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REVISTA
DO
MUSEU PAULISTA
H. von IHERING, Dr. med. ei phil.
da Academia de Sciencias em Cordoba,
da Academia de Sciencias de Philadelphia, da Sociedade
Director do Museu Paulista, socio honorario da Sociedade Anthropologica Italiana,
da Sociedade Geographica de Bremen, da Sociedade Anthropologica de Berlim,
de Naturalistas de Moscow,
da Sociedade Entomologica de Berlim,
da Sociedade Scientifica do Chile, da Sociedade Senckenberg dos Naturalistas de Frankfurt, a. M.
da Sociedade Scientifica Argentina, da Sociedade Zoologica de Londres,
da União Ornithologica de Londres, da União dos Ornithologos Americanos,
da Sociedade Nacional de Agricultura, do Instituto Archeologico
de Pernambuco, do Instituto Geographico e Historico
da Bahia, ete.
VOLUME VI
(ri
SAO PAULO
TYPOGRAPHIA DO DIARIO OFFICIAL»
1904
INDICE
O Museu Paulista em 1901 e 1902, pelo Dr. #.
von Ihering.
Os Guayanãs e eae de S Paulo, por I.
von Jhering.
Os Indios Guayanãs, por Benigno F. Martinez
Observações subre os indigenas do Estado do Pa-
rana, por Telemaco M. Borba (em Tibagy).
Myriapodes du «Museu Paulista», II memoire: Ma-
nãos, por Henry W. Brélemann (com Est. I-11)
As vespas sociaes do Brazil, pelo Bel. Rodolpho
von Ihering (com Est HI-VII)
As aves do Paraguay em comparação com as de
S. Paulo, por H. von Lhering
O Rio Juruá, por H von Lhering (com Est.
VII-XVD
Biologia das abelhas solitarias do Brazil (com 5
desenhos). por Rodolpho von Jhering.
Contribuição para o estudo dos hospedes de abe-
| lhas brazileiras, pelo Rev. P.º E. Wasmann
S. J. (Luxemburgo) com a Est. XVII-A
Breves ncticias sobre uns objectos interessantes
feitos pelos indigenas do Brazil, pelo Rev.
P.º A.Schupp (com a Est. XVII-B)
Algumas notas e informações sobre a situação
dos sambaquis de Itanhaen e de Santos por
Benedicto Calixto (com as Ests XVII] e XIX)
Archeologia comparativa do Brazil por H. von
Ihering (com as Ests. XX a XXIID .
Bibliographia (1902 a 1904) Historia Natural e
Anthropologia do Brazil, por Dr. Hermann e
Rodolpho von 1hering.
Periodicos recebidos em-permuta para a Biblio-
theca do Museu, por Honestaldo Vaz . Ê
Lista dos nomes genericos e especificos novos pu-
blicados neste volume da Revista do Museu
Paulista
PAGS.
O MUSEU PAULISTA
EM
1901. 6 1902
POR
H. VON IHERING.
1. Administração e pessoal.
Ao encetar a publicação deste volume da Revista,
é com satisfação que aqui registro o facto de o Museu
achar-se em uma época de grande progresso, chegando
ao ponto de, não obstante todo o pessoal cumprir com
dedicação os seus deveres e de não obstante mesmo eu
exigir delle mais serviços do que os que lhe competem
pelo nosso regulamento, não poder vencer im totum o
respectivo trabalho, em virtude da entrada constante de
novo material, que, dia a dia, vem engrandecer as nossas
colleeções.
Em vista disto, já solicitei do poder competente a
creação de mais alguns cargos no quadro do pessoal
deste Museu, e, ao mesmo tempo, a equiparação dos ven-
cimentos de alguns funccionarios deste Instituto aos que
percebem os funccionarios de igual categoria das re-
partições analogas deste Estado, onde, nos ultimos annos,
Tena eae
os respectivos vencimentos foram elevados consideravel-
mente, ao passo que no Museu conservaram-se nas mes-
mas condições, apesar de grande augmento de serviço
e diminuição do pessoal.
Nos dias determinados pelo nosso regulamento, as
collecçües expostas foram franqueadas ao publico, tendo
sido de 26.672 o numero de visitantes em 1901 ede
21.538 em 1902. A má communicação entre este Mo-
numento e a cidade, como já tenho dito em outros re-
latorios, accentuou-se cada vez mais nestes ultimos annos,
devendo-se a esse facto o decrescimento que se nota em
o numero de visitantes, que em 1898 foi de 382.965,
em 1899 de 32.063 e em 1900 de 28.484. Entretanto
estou certo que logo que seja substituida a tracção ani-
mada pela electrica, cujos trabalhos já se acham inicia-
dos, devendo ser concluídos no começo do proximo anno,
estas mas condições deixarão de existir.
Cumpre-me, dentre os illustres visitantes que esti-
veran neste Museu, salientar o Exmo. Snr. Dr. Fran-
cisco de Paula Rodrigues Alves, Presidente da Repr-
blica, então Presidente deste Estado, e os Exmos. Snrs.
Drs. Antonio Candido Rodrigues e Bento Pereira Bueno,
este Secretario d'Estado dos Negocios do Interior e da
Justiça e aquelle da Agricultura, Commercio e Obras Pu-
blicas.
Tenho tambem a satisfação de mencionar a visita
da Commissão Scientifica Austriaca, chefiada pelo illus-
tre professor Dr. Wettstein, que, em demorada observa-
ção, teve ensejo de apreciar as condições deste Mnseu.
Sendo de vantagem para a nossa bibliotheca, cedi
a essa Commissão uma escolhida collecção dentre as
nossas duplicatas. sob a condição de receber em permu-
ta a serie completa das publicações da Sociedade de
Naturalistas de Vienna, o que se deu logo que äquella
cidade chegou o illustre sabio.
Dentre os melhoramentos realisados, citarei pelas
grandes vantagens que offerecem, a construeção de seis
galerias nos laboratorios, destinadas a comportarem ar-
marios, e a de duas grandes e luxuosas estantes de ca-
fet os gee
nella ciré na bibliotheca, tendo sido executado este ul- ~~
timo trabalho pela fabrica de moveis « Santa Maria »
por ordem da Superintendencia de Obras Publicas. Pela
mesma fabrica foram ainda fornecidos os tapetes neces-
sarios à bibliotheca e à escada principal deste Monu-
mento.
O vasto edificio do Museu exige grande cuidado
para a sua conservação, demandando reparos que ante-
riormente eram feitos com regularidade, o que actual-
mente não se dá em virtude da suppressão da verba
respectiva. Hm consequencia disso, tornou-se necessa-
“rio fazer-se algumas obras, que foram estudadas e exe-
cutadas por crdem da Superintendencia de Obras Pu-
blicas, importando a respectiva despesa em pouco mais
de dez contos de réis (10:000$000). Não tendo sido,
entretanto, satisfactorio o resultado da primeira emprei-
tada, segunda e maior foi dada ao Engenheiro Eduardo
Loschi, que a executou a contento.
Continuei a empregar o pessoal na conservação in-
terna do Monumento e nos serviços de pequena impor-
tancia, mas urgentes, como sejam reparos nos para-
raios, nas clarabóias, no telhado etc. ;
Por proposta minha o Governo reclamou a demar-
cação definitiva da Avenida da Independencia, afim de,
por esse modo, ficarem garantidos os direitos do Gover-
no sobre os respectivos terrenos, nos quaes se tem ve-
rificado algumas construcçôües, 0 que para o futuro po-
deria acarretar serios prejuizos aos cofres publicos se
não fosse tomada essa medida.
Uma outra medida que ha muito se evidencia de
grande necessidade, é o ajardinamento da Praça da In-
dependencia, porquanto não se acha ella de conformidade
com a architectura do Monumento.
Com referencia ao pessoal deste Museu muito pou-
co tenho a dizer, porquanto, é pequena a alteração que
se deu no respectivo quadro.
Em 27 de Janeiro de 1902 foi nomeado para o
cargo de Custos, que se achava desoccupado desde o
mez de Agosto de 1901, o bacharel Rodolpho von Ihe-
Be (A ui
ring, que, em a mesma data, prestou o compromisso.
do estylo e entrou em exercicio.
Para o lugar de naturalista viajante, foi contra-
ctado em começo de 19020 Snr. Ernesto Garbe, habil
preparador, que entrou em exercicio em 2 de Janeiro
de 1902 e que, subvencionado por este Museu, seguira.
no anno de 1901 em excursão ao Rio Juruá, Estado,
do Amazonas, donde deverá voltar em principio do.
anno de 1903.
O cargo de preparador foi preenchido em 13 de
Junho de 1901, pelo Snr. Carlos Schrôter, que já teve
decasião de augmentar regularmente as collecções com
preparações novas, salientando-se dentre ellas as boas.
series de veados e de cachorros do matto.
Em os demais cargos continuou o mesmo pessoal,
sem que tivesse havido alterações de importancia.
O policiamento diurno deste estabelecimento conti-
nuou a ser feito pela Guarda Civica da Capital, que o.
desempenhou de modo bastante lisongeiro, não tendo,
havido felizmente qualquer facto desagradavel durante
estes exercicios, assim como nos anteriores.
2. Colleeções e Galerias artisticas
Tornou-se bastante dificil a situação financeira
desta Repartição nestes ultimos exercicios, ficando pa-
tente que é insufficiente a verba destinada para a con-
servação e augmento das collecções.
Accresce pa que os objectos de historia natural
que, em permuta, tenho recebido de Museus sul-ame-
ricanos e de outros paizes são sobrecarregados de im-
postos e multados quando não são acompanhados de:
factura consular, o que muito vem reduzir a pequena
verba destinada ao Museu.
Em virtude desse facto fui forçado a grandes eco-
nomias, o que muito prejudicou as collecçôes e a bi-
bliotheca.
Em compensação foram corôadas de completo exito:
as viagens de exploração, feitas por parte do pessoal
OMG aN ast
deste Museu e dos. colleccionadores seus corresponden-
tes. Dentre as collecções que recebi destes ultimos são
dignas de nota as dos Snrs. Ricardo Krone em Iguape,
Wilhelm Ehrhardt em Santa Catharina e Otto Dreher
em Franca.
Este ultimo colleccionador transmittiu ao Museu
collecçôes que fez no extremo oeste do Estado em mu-
nicipio que até agora não tinha sido explorado.
De grande importancia são as magnificas collec-
ções que do Rio Juruá, Estado de Amazonas, enviou
o naturalista viajante, Snr. Ernesto Garbe, que, nestes
exercicios, tem explorado aquella zona.
Pelo pessoal do Museu foram feitas diversas ex-
cursões no interior deste Estado e principalmente nas
margens do Rio Paranapanema, e em Jacarésinho (ou
Ourinho), Estado do Paraná, onde foi muito coadjuva-
do pelo Exmo. Snr. Dr. Antonio José da Costa Junior,
que, alem do modo hospitaleiro por que o tratou, im-
mensamente contribuiu para o bom exito da expedição.
Uma das secções em que se verificou grande des-
envolvimento foi a Ornithologica, especialmente devido
a uma collecçäo adquirida na casa Schliiter em Halle,
Allemanha, e a diversas, que do Amazonas foram re-
mettidas pelo naturalista viajante deste Museu.
Dentre as acquisigdes realisadas merece menção
em primeiro lugar a rica collecçäo de objectos pre-
historicos do Rio Grande do Sul, organisada pelo fal-
lecido escriptor Carlos von Koseritz.
Esta colleeção é de grande interesse para o estu-
do da antiga historia do Brazil meridional e della, em
artigo separado, trato neste volume da Revista.
“Adquiriu-se tambem, em boas condições, um ban-
guê ( coupé portatil) e uma cadeirinha, que represen-
tam a forma dos antigos vehiculos usados em S. Paulo.
Realizei dvrante estes exercicios muito boas per-
mutas, salientando-se entre ellas as valiosas collecções de
aves dos museus de Washington e de Santiago, Chile.
Do Museu Nacional de Buenos-Aires e dos de La
Plata e, Valparaizo, foram-me enviadas diversas caixas
SAS
contendo conchas fosseis afim de serem por mim clas-
sificadas e devolvidas, guardando-se para o Museu as
duplicatas das mesmas collecgoes.
Deste modo as collecções paleontologicas enrique-
ceram muito, guardando-se não só os typos de nume-
rosas especies novas como tambem muitos exemplares
raros.
A secção que mais se desenvolveu entretanto, nes-
tes exercicios, foi a da Galeria artistica.
Sobresahe em valor real e artistico o excellente
quadro Partida da monção, obra prima do mallogrado
pintor brasileiro Almeida Junior, adquirido pela quan-
tia de trinta contos de réis (30:0008000). Esta impor-
tante téla, devido às suas grandes dimensões, não poude
ser collocada em uma das salas das collecções de modo
que vi-me forçado a collocal-a no centro da galeria do
Museu, situada no pavimento superior.
Além desta acquisição é digna de menção a com-
pra da magnifica téla « Descoberta do Brazil » de Oscar
Pereira da Silva, pela quantia de oito contos de réis
(8:0004000). Do habil pintor Benedicto Calixto adquiri-
ram-se as seguintes télas: «José Bonifacio de Andrade
e Silva», « Padre Bartholomeu de Gusmão », o in-
ventor dos balões, « D. Pedro l» e « Padre José de
Anchreta ». Estes retratos foram feitos por encommenda
afim de figurarem na galeria historica, onde se encon-
tram juntamente com os retratos de D. Pedro II, Se-
nador Feijó, Padre Belchior Pontes e outros.
Infelizmente, as condições em que se acha a gale-
ria artistica, são cada vez mais penosas pela falta de
espaço com que estou luctando actualmente nesta Re-
partição não só para a collocação da referida galeria
como tambem para a das demais collecçües.
Estando todas as salas occupadas pelas collecções
expostas, acontece que os quadros que vão entrando são
collocados, conforme o espaço o permitte, nas salas onde
se acham as collecções de historia natural, o que sobre
ser inconveniente e pouco decente, tem provocado da
parte dos visitantes commentarios desagradaveis.
ERLE Dy Eee
Tendo um dos jornaes desta Capital criticado o
modo por que se acha acondicionada neste Museu a re-
ferida galeria, incumbi o sr. Benedicto Calixto de fazer
um minucioso exame nas respectivas télas, informando-
me elle que todas ellas estavam perfeitas e em optimo
estado de conservação.
O mesmo pintor e outros com quem tenho conver-
sado a respeito, são de opinião que se deve mandar
construir para a galeria artistica um pavilhão comple-
tamente independente do monumento, de um só andar,
com luz de cima e em condições de ser-augmentado no
caso de assim tornar-se necessario. Desde muito é esta
tambem a minha opinião porquanto, a todos os edificios
que não foram construidos para o fim especial de uma
galeria artistica é inherente o defeito de não ter a luz
necessaria e apropriada para a exposição de tal natureza.
Considero, portanto, provisorias as condições em que se
acham actualmente collocados os quadros do Museu, que
representam a galeria artistica do Estado.
Em consequencia do bolôr, produzido pela humidade
do clima, tornou-se bastante dificil a conservação das
colleeções e impossivel a dos rotulos explicativos, que
necessitavam de uma substituição quasi que completa,
o que se da com grande trabalho, importando, porém,
esse serviço um grande melhoramento em vista de serem
todos elles envernisados e consequentemente de mais
duração.
Dentre as duplicatas de nossas colleeções além da
permuta que fiz ccm a Commissäo Scientifica Austriaca,
realisei outras com diversos institutos nacionaes e ex-
trangeiros e, por ordem do Governo, cedi uma collecção
composta de aves, mammiferos, reptis etc. às salas de
estudos da Escola Polytechnica da Capital.
No ultimo destes exercicios o exmo. Snr. Dr. Ma-
noel Ierraz de Campos Salles, ex-presidente da Repu-
blica, presenteou o Museu com uma riquissima colle-
cção, constante, em sua maioria, de medalhas e cartões
de ouro, cravejados de brilhantes e outras pedras pre-
ciosas, que a s. exa. haviam sido offerecidos, em com-
ease
memoração de diversas datas, quando presidente da Re-
publica. Este valioso donativo de objectos artisticos,
trabalhados em ouro, prata, bronze, brilhantes, rubis e
outras pedras preciosas representa não só uma interes-
sante ilustração às paginas de nossa historia como tam-
bem um elevado valor intrinseco, sendo mesmo a colle-
ecao de maior valor entre as que até o presente foram
doadas ao Museu.
Esta colleeção sómente no proximo anno poderá
ser exposta, por não contar o Museu actualmente com
a necessaria garantia para a exposição de taes objectos.
As colleccôes existentes muito se desenvolveram
com a continua entrada de elementos novos como se
verifica pela seguinte relação dos objectos adquiridos por
presentes, por permuta e por compra, não fallando já
nos livros que entraram, cujá enumeração seria longa.
Presentes :
Da Secretaria d’ Estado dos Negocios do Interior e
da Justiça: o valioso quadro «Partida da Monção» do
failecido pintor Almeida Juuior, adquirido por 30:000$000;
uma estatua de gesso, representando uma creança cal-
cando um pé de meia, trabalho da exma. Sra. d. Nico-
lina Vaz de Assis; uma copia a crayon do retrato do
Barao de Congonhas do Gampo (Lucas Antonio Mon-
teiro de Barros), presidente da então Provincia de São
Paulo; um rico album industrial do Estado de Sao
Paulo, que figurou n exposição universal de Paris, de
1901, offerecido pela casa Laemmert & Comp.; dois
qnadros a oleo «Ostras e Cobre» e « Fructas e flôres »
do pintor brazileiro Pedro Alexandrino, em Paris ; dois
quadros do mallogrado pintor B. Parlagrecco, denomi-
nados « Pitteiras » e « Abrigo Materno » ; a grande téla
« Descoberta do Brazil» de Oscar Pereira da Silva, ad-
quirida pela quantia de 8:000$000 ; oito medalhas, sendo
quatro de ouro e quatro de prata, premios conferidos
ao notavel pintor Almeida Junior, e por seus herdeiros
offerecidas ao Museu; e um bonito album commemora-
— 9 —
tivo das manifestações de pesar que em homenagem a
S. M. o Rei Umberto I da Italia se realisaram nesta
Capital.
Da Secretaria d'Estado dos Negocios da Agri-
cultura, Commercio e Obras Publicas: amostras de
ferro da mina denominada Olhos d'Agua e uma rica
e variada collecção de stalactites de Xiririca e Ypo-
ranga.
Do Snr. Dr. Manoel Ferraz de Campos Salles, a
collecçäo já mencionada, constante dos seguintes obje-
ctos que lhe foram offerecidos quando presidente da
Republica: «Alexandre em casa de Appelles», pega da
Manufactura Nacional de Sèvres ; um riquissimo centro
de mesa e dois candelabros de prata, offerta do Com-
mercio e da Industria do Rio de Janeiro; uma placa
de ouro, offerta do Banco de Paris e dos Paizes Bai-
xos; um cartão de ouro com um brilhante offerecido
pelo Commercio e pela Industria do Rio de Janeiro ;
um cartão de prata dos obreiros do «Diario Official» ;
um cartão de ouro, offerta da colonia franceza da Ca-
pital da Republica; um cartão de ouro da Sociedade
Beneficiente dos Empregados do Correio de S. Paulo;
um cartão de ouro, com quatro brilhantes e um topa-
sio, presente da cidade de Ouro Preto; um medalhão
de ouro, com as armas da Republica, ornado de topa-
sios e de uma esmeralda brazileira, offerta dos proprie-
tarios de uma das minas de Manganez de Miguel Bour-
nier ; um tinteiro de ouro massiço, sobre um bloco de
pedra aurifera e tendo por tampo um trophéo com as
bandeiras ingleza e brazileira, presente da Companhia
das Minas de Morro Velho; um cartão de prata, of-
ferta do Club Floriano Peixoto, de Minas; um castiçal
de prata, de uso do Regente Feijó, offerta do Dr. José
Avelino; cinco blocas, especimen de ouro em suas di-
versas phases atê à moeda cunhada, offerta do Snr. Dr.
Urbano Marcondes; uma medalha de prata do Circulo
de La Prensa de Buenos Aires; uma penna de ouro,
cravejada de brilhantes, offerta dos notarios de Buenos
Aires; um cartão de ouro, saudação dos peruanos € dos
— 10 —
bolivianos residentes em Buenos Aires; uma medalha.
de ouro, offerta do Snr. Wencesläu Villafani ; uma me-
dalha de ouro do «Yacht Club Argentino», de Buenos
Aires; uma medalha de ouro do Jockey Club de Bue-
nos Aires; uma placa de ouro da direcção geral dos
Telegraphos da Republica Argentina; uma medalha de
ouro commemorativa do 1.º Congresso Medico Latino
Americano. do Chile; uma placa de prata, commemo-
rando a inauguração do Asylo Gonçalves de Araujo, no
Rio de Janeiro; um cartão de prata, offerecido pela
Escola Militar do Brasil; uma caixa contendo doze
modelos das moedas de nickel, recentemente postas em
circulação, sendo tres placas não gravadas, tres moe-
das de nickel, tres de prata e tres de ouro, offerta dos
fabricantes; uma faca de prata, com boraados a ouro,
obra de um sertanejo da Bahia, offerta do Dr. Cesar
Zaina; um modelo da espada offerecida ao imperador
da Allemanha, pela cidade Solingen, offerta do Snr.
vice-almirante Pinto da Luz; uma colleccäo de co-
lheres de prata e esmalte, representando os escudos
e as armas de todos os cantões suissos, offerecida pelo
Snr. Almeida de Vasconcellos, ministro plenipotenciario
do Brasil; uma medalha da Associação do 4.º Cente-
nario; um cartão de prata, convite do Derby Club para
as festas do 4.º Centenario; uma placa de ouro com
as armas da Republica em rubis, brilhantes e esmeral-
das, offerecida pela Brigada Policial do Districto Wede-
ral; um cartão de ouro com um monogramma em bri-
lhantes, rubis e perolas, offerecido pelo ‘Snr. visconde de
Lucena; uma caixa de phosphoros, de onro com um
brilhante, com a inscripçäo Fiat Lux, marca da fa-
brica de Nictheroy; uma medalha de bronze comme-
morativa da inauguração da estatua equestre do Duque
de Caxias, no Rio de Janeiro; uma medalha de prata,
commemorando a visita do general Julio Roca, presi-
dente da Republica Argentina ; uma placa de ouro, con-
tendo o programma das festas do Derby Club em honra
do general Julio Roca; uma medaiha commemorativa
da visita em retribuição do presidente da Republica à
Republica Argentina; uma medalha de ouro da «So-
ciedade Patriotica Falucho> em honra do presidente do
Brazil; uma medalha de prata com a effigie de Sar-
miento; um cartão de ouro da Sociedade de Benefi-
ciencia de Buenos Aires; uma medalha de prata com-
memorando a experiencia definitiva do balão dirigivel
de Santos Dumont; um cartão de ouro, do Velo Club
do Rio de Janeiro; um cartão de ouro com um bri-
lhante, offerta das casas civil e militar da presidencia
da Republica; um cartão de ouro offerecido pelos de-
putados federaes paulistas da maioria em 16 de No-
vembro de 1902; uma medalha de ouro, offerta do Ly-
ceu de Artes e Officios do Rio de Janeiro; uma me-
dalha de ouro cravejada de rubis com brilhantes, of-
ferta dos funccionarios da Administração dos Correios
de S. Paulo, e uma medalha de prata da 1.º exposição
regional, agricola e industrial de Ribeirão Preto.
Do Snr. Dr. Florentino Ameghino, Director do
Museu Nacional, em Buenos Aires, uma variadissima
colleeção de Conchas e outros petrefactos de Evertebra-
dos, dos depositos terciarios da Patagonia, collecção que
sobre ser valiosissima contem generos e especies até
agora desconhecidos. |
Do Snr. Dr. Francisco de Toledo Malta, entäo
Secretario d’Estado dos Negocios da Fazenda, por deli-
beração da Junta de Fazenda, um carrinho de mão e
uma pá de madeira jacarandä com incrustações de pra-
ta, que serviram para iniciar os trabalhos em Santos
da estrada de ferro «São. Paulo Railway Company»,
em 1260.
Do Snr. Antonio Pimentel, Pontal, Minas Geraes,
uma grande e valiosa collecçäo de mineraes, por elle
proprio colligida nos Estados de Minas Geraes, Rio de
Janeiro e Goyáz.
Do Snr. Æ. Gounelle, Paris, França, uma collec-
ção de 128 especies de Coleopteros em duzentos e dez
exemplares.
Do Snr. Jango Fischer, Rio Grande do Sul, uma
collecção de ossadas fosseis, especialmente de vertebras
pm à Op CES
de Saurios fosseis, encontrados em Santa Maria da Boc-
ca do Monte (Serrito), Rio Grande do Sul.
Dos Snrs. Drs. Santiago Roth e Hauthal, La Pla-
ta, Argentina, duas caixas contendo conchas fosseis ter-
ciarias da Patagonia.
Do Snr Dr. HF. Lalulle, Buenos Aires, Argentina,
uma caixinha contendo conchas diversas.
Do Snr. Bardo de Studart, Fortaleza, Ceara, di-
versos peixes petrificados, encontrados na Serra do
Araripe naquell> Estado.
Do Snr. Julio Conceição, Santos, S. Paulo, uma
curiosa garrafa, coberta de ostras, tirada do fundo do
mar; um lindo exemplar de macuco albino; um pe-
riquito azul; diversos palmipedes, diversas aves do ge-
nero Calliste e outras Tanagridas.
Do Snr. Carlos Nehring, Piracicaba, São Paulo,
um vidro contendo: 4 Hesperomys, 4 Didelphys pusil-
lus Desm., 2 Peromys, sp., 2 Molossus sp. e | Ves-
pertilio auritus; tres ovos de inambu-guassu, tres de
tartaruga, tres conchas e uma pedra trabalhada e per-
furada pesando 3 arrobas (45 kilos), encontrada nas
proximidades daquella cidade.
Do Snr. Dr. Francisco Sodré, Presidente da Ca-
mara Municipal de Santa Cruz do Rio Pardo, São
Paulo, um mutum vivo (Crax curunculata Temm.) e
diversas pedras de crystal de rocha.
Do Snr. Jonas de Barros, Capital, o seu desenho
a crayon representando a «Festa de Platão».
Do Snr. Teofil Hasmershr, Capital, quatro moe-
das de cobre, da Polonia, do anno de 1621, e duas de
prata. :
Do Snr. Dr. Orville A. Derby, Capital, tres exem-
plares vivos de kagados do Maranhão, (Cisternon scor-
pioides L.).
Do Snr.. Dr. Luiz Pereira Barreto, Capital, ca-
nal de entrada de um ninho da aranha do genero Cte-
niza, fechado por uma tampa movel.
Do Snr. J. G. Mayer da Fonseca, Capital, amos-
tras de amiantho e de chalcedonio de Cravinhos.
+ cut PRESS
espe a
Do Snr. João Brenn, Arraial dos Souzas, S. Pau-
lo, tres exemplares do coleoptero Macropus longi-
manus.
Do Snr. Olavo Hummel, Rio Claro, S. Paulo, di-
versas pedras areentas contendo ossos de Mesosaurus.
Do Snr. F. Delduque, Capital, estilhaços e balas de
canhão da revolta de 1905.
Do Snr. G. Ribeiro, Uberaba, Minas Geraes, um
craneo de boi zebu.
Do Snr. Dr. José Alves Guimarães Junior, Capi-
tal, um craneo de onça pintada.
Do Snr. José Fraga, Capital, um exemplar vivo de
cachorro «rapoza do campo» (Canis azarae Wied), da
Bahia
Do Snr. Fernando Gertlach, Ypiranga, S. Paulo,
um exemplar do Strongylus gigas Goetze, tirado do
figado de um porco.
Do Snr. Wigando Kohler, Capital, um exemplar
de lagarto borboleta da familia Cochlionidae.
Do Snr. J. G. Foetterle, Petropolis, Rio de Janei-
ro, dous vidros com abelhas solitarias.
Do Snr. Dr. Antonio de Toledo Piza, Capital, uma
pedra talco de uma fazenda da Villa Vieira do Piquete.
Do Snr. Antonio M. da Silva, Villa do Piquete,
uma pedra talco daquella localidade.
Do Snr. A. Hammar, Capital, duas ras do genero
Hyla.
Do Snr. Paulo Rodrigues, por intermedio do Dra-
rio Popular, um cachorro phenomenal, em alcool.
Do Sar. Frederico Hitte, Pindamonhargaba, S.
Paulo, amostras de Pedra de cal (com phosphatos) da
fazenda Pouzo Frio.
Do Snr. Braz Nogueira, Ilha Grande, S. Paulo,
um exemplar de urutú dourado.
Do Snr. Dr. Adolpho Luts, Capital, uma variada
colleeção de parasitas do genero Echinorhynchus, e uma
de Dipteros preparados e determinados.
Da Snra. D. Henriqueta Esteves da Natividade,
Capital, um modelo de navio feito, a canivete, pelo fal-
Si eo
lecido capitão commandante Joaquim Domingos da Na-
tividade. em Desterro, 1893.
Da Snra. D. Agnes Miller, Capital, uma collecçäo
de abelhas, colleccionadas em Araguary (Minas Geraes)
e duas entradas de ninho de abelhas.
Recebeu-se em permuta :
Com o Museu Nacional, Buenos Aires, Argenti-
na, uma collecção de petrefactos cretaceos de Roca,
uma collecçäo de Coleopteros coprophagos e uma cai-
xinha com Hymenopteros.
Com o United States National Museum, Washin-
eton, uma collecção de couros de aves.
Com o Museu Anchieta, Curytiba, Paraná, uma
collecçäo de Hymenopteros.
Com o Museu Zoologico de Dresden, Allemanha,
uma collecção de quarenta e um couros de aves empa-
lhadas.
Com o South African Museum, Capetown, Afri-
ca do Sul, uma colleeção de conchas marinas, terres-
tres e d'agua doce, da Colonia do Cabo.
Com o Museu Nacional, Rio de Janeiro, uma
colleeção de conchas cretaceas do norte do Brazil; mo-
délos em gesso de um craneo de guara (Canis juba-
tus), de Castalia schreineri e um vidro com varios
exemplares de Aeglea intermedia Gir., de Santa Catha-
rina.
Com o Snr. Miguel Lillo, Tucuman, Argentina,
uma collecção de couros de aves daquella localidade.
Com o Snr. Dr. Ortinann, Princeton, America do
Norte, uma collecção de crustaceos norte-americanos e
ae molluscos recentes e fosseis da Patagonia.
Com o Snr. S. Venturi, Buenos Ayres, Argenti-
na, uma pequena collecção de couros, ninhos e ovos
de aves e uma lata com diversas especies de Vaginulos
e Hirudineas.
Com o Snr. Frey Gessner, Genève, Suissa, uma
caixa com Polvbias (vicina cassununga e fraterna),
Com o Snra. Verdi Burtch, Pennsylvania, Ame-
rica do Norte, uma collecção de ovos de passaros.
— 19 —
Com o Snr. Dr. H. Friese, Jena, Allemanha, duas cai-
xas com Hymenopteros, contendo especialmente Apidas.
Com o Snr. Dr. M. Regimbart, Evreux, França,
uma collecçäo de Coleopteros aquaticos e outros de di-
versos generos (Dytiscidae Hydrophilidae).
Com o Snr. Edmundo Krug, Campinas, S. Paulo,
uma colleeção de dezenove especies de Coleopteros.
Com o Snr. Christiano Enslen, Rio Grande do Sul,
duas borboletas, sendo uma Castnia beskei e outra Cas-
tnia cochrus.
Com o Snr. Dr. Visconde R. du Buysson, Paris,
França, uma colleeção de Hymenopteros.
Com o Sar. Pedro Sereê, Buenos Ayres, Argenti-
na, uma colleeção de couros de aves.
Como Snr. Lewis J. Schackleford, Inglaterra, uma
collecçäo de conchas marinas do genero Tellina.
Comprou-se :
Ao Snr. Hermann Rolle, Berlim, Allemanha, qua-
tro magnificas collecções, sendo: uma de mammiferos
da Argentina e da Columbia; uma de conchas, reptis, e
peixes de Puerto Rico e Surinam; uma de aves do Ecua-
dor e uma de ovos e tres couros de aves da Argentina.
Ao Snr. Wilhelm Schlüter, Alemanha, duas ex-
cellentes collecções de couros de aves, uma de ovos
e um grande sortimento de boccaes de vidro, de va-
rios tamanhos.
Ao Snr. Wilhelm Ehrhardt, Santa Catharina,
uma collecção de insectos; duas de couros de aves;
uma de ovos; uma de animaes em alcool; alguns cou-
ros de mammiferos; diversos objectos ethnographicos ;
um ninho de cupim, varios caracões, crustaceos, reptis
e amphibios.
Ao Snr. R. eb: Iguape, S. Paulo, uma collec-
ção de couros de aves, uma de ovos, uma de animaes
marinos, uma de carangueijos, camarões, lagostas, pei-
xes e morcêgos, e diversos fragmentos de Sambaquis.
Aos Snrs. Dr. O. Staudinger & A. Bang Haas,
Dresden, Allemanha, uma collecçäo de 68 especies de
Coleopteros da familia Scarabeidae, da America meri-
— 16
ional; uma de pequenos Coleopteros da familia Bos-
trychidae; uma de vespas; uma de onze especies de
Castnias; uma de borboletas do Genero Opsiphanes e
uma de dezoito especies de Coleopteros do genero Fi-
notus.
Ao Snr. Jonas de Barros, Capital, um arco, qua-
tro flexas e uma lança que pertenceram aos indios
Chavantes do Estado de S. Paulo.
Ao Snr. Christiano Enslen, Rio Grande do Sul,
uma pequena collecção de ovos de passaros; tres cou-
ros de Canis cancrivorus; um Procyon cancrivorus ; um
Vampyrus auritus Peters e varios objectos ethnogra-
phicos.
Ao Snr. F. Krantz, Bonn, Allemanha, uma col-
lecção de conchas terciarias.
Ao Snr. A. Manon, Capital, tres couros de aves.
Ao Snr. Ernesto Garbe, Piracicaba, S. Paulo, dois
craneos de cachorro do matto; um de irára; um de
coati; um de morcego; uma colleeção de 25 couros de
aves; diversos ninhos e ovos de aves; trezentos inse-
ctos das ordens Hymenoptera, Coleoptera e Lepidopte-
ra; uma valiosa collecçäo de Lepidopteros heteroceros ;
diversos couros de mammiferos; dezesete ninhos de abe-
lhas indigenas; uma outra collecção de insectos diver-
sos; alguns vidros com abelhas sociaes; reptis e mammi-
feros em alcool, e varios caracões e vaginulos.
Ao Snr. Adolpho Hempel, Campinas, 8. Paulo,
uma collecçäo de trezentos Hymenopteros e duas de
couros de aves.
Ao “nr. Mathias Wacket, Rio Grande, &. Paulo,
uma variada colleeção de lesmas do genero Vaginulus;
uma de rãs; um n.uho de abelhas indigenas; um enor-
me vespeiro (Polybia dimidiata I.) de Cubatão, Goyaz,
e diversos outros vespeiros da mesma localidade.
Ao Snr. Benedicto Caliato, São Vicente, S. Paulo,
quatro telas a oleo, representando uma o «Padre José
de Anchieta», outra «José Bonifacio de Andrada e Sil-
va», outra «D. Pedro I» e a outra o «Padre Bar-
tholomeu de Gusmão», o inventor dos balões.
2 re
Ao Snr. Heitor Massucz, Capital, um escudo em
metal, obra d'arte, representando a descoberta do Brazil.
A Exma. Snra. D. Zeferina von Koseritz, Porto
Alegre, Rio Grande do Sul, a riquissima collecçäo de
objectos archeologicos do Rio Grande do Sul, organi-
sada pelo fallecido escriptor Carlos von Koseritz.
Ao Snr. À. Jhle, Dresden, Allemanha, cinco ar-
marios com gavetas envidraçadas.
Ao Snr. Francisco Gallizio, Capital, uma cadei-
rinha liteira e um banguê (coupé portatil), forma dos
antigos vehiculos de 8. Paulo.
Ao Snr. M. Magrazo, Santos, S. Paulo, um co-
piopteryx semiramis Cram, de Gnarujá, especie rara e
perfeita.
Ao Snr. M. Beron, Capital, varias e excellentes
collecçôes de insectos, principalmente Hymenopteros e
alguns ninhos de Anthophilidae e Vespidae.
Ao Snr. Otto Dreher, Franca, 8. Paulo, diversas
collecções de couros de aves, mammiferos, reptis, inse-
ctos, vermes etc.
Ao Snr. F. Günther, Faxina, S. Paulo, uma pe-
quena collecçäo de couros de aves.
3. Trabalho scientifico e Bibliotheea
O mais difficile o mais importante trabalho que
occupou a nossa attenção foi o estudo das ricas e va-
riadas- collecçôes que do Rio Juruá, Estado do Amazo-
nas, nos enviou o naluralista viajante deste Museu,
Snr. E. Garbe. Estas collecções, habilmente prepara-
das, aqui chegaram nas melhores condições possiveis,
contribuindo para fazer representada nas colleeções des-
te Museu a fauna de uma parte do Brazil atê ha pouco
sem representação nas nossas collecções.
Trabalhando activamente, conseguiu o Snr. Ernesto
Garbe, remetter-nos 14 especies de macacos daquella
zona, o que 1epresenta, o duplo das especies que vivem
no Estado de S. Paulo.
eee po
Com relação a esta expedição a que se refere um
artigo que publico nesta Revista, tenho ainda a dizer
que a fauna da região do Tuo Juruá até agora não
havia sido explorada, de modo que esta expedição pres-
tou não só às colleeções do Museu como tambem a
sciencia relevantes serviços.
Entre os estudos que conclui acha-se um sobre as
abelhas indigenas do Brazil da familia Meliponidae, que
são mui apreciadas pelo excellente mel que fabri-
cam. HE’ este um assumpto que ha vinte e tres annos
occupa a minha attenção e que, até agora, tem sido
pouco cuidado entre nós.
O estudo principal referente às abelhas remetti à
Allemanha afim de ser publicado, devendo outros arti-
eos, sobre o mesmo estudo, serem publicados nas Re-
vistas deste Museu e do Instituto Historico e Geogra-
phico de S. Paulo.
Sobre os parasitas intestinaes do genero Echino-
rhynchus elaborei outro estudo, descrevendo novos ma-
teriaes do Museu.
Occupei-me tambem de outros parasitas dos nossos
animaes, os quaes continuarão a prender a minha attenção.
Com referencia às conchas petrificadas que foram-
me remettidas pelos museus da Republica Argentina,
publiquei dois artigos.
Continuei com a classificação das collecções de pe-
trefactos, molluscos e aves.
Estou preparando e está quasi prompto o catalago
das aves do Brazil, que, pela quarta vez, está sendo
modificado, o que não só tem sido muito trabalhoso e
demanda muito tempo e grande attenção, como tornou-
se necessario ou mesmo indispensavel em vista de nova
e importante literatura e augmento constante das col-
lecções.
Enviei diversos artigos sobre a biologia de nossas
aves ao periodico «Ibis» em Londres assim como a
outros periodicos, da America do Norte e da Argentina,
estudos sobre interessantes e novos generos e especies
de molluscos da Patagonia.
Sue oct
Sao os seguintes os artigos que publiquei no ul-
timo destes exercicios :
I «Necessidade de uma lei federal de caça e pro-
tecção das aves», Revista do Museu Paulista, volume
V, 1902, pag. 288—260.
Il. Natterer e Langsdorff — exploradores antigos
do Estado de S. Paulo, Revista do Museu Paulista,
volume V, 1902, pag. 18—34.
HI «Contribuição para o conhecimento da orni-
thologia de S. Paulo». Revista do Museu Paulista, vo-
lume V, 1902, pp. 261-329.
TV «As Melanias do Brazil». Revista do Museu
Paulista, volume V, 1902, pp. 653-682.
V «Historia Natural e Anthrepologia do Brazil »
( Bibhographia). Revista do Museu Paulista, volume
V, 1902, pp. 683-741.
VI «On the Molluscan fauna of the Patagonian
Tertiary » with plate XIX. Proceedings of the Ame-
rican Philosophical Society ; Philadelphia 1902, vol.
XLI pp. 132-137, n. 166.
VII «Historia de las Ostras Argentinas », Anales
del Museo Nacional de Buenos Aires, 1902, pp. 109-132
VII <Die Helminthen als Hülfsmittel der zooge-
ographischen Forschung, Zoologischer Anzeiger, Lei-
pzig » vol. XXVI, n. €86 pp. 42-51.
IX «Die Photinula Arten der Magellan-Strasse »
Nachrichtsblatt der Deutschen Malakozool. Gesellschaft,
ns. 9-6, 1902, pp. 97-104.
O ex-custos deste Museu, Snr. C. Schrottky acabou
a classificação das abelhas solitarias. publicando © res-
pectivo estudo no volume V. desta Revista, que, em 24
de Dezembro de 1902, sahiu á luz, tendo sido impresso
nas oficinas do Diario Oficial.
Esse volume da Revista é illustrado com dezoito
estampas em parte coloridas, que foram encommendadas
à Lithographia Werner & Winter, em Frankfurt a
Main, tendo sido o respectivo trabalho executado com
exactidão e nitidez.
5 ond
Ainda nesse volume da Revista o nosso illustre
amigo e collaborador, Snr. H. W. Brélemann, residente
em Paris, em extenso artigo, escripto em E tratou
dos Centipeos ou Myriapodes do Brazil, descrevendo
muitas especies novas, cujos originaes se encontram neste
Museu.
O actual Custos deste Instituto, Bacharel Rodol-
pho von lhering, dedicou-se especialmente ao estudo
das vespas, encontrando representadas nas collecçües,
provisoriamente classificadas, nada menos de sete espe-
cies novas à sciencia. (O artigo em que as descreve foi
enviado à Sociedade Entomologica da França, afim de
er publicado nos Annaes daquella sociedade e neste
volume da Revista trata largamente do grupo todo,
em artigo acompanhado de estampas. E’ singular que
entre os vespeiros desconhecidos até o presente se en-
contre um geralmente conhecido sob o nome de Cassu-
nunga, que, atê agora, não havia sido examinado e
descripto, apesar de ser o maior de todos.
Auctorisado pelo Governo, o Museu concorreu à
Exposição Municipal Agricola e Industrial realisada nesta
Capital na quinzena ultima do mez de Outubro de 1902.
A nossa exposição referente exclusivamente à en-
tomologia economica. tratou dos tres pontos seguintes :
1.º Apicultura nacional; assumpto que tem sido
bastante estudado neste Museu.
2.º Sericicultura nacional; constante de casulos de
diversos bichos de seda do genero Attacus, com as res-
pectivas borboletas, larvas, ovos, etc.
3.º Insectos nocivos da familia Coccidæ, assumpto
tamben, cujo estudo neste paiz é devido, quasi que ex-
clusivamente, a este Instituto do Estado.
O numero das especies conhecidas do Brazil, que,
em 1896, quanda sobre ellas publiquei o primeiro arti-
go, era de vinte e uma apenas, elevou-se até o presen-
te a cento e quarenta especies.
Foi bastante satisfactorio o desenvolvimento que se
operou na Bibliotheca devido à generosidade com que
as Academias e Institutos congeneres, tanto nacionaes
Eai e.
como estrangeiros, lhe têm remettido as suas publica -
ções em permuta com a Revista deste Museu.
“Apesar de nova, a Biblitheca já compõe-se approxi-
madamente de 3.500 volumes referentes a todos os ra-
mos da sciencia, de 1.300 folhetos, pouco mais ou menos,
sobre sciencias, bibliographias, relatorios etc. e recebe
annualmente em permuta com a revista cerca de 300
periodicos, elevando-se o numero de volumes recebidos
no ultimo destes exercicios a 418 e o de folhetos a 273.
Assim, com despesas realmente insignificantes, a
Bibliotheca tem crescido bastante, antonio tornar-se
uma boa bibliotheca de sciencias naturaes, represen-
sentando, entretanto, desde ja e de modo mui satisfac-
torio, diversos ramos de sciencias até agora pouco cul-
tivados nas outras bibliothecas do Estado.
Cumprindo um dever, aqui deixamos registrados os
nossos sinceros agradecimentos a todas as Academias e
Institutos que tanto nos têm auxiliado e em particular
áquelles que com tanta benevolencia e solicitude, nos
tem enviado as series completas de suas valiosissimas
publicações.
Tornamos extensivos os nossos agradecimentos a
sua Alteza o Duque de Loubat, que, ainda ha pouco,
remetteu-nos dois volumes do Codex-Vaticanus Mexi-
canus.
A disposição geral da Bibliotheca passou por uma
reforma radical.
Sabendo que é ja grande o numero de Bibliothe-
cas, organisadas segundo o systema de Dewey, resol-
vemos adoptal-o em nossa Bibliotheca.
E” certo entretanto que para uma bibliotheca de
fins especiaes como a do Museu a disposição das mate-
rias podia ser feita por um modo mais conveniente do
que pelo systema Dewey, que ora adoptamos.
Além disso não se pôde negar que a classificação
das materias, usadas por Dewey em varios pontos, é
insuficiente, especialmente na parte que se refere à
biologia e à anthropologia.
Ergo
A razão do successo cada vez maior deste systema
decimal, adoptado, segundo nos consta, em varias ou-
tras bibliothecas do paiz, é ter elle a conveniencia de
organisarem-se os catologos das diversas bibliothecas por
um plano uniforme, sendo incontestaveis as grandes
vantagens que o referido systema tei para a divisão
das diversas materias,
Entendo que, neste sentido, muito se recommenda
a adopção deste systema, que só na parte zoologica,
foi um pouco modificado para a nossa Bibliotheca.
S. Paulo, 31 de Dezembro de 1902.
Os Guayanäs e Caingangs de São Paulo
POR
H. VON IHERING.
O escudo das tribus indigenas e de sua historia
offerece-nos extraordinaria difficuldade, particularmente
pela razão de exigir profundos conhecimentos de gran-
de numero de materias diversas. E” preciso examinar
o objecto do estudo sob varios pontos de vista, como
os da ethnographia, linguistica, historia. anthropologia,
e archeologia. Estas mesmas dificuldades, entretanto,
se oppuzeram tambem ás pesquizas analogas em outras
partes do mundo e devem, pois, ser vencidas tão bem
entre nós como na Europa.
No meu estudo «A civilisação prehistorica do Brazil
Meridional» publicado nesta Revista (1) emprehendi o
ensaio, especialmente com referencia ao Rio Grande do
Sul, de reunir todos os dados conhecidos para um quadro
da historia e civilização dos indigenas. Tendo proseguido
nestes estudos e colligido mais materiaes, especialmente
referentes ao Estado de S. Paulo, fui contrariado nova-
mente por grande obstaculo : a posição ethnographica dos
Guayanãs. Neste sentido o competente ethnographo,
Capistrano de Abreu me fez contestações num artigo
critico por elle publicado na Gazeta de Noticias do
Rio de Janeiro em 1896. O autor regeita a minha
opinião de que a differença linguistica entre os Gua-
yanãs e os povos da raça Tupi-Guarani entre os quaes
viviam, tivesse sido insignificante e apenas dialetica.
Reconhecendo valiosas estas objecções, procurei colligir
novos materiaes para aprofundar o estudo desta ques-
tão, a cuja discussão © presente artigo se dedica.
(1) Revista do Museu Paulista Vol. I 1895 p. 35—159.
7e
O primeiro escriptor que com certa minudencia
tratava dos Guayanas era Gabriel Soares (1).
«Já fica dito como os Tamoyos são fronteiros de
outro gentio, que se chamam os Goayanas, os quaes
tem sua demarcação ao longo da costa por Angra dos
Reis, e dahi até o rio de Cananéa, onde ficam visi-
nhando com outra casta de gentios, que se chama
os Carijós. Estes Guanazes tem continuamente guerra com
os Tamoyos de uma banda e com os Carijós da outra,
e matam-se uns aos outros cruelmente; não são os
Goaynazes maliciosos, nem refalsados, antes simples
e bem acondicionados, e facilimos de crer em qualquer
cousa. E gente de pouco trabalho, muito mollar, não
usam entre si lavoura, vivem de caça que matam e
peixe que tomam nos rios e das fructas silvestres que
o matto dá; são grandes flexeiros e inimigos da carne
humana. Não matam aos que captivam, mas accei-
tam-nos por seus escravos; se enccntram com gente
branca, não fazem nenhum damno, antes boa compa-
nhia, e quem acerta de ter algum escravo Goayaná não
espera delle nenhum serviço, porque é gente folgasã de
natureza e não sabe trabalhar. Nao costuma este gen-
tio fazer guerra a seus contrarios fora dcs seus limi-
tes, nem os vão buscar nas suas vivendas, porque não
sabem pelejar entre o matto, senão no campo, aonde
vivem, e se defendem com seus arcos e flechas dos
Tamoyos, quando lhe vem fazer guerra, com quem pe-
lejam no campo mui valentemente e às flexadas, as
quaes sabem empregar tão bem como os seus contra-
rios. Não vive este gentio em aldêas com casas arru-
madas, como os Tamoyos, seus visinhos; mas em covas
pelo campo debaixo do chão, onde tem fogo de noite
e de dia, e fazem suas camas de rama e pelles de ali-
marias que matam. A linguagem deste gentio é diffe-
rente da de seus visinhos, mas entendem-se com os
Carijós; são na côr e proporção do corpo como os Ta-
(1) Gabriel Soares de Souza. Tratado descriptivo do Bra-
zil em 1587. Rev. Inst. Hist. e Geogr. do Brazil Tomo XIV.
Rio de Janeiro 1899 p, 1—382,
29
moyos, e tem muitas gentilidades, como 0 mais gentio
da costa.»
Os Drs. Theodoro Sampaic (1) e O. A. Derby são
tambem da opinião acima exposta sobre o parentesco dos
Guayanäs com os Tupis e do mesmo modo se exprimiu
o Dr. João Mendes fo Almeida (2). Não se póde negar
que ha certas razões que favore em este modo de pensar.
Sabemos que, em geral, os Tupis e Guaranis vi-
viam em inimizade e continuas enerras com as tribus
que não pertenciam à sua raça. Desde o Rio de Ja-
neiro até Santa Catharina, porém, viviam os Guayanãs
em amizade e boa camaradagem com os Portuguezes e
em parte com os indigenas relacionados, tendo sido os
que com mais facilidade se submetteram ao doininio dos
portuguezes e à cathechese dos Jesuitas.
Sabemos mais que elles se entendiam com facilida-
de com os Carijós
Analysando, entretanto, estes factos é preciso con-
fessar que entre elles nenhum se encontra de caracter
decisivo.
Os Guaranys do Rio Verde que às vezes apparecem
nesta Capital fallam regularmente a lingua portugueza e
substituíram seus antigos usos e vestimentas pelos dos luzo-
brazileiros, acceitando tambem os seus nomes de familia,
Deduzir deste facto o parentesco das linguas Gua-
rani e Portugueza seria o mesmo que concluir que os
idiomas guayanã e carijó sejão mais où menos identicos.
Uma vez que os guayanãs sujeitavam-se aos invasores,
naturalmente deviam aprender a lingua geral da qual
aliás já devem ter tido algum conhecimento, pelas suas
relações com os carijós. Isto era tanto mais facil quando
já Gabriel Soares delles dizia que era gentio pouco pe-
rigoso e facil de contentar.
(1) Theodoro Sampaio. Qual a verdadeira graphia do no-
me Guayaná? Goyanà ou Guaynã. Rey. Inst. Hist. São Paulo.
Vol. II. 1896— 1897. São Paulo 1898 p. 27-— 34.
(2) João Mendes de Almeida. Algumas notas genealogicas.
São Paulo 1886. p. 321333.
— 96, —
Sobre a antiga existencia dos Guayanäs em S. Paulo
estamos informados por numerosos escriptores que não
deixam duvidas de que representavam um dos elemen-
tos ethnographicos mais importantes na antiga popula-
ção deste Estado. Assim diz P. Taques de A. Paes
Leme (1) na sua Historia da Capitania de S. Vicente
que este territorio era occupado em 1031 pelos indios
gentios Carijós, Guayanãs e Tamoyos. Em geral todos
os antigos escriptores fazem entender que a lingua fal-.
lada pelos Guayanãs era differente da dos Tupis.
Neste sentido compare o leitor as informações da-
das por Antonio Knivet (2).
No mesmo sentido exprime-se tambem Gabriel So-
ares (l. c. p. 90). Existe no respectivo capitulo um tre-
cho que deu lugar a diversas e, em parte, erroneas inter-
pretações é a phrase que os Guayanãs se entendem com
os Carijós, embora sna linguagem seja differente.
E” possivel interpretar este trecho de modo que a
lingua dos Guayanãs representa apenas um dialecto da
lingua geral. Esta interpretação entretanto deixaria fora
de consideração os indubitaveis conhecimentos ethnogra-
phicos do auctor que soube perfeitamente que uma lingua
que era entendida pelos Carijós tambem o devia ser pelos
Tupinambás e outras tribus da nação Tupi. Neste sentido
é instructiva tambem a explicação (1. ce. p. 93) em que
o auctor distingue os Carijós dos seus vizinhos Tapuias.
Não podemos duvidar por esta razão que o senti
do da phrase citada é outro, referindo-se apenas a cer-
tas relações amigaveis, embora temporarias, entre os
Guayanãs e os Carijós. Ainda hoje no littoral entre S.
Vicente e Iguape coexistem os descendentes das duas
tribus mencionadas sob os nomes de Guaranis e Camés,
(1) Pedro Taques de Almeida Paes Leme. Historia da Capi-
tania de S. Vicente desde a sua fundação por Martim Affonso de
Souza em 1531. Rey. do Inst. Hist. e Geogr. Brazil. Tomo IX.
Rio de Janeiro 1869. p. 144.
(2) Antonio Knivet. Narração da viagem nos annos 1591 e
ao Mar do Sul. Rev. Inst. Hist. Rio de Janeiro Vol. XLI 1878
p. 211, 223 e 246.
Be tank jp
e de certo já em tempos remotos seus antepassados en-
tretinham boas reiagdes. A prova disto já é dada pelo
facto de que tribu alguma do grupo Caingang assimilou
à sua lingua tão grande numero de palavras guaranis do
que a dos Camés, facto este já apontado por Martius.
Uma prova evidente em favor desta minha exposi-
ção é dada pelas informações do padre Manoel da No-
brega (1) que tratando dos indigenas de S. Paulo men-
ciona de um lado os Guayanãs e Carijós e de outro lado
os Tupinaquis e Tupinambás. Chamando os Carijós o
melhor gentis desta costa, diz apenas o mesmo que Ga-
briel Soares e outros relatam com referencia aos Guayanäs.
Seja mencionada ainda outra prova da differença
linguistica dos Guayanãs e dos Tupis. Na Revista do
Instituto Historico do Rio de Janeiro vol. LVII, 1894
p. 185 ss. foi publicado um antigo manuscripto anonymo
sobre os indios do Brazil, escripto por um padre da
Companhia de Jesus no anno de 1584, como consta por
um trecho (l. c. p. 206). O autor, do mesmo modo como
Gabriel Soares, distingue as nações do grupo Tupi, que,
«todos tem a mesma lingua» dos Tapuias, entre os quaes
menciona (I. c. p. 209) os Guayanäs do sertão da Bahia.
Assim as fontes mais antigas e mais fidedignas da Eth-
nographia brazileira não deixam duvidas sobre a diffe-
rença linguistica dos Guayanãs e das tribus Tupis.
Outro ponto que necessita de esclarecimento é a
diversidade das varias tribus que faziam parte da na-
ção Guayanã. Sabemos que esta grande nação tapuia
era representada não só no Brazil meridional, mas tam-
bem no Rio de Janeiro e no sertão da Bahia. Não ha
razão para duvidar que neste vasto territorio elles se
apresentassem com aspecto diverso segundo seus costu-
mes e seu caracter, como da mesma maneira tambem
consta para as tribus do grupo Tupi. Destaca-se entre
elles a tribu do littoral meridional de S. Paulo e que
de preferencia vivia em campos e à qual se refere a de-
(1) Padre Nobrega. Informação das terras do Brazil. Rev.
Inst. Hist. e Geogr. do Rio de Janeiro Vol. VI 1865 p. 91-94.
LL Dore
scripçäo de Gabriel Soares. «E’ este um gentio manso e
docil sem falsidade que com facilidade se sujeitara aos
Portuguezes.» Parece-me fóra de duvida de que são des-
cendentes dos mesmos os Cames da zona de Itanhaem,
cujo nome na lingua Caingang significa medroso, covarde.
Pertenceu ao grupo dos Guayanãs dos Campos de Pira-
tininga a tribu Ururay, da qual trata João Mendes de
Almeida (1. c. p. 333). Sejam aqui mencionados tambem
como Gnayanãs dos campos os Guarús ou Guarulhos dos
quaes ainda tratarei mais adiante.
Em pleno contraste com este grupo, (1) vivendo
de preferencia em terreno de campos, acham-se os Guaya-
nas do matto. E' a estes que se refere Anchieta di-
zendo que o cacique Cay-Obig casou com uma Guayanã,
das do matto, como tambem aos mesmos se referem as
narrações de Hans Staden (2), segundo o qual estes,
«Wayganna» não tem habitações fixas, estando em guerra
com todas as outras nações, devorando aos inimigos que
apanham. Deixando de parte a afirmação de Staden que
os Guayanãs devorassem aos inimigos no que evidente-
mente houve engano por parte do autor, estas contra-
dicções apparentes nada tem de surprehendente, visto
estarem em pleno accordo com o que se nota ainda hoje
em seus descendentes. Ao passo que a tribu dos Gamés
sempre conservou-se pacifica e mansa e no Rio Grande
do Sul os Coroados com regular successo se prestaram
para o aldeamento, continuaram outros grupos dos Guaya-
nas ou Caigangs no seu primitivo estado selvagem.
Assim é que o Coronel José Joaquim Machado de Oli-
veira (3), transcreve um officio do Barão de Antonina
(1) José Anchieta. Informação dos casamentos dos Indios do
Brazil. Rev. Inst. Hist. do Rio de Janeiro Tomo VIII (2a. ed.) 1867
p. 220.
(2) Hans Staden. Suas viagens é captiveiro entre os selva=
gens do Brazil. Edição commemorativa do 40 centenario $.
Paulo 1900 p. 123 ss. tambem a mesma obra Rev. Inst. Hist. do Rio
de Janeiro Vol. LV 1892 p, 267 ss.
(3) Brigadeiro José Joaquim Machado de Oliveira. Noticia
raciocinada sobre as aldêas de indios da Provincia de S. Paulo,
desde o seu começo até a actualidade Rev. do Hist. e Geogr. Jorn,
do Inst. Hist. Brazileiro Tom. VIII Rio de Janeiro 1867 p. 203-254.
a Oy
de 1843, queixando-se dos Guayanãs do municipio de
tapéva, «que, por sua ferocidade e continuos actos de
barbaridade que praticavam não só com os moradores,
como com os que transitavam por esta estrada, tornaram-
se formidaveis e temidos. »
Reconhecendo difficil de resolver esta questão, só
com o auxilio das informações insufficientes dos antigos
escriptores, procurei arranjar outros argumentos mais
decisivos, o que consegui pelo estudo de vocabularios
tanto dos Guayanãs de S. Paulo como dos do alto Pa-
raná na Republica Argentina
Dos Guayanãs antigos do seculo XVI não temos
vocabularios, mas sim de seus descendentes.
Nos annos de 1840-1850 dois illustres viajantes
visitaram os Guayanäs domiciliados no sudoeste do Es-
tado na região de Faxina e Itoépva: T. A. de Var-
nhagen (1) e Auguste de Saint Hilaire (2).
O primeiro publicou o resultado de sua excursão
ao sertão na Revista do Instituto Historico e Geogra-
phico do Rio de Janeiro. Infelizmente o vocabulario
dos Guayanãs que devia ornar este artigo extraviou-se ;
Saint-Hilaire publicou o seu referente aos Guayanãs
de Itapéva na sua «Voyage» Le. Tome, 1851 p. 456.
A respeito deste vocabulario é preciso dizer que
o auctor escreve o nome da tribu «Guanhanans», de accor-
do com a orthographia francesa. No mais elle ajunta à
maior parte das palavras o suffixo —-ve—. Deste modo
em vez de olho-cane -escreve caneve, e até mesmo a
palavra onomatopaica designando o cão é proviao deste
suffixo, de sorte que escreve—-fogfogve—.
Acredito que este suffixo que ndo se encontra em
outros vocabularios quasi identicos representa apenas
uma particularidade do individuo examinado. Este vo-
(1) F.A. de Varnhagen, CE oe indigena. Rev. Inst.
Hist. do Rio de Janeiro, vol. XII, 1874 (2.º ed. ) pag. 366- 376.
(2) M. Augaste de Saint Hilaire, Vol.3. Voyage dans les Pro-
vinces de Saint Paul et de Saint-Catherine, vol. Le II, Paris 1857.
omy)
cabulario combina perfeitamente com todos os outros
que conheço dos Caingangs, ou Cordados do Brazil
meridional, provando que os Guayanãs de S, Paulo são
apenas uma tribu desta mencionada raça.
Ja Saint-Hilaire (J. c. I, pag. 499) observa que os
Caingangs antigamente eram denominados Guayanas no
Estade do Paraná. Diz que o velho paulista Fernan-
do Diaz Paes anies de descobrir Minas percorreu o ser-
tão do Rio Tibagy, onde tomou prisioneiros a indios
que denominava Guayanazes, referindo-se neste sentido
à publicação de Balthazar da Silva Lisboa, Annaes de
Rio de Janeiro Il pag. 280.
Outro vocabulario dos «Coroados» da Valle do Pa-
ranapanema publicou o general Ewerton Quadros (1)
(1. c. p. 296-259).
Não conheço outro vocabulario dos Guayanãs, ou
dos Caingangs de S. Paulo, a excepção do dos Camès,
publicado. por von Martius. (2) Como lá o autor o notára,
este vocabulario contem varias palavras, acceitas do
outros idiomas, especialmente do Guarani.
Dos Camés conservam-se diversos grupos na zona do
littoral no Estado de S. Paulo e que tivemos o prazer de
ver em 1900, em S. Vicente, tomando parte nos festejos
do 4.º centenario da descoberta do Brazil. Aos Caingangs
do Rio Grande do Sul refere-se o vocabulario publicado
por R. Hensel. (5) Os outros vocabularios parecem
referir-se todos ao Estado do Paraná e especialmente
ao aldeamento de Guarapuava. São as seguintes : Alfr.
d"Escragnolle Taunay. Os Indios Caingangs (Coroados
de Guarapuava) Revista do Instituto Historico, vol. LI
Suppl. Rio de Janeiro 1888 p. 251-311, com vocabu-
lario p. 280-311
(1) Francisco Raymundo Ewerton Quadros. Memoria sobre
os hos da commissão da linha telegraphica de Uberaba a
Cuyabá. Rey. Inst. Hist. do Rio de Janeiro, vol. LV, pag. 255 ss.
(2) C.F. -Phil) von. Martius. Beitráge zur Ethnographie
und Sprachenkunde Amerikas zumal Brasiliens, Tomo II, Zur
Sprachenkunde. Leipzig 1867, p. 212-214.
(3) R. Hensel, Die Coroados der bras. Provinz Rio Grande
do Sul. Zeitschrift für Ethnologie Bd. I 1869. p. 124-135.
en Obras
Telemaco Morocines Borba. Breve noticia sobre os
Indios Caingangs acompanhada de um pequeno vocabu-
lario da lingua dos mesmos indigenas e da dos Cayguäs
e Chavantes. Rev. da Secc. da Soc. de Geogr. de Lis-
boa no Brazil. Tomo H, Rio do Janeiro 1883 p. 20-36,
com vocabulario Caingang p. 28-32.
August Saint-Hilaire. Vocabulaire des Coroados
de Guarapuava. Voyage dans les Provinces de Saint-
Paul etc, Vol. iW. 1851; pao. 142 ss;
Anonymo. Vocabulario da Lingua Bugre. Rev.
Inst. Hist. do Rio de Janeiro, Vol. XV 1888. p. 60-75,
que infelizmente nem dá a indicação da tribu de que
provem nem da respectiva localidade. E” ao meu ver o
melhor d’entre todos, tendo o seu auctor não se li-
mitado sómente à parte lexicographica mas procurado
tambem entrar na composição grammatical do idio-
ma. Infelizmente este diccionario é incompleto, faltan-
do-lhe muitas das palavras mais necessarias ou mais
recommendaveis para fins de comparação. Supponho que
este diccionario se refira aos Caingangs de Guarapua-
va visto a sua perfeita concordancia com o de Tau-
nay, ao passo que differe mais um pouco dos de Saint-
Hilaire e Hensel. Quanto a este ultimo auctor acre-
dito que a differença entre as palavras por elle indicadas
e as dos demais auctores provem mais da falta de pra-
tica do viajante do que de uma differença dialectica.
Assim, por exemplo, Hensel indica como a deno-
minação de agua «ngoin-ngoin», ao passo que todos
outros vocabularios dão «golo».
Sei, entretanto, que no Rio Grande do Sul a de-
nominação indigena do Rio Uruguay é «goio-en» de
sorte que evidentemente Hensel não soube bem repro-
duzir o que ouviu.
Aos Caingangs de S. Pedro, no territorio de Mi-
sines, Republica Argentina, refere-se o vocabulario de
Juan B. Amsrogetti. (1)
(1) Juan B. Ambrosetti. Los Indios Kaingangues de San Pe-
dro (Misiones) Rey. Jardim Zoologico, Tomo II, Buenos Aires
1895, p. 554-385,
sa o at
Em appendice o mesmo auctor publica (à pg. 384-
387) um vocabulario Caingang do Pikiry (ao norte
de Guayra) reunido pelo Tenente Edmundo Barros do
Exercito Brazileiro.
Sobre os actuaes Guayanãs viventes no alto Para-
na, Republica Argentina, obtive o artigo que em se-
guida vem publicado, ficando eu muito agradecido ao seu
illustre auctor pela gentileza com que correspondeu ao
meu pedido. Estou de pleno accôrdo com o Snr. Be-
nigno |. Martinez a respeito da concordancia deste
vocabulario com o dos Ingain, do Alto Paraná, Esta-
do do Parana, publicado por Ambrosetti (1) pg. 538 ss.
Comparando, entretanto, estes vocabularios dos Gua-
yanas do Alto Parana e dos Ingaims com os dos Guaya-
nas de S. Paulo e dos Caingangs, nota-se uma differença
radical. Em geral todas as palavras são differentes.
A palavra para agua, por exemplo, é—«cran» em
vez de «golo» entre os Caingangs. O nome do sol é,
segundo Ambrosetti, entre os Caingangs, «arân» e «ará»
ou «ran» entre os Ingaims. A palavra fogo é «pin»
entre os Caingangues e «upai» entre os Guayanãs, se-
gundo Martinez, «pein» ou «pen» entre os Ingaims. O
nome do macaco é «quinherê» entre os Guayanäs, se-
gundo Martinez, «nhara» ou «nhere» entre os Ingaims,
e «cayerem» ou «canherê entre Caingangs. Seja men-
cionado nesta occasiäo que a palavra para homem, en-
tre os Caingangs é «caia».
Lembro aqui o facto de ser o nome do macaco na
lingua tupi «cai» ou «caia» e não «cai». Outra ana-
logia entre estas duas Jinguas é dada pela palavra
«mang» da lingua Caingang, significando— abelha— que
occorre no mesmo sentido na lingua guarani, onde aliás
ja temos as palavras «tub» e «ira» para significar abelha
e mel. Acho pois, possivel que as palavras guaranis
compostas de «mang» ou «mandy», significandc abelhas, se-
(1) Juan B, Ambrosetti. Materiales para el estudio de las
lenguas del grupo Kaingangue (Alto Paraná) Bol. de la Acad,
Nac. de Cienc, de Cordoba, Tomo XIV, p. 381 ss, Buenos Ai-
res 1896.
eel ae
jam provenientes da lingua caingang. Não seria para
estranhar se os caingangs, que certo numero de palavras
acceitaram do idioma guarani, transnittissem tambem
algumas palavras à lingua destes seus visinhos.
Da precedente exposição fica evidente que os Gua-
yanãs de S. Paulo são linguisticamente identicos ou in-
timamente alliados aos Caingangs, ao passo que os
Guayanäs do alto Paraná, bem com) os Ingaims fallam
um idioma bastante differente, que, entretanto, apresen-
ta relações pronunciadas de parentesco com a lingua
dos Caingangs.
A razão porque deste modo tribus differentes de indi-
genas são tratadas de Guayanãs é dada apenas pelo facto
de ambas fallarem uma lingua d fferente da dos Guaranis.
Como prova menciono um manuscripto do anno
de 1612 publicado por Gay (1), onde se lê com referen-
cia à Lagôa dos Patos: «Em suas margens estão es-
tabelecidos mais de vinte mil indios guaranis que na-
quella terra chamam Arachanes... porque trazem os ca-
bellos alçados, encrespados para cima. E’ gente corpu-
lenta e bem parecida, que tem frequentemente guerra
com os Charruas do Rio da Prata e com outros in-
dios que moram no interior chamados guayanãs, se
bem que este nome se dá a todos os indios que não
são Guaranis e que não têm nome proprio.» O nome
Guayanã é explicado por von Martius (2) (1. c. p. 298)
como significando «gente honrada e nobre», accrescen-
tando, entretanto o auctor que Góya significa em varios
dialectos tupis «um campo», derivando-se talvez desta
palavra o nome de Guayanas.
João Mendes de Almeida diz (Il. c. p. 295): «O
nome exacto é gori-ná isto é proximos ou parentes
dos goiá. Os goiá eram tribus procedentes do archipe-
lago de Bahama ou, melhor, Antilhas; e perseguidos
(1) Conego João Pedro Gay. Historia da Republica Jesui-
tica do Paraguay. Rev. Inst. Hist. Rio de Janeiro, Tom. XXVI
1863 p. 430.
© (2)C. F. Th. von Martius—Zur Ethnographie Amerikas
4umal Brasilieas. Leipzig 1857 p. 298.
ay ee
pelos caribs. As que cruzaram com tupis denomina-
ram-se goid-nd ; que por isso eram tambem tupind-ke.
Um estudo especial dedicou à graphia desta pala-
vra Th. Sampaio, que (l. e. p. 31) liga muita attenção
à graphia do competente padre sosé de Anchieta e que
é Guayanã. «Essa é de facto, diz elle, a graphia ver-
dadeira, Guayana e não Guayand nem Goyand se
deverá escrever porque além do valiosissimo, e para
nós decisivo testemunho de Anchieta, attende-se à ap-
plicação do vocabulo cuja tradueção é:—manso devé-
ras, bonachão, pacifico, moleirão. Nos diccionarios Gua-
ranys ou Tupys de Montoya, de Ferreira França e ou-
tros se encontra o vocabulo goaya ou aya com a si-
gnificaçäo de manso, pacifico, brando, bom. Neste
sentido se vê empregado nas palavras ¢rriaya, ostra
boa; tavacu goaya, porco manso, comandocaia por
comandáguaia, feijão bom, comestivel : ilatyaya, fonte
ou agua da pedra saudavel ; ar aguaya papagaio ou
arara mansa; uvaya por yuva aya, fructa branda, molle.
À particula final nã com a significação de certa-
mente, na verdade, devéras, com effeito é o modo de
formar um angmentativo. Assim, se vê: de Pará, rio,
Paranã rio devéras ou rio grande, ou o mar; de
Tupy, Tupinã os verdadeiros Tupys, os Tupys grandes!
Confesso que todas estas etymologias ine parecem
duvidosas :
Insisto no que já disse nesta Revista Vol. I., p. 111,
que a particula «Guaya» ou «Gola» não é encontrada
só no nome dos Guayanãs, mas tambem naquelle dos
Guayaquis. Guaycurús, Goiatacaz, etc., necessitando uma
explicação uniforme que não vejo dada e que debalde
procurei obter pelos diccionarios da lingua "Tupi.
Talvez a raiz goia provem das linguas Tapuyas.
Deixando indeciso este ponto lembro aqui ainda um artigo
do Dr. F. Lahill (1) que participa uma carta do Sr. Ge-
neral Frey na qual este chama a attençäo para analogias
“(1) Dr. F. Lahille. Guayaquis y Anamitas. Revista del Mu-
seu de la Plata. Tomo VIII p. 453 ss.
— 35 —
do Guayaqui com a lingua anamitica e outras, assumpto
no qual não tenho competencia.
Como se verifica são bastante divergentes as opi-
niões sobre o assumpto não faltando até uma nota co-
mica. O General Couto de Magalhães na 7.º conferen-
cia para o Tricentenario de Anchieta (São Paulc, 1897)
diz à pag. 13, que Martius chama os Guayanas, à pag.
768 de sua Kthnographia, «die Gelehrten» isto é os
Sabios. Ha nisto um engaro. A’ pagina 172 diz Mar-
tius que Guayanã quer dizer um povo honrado (geehr-
tes), de modo que se trata apenas de um qui-pro-quo
nas palavras geehrt (honrado) e gelehrt (sabio).
Do mesmo modo como o exame linguistico tambem
o ethnographico nos confirma na ideia de que os Guayanãs
de Piratininga não pertenciam à raça «tupi-guarani».
Ligo muito valor ao facto de que elles não dor-
miam em rêdes mas faziam o seu leito no chão da ca-
bana, que às vezes era substituida por uma cova no solo.
Já von Martius (I. c. pg. 299) salientou este facto.
E tudo que pelos diversos escriptores sabemos sobre os
Caingangs do Brazil meridional, confirma esta observa-
ção. Outra particularidade destes povos consiste na sua
arte do tecer, pois que fabricavam pannos grossos «curü»
das fibras da ortiga brava ou da caraguata.
Os Tupis ao contrario souberam apenas fabricar
rédes mas não tecidos ou pannos.
Os Guayanãs do alto Parana dos quaes trata Be-
nigno Martinez differem dos Guayanãs de S. Paulo,
não só pelo seu idioma mas tambem vor importantes
caracteres ethnologicos, assumpto que mais minuciosa-
mente tratarei em seguida.
Quanto afinal aos caracteres de anthropologia phy-
sica, chamo aqui a attenção ao meu artigo sobre o ho-
mem prehistorico do Brazil (1) em que demonstrei que
desde os tempos mais remotos no Brazil meridional co-
existiam dois elementos differentes: um, de craneo bra-
(1) Dr. H. von Ihering. El Hombre prehistorico del Brazil.
Historia. Tomo I. Buenos Aires. 1903. p. 161 ss.
chycephalo, predominante nos sambaquis e de raca Tu-
pi-Guarani, e outro, de craneo mesocephalo ou dolicho-
cephalo, correspondendo a raga Caingang.
Esta ultima conclusão está confirmada tambem pe-
las observações de Lista sobre o craneo dos Guayanãs.
Admittindo com von Martius que os Caingangs e
Guayanãs representem um grupo dos povos Gês, verifi-
camos que existe notavel differença entre os Guayanãs
e Ingaims do alto Paraná eos Guayanãs de São Paulo,
que são intimamente ligados aos Caingangs.
Resulta, pois, deste nosso estudo que os Guayanãs
de Piratininga e os que no oeste do Estado foram exa-
nimados no seculo passado por Varnhagene St. Hilaire
pertencem ao mesmo povo de Caingangs, e que os
Guayanas do alto Paraná são representantes de um ou-
tro ramo dos Gês que no seu idioma e nos seus carac-
teres ethnographicos differem algum tanto dos Guaya-
nãs de S. Paulo.
Grande embaraço forma para este estudo não só a
escassez de informações aproveitaveis nas publicações
antigas, mas tambem as contradições que muitas vezes
entre as mesmas se notam. E” por esta razão necessa-
rio proceder com certa critica.
Assim, sabemos tanto pelos escriptores do seculo
XVI como pelos do seculo XIX que os Guayanãs e
Caingangs, de S. Paulo não usam de rêdes, dormindo em
leitos construidos no solo da choupana. Só Knivet (1)
falla em rêdes usadas pelos Guayanãs do Rio de Janeiro.
Podemos imaginar que os Guayanãs tivessem acceito:
certos costumes dos povos tupis entre os quaes viviam,
mas esta hypothese seria em opposição com tudo que de
noticias exactas possuimos. Mais provavel nessas con-
dições será que Knivet se enganou, o que aliás é ad-
missivel suppor quando se trata de um escriptor que é
o mais mentiroso entre todos que tem escripto sobre o
Brazil. E’ só Knivet, quem descobriu serras cobertas de
(1) Antonio Knivet. Narração da viagem nos annos de 1591
e ss. ao mar do sul. Rey. Inst. Hist. Rio de Janeiro Tom. XLI
1878 p.211
3 ~ \
— a = a
gelo (1. c. p. 240) no sertão do Brazil, e foi elle tambem
o unico Be tem por dias viajado num rio subterraneo
sem encontrar outra difficuldade senão a do encontro
fatal na sahida do dito rio com indigenas bravios, que
a todos comeram à excepção de Knivet que nos relatou
esta historia.
As contradições mencionadas as vezes são só ap-
parentes. Isto refere-se especialmente às informações
relativas ao caracter dos Guayanäs, tratando-os uns de
doceis e mansos, outros de bravios e traiçoeiros. Lem-
bro aqui o facto por mim relatado nesta Revista vol. I,
p. 41, referentes aos Caingangs do Rio Grande do
Sul que, não obstante serem Alda dos e catechisados,
em 1880 assaltaram um grupo pacifico de Guaranis,
assassinando a todos em uma noite.
Este facto tem profundamente modificado a opinião
formada sobre o caracter destes indios e occorrencias
analogas naturalmente devem ter-se dado tambem em
epocas anteriores. Além disto sabemos que os Guayanãs
e Caingangs se compozeram de não pequeno numero de
tribus. Assim, sabemos que entre os Gaingangs do Pa-
raná se distinguem as hordas dos Camés V otorões, Do-
rins, Kocrens e Tavens.
Compare-se neste sentido o artigo do Padre Fran-
cisco das Chagas Lima, « Memoria sobre o descobrimento
e colonia de Guarapuava». Rev. do Inst. Hist. Geogr. do
Rio de Janeiro vol. IV, 1863 p. 43 ev.
Não preciso observar aqui que o autor se enganou
acreditando o idioma desses povos Caingangs apenas
um dialecto corrompido do Guarany.
O nome dos Xocrens é escripto Socré por Saint-
Hilaire (l. c. II p. 302.) e Sokleng por Ehrenreich (1.
c. p. 116). Estando muito atrazado o conhecimento lin-
guistico dos dialectos Caingangs não me foi possivel
averiguar a ethymologia das denominações das diversas
tribus, à excepção do nome dos Camés. O nome Cain-
gang é explicado no diccionario anonymo da lingva bu-
gre (l. c. p. 68.) como significando «gente do matto»,
sendo «gang» gente. Observo entretanto que o nome
SNS Ts
de matto é segundo o mesmo vocabulario «vaiquen»,
restando assim duvidosa a ethymologia. |
Sabemos tambem que os Guayanãs de Piratininga
do mesmo modo se compuzeram de diversas tribus. Na
«Memoria das aldeias de indios da Provincia do Rio
de Janeiro» (Rev. Inst. Hist. Geogr. Rio de Janeiro,
vol. XVII, 1894, reeditado de 1854, p. 71 e ss.) Joa-
quim N. de Souza e Silva diz, à pagina 87, dos Gua-
rulhos da Serra dos Orgams: «segundo o sr. Machado
de Oliveira, este nome designa uma das principaes tri-
bus feudatarias, cujo complexo formava a poderosa na-
cio dos Guayanazes que por muito tempo dominou a
Provincia de S. Paulo antes da aggressäo dos invascres.
Estes Guarulhos viviam tambem em S. Paulo, onde com
elles foi fundada a aldeia dos Guarulhos ao n.e. da Ca-
pital, hoje freguezia da Conceição dos Guarulhos. (1)
Observo aqui que no Estado do Rio de Janeiro
existe outra povoação denominada «dos Guarulhos»
(Santo Antonio) que segundo Joaquim Norberto de Sou-
za Silva era antiga aldeia dos indios Guarús.
O nome primitivo desta tribu não seria pois Gua-
rulhos mas Guarus.
Tomando em consideração estes factos de que já
os antigos escriptores distinguiram dos Guayanas dos
campos os do matto, não podemos duvidar que entre
estas diversas tribus e hordas existiam differenças no-
taveis tanto no seu caracter como nos seus costumes.
Ha, entretanto, traços geraes referentes não só aos
actuaes representantes dos Guayanä-Caingangs, mas
tambem aos seus antigos antecessores, como o são: O
caracter relativamente manso e docil, o bom tratamen-
to dos presos, que em geral não eram devorados, a
arte de tecer pannos, o costume de dormir em leito
feito no chão e o enterramento dos defuntos não em
urnas mas na terra.
(1) Compare-se a noticia raciocinada sobre as aldeias de in-
dios da Provincia de $. Paulo pelo Brigadeiro José Joaquim Ma-
chado de Oliveira. Rey. do Inst. Hist. do Rio de Janeiro Tomo
VIII 1846. seg. ed. 1867 p. 227.
— 99 —
Reunindo a estes caracteres a lingua commum,
mais ou menos identica a dos actuaes Caingangs, te-
mos um quadro ethnographico bastante preciso que nos
permitte reconhecer o parentesco ethnologico dos Gua-
yanãs e das tribus alladas.
Brinton (1) (1. c. p. 230) refere-se aos Guayanãs
do Uruguay, incluindo-as na familia dos Tupis,
querendo tratar evidentemeute dos que vivem entre os
rios Uruguay e Paraná. Se effectivamente alli existe
uma tribu da familia Tupi, denominada Guayanã, o
caso é anaiogo ao que participei nesta revista vol. I,
p. 114, segundo o qual os Cai:gangs do valle do
Paranapanema são denominados «Tupis» pelos Cayuas.
Parece que cábe a d'Orbigy a responsabilidade de
ter collocado erroneamente entre os Tupis estes Guaya-
nas ou Guataches, sobre os quaes se acham informações
minuciosas nos livros de Prichard (2) e Waitz (3).
Os dados mais fidedignos são os que nos deu Fe-
lix de Azara. (4)
Diz elle que não se deve confundir os Guayanãs
com diversas hordas de Guaranis bravos, aos quaes os
habitantes do Paraguay dão o mesmo nome de Guaya-
nas.
Esta denominação erronea é provavelmente a ra-
zão do engano, commettido por Brinton e Ehrenreich
que nos seus mappas ethnographicos indicam Guaya-
nãs como habitantes do Paraguay ao sul e leste de
Asuncion,
Não achei informação fidedigna sobre a occorren-
cia dos Guayanãs no territorio do Paraguay e insisto
(1) Daniel G. Brinton. The American Race. Philadelphia
1901. Daniel G. Brinton. The linguistic Cartography of the
Chaco Region. Proceedings of the Amer. Philos. Society. Vol.
XXXVII. Philadelphia 1898 p. 10.
(2) J.C. Prichard. Naturgeschichte des Menschengeschlchs.
Vol. IIT. Leipzig 1848. p. 555.
(5) Theodor Waitz. Anthropologie der Naturvilker. Vol.
HI Leipzig 1862 p. 409.
(4) Felix de Azara. Voyages dans l’Amerique meridionale
trad. por C. A. Walckenaer. ‘Tome IL Paris 1809. p. 76.
De 7 1 ee
em corrigir o engano dos autores mencionados que in-
cluem os Guayanãs na familia Tupi em vez de na dos
Gês. Segundo Azara es Guayanãs habitam os mattos
entre o rio Uruguay desde o arroio Guairay até ao
rio Paraná na região da povoação del Corpus. A sua
lingua é-lhes peculiar, differente da de todos os outros,
dos quaes tambem se distinguem pela côr mais clara
da pelle. São pacificos e bondosos para com os estran-
geiros, tem bastante medo de nadar e passar grandes
rios. Esta descripçäo, dada por Azara, excellente co-
nhecedor do Paraguay e da lingua Guarani combina
perfeitamente com os resultados obtidos neste estudo a
respeito do caracter e dos costumes dos Guayanãs e
Caingangs. Se ainda persistir alguma duvida, esta ago-
ra desvaneceu-se por completo, graças ao vocabulario.
do Sr. Benigno Martinez que vem publicado em segui-
da. Os Guayanãs aos quaes se refere este vocabulario
e que Lista visitou em Villa Azara habitam o sertão
do Estado do Paraná entre os rios Uruguay e Paraná
e são identicos com os de que trata Azara. As peque-
nas differenças que se notam, explicam-se peias modi-
ficações pelas quaes passaram estes indios no correr
dos ultimos dous seculos. Uma destas modificações nos
explica Benigno Martinez relativamente ao modo ile
enterrar os defuntos, tendo os (Guayanãs acceito por
algum terapo o costume de enterrar os defuntos em
igaçabas.
Outra mais importante ainda é dada pelo gradual
aperfeiçoamento em navegação e pesca.
Ao passo que segundo Azara os Guayanãs temiam
passar os grandes rios, os actuaes Guayanãs do Alto
Paraná são excellentes canoeiros e muito dados à pes-
ca. Parece que neste sentido as tribus da familia Tupi
serviam de modelos e mestres aos Guayanäs e Caingan-
gs, como já prova o facto de serem as palavras «pira»
e «pary», significando peixe e cerco de peixes, acceitas
na lingua Caingang, provenientes da lingua Tupi.
Brinton (American Race p. 260) reuniu os Coroa-
dos do Rio Grande do Sul com os de Espirito Santo,
LR ANR
Minas e Bahia. Tanto o vocabulario publicado por Hen-
sel como os caracteres ethnologicos provam que os in-
dios chamados Coroados do Rio Grande do Sul säo
apenas um grupo dos Caingangs e nao devem ser con-
fundidos com os verdadeiros Coroados que tem affini-
dade intima com os Puris.
Tambem não julgo correcta a observação de Brin-
ton, referente à lingua dos Camés de S. Paulo que
entende ser um dialecto corrompido dos Botocudos, ao
qual foi incorporado certo numero de vocabulos africa-
nos. Brinton ligou attenção demasiada à nota de von Mar-
tius (Wortersammlung p. 212) que julgo pouco acertada.
Deixando de lado alguns vocabulos referentes a
animaes e plantas introduzidas pelos Portuguezes, O res-
pectivo vocabulario é o typico dos Caingangs que en-
tretanto, assimilou tambem alguns vocabulos tupis.
Isto já notei com relação à palavra «pira» peixe. Mar-
tius diz que os Camès denominam peixe grande «pi-
rem» coiuposto evidentemente de «pira» peixee «em»
grande; o mesmo augmentativo «em» já mencionei pa-
ra «goio-em» rio grande, nome com o qual os Cain-
gangs do Rio Grande do Sul designam o Rio Uruguay.
A obra de Brinton, por conseguinte, na parte que se
refere à ethnographia do Brazii meridional, não merece
grande confiança.
Não mais feliz que Brinton foi Ehrenreich (1) na
parte dedicada aos Caingangs do Brazil meridional.
Os seus «Sokleng» de Santa (Catharina evidentemente
são os mesmos que Saint-Hilaire denominou Socrê e
que na literatura brazileira se acham enumerados sob
o nome de Xocrens. Outra denominação usada para os
indigenas de Santa Catharina é a de Uvautäs, confor-
(1) Dr. P. Ehrenreich Die Eniteilung und Verbreitung der
Volker: timme Brasiliens nach dem gegenwirtigen Stande unse-
rer Kenntnisse. Petermanns Mitteilungen 37 Bd. 1891. IV p.
81 ss. e V. p. 105 ss.
Dr. Paul Ehrenreich. Anthropologische Studien iiber die
Urbewohner Brasiliens, vornehmlich der Staaten Matto Grosso,
Goyaz und Amazonas. Braunschweig 1897.
me em carta me communicou o Dr. Oscar Castilho. Diz
Khrenreich que em S. Paulo, especialmente no valle
do Paranapanema os Caingangs são denominados impro
priamente, Chavantes. Ha nisto um engano, visto alli
coexistirem os Chavantes com os Canigangs, como já de-
monstrei nesta Revista Vol. | 1895, p. 118. Chamo ainda
aqui a attenção ao valioso vocabulario destes Chavantes
que foi publicado por Telemaco Borba (1 c. p. 33-36)
assim como ao outro publicado por Ewerton Quadros
na Revista do Instituto Historico do Rio de Janeiro
Vol. LV 1892, p. 256-259 Comparando estes voca-
bularios com os publicados por von Martius, verifica-
se que este dialecto & completamente differente da lin-
gua dos Chavantes do Matto Grosso, como tambem é
radicalmente differente da dos Caingangs. Procurei de-
balde outra lingua que mostrasse affinidade com a des-
tes Chavantes de S. Paulo, de modo que os considero
como um grupo aberrante e isolado da familia dos Gês
meridionaes para o qual proponho o nome de Æocha-
vantes ou Chavantes Orientaes em opposição aos Cha-
vantes do Matto Grosso.
O nome de Chavantes visa mais ao modo com-
mum de vida nos campos do que a uma concordancia
linguistica.
Ehrenreich indica como traços característicos das
tribus Gés a ausencia de rêdes, a pouca experien-
cia em navegação e o uso de tembetäs ou de outros enfei-
tes que se applicam no beiço perfurado ou nas orelhas.
Esta ultima informação não é exacta, pois o uso
destes enfeites é tão commum, entre as tribus da fami-
lia Tupi como entre as da familia dos Gês. Os te be-
tas compridos feitos de resina que Ehrenreich (I. e. p.
116) attribue aos Caingangs são proprios ao Cayuäs
como é provado pelos especimens que o Museu Paulista
obteve do valle do Paranapanema e pelo artigo de Am-
prosetti (1) “(ven 76h).
(1) Los indios Caingua del Alto Paraná. Boletim del Ins-
tituto Geographico Argentino, Temo XV. Buenos Aires 1895.
p. 661—744.
RACE a
Observo que tambem a opinião de Ehrenreich
quanto aos caracteres distinctivos das flechas não póde
ser acceita.
As divergencias das opiniões acima expostas não
mencionei por referirem-se a questões duvidosas mas
apenas pelo alto apreço em que tenho os dous autores,
dos quaes cada um é competentissimo na sua especiali-
dade. Demonstra o exemplo apenas o estado de atrazo,
em que ainda se acha a investigação ethnologica dos
indigenas do Brazil meridional. Não tivemos desde a
morte de von Martius outro sabio que tivesse vastos e
profundos conhecimentos dos indigenas do Brazil e de
sua cultura e historia. As obras de von Martius ainda
hoje para nós são da mesma importancia para a ethno-
graphia brazileira como as de Linuê o são para o estu-
do systematico dos reinos animal e vegetal. O quadro
desenhado por von Martius foi modificado sô com refe-
rencia às tribus do Brazil central pelas expedições de
C. von den Steinen e P. Ehrenreich. O que dificulta
o progresso não é a falta de material mas a de inves-
tigadores que como von Martius dominem a materia em
todos os seus ramos differentes.
O que necessitamos é o trabalho synthetico. Me-
nos rhetorica, menos generalidades, e ao contrario mo-
nographias valiosas dedicadas às diversas tribus ou a
certos ramos de sua cultura material e intellectual, re-
unindo o material disperso pela literatura e pelas col-
leeções e analyzando-o por estudo critico pare descobrir
por meio do methodo comparativo os traços geraes ca-
racteristicos às diversas tribus e familias indigenas.
Resumindo as principaes conclusões a que chega-
mos, temos de salientar o seguinte : Desde a epoca pre-
historica existiam no Brazil meridional numerosas tribus
pertencentes a duas familias differentes, à los Tupis e
à dos Gês. As tribus da primeira destas duas familias,
que tem o craneo brachycephalo, eram representadas no
seculo XVI pelos Arachanes, Tapes, Carijós, Tupinaquis,
Tamcyos e Tupinambás. Os seus descendentes actuaes
são geralmente denominados Guaranis e Cayuäs. Per-
fe de
tencem a esta familia tambem os Arés do Estado do
Paraná aos quaes diz repeito o artigo adiante publicado
pelo Snr. Telemaco Borba, sendo evidentemente o vocabu-
lario o de um dialecto Tupi ou antes Guarani.
As tribus da familia Gês, caracterizadas pelo craneo
dolichocephalo, ou mesocephalo, pertencem todas à fa-
milia dos Guayanãs, cujo dominio no seculo XVI se
extendia desde o Rio Grande do Sul eo Norte da Ar-
gentina atravez de São Paulo e Rio de Janeiro até o
sertão da Bahia. Os seus descendentes actuaes dividem-
se em dous grupos, um oriental e outro occidental.
O primeiro é formado pelos Caingangs (1) que
actualmente vivem desde as Missões Argentinas e o pla-
nalto do Rio Grande do Sul até os Estados de Paraná
e S. Paulo. O seu nome antigo de Guayanãs conser-
vou-se apenas no oeste do Estado de S. Paulo, nos mu-
nicipios de Itapeva, Faxina etc., sendo substituido no
mais pelo de Coroados ou Bugres ou mesmo pelo de
algumas tribus como de Games no littoral de S. Paulo
e de Xocrens no de Santa Catharina.
O grupo occidental é formado pelos Ingaim e pelos
Guayanäs do alto Paraná na zona comprehendida entre
os rios Uruguay e Paraná. As linguas destas duas tribus
apresentam pouca differença entre si sendo entretanto
bastante differentes do idioma dos Caingangs.
Todavia existe um parentesco geral destas linguas
que nos obriga a considerar as tribus dos dous grupos
‘como membros duma subfamilia que é a dos Ges meri-
dionaes. O conhecimento insufficiente deste ramo dos
povos Gês foi a principal causa do estado de atrazo em
que até esta data ficou a investigação ethnographica do
Brazil meridional em comparação com outras regiões do
paiz.
São Paulo, 19 de Agosto de 1905.
(1) O nome de Caingangs foi em 1882 proposto e intro-
duzido na literatura pelo Sr. Telemaco Borba no artigo citado.
Os Indios Guayanäs
POR
BENIGNO E MARTINEZ
Créem que os Guayanãs de 8. Panlo procedem
de uma das raças primitivas do Brazil, segundo a clas-
sificação feita pelos ethnographos desse paiz.
As numerosas tribus do Brazil, são divididas em
dois grandes grupos:
1.º A raça primitiva (Abauna); 2.º a raça mixta,
dividida em dois ramos: Os Tupys, ou Tupiés, e os
Tapuyas. A esta ultima pertenciam os Guayanazes
(Guayands de S. Paulo). Estes selvicolas, como as
demais tribus da raça Tapuya, falavam grande numero
de linguas, em quanto que os individuos da raça Tupy
entendiam uma lingua geral, um tanto modificada, com-
tudo, por muitos dialectos.
Varnhagen, por sua parte, só acceita uma lingua
geral e uma só raça primitiva, chamada Tupinambá,
embora falassem dialectos daquella lingua e se denomi-
nassem de modo diverso ; —assim, é que no Maranhão,
como no Pará, Bahia e Rio de Janeiro, si se pergun-
tava a um indio de que nação era, respondia logo que
da Tupinambá.
Como quer que seja, o nome da nação Guayd ou
Guaya-nd, ~ não significa outra cousa que Guaya
(gente) e nd (estimada) «nós os estimados» ou tambem
guay e and (gente) (1).
(1) Varnhagen: Historia Geral do Brazil; t. I pag. 100.
LRO (ey ee
Os possuidores da Capitania de S. Vicente deno-
minavam-se a si proprios Guayands, uns que não que-
riam olvidar a sua procedencia do norte, dos Tamoyos,
Temiminds e outros, finalmente, Tupinambás.
Seus visinhos, porém, os chamavam Tupiniquis
(segundo Staden) e os seus inimigos, em guerra com elles,
os appellidavam Maracajds (Gatos bravos). Os colonos
os denominavam Caboctos, nome que exprime o con-.
trario de Hmboaba (perni-vestidos) que os indios davam
aos primeiros. Tambem os chamaram Bugres, nome
que os viajantes acceitaram sem as devidas resalvas, pois
esse nome apenas significa escravos, e desse modo de-
nominaram os primeiros colonos às tribus do Brasil.
Como quer que seja, não se deve ter em conta os
nomes das tribus ou nações para classifical-as ; é indis-
pensavel estudar seus caracteres anthropologicos.
Vejamos, agora, si os Guayands, do alto Parana
podem ou não ser oriundos dos que habitaram nos tem-
pos da conquista em Piratininga, (Peixe-secco) hoje 8.
Paulo.
E' inquestionavel que as tribus brasilico-guayaniti-
cas eram nomadas e não se deve extranhar que as suas
peregrinações, desde o Amazonas (Parand-Assi) até o
Rio da Prata (Paranä-Guacu), hajam produzido em um
lapso de tempo, mais ou menos largo, as confusões que
se notam na distribuição das tribus guaranys desde o
tempo da descoberta do Brasil até nossos dias.
Si os guayands foram os primitivos babitantes
de Piratininga, às margens dos affluentes mais sep-
tentrionaes de Paraná, póde-se extranhar que Azara
os haja encontrado no Alto Paraná no seculo XVIII,
onde, no seculo passado, estudou seu vocabnlario o Te-
nente do Exercito Paraguayo D. Domingo Patinho (1863)
e o explorador Lista em 1883?
O sr. Felix de Azara começa a descripção dos seus
Guayands (seculo XVIII) declarando :
«Que eram urto differentes dos que ne Paraguay
tinham este nome sendo guaranys.» Trata-se por con-
seguinte de outras tribus Guayands, que, supponho,
RE pa pn
são oriundas do Norte, isto é, das nascentes do Parana
e seus afluentes de S. Paulo (Piratininga).
Estes Guayands (de Azara) viviam, no seculo XVII,
nos bosques orientaes do Rio Uruguay, desde o Rio
Guirai para o Norte e tambem a leste do Rio Para-
na, muito mars acima do povo de Corpus.
«Parece que suas tribus», pondera o auctor cita-
do, «são muito pequenas e independentes umas das ou-
tras. Differem de todos os outros povos indigenas no
idioma; no falar alto, agudo e desentoadamente ; na
sua côr muito notavelmente mais clara; na physiono-
mia mais alegre e activa; na circumstancia de alguns
terem olhos azues e na sua estatura um tanto descar-
nada, bem proporcionada, sem ceder (?) à hespanhola.
Não têm barba e conservam as sobrancelhas e pesta-
nas. São pacíficos e um tanto carinhosos com os ex-
trangeiros. Conhecem-se os varões devido às muitas
cicatrizes que têm nos braços, resultado, creio, dos
duellos e brigas, semelhantes aos dos Charrüas e de outras
nações. Os mesmos cingem a fronte com uma cinta
de plumas tecidas com fibra d> caraguati, sendo as
vermelhas as que mais apreciam, no mais andam total-
mente nus e as mulheres cobrem a cintura com um
tecido do mesmo caraguata. | .
parece que temem passar rios grandes, e se asseme-
lham aos tupys nas armas, nas habitações, na agricul-
tura e em possuir animaes domesticos.
No tempo da conquista encontrou-se esta nação cir-
cumdada de Guaranys na Provincia de Itati, nos campos
de Jerez. Aldearam-na os hespanhoes, formando della
uma povoação que foi assaltada e destruida pelos por-
tuguezes, sendo seus habitantes vendidos no Brazil como
escravos» (1).
Nas precedentes linhas, não só prova D. Felix
Azara que os Guayanis por elle descriptos não eram
Guaranys, como tambem affirma que tinham lingua
propria.
(1) Descripção historica do Paraguay e Rio da Prata T. I.
pag. 191.
48 —
Sua affirmaçäo de que não se atreviam a passar
grandes rios não se explica, sendo, como o eram, Ca-
noeiros, e demais, porque os “exploradores Patinho e
Lista os encontraram na parte occidental do Alto Pa-
raná no decimo nono seculo. Estas tribus nomadas
eram muito andejas e de seculo em seculo deviam tro-
car necessariamente de localidade, fazendo largas tra-
vessias, sobretudo desde que começou a perseguição
pelos conquistadores. E não só mudavam de logar,
como tambem de costumes, segundo se nota nas peque-
nas variantes entre o relatorio de Azara e o de Lista,
que reproduzimos e» seguida, porque permittem reco
nhecer que se referem a uma mesma nação indigena,
formada pelas tribus Guayands do Oriente do Parana,
e Uruguay e as do Occidente daquelle rio.
Os indios canoeiros conhecidos com o nome de
Guayanas, diz Lista, habitavam nos bosques occidentaes
do Rio Paraná, entre o parallelo de Corpus e o rio:
Monday.
Antes de tudo, os caracteres anthropologicos que
distinguem os Guayanãs e que tenho tido occasião de
de com frequencia, durante a minha viagem, sao
muito salientes e quasi identicos aos dos outros selva-
gens sul-americanos.
A maioria é de uma côr ligeiramente bronzeada ;
de olhos grandes e escuros.
A estatura media, oscilla entre 1m,55 e 1m,60, notan-
do-se que as mulheres são commummente mais altas que
os homens.
4 forma do craneo é muito variavel; porém pre-
domina a mesocephala. A cara é bem mais comprida
que larga; o collo curto; as mãos e pês pequenos e bem
conformados. Usam o cabello, que é negro e basto, curto
e recortado as vezes sobre a frente, quiçá como de-
monstração de desafio.
Differem notavelmente dos demais povos guaranys
pela voz que é aspera e dissonante, pelo uso de algumas
palavras que parecem exoticas, e tambem pela expressão
mais benevola do rosto que, com frequencia, é tatuado.
doa 5 us
Não têm barba e nem pello algum no rosto, com
excepção das sobrancelhas e pestanas, que alguns dandys
com especial esmero conservam.
Os dois sexos cobrem sua nudez com avental de al-
godão que fixam na cintura, por meio de uma corda de
caraguatá.
As mulheres cuidam da habitação, tecem e cultivam
a terra. Os homens buscam os alimentos, confeccionam
as armas e utensilios, constróem as chóças para abrigo
de sua prole e escavam o tronco de algum timbó ou
cedro que se converte em fragil canôa.
O guayana é mui dado à pesca, porém nunca se
descuida da caça. Sentado à pôpa, maneja sua rapida
embarcação, com uma longa pá, e suas certeiras fle-
chas estão sempre ao alcance das suas mãos. Quando
a batida na selva é infructifira, o guayan& aprompta
seus apparelhos de pesca e, sem dizer adeus à pessoa
alguma, se lança nas ondas do Paraná, em busca de
praia distante que o brinda com abundante porção de
peixes.
Com frequencia permanece fóra da habitação sema-
nas inteiras, emquanto sua mulher e filhos o esperam
anciosos, vagando durante o dia à margem do rio e
invocando à noite, o bom genio que habita as grutas
basalticas dos seus barrancos.
Tenho em meu poder suas armas que consistem em
cacetes nodosos e pesados, e flechas com seis a sete quar-
tas de comprimento com pontas de ferro ou de madeira
dura, denteadas, as vezes. O arco de que usam é quasi
recto, grosso no meio como a munheca. Não usam car-
cazes, que eu saiba.
O guayand é pusillanime e supersticioso.
Teme os christãos, teme os tupys e os cayuds,
teme os tigres, o raio, o ventc e os redemoinhos. Um
peixe que salte sobre a onda, o grito pungente de uma
ave, o ganido de um cão ou um traço luminoso que
deixe no espaço durante a noite um meteoro qualquer,
são prenuncios de grandes calamidades.
Antigamente, os mortos eram enterrados em vasi-
DO ER
lhas de barro fabricadas para esse fim; hoje, esta
olvidado esse costume, enterrando-se os cadaveres dire-
ctamente na terra, com as pernas sobrepostas e as mãos
cruzadas para baixo. Em signal de luto e à imitação
dos Charruas e Minuanos, cortam-se o rosto e os bra-
ços com espinhas e ossos aguçados.
Parece que toda a nação guayand conta apenas
umas seiscentas almas, que habitam, em sua maior parte,
a « Villa Azara» e suas immediações (1).
Esses guayanás descriptos por Lista são, a meu vêr,
originarios do norte do Parana, quiçá da região de Pi-
ratininga, embora se notem em sua lingua afinidades
com a /ngaim de algumas tribus do Estado do Parana.
Deve, pois, elucidar-se, pela comparação dos vocabula-
rios adjunctos e dos caractéres anthropologicos acima
reproduzidos da obra de Lista, se os guayanäs do alto
Paraná correspondem ou não aos habitantes indigenas
de S. Paulo.
Confrontado isso, agradeceriamos ao Dr. von Ihering,
nos communicasse o resultado das suas investigações.
Grupo Guayanã
Portuguez Guayanã (2) Ingaim (3)
OL. vo o RO Na ED Veo Ra raio ED
À E PRA M SAN aa EE AD OP EEE tree
Dia. 1,0 M Romha Ier. ve) ors SRA O ra e
dental as — Taum.
Agua’... . «Cram (BD) pranl(L) o Kran; Karat.
Roso jo): sup Una Late MECS ETA
Padre ou Pae . — long; io; nijong.
Mie So Am ha GE E a IN cute emai?
TR NAN Sra pan (plone
acpuedá; gundon.
Cabeça. . . . Aparé (P) ameai (D). Aut; rem:
(1). O Territorio das Missões, Ramon Lista, Buenos Aires,
1888; pg. 98 cap. Ethnographia.
(2) Do vocabulario do Tenente do Exercito do Paraguay, D.
Domingo Patino que se indica com (P) e algumas palavras ajunta-
das pelo explorador Lista, que se indicam com (L).
(3) Do vocabulorio do explorador Juan B. Ambrosetti.
Portuguez Guayanà Ingaim
Na. Aminha(P:) qi e «+ Anedja; nesa; anima,
: Amitan; niet kan;
Peart. ois Amine (E) ley ees See Ne 1
Rose aE) | aningnt.
emo a's — Agnupá; amunda.
Dente . . . . Amiyao (pl) (P.) . : Amiau (pl); amniau.
Maio. . . . . Amincaminuita (P.) . Amenguan; amenga.
Amenenca:(L.) 4 ve.) Amencori.
LUE NAT o 8 pote — —
Lo VE — Bipá; hiré.
«Bite da a ule, — Tei
PRES ec a et as = Chikari; tuktain.
CULO CAS joio V— Tocnospa; scianni,
ITED AN tye) Slee ips | — Chekaripa (1)
Vocabulario da lingua Guayanã O
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Dener ts VAE Uia Rennes abn Uk iam saa) esr ETL
VEO ere tas whee tals Ry yr tes ara ets A OD RL ce
Estrela o se har Woon bica Een 5
PRET el ane Me aa EN ba ACTE OL, PUTA
HO ere RO carats AR eta gree) hate TT D a
(1) De cinco para adiante usam as palavras badaibere;
dejde (muito).
(2) Exceptuando as palavras impressas em cursivo, que re-
colhi durante minha viagem, todas as demais que formam este
vocabulario, pertencem ao tenente do Exercito do Paraguay D. Do-
mingo Patiño, que praticou em 1863 um rapido reconhecimento
do Alto Paraná, dendo conta a seu Governo dos resultados de
sua commissão em um extenso relatorio publicado em 1881 pela
imprensa de «La Reforma» de Assumpção com otitulo de «Dia-
rio de uma viagem pelo Paraná».
Flomem Lien",
Machado . . .
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Ambré
Quimda
Chichar
Amirybiya
Pirihi
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(Juinheré
Cuche
Dan ou guengta
Anha
Ma
Acré
Aminhã
Aminerá
Apintá
Curuguá
Ambruy
Ndayá
Lá
Apitamingahy
Aminta ou amlé
Amintá ou amlé
Jutá ou ita
Querê ou quenê
Nli
Neré
Aminerara
Ndau
Roinha
Chuehi
Ndao
Inbecha
Cundu
Poho
Npão
Observações Sobre os indigenas do Estado do Paraná
POR
TELEMACO M. BORBA
EM TIBAGY.
Lendo na Revista do Museu, volume I, o artigo
do Snr. Dr. H. von Ihering, sobre os «Corôados», junto
envio à Redacção dessa Revista uma lenda sobre a
origem delles. Recommendo tamben a leitura de um
pequeno escripto meu sobre estes selvagens, publicado
no Tomo Il da Revista mensal da Secção da Sociedade
de Geographia de Lisboa no Brazil, em 1883.
O pouco que tenho escripto sobre os selvagens do
Paraná, não é phantasia, mas sim ouvido e observado
dos proprios selvagens, entre os quaes vivi por espaço
de mais de vinte annos.
Um exemplo da veracidade da opinião do Snr. Dr.
H. von Ihering, sobre a confusão que existe na deno-
minação de tribus, de uma mesma nação, com nomes
differentes é o seguinte :
Martius e S.® Hilaire, tratando dos «Cordados»,
denominam-os de «Gamés» ; outros de Bugres, de Co-
roados ou de Tupys.
— o4 —
O primeiro que deu-lhes o verdadeiro e generico
nome de Xaingangues penso que fui eu.
Os que aldearam no Jatahy chamam-se «Kain-
gangue-pé», isto é, Kaingangues legitimos, verdadeiros;
mas, entre elles distinguem-se em Camés, Cayurucrés e
Kaingangues. Os que habitam nas immediações de
Guarapuava e Palmas chamam-se Camés. Os da zona
comprehendida entre os rios Piquiri e Iguassu, Xocrés,
e os da margem direita do Paranapanema «Nhakfa-
teitei». Entretanto, falam todos a mesma lingua, usam
as mesmas armas e utensilios e têm os mesmos costumes.
Parece-me que o Sr. Ewerton (Quadros não obser-
vou bem os «Cayguás» ; desculpe escrever assim, mas é
como elles se denominam ; esses indios não têm os olhos
bridados, são robustos, laboriosos e mais leaes que os
Cordados. Nao têm nada do typo mongolico; homens
e mulheres andam todos vestidos; os homens usam
uma tanga, a que chamam —xeripä e as mulheres uma
especie de camisa sem mangas—tipoi; tudo de algo-
dão fiado e tecido por ellas ; os homens furam o labio
inferior onde trazem o tembetá; as mulheres não. Não
são anthropophagos e falam © Guarany.
,
O systema de numeração é quinquenal e não sep-
tenal; não têm signaes para exprimir os numeros, mas
dizem : «Pete.n para exprimir — 1 ; Mocoen, 2; Boapy, 3;
Iruady, 4; Tineruim, 5. Depois usam Tenhová, para 6;
Mocoéova, para 7; Boapyovä, 8; Irundyovä, 9; Tine-
ruin-ová para 10».
Parece-me tambem que o Sr. Capistrano de Abreu,
labora em erro, quando contesta a opinião do Dr. von
Ihering sobre a nacionalidade dos Guayands, a extensão
da zona por elles habitada ou percorrida, e quando con-
sidera os «Corôados» descendentes delles :
1.º porque a zona litoral do Paraná é exigua por
demais para abrigar e alimentar uma horda grande,
como devia ser a Guayanã, e que como todas, ou quasi
todas, viviam só dos productos que a natureza lhes of-
ferecia ;
— D9 —
2.º A prova de que eram da Nação Guarany ou
Tupy e de que habitavam quasi a totalidade do Estado
do Paraná, ahi está nos nomes dos rios, arroios e lo-
' calidades que deixaram e que são, com excepção ape-
nas de 4 ou 6 na Comarca de Falmas, fronteira do
Rio Grande, Guaranys.
Vou citar alguns, partindo do litoral para o
centro: Paranaguá, Itiberê, Emboguassú, Itupava, no
litoral ; Ypiranga, Piraquara, Bracajovava, Ti nbu, Ba-
caxiri, Cangeren, Atuba, Crvtiba, lguassu, Barigúi, e
outros no planalto de Curytiba; Itaqui, Purunau, Bu-
tucuära, Caniú, Cambiji, Tibagy, Pitanguy, Carambey,
Yapó, Pirahy, Conhapoxan, Jaguarycatu, Ivahy, Imbi-
tuva e outros no planalto dos Campos Geraes ; Guara-
puava, Piquiri no de Guarapuava, todos Guaranys.
Nomes de rios e localidades na lingua dos «Go-
roados», existem apenas nas comarcas de Palmas e Gua-
rapuava, e são que eu saiba Goyoen, Chapecó, Chupiu,
Xanxêrê, Campéré, Xagu e Candói. Si os Guayanãs
fossem ascendentes dos Cordados e não Guaranys, de-
veriam nos nomes das localidades que habitavam e per-
corriam, ter deixado vestígios da lingua que falavam,
como os que existem na (Comarca de Palmas, na dos
«Cordados». Eram por consequencia Guaranys os Gua-
yanas.
Os Arés são conhecidos no Oeste deste Estado
(margens do Ivahy) pela denominação de Botucudos ;—
são selvagens de indole pacifica, completamente agrega-
dos ao convivio de outras tribus; não tem agricultura;
vivem exclusivamente da caça, pésca e fructas silvestres ;
ainda hoje seus instrumentos cortantes são de pedra e
de osso.
~
Elles proprios, quando consegui relações, me con
taram que o nome de sua tribu é «Aré». Para mim
não ha duvida que estes selvagens, tanto pelos caracte-
res physicos, como pelos linguisticos, são de raça Gua-
rany.
Coroados é que elles não são nem nos costumes nem
Tembetä de Aré
O —
na lingua. Usam os homens,
no labio inferior, um tem-
beta de osso ou de nó de
pinho da fórma do desenho
Junto.
A. é collocado transver-
salmente no labio inferior. b
entra em a, que não traspassa
a peça roliça e firma-se neste
encaixe pela humidade em
contacto com os labios.
Desenhado pelo sr. Hugo
Nickol, A tamanho natural;
B, 1/2 tamanho natural.
O nome da Saracúra em
Aré e Guarany é Saracú;
na dos Cordados é Pet-faug.
O sapacurú tem o mesmo
none tanto em Guarany como
em Aré; não me recordo
do nome que lhe dão os «Co-
roados». Os Tembetäs (émbé,
beiço, labio; éta, grande, mui-
to) dos «Ceyguas», feitos da
resina do Jatahy ou jabotá,
são brancos e transparentes;
fabricam-nos tambem da re-
sina de uma arvore chamada
Guassatunga, mas, os mais
communs, são amarellos tam-
bem transparentes, mas todos
muito frageis.
Junto a estas considerações algumas palavras dos
Arés, que extrahi de uma velha caderneta, onde tinha-as
notado ouvindo-as de um Aré. Não conheço os Ingains
de Ambrosetti, mas, conheci o cacique Maidana.
re APE
Vocabulario dos Arés
Anta . Tapi. Lenha Japeá.
Amigo . . Quiê. Lontra Miraca.
Agua. li. Mae Ahi.
Ares . Tapa. Macaco . . . Caiqui.
Arsar . Ixá. Machado de pedra. Geitá.
Amarello. Tju. Matar . Tinopa.
Arara. Guacá. Morreu Man.
Anus. Abicua. Minha Xeruy.
Rome; ro, Avixa. Milho. : Abaxi.
Braco. Giné. Poreo do matto Taiassu..
Branco . Tin. Pai Ru.
Bugio. ; Anané. Pedra. Ita.
Cabeça. . Acau. Pelle . Ipiré.
Cobra. . Boy. Peixe. Pirá.
Comprido, longo . Gaê. Preto. Hom.
C Sore Nhomon- Patos: Jú.
onversar : à
guetá Ruim. Irahi.
Correr Monia. Sogra . Aicapu.
Cunhado. . Avâim. Sogro . Araja.
Feijão . . Camanda. Tigre . . Jaguá
: Tata. Tateto. (Dye. tor- Xétotu
umo, tabaco, Ci- Abix quis) ud
iju.
garro . à Pea, cie he Eny.
Grande Avixä. Veado Guaxu.
Jacutinga Jacutin. Venha . Ejô
Jocúcaca. Jacucá. Vermelho Morápiram.
Lenda ou mytho dos Indios «Cayngangs»
Em tempos idos, houve uma grande inundação que foi
submergindo toda a terra habitada por nossos antepassados.
Só o cume da serra Creinjijinhe emergia das aguas.
Os Cayngangs, Cayurucrés e Camés nadavam em direc-
ção a ella levando na-bocca achas de lenha incendidas.
Os Cayurucrés e Camés, cansados, afogaram-se ;
suas almas foram morar no centro da serra.
Os Cayngans e alguns poucos Curutons, (1) al-
cançaram a custo o cume de Crinjiinhê, onde fica-
ram, uns no sólo e outros, por exiguidade de local, se-
guros aos galhos das arvores, e alli passaram alguns
(1) Estes Curutons são os Arés da Lenda seguinte. Fallam
o Guarany, um pouco corrompilo.
CANNES
dias sem que as aguas baixassem e sem comer ; ja es-
peravam morrer quando ouviram o canto das saracú-
ras, que vinham carregando terra em cestos, lançando-a
à agua que se retirava lentamente.
Gritaram elles às saracúras que se apressassem, e
estas assim o fizeram, amiudando tambem o canto e
convidando os patos a auxilial-as.
Em pouco tempo chegaram com a terra ao cume,
formando como que um assude, por onde sahiram os
Cayngans que estavam em terra; os que estavam se-
guros aos galhos das arvores transformaram-se em
Macacos e os Curutons em Bugios.
As saracuras vieram com o seu trabalho, do lado
donde o sol nasce, porisso nossas aguas correm todas
ao poente e vão ao grande Paraná.
Depois que as aguas seccaram os Cayngangues es-
tabeleceram-se nas immediações de Crénjijinbé. Os Cayu-
rucrés e Camés, cujas almas tinham ido morar no cen-
tro da serra, principiaram a abrir caminhos pelo inte-
rior della; depois de muito trabalho chegaram a sahir
por duas veredas: pela aberta por Cayurucré brotou
um lindo arroio e era toda plana e sem pedras, dahi
vem terem elles conservado os pês pequenos; outro
tanto não aconteceu a Camê que abriu sua vereda por
terreno pedregozo, machucando elle, e os seus, os pés
que incharam na marcha, conservando-os porisso gran-
des até hoje. Pelo caminho que abriram não brotou
agua e, pela sède, tiveram de pedil-a a Cayurucré,
que consentiu que a bebessem quanta necessitassem.
Quando sahiram da serra mandaram os Curutons
para trazer os cestos e cabaças que tinham deixado
em baixo; estes, por preguiça de tornar a subir, fica-
ram ali e nunca mais se reuniram aos Cayngans : por
esta razão nós quando os encontramos os pegamos co-
mo nossos escravos fugidos que são.
Na noite posterior à sahida da serra, atearam fo-
go e com a cinza e carvão fizeram Tigres (Ming, e
disseram a elles—vão comer gente e caça—e os Tigres
foram-se rugindo. Como não tinham mais carvão para
— 99 —
pintar, só com cinza fizeram as Antus (Oyoro), e dis-
seram-lhes -vão comer caça —, estas, porém, não ti-
nham sahido com os ouvidos perfeitos, e por esse mo-
tivo não ouviram a ordem e perguntaram de novo o
que devian fazer; Cayurucrê, que já fazia outro ani-
mal, disse-lhes, gritando e com mau modo - vão comer
folhas e ramos de arvores -:; desta vez, ellas ouvindo
se foram: eis a razão porque as Antas só comem fo-
lhas, ramos de arvores e fructas.
Cayurucrê, estava fazendo outro animal; faltava
ainda a este, os dentes, lingua e algumas unhas, quan-
do principiou a amanhecer, e, como de dia elle não
tinha poder para fazel-os, pôz-lhe ds pressas uma va-
rinha fina na bocca e disse-lhe—você como não tem
dentes viva comendo formigas —: eis o motivo porque o
Tamanduá (Jóti) é um animal inacabado e imperteito.
Na noite seguinte continuou e fel-os muitos entre elles
as abelhas boas. Ao tempo que Cayurucré fazia estes ani-
maes, Camé tambem fazia outros para os combater : fez
os Leões americanos, as cobras venenosas e as vespas.
Depois deste trabalho marcharam a reunir-se aos
Cayngans, mas viram que os Tigres eram máus e co-
miam muita gente, então, na passagem de um rio fun-
do, fizeram uma ponte de um tronco de arvore e, de-
pois de todos passarem, Cayurucré disse a um dos
Camês que quando os Tigres estivessem na ponte pu-
chasse esta com força, afim de que elles cahissem n’agua e
morressem. Assim o fez o de Camé; mas, dos Tigres uns
cahiram à agua e mergulharam, outros saltaram ao barran-
co e seguraram-se com as unhas; o de Camé quiz atiral-os
de novo ao rio, mas como os Tigres rugiam e mostra-
vam os dentes, tomou-se de medo e deixou-os sahir : eis
porque existem Tigres em terra e nas aguas.
Chegaram a um campo grande, reuniram-se aos
Cayngans e deliberaram casar os moços e as moças.
Casaram primeiro os Cayurucrés com as filhas de Ca-
“mês, estes com as daquelles, e como ainda sobraram
homens, casaram-n'os com as mulheres dos Cayngans.
Dahi vem o motivo porque Cayurucrés, Camés e Cayn-
gans são parentes e amigos.
— 605 —
Quizeram, então, fazer festas, mas não sabiam can-
tar, nem dansar. Um dia, companheiros de Cayuru-
crê, que andavam caçando, ao sahir na clareira de um
bosque, viram junto ao tronco de uma grande arvore
um pequeno limpado ; encostadas a esse tronco algumas
varinhas con folhas e uma dellas com uma cabaça en-:
fiada na ponta: retiraram-se e deram parte a Cayuru-
crê e este deliberou ir no dia seguinte verificar o que
seria. Dirigiu-se com precaução à clareira, escondendo-
se perto do tronco; dahi a pouco as pequenas varas
principiaram a mover-se compassadamente debaixo para
cima e uma voz debil a cantar assim — Eminotim vê,
é é, é: Ando mó cá é vô a, ha, ha, has e a pèques
na cabaça em movimento cadenciado produzia um som
assim — aut, we, xi, vi... Cayurucrê aproximou-se
do tronco; cessou, porém, repentinamente todo canto e
movimento das varas, estas continuaram encostadas ao
mesmo tronco. Procurou e nada mais vio que a terra
muito limpa e pizada junto ao tronco. Retirou-se e voltou
no dia seguinte com todos os companheiros ; approxima-
ram-se cautelosamente do mesmo lugar e viram e ouviram
o mesmo que no dia anterior : depois do primeiro canto a
voz cantoneste outro — Dô camdm corojé, canambang,
có tyongdd, emi no tim gure que matin... é que matin.
Decoraram os cantos, approximaram-se do tronco
e só viram as varas; então carregaram estas, fizeram
outras iguaes e prepararam-se à fazer uma grande festa.
No dia desta Cayurweré abriu sua bocca e canton os can-
tos que tinha ouvido na clareira, fazendo com a vara que
tinha a cabaça e com o corpo os movimentos que tinha vis-
to; seus companheiros o imitaram, e eis como aprende-
mos a cantar e a dansar sem saber quem fora o mestre.
Passados tempos, Cayurucré encontrou no cami-
nho um Zamanduä-mirim (Kakrekin) e levantou o
bastão para matal-o. O Tamanduá ficou de pé, princi-
piou a dansar e cantar os cantos que elle tinha apren-
dido na clareira; conheceu, então, Cayurucré que fora
elle o seu mestre de dansa. O Tamanduá pediu-lhe o
seu bastão e depois de com elle dansar restituiu-lho e
— 61 —
falou «o filho que tua mulher traz no ventre é homem,
e fica isto estabelecido entre nós, que quando tu, ou
os teus encontrarem-se commigo e me entregarem os
seus bastões e eu os tomar, e dansar com elles, é si-
gnal que tuas mulheres te darão filhos machos; se eu
os largar sem dansar serão femeas, os filhos».
Cayurucré voltou muito satisfeito, e nós quando
encontramos o Zamandud-mirim, sempre renovamos a
experiencia, que da resultados quasi sempre certos. O
Tamandud-mirim sabe outras muitas cousas que nós
ignoramos, e nós pensamos que elles são as primeiras
gentes, que por velhos tomaram a forma que hoje têm.
Contou-me esta lenda o Cacique Arakxd, que a
ouviu da mãe da mãe de sua mãe, tendo esta ouvido-a
de seus progenitores, bem como a historia da formação
de sua tribu.
Lenda ou mytho Aré
Em outros tempos hsuve uma chuva grande, que
alagou-as terras em que habitavamos. Um só dos nossos
que ia nadando já muito cançado, vio a cópa de uma
palmeira que emergia das aguas; acercou-se della, pe-
gou em um ramo que, estando secco, quebrou-se e elle
continuou a nadar amparado pelo ramo; ao anoitecer
vio outra cópa de palmeira, acercou-se della e segurou
em um ramo verde e por elle subio e acommodou-se
nos galhos, e ali esteve por muitos dias soffrendo fome
e frio; depois, os fructos da palmeira principiaram a
amadurecer e elle foi comendo-os e alimentando-se del-
les. Em um dia, ouviu ac longe o canto do sapacurú
(uma especie de ibis dos nossos rios), que a elle se ap-
proximava. «Continue firme ahi, eu vou trazer terra
para você descer.» Dahi a pouco pousou sobre os ga-
lhos da palmeira, uma saracúra e vendo-o aii disse-lhe :
«Perto daqui tem terra, porque não vai lá ?—Näo
posso, estou muito fraco: si eu largar a palmeira com
certeza morro.» Então a saracúra disse: «Eu vou bus-
Nino
car terra.» E ella e o sapacuru traziam terra nos bicos
e a espalhavam pela agua, que seccava. Nos lugares que
o sapacurú largava a terra, como seu bico era maior,
ficava a terra elevada formando montenhas. Antes
dessa chuva a terra em que habitavamos era plana; e
a agua desappareceu, e elle desceu da palmeira, e vivia
dos fructos e raizes das arvores; mas estava só no meio
dos outros animaes que não eram como elle. Um dia
o sapacurú disse-lhe: «Porque você não vai procurar
uma companheira ? Na enseada grande da lagôa tem
muitas. aga uma jangada, entre nella que eu mando
os patos te conduzirem aonde estão as moças das ou-
tras gentes.» E, na manhã seguinte, os patos levavam,
a reboque, a jangada com elle dentro. Na beira da
lagôa banhavam-se muitas moças ; ellas viram a jangada,
correram para a praia assustadas; uma dellas atirou-se
à agua, e nadou para a jangada ; ali chegando, elle a
prendeu nos braços e os patos arrastaram a jangada
para o pouso delle. As outras moças contaram a gente
dellas o occorrido, e elles foram em perseguição dos fu-
gitivos, mas não os poderam alcançar. Arê casou-se com
a moça, tiveram filhos, mas quando encontramo-nos com
as outras gentes sempre estas brigam comnosco. Eis a ra-
zão porque vivemos separados e como perdidos nas mattas.
Sós, nús, vivendo da caça que apanhamos em nossos laços
e mundéos, não cultivamos nada para que não nos des-
cubram os outros, e porque nos satisfazemos com os fructos
da terra, o mate e o fumo que dá naturalmente em qual-
quer parte. Andamos nús, porque não sabemos fazer co-
berturas e, além disso, o clima daqui ê quente e bom.
Assim concluio sua narração, um indio, já de tal-
vez uns 60 annos, alto, cheio de corpo, de ar tristonho,
que vive como escravo dos Cayngans e por elles apri-
sionado ha quatro annos. Pertence à nação (quasi
extincta) dos Arés, conhecidos por nós pela denomina-
ção de — Botocudos — pelo costume que têm de usarem
um tembeta de nó de pinho ou osso, no labio inferior.
EG RS oS
MY RIAPODES
DU
MUSEU PAULISTA
Il?’ mémorie: Manaos
PAR
HENRY W. BROLEMANN
ancien Président de la Société Entomologique de France,
Correspondant du Museum d’Hist. Nat. de Paris.
(AVEC PL. I—II)
La liste que nous publions ci-après ne représente
certainement qu'une minime partie de la faune de Ma-
naos. Mais, telle qu'elle est, elle permet déjà d'apré-
cier tout l'intérêt que présentera l'étude plus approfondie
de cette faune, lorsque des recherches réitérées nous
auront mis en possession de matériaux plus abondants.
Autant que nous pouvons en juger aujourd'hui, cette
faune est différente de celle de l'Etat de S. Paulo, que
nous avons etudiée dans notre premier mémoire; (1)
elle paraît constituer um trait d'union entre cette ‘der-
mère et la faune Sud-Américaine du Golfe du Mexique
et des Antilles. C'est ainsi que nous voyons apparaître
ici en abondance les Newportia si communes dans
l'Amérique Centrale, le Venezuela e les Guyanes, ainsi
que les Huryurus, dëjà moins typiques, mais incontes-
tablement apparentés, et de prés, aux Huryurus de
Colombie et du Venezuela. Il serait done à désirer
que l'attention des chercheurs se portat sur cette région.
Nous ajoutons à ce mémoire une planche en cou-
leurs qni appartient à notre premier travail.
Paris, Février 1902.
(1) Revista do Museu Paulista, V, 1901,
Pag ees
CHILOPODA
Scolopendra (?) morsitans Linné 1766 (1)
Une jeune échantillon étiquetée : Manaos,n. 12 (Bi-
cego leg.).
Cet unique échantillon dont les pattes anales sont
épaissies et armées comme celles de S. Morsitans, mais
pas distinctement déprimées sur la face dorsale, n’a pas
les écussons dorsaux rebordês.
Ce n’est qu'avec doute que nos Videntifions à l’es-
pèce do Linné.
Scolopendra viridicornis Newport, 1844.
Ktiquetée: Bahia (Bicego leg.)
Cupipes ungulatus Meinert, 1885.
Longueur 28 mill.
Etiquetée : Manaos, N. 10 (Bicego leg.)
Les épines du fêmur des pattes anales sont un
peu moins nombreuses (en tout 9 ou 10 au lieu de 11),
très petites, mais disposées comme chez le type; l’épi-
ne apicale de l’arète supero-interne est double. Les des
pores de la hanche des mémes pattes sont peu nombreux,
de dimensions moyennes, assez égaux, subsériés et sont
groupés sur un champ ovale qui n'atteint ni la base
ni la pointe de la hanche; la pointe de la hanche est
arrondie et porte (parfois) une très petite épine ( Mei-
nert ne donne pas de détails au sujet des pores). Les
prolongements du coxo-sternum des pattes máchoires
portent à Vextrémité un groupe (interne) de deux dents
épaisses, arrondies et accolées l’une à l’autre, et une
dent externe isolée, plus petite que les autres, et pla-
cée en retrait.
(1) Pour la bibliographie et les synonymies voir le cata-
logue des espèces brésiliennes qui sera publié à la suite du pré-
sent mémoire.
AO A ee
Meinert met en synonymie avec son C. ungulatus,
mais en l’accompagrant de deux points de doute, le
Cupipes brasiliensis Humbert et Saussure; cependant
ce dernier parait bien caractérisé par les épines qui
accompagnent le sillon dorsal du tibia (2º"e article).
En 1898 (Ann. Soc. Entom. France, LX VII, 3º.
trim., p. 318), nous avons décrit, sans le dénommer,
un Cupipes qui ressemble beaucoup au C. ungulatus
de Manaos; les pores des hanches des pattes anales
paraissent de même taille et disposés de méme, mais
le fémur est complètement inerme. Nous le considé-
rons comme une variété de l’angulatus, que nous nom-
merons var. Venezueliana.
La clef suivante permettra de distinguer les espe
ces et varictés ci dessus les unes des autres et de la
variété décrite plus loin:
Tibia des pattes anales armés
d’épines bifides en dessus de
chaque côté du sillon dorsal . C. brasiliensis H. & S.
ibra inerme en: dessus; "420 B.
a
Fémur inerme . . . ,. . . . C. ungulatus venezue-
lianus mihi
Fémur armé d’une ou de plusieurs
OO DEE Ricci ean a Sieh sanyo ea RARE DE
‘ Pores des hanches des pattes ana-
les nombreux inégaux, sans or-
dre; ces mémes hanches inermes;
fémur avec 2 épines à l’angle
supéro-interne seulement . . . C.ungulatus mitis mihi
Pores en petit nombre (environ
une trentaine), subégaux, sub-
sériés; fémur avec plusieurs (9-11)
épines distribuées sur tout le
membre . C. ungulatus Meinert
Cupipes ungulatus mitis n. var.
Longueur 32 mill.; largeur 2.20 mill.
Cet individu differe du précédent par :
L'armement des pattes anales : le fêmur ne porte
que 2 petites épines placées côte-à-côte à l’angle distal
supéro-interne ;
ant BG eae
Le nombre des pores des hanches des pattes
anales : ici les pores sont três nombreux, petits et
moyens, et occupent un champ allongé qui atteint pres-
que la base et la pointe de la hanche; celle-ci est
inerme.
Et Varmement du prolongement du coxo-sternum :
le groupe interne de dents est divisé nettement en 3
dents courtes mais aigues (au lieu de 2 dents).
Un exemplaire étiquetê: Manaos, N. 10 (Bicego
leg.)
Nous avons été tentê de réunir sous le même nom
les deux exemplaires examinés, considérant le premier,
le plus petit (que nous avons envisagé comme typique)
comme un jeune; cette manière de voir) expliquerait
en effet la différence dans les pores des hanches des
pattes auales. Mais alors, il aurait fallu admettre que
les jeunes avaient un plus grand nombre d’épines au
fémur des pattes anales que les adultes, ce qui nous
a paru illogique.
Rhysida celeris Humbert & Saussure, 1870.
Etiquetée : Manaos, N. 11 et 13 (Bicego leg.) 5
2 échantillons, et: Manaos, N. 9 (Bicego les); 2
échantillons.
Les deux premiers (N. 11 et 13) ont les écussons
dorsaux marqués de sillons latéraux, l’un (un jeune)
depuis le 6.º, l’autre depuis le 9.º.
Les deux autres (N. 9) ne présentent que des ves-
tiges de sillons latéraux et seulement sur les 5 ou 9
derniers écussons dorsaux. Il y a done la un passage
de la forme À. celeris à la forme R. eminarginata,
qui probablement ne sont que deux varietés de le mê-
me espece.
L’armement des pattes ambulatoires est le même
que celui indiqué par Pocock pour la Rh. mnargi-
nata (Biol. Centr. Amer.)
pT iy ee
Wewportia (s.s.) longitarsis Newport 1844
Etiquetée : Manaos, N. 14 (Bicego leg.).
L’arinement de la face inférieure du fêmur varie
de 4 à 5 épines; lorsqu'il y a 5 épines, elles sont un
peu plus faibles et l’écartement des épines 2 et 3 est
plus grand que l’écartement des autres épines.
lei aussi nous trouvons Vanomalie déjà signalée
pour la variété sararensis de cette espèce. Chez deux
exemplaires nous constatons la présence d’une patte
anale de Scolopendrides accompagnant une patte nor-
male. Les pattes anormales sont composées d'articles
plus ou moins nets et absolument inégaux, ou bien
(articles normaux entremélés d'articles anormaux.
Ces exemples et celui que nous offre la Newportea
(Scolopendrides) bicegor, dècrite plus bas, nous amê-
nent a considérer le genre Scotopendrid:s comme une
section (un sous-genre ou un groupe) du genre New-
portia.
NWewportia (Scolopendrides) bicegoi n. sp.
Longueur du corps 33 mill.; largeur au 4º. seg-
ment 2 mill.: au 8.º 2.10 mill. ; au 18° 1.90 mill. Der-
mer segment, longueur 0.90 mill.; largeur, 1.30 mill.
Antennes, longueur 7 mill. Pattes anales: 1º. article
(femurs fio cells" 27.) arts: (Patella). 4:70; mills: 3%
art. (Tibia) 1.60 mill. ; 4.º art. (0.70 mill.) et fouet en-
semble 6.90 mull. ; longueur totale 11.95 mill.
Jaune d'ocre pile, avec la tête et les deux pri-
miers segments passant au ferrugineux. Corps sub-
parallele, retréci seulement dans les deux derniers seg-
ments. Brillant.
E’cusson céphalique aussi long que large (2 mill.), à
bords latéraux parallèles, à bords antérieur et postérieur
. arqués ; tous les angles sont arrondis. Surface lisse avec de
rares ponctuations et plantée de soies assez longues; pas
de sillons longitudinaux, ou seulement des vestiges près
du bord postérieur. Antennes assez longues, rapidement
ERON le
amincies, composées de 17 articles portant des soies lon-
gues; en outre les articles, à l'exception des 3 premiers,
sont vêtus dun fin duvet.—Hanches des pattes machoi-
res (fig. 1) plus larges que longues (2,00 mill. :: 1,90
mill.), lisses, brillantes, à bord antérieur épais, proémi-
nent et surmonté d'une paire de petites lames plus larges
que longues, non dentelées. Les autres articles sont
courts ; la griffe est très courte et n'atteint pas la pointe
de Vécusson cephalique. Tous les articles sont abon-
daniment pourvus de soles rigides et longues.
Le prémier écusson dorsal est partagé transversale-
ment par un sillon profond, arqué ou légerement an-
guleux en son milieu, et longitudinalement par deux
sillons plus faibles qui, partant du bord postérieur, se
divisent à mi-distance du sillon transversal en deux
branches, dont l’externe (divergente) est obsolète ou
moins marqué en tous cas que l’interne ; les branches
internes (convergentes) se réunissent au point même de
leur jonction avec le sillon transversal, et ce point est
fortement déprimé ; aucune des deux branches ne repa-
rait en avant du sillon transversal.
Le deuxième écusson dorsal porte deux sillons, les
suivants en portent quatre. Le dernier seul est rebordé.
latéralement ; il est moins large que le précédent, plus.
large que long (1,30 mill. :: 0,90 mull.), indistinete-
ment déprimé en son milieu et près du bord postérieur ;
son bord postérieur est un peu saillant arrondi et indis-
tinctement partagé au milieu par une trace de sillon.
Les écussons ventraux sont subrectangulaires, plus.
longs que larges, à surface finement ponctuée, avec un
sillon médian dans la partie postérieure de l’écusson
seulement.
Le dernier écusson ventral est tronc-conique, son
bord postérieur est droit (non échancré), sa surface est
marquée d'une impression longitudinale dans la moitié
antérieure.
Les pattes 1 à 22 sont inermes, mais abondamment
garnies de soies et de poils-spinules, surtout sur la face
inférieure. Les hanches de la paire anale sont ter-
nos
minées par une pointe grèle assez longue. Les pattes
anales (fig. 2) sont longues, plus d'un tiers de la lon-
gueur du corps. Le prémier article est armé de 4 for-
tes épines crochues en dessous; le second, de 2 épines
beaucoup plus petites en dessous et d’une autre sur la
face interne prés de la base. Les trois prémiers articles
sont subégaux, le quatrième est moitié moins long que
le précédent ; le fouet se compose d'un grand nombre
d'articles (nous en avous compté de 18 à 25), générale-
ment bien définis. Toute la patte est vètue de soies lon-
gues, entremélées sur le prémier article de poils-spinules
semblables à ceux des pattes ambulatoires.
Etiqueté : Manaos, N. 14 (Bicego leg.).
Notre espèce differe des Scolopendrides mexicanus,
stollr, ernsti et brevipes par la sculpture du prémier
écusson ; chez le premier il n'existe qu'un sillon transversal
sans traces de sillons longitudinaux ; chez les trois autres
les sillons longitudinaux existent mais ils ne sont pas
bifurquês.
Newportia (Scolopendrides) amazo-
nica n. sp.
Longueur du corps 25 mill.; largeur 1.90 mill.
jusqu'au 20° segment inclus.—Dernier écusson dorsal,
longueur 0.75 mill.; largeur 0.90 mill.—Antenne, lon-
gueur 3.50 mill. — Pattes anales : 1.º article (Fémur) 1.60
mill; 2. art. (Patella) 1.50 mill. 5. 3.º art. (Tibia) 1.50
mill.; 4.º art. (2 mull.) avec le fouet (1.50 mill.) ensemble
3.50 mill.; longueur totale 8.10 mill.
Coloration fauve un peu verdatre. Corps à côtés
paralléles, rétréci seulement dans les trois derniers
segments. Presque glabre.
L’écusson céphalique porte une profonde cicatrice
qui en dénature complètement la forme. Antennes très
courtes, composées de 17 articles très courts. Coxo-
sternum des pattes machoires (fig. 3) plus large que long
«2 mill. :: 1 mill.), à bord antérieur médiocrement proémi-
nent, plus large et portant des lames plus courtes que
collar (hee
dans l’espéce précédente. Les pattes sont bien écartées ;
le premier article est acuminé à langle distal interne ;
le deuxième et le troisième sont très courts. Les griffes
sont longues et acérées ; lorsqu'elles sont fermées, elles
atteignent la pointe de l’écusson céphalique.
Tous les écussons dorsaux sont plus ou moins
nettement ponctués. Le premier est portagé par un
fin sillon transversal régulièrèment arqué, que recoupent
deux sillons longitudinaux non bifurquês, faiblement
marquês en arrière du sillon transversal et presque effacés
en avant de lui, Les écussons 2.º et 22.º sont marquês
de deux sillons, et les écussons 3 à 21 de quatre sillons
et d'une petite carène médiane aplatie. Le dernier est
plus large que long; il est rebordé latéralement; son
bord postérieur est faiblement arqué et un peu déprimé
au milieu. — Les écussons ventraux, à [exception du
premier et des deux derniers, portent un sillon médian
bien marqué qui n'atteint ni le bord antérieur ni le bord
postèrieur. Le dernier écusson ventral est tronc-conique,
à bord postérieur droit.
Pattes ambulatoires inermes, à peu prês glabres.
22.º paire inerme, glabre en dessous, mais garnie sur
la face dorsale des tarses d’une brosse de soies courtes.
Hanches des pattes anales semées de pores peu denses
et terminées par une épine longue, effilée et plantée de
soles. Pattes anales (Fig. 4) longues, un peu moins
longues que le tiers du corps. Le fêmur est armé sur
l’arète supero-interne d’une rangée d'épines minuscules,
et sur la face inférieure de 3 ou 4 dents très robustes ;
patella armée sur la face inférieure, près de la base de
l'article, d'une seule épine presque aussi robuste que
celles de l'article précèdent; tibia inerme. Ces trois
articles scnt subégaux; la patella et le tibia sont un
peu fusiformes. Le premier article du tarse est très
long, plus long que le fouet lui même, assez grèle, à
surface inégale, labourée de sillons irréguliers; peut-
être cet article est il le résultat de la fusion de plu-
sieurs articles ensemble. Le fouet n'est pas plus long
que l’un ou l’autre des trois premiers articles; il est
E fe qo
composé d'une quinzaine darticles informes, qui cons-
tituent une tigelle irrégulièrement noduleuse et aussi gréle
que l’article précédent; l’éxtrémité du fouet est armée
d'une griffe massive et très courte.
Etiqueté: Manaos, N. 14 (Bicego leg.).
Orphnaeus brasiliensis Meinert, 1870
on! = am
sel}, +) 6g
> OD | = -D =
Sexe j 3 8/2 48/25 PROVENANCE
aces e md o
Ens ie le Me
SES | E
eid eke
Q adulte | 77 /2.50| 85 | sans indication de provenance
> > 70 |2.20| 79 |.Manaos
wi has 61 12.20] 79 | — id —
» jeune | 29 |1, 79 | — id — N.º 7 (Bicego leg.)
» 41 |1.20) 75 | — id — Nº 8 (—id — id—)
Humbert et Saussure parlent, dans leur description
du Chomatobius brasitianus (porté en synonymie avec
VO. brasiliensis et VO. brevilabiatus par Pocock;, dun
sillon partageant le dérnier écusson ventral, sillon qui
neste pas reproduit dans leur figure. Les 5 échantil-
lons ci-dessus ne portent pas trace de ce sillon. — Ils
sont três tachés de noir.
Notiphilides grandis 7. sp.
en
millimètres
Sexe PROVENANCE
millimètres
Nombre de paires
de Pattes
Longueur en
Largeur
Or
OD
Ex :
©
pa
Or
pá
Q adulte. . | 135 |: Manaos, N.º 5 ( Bicego leg.)
> jeune. 73 | 2.40} 151 | —id—, N.º 6 (— id — id —)
es We ieee
Jaune bistre olivatre. Tres grande espece rappe-
lant par sa taille les Orya africains, rétréci aux deux
extrémités ; peu luisant.
Heusson céphalique beaucoup plus large que long
(2.30 mill. :: 1.70 mill.) en ogive tres large de base, à
pointe et sans ponctuations ni sculptures distin-
ctes. Antennes très courtes (3.50 mill), épaisses, un
peu étranglées au troisième article, atteignant leur plus
grand diamêtre au cinquième article et faiblement amin-
ces au dela; dernier article égalant en longueur les
deux précédents ensemble, sans fossettes distinctes (et
probablement aussi sans batonnets ni soles autres que
celles du duvet qui est três court).
Labre (Fig. 8) d'une seule pièce garni de dente-
lures extrè nement fines, qui ne deviennent un peu plus
accentuées que dans les angles latéraux. Mandibules
(Fig. 9) avec 6 lamelles pectinées. Machoire de la pre-
mière paire à lame sternale soudée au milieu (d’une seule
pièce) ; les deux rameaux internes et externes uniarti-
culs; sur la face dorsale (Fig 10) deux appendices
larges et acuminés, dont l’un dépend du coxo-sternum
(appendice coxal) et l’autre du rameau externe (appen-
dice fémoral). Lame sternale de la deuxième paire de
machoires d’une seule pièce; palpes de trois articles
-surmontés d’une griffe dentelée dans sa concavité (Fig.
Rp).
Coxo-sternum des E maxillaires beaucoup plus
large que long (2.80 mill. :: 0.80 mill.) à bord anté-
rieur subéchancré; le plus gros des échantillons pré-
sente, a la base du coxo-sternum, un fort sillon médian
qui manque sur le plus petit. Articles três courts;
griffes longues et acérées, n'atteignant pas, lorsqu’ elles
sont fermées, la pointe de la tête.
Écusson basal très court (0.30 mill.) et aussi large
que l’écusson céphalique (2.30 mill.), à bords latéraux
faiblement arqués. Premier écusson de longueur dou-
ble du précèdent (0.60 mill.) et à peu près de mème
largeur (2.40 mill.), à bord postérieur faiblement échan-
crê. Ecussons dorsaux sans sculpture distincte, vague-
Mie a
ment cuireux, et avec une paire d'impressions latérales
effacées, un peu plus distinctes dans les premiers seg-
ments. Ecussons ventraux rectangulaires courts et
larges, avec une vague dépression médiane; leur sur-
face est finement cuireuse, à Jexception d'une étroite
bande transversale médiane, un peu rétrécie en son
milieu, qui est lisse et bordée de granulations peu ap-
parentes. Les pores sont três petits, distribués dans
toute la partie cuireuse ; on en rencontre également sur
les épimères, les scutelles et jusque sur le pourtour des
écussons dorsaux. Dernier écusson ventral en trapèze,
deux fois plus large que long, a bords latéraux con-
vergents.
Pattes anales de six articles, glabres, pas plus
longues que les pattes de la paire précédente, peu épais-
sies chez la femelle. Hanche plus large que longue, dé-
pourvue de pores; trochanter égal à la moitié de la
longueur de la hanche; les quatre articles suivants
subégaux ou graduellement plus courts et moins épais ;
le dernier inerme.
Le mâle est inconnu.
Cette espèce diffère du N. maximiliant par un
nombre beaucoup plus considérable de segments.—O.
F. Cook (Brandtia, VII, p. 33, 1296) parle, sans la
décrire dune Heniorya longissima, n. sp., du Brésil,
qui aurait 16! paires de pattes; elle diffère du N.
grandis par une double rangée de scutelles («supra-
scutella») entre la scutelle porifere et Pécusson dorsal.
Il est à remarquer du reste que, dans cette clef
dichotomique des Oryzdae, Cook attribue. deux rangs
de «suprascutellae» au Notiphulides maaximilanc, ce
qui est en contradiction avec Pocock (Biol. Contr. amer.
Pl. 3, fig. 15 d) et avec notre N. grandis Quoiqu'il
en soit, Heniorya longissima n'ayant jamais été de-
crite, reste un «nomen nudum» dont il nya pas à
tenir compte.
Oe tne
DIPLOPODA
Leptodesmus carinovatus Altems, 1698.
Etiqueté : Manaos, N. 1 et N. 2 (Bicego les.)
Les échantillons examinés appartiennent à la va-
riétê foncée, unicolore, et atteignent 57 mill. de lon-
gueur et 9.50 de largeur au 2.º segment.
Cette espèce fait partie du group du plataleus par:
la forme du rameau séminal des pattes copulatrices, et.
par l'absence de prolongements sous les tarses.
Euryurus octocentrus n. sp.
ment (sans carénes) 4.50 mill.; ( avec carénes) 8 mill.
Etiqueté : Manaos, N. 3 (Bicego leg.)
@ jeune: longueur 45 mill. Etiquetê: Manaos, N.
o (gicego leg.)
Coloration brun rouge très foncé, presque noir,.
avec l'angle postérieur des carènes fauve et une tache.
de mème couleur, à contours vagues, le long du bord
postérieur des écussons ; ventre légèrement éclairci sur
la ligne médiane ; antennes et pattes fauves.
d' adulte: longueur 54 mill ; largeur au 9.º seg—
Corps robuste à côtés parallèles ; téguments lisses.
et brillants ; dos très convexe, carènes bien développées,
plantées à moitié des flanes (Fig. VII) et suivant Vin-
clinaison du dos, mais moins tombantes, néanmoins que-
chez les espèces colombiennes et venezueliennes.
Téte très courte et large. L'espace compris entre
les antennes et le bord de la lèvre supérieure est plus.
court que celui compris entre les antennes et le bord
postérieur du vertex. Les antennes sont rapprochées et
resserrent entre elles le front qui est tuberculiforme ;
en avant du front et au dessus de la lèvre se trouvent
deux petites verrues, et, à l'extérieur de ces verrues,
un mamelon un peu allongé qui ferme en dessous la
cavité antennaire. Cette cavité est plicatullée ; au fond
o, et
se trouve lorgane de Tomosvary (ou son homologue ).
Le vertex est lisse, divisé par un profond sillon; le
sillon se divise en avant en deux branches qui rejoi-
enent la base des antennes délimitant le tubercule du
front en arrière. Les antennes sont assez longues, el-
les atteignent le bord postérieur du deuxième somite.
Le prémier écusson est plus large que la tête,
aussi large que le secund écusson, finement rebordé en
avant. Ses carenes sont três rétrécies, le bord posté-
rieur étant trés échancré dans les cotés
{ Fig. V), comme chez Leptodesmus i
carinovatus. L’angle des carènes est
émoussé. Sa surface, comme celle de
tous les autres écussons, est lisse et
brillant. Le second écusson est dun ee
tiers moins long que le précédent ; ses
carénes sont sur le même niveau que
les carènes des segments 1 et 3; elles ei
sont chassées vers l’avant; langle an-
térieur est représenté par une dent me
três nette; en arrieré de cette dent, le io V
bord est encore divergent, de sorte que
Yangle postérieur dépasse le niveau de la dent ante-
rieure. Les carenes des segments 3 et 4 sont sembla-
bles à celle du segment précédent ; mais elles sont de
moins en moins chassées vers l'avant; néanmoins l’an-
ele postérieur est toujours moins ouvert que langle
droit. A partir du segment 5.º, la dent de langle an-
térieur de la carène disparait entièrement et langle est
complétement arrondi. L’angle postérieur devient de
plus en plus saillant et aigu vers
l'arrière. Le rebord de la ca-
rène ‘est étroit; sur les seg-
Ki; W ment poriferes Gog TDMA,
E 13. 15—19.), le rebord est épais-
si perpendiculairemet (non trans-
versalement ) et c'est dans cet épaissement que le pore
débouche latéralement ; il n'est donc pas visible par la
face dorsale.
Le dernier écusson est terminé par une palmette gra-
duellement rétrécie (Fig. VI), à extrémité arrondie,
portant quelques soles ;
les bords latéraux de l’é-
cusson sont épaissis et
lobés de chaque cote, si-
mulant une petite caréne
arrondie, lorsqu’on exa-
mine l’animal par la face
dorsale. Les valves sont
lisses, très peu saillan-
tes, convexes, néanmoins,
et leurs bords forment
une fine carène plus ou moins encaissée entre les
deux valves. Ecaille ventrale large, en demi-cercle,
faiblement déprimée transversalement, portant, près du
bord postérieur, deux faibles verrues piigères.
Sur la face ventrale, la base de la carêne et les flanes |
sont semés de granulations très fines et assez denses,
particulièrement près de la base des pattes. La suture
pleuro-ventrale est visible jusqu'au 12.º segment envi-
ron sous forme d'une faible protubérance qui va en
sattênuant insensiblement vers l'arrière. Stigmates à
peine saillants. Lames ventrales étroites, divisées en
quatre champs par deux profonds sillons en croix; cha-
cun de ces champs porte une petite crète divisée elle
méme en deux tubercules plus ou moins accentués, ce
qui donne un total de huit tubercules pour les segments
munis de quatre pattes, ou de quatre tubercules pour
le 4.º segment et pour le 7.º segment du male.
Pattes ambulatoires glabres, sans épines au 2.° ar-
ticle ; le 3.º article plus long que le 6.º; la griffe est
robuste et accompagnée de quelques soies.
Chez le male, les tarses des pattes ambulatoires
sont dépourvus de coussinets ou de prolongements ; par
contre ils sont garnis sur leur face inférieure de bros-
ses rigides, assez denses, particulièrement dans les paires
antérieures. Les hanches des pattes 2 à 7 sont sur-
montées d'un tubercule conique. Les lames ventrales
Lee A NES
des 5.° et 6.º somite sont évidées pour servir de loge-
ment aux pattes copulatrices. L’ouverture coxale des
pattes copulatrices est subovale, large; ses bords sont
tres saillants en arrière et sur les côtés. Les hanches
des pattes copulatrices (fig. 18) sont assez courtes et
montées sur une poche trachéenne longue et gréle, comme
chez Hury. hermaphroditus. Les pattes sont du type
connu (fig. 19—20); fêmur court, surmonté par un
tronc grèle (tibia) qui bientôt se dilatte brusquement
et se divise en deux feuillets (tarse); le feuillet secon-
daire, par la lamelle en hélice dont il est muni, rappelle
la disposition d’un tire-bouchon et son extrémité, cour-
bée intérieurement, se termine par un épanouissement
lamellaire ; de la concavité de la courbure se détache
un fort prolongement spatuliforme, et de la base de l’é-
panouissement lamellaire distal nait une corne graduel-
lement amincie à pointe bulbeuse. Le feuillet séminal
est tres long, flagelliforme, graduellement aminci jusqu'à
la pointe qui est très eflilée; il est rabattu en avant
dès sa base, puis il se redresse pour enlacer le feuillet
secondaire et abriter sa pointe dans la concavité de
l’épanouissemente lamellaire distal.
Cette espèce se distingue de ses congénères par
son aspect élancé qui est plutôt celui d'un Septodesmus
que dun Euryurus typique; les carènes sout en effet
moins tombantes et le corps plus allongé ; mais la forme
des pattes copulatrices ne laisse pas de doute quant au
genre dans lequel elle doit être rangée.
Euryurus elongatus 7. sp.
@ adulte: longueur 60 mill. ; largeur au 11.º so-
mite (avec carênes) 9 mill. ; - (sans carenes) 7 mill.
Meme coloration que le précèdent, mais sans taches
jaunes au bord postérieur des segments et avec la pal-
mette préanale jaune. Curps très robuste, à côtés pa-
rallèles ou plutôt un peu aminci à l'extrémité antérieure.
Dos plus convexe que chez octocentrus, carènes
beaucoup moins développées et très tombantes, se rap-
prochant en somme beaucoup plus que son congénère
Se ag al
des Huryurus typiques, bien qu'il soit encore plus allongé
qu’eux, Formule des pores; 5. 7.9. 10. 12. 13. 15—19.
Tete comme chez octocentrus, mais le tubercule
du front est fondu avec les tubercuies de la face for-
mant un champ triangulaire surélevê dont la pointe
sengage entre les antennes. Sillon bien marqué mais
pas divisé en avant. Antennes ne dépassant guère (9)
le bord postérieur du prémier écusson. Les téguments
sont cuireux et mats; sur les prozonites le dessin est
net mais très fin; sur les metazonites il est plus large,
particulièrement sur la région dorsale où il est aussi
plus effacé. La face ventrale des carênes est finement
chagrinée. Suture finement canelée.
Carénes du premier somite rétrécies, à angles ar-
rondis. Carênes ?, 3 et 4 à angles antèrieurs arrondis,
sans dentelure, à angle postérieur droit. Sur les autres
écussons langle postérieur est aigu en forme de dent
de plus en plus saillante et aiguevers l'arrière. Rebord
des carènes comme chez ociocentrus, mais les carênes
étant beaucoup plus tombantes, les pores qui s'ouvrent
dans la tranche sont tournés vers le sol au lieu d’être
latéraux. Dernier écusson terminé par une palmette
graduellement rétrécie, à bords latéraux faiblement si-
nueux à extrémité indistinctement bilobée; bords laté-
raux du somite épaissis et un peu cavéniformes.
Valves anales, écaille ventrale et lames ventrales
comme chez octocentrus, mais les tubercules des lames
ventrales sont beaucoup plus réduits (Q), et mème peu
distincts. Stigmates en forme de fente transversale, as-
sez longue, nullement saillants.
Etiqueté : Manaos, n. 4 (Bicego leg.)
Le male étant inconnu, ce n'est que sous réserves
que nous plaçons cette espéce dans le genre Euryurus.
Orthomorpha coarctata Saussure, 1860
Etiqueté : Manaos (Bicego leg.)
Pseudonannoleme exilio 7. sp.
© : longueur 36 mill.; diamètre 1.60 mill.; 62
o
segments; 113 paires de pattes; 3 segments apodes.
BROCK AE
Brun fauve avec des taches noires dans les flancs
et une série dorsale de points noirs; antennes fauves,
valves et pattes testacées.
Téte lisse et brillante, dépourvue de sillon occi-
pital. Nous n'avons pu compter les fossettes piligères
de la lévre, perdues qu’elles sont dans un sillon trans-
versal arqué, rugueux; nous croyons cependant qu -
elles sont au nombre de 5 ou 6. Antennes très courtes,
moniliformes, ne dépassant pas le bord postérieur. du
1.% segment; 4 batonnets coniques à l'extrémité. Yeux
subtriangulaires écartés d'environ 1 1/2 fois leur grand
diamètre, composés d’ocelles petits, distincts, au nom-
bre de 33 environ en 5 ou © rangées (8.8.7.9.4. 1).
Téguments lisses sous la loupe, finement et peu
densément striolés sous le microscope. Premier seg-
ment faiblement dilaté; son bord antérieur, réguliére-
ment arqué (non échancré), forme à son intersection
avec le bord postérieur un angle monis ouvert que
l'angle droit, dont la pointe arrondie est repliée sous
le ventre; en plus du sillon marginal sa surface est
marquée de deux stries fines incomplètes, qui n'attei-
gnent pas le bord antérieur. Sur les segments du tronc,
la partie antérieure, emboitée, du prozonite est mar-
quée de 5 ou 6 fines stries dont les antérieures sont
irrégulières et peu distinctes, tandis que les 2 ou à
postérieures sont seules bien visibles sur le dos. La par-
tie découverte du prozonite est lisse, sans sculpture
distincte, comme aussi le metazonite; la suture est
étranglée, profonde, faiblement mais distinctement pon-
ctuée. Les stries longitudinales du metazonite sont fi-
nes, peu nombreuses (8 ou 9) et sortent à peine de la
région ventrale. Pores petit, souvrant assez haut dans
les flancs et à moitié du metazonite. Le dernier seg-
ment est presque lisse ou vaguement cuireux, son bord
postérieur, un peu saillant mais completement arrondi,
recouvre sans le dépasser l’angle supérieur des valves
anales. Celles-ci sont lisses, très peu saillantes, faible-
ment globuleuses, saus aucune trace de dépression pré-
marginale ou de rebord marginal. Ecaille ventrale lar-
pros À het
ge, courte, à bord postérieur presque droit. Lames ven-
trales non striées. Stigmates punctiformes.
Pattes gréles et assez longues.
Le male est inconnu.
Etiqueté: Manaos (Bicego leg.)
Cette espèce semble se rapprocher des Pseudo-
nannolene par ses caractères extérieurs, mais il se
pourrait néanmoins qu'elle appartint à un autre genre.
Du Ps. paulista, qui a des valves anales non margi-
nées, elle se distingue par létranglement sutural des
somites, par la longueur du segment préanal, par des
antennes très courtes, etc. etc.
Spirostreptus (Alloporus) setiger Brilem.
POOL:
Etiqueté : Manaos (Bicego leg.)
Spirostreptus (Scaphiostreptus) clu-
niculus Humb. et Sauss. 1870
nu © |o 2 | Se Ss eal
= Ee) lol = o E LA + 2 |
Sexe | ESE |Bce | Be |EES Se | PROVENANCE ET OBSERVATIONS
8 E [SCE | ESICaE jus
AS Es # © D |
S |111.(?)| 6.20 | 85 | 161 | 1 | adulte — Manaos (Bicego leg).
| BLD. a to AD Jeane Idem.
