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REVISTA
DO
MUSEU PAULISTA
PUBLICADA POR
RODOLPHO von IHERING
Director Interino do Museu Paulista
VOLUME VII
S. PAULO
Typ. CARDOZO, FILHO & Cura
35, RUA DIREITA, 35
1907
INDICE
CS AMET SI PER TS O)
ç PAGS,
2 O Museu Paulista nos annos de 1903 a 1905, por lodol-
URED IRON RSR ET ae PR le Oh ee ae |
Os Indios Patos e o nome da Lagoa dos Patos, pelo Dr.
ã ed CR MEDION UO THEI UN oo ea re ras Le ol
Considerações sobre alguns ossos fosseis de Reptis do
= Est. do Rio Grande do Sul, ae Dr. A. Smith-
a Woodward (fig. NES at he LU
Notas sobre una pequeña coleceion e Re de Ma-
= - miferos de las grutas calcáreas de Yporanga, Est. de
S. Paulo, pelo Dr. Florentino Ameghino (fig. 1-22 5%)
É “A distribuição de Campos e Mattas no Brazil, pelo Dr.
à E. von: Ihering (com Estampas I-VII). . . . 125
E As cabeças mumificadas pelos indios Mundurucús, pelo
= Dr. H. von Ihering (com Estampas IX-X) . . 179
E À Anthropologia do Estado de S. Paulo (traducçäo), pelo
E Dr. H. von Ihering (com estampas XI-XII) . . 202
Os Peixes da agua doce do Brazil, por R. von Ihering
(com7--desenhos e - Estampa VIM)... o. 258
Historia da fauna marina do Brazil e das regiões visi-
£ nhas da America meridional (tradueção do Cap.
x XII da monographia «Les Mollusques fossiles du
4 Fe Tertiaire et du Cretacé de l’Argentine>), pelo Dr.
H. von Ihering (com Estampa XIII) . . . . 337
- A organização actual e futura dos Museus de historia
natural, pelo Dr. H. von Ihering. . :. 431
Bibliographia (1905-07) Historia Natural e tda
do Brazil, por Dr. Hermann e Rodolpho von Ihering 450
Periodicos recebidos. em permuta para a bibliotheca do
Museu Paulista.
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Ra. Publicado em 12 de Setembro de 1908.
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Orv Set) PAULISTA
Nos Annos de 1903 a 1905.
POR
RODOLPHO VON IHERING
Baseado nos 3 relatorios apresentados ao digno
Governo do Estado de S. Paulo pelo nosso prezado
chefe, Prof. Dr. Hermann von Ihering, actualmente em
viagem pela Europa, para onde foi em gozo de licença
e commissionado pelo governo para representar-nos em
diversos congressos scientificos, bem como estudar a orga-
nisação dos principaes museus, apresento este pequeno
resumo dos factos mais importantes occoridos no Museu
Paulista durante os tres annos acima mencionados.
Ao mesmo tempo já podemos fazer um pequeno
retrospecto, pois completaram-se dez annos que este
estabelecimento de estudos scientificos e de ensino publico
foi oficialmente inaugurado. Em 7 de Setembro de
1895, após anno e meio de arduo e incessante trabalho,
o Dr. H. von Ihering franqueou ao publico as 16 salas
que ainda hoje são frequentadas por numero sempre
crescente de visitantes, que ahi vem estudar a fauna de
nosso paiz ou levar conhecimentos de geologia, minera-
HO
logia, ethnographia e historia patria, pela inspecção do
material, que destes ramos de estudo se acha exposto.
Bem sabemos que dez annos de vida para um
museu são prazo bem curto e talvez apenas sufficiente
para a sua primeira organização; é só com difficuldades
de toda especie que se consegue reunir o material scien-
tifico e a respectiva literatura, base de todo o trabalho
e o seu estudo em nosso paiz e, mórmente, como em
nosso caso, com um pessoal assaz minguado, é trabalho
incomparavelmente mais arduo que o de institutos ana-
logos de paizes em que os estudos da zoologia são cul-
tivados ha centenas de annos. De outro lado, porem,
vendo os progressos alcançados no Museu Paulista, espe-
cialmente em suas collecções de estudos, onde quasi
todas as secções pódem ser chamadas ricas, em grande
parte com seu material todo estudado e muitas mesmo
com collecções que podemos dizer serem basicas em nosso
paiz para estudos quer de systematica, quer zoogeogra-
phicos ou biologicos, ete., não podemos deixar de feli-
citar a quem em sua taréfa de organizador tanto fez em
tão pouco tempo e com meios sempre parcos.
(Quanto ao reconhecimento que tem merecido estes
esforços, o mesmo se patenteia, da parte do publico em
geral, pelo numero de visitantes, cada vez mais elevado,
como se vê da lista que abaixo reproduzimos; da parte
do mundo scientifico é pela apreciação dos trabalhos
scientificos do instituto e pelo acolhimento que tem a
sua Revista que se póde aquilatar os seus merecimentos;
tambem por este motivo só podemos congratular-nos
com o nosso chefe e com o governo do Estado de São
Paulo.
A frequencia do Museu Paulista, que, como desde
a sua inauguração, sempre tem sido aberto ao publico
ás terças e quintas-feiras (das 11 ás 4 horas) e aos
CSU a
2?
“domingos e dias feriados (das 12 ás 5 horas), foi o
seguinte:
Ena SIG a aa 40.000
HI de D ech pa oe ave lo
5. ASSES te a aa a elds Lr ao .905
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De RE Sia We Pe alan RARE O Ie 34.813
SA RIRE (O PR TR EEE SUDO E
Spel Oar ite Siete gia Er 48.758
A diminuição bastante sensivel na frequencia do
Museu nos annos de 1900, 1901 e 1902 foi devida 4
communicação pessima que a antiga Companhia Viação
Paulista estabelecia entre a cidade e o arrabalde do
Ypiranga, onde se acha o Monumento no qual func-
ciona o Museu Paulista. Os bonds acanhados, morósos
e de intervallos enormes gastavam neste trajecto uma
hora inteira. De 1903 em diante funcciona a linha de
tramways electricos da «S. Paulo Light and Power
Comp.», cujo serviço, ainda que deixe um tanto a dese-
jar, é incomparavelmente superior ao antigo, fazendo o
trajecto em 25 minutos. Comtudo os seus preços (800 rs.
“de ida e volta) continuam elevados, constituindo ainda
um impecilio para a visitação mais crescida do Museu.
Quanto ás visitas honrosas, de scientistas ilustrados,
queremos apenas salientar alguns nomes de alguns col-
legas, como os Snrs. Drs. E. Bonnier e Charles Perez,
professores das universidades de Sorbonne e Bordeaux,
ex-membros da Expedição Charcot ao Polo Antarctico;
Dr. Nina Rodrigues, lente da faculdade de Medicina da
Bahia; o Dr. F. Ohaus, coleopterologo e emerito obser-
vador em biologia; o Snr. Adolpho Ducke, o operoso
hymenopterologo do Museu do Pará; os Snrs. Dr. Chas.
ey a
Lounsburfy e G. Compêre, funccionarios da Colonia do
Cabo e da Australia, enviados em missão de entomo-
logia economica; os Snrs. À. de Winkelried Bertoni e
Anissits dedicados ao estudo da zoologia do Paraguay
e aos quaes devemos valiosos materiaes de estudo.
Com referencia ao pessoal do Museu só temos a
registrar a substituição do amanuense Snr. Alcides M.
Pinto pelo Snr. Paulo Barreto e deste, em Março de
1905, pelo Snr. Mario Passos. A nós, como Custos do
Museu, foi concedida uma licença de seis mezes, prazo
este empregado em visitas aos principaes Museus da
Europa e tambem em estudos de Protozoarios no labo-
ratorio do eminente professor de zoologia da Universi-
dade de Heidelberg na Allemanha, Prof. Otto Biitschli,
a quem não podemos deixar de exprimir ainda uma
vez os nossos agradecimentos pelas suas constantes
attenções.
O Snr. Ernesto Garbe, naturalista viajante do Museu
tem continuado a fazer viagens no interior do Brazil.
Em começos de 1903 elle regressou de sua viagem ao
Rio Juruá no Estado do Amazonas, sendo-lhe em se-
guida propostos varios problemas relativos á tauna do
Est. de S. Paulo, para o que seguiu primeiro via Fa-
xina. a 8. Pedro de Itararé na fronteira do Est. do
Paraná ; depois de Bebedouro a Barretos e dahi 4 f6z
do Rio Pardo no Rio Grande, já na fronteira do Est.
de Minas Geraes ; voltando a Bebedouro atravessou 0
sertão, via 8. José do Rio Preto ao Salto de Avanhan-
dava e, descendo o Rio Tieté, fez estação em Itapura,
demorando-se depois algum tempo na Fazenda da Faya,
junto ao Rio Paraná, no Est. do Matto Grosso. Na
volta, subindo novamente o Rio Tieté passou outra vez
por Avanhandava e d’ahi, via Pedras, chegou, apoz pe-
nosissima viagem no tempo das chuvas, a Mattão, pro-
ximo de Araraquára. Voltando a S. Paulo partiu em
oO 2:
nova viagem, desta vez para o littoral. Demorou-se
então especialmente nos arredores de Ubatuba, de onde
voltou, subindo a Serra do Mar, via Tanbaté. Prepa-
rando-se em seguida para uma exploração mais penosa,
partiu em Setembro de 1905 para o Estado do Espirito
Santo, fazendo em caminho uma estação na Ilha Grande,
para estudar a fauna dessa ilha em confronto com a de
S. Sebastião, que já anteriormente fôra explorada pelo
pessoal do Museu Paulista (Veja-se o estudo publicado
pelo Dr. H. von Ihering nesta Revista, Vol II, p. 129 ss.).
Para o Estado do Espirito Santo propuzera-se ao Snr.
Garbe em especial o estudo da fauna das margens do
curso inferior do Rio Doce, bem como o da ichthyo-
fauna, que ahi é de interesse especial, visto como nas
lagoas, pouco acima da foz do rio no Atlantico, taes
como a Lagoa Linhares, ha uma mistura singular de
peixes d'agua doce e do mar. E preciso observar, en-
tretanto, que estas lagoas tem agua puramente doce.
Em todas estas viagens foi o nosso naturalista-via-
jante acompanhado pelo seu filho Walther Garbe, egual-
mente excellente caçador, que, compartilhando com seu
pae os perigos e as privações que taes viagens sempre
impõem aos exploradores dos nossos sertões, em muito
contribuiu para que o Museu Paulista tirasse dessas
expedições resultados tão completos como os comprova
o crescimento constante das nossas collecções.
Comtudo não eram sómente as remessas de mate-
riaes colligidos pelos Snrs. Garbe que enriqueciam mez
por mez as nossas collecções. Especialmente em nosso
Estado conseguimos entrar em relação com um certo
numero de caçadores que, ensinados pelo nosso prepa-
rador já agora nos preparam bons couros ou conservam
os animaes em alcool e assim constantemente lhes com-
pramos bom material. Naturalmente as especies mais
communs se repetem frequentemente, de modo que limi-
ENO) ee
tamo-nos a fazer a selecção do que julgamos aprovei-
tavel para nossas collecções, devolvendo-lhes o resto para
a venda na Europa. Taes senhores são: Mathias Wacket
na Serra do Mar; Francisco Günther na Ilha de S.
Sebastião; Otto Dreher em Franca. Ao Snr. H. Li-
derwaldt, que a principio nos prestava eguaes serviços,
fazendo caçadas em Itatiaya, já agora conseguimos con-
tractar para o trabalho constante em nossos laboratorios,
onde lhe coube em especial o encargo da revisão das
collecçôes entomologicas, preparando o material ainda ac-
cumulado e revendo, segundo nossas indicações, a ordem
das numerosas familias de insectos, que já occupam nada
menos de 17 armarios, de 50 gavetas cada um.
Resta-nos, emfim, transmittir aqui os agradecimentos
que nosso chefe se dignou externar em seus relatorios,
com relação aos funccionarios do Museu Paulista; «Cau-
sa-me prazer registrar a dedicação com que todos os em-
pregados desta repartição cumpriram com os seus deveres,
bem como o seu procedimento sempre correcto e leal,
de modo que foram só impressões lisongeiras e agra-
daveis que me deixou o serviço destes exercicios».
*
* %
Entre as obras mais importantes terminadas nesses
exercicios devemos salientar em especial uma, cuja ne-
cessidade impunha de ha muito sua realisação. Foi a
construcção dos portaes nas 12 gallerias e nos 5 portões
da fachada do Monumento do Ypiranga, em que func-
ciona o Museu. Esta medida, reclamada pelo Director ja
desde a installação do Museu, importa não só em um
embellezamento do sumptuoso edificio, pois que o tra-
balho foi executado com capricho pelas officinas delle
encarregadas pela repartição de Obras Publicas, mas
tambem representa uma garantia contra roubos e contra
a ce!
os intemperies do clima, abrigando assim melhor a en-
trada para as salas do pavimento terreo, em que estão
acondicionadas as nossas valiosas collecgdes de estudos.
Ainda no monumento foi preciso realizar outras obras,
como o do concerto no telhado, em vista do mão estado
em que se achava; tambem os conductores d'agua e a
claraboia tiveram de ser reparados.
Cuidado especial têm merecido os terrenos annexos
ao Monumento. Emquanto que a grande area da frente,
hoje uma praça deserta e desoladora, espera ainda o seu
ajardinamento imprecindivel, (*) têm-se cuidado, com os
proprios recursos do Museu, de preparar os terrenos dos
fundos do Monumento para um futuro Horto Botanico,
onde se achem representados, e exclusivamente, os prin-
cipaes typos da nossa flora. Para isto foi iniciado o
trabalho do preparo do terreno e fez-se já o plantio de
numerosas mudas de arvores e arbustos. Ao Snr. H.
Lüderwaldt devemos agradecer em especial a dedicação
com que tem cuidado deste serviço.
Reformou-se uma pequena casa para poder servir
de posto policial da subdelegacia que em especial se
creou para servir ao Museu. O Dr. H. von Ihering foi
por algum tempo empossado da vara dessa VI Subde-
legacia da 2.º Circumscripçäo da Capital; porém, com
nova reforma, foi ella supprimida, sendo então o serviço
policial feito pelo destacamento do Ypiranga. A vigi-
lancia nas salas expostas ao publico continúa a ser feita
pelos serventes do Museu aos quaes foi dado farda e
bonet e por soldados da Guarda Civica, cujo numero
varia, segundo a frequencia que se espera, de cinco a
oito praças.
(*) Acabam de ser iniciados os trabalhos a que nos referimos, sendo
entregues pela Secretaria da Agricultura ao Snr. Arsène Puttmans, de compro-
vada competencia. IX 07.
CAGE | al
As colleccôes do Museu
Passando a tratar dos progressos realizados no
Museu com relação ás suas collecçôes, tanto as que estão
expostas ao publico como as de estudo (separação esta
que, como o vimos nos principaes museus europeos, se
observa estrictamente ou ao menos, pela grande conve-
niencia que tem, se procura alcançar), só podemos con-
gratular-nos com o Exm. Governo do Estado pelo muito
que se tem conseguido, especialmente nestes ultimos annos.
Repetidas vezes tivemos occasiäo de ouvir gabar em
museus da Europa a perfeição do material como nol-o
envia de suas caçadas o nosso naturalista-viajante,
Sur. Ernesto Garbe. Na officina do preparador constan-
temente estão em trabalho peças destinadas á collecção
exposta, e isto independentemente dos mil pequenos afa-
zeres que tem o unico preparador, Snr. João L. Lima,
com o material que quasi diariamente afflue de todas as
partes. E” necessaria a substituição de numerosos espe-
cimens da collecção antiga, quer mal preparados, quer
porque se vão estragando com o tempo.
Devemos destacar em especial os trabalhos reali-
zados na secção de Mammiferos, onde foi inaugurado
um grande e bello armario duplo, com uma separação
interna no sentido longitudinal, de vidro fosco, que cor-
responde excellentemente ao fim de illuninar melhor o
lado interno do armario, sem que comtudo os exem-
plares do outro lado distraiahm a attenção do obser-
vador. Foram ahi expostos unicamente os Simeos brazi-
leiros, sendo que de um lado estão os macacos do Brazil
meridional (nessa representação 39 especimens) e de outro
lado os da região Amazonica (28 especimens, quasi todos
colligidos pelo nosso naturalista-viajante em sua explo-
ração do Rio Juruá).
Dous bellos especimens do peixe-boi (Manatus
inunguis), egualmente do Rio Juruá, foram preparados
See A to
e tem despertado especial interesse, mesmo porque se
trata de um typo assaz curioso, que, segundo informação
da antiga literatura, (*) nos antigos tempos coloniaes ainda
habitava o littoral do Estado de S. Paulo. Tambem
os Servideos figuram agora todos em bellos exemplares
em nossas vitrinas. Alguns outros armarios novos foram
installados nas collecções de Archeologia e da Historia
Patria. Com este accrescimo de espaço puderam ser ex-
postas duas valiosissimas series de peças manufacturadas
pelos nossos antigos aborigenes da Bahia e do Rio
Grande do Sul. As da Bahia provem todas de Amar-
gosa, onde foram colligidas pelo saudoso amigo do Museu,
Sur. Christovam Barreto e aos quaes o Dr. H. von Ihering
se referiu largamente no Vol. II desta Revista (p. 550
— 557), no capitulo — Archeologia da Bahia — de sua
«Archeologia comparativa do Brazil», figurando varios
desses exemplares na Est. XXIII, (fig. 32—41) Os
objectos archeologicos do Rio Grande do Sul a que nos
referimos, foram adquiridos do Snr. Arnaldo Barbedo por
intermedio do dedicado amigo do Museu Paulista, Spr.
Dr. J. Maria Paldaoff, a quem a morte atroz tão cedo
roubou aos seus amigos e do trabalho scientifico e pra-
tico a que se dedicava com ardor e alta comprehensão,
como director da Estação Agronomica de Porto Alegre.
A respeito desses mesmos objectos o Dr. Paldaoff pu-
blicára nesta Revista Vol. IV, p. 339—347, Est. IV uma
pequena memoria e, pois foi de summo valor o Museu
poder adquiril-os, mesmo para assim reunil-os ao seu
já rico material que, quanto á Archeologia rio-grandense
é de primeira ordem, senão a melhor collecção existente.
No novo armario da sala B 9, de objectos histo-
toricos foram collocadas varias bandeiras, espadas, a ar-
madura de Martim Affonso de Souza etc.
(*) P.* José de Anchieta—«<Epistola quam plurimarum rerum naturalium»
de 31 de Maio de 1560.
LEA (ha eee
Na outra sala de objectos historicos, B 8, foi mon-
tado um bello armario feito a capricho, para ahi serem
acondicionados condignamente os valiosos objectos da
«Collecgao Campos Salles», isto é todos os mimos (50
peças) que o illustre ex-presidente da Republica, Dr.
M. F. de Campos Salles recebêra durante o seu governo
e que generosamente offereceu ao Museu Paulista (veja-se
nesta Revista Vol. VI, p. 9).
Apezar das dificuldades com que luctamos, ainda se
encetou outro serviço de melhoramento nas collecções
expostas ao publico. Para varias secções foram impressos
os rotulos com os dizeres referentes ao nome trivial ou
commum, ao nome scientifico e 4 procedencia do exemplar.
E" excusado enaltecer as vantagens desse systema, que
ainda não toi completado devido á carencia de auxiliares.
Por ordem do então Secretario do Interior, Dr.
ardozo de Almeida foram retiradas as télas que con-
stituiam a Galleria Artistica do Museu, para serem exhi-
bidas em salas do Lyceu de Artes e Officios desta
Capital, onde formariam o nucleo da futura Pinacothéca
do Estado. Até certo ponto essa medida foi bôa, pois
que nas salas do Museu as pinturas, muitas de real
valor artistico, estavam mal colocadas, sem observancia
de regra que a arte ensina, e isto devido á carencia de
espaço. Os pintores, a principio satisfeitos, entretanto logo
se aborreceram com tal mudança, visto como suas télas
sahiram de salas em que constantemente eram vistas por
avultado numero de visitantes, para serem transferidas a
outras onde estão como que escondidas. Estão agora
convencidos que o melhor seria executar o plano do Dr.
H. von Ihering, esbocado em outra relatorio, segundo o
qual se construiria uma galeria especial para os quadros do
Estado, talvez no proprio Ypiranga, junto ao Museu,
para onde o publico está encaminhado e onde se for-
maria uma como que cidadella de Museus, qual o
«Zwinger» de Dresden.
AN NS
Continuam, entretanto, a figurar no Museu o grande
quadro do «Brado de Independencia ou Morte» de Pedro
Americo, bem como outros quadros historicos, taes como
os retratos dos Imperadores, de José Bonifacio, An-
chieta, Bartholomeu de Gusmão (estes de Benedicto
Calixto); do P.° Feijó, ete, a grande téla da Fundação
de S. Vicente (de B. Calixto), etc.
Quanto ás colleccdes de estudo tem-se seguido á
risca o plano traçado para o seu desenvolvimento e pro-
curado fazel-as corresponder cada vez melhor aos fins a
que se destinam.
Pelas constantes remessas do naturalista viajante,
Snr. Ernesto Garbe, a cujas viagens já nos referimos,
sempre advem-nos novo material de todas as classes do
reino animal. E por este motivo, de elle ter de pres-
tar egual attenção a caças tão diversas, que as series
não pódem ser muito extensas, como bem o desejariam
os especialistas, e com razão, pois que só com nume-
rosos exemplares da mesma especie é que se póde fixar
o seu typo ou as suas variações.
Com este objectivo os museus europeus enviam
constantemente os seus colleccionadores ás diversas re-
giões e estes só caçam e preparam representantes de certos
grupos de animaes, com o que certamente conseguem
resultados assaz vantajosos; tal, porem, seria contrario ao
progresso simultaneo de todas as secções de nosso Museu.
Já nos referimos egualmente ás collecções que nos
fizeram os Snrs, Francisco Günther, acompanhando a tur-
ma dirigida pelo Dr. O. Hummel, da Commissão Geogra-
phica e Geologica do Estado, encarregada da exploração
do Rio Feio no sertão do Est. de S. Paulo; não foram
grandes os resultados conseguidos para o Museu, em
virtude da diversidade dos fins que tinham em vista 0
nosso empregado e a expedição e tambem pelo emba-
raço que os indios bravos oppunham ás livres caçadas.
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MG ES
Da Ilha de S. Sebastião, porem, mais tarde o
mesmo Snr. Günther nos remetteu abundante material
ichthyologico e podemos, em especial, gabar os bellissimos
exemplares de peixes do mar empalhados, que nos pre-
para, pintando ao natural os de côres vivas, que do con-
trario desbotariam completamente.
Devido a terem-se estabelecido varios collecciona-
dores de borboletas nas estações da Estrada de Ferro
Ingleza, na região da Serra, pudemos adquirir um grande
numero de Lepidopteros raros, especialmente dos de
habitos nocturnos.
Para bem acomodar esse avultado material foi pre-
ciso tambem cuidar de augmentar o numero de arma-
rios nos grupos onde mais escaceava o lugar. Assim
para a collecção de couros de aves, que hoje se eleva
a cerca de 7.000 exemplares, todos neotropicos e em
especial brazileiros, tornou-se necessario adquirir mais
5 armarios, (em média com 40 gavetas cada um), do
typo R. Ihle — Dresden; está pois a collecção ornitho-
logica acondicionada em 8 armarios, a fóra de outro
para os duplicatas e 8 caixas grandes para as aves
maiores. Tambem para a collecção de couros de mam-
miferos (ca. de 1.200 specimens) foram construidas
varias caixas; os pequenos Roedores e os Chiropteros,
porém, são guardados em armarios identicos aos das
aves, cujas tampas de vidro fecham quasi hermeticamente,
a defender as collecções contra a poeira e insectos dam-
ninhos. Os craneos dos pequenos mammiferos, sempre
providos do mesmo numero de registro do couro, (e
tanto na capsula craneana como no maxillar inferior,
para evitar qualquer confusão) sempre acompanham o
couro na mesma gaveta; para proteger ainda melhor os
exemplares mais frageis colloca-se-os em tubos ou pro-
vetes de vidro com algodão.
