levantam, indo também à praça para onde suas mães levam
comida para os guerreiros, da qual, porém, nada recebem. Com a in-
vestidura dos dois cabos (m^ró-talá-txwúdn = pienipotenciários) ,
finda por esta vez a cerimônia, indo todos para casa.
Êstes dois cabos são sempre os filhos das irmãs dos dois instru-
tores que, por sua vez, são cabos antigos, de maneira que os cargos
de instrutor e cabo são hereditários, passando com os nomes Tegatóre
(Kolti) e Rãreké (Koire) do tio materno ao sobrinho. Os dois cabos,
ao serem investidos no cargo, já teriam assistido, quando meninos
de dez anos, a uma iniciação anterior dos Pebkaág ,como preparo
ao seu futuro cargo, mas nunca à iniciação dos Pebkumrédy que se
segue àquela.
Na manhã seguinte, ao romper do dia, prendem da mesma ma-
neira todos os Pebkaág, conduzlndo-os para as suas casas mater-
nas, de onde os dois cabos os levam para um ponto na mata, perto
da aldeia, à beira do ribeirão; aí fazem o seu acampamento.
Nêsse intervalo, seus pais limpam um pequeno páteo redondo, a
leste da aldeia, a uma distância de uns 200 metros das casas, sufici-
entemente grande para que os Pebkaág possam nêle se reunir era
círculo (Pebkaág-krl-a) . Um caminho reto liga este páteo de reunião
ao ponto oriental do circulo de casas que .separa a parte da aldeia
ocupada pela metade Kolti, pela banda do Norte, daquela dos Kolre.
pela banda do Sul. Um segundo caminho (Id-kre-puã-pli) , corre pelo
lado de fóra do círculo das casas e atrás delas, ao redor da aldeia.
Um terceiro, vai do pátio de reunião a uma aguada separada. Êsses
três caminhos, o pátio de reunião, a aguada e o acampamento são
privativos dos Pebkaág.
Alguns dias depois da separação dos Pebkaág, os instrutores vão
buscar quatro jovens, virgens, em suas casas maternas — duas de
cada metade — e levam-nas para a praça junto aos Pebkaág ai reu-
nidos. São frequentemente portadoras dos nomes "grandes”, Ambdyí
IKoltl) e Kokò (Kolre), que, como todos os nomes femininos, passam
da tia materna para a sobrinha, de maneira que também o cargo
de.stas "moças de festa” (Mekuitxwéi, Pebkaág-kultxwél) é heredi-
tário. Hoje começa a se firmar o uso de aumentar o número das Peb-
kaág-kultxwél, empregando-se nêsse ml.stér igualmente as portadoras
de outros nomes. Os Pebkaág aos quais é proibido todo Intercurso
sexual, não podem se permitir nenhuma intimidade com essas
Mekuitxwéi. Cada uma dessas mocinhas tem um determinado rapaz
como companheiro constante e guarda de seu comportamento. Os dois
tratam-se reciprocamente de "id-kramtxwú”. Entre os Pebkaág da
metade oposta à da moça, que se oferece para isto, o instrutor escolhe
aquêle que lhe mereça mais confiança.
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Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
Também fazem parte da turma dos Pebkaág dois meninos me-
nores (Me-õ-opa-txwúdn-re) , que levam a comida aos instrutores e
fazem outros serviços de mensageiro.
Perfuração do lóbulo das orelhas e do lábio inferior
Os Pebkaág passam o dia no seu acampamento na mata onde
levantam um abrigo, quando o tempo se torna chuvoso e onde per-
manecem inteiramente segregados. Os instrutores só os visitam oca-
sionalmente.
Por êsse tempo, certo homem habilitado para a operação, fura-
lhes os lóbulos das orelhas e o lábio inferior; alguns adiam a última
operação até a segunda fase da iniciação. A cerimônia tem lugar
na praça da aldeia, um pouco antes do levantar do sol. No terreiro
da casa materna do rapaz, é colocada uma esteira, na qual êle sen-
ta-se, com o rosto virado para o oriente. Antes, já lhe haviam apa-
rado os cabelos ao redor das orelhas. Sua tia materna e sua Kramgé-
dy sentam-se atrás dêle. Uma lhe segura a cabeça com ambas as
mãos, a outra lhe põe as mãos nos ombros. O operador senta-se em
frente, com uma agulha de pau rôxo na mão que, do lado grosso está
enfeitada com uma borla de penas de arára. Junto de si tem uma
cuia contendo as cavilhas preparadas na véspera e um pouco de tinta
de urucú. Um bom número de homens e mulheres da parentela do
rapaz assiste ao ato, sentados ou em pé, ao redor. O operador amassa
primeiro o lóbulo entre as pontas dos dedos, depois molha a ponta
da agulha na boca, mete-a na tinta de urucú e com ela marca um
ponto sôbre o lóbulo. Depois de um exame rigoroso, fura o lóbulo
no ponto marcado com um movimento vagaroso, deixa a agulha no
furo, pega uma das cavilhas tintas com urucú, molha-a na boca,
puxa a agulha e mete a cavilha no furo. O rapaz levanta-se e fica
de lado. Pela mesma maneira são furados os lóbulos das orelhas das
moças.
As cavilhas auriculares dos Aplnayé nunca alcançam o tamanho
das usadas pelos Timbíra Orientais, que atingem às vezes, um diâ-
metro de 10 centímetros. As dos homens raramente têm mais de cin-
co, as das mulheres, normalmente quatro centímetros de diâmetro.
Uma moça de quatorze anos guardou, a meu pedido, tôdas as cavilhas
usadas por ela desde o dia da operação até um ano depois. Eram, de
4 de março de 1930 a 20 de março de 1931, 36 pares, da grossura de dois
milímetros até quase quatro centímetros. Quando o lóbulo, distendido
em forma de laço pelo uso da cavilha, se rompe, como acontece às ve-
zes aos homens durante as caçadas ou corridas de tóra, as duas pon-
tas são amarradas juntas entre duas tallnhas de cana de flecha até a
rutura cicatrizar.
A perfuração do lábio inferior que só se executa no sexo mascu-
lino, é feita pelo mesmo operador. Nêste caso, a posição do furo é
também marcada prèvlamente com um ponto de tinta de urucú, a
igual distância dos cantos da boca, com a agulha ou uma tallnha. A
Nimuendajú — Os Apinayé
37
Kramgêdy ou a mãe, que lhe presta assistência, verga a cabeça do
rapaz para trás, o operador pega o lábio com a mão esquerda, pu-
xando-o um pouco para a frente e varando-o de baixo para cima com
uma agulha semelhante a de furar as orelhas. Nenhum dos rápazes
fazia caretas durante a operação. Ràpidamente o operador metia no
furo uma pequena cavilha em forma de prego. Para que cicatrizasse
logo, tratava-se a cesura com a casca raspada de uma árvore do cam-
po, chamada pin-ô-mbe-ti.
As cavilhas que os Apinayé usam comumente, são pequenos dis-
cos de pau, de dez a quinze milimetros de diâmetro. Nos dias de festa,
usam cavilhas cujo disco tem um apêndice ligeiramente cônico ou es-
quinado, até de cinco centimetros de comprimento, com um penden-
te de missangas e penas, que desce até o epigastro. O apêndice das
cavilhas trás o distintivo da metade em cintas vermelhas (Kolti), ou
prêtas (Kolre). Até há poucos anos ainda estavam em uso ciliridros de
alabastro, ligeiramente cônicos e de quase dez centímetros de com-
primento, engastados pela ponta mais fina no disco de madeira. Ain-
da alcancei a última dessas peças.
Refeições em comum
Todos os dias, ao pôr do sol, marcham os Pebkaág em fila, um
atrás do outro, do acampamento para o pátio de reunião.
O cabo da metade Kolti vai à frente da turma; seguem-no, sem or-
dem especial ,os Pebkaág, as Mekwitxwéi, no meio dêles. Fecha a fi-
leira o cabo dos Kolre. No pátio de reunião esperam que anoiteça,
avançando depois silenciosamente, pelo seu caminho, até o círculo
das casas da aldeia. Chegados lá, enveredam pelo caminho circular
exterior, os Kolti para a direita (Norte), os Kolre para a esquerda
(Sul). Cada um dá um sinal, assim que chega atrás da sua casa
materna, jogando pedacinhos de pau contra a parede ou na cobertu-
ra. Sai, então, a mãe ou a irmã que lhe entrega uma cuia com co-
mida. Assim, as duas metades dos Pebkaág rodeiam a aldeia, cru-
zam-se no ponto oeste e reunem-se outra vez no ponto leste, de onde
voltam juntos para o pátio de reunião. Lá reunem tôda a comida
que recolheram, apartando primeiro a parte que cabe aos dois ins-
trutores, que os meninos mensageiros levam ao seu destino. Depois
repartem o restante entre si, fazendo a sua refeição comum no pá-
tio, para a qual as Mekuitxwéi vão buscar água para beber. A par-
tilha da comida é feita pelos cabos.
Visita dos instrutores
Limpando todos os vestígios da refeição, os Pebkaág sentam-se
em círculo, formando os Kolti o semicírculo setentrional e os Kolre
o oposto, deixando uma abertura para o lado da boca do caminho
que vai para a aldeia. O cabo dos Kolre senta-se do lado direito des-
33
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
sa abertura, e dos Koltl no ponto leste do circulo. Nêste melo tempo
0 instrutor da metade Kolre sopra na praça da aldeia o seu apito
íelto de uma ponta cónica de cabaça com furo lateral. Segura-se o
Instrumento com uma das mãos, modulando o som pela rápida intro-
dução e retirada do dedo médio da outra mão (36). Depois êle vai
buscar o seu colega de metade Koltl, e ambos, o Koltl na frente, e
Kolre atrás, vão ao pátio de reunião dos Pebkaág. Param na entrada
do círculo e o Instrutor dos Koltl se dirige em voz baixa aos rapazes,
sentados em silêncio e de cabeça pendida: “meus sobrinhos (l-tam-
txwú), estais esperando os vo.ssos Instrutores? Estais contentes com
a comida que vossas mães e irmãs vos mandaram?” Logo se levanta
o cabo dos Kolre e, aproxlmando-se dos dois, convlda-os em voz
Igualmente baixa a sentarem-se. Os Instrutores sentam-se no centro
do círculo de madeira a enfrentarem o cabo dos Koltl e virando as
costas ao dos Kolre. A primeira pergunta do Instrutor dos Koltl ao
cabo da sua metade, sempre visa as Mekultxwél, de cujo comporta-
mento êle se informa. Depois pergunta pelos outros Pebkaág, pelo
correr dos trabalhos e, ílnalmente, se dirige ao circulo para explicar
o que SC tem a fazer no dia seguinte. Tudo se faz em voz baixa e
sem que os Pebkaág mudem sua posição característica. Depois de
uma pau.sa os Instrutores voltam à aldeia.
Passado algum tempo os Pebkaág marcham para a praça da al-
deia, onde tomam parte nas danças noturnas comuns. Finda a dança,
lá pelas nove e mela, mais ou menos, eles formam ainda um circulo
ao redor dos seus instrutores, cantando as quatro cantigas de Peb-
kaág e batendo o compa.s.so com a cabeça dos seus cacêtes no chão.
Finalmcnte espalham-se pelas suas ca.sas maternas, onde dormem.
Antes do romper do dia, vão os cabos de casa em casa, ao redor da
aldeia, acordando e reunindo sua gente. Ocralmente fazem uma fo-
gueira cm qualquer ponto do campo, atrás da aldeia, onde esperam
que amanheça; marcham, então, para o acampamento na mata, à
beira do ribeirão.
Não existe, portanto, para os Pebkaág, uma reclusão pròprla-
mente dita, nem, tão pouco, tabus especiais de comida.
Os primeiros enfeites dos Pebkaág
0 primeiro trabalho com que se ocupam os Pebkaág no sou
acampamento, é a confecção dos distintivos da sua classe, que são
seis:
1 — Uma testeira de envlra de buriti, trançada cm forma de fita
com duas pontas no melo da testa, dirigidas obliqüamcnte para ci-
ma c findando cm uma espécie de brocha, que os Koltl tingem de
preto e os Kolre do vermelho, apesar de ser cm todos os outros cusos,
a côr prêta o distintivo dos Kolre o a vermelha, dos Koltl.
38 — Kmm a k "fUvitn TlmblrR", nsiõ-kon-klld, d* Ixlkowlti; vrr luii figura 143. O
manejo como e repretentado na figura 131. titA errado.
SciELO
cm
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3
5
10 11 12 13 14 15
Nimuendajú
Os Apinayé
39
2 — Um cordão para o pescoço, da grossura de um dedo, tran-
çado em envira, do qual pendem compridas franjas também de en-
vlra, pelas costas abaixo até à cruz. A envira, originàrlamente de côr
esbranquiçada, é mergulhada, antes da confecção, na lama da beira
do córrego, durante cinco ou seis dias, pelo que toma um côr prêta
retinta.
3 — Um cinto;
4 — Um par de pulseiras;
5 — Um par de jarreteiras, tudo do mesmo material e feito na
mesma técnica;
6 — Um bastão-cacête, de um metro de comprimento, com ca-
beça grossa virada para um lado (ko-krã-ai) . (37)
Durante tôda a época do Pebkaág, os homens maduros, dividi-
dos entre si em Kolti e Kolre, fazem numerosas corridas com tóras
comuns de buriti, que empilham na praça. Quase diàrlamente pode-
se ver os Pebkaág tomando posição em cima dessa pilha, ao pôr do
sol, junto com as suas Mekwltxwéi e chefiados pelos instrutores, para
cantar as cantigas de Pebkaág (klitõ-ye-ngrére) , o rosto virado
para o nascente, e marcando o compasso com os cacetes.
Jôgo àas batatas
Na aldeia de Bacaba, certa tarde, seguiu-se a estas cantigas a
seguinte cerimônia;
Dois dos Pebkaág foram reunir as mulheres, levando-as em par-
te pela mão à praça onde, como sempre, elas formaram a sua linha
para dançar, ficando os Pebkaág em frente delas. Um terceiro Peb-
kaág correu com um maracá para buscar um cantador. Começou
a dançar e depois de algum tempo apareceu alguém com uma grande
cuia cheia de batatas cruas, que entregou ao cantador. Êste, passou
imediatamente o maracá a um seu colega, para que continuasse a
dança; afastou-se um pouco para o lado e jogou as batatas, uma por
uma, com tôda a força, nos Pebkaág que continuavam dançando e
procurando desviar-se dos projéteis, tanto quanto po.ssível.
Afóra n instrução em cantigas, os Pebkaág não recebem ensino
nenhum. Os maiores, entre êles, vão freqüontemente à caça, para si
e os companheiros; as Mckultxwél preparam a comida; no mais
pouco fazem. Êsse ciclo durava, antlgamentc, até que os cabelos do.s
Pebkaág, que desde o começo da fc.sta não eram mais aparados, lhes
davam da testa até a ponta do nariz.
37 — £• um» «rm» crrlmonl»! multo srmfUiRiitr no rncítf df c»ç» do» X«Tíiití.
m»i complrtnmenl» deiconlifcUI» entrf o» Tlmblr» OrlentKli.
40
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
Confecção das varinhas de fuso
Fazla-se, então, pela confecção das varas de fuso, o convite do<
Pebkaág às suas parentas da mesma metade, para cuidarem dos en-
feites de algodão para a festa final. Isto se faz sob um cerimonial
bastante complicado:
Os Pebkaág confeccionam as varas de fuso da madeira da pal-
meira burltlrana, mas não as rodas, que entre os Aplnayé são feitas
pelas mulheres. As rodas são feitas de madeira, de cacos de barro
encontrados nas taperas dos antigos pre-Aplnayé da região, ou de
velhas moedas de cobre, furadas. A.s varas de fuso tem até quarenta
centímetros de comprimento, são roliças e têm um botão na ponta
superior, engrossando para o lado da ponta Inferior, para não deixar
pa.ssar a roda. Um velho entendido na matéria acompanha os Peb-
kaág para enslnar-lhes ésse trabalho. Êle mesmo procura um pc de
burltlrana em condições, cortando-o c reparte o tronco cm peque-
nas achas, que dlstrlbuc entre os Pebkaág. Enquanto Isso, os dois
cabos e mais alguns outros, caçam, dando a caça ao velho que man-
da prepará-la pelas Mckultxwél, enquanto êle ensina aos Pebkaág
como se fazem as varas. Depois lhe entregam a caça dentro de um
côfo com o qual êle volta para casa. Dois dias depois visita nova-
mente o acampamento dos Pebkaág, para verificar o andamento do
trabalho. Cada Pebkaág faz tantas varas de fuso quantas parentas
possue na sua metade, capazes de se Interessarem pela confecção
dos .seus enfeites. Preferem fazer algumas varas a mais do que a
menos. São gcralmcnte, umas cinco para cada rapaz.
Entrementes, cada mãe faz na porta dos fundos da sua ca.sa.
por onde costuma entrar seu filho Pebkaág, um corredor em forma
de abóbada de uns três metros de comprimento, formado por folhas
de bacabelra fincadas no chão cm duas carreiras, vergadas c. amar-
radas Juntas por cima. Nesta abóbada amarra-se cm clmu uma vara
atravessada.
Depois do anoitecer marcham os Pebkaág, com as varas de fuso
para a aldeia. Dlvldom-se, como .sempre, na entrada, par.-» a direita^
e para a esquerda, pelo caminho circular exterior, c cada um pen-
dura no corredor da sua casa materna, as varas de fuso, amarrando-
as na vara atravc.ssadu. Delxam-nas lá penduradas.
Chefiados pelos seus instrutores vão os Pebkaág a uma caçada
que dura quatro a cinco dias. Repartem a caça entre as ca.saa ma-
ternas. No dia seguinte recolhem outra vez as varas de fuso. le-
vando-as, sob a inspeção dos Instrutores, no ribeirão, para bruni-
las, esfregando-as com ns folhas ásperas da sambalba fCouratella
sp.l c água. Mesmo éste trabalho, obedece a um determinado cc-
rlnionlal; chegados á sua aguada particular, os Pebkaág sentam-se,
cada metade do lado do caminho que lhe compele. Os cabos se
pos am, cada um, no fim da sua fileira, para o lado da aguada um
cm frente do outro. Nesta posição trocam primeiro, entre il. por
uas veze.s. as suas varas e só depois começam a brunl-Iai, seguindo
41
Nimuendajú — Os Apinayk
os outros o seu exemplo. Findo êste trabalho, levantam-se primeiro
os instrutores para voltar à aldeia. Seguem-nos o Pebkaág, que es-
peram o cair da noite para pendurar as varas de fuso no corredor
de folhas, nos fundos da casa materna, de onde as suas parentas
as retiram para usá-las.
Os segundos enjeites dos Pebkaág
E’ nesta ocasião que se fazem os pequenos cilindros de aroeira
(Schinus sp., V. p. 23) que os Pebkaág, andando de casa em casa,
entregam às pessôas prèvlamente designadas por seus pais, convi-
dando-as a serem seus Kramgêd-tl. A êles cabe a confecção de de-
terminadas peças de enfeite para a festa final.
Os últimos enfeites dos Pebkaág consistem em seis peças feitas
de algodão fiado, completamente branco:
1) O cordão da testa que se coloca um pouco para trás, de ma-
neira a formar um ângulo com o sulco do cabelo. Atrás, pendem
franjas compridas que vão até o meio das costas do portador; está
ai amarrada uma pena de arára, mais comprida ou mais curta, con-
forme o KJyê do portador.
2) Uma coleira trançada, da largura de uma polegada, da qual
pendem penas curtas de arára.
3) Um cinto, composto na frente, — numa extensão um pouco
menor que a dos quadris — de uma varinha fina e flexível, envolta
também cm fios de algodão, e da qual pendem, gcralmente, quatro
ou mais cordões, grossos c distanciados, até o meio da coxa.
4) Um par de cordões para o antebraço com que se enrola o ter-
ço superior déste membro c cujas pontas descem cm forma de fran-
jas grosas. E’ devido a esta peça que os Pebkaág conservam coos-
tantemente os antebraços estendidos para a frente, cm posição ho-
rizontal.
5) Um par de cordões enrolados na perna acima dos tornozelos,
fòlmando ligas da largura de uns dez centímetros.
fl) Um par de ligas trançadas para os tornozelos, da largura de
uma polegada, com pingentes de penas dc arára ou de cascos de vea-
do, conforme o klyé.
Na festa final, os Pebkaág e as .suas Mekultxwél usam também
cavilhas auriculares com uma ponta cõnlea para a frente, pintadas de
tinta de urucú. A base da ponta, é às vezes enfeitada com pedacinhos
dc madrei)érola ou de e8|>elho, engastados; a própria imnta ostenta
uma roseta dc penas iM?quenas, em cujo centro é fincado um dente de
cotia, do qual pendo num ílo que desce até o melo da coxa, uma borla
do penas de papagaio.
Durante a fesU final os Pebkaág seguram uma vara de pàu dc
leite íSapium tp.i, de um metro de comprimento e de um dedo de gros-
sura, pintada de urucú. Tem a parte central envolta em folhas, pois
42 Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
devido aos seus enfeites de algodão branco, os Pebkaág não devem
manchar as mãos com tinta. Esta vara, as cavilhas auriculares e o
cordão de cabelo, recebem dos seus kramgêd-tl; os demais enfeites
de algodão, das suas parentas da metade.
Finalmente, pertence ainda ao equipamento do Pebkaág para a
festa final um pauzinho de dez centímetros de comprimento com
um fióco de algodão amarrado na ponta, com o qual enxugam o suor
do rosto durante a dança, e uma varinha achatada para se coçar
(ainny-kakrên-txa) , do comprimento de um lápis.
As parentas da metade dos Pebkaág não só têm de confeccionar
os enfeites destes, como também os dos .seus tios maternos, que to-
mam parte ativa na festa final, contanto que tenham o titulo de
“Panlngandê” matador, isto é, que tenham morto um inimigo ou,
pelo menos, ajudado a matar um. Por inimigo se entende hoje exclu-
slvamente ó mau feiticeiro, dentre os quais, ainda em nossos dias, de
vez em quando, um tem que pagar com a vida os seus "crimes”.
Na festa dos Pebkaág celebrada cm 1937, em Gato Prêto, contei
sete dêsses Panlngandê. O seu enfeite consistia num cinto semelhante
ao dos Pebkaág, porém, com pingentes de penas em lugar das fran-
jas de algodão, e de mais um cordão no pescoço e um par de jarre-
telras.
A festa final
Assim que tôdas as pessôas encarregadas de fazer enfeites tenham
concluído a sua obra, fixa-se o dia do começo da festa final. Em
Gato Prêto, se iniciou no dia 22 de julho de 1937 com a ordem dada
pelo instrutor dos Koltl aos Pebkaág — o seu colega Kolrc estava im-
pedido por doença — de fazer um par de tóras de corrida, de deter-
minado tipo, chamado gramãnatí (38). Durante a .sessão noturna, no
pátio de reunião, ouvi o instrutor perguntar pela execução dês.sc
trabalho, ditando normas para os demais preparativos para a coi-
rida. Nesta ocasião, ensinou também aos Pebkaág mais três cantigas
que so referiam às varas vermelhas que deviam receber dos seus
Kramgêd-ti.
Na manhã .seguinte, os Pebkaág. com as Mckultxwéi. .se dirigiram
para uma colina, distante dois oullômetros a leste da aldeia. As moças
limparam o capim c arbustos de um espaço quadrado c os Pebkaág fo-
ram buscar as toros Gramãnatí no lugar onde foram cortadas, a um
quilómetro e melo dali. Quando voltaram com as toras, jjuzeram-na.s
no limpo c as Mckultxwéi as pintaram com urucú e enegreceram por
dentro as cavidades, queimando nelas folhas sêcas. Colocaram as to-
ras sôbre duas forqulllias, paralelas entre si, postadas na direção da
estrada de corrida, numa altura tal, que .se podia tomá-las comóda-
mente sôbre os ombros. Depois de cobri-las com folhas, uns volta-
ram. para limpar a estrada de corrida para a aldeia, enquanto outro.i
prepararam depressa um par de toras comuns, correndo com elas
38 — S 80 riicrmr- lorm Cr buriti, iwríiii oritdM tlf nmbon o« Indo*, tniilo it>«lm
qtir o Miu ptM t mrnor qui o dH* turm comum, mnclvm.
SciELO'
43
Nimuendajú — Os Apinayé
para a aldeia. As Mekultxwél carregaram as ferramentas e os enfei-
tes dos corredores.
Em tôdas as casas trabalhava-se com afinco no acabamento dos
enfeites dos Pebkaág. As quatro horas da tarde as mulheres começa-
ram a cantar na praça, dançando depois Kapôamengrére pela “rua”,
e ao redor da aldeia. Colocavam-se uma ao lado da outra, os braços
nos ombros da vizinha, com a frente virada para as casas e moven-
do-se lateralmente com pulos compassados. Mais tarde deu-se a var-
rição simbólica dos caminhos radiais, pelos parentes dos Pebkaág,
agrupados na beira da praça, segundo os Klyê (v. p. 32). Alguns
bolos de carne foram preparados e começou-se a cortar os cabelos
dos Pebkaág, o que não se tinha feito durante os três mêses que du-
rara a cerimônia.
Os três dias seguintes (26, 27 e 28 de julho de 1937), foram os da
festa final pròprlamente dita. Pela manhá se fez a corrida com as
toras Gramánatl, prontas desde o dia anterior no ponto de partida
da corrida. Depois cortou-se aos Pebkaág o sulco dos cabelos, grudou-
se-lhes lá de pati no corpo e foram enfeitados com as peças de al-
godão.. Saiu, então, primeiro, o cabo Koltl dos Pebkaág acompanhado
dos colegas que habitavam com èle a mesma casa, caminhando um
ao lado do outro. No melo dôlcs vinham dois índios, já de certa
Idade, que mais tarde também funcionaram cm diversas ocasiões,
sem que eu conseguisse compreender o papel que faziam. À minha
pergunta responderam que Isto sempre foi assim e que um era do
Klyé Ipôgnyõtxwúdn c o outro do Klyê Krá-ô-mbédy.
Cantado em voz baixa e abafada, dlrlglram-sc devagar ao ter-
reiro da casa mais próxima, do onde snlram cm fila, um ao lado do
outro os Pebkaág que all habitavam. Primeiro os dois grupos can-
taram um em frente no outro, depois o segundo seguiu o primeiro,
Indo todos à ca.sa mais próxima, onde se formou um terceiro grupo,
que lhes seguiu atrás; a.sslm continuaram no redor da aldeia até
reunirem todos os Pebkaág.
Durante esta primeira procissão dos Pebkaág, os seus Kramgêd,
iwrtencentes no Klyè Ipôgnyõtxwúdn. dcdlcnram-sc a tôda sorte de
travessuras; tomando as bananas, batatas c mnndubls que tinham
recebido dos pais dos Pebkaág. atlrarnm-nns aos pés dos doadores,
pulando adiante da procl.ssào. As mulheres que seguiam n marcha
dos noviços faziam graças. Nòste papel fnrçlstn os participantes to-
mam 0 titulo do Kukóe-Krnmgéd (Kukóe macaco préto). Os Peb-
knág, )}orém, conservavam, como sempre, uma atitude de extrema
seriedade, tendo as cabeças pendidas e os antebraços em posição
horizontal. Quando todos se haviam reunido, deram uma segunda
volta jwla rua da aldeia .após a qual se distribuiram outra vez jjelas
easas maternas.
Ao melo dia Juntaram-se de novo. Indo de ca.sa em casa, mas des-
ta vez em fila, uin atrás do outro. Assim foram até a praça, onde
debandaram.
44
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
Às duas da tarde marcharam novamente para a praça onde,
formando um circulo, cantaram as suas cantigas de Pebkaág, em
compasso apressado. No centro do círculo estava um índio de certa
Idade, aquêle Ikrenyõtxwúdn de que falamos, ladeado pelos dois
cabos dos Pebkaág; fora do circulo se postaram algumas mulheres,
Kramgêdy dos Pebkaág, que acompanhavam a dança. Os sete ma-
tadores (Panlgandé), dentre os tios maternos dos Pebkaág, punham,
nêste Ínterim, seus enfeites, acima descritos, e saindo de suas casas,
davm um grito "Hun!” e marchavam com passos rápidos para o
círculo dos Pebkaág, que se abria diante dêles. Colocaram-se no
centro e ficaram imóveis durante alguns segundos, com os pés afas-
tados. Depois, saindo do círculo, tomaram posição na banda do sul,
onde se postaram em fila, um ao lado do outro, acompanhando os
movimentos da dança, sem .saírem do lugar.
As cantigas dos Pebkaág continuaram até quase cinco horas da
tarde. Colocaram-se, então, esteiras no centro da praça e os Peb-
kaág foram, um a um, à ca.sa dos seus Kramgêd-tí, de onde trouxe-
ram um bolo de carne ou uma grande cuia cheia de qualquer outra
comida, que puzeram sôbre as esteiras. Depois de coletada a comida,
os Pebkaág formaram um circulo em seu derredor; nisso o cabo
Koltl rodela as esteiras parando um segundo depois de cada passo e
movendo sllenciosamente os lábios. Nésse momento sal de sua casa,
o Instrutor dos Koltl, festlvamente enfeitado. Atrás dêle, fazendo
as vezes do Instrutor Koltc, que estava doente, vinha a filha da ir-
mã dêste. Igualmente enfeitada. Entrando no círculo o Instrutor olhou
por um momento, cm silêncio e carrancudo, os mantimentos e dando
mela volta, tornou para casa, em companhia da moça.
Na aldeia Bacaba esta cena se deu de maneira um pouco dlfc-
rentc:os dois Instrutores entraram slmultáneamente, no circulo, ptlo
lado Leste c Oeste. Cada qual quebrou um pedacinho de um dos bo-
los de carne c depois de mastlgá-lo, esfregou a massa em cruz sôbre
0 melo do corpo, dando, em seguida, um estalo com o dedo Indicador
metido na boca. E.sta ação tem por fim evitar que algum dos Peb-
kaág morra antes do tempo.
Dlstrlbulram-sc, então, os mantimentos coletados. Recebeu em
primeiro lugar o cornselhelro de Gato Prêto, meu tio materno Tam-
gaati, que durante todo o cerimonial .andando acima e abaixo pela
praça, avisava cm alta voz a todos os moradores da aldeia o que ti-
nham a fazer. DepoLs atendeu-se iuiuelc.s homens ldo.sos dos Klyè
Ikrenyõtxwúdn e Krã-ô-mbêdy; e em seguida, ás crianças de um
neobrasllclro leproso que tinha vindo para Gato Prêto na esperança
de que os indlos o pudessem livrar do seu mal; depois a uma velha
índia Krlnkati, que dois dias depois desempenhou um papel Impor-
tante no cerimonial, e, finalmentc, a todas as outras mulheres c me-
ninas que não pertenciam nos Pebkaág. Estes últimos receberam co-
mida nas casas maternas.
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Nimuendajú — Os Apinayê 45
Depois do pôr-do-sol, os Pebkaág .inclusive as Mekuitxwéi —
não porém, os participantes mais novos — se puzeram em pé sôbre
a pilha de toras de corrida, na praça, sendo que em Gato Prêto, o
fizeram com o rosto para o poente e em Bacaba em sentido contrário.
Propriamente, êles deviam aguentar a noite tôda nesta posição, mas
só a quarta parte dos participantes o conseguiu e mesmo êstes se
sentaram, por fim, sôbre as toras, apertando-se uns contra os ou-
tros, porque o frio era muito intenso depois da meia-noite. Os ou-
tros não puderam deixar de.-íazer um foguinho para aquentarem-se
um momento; alguns dêles foram até suas casas maternas, onde se
demoraram algum tempo. Antigamente não se tolerava tais facilida-
des. Durante tôda a noite, em intervalos de alguns minutos, um dos
Pebkaág soitava um grito fino e comprido. Pouco depois da meia-
noite, levaram-lhes um pouco de comida. Atrás da piiha de toras, ao
redor de um foguinho minúsculo, pa.s.saram a noite os sete matadores.
Ao romper do dia (27 de Julho de 1937) os Pebkaág se espalharam
pelas suas casas maternas, onde tiraram os enfeites. Ao levantar do
sol, reuniram-se e foram tomar banho para tirar a lã de pati. Às
dez horas da manhã foram pintados com urucú, inclusive no rosto
e receberam as varas vermelhas e ocordão do cabelo com a pena
cervical. Traziam as cordas do antebraço enroladas e envolvidas em
folhas para não manchá-las de urucú. Reunindo-se, foram em zl-
gue-zague de casa em casa; formaram depois um circulo na praça e
foram para casa. indo juntos os que moravam na mesma casa.
As três da tarde repetiu-se a cerimônia do dia anterior, com a
dança circular na praça, a presença dos matadores, a coleta de co-
mida, a inspeção pelo instrutor e a distribuição da comida pelos ca-
bos. Desta vez apareceu, de repente, uma "Kukóe-Kramgêdy”. Bran-
dindo com um gesto largo, um amarrado do batatas, rompeu o cir-
culo como se qulzcssc depôr as batatas junto ás outras comidas. Mas
uma vez dentro do círculo, agarrou rapidamente um bolo de carne,
inteiro, fugindo com ele debaixo de gargalliadas dos presentes.
Depois do sol posto, os Pebkaág foram outra vez para a pilha de
toras, onde pas.saram a noite como na vespera. Desta vez deram-lhes
licença para irem por alguns minutos, em grupos de dois ou três,
até as casas maternas, para comerem alguma coisa.
As cinco da manhã dc.sceram das toras tiritando do frio e foram
para ca.sa. Depois do romper do sol ,dlrlglram-se juntos ao ribeirão,
as varas vermelhas na mão, para se banharem. Já antes, um dêles
tinha acordado aquela velha indla Krlnkatí, que se postou atrás da
aldeia, no camlnlio do ribeirão, com o seu bastão na mão. Uma mu-
lher, mãe de um Pebkaág, trouxe-lhe um bolo do carne, depondo a
dádiva no chão, no lado da velha. Assim aguardou a chegada dos
Pebkaág. Chegaram-se n ela, um por um, esfregando seus corpos no
da velha, deixando, a5.slm, na sua pele c nos seus cabelos, uma parte
da .sua pintura de urucú, isto para não terem filhos quando ainda
demasladiimente moços. Quando todos terminaram, um dêles colo-
46
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
cou 0 bolo de carne no ombro da velha, mandando-a para casa. Os
Pebkaág, continuando em seu caminho, desceram ao ribeirão onde
havia uma árvore de sucupira, — símbolo da íôrça e resistência dos
Tlmbíra — descascada até à altura de um homem. De novo se esfre-
garam nêste pau, tiraram a envlra dos pedaços de casca e espreme-
ram seu suco com água numa pequena cuia, bebendo êsse líquido para
ter vida longa. Depois cantaram uma cantiga referente às varas ver-
melhas, banharam-se, esfregaram-se com envlra de sucupira e
esconderam as varas debaixo de plantas aquáticas da margem do ri-
beirão. De volta à praça, formaram filas de quatro, dançando algum
tempo, para cima e para baixo, em sentido leste-oeste. Quando de-
bandaram, estava terminada a festa final dos Pebkaág.
b) PEMB - KUMRÉDY
Da segunda fase das Iniciações conheço pes.soalmente só uma
parte; o restante terei de descrever de acordo com as Informações
dos índios dirigentes das cerimônias.
Tem lugar em seguida ou pouco após à primeira fase. Em 1937
me dLsseram que ela começaria assim que estivessem prontas as der-
ribadas da mata para as novas plantações, o que leva a crer que sem-
pre há entre as duas fases um Intervalo de alguns meses, mas não de
anos, como entre os Tlmbíra Orientais.
Peb-kumrédy é a iniciação dos guerreiros, pròprlamente dita,
para a qual o Pebkaág, como já Indica o seu nome, consiste apenas o
prelúdio. A sua origem .atribuem os Aplnayé o mesmo motivo mitoló-
gico pelo qual os Ramkôkamekra-Canelas explicam a Iniciação dos
••Pebyé”: a luta dos dois Irmãos com o Gavião Gigante (Mitos o Len-
das. 0), mas os papéis dos dois parecem trocados, c o mito Aplnayé
finda por um episódio que falta ao Leste do Tocantins e que me
parece aposto .sccundàrlamcntc, tendo sido, talvez, emprestado do
Norte: é a história do homem que as.sou sua mulher.
A não ser alguns meninos, menores, que a.sslstem aos Pebkaág,
a bem dizer, como en.salo, os participantes masculinos c femininos,
nas duas ín.ses do Iniciação são os mesmos. Os dois cabos dos Peb-
kaág con.scrvam o mesmo cargo durante a segunda fa.se. Isto não
acontece, porém, com os seus tios, os dois Instrutores, que são substi-
tuídos por dois outros homens, mais velhos, cuja escolha depende da
decl.são dos pais dos dois cabos, que também comunicam aos novos
Instrutores a sua nomeação, mandando a cada um déles, um bolo de
carne, um grande enfeite oclpltal de cordas de algodão com um
grosso enfeite cervical, de penas da cauda da arára, e um pente de
talas unilateral. Em lugar do bastão de quatro quinas dos Instrutores
dos Pebkaág, os dois Pemb usam espadas de madeira (kob-po).
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cm
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Nimuendajú — Os Apinayé
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Separação dos Penib
Organiza-se uma festa de Alu’tl (v. pg. 24). Quando os Alu’tl-
pakráty acabam as suas cantigas nos caminhos radiais da aideia,
entrando na choça da festa, onde os outros estão dançando, o Txo’
txóre, cada homem que está para deixar a classe dos Pemb (guerrei-
ros) para ingressar na dos Uyapê (homens maduros) , se põe ao lado
de um Pebkaág, declarando: “êste é o meu amigo” (id-kramtxwú) .
Se ainda sobrarem Pebkaág, membros da classe Uyapê, os tomam co-
mo "amigos”. Enquanto contínua a festa do Alu’tí, aproximam-se,
disfarçadamente, algumas mulheres, trazendo esteiras para a pra-
ça. Um mensageiro (Me-gurekri-txwúdn), dá o aviso com um apito
aos dois instrutores, nas suas moradas. Nêste momento cessa a festa
do Alu'tí e cada um dos Pemb agarra o Pebkaág que está a seu lado,
tira-lhe as pinturas do corpo com as unhas, tomando-lhe todos os
enfeites. Assim despojados, os rapazes formam duas filas corres-
pondentes às metades. Saem das suas casas os dois instrutores com
os seus enfeites oclpltals e o pente pendendo do antebraço, acompa-
nhados pelas filhas das suas irmãs. Igualmente enfeitadas. As.sim
passam entre as duas fileiras, o da metade Koltl na frente e, parando
diante dos dois cabos, penteiam-lhe os cabelos, voltando em seguida
para casa cm companhia de suas sobrinhas, onde tiram os enfeites.
Começa, então, a cerimônia do Me-ang-rõ, que se repete por di-
versas ocasiões durante a iniciação dos Peb-kumré-dy: as duas fi-
leiras das metades colocam-se uma em frente à outra, sôbre a linha
Lcstc-Ocstc, os Koltl do lado Norte, os Kolre do lado Sul. Primeiro
batem com o pé direito, em compasso ligeiro, gritando um comprido
“Ha-hã-à-hwú” (Koltl) ou “Ha-hã-ã-hwi” (Kolre), seguido de gri-
taria estridente. Depois gritam os Koltl cm compasso breve e forte-
mente marcado; "Haã- (batida de pé) wu!”, c os Kolre respondem
da mesma maneira: “Ilaã- (batida de pé) wi!” Assim gritam, ba-
tendo com 0 pé, as duas fileiras, alternadamente, conservando rlgo-
rosamente o compasso.
Logo, dois homens, o tio materno o o "amigo”, agarram o
cabo dos Koltl, tomam-no nos ombros, com a cabeça para diante,
sua mãe põe uma esteira por cima dêle e assim o carregam para
sua casa materna, onde o deitam no jirau, cobrlndo-o com a esteira.
Pela mesma forma procede-se com o cabo dos Kolre c depois com
todos os outros. Desta hora em diante não se os trata mais de Peb-
kaág, e sim de Pemb.