QUE 6.60) 78 | 149 |] Manaos (Bicego leg.)
@ |101 6.40, 78 | 149 | 1 Idem.
QT TO gel bebe oo Idem.
© |14 |7.—| 74] 141 | 1 Idem.
© |109 De | UG o A LE RE UN Idem.
A lexcellente description de Humbert et Saussure
nous n'avons que peu de chose à ajouter. Sur les so-
mites du tronc, la moitié antérieure du prozonite est
lisse et brillante et occupée par des stries concentriques
assez nombreuses (une dixaine environ), souvent brisées,
la moitié postérieure est mate en partie (de mène que
le metazonite) et présente une strie concentrique un
tan Le
peu écartée des autres et généralement plus régulière ;
toutes les stries concentriques se prolongent jusqu'à la
lame ventrale en épousant les sinuosités du bord anté-
rieur (c. à d. sans être infléchies en arrière). Les
stries longitudinales du metazonite s’arrètent loin des
pores ; ceux-ci sont très petits, à mi-hauteur des flancs.
Lames ventrales non striées.
Pattes copulatrices :fig. 21 et 22) : pare antérieu-
re longue, élancée, étranglée au premier tiers; le lam-
beau antérieur est coupé droit à l’éxtrémité et pré-
sente une dentue aig à langle interne; le lambeau
postérieur est faiblement dilaté et tronqué à l’éxtrémité,
taillé intérieurement en angle droit arrondi et compl.te-
ment arrondi extérieurement. La patte postérieure est
montée sur une poche trachéenne articulée (comme
d'habitude chez les espèces américaines) ; elle porte une
épine aigue avant le sinus de la rainure; elle est étran-
glée après le sinus puis épanouie à lextrémité en une
lamelle transiucide, de la concavité de laquelle se déta-
che le prolongement flagelliforme.
Trigoniulus goesi Porat, 1876.
ES Beg léssisseleeelas PROVENANCE ET OBSERVATIONS
E | ga [2 slénsess
| 8 = | s\gsFe" |e
rat 48 3.301527! 45 1 adulte (Manaos N. 15 Bicego leg).
d {50 3.50/51) 93} 1 | — id — — E —
J |48 3.40!51 93 | 1 | — ia — SE PAL
ts 3.801 511 93°} 1 | — ide — sigs
J |54 (tiré) (3.30) 51] 98 | 1 | Probab. immature de
oO 40 320/5193] À immature Sade
d |25 2.50151| 87 | 4|— id — = id. —
S |37 Se O O fe Lee ae: — jd. —
2 152 3.80/51) 951 11 ne
Q 138 3.50/51; 95 | 1 | + jae
Dans notre premier mémoire (1901), nous n'avions
pu citer que deux stades de croissance pour les spiro-
Bae QE) aoe
bolides. Aujourd'hui nous sommes en mesure d'en fi-
gurer un troisième (Fig. IX) (1) que nous mettons en
regard dun stade plus jeune (Fig. VIII) pour rendre
plus évidents les progres du développement des pattes
copulatrices. La figure VII
est prise sur un três jeune
individu et nous estimons
qu elle correspond à peu près
au stade figuré sur la Plan-
che IX, fig. 237, de notre
Ly WW premier mémoire.
Pig. Au contraire la figure
IX représente un stade intermédiaire entre le précé-
dent et celui que nous avons appelé stade spécial (PI.
IX, fig. 256, du même mémoire),
ou bien entre le précédent et le
stade adulte.
En parlant ici de ce stade
spécial que nous avons rencontré,
dans des conditions particuliéres,
chez les Rhinocricus, nous n'en-
tendons nullement prétendre que
ce stade spécial se rencontre éga-
lement chez les Trigoniulus. Nous
ne Py avons jamais constaté Jusqu'ici; néanmoins nous
ne vovons pas pourquoi ce stade n’existerait pas aussi
chez les Trigoniulus dans certaines conditions de milieu.
Quoiqwil en soit, et ence qui concerne les Trigoniulus
goesi de la région de Manaos, il semble trés proba-
ble que le stade représenté par la figure IX précède
immédiatement la puberté, puisque l'individu qui a
fourni cette figure était semblable aux adultes et par la
taille et par le nombre des somites et par celui des
segments apodes ; la seule différence à signaler résidait
(1) Dans les figures VIII et IX, v désigne la lame ventrale,
cox l’article basilaire de la paire antérieure fem Particle termi-
nal de la même paire, et PP les bourgeons de la paire posté-
rieure,
SO O a Hep
en ce que le segment copulateur était moins renfié que
chez les males adultes.
Cette observation tend à confirmer notre proposition,
que le mode de croissance lente est probablement com-
mune à tous les Iuloides inférieurs.
Rhinocricus paraemsis Humb. & Sauss., 1890,
i
|
|
Ww mn ©
ERA Do Were EAN EE 2 la AD 8
5 do sa |V 815
Sexe |S sa = 4/82 sis 23/83] PROVENANCE
o =/S =)o tg a S| ta)
= =| d so &|
H & = a Fa a Z 4 D |
of BB A ATO DA 99 | 1 | Manaos (Bicego leg.)
Be so A od BS | 95 fio)
> TTS eh (A A SP ca ETS
Supplément aux Myriapodes Ge São
Paulo
Schendyla paulista n. sp.
© : longuer 28 mill. : largeur 0.60 mill.; G1 segments
pédigères.
Corps très grèle de couleur ferrugineuse, beaucoup
plus étroit que la tète, planté de soies clairsemées.
Ecusson céphalique (fig. 5) plus long que large ‘dans
la proportion de 6 à 9), à bords latéraux faiblement
arqués, à bord postérieur échancré, permettant de voir
la lamina praebasalis. Lamina basalis large, courte,
a bords latéraux convergents, son bord antérieur est
droit et n'est en contact qu'avec les angles postérieurs
de l’écusson céphalique. Pattes machoires débordant
largement l’écusson céphalique ; coxo-sternum (fig. 6)
plus large que long (dans la proportion de 3 à 2), à bord
antérieur inerme divisé par une faible ancoche médiane ;
articles courts, inermes ; griffe inerme à la base, longue
et acérée, atteignant le bord antérieur de la tète sans
guère le dépasser.
Em ae
Pores ventraux réunis sur un champ subcirculaire
médian (ou à peu près) dans la moitié antérieure du
corps, irrégulier et généralement plus petit, semblant
même divisé en deux champs, dans la moitié postérieure.
—Dernière lame ventrale large, à bords latéraux peu
convergents, à angles postérieurs arrondis, à bord pos-
térieur droit, non “échaneré HS A)
Hanches des pattes anales peu saillantes, en grande
partie cachées sous la lame ventrale, percées de 2 + 2
pores gros, entièrement dissimulés. Pattes anales de la
mème longueur que celles de la paire précédente, un peu
moins grèles (9); le dernier article plus long que tous
les ee inermes.
Poço grande (Etat de São Paulo).
Pour les affinités de cette espèce, nous nous réfé-
rons à la clèf que nous avons publiée dans les Annales
de la Soc. Entomologique de France (sub Sch. gounellez),
1902, et qui permet de reconnaitre les formes Sud-Amé-
ricaines de Schendyla décrites jusqu'ici.
Cryptodesmus politulus 1. sp.
©. longuer 8.40 mill.; largeur 1.70 mill. Très
voisin du Cryp. pusillus Attems, mais mat et reconnaissa-
ble ala forme des carénes ; les dente-
lures sont notamment beaucoup moins
aigues, moins accentutes, plus nom-
SS breuses, on en compte
5 (les ae HE) sur les somites 2.º, 5.º, &.e, 11.0, 14.2;
3.8, oe 6.º;
E 9.º, 10.6, 12.6, 13.º,15.º;
aum le bord latéral des carènes est un peu
plus convexe que ne [indique la figure
é *} 302, Pl. XV. du «System der Poly-
a à desmiden». Les trois rangées de ma-
Fig. 1 melons des écussons sont séparées par
pes sillons assez nets ; les mamelons eux-mêmes paraissent
RARE
SE]
RES Ie
ceca
o EE
ressembler à ceux du Cryp. pusillus et par conséquent
être plus arrondis que chez Cryp. olfers: Brandt. La
face ventrale est chagrinée. Les pattes sont courtes ;
le 6.º article est plus long que le 3.°.
Une femelle de Poço-grande (Etat de São Paulo).
Cryptodesmus pileolus 7. sp.
&: longueur 6.50 mill.; largeur 1 mill.
Formule des pores: ©, 7, 9, 10, 12, 13, 15- 19.
Corps três petit, trapu, incolore. Dos convexe ;
carénes horizontales attachées au milieu des flancs. Les
téguments sont mats, rugueux ; les rugosités résultent
de la présence de grosses ponctuations rondes disposées
régulièrement côte à côte, et qui laissent subsister en-
tre elles les fines arètes de leur contour ; sur les écus-
sons cette sculpture est très accusée, dans les flancs
et sous le ventre elle est beaucoup plus faible.
Tete presque lisse, plantée de soies espacées; sil-
lon peu visible. Antennes (fig. 12) très courtes et
épaisses, claviformes. Les côtés de la tête sont la-.
bourés par une large et profonde gouttière destinée à
abriter l'antenne au repos. |
Premier écusson plus large, mais un peu moins
long que la téte, de telle sorte que le frout dépasse très
legerement son bord antérieur (fig. TI); celui-ci est cintré,
plus fortement dans les côtés qu'au
centre; le bord postérieur est faible-
meni échancré au milieu et un peu
oblique en avant dans les côtés; l’an-
gle postérieur est droit, aigu ; la sur-
face est bombée au centre, elle porte
une couronne marginale de três pe-
tites verrues et deux rangées trans-
versales irrégulieres de verrues un
peu mieux marquées. Tous les écus-
sons portent trois rangées de ces verrues arrondies
(Fig. HI) qui sont plus accusées vers l'arrière qu’en
pn avant, sans être jamais très saillan-
tes; pas de sillon transversal distinct
entre les rangées. Les verrues for-
ment des dentelures fortes, triangu-
laires, au bord latéral ainsi qu'au bord
Rees postérieur des carenes ; on en compte
fio Hf o au bord latéral du 2.º écusson et
; de tous les écussons porifères, et 4
au bord latéral de tous les autres écussons; au bord
postérieur des carénes on en compte 3 qui vont en di-
minuant de l’extérieur vers l’intérieur. ensemble de
la carène (sans tenir compte des dentelures) est de for-
me subrectangulaire arrondie; l'angle postérieur n'est
saillant ou éuré que sur les somites 18.° ou 19. Cha-
que verrue est surmontée d'une soie courte. La suture
est ponctuée comme le reste des téguments, elle est
assez large et limitée en avant par une três fine aréte
transversale. Les pores sont proportionnellement grands;
ils s'ouvrent absolument latéralement entre la 3.º et la
4.º dentelure dans la tranche de la carêne qui, à cet
endroit, est légèrement boursouflée. Le dernier écus-
son est cônique, graduellement rétréci, tronqué à l’ex-
trémité, un peu arqué vers le sol; la surface est ornée
de petites verrues piligéres et notament de 3 paires
laterales qui font saillie sur les côtés. Valves anales
peu saillantes, plutôt aplaties, ponctuées, carenées. Ecail-
le ventrale en demi- hexagone, ponctuée, avec une ver-
rue à chaque angle postérieur. Lames ventrales étroi-
tes, inermes, profondément di-
visées par deux sillons en
croix.
Pattes courtes; le 6.° arti-
cle plus long que le 3.º, Chez
le male les haie de la 2.º
et de la 6.º paire sont tuber-
4; IV culées. Les pattes des six
tg. premières paires sont tres rap-
prochées à la base, celles de la 7.º paire sont écartées
Das y Co
pour ménager un logement aux pattes copulatrices. Sur
certaines pattes antérieures (parmi celles qui précèdent
le segment copulateur), le fémur est dilaté et prolongé
sur la face inférieure en une pointe robuste, qui at-
teint au tiers du tibia (fig. 15). Les bords de l’ouver-
ture coxale des pattes copulatrices sont fortement sail-
lants latéralement.
Les pattes copulatrices ‘fig. 14 à 16) sont du type
de celles du Cr. pusillus. Les hanches sont larges et
très courtes, excavées sur leur face interne pour rece-
voir l'articulation du fémur. Cetui-ci est robuste et
présente un prolongement inférieur hirsute orné d'un
pinceau épineux. Au dessus du fémur la patte est
étranglée, fortement dilatée ensuite, puis brusquement
tronquée ; à Vangle interne on remarque un proionge-
ment court, épineux (fig. 17), dans lequel vient aboutir
la rainure séminale après avoir fourni un tour complet
d'hélice; de l'angle externe se détachent une forte
épine aigue et une tigelle très longue, grele, de mème
calibre dans toute sa longueur, acuminée à l'extrémité,
et l‘gèrement sinueuse; lorsque l'organe est au repos,
cette tigelle se croise avec celle de l’autre patte et son
extrémité peut passer entre les hanches des 7.° et G.°
paires de pattes. she
Poco-grande (Etat de São Paulo).
Cette espèce est três bien caraterisée par la posi-
tion de ses pores, sans parler des dimensions du premier
écusson, de la forme anguleuse des carènes, etc., etc. ;
néanmoins elle ne mérite, quant à présent, la création
d'aucune division spéciale, ni générique, ni subgênérique.
Leptodesmus (Rachidomorpha ) corni-
ger n. sp.
& : longueur 39 mill.; largeur (carênes compri-
ses) 4 mill., (prozonite) 2.50 mill.
Coloration brun-rouge très foncé, presque noir;
antennes noires; pattes avec les quatre premiers arti-
cles orange vif, le cinquième rembruni et le dernier noir.
Corps trés élancé, à cotés parallèles, subcylindrique,
e
muni de carènes tres espacées, tres grèles, presque spi-
niformes, plantées haut dans les flanes, horizontales dans
les premiers segments et un peu relevés seulement à
partir du sixième. Les téguments, mats à Voeil nu et
sous la loupe, apparaissent sous un fort grossissement
extrèmement finement chagrinés, un peu plus grassière-
ment et moins régulièrement sur le metazonite que sur
le prozonite.
Tete large, presque lisse, médiocrement brillante.
Fosse antennaire (1) peu profonde ; bourrelet laté-
ral médiocrement bombe. Vertex bombé, partagé par
un sillon occipital fin en arrière et allant en s'accen-
tuant jusqu'à la hauteur des antennes, point où il dis-
parait assez brusquement. Ecartement des antennes ne
dépassant guère la longueur du 1.º article. Antennes
très longues (8.80 mill.), três greles, vétues à partir
du second article d'une pilosité courte et peu dense.
Proportions des articles: | 1.7 article, 0.80 mile
art., {40 mills Ses arts 1.40" milks: 2 art one meal
pe arts. E 70 mil; 68 arts 1:60 mill 7 eta ae
ensemble, 0.20 mill. ; total 8.80 mill.
Le premier écusson (fig. X) est nn peu plus large
que la tête et muni de carênes triangu-
laires aigues. Son bord postérieur est
três faiblement arqué en son milieu, pres-
que rectiligne, puis, à partir de la racine
des mandibules, il est oblique-sinueux
jusqu'à Tangle latéral de la caréne; le
fa X bord postérieur est faiblement concave
au milieu et beaucoup plus fortement dans les côtés;
la carène se trouve par cela même être très étroite et
aigue; elle est vebordée antérieurement et postérieu-
rement. Ia surface de l’écusson porte une faible dé-
pression transversale en arriére du bord antérienr.
(1) Nous donnons ce nom aux dépressions latérales de la
capsule céphalique à Vextrémité antérieure desquelles sont in-
sérées les antennes. Ces fosses antennaires sont plus ou moins
profondes, et le bourrelet latéral qui les limite inférieurement
plus ou moins bombé.
eats © een
A partir du quatrième segment (fig. XI) jusqu’au
dixseptiéme environ, le metazonite est déprimé trans-
versalement en son milieu ; la dépres-
sion est large mais sans contours de-
finis; elle est assez profonde vers le
milieu du corps. Les carenes du tronc
ont la forme de cornes graduellement
amincies, cintrées, avec leur extrémité
subaigue tournée vers l’arriére; au se- Pig XL
cond tiers de sa longueur, le bord antérieur est interrompu
par une petite dentelure au de là de laquells la caréne est
tronquée obliquement. Le bourrelet marginal est fin au
bord antérieur et plus encore au bord postérieur, où il
peut même être obsolète ; il est toujours épaissi entre
la dentelure et la pointe de la carene. Sur les segments
munis de pores ce bourrelet est beaucoup plus accen-
tué, il forme un bouton dont la surface, oblique par
rapport au plan du dos, est creusée d'une fossette au
fond de laquelle s'ouvre le pore. La suture transversale
est três large, étranglée, et extremement finement ridée
transversalement. Les carenes du 19.° segment sont
semblables aux autres, sauf qu'elles sont moins dévé-
loppées. Le dernier segment est assez court, conique,
tronqué a Vextrémité, avec les trois paires de granu-
lations usuelles. Les valves anales sont assez saillantes,
peu globuleuses, finement marginées.
L’écaille sousanale est triangulaire, saillante, for-
mant un angle a peu pres droit.
La suture pleuro-ventrale n'est reconnaissable que
jusqu’ au 6.° segment sous forme de fines granulations
(2 ou 3) disposées sur une ligne oblique. Les lames
ventrales sont proportionnellement étroites (sur le 11°.
segment==| mill.), beaucoup plus étroites que le tibia des
pattes correspondantes n'est long {tibia de la 15.° pai-
re—?.20 mill.) Elles sont déprimées longitudinalement
au milieu et coupées par un sillon transversal accusé.
Pattes tres longues (15° paire 8 mill.), tres greles
chez le male; les trois premiers articles sont presque gla-
bres, les trois derniers présentent des soies clairsemées.
200 eu
Chez le mâle la lame ventrale du 5.º somite pré-
sente, entre les pattes de la 4.º paire, deux épines
accolées formant une forte protubérance droite, aigue,
et à la base des pattes de la 5.º paire des verrues py-
ramidales à 33 faces peu développées. L'ouverture co-
xale des pattes copulatrices est arrondie, presque cir-
culaire, à bords redressés, saillants.
Les pattes copulatrices (Fig. XII à
XIV) sontdu type Leptodesmus. Les
hanches sont courtes et larges, sans
prolongement au bord antérieur ; elles
sont montées sur des brides trachéen-
nes longues; le crocnet est long et
effilé. Le fémur est pro-
portionnellement court ct
porte des soies peu den-
ses. Le reste de la patte
est profondément divisé
en deux rameaux de lon-
œueur égale bien écartés à la base. Le
rameau séminal, assez étroit à la base,
ya en sépanouissant un peu vers le
sommet où il devient lamel-
laire ; le bord terminal est
déformé par un repli; au
second tiers de la longueur
se détache de larète inter-
ne un crochet graduelle-
ment aminci, recourbé vers
l'avant, qui renferme la rai-
nure séminale. Le rameau secondaire, un
peu moins large que le précédent à la
base, conserve son diamètre sur le pre-
mier tiers de sa longeur et, à ce point
environ, il émet une forte épine aigne
tournée vers l’intérieur; au delà ee re-
meau s'amincit en une tige arquée, à extrémité arron-
die et sans particularité.
a ay =
La femelle est inconnue.
São Paulo, Rio Grande, 7 Janvier 1902 (C. M.
Wacket leg.)
Cette espéce semble différer du tarascus par des
carênes moins relevées et, en tous cas, par la forme
des pattes copulatrices ; du brasiliae par sa taille, par
des carènes plus grèles, par la coloration des pattes
ambulatoires et par la forme des pattes copulatrices ;
de l’aduncus enfin par sa taille, par sa coloration, par
ses carènes moins aigues, etc.
ERRATA
Dans notre précédent mémoire (Rev. Mus. Paul. V. 1901)
nous avons donné à une espèce nouvelle le nom de Spirostre-
ptus (Cladostreptus) flavofasciatus. Ce nom spécifique a déjà
été employé par Brandt, 1848 (p. 101 du Recueil, Zulus (Spi-
rostreptus ) flavo-fasciatus) pour une espèce du Cap. de Bonne
Espérance. En conséquence nous changeons notre appellation
en Spirostreptus (Cladostreptus) diptictus.
En outre, la composition typographique de ce même mé-
moire a donné lieu à bon nombre d'erreurs dont nous relevons
seulement les principales :
page 46, ligne 1 du bas, au lieu de: dépourvue de ceils.
lire: dépourvu de cils.
page 48, ligne 7 du bas, au lieu de: employé pour obtenir.
lire: employé pour l'obtenir.
page 53, ligne 14 du bas, au lieu de: reste déterminer.
lire : reste à déterminer.
page 57, ligne 18 du haut, au lieu de: 66 Longueur 63 mill.
lire: Longueur 65 mill.
page 63, ligne 5 du haut, au lieu de: faible sillon que réunit..
lire: faible sillon qui réunit.
page 75, ligne 11 du haut, au lieu de: Leptodesmus voluntatus,
n. sp.
lire: Leptodesmus volutatus, n. sp.
page 75, ligne 16 du haut, au lieu de: parallèles du 5.º segment.
lire : parallèles à partir du 5.° segment.
page 77, ligne 2 du haut, au lieu de: a angles arrondis et port
deux...
lire: à angles arrondis et porte deux...
page 85, ligne 19 du haut, au lieu de: elles sont outre...
lire: elles sont en outre...
Div EE
page 87, ligne 12 du haut, au lieu de: aminci en point dans...
lire: aminci en pointe dans...
page 90, lignes 16 et 15 du bas, au lieu de: le bord latéral fig. 99
est divisé par une enconche anguleuse en dix lobes subé-
eaux ;
lire: le bord latéral (fig. 99) est di-
visé par une encoche anguleu-
se en deux lobes subégaux.
page 91, ligne 13 du haut, au lieu de: suborale.....
lire: subovale.....
page 97, ligne 6 du haut, au lieu de: rétréci en point.....
lire: rétréci en pointe....
page 99, ligne 8 du haut, au liew de: moins développées, à par-
tir.
lire: moins développées; à partir...
page 101, ligne 3 du bas, au lieu de: sa voisine est moindre.
lire: sa voisine, est moindre...
page 102, ligne 14 du bas, au lieu de: prolongées en point...
lire: prolongeés en pointe...
page 104, ligne 12 du bas, au lieu de: ..contestation.
lire: ...constatation.
page 107, ligne 3 du bas, au lieu de: n'est comme que.
lire: n’est connu que.
page 112, tableau, colonne 2,4 et 6, au liew de: femelle.
lire : mâle.
page 112, tableau, colonne 5, 5 et 7, au lieu de: mâle.
lire : femelle.
page 112, tablean, colonne 7, aw lieu de: 59.8
tores 59.1
page 115, ligne 3 du bas, au lieu de: metazonite froncé,...
lire: metazonite foncé...
page 117, ligne 14 du haut, au liew de: Spir. (cladost. Ita) angus-
tifrons.
lire: Spir. (Clodost.) angustifrons.
page 117, ligne 13 du bas, aw liew de: 1/20 e de longueur...
lire: 1/20£ de la longueur...
page 117, ligne 9 du bas, au lieu de: 5.40: :90. .3.50: 50.)
lire: 5.40: :90.— ou 3.50: :50.—)
page 121, les lignes 4 et 5 sont à considérer comme une note
de bas de page, se référant aux termes employés dans la
description du Gnathochilarium (ligne 6).
page 124, ligne 11 du bas, au lieu de: représenté plus grosse...
lire: seprésenté plus grossi...
page 126, tableau, colonne 2, le point de doute qui se trouve à
lavant-derniére ligne, est à reporter à la même place dans
la dernière ligne.
page 126, tableau, colonne 3, ligne 4 du bas, au lieu de: 4.40.
lire: 4.20.
ees OS ii
page 126, tableau, colonne 3, ligne 2 du has, au lew de: 3.20.
page
page
page
page
page
page
page
page
page
page
page
page
page
page
128,
lire: 3.40.
ligne 2 du haut, aw liew de: mieux que les autres.
lire: mieux marquée que les autres.
ligne 12 du haut, au liew de: (Male),
lire: (femelle),
ligne 13 du haut, au liew de: (Femelle),
lire: (male),
ligne 17 du haut, au lieu de: rouge poré ;
lire: rouge doré ;
ligne 22 et 23 du haut, au lieu de: (Femelle ômill.,
Mâle 5.50 mill.),
lire: (mâle 5 mill., femelle 3.50 mill.),
ligne 12 du haut, au lieu de: (Femelle)
lire : (mâle)
ligne 14 du bas, aw lieu de: concave au milieu, bord
interne...
lire: concave ensuite; l’angle interne.
ligne 2 du haut, aw lieu de: contournant le membre
sinus de la rainure ;
lire: contournant le membre (sinus
de la rainure) ;
tableau, colonne 2, ligne 5, aw lieu de: 95
lire: 85
tableau, colonne 2, dernière ligne, au lieu de: 23
lire: 28
tableau, colonne, 4, ligne 13, au lieu de: 56
lire: 50
ligne 17 du haut, au lieu de: 120 paires de pattes ;
lire: 127 paires de pattes ;
ligne 15 du haut, au lieu de: Les lames ventrales sont
un peu...
lire: Les lames ventrales son lisses.
Les valves sont un peu...
lignes 11 et 12 du haut, au lieu de: hauteur des
yeux; oblique au dessous des
yeux les côtés sont...
lire: hauteur des yeux, oblique au
dessous des yeux; les côtés sont...
ligne 21 du haut, au lieu de: intérieure,
lire : antériure,
ligne 18 du haut, aw lieu de: Bord intérieur...
live: Bord antérieur...
ligne 4 du haut, cu lieu de: (peut-être à cette espèce.
lire : (peut-être à tort) à cette espèce.
tableau, colonne 3, ligne 1, uu lieu de: 31.0
lire 13.10
en tête du tableau, ajouter: RHINOCRICUS ASPER, n.
sp. (Pl. IX, fig. 228 à 237).
CEEE OA
page 187, tableau, colonne 4, ligne 38, au lieu de: 41
lire: 44
page 191, tableau, colonne 3, ligne 1, au lieu de: 7
lire: 6
page 193, tableau, colonne 3, ligne 11, au lieu de: 3.80
lire: 4.80
page 193, tableau, colonne 6, ligne 32, aw lieu de: 5.
lire: 4.
page 216, ligne 7 du bas, au lieu de: XXII,
lire: XXIV,
page 217, ligne 5 du haut, au lieu de: XXXTIT,
lire: XXXII,
page 230, ligne 14 du haut, aw liew de: The prost—amorce.
lire: prost-amorce
page 230, ligne 3 du bas, au lieu de: la lame et la P. C....
lire: (la lame ventrale et la P. C....
Explication des Figures
FIGURES DU TEXTE
Fig. J, pase. 84 Cryptodesmus politulus ; les 7 premiers écussons
» II, » 85 Cryptodesmus pileclus; les 3 premiers écussons.
» TI SO — — les écussons 14 et 15.
Dil Von — — 8° segment, section pos.
térieur,
» V, » 75 Euryurus octocentrus; carène gauche des 4
premiers écussons.
co EP ST 5 — — les écussons 19 et 20,
76 — -— 6° segment, section pos-
térieure.
» VIII, » 82 Trigoniulus goësi ; les bourgeons des P. C.
chez un individu trés
jeune, face antérieure.
pes 82 — — les mêmes, chez un in-
dividu plus développé.
» X, » 88 Leptodesmus (Rhac.) cor-
niger ; les écussons 1 et 2.
» XI, » 89 — — les écussons 5 et 6,
»º, RITO — — hanche des P. C.
» XIII, » 90 — — P. C. profil interne.
> XIV, oa — — P. C., face antéro-su-
périeure.
Fig.
»
Fig.
»
Fig.
»
»
Fig.
»
»
»
»
roe
H vo
6
8
9
10
11
18
19
20
SEA O can
PLANCHE I
Newportia bicegoi n. sp.
Pattes maxillaires.
Une patte anale, profil interne,
Newportia amazoniea 7. sp.
Pattes maxillaires.
Une patte anale, profil interne.
Schendyla paulista 1. s
Extrémité antérieure du corps, face dorsale.
La méme, face ventrale.
Extrémité postérieure du corps, face ventrale.
Notiphilides grandis 2. sp.
Labre.
Une mandibule.
Les mâchoires, face supérieure (dorsale).
La griffe de la seconde paire de mâchoires, três grossie.
Cryptodesmus pileslus 7. sp.
Antenne.
Une patte de la partie antérieure du corps (la han-
che manque). 1
Patte copulatrice, profil externe.
La même, face antéro-supérieure.
La même, face postero-inférieure ; y — muscles vus par
transparence de la chitine.
Le prolongement épineux de la même, três grossi.
Euryurus octocentrus 7. sp.
“Hanche des pattes copulatrices.
Patte copulatrice, face antéro-supérieure (oblique );
fi = feuillet séminal; f.2 = feuillet secondaire.
La même, face postéro-inférieure (oblique), plus grossie.
ON
Spirostreptus (Scaphiost.) cluniculus
Fig,
Fig.
21
TE eS:
Pattes copulatrices, face antérieure (la patte posté-
rieure gauche est enlevée; pt — poche trachéenne ;
tn — talon des deux pattes, antérieure et postérieure ;
la —lambeau antérieur de la patte antérieure ; lp =
lambeau postérieur de la même; PP= patte posté-
rieure ,
Extrémité de la patte copulatrice postérieure ; s = si-
nus de la rainure.
PLANCHE II
Spirostreptus (Gymnos.) perfidus nobis
Rhinocricus asper nobis.
Pseudonannolene scalaris nobis.
Leptodesmus jucundus nobis.
Rachidomorpha brasiliae nobis.
Otostigmus tibialis nobis.
Cryptops iheringi nobis.
As Vespas sociaes do Brazil
POR
RODOLPHO VON IHERING
Zelador do Museu Paulista
Membro da «Societé Entomologique de France»
Tendo concluido o estudo da colleeção das Ves-
pas sociaes existente no Museu Paulista, elaborei o
presente catalogo das especies brazileiras conhecidas
neste grupo dos Hymenopteros. Com o auxilio do rico
material que tem sido colleccionado pelos viajantes e
mais empregados deste Museu, assim como por permu-
tas valiosas, consegui examinar grande parte das es-
pecies já conhecidas como provenientes de localidades
brazileiras.
E” à excellente monographia de H. de Saussure
que se deve a possibilidade de uma orientação mais ou
menos facil, pois que, entregue unicamente aos escri-
ptores mais antigos, cujas descripções, por demais con-
cisas, podem ser applicadas a varias especies e exigem
a comparação dos typos, seria necessario possuir uma
bibliotheca vastissima com obras rarissimas e assim
mesmo nunca estar-Se-hia ao abrigo de erros. Como,
porém, a obra de Saussure (em 3 volumes de 1855)
hoje é cara e se tornou incompreta, e, como ainda sem
o auxilio da bibliotheca de um Museu é difficil conhe-
cer toda a literatura moderna, julgo que a publicação
presente será de vantagem para os que se quizerem
dedicar ao estudo destes insectos, innegavelmente dos
mais interessantes.
EE ONE CE
E' a America do Sul, sem duvida, a região mais
rica em especies deste grupo que estudamos e nao me-
nos certo é que no Brazil occorre a maior parte dellas,
porque compartilha tanto das formas da rica zona sep-
tentrional como das do sul.
Sem duvida encontramos na exuberante fauna ama-
zonica muito maior variedade do que na meridional, e
para comproval-o, basta dizer que, segundo o estudo mais
ou menos completo para a Republica Argentina, J.
Brèthes da a esse paiz um total de 18 especies, distri-
buidas por 5 generos.
A presente revisão das especies brazileiras com-
prehende, em 11 generos, 130 especies, e não ha de ser
muito grande o accrescimo que no correr do tempo
soffrerá. Bem poucas serão as especies que estão por
descobrir, visto como se trata de um grupo que sem-
pre tem tido estudiosos que a elle se dedicaram. E
mesmo estas poucas especies novas deverão vir preencher
o logar das que forçosamente devem desapparecer, por
não constituírem mais do que simples variações de outras.
Comtudo é necessario proceder com certo escru-
pulo, é indispensavel possuir bôas séries, provenientes
de localidades variadas e em geral não se deve suppri-
mir uma especie sem ter comparado o typo da descri-
pção. Antes de tudo devemos respeitar os trabalhos já
existentes, sem o que a confusão só augmentarä. Esta
lealdade devemos exigir mesmo antes do respeito às
leis da nomenclatura zoologica.
Para o estudo deste material riquissimo, muitas
vezes tive que recorrer ao auxilio de colegas que
muito contribuiram para o esclarecimento de varias
questões difficeis. Seja-me permittido apresentar aqui
os meus agradecimentos aos Srs., que, como os colle-
gas Carlos Moreira, do Museu Nacional, Juan Bréthes,
do de Buenos-Aires, e Visconde Robert du Buysson,
do Museu de Paris tão amavelmente correspondiam aos
meus desejos, assim como ao amigo B.* Fausto Lex,
pelo modo artistico com que illustrou as estampas an-
nexas,
tas OO) is
Para a facil comprehensão da descripção que dou
de cada especie, julgo conveniente dar um resumo da
nomenclatura empregada, esclarecida pela fig. 1 da Est.
WI. (Genero Mischocyttarus).
Seguindo a convenção designamos os sexos macho
com o signal 4 ; femea com © ; obreira com 9.
Dividimos o corpo da vespa em tres partes, a saber :
cabeça, thorax e abdomen. São de importancia para
o estudo as seguintes partes da cabeca : as mandibu-
las e os palpos do apparelho buccal ; estes sac em dous
pares: os maxillares (fig. 3) e os labiaes (fe. 4),
aquelles sempre com maior numero de articulos que es-
tes, o clypeo (fig. 2 cl) que é a parte anterior da cabeça
-comprehendida entre as mandibulas e a base das an-
tennas, geralmente em forma de escudo: os olhos
(ou olhos compostos) grandes, alongados, occupando a
face lateral da cabeça (fig. 1, oc) sempre com um re-
corte no terço superior do lado interno; os ocellos
(fig. 1, oct.) ou olhos simples em numero de 3 forman-
do um triangulo no vertice da cabaça; as antennas
compostas de 12 (9) ou 13 (d') artigos, dos quaes os 2
primeiros formam a base (fig. 1 an.) e os demais o
flagello (11.)
O thorax compõe-se dos seguintes segmentos, conta-
dos de diante para atraz: prothorax (fig. 1 pt.), meso-
thorax (mst.) e metathoras (mt.); duas pequenas faixas
transversaes (s, ps.) situadas entre o meso— e o metathorax
propriamente ditos, formam o scutellum e o postscutel-
lum e que, anatomicamente, fazem parte, o primeiro do
meso,—o segundo do metathorax. Este ultimo apresenta
(com rara excepção) um sulco mediano, longitudinal
geralmente bem visivel. No ponto de inserção do ab-
domen no thorax, protegendo o musculo elevador do
mesmo, ha umas membranas chitinosas que formam as
chamadas valvulas articulares (figs. 9—10) e cuja fór-
ma é caracteristica para varios generos.
Distinguem-se no thorax do insecto a face tergal
ou superior, as plewras ou flancos e o sternuin ou lado
inferior.
— 100 —
O abdomen compõe-se de segmentos em numero
de 6 nas 9 e f e de 7 nos d', sendo aquellas sem-
pre providas de aculeo ou ferrão, emquanto que sem-
pre falta nos machos. Distinguimos o abdomen de
forma deprimida do que é comprimido; a primeira
forma no caso de haver diminuição no sentido vertical
(de cima para baixo), a segunda, quando diminue no
sentido transversal (lateral). Segundo a fórma do pri-
meiro segmento abdominal dizemos que o abdomen é
sessil, subsessil, pedunculado. (Chamamos directamente
petrolo ao primeiro segmento no caso de ser elle mais
ou menos inteiramente estreitado por todo sen compri-
mento (fig. 1 p., & 12); ao passo que quando só a
parte basal é algo estreitada e o resto do segmento at-
tinge a largura total do abdomen (em Polistes fig. 1-2
da Est. IV e fig. 0-7 da Est. III) tal designação não
convem. À forma mais typica do abdomen sesail offe-
rece o genero Vespa, extranho à America do Sul.
Quanto aos membros do thorax, são elles os se-
guintes: 3 pares de patas insertos respectivamente
no pro, meso e metathorax, bastante semelhantes na sua
estructura, sendo sempre o ultimo par o mais comprido ;
designamol-os por I, Il e WI par. Como se o ve na
fig. 1, compõe-se cada pata dos seguintes segmentos :
coxa, trochanter, femur, tibia e tarso; este ultimo
compõe-se de 5 artigos, dos quaes o primeiro é deno-
minado metatarso e o ultimo é provido de um par de
unhas.
As azas devemos considerar como membros do
meso—e do metathorax com um primeiro e um segundo
par, respectivamente. O primeiro par é o mais des-
envolvido e a sua nervatura é a mais importante para
a classificação ; vejamos pois a nomenclatura dos nervos
que atravessam a aza e das cellulas que assim se formam
(fig. 1). Logo no bordo anterior, a começar da base
corre a cellula costal, muito estreita e que vae termi-
nar em st: 0 stigma; r no apice superior é a cellula
radial; c, 0, ce”, Cc” são as cellulas cubitaes I—IV ;
na segunda destas desembocam pelo lado inferior os
PL ER
- 101 —.
T° e IIº nervos recorrentes (nr. I, nr. Il). Abaixo da
cellula costal ficam, tambem partindo da base as cell.
me dial, submedial e anal; em continuação a esta se-
guem as cell. apical e do tmbo (limitando esta com
as cubitaes) e no centro as 5 cell. discoidaes. Sobre
a base da aza anterior, no seu ponto de inserção no
thorax, ha um disco protector que chamamos a tegula.
Vejamos agora qual a posição que entre os inse-
ctos Ilymenopteros occupam os Vespideos. (*)
a Ditrocha ou Terebrantia tem entre a coxa
e o femur 2 segmentos (trochanter duplo); a
9 põe os ovos com auxilio da terebra prote-
gida por uma bainha. São deste grupo os
Ichneumonidas, Bracomdas, Evanidas, ete.
aa Monotrocha ou Aculeata com um só trochan-
ter; a © é munida de aculeo ou ferrão venenoso.
b Anthophila com pubescencia nas patas III (sco-
pa), metatarso achatado : Apidæ, (abelhas so-
ciaes e solitarias) e Bombide.
bb Raprentria nunca com o metatarso III achata-
do, nem as patas com densa pubescencia.
c Sem dobra longitudinal na aza anterior, quando
em repouso: Hornucido, Mutillidæ, Fossoria
Pompilidæ, Sphegidæ, Scoliatæ, ete.
cc Diploptera ou Vespidæ a aza anterior, quando
na possição de repouso, dobra-se longitudinal-
mente. 9 com 12, 4 cum 13 artigos antennaes.
d Tibias do I e Il par com um só esporão ter-
minal, só II tibia com 2 esporões; unha tar-
sal com um ou mais dentes lateraes. Só ha
d e 9, Vespideos solitarios.
dd Tibia I só com um esporão terminal, tibias TI
e Ill sempre com 2 esporões; unha tersal
simples, sem dentes lateraes Ha Jd, Pe
7» Vespideos sociaes.
(*) Conforme a disposição de E. L. Taschemberg.
eo 44 (DDR
São estes caracteres que nos fazem reconhecer
facil e seguramente toda e qualquer vespa social; é ne-
cessario, entretanto, advertir que ha um grande nu-
mero de vespas solitarias, principalmente Eumenidas
que imitam extraordinariamente a certas especies so-
ciaes e, confesso, foi-me difficil conseguir epprehender
bem os caracteres que no conjuncto, logo à primeira
vista, fazem distinguir os dous grupos.
E' conveniente reparar tambem na conformação
das mandibulas e do c ypeo que são de estructura mui-
to typica nos vespideos sociaes e assaz variaveis nos
solitarios. A questão é unicamente de bastante obser-
vação.
Dou em seguida a chave para a classificação dos
generos brazileiros, 11 ao todo. Deixo de lado os ou-
tros 10 restantes por serem todos, com excepção da
Vespa, que occorre tambem na America do Norte e na
Europa, representantes da fiuna asiatica, africana ete. |
(são os seguintes: Vespa L. Jschnogaster Guêr.,
Ischnogasteroides Magr., Belonogaster Sauss., learva
Sauss., Paraicaria Grib., Sybillina, Westw. Para-
mischocyttarus Magr., Anthreneida White; Paraves-
pa Rados.)
Não deixa de haver certa duvida quanto à exis-
tencia ou não da Vespa na America meridional. Muito
commum na America do Norte, já na America Cen-
tral, ao quanto eu saiba, não occorre; as indicações
dos auctores antigos—Fabricino, Olivier, etc. (unica-
mente: Am. mer.) não inspiram confiança. Sómente
com relação à especie descripta por Saussure sob o
nome de V. peruana (Reise Novara (1868) zool. II.
P. 1 A. Hymen. pg. 18) de «Quito» — Perú altior,
não sei si é licito sustentar esta affirmação. Si porém
não for confirmada esta indicação, devemos attribuil-a
a um lapso do colleccionador da Novara. O proprio
Dr. Saussure em sua Monographia (1855; julgou bem
pouco provavel a occorrencia de Vespa na America do Sul.
Dos 11 generos de que aqui trataremos, sómente
dous occorrem tambem em faunas extra-neotropicas :
— 103 —
Polistes e Polybia. O genero Polistes esta espalhado por
quasi todo o mundo e a sua representação no Brazil
é relativamente fraca em comparação com as suas es-
pecies conhecidas (mais ou menos 130). Quanto à Po-
lybia dá-se justamente c contrario, sendo bem poucos
os
seus representantes asiaticos, australianos ete. O
genero Caba (Nectarinia) tem duas especies mexica-
nas; quanto ao ser Tatwa tambem um genero asiati-
co, seja-me permittido que prefira ainda esperar con-
firmação por novos materiaes.
bb,
C,
CHAVE DOS GENEROS DAS VESPAS SOCIAES
SUL-AMERICANAS
Abdomen séssil ou subsés-
sil. nunca com o 1.º seem. in-
teiramente transformado em
petiolo.
O scutellum cobre o post-
scutellum (ou pelo menos os
dous estão no mesmo plano
vertical); o 1.º segm. abd.
não encaixa a base do 2.º
como este aos seguintes (Est.
Dit 26), &. A Í
O scutellum não cobre o
postscutellum e o 1.º segm.
ahd. abrange a base do 2.º
segm.
Abdomen curto, quasi oval ;
metathorax úiso, sulco pouco
profundo ; 3.º segm, ‘abd.
em cupola.
Cabeça mais achatada, man-
dibulas estreitadas no meio
e de apice chanfrado .
Sem estes caracteres; os
olhos não attingem a base
das mandibulas.
Palpos maxillares com 6
(1)
(2)
Caba
Charterginus
— 104 —
artigos e os labiaes com 4
(Abdomen Est. IV fig. 7). (8) Chartergus
ee, Palpos maxillares com 6,
labiaes com 3 artigos (até
agora uma só especie; Est. |
IV ca He . (4) Parachartergus
ep Abdomen fasitorme, meta-
thorax abahtlado, com es-
trias partindo do sulco me-
diano; 1.° segm. abd. infun-
dibuliforme. (Est. HI fig. 10
mostrando a forma das val-
vulas articulares). à . (9) vPolistes
ad, Abdomen com o lt." segm.
todo transformado em petiolo.
We Petiolo perfeitamente li-
near; 2.º segm. gradativa-
mente alargado, sem dilatação
brusca no 1.º terço do com
primento . . (6) Mischocyttarus
ff; Petiolo muito variavel ;
2.° segm. sempre Hu a
largura total antes do 1.
terço do comprimento.
ds Abdomen antes comprimi-
do, corpo globoso, cabeca
mais larga que o thorax,
concava atraz.
h, Sem sulco metathoraxico ;
(Est. IT fig. 3-5) clypeo re-
gularmente cordifórme, man-
dibulas muito fortes . . (7) Synoeca
hh, Sulco metathoraxico pre-
sente, clypeo no apice ligei-
ramente bidentado. (Est. HI
fee Ne : (6) à Leta
99; Sem estes caracteres.
t, Corpo alongado, olhos e ocel-
los muito grandes, valvula
— 105 —
articular do petiolo em ar-
cada inteiriça. (Est. HI fig.
9); 2, 3 e 4 segm. abd. de
egual largura (fig. 8) . (OT porca
i, Sem estes caracteres; espe-
cies assaz variaveis em tama-
nho e forma.
k, Palpos labiaes com 3, ma-
xillares com 5 articulos (com
1° sos especie: do norte ‘do
Brazil, compr. tot. 6,5 mm.) (10) Leipomeles
RR, Palpos labiaes com 4, ma-
xillares, com 6 articulos. . (11) Polybia
1 Genero Caba n. n.
Synon.: Brachygastra Perty, Delect. anim. art. Brasil,
- 1833, pag. 146 (nec Brachygaster Leach. Hym.
1817; Meigen, Dipt.- 1826).
Nectarina Shuck, Gab. Gyclop. Hist. Ins. 1840 pag.
181 (nec Nectarinia Il. Aves 1811).
Caracteres. Palpos labiaes curtos, de 4 artigos;
palpos maxillares formados por 6 artigos curtos. Man-
dibulas bastante longas, no meio um pouco estreitadas,
o bordo anterior obliquo com 3 dentes distinctos, o
primeiro muito adunco, e um 4º apenas indicado, ob-
tuso. Cabeça, achatada, os olhos quasi que attingem a
inserção das mandibulas; antennas pouco acima do cly-
peo; este é largo e termina inferiormente por um pe-
queno. dente. Thorax cubico, sem bordos arredondados ;
scutellum anguloso e muito saliente de modo que, visto
de cima, encobre o postscutellum. Abdomen curto, glo-
buloso, formado quasi que unicamente pelo II segmen-
to; o I assaz pequeno, com petiolo quasi nullo, appli-
ca-se ao Il segmento, attingindo só a metade da lar-
gura deste; o resto do abdomen formado por segmentos
curtos ,e estreitos, geralmente occultos sob o segundo.
— 106 —
Este genero americano, de formas geralmente cons-
tantes, caracteriza-se bem pelo seu thorax anguloso e
quasi sempre pontuado.
Nota. Foi indispensavel a substituição do nome
generico de Nectarinia. Tendo sido muito anteriormente
empregado na Ornithologia, como genero typico para a
familia africana das Nectariniitas não póde hoje, sob
o rigor da lei da prioridade, subsistir em qualquer
outra familia do reino animal.
CHAVE DAS ESPECIES DO GENERO CABA
a. Metathcrax anguloso ou espi-
noso
b. Mesothorax unicolor.
c. Abdomen preto, quando muito
orlado de amarello.
d. Colorido intensamente preto,
reluzente; 6-7 mm.
e. Seutellos mrelost do mn Sta
ce. Scutellos amarellos. 2,4. (o) scuieliata,
d. (Cor preta, tirante a bruno;
geralmente pillosas ; 8 mm.
f. Postscutellum preto . . . (3) lecheguana.
fr. Postscutellum com listra ama-
rella.
9. Thorax curto e largo. . . (*) moebiana.
gg. Thorax sensivelmente alon-
PATO RPP cp gecalnadem Na
IV fig. 4)
cc. Abdomen amarellado, com
pouco desenho preto . . . (4)rufiventris.
bb. Mesothorax com linhas lon-
gitudinaes amarellas.
h. Nervuras das azas amarellas. (5) bilineolata.
IT segm. abd. ainda com uma
IT faixa, mediana. . PUS) Ban care
scrata.
hh. Nervuras das azas escuras . (6) smitha.
407
aa. Metathorax arreadondado,
sem angulos nem espinhos
MEPS NE) éme" ca ar
2. Abdomen sômente orlado de
amarello.
7) analis.
ya Pace preta, sem Gesenhos : (1)
(8) chartergoides
jj. Face com desenhos amarellos.
2. Abdomen ainda com 2 man-
chas lateraes no Il segmento
a belo, demasia otek. e) OLROLOLE
Nota. As especies marcadas na chave com (*) não
descreverei minuciosameute neste trabalho porque ainda
não têm sido encontradas no Brazil, ainda que prove-
nientes, todas, da America meridional.
1 Caba augusti (Sauss.)
Nectarinia auguste Saussure, Monogr. Fam. Vespid.
ASIN De 2a.
Gribodo, Bull. soc. entom. Ital. XXI, 1891, p. 294.
Compr. pare. 7 mm. Env. 15 mm.
A conformação do corpo e suas pequenas dimen-
sões lembram logo a C. scutellata ; differe porém es-
sencialmente pela falta de desenho sobre o corpo, intei-
ramente preto. A forma typica apresenta dous ponti-
nhos amarellos acima do clypeo e os segmentos abdo-
minaes, do II em deante, tem estreitas orlas amarellas;
anus inteiramente desta côr. Azas hyalinas com nervu-
ras pretas. Quanto à forma observa-se o thorax, visto
de cima, em quadrado perfeito, devido aos angulos re-
ctos do prothorax e ás pontas salientes do metathorax.
Scutellum bastante saliente e formando dous tuberculos
ou pontas nos angulos. Abdomen muito curto e o I
segmento com largura quasi dupla do comprimento.
Abdomen finamente pontuado; o resto do corpo com
pontuações mais profundas e que se tornam, principal-
— 108 —
mente sobre o scutellum e os flancos, muito grosseiras
e unidas.
Habit. Todo o Brazil. Ohh M
Mus. Paul. S. Paulo, Jundiahy; Brazil; Surinam;
Perú; Mexico.
A.º Caba augusti var. quinta (f. v. Lh.)
(Est. IV. fig. 3.
Nectarinia augusti var. quinta R. von lhering. Ann.
Soc. Entom. France LXXI (1) 1903 pg. 153
_ Todo v corpo é um pouco mais robusto do que o
da especie typica, assim como os angulos do metatho-
rax e scutellum são menos agudos ; o segundo segmento
abdominal não é tão curto, excedendo a largura só um
pouco ao comprimento. "Todo o corpo mais fortemente
pontuado, e mesmo sobre o abdomen a pontuação, ainda
que mais esparsa, é abundante e profunda.
Quanto ao colorido, esta variedade completamente
preta vista de cima, apresenta só os quatro ultimos
segmentos abdominaes inferiormente amarellos, e estes
ainda de cada lado tem uma mancha preta ; anus ama-
rello.
O apice das mandibulas é um pouco bruno-averme-
Jhado.
As azas hyalinas e irisadas tem no bordo anterior
um leve tom ferrugineo e uma sombra preta.
Habit. e Mus. Paul. S. Paulo; Paraná, Minas e
Juruá-Amazonas.
*& Caba scutellata (Spin.)
Brachygastra scutellaia, Mem. Acad. Sc. Torino (2
XIII, 1851 pg. 74
Nectarina scutellata, Saussure Monog. Fam. Vesp.
Il 1853 pg. 227
— 109 —
Nectarinia scutellata, Gribodo Bull. Soc. Entom. Ital.
XXIII 1891 pg. 254
Compr. pare. 6, 5 mm.; Env. 14 mm.
Clypeo oval, mais largo do que longo; scutellum
bituberculado, mas nunca com ponta saliente, largo e
pouco saliente; este, o postscutellum e o metathorax su-
perpostos horizontalmente. O metathorax é um pouco con-
cavo e não forma angulos lateraes muito pronunciados.
O segundo segmento abdominal não é estreitado poste-
riormente.
Insecto preto; todo o corpo pontuado. As pontas
das mandibulas (e às vezes a margem do clypeo) bru-
nas. Os dous scutellos vivamente amarellos. As azas
um pouco sombreadas. Todos os segmentos abdominaes
mui delicadamente orlados (parece, porêm, ser frequente a
variedade em que o abdomen é puramente preto).
Habit. America do Sul. Brazil, Chapada.
Mus. Paul. Cayenna ; Maracapatä—Peru ; Brazil
(infelizmente sem indicação da localidade’.
= Caba lecheguana (Larr.)
Compr. parc. 8 mm.; env. 19 mm.
Polistes lecheguana Latreille, Mem. Mus. Hist. Nat.
XI 1824, pg. 3153-518 e XII Est. 12 fig. B
Nectarinia lecheguana Sauss. Monog. Fam. Vespid.
II 1553 po. 232, Est. 30 e ÿ4
Synon. Polistes mellifica Say, Boston Journ. Nat.
Hist. I. 4. 1837 pg. 390.
» — Neclarinia mellifica. Sauss. Monog. Fam.
Vespid. II 1853 pg. 233.
» Brachygastra velutina Spinola. Ann. Soc.
Entom. Franc. X pg. 126
» Nectarima velutina Saussure, Monog. Fam.
Vespid. 1855 pg. 211.
Prothorax anteriormente com recórte nitido, late-
ralmente anguloso. Scutellum largo e saliente, um
— 110 —
pouco recortado e seus angulos em tuberculos spinifor-
mes. Metathorax quasi plano, de bordos muito angu-
losos e formando de cada lado um espinho. Corpo
preto, com desenho amarello sômente sobre os segmen-
tos abdominaes : o I com uma listra muito delicada,
os demais com faixas mais largas.
As azas são subhyalinas, seu bordo anterior ama-
rello, tingindo tambem as nervuras; o estigma e ner-
vuras restantes brunos; o apice com uma sombra preta.
Cabeça e thorax uniformemente pontuados, sómente so-
bre o scutellum mais grosseiramente; o abdomen com
pontuação muito leve. Os pellos que recobrem o thorax
e a cabeça serapre mais longos que o fino pellame do
abdomen; sempre, porém, disfarçam um pouco o co-
lorido preto, natural do insecto, com um tom ora pra-
teado, ora um tanto bruno.
Ponho sob a synonymia de C. lecheguana as espe-
cies mellifica e velutina, pois que nem os proprios au- :
ctores, nem Saussure, na sua Monographia, souberam
apresentar caracteres que facultassem a distincção nitida
das mesmas, ainda que seja muito natural encontrarmos
ligeiras variantes em uma especie que occorre do Me-
xico à Argentina. Spinola tenta estabelecer a C. ve-
lutina pelo avelludado mais longo do abdomen e tarsos
brunos; ao passo que Say não apresenta nenhum cara-
cter positivamente diverso para O. mellifica.
S. Os machos reconhecem-se facilmente pelo colo-
rido amarello que apresentam sobre as orbitas internas
(na metade inferior), sobre o bordo inferior do clypeo
e as coxas tambem amarellas. Os olhos são maiores,
estreitando a face e o clypeo; este apresenta-se alon-
gado, menos curvado e não é preto reluzente como na
Q e 7, mas todo coberto por pellos prateados. A base
das antennas apresenta um traço amarellado (o flagellum ?
falta nos meus exemplares).
Habit. - Do Mexico (ahi como C. mellifica) até
a Argentina.
Mus. Pre Mexico 3: 194 Palo; MN pirança Sto
Grande do Sul; Buenos Aires.
— 111 —
4 Caba rufiventris (Sauss.)
Nectarinia rufiventris Sausure. Monogr. Fam,
Vespid. II 1853 pg. 226
Compr. parc. 6, 5 mm. Env. 13 mm.
A estructura do corpo desta especie é a mesma
que a de O. scutellala ; tambem tem, como esta, am-
bos os scutellos amarellos. -O abdomen, porém, tem o
1.º segmento preto ou bruno, e os demais segmentos
amarello-alaranjados : o Il tem uma mancha ou traço
preto no bordo posterior; anus bruno e todos os seg-
mentos bordados de amarello-enxôfre ; o clypeo com
bordos brancos; o ápice das mandibulas bruno. Pés
pretos com manchas brunas. Azas transparentes com
o bordo anterior bruno.
Habit : Para.
> Caba bilineolata (Spin.)
Brachygastra bilineolata Spinola. Ann. Soc. Entom.
Fra ISA too:
Nectarinia bilin. Saussure Monogr. Fan. Vesp, 1853
pag. “28, Est. XXXIV fig. 2.
Fox. Proc. Acad. Nat. Sc. Philad. 1898 (111) pg. 466
Compr. tot. 9 mm. Env. 15 mm.
Primeiro segmento abdominal muito pequeno ; scu-
tellum muito saliente e recortado. Corpo fortemente
pontuado na cabeça e no thorax, e pelludo. Predomina
a cor preta ; o desenho amarello variado é o seguin-
e: bordos do clypeo, orbitas internas e externas, uma
faixa interrompida sobre o vertice, prothorax na frente,
tegulas, 2 linhas longitudinaes sobre o mesothorax,
o meio do scutellum e a parte superior do postscutel-
lum, bordos posteriores dos segmentos abdominaes, (o do
primeiro limitado à metade superior) anus inteiramen-
te amarello claro. Azas amarelladas com apice escuro.
Habit. : Cayenna; Brazil, Chapada.
— 112 —
5º Caba bilincolata war. fasciata var. n.
Scutellis flavisione divisione migra, abdominais secundo
segmento ut in C. smithi : flavo marginat:, mu-
mito secunda fascia basal: flava (sive flavo, me-
dio fascia migra.)
Por todos os demais caracteres é certo que se
trata simplesmsnte de uma variedade da C. bilineolata,
ainda que os scutellos sejam quasi completamente ama-
rellos e o segundo segmento abdominal apresente o
mesmo desenho que a C. smith, da qual entretanto
differe pelos mesmos caracteres especificos citados. ;
Habit. et Mus Paul.— Surinam. Brazil, rio Juruá,
Amazonas.
6 Caba smithi (Sauss.)
Nectarinia smith: Saussure. Monog. Fam. Vespid 11
1853 pg. 229. Est. 31 pg. &
Compr. parc. 6,9 mm. Env. 13 mm.
Cabeça e thorax fortemente pontuados e revestidos
de pellos longos, eriçados ; abdomen egualmente pontuado
e pilloso, porém menos :ntensamente. Thorax mais lar-
go do que comprido ; pela frente, sinuosamente trunca-
do, atraz os bordos do metathorax são muito angulo-
sos (as vezes formando mesmo espinhos) e o scutellum
muito saliente e bituberculado; a face posterior do
thorax muito concava. Clypeo muito largo e pouco
alto, com inserção das antennas na sua base. Cor ge-
ral do insecto preta; os pellos que o revestem e ricos
desenhos sobre todo o corpo, são amarellos. O preto do
clypeo muito reduzido pela larga faixa amarella que o
borda; uma mancha grande entre as antennas ou um
pouco acima dellas; orbitas internas e externas com
faixas largas; sobre o vertice, atraz dos ocellos, outra,
um pouco mais estreita, amarella. Thorax preto, com
ae MB
pellos de brilho dourado. Bordo anterior do prothorax,
às vezes tambem o posterior (ou mesmo elle todo in-
teiro) amarello; um traço abaixo da aza; sobre o me-
sothorax um desenho em fórma de E, variavel, (appa-
rentando, mesmo, outras vezes, a fórma de ferradura)
com as duas pontas em direcção ao prothorax. Scutel-
lum amarello, os seus tuberculos pretos; postscutellum
côr de enxôfre. Abdomen preto com todos os segmen-
tos bordados, só o I muito estreitamente; o IT ainda
com uma outra faixa, transversal de largura mais ou
menos consideravel, marcando o meio entre a faixa
posterior e o bordo do I segmento. Azas transparen-
tes, com um leve tom ferruginoso na parte basal, cin-
zento no apice.
Habit. Brazil, Santarem.
“Mus. Paul. Surinam ; Cayenna.
7 Caba analis (Perty)
Brachygastra analis Perty, Delect, Anim. Arti.
Brasil 1885, po.) (46) et 28 BGG
Nectarima analis Shuckard. Cab, Cyclop Hist. Nat.
Insect. 1840 pg. ISE
Saussure Monog. Vespid. Ll 1853 pg. 250
Compr. parc. 7,9 mmn.; Env. 17 mm.
De estatura pequena, coberta de pequenos pellos ;
o scutellum sem angulos vivos; metathorax arredon-
dado, sem tuberculos. Corpo preto com largas faixas
amarellas sobre os bordos dos segmentos abdominass,
só o | com uma lista estreita: o flagellum das anten-
nas, inferiormente, e os tarsos, russos. Azas hyalinas
com nervuras brino-avermelhadas, o apice cinzento.
Habit. Brazil.
&. Caba chartergoides (Grib.)
Nectarina chartergoides Gribodo, Bull. Soc. Entomo.
Jal. XXIIT 1891 pg. 254
Compr. tot. 7 mm.; Env. 15 mm.
Na estructura do corpo esta especie distingue-se
bem das demais do mesmo genero pelo seu scutellum
— 114 —
que não cobre o postscutellum pelo que poderiamos
comparal-a ao genero Chartergus ; porém o seu pri-
meio segmento abdominal é bem o que caracteriza as
especies de Caba. Notavel ainda é a forma do clypes
que é estreito na metade inferior, formando angulo
agudo. O metathorax é arredondado, sem anguloo
nem espinhos. O segundo segmento abdominal, muito
largo, é um pouco estreitado posteriormente. Todo o
corpo finamente pontuado, no thorax mais intensa-
mente.
Especie intensamente preta, com pouco desenho
amarello. Duas listas amareilas na cabeça em perfeita
forma de angulo : partindo do ápice do clypeo seguem
os bordos deste e prolongam-se em linha recta acom-
panhando as orbitas internas, até o recorte dos olhos ;
outra listra muito fina nas orbitas externas; leve indi-.
cação de outras sobre o vertice e no bordo anterior
do prothorax. Todos os segmentos abdominaes orlados
de amarello, o I muito finamente; anus preto. Base da
antenna antes bruna. As azas hyalinas tem um leve
tom cinzento.
Habit. Gayenna.
Mus: Paul: Rio. Jurua, Amazonas,
Um exemplar de Surinam, indubitavelmente da
mesma especie distingue-se da forma typica pelo colo-
ridc da aza a qual é totalmente amarella (comprehen-
dendo todas as nervuras e o estigma).
Como já observou Gribodo, a posição desta espe-
cie no genero Caba parece forçada (pela forma do
scutellum e a do thorax que é menos anguloso); toda-
via, por hora, não se lhe pode dar outro logar.
2, Genero Cherterginus. cx
1898 — Fox, Proc. Acad. Nat. Sc. Philadelphia II.
1898. pg. 458
Caracteres. A cabeça é achatada, com faces sempre
menos desenvolvidas do que em Chartergus; fron-
te mais alongada. Olhos estreitos e longos, attingindo
a inserção das mandibnlas. Mandibulas delgadas, no
meio um pouco estreitadas, quadridentadas ; o ápice
antes com a conformação caracteristica para Caba (Ne-
clarinia), um pouco obliquo, e não, como em Charter-
gus, truncado. Palpos maxillares de 6, os labiaes de
4 artigos. As antennas inserem-se na base do clypeo.
A conformação do thorax é semelhante à de Charter-
gus, porém o scutellum não é saliente; o metathorax
é concavo e não forma espinhos ou angulos. O pri-
meiro segmento abdominal é campanulado, o seu pe-
tiolo é sempre pouco longo (às vezes quasi nullo) e,
no ápice, sessil com o segundo segmento.
Forma este genero um meio termo entre Char-
tergus e Caba; esti mais proximo ao primeiro, do qual
differe pela cabeça mais achatada e pela forma das
mandibulas e do I segmento abdominal.
CHAVE DAS ESPECIES
a. Predomina a cor amarella-
da; manchas pretas no ver-
tice, mesothorax e II segm.
abdom. Postscut. com tuber-
quilo vcentrab; MAI AE MD Peleus.
aa. Predomina a cor preta ; post-
scut. sem tuberculo
b. Postscutellum triangular ; de-
Senha variado (co te CR CN PUSCOLUS.
bb. Postscut. não é triangular;
desenhe parco . . . . . (3) cinctellus.
1 Charterginus fulvus Fox (Est. IV fig. 6)
Fox, Proc. Acad. of Nat. Sc. of Philadelphia 1898,
HI pag. 459
Comp. tot. 7-8 mm. Env. 16 mm.
Clypeo mais longo do que largo, pontuado. Os
olhos quasi que attingem as mandibulas; occiput com
— 116 —
o bordo posterior truncado. Prothorax com uma parte
dorsal, anterior, bastante visivel. Postscutellum com
um tuberculo medial bastante pronunciado ; metathorax
visivelmente arredondado e dilatado lateralmente. Abdo-
men com o primeiro segmento campanulado, o seu pe-
tiolo basal com tamanho comparavel ao 1.º artigo tarsal
posterior, e sulcado, transversalmente, antes do ápice.
A côr geral é amarello-avermelhada. Pretas são
as seguintes partes do corpo : uma faixa sobre o vertice ;
a antenna em cima; às vezes uma linha entre o meso-
thorax e o scutellum, assim com uma faixa medial so-
bre o 2.º segmento abdominal. O clypeo é sempre de
um amarello mais claro. As azas são quasi hyalinas.
suas nervuras pretas, assim como o bordo anterior.
E” bastante semelhante ao Chartergus colobopterus,
do qual difere, porém, especificamente, pelo colorido
(preto no mesothorax) assim como pelos caracteres ge-
nericos estabelecidos.
Habit. : Brazil, Mararú, Santarem.
Mus. Paulista : Maracapata, Peru.
2 Charterginus fuscatus 702
Fox, Proc. Acad. of Nat. Sc. ot Philadelphia 1898
HI pag. 459
Comp. tot. 8 mm.
Cabeça muito achatada ; clypeo alongado, pyriforme,
com o ápice acuminado, com fina pontuação; os ocel-
los quasi que não formam um triangulo, pois que a
distancia entre os dous posteriores é consideravelmente
maior do que a destes ao anterior. Qs olhos são longos
e attingem a inserção das mandibulas. Thorax e ab-
domen fortemente pontuados. Prothorax rebordado e
com a bordo medial e anterior um tanto largo. Post-
scutellum triangular e plano; metathorax concavo. O
primeiro segmento abdominal curto, campanulado e o
seu petiolo quasi nullo.
— 117 —
A côr geral é preta, com um avelludado geral bruno.
Os bordos do clypeo, orbitas internas abaixo do recorte
dos olhos, e as orbitas externas com listas amarello-
claras. Primeiro segmento abdominal com uma orla
amarellada. As azas como na especie anterior.
Habit : Mararú.
3 Charterginus cinctellus 70%
Fox, Proc. Acad. of Nat. Sc. of Philadelphia 189,
Ill. pg. 460
Comp. tot. 7—8 mm. Env. 15 mm.
A conformação da cabeça semelhante à do Ch. fus-
catus; o metathorax sem bordos tão pronunciados, tam-
bem o mesothorax é algo mais curto; o postscutellum
não é triangular; o primeiro segmento abdominal cam-
panulado e curto, principalmente o seu petiolo, ainda
que este seja mais visivel que o de Ch. fuscatus.
Todo o insecte preto. Uma linha amarello-clara
sobre as orbitas internas, abaixo das antennas, o bordo
do clypeo, as orbitas externas, dous traços curvos sobre
o vertice (estes às vezes faltam); o bordo anterior do pro-
thorax, e o posterior nas proximidades das tegulas; as
margens anteriores dos dous scutellos; e finalmente os
bordos posteriores dos segmentos abdominaes; todos
estes desenhos amarello-claros. A base das antennas
inferiormente é avermelhada. As azas são subhyalinas
e as nervuras pretas.
Apparenta alguma semelhança com Chartergus char-
tarius, porém, todo o corpo ê menor.
Habit. : Chapada, Matto-Grosso.
Mus. Paul. Rio Jurua—Amazonas ; Maracapata—
Perú; Surinam.
ca EUR
3. Genero Chartergus Zep.
1836—Lepeletier His. Nat. Insect. Hymen. 1 1836
pag. 942
Saussure Monogr Fam. Vesp. 1853 pg.
RAC ES ah
Caracteres. Palpos labiaes formados de 4 artigos,
os maxillares de 6 artigos curtos. Mandibulas largas,
com 3 dentes fortes no apice, quasi em linha horison-
tal e um quarto dente, menor, um pouco afastado. Os
olhos, com recorte chtuso, não attingem as mandibulas ;
clypeo largo, seu angulo inferior muito obtuso. Tho-
rax geralmente curto e globoso, o metathorax não for-
ma angulos. Abdomen sessil. O 1.º segmento cupo-
liforme, com um pedunculo muito diminuto, às vezes
quasi invisivel; posteriormente encaixa a base do Il
segmento cobrindo-o mais ou menos. Este Il é o maior
e o mais largo; o resto do abdomen pouco longo, ter-
minado em ponta.
Estes caracteres ainda que variaveis segundo a es-
pecie, são suflicientemente ‘constantes para permittirem
a facil distincção deste genero dos demais, bastante
proximos. Ha entretanto grande numero de especies
de Eumenides que apparentemente offerecem os cara-
cteres deste genero; porem os espinhos tarsaes, as
unhas e a conformação das mandíbulas indicam-nos logo
o grupo a que pertencem.
CHAVE DAS ESPECIES
a. Todas as especies com thorax
eloboso, de largura egual à
do abdomen.
b. Predomina a côr preta.
C. Preto, sem desenho amarello.
d. A ponta da aza é lactea:
e sem outro colorido None seul dy) apenas:
Ce.
— 119 —
Mandibulas e base das anten-
nas vermelho-ferrugineas . .
Aza menos escura, sem api-
Be OLN Oa He Neue, PR ava
Preto com desenho amarel-
lo sobre o corpo
Segmentos abd. não orlados,
ou só o 1.º estreitamente.
Só o postscullum e os bordos
do prothorax com amarello.
Desenho amarello sobre a ca-
beça e prothorax ; thorax e
abdomen com pubescencia
CNE URA M een ee Ro Sera Sis
Desenho amarello sobre a ca-
beça e orla do 4.º segm. abd.
Segmentos apd. mais ou me-
nos ricamente bordados com
amarello.
SO os 3 primeiros segmen-
tos orlados, e os 2 scutellos
AMM ATE NOS a Ng CAL o cpa ndo
Todos segmentos orlados ;
postscutellum amarelio e com
um tuberculo spiniforme.
Prothorax com bordo ant.
amarello: ssa Ane a
Prothorax sem amarello (es-
DE QS SH OVA ee A a Me Re Sa Sa
Cabeca e thorax pretos, ab-
domen ferrugineo, orlas deste
e desenho sobre aquelle ama-
e Os opt ER: 5 in eee
Predomina a côr amarella.
Com pouco desenho preto.
Só o verticee o mesothorax
MAIS CSCULOS 01 UT UE
ap. fraternus.
(2)
(3)
concolor.
ater.
griseus.
(5)
(6)
luctuosus.
—1
(
) zonalus.
chartarius.
globiventris.
(10)
emortualis.
(*) colobopterus.
— {20 —
ll. Semelhante porem com preto
ainda sobre as antennas e O
scutellum ; bruno sobre pro-
e metathorax e abdomen. . (11) smethe.
kk. Amarello muito variado com
preto; base dos 3 segmen-
tos abd. preta; aza com uma
faixa submedial amarellada. (12) fascratus.
bbbb. Cor geral brana, mais ou
menos intensa, sem outro de-
senhor onde o Et EE) aos mealies.
aa. Corpo muito estreitado, ar-
redondado, abdomen muito
largo, seu 1.º segmento di-
MINEO. oe oi iy D CN COMTESSE
1. Chartergus apicalis (/ alr.)
Vespa apicalis Fabricius, Syst. Prez. 1804,
pg. 206 n. 38
Chartergus apicalis Saussure Monogr. Fam. Vespid.
pag. 217
«Compr. parc. 14 mm.; Env. 19 mm.»
Insecto completamente preto, quasi todo o corpo
recobreto de um pellame bastante longo e um pouco
cinzento; o primeiro segmento abdominal preto relu-
zento. Azas pretas com o apice branco.
Habit. Brazil, Cayenna, Bolivia, Mexico.
Mus. Paul.: E. S. Paulo, S. Sebastião ; Peru, Su-
rinam e Mexico.
Certamente está errada na discripção de Saussure
a indicação do comprimento. Como ahi «Long.» indica
o comprimente parcial da cabeça até o fim do II segm.
abdominal, é impossivel attingir 14 mm. Os nossos
exemplar:s variam de 12 a 12,5mm. de compr. tot. e
de 9 a 9,5 mm. o comp. parcial.
e
a= 2h —
2 Chartergus apicalis fraternus Gr.
Chartergus fraternus Gribodo, Bull. Soc. Entom.
Ttal. XXIIT 1891, pg. 255 (14)
Esta variedade, alias bastante commuin, não apre-
senta, na forma, caracteres que a possam separar da
especie typica; tambem o pellame mais escasso não a
poderá distinguir de Gh. apicalis, pois que nesta especie
frequententemente falta quasi completamente, ainda que
os exemplares sejam frescos
Tambem o tamanho não pcde, pela sua variabili-
dade, fornecer um caracter distinctivo.
Podemos, entretanto, sustentar fraternus como
subspecie pelos seguintes caracteres do colorido: man-
dibulas avermelhado-ferrugineas e o branco das azas
menos intenso e mais limitado à à parte terminal do apice
da aza anterior.
Esta variedade, à qual, aliás, já Saussure se refe-
ria: Var. Mandibules rousses (Cap. Nord?) estabelece a
passagem do apicalis ao Ch. concolor de Gribodo.
Habit. : Brazil, Miarim ; Cayenna.
Mus. Paul., Est. S. Paulo; Amazonas, Rio Juruá;
Perú; Bolivia, Venezuela.
3 Chartergus concolor (Gril.
Gribodo, Bull. Soc. Entom. Ital. XXIII 1897,
pg. 257 (10)
Compr. tot. 10—11 mm., parc. 9; Env. 23 mm.
Apresenta grande semelhança com Ch. apicalis do
qual, porêm, se distingue perfeitamente do seguinte
modo : pontuação do corpo quasi nulla (sd no post-
scutellum e metathorax ella é mais pronunciada), tho-
rax sem revestimento de pellos longos; abdomen com
alguns pellos cinzentos ; cabeça e prothorax ligeiramente
assetinados, dando ao clypeo um tom prateado, o resto
da cabeça e prothorax ligeiramente ferrugineos.
122
ne ~~
O bordo inferior do clypeo, as mandibulas e sua
inserção, os primeiros segmentos das antennas e um
leve tom sobre o primeiro par de pés: são bruno-fer-
rugineos; tambem o flagellum, inferiormente, não é
completamente preto. As azas são menos opacas, com
um ligeiro tom ferrugineo e o terço terminal é hyalino,
sem o colorido branco que tão bem caracteriza ao Ch.
apicalis.
_Habit.: Venezuela, Merida.
Mus. Paul. : E. Goyaz, Catalão; Brazil.
4 Chartergus ater Sauss.
Saussure, Monog. Fam. Vespid. IL Pag. 222
Comp. parc. 7,9; Env. 18 mm.
O primeiro segmento abdominal é pequeno, não po-
dendo abraçar toda a base do segundo, como succede
em Ch. apicalis; os scutellos são um pouco elevados. In-
secto preto; a frente da cabeça prateada, e com um leve
tom avermelhado. Antennas na base ferrungineo-aver-
melhadas, em cima pretas. Com desenho amarello unica-
mente sobre os dous bordos do prothorax, o postscutellum
e uma mancha debaixo da inserção da aza. As azas
são transparentes.
Habit : Brazil; Chapada, Santarem,
=> Chartergus griseus [ox
Fox, Proc. Acad. of Nat. Sc. Philadelphia, III 1898
pag. 4158
Comp. tot. 75 mm.
Thorax em parte fortemente pontuado; prothorax
não muito estreitado na face superior; o postscutellum
não fórma tuberculo. Preto; a frente da cabeça, as faces
e a base das antennas são amarello-alaranjadas ; a margem
,
posterior do prothorax é amarellada. Sobre o thorax e
o abdomen extende-se uma leve pubescencia cinzenta,
mais pronunciada sobre o metathorax. Pés brunos, o par
anterior mais claro. Azas transparentes, 0 bordo an-
terior mais escuro; nervuras e estigma pretos.
Habit. Santarem; Mararu.
& Chartergus luctuosus Smith
Smith, Catal. Hymen. Brit. Mus. V. 1857 pag. 139.
Gribodo, Bull. soc. enton. Ital. XXL 1891 pag.
257 (16)
Comp. pare. 9,5 mm. Aza © 9,5, do 4 10,8 mm
Quanto à estructura apresenta muita semelhança
com Ch. apicalis. Não ha porem vestigio de pontua-
ção. O prothorax um tanto arredondado é, anterior-
mente, levemente rebordado; o 1.º segmento abdominal
bem menor do que em apicalis. Preto com desenho
amarello-pallido ; rico na cabeça; uma linha delicada
sobre o bordo do prothorax e do primeiro (e às vezes
II) segmento abdominal; sobre o 1.º par de pés, na face
anterior dos tibias e nas coxas. O desenho amarello
da cabeça consiste em uma linha curva, às vezes inter-
rompida, sobre o clypeo, uma mancha sobre as man-
dibulas, outra sobre a metade inferior das faces, uma
pequena faixa atraz dos olhos, as orbitas internas acima
do clypeo, 2 pontos entre as antennas; estas com uma
linha sobre o seu 1.º artigo e o ápice ferrugineo-escuro.
Gribodo ainda cita: bordo anterior do prothorax
levemente amarellado e uma mancha bruna abaixo da
inserção das azas. Estas são hyalinas e com nervuras
brunas. :
Habit.: Santarem. Venezuela.
Mus. Paul.: Rio de Juruá, Amazonas; Perú, Ma-
racapata.
S, um tanto mais robusto, é antes mais pobre em
desenho, faltando em geral a orla do I segmento abdo-
minal e o clypeo é quasi inteiramente amarello, com
um só traço mediano preto.
— 124 —
7 Chartergus zonatus Spin.
Spinola, Mem. Acad. Sc. Torino (7) XIII, 1851, p. 73.
Saussure, Monogr. Fam. Vespid. Il, 1853, pag, 222.
Compr. parc. 7 mm. Env. 15 mm.
Especie bastante proxima de Ch. chartarius e da
qual se distingue pela forma menor e pelo 1º segmento
que, muito pequeno, lembra a forma do de Czba. Insecto
preto com face e antennas inferiormente avermelhadas ;
faixa atraz dos olhos amarella; os dois bordos do pro-
thorax, os dos scutellos e uma linha fina abaixo da
aza, amarellos.
Sobre o abdomen só os tres primeiros segmentos
tem desenho : o primeiro uma simples listra, o se-
gundo uma faixa recurvada sobre o flanco e que
sobre elle se prolonga um pouco : ambas estreitas e ama-
rello-claras; o terceiro segmento tem uma faixa curta,
amarella. Pês pretos com tarsos brunos ; azas transpa-
rentes, suas nervuras brunas.
Habit. Pará.
8 Chartergus chartarius ((liv.)
Vespa chartaria Olivier, Encycl. method. Insect. VI
1791, pag. 087.
Chartergus chartarius Saussure, Monogr. Fam. Vesp.
II, 1853 pag. 720; Est. 31—fig. 4, Est. 33.
Compr. parc. 9,5 mm. Env. 20 mm.
Cabeça larga, clypeo com pouca altura; prothorax
anteriormente com bordo cortante, em linha bisinuada
e que termina lateralmente em espinho. Os scutellos em
faixas; o | um pouco saliente, o postscutellum linear,
com um tuberculo spiniforme no meio. Metathorax com
os bordos lateraes angulosos. Primeiro segmento abdo-
minal relativamente grande. Todo o corpo regular e
finamente pontuado.
— 125 —
Insecto preto com um brilho cinzento-prateado. Bor-
dos anterior e lateraes do clypeo com listra amarella,
sobre estes um pouco alargada. Entre a inserção das
antennas e as orbitas, de cada lado uma mancha trian-
gular, amarella. De egual côr são: o bordo anterior do
prothorax, o postscutellum e todos os bordos dos seg-
mentos abdominaes. Agzas perfeitamente hyalinas, com
a veia costal e estigma pretos, as demais nervuras antes
brunas.
Habit. : America do Sul.
Mus. Paul.: Manaus, Amazonas, rio Juruá; San-
tarem ; Chapada, Cayenna.
9 Chartergus globiventris Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. IL, pag. 221, Est.
XX fig. o:
Gribodo, Bull. Soc. Entom. Ital. XXIII, 189, fig. 258
Fox, Proc. Acad. Nat. Sc. Philadelphia 1848,
III, pag. 457.
Compr. tot. 8 mm., parc. 7 mm. Env. 14 mm.
Especie muito chegada av Ch. chartarius do
quai porém se distingue facilmente pela sua estatura
muito menor. O tuberculo do postscutellum é menos
pronunciado, abdomen curto e globuloso. Colorido egual,
sómente faltam os desenhos sobre o clypeo ea fronte, e
o do prothorax ; tambem o assetinado dc corpo é diverso.
M. Fox descreve bem o 4 que se distingue pelo
clypeo todo amarello (assetinado), um traço sobre o 1º.
artigo das antennas e as manchas amarello-claras das
coxas.
As azas são perfeitamente hyalinas com um leve
tom azulado.
Gribodo desejava vêr esta especie considerada como
variedade de Ch. chartarius, no que, porém, não o
posso secundar com o material que tenho desta especie.
Habit. : Brazil; Sebastice (2); Mearim.
Mus. Paul.: Santarem (Pará) com ninho.
— 126 —
19 Chartergus emortualis Sauss.
Rev. et. Mag. de Zool. 1855, (VIT pg. 374
Compr. tot. 7 mm. Uma aza 6 mm.
Assemelha-se, pela estructura, ao Ch. zonatus; O
metathorax é concavo, com os seus bordos lateraes um
tanto angulosos.
O colorido é o seguinte: predomina a côr preta
na cabeça e no thorax, o abdomen é antes ferrugineo.
O desenho amarello é distribuido da seguinte forma:
clypeo bordado de amarello apagado, os bordos anterior
e posterior do prothorax; sobre o flanco um traço ver-
tical e um ponto ; os bordos anteriores do scutellum e
do postscute:lum, assim como os bordos posteriores dos
dous primeiros segmentos abdominaes, egualmente ama-
rellos. Ha algum colorido russo sobre as antennas, o
prothorax, as tegulas e sobre as patas.
As azas, que são um pouco enfumaçados, tem as
nervuras pretas.
da bat. "Brazil
11 Chartergus smithi Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. IT 1853 pg. 219
Compr. parc. 6, 5 mm.; Env. 16 mm.
A conformação do corpo corresponde perfeitamente
à estructura geral do genero; metathorax quasi plano.
Prothorax largo e anguloso. Thorax muito pontuado.
Colorido geral amarello. Na cabeça, acima das
antennas e vertice preto. As antennas com os 2 pri-
meiros segmentos amarellos e o resto preto em cima,
ferrugineo em baixo. Mesothorax preto; uma linha
sobre os lados do prothorax ; scutellum no centro, e so-
bre os lados do metathorax um ponto : brunos ; de egual :
cor são: a base do primeiro segmento abdominal, que
de resto é amarello, tres manchas (às vezes reunidas)
sobre o segundo segmento e o bordo anterior das azas.
Estas são hyalinas. Pés amarello-claros, com tarsos
pretos.
— 127 —
Bastante semelhante a esta especie é o Ch. colobo-
pterus Web., forma mais septentrional que se distingue
da presente por ser quasi completamente amarella, uni-
camente com o vertice e o mesothorax mais escuros.
Habit. Brazil (Coll. Smith).
Le Chartergus fasciatus [ox
Fox, Proc. Acad. of Nat. Sc. Philadelphia 1898
LED ng i AG
Compr. tot. 7,5 mm.
Pela descripção deve assemelhar-se bastante ao Ch.
smith, principalmente na forma, differindo pelo meso-
thorax mais curto e os scutellos que são menores ;
ao postscutellum falta o tuberculo. O colorido é o se-
guinte: cabeça amarella inferiormente às antennas,
faces e primeiros segmentos da antenna; o resto preto.
Prothorax amarello com uma mancha de cada lado; a
parte anterior do scutellum, todo o metathorax, partia:-
mente sobre o flanco, e os pés amarellos.
O abdomen tem a base dos tres primeiros segmen-
mentos preta; porém nos bordos posteriores destes, nos .
demais segmentos inteiramente e em toda a face inferior
predomina a côr amarella. As antennas são pretas em cima
e amarello-brunas inferiormente. As azas anteriores
apresentam de notavel uma faixa clara que parte do apice
da cellula costal (ou do estigma) e torna branco-ama-
relladas as veias que de resto são escuras; o bordo an-
áerior da aza é bruno.
Habit. Mararu.
is Chartergus fulgidipennis Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vespid. II, 1855
fig elos Bsiio3
Tamanho de Ch. char tarius
Pela forma um tanto semelhante ao Ch. apicalis
porem menor; prothorax truncado ; o abdomen muito
deprimido e conico. Corpo pontuado, sobre o metatho-
— 128 —
rax avelludado. Todo o insecto é de um colorido bruno-
café, um pouco avermelhado. Sem desenho de outra
cor, variando unicamente para mais claro na face ; 0
flagellum das antennas é preto, tambem o vertice e o
mesothorax são mais escuros. Abdomen preto do ter-
ceiro segmento em deante, apresentando este posterior-
mente uma faixa menos escura. Azas transparentes, vi-
vamente irisadas e com o bordo anterior preto.
Hubit. Para.
14 Chartergus compressus Saiss.
Saussure, Monog. Fam. Vesp. 11/8553 fig. 224. Est. 31
Comp. par. 11 mm. Env. 23 mm.
d'. Cabeça larga e achatada; clypeo mais largo
do que longo, seu bordo inferior arredondado. Thorax
muito comprimido, de muito menos largura do que o
abdomen. Prothorax muito arredondado, assim como
os scutellos salientes, sem angulos. Segundo segmento
muito largo e a este applica-se o primeiro, muito pe-
queno. Todo o corpo liso, com um leve avelludado.
Preto; antennas inferiormente ferrugineas ; o 1.º artigo
amarello na frente. Amarellos são tambem o clypeo (este
com pequenos pellos prateados e com um ponto preto
no alto), a metade inferior das orbitas internas, e as ex-
ternas; dous pontos sobre a fronte. A ponta das man-
dibulas é ferruginea. Sobre o prothorax uma leve li-
nha amarella e uma mancha clara debaixo da aza. Or-
las dos segmentos abdominaes amarellas, estreitas, só
no 2.º segmento ella é mais larga e lateralmente chan-
frada. Pés bruno-pretos, com alguns traços amarellos.
Azas transparentes com nervuras escuras.
Habit. Amazonas.
4: Parachartersus 72 4
Genus simile Cartergo, a quo differt numero
arliculorum palporum labialium : palpis maxillaribus
6-articulatis, labralbus 3-articulatis.
: 2 Ra
— 12) —
Mandibulas com 3 dentes maiores, eguaes e um 4º
menor. Palpos maxillares com 6 artigos (os dous pri-
meiros um pouco maiores que os quatro outros) e os pal-
pos labiaes com 3 artigos grandes e dos quaes o ter-
ceiro traz, quasi no ápice, uma serda fina. De resto, a
forma do corpo é quasi exactamente a de Chartergus
colobopterus, sômente o 1.º segmento abdominal é me-
nos globoso.
Este genero, creado especialmente para a especie
typica bentobuweno: é, tão bem como Charterginus Fox
muito alliado ao genero Chartergus, compartilhando
com este a maior parte dos caracteres distirctivos, re-
clamando, entretanto, um logar especial, pela variação de
um caracter reconhecidamente constante.
Sou levado a crear para bentobuenoi um novo ge-
nero pelo exemplo que com Lezpomeles (em relação a
Polybia) nos deu Dr. K. Moebius, uma das mais aba-
lisadas auctoridades na materia. Tambem para L. lamel-
larva foi decisiva a falta de um articulo palpar, allian-
do-se a este caracter, como no caso presente, um ninho
de construcção extremamente original.
E. Parachartergus bentobuenoi 1. sp.
(Est. IV fig. 7)
Srmillima statura Ch. coloboptero ; colore nigro,
clypeo orbilaque flavis, pedibus, tegulis, antennarum
base flavo-castaneis ; alis obscuris, cellulis discoidali-
bus flavo-maculatis.
Comp. tot. 9 mm., Env. 16,5 m n.
Assemelha-se na forma ao Ch. colobopterus, mas
diverge pelos caracteres seguintes.
Metathorax um pouco excavado no meio, arestas
lateraes não muito pronunciadas; o postscellum, devido
à excavacão do metathorax, algo proeminente.
Primeiro segmento abdominal com pedunculo muito
curto, de resto pouco campanulado.
— 130 —
Corpo finamente granulado, principalmente no tho-
rax. Quasi inteiramente revestido por fino pellame,
amarellado no vertice, pro — e mesothorax e scutellos,
sendo esbranquiçado no metathorax e no abdomen.
A côr geral é preta (levemente desnaturada pelos
cabellinhos mencionados). O unico colorido pronunciado
é o do clypeo e de parte das orbitas internas e externas .
que são de um amarelio-créme ; as mandibulas, a base
e o ápice das antennas assim como as tegulas e parte
das articulações das patas são amarello-brunas.
As azas são pretas no bordo anterior, ainda no
limbo enfumaçadas e têm no centro (cellulas discoidaes)
um colorido amarello-créme, bastante intenso quando
visto com a luz apropriada.
Em alguns exemplares mais, em outros menos, 0
vertice e a metade anterior do thorax mostram um co-
lorido verde-musgo apagado.
S. O macho difficilmente se distingue, sinão pelos
caracteres sexuaes. As mandibulas são amarello-crémes
como o clypeo; este tem o angulo anterior ainda mais
obtuso (os dous lados formam quasi uma linha recta)
e os pês são mais bruno-claros. As antennas não di-
vercem das da GQ.
Habit. : Rio Juruá— Amazonas— (ty po).
Pela descripção de M. Fox noto alguma seme-
lhança de Chartergus griseus com a presente especie,
porém tanto o tamanho diverso das duas especies como
o coiorido das suas azas não permittem a reunião es-
pecifica. Infelizmente não sei si os palpos buccaes fo-
ram examinados em Ch. griseus, que não possuo.
Tomo a liberdade de dedicar esta interessante es-
pecie nova ao eminente estadista Dr. Bento P. Bueno,
que actualmente, como Secretario do Interior, se acha
à frente da Instrucção Publica de S. Paulo.
— 131 —
à Genero Polistes Zarr.
Latreille, Hist. nat. Crust. Ins. HI 1802 pg. 305.
Caracteres do genero. (Est. II, fig. 10). Palpos
labiaes com 4 artigos, os maxillares com 6, sendo o
terceiro destes geralmente o mais longo. Mandibulas
antes curtas, quadridentadas. Clypeo um pouco cordi-
forme, largo; os olhos não attingem a base das man-
dibulas. Thorax alongado, metathorax sempre com
sulco longitudinal pronunciado (geralmente partem delle
estrias transversaes, caracter este que falla em todos os
demais generos). A inserção do primeiro segmento
abdominal sempre é flanqueada por duas valvulas sa-
lientes (Est. HI fig. 10). Abdomen sempre fusiforme
um tanto approximado da forma de nm losangulo alon-
sado ; o primeiro segmento tem pois a forma de um
cône ou funil, nunca pedunculado; o ultimo segmento
é sempre aguçado.
E’ este um genero extremamente uniforme na sua
estructura, o que facilita muito o reconhecimento de todas.
as especies. Isto é, porèm, ao mesmo tempo, uma ver-
dadeira calamidade para a classificação destas, pois que
está-se entregue unicamente aos caracteres do colorido
que, por sua vez, é o mais variado possivel nas diffe-
rentes especies. Ha dellas algumas que em certas va-
riedades são unicolores e, passando por uma escala com-
pleta, chegam a nos levar a variedades de colorido o
mais variado possivel. Assim sendo, não é licito cin-
gir-se unicamente à descripgao do typo, mas é neces-
sario comparar boas series e antes de tudo impõe-se a
maior cautella.
Por estas mesmas razões é impossivel que a chave
das especies, que passo a dar. ssja boa; servirá unica-
mente para guiar as primeiras tentativas de um amador.
— 132 —
CHAVE DAS ESPECIES BRAZILEIRAS DO GENERO
a,
POLISTES
Abdomen com manchas ocel-
lares claras.
Com 2 pares de manchas
(no I e II segm.) e ainda
variado desenho no abdomen
e em todo o corpo
Um par de manchas no I
segmento.
Maior, segmentos não or-
lados.
Thorax quasi sem desenho
amarello, varias tintas aver-
melhadas k ï
Desenho rico, mas sem ver-
melho E É i
Menores (compr. tot. 14
mm.), abdomen orlado.
Predomina a cor preta, bor-
do da aza amarellado
Bruno-ferrugineo ; aza cin-
zenta.
Um par de manchas no Il
segmento.
Abdomen com brilho azulado
Menor, segmentos nunca
orlados, manchas grandes
Sem manchas ocellares dis-
tinctas no abdomen
Antennas pretas.
A côr do abdomen é a mes-
ma da do thorax.
Todo o corpo uniforme-
mente preto, sem desenho.
Corpo delgado, azas trans-
parentes
(1) versicolor.
(2) diguitatus.
(3) candido.
(4) geminatus.
(9) liliaceusculus.
(6) opalinus.
(7) binotatus.
(8) melanosoma.
doit si
Rk,
M,
nN,
nn.
mm,
hh,
Pp,
99
VE
”,
rr,
— 133 —
Corpo robusto, azas negras,
opacas .
Preto com desenho RB,
Desenho amarello quasi nullo.
Azas negras, compr. tot.,
18 mm. E ,
Azas ferrugineas, compr.
tot. 14 mm.
Desenho pre he avidente:
Pequeno, corpo mais del-
gado, ultimos segm. abd. nun-
ca orlados.
Bordo anterior da aza ama-
rello
Bordo anterior da aza preto.
Maiores, thorax largo, an-
guloso, ultimos segm. abdom.
amarellos.
Scutellos, linhas sobre o
meso e metathorax araarellas,
desenho variado . : :
Desenho parco, metathorax
com 2 listras tenues
A côr do abdomen contras-
ta com a do thorax.
Abdomen vermelho, thorax
preto; corpo robusto
Abdomen preto (exc. petiolo)
thorax russo; corpo delgado.
As antennas não são intei-
ramente pretas, pelo menos
em parte claras.
Predomina a côr amarella
no corpo; azas transparentes,
levemente amarelladas.
A maior das especies; so-
bre o corpo varias manchas
bruno-avermelhadas
Abdomen preto; só os 2
(9) aterrimus.
(10) neger (2).
(11) obscurus.
. (12) actaeon.
(15) limas.
(9.º) liliacriosus.
(14) cinerascens.
(15) bicolor.
(16) subsericeus.
(17) carnifes.
— 134 —
primeiros segmentos quasi in-
teiramente amarellos ; anten-
na unicolor . : . (18) analis.
qq; Predomina a côr bruno-
avermelhada (com manchas
pretas).
5; Sem desenho amarello . (19) canadensis.
SS: Desenho amarello variado(*).
bo Maior, ava escuna USO A
segm. abd. orlado. . (20) annularis.
tl, Menores, azas transparentes. (21) pacificus, (22)
subsp. ruficornis. (23)
subsp. thoracica, (1)
versicolor, (24) spino-
lee, (25) consobrinus.
1. Polistes versicolor (Cliv.)
Vespa versicolor Olivier, Encycl, meth. Ins.
VI, 1791 pg. O92
Vespa myops Fabricius, Suppt. entom. syst. 1798,
gis, BOL.
Polistes versicolor Saussure, Monogr. Fam. Vesp.
EI, pg. SL tists VAL ig. 43), ist. VIT oo as
Ccmp. parc. !3 mm. Env. 30 mm.
Corpo delgado, abdomen fusiforme. Predomina a
cor bruno-ferruginea. Cabeça com desenho amarello
variado. Antennas russas, pretas no meio, no apice às
vezes alaranjadas. Sobre os flancos e no metathorax
muitas vezes manchas pretas.
Desenho amarello variado: bordos do prothorax,
angulos do scutellum, bordo anterior do postscutellum,
duas grandes manchas semilunares sobre o metathorax.
(*) Somente tendo à mão rico material das especies deste grupo
tão variavel, é que se consegue distinguir as diversas especies
com as suas variedades, que zombam de qualquer tentativa de
subordinal-as aos limites de uma chave. Dou, pois, sómente a
descripção das fórmas typicas de cada especie; de resto só a
pratica pode auxiliar a bem comprehender este grupo difficillimo.
— 135 —
Abdomen em geral russo-bruno com o desenho o mais
inconstante possivel: em geralé caracterisado por man-
chas ocellares nos dous ou tres primeiros segmentos
que, entretanto, ora se extendem e tornam o abdomen
quasi inteiramente amarello, com varios arabescos de
cor bruna, ora se reduzem a simples vestigio represen-
tado por dous pontinhos em um dos segmentos, sendo o
resto inteiramente bruno-ferrugineo. ‘Tambem ha às
vezes desenlios pretos no abdomen (principalmente na base
dos primeiros segmentos).
| Azas com um tom amarellado, um pouco cinzento
nas orlas.
Habit. : America meridional.
Mus. Paul. : E. S. Paulo—Ypiranga, Campo Gran-
de, Piquete, Ribeirão Preto, Campinas, Franca; Est.
Rio Graude do Sul; Bahia, Amazonas, Perú, Bolivia,
Columbia, Argentina, eo
Juntamente com P. canadensis é a especie mais
commum no Brazil; é enorme a sua variabilidade, não
podendo, pois, uma descripção abranger todas as varie-
dades, nem é possivel delimitar e descrever a uma
destas.
2. Polistes biguttatus al.
Halidey, Trans. Linn. Soc. London XVII,
ISSO pg: 823.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. IT pg. SG.
Comp. pare. 13 mm.; Env. 30 mm. (P. gallicus.)
Prothorax um pouco rebordado. Cabeça de cor
avermelhada carregada, preta na fronte, nas orbitas e
no vertice; corpo preto, com o prothorax e as tegulas
avermelhados ; abdomen bruno-avermelhado, só a base
dos 2 primeiros segmento é preta; de resto o unico de-
senho é o do 1.º segm. abd. que leva duas manchas la-
teraes, brancas. Pés pretos com algumas tintas aver-
melhadas. Antennas pretas com a ponta ferruginea. Azas
— 136 —
bruno-avermelhadas com o bordo anterior mais claro.
Habit. Amer. merid.
Alliada esta especie é
3. Polistes candidoi R.v. Lh. (Est. IV fig. 2)
Ann. Soc. Entom. France LX XII (1) p. 144
Comp. tot. 17,5 mm.; Env. 36 mm.
Apresentando egualmente as 2 manchas do 1.° seg-
mento abdominal, differe bastante de P. biguttatus pelo
desenho amarello que orna a cabeça, o mesothorax, os
scutellos e o metathorax ; abdomen inteiramente negro,
salvo as duas manchas que são amarellas ; as dimensões
tambem parecem ser maiores.
Ainda não foi colleccionada no Brazil; julgo, entre-
tanto que tambem deverá oecorrer nos estados limitro-
phes com o paiz de onde provêm os especimens typicos.
Mus. Paul.: Bolivia (typo).
4, Polistes geminatus 707
Fox, Proc. Acad. Nat. Sc. Philadelphia 1898, 111
fig. 448
Comp. tot. 14 mm.
Clypeo largo, pontuado; prothorax rebordado.
De côr preta, com a bocca, a base das antennas
embaixo, os flancos, a face sternal do corpo, a base do 1°.
segmento abdominal e os pês: russos; amarellos são :
o clypeo, excepto no centro, as orbitas, parte das man-
dibulas, os bordos do prothorax e os anteriores dos
scutellos, dous pontinhos a seus lados, duas faixas no
metathorax com uma manchinha de cada lado na base,
os bordos posteriores dos segmentos 1— 4, sobre o pri-
meiro segmento duas manchas ocellares, e varias listras
sobre os pês. As azas são transparentes com o bordo
anterior amarellado.
Mi a ne ies So dao
> Pr ae ERR AS
AT —
Tem alguma semelhança com P. cinerascens.
Será, todavia, necessario conhecer de visu a espe-
cie para identifical-a com outras já descriptas (segundo
Bréthes — P. cinerascens). Parece bem caracterisada
peias manchas do metathorax e do 1.º segmento, que
entretanto avisinham esta especie do P. liliaceusculus
Sauss.
Hab. : Chapada.
5. Polistes liliaceusculus Su s.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. 11 p. 96.
Compr. pare. 11,5 mm.; Env. 23 mm.
Especie assaz semelhante ao Polistes liliaciosus
Sauss, porém menor. A côr fundamental é bruno-fer-
ruginea; orbitas amarellas ; mandíbulas e antennas fer-
rugineas, estas em cima brunas; duas linhas sobre o
mesothorax (muito estreitas), os bordos do scutellum que
no meio é bruno, e uma mancha amarella sobre os dous
lados do primeiro segmento abdominal: todo este dese-
nho de viva, côr amarella. O prothorax, os flancos e o
metathorax, assim como o primeiro segmento abdominal '
são russos. Os pés são ferrugineos; as azas transpa-
rentes com um tom cinzento e as nervuras não se des-
tacam como em P. liliaciosus pela sua côr preta.
Habit. : Pará.
Segundo diz o auctor, esta especie pouco differe de
P. lilraciosus que, por sua vez differe sômente por al-
guns caracteres de estructura do prothorax e do petiolo
da Polybia llvacea.
5.º Polistes liliaciosus Sauss.
Comp. pare. 1% mm.; Env. 30 mm.
Desconfio que se trate de uma especie sul-ameri-
cana e é necessario acautellar-se para não confundil-a
com a Polybia liliacea, bastante frequente no Brazil
septentrional, Bolivia etc.
— 138 —
Habit. : l'Amerique.
Mus. Paris. collec. Spinola. Mus. Turim.
Saussure, toc. cit. pg. 97, Est. XI fig. 7: Nigro
laceus ; prothoracis margine posteriore, mesotho-
race liners duabus, scutellis, metathorace liners
duabus et segmentorum marginibus, flavis, aut
albescentibus ; alis hyalinis, nervis fuscis, costa
paule flavescente. |
6. Polistes opalinus Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. II, pg. 89;
List) SRD figs:
Comp. parc. 18 mm. Env. 44 mm.
Clypeo finamente pontuado; prothorax rebordado ;
abdomen fusiforme, quasi em losangulo perfeito. A ca-
beça e o thorax são russos; o melo das antennas, flan-
cos e metathorax pretos; ds vezes o prothórax e o scu-
tellum com listras amarellas. Abdomen preto, reluzente,
com brilho azulado, glauco e um tom opalino. ‘Todos
os segmentos são orlados: o 1.º de amarello, o 2.º com
uma faixa amarello-clara, recortada nos lados e com 2
ocellos vermelhos ou amarellos ; os demais segmentos
com bordos brunos. Pés pretos com articulações ama-
rellas. Azas escuras com brilho de violete.
Habit. Brazil (Saint-Hilaire leg.)
Possue o Museu um exemplar & provavelmente
desta especie : a descripção combina exactamente, diffe-
rindo unicamente no tamanho, pois que mede em
compr. parc. 14 cm.; env. 35 mm. Sabemos, porém,
que em Polistes o tamanho dos exemplares varia muito:
dentro da mesma especie.
Mus. Paul. : Curytiba — Paraná. (Provavelmente
tambem o exemplar typico provem do Brazil meridional.)
— 139 —
4. Polistes bimotatus Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. II pg. 87; Est. VII,
fogo 0)
Compr. parc. 1omm.; Env. 33 mm.
Corpo delgado, abdomen estreito, fusiforme ; pro-
thorax rebordado. A côr geral é preta; a cabeça é
ferruginea, salvo a fronte e o vertice que são pretos ;
as antennas são ferrugineas no apice e na base, em bai-
xo; o prothorax, as tegulas e o meio do scutellum são
russos. O abdomen é itor ne bruno-escuro, só
o II segmento tem de cada lado duas manchas arredon-
dadas, de cor branco-amarellada. Pés escuros com o
apice do femur e quasi todos os tarsos amarellados
as azas são transparentes com um tom amarellado ao
longo das nervuras.
Habit. : Brazil.
S&S. Polistes melanosoma Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. II pg. 76
Compr. parc. 14-16, tot. 16-19 mm. Env.; 33-37 mm.
Corpo alongado ; prothorax rebordado ; metathorax
bastante nas estreito, as estrias na eee mul-
to indistinctas ; petiolo alongado, não muito largo atraz,
bituberculado. ‘Todo o corpo é preto, um pouco asse-
tinado, o abdomen sempre liso e reluzente (geralmente
com um brilho azulado). Antennas russas, salvo nos 2
primeiros artigos. Azas transparentes, com um tom
amarellado, nervuras ferrugineas.
Habit. : Goyaz.
Mus. Paul. : Espirito Santo; São Paulo (Avenida),
Jundiahy, S. José do Rio Pardo.
cn ati ee
9. Polistes aterrimus Sauss.
Suussure Monogr. Fam. Vesp. Li, pg. 73
Compr. parc. 24 mm. ; Env. 43 mm. (Saussure)
Compr. tot. 24 mm., parc. 18 mm.; Env. 50 mm.
Mus. Paul.
Compr. tot. 29 mm. ; parc. ?1 mm.; Env. 53. mm.
Mus. Paul.
Prothorax rebordada; sulco do metathorax pouco
profundo, estrias transversaes quasi nullas. Abdomen
fortemente conico nas duas extremidades. Todo o cor-
po intensamente preto, ligeiramente assetinado, princi-
palmente o metathorax ; o apice do clypeo, as mandi-
bulas e a ponta das antennas em baixo são às vezes
bruno-avermelhadas. Azas pretas, com intenso brilho
violete, muito opacas (salvo nas IT e III cellulas cubi-
taes que são mais claras).
Habit. : Amazonas.
Mus. Paul. : Surinam, Peru, Bolivia, Chiriqui.
Bem provavel é ter occorrido um engano nas me-
didas indicadas por Saussure, o que se reconhece já
pela falta de proporção, ja pela comparação com as me-
didas tiradas de exemplares do Museu.
IO. Polistes niger (n. sp. ?) Bréthes
Ann. Mus. Nac. Buenos Aires II (Ser. 3, T. IT)
1903 p. 20.
P. ater, abdomine depresso, latior thorace, alae piceae,
ad limbo dilutiores. Long. corp. 18 mm. ; alae :
15 mm.
Corpo inteiramente preto com leve pubescencia cin-
zenta e os seguintes fracos desenhos amarellados: as
orbitas internas, dous pontos no metathorax, a extre-
midade do primeiro segmento abdominal, com amarello
e todos os espinhos dos tibias dessa côr. As azas são
muito escuras, excepto no apice onde são claras.
— 141 —
A cabeça e o ‘horax são enrugados; c clypeo
com pontuação forte. Prothorax rebordado, o meta-
thorax sem estrias, seu sulco mediano em cima pou-
co pronunciado. O abdomen é grosso, relativamente
curto e deprimido.
Habit. : Jundiahy, Est. S. Pal
Nao possue 0 Museu tal especie, e estou antes
enclinado a não crer que seja exacta a sua provenien-
cia de Jundiahy.
ll. Polistes obseurus Sauss.
Saussure, Mém. Soc. phys. et hist. nat. Genève XVII
Il. 1863 pg. 236.
Compr. tot. 14 mm.; compr. da aza 11 mm.
Especie diminuta, prothorax bastante largo, re-
bordado ; metathorax curto, com sulco largo, estriado.
Abdomen antes deprimido, petiolo curto e largo. Todo
o corpo preto, assetinado. As mandibnlas, antennas em
baixo, tibias e tarsos e tegulas russas, estas antes bru-
nas. Azas ferrugineas con o apice um pouco cinzento.
Habit. : Brazil.
Assemelha-se a esta especie o P. rufidens Sauss.
(Monogr. Fam. Vesp. II pg. 77); este é, porem, um
pouco maior, o prothorax é mais anguloso, o petiolo
é mais alongado, e as azas são brunas com o bordo
ferrugineo (Venezuela).
12. Polistes actaeon Lep.
Lepeletier, Encycl. method. Insect. X. 1825, fig. 171.
Haliday, Trans. Linn. bgt ‘London, XVII 3. 1836
SOD.
Saussure, Monogr. Hea Vosp. II pg. 98, Est.
AT fg 2:
Compr. parc. 11,5mm.; Env. 24 mm.
Prothorax rebordado. Todo o corpo preto. O de-
senho amarello é bastante variavel; entretanto parece
— 142 —
ser constante o seguinte: a base do clypeo e duas
manchas mais ou menos largas sobre o metathorax ;
aza transparente, um pouco enfumaçada, amarella no
bordo anterior, a cellula radial prete. |
Variedades ha que apresentam ainda o seguinte
desenho amarello; as orbitas internas e externas, os
bordos posterior do prothorax e anterior do postscutel-
lum (ás vezes ambos os scutellos), o apice do IL ou
de quasi todos os segmentos com leves bordos; os pês
em gerai com linhas e articulações amarellas.
Habit. : Cayenna, Columbia, Rio de Janeiro.
Mus. Paul. : Brazil.
13. Polistes limai R. v. Ih. (Est. IV fig. 1)
R. von Ihering, Ann. Soc. Entom. France LXXII
(LO 0041245
Compr. tot. 14,9 mm. ; Env. 25 mm.
Cabe a esta especie a mesma descripção dada para
o P. actaeon Lepel., observando sómente que o bordo
anterior da aza não é amarello, mas intensamente preto,
opaco, sendo o resto da aza hyalino. Julgo este cara-
cter bastante importante para reconhecer duas especies,
pois que sempre verifiquei ser o colorido das azas o
mais constante, mesmo nas especies mais sujeitas à va-
riação du côr.
Mus. Paul. : Itatiba (typo), Piquete, S. P., Brazil.
HÆ. Polistes cimerascens Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. Il pg. 99; Est. X fig. 4
Compr. tot. 17, parc. 13 mm.; Env. 29 mm.
Prothorax anguloso, rebordado; metathorax quasi
liso.
A cor fundamental é preta, levemente assetinada
por pellos cinzentos. Antennas sempre pretas. Algum
desenho amarello: nas mandibulas, nas orbitas e quasi
todo o clvpeo ou sua parte apical; os bordos do pro-
— 143 —
thorax, uma linha entre os scutellos, duas linhas sobre
o metathorax e todas as orlas dos segmentos abdomi-
naes. Tibias e tarsos ferrugineos, o bordo anterior das
azas é amarellado, o resto transparente.
Alguns destes desenhos podem faltar; às vezes o
abdomen, do II segmento em deante, é amarello com
manchas escuras.
Habit. : Brazil, Argentina, Uruguay.
Mus. Paul. : S. Paulo, Jundiahy, Franca, Parana,
Rio Grande do Sul, Uruguay.
Bem sei que esta especie foi posteriormente con-
siderada pelo proprio auctor como simples variedade de
Polistes fuscatus Fabr. (Ann. Soc. Entom. Fr. (3) V.
1857 pg. 314), assim como hoje parecem todes os au-
ctores ser desta opinião. Não acompanho a esta cor-
rente pelas seguintes razões. Antes de tudo é bastante
duvidosa a descripção que de P. fuscatus da Fabricius
(Entom. system. 1795, II pg. 260 e Syst. Piez. 1804,
pg. 270); será necessario estudar o typo de Fabricius.
Por outro lado o typo de P. cinerascens è tão pro-
nunciado e constante, como se reconhece na boa serie
que possue o Museu, que torna-se impossivel encontrar
o élo que prenda a variedade à forma typica fuscatus
Fabr., com abdomen fuscum — segmento 11 utrinque
macula magna, fulva. Ainda que às vezes no pro-
thorax predomine a côr russa, sempre 'as antennas são
pretas, o que distingiie esta especie das visinhas.
E>. Polistes bicolor Lep.
Lepeletier, Hist. nat. Insect. Hymén. I. 1836 pg. 521
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. IT pg. 76
Compr. tot. 29 mm. (Lep.) ; parc. 19 mm. ;
Env. 44 mm. (Sauss:
Compr. tot. 18-20 mm.; parc. 13,5-15 mm.
Env. 35-38 mm. (Mus. Paul.)
Prothcrax muito largo, rebordado ; metathorax sem
estrias transversaes. (Cabeça, thorax e pés pretos, com
leve pubescencia cinzenta; abdomen castanho-averme-
— 144
lhado. Azas transparentes com nervuras pretas (ou var.
Lep. escuras, bruno-avermelhadas).
Os exemplares do Museu, Pe exacta-
mente à descripção da especie typica, apresentam, todavia,
uma differença apreciavel no comprimento, o que é tan-
to mais notavel por provirem os exemplares justamen-
te dos paizes em que foram colleccionados os typos.
Provavelmente houve engano (erro typographico ?) na
medida o por Lepeletier.
Habit. : Surmam, Cayenna, Santarem.
Mus. Paul. : Surinam, Cayenna.
IG. Polistes subsericeus ‘aus.
Saussure, Monogr. Fain. Vesp. 11 pg. 100, Est. XII fig. 7
d Compr. parc. 12 (14) mm.; tot. 17-1") mm.
Env. 26-29 mm.
E)
Singular é o facto de até agora só terem sido des-
criptos os machos desta especie: & é o typo collec-
cionado por A. de Saint-Hilaire e dd são os 3 exem-
plares da nossa collecçäo. ' Estar-nos-ha, por ventura,
esperando uma surpresa ?
As suas fórmas divergem um pouco do typo ho-
mogeneo dos Polistes, assemelhando-se antes ao da Po-
lybia sericea. O corpo ê alongado, a cabeça mais lar-
ga que o thorax, clypeo ovoide, embaixo arredondado ;
olhos curtos. Prothorax mui finamente rebordado ; me-
tathorax nos lados um pouco entumecido, o sulco me-
diano pouco profundo. Abdomen deprimido, o petiolo
alongado, bituberculado, o anus não termina em ponta,
sendo antes arredondado.
A cabeça e o abdomen são pretos; as orbitas in-
ternas, as escamas, o bordo anterior do postscutellum,
dous traços sobre o metathorax e a orla do petiolo são
amarello-pallidos; este ultimo desenho é precedido por
uma faixa parda; o resto do petiolo, os pés, o meso-e
o metathorax são bruno-avermelhados, estes dous ulti-
mos são sericeos, con reflexos quasi dourados; o pro-
A o
— 145 —
thorax e os flancos são pardos. As azas são transpa-
rentes, no bordo anterior enfumaçadas, quasi pretas.
Habit. : Rio de Janeiro (o), Chapada (16 exem-
plares Março e Dezembro).
Mus. Paul. : 3 % — Franca (26 VII, IX 02) e
E. de S. Paulo (Jundiahy ?).
17. Polistes carnifex (Yabr.)
Vespa carnifex Fabricius, Syst. entom. 1775 pg. 305
Polistes carmfex Fabr. Syst. Piez. 1804 pg. 272
Saussure, Monogr. Fam. Vesp, Il pg. 90; Est. X, fig. 5
Syn. — P. chlorostoma Lepeletier, Hist. Nat. Ins.
Hymen. 1. 1836 pg. 521
P. onerata Lep. ibid. pg. 524
Compr. tot. 0-25 mm.; parc. 23-19mm. Env. 55-48mm.
Corpc muito robusto, prothorax rebordado. Ca-
beça e thorax amarello-sujos; o vertice, mesothorax,
alguns traços sobre os flancos, o metathorax nos bor-
dos anterior e posterior e o sulco mediano, são bruno-
escuros ou pretos. A base dos primeiros segmentos ab-
dominaes é escura, o bordo posterior destes e os de-
mais segmentos são da côr geral do corpo. Antennas
ferrugineas em baixo, brunas em cima, a metade api-
cal inteiramente amarella. Os pês são brunos com ti-
bias e tarsos mais claros; azas ferrugineas.
Habit. : America meridional. Chapada, Corumbá,
Rio de Janeiro, Santarem e Argentina.
Mus. Paul.: Est. S. Paulo, Jundiahy ; Santa Ca-
tharina; Rio Grande do Sul; Surniam.
IS. Polistes analis (falr.)
Vespa analis Fabricius, Suppl. entom. syst.1798 p 261
Polistes analis Fabr. Syst. Prez. 1804 pg. 272
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. II pg. SO
Compr. tot. 20 mm.; parc. 16 mm.; Env. 38 mm.
Prothorax anguloso e fortemente rebordado. Ca-
bega, thorax, pés e azas, amarello-ferrugineos, clypeo
— 146 —
amarello-claro, mesothorax sombreado de bruno ou com
3 linhas longitudinaes, metathorax às vezes tambem
com linhas escuras. Petiolo preto, largamente borda-
do de amarelo, o 2.º segmento claro com o centro ne-
ero, os demais segmentos intensamente pretos.
Despresando o caracter do petiolo é difficil distin-
guir esta especie da Polybia flavicans. —
Habit. : Gayenna; Brazil.
Mus. Paul. : Rio Juruá— Amazonas.
IS. Polistes canadensis (L.)
Vespa canadensis Linné, Syst. nat. Ed. XI, 1756,
BRA SLM TO
Polistes canadenses Saussure, Monogr. Fam. Vesp. I,
PO Cy SCE he ol,
Polistes ferreri Saussure, ibid. pg. T7
Compr. tot. 18-27 mm.; Env. 36-52 mm.
Clypeo bastante largo; prothorax rebordado ; me-
tathorax estriado. Corpo em geral pouco delgado.
Bruno-ferrugineo ou avermelhado, podendo tambem
passar aos extremos de quasi inteiramente preto ou fer-
rugineo. O unico caracter fixo é o da côr das antennas :
brunas na base, pretas no meio e o apice ferrugineo ama-
rellado ou avermelhado. Pés com tarsus imais claros
do que os articulos superiores, estes com articulações
amarelladas. Azas intensamente brunas nos individuos
desta côr, quasi inteiramente negras com brilho metal-
lico nos especimens pretos ou então de um ferrugineo
carregado em individuos mais claros (ferreri).
Habit. : Toda a America.
Mus. Paul.: Est. S. Paulo, Ypiranga, Os Perús,
Piquete, Sorocaba, Itatiba; Bolivia, Venezuela (colorido
bruno-avermelhado) ; Minas Geraes (Jordão) Amazo-
nas, Chiriqui (muito escuro, quasi preto). Rio Grande
do Sul, S. Lourenço ; Prov. Buenos Aires (segundo
determinação de J. Bréthes P. ferrerz Sauss.)
Acho que não se deve distinguir o P. ferrer: du
P. canadensis, pois que, ainda que se consiga reconhe-
— 147 —
cel-o em certos casos como especie distincta (J. Bréthes,
Ann. Mus. Nac. Buenos Aires, Tomo IX, 1903, pg. 25
não são raros os especimens dos ques é impossivel af-
firmar à qual das duas pertença, tanto é variavel quer
o colorido, quer o comprimento.
206. Polistes annularis (L.)
Vespa annularis Linné, Centur. Ins. rar. 1763 pg. 31
Polistes annularis Fabricius, Syst. Pies. 1804, pg. 270
Lepeletier, Hist. nat. Ins. Hymen, 1 1836, pg. 522
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. ll pg.’ 9, Est. VIL fig. 4
Compr. tot. 23 mm., parc. 18 mm.; Env. 45 mm.
Nao resta duvida de que se trata de uma especie
muito chegada ao P. canadensis, compartilhando com
esta a sua vasta distribuição ; distingue-se, entretanto, por
alguns caracteres de colorido bastante constantes e que
só em algumas variedades extremas quasi que se apagam.
De cor preta ou bruna; cabeça ferruginea, geral-
mente com manchas pretas sobre o clypeo e outra
abaixo dos ocellos.
Prothorax, tegulas, manchas sobre o mesoe o me-
tathorax, sobre os flancos e os angulos do scutellum,
assim como sobre o abdomen: bruno-avermelhadas.
Postscutellum amarello-ferrugineo. Petiolo com uma fai-
xa apical mais ou menos larga. Antennas ferrugineas
na base. pretas no meio e amarellas na ponta. Pés bru-
nos, articulações e tarsos amarellados. Azas escuras.
Habit. : America.
Mus. Paul. : Bolivia, Peru (Callango) N. Granada,
Chiriqui. No Brazil parece raro : só um exemplar (Coll.
Bruch em La Plata) me consta desta proveniencia.
<i. Polistes pacificus Fabr.
Fabricius, System. Piez, I804 pg. 274, n. 28
Saussur e, “Monogr. Fam. Vesp IL pg si
Compr. tot. 15, parc. 12 mm.; Env. 25 mm.
Cabeça e thorax pretos. As mandibulas, o cly-
peo e parte da face russos; as orbitas, o apice do cly-
— 148
peo, os dous bordos do prothorax, o anterior do post-
scutellum, duas linhas sobre o metathorax e as valvu-
las articulares do abdomen, amarellos ou um pouco
russas; abdomen castanho-ferrugineo, todos os seus
segmentos orlados de amarello-claro; o 1.º é escuro,
quasi preto. Pés ferrugineos, azas com um tom fer-
rugineo, na cellula radial com uma mancha bruna.
Habit. : Pará, Mararú, Santarem.
Mus. Paul. : Est. 8. Paulo.
22. Polistes pacificus ruficornis Sauss.
Polistes ruficornis Saussure, Monogr. Fam. Vesp. I
pg. SO Est. X fig. 3.
Compr. tot. 16,5 parc. 13mm. Env. 3! mm.
Differe de P. pacificus Fabr. pelas antennas sem-
pre russas, pelas azas que não tem a mancha es-
cura na cellula radial e são um pouco mais claras, e
pela sua estatura às vezes um pouco maior. A's vezes
com clypeo, orbitas e linhas entre as antennas mais
amarelladas ; tambem o prothorax e os scutellos podem
ser pretos ou russos.
Habit. : Uruguay ; Chapada.
Mus. Paul. : Jundiay (E. S. Paulo); Bolivia.
23. Polistes pacificus thoracicus 70%
Polistes thoracicus Fox, Proc. Acad. Nat. Sc.
Philad. 1898 IH pg. 447
Compr. tot. 16—17 mm.
Bastante proxima à subsp. ruficornis ; predomina
a côr russa; só no metathorax e nos flancos, em parte,
e nas coxas posteriores é que resta o preto.
Na fronte e na face, a margem posterior do pro-
thorax, os scutellos, as margens posteriores dos 1.º e
2.º segmentos abdominaes e todos os demais segmen-
tos: são de colorido mais claro, amarellado.
= US re
Azas amarelladas. O clypeo é alongado, o que aliás
tambem varia em P. pacificus e P. p. ruficornes, se-
gundo 0 sexo.
Faltarão sempre as duas linhas longitudinaes do
metathorax ?
Habit. : Chapada.
Tambem o P. pacificus Fabr. fora por Saussure
considerado como variedade de P. fuscatus (Ann. Soc.
Ent. Fr. (3) V. 1857, pg. 314); mas aqui egualmente
cabem as considerações que fiz com relação ao P. c-
nerascens.
O Sr. J. Brethes separa P. ruficornis de P. pa-
cificus principalmente por ter aquelle o abdomen com-
primido, quando Saussure (Est. XII, fig. 10) dá ambos
como tendo o abdomen deprimido, o que aliás os exem-
plares do Museu confirmam.
24. Polistes spinolce Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. IT pg. SO
Compr. parc. 14 mm.; Env. 31 mm.
Cabeça alaranjada, com orbitas e orlas do clypeo,
amarellas; vertice preto, antennas russas com a metade
apical preta. Thorax preto com o prothorax e o scu-
tellum alaranjados, os bordos anterior deste, e anterior
e posterior daquelle, listrados de amarello vivo ; de egual
côr são uma mancha abaixo da aza, duas faixas sobre
o metathorax e o bordo anterior do postscutellum.
O primeiro segmento abdominal é todo amarello,
salvo uma mancha central preta; os demais segmentos
são avermelhados na base e amarellos no bordo poste-
rior, apresentando o segundo segmento ainda uma gran-
de mancha preta, regular na base e recortada posteri:
ormente. Azas cinzentas no apice, ferrugineas no bordo
anterior.
Habit. : Brazil, Minas Geraes.
Mus. Paul. : possue exemplares de S. Leopoldo, Rio
Grande do Sul que, tambem segundo a opinião de M.
Fox, representam uma variedade desta especie ; falta aos
— 150 —
mesmos todo o desenho amarello do corpo (alguns tém
as orlas do prothorax), as antennas tem ainda o apice
russo e o abdomen repete aos segmentos 3 e 4 o mes-
mo desenho que caracteriza o segunlo segmento : pre-
to na base, mais claro para traz e terminando irregu-
larmente por pontas e arabescos em várias direcções.
25. Polistes consobrinus Sauss.
Saussure, Rev. et Mag. Zool. (2) X 1858 pg. 259
Tamanho de P. americanus (Compr. parc. 12 mm.
Env. 29) mm.)
Abdomen conico, fusiforme, posteriormente com-
primido. Cabeça preta no vertice e na frente, o resto
é ferrugineo ; antennas pretas com o apice, assim como
o prothorax, escama, e grande parte do abdomen, fer-
rugineo. A base dos dous primeiros segmentos abdo-
minaes é preta. Azas transparentes, um pouco amarel-
ladas, principalmente ao longo do bordo anterior.
Tambem pódem, em exemplares mais claros, a ca-
beça, a base das antennas, e quasi todo o thorax ser
ferrugineos e uma listra amarellada orlar o prothorax
posteriormente.
d As antennas ao macho são pretas em cima,
ferrugineas em baixo: a frente da cabeça e o thorax
inferiormente são amarellos.
Habit. : Brazil.
Desconfia o proprio auctor que se possa tratar somen-
te de uma variedade de P ferreri (canadensis) ou P.
versicolor. Como a descripção não fornece caracteres
distinctivos seguros e não podendo eu reconhecer esta es-
pecie na collecção do Museu, nada posso adeantar. Las-
timavel é ser indicado como proveniencia unicamente o
Brésil, abuso infelizmente não pouco frequente que, além
de ser um inconveniente para a determinação, é de sum-
mo prejuizo para um estudo geral.
Tambem J. Bréthes (Ann. Mus. Buenos Aires IX
(1903) pg. 27) considera esta especie como uma das
muitas variantes de P. versicolor.
6. Genero Mischocyttarus Sauss.
1853 Sauss. Monog. Guép. soc. pg. 19, Est. III
Caracteres. (Est. Ill fig. 1) Palpos labiaes de 4 ar-
tigos, palpos maxillares de 6 artigos. Mandibulas longas
com 4 dentes. Cabeça alongada, os olhos attingem a base
das mandibulas; clypeo em escudo alongado, inferiormente
levemente sulcado, o que determina dous pequenos den-
tes (às vezes representados por dous pequenos tuber-
culos). Corpo alongado, mais alto do que largo, poste-
riormente muito estreitado ; scutellos quadrangulares, o
postscutellum só com metade da largura do anterior;
metathorax com sulco longitudinal, muido accentuado
na metade inferior. Abdomen com o primeiro segmen-
to completamente linear e cylindrico, com. pelo menos,
o comprimento do thorax, no meio com dous tubercu-
los que entretanto chegam a desapparecer. O resto do
abdomen em oval alongado, continuando em cima a li-
nha do petiolo, quando inferiormente é fortemente con-
vexo, com a curvatura anterior mais rapida; II seg.
infundibuliforme, dilatando-se gradativamente, sem apre--
sentar dilatação subita na metade anterior. Pés muito
compridos, pois que, apezar do comprimento extraordi-
nario do abdomen, ainda o excedem com quasi todo o
tarso. Azas longas; quarta cellula cubital longa e es-
treita, seu comprimento egual ao das IT e III reunidas.
O tamanho varia consideravelmente mesmo para
os individuos do mesmo ninho, o que depende, prova-
velmente, da estação em que são criados. As 3 especies
por ora conhecidas, occorrem todas no Brazil; a es-
tructura é sempre a mesma e sômente o colorido dis-
tingue as especies, o que ds vezes torna bastante diffi-
cil o seu reconhecimento.
CHAVE DAS ESPECIES
a) Insecto totalmente preto . 1 smithi Sauss.
b) Cor geral bruna : . 2 labiatus Fabr.
— 452 — a PR
c) Cabeça e thorax pretos, |
bordo post. do prothorax |
e tegulas distinctamente /
ferrugineos; abdomen fer- |
rugineo-avermelhado . 3 drewsem Sauss.
| Mischoeyttarus smithi Sauss.
Saussure; Mong. fam: Vesp. ma 2k
& Comp. parc. 17 mm.; Env. 40 mm.
J Estructura e tamanho eguaes aos de M. labia-
tus. Insecto todo preto, sómente com um leve aveluda-
do cinzento. Pellos dourados sobre os pés. Azas bruno-
escuras, com brilho irisado.
Hab. Amazonia.
2. Mischocyttarvs labiatus (Fabr)
Zethus labiatus Fabricius Syst. Piez 254
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. pg. 20, Est. IH
Compr. parc. 18 mm. Env. 41 mm.
Corpo extremamente alongado ; petiolo linear, seu
comprimento (em geral maior do que o do thorax.
Todo o corpo bruno, um pouco avermelhado ; sem de-
senho especial, sómente o bordo posterior do. pro-
thorax um pouco ferruginoso. Azas brunas, mais ou
menos escuras, sem brilho; ‘no bordo anterior às ve-
zes uma leve tinta amareliada. Pés escuros, às vezes
tambem quasi pretos.
Mus. Paul. : S. Paulo; Amazonas, Bolivia, Perú,
Surinam, Rio de Janeiro ; Chapada — Matto-Grosso.
3. Mischocyttarus drewseni Sauss,
Saussure, Ann. Soc. Entom. France 1857, V. pg. 317
Differe em estructura de M. labiatus só pela me-
nor dimensão do petiolo, o qual não excede, às vezes
mesmo nem attinge, o comprimento do thorax. Este
— 153 —
caracter, porém, não permitte distingrir promptamente
a especie. Reconhecemol-a facilmente pelo colorido se-
guinte: Cabeça e thorax pretos; sobre o mesothorax
apparece, com certa luz, um brilho dourado, o qual in-
feriormente e sobre o clypeo é prateado. Bordo poste-
rior do prothorax e tegulas ferrugineos; o abdomen e
os pês bruno-avermelhados, antennas às vezes ferrugi-
nosas. Azas quasi transparentes, com um tom mais ou
menos intenso ferruginoso.
Mus. Paul. : S. Paulo; Bolivia; Argentina.
1. Genero-Synoeca Sauss. /&
Saussure, Ann. Soc. entom. France (2) X. YZ
1852 pg. 549 EN d
Saussure, Monog. Fam. Vesp. (IT) pg. 157 Sy
Dalla. Torre, Cat. Hymen IX. 1894 pg. 160
Caracteres. (Est. II, fig. 3-5). Palpos labiaes de 4
artigos, eguaes em comprimento dous a dous, os 2 primei-
ros maiores. Palpos maxillares de 6 artigos, o basal mais
forte, os seguintes quasi eguaes, o ultimo um pouco mais |
comprido. Mandibulas longas, armadas: de 3 dentes fortes,
graduados e com leve indicação de mais dous; quando
fechadas formam um angulo muito obtuso. (Cabeça re-
lativamente muito grande. Olhos pouco recortados, es-
treitos ; ocellos muito juntos, em triangulo regular so-
bre a fronte larga. Clypeo mais largo que comprido,
arcado e quasi oval. Corpo alongado, comprimido, mui-
“to estreitado para a frente; metathorax a principio sé
levemente enclinado, cahindo depois quasi verticalmen-
te, nunca com sulco mediano.
Abdomen com o 1.º segmento petiolado, cylindrico
e muito fino até mais da metade, depois subitamente alar-
gado, entumecido, com 2 pequenos tuberculos lateraes
e um sulco mediano; 2.º segm. subitamente campanu-
lado, formando em seguida, com o resto do abdomen,
um cone alorgado. à
Pés longos; azas grandes com cellulas grandes, a
3.4 radial em parallelogrammo obliquo egual em tama-
nho à 4.º, pouco maior que a- 2.º.
Genero exclusivamente sul-americano, composto de
especies quasi completamente eguaes na forma, differin-
do unicamente pelo colorido; predomina a côr azul,
principalmento acompanhada de um brilho metallico.
CHAVE DAS ESPECIES BRAZILEIRAS
I Azas escuras, ultramarinas ou brunas
a. Clypeo preto . A e Doro des)
aa. Clypeo colorido : ;
6. Abdomen com duas man-
chas vermelhas . . 2 violacea Sauss.
bb. Adomen uniformemente es-
curo : y :
c. Clypeo rosa com mancha
central preta; sobre o cor-
po algumas tintas rosas. 3 ultramarina Sauss.
cc. Clypeo vermelho, todo cor-
po azul metallico . à
d. © vermelho das mandibulas
extende-se sobre a face;
dimenções maiores. . À cyanew Fabr.
dd. Sômente o clypeo eas man-
dibulas são vermelhos; di-
mensões menores . . 4-avar.asurec Sauss.
IT Azas transparentes, principalmente nos dous terços inferiores,
amarelladas ou ferrugineas
a. Corpo amarello-ferrugineo 5 irma (Spin.)
aa. Corpo escuro com brilho
metallico esverdeado; ab-
domen ultramarino; al-
gum desenho. À . 6 chalybea Sauss.
E Symoeca surinama (L)
Vespa surmama 1767 Linn. Sust. Nat. Edet.
Dai DD ara
Synoeca coerulea Saussure, Ann. soc. entom.
| France X 1852 pg. 552
Synoeca surinama Sausure, Monogr. Vesp. II
1853 pg. 158
Compr. parc. 18 mm. Env. 45 mm.
- “Corpo preto com reflexos metallicos de um azul
carregado; antennas, mandibulas e clypeo simplesmente
pretos, este ultimo reluzente; tambem o abdomen quasi
que não apresenta o brilho caracteristico. Azas brunas,
1 isadas.
Habit. Cayenna; Surinam; Chapada; Matto Grosso;
Rio de Janeiro.
> Synoeca violacea Sauss.
Saussure Ann. soc. entom. France X 1852 pg. 555
Sausure, Monogr. fam. Vesp. II 1853 pg. 101
Comp. pare. 16 mm. Env. 40 mm.
Cor geral do corpo como a S. cyanea, assim co-
mo o colorido do clypeo e mandibulas. Apresenta, po-
rém, sobre o segmento abdominal, de cada lado, uma
mancha irregular vermelha.
Habit. Brazil, Santa Catharina.
+ Synoeca ultramarina Sauss.
Saussure, Ann. soc. entom. France X 1852 pg. 994
Est. 11 III fig. 1, I b.
Idem Mongr. Fam. Vesp. I1 1853 pg. 160
& Comp. parc. 17 mm; Env. 42 mm.
Todo o corpo azul ultramarino, brilhante, com al-
gumas leves tintas côr de rosa. Clypeo rosa ou viole-
— 156 —
te com uma mancha central preta; mandibulas russas.
Azas brunas.
Os olhos quasi que attingem a inserção das man-
dibulas.
Habit. Santa Catharina.
4. Synoeca cyanea (Fabr.)
Vespa cyanea Fabricius 1775 Syst. entom. p. 372 n. 45
Synveca cyanea Saussure, Ann. Soc. Entom. France,
X ASS 2 pr woos dest AT Til ee
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. IL, 1853, pg. 159
Var. azurea Sauss.
Synoeca azurea, Soc. Entom. l. c. pg. 554
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. Il pg. 160
Compr. pare. 17, 5 mm. Env. 44 mm.
Corpo preto com reflexo metallico azul, mais ou
menos intenso; clypeo, mandibulas e parte inferior da
face na insersão das mandibulas, com vivo colorido bru-
no-avermelhado. Azas brunas, mais escuras sobre o
bordo anterior, brilho irisado muito fraco. Como
4.* Synoeca cyanea var. azurea Sauss.
considero a fôrma descripta por Saussure como es-
pecie distincta. Differe pelas suas dimensões um pouco
menores, por serem os tuberculos do petiolo algo mais
pronunciados e pelo colorido vermelho do clypeo ana-
logo ao da S. cyanea que não se extende pela face.
Alem de se tornar difficil o reconhecimento de uma
especie pela simples differença no tamanho, pois que
sempre encontramos formas intermediarias, o segundo
caracter envocado não é menos variavel, o que eu mes-
mo pude verificar na collecçäo do Museu, onde se en-
contram especimens provenientes das mais variadas lo-
calidades de todo o Brazil e dos paizes visinhos.
— 157 —
5. Synoeca irina (Spin.)
Polistes trina Spinola Mem. Accad. sc. Torino
(a XE ISa tgs (75
Polybia irina (2) Saussure, Monogr. Fam. Vesp. Il
1853 pg. 212
Synoeca testacea Saussure, Monog. fam. Vesp. II
1853 pg. 162
Compr. parc. 13 mm., tot. 16; Env. 33 mm.
Estructura do corpo correspondendo exactamente à
das demais especies deste genero, distinguindo-se, porém,
singularmente pelo colorido Ao passo que todas as es-
pecies são pretas com brilho metallico azulado, esta é de
cor amarello-ferruginea. Flagellum das antennas preto.
Mesothorax com duas linhas mais claras (outros exem-
plares apresentam, ao contrario, fundo claro com duas
linhas lateraes mais escuras). Tarsos brunos; azas
transparentes, só no bordo anterior levemente sombrea-
das; nervuras brunas. Sobre os scutellos eo metatho-
rox (assim como sobre as linhas mais ecuras do meso-
thorax) reflexos irisados, tirantes ao esverdeado,
Hab. : Paraná, Santarem, Mararú, Surinam, Perú.
Mus. Paul. : rio Juruá, Amozonas; Surinam, Perú.
6. Synoeca chalybea Sauss.
Saussure, Ann. soc. entom. France X 1852 pg. 556
Saussure, Monogr. fam. Vespid, II 1853 pg. 161,
Est. IS, : fig. 9.
Compr. parc. 16 mm. Env. 38 mm.
Cabeça e thorax escuros com brilho metallico es-
verdeado; abdomen quasi completamente preto. Clypeo
e mandibulas russas; pontas das antennas ferruginosas.
Sulco do petiolo quasi nullo. Inserção das azas, cabeça
e thorax inferiormente, ferrugineos. Pés brunos; azas
transparentes com leve tom ferrugineo e bordo anterior
intensamente bruno (quasi preto).
Hab. : Gayenna.
— 158 —
Mus. Paul. : Manãos, Amazonas.
Estes exemplares pertencem antes a uma varieda-
de com azas bastante amarelladas, corpo inferiormente,
salvo o abdomen, inteiramente avermelhado, metathorax
escutellos com uma linha mediana dessa cor.
Os sulcos medianos do clypeo e do petiolo bem
visiveis, este com dous tuberculos lateraes.
S. Genero Tatua Sauss.
Saussure, Monogr. Fain. Vespid. 1853 pg. 213, Est.
Fa Ay (epee
Caracteres do genero. (Est. IT, fig. 2) Palpos labiaes
de 4 artigos, quasi eguaes, com pellos esparsos; palpos
maxillares curtos, de 6 artigos muito diminutos, o 6.º de
comprimento quasi egual aos 4º e 5° reunidos. Mandibu-
las longas e fortes, armadas com 5 dentes dos quaes
os 3 anteriores são muito aguçados. Clypeo em escu-
do oval, arcado, terminado inferiormente por 2 denti-
culos (às vezes pouco pronunciados, porem sempre vi-
siveis). Cabeça larga, passando o alinhamento do tho-
rax ; posteriormente concava; olhos grandes, pouco re-
cortados; ocellos muito conchegados sobre o vertice.
( Esta conformação da cabeça lembra muito a de Sy-
noeca ). ‘Thorax de forma oval alongada. Abdomen
com o 1.º segmento em petiolo, quasi linear, posterio-
mente só pouco mais largo do que na base; o resto do
abdomen quasi cordiforme, o 2.º segm., que attinge quasi
immediatamente a sua largura maxima ( maior do que
o comprimento) é estreitado posteriormente; os demais
segmentos são curtos.
Azas largas; os pês pouco niais compridos do que
o abdomen.
Genero com só duas especies americanas; Gribo-
do accrescentou-lhe mais uma asiatica: 7! quadritu-
berculata.
— 159 —
1. Tutua morio (far.)
Vespa morio Fabricius, Ent. Syst. Suppl. 264
Polistes morio Syst. Picz. 279.
Epipona tatua Lep. St. Farg., Hymen. I. 54!
T. morio Saussure, Monogr. Fam. Vesp. II pg. 214
Lists ad io À
Compr. parc. 13 mm.; Env. 25 mm.
Quasi todo o corpo finamente pontuado, sd o cly-
peo inteiramente liso e tambem o mesothorax e abdo-
men com pontuação quasi nulla; torna-se, porem, mui-
to forte e densa sobre o metathorax. Este é arredon-
dado, com um sulco, que às vezes tambem se extende
sobre os scutellos, no meio. Insecto completamente pre-
to, reluzente; clypeo um pouco avermelhado. Azas hya-
linas, com um leve tom amarellado; na metade ante-
rior enfumaçadas, ao longo da radial escuras; nervu-
ras brunas.
A outra especie, (ou subsp.) 7! guereni Sauss., do
Mexico, pouco differe ; é um pouco menor e não apresenta
o su.co sobre o metathorax. |
Habit. Mus. Paul. Brazil, Venezula, Peru. Cayen-
na, Chapada—Matto-Grosso ; Santarem.
9. Genero Apoica Zepel.
1836— Lepeletier, Hist. Nat. Insect. I. Hymen. 1836
pg. 550.
Saussure, Monogr. Fam. Vespid. IT 1853 pg. 106
HSE AVE
Morphologicamente collocariamos melhor este ge-
nero no das Polybias, alias tão variavel; o seu sys-
tema de indificação nos ensina, porem, que este grupo
merece uma collocação especial e que, pois, devemos
attender escrupulosamente a sua variação de estructura.
Caracteres. (Est. UT fig. 8,9) Os palpos labiaes com
4, os maxillares com 6 artigos; mandibulas longas,
com 3 dentes fortes e agudos, e um quarto posterior,
— 160 —
obtuso. Cabeça pequena, arredondada; olhos muito gran-
des, attingindo a base das mandibulas e estreitando muito
o clypeo e o vertice, o qual é quasi completamente pre-
enchido pelos ocellos, extraordinariamente grandes. O
recorte dos olhos é mui profundo e em forma de dedo.
Corpo estreitado e alongado; scutellos elevados ;
metathorax com um sulco longitudinal. A inserção do
petiolo protegida por uma valvula semicircular, sem re-
corte. O primeiro segmento abdominal muito alonga-
do, cylindrico nos seus dous terços anteriores; para O
fim, um pouco dilatado e nesta parte com um ligeiro
sulco transversal. O resto do abdomen muito alonga-
do, 2.º, 3.º e 4.º segmentos quasi de egual largura,
bastante longos. Pés muito compridos, excedendo por
muito o abdomen. Azas longas e largas.
CHAVE DAS ESPECIES
a, O colorido do abdomen é
mais ou menos uniforme
b, Colorido geral (especialmen-
te o abdomen) quasi unifor-
memente amarello-claro. . (1) pallida.
bb, Colorido geral mais escuro
B Colorido geral ferrugineo ou
um pouco bruno, sempre com
algum desenho ou manchas
marellas . à . (2) virginea.
cc, Cor predominante é o bruno
ou preto, nunca com colorido
amarello, II cellula cubital com
bordo radial quasi nullo, IV
cubital muito grande . . (3) cubitalis.
aa, Bordos posteriores dos seg-
mentos abdominaes sempre or-
lados de amarello. . (4) arborea.
— 161 —
I. Apoiea pallida (Óliv.)
Vespa pallida Olivier, Encycl. méth. Insect. VI 1791
pg. O79.
Apoca pallida Lepeletier, Hist. nat. Ins. Hymen. 1
18.36 pg. aad.
Apoca pallida Saussure, Monog. Fam. Vesp. py. 107,
Est. 18 e 28
Comp. parc. 16 mm.; Env. 88 mm.
Insecto de forma alongada. Prothorax un pouco
anguloso, scutellos salientes ; petiolo longo com mais da
metade do comprimento do thorax, na parte subtermi-
nal um pouco dilatado; Il segmento abdominal quasi
tão longo como o petiolo, pouco largo. Todo o corpo
com ligeira pennugem. Adomen, pro e metathorax de cor
amarella, muito clara ou pallida. Algum colorido ferru-
gineo mais ou menos intenso sobre a cabeça, mesotho-
rax, quasi todo o flanco e a base do petiolo. Abaixo
da aza sempre existe uma mancha amarella. Antennas
na base ferrugineas, no meio brunas, os 3 ultimos seg-
mentos amarellos. Os pés ferrugineos, azas transpa-
rentes com nervuras e o bordo radial até o estigma
amarello-ferrugineos.
Apparecem variedades com o thorax quasi todo
ferrugineo.
Habit. America do Sul, até Buenos-Aires.
Mus. Paul. São Paulo; Bahia.
2. Apoica virginea (Fabr.)
Polistes virginea Fabricius, Syst. Piez. 1804 pg. 227.
Apoica virginea Saussure, Monog. Fam. Vesp. pg.
LO e@ 244. Esto. PS,
Comp. par. 10 mm. Env. 28 mm.
Quanto à estructura. esta especie não differe da
precedente; e mesmo no colorido não ha differenca si-
— 162 —
não de grão si a compararmos com certas variedades
escuras da A. pallida. O colorido da cabeça e do tho-
rax varia do ferruginoso ao bruno; abdomen sempre
ferrugineo-avermelhado.
Segundo a variedade de que se trata, o exemplar
apresenta todos ou menos desenhos amarellos nos se-
guintes pontos. Angulo do prothorax, 2 linhas sobre
o mesothorax, uma mancha sobre o flanco, o scutellum
inteiramente ou só com manchas lateraes, o apice do
petiolo e o do ultimo segmento abdominal. A's vezes
tambem a metade anterior do II segmento abdominal
apresenta o mesmo colorido amarello-pallido.
De resto os mesmos caracteres já descriptos para
a A. pallida. 7
Habit. America do Sul.
Mus. Paul. Paraná, Surinam, Perú.
3. Apoica cubitalis Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. 1853 pg. 109 Est. 18.
Comp. parc. 13 mm., Env. 29 mm.
Thorax menos comprimido do que nas outras es-
pecies de Apoica, tambem o petiolo menos longo. Ca-
beça e abdomen bruno-ennegrecidos ; thorax e petiolo
bruno-ferrugineos, o petiolo com uma mancha preta.
Todo o thorax recoberto por um avelludado com brilho
dourado.
Pés ferrugineos. Azas brunas com o bordo ra-
dial preto, no apice quasi transparentes. Segunda cel-
lula cubital alongada, com seu bordo radial quasi nullo ;
a IV cubital com tamanho duplo do da terceira.
Não possuindo exemplar algum desta especie, posso
julgar unicamente pela descripçäo e por esta quer me
parecer muito difficil a distineção desta especie da Po-
lybia sericea. (Creio que unicamente a conformação
da cabeça e do abdomen, com sua inserção poderão de-
cidir o caso. |
Habit. Bahia.
— 163 —
4. Apoica arborea Sauss.
Saussure, Monoyr. Fam. Vesp. 1853 fig. 108 Est. 26
Compr. parc. 11 mm. tot. 16 mm. Env. 28 mm.
Tambem esta especie tem estructura egual à da
A. pallida e o seu colorido, ainda que caracteristico,
não diverge essencialmente do daquella. Cabeça ama-
rella, olhos e vertice escuros, antennas brunas com os
4 ultimos segmentos amarellos. Prothorax em cima,
scutellos e metathorax amarellos ; mesothorax bruno com
duas linhas longitudinaes amarellas ; flancos bruno-fer-
rugineos com as duas manchas caracteristicas, amarellas,
abaixo das azas.
Abdomen bruno-ferrugineo, todos os seus segmen-
tos bordados de amarelio, sómente o ultimo é comple-
tamente desta cor. Pés ferrugineos ; azas transparentes
com nervuras e o bordo radial até o estigma ferrugi-
nosos.
Habit. America do Sul.
Mus: Paul. : Peru,
10. Genero Leipomeles Woed.
Moebius, Abh. nat. Ver. Hamb. 1856, HI. pg. 145
Est; X Vil
Este genero, do qual actualmente só conhecemos
uma especie, assemelha-se muito a alguns representantes
do genero Polybia (P. infernalis); um estudo attento
nos revela, porém, differenças caracteristicas. alta,
como o proprio nome o indica, um articulo dos palpos
labiaes; o [ deles é o mais forte, de comprimento
egual aos dous seguintes reunidos ; destes o HT (ultimo)
apresenta na parte subterminal um rudimento do IV
palpo labial, atrophiado, em forma de um cabello recur-
vado. Tambem os palpos maxillares estão desfalcados
de um artigo (5 ao em vez de 6, como em Polybia); o
Ie o ultimo são os maiores.
— 164 —
As mandibulas são munidas de à dentes fortes e
um quarto, menor, fica mais afastado. A cabeça é ar-
redondada, os olhos são grandes; o clypeo termina em
um angulo agudo. Thorax quasi oval, só o metathorax
um pouco alongado. Petiolo em cone, um pouco de-
primido.
A IV cellula cubital de comprimento egual às II e
III reunidas. Apenas uma especie muito pequena.
1. Eeipomeles lamellaria Moe.
Moebius, Nester der ges. Wespen. Abh. nat. Ver.
Hamb. 1856, 1 pg. 146 Est. XV
Compr. tot. 0/57 Hin ya 4 mn.
As antennas são claviformes ; metathorax muito en-
clinado posteriormente, com forte sulco mediano, o qual
tambem se extende aos scutellos. A cor predominante
é a amarella, principalmente nos flancos e embaixo ; no
dorso apparecem tintas brunas. (Cabeça amarella, reluzen-
te, olhos escuros, antennas algo avermelhadas, no meio
mais escuras; vertice bruno e delle partem duas linhas
de egual côr que attingem a inserção das antennas. Me-
sothorax bruno com duas faixas longitudinaes, amarellas;
scutellum com duas manchas brunas indistinctas. Petioio
na metade posterior bruno; os demais segmentos em
cima brunos com orlas posteriores amarellas, assim como
o bordo anterior do II segm. Azas hyalinas, fortemente
irisadas ; nervuras escuras.
Hab. Mus. Paul.: Rio Juruá - Amazonas ; Bolivia ;
Surinam.
11. Genero Polyina Leper.
Lepeletier, Hist. nit. Insert. Hymen. I, 1735 pg. 533.
Subgen.: Clypearia Sauss. Monog. Fam. Vesp. II p. 165
Pseudopolybia Sauss. Mém. soc. phys. hist. nat.
Genève XII. I, 1863, p. 237
Caracterisação do genero. Trata-se aqui de um
dos generos mais difficeis na sua comprehensão como
— 165 —
erupo natural, visto comprehender formas as mais di-
versas e que entre si, à primeira vista, apparentam
offerecer caracteres seguros para a sua separação. Sem-
pre, porém, vamos deparar, no estudo comparativo,
com outras tantas formas intermediarias que impossi-
bilitam a divisão e teriamos unicamente augmentado
a difficuldade.
Tambem os seus limites com os generos visinhos
não são muitos claros; é o que muito trabalho dá ao
começo do estudo, até a vista ter-se habituado bem a
reconhecer alguns caracteres subtis.
Palpos labiaes de 4 artigos, gradativamente me-
nores; palpos maxillares com 6 artigos. Mandibulas de
4 dentes pouco graduados. Clypeo em angulo agudo ou
obtuso (salvo em Clypearia e + Pseudopolybia). Thorax
variavel, geralmente comprimido, metathorax com sul-
co. Abdomen com o 1º segmento sempre em forma de
petiolo, assaz variavel, podendo ser : campanulado ou cu-
puliforme; linear na base e o resto dilatado ou quasi ou
completamente linear, ou cylindrico. O resto do abdo-
men egualmente variavel, deprimido, sendo o Il seg-
mento sempre o maior.
Facilitará certamente a differenciação si revermos
novamente os caracteres dos generos visinhos pelos
quaes estes se distinguem de 7 olybia.
Polistes. Nunca em Polybia observamos o petiolo
tão perfeitamente infundibuliforme como neste genero ;
para a distineção nitida basta, porém, reconhecer a fór-
ma das valvulas da inserção do petiolo, simples em
Polybia, duplas em Polistes.
Apoica. O abdomen muito longo com os segmen-
tos II—IV não estreitados posteriormente, assim como
a conformação da cabeça (olhos e oceilos muito gran-
des) são caracteres que em Polybia não encontramos.
Tatua. Clypeo com 2 denticulos no angulo infe-
rior; o abdomen cordiforme, o II segmento de base mui-
to larga. Mandibulas com 5 dentes.
Synoeca. A cabeça muito grande, a forma do me-
tathorax (sem sulco) e a do abdomen em cône alonga-
— 166 —
do com o II segm. campanulado caracterisam bem este
genero.
Leipomeles. Este genero só se reconhece contan-
do o numero de segmentos dos palpos labiaes (3) e
maxillares (9).
Mischocyttarus. Petiolo muito longo, cylindric»,
bituberculado, IT segm. infundibuliforme dilatando-se
suavemente até a sua metade; horizontal em cima e
embaixo fortemente convexo.
Em todos estes generos observamos, justamente ao
contrario do que em Polybia, muito pouca variadb hi-
dade na forma, de modo a + isti guirmos as especies
quasi unicamente pelo colorido.
Quanto à distribuição geographica devemos reco-
nhecer que é um genero principalmente americano com
poucos representantes asiaticos e africanos.
Dou em seguida uma chave para as especies bra-
zileiras, a qual, ainda que imperfeita em alguns pontos,
por certo auxiliará ao principiante. Saussure da 6 di-
visões principaes, as quaes, porém, não acceitei todas
por occorrerem formas intermediarias que apagam os
limites traçados.
CHAVE DAS ESPECIES BRAZILEIRAS
A Clypeo alongado e trun-
cado como em Odynerus,
sem formar angulo oudente. Sub-genero Clypearia
Petiolo triangular, depri-
mido; o Il segm. forma, na
base, 2 fortes angulos la-
teraes; preto assetinado com
desenho amarello . . À apicipennas.
B, Com os caracteres ge-
nericos ; abdomen normal. Polybia (prop. dit.)
Divisão pela forma do pe-
tiolo :
a,
ad,
C;
d,
ee,
— 167 —
Petiolo muito curto, cam-
panulado, ou cupuliforme;
thorax de fórma anormal.
Mandibulas curtas, cly-
peo egualmente curto, tri-
cuspido ; thorax piriforme,
circular, na frente, posteri-
ormente estreitado . ;
Clypeo regular ; protho-
rax largo mas anguloso,
metathorax estreitado. Fôr-
mas diminutas (6,9 mm.)
Com 2 manchas circula-
res no I! segm. abdom.
Com 3 manchas c'rcu-
lares ; ; À à
Petiolo muito curto, sub-
triangular ; a porçäo linear
limitada ao primeiro terço,
o resto mais ou menos cam-
panulado. IH cellula cubital
diminuta, III quadrada.
Especies mnito diminutas
(7 mm.); abdomen estreito,
alongado.
Thorax de estructura re-
gular : cumprimido e alon-
gado.
Desenho parco ; abdomen
só nos | e Il segm. regu-
larmente orlado ; :
Desenho muito variega-
do e orlas dos segmentos
amarellos; a do Il conti-
nua lateralmente e sobre
uma porção anterior 4
2 vespiceps Sauss.
3 pumila Sauss.
3º bella R. v. lh.
A minutissima Spin.
44 mm. sedula Sauss
dd,
CG;
99;
U,
ad,
— 168 —
Thorax curto, largo e
não comprimido ; pro e me-
sothorax arredondados ; pe-
tiolo mais estreito
Especies maiores (10
mm.) antes globosas ; abdo-
men grosso com petiolo
bem campanulado.
Clypeo, vertice e protho-
rax amarellos, com dese-
nho preto; II segm. pon-
tuado
Com pouco desenho; der-
me liso.
Todos os segmentos ab-
dominaes orlados
Só Te IT segmentos orla-
dos; algum desenho bruno.
Petiolo muito alongado
(pelo menos do comprimen-
to do thorax), linear ou
cylindrico.
Petiolo perfeitamente cy-
lindrico, no apice tubercu-
lado. Tibia II com um só
espinho . :
Petiolo achatado, quando
muito no ultimo terço insen-
sivelmente alargado.
Totalmente preta, azas
amarelladas ; (compr. 17
mm.) !
O thorax é preto ; algum
desenho amarello.
O abdomen contrasta pe-
la côr avermelhada .
5 nana Sauss.
6 sylveiræ Sauss.
7. quadricincta Sauss.
8 bifasciata Sauss.
9 filiformes Sauss.
10 carbonara
Sauss.
. 11 injucunda Sauss.
CE
AP
IV,
— 169 —
Abdomen preto com de-
senho amarello.
Pequena; petiolo bituber-
culado no terço posterior,
apice em cima bossulado.
Desenho amarello parco.
Desenho amarello bas-
tante variegado.
Grande ; petiolo sem tu-
berculos ; desenho » seme-
lhante ao de P. metatho-
raxica é à
Corpo bruno ou amarel-
lado-ferrugineo ; desenho
variegado.
Cor bruna, com desenho
amarello; prothorax largo.
Ferruginea, desenho de
Ey 1 Osclaia,’* Corpo. mais
delgado .
Ferruginea, semelhante à
precedente, porém o petiolo
é mais alargado e o corpo
mais robusto
Petiolo de forma variavel:
infundibuliforme ou da me-
tade em diante subitamen-
te alargado; comprimento
sempre inferior ao do tho-
rax, nunca menor que o
do Il segm. abd.; nunca
coin os caracteres das di-
visões anteriores.
Corpo puramente preto.
Especies menores (12
mm. mais ou menos).
Antennas e pés pretos.
Azas transparentes, bor-
12 pediculata Sauss.
13 suffusa Fox
14 rufidens Sauss.
15 mexicana Sauss.
16 surinamensis Sauss.
Ei chapadee Fox
do preto . : . 18 nigra Sauss.
dd,
ddd,
bb,
bbb,
ll,
e Ec e
Azas pretas, apice lacteo.
Azas transparentes, cellu-
la radial mais escura e
antennas e pés brunos.
Tamanho regular ; inteira-
mente preta ; uma man-
cha amarella na aza.
Especies maiores (m. m.
19—17 mm.).
Pés amarellos .
Pes sempre escuros.
Prothorax anguloso
Prothorax arredondado.
Petiolo fortemente dila-
tado À :
Pretos com desenho ama-
rello.
Com pouco desenho (segm.
abd. nunca todos, quan-
do muito osI.°* finamen-
te orlados).
Nunca com manchas gran-
des sobre o metathorax.
Puramente pretos; só scu-
tellos amarellos (< às
vezes mais desenhado).
Fórma menor, mais del-
gada À À À
Forma maior, mais glo-
bosa à é
Pretos (com leve sombra
bruna) ; scutellos nunca
inteiramente amarellos.
Clypeo e fronte amarello-
avermelhados ; postscu-
tellum e algum desenho
mais, amarellos
Cabeça sempre unicolor,
preta.
20 atra Oliv.
21 heydeniana Sauss.
19 ypiranguensis R. v. Th.
. 22 angulicollis Spin.
,
23 angulata Fabr.
24 lugubris Sauss.
25 scutellaris White
26 jurinet Sauss.
27 frontalis Fox
mM,
MM,
n,
nn,
pp,
44;
aad,
Aza escura com apice
branco-amarellado
Colorido das azas mais ou
menos uniforme.
Bordos post. do prothorax
e do petiolo e as nervu-
ras das azas. amarellos
Linha amarella sobre o
postscutellum. nervuras
brunas 3 : Ê
Metathorax e scutellos com
manchas e os bordos
post. do prothorax e dos
le II segm. abd. ama-
rellos ; petiolo longo
Com rico desenho amarel-
lo, inclusivê todos os
bordos dos segm. abd.
Corpo menor (m. m. 12
mm.)
Pes e azas amarellos
Pes pretos, azas enfuma-
çadas . É :
Corpo maior, mais forte
(m. m. 16 mm.)
Petiolo linear no I terço;
o resto campanulado,
cupuliforme. À ;
Petiolo quasi triangular,
deprimido (quasi como
em Polistes); o colorido
amarello mais escuro
Bicolores : o colorido do
thorax contrasta sigu-
larmente com o do ab-
domen.
Thorax preto, abdomen
vermelho.
25 tinchpenns For
29 flavitincta Fox
SO lator Fox
31 metathoraxica Sauss.
32 multipicta Halid.
aol occidentalis Ole.
34 hlacea Fabr.
39 sycophanta Grib.
— 172 —
es Muito grande (18 mm.)
s, Especies menores (12 mm.)
Prothorax anguloso ; uni-
cos desenhos amarella-
dos: bordo post. do
proth. e ant. do postscut.
tt, Prothorax arredondado ;
desenho mais variado ;
metathorax com forte
sulco longitudinal
Cabeça e abdomen pretos,
thorax aureo-sericeo.