E o 7 wa
A collecção de molluscos, tanto recentes como fosseis,
sempre foi das mais importantes do Musen Paulista,
pois que o seu fundador sempre teve predilecção espe-
cial pela Malacologia e, logo, ao tomar a direcção do
museu, incorporou parte de sua collecção particular 4
do museu; ainda ha pouco doou a este instituto outra
parte dessa sua colleeção partiticular, iniciada pelo mesmo
Dr. H, von Ihering ha mais de quarenta annos, quando
ainda creança.
Occupa agora a colleeção de molluscos nada menos
de 12 armarios ou 480 gavetas; cada especie de concha
está em pequena caixinha especial, de papelão, juntando-se
as de egual proveniencia——destes lotes conta a collecçäo do
Museu nada menos de 9.065 e pois um numero pelo
menos quintuplo de exemplares, alem de um grande nu-
mero de duplicatas. Conta alem disto a colleeção ma-
lacologica do museu com o auxilio da collecção particular
de Unionidas do Dr. H. von Ihering, que é de ca.
de 1.656 lotes.
Tambem na secção entomologica foi preciso col-
locar novos armarios, attendendo ao desenvolvimento dos
diversos grupos, que occupam agora o seguinte numero
de armarios (de 50 gavetas cada um): Hymenopteros -—
2; Dipteros e Neuropteros — 1; Orthopteros — 1; Co-
leopteros —- 4: Lepidopteros — 6; Rhynchopteros— 1.
Offertas feitas ao Museu
Enumeramos em seguida a lista das offertas de
maior valor recebidas pelo Museu Paulista nestes ultimos
annos, bem como damos a das permutas e compras de
maior importancia realizadas em beneficio das collecções.
Da Secretaria do Interior, um quadro a oleo
«Preta Quitandeira» de Antonio Ferrigno e dous do
Ea aA
pintor paulista Benedicto Calixto representando um
Domingos Jorge Velho e o outro o capitão-mór de Itt,
Vicente Aranha, (1779) segundo uma miniatura da
época.
Dos Snr. W. Bertoni — Asuncion, Paraguay, uma
collecção de conchas terrestres e d'agua doce e outra de
couros, ninhos e ovos de aves. à
Padre J. Andricux—lIt, 8. Paulo, uma collecção
de 60 insectos.
Francisco Dias da Rocha—F¥ortaleza—Ceara, tres
caixinhas contendo molluscos, caracées, uma tartaruga
— Cinosternon scorpioides e diversos Myriapodes.
Dr. Nina Rodrigues—Bahia,—um Muirakitã ou
amuleto em forma de sapo, do Est. da Bahia.
P. Schmalz—Joinville— Santa Catharina, mol-
luscos com ovos, etc.
Julio Conceição —Santos,-—varias aves vivas.
Gerente da Comp. Antarctica, —S. Paulo, uma
igaçaba de barro com restos de ossos de indios, encon-
trada nos terrenos da Companhia por occasiäo de uma.
escavação.
Dr. À. Lutz-—$S. Paulo, —diversos dipteros, bem
como varias outras offertas do Instituto Bacteriologico
de S. Paulo.
Governo do Est. de S. Paulo—tres quadros, de
Antonio Parreiras (A Bahia Cabralia) e Pedro Ale-
xandrino (Natureza Morta; Flores, doces e musica.);
Duas bandeiras que serviram nos batalhões de volun-
tarios paulistas na revolução de 1893 (Itararé).
Ernesto Garbe—Naturalista do Museu, —tres caixas
contendo 250 lepidopteros optimamente preparados pelo
mesmo Snr., bem como varias outras offertas.
RO
United States Department of Agriculture—Wa-
shington, uma collecçäo de 20 especies de Cigarras dos
generos Cicada e Tibicen, em 30 exemplares.
Coronel Jorge Maia—Botucati—s. Paulo; 4 ma-
chados de pedra, de indios do Estado de S. Paulo.
José Garcia Fialho —Piassaguéra —S. Paulo, di-
versos vidros com crustaceos, em alcool e dous Baia-
cús de espinho e ainda varios outros objectos.
Dr. Paulo Moraes Barros —Piracicaba $. Paulo,
—um vidro com peixes (Corydoras microps Eigenm.).
Léo Lopes de Oliveira—uma caixa com 100 in-
sectos colleccionados no Rio de Janeiro e em S. Paulo,
entre elles um Hypocephalus armatus, colligido no Cor-
covado (*) Rio de Janeiro.
Commissão Geographica e Geologica de S. Paulo,
varias amostras de mineraes, bem. como artefactos indi-
genas, obtidos pelos Snrs. engenheiros em expedição.
Antonio Pimentel —Pouso Alegre —Minas Greraes
—um vidro com peixes, pescados no Rio Sapucahy; um
jacaré e 341 insectos colligidos no Est. de Minas Geraes.
Snr. Lupton—S. Paulo—um enxame de formigas
Cuyabanas: Prenolepis fulva.
Padre José de Mello, — Director do Museu An-
chieta— Curityba---uma collecção de borboletas.
Padre J. Rick—$. Leopoldo—Rio Grande do Sul,
uma colleccäo de 20 especies de fungos classificados, do
Rio Grande do Sul.
Florentino Ameghino — Museo Nacional de Buenos
Aires, Rep. Argentina, uma rica collecçäo de conchas
fosseis, dos terrenos cretaceos da Patagonia.
(*) Um achado interessantissimo e de todo inesperado nessa região de
mattas densissimas; comtudo quizeramos ainda sua confirmação por outros exem-
plares—sem que com isso ponhamos em duvida a veracidade deste.
By
DD (je
Devemos ainda mencionar os nomes dos seguintes
amigos que por varias vezes têm enviado especimens
interessantes para as colleeções do Museu Paulista:
Dr. A. O. Derby, H. Eichenberg, João Dutra, Luiz P.
Barreto, J. Menezes, Loriol le Fort, — Suissa, —Dr. Manuel
Barata, Olavo Hummel, Capitão J. L. da Costa Sobrinho,
Valencio Bueno de Toledo, E. Blesa, A. Hammar, Eduar-
do Kern, Leonardo Vallardi, Amarante & Comp. e a
Camara Municipal de Jundialy.
Em permuta recebemos: do British Museum of
Nat. History, London— Inglaterra — quatro especies de
coleopteros do genero Pinotus e uma colleeção de Mu-
ridas collegidas pelo Snr. Simon, no Perá e Equador.
United States Nacional Musewm— Washington
— America do Norte—uma valiosa collecçäo de couros
de aves;
Museo Nacional de Buenos Aires, —R. Argentina,
—uma variada colleeção de couros de mammiferos; 17
especies de ovos de aves;
Museo Nacional de Santiago —Chile—uma col-
lecção de mammiferos e outra de 54 couros de aves;
Museum d'Histoire Naturelle de Paris— França
—uma colleccio de Hymenopteros, principalmente Ves-
pidae ;
Museo de La Plata—Argentina— uma variada
collecçäo de Coleopteros determinados pelo Snr. C. Bruch
e uma valiosa collecçäo de couros de aves;
Do Museu do Estado em Porto Alegre—uma col-
Jecção de ovos de Aves;
Do Museu Zoologico— Dresden — Allemanha—di-
versos ovos de aves;
Do Museu Anchieta—Curityba—uma caixa com
lepidopteros, em cartuchos, cerca de 100 exemplares; col-
ligidos em Jatahy — Paraná — nos limites com o Estado
de Matto (Grosso;
Dos Snrs. Juan Prèthes—Buenos Aires—-R. Ar-
gentina—varios Vespideos ;
Barão H. von Berlepsch—Gertenbach — Alemanha
-— diversas colleccdes de couros de aves ;
Dr. R. À. Philippi—Santiago—Chile—um couro
de Canis chileno ;
Dr. F. Lahille— Buenos Aires —R. Argentina—uma
colleeção de pequenas Conchas maritimas do Mar Chi-
quita, — Argentina ;
P. Herbst — Concepcion —Chile— diversas collecçües
de insectos do Chile, preparados, hymenopteros, especial-
mente Apidae e Fossoria ;
Eduardo May—Rio de Janeiro --uma collecção de
lepidopteros raros, preparados, todos do Rio de Janeiro ;
Pastor Bauer—-S. Paulo—alguns coraes ;
Francisco Dias da Rocha--(Museu Rocha)—
Ceará— alguns molluscos marinhos e fluviaes do Ceará;
Adolpho Ducke—do Museu do Pará—duas col-
lecções de hymenopteros raros do Para ;
Henry Souter—Auckland—Nova Zelandia— uma
colleeção de mulluscos marinos da Nova Zelandia;
Prof. E. von Martens — Berlim — Alemanha — di-
versos mulluscos. |
*
* *
Compras mais importantes feitas para as colleccdes
do Museu, dos Snrs.
Antonio Xavier de Gusmäo—Novo Horizonte,
Matto Grosso—uma valiosa collecção de objectos ethno-
graphicos dos indios Coroados, Cayapés e Guaranys: 8
RD 0 NES
arcos, 24 flechas, numerosos enfeites de penna e um
craneo de indio Guarany.
Arnaldo Barbedo—Porto Alegre—Rio Grande do
Sul--uma riquissima collecçäo, composta de 27 peças
escolhidas, de objeetos archeologicos do Rio Grande
do Sul.
Dr. Estellita Alvares—Mogy das Cruzes —S. Paulo
—uma valiosa colleeção de objectos ethnographicos,
composta de 66 peças, entre as quaes duas preciosissimas
cabeças de indios, mumificadas, sendo uma sem craneo,
preparada pelos Mundurucús e a outra com craneo pelos
Jivaros (veja-se as Estampas IX e X deste volume).
D: Brockes Miiller—Santa Catharina—uma caixa
com abelhas Meliponidas e 3 tubos de entrada de ni-
nhos das mesmas.
Christovam Barreto — A margosa— Bahia—uma col-
lecção de 28 objectos da archeologia prehistorica da Bahia,
na maior parte de Nephrite.
Christiano Enslen—S. Lourenço, Rio Grande do
Sul, varias collecções de craneos de mammiferos, ovos,
lepidopteros e objectos archeologicos do Rio Grande do Sul;
A. Hofbauer—$. Paulo— uma importante collecção
de objectos ethnographicos dos indios Carajás do Ara-
guaya, Est. de Goyaz;
Dr. E. Gounelle—Paris— França—uma collecçäo
de 100 especies de coleopteros da familia Cerambycidae
de Goyaz; we
Dr. H. Friese—Jena— Allemanha—uma collecçäo
de hymenopteros da familia Apidae ; ;
H. Rolle—Berlim—Allemanha—uma colleccäo de
conchas e insectos da America meridional;
Benedicto Caliato— Santos — uma collecção de ape-
trechos de pesca, usados pelos pescadores de Conceição
de Itanhaen, Est. de $. Paulo;
Fe RS
C. Sowerby & Cia.— London —Inglaterra—alguns
molluscos, caracões sul-americanos de varios generos,
terrestres e fluviaes;
Dr. F. Krant:— Bonn —Allemanha—uma collecção
de fosseis paleozoicos (especialmente molluscos bivalvos) ;
A. Devantier--S. Lourengo—Rio Grande do Sul
uma colleeção de Lepidepteros ;
W. Rosenberg —London — Inglaterra-—varias colle-
cções de couros de aves, de mammiferos, peixes etc.
Trabalho scientifico e Bibliotheca
Variados como são os serviços a realizar no Museu,
nem sempre sobra o tempo que se quizera empregar nos
estudos preliminares e na elaboração dos trabalhos scien-
tificos; além disto cabem só aos dous funecionarios, ao
director e ao seu assistente e custos a organização das
collecgdes e o estudo simultaneo de todos os grupos, de
modo que se perde em profundeza o que se gasta em
amplitude. 7
Nos trabalhos de classificação de aves temos excel-
lente ajuda no Snr. João L. Lima, o preparador do Museu,
o qual já agora conhece como poucos a avifauna do Brazil e
que espontaneamente se dedicou ao estudo do inglez, para
poder proceder a classificações de aves com o auxilio do
«Catalog of Birds of the British Museum». Tanto neste
grupo das aves, como nos de mammiferos e molluscos não
entra exemplar algum na collecção sem que primeiro sejam
determinados o genero e a especie. Nos insectos tal varía
segundo que os respectivos grupos estejam mais ou me-
nos bem estudados. Ahi temos a ajuda do Snr. H.
Lüderwaldt, preparador auxiliar, o qual já na Europa tra-
balhára em collecções entomologicas.
Os trabalhos scientificos por nós concluidos e pu-
blicados serão aqui tão sómente enumerados, e enviamos
dr AS
o leitor, que por elles se interessar, 4 secção bibliogra-
phica que acompanha este volume VII ou o volume :
anterior desta Revista.
No decorrer dos annos de que trata o presente re-
latorio foram publicados:
Pelo Prof. DR. HERMANN von IHERING:
a: na Revista do Museu Paulista:
O Museu Paulista em 1901 e 1902. Revista do
Museu Paulista, São Paulo, VI—1905, p. 1—22.
Os Guayanas e Caingangs de S. Paulo, Revista
do Museu Paulista, São Paulo, Vol. VI-—1905, p.
23—44.
O Rio Jurud. Revista do Museu Paulista, vol. VI,
1905, p. 385—460.
Archeologia comparativa do Brazil. Revista do
Museu Paulista vol. VI, 1905, p. 519—583.
Pibliographia (1902 a 1904) Historia Natural e
Anthropologia do Brazil. (De collaboração com o Snr.
Rodolpho von Thering), Revista do Museu Paulista,
Vol. VI-1905, p. 584-659.
b: em outras revistas scientificas.
As abelhas sociaes indigenas do Brazil, A La-
voura. Boletim da Sociedade Nacional de Agricultura
Brazileira, Rio de Janeiro, anno VI, Ns, 9 e 12, bp.
281-—-284.
El Hombre prehistórico del Brazil. Buenos Aires
«Istoria», tomo I, p. 161—170, Pl. III
3 Notes sur quelques Mellusques fossiles du Chali.
Rev. Chil. de Hist. Nat. Tomo VII, p. 120—127, com
estampas VIITI—X.
Les Brachiopodes tertiaires de Patagonie. Anales
del Museo Nacional de Buenos Aires, Tomo IX, (Ser.
3, t. ID, p. 321- 349, com estampa III.
SUP Re
Biologie der stachellosen Honigbienen Brasiliens. -
Zoologische Jahrbuecher, Abt. t. System. Geogr. und
Biolog. der Tiere. Jena, Bd. IXX, Heft 2 u. 3 mit 13
Tafeln und 8 Abbildungen im Text, p. 179—287, Taf.
X—XXIT.
Les Mollusques des Terrains crétaciques Supé-
rieurs de P Argentine Orientale. Anales del Museo Na-
cional de Buenos Aires, Tomo IX, (Ser. 3º, t. ID, p.
1935-229, estampas I e II.
Nuevas .Observaciones sobre Moluscos Cretaceos y
Terciarios de Patagonia. Revista del Museo de la Plata,
Tomo XI; p. 227 ss. com 2 laminas.
The Anthropology of the State of São Paulo,
Brazil. Written on the occasion of the Universal Exhi-
bition of S. Luiz. São Paulo.
As abelhas indigenas do Brazil. Revista do Inst.
Geogr. e Hist. da Bahia. Vol. IX, N° 28, Bahia 1903,
p. 151— 157.
The Biology of the Tyrannide with respect
to their systematic arrangement, The Auck, Vol. XXI,
Nº 3, July 1904, p. 313—322. .
As abelhas sociaes do Brazil e suas denominações
tupis. Rev. do Inst. Hist. e Geogr. de S. Paulo, Vol. VIII.
A origem dos sambaquis Rev. do Inst. Hist. e
Geogr. de S. Paulo. Vol. VIII
Zur Kenntnis der Najaden von Gojaz. Nachrbl.
der Malak. Ges. Vol. 36, N° 4, p. 154— 157.
“Der Rio Juruá.» Peterm. Geogr. Mitteil. 1904,
Heft XI, p. 1 —8.
Das Rind und seine Zucht in Brasilien. 1.
Jahrbuch von $. Paulo, 1905, p. 97—113.
Eine notwendige Nomenclaturregel mit Ruecksicht
auf brasilianische Eigennamen. Zoolog. Anzeiger, Vol.
Dh 077.
RYE 9 iso
The Genus Tomigerus Spix. Proc. Malacol. Soc.
Vol. VI, (4) p. 197—199.
Residuos da edade da pedra na actual cultura
do Brazil. Rev. Inst. Hist. e Geogr. de 8. Paulo, Vol.
IX; p. d—8, Est Le JE
A formiga cuyabana. Revista Agricola Nº 124,
(15, XI/05) p. 511 —522.
Les Mollusques fossiles du Tertiaire et du Cré-
tacé supérieur de V Argentine.
I) Moll. foss. de UEtage Rocanéen. Anal. Mus.
Buenos Aires, Tomo XIV, 1905, p. 1—26, Est. 1 —5.
Zur Reguherung der malakologischen Nomen-
clatur. Nachrichtsbl. der Malakol. Gesell. Heft, 1, 1906,
p 1—12.
The Anthropology of the State of S. Paulo; 2"* en-
larged edition. Est. I—II, 50 pp, Diario Official, 1906.
Observações sobre a fauna paulista. Revista do
Instituto Hist. e Geogr. de 8. Paulo, Vol. X, 1995, p.
554—561.
Pelo Snr. RopotpHo von IHERING, Custos do Museu:
a) na Revista do Museu Paulista, Vol. VI:
As vespas sociaes do Brazil, loc. at. p. 97-309,
Est. I-VI.
Biologia das abelhas solitarias do Brazil, loc. cit,
p. 461-481, (5 desenhos).
Pibliographia (1902 a 1904) Historia Natural
e Anthropologica do Brazil, (de collaboração com o
Dr. H. von Ihering) loc. cit. p. 584-659.
b) em outras revistas scientificas:
Contribution à Vétude des Vespides de | Amé-
rique du Sud. Annales de la Soc. Entomol. de France,
Vol. LXXII, 1903, p. 144 —155.
E OR e
Note sur des Vespides du Brésil. Bull Soc.
Entomol. de France, 1904, N. 4, p. 8ss.
Zur Frage nach dem Ursprung der Staaten-
bildung bei den socialen Hymenopteren. Zoolog. An-
zeiger, Vol. XXVII N. 4, p. 113ss.
Biologische Beobachtungen an brasilianischen
Bombus-Nestern. Allgem. Zeitschr. f. Entomol. Neu-
damm, Vol. VIII, N. 22-24, 1903, p. 447 ff, fig. 1-5.
Description of four new Loricariid fishes of the
genus Plecostomus from Brazil, Annals and Magazine
of -Nat_ Elistory, Ser. 7; Vol. XV, 1905, ps 556
As moscas das fructas e sua destruição, Boletim
avulso da Secretaria da Agricultura de S. Paulo, 1905,
ol pgs. figs, 1-7.
Alem destes estudos concluidos a ponto de serem
publicados, muitos outros preoccuparam-nos e continuam
ainda em elaboração. Taes são os estudos do Dr. Her-
mann von Ihering sobre molluscos fosseis, baseado nos
quaes elle publica agora, nos Anales del Museo Nacional
de Buenos-Aires a extensa monographia que occupa todo
o Vol. XIV dos Annaes citados. Essas investigações lhe
permittem agora fundamentar solidamente as suas theo-
rias relativas á geographia americana nos tempos ter-
ciarios; chega assim a inesperadas conclusões, brilhantes
pelos methodos novos de que lançou mão e de vasto
alcance para este ramo da sciencia que, com relação ao
nosso continente, jazia tão descurada. Alem disto occu-
pou-se o Dr. H. von Ihering com a classificação dos
mammiferos brazileiros, bem como de varios assumptos
de bionomia entomologica. Dentre estes ultimos não
queremos deixar de mencionar um, que é de alto inte-
resse não só biologico mas tambem economico. Sao
as suas experiencias com a mui fallada «formiga cuya-
bana» (Prenolepis fulva Mayr).
> jo
Contava elle nesses seus ensaios com o auxilio
intelligente e efficaz do Snr. Dr. J. de Carvalho Borges
. Junior, de Valença, Minas, que constantemente lhe
enviava os enchames.
Em consequencia das repetidas experiencias, diffi-
ceis pelo muito cuidado que exigem as Cuyabanas em
seu trato, ficou estabelecido que realmente essas tormigas
podem-se tornar fataes ás Sauvas (Atta sexdens) e que
de facto são capazes de exterminar os formigueiros
dessas, lançando mão, não da lucta aberta, individual,
na qual certamente succumbiriam as pequenas Cuyaba-
nas, mas sim roubando os ovos e as nymphas ás
Saúvas. Dessa forma, privado de novas gerações, o for-
migueiro está naturalmente extincto. Singular é que as
possantes Sauvas façam tão pouco mal ás Prenolepas,
de tão sinistro proceder para com ellas.
A nós couberam estudos de classificação em ento-
mologia e a determinação da collecçcäo dos peixes d'agua
doce do Museu Paulista. Preparamos um catalogo des-
criptivo de um grupo desta classe, dos Nematognathas,
(Bagres, Cascudos, etc), que em breve será publicado
“nesta Revista, com as mesmas feições de nossa mono-
graphia sobre as «Vespas sociaes do Brazil». (Rev. Mus.
Paul. Vol VE po 97-500)
Outro trabalho em que não temos poupado esforços
é o preparo dos Catalogos synopticos de varios grupos
da fauna brazileira.
Ao serem lidas estas linhas já deve ter sido dis-
tribuido o primeiro destes Catalogos, o das Aves do
Brazil, que nós, Dr. Hermann e Rodolpho von Ihering
concluimos de collaboração.
'onvem esboçar aqui de novo o plano deste em-
prehendimento, no qual o Museu Paulista tentará fazer uma
revisão, a mais completa possivel, da fauna do Brazil.
Baseiam-se esses catalogos em toda a literatura scienti-
AN (ON
fica concernente ás respectivas especies brazileiras e, quanto
ao material de referencia será aproveitado o que o Mu-
seu Paulista possuir, enumerando-se-lhe a procedencia.
Serão empregados todos os esforços para dar um cara-
cter uniforme a todos os volumes que forem publicados,
quer pelo pessoal do Museu, quer por especialistas col-
laboradores; comtudo tal não deverá ser exagerado, visto
como é mister adaptal-os 4s circumstancias, ao maior
ou menor adiantamento de estudo em que se acha cada
grupo de que se tratar. Assim pudemos eximir-nos de
inventariar toda a extensissima literatura concernente ás
aves do Brazil, pois que, como tal foi feito pelo grande
Catalogo do British Museum, que por longo tempo
ainda será, epee de seus defeitos, a obra basica para
os estudiosos da Ornithologia. Em outros grupos, para
os quaes não houver tão uteis monographias, será for-
coso fazer a enumeração dos: principaes livros ou artigos
referentes ao genero ou á especie.
Logo será entregue ao prélo o segundo desses Catalo-
gos e que é o referente aos Myriapodos, escripto pelo
notavel especialista W. A. Brélemann, a cuja penna a
nossa Revista já deve varios artigos excellentes referentes
a esse mesmo grupo de Arthropodes.
