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PUBLICADA
POR
H. von IRERING, Dr. med. et phil.
Director do Museu Paulista, socio honorario da Sociedade anthropologica italiana,
da Academia de sciencias em Cordoba,
da Sociedade geographica de Bremen, da Sociedade anthropologica de Berlim, da Academia
de sciencias em Philadelphia, da Sociedade dos Naturalistas em Moscow,
da Sociedade entomologica
de Berlim, do Museu etnologico em Leipzig e da Sociedade scientifica do Chile.
NA COTE
6” 06 “O
S. PAULO
Typ.a Vapor de Hennies Irmãos, rua Caixa d'Agua, 1 C
1895.
A PROCLAMAÇÃO DA INDEPENDENCIA DO BRASIL
PELO
Barão de Ramalho.”
Corria o anno de 1822, quando o Principe Regente
D. Pedro, accedendo ao conselho de seos Ministros, deli-
berou vir á esta capital para restabelecer a ordem pu-
blica perturbada pelos movimentos sediciosos de 23 de
Maio e 19 de Julho, deixando a Princesa Real presidindo
os Conselhos d’Estado e de Ministros.
Trazendo comsigo, por seo ministro itenerante, Luiz
de Saldanha da Gama, depois Marquez de Taubaté, e
sua Guarda d'Honra, e dous criados de sua casa, partio
da corte no dia 14 de Agosto; chegou a Freguezia da
Penha de França, legoa e meia distante da cidade, á 24
do mesmo mez, e d'ahi expedio um Decreto dissolvendo
o Governo Provisorio e ordenando que sahissem da ca-
pital os principaes autores da sedição. Fez no dia se-
œuinte a sua entrada solemne, que foi explendida : o
povo formando alas, desde a Penha até a cidade. O re-
cebeo com grande applauso e contentamento. A sua
estada na capital foi assignalada com varios actos ad-
ministrativos: além de outras providencias, ä bem da
ordem publica, chamou a Guarnição da capital os Mili-
cianos de Iti e de Sorocaba que, por seo patriotismo,
na emerguencia de 23 de Maio, inspiravão plena confiança-
Restabelecida a ordem, encarregando do expediente
ao Ministro, no dia 5 de Setembro, dirigio-se 4 praca de
(1) Reproduzido do Relatorio do Presidente da Commissão do
Monumento do Ypiranga, lido na sessão de 7 de Setembro de 1885.
S. Paulo 1885.
234/03
24 tie ae FOR
AVIS
Santos para examinar as fortificações, ver a casa em
que nascéra o Patriarcha José Bonifacio d'Andrade e Silva
e conhecer as outras pessoas dessa familia illustre.
Demorou-se alli um só dia e voltou á Capital na
madrugada de 7 de Setembro. No lugar denominado —
Meninos — ordenou que sua Guarda o procedesse e o
esperasse ds portas da cidade, deixando apenas comsigio
os Cidadãos Joaquim Maria da Gama Freitas Bercó, João
Carlota, João de Carvalho e Francisco Gomes da Silva.
A Guarda, cumprindo as ordens recebidas, segue e faz
alto às margens do Ypiranga, em uma casa pequena,
situada ao lado esquerdo do corrego, propriedade do Al-
feres Joaquim Antonio Mariano.
No mesmo dia (7 de Setembro) chegarão á Capital
o Major Antonio Ramos Cordeiro, Guarda d' Honra e
Paulo Bregaro, official da Secretaria do supremo Tribu-
nal Militar, trazendo ao Principe novas da córte, e sendo:
informados de que Sua Alteza estava em Santos, partem
sem demora. Nas margens do Ypiranga, sabendo que a
Guarda d’Honra o espera á todo momento, seguem a
toda brida para encontral-o. Pouco terreno havião ga-
nho, assoma o Principe ao alto da collina do Ypiranga.
Vendo Elle um facto tão extraordinario, pára e espera
o exito.
Approximão-se os mensageiros (erão 4 horas da tarde)
e mal se apeião beisão reverentes a dextra ao Principe:
entregão-lhe meia carta da Serenissima Princeza, e um
officio de José Bonifacio. A carta e o officio contem um
aviso dos Decretos tyrannicos das Córtes Portuguezas,
chamando o Principe ä Portugal para viajar incognito
e declarando nullas e irritas as medidas por elle toma-
das no Governo do Brazil. Comprehendeo o principe o
alcance destes Decretos e exclamou: « Não cessão de ca-
var a nossa ruina!» Então desembainha a espada e se-
gue ä todo galope com direcção à sua Guarda d@’ Honra
e mais pessoas de sua comitiva que adiante o esperavão,
proclamando resolutamente — Jndependencia ou morte!
LES: ont
Em breve a sentinella o avista e brada, ás armas! Em-
«quanto apressados correm as Guardas á seus postos, chega.
o Principe, suspende o corcel, e assim lhes falla: «Ca-
marados! as Córtes de Portugal querem mesmo escravi-
sar o Brasil; cumpre declarar já sua Independencia...
Laços fora.» Todos arrancäo o laço Portuguez que tra-
zem ao braço esquerdo, e muitos (Guardas o dilaceram
à fio de espada. Continuou D. Pedro :
«D'ora avante traremos todos outro laço de fitas
verdes e amarellas; e estas serão as cores Brasileiras. »
A Guarda d'Honra se põe ao largo debaixo de forma e
© Principe, elevando a espada, proclamou solemnemente:
Independencia ou morte! À guarda toda repete enthu-
siasticamente, por longo tempo, as palavras do Principe:
palavras sublimes que elevaram o Brasil á cathegoria
de nação livre e independente, e o Principe á gloria de
ser o fundador d'um vasto Imperio e d’uma nova dynas-
tia. Sem mais detença dirige-se o Principe a Capital. 1)
Pela estrada e ruas da cidade que passavão, vierão todos
com o mesmo enthusiasmo, repetindo incessantemente,
em altas vozes — Independencia ou morte —.
Ao chegar o Principe na Capital, espalha-se com a
velocidade do raio, a noticia de tão extraordinario acon-
tecimento
A’ noute illumina-se espontancamente a cidade toda;
e o povo, com alegria nunca vista, precorre as ruas le-
‘2) A Guarda d'Honra que accompanhava o Principe em
sua volta de Santos a S. Paulo compunha-se dos seguintes
cidadãos : Coronel Antonio Leite Pereira da Gama Lobo, pri-
meiro Commandante; Capitão Manoel Marcondes d’Oliveira Mello
segundo dito ; Sargente Môr Domingos Marcondes de Andrade ;
“Tenente Francisco Bueno Garcia Leme e as guardas.
Tambem testemunharão o acto da acclamação da Indepen-
dencia o Guarda-Roupa João Maria da Gama Freitas Berquó,
depois Marquez de Cantagallo; o ajudante Francisco Gomes
da Silva; o Padre Melchior Pinheiro; o Brigadeiro Manoel
Rodrigues Jordão e o official da Secretaria do Supremo Tribu-
nal Militar Paulo Bregaro.
RE ee
vantando estrondosas vivas á liberdade da patria e ao
seu libertador. Para melhor mauifestar-se o jubilo pu-
blico, a Companhia Zacheli annuncia abrir o theatro e
repetir O «Convidado de Pedra». Foi extraordinario o con
curso de espectadores Brasileiros e Portuguezes, querendo
todos com o Principe tomar parte na primeira festa da
Independencia. Em um dos camarotes do theatro (o do
nº 11) estava reunida essa mocidade talentosa, cheia de
vida e de patriotismo que, atrahida pelas esperanças do
futuro, seguia a inspirações dos Andradas; e ahi elabo-
ravão a ideia que depois se revelou. Era grande a ancie-
dade para ver o Principe, quando Elle, em grande gala,
mostra-se a frente ao camarote do Governo com seus
gloriosos companheiros do Ypiranga, e Já todos trazendo
ao braço esquerdo o laço Nacional. Causon a presença
do Principe os mais vivos transportes de contentamento
e de alegria. O Brigadeiro Martiniano, o Dr. Chicorro,
Secretario do Governo, e o Capitão Thomaz d'Aquino e
Castro, repetem poesias sob o mote — Independencia ou
morte! — O padre Ildefonso Xavier Ferreira, por unani-
me accordo, tomando na plateia uma posição conveniente
a ser bem ouvido, proclama por tres vezes em alta voz
e bem intelligivel — Viva o primeiro Rei do Brazil! O
Principe fez signal de acquiescencia e o povo applaudi
— O com estrondo, repetindo o mesmo viva durante todo
o espectaculo da noite. A’ todo o instante, um coro
unisono entoa este estrebilho do hymno Portuguez, tão
admiravelmente aproveitado a occasiao, como a traduc-
ção fiel do brado levantado no Ypiranga.
Por Vós, pela patria
O sangue daremos ;
Por gloria só temos:
Viver ou morrer.
Assim na capital de S. Paulo, os Paulistas festejavão
a liberdade e a Independencia da Patria, quando as ou-
tras Provincias ainda desconhecião que formavão parte
Rene
dum Estado livre e independente, e que o Brazil já
não era uma colonia Portugueza.
No dia seguinte, oito de Setembro, ainda os Pauli-
stas tiverão novo assumpto de regosijo, lendo a procla-
mação que o Principe publicára, sendo affixada em to-
dos os lugares publicos da cidade :
« Honrados Paulistanos! O amor que eu consagro
ao Brazil em geral e a vossa Provincia em particular,
por ser aquella que, perante mim e o mundo inteiro fez
conhecer, primeiro que todos, o systema machiavelico,
desorganisador e facioso das Córtes de Lisbôa, Me obrigou
à vir entre vós fazer consolidar a fraternal união e tran-
quilidade que vacillava, e era ameaçada por desorgani-
sadores, que em breve conhecereis, fechada que seja a
devassa, 4 que mandei proceder. »
«Quando eu mais que contente estava junto de vós
chegão noticias que de Lisbôa os traidores da Nação, os
infames deputados, pretendem fazer atacar ao Brasil e
tirar-lhe do seu seio seu defensor : cumpre-me, como tal,
tomar todas as medidas que minha imaginação me sug-
gerir; e para que estas sejão tomadas com aquella ma-
dureza que, em taes crises se sequer sou obrigado, para
servir ao meu idolo, o Brasil, ä separar-me de vós (o que
muito sinto) indo para o Rio de Janeiro ouvir meus
Conselheiros e providenciar sobre negocios de tão alta
monta. »
«Eu vos asseguro que cousa nenhuma me poderia
ser mais sensivel que o golpe que minha alma soffre,
separando-me de meus amigos Paulistanos, 4 quem o
Brasil e Eu devemos os bons que gosamos e esperamos
gosar de uma Constituição liberal e judiciosa. Agora,
Paulistanos, só vos resta conservardes união entre vos,
não só por ser esse o dever de todos os bons Brasileiros,
mas tambem porque a nossa Patria está ameaçada de
soffrer uma guerra, que não só nos ha-de ser feita pelas
tropas que de Portugal forem mandados, mas igualmente
or oué
pelos seus servis partidarios e vis emissarios, que entre
nós existem atraiçoando-nos.
Quando as autoridades vos não administrarem
aquella justiça imparcial, que. d'elles deve ser insepa-
ravel, representae-me que eu providenciarei. A divisa do
Brasil deve ser Independencia ou morte. Sabei que, quan-
do trato da causa publica, não tenho amigos e validos
em occasião alguma. »
« Existi tranquilos, acautelai-vos dos. facciosos
sicarios das Córtes de Lisbôa e contai em toda a occa-
sido com o vosso Defensor Perpetuo. »
Paço, em 8 de Setembro de 1822.
— Principe Regente.»
Na segunda-feira, 9 de Setembro, o Principe entre-
gou as redeas do Governo á um triumvirato, de que
fizerão parte o Bispo Diocesano, D. Matheos d’ Abreu
Pereira; o Ouvidor da Comarca, Dr. José Correia Pacheco
e o Commandante da Praça de Santos, Marechal Candido
Xavier d'Almeida e Souza.
Dadas estas e outras providencias indispensaveis à
ordem publica, retirou-se o Principe para a córte na ma-
drugada do dia 10 de Setembro.
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DO
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pl,
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Historia do Monumento do Ypiranga
E DO
Museu Paulista
PELO
Ie MAVILLE EE LING:
Näo ha ponto mais importante na historia do Estado
de S. Paulo, do que a collina do Ypiranga. Aqui pulsou
a vida paulista desde mais de tres seculos. Foi desta
collina que o primeiro donatario da capitania de S. Vin-
cente, que o legendario e heroico Martim Afonso de
Souza, no anno de 1531 lançou a primeira vista de olho
sobre a nascente capital deste Estado, representado na-
quelles dias pela povoação de Piratininga. na qual o
celebre chefe dos Goyanás (Goyanazes), Tebiriça reinou
como alliado e amigo dos portuguezes, e foi esta collina,
sobre a qual passa a antiga rua de Santos a S.
Paulo, sempre no meio dos acontecimentos importan-
tes que decidirão os destinos da capitania, da provincia,
do Estado de S. Paulo, até que veiu o dia glorioso, o
dia 7 de Setembre de 1822 em que nasceu a independen-
cia do Brazil, que creou para sempre a nacionalidade
brazileira.
E' facil a entender que já datam de tempos remotos
os ensaios para vêr construido nesta collina de Ypiranga
um monumento commemorando o facto historico.
Temos no Archivo do Museo os differentes relatorios
da Commissão do Ypiranga e será conveniente tirar do
primeiro, redigido pelo conselheiro Barão de Ramalho,
as datas de maior interesse.
RUE
O Presidente da Provincia Lucas Antonio Monteiro
de Barros, depois visconde de Congonhas do Campo, por
acto de 27 de Setembro de 1824 tentou realizar, ou ao
menos dar começo a um Monumento, abrindo em toda a
provincia uma contribuição voluntaria com applicação
especial a essa grande obra. Sem referirmos aos diffe-
rentes phases seguintes do projecto apenas mencionamos,
que afinal foi installado 4 15 de Agosto de 1875 a Com-
missão do Monumento.
Diz o relatorio (pag. 27) que a Commissão sempre
tive a ideia de ser o Monumento um estabelecimento de
educação, deliberando á 15 de Dezembro de 1880 que o
Monumento do Ypiranga fosse um edificio destinado á
instrucção primaria. Correu á 26 de Fevereiro de 1881 a
primeira loteria concedida ao Monumento de Ypiranga
por lei provincial, dando como resultado a somma de
mil contos. A 3 de Abril aprovou o Presidente do Estado
a planta levantada pelo Architecto Thommaso Bezzi.
Em Setembro de 1884 foi rescindido o contracto com
o Architecto Bezzi, sendo feito outro, pagando-se-lhe por
todo o tempo que estivesse empregado além dos quatro
annos de que reza o mesmo contracto a quantia de
1:666$666 Rs. mensaes até a conclusão das obras.
Sendo acceito das propostas offerecidas por varios
empreteiros a do architecto Luiz Pucci fez-se a cerimonia
da inauguração dos trabalhos do edificio projectado a
25 de Março de 1885. Por lei da Assemblea Provincial
de 23 de Março de 1885 foi o Monumento de Ypiranga des-
tinado a um estabelecimento scientifico, comprehendendo
o ensino de todas as disciplinas designadas sob o titulo
de sciencias physicas e mathemathicas e sciencias na-
turaes.
A Commissão modificou o plano original do Archi-
tecto Bezzi, conforme o qual ainda deviam ser levantadas
duas azas lateraes do Monumento dando a figura de
um E e officiando elle que fizesse reducções na planta
já approvada e apresentasse um orçamento das obras à
E ada.
‘
RG à M a
não exceder de mil contos. O relatorio lido pelo Presi-
dente da Commissão do Monumento do Ypiranga, Barão
de Ramalho, na sessão de 7 de Setembro de 1889 infor-
mou que muito adeantados estão as obras do Monumento,
faltando poucos trabalhos para a conclusão do edificio.
Foi considerado findo a construeção do Monumento em
1890, colocando o Architecto no vestibulo uma chapa de
marmore dizendo :
Ne aee Lo)
O ENGENHEIRO
TOMMASO GAUDENZIO BEZZI
Projecto 1882
Construccäo 1885 - 1890
chapa esta que em 1895 pelo Governo foi substituida
por outra maior, dizendo:
Este monumento commemora
a independencia do Brazil, proclamada a
7 de Setembro de 1822
Parece pois que no anno de 1890 0 Monumento foi con-
siderado findo, sendo porem certo, que o serviço ficou
interrompido antes da conclusão das obras. Assim, como
parece por falta de meios, parou tudo, até que no anno
de 1892 o Congresso do Estado occupou-se de novo da
questão, declarando por lei N. 76 de 25 de Agosto de 1892
o Monumento de Ypiranga e suas dependencias proprio
do Estado. Nu anno seguinte esta lei foi executada, sendo
declarado findo o contracto celebrado com o architecto
Bezzi, e sendo administrado o Monumento pelo Director
geral do Thesouro, coronel Pedro Goncalves Dente.
De 1890 até 18940 Monumento ficou desoccupado e sem
destino. No anno de 1893 o congresso votou uma lei,
destinando o Monumento para o Museu do Estado e para
Pantheon, e mais uma lei reorganisando o Museu. A pri-
meira é a lei N.º 192 de 26 de Agosto, a segunda a lei
N.º 200 de 29 de Agosto de 1893.
Em principio de 1894 estas duas leis importantes
forão executadas. A 15 de Janeiro foi nomeado o 27.7.
DES (o es
ron Jhering director do Museu, a 3 de Fevereiro foi a
este entregue o Monumento pelo director geral do The-
souro, coronel Pedro Goncalves Dantes, e na mesma data
principiou a mudança do Museu, terminado a li de Maio.
Recomecaräo então os trabalhos com o Monumento.
Ficou collocada a claraboia, assolharam-se dous quartos
do andar terreo; assentaram-se os pararaios; a casa dos
serventes levou grandes reparos; construiu-se uma secreta
e cercou se o terreno situado atraz do Monumento. No
anno corrente fez-se muito pela conservação do Monu-
mento, especialmente concertando os telhados que muito
haviam soffrido. Foi o Momento abastecido de agua en-
canada, vindo de Cassunung'a, sendo collocadas duas caixas
d’agua de deposito em baixo do telhado. Acabou-se a
escada grande e as rampas da entrada, collocou-se va-
sos ornamentaes, tapetes etc. no vestibulo e concertou-se
o aterro. muito estragado pelas aguas pluviaes, sendo
as rampas do aterro plantadas de gramma, e construidas
sargetas para o esgotto das aguas pluviaes.
Como se vê pelo balancete communicado pelo Dr. João
Alvaro Rubião jun., D. Secretario da Fazenda, no seu rela-
torio apresentado ao Presidente Dr. Bernardino de Campos
em 3] de Maio de 1894 pag. 213 a despeza com a cons-
truccäo do monumento inciusive o modelo em gesso,
quadro historico e parte da estrada da Gloria montou a
1.715:124$261 Rs.
Para demonstrar a distribuição das localidades no
Monumento serve o mappa junto PI II, dando a estampa
Pl. T o aspecto da fachada do Monumento.
Quanto a historia do Museu, dirigi-me pedindo 1n-
formações ao Dr. Orville 4. Derby D. Chefe da Commis-
são Geographica que tinha a delicadeza de mandar-me 0
documento que no seguinte publicarer.
ted! oe
Ec AN [3 Res
co“ MI ES
GEOGRAPHICA E GEOLOGICA
{ de S. PAULO |
Cidadão
S. Paulo, 29 de Agosto de 1895
Em resposta ao vosso officio de 31 de Ju-
lho, pedindo informações sobre o Museu Pau-
lista, tenho a dizer o seguinte:
Tendo em fins de 1890 o Sr. Conselheiro
Mayrink adquirido o predio situado no Largo
Municipal construido pelo CEL Sertorio para
sua residencia e para accomodar a collecção
que tinha accumulada e que era geralmente
conhecida pelo nome de « Museu Sertcrio, » es-
tando a dita colleeção incluida na compra do
Conselheiro Mayrink, esta foi offerecida em
seu nome ao Governo do Estado em 23 de
Dezembro de 1890.
Retirando-se o CEL Sertorio da casa, esta
ficou fechada, e durante alguns mezes 0 Go-
verzo do Estado nenhuma providencia tomou
sobre a dadiva que tinha recebido. Finalmente
a instancias do Sr. Alberto Loferen, botanico
“desta Commissão, que tinha collaborado na
formação do « Museu Sertorio» e que se in-
teressava para que não fosse deixado assim
no abandono este cabedal scientifico que podia
servir para nucleo de um museu digno do
Estado de S. Paulo, o Prezidente Dr. Americo
Braziliense em 7 de Abril de 1891 providen-
ciou a respeito encarregando o Sr. Léferen
da sua direcção interina, e destinando uma
CAE au
pequena verba para a sua conservação. Foram
nomendos naturalistas ajudantes os cidadãos
Guilherme Friedenreich e Alexandre Hummel
(depois substituido por Gustavo Kônigswald),
e zelador, o cidadão Roberto de Almeida.
Na lei do orçamento votada em 1892 para
o exercicio de 1893 0 Museu foi annexado à
Commissão Geographica e Geologica, e em
Janeiro deste ultimo anno cessou a sua admi-
nistração provisoria, ficando o seu pessoal en-
corporado com o da Commissão Geographica e
Geologica.
No emtanto tinha o (Governo procurado
entender-se com o proprietario do predio occu-
pado pelo Museu a fim de aluga-lo por conta
do Estado, sem sequer obter resposta; instan-
do, pelo contrario, os representantes do pro-
prietario nesta Cidade para a desoccupacao
immediata do predio. Não se encontrando na
occasiäo outro predio para alugar que pudesse
servir para a installação do Museu, as collec-
ções foram em principios de Dezembro de 1892
removidas para uma casa no Largo do Palacio,
o qual o Governo desappropriara para ser de-
molida. A final em Marco de 1893 encontrou
o Governo e alugou, à Rua da Consolação n.
91, um predio em condições de servir para 0
duplo fim de escriptorio da Commissão e para
o Museu; e assim as collecções foram instal-
ladas no referido predio.
Tendo acceitado a responsabilidade do Mu-
seu com grande reluctancia e em obediencia
ä lei que fora votada sem eu ser consultado e
sem fazer provisão para o desenvolvimento
conveniente do Museu, esbocei um plano para
o coordenar e desenvolver modestamente à
sombra da Commissão Geographica e Geolo-
TA
É
-
A Ie a
gica, que tinha a seu cargo diversos servicos
que podiam contribuir para varias secções de
um Museu de Historia Natural, notadamente
as de Geologia, Mineralogia e Botanica. Sen-
do-me offerecida a cooperação de um zoologista
de grande nomeada, aproveitei o ensejo para
completar o programma de um verdadeiro
museu propondo ao governo a creação de uma
secção zoologica nesta Commissão — proposta
que foi acceita, sendo-vos confiada a direcção
da nova seccão que foi iniciada em Maio de
1893.
Logo depois o Congresso do Estado deter-
minou crear no monumento do Ypiranga um
museu independente, e no principio do exer-
cicio de 1894 cessou a ligação provisoria do
Museu com a Commissão Geographica e Geo-
logica, passando para o novo estabelecimento
o pessoal da secção zoologica desta.
Saúde e fraternidade.
Ao cidadão Dr. Hermann von Iherine, M.
D. Director do «Museu Paulista.»
ORVILLE À. DERBY
Quanto ao serviço do Museu no anno de 1894 consta
pelo relatorio que apresentei ao Secretario do Interior
Dr. Cesario Motta Junior e publicado em 1895.
No anno corrente continuou o serviço da installação
do Museu, sendo os armarios todos construidos no Monu-
mento mesmo por quatro marceneiros. O mais constara
pelo relatorio que será apresentado ao fim do anno. Basta
aqui dizer, que 4 7 de Setembro foi inaugurado o Museu,
solemnidade sobre a qual aceito a descripção seguinte,
tirado da imprensa da cer especialmente do «Correio
Paulistano».
RAR ES
MUSEU DO ESTADO
Realisou-se a 7 de Setembro de 1895 a inauguração
do Museu Paulista, no monumento de Ypiranga, com
grande concorrencia de convidados e representação de to-
das as classes.
Os bondes a vapor, que conduziram os convidados
áquelle logar legendario, partiram ä uma e meia da tarde,
chegando ao Ypiranga um quarto d'ora depois, approxi-
madamente. Alli já se achava o Dr. Bernardino de Cam-
pos, presidente do Estado.
Entrando na sala destinada á solemnidade da sessão
da inauguração, o Dr. Bernardino de Campos, occupando
a presidencia, abriu a sessão com um discurso, que foi
vivamente applaudido, sobre a data immorredoura de 7
de Setembro e sobre a escolha que della havia feito para
a inauguração do Museu Paulista. Ao seu lado achavam-se
o Dr. Cerqueira Cesar, vice-presidente do Estado, Dr. Al-
fredo Pujol, D. secretario do Interior, Dr. J. A. Rubiao jun.
D. secretario da fazenda e Dr. H. von Ihering, director
da instituição que se inaugurava.
O aspecto da sala, nesse momento, era simplesmente
brilhante. Ornamentavam-lhe as paredes, num destaque
vigoroso, o quadro da «Independencia», do pintor brazi-
leiro Pedro Americo; o «Paulista», de Almeida Junior;
«Manhan de inverno», de Antonio Parreiras; telas de
Pedro Alexandrino e de outros pintores brazileiros. Viam-se
alli, no deslumbrante recinto, os Srs. Drs. Bernardino de
Campos e Cerqueira Cesar, presidente e vice-presidente
do Estado; Alfredo Pujol, secretario do interior, Alvares
Rubião Junior, secretario da fazenda, Antonio Cintra,
Carlos Teixeira de Carvalho, Antonio Mercado e Frederico
Abranches, senadores estadaes, José Pereira de (Queiroz,
Estevam Marcolino e Eduardo Garcia de Oliveira, depu-
tados estadaes, coronel José Antonio Pereira de Noronha
e Silva, commandante do 4.º districto militar, Jorge Ritt,
consul francez, Dr. João Neave, consul da Belgica, Alfredo
AA ats
Ancosano, vice-consul da Italia, tenente Pedro Arbues,
ajudante de ordens do dr. presidente do Estado, William
Speers, superintendente da estrada de ferro Ingleza, Bo-
nilha Junior, official de gabinete do secretario do inte-
rior, Leopoldo do Nascimento, chefe da estação do Tele-
grapho Nacional, Tancredo do Amaral, official de gabinete
do secretario da agricultura, drs. Valois de Castro e José
Vicente de Azevedo, lentes do Gymnasio do Estado e do
Curso Annexo, Mondim Pestana, director interino da
secretaria do interior, Buarque Hollanda, director da
pharmacia do Estado, dr. Alfredo de Campos Salles, major
João Baptista de Azevedo Marques, capitão Lamagnere
Teixeira e tenente Marcondes de Brito, officiaes do exer-
cito, Duarte Rodrigues, 1º secretario da Associação Com-
mercial, Victorino Carmilo, capitão Pelopidas Ramos e
tenente Salles Guerra, officiaes da guarda nacional, dr.
Antonio Piza, director da repartição de estatistica e
archivo do Estado, dr. Pedro Vicente, presidente da ca-
mara municipal, Joaquim Piza, vereador, dr. Clementino
de Souza e Castro, juiz de direito da capital, dr. Soter de
Faria, algumas senhoras, os representantes da imprensa,
Antonio de Oliveira, d’ O Estado de São Paulo, Apparicio
Sampaio, d’ O Commercio de São Paulo, dr. Leopoldo de
Freitas, d'O Municipio, Amadeus Lisboa, do Diario Po-
pular, Cantidio Bretas, d'A Platéa, Celso Pasini, d’ A
Tribuna Italiana, Luiz Silveira, desta folha, e outras
pessoas gradas, cujos nomes não pudemos obter:
Os convidados foram recebidos na entrada do Muséu,
pelo dr. Ihering, director, e por todo o pessoal daquelle
estabelecimento.
A 1 hora teve logar, no salão nobre do monumento,
a sessão inaugural, que foi presidida pelo dr. Bernardino
de Campos, secretariado pelos drs. Cerqueira Cesar, Al-
fredo Pujol e Alvares Rubião.
O dr. Bernardino proferiu uma breve allocução allu-
siva ao acto solemne e abriu a sessão dando a palavra ao
dr. Ihering, que leu o discurso que abaixo publicamos :
RE OL
«Sr. Presidente do Estado, Sr. vice-Presidente, srs.
secretarios do governo, minhas senhoras e meus senhores:
— O dia da inauguração solemne do Museu convida-nos
a examinarmos por breve lancear de vista o que foi
alcançado até agora, o que será o rumo a seguir no futuro.
A maior parte dos museus do mundo têm a sua ori-
gem em collecções particulares, que crescendo além das
localidades e dos recursos de que dispõe o colleccionador,
são transferidas ao governo, chegando depois da primeira
phase, a do colleccionador, a segunda, a da lucta pelos
meios e pelas localidades sufficientes, até que afinal,
impondo-se pelo successo e pela utilidade evidente, o
estabelecimento entre no numero dos institutos de exis-
tencia garantida, funccionando com regularidade e meios
sufficientes:
Examinando a historia deste nosso museu estamos
logo verificando que o seu desenvolvimento corresponde
bem ao de outros estabelecimentos analogos. O nucleo
do museu é formado por collecções que pertenceram a
um colleccionador apaixonado, o sr. coronel Joaquim
Sertorio. Estas colleccdes, rennidas ás de um outro
colleccionador, sr. Pessanha, foram adquiridas pelo sr.
conselheiro Mayrink, que as doou ao Estado, donativo deli-
cado que não podemos deixar de mencionar nesta occasião.
A segunda phase do museu data do anno de 1893.
O governo resolveu confiar a guarda das collecções pro-
visoriamente 4 Commissão Geographica e criar uma sec-
ção zoologica da mesma commissão, incumbindo-a dos
trabalhos do museu. Foi por proposta do meu distincto
collega e amigo sr. Orville Derby que fui chamado para
tal cargo. Veio então o periodo das dificuldades. Não
houve localidade sufficiente para o museu, não houve
verba. Existiam dois logares de preparadores, mas ne-
nhum dos respectivos empregados sabia empalhar. Fal-
tavam instrumentos, vidros, olhos de vidro, armarios e
quasi tudo que se precisava, sendo especialmente sensivel
a falta completa de livros adequados.
hé.‘ dl
ATOS
Convicto destas dificuldades o Congresso estadal
determinou a reorganização do museu e sua transferencia
para o Monumento do Ypiranga. No principio do anno
passado começou a mudança do Museu para o Monu-
mento e a execução das leis mencionadas. Se eu tivesse
de apreciar os serviços prestados pelos distinctos senhores,
que pelo lado do congresso e do governo ajudaram a
crear a actual situação deveria ser mais extenso do que
a occasiao o permitte. Seja-me permittido dirigir ao go-
verno do Estado e ao congresso, o que ha pouco disse
no meu relatorio ao digno secretario do interior, dr.
Cesario Motta Junior :
«Si bem que saibamos que é regra geral «inter
arma silent artes », entretanto, neste prospero Estado de
São Paulo, nem em tempos mais criticos, como os da
revolta, foram descuidados os interesses geraes da ins-
trucção e de todos os outros ramos de progressos, tão
notaveis neste Estado e nesta capital.
Si bem que as outras repartições continuassem apenas
a sua tarefa, o Museu pela sua installação e pela con-
servação do Monumento exigiu sempre providencias, e
nunca emquanto existir sobre base séria e scientifica o
Museu do Estado de S. Paulo poderá ser esquecido da
protecção valiosa pela qual garantistes o seu desenvol-
vimento, mesmo em tempo dificil e critico para o go-
verno, tão dignamente representado por vos. »
Se acrescentamos que tambem os excellentissimos
srs. dr. Rubião e dr. Pujol ligaram grande interesse ao
Museu, prestando a elle serviços importantes, fica evi-
dente que tudo isto corresponde bem as intenções do
governo do excellentissimo sr. presidente do Estado, dr.
Bernardino de Campos, governo de grande successo para
o progresso real e intellectual deste prospero Fstado.
Seja-me permittido, congratular-me com sua excellencia
por ter creado um Museu sobre bases scientificas como
até agora no Brazil não existiu.
PR || Me
A disposição geral do Museu é a seguinte: o andar
terreo serve para a administração, laboratorios, oficinas,
bibliotheca e colleeção de estudos; o primeiro andar é:
destinado ás collecções expostas ao publico as quaes
occupam 16 salas que hoje são abertas a excepção de:
uma, destinada aos insectos, a qual só mais tarde poderá
ficar prompta.
O fim destas collecções é dar uma boa e instructiva
idéia da rica e interessante natureza da America do Sul
e do Brazil em especial, como do homem sul-americano
e de sua historia. E’ esta a razão porque dos diversos.
grupos do reino animal, temos e queremos boa repre-
sentação do Brazil, acceitando de outras regiões do globo
apenas alguns representantes caracteristicos, As nossas.
collecções neste sentido já não são pequenas e ellas tor-
nam-se notaveis pela exactidão da determinação scien-
tifica.
Sempre que foi possivel, foi notado com tinta ver-
melha, o nome vulgar da especie e com tinta preta 0
nome scientifico, assim como proveniencia, sexo e outras.
informações.
Assim cada um dos visitantes que quizer instruir-se,
achará os necessarios dados nos letreiros e rotulos.
Por ora nota-se certa desegualdade nas collecções dos.
diversos grupos, mas temos a observar que apenas esta-
mos no principio, e quem conheceu estas collecções anti-
gamente, desde logo convencer-se-ú, de que já se aug-
mentaram e completaram, assim como da mudança na
preparação, collocação e determinação. Uma das colleções
que ainda não nos satisfaz e cujo desenvolvimento re-
commendo especialmente a esta illustre reuntão é a
secção historica.
O que mais me está satisfazendo na actual instal-
lação do Museu é a separação das colleeções expostas e
das colleccôes de estudo: As experiencias feitas neste
sentido nos grandes Museus da Europa e dos Estados
Unidos demostram a inconveniencia de cançar o publico
SOS ONE ee.
com a exposição de objectos em demasia. E’ esta a razão
porque os grandes Museus como os de Londres e Berlim
comecaram a separar as colleccdes exspostas e que sao
escolhidas com todo criterio, e as collecções de estudos
«que armazenadas, menos logar occupam. Este systema
razoavel e pratico já temos aqui seguido desde o prin-
cipio. Será assim a nossa tarefa completar as colleccües
existentes, eliminar os exemplares feios substituindo-os
por outros mais perfeitos, tudo conforme plano combinado,
e do outro lado reunir quanto mais material de todas
as partes do Brazil e de outras partes da America do
Sul para as collecções de estudo.
Tinha no principio o desejo de vêr adoptado o systema
“moderno de armarios de Museus. applicando apenas ferro
e vidro, e dando pela perfeição do mechanismo das portas
garantia contra a entrada da poeira e de traças. Mas
estes armarios exigiriam muito dispendio.
O Museu de Hamburgo gastou com elles ha 8 annus
«quatrocentos contos e o fabricante a quem me dirigi a
respeito, communicou-me, que neste momento estava
occupado em fazer armarios novos para o Museu de S.
Petersburgo, na importancia total de 1.200 contos de
Reis. Sahiu relativamente barato a construccão dos nos-
sos armarics e que foram feitos no Museu.
Ha muitas pessoas que julgam acabado o serviço
do Museu depois de inaugurado e aberto ao publico.
Julgo portanto bom expor em poucas palavras o nosso
programma. Não posso fazel-o sem referir-me a um
facto que sinto:
Não temos até hoje universidade alguma no paiz,
nem ao memos uma academia ou eschola de sciencias
naturaes. Nestas condições não é difficil a explicar o estado
de atrazo em que até hoje acha-se o estudo das sciencias
naturaes no Brazil.
Entendo que será o nosso dever contribuir quanto
mais possivel para modificar esta situação : mas é quasi
impossivel avaliar completamente as dificuldades que
se oppõem.
ESS D ee
Vamos tomar como exemplo a situação de um pro-
fessor que, dedicado ao estudo da natureza, quer estudar
a botanica, fazer excursões com os discipulos e ensinal-os,
tornal-os em summa versados na rica natureza do Brazil.
Quaes serão os recursos litterarios ? Temos a flora brazi-
liensis. Mas é escripta em latim, é uma obra que consta
de muitos volumes, custa perto de cinco contos de réis
e tem o fim de servir a sabios e não a amadores. Além
disso não se refere só as plantas do Rio e São Paulo,
mas tambem ás dos Campos do Rio Grande do Sul, como
ás do sertão do Ceará ou as das mattas do Amazonas.
Kk’ afinal obra para especialista e não para dilettantes
que ao assumpto não podem dedicar-se completamente.
Perguntamos agora: qual será a posição do professor
nas mesmas condições na Europa? Onde elle viver,
sempre lhe será facil comprar um compendio da flora
do seu paiz, um livro bem illustrado, dando descripções,
nomes vulgares e scientificos e mais informações. Se
elle viver por exemplo numa provincia da Allemanha,
haverá a disposição não só a flora da Allemanha, mas
tambem livros sobre a flora da provincia e até da cidade
na qual mora, indicando as localidades onde poderá en-
contrar certa planta e o tempo quando está com flores.
E este livro lhe custará apenas 10 ou 20 mil réis.
O que se dá com o estudante da botanica, se da do
mesmo modo com o amador de borboletas, de coleopteros,
de conchas, etc. Tenho aqui um livro destinado para
dilettantes de borboletas, livro que contem mumerosas
figuras e custa 5 mil réis. O amador da colleccäo de
borboletas acha ahi indicadas as especies mais communs,
descripções e illustrações e até informações sobre as la-
gartas e as plantas nas quaes são encontradas. Assim 0
que no principio é divertimento, torna-se em estudo. O
menino aprende vêr e observar, fazer observações biolo-
eicas, comprehender e admirar a magestade da natureza,
obter uma idéia das leis elementares que no cosmo de-
LAND EE
terminam tudo, desde o movimento das estrellas até a
circulação e diffusão do plasma na cellula.
E' geralmente reconhecido hoje que fóra do estudo
das linguas não ha meio mais proprio para a educação
do espirito infantil do que o ensino das sciencias natu-
raes. Si, porém, o Brazil já fez progressos animadores
no ensino, si já tem os institutos para formar medicos,
jurisconsultos e engenheiros, não ha uma academia de
sciencias naturaes para formar professores de historia
natural, que sejam mais ou menos comparaveis com os
da Europa. Neste sentido tudo e transtorno. Os livros
que devem servir para estudos scientificos e escriptos
na nossa lingua são traducções de livros publicados
para leitores europeus. Existe um unico livro tratando
da natureza do Brazil. E' esta a obra de Marcgrave e
Piso, naturalistas que acompanharam o principe Moritz
de Nassau. Esta obra foi publicada em mil seiscentos e
quarenta e oito e desde aquelle tempo ninguem tem
experimentado escrever um livro analogo sobre o Brazil.
E temos de ajuntar que escrever um livro como
aquelle é questão absolutamente impossivel neste nosso
seculo, nem ao menos para a parte da natureza que
forma a zoologia.
Os viajantes extrangeiros, que fizeram colleccôes no
Brazil, não se importaram com os nomes indigenas. O
que nós precisamos é fazer a classificação scientifica e
conhecer os nomes vulgares, conhecer a distribuição
geographica, o modo de viver das diversas especies e
sua importancia sob o ponto de vista economico. Neste
sentido, muito, para não dizer tudo está por fazer ainda.
As nossas colleeções, neste sentido, já estão bem estu-
dadas e serão de grande utilidade aos professores e a
todos os que queiram informar-se. E’ nossa intenção
publicar annualmente trabalhos relativos a um ou outro
grupo ou assumpto e, assim, com o tempo, fornecer
base para os que mais tarde escreverem livros sobre a
riquissima natureza do Brazil, no sentido de Marcgrave.
PO My
Está se vendo que não pretendo exagerar os ser-
vicos que este museu poderá prestar. Exprimo apenas
meus desejos de ver chegar o Brazil, quanto ao estudo
das sciencias naturaes, a um nivel mais alto: mas en-
tendo que, para melhorar estas circumstancias, uma das
condições principaes é o conhecimento completo da nossa
natureza — e neste sentido o estabelecimento que hoje
é inaugurado ha de prestar serviços importantes.
Não posso deixar de mencionar que, além do Estado
de S. Paulo, um outro dos mais prosperos do paiz, creou
um museu com pessoal scientifico e sobre bases mais
amplas do que este; refiro-me ao museu do Pará, creado
por iniciativa do benemerito governador dr. Lauro Sodré
e confiado á direcção competente do meu amigo dr.
Goeldi. Seria de sumo valor se tambem o estado de Per
nambuco deliberasse organizar um Museu scientifico,
visto que desde a exploração daquelle Estado, no tempo
do principe Moritz, nada alli foi feito neste sentido, de
modo que a nossa interpretação da obra de Marcgrave
em numerosos pontos é incerta, podendo ser rectificada
só alli.
Se assim hoje as nossas sympathias nos levam até
ao Pará, felizmente neste Estado mesmo não faltam esta-
belecimentos scientificos com os quaes estamos entretendo
as melhores relações e para cujo progresso fazemos votos
sinceros não só pelas sympathias que unem entre si
todos os homens dados ao culto das sciencias, mas pela
razão especial de vêr-nos cooperando na tarefa. Refiro-me
a Commissão Geographica e Geologica e ao Instituto
Agronomico de (Campinas. Razão especial ainda temos
que agradecer ao digno chefe da Commissão Geographica
Dr. Orville Derby os serviços que tem prestado a esta
repartição, quando unida a commissão.
A organização do Museu que o governo desejava
vêr acabada este anno, não foi completada pelo congresso;
não posso deixar de exprimir a minha esperança de que
no anno futuro será preenchida esta lacuna, sendo ne-
ya
cessario augmentar o pessoal scientifico. Além disto é
preciso acabar o edificio e ajardinar a praça da Inde-
pendencia, situada em frente ao monumento.
Tomando em consideração que o monumento do
Ypiranga passa por ser o edificio mais notavel do Brazil,
quer quanto a sua architectura, quer pelo Museu e como
Pantheon, não podemos duvidar que completados o mo-
numento e o Museu e ajardinada a praça, este edificio
seja um ponto de attracção para a cidade de S. Paulo,
como bem poucas cidades da America do Sul o têm.
Aqui tudo ajuda, desde a belieza do edificio até a vista
esplendida a cidade e para a serra da Cantareira e espe-
cialmente a recordação historica.
Não era possivel, portanto, construir um monumento
mais digno, commemorando a independencia da patria,
do que este esplendido predio, que como Museu, como
Pantheon e como meio da investigação scientifica do
Estado está destinado a prestar grandes serviços à causa
da instrucção publica.
Que esta repartição sempre esteja na altura desta
sua missão, que seja ella um elemento ponderoso para 0
progresso deste rico e futuroso Estado, são os desejos
que me dominam neste solemne momento. »
O orador ao terminar foi applaudido por uma pro-
longada salva de palmas.
Em seguida o dr. Bernardino de Campos dá a pa-
lavra ao dr. Alfredo Pujol, que faz o discurso de encer-
ramento da sessão.
O dr. Pujol em um brilhante improviso, relembrou
a commissão que deu os primeiros passos para a con-
strucçäo do monumento (da qual fazia parte o venerando
mestre Barão de Ramalho) onde se inaugurava em sessão
tão solemne o Museu Paulista.
Encerrada a sessão, convidou o director Thering o
dr. presidente do Estado e outros convidados a visitarem
o Museu cuja inauguração acabava de ser feita. Durante
essa visita, tocou a banda de musica do 4°. batalhão
policial.
Foram muito boas as impressões que receberam os
convidados, ao percorrerem as diversas secções do Museu,
riquissimas de specimens dos diversos reinos da natureza
e de valiosos productos da nossa primitiva civilização.
Na parede fronteira á escada e que communica com
o 1º andar, está gravada, em uma lapide de marmore, a
seguinte inscripção :
Este monumento commemora
a independencia do Brazil, proclamada à
7 de Setembro de 1822
Na mesma parede está collocado o busto, em gesso,
do dr. Prudente de Moraes, presidente da Republica.
No corredor principal esta collocado, em photogra-
phia, o retrato do dr. Bernardino de Campos e ha uma
inscripção analoga recordando a lei, que destinou o
Monumento para o Museu.
No salão nobre, além do grande quadro commemo-
rativo da independencia do Brazil, ha outros de notaveis
pintores nacionaes.
O museu tem a sua bibliotheca que conta escolhido
numero de volumes, principalmente sobre Historia na-
tural.
Tivemos occasiao de ver tambem a rica bibliotheca
do director dr. von Ihering, que possue obras raras e
preciosas.
Entra estas vimos um grosso volume em latim, sobre
historia natural do Brazil, do qual sao auctores Gui-
lherme Piso e Marcgrave.
Esta obra foi escripta em 1648, ha quasi tres seculos
portanto, e é dedicada a D. Mauricio de Nassau, o celebre
governador da capitania de Olinda, Pernambuco.
DEA Ode
A's 3 e meia horas da tarde foi servido um /wnch
aos convidados, trocando-se ao Champagne os seguintes
brindes :
Do dr. Ihering, em nome de todo o pessoal do Museu,
ao governo do Estado e ao Congresso Estadal ;
Do dr. Bernardino de Campos ao Congresso Estadal,
aos seus companheiros de governo e ao dr. Thering:;
Do dr. Cerqueira Cesar ao Coronel Noronha e Silva;
Do dr. Alfredo Pujol ao corpo consular de S. Paulo;
Do dr. Jorge Ritt, agradecendo o brinde do dr. Pujol
e saudando a Republica Brazileira ;
Do dr. Leopoldo de Freitas, em nome da imprensa
paulista, ao dr. Alfredo Pujol;
Do sr. Antonio de Oliveira em nome do Estado de
S. Paulo, ao governo do Estado;
Do dr. Alvares Rubião ao dr. Cerqueira Cezar ;
Do dr. Alfredo Pujol á imprensa de S. Paulo;
Do dr. Valois de Castro ao dr. Alvares Rubião ;
Do dr. Cerqueira Cesar ao dr. Pedro Vicente de
Azevedo ;
Do sr. Cantidio Bretas, agradecendo em nome d’ 4
Platéa o brinde do sr. Pujol e saudando este sr. :
Do dr. Alfredo Pujol á Associação Commercial de
S. Paulo, representada na pessoa do sr. Duarte Rodrigues;
Do dr. Pedro Vicente de Azevedo, agradecendo o
brinde do dr. Cerqueira Cesar e saudando, em nome do
municipio de S. Paulo, ao Congresso do Estado ;
Do sr. Celso Pasini, saudando o estado de S. Paulo:
Do sr. Luiz Silveira, agradecendo em nome desta
folha, o brinde feito 4 imprensa e saudando o funccio-
nalismo publico, na pessoa do dr. Antonio de Toledo
Piza;
Do dr. Pereira de Queiroz, 4 magistratura paulista,
na pessoa do dr. Clementino de Souza e Castro ;
Do sr. Duarte Rodrigues, agradecendo o brinde feito
a Associação Commercial, pelo dr. Alfredo Pujol.
eis o mi
Finalmente o brinde de honra foi levantado pelo
dr. Bernardino de Campos ao primeiro magistrado da
Republica, dr. Prudente de Moraes.
O lunch que foi fornecido pela Confeitaria Castellões
nada deixou a desejar.
Durante as visitas e o lunch, a musica do 4.º bata-
lhão policial, executou varias peças do seu repertorio,
no saguão daquelle monumento.
Os convidados retiraram-se para esta capital ás 5
horas da tarde.
Foi assim inaugurado, com a assistencia dos repre-
sentantes de todas as classes de S. Paulo, com todo esse
brilhantismo, o Museu Paulista, creação emanada do
Congresso do Estado e que vem agora corroborar mais
os creditos do governo, sob cuja direcção se estabeleceu
esse melhoramento de importancia capital para todos os
paulistas.
ch
sah Ca RT RR
A disposição das localidades é a seguinte.
No andar terreo:
Sala A. 1. Bibliotheca e escriptorio do Director.
» A. 2. Laboratorio do Director.
» A. 3. Sala de conferencia e Bibliotheca.
» A. 4. Sala reservada para visitantes que querem
fazer estudos.
» A. 5. Laboratorio conchologico e collecçäo de
estudos (conchas).
» A. 6. Laboratorio entomologico e collecção de
estudos (insectos).
» A. 7. Deposito de vidros, drogas, etc.
MENA: ee de estudos (de reptis e amphi-
10S).
°
Hs
»
DRAC ua
. 9. Colleeção de estudos (de peixes).
. 10. Collecção de estudos (de animaes infe-
riores).
. Il. Laboratorio do custos e collecção de es-
tudos (de mammiferos e passaros).
. 12. Officina de preparadores.
A.
. 14. — 16. Reservado para a secção botanica
13. Officina de marcenaria.
(servindo agora como officina de
marcenaria e deposito de madeira).
No primeiro andar acham-se as colleeções expostas
ao publico.
Sala B.
»
»
S mw sy y
Err De HP SRD WWW
1. Collecção de passaros.
2 » » ninhos e ovos de passaros.
3. » » aves.
+ » » cobras.
D » » amphibios, reptis e peixes
6. Colleeção de peixes do mar.
Wie » » insectos.
8 » » objectos historicos.
9 » » » » e arma-
mento.
10. Colleeção de animaes inferiores (crusta-
zeos, conchas, coraes, etc.).
11. Colleeção mineralogica e paleontologica.
12. » ethnographica e archeologica
(Indios do Brazil).
13. Collecção numismatica.
14.
15. Collecção de mammiferos.
16.
17. Sala de honra contendo o quadro histo-
rico de Pedro Americo « Brado da Inde-
pendencia » e mais telas de pintores na-
cionaes. |
Er 305—
O Monumento do Ypiranga, obra do architecto 7hom-
maso G.Bezzi em S. Paulo e construido, conforme os planos
aprovados, pelo architecto Zuiz Pucci com capricho e so-
lideza passa por ser o edificio mais bello do Brazil. Em
todo caso esta belleza da architectura, do mesmo modo
como a recordação historica e a vista esplendida a S. Paulo
e a Serra da Cantareira e o Morro do Jaraguá são mo-
mentos que só podem augmentar a boa impressão que
um Museu como este fará aos que querem informar-se a
respeito da historia e da natureza de sua patria. E' ver-
dade que o Monumento não foi feito para a installação
de um Museu e que foi mais feito para offerecer uma
vista esplendida ao visitante do que para fins de serviço.
Os telhados construidos de telhas nacionaes muito ordina-
rias sem o cahimento necessario, os corredores estreitos
demais, que unem B. 7.—8. e B. 9.—10., de modo que
nos domingos quando ha muita gente ali não se pode
fazer a circulação do publico, a distribuição das escadas
interiores, as galerias abertas e as salas acanhadas entrem
no numero destas disposições architectonicas que difficul-
tam o serviço do Museu. O que mais ainda é a lamentar,
é que o edificio não tem muito espaço, contando com a
fachada de 123 m. apenas 13 de fundo, levando ainda
as galerias abertas e o vestibulo a metade do lugar dis-
ponivel. Assim é que o primeiro andar chega por ora para as
colleções expostas, mas não offerece o espaço necessario para
o desenvolvimento futuro das collecções. O que porém neste
sentido corrije muito o defeito mencionado, é a separação
das colleccôes de estudo e das que são expostas. E” esta
a razão porque provavelmente por muitos annos poderá
correr 0 serviço sem embaraço.
Talvez que no futuro será necessario applicar tambem
o andar terreo para as colleeções expostas e consteuir
atraz do Monumento uma aza impar para a administração
e as collecções de estudo. Por hora não falta o lugar e
temos ainda alguns quartos do segundo andar para depo-
sitos e laboratorios.
So
Se bem a distancia do Monumento da cidade é grande,
se bem o Monumento não foi feito para Museu. não po-
demos deixar de declarar nesta occasião, que o Congresso
e o Governo não podiam dar ao Monumento um destino
mais apropriado do que para Museu e Pantheon. E’ de
nossa parte que com enthusiasmo estamos trabalhando para
a execução das duas leis referidas, tão vantojosas para a
sciencia e a instrucção publica, satisfeitos da organisação
dada ao Museu, satisfeitos do esplendido edificio em que
está funccionando e gratos aos poderes legislativos e exe-
cutivos por terem creado no Estado um estabelecimento
scientifico que quer e pode comparar-se aos institutos
analogos dos Estados Unidos da America do Norte e da
Europa.
dCINILISAÇÃO PREHISTORIC
Dr. H. von IHERING
BRA,
I. — Introducção.
Il. — Os Coroados.
HI. — Tradições historicas.
IV. — Archeologia rio-grandense.
V. — Conclusões.
VI. — Comparações e relações com os estados limi-
trophes, especialmente a Republica Argentina
co Estado de Sao Paulo.
I. INTRODUCGAO.
Existem hoje trabalhos numerosos e solidos dos quaes
nao póde custar muito informar-se pela historia do Bra-
zil e dos Estados do Rio da Prata; quanto aos indigenas,
porém, à historia e cultura d'elles, nas obras historicas
não acham-se noticias senão insufficientes, talvez insuf-
ficientes ainda quando consideradas sob o ponto de vista
da investigação historica propriamente dita. Hoje, porém,
não podemos contentar-nos com um modo de proceder
tão insufficiente, tendo-se ajuntado a anthropologia assim
como a ethnologia a investigação historica como irmãs
de igual dignidade e importancia, as quaes, chegando
pelo estudo dos povos naturaes á conclusões preciocis-
simas para a historia das origens da cultura humana, exi-
gem por isso uma nova exposição da historia mais antiga
d'estas raças, em grande parte extinctas ou pouco civili-
sadas—exposição que possa detalhar e completar em todos
os respeitos, o quadro antigo imperfeito.
Sob este ponto de vista carecemos ainda de investi-
gações mais minuciosas a respeito dos indigenas do Bra-
ail. As exposições linguisticas e ethnologicas dos viajantes
modernos, apresentam-se destituidas da connexão neces-
saria com as antigas descripções do tempo da conquista;
a prehistoria e a ethnologia, embora dedicadas ao estudo
do mesmo objecto, procedem de todo separadamente, sem
que, por outro lado, os seus resultados sejam aproveitados
pela parte das investigações historicas.
E' assim que de muitas tribus do Brazil conhecemos
apenas os nomes e algumas noticias insufficientes do ter-
ritorio e de suas occupações. Além disto, quando muito,
uma pequena collecção de palavras, sendo ainda mais
insufficientes os conhecimentos que possuimos das tribus
já extinctas, sobre as quaes além de nome e territorio
CESP
não sabemos quasi nada. No estudo da historia antiga
dos indigenas do Perú e Mexico todas aquellas sciencias
acima mencionadas, têm procedido ajudada mma pelas
outras; assim como a respeito da Venezuela e da America
do Norte, já existem muitos trabalhos feitos no sentido,
por mim caracterizado. Não acontece assim quanto ao
Brazil. Por mais que se tenha adiantado a ethnologia do
Brazil pelas expedições de von den Steinen e de Ehrenreich,
a historia antiga d'estas tribus fica-nos desconhecida e a
possibilidade de se fazerem a este respeito consideraveis
progressos não parece-me garantida senão por estudos
continuados, feitos n'este mesmo paiz, de maneira que
sejam apropriados tanto para colleccionarem e combinarem
as tradições historicas e prehistoricas existentes nas di-
versas regiões, como para esciarecerem as origens dos
indigenas ainda hoje conservados. E” n'este sentido que
durante annos occupei-me em estudar a historia dos in-
digenas do Rio Grande do Sul, publicando tambem uns
pequenos estudos sobre elles, os quaes porém foram
contestadas, por investigadores do Rio da Prata. Sendo
facil de se comprehender, que nós no Brazil chegámos
a resultados em parte differentes d'aquelles dos colle-
gas platinos, uma explicação das differenças não po-
derá deixar de ser de utilidade. Faltando por fim quasi
completamente na litteratura trabalhos a este assumpto
dedicados, sem duvida será util uma compilação de todos
os dados scientificos, actualmente conhecidos. que nos
pareçam correctos, e um estudo critico-comparativo do
assumpto, referindo tambem ao Rio e S. Paulo e a Ar-
gentina.