Prothorax arredondado.
Bordo ant. da aza preto.
Bordo da aza ferrugineo
ou amarelo.
Abdomen com vivo brilho
furta-cor
Abdomen escuro, ligeira-
mente assetinado.
Prothorax rebordado, com
margem cortante, al-
eum desenho amarello-
claro sobre a cabeça, o
thorax e os pés.
HO,
UU,
Cabeça e thoraz pretos,
abdomen bruno; rico
desenho amarello ; I ar-
tigo antennal claro
aaaa, Gor fundamental bruna,
ferruginea ou a:narella
Especies robustas e gran-
des.
rr.
b,
seom. abd. orlados .
CC, . Com pouco. desenho M
31
36
dimidiata Oliv.
rejecta Fabr.
38 sulcala Sauss.
|
39
sericea Oliv.
AO aurichalcea Sauss.
41 chrysothorax Web.
marginata Fox
furnaria R. v Ih.
Desenho variado, todos os -
43
paraensis Spin.
seem. com 2 faixas, 0.
resto lo abdomen é preto
44 flavicans Far.
9,
h,
hh,
hhh,
— 173 —
Especies delgaaas, medias
ou pequenas.
Pequenas (9-11 mm. ),
amarelladas ou ferrugi-
neas, sem desenho vivo.
Menor, petiolo delgado
(anus arredondado)
Mais forte, petiolo poste-
riormente alargado ; so-
bre o thorax uma linha
longitudinal escura
Medias, brunas ou ama-
rellas, sempre com de-
senho.
Grupo vicina, brunas (ca-
beça e metade do tho-
rax quasi pretas) algum
desenho amarello esver-
deado, nunca todos os
segm. abd. orlados (em
baixo mais largamente
do que em cima).
Prothorax anguloso, sulco
do metatliorax forte
Clypeo arcado, reluzente
e preto ; petiolo com
dilatação brusca.
Egual estructura, mas O
colorido é mais rico
Clypeo chato, bruno e
amarello, petiolo mais
longo, pouco e suave-
mente dilatado
-Prothorax arredondado.
Metathorax sem sulco, co-
lorido de vicina .
Bruno-amarellada, meso-
thorax claro no meio,
escuro nos lados. 5
. 49 infernalis Sauss.
. 46 emaciata Luc.
47 vicina Sauss.
. 48 anceps Sauss.
. 49 cassununga R. v. Lh.
. 00 buyssont R. v. Lh.
91 ampullaria Moeb.
RRR,
ddd,
/,
ll,
lil,
— 174 —
Sempre com desenho va-
riado.
Orlas dos segm. pouco vi-
vas (às vezes só nos I-III) 52 a@codoma Sauss.
Orlas sempre distinctas, no
Il assäz larga e prolon-
cada lateralmente; III
celula cubit. mais larga
do que comprida . 53 fastidiosuscula Sauss.
Il segm. ainda com uma
faixa basal; petiolo no
apice campanulado . D4 septentrionalis R. v. Ih.
Maiores, mais delgadas,
desenho assaz variado.
Le Il segm. amarello-ferru-
gineos, os demais pretos 97 pallipes Oliv.
Base do petiolo muito
fina. IT nervo recorrente
muito afastado para fora 58 catillijex Moeb.
Sem estes caracteres, po-
rem muito variavel no
desenho e na cor fun-
damental. : . 96 fasciata Oliv.
DD meridionalis R.v. Ih.
Além destas dou ainda a descripção de 6 especies
brazileiras as quaes, pela deficiencia da deseripção origi-
nal, não pude reconhecer. Smith (Frederick) do British
Museum, limitou-se a referir colorido, sem caracterizar
as suas especies pela forma ou semelhança : 59 Polybra
albopicta Smith (P. sedula). 60 brunea Curtis, 61 cor-
date Smith, 62 duligens Smith, 63 enxius Smith, 64 go-
rylordes Fox.
Sub-Generd Ciypearia Suuss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. IL pag. 165.
O clypeo não termina por um dente ou angulo,
mas é, como em Odynerius, alongado e truncado em
linha recta, anteriormente.
1. Polybia apicipennis (Spin.
Polistes apicipennis ee Voy. Entom. Ghaliani
DMA DA
Saussure Mis Hank Ve IT pag. 166, Est.
A VIE og 6.
Compr. tot. 10,5 mm.; parcial 7 mm.
Env. 14 mm. “(18 2)
Cabeça achatada, posteriormente concava ; olhos es-
treitos, attingindo a base das mandíbulas, recorte obtuso ;
ocello anterior separado dos pesteriores por uma depressão.
Thorax largo, sem angulos fortes. Petiolo curto, depri-
mido, quasi triangular. II segmento quadrado, com base
angular; de largura maior que o comprimento.
Cor fundamental preta; derme assetinado. Clypeo
amarelio com uma faixa irregular, preta, no meio; nas
mandibulas e inserção das antennas, com desenho ama-
rello. Ainda o seguinte desenho amarello : bordo post.
do p'othorax, uma linha muito fina no postscutellum, os
seus angulos, os bordos dos segmentos abdominaes, sendo .
o I muito estreito, os demais largos, notando-se que a
do Il se prolonga lateralmente até os angulos.
Azas transparentes, ferrugineas, com 0 apice cin-
zento.
Celiula radial estreita, longa, attingindo o apice ;
IV cellula cubital muito grande.
Hub: Para.
Genero Polybia (propriamente dito)
DIVISÃO PSEUDOPOLYBIA
Saussure, Mélanges Hymenopt. Il. Mem. Soc. Phys.
et Hist. nat., Genève XIV pag. 67.
Mandibulas muito curtas, fortemente quadridenta-
das ; clypeo curto, deixando a bocca à vista. Abdomen
séssil, 2.° segmento cupuliforme.
== AT =
#2. Polybia vespiceps ‘aus.
Saussure, l. c. ibid. pag. 67, Est. IL fig. 27.
Compr. tot. 14 mm.; aza 18 mm.
Cabeça triangular; clypeo largo e curto, bordo
inf. tricuspido. Olhos estreitos, ocellos em triangulo
alongado ; entre as antennas uma protuberancia com um
sulco. Thorax muito largo e arredondado adeante,
mesothorax circular, metathorax estreitado; seutellos
convexos. Abdomen mais largo que o thorax, depri-
mido ; ; petiolo curto, cupuliforme.
De côr bruno-esverdeada. Clypeo, mandibulas, or-
bitas, duas manchas entre as antennas, uma linha, inter-
rompida, sobre o vertice, o bordo post. do prothorax,
duas linhas sobre o mesothorax, angulos anteriores do
scutellum, duas manchas alongadas sobre o metathorax,
sobre os flancos e orlas estreitas sobre os segms. abds. :
amarellos. Pés claros, com desenho bruno. Azas traus-
parentes, um pouco amarelladas,
Hab. : Brazil (Viag. Freireiss).
POLYBIAS, sem os caracteres que apresenta a
P. vespiceps. Forma das mandibulas e do clypeo
normal.
3. Polybia pumila Sauss.
Saussure, Mélanges Hymen. Méin. Soc. ae et Hist.
nat. Géneve XIV, II pag. 69, n 65
Compr. tot. 6,5 mm.; aza 5,5 mm.
Tamanho de P. sedula porém de forma não com-
primida e mais refeita. Cabeça larga ; prothorax egual-
mente largo e de margens talhadas; metathorax algo
estreitado, curto ; disco do mesothorax circular. Abdo-
men largo e curto; petiolo minusculo, muito campa-
nulado, cupuliforme, só com metade da largura do II
segmento.
— 177 —
Insecto bruno ou preto. Antennas ferrugineas em
baixo; desenho amarello-testaceo seguinte: as mandi-
bulas, orbitas, e os bordos anterior e lateraes do clypeo ;
dous pontos entre as antennas ; na parte posterior do
vertice duas linhas obliquas. O bordo posterior do
prothorax, sobre o mesothorax duas linhas, dous pontos
no scutellum, outros dous no postscutellum, duas linhas
sobre o metathorax e sobre os flancos; de egual côr
amarela. Orlas dos segmentos abdominaes 2--3 ou 4
e sobre o Il duas manchas. Pês brunos, com algum
colorido ferrugineo. Azas transparentes, nervuras bru-
nas. III cubital com nervo externo muito sinuado.
Hab.: Brazil (Coll. Freireiss,.
Mus. Paul.: Perü--Maracapatä.
Ainda que alliada deve ser considerada diversa
desta a especie seguinte.
3.º Polwbia bella ZX. v. Th.
(Est. IV fig. ©)
R. von Ihering, Ann. Soc. Entom. France LXXTI,
1903 (1) pag. 146 |
Comp. total 6 mm.; env. 10,5 mm,
Muito pequena, porém de fórma larga e globosa ;
todo o corpo finamente pontuado e um pouco sericeo.
Cabeça larga, clypeo em angulo quasi arredondado ; logo
na sua base dá-se a inserção das antennas; os olhos
attingem as mandibulas.
Thorax truncado angularmente na frente, nada es-
treitado ; postscutellum prolongado en angulo agudo ;
metathorax lateralmente arredondado, com o sulco me-
diano pouco profundo. Abdomen largo, séssil; o seu
primeiro segmento cupuliforme, com metade da largura
do 1.º; este relativamente largo e comprido. Il? cel-
lula cubital muito estreita, IIl.º grande, mais comprida
na base do que em cima.
Corpo preto, reluzente, com o seguinte desenho ama-
rello, delicado: clypeo amarello com um largo traço
bruno no meio; orbitas internas larga, externas fina-
mente bordadas; dous pequenos traços unidos, entre as
antennas; dous outros sobre o vertice. tuas linhas
finas indicam os bordos anterior e posterior do prothorax;
um traço abaixo das azas; bordo anterior do scutellum
indicado por dous pontos, e do postecutellum por uma
linha; sobre o metathorax duas manchas alongadas.
Abdomen preto, só o II° segmento com estreita orla
posterior e tres pequenas manchas ovaes na base: uma
no centro e uma de cada lado. Pes, antennas na base e
embaixo, brunos; mandibulas russas com base amarella.
Azas transparentes, vivamente ivisadas, nervuras pretas.
Habit. : Surinam (Typo, Mus. Paul.)
4. Polybia minutissima (Spin.)
Polistes minutissima Spinola, Mem. accad. sc. Torino
(2) (XU ASST, po 62009
Polybia minutissina (n. sp.) Saussure, Monogr. Fam.
Vesp. Ll pg. 170
subsp. sedula Sauss.
Polybia sedula Saussure, Monogr. Fam. Vesp. II pq.
169, Est. XXI fig. 3—6
Polybia exigua Saussure, idem pg. 173, Est. XXII fig. 1.
Compr. tot. 5 mm. (6 mm.) ; Env. 12 mm.
Especie extremamente pequena, delgada e bastanie
variavel no colorido. Petiolo sempre curto, sensivel-
mente campanulado posteriormente, na base estreito; O
Il segmento ebdominal é mais largo do que comprido.
Caracteristica é tambem a forma triangular do post-
scutellum, cujo angulo inferior se extende muito sobre
o metathorax, devido a ser este mais alto nos lados do
que no meio.
— 179 —
O colorido é em geral parco: a cor geral é preta.
As orbitas e o clypeo são orlados de amarello; duas
a tres linhas desta côr sobre o flanco, uma em cada
lado do metathorax, as orlas dos dous ou tres primei-
ros segmentos abdominaes e, em geral, ainda uma
manchinha amareila na base do segundo segmento. A
antenna é ferruginea na base e no flagellum inferior-
mente. Os pés tem ligeiro colorido amarello-ferrugineo,
principalmente no par anterior que é quasi todo claro.
As azas são hyalinas, com brilho irisado e nervuras
pretas.
Habit. : Para (Spinola); Quixos (Sauss., coll. Spi-
nola). Mus. Paul.: Espirito-Santo; Piquete, S. P.
E° esta a forma descripta primeiro por Spinola e
depois por Saussure que, julgando-a nova, deu-lhe o
mesmo nome (provavelmente devido ao rotulo escripto
por Spinola).
O colorido desta especie, porém, não é constante;
tratamos atê agora só da forma de colorido mais pobre.
Em outros exemplares da colleeção do Museu já appa-
recem varios outros desenhos (linhas nos scutellos, en-
tre as antennas, desenvolvimento da mancha do segundo
segmento abdominal de modo a transformar-se em faixa
etc.) de modo a passar gradativamente à forma descri-
pta como P. sedula por Saussure.
Aos especimens que bem corresponderem à descri-
pção dada por este auctor podemos distinguir como
4.* Polybia minutissima sedula (Sauss.)
De estructura egual à da especie typica, porém o
desenho é mais rico. Todo o clypeo, excepto uma li-
nha preta mediana, é amarello ; as orbitas, dous pontos
entre as anternas, uma linha interrompida sobre o ver-
tice, os dous bordos do prothorax, duas linhas sobre o
mesothorax, o bordo anterior do scutellum e todo o
postscutellum, duas linhas no metathorax e varias (4— 4)
obliquas no flanco; todos os segmentos abdominaes com
orlas estreitas, tendo ainda o Il segmento uma mancha
— 180 —
basal, lateral, formando quasi que uma faixa, sem-
pre interrompida no meio. De resto é egual à- forma
typica.
Mus: Paul.: Est. S. Paulo: Os Perts, Jundiahy,
Franca, Estação Rio Grande; Estação Espirito-Santo ;
Bahia; Amazonas, rio Juruá. Perú, Surinam.
A differenciacão de P. exigua Sauss. da subsp. se-
dula julgo impossivel, por se tratar de um distinctivo
muito subtil (conformação de petiolo), nem sempre bem
pronunciado e por haver sempre formas intermediarias
que então será impossivel classificar. "Tambem o modo
de nidificar, que em algumas especies serve excellen-
temente para a classificação, é absolutamente impresta-
vel para distinguir as fórmas aqui discutidas.
> Polybia nana Sauss.
Saussure, Mél. Hymen., Mém. Soc. Phys. et Hist. Nat.
Genève XIV. Il pag. 70. Est. 2 fig. 28.
Compr. tot. 7 mm.; aza 6 mm.
Especie visinha de P. m. sedula porêm de forma
um tanto diversa: Corpo mais largo, não comprimido ;
clypeo largo, terminando por um angulo obtuso; pro-
thorax muito largo, arredondado, mesothorax circular ;
metathorax curto; petiolo alongado, alargando-se sua-
vemente. A cor predominante em cima é bruno-ferru-
ginea; o lado inferior eo desenho são amarellados ; este
consiste no seguinte : bordos do prothotax, duas linhas
sobre o mesothorax, outras sobre o metathorax; os
scutellos inteira ou parcialmente; orlas dos segmentos
abdominaes e à base do II; linhas sobre os flancos;
cabeça amarellada com duas linhas brunas sobre o ver-
tice; antennas claras, só com a parte basal mais es-
cura. Pés claros; azas transparentes, nervuras ferrugi-
neas ; a cellula radial alongada.
Habit.: Brazil. (Coll. Freireiss).
— IST —
G. Polybia sylveirce Sauss:.
Saussure, Monog. Fam. Vesp. IT pg. 171,
Est. XX, fig. 2
Fox., Proc. Acad. Nat. Se. Philadelphia
1598, LIT pg. 450
Compr. pare. 7,0 mm.; Env. 16 mm.
Clypeo largo, pouco angulado; thorax anterior e
posteriormente um pouco estreitado, metathorax arre-
dondado. Petiolo curto, quasi em triangulo equilatero,
infundibuliforme; Il segmento longo e largo, os de-
mais geralmente encolhidos (Caba). Com leve pellame
cinzento e o Il segmento abd. com a parte basal pon-
tuada.
Insecto preto com gracioso desenho amarello :
clypeo, excepto uma mancha preta terminada por #
dentes; 2 manchas entre as antennas, orbitas, uma linha
(geralmente dividida no meio) sobre o vertice; outra
de forma irregular entre os ocellos; os dous bordos
do prothorax; linhas sobre os flancos e metathorax,
bordos anteriores dos scutellos; orlas de todos os se-
gmentos abd., a do Il um pouco prolongada lateral
mente.
Azas hyalinas, nervuras pretas.
O desenho da cabeça varia um tanto, principal-
mente nos 4d em que o clypeo é amarello com 2
pontinhos pretos, assim cono a frente e o vertice, (com
{ traço preto entre as antennas); tambem o prothorax
é amarello com uma linha preta; manchas do metatho-
rax maiores. Antennas em baixo amarelladas.
Habit. : Sylveira (Minas); Rio de Janeiro.
Mus. Paul.: S. Paulo, Franca, Piquete, Rio Gran-
de do Sul, Minas, Ponte-Nova, Poços de Caldas.
Desconfia o Sr. Fox que a especie P. enxius Smith
seja synonyma desta, o que o proprio nome vulgar
«Enxu, Inxú» vem confirmar.
— 182 —
:
7. Polybia bifasciata Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. ll pg. 172.
Est. XXIT fig: 2
? Compr. pare. 7 mm., total 9.5 mm. Env. 20 mn. ?
Cabeça muito achatada, thorax estreitado adiante ;
petiojo curto (em triangulo equilatero) com metade da
largura do II segmento. Insecto preto, assetinado. So-
bre as mandibulas, a base das antennas, as escamas, às
vezes 0 anus, sobre os pés e flancos: um leve colorido
bruno. O bordo post. do prothorax, o postscutellum e
orlas dos 2 primeiros segms. abdominaes, são amarel-
los. As azas são transparentes, com bordos anteriores
brunos.
Habit. : Brazil (Saint-Hilaire leg.)
S$ Polybia quadricineta Suuss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. lf pg. 173.
Comp. pare. 9 mm. Env. 1S mm.
Especie de formas eguaes às da precedente, diffe-
rindo principalmente pela falta do colorido bruno e por
ter todos os segmentos abdominaes orlados de amarello.
Talvez um material mais rico venha a demonstrar
que não se trata senão de variedades.
Habit. . . . ? America. (Museu de Londres).
Mus: Paul. : Perú, Bolivia.
D Polybia filiformis Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. Il pg. 206, Est. XX VI
fig. S
Compr. tot. 12 mm. Env. 19 mm. (approximado!)
d' Thorax curto, prothorax largo e anguloso. Pe-
tiolo cylindrico, filiforme, mais longo que o thorax, no
meio com 2 tuberculos ; o resto do abdomen globulo-
— 185 —
so. Thorax pontuado. Olhos grandes e largos. O TI
par de tibias com um só espinho terminal. Insecto
preto com desenho amarello. Clypeo e mandibulas,
base das antennas, as orbitas, os 2 bordos do protho-
rax, 2 linhas sobre o mesothorax, o scutellum, o post-
scutellum com uma linha interrompida, 2 manchas so-
bre o metathorax, uma outra em abaixo das azas:
amarellos. Os bordos dos segmentos abdominaes 1--4
finamenta orlados de amarello, sobre o II segmento a
listra prolonga-se lateralmente. Pés mais ou menos
variados de amarello (na ©, provavelmente, menos).
Azas transparentes e irisadas, nervuras pretas, radius
ligeiramente amarellado,
Hab.: Brazil.
IO Polyvbia carbonaria Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. If, pag. 198; Est.
XXVI fig. 5.
Compr. parc. 19 mm. Env. 36 mm.
Clypeo com um sulco vertical. Prothorax arre-
dondado ; petiolo não alargado, direito. Insecto preto,
com bocca e pés brunos; antennas com apice ferrugi-
neo, base bruna. Azas transparentes, com nervuras
ferrugineas.
Habit.: Brazil.
Ak Polybia injucunda Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. Il pag. 200; Est.
XXV fig. 8.
Compr. tot 14 mm., parc. 11 mm. Env. 25 mm.
@ Prothorax anguloso, petiolo linear com tuber-
culos no meio. (Cabeça e thorax pretos, sómente o
bordo post. do prothorax e o postscutellum anterior-
mente com listras amarellas. Abdomen bruno-aver-
melhado. Azas hyalinas, amarelladas.
S Egual à femea, sómente as pontas mais finas
das antennas são enroladas, em baixo amarellas. Clypeo
— tea
prateado, metathorax com duas pequenas manchas ama-
rellas.
Habit. : Para.
Mus. Paul. : Rio Juruá - Amazonas
12 Polybia pediculata Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. II pg. 205; Est.
NVA Pigg
Comp. tot. 10,5 mm; parc. 9mm. Env. 16 mm.
Forma semelhante à de P. filiformis ; clypeo lar-
go terminado por um dente; prothorax rebordado mas
não anguloso; petiolo quasi do comprimento do tho-
rax, linear, só no apice em cima bossulado e com 2
pequenos tuberculos no terço posterior; o Il segmento
alarga-se a começar da base. (Cabeça e thorax pon-
tuados. Insecto preto, um pouco assetinado e com o se-
guinte desenho amarello: bordo anterior do clypeo, o
começo das orbitas internas, base das antennas; bordos
post. do prothorax e anterior do postscutellum, valvu-
las articulares do metathorax e orlas dos | e IL seg-
mentos abdominaes (as dos segms. seguintes averme-
lhadas '. Azas hyalinas, nervuras pretas. Péès brunos.
Habit.: Brazil.
O Mus. I aulista possue exemplares PQ desta es-
pecie, procedentes do Rio Juruä- Amazonas, que na
estructura correspondem perfeitamente à descripção de
Saussure; differem, entretanto, quanto ao colorido que,
na especie typica, apresenta varios desenhos amarellos,
ao passo que a variedade em questão é puramente preta
com uma unica listra amarellada no apice do petiolo
(e às vezes G bordo post. do prothorax levemente fer-
rugineo). Denomino a esta variante :
12" Polybia pediculata var. unili-
neata n. var.
& Differem os machos pela forma do clypeo (mais
estreitado pelos olhos grandes e o seu bordo inferior é
— 185 —
arredondado); de reste ha a mesma falta de desenho,
só a base das antennas é mais ferruginea e o bordo
do clypeo amarello.
13 Polybia suffusa 707
Fox, Proc. Acad. Nat. Sc. Philad. 1898 HI pg. 455.
Compr. tot. 7—8 mm.
Especie bastante alliada à P. pediculata; tem os
mesmos caracteres de estructura, differindo quasi que
nnicamente pelo colorido mais rico. Sua forma geral
tambem é um pouco mais delgada. De côr preta; parte
das antennas, do prothorax, abdomen e pés quasi in-
teiramente com um tom bruno-ferrugineo ; o resto do
desenho é amarello : mandibulas, bordo do clypeo, or-
bitas internas (parcialmente), os dous bordos do protho-
rax, os 2 scutellos, o metathorax, excepto nos lados,
manchas sobre os flancos, as duas extremidades do pe-
tiolo (a faixa posterior prolonga-se um pouco lateral-
mente) e os bordos de todos os segmentos abdominaes,
Habit : Chapada. |
Mus. Paul.: Espirito Santo. (Concorda esse exem-
plar perfeitamente com a descripção, sómente o meta-
thorax é preto com duas manchas lateraes).
14 Polybia rufidens Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. IT fig. 204.
Fox, Proc. Acad. Philat. 1898, II pg. 450.
Compr. parc. 13 mm.; Env. 26 mm.
Prothorax largo, petiolo longo e linear ; os olhos
quasi que attingem as mandibulas. Insecto preto com
colorido amarello e avermelhado; tambem são desta côr
as mandibulas, o bordo anterior do clypeo e as tegulas.
Amarellas são as orbitas, os 2 bordos do prothorax, os
bordos anteriores dos scutellos, 2 manchas sobre o me-
tathorax e orlas dos J.° e 2.º segmentos abdominaes ;
— 186 —
neste ultimo o amarello prolonga-se lateralmente; os
bordos dos demais segmentos são brunos. Pês preto-
avermelhados e em parte ama”ellos. Azas transparen-
tes com um tom amarellado no bordo anterior.
Habit. : Cayenne; Matto Grosso: Corumbá, Cha-
pada.
Mus. Paul. : Bolivia.
> Polybia mexicana Sáuss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. II pq. 203, Est.
AVE (ge. Or
Compr. tot. 14; pare. 11 mm. Env, 24 mm.
Especie delgada ; prothorax largo, rebordado ; pe-
tiolo Jinear. Cor fundamental bruna, derme assetinado.
Cara e vertice, na base e em cima das antennas, pretos ;
os dous bordos do prothorax amarellos, no meio preto ;
flancos pretos com bruno; mesothorax, scutellos e me-
tathorax pretos, o primeiro com duas linhas brunas
(amarelladas) ; os bordos anteriores dos scutellos e duas
manchas alongadas no metathorax, amarellos. "Todos
os segmentos orlados de amarello, às vezes sobre o pe-
tiolo duas linhas lateraes. Pés brunos, variados de
amarello. Azas hyalinas com bordo amarellado.
H:bil. : Mexico; Rio de Janeiro.
Mus. Paul.: S. Paulo; Rio Grande do Sul; Peru.
Os exemplares paulistas, combinam ¢xactamente,
com a descripção; são, porém, bem menores—? mm.
(parc.) e 11 mm. (tot.). (Dr. H. de Saussure: det.)
Ae Polybia surimamensis Sauss.
Saussur:, Monogr. Fam. Vesp. II pg. 200
Compr. parc. 10 mm., tot. 14: Env. 24 mm.
Petiolo linear, do comprimento do thorax ; de resto
com estructura e colorido geral analogos aos de Polybia
bo.
5 a
à
ve)
— IST —
fasciata : amarello variado de preto ou bruno na cabeça
e no thorax, abdomen amarello-ferrugineo com bordos
amarello-claros. Cabeça amarella no vertice com uma
mancha preta em ferradura. Prothorax e flancos ama-
rellos. aquelle com um traço bruno de cada lado; me-
sothorax bruno (ou preto) com 2 linhas medianas e
2 lateraes; scutellos variados: metathorax com duas
manchas alongadas, irregulares, flanqueando o sulco e
outras duas nos cantos superiores. Azas hyalinas, ner-
vuras bruno-ferrugineas, bordo amarello.
Habit. : Surinam, Brazil, Santarem, Rio de Ja-
neiro.
Mus. Paul. : Manaus ; Cayenna.
17. Polvbia chapadoe [or
Fox, Proc. Acad. Nat. Sc. Philad. 1898, HI pg. 453
Compr. tot. 15 mm.
Prothorax estreito, rebordado; sulco metathora- .
xico largo; petiolo alongado, fino, depois da metade
em deante gradualmente pouco alargado, o resto do ab-
domen em oval; corpo robusto.
Corpo ferrugineo, no abdomen e sobre os flancos
às vezes um tom mais escuro; na fronte um desenho em
forma de V € o vertice, pretos; antennas em cima escu-
ras; o seguinte desenho amarello é um tanto variavel:
todo o clypeo, mandibulas, orbitas, 2 linhas atraz dos
ocellos, os dous bordos do prothorax, 2 linhas ( indis-
tinctas) sobre o mesothorax, os 2 scutellos (inteira ou
parcialmente), 2 linhas largas sobre o metathorax, os
bordos dos segmentos abdominaes ( variando de só 1
atê todos), sobre os flancos e pés; azas pouco trans-
parentes, o bordo anterior fracamente amarellado, ner-
vuras e estigma brunos; Il cubital com nervura exte-
rior sinuada e angulada no ponto de juncção.
Habit. : Brazil; Chapada.
— 188 —
18. Polybia nigra (Sauss.)
Polybia atra Oliv., Saussure, Monogr. Fam. Vesp.
IT pag. 181, Est. XXIV fig: 7, (corr.)
Polybia nigra Sauss. l. cit. Est. XXIV :nota)
Compr. parc. 11 mm. Env. 26 mm.
Clypeo cordiforme ; petiolo curto, parte linear dimi-
nuta, logo alargada em globulo. (pg. 189 fig. 4). Protho-
rax estreitado. Completamente preto, um pouco assetina-
do, principalmente o abdomen. Azas mais ou menos
transparentes, excepto no bordo anterior que é intensa-
mente preto.
Habit. : Brazil; Parana.
Mus. Paul. : S. Paulo, Ypiranga, Jundiahy, Fran-
ca; Est. Espirito-Santo; Rio Grande do Sul; rara,
Minas Geraes; Rep. Argentina, Cordoba, Bolivia.
E” bastante difficil distinguir a P do 7. Aquella tem
o corpo um pouco mais robusto e o petiolo é mais grosso,
o seu compr. tot. é de 14 mm. (ao passo que obreira
mede 12 mm.) e a sua aza é um pouco mais estreita
(3 em vez de 4mm.); tambem' o sulco do metathorax
é profundo e todo este segmento ê mais auro-sericeo.
O 4 é de tamanho egual ao da obreira ( mas de
envergadura um pouco menor; o clypeo é algo mais
estreito. No colorido differe por ter o lado inferior da
antenna de côr bruno-ferruginea e pelas manchas ama-
rellas sobre os 1.% e 2.º pares de coxas.
19. Polybia ypiranguensis 7. sp.
P nicRa.—similis, differt abbominis petiolo valde lon-
giore illiusque structura diversa; alis obscuriora-
bus, violaceo micantibus, ad cellulas discordales
flavescentibus ; statura robustiore.
Compr. tot. 14, parc. 12 mm.; Env. 26 mm.
A’ primeira vista parece tratar-se da P. nigra, da
qual nao differe pelo colorido do corpo, que em ambas
PAT 4
— 189 —
as especies é intensamente preto (comtudo, P. ypiran-
guensis tem no metathorax uma leve pennugem pratea-
da e em geral o preto é opaco, quasi vellutineo). Tam-
bem na estructura geral do corpo não notamos diffe-
renga sensivel, salvo a forma do petiolo e o resto do
abdomen que é antes cordiforme como em Tatua.
Devemos pois reconhecer a presente especie :
2
1.º pelo colorido da aza que é intensamente preto
na metade basal (e no apice levemente) e amarellado
na região do estigma e das 2 e 3 cellulas cubitaes.
Vista com certa luz lateral toda a aza mostra um bello
brilho azul de aço;
2.º pela forma do petiolo que è quasi a da Sy-
noeca, isto é bastante fino na base, na metade de seu
1 2. comprimento com 2 pequenos tuberculos
| e em seguida suavemente dilatados.
y w
@ Não consegui reconhecer differença
bags entre a femea e as obreiras alem de pe-
à à quena dilataçäo que soffre o abdomen
NP “> com o desenvolvimento dos ovarios.
Petiolo 1e 3 dep. No grupo das Polybras puramente ne-
ppiranguensis, 2 de gras distinguimos, pelo prothorax forte-
nigra. mente anguloso as P. angulicollis e an-
gulata, com as quaes a presente especie não se pode
confundir mesmo por suas menores dimensões; P. car-
bonaria tem o petiolo quasi completamente linear; P.
atra e mgra differem egualmente pela forma diversa
do petiolo (menor e alargando-se a começar da base)
e tambem o colorido das azas é outro; P. lugubris
tem o petiolo de forma bastante semelhante mas trata-
se de uma especie de maiores dimensões e as azas são
inteiramente amarelladas. Todas estas especies pude
comparar por meio de exemplares bem determinados.
Unicamente a P. tinctipenmis não possuo e parece ser
justamente esta a especie mais alliada à P. ypiran-
guensis, a julgar pela descripção original.
Todavia certos caracteres citados por M. Fox não
combinam com os meus exemplares, como sejam: protho-
rax um tanto rebordado, pés e tegulas de côr bruna,
— 190 —
as margens posteriores do prothorax e do petiolo com
orias amarelladas, a cor das azas etc. Sera por isto
conveniente a comparação dos typos.
Tendo capturado na manhan de 20 de Novembro
de 1903 um enxame completo desta especie —e já ao ap-
proximar-me delle notei, pelo vivo brilho quasi violete
das azas, que não se podia tratar da commum P. negra
—preso a um galho de um arbusto, verifiquei a com-
pleta ausencia de do.
Certamente mais interessante ainda é o facto que
em relação às femeas observei neste enxame. Até agora
um grande numero de observações feitas neste sentido
tanto pelo Dr. H. von Ihering como por mim, sempre
comprovaram que tanto nos ninhos velhos como nos
rescentemente fundados assim como nos enxames, sem-
pre se encontra um numero não pequeno de femeas fe-
cundadas; no presente enxame, porém, entre os 520
Insectos que todos (salvo alguns poupados para a co. ile-
cção) foram examinados anatomicamente, sO encontrei
4 exemplares com ovarios desenvolvidos e destas 4 PP
só uma estava fecundada. Como devemos interpretar
esta observação ? Sera simplesmente uma anormalidade ?
Só repetidos exames minuciosos de enxames poderão
responder a esta pergunta.
20. Polybia atra (Ov)
Vespa atra, Olivier, Encycl. Meth. Inst. VI 674.
Polybra socialis Saussure, Monogr. Fam. Vesp. I
pg. 17%. Est XIV fig, 1 icon) A
Polybia, atra, Saussure |. cit, (Est. N XXIV, (nota.)
Comp. parc. 9 mm. Env. 22 mm.
Clypeo alargado embaixo, quasi sem formar angulo ;
prothorax largo, rebordado ; petiolo a começo cylindri-
co, para traz alargado. (pg. 189, fig. 2). Corpo intei-
ramente preto; mandibulas avermelhadas ; azas negras,
o terço apical lacteo, não transparente.
Habit. Brazil.
— 191 —
Mus. Paul. : S. Paulo, Ypiranga ; Rio Grande do
Sul.
SE. Polybia heydeniana Sauss.
Saussure, Mélanges Hymen. Mem. Soc. Phy. et Hist.
Nat. Genève XVI, 1854, IT, pg. 71, n. 67
Compr. tot. 10 mm.; compr. da aza, 8 mm.
Representa uma forma intermediaria entre P. scu-
tellaris e jurinei; estructura geral antes delgada como
naquella, forma do petiolo como nesta; metathorax
achatado e largo, sulco largo. Todo o corpo preto,
liso, levemente assetinado. Antennas brunas, embaixo
mais claras; mandibulas, e tegulas brunas. Azas trans-
parentes, com nervuras brunas; sómente a cellula ra-
dial é bastante escura.
Ainda menciona o auctor outras formas variantes
de pês claros, com leve desenho sobre o thorax e sem
a mancha caracteristica no apice da aza.
Habit.: Brazil.
22. Polybia angulicollis (Spin.)
Polistes angulicollis Spinola, Mém. Accad. sc.
Torino (2) XITI, 1851, pg. 77
Polybia angulicollis Saussure, Monogr. Fam.
Vesp, 11 pg. 184, Est. XXIII fig. 3.
Compr. parc. 13 mm.; Env. 34 mm.
Prothorax anguloso e produzido em espinhos; pe-
tiolo de comprimento médio sem dilatação subita, com
2 tuberculos lateraes. Completamente preto e reluzente.
Ponta das mandibulas avermelhada; antennas e azas
ferrugineas; pés na base pretos ou até a metade va-
riados de amarello, tibias e tarsos amarello-claros.
Habit. : Para.
— 192: —
23. Polybia angulata (Fabr.)
Polistes angulata Fabricius, Syst. Piez 1804 pg. 275, n. 32
Polybia angulata Saussure, Monog. Fam. Vesp. II pg. 185
Compr. pare. 15 mm.; Env. 36 mm.
Especie como a precedente com prothorax com
espinhos e preta, differindo pelas mandibulas mais aver-
melhadas, antennas mais escuras, ainda que às vezes
brunas, as suas azas são menos amarelladas e os seus
pês puramente pretos.
Habit. : Brazil.
Mus. Paul. S. Paulo Ypiranga, Jundiahy, S. José
do Rio Pardo, Franca; Est. Espirito-Santo; Amazo-
nas; Venezuela; Peru, Maracapata.
24. Polybia lugubris (Sauss.)
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. Il pg. 180, Est XXIV,
fig. #
Compr. pare. 15 mm. Env. 33 mm.
Especie bastante semelhante ao grupo de P. an-
sulata differindo pelo prothorax arredondado, um
pouco estreitado, sem espinhos e pelo petiolo que atras
é intumescido, subitamente alargado. Insecto inteira-
mente preto. reluzente, antennas não coloridas; azas
com um tom amarello.
Habit. : Guyanna
Mus. Paul. : Jundiahy.
#5. Polybia sceutellaris (White)
Myrapetra scutellaris White, Ann. et Mag. Nat.
Mist. VII, 1841, pg.322, Est. IV, fig. 4=7
Polybia scutellaris Saussure, Monogr. Fam. Vesp. Il
pg. 192, Est. XXITI fig. 4.
Fox, Proc. Acad. Nat. Sc. : Philadelphia 1898, I
pg. 449
Ei ee
Polybia ruficeps Schrotthy, Ann. Mus. B. Aires 1902
Tomo VIII pg. 116
Compr. parc. 8—9 mm.; tot. 9-11 mm. Env. 18 mm.
Clypeo cordiforme, geralmente com um pequeno
sulco; prothorax arredondado ; petiolo curto, só atrás
um pouco alargado. Corpo preto, geralmente um pouco
assetinado, scutellum e postscutellum vivamente amarel-
los. Azas transparentes, nervuras pretas, no bordo ante-
rior e no apice levemente enfumaçados. Accidentalmente
ainda surgem os seguintes desenhos : antennas inferior-
mente ferrugineas, artigo basal da antenna com um
traço amarello. De egual côr são ainda o bordo inferior
do clypeo, leve indicação de orbitas internas, uma lista
accompanhando o bordo posterior do prothorax, um traço
na base da aza, leve bordo no petiolo e os segmentos
abdominaes inferiormente com listas tenues. Apparecem
individuos puramente pretos (P. heydeniana Sauss. ?)
d'. Distinguem-se os machos pelo seu clypeo um
tanto estreitado, revestido de pellos prateados. pelas
coxas amarellas e antennas em baixo e na ponta fer-
rugineas (forma do flagello co no nas obreiras); apre-
sentam tambem, geralmente o maximo do desenho que
as obreiras possuem só parcialmente.
9 As femeas distinguem-se das obréiras, não pelo
tamanho que é egual, mas pelo colorido da aza que é
mais bruno. (1)
Refere-se Fox a uma variedade que em Chapada
predominava e se distingue pela cabeça e parte ante-
rior do thorax avermelhados. Colloco tambem neste
grupo a especie descripta por CG. Schrottky, proveniente
da Argentina, sob o nome de Polybra r uficeps, que não
representa sinão uma variedade de P. scutellaris, po-
dendo subsistir o nome para designar a variedade em
questão, que anteriormente não fora denominada. Cor-
responde-lhe na P. occidentalis uma variedade analoga,
Dr. H. v. Thering—Zur. Biol. der soc. Wespen Braz., Zool.
Anzeiger n. 516, 1896 (pe. 451).
ERON es
a que Fox tambem se refere. Para poder emittir opi-
nião segura precisa-se comparar varios ninhos com todos
os habitantes destes typos‘, o que forçosamente dara
resultados definitivos.
Habit. : FE’ a especie mais commum no Est. de
S. Paulo; Brazil meridional; Rep. Argentina.
2G. Polybia jurinci Sauss.
Saussure, Monog. Fam. Vesp. Il pg. 176, Est. XXI
fig.
Compr. tot. 14 mm.; parc. 11 mm. Env. 20-23 mm.
Clypeo largo, terminando em angulo agudo ; corpo
robusto ; prothorax largo mas sem angulos ; petiolo do
comprimento do II segmento, linear na base e da me-
tade em deante cupuliforme. (Com excepção dos dous
scutellos que são de um amarello vivo, todo o cor-
po é puramente preto. Azas transparentes, nervuras
pretas, no bordo anterior pretas e enfumaçadas.
Habit. : Brazil.
Mus. Paul.: Rio Jurua, Amaz., Peru, Maracapata,
Bolivia, Gayenna, Surinam.
27. Polybia frontalis fox
Fox, Proc. Acad. Nat. Sc. Philadelphia 1898, III
pg. 455.
Compr. tot. 11—12 mm.
Clypeo largo, em angulo obtuso, levemente pon-
tuado; ocellos em triangulo chato; prothorax curto,
rebordado ; metathorax curto, concavo com sulco leve
e com uma prega de cada lado; o petiolo é um tanto
grosso, pouco depois da base em deante alarga-se gra-
dualmente; pernas fortes. Corpo preto; a fronte, o cly-
peo, parte das antennas e mandibulas russos; as orbi-
tas posteriores, os bordos do prothorax, o postscutellum
em cima, às vezes o bordo do petiolo e manchas sobre
— 195 —
os flancos e pés. Azas subhyalinas com nervuras escu-
ras; a nervura externa da Il cubital angulada antes
de se prender 4 costal.
Habit: Brazil, Chapada.
O auctor considera esta especie pela sua estructu-
ra alliada à P. atra (socialis), differindo, além do colo-
rido, pela fórma do petiolo.
23. Polybia tinctipennis ox
Fox, Proc. Acad. Nat. Sc. Philad. 1898, IH pg. 452
Compr. tot. 13 mm.
Clypeo quasi cordiforme, pontuado; os olhos não
attingem a base das mandibulas; prothorax curto, le-
vemente rebordado, principalmente nos lados; os dous
scutellos e o metathorax fortemente pontuados, exten-
dendo-se o sulco mediano sobre todos os tres ; os flancos
tambem são pontuados assim como o petiolo ; estecur-
to, quasi claviforme, base forte e um pouco antes da
metade em deante gradualmente alargado; o resto do
abdomen cordiforme. A côr geral é preta e assetinado
de bruno; as margens posteriores do prothorax e do
petiolo orladas de amarello escuro. Azas escuras nos
dous terços basaes, com nervuras pretas; no apice
branco-amarelladas com estigma e nervuras amarelas ;
II cubital alta 2 pouco larga, a II com nervura exter-
na sinuada.
Habit. : Brazil: Chapada.
29. Polybia flavitincta Jox
Fox, Proc. Acad. Nat. Sc. Philad. 1898, III pg. 452
Compr. tot. 13 mm.
Clypeo antes largo, no apice pontuado ; o triangu-
lo dos ocellos com base estreita; prothorax em cima
largo, não anguloso; metathorax quas perpendicular,
fortemente sulcado, com pontuação nitida e leve pello
— 196 —
prateado. Petiolo alongado, estreito na base, alargan-
do-se depois subitamente, infundibuliforme. Preto, com
denso pellame bruno, sedoso; flagello, tegulas e os pés,
da metade em deante: bruno ferrugineos; finas listras
amarellas, uma sobre o bordo posterior do prothorax e
outra no do petiolo. Azas com bordo anterior, nervu-
ras e estigma amarellados, o resto transparente ; II cu-
bital quasi triangular, a III encima estreitada.
Habit. : Brazil —Santarêm.
O auctor dila alliada às P. lugubris e angul-
colles.
30. Polybia latior 70%
Fox, Proc. Acad. Nat. Sc. Philad, 1898 III pg. 451
Compr. tot. 12-13 mm.
Clypeo largo, pontuado ; os olhos quasi que attin-
gem as mandibulas; prothorax estreito, levemente re-
bordado, mesothorax com sulco, subconcavo. Petiolo
estreito na base, da metada em deante alargado, intu-
mescido (em forma de pata de cavallo). Corpo preto
com pellame prateado; postscutellum com listra amarel-
la, assiin como os dous ultimos pares de coxas. Pés
brunos ; azas brunas na base e no bordo anterior, o
resto transparente, enfumaçado ; nervuras e estigma bru-
nos; III cellula cubital pouco larga, sua nervura exte-
rior sinuada.
Habit : Brazil, Chapada.
3H. Polwbia metathoraxiea Sous.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. 11 pg. 198, Est. XXV,
fig. 1
Compr. tot. 15 mm., pare. 13 mm.; Env. 27 mm.
Prothorax truncado, quasi que anguloso ; os scu-
tellos e o metathorax quasi que formam um plano en-
clinado ; petiolo com pouco mais da metade do compri-
— 197 —
mento do thorax, quasi que todo linear, só no apice
algo alargado ; coxas assäz grossas. Clypeo alongado,
com angulo obtuso.
Preto. Antennas na base pretas, de resto princi-
palmente em baixo, ferrugineas; sobre as orbitas in-
ternas, o bordo posterior do prothorax, os 2 scutellos
inteiramente, uma mancha (aparentando um terceiro
scutello) sobre o metathorax, os I e II segm. abdomi-
naes, listras sobre as coxas, articulações do femur e
tibia e os espinhos destes: todos estes desenhos viva-
mente amarellos. Azas transparentes, com as nervuras
e os bordos anteriores pretos; levernente enfumaçadas.
Parece que nas variações esta especie póde che-
gar a ter unicamente o desenho amarello do postscu-
tellum e o dos pés
Habit : Brazil, Chapada, Maruru; Santarem, Cayenna.
Mus. Paul. : Colombia.
32. Polybia multipicta (Hulid.)
Polistes multipictus Haliday, Trans. Linn Soc.
London X VII, pg. 322.
Polybia multipicta Saussure, Monog. Fam. Vesp. I,
; pg. 188
Compr. tot. 12, 5 mm.
Cabeça amarella; no vertice uma grande mancha
hexagonal, bruna, que na frente apresenta um ponto ama-
rello; na base do clypeo outra, trifurcada, ligada à
mancha amarella entre as antennas; estas são pretas ;
cabeça em cima ferruginea.
O thorax embaixo é variado de preto e amarelo ;
em cima mais escuro, com o berdo do prothorax, 2 li-
nhas sobre o mesothorax, lados dos scutellos e uma fai-
xa transversal sobre o metathorax, atraz da qual ainda
ha 2 manchas: todo este desenho amarello. Petiolo
mais ou menos infundibuliforme, antes curto. Abdomen
preto, todos os segmentos orlados. Pés amarellos ; azas
enfumaçadas, o bordo anterior amarello.
Habit. : Brazil, São Paulo wbi? (Coll. Linn. Soc.)
— 198 —
33. Polybia occidentalis (Oli.)
Vespa occidentalis Oliwer, Encycl. method. Ins. VE
1791 pg. OF Dh. wl.
Polubia occidentalis Saussure, Monogr. Fam.
Vesp. II pg. 194.
Synon. Vespa pygmaea Fabricius, Entom. syst. 111793
pg. 283 n. 102.
Polybia pygmaea Saussure, Monogr. Fam. Vesp. IT,
pg. 193, Est. XXIII, fig. O
Compr. tot. 11,9 mm. pare. 9 mm. ; Env. 18 mm.
Corpo liso, um pouco assetinado; parte anterior
do thorax oval. metathorax muito enclinado. Petiolo
fino na pase, posteriormente alargado. O desenho ama-
rello é bastante variavel; o bordo doclypeo e as orbi-
tas, o bordo posterior do prothcrax, scuteilos, o meta-
thorax com duas manchas (ds vezes quasi reunidas, um
traço sobre os flancos e os bordos de todos os segmen-
tos, todos estes desenhos de um amarello ora alaranjado,
ora quasi branco.
O que se designava por P. pygmaea não é sinão
uma variedade menos colorida; pois que, examinando
uma boa série de individuos, vê-se que ha transição
perfeita de uma à outra forma; de egual opinião é M.
Fox que tambem obteve exemplares de cabeça averme-
lhada (Proc. Acad. Philad. 1898 HI pg. 449), facto
analogo ao observado em P. scutellaris (var. ruficeps).
Habit. : Brazil; Chapada, Santarem, Rio de Janeiro.
Mus. Paul. : De todo o Est. de S. Paulo; Rio
Grande do Sul, Bahia; Peru, Bolivia, Venezuela, Suri-
nam. Mexico.
vw
4." Polybia occidentalis var.
juruana n. var.
Distingue-se esta variedade por ser o segundo seg-
mento abdominal amarello em mais da metade da par-
— 199 —
te superior, devido a se extender a sua orla posterior,
senão estreita, sobre uma grande parte do mesmo seg-
mento. Scutellos inteiramente amarellos. /
Mus. Paul. : (typo) rio Juruá, Amazonas. Peru.
34. Polybia liliacea (Far)
Polistes liliacea Fabricius, Syst. Piez. 1504 pg.
Ae by hs TO
Polybia liliacea Lepeletier, Hist. nat. Ins. Hymen 1
1536 pg. 935.
idem — Saussure, Monogr. Fain. Vesp. II pg. 174,
Est. XXII fig. 7
idem —lLucas, Ann. Soc. entom. France (4) VII 1867
pg. 309, Est. TX.
Comp. tot. 16 mm., parc. 13 mm. Env. 31 mm
Prothorax largo, arredondado ; metathorax um pou-
co excavado ; petiolo na base linear, os dous terços pos-
teriores campanulados. Corpo negro, às vezes com leve
tom de outra cor; desenho amarello vivo (branco quan-
do desbotado) no bordo posterior do prothorax, conti-
nuando a mesma linha até o scutellum, este e o post-
scutellum, 2 linhas sobre o mesothorax, na base às vezes
confundidas, outras duas sobre o metathorax quasi sem-
pre unidas pelas extremidades; todos os segmentos ab-
dominaes orlados. Azas transparentes.
Habit. : Cayenna; Brazil: Chapada, Mararú; San-
tarem.
Mus. Paul.: Rio Juruá, Amazonas, Bolivia, Peru,
Surinam. |
E” esta especie facil de reconhecer; sómente pre-
cisa cuidado para não a confundir como Polistes letra -
crosus Sauss, (vide differenças genericas nas valvulas
articulares do petiolo) e com Polybia sycephanta a
qual tambem diverge principalmente pela forma do pe-
tiolo.
— 200 —
333. Polybia sycophanta Grib.
Gribodo, Bull. Soc. entom. Itat. XXIIT 1591 pg.
251 (10).
Compr. tot. 14—16 mm.
Além de ser o seu corpo um pouco mais robusto
do que o da P. liliacea, ha os seguintes caracteres
differenciaes : o desenho amarello é nesta especie mais
escuro 'fulvo-ochraceo) e a forma do petiolo é outra ;
ao passo que elle é linear na base e o resto campanu-
lado em liliacea, nesta especie elle é todo achatado e
quasi perfeitamente triangular.
Para não haver confusão com o Polistes liliacio-
sus basta reparar, além dos caracteres genericos no
derma mais rugoso deste, emquanto que elle é liso e
reluzente nas Polybras.
Habit. : Brazil—Mearim.
Mus. Paul. : Rio Juruá, Amazonas.
36. Polybia dimidiata (Oliv.)
Vespa dinidiota Olivier, Encycl. méth Insect. VI
1791 pg. 675
Polybia dimidiata Saussure, Monogr. Fam. Vesp. II pg. 177
Compr. tot. 19 mm. pare. 16 mm. Env. 37 mm.
Clypeo largo, assim como toda a cabeça e o tho-
rax, este arredondado adeante, para trás estreitado ;
petiolo estreito na base, os dous terços posteriores alar-
gados, em cima arcado, com sulco. Cabeça e thorax
pretos, reluzentes; abdomen avermelhado; este e prin-
cipalmente o metathorax com um revestimento de pel-
los vermelhos. Pés pretos, nos tarsos um pouco aver-
melhados; azas transparentes, suas nervuras na base
pretas, no apice um pouco russas.
9. Além de um tanto menores (Compr. tot. 16,
Env. 28-30 mm.) e menos robustas, as femeas se dis-
tinguem das obreiras ainda pelos desenhos seguintes:
Fest
— 201 —
mandibulas com um traço. amarellado, base das anten-
nas, alguns tons russos sobre o prothorax, postscutel-
lum e os pés mais avermelhados. O petiolo atraz é
mais largo, 'o abdomen não tem pellos, mas é assetina-
do, com reflexos quasi aureos.
Habit. : Cayenna ; Brazil, Chapada.
Mus. Paul. : Bolivia ; Brazil, Franca, Est. S. Paulo;
Ponte Nova, Minas; Catalão. G Joyaz.
37. VPolybia rejecta (Yobr.)
Vespa rejecta Fobricius, Suppl. entom. syst. 1798 pg. 264
Polybia rejecta Saussure, Monog. Fam. Vesp. JL
eG LEE mat RE NE GED
Compr. tot. 13 mm.; parc. 11 mm.; Env. 22 mm.
Clypeo com pequeno sulco; prothorax anguloso ;
petiolo estreito na base, logo alargado.
Cabeça e thorax pretos, antennas na extremidade
ferrugineas, bordos post. do prothorax e ant. do post-
scutellum com listras amarellas. Todo o abdomen é
bruno-avermelhado ; pés pretos; azas transparentes, ama-
relladas, no apice cinzentas ou pretas.
Habit.: Cavenna; Brazil; Mararú, Chapada, Sant
tarém, Sebastiæ. (2
Mus. Paul. : Amazonas, Manãos, Rio Juruá, Su-
rinam
38. Polybia sulcata Sauss.
Squssure, Monogr. Fam. Vesp. II pg. 175,
Est. XXIT fig. 4
Compr. parc. 11 mm. Env. 20 mm.
Cabeça grande, excavada atraz, thorax forte, de-
primido ; metathorax largo, com forte sulco; petiolo
curto, campanulado.
Cabeça e thorax pretos; face russa; bordo do cly-
peo, orbitas externas, base das mandibulas e uma linha
— 202 —
sobre o vertice: amarellados. O bordo posterior do
prothorax e os anteriores dos scutellos, 2 linhas sobre
o mesothorax, 2 outras sobre o metathorax, varias so-
bre os flancos : todos estes desenhos são amarello-cla-
ros. Abdomen avermelhado, petiolo escuro, todos os se-
gmentos levemente bordados de amarello. Pés ferrugi-
neos; azas hyalinas, nervuras brunas.
Habit. : Brazil.
39. Polybia sericea ((liv.)
Vespa sericea Olivier, Eneycl. méth Inst. 1791 pg. 675
Polybia sericea Saussure, Monogr. Fam. Vesp. 11 pg. 179
Est. XXIV, fig.) 4
Compr. tot. 16 mm.; parc. A4 mm.; Env. 31 mm.
Corpo estreito, principalmente o prothorax ante-
riormente. Cabeça inteiramente preta; thorax avelluda-
do com brilho furta-côr aureo; petioio estreito, da meta-
de em deante alargado, bruno-avermelhado, assetinado;
o resto do abdomen é preto; os pêssão da côr do pe-
tiolo, as azas são bem transparentes, só no bordo an-
terior são brunas, quasi pretas.
Habit. : Gayenna, Brazil, Para.
Mus. Paul. : Uma das mais communs no Estado
de S. Paulo; Ypiranga, Belém, Franca, Jundiahy ; Rio.
Grande do Sul, Surinam. Guatemala.
40. Polybia aurichalcea Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. II pg. 178
Compr. pare. 129 mm.; Env. 27 mm.
A estructura do corpo desta especie é a mesma
que a da P. sericea ; differe quanto ao colorido que é
o seguinte : a côr geral é bruno-escura, o abdomen antes
preto, assetinado com furta-côr purpureo. Junto à inser-
ção da antenna ha uma mancha avermelhada ; o bo do
post. do prothorax é mais claro, o do petiolo é bruno.
Os pés são mais claros e as azas transparentes, ligei-
— 203 —
ramente enfumaçada, com o bordo anterior ferruginco.
Habit. * Brazil.
Mus. Paul. : Bolivia; Surinam.
4H. Polybia chrysotorax (Wc.)
Vespa chrysothorax Weber, Observ. entom. iSO1 pg. 103, n. 9
Polybia chrysothorax Saussure, Monogr. Fam. Vesp. II,
pg. 178, Est. XXIV f. à
Compr. parc. 12 mm.; Env. 29 mm.
Tambem esta especie não differe da P. sericea
quanto à estructura e mesmo o colorido é analogo; o
unico caracter que parece realmente distinguil-as é o
do colorido das azas, que são quasi inteiramente trans-
parentes, apresentam reflexos dourados e têm o bordo
anterior ferrugineo-claro.
Habit. : Cayenna, Brazil. Chapada, Mararú, San-
tarém.
42. Polvbia marginata Jor
Fox, Proc. Acad. Nat Sc. Philad. 159$ HI pg. 456
Compr. tot. 15 mm.
Cabeça não achatada, subquadrada ; prothorax for-
temente rebordado; petiolo alongado, fino, depois da
metade um pouco alargado, mais delgado, porem, que
da P. sericea. Preta na cabeça e no abdomen; tho-
rax, petiolo e os pês bruno-avermelhados, o primeiro
com fino pellame dourado, os flancos e o petiolo mais
fuscos. Apresenta ainda o seguinte leve desenho ama-
rellado (que em 2. sericea não apparece ): indicação
parcial das orbitas internas e externas, ambos os bor-
dos do prothorax, e o anterior do postscutellum, duas li-
unhas sobre o metathorax e varias manchas sobre os
pés. As azas são escuras com o bordo anterior preto
e o apice mais claro.
Habit. : Brazil—Chapada.
— 204 —
AS. Polybia paraensis (Spin.)
Polistes paraensis Spinola, Mem. Accad. Sc. Torino
2) XAT 1850 pag. Ge
Polybia paraensis Saussure, Monogr. Fam. Vesp.
Il pag. 185, Est. XXII fig. 2
Compr. parc. 11,5 mm. (¢%); Env. 24 (2)
Prothorax arredondado e estreitado; petiolo na
base nao muito estreito, para traz um pouco alargado.
Corpo ferrugineo, na cabeça um pouco avermelhado.
Thorax com desenho amarello, mesothorax bruno com
2 linhas amarellas; abdomen bruno-ferrugineo orlado
de amarello. Azas amarelladas.
Diz Saussure que o desenho é analogo ao da P.
fascrata Oliv. (P. phthisica Fabr. var. jaune) mas que
sua estatura é dupla.
Habit. : Para.
Mus. Paul.: Perú, Maracapata.
Compr. tot. 19,5; parc. 13,5. Env. 35 mm.
44. Polybia flavicans (Nabr.)
Polistes flavicans Fabricius, Syst. Pies. 1804 pg.
210 Ne 3d.
Polistes testacea Fabricius, Syst. Piez. 1804 pg. 276
n. Sd.
Polybia testacea Saussure, Monog. Fam. Vesp.
IT pay. 163, Est. XXI fig. 7.
Polybia flavicans Dalla Torre, Catal. Hymen.
TX, pg. 163.
Compr. tot. 19 mm.; parc. 15,5; Env. 40 mm.
Reconhece-se facilmente esta especie jà pelo corpo
robusto, já pelo desenho do 2.º segmento abdominal.
Prothorax muito rebordado e anguloso ; petiolo de base
larga, no meio tuberculado e dahi em deante algo alar-
gado. Cabeça e thorax amarello-ferrugineos ; clypeo
amarello ; 2 linhas reunidas em V sobre o vertice, man-
chas do prothorax, 3 linhas longitudinaes sobre o me-
sothorax, 1 mancha sobre o scutellum, uma mediana e
— 205 —
duas lateraes sobre o metathorax: bruno-ferrugineas.
Abdomen do 3.º segmento em deante preto; J.º e 2.º
são amarellos, tendo cada qual uma grande mancha
bruna, no 1.º em forma de triangulo, no 2.º uma larga
faixa transversal, deixando amarellos só o lado inferior
e os bordos anterior e posterior. Antennas e pés ama-
rello-ferrugineos, azas puramente amarellas.
4 O corpo é mais delgado, prothorax estreitado
e sem angulos, petiolo mais longo e mais estreito ; tam-
bem o desenho é um pouco diverso.
Habit. : America do Sul; Brazil: Mararú, Santarem.
Mus. Paul.: Surinam ; Amazonas Itaituba); Rio Ju-
rua.
43. Polybia infernalis (Siuss.)
Saussure, Monogr. Ham. Vesp. II pg. 195, Est.
AX, fig. 3
Compr. tot. 9 mm., parc. 7 mm. Env. 17 mm.
Clypeo terminado por um angulo agudo; protho-
rax arredondado, postscutelluin um pouco elevado; pe-
tiolo pouco alargado, anus arredondado. Corpo ferru-
gineo; o flagellum das antennas em cima quasi preto ;
o bordo posterior do prothorax e os dos segms. abdomi-
naes são claros; mesothorax com algum colorido bru-
no; 0 abdomen, excepto o petiolo, quasi todo desta côr
(mais ou menos intensa;. Pés ferrugineos ; azas muito
grandes, no apice arredondadas; 3.º cubital quadrada,
Habit.: Pará, Santarem.
Mus. Paul.: Amazonas—Manãos.
AG. Polybia emaciata (Luc.)
Lucas, Ann. Soc. Entom. France 1879, (5º IX pg.
304, Est. IX fig. 1
Compr. tot. 11 mm. Env. 22 mm.
Clypeo largo, trianguliforme, convexo; prothorax
arredondado ; o petiolo, bastante curto, é muito fino
na base, posteriormente um pouco alargado. A côr
geral é amarello-ferruginea ; o clypeo é amarello, assim
— 206 —
como as antennas inferiormente, em cima mais escuras;
no vertice uma mancha bruna, triangular ; todo o thorax
é longitudinalmente percorrido por uma linha bruna,
rem sempre bastante nitida ; os scutellos e as tegulas são
amarello-testaceas. O abdomem é um pouco mais bru-
no, sendo todos os segmentos orlados de amareilo-claro.
Pes em cima mais escuros, tarsos amarellados ;
azas transparentes, irisadas ; no bordo anterior, até O
estigma, amarelladas, de resto um pouco enfumaçadas;
nervuras brunas.
Habit. : Brazil —Est. do Rio de Janeiro; Mararu,
Santarem.
4%. Polybia vicina (Sauss.)
(Est. TIL, Ge MAS ele)
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. Il pg. 189, Est.
XXIV fig. 7
Compr. tot. 11, parc. 8,5 mm. Env. 22 mm.
Ainda que pela forma geral lembre a Polybia fas-
ciata, a sua estructura é bastante caracteristica. Pro-
thorax anteriormente anguloso (formando perfeitos es-
pinhos), petiolo antes curto, no meio tuberculado e su-
bitamente alargado.
Corpo liso, reluzente e de côr bruno-escura. Só
pouco desenho amarello-claro : nas orbitas internas, e
nos bordos dos segmentos abdominaes, do Il em dean-
te; em cima, porém, quasi sempre nullo, mais largo
(um pouco esverdeado) em baixo.
Azas grandes, só um pouco amarelladas no bordo
anterior.
A 9 differe da obreira pelo corpo mais robusto e
pela forma do petiolo, que é mais curto e mais largo
na femea. As antennas do & são simples.
Habit. : Brazil.
Mus. Paul. : Est. S. Paulo, Minas, Esp. Santo, R.
Grande do Sul.
A esta especie estão intimamente ligadas as & se-
guintes, das quaes P. anceps, ao meu ver só representa
ee APTE
uma variedade um pouco mais colorida; P. buyssont fa-
cilmente se destingue pelo prothorax arredondado, sem
angulos; P. cassununga, que tambern apresenta caracte-
res de estructura que a differenciam, contrasta, biolo-
gicamente, de um modo singular com a P. vecina. Em-
quanto esta constitue esses vespeiros gigantescos, essas
casas de cassununga tão temidas pelo povo, a Polybia
cassununga R v. lh. nunca chega a formar ninhos maio-
res que 1 decimetro, assaz semelhantes aos de Polistes.
AS. Polybia anceps Sauss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. IT pg. 190
2
A estructura do corpo é a mesma que a da P. wi-
cia; chega o proprio auctor a desconfiar de que não
se trate sinão de uma pura variedade, com algum de-
senho mais vivo.
As orbitas, os bordos do clypeo e as mandibulas
são branco-amarelladas ; o bordo posterior do prothorax,
os angulos do scutellum, o postscutellum, às vezes duas
linhas sobre o meta-(e meso ?) thorax, e os bordos dos
primeiros segmentos abdominaes são amarellos.
Habit. : Brazil (Mus. Londres).
Só comparando o typo com certas variedades da
P. vicina é possivel dizer si é destas que se trata ou
si realmente ha caracteres especificos que a distingam.
Infelizmente a sua proveniencia —Brazil— nada adi-
anta.
43. Polyvbia cassununga À. v. Th.
(Esty, foe em ter)
R. von lhering, Ann. Soc. Entom. France LXXH
(1) 1903, pg. 146
Compr. tot. 12 mm. Env. 22 mm.
O clypeo é chato, alongado, com bordo anterior li-
so em angulo obtuso pouco accentuado; fronte lisa,
sem tuberculo ; prothorax anguloso; o sulco do meta-
= Dos —
thorax, a começo pouco distincto, termina inferiormente
bastante profundo e largo.
Petiolo alongado, cylindrico na base, para traz
alargado, sem dilatação brusca (no meio geralmente
com 2 pequenos tuberculos). Corpo menos liso que o
de vicina, no mesothorax rugoso.
De côr bruna, cabeça e thorax quasi pretos. O de-
senho é o mesmo que o de P. vicina, sómente o cly-
peo, que nessa especie é arcado e preto reluzente, em
P. cassununga & bruno, quasi sempre revestido de pel-
los prateados e orlado de amarello.
& com pontas das antennas enroladas e clypeo
todo claro.
Mus. Paul. : Typo—ltatiba; Perús, Franca, Cam-
pinas (Est. S. Paulo); Est. Espirito Santo; Ponte Nova,
Minas Geraes.
50 Polybia buyssoni ZX. v. Jh.
R. von Ihering, Ann. Soc. Entom. France LXXIT
CL) 1905 pg. 454
Compr. tot. 11 mm.; Env. 20 mm.
Clypeo como o de P. vicina, porém menos arca-
do, caracterizado por um pequeno sulco no apice; sua
côr é bruna, com orlas amarellas. Prothorax arredon-
dado, nunca anguloso; metathorax um pouco convexo,
só raras vezes com fraca indicação de um sulco longi-
tudinal. Petiolo egual ao da P. vicina.
Tambem o colorido é mais ou menos o mesmo,
varios exemplares offerecem, comtudo, mais os seguin-
tes desenhos amarellados: dous pontos atraz do verti-
ce, duas linhas sobre o mesothorax, alguns pontos nos
angulos dos scutellos e os pés sempre claros, amarellados.
Mus. Paul.: (Typo) Piquete; Ypiranga. E, 8.
Paulo.
= 208 =
585. Polybia ampullaria oc.
Moebius, Abh. naturw. Ver. Hamburg. HI 1856 pg.
fam AS Dist, WEL.
Idem, Arch. f. Naturg. XXII, 1. 1856, pg. 330, Est.
MD gs Oe
Compr. tot. 10 mm., pare. 7,5 mm. Env. 18-19 mm.
Petiolo um tanto alongado com base grossa e gra-
dativamente alargado ; thorax mais largo que o abdo-
men, prothorax muito arredondado. A côr geral é
amarello-ferruginea ; não ha desenho nitido; no meio
do clypeo amarellado ha um traço largo de côr bru-
na; de egual côr são o vertice, até a inserção das an
tennas, pro e mesothorax e quasi todo o abdomen;
as mandibulas, orbitas, o bordo posterior do prothorax,
uma linha central sobre o mesothorax e duas manchas
sobre o metathorax são amarellos (estes 2 ultimos de-
senhos são mais apagados). Os bordos posteriores dos
3 primeiros segmentos abdominaes e o anterior do 1.º são
amarellados.
Todo o lado inferior e os pês são amarello-claros.
As azas transparentes são levemente enfumaçadas,
II cubital quasi triangular.
Habit. : Brazil.
Mus. Paul.: Venezuela, Perú; Maracapatä ; Ama-
zonas: Rio Jurua.
35%. Polybia cecodoma Sauss.
Saussure, Monog. Fam. Il pg. 195, Est. XX V fig. 7
Compr. pare. 7,9 mm. Env. 18 mm.
Pela estructura lembra a P. occidentulis ; o petio-
lo ê pouco menor que o thorax, um pouco campanula-
do. Corpo bruno-escuro; desenho branco-amarellado
na cabeça, rico e mais amarellado no thorax ; abdomen
geralmente só com os primeiros segmentos orlados, anus
sempre escuro. Pês escuros com manchas claras. Azas
um pouco enfumaçadas, 3.º cubital para fóra alargada.
Habit.: Bahia, Rio de Janeiro, Chapada.
2 10 2
Mus. Paul.: S. Paulo, Villa Emma, Ypiranga;
Pert, Maracapata.
33. Polwbia fastidiosuseula Suuss.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. Il pg. 197. Est.
AXV fig 4.
Compr. tot. 10, parc. 8,5 mm. Env. 2) mm.
»
A estructura é a mesma que a da P. occidentalis.
Cabeça e thorax são côr de laranja; no vert.ce e no
meio do clypeo com manchas pretas; antennas em cima
escuras; mesothorax preto com duas linhas amarellas ;
scutellos, metathorax, flancos e prothorax variegados.
Abdomen bruno com faixas regulares, sómente a do 2º
segmento comprehende quasi toda a metade posterior.
3.º cellula cubital muito larga,
Habit.: Brazil — Goyaz.
Mus. Paul.: S. Paulo, Ypiranga, Itatiba; Bolivia.
vão Polybia septentrionalis x. n.
Polistes fasciata Lep. Hym. I pg. 534, 1836
(nec Oliv. 1791)
Polybia fasciata Saussure, Monog. Fain. Vesp. II pg.
182 Est. XXIV fig. 6.
Compr. tot. 11, parc. 8mm. Env. 20 mm.
Esta especie é menor que as precedentes. Cara-
cterizam-na bem o seu petiolo, que é fino da base até
o segundo terço do seu comprimento e só no fim é
fracamente campanulado; o colorido geral é amarello-
claro com desenho bruno e a base do segundo seg-
mento abdominal tambem é amarella.
Sulphurea, fusco variegata ; antennis ferruginers,
primo articulo supra nigro; mesothorace lines dua-
bus flavis; metathorace punctis duabus fuscrs ; abdo-
minis segmentis supra fuscis, Hate sulphureo, se-
cundo basi sulphureo.
Habit. : Panama.
aed —
Mus. Paul.: Perú, Maracapatá (n. 1615); Bolivia ;
Venezuela.
Do minho desta especie, que até agora ainda na
era conhecido e que obtive do Perú, dou a descripção
na parte biologica deste trabalho.
Aqui só direi que absolutamente não emprega bar-
ro ou terra como material de construcção.
a
Sã. Polwbia meridiomalis n. n.
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. Il Est. XXII fig §
(P.. phthisica ; corr. pg. CXCLI- fascrata Lep.;
nec, Sauss. Atlas Est: XXIV fig. 0).
Compr. tot 13 mm. parc. 10,5; Env. 24 mm.
Näo sei com que nome da synonymia designar esta
especie que até hoje só conheço do Est. de S. Paulo.
Combina perfeitamente com a figura citada de Saus-
sure; este auctor parecia a principio julgal-a uma varie-
dade do P. phthesica, mais tarde, em correctura, desi-
gnou-a P. fasciata Lep., a qual porem vem figurada
na Est. XXIV, fig. 6 e que evidentemente representa
outra especie.
Caracteriza-se pelo petiolo que é relativamente gros-
so na base e pouco alargado depois do primeiro terço,
onde tem dous tuberculos. A base do segundo segmen-
to abdominal tambem é, como os bordos posteriores dos
segmentos, orlado de amarello.
Quanto ao ninho não entra terra na sua construc-
ção (vide descripção e figura que dou mais adiante).
Habat.: Mus. Paul., Est. S. Paulo e Franca (N. 1267).
5G. Polybia fasciata Oliv.
Vespa fasciata Olivier, Eneycl. méth. Inst. VI 1791
pg. 070
Vespa phthisica Fabricius, Entom. syst. Il 17935 pg. 281
Vespa ochrosticta Weber, Observ. Entom. 1801 pg. 105
Vespa hectica Fabricius, Syst. Piez. 1804 pg. 278
— 212 —
Polybia fulvofasciata auct. (Réaumur, Degeer ? Po-
listes)
Polybia phthisica Saussure, Monogr. Fam. Vesp. 11
pg. 186, Est. XXII fig. 7
Polybia phthisica Buysson, Bull. Soc. Entom. France
1899. NT. pos seo
Comp. parc. 11 mm. Env. 25 mm.
Esta especie, geralmente conhecida sob o nome de
P. phthisica ou fulvofascrata, é muito dificil de bem
caracterisar por uma simples descripçäo. Varia a côr
fundamental de bruno ao ferrugineo. “O desenho ama-
rello ê muito rico e bem semelhante ao que caracterisa
a P. pallipes, sempre, porém o abdomen é regularmente
orlado de amarello. Para bem definirmos esta especie
lembramos que o seu ninho, descripto pelo Visc. R. du
Buysson |. cit. é de barro e e que habita a região
septentrional da America do Sul.
Habit. : Nha de S. Thomaz, Cayenna, Venezuela,
Brazil.
Mus. Paul. : Perú (N. 1191) Maracapatá, Surinam,
rio Juruá, Amazonas.
Muito lastimarei si ainda esta tentativa de revisão
destas tres especies precedentes não corresponder à rea-
lidade. Alliam-se aqui à difficuldade da distincçäo das
especies as complicações da literatura nem sempre so-
luveis. Respeitando no geral as disposições de Saussure,
procedi comtudo às modificações que pareciam necessa-
rias.
Tendo pedido ao meu illustre amigo Dr. R. du
Buysson a sua opinião sobre o assumpto, mui amavel-
mente escreveu-me elle a respeito :
«Quanto às Polybias, o N.º 1267 deve ser Poly-
bia fascrata Lepeletivr (nec Saussure) e o N. 1615 a
P. phthisica Fabricius (nec Saussure). Infelizmente
não possuimos os typos destes insectos, porem numero-
sos exemplares que nos foram determinados por H. de
Saussure.
eg O
Possuo dous exemplares de P. cayennensis typos!
de Fabricius que differem das especies acima citadas.
A P. pthisica constroe os seus ninhos com terra, muito
resistentes, com paredes muito grossas; 0 seu corte
transversal figurei nos Bull. de la Soc. Entom. de Fr.
1899, N.º, 7, pg. 129. - Não conheço o ninho da P. fas-
cata, N. 1267. Observo ainda que a synonymia dada
por Saussure não é boa. »
Tambem ao amigo J. Bréthes peço venia para tran-
screver o trecho de sua carta referente a esta questão.
« Das Polybias que me enviou, o N.º 1615 é para
mim uma fórma nova, chegada à P. orientalis (Sauss.
Atlas, Est. XXVI fig. 2). Como Lepeletier diz que
o typo da P. fasciata que descreveu se encontra no
Museu de Serville, é necessario comparal-o.
Si, porém, este typo não existir e visto a descri-
pção se limitar ao colorido, que é variavel, sou da opi-
nião que devemos respeitar o trabalho monographico
de Saussure. Consideraria então o exemplar N. 1267
como correspondendo à |. fasciata segundo Saussure,
pg. 183. »
Resta pois esperar uma solução definitiva desta
intricada questão !
57. Polybia pallipes (O(liv.)
Vespa pallipes Olivier, Encycl, meth. Insect. VI, 1791,
pg. O75
Polybia pallipes Saussure, Monogr. Fam. Vesp. IT
pg. 189, Est. XXV, fig. 2
Compr. tot. 13 mm., parc. 10,5 mm.; Env. 24 mm.
Pela estructura esta especie não differe da P. /fas-
ciata ; o petiolo é pouco maior que o II segmento, grosso
na base e, gradnalmente um pouco alargado. Tainbem os
desenhos da cabeça e do thorax são eh aos da
especie citada.
E' porém, facil distinguil-a pelo colorido do abdo-
mem: os seus dous primeiros segmentos são ferrugineos
Cc
oe
\ VY
N
ca Ese
(os II as vezes com 2 listras no apice, uma preta, a
outra amarella) os demais segmentos são pretos (sem
orlas). Antennas pretas com o [segmento e o flagello
em baixo ferrugineos; os pês são amarellos, as azas
transparentes com nervuras ferrugineas.
Habit. : Brazil, Chapada, Corumbá, Pedra Branca,
Rio de Janeiro, Santarem.
Mus. Peul.: Est. de S. Paulo, Franca; Bolivia;
Surinam.
as
58. Polybia catillifex och.
Moebius, Abhandl. naturw. Ver. Hamburg, IL, 1856
ge Tea ALON ist AV GEL:
Compr. tot. 12 mm. pare. 9,9 mm.; Env. |20 mm.
O corpo alongado e estreito não tem a largura do
abdomen; petiolo pouco mais comprido que o II segmen-
to, fino na base e pouco alargado. A côr geral é ama-
rella (geralmente escura). O desenho da cabeça e do
thorax é como na Polybia faciata; o abdomen é bruno,
sendo os dous primeiros segmentos mais claros; o IL e
o Hl com orlas amarellas.
Antennas pretas com os 2 primeiros e os 2 ultimos
segmentos russos; pês claros e azas levemente enfusca-
das, vivamente irisadas.
Habit. : Brazil.
Mus. Puul.: Surinam.
Para não confundirmos esta especie com a Polybia
fasciata basta notar que a sua forma é mais delgada,
a base do petiolo mais fina e que o Il nervo recorrente
nesta especie entra no apice da II cubital. E princi-
palmente caracteristica a fórma do seu ninho (em fórma
de catillus ou cadinho de tripé).
ae
539. Polvbia albopicta Sm.
Compr. tot. 9 mm.
Clypeo angular, amarellado; acima delle outra
mancha, as orbitas e uma linha atraz dos vlhos de
Due QE LS NUE
egual côr. O bordo posterior do prothorax, as tegulas,
uma linha abaixo da aza, os angulos dos scutellos com
pequenos pontos, duas manchas sobre o metathorax e
os bordos do petiolo e dos demais segmentos, a faixa
do 1 bastante larga, as demais irregulares na margem
interna. Azas transparentes, com o bordo anterior escuro.
Habe. = “Brazil
GO. Polybia brunnea (Curt.)
Myraptera brunnea Curtis, Trans. Linn. Soc. XIX
pg. 250, Est. XXXI fig. S-10
Polybia brunnea Saussure, Monogr. Fam. Vesp. 11
pg. 211
Compr. story tem Env 24m;
Prothorax arredondado; metathorax oval, obliquo ;
petiolo alongado, na base fino, posteriormente sulcado
e com largura menor que a metade da do abdomen ;
este é de forma oval-conica, mais largo que o thorax.
Todo o corpo é bruno, assetinado, a cabeça prateada ; a
face, o meio das mandibulas e as antennas em baixo
são amarelladas. Os primeiros segmentos tem os bor-
dos inferiores orlados de amarello apagado, visiveis de
cima só nos angulos. Pés amarello-ferrugineos ; azas,
principalmente na base e no bordo anterior, amarella-
das, com nervuras quasi brunas.
Habat. : Brazil.
Julga Saussure que esta especie seja alliada as P.
aurulenta ou phthisica (ninho de barro!) O colorido
lembra o da P. vicina, a qual, porém, pelo seu ninho,
muito differe.
Gt. Polybia cordata Sm.
F. Smith, Catal. Hymen. Ins. Brit. Mus. V. 1857 p. 129
Compr. tot. 9,5 mm.
Preta; clypeo liso e relusente, formando anterior-
mente um angulo obtuso. O corpo com o seguinte
26
desenho amarello: o bordo post. do prothorax, um
traço obliquo abaixo da aza, os angulos dos scutellos
com pequenos pontos. Abdomen cordiforme ; todos os
segmentos com faixas largas, pouco regulares, sómente
a do petiolo é estreita; a do II segmento prolonga-se
lateralmente e expande-se de cada lado na base em uma
mancha. Azas hyalinas e irisadas, uma mancha escura
nas cellulas apicaes; as nervuras, escuras na base, tor-
nam-se mais claras para o apice.
Habit. : Amazonas.
G2. Polybia diligens Sm.
F. Smith, Cat. Hymen. Brit. Mus. V. 1557 p. 132.
Compr. tot. 6 mm.
Cor fundamental preta; com o seguinte desenho
branco-amarellado : todo o clypeo, excepto um traço
preto no meio, dous tracinhos acima das antennas, uma
linha fina na orbita externa; as mandibulas e as an-
tennas embaixo são ferrugineas ; o prothorax com os 2
bordos finamente orlados, 3 manchas obliquas nos flan-
cos, as tegulas, 2 linhas sobre o mesothorax, o scutel-
lum, postscutellum e 2 grandes manchas lateraes no
metathorax, os bordos dos 3 primeiros segmentos ab-
dominaes e ainda a base do Il, branco-amarelladas.
Pes ferrugineos, os tarsos mais claros.
Habit. : Brazil, Santarem.
G4. Polvbia gorytoides Jox
Fox, Proc. Acad. Nat. Sc. Philad. III 1898, pg. 454
Compr. tot. 10,5 mm.
Clypeo largo, angulado, um pouco pontuado, assim
como o são o vertice e o mesothorax ; prothorax fraca-
mente rebordado; metathorax fortemente suleado com
leve enclinação. Petiolo curto, sub-campanulado ; o resto
do abdomen, sub-pyriforme, é largo na base e termina
em ponta. De côr preta com rico desenho amarello.
— 217 —
Toda a cabeça, excepto uma faixa transversal no
vertice ; todo o thorax embaixo e nos lados; o protho-
rax, menos um traço obliquo de cada lado; ? linhas no
mesothorax ; os scutellos quasi inteiramente; o metatho-
rax, excepto uma linha mediana; o abdomen em baixo
e nos bordos dos segmentos em cima, assim como os
Jados do petiolo: todo esse desenho é amarello; a faixa
do II segmento prolonga-se ainda lateralmente. Os pés
são amarellos com tarsos mais escuros. As azas são sub-
hyalinas com nervuras e o bordo anterior amarellados.
Habit. : Chapada, Santarem.
M. Fox refere-se ainda a uma variedade testaceo-
avermelhada. |
65. Polybia furnaria n. sp.
Compr. tot. 9 mm. Env. 15 mm.
Clypeo embaixo largo, seu angulo muito obtuso e
escondendo as mandibulas quando em posição de repouso ;
os olhos attingem a base destas; ocellos em triangulo
alongado. Cabeça um tanto mais larga que o thorax.
Este, bastante largo no prothorax que é um pouco angu-
loso, estreita-se muito no metathorax que é quasi verti-
cal, com o sulco mediano largo, porém ponco profundo.
Petiolo fino na base, dilatando-se pouco antes da
metade (infundibuliforme) como em P. rejecta ; visto em
perfil é embaixo direito, ao passo que em cima fórma
a mesma curva que elle apresenta quando visto de cima ;
o resto do abdomen é globoso, pouco alongado, quasi
oval. Todo o petiolo e às vezes tambem sobre os demais
segmentos tem um sulco longitudinal.
Na cabeça e no thorax predomina o preto, no ab-
domen a côr bruno-castanha ; algum desenho amarello.
Os 2 primeiros artigos das antennas e os pés são
bruno-claros, estes com tibias e tarsos quasi amarellos.
São de côr amarella as seguintes partes: as mandibu-
las, o clypeo, excepto um triangulo escuro central, dous
tracinhos entre as antennas, as orbitas externas e as
internas até pouco acima do recórte dos olhos; o bordo
ERA O —
anterior do prothorax (e às vezes uma fina listra sobre
o seu bordo posterior), as tegulas, uma faixa obliqua
sobre o flanco, começando pouco antes das tegulas, os
bordos anteriores dos scutellos com listras finas e irre-
gulares, duas manchas triangulares sobre o metathorax,
os bordos posteriores dos segmentos abdominaes (o se-
gundo em geral com duas franjas brunas) e as coxas.
As azas hyalinas com as nervuras brunas, assim
como um leve tom desta cor principalmente no apice;
II cellula cubital muito estreita e alta, II cubital quasi
tres vezes maior.
S Distingue-se facilmente pela conformação da
cabeça que é mais arredondada; os olhos são maiores,
estreitando sensivelmente o clypeo; as mandibulas são
menores e mais fracas que as da Q ou dae o abdo-
men é mais alongado e não, como na femea, quasi oval,
globoso. Pelo colorido distingue-se o ~ pelo clypeo
inteiramente amarello-claro, assim como todo o lado in-
ferior do thorax e tambem as antennas não são pura-
mente pretas como na Q mas bruno claras no lado
inferior, e o seu comprimento é maior. |
Mus. Paul. : (typo) Santarem, Pará (com ninho de
barro).
Recapitulando, dou os nomes das especies de vespas
sociaes descriptas nesta primeira parte do presente estudo.
Das especies marcadas de * dou, na parte seguin-
te, a descripção dos ninhos; ** indicam que a colleeção
do Museu Paulista não possue o respectivo ninho e que,
pois, limitei-me a copiar a sua descripção.
*1 Caba augusti. 8 » chartergoides.
fe » quinta #9 Charterginus fulvus.
##2 scutellaris (Fabr.). 10 » fuscatus.
(seutellata Spin.) * 12 » cinctellus.
de » lecheguana. #13 Chartergus apicalis.
4 » rufiventris. # 14 » apicalis fra-
5 » bilineolata. ternus.
EE RODO » fasciata. Go ES » concolor.
6 » smithi. 16 » ater.
q » analis. e » griseus.
— 219 —
*18 » luctuosus.
HE 19 » zonatus ,
=) » chartarius.
#21 » globiventris.
22 > emortualis.
23 » smitlh1.
24 » fasciatus.
25 » fulgidipennis.
26 > compressus.
#27 Parachartergus bento-
buenoi,
28 Polistes versicolor.
x
29 » biguttatus.
30 » candidoi ;
dl > geminatus.
32 Polistes liliaceusculus.
DO » liliaciosus.
do » opalinus.
34 » binotatus.
oo » melanosoma.
56 » aterrimus.
57 » niger.
38 » obscurus.
39 » actacon,
# 40 » limai.
*41 » cinerascens.
42 » bicolor.
43 » subsericeus.
# 44 » carnifex.
45 » analis.
SAO 272 canadensis.
RAT » annularis.
43 » pacificus.
49 » ruficornis.
50 » thoracicus.
51 » spinolae,
52 » consobrinus.
3 Mischocyttarus smith.
DA » labiatus.
#55 » drewseni,
56 Synoeca surinama.
57 > violacea.
58 » ultramarina.
# 59 » cyanca.
59 * » >» azurea.
60 » Irina.
61 » chalybea.
* 62 Tatua morio.
#63
64
65
66
# 67
68
69
# 70
71
# 72
Ea:
73
5e 74
75
76
77
78
# 70
LES 80
80 ‘
81
82
# 83
84
85
# 86
#87
88
89
90
91
292
93
94
95
# 96
97
98
oo
* 100
#100."
101
102
# 103
Apoica pallida.
»
»
»
virginea.
cubitalis.
arborea.
Leipomeles lamellaria.
Polybia apicipennis.
>
»
>»
»
vespiceps.
pumila.
bella.
minutissima.
minutissima
sedula,
nana.
sylveiræ ,
quadricincta.
bifasciata.
tiliformis.
carbonaria.
injucunda.
pediculata.
pediculata
unilineata.
suffusa.
rufidens.
mexicana.
surinamensis.
chapadæ.
nigra.
atra.
heydeniana.
angulicollis.
angulata.
lugubris.
scutellaris.
jurinei.
frontalis.
tinctipennis.
flavitineta.
latior.
metathoraxi-
ca.
multipicta.
occidentalis.
occidentalis
juruana.
liliacea.
sycophanta,
dimidiata.
— 0
* 104 » rejecta, 119 > cecodoma,
105 » sulcata. * 120 » fastidiosuscula.
* 106 » sericea. Ba Wb » septentriona-
107 » aurichalcea. lis.
## 108 » chrysothorax. | * 122 » meridionalis.
109 » marginata. “129 » pallipes.
110 » paraensis. RETIDA » catillifex
111 » flavicans. EA) » fasciata.
112 » infernalis. 126 » albopicta.
** 113 » emaciata. 127 » brunnea.
*114 » vicina. 128 » cordata.
115 » anceps. 129 » diligens.
*116 » cassununga. 130 » gorytoides.
co lal EP » buyssoni. RASE » furnaria.
*118 » ampullaria.
I. DESCRIPÇÃO DOS MNHOS BRAZÍLEIROS
(Com as Est. V-VIT)
Fizemos, na parte precedente deste estudo, a revi-
são systematica das numerosas especies de vespas so-
ciaes brazileiras; como já o disse, destina-se este tra-
balho em especial aos nossos compatriotas estudiosos,
desejosos de conhecer mais de perto estes hymenopte-
ros tão abundantes em nossos campos, nas mattas e
mesmo nas nossas casas. Ahi iêm reunida, consciencio-
samente, toda a literatura referente e que nem sempre
é accessivel aos amadores; procurei facilitar a deter-
minação de cada especie pela elaboração da chave do
respectivo genero, a qual, porém, como nem sempre
«fecha» bem, às vezes, infelizmente, não dispensa a ve-
rificação das descripções das especies visinhas.
Emfim, conseguir-se-ha o reconhecimento da maior
parte das especies. Mas, dado o nome scientifico a uma
vespa que nos preocupava, estará exgottado o interesse
que nos merecia ? Si afinal sabemos qual foi o primeiro
scientista que a descreveu e sob que nome, teremos
feito um estudo de historia natural ?
Limitar-se-ha a este trabalho quasi machinal o estudo
que desde os tempos mais remotos sempre teve os seus
apaixonados e entre os quaes hoje e sempre encontramos
mentalidades de primeira ordem? Por certo que não.
— 221 —
Pelo contrario; servimo-nos dos resultados deste
trabalho preliminar, em ultima analyse producto de meras
convenções que respeitamos, tão sómente para que tenha-
mos, por assim dizer, uma linguagem comprehensivel a
todos os naturalistas. Vencido este obstaculo, às vezes de-
pois de mui penoso labutar, só então podemos participar
aos demais estudiosos as nossas investigações directas,
communicar-lhes 0 que despertou a nossa attenção, emfim
contribuir efficazmente para o desenvolvimento desse ramo
dos nossos estudos designados sob a denominação de bio-
logia. |
E principalmente os vespideos são dignos destas in-
vestigações porque apresentam, como bem poucos grupos
entre os arthropodes, para não dizer entre os animaes em
geral, um grau de desenvolvimento tal que faz pasmar
mesmo aos que diariamente têm occasião de comprehen-
der o grande genio organizador da natureza. Basta-nos
acompanhar em um só dos seus capitulos ao admiravel
observador J. H. Faber nos seus «Souvenirs Entomologi-
ques» para bem comprehender o quanto tem de engenhoso
cada um destes factos da vida diaria dos insectos e aos
quaes assistimos indifferentes sem nos lembrar de quanto
o celebre «Natura maxima miranda in minimis» tem
de verdadeiro.
Ainda sob forma de catalogo darei nesta parte a re-
lação dos ninhos das vespas que foram estudadas. Das 130
especies de que tratei, atê hoje de 54 foram observados
os ninhos; destes a colleeção do Museu Paulista possue
todos, menos os de 8 especies, que não conheço de visu.
Observo que na literatura eram conhecidas só 29 espe-
cles de ninhos; 23 dos que aqui deserevo são novos para
a sciencia, todos pertencentes à rica colleeção do Museu
Paulista. Dando a descripção de cada um, menciono os
auctores que melhor os descreveram ; muitas vezes a lista
bibliographica é longa, principalmente para as especies
mais frequentes; não haveria vantagem repetil-a toda
quando se a encontra reunida no Catalogo dos Hymeno-
22
pteros do Dr. Dalla Torre vol. IX e que ha pouco foi em
parte completado pelo estudo de J. Bréthes 1. c. 1903.
Para não repetir sempre, por extenso, o titulo de
cada publicação, dou em annexo uma lista bibliogra-
phica das obras consultadas. |
Na grande variedade de ninhos que estudaremos,
o unico elemento constante é a cellula. Esta, sempre
hexagonal, destinada a receber o ovo que ahi vae-se
desenvolver e dar em resultado o «mago, apresenta, para
cada especie, sempre as mesmas dimensões e a sua regu-
laridade geometrica é comparavel, sómente 4s cellulas
das abelhas sociaes. Ha, porém, entre as construcções
das abelhas e as das vespas uma grande differença : ao
passo que aquellas empregam exclusivamente a cera como
materia prima, nestas as cellulas são construidas quasi
sempre do material que denominamos cartão (algumas
poucas especies constroem-nas tambem de barro).
O cartão não é mais do que uma massa prepa-
rada pelos insectos com tecidos vegetaes, quer da
casca, das folhas ou de pellos, e embebida de um liqui-
do, a chitina ; C. Moebius que estudou microscopicamente
o material de muitos ninhos (1. c. 1856) diz-nos à p. 160
que cada especie tem certos e determinados tecidos que
prefere na construcção. E” devido à variabilidade do
material empregado que alguns vespeiros são bastante re-
sistentes, outros muito quebradiços, outros flexiveis, ete.
Sempre o material empregado na construeção das
cellulas serve tambem para o resto do ninho; só pou-
cas especies de Polybias como a P. fasciata Oliv.
fazem os seus ninhos de parro. levando sé as cellulas
certa quantidade de tecido vegeta: de mixtura, ao passo
que no ninho de barro da P. furnaria KR. v. Ih. (fig. 13)
as cellulas são feitas quasi unicamente desse material.
A reunião das cellulas forma as camadas de cel-
lulas de entre as quaes distinguimos duas sortes: ou a
camada é simplesmente o resultado da juxtaposição
das cellulas sem que haja qualquer base e só a pri-
meira cellula é suspensa por um pedunculo (Polistes,
Parachartergus, Polybia vicina); ou as cellulas são
— 223 —
demarcadas e em seguida construidas sobre um plano,
quer seja este a coberta inferior do ninho (é o caso
mais commum, ninhos phragmocyttaros) quer, como
em Synoeca, se trate de um tronco de arvore.
A posição normal das cellulas é a vertical, com a
abertura para baixo; anormalmente as cellulas são hori-
zontaes e as, cuja abertura fica para cima, creio que nunca
são occupadas (por esta razão é impossivel a realização do
typo dos ninhos phragmocyttaros esphe-ricos que, pela
parte architectonica, nada teriam de extraordinario).
Temos visto como se formam as camadas, graças
à regularidade geometrica das celulas; raras são as
especies que não primem pela exacta disposição das cel-
lulas em linhas rectas. Naturalmente só falamos dos casos
normaes, porque, havendo um impecilho, um galho que
atravesse a camada, uma pedra atirada no vespeiro, a
confusão que, sem necessidade, estes sinão tão habeis
constructores estabelecem, é tão grande, que toda uma
zona em derredor fica inutilizada.
Estudaremos mais adeante de que forma estas cama-
das constituem o ninho. Quando todo o vespeiro for pro-
tegido pur uma coberta é interessante estudar a posição
que occupa a porta da entrada, que, em geral, é cara-
cteristica para cada especie. Ou ella é central e então to-
das as camadas que lhe ficam acima tambem são perfura-
das ahi, pois que anteriormente tinham servido de entrada
principal; ou occupa uma posição peripherica e então é
constituida de um lado pela coberta e no lado opposto te-
mos ou o intervallo entre duas camadas ou a camada recor-
tada em semicirculo com o que se constitue a passagem.
Devemos agora familiarizar-nos com as denomina-
ções dadas por Saussure aos varios grupos em que di-
vidiu os principaes typos de ninhos, termos estes que se
tornaram classicos, ainda que as divisões não sejam natu-
raes. E mesmo torna-se impossivel estabelecer grupos
systematicos de ninhos quando se quer, ao mesmo tempo,
respeitar os generos naturaes, visto como é extraordi-
naria a variabilidade que encontramos, por exemplo, em
Polybia, em opposição ao genero Polistes cujos ninhos
— 224 —
é quasi impossivel distinguir especifica-
mente.
Phragmocyttaros são os ninhos
cuja coberta inferior, com o crescimen
to, recebe na sua face exterior uma ca-
mada de cellullas e que passa a ser ca-
mada interna, v sto como uma nova co-
berta se lhe sobrepõe; a communicação
interna faz-se por meio de furos que
atravessam todas as camadas (como typo
desta construcção, vide fig. 1). Subdi-
or nn: videm-se: estes ninhos, em:
Phragmocyttaros esphericos, cujo typo ideal tem
a primeira camada bem no centro, envolvendo-a as subse-
quentes completamente; um córte transversal mostrar-
nos-ia as camadas em circulos concentricos. (Nem mes-
mo Caba lecheguana realiza estas condições e, quando
muito, a sua primeira camada é bem espherica) ;
Phragmocyttaros rectilineos são os ninhos cujo ty-
po ideal estabelecido por Saussure seria um tubo cylin-
drico (a coberta) dividido internamente por discos paral-
lelos (as camadas). Natural-
mente observamos todas as \
formas de cobertas, ora em kk
campanula, ora em esphera,
menos as de um cylindro per-
feito; mas a comparação da-
nos uma idea completa do que
é um ninho Ph. rectilineo
(por exemplo Est. VII fig. 17)
Stelocyltaros. Todo ao
contrario do que observamos
no grupo anterior, onde a
coberta faz parte integrante,
indispensavel mesmo do ni-
nho, aqui a camada de cellu-
las ou é unica (fig. 3 Polistes),
ou depende directamente da SL ata
anterior (fig. 16 Polybia V1- IL Synoeca cyanea, a-as cellulas.
— 225 —
cina), sendo presa a esta por meio de pedunculos ou
pilastres. Quando o ninh tiver de ser protegido por
uma coberta, esta envolve toda a construcçäo (fig. Il
e assim delimita definitivamente o espaço interno apro-
veitavel.
Saussure cognominou ainda a este grupo e ninhos
de construcção definida, em opposição aos phragmo-
cyttaros cujo crescimento é realmente indefinido si dei-
xarmos de lado a questão mechanica. De facto os ni-
nhos stelocyltaros calyptodomos (ou com coberta) têm
desde o inicio delimitado o espaço dentro do qual po-
dem construir suas camadas. —Isto theoricamente, pois
que na pratica vemos v. g. Synoeca cyanea realizar um
verdadeiro puchado no seu ninho (fig. II) o que lhe
augmenta consideravelmente o espaço, saltando assim
fora do circulo estreito da theoria. - Mas nos stelocytta-
ros gymnodomos (ou sem coberta) basta egualmente con-
siderarmos satisfeita a questão da resistencia para poder-
mos dar-lhes um crescimento indefinido.
Subdividem-se os ninhos deste
grupo em:
St. gibbinidess nos quaes ha
uma só camada que assenta so-
bre uma base massiça de fórma
espherica e que se prende ao ga-
lho (Apoica. fig. 6).
St. rectinideos cuja camada é
suspensa por um pedunculo cen-
“ tral (Mischocyttarus, fig. 4); e
St. laterinideos nos quaes uma
camada independente é presa por
um unico pedunculo excentrico
ou lateral (Polistes, Est. V. fig.
3 e Chartergus fig. II).
Estudando de um modo geral
a architectura dos ninhos destes
11 generos de vespas podemos
IIT Chartergus concolor; fatta uma reconhecer para cada um destes
ites ee à um typo predominante ; comtu-
— 226 —
do, em varios generos, occorrem simultaneamente di-
versos systemas de ninhos.
Cada especie de per si, porem, nidifica, invariavel-
mente, segundo um só typo e as raras excepções que
conhecemos parecem indicar-nos que se trata da for-
mação de uma especie distincta.
1. Polistes, tanto aqui como no antigo continente,
de onde immigrou, segue exclusivamente um só typo,
pouco variavel (fig. 3) stelocyttaro, principalmente la-
terinideo.
2. Mischocytlarus egualmente constroe segundo
um plano bem constante (o representado pela fig. 4) que
é stelocyttaro rectindeo.
3. De Apoica tambem conhecemos só a typo
(stelocyttaro gibbinideo, como o mostra a fig.
4.e0. Ainda Leipomeles e Parachar oan são
stelocyttaros: figs. 8 e 2.
6. De Charterginus pelo momento ainda não po-
demos assegurar si segue sómente o typo phragmocyt-
taro (fig. 5, Ph. imperfeito) ou si ha tambem ninhos
stelocytlaros (fig. 11).
7. Chartergus offerece-nos tanto ninhos stelo-
cyttaros como phragmocyttaros; ao passo que estes
são de um só typo (fg. I p. 224). aquelles são ora la-
terinideos (fig. Ill p. 225 ora rectinideos Est. V. fig. I).
8. Caba. Todos os ninhos bem conhecidos são
perfeitamente phragmocyttaros; sômente o que Rudow
attribue à CG. scutellaris (?) seria stelocyttaro.
9. Synoeca. Os ninhos conhecidos deste genero |
são phragmocytiai os imperfeitos (fig. IL p. 224).
10. Tatua. A unica especie sul-americana do
genero tem um ninho phragmocyltaro bastante seme-
lhante ao da fig. 1. (Chartergus).
11. Polybra. A este genero podemos considerar
antes como uma recapitulação de quasi todos os typos
estudados.
Como já o disse não vejo nem possibilidade nem
conveniencia em distribuir esta enorme variedade de
RD fo coa
ninhos por divisões e classes bem delimitadas, já pela
simples razão de ser impossivel conseguirmos um sys-
tema natural e satisfactorio. A’ medida que se vão
conhecendo os ninhos seria necessario sempre de novo
reorganizar o quadro ou então teriamos um genero re-
presentado em todas as secções. Cinjamo-nos pois à
classificação dos insectos constructores, para 0 que o co-
nhecimento dos ninhos tem grande valor auxiliar.
Ensaiando em seguida a distribuição dos ninhos
por secções baseadas unicamente sobre a architectura
seguida na sua construcção, viso tão sômente um fim pra-
tico que é o de facilitar quer a comprehensão dos va-
rios systemas seguidos, quer auxiliar a determinação di-
recta do ninho. Naturalmente para isto devemos pre-
scindir da idéa de genero; reuni indistinctamente todas
as especies de vespas sociaes brazileiras e em seguida
classifiquei os seus ninhos.
CHAVE DOS NINHOS DE VESPAS BRAZILEIRAS
A, NINHOS SEM COBERTA
I.—Com uma só camada de cellulas, sem andares
A, O ninho é suspenso por
um pedunculo.
a, O pedunculo prende-se
latera'mente à ca-
mada... : . Polistes canadensis, cine-
rascens, limar, annularis, ver:
sicolor, etc.
aa, O pedunculo prende-se
ao centro da camada.
b, Pedunculo curto e de
grossura variavel . Polistes carnifex ; Poly-
bia atra, cassununga, inju-
cunda.
bb, Pedunculo muito fino
e longo. : - Mischocyltarus labratus,
drewsen?.
Bey ee
B, Varios pedunculos
prendem o ninho a
uma folha . . Charterginus cinctellus.
C, Nao ha pedunculo ;
as cellulas assentam
directamente sobre
uma base fofa. . Apoca palhda.
IH. —Ninhos compostos de varios andares
€, As camadas são planas
e horizontaes. - Lolybia vicina.
cc, As camadas são cur-
vas ; 6 plano de ori-
entação é o vertical. Polybia pallipes, meridio-
nalrs.
B. NINHOS COM COBERTA
I.—Um só plano de cellulas, sem andares
A, A coberta e as cellu-
las prendem-se a um
plano ja existente
(tronco ou folha.)
a, As cellulas prendem-se
directamente a um
plano (tronco); co-
berta resistente.
6, O ninho é antes acha-
tado | . Polybia pediculata, Char-
tergus zonatus.
bb, Ninho em fórma de
tatu; coberta frisada Synoeca cyanea.
aa, As cellulas ligam-se a
folha por meio de
pedunculos ; coberta
finissima.
c, As cellulas reunem-se
todas em uma só ca-
mada. . Parachartergus bentobue-
not.
CC,
— 229 —
Cellulas agrupadas em
pequenos feixes in-
dependentes
Um pedunculo liga todo
o ninho ao ponto de
apoio
Leipomeles lamellaria.
Charterginus fulous.
IT.—Ninhos compostos de varios andares
A coberta é indepen-
dente da construcção
das camadas.
As camadas superpos-
tas, presas uma a
outra, dependem to-
das da primeira.
Coberta simples, entra-
da prolongada em
tubo à
Entrada simples, cober-
ta construida de va-
rias camadas de papel
As camadas paralle-
las e independentes
entre si, ligam-se
todas directamente a
um eixo vertical; co-
berta frisada
A coberta inferior ser-
ve, com o crescimen-
to do ninho, como
base a uma nova ca-
mada de cellulas.
A base do ninho pren-
_de-se por pedunculos
a um plano (folha).
O ninho prende-se à um
galho que o perfura.
Polybia ampullaria.
Chartergus luctuosus.
Chartergus apicalis, fra-
ternus, concolor.
Polybia minutissima, se-
dula.
— 230 —
g, Barro serve de material
de construcgao.
h, Ninho liso. - Polybia fasciala.
kh, O ninho é ornado de
apophyses . - Polybia emaciata, furna-
rio,
99, O cartão commum ser-
ve de material de
construcção
t, Às paredes são grossas,
como papelão, muito
Jisas.
j, Dimensões maiores . Chartergus chartarrus.
4), Diametro sempre bem
menor . : . Ch. globiventris.
it, Paredes grossas mas
porosas, ninhos gran-
des. : : . Polybia dimidiata, Talua
“moro.
wt, Ninhos todos phragmo-
cyttaros, variaveis e
difficilmente se dis-
tinguem sem que se
conheça os constru-
ctores.
Pelo menos as primeiras
camadas quasi espheri-
cas, todas convexas . Caba lecheguana, Polybia
sylveiræ, P. scuiellaris
(com ou sem ornatos de
apophyses).
Coberta construida de va-
rias camadas, quasi in-
dependentes, de fino pa-
pel de seda : . Polybia minutissima, pu-
mila.
Ninho em geral occulto
em uma cavidade do
solo, em cupins, ete . Polybia nigra.
— 231 —
Ninhos presos aos galhos
das arvores - - Polybia occidentalis, fla-
vitincta, mexicana, fastedio-
suscula, buyssoni, septentrio-
nalis, rejecta, sericea ; Caba
august, scutellaris.
Caba scutellaris (Fabr.) (1)
Vespa scutellaris Fabricius, Syst. Prez.
ISOL D.. 20 n: 07
Brachygastra scutellota Spinola, Mem. ac.
Torino XIIT, 1851 p. 74
Chartergus scutellaris (Fabr.) Moebius, Abh. nat.
Ver. Hamburg III, 1853, p. 143 Est. XV
Nectarinia scutellata (Spin.) Saussure, Monogr.
Fam. Vesp. 11 p. 227
? N. scutellata Rudow, Ml. Zertsch. f. Ent. III, 1898
p. 29 (Polybra ?)
Dr. Moebius descreve e figura um pequeno ninho
desta especie cujas dimensões são 65 mm. de diametro
e 36 mm. de altura. A base, um pouco convexa, pren-
de-se ao galho suspensor; sobre a parede lateral fica
situada a entrada, um furo oval de 12 mm. de maior
diametro; a coberta inferior tambem é convexa e de
forma circular. Ha duas camadas de cellulas, das quaes
a primeira tem por bese a propria camada inicial, a
segunda já se serve da coberta que foi construida so-
bre a primeira camada. As paredes do ninho são bas-
tante finas (0,3 mm.) e quebradiças.
As medidas da cellula são 3,25 mm. de diam. e
5 mm. de altura; o tecido larval, que sobremonta os
seus bordos, tem 3-3, mm. de altura.
(1) Como se vê, deve o nome de Fabricius substituir o
dado por Spinola, apesar de ser este mais geralmente acceito;
referindo-se ambos à mesma especie, deve prevalecer o mais an-
tigo. Infelizmente só depois de impressa a parte systematica é
que reconheci a Vespa scutellaris Fabr.
Como proveniencia ha simplesmente a indicação :
Brazil. sa
Um ninho procedente da Bahia (ou de Venezuela)
é descripto ligeiramente por Rudow, sendo attribuido
a esta especie.
Comtudo, quer-me parecer que se trata antes de
uma Pclybia, tendo o ninho, cuja descripção passo a
transcrever, certa semelhança com o da P. ampullaria.
O ninho é quasi campanuliforme, preso em cima
a um pequeno galho e no meio apresenta ama sutura
circular algo saliente, ficando proximo a esta o peque-
no furo de entrada cujos bordos são um pouco ele-
vados.
A coberta é de cartão fino, de côr amarello-clara,
com ligeiro desenho linear escuro.
O interior contem as camadas de cellulas, cujo
todo é de forma approximadamente espherica. Uma
camada prende-se à outra por pequenos pilastres (5
entre cada duas camadas), sendo tambem presas à co-
berta por pequenos pedunculos.
Caba augusti
R. von Ihering Ann. Soc. Ent. Fr. 1903 p. 153
Nada offerecem de notavel os tres ninhos prove-
nientes do rio Juruá que possuo desta especie. Asse-
melham-se bastante aos da Polybia septentrionalis que
descrevo mais adeante. As dimensões das cellulas são
3,3 min. de diametro e 7,0 mm. de altura.
Trata-se pois de um typo muito freqnente entre
os ninhos de Zolybia e parece-me impossivel distin-
œuil-os de varios outros do grupo da P. occidentalis.
Um outro ninho desta especie, procedente de Ca-
talão, Est. Goyaz, assemelha-se bastante aos do Ama-
zonas. Conta 7 camadas de cellulas e mede 10 cent.
de altura e 13 cent. de diametro maximo. Curiosas
são a entrada e as passagens de uma camada à outra,
pois que medem apenas 5 mm. de largura tendo um
comprimento de 30 a 40 mm. As dimensões das cel-
a ae O ps
lulas são bem as mesmas que as acima indicadas; co-
mo já disse, pouca differença ha entre estes ninhos de
procedencia tão diversa, sómente as paredes lateraes
neste ultimo ninho são um tanto mais asperas.
Caba lecheguana
Saussure, Atlas Est. XXX, XXX bis. (Nectarinia.)
Dr: H. v. Ihering, Zcol. Anz. N. 516, 1896 p. 451
Deste genero atê agora bem poucos ninhos são
conhecidos; o ninho que mais frequentemenie se en-
contra é o da presente especie. - Com segurança, é só
“um dos nossos exemplares (de Perüs—Est. de S. Paulo}
que posso referir à O. lecheguana. Tirado do meio
dos galhos de pequenos arbustos do campo, atravessam-
no em todas as direeções estes ramos, que vem dar
certa solidez à construcção. O seu centro é formado por
duas camadas das quaes a primeira é irregular e a se-
gunda perfeitamente globular, envolvendo a primeira.
As camadas subsequentes envelvem sempre grande parte
das precedentes, mas já não são inteiramente globulares,
pois que falta a parte superior, onde ha só 2 camadas
providas de cellulas, e uma coberta mais forte que se
extende por toda a superficie superior e a ella se pren-
dem as camadas inferiores. Assim fica o centro 6 cm.
abaixo do limite superior e 21 em. acima da ultima
camada inferior. Mede pois todo o ninho 27 cm. de
altura; a largura total é de 39 cm., ficando a camada
inicial mais ou menos equidistante dos dous limites la-
teraes. As camadas de cellulas não são de fórma muito
regular, devido, em parte, aos galhos que as atravessam
e por vezes impedem a sua regularidade ; contamos ao
todo cerca de 20 camadas, afore Ca. unicamente
pela construcção da base (ou coberta) e com algumas cel-
lulas esboçadas aquie alli. As medidas das nn com-
pletas são 4 mm. de diam. e 10 mm. de altura. Nao ha
propriamente uma entrada principal, visto como he
de cellulas em diversos logares preenchem tal fim.
de By V0
Charterginus fuivus
(Est. Vs fig. 5)
Os dous ninhos, que desta especie examinei, são pro-
venientes de Maracapati—Perú (compr. Rolle) ; combi-
nam perfeitamente entre si, mas infelizmente em ambos
o estado de conservação deixa muito a desejar.
Collocado na face inferior de uma folha muito gran-
de, prende-se todo o ninho po” um unico pedunculo à ner-
vura mediana. Medem os ninhos 85 X 80 mm. A forma
dos ninhos é approximadamente quadrada; a base, que
em baixo é coberta pelas cellulas, é um pouco convexa e
na sua linha mediana insere-se o pedunculo. Este é de pou-
ca altura (8 mm.); pouca grossura (2 mm.) mas de base
comprida. pois que esta acompanha a nervura da folha por
20 a 29 mm., sendo insensivelmente estreitada para cima.
As cellulas medem 2,8 mm. de diam. e 89 mm.
de altura; a sua côr é de um amarello-sujo e apresen-
tam de espaço em espaço anneis brunos ou pretos.
A coberta, que é a continuação da base dobrada
para baixo logo onde terminam as cellulas, é arcada
nos lados e plana no meio, ficando uns 20 mm. dis-
tante das cellulas. Muito bem trabalhada, da grossura
de papel forte, ainda è ornada com desenhos, isto é,
sendo a côr predominante a das cellulas, apresenta fai-
xas brancas irregulares. São estas da largura de 1,5 a
2 mm. e alongadas em um dos exemplares (fig. 5); no
outro mais largas e curtas ou então reduzidas a man-
chas brancas ou crémes, havendo tambem muitos salpi-
cos pretos. Em alguns cantos a forma quadrangular
do ninho é mais accentuada do que em outros.
Infelizmente a respeito da entrada ao ninho nada
posso dizer, pois que esta em nenhum dos exemplares
poude ser reconstruida.
Charterginus cinctellas
(Est. VE gop a2)
Os dous ninhos que possuo desta especie, provêm
um do Juruá, fig. 11, (coll. Garbe) o outro de Mara-
— 235 —
capatä, Perú. Ambos estão collocados na face inferior
de uma fclha (provavelmente de bananeira), a pouca
distancia da nervura mediana. Ha um pedunculo mes-
tre e varios mais finos. O mais grosso delles, certamente
sobre o qual foi iniciada a construcção, occupa uma
posição excentrica em relação à camada de cellulas (não
tanto no exemplar figurado, como no peruano). As cel-
lulas medem 3,2 a 3,5 mm. de diam. e 9-10 mm. de al-
tura. A fórma do ninho peruano é approximadamente
redonda com 30 mm. de diametro; o exemplar juruano
é irregularmente oval com 63 mm. de comprimento.
Não ha vestigio de uma coberta iniciada. Singula-
res e para mim inexplicaveis são os dous tuberculos de
fórma irregular e massiços como os pedunculos que, como
o mostra a figura, encimam algumas cellulas, sem com-
tudo prejudicar o uso destas. Seriam talvez destinadas a
supportar uma nova camada de cellulas, de medo que
deveriamos classificar o ninho desta especie no grupo da
P. vicina? Por emquanto nada nos auctoriza a tal e
resta-nos esperar novos materiaes deste genero do qual
até agora nenhum ninho era conhecido. Observo, po-
rém, que o ninho da especie presente nada tem de com-
mum com o do Charterginus fulvus o qual tambem
ainda não tinha sido deseripto.
Chartergus apicalis
Saussure, Atlas Est. XIX, XIX bis, XX VII
Moebius p. 141, Est. XII.
Muito bem descriptos e figurados nos excellentes
trabalhos acima indicados, pouco resta a accrescentar a
deseripção dos ninhos desta especie.
Sempre, como tambem o mostra a figura III à p.
225, as camadas de cellulas prendem-se por um pedun-
culo posterior a um galho ou a um tronco de arvore e
assim formam os andares, sem comtudo ter outra con-
nexão entre si.
A capa envolvente é como em Synoeca, frisada ou
estriada, devido às ondulações transversaes que a cara-
— 236 —
cterizam. Vista num corte longitudinal, a coberta pouco
grossa, às vezes finissima, descreve uma linha go
mente ondulada.
Como o mostram os 10 exemplares da collecção do
Museu é muito variavel a parte posterior da coberta,
onde ella se prende ao galho ou tronco. Ora prende-
se a elle sem o incluir, ora envolve-o completamente,
às vezes sem mesmo se po a elle.
Um ninho do rio Juruá, C. apicalis var. fraternus
differe tanto no aspecto exterior que fal-o quasi confundir
com o ninho de Synoeca. A capa é, porêm, menos grossa
e mesmo o arranjo das cellulas é o caracteristico.
Outros ninhos da var. fraternus de Goyaz, ao con-
trario, não se distinguem da forma typica. Tambem
Ch. concolor não differe na construcção do seu ninho
(fig ME pi 229);
Quanto à entrada tambem notamos grande varia-
bilidade. Em alguns ninhos não é mais do que uma
simples fenda oval da coberta, em outros ha um pro-
longamento formando um tubo de 2—3 em. de diametro
e de comprimento muito variavel: o maior nos nossos
exemplares mede 7 em. Não duvido que pertença a esta
especie o ninho (de Jaguara, Minas) do qual o sr. C.
Moreira me cedeu uma photographia e cujo tubo dé
entrada medira certamente para mais da metade do com-
primento de todo o ninho, que é de grandes dimensões.
As dimensões das cellulas são as seguintes; 5 mm.
de diametro e 12-14 de altura.
Os nossos ee medem 14X9 cm. ; 24X10
cm. ; 28X13 CM sepa LE 48x9x14 cm. Em geral
a sua forma é de um fuso, ora mais ora menos along cada.
Chartergus luctuosus
(Est. V, fig.
Ainda o ninho desta especie de Chartergus, aliás
novo para a literatura, differe dos até agora conheci-
dos. Foi collegido pelo sr. Garbe no rio Juruá, Amazo-
nas. Mede 21 cm. de comprimento na base que -se
— 237 —
prende a um galho de arvore e tem sómente 7—8 cm.
de largura e 20 cm. de altura. Compara-se perfeita-
mete a sua forma à metade de um disco oval de al
guns centimetros de grossura.
Compõe-se o ninho de 8 camadas de cellulas for-
mando andares parallelos, com a abertura das cellulas,
como de regra, para baixo e presas entre si por 2-
pilastres centraes quasi sempre quadrilobados. A distan-
cia entre duas camadas é de 8 10 mm. As cellulas
medem 5 mm. de diametro e 13 mm. de altura.
A coberta do ninho, quasi completamente indepen-
dente das camadas de cellulas, prende-se unicamente ao
galho que forma a basee à primeira camada de cellu-
las; de resto acompanha exactamente os contornos do
conjuncto das camadas.
Compõe-se esta coberta de camadas sobrepostas de
um perfeito papel vegetal. bastante fino e que pode ser
facilmente dobrado e amarrotado ; não é liso e de es-
tructura irregular.
Na metade superior do ninho supperpõem-se 3a 4
camadas de papel para formar a coberta, embaixo ha só
uma ou duas. Não se podia reconhecer bem o buraco
de entrada que devia ficar situado na parte inferior, cor-
respondendo à ultima camada.
Chartergus zonatus
Spinola, 1850, 4. E. p. 73.
Descrevendo esta especie o auctor trata tambem de
seu ninho, do qual, entretanto, diz unicamente que se ca-
racteriza por ter uma só camada de cellulas, applicando-se
esta directamente ao tronco da arvore que serve de base ;
a coberta «d'une espéce de carton» é cinzenta.
Chartergus globiventris
Bréthes, 19021. c. Est. VIII, fig. 5-6
O ninho que descreve à pg. 417, provem de Des-
calvados no Matto Grosso. A nossa colleeção conta va-
E aeee
varios destes ninhos. As cellulas medem 9 mm. de
altura e 3,3 mm. de diametro.
Um exemplar de Santaren, Pará mede 12 cm. de
comprimento, 3.5 cm. de largura no annel e 5,5 cm.
de largura maxima em baixo; conta 6 camadas de cel-
lulas, das quaes as 2 primeiras são planas, as demais
convexas. De resto assemelha-se ao ninho da figura
indicada; não apresenta porém a curvatura, aliás muito
frequente nos ninhos deste typo, mas é direito, e exte-
riormente cintas ou depressões annulares, corresponden-
do a cada nova camada, indicam o crescimento. Quanto
à pergunta que. o sr. Brêthes faz a respeito da gros-
sura da base das camadas não me auxilia o ninho
presente a respondel-a. Pelo contrario devo accrescen-
tar-lhe outra. Tambem eu observo que as bases das
ultimas camadas são mais grossas do que as das pri-
meiras ; mas ainda mais do que isto dá na vista uma
camada de varios millimetros de grossura que enche o
fundo da cellula. As cinco primeiras camadas medem
cada qual !4 mm. de altura, sendo o intervallo de 4
a 6 mm. Medindo as cellulas só 9 mm. de altura, o
resto é constituido por uma camada pardo-bruna que, en-
tretanto deixa distinguir bem no córte as paredes das
cellulas, Quando é depositada esta massa não é facil de
afirmar. Como, porém, na ultima camada, sexta, ella
só tem 1-2 mm. de espessura, é de suppôr que tenha
sido depositada depois de sahir a primeira cria (serão
talvez as materias fecaes das diversas gerações?) De-
positos analogos encontram-se tambem em ninhos de
varias especies de Polybias.
Ainda dous outros ninhos julgo pertencentes a esta
especie, ainda que nelles não encontrasse insectos; mas
repetem perfeitamente o mesmo typo bastante singular.
Um delles proveniente de Minas Geraes, (off. do dr.
Miguel M. ce Godoy) é de forma curvada ao passo que
o outro é, como o acima descripto, direito.
Noto ainda o facto que esta especie não tem como
o Ch. chartarius o cuidado de escolher galhos gros-
sos como base para a construcçäo, cuidado este que
tambem seria desnecessario para o seu ninho sempre de
bem pouco peso.
Um outro ninho sem indicação de localidade, mas
certamente do Brazil, mede 32,5 cm. de comprimento,
9 cm. de largura no annel; estreita-se um pouco no
meio até 6,9 cm. e embaixo mede 10 em. de largura.
Conta 14 camadas de cellulas. O buraco da entrada é
de 4,5 mm. de diametro.
Chartergus chartarius (fig. 1 pag. 224)
Saussure Atlas Est. XXX1II
Spix u. Martius, Reise in Bras. 1828. Vol. UH pag.
X, Est. 22 (attribuido, por méro engano, à Ves-
pa morio — Talua moro.)
Este ninho, comparado na denominaçäo vulgar a
um barril, é extremamente curioso tanto pela grossura
e resistencia das paredes, como pela forma geral que
é bem a de um recipiente cyliudrico e alongado, com
um pequeno furo central em baixo.
Desta forma tambem são todos os 6 ninhos da
nossa colleeção sem modificação digna de nota. Pro-
vem do rio Juruá, Amazonas; Goyaz, Minas Geraes e
Estação Rio Grande, E. de S. Paulo. As dimensões
variam consideravelmente. Assim o annel que prende o
ninho ao galho varia de 10 a 20 cm., a largura (to-
mada na base da ultima coberta inferior) nos ninhos
maiores é de 25 a 30 cm. e o comprimento attinge 45
em. e no exemplar de Fructal, Minas Geraes (presente
do dr. Menezes, juiz em Barretos), chega a medir 62
cm., sendo a largura maxima de 28 cm.
As cellulas medem 4 mm. de diametro e 10-12
mm. de altura.
Parachartergus bentobuenoi
(ES VA)
z
O ninho desta especie ê dos mais mimosos e de-
licados que tenho visto e pode ser comparado unica-
— 240 —
mente ao da Lezpomeles lamellaria, cujo estylo se-
gue, excedendo-o porém em arte. Como a figura evi-
dencia be n todos os detalhes, darei sómente algumas
notas descriptivas.
A’ face inferior de uma folha prende-se, por nu-
merosos pedunculos, uma camada de cellulas que é pro-
tegida por uma fina coberta, collada exactamente aos
bordos da folha.
Como em Lezpomeles, essa coberta, sem estructu-
ra, lembra muito o papel de seda vegetal, mas pelo
lado exterior é revestida por uma fina camada de mus-
go verde triturado. Para o lado apical está solta, for-
mando assim a entrada para ,o ninho, sendo ahi extre-
mamente fina e rendilhada.
As dimensões desta coberta são 11 cm. de compr.
por 5 cm. de largura; mas a camada de cellulas me-
de sômente 62 por 33 mm. Esta está presa por muitos
dedunculos pequenos à face da folha. As cellulas me-
dem 3,6 mm. de largura e 9mm. de altura.
Foi este ninho colleccionado em Outubro de 1902,
pelo sr. E Garbe, no rio Juruá-Amazonas.
PPolistes carnifex
Saussure, Atlas Est. X, fig. O
Nunca observei ninhos de grandes dimensões. Os
exemplares de S. Sebastião, E. S. Paulo contam cerca de
30 cellulas e medem no diametro maximo de 3 a 4 cent.
O pedunculo é fino e mede 9 mm. ; o comprimento total
do ninho é 43 mm. A cellula completa mede 32 mm. de
altura e & mm. de largura. A disposição da cellulas é
bastante regular em circuloss concentricos e a posição do
pedunculo é, nos tres exemplares que estudo, perfeitamen-
te central.
Polistes canadensis
Saussure Atlas Est. IX fig. 1 a. (fig 2, 3%)
As dimensões aqui já são, em alguns ninhos, bem
‘consideraveis ; assim varios attingem 12 a 13 cent. de
— 241 —
diametro, com pouco mais de uma centena de cellulas.
O pedunculo tem em media 10 mm. de comp. e a sua
grossura varia consideravelmente; nos ninhos maiores
é reforçado, chegando a ter 7 mm. de largura. A sua
posição é sempre excentrica, com, no maximo, 3 cel-
lulas aquem de sua inserção contra 15 ou mais no la-
do opposto. As cellulas em média tem 7 mm. de dia-
metro e 27-28 de altura.
Polistes cinerascens
Não possuo exemplares com mais de 9 cent. de
diametro. O pedunculo, um pouco mais curto, é per-
feitamente excentrico, e nunca observei cellulas aquem
de sua implantação. As cellulas medem 5,5 mm. de
diametro e 18-20 de altura. Destes ninhos pouco diffe-
re o de
Polistes limai (Est. V. fig. à)
R. von Ihering, Ann. Soc. Entom. Fr. 1903, p. 145
Este especimen já descrevi juntamente com a espe-
cie. As cellulas tem 0,5 mm. menos em diametro e 1-2
mm. menos em altura. Neste exemplar typico, os bor-
dos lateraes das cellulas formam arestas bem pronun-
ciadas, 0 que, si for caracter constante, distinguirá fa-
cilmente o ninho desta especie do da precedente.
Polistes versicolor
Saussure, Atlas, Est. VII fig. O-a
Tambem nesta especie o pedunculo é constante e
rigorosamente excentrico, de pouco comprimento e por
vezes bastante solido. O tamanho das cellulas é de 6
mm. de diametro e 20-23 de altura. E” desta especie
que possuo os maiores ninhos de Polistes. Dous dos
exemplares medem cerca de 22 cent.; para provar a
grande variabilidade na fórma, basta dizer que um del-
les é arredondado ao passo que o outro é estreito, com
— 242 —
uma largura quasi constante de 5,9 mm. Muito segui-
da é a forma de losango.
A figura dada por Saussure forçosamente repre-
senta um modo de desenvolvimento puramente anor-
mal, tendo algum empecilho, devido à ma escolha do
local, determinando esta aberração, pois que, como já
disse, nunca tive exemplares de pedunculo central.
Polistes annularis
Saussure, Monogr. Fam. Vesp. II Atlas,
Est. VII fig. 4
Segue rigosamente o typo ja conhecido.
Mischocyttarus.
(Est. V, fig.)
Sao bastante conhecidos os ninhos construidos por
M. drewsen e labiatus e que muito frequentemente se
encontra nos barrancos, presos em geral a uma raiz
mais escondida e abrigada ou mesmo directamente ao
sólo em uma altura média de um metro a metro é meio.
Mischocyttarus labiatus
Saussure, Atlas, Est. III, fig. 9
Uma figura muito bôa do ninho.
Mischoeyttarus drewseni
(SES Vo fig: 42
Não differe. O pedunculo sempre muito fino (no
maximo 0,5 mm. de diam.) mede 25—30 mm. ou mesmo
do mm. EK’ admiravel a regularidade deste ninho. Sem-
pre o pedunculo occupa o centro da base circular do
ninho, que parece não exceder em tamanho uns 60 a
70 mm. de diametro. A base é ou plana ou tem uma
ligeira elevação no centro e, nos ninhos maiores é um
pouco arcada nos bordos (assim um córte diametral
mostra a base quasi em fórma de ). As cellulas
medem 5 mm. de diam. e 18—20 de altura.
®
— 243 —
Swmoeca cyanea (/9.11, pag.224)
Saussure, Atlas Est. XX.; Moebius p. 125 Est. 1
Muito boas figuras deste ninho dão tanto Saussure,
como Moebius nas estampas indicadas.
As cellulas, que medem 7 mm. de diam. e 26 mm.
de altura são presas directamente ao tronco da arvore,
servindo, na maioria dos casos, a propria casca de fundo
à cellula, sem que esta seja previamente revestida de
massa de cartão. A coberta, que envolve esta camada
sempre unica, tambem se prende ao tronco e deixa
acima das cellulas um espaço livre que varia de 5,5 a
7.5 mm. A forma é sempre alongada, acompanhando
o tronco no sentido longitudinal e arredondada nas ex-
tremidades, na superior das quaes, a um ou dous cm.
da base, fica situada a entrada. Esta, geralmente uma
perfuração de 15 a 20 mm. de diametro, tem um pe-
queno bordo de poucos mm. de altura. Toda a coberta
é irregularmente ondeada no sentido transversal. De
todos os ninhos que tenho examinado é este o que
apresenta material mais rude e mal preparado, sendo
por isso tanto a coberta como a parede das cellulas re-
lativamente grossas.
Não sei ao certo qual a posição normal do ninho,
(vide fig.)
As dimensões dos ninhos da colleeção do Museu
são as seguintes: 27 X 11 em.; 38 X 18cm. (ambos
quasi sem cellulas) e 66x 20-23 em. Tambem neste
ultimo ninho colossal a entrada não media mais que
20 mm. Ahi observa-se perfeitamente (fig. II, p. 224)
que posteriormente foi o comprimento augmentado na
parte superior, tendo sido unicamente alargada a entrada
por 8 cm. e prolongada a coberta, com o que foi ganho
um espaço de cerca de 20 cm. Ficou porém prejudicada
a regularidade da construceção, pois que uma depressão
sensivel mostra a zona em que começa o prolongamento.
Vimos assim como pode ser augmentado nas suas
dimensões um ninho que, pela definição, pertence ao gru-
po dss de crescimento definido (as cellulas são contidas
ne at
num espaço delimitado pela coberta definitiva e unica).
Isto porém em nada vem alterar a classificação, visto como
se trata de um crescimento irregular, que não importa 4
theoria.
Muito original e bem cabida é a comparação que
o caipira faz deste ninho com a couraça do tatu, pelo
que chama à Synoeca de «Vespa Tatú».
Infelizmente tanto os ninhos descriptos pelos aucto-
res mencionados, como os meus (de S. Sebasuão e os
de Perús, Est. de S. Paulo) são todos só de S. cyanea
assäs interessante seria conhecer os das outras especies
principalmente da S. testacea.
Tatua morio
Saussure, Atlas Est. XXXII
Spice u. Martius, 1828, 1) Cp Aj. Hist. ae ( Vespa
nidulans — Chart. chartarius, lapso)
O ninho compara-se perfeitamente com o de Char-
tergus chartarius no seu plano geral, mas ha alguns
caracteres que facilmente o distinguem. Em primeiro
logar a entrada, sempre unica, fica situada, não no cen-
tro como naquella especie, mas lateralmente, quasi sobre
o bordo da coberta inferior. Depois notamos que esta
coberta é plana, não tendo nunca a fórma caracteristica
em cône muito obtuso, como em ninho da especie men-
cionada. Contrariando o que Saussure diz a respeito,
quando dá a figura Est. XXXII, noto que o nosso exem-
plar do rio Juruá tem a coberta relativamente fraca,
isto é, ainda que um tanto grossa (1,9—2 mm.) não é
muito resistente, pois que é construida com material gros-
seiro, mal trabalhado, sendo facilmente esfarelada pelo
attrito. Tal nunca se dá com ninhos de Ch. chartarius
ou globiventris cujas paredes muito se parecem com
papelão, podendo ser facilmente destacadas as camadas
sobrepostas, mas a sua resistencia contra um choque
é extraordinaria, devido mesmo a certa elasticidade que
possue.
— 245 —
Naturalme te, no conjuncto, todo o ninho da Tatua
é extremamente forte e resistente, devido principalmente
à excellente architectura a que obedece.
As cellulas medem 5 mm. de diametro e 14—15
de altura. As dimensões do ninho são 22 cm. de com-
primento, 10 cm. de largura no annel e 19 cm. na
ultima camada. A sua forma é a de um pão de assu-
car e percebe-se exteriormente, pelas cinturas ou sulcos
annullares (3), o crescimento pela construcçäo de novas
camadas.
Apoica (Est. V. fig. 6)
As construcções deste genero pertencem egualmente
ao primeiro grupo de ninhos sem coberta e sem anda-
res mas nada tem de commum com o typo Folistes.
O engenho estupendo que guiou estes animaes na
construcção de sua morada toda original, faz com que
devamos classifical-os num grupo especial.
A. pallida (Lst. V, fig. ©)
Saussure, Atlas Est. X VIII, fig. 1.º Est, XX VIII fig. 1,2
Na iigura vê-se o ninho em corte transversal.
As cellulas medem 5 mm. de diam. e 28-30 mm.
de altura; implantam-se sobre uma base que é const -
tuida, como toda a parte superior do ninho por onde
passa o galho suspensor, por uma massa muito fôfa,
uma especie de algodão ou esponja muito molle.
Como camada protectora contra a chuva (e mesmo
para que o vento não desfaça todo o trabalho) cobre o
todo um verniz reluzente e que ainda mais me vem
provocar uma comparação, por menos scientifica que
seja: com a massa do pão de ló !
Os 5 exemplares de S. Paulo, Franca, Sorocaba,
Bahia e do Paraguay (fig.) medem 15 a 20 cm. de
diam.; um outro, ainda de S. Paulo, mede 42 cm.; a
altura varia de 7 a 9 cm.
O sr. A. Ducke, em notas biologicas communicadas
na Allg. Zeitsch. f. Entom. VII, 1903, n. 18/19 p. 369,
— 246 —
refere-se aos ninhos de A. pallida e virginea que pa-
recem não differir entre si. Salienta ahi os habitos
nocturnos deste genero, que se distingue pelo tamanho
dos ocellos, o que parece estar em re'ação com o seu
modo de viver.
Esta nota biologica tambem encontramos à p. 84
do bello opusculo de J. Alfredo de Freitas, 1388. Ahi
nos diz que o povo crê, geralmente, que o marimbondo
de chapéo è cégo, pelo facto dea A. pallida não voar
durante o dia, ficando dependurada na parte inferior do
ninho, o que se explica por ser ella caçadora nocturna.
Tambem o Derju-caba, cujo ninho é chato e ex-
quisito, em forma de beijü, diz-nos Alfredo de Freitas,
é notavel pelas caçadas à noute. Julgo que tambem
esta seja uma especie do genero Apoica.
Leipomeles lamellaria (lst. VI fig. 8)
Moebius, p. 146, Est. XVII
Tenho presente dons ninhos desta especie, ambos
provenientes do Juruá. Tendo sido muito bem descripto
e figurado por Mvebius, juntamente com a especie, só
me restaria fazer notar algumas pequenas variações que
observo nos meus exemplares. Não posso, porém, resis-
tir à tentação de egualmente figurar tão bello ninho.
Quasi que só a metade (110 mm.) da grande folha
aongada é occupada pelo ninho, isto é, coberta pelo
firo tecido que entretanto nem sempre acompanha os
bordos da folha. No ápice, como o mostra a figura,
ha um recorte arredondado, que forma a entrada. A
cor desta coberta é, em um dos exemplares, quasi pura-
mente branca, no outro levemente esverdeada. As cel-
lulas reunidas sempre em pequeno numero, no maximo
30, formam pequenos grupos isolados, que são ligados
à folha por pedunculos diminutos, ora centraes, ora
lateraes. As cellulas sempre são pouco altas, de modo
que a propria larva deve completal-a com o seu tecido,
como o mostra a figura e cuja altura é de uns 2—3 mm.
Nos dous exemplares que examino, os grupos de cel-
D457
Kock Frs
lulas näo se alinham, como o mostra a figura de Moe-
bius, pela nervura mediana, mas estão espalhados irre-
gularmente por toda a base.
Polybia pumila
O ninho desta especie, proveniente de Maracapatá»
no Peru, é bastante semelhante ao da P. sninultissima
var. sedula, o qual nos mostra a fig. 6, Est. II do es-
tudo do Dr. Mœbius. As cellulas medem 2.5 mm. de
diametro e 6,5 de altura.
As dimensões deste ninho são 85 mm. de diam. para
60 mm, de altura. Conta ao todo 4 camadas de cellulas
que só se ligam pelos bordos, sem ter pilastres centraes
como o têm entre si as duas cobertas ultimas, ainda sem
cellulas, que cobrem a ultima camada occupada.
As entradas são independentes para cada camada
consistindo em vãos deixados nas cobertas lateraes.
A coberta deste ninho assemelha-se bastante ao
da P. m. sedula, muito fina e imitando papel de seda.
Differe, porém, por ser rajada de bruno-avermelhado,
sendo o desenho muito irregular (Eisblumen). Tambem
as cellulas são rajadas, alternando as faixas amareladas
com as brunas.
Para a suspensão do ninho as vespinhas escolhe-
ram, habilmente, um galho no ponto em que varias
folhas se inseriam conjunctamente e estas foram apro-
veitadas para dar mais solidez à construcção, ao mes-
mo tempo que assim economisavam material, pois que
onde as folhas se prestavam ellas substituiam a coberta.
Polybia minutissima war. sedula (Lst.
VI, fig. 9)
Saussure Atlas, Est. XXI figs. 4— 0
Miebius, p. 120, Est. IT; J. Alfredo de Freitas 1888
I. c. p. 88 (caba-mirim)
Tanto Saussure como Moebius figuram e descrevem
muito bem as diversas variações deste ninhe. Caracte-
— 248 —
rizam-nos bem a pequenez das cellulas: 2 mm. de dia-
metro para 7 mm. Ge altura e a fineza da coberta sem-
pre branca ou amarellada, quasi sempre um tanto ru-
gosa e listrada.
Distinguimos dous modos de construcção. O que
parece ser o mais commumente seguido é todo origi-
nal e delicado. A’ face inferior de uma folha grande
prende-se, por meio de pequenos pedunculos, em mé-
dia de 2 mm. de comprimento, a base do ninho que
muitas vezes se reduz a uma só camada; as cellulas
periphericas tem os bordos exteriores um pouco eleva-
dos e presa a elles, formando quinas quasi sempre re-
ctangulares, extende-se a coberta, geralmente plana a
4—5 mm. acima das cellulas. Gomtudo nem sempre os
bordos são chanfrados; quasi sempre os lados são sul-
cados mostrando assim a ligação das cellulas, Mal com-
parando achamos certa analogia entre a forma deste
ninho de uma só camada e a de uma fatia de pão,
sendo como esta ora oval, ora mais ou menos qua-
drangular. E, como a fatia em comparação, o tama-
nho do ninho é bastante variavel! Muitas vezes acom-
panha a forma da folha à qual se prende, medindo de
4 a 10 cm. de comprimento.
Frequentemente o ninho, que se tornou pequeno
para conter o numero sempre crescente de inquilinos,
necessita de um segundo, e às vezes mesmo de um
terceiro andar (fig. 9); repete-se então a mesma con-
strucção, quando muito, porém, da metade do tamanho
pa primeira camada. E' indifferente a sua posição sobre
a coberta, ficando por vezes no seu centro ou então
mais para o lado; sempre, porém, são dispensados os
pedunculos que ligam a primeira base à folha, sendo as
camadas seguintes presas directamente à coberta.
A entrada é sempre lateral, uma para cada andar
e de dimensões variaveis.
Frequentemente os constructores aproveitam-se ha-
bilmente de folhas visinhas que, presas ao ninho, dis-
pensam a construcção da coberta, conseguindo assim ao
mesmo tempo melhor abrigo e mais segurança.
aC ae
Outro systema seguido pela mesma P. in. sedula
é o que passarei a descrever.
Moebius figura-o na Est. Ll, fig. 6
Tanto os 6 ninhos de Piquete, S. P., como ainda
os de Tietê, que possue a collecçäo do Museu, pare-
cem mostrar que esta forma, aliás pertencente ao typo
mais commum entre os ninhos de Polybia, não repre-
senta o desenvolvimento do typo que acima descreve-
mos, mas que differe desde o seu inicio.
Um dos exemplares teve, anormalmente, dous cen-
tros de crescimento o que só a quarta camada veiu
corrigir, ainda que à custa da sua regularidade. A co-
berta exterior é muito fina e de forma bastante irre-
gular. (O buraco da entrada é central.
A fórma destes ninhos é mais ou menos globular
e as suas dimensões variam de 10 a 16 cent. de dia-
metros, e 7 a 10 cent. de altura.
Deviamos esperar que estas differenças indicadas
na construcção dos ninhos deveriam corresponder a uma
variação tambem na especie e que assim poderiamos
distinguir as vars. sedula e exigua, já estabelecidas pela
systematica. Tal porém não se dá, como o prova o
riquissimo material da collecçäo do Museu. Especimens
pertencentes indubitavelmente à mesma variante têm
ninhos de typos differentes e vice-versa.
Observo comtudo que tanto os exemplares do rio
Juruá, Amazonas como os de Franca, e estes em es-
pecial, tem a coberta mais resistente, aspera e de côr
cinzenta, em vez de amarellada, lembrando assim a con-
struida pela P. occudentalrs.
A caba-mirim, de que nos fala J. Alfredo de Frei-
tas, [888 p. 88, será esta mesma P. minutissima var.
sedula a qual diz ser inoffensiva, fabricar um mel pu-
rissimo e de sabor agradavel e que não raras vezes ha
sobre uma mesma folha de arvore duas casas colliga-
das e de tamanhos deseguaes, vivendo a mesma colonia
em casas separadas.
— 200 —
Polybia sylveiror
R. von lhering, 1903 Le. p. 152.
Representa este ninho a transição do systema Phra-
emocyttaro rectilineo para o Phr. espherico, ou, com-
parando os ninhos directamente, approxima-se do modo
de construcção de Caba lecheguana. A primeira camada
é quasi perfeitamente espherica, estando as suas cellulas
collocadas tanto vertical como horizontalmente; ainda
varias das camadas subsequentes são de forma bastante
curva, e só da sexta camada em diante perdem mais
e mais esta forma, até se tornarem quasi planas.
Acima do centro da primeira esphera ainda ha,
na altura de 5 a Gcm., camadas irregulares, de cober-
tas com intervallos irregulares, desprovidas de celulas.
A communicação interna das numerosas camadas
faz-se pelos respectivos furos (às vezes tambem duplos em
uma só camada), situados todos sobre uma linha mediana,
sem comtudo se corresponderem exactamente. As di-
mensões destes buracos variam de JO a 15 ou 20 mm.
As cellulas medem 38-3,1 mm. de diam. por 10
mm. de altura, inclusive 2-3 mm. de tecido larvar.
A camada exterior ou coberta é um tanto aspera,
porém de pouca grossura
As dimensões de varios ninhos da collecçäo variam
de 20 a 30 cent. de compr. por 15-25 cent. de largura
maxima. Nos ninhos menores a férma é antes esphe-
rica; nos maiores é antes a de um pão de assucar.
Polybia injucunda
Faz o seu ninho no estylo de Polistes, como o ve-
rifico por dous exemplares trazidos do rio Juruá-Ama-
zonas, pelo Sr. E. Garbe. São ambos pequenos, um só
com 12 cellulas (das quaes 3 já fechadas, com a cria)
o outro um tanto maior, 27 mm. de diametro, e com
30 cellulas. Sendo perfeitamente eguaes, a descripção
de um cabe tambem ao outro. Estão collocados na
face superior de uma folha grande, a 8 mm. de dis-
tancia da nervura mediana. O pedunculo, de 2-3 mm.
de comprimento, insere-se, como em Polistes, lateral-
mente a camada de cellulas e, a primeira destas forma
como que a sua prolongação, porém obliquamente. Me-
dem as cellulas 3,5 mm. de diametro e 12 de altura.
Polybia pediculata
Moebius p. 139 Est. XI
Segue este ninho exactamente o typo que já co-
nhecemos da Synovce (fig. Il p. 224).
Uma só camada de cellulas prende-se directamen-
te ao tronco de uma arvore e sobre ella extende-se a
coberta, egualmente ligada ao tronco, sem ter quasi
connexão com as cellulas. A coberta, cuja côr e estru-
ctura imitam perfeitamente a casca da arvore para assim
melhor occultar o ninho, fica 2 a 5 mm. acima das cel-
lulas e as suas paredes lateraes, um pouco enclinadas,
formando angulo agudo com a coberta superior, tem
6-7 mm. de altura. A entrada fica situada lateralmente.
As cellulas medem 3 mm. de diametro e 7 mm.
de aitura. Certamente é devido a um erro typcgraphico
a indicação de 3-5 mm. de espessura da coberta, quando
deverá medir apena 0,3-0,5 mm.
As dimensões do O descripto por Moebius,
unico até agora conhecido na literatura, são 195 mm.
de compr., 40-65 de larg. e 8-15 mm. de altura.
Indica como proveniencia: Brazil, devendo-se tra-
tar certamente da região amazonica.
Polybia mexicana
Pouco differe este ninho do typo phragmocyttaro re-
ctilineo tão commum entre Polybias. A coberta é antes
fina, feita de material bem trabalhado mas de estructura
grosseira (aspecto de mata-borrão) e as camadas super-
postas formam lacunas ou pequenos compartimentos de
2-4 cm. de dimensão como as que caracterizam os ninhos
de Vespa, ainda que nestes sejam em maior numero, e
o que produz na camada peripherica pequenas bolhas ou
elevações que na coberta inferior, simples, não existem.
— 292
A entrada é um pouco excentrica, mede 10 mm.
de diametro e os bordos são um tanto elevados (5 mm.)
de forma a imitar a bocca de uma garrafa.
As cellulas medem 3 mm. de diametro por 8 mm.
de altura; acima dos bordos da cellula ainda se levan-
ta o tecido branco larvar cerca de 3 mm.
As dimensões do ninho todo são 22 cm. de diam.
por 16 cm. de altura. Foi colligido em Os Perus, Est.
S. Paulo.
Polybia nigra
Uma breve descripção dada por Saussure (p. 182)
de ninhos das ilhas do Paraná (2) indica-nos a sua forma
como pyramidal, e com camadas horizontaes de furo cen-
tral. Estes ninhos de cartão são suspensos às arvores.
Possue a collecção do Museu dous ninhos aesta
especie e tanto estes como outros dos quaes tive noti-
cia sem comtudo poder examinal-os mais de perto, es-
tavam todos abrigados quer numa cavidade do chão,
quer no ôco de ninhos de cupim (Termitideos) ou sim-
plesmente em fendas de paredes.
Um ninho, proveniente de Os Perus, Est. S. Pau-
lo, tirado de uma cavidade do solo (talvez feita pelo
tatu), em nada differe do que em seguida descreverel
minuciosamente, salvo pelas suas dimensões que são um
pouco menores.
Ainda outro exemplar colligido no rio Juruá-Ama-
zonas pertence a esta especie. Mas como unica exce-
pção este exemplar parece ter pendido livremente {num
capim de sómente 1 mm. de diametro! sem mostrar
qualquer outro ponto de apoio). Para descrevel-o te-
riamos de repetir exactamente o que fica dito sobre 0
ninho de P. occidentalis. Delle differe unicamente pelo
tamanho das cellulas que é de 4 X 8,5 mm., medindo o
tecido larvar 4 mm. de altura.
Dou em seguida os apontamentos que tomei ao
estudar o interessante ninho desta espec.e, que capturei
8 de Agosto de 1998.
«Em fins de Junho de 190% foi-me indicado este
ninho accommodado no 6co de um cupim abandonado,
255%.
situado no campo proximo ao Monumento do Ypiran-
ga. Prend a-se à parte superior da espaçosa cavidade
do cupim; preenchia bem o terço superior da cavidade
e acompanhava exactamente as paredes da mesma, tendo
assim uma forma irregular de cone. As dimensões são
de 22 cm. de altura para 30 cm. de diametro.
Em varios pontos da camada exterior havia pe-
dunculos de cerca de 5 mm. de compr., grossos e que
prendiam o ninho as paredes. A coberta compõe-se de
varias camadas supperpostas de ca. de 5 mm. de espes-
sura deixando camaras ou lacunas de pequenas dimen-
sões, no estylo de Vespa; exteriormente elle é rugoso
e irregularmente ondeada.
Ao todo havia 11 camadas de cellulas, das quaes
a 1.º era quasi semispherica, a ultima quasi plana.
Não ha connexão entre as camadas; sómente nos
bordos ellas se unem pela parede. A communicação in-
terna faz-se nas 7 primeiras camadas por um unico
furo central em cada uma dellas e que nem sempre se
correspondem exactamente nos successivos andares; da
8.º camada em diante ha 2 furos que distam 6 mm,
um do outro com 10 mm. de diam., quando o da 7.º
camada mede 25 mm. de diametro.
As cellulas medem 4 mm. dé diam. e 11 mm. de
altura.
Havia duas entradas para o ninho, representadas
por dous furos na parede do cupim, uma para o sul
outra para leste; fechadas estas duas portas não havia
por onde fugir, de modo que foi facilima a captura de
toda a colonia.
De dia era impossivel approximar-se do ninho, por-
que constantemente entravam e sahiam vespas que in-
distinctamente atacavam ao curioso e ao estudioso.
De manhã, porém, antes de levantar o sol, ainda
toda a colonia repousava e então podia-se bater contra
as paredes do cupim sem que se fosse repellido. Sem-
pre notei que durante as horas do descanço as portas
eram vigiadas por sentinellas, uma em cada entrada ;
em geral, porém, no tempo do frio, tão rijas estavam
dO
RAD CE
que não se moviam quasi ao se lhes tocar, ou então re-
colhiam-se medrosas, alguns centimetros, sem avisar a
quem as havia destacado.
Surprehendi a colonia pela manha e é pois bastante
approximativo o seu numero total.
Foram examinados 2882 individuos; comtudo de-
vemos avaliar o total em ca. de 4.000 individuos, pois
que ficaram alguns delles escondidos no proprio ninho e
outros se perderam ao desenterral-o. Entre os 3882 indiv.
havia 47 99 e 11 S&S (portanto para o total de 4.000
devemos calcular 50 PP elo dd). As 12 femeas que
examinei ao microscopio eram todas fecundadas.
Havia criação em todos os estados de desenvolvi-
mento. (O ovo, que é preso à parede lateral da cellula,
mede 1,6 mm.; A larva completamente crescida mede
12 mm.; sempre quando ella attinge o seu completo
desenvolvimento é a cellula fechada por um fino tecido
alvo que se eleva a 4 mm. acima do bordo.
Mel havia em regular quantidade, isto é em todas
as cellulas não occupadas por ovos ou larvas havia uma
gotta ou no fundo ou presa à parede da cellula.
Não encontrei parasita de especie alguma neste
ninho; mas era bem variado o grande numero de sub-
locatarios que occupava o resto da cavidade do cupim.
Assim lã encontrei Gryllideos, Blattideos, Microlepido-
pteros, Formicideos e mesmo uma pequena cobra (Lio-
phas conirostris Günth.) tudo na mais pacifica convi-
vencia !»
Ji em 7 de Maio de 1903 eu collecionei às 8 ho-
ras da manhã uma obreira rija pelo frio eque no abdo-
men mostrava, entreo IV e o V segmentos 2bd., a cabeça
de uma larva de Stylopida (Xenos ?); este individuo
pertencia certamente ao ninho que acabo de descrever
pois que fôra encontrado apenas a 4 metros de distancia
do ninho. Comtudo, apezar do cuidado especial com que
examinei todos os insectos, em nenhum delles encontrei
signal de Stylops. Seria verdadeiro o que se affirma-
vam que os individuos atacados desses parasitas são ex-
cluidos da sociedade ?
— 299 —
Polybia atra (Est. VII, fig. 15)
H. von Ihering 1896 1.c. p. 452 (P. ignobilis)
Esta especie repete sempre, com muita regulari-
dade, o mesmo typo de construcção que é, na essencia,
o mesmo dos ninhos de Polistes; assim o provam os
numerosos exemplares (mais de 15) existentes na col-
lecção do Museu Paulista e provenientes de varias lo-
calidades do Estado de S. Paulo. Somente o exemplar
figurado tem tres pedunculos e isto devido a ter sido
preso a um torrão de um barranco, que, naturalmente,
não offerecia fundamento bastante solido, pelo que foi
a syraetria sacrificada a bem da segurança. Em todos
os demais exemplares o pedunculo é central, mede cer-
ca de 5 mm. de comprimento, e só raras vezes é cy-
lindrico. As cellulas medem 4,5 mm. de diam. e 11
mm. de altura. A forma desta camada de cellulas, sem-
pre unica, pouco varia; predomina a que mostra a fi-
gura, irregularmente oval ou em losango, sendo ra-
ramente circular. O maior diametro attingido é de
ss NT
Polybia scutellaris
H. von Ihering 1896 1. c. p. 459. Brethes 19021. c.
p. 413, Est. VII fig. 1,2, (com boa lista bibleo-
grapluca).
O ninho desta vespa denominada camoatin, é o
que mais commummente se encontra quer nos campos,
preso aos galhos das arvores, quer nas casas contra
as paredes ou vidraças, em altura variavel de 1,5 a
20 metros.
Por estas mesmas razões tem sido deseripto mui-
tas vezes, tendo o estudo desta especie ainda a vanta-
gem de não ser muito perigosa a captura do ninho.
São antes mansas, não molestam a quem passa e as-
sim torna-se facil a caçada, ainda que a sua ferroada
seja bastante dolorida.
— 206 —
A architectura deste ninho é bastante commum
entre os vespeiros; é o typo caracteristico do grupo
phragmocyttaro, sendo ora rectilineo, ora quasi esphe-
rizo no seu inicio, porem sempre rectilineo quando au-
gmentar o numero de camadas. As dimensões das cel-
lulas são 2,8 mm. de diametro e 7,5 mm. altura, ele-
vando-se o tecido larvar 2 mm. acima do bordo supe-
rior.
Variam muito as dimensões dos ninhos que tenho
examinado, dependendo tudo do enxame fundador, com-
posto ora de poucas centenas, ora de muitos mil indi-
viduos. O ninho de maior dimensão que possue a col-
leccäo do Museu mede 55 cm. de altura e 35 de lar-
gura.
A entrada, sempre situada lateralmente, sobre a
quina das paredes inferior e lateral, é de forma muito
variavel, ora representada por uma simples abertura
de pouca altura (7—10 mm.) e de largura às vezes
bem consideravel (S—7 cm.) ora quasi oval e muitas
vezes prolongada em fórma de bocca de sapo, de as-
pecto por vezes summamente grotesco.
Interiormente, por cima desta entrada, continúa
um correder horizontal de largura variavel de 3 a 4
ou 5 cm formado pelo espaço livre deixado pela ca-
mada que ahi não se prende à parede. A espessura
desta parede é bastante variavel, geralmente mais fina
na metade inferior do ninho, chegando em cima a me-
dir 5 cm. de grossura.
A descripção dada até aqui cabe a todos os ninhos
desta especie. Distinguimos, porém duas fórmas assaz
caracteristicas. E” a coberta exterior que póde ser fei-
ta de dous modos. Quasi todos os ninhos desta especie
até agora descriptos tem-na ornado de apophyses spi-
niformes, às vezes bastante compridas (12 mm.). Estes
espinhos massiços, distribuidos sobre todas as paredes
quer lateraes quer inferiores, (de onde naturalmente são
eliminados quando se procede à construcção de uma
nova camada) nem sempre estão dispostos symetrica-
mente, ainda que às vezes formem circulos que acom
a Ne
panham a orientação das camadas; são de efeito mui-
to curioso quando agrupados em redor da entrada.
Abstrahindo dessas apophyses, a coberta é muito lisa,
imitando por vezes a de Chartergus. Os ninhos com esta
forma de camada occorrem principalmente no sul do
Brazil, no Prata etc. e tambem emS. Paulo, onde po-
rem, é mais frequente a forma que passarei a descrever.
Em tudo: identicos aos ninhos da forma acima des-
cripta, distinguem-se delles os que predominam em $.
Paulo, Rio e Minas. Nestes a coberta é inteiramente
desprovida de espinhos e ao passo que a fina coberta
inferior é quasi lisa, tendo só ligeira estructura irregu-
lar, as paredes lateraes mostram uma estructura muito
irregular ; pequenas chapas curvadas de 10 a 15 mm.
de comprimento, com forma de concha (Ostrea) super-
põem-se formando pequenos compartimentos (syst. Vespa),
chegando a ter as paredes alguns centim. de espessura.
Esta forma, a qual Dr. H. von Ihering denominou
var. paulista, não é possivel distinguir morphologica-
mente na systematica, constituindo pois uma variedade
biologica. Distinguindo-se a maior parte dos insectos
constructores destes ninhos tambem pela tendencia de se
ornarem com colorido amarello sobre os bordos do pro-
thorax, sobre os flancos e no petiolo, vemos claramente
que se trata de uma variedade em vias de formação mas
ainda pouco estavel e mal caracterizada para ser reco-
nhecida na systematica.
Polybia flavitincta
Um ninho de boas dimensões, 22 cm. de altura
para 18 cm. de largura, apresenta a forma de uma cam-
panula, attingindo logo no primeiro terço a sua largura
total. Prende-se em cima a dous ramos finos que pe-
netram verticalmente no centro do ninho. A coberta é
bastante espessa na metade superior (3—3,5 cm.) e
compõe se de muitas camadas superpostas (va 6) que
formam, como em Vespa, um systema de compartimen-
tos que são accessiveis aos insectos e bastante espaçosos,
on
geralmente de pouca altura, de 15-20 mm. de largura
e que acompanham o ninho de cima até embaixo.
As suas paredes são finas e muito quebradiças ; só
na parte superior a parede externa é bastante lisa, ao
passo que nos lados se distingue claramente a estructura
dos compartimentos.
A entrada do ninho é simples, arredondada, com
cerca de 18 mm. de diam. e é formada em parte pela
parede lateral.
As camadas de cellulas são levemente curvadas ; as
cellulas medem 4,5 mm. de diam. e 14,5 mm. de al-
tura e o tecido larvar é pouco elevado,
O ninho foi colligido em Piquete, E. S. Paulo.
Polybia occidentalis
Saussure Vol. IT p. CVII
Moebius 1856 1. c. p. 137 Est. IX, X (P. pygmaea). .
No systema de construcçäo do ninho não ha diffe-
rença entre esta especie e a P. scutellaris na sua va-
riante paulista. CGomtudo devemos notar desde já que
as suas dimensões são sempre muito menores. O ninho,
bastante commum, encontra-se quasi sempre nos cam-
pos, preso aos galhos de pequenos arbustos, escondidos
no capim alto, pouco se lhe dando que os galhos e gra-
vetos visinhos o atravessem em todas as direcções, mes-
mo com prejuizo da regularidade da construeçäo.
A férma do ninho bem desenvolvido é approxima-
damente ovoide ; a entrada fica situada lateralmente, um
pouco acima da ultima camada, de maneiras que deixa
ver, além desta que fica abaixo, ainda as duas ou tres
superiores. As dimensões desta entrada, geralmente de
forma oval, variam de 15 a 20 mm.
A coberta de espessura variavel de 5 a 8 mm. com-
põe-se de grande numero de camadas superpostas, irre-
gularmente subdivididas em pequenos compartimentos e
exteriormente apresenta o especto de um telhado, por
Songs
ser recoberto de pequenas chapas alongadas, muitas vezes
um pouco convexas e que frequetemente deixam embaixo
uma entrada semilunar (para fazer uma comparação ento-
mologica poderiamos dizer que o aspecto exterior é 0 ve
uma esphera recoberta de ninhos parallelos de Trypoxylon.
As camadas de cellulas são pouco convexas, nunca,
porém, chegam a ser planas; as cellulas medem 2,5 mm.
de diam. e 5,5 mm. de altura, às quaes as larva juntam
um tecido de 3 a 3,5 mm. de altura. As dimensões
dos varios ninhos da collecção variam de 7 a 12 mm.
de diametro para um comprimento de 11 a 13 mm.
Polybia occidentalis juruana
Um ninho desta bellissima variedade distingue-se
logo pelo seu modo de fixação; a especie typica sem-
pre liga sua construcçäo aos ramos de um arbusto e
frequentemente prende tambem as folhas visinhas as
paredes. Aqui, porém. o ninho é preso à face inferior
de uma grande folha por meio de um pedunculo gros-
so que logo dá origem à primeira camada. Ao todo ha
sômente duas camadas e uma coberta. Esta é bastante
lisa, sem estructura, com aspecto de turfa. A coberta
inferior é quasi plana, limitando-se com as paredes la-
teraes por uma quina bem pronunciada. A entrada fica
situada, como no ninho typico, em parte sobre o lado
inferior, em parte sobre a parede lateral do ninho. Dia-
metralmente opposta à entrada fica uma saliencia lembran-
do as que Moebius figura no ninho de P. catillifes.
As dimensões deste ninho ainda novo são 37 mm.
de altura para 55 mm. de largura. |
Foi colleccionado em 1902 pelo Sr. E. Garbe no rio
Jurua-Amazonas.