Estão sendo preparados os catalogos que em se-
guida deverão ser impressos, taes como o dos Molluscos,
dos Mammiferos, de varios grupos de insectos e de
peixes. E emfim um esforço que faz o Museu Pau-
lista para reunir todos os materiaes referentes a esses
diversos grupos e então, baseado nesses catalogos, mais
tarde, se poderá fazer edições de caracter mais popular,
com as necessarias chaves e illustrações para a facil
classificação, mesmo pelo leigo.
Egual progresso como o que registramos com re-
lação ás demais collecções, tambem se verifica na Bi-
bliotheca do Museu. Apezar de estarem os livros e
E au
periodicos, que tratam só de um determinado grupo de
animaes, espalhados pelos respectivos laboratorios, para
assim estarem mais á mão durante o estudo, comtudo
foi preciso mandar construir duas novas estantes na
bibliotheca principal, onde especialmente a secçäo de
Periodicos geraes cresce, de modo espantoso quanto ao
lugar que occupa e agradabilissimo pelo muito que desta
forma a bibliotheca auxilia os estudos a que nos con-
sagramos. Dentre as acquisições mais importantes
para a bibliotheca podemos salientar: os Proceedings e
os Transactions of the Zoological Society de Londres com-
pletos; Revue et Magazin de Zoologie, compl. desde 1831.
Cumpre-nos ainda agradecer ás grandes Sociedades
scientificas e Institutos, tanto do Velho Mundo como da
America do Norte a liberalidade com que entram com-
nosco em permuta, offerecendo-nos grandes series de vo-
lumes em troca da nossa Revista. Não podemos, en-
tretanto, deixar de externar aqui a satisfacção que foi
para nós todos e a deve ter sido em especial para o
prezado redactor da Revista do Museu Paulista, a quem
me cabe a honra de substituir, o julgamento altamente
honroso que della fez a Commissão Distribuidora dos
premios da Exposição Universal de 8. Luiz, U. S. À,
1904, concedendo-lhe o «Grande Premio», a maior dis-
tineção conferida pela Exposição. Foi unicamente com
a Revista que o Museu Paulista, incitado pelo Governo
do Estado, concorreu a esse certamen universal e é pois
o programma nella delineado com relação ao Museu e
a sua gradativa realização, que o jury desta forma quiz
premiar.
Os Indios Patos e o nome da Lagoa dos Patos
PELO
Dr. HERMANN VON IHERING
Tendo vivido por muitos annos á margem da Lagoa
dos Patos e publicado sobre ella dous estudos (10 e 11),
“liguei interesse especial ao nome desta lagoa e por fim
adoptei a opinião de que este nome não lhe provinha
das aves aquaticas denominadas «Patos», mas de uma
tribu de indios, aliás pouco conhecida, dos Patos. Esta
opinião foi combatida por Alfredo F. Rodrigues no seu
artigo «O nome de Lagoa dos Patos» (1) declarando
elle imaginaria a dita tribu dos Patos.
Pretendendo em seguida tratar por extenso do as-
sumpto, reproduzo aqui a maior parte do referido artigo
do Snr. Alfredo F. Rodrigues.
Com referencia á idea de que a Lagoa dos Patos
tomou o nome de uma tribu de indios, que habitára
em suas margens, elle diz o seguinte: :
O erro data de Ayres de Casal, ou pelo menos
foi elle que o vulgarisou, pela notoriedade que alcançou
a sua Chorographia Brazileira. Diz elle que «a Lagôa
dos Patos tomou o nome de uma nação hoje desco-
nhecida. »
Referindo-se ao canal entre a ilha de Santa Catha-
rina e o continente, diz tambem: «Rio dos Patos lhe
chamavam os primeiros descobridores, porque servia de
limite entre os indios deste nome que se extendiam até
o 8. Pedro e os Carijós para o norte até Cananéa».
Contra esta afirmativa foi o primeiro a protestar
o Visconde de S. Leopoldo, nos «Annaes da provincia
de S. Pedro», citando a opinião do Padre Simão de
Vasconcellos:
«A origem deste appellido esquadrinhou e nos
transmittiu o padre Simão de Vasconcellos, que proce-
deu de uma armada hespanhola, que, em viagem para o
Rio da Prata, 1554, obrigada por temporaes, arribou á
deserta ilha denominada ao depois de Santa Catharina
e deixára alli alguns patos que, procreando maravilho-
samente, se foram espalhando em copiosissimos bandos
por todo aquelle litoral; e foi a causa donde a lagoa e
toda aquella terra se chamavam dos Patos e até hoje
lhes dura este nome.»
Em nota accrescenta ainda: Nestes pontos de pura
tradição, inclino-me a seguir antes o padre Vasconcellos,
que, provincial e chronista da Comp. de Jesus no Brazil,
escrevendo na Bahia pelos annos de 1663, viveu mais
proximo aos factos e teve mais proporções de os averi-
guar do que o padre Casal na Chorographia Brazileira
que, aliás, merecendo grande conceito no que escreveu
das provincias do norte, que examinou ocularmente, não
passando do Rio de Janeiro para o sul, escreveu por
méras informações; por isso não é muito que claudicasse
a ponto de addicionar provincias ao imperio do Brazil
que não lhe pertenciam, e entre outras cousas mais,
dando existencia a uma nação dos Patos de que não se
encontram os minimos vestígios. Vide a enumeração que
faz das nações indias o mesmo padre Vasconcellos nas
Noticias antecedentes das cousas do Brazil, n. 151
ELES
A mesma versão se encontra no Santuario Ma-
riano, chronica escripta pelos jesuitas, cujo primeiro
Se ud
volume se publicou em 1707, apparecendo o ultimo
em 1723:
«Ilha de Santa Catharina. — Patos. —Cobrem estas
aves as praias e terras da beira-mar, por distancia de
50 leguas e mais. São os mesmos da Europa. Ali os
soltaram uns hespanhoes que faziam viagem para o Rio
da Prata em 1554.»
Enganaram-se na data, porém, tanto o Visconde
de S. Leopoldo como os dous chronistas jesuitas, pois
que ahi já existiam patos muitos annos antes, sendo
conhecidos por este nome diversos logares na costa
desde Santa Catharina até o Rio da Prata.
De facto, João Dias de Solis, chegando em prin-
cipios de 1516 á ilha de Santa Catharina, deu-lhe o
nome de Ilha dos Patos; e na embocadura do Rio da
Prata, denominou Rio dos Patos a um arroio entre 35.º
e 3414°.
Não existe o roteiro da viagem de Solis, por isso
não se póde precisar o motivo por que elle escolheu o
nome Patos para esses dous lugares. |
Póde-se, porém, affirmar que não o tirou de uma
tribu de indios, pois que nenhum dos historiadores do
seculo XVI, que se referem 4 sua viagem (Oviedo,
Guevara e Herrera, 1535, 1552 e 1601) faz menção
de taes indios, citando pelo contrario os Charruas e
outros.
Devia, portanto, provir o nome da grande quanti-
dade de patos ahi encontrados.
Isto não é uma simples conjectura sem base, porém
um facto confirmado por documentos que datam de
poucos annos depois. No roteiro da viagem de Diogo
Garcia, realisada em 1526 e 1527, lê-se o seguinte: «EH
andando eu el camino allegamos a um rio que se Ilamma
el rio de los Patos questá a 27 grados, que ay una
NS pp
buena geracion que hacem mui buena obra a los chris-
tianos, e Ilammam-se los Carrioces, que ali nos deram
muchas vituallas que se llamma millo é harina de man-
dioco, e muchas calavazas e muchos patos e outros mu-
chos bastimentos porque eran buenos yndios».
Na carta em que Luiz Ramirez descreve a viagem
de Sebastião Gaboto, realisada ao mesmo tempo que a
de Garcia, tendo-se os dous exploradores encontrado em
Santa Catharina, lê-se tambem: «Dijeron que cuatro
mezes poco más 6 menos antes allegasemos a este
puerto de los Patos, que asi se Ilamaba de elles esta-
ban et «En esta isla habia muchas palmas en este
puerto nos traian los yndios enfinito bastimento asi de
faisanes, de gallinas, babas, patos, perdizes, venados, que
de esto todo y de otras muchas maneras de caza habia
en abundancia y mucha miel».
Em nenhum destes dous documentos, que assigna-
lam a existencia de patos em Santa Catharina, se falla
em indios com tal nome, apezar de virem relacionadas
as tribus encontradas pela costa. Diogo Garcia dá mesmo
o nome dos indios de Santa Catahrina, os Carrioces.
Outro testemunho confirma ainda estes dous. O
adelantado D. Alvaro Nunes Cabeça de Vacca, tendo
arribado a Santa Catharina em 29 de Março de 1541,
cruzou dali em direcção ao Paraguay, pelo sertão, onde
encontrou, dias depois, uma tribu de indios, que o re-
ceberam com mostras de amizade. Nos. Commentarvos
da expedição, lê-se: «Esta nação chama-se Guarany, são
lavradores que, duas vezes por anno, semeiam milho.
Cultivam tambem mandioca (caçabi), criam gallinhas e
patos á maneira de Hespanha e em suas habitações tem
muitos papagaios».
Ha ainda uma objecção a refutar, e esta opposta
pelo Dr. Hermann von Ihering, que, encarando a questão
sob um ponto de vista differente, negou a existencia na
Ed are 3
Lagôa e em Santa Catharina do pato commum (Cai-
ring moschata), concluindo Wahi que não podia ter
elle dado origem ao nome, que no seu entender provêm
dos indios Patos. O argumento do illustre naturalista,
que á primeira vista parece resolver a questão, não re-
“siste a exame. Os primeiros exploradores da costa, não
sendo entendidos em historia natural, podiam tomar pelo
pato europeo qualquer outro palmipede, que se lhe asse-
melhasse um pouco.
Do exposto podem-se tirar tres conclusões:
1° Em toda a costa de Santa Catharina ao Rio
da Prata havia grande abundancia de patos, que foram
vistos por Solis, Diogo Garcia, Sebastião Gaboto e Ca-
beça de Vacca.
2.º Nenhum dos chronistas e roteiros do seculo
XVI faz menção de indios Patos, apezar de relacionarem
as tribus da Costa.
3° Simão de Vasconcellos explicou bem a origem
dos nomes Lagôa dos Patos, Rio dos Patos, Laguna
dos Patos; porém enganou-se, affirmando que os patos
começaram a procrear ahi em 1554.
Deve ficar, portanto, como certo, que o nome da
Lagôa dos Patos, provem das aves desse nome e não
de uma tribu de indios assim chamada».
A questão tem, como se vê, duas faces, uma orni-
thologica e outra ethnographica, que em seguida trata-
remos separadamente.
O ponto de vista ornithologico.
As opiniões dos autores divergem muito sobre esta
questão, opinando uns por aves domesticas importadas,
outros por diversas aves indigenas, entre as quaes é
preciso mencionar particularmente: o Pato do Brazil, o
3
RES AP ees:
Biguá e o Penguin. O nome «Pato» cabe em geral
ás especies maiores dos Palmipedes comestiveis da fa-
milia Anatidæ, cujas especies menores são denominadas
Marrecas. Esta palavra de «Pato» acha-se, em sua ap-
plicação no Brazil, restricta á Cawina moschata (Linn.),
denominada «Pato real» pelos hespanhoes. Esta especie
pertence em geral mais ás regiões centraes do Brazil,
sendo rara, ou faltando mesmo, na maior parte do nosso
littoral. No Rio Grande do Sul é encontrada particu-
larmente ao longo dos grandes rios, marginados por matto
alto; mas não é ave da Lagoa dos Patos. Ha nesta
um cysne, Cygnus melanocoryphus (Mol), denominado
«Pato arminho». Embora seja certo que o numero das
aves aquaticas nas margens da «Lagoa dos Patos» di-
minuiu bastante nos ultimos cincoenta annos, assim
mesmo perto da cidade do Rio Grande obtive nada
menos de 14 especies de Anatidas; não estava incluido,
entretanto, neste numero a Cairina moschata. Como as
minhas observações estão de accordo com as de Wied,
Azara e outros observadores, é certo que o nome da
Lagoa dos Patos não póde ser derivada de patos sil-
vestres do genero Cairina, posto que se tome por base
as actuaes condicções faunisticas. Este facto, comtudo, não
exclue a hypothese de este nome provir de patos domesti-
cados. Infelizmente é muito insufficinte o nosso conhecimento
das aves criadas pelos indigenas antigos do Brazil. Uma
das informações mais valiosas neste sentido devemos a
Alvar Nunes Cabeça de Vacca (N. 2, p. 50), que em
sua expedição pelo interior do Estado de Santa Cathas
rina em 1541 notou que os indigenas «criam gallinhas
e gansos 4 maneira dos Hespanhoes». Esta indicação
evidentemente se refere a Jacús e Patos e observo que
eu mesmo tive, no terreiro da minha propriedade na
Barra do Camaquam, Jacús e tambem uma Carina
moschata silvestre, em estado mais ou menos domesticado.
Penso que entre todas nossas aves o pato é 0 que
com mais facilidade póde ser domesticado e cruzado
com as marrecas e patos criados. Os Jacûs tambem são
amansados com relativa facilidade, mas de noute não
são capazes de entrar no gallinheiro, empoleirando-se,
pelo contrario, na cumieira da casa.
Von Martius diz (N. 6, p. 24) que na região ama-
zonica se criam especies de Psophia e Crax e no
Brazil oriental o Mutum (Crax carunculata Temm.).
Markgrav descreve bem (N. 9, p. 213) 0 pato, mas não
diz que seja criado peios indigenas, acontecendo o mesmo
com Azara, Wied e tantos outros autores, que consulter.
O padre Nobrega (N. 17, p. 91) diz que no Estado
de S. Paulo houve muita caça de matto e patos, que os
indios criam; bois, vaccas, ovelhas, cabras e gallinhas se
dão tambem na terra e ha dellas grande quantidade. Outra
informação valiosa referente ao Estado da Bahia devemos
a Gabriel Soares que (N. 16, p. 209-210), diz «criam-se
mais ao longo deste rios e nas alagôas muitas adens,
a que o gentio chama upeca, que são da feição das da
Hespanha, mas muito maiores, as quaes dormem em
arvores altas, e criam no chão perto da agua. Comem
peixe, e da mandioca que está a curtir nas ribeiras,
tomam os indios estas adeus, quando são novas, e criam-
nas em casa, onde se fazem muito domesticas».
E” certo que o Pato europeo não é mais senão um
descendente da Cairina moschata da America meri-
dional. Han (N. 7, p. 290) diz que j4 em tempos remotos
se criavam patos na America.
Na sua segunda viagem Colombo viu destas aves
em S. Domingos e entre ellas tambem brancas. Southey,
conta (History of Brazil; London 1810, T. I, p. 127) que
os indigenas no Paraguay criavam nas suas casas patos
almiscarados, o que se refere 4 Cairina moschata. Pre-
sume-se que o pato, que era a unica ave criada pelos
SING jo jo o
antigos Peruanos chamado «nuñuma> veio do Perá 4
Europa, passando pela Africa. A primeira descripção
desta ave deu, na Europa, Conrad Gesner em 1555 e no
mesmo anno em Paris já se offereciam patos como fina
iguaria. Na America meridional os patos eram criados,
segundo estes dados, no Perá, Paraguay e no Brazil.
Parece entretanto pouco provavel, que já então hou-
vesse patos domesticados na costa, como se deprehende
tambem do trecho indicado de Alvar Nunes Cabeça de
Vacca. Por esta razão não podemos admittir que a Nha
de Santa Catharina e diversos rios, portos e a Lagoa dos
Patos tivessem recebido seus nomes de patos domesti-
cados do genero Cairina.
F. F. Outes (N. 8, p. 432) dá sobre o nome da ilha
‘de $. Catharina a seguinte informação :
Santa Cruz en su «Islario» dá a entender claramente
que tanto á la isla de Santa Catharina como al territorio
continental adyacente se conocia en la primera época del des-
cubrimiento bajo el nombre de los patos «por los muchos de
ellos que alli se vieron la primera vez que fué descu-
bierto.» Esta affirmación del illustre cosmografo se halla
confirmada en muchos documentos de la época. Me bas-
tará citar las declaraciones de Antonio de Montoya y el
«maestre» Juan en respuesta á la 20.º pregunta del in-
terrogatorio en el pleito del capitán Francisco del Rojas
con Sebastian Caboto.
Entre los autores modernos todos han aceptado la
denominasión antedicha . . . »
— «La causa del mencionado nombre parece estar
en la gran cantidad de «patos negros sin pluma, y con
el pico curvo», conforme a expressão de Francisco Lopez
de Camara (Historia general de las Indias, in Histo-
riadores primitivos de Indias» I, 212). Estas aves, con-
tinua Outes, alguns autores suppunham serem «penguines.»
Estas informações antes difficultam do que facilitam
a explicação. Não podemos admittir que estes patos
fai O a
tivessem sido Penguins — Spheniscus magellanicus (Forst)
porque estes, embora apparecendo as vezes nas costas
do Brazil meridional, nunca entram na agua doce, não
podendo, por conseguinte, dar o seu nome a rios e lagoas.
Alem disto a côr é differente e tambem o bico, é
direito sem ponta recurvada.
O caracter indicado do bico nos faz pensar no
Biguá (Carbo vigua Vieill.) que tambem é de côr
uniforme preta, mas a expressão «sem pennas» não
póde ser applicada nem a esta, nem com relação a
qualquer outra especie. Alem disto o Biguá, muito seme-
lhante á especie congenere da Europa, conhecido como
«Corvo marinho», não póde ser confundido com patos
e marrecas e occorre nas costas da America meridional
desde a Patagonia até a Guyana.
Observo ainda que não é facil explicar o nome de
«Biguassú» ou Biguá grande, dado a um rio de Santa
Catharina, visto que ha uma só especie de Biguá. Ha
outra ave, bastante differente em côr e bico, que é
denominada Biguä-tinga (Plotus anhinga L.) porém. é
mais ou menos do mesmo tamanho e não occorre na
costa, mas nos grandes rios no interior do Brazil.
Deste modo entende-se que os patos a que se
referem os historiadores não pódem ter sido nem pen-
guins nem biguás, sendo possivel que se tratasse da
Cairina moschata, provavelmente então muito mais
commum na zona littoral do Brazil meridional do que
hoje.
Ponto de vista ethnologico
Numerosos escriptores dos seculos XVIII e XIX
referem-se a uma tribu de Indios Patos. Sobre o domicilio
della diz o Coronel José J. Machado de Oliveira (N. 3, p.
230): «O rio dos Patos é hoje conhecido com o nome
de Biguassá, que desemboca no canál que separa do
BRAS
continente a ilha de Santa Catharina; servia elle de
confins ás tribus dos Carijós e dos Patos, que habi-
tavam, a primeira, o littoral entre a Conceição e o
Biguassá, e a segunda o que decorre deste para o sul.»
Na sua historia da capitania de S. Vicente, publi-
cada em 1772, diz Pedro Taques de Almeida Paes
Leme (N. 14, p. 145): «E certo que da villa de S. Vi-
cente sahiram em 24 de Agosto de 1554 os padres
jesuitas Pedro Corrêa e João de Souza para a missão
dos gentios Tupis e Carijós dos Patos e ambos foram
mortos pela barbaridade destes indios, como escreve 0
padre Simão de Vasconcellos na Chronica do Brazil
liv. I p. 147, onde mostra que Pedro Corrêa era sujeito
de nobreza conhecida, e se fizera opulento na villa de
S. Vicente, para onde tinha vindo com o fidalgo Mar-
tim Affonso de Souza, porem que, deixando a vida
secular, tomára a roupeta no colegio de S. Vicente, e,
ordenado, de presbytero, empregára o seu talento e sei-
encia da lingua dos gentios em convertel-os á fé catho-
lica, até que encontrára com a corôa do martyrio pelos
barbaros indios Carijós do sertão dos Patos».
Outras informações sobre a região occupada pelos Pa-
tos encontram-se no artigo de Felix F. Outes, «El puerto
de los patos» (N. 8), que reproduz varios mappas antigos
do Brazil e do Paraguay, que, alem dos dados geogra-
phicos, contem indicações sobre as diversas tribus indi-
genas. Estes mappas dão para a região do Rio Grande
do Sul e parte contigua de Santa Catharina o nome
dos Indios Patos. O mais antigo destes mappas com tal
indicação é o da Est. VIII, fig. 2, «construido por los je-
suitas (1646 -— 1649)». Todos os outros mappas seguintes
indicam na mesma região os Indios Patos. Os mappas
mais antigos, publicados por Outes, não dão os nomes
das tribus indigenas.
Não parece existir nenhuma informação exacta sobre
estes Patos. Tomando em consideração que o territorio
NAS UE)
do Rio Grande do Sul nos tempos antigos não foi ex-
plorado e só bem tarde foi colonizado, não é de ad-
mirar que sejam escassos e insufficientes os dados refe-
rentes aos primitivos habitantes do Rio Grande do Sul.
E’ singular, entretanto, que o livro do padre Gay, tra-
tando minuciosamente dos indigenas do Brazil meri-
dional e do Paraguay nem sequer nos transmitta o nome
de uma nação dos Patos. E’ bastante notavel neste sen-
tido o manuscripto do anno de 1612 que Gay (N. 4 p.
429) reproduz com referencia aos indigeras do Rio Grande
do Sul, mencionando Guaranys, Arachanes, Charruas e
Goyanás. Nem o manuscripto anonymo de 1584 (N. 18),
nem Gabriel Soares mencionam os Patos, tratando aliás
apenas dos indigenas desde o Pará até Santa Catharina.
Com referencia ao livro de Ayres Casal diz Al-
fredo F. Rodrigues, ter elle sido o primeiro a mencionar
os Indios Patos, ao passo que segundo F. Outes elle se
teria referido não a Indios, mas á ave Pato. Neste
sentido trata-se de um engano do ultimo dos dous au-
tores, visto que o livro de o Casal, Vol. I. p. ne e
141 se refere exclusivamente a Indios.
Em geral podemos verificar que os escriptores o
seculo XVI não mencionam Indios Patos, referindo-se
apenas ás aves palmipedes e que nas publicações do se-
culo XVII se acha registrada uma tribu de Patos, sem
que entretanto fossem dadas informações exactas.
Conclusões
Resulta da exposição precedente que, para a expli-
cação dos nomes da Lagoa dos Patos, do Rio dos Patos,
ete. na literatura antiga ha duas versões: Uma que se
refere ás aves palmipedes de que trata a literatura do
seculo XVI e outra referente aos Indios Patos segundo a
literatura do seculo XVII e seguintes. Contra esta se-
gunda opinião póde-se objectar a falta de informações,
referentes a estes indigenas na literatura mais antiga e
isto no proprio manuscripto anonymo de 1612, publicado
por Gay. E’ preciso, entretanto, considerar que algum
dos outros nomes de tribus rio-grandenses, indicados |
naquelle manuscripto, póde ser synonymo do dos Patos
e, mais, que argumentos de caracter negativo nada provam,
particularmente, sendo, como é, a literatura antiga defi-
ciente em informações ethnographicas aproveitaveis. Por
sua vez a literatura do seculo XVI contem varias in-
formações sobre a origem ornithologica destas denomi-
nações, mas as mesmas são contradictorias entre si. As
aves a que se referem os antigos escriptores, é licito
suppôr-se, -não devem ter sido nem penguins ou biguás
nem marrecas ou patos domesticados. Já João Dias de
Solis, em 1515, deu 4 ilha de S, Catharina o nome de
Ilha dos Patos, sendo impossivel suppor que isto dissesse
respeito a aves domesticadas, importadas da Europa. «
Se as diversas denominações dos «Patos» fazem
referencia a aves aquaticas, póde-se tratar apenas do
«Pato real» (Catrina moschata), devendo-se suppor que
esta ave tenha existido n’aquella época em muito maior
numero que hoje, nas costas do Brazil meridional. Se
assim fôr, não seria para admirar que os exploradores
tivessem dado a varias localidades a denominação dos
«Patos», visto representar esta ave, sem duvida, a caça
mais valiosa entre as aves aquaticas daquella região.