Habitam hoje o Rio Grande do Sul pouco mais de
mil indios, os quaes baptizados e designados pelo nome
de Coroados, vivem no alto Uruguay em povoações fisca-
lizadas, chamadas aldeamentos. Nunca, segundo Hensel,
foram elles de consideravel importancia para a historia d'este
Estado, conhecendo-se isto pelo facto de não haver nomes
Sy By
nem de lugares (1), nem de animaes ou plantas, tirados da
lingua d'elles. Esta circumstancia, entretanto, por si só não
seria de força demonstrativa, visto que os Crens, Botocudos,
etc. homens pavidos e ordinariamente pouco inclinados
a sahirem das suas florestas, nunca tiveram em alguma
parte tal influencia, que só puderam conseguir as tribus
civilisaveis reunidas em aldeamentos, e é esta a razão,
porque todas as influencias linguisticas e culturaes exer-
cidas pelos indios brazileiros originaram-se dos Guaranis
e Tupis.
Ainda que não se possa negar que a divulgação da
lingua geral se deva em parte aos Portuguezes e jesui-
tas, a larga divulgação precolombiana dos dialectos gua-
rani-tupis, demonstrada principalmente pelos nomes de
animaes e plantas, é um facto dos mais importantes que
os americanistas não devem deixar de tomar em consi-
deração. Referindo-me á obra de Waitz (30. Vol. III. pg.
349.) menciono só de passagem que a cultura guarani
não se limitando ao Amazonas, se estendeu até á Gu-
yana e ainda mais para o Norte.
Quanto ao Rio Grande do Sul, o elemento guarani
antigo já ha muito se tem fundido na população deste
Estado. Acham-se por exemplo entre os habitantes da
região da foz do Camaquam muitos mestiços guaranis,
os quaes em parte produzem a impressão de serem des-
cendentes puros dos autochtones do paiz. Quanto ao numero
d'estes habitantes antigos não devemol-o considerar como
pequeno. Segundo Ruy Diaz de Guzman, em 1612 mais
ou menos, viviam sobre o Rio Grande, na lagoa dos Patos,
e entre o Paraná e Paraguay, não menos de 365,000 indios
pertencentes ao povo guarani. A julgar por uma carta
que dirigiu o bispo João de Saricolea em 1730 ao papa
Clemente XII, n'aquelle tempo ainda 130.000 guaranis
estavam aldeados nas trinta e duas reducções jesuiticas.
Já em 1801 porém, avaliou Azara o numero dos indios
(1) Goio-en, o nome do alto rio Uruguay, é palavra da lingua dos
Coroados, significando agua grande, e haverá outras semelhante
Re es
das missões do Rio Grandee de Corrientes em 40,355, o
numero dos do Paraguay em 26,715 ao todo por conse-
guinte em 67,070, os quaes, segundo Azura, todos estavam
baptizados. No Rio Grande do Sul porém habitavam se-
gundo o rescenseamento de 1814, apenas 8655 indios.
Deve-se entretanto tomar em conta, que recenseamentos
no Brazil ainda não puderam-se fazer exactamente, 0c-
correndo ainda hoje defeitos de 10 °|, ao menos.
No capitulo seguinte tratarei primeiramente dos in-
digenas ainda conservados no Rio Grande do Sul; exporei
então as tradições historicas e as antiguidades, assim
como as relações existentes entre ellas reciprocamente,
lançando finalmente uma vista rapida sobre os territorios
visinhos, tomando principalmente em consideração as re-
lações com a cultura peruana antiga. Não tendo a in-
tenção de recolher aqui todo o ma‘erial, nunca deixarei
de apontar as fontes. Trabalhos descriptivos justamente
para o Rio Grande do Sul existem muitos, faltam, porém,
de todo trabalhos criticos e comparativos, não se achando:
n'este sentido em condições mais favoraveis o resto do
Brazil. Aquelles que prestarem interesse ao cultivo pre-
historico do Brazil não desconhecerão o estado insufficiente
dos conhecimentos que possuimes a este respeito. O qua-
dro tal como agora se pode desenhar para o Rio Grande do
Sul e para São Paulo, ainda não existe para outro Estado:
deste intenso territorio. Nos territorios visinhos, na Ar-
gentina e principalmente no Perú, os conhecimentos n'este
sentido são mais adeantados; entretanto, ainda ha muito
que fazer a respeito do methodo comparativo.
E
I], COROADOS.
Em geral estes chamados Coroados que se podem se-
guir desde Corrientes pelo Estado do Paraná, até São Paulo
são hoje os unicos representantes da raça india no Rio
Grande do Sul, tendo-se fundido na população os Char-
ES ORE
ruas, emquanto não exterminados nos annos da revolução:
de 1835 a 1844. E’ mais difficil a saber, se ainda n'este
seculo existiam Botocudos no Rio Grande do Sul, por nao
saberem alguns auctores, que o costume de perfurar o
labio inferior para trazer n'elle ornamentos é muito com-
mum entre as tribus guaranis, 0 aue não permitte por
conseguinte consideral-o como um caracteristico especifico
dos Botocudos. Diz O. Canstadt (Brasilien, Land und Leute,
Berlin, 1877 p. 82.) ter encontrado no alto Uruguay Boto-
cudos que traziam discos de madeira no labio inferior e
nas orelhas. Zombava-se muito no Rio (Grande do Sul
d'esta noticia um pouco extraordinaria; existindo, porém,
até hoje Botocudos em Santa Catharina, é possivel que
occasionalmente tenham entrado no territorio limitrophe
do Rio Grande do Sul. O que é fóra de duvida é que nas
proximidades de Nonohay e desde alli ao longo do rio
para baixo em todo o territorio das missões não vivem
Botocudos nem foram alli encontrados pelo que sabemos.
Hensel (6 p. 125.) accredita que na parte septentrio-
nal d'este Estado, existem Botocudos differentes dos que
habitam mais para o norte, pelo facto de não terem no
labio inferior senão uma pequena abertura, servindo-se
Vella para assobiarem; eram muito temidos por causa da
sua ferocidade e molestavam ainda os primeiros colonos
allemãos na matta virgem. Entretanto se engana Hensel;
pois estes indios que sobresaltaram as colonias, todos eram
Coroados. Diz Hensel que ainda nos annos de 1864 e 1865
no alto Taquaray e entre elle e a Cahy havia Coroados,
ainda inteiramente selvagens. Um dos ultimos assaltos
feitos na zona colonial, teve lugar em 1852, não tendo
por auctores uma horda de Coroados inteira, mas uma
banda pequena que se separára do seu cacique Doble, e
logo depois foi exterminado por elle. O ultimo assalto do
qual consegui ter noticia, deu-se em 1862 ou 1863 na
colonia de Nova Petropolis, no qual aconteceu que um
dos colonos foi morto a flechadas. Foi Bartholomay, então
director d'esta colonia, que encarregando-se da persegui-
AD AE
ção dos indios, descobriu n'esta occasião o campo dos
Bugres.
Desde então os progressos da civilisação não se in-
terromperam mais no Rio Grande do Sul, em quanto que
em Santa Catharina os Botocudos continuavam a causar
desastres. Refere por exemplo Avc-Lallemant (Reise durch
Südbrasilien, Leipzig, 1859, Bd. II. p. 82.) um assalto feito
pelos Botocudos em 1854, nas proximidades do Rio Bonito,
situado perto de Lages. Dista Lages tão pouco da fron-
teira Rio-Grandense, que é fóra de duvida que os Botocu-
dos entraram de tempos a tempos tambem no territorio
Rio-Grandense.
Os indios que ainda hoje vivem no Estado do Rio
Grande do Sul, pertencem todos à raça dos Coroados.
Molestavam estes, ainda na primeira metade do nosso
seculo, a população civilisada, pelos assaltos frequentes,
assustando um destes ultimos os habitantes da colonia
alemã de Mundo Novo em 1852. Naquelle tempo entra-
ram elles em continuadas relações amigaveis com 0 go-
verno provincial, domiciliados desde então em pequenas
povoaçães chamadas aldeamentos. Em 1865 havia de taes
aldeamentos tres maiores, no planalto do Estado Rio-Gran-
dense, um dos quaes foi visitado então pelo naturalista
allemão Hensel, cujas communicações peço comparar. Em
desaccordo com Hensel, n'um relatorio official de 1860,
se faz menção de seis aldeamentos com mais de 2000
almas.
Em 1864 uma horda de Coroados, commandada pelo
seu cacique Doble, visitou a cidade de Porto Alegre, para
receber do Presidente da Provincia a recompensa devida,
pelos serviços que prestarem ao Estado, em apanharem
ou exterminarem indios selvagens. Contagiavam-se n'esta
occasião, de bexigas, as quaes depois de voltarem elles
para os seus aldeamentos, fizeram grandes estragos, cau-
sados principalmente pelo costume commum entre elles,
de procurarem os doentes de mitigar o molesto calor fe-
bril por meio de banhos frios. Succumbiu n'aquella epi-
—
DE. ie
demia tambem o cacique Doble, o ultimo chefe reconhe-
cido como tal, por todos os diversos aldeamentos. O nu-
mero dos indios diminuiu por isso tanto, que 1880 ja
não existiram mais de 1255 em oito aldeamentos. Subor-
dinados á inspecção exercida por um director nomeado
pelo governo, occuparam-se elles um pouco da agricultura.
Cada aldeamento obedece a um chefe chamado cacique,
tendo tambem um sacerdote encarregado da catechese. A
conversão d'elles, como é facil de presumir, sómente é
muito superficial, demonstrando-se isto tristemente em 1880
pelo facto de que um destes caciques, chamado capitão
Domingos, assassinou uma tropa de indios guaranis pa-
cificos, os quaes do seu domicilio situado sobre o Iguassú
na Provincia-do Paraná, tinham immigrado para as mattas
do alto Uruguay, esperando encontrar alli maior abun-
dancia de herva mate. Assaltando de noite estes trabalha.
dores pacificos e laboriosos, que sem suspeita estavam
dormindo no seu campo, Domingos assassinou-os quasi
todos.
O trabalho de Hensel, acima mencionado, é o funda-
mento principal dos conhecimentos que possuimos dos
Coroados. Dez annos depois Jaz Beschoren visitou ao
velho cacique, intitulado major Fongui, perto do Campo
Novo, não muito distante do rio Guarita, assim como oO
aldeamento situado perto de Nonohay. Em 1845 Fongui
e a tribu do cacique Doble de Vaccaria, ainda não esta-
vam aldeados, o que succedeu só em 1847. A impressão
que recebemos pela descripção de Beschoren (4, pag. 14
e pag. 25) não se pode caracterizar, senão como triste.
Nos mezes do inverno vivem elles nas florestas, afim de
colherem herva-mate, cuja colheita dá-lhes recursos suffi-
cientes para viverem, e dinheiro bastante para comprarem
aguardente; passam o resto do anno nas suas cabanas
pobres, dedicados a ociosidade indolente, immoderados e
sordidos. Ainda em 1875 consistiam as suas armas em
arcos, flechas e lanças, introduzindo-se porém cada anno
mais armas de fogo. Fabricam ainda elles mesmos os
oies
Seus utensílios de cozinha, de uma especie de barro S'rosso
escuro, emquanto que pela importação de chitas baratas,
vai-se diminuindo mais e mais a fabricação do seu tecido
nacional chamado Kuru, preparado da cortiça fibrosa de
uma grande ortiga. Na colleccao primeira do senhor C. van
Koseritz destruida em 1882 pelo incendio da exposição
brazileira-allema de Porto Alegre, havia uma bella peça
d'este Kuru, sobre a qual Aoserit: (16, p. 27.) referiu
mesmo. Diz Aoseritz, que esta peça de tecido muito gros-
seiro, pesado e bem conservado, pouco ornamentado de
linhas azues e vermelhas, estava feita das fibras de gra-
vatá, especie de grande bromeliacea. Sinto muito não
poder achar actualmente as amostras deste tecido reser-
vados para 0 exame microscopico.
_ Näo seria facil de suppor-se que com estas circums-
tancias, Nonohay podia ser recommendado de outro lado
como modelo de aldeamentos. Comtudo se fez isto. Tenho
ad mão um tratado do Dr. Joaquim Ant. Pinto Jun. inti-
tulado: Memoria sobre a catechese e civilisação dos indi-
genas da provincia de São Paulo. Santos 1872. Os dados
que contem este livro sobre os aldeamentos de São Paulo,
fornecidos pelo director d'elles, são, cumpre dizel-o, muito
lamentaveis. Foram concedidos para os differentes aldea-
mentos, subsidios de 400, 600 e 800 mil réis; apezar d'isso
não foram pagos mensalmente, senão dez mil réis por
um mestre sem discipulos. O decreto regulamentar de
1845 nomeou um director geral com o titulo de brigadeiro
e alguns subdirectores; estes directores, porém, não sou-
beram da existencia dos aldeamentos senão pelo diploma
que lhes confere as honras militares, existindo os aldea-
mentos mesmos realmente só na secretaria do governo.
Por isso é com razão que diz o auctor: Um aldeamento
sem parocho, sem mestres, sem oficina alguma, sequer
de ferreiro, é uma utopia inconcebivel.
Sendo assim não se póde deixar, sem duvida, de as-
sentir á opinião do general Couto de Magalhães, que diz
acerca da catechese usada no Brazil, no seu livro intitu-
= Au.
lado: Ensaio de anthropologia, Rio de Janeiro 1874, p. 120:
« O indio baptizado é um homem degradado, sem costu-
mes proprios, indifferente para tudo, por conseguinte
tambem para com sua mulher e quasi tambem para com
toda sua familia. » O systema official da catechese tem
feito fracasso no Brazil tão completamente que é condem-
nado por todos os homens de criterio. Successos gran-
diosos, não têm sido conseguidos senão pelos jesuitas. Só
é a faisca d’um amor que abrace tudo, só a dedicação
enthusiastica jara uma obra considerada como meritoria,
ou antes como santa, que possa dar estimulo e satisfaccao
a quem estiver dedicando a sua vida á educação de hordas
indolentes semiselvagens. E verdadeiramente grandiosos
são os resultados obtidos pelos jesuitas no seculo XVIII
nas missões da America do Sul. E’ especialmente tambem
o Rio Grande do Sul que nos seus futurosos territorios
occidentaes, situados sobre o Uruguay, foi elevado por
isso a um estado tão florescente, que, se lhe for possivel
attingil o de novo, talvez não se elevará a mesma altura
de civilisação senão depois de seculos.
A historia do reino jesuitico na America do Sul, o
maior successo conseguido em algum tempo pela missão
entre selvagens incultos, é bem conhecida. Possuímos
especialmente para o Rio Grande do Sul boas informações,
pela obra rara do padre Gay, da qual offerece um resumo
Beschoren. Com sorpreza vemos alli os indios, trataveis
como a cera nas mãos dos seus pios instructores, mani-
festarem estudo e habilidade para qualquer trabalho, ga-
rantido o sustento das reducções populosas pela agricul-
tura e criação de gado, cultivadas todas as profissões por
mestres capazes, ornadas as soberbas cathedraes até de
orgãos, estatuas e paineis de altares, fabricados pelos
proprios catechizados, emquanto que a biblia e outras
obras compostas em guarani foram impressas nas proprias
typographias.
Tudo isso pereceu pelo dominio luso-hespanhol. Quanto
entristece a descripcao das ruinas feita por Beschoren.
EP aes
lembrando nos d'um passado tão grandioso! Para que
serve o facto de dar-se hoje n'estes territorios o apito
da locomotiva, de annunciar-nos das terras mais remotas
o fio telegraphico os acontecimentos mais recentes, em
quanto que a população indolente e analphabeta vai-se
perdendo de ignorancia e barbaria. São Christãos, é ver-
dade, mas ha apenas trinta por cento que saibam rezar
o Pater Noster...senç O chamado progresso de cultura não
é nem sempre nem em toda a parte um melhoramento
na situação da humanidade.
Não se deve, porém, a respeito da antiga flor da cul-
tura indigena esquecer-se, que os representantes d'esta
cultura foram os Guaranis, emquanto que os Coroados
pertencem ao grupo dos Crens.— Parece que sob o nome
de Coroados têm sido comprehendidos elementos de dif-
ferentes povos. Em todo o caso os Coroados, de que falla-
mos aqui, com certeza se estendem desde as missões argen-
tinas, até o Estado do Paraná. Relações extraordinariamente
amigaveis existiam sempre entre os Coroados Rio-Gran-
denses e os do Paraná. Em 1845 emprehendeu 4. 7. deRocha
Loires, ajudado pelos caciques Coroados Victorino e Conda,
abrir uma estrada que vai dos campos de Palmas, situados
no Estado do Paraná ás missões do Rio Grande do Sul. A
horda do cacique Nonohay tentou impedir a bandeira de
Rocha no lugar designado pelo nome d'este mesmo caci-
que, mas aplacou-se pela intervenção de Conda. Este
Conda (1), entrado em differenças com o cacique Hongui,
retirou-se para Palmos pensando em vigança.
Quanto aos Coroados é de importancia tambem o facto
de ser identica a lingua d'elles com a dos Camés. Julgo
ter sido o primeiro que descobri isto, observando em 1888
(1) Será este sem duvida o mesmo a quem Rath (24 pag. 30.)
chama Condõe e cujo tumulo elle viu no Estado do Paraná perto
de Guarapuava. Não entendo a razão porque Aazh identificou os
Coroados com os Tapes. Os Tapes riograndenses pertenciam
sem duvida ao grupo guarani.
A Se
na bibliotheca da universidade de Gotinga que entre as
muitas linguas chamadas por mim á comparação, só era
aquella dos Camés que a julgar pelo vocabulario de Jar-
tius (21 pag. 212.) era concordante com o thesouro lin-
guistico dos Coroados, publicado por Æensel, havende com-
pleta identidade.
E” uma cousa estranha que 0 nome de Camés, por
mais que eu até agora perguntasse por elle, no Estado
de São Paulo já não é conhecido, servindo, porém, sem
duvida para designar os Coroados (1) que vivem no valle
do Paranapanema, os quaes habitam tambem no Estado
do Paraná. A suppor-se com Hensel que só foi relativa-
mente tarde que as hordas Rio-Grandenses foram expulsas
para alli, de São Paulo e do Estado do Paraná, seria
facil de comprehender porque não podiam exercer in-
fluencia alguma sobre os nomes de lugares, etc. Esta
consideração de Hense/ seria somente de força demons-
trativa, se em outros Estados, onde vivem Coroados, como
por exemplo em São Paulo, o caso fosse outro, isto é, se
existisse aquella influencia cuja falta Æensel estranhou:
mas pelo que sei, isto não acontece. E” em geral que
todos os Crens quasi não influiram na cultura actual e
nos nomes de lugares, animaes plantas, etc. emquanto
que os Guaranis, respectivamente os Tupis, fizeram-n'o
consideravelmente em toda a parte; pois os povos guarani-
tupis são muito civilisaveis é proprios para assimilarem-se,
emquanto que os Crens quanto ä sua cultura e relações
para com os seus visinhos civilisados, pouco se elevam
sobre as feras da floresta entre as quaes vivem.
Sendo assim os Coroados Rio-Grandenses hoje não of-
ferecem ao ethnologo senão um interesse bastante limitado;
(1) Resulta isto tambem da identidade das amostras tiradas
da lingua dos Coroados paulistas, communicadas pelo general
Ewerton Quadros, concordando estas palavras precisamente com
as dos Camés assim como com as dos «Coroados» Rio-Gran-
denses.
ASD pe
a época de serem elles dignos de maior interesse já se
foi ha meio seculo.
Quanto aos Coroados temos de distinguir dous mo-
mentos. Primeiro que a região occupada pelos Coroados
aqui caracterizados como um elemento linguisticamente
e culturamente homogeneo estende-se pelo Estado do Pa-
raná até São Paulo, no valle do Paranapanema. Segundo,
porém, que sob o nome de Coroados tem sido comprehen-
didas tambem outras tribus, sobretudo tambem povos
tupis. E’ pois com razão que diz Waitz (3º vol. III pag.
439.), quê o nome de Coroados ethnographicamente nao
é de importancia alguma, por ser attribuido sem respeito
do parentesco de raça indistinctamente a todas as tribus
acostumadas a tosar o cabello. Como muitas tribus tupis
tambem tiveram este costume, a tonsura não pode servir
melhor de caracteristico ethnographico, do que, por exem-
plo, o habito de trazerem ornamentos no labio inferior
perfurado pode distinguir os Botocudos dos Guaranis.
Nada seria por isso menos correcto do que referir as
relações dos viajantes sobre os chamados Coroados ao
grupo caracterizado por nos — observação que diz res-
peito principalmente ás relações de Eschwege, Wied e
Martius, dos quaes 0 primeiro por exemplo afirma -(seg.
Waitz, vol. II. pag. 439.), que os Coroados costumam en-
terrar o chefe da familia em posição acocorada n' uma
grande vasilha de barro oblonga. Parece-me fora de du-
vida que estes Coroados no interior do Rio de Janeiro €
Minas Geraes pertenceram ao grupo das tribus guaranis.
Até agora não consegui encontrar outra lingua que
de todo estivesse de accordo com a dos Camé-Coroados,
embora existam algumas palavras que offerecem certas
analogias indubitaveis (1), as quaes porém não lembram
o grupo guarani, como alias era de esperar. Assim con-
(1) Assim por exemplo as palavras que no idioma dos Gei-
cos do rio São Francisco significam fogo e pé.
RAT
tentar-nos-l:emos do resultado de que do chaos dos Co-
roados um grupo natural, aquelle dos Camé-Coroados, se
distingue, podendo ser seguido desde o Rio Grande do Sul
até São Paulo, e que esta tribu enterra os seus mortos e
não os sepulta em urnas. Será o objecto de futuras in-
vestigações mostrar a distribuição d’ esta tribu assim
como a sua connexão com outras do Brazil central ou
septentrional.
Antes de entrarmos na historia destas tribus sera
conveniente fallar em poucas palavras da historia dos
descobrimentos d'estes paizes. O territorio da antiga pro-
vincia, hoje Estado do Rio Grande do Sul, não era, como
o das outras provincias brazileiras, desde o principio uma
d'aquellas capitanias, parte doadas a excellentes fidalgos,
parte administradas como bens publicos. Só muito tarde
o Portugal começou a tratar do Rio Grande do Sul, subor-
dinando-o 4 capitania geral do Rio de Janeiro. Foi apenas
em 180% que creou se uma capitania geral chamada de
São Pedro do Rio Grande do Sul, a que a principio per-
tencia tambem Santa Catharina. Como por muito tempo
nem a Hespanha, nem o Portugal cuidassem destes terri-
torios, em geral não succumbirão elles durante o seculo
XVII e no começo do XVIII a nenhuma administração.
Ambos os poderes civilisadores reclamaram-n'os, os Hes-
panhóes porém ficaram donos do littoral e assim acon-
teceu que ambas as provincias brazileiras mais meridio-
naes a principio estavam subordinadas ao governador do
Paraguay. A este respeito refere Gay (5, a pag. 15.), que
EAN
de 1530 até 1534 se deram luctas entre Portuguezes e os
Hespanhdes sob o commando de Ruy Garcia Mosqueira,
pelas quaes os ultimos occuparam a colonia portugueza
de São Vicente, isto é o littoral de São Paulo, e então
se estabeleceram em Santa Catharina. Em 1540 0 gover-
nador hespanhol do Paraguay, Alvar Nunes Cabeça de
Vacca, tomou posse de Cananéa, situada na costa de São
Paulo, e alli seachava então a fronteira oriental do Pa-
raguay.
No Brazil attribue-se geralmente o descobrimento
deste paiz ao Portuguez Cabral, embora já alguns mezes
antes, em 1499, dous Hespanhôes chegassem á costa. Só
nove annos depois, em 1500, descobriu Solis o Rio da Prata,
em cujas margens mataram-n'os mais tarde os Charruas.
D'este modo foi constituida a futura separação dos ter-
ritorios de colonisação, ficando sómente os territorios con-
finantes do Uruguay e do Rio Grande do Sul no principio
litigiosos, não deixando tambem de dar occasião, até ao
nosso seculo, a complicações bellicas numerosas. Apezar
de estenderem ostentativamente os Portuguezes a esphera
dos seus interesses até a foz do Prata, fundando ja em
1680 a colonia do Sacramento no Uruguay, só em 1715,
porém, effectivamente tomaram posse do Rio Grande do
Sul, aprestando de Laguna em Santa Catharina duas ex-
pedições para o Rio Grande. D’estas expedições uma
sahiu mal, chegando a outra com bom successo ao Rio
da Prata, encontrando na volta outra expedição composta
de indios civilisados e enviada para o mesmo fim pelos
jesuitas hespanhôes. Este encontro seguida de reclama-
ções feitas pelos Portuguezes tive o effeito de que os Je-
suitas, já fundados sete missões no territorio Rio-Grandense,
isto é, na margem esquerda do Uruguay, não procuraram
se estender mais para leste, emquanto que as missões
ficaram primeiramente sob a soberania hespanhola. Foi só
em 1737 que começou a occupação militar do Rio Grande
pelas forças portuguezas.
LAG ae.
Já no seculo XVII, entretanto, segundo refere Han-
delmann (Geschichte von Brasilien, Berlin 1860, pag. 490)
o Rio Grande foi em parte colonizado por Paulistas;
alcançaram tambem os negociantes de Santos sustentar
um commercio aproveitavel com as tribus indigenas;
seguiram a elles missionarios e é assim que já em 1680,
mais ou menos, estavam fundadas no territorio Rio-
Grandense algumas povoações pequenas. Em todo o
caso, porém, além d'estas relações commerciaes bem co-
nhecidas, já no seculo XVI haveria outras semelhantes
tambem com os habitantes do Rio Grande. Em antigas
sepulturas ou moradias dos indios, e isto na região das
mattas virgens do Rio Grande do Sul, já por vezes
achámos perolas de côr, as chamadas perolas de Aggry,
as quaes Zischler (28) demonstrou por um exemplar ex-
traordinariamente grande e bonito, recebido de mim,
serem por sua composição de origem veneziana antiga.
Sem duvida taes perolas foram fabricadas em Veneza ao
fim do seculo XV e ao principio do XVI; se mais tarde
tambem, não consta nem é verosimil, a julgar pelos
outros modos de fabricação que então entraram em moda.
Os indios Rio-Grandenses, quanto a sua industria,
achavam-se sempre em um gráo muito baixo de habili-
dade e não conseguiram senão fabricar urnas e armas
de pedra grosseira.
Além (estas emprezas dos Hespanhoes e Portuguezes,
summariamente caracterizadas, foram principalmente
tambem as relações com os jesuitas que determinavam
a sorte dos indios do Rio Grande e dos territorios limi-
trophes do Prata — relações nas quaes tanto mais cum-
pre aqui entrar, quanto mais justamente as diversas
publicações ou manuscriptos jesuiticos, publicados pela
maior parte na lingua guarani, são as fontes mais va-
liosas que possuimos sobre as tribus indigenas do nosso
territorio.
Naturalmente não tenho a intenção de recapitular
aqui a historia bem conhecida do reino jesuitico na
RUE ESS
America do Sul; desejo apenas apontar os momentos
importantes, especialmente para o Rio Grande, os factos
aos quaes até agora pouca ou nenhuma importancia se
ligava, no que sigo de preferencia a obra do padre J.
P. Gay, (Historia da Republica jesuitica do Paraguay,
Rio de Janeiro, 1863). Como vivia Gay por muitos an-
nos em S. Borja, isto é, na região d'estas antigas mis-
sões, podendo aproveitar-se de diversos manuscriptos
guarani-jesuiticos ineditos, dos quaes se compõe justa-
mente a parte mais valiosa do seu livro, porisso é, sem
duvida, esta obra a fonte mais importante para o estudo
da historia e cultura dos indigenas do Rio Grande do Sul,
João Dias de Solis, que descobrira em 1509 a foz
do rio da Prata, voltando para alli em 1515, perto de
Santa Luzia, na margem septentrional do rio da Prata,
a pouca distancia de Montevideo, encontrou indios, que
o mataram e parte da sua comitiva, quando ia entrar
em relações com elles. Estes eram Charruas, tribu er-
rante, que tinha então occupado a região entre o Uru-
guay e Maldonado, por espaço de cerca trinta milhas
geographicas para o interior e para o norte. Gaboto
tambem, successor de Solis, caracteriza em 1530, pouco
mais ou menos, as tribus guaranis do rio da Prata como
bellicosas, soberbas, crucis e perfidiosas. Assim aconteceu
que os Hespanhóes levantaram as suas colonias, pouco
antes fundadas perto de Buenos Ayres, e desde então
até 1580 só no Paraguay fundaram colonias, porque alli
os selvagens geralmente cram mais pacíficos. Tendo
ahi rapidamente bons successos, entraram os Hespanhóes
depois de muitas vicissitudes, em boas relações com os
indios. Taes eram as circumstancias, quando em 1610
os jesuitas vieram para o Paraguay, onde principal-
mente na provincia do Guayra com tanto successo se
occupavam em civilisar os selvagens, dos quaes em 1631
tiveram alli 31 reducções.
Comtudo estas não podiam prosperar, porque os
Portuguezes paulistas, alliados com os indios tupis, con-
pus | ars
sideravam o Paraguay como região a mais propria para
as suas expedições, destinadas para obterem escravos.
Segundo d'Orbigny, estes Paulistas, chamados Mameluccos,
sómente desde 1628 até 1631 escravizaram mais de 6000
homens das reducções jesuiticas. Com razão, pois, diz
o proverbio brasileiro: « Não é o diabo que faz mal ao
homem, mas um christão ao outro».
Com estas circumstancias o padre Mazeta resolveu-
se a abandonar o Paraguay com o resto dos seus fieis e
ir 1200 kilometros mais para o sul, onde já havia entre
o Uruguay e Paraná outras missões numerosas, o que
deu-lhes mais esperança de defenderem-se com successo
contra os Mameluccos. Esta expedição emprehendida com
mais de 15,000 homens pelas mattas virgens, é uma
empreza das mais grandiosas que neste sentido a his-
toria conhece. Não é Xenophonte com a sua tropa va-
lente, mas sim Moyses, o qual livrou um povo inteiro
da escravidão egypcia e o restituiu a patria, que pode-
mos comparar com o bravo padre Mazeta.
Depois de soffridas muitas fadigas a expedição
chegou ao salto do Guayra, as grandes caractas do Pa-
rand, onde toda a massa do grande rio, estreitando-se
subitamente de 4500 m. à 66 m. vai se precipitar re-
tumbando cerca de 18 m., e continua correndo em ca-
choeiras por trinta milhas, produzindo um estrondo que
se ouve por oito milhas geographicas. Nas proximidades
d'estas caractas acabaram-se os viveres, dos quaes elles,
obrigados a transportal-os nas costas, não podiam trazer
comsigo bastante provisão, por levarem as mulheres os
filhos e muitos homens os velhos e doentes. Foi assim
que os homens se dispersaram entrando nas florestas em
busca de alimentos, não desprezando até cobras e outros
bichos, do que resultaram novas doenças e mortes. Muitos
pereceram assim na matta, presa agradavel dos carni-
ceiros, os quaes em falta de cadaveres entre os vivos
tambem faziam grandes estragos. O padre Mazeta estava E
quasi desesperando, quando Deus dando ouvidos ás suas Al A?
RRQ ESS
preces ardentes, impelliu uma grande barca vasia 4
ribeira. Por meio d'esta barca e de jangadas desembar-
caram todos prosperamente ao outro lado. Embora seguros
ahi de seus perseguidores, que iam no seu alcance,
mais de 2000 dos homens que erravam em busca de
alimentos, foram aprisionados pelos habitantes d’ aquella
região. Finalmente chegaram a Loreto, ponto final da
expedição, onde já existia uma missão e havia grande
abundancia de gado. Mas como os indios esfomeados-
gozassem da carne immoderadamente, foram atacados
pela dysenteria de modo que morriam diariamente mais de
40 pessoas, até amadurecerem as plantações recentemente
feitas. Com os 12,000 homens restantes, começaram então
em 1631 os jesuitas a fundarem novas reduccôes sobre o
Paraná e Uruguay.
E’ conhecido quanto prosperavam desde então os
jesuitas em organisarem e administrarem as suas missões
e como sete de taes missões no territorio Rio-Grandense:
tambem foram estabelecidas. Nunca depois Hespanhôes
ou Portuguezes conseguiram elevar em parte alguma
os indigenas a tanta altura de desenvolvimento como
os jesuitas n’aquelles paragens felizes. Além de darem
optimos resultados a agricultura e criação do gado, e
de ser garantida a prosperidade material dos seus cate-
chizados, estes habeis selvagens eram proprios mesmo para
grandes obras de arte. Que contraste! Hoje uma popu-
lação pobre inculta e quasi depravada, onde ha seculo
e meio cs jesuitas construindo cathedraes soberbas fabri-
cavam tudo, servindo se de indios como obreiros e artis-
tas desde as obras de pedreiro e carpinteiro até a fabri-
cação dos sinos, orgãos, paineis de altares e livros feitos
nas suas proprias typographias! A respeito militar tambem
confirmou-se a prevenção dos jesuitas. Estendendo as
suas expedições tambem por Santa Catharina e Rio Grande
ás novas missões os Mameluccos já no Matto Castelhano
encontraram as vigias dos jesuitas, as quaes para darem
aviso retiraram-se apressadamente, de maneira que os
— 53 —
invasores ao chegar ás missões encontraram um inimigo
bem armado que os repelliu com grande perda.
Sabe se que esta destreza militar manifeston-se tam-
bem, embora menos prosperamente, no seculo XVIII
nas lutas pelas quaes resistiu o estado jesuitico á reali-
sação do tratado de 1750; apezar d'isso os jesuitas eram
e continuavam a ser os autores intellectuaes e governantes
«da nova civilisação de tal modo que esta descahiu,
quando o governador de Buenos Ayres executou a lei
expulsoria que foi publicada contra os jesuitas primeiro
(em 1759) em Portugal, então (em 1767) tambem na
Hespanha. Os padres sujeitaram-se á lei e embarcaram-se
para a Italia. Os seus protegidos, mais de 100,000 almas,
depravaram-se rapidamente sob a administração descul-
dada e inhabil dos Hespanhões; as varias complicações
bellicas nas missões, tambem as bexigas, etc. comple-
taram a destruição. A população das sete missões situadas
no territorio Rio-Grandense, que era de cerca de trinta mil
almas nos tempos dos jesuitas, já em 1801 diminuira-se
a 14,000 e em 1825 a 1847 almas. Os tres annos de guerra,
que seguiram então, dispersaram estes restos completa-
mente; parte d'elles reuniu-se aos charruas e só poucas
familias d’estes indios missionados ainda se tem con-
servado na aldea de São Vicente.
Em vista destas circumstancias é muito compre-
hensivel, que as noticias que possuimos dos autochtones
Rio-Grandenses, pelo menos quanto ao seculo XVI, são
muito insufficientes ou faltam inteiramente. Mesmo
quanto aos indios Platenses estas fontes mais antigas
são muitos defeituosas, já pelo facto de que os conquis-
tadores não entraram com elles senão em relações hostis,
emquanto que para o começo do seculo XVII, principal-
mente pelos jesuitas, a litteratura é mais detalhada. E
assim resumindo aqui os dados fornecidos por Gay, vou
expôr no seguinte os conhecimentos d’aquella epocha
sobre os indigenas do Rio da Prata e dos paizes limi-
trophes.
ee NE pe
1) Guaranis. Entre os rios Paraná e Paraguay, e
entre o primeiro e o Uruguay a maior parte dos habi-
tantes compunha-se de Guaranis. Ainda que vivessem
principalmente da caça e pesca occupavam-se um pouco
de agricultura, inclinando-se tambem mais do que a
maior parte das outras tribus a misturar-se com os habi-
tantes europeos das povoações vizinhas. Esta classificação
é pouca correcta sendo Guaranis tambem quasi todas
as tribus seguintes.
2) Guayanas. Estes distinguem-se pouco das outras
tribus por lingua e modo de viver; moravam nas proxi-
midades do Salto grande do Paraná. Com elles talvez
sejam identicos os Guaycanans dos campos de Vaccaria.
3) Tapes. Uma grande tribu que era domiciliada
no Estado oriental e no centro do Rio Grande do Sul,
entre o mar, o Uruguay e a serra dos Tapes no Rio
Grande do Sul. Eram de estatura alta, malignos e crueis.
Enterravam os mortos com as suas redes, flechas e outras
armas. Os jesuitas chamaram uma parte d'elles á civi-
lisação, a outra parte, que talvez ainda existe, mistu-
rou-se com a população actual do Rio Grande e do Uru-
guay. Além da serra dos Tapes, fazem lembral-os ainda
um pontal e uma ilha na margem occidental da lagoa
dos Patos, que trazem tambem o nome de Tapes ow
Taipes, como outros o pronunciam.
4) Minuanos. No tempo da conquista habitavam elles.
as planicies septentrionaes sobre o Paraná, assim como:
o territorio entre os rios Paraná e Uruguay até a altura
da ilha de Santa Fé. Apertados pelos conquistadores e
jesuitas, atravessaram o Uruguay e dominavam a região
situada ao norte e oeste da lagoa Mirim e da lagoa dos
Patos. Quando espalharam-se os Portuguezes no Rio
Grande, retiraram-se os Minuanos para oeste, para OS rios
Vaccacahy e Cacequi. Construiam as suas cabanas de
varas e esteiras. Cada aldea constava de 50 familias.
governadas por um chefe. Eram mais corpulentos e reso-
lutos do que os Tapes. Suas armas consistiam em arcos
5) ——
e flechas. Eram habeis em domesticar animaes e bons
cavalleiros. Segundo Azara os Minuanos tomaram parte
na fundação de São Borja em 1690, emquanto que se-
gundo o visconde de São Leopoldo esta missão jesuitica
compunha-se de Charruas. Pode ser que ambos tenham
razão, porque os Minuanos repellidos pelos Portuguezes,
os Charruas pelos Hespanhóes, entraram uns com outros
n' uma especie de alliança, occupando o territorio entre
o Rio Negro e o rio Ibicuhy, ficando aquelles mais perto
do Ibicuhy, os Charruas mais perto do rio Negro. Elles
adoptaram quasi os mesmos costumes, de tal modo que
alguns autores chegaram até a confundil-os. O autor da
cosmographia brazilica diz que pouco antes de fundarem
os Portuguezes as missões, os Minuanos invadiram à
reducção de São Borja, fazendo alli grandes estragos.
Actualmente elles são todos civilisados assim como os
Tapes. Foram os Minuanos que mataram a João de
Guaray, um dos primeiros conquistadores.
5) Charruas. Esta tribu numerosa, cruel e bellicosa,
que matou a João de Solis, descobridor do rio da Prata,
dominava entre a lagoa Mirim e o Uruguay respectiva-
mente o rio da Prata. Inquietados pelos Paulistas, Os
quaes escravizavam a quantos pdiam apanhar, retira-
ram-se para a margem septentrional do rio Negro e nas
regiões das missões, alliando-se com os Minuanos. Além
das flechas e arcos serviam-se em guerra tambem de
lanças e fundas, as quaes manejavam habilmente. Estas
fundas sem duvida não são outra cousa senão as bolas,
de cujo uso fallaremos mais. Ainda hoje o camponez
Rio-Grandense trata estas bolas de vez em quando encon.
tradas de «bolas de Charruas ». Como os Charruas ainda
nos annos da revolução Rio-Grandense, de 1835 a 1844,
tomassem parte nas lutas como gente auxiliar, entre
muitos dos habitantes mais velhos a lembrança d'elles
ainda bem se encontra, e a historia e a tradição estão
portanto aqui de accordo assim como a archeologia, que
Justamente no Rio Grande, principalmente nos campos»
DE pen
demonstra-nos as bolas d'aquelles Charruas, as quaes em
outra parte do Brazil näo se encontram. Julgo porém
muito provavel, que os Minuanos, talvez tambem outras
tribus Rio-grandenses, adoptassem dos Charruas o uso das
bolas. Accredito por isso que Gay esteja enganado, di-
zendo que os ultimos Charruas desappareceram pela
carniçuria feita entre elles por D. Yructuoso Rivera por
occasião da sua expedição de 1828. Devem porém partes
d'elles dispersas se ter conservado ainda um decennio
mais. Achamos algumas noticias sobre elles no livro de
Azara, intitulado Memoria historica sobre a provincia
das Missões, publicada em 1785, onde se faz menção de
um cacique chamado Miguel Caray. Diz que recolhem
nas suas cabanas todos os Guaranis, que fogem das
missões e querem viver com elles, sustentando tambem
boas relações com os Hespanhões e Portuguezes, aos
quaes em troca de presentes permittem tirar gado dos
seus campos. E' por isso tambem que resistem a colo-
nisação em aldeamentos, aborrecendo-se menos da religião
christä do que do constrangimento que resultasse da
colonisação em missões para o seu modo de viver.
6) Tupis. Desta nação, que no tempo do descobri-
mento do Brazil occupava todo o littoral, habitavam os
Carijos desde São Paulo até a ilha de Santa Catharina.
Uma tribu d'elles apparecia ás vezes nas proximidades
das missões Rio-Grandenses, sem que, porém, entrassem em
relações amigaveis. Espreitavam como tigres os indios
missioneiros, que por acaso ousassem entrar isolados nas
florestas, pelo que estes, quando em busca de herva
maté, deviam tomar cuidado de não separar-se dos seus
companheiros, E” assim que os (Guaranis extremamente
temem os Tupis, aos quaes a sua phantasia attribuia
propriedades incriveis; accreditavam, por exemplo, que
os Tupis não tivessem dedos nos pés, mas dous calcan-
hares por não manifestarem os vestigios d'elles, se iam
ou vinham.
MTS TES
7) Bugres. Espalhados desde São Paulo por Santa
Catharina até o alto Uruguay no Rio Grande e Cor-
rientes. «Alguns perforam o labio inferior como os Boto-
cudos, outros se distinguem pelos cabellos cortados em
forma de coroa. Construem as suas cabanas de postes
cobrindo-as dos lados assim como em cima de folhas da
palmeira anã a que chamam guaricanga.» Esta especie
de palmeira do planalto Rio-Grandense é a scientificamente
denominada Geonomma gracillima.
A respeito d'estes Bugres Gay está enganado. No
Rio Grande todos os selvagens dos mattos são designados
pelo nome de Bugres, pelo contraste com os indios
domiciliados ou camponezes (Charruas e Minuanos). Os
chamados Bugres não são por conseguinte uma nação,
mas é este nome uma expressão collectiva para designar
Coroados, Botocudos e outros indios selvagens isolados,
sobretudo os Crens.
Fora d’ estas tribus importantes para o Rio Grande
houve no seculo XVI e no XVII mais outras tribus
domiciliadas sobre o Uruguay, que parte, como os Chanas,
alliaram-se e misturaram-se com os Hespanhoes, parte,
como os laros e Iarris, foram exterminados pelos Charruas,
Na lista (1) de Gay porém não se faz menção dos
8) Patos. Este povo de pescadores não só habitava
na lagoa dos Patos, e como presumo, principalmente na
margem oriental d'esta, mas provavelmente ao longo de
toda a cadeia de pequenas lagoas do littoral entre a
lagoa dos Patos e Santa Catharina. Em obras geogra-
phicas encontram-se geralmente a afirmação de que a
lagoa dos Patos deve o seu nome as aves aquaticos espe-
cialmente aos patos suppostos que existem n’ella em
abundancia. KE’ porém de notar que na região da lagoa
dos Patos ha abundancia só de mareccas, sendo o pato
propriamente dito (cairina moschata) raras vezes alli
(1) Martius que dá uma enumeração mais ou menos conforme
à lista de Gay, menciona ainda os Pinarés, que dominavam a
região ao sul das cabeceiras do rio Uruguay.
TM En
encontrado, visto que prefere as margens dos rios cobertos
de mattos. Não se trataria pois senão do cysne de pescoço
preto, a que se chama pato arminho e que em tempos
mais remotos era commum n'esta grande lagoa; todavia
este não é um pato, mas um cysne. Affirmando pois a
lagoa dos Patos não trazer o seu nome pelos passaros
patos mas pelos indios Patos, estou-me baseando no facto
de que na litteratura mais antiga Santa Catharina não
é designada por este nome, mas sim pelo do Porto dos
Patos, o que tambem lembraria os indios Patos, sendo
mar grosso e não uma lagoa rica de patos, que está
banhando ahi o porto. O porto de Laguna tambem a
principio chamou-se Laguna dos Patos.
Por fim acho algumas noticias tambem sobre os
Guanaos, que habitavam na região septentrional do Rio
Grande assim como em Santa Catharina, os quaes men-
ciona como em parte convertidos o padre Garcia n'uma
carta escripta em 1683. (Como lhes fallasse na lingua
d'elles, sem duvida têm sido, assim como todas as outras
tribus catechisadas, pertencentes ao grupo dos Guaranis.
Suas cabanas estavam construidas de esteiras feitas de
palha ou de juncos compridos; em occasião de obitos
costumavam cortar-se uma parte do dedo. São estes pro-
vavelmente os Guanãs conhecidos do Paraguay.
Para supprirem-se estes dados ajunto algumas noti-
cias tiradas por Gay @ uma obra publicada em 1612.
«O rio da Prata tem na embocadura ao sul o cabo branco,
ao norte o cabo de Santa Maria perto das ilhas dos
“astilhos. Ao norte do ultimo cabo estende-se o dominio
hespanhol por 200 leguas até Cananéa. Esta costa é
baixa e sem abrigo até a ilha de Santa Catharina. O
segundo porto é o do Rio Grande a 70 leguas de distan-
cia do rio da Prata. A entrada deste porto apresenta
grandes difficuldades pela correnteza forte com que este
rio desagua no mar. Depois de praticada porém a en-
trada acha-se tranquilla a agua, estendendo-se como uma
EO EE
lagoa. A entrada é escondida por uma ilha.(1) Nas mar-
gens do rio habitam mais de 20,000 indios guaranis,
chamados alli Arachánes, não que distinguissem-se por
lingua e costumes dos outros Guaranis, mas porque
usam o cabello elevado em forma de topete, penteado
para cima. São homens fortes e bem formados, que estão
frequentemente em guerra com os Charruas do Prata
ou com os Guayanas, habitantes no interior — nome este
que se attribue a todos os indios, que não são Guaranis
nem designados especialmente. »
«O porto do Rio Grande está aos 32° L. S.; existem
na costa para o norte mais algumas povoações das mes-
mas tribus. Todo o territorio contém excellentes pastos
para o gado. Perto da cordilheira, não muito distante
observam-se plantações de canna de assucar e de aigodão;
dizem alli encontrar-se tambem ouro e prata. »
«Aos 28—º segue o porto de Laguna dos Patos com
uma entrada dificil a 40 leguas de distancia do Rio
Grande. Habitam alli mais de 10,000 Guaranis mansos,
os quaes são amigos dos Hespanhões. Dez leguas mais
adiante segue a ilha de Santa Catharina, que tem sete
leguas de comprimento e quatro leguas de largura,
possuindo um porto excellente. Tem montanhas e grandes
mattos. Era povoada por Guaranis, que mais tarde aban-
donaram a ilha, retirando-se para a terra firme. No alto
Uruguay habitam Guayanas, Bates, Chovas e Chovaras,
que todos fallam quasi a mesma lingua.»
E” possivel que os Guanaos ou Guanoas, designados
como habitantes no interior do Rio Grande, sejam identicos
com estes Guayanas e pertencentes tambem ao grupo
dos Guaranis, apezar da affirmação contraria acima men-
cionada, o que se indica claramente pelo facto de que o
padre Garcia poude-lhes fallar immediatamente na lingua
(1) Esta ilha não existe mais. Mudou-se aqui por conse-
guinte a configuração geograplica da costa nos ultimos 280
annos.
= GO
d'elles. Os Guanãs verdadeiros, porém, segundo affirmam
@ Orbigny, Martius e outros, quanto á lingua sua não
pertencem ao grupo dos Guaranis. Geralmente no Brazil
meridional, assim como no Prata e no Paraguay, a maior
parte dos povos mansos, respectivamente dos viventes
mais ao alcance da civilisação em maiores povoações,
“sem duvida têm sido Guaranis. Com muita razão diz
Varnhagen, que foi justamente esta conformidade lin-
guistica relativamente extensa, tanto nos Tupis do :it-
toral brazileiro como no grupo do meridional d'elles, nos
Guaranis — conformidade esta, pela qual designava-se a
lingua d'elles como lingua geral — que tanto ajudou
os Portuguezes a se estenderem no immenso paiz.
IV. ANTIGUIDADES DOS ABORIGINES
Foram principalmente os colonos allemães, que explo-
rando as mattas virgens do Rio Grande do Sul, encon-
traram muitos objectos archeologicos e os guardaram
por curiosidade. O snr. ©. von Koseritz, muito relacionado
com estes seus patrícios, conseguiu reunir uma das me-
lhores collecções de artefactos antigos, sendo realmente
de lastimar que a mesma levasse sumiço em Porto Alegre
no anno de 1882 por occasião do incendio da Exposição
Brazileira-Allemã. Não desanimado com este revez, dedi-
cou-se o snr. von Aoseritz a recomeçar a collecçäo que,
ja bastante enriquecida, acha-se em mãos dos seus her-
deiros que desejam desfazer-se della.
Numerosos objectos foram colligidos por mim;
muitos delles achão-se incorporados ás collecgdes do
es (63)
Museu Nacional do Rio de Janeiro, e outros nos Museus
de Berlim e Leiden. Colleccionadores importantes e assi-
duos são ainda os Snrs. Aunert de Forromecco, Pastor
Evangelico e o P. Schupp de Porto Alegre.
Diversos tratados referentes a estas colleccdes foram
publicados por Aoseritz, Bischof, Schupp, Kunert e por
mim, sendo porém estes trabalhos espalhados por diversos
periodicos.
Tratarei de reunir os resultados no esboço seguinte.
Instrumentos de pedra
Nada ha que mais perturbe as discussões do que a
applicação illimitada de noções theoricas, como adaptar,
por exemplo, os resultados dos estudos da Archeologia
européa á nossa. E” pois erradamente que fallam de uma
epocha paleolithica ou neolithica na America do Sul.
Como pude observar, até agora no Rio Grande do
Sul encontram -se indistinctamente reunidos instru-
mentos de pedra, quer lascada, quer polida, dando-se o
mesmo no Uruguay, Argentina e nos sambaquis do
Brazil. Si um dia descobrissemos os logares que serviram
de moradia ao homem plioceno ou pleisthoceno no Rio
Grande do Sul, de certo encontrariamos os artefactos
somente de pedra lascada, que em todos os paizes repre-
sentam o primeiro degräo da civilisação primitiva. Assim,
todos os achados feitos por Ameghino nas pampas plio-
cenas da Argentina, pertencem ad esta ordem.
Ao contrario da Europa na America do Sul e em
geral em todaa America, os dous ty pos coexistem; ao passo
que na Europa um seguiu o outro.
Na America as pontas de flechas e as hasteas são
em geral de pedra lascada, ao passo que os pilões, mãos
de pilão, bolas e em geral os machados, são de pedra
polida.
Só os machados da Patagonia são sempre de pedra
lascada.
Acham-se ordinariamente estes artefactos prehisto-
ricos dispersos pelas mattas, e raros são os logares onde
NPA) PRE
se encontram em maior quantidade, como na Picada
Solentaria do Mundo-Novo, em que se descobriu grande
numero de machados e outros objectos rudemente traba-
lhados. Todos são feitos de diabas azul-escuro. Em geral
porém, os machados polidos, como os representados na
FIG. I.
Machado polido de melaphyrio.
figura são de diorito ou de melaphyrio, sendo este muitas
vezes confundido com aquelle.
As bolas em geral são fabricadas de uma pedra ver-
melha, provavelmente porphyrio, e são encontradas em
logares onde esta pedra é rara, como em S. Lourenço e
em todo o Sul do Rio Grande; isto denota que para lá
foram levadas por indigenas emigrados de Cima da Serra
e de outros logares onde se encontra o porphyrio. O que
prova ainda estas migrações, são as conchas do Oceano, que
muitas vezes se encontram nas moradas antigas dos indi-
cenas; achei muitas destas conchas, como a Oliva bra-
siliana, a Oliva auricularia c outras na região denomi-
nada Serra dos Taipes. O explorador experimentado
facilmente reconhece estas habitações antigas pela côr
mais escura da terra.
Examinando-se melhor o solo, encontra-se logo carvão
de lenha, cacos de panellas eartefactos que servem de guia
— 63 —
ás nossas investigações. As pontas de flecha, em geral las-
cadas, são trabalhadas quasi sempre de Quartzo ou Agatha»
Um bonito specimen destas pontas de Silex, proce-
dente da colonia de S. Lourenço está representado na
figura 2.
PIGS 72:
Ponta de flecha.
Dos artefactos polidos, os mais simples sao as pedras
de moer, do tamanho e forma de uma laranja cortada pelo
meio, tendo um lado achatado, que serve para descascar
grãos ou fructas.
Strobel diz que Claraz encontrou semelhantes pedras
entre os habitantes da Patagonia, ainda hoje em uso, para
moer o sal.
Mais raramente encontram-se almofarizes, que são
de pedra bruta e toscamente trabalhados, tendo uma
cavidade pouco profunda; as mãos de pilão, porém,
são sempre bem acabadas e de cumprimento regular.
Entre os instrumentos de pedra podem-se distinguir
muitos typos, segundo os differentes perfis, acho porém
sem interesse a descripção de todos, dando em seguida,
apenas os caracteres dos principaes.
O typo mais commum dos machados polidos, geral-
mente com o corte bem afiado, tem a forma quadran-
gular, com as faces superior e inferior bem polidas.
O segundo typo é de forma cylindrica, tendo na
extremidade embotada uma acanalladura circular ou
semi-circular.
GEL
O terceiro typo dos machados é de forma semi-cir-
cular, e o quarto de forma circular, perfurado no centro.
Tratarei em seguida mais detalhadamente das fórmas
typicas dos machados e dos outros artefactos, e tambem
do uso e distribuição dos mesmos.
Machados circulares perfurados
Uma particularidade do Rio Grande do Sul são es
machados circulares; tem a forma de um disco, mais ou
menos delgado e as bordas bem afiadas. No meio são
cuidadosamente perfurados, alargando-se o orifício do cen-
tro para as bordas do instrumento. Em geral tem um
diametro de 90 a 120 millimetros, e quasi sempre são
bem acabados. Vide figura 3 e 4.
FIG. 3.
Machado circular percluso.
FIG. 4.
O mesmo, secção vertical.
A tradição popular no Rio Grande legou a estes
instrumentos o nome de Machados.
O Snr. Sins da expedição de Mabilde, trouxe um destes
machados de Vaccaria a S. Leopoldo sendo ainda, como
dizem, afixado no respectivo cabo.
bearer ges 5 fe
Em relação ao uso destes curiosos artefactos nada
consta de certo.
De accordo com as minhas informações, diz (. von
Koseritz (pag. 10) que segundo a tradição estes discos per-
furados erão afixados a um páo pesado, servindo de massa
aos guerreiros e aos caçadores de anta.
No mesmo sentido trata Ladislau Netto, (pag. 494)
destes machados circulares perclusos.
Estes instrumentos de pedra vieram dos Coroados,
restando apenas a veriguar si foram elles os fabricantes
dos mesmos, ou si provieram dos despojos de guerra com
as outras tribus. Propendo para a ultima hypothese,
porque sendo este machado, de forma tão caracteristica
e particular, dos Coroados, de certo sel-o-hia encontrado
tambem ao Norte, em regiões muito extensas habitadas
outrora pela mesma tribu. Porém isto não se dá, tanto
em São Paulo, como no Rio de Janeiro, nenhum specimen
foi encontrado.
São desconhecidos tambem no Paraná e S. Catharina.