Polybia dimidiata
(Est. VIL, fig. 17)
Um bello ninho desta especie foi-nos trazido pelo
Sr. M. Wacket de Catalão, Goyaz. As dimensões são 57
cm. de altura para 37 cm. de largura maxima (na ul-
tima camada). Estava suspenso a um galho de uma ar-
— 260 —
vore que atravessava obliquamente as primeiras cama-
das. Destas as primeiras são um pouco curvadas, as
demais quasi planas; ao todo ellas são em numero de
17. O intervallo entre 2 camadas varia de 9a 14 mm.
À communicação interna faz-se pelos furos de cada ca-
mada e que a seu tempo formaram respectivamente a
porta de entrada do ninho; ficam situados todos sobre
uma mesma linha vertical lateral, quasi peripherica,
distando cerca de 20-30 mm. do bordo. Nas ultimas
camadas o furo mede 25 mm. de diametro e é de for-
ma quasi oval; é orlado por um annel de cerca de 10:
mm. de largura onde não ha cellulas e tambem a gros-
sura desta parte da base é mais consideravel,
A coberta é feita de material muito grosseiro, mal
preparalo, pois que se esfarela facilmente ao attrito.
Devemos porém distinguir duas partes nesta coberta :
uma camada da grossura de papelão (cerca de 2mm.),
inteiriça, e outra espessa, variando de 30 a 40 mm.
de diametro na metade superior do ninho, e de 10-20:
na inferior. Esta ultima lembra a coberta construida
por Vespa, porêm as lacunas são menores, além do
que ha outras differenças.
As cellulas medem 6 mm. de diametro e 20-21
de altura; suas paredes são da grossura de papel for-
te. O facto mais digno de nota é o que se observa
com relação ao fundo das cellulas.
A base sobre a qual ellas são construidas sempre
é de 0,15 mm. de grossura; mas ha sempre nas ca-
madas mais velhas uma segunda camada de substan-
cia mais escura, quasi preta, e que destaca das pare-
des da cellula pela cor mais clara destas. A espessura
deste deposito no fundo da cellula varia segundo a ca-
mada que considerarmos. Assim nas © primeiras cama-
das mede de 7 a 10 mm., nas 5 ou 6 camadas se-
guintes a media da espessura é de 9 mm.; nas de-
mais a espessura ainda é menor ou mesmo não ha
vestigio algum. Estes depositos, que se observa no fundo
das cellulas de muitas especies de vespas, não sei in-
terpretar com segurança; como, porcm, sempre se os.
— 261 —
encontra só nas camadas mais antigas e portanto as que
foram usadas maior numero de vezes, julgo que não se tra-
ta senão dos restos fecaes das larvas, tanto mais que se
distingue bem que estes depositos se compõem de varias
camadas, as quaes correspondem a outras tantas gerações.
Um outro ninho da mesma especie (fig. 17), pro-
veniente de Franca, E. de S. Paulo, de dimensões pouco
menores quasi não differe do acima descripto. O tronco
de um arbusto (3 cm. de diam.) ao qual o ninho se
prende, fica situado quasi no centro de toda a cons-
truccäo, atravessando-a de alto a baixo.
Tambem aqui a coberta é espessa, 4 cm. em cima,
diminuindo gradativamente à medida que desce. À sua
estructura lembra a das paredes do cupim ( Termes’, que
porém empregam terra na construcção.
A côr geral do ninho é marron. Ha ao todo 11
camadas.
Singular é o facto que neste ninho não ha ves-
tigio do mencionado deposito no fundo das cellulas e
que, si O attribuirmos às gerações que nellas se desen-
volveram deveria tambem aqui existir, mesmo tratando-
se de um ninho relativamente novo.
Em uma das cellulas centraes da 4.º camada, que
fora aberta pelo corte longitudinal, encontrei um /chneu-
momda ja bem desenvolvido e acima delle ainda a cabeça
Já completa assim como abaixo parte do abdomen da /o0-
lybia dimidiata. Não póde pois haver duvida a respeito
deste achado: trata-se de um verdadeiro parasita, tendo
sido o ovo ahi depositado durante o desenvolvimento da
Polybia. O facto é commum em ninhos desabrigados de
Polistes e outros semelhantes de Polybia como cassunun-
ga, atra ete. mas nunca o tinha observado em um ninho
fechado e bem defendido como o presente.
Polybia rejecta
Moebius p. 130 Est. IV
Saussure Atlas Est. XXIX fig. 4-6
jrma mais seguida por esta especie parece ser
A forma mais seguid ta especie parece sei
a que tambem tem o ninho de Tatua, cylindrica e alon-
— 262 —
gada, havendo, porém, como o mostra Saussure, tambem
exemplares antes conicos. Exteriormente a camada é
ondeada, mostrando a successão das diversas camadas.
A espessura das paredes varia de 1 a 2mm. A entrada
é circular, com 11 mm. de diam. e fica situada um
pouco excentricamente.
Simples na camada inferior, é munida nas cama-
das internas de um tubo de 6-7 mm. de altura e cuja
bocca inferior mede 20 mm. de diam. As cellulas me-
dem 4 mm. de diametro por 9 mm. de altura.
Um exemplar desta especie guardado no British
Museum attingiu 1 metro de comprimento, sendo os de-
mais ninhos conhecidos de dimensões bem menores.
Na collecçäo do Museu Paulista ha um ninho pro-
vavelmente de Manãos, Amazonas que pertence a esta
especie e que muito se assemelha ao exemplar figura-
do por Moebius, tanto pela forma como pelo material
e seu colorido. Sômente não cbservo nas camadas in-
ternas aquelles tubos singulares que rodeiam os furos
de passagem; pelo contrario são simples nas camadas
internas e só a entrada principal é munida de um tu-
binho de 3 mm. de altura; a media dos. diametros
destas passagem é de 10 mm. As cellulas medem 3,5
de diametro por 10 mm. de altura ao que accrescem 3
mm. de altura do tecido larval. Este exemplar mede
20 cm. de compr. e 12 cm. de largura.
Polybia sericea
Saussure Atlas, Est. XXIX fig. 1, 2, vol. Hp. CVU.
Moebius, p. 128, Est. III.
Hl. v. Thering, 1896, 1. c., p. 451.
Brethes, 1902, p. 417, Esto Li 00e
Conhecendo os ninhos de Polybia occidentalis,
flavitincia e outros do grupo dos Phragmocyttaros re-
ctilineos tem-se uma idéa perfeita do systema seguido
nos ninhos da P. sericea. De resto convem lembrar
= 263 —
que o arranjo especial em cada um dos ninhos depende
muito das circumstancias em que elles foram construi-
dos, devendo assim variar consideravelmente o modo le
fixação, a regularidade da disposição das camadas, a
posição da entrada, CGR
As dimensões das cellulas são 5 mm. de diametro
por 15 mm. de altura. Os ninhos desta especie pa-
recem não attingir grandes dimensões ; ao passo que os
nossos exemplares não excedem 20 cm. de comprimento,
J. Brèthes figura um de 37 cm. de compr. mas rela-
tivamente estreito, pois que em geral a forma destes
ninhos é espherica ou oval.
Pelo que diz Saussure à p. CVII, o ninho de Po-
lybia chrysothorax parece não differir do de P. sericea .
o que parece confirmar minha opinião de que aquella
seja apenas uma subspecie ou variedade desta.
Polybia emaciata
Lucas; AS49 Eca pa 304; Est, 1X figs" a
Semelhantemente a alguns outros ninhos do genero
Polybia, tambem este é construido de barro. Mede 16
cm. de comp. por 9 cm. de maior largura. Curioso é
ficar a entrada situada lateralmente sobre a parede um
tanto elevada e a 8 cm. de distancia da extremidade
inferior do ninho. Crescendo um ninho com uma en-
trada nestas condições, como far-se-ha a communicação
entre as varias camadas? São tantas as soluções deste
problema architectonico que talvez a pobre vespa renun-
cie a optar por uma dellas e abandone a casa como
imprestavel.
Indica-o o auctor como proveniente dos arredores
do Rio de Janeiro.
Polybia vicina (Est. VII, fig. 16)
R. von Ihering 1903. |. c. p. 147
Já descrevi minuciosamente os ninhos que desta
especie possue a colleeção do Museu Paulista.
— 264 —
A figura mostra qual o systema seguido, que aliás
ainda não vi imitado por nenhum outro vespideo.
Approxima-se-lhe mais o da P. ampullaria, mas
este, com coberta, ja pertence a um typo diverso; por
ora não podemos saber si P. wicina descende do grupo
daquella ou si pertenceu anteriormente ao grupo das
P. cassununga, atra, ete. vindo a tomar as proporções
-collossaes que hoje nos pasmam. Este ultimo caso repre-
sentaria um progresso, ao passo que o primeiro seria
um retrocesso.
De um ninho desta especie, exposto na sala ento-
mologica do Museu Nacional, Rio de Janeiro, passo a
dar a descripção que devo à gentileza do collega Ali-
pio de Miranda Ribeiro.
«O ninho de Cassununga, exposto no Museu Na-
cional, tem 19 camadas de cellulas. As cinco primeiras
(de baixo para cima) (1) são continuas, a 0% ea
7.2 têm algumas falhas ainda não preenchidas e da
8.º em diante os andares succedem-se, por assim dizer
em torres isoladas, em muito maior numero para o
centro do que para a peripheria do ninho ; essas torres,
cujos andares de umas estão à mesma altura dos das
outras, de forma a constituírem, mais tarde, camadas
completas, tem o aspecto pyramidal quando olhadas de
perfil; isso devido à extensão de seus andares que vão
diminuindo de baixo para cima, pelo lado da periphe-
ria do ninho. As camadas completas tendem à fórma
circular. A primeira mede 1 metro de diametro,
a 6.º 0,784, havendo graduação irregular da 1.2 à 6.2,
« AS torres terminam 4s vezes, com tres unicas
cellulas na extremidade de um pilar de cerca de 15 mm.
de altura, dimensão esta aliás constante para o espaço
que medeia entre as camadas ».
Os exemplares de maiores dimensões que figuram
na collecção do nosso Museu medem 28 cm. de altura
e D» cm. de diametro (acommodado em uma barrica
(1) O ninho está exposto em posição invertida, a abertura
das cellulas para cima, e assim foi descripto.
— 265 —
vasia) ; 60 cm. de altura por outro tanto de largura;
um outro ninho, que infelizmente não pude conquistar
aos seus temiveis defensores, examinei em S. Bernardo:
as suas dimensões eram 120 cm. de largura para 90
cm. de altura; estava preso ao telhado de uma chou-
pana. Emfim observei ainda um quarto ninho, em S.
João Climaco, S. Paulo, que estava abrigado no ôco de
um tronco de arvore. As dimensões das cellulas são
de x 11 mm.
Parece que P. wema sempre procura algum abri-
go seguro para as suas construcções, para assim SUp-
prir a falta de coberta do ninho.
Bastante conhecido é o genio guerreiro desta
« cassununga » que, durante o dia, não deixa pessoa
alguma approximar-se do seu ninho, voando logo ao
encontro e aplicando a sua ferroada dolorida que,
porém, sempre tem por effeito a morte da atacante,
pois que o agulhão e mais um ou dous segmentos
abdominaes ficam presos à epiderme ou ropa do inimi-
go. Temiveis são os enxames desta especie e não são
raros os casos que terminam com a morte do incauto
que por elles se deixar surprehender.
Polybia cassununga
Hf. v. Ihering 1896 1. c. p. 452 (P. vicina)
He On Dern 100 do Guam 147
Os insectos desta especie e da precedente são de
f cto bastante semelhantes, tanto que o proprio mestre
Saussure os confundira; mas os seus ninhos divergem
completamente. Tambem biologicamente encontramos
grande differença ; ao passo que o ninho de P. cassu-
nunga é iniciado sempre por uma só femea, P. vicina
emilte enxames enormes nos quaes, como nos das outras
especies, provavelmente ha um grande numero de QQ.
O ninho, que segue quasi exactamente o typo
característico para o genero Polistes, distingue-se diffi-
cilmente do que representa a fig. 15 da Est. VII (P.
atra). Comtudo as medidas são diversas. As cellulas
LB
tem 3,5 mm. de diametro para 12—13 de altura. Os
ninhos de maiores dimensões são de 6,5 cm. de dia-
metro; um exemplar muito curioso pela forma mede
11,5 cm. de comprimento, tendo sómente 2a 2,5 cm.
de largura e o seu pedunculo é perfeitamente central,
como o vemos em geral nos ninhos desta especie.
Polybia buyssoni (lst. VII, fig. 14)
Descrevendo, esta especie (R. w.. !h. 1. c.ºp. 1908,
p. 191) eu lamentava não conhecer tambem o seu ninho
para comparal-o com os de P. wicina e cassununga,
visto serem tres especies bastante semelhante mas de
nidificação muito differente. Felizmente, porém, os exem-
plares typicos (Piquete, E. S. Paulo, X. 96) foram col-
leccionados com o ninho e este, provisoriamente, fora
collocado entre os de P. eccidentalis, pela real seme-
lhança que ha entre estes dous ninhos.
De facto é difficil affirmar, sem conhecer os con-
structores.. a que especie pertence o presente ninho.
Perfeitamente phragmocyttaro; entrada simples,
quasi central; coberta fina e quebradiça, levemente on-
dulada na parte inferior e irregularmente bossulado nas
paredes lateraes ; todo o ninho, de forma approximada-
mente espherica, preso em cima a um galho bifurcado ;
é esta a conformação que mais commummente se en-
contra nos ninhos de Polybia.
Suas dimensões são 10 cm. de altura por 10 em.
de diametro: o numero total de camadas é 6; as cel-
lulas medem 2,7 mm. de diam. por 6,5 de altura, ele-
vando-se o tecido larvar 35—4 mm. acima da cellula.
As paredes lateraes do ninho compüem-se de varias ca-
madas sobrepostas e que, pelas suas numerosas divisões
internas formam compartimentos de dimensões variaveis
(syst. Vespa).
Um outro ninho desta especie foi coliigido em 9
de Junho de 1899 pelo Dr. H. v. Ihering no Ypiranga,
S. Paulo. E” de summo valor, por nos mostrar de que
modo é iniciada a construcção. Mede apenas 5,9 em.
de altura para 9 cm. de diametro, egualando em tudo
267 —
ao ninho acima descripto. Como a entrada é bastante
larga pôde-se examinar todo o interior com as tres ca-
madas sobrepostas e uma coberta iniciada. Não ha,
porem, nenhuma cellula, nem mesmo em esboço, como
frequentemente se observa em ninhos velhos. Sabemos
pois, que o enxame fundador de um ninho se occupa a
principio tão sómente da construeção das paredes e das
divisões ou camadas; só depois de concluido assim o
abrigo para todos é que se inicia a construcção das
cellulas.
Esta observação ainda é interessante pela sua data,
pois mostra que, mesmo em pleno inverno, ha sahida de
enxames, ou melhor, mostra quão pouco caso os nossos
insectos autochthones ligam à estação do frio.
Polybia fastidiosuscula
Sem conhecer o insecto constructor não se distin-
gue o ninho desta especie do da P. mexicana. Tanto
o colorido (côr de areia), como a estructura da coberta
com varias camadas sobrepostas e formando comparti-
mentos, assim como o arranjo das camadas que faz
classificar este ninho no grupo dos Phragmocyttaros
perfeitos, combinam perfeitamente com o que se ob-
serva no ninho da especie acima indicada que, aliás,
na systematica não se distingue facilmente da P. fas-
tudrosuscula. Gonvém observar que os nossos exemplares
foram determinados pelo proprio Dr. Saussure, o que
exclue qualquer duvida a respeito da determinação.
Singular é a passagem da penultima camada para
as interiores : em vez de consistir, como de regra, num
simples furo da mesma, ha um verdadeiro tubo de
30mm. de comprimento e que, deitado sobre a camada,
conduz do centro para a peripheria para só ahi pene-
trar na camada seguinte, que egualmente tem um tubi-
nho sobre a entrada (talvez não. se trate sinão de uma
anormalidade).
As dimensões das cellulas são 2,9 mm. de diame-
tro por 6 mm. de altura, elevando-se o tecido da nym-
pha ainda 4mm. acima do bordo da cellula.
— 268 —
As dimensões deste ninho, procedente do interior
do Estado de S. Paulo, são 16 cm. de altura sobre 15
cm. de diametro, sendo a sua forma quasi perfeita-
mente espherica.
FPolybia ampuliaria
Moebius p 133 Est. VII. Saussure, Atlas Est. XX VIT
fig. 3. (Polybia sp.)
Os dous ninhos da colleeção do Museu, um do rio
Juruá, outro de Maracapatá, Perú, seguem o mesmo
systema que Moebius já descreveu segundo exempla-
res «do Brazil».
Tanto nos especimens das figuras acima indicadas
como nos da collecção do Museu o ninho propriamente
dito é de forma quasi globular; o tubo de-entrada, po-
rêm, bastante longo e situado na parte inferior do ni-
nho, dá o cunho característico às construcções desta
especie, a qual, por isto, mereceu o epitheto de «fabri-
cante de garrafas».
As camadas de cellulas que preenchem todo o in-
terior do ninho estão dispostas segundo o mesmo sys-
tema do que as da P. vicina ; as camadas são pouco
arcadas, quasi planas e prendem-se, em varios logares,
à coberta por pedunculos de cerca de 7 mm. de com-
primento. As dimensões das cellulas são: à mm. de
diametro e 10 mm. de altura.
A entrada mede em ambos os ninhos 2025 mm.,
sendo um tanto oval. O tubo da entrada é pouco longo
no exemplar do Juruá; no peruano mede 80 mm. e é
recurvado na extremidade.
Têm os dous ninhos approximadamente as mesmas
dimensões : cerca de 12 cm. de base e 8 cm. de al-
tura (sem o tubo). Prende-se um dos exemplares pela
base à face inferior de uma folha bastante larga de
uma palmeira; o do rio Juruá prende-se à bifurcação
de um galho, aproveitando habilmente duas folhas, as
quaes assim dispensam a construcção da coberta nesse
ponto.
“uy
— 260 —
O colorido da coberta do primeiro ninho é claro,
branco-sujo, com muitas listas brunas transversaes, eguaes
ds das cellulas; o segundo esemplar ê de côr uniforme
pardacenta, as cellulas, porém, são como no primeiro
ninho.
Polvbia septentrionalis (Est. VI, fg. 10) (*)
Varios ninhos desta especie bem caracterizada fo-
ram comprados ao sr. H. Rolle e provêm da Bolivia
e de Maracapatä, Perú. Só mesmo com o auxilio de
uma figura (vide a acima indicada), comprehende-se bem
a forma exquisita deste ninho, cujo typo fundamental é
aliás dos mais communs. Quando o ninho tem uma só
camada, a sua forma é bem a de uma campanula lar-
ga ou de uma taça invertida, sem pè; a coberta da
camada seguinte não é o prolongamento da inicial mas,
devido a ter a camada subsequente um diametro quasi
10 mm. menor, forma uma cintura bastante aprecia-
vel. Curiosos são no bordo desta mesma cintura uns
prolongamentos ou tuberculos alongados que bem ca-
racterisam esta construcção.
A entrada é lateral e a passagem para as cama-
das superiores faz-se pela falha de uma zona semicir-
cular de cellulas junto à parede.
As cellulas medem 3,1 mm. de diam. e 11 mm.
de altura.
Os tres exemplares da colleeção tem cada um 3
camadas, variando a sua altura de 8 a 10 em.; sin-
gular é o facto que em nenhum delles a mencionada
cintura entre as L.® e II.* camadas é bem pronunciada,
mas sempre entre as seguintes. O diametro maximo
nestes exemplares é de 5,5 a 6,5 cm.
(*) Schulz, W. A, 1903 I. e. p. 260, parece confirmar o meu
modo de ver quanto a esta complicada questão de literatura ;
comtudo, à presente especie não podemos denominar P. fasciata
Lep..1836, por haver Olivier preoccupado o nome em 1791 para
a especie geralmente conhecida como P. fulvofasciata Deg. 1775.
Este ultimo nome, segundo Saussure, pag. 186, nota 1, designa
um Polistes sp.
-- 270 —
Polybia meridionalis (lst. VI. fig. 7)
Occupa o ninho, ccmo o mostra a figura, o Ôco
de uma palmeira. O diametro deste é de 22 cm. e a
sua parte occupada pelo ninho mede 60 cm. de altura.
Para cima continüa desoccupada a cavidade, emquanto
que a base é forrada por uma espessa camada de
cisco, pô e fibras de madeira, no meio da qual se en-
contrava grande quantidade de insectos mortos e mes-
mo a epiderme de vma cobra.
Uma coberta foi dispensada, visto como a cons-
trucção esta bem abrigada. As camadas de cellulas pren-
dem-se directamente às paredes da cavidade por meio
de pilastres ou pedunculos ora mais fortes ora fracos
e de comprimento egualmente variavel (10 a 20 mm.).
A disposição das camadas é a mais irregular possivel.
Emquanto que nas outras especies observamos que sem-
pre ha c maior cuidado em collocar as cellulas verti-
calmente e com a abertura para baixo, aqui esta ori-
entação é antes rara e vemos tanto cellulas verticaes
com a abertura para cima, como outras (e estas predo-
minam) completamente horizontaes e dirigidas em to-
das as direcções com a abertura para o lado exterior.
As primeiras camadas foram orientadas da seguinte
forma. Por um pedunculo prende-se a primeira dellas
à parede lateral. A sua forma é mais ou menos semi-
espherica. Seguem-se as camadas ligadas por pedunculos
tanto à parede como à camada respectivamente anterior
e conservando sempre a forma curvada, nas ultimas um
tanto menos do.que nas primeiras. São ellas em nu-
mero de 10. Para baixo ainda continuam no mesmo
sentido espherico outras 11 camadas, que, porém, não
passam a altura do pedunculo inicial.
Esta porção de camadas descriptas (a na figura) po-
demos considerar como a parte principal do ninho, na
qual reconhecemos um certa orientação das camadas que
lembra o typo espherico seguido por Caba.
Uma segunda parte do ninho (4) é constituida por
D camadas agrupadas de um modo até agora nunca
observado em ninho de vespideo.
»
A primeira das camadas & completamente plana e
de forma triangular alongada. A seguinte envolve-a
completamente, em fórma de cartucho, com as cellulas
para o lado externo e os seus bordos ligados por pe-
dunculos assim como à primeira camada. Segue-se
ainda uma outra camada cylindrica (um pouco estreitada
em uma das extremidades) de sutura egualmente ligada
por pedunculos. Ha ainda duas camadas que, si fossem
completadas, apresentariam egualmente a forma de car-
tucho. Por meio dos pilastres, muito numerosos e às ve-
zes bastante fortes, esta construcção originalissima cria
uma certa solidez que não se poderia esperar de uma
architectura tão extravagante. Infelizmente não posso
dizer ao certo qual a posição original desta segunda
parte do ninho. Desconfio, porêm, que estivesse collocada
transversalmente na cavidade, pois sO assim posso ex-
plicar a direcção que levam algumas fibras de madeira
ainda presas às camadas de cellulas.
Uma terceira porção do ninho (c na figura) é tão
curiosa quão desnecessaria. Tendo apenas algumas pe-
quenas camadas de cellulas de poucos millimetros de
altura, é constituida na maior parte por um entrelaça-
mento muito irregular de pseudo-pedunculos de grossura
variada. Levado unicamente pela innegavel semelhança,
comparo esta singular construcção com a que faz em
seus ninhosa Trigona molesta Puls. Tujuvinha, (Dr. H.
v. Ihering, 1903, 1. c. p. 224, fig. F.) sem com isto que-
rer provar relação alguma.
As cellulas medem 3 mm. de diam. e 10-11 mm.
de altura.
Não me foi possivel verificar como estava localizado o
orifício da entrada, pois que não recebi o tronco intacto.
Com o ninho acima descripto tem grande seme-
lhança o da especie seguinte, P. pallipes, não havendo
mesmo differenças sinão as que devemos levar em con-
ta da accommodação às circumstancias.
Tudo parece pois indicar que se trata de especies
bastante alliadas, ainda que não seja conveniente reunil-
as sob uma só denominação como o quer W. Fox.
ae (7 Re
Polybia pallipes
Egualmente de Franca recebi um ninho desta es-
pecie. Como já disse é quasi identico ao que acabo de
descrever. Foi tirado da cavidade de uma palmeira e
mede 28 cm. de comprimento contra 12 de largura.
Conta 7 camadas inteiras e que, vistas num corte trans-
versal, formam arcos de circulos concentricos, sendo
theoricamente a parede da cavidade a corda deste arco.
Ha ainda 4 fragmentos de camadas que não chegam a
formar arcos completos. Prende-se uma camada à ou-
tra por meio de pedunculos, mas faltando o apoio da
parede do tronco protector, pouca solidez resta à cons-
trucção.
As cellulas medem 3,3 mm. de diam. e 13 a 14 mm.
de altura; o tecido larval não se eleva acima dos bordos.
Apresentam as cellulas variado desenho de anneis, que
se alternam, de côr branca, bruno-avermelhada e preta.
Infelizmente não acompanharam o ninho as infor-
mações a respeito da entrada do mesmo, a posição em
que se achava, etc.
Spinola refere-se em sua publicação (1850, |. c. p.
79) a um ninho—talvez semelhante ao de Chartergr-
nus fulvus—que attribue à Rhopalidia pallens Lep.
—synonyma de P. pzllipes Oliv.; mas é@ impossivel
tratar-se do ninho desta especie, visto como as dimen-
sões das cellulas são muito pequenas.
Polybia catillifex
Moebius. 156, Fst. Vill
Extremamente original é a fórma do ninho desta
especie figurado por Moebius; comtudo, como este é 0
unico exemplar até agora conhecido, não se pode ainda
saber si ella é constante. Conta sómente 32 mm. de
altura por 42 mm. de diam. ; a base é constituida por
um cóne, de 13 mm. de altura, compacto e pelo qual
passa o galho suspensor, aliás bastante fraco. A’ base
deste cone prendem-se as cellulas de 3,66 mm. de diam.
e 9-11 mm. de altura. As paredes lateraes da coberta
são verticaes, formando quina de 120-139° com as pa-
redes do cône; a coberta inferior ê plana, quasi hori-
zontal. Muito singulares são os prolongamentos lateraes
da parede que formam pedunculos de 5-6 mm. de com-
primento. O ninho foi colligido no « Brazil. »
Polybia fasciata
Moebius, 1856 1. c. p. 131, Fst. V, VI (P. cayennen:
sis); Rudow, 1898, E. cp; 24 (Pacayennensis
ou fasciata); Buysson, 1899, |. © p. 129 fig. 1
(P. phthisica).
Este ninho é de interesse especial por ser construido,
quasi exclusivamente de barro, material este que vemos
empregado ainda em alguns outros ninhos de Polybias.
Mesmo as paredes finissimas das cellulas consistem,
como o indica o Visconde R. do Buysson, deste ma-
terial, misturado com massa commum de cartão. Sin-
gular é a indicação que faz o Prof. Rudow «que ha en-
tre as camadas finos pilastres», o que nem as figuras
acima indicadas nem os exemplares da collecçäo do
Museu mostram. |
As medidas das cellulas são 3X 10 - 12 (P. phtha-
sica Buysson) e 3,33X8-9 mm.(P. cayennensis Moebius).
A colleccäo do Museu Paulista tem dous exem-
_plares, ambos sem indicação de proveniencia. Um
delles mede 14 cm. de compr. para 11,5 de diametro ;
conta 4 camadas cujas cellulas, quasi inteiramente de
barro,como todo o ninho, medem 3,6 X 4,5 mm. A es-
pessura da coberta é em geral de‘; mm. ; na parte su-
perior ella é cada vez mais grossa tendo 18-20 mm.
de espessura no annel. A entrada é lateral e pouco sa-
liente, de forma oval (13X 18 mm.). Sobre a ultima
coberta inferior vêm-se, tal qual como nos ninhos de
cartão, as cellulas delineadas sobre o barro.
Em o segundo ninho, ao abrilo, encontrei uma
unica Polybia, mal conservada, e que supponho ser da
presente especie.
Le Oe
As dimensões exteriores do ninho são: 21 cm. de
compa. por 5 cu. de diametro no annel e 12 cm. na
ultima camada. Estas são em numero de 6. Tambem
aqui observo que a base das camadas é sempre, no
maximo, de 0,5 mm. de grossura, ao passo que a co-
berta inferior, que naturalmente com o crescimento do
ninho teria de servir egualmente como base, mede
4,5—5 mm. de grossura, exactamente como as pare-
des lateraes salvo em cima, no annel, onde a espessura
é de 10—15 mm.)
As cellulas medem 3,7 mm. de diam. e em altura,
que talvez não fosse completa, 8-9 mm. |
A entrada mede 25 X 19 mm. de abertura, tem
os bordos um pouco elevados; nas camadas internas a
passagem faz-se pelos vãos deixados junto às paredes,
medindo um pouco mais do que a primeira entrada.
O material empregado na construcção é exclusi-
vamente barro para as paredes; as cellulas tem, pelo
contrario, pouco barro (talvez 1/5) de mistura com as
fibras alongadas e que mostram nas ceïlulas uma es-
tructura radial, às vezes tambem de colorido mais
escuro; o colorido geral das cellulas é o mesmo que
o da coberta.
Polybia furnaria
(Est. VII, fig. 13)
Kk” summamente interessante o ninho desta especio
que julgo nova e descrevo à pg. 217.
Como já o vimos em varias outras Polybras, tam-
bem esta emprega barro como material de construeção;
mas, tambem aqui, as cellulas são, como de regra, feitas
de fibras organicas, levando só pouca argilla de mistura.
As dimensões das cellulas são 2,8 mm. de diam.
e S mm. de altura; o tecido da larva, que forra todo
o interior da cellula, é muito alvo e eleva-se 1-1, mm.
acima dos bordos da mesma.
O resto do ninho, como já disse, é todo de bar-
ro; a grossura media das paredes é de 2-3 mm., a
— 275 —
base das camadas de cellulas em geral é um tanto mais
espessa (4 mm.)
O furo de entrada, correspondendo quasi sempre
exactamente aos das camadas superiores, é quasi cen-
tral e perfeitamente circular, variando o diametro de
2,9-3,9 mm.
As dimensões de todo o ninho são 10 cm. de
compr. para 7 cm. de largura em cima e 5 cm. da
segunda camada em diante. Ha certa disposição para
tornar os bordos das paredes angulosos ; porém muito
mais singulares são as numerosas saliencias spinifór-
mes que ornam o ninho, chegando alguns destes pro-
longamentos a medir 10-14 mm. de comprimento.
Todo o ninho, feito de material muito bem traba-
lhado e homogeneo, é extraordinariamente solido e re-
sistente e as paredes são bastante lisas (pelo menos na
metade superior, sendo a inferior de construcção mais
recente e faltando-lhe talvez o «ltime retoque).
E. Garbe leg. em Santarem, Pará (Jan. 03).
Um ninho algo semelhante ao da especie presente
foi descripto e figurado por H. Lucas 1879 1. c. pag.
S10 fig. 3.
Singular é o facto de ficar a entrada situada não
no lado inferior de ninho, mas, talvez por anomalia, la-
teralmente e a 5 cm. acima delle. O comprimento to-
tal do ninho é 14 cm.
Foi colligido em Maroni, Cayenna.
Como porém o auctor não possuisse a vespa cons-
tructora (Polybra) e preferisse deixar intacto o ninho,
cujo interior talvez fósse de interesse e mesmo pode-
ria conter um dos constructores, não é possivel reco=
nhecer a especie. :
E' este o conhecimento que temos dos ninhos das
vespas brazileiras. Grande é o interesse que ha em
completal-o, mesmo para, com o seu auxilio, conseguir-
mos rectificar varios erros que, por emquanto, é impos-
sivel eliminar da parte systematica.
Biologia
Sammario.— Os diversos estados: Q, 7 e d', sua
differenciação; o receptaculum seminis, a parthenogene-
sis. Os minhos dos dous grupos: monogamos e poly-
gamos; algumas observações sobre a composição da
sociedade, a hibernação, os enxames, o cyclo annual.
O individuo ab ovo, o seu desenvolvimento. A vida
diaria na sociedade; o nutrimento e as caçadas: o
mel, qualidades venenosas. Os inimigos das vespas, es-
pecialmente seus parasitas. A distribuição geographica
dos vespideos. Htymologia dos nomes que a estes Hy-
menopteros deram os indios tupi-guaranys.
Os estados.—Ji definimos bem a posição syste-
matica desta familia na grande ordem dos Hymeno-
pteros. Considerando-a agora sob o ponto de vista da
sua biologia, vemos que o grupo, que ora nos occupa,
tem um caracteristico pelo qual facilmente se eviden-
cia como bem distincto dos demais. Como os Formici-
deos e as Apidas sociaes entre os Ilymenopteros e os
Termitideos entre os Hemipteros, tambem os Vespi-
deos, que caracterizamos à p. 101 (dd), tem um modo
de viver bastante diverso do dos demais insectos.
Ao passo que em geral os insectos são só ma-
chos ou femeas, nos grupos sociaes acima enumerados
ainda um terceiro estado desempenha um papel impor-
tante: é o das obreiras.
Além de outros caracteres morphologicos já lem-
brados, distingue o macho da femea o numero de seg-
mentos abdominaes ; naquelles em numero de 7, nestas
o abdomen compdem-se só de 6 segmentos, facto que
se explica ao estudarmos com Kraeplin, H. von Ihering
e H. Dewitz o desenvolvimento da larva. Ficou de-
monstrado nesses estudos que na femea os XII e XIII
segmentos larvaes se transformam para dar vrigem ao
— 277 —
apparelho genital e ao aculeo; como, porém, o macho
não possue o orgão de defesa de que é provido o ou-
tro sexo, o respectivo (XII) segmento larval segue o
seu desenvolvimento normal e conseguintemente possue
o imago macho um segmento mais que a femea.
Menos facil é a distincção da femea da chamada
obreira (ou neutra pela comparação com o mesmo es-
tado da abelha). Em ultima analyse, não ha nenhuma
differença anatomica entre as duas. Trata-se simplesmen-
te de individuos cujos orgãos genitaes, em tudo ana-
logos aos da ©, estão atrophiados; tanto os ovarios,
constituídos por 6 tubos ou cadeias, ficando 3 de cada
lado, como o receptaculum seminis, pequena bolsa si-
tuala no ponto de convergencia destes tubos e que é
destinada a reculher o sperma obtido pela copula, tudo
é de estructura absolutamente egual, differinde só nas
dimensões que são sensivelmente menores na 7. Toda-
via não ha esta grande diferenciação como a que ob-
servamos em Apis onde, na 9, o ovario é enorme eo
receptaculum seminis das dimensões de um ovo de
Bombyx mori, ao passo que na obreira O ovario se
compõe de um numero muito menor de tubos e o re-
ceptaculum é quasi invisivel. Em Bombus temos, pelo
contrario, outra vez a completa analogia e quasi nenhum
caracter diferencial entre os individuos dos dous estados.
Na Europa ou melhor naquelles paizes em que o
inverno regularmente obriga aos insectos a uma hiber-
nação rigorosa, conhece-se promptamente a femea por
ser a sua roupagem mais gasta que a das obreiras, o
o que se explica por ser ella a unica que hiberna e
além disso estar encarregada de todos os primeiros
cuidados da installação do ninho. Aqui, porém, onde
já encontramos numerosas obreiras a auxiliar a femea
na construcçäo das primeiras cellulas do ninho e, por
conseguinte, as mesmas egualmente hibernam, tal dis-
tincção é impossivel; tanto, para não falarmos daquelles
ninhos que passam, intactos, a estação do frio.
Mas nem mesmo o caracier que serviu de base
para a distincçäo da femea das obreiras, isto é o seu
— 278 -
aproveitamento ou não para a postura dos ovos, é de-
cisivo para todos os generos. Observa-se, em varios dejles
a denominada parthenogenesis, pois que muitos dos in-
dividuos não fecundados, mas de tubos ovariaes bastante
desenvolvidos, estão aptos para depositar ovos nas cellu-
las, os quaes se desenvolvem tão bem como os das pro-
prias femeas. Comtudo taes ovos sempre só dão em resul-
tado individuos do sexo masculino como nol-o provou ca-
balmente o Prof. G. Th. von Siebold 1. e. p. 94 com a
tabella das suas pacientes experiencias feitas neste sentido.
Tocamos assim outra questão de grande interesse
biologico, que, porém, ainda aguarda a sua solução
definitiva. Trata-se de saber quando e de que modo se
decide do sexo ou estado a que deve pertencer 0 ovo
que vai ser posto na cellula No caso que ora figu-
ramos referimo-nos só aos ovos postos pela femea fe-
cundada pois que acabamos de ver que os postos por
individuos não fecundados produzem constantemente só
machos, quer tenham sido postos por femeas, quer por
obreiras. Segundo alguns auctores, o sexo a dar ainda
não está resolvido mesmo depois de posto 0 ovo; que-
rem que só no correr do crescimento da larva devido
à qualidade e à quantidade do nutrimento, se resolve si
o imago, prestes a sahir, será 4, Q ou 7. Mas desta
forma fariamos depender de causas variaveis e sem
mais interesse uma das questões mais importantes para
a conservação da especie, o que é imadmissivel.
Mais acertado parece o que a maioria dos eseri-
ptores hoje acceita, que o ovo, logo ao passar o ovi-
ducto, já estã destinado a produzir destes ou daquelles
individuos. Quanto às Meliponidas nol-o mostrou Dr. H.
v. Ihering, 1908, L c. p. 283, que é deste ultimo modo
que se passa © caso, pois que, logo em seguida à pos-
tura do ovo, na cellula já preparada e cheia do alimento
larval, esta mesma cellula é fechada definitivamente e
fica, portanto, excluida qualquer influencia posterior.
Dahi, creio, será licito concluir, por analogia, que tambem
entre as vespas O caso seja o mesmo, isto é, a femea, no
momento da postura, decide do sexo a dar. ainda que
— 279 —
aqui, como a alimentação é bastante variavel, o modo de
decisão se possa dar como foi exposto em primeiro logar.
Ninhos monogamos e polygamos. Passando. ao
estudo dos ninhos ou antes da collectividade que os
compõe, podemos, por emquanto, distinguir só dous
grupos fundamentalmente diversos pelo seu modo de
viver, como o expoz H. v. Ihering |. c. 1896 p. 452.
De um lado estão aquellas especies que, com pouca.
differença, tem o mesmo modo de vida como as espe-
cies de Polistes na Europa, isto é, cujos ninhos são
iniciados na primavera por individuos que hibernaram
isoladamente, dissolvendo-se a sociedade por influencia
e durante certo tempo da estação fria. A este grupo
pertencem os generos Polistes e Mischocyltarus e tal-
vez algumas especies de Polybia e de outros generos.
Generalizando, podemos dizer que se trata neste grupo
só de vespas cujos ninhos sejam stelocyttaros (comtudo
duvido que seja verdadeira a reciproca desta aflirmação,
que todas as vespas, cujas construcções sejam stelocyt-
taras, pertençam a este grupo).
A este grupo, baseado em um momento biologico,
denomino o das especies monogamas.
Do outro lado fica a grande maioria das vespas
restantes e que forma o grupo daquellas especies que
por meio de enxames fundam a sociedade, sobre cuja
duração c clima não tem inflaencia decisiva. Todas as
especies componentes deste grupo são polygamas.
Escolhendo estas denominações para os dous grupos
biologicos bem distinctos, quiz com ellas tornar bem frizan-
tes os pontos de importancia capital pelos quaes differem.
São realmente monogamos todos os ninhos do pri-
meiro grupo, bem entendido só no começo da sua or-
ganização. E' sempre só uma femea fecundada que da
inicio à construcçäo do ninho, ainda que quasi sempre
venham se lhe aggregar outros individuos da mesma
especie e quem sabe si não succede uma ou outra rara
vez que, alèm do auxilio sempre bemvindo de obreiras,
tambem uma femea, ao envez de iniciar por si só uma
nova colonia, pouse sobre esse ninho para tomar parte
— 280 —
nos trabalhos. Tambem para o fim da estação o nu-
mero de PP augmenta, pois que urge produzil-as para
que a especie seja conservada,
Mas tudo isto pouco importa a nós que denomi-
namos monogamo ao ninho por ter sido iniciado por
uma só femea.
No outro grupo, dos polygamos, observamos uma
organização justamente contraria. Em qualquer estação
do anno em que examinemos um ninho, de Polybia por
exemplo, sempre encontraremos nelle numerosas femeas
fecundadas. O mesmo resultado dá-nos o exame de um
enxame, que é o primeiro nucleo do ninho que se vae fun-
dar ; tanto pelos resultados de minhas proprias pesquizas,
como pelas notas feitas por meu pae, sempre ficou com-
provado que o numero de femeas fecundadas no enxame
é crescido, excedendo, em geral, a uma ou duas dezenas.
Si agora indagarmos da origem desta mono-e poly-
gamia (vide R. v. Ih. 1903, b, p. 115) reconhecemos que
a primeira é devida, pelo menos na America meridio-
nal e com relação áquellas especies que julgamos im-
migradas do velho continente, simplesmente à conser-
vação de um habito adquirido sob influencia de um
clima rude e desfavoravel. (Como o frio rigoroso
impedisse a vida dos insectos em sociedade duran-
te o inverno, aquelles individuos que estavam des-
tinados à reproducção, viram-se obrigados a hiber-
nar em qualquer recanto bem abrigado, para, com
a volta da primavera, recomeçar o cyclo biologico. A
polygamia, porém, é, ao contrario, o resultado da
vida destes insectos em um clima sempre favoravel à
sociedade. A natureza, sempre exuberante, proporcio-
nava alimento em quantidade sufficiente durante todo o
anno para sustentar facilmente um maior numero de in-
dividuos e pelo seu lado os insectos, seguindo a lei na-
tural, procuravam garantir a subsistencia da especie pela
maior produeção dos representantes, para que tambem
foi augmentado o numero de individuos fecundos.
Neste mesmo caso estão as mamangabas ou Bom-
bus, que são polygamos na America do Sul e mono-
— 281 —
gamos nos paizes septentrionaes de clima frio. Muito
diversa é, porém, a evolução que seguiram as Meli-
ponidas e Apis para attingir a sua actual monogamia
e nas quaes a differenciação dos estados é morpholo-
gica; nellas não se trata de uma simples alaptação
ao clima, mas sim de um grande aperfeiçoamento em
sua organização social.
As minhas observações a respeito da biologia des-
tes insectos foram feitas, em S. Paulo, em Polistes e
Mischocyttarus para o primeiro grupo e em Polybia
para o dos polygamos. Infelizmente aqui são raras
justamente aquellas especies cujo estudo biologico tra-
ria resultados mais interessantes, como fossem as Po-
lybias representantes do primeiro grupo ou Charter-
gus, Caba, Synoeca, Apoica etc. do segundo.
Monogamos. O seu ninho é iniciado, em geral,
em fins de Junho ou no correr do mez de Julho. Es-
colhe então a femea um logar apropriado; tanto Po-
listes como Mischocyttarus gostam de occultal-o em
arbustos ou em algum barranco a 1 ou 1,5 m. de al-
tura. Este ultimo genero prefere prender o seu ninho
a um graveto ou uma raiz pendente, ao passo que as
especies do primeiro não duvidam em ligal-o dire-
ctamente ao torrão, e parecem apreciar em especial a
protecção do telhado de uma casa, aos habitantes da
qual em nada encommodam. Em breve recebem o au-
xilio de obreiras que egualmente hibernaram e vem
offerecer os seus serviços. Assim observei em Julho
de 1902 que no curto espaço de 15 dias varios ninhos
iniciados ao mesmo tempo, sempre por uma só 9, ti-
veram um reforço de à a 7 individuos cada qual.
E devemos notar que aqui, em alguns annos, ain-
da os mezes de Agosto e Setembro nos trazem dias
de frio fortissimos e, entretanto, tenho observado que
estes ninhos o supportam perfeitamente. Pergunto en-
tão: para que fim toda esta comedia de hibernação, si
tenho visto uns abandonarem os seus ninhos quando
outros os começam ? Bem vemos assim que Polistes sus-
tenta exactamente os mesmos costumes que trouxe da ve-
— 282 — ;
lha Europa, sem querer adaptal-os às conveniencias de
sua nova patria.
As especies europeas de vespideos, quer de Polis-
tes quer de Vespa dissolvem a sociedade logo ao come-
çarem os primeiros dias do inverno ou melhor, pou-
co a pouco morrem todos os individuos, salvo as fe-
meas fecundadas, que cedo se abrigam.
Ao começar o ninho,cabe 4 femea todo o trabalho que
deve executar só, emquanto não sahir das cellulas a
primeira geração que d'ahi em deante se encarrega de
todos os serviços domesticos. Comtudo, nos paizes me-
ridionaes da Europa, onde o inverno já é mais bran-
do, parece dar-se, como entre nós, o caso da hiber-
nação das obreiras que, na primavera seguinte, vão au-
xillar as primeiras femeas; pelo menos assim devemos
interpretar Azara 1. c. vol. 1 pag. 168, quando diz que
na Hespanha os ninhos são sempre iniciados por ca-
saes (naturalmente trata-se só de © e 9).
Voltemos à observação de ninhos brazileiros.
Logo que as cellulas attingem 2,5 a 3 mm. de
altura, são postos os primeiros ovos, cujo desenvolvi-
mento, porém, gasta um tempo enorme, devido às pes-
simas condições da temperatura.
Emfim attingem as successivas gerações o seu
completo desenvolvimento, cresce o ninho, cujas di-
mensões variam segundo as especies a que perten-
cem e naturalmente o numero de individuos que o ha
bita lhes é proporcional. Os machos apparecem por
ultimo e pelo que tenho observado são os primeiros a
desapparecer, ao passo que o resto da sociedade conti-
nua a viver, mesmo em mezes de pleno inverno. As-
sim apanhei um grande ninho de Polistes versicolor
de 13 X 18 cm. de dimensões, em 18 de Junho de
1903, com um total de 280 insectos; não havia um
unico 4 siquer, nem nas cellulas criação alguma. Pas-
sava pois toda a colonia uma vida ociosa, despreoccu-
pada, como que descançando das mil attribulações do
começe da estação. Em um grande numero de cel-
lulas havia gottas de mel presas às paredes. Mas creio
: — 285 —
que mesmo sem a minha rude intervenção, em breve
estaria abandonado tambem esse ninho; ao menos, pe-
lo que me consta, não sei de ninho monogamo que per-
sistisse habitado durante todo o inverno. Creio ser
esta a norma para o Brazil meridional; nada quero
avançar sobre a biologia das vespas no norte do Brazil,
onde creio não tem sido feitas observações neste sentido.
- Mas nem sempre no correr do cyclo annual, que
rapidamente foi esboçado, tudo se passa segundo leis
inalteraveis. Assim em 24 de Julho, portanto em épo-
che em que eu. por toda a parte, tinha ninhos novos,
de pequena dimensões, em observação, surprehendeu-me
encontrar 4 Polistes canadensis a trabalhar activamente
em um ninho que logo pelo aspecto reconheci ser do
anno anterior e nisso fui confirmado por encontrar em
varias cellulas os vestigios de segundos inquilinos, as
tampinhas de barro que nos ninhos abandonados custu-
ma fazer um Triyposxylon.
Ainda que este mencionado caso de reoccupaçäo de
um ninho não désse resultado, não vejo motivos que
impossibilitassem tal economia de trabalho. Ainda outro
ninho, em identicas condições observei, havendo cerca
de 12 individuos sobre elle. |
Varios ninhos de Mischocyltarus, que tambem acom-
panhei na sua evolução durante algum tempo, pouco
differem, no modo de viver, de Polistes. Ha comtudo
um ponto em que parecem divergir daquelle genero do
mesmo grupo por uma questão de tempo que não deixa
de ser interessante. Ainda que não possa precisar da-
tas, quer me parecer que Mischocyttarus <drewseni,
depois de supportar, sem desarranjo algum, o rigor do
inverno abandona o seu ninho para começar a nova
construccao bem mais tarde do que Polistes. Do con-
trario não saberei como interpretar as minhas observa-
ções feitas simultaneamente em cinco ninhos desta es-
pecie durante o anno de 1902.
Especialmente esse anno teve, em Agosto, fortes
geadas (de-2 grãos nos dias 18 a 22) ; mas todos os cin-
co ninhos supportaram galhardamente essa temperatura;
AW? pai
em meiados de Setembro, porém, sem outro motivo
imperioso, quasi nos mesmos dias, dissolveram-se todas
essas sociedades e com toda regularidade, isto é, depois
do desenvolvimento completo de toda a criação.
,
Interessante é observar estes insectos quando pro-
cedem à alimentação das larvas. Volta um delles da
caça e traz um fragmento de algum insecto; logo ro-
deiam-no varios outros para arrancar-lhe algum pedaço,
o que, porém, parece não incommodar ao caçador. Em
seguida procedem à trituração do boccado, feito o que,
introduzem a cabeça em cellulas occupadas por larvas e
permanecem nesta posição por algum tempo. Pareceu-me
que a cada larva não tocava sinão uma ração homeopa-
thica, pelo muito para que chegava cada boccado e en-
tão tive curiosidade por saber o quanto seria necessario
para banquetear uma larva à farta. Eliminei a difficul-
dade da escolha do alimento, offerecendo à larva deter-
minada para a séva um ovo da sua propria especie que
estava na cellula visinha. Já a larva, movendo a sua
bocca em todas as direcções parecia pedir alimento. Bas-
tou tocar com o petisco nas mandibulas para que tam-
bem já começasse o processo de deglutição, que logo de-
pois foi considerado findo, porque recomeçavam os movi-
mentos buccaes que eu aprendera signiiicarem o pedi-
do. Repeti o mesmo processo varias vezes e sempre en-
contrei a mesma bôa vontade. Convenci-me que tal
significava serem as rações pequenas ; dividi em pedaços
a uma pequena larva do ninho e rapidamente estava con-
sumido o pobre irmão e bem pequeno devia ser o ar-
rependimento, pois ainda o seguinte não teve melhor sor-
te. Convenc -me afinal que a funcção de ama destas
creaturas vorazes deve ser tarefa bem espinhosa e pouco
invejavel.
Como facilmente reconhecemos pela propria archi-
tectura dos ninhos deste grupo, nunca o numero de in-
dividuos em cada um pode attingir as sommas colossaes
que nao raro se encontram nos ninhos do outro grupo.
Mas já o proprio modo de nidificar é uma adaptação à
biologia seguida. Para que construir ninhos de gran-
— 289 —
des dimensões si, quando tiver decorrido a estação,
todo este trabalho deveria ser abandonado ?
Tambem a emissão de enxames nunca se pode dar,
pelo mesmo motivo de considerarem estas especies ao
inverno como impossibilitando a vida social, quando ve-
mos no - utro grupo que tal não se da.
Polygamos. Neste grupo, alem de encontrarmos uma
enorme variedade na architectura seguida pelos ninhos, no
que contrasta com a uniformidade do typo seguido pelo
precedente, ha alguns pontos biologicos de importancia.
J O inicio do ninho faz-se por meio de enxames
que, apartando-se do nucleo primitivo, vão fundar, por
vezes a grande distancia, novas colonias.
Parece muito variavel o numero de femeas fecun-
dadas que acompanham estes enxames; depassando em
geral a uma ou duas dezenas; ainda não observei ma-
chos neste meio.
IH As especies deste grupo quando tiverem esco-
lhido o logar apropriado para a construeção de ninho,
constroem primeiro varias camadas, cobrem-nas de cel-
lulas e só depois disto, quando o ninho já tem regula-
res dimensões, variaveis segundo a força do enxame, é
que começam a ser collocados os ovos pelas femeas.
Assim tive em 10 de Janeiro um ninho de Polybia
scutellaris que fôra iniciado cerca de 15 dias antes, sem
ter ainda ovo algum nas cellulas. Vimos que, todo ao
contrario, Mischocyttarus e Polistes, mal esbogam as
primeiras cellulas, logo depositam os seus ovos.
HI Ao passo que no grupo dos monogamos por
vezes é sumimamente dificil, sinão impossivel, distin-
guir, mesmo pelo exame anatomico, a femea da obrei-
ra, neste grupo sempre o conseguimos com segurança.
O exame anatomico mostra-nos, ainda que nenhuma dif-
ferença absoluta, taes desproporções no gräu do des-
envolvimento dos orgãos genitaes, que nunca nos res-
tam duvidas no reconhecimento. Assim os ovarios na
© sempre comtem os ovos bem desenvolvidos, pelo me-
nos no terço final do tubo, emquanto que na 7 por ve-
zes estão tão mal desenvolvidos que não é raro esca-
— 286 —
parem ao nosso exame à vista desarmada. Tambem as
dimensões do receptaculum não nos deixam duvida si
se trata de obreira ou de femea.
Mas em geral não ê necessario o exame anatomi-
co para distinguirmos os estados, Ponaue quasi sempre
encontramos caracteres morphologicos bastante eviden-
tes que nos facilitam a distincçäo.
Ora as femeas säo maiores que as obreiras (como
em um grande numero de Polybias), ora as dimensões
são approximadamente eguaes, mas ha alguma diffe-
rença na estructura e no colorido (P. vicina}; outras
vezes ainda as femeas são de dimensões menores que
as obreiras (P. dimidiata).
O certo é que neste grupo a differenciaçäo entre
femeas e obreiras tende a augmentar e isto por um
motivo bem simples. Como o têm demonstrado os es-
tudos de meu pae e os meus, sempre encontramos nu-
merosas femeas fecundadas em um só ninho, elevando-
se o seu numero frequentemente acima de um cento e
que, pois, facilmente supprem o ninho com os ovos ne-
cessarios. Accentua-se cada vez mais a divisão do tra-
balho entre a Q e as 7 7 e, pela falta de uso, os or-
gãos genitaes das obreiras atrophiam-se mais e mais.
Presenciamos assim, agora, neste grupo dos vespi-
deos, à mesma differenciação que já ha muito soffreram
Apis e Melipona, onde ella hoje é completa.
Ainda quanto à duração da colonia, como já vimos,
ha grande differenga entre este grupo e o precedente.
Como os ninhos do grupo polygamo são quasi sempre
regularmente protegidos, supportam melhor as intem-
peries do clima e desta forma o inverno, ainda que
prejudicial ao seu desenvolvimento regular, não con-
segue, comtudo, a interrupção da vida social como o
vimos succeder no grupo dos monogamos,
O éndividuo. Acompanhemos agora, ab ovo, todas
as phases do desenvolvimento de uma vespa, depois de
termos estudado a cellula e o ninho dentro dos quaes
se passa esta serie de transformações, que tem como
resultado a producçäo do imago. Vimos que para a mes-
ma especie as dimensões da cellula são sempre as mes-
mas, inalteraveis e em geral de uma regularidade ad-
miravel; ficou dito egualmente que a posição normal
destas cellulas é a vertical com a abertura para baixo.
Esta posição invertida que, a principio nos parece in-
compativel com a criação da larva, tem comtudo a sua
justificação. Em Apis e nas Meliponidas as cellulas ficam
em posições que realmente se nos afiguram mais naturaes,
horizontaes naquellas, verticaes nestas, com a abertura
para cima. Mas o typo primitivo dos ninhos de vespi-
deos, como ainda hoje os de Polistes e outros, era des-
provido de coberta e desta fôrma, caso as cellulas tives-
sem sua abertura para cima, afogar-se-ia sempre a criação,
visto como qualquer chuva logo a cobriria d'agua.
Assim toda a metamorphose do insecto adaptou-se
a esta posição invertida da cellula; as poucas excep-
ções que a este respeito conhecemos ainda devem ser
melhor estudadas.
Sigamos ao inexcedivel observador da biologia des-
tes insectos, ao illustre engenheiro Charles Janet que com
extrema paciencia acompanhou todos os pormenores da
vida dos ninhos europeus; certamente, nos seus traços.
geraes e com algumas modificações, a vida dos nossos
vespideos será a mesma. |
O ovo é preso por sua extremidade mais alonga-
da à parede lateral da cellula, a pouca distancia (2-4
mm.) do seu fundo e em geral em posição quasi hori-
zontal. Ahi adhere facilmente, devido a uma gelatina
muito viscosa que traz no pólo inferior. Em breve o
ovo transforma-se em larva e começa então a phase
das mudas. Parece que até agora o numero das mes-
mas ainda não é bem conhecido; Janet observa que
pelo menos tres têm lugar antes dea larva preencher
completamente a cellula. Consistem estas mudas em a
larva desfazer-se de uma cuticula muito fina que, rom-
pida na cabeça, escorrega com os movimentos que a
larva efectua, ao longo do corpo, indo parar na parede
da cellula; distinguem-se nitidamente os ramos das tra-
chéas que são arrancadas pelos estigmas e acompanham
— 288 —
a cuticula. Ainda, até ao fim desta terceira muda a que
se refere Janet, a larva está presa como o estava 0
ovo à parede da cellula. Executa então a larva um
movimento de rotação e assim se desprende; para evi-
tar a quêda, que seria inevitavel, a larva dilata-se rapi-
damente logo em seguida a esta ultima muda, conse-
guindo não só preencher completamente a cellula, mas
ainda, imprensar-se de tal forma que custa dalli ar-
rancal-a.
Durante todo o tempo larval, cumpre às obreiras
alimentar a estes entes vorazes, tarefa bem ardua, prin-
cipalmente durante os dias bruscos, em que a caça é
difficil.
Mas as larvas já contam com taes dias de jejum
e podem prescindir, mesmo por varios dias, do alimento.
Ao passo que as larvas menores só recebem liqui-
dos, para as maiores não ha tanto cuidado em bem
preparar os boccados, pois que sempre encontramos, no
intestino destas, fragmentos de chitina.
Feita a ultima muda, a larva prepara-se para en-
trar no estado de nympha. Para isso o seu primeiro
cuidado é o de tecer o operculo da cellula.
Ve-se-lhe claramente brotar um liquido da bocca
e que rapidamente secca, formando um fio muito tenue
que é preso à parede superior da cellula e em seguida
levado em todas as direcções, para formar as diversas
camadas de um tecido relativamente resistente. Muitas
vezes, porém, a altura da cellula não é sufficiente e
neste caso, aliás constante para muitas especies (2. g.
Leipomeles, varias Polybias, etc.) a larva tece, como
prolongamento das paredes cellulares, um tubo cylin-
drico do comprimento necessario e em seguida a tam-
pinha. Em varias especies (Mischocyttarus, Polybia di-
midiata, Chart. apicalis ete.) as obreiras usam collocar
sobre este operculo um ou varios fios de massa de car-
tão, dispostos ora em cruz, ora em linhas parallelas, etc.
Fechada assim a cellula, a larva ainda reveste in-
teriormente as paredes com um tecido finissimo, o que
constittie uma operação bastante difficil, tendo-se em
— “289 —
vista a grossura da larva que, para revestir o fundo
da cellula, deve forçosamente dobrar-se sobre si mesma,
Comprova o exame anatomico que, durante toda a
vida larval, não ha communicação entre o tubo diges-
tivo e o intestino posterior, de sorte que é impossivel
qualquer excressão durante este periodo. De facto a lar-
va só deposita no fundo da cellula as cuticulas corres-
pondentes a cada muda e as dejecções dos tubos de Mal-
pighi. Mas, ao passar para o estado de nympha, dá-se
a communicação do intestino médio com o posterior e
só então é expellida a grande quantidade de restos ali-
menticios, fragmentos de chitina ete., de modo que é
esta a primeira excressão e tambem a ultima, até o ani-
mal attingir a sua forma definitiva, visto como a nym-
pha não recebe alimentos.
Em um quadro, à p. 126 do minucioso trabalho
de Janet (1895-b), esta registrado o tempo gasto por 12
individuos no seu desenvolvimento, desde a postura do
ovo até a saida do imago. Este periodo é de duração
assis variavel, dependendo muito da estação do anno em
que o observamos. Assim, os primeiros ovos postos em
Maio pela vespa européa, Vespa crabro, (portanto em
principios da primavera do hemispherio septentrional)
gastam cerca de 20 dias até se transformar em larvas,
ao passo que, no estio, a duração do estado de ovo é,
em media, de 5 dias. Tambem o periodo larval é de
duração muito variavel, podendo ser de 19 a 8 dias:
aqui, além da influencia da temperatura, devemos con-
tar ainda com a maior ou menor abundancia de ali-
mento que as femeas ou obreiras possam fornecer 4
larva. Menos variavel parece ser o tempo gasto no
estado de nympha, que pôde ser de 16 a 14 dias. Em
summa, o total do tempo gasto no desenvolvimento de
uma Vespa crabro, varia entre 55 dias, sob as condi-
ções as menos favoraveis, a 27 ou 30 dias, durante o
verão.
Infelizmente ainda esta serie de observações não
foi feita entre nós, mas creio que este desenvolvimen-
to, tambem aqui variavel, segundo a temperatura, será
— 290 —
mais rapido; certamente tambem depende da especie
de que se trata, si de ninhos de coberta grossa e por-
tanto de temperatura mais ou menos constante, ou si
de ninhos stelocyttaros, descobertos.
Quando o individuo tiver percorrido toda esta se-
rie de transformações, basta-lhe roer os bordos do oper-
culo da cellula para sahir, já completamente egual aos
seus irmãos, podendo em breve cumprir a missão que
lhe foi designada, segundo o sexe ou estado a que per-
tencer. O seu primeiro cuidado é o de proceder a uma
limpeza geral do corpo, alisar as azas e em seguida tomar
algum alimento. Este ultimo acto funccional ao qual
Janet diz ter assistido por varias vezes, é summamente
interessante e original. O imago recem-saido appro-
xima-se de qualquer larva forte, a qual logo comprehen-
de o que significam as leves pancadas que aquelle lhe
da com as mandibulas. Como resposta a larva, «mise
ainsi à contribution» como diz Janet, segrega uma gotta
de um liquido alimenticio que o imago sorve avidamen-
te, para em seguida exigir egual tributo a cerca de uma
dezena de larvas.
A vida diaria. Observemos agora, por algumas ho-
ras, a vida diaria que levam estes insectos; facil é-nos
encontrar em qualquer barranco alguns ninhos de Polistes
ou Mischocyttarus que são os mais apropriados para
estas observações, ja por serem estas construcções in-
teiramente descobertas e ainda por outro motivo de não
pequena relevancia para o nosso bem-estar : são estas
as vespas de indole mais pacifica e que pouco se en-
commodam, mesmo si tocarmos no seu ninho. - As pri-
meiras horas do dia não conveem para o nosso estudo
porque, mesmo quando já um grande numero de outros
insectos percorre as campinas nas suas multiplas occu-
pações, ainda as vespas descançam, presas, em sua po-
sição caracteristica, aos bordos das cellulas ou ao pe-
dunculo. Pouco a pouco despertam, procedem a uma
limpeza acurada das antennas e das azas e finalmente
todas estão entregues cada qual à sua taréfa. Umas tra-
zem material de construcção para o ninho e para este
fim róem pedaços de madeira que, bem triturados e em
pasta, vao augmentar ou as cellulas ou a coberta; ou-
tras cuidam ce larvas. E esta a funcção mais inte-
ressante para nds, mesmo porque, de certo modo, desta
forma as vespas vem-nos prestar algum serviço. Gran-
de é a variedade de insectos que estes infatigaveis ca-
cadores victimam e como attestam varios observadores,
como o Dr. H. v. Ihering (1896) e p.: Ambrosius Schupp
(1396), varias especies de vespas ha que se dedicam em
especial à destruição de moscas e de termitidas, o que
aliás, principalmente em relação às primeiras destas vi-
ctimas, frequentemente se observa. Aqui em S. Paulo,
onde mesmo na cidade não são raros os ninhos da Po-
lybia scutellaris, presos às janellas e aos telhados das
casas, por vezes assistimos a uma destas caçadas, prin-
cipalmente em paredes onde bate o sol em cheio e so-
breas quaes as moscas passam o dia a voejar. Termina,
por fim. a longa perseguição, com a captura do misero
e abjecto diptero pela vespa. Segundo o uso de cada
especie e as dimensões da presa, ou o animal é feito em
postas no proprio campo de batalha, para serem leva-
das ao ninho só as partes aproveitaveis do corpo, ou só
em parte elle é mutilado, cortando-lhe a vespa as azas
e as pernas, transportando-o assim para o ninho. Em
là chegando, já varias outras obreiras a recebem e
partilham o boccado que em seguida é triturado para
ser distribuido às larvas.
Em geral as vespas reclamam, para o funcciona-
mento regular da sociedade, uma temperatura amena,
preferindo sem duvida os dias de forte calor nos quaes,
sobre cada arbusto florido, contamos às centenas os in-
sectos. Mas, si os dias correm bruscos e uma chuva
impertinente, classica em S. Paulo, nos dér justos mo-
livos para queixas contra esta bella capital, tambem as
vespas preferem conservar-se em casa e ahi, entorpeci-
das, passar uma vila inactiva.
De costumes inteiramente differentes dos de todo o
resto dos vespideos, é a Apoica ou vespa chapéo, ou
ainda beiju-caba, Durante o dia sempre a vemos presa
— 292 —
ao seu ninho (Est. V, fig. 6), acordadas, mas sem animo
de sair à caça. Só à noute os «marimbondos de cha-
pêo» rebuscam os campos e os arbustos, para surprehen-
der as suas victimas que devem servir de alimento às.
larvas. Assim nol-o conta J. Alfredo de Freitas (1388
p. 84) etambem A. Ducke (1903 p. 369) o confirma,
ponderando muito bem que, já em consequencia deste ha-
bito nocturno, os seus olhos e ocellos tomaram maiores.
dimensões.
Mas a fóra deste pacifico labutar que tem por fim
o crescimento e o bem estar da colonia, devem as ves-
pas estar promptas para a cada momento defender o
seu ninho e luctar pela conservação da sociedade, ainda
que para isto a existencia do individuo muitas vezes
seja sacrificada ; dá-se aqui o que observamos em todos
os grupos sociaes: a vida do individuo tem tanto me-
nos valor quanto mais numerosa for a sociedade. Isto
explica-nos claramente a attitude que com relação ao:
homem assumem os individuos de dous ninhos, um
forte e o outro pouco habitado. Ao passo que d'aquelle:
já de longe nos atacam e convencem a tomar outro:
rumo, os habitantes d'estes são timidos e poucos são os
que se atrevem a abandonar o seu esconderijo. Neste ul-
tino caso estão os Polistes, Mischocyttarus e outros, e
fortes são as destemidas Polybias, Cabas, etc. Accresce:
ainda um factor desfavoravel a estas ultimas; ao passo.
que Polistes, por exemplo, póds muito bem continuar a
viver depois de ter encravado o seu agulhão no inimigo,
muitas são as Polybias como P. vicina, atra, sericea, etc.
que, com a applicação de sua ferroada dolorida, tambem
perdem a existencia pois que, ao querer fugir. o agu-
lhão fica preso na pelle do inimigo e com elle des-
prendem-se do corpo da vespa partes do intestino e
mesmo segmentos abdominaes.
Por emquanto nada se póde generalizar a este
respeito, porque a indole de cada especie varia muito:
dentro dos limites do proprio genero e os dados ana-
tomicos, como a estructura do agulhão com as suas.
farpas lateraes, parecem não ter importancia,
— 293 —
Naturalmente não é sé contra o homem que as
vespas devem usar de suas armas de combate para de-
fender o ninho. Varios são os seus inimigos naturaes,
mesmo porque não são poucos os attractivos que en-
cerra um ninho que prospera.
Ahi estão as larvas roliças que devem ser um bom
manjar, para outros insectos e mesmo aves ou pequenos
mammiferos.
Assim o Principe Max. Wied, Natg. Braz. HI p.
159, diz sustentar-se o lbycter americanus Bodd. prin-
cipalmente de vespas e abelhas, atacando mesmo o ni-
nho daquellas; muitas vezes acha-se o seu estomago
cheio de vespas.
Sobretudo as provisões de mel attrahem toda es-
pecie de perseguidores que, afrontando uma lucta, es-
peram poder apossar-se desta riqueza, ainda que em
troca de alguma ferroada dolorida. «Sempre» como o
diz Dr. H. v. Ihering (1903 1. c. p. 261) «que o tra-
balho accumule riquezas e onde ha prcpriedade, tambem
surgem simultaneamente o roubo e a pilhagem; isto é
verdadeiro tanto nas sociedades animaes como na huma-
na. Psychologicamente comprehendemos facilmente a ten-
tação que encerra o querer ganhar sem grande esforço
o que o trabalho paciente e arduo de outros reuniu.»
E assim vemos as abelhas sociaes, quer sejam ellas
fortes e bem armadas como Apis, quer fracas e des-
armadas como em geral o são as Meliponidas, todas
ellas terem os seus inimigos e perseguidores. Ainda
que mais valentes, as vespas não Jeixam de ser victi-
mas de varios apreciadores do mel como o é sem du-
vida o lagarto Tupinambis teguisin que, talvez protegido
pela sua pelle, não raro destroe o ninho, sempre baixo,
de Caba lecheguana.
Não me consta que até hoje tenha sido feita al-
guma analyse do mel das vespas sul americanas, como
ainda ha pouco foram publicadas (Dr. H. von Ihering
1503 p. 266-269) as que o Dr. Th. Peckolt fez de
varias especies de mel de Meliponidas; é interessante
observar o quanto é variavel a quantidade de lævulose
— 294 —
e de dextrose que entra na sua composição. Só em
poucos generos de vespas ainda não foi verificado de-
posito de mel nas cellulas, como sejam Apoica, Sy-
noeca, e os pequenos generos Leipomeles, Paracharter-
gus e Charterginus ; comtudo não ha motivo para não
esperarmos ainda encontrar mel nos ninhos destes ge-
neros, aliás quasi desconhecidos quanto à sua biologia.
Ao passo que Polistes e Mischocyttarus sempre depo-
sitam só bem pouco mel, uma gotta em uma ou outra
cellula, ha especies de Polybia, Caha, etc, que reunem
grande quantidade, como sejam principalmente P. syl-
veirce) obtive de um ninho de regulares dimensões
de Franca cerca de 110 ccm. de mel, o que represen-
taria talvez sô uma parte de todo o deposito) e Caba
lecheguana. Polybia occidentalis e sedula são em
especial perseguidas pelas creanças por ser o seu mel
muito saboroso e, o que é talvez mais importante, por
ser facil a sua captura, conseguindo-se sem risco es-
tontear ou afugental-as com um pouco de fumaça.
Mas nem sempre é pura delicia o uso deste li-
quido dulcissimo ; varias são as especies cujo mel, alias
de gosto agradavel, têm propriedades toxicas. E” clas-
sica a experiencia feita por A. de Saint-Hilaire no
Uruguay e narrado nos Ann. de Sc. nat. V. 4. 1824
p. 340 ss.
Durante a sua viagem pela campanha os camara-
das apoderaram-se de um ninho de Caba lechequana
e consu niram, em quantidades diversas cada qual, o
seu mel. O proprio Saint-Hilaire só provou duas co-
lheradas e, sentindo em breve encommodos semelhantes
aos de um envenenamento, usou de um vomitorio que
de facto foi de bom resultado, pois que só soffreu
alguns ataques de riso e de chôro. Aos camaradas,
porém, viu em breve apossados de furia insana, cor-
rendo ou galopeando pelo campo e despedaçando a
roupa, atê cahirem por terra estonteados e abatidos.
Azara, 1. c. vol. I p. 160 diz que o mel da «cabata-
ti» causa forte dor de cabeça e uma embriaguez com-
paravel à da aguardente. Lafayette de Toledo com-
— 295 —
munica em um estudo de biologia (inedito) que o mel
do «Inxuhi» de Valparaizo, no termo de Santa Quite-
ria, no Ceará tem propriedades as mais excitantes,
Ainda de varias outras me consta ser o mel veneno-
so; como entretanto não acompanham a estas infor-
mações dados mais precisos, pouco adiantaria a sua
enumeração.
Em geral os encommodos causados pelo mel ve-
nenos das vespas, diz-nos Dr. H. v. Ihering (1903 L c.
p. 273) se externam de um modo analogo ao de uma
forte exaltação nervosa, ao passo que, quando se trata do
mel de abelha, o effeito é artes paralysante, semelhan-
te ao de uma commoção cerebral. Principalmente pa-
ra conhezer quaes as substancias toxicas contidas nas
varias qualidades do «mel venenoso» tanto das: vespas
como de abelhas, seria de summo interesse obter amos-
tras para se proceder à respectiva analyse.
Os inimigos. Tratando ha pouco dos inimigos das
vespas, referi-me, comtudo, só áquelles que atacam o ni-
nho com o fim de destruil-o e apoderar-se, quer das
larvas, quer do mel. Não me consta que entre as vespas
se dê o caso, aliás bastante frequente entre as abelhas,
de uma especie mais poderosa desalojar a uma outra
do seu ninho, com o principal intento de apoderar-se
dessa casa, para ahi estabelecer a sua propria residen-
cia; aqui o lucro a tirar dessa conquista seria nullo.
Si cuidarmos daquelles inimigos que perseguem
as vespas como parasitas, encontramos um certo nu-
mero delles, cada qual mais interessante pela astucia
que emprega para, à custa do menos experto, criar a
sua prôle. Como parasitas do individuo adulto, figu-
ram, em primeiro logar, os Strepsiptera, já bem conhe
cidos como parasita dos generos européos de varias fa-
milias de Hymenopteros. Segundo alguns auctores de-
vemos considerar a estes insectos como formando uma
sub-ordem dos Neuropteros, outros consideram-nos como
ordem especial. O 4 é bem caracterizado, por ter as
azas anteriores quasi completamente atrophiadas, e as
posteriores muito grandes, enormes mesmo, proporcio-
— 296 —
nalmente ao corpo. A 9, pelo contrario, é aptera, apo-
da, não tem antennas nem olhos desenvolvidos, e, em
tudo, se parece com uma larva.
A vida destes Strepsipteros, que depende inteira-
mente da de outros insectos ( sômente Hymenopteros), é
assis original e, ainda que talvez um pouco fora de lo-
gar, passo a dar um resumo do estudo perfeito que a
este respeito publicou o Prof. v. Siebold (Ueber Strep-
siptera) no Wiegmann's Archiv f. Naturgesch. 1343 IX
1. p. 197-162, Est. VIT. A femea nunca abandona
o corpo do insecto do qual é parasita; o seu corpo
abriga-se na cavidade abdominal do hospedeiro e sé o
cephalothorax surge entre dous segmentos abdominaes
(em geral o 4.º 6 0 5.º) da vespa. Por uma abertura
situada atrás da bocca, sahem-lhe as pequenas larvas
hexapodas.
Estas larvas são transportadas, pelo proprio insecto
victima, para o respectivo ninho e ahi as larvas encon-
tram facilmente a criação da vespa; nada mais lhes
resta a fazer do que internar-se no corpo dessas lar-
vas, que continuam regularmente o seu desenvoivimento,
mas já com o parasita no corpo, do qual não se verão
livres durante toda sua vida, si o Strepsiptero for 9,
ao passo que si o mesmo for &', este se desenvolve e
sie, por entre os segment.s abdominaes da vespa, dei-
xando no corpo desta a sua cuticula pupal.
Para a regular continuação do seu cyclo vital, na-
turalmente os Strepsipteros devem accomodar-se inteira-
mente ao modo de viver dos insectos à custa dos quaes
vivem e claro está que são as vespas sociaes que mais
vantagem lhes offerecem. Na Europa conhece-se tain-
bem parasitas de vespas e abelhas solitarias. Por em-
quanto só observei as seguintes vespas parasitadas : Poly-
bia mgra (7 de Maio), P. scutellaris (começo de Feve-
reiro) e Polistes canadensis (meiado de Fevereiro), sem
comtudo conseguir um unico macho, sem o qual é im-
possivel a determinação ; comtudo quer-me parecer que
se trata de varias especies. Interessante será poder
comparar os resultados da determinação no sentido da
— 297 —
distribuição geographica destes parasitas com reiagdo à
patria dos seus hospedeiros. Segundo o estudo do dr.
H. von Ihering (Helminthen als Hilfsmittel der zoogeog.
Forschung, Zool. Anz. 1902 N. 686 p. 42 ss.), os uni-
cos generos, que deverão ter especies ou generos de
parasitas europeus, seriam as vespas immigradas, como
Polistes.
Colligi e observei ainda varios outros parasitas
dos ninhos, todos pertencentes aos Ichneumonidas.
Aproveitando-se de um momento opportuno, em que
as larvas no nino do vespideo estejam mal vigiadas,
a femea daquelles ditrochas lhes inocula o seu ovo.
Prosegue a larva da vespa o seu desenvolvimento, tece
normalmente o operculo da cellula, e passa ao estado de
nympha; mas afinal, em vez de surgir um imago filho da
casa, sãe o parasita que se desenvolveu inteiramente
à custa do vespideo. (Casos destes tenho observado em
ninhos de Polistes versicolor, Polybia atra e cassu-
nunga ; são, como se vê, todos de ninhos desprovidos
de cobertas, o que muito facilita o ataque do Ichneu-
monida. Mas nem mesmo o ninho bem fechado e pro-
tegido da Polybia dimitiata (fig. 17) está ao abrigo
desse terrivel inimigo, como o demonstrou o achado
que fiz nesse mesmo ninho (de 28 de Janeiro 1903)
de Franca; conseguira pois o parasita illudir a vigi-
lancia das Polybias, tanto que lá estava, na 4.º cama-
da, em cellulas ainda fechada, o insecto quasi comple
tamente desenvolvido, no meic do corpo da nympha
da Polybia, da qual só restava em cima a cabeça e em
baixo o abdomen.
Tendo enviado alguns destes parasitas ao eminen-
te especialista rev. p. Fr. W. Konow, este senhor com-
prometteu-se a proceder à determinação e descripção dos
mesmos Ichneumonidas, que provavelmente representam
“duas especies e um genero novos.
Seriamos injustos para com algumas especies de
Trypoxylon, que por vezes criamos de ninhos de Po-
listes, Polybia cassununga, atra ete., si os consideras-
semos como parasitas. Só em ninhos já abandonados é
— 298 —
que criam a sua próle, aproveitando, por maior com-
modidade, as cellulas já promptas do vespideo. Algu-
mas aranhas (em numero de 6 a 8) servem de al-
mento à larva e quando o imago quizer sahir deve
perfurar a tampinha de barro com a qual fora fechada
a cellula; algumas vezes tambem o fundo da cellula
leva uma camada de barro, mas as paredes sempre são
nuas. Assim criei dos ninhos de Polistes versicolor o
Trypoxylon ornatum Smith (N. 1307). No ninho aban-
donado da Polybia cassununga um outro Hymenopte-
ro (talvez um minusculo Trypoxylon) costuma fazer o
berço para a sua próle; aproveitando o abrigo da cel-
lula, dentro della faz um pequenissimo tubo de barro,
o qual enche de aranhas quasi microscopicas ; infeliz-
mente ainda não consegui criar esta especie.
A distribuição geographica. Já vimos, no começo
deste estudo (p. 102), que, afóra os 11 generos de que
aqui tratâmos, por serem todos brazileiros, não ha ou-
tros representantes dos vespideos na America do Sul;
dos 10 generos extra-neotropicos, só Vespa conta nu-
merosas especies (cerca de 150), os demais são pouco
importantes ou mesmo monotypicos. A nossa Polybia
tambem figura na Asia (China, Sumatra, Bornéo) com
algumas poucas especies; Polistes à mais um genuino
representante da fauna do hemispherio septentrional, com
relativamente poucas especies na America do Sul, Africa,
India e Australia.
Dos 9 generos brazileiros restantes, ainda Caba e
Charlergus se extendem até a America Central e o Me-
xico. Mas ainda a distribuição dos outros 7 gene-
ros soffre restricção na America do Sul, visto como
os Andes representam uma barreira que tao pouco estes
como ainda varios outros insectos não conseguem trans-
por. Ao sul, o limite desta fauna parece não ultrapassar
muito a Bahia Blanca, na Argentina, pondo o Snr. Bré-
thes em duvida a procedencia de Chubnt.
Nesta região, assim delimitada, a Argentina é o
paiz mais pobre em generos (Caba, Polistes, Mischo-
cyttarus, Synoeca e Polybia) e especies (18;. O Rio
— 299 —
Grande do Sul é talvez um pouco mais rico; já São
Paulo conta mais dous generos (Apoica e Chartergus)
e um numero de especies bem mais elevado.
A região da Bahia ainda foi muito pouco explo-
rada para que possamos avaliar da sua riqueza, mas sem
duvida é no Brazil central, na Amazonia e na região brazi-
leiro-boliviano-peruana que encontramos reunido o maior
numero de especies, não faltando ahi nenhum dos pequenos
generos secundarios. Já para o norte da America Meri-
dional decresce outra vez o numero das especies.
Certamente são várias as causas que determinam
a distribuição mais ou menos vasta das diversas espe-
cies. Uma das mais importantes parece ser a depen-
dencia em que está cada especie do matto ou do campo,
segundo os seus habitos.
Assim, na região do Juruá o Snr. E. Garbe não
colligiu nem um unico Polistes nem Mischocyttarus ;
Chartergus, Synoeca e Tatua parecem habitar só as
mattas maiores, ao passo que algumas Polybias, como
P. occidentalis, scutellaris, sericea, todos os Polistes,
Mischocyttarus, Gaba lecheguana e outros, fazem os
seus ninhos exclusivamente nos campos, sobre pequenos
arbustos ou mesmo bem rente ao chao. Comtudo, tam-
bem depende essa distribuição da indole de cada especie
e, de um lado a area restricta de Leipomeles e de Char-
terginus, que não abandonam as florestas do Alto Ama-
zonas e de outro o Polistes canadensis, commum tanto
na America do Norte como no Rio Grande do Sul e
mesmo na Argentina, on a Polybia occidentalis, jurinei,
scutellaris etc., exemplificam-nos claramente o quanto é
variavel a area da distribuição geographica para os di-
versos generos e especies. |
As denominações das vespas na linguagem tupr-
quarany e sua elymologia. Ao indagarmos das deno-
minações que pelo nosso indigena receberam os nume-
rosos e variados representantes dos Vespideos, reconhe-
cemos logo que se dá aqui justamente o contrario do
que mostrou o estudo que a este mesmo respeito fez ha
pouco o Dr. H. von Ihering (Rev. do Inst. Hist. e Geog.
— 300 —
de São Paulo, 1908, vol. VIII) em relação as abelhas
sociaes ou Meliponidas. Lá, quasi todas as especies que
a systematica distingue, e por vezes só à custa de muita
meticulosidade, receberam tambem por parte do indio
o seu nome, sempre apropriado, salientando a qualidade
que mais caracterizava a abelha em questão. Se não
era a qualidade ou quantidade do mel que lhe desper-
tava o maior interesse, traduzido na denominação esco-
lhida, então era ou o habitat, a sua maior ou menor
braveza, a forma do ninho, ou, emfim, qualquer par-
ticularidade sempre bem observada, que, combinada com
uma outra palavra como manda, wa ou tub, signiti-
cando abelha em geral, decidia do nome a dar a cada
um desses Hymenopteros. E, realmente, as meliponidas
eram em especial dignas de uma tal attenção por parte
de indio selvicola, porque este, nas suas correrias e ca-
cadas dificeis, certamente não encontrava prato mais
doce nem colla mais prestavel do que o mel e a cera
do ninho da abelha.
Ja com as vespas não lhe succedia outro tarto ;
basta indagarmos da denominação dada a esta collecti-
vidade e da significação etymologica do vocabulo : é
caba a vespa em geral e significa «a que fere» deri-
vado da fórma cab ou ferir (Almeida Nogueira).
Com esta radical formam-se numerosas denominações
de vespas; assim a Polybia vicina é a cassunung2 ou ca-
ba-c;nynga (vespa zumbidoura); a P. scutellaris é camoa-
tim ou caba-moati (vespa que faz pontas, com referencia às
apophyses que revestem 0 ninho desta especie); Polis-
tes cavapyta é a caba-pita (vespa vermelha), ete., etc.
Taunay (Curiosidades naturaes do Paraná, Rev. do
Inst. Hist. do Rio de Janeiro, tomo LIT, 1390, I, p.
227) affirma que em muitos Estados a denominação
« vespa» é quasi inteiramente substituida pela de cada,
mas ao passo que nos Estados do Sul este vocabulo é,
em geral, posposto ao qualificativo, como beiju-caua,
tatú-caua, tapio-caua, etc., nos Estados septentrionaes,
como em Pernambuco (vide A. de Freitas 1. c. p. 81)
,
o mesmo vocabulo é anteposto como em caba-mirin,
Leg ae
caba-piranga, caba-tatir ; comtudo sempre se diz deiji-
caba (que é a Apoica, cujo ninho eguala em fórma ao
beiju ou bolo de farinha; denominam-n'a tambem «ma-
rimbondo de chapéo»). Como se vê é muito frequente
a denominação de marzmbondo, principalmente applicada
às vespas de porte maior. Tanto Beaurepaire-Rohan no
Dicc. de Vocabulos Brazileiros, como Fr. Cannecattim no
seu Dicc. da Lingua Bunda ou Angolense (Lisboa, 1804)
dão origem africana a este vocabulo (vespa - Ngubatéte,
Jingubatéle ou Maribindu, Aribündu na lingua bunda),
ao passo que o Dr. Th. Sampaio prefere uma explicação
tupi do vocabulo : meri-ybô ou mosca que aguilhôa.
Muito conhecida é a eschir egualmente denomina-
da inxu, enxuû, ou exù ; designa em geral as Polybias
menores, pretas, rajadas de amarello e produzindo bom
mel. E' em especial o nome da P. sylveira; enchu
da beira do telhado è a P. scutellaris.
A palavra eichú, a principio pronunciada e277, o Dr.
Th. Sampaio explica como significando eir-jù ou abelha
(mel) de ferrão. Inciuy & o mesmo que eiju-i ou eichu
pequeno e é applicado à Polybia minutissima var. sedula.
Mamangaba ou nangangaba ou ainda mangangá
é o nome dado em geral aos grandes hymenopteros
dos generos Bombus e Centris. E difficil a explicação
do vocabulo. Dr. Th. Sampaio diz que mamangaba
em tupi quer dizer rodeio, gyro, circumvolução, no
que se vê confirmado por se dizer, no norte do Brazil
«marimbondo mangangá», como si quizesse exprimir,
que ê uma «vespa de rodeio».
O ninho da apida social Bombus, escondido nas
touceiras de capim, contêm mel de ma qualidade. mas
é sempre habitado por numerosos individuos que promta
e violentamente defendem o que lhes é caro. A fer-
roada da mamangaba, que é talvez a mais dolorida, cer-
tamente era muito temida pelo indigena e seria estra-
nhavel mesmo si, na sua denominação, o indio não fi-
zesse entrar o radical cab ou caba (e abrandado gaba)
isto é, a que fére.
Devo agradecer em especial ao Dr. Theodoro Sam-
paio, o profundo conhecedor da lingua dos nossos abo-
502
rigines, o amavel auxilio que me prestou neste capi-
tulo do meu estudo e não posso deixar de fazer votos
porque tenhamos em breve publicado o seu trabalho
completo, no qual estuda a nomenclatura brazileira das
nossas abelhas e vespas.
As vespas sociaes estão representadas no Brazil
por um numero muito maior de generos e especies do
que na maior parte das outras regiões do globo, offe-
recendo por esta razão o estudo deste bello. grupo da
nossa fauna unt interesse particular, e isto não só sob
o ponto de vista da systematica zoologica, mas tam-
bem com relação à sua biologia.
As vespas sociaes não desempenham papel tão
importante com relação ao homem como as abelhas e
antes tornam-se, neste sentido, incommodas e mesmo
perigosas. Todavia as suas funcções no mechanismo
da natureza são bastante importantes, quer pelo auxi-
lio que prestam na fecundação das flores, quer pelas
suas caçadas, nas quaes victimam, no interesse da ali-
mentação de suas larvas, grande numero de insectos.
Soffrem esta perseguição principalmente os termitideos
e as moscas e, entre estas em especial, a importuna
mosca domestica, cuja influencia fatal na hygiene pu-
blica é bastante conhecida.
Já são sufficientes os exemplos em que a sciencia
nos demonstrou o quanto é funesta a rude intervenção
do homem na economia interna de qualquer grupo ani-
mal, produzindo desarranjos irremediaveis nas leis que
tão ‘admiravelmente regem a sua organização. para que
evitemos, de todos os modes: uma alteração no regu-
lar funccionamento desta engrenagem. Felizmente es-
caparam os vespideos que acabamos de estudar, a qual-
quer perseguição effectiva por parte do homem; po-
dem elles pois continuar a prestar Os seus serviços,
tanto mais apreciaveis entre nós por quanto, pela falta de
leis de protecção às aves, os passaros são cada vez
mais dizimados, com prejuizo, talvez hoje ainda incaleu-
lavel em toda a sua extensão, para a hygiene publica
e para a lavoura.
São Paulo, Janeiro de 1904.
1896
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1828 Spix u. Martius, Reise in Brasilien 1828, Vol.
NI pé Hist DOC à
Comprehende este estudo os seguintes capitulos :
I Parte systematica e descriptiva das vespas bra-
zileiras.
Il Descripção dos ninhos (p. 220).
HI Biologia p. (276.)
Pers
Registre alphabetico
(Os synonymos
actæon (Polistes) 141
albopicta (Polybia) 214
ampullaria (Polybia) 209, 268
analis (Caba) 113
analis (Polistes) 145
anceps (Polybia) 207
angulata (Polybia) 192
angulicollis (Polybia) 191
annularis (Polistes) 147, 242
apicalis (Chartergus) 120, 235
apicalis fraternus (Chartergus) 121
apicipennis (Polybia) 175
Apoica 105, 159, 226
arborea (Apoica) 163
ater (Chartergus) 122
aterrimus (Polistes) 140
atra (Polybia) 190, 255
atra (Polybia) 188
augusti (Caba) 107, 232
augusti var. quinta (Caba) 107
baccalaurea (Caba) 106
bella (Polybia) 177
bentobuenoi(Parachartergus) 129,
239
bicolor (Po'istes) 145
bifasciata (Polybia) 182
biguttatus (Polistes) 155
bilineolata (Caba) 111
bilineolata var. fasciata (Caba) 112
binotata (Caba) 107
binotata (Polistes) 139
Brachygastra 105
brunea (Polybia) 215
buyssoni (Polybia) 208, 266
Caha 103, 105, 226
canadensis (Polistes) 146, 240
candidoi (Polistes) 136
carbonaria (Polybia) 183
carnifex (Polistes) 145, 240
cassununga (Polybia) 207, 265
catillifex (Polybia) 214, 272
cayennensis (Polybia) 213
vão em italico )
chalybea (Synoeca) 157
chapada (Polybia) 187
chartarius (Chartergus) 124, 239
Charterginus 103, 115, 226
chartergoides (Caba) 113
Chartergus 104, 118, 226
chlorostoma (Polistes) 145
chrysothorax (Polybia) 203, 263
cinctellus (Charterginus) 117, 234
cinerascens (Polistes) 142, 241
clypearia (Polybia) 164, 174
cerulea (Synoeca) 155
colobopterus (Chartergus) 119
compressus (Chartergus) 127
concolor (Chartergus) 121
consobrinus (Polistes) 150
cordata (Polybia) 215
cubitalis (Apoica) 162
cyanea (Synoeca) 156, 243
eyanea var. azurea (Synoeca) 156
diligens (Polybia) 216
dimidiata (Polybia) 200, 259
drewseni(Mischocyttarus)152, 242
263
126
emaciata (Polybia) 205,
emortualis (Chartergus)
enxius (Polybia) 181
Epipona 159
exigua (Polybia) 178
fasciata Oliv. (Polybia) 211, 273
fasciata Lep. (Polybia) 210
fasciatus (Chartergus) 127
fastidiosuscula (Polybia) 210, 267
| ferreri (Polistes) 146
filiformis (Polybia) 182
flavicans (Polybia) 204
flavitineta (Polybia) 195, 257
frontalis (Polybia) 194
fulgidipennis (Chartergus) 127
fulvofasciata (Polybia) 212
fulvus (Charterginus) 115, 234
Ifurnaria (Polybia) 217, 274
— 306 —
fuscatus (Charterginus) 116
fuscatus (Polistes) 145
geminatus (Polistes) 137
globiventris (Chartergus) 125, 237
gorytoides (Polybia) 216
griseus (Chartergus) 122
hectica (Polybia) 211
heydeniana (Polybia) 191
infernalis (Polybia) 205
injucunda (Polybia) 183, 250
irina (Synoeca) 157
jurinei (Polybia) 194
labiatus (Mischocyttarus) 152, 242
lamellaria (Leipomeles) 164, 246
latior (Polybia) 196
lecheguana (Caba) 109, 255
Leipomeles 105, 165, 226
liliacea (Polybia) 199
hiliaceusculus (Polistes) 137
liliaciosus (Polistes) 137
limai (Polistes) 142, 241
luctuosus (Chartergus) 125,
lugubris (Polybia) 192
23
6
marginata (Polybia) 203
melanosoma (Polistes) 139
mellifica (Caba) 109
meridionalis (Polybia) 211, 270
metathoraxica (Polybia) 196
mexicana (Polybia) 186, 251
minutissima (Polybia) 178
minutissimasedula(Polyb.)179, 247
Mischocyttarus 104, 151, 226
moebiana (Caba) 106
morio (Tatua) 159, 244
multipicta (Polybia) 197
myops (Polistes) 154
Myrapetra 192
nana (Polybia) 180
Nectarina 105
niger (Polistes) 140
nigra (Polybia) 188, 252
obscurus (Polistes) 141
occidentalis (Polybia) 198, 253
occidentalis juruana (Polybia) 198,
259
ochrosticta (Polybia) 211
cecodoma (Polybia) 209
onerata (Polistes) 145
opalinus (Polistes) 138
orientalis (Polybia) 215
pacificus (Polistes) 147
pacificus ruficornis (Polistes) 148
pacificus thoracicus (Polistes) 148
|pallida (Apoica) 161, 245
|pallipes (Polybia) 213, 272
Parachartergus 104, 128, 226
paraensis (Polybia) 204
pediculata (Polybia) 184, 251
pediculata unilineata( Polybia) 184
phthisica (Pclybia) 211
Polistes 104, 151, 226
Polybia 105, 164, 226
Pseudopolybia (Polybia) 164, 175
pumila Polybia) 176, 247
ipygmaa (Polybia) 176
quadricineta (Polybia) 182
rejecta (Polybia) 201, 261
ruficeps (Polybia) 193
rufidens (Polybia) 185
rufidens (Polistes) 141
rufiventris (Caba) 111
seutellaris (Caba) 108, vide p.
231
scutellaris (Polybia) 192, 255
scutellata (Caba) 108, vide p. 251
sedula (Polybia) 179
iseptentrionalis (Polybia) 210, 269
sericea (Polybia) 202, 262
smithi (Caba) 112
smithi (Chartergus) 126
smithi (Mischocyttarus) 152
socialis (Polybia) 190
spinolæ (Polistes) 149
subsericeus (Polistes) 144
suffusa (Polybia) 185
— 307 —
-
sulcata (Polybia) 201 jultramarina (Synoeca) 155
surinama (Synoeca) 155 | >
surinamensis (Polybia) 186 velutina (Caba) 109 Ve
sycophanta (Polybia) 200 versicolor (Polistes) 152, 241
sylveire (Polybia) 181, 250 ES upa (Polybia) 176
Synoeca 104, 153, 226 vicina (Polybia) 206
violacea (Synoeca) 155, 263
Tatua 104, 158, 226 virginea (Apoica) 161
Pres pre ne Yypiranguensis (Polybia) 188
tinctipennis (Polybia) 195 izonatus (Chartergus) 124, 237
Explicação das estampas
EST. HI
Fig. 1 Mischocyttarus (terminologia ): oc-olho,
ocl-ocellos ; b-base e fl-flagello da antenna ; pt-prothorax,
mst-mesothorax, s-scutellum. pls-postscutellum, mt-meta-
thorax (Thorax); p-petiolo, se-segmentos abdominaes
(Abdomen) ; I, II, HI— 1.º—3.º par de pernas, cx-coxa,
tr-trochanter, f-femur, th-tibia, intt-metatarso, ¢-tarso,
u-unba (Perna); st-estigma, 7-cellula radial; €, €, ©”,
e”—1.7-4.* cellulas cubitaes; nr I, nr II—1.º-2.º ner-
vos recorrentes ; m-cellula medial, sm-cellula submedial;
a-cellula anal; ap-cellula apical; [-cellula do limbo;
d, d’, d’—:.°-3° cellulas discoidaes.
Fig. 2 Cabeça de Tatua (o apice do clypeo cl.
é bidentado).
Fig. 3 Masxilia (lado direito) com o palpo pln
(Synoeca).
Fig. 4 Labrum com os palpos labiaes p// (idem).
Fig. 5 Conformação do corpo de Synoeca.
Fig. 6-7 Formas caracteristicas do I° segm. abdo-
minal dos generos Caba (6) e Chartergus (7).
Fig. S Conformação do abdomen de Áporca.
Fig. 9-10 Valvulas articulares protegendo a inser-
ção do “Petiolo em Apoca (9) e Polistes (1).
— 308 —
Fig. 11-11-a Formas caracteristicas do clypeo e
do petiolo de Polybia vicina Sauss.
Fig. 12-12-a Idem, idem de Polybia cassununga
Rein.
Fig. 13 Maxilla com o palpo, de Paracharter-
gus bentobuenor R. v. Th.
Fig. 14 Labrum com os palpos labiaes, de Pura-
chartergus bentobuenor R. v. lh.
EST IV
Polistes limai KR. v. Ih.
» candido: R. v. Ih.
Caba augusti Sauss. var. quintaR. v. Ih.
» baccalaurea KR. v. Ih.
Polybia bella R. v. Ih.
Charterginus felvus Fox
Parachartergus bentobuenor R. v. Ih.
TO) OU CM mm
EST. V
1 Ninho de Chartergus luctuesus Sm.
er » » Parachartergus bentobuenoi
Rem tos
3 » » Polistes lunar KR. v. lh.
4 » » Mischocyttarus drewsent Sauss.
Dit) » » Charterginus fulvus Fox
6 » » Apoica pallida (corte longitu-
dinal).
EST. VI
Fig. 7 Ninho de Polybia meridionalis R. v. th.
DS » » Leipomeles lamellaria Moeb.
poe » » Polybia minutissima sedula
Sauss.
» 10 » » Polybia septentrionals R. v. Th.
>, LI » » Chartlerginus cinctellus Fox
— 309 —
EST. VII
Fig. 12 Ninho de Polybia sp. (Encontrado ja
abandonado pelas vespas). Uma grande folha envolve
todo o ninho, do qual só uma pequena parte, em cima,
fica descoberta.
A coberta do ninho não foi dispensada; o syste-
ma seguido é approximadamente o que mostra a fig. 9
P. sedula. Em parte alguma o ninho esta preso dire-
ctamente à folha envolvente; numerosos pequenos pe-
dunculos cylindricos (de 0,5x4 mm.) prendem-no solida-
mente à face interna da folha. As dimensões do ninho
são 9X3,5 cm.; conta dous andares. A entrada é cir-
cular, de 3 mm. de diametro e fica situada no apice
inferior do ninho. As cellulas medem 2 mm. de diame-
tro; a camada tem 16 mm. de altura sendo, de 6 mm
o espaço livre. entre as cellulas e a coberta.
Os dous bordos da folha estão soldados entre si
por uma fina camada de uma substancia de aspecto de
gelatina, a qual, posta. ao fogo se reduz a uma quan-
tidade minima de cinza; dessa mesma substancia são
feitos os pedunculos já mencionados. Emfim, para que
tudo fosse original neste ninho tão interessante, a folha
envolvente foi presa, pela sua extremidade apical a um
galho, no qual, provavelmente, cahindo, se prendeu, e
em seguida assim foi solidamente fixada pelos insectos,
que, infelizmente, me são desconhecidos.
Fig. 13 Ninho de Polybia furnaria R. v. Ih.
(feito de barro).
SARA ay ty » buysson R. v. lh.
ÿ 410 PE » atra (Oliv.)
SR ILS A. » vicina Sauss.
Sarat kl Po Sees dimediata (Oliv.)
As aves do Paraguay em comparação com as de
São Paulo
A exploração ornithologica da Republica do Para-
guay tem luctado com maiores difficuldades do que a
de qualquer outro paiz sul-americano, devido particu-
larmente à intervenção de amadores, não versados na
classificação scientifica.
Isto refere-se em primeiro logar a Don Felix de
Azara, cuja obra sobre os quadrupedes e aves do Pa-
raguay ainda hoje forma a base da exploração zoolo-
gica daquelle paiz.
Sem entrar em apreciação detalhada desta obra e
das publicações que della tratam, especialmente de Hart-
laub, observo que a ultima enumeração completa das
aves do Paraguay é a que o Sr. Conde Hans von Ber-
lepsch publicou em 1887. Nos seguintes annos foram
accrescentadas por Salvadori, Oberholser e outros au-
ctores outras especies, não contidas naquella enumera-
ção. Em Janeiro de 190] foi publicada a obra de A.
de Winkelried Bertoni, contendo a descripção de nu-
merosas pretendidas novas especies, que novamente in-
troduziam na literatura muitas denominações e descri-
pções mal ou não reconheciveis. Encontrando entre es-
tas suppostas novas especies varias que tambem em S.
Paulo occorrem, tomei a mim a incumbencia de veri-
ficar a verdadeira significação destas suppostas novas
especies.
A redacção do jornal Jbis, à qual mandei o meu
manuscripto, hesitou em publical-o, em vista da evi-
dente incompetencia do auctor das descripçôes, (cf. Ibis,
vol. III, 1903, pag. 607).
— 311 —
Reclamei nestas condições a restituição do manuscri-
pto, de cuja publicação desisti, particularmente tambem
devido a uma memoria analoga de Lynch Arribalzaga.
Aconteceu, entretanto, que consegui determina um
bom numero de especies, não reconhecidas pelo auctor
mencionado, divergir delle a respeito de outras especies
e mais, que recebi do Sr. Bertoni diversas remessas, con-
tendo aves que permittiam verificar varias das especies
por elle descriptas. Nestas condições tratei novamente
do assumpto, chegando ao resultado de terminar quasi
todas as especies de Bertoni, com excepção das se-
guintes, das quaes, entretanto, espero ainda receber do
Sr. Bertoni exemplares typicos: Coccothrauste ambro-
settianus, Elaina holmbergiana, Hapalocercus plumbei-
pes, Myiophtorus morenoanus, Phyllopneuste flavifrons,
Formicivora arechavaletae, Dendrobates guttatus, Mi-
crogon galbuloides.
Penso que este trabalho não foi inutil, visto que a
lista das especies verificadas por Lynch Arribalzaga e
por mim contem nada menos de 60 especies novas para
a fauna do Paraguay. No anno seguinte de 1902 pu-
blicou Harry ©. Oberholser um artigo sobre a ornis
do Paraguay, que enumera, não só varias das espe-
cies descriptas por Bertoni, mas, accrescenta ainda
mais 15 especies, indicadas pela primeira vez como
occorrentes no Paraguay.
A todos as especies, que foram verificadas no Pa-
raguay só depois de impressa a mencionada lista do
Conde von Berlepsch, (1887), anteponho, na presente
enumeração um * asterisco.
Deste modo aconteceu que a lista total das aves
observadas no Paraguay, que era de 357 no artigo de
Berlepsch, ou antes de 355, excluindo-se duas especies
duvidosas pertencentes provavelmente uma ao genero
Recurvirostra, sendo a outra Heliobletus superciliosus
(Licht) baseada numa descripção de Azara que nada
tem de commum com a especie, cujo nome melhor de-
finido é H. contaminatus Pelzeln, se elevou a 471 na
presente enumeração.
— 312 —
2
Si este numero ainda é relativamente pequeno em
comparação com o de 652 especies verificadas até agora
por mim, como occorrentes no Estado de S. Paulo, com-
tudo parece-me sufficiente para um exame comparativo
a que procederei na segunda parte deste estudo.
E' preciso lembrar-se de que, por engano, foram
indicadas como provenientes do Paraguay, varias espe-
cies que alli não occorrem. Isto é devido em parte ao
facto de que Azara, tratando do Paraguay, usou desta
palavra num sentido mais largo do que corresponde
aos limites actuaes deste Estado. Além disto H. von
Berlepsch deu, como appendice ao seu estudo, uma lista
das aves que desconfia que ainda possam ser encontra-
das no Paraguay e, por um engano, as respectivas es-
pecies foram em grande parte acceitas, como existen-
tes no Paraguay, no catalogo do British Museum. Na
Handlist of Birds do mesmo museu ainda acho men-
cionadas as seguintes tres especies cuja occorrencia no
Paraguay me parece ainda não ser provada: Limno-
pardalus maculatus, Mareca sibilatrix e Myiotheretes
rufiventris.
No mesmo catalogo acho mancionadas as seguin-
tes especies, como occorrentes no raraguay, segundo
artigos publicados por P. L. Sclater: Siptornis stria-
ticeps, Siptornis maluroides, Hylocharis sapphirina. Não
podendo comparar actualmente os respectivos artigos,
deixei de acceitar estas especies na presente enumera-
ção, em vista do facto de ter o proprio Sclater deixado
de mencionar a occorrencia destas especies no Para-
guay no livro «Argentine Ornithology». publicado por
elle e Hudson. Dou em seguida a literatura principal,
consultada no correr deste estudo.
Literatura
Allen, Joel Asaph.—On a collection of birds from
Chapada, Matto Grosso, Brazil, made by Mr. H. H.
Smith. Bulletin American Museum of Natural History.
Mol Viet p. 300 ss: e Vol. V. 1899; p. 107-158.
Azara, Don Felix de. Voyages dans [Amérique
méridionale publ. par Walckenaer, Tomes III et IV.
Oiseaux ; trad. et augmenté par M. Sonnini:- Paris,
1809.
Berlepsch, Hans Graf von. Zur Ornithologie der
Provinz Santa Catharina, Siid-Brasilien. Cab. Journ. f.
Ornith. Jahrg. XXI Berlin 1873.
Berlepsch, H. von. Systematisches Verzeichniss
der von Herrn Ricardo Rohde in Paraguay gesam-
melten Vogel und Appendix: Systematisches Verzeich-
niss der in der Republik Paraguay bisher beobachteten
Vogelarten. Cabanis, Journal fir Ornithologie; Berlin,
1887.
Berlepsch, Count Hans von and Hartert, Ernst.
On the birds of the Orinoco Region. Novitates Zoologi-
ce Vol. IX N. 1, p. 1—134, 1902. Plate XII.
Berlepsch, Hans von und Ihering, Herman von.
Die Vôgel der Umgegend von Taquara do Mundo No-
vo, Prov. Rio Grande do Sul. Mit vier colorirten Ta-
feln. Zeitschrift fiir die gesammte Ornithologie; Buda-
pest 1885. p. 97—185.
Bertoni, A. de Winkelried. Aves nuevas del Pa-
raguay. Continuacion à Azára. Asuncion 1901.
Catalogue of the birds in the British Museum.
Volumes I—X XVII London, 1874-1898.
— sli —
Hartlaub, G. Systematischer Index zu Don Fe-
lix de Azaras Apuntamientos etc.; Bremen, 1847.
Ihering, H. von. As aves do Estado de S. Paulo.
Revista do Museu Paulista. Vol. HI, 1898, p. 115-476.
Ihering, H. von. Ueber die geographische Ver-
breitung der Singvôgel von S. Paulo. I. Ornith. Ber-
lin 1898 p. 6-24.
Thering, H. von. As aves do Estado do Rio
Grande do Sul. Annuario do Estado do Rio Grande
do Sul para o anno 1900, de Graciano A. Azambuja.
p. 113-154. Porto Alegre.
Ihering, H. von. Critical notes on the zoogeo-
graphical Relations of the Avifauna of Rio Grande do
Sul «The Ibis». London 1899 p. 432-436.
thering, MH. von: On the Ornis” of, the Statewor
S. Paulo, Brazil. Proceedings of the Zoological So-
ciety of London, 1899 p. 508-517. Pl. XXVI.
Ihering, H. von. Aves observadas em Cantagallo
e Nova Friburgo. Revista do Museu Paulista. S. Pau-
lo. Vol. IV, 1990 p. 149-164.
Ihering, H. von. Ornithological Notes from South
Brazil. «Ibis». London 190!, p. 12-10.
Ihering, H. von. Contribuições para o conheci-
mento da Ornithologia de S. Paulo. Revista do Mus
seu Paulista. Vol. V. S. Paulo 1902, p. 2601-329" com
estampa XI.
Lynch Arribalzaga, Enrique. Apuntes criticos
sobre las aves del Paraguay descritas por el señor
A. de Winkelried Bertoni. Anales del Museo Nacio-
nal de Buenos Aires. Tomo VII. Buenos Aires, 1902,
p. 329-399.
Oberholser, Harry C. Seven new Birds from Pa-
raguay. Proceedings of the Biological Society of Was-
hington. Vol. XIV. Washington 1901, p. 187-188.
— 315 —
Oberholser, Harry C. List of Birds collected by
William T. Forster in Paraguay. Proceedings of the
United States National Museum, Vol. XXV. Washin-
gton 1902, p. 127-147.
Reinhardt, I. Bidrag til Kundskal om Fuglefan-
naen 1 Brasiliens (Campos. Videnskabelige Mddelelser
fra den naturhistoriske Forening i Kjobenhavn 1. e I.
Kjobenhavn 1870.
Ridgway, Robert. The Birds of North and Middle
America. Part. I Family Fringilidae, Bulletin of
the United States National Museum, N. 50. Was-
hington 1901.
Ridgway, Robert. The Birds of North and Mid-
dle America. Parte II. Tanagridæ, Icteridæ, Coere-
bidæ, Mniotiltidæ. Bulletin of the United States Na-
tional Museum N. 50. Washington 1902.
Salvadori, Conti T. Viaggio del Dr. A Borelli
nella Rep. Argentina e nel Paraguay. Intorno alle
Pyrrhura chiripepe (Vieill) e P. borellii n. sp. Boll.
Mus. Torino Vol. IX N: 190. 1894.
Salvadori, Conte T. Uccelli raccolti nel Para-
guay, nel Matto Grosso, nel Tucuman e nella Provin-
cia di Salta, Boll. Mus. Torino, Vol. X. N. 208, 1895.
Salvadorr, Conti T. Viaggio del Dr. A. Borelli
nel Matto Grosso e nel Paraguay. Ibid. Vol. XV, 1900
N. 378.
Sclater, P. L. and Hudson, W. H. Argentine
Ornithology, a descriptive Catalogue of the Birds of
the Argentine Republic Volume I. London 1888. Vo-
lume 11 1889.
Sharpe, R. Bowdler A. Hand-List of the ge-
nera and species of Birds (Nomenclator avium tum
fossilium tum viventium). Vol. LIV. London 1903.
— 316 —
AVES DO! PARA GUAM
J. Ordem Passeres
| SUBORDEM OSCINES
Fam. Turdidæ
1. Merula rufiventris | Veecdl.)
2. » leucomelas ( Vieull.)
E’ este o Turdus amaurochalinus Gab. de I. von
Berlepsch, que, com duvidas, a esta especie refere a
Grive N. 80 de Azara. Ao meu ver a descripção de
Azara refere-se a M. albiventris Spix, já por indicar
a cor do bico como sendo escura, ao passo que M.
leucomelas a tem amarella A mancha branca da gar-
ganta inferior, que caracteriza M. leucomelas, falta tanto
à M. albiventer como ao n. 80 de Azara. T. leuco-
melas Vieilliot nao foi bem descripta mas indicada
como proveniente do Paraguay, motivo porque entendo
que ha de ser conservado o nome de Vieilliot.
3. Merula albiventer (Spex).
Turdus metalophonusBertoni, pg. 147.
A occorrencia desta especie no Paraguay é compro-
vada pela publicação de Hellmayr Journ. f. Orn. 1902
pg. 62. Bertoni, 1. cit. pg. 147 deu a esta especie o nome
novo de Zurdus metallophonus, conservando para a
outra especie semelhante o nome de leucomelas. Lynch
Arribalzaga acredita, L cit. pg. 370 que o T° metallo-
phonus Bertoni seja identico com Merula crotopeza
(Licht.), o que não é possivel, por faltar à ave descri-
pta por Bertoni a grande mancha branca da garganta
inferior, que caracteriza M. crotopeza. Observo ainda
que pelo mesmo motivo e pela côr do bieco, acredito
que N. 80 de Azara se refira à M. albiventer. O ninho
que Azara attribuiu a esta especie, contendo ovos
brancos de certo era proveniente de outra ave.
4º Platiycichla flavipes ( Vieill.)
Turdus tephromelas, Bertoni pg. 146.
ae
A minha determinação da especie de Bertoni com-
bina com a que deu Lynch Arribalzaga 1. cit. pg. 370.
Fam. Troglodytidze
Cistothorus polyglottus ( Vell.)
Troglodytes musculus Naum.
Thryophiius minor Pelz.
Especie do Matto Grosso citada do Paraguay por
Oberholser Proc. U.S. Nat. Mus., N.º 1276, Washington
FONES pras.
eres
Fam. Mimidae
8. Mimus triurus ( Veec//.)
9. » modulator (Gould;
10. Donacobius atricapillus (Z.)
Sywiwviidze
11. Poloptila berlepschi (Hellm.)
Segundo Hellmayr occorre esta especie desde o
Paraguay e S. Paulo até o Matto Grosso e Goyaz, sendo
“entretanto certo que o passaro deseripto por Azara per-
tence à especie seguinte, P. duinicola, distribuida pela
Argentina, no Uruguay e no Rio Grande do Sul. .P.
dumicola tem o lado inferior cinzento, P. berlepscha
tem-no branco. A extensão da parte preta basal das 3
rectrizes exteriores é maior na P. dumicola do que
em P. berlepschi.
12. Polioptila dumicola Veezil.
13° » leucogastra Wed
Polioptila melanocephala, Bertoni p. 143.
Esta especie, distribuida desde S. Paulo até o Ama-
zonas, não fora, até agora, observada no Paraguay.
Motacillidæ
14. Anthus correndera ( Vrezll.)
15. Anthus chii (Vieill.)
16.* Anthus nattereri Scl.
Salvadori L c. 1895 p. 3. foi quem primeiro ob-
teve esta especie do Paraguay.
— 318 —
WMniotiltidae
17. Compsothlypis pitiayumi Veil.
IS. Geothlypis æquinoctialis cucullata (Lath.)
Oberholser, 1. c. pg. 142 descreve esta especie sob
o nome de G. æquinoctialis velata Vreull.
19. Basileuterus flaveolus Bazrd
20. Basileuterus auricapillus Srs.
21. Basileuterus leucoblepharus Veezl/.
Oberholser toc. “cit 1901 po 188 e 1902 ne. 124]
descreve a subspecie calus Oberh. 1901 proveniente do
Paraguay. não me constando si ahi tambem occorre, ao
lado dessa subspecie, a forma typica. ‘A subspecie calus
distingue-se, pelos flancos cinzentos, da forma typica,
que os ten pardacento-azeitonados.
22. Ateleodacnis speciosa Wied
O genero Ateleodacnis foi por Ridgway separado
de Dacnis dos Coerebidæ e reunido com os Mniotiltidee.
Vireonidæ
23. Vireo chivi ( Vreull.)
24.* Pachysylvia poecilotis (Temm.)
Serpophaga sinnamocephala, Bertom pg. 120.
Esta especie até agora não tinha sido observada
no Paraguay.
| 29. Cyclorhis viridis ( Veeill).
26." Cyclorhis ochrocephala Tschud.
Oberholser 1. c. 1902, p. 140. Especie nova para
o Paraguay.
Wirundinidze
27. Tachycineta leucorrhoa ( Vrell.)
2? Hirundo erythrogastra Bodd.
29. Progne purpurea furcata Baird
Considero, com Oustalet, P. furcata Baird como
subspecie meridional de P. purpurea L.
30. Progne chalybea domestica ( Vrezll.)
31," Prosnémtapera ( 6.)
32. Atticora eyanoleuca ( Vreull.)
33. Alopochelidon fucatus (Temm,)
— 819 —
34. Petrochelidon pyrrhonota ( Vrell.)
35. Stelgidopteryx ruficollis ( Vieill).
Coerebidze
36. Dacnis cayans (L.)
37." Coereba chloropyga (Cab.)
Certhiola palmarum, Bertoni p 144.
Esta especie, classificada de egual modo por Lynch
Arribalzaga 1. c. p. 370, é nova para a fauna do Pa-
raguay.
Tanagridoe
38." Procnias cœrulea ( Vell).
Chelidorhamphus orhycterus Bertoni p. 102.
Esta especie, que é nova para o Paraguay, foi clas-
sificada de modo identico por Lynch Arribalzaga (p. 358).
39.* Chlorophonia chlorocapilla (Shave).
Euphoma cyanoblephara Bai toni p. 96.
Chlorophonia viridis (Vieill. Lynch Arribalzaga
p. 307.
Esta especie & nova para a fauna do Paraguay, de
onde tambem a obteve Oberholser loc. cit. p. 144.
40. Euphonia chlorotica serrirostris La/. et D’ Oro.
4\.* Euphonia violacea (L.)
Huphonia awrantwcollis Bertoni p. 94.
A especie é nova para a fauna do Paraguay, sendo
dahi tambem mencionada por Oberholser p. Lá.
42.* Euphonia pectoralis Lath.
Wien berlepschiana Bertoni p. 98.
Sobre esta especie compare-se Lynch Arribalzaga
p. 307 e Oberholser p. 143.
Tambem esta especie & nova para a fauna.
43. Euphonia nigricollis ( Vieill.)
44* Hypophæa chalybea (Akan).
Euphoma egusquize Bertoni p. 99.
Lynch Arripalzaga p. 307. A especie é nova para
“a fauna paraguaya.
45.* Calospiza tricolor Gm.
Calliste septemcolora Bertoni p. 89.
— 320 —
Lynch Arribalzaga 1. c. p. 396. A especie é nova
para a fauna que estudamos.
46. Calospiza flava (Gm.)
47. Calospiza pretiosa (Cab)
48. Stephanophorus leucocephalus ( Viezl/.)
Bergia solanorum Bertoni p. 86.
49. Pipridea melanonota ( Vreull.)
00. Tanagra sayaca L.
Ol. Tanagra bonariensis (69n.)
ov. Tanagra cyanoptera ( Vreull.)
O passaro descripto por Azara sob o numero 92 é
evidentemente esta especie e não sayaca como H. von
Berlepsch o pensou. Tal fica provado pela descripção das
coberteiras exteriores da aza que Azara indica: azues,
contrastando com a côr verde-azul do bordo das remiges.
o3. Pyranga azare D'Orb. et Lafr.
Diplochilus xanthochlorus Bertoni p. 88. Lynch
Arribalzaga 1 €. p. 356 comparou esta especie com
Pitylus brasiliensis Gab. e P. viridis Vieill., que, porém,
differem pela cor preta da garganta e outros caractéres.
Evidentemente o passaro examinado por Bertoni é a Q
da especie por mim indicada e já descripta por Azara.
O1. Phoenicothraupis rubica ( Veecil.)
99. Tachiphonus coronatus ( Vreull.)
96. Tachiphonus rufus (Bodd.)
T. melaleucus Sparm. Berlepsch.
07. Trichothraupis melanops ( Viezd/.)
o8. Nemosia guira (L.)
99. Nemosia pileata (Bodd.)
60." Cissopis major Cab |
Brachyrhamphus elegans Bertoni p. 46. Lynch
Arribalzaga loc. cit. p. 342.
Tambem esta especie é nova para o Paraguay.
Fringillidæ
61. Arremon polionotus bp.
Salvadori Lc. 1895 p. 4.
Arremon calistus Oberh. 1. cit 1901 p. 188 e 1902
— 321 —
p. 145 é summamente parecido com A. poleonotus, do
qual talvez represente uma subspecie, caso não se trate
de uma simples variação individual. A differença con-
siste na côr mais escura do lado superior e na largura
um pouco mais consideravel da faixa jugular; o encon-
tro é branco e o tamanho um pouco maior, medindo a
aza 80 mm. Só com material mais rico será possivel
decidir a questão.
62. Saltator aurantiirostris Viezll.
65. . Saltator cœrulescens Veecll.
64. Saltator atricollis Veedll.
69.* Saltator similis Lafr. D' Orb.
Salvadori 1 c. 189% p. 5 indica a especie como
nova para o Paraguay.
66.º Pitylus fuliginosus Daud.
Pyrorhamphus berlepschianus Bertoni p. 85. E
especie nova para a fauna paraguaya. .
67. Cyanocompsa cyanea (L.)
68. Cyanocompsa cyanea sterea, Oberh.
Cyanocompsa sterea Oberholser 1. c. 1901 p. 188 e
1902 p. 146.
Esta forma, que parece ser apenas um subspecie de
C. cyanea, differe della pelo bicco menor e pela côr
azul do vertice menos roxa. Será necessario precisar por
novas investigações a relação entre C. sterea e cyanea
e a sua distribuição geographica.
69. Cyanoloxias glaucocærulea (D'Orb.)
70. Oryzoborus angolensis (L)
71: Sporophila hypoleuca (Z2cht.)
72." Sporophila plumbea ( Weed)
Spermophila auranturostris Bertoni p. 84
Sporophila leucoptera (Vieill.) L. Arribazalga p. 355.
Segundo este ultimo autor Sp. leucoptera Vieill.
seria identica à Sp. hypoleuca Licht. Esta especie tem
a garganta branca, ao passo que o passaro descripto por
Bertoni a tem cinzenta como Sp. plumbea Wied. A
especie é nova para a fauna do Paraguay.
73. Sporophila hypoxantha ( Cad.)
74. Sporophila melanocephala ( Vrezll.)
— 322 —
Berlepsch menciona esta especie sob o nome de 8.
collaria L., pondo em duvida a sua identificação como
N. 124 de Azara.
19.
76.
Sporophila ccerulescens (Bonn. e Vieill.)
Sporophila lineola Z
77.* Sporophila albogularis (Spix)
Oberholser 1. c. p. 140 indica esta especie do Pa-
raguay.
78. Volatinia jacarini (L)
19* Pyrrhocoma ruficeps (Streckl.)
Oberholser l.c. p. 144; especie nova para o Paraguay.
80.
81.
94.
95.
SEA
Spinus ictericus (Licht.)
Sicalis pelzelni Scl.
Sicalis arvensis (Mittl.)
Brachyspiza capensis (P. L. S. Mill.)
Poospiza assimilis Cab.
Poospiza melanoleuca D’ Orb. e Lafr.
Poospiza personata (Swazns.)
Myospiza manimbe (Lecht.)
Embernagra platensis (Gm.)
Coryphospiza albifrons Cab.
Coryphospiza melanotis (Temm.)
Emberizoides macrourus herbicola (Vzecll.)
Coryphospingus cucullatus (Mill.)
Coryphospingus piliatus Wzed.
Paroaria cucullata (Lath.)
Paroaria capitata D’Ob. et Lafr.
Paroaria gularis L
P. cervicalis Sel. Salvadori |. c. 1895 p. 6, pela
primeira vez citou-a do Paraguay.
97.” Gubernatrix cristata Veecll.
A collecçäo do British Museum (vide Cat. XII, p.
816 ) contem um exemplar proveniente do Paraguay.
98.
Icterid:
Ostinops decumanus (Pall.)
99. Cassicus chrysopterus ( Vig.)
C. albirostris Vieul. (nec L.)
— 323 —
O nome mais antigo para o Cassicus persicus L.
1766, do qual Tanagra albrrostris Linne 1/76 é sy-
nonymo de Parus cela L. 1758. nome que deve ser ap-
plicado na forma de Cassicus cela (L.)
100.º Cassicus hæmorrhous aphanes Berl.
Ostinops cherrieanus Bertoni p. 82. Lynch Arribal-
zaga p. 394. A especie é nova para o Paragauy.
101. Amblycercus solitarius Vrezll.
102. Cassidix oryzivora Gm.
103. Dolichonyx oryziverus ZL.
404. Molothrus bonariensis Gin.
105. Molothrus brevirostris Lafr. et D’ Orb.
106. Molothrus badius Vrerll.
107. Agelaeus thilius chrysocarpus ( Vig.)
108. Agelaeus cyanopus Veeill.
109. Agelaeus flavus Gm.
110. Agelaeus ruficapillus Vreull.
Agelaeus ruflcollis Bertoni p. 81; cf. Lynch Arri-
balzaga 391.
111. Leistes superciliaris (Bp.)
112. Amblyrhamphus holosericeus (Scop.)
113. Pseudoleistes guirahuro ( Vreill.)
113. Icterus pyrrhopterus ( Viecll.)
Oberholser 1. c. p. 145.
115. Aaptus chspi ( Veeull.)
Corvidee
116. Cyanocorax chrysops (Vrezll.)
117. Cyanocorax cyanomelas ( Vreull.)
118. Cyanocorax coeruleus ( Vrerll.)
C. heckelr (Pelz). Oberholser 1. €. p. 140.
Ja indiquei nesta Revista Vol. IT p. 174 a identi-
dade de C. hecheli com C. coeruleus, especie que é
distribuida desde o Rio Grande do Sul até o sul do Est.
de S. Paulo e até o Paraguay.
149.
120:
let
122
123.
124.
129.
120:
24:
128;
129
130.
131.
132.
133.
14:
— 324 —
II SUBORDEM CLAMATORES
Tyrannid:
Taenioptera nengata (L.)
Taenioptera coronata ( Veeill.)
Taenioptera dominicana ( Viesll.)
Taenioptera irupero ( Vreill.)
Fluvicola albiventer (Spix)
Arundinicola leococephala (L.)
Alectrurus tricolor Veecll.
Alectrurus risorius ( Vrerll.)
Cybernetes yetapa ( Vrezll.)
Sisopygis icterophrys ( Vrezll.)
Cnipolegus cyanirostris (Vrezll.)
Lichenops perspicillata (Gin.)
Copurus colonus ( Veerll.)
Machetornis rixosa ( Vell.)
Centrites niger (Bodd.)
Platyrhynchus mystaceus Vreull.
135.º Rhynchocyclus sulphurescens (Spex.)
Oberholser 1, c. 136; é especie nova para a fauna.
Todirostrum polyocephalum (Wied.)
Euscarthmus minuius Bertoni p. 129.
Lynch Arribalzaga p. 566. E' nova para o Paraguay.
136.*
137.
Euscarthmus gularis (Tmin)
138. Euscarthmus margaritaceiventer (7 Orb. et
139." Orchilus auricularis (Vzeell.)
Oberholser 1. c. p, 138. A especie é nova para a
fauna do Paraguay.
140."
Hemitriea vilis (Burm.)
H. salvadorianus Bertoni p. 123.
Scotothorus sp. Lynch Arribalzaga p
Recebi um exemplar authentico do on Bertoni, o:
qual é identico com Hemtriccus vilis Burm. de S. Paulo.
Hapalocercus meloryphus (Wed)
Tp.
TAP:
143.
Hapalocercus flaviventris ( Lafr.
Habrura pectoralis ( Viezll.)
[Lafr.
. 364.
et IY Orb.)
144. Pogonotriccus eximius (Temm.)
— 325 —
Hapalocercus albifrons Bertoni p. 121
145.º Leptotriccus sylviolus Cab. et Hein,
Phylloecia chloroleuca Bertoni p. 120
Obtive um exemplar cotypico do Snr. Bertoni, o
qual mandei ao Snr. H v. Berlepsch, que o determinou
como acima indiquei.
146. Serpophaga subcristata ( Viell.)
14%. Serpophaga nigricans ( Vrezll.)
148. Cyanotis rubigastra ( Veer.)
149.* Mionectes rufiventris (Lzcht.)
Hemitriccus barberene Bertoni p. 124.
Especie nova para o Paraguay.
150.* Leptopogon amaurocephalus icastus Oberh.
Obreholser 1901 1.c. 187 e 1902 p. 138. Especie nova
para o fauna do Paraguay.
151. Ornithion obsoletum (Zemm.)
Renggerornis leucophthavmus Bertoni p. 130; Lynch
Arribalzaga p. 166.
152.* Elænea pagana (Licht )
Primeiro Salvadori 1. c. 1895 p. 10 obteve esta es-
pecie do Paraguay.
Oberolser 1. c. (Hlenia pagana ight)
158. Elænea albiceps (Lafr. et D’ Orb.)
E. arechavalete Bertoni p. 119.
E. pagana Lynch Arribalzaga p. 363.
A descripção de Bertoni combina melhor com E.
albiceps do que com E. pagana, assim como as me-
didas. O comprimento da aza é de 72 mm. como em
E. albiceps, ao passo que em pagana a aza mede
80-82 mm. Pelo mesmo motivo não acceito a opinião
de Lynch Arribalzaga, |. c. p. 364, segundo a qual
Eleenea holmbergiana Bertoni p. 120 seria E. meso-
leuca Cab. Heine, cuja aza mede 83 mm. ao passo que
na especie de Bertoni a mesma mede só 57 mm.
194.7 Myiopagis caniceps (Sw.)
Oberholser 1. c. p: 137. E' nova para a fauna.
155.º Phyllomyias salvadorii Dubo:s.
Oberholser 1. c. p. 137. Especie argentina que é
nova para a fauna do Paraguay, mas que é alliada à
— 326 —
Ph. brevirostris Spix do Brazil meridional, da qual re-
presenta apenas uma subspecie segundo Dubois.
156.
197%.
158."
Suiriri suiriri ( Vell.)
Legatus albicollis ( Veecd/.)
Conopias trivirgata (Wed)
Myvarchus stauffenbacherianus Bertoni p. 117.
Lynch Arribalzaga p. 363. Especie nova para o
Paraguay.
159.
160.
161.
162.
163.
164.
165.
166.*
Pitangus sulphuratus bolivianus (La/r.)
Sirystes sibilator ( Veewll.)
Myiodinastes solitarius Vell.)
Megarhynchus pitangua /L.)
Hirundinea bellicosa ( Veecl/.)
Pyrocephalus rubinus (Bodd.)
Empidonax bimaculatus Lafr. et D’ Orb.
Horizopus brachytarsus Scl.
Contopus brachytarsus Salvadori, 1. ce. 1895 p. 11,
menciona esta especie, pela primeira vez, como prove-
niente do
Paraguay.
167.º Blacicus pileatus (Redqw.)
Oberholser 1. c. p. 135. A especie é nova para
a fauna do Paraguay, tendo sido atê agora desconhe-
cida a sua patria.
168.
169.
170:
uit
A2,
173.
174.
Myiarchus tyrannulus (P. L. S. Mill.)
Myiarchus ferox (Gm.)
Empidonomus varius ( Veeell.)
Empidonomus aurantioatrocristatus (La/r e)
Tyrannus melancolicus Vzerll. [D’ Orb.t
Muscivora tyrannus (L.)
Pipridse
Chiroxiphia caudata (Shaw.)
175. Scotothorus unicolor (Bonap.)
Pipra morenoana Bertoni p. 104.
Oberholser 1. e. p. 185. Especie que até agora
não era conhecida do Paraguay.
— 327 —
Cotingidze
176. ‘Tityra brasiliensis (Sv.)
177.* Tityra inquisitor Licht.
Tityra atricapilla Bertoni p. 109.
T. erytrogenis (Selb.) Lynch Arribalzaga p. 360.
A especie é nova para a fauna do Paraguay. JT.
erytrogenis não é como Lynch Arribalzaga acredita,
synonyma de 7! inquisitor, mas especie alliada do norte
do Brazil, de Pernambuco até a Venezuela, como ficou
provado por Berlepsch a. Hartet 1. c. p. 55.
178. Platypsaris atricapillus ( Veec//.)
179. Pachyrhamphus viridis ( Viecll.)
180. Pachyrhamphus rufus (Bodd.)
Hadrastomus borellianus Bortoni p. 108.
Lynch Arribalzaga p. 359.
E” especie nova para o Paraguay.
181. Pachyrhamphus niger (Spex.)
182.* Pachyrhamphus polychropterus ( Vrezll.)
Climacocercus cyanocephalus (Vieill) Bertoni p.
112: Lynch Arribalzaga p. 361.
A especie é nova para o Paraguay, embora pa-
reca que H. von Berlepsch, além de P. niger, tivesse
obtido um ou dous exemplares de P. polychropterus.
183. Casiornis rubra ( Vrezll.)
184.* Phibalura flavirostris Vieull.
Psaliurus acevalianus Bertoni p. 105. Lynch Ar-
ribalzaga p. 359. Especie nova para a fauna do Pa-
raguay.
189. Pyroderus scutatus (Sharo.)
186. Phytotoma rutila Veecll.
Dendrocolaptid:æ
187. Furnarius rufus (Gim.)
Oberholser p. 134.
188. Cinclodes fuscus ( Veil.)
189.4 Lochmias nematura (Licht.)
Hidrolegus silvestrianus Bertoni p. TA.
Oberholser 1. c. p. 134. Especie nova para a fauna.
— 328 —
- Lynch Arribalzaga p. 351.
190. Phoeocryptes melanops ( Viezll.)
{91.* Synallaxis ruficapilla Veecll.
S. (Barnesia) cururuvi Bertoni p. 77. G. f. Lynch
Arribalzaga p. 352, especie nova para a fauna.
192.* Synallaxis spixi Sel.
S. furvicaudatus Bertoni p. 76.
Lynch Arribalzaga p. 352. Oberholser p. 134.
E” especie nova para a fauna paraguaya.
195. Synallaxis azaræ D' Oro.
194. Synallaxis albilora Pelz.
195. Synallaxis cinnamomea ( Gin.)
196. Synallaxis phryganophila (Veez//.)
{97. Synallaxis maximiliani D’ Ord.
{98. Leptasthenura platensis Rezchenb
199. Anumbius annmbi ( Vreull.)
200. Coryphistera alaudina Burm.
201. Phacellodomus rufifrons (Spzx.)
Ph. sincipitalis Cab. Berlepsch-Paraguay p. 11.
202. Phacellodomus ruber ( Vrezll.)
203.4 Phacellodomus striaticollis. (1? Orb. et Laf)
PL. Selater no Vol. XV: do Gat. Br. Brit) Mus:
p. 82 menciona um exemplar proveniente do Para-
guay.
204.* Automolus leucophthalmus ( Wed)
Piacellodomus bergianus Bertoni p. 78.
Especie nova para a fauna paraguaya.
205.* Philydor rufus ( Ved?)
Oberholser 1. c. p. 133.
206. Xenicopsis oleaginus (Scl.)
207.* Xenicopsis acritus (Oberh.)
Anabazenops acritus Oberholser 1. e. 1901 p. 187.
A presente especie é nova para a fauna do Para-
guya, porém um exame ulterior deverá esclarecer as
relações desta especie com a precedente, X. oleaginus.
208.# Xenops rutilus Lecht.
X. argobronchus Bertoni p. 79.
Como nova para a fauna, foi mencionada primeiro
por Salvadori 1. c. 1900 p. 18.
— 329 —
209.* Sclerurus umbretta (Lzcht.)
Geowcia orryctera Bertoni p. 79.
Lynch Arribalzaga p. 353. Especie nova para a
fauna paraguaya.
210.* Sittasomus erithacus (Lacht.)
Acanthurus microrhynchus Bertom p. 72.
Especie nova para o Paraguay, mencionada para
esta fauna primeiro por Salvadori 1. c. 1895 p. 12.
211. Xiphozolaptes major (Vreill.)
212.* Xiphocolaptes albicollis ( Veezd/.)
X. paranensis Bertoni p. 68.
No vol. XV do Cat. de aves do Brit. Mus. p.
143 vem citado um exemplar proveniente do Paraguay.
215.* Picolaptes tenuirostis apothetus Oberh.
Picolaptes koeniswaldianus Bertoni p. 71.
H. falcinellus Cab. Hein. Lynch Arribalzaga p. 351.
Oberholser 1. c. 1901 p 188 e 1902. p. 131.
A especie examinada por Bertoni é evidentemente
a acima indicada, como é provado pelo comprimento da
aza que é de 72 mm.; P falcinellus é de dimensões
maiores.
A especie é nova para a fauna do Paraguay.
214. Picolaptes augustirostris (Veil) |
219.º Xiphorhynchus procurvus (Temm.)
- Campylorhamphus lonyirostris Bertoni pag. 70
Especie nova para a fauna do Paraguay.
216." Dendrocolaptes picumnus Licht.
Dendrocolaptes tarefero Bertoni pag. 69
Especie egualmente nova para a fauna.
Formicariid>e
217.º Thamnophilus severus (Licht.)
Th. lahilleanus Bertoni pag. 135
Lynch Arribalzaga pag. 367. A especie é nova
para a fauna do Paraguay.
218. Thamnophilus major ( Veez/l.)
Berlepsch e Hartert, Orinoco pag. 68 suppõem que
a ave descripta por Azara pertença à subspecie albi-
— 330 —
crissus Ridgw., questão que será decidida sómente de-
pois do exame de exemplares authenticos do Paraguay.
219. Thamnophilus rhodei Berl.
220. Thamnophilus cœrulescens Veec/l.
221. Thamnophilus raaiatus Véerll.
222. Thamnophilus ruficapillus Veeell.
223." Thamnophilus ochrous Oberh.
Oberholser I. c. 1901 pag. 188; 1902 pag. 130.
E' nova para a fauna.
224." Hypoedaleus guttatus ( Veecll.)
Thamnophilus rodriguezianus Bertoni pag. 137.
Oberholser 1. c. pag. 131 acceita para o Tham-
nophilus quilatus o genero Hypoedaleus de Cabanis
et Heine (1859). E” especie nova para a fauna.
229.” Dysithamnus mentalis (Zemm.)
Thamnophilus flavescens Bertoni p. 136.
Salvadori 1. c. 1900 p. 18 indica esta especie como
occorrente no Paraguay, no que é confirmado por Ober-
holser |. c. pag. 128.
226." Herpsilochmus rufomaginatus (Temm.)
Dendroæcia erythroptera Bertoni p. 138; Lynch
Arribalzaga pag. 368. A descripção de Bertoni é in-
completa. A especie é nova para a fauna paraguaya.
227. Formicivora rufa ( Wied)
228.* Formicivora ferruginea (Lacht.)
Fornucivora rubricollis Bertoni pag. 140; Lynch
Arribalzaga pag. 368. E" nova para a fauna do Paraguay.
229.* Terenura maculata (Wed)
Phyllobates erythronotus Bertoni p. 142; Lynch
Arribalzaga pag. 369. Nova para o Paraguay.
230." Pyriglena leucoptera { Vrerll)
Thamnophilus leuconotus Bertoni pag. 134.
Th. tschudi Lynch Arribalzaga p. 367.
Não duvido que seja exacta a minha determinação.
Embora Bertoni não indique a côr das coberteiras in-
ternas das azas, que são pretas em Pyriglena, brancas
em Th. tschudi, as medidas da aza e da cauda deci-
dem a questão em favor de Pyriglena. Além disto Th
AS ee
tschudw @ especie amazonica. A especie é nova para
a fauna do Paraguay.
231*. Chamaeza brevicauda ( Vrezll.)
Ch. tshororo, Bertoni pag. 148; Lynch Arribalzaga
pag. 371. E’ nova para a fauna.
232º. Grallaria imperator La/r.
Chainobates rufiventris Bertoni p. 190 ; Lynch
Arribalzaga p. 372. Nova para o Paraguay.
233°. Conopophaga lineata ( Wed)
Ceraphanes anomalus Bertoni p. 115; Lynch Ar-
ribalzaga |. c. pag. 362. Especie nova para a fauna do
Paraguay.
234". Corythopis calcarata ! Wed)
Hylocentrites ambulator Bertoni pag. 126; Lynch
Arribalzaga 1. c. p. 365 julga que se trate de uma
nova especie de Motacilla.
A especie, que é nova para o Paraguay, foi pri-
meiro d'ahi mencionada por Salvadori 1. e. 1900 p. 18.
ll. Ordem Macrochires
Troehilid:e
235. Chlorostilbon aureoventris egregius (Hezns.).
236." Thalurania glaucopis (Gm.)
Rhamphomicron melchtalianus Bertoni p. 62.
Heliodoxa sp. Lynch Arribalzaga p. 346. Especie
nova para a fauna do Paraguay.
237°. Thalurania eryphile (Less.)
Chlorostilbon cyanothorax Bertoni p. 99. Egual-
mente nova para a fauna.
238. Lampornis nigricollis ( Veedl/.)
239. Heliomaster furcifer (S%avw.)
240.* Agyrtria affinis (Gould.)
Trochilus chlorobronchus Bertoni p. 5
A minha determinação baseia-se sobre um exem-
plar authentico, que me foi enviado pelo Sr. Bertoni. A
especie é nova para a fauna do Paraguay.
241.* Leucochloris albicollis ( Vrezll.)
Lampornis musarum Bertoni p. 64.
Tie
— 302 —
Lynch Arribalzaga p. 347. Especie nova para o
Paraguay.
242. Hylocharis ruficollis ( Veezll.)
243." Phaethornis eurynome (Less.)
Ph. paraguayensis Bertoni p. 54.
L. Arribalzaga p. 344. Especie nova para o Pa-
raguay. .
244.* Stephanoxis loddigesi (Gould.)
Cephaloepis apirati Bertoni p. 55.
Lynch arribalzaga p. 346. Especie nova para a
fauna do Paraguay.
245." Calliphlox amethystina (Gm.)
C. microptera Bertoni p. 60.
L. Arribalzaga p. 346. Egualmente nova para a
fauna.
Cypselidæ
246. Chaetura cinereicauda Cass.
Provavelmente o nome desta especie ha de ser
Ch. oxyura (Vieill), o que poderá ser decidido só de-
pois da redescoberta da ave descripta por Azara.
247.” Cypseloides senex Temm.
Aerornis niveifrons Bertoni p. 66.
L. Arribalzaga p. 349. Especie nova para a fauna
do Paraguay.
Caprimulgidie
248.* Caprimulgus parvulus Gould.
Salvadori 1895 1. c. p. 14.
249. Stenopsis candicans Pelz.
250. Nyetidromas albicollis derbyanus Gould.
201. Hydropsalis furcifer (Vieill,)
252. Chordeiles virginianus (Gm.)
293. Podager nacunda ( Vell.)
204. Nyctibius jamaicensis (Gm.)
209.7 Eleothreptus anomalus (Gould.)
Salvadori, L e. 1895 p. 14 é o primeiro a citar esta
especie como proveniente do Paraguay.
ER a Ares
HI. Ordem Pici
256. Colaptes campestris ( Vrezll.)
257. Chloronerpes chrysochlorus ( Vrezll.)
208. Chloronerpes aurulentus (Zemm.)
259. Chrysoptilus cristatus Veecll
260.* Chrysoptilus melanochlorus ( Gm.)
A descripçäo de Azara não se refere a Ch. cris-
tatus como julgou Berlepsch, mas a Ch. melanochlorus
como já E. Hargitt o menciona no Cat. Br. Brit. Mus.
Vol. XVIII, p. 110. Occorrem pois, no Paraguay, as
duas especies, a do Brazil meridional ea da Argentina
(cristatus que Berlepsch obteve por Rhode), como o
confirma Salvadori 1. c. 1895 p. 15.
261. Melanerps candidus (Otto)
262. Melanerps flavifrons ( Vreull.)
263. * Melanerps cactorum (Lafr. d’ Orb.)
Salvadori, L c. 1895 p. 15 sendo nova para a fauna.
264. Dendrocopus mixtus (Bodd.)
269. Veniliornis olivinus (Malh.)
266. Celeus lugubris (Malh.)
Salvadori |. c. 1895 p. 17 emprega para esta es- .
pecie o nome de C. kerri Hargitt, especie cuja relação
com lugubris e cuja distribuição geographica ainda
devem ser esclarecidas.
267.* Celeus flavescens (Gm.)
Concordo com Hargitt 1. c. p. 422 quando refere
a ave descripta por Azara (N. 251) a esta especie rio-
grandense. A outra, C. lugubris, Berlepsch obteve do
Paraguay por intermedio de Rhode.
268. Campephilus melanoleucus (Gm .)
269. Campephilus robustus (Licht.)
270. Ceophelus lineatus (L.)
271.º Ceophelus galeatus (Temm.)
Campephilus rufifrons Bertoni p. 4º
Lynch Arribalzaga 1. c. p. 343. Ja Dr. Borelli
colligiu esta ave no Paraguay, tendo sido primeiro
d'ahi mencionada por Salvadori 1. c. 1895 p. 15.
272.* Ceophleus erythrops (Valenc.)
— 834 —
Salvadori 1. c. 1895 p. 15 indica a especie como
eccorrente no Paraguay.
273. Picumnus cirrhatus Zemin.
IV. Ordem Coccyges
Alcedonidae
274. Ceryle torquata (L.)
275. Ceryle amazona Lath.
276. Ceryle americana (Gm.)
Momotidae
277. Baryphthengus ruficapillus ( Vreull.)
Frogomidsæ
278. Trogon surucura Vreull.
219% Trogon aurantius Spex
T. splendidus Bertoni p. 35.
L. Arribalzaga p. 340. E’ nova para a fauna do
Paraguay.
280.* Trogon variegatus Spx
Salvadori, 1. c. 1895 p. 16, menciona esta especie
como proveniente do Paraguay.
EiBucconidae
281. Bucco chacuru Vieill.
282.* Bucco swainsoni Gray
Megacephalus bitorquatus Bertoni p. 39.
L. Arribalzaga p. 341. Especie nova para a fauna.
283." Nonnula rubecula (Spzx)
Microtrogon fulvescens Bertoni p. Al.
L. Arribalzaga p. 341. Egualmente nova para o
Paraguay.
KRhamphastidse
284. Rhamphastos toco (Miill.)
285. Rhamphastos dicolorus L.
— 335 —
286.% Pteroglossus castanotis Gould.
Pt. attalorhynchus Bertoni p. 29.
L. Arribalzaga p. 339. E' especie nova para o
Paraguay.
Cuculidae
287. Coccyzus melanocoryphus Veezll.
288. Coccyzus cinereus Veeell.
289. Piaya cayana guarania JA.
H. von thering, Aves do rio Juruá 1904.
Piaya macrura Berlepsch 1. ce. p. i2l.
290. Diplopterus naevius (L.)
291.4 Dromococcyx phasianellus (Spa)
Geophilus jasyjatere Bertoni p. 43.
Lynch, 1. c. p. 342. Especie nova para a fauna
do Paraguay.
292. Crotophaga major Gm.
293. Crotophaga ani L.
294. Guira guira (Gm.)
V. Ordem Psittaci
295. Andorhynchus glaucus ( Veecll.)
296. Ara caninde ( Wagl.)
297. Ara chloroptera Gray.
298. Ara maracana ( Vrezll.)
39. Ara auricollis Cass.
Salvadori 1. c. 1895 p. 18, refere esta especie, pro-
veniente do Paraguay.
300. Conurus nanday ( Vieill.)
301. Conurus aureus (Gm.)
302. Conurus acuticaudatus ( Viezll.)
303. Conurus leucophthalmus (Mill.)
4304. Pyrrhura vittata chiripepe (Vrecll.)
300.* Pyrrhura borellii Salo.
Salvadori L c. 1895 p. 18, especie nova para a
fauna.
306. Myiopsittacus monachus (Bodd.)
307. Psittacula passerina (L.)
a ee
308. Brotogerys chiriri (Vrerll.)
319. Amazona vinacea (Kuhl)
310. Amazona æstiva (L.)
311. Pionus maximiliani (Avhl)
312. Pionopsitiacus pileatus (Scop.)
VI, Ordem Striges
313. Strix flammea perlata (Licht)
St. holmbergiana Bertoni p. 178.
Lynch Arribalzaga pg. : 81.
314. Asio clamator (Veesll.)
315. Ciccaba suinda (Veezll.)
Syrnium borellianum Bertoni p. 176.
Lynch Arribalzaga p. 381.
316.* Ciccaba hilophila (Temm.)
Nyctale fascrata Bertoni p. 174.
N. bergiana Bertoni p. 173.
Lynch Arribalzaga I. c. p. 379. Será necessario
examinar exemplares typicos para decidir si talvez uma
das duas especies de Bertoni representa uma variedade.
E” especie nova para o Paraguay
317. Pulsatrix pulsatrix (Weed)
Syrnium perspicillatum Berlepsch p. 122.
318." Pulsatrix sharpei Berlepsch.
Syrnium koenswaldianum Bertoni p. 179.
Puls. perspicillata (Lath.) Arribalzaga p. 380.
A indicação de Bertoni « dedos completamente des-
nudos » exclue a determinação de Lynch Arribalzaga e
faz reconhecer a especie como sendo a P. sharpei Berl.,
nome novo para Syrnium melanonota auct. A especie
é nova para a fauna do Paraguay.
319. Bubo magellanicus Gm.
320. Fisorhina choliba (Viesll.)
Scops brasilianus Berlepsch 1. c. p. 122.
321. Speotyto cunicularia (Mol.)
Será necessario examinar exemplares do Paraguay
-- 337 —
para decidir a qual das diversas subspecies pertence a
forma do Paraguay.
322. Glaucidium brasilianum (Gm.)
G. ferox rufus Bertoni p. 179.
VII. Ordem Accipitres
323. Gypagus papa (L.)
324. Catharista urubu ( Veell.)
320. Cathartes aura (L.)
Falconidæ
326. Poliborus tharus (Mol.
327. Milvago chimango ( Vrerll.\
328. Milvago chimachima ( Vreull.)
329. Cirucs cinereus Vreill.
330. Circus maculosus ( Vrezll.)
331. Micrastur melanoleucus (Vrerll.)
332.* Micrastur ruficollis (Vzecd/.)
Thrasyaccipiter seminocturnus Bertoni p. 164
Lynch Arribalzaga p. 377. E especie nova para
o Paraguay.
334. Geranospizias caerulescens gracilis (Zemm.)
334. Parabuteo unicinctus (Temm.)
335. Accipiter erythrocnemis Gray.
336. Accipiter pileatus (Temm.)
337. Accipiter guttatus (Vzerll.)
Ac. virgatus Bertoni p. 163.
338. Heterospizias meridionalis (Lath.)
339. Tachytriorchis albicaudatus (Vzee//.)
940. Geranoaetus melanoleucus (Veil!)
341.* Buteola brachyura (Veecll.’
Elanus amauroleucus Bertoni p. 166. Especie
nova para o Paraguay.
342.* Rupornis pucherani (Z et. E. Verr.)
Potamolegus superciliaris var. ruficollis Bertoni
paler.
— 338 —
Foi Salvadori |. c. 1895 p. 19 quem primeiro re-
feriu esta especie do Paraguay.
343." Rupornis nattereri (Scl. a Salt.)
Potamolegus superciliaris Bertoni p. 158 (juv.)
Potamolegus superciliaris magniplumis Bertoni p.
159 (adult.)
Recebi um exemplar de P. superciliaris do Sr.
Bertoni, que não differe de R. nattereri de S. Paulo,
sendo as faixas de cauda, à excepção das basaes, de côr
pardo-cinzenta, sem as orlas ferrugineas que caracteri-
zam a subspecie saturata, que provavelmemente predo-
mina no Oeste do Paraguay, ao passo que a ave de
Bertoni provem do limite oriental do Paraguay.
344. Rupornis nattereri saturata (Scl e Sav.)
349.º Rupornis leucorrhoa (Quoy et Gaim.)
R. nigra Berton: p. 162.
A especie é nova para a fauna do Paraguay. A
determinação foi confirmada por um exemplar que re-
cebi do Sr. Bertoni.
346. Busarellus nigricollis (Lath.)
347. Butteogallus aequinoctialis (Gm)
348. Urubitinga urubitinga (Gm.)
349. Harpyhaliaetus coronatus (Vedll.’
300. Thrasyaetus harpyia (L.)
301. Morphnus guianensis (Daud.)
302. Spizaetus ornatus (Daud.)
393." Spizastur melanoleucus (Veil!)
Spisaetus apirati Bertoni p. 194.
Spizaetus mauduytt Lynch Arribalzaga p. 373.
A ave descripta por Bertoni tem o lado ventral e
a cabeça brancos, não podendo ser, por esta razão, Sp.
mauduyti ou ornatus, especie que alias é conhecida
a Bertoni, que a menciona. A especie é nova para
a fauna.
304. Herpetotheres cachinnans (L)
399. EHlanoides forficatus (L.)
396. * Rosthramus sociabilis (Vzezll.)
Rostrihamus tenuirostris Bertoni p. 171. L. Arri-
balzaga p. 378.
— 339 —
Esta especie é primeiro mencionada para a fauna
do Paraguay por Salvadori 1. c. 1895, p. 20.
307. Leptodon cayennensis (Gmi.)
Micraetus holmbergianus Bertoni p. 196.
O exemplar descripto por Bertoni é uma ave nova,
com estrias escuras no lado ventral.
308. Elanus leucurus (Vreril.)
309". Harpagus diodon ( Zemi.)
Gampsonyx ranivorus Bertoni p. 165.
Lynch Arribalzaga p. 377. E' especie nova para a
fauna.
360. Ictinia plumbea ( Gin.)
361. Falco fuscocærulescens Vreull.
362º. Falco albigularis Daud.
Hypotriorchis melanogyne Bertoni p. 168.
L. Arribalzaga p. 378, Nova para a fauna para-
guaya.
363". Falco ophryophanes Salvad.
Salvadori 1. c. 1895, p. 20 descreve esta nova es-
pecie do Paraguay.
364.* Tinnunculus sparverius cinnamominus (Sw.)
869. Pandion haliaetus carolinensis Gi.
VIII. Ordem Steganopodes
366. Phalacrocorax vigua ( Vreull.)
367 Plotus anhinga (L.)
IX. Ordem Herodiones
368. Ardea socoi L.
Ardea paranensis Bertoni p. 15.
369. Herodias egretta ( Gin.)
370. Leocophoyx candidissima (Gin.)
371. Butorides striata (L.)
372. Ardetta erythromelas (Veezll.)
373. Ardetta involucris (Vell)
3174. Tigrisoma marmoratum (Vzrezll.)
319.
376.
Bil.
iis:
379.
380.
381.
382.
— 340 —
Nycticorax nycticorax naevius (Bodd)
Syrigma sibilatrix (Zemm.)
Mycteria americana L.
Euxenura maguari (Gm.)
Tantalus loculator L.
Theristicus caudatus (Bodd.)
Molybdophanes ccerulescens (Vrezll.)
Harpiprion cayennensis (Gm.)
Salvadori 1 c. p. 22 obteve pela primeira vez;
esta especie do Paraguay.
384.
309.
386.
387.
388.
389.
390.
391.
302.
393.
Phimosus nudifrons (Spo)
Plegadis guarauna (L.)
Ajaja ajaja (L)
X Ordem Palamedeæ
Chauna cristata (Swazns.)
XI. Ordem Anseres
Coscoroba coscoroba (Mol.)
Cairina moschata (L.)
Sarcidiornis carunculata (Lecht.)
Dendrocygna viduata (Z.)
Dendrocygna fulva (Gm)
Querquedula versicolor (Vzezil.)
Heteronetta atricapilla (Merr.)
Segundo Pelzeln 1. c. p. 320, nota, recebeu o Mu-
seu de Berlim um exemplar do Paraguay.
394.
39.
396.
397.
Nettion brasiliense (Gin.)
Nettion torquatum (Voesll.)
Spatula platalea (Vzecl/.)
Metopiana peposaca (Vrezll.)
398." Merganser octosetaceus (Veezll.)
Prionochilus brasiliensis, Bertoni p. 8; L. Arri-
balzaga p. 334. Nova para o Paraguay.
Obtive esta especie do Salto Grande do rio Para-
napanema, no Est. de S. Paulo.
O Sr. E. Garbe observou-a neste anno em Itararé,
sem comtudo poder obtel-a.
— 341 —
XII Ordem Columbæ
399. Columba picazuro Term.
400. Columba rufina Temm.
401. Zenaida auriculata Des Murs.
L. Arribalzaga p. 358 Zenaida virgata p. 24.
402. Columbula picui Zemm.
403. Columbigallina minuta (L.)
404. Columbigallina talpacoti (Zemm.)
405. Claravis pretiosa Ferr. Per.
Peristera cinerea Salvad, Cat. Brit. Mus. XXI,
p. 491.
Chamaepelia plumbea Bertoni p. 27 (nec. Gieb.)
Chamaepelia cruziana L. Arribalzaga, p. 359.
Obtive do Sr. Bertoni um exemplar, 4 juv, que
ainda tem quatro rectrizes medianas de cor pardo-ama-
rellenta e que não me deixa duvida sobre a exactidão
de minha classificação.
Acceito o nome adoptado por Berlepsch e Hartert,
Orinoco p. 119, que, porém, deve ser substituido por
outro, caso que os exemplares do Mexico diffiram es-
pecificamente dos do Paraguay.
406.* Claravis geoffroyi (Zemm. et Hnip.)
Chamaepelia miantoptera (Bertoni p. 26.
Esta especie é nova para a fauna do Paraguay.
407. Leptoptila reichenbachi Pelz.
Pelzeln |. c. p.'279 e 337.
Peristera frontalis Burm. HI p. 305.
L. ochroptera Salvad. 1. c. p. 23 (nec. Pelz.)
Segundo toda a probabilidade as duas especies
mencionadas por Salvadori do Paraguay são identicas
com as duas que Berlepsch e eu obtivemos do Rio
Grande do Sul e Natterer e eu de S. Paulo. Estas
duas dspecies são bem distinguidas pela côr do lado
dorsal; mas não por medidas como Salvadori o pen-
sou. Como L. ochroptera Pelz. é synonyma de chloro-
auchenia, não posso admittir a nomenclatura de Sal-
vadori; a especie foi primeiro indicada para o Para-
guay por Salvadori.
— 342 —
408. Leptoptila chloroauchenia Grgl. e Salo.
Esta especie que corresponde ao n. 320 de Aza-
ra, e que é caracterizada pela cor metallica de refle-
xos verdes e roxos na nuca e no pescoço posterior, foi
descripta no anno de 1870 tres vezes sobre os nomes
de L. chtoroauchenia Gigholi e Salvadori, chalcau-
chenia Sclater e Salvin e ainda L. ochroptera Pelz.
Como, porém, a publicação de nome chlorouuchema
data de 2 de Janeiro de 1870 devemos reconhecer-lhe
a prioridade.
409 Geotrygon montana (L.)
XIII Ordem Gallinæ
410. Odontophorus capueira (Spear)
4114. Crax fasciolata Spex
412. Penelope obscura U1.
413.* Penelope superciliaris 11.
P. purpurescens Bertoni p. 16.
P. purpurescens major Bertoni p. 19.
Lynch Arribalzaga p. 336. A especie é nova para
a fauna do Paraguay.
414,* Penelope sclateri Gray
P. oliwacea Bertoni p. 20.
L. Arribalzega p. 335. Egualmente nova para a
415. Ortalis canicollis (Wagl.)
416. Gumana jacutinga (Spex.)
XV. Ordem Ralli
AAT. Limnopardalus rytirhynchus (Ve2d/.)
418. Limnopardalus nigricans (Veee/l.)
419. Aramides cajanea chiricote (Vzell.)
420. Aramides ypacaha (Veedll.)
421. Aramides saracura (Spex)
422. Porzana albicollis ( Vrezll.)
423. Porzana flaviventer (Bo id.)
424. Creciscus melanophaeus (Vrell.)
425. Creciscus leucopyrrhus ( Veezll.)
426. Gallinula galéata (Licht.)
427, Porphyriops melanops ( Veeed/.)
428. Porphyriola martinica (L.)
429. Fulica armillata Vreull.
4). Fulica leucoptera Veedll.
431. Heliornis fulica (Bodd.)
XVI. Ordem Grues
432. Aramus scolopaceus (Gm.)
433. Cariama cristata (L.)
XVII. Crdem Limicolce
434. Par.a jacana L.
435. Heematopus palliatus Tem.
936. Hoploxypterus cayanus (Lath.)
437. Belonopterus cayennensis ((rin.)
438. Charadrius dominicus (Mi/l.)
449, Aegialitis collaris (Vieill.)
440.* Oxyechus vociferus (L.) |
RBS Sharpe; Cat.) Be Brit. Muss) Vol XXIV p.
742.
441. Himantopus melanurus (Vreull.)
Salvadori 1. c. 1895 p. 24 obteve exemplares do
Paraguay.
442. Numenius borealis (/orst.)
443, Limosa haemastica (L.)
444. Totanus melanoleucus (Gm.)
449. Totanus flavipes (Gm.)
446. Helodromas solitarius (Wils.)
447. Batramia longicauda (Bechst.)
448. Tringites subruficollis ( Vzee//.)
449. Heteropygia maculata (Viecll.)
450. Heteropygia fuscicollis (Vieill.)
491. Gallinago paraguaiæ (Veerll.)
452." Gallinago gigantea Tem.
B. Sharpe I. c. Vol. XXIV. p. 658
453,
494.
459.
456.
ADT.
458.
450.
460.
AGL.
462.
463.
AGA,
460.
466.
A467.
468.
AGO.
— 344 —
Rostratula semicollaris (Veecll.)
Steganopus tricolor (Veedll.’