Em favor desta hypothese posso accrescentar o resul-
tado de um estudo geologico por mim publicado (N. 12),
que prova uma modificação profunda no caracter da vege-
tação no littoral do Rio Grande do Sul. Perto da costa
observei, na visinhança da cidade de Rio Grande do Sul,
collinas, corôadas de uma vegetação de arbustos espi-
nhosos, que mostravam pouco em baixo da superficie uma
camada argillosa, humosa, com conchas terrestres e fluvia-
tis, que suggerem uma modificação profunda da flora e
da fauna. De experiencias desta ordem devem lembrar-se
DE Sa
os engenheiros que pretendem melhorar as condições da
Barra; recommenda-se, como auxilio indispensavel, a
defeza das terras por meio de vegetação, não só nas
margens do canal, mas tambem numa faixa de 1 — 2
leguas de largura.
x
E
E preciso confessar que os dados aqui expostos
não conduziram a um resultado seguro.
Admittindo. que os auctores que fallam de indios
Patos tivessem commettido um erro, a mesma supposição
é applicavel aos auctores do seculo XVI, cujas infor-
mações a respeito das aves «patos» são contradictorias,
mas tambem em parte imcomprehensiveis e evidente-
mente falsas. A explicação, entretanto, que nas actuaes
circumstancias mais se recommenda, é a do Snr. Alfredo F.
Rodrigues, que precisa ser modificada só no que diz res-
peito ás aves que causaram a dita denominação. O caso
seria então o de ter sido, antigamente, o Pato real muito mais
frequente no Brazil meridional do que actualmente, tendo
causado a denominação de varias localidades porque,
como excellente caça que é tornou-se digno de toda
attenção por parte dos descobridores. O que neste sen-
tido nos confirma mais nesta opinião é o facto de exis-
tirem tambem em outros Estados do Brazil localidades
com a denominação de «Patos», como nos estados de Mi-
nas Geraes e Parahyba. Não podemos attribuir estes no-
mes tambem n’aquelles Estados a uma tribu desconhecida
dos Patos, sendo ao contrario evidente que a explicação,
que deriva de uma origem commum a todas estas deno-
minações, é a mais acceitavel.
São Paulo, 8 de Agosto de 1903
MSN Di
Literatura.
1) Alfredo F. Rodrigues. O nome da Lagoa dos
Patos. Annuario do Rio Grande do Sul para 1899 por
Graciano A. de Azambuja, Porto Alegre 1898, p.
154— 156.
2) Alvar Nunes Cabeça de Vacca. Commentaires
aux voyages, Relations et Mémoires originaux pour
l'Histoire de l'Amérique, Paris 1837.
3) Brigadeiro José Joaquim Machado de Oliveira.
Noticia raciocinada sobre as aldêas de indios da Pro-
vincia de:S. Paulo, desde o seu começo. até a actuali-
dade. Revista da Sociedade de Ethnographia e Civilisa-
ção dos Indios. Tomo I. Nº 1 São Paulo, 1901 p. 35
—-59. Rev. Hist. e Geogr. Inst. Hist. Brazil, Tom. VIH,
Rio de Janeiro 1867, p. 204—-254.
4) Conego João Pedro Gay. Historia da Republica
Jesuitica do Paraguay; Rev. Inst. Hist. do Rio de Ja-
neiro. Tomo XXVI, 1863.
5) C. F Ph. von Martius. Zur Ethnographie
Americas, zumal Brasiliens. Leipzig, 1867.
6) C. F. Ph. von Martius. Beitrâge zur Ethno-
graphie und Sprachenkunde Americas, zumal Brasiliens IT.
Zur Sprachenkunde. Leipzig, 1867.
7) Eduard Hahn. Die Hanstiere und ihre Bezie-
hungen zur Wirtschaft des Menschen. Leipzig, 1896.
8) Felix F. Outes. El puerto de los Patos y la
region adjacente en la época de la conquista. Historia, Tomo
I. Buenos Aires 1903, p. 421—441 com 6 estampas.
9) Guilherme Pisonis de Medicina Brasiliense libri
quatuor et Georgii Marcgravi Historia rerum natura-
lium Brasile libri octo. Lugdum. Batavorum et Amsti-
lodami 1648.
10) H. von Ihering. Die Lagoa dos Patos. Deu-
tsche Geographische Blitter, Bd. VIII. Bremen, 1885, p.
164—203. Taf. III.
RO A) ge
11) H. von Thering. Die Vogel der Lagoa dos
Patos. Zeitschrift für gesammte Ornithologie, Budapest,
1887, p. 142—165, Taf. I.
12) H. von Lhering. Ueber Binnen-Conchylien der
Kiistenzone von Rio Grande do Sul. Archiv für Natur-
geschichte, Bd. 60, Berlin 1894, p. 37—40.
7 13) H. von Ihering. El Hombre Prehistorico del
Brasil. Historia tom. I, Buenos Aires, 1903, p. 161 ss.
14) Pedro Taques de Almeida Paes Leme. His-
toria da Capitania do S. Vicente desde a sua fundação
por M. A. de Souza em 1531: escripta em 1772. Rev.
Inst. Hist. e Geogr. Brazil, Tomo IX, Rio de Janeiro 1847.
15). Samuel A. Lafone Quevedo. Juan Dias de
Solis. Historia, Tomo I, Buenos Aires 1903, p. 57 ss.
16) Gabriel Soares de Souza. Tratado descriptivo
do Brazil em 1587. Rev. Inst. Hist. e Geogr. do Brazil.
Tomo XIV, Rio de Janeiro 1879, p. 1—382.
17) Padre Nobrega. Informação das terras do
Brazil. Rev. Hist. e Geogr. do Inst. Hist. e Geogr. Bra-
zileiro. Tomo VI, Rio de Janeiro, 1865, p. 91—94.
18) Anonymo. Principio e origem dos Indios do
Brazil e seus costumes, adoração e cerimonias. Rev. do
Inst. Hist. e Geogr. Braziieiro, Tomo LVIII. Parte I,
Rio de Janeiro 1894, p. 185—218.
TOS
Un some Fossil Reptilian Bones from the State of Rio Grande do Sul
BY
A. Smith-Woodward, L.L D , F. 8. S., of the British Museum (*)
: ;
— — gs:
A few fossil reptilian bones discovered by Dr.
Jango Fischer in 1902 at Santa Maria da Bocca do
Monte (Serrito) in the Rio Grande do Sul, which have
been given to me for their respective examination by Dr.
H. von Ihering (Museu Paulista), are of much interest.
They not only appear to determine the geological age
of the formation from which they are obtained, but also
foreshadow the discovery of an early Mesozoic American
land-fauna, which has long been expected.
They comprise the nearly complete vertebral centra
and a fragment of a fourth centrum, with one digit of
four phalanges and a separat ungual phalange. The bones
were found together under such circumstances that they
probably all belong to one individual.
The vertabral centra are remarkable for (I) their
very short antero-posterior extent, (II) the deeply ovoid
shape of their articular ends, and (III) the conside-
rable constriction of their sides.
The bestpreserved specimen (fig. I, T A) is evidently
not much crushed and show that both the articular
“ends are slightly concave. It also exhibits the charac-
teristic constriction of the sides, with the prominent
anterior rim, which bears a deeply-ovoid, rounded boss
(*) An abstract notice of this paper was published in Rep. Brit.
Assoc. Southport, 1903.
Considerações sobre alguns ossos fosseis de reptis do Estado
do Rio Grande do Sul
POR
A. Smith-Woodward, LL. 0., F. R. S., do Bristish Museum. (*)
ap ae
De grande interesse é o pequeno numero de ossos -
de reptis descobertos pelo Dr. Jango Fiscner em 1902,
proximo de Santa Maria da Bocca do Monte (Serrito),
no Estado do Rio Grande do Sul e que me foram con-
fiados para o seu estudo pelo Dr. H. von Ihering, Di-
rector do Museu Paulista. Elles não só parecem deter-
minar a edade geologica da formação de que foram obti-
dos, mas tambem acenam a descoberta de uma fauna
terrestre do Mesozoico primitivo da America do Sul,
aliás já ha muito tempo esperada.
Esta remessa comprehende tres corpos vertebraes
quasi completos e um fragmento de uma quarta verte-
bra e mais um dedo de 4 phalanges e uma phalange un-
guinal isolada. Estes ossos foram encontrados conjunta-
mente e em taes circumstancias que é assaz provavel
que pertençam todos a um só individuo.
Os corpos são notaveis:
1°) pela sua dimensão antero-posterior muito
curta; 2º) pela forma accentuadamente ovorde de suas
+
(*) Uma breve noticia a respeito deste mesmo assumpto foi publicada no
Rep. Brit. Assoc. Southport, 1903.
LR Ay ae
(c) for the articulation of the capitulum of a double-
headed rib. The lower part of the same rim is bevelled
in such a way (x) as to suggest that an invertebral
wedge-bone may originally have been present. The
neural canal produces a shallow groove in the centrum.
The base of the neural arch (n. a.) still remains
and proves that it is firmly fused with the centrum,
not merely articulated by suture. This arch extends from
Fig. I, Cervical vertebra. Vertebra cervical
end to end of the centrum, but leaves a slight rim of
the latter projecting in front. Its lateral portion is pro-
duced somewhat downwards and ends in a deeply ovoid,
rounded boss (t), for the articulation of the tuberculum
of the rib already mentioned. It is thus evident that
the rib must have been stout, deep, and antero-poste-
riorly compressed at its double-headed upper end.
One of the more imperfect vertebral centra is
essentialy identical with that just described, showing
SA A Gre
extremidades articulares; 3.º) pela consideravel con-
stricção de seus lados.
O exemplar mais bem conservado (figs. I, I A) evi-
dentemente não está mal conservada e mostra que
ambas as extremidades articulares são francamente con-
cavas; mostra tambem a constricção caracteristica dos lados
com a borda anterior proeminente, que é provida de uma
bossa (c) fortemente ovoide, arredondada para a articula-
ção do capitulo de uma costela. A parte inferior da
mesma proeminencia é enviezada e dirigida de tal modo
(x) que taz suppor que um osso intervertebral entalado
poderia originariamente ter existido. O canal neural pro-
duz um fraco sulco no corpo vertebral.
À base do arco neural fn. a) ainda permanece e
prova que está firmemente fundido com o corpo ver-
tebral e não sómente articulado por sutura. Este arco
extende-se quasi de um a outro lado da vertebra, dei-
xando, porém, um fraco bordo deste ultimo, que se pro-
jecta para a frente. À sua parte lateral extende-se um
pouco para baixo, terminando em uma bossa francamente
ovoide (t) para articulação do tuberculo da costella já
mencionada. E”, pois, evidente que a costella devêra ser
forte e grossa e comprimida em sentido antero-posterior
em sua extremidade superior.
Uma outra vertebra menos perfeita em sua conser-
vação, é em sua essencia identica com a que acabamos
de descrever; mostra uma articulação de costella similar,
e tambem um espaço para o osso intermediario.
Um outro bom especimen (figs. II, IL A) porém é um
tanto menor, e não tem indicação evidente de uma faceta no
corpo vertebral, nem para uma costella nem para um
osso intermediario. As suas extremidades articulares são
francamente concavas. A base de seu arco neural parece
mostrar que combina com a das outras vertebras, estando
fundida com o corpo, emquanto que o canal neural forma,
similarmente, um fraco canal.
|
St
o
|
a similar rib-articulation and a space for a wedge-
bone. |
The other good specimen (figs. IT, IT A), however, is
somewhat smaller, with no clear indication of a facette
on the centrum either for a rib or for a wedge-bone.
Its articular ends are slightly concave. The base of
its neural arch seems to show that it agrees with that
Fig. II, Digit with 4 phalanges. Dedo com 4 phalanges
of the other vertebra in being fused with the centrum,
while the neural canal similarly forms a shallow groove.
The first type of vertebra (fig. I) obviously belongs
to the cervical, while the second (fig. II) must be referred
to the dorsal region. If, therefore, these specimens
represent one and the same individual, the neck must
have been comparatively large and stout, doubtless for
the support of a heavy head. |
O primeiro typo destas vertebras descriptas (fig. I)
evidentemente pertence a região cervical, emquanto que
o segundo (fig. IT) deve ser considerado como da região
dorsal. Se, portanto, os especimens pertencem a um só
individuo o pescoço devêra ter sido comparativamente
grande e forte, sem duvida para supportar uma cabeça
avolumada.
O dedo de quatro phalanges (figs. III, III A) é interes-
sante pela forma da unha. A phalange unguinal é com-
primida lateralmente e asymetrica, tendo o lado esquerdo
Fig. II Vertebra dorsal. Dorsal vertebra
(ou menos grosso) mais achatado ou quasi excavado,
emquanto que o outro lado da phalange é um pouco
convexo. Este osso não tem signal de excavação lateral,
mas a sua face inferior é consideravelmente excavada e
tem uma forte orla saliente. As duas phalanges que se seguem
á unguinal são curtas e largas e muito constringidas em
seu meio. O osso que se segue (fig. III, 1) e que talvez
admitta mais de uma interpretação, é mais alongado do
que os dous ultimos que descrevemos (figs. II, 2, 3),
sendo porém menos longo do que o unguinal. Parece
: E
LENS RER
The digit of four phalanges (figs. III, III A) is
interesting on account of the shape of the claw. The
ungual phalange is laterally compressed and unsymme-
trical, the left or less deep side being flattened or almost
hollowed, while the other side is slightly convexe. The
bone is not marked by any lateral groove, but its lower
face is considerably excavated and has a sharp rim.
The two phalanges following the ungual are short and
broad, and much constricted round the middle. The next
bone, which perhaps admits of more than one interpre-
tation, is more elongated than the just mentioned, but
not so long as the ungual. It seems to be displaced in
the fossil, being in fact accidentally turned on its long
axis to an extent of 45°, so that its imperfect right
side only is seen in fig. III, its left side in fig. IT A.
If this interpretation be correct, the bone is another
phalange, with the saddle-shaped proximal articular face
somewhat deeper than wide.
The detached ungual phalange (figs. IV, IV A,
IV B) ressembles the corresponding bone of the digit just
described in the concavity of its lower face (fig. IV A) and
in its lack of bilateral symmetry; but it is relatively
large and expanded. Its articular face (fig. IV B) is
oblique and much deeper than broad; its slightly con-
vexe side (fig. IV) is excessively large, owing to the
expansion of the thin, rounded, distal border; while its
flattened left side (fig. IV A) is a comparatively small
triangular area.
The two ungual phalanges evidently belong to one
and the same foot, which must have had obliquely
curved digits. If constructed as in the Sauropodous Di-
nosaurs, this foot would be of the left side, the large
claw belonging to digit [° while the series of four pha-
langes would probably represent digit III
*
* %
(2 o O
estar deslocado na peça fossil, tendo na realidade gyrado
accidentalmente sobre o seu eixo maior, talvez até por
45º, de modo que o seu lado direito se vê parcialmente
na fig. HI eo seu lado esquerdo na fig. III A. Se esta
interpretação é correcta este osso representa outra pha-
lange, com uma face articular proximal excavada em
sella e um pouco mais longa do que larga.
A phalange unguinal isolada (figs. IV, IV A, IV B)
assemelha-se á peça correspondente do dedo que aca-
bamos de descrever, pela concavidade em sua face infe-
rior (fig. IV A) e pela falta de Wo ae comtudo
( NE js De ma
ear f ] MU
i o: :
Fig. IV Phalange unguinal, Ungual phalange.
é relativamente grande e alargada. A sua face articular
(fig. IV B) é obliqua e muito mais comprida que larga;
o seu lado direito, um pouco convexo (fig. IV), é exces-
sivamente largo, devido á espansão do bordo distal, fino
e arcado, ao passo que em seu lado esquerdo (fig. IV A
o osso, que é chato, forma uma pequena area triangular,
comparativamente diminuta.
As duas phalanges unguinaes evidentemente per-
tenciam ao mesmo pé, cujos dedos devêram ser curvados
obliquamente. Se este pé fôra de construcção usual entre
os Dinosaurios sauropodos, tratar-se-ia do pé do lado
It is difficult to determine the affinities of a rept-
ile known only by remains so fragmentary as those
now described. It is evident, however, that the bones
are those of a land-reptile; and the characters of the vertebra
suggest that they belong either to an Anomodont or to
a primitive Dinosaur. The fact that the dorsal vertebral
centrum shows no clear mark of an articular facette
for the rib, seems to prevent its reference to an Ano-
modont; while the shape and characters of the cervical
vertebra are so closely similar to those of a correspon-
ding vertebra from the Karoo Formation of South Africa
ascribed to the Dinosaurian Zuskelesaurus by Seeley (*),
that the new Brazilian reptile is probably allied to the
latter. The striking inequality in the size of the obli-
quely curved toes is also less suggestive of ‘an Ano-
modont than of a Dinosaur; and although it is possible
that some of the larger Anomodonts had a digital for-
mula like that of lizards and crocodiles, this was not
the normal condition, and a digit with four phalanges
is more likely to have belonged to a Dinosaur than to
a member of the more primitive Order.
I therefore refer the new Brazilian fossils to a
shortnecked Dinosaur allied to Huskelesaurus, and I
propose to name this reptile Scaphonyx in allusion to
the unique inferior excavation of the ungual phalanges.
The species may be known as Scaphonyx fischer.
If this determination be correct, the rocks in which
the bones were found may be regarded as of Triassic
age. Scaphonyx is also to be considered as the first
fossil land-reptile discovered in South America which
clearly belongs to the fauna of «Gondwana Land».
(*) H. G. Seeley, «On Euskelesaurus brownii (Huxley)», Ann. Mag.
Nat. Hist. (6) Vol, XIV (1894), p, 339, fig. 7. Original vertebra now in the
British Museum.
~
E =>
OL
esquerdo, pertencendo então a unha grande ao dedo I,
emquanto que a serie das 4 phalanges pertenceria
provavelmente ao dedo III.
*
* x
E” difficil determinar as affinidades de um reptil
conhecido tão sómente pelos restos tão fragmentarios
como os que aqui descrevemos. Comtudo é evidente
que são partes de um reptil terrestre; além disso, os
caracteres das’ vertebras suggerem que pertenceram ou
a um Anomodonte ou a um Dinosaurio primitivo. O
facto de o corpo vertebral dorsal não mostrar nenhum
signal evidente de uma faceta articular para a costella,
parece oppôr-se á sua collocação, entre os Anomodontes;
de outro lado a feição e os caracteres da vertebra cer-
vical são de tal modo similares aos das vertebras cor-
respondentes da «Formação Caroo> da Africa do Sul,
attribuidos por Seeley (* ao Dinosaurio Huskelesaurus,
que bem provavelmente o novo reptil brazileiro será
aliado a este ultimo. A desegualdade surprehendente
no tamanho das unhas obliquamente curvadas, do mesmo
modo é menos suggestivo para os attribuir a um Ano-
modonte do que a um Dinosaurio. Apezar de ser pos-
sivel que um outro Anomodonte de maiores dimensões
tivesse formula digital semelhante á dos lagartos ou
crocodilos, isto, comtudo, não era a regra geral, e um dedo
de 4 phalanges mais provavelmente terá pertencido a
um Dinosaurio do que a um membro de uma Ordem
mais primitiva.
Em vista do que acabo de expôr, considero o novo
reptil brazileiro como Dinosaurio de pescoço curto, alliado
ao Huskelesawrus e proponho denominar este reptil:
(*) H. G. Seeley, «On Euskelesaurus brownii (Huxley», Ann. Mag.
Nat. Hist. (6) Vol. XIV (1894), p. 339, fig. 7. A vertebra original acha-se
no British Museum.
ES AG QURER
Explanation of the Figures :
Fig. I: Cervical vertebra, anterior and right la-
teral (A) views; (c) articulation for capitulum of rib;
(n. a.) base of neural arch; (n. c.) neural canal; (t) arti-
culation for capitulum of rib; (x) facette tor intercentrum ;
Fig. II: Dorsal vertebra, anterior and right lateral
(A) aspects ;
Fig. MI: Digit with 4 phalanges (1—4), upper
and lower (A) views; (ex.) excavation of lower face of
ungual phalange ;
Fig. IV: Ungual phalange, upper, lower (A) and
articular (B) views; (ar.) hollowed articular face; (e)
flattened inner face; (ex.) excavation of lower face;
All the figures are of 2/3 of nat. size.
==
Scapyonyx em allusão á excavação inferior unica das
phalanges unguinaes. Seja dado á especie o nome de:
Scapyonyx fiscyeri.
Se esta determinação fôr correcta os depositos, em
que estes fosseis foram encontrados, deverão ser attri-
buidos 4 epoca Triassica. Scapyonyx, alem disso, repre-
senta o primeiro reptil terrestre descoberto na America
do Sul, que pertença evidentemente 4 fauna do «Gond-
wana Land.»
Explicação das Figuras
Fig. 1 Vertebra cervical, vista do lado anterior e
(A) do lado direito; (c) articulação para o capitulo da
costela; (7. a.) base do arco neural; (n. c.) canal neural;
(4) articulação para o capitulo da costella; (x) faceta
para o intercentrum (24 tam. nat.);
Fig. II Vertebra dorsal vista do lado anterior e
(A) do lado direito (2% tam. nat.);
Fig. HI Dedo com 4 phalanges (1-4) visto do
lado superior e (A) do lado inferior; (ex.) excavação da
face inferior da phalange unguinal (24 tam. nat.);
Fig. IV Phalange unguinal vista do lado superior,
(A) do lado inferior e (B) do lado articular; (ar.) face
articular excavada; (/) face interna achatada; (ex.) exca-
vação da face inferior (24 tam. nat.).
Notas sobre una pequena, coleecion
de huesos de mamiferos procedentes de las grutas calcáreas de Iporanga
EN EL ESTADO DE SÃO PAULO-BRAZIL
SSS
FLORENTINO AMEGHINO
El año 1897, mi amigo y colega el Dr. H. v. The-
ring, Director del Museo de San Pablo, me remitia una
pequena coleccion de huesos de mamiferos encontrados
en algunas grutas calcáreas, pidiendome que los deter-
minara.
Continuamente ocupado con el estudio de las faunas
mamalogicas antiguas, han ido pasando los años sin
que se me presentara una aportunidad para examinar
este envio con algun detenimiento.
Aunque me encuentro igualmente atareado, en vista
del largo espacio de tiempo transcurrido, he resuelto hacer
un corto parentesis en mis trabajos sobre las faunas
antiguas para poder examinar los. mencionados resto de
las cavernas.
Los objetos en cuestion fueron coleccionados por
el señor Ricardo Krone, durante una visita que hizo 4
las grutas calcáreas de la region del rio Iporanga, en
el Estado de San Pablo. La mayor parte provienien de la
caverna de Monjolinho, la mas importante de todas. No
entro en detalles sobre esas cavernas, su origen, la to-
pografia de la localidad, etc, por cuanto el señor Krone
ha escrito sobre ese tópico un interesante articulo acom-
pañado de ilustraciones, que podrán consultar aquellos
que tengan interes en el asunto (1).
(1) RICARDO KRONE. As grutas calcareas de Iporanga, en Revista
do Museu Paulista, t. III, pp. 477 4 500, a. 1898.