Parece, pois, que nada se oppõe á asserção do Snr.
Koseritz, que suppôe a ausencia completa deste artefacto
ao Norte do Rio Grande do Sul. E” porem, engano mani-
festo suppor-se, que o machado circular seja limitado
somente ao territorio Rio-Grandense. Ameghino diz (I
pag. 440), que um machado figurado por elle e analogo
ao typo Rio-Grandense provem do Chile, sendo ahi mais
commum juntamente com a bola do typo dos Charruas.
Atreghino chama este artefacto « bola circular aguje-
reada » e declara que o mesmo não é encontrado nas
plagas argentinas, proximas ao Rio da Prata e nem na
Republica do Uruguay, mas sim no Chile, ao Norte da
Argentina, na Bolivia e no Perú.
Ameghino representa uma destas pedras do Perú
(I. Pl. VIII. fig. 423), que em vez de ter a borda circular,
tem o pentagonal, em forma de estrella e outra parecida
do Mexico (II Pl. fis. 524).
RE
Da harmonia das formas deste typico instrumento,
pode-se deduzir, que existiram relações antigas de cultura
entre estes dous povos.
Ficará, entretanto, indecisa a questão ; si estes instru-
mentos são destinados ao mister de machados, ou de
bolas, como suppõe Ameghino. Da Europa se conhecem
artefactos prehistoricos, semelhantes aos nossos, e inter-
pretados como balas de funda.
Só os parallelos ethnologicos nos poderiam explicar
o uso destas mysteriosas pedras, e só conheço a este
respeito as pedras perfuradas dos buschmans da Africa,
que as afixam aos cabos das cavadeiras para darem maior
peso, e facilitarem desta maneira a extracção das raizes.
Deixando de parte as conjecturas sobre o mister
destes artefactos, mesmo assim elles nos podem guiar
nas investigações pela sua distribuição geographica.
O centro da distribuição destes instrumentos é 0
Perú e a Bolivia, donde passaram para o Norte até o
Mexico, e para o Sul até o Chile, e espalhando-se tambem
a Leste, pelas regiões septemtrionaes da Argentina, che-
garam até o Rio Grande do Sul.
Raras vezes são encontrados fóra desta zona, e quando
isto se dá, é pela permutação com algum outro objecto.
Assim manifestou-se o Snr. Carlos Daniel Rath,
declarando-me que o seu fallecido pai, o Dr. Carlos
Rath, encontrára um destes machados circulares em S.
Paulo, e fizera doação delle ao Museu Nacional do Rio
de Janeiro.
O Museu de S. Paulo não possue nenhum specimen
destes curiosos artefactos, a não serem algums do Rio
Grande do Sul e todos os colleccionadores interessados
não o encontraram ainda no territorio do nosso Estado.
Tenho de observar porém que não conheço ainda
exemplares destes artefactos originarios do Chile. Se
não engano elles tem as duas superficies parallelos e
não convergentes a bordo como os do Rio Grande do Sul,
o que representa uma diferença notavel. Waztz, (30, vol.
ROM
3, p. 521) mencionando estas pedras do Chile, diz: « nada
consta-nos sobre o uso daquellas pedras redondas e acha-
tadas, perfuradas no meio que naquelle paiz muitas
vezes se encontra, e que são parecidas ás que Cook (cf.
Molina 58, note) encontrou usadas como armas pelas
indigenas das ilhas oceanicas do oceano pacifico. »
Uma pedra deste typo existe no Museu Paulista
e sem duvida podemos suppôr que a pedra mencionada
por ath pertenceu ao mesmo typo, que por ora não
conheco do Rio Grande do Sul, faltando ao contrario em
S. Paulo, etc., aquelles machados circulares perclusos com
orla cortante dos quaes como typo caracteristico do Rio
Grande do Sul aqui tratemos. («Wirtelaexte» em allemão.)
Machados semi-circulares.
Estes machados ( « Ankeraexte» em allemão) geral-
mente bem trabalhados, tem o corte de forma semi-cir-
cular, alongando-se para traz em um cabo.
Como já ficou dito anteriormente o unico specimen
deste typo foi achado no Rio Grande do Sul na Serra
do Herval, que é o lugar mais meridional donde são
conhecidos estes machados.
Mais abundantemente são elles encontrados nos
Estados septemptrionaes do Brazil.
Já citei as obras que tratam mais detalhadamente
destes instrumentos, limitar-me-hei aqui apenas a citar
a publicação do Snr. Schmeltz, que esclarece o modo
porque estes machados são atados ao cabo. (1)
Nenhum destes curiosos artefactos foi encontrado
até agora nas republicas do Prata, nem mesmo ao Norte
da Argentina, onde ao menos poder-se-hia alimentar
a esperança de encontral-os.
(1) Internationales Archiv für Ethnologie, B. III, Leiden,
1890 pag. 195 Tab. XV, fig. 3, e Ibid. B. IV, 1891 N.º XXII,
pag. 257.
FIG. 5.
Machado semi-cireular
No Museu Nacional do Rio de Janeirozexiste grande
numero destes machados, procedentes ordinariamente do
Norte do Brazil, dos quaes Ladislau Netto dá varias:
estampas no volume VI do Archivo daquelle Museu,
sendo um exemplar de syenito, de rara belleza.
No Estado de S. Paulo tambem foram encontrados
alouns exemplares.
Machados entalhados.
São estes os que tem um entalhe que rodea a extre-
midade contraria ao gume, servindo, como supponho:
para facilitar de adaptal-os a um cabo por meio de cordas,
e não, como descreve o P. Schupp para servir de apoio
ao dedo pollegar e o index.
FIG. 6.
Machado entalhado
=) ==
Este typo tão original é rarissimo no Rio Grande
do Sul, observado porém e já descripto peio Snr. Koseritz
e outros.
E" conhecido tambem no Estado de S. Paulo, porem
ainda muito raro. Segundo Ladislau Netto (1. c. pag.
490) este machado encontra-se mais pelo Norte do Brazil;
e segundo Ameghino tambem é commum nas provincias
septemptrionaes da Argentina, dando mesmo estampas
«le dous exemplares procedentes da Catamarca. (I, Pl. IX
fig. 318-319.)
EK’ muito caracteristica a distribuição deste artefacto,
6 preciso investigal-o mais detalhadamente.
Em Buenos Ayres, bem como no Uruguay, o typo
«deste machado já não é mais encontrado, porem Strobel
publicou a figura de um specimen encontrado em S.
Luiz. Koseritz affirma a existencia dos mesmos nos sam-
baquis do Rio Grande do Sul e em Conceição do Arroio,
sendo encontrados tambem em S. Catharina e Paraná.
Parece que todo este territorio corresponde á antiga
«istribuição dos indios da tribu dos Patos.
Quebra-nozes
Encontra-se frequentemente no Rio Grande do Sul
pedras do formato de um pequeno queijo, com as duas
superficies mais ou menos polidas, tendo no centro uma
pequena cavidade do tamanho de uma ponta de dedo.
Tem estas pedras em geral um diametro de 4a 8 em.,
raras vezes de 10 e mais.
O seu uso era até bem pouco tempo ignorado, suppon-
«lo os investigadores que serviam para polir o barro na
fabricação de vazos e outros utensilios keramicos.
Strobel (II, Tab. X, fig. 5) e Ameghino (I, fig. 305,
pag. 454), descrevem semelhantes pedras da Argentina,
porém nada dizem a respeito do seu uso.
FIG. 7.
Quebra-noz
Como as depressões centraes geralmente são situadas:
bem oppostas e correspondentes, podem-se suppôr que
aquellas cavidades tem o fim de servir para as pontadas.
dos dedos, pollegar e index. Em 1888 dei ao Snr. Æwd.
Virchow algumas destas pedras, sendo uma d'elles um
machadinho bonito. Foi, porém, em vão que delle e de:
outros sabios pedi informações.
O primeiro que deu a explicação exacta foi o falle-
cido Dr. Carlos Rath, apaixonado explorador da archec-
logia dos Estados de S. Paulo e Paraná, e que (24, a
pag. 288) declarou ellas destinadas para abrir sementes:
de coqueiros. Esta explicação foi firmado por G. Koenigs-
wald que entre os guaranis da costa de S. Paulo,
domiciliados ao margem do Rio Preto viu usadas estas.
pedras como quebra-noces. Uma pedra maior, tambem
com a mesma cavidade foi collocado em baixo e a
outra mais pequena servia para bater e quebrar a se-
mente de palmeira. Tambem nos Sambaquis de S. Paulo:
são encontradas estas pedras.
Pedras sulcadas
São de uso mysterioso certas pedras geralmente de:
erés, de tamanho regular, trazendo na superficie supe-
rior diversos sulcos parallelos ou convergentes, da lar-
gura e profundidade mais ou menos de um centimetro.
EN RUE
Suppunham alguns autores que estes sulcos eram
feitos para adelgaçar os machados de pedra, porém esta
supposição não me é bastante plausivel, oppondo-se a
forma semi-circular da secção do sulco.
Para mais esclarecimentos é preciso lançar mão do
estudo comparativo de artefactos analogos, usados por
outros povos.
Rau fez varias descripções de semelhantes pedras
da America do Norte, demonstrando que os indigenas
se serviam dellas para endireitar as flechas recurvadas,
sendo as pedras aquecidas e logo collocadas na parte
encurvada da flecha.
Uma outra observação que podia servir de explicacão
é a do Snr. Schmeltz que diz que os sulcos serviam para
descascar as arvores, proprias para a fabricação do livrilho.
Propendo para a opinião do Snr. au, e confesso
que só outras investigações nos poderão esclarecer a
questão.
Compare-se as descripções dos Snrs. Kunert e Schupp
e as estampas fornecidas pelos Drs. Ludislau Netto
(p. 486) e Strobel (III, fig. 60).
O Snr. G. Koenigswald encontrou destes sulcos, aber-
tos em rocha viva na Serra do Mar, e como eram feitos
em geral a heira dagua ou de uma corrente, concluio
o mesmo senhor que estes sulcos serviam para amollar
machados.
Uma solução exacta da questão só nos pode vir de
observações directas, feitas em tribus indigenas existentes
ainda no centro do Brazil.
Tembetá
Ha duvidas si os tembetás são ou não encontrados
no Rio Grande do Sul. Ladislau Netto apresenta-nos
varias figuras caracteristicas destes tembetás (I. c. pag.
522 ff.) Aoseritz (pag. 20 e 61) dá noticia de ter achado
dous destes objectos feitos de uma substancia incognita,
parecida com o osso, e os denominou tembetás, no que,
porém, ha duvidas. Acreditando mesmo que fossem tem-
betás, o que não é razoavel é deduzir deste facto a exis-
tencia de Botocudos no Rio Grande do Sul. E” certo que
existem ainda botocudos em S. Catharina e Paraná, é
bem provavel, portanto, que elles transpuzessem de
tempos a tempos o rio Uruguay e entrassem no Rio
Grande do Sul, porém nada se sabe ao certo a este res-
peito. Em todo o caso, o tembetá, como adorno do labio
inferior, nada pode demonstrar, visto que todos os povos
indigenas da America, mesmc os Esquimous, usavam
destes enfeites. O vocabulo «tembeti» é guarany e Os
verdadeiros tembetás de osso ou pedra são particulari-
dades dos mesmos Guaranys, emquanto que os Botocudos
uzavam rodellas de pau bem largas, sendo o orificio do
beiço successivamente alargado até adaptar se áquelle
tamanho informe.
Os adornos, provenientes dos sambaquis, de que falla
Koseritz, não são tembetás, o que perfeitamente é demons-
trado pelo diminuto diametro dos mesmos, que é de 5
a 10 mm.
FIG. 8.
Ponta de flecha polida de agatha
Tambem não o pode ser um cilyndr» de agatha, figu-
tado pelo Rvd. P. Schupp (I, p. 98, fig. 38), e que foi
achado no Rio Grande do Sul. Ladislau Netto descreve
uma pedra, identica como ponta de flecha (1. c. pag. 503),
possuindo tambem o Museu Paulista uma ponta seme-
lhante.
DARE yo LUE
Schupp faz menção de uma pedra, semelhante «a
precedente, porém com rego circular perto do fim, que
parecia servir de adorno pindurado ao pescoço; descreve
o mesmo Snr. outra pedra de schisto, tendo no lado mais
estreito 2 perfurações. Para estes collares, os antigos
indigenas usavam ainda dentes e conchas maritimas,
todas devidamente perfuradas. Destas conchas foram
encontradas diversas ao Norte de Porto Alegre e na
colonia de S. Lourenço, sendo as especies as mesmas que
ainda hoje se vêm nas pratas. O que prova que os indi-
genas do interior fizeram viagens regulares pelo littoral.
Waitz conta (1. c. pag. 416) que entre os tupys os
homens usavam de tembetás e as mulheres de orna-
mentos de orelha, sendo o tembetá feita de uma pedra
verde. Estamos assim tocando a questão celebre de ne-
phrito om jadeita, questão importante tambem para nos
no Brazil. Refiro-me neste sentido as publicações de
Barbosa Rodrigues e a critica respectiva por Sylvio Romero
(24 b., pag: 65 ff.) Conhecemos estes artefactos do Rio
ae Janeiro, e temos um machadinho de Chloromelanite
no Museu de S. Paulo, mas nada por ora nos consta
sobre taes «muirakitan» do Rio Grande do Sul. Tão
pouco encontram-se no Rio Grande do Sul os tembetás
feitas do resina de Jatahy (Hymenaea courbarril), que
temos do Estado do Paraná, parecendo que a arvore de
Jatahy falte mais para o Sul.
Bolas
No Rio Grande do Sul ha abundancia destas bolas.
Hoje são ellas fabricadas de ferro, emquanto que os
antigos indigenas adoptaram pedras mais ou menos
redondas, com a superficie quasi lisa e aspera (Schupp
IT, 93 e 95, fig. 28.)
Ameghino tambem trata detalhadamente destas bolas.
(1,-p: 428. ff. Pl. VIT.)
7
A bola mais commum é a chamada «bola de char-
ria» que tem ás vezes a forma de um ovo; feita de
melaphyrio, é sulcada de um circulo no meio.
FIG. 9.
Bola de charria
Pedras com sulcos tanto meridionaes como equato-
riaes, são procedentes da Argentina (cf. Ameghino I, PI.
VIII, fig. 298 e 299 completamente deconhecidas no Rio
Grande do Sul.
Posto que as bolas hoje sejam geralmente de ferro,
entretanto ainda encontram-se aleumas de pedra natural
e sem nenhum sulco.
São collocadas em um couro e são por laços compridos
unidos entre si tres bolas e para serem arremessadas,
prende-se a menor das tres bolas e com o impulso é
despedida a arma tomando a direcção desejada.
Schupp suppõe, que esta maneira de se usar estas
bolas tambem era conhecida dos antigos indigenas, Ame-
ghino, porém, (I, p. 429), demonstra, que as bolas dos
Charruas e Querandis, ao menos quanto as maiores e de
sulcos circulares, chamadas bolas perdidas, eram usadas
de outra forma: atadas estas bolas a um lóro comprido,
eram atiradas a grandes distancias.
Algumas vezes ainda era o lóro atado a um curto
cabo de madeira.
Como Ameghino demonstra, o uso das- bolas quer
simples, quer sulcadas ou perfuradas é commum em
orande parte do mundo. E’ mister pois acautelar-se
quanto a decisões falsas sobre o valor das mesmas na
Archeologia.
Para o estudo da Archeologia brazileira, porém, as
bolas são de grande importancia, visto que são encon-
tradas apenas no Sul do vasto territorio brazileiro, sendo
importantes para o estudo dos antigos povos.
No Rio Grande do Sul as bolas são encontradas,
tanto nos campos, como nas mattas virgens. Ora, sendo
a bola arma pouco apropriada para as mattas, é muito
provavel que para lá foram levadas pelos indios que
habitavam as vastas campinas. Tambem se encontram
nos campos do littoral, mas o que é de admirar é que
ellas não existam nos sambaquis das costas do Rio
Grande do Sul, facto este que merece muita attenção.
O mesmo se dá com os sambaquis de S. Paulo.
O Snr. Mueller confirma o mesmo relativamente aos
sambaquis de S. Catharina. Ha duvidas, portanto, de que
as bolas sobre que falla Aoseritz (pag. 61) fossem achadas
nos sambaquis da Conceição, como elle diz, mas sim
nas suas vizinhanças. O Snr. Bischoff é da mesma opi-
nião, não tendo as enc ntrado nos sambaquis.
C. Rath affirma que o seu defuncto pae achou
algumas bolas nos sambaquis de S. Paulo, as quaes
devem ainda existir no Museu Nacional do Rio de Janeiro.
Não se deve entretanto excluir a ideia de que taes
pedras se tivessem confundido com outras de diversa
serventia. Ladislau Netto figura diversas bolas (I. €. p.
506), sem dar a procedencia; provavelmente são bolas
de origem Rio-Grandense. A respeito das bolas de sulco
circular chamadas bolas de charrúa, tenho ainda a
mencionar que os Charruas fizeram muito uso dellas,
como uma arma horrivel, na revolução Rio-Grandense de
1835 a 1844. Usavam de duas bolas unidas e amarra-
das a um lóro de couro do comprimento de uns 4 metros.
A verdadeira bola perdida, porém, é uma unica bola.
DE EE
Actualmente servem-se do typo descripto com 3
bolas.
Tendo o emprego das bolas o inconveniente, de
machucar e mesmo de inutilizar muitas vezes os ani-
maes assim presos, o seu uso tende-se muito a diminuir,
sendo substituido pelo do laço.
Urnas
Os productos da arte ceramica dos indigenas do Rio
Grande do Sul em nada differem dos de outros estados
do Brazil e do Rio da Prata. Apenas no territorio dos
Calchaquis ou nos mounds da ilha de Marajó, situada
na fóz do Amazonas, apresentam-se typos estranhos;
nos demais casos trata-se de urnas mais ou menos gros-
seiras, fabricadas de barro e á mão, e rudemente quei-
madas.
Os indigenas confeccionaram-as de pedaços compridos
em forma de linguiça, de modo que collocavam camada
sobre camada até chegar 4 altura desejada. As paredes
são em geral grossas e de superficie lisa; outras porém
são ornamentadas de figuras lineares, meandricos, etc.
Urnas anthropomorphicas ou zoomorphicas não exis-
tem no Rio Grande do Sul.
FIG. 10.
Igacaba
Te
Todas as urnas Rio-Grandenses são mais ou menos
piriformes, e da mesma forma são os tampas com os
quaes são cobertas as grandes urnas funerarias (iga-
cabas).
Rath diz (pag. 27) que as igaçabas de S. Paulo e
Paraná tinham tampas providas de um botão ; destas
nunca vi, nem no Rio Grande nem em S. Paulo.
O tamanho das urnas é muito variado, e já se encon-
traram algumas de tamanho desusado, podendo conter 6
hectoiitros. A maior da colleccäo de Schupp tem uma
bocca de 62 cm. de diametro. Muitas destas urnas con-
tinham esqueletos humanos, quando desenterrados ; isto
foi verificado tanto no Rio Grande do Sul, por Xoserit:
e mim, como em S. Paulo e Paraná. (1) Resta saber-se
agora, qual o modo de interramento, si o individuo é
enterrado na igaçaba logo depois da morte, ou só a ossada
depois da putrefação da carne, ou ainda se ambos os
modos estavam em uso.
Rath diz, que os indigenas enterravam provisoria-
mente os seus mortos, que falleciam longe da aldeia,
para mais tarde tirarem a ossada, que levavam á aldeia
do morto, dando-a então á sepultura definitivamente em
pequena igacaba.
Koseritz (pag. 24) dá noticia de urnas funerarias,
que foram desenterradas de um cemiterio indigena, desco-
berto em 1867 no Campo dos Bugres, hoje Colonia Caxias,
contendo esqueletos humanos, tão bem conservados que
de certo não podiam exceder 4 edade de um seculo. Um
meu conhecido contou-me tambem, que durante a guerra
do Paraguay, encontravam nas proximidades do rio Uru-
guay uma igaçaba que continha o corpo de um indio
ainda muito bem conservado. Ouvi dizer que muitas
vezes encontram-se duas urnas juntas, das quaes uma
servia de tampa a outra. Aoseritz, porém, affirma que os
indigenas enterravam as igaçabas sempre de bocca para
baixo. Não duvido que haja muita differença entre os
(1) Assim observado por Aazh (f. Ladislau Netto 1. c. pag. 428.
APN ES
indigenas na maneira de enterrar os mortos. Todas estas
questões devem ser estudas, comparando-se as observações
de exploradores circumspectos. O que é essencial, é saber,
si Os ossos encontrados em igaçabas, são inteiros ou
fracturados. Barbosa Rodrigues assevera, que os indigenas
quebravam os ossos, principalmente dos membros, dos
mortos, porque de outra sorte não caberiam na igaçaba.
Rath sustenta que a posição dos mortos nas urnas
é a mesma que a dos embryões no ventre maternal, tendo
os Puris e outras tribus o costume de amarrar com cipó
os membros do corpo. Desta maneira não é de admirar,
que as igaçabas podessem conter o corpo inteiro. Affirma
ainda com outros o mesmo Rath, que os Botucudos inci-
neravam os mortos, para enterrar logo a cinza em
pequenas urnas. Conclue-se pois, que e preciso muito
cuidado para examinar o conteudo das igaçabas, e colligir
as noticias a respeito, tanto mais que talvez estes diffe-
rentes modos de sepultura correspondem á differentes
tribus.
Pelo momento parece-me provavel, que as tribus dos
Guaranys enterravam os mortos em urnas, e os cadaveres
que eram enterrados simplesmente em pequenos monti-
culos, pertenciam ás tribus dos Crens.
Supponha-se com razão, que as igaçabas de paredes
grossas, isto é, com uma pollegada de espessura ou mais,
e ornamentadas apenas de impressões feitas com o dedo
pollegar, sejam as mais antigas, emquanto que as de
paredes mais delgadas e mais bem acabadas e pintadas
sejam de uma epocha mais moderna. Interessante a este
respeito é uma observação feita por Xoseritz (pag. 23),
dizendo que encontrou à margem do Rio Taquary em
uma profundidade de 10 metros, cacos grossos de uma
igaçaba muito antiga, cuja edade foi avaliada em milha-
res de annos, visto o solo ali crescer apenas de 10 cm:
em 50 annos. Awnert ao contrario nunca encontrou cacos
de louça antiga em camadas fundas do alluvio, referen-
do-se isto ás suas pesquizas feitas no territorio do Cahy.
SR ets
Tambem é elle da opinião de que os indios só adop-
taram a pintura em suas urnas depois de terem visto
os productos europeos, que foram introduzidos logo
depois da descoberta da America (l. c. pag. 33.); si,
porém, tivesse elle conhecido as delicadas ornamentações
da louça pintada, entre os indigenas prehistoricos do
Marajó, Catamarca, etc., certamente não seria induzido a
enuuciar um erro tão manifesto.
Kunert descreve uma grande urna funeraria com
tampa, encontrada no valle de Forromecco, contendo
um esqueleto em posição acocorada ; pelo contrario uma
outra igaçaba, encontrada em Lombo grande, continha
no fundo os ossos em confusão, sendo, porém, a caveira
collocada sobre um prato especial; a tampa é curva e
sem botão. Este mesmo typo representa uma igaçaba de
Piracicaba (S. Paulo), que me foi gentilmente offerecida
pelo Snr. Carlos Nehring.
Cachimbos
Entre os productos da antiga industria indigena são
os cachimbos em geral de grande raridade, tanto no Rio
Grande do Sul como em toda a America do Sul.
Todos são, como as urnas, fabricados de barro, sendo
porém o material melhor escolhido. São fabricados de
um barro fino bem misturado e sem pedrinhas.
Contesto a opinião sobre cachimbos fabricados de
pedra.
| Tanto Ladislau Netto (1. e. p. 447), que falla de um
cachimbo de steatite, do Rio Grande do Sul, como Kose-
ritz (1. c. p. 18) que descreve um outro de grés em forma
de uma cabeça de Azteko, confundiram o material. Tive
mesmo occasião de examinar o cachimbo a que se refere
Koseritz, e achei que era fabricado de barro cosido. Todos
os typos de cachimbos, por mais differentes que sejam,
são pouco volumosos, em geral tem 6 a 8 cm. de
comprimento, e o receptaculo é nunca maior que um
dedo pollegar.
NET AE
A particularidade de todos estes cachimbos é terem
a chaminé sempre curta, provida de um orifício estrei-
tissimo, que apenas permitte a introdução de um fino tubo.
Supponho que para tal ffm applicaram elles tubos
de um bambusaceo (taquara), ou a haste de uma gra-
minea, porque a ponta da chaminé é pouco adaptada a
bocca do fumente. Awnert estampa, (I. c. p. 697, fig. 10),
um caximbo com duas chaminés, de maneira que duas
pessoas ao mesmo tempo |odiam servir-se delle.
Quanto ao receptaculo ou fogão, podem-se dividir
os caximbos em dous grupos; ao primeiro pertencem os
que tem o eixo do receptaculo na mesma linha hori-
zontal que o do tubo; ao segundo pertencem todos os
FIG. Il.
Caximbo de S. Lourenço.
demais, sendo mais ou menos inclinado o eixo de cha-
miné com o do receptaculo, formando em geral um angulo
recto. Tenho recebido grande numero de caximbos do
primeiro typo, do Rio Grande do Sul, principalmente da
colonia de S. Lourenço.
FIG. 12.
Caximbo do Cahy.
Quanto ao segundo grupo apparecem typos ditfe-
rentes, sendo o mais commum o de receptaculo e chaminé
ENS QNTO
bem desenvolvidos, sendo este ultimo de forma cylin-
drica ou quadrangular.
Foi modificação singular deste typo um cachimbo
anthropomorphico de Æoserit:, o qual infelizmente per-
deu-se no grande incendio da Exposição Brazileira-Al-
lemã em Porto Alegre (1882). O receptaculo tinha a
forma de uma cabeça humana a queixos salientes e com
a fronte francamente recuada, de maneira que Koseritz
o comparou com uma cabeça de azteko (1. c. p. 18).
Esbocei-o ha pouco, de memoria, dando a figura (15
p. 191, fig. 1) e nesta occasião tambem descrevi outro
cachimbo anthropomorpho, que encontrei na colonia de
S. Lourenço, e o qual hoje está no Museu de Leiden. E’
de forma mais ou menos redonda, sendo a chaminé muito
curta.
Ha na frente uma cara humana, fingida por meio
de impressões, tendo em baixo da bocca tres sulcos pe-
quenos, mais ou menos verticaes; estes são justamente o
característico da authenticidade do objecto, visto que
entre as esculpturas e desenhos dos indios do Norte do
Brazil tambem são encontradas da mesma maneira, pro-
vavelmente para significar a barba. O P. Schupp (1. e. p.
131, fig. 12) dá uma figura indicando um cachimbo an-
thropomorpho, sendo porém difficil a dar uma explicação
exacta, por estar muito estragado.
Outro typo de cachimbo de configuração interessante,
e de forma mais ou menos cylindrica, é o que tem o
eixo da chaminé horizontal, sendo collocado verticalmente
ao do receptaculo. A este grupo pertencem os cachimbos
de Buenos Ayres, de que falla Ameghino (2, Pl. VII, fig.
271-272) e os da Bahia, figurados por Ladislau. Netto (23
p. 448.
Desconheço cachimbos deste genero no Rio Grande
do Sul, porém encontram-se outros mais ou menos seme-
lhantes, e a este grupo deve ser incluido o cachimbo
anthropomorpho, encontrado em S. Lourenço, e que já
ficou descripto.
RES QUO RE
E' de grande interesse conhecer-se a zona por onde
são distribuidos os cachimbos.
Ameghino os encontrou na Argentina, principalmente
na provincia de Buenos Ayres. Ha grande quantidade no
Rio Grande do Sul, porém mais raramente são encon-
trados no littoral do Norte deste Estado até a Bahia e
Alagoas. Parece que são completamente desconhecidos
no Pará e Amazonas, e segundo J/arcano tambem o são
em Venezuela. Não existem no Perú, emquanto que no
Chile são conhecidos.
Segundo Philippi (cf. Kunert, 18, p. 695), os cachim-
bos chilenos säo semelhantes aos da Argentina e do Rio
Grande do Sul, e lá tambem são elles designados pelo
nome de « cachimbos ».
A palavra cachimbo, segundo penso, foi acceitado
por importação pelos portuguezes no Brazil, os quaes
propagaram o seu uso e nome, tanto entre os indigenas
do Brazil, como entre os da Argentina e do Chile. Não
ha prova de que os indigenas do Chile conhecessem o
uso do fumo em tempos precolombianos, tanto que os
Araucanos ainda hoje designam o tabaco por puethem.
palavra guarany. |
Para solver a questão, é preciso antes de tudo vêr
qual a distribuição dos cachimbos, nas diversas epocas
da historia; infelizmente temos a este respeito, como
para todos os achados archeologicos do Brazil, poucos
dados para se lhes poderem determinar a edade.
E' certo que os sambaquis e os mounds em geral
são precolombianos; é esta a opinião geral de todos os
exploradores. E' um erro, porém, suppor como A. Loef-
gren (Os Sambaquis de S. Paulo—Boletim da Commissão
Geographica e Geologica de S. Paulo. N. 9-1893 p. 78 ff.)
que a cultura dos sambaquis seja exclusivamente de tempos
precolombianos. Dos sambaquis de S. Paulo principal-
mente e dos do Paraná, se pode em parte demonstrar que
ainda foram habitados por algum tempo pelos indigenas,
depois que os portuguezes occuparam a costa.
— 83 —
G. Koenigswald, que tem bom conhecimento dos sam-
- paquis, affirma, que em um delles proximo ao Mar Pe-
queno, foram encontradas perolas venezianas, e em outro
no Paraná uma cruz papal, com os signaes de religião
catholica. Todos os missionarios e os soldados que os
acompanharam naquelles tempos, receberam do Papa
uma cruz, como insignia de defensores da religião catho-
lica. E’ porém mister, proceder neste sentido com muito
cuidado, visto que objectos em forma de cruz e até de
cruz papal existem tambem entre as antiguidades ame-
ricanas, como declara Vadaillac (L' Amerique prehistorire.
Panis 16685. p. Lil e 1/5).
Não é, pois, de estranhar, que de vez em quando
nos Sambaquis se encontra um cachimbo entre objectos
postcolombianos, como aconteceu a C. Rath, que deparou
um, de barro bem queimado, e que mostrava por si,
pelo modo como foi feito o queimado, ter sido dos portu-
guezes, ou de qualquer povo europeu (1). Em Santa Ca-
tharina, segundo H. Miiller, tambem foram encontrados
em camadas superiores de um sambaqui ossos de cavallo
e cacos de louça européa. Quanto ao mais. estamos de
accordo com À. Loefgren, que os sambaquis em geral são
de tempos precolombianos e a falta absoluta de cachimbos
nos mesmos (salvo as excepções supra indicadas), de-
monstra, que o uso de fumar o tabaco por cachimbo era
desconhecido, antes da vinda dos europeus, como fui eu
o primeiro a demonstrar (12 pag. 871). Nenhum dos nu-
merosos autores que tratam dos Sambaquis, encontrou
nelles cachimbos.
Nota-se tambem a ausencia dos cachimbos nos mounds
de Amazonas e na ilha de Marajó.
Outra questão interessante é o ponto linguistico,
cuja importancia já foi reconhecida por Awnert (18, p.
695), como abaixo vemos. Diz elle: «Segundo as informa-
(1) Um cachimbo queimado duro como o vidro achei perto
da cidade de Rio Grande do Sul, junto com objectos de ferro
e louça.
PHS Yi
ções do Dr. Philippi de Santiago os cachimbos encon-
trados nas sepulturas dos antigos indigenas do Chile,
nao differem em nada dos que ha no Rio Grande do Sul.
“Ainda hoje estes mesmos cachimbos são usados pelos
Pehuenches, a Leste dos Andes chilenos, bem como entre
os indigenas da Patagonia.
Os bugres do Brazil dão ao tabaco o nome de petim
(pito-cigarro, etc.), o mesmo vocabulo, de que segundo
Philippi já se serviram os historiadores hespanhóes no
seculo XVI para designar o tabaco.
Os araucanos chamam o tabaco puethem.
« Parece-me que a palavra pitar muitas vezes subs-
tituida pelo vocabulo fumar, deriva-se da lingua Guarany.
« Resta ainda à provar se foram os portuguezes que
introduziram na America do Sul o uso do fumo, ou si
os indigenas já usavam antes o tabaco, ou qualquer
outra planta nicotinica, que designavam pelo vocabulo
petim.
« O uso geral desta palavra entre os indigenas de
toda a America do Sul, deixa suppor que o costume de
fumar em cachimbos existia ja antes da descoberta da
America; como é certo tambem que os antigos indigenas
do Chile usavam o fumo antes da chegada dos conquis-
tadores hespanhóes ».
Acho que o ultimo topico é inexacto, e que as cita-
das « antigas » sepulturas são post-colombianas. O uso
da palavra pelim, em nada attesta o costume de fumar
o tabaco em cachimbos em tempos precolombianos, de-
monstrando apenas que o tabaco era conhecido, e que o
seu uso era outro, demonstrou-o Wittmak (31 p. 345). O
exame cuidadosamente feito das plantas encontradas nas
sepulturas peruanas mostra que 0 tabaco ja existia, e é
claramente expresso nesse sentido: o tabaco não se fu-
mava, porém era usado como rapé e medicamento.
Certo é que entre as plantas indigenas da America
do Sul, existem varias especies de tabacos, como no Bra-
245.85 =
zil a Nicotiana Langsdor fii Weinm. (1) e é esta exactamente
a planta que os Guaranys designavam com o nome de
petûm. Não ha prova de que esta especie de planta servia
aos indigenas para fumar, e se o era, empregariam tal-
vez a fórma de charutos, visto que em todas as sepul-
turas indigenas de tempos precolombianos, não se en-
controu ainda nenhum cachimbo.
Resta-nos, pois, afigurar, que o uso do cachimbo foi
introduzido pelos Europeos, propagando-se rapidamente
entre os indigenas do Sul do Brazil e da Argentina;
mais tarde o uso do cachimbo foi adoptado pelos indi-
genas da Patagonia e pelos Araucanos do Chile. Isso
não é de admirar, porquanto sabemos, que desde tempos
mui remotos existiram relações entre os povos dos pam-
pas argentinos com os que habitavam os territorios si-
tuados além dos Andes.
Moreno achou em antigas sepulturas da Argentina,
conchas do Oceano Pacifico, e vice-versa os Chilenos
adoptaram o uso dos cachimbos e do tabaco, que lhes
trasmittiram os Guaranys, e não tendo em sua lingua
denominação para os mesmos, acceitarem igualmente as
palavras púthem e cachimbo, usados dos Guaranys. Em
favor da hypothese sobre as relações existentes entre
estes dous povos, temos ainda a bola, que existe não só
no Rio Grande e na Argentina, como tambem no Chile,
e mais os machados circulares perclusos.
Martius ainda observa que a palavra « juá » dos
Tupis, que significa fructa de caroço, era usado pelos
indigenas do Chile com o nome de « gud » para designar
o grão de milho.
(1) Engler e Prantl: Die natiirlichen Pflanzenfamilien, Lief.
67. Leipzig 1891. p. 32 dizem: Nicotiana tabacum I. provem
da America meridional, de mesmo modo Nic. rustica encontrada
tambem ao Mexico, sendo silvestre no Brazil Nic. Langsdorffi
Weinm. A cultura da planta do tabaco começou na Europa em
1518, em Lisboa.
= 890 —
Estende-se ainda o mesmo escriptor em explicações,
estabelecendo, (21, pag. 378) certas relações entre as duas
linguas, as quaes não poderiam existir, sem communi-
cações entre os dous povos.
Pode-se concluir, pois, que sendo o cachimbo post-
colombiano no Brasil e na Argentina, tambem o é no
Chile.
O uso geral da palavra petim, entre as muitas tribus
guaranys e Tupis, prova que o tabaco era conhecido por
elles desde tempos mui remotas. Entretanto não é de
sorprehender que inventassem a palavra pitybao, para
designar cachimbo, como inventaram palavras para todas
as demais inovações européas, como: para animaes do-
mesticos, metaes, etc.
Parece-nos verosimil, que comparando-se methodica-
mente as designações de objectos e noções, conhecidas
de ka muito pelos indigenas, este estudo mostrasse grande
variabilidade destes termos, comquanto a sua lingua não
seja rica para significar tudo que foi importado dos Eu-
ropeos. Designam a gallinha, o porco, etc. com as mes-
mas denominações que dão 4 animaes seivagens, mais ou
menos semelhantes, e faltando-lhes esta comparação,
como acontece para o cavallo, adoptam o nome portu-
guez, muitas vezes mutilado.
O tabaco não pertence a este ultimo grupo, pois que
já era conhecido (petüm); o contrario, porém, se da com
o cachimbo, para o qual quasi que não existe outro nome.
A significação da palavra cachimbo, ainda não está
bem esclarecida; Martius (21, p. 424) suppõe que origina-
se da lingua dos negros da Africa, questão a que logo
voltarei.
Como resultado das nossas investigações, podemos
affirmar, que o tabaco já era conhecido em tempos pre-
colombianos, não só no Brazil, como quasi em toda a
America do Sul e que servia de rapé e como medicamento:
onde for fumado o foi em forma de cigarros. A este res-
peito estão de accordo tanto os historiadores, como os
E EN
botanicos, porém não era cultivado geralmente pelos
indigenas do Brazil.
Ainda hoje, segundo von d. Steinen, é desconhecido
aos Bakairis do alto Xingú, bem como as bananas e os
metaes.
Si bem aqui os cachimbos sejam postcolombianos, já os
indigenas da America do Norte conheciam-os e usavam
delles antes da descoberta de Colombo. O grande centro do
seu uso era a bacia do Mississippe, porém estes cachimbos
nada tem de commum com os do Brazil, tanto em forma
e material, quanto em sua importancia tradicional. Na
America do Norte elles são quasi sempre de pedra, ao
passo que na America do Sul nunca o são; a forma
typica norte-americana tem o receptaculo no centro da
base, o que não se dá com os da America do Sul. O ca-
chimbo, que os selvagens da America do Norte offerece-
ram aos seus adversarios, como symbolo de paz, é neste
sentido inteiramente desconhecido no Brazil.
Sabemos pela historia, que o uso do fumo, antigo
na Asia ena America, relativamente a este ultimo conti-
nente, originou-se da America do Norte e das Indias Oc-
cidentaes. Emquanto na epoca da descoberta da America
os norte-americanos usavam o cachimbo, era o fumo
usado pelos indigenas das Antilhas na forma que tem
hoje os nossos charutos, e que chamavam « tabaco ».
Humboldt encontrou semelhante costume entre os
Tamanacos e Maypuros da Goyanna, que envolviam po-
rém os charutos em palha de milho, uso este que existiu
no Mexico antes da conquista de Cortes. Como se sabe,
o mesmo uso de se envolverem os charutos em uma
outra palha, especialmente de milho, existe ainda hoje
entre todos os povos hespanhôes e portuguezes da America.
Contraria a este parecer é uma noticia de Zrnst,(1)
que descreve um cachimbo em forma de phallus achado
(1) ef. Verhandlungen d. Berliner anthropol. Gesellschaft 1884,
pag. 455 e mais 4. Ernst. Venezuelanische Tlongefasse. Interna-
tionales Archiv f. Ethnograph. vol II. 1890 pag. 169-175. PI. XIII.
Rie Soi
em Venezuela, e estampa um outro, encontrado na lama
endurecida, à margem do lago de Valença em Venezuela.
Continua dizendo, o mesmo sabio, que os antigos habi-
tantes da região de Valles de Aragua, eram bastante ha-
beis na fabricação de artefactos deste genero, e que na
Venezuela tem-se a palavra de cachimbo, o mesmo nome
que se usa no Brazil: Suppõe elle, que cachimbo deriva-
se do guarany, sendo uma palavra composta de ca e
timbo (queimar-fumaça).
Segundo, porém, as opiniões de linguistas compe-
tentes, este parecer não poderá ser adoptado, mesmo
porque em nenhum lexicon da lingua guarany se en-
contra esta palavra. Martius é da opinião de que a pa-
lavra enigmatica de cachimbo, se originou de uma lingua
dos negros da Africa. O uso geral da mesma palavra em
Venezuela, Brazil, Argentina e mesmo no Chile, é uma
prova bastante forte de que o nome e o proprio objecto
foram introduzidos pelos conquistadores. O cachimbo de
Torocoa é bastante differente dos que ha no Brazil (1),
e duvido que seja de tempo precolombiano, pois, 0 lugar
onde foi achado, nada pode demonstrar, porque é muito
provavel que a deslocação das margens do lago se tenha
feito em um ou dous seculos. Marcano não registra ca-
chimbos entre as antiguidades de Venezuela, oppõe-se
mesmo a opinião de terem existido cachimbos em Vene-
zuela em tempos prehistoricos, pelo facto de não existi-
rem nos mounds do Amazonas.
Nas sepulturas do Perú, nos Mounds do Marajó, nos
Sambaquis do Brazil, e emfim em todos os lugares em
que foram examinadas as antiguidades precolombianas
da America do Sul, faltam os cachimbos.
Outro argumento importante nos dá a etymologia
da palavra « cachimbo ». Como já mencionei, ha até
(1) Um cachimbo bastante parecido com este estampa Virchow
(Verhand. der Berliner Anthropologischen. Gesells. 1884, Taf.
VII, fig. 5, pag. 372-380), e que lhe foi enviado por Burmeister
entre outras antiguidades dos calchaquis.
— 89 —
autores que esta palavra querem exvlicar pelo idioma
guarany, porém de certo por engano. Nota-se que ne-
nhum dos escriptores competentes sobre as linguas tupy-
guaranys acceita tal explicação, e nenhum diccionario
desses idiomas contem a palavra cachimbo. Os dicciona-
rios portuguezes do Lacerda, de E. de Faria e outros com-
binam a palavra cachimbo com a palavra turca Tschibuc,
o que pouco provavel apparece. Marius a declara origi-
naria das linguas africanas e tem razão, pois a explica-
ção mais criteriosa que acho na litteratura diz o mesmo.
E’ o «Diccionario brazileiro da lingua Portugueza», pu-
blicado nos Annaes da Biblioteca Nacional do Rio de Ja-
neiro que no Volume VIII. 1889 pag. 126 esta se expri-
mindo do modo seguinte: caximbo é identico com qui-
xima (objecto ouco) da lingua bundo ou angola. E’ deste
dialecto africano que acceitou a lingua brazileira nume-
rosas palavras como calunga, caxinguelê, camondongo e
outras.
Resta á saber se veiu nos da Africa não só a palavra
mas tambem o-objecto: o cachimbo e o seu uso. Falta-
me a litteratura para estudar esta questão. O que sabemos,
é que muito commum é na Africa o costume de fumar.
Os livros que tratam da questão como p. expl. o de
Tiedemann «O tabaco», dizem que tanto na America como
na Ásia é antigo o costume de fumar. A Europa veiu o
tabaco e o costume de fumar no seculo XVI pelos Hespa-
nhóes e Portuguezes. A cultura do tabaco principiou em
Lisboa, no anno de 1518.
Quanto a America os relatorios do tempo da conquista
mencionam o uso do cachimbo para a America do Norte
mas nao para a America do Sul. E” assim que o livro de
Oviedo (Natural historia de-las Indias. Toledo 1529) falla
dos cachimbos usados entre os indigenas do territorio
dos Estados Unidos. Neste sentido estão em perfeita har-
monia as tradições historicas e os dados archeologicos, e
peço relativamente ás primeiras vêr Wuitz (1. e. pag. 84
e 424) e sobre os ultimos o livro de Nadaillac (1. c. pag.
— 90 —
153, 161, 258). Do valle do Ohio e do Mississippi 0 uso do
cachimbo propagou se a Sul e Oeste, sendo porém tanto
no territoria dos antigos cliffdwellers como na America
central raramente encontrados cachimbos.
Ao contrario as obras antigas tratando do Brazil,
nunca fazem menção do uso de cachimbos, dizendo que
onde existiu o costume de fumar forão usados cigarros.
Assim lemos no livro de Waitz (l. c. pag. 192) que os
Potigoares ou Pitigoares, tribu tupy, tem o nome da pita
(Fourcroya gigantea), visto que os tupinambas aproveitam
a hasta da florescencia para fumar, e mais (pag. 48 e 424)
que fumavam os tupys o tabaco em forma de charutos.
Se Martius accrescenta, que fumar é tambem no Brazil
signal de paz e de amisidade, creio que .o nosso autor
generalisou muito demais qualquer observação isolada.
Varnhagen afirma que as vezes como signal de amisidade
offerceu-se tabaco.
Tambem nas Antilhas usavam os indigenas de ci-
garros com capa de palha, etc., e este uso o temos ainda
hoje no Brazil, fazendo cigarros com folha de milho. Se
os tupys usavam dos canudos de pita para enchel-os
de fumo para fazerem cigarros «ptybao», nos temos
ainda conservado a palavra «pitar » para fumar.
Para resumar os resultados obtidos por esta investi-
cação, podemos dizer:
O fumo, planta silvestre do Brazil, era na epoca da
descoberta da America usado na America do Sul como
remedio e para fazer cigarros com capa do canudo de
pita (por essa razão «pitar») ou de palha de milho. Forão
os hespanhóes e portuguezes que introduzirao o uso do
cachimbo e tambem a palavra de cachimbo, palavra da
lingua angolense e que divulgou-se desde a Venezuela
pelo Brazil até a Argentina e o Chile. Eis a razão, porque
nos Mounds do Amazonas, nos Sambaquis do Brazil como
entre as antiguidades peruanas faltam os cachimbos,
que para a nossa archeologia representam por conseguinte
.— 91 —
o mesmo papel como moedas, objectos de ferro ou perolas
da Veneza.
Ao contrario foi commum já antes da descoberta da
America no territorio occupado hoje pelos Estados Unidos
o uso do cachimbo, que porém alli differe em forma, ma-
terial e significação symbolica do que encontramos no
Brazil e no Chile. Mesmo assim, tambem na America do
Norte não é bem antigo o uso do cachimbo, visto que
estes faltam ali nos Kjockkenmoeddings comono Brazil fa-
zem falta nos Sambaquis. E' provavel, quea cultura do fumo
como aquella do milho entre no grande numero de objectos
e costumes de distribuição universal por todo o continente
americano, e que formam o grande e até hoje impenetra-
vel mysterio do americanista.
Culto aos mortos e Inscripções em rochas.
Relativamente as sepulturas (tibycoara) respectiva-
mente ao modo da inhumação dos antigos indigenas no
Rio Grande do Sul, distingue-se o enterro simples e a
inhumaçäo em urnas funerarias, chamadas igaçabas. A
respeito destas ultimas veja-se o respectivo capitulo.
Sabemos dos Coroados, que enterravam os seus mortos,
construindo um monticulo de terra sobre a sepultura,
que era vigiada por algum tempo; a expedição de Ma-
bilde encontrou uma destas sepulturas em Cima da Serra.
Para os caciques, os montes das sepulturas erão maiores,
assim assevera Rath, que viu o do cacique Condá nos
Campos dos Guarapuavos no Paraná. Segundo muitos
autores tambem os Botocudos enterravam os seus mortos
da mesma maneira, e parece que este uso era commum
entre todos os Crens.
Os Guaranys, ao contrario, inhumavam os mortos
em igaçabas, resta, porém, saber qual o modo porque
eram collocados os corpos, si intactos, com os membros
amarrados por cipós e os ossos quebrados, ou tão so-
mente os ossos, ou finalmente si guardavam unicamente
a cinza depois da cremação do corpo.
eg: PS
A este respeito divergem as opiniões, e esta mesma
divergencia prova, que os indigenas tinham differentes
methodos no culto que davam aos mortos, conforme as
circumstancias do local.
E' certo, porém, que os indios de uma tribu que
morriam longe de sua taba, eram enterrados provisoria-
mente, para serem depois os ossos levados para a sua
aldeia, e lá enterrados definitivamente em uma igaçaba.
Não ha noticias exactas de que as tribus dos Crens se
servissem de urnas para inhumarem os seus mortos, por
isso acredito que todas as igacabas encontradas tivessem
pertencido aos Guaranys. E’ duvidoso que todas as sepul-
turas abertas em terra firme, fosse somente de uso entre
os Crens, e muito provavel é que entre parte dos Gua-
ranys estivesse em voga este uso tambem.
Parecem-nos provar esta asseveração, os poucos esque-
letos, encontrados nos sambaquis. Sabemos que muitos
indigenas da America do Sul tinham por costume enter-
rar Os seus mortos na propria cabana, sem que a familia
sempre depois deixasse a cabana; é, portanto, erradamente
que se tratam de cemiterios os sambaquis, sendo mais
certo, que antes foram antigas habitações dos indi.
genas, e que as conchas, ossos, etc., que nelles se encon-
tram são os restos das suas refeições. Foi encontrado em
um sambaqui proximo á Cidreira, um esqueleto compléto
e em bom estado, porém, tal fracasso soffreu, que nada
mais se poude reconstruir senão o craneo. Foi descripto
por Aoseritz (cf. pag. 80), que infelizmente não lhe deu
a figura.
Os poucos dados que a este respeito pude colligir,
não permittem estender-me sobre a anthropologia physica
dos antigos indigenas do Rio Grande do Sul, podendo,
sómente para o futuro, ser preenchida esta lacuna. O que
conheço dos ossos humanos encontrados nos sambaquis
do Rio Grande do Sul, concorda com as observações
feitas em outros Estados nos sambaquis observados,
— 93 —
isto é: que os ossos do corpo humano são ali encontrados
completamente misturados com outros de animaes, pei-
xes e conchas, de modo que só nos é possivel vêr nelles
os restos das suas refeições. Parece-nos isto tanto mais
verosimil, quanto é sabido, pelas, narrações dos primeiros
exploradores como Huns Staden, Lery e outros, que a an-
thropophagia era commum entre os indigenas da Ame-
rica do Sul, e especialmente do Brazil.
A respeito das inscripções em rochas, veja-se as notas
do capitulo VI. (cf. Ausland, 1861, nº 49, pag. 96). A esta
minha opinião, acrescenta C. von d. Steinen, que recebeu
outra semelhante pedra de Aoseritz, e combate a opinião
de vêr nelles signaes graphicos.
Pode ser que tenha razão, porem não esclarece a repe-
tição de certos signaes typicos em lugares entre si dis-
tantes.
Kunert provocou-me serias duvidas, ha bem pouco
tempo, sobre a veracidade das pequenas pedras de Aose-
ritz; segundo elle, são ellas apocryphas.
Inscripções cuja genuidade está fóra de duvida, co-
nhecemos no Rio Grande do Sul somente duas, uma da
picada da Solentaria, descripta por mim, outra a do Vi-
rador, sobre a qual Awnert deu minuciosas noticias. Em
todas estas inscripcôes se repetem varias vezes differen-
tes signaes como: mãos, pés, vulvas com e sem cabellos
que, porém, em parte talvez representam 0 sol, pinheiros,
figuras de forma espiral e circular, etc. Me parece
duvidoso, que estes petroglyphos Rio-Grandenses tratem
de problemas particulares, visto que semelhantes inscrip-
ções estão distribuidas em toda a região oriental da Ame-
rica do Sul, e parece-me que foram só os indios das
tribus Tupy e Guarany que as gravaram. Não existe
razão para acceitar a ideia de Nadaillac (1. c. pag. 473
que estas inscripções não podem ser feitas por tupys, que
elle não julga habeis por tal fim, visto que elles fizeram
muitas obras de arte muito mais aperfeiçoadas, como redes,
arcos, tembetas, machados e outros objectos.
— 94 —
E” sensivel a falta de uma monographia comparativa
que reproduzisse todo o material a respeito dos petrogly-
phos sul-americanos. Como supponho, o Rio Grande do
Sul é o Estado mais meridional onde foram encontradas
taes Inscripções. Si com o tempo as investigações de-
monstrassem a razão da minha hypothese, affirmativa de
que os autores destes petroglyphos tão semelhantes entre
si, fossem os Tupys e Guaranys (Itambé ou Itacutiara
em sua lingua), estas inscripções ganhariam grande im-
portancia para o estudo da antiga distribuição geogra-
phica destes povos.
Sambaquis
Nossos conhecimentos sobre os sambaquis do Rio
Grande do Sul são limitados, sendo a respeito pequenos
trabalhos apenas publicados por Bischoff, Aoseritz (16
pag. 59) e por mim (7 e 11).
Os sambaquis examinados por Bischoff, são compos-
tos exclusivamente de Mesodesma mactroides, uma especie
de concha, que ainda hoje é commum em toda a costa;
sendo tiradas da areia pelos pescadores, quando o nivel
do mar o permitte, pois nas costas Rio-Grandenses nao
ha fluxo, nem refluxo regulares.
O interesse que nos inspiram os sambaquis Rio-Gran -
denses, não é de todo especial. Encontram-se nelles cacos
de urnas, armas de pedra polida, entre ellas tambem os
machados entalhados de sulco circular e pontas de flechas.
Os typos mais aperfeiçoados, como os machados perfu-
rados, são inteiramente estranhos, como tambem as bolas
e os cachimbos.
Koseritz menciona (pag. 61), que foram achados dous
tembetas de um centimetro de comprimento, porém, estou
certo, que eram apenas pontas de flechas. Diz mais, que
tambem encontrou uma igaçaba ricamente pintada e
que continha um craneo e duas pequenas chapas de
prata, rudemente trabalhadas e de forma triangular.
Estes artefactos parecem ser da epoca precolombiana,
WEN ETES
pois e muito provavel que sejam objectos de permutação
com os povos andinos.
São de um interesse bem especial os sambaquis, si-
tuados a grande distancia da costa. Como elles forão
feitos no tempo quando o mar estava neste lugar, são
elles o signal de modificações na topographia da respec-
tiva região; modificações que não podem ser de hoje nem
do seculo passado, provando a antiguidade dos respectivos
sambaquis, que são precolombianos, nos quaes nem moedas
ou ferro nem caximbos são encontrados.
Emittiu uma opinião bem falsa sobre os sambaquis
do Rio Grande do Sul Ladislau Netto (Archivos do Museu
nacional. Rio de Janeiro. Vol. |. 1876 pag. 2) julgando
que os indios fizerão os sambaquis durante o inverno.
E' verdade que na costa do Rio de Janeiro e de S. Paulo
o inverno é tempo agradavel e procurado para banhos
de mar. Mas no Sul o caso é contrario. O tempo de tomar
banhos de mar é só de Dezembro em diante e no inverno
o clima é de summo rigor, chuvoso, sendo a costa do mar
entre todos o lugar menos agradavel, nem dando abrigo
contra a força do minuano (oeste) e do pampeiro (s. oeste).
Não podemos nestas condições duvidar, que os indios
pouco vestidos ou nus não procurarão o tempo mais frio
e mais feio para o passeio á costa, nem no Rio Grande
do Sul, nem nas costas Argentinas. Se neste sentido
precisava-se de mais provas, poderia nos dal-as a obser-
vação dos indios da Patagonia. Sabemos que na região
do Chubut uma vez só por anno vem a costa, e isto no
verão (veja « Export » Berlim, 1893, n. 51, pag. 782).
E’ de maior interesse, estudar os sambaquis que
mostram a alteração geographica no tempo decorrido
desde que foram feitos. Na visinhança da cidade do Rio
Grande do Sul, existem sambaquis, que são camadas de
terra, contendo grande quantidade de conchas, ossos de
animaes, peixes, carvão de lenha, artefactos, e tudo em
condições taes, que provam o desarranjo que tem havido
= 06:—
até entäo. Estas collinas estäo infelizmente em risco de
serem destruidas pelos ventos e pelas aguas atmosphericas.