Achando-se todos deitados nas suas casas maternas, debaixo das
e.stelras, o In.strutor dos Koltl. acompanhado do seu colega Kolre, dá
uma volta pelas casas. Começando pelo cabo da sua metade, susijende
a esteira, pondo a máo no peito do rapaz, para determinar se mor-
rerá prematurnmcntc, ou não. Dizem que, no primeiro cn.so, .sente-se
um tremor na máo. Finda a volta, o instrutor comunica o resultado
nos habitantes da aldeia.
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Bol. Mus. Goei.di — Tomo XII — 1956
Os Pemb permanecem deitados. Só depois de escurecer os dois ca-
bos reunem os seus companheiros, indo peio caminho circular exte-
rior e conduzem-nos para o antigo pátio de reunião dos Pebkaág, onde,
sentados em circulo, como dantes, aguardam a chegada dos instru-
tores. Êstes lhes aconselham a guardar obediência, castidade e boa
camaradagem. Depois voltam os Pemb para as suas casas maternas,
onde dormem até mais ou menos três horas da madrugada.
Reclusão dos Pemb
São, então, reunidos pelos cabos que os levam ao lugar do seu
novo acampamento, na margem de qualquer ribeirão, a uma légua
da aldeia, mais ou menos. Aí levantam um rancho, dentro do qual
cada metade ocupa o lado que lhe compete. Antigamente, quando era
grande o número dos Pemb, fazlam-se dois ranchos semelhantes, pa-
ralelos entre si, com o diâmetro maior no rumo Leste-Oeste, sendo o
Setentrional para os Koltl e o Meridional para os Kolre.
Slmultâncamente, é construída no interior da casa materna de
cada Pemb, uma pequena câmara de reclusão, feita com varas e estei-
ras, sempre encostada à parede posterior da casa, porque, ao contrá-
rio dos Pebkaág, são os Pemb submetidos a uma severa reclusão, que
dura de cinco e seis meses, durante a qual ninguém de fóra deve vê-
los ou ouvi-los.
No mesmo dia da separação dos Pemb da convivência dos outros
habitantes da aldeia, dão os seus instrutores licença formal aos ho-
mens da classe Uyapô para o intercurso sexual com tôdas aquelas
moças que, apesar da proibição do casamento antes do fim das ini-
ciações, se tinham unido a algum Pebkaág e, por mais que a moça se
debata e chore, é carregada pelos dois instrutores para a praça e en-
tregue aos Uyapê, com os quais tem de pessar a noite. Guardas im-
pedem que elas fujam.
Os Pemb pa.ssam o dia no seu arranchamento no campo. Tôdas as
noites, depois de escurecer, os Uyapê dão início, na praça, à ceri-
mônia Me-ang-rõ, Já descrita. Depois de cada batida com o pé di-
reito, as duas fileiras, uma em frente à outra, dão um passo para
adiante, até se encostarem uma na outra; depois dão mela volta
e recuam da mesma forma para as suas posições Iniciais. Em segui-
da as fileiras mudam a posição, dançando em círculo, primeiro um
só, que cada vez mais se estreita, e, finalmente, em dois círculos se-
parados. A.s.slm dançam durante horas, com numerosos mas curtos
Intervalos.
Durante o período de reclusão dos Pemb, é proibido celebrar qual-
quer outra dança ou cantiga na praça. Sc isto acontece, os instrutores
dos Pemb mandam os dois cabos com alguns outros dos mais fortes
para o local da dança, a fim de derrubar o cantador e quebrar o seu
maracá.
Durante o Me-ang-rõ, os Pemb deixam o seu acampamento o va-
garosamente se põem a caminho da aldeia. Enquanto ouvem os gritos
Nimuendajú — Os Apinayé
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e 0 estrondo dos pés, êles têm de parar, sem se mover, somente du-
rante os intervalos vão se aproximando aos poucos. Assim, às vezes,
chegam a alcançar o pátio da reunião à meia noite. Logo que finda
o Me-ang-rõ, êles marcham, como dantes, pelo caminho circular
exterior, pela direita e pela esquerda, ao redor da aldeia, para rece-
ber comida das suas casas maternas que lhes é entregue por uma
fenda na parede de esteiras da câmara de reclusão. Da mesma ma-
neira como os Pebkaág, levam a comida para o pátio de reunião,
mandando aos instrutores a parte que lhes pertence e esperando sua
visita.
A primeira pergunta dos instrutores, depois de terem tomado as-
sento no círculo dos Pemb, é sempre pelas Mekuitxwéi, de cujo passa-
dio e comportamento exigem conta aos cabos. Dantes, quando as
Mekuitxwéi eram virgens, qualquer tentativa da parte de um dos
Pemb de entrar em relações sexuais com elas, era severamente punida,
mandando o cabo derrubar o culpado e esfregá-lo com terra, obri-
gando-o depois a dormir no chão. Se a transgressão era grave, açoi-
tava-se o culpado com uma corda dupla, trançada, da raiz de tauarí
(Couratari spJ. Hoje, não sendo mais virgens, a maioria das Me-
kuitxwéi, êles são mais condescesdentes.
No pátio de reunião recebem os Pemb tôdas as noites lições dos
seus Instrutores, que versam especlalmente sôbre o casamento: sob
que critério se deve escolher a esposa para não se prenderem depois
a uma mulher preguiçosa o infantil; como devem tratar a esposa;
não devendo maltratá-la, mas tomar em consideração os seus dese-
jos; e que o adultério, da parte do marido, também é condenável. Ou-
tras instruções e exortações referem-se às ocupações quotidianas dos
Pemb: a confecção dos enfeites; a obediência aos cabos; o manda-
mento de castidade; a bóa camaradagem entre os colegas, espcclal-
mente com os mais novos da turma, que os mais velhos não devem
tratar com grosseria o violência. Nêsses ensinamentos de ordem mo-
ral c na reclusão rigorosa está a principal diferença entre os Pebkaág
c os Pebkumrédy.
Além disto, os Pemb — como dantes, na qualidade de Pebkaág, —
devem aprender as cantigas próprias da sua condição para recitá-las
írcqüentementc. As cantigas dos Pemb tem o nome de Me-amnía, que
os Apinayé traduzem por “reza”. São quatro, formadas por estrofes
curtas, ba.stante melodlo.sas, que são recitadas a mela voz c repetidas a
mlude. A primeira chama-se Wulum-tl-re (taperal; a segunda
Me‘pé-rc. Fatlguel-mc debalde para compreender os seus textos.
Os Instrutores dão grande importância a essas cantigas, exami-
nando nêste ponto a aptidão de cada Pemb em particular. Algum tem-
po depois da ida dos seus Instrutores, espalham-se os Pêb, na forma
do co.stume, pelas suas casas maternas, onde entram sem serem vis-
tos por ninguém, recolhendo-se à câmara de rcclu.são jiara dormir
sem fogo. Alguns, porém, esi)eclnlmente ávidos de Instrução, pedem
às vezes aos Instrutores que voltem mais uma vez ao pálio de re-
união para en.slná-los mais.
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Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
Àqueles dentre os Pcmb que desrespeitam a ordem de guardar
castidade, tratam os instrutores de surpreender em flagrante. Se o
conseguem, castigam o culpado com pancadas. Os homens da classe
dos Uyapê consideram tais transgressões quase como ofensa à sua
classe e, pondo-se de emboscada, caem sôbre os Pemb namoradores,
para espancá-los.
Afóra 0 cantar, fazer enfeites e caçar, trabalham os Pemb no seu
acampamento tão pouco quanto dantes, quando ainda eram Pebkaág.
A caça que matam repartem com os instrutores que, de vez em quan-
do visitam 0 acampamento para ver se tudo está cm ordem.
De tempos em tempos, os homens da classe Uyapê experimentam
a fôrça dos Pemb, mandando que façam um par de toras, com as
quais correm, Uyapê x Pemb, para a aldeia. Como, porém, os Pemb não
devem ser vistos aí, os seus instrutores esperam-nos a uns 400 metros
da aldeia, onde fazem findar a corrida.
Aproximando-se o fim da reclusão dos Pemb, fabricam êstes novas
varas de fuso, sob cerimonial idêntico ao dos Pebkaág, para a con-
fecção dos enfeites de algodão para a festa final.
Cerimônia do Peny-tág
Enquanto as mulheres trabalham nisto, os homens organizam a
cerimônia do Peny-tág, que é um jogo de bolas de borracha (peny-
krã), com palhetas de rebater.
Chefiados pelos cubos e munidos de cuias, saem os Pemb do seu
acampamento à procura de um lugar no taboleiro onde existam man-
gabelras (Ilancornia speciosa, Aplnayé: peny) em número suficien-
te. Junto da primeira mangabclra que encontram fazem alto. O cabo
dos Koltl encosta na casca do pau uma lasca de pedra cortante,
canta e faz um risco para baixo, sem ferir a casca. Só depois vão
procurar outras mangnbclras que ferem com a faca de pedra. Jun-
tando o látex nas cuias. De volta ao acampamento, fabricam as bo-
las da maneira seguinte: passa-sc o látex em listas de três dedos de
largura sôbre a pele do corpo e dos braços e pernas dos Pemb. Quando
estiver seca a primeira demão, passa-sc por cima dela uma segunda
e terceira. Se o látex não aderir ã pele, juntando-se cm pequenos
fios em vez dc formar listas largas, o fato c tido como prova dc que
o indivíduo transgrediu o mandament^da castidade. Imcdlatamcntc
o cabo manda derrubar o suspeito e csfrcgá-lo com areia.
Nês.se melo tempo .outros Pemb moldam bolas de barro dc cumpln-
zclro do campo. E.s.sas bolas são envoltas nas faixas do látex que ade-
riram à pele dos primeiros Pemb. enrolando-se diretamente do corpo
para a bola. Logo que a bola alcança uma certa grossura, despeda-
ça-se a golpes os núcleos dc barro, rctlrnndo-.se os fragmentos por
uma pequena abertura cortada na capa de borracha. Contlnua-so
a reforçar a bola com novas faixas sobrepostas, que fecham também o
corte, até .se obter uma bola ôca c multo elástica. Para a scrlmônla de
Pcny-tag, assistida por mim, foram feitas umas seis bolas pequenas
Nimuendajú — Os Apinayé
51
(pen-krã-ngríre) de cinco centímetros de diâmetro: quatro bolas
maiores (amblêdy), enfeitadas com penachos de penas de ema e
uma bola grande (peny-ki'ã-mãatí) : esta última tinha no seu inte-
rior caroços que chocalhavam. As bolas são acondicionadas num cõfo
fechado com tiras de envira. Os Pemb não as perdem de vista, deixan-
do-as aos cuidados das Mekuitxwéi.
Já então os homens da classe Uyapê tinham prontas as palhetas
(páli-re), para rebater as bolas. As palhetas são pequenas tábuas
retangulares, de uns 30 centímetl'os por 15 de largura, com um cabo,
pintadas com desenhos em côr prêta, branca e vermelha. Os diri-
gentes de festa, das metades, usavam em lugar dessas palhetas, pe-
sados cilindros de madeira (páli), de 40 centímetros de comprimen-
to, feitos de pedaços de tronco ôco da ambaúva {Cecropia sp.) . A ca-
vidade tem 0 tamanho exato para nela caber o antebraço. A parte
anterior do cilindro é fechada por um internodio, em cujo centro é
metida uma vara que sobressai o necessário do lado de dentro para
que 0 portador possa segurá-la na mão. Da ponta sobressalente, pelo
lado de fóra, pende um penacho de penas da cauda da arára. O ci-
lindro é caiado de tabatlnga, com desenhos feitos em tinta prêta,
sôbre o fundo branco, com látex e pó de carvão.
Como de costume, os Apinayé explicam a origem do Peny-tág
por uma lenda que se compõe de dois motivos que orlglnàrlamente
nada tinham a ver com bolas de borracha, nem tinham qualquer li-
gação entre sl. O primeiro é o da “Perna de Lança”, que Roth encon-
trou entre os Warrau, e eu, — além dos Apinayé, também entre os
Ramkòkamckra - Canelas, os Tukuna e os Xlpáya.
Para explicar a origem das bolas de borracha, os Apinayé as.so-
ciaram a ôste, o motivo do “crâneo rolador” (cabeça de maracá), que
Roth também encontrou entre os Warrau, mas como mito indepen-
dente 0 que cu ouvi nas mesmas condições entre os Tembé, Guarani
c Xlpáya. (39)
No jogo de Peny-tág pròprlamente, os Pemb não tomam parte. Re-
\inldos na casa do ponto oriental da aldeia, ficam deitados debaixo
de esteiras, sem lançar um olhar slquer para a praça, onde o jôgo
6 disputado sómente pelos Uyapê.
Na véspera da cerimônia, as duas fileiras dos Kolti e Kolrc, cada
uma com seu dirigente de festa na ala esquerda, dançaram Mc-ang-
rõ na praça. Os dançadores traziam os seus cintos com pendentes
de bordado de miçanga, como nas corridas de tóra e também testei-
ras e pintura prêta de tinta de Jenipapo, estando armados de cace-
tes. Ao cair da noite ouviu-se da casa no ponto oriental onde estavam
reunidos os Pemb, o canto melodioso dos Mc-amnla. Depois, já havia
então anoitecido completamente — saiu o velho conselheiro Ngôkliia,
da metade Xoltl, daquela ca.sa. Devagar, solene c .silencioso, com a
grande bola de borracha erguida na mão direita, èlc rodeou a rua
da aldeia, de leste, passando pelo norte. Ninguém o viu na escuridão.
J» — o t**lo Aplniiy* r. Mitos t LeudM. 3.
SciELO
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I
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Eol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
especlalmentc os Uyapê, que continuavam a gritar e a bater pé na
praça sem Interrupção. O velho levou multo tempo para terminar a
sua volta, porque só se adiantava nas pequenas pausas do Me-ang-rõ.
Finalmente, porém ,o chôro apaixonado em que romperam êle e sua
mulher, deu a conhecer que já tinha voltado para sua casa. Ngôklúa
se lembrava do íllho de sua Irmã, já falecido.
Os Uyapê ainda continuaram o Me-ang-rõ na praça por algum
tempo, depois se espalharam para comer e dormir.
Na manhã seguinte recomeçou o Me-ang-rõ dos Uyapê, já desde
ás quatro c mela. As duas metades dançaram desta vez, uma ao re-
dor da outra, num círculo cada vez mais apertado, tomando depois,
posição na saída da praça, conforme Indica a flg. n. , recomeçan-
do depois de um pequeno Intervalo. Os dirigentes traziam os cilindros
de pau pendurados em alças de corda; os outros tinham a palheta
na mão direita. O dirigente da festa dos Koltl se distinguia por um
enfeite dorsal de penas, montadas sôbre uma espécie de panciro e
uma flauta dupla. (40)
Poucos minutos antes de nascer o sol. saiu outra vez da casa
<a), no ponto oriental da aldeia, o velho conselheiro com a grande
bola de borracha, agora enfeitada de lã de pati, levantada na mão
direita. Multo devagar e qua.se Impercetivclmente, ele se adiantava
em pequenas etapas sem levantar os pés do chão, quando os dança-
dores de Me-ang-rõ pararam. Logo que éstes recomeçaram a gritar
e bater o pé, êle ficava parado qual uma estátua. A.sslm se aproxima-
va aos poucos à boca da fileira dupla de dançadores, no momento
exato em que atrás dêle o sol se levantava no horizonte, palrando
por cima dos taboleiros. O dirigente de festa dos Koltl, aproxlmou-se,
então, devagar, incllnando-se diante do velho conselheiro, que fez um
movimento como .se qulze.s.se atirar a bola. O Koltl recebeu a bola
na mão, pa.ssando-a Imedlatamente ao seu colega da metade Kolre,
ao lado. Ê.stc pa.ssou-a ao Koltl que lhe ficava cm frente, que a deu
ao Kolre mais próximo, pa.ssando a bola assim cm zlguc-zague pelas
mãos de todos c voltando flnalmentc para as do velho, por Intermé-
dio do dirigente de festa dos Koltl.
Né.sse momento os dois dirigentes meteram os braços nos cilin-
dros de pau c o Koltl Incllnou-sc novamente diante do con.selhelro
que, com um movimento lento do braço lhe atirou a bola. O dirigente
de festa dos Koltl rebateu-a com um golpe vigoroso, fazendo-a subir
alto; Imedlatamente o dos Kolre saltou da fileira rebatendo a bola
com um segundo golpe, dclxando-a depois cair no chão. Logo uma
das bolas menores foi atirada entre a fileira dupla, com a qual con-
tinuou 0 jôgo na praça. Observei, então, que os jogadores .se tratavam
(•ntre sl de "Koltl" e "Kolre". o que ainda não tinha ouvido em ne-
nhuma outra ocasião.
As sete horas da manhã um indlo enfeitado com listas de lá de
pa , trouxe uma daquelas bolas maiores, enfeitadas coin penas de
4U
/Ikowltz: fl". 233 ».
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Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
ema. Os jogadores receberam-no na saída oriental da praça, con-
tinuando com ela o jôgo. Ao melo-dla, repetiu-se a cerimônia com
a bola grande, exatamente como no levantar do sol, com a única di-
ferença que agora o dirigente de festa dos Kolre ostentava o enfeite
dorsal e a flauta dupla, rebatendo em primeiro lugar a bola grande.
À tarde findou o Peny-tág com a seguinte cerimônia: os Kolre
estavam, como sempre, com a frente para o norte, na praça, quando
foram enfrentados pelo dirigente de festa dos Koltl, duas filhas da
Irmã dêste e um índio de nome Kwul-mrõ, que trazia a bola grande.
Êste ameaçou os Kolre, erguendo a bola contra êles com a mão di-
reita; 03 Kolre se dispersaram gritando, para imediatamente se re-
unirem de novo. Por fim, Kwul-mrõ fez rolar a bola devagar aos pés
dos Kolre. O dirigente de festa destes apanhou-a Instantàneamente,
rebatendo-a uma só vez. Assim findou o Peny-tág.
E’ claro que essa cerimônia extremamente solene e impressio-
nante, orlglnàrlamente nada tem que ver com os mitos da “Perna
de Lança” e do “Crâneo rolador” (cabeça de maracá) . Ao contrá-
rio, não me parece impossível que tenha relações com o culto solar
dos próprios Aplnayé, se bem que a lembrança de semelhante co-
nexão tenha desaparecido por completo da consciência desses índios.
Fim da reclusão
Depois do Peny-tág, os pais dos Pemb vão caçar durante uns qua-
tro ou cinco dias ,enquanto as mães arranjam a lenha, as pedras c
as folhas para preparar os bolos de carne. Os Pemb, que durante a
noite entraram nas suas câmaras de reclu.são, recebem lá os bolos
pela brecha da parede de esteiras. Um por um levam depois os bolos
para a praça, onde os depositam em esteiras estendidas alí pelas
mulheres dos instrutores. Êstes chegam cnfeltnllos com cavilhas la-
biais, com cintas vermelhas (Koltl) ou pretas (Kolre), examinam a
comida, mastigam um pouco dela, esfregando a ma.ssa em cruz na
barriga e se retiram; nisto, as suas Irmãs, que já esperavam de lado
com côstos na mão, recebem a parte que lhes cabe. Com isto finda a
reclusão prôprlamcnte dita.
Os cacâtes dos Pemb
No dia .seguinte começa a confecção dos cacôtcs cerimoniais
íkô) dos Pemb. São varas roliças de cêrea de uma polegada de gros-
sura, com uma cabeça mais gro.ssa, alongada c bem destacada. Igual-
mente roliça. Do punho pende uma borla de penas de arára. Os Ins-
trutores pedem a dois velhos competentes no a.ssunto que arranjem o
material para os cacôtcs dos Pemb. Êstes vão com os rapazes para es-
colher uma árvore cm condições (pau brasil), que derrubam tirando
dela tantas achas quantas necc8.sárlas para que cada Pemb pos.sn
receber duas. Outros caçam c as Mekultxwòl preparam carne no
lugar de distribuição das achas, onde todos comem, ficando alguma
cm i
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Nimueiídajú — Os Apinayé
peça como pagamento aos velhos. Voltam todos para a aldeia, os
Pemb, porém, escolhem um lugar na mata ribeirinha, pouco distante
da aldeia, que limpam para alí confeccionarem os cacetes (kôkupkrá-
ra-txa) e onde cada um deposita as suas achas no chão, cuidado-
samente embrulhadas em folhas de sororoca. Alí os procuram os seus
instrutores, que examinam o material trazido.
À boca da noite entram os Pemb na aldeia. Dívldindo-se em Kolti
e Kolre para o lado direito e esquerdo, dão a volta, desta vez pela
rua que passa na frente das casas, cujos habitantes os esperam sen-
tados no terreiro. Cada um dos Pemb já sabe quem seu pai escolheu
para .ser seu novo Kramgê-tí, e assim que passa por êle, pede-lhe que
faça 0 seu cacete.
Pela manhã seguinte vão todos êsses Kramgêd-ti para o lugar
dos cacetes, na mata ribeirinha junta da aldeia, enquanto os Pemb,
já antes do levantar do sol, vão à caça. Os Kramgêd-ti começam o
trabalho. Cada um dos Pemb prepara pessoalmente a carne, logo que
chega de volta; as Mekuitxwéi quando multo, ajudam os seus Kramtx-
wú (amigos, protetores, v. p. 34). Depois comem os Kramgêd-ti, cada
um separadamente, aquilo que seus Kram lhes prepararam. Somente
aquêles que mantém entre si relações de “amizade” podem trocar a
comida. Depois da refeição ninguém mais pode ocupar-se do traba-
lho, senão a madeira racha. Voltam, portanto, para a aldeia, enquan-
to 05 Pemb ficam até o anoitecer, quando vão recolher comida das
suas casas maternas, etc., como faziam durante a sua reclusão. A
confecção dos cacètcs dura mais ou menos quatro a cinco dias. As
peças acabadas são penduradas numa vara armada horizontalmcnte
sobre duas forquilhas, sendo colocados no melo dela os cacetes de
kiyê Ipôgnyótxwúdn. que sc distinguem pela borla de penas de rabo
de arára muito compridas. Antigamente se penduravam também ao
lado dos cacêtes os pequenos machados semilunares, que sc davam nos
Pemb.
Assim que finda o trabalho, vão os Pemb caçar novamente durante
uns cinco a dez dla.s, até que que todos tenham conseguido boa quan-
tidade de carne. Avisados da volta dos caçadores, vão os Kramgêd-
ti com cüfos cheios de mantimentos da roça para o lugar onde con-
tinuam pendurados os cacêtes.
Evitando pa.ssar pela aldeia, os caçadores Pemb nproxlmam-.se
com a carne às costas. Kormam uma fileira c cada um deposita a
seus pés a caça que trás. Os Kramgêd-ti mostram a cada Kram o
cacêlc que llic pertence, recebendo como recompensa a caça do seu
Kram e cntrcgando-lhc por sua vez, o côfo com os frutos da roça.
Quando os Kramgêd-ti voltam para a aldeia, o cabo dos Kolti tira em
primeiro lugar o seu cacete, exortando os seus colegas num discurso
improvisado. Depois cada qual tira também o seu cacête, indo todos
com as suas armas à aguada para bruni-los com as folhas de sam-
balba, que os seus Kramgcd-tl lá depositaram para êsse fim. Este
.serviço .se faz .segundo o mesmo cerimonial do brunlmento da.s vara.s
de fu.so (V. p. 40). Com os .seus cacêtes na mão. voltam os Pemb para
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a aldeia ,onde se distribuem pelas casas maternas, reunindo-se mais
tarde, outra vez, para cantar a primeira cantiga de Me-amnia. No dia
seguinte cantam também as duas outras em Intervalos de algumas
horas.
Festa final
Na manhã seguinte reunem-se os Pemb em determinada casa, on-
de se lhes cortam os cabelos, depois de terem dançado ao redor de uma
mulher que trás na mão a tesoura. Durante todo o tempo da reclusão
não aparam os cabelos, de maneira que, antigamente, os da testa lhes
desciam até o queixo, sendo êste o critério usado nara a duração da
reclusão. Entre os Apinayé como entre os seus parentes além do
Tocantins, o corte dos cabelos é serviço excluslvamentc feminino.
Nos Pemb êle é executado pelas suas Kramgêdy, sendo os dois cabos
os primelhos a se submeterem. Terminado o corte do cabelo, o Kram-
gôd-ti do respectivo Pemb despeja sôbre sua cabeça um cabaço dágua.
Os cabelos cortados são embrulhados numa esteira que se mete
na forquilha de um pé de sucupira, no tabuleiro. Llmpa-se a cara
dos Pemb com flocos de algodão, para plntá-la de novo com tinta de
urucü. Enquanto se lhes gruda nas fontes, como enfeite, o pó de casca
de ôvo de nambú-tóna, êles cantam Me-amnía. Postos também os
enfeites de algodão, mandam os Pemb buscar um cantador com o qual
dançam Tu’êre dentro da casa, ate a tarde, formando dois círculos
concêntricos, que giram em sentidos opostos.
Segue-se a Isto a corrida com as tóras. Oramã-natí, como no
Pebkaág (v. pg. 31), mas no Pcbkumrédy o sinal para o começo
da corrida c dado de maneira especial: os Pemb com os Uyapê vão
adiante para cantar Me-amnía junto das toras que se acham coloca-
das .sôbre as respectivas forquilhas. Os outros habitantes da aldeia
os seguem algum tempo depois, guiados por um velho (Kurc-ngrl-
txwúdn), que de vez cm quando sopra um apito de ponta do cabaça.
Chegados a uns 200 metros das tóras, êle dá o sinal, levantando os
braços; a corrida começa Imedlatamcntc.
Os Pemb passam a noite como faziam os Pebkaág, enfeitados e em
pé sôbre a pilha de toras na praça o, pela manhã se repete a cerimó-
nia de tirar a pintura, esfrcgando-sc no corpo de uma velha o num
pé de sucupira desca.scado (v. pg. 40).
Depois põem os Pemb novamente os seus enfeites c cada um vai
sòzlnho ã praça a.sslm que se apronta. Al, pouco a pouco, vão for-
mando uma fila com a frente para o oeste, ficando n.sslm cm pé, ex-
postos ao sol, ate a tarde. Voltam para casa, um por um, na ordem
cm que chegaram, e dai se dirigem ao ribeirão para banhar-.se. Mais
tarde fazem os Uyapê uma corrida de toras, depois da qual os
Pemb cantam, em pé, sôbre a pilha. Esta cerimônia de enfeitar Oy
Pemb repete-se ainda durante alguns dias.
Não existe pròprlamcnte um ato final de Pcbkumrédy. A festa
SC transforma numa série de corridas de tora, feitas em comum po-
los Pemb e os Uyapê, tendo aqueles a obrigação de fazer as primeiras
cm i
ISciELO
10 11 12 13 14
Nimuendajú — Os Apinayé
57
toras. Diariamente celebram uma dessas corridas, porém, cada dia
um pouco mais tarde, de maneira que a partida da última corrida
dessa série já se dá quase ao pôr-do-sol. As toras, porém, não são
mais feitas pelos Pemb e sim pelos Uyapê, que agora tomam parte
ativa nas corridas. Com isto finda a iniciação dos novos guerreiros.
Acontece multas vezes que, por ocasião dessas corridas de tora
ou outro Pemb se mostra um tanto fraco das pernas. Os instrutores
examinam os rapazes dêste ponto de vista e achando que algum
dèles treme com os joelhos depois da corrida, constatam “êle não
presta para as corridas, êle tem sangue demais!” Manda-se, então,
buscar nos galhos das árvores, um pedaço de ninho de cêrta formiga
prêta, que fere dolorosamente. O portador deve ser um rapaz que
ainda não tenha tido intercurso sexual. O paciente ainda toma parte
na corrida de tora da manhã seguinte, depois da qual o Me-kupên-
txwúdn ( = arranhador, escarlflcador) , o leva para a aguada. Pon-
do-o com a cara para o oriente faz-lhe com um instrumento de den-
tes de rato engastados num pedaço de cuia, escariflcações em forma
de compridos riscos verticais do lado posterior das pernas. Apara
o sangue num talo de bacaba, carboniza o ninho de formiga e es-
frega 0 carvão nas sangraduras. Depois disto o jovem fica de res-
guardo, em casa, durante cinco dias, e antes de tomar novamente
parte nas corridas, vai de novo à aguada, onde queima folhas sêcas
da palmeira patí, esfregando as pernas com a cinza e o carvão, pon-
do depois em casa, resina de alméccga misturada com tinta de
urucú.
SciELO
58
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
X. A FAMÍLIA
A família dos Apinayé é bilateral (v. p. 27) e matrilocal.
A parentela
Uma parentela (Grossfamilie) de algum modo organizada, não
existe. Ela se esboça na comunidade da casa que se compõe de diver-
sas famílias, aparentadas entre si pela linha feminina. Em média
contam-se dez pessoas para uma casa. Em Bacaba e Gato Préto, não
existe nenhuma casa habitada por uma só família, sendo de seis o nú-
mero maior de famílias reunidas sob o mesmo teto.
A casa pertence à mulher, para quem o marido a constroi, mas em
vista de se reunirem para a construção da casa, os maridos de tôdas
as mulheres da comunidade da casa, esta pertence verdadeiramente
à parte feminina da parenteia.
Em caso de divórcio, o homem não pode obrigar a mulher a dei-
xar a casa, êlc é quem deve se retirar para a casa das suas parentas.
Isto vale mesmo até para homens de importância como o chefe Ma-
túk, de Bacaba. Quando êste voltou de sua última grande viagem, foi-
lhe denunciado que durante sua ausência, sua mulher se tornara sus-
peita de adultério. Em vista disso, Matúk quiz se divorciar dela, mas
os parentes da mulher conseguiram evitar a separação. Perguntel-
Ihc, então, se teria expulso a mulher caso se concretizasse o divórcio,
ao que me respondeu que, êle é que se teria mudado para a casa
de sua mãe.
Proibições de casamento
Apesar do numero reduzido de Apinayé, a ordem exogãmlca dos
Klyê continua ainda hoje em vigor, como expús á pg. 27. Indepen-
dente dela, evitam os Apinayé, em geral, tal como os Xerénte, o ca-
samento entre parentes de primeiro e segundo grau, em linha as-
cendente ou descendente.
Pessôas que se tratam entre si de Pigkwá (masculino) c Kambí
(feminino), não podem casar-se umas com as outras; nenhum Api-
nayé pode, portanto, casar-se com a filha da irmã ou do irmão de
seu pai ou mãe (v. Apêndice II. Termos de Parentesco) .
Além disso não pode haver casamento entre pessôas que estão
entre sl na relação de Krnm-Kramgêd (v. pg. 27). Êste tabu estã
cm vigor até hoje.
Nimuendajú — Os Apinayé
59
Casos de incesto como os que notei entre os Xerénte são desco-
nhecidos entre os Apinayé. Tampouco pude verificar um só caso
que fosse, de sedomia ou homosexualidade, vícios êstes que êles con-
sideram próprios dos seus vizinhos civilizados.
Todavia a masturbação parece ser praticada (41) entre meninos,
como também entre meninas adolescentes, como resulta da cerimô-
nia seguinte:
Em 1928 celebrou-se em Bacaba uma corrida solene com certo
tipo de toras enormes (pal-kapê), que pertencia ao ciclo do Rod’rôd.
Quando as duas toras jaziam no chão, pintadas e prontas para a
corrida, as crianças maiores de ambos os sexos foram postas em fila,
uma atrás da outra, junto às toras. Ao lado das crianças ficaram os
seus Kramgèd. Aproximaram-se então os dois dirigentes de festa das
metades: o Kolre se nôs adiante da fileira com um açoite trançado
de folhas de piaçaba na mão, enquanto o Kolti examinava um a um
as partes genitais dos meninos e das meninas. Se achava indícios
de masturbação, êle com o punho fechado batia no culpado em am-
bas as coxas, empurrava-o para fora da fila com um soco nas cos-
tas e arrancava-lhe um punhado de cabelos da nuca. O castigado
se precipitava para um pau de candeia (angá-re), que se achava a
certa distância e que estava marcado para êsse fim, tirava com os
dentes um pedaço da casca, mastigava e esfregava a massa no es-
pinhaço. Quando voltava ainda recebia do dirigente de festa dos
Kolre algumas chibatadas com o açoite de piaçaba. Em lugar das cri-
anças, se submetiam, muitas vêzes, ao castigo, os seus Kramgêd.
A esta cerimônia chamavam os Apinayé de Me-kamitxód. Ex-
plicaram-me que não se deve tolerar a masturbação porque enfra-
quece as crianças, tornando-as incapazes para a corrida de tora.
Diziam que se conhecia os meninos culpados porque o seu prepúcio
se deixava repuxar ao ponto de de.scobrir a glande. Não me disseram
porque indícios se julgava as meninas ,só dando a entender que co-
nheciam as culpadas pelo aspecto da vulva. Entre os adultos a mas-
turbação não parece ocorrer.
Levirato
Deste tipo de matrimônio os Apinayé não têm a menor noção.
No entanto, existem ca.sos dc sororato na forma de casamento do
viúvo com a irmã da finada esposa, porque os Apinayé são estrita-
mente monógamos. Os sogros do viúvo, as mais das vezes, favorecem
o sororato para que uma segunda mulher, estranha, não maltrate
05 filhos da primeira. Ilá, porém, indlos que se envergonham de ca-
sar com a cunhada. Entre êstes conta-se, por exemplo, Matúk, que
me disse ter recusado o casamento com a irmã de sua primeira mu-
lher. expressamento por êste motivo. Isto é tanto mais estranho,
quando o marido c a irmã da mulher, se tratam reclprocamcnte com
SI — Duscallonl: Un» etciirilone, 233.
60
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
bastante liberdade. Em 1937, entre 160 Apinayé havia 4 casos de so-
rorato.
As relações pré-maritais
Eram, antlgamente, afetadas pela exigência de virgindade da
moça para o casamento formal. Singularmente, os Apinayé estão fir-
memente convencidos de que não pode haver menstruação antes do
defloramento, e que êste último seja um requisito para aquela. Sor-
riem, com superioridade irônica, quando ouvem da boca de seus vi-
zinhos civilizados que fulana de tal, sendo moça virgem, teve sua pri-
meira menstruação. Aliás, inteiramente da mesma opinião são tam-
bém os Ramkôkamekra-Canelas. Semelhante teoria, naturalmente,
só se pode sustentar entre um povo em que as moças, só muito ex-
cepcionalmente, alcançam a entrada da menstruação em estado vir-
gem. Isto se dá ainda hoje entre os Apinayé. O costume de casar as
mocinhas em estado imaturo, na idade de dez a doze anos deve ser,
portanto, um velho costume entre os Apinayé e não uma inovação,
como entre os Xcrénte.
Mais estranho ainda, é o fato de que, apesar desta teoria, os Api-
nayé celebram a primeira menstruação com certo cerimonial. A moça
é submetida junto com seu marido, a uma reclusão durante os dias
da menstruação. Diante do seu jirau coloca-se uma esteira para que
ela não ponha os pés no chão. Sôbre a esteira de dormir delta-se
uma outra de folhas de pati. A dieta do casal consiste em beijús de
mandioca. A moça não deve se coçar com os dedos, o que causaria
ferida, mas com um pauzinho agudo de pau rôxo que trás pendurado
ao pescoço. Pauzinhos semelhantes usam também os pais durante
o resguardo após o nascimento de um filho. Ao fim de reclusão, o pai
e o tio paterno da moça vão caçar e da carne que trazem, fazem-se
alguns bolos. Um dêles é levado logo à casa de alguma velha enten-
dida no assunto, a qual vai então ao cubiculo de reclusão, onde a
moça está deitada no jirau, enquanto o .seu marido fica sentado ã
porta. Debaixo do silêncio cheio de expectativa das parentas, a ve-
lha aperta com a ponta do dedo o umbigo da moça, para assim se
certificar se ela terá o primeiro filho, logo ou só depois de alguns
anos. Na manhã seguinte levam-se os outros bolos aos homens na
praça, enquanto o casal vai se banhar no ribeirão. No caminho, o
marido procura alguma árvore no campo das chamadas "pen-re”
pelos Índios, da qual tira um pedaço de casca, que tritura, mlsturan-
do-a com água numa cuia. Ambos bebem a infusão e lavam-sc com
os restos da casca. O que sobra é jogado com a cuia na água, para
que o primeiro filho do casal tenha cabelos bonitos e compridos. De
volta do banho, ambos são pintados c levados à praça.
Durante a reclusão, a mãe da moça junta o pó que resulta do
uso das pedras que servem de quebra-nozes, mlsturando-o com urucú
e pinta com êle a filha. Manda-a também urinar sôbre as mesmas
pedras para que alcance uma idade avançada e não morra de parto.
61
Nimuendajú — Os Apinayé
Mulheres menstruadas não se enfeitam nem tomam parte nas
danças. Não se coçam com as unhas, usando para êsse fim, qualquer
pedacinho de pau. Elas se negam a ter relações sexuais e repelem
o homem que com elas insiste. Ainda há poucos anos existia o uso
das mulheres menstruadas se marcarem elas próprias com um risco
vermelho, do epigastro ao umbigo, feito com uma mistura de resina
de almécega e urucú. O contacto com uma mulher menstruada torna
o homem pálido e fraco, além de “panema” na caça. O remédio con-
tra êste mal consiste nas folhas de uma árvore chamada bll-klin, cujas
folhas se mastiga, engulindo-se o sumo e esfregando-se o corpo com
os resíduos.
Antlgamente castigava-se coíh pancadas a moça que, não estando
destinada a ser rapariga pública, mas prometida em casamento for-
mal, tinha intercurso sexual premarital; o homem era obrigado a
uma indenização em objetos de uso e enfeites. Certos pais ainda
hoje mantêm êsse principio, outros, porém, pouco se incomodam com
as consequências dos namoros das suas filhas e sobrinhas, ao ponto
de nem saberem se estas tiveram ou não intercurso sexual prema-
rital.
Duas fontes de literatura mais antiga. Cunha Mattos e Ferreira
Gomes (42), falam numa separação de moços e moças em casas es-
peciais. O primeiro diz somente: “Os Apinagés conservam os rapazes
em casas separadas das raparigas...”; atribue, também aos Apinayé,
o uso de amarrar o prepúcio que êles nunca conheceram, mas se
encontra entre os Xavante-Xerénte. Pôde ter êle se equivocado
também quanto à casa dos rapazes, que existe apenas nas aldeias dos
Xerénte, tanto mais que Cunha Mattos conhecia bem estas, mas,
provavelmente, nunca chegou a ver uma aldeia de Apinayé. Ao con-
trário, a descrição de Ferreira Gomes, da aldeia Bacaba que visitou
pessoalmente é tão detalhada que um equívoco parece impossível ou
um êrro de interpretação, pouco provável: "... As casas todas for-
mam um círculo e no centro estão duas destinadas para os homens
e outra para as mulheres que estão na puberdade ou que se apro-
ximam a êste estado, segundo me pareceu, os quais só mudam de
habitação o.uando casam, como fui informado, sendo que nenhum
homem vai ã casa das moças, nenhuma mulher vai à casa dos moços
porque essas casas se reputam privilegiadas; porém, é permitido sair
quando lhes apraz para conversar na casa de seus pais e parentes,
para irem ao trabalho, ao rio, etc., etc., e para o homem casar basta
que tenha certa idade, dê provas de força, agilidade, que saiba ma-
nejar bem o arco e flechas, que seja, como êles dizem, um guer-
reiro. . .”
Com exceção do fim do período que corre.sponde à verdade, mais
do que o próprio autor .supunha, os Apinayé permitem o casamento
só depois da Iniciação de guerreiro! (v. p. 50), essa descrição não
« — MntOB, 1824: ChoroKruphla. p. 22.
OomcB, 18S8: Itinrr&rlo, p. 482.
62
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
me dá a impressão de ter sido fornecida peios próprios Apinayé. Mas,
seja coroo fôr, não se pode duvidar de que Ferreira Gomes encontrou,
por ocasião da sua visita, três casas no centro da praça, das quais
duas eram habitadas por moços e uma por moças.