PR (| =
La coleccion es poco numerosa, y los huesos des-
graciadamente se encuentran muy fragmentados. Agré-
guese á esto que la mayor parte estan cubiertos de
incrustaciones estalagmiticas que deforman el aspecto
de las piezas de las que generalmente no se pueden des-
prender, y se comprendera las dificultades con que se
tropieza para efectuar una determinacion precisa. Mu-
chas de las piezas aisladas, las he dejado á un lado,
pues el tiempo que exigiria su determinacion, no estaria
recompensado por los resultados que se obtuvieran,
pues en su casi totalidad deben referir-se á especies
todavia existentes.
Los huesos, bajo el punto de vista de su conser-
vacion se presentan en condiciones muy distintas. Unos
están perfectamente limpios y completamente frescos;
son indisputablemente recientes. Otros están cubiertos é
impregnados de materias calcareas, son muy pesados y
profundamente alterados en su composicion; estos son
verdaderos fósiles y de una época anterior á la presen-
te. Entre unos y otros se encuentran todos los esta-
dios intermediarios de conservación. |
Todos los huesos que no son absolutamente frescos,
están cubiertos de incrustraciones estalagmiticas y pre-
sentan un color mas 6 menos rojo-amarellento. Algu-
nos están cubiertos de incrustaciones en un solo lado:
es el que estaba á descubierto, mientras que el lado
opuesto que se encontraba enterrado ó descansando en
la arcilla del fondo de la caverna se presenta libre de
incrustaciones. Esto prueba dos cosas. 1.º) que todos esos
restos han sido recogidos en la superficie del suelo 6
en la capa estalagmitica superficial. 2.º.) que la deposi-
cion estalagmitica se ha verificado en esas cavernas con
una lentitud asombrosa, puesto que huesos de especies
extinguidas han permanecido en la superficie del suelo
del piso de las cavernas sin que hayan sido completa-
mente cubiertos por las incrustaciones.
Ed ne A
Sin embargo, bajo el punto de vista de la edad
geológica, los restos de las cavernas del Brasil son muy
recientes.
En 1889, ocupándome de las relaciones de la
fauna de las cavernas del Brasil con la que se encuen-
tra en la formacion pampeana, Ilegué á la conclusion de
que aquella era de época mas reciente que la del pam-
peano superior, y debia corresponder á la de los depo-
sitos post-pampeanos mas antiguos (piso platense) y en
parte tambien al piso lujanense. (1)
El exámen de la presente coleccion confirma esas
deducciones. La mayor parta de esos restos tienen un
aspecto mui reciente y en las especies de la fauna pe-
queña predomiaan las de la época actual. Es cierto que
Winge menciona un número bastante crecido de pe-
queños roedores extinguidos, pero algunos ya se han encon-
trado vivos y es casi seguro que se encontraran otros mas.
El Nothrotherium representado en la actual colec-
cion por un cráneo de adulto y algunos huesos del
esqueleto, preporciona datos precisos y decisivos. Como
se verá mas adelante, Nothrotheriwm desciende de un
género característico del pampeano superior de la Ar-
gentina. Eso prueba, que la fauna de las cavernas bra-
sileras es mas reciente que la de la parte superior de
la formacion pampeana. En el Brasil, como en Europa
y Norte América, la fauna de las cuvernas es cuater-
naria.
Sin mas preámbulos paso al exámen del material
que se me ha confiado.
(1) AMEGHINO, F. Contribucion al conocimiento de los mamiferos
füsiles de la Republica Argentina, pp. 982 4 989, a. 1889.
ae ha
Ord. UNGULATA
Subord. Artiodactila
Fam. Cervidae
Gen. Mazama Raf.
? Mazama sp.?
Considero como perteneciente probablemente á este
género un maxilar superior derecho de un ciervo muy
pequeno. La determinacion no puede ser mas precisa,
pues se trata de un individuo muy jóven con las mue-
las caedizas 2, 3 y 4 de la primera denticion. Además,
la corona de las muelas está cubiurta por una incrus-
tacion estalagmitica muy dura que oculta al examen
los caracteres de la dentadura.
El estado de conservacion es el de semifósil, pues
ápesar de las incrustaciones el hueso es muy liviano
y poco alterado. Es casi seguro que se trata de una de las
especies existentes, probablemente el Mazama nemo-
rivaga (Cuv.) con el cual concuerda en tamaño.
Fam. Suidæ
‘Incluyo en la familia de los Suidæ los pecaris 6
suideos americanos, pues segun mi criterio no les en-
cuentro caracteres suficientemente importantes para cons-
tituir con ellos una familia distinta.
Gen. Tagassus Frisch
Tagassus albirostris (Il).
Es el animal conocido hasta estos últimos años
con el nombre de Dicotyles labiatus Cuv. De las in-
vestigaciones bibliográficas y sinonimicas recientes re-
sulta que ambos nombres deben desaparecer ante otros
que tienen prioridad. El nombre genérico mas antiguo
Bae) An
es el de Tagassu Frisch 1775 (1), voz bárbara 4 la
que es necesario darle desinencia latina por cuya razon
escribo Tagassus. El tipo del género es el Sus tajacu
de Lineo-—Dicotyles torquatus de Cuvier.
La especie un poco mas grande conocida hasta
ahora con el nombre de Dicotyles labiatus, ha sido
considerada por varios autores como genericamente dis-
tinta de la precedente, sirviendo a ©. Hart Merriam de
tipo para el nuevo género Olidosus (2). Por mi parte
no encuentro que las deferencias sean suficientemente
acentuadas para una distincion genérica, asi que las in-
cluyo ambas en el género Tagassus.
En la coleccion que examino esta especie está re-
presentada por ambas ramas mandibulares, varios trozos
del craneo y algunos huesos del esqueleto, al parecer
de un mismo individuo. Se trata de un animal que era
todavia muy joven, pues los huesos largos han perdido
las epifisis. Las ramas mandibulares han perdido los
dientes pero se conservan los alvéolos de las tres muelas
caedizas.
Estos huesos, aunque de aspecto algo antiguo, no
son fósiles. :
Ord. RODENTIA
Fam. Cricetida
Gen. Acopon Meven
Acodon angustidens (Winge)
Hay en la coleccion la mitad anterior de un cra-
neo con el paladar completo, los dos incisivos, la pri-
mera muela del lado izquierdo y los alvéolos de las
demas muelas.
(1) FriscH, Das Natur—System vierfiis. Thiere, in Tabellen, 3,
ab Gen: 1775.
(2) Proceed. Biol. Soc, Washington, 1901, p. 120.
64
Orizomys eliura Wagn.
Esta especie já foi obtida no Estado de S. Paulo por Natterer €
tambem o Museu Paulista a obteve de varias localidades do mesmo Es-
tado. A. da R.
Fam. OCTODONTIDZE
Gen. Dicorpomys Winge
Dicolpomys fossor Winge
Este género y especie fueron fundados por Winge (1)
sobre ramas mandibulares inferiores recogidas por Lund
en las cavernas de Lagoa Santa, sin que hasta ahora
se hubieran encontrado otros restos.
Es un animal de talla muy reducida, del tamaño
de un pequeño ratoncito. Por los caracteres de la denta-
dura inferior aparece como una forma mas primitiva
que los representantes del grupo de los Octodontinæ
(Octodon, Ctenomys, etc.).
La primera muela inferior es mas grande que las
siguientes y mas complicada, presentando una escota-
“dura externa y dos internas. Las dos muelas interme-
diarias son algo mas pequeñas que la anterior y ambas
de igual tamafio; la corona es mas simple mostrando
un solo surco interno opuesto al externo. La ultima
muela es mucho mas pequeña, con la corona posterior
atrofiada ó rudimentaria.
Estas muelas difieren de las de Ctenomys y demas
géneros del mismo grupo por presentar raices distintas
y obliteradas aunque muy cortas. Tanto por la dispo-
sicion de la corona como por la de las raices, mues-
tran un mayor parecido con las de los géneros fósiles
de Monte-Hermoso, Phtoramys, Plataeomys y sobre
todo Humysops.
Para que pueda juzgarse del valor de estos cara-
cteres y de las referencias que haré á continuacion, creo
útil reproducir la figura de la rama mandibular y de
la dentadura inferior” (fig. 1) segun el debujo de Winge.
(1) Ww INGE, HERLUF, 1. €. pp. 99— 101, pl. VIII, fig. 10, a. 1887.
65 —
En la coleccion de que me ocupo, hay la mitad
Fig. 1.
Jossor Winge, a, rama
mundibular derecha,
vista de arriba, en ta-
maño natural, mostran-
do los alvéolos de las
Dicolpomys
muelas; e, las muelas
inferiores 4 47 del lado
derecho, vistas de ar-
riba, aumentadas 2/1 del
anterior de un cráneo de un individuo
completamente adulto, pieza que no me
ha sido posible identificar con la cor-
respondiente de ninguno de los géneros
existentes que me son conocidos y me
parece probable sea de Dicolpomys en
cuyo género la coloco. Sin embargo esta
referencia debe considerarse como provi-
soria hasta que nuevos materiales ú otras
investigaciones la confimen 6 la desau-
toricen.
Si esta referencia fuera exacta, el
Dicolpomys si ya no existe, habria vi-
tamaño natural, segun
Winge. Cavernas de
Lagoa Santa.
vido hasta una época muy reciente,
pues el trozo de cráneo de que me ocu-
po es de aspecto relativamente muy fresco.
La parte del crâneo que se ha conservado repre-
sentada en la figura 2, consta del paladar con ambos
maxilares perfectos, los frontales imperfectos y los in-
termaxilares casi perfectos. De la dentadura se conservan
ambos incisivos, la primera muela de cada lado y los
alveolos de las tres siguientes.
Esta parte del cráneo, en sus proporcio-
nes generales y relativas se parece mucho á
la correspondiente del Ctenomys, particular-
mente por la region palatina de la barra que
es corta y ancha. En esta region la principal
diferencia consiste en la perforacion incisiva
que en Ctenomys es muy pequeña y mas 6
menos tan larga como ancha, mientras que
en Dicolpomys es proporcionalmente mas gran-
de y mas prolongada en sentido antero-poste-
rior, siendo asi bastante mas larga que ancha.
Ademas en Ctnomys la perforacion es angosta
Fig. 2. ?Di-
colpomys fossor
Winge. Mitad
anterior del crá-
neo, vista de
bajo, en tamaño
natural, Caver-
nas de Iporan-
ga; San Pablo,
ER EU
adelante v ancha atras, mientras que ea Dicolpomys
el mayor ancho se encuentra hacia el medio. En la con-
formacion de esta doble perforacion, Dicolpomys se
aleja del grupo de los Ctenomys para aproximarse de
los Hehinomiyne.
En Dicolpomys la region interdentaria del paladar
se distingue por la escotadura de la apertura nasal pos-
terior que es mas acha que en Ctenomys y penetra mas
adelante Ilegando hasta en frente del borde anterior de
la tercera muela.
Los incisivos difieren completamente de los de
Ctenomys; son considerablemente mas angostos, de cara
anterior fuertemente convexa y de mayor diametro an-
tero—posterior que transversal; tienen 1 mm. de diametro
transverso y 1,5 mm. de diametro antero-posterior. El
esmalte está coloreado de amarillo claro. El mayor
parecido de estos dientes es con los del género Cavia.
Dije mas arriba que solo existia la primera muela
de cada lado, es decir la cuarta de la serie completa y
la última difiodonte. La muela en funcion es la de
reemplazamiento, y como presenta la corona ya bastante
gastada, es claro que no solo se trata de un individuo
adulto, sino que hasta puede considerarse como viejo.
Esto se confirma tambien por la sutura maxilo-palatina
que ya no es visible.
Esta muela en realidad no se parece á la de los
Octodontine pero si á la de los Echinomyine. Es de
corona relativamente larga y de raices muy cortas y
obliteradas. Las raices son en número de 3 una interna
muy grande y bastante larga y dos externas muy cortas
y sumamente pequeñas.
La corona (fig. 3) consta de dos lóbulos muy
desiguales, el anterior en forma de lamina transversal
delgada y arqueda con la convexidad hacia adelante, y
el segundo en forma de prisma triangular ó acorazonado,
muy angosto al lado interno y muy ancho sobre el
externo; ambos lóbulos están separados al
lado interno por una hendidura profunda
que se enangosta y desaparece gradualmente
hacia. la raiz, mientras que sobre el lado
1» — externo aparecen reunidos por la lamina
Fig. 8? Dicolporys externa de esmalte; en las muelas un poco
fossor Winge. Muela .
4 de reemplazamiento Menos gastadas el lóbulo anterior debe
del lado izquierdo,
vista de abajo por la presentarse separado del posterior tambien
superficie de tritura-
cion dela corona, au- sobre el lado externo.
mario natural. La superficie masticatoria del lóbulo
anterior es simple y regular. En el lóbulo posterior la
superficie de masticacion aparece al contrario complicada
por tres pliegues de esmalte; el pliego anterior está
todavia abierto sobre el lado externo afectando la forma
de un surco entrante angosto y profundo; el pliegue
mediano es de tamaño mucho mayor, mas largo y mas
ancho, pero se enangosta un poco en el medio y se
encuentra ya completamente aislado del borde externo;
el pliegue posterior es muy pequeño, y en forma de un
pozo elliptico tapizado de esmalte y completamente
aislado. Esta muela, vista por el lado externo presenta
la forma de una columna un poco convexa; vista por el
lado interno aparece formada por dos columnas que se
fusionan antes de alcanzar el cuello de la muela. La
cara interna se enangosta rapidamente de la cúspide
hacia la base. Lad corona en su superficie de mastica-
cion mide un poco mas de 2 mm. de diametro antero-
posterior.
La muelas 5 y 6 4 juzgar por los alveolos parece
que tenian el mismo tamaño que la muela 4, con las
raices conformadas del mismo modo, pero es probable
que la corona fuera algo mas simple.
El alveolo de la muela 7 6 última es muy pequeño
y aun no completamente abierto, demostrando que esta
J
O rome
muela era rudimentaria y que entraba en funcion cuando
el animal habia alcanzado una edad regularmente avan-
zada.
La region interdentaria del paladar es completa-
mente plana, teniendo entre las dos primeras muelas
(m. 4 v m. 5) 2,5 mm. de ancho, pero hacia atrás de
la muela 5 ambas series dentarias se vuelven un poco
divergentes.
Esta pieza coincide con la mandibula de Dicol-
pomys figurada por Winge: 1.º, en el tamaño; 2º, en
la forma, tamaño y disposicion de los incisivos; 3.º, en
la disposicion de las raices de las muelas; 4°, en el
tamaño igual de las muelas intermediarias; 5.º, en el
estado rudimentario de la última muela y su aparicion
tardia. Por todas estas razones la refiero al mismo
animal. |
Por la forma y disposicion de los incisivos, la forma
radiculada de las muelas, la forma y disposicion de las
raices, y la complicacion de la primera muela (m. 4)
tanto superior como inferior, creo que se trata de un
representante de la subfamilia de los Æchinomyinæ que
se encontraba en la via de la simplificacion de las
muelas, y no de un Octodontine.
Gen. KANNABATEOMYS Jentink 1891
Kannabateomys amblyonyx (Wagner)
Una rama mandibular izquierda con las tres pri-
meras muelas intactas es referible 4 esta especie. No
presenta absclutamente diferencias con la parte corres-
pondiente de los ejemplares vivientes. La especie fué
encontrada fósil por Lund en las cavernas de Lagoa
Santa y descripta por Winge (1), pero el estado del
(1) Dactylomys amblyonyx WINGE, 1. c. p. 70, Pl. VII, figs. 10 y
II, a. 1888. à
— 69 —
presente ejemplar es muy fresco y no puede considerarse
como fosil,
Gen. Prorcumys Allen 1899
Proechimys fuliginosa (Wagn.)
Restos fosiles de P. cayennensis fueron descubiertos
por Lund v mencionados por Winge (1). En la pre-
sente coleccion se encuentra representada por varios
restos la especie aliada P. fuliginosa.
Un cráneo casi completo, con los incisivos, las
cuatro muelas del lado derecho y la primera y última
del lado izquierdo. Su estado de conservacion es relati-
vamente fresco y no presenta diferencias con el cráneo
y la dentadura de los individuos actuales.
Dos cráneos muy. incrustados y evidentemente en
estado fósil. Tampoco presentan diferencias con el crá-
neo de los individuos actuales.
Una rama mandibular, en estado f6sil, de un indi-
viduo muy viejo con el incisivo y dos muelas fragmen-
tadas. Es en un todo identica á la parte correspon-
diente de los individuos actuales.
Gen. Ecuimys Desm. 1817
Echimys spinosa (Desm.)
Está representada por dos ramas mandibulares, una
derecha y la otra izquierda, ambas con las tres primeras
muelas. No hay diferencias con la parte correspondiente
de los individuos actuales. Por otra parte, el estado de
conservacion de estos restos indica claramente que son
de época reciente.
Winge (2) menciona restos fosiles de esta especie
encontrados por Lund en las cavernas de Lagoa Santa.
(1) Æchinomys cayennensis WINGE, 1. c. p. 71, Pl. VIII, fig. 1.
(2) Mesomys spinosus WINGE. 1. c. p. 72, pl. VIII, figs. 5 y 6.
— (0
Fam. Leporidae
Gen. SYLVILAGUS Gray 1867
Sylvilaqus minensis Thos.
Un trozo de la parte posterior de la rama man-
dibular derecha con las últimas dos muelas, pertenece 4
una especie de liebre del género Sylvilagus. La pieza
es fósil, pero desgraciadamente encuentrase en bastante
mal estado y con fuertes incrustaciones estalagmiticas
que impiden un examen perfecto. Sin enbargo, tanto
por el tamaño como por la forma parece corresponder
al Sylvilagus minensis actual (1).
Restos fósiles pertencientes á esta especie y proce-
dentes de las cavernas de Lagoa Santa, ya han sido
mencionados por Lund, Waterhouse, Lydekker y Winge
quienes hacen observar que solo se distinguen de los
que proceden de individuos actuales por una talla un
poco mayor.
Ord. SARCOBORA
Subord. Pedimana
Fam. Didelphüdæ
Gen. CHIRONECTES Ill. 1811
Chironectes minimus (Zimm.)
Un trozo de rama mandibular izquierda, con el
canino y las dos primeras muelas y los alvéolos de la
mayor parte de los otros dientes, parece que debe refe-
rirse á esta especie. La pieza es muy incompleta para
una determinacion absolutamente exacta, pero el pequeno
desarrollo del incisivo, la forma, disposicion y tamaño de
las dos primeras muelas concuerdan exactamente con las
(1) Esta es la unica especie hasta ahora encontrada nel Est. de S.
Paulo. WV. de la Red.
Ns phic.
mismas partes de Chironectes minimus. El estado de
la pieza es de subfósil. |
La especie no habita hoy en esa region, de modo
que su hallazgo en estado subfósil, si se confirma es un
becho verdaderamente notable.
Subord. Carnivora
Fam. Felidæ
Gen. Feuts L.
Felis aff. onssa L.
Hay en la coleccion algunos restos de un Felis
de talla considerable. Las piezas mas importantes son:
la parte proximal y la parte distal de un femur, la
parte proximal de un cubito, la parte distal de un radio,
un trozo de húmero, dos metacarpianos incompletos, y
algunos otros fragmentos. Todos estos restos proceden
de un mismo individuo y se conoce que debia encon-
trarse el esqueleto completo, pues la fragmentacion de
los huesos se ha producido al extraerlos. |
Los trozos conservados son insuficientes para una
determinacion especifica exacta, pero evidentemente indi-
can un animal que si no es especificamentes idéntico,
es por lo menos muy cercano del Felis onssa actual.
El estado que presentan esos huesos es el de ver-
daderos fósiles.
Ord. CHIROPTERA
Fam. Phyllostomidæ
Gen. CHROTOPTERUS Peters 1865
Chrotopterus auritus Peters
Un cráneo casi entero y con la mayor parte de
la dentadura, en estado subfôsil, no difiere absoluta-
mente en nada del cráneo de los individuos actuales de
la misma especie.
Ord. EDENTATA
Subord. Glyptodontia
Este grupo que fué tan numeroso en las épocas
pasadas y tambien en el periodo durante el cual se
rellenaron las cavernas, en la presente coleccion está
representado por una sola placa. Esta pieza indica un
animal comparable por la talla á un gran Sclerocalyptus,
pero las incrustacicnes que cubren precisamente la su-
perficie externa que es la que lleva los adornos, no per-
miten determinar el género y ni aun la familia á que
pueda referirse.
Subord. DASYPODA
Fam. Dasypidae
Gen. Capassus MeMurtrie 1831
Es el género que no hace mucho era universal-
mente conoscido con el nombre de Xenurus Wagler
1830, nombre que por estar preoccupado en 1891 lo
sustitui por el de ZLysiurus.
De las investigaciones practicadas por Palmer re-
sulta que hay otro nombre cientifico anterior aplicado
al mismo género; es este el de Cabassous McMurtrie
1831. Sin embargo es evidente que de aceptar este
nombre e que modificar su ortografia por dos razones
decisivas. 1.º Cabassous es el nombre vulgar «Kabas-
sou» de Sa y «Cabassou» de Cuvier, Eni por
MeMurtrie en Cabassous. El nombre es de origen gua-
rani «Cabasi» que los autores francezes escribieron
«Cabassou» en razon del sonido w que tienen que re-
presentarlo con las letras ou; escrito directamente se-
gun la fonética latina hubiera resultado «Cabasá ».
2º Los nombres franceses latinizados, que tienen el sonido
frances ou, en la forma latina se representa con la
letra u. Por estas razones el nombre debe escribirse
Cabassus y no Cabassous. (*)
Cabassus antiquus (Land)
Restos fósiles de este género fueron encontrados
por Lund en las cavernas de Lagoa Santa quien los
ha designado bajos los nombres sucesivos de Xenurus
antiquus, Xenurus fossilis y Xenurus aff. nudicaudus.
Esos restos se reducian á pequeños trozos de coraza.
En la coleccion que examino hay un húmero casi
perfecto de especie extinguida de este género que refiero
á la que ha nombrado Lund, Este hueso (fig. 4) es
notablemente mas grande que
en la especie típica actual (Ca-
bassus unicinctns (L.) siendo
un centimetro mas largo. La
articulacion distal es absoluta-
mente de la misma forma que
en la especie actual, faltandole
igualmente la depresion vertical
de la parte externa del condilo,
tan caracteristica de los Arma-
dillos con la sola excepcion de
Cabassus y Priodontes, aunque
«en este ultimo género hay de
ella un principio. Entre el bor-
de inferior interno de la epitro-
clea y la troclea hay una esco-
tadura ancha y profunda; esta es-
ROM o cute Ra) cotadura es poco acentuada en el
Húmero izquierdo, visto de adelante humero de la especie actual. La
en tamano natural. Cavernas de Ipo-
ranga. cresta deltoides en su parte in-
(*) Ainda que não haja necessidade absoluta em se proceder á correcção
acima indicada, comtudo podemos fazel-a, pois que a tal o Art. 19 das Re-
RR MN
ferior es mas proeminente y el cuerpo del hueso en su
mitad proximal se distingue por un fuerte aplastamiento
en sentido antero-posterior.
Subord. GRAVIGRADA
Fam. Megalonychidae
Gen. NOTHROTHERIUM Lyd.
Bibioanaka y resena historica
1836 «Un Megatherium del tamaño de un Tapir.
Lunp pv. w. Om Huler.i kalkrsteen, 1 det indre
af Brasilien, der Tildeels indeholde fossile
knokler, pag. 28, 34-36, PL IL figs: 1, 2 y 3,
y en Kgl. Danske Vidensk. Selsk. naturv. og
mathem. Afhandl. 6 deel. 1837, pp. CXII y
240-242.