Em geral são cobertas de vegetação visosa, 0 que
está provando que não originaräo-se de comoras, O
que tambem estaria em opposição á existencia nestas
collinas, de conchas maritimas e terrestres. Com a alte-
ração geographica mudou-se tambem a fauna dos mol-
luscos, sendo interessante a observação que a respeito fiz
em um Bulimus (Borus lutescens, King), que encontrei
num sambaqui da villa Siqueira. Este caramujo não é
mais encontrado vivo no Rio Grande do Sul, e só é co-
nhecido hoje nas republicas platinas.
Os sambaquis da villa Siqueira, contem numerosas
conchas de grandes volutas, e não se pode imaginar que
estas conchas fossem levadas para lá, como objectos de
“mera diversão, sendo ellas representadas em grande quan-
tidade. E’ certo, pois, que os indios se serviam desses mol-
luscos como alimentos, visto que o Sacco da Mangueira
era naquelle tempo unido ao mar, e hoje só se encontram
ali duas especies de molluscos: Solecurtus platensis e
Azara labiata, ambos de agua salobre, e não são ali con-
siderados como alimento, e nem se acham nos sambaquis.
A tradição historica está de accordo com esta dedu-
ção, demonstrando que ainda no começo do seculo XVII
existia uma ilha, que hoje se desconhece, fora da barra.
As collinas cobertas de vegetação mais ou menos
frondosa, das quaes tratei e que se observam no littoral
do Rio Grande do Sul, naquelle tempo não existirão na
forma actual e tão elevados, o que induz a concluir-se,
que o solo cresceu de uns seis metros nestes ultimos tres
seculos; este crescimento é bastante para desorganisar toda a
configuração geographica de outrora e transformar os lu-
gares pouco fundos do mar, em lagôas de agua salgada,
como deve ter acontecido com a lagôa dos Patos, Lagoa-
Mirim e outras muitas do littoral Rio-Grandense. Por isso
não é de admirar que alguns sambaquis estejam distantes
10 Kilometros ou mais, da costa actual; o que se dá, por
AO
exemplo, com o sambaqui da Conceição do Arroio. E”
composto como os outros de Mesodesma mactroides, e
em nenhum sambaqui do Rio Grande foram encontrados
conchas de especies fosseis. Como já demostrei (7 pag:
190 ff.), ainda hoje, conforme o exame feito pela commis-
são do Barra, o nivel da Lagôa dos Patos está 8 centi-
metros acima do Oceano, resultado, porém, muito duvi-
doso, visto que o vento influe de 20 a 25 centimetros no
nivel do mar. Nestas terras planas e baixas pequeno
crescimento basta para mudar a configuração geographica.
Perolas de vidro e metaes.
Desde que os indios tiveram relações com os Europeus
souberam approveitar varios objectos, que estes lhes trans-
mittiram. Assim é que se encontram dispersos nas mattas
virgens, objectos de ferro e até flechas com pontas de
canivete (cf. Aoseritz, pag. 11). Porém, todos estes objectos
de ferro, assim como moedas, não existem nos sambaquis
do Rio Grande do Sul. Entretanto nada prova que os
sambaquis do Rio Grande do Sul continuassem a ser
habitados, depois da descoberta do Brazil; porém, mesmo
assim, parece-me provavel que os indigenas os visitassem
ainda por aleum tempo, o que pode-se referir tambem
aos sambaquis de S. Paulo, Paraná e Santa Catharina.
Neste ultimo Estado HZ. Mueller encontrou ossos de ca-
vallos nas camadas superiores de alguns sambaquis. Nas
urnas funerarias raras vezes encontram-se metaes; en-
tretanto Aoseritz: (pag. 22) faz menção de uma chapa de
cobre rudemeute martellada, de forma oval, tendo dous
orificios, a qual foi encontrada em uma igaçaba em Santa
Christina do Pinhal, e duas outras chapinhas de forma
“triangular em uma outra igaçaba pintada, econtrada em
um sambaqui da Conceição do Arroio. Sendo porém,
este sambaqui um dos mais antigos, por ser um dos
mais afastados da costa, parece certo que aquellas cha-
DOS EE
pinhas ali chegaram por meio de troca prehistorica, sendo
objectos precolombianos.
Ao contrario parece-me provavel que a chapa de
cobre, que acima ficou mencionada, seja postcolombiana,
por ser encontrada juntamente com duas perolas de
vidro. 3
Está confirmado pela historia que os Guaranys ja
antes da descoberta da America, entretinham relações
com os povos do Perú e da Bolivia, e que possuiam já
naquelle tempo placas e ornamentos de ouro e prata,
que eram collocados nas orelhas. Assim, Luiz Ramirez,
referindo-se aos Guaranys ou Chandies da Argentina
septentrional, diz em uma carta de 1528, que estes mes-
mos indios tinham relações com as tribus da serra.
Os Xarayes possuiam tambem vasilhas de ouro e
prata, e segundo Alvaro Nunez Cabeça de Vacca, os Gua-
ranys do Paraguay gostavam, em tempo de guerra, de
ornamentar a testa com chapas de ouro e cobre em forma
de um pequeno Sol.
E”, pois, falso suppôr-se que os poucos objectos de ouro,
prata e cobre, encontrados no Rio Grande do Sul, são
de origem postcolombiana, tanto mais que Gay demons-
trou, referindo a um antigo manuscripto Guarany, a
existencia de ouro e prata entre os indigenas Rio-Gran-
denses (1. c. pag. 430).
Talvez a forma e a analyse chimica nos deem melhor
base para uma determinação exacta, quanto a sua origem.
Ao contrario, as perolas de vidro achadas varias vezes,
são testemunhas de relações commerciaes, existentes entre
os europeus e os indigenas na epocha posteolombiana.
Muito conhecida a este respeito é uma grande perola,
quasi do tamanho de um ovo de gallinha, encontrada
em uma matta-virgem da Colonia do Mundo-Novo. Esta
eu a descrevi em um artigo na «Deutsche Zeitung» de Porto
Alegre (1881), e a minha opinião, que antes se devia en-
contrar estas perolas em tumulos europeus, de que nestes
logares, assim bastaria para que o snr.von Koseritz (16,
8 (050)
pag. 22 e 39), formasse a hypothese da origem pheniciana
destas perolas. Ladislau Netto (1. c. pag. 442) era da
mesma opinião e dá a figura de um fragmento da minha
perola, feita de uma massa de esmalte em camadas con-
centricas de côres esverdinhada, branca, vermelha e azul.
Koseritz recebeu perolas semelhantes, porém menores.
Como eu conhecia perfeitamente os resultados pouco
satisfactorios de outros investigadores, na demonstração
de relações commerciaes entre os antigos Phenicianos e
a America, sempre duvidei da veracidade da origem phe-
niciana destas perolas.
Foi então que O. 7ischler começou os seus profundos
estudos microscopicos sobre perolas, examinando cortes
transversaes das perolas de vidro. Approveitei a occasião
e mandei-lhe o ultimo dos tres fragmentos da minha
perola. O resultado do estudo de Zischéer foi surprehen-
dente, pois demonstrou elle, que estas perolas eram de
origem veneziana e fabricadas no fim do seculo XV e no
começo do XVI. (Vide os seus trabalhos 28 e 29). R. Andree
dá outro importante trabalho sobre a distribuição des-
tas perolas, chamadas agora perolas de Aggri, e que
eram um artigo de commercio muito estimado no se-
culo XVI. A sua fabricação e distribuição é, pois, do
tempo das grandes descobertas geographicas. Resumindo,
temos como resultado, que as perolas de Ageri e os ca-
chimbos são productos postcoiombianos na archeologia
brazileira, assim como o ferro, o vidro e os vasilhames
esmaltados. A prata e o cobre, porém, podiam ter uma
existencia precolombiana no Rio Grande do Sul, e ficou
demonstrado que de facto isto se deu.
O inesmo se pode dizer da Republica Argentina.
Moreno (1) menciona terem-se encontrado nos cemi-
terios prehistoricos do Rio Negro fragmentos de vidro e
esmalte, e é da opinião, pela comparação delles com outros
(1) ?. Moreno, Anthropologia e Archeologia. Buenos Ayres,
1881, pag. 2º.
— 100 —
objectos semelhantes, que viu nos museus europeus, de
que se originam do antigo Egypto. Diz mais que se tem
feito eguaes descobertas em Ancon e outros lugares do
Perú. Sobre os respectivos fragmentos esmaltados, não
estou bem orientado, porém é certo, que tanto estes como
os primeiros, são como os suppostos do «antigo» Mexico,
de origem veneziana, e por conseguinte postcolombianos.
Conclusões archeologicas.
O que existe de antiguidades no Rio Grande do Sul
é demonstrado por este nosso pequeno trabalho, bem
como a ausencia de varios outros typos.
Assim pois, alli nunca se encontraram os magnificos
zoolithos, que em forma de peixes, passaros, etc., se co-
nhecem em outros Estados do Brazil e da Argentina sep-
tentrional, sendo, porém, em todos estes lugares de grande
raridade. Quanto a novos achados, será facil examinar a
sua importancia, comparando-os com os dados archeolo-
gicos aqui publicados. |
A questão mais importante que nos resta para o fu-
turo, é a da determinação da edade das differentes. epo-
chas culturaes. A este respeito as descobertas nos barancos
dos antigos leitos dos rios, posto que raras, são de grande
valor. Mais importante e de maior interesse é o quadro
instructivo que nos desenrola o estudo dos sambaquis; é
mister, porém, examinal-os mais minucioso e systema-
ticamente. E’ de desejar-se que por nivelamento seja
determinada a altura exacta do sambaqui da Conceição
do Arroio, e que se obtenha por estudos geologicos dados
verdadeiros sobre o tempo decorrido desde a sua formação
até agora. E” certo que este sambaqui, que agora está
situado a 10 Kilometros distante da costa, anteriormente,
ou melhor no tempo da sua formação, estava á beira-mar.
v. Koseritz avalia este tempo em seis mil annos,
supposição esta toda arbitraria.
Já anteriormente ficou demonstrado, que em uma
costa tão plana como a do Rio Grande do Sul, uma ele-
— 101 —
vação de poucos metros, pode occasionar grande modifi-
cação geographica.
Porém mesmo assim não duvido que o sambaqui da
Conceição do Arroio tenha a edade de mais de 4 seculos, e
porisso concluir-se-á, que as chapinhas de prata, que nelle fo-
ram achadas, são de origem sul-americana. Tenho a lembrar
que só um exame detalhado, sobre camadas ainda intactas,
poderá nos dar uma ideia certa do que contem o dito
sambaqui. Não se deve somente colligir fragmentos da
cultura, mas sim tambem os restos de diversas conchas,
ossos de mammiferos, de peixes, dentes e outros indicios.
Como é certo, que as perolas de vidro, a louça esmal-
tada e o ferro, são productos europeus e portanto post-
colombianos, assim tambem é certo que a formação de
sambaquis, que contem fragmentos de ossos de cavallo
ou de gado, seria postcolombiana.
E’ de grande importancia tambem a este respeito,
um exame minucioso sobre a opinião que dei da edade
postcolombiana dos cachimbos na America do Sul.
Outro objecto de valor decisivo, é, como ha pouco
verifiquei pelo estudo dos sambaquis da bahia de Para-
naguá, um pequeno caramujo ou caracol terrestre, Helix
similaris Fer., caracol mais commum do Brazil, que é
original da Asia meridional, e importado para o Brazil
juntamente com as bananas, expalhando-se por toda a
parte nas visinhanças das habitações.
Examinando o grande Sambaqui do Boguassú na bahia
de Paranaguá achei numerosos exemplares desta Helix
na superficie do sambaqui onde houve canteiros com couve,
verificando porém que no interior do sambaqui ha falta
completa deste caracol.
Helix similaris é, pois, tão bom signal de edade
postcolombiana, das camadas examinadas, nas quaes é
encontrada, como o são os ossos de boi, instrumentos de
ferro, cacos de louça fina e moedas.
ARE)
— 102 —
VY. RESUMO
Quanto ao Rio Grande do Sul podemos por conseguinte
demonstrar por restos da cultura prehistorica ao menos
tres elementos de povos e culturas differentes. São estes
os restos :
1) de um povo de pescadores que moravam ao longo
da costa, vivendo de peixes do mar e molluscos. Pelos
otolithos encontrados eu pude classificar as especies ma-
iores unicamente conservadas, que são principalmente
Miraguaya (Pogonias chromis), Bagre (Arius Commersonil)
e Corvina ( Micropogon undulatus); estas todas são
especies as quaes ainda hoje de preferencia são apanha-
das pelos pescadores da mesma região. Além d'isso restos
de mammiferos, veados, etc., indicam que a caça tambem
de tempo a tempo devia servir para o sustento. Ossos de
Eomens tambem acham-se bem como outros ossos entre
os restos de cozinha. Estes homens dos sambaquis não
conheciam nem caximbos nem bolas. E” de notar que
encontramos entre os artefactos d'elles machados de pedra
polida, com sulco circular na extremidade superior, que
foi assim fixada ao cabo por meio de cipós — modo de
fixação este que não se observa fora d'isto no Rio Grande
do Sul nem nos territorios platinos, sendo, porém, não
raro nas regiões septentrionaes do Brazil.
2) de habitantes das mattas. São elles a quem se
refere principa Imente a nossa descripção acima feita. E”
aqui que encontramos os caximbos, os machados semicir-
culares perclusos, além d'isso as grandes urnas funerarias.
Quanto ás ultimas existem algumas differenças, encon-
trando-se além d'urnas viradas, tambem outras com a
bocca por cima e providas d'uma tampa (Awnert).
— 103 —
3) de Indios dos campos, cuja cultura não apresenta
cousa aleuma que não se encontrasse tambem no Estado
oriental. As bolas d’elles são principalmente caracteristicas.
Conhecemos por isso que os resultados da investiga-
ção prehistorica, se podem ajustar bem com os dados for-
necidos sobre os antigos habitantes do Rio Grande, pela
ethnologia e historia.
Quanto aos sambaquis existentes desde a Lagõa dos Pa-
tos na costa até a Santa Catharina, poderemol-os attribuir
tanto mais ao povo de pescadores, chamado dos Patos
quanto mais tambem os antigos nomes de Laguna (dos
Patos) e de Santa Catharina, chamada antigamente Porto
dos Patos, dão a entender que os Patos não se limitavam
à lagôa dos Patos, mas habitavam ao longo da costa até
Santa Catharina, domiciliados nas numerosas lagôas desta
zona rica de peixes.
A respeito dos habitantes das mattas os nossos co-
nhecimentos, cumpre dizel-o, são muito insufficientes;
conhecemos, porém, os nomes de algumas destas tribus
pela maior parte pertencentes ao grupo Guarany. Ainda
não sabemos se ao lado d’elles já antigamente existiam
Crens, os quaes, no territorio que se estende de Corrientes
até Santa Catharina, têm hoje os Coroado-Camés e algu-
mas hordas de Botocudos por representantes os mais es-
tendidos para o Sul. E' de suppor, que a este respeito
seremos adiantados pelo progresso das pesquizas archeo-
logicas. Entre os artefactos dos Coroados, trazidos pela
expedição de Mabille, affirma-se terem-se achado exem-
plares d'aquelles machados perforados, dos quaes fallei
acima. À ser assim, talvez deveriamos attribuir estes
machados aos Camés e Crens.
Quanto porfim aos Indios dos campos, cujas bolas se
encontram no Rio Grande e Uruguay, com certeza pode-
mos reconhecer como aquelles os Charruas e Minuanos,
talvez tambem os Tapés e outras tribus viventes na vi-
sinhança dos Charruas. As bolas encontradas aqui e
— 104 —
acolá, tambem nas mattas confinantes, só demonstram
de novo que tambem têm tido lugar migrações.
E’ por isso que é de esperar que possamos successi-
vamente reconhecer um numero consideravel de typos
caracteristicos de antiguidades sul-americanas, como li-
mitados a certas regiões geographicas. Facilitará-se tam-
bem, depois de feito isto, o rec nhecimento do valor eth-
nologico de taes artefactos. E' muito provavel que d'este
modo consigamos mais tarde demonstrar differenças entre
as antiguidades de Tupis e as de Guaranys, que apenas
representam o grupo meridional dos Tupys, tendo-se en-
contrado, por exemplo, até agora um só machado semi-
circular no Rio Grande do Sul. Aquelles que descreveu
Ladislau Netto no tomo sexto dos Archivos do Museu
Nacional originam-se do Brazil central e septentrional, e
das mesmas regiões origina-se tambem um machado se-
micircular ainda fixado no cabe, que foi trazido para a
Hollanda no tempo de dominarem os Hollandezes no
Brazil septentrional, e sobre o qual Schmeltz agora chamou
a attenção. Por isso é de presumir que possamos conhecer
pela distribuição d'estes machados semicirculares, se po-
demol-os attribuir aos Tupys. Será necessario tambem
estudar a distribuição gecgraphica dos machados polidos
com sulco circular subterminal, encontrados no Norte do
Brazil e tambem no Sul, embora que raras vezes.
E” assim que a respeito do Rio Grande do Sul os
dados historicos se podem ajustar bem com os achados
archeologicos, sendo só a relação com os territorios limi-
trophes, assim como a investigação dos diversos typos
de antiguidades, distribuidos pelas regiões confinantes,
que apresenta maiores difficuldades. Por esta razão dedi-
caremos o capitulo seguinte e ultimo ao estudo archeo.
logico destes territorios visinhos, assim como a compa-
ração dos achados d'alli com os do Rio Grande do Sul.
=
—— #9 84 —
— 105 —
VI. COMPARAÇOES E
RELAÇÕES COM OS TERRITORIOS VISINHOS.
(São Paulo-Argentina)
A historia primitiva do Rio Grande do Sul tem, como
é facil de comprehender, uma connexão muito intima
com a dos estados brazileiros limitrophes ao Norte. Pois
eram tambem alli principalmente tribus Guaranys que
occupavam o littoral, e esta cultura Tupy-Guarany se pode
seguir desde o Rio Grande do Sul por todo o Brazil, até
além da Guyana. A conformidade dos petroglyphos (1),
muitos productos da industria primitiva assim como
outras particularidades, como as pedras ornamentaes,
chamadas tembetás, trazidas no labio inferior, explicam-se
(este modo muito simplesmente. Apezar disso os restos
d'esta cultura Gurany antiga são relativamente tão sim-
ples e uniformes, que por si só apenas offerecem pontos
de vista e problemas universaes. Em outro sentido, porém,
o caso não é tão simples; pois descobrimos quasi em toda
a parte, principalmente tambem no Rio Grande do Sul,
as influencias d'uma cultura superior, cujos elementos e
origem cumpre-nos indagar.
Já agora podemos recenhecer, que esta cultura su-
perior, pela qual além d'outras cousas metaes e sem du-
vida tambem plantas de cultura e a agricultura se espa-
lhavam por toda a America do Sul, nem traz a sua
origem do Brazil nem dentro do Brazil se communicou
(1) Diz John Branner (Rock inscriptions in Brazil. American
Naturalist, Dez. 1894, pag. 1192, a) que o Imperador D. Pedro II.
considerou as inscripções como obra de Quilombeiros, julgando
provavel que elle mais tarde deixasse esta ideia.
— 106 —
de uma tribu a outra na direcção do Norte ao Sul. Quanto
a cultura antiga brazileira das duas regiões da costa mais
distantes, isto é da foz do Amazonas e do Rio Grande do
Sul, não existem relações senão inteiramente geraes. Os
característicos especificos da cultura da ilha de Marajó,
os mounds, 0 alto grão de desenvolvimento a que chegou
a ceramica, as tangas de barro, etc., faltam de todo no
littoral meridional, emquanto que as poucas cousas par-
ticulares do Rio Grande do Sul, como as bolas, os ma-
chados circulares perclusos, etc., não se acham no littoral
brazileiro septentrional. Os machados circulares perclusos,
por exemplo, já faltam completamente em São Paulo e
no Rio; estende-se entretanto a região, por onde se en-
contram, pela Argentina até aos Andes e ao oceano paci-
fico, e já estes dados conduzem-nos para o resultado mais
geral das nossas considerações, das quaes resulta, que as
influencias da cultura superior não-indigena não chegaram
as tribus do Brazil meridional do Norte, mas do Oeste.
Quanto é isto correcto, já faz conhecer um golpe de
vista lançado para a cultura dos sambaquis. São justa-
mente elles, que nos ultimos decennios têm sido tomados
de preferencia por objecto da investigação archeologica;
apezar de não se ter achado nem um só instrumento,
nem ornamento, nem outro artefacto particular da cultura
sambaqui. Isto é tanto mais importante, quanto é, que a
formação dos sambaquis não continuou senão em pequena
parte, e pouco tempo depois do descobrimento do Brazil,
demonstrando-nos, portanto, a cultura precolumbica quasi
intacta. Infelizmente deixaram até agora os naturalistas
de estudar separadamente os achados dos sambaquis pre-
columbicos, assim como os dos postcolumbicos. Nestes
occasionalmente encontram-se tambem perolas, ossos de
cavallos, etc., naquelles situados em parte mais para O
interior acham-se até conchylios, agora extinctos, como
Azara prisca Martens e outros, que faltam agora n'aquelle
littoral.
— 107 —
Se bem já nos capitulos anteriores sempre nos refe-
rimos de modo comparativo ás condições analogos dos
Estados do Rio de Janeiro, S. Paulo, etc., será aqui con-
veniente fazer um pequeno estudo especial sobre a antiga
historia e cultura do Estado de 8 Paulo, como sobre as
tribus que neste Estado ainda existem.
E' grande a confusão relativamente ás tribus que
habitavam a costa do Estado de S. Paulo e dos , Estados
visinhos. A «Noticia do Brazil do anno de 1589» menciona
do littoral de S. Paulo as seguintes tribus: Tupininkins,
Tamoyos, Carijos e Goyaná (Goyanazes). Diz Martius
(1. c. pag. 299), que destas tribus as tres primeiras faziam
parte do povo dos tupys, continuando porém, referindo-se
as Goyanás: estes, porém, que occuparão o littoral desde
Angra dos Reys até ao rio Cananea, confinando pelo lado
do Sul com os Carijos e ao Norte com os Tamoyos e
Tupininkins, pertencerão a outra nacionalidade, sendo,
como os seus companheiros septentrionaes, os Goyatacazes,
estabelecidos na região entre o Cabo S. Thomé e Espirito
Santo, envolvidos em guerras continuas com aquelles.
Os Goyanazes habitavam os campos e distinguirão-se na
lingua e nos costumes dos Tupys. Eram, quanto a sua
cultura, inferiores, pois não moravam em aldeas fortifi-
cadas ou casas, mas em covas feitas no chão e cobertas de
ramos, tendo alli fogo acceso de dia e noite. Aos Europeus
mostrarão-se mais amigaveis como os Tupinambas e par-
ticularmente os Tamoyos. A sua lingua distinguiu se
daquella dos Tupys, mas entenderão-se com os Carijos (1).»
Mais ou menos no mesmo sentido exprimiu-se Wait:
(1. ce. pag. 409), observando, que Azara está distinguindo
os Guayanás dos Guaranys, reunindo ambos ao contrario
A. @ Orbigny, continuando: «sob a denominação de Gua-
yanas, que se dão tambem o nome de Gualacha, diz
Guzman, entende-se em geral aquellas tribus que não
são Guaranys, afirmando porém Doblas que embora que
contenham varios elementos ethnographicos não deixam
(1) Faziam, pois, como estes parte dos Guaranys.
— 108 —
de ter affinidade com os Guaranys.... Diz Charlevoix, que
os Gualaches, e ao Sul delles os Guanos, estão derivando
dos Guaranys; as noticias porém sobre todos estes povos,
e sobretudo os Guayanás, são confusas e contradictorias».
Quanto aos Guanaos, informa-nos Gay (1 c. pag. 206
e 71) que viviam desde Santa Catharina até ao Rio da
Prata; que os seus costumes eram aquelles dos Guaranys
e que a sua lingua não differenciou-se muito daquella
dos Guaranys, visto que o padre Garcia fallou com elles
na sua lingua. Tratando dos Guayanás diz Gay, que estão
domiciliados no rio Ignassú, etc., e que a lingua pouco
differe daquella dos Guaranys (1. c. pag. 53), observando
porém em outro lugar (1. c. p. 430), que o nome de Gua-
yanäs dão a todas as tribus, que não tem outra denomi-
ração e que não são Guaranys. Parece-me n'este sentido
claro, que houve entre a lingua dos Guayanás e aquella
dos Guaranys certa differença, considerada pequena por
uns, maior por outros, sem que seria possivel negar por
todo o parentesco com os Guaranys.
Será conveniente, para melhor entender-mos taes
differenças, de examinar por breve olhar as variações
linguisticas entre 9s indigenas do Brazil. Além das lin-
guas do grupo tupy-guarany no Sul do Brazil, apenas
temos linguas dos Crens, grupo linguístico de Martius,
que comprehende os Coroados, Botocudos, Puris e Goatos.
No systema mais moderno ©. von den Steinen reune os
Crens com os Goyatacás e Gés (Chavantes, Cherentes,
Cayapós, etc.) num grupo das linguas de Tapuya. Não
me consta pela literatura, que existissem a qualquer tempo
Goyatacás ao Sul do Estado de São Paulo. Quanto aos
Puris affirma-nos Varnhagen (1. c. pag. 19) que, embora
que actualmente viventes ao Norte do Rio, viviam. em
1649 perto de Taubaté. A primeira aldea de Puris, esta-
belecida pelos portuguezes, foi aquella de S. João de
Queluz, no Norte do Estado de S. Paulo, a beira do Rio
Parahyba, e que não deu resultado (cf. Martius 1. c. p. 335).
vara
— 109 —
Nada conhecemos no Sul do Brazil daquelles povos
que conforme as suas linguas formam os grupos dos
Guk de Martius ou dos Nu de O. von den Steinen. Apenas
podiam entrar nesta cathegoria os Guanás ou Guanaos
do Paraguay e das Missões de Corrientes, seguindo-nos
neste sentido ©. von den Steinen, o que porém pelos
motivos já expostos, não julgo razoavel. No extremo Sul,
i. e. no Rio Grande do Sul, encontramos povos das linguas
pampas (Charruas). Dos Quichuas não temos representan-
tes neste nosso territorio.
Fica assim evidente, que no Sul do Brazil em geral todos
os povos indigenas são do grupo tupy-guarany, e que as
numerosas differenças e confusões que estão nos difficul-
tando o estudo, apenas provem do modo como os diver-
sos autores estão distinguindo os Guaranys e os Tupys.
Desde Vater está-se costumado a considerar os Tupys
como a secção septentrional, e os Guaranys como a secção
meridional do grande grupo dos povos Tupys. Waits
tambem (1. c. pag. 405) admitte este modo de vêr, cha-
mando, porém, a attenção ao facto de terem os Tupys
antigamente estendido-se muito mais para o Sul. E’ assim,
que ainda em 1785 Doblas está fallando de Tupinambas,
morando no Sul do Uruguay, na Serra atraz de S. Fran-
cisco Xavier, o sendo provavel que são os mesmos a que
se refere Azara (II, pag. 70). Tambem Gay, como já
vimos, está mencionando como antigos moradores do Rio
Grande do Sul aos Tupys e Guaranys, sem, porém, precisar
a distincção artificial. Declaram-nos, que fazem parte dos
Guaranys os Carijós, Patos e Tapes. Suppondo que os
Guayanas antes pertenciam ao grupo dos Tupys, podia-se
entender como certos autores os separam dos Guaranys,
embora que a differença linguistica não era grande. Seja
como fôr — é quasi impossivel formar-se uma ideia bem
certa em vista das opiniões contradictorias dos diversos
autores — não tenho duvida, que os Guayanás faziam
parte daquelle grande grupo de tribus, do qual os Tupys
e Guaranys são os principaes representantes.
— 110 —
A solução mais simples desta questão nos dá Æa-
daillac (1. c. p. 468) dizendo: « cette population indigène
appartenait à la race appellèe Guaranie par les Espagnols,
Tupi par les Portugais. »
Tirando em consideração especial os Guayands de
São Paulo, tanto que saiba nenhum dos autores que
delles tratarão emittiu duvidas, que elles não pertenciam
ao grupo dos Tupys. Veja-se neste sentido Varnhagen
(1. c. pag. 18), autor que tambem publicou um Vocabu-
lario da lingua guayaná (Revista do Instituto historico.
Rio, Vol. XII pag. 366). Sobre os Guayanás não fazem-nos
falta informações mais exactas, visto que forão elles que
sob o seu cacique Tibyriça habitavam a povoação de
Piratininga, que formou o primeiro nucleo da cidade de
São Paulo. João Mendes de Almeida (1. c. pag. 293) julga
os goyanás identicos com os Tupinakins, o que não posso
admittir em vista da affirmação contraria da «Noticia do
Brazil de 1589», concordando, porém, com João Mendes de
Almeida no que diz a respeito das designações das varias
tribus, sendo ás vezes os varios grupos duma mesma
tribu designados por nomes differentes, sendo ao contrario
dado muitas vezes o mesmo nome a differentes tribus,
Isto parece ter-se dado com os Goayanás, como o sabemos
do mesmo modo dos Coroados e Tapuyas.
Quanto aos Tapuyas, creio como João Mendes de Al-
meida (1. e. pag. 297) que a palavra tamuyo ou tamoyo é
corrupção de tapuya. Forão os Tamoyos, que com os seus
alliados e parentes os Tremembés — que chegarão do
Norte. do Rio S. Francisco e do Ceará — em 1562 atta-
carão a villa de S. Paulo (Piratininga). Entende-se em
geral, que os Tapuyas não pertencem aos Tupys; se po-
rém, como o vemos, os Tamoyos do Rio de Janeiro e de
S. Paulo eram Tupys, temos de formar-nos a ideia, que
a palavra de tapuya significava os inimigos dos Tupi-
nambas, seja de outra lingua, seja do grupo dos povos
tupys mesmo.
— lll —
Se bem assim torna-se muito difficil a classificação
das tribus que habitavam o Brazil na occasião do desco-
brimento, mais facil é o assumpto se nos limitarmos ao
estudo das tribus que occupavam o territorio de S. Paulo
até ao Rio da Praia. Occupando-nos neste sentido de novo
com os Guayanás, não vejo nada que se oppõe a nossa
conclusão, i. e., que são identicos entre si os Guayanás
de São Paulo e de Paraná e aquelles do Rio Grande do
Sul. Achamos elles mencionados na literatura antiga de
São Paulo e do Rio Grande, e Gay indica como moradia
delles o rio Iguassú e o alto Uruguay. Nestas regiões
elles conservarão-se até hoje. Os que habitam o rio
Iguassú no seu curso inferior e o rio Paraná visitou ha
pouco Ambrosetti (cf. Bolet. del Inst. Geograph. Argent.
Tom. XV. 1894). Julgo provavel que com elles sejam iden-
ticos os Guaya-ki do Paraguay, dos quaes trata Ch. de La-
hitte («Nacion» de Buenos Ayres, 12-13 Fever. de 1895 e
«Globus» Braunschweig, Vol. 67, 1895, pag. 248). Da pa-
lavra Tupinaki nos dá João Mendes de Almeida a etymo-
logia seguinte: na = parente, qui — espinho, querendo
dizer a palavra: parentes mãos. Neste sentido goia-ná
são os parentes dos gola e gola-qui goias mãos. A pa-
lavra goiá, do que vem tambem o nome de Goyana, nos
faz lembrar um povo antigo, que se espalhära por regiões
immensas da America do Sul.
Sabemos que os indigenas actuaes do Paraguay con-
sistem especialmente dos Cayuás e Guayanás, estes ul-
timos ao Leste. Como Ambrosetti só falla nos Cayuás e
Guayaquis, dizendo que estes occupao a região ao Leste,
sem mencionar os Guayanás, creio que ambos são iden-
ticos.
Será agora conveniente a examinar-mos quaes as
tribus encontradas hoje no Estado de S. Paulo. Temos
em varios aldeamentos «Guaranys», que provavelmente
são os restes dos antigos Guayanás, e mais os Cayuds
pertencentes do mesmo modo ao grupo dos povos Tupys.
Seguem mais tres tribus, que não fazem parte deste grupo
— 112 —
Tupy, e que são os Coroados, identicos com aquelles do
Rio Grande do Sul e designados antigamente por
Martius de Camés; os Chavantes moradores como os Co-
roados do valle do Paranapanema, e afinal no rio Paraná
os Cayapos. Estes ultimos, pertencendo mais ao Estado do
Matto Grosso, podem aqui ficar fora da discussão.
Embora que não nos faltam outros dados exactos,
julgo bom acceitar aqui um artigo do Senhor General
Ewerton Quadros, publicado no mez de outobro de 1893
no «Diario Popular» de S. Paulo, que vale ser reimpresso.
Diz elle:
O pouco cuidado que entre nós se tem manifestado
na colheita de dados que possam servir para no futuro
se escrever a historia dos nossos selvagens, me leva a
recorrer á benevolencia d'esta folha para a publicação do
que pude recolher á respeito dos que abitavam os sertões
de São Paulo, quando em commissão do governo visitei
as visinhanças do Paranapanema.
Os selvagens dos sertões de São Paulo, filiam-se a
tres grupos distinctos, tanto por seus caracteres physicos,
como por suas linguas, usos e costumes, e são conheci-
dos com os nomes de Cayuás, Coroados e Chavantes.
Os Cayuás são menos robustos e valentes que os
Coroados, os quaes se temem muito; são mais preguiçosos
e não primam pela sua lealdade.
Sua côr é de cobre amarellado; seus cabellos negros,
erossos e lisos, seus olhos muito pretos e bridados como
os dos mongoloides, seu rosto achatado, seus beiços
erossos, suas orelhas grandes, seu queixo saliente, sua
fronte abambada, seus membros reforçados, seus pés pe-
quenos e suas unhas chatas.
Suas armas são as mesmas que as dos Coroados, po-
rém, de mais fracas dimensões.
Os homens andam nús, mas as mulheres usam de
uma estreita fita de embira trançada ao redor da cintura,
com uma mais larga, presa a essa e lhes passando por
entre as pernas.
— 113 —
Todos elles furam o labio inferior, conservando nessa
abertura um pequeno prisma de resina.
Os homens cortam os cabellos, mas as mulheres con-
servam Os seus.
Ellas fabricam louças de barro em que cosinham e
guardam seus alimentos.
O Cayuá sepulta os cadaveres dos seus, em posição
horisontal, e devora os dos seus inimigos por elles mortos.
Sua lingua é a Guarany com muito pouco alteração.
E' esta uma tribu sahida dessa grande familia, que
levou outrora seus passos triumphantes do Paraguay e
sul do actual territorio do Brazil ate às Antilhas, mas
que hoje decadente se vê expuisa de seus dominios pe-
los bellicosos Coroados. Domesticados, elles se transfor-
mam em cidadãos prestantes, como vê-se nas colonias
de Jatahy e no serviço que prestam aos navegadores do
Paraná-panema. Seu respeito á velhice se nos manifesta
no fazerem elles uso da mesma palavra — Ru— quando
falam de seu pai ou de um velho qualquer.
Seu systema de numeracão é o septenal; elles tem
sómente sete signaes para exprimir os numeros simples:
Peten, Móchoén, Boapé, Irundy, Tinhernin, Temová e
Boaperá.
Elles empregam tres pronomes pessoaes: Che-eu, De-
tu, Upeä-elle, os quaes antepostos e ligados aos substan-
tivos exprimem relações de possessão; assim se aos subs-
tantivos Ao (roupa), Juá (braço) e Juguá (cão), juntarmos
os pronomes pessoaes, teremos Cheaó (a minha roupa),
Dejua (o teu braco) e Upedjugua (o cão seu, ou delle).
Entre os adverbios de tempo contam o seguinte:
Cucê-hontem, Angué-hoje, Coeramo-amanhan e Angave-
logo, e entre os de lugar Coêpe-aqui e Upépe-alli.
Na conjugação dos verbos formam todos os tempos
do infinito, seguido da terminação agué ou aguá para
o passado, avan ou angave para o futuro, e precedido
do pronome pessoal ligado pela lettra @ na primeira
pessôa e pela lettra o nas outras.
— 114 —
O participio presente se forma de infinito com a ter-
minação oina ou ina. Exemplos:
Cheamonhá — eu corro
Deomonhá — tu corres
Upeomonhá — elle corre
Cheamonháagué — tu corrias
Upeomonhágué — elle corria
Cheamonháavan — eu correrei
Deomonháavan — tu correrás
Monhá — correr
Monháoina — correndo
Cheamondó — eu mando
Deomondó — tu mandas
Upeomondó — elle manda
Cheamondóagná - eu mandava
Cheasnondóangave — eu mandarei
Mondó — mandae
Mondóina — mandando
O v no começo das palavras tem, na linguagem dos
Cayuás, como na dos Coroados, a mesma pronuncia do
nosso, quando collocado entre duas vogaes.
Os Coroados são sahidos dos Caingangs de Paraná.
Os Cayuäs os chamam de Tupys. São corpulentos,
melhor conformados que os outros e, mesmo, bonitos
quando crescem no seio da nossa civilisação. Sua pelle
é mais clara que a dos Cayuás, encontrando-se nas
mattas alguns quasi brancos, seus cabellos negros e lisos:
seus olhos geralmente horisontaes, apparecendo, porém,
alguns com elles ligeiramente. bridados, seu nariz pe-
queno e um tanto achatado, seus labios menos grossos
que os dos Cayuäs, suas orelhas pequenas e sua frente
abom bada.
O Coroado é laborioso e ambicioso, trabalhando sem-
pre para melhorar o seu estado.
Suas armas são o arco, a flexa, a lança e o cacete.
O arco é feito do lenho da guajuvira, bem trabalhado
e liso, medindo 17 a 26 decimetros de comprimento e 25
— 115 —
a 35 millimetros de maximo diametro de grossura, preso
por uma corda de embira de urtiga; as flechas são de
canna de um centimetro diametro e 180 de comprimento,
com ponta de osso ou de ferro.
No arco e na flexa se vêm anneis, mais ou menos
largos, de casca de embira, untada de resina, os quaes
representam graus de commando.
Suas lanças são compridas hastes pontudas, de ma-
deira rija.
Os homens andam completamente nús; as mulheres se
servem de uma tanga que lhes desce até aos joelhos, ou
de uma faxa de embira trançada de imbé, de um palmo
de largura, presa ao redor da cintura pelo baixo-ventre
e entre as pernas.
Elles fabricam louças de barro, panellas de fórma
tronconica, com as bordas salientes para poderem ser
conduzidas suspensas, balaios e esteiras de embira.
As mulheres extrahem a embira da urtiga branca e
outros vegetaes, reduzem-na a finos fios e em STOSSeIrO
teares preparam um panno de admiravel perfeição e
fresco como o linho.
O Coroado não come a carne humana em condição
alguma.
Este povo, segundo conta um de sua raça, já muito
velho e morador do Jatahy, habitava outrora o territorio
das Missões, quando a cêrca de cento e sessenta annos,
rebentou em seu seio formidavel luta civil, cuja conse-
quencia foi a emigração de muitas familias para este
lado do Paranapanema.
Com o fim de se destinguirem dos que ficaram em
sua primeira morada, os emigrantes abandonaram o uso
dle raparem a cabeça em forma de corôa, costume que
aquelles conservaram ainda por muito tempo. Os que fi-
caram na sua antiga patria, foram por muitos annos o
flagello dos moradores de Guarapuava e Palmas, que afi-
nal se levantaram e nelles fizeram grande morticinio
em 1859. Foragidos e disimados muitos dos vencidos,
— 116 —
vieram-se apresentar em Jatahy, onde havia um aldeia-
mento de Cayuás. Ahi elles vivem em sua aldeia
negociando, sem nunca fazer allianças como os seus
predecessores no lugar; mas reconhecendo como os seus.
parentes os descendentes da primeira emigração que vi-
vem nas mattas deste lado do Paranapanema.
No Jatahy elles tambem abandonaram o costume de
rasparem a cabeça em forma de corôa.
O Corcado planta o milho e come a carne de caça,
assada ou cosida sempre sem sal. Sua bebida predilecta
que elles chamam café, é preparado assim: pisam em
parte o milho e collocam-n'o no fogo em uma panella
de barro com agua; quando a agua se acha um tanto
aquecida, duas mulheres novas e de bons dentes sentam-
se junto e vão tirando aos punhados o milho que, dépois
de mastigado por ellas, volta á panella.
EK’ a bebida que os Cayuás chamam cauim. Suas
cabanas têm a forma de toldos de carreta com 20 palmos.
de comprimento e 10 de altura.
O Coroado, como o Cayuá, crê na existencia de for-
cas superiores á natureza humana, e que as almas dos
seus mortos vão viver em outras regiões da terra.
Nem uns nem outros adoram idolos.
E" costume entre os Coroados, em certos tempos, os
chefes e os guerreiros valentes chamarem a combate os
jovens da tribu afim de que estes se fortaleçam nessas
lutas, onde se trocam golpes violentos que, muitas vezes,
conduzem á morte.
A polygamia é admittida em sua sociedade, na qual
a constituição da familia obdece a leis rigorosas.
Quando um Coroado dá sua irmã para mulher do
outro, contrahe o compromisso de desposar as filhas que
provenhão desse matrimonio, e passa desde o nascimento
de uma dellas a trabalhar aos seus futuros sogros.
Não ha cerimonia alguma no casamento; logo que
a mulher attingiu a idade, vai para a companhia daquelle
que desde o berço lhe foi destinado.
‘y LPS
— 117 —
Näo säo permittido os enlaces entre irmäos ou entre
primos, tambem considerados irmäos.
A crueldade selvagem dos exploradores das brenhas
dos sertões de S. Paulo foi a causa unica de não terem
ainda esses pobres se lançado nos braços da civilisação.
Os Coroados só empregam cinco signaes para repre-
sentar os numeros simples do quinzenal que adoptam e
são: pirê, rengré, tecton, veicaugrá e pentecára.
Em todo o seu vocabulario só ha duas palavras iden-
ticas ás que os Guaranys e Cayuás empregam para re-
presentar os mesmos objectos. Pirá-peixe e Bocá-arma de
fogo grande.
A lingua dos Coroados conta quatro pronomes pessoaes.
In-eu, An-tu, Ti-elle, e Ein-nós, os quaes, como na dos
Cayuás, antepostos aos substantivos exprimem a idéa
de posse; assim, se aos substantivos Aiefi-anzol, Fa-canella,
Ong-pai e Dó-flexa, antepormos ligados os pronomes pes-
soaes: Inaniefi — o meu anzol, Anfá a tua canella,
Tiong — o pai delle e Eindé — a nossa flexa.
Seus adverbios de tempo são Ranqueta-hontem,
Hun-hoje, Uaica-amanhan e Car-logo, e os de lugar
Taqui-aqui e Enqui-alli. Na conjugação dos verbos todos
os tempos se formam do infinito precedido do pronome
pessoal, com a terminação ia para o passado e a
collocação do adverbio car entre o pronome e o infinito
para o futuro.
O participio presente se forma do infinito com a ter-
minação nhê.
Exemplos:
Invenvô — eu corro
Anvenvô — tu corres
Tivenvô — elle corre.
Envenvô — nos corremos
Invenvoia — eu corria ou corri
Incarvenvô — eu correrei
Venvô — correr
Venvonhê — correndo
— 118 —
Infan — eu choro, etc.
Aufan — tu choras etc.
Infania — eu chorava ou chorei.
Incarfan — eu chorarei
Fan — chorar
Fanhê — chorando
As mais das vezes 0 pronome é separado em todas
as pessoas como em Inaman — eu tomo, Einaman —
nós tomamos, Inamania — eu tomava, Man — tomar,
Manhê — tomando.
O terceiro grupo de selvagens de São Paulo, é muito:
impropriamente chamado de Chavantes, pois nenhum
laço os prende aos Chavantes de Matto Grosso.
Os Coroados os chamam de Curuton, que quer dizer
nú, sem camisa e talvez, figuradamente, sem morada,
vagabundo.
Os Cayuás os chamam de Otto.
São os mais escuros e ignorantes desses servicolas +
vivem nos campos, morrendo á fome e se alimentando
com insectos e larvas e com os productos de suas rapi-
nas. Os Coroados os expellem do matto, os Cayauás des-
persaram-nos e o sertanejo combate-os, muitas vezes de-
sapiedadamente, para evitar os prejuizos que lhe causam,
roubando-lhe o fructo do seu trabalho. São timidos, doceis
e muito fieis, quando domesticados. Têm os pés pequenos,
as pernas finas, o ventre crescido, as mandibulas salientes,
os olhos pequenos e horisontaes.
Seus arcos são feitos de madeira de palmeira e as
pontas de suas flexas do cerne de alecrim com muitas.
farpas de um só dos lados; e suas lanças do cerne da
arueira, com 25 decimetros de comprimento para os ho-
mens e 15 para as mulheres.
Todos elles, homens, mulheres e crianças, usam de
um cordão de embira ao redor da cintura, tendo o das
mulheres um appendice que passa por entrepernas. Todos
elles cortam os cabellos e fazem no pavilhão das orelhas.
cortes longitudinaes.
SL
— 119 —
Usam collares de dentes de animaes, não fabricam e
nem se servem de louça.
Suas choupunas, feitas de folhas de palmeiras, são
muito baixas e acanhadas, não se podendo alojar em
cada uma mais de um casal.
Elles repellem a polygamia e não empregam suas
armas contra o homem.
Quando quasi todas as palavras do vocabulario das
outras duas tribús terminam por sylabas agudas, as
destas tem quasi todas o acento agudo na penultima,
Innáde-homem, Atáve-ceu, Tuasia-estrella, etc.
O pouco que pude colher sobre esta ultima tribu,
basta-me para me certificar de que elles são differentes
dos Cayuás e Corcados, bem como dos Chavantes, Cayá-
pos e Carajás.
Os Cayuds são os que melhor conhecemos. No Pa-
raguay estudou elles Rengger, que no seu livro (Reise
nach Paraguay. Aarau, 1835, pag. 101 ff.) nos fornece as
melhores informações e munidas de illustrações em es-
tampas. Quanto aos Cayuás do Estado de S. Paulo temos
além do artigo reproduzido aqui do General Zwerton
Quadros communicações valiosas do Dr. Theodoro Sampaio
(25, a), e que trata bem da lingua delles. Temos, porém
de notar, que os Cayuás entrarão só em 1830 no Estado
de S. Paulo, vindo do Paraguay e da região das Missões do
Paraná. Naquelle tempo deixarão as suas antigas mora-
dias no Rio Iguatemy e passando Tybagy chegarão até
Itapetininga. Tudo isto e mais informações, vocabulario,
etc., acha-se no respectivo artigo publicado na Revista
do Inst. Histor. do Rio (Tom. XIX. 1856, pag. 434, ff.)
Os Coroados, como já mencionei, são identicos com
aquelles do Rio Grande do Sul, como prova a comparação
das palavras communicadas por ÆZwerton Quadros e por
— 120 —
Hensel. À lingua dos Coroados acceitou certas palavras
dos idiomas tupys. Martius nos dá uma collecção de
vocabulos, designando elles de Camés. Não sei que razão
Martius tinha para applicar aquella designação, que ao
menos actualmente, está desconhecida em S. Paulo.
Quanto aos Chavantes viventes como os Coroados
na valle do Paranapanema. nada acho por hora sobre
elles além da decripção dada por Hirerton Quadros. E’
e resta problema. As palavras que este observador nos
communicou não combinam de modo aleum com aquelles
dos Chavantes bem conhecidos do Goyaz. E' necessario
arranjar um vocabulario completo da lingua delles, e
espero que esta communicação chamará ao assumpto a
attenção de pessoas que nos possam dar melhores escla-
recimentos.
Tratando agora da archeologia do Estado de S. Paulo
existe tanta semelliança com a do Rio Grande, que ape-
nas temos aqui de referir a certas diferenças. Neste
sentido já no capitulo IV sempre referi-me aos casos
analogos de S. Paulo. Sao mais raros em S. Paulo os ca-
chimbos, e os poucos que no Museu Paulista possuimos
me parecem falsificados. Em todo caso no futuro temos
de ligar mais attenção a estes objectos. De igaçabas e
machados de pedra encontramos os mesmos typos, sendo
porém extremamente raros e não bem conforme ás do
Rio Grande os machados circulares perclusos. Temos uma
destas pedras neste Museu, porém, sem indicação da pro-
cedencia; ella não corresponde bem aos do Rio Grande,
sendo de forma elliptica em vez de circular e tendo os
lados verticaes em vez de conicas. (1). Talvez que corres-
ponde ao typo mencionado por Loe/gren (1. e. pag. 64) como
(1) Parecem corresponder antes aos typos conhecidos do
Chile, e que infelizmente não conheço ainda bem, faltando
na collecçio do Museu do Estado de São Paulo.
— 121 —
achado num sambaqui. Bolas faltam em S. Paulo. Não
faltam, porém, as inscripções nos rochedos, conhecendo eu
a descripção de uma que existe a Vora, 3 leguas distante
de Faxina (S. José da Boa Vista.) (veja Correio Paulistano
de 1. de Janeiro de 1889. Contem figuras de circulo, de
U, C, de mãos e pés e outras que podem representar ar-
vores ou gente.
Ha duas questões apenas que exigem uma discussão
especial: — os sambaquis e os machados de cobre.
Sobre os sambaquis da costa de S. Paulo foi o pri-
meiro que fez estudos serios o fallecido engenheiro Carlos
Rath em S. Paulo, e que sobre elles publicou um estudo
que merece nossa plena attenção. Outra publicação refe-
rente ao mesmo assumpto é a de 4. Loefgren, baseado es-
pecialmente no estudo de numerosos sambaquis exami-
nados por G. Aonigsimwald.
O Snr. Loefgren é da opinião que todos os sambaquis
sejam formados pelo homem sendo compostos de restos
de cosinha. Ao contrario Rath distinguia tres classes de
sambaquis, consistindo os da primeira classe de ostras,
os da segunda de berbigões ambos feitos pelo homem e
não excedendo quanto a altura a 15 palmos, sendo ao
contrario os sambaquis da terceira classe os maiores, as
vezes immensos, compostos de varias conchas e feitos pela
natureza. De mesmo modo um dos melhores exploradores
dos sambaquis, Ch. Wiener, distingue sambaquis feitos
pela natureza é outros feitos do homem, julgando que
parte delles sejam feitos de proposito como monumentos»
representando os outros apenas montes de scisco, viz.
de restos de comida.
Não examinei por hora bastante os sambaquis, para
formar-me já em questão tão complicada uma opinião
certa. Tenho, porém de notar, que por investigação exacta
conheço bem uma daquellas immensas ostreiras da costa,
que Rath considera como naturaes. Este sambaqui, o de
Boguassú, na bahia de Paranaguá, pertencente ao Snr. G.
Eisenbach em Curityba, será daqui a poucos annos com-
— 122 —
pletamente destruido, visto que ao lado delle existe um
engenho para queimar cal. Este sambaqui que tem a al-
tura de cerca de 20 metros consiste de camadas sobrepostas
de ostras (Ostrea gigantea Lam. e O. puelchana orb.) e
de berbigões (Cryptogramma flexuosa L.). Estas camadas
de 2—3 decimetros umas, de mais de um metro outras,
são horizontaes, as vezes um tanto onduladas, e declives
aos lados. Entre as conchas acham-se pedras, armas de
pedra e ossos de homem. Não achei outros ossos a ex-
cepção de alguns de baleia, sendo bem raros tambem os
restos de peixes. Faltam absolutamente cacos de panellas
e carvão de lenha. Como o gerente da fabrica ligou ao
assumpto um interesse especial conservando tudo o que
acharão de mais ou menos notavel, obtive uma ideia
mais correcta de que o trabalho de alguns dias o pode
dar.
Parece-me, que um sambaqui como este só pode ser
feito pela natureza, embora já no tempo da presença do
homem, do que um ou outro ali perdeu objectos de pedra
e até a vida. Suppondo que tambem este seria feito com
restos de cosinha, não entendo, por que razão os mora-
dores por muitos annos nutrirão-se sómente de ostras, e
por outros 5 ou 10 annos sómente de berbigão. Mais
ainda custaria a crêr, que de proposito despejavam por
muitos annos só conchas de berbigão no sambaqui, car-
regando por outro lugar as ostras.
Para acreditar, que a natureza podia fazer conglome-
ração de conchas como esta, precisamos apenas ter exem-
plos de casos analogos da epoca actual, e estes nos fal-
tam tão pouco como de periodos anteriores geologicas.
Assim ha na bahia de Paranaguá logares onde só ha
berbigão, outros onde se encontra em grande numero
as ostras. Ha localidades onde os berbigões formam ca-
madas, cobrindo com as conchas numerosissimas 0 fundo
da agua baixa. Na costa da Lagôa Mirim encontrei ca-
madas de conchas recemmortas de Azara labiata, que o
vento e a correnteza ali reunem e depositam, sendo esta
— 123 —
uma das razões porque os sambaquis consistindo das
conchas de Azara prisca me parecem suspeitos, a serem
naturaes. Perto de Montevideo ha camadas, compostas na
maior parte de mytilaceas, que consistem exclusivamente
de conchas.
Julgo provavel, pois, que estes grandes sambaquis
são formados pela natureza, sendo mais tarde pela ele-
vação lenta da costa levantados a um nivel mais alto.
Se niste tenho razão ficavam conservadas estas ostreiras,
sendo carregado ao mar pela acção dos athmospherilios
a camada de terra ou areia que as cobriu e uniu. Já
tinha occasiäo á provar em outros lugares, que a costa
do Sul do Brazil está levantado, e que todo o terreno na
costa perto da cidade do Rio Grande do Sul está gasto
e demolido, a excepção de algumas collinas que se con-
servarão, cobertos de vegetação arborea. (cf. 77. von 1 ering.
Ueber Binnen-Conchylien der Kiistenzone von Rio Grande
do Sul, Archiv f. Naturgesch. 1893, pag. 37—40).
Quanto às questões geraes, referentes aos sambaquis
de S. Paulo pouco concordo com os resultados obtidos por
Loefgren. Se elle julga, que nada podemos saber sobre
os povos que deixarão os restos de sua cultura nos sam-
baquis, sou ao contrario da opinião, que são formados
pelos povos, que como expuz, occupavam a parte meri-
dional do Sul. Não existe o minimo indício, que nos
mostrasse um antagonismo entre a cultura dos construc-
tores dos sambaquis e os povos Tupy-Guarany, de cujas
antiguidades trata este trabalho. Ha neste sentido com-
pleta accordança entre os resultados dos estudos archeo-
logicos e historicos.
Emquanto a classificação principal dos sambaquis
tambem tenho, deixando de lado os importantes pontos
de vista ja expostos, de insistir sobre a necessidade, de
ligar mais importancia a composição conchologica dos
sambaquis. Conhecemos alguns compostos principalmente
da concha Azara prisca v. Martens, especie que é extincta.
Conheço bem as especies de Azara da costa do Brazil e
— 124 —
das Republicas platinas. A especie commum do Rio Grande
do Sul, Azara labiata Mat., recebi no anno passado do
snr. À. Locfgren, que a colleccionou na bahia de Iguape.
Azara prisca é bem differente e não foi encontrada viva.
Sendo estes sambaquis em geral muito remotos da costa,
temos de consideral-os como dos mais antigos.
Sou, pois, da opinião, que a formação dos sambaquis
ainda merece estudo os mais profundos e que quanto
ao estudo da cultura que elles contem, tem de sepa-
rar-se os mais antigos sambaquis, os que mais dis-
tam da costa e os que consistem de Azara prisca dos
outros mais modernos, e que será necessario ligar a
maior attenção ao estudo dos ossos, dentes, etc., de peixes,
mammiferos e aos mais restos do reino animal.
Temos de tratar ainda de um machado de cebre, que
foi achado no decennio passado perto de Iguape na pri-
meira ilha do rio Ribeira. Este objecto foi mandado a
Berlim e ali reconhecido como identico com os que são
encontrados no Perú entre as antiguidades precolombia-
nas. Veja-se o trabalho de JZ Uhle (Verhandl. d. Berliner
Gesellsch. f. Anthropologie, 1887, pag. 20).