Desde a minha chegada na tribo, empreguei todos os esforços —
tanto em Bacaba como em Gato Prêto, para obter uma explicação dos
Apinayé para isto. Nenhum dêles tinha jamais ouvido falar siquer em
tais casas. Que se separam os moços em dois ranchos durante a se-
gunda fase das iniciações (v. pg. 50), se bem que não na praça,
mas num acampamento no mato, todos sabiam, mas o que não lhes
entrava na cabeça era a separação das moças. Com exceção das Me-
kuitxwél, nunca existira semelhante uso. — Confesso, portanto, que,
por ora, não sei como acomodar essas informações de Ferreira Go-
mes no esquema social da tribo.
Noivado
Pouca importância tem entre os Apinayé. Quando multo jovens,
os seus parentes costumam forjar planos de casamento para o fu-
turo, procurando mais tarde convencê-los de que devem segui-los.
Como, porém, entre os Apinayé, ao contrário do que se dá entre os
Xerénte, ninguém pensa sèriamente em obrigar um moço ou uma
moça ao casamento, êstcs se casam, por fim, de livre escolha, pouco
se incomodando com as combinações urdidas pelos parentes.
O casamento é, portanto, tratado pelos pais dos nubentes, com o
consentimento déstes. O tio materno, porém, não tem entre os Api-
nayé aquela importância decisiva que lhe assiste entre os Ramkôka-
mekra-Canelas. Frequentemente a Iniciativa parte da moça, que pe-
de aos seus pais que se entendam com os pais do moço.
Condição para o ca.samento, era, por parte do homem, a termi-
nação completa das Iniciações de guerreiro. Provas especiais de fôr-
ça e agilidade, porém, de que fala Ferreira Gomes, não se exigia do
candidato. Tampouco é condição indispensável, a corrida de tora,
como escreve Bu.scallonl (43). Se a afeição de uma moça era bastante
forte para fazê-la pa.ssar por cima da proibição do casamento com
um moço ainda não iniciado, ela tinha de expiar essa transgressão
no dia em que o seu companheiro era recolhido para ,a reclusão dos
Pebkurédy, tendo ela de passar á fôrça e contra a vontade para o
estado de rapariga pública (v. pg. 48) . Matúk contou-me que èle as-
.slstiu a ésse ato por ocasião do seu Pebkumrédy. "Eu mesmo, disse
èle, não me vexava, porque naquôlo tempo ainda não tinha com-
panheira, mas os outros que Já as tinham, êstcs ficaram multo tris-
tes”. Com raras exceções, os moços casavam Imedlatamente depois
do fim da festa, todos no me.smo dia; porém, ninguém era obrigado
a ls.so, podendo ficar solteiro quanto tempo qulzesse.
43 — UuKftllonl: Un* ricurilonc, p. 333.
Nimuendajú — Os Apinayé
63
Casamento
Ferreira Gomes fala, com respeito ao casamento entre os Api-
nayé, de “certas cerimónias para nós ridiculas”, e Buscalioni, levia-
no e inexato como sempre, escreve sóbre o mesmo assunto: “L’orga-
nizzazlone sociale e pero, bene si compreende, quanto mui rudlmen-
tale. Eslste, é vero, ad semplo, un simulacro di matrimonio, ma dei
punto di vista degli effetl, diremo cosi, giuridici che dallo stesso
emanano, noi ce iroviamo unicamente di íronte ad una ridicola ce-
rimónia destitulta di ogni importanza”. (44) O que diz depois a res-
peito, prova que não se baseia em observações próprias, nem mes-
mo nas descrições dos índios, mas, do mesmo modo que Ferreira Go-
mes, nas informações dadas pelos neobrasileiros da vizinhança, dos
quais não se pode esperar outra coisa, senão que tratem de ridiculari-
zar os costumes dos índios, os quais não podem nem querem com-
preender.
Pelo que tenho observado pe.ssoalmente, a cerimonia do casa-
mento é a seguinte:
Enquanto homens e mulheres executam na praça a dança co-
mum, os noivos são enfeitados, nas suas casas maternas, com lã de
patí, grudada na pele, pintura de urucú e enfeites de penas. Dois
irmãos ou primos da noiva vão, então, à casa materna do noivo e,
pegando-o pelas mãos, colocam-no entre êles e o conduzem através
da praça, para a casa da noiva que o espera sentada no jirau. O
noivo tem de sentar-se ao lado dela. Então, o conselheiro (Kapél-
txv/údn), e não o vayangá ou curador, como escreve C. Estevão (45),
lembra no par, em breves palavras as suas obrigações recíprocas, es-
peclalmente quanto à fidelidade conjugal, exortando-os a uma vida
correta. Depois dèle fala ainda uma parenta — mãe, avó ou tia da
moça — dirigindo-se a esta em particular, sóbre o mesmo assunto.
Antigamente o conselheiro, solenemente enfeitado conduzia o par
ao redor da rua da aldeia, costume êste, não mais exercido hoje em
dia. Logo que o marido, depois dessa cerimônia, volta pela primeira
vez à casa materna, suas parentas maternas o exortam sobre a con-
duta a seguir.
Essa cerimónia que, para mim, pelos menos, nada tem de ridí-
cula, não é senão uma demonstração conspícua dos pontos básicos
da ordem social dos Apinayé. Primeiro: a posição dos irmãos da
mulher como defensores dos seus direitos c a subseqüente depen-
dência do marido para com êles (condução do noivo). Segundo: a
ordem matrllocal (introdução do noivo na casa da noiva). Terceiro:
manutenção da concordla interna (exortação aos noivos). E’ que o
casamento, entre os Apinayé, tem, sobretudo, importância social e
não "jurídica”, como esperava Buscalioni.
— Oomrs. Itinrririu. 497
Uutcallonl, Unk ricunluiir, 2S2.
64
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
Não pude constatar que o casamento sómente se realiza duran-
te a lua crescente, como informaram a C. Estevão (46) .
Até o presente os Apinayé são estrltamente monógamos. Caçoa-
vam de um índio de certa idade que, diziam, tinha duas mulheres.
Mesmo nêste caso não se tratava pròpriamente de bigamia, mas de
circunstância de possuir esse índio uma esposa legítima em Gato
Prêto, da qual se separara para viver cora uma rapariga em Marlazi-
nha. Depois arrependeu-se e voltou para junto da esposa. Algum
tempo mais tarde, separou-se e novamente, retornando a aldeia Ma-
riazinha. E assim vivia éle, viajando entre Gato Prêto e Marlazinha.
O casamento com uma moça virgem, contraído pública e sole-
nemente pelo ritual acima descrito, era considerado indissolúvel e,
se bem que os Apinayé não forçassem ninguém ao casamento, se
obrigava depois os esposos â manutenção do compromisso contraído,
acontenccndo multas vezes que os próprios pais da parte Inclinada
ao divórcio ilícito, a obrigassem por melo de pancadas a continuar
no cumprimento dos seus deveres conjugais.
Afóra essa forma de casamento indissolúvel, existe uma segunda,
como entre os Xerénte: a união mais ou menos estável feita sem
nenhum cerimonial, com uma rapariga pública. A posição dessas
“Me-kuprí-ya” é muito semelhante ã das suas colegas entre os Xe-
rénte e Ramkôkamekra-Canelas. Algumas mocinhas escolhem de
vontade própria essa condição, outras por insinuação dos pais, ou
por Intercurso sexual premarltal que não leva ao ca.samento. O nú-
mero é ainda aumentado pelas divorciadas por adultério c as viúvas,
quando não .se casam outra vez. Nos dois primeiros ca.sos a moça
é enfeitada por sua mãe que lhe corta rente o cabelo acima do sul-
co, e tinge essa parte com urucú. As outras raparigas públicas re-
unem-sc numa casa qualquer onde cortam o cabelo da me.sma for-
ma, e se enfeitam. A noite juntam-se os guerreiros (Pemb), que vão à
casa materna da moça e levam-na à praça em companhia de sua
mãe. A mãe logo volta, enquanto a moça passa a noite na praça em
companhia dos Pemb c das raparigas públicas. Na manhã seguinte
seu tio materno procura-a na praça, onde ela lhe indica todos os
guerreiros que com ela tiveram contacto sexual. O cabo da metade
Koltl dos Pemb então, com uma enorme cuia nos braços, percorre
as casas daqueles que foram denunciados e deles recebe dádivas, cs-
pecialmente miçangas, mas também, esteiras, penas de arára, pa-
nelas de ferro, facas, etc., que juntos, repre-sentam, multas vôzes um
valor considerável para os índios, e que ele entrega ao tio da moça
na praça, cxpllcando-lhe a procedência dos diversos objetos. O tio
embrulha tudo numa esteira que leva ã ca.sa materna, onde entrega
as dádivas aos pais da moça. Mesmo guerreiros casados têm, ne.ssa
ocasião, direito a intercur-so sexual com essa moça, sendo que suas
e.spo.sas não protestam contra a dádiva, a qual é obrigatória.
4S — Ollvetni: tntilos Apinagf, 04.
40 — Ibld.
Nimuendajú — Os Apinayé
65
Antlgamente, os parentes não viam com bons olhos quando um
guerreiro novo se unia a uma rapariga pública “que já tinha per-
tencido a muitos”, procurando evitá-lo por meio de conselhos. Hoje,
quando muitos pais perderam o controle das relações sexuais das
suas filhas adolescentes, que só excepcionalmente casam virgens,
sendo, sob o ponto de vista ortodoxo, raparigas públicas, estabelece-
se, pouco a pouco, 0 costume de casar essas jóvens sob o cerimonial
acima descrito, visivelmente com o fim de dar maior estabilidade a
essas uniões.
Divórcio e adultério
No passado só era conhecido como motivo justo para a disso-
lução de um casamento contraido cerlmonlalmente, o adultério da
mulher e maus tratos da parte do homem. Uma separação dos es-
posos em idade madura só se dá, até hoje, por um dêsses dois motivos,
ou melhor, só pelo primeiro, porque de maus tratos graves infligi-
dos à esposa só conheço um único caso: um tal Nindó, que naquêle
tempo, tinha seus vinte e poucos anos, feriu com um facão em di-
versas partes do corpo a sua jovem esposa, Konduaká, sem que esta
lhe tivesse dado o menor motivo para isso. O casamento foi con-
siderado dissolvido ipso facto. Nindó fugiu do castigo, refuglando-se
entre os neobraslleiros, onde ficou durante dois anos. (v. p. 98) .
A geração nova é, apesar dos desgostos que isto causa aos mais
velhos, extremamente leviana e inconstante em matéria de casamen-
to. Tomemos, por exemplo, Vanmengrí, filho do chefe Matúk, de
Bacaba, que hoje terá uns trinta e tantos anos: primeiro casou-se
com uma mulher de nome Admyl, que um outro índio já tinha
abandonado com um filho. Vanmengrí abandonou-a também, de-
pois de já ter filho com ela, e como seu pai Matúk o censurasse
por isso, retlrou-se para Gato Prêto, onde se juntou a outra moça,
que da mesma forma abandonou depois de algum tempo. Voltou a
Bacaba e casou-se com uma terceira, abandonando-a também. Final-
mente, voltou arrependido para junto de Admyí e teve com ela um
segundo filho. Com Isso parece que se aquietou, pois, em 1937, êle
construiu uma casa para Admyí e sua velha mãe, mostrando-se mui-
to cordato e ajuizado. A Iniciativa para semelhantes dissoluções, In-
telramentc llicltas, pelo conceito ortodoxo, partem hoje quase ex-
cluslvamente do homem.
Devo confessar que durante todo o tempo da minha convivên-
cia com os Apinayé não tive conhecimento direto de casos de adul-
tério feminino. Só ouví do três ca.sos, dos quais dois se deram du-
rtinte, ou pelo menos, em consequência de festas “cristãs” com neo-
bra.sllclros, provàvelmentc sob o efeito de álcool. Todos os três ti-
veram em consequência o divórcio. Em mais dois ou três casos o ma-
rido desconfiou que sua mulher teria tido Intercurso sexual com
outro homem durante a sua ausência, querendo abandoná-la ao vol-
tar, mas sempre os parentes conseguiram uma reconciliação. Nunca
66
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
ouví dizer que entre os Apinayé homens ou moços tivessem brigado
entre si por motivos de ciume. Em todo caso, adultério e divórcio
não levantam nesta tribo tanta poeira como acontece entre os Xe-
rénte.
Como a outras tribos, os neobrasileiros acusam os Apinayé de
entregarem, mediante pagamento, as suas mulheres e filhas à pros-
tituição com eles, neobrasileiros. Já em 1859, escreveu Ferreira Go-
mes (47) : “. . . Toleram o adultério, a prostituição das mulheres com
pessoas estranhas à tribo”, ajuntando, porém, imediatamente, a se-
guinte observação: “porém vi alguns que se mostraram muito aman-
tes das esposas e tão zelosos que delas não se apartavam um mo-
mento, talvez por causa do abuso de hospitalidade que tem feito
alguns viajantes ou curiosos que têm ido ver essa boa gente”. Que
certas raparigas públicas são fáceis para os moradores da vizinhança
é indubitável. Uma destas, filha do chefe Pebkéb, de Gato Prêto,
rodava semanas inteiras entre os neobrasileiros. Outras, porém,
abstém-se tão decididamente de tôda familiaridade com homens que
não sejam os de sua tribo. Que mocinhas imaturas tivessem tido as
suas primeiras relações sexuais com neobrasileiros só me constou
num caso que se deu entre aqueles índios de Gato Prêto, que se ti-
nham mudado para a fábrica de cachaça de Carreira de Pedras.
Houve, também, um índio idoso, que favorecia a prostituição da fi-
lha com um neobrasileiro durante a prolongada ausência do marido,
recebendo mantimentos em pagamento. O m.arldo, assim que voltou,
abandonou-a.
Quando um Apinayé casado sai para uma viagem prolongada, faz
o seguinte para se certificar da fidelidade de sua mulher, que ficou
na aldeia: um dia antes da partida, tira um pouco de cinza da fo-
gueira da casa, molha-a com água até formar uma pasta grossa, em-
brulha esta em folhas e mete o pacotinho debaixo da cabeceira da
esteira em que dorme a última noite em companhia da mulher. Dc
madrugada tlra-o e guarda-o. Durante a viagem, de vez em quando
examina a massa; se encontrá-la esfarelada, é sinal de que a mu-
lher cometeu adultério. Uma prova semelhante usam os Xerénte com
um pauzinho que nas mesmas circunstâncias se lasca na ponta.
As moças Apinayé não têm mêdo do namorado ou esposo novo.
Causou hilariedade geral quando lhes contei que os Xerénte, duran-
te os primeiros tempos após o casamento, dão à recém-casada
uma tia como companheira, porque ela tem mêdo de dormir só com
0 marido. Este dorme com a tia até que a esposa .se acostume à sua
presença. Multo cedo têm as moças Apinayé ojúnlão formada e ini-
ciativa própria cm matéria de namoro, e as mais das vêzes, sabem
multo bem o que querem. Se gostam do homem, entregam-se a êle
sem muitos preâmbulos, do contrário dão-lhe logo a conhecer Isto,
de maneira clara c, então, não lhe resta outro recurso senão pro-
curar outra. Um homem perseguir uma mulher que não o queira é
47 Oomes. Itinerário, 492.
Nimuendajú — Os Apinayé
67
tão desabrido e ridículo, para os Apinayé, como para os Ramkôka-
mekra - Canelas.
Em 1937 havia cm Bacaba uma moça de seus 12 ou 13 anos, de
nome Mbaí, que era tida como virgem. Sua avó combinou com Matúk,
que ela devia casar com o sobrinho dêste, Vanmenti, realmente um
bonito rapaz de uns 20 anos, alto e esbelto, de formas esculturais, agra-
dável no trato, bom caçador e, o que hoje quer dizer muita coisa, não
viciado no álcool. Apesar dessas vantagens e dela não ter outro na-
morado, Mbaí não quis. A avq.. dava-lhe conselhos e mandou que
Vanmenti viesse de noite dormir com ela no mesmo jirau. Mbaí vi-
rou-lhe as costas e não disse uma palavra. Vanmenti sabia que nada
mais tinha que fazer, e quis retirar-se do negócio, mas a avó insistiu
com êle, que tivesse paciência, pois Mbaí haveria de se acostumar a
èle. Passou-se uma semana sem que a moça mudasse de atitude. Pi-
nalmcnte Vanmenti perdeu a paciência e quando Mbai, deitada com
êle no jirau lhe virou as costas, pegou-a pelos ombros, tratando de
vlrã-la. Mbaí virou-se, mas só para dar-lhe na escuridão um soco na
cara, com o punho fechado. Na manhã seguinte Vanmenti, que é meu
sobrinho, chegou-se a mim com o lábio superior sangrando e in-
chado para contar-me o que lhe havia acontecido e pedir-me algum
remédio. Logo depois abandonou a aldeia para acompanhar os Kra-
hô, que tinham nos visitado, na volta para as suas terras. Mbaí pou-
co se incomodou, com desgosto de sua avó. Até a minha saida não me
constou tivesse tido qualquer intimidade com outro rapaz.
As moças Apinayé são, como tôdas as moças Timbira, extrema-
mente discretas no que diz respeito a seus namoros. Tomariam como
um insulto grosseiro, se o seu namorado quizesse falar-lhes sôbre
seus namoros passados, nunca lhes fazendo perguntas a respeito da
relações amorosas anteriores, dando-lhes tampouco satisfação sôbre
as suas próprias.
Algumas vêzes as moças Apinayé têm um estranho modo de aca-
riciar 0 seu namorado; desejo mencioná-lo aqui, porque não o co-
nheço em nenhuma outra tribo, enquanto que Malinowski (48) o ob-
servou entre os antípodas dos Apinayé, os habitantes das ilhas de
Trobriand, na Melanésia. Durante o abraço trincam as sobrancelhas
do homem com os dentes, arrancando-as e cuspindo-as com ruido
para o lado, como se tivessem a boca cheia de cabelos. Há nisso um
exagêro cômico, porque já por natureza, os jovens têm as sobrance-
lhas muito esparsas, como ainda as arrancam de tempos em tempos,
de maneira que se pode tratar, quando muito, de vestígios delas.
Mulheres e moças Apinayé conservam até hoje o ideal da fide-
lidade conjugal. Não obstante ocorrerem transgressões grosseiras,
nisso sempre conservam a consciência de que estão procedendo mal,
ao pa.sso que os homens não mais consideram as suas próprias trans-
gressões como tais. Em geral, a decadência moral se acentua mais
na parte masculina da população, que na feminina, por ser aquela
^8 — Mnllnowskl: Sexual Life; 281-282, 250.
68
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
mais exposta que esta, à influência destruidora da civilização neo-
brasileira.
A mulher Apinayé põe luto pelo marido, ausente em viagem pro-
longada, da mesma maneira que se tivesse falecido. Até a sua volta
ela não corta o cabelo, não põe pintura nem qualquer outro enfeite,
não aparece mais na praça e apenas conversa com os moradores da
sua casa. Antlgamente, havia também o uso da mulher não mais se
lavar nem abandonar o jirau, sem motivo justificado. Ao ouvir o
trovão, as mulheres se lembram dos maridos ausentes.
Quando, após uma ausência de alguns mêses, um Apinayé volta
para a aldeia, vai diretamente à casa materna, onde se senta num
jirau sem dizer uma palavra. Estende-se uma esteira no meio da
casa, na qual êlc vai tomar assento. Tòdas as mulheres de certa ida-
de, sendo suas parentas, — e devido ao reduzido número de Apinayé,
quase tôdas o são, — chegam e sentam-se junto dêle, uma a uma,
ou às vêzes, aos pares; põem-lhe a mão no ombro, encostando, às
vêzes, também a cabeça e começam a chorar desesperadamente.
Choram verdadeira e slnceramente. As lágrimas descem pelos seus
rostos sôbre o braço do recém-chegado, estremecendo seus corpos de
emoção. Depois de algum tempo, calam-se, assoam-se ruldosamente
e levantam-sc para dar lugar a outras. Cada vez que volto aos Api-
nayé, sou recebido dessa maneira. Como costumo avisar minha chega-
da de uma distância de um a dois quilômetros, por três tiros dados
a certa distância, sempre encontro a esteira no chão c as mulheres
reunidas. Tôda a cerimônia dura uns 30 a 40 minutos. Choram por
dois motivos: em lembrança dos que morreram durante a ausência
do recém-chegado, e, com pena dêle mesmo, que certamente deve
ter passado tão mal em terras estranhas e onde deve ter-se sentido
bastante infeliz. Homens, crianças, moças e mulheres nova.s, não
tomam parte nessa cerimónia, nem tampouco a mulher de quem
chegou. Quando pessoas de aldeias da mesma tribo se visitam depois
de multo tempo, são recebidas pela mesma forma. A chegada de vi-
sitas a uma aldeia Apinayé se nota logo pelo chôro das mulheres. Ín-
dios de outras tribos e neobrasilclros nunca são saudados dessa ma-
neira.
Comparada com a dos Xeréntes, a vida doméstica dos Apinayé é
extremamente calma c pacifica. De fato, durante a minha convivên-
cia com êlcs, vi uma única briga entre marido o mulher e ouvi falar
de outra. Constituía uma exceção o mencionado Nindó, pelo seu as-
pecto fislco de mestiço de branco com indlo, que, bêbado, feriu sua
primeira mulher c matou, três anos depois, a segunda, a cacête. O
outro ca.so foi o de um certo Kwul-mrõ, filho de um indlo Krahô,
que .se tornou brutal e In.solentc para com sua mulher que se achava
no último gráu de gravldêz. De inicio, pensei que tivesse suspeitado
de alguma infidelidade da parte dela, mas isto não se dava, como
pude verificar; nunca pude descobrir a razão do .seu procedimento.
Quando, como seu tio materno, o admoestei, êlc se humilhou, absten-
do-se de outros cxcc.ssos.
Nimuendajú — Os Apinayé
69
Em todo o caso, sempre que marido e mulher têm alguma desa-
vença, isto não é para êles motivo de gritaria e injurias. Viram as
costas um ao outro; em casos graves o marido deixa a casa, e então
o conselheiro ou um parente dos dois toma a si o caso, tratando de
reconciliá-los, o que geralmente conseguem.
Divisão de Trabalho
Não se pode dizer que a mulher Apinayé trabalha mais, ou mais
pesadamente, que o homem e que tem menos divertimentos que êle;
antes pelo contrário.
Roça
A derrubada e a queimada da roça cabe exclusivamente ao ho-
mem. O plantio é feito por ambos os sexos, a capinação e a colheita,
igualmente.
A lavoura dos Apinayé, desde tempos antigos, parece ter sido
considerável e de maior importância económica que entre os Tim-
bíra Orientais. Já Vila Real (49) fala nos seus grandes roçados de
mandioca, “Ce sont leurs Immense plantations — relata Castelnau
(50) em 1844, — qui nourissent non seulement les gens de Bôa Vista,
mais encore les équipages qui vaviguent sur le Tocantins et jusqu’á
la garnison de San-João (do Araguaya)”. Saint Adolphe (51) pare-
ce, portanto, mal informado quando escreve que os Apinayé, somen-
te pelas plantações que a guarnição de São João fez para si e para
êles, se acostumaram a semelhante alimentação, tanto mais que.
Silva e Souza (52) chega a afirmar que a luta entre os Apinayé e a
guarnição foi precisamente porque membros desta última destrui-
ram as plantações dos índios. Até em época mais recente, não obs-
tante sua decadência social e econômica, os Apinayé nunca dei-
xaram de levar, ainda que, ocasionalmente, pequenas quantidades
de produtos da roça para vender em Bôa Vista; a aldeia de Bacaba,
pelo menos, produz mais do que o necessário para seu consumo.
Hoje a lavoura dos Apinayé quase não se distingue da dos seus vi-
zinhos neobrasllclros. A antiga e típica planta de cultivo dos Timbi-
ra, Kayapó e Xerénte, a kupá (Cissus sp.), hoje só excepcionalmente
é cultivada. O antigo cavador de pau candeia ou pau ròxo, ainda é
usado. Da origem do milho trata a lenda 3.
Os Apinayé conheciam tanto a mandioca amarga como a doce
já antes de seu contáto com a civilização. Ralavam as raízes na
casca áspera de pedaços de galho de aroeira, da grossura de um
braço, expremendo a massa c colocando-a numa fita larga, tran-
çada de cnvlra dc buriti, que dobravam por cima da massa, para
torcê-la. Esta técnica sc encontra também entre os Timbira Orlen-
« — Vllln Hcnl. VUitrm. 3.
.^0 — Cmlclimii, lllitolrr, II, 211.
51 — Hulnl Aclolphr (lUrrloimrlf : "Apllingí»”)
52 — Boiir.a, MfinorU, 495.
70
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
tais, os Kayapó Setentrionais e os Xercnte. Depois preparavam a
massa exoremicia. fazendo beijús sôbre chapas de pedras aquecidas
ou belos estufados na fôrma da terra. Tudo isto parece indicar que
os Jê não aprenderam o uso da mandioca nem dos Tupi nem dos
Karayá.
Como os outros Timbira, os Aplnayé são hoje fumantes apaixo-
nados, porém, até há bem pouco tempo não haviam, ainda aprendido
a cultivar e a preparar o tabaco. No culto e na cura de doenças, êle
não é neces-sárlo, salvo numa forma desta última (v. pg. 114), alta-
mente suspeita, porisso mesmo, de ser de origem estranha. Contudo,
parece-me que antes do seu contacto com a civilização, os Jê já co-
nheciam 0 tabaco, se bem que não o cultivassem.
Em favor disso fala a difusão do cachimbo tubular, feito de uma
folha de patí, enrolada em espiral, entre todos os Timbira. O nome
karidii (tabaco), tem os Apinayé em comum com os Kayapó Seten-
trionais, os Suyá, os Pukébyê, os Krlnkati, os Kre’púmkateyê, os
Kren-yê, de Bacabal, e os Timbira, de Araparytiua, no Gurupi; os
Canelas, que designam com essa palavra o óleo de ricino, os Krahô
e os Kren-yê, de Cajuapára, dão ao tabaco o nome de para-ho, isto
é, "folha estendida de comprido”. Os Kayapó Meridionais designam-
no arena, os Akroá c Akwen, warin.
Os Apinayé não possuem nenluima organização que tenha por
fim ajudar os seus membros, cada um por sua vez, na derrubada
c na colheita, como fazem as sociedades masculinas dos Xerénte ou
as classes de idade e as sociedades de festa dos Ramkókamekra-Ca-
nelas. Mas mesmo sem tais organizações os Apinayé se ajudam mú-
tuamente no trabalho, partindo a iniciativa para a ação comum, do
chefe da aldeia. A família é a proprietária da roça. Que no fundo a
proprietária é sòmente a mulher, prova a circunstância dela ficar
com a roça cm caso de divórcio, apesar do homem trabalhar mais
do que ela na lavoura. As crianças maiores costumam ter uma pe-
quena área, particular, na roça dos pais, que plantam c colhem por
sua conta.
O direito de proprietário do dlspór de sua roça. .sofre tcmpòrla-
mente, uma restrição por uma estranha organização de caráter poli-
cial e mágico que até agora só encontrei entre os Apinayé: a dos
Txwul-putáll-Txwúdn. São dois homens, um de cada metade, que se
distinguem pelos seus cintos e gravatas de envira preta. A.ssumem
suas funções, quando se planta o terreno, depois da queimada. No
dia determinado, colocam-se as sementes que cada familla pensa
plantar num cesto que se leva á praça, pela manhã cêdo, antes de .se
comer qualquer col.sa. Então, o Txwul-putáll-Txwúdn da metade
Kolre os su.spcnde para o sol que se levanta, pedindo-lhe que lhes
conceda uma boa colheita, as chuvas nece.s,sárlas c a proteção da
plantação contra os animais daninhos. No dia .seguinte é êle quem
planta a primeira roça. .segulndo-se-lhe, então, os demais. Enquanto
dura o trabalho do plantar canta-.so dlàrlamonto uma cantiga no
Nimuendajú — Os Apinayé 71
sol. Assim que a plantação alcança certo desenvolvimento celebra-
se a cerimônia do Txwul-kro (v. p. 106), que se dirige à lua.
Antlgamente, quando terminavam de plantar as roças, saiam os
Apinayé para os taboleiros, onde levavam vida nômade de caça-
dores e coletores, até a época da colheita. Só, ocasionalmente, uma
ou outra família, aparecia na aldeia. Hoje, com os territórios de caça
ocupados na sua quase totalidade por neobrasileiros, e tendo a caça
perdido a importância em favor da vida sedentária, êles saem, quan-
do muito, durante as íiltimas semanas que precedem a colheita.
Os dois Txwul-putáli-txwúdn, porém, ficam como guardas das
roças. Constróem um rancho e velam com olhos de Argus pelos seus
"filhos” (id-kra), como tratam os frutos, observando o crescimento
de cada jerimum, cujo comprimento marcam de tempo em tempo,
com um risco no chão. Desde manhã cêdo êles se ocupam em favo-
recer o crescimento dos seus “filhos”’ por meio de cantigas e ações
mágicas, motivo porque não podem, por exemplo, dormir em posição
dobrada, devendo fazê-lo em posição bem estendida.
Ai da mulher que se atreva a tirar, às escondidas, o mínimo que
seja dos frutos antes da abertura formal da colheita, ainda que fos-
se de sua própria roça. Debaixo de gritos furiosos: “roubaram nossos
fillios” invadem os Txwul-putáli-txwúdn as casas da aldeia ou do
acampamento, esbravejando c derrubando tudo, quebrando os va-
sos e espancando com açoites as mulheres que não tiverem tido tem-
po de fugir, ou ferindo-as com uma arma própria feita de comprido
colmilho de queixada enfeitado com uma borla de penas. Ainda em
1930, os Txwul-putáli-txwúdn maltrataram muito as mulheres da
aldeia de Bacaba, e a mais pesadamente castigada foi minha cunha-
da Ngrérl, mulher do chefe Matúk.
Quando os frutos estão de fato maduros, um dos guardas pro-
cura 0 acampamento dos caçadores no tabuleiro, apresentando amos-
tras da roça na praça. Todos caçam ainda uma vez em conjunto,
voltando com a carne para a aldeia, sob a forma de um corrida de
tora; todos podem agora dispor de sua roça à vontade. Isto marca
o início da época das grandes festas.
Entre a índia Apinayé c as plantas que cultiva existe uma es-
tranha relação de intimidade. Quando Iretí me levava pela sua plan-
tação ela me mostrava com uma espécie de orgulho materno, que
era muito mais que a satisfação de possuir muitos mantimentos, os
seus jurumuns, acariciando-os com afeição e chamando-os “filhos”.
As árvores frutíferas que se tlnlia poupado na derrubada, receberam
da sua dona nomes de gente. Ireti deu a uma palmeira babaçú, cx-
cepclonalmcntc bela c alta, que lhe pertencia, o nome de seu pai.
Caça
A caçada quando executada com fogo no campo, arco e flecha ou
nrma de fogo, é atribuição masculina. Mulheres às vêzes caçam tatús
72 Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
com cavador e terçado, e Ngréri, de quem já falamos, trouxe um
dia, arrastada pelo rabo, uma suçuarana que tinha abatido com o
terçado na roça, depois de acuada pelos cachorros.
A caça tem hoje ainda mais importância para os Apinayé que
para os Ramkôkamekra-Caneias e Xerénte. Por mais que diminuisse
a caça no seu território, ela, aí sempre foi mais abundante que nas
terras daquelas duas tribos. O método preferido antigamente, de
circundar a caça com fogo, incendiando os campos, hoje só excep-
cionalmente e em escala muito reduzida pode ser praticado, por
causa do gado dos neobrasiieiros espalhado por tôda parte. Organlza-
va-se tais caçadas antigamente, de preferência no verão, quando o
capim estava bem sêco. Como se celebrava o começo dessas caçadas,
com a dança do Txotxôre, já ficaram descritas à pg. 23/24. Antes da
dança celebrava-se, sob a direção de um vayangá (pajé), cantigas de
caça, cujo texto versava sôbre as diversas quaiidades dos animais.
Ao vayangá cabia também a direção da própria caçada, distribuindo
os caçadores num trecho do círcuio. As peças que rompiam a linha
do fogo eram mortas pelos homens. No fim juntava-se tôda a caça
e 0 conselheiro, a repartia pelas diversas casas. Já no mito do sol
e da lua o campo se incendeia por descuido do úitimo, apoderando-se
os dois dos animais queimados (Mitos e Lendas, 2, d. f.) .
Hoje os animais de caça mais procurados são quatro espécies de
veados (Mazama sp.) que abatem com espingarda e raras vezes, ain-
da com arco e flecha, rastejando-se ou de espera nas árvores cujas
frutas vão comer. O segundo lugar, em importância, cabe à ema e
aos tatús. Procuram aproximar-se da primeira, escondidos sob uma
máscara de caça feita de folhas de patí, ou lhe armam, no rigor do
verão, uma tocaia no bebedouro, Quando não conseguem matar o
tatú em campo aberto, antes que alcance a sua toca, têm de cavá-la
0 que é multas vêzes um trabalho árduo e demorado. Contudo, duvido
que haja um único Apinayé adulto capaz de passar por uma cova
de tatú com rastos da entrada do animal, sem cavá-la, por mais
pressa que tenha na ocasião.
Antes ainda são encontradas nas matas ciliares dos ribeirões.
Em 1921, estavamos caçando numa cabeceira do Mombuca. Alguns
índios se postaram ao lado da trilha do animal, enquanto um ou-
tro o “levantou” quando êle estava se espojando na lama. Quando
a anta passou pela tocaia, um dos caçadores se precipitou sôbre
ela, quebrando-lhe o espinhaço com um golpe de sua espada de
madeira. Eu mesmo ví o animal morto.
O cacôte tanto sorve para arma do guerra como de caça, com
a ponta da espada de madeira espeta-se o tatú e o cacete roliço
é empregado na caça aos porcos. Os Apinayé não possuem cacetes
especiais de arremesso, mas às vêzes matam pequenos animais do
campo, jogando-lhes qualquer porrete que esteja à mão. Usavam
armadilhas na trilha de animais maiores, cspoclalmente nas plan-
Nimuendajú — Os Apinayé
73
tações. Antlgamente utilizavam para isso o arco e a flecha (53),
substituídas depois por armas de fogo. A funda, cujo uso está sendo
abandonado, serve principalmente para afugentar os periquitos que,
em bandos invadem as plantações. Fóra dos laços para passarinhos,
descritos por C. Estevão de Oliveira (54), não vi em uso nenhum tipo
de armadilha.
Com exceção do urubú, das cobras venenosas e de infíbios, comem
os Apinayé todos os vertebrados que lhes caem nas mãos, mesmo ra-
posas, jaratatacas e morcêgos. Quando descobrem no campo algum
pau ôco, daqueles que servem de abrigg a centenas de morcêgos, fa-
zem fogo na concavidade, pelo lado de baixo. Os animais caem como
frutas maduras e os índios enchem côfos com êles, que levam para
moqueá-los. São gordos e de um sabor sofrível.
Pesca
A pescaria é feita com anzóis de fabricação norteamericana, com
arco e flecha ou por envenenamento da água, mas é de pouca im-
portância econômica. Anzóis primitivos não devem ter existido entrC'
êles. A pesca com anzol está hoje muito em voga entre as mulheres;
os homens preferem o arco e a flecha. A haste da flecha de pesca
é de cana brava {Gyneriuvi sp.), com uma ponta de madeira embu-
tida, inteiramente lisa ou provida de uma fisga, de madeira, osso ou
ferro. Essa flecha não tem emplumação. Mesmo os meninos pequenos
já perseguem com essa arma os peixinhos ao longo da beira, en-
quanto os pais tomam banho ou trabalham na roça.
Na pesca por meio de envenenamento da água tomam parte ho-
mens, mulheres e crianças. Dizem os Apinayé, que antlgamente só
empregavam o cipó chamado por êles a’klô (o timbó dos neobrasl-
lelros) . O kalón (tingul dos neobrasileiros) , hoje plantado nas roças,
chegou-lhes pelo contacto com a civilização. Usam o puçá (kli) para
apanhar os peixes intoxicados, juntando a prêsa em cestos que levam
a tiracolo; não conhecem o cordão com agulha de pau numa ponta
e travessa na outra, com que os Timbira Orientais e os Xerénte en-
fiam os peixes que pegam. Usam as armadilhas para peixes, chama-
das jlquí pelos neobrasileiros da zona (em Apinayé: teb-pinden-txa)
e um outro tipo que fecha o curso d’água cm tôda sua largura cha-
mado parí, pelas tribos tupi e pelos neobrasileiros (em Apinayé: teb-
kác) . As primeiras, porém, nunca cheguei a ver.
Como já disse, os Apinayé, hoje, só raras vêzes vão ao Tocan-
tins para pescar e não me consta que continuassem a frequentar
o Araguaia para esse fim.
Coleta
A coleta se faz durante as excursões de caça ou incidentalmente
em outras ocasiões, mas não tem grande importância econômica e
— Ollvplrn; Indloi Aplnaiés, p. 77.
54 — Id. 68.
74
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
se fosse abandonada totalmente, não teria grandes consequências.
As plantas selvagens mais importantes para os Apinayé, são as mes-
mas que para os Xerénte, portanto, em primeiro lugar, as três pal-
meiras: buriti, babaçíi e bacaba. Uma reminiscência dos tempos em
que a coleta ainda constituia uma das ocupações mais importantes,
especialmente das mulheres, é o costume ainda hoje generalizado
entre os índios Apinayé, de levarem sempre uma cuia quando vão ao
tabuleiro, que elas põem na cabeça como se fosse um boné, para tudo
que acharem de aproveitável durante o trajeto, nela colocarem. Os
homens nunca fazem isso.
Animais domésticos
Antigamente os Apinayé não possuíam animais domésticos prò-
prlamente ditos. Mesmo o cachorro, receberam, segundo dizem, dos
neobrasilelros. As mulheres, porém, gostam de criar os filhotes de
tóda espécie de animais selvagens, que durante as caçadas caem nas
mãos dos homens; veados, porcos, tamanduás, emas, seriêmas, e mui-
tas outras aves, com especialidade aráras vermelhas e papagaios, aos
quais de vez em quando arrancam as penas para confecção de en-
feites. No lugar desnudado esfregam o suco da parte mole do caule
do capim agreste. Afirmam que por êsse processo a primitiva cór
verde das penas se transformam em manchas vermelhas, azuis e
amarelas, o que de fato se pode observar nas aráras e papagaios
mansos. Todos os animais de casa vivem soltos e são bem tratados,
sendo admirável a presteza com que se acostumam às suas donas.
Hoje se encontra nas aldeias Apinayé uma grande quantidade de
cachorros. Na casa de Matúk, por ocasião das refeições, havia regu-
larmente uns doze. Como raramente os batem, são extremamente
Importunos, o que não é multo agradável, mórmente, sendo a refei-
ção feita numa esteira no chão. Raras vêzes há entre êles um bom
cachorro de caça, sendo pouco comum a caçada com ajuda de cães.
Existem em Bacaba algumas dúzias de porcos, mas sòmcntc pou-
cas galinhas. Não existem agazalhos próprios para ambos. O chefe de
Gato Preto, Pebkéb tem uma égua e um poltro, Matúk, de Bacaba,
três cavalos c cinco cabeças de gado vacum.
Quando morre um animal amansado ou um cachorro, o cada-
ver é enterrado pela mesma maneira como se enterra o de um ho-
mem c a sua dona se mostra, multas vêzes, bastante penalizada, se
bem que não põe luto por êle. Aos animais do cria para a alimenta-
ção não se dLspensa essas atenções. Quando morre de morte natural
joga-sc o corpo no campo para os urubús.