1839 Celodon maquinense, Lunp P. W. Bhk paa
Brasiliens Dyreverden for sidste jórdomvelt-
ning. Anden -Afhandling: Pattedyrene. pp. 12,
gras internacionaes de Nomenclatura Zoolegica, 1905, nos auctorizam (faute de
transcription, d’orthographie ou d’impression).
Pouco acima fizemos uma modificação na graphia original do nosso
illustre collaborador e,collega, modificando a graphia de Æ. onça em onssa.
Ainda que segundo as Regras citadas nos fosse permittido conservar na nomen-
clatura zoologica o ¢, que a lingua latina desconhece (no Art. 20 este caso
foi esquecido, mas baseamo-nos na analogia de Jbañezia, farGensis, Stälia, etc.)
comtudo cedemos ao clamor geral que se levanta contra o ç barbaro. Nunca,
porém, podemos admittir que o ¢ seja substituido por um simples c; deve
substituil-o seu equivalente phonetico, que no caso de 7. onça seria onssa.
Veja-se a tal respeito o artigo do Dr. H. von Ihering: «Eine notwendige No-
menclaturregel mit Rücksicht auf brasilianische Eigennamen. «Zoologischer
Anzeiger», Vol. XXVII, N. 24-25, 1905, p. 785-787».
Pelo nosso modo de pensar estariamos francamente pela conservação
absoluta do ¢, pois teriamos a defeza das Regras internacionaes, que todos
devemos respeitar em absoluto. Cedendo, porém, e consentindo na substitui-
ção do 4, então é só segundo o modo indicado no artigo acima citado que a
podemos admittir.
N. da R.
1840
1842
1845
1855
Veer e
25, y 75; id Comp-d'oeil sus les espèces étein-
tes de Mammifères du Brésil en Annal Scienc.
Nat. ser. 2, vol. XI, p. 220. a. 1839--deu Kol.
D. Vad. Selsk. ete. 1841, p. 72.
Cœlodon maquinense Lund, Dr. Blick paa Bras.
ete. Tredie Afhandling: Fortsaettelse af Pat-
tedyrene, pp. 14, 17 y 48.—id en Klg. D.
Vid. Selsk, ete. 1841, p. 233.
Colodon maquinensis Lunp Dr. P. W. Blk
paa Bras. ete. Merde Afhandling: Fortsaet-
telse af Pattedyrene, p. 35, y 61, y en Kol.
D.- Vid. Selsk ete. p. FCI, 1842.
Colodon Kaupw Lunn P. W. 1. cp. 61.
Megalonyx maquinensis Lunp Dr. Fortsatte
bemaerkninger over Brasiliens udddõe Dyrs-
kabning pp. 7? y 11, y en Kgl. D. Vid. ete.
per:
Megalonyx Kaupii Lunp Dr. |. e pp. 7 y 11.
Coelodon Owen Ricuarp. Description of the
skeleton of an gigantie Sloth, Mylodon robus-
tus, etc. pp. 13-14, y 170, a. 1842.
Cœlodon maquinense Lunp P. W. Meddelelse
af udbytte de à 1844 undersôgte knoglehuler
have afgivet til kundskaben om Brasiliens
Dyreverden fôr sidste jordomvaeltning;; i et brev.
pp. 16 y 22, y en Kol. D. Vid. ete. 1846 p. 78.
Celodon maqwinense Prerer F. J. Traité de
Paléontologie, A. I. p. 272.
Celodon kaupr Picter F. J. Le p. 272.
Cœlodon maquinense Gervais P. Recherches
sur les Mammifères fossiles de l'Amerique Me-
ridionale, pp. 45 y 56.
Colodon kaupii Gervais P. |. e p. 56.
1867-69 Cœlodon maquinense Gervais P. Zoologie et
Paléontologie génerales. p. 253.
1879
1880
1885
1886
1886
Colodon maquinensis Lrats, Climat, faune,
etc. du Brésil; p. 383.
Ceelodon maquinense Gervais P. Mémoire sur
plusieurs espéces de Mammifères fossiles pro-
pres à l'Amérique Meridionale, p. 23.
Cœlodon escrivanensis REINHARDT J. Kaempe-
dovendyr -Slaegten Celodon. en Vidensk. Selsk.
Skr. naturvidenskabelig og mathematis 1 Afd.
XII, 3. pp. 256 4 349, con 5 laminas.
Celodon BurmeistER H. Description physique
de la Rep. Arg. t WI pp. 325 y 387:
Ceiodon maquinensis H. Gervais et AMEGHI-
NO, Les Mammifères fossiles de UV Amérique
Méridionale, pp. 140—141.
Crelodon escrivanensis H. GERvAIS et AMEGHI-
NO, 1. e. pp. 140—141.
Cœlodon kaupi H. Gervais et AMEGHINO, 1.
ec. pp. 142-- 145.
Cœlodon BurmetstER H. Berichtigung zu Cælo-
don, en Sitzungsberichte der koniglich Preus-
sichen Akademie der Wissenschaften zu Berlin
pp. 567 á 573, con una lamina.
Colodon Burmeister H. Weitere Bemerkung-
en über Celodon, en Sitzung. Kgl. Pr. Ak.
etc. pp. 357—358.
Coelodon, AMEGHINO F. Oracanthus und Coe-
lodon, verschiedene Gattungen einer und der-
selben Familie, en Sitzungsb. Kgl. Preuss. Ak.
etc. zu Berlin pp. 463-- 166.
Coelodon AmEauino F. Oracanthus y Coe-
lodon, géneros distintos de una misma familia,
en Bol. Acad. Nae. de Cienc. en Córdoba, t.
VIII, pp. 394— 398.
Coelodon LurtKen Dr. Cur. Antikritiske
Bemaerkninger à Anledning af Kaempe— Do-
vendyr— Sloegten Coelodon, en Kng. Dk. Vi-
1886
188%
1887
1889
1891
1895
1896
densk Selsk. Forhandl. pp. 78 4 84— id
Remarques anticritiques à l’occasion du genre
Mégatheriyide Coelodon. pp. XV á XX.
Coelodon BurmetstER H. Nochmalige Be-
richtigung zu Coelodon, en Sitzungsb. Kngl.
Preuss. Ak, dv Wiss. gu Berlin. pp. -1127
à DARI:
Celodon BuRMEISTER Atlas de la description
See de la Republique Argentine. Dritte
Abhandldung. Osteologie der Gravigraden oder
Riesen-Faultiere, p. 95.
Colodon tarijensis BurmEISTER H. Neue Beo-
bachtungen an Coelodon, en Sitzungtsber. ete.
pp. 857 4 862, figs. 1 y 2.
Coelodon maquinensis LYDEKKER R. Catalogue
of Fossil Mammalia in the British Museum,
aris Vo poda:
Coelodon (escrivanensis, maquinensis, Kaupi)
AMEGHINO FP. Contribucion al conocimiento de
los mamiferos fósdes de la Republica Argen-
tino, p. 629 á 1889.
Coelodon tarijensis AMEGHINO F. |. c. p. 629, pl.
TROVE ties Ss a 41880;
oi rien LypekKer, en Nicholson and
Lydekker, Manual of Palwontology, vol. II, p.
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Hypocælus AMEGHINO F. Mamiferos y aves
fósiles argentinas — Especves nuevas, adiciones
y correciones, en Revista Argentina de His-
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Nothrotherium, Zirrez C. A. Handbuch der
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tates of Argentina, p. 93, a. 1895.
Nothrotherium LYDEKKER R. Geographical his-
tory of Mammals. p. 107.
1898 Nothrotherium AMEGHINO F. Sinopsis geologico-
paleontologica, en Segundo Senso Nacional,
ev DE SI Shey
1903 Nothrotherium Scorr WiLLiam B. Reports of
the Princeton University Expeditions to Pata-
gonia. Vol. V, Mammalia of the Santa Cruz
Beds p. 162 y passim.
1904 Nothrotherium AmeGcutno F. Paleontologia Ar-
gentina, p. 30.
La pieza mas importante de esta colecion és
un craneo incompleto pero con parte de la dentadura,
procedente de un individuo completamente adulto del
género Nothrothervum. Acompaña al craneo el atlas y
una de las primeras vertebras dorsales, probablemente
del mismo individuo.
El único cráneo casi completo que hasta ahora se
conocia es de un individuo bastante jóven. El primer
cráneo de adulto de este genero que hasta hora se haya
encontrado, es el que motiva estas lineas, asi que su
examen ofrece cierto interés. A causa de esto mismo,
creo util completar los datos bibliographicos que pre-
ceden, con una muy breve reseña historica.
Los primeros restos de este género fueron encon-
trados por el Dr. P. W. Lund, el año 1835, precisa-
mente al empezar sus investigaciones en las cavernas de
Lagoa Santa. Esos restos consistian en un femur y una
muela con la corona intacta, piezas que fueron atribui-
das á un representante del género Megalherium, cuya
talla no debia sobrepasar la de un tapir. Corto tiempo
despues reconoció que se trataba de un género distinto,
al que dió el nombre de Cælodon, llamando la especie €.
maginense, nombre que en 1842 corrige en C. maqui-
nensis, agregando una segunda especie, el C. Æaupi
Desgraciadamente el Dr. Lund ignoraba que el nombre
de Colodon ja habia sido empleado para distinguir un
género de Coleopteros.
OR a ee
En los trabajos que precedieron esta última pu-
blicacion, Lund recogió huesos de varios otros edentados
de distintos géneros. atribuyendo algunos de ellos al
género Norte-americano Megalonyx. En 1842, en la
misma comunicacion en que agrega el Colodon kaupi
menciona cuatro especies de Megalonyx, 4 saber J.
cuviert, bucklandi, gracilis y minutus.
A fines del mismo afio, reconocié que esos animales
eran de un género muy distinto, de Megalonyx, y creó
con ellos el nuevo género Platyonyx (1) que es cercano
de Scelidotherium. Sin embargo al corregir un error,
cayó en otro: creyó que el verdadero género Megalonyx
estaba representado por las especies que habia colocado
en el género Colodon, y las vemos figurar en sus ul-
timos trabajos con los nombres de Megalonyx maqui-
nensis y Megalonyx kaupii.
En su ultima publicacion aparecida en 1845, ha-
biendo encontrado en la caverna Lapa de Escrivania,
un esqueleto casi completo aunque de un individuo jéven,
reconoce su error y restabelece el género Cælodon, re-
presentado por una sola especie, el Colodon maquinen-
sis, en la cual refundo el O. kawpii, desgraciadamente
sin entrar en detalles sobre la conformacion osteológica.
Todo el conjunto de la coleccion Lund incluso los
restos de Colodon, fué enviado al Museo de la Uni-
versidad de Copenhague en donde permaneció varios
anos sin que nadie se ocupara de él.
En 1868, el Profesor Pablo Gervais hizo una vi-
sita á Copenhague, tomando sobre esos fosiles algunas
notas ligeras que publicé en su Zoologie et Paleónto-
logie Générales.
En 1878, Reinhardt da por primera vez una des-
cripcion completa é ilustrada del género Cælodon segun
(1) Nombre igualmente empreado con anterioridad y reemplazado por
el de Catonyx Ameghino 1891.
ESA) 7
e) esqueleto de individuo jóven encontrado por Lund
en la caverna de Escrivania, considerandolo como per-
teneciente á una nueva especie que llama (. escri-
vanensis.
En 1886, Burmeister identifica el género. edentado
Neoracanthus (Oracanthus antea) con Celodon, del
cual representaria el estado adulto, suponiendo el indi-
viduo descripto por Reinhardt como muy jéven y de
tamaño muy inferior al que debia alcanzar cuando.
adulto. Esta identificacion fué combatida por mi y por
Lutken, reconociendo luego Burmeister que realmente -
Neoracanthus y Celodon eran géneros distintos.
Como el nombre de Coelodon habia sido empleado
con anterioridad 4 Lund para distinguir otro género del
reino animal, Lydekker en 1889 reemplazó ese nombre
por el de Nothrotherium. En 1891, fundado en la
misma causa propuse reemplazar el nombre de Cæœlodon
por Æypocoelus, ignorando que Lydekker le hubiera dado
un nuevo nombre.
Conformacion general del cráneo
No voy a repetir la descripcion detallada que ha
dado Reinhardt á la que muy poco tendria que agregar.
Lo que me propongo es solo dilucidar varias cuestionss,
referentes principalmente á la dentadura, que no podian
resolverse de un modo definitivo con el examen del
individuo jóven. Tratase tambien de las relaciones del
genero, que hoy, gracias á los grandes materiales re-
unidos procedentes de animales de la misma familia,
pueden determinarse de una manera mas precisa.
Reinhardt ha dado excelentes figuras del cráneo
casi completo del individuo jóven arriba mencionado,
visto de lado y de abajo. A continuacion doy el dibujo
del cráneo del individuo adulto vista de arriba y de
lado (figs. 5 y 6). 7
ÉCART ME
El cráneo descripto por Reinhardt, seguen la fi-
gura, que lo representa
á los dos tercios del na-
tural, tiene um poco mas
de 21 ctm. de largo. A
ese cráneo, en el dibujo
le faltan los intermaxi-
lares que estan sueltos,
y como estos tienen un
poco mas de tres centi-
metros de largo, resulta
que el largo del cráneo
completo debia ser apro-
ximadamente de unos 25
ctm. Segun Reinhardt, el
individuo en cuestion,
aunque joven, no lo era
tanto, que de haber se-
guido su ulterior desar-
rollo hubiera podido cam-
biar mucho de forma
ni aumentar considerable-
mente de tamaño; crée
que la talla del adulto
debia ser comparable á
la del oso hormiguero
(Myrmecophaga jubata).
A pezar de esta affir-
macion en perfecta con-
cordancia con lo que an-
teriormente habia dicho Fig. 5—Nothrotherium maquinense (Lund) Lyd.
ralar cs sen EE oo omite homo O A
neralidad de los natura-
listas continuaron en la creencia de que el individuo
joven descripto por Reinhardt no habia alcanzado las
dos terceras pertes de la talla del adulto. Esto fué de-
ish <1 a
fendido sobre todo por Burmeister, pero ya antes Ger-
vais habia dicho que esos restos indicaban un edentado
que adulto debia alcanzar la talla de un Mylodon.
Ahora bien: el craneo de Nothrotherium adulto
de que me ocupo, que por razones que expondré mas
adelante lo considero como de la misma especie, prueba
que Reinhardt tenia razon. El mencionado craneo en
su condicion actual tiene apenas un poco mas de 24
ctm. de largo, y aunque los nasales están un poco rotos
adelante, se conoce que la parte que les falta no al-
canzaba á medio centimetro. Suponiendo que los inter-
maxilares se prolongaran unos tres centimetros adelante
de los nasales, el largo total del cráneo no alcanzaba á
28 ctm. es decir solo unos tres ó cuatro centimetros
de mas que el del individuo joven de la caverna de
Escrivania. La série dentaria del individuo adulto ocupa
un espacio longitudinal que solo excede de unos tres 6
cuatro milimetros al del individuo joven. En cuanto al
ancho del cráneo parece que no ha habido aumentacion.
Tampoco observo ningun cambio notable en la for-
ma, con escepcion de la parte superior del craneo cor-
respondiente á la caja cerebral, que es proporcionalmente
algo mas alta y mas abovedada en el individuo jóven.
Es sabido que este mayor abovedamiento de la
caja cerebral es frecuente en los individuos jóvenes de
la generalidad de los mamiferos. Sin embargo, la con-
vexidad de la region parietal es bastante mas pronun-
ciada que no lo indica la figura publicada por Reinhardt.
La parte inferior 6 base del cráneo está demasiado
destruida por cuya razon no doy la vistade ella, pero
si de las partes conservadas de mayor importancia.
En esta parte basal del cráneo, el caracter mas
notable que muestra la figura publicada por Reinhardt,
es un enanchamiento enorme de los pterigoideos que se
encuentran transformados en dos grandes cavidades 6
cajas aereas de forma oblonga 6 vesicular; el tamaño de
ARO pe
estas cajas es tan considerable que solo estan separadas
una de otra por un espacio de
apenas 5 mm. de ancho. Esta
conformacion es muy notable,
pues no se encuentra en ninguno
de los demas gravigrados hasta
ahora conocidos, pero suele pre-
sentarse en los mirmecofagos, en
algunos bradipodos y especial-
mente en el genero Cholæpus,
aun que las cajas en cuestion
nunca adquieren el gran desar-
rollo que presentan en Nothro-
thervum.
En el craneo de individuo
adulto de que me ocupo, las
dos cajas pterigoideas, estan des-
truidas, pero se conserva una
pequeña parte interna superior
de la del lado izquierdo, y todo
el fondo superior y parte del
tabique externo de la del lado
derecho (fig. 7).
El tamaño de estas cavidades
era todavia mayor que en el
ejemplar joven descripto por
Reinhardt; habian alcanzado 4
ponerse en contacto sobre la
linea mediana, fusionändose las
dos paredes en una sola lâmina
ósea que en forma de tabique
separa ambas cajas; en su mi-
tad posterior este tabique no
Fig. 6— Wothrotherium maquinen-
se Lund (Lyd.) Cráneo, visto de lado,
reducido 4 4% del tamaño natural. Ca-
vernas de Iporanga.
tiene mas de um milimetro de grueso. De la cavi-
dad del lado derecho puede seguirse todo el contorno;
es angosta adelante y se enancha gradualmente hacia
6
atrás, afectando la forma de una pera;
mide 51 mm.
de diámetro antero-posterior y 33 mm. de diámetro
transverso en su parte posterior.
Este gran desarrollo de las cajas pterigoideas en el
individuo adulto, pruebar que las mencionadas cavidades
aumentan de tamaño con la edad, tal como sucede en
4 —
CE
LHE
+ +
2 DEC SW
4 OPEN SES
5
Fig. 7.— Nolhrotherium maquinense (Lund) Lyd. Mitad pos-
terior del craneo, vista de abajo, mostrando el interior de la
cavidad pterigoidea del lado derecho, reducida 4 % del tamaño
natural.
Las lineas em cruz indican la extension de la cavidad en
sus dos diametros, longitudinai y transverso ; t, tabique 6seo
que separaba las dos cavidades.
el género actual
Cholæpus. Ger-
vais en sus no-
tas sobre este
género cometió
el grave error
de tomar estas
cavidades aereas
de los pterigoi-
deos por las ca-
jas auditivas del
timpano.
Al cráneo des-
cripto por Rein-
hardt le faltba a
el timpánico. En
el ejemplar ac-
tual se encon-
traba presente
sobre el lado de-
recho, pero como
toda esta region
del cráneo esta-
ba cubierta por
una incrustacion calcarea muv dura, al limpiarlo fué en
parte destruido. Sin embargo, las pequeñas partes que
quedan muestran que: era un hueso completamente suelto
en forma de un anillo óseo muy delgado é incompleto ú
abierto en su parte superior.
Aunque no conozco nada de la mandíbula, el exa-
>
— 85 — _
t
men que tuve que praticar del actual ejemplar compa-
rado son el descripto por Reinhardt, me permite juzgar
sobre otra cuestion que se ha levantado á proposito de
la extension que tenia hacia adelante la sínfisis mandi-
bular. En este último ejemplar la parte anterior de la
sinfisis está rota. Reinhardt supone que es casi entera,
que solo le faltan algunos milímetros, y que por con-
siguiente la sinfisis era muy corta. Burmeister al con-
trario, afirmó que la parte perdida por la rotura debia
ser de algunos centimetros. Liitken sostuvo en contra de
Burmeister la misma opinion de Reinhardt, de que solo
faltaban á la sínfisis unos pocos milimetros.
Creo que Burmeister tenia razón. El craneo con la
mandibula articulada en su posicion natural muestra que
el borde anterior de esta constituido por la rotura, llega
precisamente al mismo nivel del borde anterior de los
maxilares. Adeante de estas venian los intermaxilares
que faltan en el cráneo y que hemos visto tenian mas
de 3 ctm. de largo. Como en todos los gravigrados. que
me son conocidos, la punta anterior de la sínfisis man-.
dibular se extiende hasta la punta anterior de los inter-
maxilares, y como no hay razon alguna para que no
suceda lo mismo en Nothrotherium, tenemos que á la
mandibula del individuo*deseripto por Reinhardt, le falta
adelante mas de tres centimetros perdidos por la rotura.
DENTADURA
La dentadura del género Nothrotherium ha sido
objeto de muchas controversias.
Lund al estabelecer el género ya indicó que se
caracterizaba por la presencia de solo cuatro muelas
superiores y tres inferiores.
Gervais, en las notas que publicó sobre este género
constata que efectivamente el número de muelas era de
‘/3, pero agrega que debia tenerse en cuenta que se
trata de un individuo jóven en el cual se observa debajo
de la primera muela un gérmen de una muela de re-
emplazamiento.
La existencia de una segunda denticion que hasta
entonces non habia sido constatada sobre ningun eden-
tado gravigrado, era sin duda un hecho de capital im-
portancia, pero Reinhardt demostró que se trataba de
un error de observación. Por una rotura accidental de
la rama mandibular izquierda debajo de la corona de
la primera muela, se ve la pared de un diente que es
el que tomó Gervais por una muela de reemplazamiento,
pero limpiando la rotura y enanchándola, se aseguró de
que el pretendido germen era la pared de la misma
muela anterior cuya prisma desciende hacia abajo en un
alveolo profundo que llega hasta el borde inferior de
la rama mandibular, conformacion muy frecuente en los
gravigrados.
La regla general, com muy contadas excepciones,
es que los gravidados y tardigrados tienen la fórmula
dentaria °/,; otra regla general, sin excepciones, es que
las muelas de los gravigrados aparecen todas á la vez,
y que por consiguiente, su número no cambia durante
la vida del animal. Hubiera pues sido una gran novedad
que en un edentado gravigrado@con el avanzamiento en
edad hubiera podido aumentar el número de las, muelas.
Con motivo de la opinion avanzada por Gervais,
Reinhardt examiné minuciosamente el ejemplar bajo
ese punto de vista, adquiriendo la conviccion de que la
formula dentaria “/, era la normal y caracteristica del
género. Con una argumentacion sólida hizo notar: que
ni arriba ni abajo, no habia espacio disponible para que
pudiera desarrollarse otra muela detrás de la última
existente; que le fórmula dentaria era 4/, desde la pri-
mera juventud, en lo que concordaba con los demás gra-
vigrados y tardigrados conocidos, en los cuales, las niue-
las, aparecen todas al mismo tiempo.
RU Ve
Apesar de la exposicion precisa ÿ terminante de
Reinhardt, en 1885 Burmeister vuelve á sostener la
tesis de Gervais, esto es: que el pequeño número de
muelas del esqueleto de la caverna de Escrivania, era
caracteristico del individuo jóven, pero que avanzando
la edad del animal debia salir otra muela detrás de la
última de cada mandibula, de modo que en el adulto
el numero fuera el nomral de 5/,.
Lo que sobretodo indujo en error á Burmeister fué
el descubrimiento de algunas ramas mandibulares de un
gravigrado notablemente mas grande que Nothrotheriwm,
con una dentadura algo parecida con cuatro muelas inferio-
res en vez de tres. Hse gravigrado, que el autor de estas li-
neasacababa de describir con el nombre de Oracanthus
(1), fué tomado erroneamente por Burmeister como repre-
sentando el estado adulto de Nothrothervum (Cœlodon).
Refuté detalladamente esta suposicion, haciendolo tam-
bien independientemente y al mismo tiempo el Profesor
Lütken. Poco tiempo despues, Burmeister reconocia que
teniamos razon.
Con este reconocimiento terminé lá cuestion. Sin
embargo, el descubrimiento del cráneo del individuo
adulto de que me ocupo, cierra definitivamente el camino
á toda duda sobre la fórmula dentaria del género No-
throthervum.