No seu livro Œthnographia brazileira. Rio de Janeiro,
1888, pag. 158» falla Sylvio Romero de um machadinho
de bronze e sobre as conjuncturas disparatas feitas sobre
elle pelo Sur. Ladislau Netto. Como nada encontrei a
respeito na respectiva publicação de Ladislau Netto e
não tendo Sylvio Romero indicado a publicação a que se
refere, nada de positivo a respeito me consta. Creio, porém,
que não poderá referir-se ao machado de cobre. do que
aqui trato, visto que este da Ribeira é de cobre e tendo
imformações directas sobre este objecto do sur. R. Arone em
Iguape, confirmando a exactidão das afirmações de Vhle.
Quanto a mais machados de cobre, achados fóra do
Perú, apenas conheço os que se encontraram nas provin-
clas argentinas de Salta e Catamarca, i. e, no antigo
territorio dos Calchaquis, e que descreve e figura Moreno
(Revista del Museo de la Plata, Tom. I. 1890, pag. 213).
7 |
— 125 —
Moreno diz, que estes machados são encontrados nos de-
sertos de Atacama e que differem um tanto daquelles do
Perú. Deixando ao lado esta controversa, aqui apenas
quero demostrar, que machados de cobre, iguaes aos
que forão usados pelos antigos povos andinos, foram es-
palhados tambem pelas regiões a Leste das Cordilheras.
Nao faltem neste sentido na literatura mais provas.
Assim diz Waitz (1. c: pag. 426): « Orellana encontrou no
paiz dos Omaguas (no valle do Amazonas) um machado
de cobre mais ou menos conforme aos usados no Perú,
e mais louça fina, bem envidraçada com desenhos ele-
gantes e idolos grandes. » E mais diz (pag. 500): que os
Araucanos ao Sul do Chile usavam de machados de cobre
e de formões de bronze. Sabemos por Zschudi que a
cultura do reino dos Incas não so ao lado pacifico da
Cordilheira estendeu-se ao Sul, mas tambem ao Leste dos
Andes até ao Paraguay e as Missões argentinas. Sabe-
mos, que os indios deste territorio eram ricos em ouro
e prata. Martin de Moussy (De Vindustrie indienne dans
le bassin de la Plata. Paris, 1866, pag. 8.) refere, que
os Carijós estabelecidos no valle do Paraná possuiam
Chapinhas de prata, que obtiveram das tribus morando
rio acima, e que Cabot affirma aue elles tiveram tambem
machados de cobre, já tendo assim o afirmado Cabecir
de Vaeca.
E’ certo, pois, que a cultura dos Incas estendeu-se
tanto ao Chile como pelo valle do Amazonas e por aquelle
do rio da Prata, e que deste modo forão a grande dis-
tancia tambem espalhados machados de cobre consta-nos
tanto pela litteratura, como pelos objectos archeologicos
mesmos.
Se entre os povos que receberão deste modo macha-
dos de cobre, encontramos indicados tambem os Carijós
do rio Paraná e do Paraguay, não é de estranhar, se
tambem em S. Paulo, no antigo territorio dos mesmos
Carijós é encontrado um destes machados. Não pode
mos duvidar, que nos tempos prehistoricos houve expe-
dições e emigracdes ao menos do mesmo modo como ainda
neste seculo, em que os Cayuás mudarão o seu domicilio
do Paraguay ao São Paulo. Por estas emigrações podiam
chegar objectos usados no Paraguay ao Estado de São
Paulo, porém raras vezes, sendo acquisições mais valio-
sas e duraveis só as plantas culturadas, como o milho,
o feijão, o fumo, a mandioca, os amendoins, as abo-
boras, etc.
Se objectos raros, provindos destas emigrações e re-
lações commerciaes, como o machado de cobre da ilha
da Ribeira, e as chapinhas de prata dos sambaquis Rio-
vrandenses, para a cultura destes povos eram de influen-
cia bem secundaria, para a archeologia ao contrario são de
summo interesse, e será necessario pelo futuro ligar a elles
o maior interesse e toda a attenção, de que são dignos.
Conhecendo agora bem tudo que refere ao Brazil,
relativamente aos assumptos dos quaes aqui tratamos,
temos no seguinte de chamar 4 comparação os Estados
do Rio da Prata, de cuja archeologia por isso tratare-
mos n9 seguinte.
Os habitantes primitivos da Republica Argentina
dividem-se em tres grupos principaes, pertencentes se-
gundo ás suas linguas aos Guaranys, Pampas e Quichuas.
Aos Guaranys encontraram os conquistadores hespanhées
principalmente ao norte do Rio da Prata, assim como
entre os rios Paraná, Uruguay e Paraguay. Ao Sul do
Rio da Prata, dominando a vastissima planicie dos Pampas
de Buenos Ayres até aos Andes, morarão indios dos
Pampas, dos quaes os Querandis como é bem sabido,
resistirão com grande energia e successo aos hespanhôes.
Mais ao norte havia ainda outros indios, os Calchaquis
e tribusada mesma origem, de todos os mais civilisados.
Olhando para estas differentes tribus, uma por uma,
e sua cultura primitiva, só a comparação com o estado
inferior de cultura dos Pampas e Guaranys nos dará
uma ideia exacta da importancia de tudo o que achamos
or.
entre os Calchaquis, cujo territorio, a provincia Colla
Suyu, era uma das quatro provincias mais importantes
do imperio dos Incas.
O que sabemos dos indios argentinos antes e durante
o tempo da conquista, devemos em parte ás relações dos con-
quistadores, em parte as investigações archeologicas
muito adiantadas já na Republica Argentina. Em quan-
to a litteratura historica acho-me algum tanto embara-
cado, por não ter podido conseguir aleumas das obras res-
pectivas das quaes é, sem duvida, a mais importante a de
um Allemão que tomou parte nas expedições de descobri-
mento e conquista dos hespanhves ao Rio da Prata:
Ulrich Schmidt von Straubingen: Descripção fiel de al-
gumas navigações. Frankfurte sobre o Meno 1567. Sobre
este e alguns outros navegantes como Ruy Diaz, Alvaro
Nunez Cabeza de Vacca, falla extensamenta a obra do
Padre Pedro Lozano: Historia de la consquista del Pa-
raguay, Rio de la Plata y Tucuman. Buenos Ayres
1874, Tambem Martin de Moussy dá uma exposição
succinta no seu livro: De l'industrie indienne dans le
bassin de La Plata 4 l’époque de la découverte. Paris
1866. Opportunamente me referirei a esta obra, como
mais adiante me occuparei tambem detidamente dos tra-
balhos de Ameghino, Moreno e Strobel.
Os Indios dos Pampas estão no degrau mais baixo
a respeito da civilisação. Não conheciam a agricultura,
mantendo-se da caça e da pesca. Como os Charruas,
não levavam, mesmo no maior rigor do inverno, ves-
tuario algum, só as mulheres trazião uma saia curta de
couro. Com tudo erão os inimigos mas perigosos dos
hespanhôes, pois era uma das suas tribus, os Querandis,
que no anno de 1538 cbrigarão aos hespanhóes a abando-
narem a sua posição em Buenos Ayres, depois de ter
luctado em vão por tres annos, posição que não recu-
perarão senão no anno 1580. Suas armas consistiam em
lanças flechas e bolas. As pontas das lanças e flechas
eram feitas de pedra lascada. As bolas eram uma ou
— 128 —
duas, presas por correias. Tambem accostumavam lan-
çar palha accesa por meio destas bolas ou flechas contra
o inimigo sitiado. E’ desta maneira que os Querandis
incendiaram quatro navios dos hespanhões e os edificios
recentemente construidos em Buenos Ayres. Faltando
as pedras nos Pampas, os Querandis se as procurarão
atravessando o rio em canoas, auxiliados pelos Charruas,
que moravam em Uruguay, em tanto que os Indios das
Pampas de hoje fazem suas bolas de argilla, queiman-
do-as. Tambem o laço, como indica M. de Moussy, in-
ventarão os Querandis, e os dous, laço e bola, são ainda
hoje armas indispensaveis do criador na Republica Ar-
gentina e no Sul do Brazil. Logo que os hepanhdes
abandonaram Buenos Ayres, os Querandis começaram a
domesticar e a criar o gado e os cavallos importados,
costume que transformou consideravelmente o seu modo
de viver. Com tudo isso, já sabiam tambem antes apa-
nhar com laço e flecha o veado de suas vastas planicies
cujo sangue chupavam ainda quente, como até hoje fa-
zem os Indios do sul da Republica Argentina. Os Abi-
pones, Tobas e Mocovis, que moravam nos arredores de
Santa Fé e Cordova e que todos pertenciam á raça dos
Pampas, não se afastavam no seu modo de viver dos
Querandis. Tambem elles alimentavam-se da caça e pesca,
como de fructos do mato.
Muito mais adiantadas na cultura achavam-se as nu-
merosas tribus Guaranys que moravam ao longo dos
grandes afluentes do Rio da Prata, e que fallavam
todas a lingua geral, bem que havia uma grande diffe-
rença entre umas e outras. Os que o maior progresso
apresentavam são, sem duvida, os Carios no Paraguay,
cuja civilisação conhecemos melhor. Vivião em aldeas
que estavão rodeados de estacas, formando um cerco, como
tambem de uma larga fossa onde estavão igualmente
estacas cobertas de ramos. Nas choupanas, construidas -
de canna, dormião sobre pelles de animaes ou em redes,
pan.
Seu fato era feito de algo lão ou de pelle de veado ;
ornavão-se com pennas de passaros, especialmente em for-
ma de diademas, feitas de pennas de papagaio, e tambem
collares de conchas e dentes de animaes. No furo do
labio inferior trazião o tembetá, ornato de pedra polida
ou osso. Furavam tambem as orelhas para pennas ou
enfeites de madeira pintada e tatuaram o corpo. As
mulheres vestiam a tipoy, camisa comprida de cortiça
ou algodão sem mangas, usada ainda hoje em muitas
tribus. Em dias de batalha, os homens ornavam-se de
uma maneira especial, applicando pennas com gomma no
corpo e pintando a cara com diversas côres.
Como armas tinhão, além de flexas e arcos, lanças
compridas com pontas de pedra ou osso. Lançavam pe-
dras por meio de fundas e possuiam macanas, massas
de quatro facetas ou planas. Alguns tinham escudos
de pelle de anta, outros uma especie de pequena espada
munida com as queixadas summamente cortantes das
Palometas (uma especie de peixes). Apanhavam os pei-
xes tanto por meio de anzoes de páo como por meio de
redes, flexas e venabulos. Serviam-se dos ultimos so-
bretudo para apanharem os grandes peixes como o dou-
rado, o pacu, o surubim e outros, pois os peixes erão
o seu alimento principal. Mas tambem caçavam e co-
miam jacarés, cobras e grandes lagartos. Fazião suas
facas e machados de pedra, ligando-as por meio de cor-
rêas aos cabos: por demais tinhão machados de cobre,
como menciona expressamente Cabeza de Vacca, os quaes
receberão sem duvida do Perú, respectivamente das tribus
dos Quichuas.
Incumbia ás mulheres a fabricação das panellas,
entre estas aquellas immensas igacabas em que enterravão
celebres guerreiros. Seccavam primeiramente ao sol estas
urnas, feitas com a mão, queimando as depois em um
fogo forte. Erão grosseiras, se bem com impressões e
outros ornamentos de côr. Do que se admiravam mais
os hespanhoes, como producto notavel de sua industria,
erão as suas candas. Nestas embarcações, feitas de um
— 130 —
tronco a força de inachado, pedra e fogo, havia iugar
para trinta guerreiros e mais ainda. E’ bem conhecido
que grandes perdas causaram aos hespanhèes.
Era da caça e da pesca que tiravam em primeira
lugar seu sustento. Sabião deseccar a carne ao sol e
conserval-a pelo fumo. Mas o que constituia seu ali-
mento principal erão peixes seccados e triturados no
pilão com milho e mandioca. Não faltavão-lhes animaes
domesticos. Ulrich Schmidt, Cabeza de Vacca e outros
relatão unanimamente que acharão gallinhas, gansos e
patos que em parte se parecião bastante aos europeos,
e tambem duas especies de carneiros indigenas, domes-
ticada uma, selvagem a outra, mas tambem facil de
domesticar. Isto prova que o lama e o guanaco que só
se vêm hoje no oeste do Gran Chaco, por conseguinte
só no oeste do Paraná e Paraguay, se achavão naquelle
tempo ainda em estado livre no Paraguay. Mas todos
estes animaes indigenas não forão mais cultivados de-
pois da introdueçäo dos animaes europeos, que lhes erão
superiores. Ulrich Schmidt relata que não podendo ca-
minhar a causa de ferida de uma perna, fez quarenta
leguas montado num destes animaes.
A agricultura era muito limitada. Não produzia senão
milho, feijão, amendoim, mandioca, melancias. A terra
era trabalhada com um páo apontado ou com uma
pá, feita da omoplata de um animal. Guardavam pro-
visões de milho e farinha de mandioca. Tambem reco-
lhião fructos do mato e mel. Deste ultimo tanto como
do milho, da mandioca e das fructas da Algarroba fazião
bebidas embriagantes, sendo a desta arvore a mais esti-
mada. Tambem tomavam infusões da herva maté. As
bebidas alcoolicas tomavam especialmente nas suas fes-
tas que acabavam-se com embriaguez geral. Raras vezes
entregavam-se á anthropophagia, que era limitada para
prisioneiros de guerra. Suas relações commerciaes res-
tringião-se a trocos occasionaes com as tribus mais sep-
tentrionaes, ás quaes davam armas, bótes, etc., para re-
— 131 —
ceber em troco redes, objectos de ornato de ouro e prata,
e igualmente tecidos de algodão que se procuraram das
tribus dos Andes, das quaes provinhão tambem os ma-
chados de cobre que já mencionei.
De que maneira as raças dos Pampas e dos Guaranys
erão relacionadas entre si, está ainda totalmente duvi-
doso, mas 6 certo, que a exploraçäo archeologica obteve
resultados que sao perfeitamente conformes com estes
contrastes que acabo de mencionar. Na provincia de
Buenos Ayres, como em geral nas Pampas, mas tambem
em Uruguay e na Patagonia, achao-se restos de v-
cultura muito primitiva da epoca das pedras. Os mavia-
dos e as facas, as pontas das flechas e lanças são todas
feitas de pedra lascada; polidos, bem que imperf amente,
sao só os pilões e as bolas; accrescentando aleuiias urnas
bem primitivas, eis aqui tudo. No territorio do Paraná,
pelo contrario, como no sul do Brazil achão-se machados
de pedra lindamente polidos e de differentes formas;
objectos de enfeite, sobretudo, os tembetás do labio in-
ferior por demais ha trabalhos de argila mais variados,
nem faltam cachimbos; finalmente ha tambem aquellas
figuras zoomorphas finamente polidas, obras verdadeira-
mente exquisitas e de summa paciencia e habilidade dos
Indios.
Quanto mais adiante vamos ao longo dos Andes para
norte, tanto mais encontramos indicios de uma cultura
muito mais adiatanda, onde não se pode negar a influen-
cia do imperio dos Incas. Ruinas de povoações e forti-
ficações, indicios de trabalho mineiro e obras de irri-
gação unem-se com urnas admiravelmente formosas e
elegantemente pintadas, vasos anthropomorphos, etc., e
instrumentos de differentes metaes, especialmente de
cobre, para dar-nos uma idéa dessa civilisação extincta,
que não se suspeitava ao éste das Cordilheiras. Muito
tem-se já escripto sobre a historia do antigo Perú, mas
nunca até agora deu-se a devida attenção á divulgação
da cultura peruana no sudeste da America do Sul, e com
— 132 —
tudo esta influencia insinua-se por todas as partes do
Rio Grande e da Republica Argentina até 4 embocadura
do Amazonas, de uma maneira, que não deixa de ser
interessantissima uma pequena revista de toda a litte-
ratura que trata della. Merece ser mencionada a obra
de Florentino Ameghino: La antiguetad del hombre en
el La Plata, Paris, 1880 e 1881. E" verdade, porém, que
não appareceram ainda as publicações mais importantes,
como a obra sobre as colleccôes riquissimas das anti-
guidades dos Calchaquis no museu de La Plata, que tem
de ser publicado pelo seu director vr. P. Moreno e das
quaes temos até agora sómente curtas relações que men-
cionarel mais adiante.
Por emquanto, seguindo em geral Florentino Ame-
ghino, vou expôr a historia dos Calchaquis em quanto
seja conhecida. Durante os dous seculos anteriores à
conquista, a dominação dos Incas estendeu-se ao este dos
Andes até a provincia de Cordova, onde moravão nos mon-
tes os Comenchigones, povo pacifico, que, supponho, perten-
ceu a raça dos Quichuas, internando-se do Perú ao sul,
como prova o facto de failarem só a lingua dos Quichuas.
E’ no seu territorio que Cabrera fundou no anno 1573
sem difficuldades a cidade de Cordova. Na provincia de
S. Luiz teve lugar o mesmo. A serra de S. Luiz era
occupada pelos Michilingues, que differenciavam-se tam-
bem das tribus das planicies, tendo-se igualmente esta-
belecido em tempo relativamente moderno, provavel-
mente na epoca em que os conquistadores peruanos
estenderão a sua dominação em Chile até o Maule, cem
annos mais ao menos antes da conquista hespanhola.
Igualmente as provincias de Mendoza, S. Juan e
Rioja erão sujeitas á dominação dos Incas, mas parece
ao contrario, que sua povoação não era de origem qui-
chua. Havia nas ribeiras do rio Mendoza os Huarpes
ou Guarpés e os Calingastas e outras tribus. A fraca
resistencia que oppuzerão primeiro aos Incas e depois aos
hespanhóes, como a facilidade com que se accomodavam
— 133 —
au nova civilisação, fazem suppor uma cultura superior
à dos outros Indios. Outra prova disso é a densidade
«la sua população antes da dominação dos Incas. Esta
começou, pouco mais ou menos, no anno 1300 com sub-
missão voluntaria de aleumas tribus, quando reinava o
oitavo Inca Ripac-Viracocha, progredindo gradualmente
€ acabando pela submissão de todo o territorio até Men-
doza e S. Luiz na occasião da passagem de Yupanqui,
o decimo Inca, para a conquista do Chile. As provin-
cias de Mendoza, S. Luiz e S. Juan receberão ao serem
incorporadas ao imperio dos Incas, o nome da provincia
de Cuyo, nome que se conservou até os nossos dias.
Parte dos Quichuas, companheiros de Yupanqui, esta-
belecerão-se nas planicies de Santiago del Estero; o
mesmo fizerão os Chicuanas entre Jujuy e Tarija. Não
é, pois, de admirar fallar-se ainda hoje a lingua dos
Quichuas em Santiago del Estero e no planalto da Püna
de Jujuy.
Ao norte da provincia de Cuyo morava um povo
bellicosissimo, sujeito aos Incas, mas de raça differente, os
Calchaquis, que disputavam, passo a passo, O territorio aos
hespanhõóes nas suas expedições de conquista. O terri-
torio d'elles, a antiga provincia de Tucuman dos hes-
panhóes, de nome Colla-Suyu, era uma das quatro pro-
vincias principaes do imperio dos Incas, cujos habitantes
chamavão-se Collas. O nome antigo deste territorio era
Collau, quer dizer, o territorio habitado pelos Collas,
uma das quatro provincias em que Viracocha, o funda-
dor de Tiahuanaco, o dominador dos Aymaras, o dividiu.
Quando foi substituido a cultura dos Aymaras pela dos
Incas, esta antiga divisão foi conservada, e a provincia
meridional, que antes comprehendia só a Bolivia, esten-
deu-se as partes septemtrionaes da Republica Argentina
actual. (Que a população no norte da Argentina foi nu-
merosa no tempo dos Incas, deduz-se entre outras provas
do grande numero de Indios que os hespanhdes estabe-
leceram nas suas povoações. Assim Diego de Villaroel
— 134 —
fundou a cidade de Tucuman com 10.000 Indiose Aguirre
a de Santiago del Estero com 40.000. O facto de fal-
larem estes Indios a lingua dos Quichuas não é por
si mesmo uma prova de que erão todos da raça dos
Quichuas, pois os Incas forçavam as tribus sujeitas a
aceitarem sua lingua.
Os Calchaquis habitavam, pouco mais ou menos, toda
a provincia de Catamarca e as partes occidentaes de
Tucuman e Salta. O primeiro Europeo que penetrou
no seu territorio, foi Almagro, que no anno 1536 partiu
com um exercito de 20.000 homens para conquistar o
Chile. Os Calchaquis atacaram-no com violencia, ma-
tando-lhe o cavallo em que ia montado, mas não podiam
impedil-o de alcançar e atravessar os Andes. Alguns
annos mais tarde, Diego Rojas foi enviado pelo gover-
nador do Perú para sujeitar o territorio no sul de Char-
cas. Tomou o mesmo caminho como Almagro e encontrou
como aquelle, forte resistencia no paiz dos Calchaquis,
sendo na batalha decisiva o seu exercito completamente
batido e morrendo elle mesmo nella.
Com novo exercito, Nuíez de Prado partiu no anno
1550 para conquistar este territorio. Perto de Tucuman
elle foi atacado pelo chefe dos Calchaquis Tucumanao;
logrou repellir os ageressores e fundar ao pé do Acon-
quija a cidade de Barco de la Sierra, mas não podendo
manter-se nella, tinha logo de abandonal-a, sendo repel-
lido pelos Calchaquis. ~
Alœuns annos mais tarde, os Calchaquis submette-
rão-se voluntariamente ao Capitão de Santiago del Es-
tero Juan Perez de Zurita; mas o successor deste, Casta-
ñeda, tratou-as tão mal, que no anno 1556 revoltarão-se
de novo contra os hespanhóes e destruirao todas as ci-
dades que aquelles tinhão fundado nas fronteiras. Sendo
vencidos fizerão a paz, revoltando-se de novo no anno
1562, e esta vez com feliz exito, pois que expulsarão
os hepanhúes de seu territorio.
As guerras entre os hespanhóes e os Calchaquis
— 135 —
duraräo com successo variavel ainda mais de cem annos
até que no anno 1664 o governador Mercado sujeitou a
ultima tribu delles, os Quiimes, e para segurar-se delles
fez seguil-os para Buenos Ayres, onde o lugar Quilmes
leva ainda hoje este nome. Não ha tribus de Indios na
America do Sul que defendesse a sua liberdade e patria
contra os invasores europeos com maior sucesso e valor
do que estes Calchaquis.
Sobre a cultura delles somos bastante bem infor-
mados por causa deste frequente contacto com os hes-
panhoes. Na terra que habitavam, acham-se numerosas
estradas construidas como as Peruanas mas, como pa-
rece, sem estarem tão regularmente repartidas aquellas
estações de correio que forão chamadas tambos, nome
este que foi introduzido na lingua hespanhola. Moravao
em casas de pedra, cobertas de juncos ou de palhas.
Cada tribu era governada por um Cacique, cuja eleição
precisava da approvação do Inca. Em geral, os Incas,
eram respeitados, mas devido a grande distancia, eram
antes senhores de terras nominaes do que em realidade.
Kram só os Caciques que fallavam a lingua dos Qui-
chuas, sendo a lingua da população muito differente.
O culto do sol foi evidentemente introduzido pelos
Peruanos. Além delle veneravam numerosos idolos,
entre estes alguns de cobre de forma pequenissima, le-
vadas como amuletos ao redor do pescoço. Em ‘asos de
doença, todos os amigos e parentes reunião-se na casa
do doente onde ficavam bebendo, emquanto durava a
molestia. Muitas flechas deitadas no chão ao lado da cama
diziam, que afugentava a morte. Se não obstante esta
sobreveiu, enterravam o morto em uma erande urna com
os seus mais caros animaes domesticos, com armas e
seu vestuario. Então incendiavam a casa com o fim
de impedirem a morte de voltar, visto que já conhecia
a casa.
Os arcos eram altos e direitos, a corda era torcida
de tripas dos animaes ou de fibras de palmeiras assim,
— 136 —
provavelmente, como no sul do Brazil, das da palmeira
Tucum. As pontas das flechas eram feitas de pedra, ma-
eira, ferro ou cobre. Além disso empregavam bolas.
Sobre a existencia do ferro na America do Sul no
tempo anterior a Colombo Ameghino faz algumas obser-
vações, que vou expôr aqui. O ferro era conhecido não
sómente pelos Calchaquis. Molina diz na sua historia
do Chile, que o ferro, de que crea-se que não era conhe-
cido na America do Sul antes da descoberta, tem um
nome especial na lingua araucana, panilgue, como tam-
bem os utensilios de ferro teem um outro nome do que
os de outra materia. Mentesinos nas suas memorias onde
falla dos Chimus, povo que veio no Perú 1500 annos
antes da nossa chronologia («era») diz, que elles talhavam
as pedras com intrumentos de ferro que troxerão da
sua terra. Velasco na sua historia del reino de Quito,
diz que os Peruanos não empregarão o ferro para suas
armas, bem que o conhecessem com o nome de quillay.
A linguistica contirma isso. A palavra para ferro era
em Quito quillay, em Cuzco quellay, nos Aymaras cuja
lingua, bem que um pouco differente, pertencia tambem
as lingnas Quichuanas, quella. Eram, pois, estas palavras
precolombianas e proprias a estas linguas sem duvida
derivadas d'um idioma primitivo e commum. O mercurio
peruviano de 1791 tom. I. pag. 201 menciona entre as
minas exploradas pelos Incas ou pelos predecessores delles
tambem as excellentes minas de ferro de Ancoriamis
(16º 25’ lat. sul), na costa oriental do lago de Titicaca.
Ameghino crê que nos objectos de ferro achados entre
os Calchaquis se trata de ferro meteorico e accrescenta,
que o empregavam tambem algumas tribus no Rio da
Prata para pontas de flechas, etc. « Na banda oriental
achei entre primitivos utensilios de pedra tambem bolas
e outros objectos de ferro metcorico que eram batidos em
estado frio, como os Americanos do Norte trabalhão o
cobre. » Não sou desta opinião. Todo o ferro no Rio
Grande do Sul é postcolumbico e, creio, que o mesmo
— 137 —
se dá no Rio da Prata. Utensilios de ferro eram a preza
mais apetecida dos Indios nas suas invasões nas colonias,
e então dellas faziam pontas de flechas. Não é assim,
porém como as bolas de ferro que conheço do Rio Grande,
e que consistem em pedras de ferro, mas não são batidas.
Alli achamos aleumas vezes numerosas bolas de ferro
e pedra argillosa, cujas partes exteriores são oxydadas
e podem ser facilmente separadas por camadas concen-
tricas, emquanto a parte interior redonda é muito firme
e dura, não podendo ser batidas em estado frio.
Creio, pois, que tambem no Rio da Prata o ferro não
era trabalhado na epoca antes de Colombo, mas de-
vemos fazer uma excepção emquanto aos Calchaquis e
aos habitantes do Perú e Chile, os quaes, como me parece
provado, exploravam as minas de ferro e empregavam
este metal. Além d'isso, eram expertos na fundição do
metal pela fabricação de utensilios de cobre fundidos.
Algumas destas machadas e tambem chapas circulares
de cobre, etc., figurou 77. P. Moreno (Informe annual
del Museu de la Plata, 1890, pag. 13 e 21.) Ellas provêm
de Salta ec Catamarca. O museo de La Plata tem 15 destes
objectos. Ameghino deu as figuras de um certo numero
delles, entre outros um martello e dous alfinetes de prata,
daquelles que se conhecem como topus do Perú. Entre
estes objectos chama sobretudo a nossa attenção um
pequeno sino de cobre, ajustado para ser suspendido. Até
agora tres destes sinos parecem ter-se achado, mas não
são retratados ainda.
De uma perfeição sorprehendente na forma e pintura
são os productos de argilla. O museu de La Plata possue
ca. 400, entre elles alguns de uma altura de 80 cm., que
servirão de urnas funerarias. Pintavam-se pela maior
parte com desenhos lineaes ou com figuras de passaros,
reptis e caras humanas. Duas destas urnas foram pho-
tographadas por Moreno. Sao vasos com a parte inferior
conica e tendo na parte superior uma aza grossa, apre-
sentando em alguns por meio de olhos, etc. o symbolo
— 138 —
de uma cabeza de animal. Na parte superior mais estreita
debaixo do borde um pouco inclinado é ornado com a
cara de um homem. Os arcos dos sobreancelhos marcão
na ponta em que se encontrão entre os olhos o nariz;
sendo numa dellas tatuada a cara debaixo do olho direito
com quatro linhas verticaes e mais linhas entrepostas.
Outras urnas photographadas por Ameghino estão provis-
tas de tampas e aos dous lados de duas pequenas mangas.
Em algumas delles vê-se entre a ornamentação a figura
de uma cruz em pé. Outras, em fim, descreverão Vir-
chow e Philippi nos annaes da Sociedade anthropologica
de Berlim em 1884—85. Por mais differentes que sejam
estas urnas, teem de commum o esforço que se nota de
conseguir ornamentos em forma de escada, e a intenção a
dar-lhe por meio de linhas verticaes on por quadros
cheios, uma divisão symetrica, como se estivessem divi-
didos por meridianos.
Ao lado destes acham-se figuras anthropomorphas e
urnas duplas, das quaes Ameghino photographou uma
das mais curiosas. Esta tem na parte superior duas ca-
beças, ficando no resto sómente indicado o corpo duplo
por desenhos. Uma das figuras parece-me ser a de mu-
lher, pois que tem dous pontos indicardo os seios. Uma
das urnas duplas de Virchow, as quaes são duas figuras
em barro unidas entre si, representa um casal, sendo
uma de homem, a outra de mulher. Com frequencia se
vêm nas differentes cabeças de argilla e nas urnas an-
thropomorphas estas linhas verticaes debaixo dos olhos,
o que indica ser este modo de tatuar proprio aos Calcha-
quis ou aos seus antecessores, sendo assim provavel que
só as mulheres gosavam desta distinccao.
Philippi attribue decididamente a estas urnas à ori-
gem peruana, dizendo que urnas semelhantes encontra-
vam-se tambem em Chile, mas só na parte septentrional,
encarecendo dellas e de objectos de metal as tribus chi-
lenas que não attingiu a influencia dos peruanos. J/-
reno, emtanto, affirma que os machados de cobre dos
— 139 —
Calchaquis acham-se em forma identica em Atacama e
seus redores, mas não em Perú; alguns destes objectos
de metal fez analysar chimicamente. O resultado era
puro. Uma das rodellas porém continha 80,5 ty, de
cobre, 3 “|, oxydado de cobre, 16,5 °|, de zine».
Uma prova das suas relações commerciaes exteusas
são as differentes especies de conchas do oceano pacifico,
que encontrou Moreno nas urnas funerarias delles. O
assumpto é porém tão complicado, que deve suppôr-se
ter existido já antes dos Calchaquis uma cultura superior,
que é presumivel, pertencia a outro povo expluso pelos
Calchaquis. Os Hespanhõóes, nas suas luctas com os Cal-
chaquis encontraram numerosas ruinas de construccäo
de pedra, fortalezas, assim como povoações e fornos. Ge-
ralmente, as fortalezas estavam situadas nas entradas
dos passos estreitos ou de difficil accesso, formados os muros
de pedras sobrepostas, algumas vezes juntos, por meio
de argilla. Martin de Moussy achou uma das melhor
conservadas no valle de Anucan, na entrada do passo,
que da accesso ao planalto dos Andes, servindo de cami-
nho de Catamarca a Copiapo. E’ um lugar fortificado
com muros e terraços, occupando a ponta extrema uma
torre baixa, unida com o centro por um muro, faltando
o telhado. Toda a construceção occupa uma superficie de
3000 metros quadrados, mais ou menos. KE’ nestas ruinas
que se achavam, pela maior parte, estes restos. Os ro-
chedos nos redores das ruinas levam muitas vezes ins-
cripções como tambem morteiros.
No lugar em cima citado, dá Moreno a photographia
de uma tal ruina. Muros de alguns metros de espessura
separam centenas de patios pequenos. As aperturas,
servindo de portas, acham-se só no interior, não havendo-
as nos muros exteriores. O mesmo se vê nas antigas
ruinas das povoações em Arizona, o que induz Moreno a
considerar os constructores identicos pelo que toca a ci-
vilisação, supposição que me parece muito arriscada.
Até a altura de 4000 metros acham-se taes ruinas, das
ee As
quaes ha algumas aos lados das estradas antigas dos
Incas, que atravessão o paiz até o passo de Uspallata.
Diz o mesmo Moreno tel-as seguido numa extensão de
cem leguas, sendo a sua direcção tão direita como a
duma estrada de ferro nas Pampas.
Ameghino communica-nos alguns dados respectiva-
mente a viagem do professor #. Ziberani em Tucuman.
Este recebéra alguns objectos curiosos procedentes de St.
Maria em Catamarca pelo que resolveu-se ir alli mesmo,
para proseguir nas suas investigações. Grande foi a sua
surpreza quando em vez de urnas, etc., achou grandes
ruinas, restos duma civilisação extincta daquelles valles
agora desertos. O viajante não só tem diante de si
velhos muros cahidos, senão até pode distinguir as ruas
e praças que existiam outrora naquellas cidades desap-
parecidas. Além disso, as mil curiosidades nos cemite-
rios, pegadas quasi sempre ás ruinas. Nas excavações
praticadas até a profundidade d’um metro topou uma
urna funeral de extraordinaria belleza, pintada d’um
modo curiosissimo, mas esta urna cahiu em pó ao contacto
com o ar. Continha ella os ossos de um homem adulto e
outra pequena urna com milho torrado, perfeitamente
conservado. Segundo ás tradições daquelle povo, o milho
era destinado para o morto, pois, criam que ia resuscitar
à beira do mar. Uma outra urna continha o mesmo, €
numa terceira achava-se uma medalha de cobre coberta
de hieroglyphos.
Logo depois partiu o professor Zierani com R. Her-
nandez em commissão do governo para uma exploração
na Loma Rica, em que segundo á crença do povo, deviam
achar-se occultas grandes riquezas. A parte superior da
loma, ainda com restos de uma antiga cidade, apresenta
uma planicie em forma de ellipse, tendo 670 metros de
comprimento. As vertentes são defendidas por muros.
A loma, em uma altura de cem metros sobre o nivel do
rio, offerece uma vista ampla. Estas ruinas cobrem uma
superficie de 380.000 metros quadrados. As paredes das
— 141 —
habitações são direitas, cruzando-se em angulo recto e
tendo um metro de espessura e dois de altura. Aqui e
alli, achão-se aperturas, servindo, sem duvida, de portas
no interior tanto como no exterior. As ruas, de uma
largura de um metro e meio, são muito irregulares, pois,
não ha uma só que atravesse toda a povoação. São cons-
truidas de pedras, pela maior parte de granito, sem ci-
mento. Ameghino dá o plano de uma casa que consiste
em dous quartos communicando-se por uma apertura,
dos quaes o primeiro é maior, tendo oito e meio metros
de comprimento por sete de largura. N’uma das paredes
acha-se uma grande pedra cuja parte superior é ouca,
pelo que se vê que se trata d'um morteiro. Em um outro
canto: ha quatro morteiros soltos. No outro quarto mais
pequeno vêm-se tres figuras circulares de pedra, rodeando
uma ou mais pedras maiores e tidas por tumulos. Em
outro canto havia a cozinha, tambem rodeada de uma
fileira de pedras; que este lugar era a cozinha indica a
existencia de cinza, como de carvão e de ossos de gua-
naco. Duvidoso é o desitno das outras pedras para tu-
mulos. E’ costume entre os Indios da America do Sul
queimar ou abandonar a choupana em que morren um
individuo, enterrando-se não obstante aleuma vez o morto
na mesma choupana. Assim diz von den Steinen no seu
livro: « Atraves do Brazil central »: « E no meio da
choupana achavam-se dous tumulos. Os Yurunas enter-
ravam os seus mortes em sua casa; a rede do parente
está suspensa ao lado do tumulo do fallecido. » E’ de
sentir-se não haverem-se praticado excavações em estes
tumulos suppostos, se bem a disposição das pedras o faça
possivel, como veremos.
Chamava, sobretudo, a attenção um edificio destinado
sem duvida, a actos publicos, talvez uma especie de
camara municipal de hoje. Havia nelle uma grande sala
de 28 metros de comprimento por 15 de largo, tendo
numerosas fileiras de assentos regularmente dispostas e
uma tribuna a qual se acha na parede que tem no meio
"po
a porta, chegando-se a ella por um corridor estreito, pa-
rallelo 4 mesma parede.
No sul, ao pé da loma estende-se de NE. a SO. a necro-
polis. As excavações praticadas produzirão muitas urnas
funerarias de differentes tamanhos, fechadas por tampas.
Além de restos humanos contêm diversos outros objectos.
Conhece-se o tumulo por algumas pedras que rodeão
uma ou algumas maiores, em forma oval. As urnas têm
uma posição vertical com pedras aos lados. Tambem
outros objectos de argilla encontrarão-se alli, cabeças de
homens e animaes, principalmente da raça felina, como
tambem idolos de pedra representando animaes, mortei-
ros e machados de pedra polida entalhados, 1. é, com um
sulco circular na parte superior. Accrescentam-se as
agulhas de prata já mencionadas e objectos de cobre,
emtanto que nem Ziberani, nem Methfessel, que collec-
cionava para Moreno, não parecem ter achado objectos
de ferro. E' assim bem possivel, que as pontas das fle-
chas de ferro dos Calchaquis datão do tempo posterior
a Colombo, como as dos Indios do Rio Grande do Sul.
Em geral, a existencia de metaes está ainda muito pouco
esclarecida. Na rica colleccao de Moreno ha só utensilios
de cobre e uma rodella de bronze, emtanto que os ob-
jectos de prata são considerados postcolombianos, o que
porém parece duvidoso. A circumstancia de serem os
topus de prata, photographados por Ameghino, identicos
na forma com os peruanos, prova que com a cultura
dos Incas chegaram tambem os metaes empregados por
elles aos Calchaquis, pois sabemos que Cabot recebeu
dos Carios peças de prata, as quaes receberão de tribus
septemtrionaes, a tradição historica sendo em tudo con-
forme com a observação archeologica.
Não pode surprehender, estarem espalhados ouro,
prata e cobre entre os Calchaquis, existindo estes metaes
no antigo Perú em grande quantidade. Pelo que toca
ao ferro tenho duvidas, assim como da rodella de bronze
da qual falla Joreno, sendo esta a unica achada de sua
especie. mas igualmente é possivel, por encontrar-se
bronze no antigo Perú. Outros metaes faltão. Se bem
uma parte dos objectos metalicos são de origem peruana
é fóra de duvida serem elles na maior parte a chados e
trabalhados alli mesmo. Segundo Ameghino, havia for-
mas de pedra para fundir o cobre, tendo-se effectiva-
mente achado minas antigas na provincia de 8. Luiz,
perto de Toma-Lasta. Sendo este nome de origem Qui-
chuana, parece certa a supposição de provirem ellas desse
povo, que penetrou neste lugar, sendo-lhes tambem at-
tribuidas as da serra Famatina, minas nas quaes, se
diz, trabalharão milhares de individuos. Perto d’alli
existem ruinas de fortificações em que os naturaes resis-
tiam aos hespanhoes por muito tempo. O engenheiro
Nicourt encontrou alli n’uma altura consideravel um
antigo cemiterio, em que havia esqueletos em urnas de
duas pollegadas de espessura, tendo a posição como o
fetus no ventre da mãe, e levando na bocca uma ponta
de flecha triangular, analogo ao obolo que puzerão na
antiguidade ao morto na bocca. Tambem este costume
faz-nos lembrar o Perú, onde achavam-se aleumas vezes
mumias com objectos de ouro, prata e pedra na bocca.
A cultura peruana trouxe igualmente a agricultura
ao sul. Os conquistadores ensinavam aos naturaes a
irrigação e o abono dos campos. Entre as plantas cul-
tivadas devem-se mencionar, sobretudo: o milho, os feijões,
as batatas, etc., algumas classes de arvores fructiferas,
fumo e algodão. Serviam-lhes de animaes domesticos o
lama e o alpaca; o primeiro como animal de carga
assim como comiam a sua carne, o segundo por sua lã,
que apreciavam muito, sendo animaes de caça 0 vicunja
e o guanaco. As mulheres sabiam fabricar da lã e do
algodão tecidos muito finos, tingindo-os com côres ve-
getaes.
Tambem dedicavam-se á agricultura os Guarpés,
que moravam mais ao sul. Viviam debaixo de chefes
— 14H —
militares em cidades com casas de pedra. Faziam finas
redes, cestos e mesmo vasos para beber de juncos dos
pantanos. Ameghino dá a photographia d'um cesto acha-
do n'uma caverna. Os Guarpés que moravam na mar-
gem do lago Guanacacho, empregavam os juncos tambem
na construcção de jangadas. O mesmo faziam os Qui-
chuas e Aymaras nos arredores do lago de Titicaca, mas
não os Guaranys. Criavam o lama e o alpaca, fabri-
cando tecidos de lã e algodão, e curtiam as pelles dos
guanacos e outros animaes que caçavam. À sua reli-
giao era como a dos Incas, 0 culto do sol. Não obs-
tante, não fallavam a lingua dos Incas, senão um idioma,
que se suppõe ser parecido ao dos Araucanos.
Lancando uma olhada sobre os resultados obtidos, se
nos apresenta mais que tudo, a differença da escala de
cultura em que se acham estas tribus de Indios mo-
rando no sul e no norte da Republica Argentina. Ao
contrario desta cultura adiantada dos Calchaquis e seus
visinhos como elles submettidos aos Incas, occupam os
Indios dos Pampas o lugar mais inferior na escala da cul-
tura paleolithica, emquanto aos primitivos artefactos, que
além de rudes potes consistiam quasi exclusivamente
em utensilios de pedra lascada. Nem havia metaes,
nem cidades, nem agricultura, nem animaes domesticos,
notando-se nem a menor influencia d’uma cultura su-
perior.
E' por certo um erro, se Moreno attribue os raros
objectos de vidro e esmalte à origem phenicia. Desde
que Tischler, pelas suas excellentes investigações mi-
croscopicas, provou a origem Veneziana das perolas
rio-grandenses, tidas até então por phenicias, esta hy-
pothese de Joreno carece de fundamento. Os respetivos
artefactos são objectos de troco do tempo posterior a
Colombo. Ao desapparecerem estas armas de pedra €
começar o emprego dos machados polidos com apertura
circular, approximamo-nos 4 cultura provindo do Perá.
Talvez se mais tarde pudermos traçar o caminho que
— 145 —
seguirão estes machados, será tambem esclarecida a ex-
tensão da influencia da cultura do antigo Perú.
Já uma vez (Ausland 1890, p. 908) fiz vêr, que
era possivel estender-se esta cultura muito mais além
dos limites do poder effectivo dos Incas. O Dr. Zrnst
provou que o cultivo do coco e seu consumo era divul-
gado em Venezuela e Guyana, como em parte acontece
ainda hoje, e isto em regiões não attingidas pelo poder
dos Incas. E” nesta occasiao que expressei a supposição
que eram tambem os Peruanos e outros póvos influen-
ciados por elles, os quaes levavam a coca ao sul, cha-
mando a attenção ao facto que a unica especie alli exis-
tente do genero Erythroxylon, tem no Rio Grande do
Sul o nome de «cocão», 1. é, coca grande. Soube de-
pois que a mesma arvore, E. ovatum Cav., se acha igu-
almente nas provincias septentrionaes da Republica
Argentina, levando o nome de «Coca del monte» Pre-
cisa-se conhececer a coca verdadeira para poder-lhe
comparar outro erythroxylon, a saber uma especie sil-
vestre maior, parecendo-se-lhe muita. Novas investi -
cações hão de constatar o que haja emquanto a littera-
tura historica sobre o cultivo da coca na parte sudeste
da America do Sul. Já encontrei neste sentido mais
um ponto de apoio. JZ de Moussy (1. c. p. 30) diz que
os Chiriguanos na parte septentrional da Republica Ar-
gentina eem Bolivia, cultivavam a coca para o seu uso.
Esta tribu, que ainda existe, forma parte dos Guaranys,
recenendo varias vezes gente do Paraguay, paiz de sua
origem provavelmente. E”, pois, possivel que tambem no
tempo anterior ao descobrimento cultivou-se a coca
naquellas partes da Republica Argentina que estavam
debaixo da influencia dos Incas, d’ onde provavelmente
chegou ás outras tribus o conhecimento destas e outras
plantas cultivadas na America do Sul, provindo do Perú,
bem que não haja, como parece, prova linguistica dos
Quichuas. Zschudi affirma que a influencia dos Incas
estendeu-se ao Sul até as Missões.
— 146 —
De importancia me parece resolver estas questões,
pois havemos de saber então a origem de taes antigui;
dades daquelles habitantes primitivos do Brazil, as quaes
contrastam singularmente com a rude cultura destes
indigenas. Era antigamente minha opinião que o cobre
e a prata do Rio Grande do Sul tinham uma origem
europea, pertencentes, pois, ao tempo postcolombiano.
Induzia-me a esta crença. sobretudo, o facto que encon-
travão-se com um destes objectos, achado numa urna fune-
raria perto de S. Christina, uma chapa de cobre, duas
perolas venezianas, emtanto que no sambaqui de Cidreira,
que é certamente um dos mais antigos do Rio Grande
do Sul, não se achavam artefactos europeos alguns,
senão só tres pequenas chapas de prata triangulares,
que bem podem ser de origem peruana. Não é, pois,
necessario attribuir-lhes uma origem postcolombiana.
Ha com effeito algumas cousas que fallam em favor
da supposição de terem todas as differentes culturas
sud-americanas uma origem commum, em primeiro lugar
as inscripções nos rochedos. Moreno tanto como Ameghino
considerão estes petroglyphos, que se achão desde a Ame-
rica central até a Patagonia mais ou menos analogos
entre si. E’ sobretudo Ameghino que dedicou-se ao es-
tudo profundo delles, informando aos congressos dos
americanistas de 1878 e 1881, e fallando mais detalha-
damente no seu livro em cima citado (I, 545562). Se-
gunda a sua opinião, as inscripcdes nos rochedos de
Catamarca apresentão um systema de escripta com-
pleta, composta em parte de figuras symbolicas, em parte
de caracteres phoneticos, explicando-o com muitos docu-
mentos. Assim, diz elle, o preto significa causas sacer-
dotaes e divinas, grisoferro é a morte, amarello o ouro
e as riquezas, branco a prata e a tranquillidade, as alas
de passaros a velocidade, o rectangulo a bocca e a fala,
uma arvore tornada a esterilidade, um circulo com duas
linhas que sahem delle parallelas, um trabalhador, etc.
Bem pode ter razão Ameghino em algumas das suas
— 147 —
supposições, mas tambem é possivel que outros vêm
nellas significados differentes. Assim, pois, os poucos
exemplos que expõe para decifrar estas inscripções, não
são convincentes. Por exemplo, interpreta a figura 316,
na qual se vêm duas figuras humanas, um lama, um
avéstruz e o sol, da maneira que apresentaria uma fi-
gura o indigena recebendo com braços abertos ao con-
quistador, cuja cultura seria indicada pelo sol e pelos
animaes domesticos, adorados por elle. A isso pode se
oppôr que as duas figuras pelas pennas da cabeça iguaes
pertencem provavelmente á mesma raça, como são tam-
bem differentes nas partes sexuaes, pelo que creio que
uma deve considerar-se a de um homem a outra de
mulher.
De maior peso do que a interpretação destes hiero-
elyphos, parece-me a prova que Ameghino da, de conhe-
cerem os Peruanos e outros povos visinhos a arte de
escrever, já antes do descobrimento. Montesinos, nas
suas memorias, falla d'um velho regente dos Peruanos
que prohibia o uso da escripta, sendo confirmada por
Garcilasso de la Vega esta communicação, sem razão
posta em duvida. Segundo Montesinos, os Araucanos
escreviam no tempo da conquista sobre papel de folhas
de bananeira ou pelles preparadas, chamadas quilcas,
facto confirmado pela linguistica. Na lingua dos Aymaras
«escrever» se dá por cquelcaña» na dos Quichuas «quelca».
Estas duas palavras que acharão os conquistadores em-
pregadas, derivão-se duma raiz commum. O facto de
acharem-se estas palavras no quilca dos Araucanos
do que os Indios dos Pampas fizerão chilca, é uma nova
prova. Assim, esta escripta parece ter-se divulgada
do sul ao norte, tomando os quipos uma direcção con-
traria.
Assim, pode comprehender-se o ponto de vista de
Ameghino emquanto aos Calchaquis e Quichuas, dizendo:
«O solo argentino deu uma civilisação singular
que data de longe, sendo differente da dos Incas. Deu se
— 148 —
o nome de Quichuas, ao principio, a uma pequena tribu
que morava ao este de Cuzco, sujeitando-se uma das
primeiras aos Incas ; mas se sabe que numa epoca an-
terior florescia em Callao a civilisação dos Aymaras,
superior a dos Quichuas, tendo o centro do seu poder
perto do lago de Titicaca. Não fallando os Calchaquis
a lingua dos Quichuas, senão um idioma semelhante a
lingua dos Aymaras, eis aqui uma prova que eram, mais:
ou menos, alliados com o antigo povo que erigiu os
monumentos de Tiahuanaco.
«Tambem os nomes de lugares desde o Ecua-
dor até a Republica Argentina, levão-nos a crêr na exis-
tencia de dous povos differentes que nunca se confun-
dio inteiramente. No norte do Perú e em Ecuador
encontramos muitos nomes de lugares que terminão em
bamba (como Jamobamba, Condebamba, etc. ). No
sul do Perti e Bolivia, estes nomes sao mais raros, fal-
tando na Republica Argentina; pelo que se vé que
aquelle povo não penetrou até lá. Na antiga lingua
dos Calchaquis, o «lugar» se chama gasta, d'alli os
nomes como Calingasta, Tinogasta, etc., no seu territorio,
mas não naquelle de Bolivia. Os Aymaras chamavam
o lugar marca, razão de acharmos em Bolivia e na Ar-
gentina septentrional muitissimos nomes de lugares,
terminando assim, como Parmamarca, Catamarca, etc.
nomes que se encontrão até Ecuador e Columbia. Chego,
pois, á conclusão que um povo que tinha estreita affini-
dade com os Calchaquis, habitava em tempos remotos a
Argentina septentrional e Bolivia, estendendo-se depois.
mais ao norte. »
Para comprehender a historia primitiva da America
do Sul, o estudo dos petroglyphos será, sem duvida, o
mais importante ; seria, pois, de summo valor recolher
o material disperso e estudal-o devidamente. Apresento
aqui dous retratos de petroglyphos do Rio Grande do
Sul. O primeiro vem da picada Solentaria na co-
— 149 —
na wi Wilh) ny fe)
a Gee Nir, TM CA EME (
FIG 13
Inscripção da Solentaria.
lonia do Mundo Novo que foi-me - entregue pelo Sr. Th.
Bischoff. A pedra em que foram gravadas as figuras
cobriu-se no decurso do tempo com uma capa de humus
e relva. Ao tirar-se esta, chegou a apparecer a inscripção
ja bastante confusa, sendo agora quasi illegivel a causa
FIG: 14
Pedra com figuras gravadas de C. v. Koseritz.
«le estar exposto á intemperie nos ultimos 30 annos.
Mais curioso é o segundo achado na picada Bom Jardim,
numa fazenda perto de S. Leopoldo, que Aoseritz retratou
e descreveu nos seus Bosquejos ethnologicos, Porto Alegre
1884, p. ff. As figuras estão gravadas numa pedra de
l cm. de espessura e 6 cm. de largura não podendo-se
constatar o seu comprimento por estar quebrada. As
mesmas figuras, consideradas como signaes de escripta
— 150 —
por Aoseritz (1) achavam-se nos dous lados desta pedra
dura, bem polida, sendo num dos lados melhor con-
servadas. Noque sorprehende é a dimensão pequena da
pedra, estando todas as inscripções até agora conhecidas
feitas em rochedos. Emquanto ás figuras, apresentão
uma grande differença das que se acharão nas outras
partes do Brazil, com as quaes é analoga nossa figura 13
Koseritz acreditava, pois, que esta pedra não era de origem
americana, senão importada. Acho, ao contrario, seme-
lhança com as inscripções de Catamarca. Primeiramente
vêm-se nellas muitas vezes pontos e circulos pequenos,
não raramente dispostos em grupos. Depois, a figura
do Y, a de circulos com pontos centraes, e figuras em
formas de cruz, sendo as vezes regulares e outras vezes
tão irregulares como sobre a nossa pedra, emtanto que
neste como naquellas faltão mãos e pés, os quaes são
tão frequentes nas brazileiras. Parece-me por cou-
seguinte, que devemos vrocurar a explicação não na
Asia, etc., senão que a acharemos aqui mesmo na Ame-
rica do Sul; a não ser no Brazil, será certamente
naquella região dos Andes que já muito antes dos Incas
era o berço d'uma antiga civilisação singularissima cuja
influencia era innegavelmente muito maior do que ge-
ralmente hoje se crê.
Do ponto de vista americano, as duas regiões, das
quaes novas e extensas explorações muito temos de dese-
jar e que prometterião uma colheita riquissima, são por
uma parte os Mounds de Marajó, na embocadura do
Amazonas, já celebres pelos importantes descobrimentos de
Ladislau Netto, e por outra, as provincias septentrionaes.
(1) v. den Steinen ( Ausland 1891 pag. 967) contesta a
opinião de Xoseritz julga a pedra pequena de Avseritz falsificada. —
Para mim merece mais interesse do que a decifração das inserip-
ções tio duvidosa e problematica, a distribuição geographica delles
sobre o continente sul americano e as conclusões que per-
mittem a respeito da extensão e immigração antiga dos povo:
que os fizeram.
— 191 —
da Republica Argentina. Não obstante conhecermos a
extensão da civilisação dos Incas para o sul, nos fica
desconhecida a que lhe precedeu. Aceitando mesmo a
supposição de Ameghino de haver uma affinidadade ou
identidade entre os Calchaquis e Aymaras, ha de pro-
var-se ainda como é que se differenciavam realmente
as duas epocas de civilisação que se seguirão. E' de
presumir que as publicações de Moreno darão alguma
luz. O que não se pode deixar de reconhecer é que os
sabios Argentinos, sobretudo Ameghino, têm razão em
afirmarem, que seria um erro considerar a cultura dos
Calchaquis e outras tribus semelhantes puramente como
a continuação da civilisação dos Incas, que ao contrario,
esta já se encontrou na provincia de Colla-sayú com
uma cultura anterior, por certo não inferior, a qual se
accomodära á nova civilisação com tanta facilidade e
vontade. As tradições historicas e os achados archeolo-
gicos tanto como a comparação linguistica darão aos
exploradores a explicação do papel que fizerão os diversos
elementos nacionaes e culturaes. Sómente depois poder-se-
ha estimar o que na cultura dos Indios America do Sul
menos adiantados é o resultado do proprio esforço e em-
“quanto forão influidos sobretudo em respeito ás plantas
cultivadas por influencias estranhas.
A respeito da relação que existe entre os poucos
vestigios da influencia exercida sobre o Rio Grande do
Sul por uma cultura occidental e os diversos territorios
muito remotos, os quaes a este respeito se podem tomar
em consideração, não poderemos julgar senão depois de
conhecermos completamente a extensão da cultura
peruana antiga. KE’ por isso que esperamos com at-
tenção as novas investigações feitas por J/oreno na
Argentina septentrional. Figurou Moreno (1) urnas de
Catamarca as quaes aflirma com razão serem conformes
(1) Revista del Museo de La Plata, Tom. I. 1890 pg. 9.