Cozinha
Até hoje os Apinayé não aprenderam a arte de cerâmica; cm tô-
das as casas, porém, encontram-se panelas de ferro e hoje se pre-
param com frequência comidas cozidas. Antlgamento preparavam
,SciELO)
2
3
5
10
11
12
13
14
L
cm
76
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
a comida, assando a carne no espeto, no moquém ou na brasa, ou
estufando-a no fôrno de terra, já descrito à pg. 29/30. O cspêto dos
Apinayé finda em forquiiha e tem muitas vêzes um comprimento de
mais de metro e meio, o que torna possível colocar a carne por assar
quase horizontalmente e por cima da brasa. Essa forquilha serve para
assar pedaços de tamanho médio; os menores são assados num sim-
ples espeto; o moquém serve para conservar pedaços maiores, prèvla-
mente estufados no fôrno de terra, expondo-os a um calor lento e
constante, que evita que apodreçam. Os Apinayé aplicam ocasional-
mente em suas caças, o sistema usado pelos Xerénte, de aquentar
frutas de bacaba numa pequena cacimba em cuja água se deitam
pedras quentes.
Como todos os Tlmbira, os Apinayé não conheciam antigamente
nenhuma bebida embriagante. Suas festas nacionais, são até hoje,
puras festas de comida, particularidade, que seus vizinhos civiliza-
dos não compreendem. Antes de aprenderem dêles o uso do álcool, a
água era sua única bebida, quando muito, misturada com ananás
ou frutas de taperabá (Spendias sp.), socadas ao pilão. O trabalho
de buscar água c de preparar tais bebidas é atribuído às mulheres.
Nunca vi homem algum trabalhar no pilão.
Entre os Apinayé os homens também ajudam na confecção dos
grandes bolos para as festas, coisa que não ocorre entre os Ramkôka-
mckra ou Xerénte.
Os demais trabalhos de importância vital são também distribuí-
dos entre os dois sexos, de uma forma que não sobrecarregue a mu-
lher. Afóra a fabricação das armas e, antigamente, também das ca-
nôas e de todos os instrumentos de música, é a fabricação de estei-
ras, bolsas 0 cestos de uso permanente, atributo masculino. As mu-
lheres tecem, quando multo, cestos provisórios. Fiam o algodão para
si e os homens, a quem nunca vi manejar o fuso; preparam as cuias
e cabaças e confeccionam os puçás.
XXX
o córte dos cabelos e os enfeites tribais comuns são, com exceção
da cavilha labial dos homens (v. p. 36) c do enfeite oclpltal de penas
de arára, Intelramente iguais para ambos os sexos. Os enfeites são
confeccionados prlnclpalmente pelas mulheres. Também a pintura
do corpo com pó de carvão misturado com látex (prêto), suco de
gcnlpapo (prêto azulado) e urucú (vermelho) é u.snda por ambos os
sexos pela mesma maneira, sendo que as mulheres pintam os homens
e vice-versa. Tal Igualdade dos enfeites demonstram que ambos os
sexos tomam parte Iguaimente nas festas e cerimônias. Na verdade,
os dirigentes dc festa .são sempre homens e instrumentos de música
nunca são tocados pelas mulheres, mas sem o concurso do côro da fi-
leira das dançadoras na praça, seria Inimaginável a reunião dos ho-
mens lá tôdas as noites. Até a reclusão dos moços que passam pela
Nimuendajú — Os Apinayé
77
iniciação dos guerreiros novos, existe a cooperação das suas Me-
kuitxwél.
Ambos os sexos lançam e cantam juntos na praça, tôdas as noi-
tes até altas horas, sejam solteiros ou casados, enquanto não forem
avós e alguns mesmo o sendo. Em alguns dêsses divertimentos, o cír-
culo dos dançadores que se movimentam abraçados, é formado de
homens e mulheres, alternadamente. Apesar do estreito contacto
corporal — e em certa fase os participantes são fortemente com-
premidos — quase nada se percebe de excitação sexual. A dança não
é para êles o prelúdio para aventuras amorosas, como parece ser o
caso de certas tribos do Chaco. Dançam até ficarem exaustos e depois
vão simplesmente para casa; muitas vêzes eu ficava admirado ao ob-
servar certos moços e moças, cujas relações amorosas eram conheci-
das se tratarem com a maior indiferença, justamente durante a dan-
ça, como se não existisse nenhuma intimidade entre êles.
Bem poucas cerimônias, como Peny-tag, descrito à pg. 53 e ss.,
são executadas unicamente por homens. Também o jôgo comum de
peteca com a bola de palha de milho, é exclusivamente masculino e,
ao contrário das mulheres Ramkôkamekra e Xerénte, as Apinayé
não fazem corrida de tora. Celebram, porém, corridas de páreo ao
redor da rua da aldeia, correndo mulheres e moças em pares ou uma
das primeiras com um moço de cada vez. No mais, um número de
danças é executado pelas mulheres, na rua da aldeia, das quais os
homens, por sua vez, não participam. Como por exemplo, a dança
dos morcégos ,para a qual elas se reunem no interior de uma ca.sa,
cantando: ‘‘Dyepe arikamé haé! haé!” (cuja tradução seria, mais
ou menos: os morcégos levantam vôo). Depois, dispersam-se como
morcegos quando saem voando, para se reunirem outra vez na pró-
xima casa, continuando assim a brincadeira pela aldeia tôda. Uma
dança de porco do mato, pelas mulheres, será discutida adiante (v.
p. 86) .
Gravidez e Parto
As moças Apinayé têm gcralmente muito mêdo da primeira gra-
vllez e do parto, lançando mão, porlsso, de diversos expedientes, para
evitar a concepção ou desfazer seu fruto. Profilàtleamnete aplicam
a casca socada do tlnguí (kalón) misturada com urucú e esfre-
gada no umbigo c no ventre. Da mesma maneira aplicam pedras pul-
verizadas. Menos inofensivos .são os remédios abortivos, as vezes em-
pregados por mulheres prenhes, quando abandonadas pelo marido.
Entre èstes, ocupa o primeiro lugar um arbusto de qualidades indu-
bltávclmcntc tóxicas, de nome Kalá-gandè (remédio de veado), em
forma de cozimento ou infusão. Ouvi falar que uma moça de nome
Admyi, empregou com sucesso para o mesmo fim, a raiz de outra
planta chamada teb-gandè (remédio de peixe).
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Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
Ocasionalmente as moças Apinayé lançam mão, também, de meios
para suspenderem a menstruação; a relação desta com a concepção
lhes parece ser desconhecida. Iretí pôs para êsse fim, uma solução
de sal de cozinha no sereno, bebendo-a de madrugada. Para obter
a suspensão definitiva sentam-se sõbre as folhas aquecidas de um
arbusto da beira do brejo, chamado ag-gandé (remédio de gavião).
Outro remédio para suspender a menstruação demasiada ou inconve-
niente na ocasião, consiste na já mencionada casca de tlnguí, secada
ao sol. Faz-se depois um pequeno buraco no chão, no fundo do qual
.se deitam brasas e, queimando-se sôbre elas o pó da casca, expõem-se
as partes genitais à fumaça. Esse tratamento é sempre executado no
mato.
Multo cedo, porém, desperta na índia Apinayé o anseio pelo fi-
lho e essa mesma moça que no ano anterior procurava impedir a
concepção c abortar o feto, procura agora, por todos os meios, obter
resultado contrário. Assim, ela penduar um dente de porco no pes-
coço para segurar a concepção, bebendo o pó de dentes de porco,
carbonizados e para evitar um aborto, penduram um pedacinho de
madeira de aroeira no cordão do pescoço, logo que se sente prenhe.
Começa então, para o casal, a época dos tabús de comida e mais
prescrições, que visam o bem estar do feto e mais tarde da criança
e dos quais a "couvade” representa apenas uma curta fase, nem a
primeira nem a última. Alguns animais não devem ser comidos para
que a criança não adquira os seus maus hábitos ou para não dificul-
tar 0 parto. Entre outros, contam-se o tatú-bola, o tamanduá-colete,
a preguiça e o coandú. O filho mais novo de Grab-re, em Gato Pré-
to, nasceu com os olhos demasladamente pequenos c o nariz mal-
feito, porque o pai, durante a gravidez da mulher, comeu carne de
coandú. Se os pais comem carne de cotia, caem os cabelos das cri-
anças. O mesmo se dá quando a mãe, segundo o uso geral das mu-
Ihcrcs Apinayé, põe uma cabaça íLagcnarla) como chapéu na ca-
beça (V. p. 74) enquanto que uma cuia (Crescentia cuyetc), assim
usada, não faz nenhum mal.
E' geralmente permitido o consumo da caça grande. Entre os
peixes, são proibidos o surubim o todos quantos tenham cór prêta.
A mulher gestante não deve também se aproximar do fogo, senão a
criança ficará escura. Porlsso, é sua mãe quem prepara a alimenta-
ção. Massa do mandioca c tapioca são proibidas. No começo da gra-
videz a mulher ainda tem Intercurso sexual, do que mais tarde terá
de abster-se, o que acontece geralmcntc à Insistência da mãe. No
último mês da gravidez a mulher só come beljú do mandioca e carne
de veado. Porém, é tido como alimento mais jiróprlo, a carne dc ema.
No começo da gravidez, procuram determinar o sexo do feto, amar-
rando na barriga da rnullier grávida um cordão de fibra dc buriti,
quando querem uma menina o, dc onvlra quando desejam um menino.
Ngrérl, quando grávida, sentava-se durante as refeições bem na mi-
nha frente, olhando firmemente para mim, porque queria que o filho
cm 1
SciELO.
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Nimuendajú — Os Apinavé
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nascesse com os olhos azuis. Quando a mãe come frutas gêmeas, pi-
quís ou bananas, por exemplo, ou quando juntam as mãos para be-
bei água na sua concavidade, terá filhos gêmeos.
Infanticídio
Só ocorre entre os Apinayé, imediatamente depois do parto,
quando se trata de uma^ criança monstruosa, que é envenenada, un-
tando-se 0 bico do peito materno com suco da raiz do já mencionado
arbusto kalé-gandê. Como causa de tal infelicidade é tido o mal tra-
tamento infligido à mulher, durante a gravidez.
Parto
Tal como entre os Timbíra Orientais, na casa materna, as moças
Apinayé dormem em jiraus de cêrca de dois metros de altura. Em-
bora os Apinayé sejam discretos e respeitadores, esteiras em volta
dos jiraus escondem da vista alheia, a jovem e seu companheiro
ou esposo. Snetlage (55) escreve que entre os Apinayé (e Ramkô-
kamekra) os moços habitam debaixo da coberta da casa, e as moças,
as mais das vézes, em algum canto, separadas dêles, o que em ambos
os casos não é certo.
Quando, pelo desenvolvimento da gravidez a subida e descida do
jirau alto se torna Incômoda à mulher, o marido fez outro, mais bai-
xo, de meio metro de altura, o qual quando se aproxima a hora do
desenlace é cercado de esteiras para a subsequente reclusão do casal.
Para o parto levanta-se, a uns quinze ou vinte passos atrás da
casa da parturiente, uma choça cônica dc folhas de palmeiras, de
uns três mestros de altura por metro e meio de diâmetro no chão,
na qual nenhum homem tem acesso. Coloca-se nela uma esteira,
ílncando-se as vêzes, uma estaca no chão para a parturiente se se-
gurar, como fazem os Xerénte. Uma parenta, geralmentc a avó ma-
terna ou a irmã desta, faz as vêzes de parteira (me-apáre-txwúdn) .
Em casos graves coloca-se ao lado da parturiente, uma cuia cheia
da infusão de casca da árvore olcgull, da qual ela bebe em certos in-
tervalos. Outro meio de obter bom êxito, em caso de parto dificul-
toso, consiste em que o marido que espera do lado de fora, dê três
passos para a frente, repetindo a medida se íôr necessário. Do manei-
ra análoga, procederam os Kaingang de toldo de Fen-en, na zona
do rio Ivai (Estado do Paraná) , durante minha visita em 1912. O
marido, porém, não se contentava cm dar apenas três passos, corria
para cima c para baixo
A parteira amarra o cordão umbilical com um fio dc algodão,
cortando-o com uma faquinha dc taboca, feita paia esse fim. Se o
fizesse com faca dc ferro, e crescimento da criança ficaria dcflniti-
vamente prejudicado. Nem tódas são iguaimente hábeis nes.sa opera-
W — SnclhlDue; Nor(lo»llira»lllanUi'lir Inill.iiicr, ISl.
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ção. A secundina é embrulhada na esteira e metida na forquilha de
uma aroeira no campo, fóra da aldeia. A parturiente lava-se, deixa
a choça e entra em companhia do marido no cubículo de reclusão,
já preparado na casa materna, indo a parteira atrás dela, com a
criança. O recém-nascido é banhado numa Infusão de casca de aro-
eira, que contém um látex que adere a sua pele, llmpa-se-lhe a boca
com a ponta do dedo e endlreita-se-lhe o crânio. As mais das vêzes
o pequeno fica a maior parte da noite com a avó ou irmã desta, que
só o leva para o cubículo de reclusão para a mãe amamentá-lo. O pai
só pode tocar na criança depois de duas ou três semanas. Até a quéda
do umbigo êle não deixa o cubículo de reclusão sem necessidade, abs-
tendo-se de todo trabalho. Pal e mãe falam o menos possível, nem
mesmo um com o outro, guardando durante êsse tempo rigorosa dié-
ta de beijú de mandioca, assado segundo o costume antigo, sôbre
uma chapa de pedra aquecida.
As raparigas públicas dos Apinayé, que durante a época da con-
cepção tiveram relações sexuais com diversos homens, denunclam-nos
pübllcamente. Um dia após o nascimento da criança, os denunciados
váo a casa materna da rapariga, onde cada um dêles deve beber um
cozimento extremamente amargo de casca de uma árvore chama-
da pen-re, liquidando com Isso suas obrigações para com o recém-
na.scldo.
A avó enrola o umbigo caido em envira do tauarí, guardando-o
no cestlnho de remédio da criança (me-gandê-txa) , Junto com ou-
tros medicamentos, os primeiros enfeites, os primeiros cabelos cor-
tados e outras lembranças. Se a criança sofrer dos olhos, ra.spa-se
um pouco desse cordão umbilical, mistura-se o pó com água e lava-se
com esta os olhos doentes.
Findo o período de reclusão, mandam o pal caçar para matar al-
guma ema ou veado campeiro. Enquanto isso, pintam a criança com
urucú, senão ela choraria multo na hora em que o pal estivesse ma-
tando a caça. O mesmo aconteceria se êle se sujasse com o sangue
do animal morto, razão porque tem de forrar as costas com fôlhas
de patí, antes de carregar a caça. Sòmente dois mêses depois do nas-
cimento da criança, os pais cortam outra vez os cabelos, plntam-se
e vão a praça, retomando o ritmo normal.
Durante tóda a vida, porém, um laço místico une o bem estar
dos pais aos do filhos. Matúk tinha quarenta e tantos anos, sua mão
sos.senta e tantos, quando ela foi atacada de conjuntlvite. Matúk, por
Isso, não podia comer carne de galinha o, quando comeu feijão, o
estado da velha agravou-se durante a noite seguinte. Pela manhã,
a ouvi censurar o filho nor esse descuido.
Costumam pintar frequentemente os pequenos com tinta prêta
de látex e carvão, para que cresçam ligeiro; enfeltam-nos com jar-
retelras e ligas nos tornozelos, pondo-lhes cordões no pescoço, na
cintura c nas munhecas com numcro.sos pendentes de ossos, semen-
tes, raizes, cascas de madeira, aos quais atribuem poder curativo con-
Nimuendajú — Os Apinayé
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tra doenças de infância e, as mais das vêzes efeito profilático. Caindo
fora de uso não se deitam fora nem se lhes dá outro emprêgo, todos
os enfeites e remédios são guardados pela avó no cestinho já men-
cionado.
Enumerarei aqui o conteúdo de um dêsses me-gandê-txa, que
contém os objetos de três Irmãos e que se acha agora no Museu Goel-
di, no Pará;
1) Sementes de uma árvore da mata (neobras.: “semente de cabo-
clo”, para defumação contra dõr de cabeça.
2) Rob-nde (semente de mucunã), carbonizadas e secadas, bebida
contra convulsões.
3) Espinhos de coandú (gréi-nyi), contra mordedura de cobra.
4) Cordão da cintura, com pedacinhos de talo de um capim que
cresce nas capoeiras kan-gandé (remédio de cana) .
5) Cordão de pescoço com; a) pedacinhos de raiz de kalá-gandê
(remédio de veado) ; b) pedacinhos de madeira de mororó prèto
(a’kéd), contra dor de barriga.
6) Raiz de kalá-gandê (v. 5.^).
7) Cordão de pescoço com; a) pedacinhos de madeira de uma ár-
vore de campo (apê-pa), contra o catarro; b) um pedacinho
de talo de bacaba (kambêl-nikô) contra catarro; c) um peda-
cinho de casca de sucupira (katka’ ta-ka) , contra catarro.
8) Teb-gandê (remédio de pclxc), raiz de uma árvore silvestre,
socada c posta de cnfusão, contra doenças diversas.
9) Cordão do pescoço com um dente dc capivara (bliti-txwa) , para
que a criança aprenda a mergulhar depressa.
10) Cordão do pescoço com; a) um pedacinho de raiz de uma pe-
quena herva silvestre (tôdn-en-re) , contra febres; b) madeira
de uma árvore da mata (romgre-o), contra catarro.
11) Cordão dc pescoço com; a) um pedacinho de madeira de cas-
cudlnho (agre-pa), contra febres; b) a’kéd (v. 5-b) ; c) raiz
dc uma herva silvestre (ag-gandê) , remédio de gavião.
12) Cordão com; a) a’kéd (v. 5-b); b) madeira dc um pequeno ar-
busto da mata (peb-pa), contra catarro; c) katka ta-ka (v.
7-c) ; d) kambêl-nikô (v. 7-b).
13) Raiz de um arbusto da mata (pitú-re), infusão contra catarro.
14) Cordão dc pescoço com; a) dois pedacinhos de kalá-gandê (v.
5-a) ; b) um pedacinho de tabaco dc corda, contra catarro.
15) Cordão de pescoço com; a) madeira dc angrô-pa, b) ka bôl-
nlkô (V. 7-b); c) katka’ ta-1 (semente de sucupira), preventivo
contra tôdas as doenças.
16) Cordão de pc.scoço com; a) kambêl-nikô (v. 7-b) , b) katka ta-
ka (V. 7-c).
17) Cordão da cintura com o.sso dc Japllm (krctá-rc-l) , contra do-
res no espinhaço.
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18) Cordão de pescoço com; a) remgré (v. 10-b) ; b) raiz de uma
planta rasteira do campo (aptxèd-gandè) , remédio de tatú.
19) Cordão de pescoço com: madeira de um arbusto do campo (pal-
prakrad-krid-re-pa) , preventivo contra tôdas as doenças dos re-
cém-nascidos.
20) Cordão da munheca com: a) remgré (v. 10-b); b) kambêl-
nikô (V. 7-b) .
21) Cordão de pescoço com madeira de uma árvore do campo (an-
grô-óke), usado pela mãe quando a criança chora muito em
consequência daquela ter tido i-elações sexuais antes do fim da
dieta.
22) Teb-gandê (v. 8).
23) Cordão do pescoço com: a) agre-pa (v. ll-a); b) á’kéd (v. 5-b).
24) Cordão do pescoço com um pedacinho de tabaco de corda (v
14-b).
25) Cordão de pescoço com raiz de taboca (kráa-krã), para acele-
rar o crescimento.
26) Pendente do pescoço com dois caracóis da mata (dwúdn-reka) ,
contra amarelão.
27) Castanha sapucaia (kol-tl-i). Defumação contra dores de ca-
beça.
28) Capsula óssea da garganta de guariba (kupud-kag), da qual
a criança bebe água quando atacada de tosse convulsa.
29) Tinta de urucú (pu).
30) Re.sina de almécega (ram), para enfeite e pintura do corpo.
31) Pequena cuia com tinta prêta de látex, Idem.
32) Peitorais de algodão, contra dores do peito.
33) Um par de ligas para os tornozelos.
34) Um par de jarreteiras.
35) Um amarrado contendo os cordões umbilicais dos três Irmãos.
Homens e mulheres gostam de brincar com criancinhas, tanto
com os próprios filhos como os alheios. VI diversas vêzes moças e
mulheres pedirem as criancinhas de neobrasllelros que passavam
pela aldeia, para tomá-las nos braços e acariciá-las.
As crianças pequenas são carregadas em cintos (me-áin) e não
em tipoias largas a tiracolo, tecidas de cnvlra de buriti, como indica
Buscalioni (56). Êsses cintos são bastante largos para caber o peque-
no, que fica sentado no próprio cinto, de lado, com as pcrnlnhas di-
ante do ventre da mãe c não montado, como a cavalo, .sòbrc a anca.
Quando com o tempo, o cinto se torna apertado demais, o pai tece
outro um pouco mais largo, mas não se põe fora o cinto velho, de
maneira que numa casa onde há criança nova se vê as vêzes três a
quatro desses cintos pendurados. Somente quando a criança dispensa
êsses cintos, tôda a série 6 Jogada no ribeirão para com êsse áto
propiciar o seu crescimento.
50 — Uuscnilonl, l'na Kiciirilonr, 232.
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A mãe protege o filhinho contra o calor do sol como também
contra o frio, envolvendo-o numa pequena esteira de buriti e co-
locando-o depois no cinto. Durante as marchas, exposta ao sol caus-
ticante dos tabuleiros, não se passa nenhum corrégo sem refrescar
a criança, despejando-lhe algumas cuias d’água em cima. As vêzes
se protege também a cabecinha, cobrindo-a com uma cuia.
Quando a criança começa a se por de pé, amarra-se tanto em
casa como no acampamento, uma vara horizontal a uma altura con-
veniente, na qual pode levantar-se e fazer suas tentativas de andar.
Nunca se bate, raras vêzes se repreendem os pequenos. Choram muito
pouco em comparação com as crianças neobrasilelras e não me parece
que tiranizem os pais. Só os adolescentes, quando pecam contra os
bons costumes, são castigados, as vêzes, com murros de punhos fe-
chados.
À página 60 já descrevi como as crianças recém-nascidas ou
mesmo antes de nascer, recebem o nome dos seus tios ou tias mater-
nos, de acordo com as metades. De maior importância, porém, são os
"pais de criação”, que cada criança recebe logo depois de nascida,
isso pela ordem dos Klyê. Em se tratando de menino, o tio paterno
procura os pais e declara: “Vou criar vosso filho!” Tratando-se de
menina, será criada pela tia materna, que lhe deu o nome ou a irmã
desta. Essa compromisso de "criar” os sobrinhos, as mais das vêzes.
não deve ser tomado llteralmente ao pc da letra, se bem que aos “pais
de criação” sempre cabe uma parte da responsabilidade pela criança.
Isso se torna mais fácil quando se trata de menina, pois a mãe e a
"mãe de criação” pertencem à mesma casa. Outro Já é o caso quando
o tio paterno leva o sobrinho para sua companhia, o que só é pos-
sível rompendo o principio matrllocal. Matúk tinha adotado o filho
de seu Irmão Bellzárlo, tratando-o como se fosse seu filho carnal,
enquanto que Bellzárlo não mais se encomadava com êle. De fato, o
tio paterno e o sobrinho se tratavam reciprocamente pelos termos
de pai e filho — id-pam e Id-kra — a mesma relação existe entre a
tia materna c a sobrinha, isto c, como entre mãe e filha — id-nã e
td-kra.
A esse parentesco, se referiu uma cerimônia que intercalaram
naquela festa de Alu’tl. a que presenciei em 1931 na aldeia Bacaba.
Todos os homens e mulheres que criavam sobrinhos ou sobrinhas,
formaram uma linha com a frente para o nascente, cantando três
cantigas intclramcnte Incompreensíveis para mim. Vieram depois as
niucs e avós dessas crianças, depondo aos pés dos tios c das tias cuias
cheias de comida, às quais êstes nao deram a menor atenção. Final-
ínente, aproxlmaram-.se algmnas pessoas, que não faziam parte da
cerimônia c retiraram as cuias.
Não obstante ser a doação dc crianças, dentro do circulo da fa-
•«ílla, extromamente frequente, só conheço um único caso cm que
dm menino foi cedido a um ncobrasllelro para que o criasse. E' ver-
dade que Castelnau conta que lhe foi cedido um menino Apinayé, dc
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nome Catama (Ka’tám), em troca de uma espingarda, mas de ne-
nhum modo é esse fato corrente entre os Apinayé. Pelo amor que têm
às crianças, o trabalho de crla-las, causa-lhes visível satisfação e,
aos casais novos é vedado comer certos nambus (Tinamus sp.) por-
que os filhotes destes dificilmente se criam em casa.
Um laço especialmente estreito une a avó materna aos netos. Co-
mo disse, é ela em geral a parteira e curadora do recém-nascido,
cujo cordão umbilical guarda num cestinho próprio, junto com tôdas
as demais lembranças de infância do neto. Acontece que, se o neti-
nho casualmente se fere a avó, por solidariedade, faz em si um fe-
rimento semelhante, e por ocasião da morte do neto, afora as ten-
tativas de suicídio, de que tratarei em outro lugar, ainda sucede que
a avó se deita ao lado do pequeno cadaver enfeitado na esteira, pas-
sando a noite toda com a cabecinha sôbre o seu braço.
Os meninos Apinayé não possuem nenhuma organização como a
que têm os dos Ramkôkamekra e Xerénte. Por conseguinte também
não fazem corridas de tora, e nunca os vi jogar em conjunto outra
coisa a não ser a peteca de palha de milho. Vcm-se poucos brinque-
dos em suas mãos, sendo o mais comum, do quinto ano em diante, o
arco c a flecha. Os maiores, de dez anos, se reunem às vezes para
exercltarem-se na rua da aldeia cm escorregar flechas pelo chão;
aquêle cuja flecha escorrega mais longe, ganha tôdas as flechas que
ficam para traz. Os demais brinquedos são quase os mesmos dos Xe-
rénte; a roda .sonatc (corruplo), o brinquedo de Cão, cuja corda
entre os Apinayé tem um cabo de pau, o pião sonante, um pequeno
pião do noz de tucum, figuras de pássaros e outros brinquedos de
tiras de palha, figuras do fio armadas entre os dedos das mãos e pe-
quenas figuras de cêra, rcpre.sentando animais c gente. Falta-lhes o
arco sonante dos Xerénte.
Desde a idade de dez anos participam plcnamente das danças
e brincadeiras dos adultos, na praça. As meninas o fazem mais cêdo.
Atrás da linha das moças e mulheres novas que dançam, acomodam-
se as avós em esteiras junto de fogulnhos, com os pequenos que dor-
mem. E’ multo engraçado observar as menlnazlnhas de quatro a cin-
co anos, já diligentes dançadoras, procurando acompanhar as inú-
meras cantigas de dança das adultas, com suas vozlnhas finas.
As meninas Apinayé não possuem bonecas e, por conseguinte,
também poucos "trens” de brinquedo. Brincam com uma pequena
abobora alongada e, são tão felizes com esse “íllhlnho" como as suas
companheiras de idade entre os Ramkõkamckra-Canclas, com as
suas bonecas de talo de buriti. Não conhecem o balanço, mas havia
no campo, atrás da aldeia Bacaba, uma árvore fina c elástica, na
qual trepavam a uma altura de três metros c depois de vcrgá-la com
o pêso do corpo, nela penduravam-se com as mãos e, dando forte
impulso com os pés no chão, eram impelidas para cima, pelo repucho
da árvore.
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Nimuendajú — Os Apinayé
Não pude compreender bem a significação da cruz de fios que os
Apinayé chamavam vevé (borboleta). Hoje, raras vêzes, se vê uma
e, sempre como mero brinquedo. Parece que antigamente a usavam
também como enfeite de cabeça e as moças, segundo me disseram,
ievavam-na na mão ou metida no cinto. Minha cunhada Ngréri mos-
trou-me, com grande gáudio dos assistentes, como antigamente “aca-
titavam” com ela, fazendo sinais ao namorado, como certas moças
civilizadas fazem com cMeque.
Depois da idade acima referida, começa a época das iniciações
para os meninos, enquanto que as meninas principiam a trabalhar
ao lado das mães na casa e na roça. A divisão de trabalho entre os
dois sexos, condiciona as meninas a trabalharem antes dos meninos
e com maior intensidade, porque uma menina bem pode ajudar sua
mãe a buscar lenha e água e a cuidar da comida e dos irmãos me-
nores, enquanto que um menino é inútil na guerra, na caçada e na
derrubada do mato. Contudo, as.sim que podem, êles líiesmos procu-
ram se empregar utilmente, imitando os adultos. Mbodngô, com seis
anos trepava, a custo, no cavalo para procurar no campo o gado de
seu pai de criação, Matúk, e Tamgaága, com doze anos, caçava sozi-
nho com espingarda, longe da aldeia, matando uma enorme ema,
pesada demais para êle carregá-la para casa. Com enorme dificul-
dade arrastou sua prêsa até um caminho onde casualmente passou
um neobrasileiro a cavalo, que avisou a gente da aldeia; acharam o
menino sentado ao lado da ema morta, que êle não queria abandonar.
As mocinhas nessa idade, mais ou menos, já estão casadas.
Quanto ao trato entre si de pessoas de certos graus de paren-
tesco, observam também os Apinayé algumas regras de decoro. As-
sim, pessoas do sexo masculino de dez anos para cima, mais ou me-
nos, evitam andr,r a sós com a irmã ou sobrinha e quando, por aca-
so, se encontram fora da aldeia, passam por elas em silêncio, dando
uma volta por fora. Tão pouco deve-se passar por debaixo dessas
parentas .quando estiverem trepadas na armação da casa ou em al-
Buma fruteira na mata, assim como falar com elas sôbre o coito. Da
mesma forma os Apinayé se desviam dos seus sogros, quando cruzam
com êles no caminho e, pelo menos durante os primeiros anos de
casados, o genro só fala à sogra por intermédio da esposa.
86
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
XI — ESPORTES E JOGOS
O esporte predileto rios homens é a corrida de tóras. Quando
visitei a tribo pela primeira vez, em 1928, já não estava mais em
uso, mas nos anos seguintes passou a ser praticada outra vez e está
em voga até hoje, apesar do número reduzido de homens esportiva-
mente ativos.
As turmas competidoras são formadas pelos homens e moças das
duas metades Kolti e Kolre. A corrida é feita pela mesma maneira
que entre os Timbira Orientais e Xerénte, do lugar da confecção das
tóras para a praça da aldeia, mas os Apinayé não usam, como os
Xerénte, uma para dois carregadores simultaneamente. Uma par-
ticularidade de certas corridas dos Apinayé, é não depositarem o
par de tóras no chão quando se preparam para o inicio da corrida,
mas sim sôbre dois pares de forquilhas, (v. p. 56) .
Fazem-se também, entre os Apinayé, corridas sem grande osten-
tação quando um grupo de homens volta para a aldeia, depois de
qualquer trabalho comum. Por ocasião das festa.-? são celebradas cor-
ridas com grande cerimonial, delas participando a aldeia Inteira e,
eventualmente, também um número de convidados de outras aldeias.
As tóras maiores, feitas para cerimônia final da festa do Ro’rôd,
são as chamadas parã-kapê. Em 1928 assistí a uma dessas corridas
em Bacaba, mas como meus conhecimentos da organização da tribo
fossem multo deficientes, naquele tempo, é possível que me tivessem
escapado algumas particularidades.
Como sempre, quando se prepara uma festa final de um ciclo
de certa importância, as mulheres c moças se mostraram na véspera,
partlcularmcntc diligentes nas suas brincadeiras c danças. Pela ma-
nhã, elas dançaram aos pares, umas atrás das outras, “grunlndo c
rosnando”, de casa cm casa, representando uma vara de porcos quei-
xadas. À tarde, executaram, dirigidas por um cantor, diversas dan-
ças na praça, entre elas uma chamada me-ô-krc podlulntl, na qual
as dançadoras, uma ao lado da outra, com o corpo inclinado para a
frente, seguravam cm comum uma vara comprida em posição hori-
zontal. Durante uma outra, as dançadoras saíam da Unha, de duas
cm duas, dançando em frente dela com as mãos levantadas.
No dia seguinte foram todos para o tabuleiro, uns para caçar,
outros para preparar as tóras parã-kapé. A volta à aldeia se fez na
forma de uma corrida com tóras comuns.
Nimuendajú — Os Apinayé
87
Na manhã imediata organizaram-se corridas ao redor da rua da
aldeia. Corria-se aos pares, com uma vara de cana de flecha na mão.
Primeiro correram as moças e mulheres, tomando parte mesmo as
gordas e já de certa idade, o que provocou certa hilaridade entre os
espectadores masculinos. Depois correram as moças com os moços.
No outro dia levaram as tóras parã-kapé para o ponto de par-
tida da corrida, a uma distância de dois quilômetros da aldeia. Desde
às 9 horas da noite até às cinco e meia da manhã, um indio sentado
na praça, numa esteira entre duas mulheres, com a cara virada para
o nascente, cantou as cantigas chamadas kukêgn (kukên - cotia?) , ba-
tendo o compasso na esteira com um cinto maracá de cascos de vea-
do, que tinha enrolado na mão. Na verdade, devia ter cantado em
companhia de dois homens, mas como não havia mais nenhum ho-
mem, afora êle, que conhecesse as cantigas, tiveram de substituí-los
por mulheres. No fim de cada estrofe os espectadores rompiam num
“tyui” (txu: cinto maracá?) animador.
Na manhã seguinte, todos os habitantes da aldeia, quase sem
exceção, dirigiram-se ao lugar onde estavam postas em pé sôbre fo^
lhas de palmeira, as duas possantes tóras. Sentaram-se à sombra das
árvores do campo para se pintarem e enfeitarem com lã de pati e
para fazerem os enfeites de palha. As mulheres começaram a pintar
as tóras com tinta de urucú. Pouco depois o velho conselheiro se pós
a cantar e a dançar ao redor desse grupo, com passos lentos e bra-
ços abertos. As suas cantigas, como quase tôdas as cantigas Apinayé,
tinham por tema os animais. Ouvi-o mencionar o guariba, o taman-
duá colete e a onça. Quando as mulheres acabaram o seu trabalho,
juntou-se ao velho, o dirigente da festa da metade Kolre e um outro
indio mais novo, os três dançaram ao redor das tóras, o moço com
a espada de madeira levantada.
Deitaram as tóras, mas a dança continuou, tomando parte tam-
bém as mulheres, avançando e recuando. De vez em quando uma
delas se aproximava das tóras, como se quizesse suspender alguma
pela beirada, apenas com as pontas de dois dêdos, o que proporcio-
nava um espetáculo cómico, pois esses cêpos são demasladamente
pesados. Depois fizeram uma pausa. Já era meio-dia quando teve
lugar a cerimônia do me-kamitxôd (descrita à pg. 59) , que consiste
no exame dos adolescentes com respeito a indícios de masturbação.
Logo após o término dessa cerimónia, as duas turmas suspende-
ram as tóras aos ombros dos primeiros corredores, que dkspararam
em carreira precipitada rumo à aldeia, revezando-se os homens de
cada turma, no transporte das tóras. Todos os outros, acompanharam
os corredores debaixo do grande alarido e toque de buzinas c ápitos.
Usam, nessa ocasião, uma espécie de pequena clarineta com cabaço
de ressonância (mc-c-1 ratág-re). (57).
Assim que chegaram na airiaram as toras e, imediata-
mente, primeiro os homens, depois os meninos e, finalmontc as mc-
M — litlkowltí. Muilral Injlrumcnti, tlc- 112,
88
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
ninas e mulheres, foram açoitados pelo dirigente da metade Kolre
que por fim executou uma dança com o açoite na mão. Com isso,
findou a festa a uma hora da tarde. Também entre os Apinayé não
se ouve uma palavra de aplauso à turma vencedora, nem de repro-
vação aos vencidos.
Hoje, raramente, são organizadas corridas entre os Apinayé e,
nunca os vi medir forças em luta livre. O jôgo de tração com gan-
chos e o de argola e vara, ambos em uso entre os Xerénte, lhe são
desconhecidos. Porém, homens e meninos gostam de jogar peteca
com bolas de palha de milho, ao pôr-do-sol, na rua da aldeia, como
fazem os Timbíra Orientais e os Xerénte.
Um jôgo que nunca vi executado por meninos, entre os Apinayé,
mas excluslvamente por homens adultos é a corrida de pernas de
pau. Quando um grupo de homens volta de alguma caçada mais de-
morada para a aldeia, resolve, às vezes, fazer a sua entrada não em
forma de corrida de tóras, como fazem usualmente, mas sôbre per-
nas de pau. Ninguém na aldeia .sabe deste plano porque os prepara-
tivos são feitos às escondidas, na mata. As pernas de pau são varas
de comprimento de 3,20 metros e mais. Numa altura de 1,70 a 1,30
metros ou mesmo, quase dois metros do chão, são amarrados, à ma-
neira de estribos, um par de pauzinhos em cada vara. Estas, são
pintadas de prêto c vermelho, dos estribos para cima c, enfeitadas
com uma borla de penas na ponta. Para pôr os pés nos estribos, ó
preciso trepar em alguma árvore. Devido à altura da vara, o anda-
dor não as segura, como os nossos meninos que colocam as suas pon-
tas nas costas, eles as mantêm na frente do corpo, na altura do peito.
Os caçadores enfeitam-se com peças de palha, penduram nas costas
a carne da caça c as armas e, de repente, entram na aldeia cami-
nhando alto por cima dos arbustos do campo, num espetáculo gro-
tesco que causa júbilo aos espectadores. As mulheres procuram, en-
tão, a tòda pressa, algum aipim ou batata, já preparados e, espetan-
do-as em ponta de vara as apresentam aos homens, enquanto estes dão
algumas vezes a volta pela rua da aldeia. Como, porém, o manejo
do pernas de pau, tão pesadas, os cansa depressa, tem do descansar
de vez em quando, o que fazem em cima da aba das cobertas das
casas. Na manhã seguinte repetem n brincadeira.
Citarei ainda os poucos dados que consegui sóbre o u.so de más-
caras entre os Apinayé. E' fora do dúvida, que estes as u.savam anti-
gamente. Do mesmo modo que entre os Xerénte o Calyapó Seten-
trionais, elas representavam tamanduás (pad). Quando cheguei a
Bacaba pola primeira voz, já fazia trinta anos que os Apinayé ha-
viam celebrado sua última festa de máscaras, numa aldeia hoje aban-
donado no Ribeirão da Botica, segundo me dls.so Matúk. Naquela
ocasião fizeram algumas, na mata, para onde se levava a comida
aos que lá trabalhavam. Um dia vestiram as máscaras vindo cm con-
junto para a aldeia, carregando forquilhas de assar com pedaços de
carne, que as mulheers procuravam arrancar-lhes. Elas dançavam
Nimuendajú — Os Apinayé
89
no terreiro de tôdas as casas, e depois também na praça ,onde se fa-
zia uma casinha para eias. Essa casinha figura numa pianta de al-
deia que Matúk desenhou em 1926, para C. Estevão (58), no Pará.
Depois dançavam aos pares e de noite as máscaras eram guardadas
no ranchinho, no qual não era proibida a entrada às mulheres e cri-
anças, pois todos iam lá para examiná-las. Essas danças de máscaras
duravam muitos dias, até que um dia os Pad eram “mortos” à cacête,
como entre os Xerénte e carregados para as casas, com o que findava
a festa.
Em 1926 Matúk chegou a desenhar uma máscara (59). Em 1928
procurei reanimar o uso das máscaras entre os Apinayé, porém tive
de reconhecer que já era tarde demais e ninguém sabia direito como
eram confeccionadas; por isso, sem me dizer nada, consultaram aos
Kayapó, que também as possuiam, e que naquele tempo moravam na
aldeia do Cocai. Assim, com auxílio dèsses Kayapó fizeram duas más-
caras, macho e fêmea. Era uma espécie de chapéus muito altos, llgei-
ramente cônicos, prolongando-se em ponta fina com franjas compri-
das de palha, que desciam até ao cinto do portador. Este trazia uma
colgadura semelhante, amarrada pelo meio do corpo, descendo-lhe
as franjas até os tornozelos. Em lugar dos primitivos mosaicos de
penas, grudaram ao chapéu tiras de fazendas coloridas. A semelhan-
ça com as máscaras Ladení dos Karayá (60) era evidente. Por fim,
quando ficaram prontas as máscaras, os próprios Apinayé não sa-
biam bem 0 que fazer delas, porque a lembrança de suas antigas fes-
tas de máscaras já se achava quase completamente apagada. Mais
tarde os Kayapó dançaram c cantaram com as máscaras, conforme os
costumes de sua tribo.