Las cuatro muelas superiores de este ejemplar (fig. 8)
corresponden exactamente 4 las cuatro muelas superiores
del individuo jóven descripto por Reinhardt. La homo-
logia 6 correspondencia de la ultima muela, queda esta-
blecida por el hecho de que en ambos ejemplares difiere
de las otras por su tamaño una mitad menor y por pre-
sentar una sola cresta transversal en vez de dos. La
homologia de la primera muela queda igualmente esta-
v
(1) Nombre que por estar empleado con anterioridad sostitui mas
tarde por el de Meoracanthus.
blecida por ser en ambos ejemplares un poco mas pequeña
que la segunda, y por presentar el lobulo anterior y la
cresta transversal correspondiente un poco mas pequeño
6 mas angosto que el lobulo posterior y cresta transversal
que le corresponde.
Queda asi esta-
blecido, de una ma-
nera definitiva que
no puede dar lugar
á futuras contro-
versias, que las
cuatro muelas su-
Fig. 8 — Nothrothertum maquinense (Lund) Lyd. .
Las muelas superiores del lado derecho, vistas por la periores M las tres
cara tritoria de la corona, en tamaño natural.
inferiores del gé-
nero Nothrotherium, representan las últimas de la série,
homologas 4 las cuatro últimas superiores v tres últimas
inferiores de los demas gravigrados. Es pues de todo
punto imposible que con la edad pudiera desarrollarse
otra muela detrás de la última de cada mandibula.
Esta homologia, prueba tambien, que de las muelas
de los demas gravigrados, la que falta en Nothrothervum,
no es la última como en un tiempo se creia, sino la pri-
mera. Como se ha efectuado la supresion lo veremos
mas adelante al tratar de las relaciones filogeneticas del
género.
Hago esta observacion porque pueden presentarse
casos de individuos del género Nothrotherium con cinco
muelas superiores y cuatro inferiores, debido á la persis-
tencia de la muela anterior; pero en este caso, el numero
normal de 5/,, en vez de presentarse en la vejéz como
se pretendia con la supuesta aparicion de una muela
posterior, solo se observaria en individuos muy jóvenes.
Desde Reinhardt hasta la fecha, todos los que se
han ocupado de la dentadura de este género, incluso el
que estas lineas escribe, han descripto las muelas como
siendo con corta diferencia del mismo tipo de las del
EQ,
Megatherium, esto es, de contorno rectangular y con dos
crestas transversales paralelas, separadas por un valle
profundo, como en este último género.
Comparando ahora mas detenidamente la dentadura
de ambos animales, encuentro que el parecido no es tan
grande como se ha creido, sobre todo en lo que se refiere
á las muelas superiores.
En Nothrotherium la única muela que presenta un
contorno rectangular parecida á la muela anterior del
Megatherium, es la primera que corresponde 4 la segunda
de este último género; muestra igualmente un surco per-
pendicular externo y otro interno bien aparentes, y la
corona con dos crestas transversales casi paralelas. Las
muelas segunda y tercera, que corresponden á la tercera
y cuarta del Megatherium, son de un contorno muy
distinto; en vez de rectangulares son subtriangulares,
angostas sobre el lado externo y notablemente mas anchas
sobre el interno; es absolutamente el mismo contorno que
presentan las muelas correspondientes de MJegalonyx y
de la mayor parte de los géneros del mismo grupo. El
lado interno mas ancho es un poco deprimido perpendi-
cularmente, mientras que el externo mas angosto y mas
redondeado, muestra un surco perpendicular mas pronun-
clado aunque mas angosto.
La última muela superior es tan comprimida en
sentido ántero-posterior que presenta el aspecto de una
lamina transversal un poco arqueada representando un
arco de circulo con la convexidad hacia adelante.
En la conformacion de la superficie de trituracion
las diferencias son todavia mas notables. En las muelas
superiores de Megatherium (fig. 9) las dos crestas trans-
versales son paralelas 6 casi paralelas separadas por un
ancho valle transversal abierto hasta el fondo en sus dos
extremidades. Las crestas transversales son en forma de
techo á dos aguas, esto es con doble declive, anterior y
posterior. La cumbre de cada cresta formada por la
lámina dura de dentina se encuentra asi alejáda del borde
correspondiente, anterior 6 posterior. Esta conformacion
parece ser el resultado del enorme espesor que ha adqui-
rido la capa de cemento en las dos caras, anterior y
posterior de cada muela. Como la cresta transversal
posterior de cada muela superior se adapta al valle trans-
versal de la muela inferior correspondiente, resulta que
el desgaste de la corona es relativamente regular, con las
cumbres de las crestas en las muelas intermediarias, mas
ó menos del mismo alto, y el fondo de los valles trans-
versales con corta diferencia de igual profundidad.
La superficie de trituracion de
las muelas de Nothrothervum es.
muy distinta. Las dos crestas
transversales no son paralelas sino
divergentes hacia el lado interno.
El valle que separa las crestas
corta la corona oblicuamente cor-
riendo hacia adentro y hacia atrás,
siendo notablemente mas ancho y
Fig. 9- Megathertum america. MAS profundo sobre el lado interno
num Cuv. Muela cuarta superior
derecha, vista por la superficie que en el externo ; además este
tritoria de la corona, reducida á
4 del tamaño natural. Pampeano Valle no está completamente abier-
obtida o Buenos Aine tO hasta abajo. en: gu: extremidad
externa, apareciendo así como un
pozo alargado, cerrado casi completamente sobre el lado
externo pero un poco mas abierto sobre el interno. Cada
cresta presenta un solo declive hacia el valle transversal,
pues la cumbre de cada cresta está constituida por el
mismo borde correspondiente de la muela, es decir el
borde anterior para la cresta anterior y el borde poste-
rior para la cresta posterior.
Esta conformacion se debe á que la capa de cemento
que cubre las caras anterior y posterior de cada muela
no es mas gruesa que la que cubre los costados; de esta
conformacion resulta que el declive opuesto al del valle
formado por la capa de cemento es tan pequeño que no
merece tomarse en consideracion. Debido á esta dispo-
sicion irregular de las crestas y de los valles, las crestas
de las muelas superiores no se adaptan exactamente á
los valles de las muelas inferiores; resulta así que la
superficie de trituracion aparece tambien irregular, con
la cresta anterior mas elevada que la posterior, y mas
elevada sobre una de las extremidades que en la otra;
el fondo del valle tranversal aparece igualmente mas pro-
fundo sobre el lado interno que sobre el externo. Tambien
puede presentarse el caso opuesto, que la cresta mas
saliente y mas elevada al lado interno sea la posterior
en vez de la anterior.
Esta conformacion de las muelas intermediarias supe-
riores de Nothrotherium es absolutamente idéntica á la
que presentan las muelas correspondientes de Megalonyx
Pliomorphus y demás animales parecidos.
En el cráneo figurado por Reinhardt las coronas
de las muelas presentan las crestas en parte destruidas,
no pudiéndose determinarse la forma exacta de la cara
de trituracion. En el mismo estado se encuentran las
muelas del cráneo de individuo adulto de que me ocupo,
con la sola excepcion de la tercera, que muestra la cara
masticatoria casi perfecta. En la figura
10 doy el dibujo de la muela corres-
pondiente de Pliomorphus, pero del
lado izquierdo, para que se pueda
apreciar la identidad de conformacion.
Pliomorphus es el antecesor de Me-
galonyx y con muelas absolutamente
deh mame “tipo icon: excepcion ide Ja, Bie ep ane
primera en la cual aparecen algunas fituacion de la corona en
diferencias de escasa importancia. pond sanction del Pat
La última muela superior de Nothrotheriwm ya he
dicho que es mucho mas pequefia que las otras y muy
comprimida de adelante hacia atrás afectando la forma
Fig. 10.— Pliomorphus
Amegh. Antepenúltima
92 —
de una lámina transversal. La superficie de trituracion
está gastada formando un declive oblicuo hacia adelante,
de modo que el borde posterior es mucho mas elevado
que el anterior, constituyendo la cresta transversal unica
que distingue esta muela de las otras.
Nada puedo agregar á la descripcion de las mue-
las inferiores dada por Reinhardt pues me son comple-
tamente desconocidas.
Determinacion específica
Lund designó los restos de Nothrotherium (Ce-
lodon) encontrados en su primera visita á la caverna
de Maquiné con el nombre específico de Colodon ma-
quinensis, agregando mas tarde una segunda especie,
el Colodon kaupi, pero corto tiempo despues reco-
noce que no es separable de la primera con la cual
la refunde. Es tambien de creer que al descubrir en
1844, el esqueleto descripto por Reinhardt lo consideró
como de la misma especie, pues de no ser así lo hu-
biera designado con un nuevo nombre especifico.
Reinhardt al describir este último esqueleto, crée
al contrario que es de una especie distinta que designa
con el nombre de Cælodon escrivanensis. Reconoce
que las dos especies deben haber tenido mas 6 menos
la misma talla. Para establecer la distincion específica,
la única diferencia en que se funda, consiste en la pre-
sencia de un surco perpendicular sobre la cara posterior
de la última muela superior del Nothrotheriwm (Cælo-
don) maquinense, surco à depresion que dice falta en
la misma muela de la pretendida nueva especie.
Cuando recibi el cráneo de adulto de que me ocu-
po, con la dentadura en parte cubierta por incrustacio-
nes, encontré que concordaba tan exactamente con las
figuras publicadas por Reinhardt, que comuniqué al Dr.
von Ihering, que el ejemplar era de Nothrothervum
(Colodon) escrivanense Rhdt.
— 95
Despues de haber hecho desembarazar la denta-
dura de las incrustaciones que la cubrian, me apercibi
que la ultima muela presentaba la cara posterior fueri
temente deprimida y formando cerca del lado externo
como un surco perpendicular. Quiere decir que el crá-
neo concuerda en un todo con el de Nothrotherium es-
crivanense menos en la disposicion de la cara poste-
rior de la última muela que estaria conformada como
en Nothrotherium maquinense.
Me parece evidente que esta única diferencia es
insuficiente para una separacion específica, con tanta
mayor razon que la presencia 6 ausencia del mencio-
nado surco se explíca perfectamente por la diferencia
de edad.
En todos los Megalonichide la última muela su-
perior es considerablemente mas pequeña que la penúl-
tima. En algunas especies de los antiguos géneros Ha-
palops, Pseudhapalops, Xyophorus y otros, la diferen-
cia en el tamaño de ambas muelas es tan grande como
en Nothrothervum, debiéndose tener presente que son
precisamente los que mas se acercan al género reciente.
En algunas de las especies de esos géneros, la última
muela superior presenta la cara posterior fuertemente
excavada longitudinalmente como en Nothrotherium ma-
quinense.
Es sabido que las muelas de los gravigrados apa-
recen con la corona en forma de cono, y que solo des-
pues de empezar el desgastamiento del cono empiezan á
aparecer los surcos y depresiones longitudinales. Estas
indentaciones empiezan en la cúspide en una forma apenas
aparente y se van acentuando gradualmente hacia la
base. El ahondamiento de esos surcos y depresiones
continua hasta que la muela ha adquirido la forma
perfecta de prisma, que es cuando presenta el mismo
grueso en todo su largo.
gere
La depresion 6 surco perpendicular de la cara
posterior de la última muela superior se ha constituido
del mismo modo. Sus vestigios empezaron á aparecer
en Ja cúspide de las muelas ya un poco gastadas, avan-
zando hacia la base y acentäando-se de mas en mas 4
medida que avanzaba la edad del animal.
La depresion 6 surco de la cara posterior de la
última muela del cráneo descripto por Reinhardt, falta,
6 mas bien es poco acentuado porque el animal era
todavia demasiado joven.
Así pues, por hora no hay razon alguna que jus-
tifique la distribucion de los restos de Nothrotherium
de las cavernas del Brasil en dos especies, y todos
deben referirse á la especie primeramente descripta por
Lund bajo el nombre de Colodon maquinensis, que
por eliminacion de la denominacion genérica por haber
estado preocupado, toma el nombre de Nothrotherwum
maquinense.
La sinonimia resulta la seguiente :
NOTHROTHERIUM MAQUINENSE (Ld. 1839) Ly. 1889.
Sin. Colodon maquinense Ld. 1839
Celodon maquinensis Ld. 1842
Megalonyx maquinensis Ld. 1842
Megalonyx kaupi Lid. 1842
Celodon kawpi Ld. 1842
Celodon escrivanensis Rhdt. 1878
Nothrotherium maquinense Lyd. 1889
Nothrothervum escrivanense Lyd. 1889
Burmeister menciona otra especie que refiere 4
este género, Ilamändola Colodon tarijensis Burm. 1887.
Fué fundada sobre una rama mandibular derecha in-
completa, con las dos primeras muelas completas y el
alvéolo de la última; el autor acompañé la descripcion
95 —
con un dibujo de la pieza typo vista por el lado externo,
y con otro representando la seccion de las muelas, pero
no dió la vista de arriba de la mandíbula.
En 1889, al ocuparme de esta pieza segun la descri-
pcion y los dibujos del autor, le encontré un parecido
tan grande con la pieza correspondiente de Nothropus,
que avancé la opinion de que la parte anterior rota
hubiera podido tener un pequeño diente como en
este último animal y se por consiguiente de este úl-
timo género (1).
Ahora que puedo examinar el original de la des-
cripcion de Burmeister, veo que mi suposicion era bien
fundada. No es en la perte anterior perdida 6 rota de
la mandibula que se encontraba el primer -diente, sino
que queda bien visible el alvéolo que ocupaba en la
parte conservada de la sínfisis, casi á unos 2 ctm. ade-
lante de la primera muela cuadrangular.
Para que *puedan apreciarse las relaciones que pre-
senta esta pieza con Nothrotherium y Nothropus, doy
de ella nuevos dibujos (figs. 11 v 12) vista por el lado
externo y de arriba para mostrar la posicion y el ta-
maño del alvéolo de la primera muela rudimentaria.
Acompaño igualmente los dibujos de la mandíbula de
Nothropus (figs 13 y 14) vista de lado y de arriba,
pues los que publicé Burmeister presentan el alvéolo
de la muela pequeña anterior colocado muy adelante,
ademas restauré el diente dándole un alto considerable
y una superficie de trituracion cortada oblicuamente en
(1) «No teniendo ä mi disposicion piezas originales no me atrevo a
contradecir 4 mi ilustre maestro, pero no puedo dispensarme de observar que
el examen de los dibujos de esta mandibula y de los alvéolos de los dientes,
presentan las mayores analogias con la mandíbula del animal descripto por el
mismo autor como Nothropus priscus. 3 No poderia quizás haber existido un
diente pequeño egual al de Nothropus, en la parte anterior rota del Cæ/odon
tarijensis, y no ser por consiguiente un Cæ/odon sind una especie mayor del
género Nothropus ?». (AMEGHINO, Contrib. al conocim. de los mamif. fos.
de la Rép. Arg. p. 700, a. 1889).
bisel’ Es claro que esa restauracion es equivocada, pues
se trata de un diente que estaba en via de atrofia, y
como tal debia ser bajo y truncado mas ó menos hori-
zontalmente como en el antiguo género Xyophorus.
Comparando estos dibujos puede verse el gran
parecido que hay entre el Nothropus priseus, y el typo
del Colodon taryensis de Burmeister que refiero al
mismo género. La diferencia principal consiste en la talla,
pues la mandíbula typo de Nothropus priscus es bas-
tante mas pequeña que la del animal de Tarija. Pero
Fig. 11,—Nothropus tarijensis (Burm). Amegh. Rama mandibular derecha,
vista por el lado externo, reducida 4 34 del tamaño natural, Pieza typo del Cœlodon
tarzjensis de Burmeister. Pampeano de Tarija.
esta diferencia de tamaño se debe en gran parte á una
notable diferencia en la edad de los individuos. Exa-
minando la rama mandibular, typo del Nothropus pris-
cus, tanto por la textura del hueso, como por la con-
formacion de las muelas que son considerablemente mas
oruesas en la base que en la corona, he podido cercio-
rarme que pertenece 4 un animal muy joven, y es ver-
daderamente sorprendente que Burmeister no se haya
apercibido de ello. El Nothropus priscus completamente
adulto debia aleanzar un tamado muy aproximado al
animal de Tarija, y no encuentro ningun caracter sufi-
cientemente acentuado para establecer entre ambos una
distincion genérica.
La diferencia especifica es evi-
dente, pues el ejemplar de Tarija se
distingue no solo por la atrofia no-
tablemente mayor de la primera muela,
pero tambien por el borde anterior
de la rama ascendente mucho mas
inclinado hacia atrás y por la aber-
tura externa de la rama lateral del
canal alveolar que es de tamaño
mayor y colocada mas al lado ex-
terno de la base de la rama as-
cendente.
Aunque el gravigrado de Tarija
no sea posible separarlo genericamente
de Nothropus, hay que reconocer que
presenta tambien un gran parecido
con Nothrotherium. En ausencia de
otras partes del esqueleto, con el
material actual toda la cuestion de-
pende del valor que se quiera atribuir
á la presencia 6 á la ausencia dei
Fig 12?.— Nothropus ta-
pequeño molar anterior en via de pines (Burm) Amegh. La
€ misma pieza de la figura an-
atrofia. terior, vista de arriba, redu-
cida á la misma escala ; a,
‘Burmeister: renrio, /lasvespecie de o nu ia fac nets
Tarija al género Coelodon (Nothro- "inerte
theriwm) porque creyó que solo tenia tres muelas, porqué
no se apercibid de la existencia del pequeno alveolo
anterior que estaba rellenado de tierra.
à Pero, basta realmente la presencia 6 la ausencia
de ese pequeño diente rudimentario para establecer con
seguridad una distincion genérica? Es dudoso, por las
razones que voy á exponer.
En WN. priscus y N. tarijensis el diente en cues-
tion se encuentra en via de atrofia y desaparicion. Es
posible que N. {arijense en la juventud tuviera el
mencionado diente tan desarollado como en Nothropus
priscus, mientras que esta última especie en edad avan-
zada quizas lo tuviera tan pequeño como N. {arijense.
Es tambien probable que en una edad todavia mas
avanzada que la del unico ejemplar conocido de Tarija,
la pequeña muela anterior desapareciera completamente
obliterandose el alvéolo. Si buscaramos pues la distincion
genérica basándonos exclusivamente en la ansencia ó en
la presencia de la primera muela podriamos tener el
caso de que uno de esos gravigrados fuera Nothropus
en la juventud y Nothrotherium en la vejéz.
Fig. 13.—Nothropus priscus Burm, Rama mandibular derecha (tipo), vista por
el lado externo, reducida 4 %{ del tamaño natural. Pampeano superior (piso bona-
erense) del rio Carcarañä en la provincia de Santafé.
Del mismo modo podria resultar que Mothrotheriwm
maquinense poseyera lapequeña muela anterior en la
juventud. En el dibujo del cráneo descripto por Rein-
hardt, se vé sobre el lado derecho, 4 un par de centi-
metros adelante de la primera muela, una pequena
perforacion que bien podria ser el ultimo vestigio del
alvéolo de la primera muela desaparecida. Teniendo pre-
sente que, aunque joven, el individuo se aproximaba de
la edad adulta, vemos que bien pude existir el primer
diente en los individuos mas jovenes.
Las ramas mandibulares de Nothrotherium maqui-
nense figuradas por Reinhardt com-
paradas con las de N. taryense
“son un poco mas arqueadas late-
ralmente y con la cara externa, al
lado de las muelas considerablemente
mas convexa. Pero se trata de un
caracter juvenil que desaparece con
la edad; se encuentra sobre la rama
mandibular de Nothropus priscus que
ja he dicho procede .de un individuo
joven.
La conclusion de esta investigacion
es que, Nothropus y Nothrotherium
deben ser dos generos muy cercano
y que se suceden uno á otro en el
tiempo. Nothropus larijensis es una
forma perfectamente intermediaria, pero
que por la presencia de la pequeña
muela anterior se aproxima mas de
Nothropus que de Nothrotherium. , ce Bum. Le mia
priscus Burm. La misma
Posible es tambien que el descubri- DS de aie ue à
miento de nuevos materiales Ilegue 4 SRE
demostrar que todos esos restos deben referirse á un
solo género.
dis Jal
"elit Ne ||
i N
= | NY
\
\
\
|
Relaciones y parentesco
Lund al encontrar los primeros restos de Nothro-
therium los refirió 4 un animal cereano de Megatherium,
separándolo luego como género distinto bajo el nombre
de Colodon. Mas tarde lo identificé con Meaalonyx,
reconociendo despues una vez mas que tambien esa iden-
tificacion era errónea, volviéndolo á separar como género
distinto.
— 100
Gervais consideró Nothrotherium como un interme-
diario entre Megatherium y Megalonyx.
Reinhardt despues de un estudio detallado del crá-
neo, de la dentadura y de la mayor parte del resto del
esqueleto, Ilega á la conclusion de que se trata de un
animal muy cercano de Megalonyx; demuestra tambien -
que el parecido con el Megathervum se encuentra limi-
tado exclusivamente á la dentadura, y que ese mismo
parecido era mas aparente que real. En esa época el
conocimiento de los gravigrados estaba limitado á los pocos
géneros de la formación pampeana 6 mas recientes, y esa
conclusion era entonces perfectamente exacta.
En 1886, Burmeister dando demasiada importancia
al parecido de la dentadura de Nothrotherium con la
del Megatherium, considera aquel género como mas cer-
cano de este ultimo que de Megalonyx, opinion á la
que por mi parte me adherí. Pero, corto tiempo des-
pués, ambos, aunque independientemente reconosciamos
que esta aproximacion no era la mas natural, y que la
opinion de Reinhardt que lo consideraba como mas cer-
cano de Megalonyx era perfectamente justificada.
En 1889 reconocí que el aliado mas próximo de No-
throtherium era el genero Nothropus todavia desconocido
en la época de Reinhardt, v últimamente reconoci que
ambos generos eran aliados y descendientes de los gra-
vigrados santacruzefios del género Hapalops 6 de géne-
ros del mismo grupo que este.
El profesor W. B. Scott en su reciente monografia
de los edentados santacruzeños confirma estas relaciones
y ha hecho comparaciones detalladas que dejan fuera
de toda discusion que Nothrotherium presenta en toda
su conformacion un mayor parecido con Hapalops (to-
mando este nombre en su sentido mas amplio), que con
Megalonya.
No es necesario que me extiénda en mas detalles
al respecto, pues esas relaciones con Megalonyx y con
— 101 —
los gravigrados de la formacion santacruzeiia pueden
verse en los respectivos trabajos de Reinhardt y Scott.
Pero voy á examinar aquellos caracteres que tienen
mayor importancia en la reconstruccion de las lineas
filogéneticas que reunen Megalonys y Nothrotherium a
los demas gravigrados.
Megalonyx y Nothrotherium son representantes de
una misma familia y pertenecen 6 vivieron con corta
diferencia en una misma época geologica. Se trata pues
de saber si el uno puede ser el decendiente 6 el ascen-
diente del otro.
Una de las observaciones mas curiosas que debe-
mos á Lund, es la de que los restos de Nothrotherium
por él descubiertos estaban acompafiados por una gran
cantidad de pequeños nódulos oseos de forma bastante
irregular.
Por el descubrimiento posterior de nódulos pareci-
dos con los esqueletos del género Mylodon, sabemos
que son huesecillos dérmicos que se encontraban colo-
cados en el espesor de la piel formando como una co-
raza rudimentaria.
Este caracter tan particular y verdaderamente ex-
“traordinario, con excepcion de Nothrothervum, solo se:
ha encontrado en representantes de la familia de los
Mylodontide, es decir en gravigrados con la última
muela inferior muy grande y bilobada. La presencia de
estas osificaciones se ha constatado en los géneros My-
lodon, Pseudolestodon y Glossotheriwm, pero no exis-
ten en los géneros Lestodon y Scelidolherium que son
de la misma familia y de la misma época.