SAC RS
aquellas de Marajó. Encontramos aqui formas muito
semelhantes, tambem anthropomorphas, e o que mais
me parece estranho é que uma destas ultimas urnas
de Marajó (cf. Ladislau Netto, 1. c. p. 327) tem um cabo
pouco saliente, cujo ponto livre engrossado está mode-
lado em forma d'uma cabeça. Urnas semelhantes encon
tram-se tambem em Catamarca. Além d'estas, cumpre
dizel-o, acham-se em Catamarca urnas em forma de gar-
rafas e outras com fundo conico achatado, as quaes não
são representadas em Marajó, sendo, como diz Philippi
(Verhandl. Berliner Anthrop. Ges. 1885 p. 269) com razão,
de origem peruana. No demais temos de distinguir
bem entre as urnas importadas e aquellas, que só se
apresentam sujeitas 4 influencia peruana. E” impossivel
de presumir que toda a cultura marajó se compunha de
artigos importados, mas não se poderá negar, que ella
tenha sido sujeita á influencia da ceramica peruana e
dependente de amostras importados. E’ assim que te-
remos de imaginar-nos 6s homens de Marajó como In-
dios (1) que desceram o Amazonas, e sob a influencia do
gosto nacional ficaram auctores d’um novo estilo. Sa-
bemos que nos ultimos seculos da dynastia dos Incas
colonias peruanas se estendiam até Tabatinga e além
Wahi pelo territorio brazileiro.
(1) Neste sentido sou mais ao lado de Barbosa Rodrigues, do que
naquelle de &. Andree (cf. À. Andree Ein Idol vom Amazonen-
strom. Wien 1890). Julgo a cultura de Marajó como indigena,
porém influenciada dos povus andinos. Não entendo como
Barbosa Rodrigues pude considerar o animal inferior do idolo como
um chelonio. O pescoço comprido e erecto é signal’ evidente
que se trata de um mammifero, e creio como XR. And ce que seja
um Lama. Este trabalho de Barbosa Rodrigues foi publicado
no Rio de Janeiro em 1875. Onde está a pedra ? No Museu
Nacional? E Ladislau Netto (\. e. p. 514 e 516) em 1885 repro-
duziu a ficura e a interpretação falsa, sem fallar em Barbosa
Rodrigues. Como se explica isto ? Parece incrivel. (cf. Barbosa
Rodrigues, Idolo amazonico. Rio de Janeiro. Typographia de
Brown e Evaristo. 1875).
— 153 —
A influencia, porém, que teve a cultura peruana sobre
os povos visinhos estendeu-se por um espaço muito
maior do que a esphera do dominio territorial dos Pe-
ruanos. E' sabido isto de ha muito e confirmado pelos
achados archeologicos. Hrnst por exemplo demonstrou,
que a coca antigamente era cultivada e usada por grande
varte da Venezuela, o que eu pude confirmar para a região
do Sul, tendo-se exercido a cultura da coca no Paraguay e
sem duvida espalhado d'ahi pela Argentina septentrional
até o Rio Grande do Sul. Quanto aos machados de cobre
peruanos 0 caso é quasi o mesmo. Acharam-se estes em
Catamarca, Salto, etc., e Orellana encontrou-os sobre o
Amazonas entre um povo talvez identico com os Omaguas
(cf. Waitz, 1. c. p. 426.) Até onde chegaram occasional-
mente taes artefactos, conhecemos pelo facto por May
Uhle communicado, de ter-se encontrado um machado
de cobre n'uma ilha situada na Ribeira no Sul de São
Paulo (Verhandl. Berliner Anthropolog. Ges., 1888, p. 20),
facto sobre cuja authenticidade tenho informações exac-
tas. Sendo assim, já não póde causar-nos estranheza que
n'um velho sambaqui rio-grandense, situado dez kilo-
metros para o interior, se têm achado chapinhas de
prata, sem duvida artigos de permuta, importados do
Paraguay. .
Pelo que sei foi Zschudi o primeiro que apontou as
avançadas que fez a cultura peruana em grande dis-
tancia para o Sul e Leste, estendendo-se na ultima di-
recção até o Paraguay e além d'ahi até as Missões. Exis-
tem entretanto alguns factos, pelos quaes se apresenta
muito mais larga a esphera da influencia peruana. A
criação de animaes domesticos e a cultura do milho, da
mandioca, das aboboras, do algodão e de outras plantas,
sem duvida não podiam originar-se senão de um povo
que em outro respeito tambem occupava um alto gráo
de civilisação, como qual podemos considerar na America
do Sul sómente os Peruanos. No tempo do descobri.
mento da America algumas destas plantas, principal-
— 154 —
mente o milho, estavam espalhadas tanto pelo Norte
como pelo Sul, tanto no golpho de Mexico como sobre
o rio da Prata. Como é dificil de presumir que para '
estas plantas, das quaes faz parte tambem o tabaco, tenha
havido duas espheras de cultivação, independentes uma
da outra, devem-se ter feito de tempo a tempo permutas
via America Central.
Não cumpre aqui indagar problemas de tanto al-
cance. O que entretanto é fóra de duvida, é que têm
tido lugar immigrações consideraveis, indicando-se isto
tambem pelo facto de terem os povos do rio da Prata
tido relações com os do Chile. Referindo-me ás obser-
vações expostas no capitulo intitulado «caximbos» só
repito, que Moreno achou conchylios proprios do oceano
pacifico em povoações prehistoricas da Argentina. Estão
de accordo com isto os dados historicos, referindo por
exemplo Luiz Ramirez n'uma carta escripta em 1528, que
os Querandis domiciliados sobre o Rio da Prata possuiam
flexas, arcos e bolás, que fallavam da serra, isto é, dos
Andes, e do rei branco, assim como d’um mar situado
além da serra, que enchia e vasava (cf. Schultz, 25, p. 94).
Nesta mesma carta se faz tambem menção dos Carcarais
e Timbus, que plantavam feijões e aboboras, assim como
dos Guarenis ou Chandies, que tinham muito ouro e
prata assim como instrumentos de metal para a lavoura,
e estavam em relações com as tribus da serra.
E" assim que o Rio Grande do Sul tanto em respeito
archeologico como a respeito da geographia botanica e
zoologica offerece um interesse especial como região
transitoria. Encadeado de um lado completamente com
a cultura primitiva dos outros territorios brazileiros do
Sudeste, apresenta do outro lado relações com os territorios
do rio da Prata, pelas quaes se indicam influencias duma
civilisação superior procedida dos Andes. Vos tempos
precolumbicos não havia na America do Sul senão um so
centro de civilisação superior, isto é o territorio peruano-
boliviano situado nos Andes, o qual directa e indirectamente
— 155 —
tem infiuido na cultura dos outros poros da America do
Sul por um espaço muito maior do que se presume ordi-
nariamente.
Como uma influencia cultural que se communicasse
de tribu a tribu ao longo de todo o littoral brazileiro
não é demostravel, mas se púde rejeitar já pela diffe-
rença existente entre o Rio Grande do Sul e São Paulo,
tudo obriga-nos a presumir, que a cultura peruana an-
tiga partindo do seu centro andino se tenha propagado
em circulos ondulatorios por toda a America do Sul, à
excepção talvez da Patagonia. Como os machados cir.
culares perclusos, os quaes faltam em São Paulo, no
Rio, etc., se podem seguir pela Argentina até o oceano paci-
fico, como encontramos chapinhas de prata em sambaquis
prehistoricos do Rio Grande do Sul e um machado de
cobre no littoral de São Paulo no antigo dominio dos
Carijós, e como em relações historicas se faz menção de
ouro e prata que possuiam os indigenas rio-grandenses,
e que os Carijós receberam machados dos povoso andinos,
esta concordancia da tradição historica com a archeo-
logia convence-nos, que já temos conseguido uma base
solida para discutir a historia primitiva da parte meri-
dional do Brazil.
le
(Dye
(im)
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23 À. À. A. Philippi—Taback u. Pfeifen in Chile. Ver-
handl. der Berl. Gesellsch. f. Anthrop. Ethnol.
16. Dec. 1893 p. 551.
24. C. Rath — Die Begräbnisse der jetzt lebenden
brasil. Eingeborenen. Verhandl. d. Berl. An-
throp. Gesellsch. 1891 p. 25— 30.
24 a. C. Rath — Noticia ethnologica sobre um povo
que já habitou a costa do Brazil antes do di-
luvio universal. Revista do Instituto historico
do Brazil. vol. 54, 1871. p. 287—293.
24. Sylvio Romero — Ethnographia brazileira. Rio de
Janeiro 1888.
25. Woldemar Schultz — Natur- u. Culturstudien über
Siidamerika. u. seine Bewohner. Dresden, 1867.
29 À. Theodoro Sampaio — Considerações geographicas
e economicas sobre o valle do Rio Paranapa-
nema. Boletim da Commissão geographica e
geologica do Estado de São Paulo N. 4. São
Paulo 1890.
28.
29.
30.
31.
— 159 —
A Schupp — Die Ureinwohner Brasiliens vom eth-
nolog. Standpunkt. Natur u. Offenbarung. Muen-
ster, Bd. 38. 1892 I. p. 14—32; II. p. 93—106. eTII.
P. Strobel — Materiali di Paletnologica comparata
raccolti in Sudamerika. Parma fase. I—II
1868, fasc. III. 1885.
O Tischler — Ueber Aggriperlen u. die Herstellung
farbiger Gläser im Alterthum. Schriften der
Physik. oekonom. Gesellschaft zu Kônigs-
berg. Bd. XXVII. 1886.
O. Tischler—Ueber altamerikanische Glasperlen. Con-
grès internat. des Americanistes. Compte rendu
de la VIII. session á Berlin 1888. Berlin 1870 p. 97.
Th. Waitz — Anthropologie der Naturvülker. Leip-
zig. Bd. III. 1862, Bd. IV. 1864.
Wittmack — Die Nutzpflanzen der alten Peruaner.
Congrès internat. des Américanistes. Compte
rendu de la VII. session á Berlin 1888. Berlin
1890 p. 97.
Or Gime va disposição
DE UM
MUSEU BOTANICO
PELO
> DR. P. TAUBERT :<-
Pareceu-me sempre que a exposição de objectos, tão
vantajosa para o reino animal e mineral, não o é de
mesmo modo para o reino vegetal, sendo o modo mais
proprio de expôr este ao publico o jardim botanico.
Sabendo, porém, que na Europa existem Museus botanicos
e desejando o Governo do Estado completar a organi-
sação do Museu Paulista tambem neste sentido dirigi-me
ao Ill. Sr. Dr. P. Tuubert, ajudante do Museu Botanico
de Berlim, pedindo informações, que eile teve a bondade
de fornecer-me e que no seguinte communico.
H. vox IHERING
V. S. pergunta, o que é e quer ser um museo bota-
nico, e julga que plantas seccas não são objectos
de exposição. Nisto tem, geralmente fallando, toda a
razão; pois que o melhor modo de apresentar plantas
ao publico, é e será sempre o jardim botanico. O meio
mais pratico de responder em poucas palavras á sua
pergunta será talvez o dar-lhe uma descripção do nosso
museu botanico. Este liga-se ao Herbario só pela circum-
stancia de achar-se no 2° andar do mesmo edificio e
receber fructos e sementes, que pelo seu tamanho não
cabem ‘no Herbario.
— 162 —
Os compartimentos constam de um vestibulo, do
qual á direita e ä esquerda dous corredores conduzem
cada um para dous quartos contiguos; do segundo destes
chegamos de cada lado á uma vasta sala de trabalho
com duas janellas e dando para o Norte. Emquanto que
aquelles quatro quartos se acham na direcção de Este
para Oeste, são elles ligados do lado de Sul e Norte por
duas espaçosas salas com tres enormes janellas cada
uma” e rodeada em meia altura por uma galeria.
Admittem-se á exposição objectos do reino vegetal
que ou offerecem interesse meramente scientifico, techno-
logico e agronomico, ou que se distinguem por qualquer
especialidade na sua estructura, forma, etc.: portanto
fructos, sementes, madeiras, raizes, fibras ou outras
materias primas, assim como plantas inteiras ou partes
das mesmas, seccas ou em alcool; ao pé destas modelos
em cera de flôres e fructos, copias de plantas medicinaes
e outras importantes. A maior parte dos objectos acha-se
em armarios envidraçados e é munida de grandes rotulos,
que explicam não somente o nome scientifico como tam-
bem a procedencia, utilidade, etc.
Os objectos, que só offerecem interesse scientifico,
são dispostos, systematicamente, por familias; aquelles,
porém, que, offerecem um interesse mais geral, são
collocados pela ordem dos territorios geographicos das
plantas, sendo expostas as regiões seguintes :
1.º O districto indo-malaio, com muitos productos
de plantas industriaes, como fibras cruas e tecidas de
Musa, Hibiscus cannabinus, Corchorus capsulatus e olito-
rius (jute), sandalo branco (santalum), madeira de Téca
(Tectona grandis), Bambus, arroz, fructas de pão (Arto-
carpus incisa e intogrifolia), Durião, Mangosta, nozes
Betel, pimenta, nozes ae Moscadeira, Batali oenzibre,
œergelim e seu oleo, cautchu, etc., etc., e não somente
os productos, mas tambem modelos coloridos delles,
copias das plantas inteiras, vistas, reproduzindo sua
cultura, exploração e fabricação, etc., dados estatisticos
— 163 —
relativos à exportação da respectiva patria, Importação
para a nossa terra e consumo.
2.º O districto subtropical da Asia Oriental e seus
productos principaes: Ramié (Boehmeria), Broussonetia,
papel feito da mesma, Morus nigra, Kaki, Nephelium,
Litchi, Cha, Camphora, Stachys affinis, etc., e no mais
como o precedente.
3.º O districto do mar Mediterraneo e dos mattagaes
da Asia Occidental com o linho, as especies correspon-
dentes de cereaes, legumes e fructas (nozes, marmelos,
amendoas, romães), hortaliças, plantas com substancias
colorantes, etc.
4.º O districto das mattas da Africa tropical, com
palmeira azeiteira, especies de Landolphia e Sanseviera,
Dolichos Lablab, Voandzeia, etc, assim como sementes,
grinaldas, ete., de tumulos do antigo Egypto.
5.º O districto da Arabia e Africa oriental com café,
Durra, figos, Papyrus, Aeschynomera, Elaphraxylon, Ara-
chis, etc.
6.º Productos das partes subarcticas, atlanticas
e pacificas da America septentrional, e do planalto
mexicano, p. ex. Sequoia gigantea, Taxodium, immensos
cones de pinheiro, carvalhos, nogueiras e Hickorys,
resinas, etc.
7º O districto das Indias occidentaes e da America
central, com Carica, Sapota, Haematoxylon, Guayacum,
Persea, Batatas Ipom., Baunilha, ete; fibras e tecidos de
Agaves e Yuccas.
8.º O Districto tropical da America meridional de
cujos numerosos productos temos Ananas, Acaju, nozes
do Pará, Phytelephas macrocarpa, Havea, Cacäo, Orlean,
Hymenaea, Copaifera, Castilloa, Copernicia cerifera, resi-
nas de Burseraceas, Manihot Glazovii, Lecythis, Ipomoea
purga.
9.º O districto dos Andes, com numerosos e esplen-
didos exemplares das diversas plantas criniferas, Arau-
pi
carias, especies de Prosopis, magnifica collecção de ma-
deiras (cortes verticaes e horizontaes) e arvores platenses.
10. O districto palaeo-oceanico, representado por
Araucarias, Damaras, Phormium tenax, etc.
Do mesmo modo haverá exposição dos districtos,
te ainda faltam, por suas plantas industriaes mais.
iracteristicas, copias, etc.
Uma pequena sala é destinada as cryptogamas, espe-
cialmente aos cogumelos; ahi encontram-se estes seccos,
em alcool, com preparados de espóros, assim como os
uteis e os venenosos em modelos de cera.
Os logares vazios entre os armarios, resp. mostra-
dores, são occupados por estantes rotatorios. que mostram
ao publico, entre chapas de vidro, cortes de madeira.
amostras de terra com diatomeas, etc. (augmentadas por
photographias, ou molestias de plantas, quadros de
vegetação (p. ex. da Flora brazil. I). Enchem tambem
os logares vazios copias em cera de flores de Victoria
regia, Rafflesia, etc., troncos de samambaias, Welwitschia,
gigantescos cones de coniferas, cachos com fructas de
palmeiras. Parte das vidraças mostra elegantes formas
de algas maritimas entre chapas de vidro.
Espero que esta breve descripção lhe dê uma ligeira
ideia da multiplicidade dos objectos expostos. O pequeno
espaço, de que ainda dispomos, infelizmente não nos
permitte expôr tambem os objectos ainda encaixotados ;
occupariam pelo menos tres vezes os compartimentos.
que actualmente formam o museu. Um catalogo explica
t do minuciosamente aos visitantes, chamando-lhes a
a enção para os objectos mais importantes. O Museu esta
averto para o publico durante o verão duas vezes por
semana, das 3 ás 6 horas da tarde, recebendo cada vez
a visita de 80 para 120 pessoas. Por mais pequeno que
ainda esteja, só depois de tres ou quatro visitas será
possivel aleuem adquirir uma comprehensão mais pro-
funda dos objectos expostos.
Os crustaceos Phyllopodes do Brazil”
Dir yo ns, FACE OR ENYG
Conhecemos por numerosos trabalhos os crustaceos
maiores do Brazil, aquelles caranguejos que são conhecidos
de Malacostraceos, subclasse immensa a que pertencem
OS Siris, Carangueijos, lagostas, camarões e tamarutacas
‘Squilla). Ao contrario pouco, bem pouco sabemos da-
quelles crustaceos menores que formam a subclasse dos
Entomostraceos.
Estes ultimos, ao contrario dos Malacostraceos, —
que possuem vinte segmentos ou anneis do corpo, todos
munidos de pernas ou patas, a excepção do ultimo, do
anal — não tem numero fixo de anneis nem de pares
de patas. Ha entre elles generos, que vivem como para-
sitas, outros que se encontram no mar, e outros que
vivem nas lagoas, nos banhados e rios, ou para exprimil-o
«le modo mais exacto, na agua doce. KE’ destes ultimos
que sómente aqui queremos tratar. Ha entre cs Ento-
mostraceos d'agua doce representantes de tres ordens, e
que são os Copepodes, Ostracodes e Phyllopodes.
Os Copepodes WV agua doce são bichos pequenos, quasi
sempre de 3—5 mm. ou menos de cumprimento, de corpo
(1) Este pequeno estudo é o principio de uma serie de pu-
blicações sobre a fauna do Estado de S. Paulo, que pretendo
publicar na Revista do Museu,e que me servirão para a publi-
cacao de um livro illustrado sobre o reino animal desse nosso
Estado.
— 166 —
comprido, e regularmente divididos em anneis, sem con-
cha ou escudo. O corpo compõe-se de 3 regiões: do ce-
phalothorax, thorax ou peito e abdomen. A primeira
região é formada da cabeça e do primeiro segmento tho-
racal, portando por esta razão além das partes da bocca
o primeiro par de patas. Nesta primeira região distin-
guem-se dous pares de antennas longas e filiformes, um
par de mandibulas, um par de maxillas, um de maxillas
auxiliares ou patas-maxillas e um par de patas. A
região thoracal consiste de quatro anneis, dos quaes
cadaum tem o seu par de patas, que são bifidas, 1. e.
com dous ramos terminaes cadauma. O abdomen tem 5
segmentos, destituidas de pernas e terminando por dous
ramos setiferos que formam a « furca ».
As femeas põem os ovos em dous saccinhos, adhe-
rentes ao abdomen Os filhotes nascem em estado bem
differente da forma da mai, 1. e. em estado de larva tra-
tado de « nauplius », e que é caracterisada por 3 pares
de extremidades terminadas por dous ramos.
Deste grupo de crustaceos pequenos fiz collecçäo no
Rio Grande do Sul (1), e temos de esperar que os Snrs.
Poppe em Vegesack e J. Richard em Paris publicarão a
lista e descripção das especies colligidas por mim. Não
conheço estudo algum até agora referente aos Copepodes
do Brazil, e nunca forão estudados e colleccionados no
Estado de S. Paulo.
Os Ostracodes são bem distinguidos pela concha que
está envolvendo o corpo do pequeno animal, que é menos
(1) A. Wiercejski, Skorupiaki argentinie. Krakau 1892 e
Anzeiger d. Akad. d. Wissensch. in Krakau 1892 No 32., achou
entre os entomostraceos argentinos 5 especies de Cyclops, entre
ellas duas novas (C. annulatus Wierc. e C. mendocinus Wierc.).
sendo as outras identicas com formas europeas, 1. e. C. simplex
Pogenp (Leuckarti Sars), C. oithonoides Sars e C. macrurus Sars.
O Sr. Poppe me escreveu que tinha recebido do Brazil (St. Ca-
tharina) uma outra especie commum na Europa: Cyclops agilis
Koch (serrulatus Fisch.).
cg 28
evidente segmentado. Existem apenas sete pares de ex-
tremidades, sendo dous pares de antennas, um par de
mandibulas, dous pares de maxillas e dous pares de
patas.
Quem acha estes pequenos crustaceos julga elles
conchas. Só mettendo elles n'agua e vendo nadando o
bichinho mediante de suas pernas, reconhece-se logo a
natureza das pretendidas conchas e que ellas nada tem
de ver com os Molluscas.
Tambem estes crustaceos tenho colleccionado no Rio
Grande do Sul (1), não me constando porém que forão
examinados pelos sabios, aos quaes tenho mandado. Nada
consta neste sentido a respeito de S. Paulo... (Quanto á
fazer — como ainda estamos atrazados !
Os Phyllopodes tem o corpo bem dividido em anneis
e coberto de um escudo ou de uma concha dupla São
um pouco maiores, existindo especies de um cm., ou
mais, e havendo um genero (Apus), cujas maiores espe-
cies medem 6—7 cm. (Quanto a organisação é a cabeça,
que em geral não é coberta pela concha, munida de
dous pares de antennas, de um par de mandibulas des-
tituidas de palpos, e de dous pares de maxillas. E’ va-
riavel o numero de pares de patas (4—10), que são fo-
liaceas de dous ramos, dos quaes um, munido de guelras,
serve ä respiração. Os machos, quasi sempre menos
(1) Zr. Mueller encontrou em Santa Catharina varias espe-
cies de Cypris e um genero novo Elpidium, que vive na agua
que se conserve entre as folhas das Bromeliaceas e que perten-
ce a familia das Cytheridas. veja Archivos do Museu nacional. Rio
de Janeiro. Vol. IV, pag. 27—35 e Est. II. (Elpidium brome-
harum Fr. Muell.). 3—4 especies de Cypris em Rio Grande do
Sul e em S. Paulo. Na Republica Argentina vivem como sa-
bemos por Wiercejski 'l. e.) Iliocypris gibba Ramd., Cypria oph-
thalmica Iur., Cypridopsis vidua O. F. Muell., Cypris reptans
Baird, Cypris limbata Wierc., Eucypris incongruens Ramd. e
Eucypris similis Wierc., sendo deste modo das 7 especies encon-
tradas 5 identicas com especies europeas.
— 168 —
numerosos do que as femeas, distinguem-se por outra
configuração das antennas e dos primeiros pares de pernas.
Temos a distinguir duas subordens bastante diffe-
rentes: os Cladoceros e os Branchiopodes.
Os Cladoceros as « pulgas d'agua », vivem quasi
todos, exceptos os generos Podon e Evadne — na
aguado ce. São pequenos, de poucos mm. de comprimento,
de corpo transparente e munidos de uma concha delgada
de duas valvas. As antennas do segundo par são grandes
e fortes, servindo para nadar e sendo por esta razão tra-
tadas de antennas natatorias. A femea tem na região
dorsal, em baixo da concha, uma cavidade destinada a
receber e criar os ovos. Destes ha duas qualidades, ovos
de verão, que são transparentes, incluidos em capa fina
e que se desenvolvem rapidamente, e ovos de inverno
que são maiores, escuros, incluidos em capa dura e além
disto defendidos por uma capa especial chamada ephip-
pium, e que é formada pela membrana dorsal da femea.
Cada ephippium contem um ou alguns ovos de inverno,
e que neste estado conservam-se durante o inverno.
E-tes ovos de inverno garantem a continuade das gera-
ções no tempo quanto morrem todos os individuos adul-
tos, seja pelas condições desfavoraveis da temperatura
no inverno, seja pela evaporação completa da agua no
respectivo banhado ou fosso.
Quando porém na primavera ou no verão as condi-
ções biologicas são as mais vantajosas, desenvolvem-se
numerosas gerações por parthenogenese, 1. e. OS ovos
de verão, não precisando de ser fecundadas, desenvol-
vem-se sem intervenção do elemento masculino.
Os embryões desenvolvem-se nas condições mencio-
nadas no interior do ovo.
Abundam nas nossas aguas estes crustaceos pequenos,
sem, porém, até hoje serem examinadas. A primeira es-
pecie de Cladoceros descripto do Brazil é Diaptomus
brasiliensis Lubbok. Duas outras especies de Diaptomus
do Brazil descreveu S. A. Poppe (Zoolog. Anzeiger 1891
— 169 —
No. 368), i. e. D. gibber do Brazil meridional e D. Dei-
tersi de Cuyaba. No Rio Grande do Sul achei especies
de Simocephalus, Macrothrix, Alona e Sida. No Estado
de St. Catharina encontrou Yr. Mueller, conforme me
escreveu, especies de Canthocamptus, Chydorus, Alona,
Camptocercus, Pasithea, Moina, Ceriodaphnia, Simoce-
phalus e uma especie nova de Acanthocercus, a que deu
o nome de A. immundus sp. n., e da qual me deu as
figuras aqui reproduzidas.
es
FIG |
Acanthocercus immundus Fr. Muell.
FIG. 2
Acanthocercus immundus Fr. Muell.
O ENCRANDECIMENTO É DE 180 : | NA FIG. |, DE 90 : | NA FIG. 2.
— 170 —
Ajunto aqui a lista das especies viventes na Repu -
blica Argentina, conforme a publicação de 4. Wiercejski,
todas encontradas tambem na Europa.
Daphnia pulex de Geer.
Daphnia galeata var. microcephala Sars
Ceriodaphnia pulchella G. O. Sars.
Ceriodaphnia asperata Moniez.
Simocephalus exspinosus Koch.
Moina brachiata Tur. var. n.
Bosmina cornuta Iurine.
Macrothrix laticornis Iurine.
Alona acanthocercoides Fisch.
Alona intermedia Sars.
Alona costata Sars.
Pleuroxus nanus Baird.
Sobre a distribuição geographica dos Entomostraceos
d'agua doce e especialmente dos Cladaceros veja-se 0
meu trabalho seguinte: A. von Ihering. Die geogra-
phische Verbreitung der entomostraken Krebse des
Süsswassers. Naturwissenschaftl. Wochenschrift von
H. Potonié Bd. VI. 1891 Berlin No. 40 e 41.
Os Branchiopodes, a segunda subordem dos Phyllo-
podes. representam um grupo dos mais interessantes
entre os Crustaceos. Representantes de Branchiopodes
jé conhecemos dos tempos mais remotos, existindo nu-
merosas especies de Estheria nas camadas da formação
devoniana e representantes do Genero Apus na formação
triassica.
Conforme esta antiguidade do grupo temos nelle de
notar grande variação de typos. Assim existem formas
cobertas de um escudo dorsal, os Apodidos, outras sem
concha (Branchiopodidae) e outras com concha dupla, 1. e.
de duas valvas (Limnadiadae). Bastante variavel é tam-
bem o numero dos pares de patas, sendo de 10—28 nos
Limnadiados e elevado se a 63 no genero Apus.
O numero dos anneis do corpo é de 17 em Limnetis
e de 69 em Apus. Existem dous pares de antennas, um
par de mandibulas, dous pares de maxillas e nos Apo-
didos mais um par de patas-maxillas. As patas são
chatas e largas, foliaceas, divididas em lobos internos e
externos, formando estes ultimos as guelras ou branchias.
A região thoracica não é bem distinguida da região ab-
dominal, e tão pouco são differentes as patas destas re-
giões. Os olhos são as vezes reunidos em um orgão,
em outras especies separados, sendo ou sesseis, 1. €. no
nivel da cabeça, ou elevados sobre pedunculos. A cauda
(telson) é larga, munida de espinhos e de dous appendices.
Os filhotes deixam o ovo em forma de larva cha-
mada nauplius, que é munida de 3 pares de patas bifi-
das, que correspondem ás antennas e mandibulas do
crustaceo adulto.
Este modo de desenvolvimento, o elevado e varia-
vel numero dos segmentos e a antiguidade geologica
são os caracteres que motivam o interesse especial que
se liga a este grupo, um dos mais inferiores e primitivos
entre os crustaceos.
Sobre este grupo de crustaceos temos uma esplendida
monographia, a de A. S. Packard jun. A monograph
of north american Phyllopod Crustacea. U. S. Ceolog.
and Geograph. Survey XII. Report. Washington 1883,
p. 295—592 PI. 1—39.
Distinguem-se as tres familias seguintes :
1.º Familia Limnadiadae.
Corpo e cabeça incluidos n'uma concha dupla; parte
anterior da cabeça prolongada como « rostrum »; olhos
sesseis, 1. e. sem pedunculo, pequenos, contiguos ou reu-
nidos. A primeira antenna fina e pequena, a segunda
forte, terminanda por dous ramos (flagella) de 9—20 juntos
cadaum; 10—27 pares de patas natatorias, compostas de
6 lobos interiores (endites) e 2 lobos exteriores (exites),
— 172 —
dos quaes um forma a branchiae o outro (flabellum) um
appendice destinado no sexo feminino a fixar no seu Jogar
os ovos. As duas primeiras patas do macho terminam
em pinças. Cadaum dos ultimos segmentos abdominaes
tem um par de espinhos. O ultimo segmento ou telson
é comprimido, curto e munido de dous appendices com-
pressos ou verticaes. Vivem n'agua doce.
Pachard distingue nesta familia duas subfamilias,
os Limnetinos, com o genero Limnetis, caracterisados
pela concha globosa sem zonas de crescimento, e os
Estherinos cuja concha é oblonga mais ou menos acha-
tada, com zonas distinctas de crescimento, sendo o
animal munido de 18—28 pares de patas. Os flagellos da
segunda antenna tem 9—10 juntos no genero Eulimnadia,
12—13 no genero Limnadia e 15—20 no genero Estheria.
1. Estheria Ruepell.
A concha é dura e opaca ou côr de ambar, munida
de vertebras, um tanto subglobosa com numerosas
(18—22) linhas de crescimento. A cabeça é grande, larga,
sem orgão de adhesão. Flagellos da segunda antenna
compridos, estendendo-se além da borda da concha, e
compostos de 15 20 juntos. O corpo forte, enchendo a
concha. Existem 24-28 pares de patas, das quaes as
duas primeiras do maxo são munidos de ganchos, que
formam uma mão. (Conhecemos do nosso paiz:
Estheria brasiliensis Baird. Brazil.
Estheria Dallasi Baird. Brazil.
Não encontrei ainda especies deste genero no Brasil,
tendo as porém encontradas #renzel na Republica Argen-
tina. Não posso neste momento consultar as respectivas
publicações de Baird.
2º Zulimnadia Packard.
Concha oval, delgada, transparente, sem vertebras
e com 4-5 linhas de crescimento só. O numero de
pares de patas é de 18. A cabeça está na frente munida
de uma papilla, que serve como orgão de adhesão. De
genero affine Limnadia differe pela concha menos alta,
pelo numero de pares de patas (22 em Limnadia) e pelo
numero limitado de linhas de crescimento da concha que
é de 18 em Limnadia.
Temos deste genero no Brazil as duas especies
seguintes :
1.º Eulimnadia antillarum Baird.
Concha medindo 6 12 mm. de comprimento, e
4 172 mm. de largura, pouco transparente, com 6:
linhas pouco distinctas de crescimento. A linha dorsal,
um tanto arcuada, forma angulo com a linha marginal
anterior e posterior. A primeira antenna corresponde
no seu comprimento ao pedunculo da segunda antenna:
esta tem 9 juntos e em cada junto no lado superior um
espinho curto e forte e no lado inferior 1 ou 2 sedas
cumpridas plumosas.
Descripta da Ilha de São Domingo e achado tambem
no Rio Grande do Sul por mim, nos banhados de São
Lourenço, perto da Lagoa dos Patos.
2º Kulimnadia texana Packard.
Concha oval, esbranquiçada, meio transparente,
com 5 linhas de crescimento, medindo 7 mm. de com-
primento e 4 mm. de largura. Olhos duplos, separados
mas contiguos. 20 anneis atraz da cabeça, sendo nelles
incluido o telson. Primeira antenna estendida até ao
primeiro junto dos flagellos da segunda antenna. Cada
flagello tem 9 juntos e em cada junto 4—5 espinhos
curtos no lado superior e sedas compridas espinhosas no
lado inferior. O Telson tem 16 espinhos ou dentes
acima. Os appendices caudaes são compridos, compressos
e munidos no lado inferior de cabellos compridos.
D PRES
Esta especie, encontrada no Texas, Kansas, etc., nos
Estados Unidos, foi encontrado no mez de Junho de 1894
pelo Dr. A. Lutz por occasiäo de uma pequena enchente
nas aguas que cobriram os campos a Ponte grande,
perto da cidade de São Paulo. Sendo esta especie affine
da primeira e faltando-me de ambos o necessario mate-
rial para a comparação, seria possivel que outros obser-
vadores julgam a especie de São Paulo nova e interme-
diaria entre as duas referidas. Por minha parte não
achei differenças que seriam bastante importantes para
motivar a separação. Somente os ovos não me pareciam
bem correspondentes a descripção de Packard, mas antes
aquella que W. Lilljeborg nos deu dos ovos da Limnadia
antillarum.
2.º Familia Apodidae.
A concha é grande, formando uma coraça ou um
escudo que cobre a cabeça e grande parte do corpo; a
concha é na parte anterior mais larga, por atraz mais
estreita e munida de uma carina mediana. Os olhos são
incluidos na coraça dorsal. As antennas são pequenas,
faltando porém muitas vezes o segundo par. Patas
numerosas, 63 pares ou menos. O primeiros par de patas
termina em 3 4appendices filiformes compridos, repre-
sentando os endites. O telson é curto no genero Apus,
comprido em forma de pua no genero Lepidurus. (1)
São compridos os dous appendices filiformes da cauda.
(1) Como o livro de Martin e Rebau. Historia natural
Popular. Rio de Janeiro, 1894 (5. ed.), embora que de pouco
valor sob o ponto de vista scientifico, está divulgado entre nos,
vale a pena dizer aqui, que a figura da Est. 33 fig. 11 não
representa, como pretende, o Apus cancriformis, mas uma
especie de Lepidurus. À descripgao é toda falsa, tratando dos
olhos em vez de ovos e de 2 pares de patas em vez de 3 na
larva, etc.
— lib —
Estes crustaceos, que medem de 1 — 7 cm. vivem
nos banhados ou fossos, nadando virado no dorso como
tambem os Brachipodidos. A larva tem a forma de
nauplius.
Não conhecemos representante algum do Brazil.
Na Republica Argentina porém encontrou #renzel uma
especie de Apus.
3.º Familia Branchipodidae.
Corpo comprido, sem concha. Cabeça pequena com
um olho simples no meio e dous olhos lateraes pedun-
culados. As antennas pequenas, o primeiro par filiforme,
o segundo modificado em orgão de apprehensão no sexo
masculino. Patas em numero de 11 ou de 19 pares. O
abdomen tem 8-—9 anneis sem patas, e termina por
dous appendices filiformes. A femea tem no lado infe-
rior dos primeiros dous segmentos do abdomen uma
bolsa destinada para a criação dos ovos.
1º Branchipus Schaef.
O corpo tem 11 pares de patas, o abdomen consiste
de 9 segmentos. Os appendices caudaes são munidas de
sedas ao lado. Ao lado da segunda antenna que forma
como uma pinça, ha nos machos lobos triangulares e
compridos (appendices frontaes).
Não conheço especies deste genero no Brazil. “renzel
declara ter encontrada uma especie na Republica Argen-
tina em agua salobre de uma lagoa.
2º Branchinecta Verrill.
Genero parecido ao precedente, porém sem appen-
dices frontaes. O abdomen tem 9 anneis, a bolsa para
os ovos é estreita e comprida. A pinça do macho é
simples.
— 176 —
Branchinecta jheringii Lilljeb
Lilljeborg. Diagnosen zweier Phyllopodenarien aus Süd-
brasilien. Verhandl. d. Naturh. Vereines zu Bremen
Bd. X. 1889 pag. 424.
Pouco differente de B. coloradensis Pack., tendo o
primeiro segmento da segunda antenna munido de espi-
nhos. Na femea a cauda é menos comprida como o resto
do corpo. O comprimento é de 11 mm. do macho e de
8 mm. da femea, sem contar os appendices caudaes.
Os exemplares forão encontrados perto da cidade do
Rio Grande do Sul, na estrada, onde depois de chuvas
houve um pouco d'agua.
3º Chirocephalus Prevost
Pinga do macho com o junto segundo bem com-
prido. Os appendices frontaes do macho säo ramosos e
compridos, parecidos aos chifres do cervo. O corpo é mais
comprido e estreito do que aquelle de Branchipus. Exi-
stem 11 pares de patas.
Não conhecemos por hora especie alguma deste
genero do Brazil. Na Republica Argentina encontrou
Frenzel uma especie descripta por Weltner como Ch.
cervicornis (cf. IVeltner Sitzungs-Berichte d. Gesellsch.
naturf. Freunde zu Berlin, 1890 N. 3).
Singular é o modo de viver destes bichinhos. Não
vivem nos rios e nas lagoas, mas sim em agua baixa,
em fossos, tanques, na rua mesma, afinal em logares
onde depois de chuvas copiosas ha por algum tempo
agua, dando assim uma vida curta a colonias destes
crustaceos. Assim achei numerosos exemplares de Bran-
chinecta jheringi perto da cidade do Rio Grande do Sul
na estrada, num logar onde houve: pelas chuvas por.
aleumas semanas ou talvez mezes agua, e onde pouco
depois passei sem molhar os pés.
De mesmo modo deu-se o caso com a Limnadia
texana de Ponte Grande, que ali existiu em colonia
numerosa em fins de Junho de 1894,e que na primeira
metade de Julho já tinha desapparecido completamente.
Explica-se o facto pelo modo de viver destes crusta-
ceos d'agua doce, constumados a vida temporaria passa-
geira destas aguas accidentaes ou periodicas, visto que
os ovos delles não só podem persistir em estado secco
por annos — não, muito mais ainda, que o ovo não se
desenvolve senão depois de um periodo prolongado de
secca. E' assim que a natureza garante a existencia de
sociedades ou colonias de organismos, adaptados a vida
dificil nas aguas periodicas, nos lugares onde as vezes
ha agua estagnante por semanas ou mezes, e onde depois
por muito tempo o solo fica secco ou banhado só de vez
em vez por alguma garrua.
Ha para estes organismos como garantia de existen
cia das especies a necessidade de corresponder a duas
exigencias: 1.º de persistir directamente ou em forma de
ovos, ete. no chão seccado durante periodos prolongados
de falta d'agua e 2.º de poderem ser transportados a
grande distancia ás localidades, que offerecem condições
vantajosas de vida.
Que de facto são realisadas estas condições já nos o
demostra o facto da distribuição vasta destes crustaceos
e dos grupos analogos. Na America do Sul até agora
não foi encontrado um unico typo singular ou carac-
teristico, e mesmo as especies em grande parte são iden-
“ticas aos que conhecemos da America do Norte.
Eis a
Lista completa dos Branchipodes
encontrados até agora na America do Sul
Estheria brasiliensis Baird. Brazil.
Estheria Dallasi Baird. Brazil.
Bulinnadia texana Packard. — Brazil (São Paulo)
e Texas.
Eulimnadia antillarum Baird. — Brazil (Rio Grande
do Sul) e Ilhas Antilhas.
Apus sp. — Republica Argentina.
Branchipus sp. Republica Argentina.
Branchinecta jheringi Lilljeb. — Brazil (Rio Grande
do Sul).
Chirocephalus cervicornis Weltn. — Republica Ar-
gentina.
A maior parte destas especies não estão bem conhe-
cidas, e os que já bem conhecemos são identicas com
especies da America do Norte ou bem parecidas, de modo
que podem ser consideradas de especies correspondentes
um pouco modificadas.
A mesma observação refere tambem, e talvez em
grão mais notavel ainda, aos outros grupos já mencio-
nados dos Entomostraceos.
Assim /. Wrenzel que por annos, em Cordova, estudou
a fauna de agua doce, ali achou muitos organismos
microscopicos, tanto de infusorios como de rotatorios
identicos ds especies conhecidas da America do Norte e
da Europa. Temos um outro trabalho sobre a fauna, isto
é, o reino animal, das lagoas argentinas, do sr. Wierzejski,
de Krakau, que declara, que entre 36 especies de crus-
tuceos e rotatorios observados, apenas 4 são novas; 0
resto é encontrado tambem na Europa.
À mesma experiencia que estamos fazendo na Ame-
rica do Sul foi feita na Asia, de maneira que temos de
explicar o facto extraordinario de uma distribuição
enorme e quasi cosmopolita de muitos organismos da
agua doce. E” evidente que para estes bichinhos existem
meios especiaes de dispersão que faltam aos animaes
maiores, como os peixes, kagodos, conchas, etc., que nestes
paizes tão distantes são absolutamente differentes. E' quasi
impossivel de imaginar-se um contraste mais forte do que
aquelle que existe entre os peixes, kagodos, caranguejos,
etc. do Brasil e aquelles dos Estados Unidos da America
do Norte, facto que facilmente se explica, visto que ambas
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as Americas quasi sempre estiveram separadas. A reu-
nião pela America central só existe desde a formação
pliocena e deu logar para uma permuta reciproca dos
mammiferos, passaros e outros typos terrestres, mas não
produziu uma mistura dos typos aquaticos, por falta de
communicacao dos systemas hydrographicos.
Como então temos de entender o facto, que de um
lado estamos vendo um contraste enorme entre a fauna
de agua doce das duas Americas, e de outro lado iden-
ticas especies desde Buenos-Ayres e S. Paulo até Chicago,
Berlim, Tiflis e Hong Kong? Conhecemos agora as
razões.
Uma porção destes pequenos organismos púde seccar
sem morrer, outra, seccando, morre, nas não se dá o
mesmo com os seus ovos. Estes ovos, tão pequenos que
sem microscopio não se podem vel-os, são com facilidade
carregados pelo vento a grandes distancias, mas o meio
regular de transporte são os passaros aquaticos, as mare-
cas, garças, biguas, etc., que nos pés levam terra e lodo
dos banhados e lagôas a outras bacias d'agua doce, ás
vezes bem distantes. Já Darwin fez observações sobre
o transporte de lodo adherente ao pé das marecas, lodo
que continha grande numero de sementes de plantas.
Nos ultimos annos cultivou de Guerne todos os orga-
nismos, cujos ovos estavam contidos na terra encontrada
nos pés de marecas caçadas, e Migula demonstrou, lavando
certos besouros aquaticos, voando d’um banhado a outro,
que muitos organismos microscopicos são distribuidos
pelos insectos que vivem n'agua.
Estes ovos podem seccar completamente sem perder
a faculdade de desenvolver-se, logo que passam de novo
para a agua, seja isto depois de um mez ou depois de
6 annos.
Sabemos agora que este periodo do estado secco é
até para muitos de entre elles conveniente ou necessario,
de maneira que os ovos, por exemplo, do Apus não se
desenvolvem logo que entram na agua, mas só depois
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do intervallo de alguns annos, caso analogo ao que se
dá com as sementes do taquaraçú. E' assim que Sars
estudou, em Christiania, os pequenos crustaceos da Aus-
tralia chamados pulgas d'agua, cultivando o lodo secco:
que se tirou de um banhado australiano.
Está, pois, provado, que os organismos pequenos da
agua doce podem ser transportados de um banhado a
outro, a grande distancia, pelos passaros aquaticos.
Ora, sabemos que não ha grupo de passaros de dis-
tribuição tão vasta como o dos maçaricos, garças, etc.
todos finalmente que pescam n'agua. Muitos d'elles se
estendem do norte da America até ao Chile e Buenos-
Ayres, e são elles sem duvida que em suas emigraçües
dão passagem gratuita aos organismos pequenos dos
rios, lagdas e banhados.
Mas ha cutras especies de uma distribuição mais
vasta ainda, que vivem nas regiões arcticas de todo o
hemispherio septentrional e que nas suas emigrações
de inverno chegam ao Brasil como os outros individuos
das tundras sibiricas emigram até à Africa, a India e a
Australia. Para citar algumas destas especies cosmopolitas
citarei o Charadrius fulvus, Calidris arenaria, Tringa
canuta, Totanus stagnalis e outros maçaricos, gallinhas
d'agua e mais passaros aquaticos americanos, que se
encontram tambem na Europa e Asia, etc. A esta vasta
distribuição geographica corresponde a não menos vasta
dos organismos pequenos e microscopicos da agua doce,
apesar de ainda não estarem taes organismos devida-
mente estudados, como é facil reconhecer.
Desejo que este pequeno estudo servirá para attrahir
a attenção aos crustaceos pequenos e pouco conhecidos
dos quaes aqui tratei, e que é facil a colleccionar mediante
da rede para borboletas, e que se conserva em vidrinhos
com alcool, notando logar e data. Peço as pessoas que
neste sentido acham crustaceos respectivos, mandal-os ao
Museu do Estado de S. Paulo.
DISTORA OPHISTHOTRIAS
RR AD O EN ON PR as pt EN OMS "An &
PELO
DR. ADOLPHO LUTZ.
A lista dos Zrematodes observados neste paiz é com-
parativamente pequena. Este facto não se deve attribuir
à falta de estudos helminthologicos, mas a escassez de
molluscos terrestres e de agua doce. Estes servem ge-
ralmente de hospedes intermediarios aos trematodes, que
acabão a sua evolução em vertebratos aquaticos ou ter-
restres. N’estas circumstancias a descripção de uma es-
pecie nova não deixa de ter um certo interesse scienti-
fico, tanto mais que esta appresenta uma organisação
bastante aberrante dos typos geralmente conhecidos.
Este parasita, que denominarei: Distoma opisthotrias,
foi encontrado por duas vezes em numero assaz grande
no intestino de uma especie de gamba ( Didelphis
aurita, determinada pela deseripçäo fornecida por Bur-
meister). Tratava-se de machos velhos, apanhados nos
arrabaldes de São Paulo, um no Braz e outro a pouca
distancia na Moóceca. Os distomas habitam a parte infe-
rior do intestino delgado que apresenta a mucosa con-
cesta e coberta de mucosidades espessas, um pouco san-
guinolentas. Encontrei tambem alguns exemplares no
intestino grosso, mas estes pareciam achar-se em via de
emigração.
Exaininando o catalogo de vermes parasitarios for-
necidos por O. ». Linstow, assim como o supplemento
dado pelo mesmo autor, encontro tres especies de trema-
todes parasitas de varias especies do genero Didelphis
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Duas pertencem ao genero Rhopalocephalus, a saber:
Rh. coronatus Rudolphi e Rh. horridus Diesing. Nao
me foi possivel obter a descripção d' estes vermes,
mas segundo Claus o genero é caracterisado pela pre-
sença de duas proboscides, guarnecidos de espinhos, na
extremidade cephalica. Estes faltão completamente ao
nosso distoma que fica assim distinguido das especies
de «Rhopalocephalus» ; sendo elle um distoma legitimo
tambem não pode ser identificado com o terceiro Tre-
matode encontrado nos gambas, o Hemistonum pedatum
Diesing.
Junto com este Distoma foi encontrado ambas as
vezes um nematode que determinei como Ozys ma ten-
taculatum Schneider e uma vez uma pequena especie
de érichocephalus, provavelmente o Tr. minutus Ru-
dolphi.
O novo distoma assemelha-se por sua forma äs outras
pequenas especies (este genero. Visto de cima tem
o contorno ovalar ou lanceolar allongado. O diametro
dorsoventral geralmente é menor do que o bilateral, mas
em certos estados de contracção pode chegar a ser egual
ou mesmo superior. Como termo medio achei as me-
didas seguintes: comprimento 4, largura 1,1, espessura
0,9 millimetros ; mas estas medidas varião muito quando
ha contracção ou relaxamento parcial da musculatura.
Já com augmento fraco reconhece-se distinctamente
a ventosa boccal, situada na extremidade cephalica e
um pouco inclinada sobre o plano ventral. Communica
directamente com o pharynge de forma espherica que dá
sahida aos dous ramos do intestino. Estes correm pri-
meiro na direcção dorsal e cephalica, depois fazem uma
curva e dirigem-se para a extremidade posterior, seguindo
as margens lateraes. Terminão-se perto da extremidade:
caudal e quasi em contacto um com o outro. Estes tubos
intestinaes não tem ramificações segundarios e seguem
uma linha quasi direita quando o animal está bem esten-
dido; mas, quando se contrahe, ficão tortuosos e até podem
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formar uma serie de alças. Nos córtes distinguem-se
facilmente as cellulas epitheliaes com base larga e ter-
minando-se em ponta de forma de uma chamma de vela.
A ventosa ventral é bem desenvolvida e pouco in-
ferior em tamanho comparada com a ventosa boccal.
Ella occupa o campo livre da parte anterior do corpo
que se acha entre o pharynge e os tubos intestinaes.
No terço posterior o campo limitado pelos dous ramos
do intestino é occupado por tres orgãos glandulares de
forma espherica, coliocados em fileira. Vistos de lado
approximão-se da superficie dorsal, sendo bastante affas-
tados do plano ventral. O corpo situado no meio é assaz
menor que os dous outros e “na occasião de fortes con-
tracções fica comprimido por elles, principalmente na sua
parte dorsal. No mesmo tempo os corpos esphericos
afastão-se um pouco da linha do meio, os maiores por
um, 0 pequeno por outro lado.
Entre a glandula do meio e a superficie abdominal
observa-se um corpo muito menor em tamanho e munido
de tres processos conicos; dous destes são lateraes e
correm para fora e na direcção da cabeca; o terceiro,
situado na linha media e mais perto da extremidade
caudal, dirige-se para a superficie dorsal.
O estudo d'estes quatro orgãos mostra que fazem
parte do apparelho sexual, sendo os dous maiores, de
structura identica, os testiculos e o do meio, differente
de tamanho e organisação histologica, o ovario. O quarto
corpo contem a substancia secretada pelos corpos vitel-
ligenos, com os quaes communica pelos processos la-
teraes. Nao se pode deixar de considera-lo como
ootypo ou orgão de formação dos ovos. O processo
mediano deste corpo parece emboccar na porção inicial
do utero. Além d'isso ha uma communicação com o
ovario que creio ter percebido na forma de um canal
muito fino e tortuoso, e deve. haver outra com o canal
de Zaurer. Este ultimo é pouco saliente e só em con-
dições muito favoraveis pode ser reconhecido no animal
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inteiro. Porém estudando-o em series de córtes reco-
nheci que corre quasi direitamente na direcção ventro-
dorsal e, passando na linha mediana entre o ovario e o
testiculo posterior, abre-se logo na superficie dorsal.
O espaço limitado pelos ramos intestinaes e o tes-
ticulo anterior é quasi todo oceupado pelas alças nume-
rosas do tubo uterino, sendo que a porção inicial é si-
tuada principalmente na região ventral e a metade
terminal na parte dorsal. A porção inicial do utero, que
na sua totalidade representa um tubo singelo, mas muito
comprido e tortuoso, dirige-se n’uma linha um pouco
tortuosa até ra parte do campo medio situada adiante
do testiculo anterior. Depois de occupar toda a parte
ventral com as suas alças dispostas mais ou menos ho-
rizontalmente, attinge a altura da ventosa ventral, onde
se dirige para o plano dorsal, para descer da mesma
forma em numerosas alças horizontaes. Chegado á parte
inferior do campo medic dirige-se em sentido dorso-
ventral para a cloaca sexual. Não é raro ver umas
poucas alças do utero occupando parte do espaço livre
adiante da ventosa ventral. Nos vermes adultos as alças
do utero estão completamente distendidos por um enorme
numero de ovos com casca espessa, de côr amarella parda,
mais clara nos ovos da parte anterior, mais escura nos
da porção descendente do utero.
Os campos lateraes, isto é, as regiões situadas para
fora dos ramos do intestino, são occupados pelos corpos
vitelligenos, formados por grande numero de vesiculas
dispostos em forma de cacho em redor do terço exterior
do intestino e ao longo de um tubo excretorio. Este
está frequentemente distendido por massa vitellina, o
que permitte seguil-o até 4 sua entrada no ootypo. A
massa vitellina é granulada e contém muita gordura,
como se reconhece pela côr preta intensa que lhe dá uma
solução de acido ósmico. Tem tambem uma grande
affinidade por certas materias corantes, o que permitte
reconhecel-a tanto na glandula vitelligena e no seu
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ducto exeretorio, como no ootypo e nos seus processos
e até nos ovos recemformados, onde a casca menos escura
ainda permitte observar a reacção. Nos exemplares mais
velhos os corpos vitelligenos são exgotados e a massa
vitellina tem quasi desapparecida fora dos ovos.
A cloaca sexual é situada no plano ventral e na
linha mediana, na altura da margem anterior do primeiro
testiculo. Assim fica mais perto do centro que o ootypo,
mas ainda longe da ventosa ventral. Contem um cirro
muito voluminoso, situado na sua bolsa ou mais ou
menos sahido, e a vulva que se acha mais perto da ex-
tremidade caudal. A ultima parte do vaso deferente é
frequentemente distendida por esperma e apparece então
na forma de um canal grosso e tortuoso, situado entre
o cirro e a superficie dorsal. Não pude perceber distinc-
tamente os tubos excretorios dos testiculos que nunca
encontrei distendidos, mais creio que estão situados no
plano dorsal.
Os ovos são pequenos, ovaes, achatados de um
lado e munidos de um operculo. Existem em numero
enorme nas alças uterinas, mas são rarissimos nos excre-
mentos dos animaes infectados. Isto parece indicar que,
como regra geral, o verme emigra com toda a sua provisão
de ovos, quando as elandulas germinaes e vitelligenos estão
esgottados. (Parece que os testiculos deixam de func-
cionar já bastante cedo, depois de ter fornecido a quan-
tidade pecessaria de esperma, mas conservam a sua forma,
em quanto que os corpos vitelligenos ficão manifestamente
atrophiados. Encontrei no recto dos gambás alguns dis-
tomas com os corpos vitelligenos esgottados e julgo que
estavam em via de emigracao, por faltar qualquer irri-
tação da mucosa rectal. Infelizmente esta questão fica
em duvida, porque os gambás só puderão ser examinados
aleum tempo depois da morte, quando os distomas já es-
tavam destacados. A evolução ulterior dos ovos só pa-
rece ter lugar depois de terem deixados o intestino do
gambá. Conservando alguns distomas na camara humida,
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depois de 5 dias encontrei nos seus corpos quasi dissol-
vidos uma certa proporção de ovos com embryões já
formados. Supponho que as vhedies e cercarias este
distoma devem ser encontradas em molluscos terrestres
e talvez em especies de Zimacidae, mas não me foi ainda
possivel de esclarecer este ponto.
Ainda não fallei do systema vascular excretorio.
Consiste n'um porus excretorins curto, situado ven-
tralmente na extremidade caudal. Divide-se logo em 2
ramos lateraes que quasi immediatamente se subdividem.
Não se pode determinar todas as ramificações, porque
quando vasios são imperceptiveis e só raramente encontrei
uma ou outra parte do systema vascular bem distendida.
O calibro então pode ser consideravel, mas o conteúdo é
pouco visivel e só raras vezes contem algumas gotti-
nhas ou granulos que ennegrecem-se, tratados pelo acido
osmico. O que reconheci geralmente com bastante fa-
cilidade são dous vasos longitudinaes, um ventral, outro
dorsal, que seguem o lado exterior dos dous tubos in-
testinaes e fazem anastomose por meio de uma alça tor-
tuosa, situada por fora do bulbo do pharynge. Esta
disposição encontra se dos dous lados, mas não se per-
cebe anastomose entre elles. Os tubos sempre apparecem
tortuosos, evidentemente porque o seu comprimento cor-
responde i extensão longitudinal maxima do corpo do
distoma.