XVIII. Ordem Gaviæ
Phaetusa magnirostris (Lzcht.)
Sterna superciliaris Veeill.
Rhynchops nigra intercedens Saund.
Larus cirrhocephalus (Veecll.)
XX. Ordem Pygopodes
Podiceps dominicus (L.)
Podilymbus podiceps (L.)
Aechmophorus major (Bodd.)
XXII. Ordem Crypturi
Tinamus solitarius (Vezll.)
Crypturus obsoletus (Temm.)
Crypturus tataupa (Temm.)
Crypturus undulatus (Temm.)
Rhynchotus rufescens (Zemim.)
Nothura maculosa (Zemm.)
Nothura boraquira (Spex)
Taoniscus nanus {Zemm.)
XXII. Ordem Struthiones
ATO.
Rhea americana (L,.)
A MES DESABA NULO
Por varias vezes já temos tratado nesta Revista
das aves do Estado de São. Paulo e, si bem que muito
ainda esperamos de futuras explorações, já nos é dado
considerar os nossos actuaes conhecimentos como base
bastante solida para a discussão zoogeographica.
E” preciso, entretanto, recordar que os materiaes,
em que se baseia este nosso conhecimento, são de valor
bastante differente. Os elementos principaes são as
collecçües feitas no seculo passado por Natterer e des-
criptas por Pelzeln e as do Museu Paulista. Estas
collecções combinam entre si e, no modo por que esta
progredindo a exploração ornithologica do Estado, accen-
tuam-se cada vez mais as duvidas que temos a respeito
de certas especies, indicadas por outros auctores como
provenientes do Estado de São Paulo, e que, nem por
nós, nem por Natterer, têm sido caçadas neste Estado.
E” certo que resultados negativos devem ser acolhidos
sempre com certa desconfiança. Quando, por exemplo,
se trata de uma especie occorrente desde Santa Catha-
rina até a Bahia, não seriam procedentes taes duvidas,
visto que a respectiva especie ha de ser encontrada no
territorio do Estado; quando, porém, se trata de uma
especie existente particularmente no norte do paiz, taes
duvidas devem provocar um exame consciencioso. Nestas
condições continuarei nos proximos annos na explora-
ção das regiões do Estado, cuja natureza tem sido
estudada só de um modo insufficiente, a fim de chegar
ao ponto de conhecer exactamente a avifauna das di-
versas zonas do Estado e assim poder excluir, da lista
das aves do Estado, todas as especies indicadas como
provenientes de S. Paulo, cuja verdadeira occorrencia
ahi não fôr comprovada por exemplares authenticos,
guardados em nosso Museu ou em outras collecções
scientificas.
Já hoje me vejo na necessidade de eliminar da lista
das aves de S. Paulo varias especies, cuja occorrencia
neste Estado ainda não está definitivamente provada, ou
que foram erradamente acceitas na lista das aves do
Estado, publicada nesta Revista, (vol. V.,p 307 e ss);
são ellas as seguintes :
G*. Mimus lividus (Licht.)
Acceitei a especie baseando-me na affirmaçäo do
Sr. R. Krone em Iguape; como, porém, este Sr. não
conseguiu obter exemplares desta especie, julgo neces-
sario excluil-a da respectiva Synopse, até que a sua
existencia no territorio do Estado for comprovada.
£83. Tyranniscus bolivianus paulistus lh.
Segundo communicação do Sr. H. von Berlepsch, ao
qual eu mandära um exemplar cotypico, esta especie é
identica com Phyllomyas virescens (Temm.) Pelz., do
qual N. 178, Ph. burmeisteri Cab. e Hein. é synonymo.
Deve, por conseguinte, ser posto na synonymia o nome
de Tyranniscus bolivianus paulistus, bem como Ph.
burmeisteri, cujo nome sera pois substituido por PA.
virescens (Temm.)
A1. Anodorhynchus hyacinthinus (Lath.)
Sendo incerta a proveniencia do nosso exemplar,
não posso admittir esta especie entre as aves de S.
Paulo, emquanto não existirem exemplares authenticos
A379. Amazona ochrocephaia (Gw.)
Nao tendo podido, até agora, obter exemplares au-
thenticos, vejo-me obrigado a eliminar esta especie da
mencionada lista
— 347 —
438. Amazona schmidti (lh.)
Esta especie, descripta no vol. III desta Revista, à
pag. 321, acceitei, como proveniente do Estado de São
Paulo, segundo informações do Sr. Coronel 6. Schmidt,
bem como a especie precedente. Um exame do exem-
plar typico pelos Srs. Th. Salvadori e H. von Berlepsch,
mostrou, entretanto, que houve, neste caso, um engano,
tratando-se de uma especie da America Central, cujo
nome é Am. auripalliata (Less.)
+59. Crax sulcirostris (/h.)
Não podendo obter outros exemplares desta espe-
cie, aliás identica à C. fasciolata, salvo a existencia do
profundo sulco que da venta decorre à ponta do bico,
não duvido que o exemplar typico represente apenas
uma abnormidade individual, devendo pois C. sulciros-
tris entrar na synonymia de Cras fascrolata (Spix.)
_ Tendo eliminado nas linhas precedentes 6 especies
da lista da avifauna paulista, passo, em seguida, a enu-
merar e descrever aquellas especies, ao todo 25, que,
no correr dos meus ultimos estudos ornithologicos con-
statei pertencerem à fauna do nosso estado e que até
agora dahi não tinham sido obtidas.
Como se o verá, é este resultado devido, em grande
parte, aos esforços do zeloso e habil naturalista - via-
jante do Museu Paulista, o sr. Ernesto Garbe, o qual,
restabelecido da febre que o impossibilitou de continuar
a exploração do baixo Tietê, agora novamente volta
äquella região, de onde, tenho certeza, trará muita
novidade nas suas fartas colleccdes.
São novas para o Estado de S. Paulo as seguin-
tes especies.
85 a Stelgidostomus maxillosus ((ab.)
Saltator mazxillosus, Cabanis Mus. Hein. Ip. 142;
Cat Brit. Mus. XI ip. 287.
A especie assemelha-se ao Saltator stinilis, do
qual se distingue pelo lado dorsal menos verde e pela
— 348 —
garganta amarello=ferruginea. A differença principal,
que motivou a creação de um novo genero especial
para esta especie, por Ridgway, consiste em o bico
ser curto e muito grosso e largo. Os lados do bico
na base são alaranjados.
A especie occorre desde Montevideo até ao sul do
Est. de S. Paulo onde o Sr. E. Garbe a obteve, em
dous exemplares.
Mus. Paul.: Itararé.
DL a Cyanoloxias glaucocærulea (D'oOrb.)
Pyrrhula glauco-cerulea, D'Orb. Voy. Am. Mé-
rid, Oie ple oo, aie.
Guiraca glauco-cerulea, Pelz. Orn. Bras. p. 222 ;
Berlepsch u. Jhering |. c. 122. Bowdler Sharpe,
Oey aware Minis NC
Especie parecida à Cyanocompsa cyanea, porém
menor e de côr mais clara azul, misturada de cinzento.
Os lóros são pretos, as remiges e rectrizes bruno-escu-
ras, orladas de azul cinzento. O comprimento do macho
é de 140-147 mm., o da aza de 74-75 mm.
A femea é desconhecida.
A especie occorre desde a Argentina, Uruguay e
Rio Grande do Sul até Paraguay, S. Paulo, Matto
Grosso e Guayana.
Mus: Paul. : Botucatu, SP: Las Talas CARS
gentina.
157 a Euscarthmus margaritacei-
venter (D'Orb. et Lafr.)
Todirostrum margaritaceiventer, D’ Orb. et Lar.
[pr 46d. p. 316, PINS fes
Euscarthmus margaritacewenter, Scl. et Huds.
Lip: 1965 Boge. Sclater, Gat. Br. Mus. Viole Say <p. 780:
Especie de 112 mm. de comprimento total e de
93 mm. de compr. da aza. A cabeça é cinzento-escura,
o dorso verde-azeitonado.
— 349 —
As remiges e rectrizes são bruno-escuras com or-
las esverdeadas. Os encontros são amarello-claros, as
tectrizes exteriores da aza têm as pontas verde-bran-
cacentas. Os lóros são brancacentos, a garganta é
brancacenta. O peito pardo-cinzento, a barriga branco-
amarellada. Bico bruno, os tarsos e pés são pardo-
avermelhados.
A especie occorre desde a Argentina até a Bahia,
Bolivia e Matto Grosso.
Mus. Paul.: Avanhandava, S. P.
157 D Eusearthmus latirostris Pelz.
Euscarthmus latirostris, Pelz. p. 101, 173; P.
L. Sclater, Cat. Br. Mus. Vol. XIV p. 81.
Especie parecida à precedente, da qual differe pelo
bico mais largo e preto, pelos tarsos e pes um tanto
mais delgados, de côr pardo-cinzenta e pela cor ferru-
gineo-avermelhada dos lóros e da face. As rectrizes
exteriores da aza são, na margem exterior, orladas de
amarello-escuro. À especie é um pouco menor que a
precedente, sendo o comprimento da aza de 46-47 mm.
E. latirostris occorre por toda a Amazonia, desde
o Perú até Santarem e deve occorrer tambem no Bra-
zil central, visto que a obtivemos tambem de Avanhan
dava Hst.s. Paulo.
Mus. Paul.: Avanhandava, S. P.; Santarem, Est.
do Para.
172 a Leptopogon oustaleti Sci.
Leptopogon oustalets, Scl., Proc. Z. S. 1887, p.
wT est IXO fig. NP Selater; Cato B.. Mus. Vol.
RWS: pi ELS.
O lado dorsal é verde-azeitonado e, do mesmo
modo, a cabeça, excepto a frente, e a região ao redor
e atraz do olho, que são de côr amarello-clara ; na re-
gião do ouvido nota-se uma grande mancha preta. O
lado inferior é amarello, mais escuro e misturado de
verde no peito. As pontas das remiges posteriores do
— 350 —
braço são brancacentas. O bico é preto, à excepção da
base da mandibula inferior, que é esbranquiçada.
O comprimento total é de 120 a 126 mm., o da
aza de 63 mm.
A especie foi encontrada até agora só em S. Pau-
lo e na Colombia; mas segundo communicação do Sr.
von Berlepsch é pouco certa a proveniencia do exem-
plar typico da Colombia, sendo elle, talvez, de Santa
Catharina.
Mus. Paul.: Iguape, S. P. (N. 8755, exemplar
examinado por H. von Berlepsch).
e»
35 Pihylilomyias griseocapilia Sl.
Phyllomyias griseocapilla, Sclater Proc. Z. S.
(Sil plese Esta SO ig Pr AL Scluter (amon:
Mus Vol aly pontos:
Passaro pequeno de 110 mim. de comprimento,
cuja aza mede 54 mm. A côr é verde-azeitonada no
dorso, cinzento-escura na cabeça. As remiges e rectri-
zes são bruno-escuras, com orlas verdes. As cohertei-
ras exteriores da aza são tambem orladas de verde
amarellento-claro. A garganta e o peito são de cor
cinzenta, a barriga é branca e os flancos amarcllentos.
O bico é preto, excepto a base da mandibula inferior,
que é cinzenta.
A especie occorre no «Brazil oriental meridional».
Mus. Paul. Iguape, S. P. (N. 1957, examinado
por H. von Berlepsch).
204 a Attila phoenicurus Pelz.
Attila phoencurus, Pelzeln Orn. p. 97 e 171;
Helimayr Verh. zool. bot. Ges. Wien, Lil, 1902,
HO
i Attila cinereus p. p., v. Ihering Rev. Mus. Paul.
IT S99 piel
Segundo as informações do Sr. H. von Berlepsch,
confirmadas por uma publicação de Sr. von Hellmayr,
A. phoenicurus não pertence à-synonymia de A. c-
— 301 —
nereus, como suppuz, mas representa uma especie bem
distincta. Os caracteres distinctivos são dados pelo bi-
co, que é curto, semelhante ao de Caszorms e pela côr
da garganta, que é ferruginea-avermelhada, ao passo
que ella é cinzenta em A. cinereus.
A presente especie occorre nos Estados do Para-
na, S. Paulo (Matto Dentro), Goyaz e Matto Grosso.
Mus. Paul.
24% a Cliibanornis dendrocolaptoides
(Pelz.)
Anabates dendrocolaptoides Pelz. Sitz. Ac. Wien 34º
p. 105 (1859); zd. Orn. Bras. p. 37.
Clibanornis dendrocolaptodes, P. L. Sclater, Cat. Br. |
Mus. Vol. XV p. 27 com fig. da caheça.
Passaro grande, de 200 a 215 mm. de compr. e de
86 mm. de compr. da aza. O bico ê, neste genero,
mais forte do que no genero alliado, Furnarius, e tam-
bem a cauda é mais comprida e rija. A côr é pardo-
azeitonada no dorso e nas azas, avermelhado-parda na
cabeça, no uropygeo e na cauda.
O peito e a barriga são de côr cinzenta, à exce-
pção dos flancos e do crisso, que são pardo-azeitonados.
A garganta e os lados do pescoço são brancos, com
orlas denegridas ; uma estria brancacente corre sobre o
olho, para traz.
A especie parece ser de distribuição limitada, occor-
rendo no Est. do Paraná e na região limitrophe des.
Paulo, onde o Sr. Garbe a cacou em Itararé.
Mus. Paul. : Itararé S. P. (n. 4088, ©)
2350 a Synallaxis azarse D'Or.
Synallaxis azaræ, D'Ord. Voy. Ois. 246 (1835-14)
S. frontalis Pelz Sitz. Ac. Wien, 34.º p. 117 1859),
O en ao 5) A Berlepsoa O. 1887, parle
PIS (Paraguay) Sc het ibluds. Are. Oro. ip:
Meir Sclater Cate ie, Mus.” Vol “XV po 139.
O passaro tem um comprimento de 150-160 mm.,
a aza mede 56 mm. A côr é no dorso e na frente,
bruno-cinzenta, no vertice, nas azas e na cauda verme-
lha, cor de canella.
O lado inferior é cinzenio, á excepção da garganta,
que é branca e atraz da qual segue uma mancha preta.
A especie é de vasta distribuição, desde a Colom-
bia, pelo Matto Grosso, Goyaz, até o oeste de S. Paulo
e até o Paraguay e Salta na rep. Argentina.
Mus. Paul.: Avanhandava, S. P. (N. 4412 5");
Bahia.
255 a Siptornis ruticilla (Cab. et Hein.)
Synallaxis ruticilla, Cab. et Hein, Mus. Hein. IT p.
27 (1859)
Synallaxis fitis, Pelz. Ac. Wien, 34° Sitz. p. 123
(1899) s+ 2d; On Bras: ps 38:
Siptornis ruticilla, P. L. Sclater, Cat. Br. Mus. Vol.
DOVE p. noe:
Passaro de 120-130 mm. de comprimento, cuja
aza mede 52-54 mm. de compr. A cor é bruno-azeito-
nada em cima, ferrugineo-amarellenta em baixo. A
cauda e a maior parte das coberteiras exteriores da aza
são castanho-avermelhadas. Sobre o olho corre uma
estria branca ; a face e o mento são brancos.
A especie occorre desde a Argentina e o Rio Gran-
de do Sul atê o Est. do Paraná e na região limitrophe
de S. Paulo, onde o Sr. Garbe a colligiu.
Mus Paul: Tararé (SAN A105):
em a Thamnophilus major Vicill.
Thamnophilus major, Viel. Nouv. Dic. II p. 313;
Pele Orn ps 15; Berl JE Or MES Tip TOS
(Paraguay); Scl. et Huds. Arg. Orn. I p. 308.
— 353 —
Th. stagurus, Pr. Wied Beitr. II p. 990; Burm. Syst.
Uebs TL pe g2.
Th. albiventer, Spix Av. Bras. II p. 23, pl. 32.
Especie grande, de 220 mm. de compr., cuja aza
mede 20 mm. O macho é preto em cime, branco em
baixo; no interscapulio nota-se uma grande mancha bran-
ca, escondida. As pontas das coberteiras exteriores da
aza são brancas; as rectrizes lateraes são pretas com
largas faixas brancas transversaes.
A femea é pardo-avermelhada em cima, branco em
baixo, tendo os flancos e o uropygio pardo-amarellos.
A especie occorre desde Tucuman e Salta na Argen-
tina e desde a zona occidental do Est. de S. Paulo, pelo
Maito Grosso e a Amazonia até Venezuela.
Mu . Paul.: Avanhandava S. P. (2 4,29, Garbe
leg.) ; Bahia.
2335 a Thamnophilus doliatus (L.)
Lanius dolhatus, Linn. S. N. I p. 136.
Thamnophilus doliatus, Pr. Wied, Beitr. TI p. 995;
Burm. Syst. Ueb. Ill, p. 98; P.L. Sclater. Cat.
Br. Mus. Vol. XV p. 207.
Th. capistratus Pelz. (nec Lafr.) Orn. p. 78.
O macho é preto, com faixas brancas transversaes,
que são mais largas no lado ventral. O vertice é preto,
com uma grande mancha branca no meio, mais ou me-
nos escondida. As rectrizes são todas munidas de man-
chas brancas.
A femea é pardo-castanha em cima, com excepção
da nuca que, do mesmo modo como a face, é branca-
centa, com estrias pretas. As rectrizes são uniformes,
castanhas ; o lado inferior é amarello-ferrugineo, mais
escuro no peito; a garganta é mais clara, quasi branca.
O comprimento total é de 150 mm., o da aza de
Tl a 74mm.
— 904 —
A especie distribuida desde a zona occidental de
S. Paulo até a America Central.
De Avanhandava, Est. de S. Paulo, recebeu o Mu-
seu um macho e duas femeas desta especie (N. 4427,
4428), que combinam com as descripções, à excepção
das faixas escuras transversaes, mais indistinctas, do pei-
to e que, em nossos exemplares, quasi que são invisi-
veis, especialmente no meio do peito.
Mus. Paul,: 9 Avanhandava, S. P. (E. Garbe leg.) ;
S Merida, Venezuela.
2D4 a Myrmotherula brevicauda (Sw.)
Formicivora brericauda Swaison Zool. Journ. Il p. 148
Myrmotherula brevicauda Sclater Cat. Br. Mus. Vol.
MV potes
Especie pequena de 85 mm. de comprimento, cuja
aza mede 43 mm. e cuja cauda é muito curta. Temos
um casal (N. 2188 S e ¢) de S. Sebastião, que parece
corresponder à forma typica. O macho é cinzento-es-
curo, tendo, na garganta, uma grande mancha preta,
que se extende até ao peito. As coberteiras exteriores
da aza são pretas com pontas brancas e as remiges do
braço têm as pontas brancas e uma faixa transversal pre-
ta, subterminal. Tambem as rectrizes têm uma faixa
preta subterminal, que na ponta é orlada de branco.
© À femea é pardo-ferruginea, excepto na cabeça que
é cinzenta; a garganta é branca, o resto do lado infe-
rior amarellento. As azas são da côr do dorso, as co-
berteiras exteriores são uniformes, sem as manchas ama-
rellentas attribuidas a esta especie.
A M. brevicauda occorre desde S. Paulo até a Ba-
hia e provavelmente até o Pará. A subspecie juruana
é do rio Juruá e talvez à mesma pertençam os exem-
plares do Pará. Não incluo na synonymia desta espe-
cie M. luctuosa Pelz., por ser a mancha da garganta
maior, extendendo-se até a barriga.
Mus. Paul. 3S. Sebastião, S: P. (o eo):
— 355 —
360 a Formicivora melanogaster (Pelz.)
Formicivora melansgaster Pelzeln Orn. p. 83 e 154;
Reinhard, 1. c. p. #64; Sclater Cat. Br. Mus. Vol.
XV p, 248 nota.
Especie de 130 mm. de comprimento, cuja aza,
em nosso exemplar (4 N. 4446) é de 51 mm. A côr
é pardo-cinzenta em cima, preta em baixo ; as pennas
compridas dos flancos são cinzentas. Sobre o olho corre,
até a nuca, uma estria branca; As coberteiras exte-
riores da aza têm as pontas brancas e as pennas sca-
pulares a margem exterior egualmente branca. Das
rectrizes as quatro exteriores de cada lado têm a ponta
branca.
A especie tem sido encontrada desde as regiões
occidentaes dos Estados de S. Paulo e Rio de Janeiro
atê Minas e Goyaz.
Mus. Paul.: Avanhandava, S. P. (Garbe leg.)
303 a Ferenura maculata (id)
Myothera maculata, Pr. Wied Beitr. II p. 1088
(1831)
Ramphocenus maculatus, Burin. Syst. Ueb. HI p. 73.
Terenura maculata, Pelz. Orn. Bras. p. 84; Sclater
Cat. Br. Mus. “Wola XV p. 29%,
Especie pequena, de bico fino e comprido, de 95
a 105 mm. de comprimento total, cuja aza mede 43
mm. A cor do macho é castanho-clara, um tanto
amarellenta em cima, à excepção da cabeça, que é preta
com estrias brancas. As remiges e rectrizes são bruno-
escuras, com orlas pardo-cinzentas; as coberteiras ex-
teriores da aza tem pontas brancas. A garganta é branca,
o resto do lado inferior é amarello-claro ; no peito no-
tam-se estrias pretas.
A femea distingue-se pela côr amarellada das estrias
da cabeça e das pontas das coberteiras exteriores da
aza.
— 356 —
A especie occorre de S. Catharina até a Bahia.
Mus. Paul.: S. Sebastião (J e 9); Avanhan-
dava (4)—S. P.
325 a Polytmus thaumantias (L.)
Trochilus thaumantas, Linn. Syst. Nat. I p. 190.
Pr ourescens, Pri Wied, Beitr VV: p TOT
Polytmus thaumantias, Pelz. Orn. p. 28; Reinhard
lex Ips 2065; Allen; Chapada, Typ. o 00e
Salven Cat. Br. Mus. Vol. XVI p. 175; Hartert,
Tierreich 9. Trochil. 1900 p. 105.
Especie de cerca de 100 mm. de comprimento,
cuja aza mede 57—62 mm. e cujo bico tem 23 mm.
A côr é verde-dourada no dorso, verde-escura na ca-
beça. O lado inferior é verde-claro brilhante. As re-
ctrizes são verde-escuras, com larga orla branco-cinzenta
na barba exterior e às vezes com largas pontas brancas.
O bico têm côr de carne na base, sendo o resto preto.
A especie é distribuida desde Minas e a zona oc-
cidental de S. Paulo até a Colombia e Venezuela.
Mus. Paul. : Avanhandava, S. P.; Venezuela.
#32 a Hylocharis ruficollis maxwelli
(Hart.)
Trochilus ruficollis, Vieill. Nouv. Dic. d'Hist. Nat. VII
p. 562.
Chrysuronia chrysura, Pelz. Orn. I p. 33;
Chr: ruficolhs, Sci. et Huds. Arg. Orn. Ip. 8500
Salvin Cat. Br. Mus. Vol. XVI p. 251.
Hylocharis ruficolls maanvelli, Hartert Novit. zool.
Vol. V. p. 519; 2d. Tierreich 9. Trochilidæ 1900
p= One
Ave de 85 a 95 mm. de comprimento, cuja aza
mede 52 mm., o bicco 19 mm. A côr é verde-relu-
— 307 —
zente em cima, verde no peito, amarellenta na barriga
e castanho-avermelhada na garganta. As rectrizes têm
um bonito lustro de ouro ou cobre, que ds vezes tam-
bem se nôta no dorso, principalmente em individuos
adultos. O bico é preto, excepto na base, que é aver-
melhada.
: Possuimos tres exemplares dos dous sexos, de Ava-
nhandava, que são differentes da forma typica que temos
de Buenos-Aires e La Plata e cuja aza mede no sexo
masculino de 57 a 59 mm., tendo o bico o compri-
mento de 22 mm. Alem disto é o bico, na forma
typica, vermelho até a ponta preta, isto é em maior
extensão do que na variedade de Avanhandava e ainda
os exemplares adultos têm a côr verde do dorso muito
mais dourada do que os da variedade de Avanhandava.
Esta combina nestas differenças com a subspecie des-
cripta por Hartert sob o nome de H. ruficollis maa-
well. A fôrma typica occorre desde a Argentina até
o Paraguay, Rio Grande do Sul e S. Catharina; a sub-
specie maxwell: ë encontrada na Bolivia, no oeste de
S. Paulo, em Avanhandava e no Matto Grosso e Minas.
Mus. Paul. : Rincão (9); Avanhandava (29, | 9).
334 a Glaucis hirsuta (Gm.)
Trochilus hirsutus, Gm. Syst. Nat. I p. 490.
Tr. brasiliensis, Pr: Wied Beitr. IV p. 111.
Tr. ferrugineus, Pr. Wied Beitr. IV p. 120.
Glaucis hirsuta, Pelz. Orn. p. 27; Burmerster,
Syst. Uebers. Il p. 321; Allen Chapada III p. 122;
Salvin Cat. Br. Mus. Vol. XVI p. 41; Hartert
Tierreich 9.Trochilidæ 1900 p. 15.
Especie grande de 115a 125 mm. de comprimento
de 65 mm. de compr. alar e o bico, que é curvado,
mede 33-36 mm. no d e 28 a 32 mm. na 9. À cor
é verde reluzente em cima, mais escura na cabeça,
pardo-cinzenta em baixo, mais escura e avermelhada na
garganta. As coberteiras superiores da cauda têm orlas
brancacentas ; as rectrizes lateraes são castanhas com
pontas brancas e com uma larga faixa preta transversa,
subterminal. O bico é preto, a mandibula inferior é
avermelhada, côr de carne, à excepção da ponta.
A especie occorre desde S. Sebastião no Estado de
S. Paulo até Panamá.
Mus. Paul. : 3. Sebastião & ; Bogotá, Colombia,
250 a. Chsetura biseutata Sl.
Chetura biscutata, Sclater P. Z.S 1865 p. 609,
Est. 34; Pelz. Orn. p: 10; Berl. u. Thering, Zeitseh-
ges. Orn. 1885 p. 155; Hartert, Cat. Br. Mus. Vol.
DOVE RATE)»
Chetura zonaris Ihering (part.) Rev. Mus. Paul.
Vol 200:
Os exemplares desta especie, que recebi de Itararé,
pelo Sr. Garbe, convenceram-me de que esta especie
effectivamente é differente de Ch. zonaris, da qual a
considerei antigamente como variedade. C. biscutata
tem as manchas brancas, dorsal e ventral, largainente
separadas, ao passo que na outra especie são confluen-
tes ou separadas só em pequena extensão. Além disto
tem C. biscutata a frente e o mento mais claros, pardo-
cinzentos, do que o resto da cabeça
m Itararé coexistem pois as duas especies que ali
nidificam nos profundos valle e gargantas do rio Itararé.
Mus. Paul.: Itararê, S. P. (4 e 9, Garbe leg.)
394 a Ceryle superciliosa (L.)
Alcedo superciliosa, Linn. Syst. Nat. I p. 179 (1766):
Cerijle superciliosa, Pelz. Or. p. 24; B. Sharpe Cat.
Br. Mus. Vol. XVII p. 139; Allen. Chapada III
poe:
Chloroceryle superciliosa, Burm, Syst. Ueber. I p.
408 nota.
E' esta a menor especie do genero, e cujo com-
primento total é apenas de 130 mm., sendo o compr.
De
da aza de 54 mm. e o do culmen do bico de 25 a 28
mm. A côr é verde escuro, metallico em cima, casta-
nho-avermelhada em baixo, com excepção da garganta,
da barriga e das coberteiras inferiores da cauda, que
são brancas. Na região loral nota-se uma mancha ama-
rellenta; no pescoço posterior existe uma faixa transversa
branco-amarellenta.
Nas azas notam-se manchinhas amarellentas, as re-
ctrizes têm manchas brancas na barba interna.
A especie occorre desde S. Paulo até Matto Grosso
e Venezuela.
Mus. Paul.: Iguape S. P. (0%, R. Krone leg.).
455 a Pulsatrix perspicillata (Lath.)
Strix perspicillata Lath. Ind. Orn. I p. 58.
Ulula torquata, Schlegel Mus. P. B. Striges p. J, 17.
e nota.
Pulsatrix perspicillata, H. v. Berlepsch Bull. Brit.
Orn Club, Nº 82) Vola IP FOOL Tp: o:
Syrnium perspicillatuin v. Ihering Rev. Mus. Paul.
Vol. I (1809) ps 332:
Esta grande coruja tem sido geralmente confundida
com Pulsatrix pulsatrix (Wied), cabendo a Schlegel e
H. von Berlepsch o merito de terem bem definido os
caracteres distinctivos das duas especies alliadas. Posso
confirmar a exposição dada pelos dous auctorer mencio-
nados, com excepção do que se refere às dimensões que
são as mesmas em ambas as especies.
O nosso exemplar N. 4294, ©, do Salto Grande do
rio Paranapanema tem o comprimento da aza de 360
mm. e assim tambem um outro de Catalão em Goyaz.
P. perspicillata tem a garganta branca, incluindo uma
mancha bruno-escura em baixo do mento e uma faixa
estreita, bruna, no peito. O resto do peitoe a barriga
são de côr ferrugineo-amarella, clara. O lado dorsal é
bruno-pardo uniforme, mais escuro ainda na cabeça,
— 360 —
onde, desde os lóros até o occiput, corre, sobre os olhos,
uma estria branca.
P. pulsatrix, ao contrario, descripta por Wied
(Beitr. HI p. 268) sob o nome de Strix pulsatrix, é,
no lado dorsal, de côr pardo-bruna clara e egual côr têm
o peito no lado e a garganta, com excepção de uma
pequena mancha branca no meio da garganta. À bar-
riga é ferrugineo-avermelhada. A estria, que corre sobre
os hee é menor e de cor lbs.
P. pulsatrix occorre desde o Rio Grande do Sul
até a Bahia. A’ sua synonymia pertencem :
Syrnium pulsatrix Berl. uw. Ihering L c p. 165.
Ulula torquata part. Burm. Syst. Ueb. II. p. 130.
De P. perspicillata o nosso Museu obteve exem-
plares do Equador; do rio Juruá, Est. Amazonas; de
Catalão, Est. Goyaz e Salto Grande do rio Paranapa-
nema, Est. S. Paulo. A especie pertence pois antes ás
regiões do Brazil central, ao passo que a outra provem
da região littoral do Brazilmeridional e médio.
Mus. Paul. : Localidades acima indicadas.
396 a Tigrisoma fasciatum Such
T. rasciatum,. Such «Loo Jour Ni (1825) po tis
Bert. w. Ihering | e 174; B.Sharpe “Catal:
Br. Mus. Vol. XXVI p. 196; Allen, Chapada IH
p:. fol.
Ardea brasiliensis Burm. Syst. Ueb. IT p. 410.
A. lineata Pr. Wiéd (nec Lin.) Breitr. IV p. 634.
Esta especie distingue-se de 7. brasiliense (L.) an-
tes de tudo pela cor cinzento-avermelhada da barriga.
O lado dorsal é bruno-cinzento escuro, com numerosas
faixas transversaes amarellas.
A côr predominante no vertice é a preta, com lus-
tre verde. As pennas do meio do pescoço anterior são
pretas, com a barba exterior branca. Os encontros são
brancos, as remiges são cinzento-escuras, com as pon-
tas brancas.
— 361 —
A especie occorre no Brazil oriental desde o Rio
Grande do Sul até a Bahia.
Mis Paul: S. Paulo (uv. Hv. Barlepsch det.) ;
Blumenau, S. Catharina.
576 b Heliornis fulica (odd).
Colymbus fulica Bodd. Tabl. PL Enl. p. 54 (1783).
Podoa surinamensis Pr. Wied Beitr. IV. p. 823
(1832); Burm. Syst. Ueb. II p. 391.
Hehornis fulca, -Pelz. Orn. Bras. p. 318; B
Sharpe Cat. Br. Mus. Vol. XXIII p. 233; Goeldr, Album
Av. Amaz. (1900, R. de Jan.) I? fasc. Est. VII fig. 4;
14. Aves do Brazil II, R. de Jan. 1900, p. 458 ss.
Esta ave tem os dedos unidos na maior parte de
sua extensão por membranas natatorias. O bico é re-
cto, de 28 a 30 mm. de compr., vermelho na mandi-
bula superior, amarello na inferior. A côr geral é par-
do-azeitonada no dorso, branca no peito e na barriga.
A cabeça em cima e o pescoço posterior na sua maior
parte são pretos com lustre azul. Por detraz do olho
corre uma larga estria supraocular branca; a face e a
região do ouvido são de côr ferruginec-avermelhada.
Pelo pescoço lateral corre uma larga estria preta, se-
parada por outra estria branca da faixa preta central;
a garganta é branca. A cauda é forte, arredondada,
com as rectrizes pretas, cujas pontas são brancas. Os
pês são amarellos com faixas transversas pretas.
H. fulica é encontrado no meio das plantas aqua-
ticas nos rios e lagôas, desde a America Central até
S. Paulo e Paraguay. E” conhecida sob o nome trivial
de «Picapara» e na região amazonica sob a de «Ipequi».
Mus. Paul.: Iguape (N: 3840 juv. R. Krone leg.)
rio Juruá, Amazonas 9Q Garbe leg.
585 a Squatarola helvetica (L.)
Tranga helvetica Linn. Syst. Nat. I p. 250 (1706
45
)
Squatarola helvetica, Pelz. Orn. Bras. p. 296, 454
— 362 —
(Cajutuba, rio Negro); Berlepsch J. f. O. 1887 p. 133
(Paraguay); B. Sharpe Cat. Br. Mus. Vol. XXIV
pase.
Esta ave é parecida com o Charadrius domina-
cus, do qual differe pela presença do dedo posterior,
que, porém, é bastante pequeno. A ave é um pouco
maior do que o Charadrius, importando seu compr.
tot. em 280 a 300 mm., o da aza em 180 e o do bico
em 30 mm. A cor é pardo-cinzenta no lado dorsal, com
numerosas pequenas manchas brancas. A frente é branca
bem como a base da cauda ; as rectrizes são brancas com
manchas escuras; as remiges são pretas com hastes
brancas, notando-se tambem uma grande mancha bran-
ca nas remiges da mão. O lado inferior é branco com
manchas e estrias pardo-cinzentas no peito. O bico e
as pernas são pretos.
E' esta a plumagem da ave como aqui se nos
apresenta nos mezes de verão, que correspondem ao in-
verno da America do Norte, onde a ave nidifica nos
mezes de verão, na região arctica.
Nesta época o colorido é bastante differente, sen-
do a côr predominante a preta.
A especie é de distribuição quasi cosmopolita.
Mus Pauls S; Sebastião, Sa EFaulo (QNT
de 9 de Janeiro de 1901); Alasca (perm. U. S. Nat.
Mus).
Prion ariel Gould
Gould Proc. Zool. Soc. (antes de 1844) teste: Prion
ariel ed. Ann. Mag. N. Ho XIll (1844) p: 366502
Proc. Zool. Soc. 1855 p. 88. Est. 93; Salvin, Cat.
Br Mus. Vol. XXV p. 4303 «7 Green, (Oceans daimds
(1887 London) p. 33.
Recebemos do Sr. R. Krone em Iguape um exem-
plar desta especie N. 4271 9 de 30 de Junho de
1903). A côr é cinzenta no lado dorsal, branca no
,
ventral. A cabeça é um pouco mais escura do que o
dorso. Os lóros e uma estria supraocular são brancos ;
em baixo do olho nota-se ama mancha cinzento-escura,
Ve S60" =
quasi preta. O lado do peito é cinzento, bem como as
pennas da perna e do crisso.
As pennas compridas subcaudaes são cinzento-es-
curas, quasi pretas. As primeiras remiges da mão têm
a barba anterior preta, a interior branca. As outras
remiges são cinzentas; as pennas scapulares são mais
escuras, com uma orla branca terminal. As rectrizes
são cinzentas, as centraes são escuras, quasi pretas na
ponta numa extensão de cerca de 20 mm. O comp.
total é de 270 mm., o da aza 180 mm., e o do bico
no culmen é de 26; a largura do bico na sua base
é de 10,5 mm. e de € mm. na região das ventas. Os
lados do bico são direitos e não deixam ver as la-
mellas interiores quando o bico estiver fechado.
Não podendo comparar exemplares authenticos,
nem as descripções originaes, não tenho plena certeza
sobre a exactidão desta minha determinação, visto co-
mo existe outra especie alliada—Prvon desolatus (Gw.),
que, porém, parece ser um pouco maior que a nossa.
Além disto é P. desolatus encontrado só no mar An-
tarctico até a lat. de 35° S., ao passo que P. ariel, no
Oceano Atlantico, occorre não só na Africa meridional
mas tambem em Madeira.
Mus. Paul.: Iguape.
Nas paginas precedentes descrevi 25 especies de
aves, que são novas para a fauna de S. Paulo. Na
enumeração das aves deste Estado, que publiquei no
Vol. V desta Revista, p. 380 ss, estão contidas 638
especies (na lista tinham sido omittidas 3 especies que
são: Fulica rufifrons. Phil. e Land, Sterna cantiaca
Gm. e Puffinus puffinus (L.); agora elimino 6 por
ser duvidosa a sua occorrencia em S. Paulo.
Accrescentando as especies que acima descrevi, temos
um total de 657 especies de aves, até agora observadas
no Estado de S. Paulo.
Não duvido que na continuação de nossa explora-
ção ornithologica do Estado este algarismo elevar-se-ha
muito acima de 700, chegando assim a ca. de 40 °/, das
— 364 —
especies de aves occorrentes no Brazil, que calculo em
1750 especies, mais ou menos.
Esta riqueza: extraordinaria da avifauna de São
Paulo explica-se pelo facto de contribuirem para ella
dous elementos faunisticos, o do Brazil oriental e o do
Brazil central. E’ particularmente este ultimo elemento
que até agora foi estudado insufficientemente, ao passo
que a fauna das partes centraes e orientaes do Estado
já podem ser consideradas como regularmente conheci-
ne Em geral é a avifauna da zona oriental do Brazil
já mui bem conhecida, explicando-se deste modo o facto
singular que em mais de dez annos de exploração
ornithologica do Estado, não consegui descobrir uma
unica especie nova para a sciencia, tendo reconhecido
como já anteriormente classificadas as poucas que por
algum tempo julguei novas.
No sentido de completar o conhecimento das aves
do Estado foram feitas, pelo naturalista-viajante do Mu-
seu, Sr. Ernesto Garbe, varias excursões, entre ellas
uma a Itararé e outra a Avanhandava. Esta ultima,
interrompida por um ataque de febre que soffreu o via-
jante, não correspondeu às esperanças que a ella ligava-
mos, mas será continuada no correr deste anno. Guana
aos resultados geraes faunisticss a elles me referirei no
seguinte capitulo.
Parece-me certo que de nenhum outro Estado do
Brazil temos actualmente conhecimento tao completo da
sua fauna, isto é, não só das especies que nelle vivem,
mas tambem da distribuição geographica dos diversos
elementos faunisticos que a compoem, bem como da
sua biologia. Neste sentido o Estado de S. Paulo ja
é, desde muito temp., um dos melhor estudados, visto
que nos annos de 1818—1823 Natterer fez aqui ricas
collecçües e isto em diversas partes do Estado. O nu-
mero das especies obtidas por Natterer neste Estado
era de 477, tendo sido elevado a 657 até agora pelo
trabalho do Museu do Estado.
DISCUSSÃO ZOOGEOGRAPHICA
A discussão das relações faunisticas de qualquer
parte da região neotropical representa actualmente uma
taréfa de summa difficuldade, por faltarem todos os
trabalhos preliminares. Isto se refere mais ou menos
a todos os grupos do reino animal, mas particularmen-
te à ornithologia. Si existisse ao menos uma boa ana-
lyse da fauna de qualquer parte da vasta região neo-
tropical, já nos teria sido dado um ponto de partida
para a comparação. O unico ensaio emprehendido neste
sentido, o de Pelzeln, mallogrou completamente. Pel-
zeln baseou-se nas ricas colleeções de Natterer, reuni-
das durante vinte annos em diversas partes do Brazil.
Não obstante a riqueza destas collecções, não são
as mesmas sufficientes para tal fim, visto que Natterer
não viajou no Brazil meridional, nem nos estados do lit-
toral, situados entre Rio de Janeiro e Pará. Acontece
ainda que Natterer em varios Estados empregou annos
na sua exploração scientifica, ao passo que percorreu ra-
pidamente a outros. As seis subregiões de Pelzeln não se
referem por conseguinte à avifauna do Brazil, mas só
à parte que foi explorada por Natterer.
As linhas divisorias, por Pelzeln estabelecidas, em
verdade não existem, como já demonstrei em outro
logar (Ihering, 1898 J. Orn. p. 14 e 1899 P. Z. S.
pn. 208).
O defeito principal de Pelzeln era o de limitar-se
à ennumeração das espezies encontradas em cada uma
destas provincias. Deste modo reuniu especies de vasta
distribuição com outras que são caracteristicas para a
respectiva zona, sendo por conseguinte impossivel tirar
conclusões exactas destas listas.
— 366 —
Ao meu ver não se chega a qualquer resultado
satisfactorio sem um estudo analvtico, que separa, na
somma das especies de certa região, as que são de dis-
tribuição vasta, das que são restrictas a ella. Como no
seguinte emprehendo u: exame analytico da avifauna
do Paraguay, procederei neste sentido de um modo geral,
reunindo em listas especiaes as especies de vasta distri-
buição, embora em parte não occorram no Paraguay ou
ao menos d'ahi não tenham sido verificadas até agora.
Neste sentido as seguintes listas servem, não só
para o estudo da avifauna do Paraguay, mas tambem
para a do Brazil e dos outros paizes neotropicos.
Querendo-se comparar a fauna de uma certa re-
gião restricta, de certo nada adianta acceitar na respectiva
lista as especies que são encontradas desde o Mexico
até à Patagonia. Taes especies não servem para cara-
cterisar as subregiões e, por conseguinte, devem ficar
fóra do exame comparativo, bem como as especies de
distribuição cosmopolita ou americana, isto é, encon-
tradas desde a Patagonia até a America do Norte.
Para nossos fins não basta entretanto discriminar estas
especies de vasta distribuição, seja cosmopolita, ameri-
cana, ou neotropical. Acontece que as regiões centraes
do Brazil, occupadas essencialmente por vastos campos,
encerram um elemento faunistico bem particular, que
ao norte se extende a diversas localidades do Estado
do Pará e mesmo até as margens do rio Amazonas e
em parte mesmo até a Guayana e Venezuela, ao passo
que ao sul muitas destas especies são encontradas ain-
da na Republica Argentina até ao Rio Negro.
Este elemento faunistico encerra, além de aves exclu-
sivamente proprias aos campos, outras que procuram os
capões e as capoeiras, que se extendem ao longo dos
rios e mesmo certas mattas de maior extensão, situa-
das, quaes ilhas, no meio do extenso planalto central
do Brazil. Este elemento ê& em parte encontrado tam-
bem no Paraguay, como existe tambem na zona occiden-
tal do Estado de 'S. Paulo, cuja fauna, em grande parte,
é differente da da zona oriental do mesmo Estado.
— 367 —
As seguintes listas de aves, pertencentes às diver-
sas categorias acima mencionadas, não são por con-
seguinte destinadas só para o estudo da fauna do Pa-
raguay, mas tambem para o do Brazil e a elles re-
correrei em outros estudos, referentes à avifauna do
Brazil. Em garal acredito que estas listas são exactas,
mas, naturalmente novas descobertas tem de modifical-
as successivamente. Assim, por exemplo, póde aconte-
cer que uma especie, considerada como propria ao
Brazil meridional, seja encontrada tambem no Matto
Grosso e em Goyaz, passando por conseguinte ao qua-
dro das especies do Brazil central.
Muitas destas especies da fauna central são encon-
tradas tambem no oeste do Estado de S. Paulo, quan-
do faltam por completo na zona do littoral e da Serra
da Mantiqueira. Assim, por exemplo, as quatro espe-
cies de macaccs, que vivem no municipio de Franca,
são todas differentes das que vivem na Serra do Mar,
na Serra da Mantiqueira e nas regiões adjacentes.
Não basta, entretanto, para a comprehensão das
diversas relações faunisticas, o conhecimento da distri-
buição geographica de cada especie; é preciso tambem :
conhecer o modo de viver dos diversos grupos de aves.
Neste sentido meus estudos me conduziram ao interes-
sante resultado de que são de distribuição mais vasta
em geral só as especies que não vivem exclusivamente
nas mattas cerradas, passando tambem por campos e
lenhados a capões e capoeiras, alcançando deste modo
tambem as grandes parcellas de mattas isoladas que se
encontram nos estados de Minas e Goyaz. Ha outras
aves, entretanto, que nunca sahem das mattas espessas
e cuja distribuição, por conseguinte, é bem differente.
Debaixo deste ponto de vista, ao qual tornarei, temos
de considerar tambem as aves do Paraguay, particular-
mente para explicar a ausencia completa de certas es-
pecies bem conhecidas e caracteristicas do littoral do
Brazil meridional.
Antes de tratar mais detalhadamente deste assum-
pto dou aqui as listas como acima foi indicado,
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— 268 —
I.
Listas de aves cosmopolitas occorrentes na região
neotropical
Riparia riparia (L.)
Hirundo erythrogastra Bodd.
Strix flammea JZ.
Asio accipitrinus (Pall.)
Falco peregrinus Tunst.
Pandion haliaetus (L.)
Nycticorax nycticorax (L.)
Dendrocygna fulva (Gm.)
Dendrocygna viduata (L.)
Arenaria interpres (L.)
Squatarola helvetica (L.)
Charadrius dominicus Miill.
Ereunetes pusillus (L.)
Calidris arenaria (L.)
Tringa canutus L.
Crymophilus fulicarius L. (Ame-
If.
Dendroica striata (Forst.)
Dendroica aestiva (Gm.)
Progne purpurea (L.)
Petrochelidon pyrrhonota (Vieill.)
Dolichonyx oryzivorus (L.)
Sturnella magna (L.)
Chordeiles virginianus (Gm.)
Coceyzus americanus (L.)
Speotyto cunicularia Mol.
Catharista urubu (Vieill.)
Cathartes aura (L.)
Buteo swainsoni Bp. (Argent.",
R. Gr. do Sul, Amer. do N.)
Buteo borealis Gm. (Est. Magalh.
Amer. do N.)
Elanoides forficatus (L.)
Elanus leucurus (Vieill.)
Tinnunculus sparverius (L.)
Fregata aquila (L.)
Sula sula (L.)
Herodias egretta (Gm.)
Florida coerulea (L.)
Leucophoyx candidissima (G'm.)
Nyctanassa violacea (L.)
Tantalus loculator L.
Querquedula cyanoptera (Vieill.)
Gallinula galeata (Licht.)
Hoematopus palliatus Temm.
rica occidental)
Gelochelidon nilotica (Hassel.)
Sterna fluviatilis Naum.
Sterna cantiaca Gm.
Sterna maxima Bodd.
Anous stolidus (L.)
Larus dominicanus Licht.
Stercorarius crepidatus (Banks)
Oceanites oceanicus (Kuhl.)
Fregetta grallaria (Vieill.)
Majaqueus aequinoctialis (L.)
Daption capensis (L.)
Prion vittatus (Gm.)
Prion ariel Gould
Diomedea melanophrys Temm.
Especies de distribuição vasta na Amcrica
Hoploxypterus cayanus (Lath.)
Aphriza virgata Gm. (occidental)
Belonopterus cayennensis (Gm.)
Ochthodromus wilsoni (Ord.)
Oxyechus vociferus (L.)
Aegialeus semipalmatus (Bp.)
Numenius hudsonicus Lath.
Numenius borealis Worst.
Limosa hæmastica (L.)
Macrorhamphus griseus (Gm.)
Micropalma himantopus (Bp.)
Symphenia semipalmata (Gm.)
Totanus melanoleucus (Gm.)
Totanus flavipes (Gin.)
Helodromas solitarius (Wils.)
Tringoides macularius (L.)
Batramia longicauda (Bechst.)
Tryngites subruficollis (Vieill.)
Limonites minutilla (Vieill.)
Heteropygia maculata (Vieill.)
Heteropygia bairdi Cowes.
Heteropygia fuscicollis (Vieill.)
Gallinago delicata (Ord )
Steganopus tricolor Vieill.
Rhynchops nigra L.
Puffinus puffinus (L.)
Podilymbus podiceps (L.)
Eu ao
HI.
Especies de distribuição vasta na Região
Neotropical
Merula leucomelas Vicill.
Merula albiventer, (Spix)
Cistothorus polyglottus (Vieill.)
Troglodytes musculus Naum.
Donacobius atricapillus (L.)
Anthus lutescens Pucheran.
Compsothlypis pitiayumi (Vieill.)
Basileuterus auricapillus (Sws.)
Vireo chivi (Vieill.)
Tachycineta albiventer (Bodd.)
Progne chalybea Gm.
Progne tapera (L.)
Atticora cyanoleuca (Vicill.)
Alopochelidon fucatus (Temm.)
Stelgidopterix ruficollis (Vieill.)
Dacnis cayana (L.)
Chlorophanes spiza (L.)
Cyanerpes cyanea (L.)
Cereba chloropyga (Cab.)
Procnias coerulea (Vieill.)
Euphonia nigricollis (Vieill.)
Euphonia chlorotica (L.)
Euphonia xanthogastra Sund.
Euphonia violacea (L.)
Pipridea melanonota (Vieill.)
Tanagra palmarum Wied
Tachyphonus rufus (Bodd.)
Tachyphonus eristatus (Gm )
Nemosia guira (L.)
Nemosia pileata (Bodd.)
Thlypopsis sordida Lafr. et D' Orb.
Cissopis maior Cab.
Schistochlamys ater (Gm.)
Cyanocompsa cyanea (L.)
Oryzoborus angolensis (L.)
Sporophila gutturalis (Licht.)
Sporophila lineola (L.)
Volatinia jacarini (L.)
Sicalis flaveola (L.)
Brachyspiza capensis (P. L,
Miill.)
Myospiza manimbe (Licht.)
Emberizoides macrourus (Gm.)
Pseudochloris citrina (Pelz.)
Coryphospingus cucullatus (Mill)
Ss.
Coryphospingus pileatus (Wied)
Ostinops decumanus (Pall.)
Cassicus haemorrhous L.
Cassidyx oryzivora (Gm.)
Molothrus bonariensis (G'm.)
Arundinicola leucocephala (Z.)
Sisopygis icterophrys (Vieill.)
Copurus colonus (Vieill.)
Machetornis rixosa (Vieill.)
Platyrhynchus mystaceas (Vieill.)
Rhynchocyelus sulphurescens
(Spix.)
Rhynchocyelus megacephalus
Sws
Todirostrum cinereum (J..)
Hapalocercus meloryphus (Wied)
Habrura pectoralis (Vieill.)
Myionectes oleaginus (Licht.)
Leptopogon amaurocephalus Cab.
Campsiempsis flaveola (Licht.)
Ornithion cinerascens ( Wed.)
Ornithion pusillum (Cab.)
Pheomyias incomta (Cab.)
Klenea pagana (Licht.)
Elænea albiceps (Lafr.et D’ Orb.)
Myiopagis viridicata (Vieill.)
Legatus albicollis (Vieill.)
Myiozetetes similis (Spix)
Pitangus sulfuratus (L.)
Myiodynastes solitarius (Vieill.)
Megarhynchus pitangua (L.)
Myiobius barbatus (Gim.)
Myiobius naevius (Bodd.)
Pyrocephalus rubinus (Bodd.)
Blacicus brachytarsus (Sel.)
Myiarchus tyranuulus (P. L. S.
Miill.)
Myiarchus ferox (Gm.)
Mviarchus tubereulifer Lafr. et
D Orb.
Empidonomus varius (Véeill.)
‘Tyrannus melancholicus Vieill,
Muscivora tyrannus (L.)
Pipra leucocilla Z.
Tityra inquisitor (Licht.)
— 370 .-
Pachyrhamphus rufus (Bodd.)
Pachyrhawphus atrieapillus (Gm)
Lipaugus simplex (Licht.)
Pyroderus scutatus (Shav.)
Lochmias nematura (Licht.)
Synallaxis albescens Temm.
Synallaxis cinnamomea (Gim.)
Synallaxis rutillans Term.
Phacellodomus rufifrons (Wied)
Xenops genibarbis Tl.
Xenops rutilus Licht.
Sittasomus erithacus (Licht.)
Glyphorhynchus cuneatus(Licht.)
Thamuophilus major (Vieill.)
Thamnophilus naevius (Gm.)
Thamnophilus doliatus (L.)
Rhamphocaenus melanurus Vieill
Percnostola funebris (Licht.)
Glaucis hirsuta (Gm.)
Lampornis nigricollis (Vieill.)
Chrysolampis moschitus (L.)
Polytmus thaumantias (L.)
Hylocharis sapphirinus (Gm.)
Hylocharis cyanus (Vieill.)
Campylopterus largipennis Bodd.
Calliphlox amethystina (Gm.)
Chætura zonaris (Shaw.)
Caprimulgus rufus Bodd.
Caprimulgus parvulus Gould
Stenopsis longirostris (Bp.)
Nyctidromus albicollis (Gm.)
Chordeiles acutipennis (Bodd.)
Podager nacunda (Vieill.)
Lurocalis semitorquata (Gm.)
Nyctibius jamaicensis (Gm.)
Nyetibius grandis (Gm.)
Campephilus melanoleueus (Gim.)
Ceophloeus lineatus (L.)
Ueryle torquata (L.)
Ceryle amazona Lath.
Ceryle americana Gin.
Ceryle inda (L.)
Ceryle superciliosa (L.)
Trogon atricollis Vieill.
Trogon viridis L.
Trogon aurantius Spix
Rhamphastos toco Miill.
Pteroglossus arassari (L.)
Coccyzus melacoryphus Vieill.
Piaya cayana (L.)
Diplopterus naevius (L.
Dromococeyx phasianellus (Spix)
Crotophaga major Gm.
Crotophaga ani L.
Guira guira (Gm.)
Ara ararauna (L.)
Ara chloroptera (Gray)
Conurus leucophthalmus (Miill.)
Amazona farinosa (Bodd.)
Asio clamator (Vieill.)
Asio stygius ( Wagl.)
Ciccaba hylophila (Temm.)
Pulsatrix pulsatrix (Wied)
Gisella harrisi (Cass.)
Pisorhina choliba (Vieill.)
Glaucidium brasilianum (Gm.)
Gypagus papa (L.)
Milvago chimachima ( Vieill.)
(Circus maculosus (Vieill)
Micrastur melanoleucus (Vicill.)
Micrastur ruficollis (Vieill.)!
Geranospizias cærulescens ( Vieill.
Parabuteo unicinetus (Temm.)!
Aceipiter tinus (Lath.)
Heterospizias meridionalis (Lath.)
Geranoaetus melanoleucus Vieill
Buteo albicaudatus (Vieill).
Buteola brachyura (Vieill.)
Rupornis leucorrhoa (Quoy et
Gaim.)
Urubitinga urubitinga (Gm.)
Leucopternis lacernulata (Temm.)
'Thrasyaétus harpyia (L.)
Spizastur melanoleucus (Vieill.)
Spizaétus ornatus (Daud.)
Spizaétus tyrannus (Wied)
Herpetotheres cachinnans (L.)
Rostrhamus sociabilis (Vieill.)
Leptodon uncinatus (Teman.)
Leptodon cayennensis (Gm.)
Ictinia plumbea (G'm.)
Falco fuscocærulescens Vieill.
Falco albigularis Daud.
Falco aurantius Gm.
Phalacrocorax vigua (Vieill.)
Plotus anhinga (L.)
— 371 —
Ardea socoi L.
Cancroma cochlearia L.
Syrigma sibilatrix (Temm.)
Pilerodius pileatus (Bodd.)
Butorides striata (L.)
Ardetta erythromelas (Vieill.)
Ardetta involucris (Vieill.)
Euxenura maguari (Gm.)
Mycteria americana L.
Harpiprion cayennensis (Gm.)
Phymosus nudifrons (Spis).
Plegadis guarauna (L.)
Eudocimus ruber (L.)
Ajaja ajaja (L.)
Palamedea cornuta (L.)
Cairina moschata (L.)
Sarcidiornis carunculata (TIL)
Dendroeygna viduata (L.)
Nettion brasiliense (Gm.)
Poecilonetta bahamensis (L.)
Nomonyx dominicus (L.)
Columba rufina (Temm.)
Columba speciosa (Gm.)
Columba plumbea (Vieill.)
Zenaida auriculata Des Murs
Scardafella squamosa (Temm.)
IV.
Columbula picu (Temm.)
Columbigallina passerina (L.)
Columbigallina minuta (L.)
Columbigaliina talpacoti(Temm.)
Claravis pretiosa Ferr. Per.
Geotrygon violacea (Temm.)
Geotrygon montana (L.)
Limnopardalus maculatus (Bodd.)
Limnopardalus nigricans ( Vieill).
Aramides cajanea (Miill.)
Amaurolimnas concolor (Gosse).
Porzana albicollis (Vieill.)
Porzana flaviventer (Bodd.)
Creciscus melanophaius (Vieill.)
Porphyriops melanops ( Vieill.)
Porphyriola martinica (L.)
Heliornis fulica (Bodd.)
Aramus scolopaceus (Gm.)
Parra jacana (L.)
Aegialeus collaris (Vicill.)
Gallinago paraguai (Vieill.)
(Phaétusa magnirostris (Licht.)
(Sterna eurygnatha Saund,
(Sterna superciliaris Vieill.
Podiceps dominicus (L.)
Crypturus pileatus (Bodd.)
iEspecies de distribuição vasta no territorio do
Brazil
Polioptila leucogastra (Wied)
Anthus chit Vicill.
Geothlypis æquinoctialis Gm.
Ateleodacnis speciosa (Wied)
Calospiza festiva (Shaw)
Rhamphocælus jacapa (L.)
Sporophila collaria (L.)
Sicalis pelzelni Sel.
Phylloscartes ventralis (Temm.)
Empidochanes fuscatus (Wied)
Empidonax bimaculatus (Lafr. et
D’ Orb.)
Chiroxiphia caudata (Shaw)
Tityra brasiliensis (Sw.)
Platypsaris atricapilla (Vieill.)
Pachyrhamphus polychropterus
(Vicill.)
Casiornis rubra (Vieill.)
Synallaxis ruficapilla (Vicill,)
Philydor rufus (Vieill.)
Sclerurus umbretta (Licht.)
Dysithamnus mentalis (Temm.)
Formicarius colma (Gm.)
Agyrtria tephrocephala (Vieill.)
Phaëthornis rufigaster (Vieill.)
Eupetomena macrura (Gm.)
Cypseloides fumigatus (Streu.)
Caprimulgus ocellatus (Tschud.)
Caprimulgus maculicaudus
(Lauwr.)
Chloronerpes erythropsis ( Vée7ll.)
Veniliornis affinis Sws )
? Picumnus cirrhatus (Temm.)
Baryphthengus ruficapillus
(Vieill.)
Bucco swainsoni (Gay.)
Nonnula rubecula (Spix)
Rhamphastos ariel Vig.
— 37
Ara maracana (Viecill.)
Conurus aureus (Gm.)
Ciccaba suinda (Vieill.)
Ciccaba huhula (Daud.)! (Guia-
na)
Buho magellanicus Gm. !
Glaucidium pumilum (Temm.)
Cathartes urubutinga Pelz.
Polyborus tharus (Mol.)
Ibycter americanus (Bodd.)
Micrastur gilvicollis (Vieill.)
Astur poliogaster (Temm.)
Astur pectoralis Bp.
V. Aves distribuidas pelo
Polioptila berlepschi Hell.
Basileuterus flaveolus Baird
Basileuterus hypoleucus Cab.
Basileuterus leucophrys Pelz.
Syelorhis wiedi Pelz.
Tachycineta leucorrhoa (Vieill.)
Tanagra sayaca L.
Rhamphocoelus
D'Orb. et Lafr.
Cypsnagra ruficollis (Licht.)
Diucopsis fasciata (Licht.)
Saltator atricollis Vieill.
Cyanoloxias glaucocerulea
(D’ Orb.)
Oryzoborus maximiliani Cab.
Sporophila plumbea (Wied)
Sporophila hypoleuca (Licht.)
Sporophila hypoxantha (Cab.)
Sporophila cucullata (Bodd.)
Poospiza cinerea (Bp.)
Coryphospiza melanotis (Temm.)
Tiara ornata Wied
Agelaeus ruficapillus Veil.
Agelaeus cyanopus Vieill.
Amblycereus solitarius (Vieill.)
Leistes superciliaris (Bp.)
Icterus cayenensis (L.)
Icterus pyrrhopterus (Vieill.)
Aaptus chopi (Vicill.)
Cyanocorax chrysops (Vieill.)
Uruleuca cyanoleuca (Wied)
Taenioptera nengeta (L.)
Taenioptera velata (Licht.)
atrosericeus
Op Ee
Accipiter pileatus (T'emm.)
Rupornis nattereri Sel. a. Salv.!
Busarellus nigricollis (Lath.) !
Buteogallus æquinoctialis (Gm.) *
Morphnus guianensis (Daud.) f
Harpagus diodon (Z’emm.)
|Tigrisoma brasiliense (L.)
Botaurus pinnatus (Wagl.)
Theristicus caudatus (Bodd.)
Alopochen jubatus (Spix)
Penelope superciliaris Z{l.
Himantopus melanurus Vieill.
(Larus maculipennis Licht.
Planalto central brazilciro
Fluvicola albiventer (Spix)
Alectrurus risorius (Vieill.)
Alectrurus tricolor (Vieill.)
Cybernetes yetapa (Vieill.)
Cnipolegus comatus (Licht.)
Lichenops perspicillata (Gm.)
Muscipipra vetula (Licht.)
Platyrhynchus platyrhynchus
(Gm.)
Euscarthmus fumifrons (Hartl.)
Euscarthmus pelzelni Scl. a. Salv.
Euscarthmus margaritaceiventer
(D’ Orb. et Lafr.)
Euscarthmus latirostris (Pelz.)
Hapalocereus flaviventris (D’ Orb.
et Lafr.)
Culicivora stenura (Temm.)
Elænea obscura (D’ Orb. et Lafr.)
Elænea affinis (Burm.) a
Sublegatus brevirostris (7'schudi)
Empidonomus aurantioatrocrista-
tus (D’Orb. et Lafr.)
Tyrannus albogularis (Burm.)
Piprites chloris (7’emm.)
Antilophia galeata (Licht.)
Pipra fasciata D’Orb etLafr.
Scotothorus pallescens (Lafr.)
Attila phonicurus Pelz.
Geobates poecilopterus ( Wied)
Furnarius albigularis (Spiæ)
Synallaxis azaræ Pelz.
Synallaxis albilora Pelz.
Synallaxis torquata Wed
— 373 —
Phacellodomus ruber (Vieill.)
Picolaptes bivittatus (Licht.)
Dendrocolaptes picumnus Licht.
Thamnophilus torquatus Srs.
Thamnophilus radiatus Vieill.
Thamnophilus ambiguus Sis.
Thamnophilus nigricristatus
Lawr.
Herpsilochmus
Herpsilochmus
Herpsilochmus
Herpsilochmus
longirostris Pelz.
pileatus (Licht.)
atricapillus Pelz.
rufimarginatus
(Temm.)
Formicivora melanogaster Pelz.
Formicivora grisea (Bodd.)
Formicivora rufa (Wied)
Pyriglena leucoptera (Vieill.)
Pyriglena atra (Sws.)
Drymophila atrothorax (Bodd.)
Corythopis calcarata (Wied)
Chlorostilbon aureoventris
D'Orb. et Lafr.
Thalurania eriphile (Less.)
Colibri serrirostris (Vieill.)
Heliomaster furcifer (Shaw)
Heliomaster squamosus (Temm.)
Agyrtria affinis (Gould)
Hylocharis ruficollis (Vieill.)
VI.
Aves do Norte de Brazil, do Peru
Hylocharis pretrei (Less. el Del.)
Aphantochroa cirrhochloris
(Vieill.)
Heliactinia bilopha (Temn.)
Chætura cinercicauda Cass.
Stenopsis candicans Pelz.
Hydropsalis torquata (Gm.)
Dendrocopus cancellatus ( Wagl.)
Veniliornis olivinus (Malh.)
Celeus lugubris (Malh.)
Picumnus sagittatus Sund.
Galbula rufoviridis Cab.
'Brachygalba melanosterna Sel.
Jacamaralcyon tridactyla (Vieill.)
Bucco chacuru Vell.
Chelidoptera brasiliensis Sel.
Pteroglossus castanotis Gould
Ara nobilis (L.)
Brotogerys chiriri (Vieill.)
Pulsatrix perspicillata (Lath.)
Cariama cristata (L.)
'Gallinago gigantea (Temm.)
Crypturus parvirostris (Wagl.)
‘Crypturus adspersus (Vem .)
'Nothura media (Spix)
‘Taoniseus nanus (T'emm).
(Rhynchotus rufescens (Temm,)
'Rhea americana (L.)
ete. que se
extendem até o Paraguay
Pachyrhamphus niger (Spix)
Chloronerpes chrysochlorus
(Vieill.)
VII.
Tanagra bonariensis (Gm.)
Pyranga azare (D’Orb.)
Saltator aurantiirostris Vieill,
Saltator cærulescens Vieill.
Sporophila melanocephala
(Vieill.)
Poospiza melanoleuca D’Orb et
Lafr.
Poospiza personata (Swains.)
Paroaria cucullata (Lath.)
Trogon variegatus Spix
Coceyzus cinereus Veil.
Ed ihe:
|Crax fasciolata Spix
Aves do Paraguay que occorrem na Argentina
‘Molothrus brevirostris (D'Orb,
et Lafr.
Molothrus badius (Vicill.)
Agelaeus flavus (Gm.)
Agelaeus thilius (Mol.)
Tænioptera cororata (Vieill.)
Tænioptera dominicana (Väeill.)
Centrites niger (Bodd.)
Empidagra surriri (Vieill.)
'Phyllomyias salvadorii (Dubois).
— 374 —
Phytotoma rutila Vieill.
Furnarius rufus (Gm.)
Melanerps cactorum (D’Orb. et
Lafr)
Pheocryptes melanops (Véeill.)| Milvago chimango (Vieill.)
Coryphistera alaudina Burm.
Circus cinereus Vieill.
Phacellodomus striaticollis (Lafr.|Coscoroba coscoroba (Mol.)
et D’Orb.)
Querquedula versicolor (Vieill.)
Picolaptes angustirostris (Vieill.) |Spatula platalea (Vieill.)
Hydropsalis furcifera (Vicill.)
VIII. Aves do Paraguay
Metopiana peposaca (Väezll.)
que occorrem tambem na
região Norceste da Argentina e, em parte, tam-
bem no Matto Grosso e na Bolivia.
NB,
Mimus triurus (Viecill.)
Mimus modulator Gould
Polioptila dumicola (Vieill.)
Thryophilus minor Pelz.
Cychlorhis viridis (Vieill.)
Arremon polionotus Bp.
Blacicus pileatus (Ridgw.) (P.)
Paroaria capitata (D’ Orb. et Lafr.)
Xenicopsis acritus Oberh. (P.)
Amblyrhamphus holosericeus
(Scop.)
Leptasthenura platensis Reich.
Synallaxis phryganophila (Vieill.)
Synallaxis maximiliani D'Orb.
Xiphocolaptes major Vieill.
Thamnophilus rhodei Berl. (P.)
Thamnophilus ochrous Oberh.(P.)
Chrysoptilus cristatus Véeill.
As especies marcadas com (P.) foram até agora encontradas so no Paraguay.
Ara caninde (Wagl.) (P.)
Ara auricollis (Cass.)
Conurus nanday (Vieill.)
Conurus acuticaudatus (Vieill.)
Pyrrhura borelii Salv. (P.)
Myiopsittacus monachus (Bodd.) .
Accipiter guttatus (Viecill.)
Rupornis pucherani I. et E. Verr.
Rupornis nattereri saturata Sel.
a. Salv.
Harpyhaliaétus coronatus (Vieill.)
Nettion torquatum (Vieill.)
Tigrisoma marmoratum Vieill.
Penelope sclateri Gray (*)
Ortalis canicollis (Wagl.)
Fulica leucoptera Vieill.
Aeschmophorus major (Bodd.)
IX. Especies do Brazil meridional.
Estas, em numero de 132, deixo de enumerar, visto serem
as que não estão incluidas nas listas precedentes.
São os grupos de aves antes mencionados que for-
mam a avifauna do Paraguay. Falta áquelle paiz um
elemento ornithologico proprio. E’ verdade que se
conhece algumas especies encontradas até agora só no
Paraguay, como sejam as que na lista VIII vão se-
guidas de (P.); mas estas especies, descobertas aliás só
no correr dos ultimos dous decennios, segundo toda
probabilidade ainda devem ser encontradas nas regiões
(*) Esta especie ainda não foi verificada na Argentina.
— 379 —
limitrophes, razão porque as reuni com as aves dis-
tribuidas do noroeste da Argentina até o Matto Grosso.
A significação dos diversos grupos mencionados
na composição da fauna do Paraguay é bastante diffe-
rente, como se verifica pela seguinte recapitulação na
qual, para cada grupo, ajuntei em parenthesis o numero
total das especies neotropicaes a elle pertencentes, dando
em seguida o numero das especies paraguayas que, de
cada grupo, até hoje são conhecidas.
Grupos de aves, representadas na formação da avi-
fauna do Paraguay
I De distribuição cosmopolita (SO) 6
Ten » amenicanariae. gras seca MAS hues
HI » » neoinopicalt) en. wh? (291) 158
IV » » brazideira geral 14 .<) (00) 33
Wass » no planalto central bra-
mero spo MOI) 400
VI » » norte dorBrazils'. uu (5) 9)
VII » » amgentinaro aa api (Spa rod
VIII » » do noroeste da Argentina ao
Maditio iG rassosh ru) 088
DeeDer distribuição do- Suldos Brazil ssa vs 12150;
Total das especies paraguayas. . .. ATi
O elemento mais importante é, além das especies
de vasta distribuição, o do Brazil meridional, como
aliás era de presumir a priori, em vista das condições
mais ou menos eguaes do clima e da flora. A im-
portancia destes factores fica patente tambem pela dis.
tribuição das poucas especies amazonicas que tanto a
leste como a oeste descem ao tropico. E'esteo caso
de Trogon variegatus e, provavelmente, Tr. auran-
tius, encontrados no oeste até o Paraguay e a leste
até Minas Geraes e Rio de Janeiro. E” provavel que
este grupo tem de ser consideravelmente augmentado
por uma exploração systematica do Norte do Para-
guay. E” assim, por exemplo, que Salvadori menciona
como occorrente ao Norte do Paraguay Siltasomus
chapadensis Ridgw, substituido no resto dc paiz por S.
oe
erithacus. Deixei de incluir esta especie e talvez outras :
na minha enumeração, por não conhecer exactamente a
literatura e a localidade a que Salvadori se refere.
E" bem natural que os elementos da fauna central
do Brazil entrem tambem na composição da fauna do
Paraguay, como do mesmo modo os vemos representados
tambem no sertão dos estados do littoral do Brazil. A
fauna de S. Paulo contem, no oeste, numerosas especies
que faltam na zona littoral e na da capital e que per-
tencem à fauna central do Brazil. Cada remessa de aves
que por nossos colleccionadores recebemos desta zona
occidental, cuja exploração faunistica actualmente preoc-
cupa de preferencia o Museu Paulista, augmenta o nu-
mero destas especies, conhecidas até agora só de Minas,
Goyaz e Matto Grosso. De um interesse bem particular é
o municipio de Franca, que se póde considerar, no sentido
faunistico, antes parte de Minas do que de S. Paulo.
A avifauna do Paraguay seria deste modo apenas
uma parte integrante da fauna do Brazil meridional, sem
as pronunciadas relações com a fauna argentina. A ornis
da Argentina central é em parte identica com a dos
campos centraes do Brazil meridional e, para muitas es-
pecies, actualmente, não podemos decidir, si são argen-
tinas, que em parte se extendem sobre as regiões limi-
trophes do Brazil ou se representam apenas elementos |
da fauna central do Brazil. Isto refere-se, por exemplo,
ao Mytiotheretes rufiventris que occorre não só na Ar-
gentina, mas tambem em Minas e cuja distribuição ainda
necessitamos conhecer melhor, procurando informações
mais minuciosas sobre as aves de Goyaz e Matto Grosso.
O avestruz, Rhea americana, occupa uma vasta área de
distribuição, que em Goyaz se extende entre os affluen-
tes do Rio Amazonas e ao sul pela Argentina até o
Rio Negro. Muitas outras especies de aves, cujo do-
micilio formam as vastas planicies, têm a mesma dis-
tribuição, outras, porém, são restrictas à metade septen-
trional cu meridional desta região.
Assim, por exemplo, recebeu o Museu Paulista de
Piauhy a codorna, Nothura marmorata Gray, especie
até agora só conhecida da Bolivia, ao passo que No-
— 317 —
thura maculosa (Temm.) é peculiar ao Brazil mer idio-
nal, até Minas Geraes e Bahia.
Qualquer que seja a verdadeira significação da fauna
central da Argentina, é certo que encerra elementos que
lhe são proprios. Entre estes podemos mencionar os
generos: Centrites, Phytotoma, Coryphistera, Anum-
bius, Mytopsittacus, Coscoroba e Metoprana.
Não pequeno numero destas especies argentinas en-
contramos no Paraguay, como especialmente um represen-
tante do genero Phytotoma. Em geral, extendem-se estas
especies para o norte, de um lado até o Paraguay, do outro
ao Uruguay e Rio Grande do Sul. Esta circumstancia e a
rica representação de elementos da fauna central-brazilei-
, são a causa do parentesco intimo que notamos entre
as avifaunas do Paraguay e do Rio Grande do Sul.
Quanto ao grupo das aves distribuidas do noroeste
da Argentina até Matto Grosso, não representam um ele-
mento proprio, como por exemplo na Argentina o for-
mam a fauna central e a andino-patagonica. "Trata-se
apenas de certo numero de especies, distribuidas por
uma larga faixa, ao longo dos Andes, sendo por conse-
guinte extra-andinas. Parte destas aves, como Dryoto-
mus schulzi, Chrysotis tucumana, Columba tucumana
Chunga burmeistero, se extende até a Bolivia ou Matto
Grosso, ao passo que outras são encontradas tambem no
Paraguay, que são as que constam da lista VIII, acima.
As especies, pertencentes ao elementos andino, fal-
tam completamente no Paraguay.
Ha uma especie só, Cinclodes fuscus, que pertence
a um genero essencialmente andino, mas, a especie in-
dicada occorre não só na Argentina e no Rio Grande
do Sul, mas na subspecie albidiventris Scl., tambem na
Venezuela, Equador e Colombia.
O conhecimento da avifauna argentina ainda deixa
muito a desejar, especialmente com referencia às alturas
em que vivem as aves andinas, mas mesmo assim desde
a publicação de H. von Berlepsch, sobre as aves do
Paraguay, angmentaram os respectivos materiaes, de modo
que agora já mais ou menos é possivel separar as es-
pecies “andinas e extra-andinas. Deste modo temos de
— 378 —
riscar da lista do sr. von Berlepsch, que enumera as
especies que se póde esperar ainda serem encontradas
no Paraguay, aquellas que são andinas, como Muscisa-
arcola, Lesbia, Leucippus, bem como os representantes
do genero Phrygilus, Agrirnis e Thinocorus, cuja
distribuição é essencialmente andina e patagonica.
Para o fim de comparar a avifauna do Paraguay
com a do Estado de São Paulo, é preciso analysar a
deste ultimo Estado, do mesmo modo como a do Para-
guay. Não julgo necessario, entretanto, proceder neste
sentido com a mesma minuciosidade, visto que ja dei,
no precedente, detalhadas informações sobre todas as
especies de vasta distribuição. Sendo, além destas, grande
numero de especies do Brazil meridional commum a
ambas as regiões, sera sufficiente salientar aqui os ele-
mentos faunisticos proprios ao Estado de São Paulo e
deduzir dos factos as conclusões geraes.
A composição da avifauna de São Paulo é bem
explicada pelo seguinte quadro analytico.
Quadro analytico das aves do Estado de S. Paulo
Especies de distribuição — cosmopolita . . . . 18
SERES » — americana. . 2) «. 83
> ice » = neotropaca sa) Suede
SMS » — brazileira . . 0800
» » > — do Brazil centr a k 7
» » » — do Norte do Brazil
até Ss Belo: 14
SRE » — da Bahia até S. Paulo 27
SUR » -- do Brazil meridional. 191
ye» » — argentina. . . . 4
As aves de vasta distribuição, representadas no
Estado de S. Paulo estão todas contidas nas listas que
adiante publiquei. Não ha pois motivo para de novo
voltar a tratar dellas aqui.
Quanto aos grupos menores já me referi às aves
argentinas e observo ainda aqui que dellas exclui Anum-
bius anuinbr qne obtive tambem de Itararé, e que occorre
tambem em Minas Geraes. Esta especie tem, por con-
seguinte, uma distribuição analoga à de Myzotheretes
+
— 379 —
rufiventris que occorre desde Minas até a Argentina,
representando antes um membro meridional da fauna
central do Brazil, do que da avifauna Argentina.
De interesse especial são as especies cuja distri-
buição é limitada ao Brazil oriental, desde S. Paulo até
a Bahia ou Norte do Brazil. Dou, em seguida a enu-
meração dessas especies.
Aves de S. Paulo distribuidas até a Bahia:
Thryophilus longirostris (Vicill.)
Rhamphocoelus brasilius (L.)
Nemosia ruficapilla (Vieill.)
Arremon wachereri Scl. & Salv.
Orchesticus abellei (Less.)
Schistochlamys capistratus ( Wied
Haplospiza crassirostris Pelz.
Poospiza thoracica (Nordm.)
Jodopleura pipra (Less.)
Siptornis pallida (Wied)
Philidor lichtensteini Cab,
Heine
Picolaptes squamatus (Licht.)
Disithamnus guttulatus (Licht.)
Formicivora genaei De Filippi
Formicivora striata (Spx)
&
Euscarthmras nidipendulus Wied Formicivora squamata (Licht.)
Euscarthmrus orbitatus Wied
Ceratotriceus furcatus (Lafr.)
Ptilochloris squamata (Wed)
Neopelma aurifrons (Wied)
Ampelion melanocephalus (Sww.)|
Grallaria ochroleuca ( Wied)
Conopophaga melanops
Merulaxis rhinolophus ( Wied)
Stephanoxys lalandei (Vieill.)
Pyrrhura cruentata (Wied)
Aves de S. Paulo distribuidas no Brazil oriental ao
norte até o Pará.
Mimus lividus (Licht.)
Mimus saturninus (Licht.)
Hylophilus thoracicus Temm.
Ateleodacnis bicolor Vieill.
Calliste cyaneiventris (Vée7ll.)
Sporophila nigroaurantia (Bodd.)
Icterus cayanensis L.
Blacicus cinereus (Spi)
Myrmotherula melanogaster
(Spix)
Myrmotherula brevicauda Srs.
Urochroma wiedi (Allen)
Urochroma surda (Kuhl)
Crax fasciolata Spix.
Rallus longirostris crassirostris
(Lawr).
De todas as especies contidas nas duas listas pre-
cedentes, nenhuma occorre no Paraguay, o que prova
que não existe relação intima entre as aves dahi e de S.
Paulo. Isto fica provado tambem pelo seguinte facto.
Ha diversas especies que, desde a Bahia até S. Paulo,
são representadas por uma, de S. Paulo ao Rio Gran-
de do Sul por outra subspecie ou especie correspondente.
Assim é o beija-fôr Stephanoxys lalandi, commum nc
Rio de Janeiro e em S. Panlo, substituido no extremo
— 380 —
sul de S. Panlo, no Rio Grande do Sul e no Paraguay
por Stephanoxys loddigesi (Gould). O Bem-te-vi de S.
Paulo e da Bahia é Prtangus sulphuratus maximilianr,
ao passo que no Paraguay vive a subspecie P. sulphu-
ratus bolivianus, que é a forma representada no Rio
Grande do Sul ena Argentina. Estes factos não nos dei-
xam duvida alguma sobre a região onde se realiza ou rea
lizou a permuta entre os elementos faunisticos entre o
Brazil meridional e o Paraguay, região que por certo não
fica situada no Est. de S. Paulo, porém mais ao sul.
E” preciso, entretanto, lembrar-se que nem todas as
especie caracteristicas do Brazil meridional occorrem
tambem no Paraguay.
O numero das especies caracteristicas do Brazil me-
ridional que occorrem em S. Paulo é de 191 e des-
tas só 106 são conhecidas tambem no Paraguay. Não
duvido que muitas dentre as que faltam ainda tem de
ser encontradas naquelle paiz, mas ha outras que pare-
cem representar elementos proprios às mattas da Serra
do Mar. Estes elementos pertecem particularmente aos
seguintes grupos :
I ranacrip#. Os generos Rhaimphocelus, Or-
thogonys, Cypsnugras, Chystochlamys e Orchesticus.
Il PIPRIDÆ E OXYRHAMPHIDÆ. Os generos l-
cura, Macheropterus, Manacus, Plilochloris, Neopelma
e Oxyramphus.
HI corrisama. Os generos Ampelion, Chasma-
rhynchus, Tijuca, Lathria, Lipaugus, Attila e Yodo-
pleura. Podemos accrescentar ainda os generos Cot-
tinga e Calyplura occorrentes desde o Norte. até o Rio
de Janeiro mas não observados ainda em S. Paulo.
IV rormicarup#. Os generos Bataro, Bratas,
Myrmotherula e Drymophila.
Vrrocuinip#. Os generos Heliothrix, Rhampho-
don, Clytolaema, Melanotrochilus, Ptochoptera e Lo-
phornis. Deixei de mencionar o genero Petasophora
por acreditar que a especie de S. Paulo, que é conhe- |
cida tambem de Tucuman, Argentina, ainda deverá ser
encontrada no Paraguay. O mesmo desconfio do ge-
nero Macropsalis da familia Caprimulgide.
— 381 —
VI coccyces. Os generos Malacoptila, Andige-
na e Selenidera.
Além destes generos noto ainda os seguintes, per-
tencentes a varias familias: Pogonotricus, Dendrocichla,
Merulaxis, Triclaria, Leucopternis, Dafila, Zonibyx.
Deixando fóra de consideração isolados represen-
tantes de diversas familias, visto que, provavelmente,
ao menos em parte, ainda serão verificados no Para-
guay, temos a constatar o facto que de varias familias
numerosos generos representados em 'S. Paulo não oc-
correm no Paraguay. Entre estas aves encontram-se
insectivoras, que são as Formicarudas e Trochilidas,
ao passo que as outras são, essencialmente, frugivoras.
Não é, por conseguinte, o modo de nutrimento que for-
nece um caracter biologico, commum a todas estas aves,
mas ha um ou outro caracter de importancia geral que
é a vida mais ou menos ligada ao matto virgem. Isto
se evidencia, por exemplo, pelo exame ao qual submetter-
mos os membros da familia Cottingido da qual os re-
presentantes dos generos Pityra, Pachyrhamphus, Ca-
stornis e outros, que são encontrados tambem fora da
matta, especialmente nas capoeiras, existem tambem no
Paraguay, ao passo que os generos indicados como pro-
prios ao Brazil oriental, nunca deixam o matto serrado.
Egualmente entre os Formicarudas e Dendroco-
laptidas ha generos cuja vida é quasi exclusivamente
ligada ao matto serrado, como Dendrocichla, Myrino-
therula e outros e estes não occorrem no Paraguay,
ao passo que muitos outros generos, como por exemplo,
Thamnophilus, procuram tambem a capoeira e sendo
por esta razão representados no Paraguay. Explica-se
deste modo tambem a distribuição vasta dos 7yranni-
das, insectivoros, sendo os generos e em grande parte
as especies, occorrentes no Paraguay, identicos aos
de S. Paulo.
Convem notar que tambem entre as aves caracte-
risticas da fauna central do Brazil ha um certo numero
de especies que occorrem na regiãc noroeste de S. Paulo
e que não tem representantes no Paraguay. São, entre
outros generos deste grupo, os seguintes, dos quaes, até
— 382 —
agora, não se conhece representantes do Paraguay :
Tiara, Muscipipra, Piprites, Antilophia, Pipra, Geo-
bates, Aphantochroa, Heliactinia, Chelidoptera, e toda
a familia dos Galbulide.
A comparação da avifäuna do Paraguay com a de
São Paulo, demonstra-nos, em primeiro logar, a razão
da grande semelhança na presença em ambas as regiões
de representantes dos grupos de aves de distribuição vasta,
seja no Brazil ou ainda fora de seus limites. Além
destes traços communs, mais accentuadas ainda pelas
numerosas especies communs da fauna do Brazil do Sul,
temos a notar alguns representantes de outros grupos
faunisticos, como dos do Norte do Brazil e da Argen-
tina, mas, estes em geral são de pouca importancia.
Das especies do elemento fäunistico da Argentina,
occorrem 31 no Paraguay, ao passo que temos apenas 4
no Estado de São Paulo, e estas só no oeste e sul do
Estado.
_ Estas especies foram observadas apenas em Iguape(1),
onde chegaram evidentemente do Rio Grande do Sul
ao longo da costa, seja no correr dos ultimos seculos,
seja já na épocha pleistocena, quando o littoral do Bra-
zil meridional se extendia ainda muito para leste, incluindo
então este territorio as ilhas de São Sebastião, Santa
Catharina e outras.
O que em comparação com a fáuna do Paraguay
nos parece o mais notavel, é não a ausencia, em São
Paulo, dos typos da Argentina central e do noroeste
e tão pouco a presença em São Paulo de numerosas es -
pecies distribuidas dahi até a Bahia, mas o facto de
que entre as numerosas especies do Brazil meridional
existe tão grande numero de typos carecteristicos à
zona da Serra do Mar, qne faltam no Paraguay, ao passo
que no Brazil são encontrados ainda em Santa Catharina
e no Rio Grande do Sal.
Estas notaveis diferenças fiunisticas não se expli-
cam por differenças das condições geraes biologicas. O
(1) Compare-se, sobre esta questão a nossa discussão nesta
Revista, vol. V. 1902, pag. 305.
== SS a
aspecto geral do paiz, sua vegetação, seu clima e outros
factores, que influem sobre a distribuição das aves, são
mais ou menos os mesmos.
Nestas condições, somos levados à convieção de que a
causa desta distribuição pouco homogenea é dada por
barreiras que impedem a passagem de certas aves. E
preciso, neste sentido, lembrar-se do que já dissemos
com respeito aos macacos. Ao passo que desde a Ba-
hia atê o Rio Grande ao Sul, vive, nas mattas da serra,
o bugio ruivo ( Alowata fusca Geoftr. ), esta especie é
substituida no Paraguay e até nas Missões argentinas
por outra especie, bem differente, o bugio preto ou ca-
raja ( Alouala migra ).
Evidentemente, as mattas e o clima não são a razão
desta distribuição, mas, devem existir barreiras que estes
animaes não podem transpôr, sejam caudalosos rios,
sejam vastas planicies de campos. O que neste caso se
da com os bugios, repete-se com os macacos do genero
Cebus e o mesmo se dá evidentemente com muitas aves,
cuja vida é inteiramente ligada à matta virgem.
Têm-se comparado muitas vezes, aos macacos, 0s
papagaios, por causa da sua habilidade em trepar nas
arvores. Os papagaios, entretanto, são excellentes voa-
dores que, com facilidade, passam de um capão a outro,
e mesmo de uma serra a outra.
A mesma’ falicidade na locomoção não é, entretanto,
dada a todas as aves silvicolas. :
Ha muitas entre ellas que nunca sáhem do interior
das mattas e aves desta ordem naturalmente nos offe-
recem uma distribuição analoga à dos macacos.
Embora um rio de regular largura para ellas não
forme um impedimento de distribuição, como para os
macacos, comtudo ê este 0 caso com respeito aos cam-
pos. Si de um lado d'um rio ha matto virgem, come-
cando, no lado opposto, a extender-se immensos campos
monotonos, como por exemplo acontece com o rio Pa-
rand e Rio Grande, nos Estados do Paraná e S. Paulo,
então é essa região para os animaes das mattas, uma
barreira tão eficaz como o mar. Sao estes factores que
nos explicam as indicadas differenças faunisticas entre
ou
S. Paulo e o Paraguay. De certo a exploraçäo mais
minuciosa do Paraguay descobrirá ainda certo numero de
especies do Brazil meridional, mas até certo ponto estas
modiiicações podem agora ser previstas, porque temos não
sómente um conhecimento regular da avifauna das dua
regiões, mas tambem uma clara orientação sobre os di-
versos elementos que a compõem. São estes os factores
que nos habilitam a comprehender não só as differen-
cas e analogias faunisticas, mas que tambem, attendendo
às condições biologicas das respectivas aves, nos auxili-
am a comprehender as causas de que depende a distri-
buição geographica dos diversos elementos faunisticos.
A avifauna do Paraguay póde ser considerada como
uma parte integrante da do Brazil meridional, só pouco
modificada pelo apparecimento de elementos da fauna ar-
gentina. E' relativamente diminuto o accrescimo por es-
pecies originarias do Alto Amazonas, ao passo que no lado
oriental do Brazil os typos amazonicos se exteudem desde
o Pará até Santa Catharina e Rio Grande do Sul.
O que maior surpreza nos causa no exame com-
parativo da avifauna do Paraguay é o grande numero
de generos que, sendo caracteristicos para as mattas do
littoral do Brazil meridional. faltam no Paraguay. Isto
parece indicar a existencia de uma linha divisoria zoo-
geographica, composta, em parte, por caudalosos rios,
em parte por campos, que impede a mixtura completa
dos mammiferos, aves e outros animaes, cuja vida é liga-
da completamente à matta virgem.
A analogia entre a avifauna de S. Paulo e a do
Paraguay não é devida a relações directas, mas só à
visinhança do Estado do Paraná, em cujo sertão existe
o ponto de contacto entre as duas provincias Z00ge0-
graphicas. Dependerá, pois, da exploração zoologica
dessa zona do Estado do Paraná, bem como da região
visinha do Paraguay, a possibilidade de elucidar com-
pletamente os interessantes problemas zoogeographicos
que neste estudo foram discutidos.
LS OI ——
O. RIO CERT A
POR
H. VON IHERING.
Com estampas VIII — XVI
I. O valle do Juruá e seu clima
O Rio Juruá, apesar de ser um dos mais considera-
veis affluentes do Rio Amazonas e uma importante via de
communicação, utilizada por muitos e grandes vapores,
é todavia até agora só muito imperfeitamente conhecido.
As primeiras noticias sobre o rio devem-se a Ma-.
noel Urbano da Encarnação. |
Tambem encontram-se dados sobre o mesmo na
obra de Charles Brown, 15000 Miles on the Amazonas.
Brown era chefe da commissão de engenheiros ingle-
zes, que, em 1874, subiu o rio. Mais demoradamente,
attendendo principalmente à navegabilidade, explorou o
rio o inglez W. Chandless. O trabalho de Chandless,
que contem um mappa minucioso, foi publicado no anno
de 1864 no Journal of the R. Geographical Society
of London, vol. XX XIX. O ponto extremo, rio acima,
attingido por Chandless foi 7°12’ S. 72°1 1/2 O.
Os resultados desta primeira exploração do Rio
Juruá formam o objecto de um artigo do Diario Offi-
cial do Rio de Janeiro. Esse artigo reproduzo em
parte, mais adeante, da obra de Alfredo Moreira Pinto :
Apontamentos para o Diccionario Geographico do Bra-
zul, Rio de Janeiro, 1896, p. 336.
|
4
— 386 —
O mappa de Chandless foi aproveitado para o grande
Mappa Geographico do Estado de Amazonas, por
Ermanno Stradelli, publicado em 1901.
Sobre o curso superior do Rio Juruá parece que
ainda reina alguma incerteza e não está bem claro pelos
mappas existentes, se as nascentes do rio se acham
na Bolivia ou no Perú. Um mappa publicado em 1902
pela casa Laemmert & Comp., Rio de Janeiro— O Acre,
por Horacio Williams, discorda algum tanto do supra
mencionado de Stradelh. Não se encontra nelle, por
exemplo, o logar S. Felippe, por outro lado acham-se
dous nomes Pracovia e Muray, aos quaes não corres-
pondem villas ou povoações e que provavelmente dizem
respeito a seringaes.
Quanto uma definitiva determinação dos limites
entre o Brazil, a Bolivia e o Perú é de desejar, se
deprehende das constantes reclamações contra invasões
de peruanos em territorio brazileiro e principalmente
tambem da questão de limites que pende actualmente
entre o Brazil e a Bolivia sobre a região do Acre.
Uma exploração scientifica da região do Juruá por
naturalistas ainda não se tinha feito, o que motivou o
emprehendimento de uma expedição custeada pelo Museu
de S. Paulo; foi incumbido de percorrer aquella região o
sr. Ernesto Garbe, naturalista viajante do Museu, o qual
foi acompanhado por seu filho Walther nesta viagem,
levando elles ao cabo, com muito tino, com bastante
dedicação, esta empresa. Comquanto os resultados desta
viagem consistam principalmente nas ricas collecções
zoologicas, cujo estudo ainda não foi concluido, pare-
cia-me tambem indicado publicar uma resumida des-
cripção da paizagem, de sua natureza e da sua população,
para o que, além do material trazido para cá, me servem
as informações que o sr. Garbe me forneceu.
O sr. Garbe partiu no dia 12 de Setembro de 1901
do Rio de Janeiro e chegou em primeiro de Outubro
a Manäos, dirigindo-se dessa cidade em 15 de Outubro
para o Rio Juruá. A viagem até S. Felippe durou 23
dias, onde os viajantes se demoraram desde o dia 7 de
— 387 —
Novembro de 1901 atê 22 de Janeiro de 1902. Os
mezes seguintes o sr. Garbe passou nos seringaes de
Matupiry e Dejedah, e o tempo de Agosto até Outubro
na parte chamada Centro, na região mais elevada. entre
os cursos superiores dos Rios Juruá e Purús. Em 26
de Dezembro elle regressou de Matupiry a Maná s, onde
chegou em 1.º de Janeiro de 1903. Depois de alguma
demora na cidade de Santarem, com o fim de augmentar
as colleccôes, voltou elle em Fevereiro a São Paulo.
Sobre as relações hydrographicas cito aqui a des-
cripção supra mencionada.
«O rio Juruá é affluente da margem direita do Ama-
zonas. E'de agua branca ou barrenta como o Purus;
é um terço menor que este, porém, no seu aspecto
physico. é muito parecido.
Na parte inferior tem o Juruá uma largura regu-
lar de 230 a 250 braças, e talvez em um ou outro logar
até 300, com sete a oito de fundo e ainda dous a 20.
A 900 milhas da féz tem 60 ou mais braças de largura,
com quatro e meia de fundo; aqui porém, só ha meia
braça ou tres quartos a encher. Em certos logares, es-
pecialmente abaixo das barreiras se nota muito mais; e
a 890 da fôz nove e meia braças. No ultims estirão (para
chegar à fóz) diz W. Chandless, achei de 9 e meia até
mais de 11; mas no geral as sondagens, feitas sempre
no canal, variam pouco, sendo mais inferiores onde não
ha praia no lado opposto, e maiores onde ha ponta de
terra firme. E” excusado dizer que não foram continuas.
Ate onde cheguei, 980 milhas geographicas, e appro-
ximadamente, o unico impedimento à navegação é um
baixio, erradamente chamado Urubu-Cachoeira, embara-
cado de páus, mas, pelo que pude vêr, com pouca pedra
e esta sO ao lado esquerdo. Dizem que nas vasantes
fortes é difficil se passar mesmo para montarias. No
fim de Novembro, sondando continuamente no meio do
rio, não achei menos de cinco e meia braças, e este
tinha (quando menos) uma e meia a encher. Assim,
durante a maior parte do anno, não haverá impedimento
à navegação para um pequeno vapor.
— 383 —
Cincoenta milhas abaixo do Urubü-Cachoeira ha
um banco de pedra denominado Cachoeirinha, na beira
da praia, do lado esquerdo, mais ou menos parallelo
com o rio.
O Juruá não tem, ilhas, tem. porém, varios paraná-
mirins e até muito extensos. Desde a latitude 6°30’ S.
até a foz o Juruá tem um rumo não muito differente
do que geralmente se lhe dá nas cartas. Mais acima,
em uma distancia consideravel, corre quasi EO. Recebe
varios tributarios., entre os quaes o Chiruan, Tarauacá,
Mu e diverses paraná-mirins. Suas margens são habi-
tadas pelos Marauás, Catanaxis, Culinos, Conibos, Cu-
niuás e outros.»
O Juruá tem, como o Solimões, agua de côr ama-
rellada, emquanto o Rio Chiruan, seu afluente, que
egualmente foi visitado pela expedição, tem agua pre-
ta. Em geral os rios desta ultima ordem são julgados
mais insalubres, e as regiões adjacentes mais assola-
das pelas febres.
Sobre este assumpto, a differença da côr dos rios
brazileiros, foi, ha pouco publicado um trabalho em
alemão do Sr. Di. Josef Reindl com o titulo: Die
schwarzen Fluesse Suedamerikas. Hydrographische
Studie - auf geologisch-orographischer, phystkalischer
und biologischer Grundlage, Muenchen 1903. Dou em
seguida um ligeiro resumo desta interessante publi-
cação.
«Por muitos viajantes, diz o auctor, tem sido no-
tada a côr preta de alguns rios do Brazil, à qual tam-
bem alludem nomes como Rio Negro, Rio Pardo;
poucos, entretanto, tem-se demorado mais neste pheno-
meno ou procurado dar uma explicação delle. O Dr.
Josef Reindl é o primeiro que apresenta uma solução
satisfactoria deste problema, baseado no estudo de todo.
o material concernente a estes rios que existe na li-
teratura e em interessantes experiencias emprehendidas
por elle para esclarecer a questão.
Os resultados aos quaes chegou, bem definidos e
— 389 —
convincentes. porque assentam sobre processos chimicos
facilmente verificaveis, são os seguintes :
Encontramos os rios de agua preta só em terre-
nos de rocha primitiva, pedra areenta e argilla, porém
nunca em terreno calcareo. Explica-se isto pelo facto
que as aguas daquelles terrenos contêm alcalis em so-
lução, os quaes se combinam com os vegetaes em de-
composição contidos n'agua, formando combinações com
o acido humoso, que são soluveis e tingem a agua de
preto. Nestas combinações separa-se o acido silico do
feldspath que é branco, pelo que se explica que o fundo
dos rios pretos é branco.
Muito differente é o que se passa nos rios de ter.
renos calcareos. Estes contêm bicarbonato de cal e ma-
gnesia em grandes qnantidades, que tambem entram em
combinações com o acido humoso dos vegetaes em de-
composição, mas estas combinações não são facilmente
soluveis e por isto são depositadas no fundo dos rios,
que assim se cobrem com uma camada preta, em-
quanto a agua mesma tem a côr clara.
Tambem a transformação de rios pretos em cla-
ros, desde que entrem em terreno calcareo, compre-
hende-se por meio destas combinações chimicas.
O calcio do bicarbonato de cal, formado pela solu-
ção do carbonato de cal, expelle os alcalis das combina-
ções com o acido humoso fotmam-se assim combinações
de calcio e de magnesia com o acido humoso e estas se
depositam no fundo do rio, tornando-se a agua clara.»
Se bem que concorde inteiramente com as ex-
plicações dadas pelo auctor sobre a côr dos rios, acho
entretanto que ê necessario um exame mais minucioso
quanto aos rios que são mencionados como obedecen-
do às leis citadas, porque o numero dos mesmos me
parece demasiadamente grande, comprehendendo quasi
a totalidade dos rios brazileiros.
São Felippe em 6°36’S é o extremo ponto rio aci-
ma visitado pelo Sr. Garbe.
Affirma-se ahi que os vapores ainda podiam con-
tinuar a-subir o rio durante quinze dias, mais ou me-
—_ MODE
nos, porém isto sómente com aguas altas ou medias.
Nos mezes de Novembro e Dezembro de 1902 esta=
vam na fronteira da Bolivia, no Juruá, 23 vapores en-
calhados, que sô em começo das enchentes se safaram.
A differença entre as aguas mais baixas e mais
altas é na região entre São Felippe e Matupiry 10-11
m. O rio alaga a terra baixa em algumas partes até
a distancia de 120 kilometros.
Em tempo das aguas baixas existem numerosos
lagos que communicam com o rio.
Perto de Matupiry esta situado um destes lagos
com 250 m. de largura e 49 km. de comprimento,
visivelmente o resto de um antigo braço do rio. Em
tempo das innundações confundem-se todos estes lagos
Ro com o rio numa unica enorme massa de aguas.
O rio é sinuoso com abundantes voltas, nas quaes
quasi sempre na beira concava se observa um barran-
co alto e do lado opposto um banco de areia (praia).
Estas voltas são tão numerosas e seguem-se com tal
regularidade que os habitantes avaliam por ellas as
distancias. Em viagens rio abaixo calculam-se 20-40
praias por dia, e, subindo o rio, a canoa pode vencer
9-0 leguas, (a 6600 m.) por dia.
O clima nas regiões do Juruä é em geral agra-
davel e salubre, não se conhecendo quasi as febres mali-
gnas e os habitantes apresentariam condições physicas
ainda mais favoraveis, se a alimentação fôsse melhor.
Em Novembro ou Dezembro começa o tempo das chu-
vas, que dura até Março ou Abril, prolongando-se a
enchente até fins de Maio e Junho. A estas variações
hygrometricas não correspondem oscillações eguaes na
temperatura, que se conserva durante o anno inteiro quasi
constante. Nos mezes de Março e Abril faz-se sentir
uma friagem, occasionada por ventos frios, que sopram
da Cordilheira, dando lugar a neblinas, que fazem o
thermometro descer a 14º Celsius. Este frio torna-se
incommodativo, principalmente para os indios, que, en-
voltos em copertores, passam estes dias em completa
inercia nas rêdes.
SO =
Il. Flora e fauna
A vegetação não era objecto de especial estudo
por parte de nossa expedição, tambem nada indicou
que ella fosse muito differente das regiões visinhas
Provavelmente teremos a este respeito de registrar em
breve um estudo d'um naturalista eminentemente com-
petente, do botanico Sr. E. Ule, que em suas viagens
na região do Amazonas visitou tambem o Juruá. Em
toda esta região não ha campos, sômente agua e mat-
to formam a nota caracteristica da paizagem. Arvo-
res imponentes de grossos troncos não se encontra
com frequencia, porém ellas chamar: a attenção pela
altura consideravel dos esguios troncos direitos. Mui-
tas elevam-se a alturas taes, que se torna dificil atirar cs
passaros que pousam em suas copas. Para explorações
futuras da mesma ordem sera por conseguinte recom-
mendavel apparelhar arvores para os fins da caça, de
modo que se as possa subir com facilidade e onde se dis-
ponha de um ligeiro abrigo em cima; os logares mais
proprios para isto seriam os na visinhança de arvores
carregadas de flores ou fructas. Estas ultimas fornece-
ram-nos um grande numero de papagaios, tucanos, Co-
tingides e Capitonides. A caça dos passaros menores é
muito mais difficil por causa da altura das arvores, e por
esta razão a quantidade de beija-flores arrecadados é
minima, apezar de elles terem sido vistos em bandos
nas arvores florescentes. Taquara, moutas e arvores
menores cerram o matto, entrelaçadas por cipós, com
muitas parasitas, entre as quaes as orchideas não abun-
dam tanto, e assim se explica que a caça, maxime as
aves sendo pequenas, facilmente se perde neste emma-
ranhado de galhos, flores, taquara e cipós.
Muito variada é tambem a vegetação dos rios
mesmo; no rio encontram-se numerosas Pontederias,
notadamente ilhas fluctuantes de Eichhornia, emquanto
nos lagos e braços mortos se depara con a Victoria
regia.
— 392 —
A fauna do Juruá não diverge em nada d’aquella
dos outros affluentes menos distantes. O estudo della
apresenta um interesse especial pela falta absoluta de
campos, de sorte que sômente temos de occupar-nos
de dous elementos bioccenoticos: a fauna do mátto e
a do rio e das aguas que communicam com elle.
Entre os animaes terrestres encontramos além dos
typos de larga propagação geral, das mattas brazilei-
ras, muitos que são particulares do Amazonas, espe-
cialmente ao curso superior deste rio. D’aquelles men-
cionamos a anta, os porcos do matto, veados, os ta-
mauduäs grande e pequeno, a onça, puma e outros ga-
tos, os coatis de genero Nasua, e ariranha e lontra, as-
sim como dos roedores a pacca e capivara. Entre os
representantes caracteristicos desta fauna deve-se men-
cionar em primeiro logar os quadrumanos, dos quaes
colligiram-se não menos que 16 especies. Destas fa-
zem parte uma especie de bugio, 2 especies de maca-
cos do genero Cebus, o Coata (Ateles paniscus L.) o
Barrigudo (Lagothrix lagothrica Humb.), o Parauacú
(Pithecia monachus Humb.) e uma serie de especies de
Callithrix, Hapale e Midas e o Nyctipithecus azarae,
notavel por assobiar de noute. Egualmente são abun-
dantes entre os roedores em primeiro logar os cachin-
gueles ; de outros representantes desta ordem notam-se
2 cutias (Dasyprocta fuliginosa Wagl. e D. acouchy
Erxl.), a Dactylomys dactylinus Desm. e diversos ratos
de espinho. Entre os desdentados não foram obtidos
tatús que, si occorrem, são raros; no emtanto obtive-
ram-se de preguiças Bradypus infuscatus e Choloepus
didactylus L., chamando-se esta «preguiça real»; ra-
ros são os marsupiaes, frequentes os morcegos. Entre
as aves sobresahem : tucanos, papagaios, Trogonide,
Capitonidæ e outras, quasi todas ostentando multiplas
cres intensamente vivas. Não menos vistosas são en-
tre as aves aquaticas os differentes representantes dos
generos Agamia, Eurypyga, Psophia e outros, ao lado
dos quaes tambem não faltam as garças, os jaburus, ete.
Embelleza ainda o matto o Mutum (Mitua mitu L.), que
En
,
ao mesmo tempo é uma caça excellente, além do qual
existem muitos outros gallinaceos e Crypturidæ. Nas
praias indificam andorinhas do mar. (Phaetusa magni-
rostris e Sterna superciliaris).
Muito vulgar no Juruá é o Ibycter fasciatus, uma
ave de rapina preta, que foi, ha mais de 80 annos,
descoberta por Spix na embocadura do Juruá e não
mais observada de là em diante; talvez ella seja limi-
tada ao valle do Juruá. Numerosos são em nossas
colleeções os pica-pãos, muito raros os pombos. Entre
os passaros cantadores distinguem-se os Icteridee, prin-
cipalmente seus representantes grandes dos generos
Ostinops e Gymnostinops.
As Tyrannidas estão fracamente representadas e is-
to só por algumas especies de vasta distribuição, como
Tyrannas, Pyrocephalus, Muscivora e outras que, embora
evitem o matto, habitam comtudo nas baixadas humidas
ao longo dos rios.
Excedem longe às outras familias os Formicariidas
e Dendrocolaptidas, passaros insectivos dos mattos tro-
picaes, aos quaes se apresertam aqui evidentemente con-
dições de existencia summamente favoraveis. Os beija-
flores são muito abundantes e subtrahem-se à caça por
sua pequenez e pela altura consideravel das arvores,
cujas flores procuram. Entre os reptis são escassamen-
te representados os lagartos e as cobras, excedendo-os
em numero os seus parentes aquaticos e da beira da
agua.
Entre os amphibios predominam as rãs das arvo-
res, mas é difficil pegal-as e muitas vezes obra lo aca-
so; egualmente desfavoraveis são as condições de col-
ligir caracões terrestres, dos qvaes a grande e bonita
especie Liguus regalis Hupé, foi colligida em arbus-
tos e arvores, para as quaes se tinha refugiado duran-
te a enchente.
De insectos foram reunidas ricas e bellas colle-
eções, principalmente de Coleopteros e Lepidopteros.
Dignas de menção especial são ainda as preciosas col-
lecções de vespas sociaes e vespeiras. Formigas corta-
— 394 —
doras de folhas do genero Atta, são vulgares em toda
a parte. Kcorpides só viram-se poncos, carrapatos (Ixo-
did), pulgas e bichos de pé não foram encontrados.
Uma verdadeira praga, um flagello dessas regiões for-
mam as numerosas moscas picadoras e os mosquitos.
Emquanto nos mattos os pernilongos são communs,
infestam pequenas moscas as partes livres da margem
do rio. Estes insectos, que lá chamam «pium» produzem,
como os nossos «borrachudos» do genero Simulium,
pequenas feridas em fórma de manchas. redondas de
cor vermelha, que comicham muito e perduram bas-
tante tempo. Em alguns logares. como no rio Chiruäo
ha destas moscas em tanta abundancia que estas loca-
lidades se tornam inhabitaveis. O Sr. Garbe viu-se
compellido por esta razão a executar todos os seus tra-
balhos de preparação de baixo de rede de mosquitos.
Passando para a fauna aquatica, altrahe em primei-
ro logar o nosso interesse o Peixe-boi, Manatus inun-
guis Natterer; ha exemplares deste mammifero de di-
mensões enormes.
De peixes bôtos notam-se 3-4 espscies do genero
Inia, dos quaes infelizmente não se poude obter ne-
nhum exemplar, porque os moradores, cheios de pre-
conceitos supersticiosos recusavam-se a matal-os. Ao
lado destes mammiferos chamam mais a attenção os
jacarês e as tartarugas. Daquelles veem-se exemplares
enormes do Jacaré-assi de 3-4 m. de comprimento.
Tambem encontra-se o pequeno Jacaré-tinga (Caiman
sclerops Schn.) Das tartarugas é a mais importante a
Podoenemis expansa Schweigg. que ahi, como em toda
região amazonica, tem um papel importantissimo na
alimentação da população. O mesmo se dá com a Tra-
caxà (Podocnemis unifilis Trosch.), sendo as especies
menores sem valor para o homem. Nos mattos vive
o grande Jabuti (Testudo tabulata Walb.)
Um exemplar que durante algum tempo se con-
servou preso punha com intervallos de algumas se-
manas cada vez um ovo redondo, de casca dura, com
um diametro de 5) mm. Em meiados de Julho as
— 395 —
praias acham-se em geral seccas, começando então as
tartarugas a por os ovos. Antes do clarear do dia diri-
gem os homens suas canôas às proximas praias. Facil-
mente descobrem o rasto das tartarugas e tambem os
logares onde os ovos se acham enterrados na areia.
A pequena Pitiú (Podocnemis sextuberculata Corn.) não
se afasta muito da agua para pôr os ovos, que são
molles, ovaes e tem um diametro de 46 X 27 mm.
O sr. Garbe encontrou os ovos da mesma em co-
vas de 15—20 cm. de profundidade, ordinariamente em
numero de 6—8, raras vezes mais que 10 em uma cova.
Os ninhos estão cobertos de areia, que ainda apertam
com os pés.
A especie maior, a Tracaxa, caminha muitas vezes
mais de 100 m. pelas praias, cava buracos mais fundos
(até 50 em.) e põe 25—40 ovos, A maior parte das
veres encontravam-se 28 —35 ovos num ninho. Os ovos
destas duas especies são muito saborosos ; batidos com
assucar e misturando-se farinha: constituem um prato
excellente e que completa de alguma forma o passadio tão
escasso no. barracão. E de lastimar que este tempo de
abundancia só seja de tão curta duração ; já em fins de
Agosto é raro descobrir-se um ninho destes animaes
eminentemente uteis. A tartaraga grande (Podocnemis
expansa Schw.), que tanto no Juruá como nos outros
afluentes se acha em grande numero, põe, de Setem-
bro até Dezembro, duzentos e mais ovos. Conforme o
gosto algum tanto singular daquella gente, os ovos tor-
nam-se mais apreciaveis, estando já chôcos.
De peixes reuniu-se uma instructiva collecção, cujo
estudo ainda não se concluiu. Sobresahe lã, como em
toda outra parte do Amazonas o Pirarucü, que alcança
um tamanho de 2m.50 e cuja carne secca forma uma
parte importante da alimentação e do commercio.
A grande Sciaenida (Plagioscion squamosissimus
Heckel) chamada Pescada, representante de uma familia
de resto exclusivamente marinha, é frequente e apreciada
como alimento. E’ uma singularidade interessante, como
neste grau só o Amazonas nol-a apresenta, de encontrar-
— 396 —
se à distancia de milhares de milhas da costa do mar
exemplares de generos marinhos e de vel-os perseguidos
por cetaceos de dentes ponteagudos; andorinhas do mar,
descrevendo sobre a agua suas curvas em vôo ligeiro,
emquanto no fundo do rio vivem arraias espinhosas.
Dizem que ha enguias electricas nos lagos ao lon-
go do rio, porém não foi colligido nenhum exemplar.
Mencionamos ainda as Piranhas do genero Serra-
salmo, tão temidas pelos dentes aguçados, das quaes al-
gumas especies maiores são pescadas com anzol, sendo
aproveitadas como alimento.
Os resultados zoologicos desta exploração do rio
Juruá, com os quaes me occuparei ainda mais detida-
mente, são a muitos respeitos de grande interesse. Não
só nos referimos à descoberta de novas especies e à ex-
ploração faunistica desta região, mas principalmente às
condições biologicas tão particulares desta parte do Bra-
zil. Emquanto no curso inferior do Amazonas entre os
affluentes predominam os campos, fazem estes completa-
mente falta na região do Juruá, e provavelmente tambem
na dos outros affluentes mais para cima. Sem interru-
pção extende-se sobre áreas immensas a matta virgem
da Hylæa em depositos alluviaes, de sorte que não se
verifica pedra em parte alguma.
Apresenta-se-nos pois a fauna do Juruá como pro-
nunciadamente silvestre. Si comtudo não esta livre de
mistura, provem isto da circumstancia que ao longo do
rio e dos lagos adjacentes, além das aves aquaticas, tam-
bem aves dos campos, principalmente as que se alimen-
tam de insectos, encontram terreno apropriado, visto que
preferem em toda a parte as baixadas humidas.
Assim explica-se a occorrencia de representantes
dos generos Tyrannus, Milvulus, Pitangus, Empilonomus,
Pyrocephalus, Ammodromus e outros, que costumam
achar-se nos campos ou em terreno mixto.
Quem não attende a estas circumstancias não sabe
avaliar as difficuldades que no Sul do Brazil se oppõem
a uma discriminação das faunas do campo e do matto.
De maneiras multiplas confundem-se aqui campos e mat-
— 397 —
tos e as habitações humanas, as estradas, etc., contri-
buem por sua parte para a constante transformação da
paizagem. Quanto aos animaes não lhes existe diffe-
rença alguma entre os campos naturaes e aquelles que
se formaram pela derrubaçäo de mattas; de cada cla-
reira que apparece apodera-se a fauna do campo.
Assim podemos provar que muitos animaes no de-
curso dos ultimos 80 annos, isto quer dizer desde a ex-
ploração minuciosa do Estado por Natterer, invadiram
o Estado de S. Paulo, vindos de Oeste, como por exem-
plo o João de barro, Furnarius albigularis Spix, o rato
aquatico, Nectomys squamipes Brants, Coryphodon pan-
therinus Daud., chamado cobra-nova e outros mais. Mas
tambem nos animaes silvestres, até nos vagarosos cara-
mujos, notamos a mesma migração do Occidente para o
Oriente, que associa cada vez mais elementos das faunas
da Bolivia e Matto Grosso à de S. Paulo. Deverá ser
por isto um dos fins principaes dos estudos biologicos
do Brazil, fazer uma discriminação analytica dos ele-
mentos das faunas do campo e do matto. Neste sen
tido tem-se feito pouco por emquanto; o trabalho de
Reinhardt, por exemplo, sobre os passaros dos campos de |
Minas é antes uma enumeração das aves observadas na-
quelle Estado do que daquellas que são particulares aos
seus campos.
Nestas circumstancias, o estudo systematico de um
grande territorio de matta virgem offerece especial in-
teresse e é de desejar que se continue a exploração co-
mecada do rio Juruá, sendo levada a uma conclusão
satisfactoria. Além da conveniencia de obter certeza
sobre os elementos que compõem a fauna silvestre, cum-
pre saber quaes são os que faltam nella absolutamente
e que se deve considerar por isto habitantes caracte-
risticos dos campos. Neste respeito é claro que o aves-
truz, a seriema, a perdiz e outras aves semelhantes não
se podem encontrar nos mattos, porém estamos em du-
vida quanto aos pombos. Notavel é a ausencia do zor-
rilho (genero Conepatus) e dos preás (genero Gavia); tam-
bem merece reparo a circumstancia de não se encontrar
— 398 —
mangangavas ‘Bombus) e vespas sociaes do genero Po-
listes, o que se deve extranhar, principalmente em rela-
ção ao ultimo genero, que em toda parte se acha onde
se fixa o homem e que não se viu no Juruá, apezar
de se attender expressamente ao assumpto.
IL População e producção
O Juruá é 9 unico meio de communicação em toda
essa vasta região e as habitações acham-se por isto
todas em suas margens ou nas de seus affluentes. Os
vapores gastam em geral na viagem de Manäos a 8.
Felippe 16-17 dias, dos quaes 6 no Solimões. A dura-
ção um pouco maior da viagem do sr. Garbe explica-
se pelas repetidas paradas do vapor. De regresso a Ma-
nãos leva-se de ordinanio 10-11 dias. O preço da pas-
sagem até S. Felippe é 3034000 réis, monta porém a
900$000 réis para a viagem inteira, atêéo ponto final, si-
tuado e:n terreno peruano. Os vapores caminham tambem
de noute; o maior perigo que elles têm a receiar são
troncos de arvores encobertos pelas aguas. De 23 va-
pores, que em Novembro de 1892 estiveram em via-
gem no alto Juruá, ficaram 4 damnificados desta forma ;
elles tinham de ser rebocados por outros vapores para
uma praia, afim de serem concertados. Escalas certas
além de S. Felippe não ba, mas os vapores costumam
parar onde se precisar delles, sendo o signal tres tiros
desfechados em seguida. O transito em menores distan-
cias não se faz no Juruá, como no Sul do Brazil, em
canoas, mas em embarcações construidas de taboas, e
munidas de toldo para proteger os passageiros contra 0
sol. Taes embarcações vêem-se em nossas estampas. Os
Indios que vivem ao redor de S. Felippe são das tribus
dos Mauacäs, Canamaris e Masculinos, nome este pro-
vavelmente corrompido e identico com o dos Culinos men-
cionados por Chandiess. Os Masculinos moram na mar-
gem direita do rio, de preferencia no Centro, os Ganama-
ris na margem esquerda. Com os Mauacäs, que moram
mais rio acima, o sr. Garbe não esteve em contacto.
— 399 —
Os Canamaris e Masculinos são pacificos e não conside-
ram os brancos como inimigos; nem o sr. Garbe, nem
ninguem de sua gente teve encontro desagradavel com
elles, embora, dispersos no matto em suas exsurções, nas
immediações das moradias dos indios, frequentemente
fornecessem ensejo para serem aggredidos. Da mesma
forma nunca tentaram assaltar as barracas dos viajantes
ou saqueal-as na ausencia delles. Um grupo de & Mas-
culinos, que appareceu em S. Felippe durante a estada
do sr. Garbe, tinha, como prova de suas intenções pa-
cificas, deixado as armas no matto. Infelizmente tambem
estes indios mostram grande preáilecção pelas bebidas
alcoolicas e os 8 Masculinos achavam-se em breve. de-
vido ao abuso destas bebidas, que a liberalidade dos ha-
bitantes, alem de pequenos presentes, lhes proporcionava,
em tristissimas condições.
Os objectos e armas de indios trazidos pelo sr.
Garbe foram adqueridos dos Canamaris. Sobre os habi-
tantes da região do Juruá circulavam, nos primeiros
tempos depois da descoberta, contos fabulosos, povoando
aquelles sitios com seres imaginarios, como em geral
a phantasia dos primeiros viajantes tem-se espraiado em
hypotheses singulares sobre as regiões desconhecidas
do novo ambiente e dado curso a boatos os mais in-
verosimeis a respeito dellas. Assim diz Gonçalves Dias
(1) referindo-se a estes entes fabulosos :
« Taes eram os Goyazes ou anões, os Indios da
nação Cuana, habitantes do rio Juruá que não passam
de cinco palmos de altura, os Guriqueans ou pigantes,
os da nação Ugina, com rabo de 3a 4 4 palmos, do que
davam ese mn no tempo do ouvidor Sampaio, os
indios de Juruá e resta a certidão jurada do padre
carmelita frei José de Santa Thereza Ribeiro, que o
mesmo Sampaio diz ter conhecido. »
No Rio Juruá existe só uma povoação, São Felippe,
na margem esquerda, e que é séde das auctoridades e
(1) A. Goncalves Dias, Brazil e Oceania, Rev. Inst. Hist.
do Rio de Janeiro Vol. XXX (IT) 1867 p. 1 ss.
— 400 —
compõe-se de 35 casas, pouco mais ou menos, em parte
construcções pobres de barro. Uma destas alugou o
sr. Garbe por 508000 mensaes. Existe tambem lá um
posto policial de 10—12 soldados e uma cadeia, que no
emtanto não preenche o fim de reter criminosos, sendo
que a estes se dá licença de dedicar-se com suas fami-
lias à lavoura, o que traz ainda a vantagem de poupar
aos cofres o onus de sua alimentação.
Não ha outra povoação alguma além de S. Felippe
no Juruá, e a população distribue-se pelos seringaes, dos
quaes no Juruá e seus afluentes contam-se 200 a 400,
O seringal é a fazenda do productor de borracha e abran-
ge, além de extensas terras, o barracão, casa de mora-
dia e de negocio do possuidor ou seu capataz, e um certo
numero de ranchos para os seringueiros ou trabalhado-
res. Cada um destes cuida de duas estradas, picadas
estreitas que atravessam o matto, de seringueira a se-
ringueira, ligando assim pouco mais ou menos cem ar-
vores de borracha. No tempo do trabalho, de Junho
até Novembro, o seringueiro occupa-se alternadamente
nas estradas, de sorte que de dous em dous dias trabalha
em cada uma. De madrugada começam a furar a casca
das arvores em differentes pontos e collocam em baixo
vasilhas destinadas a receber o liquido leitoso. Ao meio
dia vão buscar este leita e o fazem coalhar perto do
fogo. Este. producto, a borracha, forma uma bola sem-
pre crescente, enrolando-se numa vara tida em rotação.
As bolas obtidas deste modo, pesando 20, 30 e mais
kilos, são entregues no Barracão, calculando-se o kilo
a 38900- 44000 para o trabalhador. Conforme as cir-
cumstancias o trabalhador gasta 8, 10 e mais dias até
conseguir uma bola desta ordem.
Em geral as arvores nas baixadas, perto do rio,
fornecem mais borracha que as do centro mais elevado,
entre o Juruá e o Purús. Arvores fortes supportam
bem a extracção annual, que no tempo do serviço, como
ja explicamos, realiza-se cada terceiro dia, limitando-se,
entretanto, o processo à parte inferior do tronco, até
onde possa alcançar o trabalhador em pé. Na parte
on
superior do Juruá produzem tambem caujchu que é
preto e de preço inferior do que a verdadeira borra-
cha, que é de côr cinzento-amarella, pela qual actual-
mente se paga em Manãos 54500 ao kilo, emquanto o
cautchu não obtem mais que 44000. Para a produ-
eção deste cortam-se as arvores; tal systema pernicioso
em geral é exercido pelos peruanos com o auxilio de
trabalhadores indios, tendo elles peuetrado nestes ultimos
annos tambem em terreno brazileiro. Os seringueiros
do curso medio e inferior do Juruá são quasi todos cea-
renses immigrados.
Como para sua alimentação dependem totalmente
do dono do rancho, não podem-se adeantar muito, mes-
mo que quizessem empregar a maior actividade. A razão
disto estã em primeiro logar nos preços excessivos de
todos os generos de primeira necessidade no Juruá. Um
trabalhador ganha comida é 1208000 pormez. Em São
Felippe pagava o sr. Garbe pelo kilo de carne verde
O$000, Carneavam ahi, termo médio, uma rez por mez.
Por uma gallinha exigiam 208000, um ovo 500 ris a
14000, uma garrafa de cachaça 48000 a 58000.
Os preços correspondentes, na mesma epocha, em
São Paulo eram: 1 kilo de carne verde 1$000, uma
gallinha 34000, um ovo 100 réis, uma garrafa de ca-
chaça 300 réis. Para taes condições contribue pode-
rosamente a falta total de agricultura naquellas regiões.
Quando muito avistam-se as vezes perto dos ranchos
alguns pés de milho e alguns de mandioca, de fructa
unicamente bananas e no mais canna de assucar. Em
geral alagam as terras proprias para plantações na epo-
cha das chuvas. As habitações melhores estão por isto
quasi todas edificadas sobre estacas, e até as estreba-
rias para o gado, que ahi mostra boa apparencia, são
sempre construidas deste mesmo modo. Durante o tempo
da innundação, que dura quasi seis mezes, recolhe-se o
gado para giráus, feitos de palmeiras. Neste periodo
alguns homens só cuidam em cortar, embarcados nas
canoas, pasto para o gado. Para isto presta-se muito
a canna rana (cana falsa), uma macega parecida com a
canna de assucar, que se encontra em toda a parte nas
margens do rio, em grande quantidade, e que tambem
no tempo da secca fornece o sustento principal do gado.
Tambem o Manatus, o Peixe-boi e as tartarugas alimen-
tam-se de preferencia desta canna. O gado, quasi todo
de raça hollandeza, prospera; não ha cavallos ; sómente
em São Felippe o sr. Garbe soube que havia dous, os
quaes, porém, por falta de caminhos apropriados, não
eram utilizados. De aves domesticas vêm-se, em alguns
logares, gallinhas e tambem patos, que não entram no
rio, emquanto marrecos e gansos não podem ser crea-
dos, por causa dos jacarés. Estes são tambem perigosos
aos cães, que por esta razão não vão ao rio para beber
agua. Tambem na caça não se póde fazer uso dos cães,
pois, infallivelmente são presa das onças, que, no em-
tanto,não acommettem o homem. A vida da população
gira, como se vê, ao redor da arrecadação da porra-
cha. E nos intervallos, durante a innundação, os tra-
balhadores empregam-se, em parte, em apromptar lenha
para os vapores, que vendem ao preço de S0g000 por
1.000 achas. Em algumas fazendas encontram-se indios
como pescadores e caçadores. Tambem trabalha as
vezes um grupo de indios na extracção da borracha
para vendel-a no Rancho, porém, não se prestam para
o trabalho continuado, systematico. Os seringaes tem,
termo médio, uma população de 50 a 60 almas, o que,
com um numero total de 500 a 400 seringaes, apre-
sentaria uma população de 15 mil para 20 mil pessoas
para toda a região do Juruá. Por grande parte o ap-
parencia da saude dos moradores não é de impressão
favoravel, e principalmente a das creanças é pouco ani-
madora, o que não se deve attribuir tanto ao clima
como ao passadio insufficiente.
Os nutrimentos dos moradores consistem vulgar-
mente em farinha e carne secca ou peixe; graxa e
arroz não ha; se muito, café e assucar. Medicos e
pharmaceuticos não existem no rio Juruá. Recorrem,
em caso de doença, de preferencia a drogas importa-
das dos Estados Unidos ou remedios caseiros.
— 403 —
Os seringaes têm em geral grande extensão, po-
rém, quasi nunca são medidos e demarcados, sindo do
lado do rio. Não é raro viajar-se 5 ou 6 horas no va-
por sem avistar um unico rancho. A exploração da
matta, para os fins da produceção de borracha, é por
conseguinte sum;namente imperfeita. A producção po-
deria, attendendo só à região do Juruá, ainda augmen-
tar consideravelmente, no emtanto causaria isto, prova
velmente, ainda maior baixa nos preços da borracha,
o que paralysaria totalmente este commercio ja não
muito lucrativo.
Sobre a extracção da borracha na região do Ama-
zonas, publicou-se na revista Petermanns Geographi-
sche Mitteilungen (vol. 49, 1903, p. 28—52), uma
descripção muito fiel de A. Kähler. Somente restariam
a accrescentar algumas observações, principalmente de
ordem botanica, para completar as informações forne-
cidas pelo mencionado escriptor. Nas indagações bota-
nicas, a respeito das arvores productoras de borracha,
tem-se salientado nestes ultimos annos o botanico do
Museu do Pará, o dr. J. Huber.
Um trabalho seu, Apontamentos sobre o caucho
amazonico, no Boletim do Museu Paraense de Historia
Natural e Ethnographia. Para, 1900, trata da produ-
cçäo do cautchu e prova que a arvore que o fornece é a
Castilloa elastica, arvore que da mesma maneira tam-
bem se utilisa no Mexico, America Central e Equador.
Por conseguinte, as informações anteriores divergentes
devem ser rectificadas. Em outro artigo publicado na
mesma Revista, Observações sobre as arvores de bor-
racha da região amazonica. (vol. HI, 1902, p. 345—
369), Huber mostra que a borracha não é proveniente
de uma unica arvore, que presumiam ser a Siphonia
elastica, mas de um grande numero de especies diffe-
rentes de Hevea. As especies do Jurná são Hevea bra-
siliensis Muell. Arg. e Hevea spruceana Muell. Arg.
A actual prosperidade da região do Juruá data de
pouco tempo. Ella explica-se em primeiro logar pelo
=e
augmento da exportação do cautchu, que avultava na
mesma proporção que a de Iquitos ia diminuindo.
Os seguintes numeros dão idéa da exportação sem-
pre crescente de cautchu pelo Juruá :
No anno de 1895— 96 exportação de 199 toneladas.
> » \ > 1896—9% » » 287 »
>» » » 1897—98 » puma »
» » » 1898—99 » » 1562 »
Sendo a produeção do cautchu, da forma como
actualmente se exerce pelos peruanos, uma devastação
dos mattos da peior ordem, póde-se prever que a esta
prosperidade, que ainda vigora, deve succeder em bre-
ve um anniquilamento infallivel.
Devem-se, por conseguinte, discriminar no impulso
que a região do Juruá recebeu dous elementos: o au-
gmento passageiro da produeçäo de cautchu e a cons-
tante bem organisada producção de borracha. A ulti-
ma é susceptivel de um augmento extraordinario, caso
os preços convidem a isto. Porém deve-se notar que
esta producção tambem tem senões e principalmente
aquelles que derivam de qualquer monocultura. Para
remediar neste sentido seria necessario cultivar os mais
importantes generos alimenticios no lugar mesmo. As
baixadas perto do rio seriam proprias para a plantação
de arroz, os terrenos mais altos do Centro, que não
alagam, poderiam ser aproveitados para milho, canna
de assucar, mandioca, etc., e certamente tambem para a
cultura do cacao. Para a colonisação destas terras de-
via-se recorrer principalmente aos habitantes do Ceara
e de outros Estados do Norte, flagellados por seccas.
O factor mais importante para o desenvolvimento e
progresso da região do Juruá apresenta o clima rela-
tivamente saudavel e é licito suppor, sem grande medo
de errar, que a esta parte do Brazil seja reservado um
grande futuro e um desenvolvimento sobre modo van-
tajoso.
— 405 —
E’ preciso entretanto observar que, além do de-
feito já notado, a cultura da borracha esta sendo preju-
dicada pelo modo desvantajoso e rotineiro pelo qual é
praticada. Se os fazendeiros resolvessem o plantio da
Hevea, de certo as despesas da producção diminuiriam
sensivelmente. E” provavel que a producção brazileira
de borracha já em pouco tempo ver-se-ha na necessi-
dade de dar uma fôrma mais racional a todo este ser-
viço. A possibilidade de realisar plantações de Hevea
fica patenteada pelo procedimento dos fazendeiros da
India, segundo consta por um artigo publicado na
Revue des Cultures Coloniales de 5 de Julho de 1903,
relatando os successos já obtidos na India e no Ceyläo
com plantações de Hevea.
Esta concorrencia é tanto mais séria porquonto
dispõe de trabalhadores baratos e numerosos dos paizes
limitrophes, da China e do Japão. Deste modo a respe-
ctiva producçäo do Amazonas, já hoje pouco remunera-
dora ficará paralysada completamente, se não se recor-
rer em tempo ao meio indispensavel de reformas ra-
cionaes, apropriadas a dar nova vida e continuo pro-
gresso ao maior Estado do Brazil, que é ao mesmo
tempo um dos mais favorecidos pela natureza.
São Paulo, 15 de Julho de 1903.
Mammiferos
A coilecçäo de mammiferos preparados no valle do
rio Jurua pelo sr. Garbe importa em 197 couros, re-
presentando 50 especies.
Ao passo que para diversos grupos a colleccäo póde
ser considerada quasi completa, como especialmente para
os macacos, em outros o resultado era negativo. Isto
refere-se particularmente aos Delphins do genero ra,
que muitas vezes foram observados e nunca foram ca-
cados. Os moradores do valle do rio Juruá negam-se
absolutamente a participar em caçadas a este peixe-
bôto, por motivo de superstição. O sr. Garbe ficou
convencido de ali coexistirem varias especies do genero
Ima.
No estudo desta rica colleeção contei com o auxi-
lio collegial do sr. Olf. Thomas o que, especialmente
para os Cheiropteros, me foi de grande valor.
Ligo attenção especial ao facto de terem sido con-
firmadas pelo sr. O. Thomas as minhas determinações
de macacos, visto ser este o grupo representado de modo
mais co npleto nesta collecção, sendo ao mesmo tempo
o que mais interesse desperta em relação à sua distri-
buição geographica. A representação dos Primatas por
16 especies é summamente rica.
Ha entre elles uma variedade nova de Midas pr-
leatus C. Geoffr., especie que até agora não fora ainda
observada no Brazil.
Do genere Chrisothrix occorrem ao lado de Ch.
sciurea, commum em todo o valle do Amazonas, Ch.
entomophaga do Matto Grosso e da Bolivia e Ch. cas-
siamiarensis Humb. da Guyana e Venezuela. Estes
dados modificam até certo ponto as idéas sobre a dis-
tribuição geographica dos macacos, mostrando que
— 407 —
muitas destas especies têm uma distribuição vasta e que
os affluentes do rio Amazonas não são de grande im-
portancia como limites z00-geographicos.
Além dos mammiferos caçados e preparados, o sr.
Garbe observou varios outros que não colleccionou, por
serem communs em toda a parte no Brazil. São estas
as seguintes especies :
Helis concolor L.
» onssa Li. (onça).
» pardalis L. (jaguatirica).
Hydrochoerus hijdrochoerus L.
Coelogenys paca L.
Papirus americanus Guy.
Tayassu tayassu lu
» albirostris Il.
Priodontes giganteus E. Geoff.
Para a comparação do caracter geral desta fauna
com a das regiões limitrophes faltam, em grande parte,
os dados necessarios. A unica região mais ou menos
visinha, na qual foram feitas colleeções valiosas no de-
correr dos ultimos annos, é a dos rios Madre de Deus
e Inambari na Bolivia. Estas colleccôes, estudadas por
I. A. Allen e O. Thomas, contêm, segundo a enume-
ração deste ultimo auctor (Ann. and. Mag. N. Hist.
Seng Vil Mole 1901 pet iSite ex's.” 27 especies” de
mammiferos. Entre elles ha uma, «Lagothrix sp. pro-
bably huimboldtc» que talvez seja identica com o repre-
sentante do mesmo genero do rio Juruá; todas as de-
mais especies são differentes. E” importante neste sentido
a occorrencia em Inambari de Cebus fatuellus L. e
Alouata caraya Humb. (migra E. Geoff.), duas especies
do Brazil central e do Paraguay, que ao oeste occorrem
até o Perú, e, quanto ao O. fatuellus, mesmo até o
Equador e Colombia.
Estas especies são, pois, em Inambari, representantes
da fauna central do Brazil e não occorrem no rio Juruá
na zona de S. Felippe. Resta portanto a examinar onde
estas duas provincias faunisticas confinam. A fim de
facilitar a orientação sobre a distribuição geographica
— 408 —
das diversas faunas, dou, na Est. VIII, um mappa da
região do rio Juruá, incluindo a região dos rios Madre
de Deus e Inambari.
Marquei, no mesmo mappa, por uma linha pontuada,
o limite septentrional do Bugio preto, Alowala caraya
Humb., que mais ou menos coincide com a extensão da
provincia zoc-geographica do Brazil central.
Ordem Primates
CEBIDA
8. Alouata seniculus (L.)
Guariba
IO exemplares. A côr ê pardo-vermelha, mais
escura nas extremidades e na canda, mais clara no dorso,
tendo ahi o macho velho um tom amarellado. Seguem
as medidas do craneo.
S N. 769 Compr. tot. 134; lin. bas. 113; larg.
post. 02; larg. front. 38; mol. sup. 38.
2. N. 773 ‘Compr. tot. 1155 im. bas. 90,55 Tare:
post. 51,0; larg. front. 40; mol. sup. 35,5.
As linhas temporaes na Q são fracas, distando
entre si 28 mm., no vertice; no ellas são elevadas
em cristas, que no vertice distam entre si apenas 10 mm.
A bulla hyoidea mede no & 72 mm., na 9 43,5 mm.
A parte superior do corpo do osso hyoideo é intumescida
e arredondada, ao passo que em A. ursina ella é de-
primida, com a face posterior plana ou concava, forman-
do o bordo superior uma crista.
Foramens incisivos grandes, bem separados; fora-
men infra-orbital dividido em dous canaes menores, 0
foramen zygomatico é largo. Os arcos superciliares
são pouco intumescidos, a glabella é plana.
Neste sentido o craneo distingue-se bem do de
Alouata ursina Wied, cujos arcos superciliares são bem
pronunciados e intumescidos, de sorte que a glabella é
— 109 —
concava. ' Tambem o maxillar inferior das duas epecies
é differente; a ponta do processo coronoideo dista do
meio do condylo 19 mm. (N. 769), ao passo que esta
distancia é de 26 mm. no craneo (N. 408) de A. wr-
sina, cujas dimensões são eguaes e no qual as linhas
semicirculares distam entre si, no vertice, 14 mm.
Um craneo de A. senzculus, que possuo da Vene-
mela, não differe dos do rio Juruá, emquanto que os
caracteres indicados permittem perfeitamente a separa-
ção da especie meridional, A. wrsina, do Guariba do
Norte do Brazil e da Venezueia.
2. Ateles paniscus (L,.)
Coata
Do exemplares. Este macaco, cujo pello é unifor-
memente preto, é distinguido pelo comprimento consi-
deravel das extremidades e pela falta de pollegar na mão.
Dimensões do craneo são :
Oe NEMO Si compridas lino has Ss Marc
post. 60; larg. front. 48; mol. sup. 23,0.
GON. 694, compr. tot Tio; Im bas 765 lara
post. 62 Taro. front. 92; mol sup: 27.
O craneo é liso, sem linhas ou cristas temporaes ;
um osso vormiano fica situado na sutura sagittal, na sua
extremidade anterior e um outro (N. 694) tambem na
sua extremidade posterior. O craneo, N. 694, é de uma
9 nova, cujo ultimo molar estava nascendo; o N. 697
é de um & velho com os dentes já em parte gastos e
notavel pelas dimensões diminutas do ultimo molar (larg.
4 mm. contra 5 mm. nas PQ).
O foramen infraorbital é substituido por 3—4 pe-
queras aberturas; tambem o foramen zygomatico é raras
vezes inteiro, sendo em geral substituido por um grupo
de 2 ou 3 aberturas. Os foramens incisivos são muito
largos e no meio unidos, sendo provavelmente o septo
mediano tenue e destruido na preparação.
— 410 —
=. ELagothrix lagotrica Hun.
Barrigudo
8 exemplares. Os exemplares do rio Juruá são de
uma côr bastante clara, cinzento-amarellada, excepto
na cabeça e nas mãos, pês e na cauda, que são enne-
erecidos. As medidas do craneo são :
dr Ni 916, compr. tots 116 dim bas Silox lamas
post. 62; larg. front. 47,5; mol. sup. 26.
ON: 692 "compr.; tot: 10Senwlin bass noe ane:
post. 60; larg. rront. 46; mol: sup. 26.
As linhas semicirculares do craneo do & N. 916
são bem marcadas, um pouco elevadas, distando entre
si 23 mm. contra Z9 mm. na © N. 692. Os foramens
incisivos são largos e no meio bem separados; os fo-
ramens infraorbitaes são subdivididosem 2 ou 3 peque-
nas aberturas, o foramen zygomatico é sempre singular
e extremamente largo.
A, Wagothrix infumata (Spir)
Barrigudo
2 exemplares, que enviei 20 Sr. O. Thomas, do Bri-
tish Museum, para serem comparados com exemplares
typicos. Nao dispondo o Sr. Thomas do necessario ma-
terial comparativo, resta a questão por hora aberta, si
os exemplares indicados, cujo pello é de cor bruno-es-
cura, representam apenas uma variedade de L. lagotrica
ou si pertencem à especie acima indicada.
as
>. Cebus macrocephalus (Spix)
Macaco préyo
4 exemplares. O craneo do 4 é provido de uma
forte crista sagittal; a glabella é intumescida e con-
vexa. O foramen infraorbital é às vezes singular, outras
dividido em dous menores; o foramen zygomatico é pe-
queno, às vezes subdividido em dous menores. As se-
guintes medidas são as do craneo de um < velho:
— AD —
Compr. tot. 104; lin. bas. 7
front. 42; mol. sup.
Esta especie substitue na região do rio Jurua o C.
jatuellus L., com o qual está intimamente relacionado.
O & velho N. 223 não tem indicio algum de topete
na frente, que não falta em individuos velhos de C. fa-
tuellus.
Além disto tem C. macrocephalus a mancha bran-
ca da frente prolongada de cada lado até a orelha, a
cauda mais comprida do que é ado C. fatwellus e o lado
inferior é de côr amarello-avermelhada. C. fatuellus &
especie do interior do Brazil, occorrendo desde Minas e
Paraguay até o Perú e a Colombia.
AS a lare post: 52! lares
6. Cebus albifrons (Humb.)
Coararara
4 exemplares. Esta especie, semelhante à prece-
dente, differe della pelas menores dimensões e pela faixa
esbranquiçada da tronte, bastante larga (cerca de 4 dia-
metros do olho), ao passo que ella é estreita em C.ma-
crocephalus (um diametro do olho). "Tambem as extre-
midades não são escuras como naquella especie.
As dimensões do craneo são :
& N. 925 Compr. tot. 97; lin. bas: 63; larg. post.
Ol; lares front. 50 mol. sup. 22.0:
QN. 924 Compr. tot. 93 : sin, bas) 61 : lare. post:
; larg. front. 41,5; mol. sup. 20.
“O craneo differe do da especie precedente pela gla-
bella achatada e pelas linhas semicirculares, que no o
não se reunem em uma crista, ficando, no meio, distan-
tes entre si 26 mm.
— O craneo deste & é o de um exemplar novo e nao
conheco o do & adulto.
Z. Pithecia monachus (Humb.)
Parauaci
11 exemplares. E' este o unico representante do
genero Pithecia no valle do rio Juruá, bem caracteri-
mere
zado pelo seu pello comprido e hirsuto, de côr preta e
ponteado de brancacento.
O craneo do & adulto é distinguido pela forte
crista sagittal. Os foramens infraorbitral e zygomatico
são pequenos e quasi sempre subdivididos. As medidas
do craneo sav:
& 165 Comp. tot. 90; lin. bas. 67: larg. post:
48; larg. front. 35,5; mol sup. 20.
© 761 Comp. tot. 88; lin. bas. 62; larg. post.
44 ; larg. front. 35; mol. sup. 19.
&. Callicebus torquatus (Hofjm.)
Japussá
Callithrix torquata Trouess.
3 exemplares. Esta bonita especie facilmente se re-
conhece pela colleira branca da garganta. As medidas
do craneo são:
SN: 944. Compr. tot. 740 lim, bas ob Mare
post. 40; larg. front. 35; mol. sup. 16,9.
O foramen infraorbital é subdividi o em 2 cu 3
aberturas, o foramen zygomatico & pequeno mas sim-
ples; as linhas semicirculares, elevadas em pequenas
cristas ficam muito distantes entre si, medindo o in-
tervallo 28 mm.
9. Callicebus cupreus (Spir)
Japussá
Callithiix cuprea Trouess.
11 exemplares. O pello do lado dorsal é compri-
do, cinzento-escuro com salpicos amarellos, o do lado
ventral, castanho. O craneo assemelha-se ao da espe-
cie precedente, as linhas semicirculares ficam distantes
entre si, no vertice do d&, 23 mm., no da © 28 mm.
São as seguintes as medidas do craneo :
& N. 725% Comp. tot. 65; lim. bas. 49; larg:
post. 54,5; larg. front. 30; mol. sup. 16.
Q N.. 7305 Comp. tot. Gos lin, (has. 46; Jane:
post. 34,5; larg. front. 32; mol. sup. 16.
Se Cie
10. Chrysothrix sciurea (L.)
Macaco de cheiro
Säuget. Schreber u. Wagner Suppl. V. Est. 9.
8 exemplares, que todos combinam perfeitamente
entre si. A côr predominante no vertice da cabeça é
a cinzenta, que se extende tambem em frente da ore-
lha sobre a face. A extremidade da cauda é preta na
extensão de '6-18 cm.
As medidas do craneo são as seguintes :
d N. 749. Comp. tot. 70,5; lin. bas. 44; larg.
post. 37; larg. front. 31; mol. sup. 14.
O.N. Tos: Comp. fot: 67; lin. bas 87.5; larg.
post. 37,9; larg. front. 29; mol. sup. 13.5.
No craneo N. 749 ficam as linhas semicirculares
distantes 20 mm. na frente. O foramen infraorbital é
subdividido em 2 ou 3, o foramen zygomatico é sim-
ples e pequeno. O septo mediano é incompleto, apre-
sentando no meio um grande foramen de 7-3 mm. de
comprimento, do mesmo modo como nas especies se-
guintes deste genero.
11. Chrysothrix cassiquiarensis (Mumb.)
Macaco de cheiros
Sima sciurea (Cassiquiarensis) Humboldt, Re-
cueil d’Observ., Zool. Paris 1811 p. 334.
Saimiris lunulata 1. Geoff.
Ch. nigrivittata Schreber u. Wagner, Suppl. V.
ists ott.
1 exemplar 9, distinguido pela estria preta, que
acima da orelha se extende até à nuca e ainda se
prolonga, em frente da orelha, sobre a face. À côr pre-
dominante no vertice da cabeça é a amareilo-dourada,
devido à intensidade do colorido do annel amarelo
subterminal. Tambem a côr pardo-avermelhada do dor-
so é mais viva do que em Ch. sciurea. A ponta da
cauda é preta na extensão de 12 a 13 cm. O craneo
— 414 —
não se distingue notavelmente do da especie preceden-
te, sendo as suas medidas as seguintes :
ON. 448. /Compr tot: 67; mimes bas. Diane
post. 36; larg. front. 31; mol. sup. 12,5.
12. Chrysothrix entomophaga (d'Orb.)
Macaco de cheiro
Schreber u. Wagner Suppl. Nisto O:
1 exemplar. Esta especie é bem caracterizada pela
côr preta do lado superior da cabeça e que se prolonga
tambem sobre a face em frente da orelha. O pello do
dorso é cinzento-escuro na base, em seguida amarello-
claro passando ao amarello-avermelhado, seguindo-se
depois a ponta preta. A ponta da cauda é preta na ex-
tensão de 8 cm., isto é a ponta preta é muito mais
curta do que nas outras duas especies. O craneo asse-
melha-se aos das especies precedentes, à excepção das
linhas semicirculares. que, na frente, se approximam a
12 mm., ao passo que nas outras especies ficam dis-
tantes 18-20 mm. Aos caracteres exteriores juntam-se
pois outros do craneo, que permittem perfeitamente dis-
tinguir esta especie das outras duas.
As medidas do craneo do macho são :
SN. 194. “Sompr.” tot 70;>~ hip has.) 42 anca
post. 30; larg. front. 30; mol, sup. 14.
13. Nyctipithecus azarae (Hunil.)
Macaco da noute
N. felinus Spix, Sim. Bras. Est. 18.
4 exemplares. A grande mancha da frente rhom-
boidal, preta, sempre é separada das estrias lateraes da
cabeça. A cor é cinzenta com um tom pardacento no
dorso, a garganta é de côr amarello-ferruginea como
todo o lado inferior.
O craneo da Q adulta, N. 804 tem as seguintes
medidas :
E AASP
Compr. tot. 65,5; lin. bas. 44,5; larg. post. 32;
larg. front. 32; mol. sup. 15.
Em vista do tamanho extraordinario do olho, as
orbitas são extremamente largas, sendo a sua largur:
na base 19 mm. e a largura da face, na altura do
meio da orbita, 44 mm.
A fissura orbital inferior é grande e comprida, a
superior pequena e triangular.
Os foramens infraorbital e zygomatico são simples
ou duplos, extremamente pequenos.
15. Midas mystax Spir
Saguiim
11 exemplares. Esta especie é bem caracterizada
pelo focinho e o bigode de côr branca, em vivo con-
traste com o colorido preto da cabeça. Em um exem-
plar as medidas da cabeça e do corpo são 29 mm., a
da cauda 42 mm.; em outro são estes algarismos sub-
stituidos por 28: 44. A cauda corresponde, por con-
seguinte, a 150 °/, do comprimento do corpo e da ca-
beça. O craneo do & N. 743 offerece as seguintes
medidas :
Compr. tot. 55; lin. bas. 37; larg. post. 29; larg.
front. 24 mol. sup. 10,9:
As linhas semicirculares approximara-se entre si nos
parietaes até 10 mm. O foramen infracrhital é peque-
no, simples ou duplo, o foramen zygomatico um pouco
maior, simples e situado proximo à sutura com o osso
maxillar.
RD. Midas fuscicollis Spir
Saguiin
1 exemplar n. 735, d'. A especie assemelha-se à
precedente, com excepção da frente e do vertice, cujo
pello escuro tem as pontas amarello-avernelhadas. Além
disto o pellame branco dos labios e do mento é bem
curto,
— Zio —
O comprimento do corpo e da cabeça é de 25mm.,
o da cauda de 33 cm., de sorte que a cauda corres-
ponde a 132 °/, do comprimento do corpo.
As medidas do craneo são as seguintes :
Compr.. tot. 48: lin. bas. 31: larg: post. 245 larg:
front. 22/5 5 mol. sup. 3,0:
As linhas semicirculares ficam distantes uma da
outra nos ossos parietaes [1 mm.; a sutura coronal é
quasi rectilinea no meio, sendo angular em M. mystax,
cujo craneo não só é maior, mas tambem mais estrei-
tado na região frontal. O craneo n. 735 é 0 de um d
adulto e deste modo não póde haver duvida quanto á
differença especifica destas duas ultimas especies des-
criptas.
16. Midas pileatus juruanus 1. subsp.
Saguim
M. subspecies a forma typica pilis dorsalibus basi
nigrescentibus, nec rufis, differente. Long. cap.
et corp. 24, caud. 37 cm.
3 exemplares. As medidas acima indicadas refe-
rem-se a um & n. 1182; o nosso segundo exemplar
n. 733 tem approximadamente as mesmas medidas.
Um outro exemplar foi cedido ao British Museum em
Londres.
A cabeça é de côr preta, excepto a frentee o ver-
tice, que são de côr castanha, clara, e os beigos e o
nariz que são brancos. Correspondente ao canino no-
ta-se uma estria preta, que separa o focinho branco
dos pellos brancos do beiço superior, os quaes, no an-
gulo da boca, são alongados, formando um bigode,
como em M. mystas.
As extremidades e a cauda são pretas.
O pello do dorso é preto, mais claro na base e
munido. apaixo da ponta, de uma mancha branco-
amarellada.
— MNT ee
Da forma typica se distingue, pois, esta variedade
do rio Juruä, pela côr escura do pello dorsal, que na-
quella, segundo Geoffroy, é avermelhada na parte basal.
O craneo assemelha-se ao de M. mystax, sendo,
porém, um pouco menor. As linhas semicirculares appro-
ximam-se uma da outra no vertice a 7-8 mm. As me-
didas dos dous craneos examinados são as seguintes :
SN. 733, compr. tot. 52,5; lin. bas. 36,5; larg.
post. 27; larg. front. 24; mol. sup. 9.5.
GUN 1182; comp. tot. 92,5; lim-bhas 505 larg:
post 20) lara: dromt. 2495 mol! sup. 9,9:
(rdem Chiroptera
17. Wyotis simus Thomas
O. Thomas, Ann. Mag. IN. Est; 100M, vol. is Ser.
VIL, p. 541
19 exemplares desta especie, da qual, até agora, só
era conhecido o exemplar typico de Sarayacu, Perú e
que com os nossos foi comparado pelo Sr. Thomas.
18. Rhynchonyeteris naso Wied
2 exemplares; um outro de Santarem.
19. Saccopteryx canescens Thos.
,
{ exemplar; a especie é conhecida de Obidos, Para
e Surinam. |
20. Saccopteryx bilineata Thos.
2 exemplares.
21. Saccopteryx leptura Schre.
2 exemplares
— 418 —
22. Saccopteryx brevirostris Wagn.
2 exemplares. Especie bem rara, conhecida até
agora do rio Negro e Matto Grosso.
223. Moctilio albiventer affinis D'Orb. et Gerv.
> exemplares que pertencem à subspecie a/fines
D'Orb. et Gerv., distingnida pela cor amarello-averme-
lhada da barriga.
24. Micronycteris megalotis Gray
8 exemplares.
25. Wemiderma perspiciliatum L.
Carollia brevicauda (Wied) Dobson Cat. of Chiropt.
1878 po 293
Desta especie de vasta distribuição geographica foi
colligido um só exemplar.
Da mesma especie obtivemos exemplares de Manäus.
26. Mesophylla macconnelli Thos.
Um exemplar desta rara especie, conhecida só da
Guyana ingleza e agora encontrada pela primeira vez
no Brazil.
27. Artibeus concolor Pet.
Tambem um só exemplar desta especie nova para
o Brazil. Fora, até agora, encontrada só em Surinam
e na Amazonia superior.
2%. Glossophaga soricina Pallas
2 exemplares; obtivemos esta especie tambem de
Manaus. |
== Yio
Ordem Carnivora
29. Nasua nasua (L.)
Coat
2 exemplares do Coati que o Snr. Garbe colleccio-
nou no rio Juruá, distinguem-se dos de S. Paulo pela
côr mais escura do lado dorsal, devido à grande exten-
são das pontas pretas dos pellos.
30. Galera barbara (L.)
lrara
1 exemplar.
Ordem Rodentia
SCURIDE
31. Scivrus pyrrhonotus Wagn.
Coati-puri
12 exemplares. A especie apresenta-se sob duas
formas, uma das quaes (N. 706) é distinguida pela
grande extensão das pontas, dos pellos dorsaes, de
viva côr avermelhada, ao passo que nos outros as pon-
tas desses mesmos pellos, em parte, são amarelladas, em
parte pretas, de modo que a côr predoninante é a
preta. Estes exemplares, segundo o julga o Snr. O.
Thomas, representam uma forma melanictica, combi-
nando perfeitamente com o typo do Sciurus fumega-
tus, Gray, do Alto Amazonas. A nossa série não deixa
duvida sobre a relação intima deste Sc. fumigatus com
a forma typica de Sc. pyrrhonotus.
Tambem os craneos das duas fórmas são identi-
cos. As medidas seguintes referem-se a dous Sd,
sendo as do craneo N. 710 da forma typica e as de
N. 706 da var. fumigala.
N. 710 Compr. tot. 65; lin. bas. 56; larg. post.
29 ; larg. front. 22,9; série dos mollares super. 10.
— 420 —
N. 706 Compr. tot. 66; lin. bas. 57; larg. post.
28 ; larg. front. 22; série dos mollares supers. 11.
3%. Sciurus irroratus Gray
Acceitando a determinação do Snr. Thomas, nada
posso accrescentar, visto como ainda não estou de pos-
se do nosso unico exemplar N. 907; não encontro
mesmo esta especie na literatura ao meu alcance.
33. Sciurus peruanus (Allen)
E' esta a menor especie do genero Sciwrus na zo-
na do rio Juruá. As medidas do craneo do exemplar
N. 902 são as seguintes :
N. 902 Compr. tot. 36; lin. bas. 30; larg. post.
19; larg. front. 14,5 ; série dos mollares super. 7.
Em frente aos quatro mollares superiores existe
um quinto pequeno dente, simples e cylindrico. Deste
dente não se encontra vestigio no craneo do outro
exemplar N. 717, que é de um individuo velho. Desta
especie foram obtidos tres exemplares. O nome vul-
gar desta especie, bem como de todas as demais deste:
genero Sciurus & o de «Coati-puru»; comparam, pois,
esses roedores aos coatis do genero Nasua, com os quaes.
estão relacionados na forma de corpo e pelo modo de:
viver.
MURID A
34. Rhipidomys leucodactylus Tschud.
2 exemplares.
São as seguintes as dimensões do craneo do N.
899: Compr: tot: 43,9 din.“bas: 037 po dares postura
larg. front. 7; serie dos mollares supers. 6,5.
33. Rhypidomys benevolens Thomas
3 exemplares, cuja classificação foi verificada pelo:
Snr. Thomas.
As medidas do craneo são:
N. 888 Compr. tot. 28; lin. bas.—; larg. post.
13; larg. front. 5; serie dos mollares supers. 4, 3.
EST dr
24
36. Nectomys rattus Pelz.
2 exemplares adultos e 4 juv.
As medidas do craneo adulto N. 894 sao:
Compr. tot. 41; lin. bas. 37; larg. post. 16; larg.
front. 7,5; série dos mollares supers. 7.
EK’ preciso notar que os exemplares ainda novos
são bem differentes pela côr, que é essencialmente cin-
zenta, mais clara no lado ventral e sem os pellos ri-
jos e proeminentes do adulto. Não acho diferenças
reaes entre esta especie e N. squamipes Licht., da
qual N. rattus à provavelmente apenas um synonymo
ou, quando muito, uma subspecie.
OCTOBONTID E
37. Dactilomys dactylinus (Desm.)
2 exemplares ambos 5 d'. As medidas do craneo são:
N. 908 Compr. tot. 75; lin. bas. 63,5; larg. post.
24; larg. front. 19; série dos mollares supers. 18,5,
Nossos exemplares desta especie rara são os pri-
meiros que foram encontrados ao sul do rio Amazonas.
38. Loncheres armatus Geoff.
Cuandi |
3 exempleres, dos quaes o & N. 899 tem as se-
guintes dimensões :
Cabeça e corpo 250 mm., cauda 182 mm, pé pos-
terior, sem unha, 43 mm. Os espinhos são pretos na
metade apical, tendo abaixo da ponta uma mancha
amarella de 1 a 1,5 mm. As medidas do craneo são
as seguintes : |
S juv. Compr. tot. 48; lin. bas. 40; larg. post.
EU) E front. 12; série dos 3 mollares supers. 9;
aproximadamente, toda a série dos 4 dentes mollares
deve medir 12 mm. Nota-se já a existencia do quar-
to dente, ainda não desenvolvido. Observo ainda aqui
que o Snr. Garbe colligiu em Santarem, Pará um macho
adulto de Loncheres obscuras Wagner.
— Age
39. Esothrix bistriata Wagner
Rato Coro
5 exemplares. O craneo do N. 896 tem as seguin-
tes medidas.
Compr. tot.’ 96 lin. bas) 48: are. posts 21055
larg. front. 16; série dos mollares superiores 13.
AO. Proechimys brevicauda Giinther
3 exemplares dos quaes um (N. 897) é novo,
tendo os espinhos ainda bem pouco desenvolvidos e a
cor do dorso e dos lados quasi uniforme pardo-cin-
zenta. O exemplar grande (N. 900) tem cs espinhos
compridos e numerosos, de 16 a 19 mm. de compri-
mento e de 0,7 mm. de largura. Os espinhos do lado
dorsal são pela maior parte pretos na metade terminal,
ao passo que os dos lados têm uma mancha amarella
perto da ponta. Os cabellos rijos da cabeça e da me-
tade anterior do dorso são amarello-avermelhados na
ponta. O lado inferior é branco. Os pês são revestidos
de um pello pardo-cinzento claro. As medidas deste
exemplar, que é um 4 sao 290 mm, para o corpo
com a cabeça: 140 mm. para a cauda e 50 mm. para
o pé posterior com a unha ou 44 mm. sem a unha.
A cauda tem escamas grossas, um tanto irregulares,
antre as quaes se notam numerosos cabellos de ca. de
o mm. de comprimento. Estes caracteres da cauda, a cor
escura dos pés e as manchas a narellas dos espinhos la-
teraes distinguem a especie de P. cajennensis, cujo cra-
neo tambem differe. Isto refere-se especialmente ao
arco zygomatico, cuja altura é de 4 mm. no N. 900,
no meio do osso, contra 6,59 mm. em P. cajennensis.