Contudo, acho multo provável que a antiga forma das máscaras
dos Apinayé correspondesse mais ou menos aquelas feitas em 1928.
Em primeiro lugar porque a sua confecção foi fiscalizada pelo velho
Ngó’klúa, que na época da última festa de máscaras dos Apinayé
devia ter uns vinte e cinco anos. Segundo, porque o tipo combina mais
ou menos com a máscara desenhada por Matúk em 1926 e, terceiro,
êste tipo não é absolutamente privativo dos Kayapó e Karayá; eu
mesmo o encontrei entre os Tlmbira Orientais, onde vi, em 1913, más-
caras semelhantes entre os Tlmbira de Araparytíua, no Rio Gurupi.
Ai, aliás, não eram chamadas de Pad (tamanduá) ; traziam o nome
de ku'xid, que os Ramkôkamckra, Apányekra e Krahô dão ás suas
máscaras de esteira (kôkrít).
Segundo informações bastante escas.sas e vagas, parece que até
há uns clnqücnta anos passados, existia entre os Apinayé um outro
tipo de máscara. Deram-me como sendo suas designações, as seguin-
tes: Adcmã-rc, Ademã-re-pakráty ou Kublbe-kãmego’ê. Eram, como já
indica o último dês.scs nomes (kubib — esteira), máscaras de esteiras,
talvez do tipo das máscaras kókrit das tribos acima citadas. Tinham
58 — OUvolrn, Indlon AplnaRé, Est. VIII.
5D — Id.. Est. X. . , ^
00 — Krniiac; In den Wllilnissrn, Taf. 20. 2; taf. 54. b.
90
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
um enfeite de penas de ema, cujo cano era coberto com pequenas
penas de arára e jarreteiras sonantes, feitas de cascos de veado. Ma-
túk lembrava-se de ter visto essas duas peças, mas não a própria
máscara, nas mãos de seu avô, falecido há muitos anos, cujo filho,
tio de Matúk, tinha sido o último portador de Ademã-re. A máscara
que Matúk só conheceu por notícias, tinha sido enterrada com êle.
O Ademã-re era sempre um só. Ninguém, a não ser o proprietário,
podia vestir a máscara. Ela inspirava medo aos demais e mesmo a
sombra do defunto Ademã-re era tida como mortífera. Deu essas
informações com tóda reserva.
SciELO'
91
Nimuendajú — Os Apinayé
XII — GUERRA
As guerras dos Apinayé tinham por motivo quase que exclusiva-
mente a vingança. Guerras de conquista eram-lhe inteiramente des-
conhecidas e, caçada de escravos para si ou, para os neobrasileiros,
como faziam os Krahô, tão pouco praticaram, pois desconheciam a
escravidão. Do mesmo modo, jamais faziam guerra para conquista
de mulheres; traziam apenas uma ou outra mulher estranha para
suas aldeias, onde as tinham como raparigas públicas. Contudo, nos
séculos XVIII e XIX, fizeram correrias pelo Tocantins abaixo, contra
os neobrasileiros, com o fim de roubar ferramentas e, contra os Ku-
pen-rob no lago Vermelho, para obter miçangas.
Não obstante terem os seus primeiros cronistas salientado a ín-
dole pacífica dos Apinayé, não eram absolutamente covardes e servis.
Salnt Adolphe (61) diz expressamente que eram aguerridos e que
apesar da desigualdade de forças, lutavam valentemente contra os
portugueses. Durante o movimento da Independência, formaram com
duzentos e clnqüenta guerreiros ao lado dos brasileiros, participando
em maio do 1823 do combate na ilha da Botica, no Tocantins, que
findou com a capitulação da tropa portuguesa, (v. p. 5).
Cunha Mattos c Castelnau (62) citam os Xerénte como inimigos
dos Apinayé. E’ estranhávcl que a tradição Apinayé nada informe de
lutas contra essa tribo por ôles chamada Mbu-dyê-re. Ao contrário,
menciona como antigos inimigos, ao Sudoeste, os Kradaú-ya (Orada-
hú) afirmando, expressamente que não eram idênticos aos Kayapó
Setentrionais. Mais tarde, êsses Kradaú-ya teriam desaparecido por
completo e ninguém sabe para onde foram. Segundo Cunha Mattos
(63) essa tribo habitava entre os rios Tocantins e Araguaia.
Com os Xambloá, sub-trlbo dos Karayá (ngô-kré dos Apinayé),
parece que êlcs viviam antlgamentc óra cm paz, óra cm luta (64).
Hoje. êsses Xambloá estão reduzidos a uns quarenta indivíduos c não
têm mais nenhum contáto com os Apinayé.
Igualmcnte duvidosa são as relações dos Apinayé com os seus
parentes do outro lado do Tocantins, os Krlnkati ou Krlnkatcyc (Ca-
racati), chamados por êlcs Mukrá-ya. De um modo geral, parece
Que as duas tribos se entendiam mais ou menos. Certos indivíduos do
ambas as tribos iam e vinham sem o menor impedimento. Duas mu-
Dutcâllonl: ITni
92
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 193G
lheres Krinkatí vivem ainda hoje entre os Apinayé e um índio desta
tribo, casado com uma Krinkatí habita há muitos anos na aldeia
destes. A mais nova daquelas duas mulheres Krinkatí e um velho
Apinayé de Mariazinha me acompanharam, em 1928, na minha vi-
sita àquela tribo, sem o menor receio, sendo lá bem recebidos. Mas
nenhum Apinayé de Bacaba quiz acompanhar-me naquela ocasião e
os Krinkatí, quando me trouxeram de volta, só o fizeram sob a con-
dição de não terem de acompanhar-me para além do Tocantins. Por-
tanto, não confiavam muito uns nos outros.
Extremamente reservado quanto a essa tribo, mostrava-se, so-
bretudo 0 chefe Matúk, aliás com boas razões; quando ainda moço,
dois Krinkatí fizeram uma vez uma visita pacífica aos Apinayé, mas
quando voltaram para casa levaram clandestlnamente duas mulheres
Apinayé. O chefe encarregou Matúk de trazè-las de volta. Este al-
cançou os Krinkatí nas margens do Tocantins e como se negas.sem
a entregar as mulheres, matou-os, sem mais nem menos, a tiros de
rifle. Em Gato Preto, porém, transitam os Krinkatí, sem impedi-
mento. Ainda cm 1930, éles visitaram essa aldeia na esperança vã
de lá obter um asilo, quando fracassou a tentativa do encarregado
do Serviço de Proteção aos Índios de transferi-los para o rio Ourives,
perto de Barra do Corda, resultando na dispersão da tribo. Esta idéia
de passar-se para junto dos Apinayé parece ser um plano bem antigo
dos Krinkatí, pois já Castelnau (65) ouviu em 1844, que os Gaviões
(como era na Cachoeira de Santo Antonlo, se tratava provavelmente
não déstes, mas dos Krinkatí) tinham tratado com os Apinayé nêste
sentido.
Segundo informações dê.sse mesmo viajante (66), tanto os Api-
nayé como os Xcrénte teriam praticado a antropofagia nas lutas tra-
vadas entre si. Como já se disse, além do fato dos Apinayé nada sa-
berem de tais lutas, a afirmação não se justifica com relação a estes
últimos, nem tão pouco com relação aos primeiros, pois, apesar das
descrições dadas pelo menino Apinayé Catama à respeito, Castelnau
ficou sendo o único a acu.sar os Apinayé de antropofagia. Êles não
conheciam sequer o uso de trofeus, feitos de crânios de inimigos e as
suas tradições só mencionam o fato dos guerreiros cortarem, às ve-
zes, o braço inimigo morto para levá-lo à aldeia. Assim reza a histó-
ria de um Apinayé que com o seu sobrinho empreendeu uma cor-
reria contra os Kupcn-rob c que de volta abateu sua mulher infiel
e o amante, com aquele trofeu.
Sc, por um lado, a tradição da tribo não oferece nenhum ves-
tígio de antropofagia, con.'crvou-se até liojc, uma cerimônia que
talvez seja uma modificação secundária do costume primitivo de
matar o prisioneiro de guerra cerlmonlalmcntc, na praça da aldeia.
E’ a festa Pltxô-Kamtxwú, que significa "furar (kamtxwú) a ba-
naneira" (pltxò).
05 ^ CARtelnnti. Ifhtnirp, II, 18.
CG — lU. IlUtolrr. II, 37.
Nimuendajú — Os Apinayé
93
Certa manhã trouxeram para a aldeia de Bacataa, uma bananeira
sem raiz, de cinco metros de altura, que plantaram na beirada oci-
dental da praça. Logo depois do meio-dia, juntaram-se os homens na
casa do dirigente da festa da metade Koirr onde fizeram testeiras
de palha, para os braços, estas últimas com compridas tiras penden-
tes e dobradas em forma escalonada, representando asas. Depois,
armados de arcos e fiechas e-^ cantando suas cantigas, rodearam a
rua da aldeia, de casa em casa, reunindo-se finalmente no terreiro
da casa, no ponto oriental, formando frente à bananeira e depondo
tódas as suas fiechas juntas, no chão. Os homens, um após o outro,
davam três passos para a frente, atirando uma ou duas flechas, de
cada vez, na bananeira, até que tôdas as flechas crivaram os troncos
e as folhas. As flechas que erravam o alvo eram recolhidas pelos
meninos e ievadas novamente aos atiradores.
Quando não restava mais nenhuma fiecha, alguns dos atirado-
res c seis mulheres, das quais quatro raparigas públicas, todos do
Kiyê Ipõgnyôtxwúdn, se enfeitaram de uma maneira grotesca na casa
de Matúk: com a tabatinga própria dêsse Kiyê, pintaram, uns a cara
inteira, outros só uma banda, outros, ainda, a testa e a região dos
olhos. Matúk grudou na cara uma e-spécie de barba postiça de lã de
patí c trazia um enfeite auricular de tiras de palha enroladas, não
no furo da orelha mas amarrado nêle com um fio. Um môço pôs
uma banda só de barba, feita de cabelos da cauda do tamanduá-ban-
deira. Diversos índios fumavam em enormes cachimbos de folha de
pati, nos quais mantinham o tabaco aceso por meio de grandes
achas de ienha. Um dos homens levava um machado. Assim enfeita-
dos foram à praça, fazendo tôda sorte de travessuras, como é costu-
me dos membros do Kiyê Ipõgnyôtxwúdn. Os homens pediam fogo
às raparigas, cngalfinhando-se com elas e tentando agarrar uns aos
outros pelas partes sexuais. De repente, o moço c o homem com o
machado precipitaram-se para a bananeira: o primeiro deu-lhe um
golpe furioso com a acha de lenha acesa; o outro derrubou-a com
dois talhos de machado. Imediatamente os participantes que levavam
cachimbos, entre êlcs também uma mulher, se aproximaram soprando
fumaça de tabaco sôbre a bananeira derrubada.
Tiraram as flechas do tronco, devolvendo-as aos respectivos do-
nos. Os homens desarmaram os arcos, enrolaram a corda na ponta
inferior, vlraram-na para cima e marcharam ao redor da rua da al-
deia, de casa em casa, guiados pelo dirigente de festa da metade Kol-
tl Em toda parte deram-lhe grandes quantidades de comida, que
repartiam entre si, recebendo cm primeiro lugar a sua parte, como
.sempre o velho conselheiro Ngò'klúa. que tinha dirigido toda a ce-
rimónia.
O pltxò-knmtxwú durou ao todo umas quatro horas. Quando
indaguei i)cla sua significação, contaram-me a história n.'> 13 de
"Mitos c Lendas"'.
94
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
Tipos de bordiuias
Nimuendajú — Os Apinayé
95
Duas coisas saltam aos olhos: primeiro, nessa lenda o episódio
do flechamcnto da bananeira foi intercalado de uma maneira ar-
bitrária e sem nexo, e que, portanto, a lenda nada tinha que ver pri-
mitlvamente com o pltxô-kamtxwú. Segundo, que a forma atual da
cerimônia não pode ser a originárira, porquanto os Apinayé só vieram
a conhecer a bananeira depois do seu contacto com os civilizados.
O que, ou quem estaria, pois, originàriamente, no lugar da bana-
neira, sendo crivado de flechas» por fim derrubado e a sua sombra
conjurada com fumaça de tabaco.
Por guerreiros, incluem jóvens solteiros ou casados, desde a sua
iniciação até uma cerimónia posterior, cêrea de dez anos depois,
quando então transferem seus títulos a novos iniciados. Enquanto
èles passam ao status de homens maduros (uyapê). Só no caso de
um ataque do Inimigo à aldeia pegavam em armas, simultãneamen-
te, todos os homens capazes disto. No mais, as guerrilhas eram feitas
por pequenos grupos de guerreiros ou mesmo por pessoas isoladas,
que se aproximavam às escondidas das aldeias Inimigas para armar
emboscadas. Porém, quando as forças eram mais ou menos equiva-
lentes, os Apinayé combatiam também em campo aberto.
O distintivo dos Pemb é ainda hoje uma testeira de palha de
oabassú, de cujo nó, sôbre o melo da testa, saem três pontas, duas
oara os lados c uma para cima. As armas de guerra eram o arco e
flecha, a lança c o cacete roliço, em forma de espada ou em forma de
remo. Destas, a lança hoje desapareceu por completo. Pela lenda do
"Perna de Lança”, parece que conheciam o uso de fojos (Mitos e
Lendas, n.° 6), mas as aldeias eram fortificadas.
Uma arma dos Apinayé, que merece especial atenção, é o ma-
chado semilunar (pukál). Èles mesmos afirmam que receberam essa
arma do povo lendário dos Kupen-dyeb (Índios Morcegos — Mitos e
Lendas, 10), o que não passa de uma daquelas tentativas tão em voga
entre os Tlmbíra, de explicar uma coisa cuja origem e significação
não conhecem, por melo de uma associação secundária e arbitrária,
com qualquer motivo dc lenda que, originàriamente nada tinha que
vêr com ela. Já a variante correspondente da lenda dos Ramkôka-
mekra-Canclas nada diz dc machados semilunares, que esta tribo
ligou no povo Igualmente lendário das Amazonas (Kupen-tia-yapré) .
Ao que me parece, os machados semilunares são, ao contrário, um
elemento antigo e típico da sua cultura. Só foram encontrados em
uso entre as tribos Jê ou seus vizinhos imediatos (Trcmembé, provà-
vclmentc também Otahukayann) de parentesco linguístico desco-
nhecido. A zona onde se encontram êsses machados, mais ou menos
coincide nrqucològlcamente com a zona dc expansão dos Jé. Não creio
que os machados seminularcs encontrados no Baixo Amazonas te-
nham all chegado por via de comércio Intcrtrlbal, como admite Ry-
dén (07); parece-me antes, que repre.scntavam variações dc tipos
mais primitivos de machados de lá mesmo.
87 — «yU^n. Ilritlilan .\nrlior-»»«-'i. 80.
2 3 4
SciELO
cm
10 11 12 13 14 15
96
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
Rydén reuniu e estampou (flg. 5) no seu citado trabalho, todos
os machados semilunares dos Aplnayé, públlcamente accessívels. Com
exceção de li, todos os outros foram coletados por mim na própria
tribo, além de mais outra meia dúzia que se acham em mãos di-
versas. Trata-se, visivelmente, entre os Aplnayé, de duas formas dife-
rentes de machados semilunares, com destinos diversos: grandes ma-
chados de guerra (B e C), dos quais só encontrei dois, e pequenos
machados cerimoniais (todos os outros), cuja forma da lâmina jã
apresenta, às vezes. Indícios de degeneração, como observa o pró-
prio Rydén. Êste autor considera, porém, os machados grandes tam-
bém como armas cerimoniais, devido ao seu cabo muito curto e a alça
de fio (68). Contra Isto depõe ,em primeiro lugar, o testemunho dos
próprios Aplnayé, que afirmam com tôda a segurança de que tais
machados se destinavam ã guerra. Quanto ao cabo, para nós Impra-
tlcavelmente curtos, deve-se lembrar que no Perú antigo se combatia
até com machados sem cabo, como provam as numerosas pinturas
em vasos e, finalmente, a presença da alça prova justamente o con-
trário, pois durante a luta, o guerreiro tinha de trazer o machado
pendurado ao ombro para poder manejar o arco e a flecha ou cace-
te. Justamente durante as cerimônias e cantigas o machado semi-
lunar não é pendurado pela alça mas levado na mão pelo cabo. Se-
gundo afirmam os Aplnayé, essa arma era usada para quebrar o crâ-
nio ou 0 pescoço do Inimigo, já vencido com outras armas. Antiga-
mente, quando ocorria um assa.sslnato na tribo c os parentes do as-
sassino conseguiam demover os do a.ssasslnado a não vingar o crime
pela morte do a.ssasslno, Irnpunha-se ao crlmnloso a tarefa de agar-
rar um Inimigo vivo que era entregue ao vingador, o qual lhe que-
brava 0 crânio com um machado semilunar, entregando-o depois ao
assassino. Para tal fim, organizava-se, cventualmente, uma sortida
especial. Sc o assassino, porém, não conseguia prender nenhum Ini-
migo, o vingador o batia com o machado ou cacôtc, mas não o ma-
tava. Com isto dava-se, deflnltlvamentc, por encerrada a questão.
Entre os Aplnayé, tanto quanto entre os Timbira Orientais c os
Xerénte, o machado semilunar não parece ter nenhuma relação com
a lua nova, como tinha entre os Tremembé (69). O costume de dei-
xar essa arma depositada sôbre o cadáver do Inimigo morto com
ela, registrada Igualmentc para àquela tribo, não era praticado, em-
bora os Tlmblra, os Kayapó Setentrionais, os Akwô e os Kalngang,
sempre deixem um cacete ao lado de um Inimigo morto.
Segundo Klssenberth (70), os machados semilunares eram o dis-
tintivo dos Wayangá ou membros do "conselho dos velhos", entre os
Kayapó Setentrionais. Não se dá Isto entre os Aplnayé, que com o
nome de vayangá designam o curandeiro. Tão pouco, são élcs dis-
tintivos dos chefes, como relata Pohl (71), com referencia aos Pora-
cramckran (Ponrckamekra) .
os — Rjrdín. Ilrixllliin Anrlior-airt, SS-OT.
(lí — Evreux: Vojtrxí, 141.
70 — Klmrnbrrth b. 50.
71 — Pohl. nrUf, II. 105.
Nimuendajú — Os Afina YÉ
97
Quanto aos pequenos machados cerimoniais, me parece que os
Apinayé, depois de terem abandonado os seus costumes guerreiros,
ainda continuavam a conferí-los aos moços no fim da Iniciação. (Vide
página 55) .
Quem tivesse morto um inimigo se submetia a um jejum de,
aproximadamente 10 dias. Durante êsse período só podia comer bei-
jú de mandioca e tinha de ingerir grande quantidade de pimenta.
Não podia conversar com ninguém e os outros não podiam beber
água na sua cuia. De volta da correria guerreira, tinha de marchar
na retaguarda, apartado dos outros, e acampar da mesma maneira.
Com o escarlficador de dentes de rato faziam-lhe riscos horizontais
no peito. Depois do seu retorno à aldeia, os guerreiros realizavam
uma dança na praça, ao pór-do-sol, ao redor de uma fogueira de le-
nha de aroeira. Passado algum tempo, apresentava-se o matador na
praça, pintado Intciramente de prêto, sustentando na mão direita,
na altura do ombro, o machado semilunar com as suas compridas
franjas de algodão. Os dançadores abriam o círculo para que êle en-
trasse, do contrário teria o direito de derrubar quem lhe estivesse na
frente. Findo o jejum, comia primeiro carne de tatú e usava enfeites
especiais de envlra; jarretelra, pulseiras e cordão do pescoço.
SciELO
98
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1936
Xiri — DIREITO
O direito de herança dos Apinayé era muito slmpies, pois, anti-
gamente, 0 que 0 defunto possuia em armas, enfeites e utensílios de
casa, passava para as mãos das pessoas que com êle estavam em rela-
ção de Kram-Kramgêd, sendo também uma parte dêsses objetos en-
terrada com êle. O que sobrasse, cabia aos filhos do defunto e não aos
seus pais que, quando multo, guardavam êsses haveres enquanto
crianças.
A roça era herdada pelos filhos e nunca pelo viuvo (devemos
lembrar que ela é propriedade da mulher) e como os homens entre os
Tlmbíra, não possuem casa, esta depois da morte da mulher passava
a pertencer às filhas e sobrinhas da falecida.
Quanto ao direito penal dos Apinayé, multo pouco pude al-
cançar; o motivo de minha Ignorância é até muito lisongelro para
a tribo, pois na realidade, os casos que exigiram a sua aplicação fo-
ram multo raros.
Já mencionei que o defloramento premarltal, que não levava ao
casamento, era punido com uma Indenização. Náo ouvi de nenhum
caso de estupro. Como já disse, não ví também nenhum caso de adul-
tério que degenerasse em escândalo píibllco, nem, tampouco, casos
de furto ou calúnia grave. Danos materiais, espancamento, ferimen-
tos e mortes, só se deram por efeito do álcool. A aldeia Bacaba, pelo
menos, comparada com qualquer povoado Xerénte, 6 um exemplo
de paz Interna, c Gato Preto o seria também se não houvesse ca-
chaça.
Perguntei a Matúk se nunca se davam furtos. Respondeu que às
vezes uma ou outra mulher furtava na roça da outra. Se o furto não
era grave a dona não fazia caso, do contrário tratava de apanhar a
ladra cm flagrante delito, a qual ficava tão envergonhada que resti-
tuía o furto.
Uma forma antiga de castigar a mulher adúltera c seu cúmplice
é aquela mencionada à pg. 92, cm que o marido ludibriado, de volta
de uma correria, abateu o par com o braço decepado do um Inimigo
que matara. •
Quanto a ferimentos graves c morte, assisti o caso já referido
de Nlndó. Êle era sobrinho adotivo do dirigente de festa da metade
Koltl, cm Baraba, Pcbkràô. Depois de diversas aventuras amoro.sas
cm Bacaba, Nlndó achou conveniente mudar-.se para Gato Prêto,
onde casou com uma moça dc nome Konduaká. Um dia íol cm com-
Nimuendajú — Os Apinayé 99
panhia dela à Bôa Vista; embriagou-se e começou a brigar com a
mulher no caminho de volta, dando-lhe diversos golpes com um ter-
çado. Como o seu procedimento, também em Bacaba, fòsse gcralmen-
te reprovado, sabia que não contaria com nenhum apoio no caso
de um ato de vingança por parte dos parentes de Konduaká. Devido
a isso, fugiu, após dois dias, para junto dos neobraslleiros, allstan-
do-se numa turma de homens que la trabalhar nos castanhais do
Baixo Tocantins. Permaneceu lá durante dois anos; voltando a Ba-
caba, casou-se com Ngreri, sobrinha do chefe Matúk. Pouco tempo
depois èle se embriagou novamente e maltratou a mulher tão bar-
baramente que ela não resistiu, morrendo no dia seguinte. Desta
vez, a morte de Nindó era questão fechada para Matúk. Nindó, porém,
fugiu novamcntc para junto dos neobraslleiros, metendo-se na pe-
quena cidade de Bôa Vista, pois sòmente, ali, sob as vistas das auto-
ridades e das praças de polícia (que, aliás, nunca souberam do seu
crime), se julgava mais ou menos seguro dos vingadores. Com ex-
ceção do seu tio c pai de criação Pebkràô, quase tòda a aldeia Baca-
ba aguardava uma ocasião para liquidá-lo. Assim viveu num temor
constante durante alguns mêses, até que morreu de desintéria em
Boa Vista.
Com a morte natural de Nindó, Matúk considerou o caso como
encerrado; outros, porém, eram de opinião que, tendo Nindó morrido
sem expiar seu crime, devia-se vingar a morte de Ngréri na pessoa
do tio e pai de criação de Nindó, Pebkrãô. Desconfiado, êste deixou
sua familla provlsòrlamcnte em Bacaba e fugiu para o sítio de um
neobrasllelro. Matúk por diversas vezes lhe mandou recado pela mu-
lher e pela filha para que voltasse em paz, pois ninguém havia de cn-
comodá-lo, mas Pebkrãó não se fiou nessas promessas c ficou onde
se refugiara. Assim estavam as coisas, quando voltei em 1937 para
Junto dos Apinayé.
Sendo a presença de Pebkrãó, .corno dirigente de festa dos Koltl,
indispensável cm Bacaba, onde se estava tratando da iniciação dos
novos guerreiros, na qual, além do mais, a sua filha tinha de fun-
cionar como Mekultxwél, por ter o nome de Amdyí, mandei-lhe tam-
bém um recado, pedindo que volta.ssc. Èle prometeu vir, mas foi fi-
cando, por mais que a própria familla insistisse. Finalmente, fui cm
pessoa ter com èle c como tinha levado um animal de carga, trou-
xc-o e à familla, sem mais protesto, para Bacaba.
Uma outra forma pela qual se podia expiar um assassinato an-
tigaincnte, ora a matança, pelas maos do vingador, de um inimigo
capturado para és.se fim pelo a.s.sasslno, como já mencionei à pg. 96.
Quem mata, por feitiço, seu companheiro do tribo, é irremedlã-
velinente c.astlgado com a morte. O ehefe resolve a execução, que é
posta em prática pelos parentes da vitima, ou .se estes nao têm ca-
pacidade para fazé-lo, j>or homens que voluntãrlamentc se ofere-
cem ou para isto são nomeado.s pelo chefe. Já relatei ã pag. 11, como
o chefe de Goto Prélo, Pcbkób procedeu cm tais circunstâncias, c cs-
100
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
tou plenamente convencido que tanto êle como Matúk, agiriam ainda
hoje da mesma maneira, caso assim se desse.
A última dessas execuções se deu em 1929, quando eu já conhe-
cia os Aplnayé. Por Iretí, que teve certo papel nesse assunto, fui in-
formado das circunstâncias. De um modo geral, nem mesmo os Ín-
dios que não tomam parte em assuntos desta ordem, dão informa-
ções a respeito.
Vivia na aldeia do Cocai uma mulher de seus 30 anos, de nome
Yandorády, com seu marido e trés filhos, dos quais a menina mais
velha contava então uns onze anos. Por qualquer razão, os habitan-
tes de Cocai, como também os de Bacaba, começaram a desconfiar
que lhe cabia a culpa na morte de diversas pessôas. Por isso, Matúk
mandou alguns companheiros a Cocai, sob pretexto de uma visita
amistosa, para investigar o caso. O vayangá Kaklú-tí, tio de Iretl,
que o acompanhava, era o encarregado da questão. Como pretexto
para a visita, servlu-lhc a doença do marido de Yandorády. Em Co-
cai, Kaklú-tí recebeu graves denúncias contra Yandorády. Porém,
chegou a conclusão de que não devia tomá-las a sério e depois de al-
guns dias voltou para Bacaba. Mas ainda em caminho alcançou-o
um mensageiro de Cocai, trazendo-lhe novas provas da culpabilida-
de de Yandorády. Kaklú-ti voltou então com seus companheiros
para Cocai e convldou-a a vir com seu marido doente para Bacaba,
onde êle trataria melhor da sua cura. Yandorády assentiu e imediata-
mente Kaklú-tí chamou em segredo Ireti, que naquele tempo tinha
uns treze anos e, dando-lhe um pequeno cabaço, mandou que o en-
chesse com pimenta c que não saísse de perto déle, acontecesse o
que acontecesse.
Fizeram uma rêde de duas folhas de buriti, amarrando-a num
pau e nela dois homens carregaram o doente, pondo-sc todos em
marcha para Bacaba. Depois de terem andado uns 17 quilômetros,
descansaram na beira do ribeirão São Benedito, onde depuzeram o
doente na sombra de um grande jatobá. Sua mulher estava sentada
a seu lado com mais algumas outras. De repente Kaklú-tí aproximou-
se por trás, saltou sòbre ela c segurou-a. Ansiosa, perguntou o que
queria dela, ao que Kaklú-ti respondeu, que tinha de morrer, cra-
vando-lhe a faca no pescoço por cima da clavícula. Iniedlatamcnte
os três outros companheiros de Kaklú-ti caíram de cacêtc sòbre
Yandorády, golpeando-a até quebrar-lhe o crânio, o espinhaço e to-
dos os ossos maiores. As mulheres, horrorizadas, se dispersaram, fu-
gindo cm tõdas as direções, .só Iretí, com o seu cabaço í'c pimenta,
ficou no lugar. A filha mais velha de Yandorady. armada de faca,
prcclpltou-sc íurlosamcnte sobre Kaklú-ti. Os outros índios, porém,
a seguraram, ameaçando-a de morte se não aquietasse.
Cavou-sc Imcdlatnmente um buraco no qual se jogou o cadáver,
enchendo-se a sepultura com terra bem socada. Depois todos que
tinham tomado parte ativa na execução ingeriram grande quantl-
Nimuendajú
Os Apinayé
101
dade de pimenta, pintaram-se com pontos prêtos e botaram enfeites
de envira de tauarí. Durante muitos dias êles só comeram beijú com
pimenta. (V. pg. 97) .
Quando depois dessa cena de sangue foram ver o marido de
Yandorády, acharam-no morto na sua rêde: o susto o tinha ma-
tado.
102
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
XIV — RELIGIÃO
Muito pouco se sabia da religião dos Aplnayé. Casteinau (72),
influenciado, tavlez, por Frei Ludovlco, de Bôa Vista, fala de um
respeito superstlclo.so à lua, mas o que êle interpretou como ato de
culto, provavelmente nada tinha que ver com a lua (v. pg. 20/21).
Tudo que Buscalioni (73) escreve sôbre uma divindade masculina e
outra feminina e um culto secreto semelhante ao do Yuruparí da
região do Rio Negro, é completamente falso. Snethlage (74) diz ape-
nas que nada chegou a saber a respeito de um deus dos Krãn (Tlm-
bira-Kayapó).
Carlos Estevão de Oliveira, foi o primeiro a reconhecer que o pa-
pel principal na religião dos Aplnayé cabia ao sol, e só em segundo
lugar à lua. (75).
O mito mais Importante dos Aplnayé é aquele relatado sob n.° 2
dos "Mitos e Lendas", que trata das aventuras de Mbud-tl (sol) e
Mbuduvrl-re (lua), na terra.
No episódio referente à criação dos homens, feitos de cabaços
(Mitos e Lendas, 2k), se fundamenta o relativo respeito com que
essas frutas são tratadas pelos Aplnayé. Não se permite que as cri-
anças, nas suas brincadeiras, as destruam ou danifiquem, de pro-
pósito (76). Tendo, certa vez, um índio jogado um cabaço verde ao
fogo, onde estourou, Matúk repreendeu-o severamente e, tendo eu
próprio quebrado um dèles, pl.sando-o no escuro, sem querer, me ad-
mirei de como Isto chamou a atenção. Um enfeite dorsal, composto
de dois pequenos cabaços, tem Igualmente relação com aquele episó-
dio do mito.
Enquanto os primeiros capítulos dêsse mito não apresentam cará-
ter rellglo.so, os últimos três, que tratam da criação dos homens, da
fundação da primeira aldeia e da despedida do Sol e da Lua da terra,
constituem a báse da religião e, em parte, também, da ordem social
dos Aplnayé. Com evidente preterição da lua, consideram éles o sol
como criador e pai da humanidade; a divisão e localização das me-
tades é Igualmcnte obra do sol. Da mesma forma que os Xcrénte, os
Aplnayé tratam o deus solar com veneração profunda e genuina-
mente religiosa. Assim como Mbud-tl fala, no mito, dos homens como
sendo seus “filhos", do mesmo modo, os Aplnayé o chamam de pal
72 — Caatelnnu, Ilittoirr 11. 32, 34.
73 — nuRoallonl, tina r•rllrllonr. 232.
74 — Snsthlagp. .NordanthraillUnlache IndUnrr, 174.
7} — Oliveira, Indloi Aplna{f, 8S.
7« — Id., «7.
Nimuendajú — Os Apinayé
103
(me'papám, id-pam Mbud, etc.), dirigindo-se a êle nas suas aflições,
justamente como um filho se dirige a seu pai. Para isso não conhe-
cem nenhuma formula especial, fazendo as suas preces nas palavras
simples da sua língua familiar. Vão até ao campo, fóra da aldeia,
viram o rosto para o sol e pedem na sua voz comum: “Meu pai! faça
i.sto! ou dá-me aquilo!” Só mais tarde, os índios me contaram que
Matúk e Ireti pediram assim ao sol, que me fizesse recobrar a saúde
quando estive adoentado duranj^e alguns dias, e não podia tomar par-
te nas refeições, o que muito os entristecia.
Nunca vi um índio pintar uma efígie do sol, mas Matúk me dis-
se que não só as aldeias como o seu círculo de casas, sua praça e
seus caminhos radiais, como também os grandes bolos de festa com
as folhas postas radialmcnte, eram imagens do sol.
Já referi, à pg. 70, como antes do áto de plantar a roça, se pede
ao sol proteção para as plantações. Há ainda uma dança que se re-
laciona com 0 sol c que se celebra de preferência, na época do Início
da colheita, e ãs vêzes, também fóra dela. Essa cerimónia tem o nome
de Tu’êre e dura quatro dias. Os dançadores ostentam à pinta tipica
de Mbud-tí, as listas largas de tinta de urucú na face anterior e la-
teral dos braços e das pernas. As testeiras e pulseiras são enfeitadas
com rosetas pretas de palha de babaçu e nos cabelos compridos, amar-
rados atrás, levantam-se duas grandes penas de arára. Os dançado-
res formam três círculos concêntricos: o interior é formado pelos
guerreiros (Pcmb), o do meio pelos homens maduros (Uyapê) e o ex-
terior pelos velhos (Gêdpli). O circulo dos Uyapês se move na dire-
ção dos ponteiros do relógio, os dois outros em sentido contrário. Os
dirigentes de festa das metades, estão no do melo. A certa altura
êsses dois dirigentes entram para o centro, vindo o dos Kolti do
leste e o dos Kolre do oeste. Slmultáneamento, dois companheiros dos
dirigentes executam o mesmo movimento, vindo o Kolti do norte e o
Kolre do sul (v. uma cerimónia semelhante na festa do Alu’tí, pg.
24/25). A dança começa diariamente ao levantar do sol.e íli^a à
tarde. Ao meio-dia se faz uma pausa para comer. Ao pôr-do-sol as
metades tomam posições separadas na praça, onde recebem grande
quantidade de comida, que trocam entre si.
Infcllzmcntc, nem eu nem os índios podemos traduzir os textos
das cantigas de Mbud-ti. Con.segui apenas compreender algumas pa-
lavras sem nexo. Assim, o tcôr de uma delas é: “Ane napaté nereré
nõ” (na-pa-tc cu andei, nó estar deitado).
No terceiro dia, um homem da metade Kolre executa uma dança
na praça com a cara pintada de prêto e os braços c as pernas, abai-
xo dos Joelhos, envoltos em fios de algodão, que os membros da outra
metade logo lhe tomam. Feito isto, êle corre a procura de uma da-
quelas casas de maribondo, que sc acham com frequência nas árvores
do campo e, nbatendo-a, destrói o ninho, recebendo naturalmcntc,
numerosa ferradas. Os outros que correm atrás dêlc, agarram-no, dois
homens o deitam sobre os seus ombros, carregando-o para a aldeia.
104
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
rodeados pelas mulheres que choram c cm casa o esfregam com fo-
lhas de algodoeiro, para acalmar as suas dôres.
A extraordinária importância emocional do deus solar rcvcla-se
pela Impressão profunda que causam as visões e sonhos em que êle
se apresenta. Matúk contou-me sua própria experiência, em dois
exemplos:
“Eu estava deitado no meu jirau olhando pela porta da casa.
Ví, então, Nosso Pal que estava sentado no galho de uma árvore, lá
fóra, no campo. Êle estava pintado de branco, de uma maneira es-
tranha, que parecia espinhos de coandú. Tinha um braço colocado
sôbre o Joelho, e debaixo do outro trazia um rôlo verde. Estava assim
sentado, girando sôbre sl mesmo. Por cima dêle se ouvia um rumor
como de uma grande tempestade. Tôdas as mulheres estavam no
terreiro chorando em voz alta: se Nosso Pal cair agora, tudo estará
acabado! Não pude olhá-lo por mais tempo e virei a cara para a
parede. Por três vêzes ainda olhei para êle e disse às mulheres: Não
tenhais mêdo. Nosso Pal não cairá! Quando olhei pela terceira vez
êle já estava suspen.so no ar a dois palmos acima do galho. Então,
eu disse alegremente: Êle não cairá! Está subindo! Com isso acordei”.
Multo mais profunda foi, sem dúvida, uma visão do deus solar
que 0 mesmo Matúk teve e que relatou da maneira seguinte:
“Eu estava numa das cabeceiras do Ribeirão da Botica. Já du-
rante 0 caminho me sentia perturbado e constantemente me assus-
tava sem saber porque.
De repente apareceu debaixo dos galhos pendentes de uma gran-
de árvore do campo. Lá estava Êle em pé, com uma das mãos sôbre
0 cacête que tinha encostado no chão. Êle era grande e de cór clara,
e os cabelos desclam-lhe pelas costas quase até o chão. Seu corpo
todo e.stava pintado e as pernas listradas de vermelho. Os seus olhos
eram como duas estrelas. Êle era multo bonito.
Eu conhecí logo que era Êle e perdi a coragem. Os seus cabelos
se arrepiavam c os joelhos tremiam. Deitei a c.splngarda para um
lado porque .sabia que devia falar com Êle, mas não pude dizer uma
palavra e Êle- estava me olhando. Abaixei a cabeça para criar cora-
gem e assim estive durante multo tempo. Quando fiquei mais calmo
levantei a cabeça: Êle ainda estava lá, olhando para mim. Então fiz
um esforço e dei uns pas.sos para Êle, mas logo meus joelhos .se do-
braram e não pude mais andar. A.sslm fiquei por multo tempo, de-
pois abaixei a cabeça e procurei outra vez tomar ànlmo. Quando le-
vantei outra vez os olhos, Êle já mc tinha virado as costas e foi se
sumindo de vagar pelo campo.
Então fiquei multo triste. Após ter desaparecido, ainda fiquei
muito tempo no mesmo lugar; depois fui ver onde Êle tinha estado
cm pé: vl os rastos dos seus pés, cujas bordas estavam vermelhas
de urucú c ao lado a Impressão da cabeça do cacête dêle. Apanhei a
minha espingarda c voltei para a aldeia. Em caminho matei ainda
dois veados que .se chegaram a mim sem susto. Em casa contei tudo
Nimuendajú — Os Apinayí
105
a meu pai, que me respondeu porque eu não tinha tido coragem
de falar com Èle.
De noite quando eu estava dormindo, Èle me apareceu de novo.
Dirigí-lhe a palavra e Èle respondeu que tinha esperado por mim
no campo para falar-me, mas como eu não me aproximasse tinha
ido embora. Levou-me a certa distância atrás da casa, mostrando-
me um lugar no chão onde estava guardada uma coisa para mim e
desapareceu.
Pela manhã fui logo lá e apalpei o chão com a ponta do pé. Senti
que havia quaiquer coisa alí enterrada. Mas os outros vieram me
chamar para a caçada. Então tive vergonha de ficar e fui com êles.
Quando voltamos fui de novo àquele lugar que Èle me tinha indi-
cado, mas não encontrei mais nada.
Hoje sei que naquele tempo fui muito tòlo. Com certeza Èle me
teria dado uma grande “segurança” se tivesse sabido conversar com
Êle, mas cu era ainda novo demais; hoje faria outra coisa”.