O parenchyma do corpo é bastante solido, lembrando
na sua apparencia o tecido connectivo reticular; no
animal adulto parece muito reduzido pelo desenvolvi-
mento das alças uterinas. A cuticula é transparente e
quando contrahida disposta em pregas transversaes. Ap-
presenta em grande extensão pequenas espinhas ou es-
quamas pontudas, principalmente na parte dorsal cepha.
lica e na superficie ventral.
Na extremidade cephalica percebi algumas cellulas
maiores situados de baixo da cuticula nos campos late-
raes. Não pude estudar o systema ganglionar e nervoso
ER Pen
por ser muito indistincto n'esta especie pequena. À es-
tructura das ventosas e do bulbo pharyngeo não offerece
particularidades, faltando o diverticulo em forma de papo
que se encontra no distoma hepaticum. Devido a sua
Inclinação a ventosa boccal é um pouco assymetrica,
sendo a metade ventral e posterior mais curta do que a
outra.
Quando fiz a descripção acima julguei que 0 nosso
distoma era distincto de todas as outras especies pela sua
organisação aberrante, mas, ha pouco, achei num tra-
balho de Looss (Ueber die Distomen unserer Fische und
Froesche) o desenho de uma especie analoga. E o dis-
toum leptostomum descoberto por Olsson no Meles taxus
e observado por Zooss no ouriço (erinaceus europaeus).
Esta especie e tão similhante 4 nossa por sua organi-
sação e até pelo seu tamanho que se podia quasi julgar
identica, não obstante a differença do habitat. Mas sempre
acho algumas differenças: O desenho de Zooss não mostra
as espinhas da cuticula que elle não podia ter deixado
de observar, porque sempre estudava exemplares frescos,
nem podia ter omittido nos seus desenhos muito bem
executados. Tambem falta a curva do principio dos in-
testinos e na sua especie o bulbo pharyngeo não se junta
immediatamente a ventosa boccal. Emfim a disposição
dos vasos excretorios não deixa de ter as suas differenças
que parecem excluir uma indentificação, mas este ponto
precisa ainda de estudos ulteriores.
Outra especie similhante foi descoberta tambem no
ouriço europeo por O. v. Linstow, que lhe deu o nome
D. caudatum; distingue-se dos outros dous por um ap-
pendice caudal retractil.
Si se trata com effeito de tres especies differentes
não deixão de ter relações muito estreitas e provavel-
mente terão uma evolução analoga. E” de suppor que
os distomas novos passão junto com o seu hospede in-
termediario para 0 intestino de seus hospedes definitivos, 0
que é facilitado pelo modo de alimentação destes ultimos.
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Os gambás especialmente tem habitos omnivoros; comem
fructas, passarinhos, ovos e até, como se sabe, costão
tanto da aguardente de canna que se deixão apanhar
por este meio. No estomago de uma especie achei uma
caeciha grande. Cinco exemplares apanhados perto
de Santos tinhão nos seus intestinos grande numero de
especie de Achinorhynchus muito parecida e talvez iden-
tica ao E. gigas, que n'este estado já observei nos porcos.
Este tem como hospede intermediario conhecido a melo-
lontha vulgaris que no Brazil deve ser substituida por outras
especies de bezourros. Indica este facto que o gambá
não despreza insectos e em tempos de fome provavel-
mente come qualquer especie de bicho pequeno.
Brplicacäo das figuras
1.º Verme adulto. Face abdominal. Augmento 25 v.
2.º Córte sagittal do verme adulto, um tanto contra-
hido. Augmento 25 v.
3.º Córte transversal pela parte central de um verme
adulto. Augmento 25 v.
4.º Ovo. Augmento 500 v.
Abreviações: v. c. - ventosa cephalica, b. ph.- bulbo
do pharyuge, v. a. - ventosa abdominal, t. u.-tubo uterino,
€. v. - corpo vitelligeno, t. a., t. p. - testiculo anterior e
posterior, OV. - ovario, 00. - ootypo, ci - cirro, cl. - cloaca
sexual, v. s. -vaso deferente, formando uma vesicula
seminal, v. e. - vasos excretorios.
Distoma Ophisthotrias
ein neuer T[Tarasit der Beutelratte:
VON
DR. ADOLPH LUTZ,
‘ABGEKURZTE UEBERSETZUNG).
Die Zahl der bisher in Brasilien beobachteten Trematoden ist
keine grosse, was weniger dem Mangel an einschlagigen Studien,
als der Spärlichkeit der als Zwischenwirthe fungirenden Land- und
Süsswassermollusken zuzuschreiben ist. Die Beschreibung einer
neuen Art scheint daher nicht ohne Interesse, umsomehr als dieselbe
eine ziemlich abweichende Organisation besitzt.
Ich bezeichne diese Art als Distoma opisthotrias, weil die dre}.
Geschlechtsdriisen am Ende des Leibes liegen. Sie wurde bisher
nur in Sao Paulo und zwar im Darm zweier alter Männchen von
Didelphis aurita gefunden; sie zeigten sich in grosser Zahl im
untern Theile des Dünndarmes, dessen Schleimhaut stark geréthet
und mit dickem, theilweise blutigem, Schleime bedeckt war. Im
Dickdarme fanden sich nur vereinzelte, wahrscheinlich im Auswan-
dern begriffene, Exemplare. Ausserdem fand sich noch Oxysoma
tentaculatum Schneider, beide Male in grôsserer Anzahl, sowie einmal
ein kleiner Z7zchoeephalus, wahrscheinlich 77. minutus Rud. Diese
beiden Arten finden sich im Kataloge von v. Linstow angeführt,
wahrend eine Art, welche sich mit unserm Distoma decken kônnte,
vermisst wird.
Distoma opisthotrias hat eine bei kleineren Arten haufige, lang-
gestreckt ovale, der cylindrischen sich nähernde Form. Die Dimen-
sionen, welche natürlich nach dem Contractionszustande stark
wechseln, betragen im Mittel ungefähr 4 mm. fiir die Lange, 1,1
mm für die Breite und 0,9 mm. für die Dicke.
Der Kopfsaugnapf ist schon mit blossem Auge sichtbar und
erscheint etwas nach der Bauchseite geneigt ; auf ihn folgt umit-
telbar ein kugliger Pharynx, aus velchem die beiden Därme ent-
springen. Dieselben biegen sich erst dorsalwärts und nach dem
Kopfende zu, schlagen sich dann im Bogen um und streichen in der
Nahe der Seitenrander nach dem Schwanzende zu, wo sie, sich beinahe
berührend, enden. Sie verlaufen nur bei äusserster Streckung gerade,
sonst in mehr oder weniger ausgesprochenen Biegungen und selbst
Schlingen, wie man leicht auf Durchschnitten sieht. Dabe: erkennt
man auch die typisch geflammte Form der Epithelien.
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Der Bauchsaugnapf ist wohl entwickelt und nimmt den im
vordern Driltel noch verfiigbaren Theil des Mittelfeldes ein. Im
hintern Drittel wird dasselbe durch drei rundliche Driisenkôrper
eingenommen, welche sich mehr der Rückenfläche nähern. Der
mittlere ist bedeutend kleiner und entspricht dem Ovarium, die
beiden andern sind circa gleich gross und zweifellos als Hoden
aufzufassen. Bei starken Contractionen riicken sie aus der Mittel-
linie seitwaris, während das oft stark deformirte Ovarium nach
der anderen Seite auweicht.
Zwischen Ovarium und Bauchflâche erkennt man einen andern,
weit kleineren Kôrper; derselbe ist von rundlicher Form und mit
drei konischen Fortsätzen versehen. Zwei derselbe n legen seitwarts
und verlaufen nach vorn und aussen; der dritte, welcher median und
mehr zurück liegt, wendet sich der Riickenflâche zu. Ich fasse
diesen Kôrper als Ootyp auf, da er Dottermasse enthalt, welche
ihm durch die seitlichen Fortsátze zugefiihrt wird. Dieselben ent-
sprechen naemlich der Miindung der Dottergänge, währed der mediane
Fortsatz mit dem Anfangstheile des Uterus communicirt. Eine
Weitere Verbindung mit dem Ovarium glaube ich in der Gestalt
eines sehr feinen und gewundenen Kanales erkannt zu haban; aus-
serdem muss aber auch eine solche mit dem Laurer’schen Kanale
bestehen. Letzterer ist wenig deutlich und am ganzen Thiere
kaum zu erkennen; dagegen sah ich ibn in Serienschnitten fast
senkrecht nach dem Ruecken zu verlaufen, wo er ausmiindet,
nachdem er in der Mittellinie zwischen Ovarium und letztem
Hoden durchgetreten ist.
Der Rest des Mittelfeldes ist fast vollständig durch die zahlrei-
chen Uterusschlingen eingenommen und zwar breitet sich die erste
Hälfte der Róhre besonders auf der Bauch-, die letzte auf der
Rückenseite aus, woselbst sie zahlreiche, nahezu horizontale Win-
dungen bilden. Die Umschlagsstelle ist in der Nahe des Bauch-
saugnapfes, über den sich einzelne Schlingen hinaus erstrecken
kônnen. Das Endstück des Uterus verläuft vom Riicken her
etwas schräg nach vorn und abwarts nach der Geschlechtscloake zu.
Bei erwachsenen Wiirmern sind die Uterusschlingen voll-
gepfropft mit zahllosen Eiern, deren dicke gelbbraune Schale im
aufsteigenden Theile des Uterus bedeutend heller ist, als in der
letzten Hälfte.
Im mittleren Drittel der Seitenfelder finden sich die Dotterstôcke,
dieselben bestehen aus traubenfôrmigen Bläschengruppen, welche
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das äussere Drittel des Darmrohres umfassen und einem Aus-
fibrungsgange angelagert sind. Letzterer ist Gfters mit l'ottermasse
arsgefüllt und kann dann bis zum Ootyp verfolgt werden. Dieses
Secret ist kérnig und sebr fettreich, wie die intensive Schwárzug
durch Osmiumsäure beweist. Auch zeigt dasselbe eine grosse Affini-
tat für marche Farbstoffe, so dass man es leicht vom Dotterstock
durch die Ausführungsgänge und das Ootyp mit seinen Fortsätzen
bis in die Fier verfolgen kann, soweit die noch dünne Schale die
Farbung gestattet. Bei alteren Exemplaren findet man die Dotter-
stôcke erschôpft und die Dottermase ausserhalb der Eier fast ge-
schwunden.
Die Geschlechtskloake liegt ventral in der Mittellinie auf der
Hohe des Vorderrandes des ersten Hodens, also mehr central, wie
das Ootyp, aber immer noch weit vom Bauchsaugnapt entfernt. Sie
enthält einen voluminôsen Cirrus, entweder ganz in seinem Beutel
gelegen oder mehr oder weniger ausgetreten, sowie die, mehr nach
rückwärts miindende, Vulva. Der letzte ‘Theil des Vas deferens
erscheint oft als ein dickes, gewundenes, mit Sperma erfuelltes, Rohr
zwischen dem Cirrus und der Rtickenseite. Die Ausfuehrungsgaenge
_ der Hoden fand ich immer leer und konnte sie daher nicht genau
erkennen; doch glaube ich, dass sie auf der Rueckenseite verlaufen.
Die kleinen gedeckelten Eier sind oval und auf einer Seite
abgeplattet. Trotzdem sie im Uterusrohre äusserst zahlreich sind,
werden sie nur sellen in den Excrementen der Wirthsthiere gefunden.
Wir schliessen daraus, dass der Wurm mit seinem ganzen Eiervor-
rath auswandert, sobald die Dotter- und Keimdriisen erschôpft sind.
(Die Hoden scheinen ihre Function schon ziemlich friih einzustellen,
uachdem sie das nôûthige Quantum Sperma geliefert haben; sie
behalten aber ibre Form, wahrend die Dotterstücke deutlich atro-
piiren). Solche Exemplare wurden im Rectum gefunden, dessen
Schleimhaut nicht gereizt erschien. Diess spricht fiir eine Auswan-
derung, doch kann ich die Frage nicht definitiv entscheiden, weil
die Beutelratten erst einige Zeit nach dem Tode untersucht wurden,
als sich bereits alle Distcmen losgelést hatten.
Die Bildung des Embryos sc.ieint erst ausserhalb des Darmes
des Wirthsthieres stattzufinden; ich fand sie fünf Tage nach
dem Vode der Mutterthiere, in deren feucht aufbewahrten und
bereits fast zerfallenen Kürpern. Die Zwischenwirthe diirften Land-
mollusken, speciell Nacktschnecken, sein, doch habe ich diesen
Punkt noch nicht feststellen kônnen.
Be hap ie cet
Vom Excretionssystem beobachtete ich einen kurzen Pocus
excretorius, e Was ventral von der Schwanzspitze gelegen. Er gabelt
sich in zwei Aeste, welche sich fast sogleich wieder theilen. Es
lassen sich nicht alle weiteren Verzweigungen erkennen, da dieselben
in collabirtem Zustande nicht wahrnehmbar sind und ich das Gefass-
system nur selten und streckenweise gefiillt fand. Das Kaliber
erscheint dann ziemlich weit, aber der Inhalt ist kaum erkennbar
und erthalt nur selten einige, mit Osmiumsâure schwãrzbare, Kô rn-
chen und Trépfchen. Am leichtesten liessen sich zwei Längsgefässe,
ein dorsales und ein ventrales, erkennen, welche den Darm von
aussen begleiten und nach aussen vom Pharynx mit einer gewun-
denen Schlinge anastomosiren. Diese Disposition findet sich auf
beiden Seiten, ohne dass eine Verbindung zu erkennen ware. Die
Gefasse erscheinen immer stark gewunden, offenbar, weil sie der
dussersten Streckung des Kôrpers angepasst sind.
Das Kórperparenchym ist ziemlich fest gefiigt und erinnert in
seinem Aussehen an reticulirtes Bindegewebe ; doch ist es beim
erwachsenen Wurme durch die Fintwicklung der Uterusschlingen
sehr reducirt. Die Cuticula ist durchsichtig und legt sich bei Con-
tractionen iu transversale Falten. Sie ist in grosser Ausdehnung mit
Stachelschuppen besetzt, besonders an der Bauchseite uud an der
Rückenfläche des Kopfendes. In den Seitenfeldern des Kopfendes
scheinen auch unter der Cuticula einige grôssere Zellen zu liegen.
Das Nervensvstem, welches bei dieser kleinen Art schwer zu erken-
nen ist, wurde nicht studirt. Die Structur der Saugnapfe und des
bulbus pharyngeus bietet keine Besonderbeiten; ein kropfartiges
Diverticulum, wie es bei D. hepaticum vorkômmt, ist nicht vorhan-
den. Der Bauchsaugnapf ist in Folge seiner Neigung etwas unsym-
metrisch, indem die bauchwärts und mehr nach hinten gele-
gene Halfte kiirzer ist, als die andere.
Als ich die vorstehende Beschreibung entwarf, glaubte ich, dass
unser Distoma in seinem anatomischen Bau einzig dastehe. Seither
fand ich in der Arbeit von Zooss: «Ueber die Distomen unserer
Fische und Frésche» eine Abbildung von D. leptostomum, welches
von Olsson im Dachse entdeckt und von Looss im Igel wiederge-
funden wurde. Diese Art zeigt mit der unsrigen die unverkennbarste
Aehnlichkeit und stimmt auch in der Grôsse so gut überein, dass
man in Versuchung kommt, sie trotz der verschiedenen Herkunft
für identisch zu halten. Ich finde indessen folgende Unterschiede :
Erstens fehlt in der Looss’schen Abbildung jede Spur von Bestache-
— 193 —
lung, welche ihm doch an frischen Exemplaren kaum entgangen
sein kônnte und deren Andeutung auf der Zeichnung kaum unter-
blieben wäre. Zweitens fehlt bei ihm die, bei meiner Art constante,
schlingenfôrmige Umbiegung des Anfangstheiles des Darmkanales
und der Bulbus pharyngeus schliesst sich nicht unmittelbar an den
Kopfsaugnapf, endlich erscheint die Disposition der Excretionsge-
fässe, wenn ich sie bei meinen Exemplaren auch nicht ganz ver-
folgen konnte, doch bei beiden Arfen nicht übereinzustimmen.
Freilich bedarf dieser Punkt noch einer Nachuntersuchung.
Eme ähnliche Art, wie die unsrige ist auch von v. Linstow im
Igel gefunden und als D. caudatum bezeichnet worden. Dieselbe
unterscheidet sich von den beiden andern Arten hauptsachlich durch
eine einziehbare Schwanzspitze.
Wenn wir es hier mit drei verschiedenen Arten zu thun haben,
so bilden sie jedenfalls eine eng verwandte Gruppe, die wohl eine
analoge Lebensgeschichte hat. Es erscheint wahrscheinlich, dass die
jungen Distomen mit den Zwischenwirthe zugleich in den Darmkanal
des endgiiltigen Wirthes gelangen, entsprechend der Ernahrungsweise
der letztern. Die Beutelratten speciell haben vollständig omnivore
Gewohnheiten. Sie fressen Friichte, Vôgel, Eier und haben bekannt-
lich eine besondere Vorliebe tiir Zuckerrohrbranntwein, die haufig
zu ihrem Fange benutzt wird. Im Magen eines derselben fand ich
eine grosse Caecilia und im Darme von fiinf Exemplaren von San-
tos zahlreiche Echinorrhynchen, welche wohl sicherlich durch Insec-
ten übertragen wurden. Sie waren dem Echinorrhynchus gigas
dusserst ähnlich und dürften sich bei genauerer Vergleichung als
identisch herausstellen; letzterer wird auch hierzulande bei Schwei-
nen gefunden. Als Zwischenwirth ist Melolontha vulgaris bekannt,
dessen Stelle hier jedoch von andern Lamellicorniern vertreten
_ werden muss. Es ist also wahrscheinlich, dass die Beutelratten
gelegentlich auch Insecten und überhaupt allerhand kleinere wirbel-
lose Thiere verzehren.
Erklärung der Figuren.
I. 2. 3. Erwachsener Wurm. Vergr. 25. I. Ansicht von der
Bauchseite; 2. Sagittalschnitt; 3. Querschnitt durch das Mittel-
sttick 4. Ei. Vergr. 500.
Durchgehende Bezeichnungen: v. c. - Kopfsaugnapf, b. ph. —
bulbus pharyngeus, v. a.— Bauchsaugnapf, T. u. — Uterusrôhre, c
v. — Dotterstock, t. a., t. p. — vorderer, hinterer Hoden, ov. —
Ovarium, oo. — Ootyp, ci. — cirrhus, cl. — Geschlechtscloake, v.
s.— zur Samenblase erweitertes vas deferens, v. e. — Excretions:
gefässe.
O veneno ophidico.
—
PELO te UN LE A = C
& in mea ET em “a
les vor AEE RING. by ae k
Ha certas questões, que para nos são de summa
importancia e de tal modo, que convem sempre ficar ao
par dos estudos. Deu-se o caso. que as experiencias do
Ill. mr. João Baptista de Lacerda nutrirão entre nos a
esperança de ter sido descoberto o remedio infallivel
contra a mordedura de cobra, esperanças que forão accei-
tas com o mesmo enthusiasmo como o tratamento da
tuberculose por Aoch e tiverão mais ou menos a mesma
sorte. O grande premio que o Governo da India offerece
a quem descobre a cura, o tratamento certo da morde-
dura de cobra, ainda não foi nem pode ser distribuido.
Veiu como remedio depois do permanganato de
Lacerda o chlorureto de ouro e agora o chlorureto de
cal. E' o futuro que nos explicará os resultados. Parece
que o permanganato, embora que muito inferior no
effeito ao chlorureto de cal, poderá produzir effeito, se for
applicado logo depois da mordedura, mas infelizmente
quasi sempre passam-se horas entre a mordedura e a
applicação do remedio. Conheço do Rio Grande do Sul,
Colonia S. Lourenço, um caso fatal no qual meo amigo
Dr. O. Mescó ca. 2 horas depois da mordedura pela jara-
racca applicou o permanganato sem effeito. Eu uma vez
só o tenho applicado a uma vacca mordida e sem
resultado. Tratei ao contrario varias pessoas que forão
mordidas por jararacas, mas a grande distancia de minha
moradia, e que não morreram.
— 196 —
EK’ nestas condições de valor para nos seguirmos os
resultados obtidos nos diversos estudos sobre o trata-
mento da mordedura de cobra, e estou neste anno prin-
cipiando a communicar por relatorio certos trabalhos.
novos e importantes.
I. Fayrer. On the nature of snake-poison ; its effects
on living creatures, and the present aspect of treatment
of the poisoned. Med. Times and gaz. 1884 Febr. 2
(Summario im Central Blatt f. klinische Medizin. V..
Jahre. Leipzig 1884. p. 189.)
Fayrer tem grandes experiencias sobre a mordedura
de cobras na India. As esperanças que se ligarao ás
conhecidas investigações de Lacerda de ter no perman-
zanato de potassio um antidoto são rejeitadas por elle
como não fundadas.
Na India ingleza estão por anno morrendo perto de-
20.000 homens por mordedura de cobra, de maneira que:
ali aos medicos não falta a occasiäo ao tratamento.
As glandulas que preparão o veneno correspondem
à parotis dos mammiferos. O veneno é um liquido viscoso:
e transparente, que, seccando, perde 50—75 porcento de
agua e torna-se semelhante 4 gomma da Arabia. O
exame microscopico não dá resultado algum. A mor-
dedura mata tanto os evertebrados como os vertebrados.
á excepção das mesmas cobras venenosas, sendo ao con-
trario as cobras inoffensivas mortas pela mordedura. O
veneno produz effeito rapido quando entra na circulação,
e deve: notar-se que o veneno fica resorbido tambem
pelas membranas mucosas, de maneira que não é sem
perigo tirar o sangue envenenado de uma ferida chu-
pando.
O veneno produz effeito sobre o systema nervoso
central, particularmente sobre a medulla oblongata,
produzindo assim paralysias. E’ provavel, que influa
tambem a innervação do coração. Fora disto produz inflam-
mação local, seguindo ás vezes haemorrhagias e pro-
cessos septicos. Mas a acção do veneno é differente nas
— 197 —
«liversas especies, ás vezes predominando a accão sobre
o sangue e em outros casos 0 sobre o systema nervoso.
Convem applicar o permanganato na ferida, depois
de ella ser aberta por incisão. E' certo que o perman-
ganato applicado directamente sobre o veneno o está
«lestruindo por oxydação, mas injectado na circulacäo
o permanganato ataca antes o sangue e os tecidos do
que o veneno.
Para avaliar os prejuizos, produzidos na India pelas
«cobras venenosas, compare-se o livro de
J. Lockivood Kipling. Beast and Man in India. London
1892. Este autor refere, que só na provincia de Bombaim
diminuiräo-se os casos fataes em vista da destruição
systematica das cobras venenosas mediante de pagamento
de premios. Communica (pag. 312) conforme o Relatorio
do Governo da India, que forão mortos no anno de 1889
por mordedura de cobra
na provincia de Bombaim 1000 pessoas
» » » Bengalia 10.680 »
nas provincias de N. O. 6445 »
Ao contrario o numero das cobras mortas foi no
mesmo anno
na provincia de Bombay 400.000.
« » Bengalia 41.000
nas provincias de N. O. 26.000
-oppondo-se a população hinduana a destruição de cobras
por motivos religiosos.
C. I. H. Warden. O efeito dos reagentios sobre o
veneno da cobra Chem. News. p. 197 e p. 209. 188%.
Relação na Deutsche Chem. Zeitung 1887 e Deutsche
Medicinal Zeitung 1887. p. 344.
As experiencias forao executadas na reparticao da
hygiene em Berlim com amostras que o Prof. Koch
— 198 —
trouxe do Assam. Estas amostras se apresentarão como
pedaços pequenos, seccos e transparentes, semelhantes
à gomma arabica. O veneno mostrou-se soluvel em
agua fria; a solução meia acidula mesmo quando muito
diluída ficou espumosa quando saccudida. Ficou dissolvido
o veneno na quantidade de 0,01 gram. em 10 cent.
cub. de agua destillada. As experiencias forão feitas com
comondungos brancos, ficando applicado o veneno sob a
pelle por injecção. A quantidade minimal do veneno
suficiente para produzir a morte foi 0,000008 gm. até
0,000016 grm. Esta ultima quantidade produziu a morte
dentro de 3—4 horas, mas se foi applicada a quantia de
0,012 grm. de veneno a morte já entrou depois de
quatro minutos. O calor destrue antes por temperatura
menor mas continua, do que por temperatura alta mas
applicada por pouco tempo as propriedades toxicas do
veneno.
Julius Gnezda fallou no Congresso internacional das
sciencias medicaes em Washington (5—10 de Set. de 1887)
sobre estudos queem Berlim fez sobre o mesmo veneno da
India (Summario na Deutsche Medicinal Zeitung: 1887 p.
1040). O veneno é soluvel só em agua, não em alcool ou
ether, mas perde a sua acção venenosa sendo cosido. O fluido
é albuminoso mas a composição chimica é desconhecida.
Applicado ás membranas mucosas tem effeito toxico sem
produzir os effeitos de um caustico. Mais apparente é 0
effeito se o veneno entra na circulação do sangue. A
pressão do sangue eleva-se, os globulos sanguineos mudam
de forma e fica caracteristico o spectro do sangue. A morte
não apparece logo mas só depois de meia hora e por
asphyxia, de maneira que o governo da India recom-
mendou para tal fim a respiração artificial. Dos antidotos
recommendados nenhum foi geralmente reconhecido
util, e emquanto nem ao menos se sabe se o veneno é
um alcaloide, um ptomaino ou outra substancia,
esta questão não pode sahir de simples especulação. O»
== Hire
veneno é secreção das glandulas de saliva e provavel-
mente é um albuminato. O permanganato de potassio
não mostrou-se como antidoto eficaz.
Na respectiva discussão disse o Dr. Z. Lewin que é
verdade que não existe um antidoto que pode destruir
o veneno que já entrou na circulação, mas que o per-
manganato de potassio e outros reagentios causticos
podem destruir o veneno sendo logo applicados local-
mente na ferida.
Alem disso o Dr. Woodburg, que os Snes. Mitchell
e Reichert de Philadelphia mostrarão por experimentos,
que o veneno consiste de duas substancias, uma das
quaes é um peptono. Francis Buckland infeccionou-se
sob a unha com uma quantidade minimal. O effeito foi
fraqueza e dôr de cabeça, que só passarão depois da
applicação de grandes dozes de Alcali volatil e Alcool.
Pode pois dizer-se que estes meios servem para com-
bater os effeitos do veneno introduzido em pequena
quantidade, mas se o veneno entrou em quantidade
maior na circulação não ha cura.
William Heidenschild. Untersuchungen über die Wir-
hung des Giftes der Brillen- und der Klapper-Schlange.
Inaug:. Dissertation. Dorpat. 1886.
Este trabalho principia com uma introducção lite-
rarica rica, dando summarios de muitos trabalhos mas não
conhece ainda o de Lacerda. A reacção do veneno é um.
pouco alcaloidica no veneno da cascavel e neutra no da
Cobra capel.
O autor examinou os effeitos do envenenamento sobre
o sangue e observou como uma das consequencias a
diminuação dos leucocytos até a 30 ou 40 porcento do
numero normal. Mas como por outros experimentos é
conhecido que depois de injecções nocivas o algarismo
dos leucocytos pode diminuir-se até a 10 porc. sem que o
animal morre, esta diminuição de leucocytos não pode
— 200 —
ser a razão principal da morte, e tanto menos como a
proporção dos leucocytos logo depois augmenta de novo.
O sangue mostra ao principio do envenenamento
um augmento de coagulabilidade do sangue e pode
imaginar-se que nos casos de morte repentina depois da
injeccao de grande porção de veneno, seria isto a razão
da morte, por coagulações intravasculares. Depois desta
primeira phase segue a outra de diminuição da coagu-
labilidade do sangue, que nos extremos casos de modo
algum é coagulavel, ficando depois da morte o sangue
liquido, facto muitas vezes observado.
O veneno não produz effeito sobre as culturas bac-
teriologicas. O veneno não mata infusorios e outros
organismos unicellulares, e mata só depois de muito
tempo Hydra, Planarias e Rotiferos, tambem carangúeijos.
A immunidade do Erinaceus contra a mordedura das
cobras é só relativa, visto que um Erinaceus ao qual
uma Vipera berus deu tres mordeduras morreu -no ter-
ceiro dia.
A. Calmette, directeur de TInst. bactcriologique de
Saigon. LH tude experimentale du venin de Naja tripudians
ou Cobra capel. Annales de Vinstitut Pasteur. VI. année.
Paris 1892. p. 160—183.
O instituto bacteriologico de Saigon recebeu em
1891 quatorze cobras capeis, capturadas n'uma aldea
invadida por estes reptis venenosos por occasião de uma
enchente, tendo elles nesta occasião mordido 40 pessoas, 4
dos quaes logo morrerão. Estes reptis derão ao Dr.
Calmette occasiäo para fazer os estudos alí publicados.
Elle refere-se quanto ao veneno ophidico, és investi-
cações dos Snrs. Weir Mitchell e Reichard da America,
de Wal e Armstrong em Inglaterra e de A. Gautier e na
França Bull. de "Acad. de med. Janv. 1886). Gautier
tirou do veneno dous alcaloidos, najina e élaphina, com
a reacção dos ptomainos, mas que não são a parte mais
nociva do veneno, sendo este azotado mas não alca-
loidico. Os trabalhos de Gnezda e de Warden não conhece
O he
Calmette. A. Gautier affirma que a saliva das cobras
venenosas differe da nossa antes pela intensidade do
veneno do que pela natureza, visto que o secreto da
elandula parotis tambem do komem contem substan-
cias toxicas (cf. Journal d'anat. et de physiolog. Sept.
Oct. 1881.) Ao contrario existem muitos trabalhos sobre o
veneno da vipera (Pelias berus), particularmente pelo Dr.
land Grandmarais, que no seu artigo «serpents veni-
méux» dans le Dictionaire encyclopédique 3. ser. Tom.
9, publicou a bibliographia completa.
Cada glandula de veneno deu ca. 30 gottas de veneno,
sendo a quantidade total do veneno de uma grande cobra
ca. de 3 grm. O veneno ficou dissolvido em agua na
proporção de 1:50 e desta solução de 2 porc. basta tres
cottas a injectar a um pombo para matal-o dentro de
10 minutos. O coelho francez supporta ds vezes até 1/8
de centm. cub. (— 3 gottas ? v. Ih.) mas por injecção na
veia duas gottas 0 matam com certeza
A mordedura da cobra não mata infalivelmente.
Conforme a estatistica de #ayrer e de Desaint a mor-
talidade media das pessoas mordidas é de 25 à 30 por-
centos. O veneno matou todos os animaes a que se fez as
injeccoes menos a cobra capel mesma e uma outra
cobra não venenosa. E difficil indicar a quantidade
necessaria para produzir a morte para os diversos ani-
maes de experimento, pois uma unica gotta de uma
solução de oito glandulas venenosas em 300 grammas
d'agua destillada e introduzida n'uma veia de um coelho
matou este dentro de 5 minutos. As rãs só sentem depois
de muito tempo o effeito do veneno. Foi feito a uma injec-
cão que em 10 minutos mata o um coelho francez, a
uma rã que ainda vivia por 30 horas.
Um macaco ao qual se fez uma injecção subcutanea
do veneno mostra os seguintes symptomas. O primeiro
signal da acção do veneno é uma fraqueza geral; custa
ao animal andar e manter se nas pernas. Procura
um lugar onde vai parar; as palpebras restam meio
Ds Omo 2
fechadas. Seguem-se os vomitos e anxiedade de respiração.
Deita-se no lado, o rostro virado no chão, ficando cada
vez maior a asphyxia. A urina e os excrementos são lan-
cados, no macho tambem apparecem ejaculações de sperma.
O coração continua a bater ainda cinco minutos depois
de sistida a respiração e então para em diastole.
Todos estes symptomas se explicam pela acção do
veneno sobre a medulla oblongata. Nos globulos san-
guineos Calmette não observou os corpinhos ovoidos
brilhantes que Lacerda descreveu. Comparando a sangue
das pombas antes e durante 0 envenenamento não pude
observar a minima mudança nos globulos de sangue.
Misturado com o sangue o veneno não muda a forma
dos globulos, ou só depois da morte.
O veneno é muito diffusivel, ficando resorvido em
poucos minutos. Calmette fez alguns experimentos com
ratos, que forão inoculados no ultimo quarto de rabo,
sendo depois cortado o rabo na sua raiz. Applicado uma
gotta do veneno em glycerina e sendo o rabo cortado,
despois de 5 minutos já foi absorvido tanto veneno que
o rato morreu ao fim de uma hora, morrendo outro rato
envenenado do mesmo modo e ao qual se deixou o rabo
depois de 40 minutos. Outro rato que recebeu uma
injecção de uma gotta de veneno puro e ao qual cor:
tou-se o rabo um minuto mais tarde, mesmo assim morreu
envenenado depois de 4 horas e 20 minutos. E” pois
evidente que a resorpção do veneno é tão rapida que
já depois de poucos minutos grande parte do veneno
entrou na circulação e que a cauterisação da ferida então
não pode dar mais resultado favoravel.
O envenenamento mais perigoso é o que está intro-
duzindo o veneno na veia. Applicando-se por injecção
subcutanea uma gotta de veneno em glycerina a um
coelho francez esta dose não sempre mata, e applicando-se
duas gottas estas produzem a morte dentro de 8 horas.
Mas se a injecção de uma gotta só é feita numa veia
da orelha, o coelho morre em menos de 5 minutos. A
— 203 —
membrana mucosa da trachea resorve facilmente o veneno,
mas aquella dos intestinos e do estomago não o absor-
vem, de maneira que o veneno ingerido no estomago
não traz perigos.
Lacerda e Fayrer dizem, que o sangue de um animal
matado por envenenamento de cobra é venenoso. Cul-
mette não pode confirmar esta observação, como a trans-
fusão do sangue envenenado nunca deu resultado fatal
para o animal ao qual foi inoculado e Viaud Grand
Marais obtive o mesmo resultado nos experimentos feitos
com viperas.
O veneno da cobra pode ser exposto durante uma
hora ä temperatura de 90º C. sem perder as suas proprie-
dades nocivas, que são destruidas só pela temperatura
de 97° ©. e mais. O veneno tem reacção neutra, dissolve-
se facilmente em agua, mas fica precipitada por alcool forte
alcali volatil, ete., mas este precipidado se resolve de novo
em agua.
Todos os experimentos tendo por fim fazer immu-
nos contra o veneno certos animaes não derão resultado.
Quanto aos antidotos vamos reproduzir as palavras do
autor:
Todos os reagentios até hoje recommendados não
produzem cura. O permanganato de potassio está des-
truindo a actividade do veneno que resta na ferida, mas
não é capaz de impedir os effeitos do veneno que ja foi
resorvido. O veneno já resorvido pode ser neutralisado
somente por injecções de chlorureto de ouro. Até à appli-
cação deste remedio convem impedir o mais possivel
a absorpção do veneno introduzido na ferida em in-
terrompendo a circulação entre a ferida e o coração
mediante de uma ligatura elastica, que pode ser tirada
logo depois da applicação do chlorureto de ouro. Este
reagentio é applicado na solução esterilisada de 1 por-
cento e podem-se applicar successivamente 8 ou 10 injec-
coes de 1 centim. cub., cada uma ao redor da ferida.
Outras infecções podem-se fazer em outras partes do corpo.
CENA
A solução de chlorureto de ouro ha de ser conservada
em vidro de côr amarella ou preta. Até agora o effeito
do chlorureto de ouro foi experimentado só nos animaes
e não no homem.
Afinal deve-se ter em vista o facto, que o veneno
das differentes cobras não produz sempre o mesmo effeito.
Assim o veneno da naja só pouco está modificando a
coagulabilidade do sangue, em quanto que o veneno da
Daboia da India impede a coagulabilidade do sangue
depois da morte.
C. Phisalio et G. Bertrand. Sur la présence de glan-
des venimeuses chez les couleuvres et la toxité du sang
de ces animaux. Comptes Rendues Acad. Sc. Paris. Tome
108. 1894 p. 76—79.
Os autores experimentarão com as cobras não vene-
nosas do genero Tropidonotus, e em especial Tr. natrix
L. Depois de ter reconhecido que o sangue destas cobras
contem veneno, foi estudado qual o orgão que o prepare.
Foi provado que dos diversos orgãos são só as glandulas
salivares, que cóntem o veneno. O extracto das glaudulas
preparado com agua contendo glycerina é tão nocivo,
que bastam dous centimetros cubicos injectados na cavi-
dade abdominal de um porquinho da India para matal-o.
O effeito do veneno é parecido ao da Echidnina.
Este mesmo veneno das glandulas salivares do
queixo superior é encontrado tambem no sangue, e assim
accontece, que 1,5 centim. cub. do sangue applicado por in-
jeccao na cavidade abdominal do porquinho da India mata
a este sob os mesmos symptomas que a mordedura da
vibora produz. E' esta tambem a razão da immunidade
destas cobras contra a mordedura das viboras, facto que
ja foi demonstrado em 1787 por Fontana, observando este,
que as cobras do genero Torpidonotus podem ser mor-
didas por viboras sem consequencias fataes. E' conhecido
que tambem as viboras não podem ser matadas por
mordeduras de outras viboras, sendo a razão a presença
do veneno echidnina no sangue dellas.
A,
— 205 —
Os mesmos autores publicarä : no mesmo Periodico
Compt. r. Paris T. 118 p. 288—291 e p. 356—358 mais
os resultados de dous estudos sobre a acção do calor
sobre o veneno da vibora e sobre a vaccinação do por-
quinho da India. Foi demostrado, que a influencia do
calor modifica o veneno da vibora, diminuindo a força
toxica de maneira, que os mammiferos vaccinados com
este veneno alterado, são mais ou menos immunes contra
o effeito fatal da mordedura de cobra. Existem no veneno
da vibora dous venenos, dos quaes a Echidnase produz
inflammação, sendo o effeito do segundo, i. e. do Echid-
notoxina irritar 0 systema nervoso e alterar a activi-
dade do coração.
A lympha venenosa modificada pelo calor cria no
sangue dos animaes vaccinados uma substancia antito-
xica. E° a idea dos autores, que neste modo será possivel
obter tambem successos therapeuticos.
Temos de mencionar aqui tambem o trabalho de
Jourdain (Ibid. T. 118 p. 207) demonstrando que tambem
outras cobras não venenosas podem ser mordidas pela
vibora sem prejuizo, sendo provavel que esta propriedade
seja commum a todas as cobras. A especie opisthoglypha
Coelopeltis lacertina, passando por innociva tem a glan-
dula do veneno, cujo secreto mata os mammiferos e
passaros pequenos. Ao homem não pode ser perigosa em
vista da situação bem removida por atraz dos dentes
do veneno.
Parece que 0 Dr. Calmette agora prefere ao chlorureto
de ouro o chlorureto de cal que já ha muitos annos foi
recommendado pelo instituto physiologico de Bonn, acon-
selhando o seguinte modo de applicação.
O chlorureto deve ser guardado em garrafa bem rolhada:
visto que não deve ter absorvido humidade alguma.
Antes de applical-o dissolve-se uma parte de chlorureto
em onze de agua a ferver, e com a dissolução dão-se
injeccdes hypodermicas em torno da picada e no abdo-
men, de modo que o remedio entre na circulação o mais
— 206 —
depressa possivel. Affirma que vinte ou trinta centimetros
cubicos da dissolução, ministrados em doses de 5 centim.
cub. bastam para salvar a vida d'um homem. Além disto
continuam os estudos a respeito da inoculação preventiva
para fazer as pessoas immunes dos efeitos do veneno
das cobras venenosas.
ee . de — —_—
Os Unionidos da Florida
PELO
es teia BEBE RES Gs
O methodo scientifico e especialmente na zoologia
é o comparativo. E' facil formar-se a regra de restrin-
elr-se nas suas investigações ao Brazil ou talvez à
America do Sul, mas a sciencia não conhece e não
respeita estes limites artificiaes, de maneira que não é
possivel de determinar de antemão até que ponto a
comparação se estenderá. Assim p. expl. as conchas flu-
viaes da familia dos Unionidos são extremamente diffe-
rentes em diversas regiões da America, mas não conhe-
cemos ainda os limites especialmente em quanto ao
America central. Isto nos explica como o estudo das
conchas de nossos rios e lagoas não se limita ao Brazil,
nem a America do Sul, mas como é precisa de conhecer
tambem as outras regiões zoogeographicas,
A America do Norte é a parte do globo mais rica
em Unionidos, mas falta muito ainda até que a riqueza
extraordinaria que existe, particularmente nas numerosas
especies do genero Unio, seja bem entendida. Muitas
vezes forão conchas de uma especies duas, tres ou mais
vezes, descriptas sob differentes nomes. Zea especialmente,
a grande autoridade neste ramo de estudos, appreseutou-
nos 0 caso raro, que os seus trabalhos tornarão-se mais
fracc de anno em anno, de maneira que nos ultimos -
decennios elle descreven muitas vezes especies de novo,
que elle já antes tinha publicado. Assim se deu p. expl..
que elle até aos diferentes individuos d’uma especie,
tirados todos do mesmo arroio, figurou e descreveu sob
outro nome. Aqui alguns exemplos:
RIO ee
Unio aquilus Lea
U naviculoides Lea
U. maconensis Lea
U. hgatus Lea
U. infuscus Lea
U. fuscatus Lea
U. occultus Lea
Em quanto a literatura a que me refiro noto além
das obras conhecidas de Lea, Reeve e outros:
Berlin Hart Wright. Descriptions of new species
of Uniones from Florida. Proc. of the Acad. of Nat,
Sciences of Philadelphia. 1888 p. 113—120 Pl. I— VI.
Charles T. Simpson. Notes on the Unionidas of
Florida and the Southeastern States. Smithsonian Ins-
titution Proced. of the U. S. National Museum Vol XV
p. 405—436 Pl. 49—74 Washington 1892.
R. Ellsworth Call. A Study of the Unionidas of
Arkansas. Transact. of the Acad. of Science of St. Louis
Vol. VIII, 1895 p. 1—64 Pl. I—XXI.
Foi só agora, nestes ultimos annos, que os Zoologistas
dos Estados Unidos começarão a estudar com mais cri-
tica este assumpto, tirando em consideração a variação
individual e sexual, e combinando em grupos naturaes
as especies aliadas. Sobresahe entre as regiões melhor
estudadas agora o E. de Florida, devido aos importantes
trabalhos de Berlin H. Wright e de Ch. T. Simpson. E
ao primeiro destes dous distinctos conchologistas que
estou devendo boa representação dos Unionidos da Flo-
rida, e as completas series me derão a possibilidade de
seguir o modod e transformação de um especie a outra, se-
paradas até agora sem razão. Dou em seguido o resul.
tado dos meus estudos e folgo que em geral concordo
bem com autores tão competentes como Swnpson e
Wright, e espero que tambem elles de seu lado acharão
onu er
estas observações de utilidade. E” natural que num
estudo tão dificil como aquelle dos Unionidos sempre
existam certas devergencias das opiniões, mas immensa
seria já a vantagem se por todos os Estados da America
do Norte chegamos a uma clareza relativamente tão
bem concordante como para o E. de Florida actualmente
o parece.
Na lista que segue refiro-me especialmente ao tra-
balho de Simpson, mas acceitei algumas epecies não
mencionadas por elle mas incluidas n'uma lista não
publicada que o Snr. Berlin H. Wright me communicou.
Estas especies indicadas por Wright para a Florida são
Unio dariensis Lea, granulatus Lea (parvus), hepaticus
Lea, luridus Lea, micans Lea, obuscus Lea.
Unionidos da Florida !
Unio anodontoides Lea
floridensis Lea
U. modioliformis Lea
Prevostianus Lea
nigrinus Lea
rutilans Lea
Averillii B. H. Wright.
exiguus Lea
subellipsis Lea
U. tenerus Rav.
nashvillensis Lea
U. lienosus Conr
concestator Lea
fallax Lea (Ga. Tenn.)
(1) Não incluo nesta lista uma especie mencionada na
Chek List de B. H. Wright: U. Hartwrighti Newc., por nao
ser publicada.
(?
U.
U.
U.
U:
OL
U.
U.
DE
— 210 —
U. parvus Lea)
granulatus Lea (Alab.)
apicinus Lea (Ga.)
pusillus Lea
buxeus Lea
Anthonyi Lea et var. angulata B. H. Wright.
minor Lea
paulus Lea (Ga.)
. amygdalum Lea
vesicularis Lea
Singleyanus Marsh
lepidus Gould
papyraceus Gould
corvinus Lea (Ga., S. C.)
trossulus Lea
coruscus Gould
Var. Fryanus Wright
diasensis Wright
tortivus Lea
tetricus Lea
fuscatus Lea
ocultus Lea
var. insulsus Lea
purpurellus Lea
denigratus Lea.
hepaticus Lea
Cunninghami Wright
— 211 —
UV. angustatus Lea
aheneus Lea
prasinatus Conr.
Oscari B. H. Wright.
U. Waltoni Wright
U. Buckleyi Lea
Buddianus Lea
Orcuttii S. H. Wright
Dorei B. H. Wright
Simpsoni B. H. Wright
Dallii B. H. Wright
Hinkleyi B. H. Wright
Ferrisii Marsh
ocmulgensis Lea
Liebmanni Phil. (1),
mexicanus Phil.
Var. lacustris : U. Jayanus Lea
U. Marshii B. H. Wright
U. Tryoni B. H. Wright
U. dariensis Lea (cf. Nautilus IV. 1891 p.
hopetonensis Lea
U. obesus Lea
Blandingianus Lea — hebes Lea
paludiculus Gould
rivicolus Conr.
tetraformis B. H. Wright
U. Jemettii Lea
U. obfuscus Lea
(1) Tenho exemplares typicos na minha collecção.
125
See te
Pire
. obnubilus Lea
? opacus Lea
? fumatus Lea
? aequatus Lea
? Nolani B. H. Wright
. luridus Lea
lugubris Lea
subluridus Simps.
micans Lea
. subgibbosus Lea
subangulatus Lea
. Forbesianus Lea
vestitus Lea
Moussonianus Lea
U. monroensis Lea
U. squalidus Lea
. dorsatus Lea
. Downie: Lea
Websteri B. H. Wright
U. infucatus Conr.
Kleinianns Lea
succissus Lea
cacao Lea
ERA o
U. cicur Lea ( cf. Nautilus IV. 1891 p. 125)
Anodonta Couperiana Lea
Dunlupiana Lea
SE
GE >=
Antes de tratar dos caracteres desta singular fauna
vou communicar uma tabella dando a distribuição geo-
graphica de todas estas especies.
VIDE A TABELLA NA PAGINA SEGUINTE
AS
ESPECIES
Georg,
Outros Estados
Carol.
EE a ie JUL eat, aI, Domes
*
Unio anodontoides Lea
U
Ur
Anodonta Couperiana
. modioliformis Lea
. tenerus Rav.
. lienosus Conr.
. parvus Lea
. pusillus Lea.
. Anthonyi Lea
. minor Lea
. amygdalum Lea
. trossulus Lea
. coruscus Gould
. tortivus Lea
. purpurellus Lea
. hepaticus Lea
. Cunninghami Wright
. angustatus Lea
. Waltoni Wright
. Buckleyi Lea
J- obesus Lea
. Jewettil Lea
. obfuscus Lea
. obnubilus
. lugubris Lea
. subluridus Simps.
. subgibbosus Lea.
. subangulatus Lea
. Forbesianus Lea.
. monroensis Lea
. squalidus Lea
. dorsatus Lea
. Downiei Lea
. Websteri Wright
. infucatus Conr.
. succissus Lea
. luridus Lea
Lea
micans Lea.
dariensis Lea
cicur Lea
Lea
ps
Pe e Saat E pa |
? |O. Miss.,Alab., Tex.
1| Miss., Alab.
Tenn., Alab.
Alab., O.)
[||
Mexico
Va., Texas., La.
mm
—
—
La., Missou., Ark.
|
CAP EE CEM RR ES
Roi
Notei nesta tabella com um asterisco as especies
representadas na minha collecção.
São, como se está vendo, não numerosas as especies
limitadas á Florida, a maior parte é encontrada tamoem
na Georgia e Carolina. Typos bem caracteristicos da Flo-
rida não existem e entre os que tambem na Georgia, etc.
vivem é notavel sómente Unio infucatus Conr., uma das
especies mais singulares da America do Norte. Concordo
bem com Simpson, que diz que não pode ser comparada
com as outras especies da America do Norte mas antes
com U. corrugatus da India. Os Unio esculptados dos
Estados Unidos são de typo nodulifero ou undulifero, mas
este typo antes pode ser tratado de angulifero. E’ certo
que estes typos são ligados entre si, de maneira que do
typo angulifero formarão-se os outros e podemos crêr;
que no tempo terciario e talvez antes especies de typo
angulifero não faltarão nos Estados Unidos, mas hoje
U. infucatus é o unico representante na America do Norte
como um fossil vivente.
E’ pois minha idea que U. infucatus não é typo
caracteristico da Florida, mas que elle persistia ali,
sendo extinguido nas outras regiões antigamente por elle
habitadas. Esta idea deve tambem ser a de Simpson que
diz que U. infucatus ás vezes apparece em variedades
quasi lisas e que de maneira assemelhão-se ao U. chic-
kasawhensis, que esta especie pode ser considerada como
o representante de U. infucatus nas aguas do Missisippl.
Não temos, pois, typos bem caracteristicos da região
à leste dos Alleghanies, mas esta fauna é nada mais do
que uma parte empobrezida da fauna do valle de Mis-
sisippi. Esta fauna é mais rica ainda na Georgia, onde
por exemplo os grupos do Unio ventricosus, U. clavus,
etc. ainda tem representantes, que na Florida não existem.
De certo existiu na epoca terciaria boa communicação
entre os systemas hydrographicos de ambos os lados dos
Alleghanies. Depois de interrompida esta communi-
— 216 —
cação formarão se novas especies de ambos os lados e
grande parte da fauna antiga commum extinguiu-se.
Mas esta antiga communicação das aguas agora
separadas foi mais intensa e conservou se por mais tempo
na Georgia e nas Carolinas do que na Florida, pois ha
na Georgia especies de Margaritana e typos de Unio
não representados na Florida. Assim temos na Georgia
representantes dos grupos de
U. ventricosus Barn.
U. ventricosus Barn. (dolabraeformis Lea)
U. ovatus Say (excavatus Lea)
U. multiradiatus Lea
(lineatus Lea femea)
(doliaris Lea macho)
U clavus Lam.
U. consanguineus Lea
U. chattanoogaensis Lea
U. anaticulus Lee
U. circulus Lea
U. keinerianus Lea
U. Murrayensis Lea
U. irrasus Lea
U. lacrymosus Lea
U. Blandianus Lea
U. Rumphianus Lea
U. plicatus Lea
U. atrocostatus Lea
Nenhum destes grupos vive na Florida, tão pouco
como uma especie de Margaritana. Assim estamos vendo
que a serra dos Alleghanies não forma um limite z00-
logico, e se mesmo assim com Simpson quer-se acceitar
SN Ses.
a região atlantica como uma provincia zoologica, tem
de notar-se que ella apenas é empobrecida e antes por
caracteres negativos do que por caracteres positivos
distinguida. Desta subregião atlantica a fauna da Florida
é uma parte integrante cada vez mais empobrecida. Não
é crescido por ora o numero de especies de Unios da
Florida, que tem uma distribuição vasta. São as se-
guintes.
U. anodontoides Lea: Ga. Alab., O., Miss., Tex.
U. modioliformis Lea: Ga. C., Alab., Miss.
U. parvus Lea: Ga., Alab., O.
U. Buckleyi Lea: Ga., Mexico
U. obesus Lea: Gas C2" Vas, bas lex.
U. subgibbosus Lea: Ga., La. Ark.
I pouco provavel que não haja outras especies na
mesma condição, e que p. expl. U. amygdalum Lea,
U. angustatus Lea ou certas variedades dellas não sejam
tambem especies de uma extensa distribuição geogra-
phica, mas isto por hora não se sabe, porque não é
completamente estudada a respectiva synonymia. Da
mesma maneira não duvido que de modo que os Unioni-
dos da Georgia formarão o objecto de estudos mais serios
e criticos, a comparação demonstrará ali representadas
cortas especies que por ora só conhecemos da Florida
e que são: U. Anthonyi Lea, coruscus Gould, Cunninghami
Wright, Waltovi Wright, subluridus Simps., monroensis
Lea (Forbesianus Lea?), Websteri Wright, succissus Lea.
No principio da formação terciaria a Florida ainda
foi submergida sob 0 nivel do oceano Atlantico. Foi,
pois, na segunda metade do terciario 1. é, no neogeneo,
que as aguas doces da Florida se formarão e receberão
a sua fauna d'agua doce das regiões limitrophes. De
certo naquelle tempo e até na formação pleistocena as
aguas hoje separadas da Florida, Alabama, Tennessee,
Georgia, etc., estiverão em communicação, e se na Florida
— 218 —
encontramos a fauna muito mais pobre de Unionid
isto em parte será devida a uma separação do systema
hydrographico mais antiga. Assim certas especies pu-
derão extinguir-se, sem que outras novas pudessem
entrar. Outra razão desta uniformidade será o caracter
hydrographico. Toda a Florida é terra baixa sem serras
altas, arroios, rios magestosos e encachoeirados, de ma-
neira, que grande parte das especies de Unio ali vive
em lagoas.
Tudo isto é differente na Georgia e nas Carolinas.
Sem duvida hoje a serra dos Alleghanies é uma divisa
completa das aguas e embora que o systema das Alle-
e@hanies seja velho não podemos duvidar, que ainda no
tempo terciario tinha de subir modificações, elevações ou
depressões locaes ou geraes, de maneira que aguas que
antigamente correrão ao Missisippi depois poderão
tomar o rumo ao Atlantico, como em outras serras consta
por muitissimos exemplos. E’ assim e só assim, que
podemos entender porque a serra dos Alleghanies não
forma uma divisa zoogeographica muito mais importante.
Nos rocky mountanis não existe ao contrario uma unica
especie identica de ambos os lados daquella serra, se
não queremos fallar de uma especie circumpolar hola-
rctica, Margaritana margaritifera. Sao bem singulares
os Anodontas da California e do Oregon, sendo An. Wa-
hlamattensis e as especies parecidas identicas com An.
rostrata Kock. da Europa e que não tem representação
nos Estados Unidos a leste dos rocky mountains. O
cenero Unio quasi não está representado ali e uma das
respectivas especies (U. famelicus Gould) não é caracteris-
tica. Ao contrario a outra, U. oregonensis Lea é tão se-
melhante aos Unios do mesmo ty po encontrados no Mexico
e na America central, que talvez será reconhecida iden-
tica com U. Rowellii Lea e outras especies parecidas, não
podendo eu admittir como exactas as ideias emittidas
a respeito por Ch. Simpson.
Assim me parece que os Estados pacificos em parte
NU pc
receberão os seus Unionidos do Norte e em parte formão
uma provincia natural com a America central. Será só
mais tarde possivel occupar se mais exactamente com
estas questões, quando conhecemos Unionidos fosseis
dos Estados pacíficos e da California. O que ja hoje po-
demos dizer, é que as montanhas rochosas formam uma
divisa zoogeographica muito mais importante do que
a serra dos Alleghanies.
Summary
Having received by Mr. Berlin Hart Wri ht many
species of Unionides from Florida, and being the matter
well studied by him and by Charles T. Simpson, I have
pusblished here the results of my respective study,
indicating by an asterisk the species represented in my
collection, and hoping to receive by the time the others
species, which in great part seem duvidous to me.
The list of species and of the geographical distri-
buition is given. Florida has some species not recog-
nized today in Georgia etc. (U. Anthonyi, coruscus, Cun-
ninghami, Waltoni, subluridus, monroensis, Websteri-
succissus), but these may be recognized as identical to
others and may be found also in other states. The only
singular type is U. infucatus, a living tertiary fossil,
extinguished in others regions of North America.