As medidas do craneo do N. 900 são:
og Compr.) tot. 08; lin. base43%) are. poste
larg. front. 12; série dos mollares superiores 8.
Bastante differentes são as mandibulas, cuja me-
tade posterior é menos alta em P. brevicauda do que
em cajennensis. A altura na região do condylo é de
13,5 em cajennensis, 11,8 em. brevicauda.
— 423 —
DASYPROCTIDÆ
44 Dasyvprocta fulginosa Wal.
Cutia
2 exemplares.
As medidas do craneo do exemplar d são as se-
guintes :
Ne gl2 Comp. tot. 148); ling bas) 995 larg. post.
42; larg. front. 35 ; serie dos mollares superiores 20.
Tambem esta especie ainda não tinha sido encon-
trada ao sul do rio Amazonas, bem como a especie se-
guinte.
AS Myoprocta acouchy Lral.
Cutiaré
3 exemplares.
O craneo do 4 N. TIS tem as seguintes medidas :
Compr. tot. 80; lin. bas. 62; larg. post. 29,5 ; larg.
front. 22; serie dos mollares superior 12.
Ordem Sirenia
AS Manatus inunguis Pelz.
Peixe bot
A. von Pelzeln, Bras. Säugeth., Verh. zool. bot.
Ges. Wien, Beiheft X XXIII 1883 p. 89.
O Sr. Garbe trouxe-nos 2 exemplares, uma grande
9 de 2,40 m. de comprimento total e um filhote & de
2,10 m. de comprimento total.
O craneo do grande exemplar N. 999 tem as se-
guintes medidas :
Compr. tot. 360 ; lin. bas. 340; larg. maxima 200
mm.; serie dos mol. sup. 74 mm.
Ordem Ungulata
44 Mazama nemorivaga Y. Cuv
Veado virá
Um casal desta especie,
— 424 —
Ordem Edentata
Ad Bradypus infuscatus Wagl.
Preguiça
6 Exemplares.
Um delles ainda filhote (N. 799) «todos do sexo
feminino». Alguns couros tem, no dorso anterior, uma
mancha côr de laranja sobre pellos curtos e macios que
aos outros falta. A côr geral é pallido-cinzento-clara.
A extremidade anterior é cinzento-clara no lado interno,
pardo-escura no lado exterior, com uma estria longi-
tudinal brancacenta. A estria preta do dorso é estrei-
ta tendo uma largura de 1 a 2 cm., sendo em alguns
pontos alargada, em outros interrompida. Tambem no
campo branco do dorso notam-se algumas manchas pre-
tas irregulares. O filhote tem ainda na cara uma man-
cha amarello-escura ao redor do olho. Como Wagner
diz que a mancha alaranjada do dorso é caracteristica
para o macho, julgo que o nosso colleccionador não sou-
be bem distinguir os sexos.
Dou em seguida as medidas do craneo, observando
que o de N. 783, exemplar de mancha dorsal amarella,
talvez provenha de um &, ao passo que a Q N. 798
foi caçada junto com o seu filhote N. 799.
S? N. 783 Compr. tot. 72; lin. bas. 66 ; larg. post.
34; larg. front. 26,5; serie dos 5 dentes sup. 26.
Q N. 798 Comp. tot. 81,5 lin. bas. 76; larg. post.
34; larg. front. 27,5; serie dos à dentes sup. 28.
juv. N. 799 Compr. tot. 59; lin. bas. 913 larg.
post. 31; larg. front. 22; serie dos 5 dentes sup. 20.
O craneo N. 798 é o de um exemplar velho e forte
e tem as linhas semicirculares elevadas em crista pouco
forte. O maxillar inferior termina anteriormente em
linha transversa de dente a dente e sem prolongamento
ou processo; o angulo posterior é pouco prolongado e
arredondado, sendo a superficie exterior convexa, e in-
terior concava. Falta-me o necessario material de com-
paração para formar uma idéa sobre a relação desta
especie com B. marmoratus Gray.
— 425 —
4G. Cholcpus didactylus (L.)
Preguiça real
1 exemplar & N. 781.
São as seguintes as medidas do craneo :
N. 781 Compr. tot. 113; lin. bas. 105; larg. post.
41; larg. front. 49; serie dos 5 dentes sup. 40,
Parece differir um tanto do colorido typico desta
especie, sendo antes bruno-avermelhado nos flancos e
tambem as pontas dos pellos são branco-amarelladas
em maior extensão e predominam mesmo em alguns
pontos. Os membros são de côr bruna e mais escura
que a do resto do corpo. i
Como este exemplar é o primeiro, ao que me consta,
encontrado ao sul do Amazonas, talvez se trate de uma
sub-specie nova occorrendo a forma typica ao norte do
Amazonas até a Guyana e a Colombia.
43 Myrmecophaga tridactyla (L.)
Tamanduá bandeira
Um exemplar, femea.
AS Tamanduas tetradactyla (L.)
Tamandud-mirim
Um exemplar, femea.
Ordem Marsupialia
49 Didelphis aurita Wied
Gambá
1 exemplar.
O Marmosa sp.
| exemplar que não consegui classificar e tão pouco
o Sr. O. Thomas, por se tratar de um exemplar novo.
— 426 —
Aves
A parte meridional do Estado do Amazonas, si-
tuada ao sul do rio Amazonas, estava até agora inex-
plorada no que diz respeito à sua avifauna. Nenhum
dos affluentes do Solimões foi até hoje explorado com
relação à sua fauna. Sdmente Natterer fez uma peque-
na colleccäo no valle do rio Madeira, mas a sua esta=
dia no curso inferior deste rio, em Novembro de 1829,
fora apenas de duas semanas. Não conheço outras col-
lecções feitas nos afluentes do Amazonas, à excepção
das que Bates trouxe do rio Javary. E” necessario no-
tar, entretantos que este rio forma a divisa entre o Perú
e o Brazil e que das aves colligidas por Bates não
consta si provêm do territorio deste ou daquelle paiz.
Por este motivo não acceitei no meu «Catalogo das
aves do Brazil», prestes a ser publicado. estas especies
do rio Javary. E” bem provavel que este rio não for-
me uma divisa zoo-geographica para as aves dessa re-
giao, mas não quiz acceitar no mencionado Catalogo
especies cuja procedencia de localidades brazileiras não
é certa. Agora, entre as especies colligidas no Juruá
pelo Sr. Garbe se acha não pequeno numero de espe-
cies obtidas por Bates no rio Juruã e que assim pela
primeira vez foram caçadas em territorio brazileiro.
Spix obteve na barra do rio Juruá o lbycter fas-
cratus, um Carácará que é commum no valle do rio
Juruá e que desde o tempo de Spix não foi mais obti-
do. E' pois interessante a redescoberta da rara especie.
A collecçäo ornithologica caçada e preparada no
valle do Juruá pelo Sr Garbe, desde Novembro de
1901 até Novembro de 1902, consiste em 399 couros,
representando 184 especies, às quaes devemos accrescen-
tar 4 especies que o Sr. Garbe não preparou por serem
communs em todo o Brazil e que são as duas especies
de Anus ( Crotophaga ) e dous Urubüs (dos generos
Sarcorhampus e Catharista). Incluindo estas especies,
o numero total das que a presente lista enumera do rio
Juruá, é de 188.
Nesta interessante collecção estão contidas 2 no-
vas especies e 4 subspecies novas, que em seguida são
descriptas :
Thryothorus genibarbis juruanus n. subsp.
Ormithion pusilluin juruanun n. subsp.
Dendrocolaptes juruanus n. sp.
Thamnophilus juruanus n. sp.
Myrmotherula pyrrhonota amazonica n. subsp.
» garber n. sp.
Galbacyrhynchus leucotis innotatus n. sp.
Aproveito a occasiäo para exprimir meus agra-
decimentos aos distinctos collegas Sr. Conde Th. Sal-
vadori era Turim e Conde H. von Berlepsch em Ger-
tenbach, Allemanha, pela valiosa coadjuvação que me
prestaram no exame de certas especies duvidosas ou
menos conhecidas. Reproduzo literalmente muitas das
informações do Sr. von Berlepsch na seguinte enume-
ração, já pelo motivo de alguns dos exemplares typi-
cos não me terem sido ainda devolvidos.
O caracter geral desta avifauna é o dos Estados
do Amazonas e Matto Grosso, acontecendo que certo
numero de especies, que no Brazil até agora tem
sido encontradas sómente no Matto Grosso, são por esta
colleeção provadas serem tambem do Amazonas. Rela-
ções intimas tambem são demonstradas com o territo-
rio peruano do Alto Amazonas. Com referencia a essa
fauna é mister mencionar o importante estudo de H.
von Berlepsch (1) sobre as aves do Alto Amazonas.
O presente estudo enumera certas especies do rio
Juruá que até agora eram conhecidas sé do Perú. São
as seguintes estas especies em numero de 18 que por
conseguinte são novas para a fauna do Brazil:
(1) Systematisches Verzeichnis der von G. Garlepp in
Brasilien u. Nord-Perú im Gebiete des oberen Amazonas gesam-
melten Vogelbilge. Cabanis Journal f. Ornithol. Jahrg. 1889,
p. 97-101; 289-321; Est. IJI.
= BORN
Turdus hauxwelli Percnostola fortis
Heleodytes hypostictus Sclateria leucostigma
Leucolepia modulator (Lafr. et | Hypocnemis cantator peruvianus
D’Orb.) » theres
Myiopagis subplacens (Scl.) Pithys salvini
Sclerurus brunneus Galbula tombacea
Dendrocinela phaeochroa Micromonacha lanceolata
Dendrocolaptes radiolatus Capito aurovirens
Thamnophilus nigricristatus sub- » aurantiicollis
radiatus Crypturus balstoni
Myrmelastes hyperythrus
Juntando a estas especies, que säo novas para a
fauna do Brazil, as 7 que são novas para a sciencia,
temos um total de 26 especies mencionadas ou des-
criptas pela primeira vez para a fauna do Brazil, o que
representa nada menos de 1/7 da collecção de 188 es-
pecies colligidas pelo Sr. Garbe.
E” este um resultado assaz lisongeiro, que se ex-
plica pelo facto de ter sido esta a primeira exploração
scientifica da região do rio Juruá.
Além do interesse faunistico esta collecção de aves
tem ainda outro, biologico.
O territorio em que foi reunido o material que
estudamos e que se acha marcado em nosso mappa,
Est. VIII, é todo occupado pelas extensas mattas da
Amazonia. E' pois um facto singular que, no meio das
aves ali colligidas, se encontram especies que são habi-
tantes característicos dos campos. Isto não poderia ter-
se dado si toda esta região estivesse coberta sem inter-
rupção pelo matto virgem. Tal porém não acontece,
representando o rio Juruá e seus afiluentes, bem como
as lagôas e banhados que os flanqueiam, de certo modo,
vias de communicação com outras regiões distantes. Os
rios e as lagôas occupam largo espaço no valle do Ama-
zonas e explicam a presença de numerosos typos de
aves extranhas ao matto e ligadas, na sua existencia, à
agua. Explica-se desta forma a presença de Jaburús
dos generos Crcoma e Tantalus, de garças e outras
Ardeidas, de representantes dos generos Æurypya,
Psophia, de diversas Limicolas e de gaivotas dos gene-
ros Sterna e Rhynchops. E’ notavel entretanto a au-
sencia completa de Anatidas.
Ao lado destas aves aquaticas encontram-se outras
que geralmente frequentam os campos, como Crotophaga
an, Myiospiza peruana, Muscivora tyrannus e outros.
Para explicar a presenga destas aves temos de recordar
que o valle do rio Juruá offerece um aspecto comple-
tamente differente nas duas estações do anno: o da
enchente e o da secca.
Ao passo que no tempo da enchente o valle do rio,
por muitas leguas, é inundado, incorporando-se as lagoas
ao rio, na estação secca as extensas varzeas e praias
offerecem vantajosas condições de vida tambem a certas
aves dos campos. Podemos, por esta razão, suppor que
estas especies effectuam migrações annuaes, invadindo o
valle do rio nos mezes de Maio a Novembro, dada a
vasante.
Para confirmar esta hypothese necessitamos de n.-
vas observações; as aqui communicadas ao menos não
se oppõem a esta idéa.
São de um interesse especial, neste sentido, os re-
presentantes da familia dos Tyrannidæ. Notamos entre
especies caracteristicas da região amazonica outras de
uma distribuição geographica enorme como: Tyrannus
melancholicus, Pyrocephalus rubinus e Muscivora ty-
rannus. Estas duas ultimas especies apparecem no
Brazil meridional só no verão, extendendo suas migra-
ções até a Patagonia. Ora, são justamente os mezes
de Maio a Outubro, em que as condições desfavoraveis
do clima obrigam estas avesa retirarem-se do sul do
Brazil, quando os valles da bacia amazonica a elles offe-
recem excellentes condições de vida.
Neste sentido seria de grande importancia continuar
esta exploração do rio Juruá, afim de obter ao menos
para um dos grandes afluentes meridionaes do rio Ama-
zonas um quadro completo da composição da fauna e
de suas oscillações annuaes.
Não podemos duvidar de que a enumeração aqui
dada seja bem incompleta, mas parece que certos dados
— 430 —
negativos não são originados pela insufficiencia da col-
lecção, mas sim por factos resultantes das singulares
condições bio-coenoticas da Amazonia. Assim do mesmo
modo como marrecas e outras Anatidas, faltam na col-
lecção tambem as pombas ; o sr. Garbe não viu especies
de Columbidæ e Peristeridæ e de Turdidas obteve apenas
uma especie. Estes factos de certo estão em relação
com a circumstancia de que estas aves preferem as campinas
e capoeiras, evitando em geral a matta virgem cerrada.
FE? singular, tambem, a escassez de beija-flores ou Tro-
chilidas, das quaes uma só especie foi caçada.
O sr. Garbe, entretanto, viu-os ao redor de altas
arvores floridas, sem comtudo poder alcançal-os.
Seria pois a desejar que explorações ulteriores com-
pletassem o quadro aqui delineado da avifauna do rio
Juruá.
Aves do Rio Juruá
Ordem Passeriformes
SUBORIEN ACRONVODI
Turdide
1. Merula hauxwelli (Lmor.)
Esta especie era conhecida até agora de Iquitos
do Peru. O unico exemplar foi examinado pelo Conde
H. von Berlepsch. Trata-se pois de uma especie nova
para a fauna do Brazil. E' bem singular a quasi com-
pleta ausencia de sabiäs ou Turdidæ na região do rio
Juruá, facto que parece provar que a distribuição destes
passaros se prende essencialmente à extensão dos campos.
Froglodytidæ
2. Heleodytes hypostictus (Gould)
Campylorhynchus hypostictus B. Sharpe, Cat. Brit.
Mus. VI pag. 189.
— 431 —
Esta especie, conhecida até agora da Columbia e
do Pert, da região do Alto Amazonas, é egualmente
nova para a fauna brazileira. Obtivemos um exemplar
x, cujo comprimento total é de 180 mm., sendo o
comprimento da aza 77 mm. e o da cauda 80 mm.
o
3. Thryophilus albipectus (Cab.)
Um exemplar de 130 mm. de compr., cuja aza
mede 62 mm. e a cauda 45 mm.
4. Thryothorus genibarbis juruanus subsp. 7.
Tr. subspecies nova a T. genibarbi Sivains. rectri-
cibus omnibus late fascialis distincta, nec non pogomo
externo remigium indistincte nigro-fascrato. Long. tot.
150 mm., at.60 mm. caud. 57 mm., culm. 16 mm.
Esta variedade de 7: genibarbis distingue-se da
forma typica pelas rectrizes que todas são de côr cin-
zento-amarellada, com largas faixas pretas transversaes,
ao passo que na forma typica as duas rectrizes exterio-
res têm a barba interna uniformemente escura, quasi
preta. As remiges têm a barba exterior de côr pardo-
escura, com orla pardo-avermelhada e com uma serie
de manchas pretas ao lado da haste.
Segundo communicação do Sr. von Berlepsch o de-
senho das rectrizes é bastante variavel neste grupo ; ha
porém outros caracteres que parecem justificar a sepa-
ração da forma juruana como subspecie. Taes são a
cor cinzento-clara da garganta e do peito superior e o
tom pardo-avermelhado escuro do dorso. Os exempla-
res da Bahia têm o dorso mais amarello-avermelhado.
Contudo chservo que é preciso obter material mais
abundante para elucidar a questão.
A especie é distribuida desde a Bahia, Goyaz, Matto-
(Grosso e Bolivia pelo Brazil septentrional atê o rio Negro.
9. Leucolepia mo lulator (Lajr. et D'Orb.)
Varios exemplares, alguns dos quaes ainda, novos e
um tanto differentes no colorido. O Sr. von Berlepsch
achou-os eguaes com exemplares que tem da Bolivia.
6. Microcerculus cinctus (Pelz.)
— 432 —
Um exemplar macno de 30 de V. 02 desta especie,
conhecida até agora só de Borba no rio Negro.
Mimidoae
7. Donacobius atricapillus (L.)
Vireonidæ
Vireo chivi ( Vreull.)
Pachysilvia ferrugineifrons (Scl.)
<0.
Coerebi dae
10. Dacnis flaviventris Lafr. d’ Oro.
Tanagridæ
11. Euphonia chlorotica (L.)
12. Calospiza boliviana (Bp.)
13. Calospiza chilensis (Vig.)
14. Tanagra cœlestis Spx
15. Rhamphocoelus jacapa (L.)
16. Phoenicothraupis rhodinolema Salv. God.
Esta especie é representada apenas por uma femea
(de Junho de 1902) cujo comprimento é 170 mm.
sendo o da aza de 85 mm. A côr avermelhada das re-
ctrizes é bem pronunciada ao passo que a orla exterior
das remiges é pardo-avermelhada. Acho notavel a côr
da garganta que é branco-amarellada, contrastando com
a cor pardo-cinzenta pallida do peito.
17. Eucometis albicollis (Lafr. d'Orb.)
Fringillidoe
18. Saltator superciliaris (Spv3c)
19. Sporophila castaneiventris (Cab.)
20. Myospiza peruana (Bp.)
O Sr. Garbe obteve em Junho da 1902 um ninho
com tres ovos, que são brancos, medindo 19,5—20X15
— 433 —
mm. Estes ovos são pois perfeitamente semelhantes aos
de M. manimbe (Licht.)
21. Paroaria gularis (L.)
Icteridae
22. Gymnostinops yuracares (Lafr. d’ Orb.)
23. Ostinops viridis (Mill.)
24, Ostinops angustifrons (Spex)
25. Cassicus albirostris (L.)
Cassicus persicus L. Cat. B. Brit. Mus. Vol. XI
pag. 32).
26. Cassidix oryzivora (Gi.)
27. Agelaeus icterocephalus (Z.)
2e. Icterus cayanensis (L.)
Corvidse
29. Gyanocorax violaceus Du Bus
subordem Mesomyodi
VTyrannidze
30. Todirostrum maculatum ( Vrecll.)
31. Perissotriccus ecaudatus (Lafr. d Orb.)
Para esta especie do genero Orchilus o sr. Ober-
holser creou um novo genero Perissotriccus (Proc. U.
S. Nat. Mus. 1902 XXV,N. 1276, pg. 64), que diz ser
caracterizado pela cauda relativamente curta. O conde von
Berlepsch, a quem mandei o nosso unico exemplar (N.
3667) julgou-o egual aos que tem de Hualaga, Perú.
32. Stigmatura budytoides (Lafr. d'Orb.)
Esta especie, que occorre desde o norte da republica
Argentina até o Matto-Grosso, é nova para a fauna do
Amazonas, bem como a especie precedente, que Pelzeln
obteve no Matto-Grosso.
— 434 —
33. Mionectes oleaginus (Licht.)
34. Ornithion pusillum juruanum n. subsp.
Cf. BEM J i MOL TS SAND = SO
Segundo informações de H. von Berlepsch, o nos-
so exemplar (n. 3666) do rio Juruá, differe do typo
pela côr verde-azeitonada, em vez de parda, do vertice
e pelo ‘ado ventral de côr amarella, viva, sem o tom
verde-azeitonado no peito. Como recebemos apenasum
exemplar d', não é possivel pelo momento decidir si se
trata de uma variação individual ou de uma subspecie
nova.
porém, como é provavel, as differencas indica-
das entre a variedade de Iquitos e a do rio Juruá fo-
“rem constantes, a forma presente deve ser separada sob
ce nome, propondo eu o de O pusillum juruanum
n. subsp., diagnose seria: A. O. pusillum olivaceo
e olivaçeo verescente nec bruneo infraque colore
luiea a forma typica differente.
do. Myiopagis subplacens (Scl.)
Um exemplar (N. 3665) d', cujo comprimento é
de 150 mm. e cuja aza mede 80 mm. A cor do lado
dorsal é bruno-cinzenta, escura. com um leve tom verde-
azeitonado. A cabeça é bruno-cinzenta com uma grande
mancha alaranjada no vertice, mais ou menos escondida
pelas pennas escuras. A garganta é branco-cinzenta, o
peito bruno-cinzento, misturado com amarello ; a barri-
ga é amarella, mais clara no meio. As ultimas pennas
subcaudaes são amarellas, com uma orla terminal preta
e com uma larga faixa bruno-escura subterminal, que é,
posteriormente, orlada de branco. As coberteiras das
azas são bruno-escuras, sem manchas.
Penso que este passaro corresponde bem à descri-
pção de M. subplacens, especie até agora observada só
no Equador e no Peru.
36. Empidonax pileatus (Mil)
— 435 —
Uma 9 (N. 3664) examinada por H. von Ber-
lepsch.
31. Pyrocephalus rubinus (Bodd.)
Um exemplar macho de 8 de Agosto de 1902. Esta
observação é interessante, visto que a especie, no Brazil
meridionale na Argentina, não é encontrada no mez de
Agosto, apparecendo só no verão, a começo de Outubro.
38. Tyrannus melancholicus Vreull.
39. Muscivora tyrannus (L.)
Pipridae
40. Cirrhopipra filicauda (Spz.r)
Al. Pipra rubricapilla Briss.
42 » leucocilla L.
43. » eyaneocapilla Hahn u. K.
44. .Schiffornis major Dp.
Cotingidac
49. Tityra cayana (L.)
46. Pachyrhamphus cinereus ( Dodd.)
47. Lathria cinerea ( Veeell.)
48. Laniocera hypopyrrha ( VeezIl.)
Aulia hypopyrrha Vieill., Cat. B. Brit. Mus., Vol.
RIVA ps. aod.
19. Cotinga cayana (L.)
90. Xipholena pompadora (L.)
91. Gymnoderus foetidus (L.)
Bendrocolaptidze
52. Synallaxis albilora Pelz.
Esta especie era conhecida até agora só do Para-
gury, Matto Gsosso e da Bolivia.
93 Synallaxis propinqua Pels.
94. Siptornis hyposticta Pels.
— 436 —
55. Phylidor pyrrhodes (Cab.)
» erythrocercus Pelz.
56. Ancistrops strigillatus (Spzx)
O Sr. conde von Berlepsch achou o nosso exem-
plar identico com um seu de Yurimaguas. Foi elle e não
o «Sr. von Pelzeln», como diz Sclater no Cat. B. Brit.
Mus., vol. XV, pg. 103, quem verificou a identidade
desta especie com A. Imeaticeps Sel.
97. Xenops genibarbis Ji.
8. Sclerurus brunneus Scl.
Um 4 de Junho de 1902, cujo comprimento to-
tal é de 180 mm, da aza 90, da cauda 71.
Esta especie era conhecida até agora só da Colum-
bia e do Perú oriental, sendo, pois, nova: para a fauna
do Brazil. |
59. Glyphorhynchus cuneatus (Lecht.)
60. Dendrornis ocellata juruana 7. subsp.
2 ff eP. Oo N. 3535 tem o comprimento
do 220 mm., sendo o comprimento da aza 105 mm. e
da cauda 94 mm. O culmen mede 36 mm., a distan-
cia da venta à ponta da maxilla é de 26 mm. O bico
é escuro, à excepção da parte basal da mandibula, que
é amarellada ; a ave nova tem a mandibula inferior cin-
zento-escura, cornea. As pennas do pescoço posterior
têm manchas arredondadas de 2 mm. de largura, com
orla terminal preta. No dorso estas manchas ficam mais
estreitas e compridas, sendo ainda orladas de preto, à
excepção das ultimas no interscapulio, que formam ape-
nas uma estreita estria amarella mediana da penna.
A metade posterior do dorso é immaculada, do
mesmo modo como o ventre. De D. elegans Pelz. a
especie distingue-se pela falta das grandes manchas dor-
saes e da 1). ocellata typica pela orla preta das man-
chas alongadas do interscapulio. Acredito que estes
exemplares representam uma subspecie nova, para a
qual proponho e nome de jurwana, caso que esta opi-
nião seja confirmada pelo exame de exemplares typicos,
que não posso comparar. Evidentemente estes. exem-
See en
plares são mais ou menos intermediarios entre as espe-
cies: elegans e ocellata.
61. Dendrornis rostripallens Des Murs
62. Nasica longirostris ( Vreull.)
63. Dendrocinela phaeochroa Berl. u. Hart.
A especie é nova para a fauna do Brazil.
Os exemplares typicos são provenientes do rio Ori-
noco, Venezuela,
64. Dendrocolaptes radiolatus Scl. Salv.
Um & de 280 mm. de compr., cuja aza mede
133 mm.. a cauda 130 mm., o tarso 28 mm. e o bico
(culmen) 38 mm. As pennas da garganta são branco-
amarelladas, com larga e irregular orla escura.
No interscapulio têm as pennas uma estreita es-
tria mediana e faixas transversaes escuras pouco pro-
nunciadas, tendo geralmente cada penna quatro destas
faixas, interrompidas no meio.
Esta especie, conhecida do Alto Amazonas, Perú,
Equador e Guyana Ingleza, não era ainda conhecida
do Brazil. O exemplar do rio Juruá parece distinguir-
se pela faixas interscapulares um tanto apagadas.
65. Dendrocolaptes juruanus 7. sp.
Species D. concolore similis, sed fasciis brunneo-
flavescentibus arcuatis subterminalibus pennarum
piler capitis distincta nec non tectricibus alarum ex-
terms cinnanomeo-brunneis, nigro-fasciatis, internis
flavescentibus nigro-fascratis. Long. é 280 mm, al.
125 mm., caud. 126, tars. 27 mm., culm. 38 mm.
A côr geral do dorso é pardo-azeitonada com faixas
pretas estreitas, transversaes, de 3 a 4 sobre cada pen-
na. O dorso inferior, a cauda e a aza são castanhas.
As rectrizes exteriores da aza são mais pardas e mu-
nidas de duas faixas pretas subterminaes. A cabeça do
macho é em cima pardo-cinzenta com duas faixas ama-
rellentas em cada penna, das quaes uma é subterminal
e separada da seguinte por uma faixa escura. AÀ gar-
ganta é brancacenta com uma orla escura apagada
em cada peuna, cuja parte central e basal é escura.
“Tambem as pennas lateraes do pescoço têm este dese-
— 458 —
nho, porem de cor mais viva. O peito é da cor do
dorso com estreitas faixas transversaes e haste bran-
ca; egual desenho encontra-se na barriga, porem mais
apagado, desapparecendo na parte posterior, onde a côr
predominante é amarellada. As coberteiras internas da
aza são amarello-ferrugineas com faixas transversaes
escuras. O bico é bruno-escuro, quasi preto.
2. À femea tem na cabeça a segunda faixa quasi
obsoleta e as dimensões são um pouco maiores. O
compr. tot. é de 280 mm., o da aza de 129, o da
cauda de 123. O culmen mede 45 mm., a distancia
da venta à ponta do bico é de 31 contra 28 no df. A
largura do bico é de 11 mm. na região das ventas na
S e de 10 mm. no &.
Recebemos uma 9 de Sept. 1902 e um casal de
Novembro do mesmo anno.
O Snr. von Berlepsch escreve-me que considera
esta especie como intimamente alliada a D. certhia
Bodd., da qual parece-lhe representar uma subspecie, ca-
racterizada pelas faixas pretas transversaes do dorso.
Comparando, entretanto, com a nossa ave a descripção
que Sclater dá desta especie no Cat. Brit. Mus. Vol.
p. 173. vejo alli indicadas estas faixas transversaes, mas
além disto manchas medianas nas pennas da cabeça e
da nuca, orladas de preto, o que falta ao nosso exem-
plar, que no desenho da cabeça combina com D. con-
color. © nosso exemplar N. 3487 é um macho adulto,
ao passo que o Snr. von Berlepsch diz que o seu é
novo.
Referindo-me apenas ao nosso exemplar, conside-
ro-o como typo de uma especie intermediaria entre
L. certhia e concolor, reconhecendo, entretanto, que
esta minha opinião poderá ser alterada pela compara-
ção de series numerosas de diversas localidades.
Formicariidsae
66. Thamnophilus murinus Pelz.
67. Thamnophilus nigricristatus subradiatus Berl.
Esta especie era até agora conhecida só do Peru.
— 439 —
68. Thamnophilus radiatus Vreull.
Um casal de X e XI de 1902.
69. Thamnophilus melanurus Gould.
70. Thamnophilus juruanus n. sp. Est. XVI £ 1.
Differt a Th. aethiope pileo cinereo (nigrescente
Th. aet'iope).
Tendo mandado os nossos dous exemplares, um
q ad. e um & juv. ao conde H. von Berlepsch, não
posso dar uma descripção extensa, limitando-me pelo
momento a repreduzir a informação que sobre esta es-
pecie nova me deu meu competente amigo.
«H’ especie visinha de 7h. aethiops Scl., com que
deve ser comparada. Segundo a descripção. dessa es-
pecie é de suppor que as aves do Juruá se distin-
gam pelo colorido pardo-cinzento da cabeça (em vez
de preto), combinando, porêm, no desenho das pennas
scapulares. Th. polionotus Pelz. cujo typo tenho pre-
sente, distingue-se por terem todas as pennas das cober-
teiras superiores da aza (mesmo as intermedias e as
grandes) manchas apicaes brancas. Quanto ao colorido
da cabeça Th. polionotus combina mais ou menos com
as aves do Juruá.
O exemplar N. 3649 (d' juv.) differe do N. 3650
(4 ad.) pelo bico pr: menor e pelas orlas
apicaes brancas das rectrizes exteriores, que faltam com-
pletamente a este ultimo. Além disso ainda notam-se
vestigios da plumagem da ave immatura. Como ambas
as aves provem da mesma localidade, devemos certa-
mente consideral-as como pertencentes à mesma especie,
porém de idade diversa».
71. Pygoptila maculipennis (Sc/.)
2 machos e uma ©. O Sr. von Berlepsch, a quem
mandei dous exemplares, verificou a identidade com
exemplares do Alto Amazonas do Museu Berlepsch.
72. Dysithamnus schistaceus (Lafr. e D'Orb.)
Mandei ao conde von Berlepsch o nosso unico
exemplar © que segundo sua communicação combina
com exemplares conservados no Mus. Berlepsch.
73. Dysithamnus ardesiacus saturninus (Pelz.)
— 440 —
O Sr. von Berlepsch examinou os nossos exem-
plares ( 9). observando que a subspecie saturninus
diverge da especie typica por maior tamanho, pelo co-
lorido negro da garganta mais extendido e as pennas
dorsaes na base com manchas brancas maiores.
74. Thamnomanes caesius (Licht.)
H. von Berlepsch, a quem enviei um exemplar,
identifica-o com os que tem da Bahia.
7). Myrmotherula axillaris ( Vreull.)
76. Myrmotherula pyrrhonota amazonica subsp. n.
Differt a M. pyrrhonota cauda majore remigi-
bus secundartis brunneis, maculis tectricum majorum
flavescentibus. Long. tot. 110 inm., al. 50 min., caud.
D 1 MM.
O 4 tem o dorso castanho, mas esta côr não se
extende sobre as orlas das remiges, que são bruno-par-
das; as manchas apicaes das tectrizes da aza são bran-
cacentas, à excepção das tectrizes maiores, nas quaes
são amarellentas.
A © tem as manchas das coberteiras da aza todas
amarellentas e o dorso castanho como o macho.
Esta forma juruana distingue-se, pois, da especie
typica da Venezuela e do rio Negro, pelas dimensões
maiores e pelo colorido das azas, differindo de M. he-
n.atonota Sel. do Perú pela côr castanha do dorso em
ambos os sexos.
77. Myrmotherula surinamensis (Gm.)
18. Myrmotherula brevicanda juruana n. subsp.
Um & de Outubro de 1902 (N. 3626), de 95 mm.
de compr. tot., medindo a aza 54 mm. e a cauda 28 mn.
À extensão da mancha preta da garganta não é
grande e as pennas inferiores da mesma têm os tálos
brancos. As remiges secundarias são pardo-cinzentas
com largás orlas cinzentas. Egual cor tem a cauda,
cujas rectrizes lateraes têm estreitas pontas brancas.
Tambem algumas das remiges secundarias têm ys pon-
tas orladas de branco.
Observo aqui que um o da mesma especie que
tenho de S. Sebastião. tem as pontas das remiges secun-
— Ail —
darias orladas de branco com uma larga faixa preta
subterminal. Falta-me o material para a distincção das
especies alliadas desta secção ou das respectivas sub-
species.
Julgo provavel que a fórma do rio Juruá, deve for-
mar uma subspecie que denomino juruana, e que é
distinguida por dimensões um pouco maiores, por ser
a mancha preta da garganta menor e pela falta das
faixas pretas subterminaes nas remiges do braço e nas
rectrizes.
19. Myrmotherula cinereiventris Scl. a. Sale.
Esta especie, da qual A. assimilis Pelz. é synony-
ma e que era conhecida da Amazonia, Guiana, Equador
e do Pert, recebemos em varios exemplares do Juruá e
de Santarem, Pará.
80. Myrmotherula longipennis Pelz.
Estampa XV, fig. 2.
3 machos e 1 femea desta especie.
81. Myrmotherula garbei n. sp.
Estampa XV, fig. 1.
O exemplar typico (oS N. 3620 de X. de 1902) man-
dei ao Conde von Berlepsch que me deu a seguinte des-
cripção provisoria.
As medidas desse exemplar são as seguintes : al. 55;
cand. 29,5: culm: 13,3; tars: 18,7:mr.
«A especie, à qual mais se assemelha, é 12. schustico-
lor Law. da qual, entretanto, differe pelo colorido branco-
cinzento do ventre muito mais claro, lado dorsal pura-
mente cinzento-azulado em vez de pardo-negrescente
(bräunlich schieferschwarz) e pelas manchas apicaes
brancas das rectrizes exteriores. Comparei tambem o
exemplar com o typo da M. longipennis Pelz., da qual
differe pela cauda muito menor, e por se extender muito
mais pelo peito, tanto no meio como nos lados, a man-
cha preta da garganta, ao passo que em M. longipennis
o peito eos seus lados são de côr cinzento-clara.
Tambem o ventre é de côr branco-cinzenta mais
clara. As barbas internas das remiges não têm orla
brancacenta.»
— ae
82. Formicivora bicolor Pelz.
&3. Myrmelastes hyperythrus (Gould) 1855.
Thaimnophilus plumbeus Sel 1858. Cat. Brit.
Mus. Vol. XV, pg. 193.
Segundo a opinião do Sr. conde von Berlepsch, esta
especie não póde ficar incluida no genero Thamnophi-
lus. Os generos Myrmelastes, Heterocnemis, Perenos-
tola e Pyriglena formam um grupo natural. O exem-
plar do Juruá combina, segundo H. von Berlepsch, com
um de Iquitos, Perú. E’ esta uma especie nova para
a fauna brazileira, visto como até agora tem sido obser-
vada só no Perú, região do Alto Amazonas.
84. Percnostola fortis Scl. e Sale.
Tambem esta especie não era até agora conhecida
do Brazil, tendo sido colligida sô no Perú e Equador.
85. Sclateria leucostigma (Pelz.)
Especie da Columbia e Guyana e do rio Negro,
observada pela primeira vez ao sul do Amazonas.
86. Drymophila juruana n. n.
Fornucivora ruficauda Pelz., Orn. Bras. 1870,
pgs. 83, 159.
Como o nome especifico «uficauda» ja se acha
empregado no genero Drymophila, appliquei um nome
novo, seguindo o conselho do Sr. conde von Berlepsch,
que em Vienna examinou os typos de Pelzeln, que jul-
ga parecidos, porém, differentes do D. heminielaena Sel.
Os exemplares colligidos por Natterer e descriptos por
Pelzeln, provem do Matto-Grosso.
87. Hypocnemis cantator peruvianus Tacs.
Dous machos desta subspecie, que se distinguem da
forma typica de Cayenna por ter manchas pretas no dorso
e que faltam ao H. cantater (Bodd).
88. Hypocnemis leucophrys (Tsch.)
89. Hypocnemis theresæ (Des Murs)
Uma 9 de IX de 1902.
Esta especie, descoberta por Castelnau no rio Javari,
ainda até agora não tinha sido encontrada no interior
do Brazil.
90. Hypocnemis maculicauda Pelz.
— 443
Von Berlepsch escreve-me que 0 nosso exemplar
o combina com o typo de Pelzeln.
91. Pithys salvini Berl.
Est. XVI fig. 2.
Berlepsch, Journ. f. Orn. 1901 p. 98.
O nosso exemplar, N.º 3.655, designado como «P»
parece ser & juv. em plumagem transitoria. E” este
o segundo exemplar conhecido, sendo o primeiro pro-
veniente do norte da Bolivia. O sr. conde von Ber-
lepsch escreve-me, sobre o mesmo o seguinte: Não é
impossivel que P. salrini possa coincidir com P. lu-
nulata Scl. e Salv., mas tambem ao novo exemplar ju-
ruano falta a mancha branca occulta no dorso e que a
P. lunulata possue.
92. Phlogopsis nigromaculata bowmani Redgw.
Um exemplar de 20 de Novembro de 1901, sem
indicação de sexo, cujo comprimento total é de 175
mm., sendo o da aza 85 mm. e o da cauda 63 mm.
Na margem anterior da aza, no encontro e atraz delle,
as pennas são brancas.
As grandes manchas subterminaes das remiges se-
cundarias têm a largura de 5 a 6 mm. Falta-me o
necessario material para decidir a questão seo P. bow-
mam Ridgw. pode ser reconhecida bôa sub-especie
de P. nigromaculata (Lafr. et D'Orb.) ou não.
93. Formicarius analis (Lafr. et D’ Orb.)
94. Grallaria brevicauda (Bodd.)
Ordem Macro hires
Wrochilid ee
99. Phaethornis bourcieri (Less.)
Caprimulgidie
3. Nyctidromus albicollis (Gin.)
97. Hydropsalis climacocercus Tsch.
Um & juv. em plumagem de Q com as rectrizes
medianas incompletamente desenvolvidas.
de. Chordeiles rupestris (Spix
Um exemplar macho e diversos ovos.
— As
Ordem Pici
99. Chloronerpes capistratus (Bp.)
Um & juv. e uma 9. O Sr. von Berlepsch con-
firmou a determinação, accrescentando que, na Q, as
faixas claras do lado ventral são de côr amarello-ochra-
ceo e não
tão branco, esverdeadas como nos exempla-
res 9 9 da Guyana, e o vertice é de um verde mais
escuro.
100.
101.
102.
103.
104.
105.
106.
HOT:
108.
109.
Esta
como tem
e Equador.
Chloronerpes flavigula (Bodd.)
Chrysoptilus guttatus (Sprx)
Melanerpes cruentatus (Bodd.)
Venihornis haematostigma (Malh.)
Celeus jumana (Spex)
» grammicus (Malh.)
Cerchneipicus occidentalis Hargztt
Crocomorphus flavus (Miill.)
Campephilus trachelopyrus (Malh.)
» melanoleucus (Gm.)
Ordem Coccyges
Momotidae
Urospatha martii (Spix)
Wrogonidie
Pharomacrus pavoninus (Spix)
Trogon collaris Vrerll.
» atricollis Veezll.
» melanurus #10.
» viridis L.
Galbulidæ
Galbula cyaneicollis Cass.
» tombacea Spix
especie é interessante pela localidade, visto
sido observada só no Alto Amazonas, Perú
— 445 —
118. Galbacyrhynchus leucotis innotatus subsp. n.
1 Qed dd; destes ultimos, N.º 3.474 de XI. de
1902, é adulto, como provam as estrias longitudinaes
pretas do peito, mas existe atraz do ouvido apenas uma
unica penna branca, no lado esquerdo, faltando no lado
direito. O exemplar N.º 2.256, examinado pelo conde
Salvadori, foi por elle considerado como 9 ; o bico
mede no culmen 48 mm. Od já mencionado tem o
culmen com 97 mm. de comprimento, como o têm
tambem os outros dois exemplares sem indicação de sexo
e que julgo d'd', tambem pela circumstancia de terem
as pennas do vertice alongadas e acuminadas, ao passo
que são arredondadas na ©, que as tem acuminadas só
na frente e na metade anterior do vertice A Q é de
cor mais clara em baixo e nas coberteiras exteriores
da aza, e tem as pennas da frente orladas de castanho.
O 3 (N.º 3.474) tem um compr. tot. de 210 mm.;
o da aza éde 88 mm. e o da cauda de 75 mm.
Acredito por este motivo que a fórma do rio Ju-
rua representa uma variedade caracterizada pelo desap-
parecimento da mancha branca da região auricular no
macho. Designo a esta subspecie G. leucotis innotata
subsp. n. Differt a G. leucote macula alba auriculare
obsoleta vel absente.
A especie é nova para a fauna brazileira, visto ser
inexacta, segundo toda a probabilidade a indicação da
sua occorrencia em Pernambuco mencionada por Pel-
zeln. A especie é conhecida do Alto Amazonas, espe-
cialmente do Perú, tendo sido observada tambem no rio
Javari por Bates.
Junto aqui algumas notas bio'ogicas do Sr. Garbe.
No estomago de diversos exemplares encontrou exclu-
sivamente Apidas e Vespidas. O bico e os pés são
vermelhos, côr de coral, mas a base do bico é escura
na femea ao passo que é vivamente vermelha nos ma-
chos, principalmente na base da maxilla, onde este tom
se conservou bem em dous dos machos.
119. Jacamerops aurea (P. L. S. Mill.)
— 446 -
EBucconidee
120. Bucco capensis L.
B. collaris Lath. Cat. Br. Mus. XIX p. 180.
121. Bucco tamatia Gm.
122% » macrodactylus (Spex)
123. Malacoptila rufa (Spe)
124. Micromonacha lanceolata (Deville)
Uma @ de XI, de 1902. Long. tot. 130 mm.
ala DS mm., cauda 43 mm. Esta especie monotypica
é nova para a fauna do Brazil, tendo sido observada
até agora só no Equador e no Alto Amazonas, Perú.
125 Nonnula ruficapilla (Tsch.)
125. Monasa morpheus (Hahn u. Küst.)
Lie » nigrifrons Sprx
128. Chelidoptera tenebrosa (Pall.)
Capitonid:e
129. Capito aurovirens Cro.
Esta especie é nova para a fauna brazileira. [oi
até agora observada no Perú e no Equador.
13). Capito auratus (Dumont)
131. Capito aurantiicollis Scl.
Obtive desta especie dous casaes, dos quaes um, o
S juv N. 3558 e 2 N. 3555 cedi ao sr. von Berlepch.
“Og n 8552 é adulto e corresponde à descripção
de C. aurantiicollis que G. Shelley deu no Cat. XIX
do Brit. Mus. p. 115, differindo apenas pela côr do bico,
que é amarella excepto duas manchas escuras de cada
lado, quasi no meio.
A PQ N. 3557 temo bico menor ou mais curto, de
côr pardo-cinzenta, sendo amarellada só na base e no
lado inferior da mandibula. A frente é cinzento-escura,
com uma estreita borda anterior de côr preta, que se
extende sobre a região loral. O lado superior é verde-
azeitonado, tendo as pennas do pescoço posterior uma
borda terminal pouco pronunciada, amarello-clara. So-
bre o olho corre uma estreita faixa branco-cinzenta que,
ao tag oe
para traz se dilata, formando uma faixa amarello-dou-
rada. A coberteira auricular é preta, o resto da face
e da garganta é cinzento, com uma mancha amarello-
pallida, atraz do mento. O peito é amarello-esverdeado
tendo adeante uma larga faixa alaranjada. A barriga
é amarella, tornando-se, para traz, brancacenta, sendo as
pennas munidas de largas estrias escuras no meio.
As medidas são, para o 4: long. tot. 150 mm.,
ala 68,5 e caud. 49 mm.; para a 9 long. tot. 15 mm
ala 69 mm. e caud. 50 mm.
Segundo a descripçäo de Shelley a femea de au-
rantiicollis tem a frente da cabeça preta, o vertice ama-
rello-dourado, o mento preto, etc., differindo, por con-
seguinte, muito dos nossos exemplares de egual sexo.
Parece-me que as nossas femeas AO à
descripção dada por Shelley para a femea de C.
chardsont. Teriamos assim o caso de termos abtido 2
machos de €. awranticollis e 2 femeas de C. richard-
sont. Como, entretanto, estas especies são alliadas, não
podemos regeitar de todo a idéa de que estes machos |
e femeas, de dimensões quasi identicas, nos representem
uma unica especie, que pretendi descrever sob o nome
de C. berlepschi, desistindo porém desta intenção, em
vista da objeeção do Sr. von Berlepsch, que duvida que
a femea descripta por Shelley como auranticollis elle-
ctivamente pertença a esta especie.
Fica, por conseguinte, a decidir si no rio Juruá co-
existem as duas especies alliadas €. aurantucolhs e
richardsont ou si a femea aqui descripta pertence à
C. aurantiucotlis, devendo neste caso ser inexacta a Opi-
niäo de Shelley, Je que as femeas por elle descriptas per-
tencam a €. aurantucollis.
Rhamphastideze
132. Rhamphastos cuvieri Wagl.
133. Rhamphastos culminatus Gould
134. Pteroglossus beauharnaisi Wagl.
135. Pteroglossus humboldti Way/.
— 448 —
136. Pteroglossus flavirostris Frazer
137. Selenidera langsitorfil ( Wagl.)
Cuceulidæ
138. Piaya melanogastra ( Vreoll.)
139. Piaya rutila (7/4)
140. Piaya cayana cabanisi Allen.
O nosso exemplar © de X, de 1902 tem o compri-
mento de 430 mm., mendindo a aza 140 mm. e a
cauda 285 mm. A côr do dorso é mais vivamente cas-
tanha do que nos exemplares do Brazil meridional, que
designo com o nome de var. guaran. A barriga em
nosso exemplar do Juruá é cinzenta, o crissum dene-
grido. O lado inferior das rectrizes é pardo escuro, com
um tom avermelhado. Esta ave, cuja cauda mede cer-
ca de 1174, parece corresponder bem à forma de Cha-
pada, no Matto Grosso, da qual Allen tratou (Bull. Am.
Mus. N.º H. 1803 Vol V pe: 197)
Não concordo com Allen quando reune com esta
forma do Matto Grosso e Amazonas a do Brazil meri-
dional, cuja cauda é muito maior e que foi denominada
macrura por Cabanis, nome que segundo Allen não
póde subsistir, por ser já empregado por Gambel. O
exemplar typico de minha var. guarama & de Ouri-
nho, Est. do Paraná, 4 de 20 de III. de. 1901 e sua
cauda mede 355 mm. ou cerca de 14.” O lado infe-
rior da cauda é pardo-escuro, quasi preto. Outros exem-
plares que tenho dos Ests. de S. Paulo e Rio Grande
do Sul têm a cauda de 240 mm. de comprimento, sendo
menos escura no lado inferior.
141. Crotophaga ani L.
142. Crotophaga major Gm.
Ordem Psittaci
143. Ara macao (L.)
l44. Ara ararauna (L.)
145. Ara severa (L.) :
146. Pyrrhura luciani Deville
— 449 —
147. Psittacula modesta Cab. 1848.
P. sclater: Gray 1859, Cat. B. Brit. Mus. XX pg.
244, Est. VI.
148. Brotogerys devillei (Gray)
149. Brotogerys tui (Gm.)
150. Amazona festiva (L.)
151. Amazona inornata (Salvad).
152. Pionus menstruus (L.)
153. Graydidascalus brachyurus (Tem. et Kuhl)
Pachynus brachyurus Cat. Brit. Mus. XX
pg. 320.
154. Pionopsittacus barrabandi (Awhl)
155. Pionites xanthomerius (Gray)
Ordem Striges
Fam. Bubonid:e
156. Pulsatrix perspicillata (Lath).
Um exemplar N. 2745 (juv.) cujo comprimento
total é de 420 mm., medindo a aza 315 mm. e a cau-
da 190 mm. As pennas da aza, da cauda e das par-
tes luteraes da cabeça já são as definitivas, ao passo que
a cabeça em cima, o pescoço posterior e o interscapu-
lio, bem como o lado inferior do corpo, são ainda re-
vestidos de uma pennugem macia e fina, branca, um
pouco amarellada na barriga. A face,o véoe a orelha
já têm as pennas definitivas de cor escura e tambem a
estria branca supraocular já está desenvolvida. As co-
berteiras exteriores compridas da aza são brancacento-
amarelladas com faixas transversaes pardo-claras. As
remiges e rectrizes tem as pontas brancas. Parece que
esta forma juvenil até agora não foi descripta. Esta
especie, que é bem alliada à P. pulsatrix Wied do Bra-
ail oriental, era até agora conhecida só do Equador,
de onde o Museu tem um exemplar adulto. Segui, neste
sentido a exposição do Conde von Berlepsch (Bull. Br.
Om, Glob Vol. XII 1907 (N'P82) ne. 4.)
197. Pisorhina usta (Scl.)
— 450 —
Ordem Accipitres
Sarcorhamphidze
158. Gypagus papa (L.)
159. Catharista urubu ( Vrell.)
Faleonidze
‘60. Ibycter americanus (Bodd.)
Uma 9 N. 35£6 cujo compr. tot. é de 550 mm,,
aza 399 mm. e cauda 250 mm.
161. Ibycter fasciatus (Spex)
Esta especie foi descoberta por Spix ha 80 annos
na Barra do rio Juruá e nunca mais foi observada desde
aquelle tempo.
O Sr. Garbe diz que a especie não é rara no valle
do rio Juruá, onde é denominada Cará-cará-y. Não sa-
bendo que se tratava de uma especie rara, o Sr. Garbe
apenas nos trouxe um & juv. N. 2737. O exemplar
combina bem com a descripção de Spix, mas as faixas
escuras transversaes da cauda são em numero de 4 em
vez de 5 como no do Spix. As medidas do nosso exem-
plar são as seguintes: Compr. tot. 400 mm. ; aza 304
mm.; cauda 130 mm.; tarsos 50 mm. Os pés e a face
são de cor amarello-clara.
162. Micrastur gilvicollis ( Viecll.)
163. Leucopternis schistacea (Sundev.)
164. Morphnus guianensis (Daud.)
165. Leptodon uncinatus (Zemm.)
166. Falco albigularis Daud.
Ordem Herodiones
Ardeidae
167. Ardea: soco E.
168. Agamia agami (Gi.)
169. Cancroma cochlearia L.
— Ad
Ciconiida
170. Tantalus loculator JL.
Ordem Gallinæ
Phasianidse
{71. Odontophorus stellatus (Gould)
Cracidze
{72. Mitua mitus (CE)
173. Penelope jacquassu Spix
P. boliviana Cat. B. Brit. Mus. XXII pg. 499.
174. Ortalis guttata (Spix)
175. Cumana cumanensis (Jacquin).
Pipile comanensis Cat. B Brit. Mus. XXII pg. 517.
Ordem Opisthocomi
176. Opisthocomus cristatus Gm. 1788.
O nome mais antigo O. hoazin P. L. S. Mill. não
pode ser aproveitado por ser palavra «barbara», nem ao
menos latinisada.
Ordem Ralli
Hieliornitidse
177. Heliornis fulica (Bodd.)
Ordem Grues
Furvypysidæ
178. Eurypiga helias (Pall.)
Psophiidae
{79. Psophia leucoptera Spix
— 402. —
Ordem Limicolæ
Lobivanellidæ
180. Hoploxypterus cayanus (Lath.)
Charadriinze
181. Aegialitis collaris (Vzezll.)
Scolopacinae
182. Heteropygia maculata ( Veezll.)
Ordem Gavice
Laridae
183. Phaethusa magnirostris (Lecht.)
184. Sterna superciliaris Vreull.
185. Rhynchops nigra cinerascens (Sp)
Ordem Crypturi
Tinamidze
186. Tinamus guttatus Pelz.
Uma 9 N. 3610 de 350 mm. de compr. tot., aza
de 187 mm.; o dorso inferior tem as mesmas manchi-
nhas amarelladas com as coberteiras da aza.
187. Tinamus ruficeps Scl. e Salvo.
Dous exemplares, dos quaes um, & N. 2739, é uma
variedade distinguida por pequenas manchas amarellas
distribuidas sobre a aza, especialmente nas coberteiras ex-
teriores. O nome vulgar da especie é, no rio Juruá, O
de «Inambu gallinha».
188. Crypturus balstoni Baril.
Um & N. 2777 de VIII. 1902 de 280 mm. de compr.
tot., de 165 mm. de compr. de aza. O nome indigena
no Juruá é «Macucau.» A côr da iris é pardo-averme-
lhada.
A especie, conhecida até agora sé do Perú orien-.
tal, é nova para a fauna do Brazil.
— 453 —
Chelonios
Dando em seguida a enumeração das especies de
tartarugas obtidas pelo Sr. Garbe, peço comparar, quan-
to às observações biologicas, o que ja, à p. 3995a res-
peito ficou dito. Observo ainda que na classificação des-
ta ordem sigo o excellente Cataloçue of the Chelo-
nians and Crocodiles in the British Museum, G. H.
Boulenger ; London 1889, com excepção só do genero
Podocnemis, para o qual aproveitei a Monographia de
Siebenrock, publicada em 1902 nas Sitzber. k. Acad.
Wissensch. Math. Natw. Klasse. Wien Vol. CXI p.
LOM LTO! ux Vat.
1. Testudo tabulata (JVall.)
Jabutr
3 exemplares, um dos quaes foi, por algum tem-
po, conservado vivo, pondo então ovos, como ja ficou
dito. Estes ovos são de casca dura, calcarea, branca e
de forma quasi globular, medindo um delles 54x5]
mm., um outro 52x49 mm. A superficie finamente
granular, apresenta-se lisa e lustrosa.
2. Podocnemis unifilis (Troschel)
Tracasxá
O Sr. Garbe trouxe o craneo de um exemplar do
rio Juruá e dous exemplares vivos de Santarem. Os
ovos são molles, de forma oval e medem 44X32 mm.
ou 4631 mm. O comprimento do casco é de 42 cm.
em um dos exemplares de Santarem.
3. Podocnemis expansa (Schweigg.)
Tartaruga
Desta especie, já bem representada no Museu, o
Sr. Garbe colleccionou apenas um craneo, não tendo
obtido os ovos, que obtivemos do Pará. Estes ovos são
mais ou menos globulares e a sua casca é molle, couriacea
e branca. As dimensões são em geral 47-48 41-43 mm.
ou 44-46x43 mm. Essas medidas combinam com as
indicadas por E Goeldi (1).
4. Podocnemis sextuberculata (Corn.)
Pitit
Um exemplar de 170 mm. de comprimento de
carapax e varios ovos, que são molles, de forma oval
e medem 4627 mm. A superficie é lisa, lustrosa, mas
sob a lente notam-se numerosas granulações, cujas bor-
das as vezes se elevam, formando curtas linhas ou cris-
tas curvadas.
>. Platemys platicephala (Schneid.)
Esta pequena especie da Amazonia e da Guiana
encontra-se tambem no rio Juruá, como o provam os
5 exemplares colligidos pelo Sr. Garbe.
Orustaceos
Dilocarcinus peruvianus (4. Milne Edwards)
O unico exemplar obtido foi examinado pelo Sr.
Dr. A. E. Ortmann, que em carta de 22 de Abril de
1903 communicou-me os seguintes synonymos :
Sylviocarcinus peruvianus A. Milne Edwards,
Ann. Soc. Entomol. France Ser. 4. vol. IX. 1869, p. 174.
Dilocarcinus spinifrons, Kingsley, Proceed. Acad.
Nat. Sci. Philadelphia 1880, p. 35.
Orthostoma peruvianum Ortmann, Zoolog. Jahrb.
Syst Glen O01, ip. see,
O Sr. Ortmann accrescenta: O exemplar exami-
nado do Rio Juruá mostra uma anomalia interessante,
pois que existe, na margem esquerda do cephalothorax,
um espinho accessorio detraz do segundo espinho mar-
ginal, e que falta, no emtanto, no lado direito.
(1) Die Eier von 13 brasilianischen Reptilien. Zool. Jahrb.
Vol. X, 1897 p. 660 fig. 8, a-d.
— 455 —
Habitat: Além do Rio Juruá (localidade nova)
ainda Pert, Guyallaga (A. M. E.; talvez Huallaga !) e
Upper Amazonas (Kysl).
Molluscos
As especies de molluscos obtidas pelo Sr. Garbe,
em numero de 12, são de não pequeno interesse, visto
que a maior parte entre ellas é encontrada pela pri-
meira vez no Brazil. Trata-se de molluscos do Alto-
Amazonas, que egualmente occorrem no rio Juruá, na
região de S. Felippe.
E” pouco conhecida até agora a fauna de mollus-
cos do Estado do Amazonas, limitando-se os nossos
conhecimentos quasi exclusivamente às collecgdes reuni-
das por Spix e Martius e por Castelnau. E” pois de
interesse conhecer os molluscos de uma zona limitada
do Estado do Amazonas. O unico estudo que neste
sentido conheço é o de Henry Adams, List of Land
and Freshwater Shells collected by Bartlett on the
Upper Amazons, and on the River Ucayali, Proc. Zool.
Soc. 1866 pag. 440 — 445, Pl XXXVIII, referente
especialmente à zona do rio Ucayali. Sete das presentes
especies foram encontradas por IH. Adams no rio Ucayali
e as restantes são todas descriptas do Alto Amazonas e
especialmente do Perú.
Fam. Oleacinidse
1. Oleacina striata Müller
Achatina striata Reeve 1849, Conch. Ic. Pl. 6
19
A. mueileri Reeve, Conch. Ic. Pl. 8, fig. 29.
Oleacina striata, G. W. Tryon, Man. of Conch.
ERISSo poz, Flo, fig. 04
A. striata Kiister u. Pfeiffer, Mart. Ch. p. 296,
Pies ne. O,
Bulimus mueller? D'Orb. Voy. Am. Moll. p. 256.
Desta especie obtivemos, além de dous exemplares
pequenos, um magnifico, de 92 mm. de comprimento.
456 —
E’ pela primeira vez que foi encontrada em territorio
brazileiro esta conhecida especie que occorre na Bolivia,
Guyana, Colombia e até no Mexico, onde se apresenta
em forma de uma variedade denominada strzgosa Martens.
Fam. Helicidæ
2. Solaropsis rugifera Dohrn var. juruana var. n.
Dohrn, Jahrb. deut. Mal. Ges. Vol. IX 1882 p. 100.
Helix (Solaropsis) rugifera Pilsbry, Man. Conch.
Vol. V. (Ser. II) 1889 p. 195.
Creio que posso referir a esta especie rara e pouco
conhecida um exemplar de S. Felippe. As medidas
desse especimen são: altura 10 mm., diam. E 20,
diam. min. 16 mm. A largura do umbigo é de 4 mm.,
o que corresponde a !/; do diametro maior. Na ultima
volta notam-se 3 faixas estreitas, avermelhadas, uma a
3 mm. de distancia da sutura, as outras duas, um pouco
mais fortes, na peripheria. Da sutura sahem faixas
transversaes pardas, que se perdem na circumferencia
da volta. O peristoma é pouco engrossado, reflexo
para fora e de côr branca, elevando-se primeiro perto
da sutura, descendo depois, formando um angulo obtuso ;
outro angulo obtuso se acha no lado opposto, inferior.
O numero das voltas é de 5'/», a abertura é inclinada
para trás ou obliqua.
Este exemplar é, por conseguinte, o de uma varie-
dade menor, visto que o diametro é apenas de 20 mm.,
sendo de 26 na fórma typica, e, emquanto esta ultima
tem O voltas e o peristoma incompleto, nossa variedade
tem 5!/> voltas e o peristoma completo. Além disto, o
umbigo é menos largo e as faixas espiraes são em nume-
ro de 3, em vez de 2 2, na fórma typica e muitas vezes
interrompidas. Será pois a seguinte a diagnose da var.
juruana : var. minor, umbdilico angushore, fascirs tri-
bus rufescente-bruneis, angustis, ornata.
A forma typica foi encontrada no Perú oriental
3. Pleurodonte yatesi Pfez/f:
Helix yates: Pfeiff., Proc. Zool. Soc. Lond. 1855,
p. 92. Est. 31, fig. 13,14; Monog. Hel. Viv. IV, p. 306.
— 407 —
Helix (Labyrinthus) yates: Pilsbry, Man. Conch.
1887, II Serie, Vol. V, p. 173. Est. 42, fig. 34-37.
Pleurodonte yates. Pilsbry, Man. Conch. 1894,
II Serie, Vol. IX, p. 95.
Os nossos exemplares, que tem diametro maior que
24 mm., correspondem à descripçäo de Pfeiffer, ao
passo que Pilsbry figurou ama variedade menor. Não
se conheciam até agora localidades exactas da occor-
rencia desta especie, existindo simplesmente a indica-
ção do «rio Solimões».
Fam. Bulimulidæ
4. Liguus regalis Hupeé.
Bulimus regalis Hupé, em Castelnau 1857, p.
ot he TONE:
Liguus regalis Pilsbry, Man. of Conch., II Ser.
Vol Den Soo DSO PI SS ns CS to IPP coe niet
D ML Sn nel TOS PIS 36", fig) 26220
Desta bella especie obteve o Sr. Garbe diversos
exemplares por occasião da enchente, quando estes ca-
racoes se refugiavam sobre as arvores. Como até ago-
ra localidades exactas são conhecidas apenas do Perú
e do Equador, é de valor conhecer a sua occorrencia
tambem nesta parte do Brazil.
o. Orthalicus sultana Dillwyn
Achatina pavonina Spix, Test. bras. P.9 fig. 1.
Bulimus gallinasultana Wagner (em Spix 1. c.p. 9).
Orthalicus sultana Pilsbry, Man. of Conch., II
Serie, 1899 p. 188, Pl. 47, tig. 6-8.
Esta bonita especie, cuja synonymia e literatura
Pilsbry bem explicou, occorre desde a Guyana até o
Amazonas superior no Perú e na Bolivia e tambem no
rio Tocantins. Sendo encontrada tambem no rio Ju-
rua esta especie evidentemente é de larga distribuição
nas mattas ao norte e ao sul do rio Amazonas.
6. Drymaeus expansus P/ez/f.
Bulimus expansus Pfeiffer, Monogr. Helic. 1848
Hep. 200.
Bulimus expansus Hupé (em Castelnau p. 42 PI.
Grae. 3.)
— 458 —
Drymaeus expansus Pilsbry, Man. of Conch. II
Ser2'Vol.: KI 1898 sp. 2222 Pl. 34 aig. 1-5:
Esta especie é conhecida de varias localidades do
Amazonas superior, tanto do Perú como do Equador,
sendo agora, pela primeira vez, indicada do Brazil.
7. Helicina carinata D’ Orb.
D'Orbigny, Mag. de Zool. 1835 p. 28, et Voz.
Am. mer. Moll. 1846 p. 360 Pl. 46 fig. 6-9.
Pfeiffer, Mon. Pneumopom. I, 1852 p. 400; IV.
{SGT ip: sm
Martens, Malac. BI. XV 1868 p. 184.
O exemplar maior tem o diam. mai. 12 mm., a
alt. de 8 mm. O Sr. Prof. E. von Martens, a quem
mandei um exemplar, tem duvidas sobre a identüfica-
ção acima indicada, por faltar a este exemplar a ca-
racteristica depressão umbelical. Como além disto es-
tes exemplares são de côr pardo-avermelhada, parece
que os exemplares do rio Juruá formam uma subspe-
cie nova que denomino À. carinala juruana subsp. n.
A forma typica foi encontrada por d'Orbigny na Bo-
livia, e von Martens obteve-a do Rio Grande do Sul.
A variedade do Juruá é de cor pardo-avermelhada
pallida, com faixas radiaes irregulares de côr escura. As
voltas são planas, pouco separadas pela sutura e ornadas
de numerosos sulcos espiraes. À carina da ultima volta
fórma uma aresta aguda que se extende até a abertura,
a qual, no labro externo, tem um angulo correspondente.
O peristoma é um tanto reflexo e engrossado até en-
contrar-se com a columella, com a qual forma um angulo
obtuso. O callo umbelical é liso e de pouca grossura.
À superficie superior é munida de numerosos sulcos
espiraes, cruzados por linhas de crescimento.
8 Helicina concentrica Pfr.
Pfeiffer, Mon. Pneumopom. I, 1852, pag. 400; IV,
LS TO, p 281
H. Adams, List of Landsh. Amaz. 1. c. 1866, p. 443.
Reeve, Conch. Icon. P. VII, fig. 54.
Os nossos exemplares tem a espira menos elevada
do que os da figura de Reeve. As medidas são as
seguintes: diam. mai. 12, min. 10, altura 8 mm.
— 459 —
A carina da ultima volta termina um pouco antes
da abertura. As voltas são fracamente convexas e se
paradas por sutura profunda. Na ultima volta notam-se,
na parte superior, oito costellas espiraes, dispostas em
intervallos desiguaes. A superficie inferior da ultima
volta é finamente estriada em sentido espiral. O callo
umbelical é forte e limitado, para fóra, por uma estria
branca, pouco elevada, e que parte da columella. A
cor é cinzento-amarellada, pallida, com algumas manchas
irregulares, mal visiveis.
Fam. Ampullariidse
9. Ampullaria castelnaudi Hupé
A. castelnaudi Hupê (em Castelnau 1857 p. 65
BL XI figo Ay).
A. prunella Hupé (em Castelnau 1857, p. 67 PL
XII fig. 4 juv,)
A. yatesi Reeve, Conch. Icon. 1858, PL VII fig. 28.
Esta bonita especie, indicada como occorrente no
rio Amazonas, é pela primeira vez demonstrada como
occorrente no Brazil, onde é a representante mais meri-
dional do grupo da A. wrceus Miill. O exemplar maior
tem o comprimento de 101 mm. e o diametro maior
de 100 mm., sendo a altura da abertura de St mm.
Notam-se na penultima volta duas faixas estreitas e
escuras, que se perdem na ultima volta. A abertura é
castanha no interior, à excepção de uma orla marginal
de côr branco-azulada.
10. Ampullaria nobilis Reeve
Reeve, Conch. Icon. 1858 P. II, fig. 8.
Crosse, Journ: Conchuls91 A Val.239; pa 246
Os nossos dous exemplares são os primeiros encon-
trados no Brazil ou pelo menos de localidade exacta.
Talvez esta especie substitua a A. gigas Spix da região
do Alto-Amazonas.
O nosso exemplar maior tem a altura de 84 mm.,
o diametro maior de 79 mm. e a altura da abertura de
64 mm. O bordo interior da abertura é de côr ama-
rella ou amarello-avermelhada, tambem no exemplar
menor de 58 mm. de comprimento.
— 460 —
14. Ampullaria nubila Reeve
Reeve, Conch. Icon. 1858, Pl. 14 fig. 65 a, b.
Especie conhecida do rio Solimões, não observada
atê agora em territorio brazileiro.
12. Tetraplodon ambiguus (Lam.)
Castalia inflata D'Orbigny, Voy. Am. mer. 1846
p. 998 Pl. LXXII fig. 4-10.
Castalia turgida Hupé, em Castelnau 1856, p. 76
PAXIV tie
Tetraplodon pectinatum Spix, Test. bras. 1827 p.
Be, PIS RR Siero Ae
Tetraplodon ambiguus Ch. Simpson, Synopsis of
the Nayades, Proc. U. S. Nat. Mus. N. 1205 Vol.
XXII, Washington 1900 p, 863.
Um exemplar desta conhecida especie.
EXPLICAÇÃO DAS ESTAMPAS
Est. VIII. Mappa do rio Juruá mostrando a região
explorada pela presente viagem.
Est. IX-XIV. Paizagens do rio Juruá.
Est. IX Fortaleza. Barracão do Seringal.
Est. X. Condor-cangui. Barracão de caucheiros perua-
nos; na beira do rio canna-rana e uma lancha
com tolda.
Est. XI Bocca do Rio Gregorio.
Est. XII. Eldorado, Barracão. Grupo de seringueiros
apparelhados para o serviço.
Est. XIII Caitetu. Logar onde atracam os vapores para
tomar lenha para combustivel.
Est. XIV S. Felippe. A’ esquerda o posto policial.
Est. XV-XVI Aves novas ou pouco conhecidas.
Est. XV 1. Myrmotherula garbei n. sp.
2. Myrmotberula longipennis Pelz.
Est. XVI 1. Thamnophilus juruanus n. sp.
2. Pithys salvini Berl.
Biologia das abelhas solitarias do Brazil
POR
R. VON IHERING
Tentei resumir, nas paginas que se seguem, o
pouco material que a respeito da biologia das abelhas
solitarias do Brazil pude encontrar na literatura ao meu
alcance. Por ser pouco, nem por isto caberá a mim a
accusaçäo de ter sido desidioso na reunião do material ;
certamente uma ou outra indicação interessante me terá
escapado, mas o certo é que bem pouco tem sido es-
cripto a este respeito. Alegra mais à maioria dos col-
leccionadores reunir esta grande quantidade de bellas
abelhas variegadas, determinal-as e descrever as espe-
cies novas. Em parte tambem é facil comprehender
porque a systematica por muito passou a biologia. A
quasi totalidade das nossas abelhas (poderiamos dizer
mesmo da nossa fauna) foi descripta no exterior, por
especialistas da Europa ou dos Estados Unidos; aqui o
serviço de collecção era feito quasi sempre por homens
de pouco ou nenhum culto scientifico ou então eram
scientistas que rapidamente atravessavam os sertões do
Brazil; mas justamente os estudos biologicos mais per-
feitos são sempre os que foram, com vagar, escriptos
quasi 2n loco. Tambem o transporte de ninhos, em ge-
ral frageis, é difficil; em summa a parte biologica,
qual filha engeitada, não obstante o quanto tem de in-
teressante, poucos teve que por ella se interessassem e,
pois, ficou atrazada.
— 462 —
No volume V. desta Revista o sr. C. Schrottky pu-
blicou um beilo estudo sobre as nossas abelhas solita-
rias e procurou facilitar, aos que por tal se interessam,
a determinação das numerosas especies brazileiras. Só
poucas notas biologicas ahi entraram, mesmo devido à
orientação daquelle estudo, e por isto, quasi que em
continuação a esse trabalho, hoje dou aqui o resumo do
nosso conhecimento da biologia dessas apidas.
Segui intencionalmente a divisão lá adoptada, que
aliás aqui é indifferente, mesmo para a maior facilidade
de quem conjunctamente se utilizar desses dous estudos.
Quero, porém, insistir sobre o ponto do estudo da
biologia entre nós. Claro dstá que não podemes daqui
esperar resultados praoticos de alcance, o que não se da
com o estudo das abelhas sociaes. A estas ligamos um
interesse especial porque nos utilizamos de varios pro-
ductos seus e pois devemos bem conhecer a sua biolo-
gia. Quanto a este respeito já muito foi feito e ha pouco
o dr. H. von lhering publicou um bello estudo que, si
ainda necessita de complementos, pelo menos enfeicha
uma somma de conhecimentos, altamente interessantes.
Quanto às abelhas solitarias, porém, tudo isto falta,
menos os pontos interessantes, as questões scientificas
e as bellezas e encantos que encerra todo e qualquer
estudo biologico, enaltecidos aqui por se tratar de inse-
ctos summamente intelligentes e por vezes habeis cons-
tructores.
* x
Quem conhece um pouco a biologia das abelhas
sociaes ou das vespas tambem sociaes, saberá quanto é
constante, para cada especie, o systema seguido na con-
strucçäo do ninho. As medidas, principalmente as das
cellulas, são admiravelmente guardadas, quer no mesmo
ninho, quer em ninhos de proveniencias muito differen-
tes. E tanto é assim que, ao se procurar uma medida
constante na natureza para que servisse de base a um
systema metrico, houve quem lembrasse a medida da
cellula de abelha.
— 463 —
Entre as abelhas solitarias, porém, não ha essa es-
crupulosa observancia. (reralmente encontramos uma
variabilidade notavel entre os ninhos da mesma especie ;
ainda que cada especie empregue sempre só uma ma-
teria prima, a escolha do local, a adaptação do ninho
às circumstancias especiaes, etc., produzem diferenças
sensiveis de ninho para ninho.
O material empregado pelas abelhas diverge às
vezes de um genero a outro no mesmo grupo. Algu-
mas fazem as cellulas de barro, outras de folhas re-
cortadas, outras de rezina, e ha varias indicações de
emprego de cêra, sobre cuja proveriencia, porém, nada
se sabe. Muito frequente é escolherem ellas os barran-
cos, bem batidos pelo sol, para ahi construir os ninhos;
outros grupos fixam as cellulas livremente aos galhos
seccos, outros, pelo contrario, escondem-nas em os ca-
naes de galhos ou troncos seccos. Quanto à epocha em
que constroem os ninhos, creio que não se pôde citar
esta ou aqueila estação do anno com relação ao Est. de
S. Paulo. Sempre, no correr de todo o anno, podem
ellas estar certas de que encontrarão dias calidos e abun-
dancia de flores onde encontrem pollen sufficiente para
com elle armazenar as cellulas ; e são estas as condi-
ções sufficientes para que vejamos estes activos hyme-
nopteros voar de uma flor a outra, como que a banha-
rem=se no pollen, que depois reunem sobre as escopas
das pernas e do ventre e assim o transportam ao ninho.
Passarei a relatar o quanto pude saber da biologia
das apidas solitarias, quer pelo estudo da literatura, quer
pelas observações proprias que por vezes tive ensejo de fa-
zer nas minhas excursões ou nos materiaes fornecidos ao
Museu por varios colleccionadores. A estes senhores os
meus agradecimentos e em especial aos Snrs. Dr. Friese
em Jena e Visconde R. du Buysson do Museu de Paris,
sou grato pela gentileza com que attendiam aos meus pe-
aidos de classificação desta ou daquella especie, a mim
duvidosa.
F'inalmente quero aqui externar uma esperança que
ligo à divulgação deste escripto. Talvez consiga elle
— 464 —
despertar em um ou outro amigo da natureza o inte-
resse por semelhantes estudos. Promptamente poderá
elle certificar-se de quanto ainda resta a fazer e, com
um pouco de bôa vontade, facilmente poderá contribuir
nesta tarefa amena. Sempre folgareiem entrar em re-
lações com quem quer que espere da parte do Museu
um auxilio nos seus estudos neste sentido, aliás já muito
facilitados pelo gnsaio do Sr. G. Schrottky, publicado no
volume anterior desta Revista e ao qual já me referi.
Como se o verá são muitas as especies bem com-
muns, mesmo generos inteiros, de cuja biologia nada
sabemos e, ainda que muito facilitará ao colleccionador
de ninhos o corhecimento da biologia de varias abelhas,
o certo é que sO com boa somma de paciencia e, por
vezes, devido a um bello acaso, que geralmente se des-
cobre o ninho desta ou daquella especie.
*
* *
Prosopidze
O unico genero, que entre nds representa esta fa-
milia, é Prosopis; nada conhecemos da biologia destas
diminutas especies.
No velho continente encontra-se os seus ninhos
abrigados no ôco de galhos seccos, sarmentos, etc.
Conforme communica Pérez, varias especies europeas ha,
que emittem um forte cheiro penetrante e muito desa-
gradavel, com o qual, provavelmente, tentam livrar-se
de seus perseguidores.
Colletidze
Além dos dous generos que Schrottky cita como
brazileiros, foram descriptas ultimamente especies dos
generos Ptiloglossa e Caupolicana occorrentes no Brazil.
Trata-se de uma familia cujos representantes bem raras
vezes são apanhados pelas rêdes dos colleccionadores,
havendo provavelmente ainda muitas especies desconhe-
cidas ; da sua biologia nada sabemos.
— 465 —
Andrenidæ
Aos dez generos desta familia conhecidos do Brazil
devemos agora accrescentar o que deu o nome à fami-
milia : Andrena, cujo primeiro representante na America
do Sul foi em 1901 descripto por Vachal sob o nome
de Andrena brasiliensis.
Chama a nossa attenção a suspeita que ha a res-
peito de Megalopta, da qual se diz, ainda que sem do-
cumentos comprobatorios, serem as suas especies de
habitos nocturnos. Além de algumas suspeitas neste
sentido, cita-se as grandes dimensões que têm os ocellos,
orgãos que parecem desta fórma aperfeiçoar-se justa-
mente em adaptação ao modo de viver do insecto ;
facto analogo já relatei neste mesmo volume da Revista,
p. 246, com relação à vespa social Apoica, cujos ocel-
los egualmente são muito mais desenvolvidos do que
nos outros generos e cujo modo de viver é realmente
nocturno.
Pelo que diz Bates, o ninho da Meg janthina é
construido em galhos ôcos.
A não falar nos outros generos desta familia, nem
mesmo do mais bello entre todos, o que encerra exclu-
sivamente abelhas do mais vivo colorido, Awgochlora,
com para mais de meio cento de especies, se tem cuidado
de conhecer a biologia. Em bôa parte é isto devido
mesmo à dificuldade que ha em se encontrar os seus
ninhos; assim, apezar de muito procurar, logrei tão
sómente descobrir um unico ninho, o da especie seguinte.
Augochlora gramminea Sm, Em meiados de Março,
ao examinar um barranco nas proximidades do Ypiranga,
encontrei a cerca de Im, acima do nivel do chão, duas
entradas de ninhos, quando muito só a 2 cm. de dis-
tancia uma da outra. Em breve soube a que apida per-
tencia o ninho, vendo entrar a Augodchlora constructora
do mesmo.
Resolvi, depois de varias visitas, examinar 0 con-
teúdo, o que fiz aos 10 de Maio, julgando estar termi-
nado o trabalho da femea, pois que não a vi mais,
— 466 —
como anteriormente, estar vigiando a entrada, ficando
retirada alguns centimetros no interior do canal; esta
entrada, toda simples, nunca fora fechada.
A excavação a que procedi mostrou mais ou menos
o que representa a Fig. 1. A
principio o canal subia leve-
mente, prolongando-se depois
horizontalmente, para em se-
guida descer em sentido quasi
vertical. A entrada, simples e
sem tubo, media 5 mm. de
diametro e o canal, de egual
largura, era de paredes perfei-
tamente lisas, parecendo en-
vernizadas. Tendo descoberto
cerca de 45 cm. de sua exten-
são, deparei com uma cavidade,
quasi oval, cujo diametro no sen-
tido horizontal, maior, era de 60
mm.; nes- q _
E taexcave - Seg I.
* GAO, cujas
parcdes
eram, CO-
mo as do
canal, alisadas, achava-se solta
e occupando quasi todo o espaço, uma bóla (vide Fig. IT),
egualmente lisa, e logo comprehendi conter ella as cellulas
de criação. i
Mas o canal continuava e puz-me logo a seguil-o ;
20 cm. mais abaixo deparei com outra bola e mais
um prolongamento do canal.
A curiosidade impunha-me a continuação do exame ;
antes, porém, que eu encontrasse dahi a 20 cm. outra
massa de cellulas, veio-me ao encontro, a Augochlora
dona do ninho.
Na terceira cavidade surprehendeu-me a presença
de tres Mutillidas, Hphuta temperalis Gerst., bellas
«formigas chiadeiras» de 10 mm. de comprimento, pretas,
com uma mancha triangular, bronzeada sobre o vertice,
thorax quasi inteiramente castanho-avermelhado e no
abdomen com tres manchas cinzento-prateadas e uma
quarta, oval e central, aurea. Mas o seu papel neste
ninho era » de méros parasitas, o que foi confirmado
por mais dous exemplares qne encontrei, quasi desen-
volvidos, em cellulas fechadas, mas com um pequeno
furo em cima.
Quatro foram ao todo as cavidades que, com as
respectivas bolas, formavam o presente ninho; no se-
gundo, aberto simultaneamente com o outro, havia ape-
nas tres dessas cavidades, mas talvez a continuação dos
trabalhos da femea constructora fosse impedida pela sua
morte prematura, tendo sido encontrada morta na ulti-
ma cavidade. Examinando minuciosamente as bolas, das
quaes algumas são representadas pelas figuras, compre-
hendi que as superiores eram as mais antigas (quem
sabe si do anno anterior ?) e, abrindo as Cos nada
encontrei sinão terra finamente granulada, além de
minima quantidade de pollen, ja estragado, no fundo.
As ultimas bolas dos ninhos eram todas de fórma
irregular, providas de apophyses e pon-
“tas singulares (Fig. II.) e de dimen-
sões menores (no maximo 30 mm. de
diametro), ao passo que as superiores.
ou mais antigas, tinham conformação
“mais regular e mediam 40-50 mm,
no seu maior diametro.
Abrindo todos estes torrões contendo cellulas, infe-
lizmente nada encontrei que me explicasse o modo pelo
qual se dá a criação das larvas ; certamente as cellulas
seriam cheias de pollen e sobre este a femea deposita
OS Seus ovos.
As dimensões das cellulas, de forma oval um tanto
alongada, são em geral de 6 a 7 mm. de diametro, para
12 a 13 mm. de comprimento.
A disposição das cellulas é bastante irregular ;
grande parte dellas fica em posição vertical, ainda que
muitas dellas estejam obliquas ou quasi horizontaes.
— 468 —
Como grande parte das cellulas ainda estava aberta,
creio que intervim cedo, não deixando a Augochlora
concluir o seu trabalho, que aliaz, vinha bem fora de
tempo.
Durante uma excursão ao Alto da Serra encontrei,
a 24 de Agosto, em um barranco batido pelo sol, nu-
merosas Augochloras (de 2 ou 3 especies) que evidente-
mente ahi tinham seus ninhos, mas só de uma dellas
(N.º 2119) pude encontral-o. A entrada, um simples
buraco, media no maximo 2 mm. de diametro; pouco
se prolongava o canal um tanto tortuoso. A uns 15 cm.
da entrada ficava a pequena cellula, irregularmente
ovoide e contendo uma béla de pollen de cerca de 9
mm. de comprimento fracamente revestida de uma
fina camada de terra lisa, levemente envernizada ou
lustrosa, como o era tambem todo o interior da cavi-
dade.
Infelizmento ainda não pude determinar a especie,
que me parece nova.
Panurgidæ
À unica especie desta familia no Brazil, descripta
por Schrottky, Mrzesea brasiliensis, toi reconhecida por
A. Ducke pertencer ao genero Perdita.
stelidido
O genero Cœlioxys tambem entre nós sustenta os
mesmos habitos pouco honrosos que já na Europa fi-
zeram qualifical-o de parasita e, como mais adiante ve-
remos, tambem conservou a sua predilecção pelos gra-
ciosos ninhos de Megachile. Assim criei Cochosys
chrysocephala Schrott. do ninho de M. apicipenms e
Cœlioxys beron: Schrott. do ninho de uma Megachile
sp. (certamente de porte grande, talvez M. frzesa ?)
Não tive ainda occasião de verificar aqui o que
Fr. Smith diz a respeito das especies européas, que
emittem uma catinga, «a poowerful odour», talvez como
meio de defesa.
— 469 —
O genero Odyneropsis collocado por Schrotiky
em seguida a Celioxys foi pelo Dr. Friese identificado
com Rhathymus (Nomadidæ), sendo O. holosericeus
Schrott. synonymo de R. armatus Friese.
Megachilidæ
Muito engenhosos são os ninhos dos generos Mega-
chile e Anthidium, que compõem esta familia. Ultima-
mente Cockerell verificou a existencia de Lithurgus no
Brazil, tendo sido observado. até então, só na America
do Norte, na Europa, etc.
Megachile tem sido muito bem observado na
Europa e na America do Norte em seus costumes e
trabalhos. Na America do Sul nada se fez ainda ao
quanto eu saiba. Entretanto não são raros estes ninhos
que, bem frequentemente, se encontram, por vezes em
logares que a nós parecem bem pouco apropriados. Em
geral são construcções elegantes, em que as folhas re-
cortadas, que servem de material de construcção, estão
de tal forma bem collocadas e unidas, que nos admira
como estes habeis bichinhos conseguem dar uma certa
solidez à construcção, que parece das mais frageis.
Dos quatros ninhos que passarei a descrever. os
dous primeiros correspondem bem ao typo commum dos
ninhos deste genero, ao passo que os de M. apicipennis
e o de uma especie que me ficou desconhecida, são bas-
tante curiosos e é necessario esperar mais material para
bem comprehendel-os, principalmente o ultimo delles.
Megachile paulistana Schrott. (N. 2068). Desta
especie o rev. p. Andrieux de Ytu enviou-nos um ni-
nho, que estava sendo construido entre livros da sua
bibliotheca. Segue esta construcçäo o typo mais usado
pelas especies deste genero (as nove especies européas
descriptas por R. du Buysson, Ann. Soc. E. Fr. 1902
p. 751, são todas deste estylo). Numerosas folhas re-
cortadas em forma oval ou de parallelogrammo e que,
enroladas, formam um tubo alongado e mais ou menos
cylindrico, constituem o ninho, cujo comprimento é de
— 470 —
SO mm., contendo 7 cellulas. A divisão interna desse
tubo é feita por folhas de forma perfeitamente circu-
lar e de 7 mm. de diametro. O cocon da larva mede
9 mm. de comprimento.
Constitue assim o typo dos ninhos de abelha so-
litaria mais geralmente conhecido ; ora deparamos com
elle no cano da nossa espingarda, cra entope por com-
pleto o buraco de uma fechadura pouco usada, ou
ainda, dá que pensar ao flautista, que não consegue
tirar som do seu instrumento.
Megachile gracilis Schrott. & outra especie que,
semelhantemente às especies europeas, faz o seu ninho
em cellulas isoladas, ou, melhor, pequenos tubos reves-
tidos de folhas préviamente recortadas. Em geral 3
folhas formam uma camada e o numero destas varia
segundo as necessidades. Tanto a tampa como o fundo
são formados por folhas circulares, mas, ao passo que
as folhas deste ainda se dobram sobre as paredes la-
teraes, as daquella são de tamanho exactamente cor-
respondente ao do diametro da cellula, 5 mm. no caso
presente; o comprimento da cellula é 12 mm.
Megachile apicipennis Schrott. (N. 1340). Pelo
Snr. Beron foram colligidos dous ninhcs desta especie.
Infelizmente não tenho certeza de que modo estavam
abrigados, mas supponho que cada um dos casulos
estava em um pequeno canal aberto em um barranco.
A fórma da cellula approxima-se bem da que nos mos-
tra a fig. 4 (p. 476); comtudo as dimensões são bem me-
nores : mede cerca de 11 mm. de comprimento e 6,5
mm. de diametro. São as cellulas construidas de barro
finissimo, constituindo um artistico trabalho de cera-
mica; as paredes são muito lisas, tanto por fóra como
por dentro, medindo cerca de 0,5--0,8 mm. de espes-
sura. À entrada forma um gargalo largo, sendo os
seus bordos ligeiramente chanfrados. O cocon tecido
pela larva adapta-se completamente às paredes e é de
certa expessura.
Ao passo que de um dos ninhos criei o verda-
deiro filho da casa, do outro sahiu-me, quasi nos
mesmos dias (25 de Novembro) uma parasita Celoxys
chrysocephala (N. 1839).
Menos feliz fui com outro ninho, indubitavelmente
tambem construido por uma especie de Megachile, col-
ligido pelo Snr. Beron em Pirituba, S. Paulo (N. 1383).
Compõe-se o ninho de duas partes distinctas: de um
tubo ou cellula propriamente e do seu revestimento. O
tubo, cuja fórma é a de um dedo de luva, é fabricado
de uma massa bruno-avermelhada, semelhante à turfa,
feita de finissimos e abundantes fios completamente
entrelaçados, parecendo quasi resina ou um tecido
grosseiro de seda (feito pela larva ?). A espessura desse
tubo é de 1 mm. nas paredes e de quasi o duplo na en-
trada. Mede o tubo 15,5 mm. de comprimento, 7,9
mm. de largura; na parte anterior, subterminal ha uma
leve cintura. Revestem este tubo 3 a 4 camadas de
folhas habilmente recortadas, mais ou menos quadran-
gulares, do comprimento do tubo e de 10 mm. de lar-
gura ; inferiormente fragmentos de folhas, recortadas
quasi em formato circular, formam o fundo. Os bordos
dos córtes são ora quasi direitos e lisos, ora irregula-
res em zig-zag.
Como já disse, não pude conhecer o constructor
desses ninhos; mas pelos habeis trabalhos em folhas
faz-me suspeitar tratar-se de Megachile. Criei unica-
mente exemplares de Cwloxys beroni Schrott.; mas,
como sabemos, todos os representantes deste genero são
parasitas.
Anthidium. Este genero é, correspondentemente ao
grande numero de especies que conta, distribuidas por todo
o mundo, muito variavel no seu modo de nidificar ; conhe-
cem-se typo de ninhos construidos livremente sobre galhos
ou pedras, bem como outros occultos em galerias, ou,
em especial, em caracões vasios. Assim é muito curioso
o ninho descripto por J. Bréthes (Ann. Mus. Buenos
Ayres, IX, 1903 p. 354) do A. caroliameghino: Bréth.
da Patagonia, constituido unicamente por um blóco de
— 472 -—
substancia essencialmente resinosa (com 7 por cento de
céra) que, collocado sobre uma pedra, contem as cellulas.
Anthidium flavofasciatuin Schrott. Juntamente
com o typo da especie, Schrottky (2) descreveu à p.
449 e figurou (fig. 5) o ninho. Alem deste primeiro
exemplar, o Museu possua ainda mais 8, colhidos pos-
teriormente. Repeten perfeitamente a mesma constru-
ecção como a que foi figurada, sempre presos a um ga-
lho fino, especialmente na sua bifurcação, a abertura
das cellulas para baixo e estas variando em numero de
uma a dez. Ao passo que as paredes internas são bas-
tante lisas, as externas são grosseiramente vranuladas,
devido a serem as bolinhas de resina simplesmente juxta-
postas; as dimensões destes pequenos blócos variam de
1,9 mm. a 3,5 mm. O maior dos ninhos mede 28
mm. de diametro; a sua altura media regula 15 mm,,
mas a cellula propriamente tem só 9 mm. de compri-
mento, sendo sempre precedida de um pequeno tubo, ou
parte não aproveitada de cellula, em cujo fundo fica a
tampa. Em geral é esta perfurada pelo imago que
quer sahir, serdo mesmo o seu unico caminho quando
a cellula estiver ladeada por outras; mas nas cellulas
periphericas não é raro ser aberta a sahida, de 3 mm.
de diametro, lateralmente.
Anthidium inusciforme Schrott. (N. 1335). Bem
pouco artistica é a construcção desta especie que, como
a precedente, emprega a resina como materia prima. As
duas cellulas, que figuram na collecção, foram encontra-
das, a 17 de Agosto, em um cupim velho e abando-
nado. Um pequeno buraco da parede interna foi re-
vestido irregularmente de resina, de forma a deixar
desoccupada só uma pequena cellula, mais ou menos
oval, de ca. de 10 mm. de comprimento e de 3 mm.
de diametro, a qual devia servir de berço à larva ; de-
pois de provida com a necessaria quantia de pollen, suf-
ficiente para a alimentação da lavra e posto o ovo, é a
entrada fechada com uma rolha tambem de resina. Toda
esta casinha, encravada na parede, não mede mais que
~
14 mm. de comprimento e 7 mm. de diametro.
— 473 —
X ylocopidæ
Nesta familia ou, o que equivale, no genero Xylo-
copa, é que mais se faz notar a falta le bons conhe-
cimentos biologicos. Sem elles o estudo systematico
resente-se de incertezas, principalmente no que diz res-
peito ao conhecimento dos casaes. Como o sabe qual-
quer colleccionador, é este o genero que apresenta o
maior heteromorphismo neste sentido e raros são os
machos que tenham. a mesma côr que as femeas. Para
então decidir si dous sexos formam realmente casal, per-
tencendo à mesma especie, por vezes é preciso ou en-
contra-los em copula ou reunidos no mesmo ninho. A
respeito destes ja CG. Schrottky deu nesta Revista, vol. V.
p. 497, algumas informações. Parece que em geral todas
as especies, tanto aqui como na Europa e na Africa,
etc. nidificam de egual: modo; perfuram um tronco,
quasi sempre já um tanto apodrecido, e neste canal, ou
systema de canaes que se entrecruzam, depositam o
pollen que vai alimentar a larva.
Outras especies, como a X. bambusæ Schrott., apro-
veitam-se do bambu, já naturalmente 6co e ahi nidi-
ficam.
Não pude obter, em S. Paulo, sinão uma só indi-
cação de ninho; tratava-se da X. grisescens Lep. e que
foi encontrado em Franca (caminho de Andradas a Minas).
Estavam 6 casaes alojados em um madeiro, já um tanto
apodrecido, e pelo seu rumejar no interior attrahiram a
attenção do colleccionador. Como parece que o macho
desta especie (9 descripta por Schrottky 1. c. p. 470)
é desconhecido, passarei a descrevel-o.
X. grisescens Lep. 4 Tem certa semelhança com
o d de X. brasilianorum, suas dimensões, porém, são
muito maiores : 33-36 mm. de compr. e 60-65 mm. de
envergadura. A côr é ferrugineo-bruna no thorax, fer-
rugineo-amarella no abdomen e na cabeça. Esta tem o
clypeo, parte da frente e o lado inferior da antenna ama-
rellos ; as partes buccaes, traços nos limites do clypeo,
o lado superior das antennas, o postscutellum e largos
bordos posteriores dos segmentos abdominaes são bru=
— ÀT4 —
nos. Parte da cara, os pés e o uropygeo são cobertos
de longos peilos ruivos ou aureos. Azas subhyalinas,
com um tom amarellado no centro, pardo nos bordos e
nervuras brunas.
Dr. H. von Ihering fez, no Rio Grande de Sul, nu-
merosas observações sobre a vida annual de varias es-
pecies deste genero, que constantemente voltavam a ni-
dificar em blocos de corticeira (Hrythrina sp.) que, por
trazerem algumas orchideas, penduravam na varanda.
Lembro-me bem de quanto me horrorisava ouvir, que
eram as proprias mulheres que cruelmente feriam de morte
os seus infelizes maridos os quaes, sempre na mesma epo-
cha, eram assim eliminados, por assassinato, do ninho.
Talvez, em breve, sejam publicadas as interessantes
notas que, a respeito, foram tomadas por meu pae na
Nha do Doutor, no rio Camaquam, Rio Grande do Sul.
Ceratinidzse
Só ha um gonero, Ceratina, no Brazil; da sua bio-
logia nada sabemos.
Nomadidae
Esta grande familia, que contem as mais bellas
abelhas, de colorido e de formas tão variadas, tambem
é pouco conhecida na sua biologia. Dos 16 generos
que enumera o estudo de Schrottky, nada menos de 7
são accusados de pertencerem aquelle grupo de bohemios
que passam a vida sem trabalhar e que, quando a
consciencia os obriga a pensar na conservação da especie,
lançam mão de um expediente tão commodo quão abo-
minavel: espreitam um ninho de uma abelha de egual
porte, aproveitam um momento fortuito em que a mãe
constructora sahe a buscar material e, rapidas, deposi-
tam o seu ovo no ninho, frustrando assim as justas es-
peranças de quem trabalha; mas ai do parasita que for
pilhado no ninho pela mãe que volta !
Melissa, Mesocheira, Rhathymus são accusados de.
parasitismo nos. ninhos de Cenéris, ainda que nenhuma
observação directa tenha vindo confirmar esta supposição.
Epeolus da mesma forma no ninho de Æucera ;
Osiris no de Tetrapedia.
Acanthopus e Exaerete (Chrysanteda olim) foram
tidos como parasitas de Huglossa e realmente A. Ducke,
(4) pelo menos quanto ao ultimo genero, nol-o confirma,
tendo criado do ninho de Æuglossa nigrita uma Exa-
erete smaragdina Guér.; como ambas estas especies
occorrem tambem em S Paulo, será interessante ver
si se confirma, tambem aqui, este parasitismo.
Sobre a Melissa azurea Lep. (M. rufipes Perty)
encontram-se dados biologicos escriptos por Cresson nos
Proc. Entom. Soc. Philad. 1865, Vol. IV. p. 183., os
quaes infelizmente não pude consultar.
F. Silvestri em seus estudos sobre Termitidas, ou
cupins cita à p. 219, entre os hymenopteros termito-
philos o Acanthopus splendidus F., dizendo que esta
abelha solitaria se encontra justamente nos mesmos ni-
nhos em que costuma estar a Centris thoracica e isto
pelo motivo de ser aquella o parasita do ninho desta
ultima especie de apida, cuja predilecção pelos ninhos
de Termitidas não é facilmente explicavel.
Podgalhiriidie
Nesta familia bastante rica em generos, contendo
especies bem vulgares, o nosso conhecimento da biolo-
cia esta muitissimo atrazado. Ahi temos os generos
Centris e Epicharis, bellos insectos de colorido ele-
gante e de cujo modo de nidificar, nada sabemos.
Friese, em suas Monographias, reune algumas pe-
quenas informações, mas todas ellas são incompletas e
nada adiantam. Sd F. Silvestri, em seu estudo sobre
Termitidas, na «Redia», à p. 210, cita Centres thoracica
Lep. entre os termitophilos alloicosxenos, isto é, entre
taes insectos cuja symbiose com os Termitidas se limita
à construcção de seu ninho nas paredes do cupim, sem
entrar nos canaes e, por conseguinte, sem ter mais re-
lações com os constructores do cupim. Infelizmente
Silvestri não descreveu mais de perto os ninhos que
nos interessam, limitando-se a notar que é em especial
SA —
nos cupins de Armaitermes evhamignathus e Eutermes
cyphergaster que, principalmente em Coxipd, (Matto-
Grosso, encontrou os casulos de Centris, os quaes,
quando abandonados, são utilizados pelos Termitidas como
deposito de alimento. Tambem a abelha parasita deste
Centris foi observada nos mesmos ninhos, Acanthopus
splendidus F.
O ninho de Pachycentris schrotthyr Friese, se-
gundo uma indicação de CG. Schrottky (1, p. 215), foi
encontrado em um barranco de 10 m. de altura; as
cellulas não foram encontradas mesmo depois de aberto
o canal por ca. de 1 m., parecendo que o ninho pro-
priamente dito ficava ainda a grande profundidade.
O unico genero do qual posso adiantar algumas
informações é o Phlothrix. Ducke (1, p. 55, e 2, p.
362), a respeito de P. duche, diz que observou uma
grande colonia, de Agosto a Novembro, e que tinha os
seus ninhos em um carreiro, na terra dura. |
P. plumata Sm., que Ducke tambem observou no
Pará, appareceu, com certa abundancia, em São Paulo,
no anno de 1902. Os seus ninhos, que o sr. M. Beron
conseguiu coligir em grande abundancia nos mezes de
Setembro a Outubro, e dos quaes o Museu possue para
mais de 50 exemplares, estão sempre abrigados em pe-
quenos canaes feitos nas paredes de um barranco ou
em um cupim, não deixando nenhum espaço livre entre
as paredes do ninho e as da cavidade.
A sua fórma (fig. 4) é bem pouco variavel e repe-
te-se, sempre a mesma, em todos os exemplares colli-
gidos, com a maior
regularidade. Mède 16
mm. de compr. e a sua
conformação é appro-
ximadamente a de uma
pera ou de um porango,
sómente a parte ante-
rior é pouco estreitada,
medindo ahi 3 mm. de
diametro, ao passo que a parte mais bojuda, mais ou
menos entre a metade e o seu terço posterior, mede
12 mm. Exteriormente a parede é regular, porém, fina-
mente granulada e aspera, ao passo que a parede in-
terna é completamente lisa. Construida a casa, a abe-
lha enche-a de pollen, cujo conjuncto se apresenta intei-
ramente oval, visto como a parte anterior do ninho, a
correspondente ao gargalo, fica vasia. Em seguida é
depositado o ovo e a entrada, cujo bordo é levemente
chanfrado, recebe uma pequena rolha ou antes um disco
de barro que a tapa perfeitamente ; este tampo é sem-
pre ligeiramente concavo e bastante liso, ao passo que
todo o exterior do ninho, como o mostra a propria
figura, é granulado. Passa o ovo para o estado de
larva e esta alimenta-se do pollen que a abelha-mãe
lhe reuniu (ao todo só bem poucas grammas) deixando,
porém, sempre intacta uma pequena quantidade que fica
revestindo as paredes do ninho. Attinge o insecto o
seu desenvolvimento completo e só lhe resta, para ver
a luz do dia, abrir uma sahida. Creio que de regra
o insecto deve roer a mesma tampa da entrada, visto
como só assim logo se põe em liberdade; mas em não
poucos exemplares, dos quaes criei, em um vidro, os
insectos, o furo circular de 4 mm. de diametro fora
praticado na parede lateral.
Como já o dissera, este material fora colligido nos
mezes de Setembro e Outubro de 1902: o primeiro
exemplar de P. plumata (N. 1337), examinado pelo
Dr. H. Friese, sahiu-me em meiados de Dezembro do
mesmo anno, outros sahiram nos mezes seguintes. Quan-
do em Abril de 1904 novamente examino o material,
que eu deixára reunido em um grande vidro e ao qual,
tenho certeza, nada fora accrescentado, querendo certi-
ficar-me de que nada houvera sido omittido nesta de-
scripçäo, qual não foi minha surpresa ao ver que, em
uma das pequenas casinhas, de um furo surgiam duas
antennas sempre em movimento e duas mandibulas tra-
balhavam para alargar a sahida !
Era mais uma abelhinha que eu criára, mas esta
levára cerca de 14 mezes mais que as suas irmans, ou
Po
ao todo ficära seguramente 18 mezes presa na mesma
cellula ; por certo perdera a occasião propria da sahida
e então, pacientemente, esperou que de novo voltasse a
epocha propicia, para então gozar das delicias de um
verão.
De parasitas não observei sinão um diptero do ge-
nero Anthrax. Como o canal depois da sahida do
insecto permanece aberto, estas construcções são fre-
quentemente rehabitadas por outros inquilinos, princi-
palmente por vespidas do genero Odynerus.
Entechnia taurea (Say). De outros ninhos, que
alids quasi em nada differem dos de Péelothria plu-
mata, criei alguns exemplares desta Entechnia (N.
1573). Realmente só posso distinguir o ninho desta
especie do da precedente pelas dimensões que, nos ex-
emplares desta, são um pouco maiores; assim a entrada
mede 8--9 mm., o comprimento de todo o ninho é 19
mm. e o seu diametro maximo 13--13,5 mm. Como
porêm em questão de dimensões estes hymenopteros de
vida solitaria nem sempre são de tal modo escrupulo-
sos como as abelhas ou vespas sociaes, por vezes su-
ecede que algum exemplar póde tão bem ser um pe-
queno ninho da Entechnia como um grande de Pti-
lothrix.
Seria interessante saber si K. taurea, mais conhe-
cida da America do Norte, tambem lá nidifica segundo
o systema que para aqui fica descripto.
Eugiossidse
Nesta familia foi incluido um só genero — Æuglossa
com suas numerosas especies, todas de colorido lindis-
simo e TICO.
Ja é antigo o conhecimento que temos pelo menos
de alguns ninhos. Assim Moebius já em 1856 descre-
veu minuciosamente e figurou um ninho deste genero.
Parecem ser caracteristicos aos ninhos das especies
deste genero as seguintes qualidades. As cellulas, ou
juxtapostas de um modo irregular (como em Bombus)
ou formando um tubo dividido em compartimentos, tém
as suas paredes construidas em geral de uma massa
composta de resina e de cascas de arvores, gravetos ou
lascas muito finas de madeira. Ora se encontra o ni-
nho occulto em uma fenda ou cavidade de uma arvore
ou de um muro, ora o ninho é subterraneo, parecendo
que cada especie repete quasi que exactamente sempre
o mesmo modo de construir.
E. surinamensis L., descripto por Bates e por
Moebius. Este ultimo auctor, que dai uma figura de
uma massa de cellulas, diz medirem estas 20X12 mm.,
ser a sua forma oval e as suas paredes serem cons-
truidas de cascas de arvore, colla e cera, havendo ainda
uma camada interna, de 5 mm. de expessura, inteira-
mente de cera. Fora encontrado debaixo do telhado
de uma casa. Bates, cap. VIII p. ‘214, confirma, em
traços largos esta descripção, sem se referir à cera, di-
zendo mais que a entrada para a cavidade do ninho é
fechada por meio de gravetos, folhas etc., unidos pela
resina.
E. dimidiata L., cujo ninho foi encontrado por C.
Bar, segundo Maurice Girard (vide Lucasl. c. p. 144)
parece construir seu ninho de um modo analogo. Se-
gundo o mesmo auctor algumas especies de Æuglossa
(em opposição às do grupo Ewlema) empregam cera
na construccao do ninho.
E. cordata \.. foi primeiro referido por Lucas.
Este ninho, composto de ca. de 25 cellulas e cujo ma-
terial de construcção parece ter sido só resina, descon-
fia o auctor estivera occulto debaixo da terra. O sr.
Ducke, falando desta mesma especie (3, p. 570) refere-
se ainda a dous modos de construcçäo : ou (fig. 2) as
cellulas estão occultas em uma cavidade, ou, como o
mostra a sua figura 1, prendem-se livremente a um
ramo, sendo então envolvidas por uma coberta resinosa,
que tem uma só abertura ou entrada na extremidade
apical. O primeiro systema será talvez o mesmo que
o indicado por Lucas.
— 480 —
Da mesma especie, mas sob o nome L. variabilis
Friese, dá este auctor, em sua Monographia, a descri-
pção de um ninho colligido em Obidos. Alem de fi-
gural-o, descreve-o com algumas palavras: preso a um
galho e feito de resina amarello-suja, tem as dimensões
de uma nóz; a entrada fica situada na zona medial.
Desse ninho foram criadas © femeas.
Um ninho, que desta mesma E. cordata recebi de
Araguary, Goyaz, esta abrigado de modo bem original.
Na sua procura de um logar apropriado para a sua
construcção, a abelha encontrou um ninho de barro
deshabitado, de uma Polybia (do grupo da P. phthesica) ;
considerando bom o abrigo escolhido, limitou-se a cons-
truir, sobre uma das camadas de cellulas da vespa, as
cellulas para a sua prole e a diminuir um pouco 0
diametro da entrada do ninho da vespa.
Em todos estes trabalhos entra como unico mate-
rial uma resina escura. As cellulas, em numero de 3,
continham duas o imago já quasi desenvolvido, a outra
estava cheia de pollen com a larva. As dimensões das
cellulas, alias de formas pouco regulares, eram de ca.
de 10 7 mm.
É. smaragdina Perty constróe o seu ninho em
algum abrigo e é como o diz ainda’o Sr. Ducke, feito
de resina, que leva lascas de casca de arvore de misturao
As cellulas formam tubos, que, por sua vez, podem ser
agglomerados. As cellulas, que medem ca. de 16 X 11
mm., são revestidas interiormente por uma cêra pardo-
escura.
Da E. nigrita Lep. o Sr. Ducke nos dá (4, p. 370)
alem de uma figura, a descripção de tres ninhos, que
successivamente encontrou. Um delles fôra construido
no sólo em um monticulo de cupim. As cellulas, em
numero superior a 100, eram construidas de barro
grosso e revestidas, por dentro e por fóra, com resina.
Um outro ninho contava cerca de 200 cellulas ; ainda
outro ninho, abrigado em uma urna funeraria, foi exa-
minado e, como o primeiro, tinha o seu tubo de entrada
feito de barro.
— 481 —
Das especies meridionaes ainda se conhece o ninho
da E. violacea Blanck. - O Museu Paulista possue 2
exemplares; um, figurado por Schrottky nesta Revista
Vol. V. p. 581, foi encontrado em Jundiahy na fenda
de um muro e um outro ( N.º 1575), encontrado pelo
rev. p. Andrieux em Ytú em um buraco de uma pa-
rede de taipa ( Fevereiro de 1903). Não differe, em
cousa alguma, do exemplar já figurado, quer quanto à
forma, quer quanto ao material.
Literatura
Bates. H. N. Naturalist on the Amazonas.
Ducke, A. 1) Beobacht. über Blütenbesuch, etc. der
bei Para vorkommenden Bienen—Zeitsch. f. Hymen. u.
Dipter.; herausg. von p. Konow. I (1901) p. 25 ss.
2) idem Il, Allg. Zeitsch. f Entom. VII, 1902 p.
321° ss.
é) As Euglossas paraenses, Bol. Mus. Pará. Vol.
HI 1902 p. 561-577.
4) Biolog. Notizen südamerik. Hymen. ; Alle.
Zeitsch. f. Entom. VIII, 1093 p. 368 ss.
Friese, Dr. H. 1) Monogr. Euglossa, Termesze-
trajzi Fiizeteck XXII 1899 p. 120 ss.
2) Monogr. Centris, Ann. N. Hofmus. Wien XV
(3-4) 1900 p. 240 ss.
Lucas, H. Nidificacion de Euglossa, Ann. Soc.
Entom Fr. 1878 p. CXLII.
Moebius, K. Nester ges. Wesp.; etc.; Abh. Ver.
Hamb 1806cp. £48) Est. /XIR É.
Schroithy, C. 1) Biolog. Notizen solit. Bienen von
S. Paulo; Allg. Zeitsch f. Ent. VI 1901 p. 209-216.
2) Abelhas solitarias do Brazil; Rev. Mus. Pau-
lista, Vol. V, 1902, p. 331-618.
Silvestri, F. Teremtidi ed Termitofili dell’ America
meridionale ; Redia, Giorn. Entom. Vol. I 1903. (Por-
ten) cf p 210.
Contribuição para o estudo dos hespedes de
abelhas brazileiras
POR
KE. Wasmann S. J. (Luxemburgo)
(Com a Estampa XVII-A)
O Sr. Dr. H. von Ihering remetteu-me no anno
passado alguns hospedes de abelhas de S. Paulo, para
o exame dos quaes só agora pude achar tempo.
Ao mesmo tempo, dou uma relação dos hospedes
de abelhas brazileiras, que até agora cheguei a conhe-
cer, estabelecendo algumas comparações dos mesmos
com os Myrmecophilos.
I
As especies que me foram enviadas pelo Sr. Dr.
H. von Ihering são as seguintes :
Encontradas em ninhos de Melipona anthidiordes
Lep. (1) (S. Paulo, v. Ihering !)
Belonuchus mordens Er. (Fig. 1.)
Scotocryptus parasita Rttr. (Fig. 2.) (Muito fre-
quente) acompanhado das respectivas larvas. (Fig. 3.)
(Segundo Reitter, encontra-se esta especie tambem em
S. Catharina, Hetschko !)
Scotocryptus melittophilus Rttr. (mais raro) (Fig.4.)
Em ninhos de Melipona marginata Lep. (S. Paulo,
v. Ihering !):
(1) As especies de abelhas foram determinadas pelo Sr. H
Friese.
4
+
4
À
7
— 483 —
Belonuchus mordens Er.; Scotocryptus parasita
Rttr.
Em ninhos de Melipona nigra Lep. (S. Paulo,
v. Ihering !) :
Belonuchus mordens Er.; uma larva de Diptero
(prope Volucella ?)
Para tornar os dados sobre a occorrencia destas
espécies mais completes, accrescento ainda :
Em ninhos de Melipona sp. (Colonia alpina de
Theresopolis, Rio de Janeiro, Dr. E. A. Góldi !):
Scotocryptus melittophilus Rttr. (Segundo Reitter
tambem em Cayenna.)
Em ninhos de Melipona imutata Lep. (Pará, Dr.
E. A. Góldi !):
Scotocryptus goeidis Wasm. (Fig. 5.) (Deutsch.
Ent. Ztschr. 1399. II. 411); uma espécie de Cherni-
tide. (Fig. 6)
Em ninhos de Melipona scutellaris Latr. (Bahia,
Girard, An. S. E. Fr. 1874, 374):
Scotocryptus meliponae Gir.
Em ninho de Trigona ruficrus Latr. (Rio Grande
do Sul, v. Ihering!) :
Mausibius clavicornis Rug. com larvas do mesmo. >
(Como hospede muito interessante das vespas bra-
zileiras menciono ainda aqui:
Em ninhos de Polybia vicina Sauss. (Colonia al-
pina, Rio de Janeiro. A. Góldi !):
Triacus superbus Er. com larvas do mesmo. (So-
bre este achado veja-se minha communicação : «Riesige
Kurzflügler als Hymenopterengäste, in Insectenborse,
1902, XIX Jahrgang».
Il
A respeito de Belonuchus mordens Er. :
Esta especie de Staphylinida, jà desde 90 annos
descripta, parece, pelas observações de v. Ihering, ser
regularmente (gesetzmássig? meliponophila.
A respeito do genero Scotocryptus Girard (Apha-
rea Reitter) observo :
— 484
Este genero de Silphidæ, caracterizado pela falta
de azas e de olhos, é munido de tarsos de tres arti-
culos e é, segundo os achados atê agora feitos, um hos-
pede regular de Melipona. Foi descripto primeiramente:
da Bahia, por M. Girard: «Note sur le genre Scoto-
cryptus e description du Sc. meliponæ Gir.» (An. Soc.
Ent. Fr. 1874 p. 374 ss.). Reitter descreveu o genero:
em 1881. (Verh. Zool. Bot. Ges. Wien XXXI p. 87.)
como Apharia e o reuniu às Thorictidas. Mais tarde:
(Bestimmungstab. Eur. Coleopt. XII 1888 p. 91-92) re-
conheceu a synonymia deste genero com Scotocryptus. —
Gir., o reuniu às Silphidas e deu uma tabella de deter-
minação para as 3 especies conhecidas por elle. Ew
descrevi uma especie nova do Pará (Deutsch. Ent. Ztschr..
1899 II. p. 411.) As quatro especies até agora conhe-
cidas podem-se distinguir pela seguinte
Tabella de determinação das especies de Scoto-
eryptus :
I Clava da antenna destacando-se pouco, os dous.
penultimos articulos (os dous primeiros articulos da cla-
va) não são mais largos ou pouco mais largos. que com-
pridos :
1. Corpo oval, uniformemente preto-azulado ; os:
dous primeiros articulos da clava das antennas fraca-
mente transversaes. 4 mm. Bahia:
Scatocryptus meliponæ Gir.
2 Corpo largo, cuneifórme, pardacento-preto, co-
berto de pubescencia côr de cinza; o terceiro articulo da
antenna pouco mais comprido que o segundo. Os dous.
primeiros articulos da clava tão compridos como largos,
triangulares. 4 mm. Pará:
Scotocryptus goeldi Wasm. (Fig. 5) |
I Clava da antenna pronunciadamente destacada:
(por causa da pequenez do oitavo articulo); os dous.
penultimos articulos (os dous primeiros articulos da ela-
va) fortemente transversaes, muito mais largos que com-—
pridos. O terceiro articulo da antenna com quasi outro;
tanto em comprimento que o segundo :
— 485 —
3 Maior (23-3,6 mm.) atrás acuminado, antes
cuneiforme que oviforme, com a cabeça retrahida e pardo-
vermelha até pardo-preta; com pubescencia curta, ama-
rella. O primeiro articulo da antenna com sômente outro
tanto em largura que em comprimento. Antennas bru-
nas, côr de piche. Rio de Janeiro, Cayenna:
Scotocryptus melittophilus Reitt. (Fig. 4.)
4 Menor (2 2,5 mm), oval (atrás pouco acumi-
mado) pardo-vermelho, com pubescencia amarella um
pouco mais comprida, deitada. O primeiro articulo da
clava antennal quasi tres vezes mais largo que com-
prido. Antennas amarelladas. Elytros sem series de
pontas maiores, que nas outras especies são visiveis
por meio de lente forte. S. Paulo, Santa Catharina :
Scotocryptus parasita Reitt. (Fig. 2).
Sobre o modo de vida de Scot. parasita e melitto-
phalus Rttr., communicou-me o Sr. v. lhering que os
pequenos coleopteros cegos correm com grande rapidez
pelos ninhos das Meliponas. Não os viu adherentes às
abelhas, comtudo deve-se suppor que assim se realize a
invasão destes hospedes em uma nova colonia, ao tempo
dos enxames.
Reitter diz «parasitus». Porém «parasita», sendo.
substantivo, tem de ficar invariavel, embora seja empre-
gado como adjectivo.
HI
Descripção da larva de Scotocryptus parasita Reitt.
(Fig. 3).
O exemplar, que o Sr. von Ihering achou no mesmo
ninho com o imago, tem 5 mm. de comprimento, 1,3 de
largura, sendo de côr amarello-clara ; tambem os anneis
‘do thorax não são mais escuros; o corpo é oval, alon-
gado e achatado, com cabellos pardacento-pretos.
A cabeça é relativamente grande, quasi tão com-
prida como o prothorax, mas muito mais estreita, semi-
circular, quasi chata, com uma impressão longitudinal,
larga e pouco profunda em cada lado da fronte. Labio
superior e clypeo estão bem separados.
— 486 —
As mandibulas são, só em parte, visiveis, adeante
estreitas e ponteagudas, com alguns dentes, dus quaes
um se acha perto da ponta. Os palpos maxillares de
quatro artículos ; o terceiro articulo pouco mais ou menos
a metade do segundo em comprimento e um pouco mais
estreito, o quarto pela metade mais comprido que o
terceiro, pontudo ; palpos labiaes de dous articulos. An-
tennas de tres artículos, 0 primeiro e o segundo cylindri-
cos, o segundo pela metade mais comprido que o primei-
ro ; o terceiro, muito diminuto, com um pequeno articulo
accessorio provido de cerdas. Os segmentos do thorax
augmentam em largura até o mesothorax; o protho-
rax, porém, é pela metade mais comprido do que cada
um dos segmentos seguintes; os segmentos dorsaes do
abdomen são muito mais curtos que o metathorax.
Sobre todo o dorso corre uma estreita linha, longitu-
dinal, algum tanto impressa. Os escudos dorsaes do
thorax não estão chitinisados (por causa da forma occulta
de vida), mas tem a mesma estructura de pelle amarella,
como os segmentos abdominaes. Os lados do corpo estão
em todo o seu comprimento munidos de cerdas pardas, se-
melhantes a espinhos. O lado inferior é branco. Os cerci
são compridos, de dous articulos, sendo o primeiro ar-
ticulo curto e grossamente cylindrico, o segundo com-
prido, cerdiforme. As pernas são delgadas, o tibia tão
comprido como o femur, mas muito mais estreito. Os
tarsos são curtos, de um só articulo, com uma unica
unha em fórma de gancho. A concordancia essencial
desta larva com aquellas das Silphidas confirma a con-
clusão que Scotocryptus deve ser incluido nesta familia
de coleopteros.
IV
Comparação com alguns Myrmecophilos.
O genero Scotocryptus tem no seu aspecto uma
semelhança surprehendente com Myrmecobius Reitt.,
entre as Silphidas e com Thorictus, entre as Thoricti-
das. Como nestes dous generos myrmecophilos, assim a
fórma de corpo quasi cuneiforme de Scotocryptus repre-
nad dès.
— 487 —
senta tambem um typo de defesa, que torna estes coleo-
pteros invulneraveis pelos seus hospedeiros. De algumas
especies de Thorictus sabemos, pelos seus feixes de ca-
bellos amarellos e pelas observações de Escherich (1) que
elles pertencem ao numero dos verdadeiros hospedes ou
Symphilos, que são lambidos por seus hospedeiros.
De outro lado vivem as mesmas especies de Tho-
“rictus como Ectoparasitas, nas antennas das formigas,
suas hospedeiras (2), do sangue das quaes se alimen-
tam, emquanto outras especies do mesmo genero pare-
cem encontrar seu alimento nos cadaveres das formi-
gas é outros restos de insectos. Em Scotocryptus nada
indica que pertençam aos Symphilos ou aos parasitas das
antennas das abelhas. Provavelmente elles são synoi-
cos, isto é, inquilinos tolerados, cujo corpo resistente é
o motivo da toleração. De que se nutrem, si é do mel
e da samora ou das larvas das abelhas. resta ainda
averiguar. As partes buccaes da larva indicam antes
a ultima forma de alimentação.
Explicação das figuras
Fig. 1. Belonuchus mordens Er.3 vezes o tamanho natural
Fig. 2. Scotocryptus parasita Reitt. 10 vezes o tam. nat.
Fig. 3. Larva de Sc. parasita, 8 vezes o tam. nat.
. Scotocryptus melittophilus Reit.:) vezeso tam. nat.
. Scotocryptus goeldii Wasm. 8 vezes o tam. nat.
Fig. 6. Chernetide gen. ? sp. ? 5 vezes o tam. nat.
A
3
OBS 09 PO
(1) Escherich, Zur Biologie von Thorictus fosili Wasm.
(Zool. Anzeig. 1898, n. 567.)
(2) Wasmann, Zur Lebensweise von Thorictus fosili. (Nat.
u. Offenb. 44, 1898; 8 Heft); Thorictus fosili als Ectoparasit
der Ameisenfiihler (Zool. Anz. 1898 n. 564): Nochmals Th. fosili
als Ectoparasit der Ameisenfühler (Zool. Anz. 1898 n. 570).
BREVES NOTICIAS
sobre uns objectos interessantes feitos peles mdigenas do Brazil,
PELO
Rev. pi A. SCÉUER:
Entre os objectos, feitos pelos indigenas, que pouco
a pouco neste Estado juntei, acham se duas bolas de
grez, que, por sua configuração particular, merecem
alguma attenção e sobre as quaes quero dizer algumas
palavras, principalmente porque não me lembro de ter
visto objectos semelhantes em outras collecções.
Uma e outra são, em toda sua superficie, providas
de saliencias mammillares, artificialmente feitas, tendo
a menor (fig. 1.) 32 e a maior sómente 13, porém muito
mais largas e compridas. — Umas linhas, bem visiveis,
consequencia de attrito, que se observa por entre as sali-
encias, deixam claramente vêr, que estas bolas estavam
amarradas, em diversos sentidos, por meio de cordas,
que ali deixdram seus vestigios.
Não se póde duvidar que as bolas assim formadas
serviam de armas e é de suppor que as extremidades
das cordas, que as cercavam, vinham unir-se na mão de
quem as manejava, na qual, deste modo, formavam uma
arma formidavel.
Ambas foram encontradas em lugares deste Estado
e não muito distantes uma da outra, sendo uma e outra
provenientes das margens do Taquary.
De particular interesse é o que me foi referido
com respeito à maior das duas, a qual devo-a genero-
sidade de meu amigo Wallau, em Porto Alegre. Pois,
conforme informações recebidas do sr. Octavio Telles,
do qual a obteve o Sr. Wallau, a dita bola foi achada
peio Engenheiro Dr. Antonio Mascarenhas na profundi-
‘dade de 30 pés abaixo do solo. Foi isto na occasião de
|
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|
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ca han an ee rica dr ee, ~~
— 489 —
se fazerem as excavações necessarias para collocar um
pilar de ponte no Couto, pequeno affluente do Rio Ja-
cuhy e prova que alli se enterrou em tempos remotos,
ainda que, sem perfeito conhecimento das cireumstancias
locaes, seja impossivel determinar-lhe qualquer edade.
Outro objecto, não menos interessante, é um cachim-
bo, (fig. 2) achado por um colono, perto da villa de
Santa Cruz no Estado do Rio Grande do Sul, apre-
sentando, em um e outro lado, uma figura de mulher
de enorme cabeça. Tirei uma photographia só de um
lado, visto ser-lhe o outro perfeitamente egual.
O cachimbo me foi dado de presente e é o primeiro
e unico objecto até agora por mim encontrado que, feito
pelos indigenas, representa uma figura humana inteira.
Encontrei outro objecto (fig. 3.) feito, como aquelle
cachimbo, de barro, imitando a figura duma cara de in- .
dio. E bastante tosco, concavo por tras e com. uma
dupla perfuração na margem superior, a qual mostra que
era destinado a ser pendurado e, talvez, trazido como
amuleto, no pescoço.
Afinal, menciono um lindissimo tembeti, o qual,
tendo a figura d'uma bigorna, é feito de um chalcedonio
branco, obra extremamente perfeita, tanto pela symetria
de sua fórma, como pela execução technica do trabalho.
Como os tembetás sejam achados rarissimos no Rio
Grande do Sul, é de suppor que entre os indigenas deste
Estado não existisse o uso destes objectos de enfeite e
que os poucos, que foram encontrados, elles os devem
a uma casualidade, sendo talvez trophéos de victoria.
Do cachimbo (fig. 4.) dou uma photographia, sómente
pela razão de que foi encontrado ainda provido do pe-
queno tubo, que servia para ser introduzido na bocca de
quem fumava.
Explicação das figuras da Est. XVII B.
Fig. 1. Bola de pontas.
» 2. Cachimbo de barro, com figura de mulher.
» 3. Amuleto de barro, mostrando cara de indio.
» 4. Cachimbo provido de tubo.
Aloumés notas e informações sobre a situação dos
Sambaquis de Itanhaen e de Santos
POR
BENEDICTO CALIXTO
Com as Estampas XVIII e XIX
Em 1895, quando escrevi e publiquei a pequena
monographia — A villa de Itanhaen — ao referir-me a
algumas das curiosidades antigas que alli existem, falei
do celebre Poco de Anchieta, especie de curral ou
cerco de apanhar peixe que alli existe, na praia de
Piruhybe, no extremo sul das costas de Paranambuco e
do qual o povo ainda hoje faz uso com grande proveito,
principalmente no tempo das tainhas, nos mezes de Maio
a Junho.
Reza a tradicçäo que esse Poço foi construido
debaixo das ordens e vistas do veneravel Anchieta,
pelos Indios que constituiram a primitiva aldéa de Ita-
nhaen, regida então pelos jesuitas.
Termina esse capitulo pela fórma seguinte :
.. «alguns naturalistas pretendem negar hoje essa
tradiccional asserção, qualificando-a de apocrypha !...
« Entretanto, esses scientistas, que nos pretendem
demonstrar a origem dos nossos Sambaquis, como sendo
monumentos erectos pela mão do selvagem, à seme-
lhança das Pyramides, Dolmens, Menhirs, Kjéckken-
moeddings, Alignements de Carnac e de toda sorte de
monumentos antigos, druidas, egypcios ou hindús, são os
mesmos que nos vêm dizer que — o Poço de Anchieta
é apenas um capricho da natureza ! »
— 491 —
« Não me posso occupar aqui deste assumpto, en-
tretanto, é possivel que emitta a minha modesta opi-
nião sobre o assumpto, quando der noticia dos Samba-
quis deste municipio. »
« Declaro, porém, desde já, que não os analysarei
scientificamente ; não tenho essa pretençäo. Demonstra-
rei simplesmente aos homens de sciencia a parte que
me parece pouco elucidada nesta materia, afim de me-
lhor ser resolvida ».
Ora, ist. diziamos nós em 1894 ou 95, entretanto,
não obstante termos ainda sobre os Sambaquis a mesma
idéa que tinhamos naquella épocha, jamais nos resolve-
riamos a tratar desse assumpto.
Ao lermos, porém, este anno (1901) a «Revista do
Museu Paulista», vol. IV, publicada pelo dr. H. von Ihe-
ring, vimos num ou noutro trecho, algumas referencias
aos nossos Sambaquis.
Si bem que as opiniões continuem a divergir sobre
a origem e épocha da formação dessas ostreiras, todavia,
rejubilamo-nos ao encontrar à pagina 566 daquella «Re-
vista», mais um investigador que, como nós, acceita a
opinião do dr. Carlos Rath, isto é: — que parte dos
Sambaquis, e especialmente os maiores, não foram con-
struidos artificialmente. ;
Incontestavelmente é neste numero que se acham
os do municipio de Itanhaem, dos quaes vamos dar uma
pallida. descripção, accedendo ao pedido que nos acaba
de fazer o mesmo sr. H. von Ihering, digno director do
Museu Paulista, e ao mesmo tempo desobrigar-nos da
promessa que fizemos em 1895; a qual si, não fosse
esta circumstancia, ficaria ainda... no tinteiro.
Os factos, communicados em seguida, vem confir-
mar a exposição dada pelo Dr. von Ihering, no seu
artigo sobre a origem dos Sambaquis na Rev. do Inst.
Hist. e Geog. de S. Paulo, vol. VIII, 1404, p. 446 a
497. De especial interesse é o que relata sobre os Sam-
baquis da bahia de Paranaguá.
Muita luz resulta, para esta importante questão
da origem dos Sambaquis, dos estudos feitos a respeito
Age
naquella zona pelo dr. von Ihering, não só pelo conheci-
mento dos generos de conchas de que elles se com-
põem, como principalmente pela estratificação de suas
differentes camadas, o que demonstra a origem neptu-
niana dessas casqueiras colossaes.
Folgamos immensamente em ouvir a opinião de
s. s., em contrario à preconcebida idéa de outros sabios
investigadores, de serem esses montões de conchas os
restos dos banquetes das gerações humanas de outras éras.
O Sr. Alberto Lüfgren, no estudo que fez dos
Sambaquis do nosso littoral, publicado no Boletim da
Commissão Geographica e Geologica de 1893, refere-
se aos Sambaquis de Itanhaen e ao descrever os do Rio
Preto, diz o seguinte :
«Dos outros tres SamJaquis que ainda existem nas
margens do Rio Preto, só dous foram por nós explorados;
porém, reputamol-os os mais interessantes de todos os
Sambaquis, que até agora tivemos occasião de explorar.»
Ahi, entre outras cousas, encontrou elle grande
quantidade de uma concha denominada Azara prisca,
especie que esta inteiramente extincta, diz elle, e nem
os moradores lhe sabem o nome.
Lofgren relata outras particularidades destes samba-
quis excepcionaes, e, finalizando, diz:
«Em todo o caso, não póde haver duvida de que
este sambaqui é obra do homem e não da natureza.»
Pedimos licença para divergir, neste ponto, da opi-
nião do illustre naturalista e daremos a razão disso, no
correr destas notas.
A sna opinião tão segura, sobre a antiguidade e
valor pre-historico dos nossos Sambaquis, não obstante ser
acceita pela mór parte dos investigadores,não deixa, en-
tretanto, de encontrar contradictores obstinados.
Seja-nos ainda permittido, a esse proposito, fazer
aqui mais uma citação. |
O sr. J. M. Paldaof, tratando da archeologia do Rio
Grande do Sul (Rev. do Museu Paulista, vol. IV, p. 347)
e descrevendo os objectos indigenas encontrados em
Sambaquis, naquelle Estado, .diz, terminando um desses
— 498 —
periodos: «... finalmente, para contestar a opinião
de A. Lofgren, que diz serem os nossos Sambaquis
pre-colombianos, accrescentaremos que no grande Sam=
baqui da Cidreira encontravam-se juntos um pedaço de
agatha, os maxillares inferiores do Gambá, um crystal
de quartzo e—o que mais importa—uma bala redonda
de chumbo (de espingarda).»
“ . . . . . e .
Antes de entrar no assumpto que nos propuze-
mos, isto é, tratar dos Sambaquis de Itanhaen, precisamos,
de alguma forma, envolver-nos nesta controversia.
O facto de se encontrar em Sambaquis objectos
extranhos ao seu conteúdo normal, como esses a que se
refere o sr. Paldaof, não prova absolutamente a sua re-
cente formação.
Esses objectos não são inherentes ao conteúdo dos
Sambaquis, embora se achem mesmo envolvidos entre
as suas camadas interiores.
O dr. von Ihering, nas excavações a que procedeu
nos sambaquis da bahia de Paranaguá e outros, como
os de Baguaçü, tambem encontrou pedaços de louça, ossos
bovinos e até moedas, sem dahi concluir que esses sam-
baquis fossem de formação recente ou post-colombianos.
O sr. Léfgren tambem encontrou em alguns sam-
baquis dos arredores de Santos, objectos extranhos, como
cacos de telha, cacos de pratos de louça antiga portu-
gueza etc. etc.
A presença desses objectos, relativamente modernos,
não deram. entretanto, indicio para que esses sambaquis
fossem considerados post-columbianos.
Liferen explica o facto da forma seguinte: «EF,
sem duvida, devido ao estabelecimento de algum rancho
para descanço dos trabalhadores, occupados no fabrico
da cal.»
O dr. von Ihering tambem é da mesma opinião,
quando se refere aos objectos encontrados nas casquel-
ras de Paranaguá.
A existencia desses objectos e artefactos modernos
pode tambem ser attribuida a algum caçador que ahi
Le
pernoutasse, quando esses sambaquis se acham, como os
de Itanhaen, situados em varzeas ou bréjos, onde for-
mam verdadeiras collinas e outeiros, muito preferidos
pelos caçadores, afim de se arrancharem e de se porem, du-
rante a noute, ao abrigo das enxurradas e das inun-
dações.
Acceitando esta hypothese, alias razoavel, deve-se
tambem admittir a, que esses caçadores, ou trabalhado-
res podiam bem deixar ficar ahi nos sambaquis alguns
desses objectos de que nos fala o Sr. Paldaof.
Em sua môr parte, os sambaquis são todos cober-
tos de matta espessa; ahi, médram e crescem as maiores
figueiras e outras arvores frondosas, que mergulham
suas raizes atravéz das camadas caleáreas dos ditos sam-
baquis, atê grande profundidade.
Não é raro, nos grandes tufões, vêr-se uma dessas
arvores desarraigar e tombar, produzindo o deslocamento
de aleumas ces Ed do sambaqui.
E são, quasi sempre, esses sulcos, esses gilvazes
abertos no seio dos sambaquis, pondo à mostra uma
parte de seu conteúdo, que revelam a sua existencia ao
caçador que por ahi passa.
Outras vezes acontece que, tendo seccado e apodre-
cido, por qualquer motivo, uma arvore, deixa esta no
Interior da casqueira um vão, no logar em que existiu
o seu tronco e apodreceram as suas raizes, produzindo
então verdadeiras galerias e fojos no interior dos sam-
baquis. Esses fojos e galerias constituem, mais tarde,
as tocas onde se abrigam os reptis e os roedores, entre
os quaes se veem com frequencia a paca, a cotia, etc.
Um aos animaes, que tambem prefere essas tocas
e furnas sombrias, é 0 gamba.
Todos esses animaes, fugindo às vezes ao caçador e
à sua matilha, podem, penetrando por esses meandros e
galerias subter rancos, ir morrer no interior dos sambaquis,
levando no corpo e, quem sabe, talvez «na maxilla im-
fervor» a bala de chumbo do caçador civilizado ou a
ponta da flexa atirada pelo indio semi-barbaro.
Ou, por outra ainda, pôde bem acontecer que por
— 495 —
esses mesmos buracos penetrem no interior dos Samba-
quis, levados pela enxurrada, esses objectos deixados na
superficie pelos caçadores, ou por outro individuo, com-
pletamente extranho aos « constructores de sambaquis »
(se é que os houve).
Os tatus, os lagartos e outros animaes de que já
tratâmos, que vivem em subterraneos, ou tócas, preferem
habitar as lombadas altas, que os preservam das inunda-
ções. Quando os terrenos são baixos e alagadiços, come
o são na mór parte os terrenos onde estão situados os
sambaquis, os animaes, que vivem e pastam nesta zona,
vão nelles habitar e se por ao abrigo das inundações
tão frequentes. E” a razão porque abundam ahi as co-
bras e os demais reptis e, se o tatu não prefere muito
o terreno dos sambaquis. é porque encontra difficuldade
em excavar suas galerias nessas camadas de ostras
compactas e resistentes.
Os poucos individuos dessa especie, que ahi vivem,
estão domiciliados nos fójos abertos pelos troncos e
pelas raizes apodrecidas.
Isto, de resto, é sabido por todos os que, como nós,
viveram ou vivem ainda nesta zona sambaquieira e sabem,
pela pratica e experiencia, de todas essas pequenas par-
ticularidades da vida das nossas florestas de beira-mar.
A idéa, pois, de demonstrar a recente formação
das nossas casqueiras pelo apparecimento, no interior
das mesmas, desses objectos relativamente modernos, não
J
prevalece, e é, como se ve, facil de refutar.
Pouco conhecimento temos da actual ethnographia
dos indigenas selvagens do Rio Grande, sabemos en-
tretanto alguma cousa da historia desse povo que cons-
tituiu outrora as Sete Missões, aquem do Uruguay ;
conhecemos as vergonhosas e barbaras expoliações, de
que foi victima o elemento indigena, por parte dos pau-
listas e emboabos, não só durante o dominio jesuitico,
como apóz a expulsão destes missionarios, facto esse
que contribuiu para o aniquilamento completo dessa in.
feliz raça aborigene.
— 496 —
%
Não é crivel pois, que durante o periodo prospero
e feliz das Sete Missões, cuja fundação data do anno
de 1627 em diante, essa enorme população indigena,
que vivia em estado de prosperidade relativa, occupan-
do-se da industria pastoril, que lhe fornecia prompto
e substancial alimento, tivesse a phantasia e a licença
de vir placidamente ao littoral fazer a sua pesca de
inolluscos e erigir pacientemente esses monumentos,
como o celebre «Sambaqui da Cidreira » e outros con-
generes, de que nos fala o sr. Paldaof.
Si por ventura ainda existe o elemento selvagem
indigena no Estado do Rio Grande, que escapou ao
aniquilamento total das referidas Missões, estará com
certeza disperso pelo sertão, ou assimilado à população
civilizada, e já perdeu, sem duvida, de ha muito, o ha-
bito e a industria da construcção de Sambaquis.
Existe entretanto, no nosso adeantado Estado de
S. Paulo, uma zona do littoral, bem proxima à Capital,
onde o elemento indigena primitivo ainda predomina,
por assim dizer. Os seus usos e costumes são os mes-
mos; tudo ahi se conserva quasi no mesmo pé em que
estava no tempo de seu donatario e do primeiro ca-
thechista.
Essa zona, conhecemol-a nós; conhecemol-a porque
ahi nascemos e crescemos, vivendo e commungando
com essa raça primitiva.
Ahi, nessa região esquecida, que constitue o muni-
cipio de Itanhaen, ainda não penetrou o elemento « ci-
vilizador » senão em mui pequena dose.
A raça primitiva, apesar da vizinhança dos gran-
des centros populosos, vive ainda num isolamento quasi
absoluto, fruindo a quietude de outras éras, nessa eterna.
infancia, como em um oásis de paz, no meio do bulicio de
progresso que a circumda.
Essa população, na mor parte, habita o littoral,
constituindo povoações ou aldêas que datam dos tempos
primitivos, mesmo anteriores à colonização portugueza,
= ANT
como a primitiva aldéa de S. João Baptista e a capella
actual de Peruhybe.
Essas povoações estiveram sempre habitadas por um
numero nunca menor de trezentas a quatrocentas almas,
cada uma, vivendo sempre reunida e alimentando-se
quasi exclusivamente de peixes e mariscos que abundam
naquellas praias, ilhas e costões.
Esses mariscos são :
O mexilhão das pedras (Mytilus perna L.), o ca-
ramujo Saquarita (Purpura haemastoma L.), o cara-
mujo Pavacarè (Olvancillaria auricularia Lam. e
Ohvancillaria brasiliensis Ch.), o Sarnamby (Meso-
desma moctroides Desh.), a Unha de velha (Tagelus
gibbus Speng. e Solen tehuelchus Orb.), a Peguira
(Donax rugosa L.), a ostra da pedra (Ostrea arborea
Ch.), a Craca, Balanus tintinuabulum L.) e outros mol-
luscos univalvos e bivalvos que abundam naquelle lit-
torai.
Essa quantidade enorme de conchas extraidas
quotidianamente das praias e rochas de beira-mar, para
“alimento dessa população durante tantos seculos, deve-
ria, misturado com os detrictos de peixes e mammiferos,
ter já formado, em torno de cada povoação ou aldêa, um
ou diversos Sambaquis ou pelo menos, algum esboço.
Pois ao contrario, nada, absolutamente nada, ahi se vê
que dê idéa de Sambaqui !
A’ proporção que esse povo vae depositando nos
monturos as varreduras de seus borralhos, tudo se vae
triturando e consumindo pela acção do tempo, ficando
apenas disperso aqui e all, um ou outro mollusco re-
sistente, de envolta com essa substancia terrosa e es-
cura, mistura de toda a sorte de detrictos organicos,
que tão fertil se torna afinal.
Si os indigenas do Rio Grande não esqueceram
ainda a architectura dos Sambaquis, como prova esse
«grande Sambaqui da Cidreira», considerado pelo sr. Pal-
daof como post-colombiano, por que razão então os in-
ER as
digenas desta zona, exclusivamente ichthyophagos e con-
chiliophagos, perderam inteiramente as noções de arte
sambaquieira, depois que os portuguezes aqui aportaram?!
E” o que desejamos que se nos explique.
Damos por terminado este capitulo e passamos a
nos oceupar dos Sambaquis de Itanhaen e da zona em
que estão situados.
Os Sambaquis do municipio de Itanhaen estão si-
tuados a grande distancia da costa e alguns proximos
à serra de Paranapiacaba, que passa cinco ou seis leguas
afastada do mar.
O rio Conceição é formado por diversos affluentes
que lhe veem da dita serra e de outras isoladas,
A oito kilometros de sua f6z, reúne este rio os
seus tres principaes afiluentes: o rio Preto, o rio Bran-
co e c Aguapehu.
EK’ na zona ou bacia fluvial destes aflluentes que
se acham situados os Sambaquis, porém, todos mais ou
menos afastados das respectivas margens.
Além dos Sambaquis actualmente conhecidos, exis-
tiram outros que já foram inteiramente demolidos para
o fabrico da cal, e dos quaes só existem vagas noti-
cias; e mesmo dos actuaes existentes, nem um se acha
intacto, porque o trabalho de devastação, embora lento,
vae infelizmente augmentando sempre.
Não nos demoraremos na descripção destes Sam-.
baquis, porque não só não é esse o nosso intuito, como
porque já foram descriptos pelo distincto naturalista
Sur. A. Lofgren.
Ha, entretanto, na sua descripção, um ou outro
equivoco ou omissão que nos merece algum reparo.
O rio ou corrego de Mangaguá, na Praia Gran-
de, chama-se mesmo Mangagud e não Prassava. O
rio denominado Prassava ou Prassavac (Porto Gran-
de), no districto de S. Vicente, é um dos canaes do
Lagamar, ou mar-pequeno que vem ter ao porto.
Tem o nome de Porto Grande ou Prassavacir,
porque foi e éainda o porto das candas que conduzem
as cargas e generos que de Itanhaen vac a Santos e
vice-versa, e que passam pelo largo do Casqueiro ou pelo
furado de S. Jorge.
Estas observações são necessarias à nossa narra-
ção, como demonstraremos mais adeante.
O rio Peruhybe não nasce na «Serra da Concei-
ção» que é a mesma serra Paranapiacaba, mas sim
na Serra do Pavô, que é uma ramificação da Serra
isolada dos Itatins.
O promontorio de Pernhybe, ou «Morro do Te-
legrapho», conforme o denomina o Snr. Loefgren na sua
descripção, faz parte tambem da mesma Serra.
Entre a serra de Paranapiacaba e a serra do Pavo,
(da qual nasce o rio Peruhybe), passa o rio Hariry e
Guanhanha, affluentes da Ribeira de Iguape, os quaes
fazem parte do municipio de Itanhaen.
Toda essa zona, onde talvez existem sambaquis, é
pouco explorada.
Voltemos agora à bacia do rio Conceiçäo.
O maior dos sambaquis não é o do rio Aguapehu,
mas sim o do rio «Camburypitanga», o mesmo que o
Sr. Lofgren deixou de visitar e que, conforme sua
indicação, deve achar-se a 90 kilometros da costa. (*)
Este sambaqui, em seu conteúdo, é identico aos
que o auctor se refere no citado folheto, porém não se
acha situado sobre uma «collina». Está, como todos,
rodeado de brejos, e a «collina» a que allude o Sr. Lüf-
gren, nada mais é do que o prolongamento da mesma
casqueira.
Essa substancia terrosa que se vê as vezes, proxi-
mo ou em torno dos sambaquis, é simplesmente o resi-
duo dos proprios sambaquis, que cOou atravéz do crivo
(*) Esta distancia é exaggerada, 25 a 30 kilometros será
o maximo. |
— 500 —
das peneiras, e que os tiradores de cascos arrastam
para ahi, conforme observou o sr. von Ihering, no Sam-
baqui a Boguacu, e outros.
A’ proporção que os tiradores de cascos vão avan-
cando na demolição da casqueira, vão tambem recuando
para tráz toda essa terra. A supposição da collina
vem dahi.
A não ser o Sambaqui do Boturoapõam, que se
acha proximo ao morro que lhe da o nome, todos os
mais se acham no meio de bréjos ou pantanos, sobre o
mesmo nivel, e nem um sobre collinas ou lombadas,
nem tão pouco à margem do rio ou canal.
As condições destes sambaquis são irteiramente di-
versas das que se acham em outras zonas, si conside-
rarmos a natureza do terreno em que estão assentes.
E” este o objecto principal desta narração.
Todos os demais sambaquis, que constituem os tres
grandes centros principaes do nosso Estado : Santos,
Iguape e Cananéa, acham-se situados em margens de
canaes ou em pequenas ilhas, que emergem de dentro
dos lagamares ou mar-pequenos.
Esses canaes e lagamares são todos, já se vê, for-
mados de agua salgada ou salôbra e rodeados por toda
a parte de mangues, ainda hoje tão abundantes em toda
a sorte de mariscos : ostras, ameijõas, mexilhões, etc.
A opinião, pois, do sr. Lüfgren e de outros, de se-
rem os sambaquis desses centros formados pelos selva-
gens, e o qualificativo de residuo de cosinha que vul-
garmente applicam a essas casqueiras, poderão, em parte,
ser acceitaveis, em vista das condições especiaes em que
se acham, relativamente à abundancia de mariscos, que
ahi se nota, nesses mangues.
O mesmo, Eno: não se dá com as casqueiras
de Itanhaen.
O rio Conceição ou rio Itanhaen e todos-os seus af-
fluentes são exclusivamente formados de agua doce.
Em nenhum desses rios existe absolutamente marisco
ou mollusco algum de que são formados os ditos samba-
,
quis, isto é: a ostra, Ostrea brasiliana, o berbigäo, a
et)
ameja, Lucina jamaicencis, a Azara pisca, etc., porque
esses molluscos nem se geram, nem vivem na agua
doce. -
Porque razão, então, os sambaquis de Itanhaen são
exclusivamente formados por estes molluscos ? !
O pouco mangue e a agua salobra que existem no rio
Conceição, estão circumscriptos em torno de sua fóz, que
a agua salgada invade apenas nas marés lançantes.
Este rio, cujo alveo é formado de arêa, varre do
seu leito, nas suas constantes enchentes de agua do
monte, toda a vaza ou lodo que ahi se deposita, não
deixando repouso sufficiente para a vida e procreação
desses molluscos.
Nessa pequena zona de mangue não existe siquer
um marisco, porque, como já dissemos, esses mangues
são constantemente inundados por agua do monte que,
na impetuosidade da corrente, arrasta para o mar e
praias até os caranguejos e siris que nelles vivem.
Os homens de sciencia que conhecem as condições
de vida de molluscos, como Ostrea virginia, Ostrea brasi-
hana e Lucina jamacencis e outras que compõem os
sambaquis de Itanhaen, viram que é e foi sempre im-
possivel a existencia desses molluscos em rios seme-
lhantes aos de Itanhaen.
A Lucina jamaicencis, vulgarmente conhecida por
ameja, requer, especialmente para sua existencia e pro-
creação, os grandes baixios de lodo ou vaza, absoluta-
mente tranquillos, onde o fluxo e o refluxo das marês se
operam sem violencia, como no canal do Piassaboçú e
outros baixios afastados inteira nente das correntezas
violentas da maré, mas banhados constantemente pela
agua salgada, porque, fóra desse elemento, a existencia
desse marisco é impossivel.
Como se poderá, pois, explicar a existencia
desses molluscos nos sambaquis de Itanhaen ?!
Pois será crivel que o nosso selvagem, sempre tão
indolente, tivesse a phantasia, o capricho, de ir erigir
os seus Sambaquis tão longe da zona onde existem esses
mariscos ? !
— 902
Será crivel que o indio tivesse a pachorra de ir
pescar em Piassaboçú, no Ganihu ou em Gananéa—nove,
dez e trinta legoas de distancia— as ostras e ameijas,
para trazel-as pacientemente, em longas caminhadas, a
pê, só para ter o gosto, a phantasia de erigir esses
monumentos nos sertões de Itanhaen, nos logares menos
proprios, no meio dos brejos e paúes ?!
Não, essa idea, essa opinião attinge as raias do
absurdo.
E, si assim é, pois, declaramos que ainda mais ad-
miração e sympathia nos inspira essa infeliz raça, por-
quanto: si os antigos hebreus, sob o captiveiro dos Pha-
rads, levantaram as celebres pyramides em logares
onde lhes escasseava a materia de construeçäo—a pe-
dra—os nossos indigenas, aqui, livres ainda de qualquer
jugo da escravidão, erigiram espontaneamente esses n10-
numentos em logares once tambem lhes faltava por com-
pleto a materia prima—a ostra—!
Não se pense que o parallelo que estabelecemos
entre essas duas raças e entre seus feitos seja um pa-
radoxo, uma phantasia. Não !
E” pelo menos opinião corrente, entre alguns sa-
bios investigadores dos nossos Sambaquis, que estas
ostreiras foram levantadas pelos nossos aborigenes, com
o fim de lhes servirem de twumulos, e tambem para
legarem ao futuro um, documento de seus feitos. Tal
qual como os constructores das pyramides e dolmens e
iminhirs !...
Ah! mas infelizmente para nós que, como já
dissemos, somos tão amigos dessa raça, admirando as
acções de alguns dos seus herôes passados, exaltando-
lhe o heroismo e a resignação com que supportaram o
captiveiro aviltante que por tanto tenpo os opprimiu;
nós, que tanto credito ligamos às suas lendas e poeti-
cas tradições, não acreditamos, entretanto no que nos
dizem esses sabios e investigadores, quando pretendem
affirmar que os nossos Sambaquis são monumentos er-
guidos pelos aborigenes.
Não; a habilidade e paciencia dos nossos indige-
ne Cr niet entr E eT
Aa ad
ms SD xe SEO ee ee ic
— 903 —
nas, que ainda até hoje se revela, não vão até la. E foi
por assim pensarmos que resolvemos dar alguns escla-
recimentos sobre esta materia, afim de que seja ella
convenientemente elucidada por homens competentes.
O grande valor que esses Sambaquis devem ter
para a sciencia é incontestavel. O valor ethnologico
ou archeologico das nossas casqueiras não desmerece,
quer ellas sejam consideradas naturaes ou artificiaes;
porem, esse valor será ainda maior — quando se veri-
ficar a sua remota origem, podendo então servir de
fonte e de base à nossa prehistoria.
Esta nossa maneira de pensar está de accôrdo com
a opinião de von Ihering e I. von Siemiradzki, que
tambem considera os nossos Sambaquis, quasi na sua
totalidade, como formações naturaes do começo da épocha
quaternaria, proximas, portanto, ao periodo terciario.
O dr. Carlos Rath, um dos mais experimentados ex-
ploradores dos nossos Sambaquis, na phrase do dr. H. von
Ihering, tambem admitte a origem natural dessas casquei-
ras e é de opinião que a sua formação attinja ao pe-
riodo terciario.
Sentimos, entretanto, que o sr. dr. von Ihering, que
nos estudos feitos nos Sambaquis de Paranagua tanta
luz trouxe para esta materia, não tenha ainda podido,
devido aos seus afazeres do museu e aos seus traba-
lhos zoologicos, proseguir nas investigações destas cas-
queiras, principalmente nas de Itanhaen.
O sr. A. Léfgren é o unico investigador que em
caracter scientifico tem explorado esta região. Não me
consta que além deste, outros sabios tenham se dado
ao incommodo de ir a Itanhaen estudar os Sambaquis,
a não ser o coronel Joaquim Sertorio, que em 1884
alli esteve tambem em explorações, em busca de objectos
para seu museu de então.
Quantos sabios, entretanto, no interior de seus ga-
binetes de estudos, não terão julgado e dito a ultima
palavra sobre os Sambaquis !
— 504 —
Uns, declarando-os post-colombianos, formação re-
cente e de pouco valor scientifico, e outros qualifican-
do-os simples e commodamente nesta epigraphe — Restos
de cosinha.
Temos fé, entretanto, que este indifferentismo e
pouco caso ha de findar e que um dia se tratará séria-
mente, já não diremos de estudal-os convenientemente,
mas ao menos de impedir a destruição completa desses
sambaquis, ou por outra, desses restos de sambaquis que
ainda existem nesta zona.
Nesse clamor aos poderes publicos fazemos coro
com A. Léfgren, H. von Ihering e outros que tanto se
interessam por esta questão de conservação dos Sam-
baquis.
Para terminar esta pallida descripção, precisamos
tentar ainda esclarecer alguns pontcs sobre os referi-
dos sambaquis de Itanhaen e a natureza do terreno que
os cerca.
A. Liéfgren, nos estudos que fez nesta região, não
deixa de notar a importancia dos sambaquis, segundo
já referimos, e de admittir a hypothese de que—na épocha
da formação destas ostreiras, essa região estivesse toda
invadida pelo mar. O dr. von Ihering é da mesma
opinião e occupa-se desta questão na sua referida noti-
cia sobre os sambaquis do Paraná, como mais adeante
mostraremos ; e, de facto, não póde haver outra explica-
ção para o conteúdo um tanto mysterioso destes sam-
baquis.
Prosigamos, pois :
«Effectivamente, diz o sr. Lôfgren, ha possibilida-
de de que na épocha da formação dos sambaquis, quasi
toda essa região, ou mesmo parte della, constituisse
enormes manguezaes, que apenas por occasião das marés
baixas estivessem acima da superficie das aguas.»
«Em todo o caso, havia all varios canaes mais
fundos, eguaes áquelles que hoje encontramos nos mangues
modernos. Devia ser, pois, por estes canaes que os ha- .
bitantes transitavam nas suas viagens de mudanças..
etc. etc.
— 505 —
O que, porém, o Sr. Lüfgren não descreve com
clareza é a natureza dos rios e do terreno actual, que
constituem a bacia em que estão situados os ditos sam-
baquis de Itanhaen.
Referindo-se aos suppostos canaes e mangues, e às
suppostas viagens de mudanças dos habitantes, parece
dar a entender que ainda existem vestigios de taes
canaes e mangues, onde a maré ainda penetre hoje ;
quando nada disso existe nessa região, segundo já de-
monstramos, repetindo ainda que os sambaquis estão
ahi em terrenos muito baixos, em meio de pantanos,
sempre afastados das respectivas margens e muito dis-
tantes da costa; alguns até a 50 kilometros, conforme
affirma o Sr. Lofgren.
Ora, si admittirmos que o mar occupou toda essa
região, até perto da serra geral, o que é provavel, e
que os suppostos canaes desse mar chegassem até aos
Sambaquis do Rio Branco e outros, então ê provavel
tambem, que toda essa região baixa dos Sambaquis esti-
vesse toda coberta de agua e os ditos sambaquis não
podiam deixar de estar submersos, não emergindo
nem nas grandes baixa-marés. E si estavam debaixo
da agua, como é que o Sr. Lôfgren admitte a opinião
de serem estes Sambaquis «obra do homem e não da
natureza» ?
E' verdade que o auctor, para corroborar a sua
opinião, cita outros sabios investigadores, entre os quaes
o dr. Karl von den Steinen, o qual, na descripção que
faz dos Sambaquis de Santa Catharina, refere-se à ele-
vação lenta da costa e ao recúo do mar, estabelecendo
pleno accordo com a opinido e descripção do dr. von
Ihering.
Diz. entretanto o dr. von du Steinen : «esta elevação,
durante os ultimos seculos deve ter sido insignificante,
pelo que não temos motivo algum para suppor que em
outros seculos antes tivesse sido maior.»
Si bem que esta citação se refira à costa de Santa
Catharina, podemos applical-a tambem ao nosso littoral,
que é de facto a mesma zona; porém, para queo mar
— 906 —
recuasse aqui na mesma proporção observada pelo sabio,
numa distancia de 50 kilometros, seriam necessarias
muitas dezenas de seculos, recuando assim a edade da
formação destes Sambaquis a um periodo assäz remoto.
E” de facto incontestavel a opinião de que a zona
de que nos occupamos, esteve toda debaixo de agua
salgada, na épocha da formação dessas ostreiras.
O dr. von Ihering diz que «a formação desses
grandes Sambaquis de Paranaguá se operou no fundo
do mar, obedecendo às correntes maritimas, e isso ex-
plica a notavel estratificação de suas camadas que, com
o retrocesso das aguas e o lento augmento da costa,
foram pouco a pouco emergindo do fundo da agua.»
Esta elevação da costa, assignalou-a elle primeira-
mente no Rio Grande do Sul, tendo mais tarde tambem
verificado o mesmo no littoral do nosso Estado.
Para demonstrar que a formação dos Sambaquis
de Itanhaen se operou debaixo da agua e não devido
ao esforço e arte dos aborigenes, basta .examinar-se a
sua estratificação e a qualidade de molluscos que os
compõem, conforme já explicamos.
Não concordamos tambem com a opinião do Sr.
Lifgren, quando diz que esses rios, perto dos quaes se
acham os ditos Sambaquis de Itanhaen, fossem em
outras épochas «canaes de agua salgada» ou mar pequeno,
como Santos e Cananéa.
Essa idéa é inacceitavel para quem conhece o sys-
tema hydrographico desta região.
A correnteza constante e às vezes caudalosa que se
observa no rio Conceição e em seus afiluentes, prova-
nos a differenga de nivel que existe entre a sua f6z e
as respectivas vertentes, perto da Serra, onde o effeito
da maré é inteiramente nullo.
Isto prova que o terreno dos Sambaquis esta aci-
ma do nivel do mar alguns metros; por conseguinte, a
opinião, de que a agua salgada penetrasse por esses
rios atê ao logar dos Sambaquis, é inacceitavel.
Não podemos absolutamente estabelecer compara.
Ad É Id dA o a ee à:
Oe aS er ES CRT
ED cd
= BO =
ção entre estes Sambaquis e os do imar-pequeno de
Santos, que são ainda banhados pela agua do mar, nas
marés altas.
Ahi, o terreno é inteiramente outro.
Si no tempo de Martim Affonso, 1532, o mar in-
vadia toda essa zona de mangues, formando verdadeira
bahia, desde o largo do Canihú até à serra do Guba-
tão, de onde apenas emergiam ilhas, como nos demon
stram os mappas que possuimos desse tempo, não pro-
va isso que a bacia fluvial do rio Conceição houvesse
passado pela mesma transformação.
Os rios e canaes do iagamar de Santos, que vão
até à Serra, estão ainda até hoje cercados de mangues,
e o fluxo e refluxo da maré penetram e se fazem sen-
tir ahi como no tempo em que esteve tudo alagado
pelo mar.
O viajante que chega hoje à Raiz da Serra, na
estação do Piassaguéra e se dirige para Santos, pelo
caminho de ferro, vê ainda nas proximidades, circu-
lando os espigões da Serra, toda essa zona de man-
gues alagada ainda pelo mar, nas marés lançantes,
apesar de se achar a muitos kilometros afastado da cos-
ta. Todo esse mangue, por entre o qual serpeia o rio
Mogy, o Cubatão e uma infinidade de canaes, está até
agora no mesmo nivel das marés.
O braço de mar da Bertioga tinha antigamente
largura e profundidade sufficientes para a navegação
dos navios que viniam a Santos por essa barra; en-
tretanto, hoje esta quasi obstruide e o seu canal, aper-
tado de mangues por todos os lados, só dá passagem a
pequenas embarcações.
Outro exemplo ainda:
O antigo caminho, que de S. Vicente ia ter a San-
tos (estrada da Marinha), subia pelo engenho de S. Jorge
dos Erasmos (1) passava pela cachoeira do mesmo nome,
(1) Diz o chronista Fr. Gaspar que esse engenho foi man-
dado construir por Martim Affonso. Foi o primeiro estabeleci-
mento agricola que se estabeleceu no Brazil, e onde se plantou
à primeira canna de assucar, a qual veiu da ilha da Madeira;
RUE CRUE
subindo o morro (hoje Nova Cintra) e ia descer em
Santos, perto da egreja e convento de S. Bento. Não
fraldejava os morros de Santa Maria (matadouro, e Sa-
bad, como faz hoje, porque essa região estava toda co-
berta de agua salgada.