O que faia nesta narração de Matúk é sem dúvida um profundo
sentimento religioso c não o mero temor de algum demônio. Visivel-
mente, Matúk não teve mêdo que a visão lhe pudesse dar, por exem-
plo, um golpe de cacête. Êle não teve mêdo nenhum, do contrário
teria ficado contente quando ela desapareceu e não triste. Êle a
achou bela e não terrível. Contudo, a consciência de estar em pre-
sença de seu deus e criador foi tão esmagadora que aquele homem,
corajoso e circumspccto, ficou como que petrificado, apesar de tòdas
as ponderações racionais.
Do mesmo sentimento nasceu seguramente, a .sua recusa formal
de dar informações sôbre sonhos e visões ulteriores. “Não posso falar
sobre i.sso, dl.sse êle, justamente nêstes últimos tempos. Êle me tem
aparecido outra vez em sonhos. Tenho certeza de que não passará
multo tempo antes que Êle me espere de novo no campo. Se êsse
homem que concentra todos os seus pensamentos na repetição da-
quela visão, conseguir por fim o que tanto aspira, não é certamente
de admirar.
Outros homens desta tribo tiveram também visões do deus so-
lar e como Matúk, .sempre cm caçadas solitárias. A fadiga excessiva, a
fome e sêdc a que o caçador se vê exposto durante tais jornadas, in-
fluem certamente para isso.
Uma conclusão se tira dessas visões: o deus solar dos Apinayé c
um ente apartado do seu substrato, porque, quando apareceu a Ma-
túk, 0 sol estava no céu.
Não .se encontra na religião dos Apinayé nenhum vestígio de In-
termediários entre a divindade c os homens, sejam êles celestes ou
terrestres. As estréias, que entre os Xerénte têm êsse papel, são nêste
sentido de nenhuma significação e os pajés (vayangà) não são mais
eficientes com suas preces diante do deus solar, que outros quaisquer.
A lua, os Apinayé não dão o titulo de pai mas o de Id-kramgêd
(V. pg. 27), termo que traduzem por "meu padrinho”. E’ o título que,
106
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
nos mitos, sol e lua se dão reciprocamente: o sol diz à lua Id-kram-
gêd-re (re-= dimlnuitlvo) e 6 tratado por Id-kramgcd-tl (ti au-
mentativo) por ela.
Não pude averiguar detalhadamente nenhum caso de visão lu-
nar. Só me disseram que se a lua aparece em forma humana, isto
apenas acontece de noite para ter intercurso sexual com mulheres
menstruadas.
Que se pede à lua a prosperidade das plantas já foi referido por
Carlos Estevão de Oliveira (77) . Trata-se da cerimônia do Txwul-
kró, mencionada à pg. 71, que começa na lua nova e acaba na lua
cheia, quando as plantas alcançam mais ou menos meio metro de
altura. Os dançadores formam um grande circulo ao redor do canta-
dor, avançam para o centro e ao grito de "Wã!” alargam outra vez
a roda.
Outra festa que tem relação coin a lua é o Lel-êre, que sempre
se celebra na lua nova. Na primeira manhã, ao levantar do sol, can-
tou-se na casa do dirigente de festa da metade Kolti, as cantigas
de Lel-êre. São seis que Mbuduvri-re (lua» ensinou aos homens, mas
só o texto da segunda e da última, cheguei a compreender, pelo
menos o necessário para saber de que se trata:
2) Aradkandyê- txôdurué (ad-kandyê cinglr-te com as per-
nas, txódo penis).
6) Txapé rurú, txape rurú. txatxá, Mbuduvri-re txtxá (yape
embocadura, rurú escorregar para dentro). Isto se refero ao escor-
regar do tatú pela boca da sua cova a dentro. Assim a lua desapare-
ce c reaparece. Um exemplo tiplco para demonstrar a dificuldade
de colher tanto a construção linguística como a verdadeira signifi-
cação de um texto de cantiga Aplnayé.
No segundo dia, os dançadores puzeram os seus enfeites de pena.s
e pintaram uma linha preta no peito. Assim dançaram, primeiro na
casa mencionada, depois, na praça, Flnalmente correram para as ca-
sas de onde trouxeram comida que distribuiram e comeram na praça.
Por fim, foram de casa cm casa, ao redor da aldeia, cantando
em cada terreiro uma cantiga chamada Pemnyrã: "Manaya kupe
pen-pen 1-klu-lclé kamã pen-pen tanlrã" (pen-pen pen ^ guer-
reiro, l-klu-le!è a emplumação de sua flecha, Foi quanto entendi).
Era a canção de despedida de Mbuduvri-re, quando depois da fun-
dação da primeira aldeia, deixou a terra em companhia de Mbud-tl.
Em caso de eclipse lunar um velho apresenta na praça uma me-
nina á lua, suspendendo-a nos braços e gritando: "Olha a tua mu-
lher! Não morra!" Cantam-se certas cantigas, até que o eclipse passa,
atirando-.se contra a lua obscurecida, flechas com a ponta da haste
ama.ssada c incendiada.
"7 — OJltelm, ftidlot
Nimuendajú — Os Apinayí: 107
SegAindo C. Estevão (78) , deu-se o dilúvio depois de um prévio
aviso do deus solar; dá como verdadeiro causador do cataclismo, po-
rém, a cobra grande Kanen-ro’tí (n.° 14 dos “Mitos e Lendas”).
Os bólides incandescentes são tidos por demônios maus, como o
demonstra a lenda n.° 15. A trovoada aparece em forma humana na
lenda da visita ao céu, pintada de prêto (como as nuvens da tro-
voada) e com um cacete que lança raios. As constelações não têm
significação religiosa. O mito da aquisição do milho por intermédio
de uma estréia, que se encontra tanto entre os Aplnayé como entre
os Ramkôhamekra-Canelas foi- provavelmente emprestado aos Xe-
rénte, e cujos conceitos religiosos êle corresponde muito melhor. Na
Via Láctea vêm os Apinayé uma ema gigantesca (mã-ti), mas não a
temem, como os Ramkókamekra-Canelas. Outra constelação que
nunca consegui reconhecer bem, representa um tamunduá-bandeira
em luta com uma onça; outra, uma arraia (bleneyéd). As Pleiades
tem o nome de Ngrôdo. Venus e Júpiter são designados com o mesmo
nome: Tamgaéga; Marte não tem nome.
Crenças em almas
Como os Timbira Orientais, designam os Aplnayé com o mesmo
nome, alma, espectro, sombra e retrato: mcgalõ. com o qual êsses
últimos designam o brinquedo de Cão, o que lembra os Xerénte.
Todos os viventes, sejam èles homens, animais ou plantas, têm
uma alma que deixa o corpo logo depois da morte. Disseram-me que
as pedras não tinham alma, contudo, aparecem gritando no mito
da aquisição do fogo ("Mitos e Lendas”, 1). As almas das plantas
c dos animais têm pouca duração, depois da morte dos seus portado-
res, dlssolvcndo-sc depois de algum tempo cm nada. O me-galô não
é absolutamente imaterial, mas apenas invisível em condições co-
muns. O fato déle se tornar visível, depende, às mais das vèzcs, mas
não sempre, do sua vontade, o se dá geralmcnte na escuridão da noi-
te. O espectro toma, então, a aparência do finado quando estava
vivo.
A habitação das almas dos defuntos não é no céu e nem no mun-
do subterrâneo. No céu habitam, segundo a lenda n." 16, urubús, ga-
viões c o trovão. Sôbre o mundo .subterrâneo só mo disseram que ha-
via nôlc também gente c animais, o que negam os Xerénte (“Mitos
c Lendas", 7). As almas dos defuntos rc.sldem na própria super-
fície da terra, nos lugares onde os seus portadores viveram c onde
foram sepultados. Não há recompensa nem castigo polos seus feitos
cm vida. As diferenças entre os diversos espectros são condicionadas
polo .seu hábito dc vida c a cau.sa de sua morte. A.s.sim, as almas dos
que morreram assassinados vagam solltàrlamente porque temem as
78 — Id.. 70.
108 Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 195Q
outras e oferecem um aspecto terrível porque ostentam os mesmos
ferimentos que o corpo recebera.
As almas dos feiticeiros executados causam pesadelos. Certa noi-
te tive de acordar Iretí, porque ela gemia dolorosamente. Contou-me
então, que a sombra da feiticeira Yandorády, morta na sua presen-
ça (V. pg. 100/101) tinha se chegado a ela, perguntando porque esta-
va dormindo sòzlnha, comprimindo-lhe em seguida o torax. Matúk,
que com Isso acordara também, teve logo que adormeceu, o mesmo
sonho, e, depois, durante horas, podia-se ainda sentir a presença dês-
se me-galõ, pelos gritos assustados dos cachorros, porcos e aráras
domesticadas na aldeia.
Para com os seus parentes vivos os me-galõ são, em geral, be-
nignos c atenciosos, se não forem provocados por graves negligências
no ritual do enterro ou por subtração da parte dos espólios que lhes
coube.
As almas dos defuntos não são Imortais; depois de terem vivido
durante bastante tempo, a sua existência de sombras, morrem de
uma dôr no lado esquerdo, transformando-se cm animais, tôcos de
pau ou montículos de cupim.
As almas dos mortos habitam prlnclpalmente os cemitérios e as
taperas das antigas aldeias. Comem da mesma maneira que os vi-
vos, não tendo falta de frutos na roça mesmo durante o verão; mas
suas comidas têm go.sto diferente das nossas. Ao consumir essas co-
midas, as almas novas, se ligam deflnltlvamcnte à essa existência,
e não desejam mais voltar para o melo dos vivos.
Os Aplnayé se inclinam a atribuir às almas dos mortos um co-
nhecimento mais vasto, em matéria de medicina c magia, do que
os vivos podem alcançar.
Sôbre os fogos fátuos (atxén), como fogos de acampamento das
almas dos defuntos, ver n.° 17 de “Mitos c Lendas".
Mania c vajés
Para o Aplnayé comum, o contacto com as almas dos defuntos
é sempre um negócio pouco simpático, do qual se esquiva o mais que
pode.
Existem pessoas incapazes de conseguir qualquer contacto com
as almas dos mortos, mesmo quando Isso é necessário. Por outro lado,
alguns homens — as mulheres estão sempre excluídas desses con-
tactos — são Introduzidos no mundo sobrenatural pelos seus paren-
tes já falecidos, c .são capazes de conviver com as almas sem mêdo
ou constrangimento. Isso os habilita no papel de Intermediários en-
tre as almas c a maioria de seus companheiros temerosos desses con-
tactos, alçando-os a uma posição de superioridade pelos conheci-
mentos de magia c do ramo mnls Importante desta, n medicina, que
adquirem nessas relações. Êsses homens são os vayangá (pajés, cura-
dores). Em Dacaba cxl.stcm três dêles, porém, um somente, de nome
Nimuendajú — Os Apinayé
109
de Ka’táin é de real importância. Essa importância dos vayangá é
iimitada exciusivamente aos assuntos de animismo e magia. Na re-
iigião solar íalta-lhcs tôda competência ex-ofício, tão pouco Ma-
túk, com suas visões solares, é um vayangá.
Ka’tám conta hoje mais ou menos 37 anos. Até 1927 nada indi-
cava ser êle um vayangá. Teve um irmão mais velho que era esti-
mado como tal e que morreu cm 1927. Algum tempo depois, êle apa-
receu a Ka’tám, em sonhos, prometendo ensiná-lo como se conhece
e se cura as doenças, para quq cuidasse do bem estar da aldeia. Isto
me contou o próprio Ka’tám. Êsse sonho se repetiu por duas vêzes,
mas Ka’tám não deixou transparecer nada a ninguém.
Em 1927 êle empreendeu com Matúk e alguns outros índios a via-
gem a São Paulo. No caminho, de volta, tendo já passado a capital
de Goiás, Matúk adoeceu de repente e tão gravemente que os com-
panheiros perderam a esperança de salvá-lo. Ka’tám pensou: “Tenho
de fazer uma tentativa para salvá-lo”. Êle não pode morrer, senão
não teremos mais ninguém que fale por nós e que cuide de nós! Nin-
guém sabe, por ora, que eu sou assim, mas agora vou tentá-lo!” Ma-
túk sarou. Quando voltaram para a aldeia a fama do sucesso de
Ka'tám espalhou-se imediatamente c êle foi chamado por tôda parte
para curar os doentes. Dai em diante a sombra de seu finado ir-
mão ainda lhe apareceu por diversas vêzes, quando la sozinho, à noi-
te esperar caça; ela o esperava à beira do caminho.
Quando, porém, as almas dos defuntos não aparecem a tempo
no vayangá, este, ou melhor, a sua sombra, vai ter com elas para
consultá-los em casos graves. Os curadores capazes de procederem
assim — Ka'tám, por exemplo, não o é — tem o título de Akólo-
txwúdn. Nem nesta, nem em outra ocasião qualquer no exercício da
sua profissão, o vayangá usa o maracá, que, entre os Apinayé, como
entre os Timbira Orientais e os Xcrénte, não é o instrumento do
pajé, mas o do cantador, sendo um instrumento do música inteira-
mente profano, sem nenhuma significação mágica.
Para o fim indicado o Akólo-txwúdn senta-se ao escurecer no
terreiro da casa com a cara voltada para o oriente. Um ajudante
acende para êle um após outro, três grandes cachimbos de folha de
patí; outros usam cm lugar dêstes, grandes charutos enrolados cm
cnvlra de tauarl. Depois de ter fumado com veemência, durante al-
gum tempo, começa a gemer e a tremer, dclxando-se finalmcnte, cair
nos braços do seu ajudante que o estende no chão, com a cabeça
para o poente, andando depois como uma sentinela cm seu redor.
Nêste melo tempo a sombra de Akólo-txwúdn já deixou o cor-
po, Indo ter com as almas dos defuntos para obter as Instruções sôbre
a doença cm foco. Feito isto o pajé é rcvocado á vida, soprando o
seu ajudante fumaça de tabaco nas palmas das mãos c pondo estas
sôbre o corix) do curador. Èste, no acordar, deixa sair fumaça de ta-
baco da bõca.
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 195G
110
Depois do que eu disso à pg. 70, sôbre a não originalidade do
tabaco entre os Timbira-Kayapó, e de se crer que essas praxes dos
Akólo-txwúdn, que aliás, não se encontram nem eutre os Timbíra
Orientais, nem entre os Xerénte, chegaram aos Apinayé por influên-
cia de alguma tribo estranha, junto, talvez, com o próprio tabaco.
Tenho a imprcs.são de que se trata de influência Tupi.
Todos os casos de doença, exceto aquelas que se deduzem de cau-
sas manifestamente exteimas, como ferimentos, são explicados pelos
Apinaycs da seguinte maneira: primeiro, pela perda da sombra (al-
mas, ka-txwúdn. As sombras fracas e bisonhas das criancinhas .so-
bretudo, achain-se expostas ao perigo de serem roubadas por outras
sombras ou de se perderem do corpo. Então, a criança definha len-
tamente e, finalmente, morre.
Quando a filha de Meôká, com seis meses de idade, adoeceu de
diarréia, Ka’tám, segundo me contou, proceedu à seguinte cura:
“Eu ia com Iré (mulher de Ka’tám) ao ribeirão para banhar-me.
Quando atravessamos a roça ouví o chôro de uma criancinha. “Estas
ouvindo?” perguntei a Iré. “Não", dis.se ela, “não estou ouvindo na-
da!’ Mas eu mesmo ouvia dlstlntamente. Pensei então: “Quem seria?”
Fiz minha mulher esperar no caminho e segui no rumo do chôro.
Então ví a sombra da filhinha de Meôká, sentada no meio das som-
bras das melancias brancas, que já se tinham tirado e cosido e das
quais só restavam os talos. Justamente por êsse tempo, dançavam na
roça as sombras de tôdas as qualidades de frutos. Os pais tinham
levado a pequena à roça, fazendo-a provar da carne das melancias
e as sombras destas tinham retido a sombra da criança.
Fui ter com a mãe dela e disse-lhe que não chorasse, pois a fllhl-
nha havia de ficar bôa. Aconselhel-a que esperasse mais uns dias.
pois a sombra voltaria por ela me.sma. A avó, porém, era de opinião
que 0 corpo já estava por demais enfraquecido e incapaz de resistir.
Então, fui e trouxe a sombra.
Eu estava presente quando êle fez isso: Ka’tám fez-sc pintar
pela tarde e desceu sòzlnho para a roça. A mãe com a filhinha doen-
te no colo sentou-se na porta da casa, rodeada por um número de
outras mulheres. Depois de algum tempo Ka'tám voltou de vagar da
roça. Carregava a sombra da criança, Invlslível para nós, como se car-
regasse 0 seu corpo. Ao avistá-lo, as mulheres romperam num chôro.
Repre.sentava-se-lhcs como se a sombra da pequena, Inteiramente só,
rodeada apenas pelas sombras das melancias, tinha passado dias e
dias na roça, sem fogo nem abrigo. Ka’tám pôs a sombra na cabeça
da criança e pas.sando as mãos pelo seu corpo, fè-la reentrar.
Anteriormente, Ka'tám tinha curado o .seu próprio filho, cuja
sombra havia sido também capturada pelas .sombras dos frutos da ro-
ça, da mesma maneira, c poucos dias depois, êle descobriu a .sombra de
outra criança doente, no banheiro da aldeia c trouxe. A mãe tinha le-
vado a criança para o banho c nisto perdera-se a sua sombra na
água Ka’tám ouviu o canto triste da sombra perdida, aprendeu-o c
Nimuendajú — Os Apinayé 111
cantou-o de noite diante das mulheres, que primeiro choraram e
depois o acompanharam.
Os Apinayé possuem grande número de cantigas semelhantes, de
pranto das sombras perdidas. Iretí nisso era Inesgotável: conhecia
a lamentação de um cachorro que morreu na mata, mordido por uma
cobra, e cujo corpo, a dona, em vez de sepultar, deixou rasgas pelos
urubus; e o pranto do filho da veada que morreu porque sua mãe o
abandonou para ir a uma festa dos animais e mais uns outros vinte.
Iretí fornece um exemplo, de como adultos também podem per-
der a sua sombra: durante uma doença grave a sombra dela aban-
donou o corpo e foi para uma" tapera de aldeia onde habitavam as
almas dos defuntos. Estas deram-lhe das suas comidas; ela as achou
tão boas que resolveu não mais voltar para o corpo. Mas um vayan-
gá de Gato Préto trouxe de novo a sombra de Iretí: dirigiu-se sob a
forma de uma muçurana, para o meio das almas dos defuntos, que
fugiram apavoradas, indo junto a sombra de Iretí. Mas o vayangá
alcançou-a, retomou .sua forma humana e conduziu-a para o corpo:
Então, ralhou com ela: “Tu não fugirás mais para junto dos me-
galõ! A comida dêles não presta! Deves ficar aqui!” “Primeiro eu
quase não podia me acostumar aqui”, contou-me Iretí, “a comida não
tinha gosto para mim e eu não quiz tocar em nada”.
A segunda forma pela qual uma pessoa pode adoecer é, a bem
dizer, o complemento da teoria acima exposta: comendo alimentos
vegetais ou animais pode acontecer que as suas sombras cheguem
H nenetrar no corno do comedor, onde provocam sintomas que lem-
bram as qualidades do causador da doença.
Assim, a sombra de um animal veloz, de um veado por exemplo,
faz acelerar o pulso; a de um animal vagaroso, como o jabotí, causa
retardamento. A sombra de um felino provoca convulsões, com con-
trações dos dedos cm forma de garras, etc.. A ação terapêutica deve
ser dupla: depois do vayangá ter determinado por um exame minu-
cioso qual a espécie de animal ou vegetal causador da doença, estende
o doente na escuridão da noite, junta a causa da doença por massa-
gens e fricções num só ponto do corpo, de onde a tira por meio de suc-
ção. Como complemento do tratamento torna-se ainda necessário a
aplicação de um específico vegetal em forma de infusão da raiz ras-
pada, da casca socada ou da fruta carbonizada e pulverizada, mis-
turada com água. Èsse específico é aplicado tanto internamente como
beberagem, quanto extoríormente, esfregando-se o corpo com a borra.
A cada planta ou animal comestível corre.sponde uma planta sil-
vestre que serve de específico (gandê) contra as doenças causadas
pelas sombras daqueles. Todas essas numerosas planta.s mediclnal<
nprc.scntam alguma semelhança exterior com os alimentos corres-
pondentes. Assim é Kalá-gandê, o remédio do veado, uma planta
cujas frutas sillquosas, crescendo em pares, aprc.scntam, de fato.
certa similitude com os chifres de Cervus sUnplicicornits. Alôl-gandé.
0 remédio do arroz é uma graminea que sc parece um tanto com
BoL. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
112
0 arroz, etc.. Entro os objetos contidos no ccstinho de remédios e
lembranças, descrito à pg, 81/82, encontram-se numerosos gandè
déstes.
A terceira causa de doença c o feitiço executado por algum ini-
migo, algum feiticeiro (utxlmdyíre) . Não é preciso que seja um pajé
de profissão. Qualquer pessoa mais ou menos adulta tem capacidade
para tal, contanto que tenha a má vontade de prejudicar o outro.
O feitiço pode dlrlglr-so tanto contra um Indivíduo Isolado como
contra uma aldeia Inteira. No primeiro caso mete-se a substância
mágica no rasto da pessôa. Um osso de jacú, por exemplo, aplicado
por essa forma, causa a morte depois de longo sofrimento. Uma cer-
ta raiz (?) colocada na porta de uma pessôa produz o efeito ma-
léfico logo que esta passa por cima dela; a pessôa fica triste e morre.
Outras matérias mágicas produzem efeito à distância: são coloca-
das na palma da mão e sopradas na direção em que se encontra o
adversário.
Excrementos humanos, unhas e cabelos cortados ou coisas se-
melhantes, são, na opinião dos Aplnayé completamentc destituídas
do valor para ações mágicas. Quando juntam os cabelos cortados,
deltando-os no ribeirão, não o fazem de mêdo do feitiço, mas para
favorecer o crescimento do cabelo.
O tratamento de uma pessôa enfeitiçada só pode ser feito por
um vayangá, que, à noite, extrai a substância mágica causadora da
doença, por meio do sucção, cusplndo-a na palma da mão para mos-
trá-la à luz de qualquer palha acesa aos espectadores. E’ um osso,
um dente, uma lagarta, um coleoptero ou coisa semelhante. Essa cura
não pode ser executada perto claquèle que fez o feitiço. Quando se
desconfia que o feiticeiro é um dos habitantes da aldeia, necessário
se torna levar o doente para outra.
Para enfeitiçar uma aldeia Inteira enterram-se, por exemplo, pe-
daços de casco de tatú canastra cm ambos os lados do caminho da
fonte. Porém, amarrados de folhas de pau Icltc (saplum spj, coloca-
dos no caminho, neutralizam esse feitiço.
Numa quarta classe reunem os Aplnayé as doenças epidêmicas
da civilização, como varíola, sarampo, gripe, dl.sentéria, catarro, etc..
Ka’tám salvou a aldeia Bacaba da gripe colocando contra o vento dois
talos de bacaba. Contra o catarro êlc Imunizou todos os habitantes
da aldeia, mandando acender uma fogueira de uma madeira chamada
apènl, fazendo passar tôdas as pcssôas, de dois cm dois, duas vezes, ao
redor dela. Esta medida fol-lhc aconselhada pela sombra do seu fi-
nado Irmào.
Quem quizcr ficar Invulnerável, dlrlja-so a um vayangá que leva
o candidato à mata, submetendo-o á cura seguinte: coloca um pedaço
de resina do jutal (//j/mrmea sp.) na ponta de uma varinha, acende-o
c deixa pingar umas dez gotas numa cuia com água mágica. Depois
de mexer êsso liquido dá-o no paciento para beber, passando-lhe o
resto, primeiro pola face anterior do corpo, de cima para baixo e cm
Nimuendajú — Os Apinayé
113
sentido contrário, procedendo, depois, do lado oposto, pela mesma
maneira.
As cobras venenosas, os inimigos mais terríveis dos índios, são ti-
das como amigas especiais dos vayangá. Supõe-se que cada vayangá,
no começo da sua carreira, deve ser mordido, uma vez, por uma cobra
venenosa para provar em si mesmo, a eficiência dos contravenenos
que êle então já conhece. Depois disso as cobras se tornam suas ami-
gas e 0 esperam no caminho para conversar com êle. Nunca vi Ka’tám
nêsse papel de curador de cobras nem ouvi dizer que êle o tivesse
exercido. Matúk, porém, contou-me a respeito de um vayangá falecido
há poucos anoá, a história seguinte:
Uma cascavel, meteu-se antes que alguém a pudesse impedir, na
habitação do vayangá que estava ausente, indo parar diretamente de-
baixo do seu jirau. Logo mordeu uma galinha que lá e.stava e que,
correndo para o terreiro, caiu morta. Os habitantes da aldeia acor-
reram e qulzeram matar a cobra; nisto um dêlcs propôs que se aguar-
dasse a volta do vayangá. Quando êste, depois de algum tempo, apa-
receu c soube do que se tratava, tranquilizou a todos: a cobra só vie-
ra conversar com êle. Sentando-se no jirau, mandou que os outros sais-
sem. Ninguém sabe o que fez com a cobra, com a qual ficou a sós, du-
rante bastante tempo. Enquanto isso, as mulheres se pintavam para
a dança com suco de genlpapo. De repente o vayangá apareceu na
porta da casa. Trazia a cascavel no braço, a cabeça dela repousava
no seu ombro. Êle levou-a às mulheres, dizendo que a cobra queria
ser pintada também.
A princípio tôdas tiveram mêdo, mas vendo que estava Inteiramen-
te quieta criaram coragem e pintaram o animal no braço do vayangá
com tinta de genlpapo. Ê.ste, depois, carregou a cobra para a beira da
mata e mandou-a embora.
Ações mágicas podem ser feitas por qualquer pessoa; porém, se
espora de um vayangá, que seja nelas mais capaz que os outros.
Para provocar chuva socam-so folhas de sambaíba num pilão, na
beira do córrego, jogando êste, por fim, com o seu conteúdo ,nágua.
Com o mesmo objetivo, se finca um galho de sambaíba na lama da bei-
rada, ou se quebra os botões do folha da sororoca na água, jogando os
fragmentos junto com a água, para o ar.
Isto causa chuva demorada e sem interrupção. Para fazê-la depois
parar é preciso amarrar os mesmos botões de folha em forma do cruz
no tronco de uma árvore, virados para o poente.
Para desviar uma chuva que ameaça cair ,nglta-se devagar um
galho cortado do um arbusto chamado kukllt-patxô-rc. contra as nu-
vens que se vem aproximando, ou se esfrega primeiro a mão direita
no sovaco e.squcrdo c depois vice-versa, agitando ambas as mãos con-
Ira o temporal.
Contra o perigo de ralos quelma-se um pedaço de cedro, cuja fu-
maça oferece proteção. Durante a trovoada não se deve comer nem
dl.scutlr para não correr o perigo de ser morto pelo rúlo.
114
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
Nunca vi aplicar nenhuma magia de amor nem ouvi falar nisto. Só
quando pedi explicações a respeito, dlsseram-me que um ou outro
vayangá sabia de substâncias mágicas que asseguram a afeição de
pessoas do outro sexo, as quais êle preparava, a pedido, guardando,
porém, segredo sôbre sua composição. Em todo o caso, a magia de
amor não tem nenhuma importância entre os Apinayé.
O próprio vayangá educa o seu sucessor. Para isso êle escolhe,
por melo de um rigoroso exame das palmas das mãos e dos olhos,
um moço, a cujos pais pede licença para ensinar. Êle o instrui no
uso do tabaco e do jejum e na continência sexual, esfregando-lhe
as mãos e o peito com substâncias mágicas. Por fim, o mestre en-
trega ao discipulo as suas próprias forças, tirando-as dos seus braços
e peito e colocando-as sobre o outro. Supõe-se que depois de dois
mêses o discípulo já esteja bastante instruído para tomar o lugar
do mestre em caso de morte dêste. Eu próprio nunca cheguei a ver
um dêsses discípulos.
Dizem que o vayangá tem a capacidade de se transformar em
animais, a princípio só em mamíferos, mais tarde em aves também.
O vayangá que foi buscar a sombra de Iretí de junto das almas dos
defuntos, transformou-se para êsse fim numa cobra (v. p. 111). Às
vezes 0 vayangá visita, sob a forma de passarinho, as outras aldeias
para saber o que se passa por lá; às vezes acontece que algum vayan-
gá de lá o reconhece, apesar do disfarce.
Morte e enterro
Imediatamente depois da morte e, às vezes, até um pouco an-
tes, começa a lamentação fúnebre. A êsse sinal, reunem-sc todos os
parentes na casa onde se encontra o morto. Supõe-se que as almas
dos defuntos se juntam em grande número ao redor dos moribun-
dos, oferecendo-lhes suas comidas para que morra mais depressa c
levando depois o novo companheiro para a sua morada. Chama-se
um cantador, enquanto se estende o cadáver sôbre uma esteira no
chão, com a cabeça para o nascente. O cantador entra cantando na
casa, scnta-sc junto do cadáver c declara: "Vou agora cantar para
êle até amanhã!" Chora e depois canta com acompanhamento de
maracá, até que, esteja pronta a sepultura, pela manhã. Os que en-
tre si estiverem cm relação de Kram-Kramgêd, têm, reciprocamcntc,
a obrigação de enfeitar o cadáver c de cavar a sepultura.
O cadáver é lavado no terreiro, carregado para dentro da casa
onde é deitado na esteira e enfeitado com tinta de urucú e látex com
pó de carvão. Os defuntos masculinos são, às vezes, também enfei-
tados com lã de patl. Cortam-lhes os cabelos e põcm-sc-lhes os en-
feites. As lamentações ainda continuam durante algum tempo diante
do cadáver enfeitado. Depois é carregado numa esteira para o ter-
reiro, a (lual é dobrada por cima do defunto e amarrada por melo de
duas alças de corda, num pau. Duas pessoas tomam as pontas do
pau ao ombro o seguem para o cemitério.
115
Nimuendajú — Os Apinayé
Nêsse momento chega ao auge a desesperada manifestação de
luto por parte dos parentes do morto: agarram uma acha de lenha,
uma pedra ou coisa semelhante que esteja à mão, batendo com ela
na cabeça e nas costas com tôda a força. Numa dessas ocasiões,
vi em Bacaba duas mulheres se atirarem, de certa altura, ao solo,
com um salto mortal, tendo seus corpos estalado no barro duro do
terreiro, a tal ponto que julguei tivessem quebrado pelo menos alguns
ossos, o que não se deu. Os homens que nas suas manifestações de
pesar não vão tão longe, estão sempre preparados a intefrerir; mas
às vezes a cena se passa com tamanha rapidez, que não podem
evitá-la. Assim, há algiyis anos, em Gato Prêto, u’’a mãe, ao car-
regar 0 cadáver de seu filho, precipitou-se de cabeça para baixo do
jirau, quebrando a nuca e morreu. A essa forma de salto mortal das
mulheres enlutadas, chamam os Apinayé, amny-i-mõ’tí.
Os pais e outros parentes mais chegados nunca acompanham o
cadá\'er à sepultura; continuam a chorar no lugar onde o enfeita-
ram e quando os outros voltam do enterro, vão todos ao ribeirão pa-
ra se banharem.
O cemitério de Bacaba fica situado no campo, a pouco mais de
um quilômetro a oeste da aldeia. E’ um lugar assás limpo. As sepul-
turas não parecem obedecer qualquer ordem. Criancinhas são se-
pultadas no campo, atrás da casa materna.
A sepultura tem qua.se dois metros de profundidade. No fundo
deitam três trave.ssas e sôbre esta uma esteira. Quatro homens des-
cem o cadáver no seu envolucro de esteira, pelas alças de corda. A
cabeça fica para o lado do nascente. Junto ao morto, colocam-se os
enfeites que não leva no corpo; ao lado, de comprido, o arco c as
flechas, ou, em sc tratando de mulher, o cestlnho de miudezas e o
fuso. Por cima da cadáver estende-se outra esteira e folhas de pal-
meira. Feito Isto fecha-se a cova por meio de travessas cobertas de
esteiras e folhas e só depois se amontoa a terra exeavada, de ma-
neira que 0 cadáver não fique em contacto com ela.
Os índios que receberam o batismo cristão não são enterrados
no cemitério comum, mas em separado. Deixam de envolver o cadá-
ver com esteiras, confeccionando uma espécie do caixão de talos de
buriti para sepultá-lo. Porém, a sombra de tais indlos "cristãos",
compartilha intclramcnte da sorte das suas companheiras pagãs, pois
até hoje os Apinayé não tem noção de céu, inferno ou purgatório.
Caso o defunto, de.sde alguns dias antes da sua morte, não tenha
ingerido alimentos, morrendo, portanto — pela lógica dos Apinayé
— "com fome", neco.ssário se torna arranjar comida para êle, do
contrário a sua .sombra voltaria à casa onde morreu em busca de
alimentos. Em 1930 morreu cm Bacaba um moço batizado de nome
Mbló. Sofréra dc dcslnterla c recusara alimentos durante os últimos
trôs dias. Por isso se colocou uma cuia com bananas c farinha dc
mandioca ao lado do cadáver, mas ape.sar disto a sua sombra voltou
para a aldeia onde apareceu a um velho dc nome Orab-re. Êste, en-
116
Bol. Mus. Goéldi — Tomo XII — 1956
tão, mandou que dois parentes do finado fossem caçar ,o que fize-
ram, matando uma paca, que foi preparada. À noite coiocou-se uma
cuia com esta comida nas moitas do campo, a uns dez passos atrás
da casa materna de Mbió. Grab-re, propriamente, ficou de lado, en-
quanto todos os outros se reuniram na praça. Depois de algum tem-
po êle notou que a sombra de Mbió tinha vindo e estava comendo.
Feito isto eia declarou a Grab-re que estava satisfeita e que não
voltaria mais. O velho levou a cuia para a praça, onde distribuiu a
comida entre os presentes. Se a sombra de Mbió tivesse permanecido
por mais tempo na aldeia, poderia ter causado doenças.
O iuto da muiher Apinayé pelo marido morto é o mesmo que pelo
marido ausente (v. pg. 68) ; dura de um a três mêses. Semeihante
é o iuto para pais e filhos, tios e sobrinhos, avós e netos, recipro-
camente, não havendo, porém, reclusão rigorosa. O enlutado sempre
deixa crescer os cabelos, não se pinta e não participa das reuniões
na praça. As informações de Snethiage e Kissenberth (79), de que
o viuvo corta o cabelo em sinal de luto, são tão Inexatas com rela-
ção aos Apinayé quanto em relação às tribos Canelas.
Até, aproximadamente, o ano de 1925, os Apinayé praticavam o
enterramento .secundário. Ireti contou-me que na idade de 10 anos
ela assistiu pcssoalmente. A cerimônia era levada a efeito pelas pes-
soas que estavam em relação de Kram-Kramgêd com o defunto, isto
é, os mesmos que faziam o enterro primário; realiza va-se mais ou
ou menos um ano depois. No caso descrito por Ireti, a Kramgêdy,
ajudada por algumas mulheres recolhem os restos de dentro, da se-
pultura, juntando-os numa esteira ao lado. Carregaram essa esteira
contendo os despojos para a casa materna do defunto, onde lavaram
os ossos com água trazida pelo Kramgêd-ti. Depois de enxugar os
ossos ao sol, foram éles colocados dentro da casa e pintados com
urucú, havendo em seguida uma lamentação fúnebre. Finalmente
meteu-se tudo numa bolsa de buriti, que uma pe.ssôa qualquer levou
ao cemitério, onde a enterrou num buraco de apenas um metro de
profundidade.
Os guerreiros que morriam em "terras inimigas e cujos cadáveres
não podiam ser transportados para a aldeia, eram enterrados no
mesmo lugar, tratando-se, porém, sempre que po.ssível de recolher os
o.ssos mais tarde para o enterro secundário.
Os animais selvagens domesticados c, entre qs domésticos, os ca-
chorros, são sepultados como as crianças pequenas, isto é, no cam-
po, atrás da casa. A sua sepultura é cm tudo igual às sepulturas hu-
manas, apcna.s, proporcionalmente menor e menos profunda.
7B — SnethlKge, (b), 174; Kitteiibcrtii, (n). 55 ,
Nimuendajú — Os Apinayé
117
APÊNDICE I
MITOS E LENDAS.
1. O Fogo (80)
Um índio achou um ninho de arára com dois filhotes, no buraco
de um paredão de pedra alto e à prumo. Levou seu pequeno cunha-
do, cortou uma árvore que encostou ao paredão e mandou que o
menino subisse por ela para pegar os filhotes. Êste subiu, mas assim
que estendeu a mão para pegar os filhotes, êles gritaram e as arà-
ras adultas se arremessaram contra êle com gritos furiosos, fazendo
médo ao menino, que não se atreveu a fazer o que o cunhado lhe
mandara. Êste se zangou c atirou com o pau para um lado, Indo-se
embora.
O menino, que sem o auxilio do pau não podia descer, ficou sen-
tado junto ao ninho das aráras durante cinco dias. Já estava quase
morto de fome e sede. De vez cm quando, cantava com voz fraca;
“He plednyõ, padkô!" (oh cunhado, beber!). Ficou todo coberto de
excrementos das aráras e das andorinhas que lhe voavam por cima.
Uma onça passou ao. pé do paredão. Vendo a sombra do menino
se movendo no chão, saltou sôbre ela para agarrá-la, mas nada
conseguiu. Esperou que o menino se mexesse outra vez e tentou pe-
gá-la de novo; debalde, porém. Entretanto, quando o menino cuspiu
para baixo, ela levantou a cabeça e desta vez o avistou: "Que estás
fazendo ai em cima?” perguntou ela. O menino contou como o cu-
nhado 0 abandonara. "O que tem* no buraco?” perguntou a onça.
"Filhotes de arára”, respondeu o menino. "Então joguc-os para
mim!”’ mandou a onça. O menino jogou-lhe um dos filhotes que ela
devorou imcdlutamcntc. "Só tem um?", perguntou ela então. "Não
— foi a resposta — ainda tem outro!” — "Então jogue-o para baixo
também”, ordenou a onça outra vez. Ela comeu o outro filhote.
Depois foi buscar o pau, encostou-o de novo ao paredão e mandou
que o menino de.sccssc. Êste começou a descer, mas quando já estava
lx;rto do chão, tomou-sc de medo c subiu outra vez a tòda pressa.
"Não, tranquilizou-o a onça, dc.sçn, ou lhe darei água para beber!"
Por trés vèzes o menino desceu até perto do chão c sempre o médo
tia onça o fazia subir de novo. Flnalmcnte desceu.
A onça carregou-o nas co.stas para a beira de um riacho. O me-
nino bebeu até ficar estendido no chão, dormindo. Depois do certo
118
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1056
tempo a onça beliscou-o no braço para acordá-lo. Lavou-o bem e
disse-lhe que queria levá-lo para sua casa e adotá-lo, pois não tinha
filhos.
Na casa da onça jazia no chão um comprido tronco de jatobá,
aceso numa das pontas. Enquanto os índios comiam, naquele tempo,
carne sêca ao sol, a onça tinha grande quantidade de carne assada.
“Que fumaça é esta?” perguntou o menino. “E’ fogo”, respondeu a
onça. “O que é fogo?’” perguntou o menino. “Isto tú saberás à noite
quando êle te aquentar”, explicou a onça. Ela deu carne assada ao
menino e êste comeu até que adormeceu. Dormiu até mela noite,
quando acordou para comer outra vez, dormindo, novamente.
De madrugada a onça foi caçar. O menino seguiu-a um pedaço
e trepando numa árvore ao lado do caminho esperou que ela voltasse.
Cèrca de meio dia, porém, sentiu fome, voltou a casa da onça e pediu
à mulher dela que lhe desse comida. “O que?” gritou esta, virando-
se para o menino. — “Olhe aqui!” e arreganhava os dentes. O meni-
no deu um grito de mêdo e correu outra vez para a árvore, onde
esperou pela onça macho, contando-lhe o que tinha acontecido.
O macho levou o menino consigo para casa e ralhou com a fêmea:
“Eu não lhe disse que não assustasse o meu filho?'” A fêmea, então,
se desculpou dizendo que tinha sido brincadeira.