The Florida fauna therefore is not at all a caracte-
sic one, but a depauperated one, related with the
Missisippi fauna. Unio parvus seems not to be represented
in Florida, but substituted by U. amygdalum. U. minor
Lea is represented. I can not accept the synonymy of
E. Call in this point. U. minor is a good species from
which U. paulus Lea not differ, and allied to U. glans
Lea., of which marginis Lea is synonymic. Not being
disposed to accept the combination of parvus and minor,
on the other hand I cannot understand how Simpson se-
Spies
pares the very allied forms of the amygdalum group.
The true parvus seems not to occur in Florida, but in-
Georgia, where the variety with more marked undula-
tions was named otherwise by Lea.
Tagree with Simpson in the synonymy of U. modio-
liformis and believe it necessary to join U. Prevostianus
Lea. Allied species are U. lienosus and tenerus, both
probably only varieties of one species, and which has an
other and angular form of the posterior extremity of
the female as it isthe case of U. modioliformis. It seems
to me to be quite essential, to know of all species 01
Unio: the sculpture of the beaks and the difference or
sexes as soon as there is any such dimorphisme.
It seems to me that north american conchologists,
in accompanying Leas errors, are always much dis-
posed, to avalue too much the value of the Alleghanies
as a faunistical separating barrier. The Alleghanies by
no means have such an importanceas the Rocky Moun-
tains have, nor for fishes nor for Unios. We have nu-
merous species identic to both the sides of the Alle-
ghanies, and in Georgia we have as demostrated above
representants of such characteristical groups as Unio
ventricosus, ovatus, clavus, circulus, lacrymosus, plicatus,
etc. are. In Florida th Unionid fauna is the same but
depauperated, having no Margaritana, but one Anodonta,
and none of the types above cited from Georgia
The Roky Mountains form a much more important
limit, as we have besides of the holarctic Margaritana
margaritifera the european Anodonta rostrata Kock called
An. nuttaliana Lea (1) and 2 species of Unio, concernig
to which I am not in concordance with Simpson, judging
Unio oregonensis Lea, which he says to be allied to
luteolus, as a membre of the great number of sulcate
(1) Synonymic are A. wahlamatensis Lea and californiensis
Lea, but. A. oregonensis Lea and angulatus Lea are different
species.
— 221 —
Unios well represented in Central America. Unio ore-
gonensis Lea is allied to U. Rowellii Lea and others:
and I have no doubt that systematically organised re-
searches will learn us some more species of Unio of the
Pacific slope. The depauperation of Unionids is howewer
avery great and singular one, and we may be very
anxious to know the fossil species of Unio.
In Mexico there is a singular ageregation of north
and central american Unionidae besides especial forms
and some south american ones. There existe Anodontas
(An. globosa Lea, nopalatensis Reeve, viridans Cless.
besides of Glabaris (Gl. glauca Val, ciconia Gould, Brid-
gesil Lea, Strebeli Lea). (1)
Thus the pacific province and the mexican are im-
portant ones, being on the contrary the Alleghanies a
barrier of secondary value in a common great province
We must suppose, that the Alleghanies, althoug a
very ancient vrange of mountains, have ondergone some
changes of nivel and of hydrography during the ter-
tiary period, and that thus the rivers now separated
once were comunicating. Sooner, etablished the sepa-
ration hydrographic, some species remained conserved
identic, others remained on one side of the Alleghanies
extinguishing on the other, and other species have
ondergone modifications, which determine a specific
separation, as p. expl
Atlantic slope Missisippt drainage
U. nasutus Say — JU. subrostratus Say
U. cariosus Say — JU. ovatus Say
U. ochraceus Say — U. multiradiatus Lea
U. radiatus Lam. — U. luteolus Lam.
U. complanatus Sol. — U. camptodon Say
(2) Next year I will publish a Catalogue of Glabaris. Con-
chologicaly are the beaks (smooth in Glabaris, undulous etc., in
Anodonta) and the ligamental sinus quite sufficient for the
distinction of the two genera.
= Doe
We are now on the best way to study the syno-
nymy and relations of the different natural groups of the
United States Unios, and these studies and the fossil
material by the time will permitte us, to make a recons-
truction of the ancient hydrographic and faunistic con-
ditions.
CONCHAS MARINAS
DA FORMAÇÃO PAMPEANA DE LA PLATA
PELO
DRE MONTRE RENE
Ha dous annos que me mandou para examinal-as o
distincto paleontologista argentino Florentino Ameghino
uma pequena collecção de conchas marinas achadas por
elle na formação pampeana de La Plata.
E’ esta aqui a primeira e unica publicação que sobre
o assumpto estou fazendo; foi, porém, já muito conhecido
o resultado destes estudos, pois apparecerão communica-
ções sobre elles nos jornaes «Science» de 19 de Abril de
1895 e «Globus» Vol. 68. 1895 N. 4 pag. 68. Não duvido,
que a origem destas publicações seja devido ao Snr. Flo-
rentino Ameghino, a quem tinha communicado um rela-
torio sobre as minhas pesquizas.
Sobre a formação dos pampas argentinas emittirão
os diversos naturalistas, que do assumpto se occuparam,
as opiniões mais differentes.
D Orbigny julgou estes sedimentos formados pelo mar.
Neste sentido o accompanhou Darwin, explicando, que
nas concreções calcareas achadas no meio dos depositos
pampeanos e tratados «toscas» existem foraminiferos,
provando a origem marina, conforme ao examen feito
por Carpenter. Burmeister contestou esta observação,
oppondo resultado negativo das suas pesquizas.
Bravard, ao contrario, declarou o material da forma-
ção pampeana como comoros deslocados pelo vento e
Santiago Roth acceitou e modificou esta theoria, refe-
Mona
rindo-se ás novas theorias sobre a formação do « loess »
pelo vento, com transformação secundaria dos depositos.
Burmeister, Ameghino e outros sabios julgam estes
sedimentos produzidos por agua doce, em parte por lagoas,
rios, etc. em parte por enchentes. Burmeister oppoz a
theoria de D'Orbigny dous argumentos dos mais impor-
tantes 1.) que esta formação pampeana não é limitada
ás planicies argentinas. mas que ella está subindo na
Republica Argentina à altura de 1700 m. e na Republica
Bolivia mais alto ainda (1). Não se pode pois accreditar
que o mar até a estas alturas tenha subido, e especial-
mente como na Patagonia estes depositos completamente
faltam 2.) que se encontram muitas vezes esqueletos in-
teiros no meio desta formação, sendo impossivel, que os
rios e depois o oceano transportassem a grande distancia
os corpos pesados de Glyptodontes. Além disto achou-se
o esqueleto completo de um Mylodon gracilis junto com
o seu filhote, sendo assim provado que elles morreram
ali mesmo, seja sumindo-se no lodo ou seja apanhados
no banhado por enchente.
Burmeister considerou a formação pampeana como
diluviana ou postterciaria. Foi Ameghino que demonstrou
a idade terciaria. Sabemos agora por Dall, em Washing--
ton, que na America do Norte forão encontrados mam-
miferos fosseis, característicos da formação pampeana e
emigrados para norte, sob camadas com conchas fosscis
do plioceno superior. Não resta nos, pois, a minima du-
vida sobre a idade pliocena de formação pampeana. Com-
parando as varias explicações sobre as formações tercia-
rias da Republica Argentina encontramos as maiores
divergencias entre Ameghino, Doering, Burmeister, Santiago
Roth e outros.
A questão é muito complicada, mas existe um meio
certo de estudar a idade das differentes camadas e faunas,
(1) Se bem a idade destes depositos seja a mesma, o será
tambem o modo de formação. Tenho duvidas neste sentido.
a comparação dos mammiferos com as especies norte-
americanas. Nas camadas eocenas e miocenas faltam na
Argentina os typos norte-americanos, na America do Norte
os typos argentinos. E’ só no fim da epoca miocena ou
no principio da pliocena, que apparecerão os immigrantes
novos, como signal da ligação definitiva de ambas as
Americas.
Só os trabalhos scientificos que tomam por base estas
considerações merecem toda a nossa attenção, e neste sen-
tido são os trabalhos de Ameghino os mais importantes.
N'um trabalho interessante trata Zittel no mesmo
sentido. Ha entre elle, Ameghinv, mim e outros, que com
a questão se occuparam, quasi completa concordança das
opiniões. Na divergencia que houve entre mim e Ajne-
ghino está Zittel (1) no meu lado, reconhecendo já aa ntiga
fauna eocena da Argentina, differente daquella da America
do Norte e antes em relação com aquella que naquelle
tempo deve ter tido na Australia. A formação araucana,
na qual a primeira vez apparecem na Argentina os typos
immigrados da America do Norte (Tapirus, Mastodon,
Canis, etc.) considera elle pliocena, mas do principio
desta formação.
Concordo em geral com Burmeister (2) quanto ao
modo do que foi formado o solo dos pampas. Tive a 0c-
casiäo (3) de elucidar um ponto bem dificil de entender:
a pobreza ou quasi absoluta falta de petrefactos. Expondo
a vida animal da Lagoa dos patos. pude demonstrar que
não ha agua mais pobre em conchas, crustaceos, etc., do
que estas lagoas de agua ás vezes doce ás vezes salobre,
(1) A. A. von Zittel. Die geologische Entwicklung, Her-
kunft und Verbreitung der Säugethiere. Sitzungs—Ber. d. K.
Baier. Akad. d. Wissens. math. u. phys. Klasse Bd. XXIIT
Heft II. Munchen 1895.
(2) Burmeister. Description physique de la Republique Ar-
gentine. Tom. II. Paris 1876.
(3) H. von Ihering. Die Lagoa dos patos. Geograph. Ges.
Bremen, Bd. 8. 1835 p 16%—2)5. Taf. IL.
= 1996
que são situadas entre o oceano e a embocadura de um
caudaloso rio. Creio nestas condições que para entender
bem a formação das pampas deve ter-se conhecimento
das condições da vida organica na lagoa dos patos e nos
terrenos alagadicos da Florida.
Se bem em geral accordo com a opinião de Burmei-
ster e outros, não julgo de modo algum possivel, conhecer
ja hoje a extensão que por bahias mais ou menos extensas
teve o mar, e o papel que o mar fez na deposição dos
materiaes dos quaes se compõem as camadas pampeanas,
Só quando estudos como este serão muito mais numerosos,
é que poderemos julgar bem a questão. Pois camadas
sem objectos fosseis podem ser tanto marinos como depo-
sitados em agua doce. Se bem que eu julgue importantes
as deducções de Burmeister, não tenho duvida que à
communicações como esta seguirão-se outras. Em todo
caso vale a pena independente de qualquer theoria, es-
tudar aqui o que sabemos até hoje a respeito de restos
marinos da formação pampeana.
Darwin (1) falla varias vezes sobre restos marinos
encontrados na formação pampeana. Assim (p. 131) elle
declara, que Carpenter encontrou no material das con-
creções de tosca restos de coraes, esponjas e Polythala-
mias, e que Zhrenberg encontrou na massa calcarea em
que forão encontrados os ossos e dentes fosseis, foramini-
feros, em parte marinos em parte de agua salobre ou doce.
Burmeister p. 176) emitte duvidas na exactidão dos
resultados de Carpenter, duvidas que só entende quem
sabe que Burmeister não quiz admittir que sejam encon-
trados fosseis marinos. Carpenter, porém, neste sentido
foi autoridade.
Burmeister tambem em outro lugar demonstrou a sua
tendencia de não entender, o que certos factos provam.
O Sr. Moreno deu a elle amostras de coraes, pedaços de
(1) Ch. Darwin. Geologische Beobachtungen über Siidamerika.
Stuttgart 1878.
— 227 —
colonias immensas de duas especies de Astraea, encon-
trados a S. Nicolas em 2 m. de profundidade. Mas Bur-
meister não conclue o que devia, e diz pag. 177: « On
ne sait d'ou sont venus ces morceaux, car ils n'ont pas
les caractéres d'une formation sur place, et il n'existe
pas de formation antérieure dont ils aient pu se détacher.»
Os factos que logo depois communicarei rejeitam estas
hypotheses e duvidas.
Não sou capaz de julgar melhor a explicação dada
por Santiago Roth (1). Elle escreve (pag. 434): Achei
no pampeano medio e superior ossos de mammiferos
com conchas marinas. O «loess» em que encontraram-se
estas conchas nem por isso é formado numa bahia do
mar, mas as camadas já formadas do «loess» chegarão
por submersão do solo sob o nivel do mar, ou talvez 0
«loess» foi formado perto de uma costa do mar.
E” singular como a dedicação a uma theoria predi-
lecta faz cego para a observação e discussão imparcial
dos factos.
Foi Ameghino (2) o primeiro, que reconheceu como
marinas as conchas por elle encontradas no meio do barro
pampeano. Elle me mandou uma collecção destas conchas,
achadas em La Plata, no piso belgranense.
His a lista delles.
Conchas marinas da formação pampeana, piso belgranense.
La Plata
Purpura haemastoma L.
Nassa polygona Orb.
Bullia deformis King.
4) Suniago Roth. Beobachtungen über Entstehung und
Alter der Pampasformation in Argentinien. Zeitschr. d. deutsch.
geolog. Ges. 1888, p. 375—464. Taf. XXII u. XXIII.
(2) Florentino Ameghino. Contribucion al conocimiento de
los mamiferos fosiles de la Republica Argentina. Actas de la
Acad. nac. de Ciencias, Cordoba, Tom VI. Buenos Aires 1889.
= 2) q
Olivancillaria auricularia Lam.
Voluta brasiliana Sol.
Littorina flava King.
Littorinida australis Orb.
Crepidula sp. (protea Orb.).
Ostrea cristata Born.
« puelchana Orb.
Mytilus platensis Orb.
« exustus L.
Arca Martinii Recl.
Azara labiata Mat.
Tagelus gibbus Spengl.
Mactra patagonica Orb.
« isabelleana Orb.
« byronensis Gray.
Cytherea rostrata Kock.
Além destas conchas houve na respectiva collecçäo:
o otolitho de um peixe da familia das Sciaenidas, da
Corvina: Micropogon Furnieri Desm. KE’ peixe do mar,
que porém entra no curso inferior dos grandes rios e
que é encontrado na Lagoa dos Patos e no Rio da Prata.
As conchas da nossa lista pertencem todas a especies
ainda communs nas costas argentinas, a excepção das
tres seguintes: Purpura haemastoma, Littorina flava,
Nassa polygona, que hoje não são encontradas mais para
Sul, do que em St. Catharina ou no Rio Grande do Sul.
Littorina flava e Nassa polygona não são actualmente
conhecidos nem do Rio Grande do Sul nem do La Plata,
mas sim de St. Catharina, S. Paulo e mais ao Norte.
Quanto a Purpura haemastoma é ella especie muito di-
vulgada nas aguas da Europa e America. D'Orbigny, Petit
e outros sabios julgam esta vasta distribuição como de-
vida á navegação, que ds vezes carrega presos no casco
do navio certas conchas ou crustaceos. Sabemos po-
rém que esta argumentação neste caso é falsa, e conhe-
cemos agora esta especie de camadas terciarias não só
da Argentina mas tambem da Europa.
— 229 —
Diremos, pois, que as conchas ali encontradas fosseis
säo todas de especies vivas, mas em parte de especies
que näo säo mais encontrados hoje ao sul de St. Catha-
rina ou do Rio Grande do Sul. Se assim podemos con-
cluir, que a temperatura do mar que cobriu La Plata foi
mais elevada um pouco, estamos confirmados neste
sentido pela presença de coraes do genero Astraea, que
pelo que sei agora não são encontrados ao Sul do Paraná
e St. Catharina.
Se naquelle tempo houve em La Piata uma bahia
do oceano, esta com certeza por muito tempo ainda con-
servou-se, visto que tenho recebido do Dr. HWlorentino
Ameghino tambem de depositos modernos de La Plata
conchas marinas, sendo ellas :
Tagelus gibbus Spengl.
Olivancillaria auricularia Lam.
Mactra isabelleana Orb.
Ostrea cristata Born.
Ostrea puelchana Orb.
Bullia cochlidium Kien.
E” provavel, que os bancos com Azara labiata perto
de Buenos Ayres sejam mais modernos ainda e deposi-
tados em agua salobre, sendo ao contrario provenientes
do mar as especies agora mencionadas.
Üebersicht der Resultate.
Im Allgemeinen nimmt man jetzt mit Burmeister an, dass
die Ablagerung der Pampas in Süsswasser erfolgte. Das letzte
Wort ist aber in dieser Angelegenheit noch lange nicht ge-
sprochen, und Beobachtungen wie die vorliegende sind beson-
ders geeignet zur Vorsicht und zu weiteren vorurtheilsfreien
Studien anzuregen.
Die hier mitgetheille Liste mariner Conchylien aus dem
Pampaslehme von La Plata führt uns eine marire Küstenfauna
vor, die nur wenig von der heutigen Argentiniens abweicht.
Dagegen befinden sich in ihr drei Species die heute nicht mebr
so weit siidlich leben: Purpura haemastoma, Littorina flava»
Nassa polygona. Erstere kommt noch in Rio Grande do Sul,
letztere beiden kommen noch in Santa Catharina vor. Purpura
haemostoma ist eine weit verbreitete Species, von welcher
Orbigny, Petit u. a. annehmen ihre Verbreituns sei grossen-
theils passiv durch die Schiffahrt erfolgt. Diese Annahme ist
hierdurch widerlegt, zumal wir auch in Europa diese Art aus
Terliarschichlen kennen.
Es wird also damals die Temperatur des Meerwassers in
Argentinien etwas hôher gewesen sein, eine Annahme fir die
auch der Fund von zwei Arten Korallen der Gattung Astraea
spricht, da auch diese heute nicht siidlich von Paraná und St.
Catharina angetroffen werden. Burmeister suchte diese ihm
unbequeme Thatsache durch Annahme einer sekundären Lager-
statte zn entkräften, wie er seine negativen Ergebnisse jenen
Carpenters entgegenstellte, der in Kalkknollen («toscas») der
Pampasformation Foraminiferen, Korallen und Schwaemme nach-
wies. Auch Santiago Roth, der im Anschlusse an die neue
Loesstheorie einen aeolischen Ursprung des Pampaslehmes an-
nimmt, entzieht sich den klar gebotenen Folgerungen, wenn er
die schon abgelagerteu Massen der Pampasformation sekundiir
unter den Meeresspiegel gelangen und da mit marinen Schalen
durchsetzt werden lässt, die er nachher mit Säugethierknochen
zusammen antraf.
— 231 —
Die hier mitgetheilten Thatsachen entziehen diesen Hypo-
thesen den Boden, und lassen àltere Beobachtungen wieder zu
ihrem Rechte kommen. Wenn Schichten der Pampas, die
seither für Ablagerungen in Süsswasser gallen, marinen Ur-
sprungs sind, so kann eventuell anch die ganze Formation ma-
rinen Ursprungs sein. Es ist Aufgabe der Zukunft diese Ver-
haltnisse aufs Neue und griindlich zu untersuchen. Erst dann
wird sich beurtheilen lassen, welchen Einfluss das Meer
hier hatte, ob es sich um eine allgemeine Bedeckung oder um
mehr oder minder ausgedehnte Buchten desselben handelte.
BIBLIOGRAPHIA
© Res 5.06
E E SSS SSS
ae 2 à
a) Os Museus da America do Sul.
===
PES
Não é pequeno talvez o numero de Museus que já
existem na America do Sul. Para nós, porém, só podem
ser de interesse os Museus organisados sobre base scien-
tifica é com pessoal competente. De Museus que cor-
respondem a estas exigencias temos dous no Brazil— os
de S. Paulo e do Pará —dous na Republica Argentina —
os de Buenos Ayres e de La Plata—um em Motenvideo
« um no Chile, em Santiago.
Todos estes Museus como tambem varias Sociedades
sctentificas publicaram nos ultimos annos numerosas
publicações. Infelizmente não recebemos aquellas do
Museu de Buenos Ayres, dirigido por meu distincto
amigo Dr. Carlos Berg. Quanto aos outros dou no se-
guinte o relatorio completo. O Museu de S. Paulo, que
só neste anno acabou a sua nova organisação, até agora
não tem publicado trabalhos scientificos, à excepção do
pequeno catalogo dos mammiferos de S. Paulo (de 1894).
Anales del Museo nacional de Montevideo. Publicados
baja la direcion de J. Arechavaleta. Nº TI. Montevideo
1894.
O primeiro numero desta nova publicação já nos
deixa reconhecer que está na altura de uma revista
moderna dedicada ao estudo da historia natural de sua
patria. Será, pois, mais um passo nó desenvolvimento
scientifico da America do Sul, e assim damos os nossos
parabens ao director daquelle estabelecimento, que por
— 234 —
decenios achou-se no estado ridiculo de muitos Museus
sulamericanos, que é afinal o estado de cada Museu ad-
ministrado por pessoas de influencia local e não por pessoas
formadas e dedicadas ás sciencias. Foi no anno de 1890
que o celebre Carlos Berg, actual director do Museu
Nacional de Buenos Ayres. foi incumbido da direcção
daquelle instituto, que eu ainda um anno antes não
pude vêr sem um sentimento de lastima e misturado
com um sorriso ironico, com os mesmos sentimentos
afinal, com os quaes alguns annos depois acceitei a di-
reccäo do Museu sob meu cargo. A direcção do Dr.
Berg foi de pouco tempo, mas bastava para dar ao Museu
de Montevideo o seu actual cunho, o seu caracter scien-
tifico. E’ de summo interesse comparar nas diversas re-
publicas da America do Sul o caracter dos Museus e dos
ontros institutos scientificos. Uns, são dirigidos por
celebridades nacionaes incapazes, simplesmente carica-
turas, e outras se poem ao lado dos melhores da Europa
e da America do Norte. Assim os Museus, institutos
bacteriologicos, agronomicos, etc., podem servir para
medir o valor e a capacidade de um governo, como o
consumo do sabão, segundo Ziebig, indica a altura da ei-
vilisação de um povo. |
A antroducion» escripta pelo Dr. C. M. de Pena nos
dá uma instructiva idea da historia não só do Museo mas
tambem dos trabalhos scientificos no Estado Oriental.
São dois sabios importantes Pérez y Castellano e o padre
D. À. Larrañaga que no principio deste seculo dedicarão-se
ao estudo da historia natural de seu paiz e tornarão-se
uteis pela introducção de muitas plantas domesticadas.
Em geral se deu com elles o que se dá com os autodi-
dactos que vivem fóra de contacto com a sciencia. Não
creio, que será de grande utilidade publicar ainda os
manuscriptos velhos. Assim o que está publicado neste
numero por Zarrañaga sobre a «formacion geologica do
Rio de La Plata» é de pouco valor pela falta de determi-
nações exactas. O mesmo se dará com os trabalhos bo-
DONS
tanicos, e até com os manuscriptos de Bonpland, cuja
publicação só seria util, se um botanico competente estu-
dasse de novo por muitos annos a flora das Missões. Se não, à
identificação ficaria em muitos casos duvidosa, e du-
vidas temos bastantes na sciencia, não vale a pena aug-
mental-as. Ainda hoje temos muita dificuldade para
verificar as especies descriptas por Marcgrave, Azar,
Gay e sendo isso ás vezes impossivel por numero cres-
cido de especies.
As contribuições valiosas deste numero são; 0 prin-
cipio da descripção dos gramineas do Uruguay por .
Arechavaleta e a descripção de novos hemipteros por
C. Berg. O trabalho sobre as gramineas é munida de
boas figuras e será de summo valor quando acabado. No
artigo de Berg encontramos tambem especies brazileiras
provenientes de Matto-Grosso, do Rio Grande do Sul, e
de S. Paulo, colligidas por Rohde, v. Lhering e Puiggari,
agora botanista da Commissão Geographica e Geologica
de S. Paulo e que por suas collecções botanicas e ento-
mologicas muito contribuiu para o conhecimento de
certas partes da flora e fauna de S. Paulo. As respectivas
especies, colligidas em Apiahy são :
Arotrocoris dentifer. Berg.
Cebrenis latifrons Berg.
Desejamos que o Museu de Montevideo continue
neste raino e nunca mais fique presa de ignorantes
incompetentes, cuja unica recomendação é a protecção
do Governo.
Revista del Museo de La Plata, dirigida por F. P.
Moreno. Tomo IV. La lata 1893.
Um volume forte de 432 paginas, mas que não ostá
bem ad altura de seus antecessores. Falta em primeiro
lugar o relatorio annual do director, dando conta dos
trabalhos no Museu, cujo desenvolvimento sorprehen-
dente tanto gosto nos deu nos volumes anteriores. Entre
— 236 —
os trabalhos temos de mencionar o diccionario Mocovi-
espagnol do snr. 4. Lafone Quevedo. O snr. À. Hauthal
descreve um novo genero de filiceos de la formacion
rhetica del Challao (Prov. de Mendoza) sob o nome de
Bravardia mendozensis, e elle dá pormenores sobre a
formação carbonifera de S. Rafael ( Prov. de Mendoza ).
Elle tambem faz aleumas observações sobre as morenas
e outros signaes do tempo glacial de Mendoza. Parece-me,
que o Museu de La Plata devia mandar estudar muito
mais em extenso esta questão importante, publicando
depois os resultados com illustrações photographicas.
Um estudo interessante publica o snr. 77. ten Mate sobre
os craneos dos indios araucanos da Republica Argentina.
Elles são por 80 ‘, brachycephalos-e o apparecimento
de craneos mesocephalos e dolichocephalos, proveniente
talvez da influencia dos indios da terra do fogo, é um
facto inesperado e inexplicado.
O resto dos trabalhos e de menor interesse. As
notas de viagens do snr. Burmeister (Patagonia) e Am-
brosetti (Missiones) são agradaveis a lêr mas sem valor.
E” bem singular um trabalho grande de XY. Ramos Mexia
da Evolucion de los animales» compilação sem mereci-
mento. A ideia, que o signal da Swastica prova, que
os «sabios prehistoricos» sobre a evolução tiverão «conhe-
cimentos» mais «exactos» de que nos, é nova, isto é verdade,
mas para quem é publicado este trabalho meio-prehis-
torico, com figuras sem explicação da respectiva especie
e sem referencia especial ao paiz onde foi publicado ?
Esperamos que os volumes vindos deixarão de lado
os «dei minorum geniiuns» e que nos darão não só as
descripções mas tambem as figuras das novidades pa-
leontologicas, annunciadas e descriptas por Moreno e
Mercerat. O pessoal do Museu, com sabios da impor-
tancia de Moreno, Lahille, Mercerat, Valentin e outros é
garantia para o valor scientifico dos volumes futuros e
nos será grande prazer observar o progresso deste
Museu, que embora que novo já tem riquezas pheno-
PARTIES
menaes. Nós aqui, que quasi nada temos para o estudo
anthropologico dos nossos indios, podemos apreciar isto,
se estamos ouvindo que o Museu de La Plata tem perto
de 300 craneos de Indios araucanos!
Revista del Museo de La Plata dirigido por Fr. P.
Moreno. Tomo V. La Plata 1894.
O conteudo deste volume refere-se em grande parte
a assumptos historicos e linguisticos. Contem umas
notas de viagens às Missões por 7. B. Ambroseti, mais
ou menos feitas no mesmo sentido da descripção das
viagens ás Missões de Ho/mberg, que entre as numerosas
referentes ao mesmo assumpto é a melhor sem duvida.
O snr. 4. Kurtz forneceu a este volume uma contribuição
valiosa, descripçäo de plantas novas de Cordova. De
valor é tambem um relatorio provisorio de Zen Kate sobre
as suas excursões archeologicas ao Salto e Catamarca.
Revista del Museu de La Plata. Tomo VI, I parte
1894 e ll. parte 1895.
A primeira parte é dedicada a assumptos geologicos,
dando um estudo sobre a serra de Azul pelo Dr. Juan
Valentin e contribuições para a paleophytologia argen-
tina de XY. Kurtz. Um artigo de R. Zydekker : dos
pajaros misteriosos de la Patagonia» contem a deseripção
de um ovo que parece ser de uma especie pequena de
abestruz, que Zydekhker propõe chamar Rhea nana. Pa-
rece-nos em verdade questão um pouco mysteriosa. Na
segunda metade do volume encontramos numerosos
trabalhos importantes sobre assumptos zoologicos. Zahille
publica o catalogo dos peixes do Rio da Prata, e do
mesmo autor encontramos um estudo sobre as conchas
argentinas do genero Voluta, questão muito digna de
um exame exacto e cuja difficuldade em vista da grande
variabilidade já conheço da costa do Rio Grande do Sul.
— 238 —
Outro autor que neste volume nos offerece varios e
importantes trabalhos é 7. Xoslowshy, que descreve varias
novas especies de amphibios e reptis argentinos e trata
dos indios Bororós e Guatos. Uma observação extrema-
mente importante fez este naturalista na planicie boli-
viana, verificando que no tempo das enchentes ali se
misturam as aguas do Amazonas e do Paraguay.
Anales del Museo de La Plata, Palacontologia ar-
gentina. II. La Plata 1893.
Neste novo e esplendido volume temos do eminente
paleontologista inglez os seguintes trabalhos: Dino-
saurios da Patagonia; Craneos de Cetaceos da Patagonia;
Ungulados extinetos da Argentina. Parece-nos de summa
importancia este ultimo estudo, que se refere aos ge-
neros : Toxodon, Nesodon e outros Toxodontia, ás familias
dos Pachyrucidos, Typotheridos, aos Antropotherios, Li-
topternos, Perissodactylos e Artiodactylos.
Dr. Carlos Berg. Geotria macrostoma (Burm.) Berg
y Thalassophryne montevidensis Berg, dos peces particu-
lares. Anales del Museo de La Plata, publ. de F. P.
Moreno. Seccion Zoologica I. La Plata 1893. p. 1—1.
Lam. 1— LI.
O segundo destes dous peixes foi encontrado em
Montevideo em agua salgada e pertence aos Acanthoptery-
gios cotto-scombriformes, formando uma especie nova
do genero Thalassophryne, conhecido por seus ferrdes
oucos, pelos quaes passa o veneno de uma glandula.
De grande interesse é o outro peixe, uma lampreia
d'agua doce da Republica Argentina. O primeiro exemplar
foi encontrado em 1867 em Buenos Ayres n'uma rua e
offerecido ao Museu por 1000 pesos. Não podendo pagar
a somma exorbitante, Burmeister limitou-se a dar uma
descripção, classificando o peixe como especie do genero
Petromyzon. Zerg obteve um exemplar em Montevideo,
que agora está aqui descripto e figurado como uma
especie do genero Geotria.
— 239 —
Sobre o trabalho de Berg publicou 7%. Gill (1) em
Washington algumas observações. Em uma questão se-
cundaria creio que Gill enganou-se, dizendo que o
exemplar de 1867 foi adquirido por 15.000 pesos ou dol-
lars. Berg menciona isto como um boato dos jornaes e
diz que Burmeister não pagou o preço pedido de 1000
pesos. Parece pois que aquelle exemplar não foi vendido.
Gui diz que a especie não pertence ao genero Geo-
tria mas ao de Exomegas, e pede certas informações que
não são dadas por Berg.
Ajunto aqui que as lampreias da agua doce só
vivem nas regiões temperadas e que faltam nas zonas
tropicaes completamente. E”, pois, bem pouco provavel,
que nas nossas aguas do Brazil ainda possam ser en-
contradas lampreias. Os peixes que na forma do corpo
se assemelham são as enguias das familias de Sym-
branchidae e Sternopygidae.
Anales del Museo nacional de Chile. Santiago de :
Chale.
Temos 4 mão desta esplendida publicação official
as seguintes partes novas.
Algunos peces de Chile por Dr. R. A. Philippi 1892.
Contem a descripção e as figuras de varias especies
de arraias e outros peixes marinos (Raja, Myliobatis,
Callorhynchus, Orthagoriscus). Osnr. Philippi descreve
e figura o ovo do Callorhynchus antarcticus, sem saber,
ao que parece, que já está descripto por Cunningham. A
respectiva figura é reproduzida por A. Guenther. (Intro-
duction to the study of fishes. Edinburgh 1880 pag. 169).
Parecem-me sufficientes os caracteres da nova especie :
Callorhynchus argenteus Ph. para ser ella reconhecida
uma boa especie.
(1) Zh. Gill. A South America Lamprey. Science Vol.
EN RINS 2572 p. 30.
— 240 —
Las especies chilenas del genero Mactra. por el Dr.
R. A. Philippi. 1893.
Entre os varios trabalhos do eminente naturalista
é este o que menos nos satisfaz. Parece-me pouco pro-
vavel, que todas estas numerosas especies, especialmente
de Mulinia sejam distinctas. Tendo dedicado um estudo
especial ás Mactras das costas do Brazil e da Argentina,
espero que me será possivel obter material para estudar
tambem as especies chilenas, Não será a Mactra pai-
tensis Phil. identica com Mactra velata Phil. Reeve ?
El Guemul de Chile por R. A. Philippi. 1892. Des-
cripção de Cervus chilensis Gay.
Drei Hirsche der Anden., von Dr. R.A. Philippi. Leipzig,
1895, (traduzido dos Anales), As tres especies de veados
andinos são Cervus antisensis Orb., C. chilensis Gay, C.
brachyceros Phil.
Descripcion de algunos fosiles terciarios de la repu-
blica Argentina por el Dr. R. A. Philippi. 1893.
Descripçäo de 23 especies de conchas terciarias de
la Bajada em Corrientes, collectas por Bravard. Pretendo
occupar-me mais tarde do assumpto, tendo-me o Dr.
Florentino Ameghino offerecido a sua respectiva collecção.
Descripcäo de los idolos peruanos de greda cocidu.
Por el Dr. R. A. Philippi. 1895.
Objectos raros, valiosissimos, bem descriptos e figu-
rados.
Ha mais duas publicações do mesmo autor (Pflan-
zenthiere Chiles e Delphine von Südamerika) que não
conheco.
É id
— 241 —
Seja-me permittido exprimir nesta occasião os meus
sentimentos de consideração e admiração ao venerando
sabio, o Nestor dos naturalistas da America do Sul, que
hoje ainda com 87 annos continua do mesmo modo
nesta vida laboriosa, dedicada toda a sciencia e tão rica
em successos. Temos do mesmo uaturalista duas pu-
blicações novas botanicas: plantas nuevas chilenas,
Anales de la Universidad de Chile 1893, 1894 e 1895.
Actes de la Societé scientifique du Chile. Tom IV.
1894. Santiago.
O volume é como os anteriores rico de communi-
cações interessantes.
Um trabalho util é o do snr. Boulenger sobre os Per-
cidas da agua doce do Chile e que consistem de tres
especies : Percichthys trucha C. V. e melanops Gir. e
Percilia Gillissii Gir. A primeira destas especies é com-
mum no Chile e na Patagonia (Rio St. Cruz, Rio negro).
Varias communicações de Grard e Lataste referem-se
a um novo parasita das videiras chilenas, o Margarodes
vitium, insecto do grupo dos Hemipteros. Diz Giard
que o genero Margarodes Guilding é differente de Par-
phyrophora Brandt. O parasita vive nas raizes da videira.
Tendo o snr. Lataste observado uma larva singular
de um coleoptero com luz vermelha na cabeça e luz
azul no corpo, a esta observação referem-se cartas dos
snrs. R. Dubois, H. von lhering e E. Olivier. A larva
ea femea observada tambem por mim é a do genero
Phengodes.
O snr. Cockerell descreve duas especies chilenas de
Coccidae, sendo uma a especie conhecida Aspidiotus
nerii Bouché a outra nova Aspidiotus Latastei.
O snr. Z. Vergara Flores trata de craneos dos Indios
da Bolivia. Seria muito mais valiosa esta communi-
cação, se o autor a tivesse provida de boas figuras dos
craneos em norma parietalis, temporalis e facialis, e
— 242 —
valeria dar estas figuras ainda no volume seguinte, re-
produzindo boas vistas photographicas.
Interessante é o estudo de Barros Grey sobre a es-
criptura dos Calchaquis. Se bem, que as opiniões possam
ficar divididas em relação á interpretação destes petro-
glyphos, ao menos a publicação das figuras é uma con.
tribuição interessante e importante para o estudo da
archeologia sulamericana.
Accompanhamos com as nossas sympathias o desen-
volvimento desta Socidade scientifica, que neste sentido
tambem me deu um direito especial, elegendo-me seu
socio honorario.
Verhandlungen des Deutschen wissenschaftlichen
Veremes zu Santiago (Chile) IT. Band Heft 5 und 6. 1893.
(mit 3 Tafeln.)
Podemos felicitar tambem a sociedade scientifica
allemã em Santiago pelo valor das suas publicações. Este
novo fasciculo é rico em contribuições importantes. O
celebre director do Museu de Santiago Dr. R. A. Phi-
lippi trata sobre as analogias entre a flora da Europa c
do Chile, explicando os factos pela hypothese de analo-
gias climaticas como Grisebach o fez, ao passo que eu
seguindo & £ngler as julgo explicadas pela antiga exis-
tencia de terras antarcticas, ligando a Patagonia com
a Nova Zealandia e Australia. Outros trabalhos do Dr.
Philippi sen. tratam da idade geologica dos Andes e
sobre o genero Phalaropus. O Snr. Frederico Philippi de-
screve uma nova especie de Didelphys (D. australis F.
Phil.), conhecida na provincia de Valdivia sob o nome de
monito del monte, ao passo que a outra especie chilena
(D. elegans Waterh.) é conhecida sob o nome de com a-
dreja ou Llaca. Ambos vivem sobre arbustos. Duas estam-
pas boas do Dr. Philippi sen. representam Phaloropus
antarcticus e Ph. Wilsoni.
Entre os outros artigos podemos mencionar os
necrologios de H. Burmeister e do chimico Dr. ZH. O.
— 243 —
Schulze, moço talentoso que morreu victima de seus estu-
dos, tendo-o mattado as evaporações venenosas de arse-
nico, que elle procurou tornar soluvel. Deixando de lado
os trabalhos mineralogicos ainda temos de mencionar
um estudo interessante do Dr. 7. Fonk e H. Kuntz sobre
a idade archeolithica do Chile, que trata especialmente
sobre as pedras munidas de excavações em forma de
prato ou bacia («Naepfchensteine»).
Não podemos deixar de ajuntar algumas observações
aos trabalhos mencionados do Snr. R. A. Philippi. De
certo é singular que as flores e os animaes da região
arctica são encontrados de novo na zona antarctica, mas
a explicação, para nós, não é a analogia climatica mas
a distribuição geographica actual ou passada. Neste
sentido é de observar que p. expl. Phalaropus Wilsoni
é conhecido não so no Chile e na Republica Argentina
(Patagonia, Mendoza), mas tambem no Brazil no E. de
Matto Grosso, onde foi caçado em Caiçara por Natterer.
Boletim do Museu Paraense de Historia natural e
ethnographia. Vol. I. No 1, Setbr. de 1894. Nº 2, Abril
1895. Para.
O Boletim consiste de uma parte administrativa,
dando relatorio, regulamento, ete., do Museu, e de uma
parte scientifica.
Encontramos nesta ultima dous interessantes estudos
do Director do Museu, Kmilio Goeldi, sobre as aranhas
e os myriopodos (embuás e centopeias) do Brazil, infor-
mando-nos o autor sobre os trabalhos mais importantes
que a respeito forão publicados e dando a lista das
especies até hoje conhecidas no Brazil. Naturalmente
não será completa, e assim não estão ali incluidas as
unicas duas especies que até hoje conheço do S. Paulo
(Paradesmus gracilis e Oxyurus sp. n.)
O estudo mais valioso do volume é o do Dr. Goeldi
sobre a cigana (Opisthocomus cristatus) demonstrando
— 244 —
Goeldi, que os pintos desta ave têm na aza duas garras,
que nos individuos adultos faltam, garras, «que repre-
sentam irrefutavelmente uma herança antiquissima dos
primeiros tempos da independencia da individualisação:
da classe das aves do tronco commum entre aves e
reptis. » 7
Seguem umas cartas ineditas de Z. Agassiz sem
importancia, e um catalogo das formigas do Brazil por
A. Forel, o competente naturalista suisso, enumerando
440 especies, que corresponde a ca. 1j3—1j4 do numero
total das especies até hoje conhecidas. E' nesta condicçäo
conveniente completar a lista, podendo eu por hora ajun-
tar as especies seguintes.
441. Pachycondyla Fauveli Emery. Bolivia (ef E.
Wasmann Die Ameisen- und Termitengaeste von Bra-
silien I. Wien, 1895 p. 41. a. d. Verh d. K. K. Zool. bot.
Ges.).
442. Solenopsis basalis Forel. Rio de Janeiro (Ibid.
p. 44)
443. Pheidole Goeldii Forel. Rio de Janeiro (Ibid. p. 44.)
444. Cyphomyrmex bicornis Forel Rio de Janeiro
(Ibid. p. 45).
445. Camponotus personatus Emery., Rio de Janeiro,
Paraguay—Rio Grande do Sul. (7. v. Lhering. Die Amei-
sen von Rio Grande do Sul. Berlin. Entomolog. Zeitsch.
Bd. 36. 1894 pag. 373).
446. Myrmelachista gagatina Emery (Ibid. p. 377).
447. Iridomyrmex ceucomelas Emery (Ibid. p. 378).
448. Solenopsis angulata Emery. Rio Grande do Sul
(Ibid. p. 393.)
449. Crematogaster rudis Emery. Rio Grande do Sul
(Ibid. p. 395.)
450. Acanthostichus quadratus Emery. Bolivia, Ama-
zonas (cf. O. Emery, Die Gattung Dorylus Zool. Jahrb.
Bd. 8 Jena 1895. pag. 750.) —
451. Acanthostichus Kirbyi Emery. Paraguay e Matto
Grosso (Ibid. p. 752.)
19215 —
452. Acanthostichus fuscipennis Emery. Pará. A.
Schultz coll. (Ibib. p. 752.)
Não podemos deixar de referir-nos afinal a outro
artigo do Dr. Goeldi, tratando de varias vermes: Chor-
dodes brasiliensis Janda (fam. Gordiidae) do Rio de
Janeiro ; Schizocardium brasiliense Spengel (fam. Ente-
ropneustos) da bahia do Rio de Janeiro e Haemerteria
Ghilianii De Filippi do Amazonas, sanguesuga immensa
medindo até 19 centim. de comprimento com 10 centim.
«le largura.
EK’ com um interesse bem especial que estamos
observando o desenvolvimento do Museu do Pará, em
tão boa hora confiado á direcção competente do nosso
distincto collega Dr. Goeldi. Oxalá seguissem tambem
outros Estados do Brazil os exemplos dados pelos Estados
do Pará e de S. Paulo, organisando os seus Museus sobre
bases serias e com pessoal scientifico e competente,
pessoal que não podemos achar no mesmo Brazil até
que este tenha creado uma universidade, que esteja á
altura das da Europa !
b) Livros e folhetos.
E. Wasmann. Kritisches Verzeichniss der inyrmeko-
philen und termitophilen Arthropoden. Berlin 1894.
E. Wasmann. Die Ameisen und Termitengacste von
Brasilien. Wien 1895 (Verh. d. Zool. Botan. Ges. Wien).
O sabio padre Wasmann está desde annos estudando
os insectos que como parasitos ou inquilinos vivem nas
colonias de formigas ou de cupim. Temos aqui dous
importantes folhetos referentes ao assumpto e ricos em
formas novas para a sciencia e ricos em observações
biologicas. Do Brazil o autor obteve material para estudos
OMB tt
pelos Drs. Goeldi, ©. Lhering, Moeller, Hetschko e tambem
do E. de S. Paulo pelo Rev. Padre Badariotti, importante
colleccionador de coleopteros.
Emil A. Goeldi. Contribution to the Breeding Habits
of some Tree-frogs (Hylidae) of the serra dos orgãos,
Rio de Janeiro, Brazil. Proceed. of the Zoolog. Soc. o1
London, Febr. 1895 pag. 89—97.
Observações lindas sobre biologia das ras Hyla
Goeldi Boul. vive na agua que se encontra no meio das.
folhas das Bromeliaceas que vivem como parasitas em
cima de arvores. A femea leva comsigo os ovos, applicados:
numa massa sobre o dorso, até que os gyrinos ficam
livres, nadando na agua.
Hyla venulosa Spix, inclue os ovos numa massa
espumosa deitada no lado interior das velhas folhas da
Bananeira.
Hyla faber, o conhecido « ferreiro » faz no lodo dos
banhados covas chatas nas quaes depõe os ovos. Com
muita razão diz Goeldi que foi engano de ZX. Hensel
dizer, serem do Cystignathus ocellatus estes ninhos,
estranho porém que o collega não conhece o modo de
desovar desta rã. Ella faz uma massa espumosa como
saliva e que está nadando em cima da agua e no meio
da qual se encontram os ovos.
Não sei ainda como fazem esta massa, mas nos
ovarios e nos oviductos os ovos não são ainda incluidos:
nesta espuma, que provavelmente é feita pela bocca.
Prof. William A. Haswell. A Monograph of the Tem—
nocephaleae. Macleay Memorial Volume, 1893, p. 93 —
152. PI. X—XV. Melbourne. |
Esta monographia trata de modo excellente do grupo
aberrante, do qual o genero Temnocephala forma o typo.
Todos estes vermes são pequenos quasi todos de
tamanho menor de um centimetro, e são parasitos, embora
WENO) ly gene
que tambem possam viver aleum tempo em plena liber-
dade na agua.
O integumento é em geral destituto de cilios vibra-
teis, mas estes existem ao menos em duas especies, 1. é.,
Temnocephala minor e Dendyi. Assim fica difficil decidir,
se as afinidades da familia são mais intimas com os
Trematodos ou com os Turbellarios, mas e de notar que
os Trematodos ectoparasitos não só são privados dos
cilios mas tambem de tecido epithelial da epidermis.
Estas difficuldades existem tambem nos outros systemas
organicos, de maneira que Temnocephala pode ser consi-
derado tanto um Rhabdocoelido aberrante como um
Trematodo, mas Haswell acha que a affinidade com os
Trematodos predomina um pouco sobre aquella com os
Turbellarios.
Prof. Haswell descreve no mesmo volume p. 153—
158 e Pl. XVI um outro parasito que vive sobre o Engaeus
fossor, crustaceo de Gypsland em Australia e que julga
bastante differente para formar uma nova familia, a dos
Actinodactyleae, com a unica especie Actinodactylella
Blanchardi. Na familia dos Temnocephaleae distingue-se
um typo singular o genero Craspedella, tendo na região
dorsal lamellos transversos munidos de papillas. No
genero Temnocephala, Haswell distingue já 12 especies
encontradas em Madagascar, India, Philippinas, Java
Australia, Nova Zealandia, Chile e Brazil. Quasi todas
as especies vivem sobre caranguejos da familia dos Paras-
tacidos (Astavoides de Madagascar, Astacopsis da Australia
e Tasmania, Engaeus da Australia, Paranephrops da
Nova Zealandia, Parastacus do Chile e Rio Grande do
Sul). Encontram-se elles tambem sobre outros crustaceos
da agua doce. Do Brazil conhece-se
1. Temnocephalu Theringi Hasivell, encontrada no
Rio Grande do Sul na cavidade pulmonar da Ampullaria
canaliculata Lam.
MAR
2. Temnocephala brevicornis Monticelli encontrada
1856 por Reinhardt sobre o casco de cagodos (Hydrome-
dusa Maximiliani e Hydraspis radiolata.)
3. Temnocephala chilensis (Philipp) Blanch., prova-
velmente do Rio Grande do Sul (Brazil; Museu Berlim).
'omo no Chile foi encontrada sobre Aeglea laevis e como
esta especie existe tambem no Rio Grande do Sul e com
o mesmo parasita, creio que a especie será identica, 0
que diz tambem Jonticelli. No Rio Grande do Sul observei
Temnocephala sobre Aeglea laevis e Parastacus brasi-
liensis, e creio que foi sempre a mesma especie, á exep-
ção naturalmente do Parasita da Ampullaria.
Annual Report of the Curator of the Museum of
comparative Zoology at Havard College for 1892—1893.
Cambridge U. S. A. 1893.
Existem poucos Museus que com igual satisfacção
podem passar revista aos trabalhos de um anno como 0
de Cambridge. Os cursos de instrucçäo em Zoologia e
Geologia forão bem frequentados como tambem o labo-
ratorio marino de Newport. Nas colleecôes foi finido 0
novo systema de exposição geographica-zoologica. Assim
os visitantes na sala da Africa podem apreciar as giraf-
fas, antilopes, hippopotamos, etc. ao lado de papagaios,
abestruzes e outros passaros ethiopicos, até ás borboletas,
centopéas, etc., da mesma região. Creio que não ha outro
Museu uo mundo que tenha applicado e aperfeiçoado
este novo systema do mesmo modo. Grande é o numero
de trabalhes scientificos publicados nos Boletins e nas
Memorias do Museu.
O pessoal technico-scicntifico consiste em 31 pessoas,
quasi todas conhecidas no mundo scientifico por publi-
cações valiosas. Só para a Zoologia, a Paleontologia e a
Anatomia são empregados 15 sabios. Uma perda sensivel
foi a morte do Prof. Hagen, cuja memoria ficará em
grata recordação tambem entre nos no Brazil, visto que
— 249 —
a monographia delle sobre os termitidos (cupins) nos é
indispensavel.
O que falta ao Museu de Cambridge é mais espaço,
e tambem no pessoal tem faltas que são sorprehendentes.
Para o typo dos molluscos, tão bem estudado em Was-
hington por Dall e Simpson, em Philadelphia por Pils-
bry, etc., não tem ajudante. Desejamos ao Museu de Cam-
bridge, que breve lhe seja possivel fazer desapparecer
este defeito na organisação, tão lamentavel.
A. Forel. Les formicides de la Provence d'Oran
(Algerie). Bull. Soc. Vaud. Sc. Nat. III N. 114 Lausanne
1894.
Publicacäo rica como todas as de Forel em obser-
vações interessantes biologicas. Para o estudo das nossas
formigas parecem-me importantes as observações sobre
polymorphismo entre as operarias de Ponera, e sobre
os costumes de parasito-assassinos de Solenopsis ora-
niensis e de outras especies do Solenopsis, que vivem
nos cupims ou nas formigueiras, mattando os construc-
tores destas habitações ou as larvas delles, sendo defen-
didos pela extrema reducção em tamanho em conse-
quencia da qual o operario é 8—10 vezes menor do que
a formiga alada.
A razão porque aqui me refero a este trabalho é o
appendice, em que Zorel desereve uma nova especie de
Camponotus, C. Goeldii Forel, que foi encontrada em
Theresopolis, E. de Rio de Janeiro, por Goeldi, distinguido
pelo ninho feito de massa de cartão ao redor de uma
vara de taquara e munido com 2 ninhos accessorios
pequenos.
A formiga é mansa e lenta, não tentando fugir do
ninho, que sempre está construindo sobre taquara. Esta
formiga não pertence ao grupo dos Camponotus char-
tifex, Fabricii, Traili et nidulans, conhecidos por fazerem
— 250 —
ninhos em massa de cartão. #orel não conhece o ninho
parecido que Camponotus rufipes está construindo nas
arvores nas regiões do Rio Grande do Sul, expostas ás
inundações.
A. Lutz. Beobuchtungen über die als Taenia nana
und flavopunctata behannten Bandiviirmer des Menschen.
Central-Blatt fiir Bakteriologie, Bd. XVI. 1894 p. 61—67.
Taenia nana, parasito raras vezes observado no homem,
foi achada duas vezes em S. Paulo, sendo os doentes
crianças de 2—4 annos. Esta especie é identica com a
T. murina do ratto e dos comundungos.
Taenia flavopunctata, observado por Lut: como
parasita de uma criança de 2 annos em S. Paulo é até
agora na Europa 5 vezes (Blanchard, Zschokke) encon-
trada. Lutz diz, que este parasito não é raro no ratto.
Revista Brazileira, 1º anno 1895. Rio de Janeiro.
Redigido por José Verissimo.
Parece que em geral o Brazil não é o paiz para
revistas serias. Pode-se porém dizer, que a vida literaria
de cada nação torna necessarios estes periodicos, e assim
temos a esperança, que esta nova Revista seja mais
feliz do que as que a ella precederão.
Entre o grande numero de artigos podemos notar
aqui alguns que para nos são de um interesse especial.
Assim podemos mencionar os artigos de:
J. Pandia Calogeras : a fabrica de ferro de S. João
de Ipanema.
Orville A. Derby: Investigações geologicas do Brazil.
Mello Rego: Indios do Matto Grosso.
b. A. Goeldi: As aves nadadoras do Brazil.
Capestrano de Abreu: Os Bacaëry.
Hf. von Ihering: As ilhas oceanicas do Brazil.
ES
ro CS
— 291 —
José Verissimo. A pesca na Amazonia. Rio de Ja-
neiro 1895.
Não é muitas vezes que estamos encontrando na
nossa mesa de estudos livros que com tanto gosto estu-
damos. O autor, um dos melhores conhecedores da região
amazonica, trata successivamente da pesca do pirarucú,
do peixe-boi, das tartarugas, da pequena pesca e dos
respectivos instrumentos como da estatistica e legislação
da pesca.
Quanto á parte zoologica — não é a culpa do autor
se não nos satisfaz mais. Luz Agassiz nunca acabou os
estudos das colleceções feitas por elle e avaliou o numero
de especies novas demasiadamente, fallando em 1800 em
vez de 1000 especies mais ou menos. Tambem não é
exacto dizer que os peixes do Amazonas todos differem
dos de outras partes do Brazil. E’ por engano que o
autor diz, que ao pirarucú faltam as barbatanas dorsaes.
Tem porem /. Verissimo vazão desconfiando, que o pira-
rucú quando vem ä superficie da agua o faça para
respirar. O facto é conhecido com referencia á maior
parte das peixes d'agua doce e para o pirarucú já o
communicou-nos o Snr. General Couto de Magalhães no
seu livro: Ensaio de Anthropologia. Rio 1874 pag. 29.
Valeria a pena examinar o modo de desovar do Pira-
ruct. Como zoologista não posso muito apreciar os tra-
balhos do Dr. Alexandre Rodriguez Ferreira, que a res-
peito conta historias — como aquella de terem os ovos
deste peixe até a 3 palmos de comprimento. O que é
verdade é que numerosos peixes do Brasil cuidam de um
modo especial da sua cria — precisamos porém de novas
e boas observações. E’ certo, que o bagre e o Card criam
os ovos na bocca, mas se é verdade o que /. Verissimo
conta do tambaqui (Erythrinus) e que a mim tambem
disserão pescadores a respeito da piava, que recebe os
ovos sob as escamas, não sei, se é ou não exacto.
Dr. H. von IHERING.
NP aid
WIRE
Le RATE
0
Pag. 3. — Barão de Ramalho. — Proclamação da inde-
pendencia do Brazil.
» 9 — Ho. Ihering. — Historia do Monumento do
Ypiranga e do Museu Paulista.
» 33. — HH. v. Ihering. — A Civilisação prehistorica
do Brazil meridional.
» 162. — P. Taubert. — O fim e a disposição de um
Museu botanico.
» 165. — H. 0. Lhering. — Os crustaceos Phyllopodos
do Brazil.
» 181 — A. Lutz — Distoma opisthotrias, um novo
parasito do gambá.
» 195. — 77. 0. Lhering. — O veneno ophidico.
» 207. — H. v. Mering. — Os Unionidos da Florida.
» 223. — H. o. Thering. — Conchas marinas da for-
mação pampeana de La Plata.
» 233. — Bibliographia.
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Revista do Museu Paulista 1. 1895.
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Typ. a Vap. de O a. rua Caixa d'Agua, 10
1895.
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PUBLICADA
POR
H. von IHERING, Dr. med. et phil.
À | Director do Museu Paulista, socio honorario da Sociedade anthropologica italiana
4 da Academia de sciencias em Cordoba,
da Sociedade geographica de Bremen, da Sociedade anthropologica de Berlim,
da Academia de sciencias em Philadelphia, da Sociedade dos Naturalistas em Moscow,
. da Sociedade entomologica
de Berlim, do Museu ethnologico em Leipzig e da Sociedade scientifica do Chile.
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