Todo o trajecto de cargas e passageiros, que, anti-
gamente, se fazia entre Santos e S. Paulo, pela estrada
chamada do padre José, em memoria ao veneravel Jo-
seph de Anchieta, pois que foi sob suas vistas e
ordem que se abriu essa estrada real, partia do Porto
do Bispo em Santos, proximo ao Valongo, e ia, em tra-
jecto fluvial, pela dita bahia, ter ao Porto das Arma-
dias ou Porto da Santa Cruz, nas fraldas da serra do
Cubatão.
Não existia, nem podia existir, a estrada do Cuba-
tão a Santos, passando pelo Casqueiro, porque toda essa
parte estava ainda nessa épocha coberta de agua. Eram
grandes baixios por entre os quaes passavam Os ca-
naes. Esses baixios fizeram-se cordas, depois ilhas
de capim, transformando-se mais tarde nesses mangue-
zaes, que ainda são hoje banhados pelo mar e por
onde passam a estrada de rodagem e a estrada de ferro
que vão de Santos a S. Paulo.
A estrada de rodagem de Cubatäo a Sm pas-
sando pelo Casqueiro, é obra muito recente, do começo
do primeiro Imperio.
Acho desnecessario fazer citações neste sentido, por-
que o que acabo de relatar são factos bem conhecidos
tambem foi para esse engenho que vieram de Portugal os
primeiros animaes domesticos ; gado vaccum, cavallar e ovelhas,
conforme affirma o mesmo chronista.
O caminho que partia deste celebre engenho, de S. Jorge,
cujas ruinas ainda se conservam, galgava a montanha do mesmo
nome e descia pela garganta proxima ao convento de S. Bento ;
foi aberto ainda no tempo do 1.º donatario, por Domingos Pires
e o genovez Paschoal Fernandes, companheiros de viagem de
Martim Affons», que vieram se estabelecer em Santos, antes desses
terrenos serem adquiridos por Braz Cubas, que depois foi o funda-
dor desta povoação (Fr. Gaspar — Memoria paraa H. da Cap. de
S. Vicente. Na parte que se refere à fundação de Santos, ete.)
a HOR
nas chronicas e annaes de Santos e S. Vicente, e, pois,
bôas fontes histo icas.
Não se precisa, pois, ser muito atilado de espirito
para, conhecendo isto, comprebender, que toda essa região
de mangues ao redor de Santos, Bertioga e S. Vicente es-
teve ha trezentos ou quatrocentos anncs coberta de agua
(1) e que o recüo do mar, embora lento, tem sido ahi bas-
“tante apreciavel; porém, isto não nos leva a crêr que
se désse o mesmo phenomeno em Itanhaen.
Absolutamente não.
La, a natureza do terreno é inteiramente outra.
santos é um Lagamar e Itanhaen é rio de agua doce.
Em Santos, o que deixou hontem de ser mar, continua
hoje a ser mangue, que se cobre de agua salgada, até
perto da Serra; e em Itanhaen não se dá isso.
Em Santos o terreno de varzea, que vae da costa até
à raiz da serra, tem quasi o mesmo nivel do mar, ao
passo que em Itanhaen é differente, como já demons-
trámos.
A varzea que vae até à serra é alli composta de
lombadas de areia, que correm parallelas à costa, e que,
à proporção que se approximam da serra, mais se alteam.
Se a geographia physica de Santos se modificou
nestes quatrocentos annos, na sua parte hydrographica,
em Itanhaen não se deu o mesmo; à não ser um pe-
queno desvio na féz do rio, o que em nada alterou a
natureza geographica e hydrographica daquella zona.
Nada, portanto, se modificou alli, geographicamente
falando, depois da colonização portugueza. Quando e como
(1) Esta logica nos conduz a admittir que os Sambaquis
desta zona, os quaes estão, na mor parte, situados em mangues,
estivessem nessa épocha tambem submergidos e que, por conse-
guinte, não podem ser considerados como «varreduras de borra-
lho» conforme afirmam alguns. Nas cartas de Anchieta encon-
tram-se referencias a estas ostreiras do lagamar de Santos, onde
diz o veneravel thaumaturgo, que «as ostras são em tanta quan-
tidade que se acham ilhas cheias de cascas e se faz cal para os
edificios, que é tão bôa como a de pedra.» Si alguns dos sam-
baquis no tempo de Anchieta eram ilhas, como é que se pre-
tende affirmar serem elles residuos de cosinha ?!
— 910 —
se operou pois essa mudança que transformou por com-
pleto a geographia daquella zona e de que épocha data
Eis o que a sciencia precisa Investigar.
Já explicamos a razão por que suppomos serem os
Sambaquis de Itanhaen obra da natureza e não do
homem.
« Nenhum geologo, diz o dr. H. von Ihering, tra-
tando dos Sambaquis de Paranaguá, observando detida-
mente o corte bem delineado de um dos Sambaquis, ao
ver a estratificação de suas camadas, poderá deixar de
ver ahi o eloquente protesto da creação: — Esta obra &
minha !
EK’ inverosimil tambem a pretensa opinião de que
os indios levassem de «matalotagem» as ostras e ameijas
do mar pequeno de Santos, para construir Sambaquis
nos sertões e brejos do Itanhaen. «Tal pedantismo,
diz ainda o dr. von Ihering, não se harmoniza com os
costumes dos nossos aborígenes, segundo o geral co=
nhecimento que delles temos».
Antes, pois, de formar juizo definitivo, tem ainda a
sciencia, segundo a opinião deste e de outros sabios,
de examinar e classificar as especies zoologicas repre-
sentadas nestes Sambaquis, estudar a sua biologia e as
condições geologicas da costa; o modo da estratificação
dos molluscos e—as forças que a effectuaram, determinan-
do a cada um desses factores a sua influencia precisa.
Mas, como finalmente isto tudo está ainda por
fazer e o que estã feito não passa do terreno das hy-
potheses, seja-nos permittido tambem o direito de for-
mularmos uma :
Para explicar a origem destes Sambaquis, princi-
palmente dos de que tratamos, não achamos outra ex-
plicação a não ser — acceitar a hypothese de um pheno-
meno geologico, que transformasse esta parte de nossa
costa, ja não diremos de Itanhaen unicamente, mas de
toda a extensão ou de grande parte do nosso littoral
do sul.
rei Cc eee OT
eee eee
RS ee tales kite pe eee, eta
— oll —
Procuremos pois figurar e desenvolver esta hypo-
pothese :
No redomoinho produzido pelas correntes neptu-
nianas desse cataclysmo, ou diluvio, transformou-se o
aspecto do terreno e sem duvida, nos logares em que
as correntes mais se accentuaram, formaram-se depres-
sões onde se accumularam esses montões de destroços.
Ahi, de envolta com toda a sorte de materias or-
ganicas vegetaes, vieram os molluscos, os peixes e ce-
taceos, (1) bem como outros animaes, inclusive o homem,
de que parte pereceu tambem nesse cataclysmo.
Quando as correntes marinhas fizeram o seu retro-
cesso, e G mar desceu ao nivel actual, emergiam então
esses montões de destroços, verdadeiras collinas, que o
tempo foi lentamente destruindo e reduzindo às propor-
ções em que o homem civilizado as encontrou : montões :
enormes de cascas e de outros destroços, de envolta
com ossadas humanas e de animaes, nessa confisão
indescriptivel, mas aonde se nota ainda pela estratifi-
cação das camadas, a acção violenta das correntes ne-
ptunianas.
Esta hypothese, aliis acceitavel, é a mais consenta-
nea com a opinião dos drs. Carlos Rath, e outros sabios
que não trepidam, talvez, em classificar os Sambaquis de
antideluvianos, recuando assim a sua formação ao perio-
do terciario, o que ao menos era a opinião de Rath.
(1) Nestes Sambaquis, principalmente nos do rio Branco,
que já foram extinctos, os fabricantes de cal têm encontrado
quantidade de ossos de baleia e de cação. ;
O sr. Ricardo Herculino de Sousa, homem bastante intelli-
gente e relativamente instruido, que residia em Itanhaen e alli
faleceu, não ha muito tempo, nos contou por mais de uma vez
ter encontrado, nas excavações para extracção de cascas, que fez
em um desses Sambaquis, grande quantidade de ossos e alguns
esqueletos humanos; porém, tão estragados, que se reduziam a
po ao menor contacto.
Os ossos de baleia e cação, dizia elle, eram tambem em quan-
tidade, fazendo suppôr, pelo accumulo e grande quantidade desses
ossos,que esses animaes tivessem tambem sido envolvidos nesses
destroços.
— 912 —
Mas... como todos esses Sambaquis, (dizem outros),
«se acham por cima de alluvião recente » não trepidam
tambem em dizer «que não se deve tomar a serio tal
opinião ».
Não é a nós que compete resolver esse dilemma.
Ahi ficam, entretanto as nossas observações, dicta-
das simplesmente pela pratica que temos desta região e
pelo desejo de ser de alguma fórma util a nossa terra.
Nota explicativa aos mappas
Dos dous mappas, que ilustram o presente estudo,
representa o primeiro, Est. XVII, a configuração actual
do littoral de Santos, ao passo que o outro, Est. XIX,
demonstra qual teria sido o aspecto do lagamar de São
Vicente, no tempo do descobrimento; este ultimo foi por
nós organizado, segundo dados de documentos antigos,
cartas de sesmarias, tradições, etc., etc.
Os sambaquis que nessa épocha existiam e que,
conforme refere Anchieta, «eram ilhas», foram todos,
quasi todos, destruídos pelos fabricantes de cal, como
é bem sabido. Si existe ainda um ou outro resto de
sambaqui, que escapou à devastação, fica em logares de
difficil accesso, como já ficou demonstrado, ou em ter-
ras cujos donos prohibiam a extracção, ou a reserva-
vam exclusivamente para si.
Dos homens idosos que habitaram e conheciam con-
venientemente toda esta região sambaquieira, é que co-
lhi informações sobre a situação desses sambaquis já
explorados e destruidos, os quaes vão indicados no re-
ferido mappa; um desses homens, o meu amigo major
Joaquim Xavier Pinheiro (já fallecido) que teve, por
muitos annos, uma fabrica de cal no Paquetá (em San-
tos), era o que melhor conhecia, e me designava com
precisão, os logares dos existentes e dos que lhe con-.
stava terem já desapparecido. Esses sambaquis, os ul-
timos, dizia-me elle, já estavam situados em logares,
onde sé com grande difficuldade se procedia à extra-
— 013 —
cçäo das cascas, porque, os que se achavem à margem
dos canaes e que eram propriamente ilhas, ainda no
tempo de Anchieta e de. facil extracção, esses foram
logo destruidos pelos primeiros povoadores. Foi com
a cal desses sambaquis que, durante tres seculos, se
edificaram todos os edificios de Santos, São Paulo, São
Vicente e todas as demais povoações desta extensa ca-
pitania e depois provincia de São Paulo; pois nesses
tempos não se conhecia outra cal a não ser a de sam-
baquis.
Os jesuitas foram, talvez, os primeiros que se apro-
veitaram dessas ilhas de casca, para o fabrico da cal,
segundo refere o mesmo Anchieta. Ora, essas casquei-
ras que nesse tempo estavam no meio do lagamar e
que depois, com a obstrucção deste, ficaram rodeadas de
mangue, e deixaram, portanto, de ser ilhas, demonstram
evidentemente que o mar, ainda nessa épocha, cobria
toda essa zona de manguezal onde se achavam situados
os sambaquis.
EK” bem conhecida, não só pela tradição, como pelos
documentos historicos, que o caminho antigo de São
Vicente para Santos subia o morro de São Jorge, no
Engenho dos Erasmos, atravessava o planalto de Nova
Cintra e descia proximo ao Convento de S. Bento, por-
que nessa épocha o mar banhava ainda toda a aba das
montanhas desde o Sabod até a Estação de Henrique
Emmerick e Matadouro. Sabe-se tambem que o tra-
jecto para $. Paulo era todo fluvial, desde o Porto do
Bispo, em Santos, atê o Cubatão, conhecido então por
Santa Cruz ou Porto das Armadias.
Todo esse caminho do casqueiro, aquem e além da
ponte, éra antes coberto d'agua do mar, ou de mangues
e baixios intransitaveis, e invadido por todas as marés.
Isto, de resto, já ficou explicado na noticia que
dei quando me referi aos sambaquis desta região.
Finalmente, para bem demonstrar a modificação
que se operou e se opera incessantemente neste laga-
mar, ahi está bem patente aos olhos de todos nossos
contemporaneos, a obstrueção rapida e quasi completa
— 514 —
do canal de Bertioga; logares que ha 30 e 49 annos
eram mar navegavel para navios de calado, são hoje
mangues ou baixios e cordas, que ficam em secco com
a menor baixa-mar.
A Bocaina da Bertioga esta hoje reduzida a um
estreito canal que mal dá passagem a um rebocador.
Entretanto, o nome Bocaina, dado pelos descobridores,
demonstra como devia ser larga e ampla essa emboca-
dura. O Largo de Pombéva, o Largo dos Barreiros,
o Largo de Sant'Anna do Acarahi, que estão hoje
reduzidos a estreitos canaes, indicam a modificação ra-
pida porque está passando o lagamar de São Vicente.
Pela modificação que se operou nestes 40 annos,
nós podemos bem avaliar o que seria elle a tres seculos
atraz.
Do lado opposto à bahia de Santos, à direita da
Bocaina, existe um pequeno morro denominado «Ilha
do Barnabé». Esse morro, entretanto, ha muitos annos
que já deixou de ser ilha e ligou-se ao continente.
Esse manguezal todo, que vae desde a embocadura do
rio Jurubatuba até o Monte Cabrão, na Bocaina do
Bertioga, e por onde serpeiam os tortuosos canaes do
Sandy e do Diana, era quasi todo mar; apenas na Bo-
caina da Bertioga, para um lado do canal surgiam à
flor d'agua algumas lages e recifes e nada mais; tudo
era livre e vasto até o Jurubatuba.
Nas sesmarias concedidas a Braz Cubas por d.
Anna Pimentel, a 3 de Março de 1531 (Rev. do Instit.
Hist. de S. Paulo, vol. VI) ha referencias a essa ilha,
que hoje se denomina Barnabé.
Passemos a transcrever alguns topicos: ( p. 295)
«... a qualterra (sesmaria) está na povoação de S. Vi-
cente (Santos ainda não existia nesse tempo) do dito sr.
Martim Affonso e a ditta terra poderá ser de grandura
de duas legoas e meia, pouco mais ou menos, até tres
legoas por costa e por dentro quanto se puder estender,
que for da conquista de El-Rey nosso Senhor e que está
onde chamão Jarabatyba, assim que pelo braco de mar
dentro (o grypho é nosso) e mais lhe fazemos doação
O SO PA PNM
— ol5 —
de hua Ilha Pequena que lhe está junto a ditta terra
etc...» Estas terras de Braz Cubas segundo as con-
frontações do referido documento, conforme se vê no
mappa, eram duas e meia a tres legoas de costa, des-
de a foz do Jurubatuba, até o outeiro Guanique, que
neste tempo tambem era ilha, e que se acha à mar-
gem esquerda do Rio Cabaçü, no largo do Candinho,
costeando as montanhas que ficavam sobre o mar.
Como em todo esse sertão oriental, comprehendida
esta sesmaria, que estava ainda nessa épocha infestada
pela tribu indomita de Ururay, que se aliavam aos ta-
moyos no odio e hostilidades aos portuguezes, houve
difficulda le em povoar e cultivar essa região, conforme
declara o mesmo documento.
Antes de fundar a povoação do Porto de Santos,
era ahi nessa Z/ha Pequena, onde Braz (Cubas .e seu
pae João Pires Cubas tinham uma pequena fazenda. Eis
o que refere o trecho do documento do Traslado da Es-
criptura de auto de posse dessa ilha e mais terras, pas-
sado em Lisboa a 10 de Agosto de 1540: «... elle ca-
pitão (Martim Affonso). lhes houve por demarcadas pe-
las demarcações já ditas e meteu logo posse dellas
realmente em feito, visto já a obra que na dita ilha
tem de canaveaes e mantimentos... e por elle dito Braz
Cubas foi tambem pedido a elle capitão mandasse a
mim tabellião que désse aqui a m.º fé em como ha-
via tres annos que João Pires Cubas, seu pai, viera a
esta terra com fazenda e gasto para aproveitar as di-
tas terras e tomar posse dellas e aproveital-as, o que
deixou de fazer por dita terra ser habitada por gen-
tios nossos contrarios e por esse respeito as não pu-
dera nem podia aproveital-as... etc.»
A data da Sesmaria de Pedro de Goes é de 24
de Abril de 1537 e acha-se transcripta’ em diversas
chronicas e monographias.
Confrontava para o oriente, na serra de Tapero-
vera com as ditas terras de Braz Cubas, pelo rio Ju-
rubatuba; dahi, costeava o lagamar até à ponta occiden-
ta! desta serra (Taperovira) até o ponto hoje denomi-
— 916 —
nado Pedreira, e dalli cortava em linha recta até à
ilha do Caramacéara (Casquerinho) onde o rio Guba-
tão tem uma de suas barras; seguindo em direcção:
à serra, costeando a ribeira do Ururay (hoje rio Mo-
ey) até o valle e serra do mesino nome, que está so-
bre mar, e dahi em direcção a Piratininga, pelo ca-
minho velho do Prassaguéra.
Em 1674 0 P.º Lourenço Craveiro, reitor do Col-
legio dos Jesuitas de S. Paulo, aos quaes então per-
tenciam grande parte dessas sesmarias, fez algumas
anotações à margem de uma destas escripturas, escla-
recendo as denominações indigenas primitivas, que já
nesta épocha (1674) começavam à ser alteradas, con-
fundindo portanto os rumos das ditas sesmarias.
Ahi vão transcriptas algumas dessas notas :
« Esta parte da Serra Paranapiacaba (Ururay) que
está sobre o mar, & bem conhecida...» «Ponta do Uru-
ray bem se sabe onde é, —ê a quebrada da Serra».
« Ururay se chama aquella valla onde teve sitio
o capitão Antonio de Aguiar Barriga, e a ribeira e
alli corre é Ururay».
«Nha de Caramacéara & a que está na barra do
rio Cubatão».
«A Serra de Taperovira @ o monte, ou montes
ao pé dos quaes vem o rio Jiributyba, defronte de
Santos ».
A Sesmaria concedida por Martim Affonso, em 'S.
Vicente, a Ruy Pinto, tem a data de 16 de Fevereiro
de 1533.
Diz a Escriptura: «... hei por ne the) dar as
terras do Porto das Almadias, onde desembarcam
quando vão para Piratinim quando vão desta ilha: de
S. Vicente que se chama Apuaci (Apuaçü éra o antigo
nome do Porto das Armadias) que agora novamente
chamão Porto de Santa Cruz, e da banda do sul par-
tira pela barra do Cubatão, pelo porto dos Outeiros.
(ilha de Caramacoara) que estão na bocca da dita
barra, entrando os ditos outeiros dentro, nas ditas terras
do dito Ruy Pinto. E dahi subirá direito para a | Serra
an
por um lombo que faz, por um valle que está entre
este lombo por uma agua branca que cahe do alto, que
chamão Iuwtingo e para melhor saber, este lombo, entre
a dita agua branca por as ditas terras não se metter
mais um só valle, e assim irá pelo dito lombo acima,
como dito é, até o cume da serra alta que var sobre
o mar e pelo dito cume ira pelos outeiros escalvados
que estão no caminho que -vem de Piratinim. E
atravessando o dito caminho irá pela mesma serra até
chegar sobre o valle do Ururay que é da banda do
Norte das ditas terras, e onde a serra faz uma sellada,
que parece que fenece por aqli, é de lá que vem por riba
do Valle de Ururay, da qual aberta sahe uma agua
branca e do alto da dita aberta desce directamente o
rio Ururay (Mogy) e a qual veia d'agua irá abaixo
ele se metter no Mar etc,»
O caminho por «nde Martim Affonso subiu a serra
para ir a Piratininga, foi por ahi, por essa garganta
ou valle de Ururay, e o nome de Prassaguera (Porto
velho, Porto antigo ) está ainda hoje indicando que
era por ahi, por essa ribeira do Ururay, um pouco
acima da ilha do Caramacôara por onde penetravam
as canoas, até a ponta do espigão, onde aportavam
para tomar o caminho que margeava a cachoeira atê
o alto.
Quando mais tarde se abriu o Caminho do Padre
Joseph, pelo Cubatão, os habitantes de S. Vicente, para
não fazer a volta do Canzhi, até o Cubatão, seguiam
pela volta e largo de Santa Anna do Acarahi até o
porto do Prassaguéra-de-baixo, que ficava ao Sul do
Cubatão, e Valli iam ter ao porto das Armadas, como
se vê indicado no mappa
Com estas explicações que aqui damos e com as
diversas citações de documentos, cremos ter demonstrado
convenientemente as nossas asserções e provado que no
tempo do donatario, em 1532, ainda o mar invadia
toda essa zona em que se achavam os sambaquis e quo
por tanto a formação da môr parte delles se operou
- 518 —
de baixo d’agua e nao artificialmente como se pretende
afirmar. .
S. Vicente, Julho de 1904.
Explicação das estampas XVIII e XIX
Est. XVII. Mappa que representa a região do
littoral do Est. de S. Paulo nas circumvisinhanças de
Santos, como ella hoje se nos apresenta.
Est. XIX. Mappa da mesma região, reconstruindo
a sua conformação em começos do seculo XVI.
Archeologia comparativa
do Brazil
POR
FF. von Ihering
A archeologia do Brazil já tem sido objecto de
numerosos estudos, mas até agora não se emprehendeu
o ersaio de um estudo comparativo para as diversas
regiões do paiz.
O fim do presente artigo é preencher esta lacuna,
servindo de base não só a respectiva literatura. mas
tambem as collecções do Museu Paulista. Este conseguiu,
no correr dos ultimos annos, adquirir varias collecções
importantes do Rio Grande do Sul, entre ellas a do falle-
cido escriptor e illustre jornalista Carlos von Koseritz.
Tambem do Estado de S. Paulo o Museu obteve
successivamente objectos raros e até agora não descri-
ptos e afinal adquiriu-se no anno passado uma valiosa
collecção de objectos prehistoricos da Bahia, do sr.
Christovam Barreto, em Amargosa, collecção que sob
varios pontos de vista é de grande importancia para o
conhecimento da archeologia do Brazil. Descreverei em
seguida os novos materiaes adquiridos pelo Museu Pau-
lista e os resultados de novas excavações por mim em-
prehendidas e afinal darei um esboço da distribuição
geographica das diversas culturas archeologicas obser-
vadas no Brazil.
q Archeologia do Rio Grande do Sul e
craneologia dos habitantes primitivos
Não tratarei aqui de novo de varios assumptos já
sufficientemente discutidos no meu estudo anterior (16)
sobre a archeologia do Rio Grande do Sul. Observo,
entretanto, com relação aquelle artigo, que em dous pon-
— 520 —
tos, o uso dos cachimbos e os sambaquis, modifiquei a
opinião alli exposta.
No Volume I desta «Revista» publiquei um estudo
referente à archeologia do Rio Grande do Sul e em ou-
tro volume da mesma « Revista» (Vol. IV. pag. 339
e ss.) publicou o sr. João Paldaof um artigo referente
ao mesmo assumpto, dando a descripção da collecção dos
irmãos Barbedo. Referindo-me no seguinte a estas pu-
blicações, observo que o Museu Paulista adquiriu nos
ultimos annos não só parte da referida collecçäo dos ir-
mãos Barbedo, mas tambem a collecção Koseritz.
Este senhor, auxiliado por suas grandes relações
pessoaes e pelos diversos jornaes de que foi redactor,
reuniu, no decorrer de 15 annos, uma rica colleccäo,
referente à cultura prehistorica do Rio Grande do Sul,
que, entretanto, ficou completamente destruida em co-
meço de 1882, por occasião do incendio da exposição
brazileira-allemã, em Porto Alegre. Referi-me a esta
colleeção num pequeno artigo (25), tratando dos ca-
chimbos, figurando ahi um typo bem singular, em fórma
de cabeça humana, que della fez parte.
Não desanimado, o sr. von Koseritz começou de
nove com a sua colleeção, sendo esta a que agora o
Museu do Estado adquiriu.
Graças ao generoso auxilio do sr. João M. Pal-
daof, dedicado amigo do Museu e do seu director, a
collecção aqui chegou em perfeito estado de conserva-
ção, acondicionada em nove caixões.
Entre os objectos desta rica collecçäo sejam men-
cionados os seguintes: 80 machados polidos de diversos
tamanhos e da forma usual; taes são os representados
pelas figuras 4 e 6, medindo o primeiro destes 114><94
mm. e 42 de espessura, o segundo 10358 mm. com
30 mm. de espessura. Ainda um machado de pedra
lascada; dous machados polidos com sulco circular na
extremidade opposta ao gume, e que estão representa-
dos nas figs. 2e 3, dos quaes mede o primeiro 230X110
mm. e 53 mm. de grossura, o outro 104X76 mm. e
27 mm. de grossura. Um outro typo tem dous sulcos
«4
4
*
1
— 921 —
circulares, destinados evidentemente para a fixação do
instrumento no cabo.
Merece menção especial um machado colossal (fig.
1.) muito bem trabalhado e polido, de 210 mm. de
comprimento, 145 mm. de largura e 53 mm. de es-
pessura, que, de cada lado, tem dous fórtes entalhos
para fins de fixação. Comparando os respectivos pesos
verificimos o seguinte: o grande machado da figura, 1
pesa 3.000 grs., e o outro (fig. 2) 2.500 grs., ao pas-
so que os pequenos, representados pelas figs. 3 e 4,
pesam, respectivamente 390 e 43%5 grs. |
Km grande numero acham-se representadas facas
e outros utensilios de pedra de ferro, cuja preparação
é simples ou nulla.
São representadas em numero de 14 as pedras
achatadas, em fôrma de queijo, que tem, de cada lado,
uma pequena impressão destinada a 1ezeber o dedo.
Estas pedras (fig. 8), que denominei— quebra-nozes
(1) devem ter servido como martello para abrir ossos,
conchas e sementes. As medidas do exemplar figurado
são: 7264 mm. e 39 mm. de grossura.
Existem, sem as impressões mencionadas, outras
pedras mais ou menos semelhantes, que eram usadas
no fabrico de panellas e de outros utensilios.
Em grande numero acham-se bolas, entre ellas 17
«perdidas», isto é, simplesmente arredondadas e 69 bolas
de «charrúa», de forma aval, com um sulco longitudinal
ou transversal, destinado a receber a corda na qual são
presas.
Temos de notar mais 7 pedras circulares polidas e
perfura as (2), que atê agora eram designadas como
«machados circulares perclusos» e que agora denomino
«pedras de funda», em vista das importantes informa-
ções que me forneceu o illmo. sr. Capitão Josê Leite da
Costa Sobrinho. Este senhor me participou que, quando
esteve no Rio Grande do Sul, nas fronteiras da Repu-
(1) Vide tambem a figura dada em outro logar (16 p. 70 fig 7).
(2) Comparem-se as figuras 3 e 4, no meu artigo (16 p. 64).
blica Argentina, durante a guerra do Paraguay, viu os
indios <Charruass usarem fie fundas, que tinham de-
penduradas em uma correia de 3 ou 4 metros de com-
primento.
Temos de citar mais dez exemplares de mao de
pilão, um almofariz simples, um outro artisticamente
elabo ado, (figs. 10 e 11), em forma de uma ave, em
cuja parte ventral se acha a pequena cavidade espheri-
ca; as dimensões deste almofariz são : comprimento 205
mm., largura 220 mm. e grossura maxima 93 mm.
Ainda uma outra pedra, assemelhando-se a um al-
mofariz, mas que parece ter sido destinada a amolar e
polir machados.
Outras pedras, quasi todas de grés, offerecem sulcos
longitudinaes destinados ao preparo das flechas. Mencio-
namos mais uma pedra perfurada, que parece ter ser-
vido de peso para rèdes de pesca, uma perola perfura-
da de pedra, uma pedra oval de quartzo, perfurada
para servir de adorno (fig. 7), cujas medidas são :
oX44 mm. com 17 mm. de grossura; e uma chapa!
de uma pedra chistosa, com duas perfurações (fig. 5),
servindo tambem de adorno ou amuleto e que méde
5034 mm. com 6 mm. de espessura (1).
A industria ceramica acha se representada por tres
igacabas e dez panellas de tamanho menor, munidas,
em parte, de enfeites produzidos por impressão, sendo
outras pintadas de côr branca e vermelha. Junto com
ellas foram encontrados os materiaes que serviam de
cores: tabatinga, para a côr branca e uma pedra molle,
vermel.a, cujo nome não conheço exactamente, acredi-
tando que seja denominada—almagre.
Menciono ainda um grosso disco de barro cozido,
perfurado, de 29 mm. de diametro e 18 de altura, que
provavelmente serviu de corpo ao fuso (fig. 16).
Outros productos da mesma industria são os ca-
chimbos, em numero de 10 e de diversos typos, sendo
(1) Adornos semelhantes foram descriptos pelo Rev. P. Schupp
(40 p. 99 fig. 39-41)e pelo Rev. P. Teschauer (43 p. 8).
— 923 —
notavel entre elles, um em forma de cabeça de onça
(fig 19), de 46 mm. de comprimento e 21 mm. de
maior largura.
Um objecto de barro cozido, muito semelhante, fi-
gurou Fl. Ameghino i, p. 539. PL X, fig. 334).
Nao trato aqui de modo extenso dos cachimbos,
para não recapitular o que já disse em outro logar
(Mod 12 erSs.).
Referindo-me aos cachimbos em forma de cabeça
humana. por mim descriptos, noto que um destes ca-
chimbcs é mencionado tambem pelo Rev. P. Teschauer
43: p. 8) fazendo parte da collecção ethnographica do
Collegio Conceição de S. Leopoldo. Compare-se tambem
a fig.12 no artigo do Rev. P. Schupp (40, Il) e mais
o que, sobre o mesmo assumpto, neste volume à p. 489
communicou o mesmo auctor, descrevendo alguns destes
cachimbos, que se acham figurados na Est. XVII B.;
um outro cachimbo singular, com dous canaes que sahem
de lados oppostos do mesmo cachimbo, figurou o Snr.
Kuhnert.
Fazem parte da collecção diversas ossadas huma-
nas e entre ellas um craneo encontrado no sambaqui
da Cidreira, no Estado do Rio Grande do Sul, do qual
C. von Koseritz largamente tratou na sua publicação
«Bosquejos Ethnologicos», Porto Alegre e eu, no meu
artigo sobre o homem prehistorico (17), descrevi e
figurel.
Este craneo é incompleto, faltando-lhe toda a parte
facial, defeito da conservação, visto que a descripção de
C. von Koseritz e uma figura feita a crayon indicam
perfeitamente os ossos maxillares.
Não me parece extraordinaria a grossura da ossa-
da, notando-se um prognathismo pronunciado. O que
é mais notavel nesta caveira é a depressão frontal em
cima da glabella e a curva baixa do osso frontal, que
sôbe com fraca enclinação. E’ notavel tambem uma pe-
quena depressão achatada na ponta superior do osso
occipital. Quanto às dimensões do craneo, tomei as
seguintes medidas :
— 524 —
Circumferencia horizontal. . . 526 mm.
COM primei”. Re E RA 186 mm.
argura, MAO avo one Ro 134 mm.
» Tron calos sis papais Drs 96 mm.
Altura maior . 150 mm.
» Quricuiar : foes 134 mm.
Indice cephalico. . . 72,0
O indice, indicando a largura do craneo em per-
centos de seu comprimento, classifica o craneo como
dolichocephalo, sendo ainda para notar que uma doli-
chocephalia tão pronunciada é bem rara entre os cra-
neos de indios brazileiros.
Neste sentido será de interesse comparar a fórma
da cabeça, como consta pelas medidas que tomei, como
as de um grupo de indios guaranys do Rio Verde, Es-
tado de S. Paulo, cujo cacique, capitão Antonio Jesuino
Rodrigues, era conhecido sob o nome de Gipapä.
COMPRIMENTO | LARGURA | INDICE
NOMES DO DO |CEPHA-
CRANEO | CRANEO | LICO
Capitäo Antonio J. Rodrigues. 185 mm. |155mm 83,8
Antonio Pedro , 186 » 146 » 78,5
Jong wim eMC) hha ce eee ike 8 IM 150% 82,9
Joaquim F. de Souza. . . 189 » 152 » 80,4
Jose Pedro" HN Ar" ARLS RS 150. » 83,8
José Baptista . 194, » E » 77,8
A média destes seis indices cephalicos é 31,2 sendo,
por conseguinte, o craneo brachycephalo.
Examinando os dados fornecidos pela literatura,
temos que referirmo-nos em primeiro logar ao estudo
de J. B. de Lacerda «O homem dos Sambaquis», pu-
blicado
Janeiro, Vol. VI, pp. 1795-203, 1886.
O auctor trata largamente dos craneos encontrados
nos Sambaquis dos Estados de Santa Catharina e Pa-
rana.
nos Archivos do Museu Nacional do Rio de
Referindo-me ao quadro das medidas, publicado
à pagina 203, observo que os indices cephalicos dos
numeros i e 4 não são indicados correctamente, provavel-
mente por engano typographico, devendo o primeiro ser
corrigido em 68,4 e o segundo en 77,9. Além disto,
estes indices se referem ao diametro transversal que, às
vezes, é menor que o diametro bitemporal.
O indice cephalico, entretanto, da, em porcentos do
comprimento, a largura maior, qualquer que seja a sua
situação.
Neste sentido & necessario notar que os indices
exactos são os de numeros :
1. 6
2. 78,8
7. 68,0
12. 13,3
O Dr. Lacerda compara os craneos dos Samba-
quis aos dos Botucudos, reconhecendo, comtudo, que na
série destes craneos não existe homogeneidade de ca-
racteres.
Ao nosso vêr estes craneos provêm, ao menos, de
dous elementos anthropologicos differentes, como alias
fica patente tambem pelo exame dos craneos tirados
de Sambaquis, conservados no Museu Paulista.
Sobre os craneos dos Botucudos do Estado do Es-
pirito Santo possuimos o excellente estudo do Dr. J.
Rodrigues Peixoto «Novos estudos craneologicos sobre
os Botucudos», Archivos do Museu Nacional, Rio de
Janeiro, Vol. VI, 1885, pp. 205— 256.
Com referencia a este artigo tenho de contestar
apenas a acceitação do craneo numero XI, proveniente
de um bugre de Santa Catharina, que provavelmente
não partenceu a botucudo.
O auctor classifica este craneo como dolichcce-
phalo com um indice de 75,26, mas, a figura XXI, p.
237, apresenta o comprimento de 89 mm. e a largura
de 71 mm., o que córresponde a um indice de 79,78
ou 80.
Observo que os indios, que nos Estados de Santa
Catharina e Rio Grande do Sul são chamados Botucu-
dos, são apenas Caingangues.
Quanto acs Botucudos, o indice cephalico importa
na media em 74,4, variando entre 71,0 e 75,9.
Todos os craneos examinados e figurados apresen-
tam grande homogeneidade de typo, sendo, além de ou-
tros caracteres, notaveis pela sua pronunciada scapho-
cephalia.
Neste sentido não resta duvida alguma que o cra-
neo do Sambaqui de Cidreira representa o typo botu-
cudo de um modo bem caracteristico.
Os outros craneos de Sambaqui conservados no
Museu Paulista apresentam as segaintes dimensões :
; : à Gargara :
ais Circumfe-| Compri- ado Her i Altura |Indice ce-
NUMERO rencia mento Largura frontal Altura auricular| phalico
minima
290 Boguassú. . 480 162 126 94 — — 82,9
seo Jenuape. UNS 520 176 144 100 137 124 oe
388 Iguape. . . 495 134 144 103 154 128 78
Estes craneos são brachycephalos e sub-brachycepha-
los e correspondem à descripção que do craneo tupy deu
Rodrigues Peixoto (I. c. p. 207)e às minhas proprias
experiencias. |
Não posso, nesta occasião, deixar de pronunciar-me
contra o modo summario pelo qual P. Ehrenreich pro-
cura tirar ao indice cephalico toda importancia (14 p. 32).
E' certo que os craneos ns. 1 e 3 de Cayapós que
Ehrenreich descreve à pagina 145 e 150, combinam
perfeitamente com o typo botucudo, mas o mesmo não
podemos dizer dos craneos numeros 2, 4 e O, que são
brachycephalos, variando o seu indice de 80,0 83,6.
Sem duvida os actuaes Cayapós, examinados por
Ehrenreich, não representam um typo anthropologico
puro e homogeneo, e o elemento predominante entre elles
de certo nada tem de commum com os Botucudos.
Ss Se a PS NS ET
——
vs À dites
cs
a a
— 027 --
Concluindo, temos de insistir na identidade do cra-
neo do Sambaqui de Cidreira com o typo botucudo, sem
que pelo momento nos seja possivel decidir si este cra-
neo pertenceu effectivamente aum Botucudo ou a alguma
outra triou dos Gês, representados no Brazil meridio-
nal pelos Gaingangues e Gayanãs. Ao contratrio, o
typo brachycephalo, commum aos craneos de Samba-
quis do Brazil meridional, é semelhante ao do typo
guarani.
Estavam pois, já nos tempos precolumbianos, na costa
do Brazil meridional, representados dous elementos anthro-
pologicos, como ainda hoje o vemos na mesma região:
Si não nos resta duvida sobre a identidade dos po-
vos prehistoriscos, representados pelos craneos de Ci-
dreira e de Lagõa Santa. com os Botocudos e outros
povos alliados da familia dos Gês, particularmente os
Guayanãs e Caingangues, mais difficil é reconhecer a si-
enificação ethnologica do povo cujos craneos brachyce-
phalos prevalecem nos sambaquis. Estes craneos se as-
semelham muito com os dos Tupis, mas, comparando
as medidas tomadas em Guaranis vivos pelo sr. R.
Krone (1) com as dos craneos dos sambaquis, notam-se |
certas differenças. particularmente nos caracteres distin-
ctivos dos sexos.
Será, pois, necessario um exame minucioso e com-
parativo, para o qual até agora falta a base, visto que
as medidas tomadas pelo sr. Krone em Guaranis da
região de Iguape não se referem a craneos mas a pes-
soas vivas.
E" preciso accrescentar que, tanto o estudo archeo-
logico como as tradições historicas, denotam pronun-
ciada differença entre os Tupis e o povo dos samba-
quis. Sabemos que os Tupis chegaram relativamente
tarde ao littoral do Brazil, desalojando os primitivos habi-
tantes e assim não podemos duvidar de que os morado-
res dos sambaquis pertencem a uma épocha bem anterior.
(1) Entreguei o artigo do sr. Krone ao Instituto Historico
de S. Paulo, a fim de ser publicado na sua Revista.
— 528 —
Concluindo este capitulc, tenho ainda a communi-
car que o nosso Museu, além da collecção C. von Ko-
seritz, adquiriu interessantes objectos da collecção dos
irmãos Arnaldo e Octacilio Barbedo, em Porto Alegre.
A esta collecção referiu-se o artigo do sr. João
Paldaof no vol. IV desta Revista e, dos objectos alli
descriptos e figurados, foram cedidos varios ao Museu
Paulista, entre elles os que pelo sr. Paldaof na Est. IV
fig. 9, 12, 13 e 15, foram figurados. Sendo reunidas
a estas valiosas collecções as do auctor deste artigo e
as que foram adquiridas por varios amigos do Museu,
principalmente do sr. Christiano Enslen, Colonia de São
Lourenço, é obvio que o Museu Paulista actualmente
possüe uma das mais ricas e valiosas collecçôes de an-
tiguidades rio-grandenses que existem. Entre os obje-
ctos não mencionados no precedente, sejam ainda des-
tacados os seguintes. A fig. 9 representa uma arma for-
midavel de minerio de ferro, que se apresenta como uma
bola, provida de numerosas protuberancias conicas ou
pontas. O exemplar figurado tem o diametro de
73 por 63 mm. e 10 pontas; em outros exemplares varia
o numero das pontas, sendo mais ou menos eguaes em
tamanho. Não conhecemos o modo de fabricação des-
tas bolas de pontas, mas é provavel que, para tal iim
serviam as bolas de minerio de ferro e particularmente
de limonite que no Rio Grande do Sul não raras vezes
são encontradas. Conheci na Colonia de S. Lourenço
uma roça na qual em numero relativamente grande foram
encontradas. As camadas exteriores destas bolas são
amarelladas, devido à oxydação do ferro, ao passo que
o nucleo central parece consistir quasi que em ferro puro.
Não duvido que estas bolas fossem trabalhadas a modo
das pedras, para formarem afinal estas bolas espinhosas,
que evidentemente serviam como bolas ou pedras de funda.
kK” este o mesmo objecto com que se occupa o
Rev. P. Schupp no seu artigo, publicado neste volume
(40 a) sendo neste caso as bolas feitas de grés, das
quaes se vê figurado um exemplar na Est, XVII B, fig. 1.
Outro grupo de objectos são os virotes de pedra
o E ae
UE resent De
— 929 —
dos quaes o exemplar mais perfeito que conheço está
representado em a nossa fig. 19.
Este objecto é biconico e tem na circumferencia
maior o diametro de 17 mm., sendo o seu compri-
mento de 55 mm. A sua superficie é perfeitamente lisa
e lustrosa, assemelhando-se a um dente. Ha no Rio
Grande do Sul uma qualidade de pedra talcosa asse-
melhando-se ao steatite, que foi pelos Indios aproveitada
“para o fabrico destes virotes e de tembetás, que parecem
ser de osso. E' só o exame microchimico e microsco-
pico que permitte reconhecer a verdadeira natureza des-
tes objectos.
O virote acima descripto que é proveniente do Rio
Grande do Sul foi offerecido ao Museu pelo Dr. Martim
Francisco de Andrade. © Museu possüe ainda outro
virote semelhante (fig. 17), que porêm é menor, medin-
do 28 mm. de comprimento, com um diametro de 12
mm. ; é imperfeitamente polido. Outro bonito exemplar
destes virotes polidos, constituido de agatha, foi descri-
pto pelo Rev. P. Schupp, (40 p. 98, fig. 38) e copiado
no meu artigo citado (16 p. 72 fig. 8). Estes objectos
foram antigamente considerados no Rio Grande do Sul
como tembetás; isto entretanto foi um engano e co-
nhecem-se agora tambem do Rio Grande do Sul ver-
dadeiros tembetás, que foram descriptos nos artigos do
sr. Paldaof, (37) e ao rev. padre Schupp (40 a).
Ki Os sambaquis do Brazil Meridional.
Ao longo da costa do Brazil encontram-se, em di-
versos pontos, outeiros compostos quasi que exclusiva-
mente de conchas marinhas, que são conhecidos sob os
nomes de ostreiras, casqueiros ou sambaquis, palavra esta
de origem tupi, que tem a mesma significação, que as ou-
tras, sendo composta (1) de tampa (concha) e kz (collina).
(1) Baptista Caetano de Almeida Nogueira diz que é admis-
sivel tanto a etymologia de quib ou cisco como a de qui ou agu-
gado ou cônico.
— 930 —
Estas accumulações de conchas consistem ás vezes
em ostras, às vezes em berbigões, amejoas e outros
bivalves marinhos e às vezes, afinal, são compostas de
camadas alternantes de ostras e de berbigões. A’s vezes
consistem quasi que exclusivamente em conchas, às
vezes predomina o lodo, em que as conchas estão dis-
seminadas.
E” este por exemplo o caso do sambaqui do Sa-
quarê, perto de São Vicente, ha pouco por mim exa-
minado. Este sambaqui é formado por uma camada de
lodo, cuja espessura em geral não excede a um metro,
e que cobre uma collina de areia.
As conchas, em certos logares, occupam densamente
a capa lodosa, sendo em outros parcamente dispersas
pela mesma camada.
E” grande a literatura referente aos sambaquis
do Brazil, não sendo aqui minha intenção tratar de-
talhadamente do assumpto com que me occupei em duas.
publicações recentes (20 e 24) que peço ao leitor
de comparar, bem como o artigo publicado neste vo-
lume pelo Snr. Benedicto Calixto (17 a).
Como porém nos artigos citados tive apenas a in-
tenção de dar as minhas proprias experiencias, não tra-
tando da respectiva literatura, tratarei em seguida,
mais minuciosamente, da questão sob este ponto de vista.
O primeiro que neste Estado emprehendeu a ex-
ploração scientifica dos sambaquis, foi o engenheiro
Carlos Rath, que sobre o assumpto publicou dous pe-
quenos artigos (3S e 359).
Estes artigos, publicados em 1871 e 1875, não
são identicos na sua exposição e nem sempre bem com-
prehensiveis, mas a ideia principal é sempre a mesma,
de que os restos humanos, contidos nos sambaquis,
provem do homem terciario e que os mesmos samba-
quis, depois de formados, foram cobertos pelo mar di-
luvial. No primeiro destes artigos o auctor distingue
(p. 287) tres qualidades de sambaquis, das quaes a pri-
meira, formada por ostras e a segunda, composta de
berbigões, «foram feitas pela mão humana», ao passo
— 53l —
que «a terceira foi feita pela natureza». «As cama-
das das conchas», continua o auctor, «são horizontaes
e acompanham o declive do terreno. As conchas for-
mam uma mistura de ciscos, areias e terra; são depo-
sitos diluviaes em camadas regulares».
E” só nos sambaquis das duas primeiras classes
que são encontradas ossadas humanas e artefactos.
A altura destes sambaquis varia de 10 a 15 pal-
mos de espessura e a sua posição sobre o nivel do
mar de 60 a 80 palmos, sendo alguns collocados em cima
de um outeiro. «Parece», continua o auctor «que um
povo antiquissimo do Brazil reuniu, no espaço de mui-
tos annos, as cascas destes crustaceos que comia, para
entre elles sepultar os seus irmãos mortos».
Bint
Na outra publicação de 1875 trata o auctor dos
sambaquis que são montes de 3 a 30 pés de altura,
consistindo sómente em cascas de ostras ou de berbi-
gões. Por seu turno estes tumulos são cobertos com
terras diluviaes, dispostas em camadas. «Estas cama-
das», diz o auctor à p. 11, «são de grossuras identicas
para todos os lados deste terreno, e feitas pelo diluvio
e não pelas mãos dos homens, como alguns acreditam.
A evidencia é bem manifesta para qualquer ho-
mem de criterio, ainda falto de conhecimentos geolo-
gicos,
Em certas partes destes outeiros, cobertos com
estas terras diluviaes de 20 até 39 pés de profundida-
de, acham-se as sepulturas de um povo que viveu an-
tes do diluvio, e conhecidas pelo nome de Sambaquis,
casqueiras, caleiras ou caleiras, ostreiras, berbiguei-
ras, etc.»
As ideias de C. Rath, expostas nas duas publicações,
não combinam perfeitamente entre si, patenteando que o
auctor não chegou a convicções certas, o que, aliás, não é
para estranhar em assumpto tão complexo. O seu estudo
neste sentido tem certa analogia com o de Wiener (44)
que distingue sambaquis naturaes e sambaquis artifi-
ciaes, tendo estes ultimos se originado, ou como accu-
— 932 —
mulações de restos de cosinha, ou como tumulos de
sepulturas. Seja observado aqui que Carlos Rath não
dispunha de conhecimentos e recursos necessarios para
a classificação das conchas marinhas, como é evidente
pelas conchas, por elle classificadas e gentilmente ce-
didas por seu filho ao Museu Paulista.
Nos annos de 1885-1892 promoveram o Snr. Co-
ronel Joaquim Sertorio e a Commissäo Geographica
e Geologica de S. Paulo explorações dos sambaquis
da costa de S. Paulo, em que participaram, entre ou-
tros os Snrs. Dr. O. A. Derby, A. Loefgren, J. I. Glo-
ria, G. Koenigswald. Resultou destes estudos a mo-
nographia, que sobre os sambaquis de S. Paulo publi-
cou o Snr. A. Loefgren (30) (1) Nesta publicação se .
acham descriptos os sambaquis examinados, em nume-
ro superior a cem, sendo dadas informações exactas
sobre a sua posição e estructura, as especies de con-
chas que entram na sua composição, os artefactos e os-
sadas humanas, seguindo-se a discussão respectiva, so-
bre a origem presumivel dos mesmos sambaquis. O Snr.
Loefgren neste sentido equipara rigorosamente os sam-
baquis aos Kjoekkenmoeddings da Dinamarca, conside-
rando-os exclusivamente como accumulações de restos
de cosinha. Si neste ponto a sua opinião é acceita
no artigo do Snr. Ricardo Krone (26 a.), as publica-
ções citadas de H. von Ihering, Benedicto Calixto e
Siemiradzki (41 p. 33) se oppuzeram, considerando os
sambaquis, ou ao menos a maior parte delles, e par-
ticularmente os grandes e os de estratificação horizon-
tal, como depositos naturaes, os quaes em certa épocha
(1) Em outra publicação (Rev. do Inst. Hist. de São Paulo,
Vol. VIII 1903 p. 458 ss.) dirige-se o Snr. Loefgren contra o meu
artigo «A origem dos sambaquis». Não tendo o Snr. Loeferen es-
tado presente à sessão do Instituto em que li o mencionado artigo,
foi elle insufficientemente informado sobre o mesmo, o que explica
os seus equivocos. Observo apenas que a traducção que o Snr.
A. Hummel fez do meu artigo publicado em Berlim em 1898 é per-
feitamente exacta e que nem ella nem o original contem aggres-
sões pessoaes. Quanto ao sambaqui de Boguaçú, não tive para O
seu exame só meia hora, mas sim dous dias à minha diposição.
- 033 —
serviam de moradia aos indigenas, que tambem nestes
casqueiros sepultavam seus mortos.
As ideias do Snr. Rath não precisam de uma critica
severa; si realmente o homem depositado nos samba-
quis fosse o homem terciario, as conchas que o cobrem,
deviam ser terciarias tambem, o que não são, sendo
identicas com as actuaes e pleistocenas.
A theoria do Snr. A Lôeforen & muito mais discu-
tivel e tem a vantagem de considerar todos os samba-
quis sob um unico ponto de vista. As objecções levan-
tadas contra ella, resumem-se em dous principaes pon-
tos de vista:
-1) A base dos sambaquis fica, em grande parte
delles, situada no nivel do mangue, e, como Wiener o
demonstrou, às vezes consideravelmente abaixo delle.
Não podemos imaginar que os indigenas habitassem no
meio do encharcado manguezal, e este argumento é
tanto mais concludente, quanto o estudo geologico da
costa nos demonstra as grandes modificações que tive-
ram logar no correr dos ultimos seculos, de conformi-
dade com o sublevamento gradual da zona costeira ;
2) A composição da maior parte dos sambaquis
não é de modo algum semelhante 4 dos Kjoekkenmced-
dings, nos quaes, além das conchas, se acham nume-
rosos restos de mammiferos, aves e peixes, que aos pri-
mitivos habitantes serviam de nutrimento e, além de
numerosos artefactos, cinza e carvão vegetal em grande
quantidade, vestigios dos antigos fogões. Isto não suc-
cede nos sambaquis, que são formados quasi que exclu-
sivamente de conchas.
Ainda é de notar que muitos entre elles consistem
exclusivamente de uma só especie de conchylios, sendo
difficil de acreditar que os indigenas se limitassem, na
sua alimentação, exclusivamente a berbigões ou a ostras
ou afinal alternando nesta dieta no decurso de geraçães
inteiras. Muitas vezes as conchas bivalves estão em gran-
de parte fechadas, o que não podia ter acontecido com
conchas das quaes o animal tivesse sido retirado. Não
entende-se tão pouco porque só as especies de mollus-
RSR
cos que vivem nas bahias abrigadas fossem comidas e
não as da praia do mar grosso, como as Peguabas,
Sernambis etc., que hoje occupam o primeiro logar en-
tre as especies utilizadas como mantimento pela popu-
lação costeira.
Em geral encontram-se no meio das conchas das
bahias e do mangue, particularmente nos sambaquis de
berbigão, tambem uma ou outra concha de especies que
vivem na praia do mar grosso; mas não me consta
que já tivesse sido achado, em qualquer sambaqui, uma
unica valva de sernambi (Mesodesma mactrordes Desh.),
facto que me faz acreditar que esta especie na épocha
pleistocena não vivesse na costa de S. Paulo, particu-
larmente porque ha outras especies nas mesmas condi-
ções, como por exemple Dione purpurata Lam. Demons-
trei em outro logar nesta Revista Vol. I 1895, p. 223
que a composição da fauna conchyliologica na região
do Rio da Prata passou por grandes modificações desde
a épocha pleistocena, sendo muito provavel que o mes-
mo phenomeno se désse tambem em nossa costa.
E' este um ponto de grande importancia. Si os
sambaquis são, como tudo faz crer, de edade pleistoce-
na, então a sua edade conta por muitos milhares de
annos e tambem os aborigenes que os aproveitavam
para moradia e para fins «de sepultura, pertencem a
uma épocha muito remota.
Por occasiäo da descoberta do Brazil os samba-
quis se apresentavam mais ou menos na sua forma
actual e em grande parte cobertos de matto viçoso.
O Snr. A. Loefgren citou em prova desta affirma-
ção um escriptor de seculo XVI, Fernão Cardim, que
menciona as ostreiras em 1584, dizendo que os indios
vinham «antigamente» à costa, para comer ostras, e
que as ostreiras já naquelle tempo estavam cobertas
de mattas virgens. O padre Anchieta (1) (p. 50) refe-
re-se às mesmas nos seguintes termos: «e as ostras são
(1) Joseph de Anchieta. Informações e fragmentos historicos
(1584-1586). Rio de Janeiro 1886.
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— 930 —
em tanta quantidade, que se acham ilhas cheias de cas-
cas e faz cal para os edificios, que é tão bôa como a
de pedra ».
E” muito provavel que a descripção dada por An-
chieta se refira a verdadeiros ilhotes, tendo sido na-
quella épocha cobertas por agua asterras baixas, occu-
padas hoje por mangue nas bahias e canaes de Santos
e São Vicente, como o demonstrou o Snr. Benedicto
Calixto em o seu artigo publicado neste volume (77 a).
Os escriptores antigos fazem simples menção dos
sambaquis, sem externar essas suas opiniões sobre a
origem dos mesmos. O primeiro que os considerou
monturos de restos de cosinha foi, em 1797, Frei Gas-
par Madre de Deos (31).
No mez de Agosto do anno corrente examinei varios
outros sambaquis no municipio de Santos. Um destes, o
da praia de Guaiuba ‘1. c. Loefgren p. 25.) na llha de
Santo Amaro, consiste exclusivamente em berbigäo.
Está situado em terreno do sr. João Pereira, a pouca dis-
tancia da praia, em terreno que se eleva 8—10 me-
tros acima do nivel do mar. Com excavações feitas em
varios pontos não consegui chegar ao subsolo arenoso,
de modo que se deve presumir que o sambaqui, que em
grande parte já foi aproveitado para o fabrico de cal,
deve ter tido, quando intacto, uma altura de 10 m., ao
menos. As conchas estão em geral amontoadas em
grande quantidade, com pouca mistura de terra, ao
passo que em certos logares as camadas corresponden-
tes consistem sómente em terra, na qual conchas só
em diminuto numero estão disseminadas. Em certo lo-
logar mais peripherico encontrei as conchas, pela maior
parte, despedaçadas, ao passo que na parte central as
conchas não só estão todas bem conservadas, mas tam-
bem em grande parte fechadas. Ligo importancia a
estas circumstancias que harmonisam mais com a theoria
de deposito natural de conchas, do que com a de mon-
turo e restos de comida. Examinando as praias de San-
tos, encontram-se logares onde as conchas mais tenras
são bem conservadas, e outras onde a concha relativa
— 936 —
mente mais grossa e solida da costa, Olsvancillaria
brasiliana, ê representada sómente por fragmentos. Es-
tas conchas evidentemente são quebradas pela violencia
das ondas que as arremessam contra os rochedos.
O mar transporta conchas e outros objectos a gran-
de distancia e tem força de levar para a praia pedras
de grande peso, ossos de baleia e até ferros de navio. No
Canal do Norte, pelo qual a Lagõa dos Patos aesembocca
no mar, achei conchas vasias da pesada Voluta brasilra-
na que até alli devia ter sido transportada na distancia
de perto de uma legua, visto que a fauna daquelle ca-
nal é a da agua salobra. Outrosim, encontram-se bró-
tos de mangue na região de Santos, em praias, uas
quaes a grande distancia não existem manguezäes.
Ao meu ver, as conchas despedaçadas, a que me
referi, foram quebradas, batendo contra pedras e depois
levadas pela correnteza ao banco em que foram depo-
sitadas. Ao contrario disto as conchas da parte central
do sambaqui, devem ter sido depositadas em remanso,
por serem intactas, em parte completas. Si estas con-
chas representassem residuos de comidas, não se podia
explicar o grande numero de valvas reunidas e fecha-
das, visto que se trata de exemplares grandes apropria-
dos para a alimentação. Não se come estes mariscos
crús, por ser difficil, quasi impossivel, tirar os animaes
intactos da concha. Por esta razão são cozidos e então,
removido o animal, as conchas ficam abertas, devido
ao effeito do ligamento elastico, do qual os musculos
adductores do animal são os antagonistas. Si porém se
trata de um barco em que viviam as conchas, póde
acontecer que o corpo do animal morto conserve as con-
chas fechadas até que a decomposição do ligamento ou a
pressão do terra, na qual estão encravadas, não permitta
mais que as valvas se abram.
Nada achei, neste sambaqui de berbigão, que reve-
lasse a influencia da acção humana. Obtive alguns fra-
gmentos de ossos humanos e sei que antigamente, quan-
do o sambaqui era explorado para fins industriaes, foram
encontrados varias vezes ossos humanos. Entre os ber-
— 937 —
bigões se acham tambem algumas conchas de amejoa,
mas uada de ostras. Tambem esta circumstancia vem
contrariar a idéa de que se trate, neste caso, de res-
tos de comida, e egualmente o facto de que, com cama-
das repletas de conchas intactas e em parte completas
e cerradas, alternam outras de terra, quasi desprovidas
de conchas e outras em que as conchas são despeda-
cadas.
Bastante differentes são os sambaquis da Ilha do
Casqueirinho, sobre os quaes o leitor compare a de-
scripção dada por A. Loefgren (1. ce. p. 20). Existe um
sambaqui, dedominado Cascalho ao N. E. da Ilha e ou-
tro ao N. 0., denominado Casqueirinho. Ambos consis-
tem em accumulações de ostras, entre as quaes se en-
contram em um ou outro logar valvas de amejoa. Es-
tes sambaquis não formam collinas, representando ape-
nas o declive da collina na altura de 16-18 m. sobre o
nivel do mar até o mangue.
Tambem aqui se encontram logares onde as con-
chas são densamente accumuladas, com relativamente
pouca terra no meio e outros, onde na camada terrea
poucas conchas se encontram dispersas. O que aqui mais
me surprehendeu, eram particulas de carvão vegetal,
que encontrei na terra humida, e às vezes na cavidade
apical da ostra. E’ de suppor que estes pedácinhos de
carvão, que são de pouca consistencia, desfazendo-se ao
menor attrito, sejam provenientes da decomposição de
madeira ou talvez de outras massas organicas. Si po-
rém a supposição deste modo de formação de carvão
não for admissivel, então não parece existir outro meio
do que reconhecer a influencia do homem na formação
destas camadas,
Perto do Casqueirinho encontrei uma localiiade
onde numerosas conchas de bacucü eram reunidas e
apertadas d'um modo que evidentemente indica um de-
posito natural, posteriormente modificado por pressão.
Encontram-se nestes sambaquis ossos humanos e
achei tambem a vertebra de um grande peixe, mas, nada
de ossos de mammiferos de caça.
- 5038 —
A excursão à Ilha do Casqueirinho foi ainda para
mim interessante por varios motivos. Perto do Cas-
queirinho vi paredes grossas de edificios de estabeleci-
mentos antigos de padres da Companhia de Jesus, pro-
vavelmente do seculo XVI e mais um forno para quei-
mar «bolas de cal», em que foram queimadas bolas
grossas de conchas junto com a terra argiliosa em que
jazem. Representa isto evidentemente um processo bem
primitivo; em geral as conchas eram transportadas ao
Paquetá, na cidade deSantos, onde, depois de peneiradas
e lavadas, eram queimadas no forno. Estas paredes
em ruinas estão em parte cingidas por figueiras
bravas, que parecem detinadas a contribuir para o des-
moronamento final das mesmas. Outros vestígios interes-
santes de antiga cultura, que se notam neste sitio, são
plantas de cha da India, alcanfor, canella da India ete.,
que o antigo dono da ilha, sr. José Baptista da Silva
Bueno, homem muito instruido e um dos primeiros
inspectores da Alfandega de Santos, aqui tinha planta-
do. Experimentei o cha, preparado à modo da Herva
Matte, achando-o bom, não duvidando que com cultura
racional se pudesse obter um producto de valor.
Outro assumpto de interesse foi para mim o exame
de dous Sambaquis modernos, isto é de depositos de
conchas de ostras, do gasto de casa, aqui accumuladas
em pequenas massas de 5-6 m. de diametro e de 40
-00 em. de altura. A accumulação destas conchas
remonta a perto de 20 annos. Achei as conchas em
geral bem conservadas, só em certos logares as da ca-
mada infima já eram molles e em parte decompostas.
Tudo que sabemos do homem dos Sambaquis e de
sua cultura, nos confirma na opinião, defendida aliás
por todos os que se occuparam destes casqueiros, de que
se trata de uma cultura e de um povo differentes e anterio-
res aos que, na época da descoberta, existiram na zona do
littoral.
Este «povo antiquissimo do Brazil», de Carlos Rath,
é, nos artefactos que nos deixou, bastante differente dos
Carijós e outras tribus, cujos restos ainla hoje são
— 959 —
encontrados no littoral. Carlos Rath confundiu em
parte estes artefactos dos Sambaquis e das terras adja-
centes, chegando assim ao ponto de falar, não só de
igaçabas e outros vasos encontrados nos Sambaquis,
mas tambem de tembetäs de resina de Jatahy.
Sem contestar o facto, que é perfeitamente analogo
ao que foi observado por J. Ambrosetti (1) em antigas
sepulturas de Guaranis da Argentina, não posso acre-
ditar que estes objectos fossem encontrados dentro do
Sambaqui. Os objectos archeologicos, provenientes dos
Sambaquis, consistem em objectos de pedra e de osso,
faltando completamente, ao menos nos Sambaquis dos
Estados de São Paulo e Paraná, vasos e outros obje-
ctos de barro cozido, bem como tembetas.
Os artefactos de pedra consistem particularmente
em machados, que em geral são toscamente lascados,
sendo polidos só na extremidade cortante; tanto que eu
saiba, faltam, não só os machados semilunares, mas tam-
bem os com sulcos e entalhes sub-terminaes.
Além dos machados são encontradas mãos de pilão,
sempre bem polidas, de fôrma mais ou menos cylindrica
ou conica; bem como pilões de pedra com cavidade
não muito profunda e de borda circular (vide fig. 30).
O almofariz figurado mede 160X150 mm. e 78 mm.
de altura, importando a excavação superior em 33 mm.
Semelhantes a estes pilões são às vezes as pedras de
amolar, cuja superficie lisa e pouco concava é em ge-
ral de fórma- oval (vide fig. 29). As dimensões desta
pedra são 190X145 mm. e 80 mm. de altura, tendo
apenas 10 mm. de profundidade a excavação superior.
O sr. Loefgren figura na Est. IX um almofariz e na
Est. XVII uma pedra de amolar machados. Quanto a
esta ultima categoria, convém aqui lembrar a occorren-
cia de pedras analogas em paradeiros prehistoricos da
Europa. Assim figuram G. e A. Mortillet, no seu livro
Musée Prehistorique, Paris 1903. Pl. LXVI, fig. 717,
(1) Ambrosetti (4, p. 17), menciona um magnifico tembeta
de resina, encontrado em uma urna,
— 540 —
uma pedra semelhante, que designam «grande meule fixe
ou dormante et meule mobile pour moudre le blé».
Não parece facil de distinguir si estas pedras de Samba-
quis serviam para amolar machados ou para moer grãos
de milho e outras sementes. Observo nesta occasião
- que, segundo communicação do sr. Benedicto Calixto, ha,
no Alto da Cachoeira de São Jorge, em Nova Cintra,
Antiga Fazenda dos Erasmos ou Engenho do Gover-
nador, em São Vicente, uma lage com uma depressão
circular de 60 cm. de diametro, mais ou menos, que
servia de pilão ou almofariz.
A mesma observação foi feita tambem em outros
paizes; assim por exemplo descreveu R. Lehmann-Ni-
tsche da Argentina, pedras que contèem grupos de co-
vinhas, que devem ter servido de almofarizes. Obser-
vações analogas são participadas tambem por Fl. Ame-
ghino, (8, Tomo I, p. 530).
São encontradas tambem pedras para moer, de forma
semiglobular, com a superficie inferior plana e lisa.
Raras são as pontas de flecha ou de lança, trabalhadas
de pederneira. Os objectos trabalhados com a maior
habilidade e perfeição são morteiros em forma de aves
ou peixes.
Já tratei destes objectos à p. 522 e observo aqui
apenas que o Museu Paulista recebeu do dr. O. A. Der-
by, como proveniente de um sambaqui da costa de S.
Paulo, um destes objectos, que representa uma pomba
aninhada, sendo entretanto incompleto.
Tenho de mencionar afinal pedras em forma de
queijo, munidas, em cada face, de uma covinha central,
destinadas para collocar os dedos. Pedras desta ordem são
encontradas por toda parte no mundo e designadas como
pedras de martello.
Entre nós eram conhecidas só pelo nome de quebra-
nozes. O sr. dr. Francisco Gualberto encontrou uma
destas pedras em uso na casa de um pescador, na costa
de Santa Catharina. Esta observação confirma de modo
interessante nossa ures pr dos objectos analogos
prehistoricos.
— 541 —
Raras vezes encontram-se nos sambaquis artefactos
de osso; obtive uma machadinha delgada de osso, do
sambaqui do Boguaçú e de um sambaqui de S. Vicen-
te, do de Saquaré, o objecto representado à fig. 25 e
encontrado pelo sr. Benedicto Calixto, que o offereceu
ao Museu.
As dimensões desse artefacto são as seguintes:
47 por 12 mm. e 8 mm. de espessura. EK’ uma estreita
chapa de osso com dous entalhes lateraes, que eviden-
temente serviam para a suspensão desse adorno.
Não me consta terem sido encontradas, em sam-
baquis, igaçabas ou outros vasos de barro cozido e nem
mesmo cacos de panellas. Por esta razão contesto as
indicações contrarias do sr. C. Rath, bem como a da
occasional occorrencia de virotes de pedra.
Fazendo abstraeção dos morteiros zoolithos, que de-
monstraram um alto gráu de perfeição na arte de tra-
balhar pedras, os artefactos dos sambaquis, em geral,
nos mostram uma cultura mais primitiva que a dos in-
digenas da épocha da descoberta, fazendo-nos crêr que
nella se trate de uma cultura muito anterior.
Esta opinião ainda é corroborada pelo facto, já
mencionado, de terem estado despovoados e em grande
parte cobertos de mattas, os sambaquis do seculo XVI.
Um elemento, de que se pode esperar esclarecimen-
tos sobre o povo, cujos restos se encontram nos sam-
baquis, são os esqueletos e craneos humanos nelles de-
positados.
Sobre este assumpto compare-se o capitulo deste
estudo, tratando da archeologia do Rio Grande do Sul.
Resumindo o que verificamos neste estudo sobre
os sambaquis, temos de constatar, que varios pontos e
particularmente o da origem dos sambaquis, ainda são
objecto de discussão. Evidentemente existem na costa
do Brazil certas acumulações de conchas feitas pelo homem
e outras, que são depositos naturaes, formadas em baixo
do mar, quando este se extendia mais para dentro da
terra. Si alguns destes depositos não deixam duvidas
sobre sua natureza, outros suscitam duvidas. Parece,
— 542 —
nestas condições, conveniente reunir aqui, em forma
de theses, os pontos principaes que parecem incontes-
taveis :
1) Os sambaquis da costa meridional do Brazil
apresentam-se sob duas formas--ou como collinas, elevan-
do-se abruptamente da planicie pantanosa; ou como ca-
madas terreas de um ou alguns metros de grossura, que
em geral acompanham a fralda de uma collina ou co-
brem um comoro de areia. Estas camadas são, por tre-
chos, repletas de conchas, sendo em outros logares as
conchas parcamente disseminadas. Sem excepção, estes
depositos são de natureza terrea e nunca arenosa, pa-
recendo que na areia nem as conchas, nem as ossadas
se conservam por muito tempo. Onde as conchas são
densamente accumuladas, ou ellas se acham isoladamente
bem conservadas ou estão fundidas em uma massa ou
conglomerato calcareo, bastante daro.
2) A altura da base dos sambaquis varia de va-
rios metros abaixo do nivel do mar, até a ti-8 metros
acima do mesmo, chegando o cume a attingir a altura
de 16-18 metros.
3) As conchas de que se compõem os sambaquis
são as do lagamar ou mar pequeno (ostras, berbigäo,
amejoa, bacucü, etc.) ao passo que os molluscos que
vivem no mar grosso não são representados nos sam-
baquis. A população actual da costa come, segundo as
localidades, tanto as do mar grosso como as do mar
pequeno.
4) A zona do littoral, onde se encontram os sam-
baquis, extende-se do Rio Grande do Sul até o Rio de
Janeiro.
Os depositos da costa bahiana, a que se refere a
publicação de Rathbun, não parecem relacionados dire-
ctamente com os sambaquis. Os do Rio de Janeiro já
foram, segundo (Capanema, todos consumidos para a fa-.
bricação de cal.
Depositos semelhantes aos sambaquis da costa do
Brazil meridional occorrem nas costas da Argentina,
achando-se alli representados, não só os verdadeiros sam-
baquis, que são depositos naturaes de conchas, mas tam-
bem os pseudo-sambaquis, que são monturos de restos
de comida. Devo à amabilidade do sr. dr. Fl. Ameghino
as seguintes communicações a respeito destes sambaquis.
«Quanto aos sambaquis acho que tem toda razão
em consideral-os depositos naturaes.
«Na costa da Patagonia encontrei varios Kjoekken-
moeddings verdadeiros, porém, são de curta extensão,
não medindo mais que poucos metros em altura, e as
conchas não estão stratificadas, mas desordenadas, com
muitos instrumentos de pedra, cacos de panellas e ossos
de differentes animaes.
«Os sambaquis de São Paulo correspondem exacta-
mente aos albardões da provincia de Buenos Ayres,
grandes accumulações de conchas em forma de collinas
muito extensas e de 10 para 15 metros de altura, que
estão situadas ao longo da costa, porém à distancia de
alguns kilometros do mar. Estas elevações do terreno
tambem eram procuradas pelos indigenas para estabe-
lecer suas moradias.
«São estes enormes montes de conchas exploradas
em grande escala para «balast» das estradas do ferro
e tambem para a fabricação de cal.
«Porém a transgressão marina, que formou estes
grandes depositos, não corresponde à transgressão ma-
rina do pampeano superior, mas é de épocha muito mais
recente, posterior à formação pampeana, e supponho
que da mesma épocha devem ser os sambaquis de São
Paulo. »
Os «sermambys» do Estado do Pará, que essencial-
mente consistem em conchas fluviateis, são accumulações
de conchas, provenientes das refeições dos indios.
O) Às conchas dos sambaquis são todas especies
viventes, à excepção de uma, Erodona prisca Martens,
que porém é especie intimamente alliada a outra especie
que ainda hoje vive, desde o Rio da Prata até Iguape,
Erodona erodona Lam. Deixo de tratar aqui das conchas
dos sambaquis, por ter tratado dellas e dos molluscos
comestiveis da costa de S. Paulo nesta Revista, Vol. II
— 944 —
p. 158. Nestas condições chega-se à conclusão de que
a edade dos sambaquis não póde ser mais remota do
que pleistocena. São depositos naturaes os sambaquis
grandes, que da planicie se elevam como collinas e dos
quaes alguns consistem em camadas alternadamento de
ostras e de berbigões.
testa examinar si representam residuos de cozinha,
parte dos sambaquis, formada por camadas de terra lodosa.
Não ha indicio algum para a hypothese de que os
sambaquis sejam tumulos, visto que a disposição da os-
sada nos sambaquis é em geral irregular, sendo os enter-
ros effectuados ncs sambaquis, quando estes já se apre-
sentavam mais ou menos na sua configuração actual.
6) Os restos humanos, encontrados nos sambaquis
correspondem a dous typos anthropologicos differentes :
um dolichocephalo, que perfeitamente combina com o
craneo dos Botucudos e outras tribus de Gês, principal-
mente dos Guayanãs e outro brachycephalo, parecido
ao typo Tupi, mas talvez não identico a elle.
Dos craneos dos sambaquis já tratei à p.926, de
modo que aqui me limito a mencionar ainda o estudo de
A. Nehring sobre um craneo, encontrado em um sam.
baqui de Santos (35).
7) A cultura material, representada nos sambaquis,
deriva de um povo antigo, sendo differente da que co-
nhecemos das tribus tupis. Não se encontram nos sam-
baquis dos Estados de S. Paulo e Paraná tembetás, ca-
chimbos e objectos ceramicos.
Esta circumstancia, confirmada por todos os obser-
vadores, nos faz crer que o povo dos sambaquis não
conhecesse ainda o fabrico de vasos.
Differentes parecem ser as condições dos sambaquis
no Estado de Santa Catharina, onde ao menos parte dos
mesmos parece ser de origem humana. H. Mueller (32)
declara ter encontrado nos sambaquis daquelle Estado
não só camadas de cinza e carvão, mas tambem cacos de
panellas e ossos de animaes de caça. Tambem Octacilio
Barbedo encontrou em um sambaqui daquelle Estado
um vaso (Rev. Mus. Paranaense p. 12).
— 545 —
Fica evidente deste modo que ha grande differen-
ca entre sambaquis e sambaquis, havendo, ao lado dos
que são monturos de cozinha e que chamei pseudo-
sambaquis, outros que são de origem natural.
O povo dos sambaquis é o mais antigo entre os,
cuja cultura fórma objecto da investigação archeologica
no Brazil e este povo era versado em trabalhos de pe-
dra, mas não na fabricação de vasos e outros objectos
ceramicos.
IIF. A cultura extra-sambaquiana do
Estado de 8S. Paulo
Em geral em S. Paulo são raros os vestigios da
antiga presença dos aborigenes. Não se conhecem edi-
ficações, tumulos etc., e são pouco conhecidos até agora
os petroglyphos ou pictographias, desenhos que os in-
dios deixaram em grutas ou paredes naturaes de pe-
dra. Uma destas inscripções lapidares, encontrada perto
de Faxina, foi copiada pelo Dr. Domingos Jaguaribe e
publicada na Revista do Instituto Historico do Rio de
Janeiro; Vol L72 ed. 1687 p. 215 ss. por Tristão
Alencar de Araripe, no seu interessante estudo «Cidades
petrificadas e inscripções lapidares do Brazil».
Perto da localidade indicada foi encontrado tam-
bem um cemiterio antigo dos indigenas, consistindo em
urnas funerarias, enterradas no chão, que porém não
foi systematicamente explorado.
Tumulos sepulchraes foram erigidos pelos indige-
nas em varios pontos do Estado, mas até agora não
foram ainda minuciosamente examinados.
Em geral os restos da antiga cultura são encon-
trados isolados e por acaso. Os artefactos que se con-
servaram, consistem em pedra ou em barro cozido. O
primeiro grupo compõe-se principalmente de machados
polidos, dos quaes sabemos pelos escriptores antigos,
que serviam para o córte da roça e para outros fins
domesticos, mas não como armas. Na Europa succedeu
à épocha da pedra lascada a da pedra polida; aqui, por
= B16 =
quanto consta pelos conhecimentos actuaes, os dous
grupos de artefactos sempre coexistiam.
_ Se, como é provavel, tambem aqui, ao começo da
epocha pleistocena, viveu o homem palaeolithico, que
usasse exclusivaraente machados lascados, comtudo até
agora nos faltam provas de sua existencia e da sua cul-
tura. Os artefactos prehistoricos, que formam o objecto
dos estudos archeologicos no Brazil, pertencem à épo-
cha neolithica, sendo parte dos objectos trabalhados em
pedra laseada, e outros polidos, segundo o material e
o fim especial do instrumento e da arma.
Em geral podemos dizer que os machados são po-
lidos e que as pontas de flecha e de lança são de pe-
dra lascada. Figuro duas bonitas pontas de flecha, tra-
balhadas com esmero, sendo a da fig. 26 de crystal de
rocha e a sua medida 48530 mm. com 5 mm. de gros-
sura e a da fig. 27 de pederneira, tendo 65 mm. de
compr., 21 de larg. e 8 mm. de grossura.
Observo que às vezes são encontradas pontas de
arpão, trabalhadas em agatha e bem polidas.
Estas pontas de arpão, das quaes uma está figu-
rada fig. 28), medindo 78 mm. em comprimento, sendo
a largura no meio 17 mm., a grossura 10 mm., são
munidas de um lado de um dente rhombo. Uma destas
pontas de agatha foi figurada por Ladislau Netto (34,
na Est. VII fig. 5). As pontas de flecha, ao contrario,
têm, de cada lado, uma ponta saliente, destinada eviden-
temente para reter a flecha na ferida. Costuma-se deno-
minar os maiores destes artefactos pontas de lança,
mas este procedimento é todo arbitrario; julgo prova-
vel que as lanças no Brazil, tanto nos tempos prehisto-
ricos, como actualmente, fossem feitas exclusivamente
de madeira dura ou munidas de pontas de osso.
Quanto aos machados, os diversos auctores, que
delles trataram, ligam muita attenção à sua fórma, ao
passo que para a sua classificação scientifica, quasi ex-
clusivamente é de importancia a maneira como esta-
vam fixados ao cabo. Neste sentido, ao meu ver, dis-
tinguem-se dous typos: Um em que o machado estava
— 947 —
embutido na extremidade engrossada do cabo (fig. 6)
e outro em E é mesmo passava de um a outro lado
pelo cabo (fig. 4). Os machados do primeiro typo têm
a extremidade pe grossa, não ponteaguda ; perten-
cem a elle machados curtos de fórma simples e os de-
nominados semilunares ou «de ancora», nos quaes a
parte cortante é alargada, saliente nos dons lados, como
das nossas figuras 22 e 24 se deprehende.
Dos exemplares figurados provem o primeiro (fig.
22) de S. Bento de Sapucahy, tendo sido offerecido ao
Museu pelo Snr. Dr. M. Monteiro de Godoy, sendo o
outro proveniente de Bananal e offerecido ao Museu pelo
Coronel A. G. Nogueira Cobra.
As medidas do primeiro são 160 mm. de com-
primento, 215 de largura de gume e 23 mm. de es-
pessura ; as do segundo são 114 mm. de comprimento,
104 de largura de gume e 23 mm. de espessura.
Nos machados do segundo typo, a extremidade
opposta ao gume é mais ou menos ponteaguda (vide
fig. 4), por causa de sua adaptação ao cabo perfurado.
Ao lado destes machados ha outros que são mettidos
entre os dous bracos da extremidade fendida do cabo
e alli seguros com corda, por meio de um sulco cir-
cular na extremidade superior do machado (fig. 2e 3).
Ha afinal ontros, em geral grandes machados, que,
para sua fixação, tem um ou dous entalhes lateraes
de cada lado. Neste sentido compare-se a nossa figu-
ral e a sua explicação ap. 521; é preciso, entretanto,
observar, que machados de entalhes lateraes até agora
não foram encontrados no Est. de S. Paulo.
Chamo ainda attençäo à fig 23, que se refere a
uma chapa polida de pedra, de forma rectangular, que
parece ter servido de raspadeira e cujas dimensões são
de 8250 mm. com 10 mm. de grossura.
Quanto ao material para estes e outros artefactos,
prevalecem em geral o diorite e a diabase. Machados
e outros objectos de nephrite não são encontrados no
Estado de S. Paulo e tão pouco tembetás de beryllo
e amazonite.
— 948 —
Como já disse, são as pontas. de flecha lascadas,
trabalhadas de quartzo, crystal de rocha, pederneira,
etc., mas occorrem objectos de pedra polida, que pro-
vavelmente serviam tambem de pontas para flechas,
comparaveis aos virotes, usados por muitas das actuaes
tribus de indios. Estes singulares artefactos, dos quaes
um se acha representado pela fig. 14, mede 95 mm. de
comprimento e 42 mm. no diametro maximo, tem a
forma biconica. E’ provavel que uma extremidade es-
tivesse presa na flecha e que a outra, mais ou menos
rhomba. fosse destinada a atordoar animaes, sem ma-
tal-os e mesmo para fazer cahir ao chão os pesados
fructos dos pinheiros. (1)
Outros objectos de pedra polida, aos quaes temos
de referir-nos, são as mãos de pilão de fórma mais
ou menos cylindrica, e das quaes o Museu possue uma
variada colleeção. A que é representada pela nossa
figura 21 mede 250 mm. no comprimento e 59 no
diametro da parte inferior. Não sendo entretanto en-
contrados os pilões correspondentes, é provavel que es-
tes, como ainda hoje acontece, fossem feitos de ma-
deira ; além disto, veja o que disse à p. 959.
Temos afinal de mencionar os artefactos de pedra
poiida, que serviam de enfeite.
As nossas figuras 20 e 18 representam tembe-
tás; o material do primeiro é quartzo, o do segundo
crystal de rocha. O primeiro tem o comprimento de
46 mm., sendo a largura em cima 27 mm., em baixo
17 mm. e a grossura 15 mm. O segundo tem 53 mm.
de comprimento, com 5 mm. de largura na parte su-
perior e 33 mm. na parte inferior, que é achatada; a
sua grossura é de 12 mm.
A arte ceramica dos aborigenes de S. Paulo li-
mitava-se ao fabrico de vasos para fins de iudustria e
para sepultura. Não fabricavam cachimbos nem urnas
(1) Ladislau Netto dá (N.º 34, Est. VII fig. 1) a figura
de um destes virotes e na mesma estampa fig. 2 e 3 as de vi-
rotes de marmore. Os exemplares dos grandes virotes de syeni—
te, por elle examinados, provêm de S. Paulo e Paraná.
— 549 —
anthropomorphas ou estatuetas e outros adornos. O
unico objecto de barro cozido que o Museu possúe,
além de urnas, é o peso de rêde, representado pela
fig. 12. As suas medidas são 82X34 mm. e 33 de
grossura. Este objecto foi encontrado jnnto com outro
semelhante em uma urna funeraria em S. Vicente e
offerecido ao Museu pelo Snr. Benedicto Calixto. Este
objecto assemelha-se a um queijo, partido pelo meio,
sendo a circumferencia inferior semicircular e a face
recta superior excavada ; de cada lado nota-se um ca-
nal perfurante, destinado evidentemente para receber
uma corda. E' ae interesse que pesos de rêde, bas-
tante semelhantes, ainda hoje são nsados pelos pesca-
dores do municipio de Santos. Figura junto (fig. 13)
um destes objectos, que denominam «chumbo de rêde»,
proveniente da Ilha do Casqueirinho, onde me foi ce-
dido pelo Snr. Henrique Baptista da Silva Bueno. A
forma é em geral arredondada, havendo, entretanto,
exemplares cuja bórda superior, acima dos canaes de
suspensão, é rectilinea e excavada para receber a corda.
O diametro deste peso de rêde é de 80 mm. e a gros-
sura do disco de 49 mm. em baixo e 27 mm. em ci-
ma. Os pescadores fabricam mesmo estes objectos.
Quanto às urnas funerarias, em geral são de pa-
rede grossa e de esculptura simples. Em geral estas
urnas são collocadas no chão com a abertura para
cima, sendo esta coberta por outra urna menor, que
serve de tampa. Em geral'nada se acha dentro das
igaçabas, sinão as ossadas dos defuntos, mas, às vezes,
encontra-se no fundo da urna outro vaso bem traba-
“lhado, em fôrma de bacia. Suppuz antigamente que
estas bacias funerarias tivessem servido para receber
o craneo e mais alguma ossada de um guerreiro, mor-
to longe de casa, e do qual, depois de decomposto o
cadaver, sô o esqueleto fosse transportado para a al-
deia patria. O Snr. Benedicto Calixto, entretanto, mos-
trou-me uma dessas bacias sepulchraes da propriedade
delle, que é tão pequena que não pôde ter servido
para este fim. Podemos, por esta razão, imaginar que
— 990 —
estes vasos cerimoniaes servissem para munir o falle-
cido de viveres. Que este costume existia entre os In-
dios confirma tambem Barbosa Rodrigues (9 p. 8),
que descreve alguns vasos da Necropole de Mirakan-
guéra, que evidentemente não pódem ter servido a
outro fim, sinão de prover a alma do fallecido de vi-
veres e bebidas alcoolicas ; no emtanto encontrou Bar-
boza Rodrigues estes vasos menores sempre ao lado,
e não dentro, dos inaiores. que continham os restos dos
mortos. O que é bastante notavel é o esmero com
que estas bacias cerimoniaes são trabalhadas, tanto na
fórma, quanto na pintura, que consiste em desenhos
lineares meandricos pretos e vermelhos, sobre fundo
esbranquiçado. O Museu Paulista possue dous destes
vasos, dos quaes um, N.º 504, representado pela figura
31, mede na abertura 30X22,5 cm., sendo a altura 9
cm., foi encontrado n'uma urna funeraria, no Estado
de S. Paulo. Dos outros vasos de uso domestico, que são
de forma e tamanho bastante variaveis, não tenho a fazer
observações especiaes, desejando referir-me apenas ao
vaso colossal, que esta guardado na Commissäo Geo-
eraphica e Geologica de S. Paulo, Esta urna tem no
meio, na região da maior largura, uma circumferen-
cia de 3 m. 21 cm., sendo o diametro da abertura de
40 cm. e a altura do vaso 65 cm. Não podemos du-
vidar que este vaso colossal tivesse sido usado para
guardar as bebidas alcoolicas, que os indigenas sabiam
fazer de milho e de pinhões cozidos e mastigados.
IV Archeologia da Bahia
A archeologia do Estado da Bahia ficou até hoje
quasi desconhecida, especialmente a do interior do Es-
tado. Deve-se ligar, por conseguinte, grande valor às
explorações e collecçües que nesse Estado emprehendeu
o sr. Christovam Barreto, de quem o Museu Paulista
adquiriu, no anno passado, uma interessante e instru-
ctiva collecção de machados. tembetäs e outros utensi-
lios prehistoricos.
ee eee eee
— 901 —
Pretendendo occupar-me em seguida desta colle-
cção, vou em primeiro logar expôr as condições nas
quaes foram obtidos estes objectos, segundo as informa-
ções dadas pelo sr. Christovam Barreto.
Este incançavel explorador tem-se dedicado desde
20 annos ao estudo da antiga cultura dos indigenas da
Bahia, especialmente no municipio de Amargosa, onde
tinha fixado seu domicilio nos ultimos annos.
A zona de Amargosa é occupada por extensa mat-
ta, que se extende até à costa, mas já na distancia de
duas leguas de Amargosa começa a zona dos campos
ou «taboleiros». Nesta ultima zona ha serras, nas quaes
se encontram ruinas de antigas aldeias e de fortifica-
ções, construidas de blocos de pedra, que o sr. Christo-
vam Barreto compara às construcções dos eliff-dwellers.
Seria de grande interesse proceder a um exame minu-
cioso dessas construcções antigas, que os moradores de-
nominam «casas fortes». Na vizinhança da Feira de
Sant'Anna, depara-se com ruinas semelhantes, cujo ma-
terial, entretanto, consiste em blocos de barro cozido.
Todas estas construcções são até agora incompletamen-
te conhecidas, e isto vale tambem para a afamada « ci-
dade petrificada» no Estado de Piauhy, descripta por
Tristão de Alencar Araripe, (1) e cuja descripção é
tão vaga e pallida que custa acreditar na sua authen-
ticidade.
No municipio de Amargosa encontram-se, tanto na
zona dos mattos como na dos campos, tumulos funera-
rios, dos quaes alguns foram explorados pelo sr. Chris-
tovam Barreto. Estes tumulos são artificiaes, dispostos
as vezes em grupos maiores ou menores, às vezes for-
mando uma linha recta, sendo às vezes irregularmente
reunidos. Em um dos arrahaldes de Amargosa nota-se
um grupo de 18 destes tumulos, que se tornam pouco
apreciaveis para os moradores, em consequencia da es-
terilidade quasi absoluta de seu solo. Em geral os tu-
(1) Tristão de Alencar Araripe. Cidades petrificadas e in-
seripções lapidares. Rev. do Inst. Hist. do Rio de Janeiro. Vol.
Lo 188% p. 231.
— 502 —
mulos, denominados «murundus» pelos habitantes, têm
a altura de 9-6 m. e um diametro maior de 20-30 m.,
sendo a sua fórma conica e a base redonda ou oval.
Os tumulus foram levantados sobre a sepultura, pare-
cendo que, para este fim, raras vezes eram aproveita-
das as «igaçabas». E” nelles que se encontram os macha-
dos de nephrite e outros objectos, representados em
nossa collecção.
Outro grupo de localidades, recommendaveis para
excavações, são açudes, tanques e ovtros logares, para
onde a chuva costuma carregar objectos de pouco peso,
enterrando-os no lodo. Em localidades desta ordem, as
excavações costumam fornecer tembetás.
E” preciso, afinal, mencionar ainda que, nas serras
da região dos campos, não raras vezes são encontradas
cavernas, que, tanto por fóra, como por dentro, princi-
palmente na abobada, contêm petroglyphos ou pictogra-
phias, desenhos feitos em diversas cores e dos quaes
o sr. Christovam Barreto mandou copiar alguns que,
em geral, se assemelham aos que são figurados no es-
tudo mencionado de Alencar Araripe.
A significação destes desenhos é em geral desco-
nhecida, mas parece certo que nada tem que ver com os
hieroglyphos egypcios ou outras pictographias do velho
mundo.
Os objectos que recebemos do sr. Christovam Bar-
reto, e provenientes do Estado da Bahia, são quasi to-
dos originarios do municipio de Amargosa, seja dos
arredores dessa cidade, seja das povoações pouco dis-
tantes de Baitinga e Cavaco.
Os tembetis, fig. 37-40, que vão figurados na Est.
XXII, consistem de uma pedra azul, que é amazonite
no primeiro (o mais comprido), beryllo nos outros dous.
O da figura 88 tem o comprimento de 52 mm. e um
diametro de 10 mw. na parte inferior cylindrica. A parte
superior e transversal é incompleta, devendo ter sido,
quando completa, a largura de 15-16 mm. O exemplar
da figura 37 tem o comprimento de 39 mm. e o dia-
metro, na parte cylindrica, de 9 mm. |
— 553 —
O terceiro exemplar ( fig. 39) é mais curto e gros-
so, tendo o comprimento de 15 mm. e o diametro, na
parte cylindrica, de 19 mm., sendo a largura da parte
transversal de 22 mm.
Um apito de steatite, achado em Areia, tem 48
mm. de comprimento, 37 mm. de largura e 27 mm.
de altura. A pedra é lisa, aplanada na face inferior e
convexa na superficie superior, que contem, no centro,
um buraco de 9 mm. de diametro e 9 mm. da pro-
fundidade, destinado evidentemente para assoviar.
O sr. Christovam Barreto possue um segundo
apito semelhante.
Cachimbos de barro. Dos dous que recebi do Sr.
Barreto, tem o primeiro (fig. 36) o comprimento de 105
mm. na base, que é plana; o segundo (fig. 41) 0 de 73
mm. A fórma é em ambos a mesma, elevando-se da
base achatada, em angulo obtuse ou quasi sempre recto,
uma larga chaminé, cujo diametro é de 47 mm. no pri-
meiro e de 34 mm. no segundo exemplar. A grossura
da parede é de 7-8 mm. Ao fim da base abre-se o canal
por um buraco de 4-5 mm. de diametro. Parece que a
base deprimida era destinada a ser introduzida directa-
mente na bocca. Considerando que, no maior destes ca-
chimbos, o recipiente tem uma profundidade de 63 mm.
e um diametro de 33 mm., nota-se bem que se trata de
um exemplar de grandes dimensões. Um dos exemplares
do Sr. Barreto consiste de um barro, misturado de tal
modo com graphite, que ao primeiro aspecto parece ser
feito só deste material. Um outro cachimbo desta col-
lecção é feito, segundo o typo occorrente na colonia
de S. Lourenço, Rio Grande do Sul, no qual o eixo do
tubo e do recipiente se acham na mesma linha recta.
Molde para ornamentação de urnas (fig. 35). E
esta uma chapa de barre cozido, de 17 mm. de gros-
sura, de 58 mm. de largura e 80 mm. de comprimento,
que é munida de sulcos profundos, destinados a produ-
zir a ornamentação de urnas por occasião de seu fa-
brico. Estes sulcos são simplesmente ondulados em um
lado, formando ne outro um desenho regular em fórma
— 994 —
de W, como a nossa figura (39) o indica. E' ao que
saiba, a primeira vez que fóra achado um destes mol-
des, sem os quaes a ornamentação regular de certas
igaçabas não poderia ter sido executada.
Entre os utensilios de pedra notâmos apenas dous
machados de diorite, sendo a materia prima de todos os
outros nephrite ou jadeite (figs. 32 e 34). As dimen-
sões dos machados figurados são : fig. 32 com 151xX46
mm. e 32 mm de grossura, tendo o da fig. 34 as se-
guintes medidas: 8757 mm. e 26 mm. de grossura.
A côr destes objectos, quasi todos machados polidos de
tamanho e formatos, diverso varia desde branco-cinzento
e branco-azulado por verde claro e escuro até pardo
escuro, quasi preto. O maior dos machados figurados,
que tem o comprimento de 151 mm., pesa 395 grs.;
mas vi em posse do Sr. Barreto dous maiores, de côr
verde-clara e de peso de 1.600 grs. um e 2.200 grs. o
outro.
Todos estes objectos são bem elaborados, mas, a
conservação, em parte deixa a desejar, em vista da de-
composição das particulas quartzosas. Segundo a in-
formação do Sr. Barreto, é esta uma particularidade da
região de Amargosa, que não se observa em outros mu-
nicipios.
De mãos de pilão, que o Sr. Barreto denomina
«bastão de commando», vi na sua colleeção um exem-
plar collossal de 1 m. 38 cm. de comprimento e 10 a
44cm. de circumferencia, achado na Feira em uma ex-
cavação de 6 m. de profundidade. O exemplar maior,
que destes objectos tem o Museu Paulista, é do compri-.
mento de 62 em. Mencionamos afinal dous poltdores par-
tidos, pedaços de pedra nephritica e que na superficie su-
perior, que é plana, lisa e polida, mostram um sulco pro-
fundo (vide fig. 33) de paredes planas e lisas de 6 resp.
11 mm. de profundidade e de & resp. 12 delargura. O
exemplar figurado (fig. 53) mede 134 mm. de largura
e 43 mm de altura. Evidentemente estes sulcos ser-
viam para afiar os machados. Sulcos desta ordem mul-
tas vezes são encontrados nos. proprios machados, par-
— 999 —
ticularmente no lado estreito, marginal. O Sr. Ch. Bar-
reto possue um machado, em que dous sulcos dos lados
oppostos se tinham encontrado no meio, partindo a pe-
dra em dous pedaços.
Além de diversos blocos com uma superficie poli-
da, e providos de um sulco, occorrem no municipio de
Amargosa blocos de nephrite sem signal de trabalho.
De um destes o Sr. Ch. Barreto me fez presente e,
segudo elle relata, destes blocos se encontram até na
calçada das ruas de Amargosa.
Este facto é de summa importancia, pois não deixa
duvidas de que no mesmo municipio de Amargosa se
devem encontrar jazidas de nephrite. Esta nossa opi-
nião de que os machados de nephrite, tão numerosos
no municipio de Amargosa, sejam originarios deste
mesmo municipio, fica confirmada por uma interessante
observação do Sr. Ch. Barreto.
Disse-me elle que machados de nephrite, tão com-
muns no municipio de Amargosa, são raros ou ausen-
tes em outros municipios do Estado da Bahia. Assim,
por exemplo, a relação de machados de nephrite para
outros de materiaes differentes seriaem Feira de Sant’
Anna como 1:1000 e em Amargosa como 950:1000.
Si Ladislau Netto (N. 36 p. 205) diz, que objectos
de nephrite são communs na America, desde Alaska
até ao Rio da Prata, não posso concordar com esta
opinião, segundo as minhas proprias experiencias. Nem
eu nem outros investigadores têm encontrado macha-
dos de nephrite no Rio (Grande do Sul e tão pouco
nos Estados de Santa Catharina, Paranã e São Paulo.
A questão da origem do nephrite e do jadeite tem
sido muito discutida.
Até ha pouco não se conheciam outras jazidas des-
tas pedras do que as da Ásia, Nova Zelandia e Nova
Caledonia. Foi esta a base da theoria do Professor Fi-
scher e de outros anthropologos, segundo a qual todos
os objectos, trabalhados neste material, e encontrados
na Europa e na America, teriam sido importados da
- 996 —
Asia. Entre nós foi Barbosa Rodrigues, quem, adoptan-
do a thecria de Fischer, explicou a occorrencia de ob-
jectos de nephrite por importação prehistorica da Asia.
Todo o aspecto desta questão foi radicalmente mudado,
quando, em 1*84, o mineralogo allemão H. Traube, perto
de Jordansmuehl, na Silesia, descobriu jazidas naturaes
de nephrite. E' verdade que ha, segundo o peso espe-
cifico e a composição chimica, muitas variedades de
nephrite e jadeite e que a de Jordansmuehl não cor-
responde exactamente aos machados, encontrados na
Suissa e outros pontos da Europa central; mas depois
desta primeira descoberta de jazidas naturaes de ne-
phrite, a que já succedeu em 1886 outra em Reichen-
stein, ninguem mais podia duvidar de que existem, ainda
em outros logares da Europa, jazidas naturaes de ne-
phrite e jadeite. Esta supposição ficou plenamente con-
firmada por descobertas ulteriores, das quaes larga-
mente trata o artigo publicado em 1903 pelo Dr. A.
B. Meyer (Abhandlungen und Berichte des Koenig-
lichen Zoologischen und Anthropologisch-Ethnographi-
schen Museums zu Dresden Bd. X, Berlin 1903) e do
qual, na Bibliographia deste volume, se encontra um
ligeiro resumo. Nestas circumstancias é de grande-im-
portancia a descoberta do Snr. Christovam Barreto, da
occorrencia, não sé de machados e polidores, mas tam-
bem de blocos de nephrite em bruto, no municipio de
Amargosa. Si bem que só uma exploração, effectuada
por especialistas competentes, possa esclarecer as con-
dições geologicas da occorrencia do nephrite no mu-
nicipio de Amargosa, já não é mais possivel duvidar
da occorrencia natural dc nephrite naquelle municipio.
Si porventura todos estes machados polidos fossem
importados da Asia, não é de certo possivel admittir
que os immigrantes trouxessem comsigo, alèm de nu-
trimentos, utensilios etc., ainda pesados polidores e até
blocos em bruto de nephrite. Neste sentido a valiosa
collecçäo archeologica, adquirida do Snr. Ch. Barreto, é
de grande interesse, não só para este Museu, mas para
a archeologia do Brazil em geral.
— do7 —
Estão justificadas deste modo as contestações cri=
ticas que, contra a theoria de Barbosa Rodrigues, no
Brazil foram levantadas por Ladislin Netto (36) e Syl-
vio Roméro (42 p. 65).
Sobre a composição mineralogica e chimica do
nephrite de Amargosa e Baytinga no mesmo munici-
pio, temos uma publicação do Dr. E. Hussak (Annalen
des k. k. Naturhist. Hofmuseum Wien Bd. XIX 1904
p. 89-93). O peso especifico deste nephrite é 2,951, se-
gundo me communicou o Dr. Hussak.
No anno corrente recebi do Snr. Eustachio Blesa,
dedicado amigo do Museu, residente em Machado Por-
tella, no Estado da Bahia, um tembetä de quartzite ver-
de, encontrado naquelle municipio, que à Est. XXIII,
fig. 40, representei. Este objecto tem o comprimento
de 50 mm. e a largura, na parte superior, de 36 mm.
e na parte inferior, que é cylindrica, de 21 mm. Este
tembeta assemelha-se, na sua forma, aos que conhece=
mos do Rio Grande do Sul e de S. Paulo, sendo en-
tretanto no material, de que é feito, egual aos do typo
ordinario da Bahia.
WV. Archeologia da região amazonica
A fonte principal para o conhecimento da archeo-
logia amazonica são as publicações de Hartt (N. 15) e
Bi Rodrigues (Ns. 9, 9a e 10), as publicações de
Ladislän Netto (Ns. 34 a, 35 e 36), e as de Domingos
Soares Ferreira Penna (Ns. 74 a e 14 6), e Emilio A.
Goeldi (N. 14 ©).
As collecções do Museu Paulista são pobres em
objectos archeologicos amazonicos, de modo que aqui
me limito a algumas observações literarias. O Museu
tem dous muyraquitãs batrachiformes de steatite e um
de um mineral preto, que foi descripto por Barbosa Ro-
drigues (N. 10, II, p. 231).
Este auctor o descreveu como um «falso muyra-
quitã», julgando-o feito artificialmente de uma massa
resinosa. (O exame, entretanto, feito na Commissäo
Geographica e Geologica de S. Paulo, provou, que o
— DS —
material em que elle consiste é yet, mineral preto, ho-
mogeneo e leve, affim ao carväo de pedra e que, as
vezes, é encontrado no littoral do norte do Brazil.
Muvraquitäs semelhantes aos da região amazonica
são encontrados na Venezuela, nas Antilhas e na Ame-
rica Central. Marcano, na sua obra «Ethnographie pre-
colombienne du Venezuela, Paris 1890», figura muyra-
quitäs batrachiformes e H. Fischer (Bericht ueber eine
Anzahl Steinsculpturen aus Costa-Rica, Abhandlungen
des Naturwissenschaftlichen Vereins Bremen Bd. VU,
1821, p. 153-175, Taf. VU-XID, figura numerosos
muyraquitäs e entre elles perolas cylindricas com per-
furação longitudinal, no sentido do eixe. O essencial
em todas estas obras é o estylo de trabalho, mas não
o material, que mostra grande diversidade. Não se
conhecem até agora muyraquitäs do Brazil extra-ama-
zonico, mas o sr. Christovam Barreto communicou-me,
ha pouco, que encontrou em Amargosa, Estado da Bahia,
um muyraquitä anthropomorpho, feito de nephrite.
Abstracção feita dos muyraquitãs, os objectos archeo-
logicos mais notaveis da Amazonia são as urnas fune-
rarias e outros objectos ceramicos.
Em muitos delles notam-se figuras em relevo e
vasos identicos occorrem tambem, segundo Mercano,
Schmeltz e outros, na Venezuela, sendo evidente que
este elemento da ceramica é originario dos Caraibas.
Os mais singulares, entretanto, são as urnas funerarias
anthropomorphas, que foram encontradas, não só na
Ilha de Marajó e em outros pontos do Estado do Pará,
mas tambem na Guyana. Estas urnas não são só no-
taveis pela delicadeza e arte com que são feitas, mas
tambem pela semelhança que offerecem com urnas ana-
logas da região andina. Entre os vasos calchaquis
acham-se não só urnas muito semelhantes, mas tambem
a ornamentação tem grande analogia. Ha de ser ta-
refa de futuras pesquizas estudar estas analogias e expli-
car sua causa.
— 999 —
Wi. As provincias archeologicas do Bras
zil e svas relações com as regiões
visinhas.
Si ainda hoje no Brazil o numero de tribus in-
digenas, differentes em lingua e costumes, é bastante
elevado. muito maior deve ter sido a diversidade en-
tre os elementos indigenas do paiz na épocha da des-
coberta. Accresce a isto terem em geral coexistido
no mesmo Estado tribus pertencentes a differentes
grupos anthropologicos. Nestas circumstancias natu-
ralmente não é, e não será possivel, dar um esboço,
mais ou menos exacto, da distribuição dos antigos ele-
mentos ethnologicos do Brazil, segundo as collecções
archeologicas, feitas nos diversos Estados. E isto par-
ticularmente. quando de muitos Estados, especialmente
dos centraes do Brazil, não possuimos informações so-
bre a antiga cultura dos indigenas.
Apesar de todas estas difficuldades ja estamos na
possibilidade de, examinando uma collecçäo archeolo-
gica, um tantc rica e variada, reconhecer a sua proce-
dencia, com exactidão mais ou menos approximada.
Para formar juizo a este respeito sera conveniente exa-
minarmos em seguida os diversos typos e grupos de
objectos archeologicos, que formam o material de taes
estudos.
Começando com os objectos de pedra, são com-
muns em todo Brazil os machados polidos de fórma
simples, e tambem os machados semilunares occorrem
tanto no extremo sul como ao norte do paiz nas re-
giões percorridas pelos affluentes meridionaes do Ama-
zonas. Lembro neste sentido o magnifico machado se-
milunar com cabo, que o Museu Paulista posse da re-
giao do Rio Araguaya e que provem dos Indios Ca-
rajás. Tambem Barboza Rodrigues (N.º 9, I PI II
fig. 4 e 5) figurou exemplares destes machados semi-
lunares encontrados na Amazonia.
Um estudo especial dedicou a este typo de ma-
chados C. F. Hartt (15 a), figurando, em duas estam-
pas, numerosos machados em «forma de crescente»,
— 560 —
provenientes do Amazonas, Piauhy e do Sul do Bra-
zil; o machado semilunar com cabo, figurado à p. 49 é
proveniente dos Indios Gaviões e bastante semelhante
ao nosso, que porém tem o cabo um pouco mais com-
prido. Machados polidos com entalhes lateraes parecem
ser encontrados no Brazil meridional só no Rio Gran-
de do Sul e tambem o typo de machados com sulco
subterminal na extremidade rhomba, parece ser proprio
ao Brazil meridional, reapparecendo, entretanto, ambos
os typos na região amazonica.
Quanto ao material de que são fabricados estes
machados, é grande a variedade das rochas emprega-
das, sendo o unico ponto de real interesse a occorren-
cia de machados de nephrite no Estado da Bahia, e,
como parece, occasionalmente tambem no do Espirito
Santo. Estes machados de nephrite não são encontra-
dos na zona costeira, e, por esta razão, é provavel que
não sejam originarios de povos tupis, mas dos tapuias.
Quasi o mesmo que dos machados póde-se dizer
das pontas de flechas, que, porém, sempre são lasca-
das. Uma particularidade dos Estados de S. Paulo e
Rio Grande do Sul são os virotes de pedra, que à ps.
O29 e 948 descrevemos e tambem as pontas de arpão
de agatha, cuidadosamente polidas, às quaes, à p. 546,
nos referimos.
Pedras de funda são encontradas só no Rio Gran-
de do Sul, bem como bolas de Charrúa. Destes sin-
gulares artefactos, que n'aquella região evidentemente
são signaes da vizinhança e influencia da antiga cul-
tura argentina, tratamos à p. 921 neste volume.
Mãos de pilão encontram-se por toda a parte do
Brazil; mas pilões de pedra, a não ser nos sambaquis,
não são achados, tendo sido evidentemente de madeira
os pilões, tambem na épocha pre-historica. Uma espe-
cialidade dos sambaquis são os bem crabalhados mor-
teiros zoomorphos, de que à p. 522 nos occupamos.
Nos mesmos sambaquis encontram-se egualmente bem
trabalhadas pedras de amollar. De objectos de adorno,
trabalhados em pedra, encontram-se: pedras roliças,
jen co?
— 961 —
perfuradas, chapas de schisto com duas perfurações, para
serem suspensas; mas os objectos de maior importan-
cia deste grupo são sem duvida os tembetas ou pedras
de enfeite do beiço.
Distinguimos entre elles, segundo o seu fabrico, os
tres grupos seguintes :
1) Tembetás largos e curtos, feitos de osso,
quartzo, crystal de rocha etc. e que são encontrados
no Brazil meridional e central.
2) -Tembetas de pedra verde, beryllo, amazonite
ou quartzite verde, cujo corpo é cylindrico e fino e
que são encontrados no littoral da Bahia e dos Esta-
dos vizinhos.
3) Tembetäs compridos cylindricos, feitos de va-
rios materiaes e terminados em baixo por um alarga-
mento conico, achando-se estes só na região amazoni-
ca. Ladisläu Netto (N.º 35) tratou delles largamente,
ajuntando nas Ests. VIII e IX bonitas figuras.
Quanto aos productos da industria ceramica, existe
um antagonismo entre a região amazonica e o resto do
Brazil. E' só na primeira que se encontram vasos de
rica esculptura e ornamentação, urnas anthropomorphas,
tangas de barro cozido e outros objectos de grande per-
feição artistica. Segundo as descobertas do dr. Hartt
distinguem-se, nas diversas partes da região amazonica,
varios typos, differentes no estylo artistico.
Em comparação com estes artefactos, relacionados
sem duvida com as culturas mais desenvolvidas da re-
giao andina e principalmente do Pert, os vasos e urnas
do Brazil central e meridional são todos bastante sin-
gellos. Ha um artefacto apenas de barro cozido, que
ainda merece uma aitenção especial, o cachimbo. A
região onde são encontrados extende-se do sertão da:
Bahia e de Alagoas até o Rio Grande do Sul, sendo
notavel a sua ausencia completa no littoral do paiz.
Como já disse, em geral os-cachimbos do Brazil
são feitos de barro cozido, mas occorrem tambem exem-
plares de pedra. Pessoalmente não vi ainda nenhum
deste typo, visto como o do sr. C. von Koseritz, que
— 562 —
este julgava ser de pedra, de facto consistia em barro
cozido, mas sei de dous destes cachimbos conservados
no Rio Grande ao Sul. Um delles pertence ao dr.
Henrique Eichenberg, em Venancio Ayres, sendo de
fórma cylindrica com um sulco circular; o outro per-
tence ao sr. Octacilio Barbedo e foi encontrado no Sam-
baqui das Pombas, perto de Tramandahy, consistindo
em fulgurito, especie de areia ferruginosa.
Em publicações anteriores (N. 16 p. 80 ss. e
N. 23), tinha chegado à conclusão que os cachimbos
eram, no Brazil, de edade post-columbiana e do mesmo
modo no Chile, para onde as palavras cachimbo e pue-
tem ( tabaco ), evidentemente foram transmittidas pelos
guaranys.
Esta minha conclusão me foi contestada por varios
collegas argentinos, particularmente pelos srs, Floren-
tino Ameghino e J. Ambrosetti. Este, na sua publica-
ção «Notas de Arqueologia Calchaqui», p. 228, comba-
teu minha opinião, salientando o facto de serem os ca-
chimbos communs em paradeiros prehistoricos dos Cal-
chaquis, figurando varios delles, que em geral são
fabricados de barro cozido, entre os quaes, no emtanto,
tambem se encontram alguns de steatite. Tambem F.
Ameghino (8, I, p. 295 ss.), já descreveu e figurou ca-
chimbos argentinos prehistoricos.
Tanto estes factos, como os achados de cachimbos
em tumulos prehistoricos da Bahia, acima expostos,
obrigaram-me a reconhecer fundadas as contestações.
E” preciso, entretanto, ligar attenção tambem aos factos
que para mim eram decisivos e que são os seguintes.
Em todo o littoral do Brazil não se encontram ca-
chimbos e tão pouco na região amazonica. Faltam os
cachimbos não só nos Sambaquis e nos mounds de Ma-
rajó, mas tambem na cultura peruana antiga.
No Perú conhecia-se o tabaco, mas não era fu-
mado, servindo para fins medicinaes. Os antigos escri-
ptores mencionam varias vezes o tabaco e o uso de
fumar entre os indigenas, mas são rolos de folhas,
charutos, a que se referem e não mencionam cachimbos.
— 565 —
Ligando a este facto, que cachimbos nem na Ama-
sonia, nem no littoral do Brazil, eram usados, à cir-
cumstancia de que a palavra cachimbo é de origem afri-
cana, é evidente que são numerosos os argumentos em
que me baseei. Parece que o uso do cachimbo foi in-
troduzido no Brazil meridional e central da Argentina,
sendo certo que as tribus que faziam uso do cachimbo
eram tapuias e que os povos da familia tupy só fumavam
charutos. Esta circumstancia explica tambem a falta de
noticias sobre cachimbos nos escriptores do seculo XVI,
que quasi exclusivamente se interessavam pelos tupys,
não dando informações minuciosas sobre os tapuias.
Os dados, aqui apresentados em breve resumo, jus-
tificam a separação dos seguintes districtos archeolo-
giCcos :
1. A provincia sambaquiana
Este districto extende-se do norte do Rio Grande
do Sul até -S. Paulo, -Rio de Janeiro e talvez até à
Bahia. Os sambaquis da Bahia, descriptos por Rathbun,
parecem differentes dos outros e carecem de novas in-:
vestigações. Os sernambis do Estado do Pará, forma-
dos essencialmente de conchas bivalvas da agua doce,
e duvidosos quanto à sua origem, não devem ser con-
fundidos com os sambaquis do sul do Brazil.
Deixando aberta a questão dos pretendidos samba-
quis da Bahia e de outros Estados do norte do Brazil,
é certo que toda a litteratura detalhada sobre os sam-
baquis se refere aos que estão situados no Brazil meri-
dional, desde S. Paulo atê o Rio Grande do Sul. Os
achados archeologicos consistem em machados polidos,
mãos de pilão e varios utensilios de caracter simples,
e além disto em morteiros zoomorphos, que represen-
tam o gradu mais elevado do aperfeiçoamento que a in-
dustria dos habitantes primitivos daquella zonaattinhiu,
Faltam completamente objectos ceramicos, cachimbos,
tembetás, bolas etc., sendo provavel que as tribus que
em tempo remoto habitavam os sambaquis e nelles de-
— 564 —
positay am seas mortos. nos representem o elemento mais
antigo entre os povos indigenas, que ja se ee
na posse de certa cultura.
Esta conclusão ha de ser restringida com relação
à occorrencia de cacos de panellas, no Estado de Santa
Catharina, a que nos referimos à p.
2. A provincia sul-brazileira
Esta região extende-se do Rio Grande do Sul até
o Rio de Janeiro, comprehendendo as sédes dos anti-
gos guaranis.
De machados polidos encontram-se, além Jo typo
ordinario, machados semilunares, machados com sulcos
circulares subterminaes e no Rio Grande do Sul tam-
bem machados com entalhes lateraes.
Encontram-se pontas de flechas de pedra lascada
e pontas polidas de arpão e virote. No Rio Grande do.
Sul accrescem ainda as bolas e os discos perclusos ou
« trochos », servindo de pedra de funda. Encontram-se
mais: mãos de pilão, pedras de adorno, tembetas de:
forma curta e larga, e dos vasos de barro cozido diver-
sos typos, servindo uns para uso domestico, outros, as
igaçabas, para o enterro dos defuntos. Cachimbos occor-
rem só no Rio Grande do Sul. Esta circumstancia, bem
como a occorrencia de bolas e de pedras de funda,
indicam uma posição especial para o Rio Grande do:
Sul, obrigando-nos a subdividir a provincia, em dous
districtos, um para o Rio Grande do Sul e outro para
o resto da provincia. Faltam, nesta provincia, objectos.
de nephrite, bem como de beryllo e amazonite.
3s. A provincia bahiana
E” provavel que, além do Espirito Santo, diversos
outros Estados do norte do Brazil têm de ser compre-
hendidos neste districto. Entre os traços característicos:
temos de mencionar os machados polidos de nephrite,
os tembetás de beryllo, amazonite e quartzite verde, os
cachimbos e os tumulos sepulchraes.
as en
Faltam morteiros zoomorphos, bolas, virotes e pe-
dras de funda. E” provavel que investigações ulteriores
demonstrarão dous elementos culturaes, differentes dos
quaes um, o do littoral, identiicar-se-ha com os Tupi-
nambás, sendo proprios a este elemento os tembetäs
mencionados, ao passo que o segundo corresponde aos
Tapuias, sendo caracterizado pelos tumulos, machados
de nephrite (1) e cachimbos. Naturalmente o contacto
continuo entre os dous elementos mencionados deve ter
contribuido para a diffusão mutua dos objectos cara-
cteristicos de cada districto. Outro assumpto, que me-
rece attenção em pesquizas ulteriores, é a relação inti-
ma que se nota entre o Rio Grande do Sul e o sertão
da Bahia, com respeito aos cachimbos.
4. A provincia amazonica
E” nesta provincia, sobre cuja archeologia devemos
valiosas informações aos srs. Fr. Hartt e Barbosa Ro-
drigues, que são encontrados os muyraquitans, dos quaes
trata o livro de Barbosa Rodrigues, e que deixam ver
relações mais estreitas com as Guyanas e a Venezuela
do que com o Brazil meridional e central. Outra par-
ticularidade desta região é o estylo singular de seus'
tembetäs e o caracter peculiar dos seus artefactos ce-
ramicos. Cheguei à conclusão de que os productos da
industria ceramica da região amazonica, exclusive talvez
os da ilha Marajó, denotam intimas relações com os dos
Caraibes da Venezuela e das Antilhas; e esta conclusão
vemos confirmada pelo estudo dos outros artefactos.
No Brazil central e meridional, entretanto, não são en-
contrados artefactos pertencentes a esta antiga cultura
caraibe.
(1) Nesta minha supposição, que os machados de nephrite
são particulares aos Tapuias, sou tambem confirmado por um
trecho da obra « Le Brésil» de Taunay et Denis, Paris 1822,
que enumera entre os utensílios usados por estes Indios (vol. IV
p. 222) une hache en néphrite, qu'on enduit de cire, et qu'on
fixe entre deux morceaux de bois ».
— 566 —
Os objectos de nephrite na região amazonica são
objectos de adorno, não occorrendo machados de ne-
phrite. Faltam nesta região morteiros zoomorphos,
virotes de pedra, pedras de fundas e cachimbos.
+
* *
Sao estes os principaes resultados do estudo com-
parativo da archeologia brazileira, tal como hoje ella se
nos apresenta. Nao duvido que tenham escapado 4 minha
attenção factos e publicações de importancia, mas de-
feitos desta ordem nunca podem ser evitados em um
primeiro ensaio como & o presente, que terá preenchido
seu fim, si aos futuros estudos analogos puder servir
de ponto de partida. O que actualmente dificulta em alto
grão os estudos desta ordem, é o facto da grande de-
segualdade de nossos conhecimentos, sendo a archeolo-
gia de certos territorios já bem estudada e a de muitos
outros quasi desconhecida.
Em geral póde-se dizer que os achados archeolo-
gicos do Brazil, que formam o principal objecto deste .
estudo, já são bem conhecidos e possuimos tambem nume-
rosas e minuciosas informações sobre os petroglyphos e
os sambaquis ; mas o que não tem sido estudado até agora
são os restos de antigas habitações, fortificações e pre-
tendidas cidades, bem como os tumulos sepulchraes.
Entre as antiguidades do Brazil são estas as que
pelo futuro em primeiro logar devem formar o objecto
de pesquizas archeologicas.
WIZ Informações contidas na litera=
tura antiga
Afim de completar o quadro, que da cultura antiga
dos indigenas do Brazil nos esboça a archeologia, estu-
dei nos ultimos annos a literatura do seculo XVI. con-
vencendo-me, entretanto, de que as informações sobre
utensilios domesticos etc., contidas nesta literatura são
escassas e de pouco valor. Os dados mais valiosos assim
encontrados referem-se a machados e outros utensilios
de pedra, a tembetis e ao costume de fumar.
PROPRES SD TN PO. O A eee ee + |
Deixo de dar os dados referentes aos muyraquitans
e tembetás, porque já Barbosa Rodrigues e Ladisläu
Netto trataram extensamente do assumpto e tambem
os relativos à ceramica, visto que Hartt (N.º 15 p. 63)
já deu um resumo historico a este respeito.
Dou em seguida os trechos mais importantes como
se acham nas publicações originaes.
Pero Vaz Caminha (1) diz na sua carta datada de
1.º de Maio de 1500, de Porto Seguro: «porque elles
não têm cousa que de ferro seja, e cortam sua madeira
e pãos com pedras feitas como cunhas, mettidas em um
pão entre duas talas muito bem atadas ».
Nos « Principios e origem dos Indios do Brazil » (2)
publicados pouco depois de 1584, lê-se: « Antes de te-
rem conhecimento dos Portuguezes, usavam de ferra-
mentas e instrumentos de pedra, osso, pão, cannas, den-
tes de animaes etc. e com estes derrubavam grandes
mattos com cunhas de pedra, ajudando-se do fogo».
Thevet (:3) refere-se aos mazhados de pedra com
as seguintes palavras: «... ils donnérent tout à un
Français, pour quatre haches et quelques petits coute-
aux. Ce qu'ils estimaient beaucoup, et non sans raison,
car cela leur est propre pour couper leur bois, lequel
auparavant étaient contraints de couper avec plerres».
As seguintes informações são extrahidas do livro
de Hans Staden. (4)
«Elles tinham antigamante, antes de chegarem os
navios, e têm ainda em muitos logares do paiz, onde
nenhum navio chegou, uma especie de pedra preta
(1) Carta de Pero Vaz Caminha. Dr. Zeferino Candido.
Brazil. Quarto Centenario do descobrimento do Brazil. Znsti-
tuto Historico, Rio de Janeiro, 1900 p. 372.
(2) Principios e origem dos Indios do Brazil e seus costu-
mes, adoração e cerimonias, Rev. do Inst. Hist. e Geogr. Bra-
gileiro. Tomo LVII. Parte I, Rio de Janeiro, 1894, p. 185-215.
(3) André Thevet. Les singularités de la France Antar-
ctique. Paris, 1878, p. 225.
(4) Hans Staden Suas viagens e captiveiro entre os sel-
vagens do Brazil. Edição. commemorativa do 4.º Centenario,
S. Paulo 1900, p. 129.
— 568 —
azulada que elles preparam como uma cunha, cuja
parte mais larga é mal cortante. Tem mais ou menos
um palmo de comprimento, dous dedos de grossura e
a largura de uma mão. Algumas são maiores, outras
menores. Tomam depois um pau fino, que dobram ao
redor da pedra e amarram com fibras de embira.»
E mais em p. 136.
«Perguntei-lhes com que cortavam os cabellos antes
dos navios lhes trazerem tesouras. Respondiam que toma-
vam uma cunha de pedra, e pondo uma outra pedra por
baixo dos cabellos, batiam até cortal-os. A corda no meio
da cabeça fazem com uma raspadeira, fabricada de uma
pedra clara, de que usavam muito para cortar. »
Sobre o costume de fumar encontramos nos «Prin-
cipios e origem dos Indios do Brazil», 1. c., p. 245, 0
seguinte :
«Costumam estes gentios beber fumos de potigma,
e por outro nome erva-santa; estas seccam e fazem de
uma foiha de palma uma cangoéra, que fica como ca-
nudo de cana, cheio desta erva e pondo-lhe fogo na
ponta mettem o mais grosso na bocca, e assim estão
chupando e bebendo aquelle fumo, e c têm por gran-
de mimo e regalo, e, deitados em suas rêdes, gastam,
em tomar estas fumaças parte do dia e das noites »
Gabriel Soares escreve ao mesmo respeito o se-
guinte :
«E alguns dos principaes, que estão neste conse-
lho, levam algumas cangoeiras de fumo, de que be-
bem ; o que começa de fazer o principal primeiro; e
para isso leva um moço que lhe dá a cangoeira acce-
sa, e como lhe toma a salva, manda a cangoeira a ou-
tro, que a não tem, e assim se revezam todos que a
não tem, com ella.»
«Esta cangoeira de fumo é um canudo que se faz
de uma folha de palma secca, e tem dentro tres ou
(1) Gabriel Soares de Souza. Tratado deseriptivo do Bra-
zil em 1587. Rev. Inst. Hist. e Geogr. do Brazil. Tomo XIV,
Rio de Janeiro 1879 p. 297.
“à cd +
Se Data ca ie
— 0969 —
quatro folhas seccas da herva-santa, a que os indios
chamam petume, a qual cangoeira atam pela banda mais
apertada com um fio, onde estão as folhas de petume,
e accendem esta cangoeira pela parte das folhas do pe-
tume, e como tem braza, a mettem na bocca.ÿ
Hans Staden, descrevendo a ceremonia da benção
dos Tammarakas pelo pagé, exprime-se do seguinte
modo (1. c. p. 142).
«Quando então todos estão reunidos, toma elle (o
pagé) cada Tammaraka de per si, e o enfumaça, com
uma herva, que chamam Bettin (petum).»
Em Thevet (1. c. p. 157) encontramos os seguin-
tes trechos: «Autre singularité d'une herbe, qu'ils
nomment en leur langue petum, laquelle ils portent
ordinairement avec eux, pour ce qu'ils l’estiment mer-
veilleusement profitable à plusieurs choses. Elle res-
semble à nôtre buglosse.
«Or ils cueillent soigneusement cette herbe et la
font secher à l'ombre dans leurs petites cabanes. La
manière d'en user est telle. Il enveloppent, estant sei-
che, quelque quantité de cést herbe en une feuille de
palmier, qui est fort grande, et la rollent comme de
la longueur d'une chandelle, puis mettent le feu par.
un bout, et en reçoivent la fumée par le nez, et par
la bouche».
Sobre o mesmo assumpto diz Jean de Leri (1)
«A respeito de plantas officinaes que a terra do
Brazil produz, uma existe entre outras, que os nossos
Tupinambás chamam petun. Esta planta apresenta a
forma da azedeira, etc...»
«Depois de a colherem, a penduram em pequenas
porções, e seccam em suas casas. Feito isto. tomam
quatro ou cinco folhas, que envolvem em uma grande
folha de palma, dando-lhe o feitio de cartucho de espe-
claria ; então chegam fogo à ponta mais fina, a accen-
(1) João de Leri. Historia de uma viagem feita à térra do
Brazil, traduzida por Tristão de Alencar Araripe. Ry. Inst. Hist.
e Geogr. do Brazil. Tomo LII, Parte II. Rio de Janeiro de 1889
p. 245.
deme poem a outra ponta na bocea, para tirar a fimaça,
que, não obstante lhes sahir pelas ventas e pelos oper-
culos do labios, todavia os sustenta de tal forma que
passam tres ou quatro dias sem alimentar-se com outra
qualquer cousa. principalmente se vão à guerra, e si e
necessidade obriga-os a essa abstinencia.
WHEE Melacoes das provincias archeo-
logicas com os territorios visinhos
Não podemos concluir esta discussão comparativa
sem entrar tambem no exame das relações que a anti-
ga cultura do Brazil mostra com a dos territorios vi-
sinhos. Já no meu estudo anterior nesta Revista (N. 16
p. 154) demonstrei a influencia da civilização andina
sobre a do Brazil meridional e central.
Não quero repetir aqui o que expuz naquelle logar,
mas preciso salientar a significação que neste sentido
tem a occorrencia occasional de metaes, como chapinhas
de prata no Rio Grande do Sul e um machado de cobre
n'uma ilha do Rio Ribeira, no Sul de S. Paulo, com-
municado por M. Uhle (Verhandl, Berliner Anthropolog.
Ges. 1888 p. 20). Neste sentido lembro aqui a affirma-
ção de Alvar Nuñez Cabeça de Vaca (|) que entre os
Guaranis observou machadinhas de cobre, ao passo que,
como já participei (N.º 76 p. 98 e 146), os Guaranis do
Paraguay possuiam enfeites de ouro e prata.
Chamei na mesma occasiao a attenção ao facto de
ter-se extendido antigamente a cultura da coca até o
sul do Brazil e sabemos que nesta região tambem os
patos eram tidos em estado domesticado, ao passo que
no norte do Brazil só viviam em estado selvagem.
Entre os objectos archeologicos do Rio Grande do
Sul, que fazem conhecer mais clarameute a influencia
de uma cultura occidental bem differente, merecem men-
ção especial os seguintes :
(1) Alvar Nunez Cabeça de Vaca, Commentaires. Paris
1837, p. 107.
— 011 —
1) Machados polidos com sulco circular sublerminal.
Considerei estes machados antigamente (N. 27 p:
220) como um typo andino argentino, proprio particu-
larmente aos Calchaquis /1) mas successivamente cheguei
a conhecer machados deste typo tambem do Rio Grande
do Sul e, embora raramente, tambem de S. Paulo. Fal-
tam-me, entretanto, exemplares de S. Paulo de provenien -
cia exacta e não me consta que machados deste grupo
fossem achados no Rio de Janeiro e na Bahia. Com
razão ligou tambem Ambrosetti, (2) especial attenção a
esta forma de machados. E” preciso, todavia, notar, que
este typo de machados é encontrado tambem na região
amazonica, como provam as figuras publicadas por Bar-
boza Rodrigues (N. 9, 1, fig. 24 e 35).
Segundo Ambrosetti, faltam machados de sulco
subterminal nos paizes como Perú, Equador e Columbia
atê Mexico.
Fica evidente assim que este typo de machados é
digno de attenção especial para o estudo comparativo
da archeologia sul-americana.
2) Machados de entalhes lateraes
Este typo, occorrente no Rio Grande do Sul, parece
não ser representado na Argentina, onde, porém, segundo
toda a probabilidade tem de ser encontrado ainda, sen-
do em compensação bem commum na região amazonica,
Barboza Rodrigues descreve e figura nas suas «Antigui-
dades Amazonicas» (N. 9 e 9a p. 37) numerosos exem-
plares deste typo, sendo os figurados todos com um
entalhe só de cada lado, ao passo que Katzer entre os
objectos de pedra, usados pelos indios Munduructis (N.
29 p. 39) figura machados com um e com dous enta-
(1) veja a descripção dada por Fl. Ameghino 1. c. I, p, 330
RR fo 318 e 319:
(2) J. B. Ambroseti, J. Calchaqui. Boilettino della Societá
Geographica Italiana, I. Roma 1903. p. 10.
— 972 —
lhes de cada lado. Facto que merece especial menção
é a occorrencia de um machado de entalhes lateraes em
um sambaqui de Santa Catharina, qu foi descripto por
E. Wiener 1c. p. 13 Est. 1 fig. 2
Parece pois que este typo de. machados ja desde
tempos remotos está representado no Brazil, não per-
tencendo ao grupo dos objectos introduzidos da Argen-
tina. Dos machados polidos dos Cachalquis tratou Am-
brosetti detalhadamente (N. 5 p. 164 ss. e N. 7 p. 92
ss.) Ambrosetti figura tambem dous machados, que no
pólo rhombo têm uma estreita perfuração, destinada à
fixação no cabo. K' de interesse que Barbosa Rodrigues
(N. 9, 1, fig. 40 e 43), descreve machados de ferro bem
semelhantes, emquanto não nos consta que no Brazil ex-
tra-amazonica occorram machados deste typo.
D). Olas
Communs no Rio Grande do Sul, taltam no resto
do Brazil meridional, com excepção de alguns samba-
quis de Santa Catharina.
Quanto à distribuição geographica deste typo de
armas, estende-se a mesma largamente sobre a Argen-
tina. E de interesse saber, entretanto, que exemplares de
bolas foram encontradas tambem na Amazonia por Bar-
bosa Rodrigues, que as figurou (N. 9, I, Est. II fig. 6
e 7) tratando-se de bolas de forma alongada, com um
profundo sulco equatorial.
Fl. Ameghino figurou (8.1, Pl. VIII fig. 295 e PL
VTL fie: oi 5) duas bolas alongadas perfeitamente eguaes
às que Barbosa Rodrigues figurou, sendo a primeira
proveniente da Republica do Uruguay, a segunda do
Perú. Ameghino trata largamente da distribuição geo-
graphica destas armas e figura (Pl. XVII, fig. 519)
uma, que foi encontrada na Ilha de Guadelupe, consi-
derando por este motivo os Caraibes como os principaes
fabricantes destas bolas, ideia que não podemcs adoptar,
em vista da grande representação deste typo de armas
no Kio Grande do Sul e no Uruguay.
— 013 —
4) Trochos
Os discos perfurados do Rio Grande do Sul pare-
cem restrictos na sua distribuição ao extremo sul do
Brazil. não me constando a sua existencia na Argerti-
na, com excepção da zona andina.
Como já à p..... expliquei, estes objectos, que an-
tigamente foram designados como imachados peclusos,
serviam de pedras de funda, que estavam presas por
uma correla.
Designarei pelo futuro estes objectos com a de-
nominação especial de «trochos» : As informações que
Florentino Ameghino (8. I, p. 440 e 531) nos dá sobre
estas armas, encontradas em Salta, combinam perfeita-
mente com as nossas.
Ameghino figura varios trochos, dos quaes um pro-
veniente do Chile (I p. 440 fig. 422), corresponde ao
typo rio-grandense, ao passo que o de figura 423, pro-
veniente do Perú, tem a forma de pentagono.
Segundo Ameghino estes trochos occorrem não só
em Salto, mas tambem no Chile, Perú, Bolivia e até no
Mexico. A occorrencia destes trochos no Rio Grande
do Sul prova pois, de modo claro, a influencia da cul-
tura calchaqui sobre a do Rio Grande do Sul.
D) Virotes
Os objectos de pedra polida, de forma biconica, que
sob este nome descrevi, apresentam-se em dous typos
differentes em forma e tamanho, dos quaes os menores
e mais simples provêm do Rio Grande do Sul, os
maiores e pesados dos Estados de São Paulo e Paraná.
Si estes serviram, como supponho, para fazer cahirdas
arvores altas os pinhões, é de presumir que têm de ser
encontrados ainda no planalto de Cima da Serra, em
Rio Grande do Sul, porque essa é egualmente uma re-
gião abundante em pinheiros. Os virotes dos actuaes
indigenas do Brazil central são grossas pontas de fle-
chas, feitas de madeira e destinadas a atordoar animaes,
que o caçador quer obter em estado vivo. E” singular
NA Yee
que nas publicações, referentes à archeclogia da Argen-
tina, da Venezuelo etc., não se acha descripto objecto
algum que possa ser considerado como virote. Faltam
os virotes de pedra tambem na Archeologia da Ama-
zonia. Parece, pois, que virotes, em tempos prehisto-
ricos, e talvez até à nossa épocha, formavam uma par-
ticularidade do indigena no Brazil meridional e central.
6) Cachimbo:
Objectos semelhantes aos do Rio Grande do Sul e
do sertão da Bahia, são representados entre as anti-
guidades calchaquis. F” notavel que os cachimbos faltem
não só no littoral do Brazil, mas tambem na região
amazonica, bem como no Perú.
Nestas circumstancias, a distribuição geographica
dos cachimbos prehistoricos da America meridional é
evidentemente assumpto de grande interesse, apropria-
do a dar-nos pelo futuro, valiosas informações. Quanto
à distribuição destes artefactos no Brazil, temos de no-
tar que Ladisläu Netto (N. 34, p. 448 ss.), deu figuras
de cachimbos, provenientes de Minas, Bahia e Alagoas.
Este ultimo assemelha-se, pela sua forma de sapato,
perfeitamente ao que aqui, Est. XX, fig. 36, foi figu-
rado, proveniente da Bahia. Parece que a área, onde
são encontrados cachimbos na America Meridional, se
extende do Norte da Argentina até o Rio Grande Sul
e de lá, pelo interior do paiz, até Alagõas.
7) Fusos
O objecto que à Est. XVIII fig. 16, figurei parece
um pouco grosso ou alto para o corpo de um fuso,
mas comparando-o com os numerosos fusos de barro
figurados por archeologos argentinos (1) verifica-se sua
(1) J. B. Ambrosetti (N. 5, p. 190 ss e N. 7, p. 34) e Leh-
mann-Nitsche (N. 28. Lam V B, fig. 6, 7, 8, 9 e 12) e FI.
Ameghino (I p. 294 Pl. VII fig. 267).
Os corpos de fusos prehistoricos consistiam de pedra, barro
cozido e madeira, ao passo que os que actualmente se usam em
Jujuy, Salta etc., são de madeira.
ee ae
concordancia com os que fazem parte das antiguidades
calchaquis e que não só pela variação em tamanho,
mas tambem pela comparação com fusos analogos, ain-
da hoje usados na mesma região, não deixam duvida
a respeito de sua verdadeira significação. Não me cons-
ta, que no liltoral do Brazil estivessem em uso corpos
de fuso de barro cozido, mesmo em tempos historicos.
Os fusos que conheço do littoral de S. Paulo são com-
postos de uma varinha de madeira com uma rodeila
de madeira, ambas de brajaúba. Parece-me que este as-
sumpto merece mais attenção, sendo entretanto a exis-
tencia de fusos de barro cozido, entre as antiguidades
riograndenses e calchaquis, mais uma prova da influen-
cia que a cultura calchaqui exercia sobre a dos povos
visinhos, até no Brazil meridional. Quem quizer apro-
fundar os estudos referentes à archeologia do Brazil
meridional, não poderá realizar o seu intento sem co-
nhecer tambem a archeologia argentina.
Deve-se attribuir à influencia directa ou indirecta
da cultura calchaqui os objectos singulares da archeo-
logia do Rio Grande do Sul dos quaes no precedente
particalarmente tratamos, à excepção dos virotes e dos.
machados de entalhes lateraes, que não são representa-
dos na archeologia argentina e que - parecem proprios
à cultura do Brazil meridional e central.
Resumindo os resultados principaes deste nosso
estudo. chegamos à conclusão de que culturas de alto
grão de desenvolvimento se estabeleceram ao longo dos
Ândes, desde o norte da Argentina até o Mexico, in-
fluindo consideravelmente sobre a região amazonica, a
Venezuela e as Antilhas, mas não sobre o Brazil cen-
tral e meridional.
Estas partes extra-amazonicas do Brazil, bem como
a região oriental da Argentina, tambem em tempos pre-
historicos não possuiam um grão de desenvolvimento
cultural mais elevado do que ainda hoje se nota entre
o seu elemento indigena.
— 916 —
Segundo toda a probabilidade à à cultura caicha-
qui que aevemos attrinuir em grande parte os objectos
archeologicos do Brazil meridional, que não podemoscon-
siderar como primitivamente originarios desta região.
Neste sentido o exame comparativo e analytico
dos objectos prehistoricos do Brazil meridional é de
grande importancia, promettendo-nos esclarecimentos
sobre as antigas relações dos aborigenes com os povos
visinhos.
Literatura
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— 581 —
EXPLICAÇÃO DAS ESTAMPAS XX-XXIII
Est. XX
Todos os objectos figurados nesta estampa, bem
como os de proveniencia rio-grandense da Est. XVII
fazem parte da antiga collecçäo G. von Koseritz.
Fig.
É.
so
Grande machado polido de duplo entalhe de
cada lado. 2/5 Tam. nat.
Grande machado, polido com sulco circular.
1/3 Tam. nat.
Machado polido, com sulco circular subtermi-
nal. 3/3 Tam. nat.
Machado polido com extremidade posterior ou
rhomba, acuminada. 2/5 Tam. nat.
Chapa de pedra polida, com duas perfurações,
tendo servido de adorno. 1/2 Tam. nat
Machado de pedra polida, tendo a extremida-
de posterior ou rhomba, larga. 1/3 Tam. nat.
Cascalho roliço de quartzo perfurado, tendo
servido de adorno. 1/2 Tam. nat.
Pedra-martello, mostrando no centro a covi-
nha para o dedo. 1/2 Tam. nat.
Bola de pontas, de minerio de ferro. 1/2.
Tam. nat.
Est. XXI
A’ excepção das figs. 12, 13, 14, 18 e 20 os obje-
etos figurados são todos do Rio Grande do Sul e pro-
venientes da collecçäo C. von Koseritz, excepto o vi-
róte fig. 15, que foi offerecido pelo Sr. Dr. Martim
Francisco de Andrade, em Santos.
Fig: 10.
Bie.
Bio. 12.
Morteiro zoomorpho, em forma de pomba
voando, proveniente de um sambaqui. 1/3
Tam. nat.
O mesmo morteiro, visto de lado.
Peso de réde de barro cozido, achado em
uma igacaba em ». Vicente e offerecido pelo
Sr. Benedicto Calixto. 3/8 Tam. nat.
“o
=
E ASP
Peso de rêde, de barro cozido, usado actual-
mente pelos pescadores do municipio de San-
tos. 3/8 Tam. nat.
Viróte de pedra polida do Est. de S. Paulo.
1/2 Tama:
Viróte de pedra polida. 2/5 Tam. nat.
Fuso de barro cozido. 3,5 Tam. nat.
Viróte de pedra, incompletamente polido.
3/5 Tam. nat.
Tembeta de crystal de rocha; Est. de S.
Paulo: 20 ams mail!
Cachimbo em forma de cabeça de onça, de
barro cozido. 2/3 Tam. nat.
Tembeta de quartzo; Est. de S. Paulo. 12.
Tam. nat.
Est. SX Mil
objectos figurados provêm todos do Est. de $.
Mão de pilão. 1/3 Tam. nat.
Machado polido, semilunar, de S. Bento do
Sapucahy, Est. S. Paulo; offerta do Dr. Mi-
guel Monteiro de Godoy. 3/10 Tam. nat.
(NE Car).
Chapa de pedra polida, de forma quadrangu-
lar, servindo de raspadeira. 1/3 Tam. nat.
Machado semicircular polido, de diabase ; of-
ferta do Coronel A. G. Nogueira Cobra, de
Bananal. 3/10 Tam. nat. (N. Cat. 778).
Objecto de osso trabalhado, com dous enta-
lhes lateraes, para a suspensão como adorno,
encontrado em um Sambaqui de S. Vicente
e offerecido pelo Snr. Benedicto Calixto 1/2
tam. nat. (N. Cat. 568).
Ponta de flecha de crystal de rocha. 1/2
Tam. nat.
Ponta de flecha de pederneira, offerecida pelo
Snr. Dr, J. A. Guimaraes Junior, encontrada
— 583 —
em Ipanema, no leito de um ribeirão. 2/3
Tam. nat. (N. Cat. 422).
Ponta de arpão de agatha polida. 1/2 Tam.
nat.
Pedra de amolar, de um sambaqui de Iguape.
E Tam. nat. (NO Cat 907).
Almofariz de um sambaqui de Iguape. 1/3
ams nat (Ne. Cat 2402)
Est. XXIII
A’ excepção da fig. 31, toda as demais figuras re-
ferem-se a objectos provenientes do Est. da Bahia.,
tendo sido collegidos todos em Amargosa pelo Snr.
Christovam Barreto, menos o da fig. 40 que, em Ma-
chado Portella (Bahia) foi collegido pelo Snr. Eustachio
Blesa.
31. Bacia funeraria, encontrada em igaçaba. Est.
“o
rig.
ig. 32.
e. 33.
g. Al.
S. Paulo. 1/4 Tam. nat. (N. Cat. 504).
Machado polido, de nephrtie verde-claro. 2/5
Tam. nat. (N. Cat. 550).
Pedra de neplrite com sulco, para afiar ma-
chados. 2/5 Tam. nat. (N. Cat. 915).
Machado de nephrite verde, polido. 1/3 Tam.
nat. (N. Cat. 555).
Molde de barro cozido, para ornamentação de
urnas. 3/6 Tam. nat. (N. Cat. 542). .
Cachimbo de barro cozido. 1/4 Tam. nat.
(N. Cat. 544).
Tembeta de amazonite. 2/3 Tam. nat. (N.
Cat. 538).
Tambetä de berillo. 2/3 Tam. nat. (N. Cat.
939).
Tembeta de berillo. 2/3 Tam. nat. (N. Cat.
940):
Tambeta de quartzito verde. 1/2 Tam. nat.
(N. Cat. 776).
Cachimbo de barro cozido. 1/4 Tam. nat.
(N. Cat. 943).
BIBLIOGRAPHIA
1902--1904
Historia Natural e Anthropologia do Brazil
POR
HERMANN E RODOLPHO VON JHERING
A. Periodicos
Boletim do Museu Paraense de Historia Natural
E ethnographia (Musew Goeldi) Vol. HI. Ns. 3 e 4.
Dezembro 1902, Parä-Brazii 1902 e Vol. IV, n. 7.
Fevereiro 1904.
O fasciculo, que fecha o terceiro volume, contêm
na primeira parte o necrologio do dr. Karl von Kratz-
Koschleu, distincto geologo, que mal tinha entrado no
seu novo campo de acção, como chefe de secção do
Museu Paraense; foi victimado pela febre amarella,
aquella mesma funesta doença, à qual succumbiu poucos
antes em Manaus, outro joven, o talentoso scientista,
o pranteado dr. P. Taubert. A respectiva biographia,
escripta pelo dr. (Goeldi, é acompanhada de um bom
retrato.
Na segunda parte encontramos diversos trabalhos
scientificos de grande interesse e valor, como especial-
mente a monographia das especies paraenses do genero
Euglossa, que, não sómente contem a descripção de al-
gumas novas especies (Æ. bicolor e poiita), mas for-.
— 585 —
nece tambem dados interessantes sobre a biologia, es-
pecialmente os ninhos e larvas dessas abelhas. Em ap=
pendice c sr. Ducke descreve algumas especies novas
de abelhas parasiticas, pertencentes aos generos Melis-
sa e Mesocheira. Entre as contribuições do dr. J. Hu-
ber, chamam o interesse especialmente as sobre os fu-
ros de Bréves e a sua vegetação e geologia e a mo-
nographia das arvores de borracha da região amazo-
nica do genero Hevea. Outro trabalho do mesmo au-
tor é a D.º continuação do artigo «Materiaes para a
flora amazonica».
O artigo do sr. Huber «Sobre os materiaes do
ninho do Japu ( Osiniops decumanus )» refere-se à pe-
quena controversia que tive com o dr. Goeldi sobre as
fibras, empregadas pelo Japú, para os seus ninhos. O
autor rectifica o seu engano anterior, de ser a respe-
ctiva fibra do Pará um lichen, descrevendo-a co.no
cogumelo do genero Marasmius e rejeita a minha sup-
posição de que este passaro, tambem no Para, construa
o ninho com fios de Tillandsia usnevides, pela affirma-
ção de que esta especie de Bromeliacea falta completa-
mente no valle amazonico. Em um posts-criptum o
sr. Goeldi dá a esta controversia, bastante insignificante,
sobre as fibras de um ninho, uma importancia que de
fórma alguma ella tem Não passo a este terreno de
aggressäo pessoal, nem tão pouco deixarei de tratar
qualquer controversia scientifica da mesma forma obje-
ctiva como ê a regra nos periodicos scientificos.
Aiém dos trabalhos já mencionados, acham-se mais,
neste volume, os seguintes:
« Lista das aves indicadas como provenientes da
Amazonia nos 27 volumes do Catalogue of Birds of
British Museum de Londres (1874 — 1898)» pelos Drs.
E. A. Goeldi e G. Hagmann. « Maravilhas da natureza
na Ilha de Marajó », pelo Dr. Emilio A. Goeldi; « La-
certilios » pelo Dr. Emilio A. Goeldi.
O numero 1 do volume IV contem em primeiro
logar o relatorio do Director do Museu, relativo ao
anno de 1901.
— 586 —
Na parte scientifica publica-se o catalogo dos Mam-
miferos do Museu pelos Srs. E. A. Goeldi e G. Hag-
mann, tendo como supplementos: 1) [Exame de uma
colleeção de Chiropteros (Morcegos) do Pará por Old-
field Thomas; 2) Exame do material de Canides (cães
e raposas) colleccionado na região amazonica pelo Museu
Goeldi no Pará, pelo Prof. Dr. Theophil Studer, com
duas estampas.
Memorias do Museu Góeldi, Il. Rio de Janeiro,
1902.
Comprehende este fasciculo um estudo sobre a for-
mação das galhadas de 3 especies de veados, que são
o Galheiro grande (Cervus maludosus), o veado branco
ou campeiro (C. campestris) e o veado galheiro da
Guyana (C. weegmannr).. Esta ultima especie ainda
nao era conhecida do Brazil e foi, pelo auctor, obtida
na Guyana, entre o Amazonas e o rio Oyapok.
Revista do Instituto Geographico e Historico da
Bahia, Vol. IX, Bahia, 1903.
Mencionamos dous artigos que têm por objecto.
assumptos de sciencia natural e ethnologia : Os indige-
nas da Bahia pelo Professor Borges Reis p. 9—47 e
as abelhas sociaes indigenas do Brazil, pelo Dr. H. von
Ihering p. 151 — 197.
Revista Trimensal do Instituto Historico e Geogra-
phico Brasileiro, Tomo LXIII, Rio de Janeiro 1902.
Além de grande numero de artigos historicos, bio-
eraphicos e publicação de documentos antigos, contem
este volume um trabalho de interesse ethnologico : «Me-
moria sobre usos e costumes de indios guaranys, caiuás
botucudos», por Monsenhor Claro Monteiro do Amaral.
O autor visitou as tribus do valle do Paranapanema,
fazendo-nos communicações sobre o modo de vida, os
costumes e o caracter desses indios, cuja indole descon-
fiada e reconcentrada elle attribue aos mãos tratos que,
durante muitos annos receberam da população branca.
,
ae
-- DST —
Elles habituaram-se a vér, em todos os brancos, ini-
migos e perseguidores de sua raça, dos quaes só lhes
vem desgraça, o que tambem se exprime na denomina-
ção que elles têm para os brancos: « drupigud, o que
significa: gente contraria, maldosa».
Os guaranis consideram-se superiores às outras tri-
bus, às quaes elles chamam botocudos, nome que elles
usam com a mesma significação como cazud — tribu
differente.
Archivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro
Vol. XII, 1903.
Este volume contem, alem de um estudo do Dr. J.
B. de Lacerda sobre a febre amarella e alem de varias
publicações dos Snrs. Carlos Moreira e Alipio Miranda
Ribeiro, das quaes trataremos na literatura zoologica,
diversos manuscriptos ineditos de Alexandre Rodrigues
Ferreira, referentes ao Peixe pirarucü, ao peixe-boi,
às tartarugas, cuja denominação indigina é Yurard-
reté e sobre os indios Cambebas. Temos de mencio-
nar mais o artigo do Snr. José Augusto Caldas, apon-
tamentos para a organisação da grammatica bororó e
o catalogo dos peixes do Museu Nacional, organisado
pelos Snr. G. Schreiner e Alipio de Miranda Ribeiro,
incluindo a descripção de diversas especies novas, que
são: Spheroides adspersus, Sternopygus limbatus, Sar-
dinella piquitwiga, Sardinella pernambucana, Girar-
dinus zonatus e Echidna sp. O Snr. Branner dá a bi-
bliographia completa das publicações referentes à geo-
logia, mineralogia e paleontologia do Brazil.
A Lavoura. Boletim da Sociedade Nacional de
Agricultura Brasileira, Capital Federal 1995.
Alem de diversos artigos a que nos referimos na
secção zoologica, contem o volume diversas publicações
do Snr. Gustavo D'Utra sobre as molestia das larangei-
ras e sobre a lagarta cornuta, lagarta da borboleta
Protoparce carolina L., que prejudica consideravelmente
as plantações de fumo, devorando as folhas.
— 988 —
Revista do Instituto Historico e Geographico de
Sao Paulo, Volume VII 1902. S. Paulo 1903.
A maior parte dos artigos contidos neste volume
referem-se, como é natural, a assumptos da historia pa-
tria ; alguns, contudo, occupam-se de materias que egual-
mente formam objecto de estudo da presente Revista.
Entre esses artigos mencionamos : Os mappas mais an-
tigos do Brazil, pelo Dr. Orville A. Derby—Qual foi
o principal chefe da nação Tupi em Piratininga, pelo
Dr. João Mendes de Almeida—Contribuições para a
ethnologia paulista, pelo Sr. Ricardo Krone—e Consi-
derações sobre o logar, onde nos campos do Ypiranga,
D. Pedro proclamou a independencia, em 7 de Setembro
de 1822, pelo Dr. Antonio Piza. Neste ultimo trabalho
prova-se, por um documento da Camara Municipal de $.
Paulo, do anno 1825, que o local onde esteve o Prin-
cipe Regente no momento em que proferiu o brado de
« Independencia ou morte », fica a 184 braças ou 405
metros de distancia da ponte velha sobre o ribeirão
do Ypiranga, na antiga estrada de S. Paulo a Santos.
Este ponto, verificado pelo dr. E. Loschi e o re-
dactor desta Revista, acha-se a 110 metros ao norte da
Praça da Independencia e foi demarcado.
O artigo do Sr. Krone é de interesse, especialmente
pela descripçäo da não pequena série de craneos huma-
nos, que successivamente conseguiu retirar dos Sam-
baquis. Relativamente à origem destes casqueiros 0
auctor limita-se a repetir a idéa antiga de sua constru-
cção pelas conchas dos molluscos comidos. Nova é a
idéa de explicar a presença de um esqueleto humano
pela supposição de ter sido surprehendido pela morte o
respectivo individuo no logar mesmo onde toi encon-
trado, isto é, que não foi alli sepultado.
O numero dos craneos examinados é de 8, entre
os quaes o auctor distingue 4 de homens e 4 de’ mu-
lheres. Os craneos dos homens são brachycephalos
com o indice médio 81,7; os das mulheres são ortho-
cephalos com o indice médio de 76,3 mm.
— 989 —
Boletim da Agricultura. São Paulo, 1908.
Contèm este volume, além das publicações mencio-
nadas separadamente em outro logar, um grande nu-
mero de artigos sobre agricultura e criação, ensinando
os processos mais modernos, divu:gando conhecimentos
indispensaveis para uma cultura racional.
Salientamos dous interessantes trabalhos sobre a
creação e raças de gado, um do sr. Estevam Marcolino
de Figueiredo, outro do sr. Rodolpho Endlich, sendo
este ultimo traduzido da Revista allemã «Der Tropen-
Pflanzery. A’ p. 22 do volume de 1904 da o sr.
Hempel a descripcäo de uma nova especie de fungo
nocivo ao cacaoeiro na Bahia, denominando-o Colonectria
bahiensas.
No volume de 1903 trata o mesmo auctor da po-
dridão das laranjas e do fungo, Penicillium digitatum
Fr., que é a causa deste mal
Revista Agricola. Lavoura, Comercio e Indus-
trio. São Paulo, 1904. Ns. 102—1171.
Trata de muitas questões agricolas, de grande inte-
resse real. como do café, aramina, polycultura, forne-
cendo esclarecimentos utilissimos. Mencionamos o ar-
tigo «Industria pastoril», pelo Sr. Ricardo E. Ferreira
de Carvalho; «Gado Caracú-Junqueira», pelo Sr. Alberto
Diniz Junqueira; e artigos do Sr. Gustavo d'Utra, sobre
os inimigos do algodoeiro.
Num artigo «Industria pastoril», o dr. Luiz Pe-
reira Barreto, trata das diversas raças bovinas do Es-
tado, condemnando o cruzamento com o gado zebü ;
denominando, certamente por engano, este boi Bos mos-
chatus, em vez de B. indicus, originou equivocos.
Revista do Centro de Sciencias, Letras e Artes
de Campinas Ns. 1--4 de Outubro de 1902 até Julho
de 1904.
Mencionamos especialmente dous artigos dos Snrs.
Drs. João Cardoso e Souza Brito contra a devastação
das mattas, reclamando providencias para serem oppos-
— 990 —
tas restricções à destruição das florestas, cujo grande
valor para o clima e fertilidade é evidente.
O Snr. José de Campos Novaes publica a corres-
pondencia de Correa de Mello, a que já nos referimos
ip. 165 do Volume IV.
O Snr. Edmundo Krug sob o titulo «Excursão En-
tomologica ao Sul do Estado de S. Paulo», dá impressões
de viagem. Rlwpsalis pilocarpa por Alberto Lofgren, é
a descripçäo de uma nova especie de Cacteae o Snr. Gus-
tavo Edwall no artigo «Plantas paulistas novas ou me-
nos conhecidas», descreve quatro especies novas da fa-,
milia Orchidacew ; são ellas: Vanilla dretschiana,kes-
trepia crassifolia, Epidendrum sessiliflerum e Chy-
troglossa paulensis.
«Vocabulario dos Coroados» por Charles Dulley,
é uma pequena mas valiosa collecçäo de vocabulos dos
Coroados do Rio São Matheus. «Grutas Calcareas do
Valle da Ribeira» do Snr. Ricardo Krone denomina-se
um artigo em que de novo é tratado o assumpto que
ja formou o objecto do artigo domesmo auctor, publicado
nesta Revista Vol. IH p. 477 ss.
Boteteim do Museu Paranaense. N. 1 Curyteba
1904.
Inicia a serie de artigos, contidos nesta primeira
publicação do Museu Paranaense, o do seu director Snr.
Romario Martins. historiando o desenvolvimento desse
Museu, que, fundado em 1870, conservou-se longo tem-
po debaixo da direcção do Snr. desembargador Erme-
lino Agostinho de Leão. Após a morte deste, assumiu
a direcção do estabelecimento o sr. Romario Martins.
O artigo sobre Sambaquis, do Snr. Octacilio Barbedo,
Porto Alegre, menciona à p. 11 um interessante facto,
que mais uma vez prova as modificações consideraveis,
que a costa braziieira, no correr dos tempos, tem soffri-
do. E o caso de terem sido encontrados molluscos da
especie Ostrea brasiliana no districto de Pedras Bran-
cas, a meio kilometro de distarcia da Lagoa dos Pa-
tos, por occasião de uma excavação em uma profundidade
es Op
que näo excedia a 2 metros, o que torna evidente que
toda esta região estava antigamente coberta pelo oceano.
Azambuja, Graciano A. de Annuario do Estado
do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 1903 e 1904.
Dos artigos contidos nos dous volumes salientamos
um interessante trabalho do Rev. A Schupp. S. J. -Os
aborigenes do Brazil sob o ponto de vista ethnologico
1903 p. 145—159 e 1904 p. 116-128. Este artigo,
que se occupa detalhadamente com os objectos indigenas
existentes no Museu do Collegio de N. S. da Conceição
em S. Leopoldo, dando numerosas figuras exvlicativas,
foi primeiro publicado em 1892 na revista «Natur und
Offenbarung, Miinster (Allemanha) e, depois de revisto e
corrigido pelo auctor, foi traduzido para o Annuario.
Outro artigo, que trata de assumptos ethnologicos,
é o do Rev. Padre C. Teschauer S. J. «Paranduba rio-
grandense» 1903 p. 300—317 e 1904 p. 241— 271, con-
tendo uma collecção de palavras e expressões usadas na
lingua portugueza do Brazil e particularmente no Rio
Grande do Sul.
E. Botanica
Pilger, Robert. Beitrag zur flora von Matto
Grosso. Botanischer Bericht über die Expedition von
Dr. Hermann Meyer nach Central-Brasilien 1899.
Botanische Jahrbücher fir Systematik, Pflanzenge-
schichte und Pflanzengeographie, herausgegeben von
Aenean. VOL A XT Heft. Lepag 1901 py.
126-138.
No comego do anno de 1899 emprehendeu o Dr.
Hermann Meyer uma expedição às fontes do Xingu,
para completar as colleeções e os estudos feitos em uma
viagem anterior. O auctor tomou parte nesta expedi-
ção, acompanhando-a pelo valle do Cuyaba até o rio
Paranatinga e de là até às fontes do Ronuro. Alli elle
se desligou do grosso da expedição, que proseguiu via-
— 592 —
gem em candas, descendo o rio, emquanto o Sr. Pil-
ger, com mais alguns companheiros, se dirigiu pelos
campos ao Coliséo, onde, depois de uma demora de
tres mezes, o sr. Meyer veiu reunir-se-lhe novamente.
A flora destas regiões visitadas pelo auctor foi exa-
minada attentamente e a descripção das especies en-
contradas, entre ellas muitas novas, occupa a primeira
parte do trabalho. A segunda parte versa sobre a geo-
graphia botanica do Matto Grosso.
Ha aqui descripções do aspecto exterior das re-
giões percorridas, de notavel realidade, reproduzindo-se
fielmente a expressão, a physionomia da paizagem, co-
mo que retratada ao vivo. O auctor distingue tres for-
mações:—a dos campos abertos, a dos mattinhos de
Buritys nos nascedouros dos rios, e a dos mattos mais
densos e largos no curso dos rios. A vegetação destas
formações e os diversos aspectos que ella apresenta
com a mudança das estações são descriptos minuciosa-
mente.
Discutindo afinal a divisão do Brazil em provin-
cias botanicas, o sr. Pilger opina não ser admissivel
uma linha divisoria entre as cabeceiras de Xingü-To-
cantins de um lado e as do Paraguay do outro lado,
sendo que o planalto de Goyaz deve ser reunido à pro-
vincia sul -brazileira, cujo limite ao norte seria a beira
do planalto central, chegando a divisa a approximar-se
para oeste, das fontes do Paraguay; os Estados de
Maranhão, Ceará e e devem egualmente fazer
parte da provincia sul-brazileira.