No outro dia de manhã o macho fez um arco e flechas para o
menino. Levou-o consigo e mandou-o atirar num ninho de cupim. O
menino atirou e a flecha varou o ninho de lado a lado. Então o ma-
cho mandou que êle flechasse a fêmea se esta o ameaçasse de novo,
mas que tivesse cuidado de acertar bem. Depois foi caçar.
Ao melo dia o menino sentiu fome outra vez e foi para casa pedir
um pedaço de carne à fêmea. Esta, porém, em resposta mostrou-lhe
os dentes e as unhas. O menino pôs a flecha na corda e fez pontaria
sôbre ela, que gritou: “Espere! Vou lhe dar de comer!” Êle, porém,
flechou-o de um lado, tendo a flecha lhe atravessado o corpo. En-
quanto se debatia no chão, rugindo, o menino fugiu. Ainda ouviu-a es-
bravejar no chão, durante algum tempo, depois tudo se aquietou.
Foi ao encontro do macho, contando-lhe que matara a fémea.
“Não quer dizer nada!” respondeu aquele. Em casa êle deu ao meni-
no grande quantidade de carne assada, dando-lhe Instruções para
voltar aos seus parentes, seguindo sempre o curso do riacho. Que ti-
vesse cuidado, porém, se ouvisse o grito das pedras ou da aroeira que
responde.sse, mas que se calasse quando ouvisse o grito fraco do pau
pôdre. Finalmente, recomendou-lhe que voltasse depois de dois dias
para bu.scar o fogo.
O menino seguiu ao longo do ribeirão. Depois de algum tempo
ouviu o grito da pedra o respondeu. Em seguida ouviu a aroeira o
respondeu também. Por fim gritou um pau pôdre. O menino e.sque-
ceu-se do aviso e respondeu a êle também. Por isso os homens têm
apenas uma vida curta. Se êle tivesse sòmente respondido u pedra e
à aroeira, êles teriam uma vida longa como êstes.
119
Nimuendajú — Os Apinayé
Depois de algum tempo êle ouviu de novo um grito e respondeu.
Era Me-galô-kamdu’re (o espectro feio), que chegou o perguntou;
“Porque chamaste?’” — “Estou chamando meu pai”, respondeu o me-
nino. “Não sou eu então teu pai? — “Não, meu pai é muito diferente,
êle tem cabelos compridos!” Então, Me-galõ-kamdu’re foi embora,
voltando pouco depois com cabelos compridos para se fazer passar
como pai do menino. Êste, porém, não o quiz ainda reconhecer como
tal, por êle não ter grandes cavilhas auriculares como seu pai. Me-
galô-kamdu’re se retirou mais uma vez, voitando com as grandes
cavilhas nas orelhas, mas o menino insistia sempre que o pai dêle
era outro. “Não és tú Me-galô-kamdu’re?”, perguntou êle. Então,
êste, agarrou-o e lutou com êle até o menino ficar completamente
exausto.
Me-galõ-kamdu’re meteu-o no seu grande jacá e, com a carga
nas costas, se pôs a caminho de casa.
De repente êle descobriu numa árvore um bando de coatis. De-
pôs o jacá, sacudiu a árvore e, quando os coatis cairam no chão,
matou-os, metendo-os todos no jacá, por cima do menino. Depois
ergueu a carga às costas, quando o menino, que nesse meio tempo
tinha tornado a si, aconselhou-o a fazer primeiro uma picada na
mata para melhor avançar com a carga. Me-galõ-kandu’re aceitou o
conselho, depôs de novo o jacá e abriu um caminho. Mas o menino
aproveitou êsse tempo para escapar do jacá, cm cujo fundo colocou
uma pesada pedra, arrumando depois os coatis por cima. Feito isto,
fugiu.
Depois de feito o caminho, Me-galô-kamdu’re voltou ao lu-
gar onde tinha deixado o jacá, ergue-o de novo, mas o achou muito
pesado. Finalmente, chegou com a carga em casa. Desceu o jacá e
disse aos seus filhos, os quais possuia em grande número: “Eu trou-
xe um passarinho bonito!’” Então, um dos filhos tirou um coati e
suspendendo-o, perguntou: “Será isto?” — “Não!”, respondeu Me-
galõ-kamdu’re. A criança tirou um segundo: “Será isto?” — “Não!”
Então tirou todos os coatis até o último e descobriu a pedra. “Agora
só tem uma pedra!” — “Então parece que o perdi em caminho”, disse
Me-galõ-kamdu’re e voltou imediatamente para procurar o menino.
Mas não achou nada, pois o menino já tinha fugido.
Quando voltou à aldeia contou as suas aventuras com as onças
0 o Me-galõ-kamdu’re; concluiu a história dizendo: “Vamos então
todos buscar o fogo para não mais precisarmos comer crú”. Apare-
ceram diversos animais oferecendo os seus serviços: primeiro o jaó,
mas mandaram-no embora, porque era multo fraco: que fosse cor-
rendo atrás dos outros para apagar alguma brasa que caisse. Tam-
bém não aceitaram o oferecimento do jacú, mas a anta foi conside-
rada ba.stante forte para carregar o tronco do jatobá.
Ao entrarem na casa da onça, guiados pelo menino, esta entre-
gou-lhc o fogo. "Eu adotei teu filho”, disse ela ao pai do menino. A
BO — Oliveira: Os Aplnayò, 75.
120
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1936
anta carregou o tronco aceso para a aldeia. O jacú que, junto com
o jaó, corria atrás, engoliu uma brasa que tinha caldo, porlsso até
hoje tem a garganta còr de fogo.
2. — O Sol e a Lua (81)
a) Mbud-ti (sol) desceu primeiro ã terra. Mbuduvrí-re (lua) se-
guiu-o depois, mas errou o lugar. Porém, no dia seguinte, quando foi
caçar viu Mbúd-tl de longe, que vinha vindo. Imediatamente abai-
xou-se atrás de uma palmeira patí e, de gatinhas, se erguelrou para
dentro do mato, onde se escondeu. Mbud-tí, que lhe seguiu o rastro,
chamou-o para que saísse, perguntando se tinha mèdo dêle. Mbudu-
vri-re respondeu que não e, saindo, sc desculpou dizendo que não sa-
bia quem vinha.
Mbud-tí, então, contou-lhe que já fizera uma casa numa ca-
beceira onde juntara frutas comestíveis. Levou Mbuduvrí-re consigo,
mas no caminho o recriminou por ter-se escondido. Mbuduvrí-re pe-
diu então que não falasse mais nisso; cie se escondera de vergonha
porque tinha errado o lugar combinado para o encontro.
b) Mbúd-tl, la adiante. Ao passar por um ninho de maribondo
pendurado num galho por cima do caminho, deu alguns passos mais
ligeiros, parou a certa distância dele e dLsse a Mbuduvrí-re: “Leve
ésse cabaço!”. Assim que Mbuduvri-re tocou no galho, os maribondos
o assaltaram, ferrando-lhe a cara tôda. Gritando multo, correu para
junto da companheiro: “Isto não é um cabaço! Alguma coisa me
ferrou!” — “Como então?” disse Mbud-tí de cara séria, “talvez um
galho tenha caído em cima de você!” “Não, chorou Mbuduvrí-re, isto
dói muito!”
c) Das picadas dos maribondos os .seus olhos incharam tanto
que não os pôde mais abrir. Mbud-tí teve de guiá-lo como a um cego.
Mas quando passaram por uma árvore atravessada no caminho,
Mbud-tí saltou ligeiro por cima, enquanto que Mbuduvrí-re trope-
çou a caiu. “Oh, disse Mbud-ti, eu nem tinha visto êsse pau!” Assim
fez élc três vezes, até que Mbuduvri-re Já não quiz mais Ir avante.
Mbud-ti teve de carregá-lo hs costas, mas de propósito bateu com
éle cm todos os paus do caminho. Mbuduvrl-rc chorou, mas Mbud-ti.
consolando-o dls.se que dessa maneira la ficar bom logo. Dcliscou
os escrotos de Mbud-ti c quando êste gritou assustado, so.ssegou-o:
talvez tlvcs.se lmpre.ssado os escrotos nas costas dêle. Ao clicgarcm
em casa, depôs Mbuduvrí-re dentro de uma moita de espinlios. Èlc
pulou para um lado. gritando que se ferira, mas Mbud-ti respondeu
que apenas pisara nuns galhos sêcos. Em ca.sa llic tirou os ferrões
de maribondos com as unhas c lhe deu remédios para ficar bom. Cc-
dcu-lhc uma banda da ca.sa, ficando com a outra. No melo deixa-
ram um espaço para dançar.
BI — Ollrrlra, O» Aplna(A, 69. 8J.
Nimuendajú — Os Apinayé 121
d) Mbud-ti foi caçar, quando ouviu os pica-paus trabalhando,
verificou que estavam furando as árvores para tirar mei. Foi ter
com o mais velho dêles e pediu um pouco de mel. O pica-pau man-
dou que se chegasse e deu-lhe a sua parte. O pica-pau tinha na ca-
beça um enfeite cõr de fogo, mas já um pouco gasto. Mais adiante
viu Mbud-ti um outro pica-pau com um enfeite novo muito bonito.
Foi ter com êle e ihe pediu um pouco de mel também, que lhe foi
dado. Depois pediu ainda o enfeite da cabeça do pica-pau. Êste, a
princípio não quiz cedê-io, mas os outros persuadiram-no que désse.
Então, 0 pica-pau mandou Mbud-ti, ficar bem em baixo da árvore^
recomendando-lhe que tivesse cuidado para não deixá-lo cair no
chão. Enrolou o enfeite e deixou-o cair. A peça velo descendo como
se fôra fop de verdade, mas Mbud-ti apanhou-a no ar e passou-a
de uma mão à outra até que esfriou. Em casa meteu-o num cabaço
com tampa e na manhã seguinte, antes de sair para caçar, abriu o
cabaço para verificar se o enfeite ainda estava lá.
Mbuduvri-re tinha observado isto e assim que o outro foi em-
bora, abriu o vaso, tirou o enfeite, colocou-o na cabeça e começou a
dançar pela casa. Quando Mbud-ti vinha voltando, ouvlu-o já de lon-
ge cantar e dançar. Irritou-se e repreendeu o comnanheiro, mas
Mbuduvrí-re desculpou-se: o enfeite era tão bonito!
Na manhã seguinte pediu a Mbud-ti que lhe arrajasse um en-
feite igual e tanto insistiu que êste, finalmente, o levou consigo. Am-
bos foram ao lugar onde os pica-paus ainda trabalhavam tirando
mel. Pediram que lhe dessem um pouco de mel, no que foram aten-
didos, recebendo Mbdui-tl, em primeiro lugar a sua parte. Quando
Mbuduvri-re recebeu por sua vez o seu quinhão, Mbud-ti murmurou
baixinho: “Samborá! Samborá!” e nos favos não se encontrou uma
só gota de mel, apenas samborá, com o que Mbuduvrí-re ficou muito
mal satisfeito. Depois Mbud-ti pediu aos pica-paus que lhe dessem
mais enfeite e um dêles finalmente cedeu o seu, Mbud-tí se preparou
para apanhá-lo no ar, mas Mbuduvri-re desconfiou que êle queria fi-
car também com êsse enfeite c teimou em apanhá-lo êle mesmo.
Mbud-ti afastou-se para um lado e Mbuduvri-re se pôs debaixo da
árvore. Quando o enfeite vinha caindo como fogo, êle ficou com
mêdo de apanhá-lo. A peça caiu no chão c Imediatamente todo o
capim do campo ardeu em labaredas altas.
c) Ambos fugiram das chamas a tòda pressa. Mbud-ti meteu-se
numa ca-sa de morlbondo de barro, onde ficou escondido .até que o
Incêndio pa.ssnsso. Mbuduvrí-re quis imitá-lo, mas tendo entrado num
ninho feito do papelão, o fogo obrlgou-o a sair novamento. Por três
vêzcs ainda, êlo procurou abrigo semelhante, sempre com o mesmo
lnsucc.sso, c só no quarto con.segulu aguentar até que o fogo pas-
Ba.sse.
Mbud-ti foi andando pela queimada, chamando o companheiro
que, por fim, respondeu do longe. Velo vindo o ficou parado a certa
distância, prêto de fumaça c com os cabelos queimados.
122 Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
Mbud-tl chamou-o e repreendeu-o severamente. Bateu com a
palma da mão no alto da cabeça de Mbuduvrí-re; êste caiu e ficou
sentado no chão, prometendo entre lágrimas que nunca mais tiraria
0 enfeite de Mbud-ti sem sua licença.
• f ) Mbud-ti propôs então que ambos batessem a queimada à pro-
cura dos animais mortos pelo Incêndio. Acharam uma bôa quantidade
de caça e cada qual fez um moquém para tratar da sua. Tôdas as
peças do moquém de Mbud-ti, ao serem abertas, provavam ser gor-
das. Mas quando Mbuduvrí-re abriu as dêle, Mbud-ti murmurou bai-
xinho para si: “só pele! Só pele!” e todas eram magras. Por três
vezes Mbuduvri-ri velo ao moquém do companheiro para se queixar.
Por fim Mbud-ti aborreceu-se com isto e pegando um pedaço de
banha de capivara que tinha no fogo, jogou-o na barriga do com-
panheiro, queimando-lhe a pele. Êste começou a chorar. "Corra para
o riacho!” gritou-lhe Mbud-ti. Quando o outro chegou a beira do
riacho, Mbud-ti murmurou outra vez: “Sêco! Sêco!” e logo o riacho
.secou. Mbuduvri-re encheu as mãos de lama e esfregou-a na barriga
queimada. Com Isto notou um acangapára (cágado) deitado na lama
ao lado dêle. Entretanto, Mbud-tl disse: "Agua volta!” e logo o leito
do rio SC encheu de novo. O acangapára, porém, mordeu Mbuduvri-
re na barriga queimada e não quiz mais largá-lo. Êle queixou-se
amargamente da maldade do companheiro, mas êste desculpou-se,
dizendo que tudo tinha acontecido por descuido.
g) Depois carregaram tôda caça para casa onde cada qual fez
de novo um moquém onde pudesse espalhar as peças. Mbuduvri-re,
porém, não fez fogo debaixo do seu e a carne ficou cheia de vermes.
Quando êle saiu, Mbud-tl aproxlmou-se do moquém do companheiro,
dêle tirando um quarto de porco que de.spedaçou de encontro ao chão.
Então todos os pedaços se transformaram em caças de pêlo, de tôda
a sorte. Quando Mbuduvri-re voltou encontrou o moquém destruído
c só os restos da caça. Então, agarrou um quarto de ema do moquém
de Mbud-tl, batendo com êle no chão c logo as peças no moquém
se transformaram em caça de pena de tôda espécie. (82)
h) Mbud-tl foi para a cabeceira onde achou uma palmeira bu-
riti com frutas maduras, comendo-as ã vontade. Isto fez com que
seus excrementos ficassem de uma bela côr vermelha. Quando Mbu-
duvri-rc observou essa particularidade, indagou Imedlatamcntc do
que era proveniente a cor vermelha, porque gostaria que seus excre-
mentos ficassem assim também. Mbud-tl lhe recomendou que comes-
se flores de pau d'arco em jejum. Mbuduvrí-re obedeceu, mas os seus
excrementos ficaram de côr negra. Então, seguiu o companheiro,
às escondidas, espreltando-o quando estava comendo buriti c qucl-
xou-se das suas mentiras. Êste. então, convldou-o a comer com êle.
Porém, a.sslm que Mbuduvri-re começou a apanhar as frutas, mur-
murou: “uma banda dura!” e tôdas que êle experimentava só esta-
82 — Como Mbutl-ll r Mbiiiicluvrl-ro (Izcram pelxca c cobrnê. (v. Ollvelrn, O» Apl-
71 .
Nimuendajú — Os Afina YÉ
123
vam maduras de um lado e duras e intragáveis do outro. Com isto
Mbuduvrí-re zangou-se e atirou com uma das frutas contra o tronco
do buriti, que naquele tempo ainda era tão baixo que do chão se
podia alcançar as frutas. Imediatamente a palmeira cresceu, arro-
jando ruidosamente a sua copa para cima, à altura que tem hoje, o
mesmo acontecendo com os troncos de tôdas as outras árvores fru-
tíferas, até então baixas como arbutos. Debalde Mbud-ti gritou;
‘‘Chega! Chega!” Todos ficaram de uma altura que ninguém mais
pôde alcançar os frutos do chão. Mbud-tl estava. Indignado, mas
Mbuduvrí-re disse que assim era melhor, porque estando com sêde,
de longe se conheceria o lugar da água, pelas altas palmeiras buriti.
i) Mbud-ti foi caçar e achou um ninho de periquitos com dois
‘filhotes que levou para criar em casa. Escolheu para si o mais em-
plumado, dando o outro ao companheiro. Quando vinham da caça
davam de comer aos periquitos, fazendo-os sentar no dedo c en-
sinando-os a falar.
Um dia quando ambos foram à caça, um dos periquitos disse
ao outro: ‘‘Tenho pena de nosso pai! Sempre que volta cansado do
mato, ainda tem de preparar a comida para si e para nós! Vamos
ajudá-lo! Ambos se transformaram em moças e foram preparar a
comida. Enquanto uma trabalhava a outra ficava de sentinela na
porta. Quando Mbud-tl e Mbuduvrl-re voltavam para casa ouviam
de longe o barulho do pilão, mas de repente ficava tudo em silêncio.
Ao entrarem, achavam a comida preparada, mas os dois periquitos
continuavam sentados na travessa, como sempre. Encontravam ras-
tos humanos c muito se admiravam de encontrá-los só dentro de ca-
sa e nenhum no caminho. Assim foi durante alguns dias seguidos.
Finaimente Mbud-tl dl.sse ao companheiro: ‘‘Vamos nos esconder
nas moitas dos dois lados da casa c assim que ouvirmos o pilão tra-
balhar correreroms cada um para uma das portas”. Èles se puzeram
de emboscada c dai a pouco ouviram falar e rir na casa. Assim que
ouviram trabalhar no pilão, correram c entraram .slmultãneamentc
por ambas as portas. Imediatamente as duas moças deixaram cair as
mãos de pilão, abaixaram a cabeça o sentaram-se no chão. Eram multo
bonitas e de côr clara e os seus cabelos desciam até á altura dos joe-
lhos. Mbuduvrl-rc qulz falar-lhes primeiro, mas Mbud-ti interveio, di-
zendo a uma delas: ‘‘Então foram vocês que prepararam a comida
para nós?” A moça rlu-sc: "Tivemos pena de vocês, que tinham de
trabalhar de volta da caçada. Por isso viramos gente e fizemos a co-
mida para vocês”. Então, disse Mbud-ti: "Agora vocês serão gente
para sempre”. A moça re.spondeu: "Combinem, então, entre vocês,
de que maneira nos casaremos". Imcdlatamonto Mbud-tl disse. —
"Tú serás minha!" c Mbviduvrl-re dl.s.se a outra: "Tú .serás minha!”
Êlcs fizeram jiraus para si c suas mullicrcs c viveram juntos.
j) Então. Mbud-tl opinou que. Já que tinham mulheres, deviam
fazer também um roçado. Êle marcou um trecho de mato, dlvldlndo-
o cm duas partos, uma para si e outra para o companheiro. Depois
124
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
chamou o pica-pau Dyái, o caramujo Duwúdn e a pedra quartzo
Klid, que começaram a derrubada. Mbuduvri-re, porém, segulu-o às
escondidas e quando ouviu trabalhar no mato, tomou um pedaço de
pau e jogou-o no rumo do ruído. Imedíatamente aquêles três para-
ram o trabalho e nunca mais quízeram retomá-lo. Mbud-tl e Mbudu-
vrí-re tiveram de fazer a derrubada.
k) Mbud-tl e Mbuduvri-re plantaram cabaças na roça e quando
estavam maduros, o primeiro escolheu um poço no ribeirão e fez
um caminho para êle. Mbuduvrí-re, um pouco mais baixo, fez a
mesma coisa. Na manhã seguinte, Mbud-tl foi o primeiro a ir para
a roça: Mbuduvri-re, que ainda estava dormindo, seguiu depois. Am-
bos carregaram todos os cabaços para a beira e atiraram com êles
na água, sempre de dois em dois. Os cabaços, assim que tornavam à
tona se transformavam em gente, homem e mulher, que se sentavam
feito quatro casais. Mbud-tl fez com o quinto lhe saísse cego e o
sexto côxo. Mbuduvrí-re foi ter com o companheiro e vendo que este
só tinha feito gente bonita, lamentou-se multo. Mbud-tl, porém, dis-
se que era bom assim. Então, Mbuduvri-re, por sua vez, disse tam-
bém algumas palavras mágicas e logo alguns dos homens que Mbud-
tl estava fazendo, salram-lhe igualmente defeituosos. Assim conti-
nuaram ambos até terminarem os cabaços.
l) Então, disse Mbud-tl: “Vamos agora fazer uma aldeia para
no.ssos filhos!” Êles escolheram um lugar alto e fizeram lá o círculo
da aldeia que Mbud-tl dividiu em rumo leste-oeste, dizendo: "Meus
filhos morarão na parte norte!” "E os meus na parte sul!”, disse
Mbuduvrl-re. Assim se formaram as metades Kolti o Kolre. Mbud-tl
disse: “Quem tomará conta da aldeia?” e Imediatamente Mbuduvri-
respondeu: “Deve ser Kolre!” Mas Mbud-tl não concordou: “Não
— disse êle — deve- ser Koltl!” E assim ficou para sempre, pois até
hoje os chefes dos Apinayé são da metade Kolti. Casaram seus filhos
entre sl e deram-lhe muitos bons conselhos: "Cuidai de aumentar!
Buscai larvas de maribondo para suas mulheres esfregarem no ventre,
assim tereis muitos filhos!”
m) Depois dls.se Mbud-tl a Mbuduvrí-re: “Agora nossos filhos já
estão todos casados. Venha, vamos embora!” — “Sim" assentiu êle,
“vamos embora!. Tvi alumiarás de dia c eu durante a noite!” Re-
uniram 0 povo todo na praça e Mbud-tl disse: “Meus filhos! Agora
eu vou com o meu Kramgêd-rc!” E Mbuduvrí-re respondeu: “Pois
vamos, meu Kramgêd-tl!” E ambos subiram para o céu.
3. Kandyê-kwéi (83)
Um homem ainda moço tinha enviuvado. Deixou crescer os ca-
belos e dormiu nas moitas atrás da sua casa materna. Quando se
achava ali deitado, viu por cima de sl, uma pequena cstrêla multo
63 — Ollvelrn, O» ApInacA, 60.
Nimuendajú — Os Apinayé
125
bonita. Pensou que seria bom se ela descesse para junto dêle; mas
ao procurá-la algum tempo depois, não a encontrou mais.
Uma rã se aproximou pulando do lugar onde estava deitado;
saltou-lhe sôbre o peito. Êle a jogou para um lado, mas ela voltou
e saltou de novo sôbre êle. Então jogou-a longe, dentro das moitas,
e adormeceu. A rã vendo isso, tomou a forma de uma moça e veio
deitar-se junto dêle. O homem ácordou e perguntou: “De onde vies-
te?” — “De lá, respondeu a moça; o que foi que houve aqui?” —
“Uma rã pulou por duas vezes no meu peito”. “A rã fui eu! Não viste
aquela estréia bem por cima de ti?” — “Vi sim, mas depois ela su-
miu”. “Era eu também. Eu sou Kandyê-kwéi” (kandyê — estréia;
kwél — feminino). Ficaram juntos durante a noite tòda e de ma-
drugada ela voltou ao céu.
Na noite seguinte ela voltou trazendo uma cuia cheia de bata-
tas e inhame, que comeu com o seu companheiro. Êste ainda não
conhecia ésses alimentos, porque naquele tempo os indios ainda não
tinham plantações, comendo a carne com pau pôdre.
Quando o dia vinha rompendo êle escondeu Kandyê-kwéi dentro
de um grande cabaço com tampa, que amarrou bem. Mais tarde,
quando os companheiros o chamaram para a corrida de tóra, abriu
mais uma vez o cabaço para olhar e Kandyê-kwéi sorriu para êle.
Amarrou outra vez a tampa e foi-se com os outros. O seu irmão mais
novo, porém, tinha-o observado e na sua ausência abriu a tampa e
viu a moça dentro do cabaço; ela abaixou a cabeça, envergonhada,
quando viu que não era o seu companheiro. O irmão ràpldamente
tornou a fechar o vaso. Assim que o homem voltou da corrida, abriu
a tampa do cabaço, mas Kandyê-kwéi conservou a cabeça baixa e
não olhou para êle. Por isso tlrou-a, vivendo, daí por diante, pübli-
camente com ela. Kandyê-kwéi era uma moça multo bonita e clara.
Um dia ela foi banhar-se em companhia de sua sogra. Assim
que chegaram à beira do riacho ela se transformou em uma pequena
mucura e saltou no ombro da velha, que a jogou para o lado. Saltou
outra vez e novamente foi repelida. Quando saltou pela terceira
vez disse que tinha uma coisa para contar: chamou a atenção da
velha para uma grande árvore à beira do riacho, que estava carrega-
da de espigas de milho de todas as qualidades e explicou que era
isto que os índios deviam comer, dali por diante cm lugar de pau
pôdre. Outra vez transformada cm mucura subiu e derrubou uma por-
ção de espigas. Depois tomou outra vez forma humana, juntou as
espigas c carregou-as para a aldeia. Lá ensinou a sogra a fazer bolo de
milho. Ambas comeram da nova comida e deram também um pedaço
a um menino. Quando êste passou pela praça, os homens lá reuni-
dos chamaram-no para perguntar o que estava comendo. O menino
deu-lhes um pouco do bolo c todos acharam-no excelente.
Então os homens resolveram derrubar a árvore de milho. Come-
çaram a cortar o tronco com um machado de pedra c já a árvore
estava prestos a cair quando interromperam o trabalho, sentando-se
126 Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
ao lado para descansar um pouco. Quando, porém, quizeram reco-
meçar, observaram com espanto ,que a boca que tinham cortado no
tronco, desaparecera completamente.
Mandaram então dois meninos para a aldeia a fim de buscar um
machado melhor. No caminho, os dois descobriram uma mucura de
campo que mataram, assaram e comeram imediatamente, apesar de
ser tal comida tabu para meninos. Mal acabaram de comer, foram
transformados em velhinhos decrépitos. Assim os encontrou outro
mensageiro que mandaram atrás dêles para ver onde tinha ficado
o machado de pedra. Êste levou-os para a aldeia onde um velho
vayangá se encarregou de restabelece-los. Êste despejou tanta água
em cima dêles, que quase ficaram sufocados e, lavando-os multo,
fez dêles meninos como dantes.
Quando com multo trabalho conseguiram finalmente derrubar a
árvore, Kandyê-kwéi aconselhou-os a fazerem roça e plantarem o
milho. Assim fizeram e desde então têm plantações.
Mais tarde o marido de Kandyê-kwéi morreu o esta voltou para
o céu.
4. Vanmecaprána
Uma rapariga pública de nome Nyimôgo ficou prenhe. Um dia
quando se banhava no riacho, o seu filho saíu-lhe do ventre, nadou,
transformado em paca, brincando ao redor da mãe e voltou ao seu
lugar primitivo. Fez isto por longo tempo, até que, flnalmente, não
mais voltou para o ventre materno.
Quando Nyimôgo la com as outras mulheres cavar batatas na ro-
ça, ela deixara a criancinha na sombra de uma árvore. De repente
as mulheres observaram de longe como o pequeno Vanmegaprána
se punha de pé, mas quando chegavam junto dêle, já se havia
transformado outra vez na criancinha pequena e fraca.
Quando Nyimôgo la buscar água, ela levava o menino sentado
no cinto, mas assim que sala da aldeia, o menino crescia e corria
ao seu lado. Na volta êle se transformava outra vez em criancinha
mole, carregada no cinto.
O irmão de Nyimôgo tinha ódio ao menino e exigiu dela que o
matasse, mas ela não quiz fazê-lo porque o menino era multo bo-
nito. Então, 0 irmão fez um buraco e enterrou Vanmegaprána vivo,
mas à mela noite êle se livrou da sepultura, indo ter com a mãe para
mamar. Na manhã .seguinte o irmão de Nyimôgo, vendo-a com a
criança nos braços perguntou como era possível aquilo e ela contou-
lhe que o menino tinha voltado para si, só. Então, levou-a com o fi-
lho a beira de um abismo, arrancou-lhe o menino e por mais que a
avó dêste chorasse e pedl.s.sse, arremessou-o pelo talhado abaixo. Van-
megaprána, porém, transformou-se numa folha sêca, descendo deva-
gar, em espirais, para o chão. O irmão de Nyimôgo procurou ao pé do
talhado até que achou a folha, quclmnndo-a numa fogueira distante
Nimuendajú — Os Apinayé 127
dos olhos da avó e da mãe, que choravam muito. Todos acreditavam
que Vanmegaprána tivesse morrido desta vez.
Contudo, ressuscitou da cinza em forma de um homem branco.
Foi a beira do riacho e atirou farinha de mandioca de uma cuia,
aos peixes; imediatamente os peixes brancos se transformaram em
gente branca e os peixes pretos, em negros. “Mais tarde vós também
me perseguireis!” disse Vanmegaprána. Fez uma casa grande e to-
das aquelas coisas que os cristãos possuem hoje.
De madrugada, os índios da aldeia ouviram o canto do galo a
grande distância; depois também as vozes de cavalos e vacas. “Que
animais serão êstes?” — perguntavam êles admirados. Depois viram
subir fumaça ao longe e verificaram que tinham um vizinho. Um
dêles resolveu ir até lá e Vanmegaprána mostrou-lhe os animais do-
mésticos e lhe disse os seus nomes. Depois mandou chamar os seus
parentes e deu-lhes arroz e carne de gado para comer, ensinando-
lhes como deviam preparar essas comidas. Ao seu tio disse: “Se não
me tivesses perseguido serias agora um homem rico”. Depois per-
guntou a Nyimõgo se o roconhecia. Ela respondeu que não c então
ele lhe disse que era seu filho. Nyimõgo chorou muito. Vanmega-
prána deu muitos presentes aos seus parentes e mandou-os embo-
ra em paz.
Vanmegaprána era o velho imperador D. Pedro II.
5. A ORIGEM DA TRIBO APINAYÉ
a) Um número de guerreiros novos e raparigas públicas sairam
da aldeia dos Mãkráya (Krinkati, Caracaty) para caçar. Chegando
à margem do Tocantins resolveram passar para o outro lado. Fize-
ram uma espécie de salva-vidas de pau seco e talo de buriti, nadan-
do com auxílio dêle para a margem oposta. Lá chegando, resolveram
casar-se e não mais voltar. Levantaram uma aldeia e cortaram o
sulco dos cabelos ao redor da cabeça, alterando também a língua.
O número dos guerreiros era, porém, menor que o das raparigas, de
maneira que, depois de casados todos, sobrou uma delas para a
qual não havia marido. Ela voltou sòzlnha para a margem direita
do Tocantins c contou aos Mãkráyá o que se dera.
Anos depois, alguns destes últimos resolveram fazer uma visita
àqueles parentes desaparecidos além do Tocantins. Mas quando che-
garam à aldeia dos Apinayé êstes não os reconheceram mais e ma-
taram-nos a cacete.
b) Um dia um bando de indlos vindo de Leste, chegou à mar-
gem do Tocantins. O bando era composto de homens c mulheres.
Ficaram com vontade de passar o rio c para êsse fim fizeram um no-
velo enorme de um cordão muito forte. Um dêles passou o rio por melo
de um salva-vida de madeira leve, levando a ponta do cordão, que
amarrou numa árvore da margem esquerda. Depois todos, seguran-
do-sc no cordão esticado, começaram a passar o rio com suas mu-
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
128
Ihcrcs. Como se achavam nadando, seguros polas mãos ao cordão,
pareceu a um índio o.ue o número dos que queriam vir para a mar-
gem ocidental era demasiado ,o por isso cortou o cordão pelo melo. Os
que já haviam alcançado a margem ocidental puxaram para terra
os que se achavam agarrados na parte do cordão que estava lá amar-
rado, ao passo que a correnteza levou outra vez para a margem ori-
ental os que se achavam presos a outra metade do cordão. Os da
margem ocidental cortaram logo o sulco de cabelo ao redor da ca-
beça tôda e modificaram a lingua.
Quando mais tarde os dois partidos se viram em terra firme, nas
margens do Tocantins gritaram uns aos outros, mas já não se com-
preendiam bem. “Falai direito!” — gritaram os que tinham ficado
na margem oriental. “Falai direito vós mesmos!” — responderam os
Aplnayé da margem ocidental. “Vós sois os ôtí!” — gritaram aque-
les. “E vós sois os Mãkráya!” — replicaram os Aplnayé. E assim ficou
para sempre.
6. Kenkutâ e Akréti (84)
O gavião grande Hága-ti tinha o seu ninho num jatobá enorme.
Êle matava muitos indlos, carregando os corpos para o ninho, onde
os devorava. De mêdo déle os índios abandonaram a aldeia e se mu-
daram para longe. Só um casal de velhos ficou com os seus netos
Kenkutã e Akréti, cujos pais Hága-ti também tinha devorado.
Um dia viram o gavião grande passar por cima dêles, trazendo
nas garras um índio morto, que ainda levava pendurado no pescoço
a sua buzina que soava ao vento. Kenkutã chorou multo quando viu
Isto e rc.solvcu vlngar-se.
Ao anoitecer êle ouviu o assobio de um jaó na mata o perguntou
ao avô 0 que era aquilo. Quando soube que era uma ave quis matá-la,
mas 0 velho expllcou-lhe que Isto só seria po.ssível por meio de uma
ílechada. Kenkutã, porém, foi ao mato onde o jaó estava assobiando
e matou-o com um “tiro” de cacete, pelo que o velho ficou bastante
admirado. Uma outra vez Kenkutã ouviu o ronco da ema no campo
e dl.sse logo que la matá-la. O avô achou que isto era lmpo.sslvcl
para um menino, pois a ema é multo ligeira na corrida. Kenkutã,
porém, foi junto com o Irmão c mandou que ôste enxotasse a ema
para o seu lado. Matou-a, também, com uma cacetada e arrastou-a
para ca.sa. O avô ficou ainda mais admirado c quis saber como tinha
sido possível aquilo, mas Kenkutã não deu nenhuma explicação.
Então, o velho, .sòzlnho, fez uma corrida de tóra: foi a roça, onde
preparou a tóra, voltando com esta ao ombro, correndo c gritando c
pondo-a abaixo na praça da aldeia abandonada. Depois cantou ao
redor da rua da aldeia e pegando um maracá dançou com sua mulher
na praça. Em seguida comeram e foram juntos ao ribeirão para
banharem-se.
84 — OIlTfIrn, Os ,\plna(é, 74.
129
Nimuendajú — Os Apinayé
Os dois meninos subiram um pouco peia margem do ribeirão e
depois do banho, ficaram deitados em cima de um grosso tronco de
árvore que tinha caído de uma margem do ribeirão à outra, forman-
do uma ponte. Os avós voltaram sozinhos para casa. Anoiteceu e os
meninos não apareceram. No outro dia, pela manhã, o avô foi pro-
curá-los. Procurou ribeirão abaixo, mas nada achou, depois, bus-
cando era sentido contrário, descobriu os dois deitados no tronco
do pau. Quando os chamou para que voltassem para casa, cies dis-
seram que não mais voltariam. Então, o avô fez um jirau de varas
no tronco do pau, para êles, bem acima da água do ribeirão, le-
vando-lhes comida todos os dias.
Os dois cresceram depressa e ficaram muito corpulentos. Quando
já tinham alcançado o comprimento do jirau, o velho fez para cada
um dêles, uma espada de madeira dura, com a qual foram à caça.
Levantaram uma anta, persegulram-na e a mataram com as suas es-
padas. Sem esquartejá-la carregaram-na até perto da casa dos avós,
chamando a estes: “Vinde buscar o rato que depuzemos lá no ca-
minho!” Os dois velhos foram e vendo a anta morta, ficaram as-
sombrados. Tiveram de esquartejá-la para poder levá-la para casa.
Com a sua carne fizeram um grande bolo e no dia seguinte apararam
os cabelos dos netos.
No outro dia pintaram e enfeitaram a ambos, levando-os para
junto do jatobá, onde estava o ninho de Hága-tí; lá o velho já lhes
tinha preparado uma casinha bem fechada, na qual ambos se me-
teram. Depois, Akrctl, que era mais ligeiro na corrida que seu irmão,
saiu a provocar o gavião gritando: “Tã! Tã! Tã!" Imediatamente
ôste desceu da árvore com grande rapidez, mas Akréti escapou-lhe,
entrando na casinha. O gavião no seu vôo passou tão perto que ar-
rancou as palhas sobressalentes da coberta, depois ergueu vôo nova-
mente pafa o seu ninho. Akréti não o deixou bem tomar pé no ni-
nho, saindo outra vez para provocá-lo. De novo o gavião desceu sem
poder apanhá-lo e assim Akréti levou multo tempo enganando o ani-
mal, sem lhe dar o menor descanso. Mas Kcnkutã queria também ex-
perimentar essa tática e por mais que Akréti o aconselhasse, Kcnkutã
saiu c chamou pelo gavião. Êste passou tão perto dêlc que o vento
das suas asas derrubou Kcnkutã no chão, que a muito custo conse-
guiu escapar para o interior da casinha. Pelo mclo-dla a ave estava
tão cansada que não tinha mais fôrças para elevar-se, ficando sen-
tada no chão, diante da casinha, resfolegando de bico aberto. Então,
Akréti saltou sôbre ela, matando-a com a sua espada de madeira.
Carregaram o gavião morto até perto da aldeia e chamaram os
avós para que viessem buscá-lo. Era, porém, pesado demais para
os velhos. O avô, depenando a prèsa, soprou a penugem do gavião
para o ar c esta se transformou em passarinhos de tôda a espécie,
que fizeram ouvir suas vozes. Depois c.squartcjaram llága-tl, assaram
os pedaços c comeram-no.
130
Eol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
Havia, então, numa caverna, num alto talhado de pedra, uma
outra ave monstruosa de nome Kukád, que tinha por costume cor-
tar com 0 bico, no seu vôo, a cabeça das pessoas. Os irmãos resolveram
matá-la também e pediram ao avô que lhes fizesse outra casinha
ao pé do talhado. Akréti provocou-a primeiro, escapando para dentro
da casa quando Kukád passou voando. Mas Kenkutã insistiu que
queria tentá-lo também e saiu para o terreiro. Imediatamente Kukád
desceu e cortou-lhe a cabeça antes que êle pudesse desviar-se. Vol-
tou para a sua caverna, de onde não mais saiu, por mais que Akréti
o chamasse e provocasse. Quando se convenceu de que todos os seus
esforços para fazer Kukád sair da caverna eram inúteis, meteu a
cabeça do irmão na forquilha de um pau e foi-se embora.
Akréti resolveu não mais voltar para a casa dos avós. Queria
procurar os seus companheiros de tribo, que se tinham mudado com
mêdo de Hàga-ti. Andando pelos campos, encontrou-se com a tribo
das Seriemas, que tinham incendiado o capim para caçar ratos e la-
gartixas. Akréti chamou-as, perguntando: “Id-pe pen-ka-mõ!” (De
que tribo és?), e elas responderam: "Id-pe Kupen-pyégre wa-mõ!
Nyõvéd kod nayntxo kod pog-tamõ!” (Sou da tribo das Seriemas e
caço ratos com fogo). “Quem és tú?”. Akréti respondeu: “Id-pe Ak^^é
wa-mõ!" (Sou Akré), e foi passando. Depois topou com os aráras
prétos, que estavam quebrando côco de tucum na queimada do cam-
po, comendo os caroços. Êstes deram-lhe de sua comida e êle co-
meu com êles. Quando entrou na mata encontrou os macacos colhen-
do castanhas sapucaias e também com êles fez a sua refeição. In-
dagando onde estavam os seus companheiros de tribo, os macacos
responderam que êle tinha ainda de atravessar três faixas da mata.