Spencer, Le M Moore. The phaneroganue oo-
tany of the Matto Grosso Expedition, 1891-92. Pla-
tes XXI XXXIX, and Map. The Transactions of the
Linnean Socreiy of London. Vol. IV Part 3, London
1895 p. 265-516.
O auctor tomou parte, como botanico, em uma ex-
pedição organizada por um syndicato inglez, o quai,
tendo obtido previlegio da exploração mineral de cer-
tas regiões do Matto Grosso, tinha assumido o com-
CE ee ot ne ee ee ee ee A NY
À A She pedi:
— 093 —
promisso de proceder a estudos geologicos e botanicos
nas respectivas regiões. São os terrenos perto de Santa
Cruz, no Rio Paraguay, as vizinhanças de Corumbá,
que, quanto à sua flora, foram assim examinadas minu-
ciosamente pelo auctor, que não só dá a descripção de
muitas especies novas, como tambem procura determinar
com que porcentagem a Amazonia, o Sul do Brazil e
Brazil-Guyana estão representados nestas floras, chegando
dahi a certas conclusões sobre a propagação das plan-
tas, e as vias que mais favoraveis são para este fim.
Moreira, Carlos. Relatorio das Excursões effe-
ctuadas na margem esquerda do Rio Branco, em 8.
Paulo e no Hatiaya, na serra da Mantiqueira pelos
assistentes das secções de Botanica e Zoologia, Dr.
Ernst Hemmendorff e Carlos Moreira. Archivos do
Museu Nacional do Rio de Janeiro. Vol. XI. Rio de
Janeiro 1903, p. 159-168.
O auctor trata de uma excursão que fez ao Estado
de S. Paulo e de outra aos campos do Itatiaya, onde,
na altura de 2200 ms., permaneceu seis dias, sendo
muito escassa a colheita zoologica, devido especialmen-
te à época desfavoravel do inverno.
Dusen, P. Sur la flore de la Serra do Itatiaya
au Brésil. Copia separada dos Archivos do Museu
Nacional do Rio de Janeiro. Vol. XII 1905.
O auctor emprehendeu, em serviço do Museu Na-
cional do Rio de Janeiro, uma excursão botanica ao
latiaya, onde se demorou durante o inverno de 1902.
Como uma secca atrazasse o desenvelvimento da
flora, a colleeção feita tinha muitas lacunas, as quaes,
no emtanto, o auctor conseguiu fazer desapparecer por
meio das colleeções do Sr. Ule, que egualmente tinha
feito visitas botanicas ao Itatiaya, e cuja colheita, em
parte indeterminada, estava guardada no Museu Nacional.
Assim, o auctor conseguiu tornar a descripção da
flora desta serra a mais completa possivel, accrescen-
tando um grande numero de especies novas à flora
brazileira. |
— 994 —
Plane, Auguste. L’Amazonie. Uuvrage orné de
15 gravures hors texte et de 2 cartes. Paris, 1903.
,
O auctor, attendendo à importancia cada vez mais
crescente do commercio de borracha e à deficiencia, ou
melhor, total ausencia da respectiva literatura, resolveu
visitar a Amazonia, a terra da borracha por excellencia,
que, a seu ver, nunca perderá esta supremacia sobre
todas as outras regiões do globo.
Dirigindo-se pelo Perú ao valle Amazonico, chega
à conciusão de que, apesar da estrada de ferro já ter
galgado os Andes pelo lado occidental, as dificuldades
de communicação a vencer para ganhar o Pacifico são
tão grandes, que a exportação da borracha por este ca-
minho ainda por muito tempo não poderá avultar. Os
resultados desta expedição foram publicados pelo auetor
no seu livro Le Pérou. As escalas obrigatorias para
o transporte da borracha são: Manäus e Belém; e foi
justamente nessa linha qne o Sr. Plane se demorou
mais tempo, aprofundando os estudos, acompanhando
pessoalmente todos os detalhes da producção da borra-
cha, percorrendo as regiões mais abundantes em heveas,
comparando e observando com olhar desapaixonado, che-
cando assim a conclusões interessantissimas. Uma dellas,
e à qual ja alludimos, é a que nunca região alguma
podera disputar ao valle amazonico a proeminencia na
producção da borracha.
E' que o valle do Amazonas apresenta condições
especialmente favoraveis à Hevea, que é a unica planta
remuneradora e susceptivel de um trabalho systemati-
camente organizado, emquanto as outras plantas explo-
radas para egual fim na Ásia e na Africa, como as lan-
dolphias, masarandubas, puidares, balatas, ete., sô podem
ser exploradas quando se dispõe de trabalhadores a sa-
lario baratissimo, por exemplo de negros, pagos pelo
europeu com quaesquer ninharias ; tambem todas estas
plantas não permittem uma exploração prolongada, por-
que logo definham. A Hevea conserva sua superiori-
dade sobre todas as outras plantas e as tentativas de
substituil-a são infructiferas, tendo tambem a chimica
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se mostrado impotente para nos fornecer uma substan-
cia aproveitavel, de sorte que o receio da falta de ma-
teria prima para a producção de artigos de borracha,
que nos ultimos tempos augmentou extraordinariamente,
poderia parecer justificado. Porém o valle do Amazo-
nas póde, na opinião do auctor, com facilidade duplicar
a exportação e satisfazer a todo o augmento do con-
sumo. explorando as enormes riquezas em heveas ainda
intactas, tornando a produeção racional e systematica.
As plantações de Heveas e Castilloas, emprehendidas
pelos inglezes na India, não prosperaram ; estão defi-
nhando e em parte já pereceram.
Tem-se feito novamente experiencias com a Castil-
loa no Mexico, na qual os Norte Americanos depositam
grandes esperanças. . Tambem fazem-se plantações de
maniçobas (Manihot glaziovil) e de Heveas nas colonias
francezas da Indo-China no Senegal, Congo, Madagas-
car, Nova Caledonia, nas colonias hollandezas das [has
de Sunda e nas colonias inglezas, porém ainda não de-
ram boas provas e não tardarão, conforme pensa o auctor,
os desastres e fracassos, porque é difficil de encontrar
justamente os gräus de humidade, temperatura, sombra,
etc., que exige a Hevea.
As Heveas, por exemplo, que nas derrubadas às
margens do Amazonas foram poupadas, não dão mais
latex e aquellas que se plantam perto das habitações, na
sombra dos cacaoeiros dão muito menos que as dos se-
ringaes ; estas condições airda mal conhecidas e estuda-
das, para o pleno desenvolvimento da Hevea, as quaes
se encontram reunidas tão felizmente nas mattas vir-
gens do Amazonas, sempre formarão um grande obsta-
culo para o successo de plantação em outra parte.
i. D. W. L'expédition de M. E. Ule dans la ré-
gion caoutchoulifére de l'Amazonie por E. D. W.
Révue des Cultures Coloniales. Tome XIII Paris.
1903 p. 336—837.
Occupa-se este artigo de uma publicação do Snr.
E. Ule, no Notizblatt des Botanischen Garten und Mu-
— 596 —
seum de Berlin, sobre as differentes especies de Hevea.
Algumas destas encontram-se nas regides seccas, assim
a que por M. Huber foi denominada H. kunthiana.
A cultura artificial das Heveas já começa a ser em-
prehendida. Assim, existem na região ao Madeira planta-
ções de Hevea brasiliensis, nas quaes ainda não se obti-
veram resultados satisfactorios, principalmente porque as
arvores ainda não attigiram à necessaria edade, que é de
12—15 annos. Em geral é conveniente começar a explo-
ração sómente depois de terem as arvores uma edade
de 20 annos.
Loefgren, Alberto. Relatorio da Secção Botanica.
1901. Commissao Geographica e Geologica de S. Pau=
LoZ 1902.
Occupa-se este folheto em primeiro logar dos tra-
balhos praticos, realizados no Horto Botanico, durante
o anno de 1901, dando, além de outros artigos sobre
assumptos alheios aos nossos estudos, dous artigos sobre
materia que a nós egualmente merece attenção : «Phy-
topathologia» e «Notas entomologicas».
O primeiro artigo, accentuando a importancia que
para nós tem o conhecimento dos parasitas nocivos às
plantas, contém uma relação das especies mais pernicio-
sas, colleccionadas no Horto, indicando em seguida os
meios de combater esses parasitas.
Nas «Notas entomologicas», referindo-se à fructifica-
ção de muitas plantas por meio de insectos, concede um
lugar saliente, neste sentido, às abelhas, enumerando
35 especies, que foram determinadas pelo Museu Paulista.
Nos «Annexos» trata-se da pomocultura, de arvores
fructiferas, adaptaveis ao nosso clima, como tambem das
Acacias e Eucalyptus.
Puttemans, Arsenio. O pecequeiro e as suas ino-
lestias. Revista Agricola N.º 80, 81, 82. 1902.
Descripção de tres molestias do pecegueiro, acompa-
nhada de figuras. Estas molestias são causadas por fungos
microscopicos, que até agora ainda não eram observados.
PR eae at et
ee ee ee AÇ
ce Stee et
PT ee Oe ee ON
ETAT
ER AUDE DES Aa RE ENT SES
= ate
Pecholt. Heil-und Nutzpflanzen Brasiliens. Be-
richte d. Deutsch. Pharmaceut. Gesellsch. Berlin 1902
Heft 6 und 9; 1903 Heft 1,4 und 7.
São estes fasciculos a continnaçäo da valiosa pu-
blicação, à qual já nos referimos (Vol. V p. 696 e Vol.
IV p. 598).
Heft 6 e 9 tratam das Lecythidaceas, os outros
tres fasciculos das Myrtaceas. Em tres estampas são
figurados exemplares: providos de fructas de Cambuca,
(Myrciaria plicata costata, Bg.), Jambo, (Jambosa vulga-
ris, DC. e de Araçã (Psidium arassa, (*) Raddi).
Poisson, Jules—Sur UV Aratacio du Brésil — Bul-
tetin du Mus. d'Hist, Nat. Paris—1900—N. 5 fig.
261—262.
O auctor descreve neste artigo uma droga que re-
cebeu do Para, onde é conhecida sob o nome de Ara-
‘tacio.
E’ a casca da raiz de uma planta da familia das
Euphorbiaceas, provavelmente da Sagoha racemosa,
Baillon. Os habitantes usam o decocto ou a solução em
aguardente, attribuindo lhe qualidades tônicas e dizendo |
que serve para diminuir a transpiração excessiva,
Lindman, C. A. M. Die Blüteneinrichtungen et-
niger sidamerikanischer Pflanzen. I Leguininose.
Mit 19 Textfiguren Bihang till K. Svenska Vet. Akad.
Handlingar Band 27. Afd. III N. 14 Stockholm 1902.
Considerações sobre a organização das flores de
algumas leguminosas brazileiras e a fecundação, com
referencia especial aos insectos que nella tomam par-
te. As observações foram feitas durante uma viagem
de dous annos, que o auctor emprehendeu nos annos
de 1892-1894, tomando parte na primeira das «expedi-
ções de Regnell». O interessante estudo biologico é
Ticamente illustrado.
(*) Nao tendo a lingua latina o signal ¢, cumpre substiuil-o,
mo meio da palavra, por ss e, no seu inicio, por s.
2 OS eres
Fes, Rob. E. Beiträge sur Kenntnis der Urna-
thophilie in der südamerihanischen Flora. Mit 1
Tafel. Arkiv for Botanik utgifvet af K. Svenska Ve-
tenshap sakademien. Band I. Stockholm 1903 p.
390-440.
O auctor acompanhou, como botanico, a expedição
sueca para o Chaco e as Cordilheiras, nos annos de
1901-1902. Na região limitrophe entre a. Republica
Argentina e Bolivia, elle teve muitas vezes occasião de
apreciar o papel importante que os beija-flores desem-
penham na biologia de algumas flores. Por suas ob-
servações verificou que as flores de 35 especies foram
visitadas pelos heija-flores ; no emtanto, não se deve
considerar a todas estas especies como ornithophilas,
porque certamente algumas vezes a presença dos beija-
flores foi sómente casual.
Reunindo os resultados obtidos, o auctor formúla
a seguinte conclusão : «Não existem signaes caracteris-
ticos, geralmente applicaveis, para as flores ornithophi-
las. Não ha differença pronunciada entre as flores or-
nithophilas e entomophilas. A mesma especie póde
ser fecundada, tanto por insectos como por beija-flores
e isto tanto na mesma localidade (patria da planta)
como em outra localidade».
J. Barbosa Rodrigues. Sertum palmarum bra-
sbensum ou Relation des palmiers nouveaux du Bré-
sul, decouverts. decrits et dessinés d’après nature par
l’anteur.:2 Vols. Bruxelles, 1903.
Magnifica monographia, pela qual felicitamos seu
illustre auctor, o sabio Director do Jardim Botanico do
Rio de Janeiro, Sr. Barbosa Rodrigues. E’ esta obra
o fructo de perseverantes estudos, prolongados por
mais. de trinta annos, de viagens arriscadas, privações
e sacrifícios de toda sorte e constitúe um feito impor-
tante na sciencia brazileira.
O auctor percorreu primeiramente a região ama-
zonica em todos os sentidos, examinando novamente o
— 590: —
material já descripto e, principalmente, procedendo a
pacientes explorações d'aquelias riquissimas florestas, para
descobrir novas especies. Assim, a par de muitas re-
ctificações do material já rien oriundas do estu-
do da arvore no seu terreno patrio, nas condições mais
favoraveis ao seu desenvolvimento natural, o auctor
conseguiu enriquecer a sciencia com um grande nume-
ro de especies novas, que, em viagens subsequentes
pelo Matto Grosso, Paraguay, Uruguay e Argentina, se
elevaram a mais de 100, de sorte que o numero de
palmeiras que, segundo Bentham e Hooker, em 1883,
montava a 1100 em todo o globo, é hoje muito mais
consideravel, pertencendo um terço ao Brazil, que con-
ta mais de 400 especies.
Algumas das especies nuvas descriptas pelo Sr.
Barbosa Rodrigues foram pelo Sr. Drude de Dresde
Julgadas synonymas de especies já anteriormente co-
nhecidas e descriptas. O auctor protesta contra esta
postergação de seus direitos, provando que o Sr. Drude
segue neste modo de ver o Sr. James Trail, d'Aber-
deen, o qual, no emtanto, dous annos depois de publi-
cadas as primeiras descripções das palmeiras em ques-
tão pelo Sr. Barbosa Rodrigues, descreveu as mesmas,
de maneira que não póde haver a minima duvida so-
bre a prioridade do auctor e, conforme as regras de
nomenclaiura observadas tambem entre os botanicos, as
denominações do Sr. Trail devem ser consideradas sy-
nonymas das do auctor.
O Sr. Barbosa Rodrigues abandona a classificação
estabelecida por Martius, a quem reconhece como um
dos mais importantes e competentes exploradores que
têm estudado a natureza brazileira e adopta, para a dis-
tribuição das palmeiras, 3 zonas brazileiras e 3 extra
brazileiras ; são ellas :
{) Zona amazonica, com as subdivisões em litto-
ral, plana e das cataractas ;
2) Zona campezina, que se divide em calida e
frigida ;
— 600 —
3) Zona marina, que se divide em tropical e sub-
tropical ;
4) Zona Granadina ;
D) Zona Platina;
6) Zona Andina. .
O primeiro volume é acompanhado de 91 estam-
pas coloridas; o segundo de 83. O texto do livro em
geral é escripto em latim, sendo porém a introducção e
algumas notas explicativas redigidas em francez. Come-
ça a obra por uma chave para a classificação dos ge-
neros. Deste modo, o naturalista que desejar occupar-se
das nossas palmeiras, acha reunidos, nesta bella mono-
graphia, todos os dados necessarios para o seu estudo.
Branner, John. C. The Palm Trees of Brazil. Po-
pular Science Monthly, March, 1902 pag. 387- 412.
O interessante artigo trata, não só das diversas es-
pecies de palmeiras do Brazil, de que da boas figuras
de habitat, como tambem de seu valor industrial e
economico em geral.
Malme, Gust. O. A. Ex herbario Regnelliano
Adjumenta ad foram phanerogamicam Brasiliae ter-
rarumque adjacentium cognoscendam. Particula quin-
ta p. I—XXX VIII Cum duubus Tabulis. Bihang tll
K. Svenska Vetenskaps—Akademiens Handlingar. Bd.
21: Afd. Ml No 14 Stockholm 1902,
Descripçäo de Violaceas, Vitaceas, Rhamnaceas, Eri-
ocaulaceas. São novas as seguintes especies : Cissus lance-
olatus, Ziziphus yuar anitica, Paepalanthus caldensis.
Estas duas ultimas estão figuradas nas estampas.
No mesmo periodico n. 5, e sob o mesmo titulo, o
auctor descreve mais---Passifloraceas, Ametolocinacsas
etc., sendo nova a especie Aristolochia cuyabensis = — À.
burro Lindman.
No vol. 35 do mesmo periodico, à p. 1--41, ha um
trabalho do sr. Carl Skottsberg « Die Malpighiaceen
des Regnellschen Herbar .»
dre oi ee à
EE STE TT
CE CSA NT
Jus
Er soi
= OU
As Ascomycetas da primeira «expedição de Regnell»
estão descriptas por Karl Starbach no mesmo periodico
vol. 27. Md. III N. 9, sendo grande o numero de es-
pecies novas.
Lindman. C. A. M. Remarks on some american
species of Trichomanes Sr": Sect. Didymoglossum
Desv. with 31 Hlustrations. Stockholm 1905.
Descripção de 13 especies brazileiras de Tricho-
manes, com numerosas figuras instructivas, referentes
tanto ao habitat como a detalhes microscopicos de es-
tructura.
Rick, IL, S. 1. Ueber einige neue und krihsche
Pilze Süd-Americas. Annales Mycologicr V. 11
Nao oe
Descripção de algumas especies novas de Basidio-
mycetae e Ascomycetae, encontradas nas immediações
de S. Leopoldo, Rio Grande do Sul, e das quaes uma
— Richrella transiens Syd., foi figurada.
Reineck, E. M. Riograndenser Orchideen, Ka-
kteen und Baumbewohner. Botamsche Ausflüge an
die Umgebung von Porto Alegre (Brasilien). Deutsche
botanische Monatschrift Bd. XX 1902 p. 124—128
Descripçäo de Orchideas, Gactaceas e Epiphytas col-
ligidas nos arredores de Porto Alegre.
Lindman, C A. M. Regnellidiun novum genus
Marsiliacearum, mit 10 Textfiguren. Arkiv für Bo-
tanik K. Svenska Vetenshaps Akademien Bd. HI N. 6.
Stockholm. 1904.
Deseripção de Regnellidium diphyltum Lindm., novo
genero e nova especie do Rio Grande do Sul, com dez
figuras explicativas.
— Lindman, C. A. M. Neue Spezrsnamen einiger
sidamerikanischer Farne. Hedwigia Bd. XLHI p.
306 —311.
“É gore
Communica a modificação dos nomes de algumas
Pteridophytas sul-americanas e dá uma descripção mais
minuciosa de algumas especies.
Hennings, P. Fungi. S. Paulenses a cl. Puliemanns
collectr: 1 Hedwigia Bd XLI 1902 p. 104--1IS ; H
Hedwigia Bd XLI 1902 p. 295-811, Ill Hedwigia
Bd. XLIII 1904 p. 197--209.
Descripção de 257 fungos, colligidos pelo sr. Put-
temans em grande numero microscopicos e inimigos de
nossas plantas cultivadas, as quaes elles prejudicam ex-
tremamente.
Dos cinco generos novos um, Puttemansia, da fa-
milia das Sphaeroidaceas, é dedicado ao colleccionador ;
o numero das especies novas é de 111.
Hennings, F. Fungi Dlumenavienses II a cl. Mfr.
Moller lectr. Hedwigia 1902 p. 1-33.
Descripção de grande numero de Ascomycetas, que
durante os annos de 1801-1803 foram colligidas por
A. Moller, em Blumenau.
Hennings, P. Fungi paraenses I cl. Dr. 1. Huber
collecti. Beiblatt zu Hedwigra 1902 p. 15-18.
Descripção de uma collecçäo de fungos do Pará,
reunida pelo Dr. I. Huber.
John, E. Myxomuycetenstudien. Arten aus Blu-
menau (Brasilien) Berichte der Deutschen Botanischen
Gesellschaft. Bd. XX Hefl. 5. Mit Tafel XIII. Ber-
line 1902, D: 268-280.
Descripção de uma collecção de Myxomycetas reu-
nida pelo sr. Alfred Müller no Brazil meridional, a
maior que até agora na Europa foi estudada destas re-
giões. KE’ nova a especie Didymium excelsun.
Lindman, C. A. M. Beittriige zur Kenntinis der
tropisch-amerikanischen Farnflora. Mit S Doppelta-
feln. Arkiv for Botanik. Stockholm. 1903 p. 187-279.
PAT e a oe di = nas ~ +
COTE FT o SR MR FÃ TE ay ee ee PR DR
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ss
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Descripção das Pteridophytas que o auctor, du-
rante os annos de 1892-1894, colligiu no Brazil e no
Paraguay ; ha entre ellas muitas especies novas.
As & estampas que acompanham este estudo, mos-
tram-nos mais de 50 especies.
Cc. Expedições e geologia
Katzer, Dr. Friedrich. Grundzüge der Geologre
des unteren Amazonas-gebictes (des Slaates Pará im
Brasilien) Leipzig, 1905.
“A obra apresenta-se como um volume bem im-
presso de 296 paginas, acompanhado de 16 estampas,
numerosas figuras e um mappa geologico colorido.
Na introducção, dá o auctor um resumo geographico,
acompanhado de instructivas vistas geologicas, tratando
em seguida da respectiva literatura, incluindo os re-
tratos dos drs. Louis Agassiz, Charls Frederic Hartt,
Orville A. Derby e John M. Clarke.
Na composição geologica da região do Amazonas
inferior entram as seguintes formações :
Do grupo archaico, Urschiefer e Gneis.
Do grupo paleozoico, os systemas siluriano, devo-
niano e carboniano.
Do grupo mesozoico, apenas o systema cretaceo.
Do grupo kaenozoico os systemas terciario e quar-
ternario.
Não se encontram depositos triaceos e jurassicos º
tambem os depositos cretaceos são de uma distribuição
bastante insignificante, visto que a maior parte dos de-
positos, até agora attribuidos ao systema cretaceo, per-
tencem, em verdade, a outras formações.
Os depositos mais modernos, de origem marina,
encontrados até agora no Estado do Pará, só se acham
na zona littoral. O auctor figura em duas estampas Mol-
luscos e Bryozoarios destes depositos, dos quaes diz
que as pronunciadas affinidades com a fauna terciaria
nos obrigam a pol-os na divisão mais moderna do cre-
taceo, a senoniana, já que são, seguindo o exemplo de
Ch. White, attribuidos ao systema cretaceo.
Sa ae
,
Um capitulo de summo interesse, é o denominado.
«o desenvolvimento geologico da região do Amazonas
inferior». O auctor não se limita a nos informar da dis-
tribuição geographica e geologica das diversas forma-
ções, mas procura tambem reconstruir a antiga geo-
graphia da região. Neste sentido, o auctor segue um
rumo todo novo e original, rompendo francamente com
a theoria, até agora geralmente admittida, de Louis
Agassiz, segundo a qual o valle do Amazonas teria es-
tado aberto na época mesozoica, e ainda durante o syste-
ma cretaceo, ao Oceano Atlantico, que, ainda na primeira
metade do Terciario, se extendia até perto de Pebas.
Segundo Katzer, deu-se em verdade o contrario, visto que
a actual barra do Rio Amazonas é relativamente mo-
derna, tendo sido a invasão do mar dirigida de Oeste, a
Leste em época anterior ao levantamento da Cordilheira.
Tomando em consideração o facto de que no valle
do Amazonas não existem depositos marinos cretaceos
e terciarios e que os depositos terciarios, atê agora co-
nhecidos, todos provêm de agua doce, parece-me que
as deducções de Katzer são concludentes.
A obra de Katzer, que por annos viveu nessa re-
gião como chefe da Secção geologica do Museu do
Pará, é sem duvida a obra mais importante que nos
ultimos decennios tem sido publicada sobre a geologia
do Brazil, reunindo não só os factos, atê agora conhe-
cidos e por elle mesmo investigados, mas, procurando
tambem, nesta base, esboçar a estructura geologica: do
Estado e o seu desenvolvimento geologico.
P. Ambrosius Schupp 8. J. Ein Beitrag zur Geo-
logre von Rio Grande do Sul. Porto Alegre 1904.
Um estudo interessantissimo sobre as formações
geologicas do Rio Grande do Sul, principalmente sobre
as rochas de caracter eruptivo, que foram examinadas
microscopicamente. A’s informações colhidas no correr
de muitos annos sobre as diversas regiões do Estado,
o douto auctor reune um grande numero de observa-
ções e pesquizas proprias, obtendo assim dados para es-
4
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— 605 —.
tabelecer a ordem chronologica para as diversas for-
mações.
Muito nos interessou a determinação da edade geo-
logica do Diabase, que se prova ser mais antigo que o
grês verinelho que em tanta abundancia se encontra
naquelle Estado. Egualmente importante é a commu-
nicação de que foram encontradas, nas jazidas de car-
vão de S. Sepé, conchas do genero Schizodus.
D'Ossat. Groacchino de Angelis Il Clisicophyllum
thildae n. sp. nel Pará. Atti della Reale Accademia
der Lancer. Serie quinta. Volume XII. Roma 1903.
Descripção de um corol fussil, que o Sr. Ernesto
Garbe, naturalista viajante deste Museu, trouxe de Óbidos.
O auctor classifica este coral como pertencente ao car-
bonifero, e ainda não mencionado por Derby na lista
dus coraes carboniferos de Obidos ; colloca-o como nova
especie no genero Clisvophylluin, mas não seguindo
nisto ao auctor do genero, Dana, porém acceitando a
definição de Milne Edwards e Haime nos British forrils
Corals p. LXX, 1850.
Branner, John C. Geology of the northeast coast
of Brazil. Bulletin of the Geological Society of Aine-
rica. Rochester 1902 p. 42-98.
Forma objecto deste estudo a geologia do Parahy-
ba e partes limitrophes do Rio Grande do Norte e
Pernambuco.
A unica publicação geologica sobre estas . regiões
fora, atê agora, a de E. Williamson «Geology of Para-
hyba and Pernambuco gold regions», do anno de 1807.
No anno de 1899 o auctor examinou cuidadosamente
estes terrenos e teve tambem a felicidade de obter
fosseis, que serviram de base segura às suas investi-
gações. Os fosseis encontrados em Ponta de Pedras
mostravam grande semelhança com os achados em Maria
Farinha e evidenciaram a homogeneidade da formação
destas duas localidades, que é terciaria. Perto da cidade
de Parahyba encontra-se no littoral, formando a base
— 606 —
dos morros, pedra calcarea de edade cretacea. Estas ca-
madas sedimentarias, terciarias e cretaceas da costa tem
uma largura de 30-40 kilometros. A topographia geral
destas regiões não nos deixa duvida que teve logar uma
depressão da terra, em consequencia da qual as aguas
encheram os valles, transformaudo-os em manguezaes. Ao
longo da costa notam-se grandes pedras pretas, esburaca-
das por ouriços marinhos, em logares que hoje estão fóra
do alcance destes animaes, o que prova uma elevação
desta costa, de 2 metros pelo. menos.
Hussak, E. Ueber den Raspit von Sumedouro,
Minas Geraes (Brasilien). Centralblatt fiir Minera-
logie und Palaeontologie. Stuttgart 1903 p. 723-725,
— Veber die Mikrostructur einiger brasilianischer
Titanimagneteisensteine. Mit 1 Tafel und 2 Textfiguren.
Neues Jahrbuch für Mineralogie, Geologie und Palae-
ontologie Jahrg. 1904. Bd I Stutigart. 1904 p. 94-
RS E fe OR
— Mineralogische Notrzen aus Brasilien. Annalen
des k. k. Naturhistorischen Hofinuseums Bd. XIX,
Wien. 1904, p. 85-99.
Estes trabalhos tratam da estructura microscopica
dos mineraes indicados. © ultimo deiles refere-se a
um meteorite (chondrit) que no dia 29 de Junho de
1903 cahiu no Districto de Dôres dos Campos Formo-
sos, “4 kms. para oeste de Uberaba, em Minas.
Um segundo artigo dos «Notizen» occupa-se do ne-
phrite de Amargosa, conforme já mencionamos à p. 550
e dá a seguinte composição chimica para o mesmo:
SOS 1. etree Ra NCO TG AVE
PMI. (6) SAMMI atin Ry Bh 4.08
PE o a AO A 1.80
Cat. te a o Rei eae
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a EA eR 0.40
PELO aaa eee ee
oy, OO
— 607% —
O terceiro estudo, afinal, dos «Notizen» trata do
Hamlinite. contido nas areias de diamante da Serra de
Congonhas, perto de Diamantina em Minas Geraes.
Wright, F. E. Die foyaitische — theralithischen
Eruplivgesteine der Insel Cabo Freio, Rio de Janeiro,
Brasilien. Tschermarks Mineralogische und Petrogra-
plusche Mittheilungen Bd. XX Heft. 3 Wien 1901.
p. 233 — 300.
O auctor examinou rochas eruptivas da Ilha do
Cabo Frio, perto do Rio de Janeiro, que foram desco-
bertas pelo Dr. O. A. Derby. Foram verificadas as se-
guintes rochas: Pulaskite e Nordmarkite, Umptekite,
Klaeolithsyenite, Essexite, Bostonite, Nephelinaplite, Tin-
guaite, Monchiquite e Limburgite.
I» Anthropoicgia
J. Barbosa Rodrigres.. O muyrakyta e os 1dolos
symbólicos ; estudo da origem asiatica da crvilização do
Amazonas nos tempos prehistoricos. Dous Volumes. Rio
de Janeiro, 1899.
A obra do Dr. Barbosa Rodrigues apresenta-se como
segunda edição de outra, publicada em 1887. Si só agora
della trato nesta bibliographia, é devido à circumstancia
de tel-a obtido sô no anno passado. A nova edição *9 no
primeiro volume, identica à primeira, contendo o segundo
volume, além de um capitulo novo, referente à archeolo-
gia, 13 lendas amazonicas. O que muito augmenta o valor
da nova edição são as illustrações, referentes a muyraky-
tans e idolos amazonicos, bem como a numerosos tembetás.
O ponto essencial na exposição do auctor sobre as
migrações prehistoricas é a hypothese de que todos os
objectos de nephrite, encontrados na America e na Eu-
ropa, foram trazidos, na época prehistorica, da Asia.
Sobre este ponto, já por nós discutido, compare-se o que
à p. 999 deste volume dissemos. O auctor, estabelecendo
duas linhas de immigração para a America, uma pela
Asia septentrional e oriental, a outra pela Europa e pelo
— 608 —
Atlantico às Antilhas, procurando harmonizar a Genesis
da Biblia com os factos demonstrados pela investigação
archeologica e discutindo a questão de ser o homem da
formação pampeana preadamitico ou não, acha-se em ter-
reno de especulações hypotheticas, sobre as quaes natural-
mente as opiniões dos especialistas serão em grande parte
divergentes. Ao nosso ver o valor especial desta obra con-
siste no tratamento exacto de uma das materias mais inte-
ressantes da archeologia brazileira, a dos idolos e amule-
tos amazonicas, dos quaes o auctor não só trata extensa-
mente, mas dos quaes tambem reuniu pessoalmente, nas
suas viagens, a maior parte do material até hoje conhecido.
A este respeito lembramos que o Museu Paulista
actualmente possue tres destes objectos, dous amuletos
de steatite, em fórma de ran e um em forma humana,
feito de Yet.
O ultimo foi por Barbosa Rodrigues descripto e
figurado. Vol. ll p. 231— 234.
O Snr. Barbosa Rodrigues ê da opinião que este
objecto é um muyrakytan falso, de uma massa artificial-
mente preparada, em cuja composição entrasse alguma
parte oleosa. Esta supposição não foi confirmada pelo
exame do referido objecto, feito, a meu pedido, na Gom-
missão Geographica do Estado de S. ‘Paulo, como se
verifica pela seguinte informação dada pelo illustre chefe
da dita Commissão, Dr. O. A. Derby :
«O material deste artefacto é Azeviche (yet), uma
especie de carvão.
No Brazil se conhece este material nos depositos
de agua doce de edade cretacea, na Ilha de Itaparica,
na Bahia de Todos os Santos, donde, ha annos, levei
amostras, que foram polidas e identificadas pelo Snr.
George F. Kung, perito da grande casa de joias de
Tiffany e Bid., Nova-York. -
Existem depositos semelhantes em varios pontos
da costa da Bahia, para o norte e, provavelmente, dentro
da bacia do Amazonas, sendo provavel que nestes tam-
bem se apresente material semelhante ao da Ilha de
Itaparica.—Säo Paulo, 25—I].—04.—Urville A. Derby.
TPE Ten EP EEL Pe RET M Ce A TR D ee Ta ee ee ee
ee
PRE Po ii SEEN CAT
Moss EAS Eid a Fo Vo
MES bi ae
nb
iii
Conhecemos, pois, como materiaes empregados para
o fabrico de muyrakytans do Amazonas os seguintes :
nephrite, jadeite, yet, steatite. Provavelmente ainda ha-
verá outros.
Os muyrakytans das Antilhas, descriptos por 1 Wal-
ter Fewkes (American Anthropologist. Vol. V. N. 4 p.
679 s.), e egualmente são feitos de diversos materiaes.
Meyer, A. B. Zur Nephritfrage. Neu Guinea,
Jordansmithl u.a., Alpen, Bibliographisches. Abhand-
lungen und Berichte des Küniglichen Zoologischen
und Anthropologisch-Elhnographischen Museums zu
Dresden, Bd. X, N. 4. Berlin 1905.
Occupa-se este alentado trabalho com os achados
de jade, nephrite e mineraes afins na Europa, poste=
riores à primeira descoberta em Jordansmiihl. Reprodu-
zimos o que sobre esta publicação diz o «American An-
thropologist». Vol. 5 n. 4. Washington 1903 p. 692.
«Este resumo, tão completo como concisc, sobre as
descobertas de jade desde 1891, é a contribuição mais
importante sobre esta questão publicada durante o ulti-
mo decennio.
E” uma continuação da obra em dous volumes do
dr. Meyer, que foi publicada pelo Real Museu da Sa-
xonia no anno mencionado, e, com esta, constitue um
notavel tratado sobre a historia, technologia e archeo-
logia da jade e mineraes affins, apresentando tudo quanto
a sciencia de nossos dias a este respeito verificou. O dr.
Meyer publicou, no total, nada menos de trinta e seis ar-
tigos sobre o assumpto e provou, como geralmente é
sabido, que o probléma é antes chimico que ethnologico.
Tres diversas regiões forneceram o material dis-
cutido no presente estudo : —
1) A Bahia de Humboldt, a Bahia de Astrolabe,
os montes Saddle, e os districtos de Collingwood em
Nova Guinea.
2) Jordansmiihl na Silesia, onde Kunz descobriu
um bloco de nephrite, pesando 4817 libras, que se acha
agora na collecção de Bishop. Discute-se longamente a
— 610 —
occorrencia de pedaços de nephrite e o achado de ma-
chados chatos de jadeite na visinhança daquella locali-
dade, e refere-se aos frequentes erros que tem sido
commettidos a respeito do transporte de jadeite, ne-
phrite e chloromelanite por tribus em emigração, o que
se julgava um factor importante para explicar a distri-
buição destes materiaes.
O dr. Meyer chega 4 concinsão que o valor destes
objectos para os povos prehistoricos tem sido muito
exagerado.
3) A occorrencia de jadeite, nephrite e chlorome-
lanite em outros logares é largamente discutida. Entre
as descobertas que o autor enumera, são mencionadas as
do Rio Sau em Cilli, Styria, do Mur na visinhança de
Graz, e de outras localidades da Austria; as do Monte Viso,
do Lago de Genebra, de Saint Marcel em Piemonte e do
Valle de Aosta (neste ultimo caso trata-se de jadeite). O
auctor occupa-se egualmente da jadeite pyroxene do Pie-
monte, de um pedaço de mineral bruto de Rivoli no Pie-
monte, na entrada do valle de Aosta, e das descobertas de
Heierli no cantão Wallis, nos Alpes Centraes, de nephrite
e saussurite, tanto em pedaços como no rochedo em po-
sição natural.
Koch, Theodor. Die Apiakd-Indianer (Rio Ta-
pajos, Matto Grosso). Verhandlungen der Berliner
Gesellschafs fiir Anthropologie, Ethnologie und Ur-
geschichte. Berlin, 1902, p. 350-379.
O autor trata primeiro extensamente da literatura
atê agora existente sobre os Indios do Alto Tapajoz e
as viagens que se emprehenderam para as regiões ha-
bitadas por elles; menciona a expedição do Tenente
Antonio Peixoto de Azevedo, as publicações do Gonego
José da Silva Guimarães, a empreza do aventureiro
Lopes, e a estada de Langsdorff naquellas regiões, da
qual se recolheu um abundante material ethnologico,
que deu logar a uma serie de publicações, como as do
Alfredo d'Escragnolle Taunay e Karl von den Steinen
#
— 611 —
a respeito de desenhos de pintor Hercules Florence,
representando typos de indios.
Egualmente fecundas em resultados importantes
foram as viagens de Castelnau.
Em 1802 os Apiacis foram visitados por Barto-
lomé Bossi e por Chandless ; dez annos mais tarde por
Barbosa Rodrigues. Coudreau, estando entre elles em
1895, escreveu um vocabulario apiakä.
O auctor mesmo, tomando parte na expedição do
dr. Hermann Meyer, encontrou dous representantes
esta tribu em Cuyabé, oriandos de Salto Augusto.
Da una descripção minuciosa destes dous indios,
dos quaes 3 retratos (os primeiros dos Indios Apiacäs)
enriquecem .o trabalho. Portavam-se muito decentemen-
te e só lembravam a sua anterior vida selvagem os
dentes incisivos tornados ponte agudos com auxilio de
lima e a tatuação do rosto, que consistia em 3 traços
em cada face, desde a orelha até à bocca, faltando o
rectangulo ao redor da bocce, que em geral ainda faz
parte da tatuação dos Apiacas.
Segue depois um vocabulario apiacá, confrontando
as palavras apiacis com as do Tupi antigo, Guarani
moderno e do Cayuä de Paranapanema; esta confron-
tação torna evidente que o idioma apiacä faz parte do
grande grupo linguistico dos Tupis.
Steove, Joseph Beal. Narrative of a visit to in-
dian tribes of the Purus River, Brazil. Report of the
United States National Museum for 1901. Washin-
gion 1905 p. 359-393.
O auctor em viagem pelo Brazil (19/1), foi en-
carregado pelo National Museum dos Estados Unidos
da America do Norte, de fazer uma colleccäo de obje-
ctos ethnologicos de tribus brazileiras ainda pouco co-
nhecidas. Subindo o Rio Purts elle dirigiu-se até à
altura do Marmoreá (Mamoria), visitando ahi os Jama-
madis e procurando depois os Ilypurinás e Paumaris.
O resultado desta expedição foi uma boda collecção eth-
— 2 —
nologica e grande numero de interessantes observações,
que o viajante nos communica neste trabalho.
Embora que existam certas differenças entre as tri-
bus citadas, comtudo notam-se não poucos traços com-
muns a todas ellas. Assim todas ellas cultivam pela
mesma forma rudimentar a terra, fazendo derrubadas,
reccorrendo depois ao fogo para desembaraçar a roça
dos galhos e troncos. Um costume bem singular, mas
entretanto praticado por todos estes indios egaalmente,
é o de tomarem elles frequentes vezes, de uma maneira
solemne e cerimoniosa, rapé, que elles aspiram por meio
de uma canella de passaro, introduzindo uma extremidade
no nariz, e approximaado a outra do rapé, que um com-
panheiro apresenta na palma da mão, para elle mesmo
depois receber egual favor. Os Jamamadis e Paumaris
differem na lingua dos Hypurinas, que são os mais
bellicosos e temidos de todos estes indios. E’ só entre
os Jamamadis que se encontra a sarabatana com as fle-
chas envenenadas, como tambem lhes são particulares
grandes e espaçosas casas de consideraveis dimensões,
para abrigar em commum a maloca inteira.
A casa visitada pelo auctor tinha 130 pes em dia-
metro e uma altura de TO pês. As outras tribus con-
stroem choupanas menores, uma para 3-4 familias. Os.
Paumaris são de preferencia pescadores e passam a vida
sobre os rios, mudando constantemente seu paradeiro,
conforme a abundancia de peixes e de tartarugas. No
tempo das enchentes elles transportam-se para uma es-
pecie de jangadas, construidas especialmente para este:
fim dentro dos lagos, que communicam com o rio.
Koch, Theodor. Exploracién etnographica de los:
Rios Negro, Icäna, Aiary y Naupés (Brasil). Infor-
me preliminar. Anales de la Sociedad Crentifica
Argentina. Tomo L VII, Buenos Aires, 1904 p. 298 ss.
O auctor demorou-se desde Setembro de 1903 até
Janeiro de 1904 na região do Alto Rio Negro, visi-
tando as tribus dos Catapolitani, Oaliperidaqueri, Cuma-
|
‘
i
À
— 613 —
taminanei, Cobéna e Uanána, todas até o presente des-
conhecidas.
Muitos objectos ethnologicos, um grande numero
de photographias e os vocabularios destas tribus for-
maram o abundante resultado desta excursão, sobre a
qual o auctor promette publicar um trabalho mais extenso.
Ihering, H. von. The anthropology of the State
of S. Paulo, Brazil. Written on the occasion of the
Universal Exhibition of S. Luiz. S. Paulo, 1904.
Este trabalho trata em primeiro logar dos actuaes
Indios de S. Paulo, de seus costumes e modo de vida.
Os grandes grupos em que elles se dividem são: os
Guaranis, os Caiuás, os Caingangs e os Chavantes. Os
Guayanaz são incluidos no grupo dos Caingangs (Ta-
puias) e não na familia tupi-guarani como alguns erro-
neamente o fizeram. Depois de mencionar as prinei-
paes fontes para os nossos conhecimentos sobre a vida
dos Indios no tempo da descoberta, o auctor passa a
descrever os utensilios e armas que usavam naquelles
tempos e em parte ainda hoje usam.
Por fim, tratando dos sambaquis, divide-os em na-
turaes, bancos de conchas emergidos do oceano, e arti-
ficiaes, levantados pelo homem.
Quanto à edade do homen americano o auctor acha
provavel que elle ja tenha sido contemporaneo dos gran-
des mammiferos pleistocenos.
Vogt, P. F. Material zur Ethnographie und
Sprache der Guayaki-Indianer. Zeitschr. fiir Eth-
nologre. Berlin, :902 Heft IL pg. 30-45.
O auctor trata dos Guayaquis e de seu parentesco
ethnologico, communicando o vocabulario, que o Sr. La
Hitte corrigiu nos annos 1866 — 1867 e um outro que
o auctor obteve de 2 meninos, que tinham sido presos.
A grande maioria desses vocabulos é, sem duvida,
identica com o Guarani, sendo relativamente pequeno o
numero extranhos ao idioma Guarani.
=o) OLA pe
Kim appendice trata o Sr. Koch da posição ethno-
graphica destes Indios, citando informações dadas por
escriptores antigos, especialmente jesuitas e, segundo os
quaes, a lingua dos Guayaquis era differente da dos
Guaranis. (Gonvem observar que os Guayaquis não co-
nhecem o uso da rêde, aliás, tio commum entre as tribus
Guaranis e Tupis.
Não posso duvidar, nestas condições, que os voca-
bulos guaranis, encontrados na lingua Guayaqui, nella
foram introduzidas durante os ultimos dous seculos, pro-
vavelmente por meio de mulheres raptadas e que, como
elemento ethnographico, os Guayaquis, que vivem perto
da fronteira do Brazil, neste paiz mesmo não occorrem,
salvo si por nós forem conhecidos sob outro nome.
Ehrenreich, Paul. Die Ethnographie Siúdamera-
has im Beginn des XX. Jahrhunderts unter beson-
derer Beriichsichtigung der Naturvélker. Archiv für
Anthropologie, Neue Folge, Band III, Heft 1. 1904
p. 39-75.
Este estudo é, em sua essencia, uma ampliação de
outro que o auctor já em 1891 publicou nos «Petermanns
Mitteilungen», sob o titulo: Ueber die Einteilung und
Verbreitung der Voelkerstaemme Brasiliens. Tratando,
porém, agora da America do Sul em geral, foram tam-
bem tomadas em consideração as tribus extra-brazileiras,
bem como a antiga cultura dos povos andinos.
O auctor expande-se primeiro sobre as bases que
nos devem guiar na classificação ethnologica ; em segui-
da aelimita as 3 grandes regiões ethnographicas que são ;
1) a das bacias do Orinoco e do Amazonas, com exten-
são ao sul até ao Paraguay e o Prata; 2) a região à
margem direita do Paraguay; 3) fin :almente a região
andina. Finalmente, descreve uma por uma as tribus.
Schmidt, M. Reiseskizzen aus Zentralbrasilien.
Globus, Braunschw. 1962. Vol. 82, pgs. 29-31, 44-
46, 95-98.
— Die Guato. Verh. der Berl. Ges. f. Anthr.
1902 p. 77-89.
phase LÉ
ae ee SE à de
= (010
Nestas duas noticias o auctor relata as suas ob-
servações ethnographicas feitas em 1901 no Brazil
central, especialmente no Matto Grosso. Assim conhe-
ceu de perto os indios Bakairis do rio Novo e do Ku-
lisehu, dizendo destes ultimos serem muito trataveis.
Outros Bakairis vieram do Xingu e estabeleceram-se
em Paranatinga, onde a tribu prospera.
Os Guatôs tambem foram bem estudados, dando o
auctor uma extensa descripção de seus usos e costu-
mes. Admira a sua «indolencia intellectual», pois não
têm nenhuma lenda. Um grande numero de palavras
tem o prefixo ma. Contam até 4; de 5 a 10 combi-
nam a contagem com a palavra «mão», e de 11 a 20
com a palavra «pé».
E. Zoologia
Barão do Paraná. O cruzado zebu. Boletim da
Agricultura. S. Paulo 1904 p. 366-370
O Snr. Barão do Paraná, baseado nos conheci-
mentos, que, como criador, adquiriu no correr de 30
annos, chegou a conclusões diametralmente oppostas às
do Dr. Luiz Pereira Barreto, mencionadas à p. 989.
O cruzamento immediato com as raças européas
não traz os resultados desejados; nos productos assim
obtidos aggrava-se mais o principal defeito da nossa
raça e da européa: o lymphatismo, produzido na Eu-
ropa pela apuração das raças e na America pela falta
de cuidado com o gado. Precisamos de reproductores
de grande rusticidade e resistencia às intemperies e aos
mãos pastos; e neste caso acha-se o gado zebu, o uni-
co cujo emprego, para introduzir novo sangue em nos-
sas depauperadas raças, apresenta vantagens. Os pro-
ductos do zebú com o gado nacionasl atisfazem, a todas
as exigencias e cruzados então com gado européu ad-
quirem todas as boas qualidades deste, sem perder as
virtudes do zebu, que são a rusticidade e tenaz vitali-
dade. Sômente deve-se ter o cuidado de tornar a cru-
zar com o zebú quando apparecem os signaes do lym-
— 616 —
phatismo, o que se da geralmente na terceira geração
do cruzamento com touros européus.
Chapman, Henry C., M. D. Observations upon
the Placenta and Young of Dasypus sexcinctus (Pla-
te XVIII) Proc. Ac. Nat. Sc. Vol. LUI pag. 366-369.
O autor observou um filhote recemnascido do
Tatú pelludo, descrevendo a placenta e confirmando a
nossa affirmação de que este tatu da à luz sô um f-
lhote.
Thomas, Olf. On the mammals collected by A.
Robert at Chapada. Proc. Zool. Soc. London 1903
Vol. II, Parte II p. 232-244, Est. 27.
A Percy Sladen Expedition ao Brazil central te-
ve como habil colleccionador o Snr. A. Robert e este
conseguin reuuir 37 especies de mammiferos em Cha-
pada, Matto Grosso. Oldfield Thomas estuda-os no
presente artigo; ahi descreve varias especies e subs-
pecies novas e figura o seu novo Canis sladeni.
Thomas, Olf. New Callithrix, Midas, Felis,
Rhipidomys and Proechimys from Brazil and Ecuo-
dor. Ann. and Magaz. of Nat. Hist. 1904, N. 81 p.
188-196.
Contém a descripçäo de varias especies novas de
mammiferos dos generos indicados no titulo, prove-
nientes em grande parte do Para (Igarapé-Assú), rio
Jordão em Minas e do Equador.
Em outros artigos da mesma revista de 1904 o
Sr. O. Thomas descreve à p. 254 a nova especie Thri-
chomys laurentius e à p. 142 Oryzomys oniscus n.
sp., ambas de S. Lourenço, Pernambuco.
Thomas, Olf. Notes on South-American monkeys,
bats, carnivores and rodents, etc. Ann. Mag. Nat.
Hist. (7) Vol. 12, 1903, p. 455—464.
|
*
*
épis ad.
E Labs
A Pe PAP mM O ee ND] OT Gb
— 617 —
Thomas, Olf. Notes on neotropical mamimals of
the genera Felis, Hapale, Oryzomys etc. l. cit. 1908,
p. 234—245.
O auctor, além de descrever varias especies novas,
entre ellas varias do Brazil, crêa um novo genero, Myo-
procta, para Dasyprocta acouchy e substitue o nome
generico Callithrix Geof. pelo de Callicebus, emquanto
que o genero Hapale passa a ser denominado Calli-
thrixæ Erxl.
Do mesmo autor e publicados na revista acima
citada são os artigos que se seguem :
Notes on the phyllostomatous genera Mimon and
Tonatia. 1902, p. 95.
Refere-se além de a outros a M. bennetti Gray, de
Ypanema, Est. de S. Paulo.
On mammals from the Serra do Mar of Paraná.
1902, p. 59 —64.
Trata-se de uma collecção de 18 mammiferos, reu- .
nidos por À. Robert no Est. do Paraná; entre elles ha
duas especies novas: Akodon serrensis e Coendou ro-
berti. Tambem foi colligido um exemplar de Oxymy-
cterus theringi Thos., que só era conhecido do Rio
Grande do Sul.
Pira, Ad. Ueber Fledermiuse von 8. Paulo.
Zool. Anz. Vol. 28. 1904, N. 1, p. 12.
Estuda uma collecçäo de 16 especies de morcegos
colligidos nos arredores de Iguape pelo Snr. R. Krone
e adiquiridos pelo Instituto Zootomico da Universidade
de Stockholm. Ha entre estes chiropteros uma preten-
dida variedade nova: Atalapha cinerea brasiliensis e
duas especies que até agora não tinham sido observadas
no Est. de S. Paulo: Molossus abrasus e Cheeronyc-
teris minor.
— 618 —
Allen, J. A. A Preliminary study of the South-
American Opossums of the genus Didelphis. Bull.
Amer. Mus. Nat. Hist. Vol. 16, 1902, Art. XX, pag.
249—279.
Trata-se de um estudo critico, systematico do ge-
nero Didelphis, que comprehende os nossos «gambas».
Hagmann, Dr. Gottf. Der Zoologische Garten des
Museu Goeldi in Pará. 1901, 55 pgs., I Est. Frank-
furt a. M.
O folheto de que tratamos da uma bôa idéa da
organização do Jardiro Zoologico annexo ao Museu
Paraense, historiando o seu inicio e dando uma planta
da sua actual installação. Depois de enumerar os ani-
maes gue em geral ahi figuram e o seu modo de acqui-
sição, dá-nos uma idéa do trato que requerem.
Ihering, H. von. The Brology of the Tyrannideæ
with respect to their systematic arrangement. The
Auk, Vol XXI N. 3, 1904, p. DIS SER.
Estuda, comparativamente, a biologia dos Tyranni-
das, quer qnanto ao modo de construcção dos ninhos,
quer quanto à forma e côr dos ovos. Destacam-se assim
varios grupos, que tambem correspondem bem à divisão
systematica dos Tyrannidas e mesmo, por vezes, nos
mostram a necessidade que ha em reorganizar as subdi-
visões estabelecidas.
Tambem o seu modo de vida, nos campos ou nas mat-
tas, é, até certo ponto, um factor auxiliar. Consi-
derando conjunctamente estes varios momentos biologi-
cos, chega-se ao resultado seguinte, quanto à subdivisão
da familia.
A subfamilia Zænoplerinæ, depois de se eliminar
alguns elementos estranhos. como Sayornis e Sisopygrs,
é bastante natural; os Platyrhynchine contêm dous
erupos bem differentes entre si: Muscarthminae e Ser-
pophagine ; dos Elaineinc devem ser desligados varios
|
6
E
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À
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generos, que constituirão a subfamilia dos Petanyine ou,
pelo menos, deverão ser ligados aos Tyranninw, que
formam a ultima subfamilia, como um grupo bem na-
tural.
E” principalmente em estudos desta ordem que se
faz sentir o prejuizo que acarreta o uso exclusivo da
nomenclatura binominal, difficultando a facil orientação,
quando o emprego dos nomes trinarios, em certos casos,
seria de maior conveniencia.
Hellmayr, C. E. Revision einiger neotropischer
Fundido Journ. fp Ornith. 1902, Vol. 50, H. 1, q
44-70.
Esta revisão do grupo dos sabiás, de tão difficil es-
tudo systematico, que o auctor promette continuar, cor-
responde a uma real necessidade ; o presente artigo trata
de 9 especies com numerosas subspecies, muitas dellas
brazileiras. °
Hellmayr, C. E. Ueber neue undwenig bekann-
te südamerikanische Voegel. Verh. zool. bot. Ges.
Wien 1908, p. 149.
Ao mesmo tempo que o auctor descreve algumas
especies novas de aves (Pipridæ, Tyrannidæ, Wormi-
cariidoee e Dendrocolaptidæ) redescreve outras mal co-
nhecidas, e que fazem parte, quasi todas, da rica colle-
cção reunida por Natterer, pertencente ao Museu de
“Vienna.
Goeldi, E. A. Ornithological results of an expe-
dition up the Capim river (Pará), with critical re-
marks on the Cracidæ of lower Amazonia. The Ibis,
1903, (6) Vol. El No 12, podia 501.
Descrevendo as pittorescas scenas que alegram a
vista do viajante que sóbe o rio Capim, o auctor trata
da avifauna que observou e devem ser mencionadas es-
pecialmente as suas pesquizas sobre o Mutum.
ae hy ae
Verificou o dr. Goeldi que o que se chamava Crax
pinima Pelz. é na verdade, a femea da especie que já
anteriormente fora descripta por Spix, como C. fasciolata.
Goeldi, E. A. Album de aves amazoncas. Sup-
plem. ilustrado à obra «Aves do Brazil»; Museu Goel-
di, Pará. Impr. Zürich, Inst. Polugr. 1902. Ll. fas-
coculo, Est. 1i—24,
E' a continuação da colleeção de estampas colori-
das à qual já nos referimos nesta Revista Vol. V. à p.
720. A publicação ficará completa com o appareci-
mento do 3.º fasciculo. A presente 2.º parte contem
ilustrações de representantes de variados grupos, entre
os quaes mencionamos: Psittacidæ, Picidæ, Cracidæ ;
Formicariidze Dendrocolaptidæ, Cottingidæ e outros Pas-
seriformes.
Boulenger, G. A. Last of the Batrachians and
Reptiles collected by M. A. Robertat Chapada, Matto-
Grosso, and presented by Mrs. Percy Sladen to the
British Museum (Percy Sladen Expedition to Central
Brazil). Proceedings of the Zoological Society of
London 1903; ol. 11 Parts Tp. 69.
Enumeração de nove especies de batrachios e dez
de reptis, entre os quaes a nova especie Norops sla-
deniae, todas da Chapada de Matto-Grosso.
Hagmann, Gottf. Die Kier von Caman nizer.
Zool. Jahrb. Abt. Syst. Bd. 16, 1902, p. 405--410,
2 Est, & fig.
E u continuação a seus estudos anteriores sobre a
biologia e propagação dos reptis brazileiros, o auctor :
trata nesta publicação principalmente dos ovos de jacaré.
Osborn, Henry Fairfield. The Reptilian subclasses
Diapsida and Synapsida and the early history of the
Diantosauria. Memoirs of the American Museum of
Natural History; Vol. I Part. VIII, 1903 p. 451-507.
— 621 —
Reclassefication of the Reptilia. - The American
Naturalst ; Vol. XXX VIII, N. 446. Boston 1904 p.
93--115.
A classificação e phylogenese dos reptis ainda tem
muitas lacunas e incertezas.
A theoria de Baur, o qual tem prestado tão emi-
nentes serviços nesta materia, pecca por attribuir a todos
os reptis uma origem commum, de um typo primitivo
de Sphenodon ou Proganosaurio, passando depois por
um estado de Cotylosaurio, emquanto hoje esta provado
que muitos reptis nunca passaram por uma phase de
Proganosauro ou Rhynchocephalo.
() auctor acha mais acertado dividir todos os reptis
em duas subclasses : Synapsida com arcos temporaes sim-
ples e indivisos e Diapsida com arcos temporaes du-
plos ou separados. Os Synapsidas, partindo dos Cotylo-
saurios, passando pelos Anomodontias, Testudinatas, Sau-
ropterygios continuam a sua série até aos mammiferos.
Os Diapsidas, começando nos Diaptosaurios, passando
pelos Phytosaurios, Ichthyosaurios, Grocodilios, Dinosau-
rios, Squamatas, Pterosaurios, marcam a escala que tem
seus representantes mais modernos nos passaros.
O typo da ordem dos Proganosaurios, que faz parte
dos Diaptosaurios, é o genero Stereosternum Cope do
permiano brazileiro, descripto no primeiro dos mencio-
nados trabalhos. O material para o estudo deste genero
foi fornecido ao American Museum pelo dr. Derby, di-
rector da Commissão Geographica e Geologica de S.
Paulo, que, além do typo, remetteu mais dous exempla-.
res de Stereosternum tumidum Cope além de outros
materiaes. Tainbem utilizou-se uma descripção que o au-
ctor Smith Woodward deu de um exemplar de Stereoster-
num, existente no Museu Paulista. Todo este material
é provavelmente proveniente de depositos homotaxiaes
do Brazil meridional.
Ha mais um genero nesta ordem, o Mesosaurus
Seeley do permiano da Africa meridional e intima-
mente alliado ao Stereosternum brazileiro. Destas duas
Goo
formas nao parte nenhum ramo posterior dos Diapsidas ;
elles formam um grupo isolado, extincto, que não se
prolongou em outras formas.
Srebenroch, F. Zur Systematih der Schaldkréten-
Galtung Podocnemis Wagl. (Mit 1 Tafel). Sitzungs-
bericht der Kaiserlichen Akademie der Wissenschaf-
ten. Mathematisch— Naturiwissenschaftliche Classe. Vol.
CXI Wien 1902 p. 197--171.
O auctor procede a uma revisão de todas as es-
pecies do genero, ajuntando uma estampa, que dá fi-
guras das cabeças de diversas especies. A especie ge-
ralmente conhecida sob o nome de P. dumeriliana D.
B. não é identica com a P. dumeriliana Schweigger
e deve ter o nome de P. cayennensis Schw., ao passo
que o nome de P. dumeriliana Schw. fica conservado
para a especie que foi deseripta por Spix pelos nomes
de Emys macrocephala e tracaxa; E. erythrocephala
Spix é synonyma de P. cayennensis Schw.; P. coutinhii
Goeldi do Rio Negro & synonyma de P. lewyana A.
Dm. da Columbia e da Venezuela.
Boulenger. G. A. Descriptions of new Fishes
and Reptiles discovered by Dr. F. Silvestri in South
America. Ann. Mag. of Nat. fist. (7) 1902 Volo
N. 52. Apr. p. 2S4—288.
- Descreve varios peixes, quasi todos do rio Coxipo,
Matto Grosso, bem como dous reptis, entre elles uma
«cobra de duas cabeças» Amphisbena silvestre.
Tate Regan, C A Monograph of the Fishes of
the family Loricariidw. Transac. cf the Zooi. Soc.
London; Vol. XVII, part II, 1904, Est. IX—XXI.
Este importante estudo monographico trata dessa |
familia de peixes a que pertencem tambem os nossos
Cascudos. Os Loricariidas são exclusivamente sul-
americanos e atê hoje se conhecem 189 especies; na
monographia de T. Regan, que & accompanhada de
numerosas e boas illustrações, estão descriptas 34 es-
pecies novas, muitas das quaes são brazileiras.
— 623
Tate Regan, C. On a collection of fishes made
by Dr. Goeld at Rio de Janeiro. Proceedings of the
Zoological Society of London 1903. Vol. Ll. Part. I.
p. II—GOY.
A collecçäo de peixes estudada pelo auctor foi reunida
no Rio de Janeiro pelo Dr. Goeldi e contem representan-
tes de 125 especies differentes, entre as quaes 4 são
novas, sendo uma representante do novo genero Myla-
crodon, cuja unica especie, M. goeldur é figurada na
Estampa VII. As outras especies novas são: Rava cy-
clophora, Genyptures brasiliensis (Plate VIII fig 2) e
Peristedion altipinnis (Plate VU fig 1). Os nomes tri-
viaes das especies estudadas não foram indicados.
Miranda Ribeiro, Alípio de. Pescas do «Annie».
A Lavoura, Capital Federal 1903 p. 150 - 197.
O auctor, em companhia do seu collega do Museu
Nacional, Sr. Carlos Moreira, aproveitou as pescas do
hiate « Annie» para estudar os peixes e crustaceos ob-
tidos do fundo do mar perto da bahia do Rio de Ja-
neiro. O auctor dá em primeiro logar a deseripçäo do
navio e dos apparelhos empregados na pesca; segue
depois a enumeração dos peixes obtidos e a descripção |
de diversas especies novas.
Pelas pescas do Annie foram descobertos, em aguas
do Brazil, muitos peixes, que até agora se cabeca SÔ-
mente de outras partes do Atlantico.
O augmento da fauna ichthyologica brazileira 1m-
porta em 9 familias, 18 generos e 27 species e entre
estas 12 novas, que são : Fostularia rubra, Anthias du-
plicidentatus, Liosacus intermedius, Pontinus coralli-
nus, Peristedion roseum, Pseudopercis numida gen.
nov. e sp. n., Hypsicometes heterurus, Lepophidiwm
fluminense, Urophycis mystaceus, U. latus, Paralich-
thys triocellatus, Gymnachirus zebrinus.
Azurem Furtado, J. Pesquizas ichthyologicas na
Bahia do Rio de Janeiro. These inaugural. Rio de
Janeiro, Typ. Altina, 1903, 179 p.
— 624 —
Este trabalho, apresentado à Faculdade de Medici-
na do Rio de Janeiro, para a obtensão do grão de dou-
tor, comprehende cinco capitulos que são: Morphologia
e physiologia dos peixes; Nomenclatura dos peixes da
bahia do Rio de Janeiro; Toxicidade dos peixes; O
peixe como alimento ; Piscicultura maritima.
Contando o auctor com o auxilio do competente
ichthyologo do Museu Nacional, Sur. Alipio M. Ribei-
ro, poude dar uma extensa lista dos peixes da bahia
fluminense ; quanto à toxicidade dos peixes relata suas
experiencias feitas com a bilis do baiacú (Dzodon) su-
bstancia que torna venenoso este peixe.
Smith, Edgar A. Note on some Mollusks of the
Family Bulimulidæ from Matto Grosso (Percy Sladen
Expedition to Central Brazil). Proceedings of tre Zo-
ological Society of Lodon 1903. Vol. II. Part. 1 p. 70.
Pequena noticia que enumera alguns caracoes, col-
ligidos em Corumbá e que são as seguintes: Bulimu-
lus montivagus D'Orb., B. corumbaensis Pilsbry., Dry-
maeus poecilus D'Orbigny.
Ihering, H. von, Zur Kenntniss der Naiaden von
Goyaz. Nachrbl. der Malak. Gesel. 904 Vol. 36, N.
4, p. 154 - 157.
Baseia-se este escripto em collecções de conchas
fluviateis, reunidas no Araguaya, Est. de Goyaz pelos
Snrs. Tenente Henrique Silva e A Hofbauer. Alem do
interesse systematico destas collecgdes, accresce o da
distribuição geographica. Assim demonstra ser inexa-
cta a indicação de Castelnau da occorrencia de Leila
pulvinata no Rio de Janeiro; é nova a occorrencia de
Prisodon obliquus em tributarios meridionaes do sys-
tema do Amazonas.
Miranda Ribeiro, Alipio de. Notas Zoologicas.
Archivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro : Vol.
XAT 103. MES 9
— 625 —
Na primeira nota descreve-se um Distomum, en-
contrado na membrana nyctitante de Larus macul-
pennis Licht. |
A segunda nota trata de Limas varvegatus Drap.
Este mollusco foi encontrado no interior de uma casa
do centro do Rio de Janeiro. Provavelmente a lesma
examinada era a mesma da qual trata o dr. Francisco
Campello no seu artigo «O caso de um Limacidio na va-
gina» Revista da Sociedade de Medicina do Rio de Ja-
neiro, Vol. IV. 1902 p. 197—20s.
O Limax entretanto foi encontrado entre pannos,
cheios de sangue, onde provavelmente a sua existencia
era casual. Observo aqui que esta especie, importada
no Brazil desde muito tempo, já foi por mim relatada
no meu artigo «Zur Kenntniss der amerikanischen Li-
max-Arten. Jahrbuch Deutsch. Malak. Gesell. X Il. Frank-
furt a. M. 1885 p. 201-218.
Moreira Carlos. Campanhas de pesca do hiate
«Annie», dos Snrs. Bandeira & Bravo. Estudos pre-
liminares. Crustaceos. «A Lavoura», Rio de Janei-
ro. Anno 1903 Ns. 1—3 pag. 60-67.
O auctor descreve diversas especies novas, como
Pseudosquilla brasiliensis, Nephrops rubellus e Stenoci-
nops polyacantha. E” de interesse especial a descoberta
de uma especie de Nephrops, que é a terceira desco-
berta no Oceano Atlantico e que foi pescada em nu-
merosos exemplares a 30 ou 35 milhas da costa, em
profundidade de 60 a 100 metros. Menciona tambem
duas especies de grande interesse, observadas pela pri-
meira vez na costa do Brazil e que são: Squilla em-
pusa Say, que até agóra só tinha sido encontrada em
Florida, Jamaica e Africa Occidental, e Seylarus arctus
(L.), cuja occorrencia só tinha sido verificada no Atlan-
tico Oriental e da Europa à Senegambia.
E” de lastimar que as pescas do «Annie» não con-
tinuem, sendo muito louvavel a iniciativa e energia dos
Snrs. Carlos Moreira e A. de Miranda Ribeiro, que
aproveitaram bem a occasião no interesse da sciencia.
— 626 —
Moreira, Carlos. Crestaceos da Ponta do Pharol
em S. Francisco do Sul no Estado de Santa Catha-
rina. Archivos do Museu Nacional. Vol. XII. Rio
de Janeiro 1903, p. 119— 125.
O artigo trata de diversas especies de crustaceos
incompletamente conhecidos, especialmente de Sesarma
rubripes Rathb. da qual é synonyma S. benedict: Car-
los Moreira e S. crassipes “ano.
A primeira desias duas especies, que o Museu Pau-
lista tem de Cubatão (Santos), foi, figurada na estampa 1.
Moreira Carlos. Nota. Appendice às contri-
buições para o conhecimento da fauna brazileira.
Crustaceos do Brazil. Archivos do Museu Nacional
Rio de Janeiro. 1903. p. 111—117.
Descripção de uma collecção de Crustaceos do Es-
tado de Santa Catharina, contendo quinze especies, das
quaes dez não tinham sido encontradas em localidades
ao Sul do Rio de Janeiro. Offerecem interesse especial
duas especies Persephone lichtensteint Leach e Libinea
ferreirai B. Cap., visto que não se conhecia até agora
com exactidão a localidade onde vivem.
Moreira, Carlos. Uma especie nova de Amphipode
orchestideo, que vive a 2240 m. sobre o nivel do
mar. Archivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro
Vol. XII. Rio de Janeiro 1903. p. 187-190.
Descripção da nova especie Allorchestes pernix,
que vive no Itatiaya, na Serra da Mantiqueira -- Estado
do Rio de Janeiro, em uma :agôa denominada pelos
habitantes do logar : Lagoa Esgottada.
Sars, G O. On a new south American Phyl-
lopode : Eulimnadia brasiliensis. Archiv for Mathema-
tk og Naturvidenshab, B. XXIV, n. 6 Pl. I 1902.
O auctor accrescenta ao grande numero de crus-
taceos entomostracos, que creou dos ovos contidos em
lodo secco e que lhe foi remettido por este Museu,
mais uma especie bem interessante, pertencente aos
phyllopodes bivalvos. A nova especie é figurada e des-
cripta sob o nome de Eulimnadia brasiliensis. O au-
ctor lembra, nesta occasião, que além desta especie só
quatro outras são conhecidas da America Meridional e
que são :
Branchinecta iheringi Lillieborg.
Branchinecta granulosa Daday.
Lynceus (Limnetis) rotundirostris Daday.
Cyclestheria hislapi Baird.
O auctor não teve conhecimento do meu artigo
«Os crustaceos Phyllopodes do Brazil», Revista do Mu-
seu Paulista vol. I, 1895 pag. 165-180, que dá uma
lista mais completa e contêm a descripçäo de uma
Eulimnadia que considerei como E. texana Packard,
talvez identica com a descripta por Sars.
Stingelin, Th. Ueber Entomostraken aus dem
Miindungsgebiet des Amazonas. Zool. Anz. Vol. 28,
1904, N. 4, p. 158.
Pelo Snr. Hagmann o auctor recebeu da f6z do
Amazonas 6 especies de Cladoceras e varios outros
Entomostraceos, entre os quaes diversas especies no- —
vas. Veja-se a respeito tambem o artigo sobre Holo-
pedidas (Rev. Suisse Zoolog. 1904 Vol. 12, p. à3) do
mesmo auctor.
Brélemann, Henry W. Myriapodes recueillis au
Pará par Monsieur le Prof. E. A. Goeldi, Directeur
du Musée. Zoolog. Anz. 1902. Bd. XXVI N. 091
p. 177-191.
Contéur entre outras a descripçäo de uma nova
especie do genero Spirobolellus Pocock, 1894, genero
que o auctor suppõe importado para a America Meri-
dional, sendo elle originario da Indo-Malasia. A es.
pecie nova deste genero encontrada no Pará é Spiro-
bolellus cruentatus. O numero das especies provenientes
do Pará enumeradas neste artigo é de 12, entrando
neste numero duas especies novas do genero Rhinocricus.
— 628 —
Brülemann, Henry W. Myriapodes recueillis par
M. E. Gounelle au Brésil. Annales de la Societé En-
tomologique de France, 1902. Vol. LXXI, p. 649-694.
Férma o objecto deste trabalho o estudo dos My-
riapodes colleccionados pelo Sr. Gounelle em duas via-
gens ao Brazil.
Uma parte dos mesmos provem da Bahia e Per-
nambuco, tanto da costa como do interior, emquanto a
outra foi colligida no Estado de S. Paulo. O trabalho
divide-se assim em duas partes, tanto mais que as fau-
nas das duas regides mencionadas tem muito poucos
elementos communs.
Os materiaes de São Paulo são pouco abundantes
e resumem-se em 7 especies, das quaes quatro já tive-
ram uma descripçäo no trabalho do mesmo auctor, pu-
blicado na Revista do Museu Paulista em 1902, em-
quanto 3 são novas.
As cclleegdes da Bahia e Pernambuco apresentam
grande interesse. porque ellas contêm exemplares nos
quaes o auctor julga conhecer especies descriptas por
O. von Porat e mais porque o Sr. Gounelle parece ter
achado novamente a Scolopendropsis bahiensis, descripta
por Brandt em 1840 e que desde aquelle tempo não
foi mais encontrada.
As tres novas especies de São Paulo, achadas em
« Faren da Nova Nicaragua», que provavelmente deve
ser Fazenda Nova Nicaragua, são :
Schendyla gounellei n. sp.
Leptodesmus clavaria n. sp.
Strongylosoma pustulatum n. sp.
Silvestre. Dr. Filippo. Viaggio del Dr. A. Bo- |
relli nel Matto Grosso, VII Diplopodr. Bolletino dei
Muser di Zoologia ed Anatomia comparata della R.
Universita di Torino Vol. X Vil 1902., N. 432.
Na terceira viagem que o Dr. Borelli emprehendeu
para estudar a fauna do Rio da Prata, elle colleccionoa
alguns Dipiopodos ainda não encontrados nas suas via-
— 629 —
gens anteriores. O artigo da a descripçäo destas es-
pecies, entre as quaes se acham as seguintes brazileiras :
Mestosoma bicolor, Silv., de Urucum (Coru nba);
Erythrodesmus bovei, Silv. Bella Vista (Paranã) ;
Leiodesmus carcani, n. sp., de Urucum ;
Euthydesmus acicarina, n. sp., de Urucum ;
E do novo genero Brachyurodesmus a especie
parallelus (Attens) de Urucum.
Da familia Spirostreptidae :
Nanostreptus libertinus Silv., de Corumbá ;
Nanostreptus mattogrossensis, n. sp., de Corumbá ;
Plusioporus giliotosi Silv., de Urucum ;
Diaporus americanus subsp. perproximus n,, de Co-
rumba ;
Heteroryge paraguayensis Silv., Matto-Grosso : Uru-
cum e Itaisi.
Da familia Spirobolidae :
Rhinocricus nodulipes Silv., de Urucum.
Da familia Pseudonannolenidae :
Pseudonannolene pusilla Silv., de Urucum ;
Pseudonannolene parvula, n. sp., Bella Vista (Paraná).
William J. Burcheil, The collections of Burchell
an the Hope Department, Oxford University Museum.
Ann. Mag. Nat. Fist. Vol13, 1904. N, 73, p. 45 ss.
Sob este titulo o Prof Ed. Poulton da Universi-
dade de Oxford, lembrou-se, em bôa hora, reunir quer
os apontamentos tomados por W. Burchell em snas
viagens feitas primeiro à Africa e depois ao Brazil,
quer os resultados ulteriores desta expedição, princi-
palmente os estudos baseados sobre o rico material
então colligido. Burchell partiu em 1825 do Rio de
Janeiro, passou por S. Paul» para Minas, atravessou o
Est. de Goyaz de sul a norte e, seguindo o valle do
Tocantins chegou ao Pará em 1830. Apoz a sua morte
em 1863, a viuva offereceu a rica colleccäo entomolo-
gica à Universidade de Oxford e um immenso herbario
à Linnean Society.
No mesmo Annals and Magazine foram até agora
publicados os seguintes estudos, baseados nesta collecçäo :
a
fo ANAS
fs
fon
f SO
e
4 E f
— 6380 —
Pocock, R. 1. On a new stridulating organ in
scorpions discovered by Burchell in Brazil in 1828
(Est. IV. p. 56-62).
A estampa IV fig. 2 mostra perfeitamente como
se produz na lacráia Rhopalurus borelii o som estri-
dulante, observado por Burchell; provem da passagem
dos pectens sobre uma area granulada da face ventral
do cephalothorax.
Bourgeois, J. Rhipidocêrides et Malacodermes
recueidlis por W. Burchell (avec la description de 4
espèces nouvelles. Loc. cit. 1904, N. 79 p. 89-102.
Fazem parte da collecção 113 especies de coleopte-
ros destas duas familias, sendo para muitos destes vaga-
lumes, indicadas interessantes notas biologicas.
Sanders, Cora B. On the Lepidoptera Rhopa-
locera collected by Burchell in Brazil. Loc. cit. 1904
N. 76, p. 305-323 Est. VI, N. 77, p. 356-372.
Enumeração anotada das numerosas borboletas diur-
nas contidas na collecção.
Deverão apparecer ainda outros estudos sobre a
mesma collecção.
Fox, Will. J. Contribution to a knowledge of the
hymenoptera of Brazil. N. 8.-- Eumende (conti-
nued). Proc. Acad. Nat. Sc. Philad. 1902, p. 44—69.
Este oitavo artigo da série de descripções de hyme-
nopteros pelo operoso auctor, trata dos vespideos soli .
tarios do genero Odynerus, do qual descreve 26 espe-
cies novas. Quasi toda a série destas publicações re-
fere-se à rica collecçäo de Herbert Smith, reunida prin-
cipalmente no Matto-Grosso e Amazonas, e que actual-
mente está em poder do Carnegie Museum ; exceptua-se
o 6.º folketo, que descreve varias especies novas da col-
leeção do Museu Paulista.
Ihering, Rodolpho von. Contribution a l'étude
des Vespides de VAmerique du Sud. Anuales de la
— 631 —
Soc. Entomol. de France, Vol. LXXII, 1905, p.
pe Tsay
Ihering, R. von. Notes sur des Vespides du
Brésil. Bull. Soc. Entom. de France, 1904, N. 4,
PSO. ss:
Estes dous escriptos comprehendem as diagno-
ses de um certo numero de especies novas de vespas
sociaes e a descripçäo dos ninhos de muitas dellas ;
todas as especies brazileiras ahi descriptas foram encor-
poradas ao estudo do mesmo auctor neste volume da
Revista, p. 97—309.
Duche, Adolf. Zur Kenntuis der Sphegiden
Nordbrasiliens, Zeitschrift für systematische Hyme-
nopterologie und Dipterologie. IV Jahrg. Heft. 2. Te-
schendorf 1904, p. 91—98.
Descripção de diversas especies de 8 generos de
Sphegidze do norte do Brazil, entre estas as tres espe-
cies novas: Bothynostethus collaris, Solierella amazo-
nica e Anlacophilus eumenoides. Para a determinação
das especies do genero Bothynostetus, do qual se co-
nhecem uma especie arctica e seis neotropicas, todas
muito raras, o auctor dá uma chave.
Ducke, Adf. Neue siúdamerik. Chrysididen. Zeit-
Schr po Lymen. uso Dept. E Jahrg. 1902, HH Hp.
97—101 ; LL Jahrg. p. 129 e 226 ss.
Contém a descripção de 4 especies novas de hyme-
nopteros, acompanhada de uma estampa.
Ducke, Adf. Eine neue siidamerik. Cleptes-Art ;
l. cit. p. 91—93.
Descripcäo da especie nova, sob o nome de C. mu-
tellovdes.
Duche, Adf. Hin wenig bekanntes Chrysididenge-
nus Amasega Cam. l. c. H 3, p. 141—144,
— 632 —
Ducke, Adf. Zur Kenntnis der Diploptera vom Ge-
hiete des unteren Amazonas. Zeitschr. syst. Hymenopt.
Dipt. Jahrg. 4., p. Vit ids. |
O auctor descreve 6 especies novas da familia Eu-
menidse.
Ducke, Adf. Beitrag zur Synonymie der neotro-
pischen Apiden |. cit. H. 3. p. 176.
O auctor reconhece que o genero de abelha so-
litaria Frzesea Schrott., descripto nesta Revista, Vol. V,
p. 418, deve entrar na synonymia do genero Perdita
Sm., e que o nome generico de outra abelha solitaria,
Chrysantheda Perty, deve ser substituido pelo de
Exaerete, por ser este mais antigo.
Ducke, Adf. Beitrag zur Kenntniss der Brenen-
gattung Centris. Zeitsch. f. Hymen. u. Dipt. IV, 1904,
E. 4, p. 2092,
Fazendo a revisão das especies deste genero, da
boa chave, commenta a monographia de Friese e des-
creve duas especies novas. Temos a notar que ahi são
consideradas synonymas de C. conspersa duas especies
descriptas nesta Revista, vol. V. por Schrottky sob os
nomes de C. possograndensis e ehrhardti.
Ihering, Rodolpho von. Zur Frage nach dem Urs-
prung der Staatenbildung bei den sozralen Hymeno-
pteren. Zoolog. Anzeiger, vol. XXVII, n. 4, 1903
po IS ss.
Ihering, R. von, Brologische Beobachtungen an
brasilianischen Bombus-Nestern. Allgm. Zertschr. f.
Entomol. Neudamm, vol. VIII, n. 22-24, 1905, p.
447-459, fig. 1-5.
Estes dous artigos tratam principalmente da bio-
logia dos hymenopteros do genero Bombus ou «maman-
gabas» e passaremos a dar um pequeno resumo dos seus
resultados. Interessante é a observação do modo de
procreação, como ella se dá nas 2 especies B. carbo-
|
E
|
|
|
q
|
- - 633 —
narius e cayennensis, as mais communs no Estado de
S. Paulo. Os ovos säo postos em maior quantidade, até
12, em uma só cellula e, ao passo que crescem, tam-
bem esta cellula é auginentada pelas obreiras; quando
as larvas tiverem attingido o seu desenvolvimento com-
pleto, cada qual tece o seu cocon, que varia em di-
mensões segundo que o imago a sahir for 9, d ou
2. O ninho destas mamangabas, terriveis pela sua fer-
roada dolorida, está em geral occulto entre capim alto
ou tousseiras do campo; o maior numero de indivi-
duos observados em um só ninho foi de perto de 500,
Comparando a biologia destas especies brazileiras
com as do mesmo genero na Europa, verifica-se que
aqui os ninhos são perennes, ao passo que lá, devido à
intensidade do frio, os mesmos morrem no inverno,
conservando-se só as 99. As nossas especies fundam
novas colonias por meio de enxames (1); no mesmo
ninho ha, normalmente, numerosas femeas fecundadas,
quando na Europa ha uma só, ou rainha. Com respei-
to a esta monogamia ou polygamia nos ninhos dos
hymenopteros sociaes (exclusive Formicidae) chega-se
à conclusão de que a monogamia constante, que nota-
mos em Apis e Meliponæ, representa um alto grau de :
divisão de trabalho; mas em Bombus e Vespide ha
normalmente a polygamia e, sd quando as condições
climatericas a isto os forçam. passam a ser monoga-
mos. Considerações desta ordem tambem vão expostas
na parte biologica do estudo das nossas vespas (neste
mesmo volume, p. 279 ss.).
Schulz, W. A. Zur Kenntnis der Nistwerse von
Euglossa cordata (L.). Zeischr. fiir Entomologie,
Neudamm, 1902, 7. Band, pag. 153, 154.
auctor observou no Pará um ninho de Englos-
sa cordata, feito de uma resina gommosa e contendo
(1) Todavia esta affirmação carece ainda da confirmação por
observações authenticas. Do caso contrario, isto é do inicio de um
ninho por uma só femea, acabo de ter a prova por um pequeno
ninho (7 cellulas) de B. carbonarius) M. Wacket leg. 15. X. 104).
— 634 —
tres cellulas. O auctor contesta as conclusões a que che-
vou A. Lucas, (Ann. Soc. Entom. France VIII, 1878
p. CXLII). Evidentemente novas observações mais com-
pletas são necessarias. Deve, pois, ainda esta nota bio-
logica ser accrescentada ds que no estudo biologico
do Sr. Rodolpho von Ihering vão citadas neste volume
da Revista, p. 481.
Schrotiky, C. Nene brasilianische Hijmenopteren.
Zintschr. f. Hymen. u. Dipter. 1908. III Jahrg. N.
1, p. 39-45.
Enumera este estudo 14 especies novas, que des-
creve, de varias familias de hymenopteros ; provêm
quasi todos dos Estados de S. Paulo e Minas Geraes.
Duche, Ad. Die stachellosen Brenen (Melipona)
von Pará, nach Material des Museu Goeldi. Zool,
Jahrb. Abt. Syst... Bd. 17, 1902/p 285-5328 19 Hist:
Um bello trabalho é o que o Sr. Ducke nos apre-
senta sob este titulo, dando uma enumeração, tão com-
pleta quanto hoje é possivel, das abelhas sociaes do
Estado do Pará. Encontram-se ahi 42 especies e des-
tas 38 apparecem nas immediações da capital. Foram
acceitas só as especies representadas na colleeção do
Museu, deixando o auctor de lado as que só são conhe-
cidas na literatura ccmo sendo do «Para.»
Depois de facilitar a determinação systematica com
a elaboração de uma chave, passa a descrever cada
uma das especies. Reune todas no genero Melipona,
que depois subdivide em subgeneros Trigona e Meli-
pond. Deste ultimo ha no Paré só 6 especies. Sob a
direcção do dr. H. Friese foi executada uma boa es-
tampa lithographica, que nos apresenta 9 especies.
Friese, H. Zur Synonymie der Apiden. Zeitschrift
für systematische Hymenopterologue und Dipterologre
IV Jaherg. Heft 2. Teschendorf 1904. p. 98—100.
O autor cita alguns casos de synonymos de publi-
cações recentes e entre estes, da Revista do Museu Pau-
ee Oe
-
— 635 —
lista 1902, Vol. V, do trabalho do Sr. C. Schrottky
«As abelhas solitarias do Brazil» os seguintes :
Odyneropsis holosericea=Khathymus armatus Friese.
Oxynedis beroni=Hopliphora velutina Lep.
Cyphomelissa pernigra—Melissa diabolica Friese.
Acanthopus exellens=A. iheringi Grib.
Centris ehrhardti & —C. dorsata Lep. &
Centris possograndensis 4 —C. dorsata Lep. 9.
Observamos aqui que o Snr. Friese escreve poco-
grandensis para as especies de Centris e Megachile,
substituinda o ¢ do auctor porc, o que não é admissi-
vel, devendo-se escrever possograndensis, uma vez que
não se admitte o c em latim. O Snr. Friese nota ainda
que no artigo do Snr. Schrottky, na explicação da es-
tampa XII, as explicações foram trocadas.
Friese, Dr. Neue Meliponiden. Zeusch. f. Hymen.
u. Dept. MI 1903 p. 359 ss.
O auctor descreve varias especies e variedades no-
vas de abelhas sociaes, quasi todas brazileiras e funda
um novo genero, Lestrimellila, para a Trigona lmao.
Ihering, H. von. Biologie der stachellosen Honig-
bienen Brasiliensis. Zoolog. Jahrb. Abt. System. There.
Vol. 19, 1903, H.2 u. 3 p. 179-287 Est.10-22.
Foi o presente estudo iniciado pelo auctor já em
1880 no Rio Grande do Sul, e, sempre que as cir-
cumstancias o permittiam, em varias localidades desse
Estado e no de S. Paulo, a biologia das abelhas so-
ciaes ou Meliponidas formava assumpto de especial
attenção e estudo.
Falta ainda um estudo completo sobre a systema-
tica destas nossas abelhas, mas podemos avaliar em
cerca de um cento as especies conhecidas do Brazil, ca-
bendo mais de dous terços destas ao genero Trigona.
O estudo a que nos referimos contém, além da parte
geral, introductoria, os seguintes capitulos :
— 636 —
_ 1) Biologia especial de Melipona e Trigona, no
qual estão descriptos os ninhos e se discutem outros
momentos biologicos, como sejam o mel, a cêra, a épo-
ca e o modo de propagação, etc. de 27 especies dos
dous generos.
2) Biologia geral das Meliponidas; ahi trata-se,
de modo geral, dos costumes das abelhas, a maneira
de construcção do ninho, da composição da socieda-
de, etc.
3) A creação de abelhas e seus productos e seus
nomes vulgares. Este capitulo discute o valor e em-
prego do mel e da cêra, baseado tanto em observa-
"ções proprias como na literatura; chama a attenção
para os effeitos toxicos do mel de certas abelhas e
estuda ligeiramente os nomes vulgares das nossas abe-
lhas e sua etymologia. Esta ultima parte formou o as-
sumpto de um artigo especial, ao qual em seguida nos
referiremos.
4) Biologia comparativa das abelhas sociaes e so-
litarias. Neste capitulo mostra que o estudo compara-
tivo das Meliponidas com as outras Apidas esclarecerä
muito a phylogenese do grupo, hoje, especialmente em
Apis, tão obscura, sendo de interesse especial neste
sentido o facto de sahirem no genero Melipona as
abelhas todas de cellulas de egual tamanho, ao passo
que. no genero Trigona, existem cellulas reaes, maio-
res e de forma oval, nas quaes são creadas as femeas
ou rainhas e. em Ars, a differenciação ê completa.
Do mesmo assumpto tratam dous outros artigos
tambem do Dr. H. von Ihering e que são:
As abeihas sociaes indigenas do Brazil. A La-
voura, Rio de Janeiro, 1902 N. 9-12, p. 281 tratan-
do especialmente das abelhas do Estado do Rio de Ja-
neiro e outro, de egual titulo na Revista do Inst. Hist. e
Geogr. da Bahia Vol. IX, 1903 p. 151 ss, ao qual
aqui já nos referimos à pag. 586.
lhering, H. von. As abelhas sociaes do Brazil €
suas denominações tunis. Rev. do Inst. Hist. e Geogr.
de S. Paulo, Vol. VIII, 1903; p. 376-369.
624
game
Depois de expôr em traços largos os pontos prin-
cipaes da biologia das Meliponidas, mostra o auctor
que as denominações indigenas das mesmas, quasi to-
das formadas com vocabulos tupis, sempre caracteri-
zam bem a abelha em questão, salientando esta ou
aquella qualidade especial da mesma. Ha cerca de 34
especies de abelhas sociaes no Estado de S. Paulo e
para cada uma dellas tem o indigena ou o seu suc-
cessor, O caipira, uma denominação especial, sempre
trisante e, em geral, baseada em um momento biolo-
gico.
Dreyling, L. Zur Kenninis der Wachsabscheidung
bei Meliponen. Zool. Anzerg. Vol. XXVIII, N. 61904,
p. 204-210.
Tratando ainda das nossas Meliponidas, registra-
mos este estudo, que versa sobre a já muito discutida
questão, da producção da cêra por estas abelhas. Sa-
bemos Que ella é seggregada em Apis por entre os
segmentos ventraes do abdomen e em Bombus tanto
pelos dorsaes como pelos ventraes. Nas Meliponas só
o lado dorsal tem as cellulas que formam as glandu-
las productoras de cêra, fortemente desenvolvidas e
isto especialmente nos 4 ultimos segmentos. A pro-
ducção de cêra é, pois, realizada nestas duas familias
de abelhas sociaes de modo identico, differindo só a
posição das glandulas.
Emery, C. Alcune specie di Camponotus dell’
America Meridionale. Rendiconto dela R. Ac. Se.
Ist. Bologna. 1902-03.22 p.
Figuram nesta enumeração numerosas especies pra-
zileiras, muitas das quaes novas, outras commentadas.
Explicam o texto varios desenhos e precede uma cha-
ve para a determinação das especies do genero.
Emery, C. Description d'une nouvelle espèce de
Fourmi du Brésil. Bulletin de la Société Entomole-
gique de France--Paris 1902 N. 9 pg. 181.
2698
Descreve o auctor uma nova especie de formiga--
Holcoponera brasiliensis--proveniente de Santa Catharina
e do Rio de Janeiro.
Forel, A. Mélanges entomologiques, biologiques et
autres. Annales de la Société Entomolcgique de Bel-
gique Tome XL VII, 1903 p. 249--258.
Este estudo trata de diversos assumptos de interes-
se geral e contêm tambem a descripçäo de novas . es-
pecies de formigas, das quaes varias são provenientes
do Brazil.
Forel, Auguste. Miscellanea myrmécologiques. Revue
Suisse de Zoologie, Annales de la Socicté Zoologique Suasse
et du Musée d'Histoire Naturelle de Genéve, publiées sous la
direction de Maurice Bedot. Tome XII, fascicule I, Genève
1904.
Erumeraçäo de especies de formigas brazileiras, in-
cluindo diversas observações biologicas, entre ellas o
modo summamente interessante e até agora não conhe-
cido da construcção do ninho de Camponotus senex.
«O sr. Andrê Goeldi installou dous ninhos de te-
cido sedoso no jardim botanico do Museu do Pará, onde
se acclimataram, fundando novos ninhos (succursaes)
sobre as arvores; verificou-se então que a seda do te-
cido é fornecida pelas larvas, que as obreiras seguram com
as mandibulas, empregando-as como lançadeiras, execu-
tando com elles movimentos em zig-zag para tecer
assim o seu delicado ninho. Por esta observação fica
plenamente confirmada a que foi feita anteriormente por
W. N. Ridley na Oecophylla smaragdina da Asia orien-
tal e publicada em: Journal Straits asiatic Society,
1899, p. 5. Como o Camponotus senex ( veja Forel,
Bulletin de la Soc. entom. Suisse, vol. X n. 7, 1900,
p. 271 e rorel, Godman and Salvin, Biologia centrali
Americ. Formicidae, etc.) a Oecophilla smaragdina faz
um ninho tecido de fios delicados, semelhante ao que
certas aranhas (Chiracanthium) constroem para sie
»
seus ovos, porem o tecido é mais solido.
— 639 —
E' ao sr. Ridley que cabe a honra de ter sido o
primeiro a constatar o modo original da Oecophylla
utilisar-se das lavras como machina de tecer. Mas a
questão conservou-se ainda algum tanto duvidosa, por-
que o sr. Aitken sustentou que tinha visto as formigas
mesmas por si só produzirem o fio e fabricar todo o tecido.
A observação dos Srs. Goeldi, feita independente-
mente daquella de Ridley, da qual elles não tinham
nenhum conhecimento e f-ita além diste em uma for-
miga de outro genero, dissipa a ultima duvida sobre
este facto biologico, unico no seu genero.
Ule, E. Ameisengiirten im Amazonasgebiet. Mit Tafel
XXIII. Englers Botanische Jahrbiicher, Bd. XXX. Heft.
2. Leipzig, 1501 p. 4d—52.
O sr. Ule na sua exploraçäo da regiäo amazonica
nos annos de 1900 —1903 ligou attenção especial a cer-
tos agrupamentos de plantas epiphytas, cuja existencia
esta intimamente vinculada à presença de formigas.
Em seguida reproduzimos os resultados mais in-
teressantes que foram obtidos.
«Verificamos o facto que as formigas semeam plan-
tas, productoras de flores em arbustos e arvores, as
cultivam para protecção de seus ninhos e constroem
assim jardins suspensos, que por isto denominei jardins
de formigas (Ameisengirten).
A exactidão de minha observação tem-se-me pa-
tenteado de diversos modos e baseio-me nisto nas se-
guintes considerações.
1) E impossivel, que sempre justamente nos lu-
gares onde nascem estas plantas se construa immedia-
tamente o ninho de formigas e tambem é impossivel
que taes quantidades de sementes, muitas vezes entre
si diversas, sejam levadas aos ninhos por passaros ou
outros animaes senão pelas proprias formigas.
2) Milita em favor de minha hypothese a cir-
cumstancia de que encontramos certas especies de plan-
tas exclusivamente nos ninhos de formigas.
— 640 —
3) À isto accresce a estructura especial das Epi-
phytas de formigas, que torna necessaria a accumulação
artificial de humus.
4) Fizeram-se experiencias que provam, que as
formigas carregam com effeito as sementes das Epiphy-
tas de formigas para lugares apropriados».
As Bromeliaceas e Anthurium encontram-se mais
para o centro do ninho, as Gesneriaceas e Ficus exten-
dem-se mais para fora e para baixo pendem os com-
pridos ramos de Peperonia.
A coexistencia de formigas e plantas não deve-se
considerar syinbiose de defesa mas antes symbiose de
lugar, que me parece ser a verdadeira relação entre a
maior parte das plantas de formigas e estas mesmas.
Para a physionomia da paizagem do Amazonas es-
tes jardins de formigas são certamente de maior im-
portancia do que a outra flora epiphytica, porque at-
trahem mais a vista. Em certos lugares estão quasi
todas as arvores densamente cobertas destas agglomera-
ções vegetaes, que offerecem um aspecto singular, at-
trahindo a attenção pelo sua côr vermelha, principal-
mente quando apparecem em grandes Mimosaceas ou em
arvores privadas temporariamente de folhas.
Forel, Aug. In und mit Pflanzen lebende Amersen
aus dem Amazonas-gebiet und aus Peri, gesammelt
von Herrn E. Ule. Zoologische Jahrbicher, Abteil.
Systematih, Geographie und Biologie der There, Bd.
XX, Jena 1904, p. 677—707.
O Snr. A. Forel dá neste estudo a descripçäo das
formigas, em grande parte novas e pertencentes parti-
cularmente aos generos Azteca e Pseudomyrma, que
vivem nos jardins de formigas, descobertos pelo Snr. E.
Ule, a cuja publicação nos referimos à p. 639. As respec-
tivas formigas provêm, pela maior parte, do Rio Juruá.
Ashmead, Wil. H. Classification of the Chalcid
Fhes or Chalcidoidea. Memoirs of the Carnegie Mu-
seum Vol. 1, N. 4. p. 225—551 Est. 81—à9 ; 1404.
Gi
Ashmead, o auctor de tantos trabalhos hymenopte-
rologicos de real importancia, concluiu agora o estudo
destes interessantes e em geral minusculos ditrochas,
cujo numero total de especies até hoje conhecidas, cal-
cula em mais de 5.000.
Compõe-se esta bella monographia de duas partes ;
uma trata da classificação em geral destes insectos, sen-
do de summa vantagem a organização de uma chave com-
pleta dos generos, seguida de uma extensa bibliographia
dos mesmos; a outra enumera as especies sul-ameri-
canas, onde estão descriptas numerosas especies novas,
notadamente as que Herbert H. Smith colleccionou no
Brazil.
Jacoby, Martin. Descriptions of new species of
Coleoptera of the family Halticide fiom South and
Central America. Proceed. of the Zool. Socrety of
London. 1902, Vol. I, Part. IT, Plate XX, pg. 171- 204.
Da o presente artigo numerosas decripções e uma
estampa com figuras de novas especies de coleopteros
da familia Halticidæ, entre ellas elevado numero de es-
pecies brazileiras.
Jacoby, Martin. Descriptions of new especies of
Southamerican Coveoptera of the Family Chrysome-
lide. Proceedings of the Zoological Society of Lon-
don, 1903. Vol TT. Part I, p. 30 —- 5%.
O auctor descreve 56 especies novas de Chryso-
melidæ da America meridional, entre ellas mais de 30
especies do genero Dorifera, genero do qual ja se co-
nhecem mais de 400 especies.
Jucoby, Martin. Descriptions of some new spe-
cies of Chlamyde from South America. The Entomolo-
gist, Vol. XXXVII, August, 1904, p. 192 ss.
Descripção de algumas especies novas de coleopte-
- 642 —
ros do genero Chlamys (1); entre ellas sao: trimacu-
lata de Jatahy, Goyaz, donchieri e seminigra de Goyaz,
senabrunea e centromaculata do Brazil.
Pic, Maurice. Contribution à Vetude des Xyleti-
ni du Brésil. Annales de la Societé Entomologique
de Belgique. Tome XLVI. Bruxelles 1902, p. 17.
Addenda aux Xyletini du Brésil, ibid. p.130.
Essa norme sur le genere. Gibboxyletinus,
Pic Ibid. p13.
Etude dichotomique sur les Trichodesma Lec. du
Brésil, ibid. p. 408.
Os dous primeiros artigos ccntém a descripção de
quatorze novas especies de Xyletini, colleccionadas pelo
sr. E. Gounelle, às quaes faltam a protuberancia do
prothorax e as nodosidades nas azas, caracteristicas das
especies anteriormente recolhidas. M. Pic acha entre-
tanto prematuro estabelecer um novo genero e reune
todas estas especies debaixo da denominação generica
Xyletinus Latr.
O terceiro trabalho trata extensamente do genero
Gibboxyletinus, já descripto pelo auctor na l’Kchange
204, 1901.
O quarto artigo dá a descripcäo das dez especies
brazileiras, até agora conhecidas de Trichodesma Lee.,
colleccicnadas por Gounelle.
Leveille, A. Diagnoses de trois Temnochilides
nouveaux du Brésil. Bulletin de la Soc. Hutomol. de
France, Paris i902,n: 5, pg. 118 —119.
Descripçäo de tres especies novas de coleopteros :
Nemosomia pujoli, Tenebroides donchiert e jalahyen-
sis, colligidas em Jatahy, Est. de Goyaz.
(1) Observo que, estando o nome generico Chlamys já pre-
occupado na literatura conchyliologica desde 1798 por Bolten,
este genero de Chrysomelida, que tambem deu o nome a uma
sub-familia, foi assim denominado por Knoch em 1891, e, pois,
requer uma nova denominação, pare a qual eu proponho o nome
de Arthrochlamys.
apa a
Gahan, C. J.and. G. J. Arrow. Lust of the co-
leoptera collected by A. Robert at Chapada. Proc.
Zool: Soc London 1905, Vol. IT, Part. II, p. 244—
258, Est. XXVII,
Enumerando 175 especies de coleopteros colligi-
dos em Chapada, Matto-Grosso, durante a expediçäo
Percy Sladen, descrevem ainda 10 especies novas, das
quaes nos dão as figuras em uma bellissima estampa.
Belcn, R. P. Descriptions de trois Longicornes trési-
liens du genero Ectenessa Bates. Annales de la Sociéte En-
tomologique de Belgique. Tome XLVI. Bruxelles. 1902.
5
Dan Tor:
O fundador do genero Ectenessa (Bates: Biologia
central-americana p. 297) descreveu quatro especies, uma,
EF. mtida do Mexico e tres outras: subopaca, phti-
seca e sexmaculata — do Brazil meridional.
As tres novas especies brazileiras, descriptas por
M. Belon, approximam-se muito mais da especie mexi-
cana do que das brazileiras já conhecidas e são as se-
guintes, todas provenientes de Minas Geraes: E. villar-
di, E. argodi e KH. mgriventris.
Lesne, P. La distribution geographique des coleopte-
res bostrychides dans ses rapports avec le régime alimentaire
de ces insectes. Rôle probable des grandes migrations hu-
maines.
Comptes Rendus de l’Académie des Sciences, Tome
CXXXVIT N. 2 pg. 135-135, Paris 1903.
Considera o auctor as seguintes especies de Bos-
trychidas: Xilopertha picea, Xylionulus transversus e
Apate terebrans como importadas para o Brazil por
occasião da vinda dos negros importados da Africa.
Para explicar o transporte, lembra a biologia destes
coleopteros, cujos ovos são postos em madeira secca,
fructas, ete. Tambem para outros paizes varias espe-
cles desta familia poderão ter sido levadas deste modo.
— 644 —
Miranda Ribeiro, Alipio. O bicho da taquara-quicé..
A Lavoura. Capital Federal, 1905.
O Snr. Dr. Basilio Furtado tendo frequentemente
encontrado certas lagartas nas taquaras, submetteu-as a
pacientes observações, acompanhando-as por todas as me-
tamorphoses, e chegando assim a obter uma borboleta,
que no Museu Nacional foi determinada como Morpheis:
smerintha da familia das Phalenas. |
A lagarta desta borboleta é um dos acepipes pre-
dilectos dos indios, como tambem St. Hilaire relata, que:
levou alguns exemplares comsigo para a Europa, onde,
entretanto, não se conseguiu classifical-as exactamente.
Esta difficuldade foi agora removida, eraças ás
observações do Snr. Basilio Furtado.
Hempel, A. Notas sobre as lagartas do Milheral. Bo-
letim da Agricultura. São Paulo, 1903 p. 311-320. :
Descripçäo da Remigia latipes. Guen. da familia
Noctuidae. Este lepidoptero tem causado, nos ultimos.
tempos, estragos consideraveis em alguns pontos LA
Estado.
Assim appareceram as lagartas aos milhares na
propriedade do Snr. Barão Geraldo de Rezende, devo-
rando um alfafal de 3—4 alqueires de extensão e não:
causando maior damno devido às promptas e energicas.
providencias ão Snr. Barão de Rezende.
Heron F. A. and G. F. Hampson. On the lepidoptera
collected at Chapada by A. Robert. Proc. Zool. Soc. Lon-
don 1903, Vol. IT, Parte II p.: 258-260.
Enumera varias especies de borboletas colligidas-
no Matto Grosso, durante a Percy Sladen Expedition e
RE Re uma especic nova de Hepialida: Dalaca sla-
dens Hamps. |
Druce, Herbert. Descriptions of some new Species of
oe aes The Annals and Magazine of Natural His-
tory, 7 Series, Vol. XI, p. 196-203.
Este artigo dá uma descripção de diversas novas.
— 645 —
especies de lepidopteros, dos quaes é do Paraná só Ly-
cophotia atristriata (Fam. Noctuidae) sendo as outras 7
do Rio Grande do Sul.
Schulz, W. A. Dipteren als Ectoparasiten an siida-
merikanischen Tagfultern. Zoolog., Anz. Vol. 28, 1904,
No. Bi nae:
O auctor communica uma interessante observação
que fez, nos arredores do Pará, verificando que uma
pequena mosca de cerca de 1,25mm. de compr. (prova-
velmente da familia Phoridæ) se desenvolve e vive
como ectoparasita nas azas de certas borboletas como
Morpho achilies e especies de Erycinidas (Helicopis).
Parece que este facto, tão curioso, ainda não tinha sido
communicado à sciencia.
Alipio de Miranda Ribeiro. Basilia ferruginea, <Ar-
chives do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Vol. XII
1995 p. 175-179 com Estampa.
Descripção de um novo parasita do grupo dos
dipteros encontrado na pelle de um morcego “do gene-
ro Vespertilio. Não podendo ser incluido « este parasita
no genero Nycteribia de Latreille, o auctor creou para
elle o novo genero Basilia, na familia das Nycteribias;
ao mesmo tempo o auctor estuda os cinco outros ge-
neros da familia, da qual dá chave. Tomando a fami-
lia na sua accepção moderna, Miranda Ribeiro deixa
de lado as férmas aladas, e das quaes (familia Stre-
blidee’ tive occasiäo de colligir em Vampyrops lineatus
da Bahia; tendo-as mandado ao Snr. V. von Reeder,
foram classificadas como Megistopoda pilatei Macq. e
Strebla vespertilions Fabr. (a respeito veja-se a resp.
publicação de Roeder: Ueber das Wohntier der Nycte-
ribiidæ : Strebla Wied u. Megistopoda Macq. Entomol.
Nachr. Berlin 1895, Jahrg XXII N. 21, p. 321).
Lute, Dr. Ad. Waldmosquitos und Waldmalaria. Cen-
trab. f. Bakteriol. u. Parasitenkunde, I. Abt. Origin. Vol.
39, 1903 p. 282-299.
— 646 —
O auctor communica neste interessante estudo nu-
merosas observações biologicas sobre o desenvolvimento
daquelles Gulicideos, cujas larvas se criam nas aguas
estaguadas, entre as folhas de Bromeliaceas das mattas.
Muitas destas especies desenvolvem-se exclusiva-
mente nestas condições. Anopheles lutzm é, segundo
as observações do illustre director do Instituto Bacterio-
logico de S. Paulo, o transmissor da malaria das re-
cides das mattas.
O estudo da fauna que se desenvolve nestas aguas
de Bromélias e que foi com muito successo iniciado
por F. Mueller em S. Catharina, é summamente inte-
ressante e digno de ser continuado.
Varios são os estudos publicados ultimamente so-
bre os mosquitos, em geral visando a confirmação da
theoria que attribue aos ulicideos a propagação de
febres. Não podemos dar aqui uma lista completa dos
trabalhos escriptos a proposito no Brazil; comtudo
citaremos os de:
Bandi, Ivo. Gelbfieber u. Mosquitos. Centralb. f. Bakt.
Paras: Abt. 1 Ba; do, 19034) po oe.
Goedli, E. A. Os Mosquitos no Pará. Belem 1902.
Imprensa Official. 57 pp.
Goeldi, E. A. Os Mosquitos no Pará. Boletim do
Museu Goeldi 1904. Vol. IV, fasc. II. p. 1—69.
2
O presente estudo, principalmente experimental, é
ainda denominado pelo auctor de: Resumo provisorio
dos resultados de experiencias executadas em 1903,
especialmente em relação às especies Stegomyza fas-
ciata e Culex fatigans, soh o ponto de vista sanitario.
Propoz-se Goeldi responder a um longo questio-
nario, versando em especial sobre a alimentação dos
pernilongos mencionados e o seu effeito sobre a dura-
ção da vida e a fecundidade dos individuos. Depois de
expôr e discutir as numerosas experiencias feitas neste
sentido, resume em 14 pontos os resultados obtidos,
ao que junta algumas considerações finaes. Assim são
de interesse as suas conclusões de que: o mel é ali-
mento vantajoso para o individuo e não para a especie,
— 647 —
pois, que prolongando a vida, retarda a postura dos
ovos, ao passo que a alimentação a sangue produz
effeito justamente contrario; a faculdade de por ovos
poude ser conservada por 102 dias, etc.
Young, Ernesto Guilherme. Contribuições para os es-
tudos dipterologicos : ILucilias. Iguape. Typographia da
«Comarca». 1902. -
O auctor relata os estudos que fez a respeito da
Lucilia hominivorax, mosca que numerosas vezes criou
de larvas tiradas de pessoas residentes em Iguape.
Passa a descrever as observações feitas nesse sentido e
em seguida descreve largamente as moscas criadas,
Coquillett, D. W. A new Ceratopogon from Brazil.
Journal of the New York Entomological Society Vol. XII
n. 1, New York 1904, p. 35-36.
Descripção de uma nova especie de Ceratopogon,
que foi collegida pelo Dr. A. Lutz em São Paulo e
faz parte das collecgdes do United States National Mu-
seum em Washington.
Os dipteros dos generos Ceratopogon tem em S.
Paulo o nome trivial de «mosquito polvora», ao passo
que os Srimuliwn nigripes têm o de «borrachudo». Os
verdadeircs mosquitos ou antes pernilongos pertencem
aos generos Culex e Stegomyia.
Rothschild. N. C. Further contributions to the knowle-
dge of the siphonaptera. Novitates Zoologicae, vol. XI, 1904,
ps. 602-653, Est. VII- XVI.
Descreve o auctor nada menos de 39 especies de
Pulicidas, de todas as partes do mundo e parasitas de
variados animaes.
Do Brazil notamos 2 especies novas: Pulex cleo-
phontes de Muletia septemcineta de Minas Geraes e Cte-
nophthalmus antiquorum de Didelphis aurita, enviado
pelo Museu Paulista, proveniente da villa Vieira do
Piquete, Estado de S. Paulo (a localidade, à p. 645 esta
errada). Tambem Malacopsylla androch, do Canis gri-
— 648 —
seus, foi enviado pelo dr. H. von Ihering ao Hon. Ro-
thschild, mas não é do Brazil e sim de Santa Cruz, na
Patagonia.
Hempel, Adolpho.-—« Notas sobre alguns insectos nocrvos».
Boletim da Agricultura, S. Paulo 1902, 8.º serie, n. 4
pag, 237.
=|
O artigo é apenas uma tradueção do qne já foi
referido nesta Revista, Vol. V. Como correcção ao men-
cionado artigo o auctor publicou nos «Annales and Mag.
of Nat. Hist. Ser VII, vol. IX, pag. 400», uma nota so-
bre Ceratovacuna brasiliensis Hempel, reconhecendo-a
synonyma de Ceratophis lataniae, Boisd. .
A questão é de certo interesse, confirmando o que
nesta Revista, vol. Il 1897, pag. 398 eu disse, decla-
rando que as poucas especies de Aphidas que, Seen,
contram no Brazil são importadas.
Hempel, A. Resultado dc exame de diversas collecções
de Coccidas enviadas ao Instituto Agronomico peio Sr. Car-
los Moreira, do Museu Nacional, Rio de Janeiro. Boletim
da Agricultura. São Paulo — 1904, ps. 311-323,
Descripção de 22 especies de Coccidas, das quaes
são novas para a sciencia as seguintes: Conchaspis
fluminensis, Tachardia corulea, Mesolecanium ie
tum, Aspidiotus pisar, Aspidiotus moreirar.
Novas para a fauna brazileira säo as seguintes es-
pecies: Æucalymnatus perforatus, Newstead, Parale-
canium marianum, Gkl. Aspidiotus cydoniæ Comstok.
Esta ultima especie o auctor considerou no seu cata-
logo: «As Coccidas brazileiras», publicado nesta Revista
vol. IV, pag. 365 e 537, como synonymo de Aspr-
diotus lataniæ Sign., separando-a agora como especie
distincta.
( Hempel, A. Notas sobre dous inimigos da laranjeira,
ne da Mi ie São Tete ps, 10-22,
O artigo trata de duas especies de piolhos vege-
taes da familla Aleurodidie, que são nocivas às laran-
jeiras. Uma dellas, Ateurodes citre Rilley e Howard
já era conhecida como praga dos laranjaes nos Esta-
dos Unidos; a outra, que é nova, é descripta aqui sob
o nome de Alewrodes horridus. Em seguida o auctor
descreve parasitas destes piolhos da familia Chalcidoi-
dea, descrevendo as novas especies Eretmocerus pau-
listus e Pr ospalta brasihensrs.
Cockerell, T. D. A. A Contribution to the knowledge
of the Coccide - Annales and Mag. of Nat. Hist London
1902. VII Ser. Vol. IX nm. 54 pgs. 450 456.
O auctor estabelece diversos generos novos para
Coccidas brazileiras, descriptas nesta revista pelo sr. A.
Hempel, taes como: Alichtensia para Lichtensia ate-
nuata e Shctolecaniun para Lecanium ornatwm.
O genero Neolecanium, Parrot, 1901 é destinado
a receber as seguintes especies, até agora collocadas no
genero Lecaniuin : inbricatum (CKU), wlreche (CkIL),
perconvexum, (CkIl.), tuberculatum (Twn. & CKIL), sol-
veirat (Hempel), chilaspidis (Ckll.), sallez (Signoret).
No novo genero Mesolecanium são collocadas as se-.
guintes especies: nocturnum (GQ. & P.) maytenr (Hem-
pel), phoradendri (CkIL.) batatee, (Ckll.) obscurum, (Hem-
pel), baccharidis (Ckll) pseudosemen (Ckll.) jaboticadee,
(Hemp.), campomanesiæ (Hemp.).
Lecaniun lanigerum Hempel foi transferido para
o genero Mallococcus, L. eugeniæ Hempel para Æu-
lecanium ; L. discoides, Hemp., durum Hemp., glanu-
losum Hemp. e zanthoxilum Iemp., para Sarssetra,
Lecaniun gracile Hemp., brunfelsiæ Hemp. e tesse-
latum Signoret para Hucalymnatus. O nome Dacty-
lopius, Costa, 1836 com D. coccus, Gosta, como typo,
refere-se à conhecida cochonilha commercial, não sendo
synonymo de Coccus cacti L. ( Monophlebus cacti, cf.
Proc. Acad. Nat. Sé. Philad. 1899 p. 261). As espe-
cies geralmente conhecidas até agora sob o nome de
Dactylopius devem de hora em deante ser designadas
sob o nome do genero Pseudococcus Westwood, 1839,
— 650 —
cujo typo é Coccus adonidum. Em appendice o auctor
trata de diversas coccidas colligidas no Estado do Rio
de Janeiro pelos srs. Goeldi e Carlos Moreira. São ellas
as seguintes: Astereolecanium bambusæ Boisd, sobre o
bambi, do Rio; Calymnatus viridis (Green) sobre fo-
lhas ae laranja; Ceroplastes fairmairii Targioni, sobre
a arvore de cravo; Chionaspis citri Constock, sobre o
tronco e folhas da laranja e que é especie nova para O
Brazil. Pinnaspis pandani (Comstock) sobre Areca catechu
e Pseudaonidia trilobitiformis (Green) sobre Ficus scan-
dens; ambas novas para o Brazil, Paralecanium ma-
rianum, nova especie, do Rio de Janeiro; Parale-
canium até agora só tinha sido encontrado na Australia
e no Ceylao.
Silvestri, Filippo Dr. Note preliminar sui Termitidi e
Termitofili sud-americani. Bolletino dei Musei di Zoologia
ed Anutomia comparata dela R. Universitá di Torino— Vol.
VA TIDO NA Ds
O auctor descreve os ninhos das numerosas espe-
cies de temitidas sul-americanas e communica o resul-
tado de suas observações a respeito da vida destes in-
sectos termitophilos que vivem nos cupins. De grande
interesse são as observações referentes aos hymenopte-
ros termitophilos. Mencionamos especialmente a seguinte :
Silvestri encontrou larvas e insectos de Centris thoracica
Lep. em ninhos de Armitermes e Eutermes, juntamente
com Acanthopus splendidus I., que é parasita de Centris.
No interior dos ninhos de Eutermes rippertii encontrou
Silvestri ninhos das seguintes abelhas: Trigona kohli
Friese, T. fuscipennis Friese e T. latitarsis Friese.
Trata-se, ao menos para as duas primeiras especies, de
uma symbiose tão vantajosa tanto para as abelhas, como
para as termitidas.
Silvestri, F. Contribuzione alla conoscenza dei Termatida
e Termitofils dell America meridionale. Redia, Giorn. da
Entomologia. Vol. I, 1903, Portic.
Figura este bello trabalho monographico do co-
nhecido termitologo como primeiro fasciculo da promet-
Se. A ee à
Se ee PM CRE
— 691 —
tedora revista entomologica Redia, fundada e dirigida
pelo eminente sciencista Prof. A. Berlese da R. Scuola
Sup. de Agricoltura em Portici.
O auctor, que durante quasi tres annos viajou por
grande parte da Argentina, Chile, Uruguay e Paraguay,
esteve, nessa mesma occasião tambem no Brazil, no Es-
tado do Paraná (Iguasst, Bella Vista) e no do Matto
Grosso (Coxipó, Cuyabá, Urucum e Corumba).
A publicação, resultado dessa viagem, com cerca de
230 pags. e 6 estampas, trata primeiramente, na parte
systematica, das 65 especies e subespecies que colhgiu,
descrevendo-as minuciosamente. Só no Matto Grosso
colligiu 41 especies, das quoes 26 são caracteristicas
para esta região, ao passo que a Argentina tem só 24
especies, ao todo. Em seguida, Silvestri descreve e fi-
gura numerosos ninhos ou cupins, passando a tratar de
varios pontos da interessante biologia destes insectos.
Assim, falando da duração da vida, julga a © rainha
capaz de viver cerca de um decennio de annos tendo, por
experiencia, conservado vivos alguns individuos por
dous annos.
Dedica o auctor tambem algumas paginas à ques-
tão da origem das castas, que attribue à acção simul-
tanea dos seguintes factores: variação, por efleito do
alimento e do uso, hereditariedade, selecção e atavismo.
A segunda parte do estudo é dedicada aos termi-
tophilos, ou animaes que vivem nos ninhos das termi-
tidas. O auctor reccnheceu como taes, ao todo, 38 espe-
cies das mais variadas ordens e familias de anthropo-
des, predominando entre elies as especies de coleopteros,
além de muitos outros, aos quaes já nos referimos ao
tratar das Note preliminar: do mesmo auctor.
Seja observado ainda que Mirotermes saltans
Wasm., deve ter o nome especifico de rzograndensis,
sob o qual H. von thering o descreveu já dez annos
antes de Wasmann.
Needham, James G. A new genus and species of Dra-
gonfly from Brazil. Procedings of the Biological Society
of Washington 1903. Vol. XVI, p. 55—58.
— 652 —
Descipção de um novo genero de Odonata, da fami-
lia Calopterygidæ, alliado a Heliocharis, sob o nome de
Cyanocharis, achado em Poço Grande, Brazil, pelo sr.
Adolpho Hempel, em 1898, então empregado do Museu
Paulista. A unica e nova especie deste genero é Cya-
nocharis valga.
Borelli, Dr. Alfreco. Forficole raccolte dal dott. Fi-
lippo Silvestri, nella Republica Argentina e regiont vicine.
Bollettino dei Muwsei di Zoologia ed Anatomia comparata
della R. Universita di Torino. Vol. XVII, 1902.
Descripção de Forficulidas colleccionadas pelo dr.
Filippo Silvestri, durante sua viagem pela America me-
vidional.
Encontramos de especies brazileiras :
Labidura riparia livida Borm.
Anisolabis janeirensis (H. Dorhn), recolhido em
Matto Grosso.
Anisclabis sp ? de Cuyabä.
Brachylabis nigra (Seudd.), do Matto Grosso.
Sparatta semirufa F. Kirby.
Sparatta pelvimetra var. rufina, Stal.
Apterygida tæniata H. Dohrn.
Moreira, Carlos. Contribuições para o conhecimento da
fauna brazileira. Vermes oligochetos do Brazil. Archivos
do Museu Nacional. Vol. XII, Rio de Janeiro, 1903, p.
125— 1506.
O auctor examinou os Oligochetos, que vivem no
parque do Museu Nacional do Rio de Janeiro, repre-
sentados por seis especies e aproveita a occasião para
dar uma svnopse de todas as especies, encontradas até
agora no Brazil, segundo a monographia de Michaelsen,
publicada em 1900, no «Tierreich».
Jhering, H. von. Die eim als Hilfsmittel der
zoogeographischen Forschung. Zoologischer Anzerger, Bd.
XXVI, N. 686, Novembro de 1902, p. 42—Al.
Meus estudos zoogeographicos me conduziram ao
— 653 —
resultado de que a America meridional, como continente,
só se formou durante a epoca terciaria, pela juneçäo
de varias partes antigamente isoladas, reunindo-se estas
depois, ao fim da formação miocena, com a America
Central e Septentrional.
Os mammiferos, aves e outros animaes da região,
dividem-se, por conseguinte, em autochthones e hetero-
chthones, tendo estes ultimos immigrado do norte, du-
rante e depois da formação pliocena. O presente estu-
do examina os Helminthos ou vermes parasitas, parti-
cularmente do grupo dos Acanthocephalos, e chega ao
resultado de que os animaes autochthones têm especies e
em parte generos de parasitas característicos, ao passo
que os animaes heterochthones,ao lado de algumas especies
de parasitas peculiares, em grande parte têm os mesmos
parasitas nos seus intestinos que os que se observam
em seus parentes na America do Norte e na Europa.
Discutindo estes factos cheguei às seguintes conclusões
geraes :
1) Os animaes terrestres apesar das migrações, e
mesmo das mais extensas, não perdem os seus Hel-
minthos, porque os animaes inferiores, que lhes servem
de hospedeiros intermediarios, apresentam, em todas as
partes da terra, condições analogas ; embora nas novas
regiões, procuradas por eiles, em parte adquiram ou-
tros parasitas, comtudo persistem, na maior parte, as an-
tigas condições inalteradas, como notadamente se obser-
va na America meridional, onde os Helminthos holar-
cticos não se encontram nos animaes autochthones, mas
sómente nos mammiferos e passaros heterochthones, que
immigraram mais tarde.
2) Nestas circumstancias. a Helminthologia fornece
subsidios preciosos ao methodo analytico da Zoogeo-
graphia, e póde prestar serviços importantissimos, prin-
cipalmente tambem para a historia desses grupos, sobre
os quaes não possuimos dados geologicos suflicientes e,
em parte, nem podemos esperar obtel-os algum dia.
“
3) A Helminthologia, comprehendida deste modo,
torna-se tambem objecto da investigação paleontologica,
— 694 —
sendo que as relações dos Helminthos para com seus hos-
pedeiros, as migrações e a edade geologica dos mesmos,
permittem tirar conclusões exactas sobre a edade dos
grupos maiores e mesmo dos generos e das especies. :
Janicki, O. v. Zur Kenntnis einiger Siugetiercesto-
den. Zool. Ang. 1904, XXVII, n.-25 pags. 770-788
O auctor descreve numerosas especies de Felmin-
thos, na maior parte das collecgdes do Museu Zoologi-
co de Berlim, bem como um genero novo, Schizotae-
ma hagmanm, que é parasita da capivara (Hydro-
choerus). Citaremos mais, como interessantes para o
Brazil, varias especies de Oochoristica, parasitas de.
Didelphis, de tatus, de tamanduás e a diagnose do ge-
nero Anoplocephala, parasita de mammiferos perisso-
dactylos e roedores.
Zschokke, F. Die Darmcestoden der amerikanischen
Beuteltiere. Centralblatt fur Bakteriologie, Parasitenkunde
und Infectionoskrankheiten Bd. XXXVI. Jena 1904,
Descripçäo de vermes solitarias, encontrados em
Marsupiaes, colligidos em parte pelo Museu Paulista,
dous dos quaes eram especies typicas do genero Lins-
towia (L. brasiliensis Janicki de Didelphys tristriata
e L. sheringi de Peramys americana). Este genero até
agora só tinha sido encontrado nos aplacentarios da
Australia.
A distribuição tão vasta do genero Oochoristica,
diz o auctor, em hospedeiros insectivoros da mais di-
versa collocação systematica, indica para o genero uma
edade muito remota. O facto de encontrarem-se muitas
especies em diversos lagartos de alguns continentes,
suggere a hypothese de que este genero de Cestodes fôsse
primitivamente proprio aos Saurios e só mais tarde
passasse para os mammiferos insectivoros. A occor-
rencia geral de hospedeiros intermediarios apropriados,
semelhantes, favoreceu a propagação geographica de
Oochoristica e ao mesmo tempo forneceu ao parasita
numerosos e differentes hospedeiros insectivoros.
— 655 —
E" significativo para a America meridional que re-
presentantes de Oochoristica até agora só se acharam nos
antigos mammiferos autochthones — Cebus, Callithrix,
Myrmecophaga, Dasypus e Didelphys — emquanto faltam
absolutamente nos heterochthones, que na época pliocena
immigraram da America do Norte para a America me-
ridional. Esta circumstancia é mais uma prova da edade
consideravel do genero e de que este já existiu na épo-
ca terciaria na America do Sul.
O genero Oochoristica, embora seja commum aos
mammiferos autochthones sul-americanos e de outras re-
giões da terra, comtudo naquelles hospedeiros é re-
presentado por especies particulares.
Isto concorda com a theoria de H. v. Ihering, de
que na America do Sul,ao menos na época terciaria,
nao se formaram novos typos de Helminthos e que, por
sua vez, o longo isolamento terciario dos mammiferos
sul-americanos produziu a differenciação especifica de
seus parasitas.
A uma época mais remota ainda refere-se o facto
de encontrar-se, em Marsupiaes sul-americanos, o genero
Linstowia, até agora só conhecido em Marsupiaes da
Australia. Isto pode militar muito em favor da hypo-
these de uma antiquissima connexão generica entre os
Marsupiaes da Australia e os da America do Sul. Mas,
evidentemente, necessitamos de mais pesquisas sobre os
parasitas dos Marsupiaes, para, baseando-nos em material
helminthologico, podermos formular conclusões de tão
grande alcance para a zoogeographia e phylogenia. Em
todo O caso as considerações precedentes vêm em apoio
da opinião de H. von Ihering, de que a Helmintholo-
gia pode se tornar de summo valor para o methodo
analytico da zoogeographia e para a paleontologia.
Uma convergencia mais completa das faunas hel-
minthicas da America do Sule Australia seria da mesma
forma um ponto de apoio para a hypothese da ligação
antiga das faunas dos dous continentes. O genero Gi-
gantorhynchus de Hamann ocorre, com suas quatro es-
pecies, sômente em habitantes autochthones da America
do Sul e da Australia ;é parasita de Myrmecophaga (Gi-
gantorhynchus echinodiscus). Gypagus e Catharthes (G.
spira Dies .), Cariama (G. taenioides Dies. ), e, conforme
von Linstow provou, tambem na Australia, em Perameles
obesula (G. semoni v. Linst.)
Verrill, A. E. Variations and nomenclature of Ler-
mudian, westindian, and brazilian reef corals, with notes on
various “indo-pacific corals.
Comparisons of the bermudian, westindian and racao
coral faunae. Transactions of the Connecticut Academy of
Sciences, vol. XI, ps. 63-206. Plates X—XXXV 1501.
Damos em seguida um resumo do que, a respeito
dos coraes brazileiros, encontramos neste valioso trabalho.
Os coraes brazileiros até agora estudados são em
numero diminuto, apesar de serem os recifes ja bem
explorados ; mas estes coraes acham-se um pouco fóra
do campo das investigações communs ; constituem uma
fauna bem particular, a qual mostra certos caracteres
archaicos, que são distinctivos de diversas especies, em-
quanto em geral estas differengas são appropriadas para
estabelecer generos diversos. Isto parece indicar que
esta fauna é um resto sobrevivente de uma antiga fauna
de coraes, agora na maior parte desapparecida. Talvez
esta fauna remonte ao terciario antigo. O que parece
certo é que destas especies se desenvolveram, por evo-
lução, em condições tropicaes, certas especies actuaes
das Indias Occidentaes. ; :
Mussa brasiliensis e M. tenuisepta apresentam ambas
caracteres de Mussa (grupo Symphyllia), Isophyllia e
Favia, de sorte que podiam, com egual direito, fazer
parte de qualquer dos tres grupos e tambem se asse-
melham a Acanthostræa. Mussa hartti, tanto apparece
na forma da Mussa typica como na de Symphyllia, en-
contrandc-se, além «isto, todos os estados intermediarios,
ligando os dous generos. Maeandra conferta Ver. é in-
termediaria entre os generos Favia e Maeandra, mos-
trando a intima connexão que ha entre elles.
Esta especie é tanto afim a i. fragum, como a
Maeandra agassizi e M. clivosa das Indias Oceidentaes.
— 657 —
Estas cinco especies formam uma serie continua de Favia
typica para Maeandra typica.
Muito poucos dos coraes brazileiros são completa-
mente identicos com os das Indias Occidentaes. Isto é in-
dubitavelmente devido ao: colossal volame de agua doce
que o Amazonas despeja no Oceano ; assim fórma elle uma
barreira invencivel para muitos animaes marinhos, que
vivem na superficie da agua ou em pouca profundidade.
Como os coraes de recifes são todos sensiveis contra a agua
salôbra e as larvas delles se conservam fluctuantes na
superficie das aguas, as aguas amazonicas formam para
elles um obstaculo insuperavel.
De facto, devia-se estranhar muito, si algumas es-
pécies, sem a cooperação do homem, passassem esta
barreira, si não fora no tempo em que o continente ame-
ricano estava menos elevado e o valle amazonico for-
mava uma grande bahia de agua salgada.
E” possivel, afinal, que algumas espécies menos abun-
dantes, como Agaricia, fossem levadas, no casco dos na-
vios, das Indias Occidentaes para o Brazil, conservando-se
os navios em alto mar, longe das aguas amazonicas ;
porem todas as hypotheses de immigração das Indias
Occidentaes para o Brazil. são muito inverosimeis e mais
acceitavel é a supposição de que se tenha dado o in-
verso e que os coraes das Indias Occidentaes sejam
provenientes do Brazil. Uma das razões em favor desta
hypothese é a direcção da correnteza de mar do sul
para o norte. |
Muitos generos importantes de coraes das Indias
Occidentaes parecem faltar nos recifes brazileiros como,
por exemplo, Acropora, Colpophyllia, Dendrogyra, Di-
chocoenia. Solenastraea etc. ; comtudo a fauna dos co-
raes brazileiros esta mais ligada à das Indias Occidentaes
do que à de qualquer outra região. Não se encontra
nella nenhuma relação como a fâuna dos coraes do pacifi-
co nem do Panama. Os unicos generos communs são
os de distribuição quasi cosmopolita, como Porites, Fa-
via, Mussa, Orbicella e Millepora. Destes só Porites
occorre no Panama. Porêm as especies destes generos
Q
— 658 —
approximam-se mais das correspondentes das Indias Oc-
cidentaes do que das do Pacifico e tambem nenhum dos
seneros ou das especies caracteristicas para o Pacifico
occorrem no Brazil.
Os coraes brazileiros descriptos são os seguintes,
todos vivendo em pouca profundidade :
Madreporaria
Familia Maendride Ver.
Maeandra conferta. Ver.
Favia gravida Ver.
Favia leptophylla Ver.
Familia Orbicelliidas
Orbicella aperta Ver.
» brasiliana Ver.
» cavernosa var. hirta Ver.
» cavernosa var. compacta (Rath. M.S. 8.)
Vaughan.
Familia Eusmillidze
Meandrina Lam.
Meandrina brasiliensis Vaughan.
Familia Mussidæ Ver.
Mussa harttii Ver.
» » laxa Ver.
» » conferta Ver.
» » intermedia Ver.
» » confertifolia Ver.
» (Symphilia) brasiliensis.
» » tenuisepta Ver.
Familia Astrangidæ Ver.
Astrangia sp.
Familia Agaricidze Ver.
Agaricia agaricites (L.) E. & Haime.
» » var. humilis Ver.
Siderastraea stellata Ver.
» » var. conferta Ver.
Familia Poritidse
Porites verrihi Rehb.
» branneri Rath.
» astreoides Les.
» » var. brasiliensis Ver.
Hydrozoa
Hydrocorallia
Familia Milleporidze
Millepora nitida Ver.
» braziliensis Ver.
» alcicornis (L.) var. cellulosa Ver.
» » var. digitata ? Esper.
» var. fenestrata D. & Mich.
Familia Stylasteridæ Gray
Stylaster sp.
As seguintes especies. foram colleccionadas pela
Expedição Hassler em profundidade média.
Flabellum brasiliense Pourt.
Sphenotrochus auritus Pourt.
Bathycyathus maculatus Pourt.
Thecocyathus cylindraceus Pourt.
Cladocora patriarca Pourt.
Axohelia dumetosa D. & M.?
Madracis asperula E. & H.
Periodicos recebidos em Permuta para a
Bibliotheca do Museu
— ete
America do Sul
BRAZIL
Revista trimensal do Instituto Geo-
graphico e Historico
Boletim da Secretaria de Agricul-
tura, Viação, Industria e Obras
Pitblicag Ar A eee
A Eecola .
Boletim do Museu Paranaense.
Revista da Academia Cearense
Revista trimensal do Instituto do
Ceara cin
Revista do Instituto Archeologico
e Geographico Alagoano .
Revista Agricola.
Revista do Instituto Historico e
Geographico do Rio Grande
do Norte.
Annaes da Escola de Minas
Boletim e Memorias do Museu Pa-
raense
Revista do De to Geographico
e Ethnographico
Revista Agricola do Rio Grande
do Sul
Revista do Instituto Afeheaioe io
e Geographico . Si She
Bahia
»
Belém
Curytiba
Fortaleza
>
Maceio
>
Natal
Ouro- Preto
Para
»
Pelotas
Pernambuco
— 661 —
Revista da Academia Pernambu-
cana de Letras. . . . Recife
Revista Academica da Faculdade
de DO ty Forest Os »
A Lavoura . . Rio de Janeiro
Annaes da Bibliotheca Nacional RME »
Archivos do Museu Nacional . . » » »
vornal dos Agricultores. . . . >» » »
Annuario do Observatorio. . . » » »
Brazilian Mining Review . . Rs »
Boletim da Commissão Geographi-
ca e Geologica =)... . : São Paulo
Revista Agricola. : » »
Revista do Instituto Historico e
Cévennes RUN Er Ie »
Revista Medica . . RS CR NO, »
Boletim de Agricultura . AGRE » »
Boletim da Faculdade de Direito. » »
Revista Pharmaceutica e Odon-
tologica . . » »
Annuario da Escola Polytechnica . » »
Revista de Medicina Tropical. . » »
Sociedade Scientifica de S. Paulo. » »
Revista do Centro de Sciencias, Le-
tirage Artes so!) oiço e Campinas
URUGUAY
Anales del Museo de Montevideo. Montevideo
Witla Moderna ss mts. »
PARAGUAY
Revista de Agronomia y de Cien-
cias aplicadas . . . . Assumpção
Revue mensuelle du Paraguay. - »
EF Aoriculion asas e sos a dE iy »
ARGENTINA
Anales del Museo Nacional. . . Buenos-Ayres
Comunicaciones del Museo Na-
TETE) RAR Le RE a CSS RE Me
00e —
Bolletin del Instituto Geografico
Argentino
«EI Poblador»
Tribuna farmaceutica
Anales de la Sociedad Cientifi -
ca Argentina
Anales de la Universidad . f
Congresso Cientifico Latino Ame-
Ticano. SENTE > Tae MD NN OT RE A
Boletin de Agricultura y Ga-
naderia SUR okey EL SAR SE
Boletin de la Academia Nacion-
nal de Ciencias. .
Revista del Museo de la Plata.
Anales Gel Museu de la Plata.
Revista de la : aculdad de Agro-
nomia y Veterinaria
CHILE
Actes de la Societe ou du
Chili : Ê
Anales de la Universidad .
El Pensamento Latino .
Revista Chilena de Historia Natu-
ral.
Boletin del Museu de Historia Na-
tural.
PERU
Anales de construcciones civicas,
minas e industriaes del Peru.
Boletin de la Sociedad de Inges
TORS) AUS Mega AS A SERRE CES
«El Perú», Estudios Mineralogicos
e Geologicos de la Sociedad
Geogr aphica de Lima .
Boletin de la Sociedad Geographica
de Lima .
Boletin del Cuerpo de Ingenieros
del Perú (Ministerio de Fo-
mento) .
Boletin del Ministerio de Fomento ..
Buenos- Ayres
»
»
»
»
»
Cordoba
La Plata
» »
Santiago
»
»
»
»
»
Valparaiso
»
Lima
2
by
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E
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a
À
LE
— 663 —
America Central e Mexico
INDISS OCCIDENTAES
Bulletin of the Botanical Departe-
ment of Jamaica . ; Kingston
Proceedings of the Victoria Ins-
titute. . Trinidad
Annual Report of the Victoria In-
SMS SRE te o RE ET PA RS i, »
COSTA RICA
Boletin del Instituto Fisico-Geo-
graphico Nacional . : . . S. José
Anales del Instituto — isico-Geo-
graphico del Museu Nacional. BRs
Paginas Ilustradas. Revista de Ci-
encias, Artes y Literatura. >» »
MEXICO
Boletin del Instituto Geologico de
Mexico . . RE Mexico
Anales del Museu Nacional. : »
Memorias y Revistas de la Sociedad
Cientifica «Antonio Alzate» . »
La Naturaleza . . RER
Boletin del Museo Nacional ox »
Parergones del instituto Geologico. »
ILHA DE CUBA
Memoria Annual do Instituto de 22
Enjenanza de la Habana. . Cuba
America do Norte
Hatch Experiment Station, Mas-
sachusetts Agricultural Col-
lege . ‘ Amherst, Mass
Publications of the University of
Caloi, 760). vt Le ree ae Berkely, Cal.
Indiana University . . Bloomington
Proceedings of the Boston Society
— 664 —
of Natural History .
Bolletin of the Museum of Compa:
rative Zoology at Harvard Cok
lose
Annual Report of the Curator of
the Museum of Comparative
Zoology .
Memoirs of the Museum Compara-
tive Zoology. .
The Auk, a Quartely ‘Journal of
Or nithology À
Memoirs of the Peabody Museum
of American Archaeology and
Ethnology Harvard University.
Peabody Museum, Harvard Uni-
versity, Archaeological and
Ethnological Papers :
Report of the Paebody Museum
of American Arch. and Eth-
nology
Publications of the Field Colum-
bian Museum .
Bulletin of the Chicago Academy
of Science
Journal of the Cincinnati Society
of Natural History.
Bulletin of the Lloyd Library of
Botany
Proceedings of the Davenport Aca-
demy of Science is
Iowa Academy of Science . 5
Proceedings of the Indiana Aca-
demy of Science.
Bulletin of the Experiment Station
of Florida
The Kansas University Quartely.
Annual Report of the Public Mu-
seum. .
Bulletin of the Wisconsin Natural
History Society.
Transactions of the Connecticut
Academy of Science .
Memoirs of the New York Aca-
Boston, Mass.
Cambridge Mass
» »
» »
» -»
» »
» »
Se »
es I.
» >
Cincinnati, Ohio
> »
Davenport, Lowa
Desmoines, Lowa
Indianopolis, Ind.
Lake City, Fi.
Lawrence, Kansas
Mina
» »
New Haven, Conn.
Sr Re
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— 665 —
demy ian “peleneer.. >... New York NE,
Transactions of the New-York
Academy of Seience. . . » »
Annals of the New-York Aca-
demy of Sciénce . . » »
Bulletin of the American Museum
of Natural History . . » »
Annual Report of the American
Museum of Natural History . » »
Journal of the New-York Ento-
mological Society > »
The Museum of the Brooklyn
Institute of Arts and Sciences » »
Annual Report of the New-York
Zoological Society . . . . > »
Zoological Society Bulletin. . . » »
Transactions of the Wagner Free
Institute of Sciences . . . Philadelphia, Pa.
Proceedings of the Academy of
Natural Sciences . . » >
Proceedings of the American Phi-
losophical Society . . » >
Bulletin of the Geographical So-
ciety of Philadelphia . . . » »
Transations of the Department of
Archaeology. tree Museum of
Science and Art. University of
Pensylvania. . . Aou >
Publications of Carnegie Macaw Pittsburgh, Pa.
Memoirs of the Carnegie Museum. » »
Annales of the arnegie Museum. » »
Proceedings of the Roches Aca-
demy of Science . . . . Rochester, N. Y.
Proceedings of the Californian
Academy of Sciences . . . S Francisco, Calif.
Annuual Report of the Missouri
Botanical Garden . . . . St. Louis, Mo.
Transactions of the Kansas Aca-
demy of Sciences . . . . Topeka, Kansás
Bulletin of the Illinois State La-
boratory of Natural History. Urbana Il
— 666 --
Biennal Report, of the Biologi-
cal Experiment Stations . . Urbana Til.
Smithonian Report, U. S. National
Museum . . Washington, D.C.
Proceedings of the Biological So-
ciety . » »
Bulletin of International Bureau of
the American Republies . . » »
Annual Report of the Bureau of
Ethnology by I. W. Powell. » »
Annual Report of the Geological
Survey by I. W. Powell. . » »
Report of the U. S. Commissionar
of Phish and Fishery .- ..~. > »
Bulletin of the U. 8S. pe ;
of Agriculture. » » 4
Yearbook of the U. 55. Deparment 4
of Agriculture . . » » |
Bulletin of the U. BS. Na s
Museum . : o » » E
Bulletin of the Ei pica) ‘Govier » » :
Bulletiu U. S. Geol. Survey poe x
ment of the Interior . . > » 4
Profissional Paper U. S. Cent E
Survey Depart. of the nterior » » :
Water-Supply Paper. U. 8. Geol. E
Survey Depart. of the Interior » » ‘
Monograpbs of the U. S. Geol. 5
Survey. Depart. of the Interior » » E
Annual Report, U.S. Geol. mere 1
Charles D. Walcott . . » » 3
Annual Report, of the U. 5. Na- :
cional Museum. . us » > :
Proceedings of the American Asso- |
tiation for the advancement of :
Science . . » » :
American Antunepalonist, organ of p
the Anthropological and Ethno-
logical Societies of America. » »
— 667 —
CANADA’
Publications of the Geological and
Natural History Runa of Ca-
nada. Ê
Rapport Annuel de la Camiminsion
Géologique de Canada.
Transactions of the asda Ins -
titute . :
Proceedings of the Canadien ene
titute .
Report of the Pnomological Society
of Ontario
Bulletin Ohio M oultneal Expedi
ment Station
Europa
ALLEMANHA
Sitzungsberichte der Gesellschaft
naturforschender Freunde.
Mitteilungen aus der Zoologischen
Sammlung des Museum fuer
Naturkunde ï :
Zeitschrift fuer Ethnologie ;
Sitzungsberichte der K. Akademie
der Wissenschaften.
Berliner Entomologische Zeitschrift
Zeitschrift für Zoologie .
Sitzungsberichte des Naturhistoris-
chen Vereines
Verhandlungen des Naturhistoris-
chen Ve ereines ;
Niederrheinische Gesellschaft fuer
Natur-und Heilkunde . À
Abhandlungen desNaturwissenscha-
ftlichen Vereines
Deutsche Geographische Blaetter.
Naturforschende Gesellschaft
Mitteilungen aus dem Kgl. Zool.
.. Montreal
Ottawa
Toronto
»
Wooster,
Berlim
Bremem
»
Danzig.
Ohio
-— 668 —
Museum. . PARENT
Publicationen des Kel. Ethnolo-
gischen Museums
Abhandlungen und Berichte “des
Kgl. -Zool. Me at ue
Museums.
Der Zoologische Garten.
Berichte ueber die Senckenbergi-
sche Naturforschende Gesel-
Ischaft ; DR A DA
Abhandlungen der Senckenbergi-
schen Naturforschenden Ge-
sellschaft.
Berichte der Natur forschenden Ge-
sellschaft. E
Petermans Geographische Mitteil-
ungen .
Berichte der Oberhessischen ‘Gee
sellschaft fuer Natur-und Heil-
kunde. .
Mitteilungen des Naturwissenscha-
ftlichen Vereines für Neu-
Vorpommern und Ruegen.
Nova Acta Academiae Caes. i ie
Carol.
Leopoldina, amtliches Organ “der
Kaiseri. Leop. Carol. Akademie
Zeitschrift fuer Naturwissenschaften
Mitteilungen aus dem Naturhisto -
rischen Museum.
Jahrbuch der Hambur gischen Wis-
senschaftlichen Anstalten :
Verhandlungen des Vereins fuer
Naturwissenschaftliche Unter-
haltung
Mitteilungen aus dem Rômer-Mu-
senmi.
Jenaische Zeitschrift fuer Natur-
wissenschaften
Abhandlungen und Bericht des Ve-
reines fuer Naturkunde
Sitzungsderichte der Naturforschen-
den Gesellschaft.
Dresden
»
»
Frankfurt a. M.
»
>
Freiburg à. Br.
Gotha
Giessen
Greifswald
Halle a. D:
Hamburg
»
»
Hildesheim
Jena
Kassel
Leipzig
— 669 —
Verhandlungen der Deutschen Zco-
logischen Gesellschaft .
Sitzungsberichte der Gesellschaft
zur Befórderung der gesamm-
ten Naturwissenschaften :
Denkschriften der K. Akademie
der Wissenschaften ( math.
phys. Klasse) :
Verhandlungen derOr nithologischen
Gesellschaft in Bayern. E
Sitzungsberichte der mathematisch-
physikalischen Classe der R. b.
Academie der Wissenschaften |
zu München. .
Berichte des Naturwissenschaftli-
chen Vereines
Stettiner Entomologische Zeituug .
Mitteilungen aus dem Kgl. Natu-
ralienkabinett
Leipzig
Marburg
Miinchen
»
»
Regensburg
Stettin
Stuttgart
GRAN-BRETANHA
The Scientific Transactions of the
Royal Dublin Society .
The Scientific Proceedings of the
Royal Dublin Society .
Economic Proceedings of the Roy al
Dublin Society .
Canadian Entomologist .
Journal of the Linnean Society
Proceedings of the Linnean Society
The Entomologist and _ filustrate-
Journal of General Entomo-
logy .
Novitates Zoologicae
*RANCA
Bulletin de la Societé d'Histoire
Naturelle
Memoires de la Societé Linnéenne
de Normandie
Bulletin de la Société Linnéenne
de Normandie
Dublin
»
»
London
»
»
»
Tring
Autun
Caen
»
— 670 —
Mémoiresdel’ Academie des Sciences
Mémoires de la Commission de anti-
quités du Departement de la
Côte D'Or Dicer teas
Annales de l'Université . à
Annales du Musée d'Histoire Na-
turelle .
Annales de la Faculté des Sei ences.
Bulletin du Musée d’Histoire Na-
EUTC LIE: E ee COR Aer i eC Cnn aee
Comptes Rendues de "Académie
des Sienees . ;
Revue des Travaux Scientifiques :
Bulletin Seientifique de la France
e de la Belgique
Revue des Cultures Coloniales.
_ Journal de la Société des Améri-
canistes de Paris »
Bulletin de la Societé Entomolo-
gique de France
Archives de Medicine Navale .
Archives de Parasitologie ; Pa
Blanchard : :
Journal d Agriculture Tropieato
Bulletin du Jardin Colonial et Jar-
din d’essai des Colonies Fran-
çaises.
Annales de la Societé teia
gique de France Er de
Comptes Rendues du Congrés des
Sociétés Savanes de Paris et
des Departments
Revue Agricole .
MONACO
Resultats des Campagnes Scientifi-
ques du Prince de Monaco
Bulletin du Musée Oceanographie
que de Monaco.
Dijon
»
Grenoble
Marseille
»
Paris
180
> :
Saint-Denis
Monaco
— 671 —
BELGICA
Extrait des Memoirs du Musée
Royale d'Histoire Naturelle
Bulletin du Musée Royale d'His-
toire Naturelle .
Bulletin de le Societé Royale Lin.
neanne
Procès-verbaux de la Société Bel-
ge de géologie, de paléonto-
logie et d'hydrologie
Bulletin de la Societé d'Etudes Co-
loniales
Annales de la Société Entomolo-
gique de Belgique .
Annales de Ja Société Belge de
Microscopie . .
Bulletin de la Société Belge de
Microscopie .
Bulletin de la classe de Sciences
de la Academie eae de
Belgique. . ave é
Bulletin de la Royal Academie
des Sciences, de Lettres et
des Beaux- Arts de Belgique .
Bruxelles
AUSTRIA-HUNGRIA
Mitteilungen der Kgl. Ungarischen
Geologischen Anstalt .
Jahresbericht der Kgl. Ungaris-
chen Geologischen Anstalt
Aquilla.
Annales Historico-Naturales Musei
Nacionalis Hungarici
A Magyarorszagi Kagylésräkok Ma-
ganrajz É
Mathematische und Naturwissens-
chaftliche Berichte. aus Un-
TER RO 0 eo EMA o
Ethnographische Sammlungen des
Ung. Nationalmuseums E
Bulletin International de l’Acadé-
mie des Sciences de Cracovie.
Budapest
Cracovia
— 672 —
Mitteilungen des Naturwissenscha-
ftlichen Vereins fiir Steiermark.
Berichte des Naturwissenschattlich
med. Vereines . .
Die Chronik d. ,Seveenko Gesell
schaft.
Sammelschrift der Mathematisch-
Naturwissenschaftlich - Aeztli-
chen Section der Seveenko
Gesellschaft . .
«Lotos» Abhandlungen ‘des Deu-
tschen Natuwissenschafilich-
Medicinischen Vereines für
Bohmen .
«Lotos», Sitzungsberichte des Deu-
techen Natu wiss¢ nschaftlich -
medicinischen Vereines für
Bohmen. .
Jahresbericht der Kel. Bohmischen
Gesellschaft der Wisenscha-
ften .
Sitzungsbericht der Kel. Béhmischen
Gesellschaft der Wisenscha-
ften .
Archiv der naturw Landesdurchfo-
rechung von Bühmen.
Evkôünyve. Jahresheft des Natur-
wistenschaftiichen Vereines
Verhandlungen der K. K. Zool.
Botanischen Gesellschaft .
Jahresbericht des Wiener Entomo-
logischen Vereines.
Jahrbuch der K. K. Geologischen
Reichsanstalt
Verhandlungen der K. K. Gasine
gischen Reichsanstalt .
Sitzungsbericht der K. K. Akade-
mie der Wissenschaften
Mittheilungen der Erdbeben-Com-
mission der Kais. Academie
der Wissenschaften. i
Graz
Innsbruk
Lemberg
»
»
Trenesim
Wien
— 673 —
Annalen des K. K. Naturhistori-
schen Hofmuseum . .
Abhandlungen der K. K. Geogra-
phischen Gesellschaft .
Mitteilungen der K. K. Geogra-
phischen Gesellschaft .
Wiener Entomologische Zeitung .
SUISSA
Verhandlungen der Naturforschen-
den Gesellschaft in Basel .
Memoires de la Société de Physi-
que et d'Histoire Naturelle
Mitteilungen aus der Schweizer
Entomologischen Gesellschaft.
Vierteljahrsschrift der Naturfor-
schenden Gesellschaft .
RUSSIA
Horae Societatis Entomologicae Ros-
gicae . . une
Revue Russe d'Entomologie
Raboti iz Laboratori: Zooloiczesca-
Basel
Genéve
Schaffhausen
Zürich
S. Petersbourg
»
go Cabineta. Varsovia
HOLLANDA
Ryks Ethnographische Museum Leiden
DINAMARCA
Goteborg Kéngl. Vetenskaps och
Vitterhets-Sanhalles Handlin-
ser, Goteborg
Entomologiske Meddedelser Kjobenhavn
Meddedelser on Gronland udgion-
of Commissionen for Ledel-
sen of Geologiske og Geogra-
phiske
— 674 —
SUECIA -
Archiv for Mathematik of Naturvi-
denskab .
Sveriges Geologiska Undersókning
Entomologisk Tidschrift.
Bulletin of the Geological Institu-
tion of the University of.
NORUEGA
Berne Museums Aarbog .
Det Kongelige Norks Videnskabers
Selskabs Sehritter .
Tromsés Museums Aarshetter |
“ITALIA
«Rediz» Giornale di Entomologia
Annali del Museo Civico di Storia
Naturale .
Mitteilungen aus de Zoologischen
Station zu Neapel . .
Bolletino della Real Scuola Supe-
riore d’ Agricultura ,
Annali della Real Scuola * uperiore
d'Agricultura. .
Atti della Reale Accademia “dei
Lincei. .
Rendiconti della Reale "Accademia
dei Lincei
Memorie della Pontificia Accademia
Romana Dei Nuovi Lincei
Boletino dei Musei di Zoologia ed.
Anatomia Comparativa.
HESPANIIA
Boletin y Memorias de la Real Aca-
demia de Ciencias y Ártes
Bulletin de la Institucion Catalana
d'Historia Natural. .
Annales, Boletin y Memorias de la
Scciedad Española de Historia .,
Christiania
Stockolm |
ES
Upsala
Bergen
Throndhjem
Tromsô
Firenze
Genova
Napoli
Portici
»
Roma
»
»
Torino
Barcelona
»
— 675 —
Natural
Revista de la Real ‘Academia de
Ciencias exactas, fisicas y na-
turales |. sah
Boletin de la Bibliotheca, “Museu
Balaguer.
PORTUGAL
Communicações da Direcção dos
Trabalhos Geologicos de Por-
tugal .
Jornal de Sciencias “Mathematicas,
Physicas e Naturaes da Aca-
demia Real de Sciencias .
Boletim da Real Associação Cen-
tral da Agricultura Portugueza.
Annaes de Sciencias Naturaes.
Portugalia. ;
Revista de Seicneias Naturaes do
Collegio de 8. Fiel.
ASIA
MeddedeeliLger int «Slands Plan-
tentuin» Schadelijke en Nut-
tige Insecten van Java.
«Slands Plantentuin» Bulletin de
l’Institut Botanique de Bui-
tenzorg ORS dita M
Madras Government “Museum, Ra-
mésvaram Is!and and fauna of
Gulf of Manaar . ieee ae
Journal of the Straits Branch of
the Royal Asiatic Society.
Annotationes Zoologicae Japonicae.
The Zoological Magazin. .
Mitteilungen der Deutschen Gesell-
schaft fuer Natur und Vôl-
kerkunde Ostasiens. .
The Journal of the College of
Science |
Madrid
»
Villa Nueva y Gueltri
Lisboa
Porto
»
Soalheira
Batavia
Buitenzorg
Madras
Singapore
Tokio
— 676 —
AFRICA
Annals of the South African Mu-
seum . . Cape Town
Report of the South African Mu- ;
seum . - . . E » »
AUSTRALIA
Transactions of the Royal Society
of South Australia. . . Adelaide
Memoirs of the Royal Society of
South Australia. . »
Annual Report of the Zoological
and Acclimatisation Society of
Victoria . . Melbourne
Proceedings of the Royal ‘Society
of Victorfa . . »
Proceedings of the Zoological and
Acclimatisation Society of Vi-
ctoria. . »
Journal of the Department of Agri-
culture of Westeru Autralia. Perth
Journal and Proceedings of the
Royal Society of New South
Wales . . Sydney
Proceedings of the Linnean “So-
ciety of New South Wales . »
Records of the Geological Survey _
of New South Wales . . »
Memoirs of the Geological Survey
of New South Wales . . »
Records of the Australian Mu-
seum. »
Memoirs of the Australian Museum. »
Annual Report of the Trustees of
the Australian Museum . »
Annual Report of the Department
of Mines and Agriculture of
New South Wales. . . »
Transactions and Proceedings of.
the New Zealand Institute . Wellington
/
— 677 —
POLYNESIA
Fauna Hawaiiensis . . . . Honolulu
Occasional Papers of the Bernice
Pauahy Bishop Museum . . »
Memoirs of the Bernice Pauahy
Bishop Museum of Polynesian
Ethnology and Natural His-
COVE ee É »
ILHAS PHILIPPINAS
Bulletin of the Philippine Museum. Manila
Pod
1
E
1
Nomes genericos e especificos novos publicados neste VI volume da
Revista do Museu Paulista
amazonica (Newportia), Brélem.
—p. 69.
amazonica (Myrmotherula pyr-
rhonota), H. v. Ih.—p. 440.
Try se) ER V: Thi
. 642.
ne (Newportia), Brélem.—
- 69.
bentobuenoi (Parachartergus), R.
von Ihering.—p. 129.
Caba n. n. R. von Ihering—
p. 105.
corniger (Leptodesmus Rachi-
domorpha) Brélem.—p. 87.
diptietus n. n. Spirostreptus.
Rs cr) Brélem.—p.
abit (Eurvurus), Brélem.
—p. 77.
exilio (Pseudonannolene),
lem.—p. 78.
fasciata (Caba bilineolata),
von Ihering—p. 112.
furnaria (Polybia), R. von Ihe-
ring—p. 217.
garbei (Myrmotherula), H. von
Ih. —p. 441.
grandis ae Brülem.—
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Bro-
guarania (Piaya cayana), H. von
Ih. —p. 448,
innotatus (Galbacyrhynehus leu-
cotis), H. v. Ih. —p. 445.
juruanus (Dendrocolaptes), H.
von Ihering—p. 437.
juruanus ( Dendrornis ocella-
tus), H. v. Ihering—p. 436.
quruana n. n.(Drymophila), H
von Ihering—p. 442.
bjuruanus (Midas pileatus),
H.
von Îh.—p. 416.
juruana (Myrmotherula brevi-
cauda), H. v. Ih. —p. 440.
juruanum (Ornithion pusillum),
H. v. Ih.—p. 434.
juruana (Polybia occidentalis),
R. von Ihering—p. 198
juruana (Solaropsis rugifera), E
y. Ihering—p. 456.
juruanus (Thamnophilus), H. v.
Ihering—p. 439.
juruanus (Thryothorus geni-
barbis), H. v. Ihering — p.
431.
meridionalis n. n.(Polybia), R
y. Ihering—p. 211.
mitis (Cupipes ungulatus), Brô-
lem.—p. 65.
octocentrus (Euryurus), Brélem.
politus (Cryptodesmus), Brü-
lem.—p. 84.
pileolus (Cryptodesmus), Brü-
lem.—p. 85
Parachartergus, R. v. Ihering—
p. 128.
paulista (Schendyla), Brélem.—
83.
septentrionalis n. n. (Polybia),
R. v. Ihering—p. 210.
unilineata (Polybia pediculata),
KR. v. Ihering—p. 185.
venezuelensis (Cupipes ungula-
tus), Brélem.—p. 65.
ypiranguensis (Polybia), R. v.
Ihering—-p. 188.
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Revista do Museu Paulista, VI, 1903.
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Rio Jurua - Condor- cangui, barraca de caucheiros
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Rio Jurua - Boca do rio Gregorio
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Rio Jurua - Barracão do Eldorado, partida dos seringuetros
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Rio Juruá - Caititii, embarque de combustivel. para os vapores
Est. XII.
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Revista do Museu Paulista, VI, 100%.
Rio Jurud - São Felippe, o posto policial
Est. XIV.
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Revista do Museu Paulista
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Mappa demonstrando qual o aspecto dos canaes e dos manguezaes invadidos pelo mar, no tempo de Martim Affonso, segundo as damarcaçôes das
tres primeiras sesmarias concedidas por este Donatario, indicando as primeiras vias de communicaçäo entre as tres povaçôes primitivas: S. Vicente,
Itanhaem e Piratininga, conforme dados historicos da época. Vé-se tambem indicado o lugar onde existiram os principaes sambaquis, hoje destruidos.
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Revista doMuseuPaulista 1904,VI
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REVISTA
DO
MUSEU PAULISTA
PUBLICADA
POR
. H. von IHERING, Dr. med. et phil.
Director do Museu Paulista, socio honorario da Sociedade Anthropologica Italiana,
; da Academia de Sciencias em Cordoba,
da Sociedade Geographica de Bremen, da Sociedade Anthropologica de Berlim,
da Academia de Sciencias de Philadelphia, da Sociedade de Naturalistas de Moscow,
da Sociedade Entomologica de Berlim,
da Sociedade Scientifica do Chile, da Sociedade Senckenberg dos Naturalistas de Frankfurt, a. M.,
da Sociedade Scientifica Argentina, da Sociedade Zoologica de Londres,
da União Ornithologica de Londres, da União dos Ornithologos Americanos,
da Sociedade Nacional de Agricultura, do Instituto Archeologico
de Pernambucs, do Instituto Geographico e Historico
E da Bahia, ete,
VOLUME VI
SAO PAULO
TYPOGRAPHIA DO «DIARIO OFFICIAL»
1904.
BL WHOI Library - Serials
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