Depois encontraria o caminho que levava à aguada da aldeia.
Quando Akréti alcançou a aguada escondeu-se atrás de um ja-
tobá grosso. Depois de algum tempo desceu da aldeia uma moça mul-
to bonita, do nome Kapa-kwéi, para se banhar. Akréti, do seu escon-
derijo, jogou pedacinhos de pau nela, mas ela de nada se apercebia.
Finalmcnte, quando vinha saindo d’água, chamou-a, dando-se a co-
nhecer como membro da tribo. Kapa-kwéi perguntou pelo seu nome
e pelo do seu irmão, ouvindo a história da luta dos dois com Hága-
ti e Kukád. Dentro de pouco tempo os dois combinaram que ha-
viam de casar-se.
À noite, Kapa-kwéi fez um buraco na parede de palha da casa
materna, ao lado do seu jirau. À meia-noite, Akréti introduziu-se de
mansinho, mas quase derrubou a parede com seu corpo enorme e for-
te. De madrugada vieram as companheiras de Kapa-kkél chamá-la
para a dança na praça da aldeia, mas ela respondeu que estava in-
disposta. Então, uma das raparigas suspendeu uma palha acesa e
viu Akréti ao lado de Kapa-kwéi no jirau. Prontamente apagou a
luz, contando às outras o que tinha visto. Na manhã seguinte Akré-
ti apresentou-se aos companheiros de tribo na praça. Depois disse que
queria matar uns passarinhos para a sua sogra, Matou quatro emas.
I
Nimuendajú — Os Apinayé
131
trazendo-as para casa enfeixadas pelos pescoços, como se fossem
nambús.
Um dia êle foi com a mulher tirar mel. Fez um buraco no tron-
co do pau e mandou que a mulher metesse a mão nêle e tirasse os
favos. Esta obedeceu, mas o seu braço ficou prêso no buraco, e, por
mais que ela se esforçasse não conseguia llvrar-se. Akrétí disse-lhe
que queria alargar o buraco, mas em vez de fazê-lo êle matou Kapa-
kwéi ,esquartejou-a e assou a carne, que levou à aldeia. Um Irmão
da vítima, que comeu também dessa carne na praça, descobriu, po--
rém, 0 crime e gritou; “O que estamos comendo é a carne de Kapa-
kwéi!” e por mais que Akrétí o negasse, o outro fieou convencido
da verdade. Na manhã seguinte êle seguiu o rasto de Akrétí até o lu-
gar do crime, onde achou a cabeça da irmã. Juntou os restos, le-
vou-os para casa, onde fez a lamentação fúnebre e sepultou-os.
No dia seguinte, Akrétí quis assar kupá junto com os outros. Pa-
ra êsse fim fizeram uma fogueira enorme. Quando o fogo tinha bai-
xado, as mulheres disseram a Akrétí que puzesse os seus kupá bem
no meio do braseiro, e quando êle estava entretido com isso, em-
purraram-no de todos os lados para dentro da brasa, queimando-o
vivo. Da sua cinza nasceu um ninho de cupim da terra.
7. O Mundo Subterrâneo
Debaixo do chão existe um outro mundo. Dizem que lá é nuito
bonito. E’ um campo limpo e os buritis são baixinhos. Também há
gente por lá e muita caça. Os porcos do mato sobem de lá para o
nosso mundo.
Um dia um índio estava escavando um tatú. Cada vez entrava
mais fundo pelo chão a dentro atrás do animal. O seu companheiro
de caçada debalde o chamava para que desistisse e viesse para cima.
Finalmente furou a terra e precipitou-se para o mundo subterrâneo,
caindo justamente na copa de um buriti, onde ficou deitado entre
as folhas. O seu companheiro voltou para a aldeia chorando e contou
0 que tinha acontecido. Então, um vayangá se encarregou de trazer
o homem perdido de volta para o nosso mundo. Depois de quatro
dias, conseguiu de fato trazê-lo, conduzindo-o pelo caminho dos por-
cos do mato.
8. Perna de Lança
Um índio foi caçar no mato em companhia de seu cunhado. A
noite quando os dois estavam dormindo à beira do fogo, êle estendeu
a perna para dentro da fogueira. O cunhado vendo isso, o chamou;
“teu pé está queimando!” O homem fingiu-se assustado, mas quan-
do 0 outro adormeceu, estendeu de novo o pé para dentro do fogo.
Quando o pé estava completamente carbonizado arrancou-o e, jo-
gando-o no rumo de um pé de piquiá, que havia por alí, gritou ao
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
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Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
cunhado: “Vá buscar a fruta de plquí que caiu agora mesmo! Vamos
assá-la e comê-la!” Enquanto o cunhado procurava, debalde, o fru-
to debaixo da árvore, êle tirou todos os restos dc carne da perna
queimada, raspando a tibia com o seu raspador de caracol, até fazer
nela uma ponta multo aguda. Ao amanhecer, mandou que o cunhado
fosse de novo buscar o plquí que tinha caido, mas êste só achou o pé
carbonizado. Quando estavam sentados um em frente ao outro, o
mutilado deu, de repente, uma estocada com a tíbia, que por pouco
não matou o outro; éste saltou horrorizado, fugindo para a aldeia,
onde contou o caso.
Durante a noite Tetxware (Perna de Lança) veio às escondidas
para a aldeia e matou alguns homens que estavam dormindo na pra-
ça. Então, os outros resolveram liquldá-lo. Fizeram um cêpo de ma-
mohy, madeira mole e suculenta, plntaram-no e enfeitaram como sl
fosse um homem e puzeram-no em pé na praça. Um homem escon-
deu-se atrás déle, falando em voz alta, como se fôra o próprio cêpo.
À noite quando Tetxware voltou e viu o cêpo, julgou que fosse um
homem, pulou num pé contra êle e deu-lhe violenta estocada. Mas
a ponta da tibia ficou encravada no cêpo e quando os outros o vi-
ram prêso desta forma, lançaram-se contra êle e o mataram a cacête.
Cortaram-lhe a cabeça, que atiraram para um lado, mas ela
Imediatamente se tran.sformou no Krã-grogród-re (cabeça dc mara-
cá), que fugiu aos pulos.
Voltou, porém, dia claro e matou diversas pessoas, pulando na
sua nuca. Os guerreiros procuraram a cabeça pela mata. Estavam ar-
mados de cacête e gritaram para que ela aparecesse; "Krá-grogrôd-re
nemengahí!” e logo apareceu pulando. Mas era tão ligeira que nenhum
golpe a atingiu. Então, resolveram, primeiro, pôr estrepes, mas depois
rejeitaram tal plano, resolvendo fazer um número de buracos fun-
dos no caminho c ao lado dêle. Então, chamaram dc novo a cabeça
c quando esta apareceu pulando, caiu num dos buracos, de onde não
se pôde livrar mais. Os guerreiros mataram Krã-grogród-re, mas des-
confiando que rcssustarla se fosse deixado no caminho, o enterraram
num buraco muito fundo.
Multo tempo depois, quando os Pcmb (guerreiros novos) passaram
por êsse lugar viram que tinha nascido uma árvore da sepultura de
Krã-grogród-re. Era uma mangabclra. Cortaram a casca com uma
faca dc pedra c com o látex pintaram listas largas no corpo, das quais
fizeram as primeiras bolas de borracha para o jògo dc Peny-tag.
0, Os KüPtn - NDÍYA (85)
Esta história pa.ssou numa terra longínqua, a oeste, para as ban-
das do mar. As mulheres solteiras da aldeia foram ã praia para se ba-
nharem no rio. Um grande jacaré subiu ã tona d'água. Era manso c
es _ oilrelr». o, Aplnny*. M. 88. Kuprii _ ulbo Mtranha; ntll . mulher; ^
plural peuoal e coletivo.
Nimuendajú — Os Afina YÉ
133
as mulheres fizeram amizade com êle. Uma depois de outra, deitaram-
se com êle na areia, para o coito.
No dia seguinte vieram outra vez ao mesmo lugar. Traziam carne
e bolo e chamavam — “Min-ti! Jacaré grande! Nós já estamos aqui!”
— "Ho!”, respondia o jacaré e subia para a praia. Durante muito tem-
po elas sustentaram namoros com o animal.
Um dia de manhã chegou casualmente um homem ao mesmo lu-
gar para ílechar peixes. Quando ouviu as mulheres se aproximarem,
éle se escondeu, espreitando-as. Contou aos companheiros o que tinha
visto e todos se puzeram de tocaia à beira do rio, na manhã seguinte.
Um dêlcs chamou com voz fingida: “Min-ti! Já estamos aqui!” —
"Ho!” — respondeu o jacaré e subiu e olhou ao redor sem ver as mu-
lheres. O homem chamou-o pela segunda vez e o jacaré, avançando
no rumo da voz caiu na cilada e foi morto pelos homens. Assaram-no
e comeram no mesmo lugar, juntaram seus ossos no casco dorsal, ao
lado da fogueira e voltaram para casa.
Quando as mulheres chegaram, debalde chamaram pelo jacaré.
Finalmente, acharam a fogueira e os restos da refeição dos homens
c compreenderam o que tinha acontecido. Primeiro choraram multo,
depois, cada qual fez para si um cacête. Puzeram-sc de emboscada ao
lado do caminho da aldeia, uma delas gritou de longe: “Kwa-kwa-
kwa!” Quando os homens da aldeia ouviram êsse grito, correram sem
armas para o lugar de onde tinha partido c cairam na emboscada
das mulheres, sendo todos mortos.
Depois dêste feito, essas mulheres mudaram-se para muito longe.
Primeiro chegaram à terra dos Kupcn-wakõ (wakõ = coati), depois à
dos Kupen-gangála ígangála abelha tataira). Ainda foram mais
longe e fundaram a tribo das Kupen-ndiya, que se compõe só de mu-
lheres porque elas matam os filhos quando lhes nascem.
b) Ora, havia naquela aldeia dois Irmãos. Multo tempo depois da
partida das mulheres, um délcs quis dançar, mas faltava-lhe para isso
um machado semilunar, c seu irmão não lhe quis emprestar o seu.
Então, Icmbrou-sc que sua irmã, que estava entre as Kupen-ndiya ti-
nha levado um machado dêsses. Resolveu procurá-la c seu irmão se
prontificou a acompanhá-lo.
Caminharam multo c chegaram ao lugar onde se achavam os Ku-
pcn-wakõ, que lhes ofereceram minhocas para comer. Os Irmãos per-
guntaram pelas Kupen-ndiya, mas os Kupen-wakõ disseram que esta-
vam num lugar multo mais longe dali. Depois encontraram os Kupen-
gangála, sendo informados que só faltava um dia do viagem até à al-
deia das Kupen-ndiya.
De fato. no outro dia, pela manhã, chegaram a uma grande aldeia,
onde cada uma das Kupen-ndiya tinha sua própria ca.sa. Perguntaram
pela casa da irmã c foram vl.sltá-la. Ela tinha dlver.sos machados
seml-lunnres pendurados cm casa c cedeu um délcs ao irmão.
No dia seguinte, duas Kupen-ndiya, moças ainda, convidaram os
dois irmãos para irem juntos tomar banho. Os dois responderam, po-
134
Eol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 195G
rém, que não estavam com vontade de banhar-se, mas sim de cohabi-
tar. Então, as duas moças, consentiram no coito com a condição de os
Irmãos as vencerem na corrida. Os dois correram de páreo com elas,
da aldeia para a aguada. Um dos Irmãos, porém, ficou multo atrás da
sua parceira e teve de renunciar à sua aspiração, mas o outro passou
adiante da moça que corria com êle e levou-a para o coito na mata
do ribeirão. No dia seguinte os Irmãos voltaram para casa.
10. OsKupen-Dyêb
No sertão de São Vicente, para as bandas do Araguaia, existe a
Serra dos Morcegos. Há nela uma grande caverna que tem uma entra-
da em baixo e em cima, multo alta, uma espécie de janela. Em tem-
pos Idos, era all a habitação dos Kupcn-dyêb, seres de formas huma-
nas, porém, dotados de asas de morcego.
Um Aplnayé matou um veado nas vizinhanças daquela serra e
como já fosse multo tarde, pernoitou não longe dela, com sua prêsa.
Enquanto dormia os Kupen-dyêb se aproximaram voando e quebra-
ram-lhe a cabeça com os seus machados semilunares.
Como demorasse muito, um seu parente seguiu-lhe o rasto e achou
o cadáver. Ao seu redor havia muitos rastos, mas nenhum que de-
nunciasse a chegada ou a partida dos assassinos.
Em conscqüencla disso, os Aplnayé evitaram por multo tempo dor-
mir naquelas paragens, até que um dia dois caçadores, em cuja com-
panhia se achava um menino, resolveram dormir ao pé da serra dos
Morcegos. Quando anoiteceu ouviram cantar no Interior da serra.
Então, 0 menino ficou com mèdo e se escondeu no mato, a certa dis-
tância do fogo onde dormiam os dois caçadores. Pouco depois os Ku-
pen-dyéb chegaram voando c mataram os dois, escapando o menino
que correu para a aldeia e contou o desastre.
Então reunlram-se os guerreiros das quatro aldeias dos Aplnayé,
para aniquilar os Kupen-dyêb. Quando chegaram à Serra dos Morce-
gos, ocuparam Imcdlatamentc a entrada da caverna, onde amontoa-
ram lenha e folhas verdes, enquanto outros, por um atalho, procuram
à janela para ocupá-la também. Isso, porém, foi mais difícil do que
julgavam c ainda não tinham con.scguldo lá chegar quando os quo
estavam na entrada puzeram fogo. Logo os Kupen-dyêb, num grande
número saíram voando pela janela, sem que as flechas disparadas con-
tra êles pelos Aplnayé lhes flzcs.sem o menor mal, foram todos para
0 sul. Dizem que ainda hoje habitam por lá, ninguém sabe bem onde.
Quando a fumaça se tinha dl-spcrsado, os guerreiros Aplnayé en-
traram na caverna; aí encontraram grande quantidade de machados
seml-lunarcs, que os Kupen-dyêb tinham deixado cm sua fuga. No
lugar mais fundo da caverna, escondido debaixo de uma lage de pedra
c quase sufocado pela fumaça, descobriram um menino de mais ou
80 — Oliveira; Oi Apliiaxé, 60, Sl. Kupcii
tribo ettraiiha; dyèb
morcego.
Nimuendajú — Os Apinayé
135
menos seis anos. A princípio quizeram matá-lo mas um dêles resolveu
levá-lo para a aldeia e criá-lo.
Quando, a caminho de casa, os Apinayé fizeram o seu acampa-
mento de folhas de palmeira estiradas no chão, para pernoitar, indi-
caram também ao pequeno Kupen-dyêb um lugar de dormida. Êste,
porém, ão quis ficar deitado, chorava muito e procurava sempre algu-
ma coisa no ar. Então, o seu dono, se lembrou que na caverna dos Ku-
pen-dyêb não havia camas nem armadores de rede, mas um grande
número de travessas armadas horizontalmente. Foi buscar uma vara
e armou-a nas forquilhas de duas pequenas árvores vizinhas. Assim
que 0 menino viu e.ssa disposição, trepou pelo tronco de uma das ár-
vores até a vara, onde se pendurou pelos joelhos, de cabeça para bai-
xo. Depois encolheu a cabeça cobrindo o rosto com os braços cruzados
c dormiu sossegadamente nessa posição.
Êsse menino passou pouco tempo entre os Apinayé, morrendo logp
depois. Um dia o observaram colocando caroços de milho em circulo
no chão e cantando e dançando diante dêles; — ‘‘U-uá! Klunã klôtxl- .
re! Klud petxetire!" Depois juntou os caroços de milho com ambas as
mãos. Quando os Apinayé lhe pediram explicações, êle disse que era
e.sta a maneira de dançar da sua gente. Ainda hoje os Apinayé can-
tam essa cantiga dos Kupen-dyêb.
11. Os KUPEN - KINKAMBLEG (87)
Pelo lado do oriente, onde finda a terra, lá donde o sol vem subin-
do, habita uma nação que tem cabelos vermelhos. Como o sol aparece
multo perto dêles, sofrem multo com o seu calor, tendo-lhe por isso
um ódio feroz. Todos os dias, quando nasce, êles lhe atiram flechas,
mas como o fazem com a cara virada c estando o sol a subir com
grande rapidez, nunca conseguem fcrí-lo.
Um dia resolveram cortar o esteio que sustenta o céu, para que
êste caísse c o sol não mais pudesse fazer sua trajetória por êle.
Trabalharam e chegaram a cortar um bom pedaço, faltava pouco
para decepar o esteio, mas o cansaço os obrigou a suspender o tra-
balho. Quando voltaram para acabar de derrubar o esteio, tudo que
tinham cortado crescera de novo e o esteio tinha outra vez a sua
grossura primitiva. Até hoje êles sc esforçam a.sslm, sempre em vão.
12. Os KUPEN - NDÔ - calIu (88)
Certa vez um caçador Apinayé avançou rumo sul, multo além
dos limites das terras da tribo, perdendo-se nas grandes matas da
cordilheira. A noite o surpreendeu ainda no melo da mata. Então,
subiu numa árvore e fez um ninho entro os galhos para nêlc dor-
1,7 _ Kviprn — tribo ntnmhn; kln „ CBbrlo: knmbléu vrrmrlho.
8 S — Ollvclrn, A|ilnA>f. Kiiprn _ tribo ratr^nha; ntld __ olho; uall-ll „ multo
azul.
136
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
mir. A noite era extremamente escura, mas de repente ouviu gente
caçando no mato. As vozes se aproximaram e alguém parou bem de-
baixo da árvore onde estava o Apinayé. Êstc, na escuridão nada
destlngulu mas ouviu chamar; “Vinde cá! Aqui está um coatí bem
grande!” Todos se juntaram debaixo da árvore e logo verificaram
que 0 que estava escondido na copa, não era nenhum animal, mas
um homem. Então, o convidaram a descer. Mas o Apinayé teve mê-
do que o matassem. Os caçadores, porém — eram os Kupen-ndô-
galill, q\ie lhe garantiram que nada lhe havia de acontecer e con-
vidaram-no a ir com eles para a aldeia. O Apinayé desceu e acompa-
nhou-os. Não obstante a escuridão, os Kupen-ndô-galill corriam pela
mata fechada afóra, com tal ligeireza e segurança, como outra gente
só de dia podia fazer, e o Apinayé para acompanhá-los tropeçava
constantemente e batia nas árvores. Finalmente um dos Kupen-ndô-
galill teve de carregá-lo às costas até à aldeia. Lá, deram-lhe de co-
mer e trataram-no multo bem. Mas quando o dia vinha rompendo
os Kupen-ndô-galill foram-se deitar como os outros homens da noite.
Uns adormeceram, outros despreocupadamente, copularam com suas
mulheres. Quando anoiteceu, cies levantaram outra vez e levaram o
Apinayé ao caminho para a sua aldeia.
13 . PiTXÔ - KAMTXWU’ ( 89 )
A respeito da origem da cerimônia do Pltxô-kantxwii contaram-
me os Apinayé o seguinte:
Enquanto seus pais se achavam ocupados na roça, reuniram-se
os meninos e as meninas da aldeia, sob a chefia de um menino mais
velho e foram ao campo. As meninas tinham levado massa de man-
dioca c fizeram um rancho, enquanto os meninos caçavam passa-
rinhos e ratos para fazer bolo.
Feito isso, aquele menino mais velho chamou os .seus companhei-
ros para um lado e propôs-lhes que cada qual fosse deflorar sua
própria irmã. Êlc mesmo foi cm primeiro lugar para o mato, para
onde os outros lhe mandaram a irmã. Ela chorava c não queria ir,
mas os outros meninos a levaram à fôrça. A.sslm procederam com tô-
das as meninas. Depois, comeram o bolo, enfeltaram-se com as penas
dos passarinhos que mataram, fizeram a.sas de palha de bacabelra c
voltaram à aldeia.
O menino mais velho procurou o conselheiro c pedio que ele
avisasse seus pais para que êstes lhes ílzos.sem enfeites. Depois im-
plantou uma bananeira na praça e todos os meninos atiraram nela,
crlvando-a de flechas. A seguir cantaram pela rua da aldeia c dlrl-
glram-sc de novo à praça, bateram ns usas o levantaram vôo como
aves. O mais pequeno dos meninos não conseguiu a principio, mas os
outros 0 ajudaram a elevar-se no ar.
80 — Pltxõ
bananeira; kamUwú traapatxnr.
Nimuendajú — Os Apinayé 137
Voaram para uma lagóa onde sentaram o pequeno num tôco de
pau no meio da água, depois bateram tingui e envenenaram a água
da lagôa para apanhar os peixes intoxicados. Pegaram uma grande
quantidade e alimentaram o pequeno com peixinhos crús, que lhe
meteram na bôca. A mãe do pequeno chorou muito e foi atrás dos
fugitivos. Vendo de longe seu filho sentado no tôco, em meio à la-
goa, fez uma máscara de folhas de buritirana, com que disfarçou a
cabeça e mergulhou na água da lagôa. Já perto do pequeno ela veio
à superfície, resfolegando. Quando os outros reconheceram-na, le-
vantaram vôo imediatamente, levando o pequeno consigo. Transfor-
maram-se em maguari e outras aves aquáticas e foram embora para
0 outro lado do Tocantins.
14. O Diluvio (90)
A cobra grande Kanen-ro’ti subiu do mar e fez os rios Tocan-
tins e Araguaia, deixando às suas companheiras menores, o trabalho
de fazer os rios menores e os riachos.
Depois choveu por muitos dias. Todos os cursos dágua transbor-
daram. A enchente que veio do Tocantins encontrou-se com a do
Araguaia, no meio da terra firme. Tôda a terra esteve debaixo d’água
durante dois dias. Muitos Apinayé fugiram para a Serra Negra, um
morro que fica atrás de São Vicente, para as bandas do Araguaia,
que, por ls.so, até hoje se chama Ken-kllma-ti = “morro do ajunta-
mento”. Outros salvaram-sc nos galhos dos jatobás mais altos e, ou-
tros ainda, agnrraram-se a grandes cabaços e flutuando sem rumo,
acabaram perecendo.
Um casal de índios arranjou três cabaços enormes, nos quais
meteu mudas de mandioca e sementes de outras plantas, fechando as
bocas cuidadosamente com cerol. Depois amarrando os três caba-
ços juntos, sentaram-se no melo o deixaram-se levar pela enchente.
A correnteza levou a embarcação, que passou rente à Serra Negra,
mas resistiu ao embate dos redemoinhos.
A água já estava pelos joelhos da gente que se havia refugiado
na Serra Negra, quando, de repente, à noite, ela baixou outra vez.
Então, aqueles que tinham trepado nos jatobás não puderam mais
descer, transformando-se em ninhos de cupim e de abelhas chopé.
Quando a áeua tinha escorrido, o casal com os três cabaços procu-
rou um lugar onde fez uma roça. Mas a gente da Serra Negra não
po.ssula mais nenhuma muda nem sementes, alimentando-se de pal-
mitos c côcos. Um dia um menino matou um periquito que levou
à sua mãe. Quando cia abriu a ave achou caroços de milho no seu
papo. Perguntaram ao menino de que direção tinha vindo o peri-
quito 0 depois de dctermlnú-la foram lodos nêsse rumo à procura
do milho. Por fim, acharam a roça do casal c ficaram com ele até
a colheita, quando levaram mudas e sementes.
no — Ollvclrn, Oj Apinayé, 70.
138
Eol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1958
15. Bólides
Os bólides (akrã) incandescentes, que descem à noite, são de-
mônios maus que na terra se apresentam sob figura humana ou
animal.
Uma vez, os rapazes de uma aldeia estavam se banhando num
rio pequeno, porém fundo, quando avistaram no fundo d’água dois
meninos. “Vêde, gritaram êles, lá tem dois meninos! Vamos tirá-
los!” Alguns dêles mergulharam, mas assim que tocaram nos meni-
nos foram fulminados por uma espécie de raio que saía dos dois,
pois eram Akrã.
Algum tempo depois êsses dois Akrã, transformados em aráras,
estiveram sentados num galho de pau, quando passou um vayangá,
que reconheceu a sua verdadeira natureza.
Convidou-os a tomar banho em sua companhia, pois sabia de um
poço bonito e fundo. Logo os dois Akrã tomaram forma humana e
acompanharam o vayangá. Êste levou-os a um lugar no rio onde ha-
via, quase à tona d’água uma lage prêta, que dava à água um aspecto
de fundura insondável. Dando o exemplo, o vayangá saltou primeiro
n’água, de cabeça para baixo, mas transformou-se imediatamente
nm peixinho miúdo e nadou para o lado. Os dois Akrã quizeram imi-
tar o seu pulo, mas despedaçaram os crânios na pedra e morreram.
16. A VISITA AO CÉU (91)
a) Um homem estava doente de febre quando lhe entrou uma
saúva no ouvido e mordendo-o ficou segura pelas mandíbulas. O cor-
po do doente cobriu-se de feridas infectas. Os seus parentes sairam
para uma longa caçada, deixando-o só na aldeia. Um beija-flôr achou
o homem abandonado e vendo os seus sofrimentos, tirou-lhe a saúva
do ouvido com o bico. Uma môsca varejeira, porém, foi ao céu e
avisou aos urubús que acudiram em grande número. (92)
Os urubús deitaram o homem sôbre suas asas e o suspenderam
voando para o céu. Outros voavam debaixo dêle para apoiá-lo.
Quando chegaram ao céu deram-lhe licença para abrir os olhos; vlo,
então, a terra muito longe, lá em baixo; vio sua mulher e os outros,
que estavam acampados numa cabeceira. Os urubús vomitaram a
carniça que tinham no papo, oferecendo-a ao doente, dizendo que
era mingau de mandioca. Uma anta, que tinha comido frutas, trou-
xe-lhe os excrementos para comer, mas o gavião, finalmente o re-
galou com boa carne assada.
91 — Oliveira. Os Apinayé, 80.
b) Um Índio ílcoví coberto de ferida!) era todo o corpo, de maneira que nAo
podia SC levantar mais. Sua mulher enfadou-se dêle porque n&o podia mais
trazer caça. Quando os Índios resolveram mudar a aldeia .a IrmA do doente
chamou-o para vir com ela, mas tio respondeu que o dclxascm em paz. En-
tAo. abandonaram-no sòzlnho numa esteira, no melo da casa. Quando todos
Nimuendajú — Os Apinayé
139
Depo‘s o trovão (Nda-klág) mandou chamar o homem. Êste teve
multo mêdo de ir ter com êle, pois via que na sua casa constante-
mente os raios fuzilavam e que havia um ninho de maribondos por
cima da porta. Por fim, entrou. Nda-klág estava todo pintado de
prêto, como as nuvens da trovoada. Quando brandia a sua espada
de madeira, saía um raio, seguido por um trovão.
O homem passou muito tempo na casa dêle, onde foi bem tra-
tado. Quando se despediu, o trovão lhe fez presente de uma espada,
das que êle próprio usava. Os urubús levaram-no outra vez para a
terra, da mesma maneira como o tinham trazido.
Depois da mudança da aldeia, os seus parentes tinham, um dia
voltado à tapera para ver o que era feito dêle nada mais achando
senão muitos rastos de urubús. A mulher dêle já tinha arranjado
outro amante, que não quis abandonar, mesmo depois da volta do
marido. Enquanto o homem estava caçando, o amante veio ter com a
mulher, mas a espada do trovão que aquêle tinha pendurado ao lado
do jirau, despediu um raio, assustando os dois, que adiaram o en-
contro para a noite, no campo. Mas quando êles estavam se abra-
çando nas moitas, a espada mandou um lacrau que ferrou a ambos
nas partes sexuais. Quando o homem voltou da caçada, acusou a mu-
lher pübllcamente de adultério, dizendo que tinha quem a espionasse.
Êle abandonou a mulher infiel e quando ela foi ao mato com o aman-
te, mandou um enxâme de maribondos assaltar os dois.
17. Fogos Fátuos
Os fogos fátuos (atxén) são tidos como fogos de acampamento das
almas dos defuntos. O índio Kangró, da aldeia Bacaba, contou-me a
respeito dêles a seguinte aventura;
“Eu estava ainda fóra da aldeia, de volta da caça, já era noite.
Quando passei pela tapera da nossa aldeia velha, ví lá os fogos fátuos.
Aproximei-me e fiquei encandeado com o clarão. Então, notei que dois
vultos prêtos estavam sentados, de cabeça baixa, ao lado do caminho.
Parei pasmado. Parecia-me que eu mesmo já estava morto. Por fim
tomei ânimo e me dirigi a êles. Um dêles me respondeu que só tinha
vindo para preservar-me de cobras e outros perigos dos caminhos es-
tlnhara Ido embora, um urubú começou a girar por cima da aldeia, descen-
do, por ílm, no terreiro da casa onde Jazia o doente. Ouvindo os seus ge-
midos, o urubú aproxlmou-sc o perguntou no doente quais eram os seus so-
frimentos, Vendo que ndo tinha nllmentaç&o alguma, o urubú voou e foi
buscar carniça, que ofereceu ao doente; êste, porém, desculpou-se dizendo
que la comer mais tarde. O urubú voou de novo para chamar os compa-
nheiros, mas primeiro encarregou o gnvl&o cnracaral do cuidar do doente.
O gavlfto trouxe três ratos que o homem comeu. Na manha seguinte chegou
um enorme bando do virubús. Todo o terreiro estava coberto dêles. Espera-
ram a chegada do urubú rei. Êste. quando velo, consolou o doente, pois ha-
viam do tratar dêle. Mandou qtie o arrastassem na sua esteira para o ter-
reiro. onde os urubús limparam suas feridas. Depois mandou que o doente
fechasse os olhos c que só os abrisse quando lhe dessem ordem para Isso.
140
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
curos. Reconheci, então, a voz do meu finado avô e ainda conversa-
mos muito. Êle queria me levar para a habitação das almas dos de-
funtos e mandou que eu fosse na frente, seguindo êle, atrás com o
companheiro. Quando me virçi notei que os dois não caminhavam pelo
chão, mas nesta altura (um metro) , no ar. De repente, os cachorros na
aldeia Bacaba começaram a latir e imediatamente desapareceu tudo”.
Também, Matúk me contou que vio as almas dos defuntos de noi-
te ao redor dos seus fogos fátuos. Os vultos, como os própiros fogos,
estavam suspensos no ar, a certa altura do chão.
<
Nimuendajú — Os Apinayé
141
APENDICE II
TERMOS DE PARENTESCO
id-krã-tum avô materno
tio materno
filho do tio materno
marido da tia paterna
túi avó materna
avó paterna
tia paterna
mulher do tio materno
túi-re filha do tio materno
gêd-ti avô paterno
id-nã (dyili-re) mãe
tia materna
mulher do tio paterno
madrasta
id-pámã (txú) pai
tio paterno
marido da tia materna
padrasto
i-tõ irmão
filho da tia materna (diz o primo)
filho do tio paterno (diz o primo)
i-tõdy irmã
filha da tia materna (diz a prima)
filha do tio paterno (diz a prima)
id-kambí filho da tia materna (diz a prima)
filho do tio paterno (diz a prima)
id-pigukwá filha da tia materna (diz o primo)
filha do tio paterno (diz o primo)
i-tamtxwú filhos da tia paterna (diz a prima)
filhos do irmão (diz o tio)
netos (dizem os avôs paternos)
filhos do irmão da mulher
id-krã-dúw ' filhos da tia paterna (diz o primo)
ou i-tamtxwú filhos da irmã (diz o tio)
netos (dizem os avôs maternos)
cm 1
SciELO
10 11 12 13 14 15
142
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
id-kra filhos
filhos da irmã (diz a tia)
filhos do irmão (diz a tia)
filhos da irmã da mulher
filhos do irmão do marido
enteados
pomren-ged pai do marido
pomren-gêdy mãe do marido
tu’káya pai da mulher
papan-gêdy mãe da mulher
id-biyén marido
Id-prõ mulher
tu’ká irmão do marido
genro (diz o sogro)
tu’ka-tí marido da irmã (diz a cunhada)
genro (diz a sogra)
pomré irmã do marido
pomren-gêd pai do marido
pomren-gêdy mãe do marido
id-mbáe irmão da mulher
papány irmã da mulher '
papan-ndí mulher do irmão (diz o cunhado)
id-pienyõ marido da irmã (diz o cunhado)
txwai-ti mulher do irmão (diz a cunhada)
nora
A filha do tio paterno e a prima dela, logo que ambas tenham
filhos, não se tratam mais de 1-tõdy, substituindo esse termo por
circumlocuções tecnonímlcas.
Segundo declarações expressas dos Apinayé, a mulher do tio
paterno tem o título Id-nã mãe, tia materna, não porque os graus
de parentesco fossem idênticos, mas unicamente com relação ao ma-
rido dela para cujo, título Id-pámã, idnã é a forma feminina com-
plementar.
Da mesma maneira “marido da tia materna”, e outros.
cm
SciELO
10 11 12 13 14 15 16
Nimtjendajú — Os Apinayé
143
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Indlaner. Anthropos. XVI-XVII. Mõdllng. 1912-22.
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Nimuendajú — Os Apinayé
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d) The Social Structure of the Ramkokamekra (Canella).
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a) Memória sôbre as nações gentias que presentemente ha-
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b) Roteiro da viagem que fez o capitão às fronteiras
da capitania do Maranhão e de Goyaz (1815). Rev.
Inst. Hist. Geog. X. Rio. (1848), 2. ed. 1870.
c) Descripção do território de Pastos Bons, nos sertões do
Maranhão. (1819). Rev. Inst. Hist. XII. Rio (1849). 2.
ed. 1874.
Roteiro do Maranhão a Goyaz pela Capitania do Piauhy. Rev. Inst.
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PAUL LE COINTE
Na data de 6 de janeiro de 1956 faleceu na cidade de Belém o
Professor Paul Georges Aiiné Le Cointe, aos 85 anos de idade. O ex-
tinto era profundo conhecedor da natureza amazônica, dedicando a
maior parte de sua vida ao estudo dos recursos naturais desta região.
Nascido a 24 de setembro de 1870, em Tournon, França, formou-se
pela Academia de Nancy em altas matemáticas e química. Designado
a participar de uma expedição de cientistas do Instituto de Química
de Nancy à Amazônia, aportou em Belém do Pará a 26 de dezem-
bro de 1891, acabando por radicar-se definitivamente a esta região.
Exerceu, interinamente, a atividade de agrimensor, chefiando os
serviços de abertura de estradas (Óbidos- Alehquer e Manaus-Rio
Branco) e de demarcação de próprios particulares.
Após exercer, por diversas vezes, a função de dirigente de em-
preendimentos comerciais, foi, cm 1913, convocado pela Associação
Comercial do Pará para organizar e dirigir o Museu Comercial, a
frente do qual permaneceu até 1931, quando foi aposentado.
Recebeu, ainda em vida, dignificantes honrarias, sendo membro
de sociedades científicas do país e do estrangeiro. Foi condecorado
com 0 oficlalato da Legião de Honra da França e a Ordem da Corôa
da Bélgica, recebendo em 1953 a cendecoração de Oficial da Ordem
Nacional do Cruzeiro do Sul.
Da obra que deixou publicada constam trabalhos fundamentais
para o conhecimento da Amazônia, de consulta permanente de todos
aqueles que se dedicam as estudo da natureza, geografia e recursos
econômicos do vale amazônico. Esta bibliografia encontra-se esparsa,
tendo sido assinaladas em um levantamento preliminar as seguintes
obras:
1903 La forêt amazonienne — Buli. Soc. Géogr. Commercielle
— 25:382 - 392.
Le Bas Amazone — Ann. de Géographie 12 (61) : 54-66,
5 est. e 1 mapa anexo esc. 1:500.000.
1904 Développemont économique de TAmazonle — Buli.
Soc. Géog. Commerc. 26:472 - 488.
148
Bol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
1906 — Carte du Cours de TAmazone depuis TOcéan jusqu’à
Manaos et de la Guyanne Brésilienne. Esc. 1:200.000.
Lib. A. Colin, Paris.
— Le climat amazonien et plus spécialment le climat du
bas Amazone — Ann. de Géogr. 15 (84) : 449-462.
— Exploration et culture des arbres à caouthouc en Ama-
mozonle — Buli. Soc. Géogr. Commerc. 28:625-652.
1907 — Notice sur la carte du cours de TAmazone et de la
Guyane Brésilienne depuis TOcéan jusqu’à Manaos —
Ann. de Géogr. 16 (85) : 159 - 173, 1 mapa anexo.
— Limites do Município de Óbidos (Estudo geográfico).
1908 — La crue de TAmazone en 1908 — An. Geogr. 17 (94) :
366 - 367.
1918 — A valorização da borracha e o processo de coagulação
“Cerqueira Pinto”, Belém, Pará.
— A indústria pastoril na Amazônia, Imp. Oficial do Est.
do Pará, 8 pg.
A cultura do cacau na Amazônia.
1919
1922
1928
1931
1935
- L’Amazonie Brésilienne, 2 tomos. Tomo I, 528 pg.;
Tomo II, 491 pg., Ed. A. Challamel, Paris.
- Apontamentos para a exploração da balata e da juta
da Amazônia, Belém - Pará.
- Apontamentos sôbre as sementes oleaginosas, os bál-
samos e as resinas da floresta amazônica. 3.®' ed., 41
pg., Belém - Pará.
- Principais madeiras paraenses.
- Apontamentos sôbre as sementes oleaginosas, etc.,
4.® ed.. 60 pgs., Dep. Nac. Estatística, Rio de Janeiro.
- As pedras verdes da Amazônia — Rev. Inst. Hist. Geogr.
do Pará, 7.
- As possibilidades econômicas do Pará — ‘‘Diário de
Pernambuco”, 13-4-1933. Recife.
- Cultura do Cacau na Amazônia, 2.“ ed., 35 pgs. Dlr.
Est. da Prod., Min. Agric., Rio de Janeiro.
— A Amazônia Brasileira II — Árvores e plantas têxteis
(Indígenas e aclimadas), 2 vol. 486 pgs. — Liv. Classica,
Belém - Pará.
- A Amazônia Bra.slleira III — Arvores e plantas úteis.
486 pgs., Belém - Pará.
- Les crues annuelles de TAmazono et les recentes modl-
ficatlons de Icur réglme. — Ann.. Géograph. 252.
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Nimuendajú — Os Apinayé
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1939 — Apontamentos sôbre as sementes oleaginosas, etc. —
õ.'' ed., 57 pgs. Publ. Min. Trab. Ind. Com.
'l945 — O Estado do Pará, 303 pgs. llust. Comp. Ed. Nacional.
São Paulo.
1947 — Amazônia Brasileira III — Árvores e plantas úteis.
2 .^ ed., 506 pgs. Brasiliana vol. 251, Comp. Ed. Na-
cional.
1948 — A valorização da Amazônia — Boi. Secr. Fomento
Agrlc. do Pará. 6-7; 81 - 89.
1949 — As grandes enchentes do Amazonas, Boi. Mus. Paraen-
se Emílio Goeldl, Tomo X, pg, 175 - 184.
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Eol. Mus. Goeldi — Tomo XII — 1956
Com o presente volume fica encerrada a série do BOLETIM DO
MUSEU PARAENSE “EMÍLIO GCELDI”, na forma em que vinha sen-
do apresentada.
A partir de 1957, em NOVA SÉRIE, o BOLETIM DO MUSEU PA-
RAENSE “EMÍLIO GCELDI” será publicado cm quatro séries indepen-
dentes, respectivamente de: ANTROPOLOGIA, BOTÂNICA, GEOLO-
GIA e ZOOLOGIA, em fascículos individuais, editados na ordem de
sua entrega para publicação.
This volume ends the series of BOLETIM DO MUSEU PARAENSE
“EMÍLIO GCELDI” as it has been since presented.
From 1957, on, it will appear as BOLETIM DO MUSEU PARAEN-
SE “EMÍLIO GCELDI” — NOVA SERIE (New series) with four inde-
pendent series: ANTHROPOLOGY, BOTANY, GEOLOGY and ZOO-
LOGY numbered as they are presented for publication.
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