Remontando hacia los tiempos geológicos pasados
se han encontrado huesecillos parecidos, ya sueltos ya
acompañando partes de esqueletos, en las formaciones
anteriores á la pampeana hasta la formacion entrerriana
inclusive. En cambio no se ha encontrado absolutamente
ningun vestígio de ellos ni en la formacion santacru-
zeña ni en ninguna de las formaciones anteriores que
contienen huesos de gravigrados.
La formacion santacruzeña es aquella que contiene
mayor número de restos de gravigrados y de formas
mas variadas; si alguno de esos gravigrados hubiera
tenido huesecillos parecidos, es poco menos que imposi-
ble que no se hubiera encontrado alguno aislado. Pre-
cisamente se han buscado con empeño, pero inutilmente. '
Se deduce de esto que se trata de un caracter adquiri-
do en época relativamente reciente, posterior á la época
de la formacion santacruzeña, conclusion á la que ya
habia legado en 1898 al tratar de esta misma cuestion.
La presencia de estos huesecillos en el género re-
lativamente muy reciente Wothrotherium, mientras que
no se han encontrado en ningun otro representante de
la misma familia ni en la familia aliada de los Mega-
therude; la presencia de los mismos huesecillos en va-
rios de los géneros .pampeanos de la familia de los
Mylodontide y su ausencia en otros géneros de la mis-
ma época, son hechos que prueban que ese caracter no
solo es reciente sino que tambien ha aparecido indepen-
dientemente en géneros distintos de diferentes familias.
Si bien, como lo ha establecido Reinhardt, No-
throtherium es indiscutiblemente de la misma. familia
que Megalonyx, hay entre ambos géneros algunas dife-
rencias tan profundas que demuestran que el parentesco
que los une no es tan inmediato.
Sin dar demasiada importancia á la forma mas
prolongada y mas angosta del cráneo de Nothrotherium
comparado con el de Megalonyx, debese tener presente
que la parte posterior formada por los parietales es mas
elevada y globulosa, pareciéndose á los géneros santa-
cruzeños Hapalops, Pseudhapalops y Xyophorus. Esa
parte del craneo concuerda además con la correspon-
— 103 —
diente de los mencionados géneros en la ausencia de la
cresta sagital tan desarrollada en Megalonyx. Por los
caracteres mencionados, Nothrotherium representa una
forma menos especializada que Megalonyx; pero en cam-
bio por la transformacion de los pterigoideos en grandes
cavidades aereas, aparece como mucho mas especializado
que este último.
La misma presencia de caracteres apuestos se
constata en la parte anterior. En el craneo de No-
throherium la parte anterior es angosta, baja, del-
gada y prolongada hacia adelante, caracteres que indi-
can una evolucion poco avanzada. La misma region del
cráneo de Megalonya es ancha, alta, gruesa, corta y
como truncada transversalmente, caracteres que indican
al contrario una evolucion muy avanzada. Pero en cam-
bio, Megalonyx que tiene cinco dientes en cada lado
aparece como una forma considerablemente mas primi-
iva que Nothrotherium que solo tiene cuatro.
En esta parte la evolucion de ambos géneros se
ha efectuado no en sentido divergente sinó en direccio-
nes completamente opuestas. En Megalonys, la muela
“anterior se ha alejado de la segunda hasta ocupar el
ángulo anterior externo de los maxilares, aumentando
considerablemente de grueso y de largo, tomando una
forma arqueada que le dá un cierto aspecto caniniforme,
aunque la corona sea truncada transversalmente. En
Nothrotherium la misma muela fuese reduciendo gra-
dualmente de tamaño hasta que concluyé por desapa-
+ recer.
En la conformacion del astrágalo aparece otra di-
ferencia tan importante como la de la dentadura.
Es sabido que este hueso tiene adelante una pro-
longacion Hamada cabeza, que se articula con el esca-
foides v 4 menudo tambien con el cuboides. La super-
ficie de articulacion con el escafoides puede ser plana 6
convexa; cuando no hay contacto con el cuboides, la
— 104
- cabeza es generalmente convexa v mas ,6 menos he-
misférica.
El astrágalo de los gravigrados, como tambien el
de los Manide y Myrmecophagide, se distingue del
de todos los demás mamiferos por un caracter muy par-
ticular. En estos animales la cabeza del astrágalo
lleva una superficie de articulacion para el escafoides,
de forma côncava, esto es, excavada adelante en forma
de copa. El astrágalo de Megalonyx presenta esta mis-
ma conformacion tan caracteristica de los edentados gra-
vigrados, de los pangolines v de los osos hormigueros.
A este respecto Nothrotherium se separa de todos
los gravigrados hasta ahora conocidos, pues tiene un as-
trágalo provisto de una cabeza larga, limitada por un
cuello bien pronunciado, y con la superficie de articulacion
para el escafoides no excavada en forma de copa sinó
convexa y hemisférica.
Estas diferencias tan profundas y en direcciones
tan opuestas, demuestran claramente que Nothrotherium
y Megalonyx son dos ramas divergentes de un mismo
tronco que se han separado una de otra desde tiempos
geológicos muy antiguos.
Ese tipo antecesor comun nos es todavia descono-
cido. La diversificacion de ambas ramas se efectuó pro-
bablemente al principio de la época terciaria pues las
encontramos: ya separadas en la formacion santacruceña.
Esta separacion de ambas ramas á partir de la
época santacruceña la reconoci desde la primera vez que
me ocupé de este género en 1889; desde entonces dejé es-
tablecido que Megalonyx era un descendiente de Zucho-
læops en su sentido mas amplio, y que Wothrotherium
descendia de Hapalops (Trematherium) tomado igual-
mente en su mas lata acepcion, pues entonces suponia que
Trematherium fuera el gravigrado santacruceño que mas
se parecia & Hapalops.
— 105 —
Las relaciones filogéneticas de ambos géneros las
expresé entonces en la siguiente forma:
MEGALONYX NOTHROTHERIUM
I
PLIOMORPHUS NOTHROPUS
EUCHOLŒOPS TREMATHERIUM
ces
Los numerosos materiales eucontrados desde enton-
ces, no han modificado de una manera fundamental el
cuadro precedente, que en sus grandes rasgos se encuen-
tra confirmado por los trabajos recientes del profesor
Scott. |
Examinando ambas lineas en detalle, los nuevos
materiales recogidos desde entonces permiten Ilenar al-
gunos de los claros, sin que por eso el cuadro deje de
quedar bastante incompleto.
Scott separa una especie de ÆZuchæolops bajo el
nombre genérico de Megalonichotherium (*) & causa de
su mayor parecido con el género Megalonyx en la for-
ma del contorno de la primera muela superior. Concor-
dando con él en cuanto á que hasta ahora es este el
eravigrado santacruceño mas cercano de Megalonyx, no
creo que la diferencia indicada en la forma de la pri-
mera muela sea suficiente para autorizar la creacion de
un nuevo género. Desviaciones parecidas en la confor-
(eNews SCOLL 1. Cp: 2795 pl KEN
6 e
macion de la mencionada muela se presentan 4 menudo
en varios otros géneros de gravigrados santacruceños,
especialmente en Hapalops.
Entre esta torma y Megalonyx de los Estados Uni-
dos, hasta ahora no se conoce nada mas que Pliomor-
phus de la formacion entrerriana de Paraná. Queda un
gran hiatus por llenar entre Æucholæops (Megalony-
chotherium) atavus del santacruceño y Pliomorphus del
Paraná, y otro igualmente grande entre este último gé-
nero y Megalonyx del cuaternario norteamericano.
La linea que conduce á Nothrotherium es un poco
mas completa, aunque no sea por ahora cosa facil de-
terminar con precision la forma santacruceña que cons-
tituye el punto de partida.
Scott considera como antecesor santacruceño de
Nothrotherium el género Hapalops en el sentido am-
plio que él le dá.
El género Hapalops en sentido restringido como
vo lo empleo, es el que mas se acerca á Nothrotheriwm
en la conformacio de la parte superior del cráneo, como
es facil cerciorarse de ello comparando la figura 15 de
Hapalops brachycephalus con la figura 5 que repre-
senta Nothrotherium. La conformacion general es la
misma. La diferencia mas notable consiste en la parte
anterior formada por los nasales que es bastante mas
larga en Nothrotherium que en Hapalops. Coinciden
en la persistencia de las suturas y en la ausencia de
cresta occipital proeminente. Sin embargo, las especies
del género Hapalops tiene la region parietal menos glo-
bulosa, v muestran una cresta sagital, bastante pronun-
ciada en unas especies y poco aparente en otras, pero
que de cualquier modo indica una evolucion mas avan-
zada que Nothrotherium en el cual no hay vestígios
de cresta sagital.
— 107 —
Este caracter, unido á la posicion de la primera
muela que es bien
desarrollada y colocada en la parte
mas anterior de la region palatina de los maxilares, indi-
can claramente que
Nothrotherium no
constituye su punto
de partida.
Un mayor pare-
cido con Notnrothe-
rium presentan las
especies que separo
bajo el nombre ge-
nérico de Pseudha-
palops y que Scott
incluye en el género
Hapalops. En las es-
pecies de este grupo
(fig. 16) la region pa-
rietal es mas above-
dada que en Hapa-
lops, no hay cresta
sagital v la region
frontal es deprimida,
caracteres que se
presentan en la mis-
ma forma y disposi-
cion que en Nothro-
thervum.
El occipital tam-
poco forma cresta
lambdoidea, y en su
Hapalops aunque muy cercano de
vara,
a
=.
IE Te
Er,
wi
VS) ee OD SS tra,
. Fig. 15.—Hapalops brachycephalus Amgh. Cráneo visto
de arriba, reducido 4 34 del tamno natural. Formacion
santacrucena de la Patagonia austral.
parte superior se inclina hacia adelante; esta parte del
occipital en algunas especies se extiende sobre una parte
considerable de la
superficie superior del cráneo, en
donde penetra entre los parietales en forma de un pro-
longaniento redondeado 6 convexo pero de contorno
— 108 —
bastante irregular. Esta parte superior del occipital cor-
responde al hueso independiente que se encuentra en
varios grupos de mamiferos y lleva el nombre de in-
terparietal. La presencia de un interparietal ha sido
siempre considerada como un caracter primitivo. Encuen-
Fig. 16.—Pseudhapalops fortis Amgh. Mitad postorior del craneo,
vista de arriba y de Jado, reducida 4 34 del tamaño natural. For-
macion santacruceña de la Patagonia austral.
tra-se visible en individuos muy jovenes de algunos
gravigrados pampeanos (Scelidothervum ).
Siguiendo el desarrollo de este hueso y la evolu-
cion de la parte posterior del cráneo de los gravigrados
no
al través de los tiempos terciarios, he podido conven-
cerme de que el interparietal léjos de ser de origen
primitivo es al contrario de adquisicion relativamente
reciente; es esta parte superior del occipital que empez6
A osificarse por un centro independiente aislandose del
supraoccipitel; es en realidad un hueso vormiano de
grandes dimensiones.
Pseudhapalops coincide tambiem con Nothrothe-
rium en la posicion de la apertura de la rama externa
del canal alveolar, y en la region palatina de los maxi-
lares que es un poco mas prolongada, distinguiéndose
de Hapalops por la presencia constante de un prolon-
gamiento predental qu falta en las especies de este úl-
timo género. Es claro que los gravigrados que poséen
este prolongamiento predental de la region palatina de
los maxilares representan un tipo mas primitivo que los
que carecen de él. |
Apesar de este parecido, la parte anterior del rostro
de Pseudhapalops es todavia demasiado corta y lleva
un diente anterior demasiado desarrollado, y demasiado
caniniforme para que este género pueda colocarse en la
línea antecesora directa del gravigrado de las cavernas
brasilenas. El diente anterior, en la linea que conduce á
Nothrotherium tiene que haber ido disminuyendo gra-
dualmente de tamaño hasta desaparecer.
De estas consideraciones se desprende que el an-
tecesor santacruceño de Nothrothervum debe ser un
gravigrado con prolongamiento palatino predental de los
maxilares bastante acentuado, y con la primera muela en
via de reduccion.
Estas condiciones se encuentram en varias de las
especies que reuno en un grupo que designo con el
nombre de Xyophorus, pero que Scott incluye en el
género Hapalops. Las especies de Xyophorus se distin-
guen precisamente por un prolongamiento predental mas
— 110 —
6 menos acentuado de la region palatina de los maxi-
lares, y por la primera muela que es muy pequeña, y
no de aspecto caniniforme sino truncada horizontalmente
y evidentemente en via de atrofiarse.
Desgraciadamente, las especies de este género se
conocen por fragmentos muy incompletos. Aquella que
en mis coleccionos se encuentra mejor representada es
Nyophorus sulcatus, de la cual, además de restos ais-
lados incompletos,
conozco el maxilar
y la mandíbula de
un mismo individuo
y con toda la den-
tadura.
Esta especie, no
solo es colocada por
Scott en el género
Hapalops, sino que
tambien la reune con
Hapalops elonga-
tus, especie á la que
atribuye una tan
grande variabilidad
que le permite in-
cluir en la misma
ejemplares con mue-
las elipticas y otros
con muelas rectangulares, con maxilares truncados ade-
lante 6 con prolongamiento predental, con ramas man-
dibulares que tienen la abertura de la rama externa del
canal alveolar colocada adelante de la rama ascendente
ó sobre el lado externo de ella, ó que presentan la misma
abertura unas muy grande y otras atrofiada ó casi obli-
terada como es el caso de Xyophorus sulcatus.
Las figuras 17 y 18 representan el maxilar y la
rama mandibular de esta especie. Probablemente es este
Fig. 17.— Xyophorus sulcatus Amgh. Maxilar superior
derecho, visto de abajo y de lado, en tamaño natural. Tipo.
Formacion santacruceña de la Patagonia austral.
— 111 —
uno de los gravigrados santacruceño que mas se parece
à Nothrotherium y & Nothropus, v tambien el que
tiene las muelas de contorno rectangular mas perfe-
cto; las muelas inferiores segunda y tercera son de con-
torno tan rectangular como las correspondientes de Me-
gathervum.
En la parte palatina anterior del maxilar de Nyo-
phorus sulcatus se vé un prolongamiento predental bien
pronunciado; este prolongamiento es todavia mas notable
sobre el costado, endonde lleva una fosa predental que
no se encuentra en los representantes del género Hapa-
lops ni tampoco en los de Pseudhapalops.
El primer diente está implantado en una convexi-
dad lateral del maxilar, pero el diente mismo es pequeno,
de seccion eliptica, con la corona cortada transversalmente
y evidentemente en via de reduccion. Sobre la cara
externa del maxilar, detras de la protuberancia del ma-
xilar que contiene la primera muela, se vé una gran
fosa preorbitaria, la cual mas 6 menos acentuada existe
en casi todos los gravigrados santacruceños. De esta
fosa preorbital, sobre el cráneo de Nothrothervum solo
quedan vestigios poco apreciables, pues se ha reducido
á causa de la supresion de la primera muela; pero, lo
que es importante es que sobre el maxilar de Nothro-
therium, en la parte anterior y adelante del vestígio de
alvéolo de la primera muela, hay un hundimiento que
evidentemente corresponde á la fosa predentaria de
Nyophorus sulcatus.
Las otras cuatro muelas superiores de Xyophorus
sulcatus son de contorno casi igual á las correspondien-
tes de Nothrothervum con excepcion de la última que
proporcionalmente no es tan pequena ni tan comprimida
en sentido antero-posterior. Estas muelas son mas an-
chas sobre el lado interno que sobre el externo, y las
tres primeras llevan un surco perpendicular externo bien
acentuado, absolutamente como en las muelas correspon-
dientes del género de las cavernas del Brasil.
En la mandibula (fig. 18), la primera muela sepa-
rada de la segunda por un diastema bastante largo, es
muy pequeña, de contorno eliptico y truncada horizon-
talmente. La segunda y tercera son de contorno rectan-
gular perfecto, con
la corona cruzada
por dos erestas
transversales para-
lelas separadas por
un valle ancho y
profundo. Tienen el
lado externo un po-
co deprimido y el
interno con un sur-
co vertical ancho y
bastante profundo.
La última muela se
de contorno subei-
lindrico. La cara ex-
terna de la rama
mandibular al lado
de las muelas es
fuertemente conve-
xa. El orificio de la
rama del canal alve-
olar esta colocado
Fig. 18.— Xyophorus sulcatus. Amgh. Rama mandi-
bular izquierda; a, vista por el lado externo; e, vista por a A oe tS
el lado interno; à, visto de arriba, en tamano natural. o, sobre el lado extel no
orificio de la rama externa del canal alveolar. Tipo. For- : as ‘ à
macion satacrucena de la Patagonia austral. de la rama ascen-
dente, pero es tan
pequeno que casi pasa desapercibido.
Tampoco pretendo que sea Xvophorus sulcatus el
punto de partida que conduce 4 Nothrothervum, pues
tiene el rostro demasiado corto y el orifício de la rama
externa del canal alveolar demasiado pequeño. pero ese
— 415 —
punto de partida puede ser otra especie del mismo gé-
nero, con la parte predentaria de los maxilares mas
alargada v el orifício de la rama externa dei canal al-
veolar de mayores dimensiones.
Esto parece comprobarse por la conformacion par-
ticular del astrágalo de Nyophorus.
Hay un pequeño gravigrado de Santa Cruz que he
colocado en el género Pseudhapalops; es el Ps. obser-
vationis. El tipo de la especie es un trozo de rama
mandibular izquierda con las dos últimas muelas, y un
trozo de la rama mandibular derecha con la primera
muela piezas que estaban acompañadas del estrágalo y
calcaneo izquierdos.
Scott que los ha examinado, dice (1) que el astró-
galo que acompaña la mandibula que constituve el tipo
de Pseudhapalops observationis, se ha encontrado reu-
nido á ella solo accidentalmente, pues debe pertenecer
a una especie mas pequeña y quizas á otro género.
Por mi parte no tengo la misma duda, pues dicho
astrágalo se articula perfectamente con el calcáneo, y las
cuatro piezas fueron encontradas reunidas como si fueran
do un mismo individuo. Lo que hay es que la deter-
minacion que de ellas hue en 1891 no es completamente
exacta, pues en presencia de la gran variabilidad de los
gravigrados santacruceños, recien empezaba á formarme
una idea aproximada de los caracteres que distinguen
los diferentes géneros como tambien los grupos de ór-
den superior.
Examinando de nuevo el tipo veo que entra en
el género Nyophorus, pues salvo el tamaño un poco
menor corresponde exactamente á la misma parte de
Xyophorus sinus.
(DP EWE BS Sconr les pa 242.
— 114 —
La primera muela es muy pequeña, cilindrica, trun-
cada horizontalmente y con el centro de la corona ex-
cavada, siendo este último un caracter igualmente bien
aparente en la especie tipo del género, el Xyophorus
simus. |
El Xyophorus simus posée un astrágalo que en
relacion con el de la generalidad de los gravigrados es
tambien proporcionalmente pequeño, y que ademäs pre-
senta la misma forma que el de
Nyophorus observationis, forma
muy distinta de la que se observa
en HHapalops y Pseudhapalops.
En estos dos últimos géneros
la cabeza articular del astrágalo
presenta la superficie de articula-
cion escafoidal excavada en forma
de copa como en todos los de-
más gravigrados, de modo que
visto el hueso de arriba, esta ex-
savacion forma en la cabeza una
curva entrante que le dá un as-
pecto muy caracteristico.
Muy distinta es la conforma-
cion de esta parte en los astrá-
calos de Nyophorus observatio-
| nis y Xyophorus simus. La su-
Fig. 19. Xyophorus simus Amgh, . .
Astrágalo derecho ; a, visto de arri- perficie articular para el esca-
natural. Formacion santacrueena de foides (fig. 19) no es excavada
la Patagonia austral. . ,
en forma de copa, sino apenas
un poco deprimida; además, esta depresion no mira ha-
cia adelante como en los demás gravigrados, sino obli-
cuamente hacia arriba de manera que la cabeza no
muestra adelante la curva entrante mencionada mas ar-
riba. Esta modificacion de la cabeza es una tendencia
evidente hacia le forma hemisferica que distingue el
estrágalo de Nothrothervum.
— 115 —
Poseo varios astrágalos aislados de distintos ta-
maños que presentan el mismo caracter de una manera
mas 6 menos acentuada, que sin duda corresponden 4
diferentes especies de Xyophorus, algunas de talla rela-
tivamente considerable.
En el astrágalo que atribuyo 4 Ayophorus atlan-
ticus por haberse encontrado ak lado de la pieza tipo,
esta evolucion hacia la forma caracteristica de Nothro-
mv”
; Fig. 20. — Xyophorus atlanticus as Astrágalo derecho; a, visto de arriba ; 7,
beta Saio a visto’ de adelante, en tamano natural. Formacion santacrucena de la
therium es todavia mucho mas acentuada. La cabeza
del astrágalo (fig. 20) es mas prolongada y separada
del cuerpo del hueso por un cuello mejor definido. La
curva entrante de la faceta escafoidal es casi nula, v la
excavacion en forma de copa está reemplazada por una
pequena depresion vuelta en parte hacia arriba; la ca-
beza es de forma hemisferica ya casi tan perfect a
como en Nothrotheriwm. Esta concordancia proporciona
— 116 —
una prueba por asi decir definitiva, de que Ayophorus
es por hoy el antecesor mas antiguo que se conoce de
la linea que conduce 4 Nothrotherium.
A estos datos agregasé que en Xyophorus simus,
aúnque el único
paladar que de
él poseo está des-
truido adelante y
en muy mal es-
tado de conser-
vacion, la parte
que existe (fig.
21) demuestra
ÿ que la region pa-
latino-predentaria
de los maxilares
se extendia nota-
bleménte mas
adelante que en
X, sulcatus. Tam-
bien la última
muela superior es
mucho mas pe-
queña que la pe-
núltima y con
un fuerte surco
longitudinal en la
cara posterior,
acercandose asi
I
HD | 4
Al |
Fig. 21. — Xyophorus simus Amgh. Parte anterior del a pe Ls
craneo, vista por la superficie palatina y de lado, en tamaño de la de Noth Om
natural. Formacion santacruceña de la Patagonia austral. e
; therium que la
correspondiente de X. sulcatus.
El cráneo descripto y figurado por Scott bajo ei
nombre de Hapalops vulpiceps (*) es de un animal
(5) Wi Be Score pas: 253, PI, SOLTY, ips: vaio as
— 117 —
muy parecido, tanto por el prolongamiento de la region
predental de los maxilares como por el tamaño propor-
cionalmente pequeño de los caniniformes y tambien por
la pequeñéz de la última muela superior; coincide tam-
bien en la linea
decendente y co-
mo deprimida
de la parte su-
perior del rostro
y en la coloca-
cion del orifício
de la rama ex-
terna del canal.
alveolar. Por mi
parte no me
queda duda de
que Hapalops
vulpiceps entra
en el 9 énero
Nyophorus y es
una de las es-
pecies mas pro-
ximas de la li-
nea que conduce
à Nothrothe-
rium.
Entre Nyo-
phorus del san-
tacruceño y el
precursor inme-
diato de No-
throtherium, 6
sea Nothropus
Fig. 22.— Pronothrotherium typicum Amgh. Parta ante-
terior del cráneo, vista de abajo y de lado, reducida á % del
tamaño natural. Formacion araucana del valle de Santa Maria,
en Catamarca.
del pampeano quedaba un hiato considerable. Esta gran la-
guna acaba de Ilenarse en parte con el descobrimiento
de un nuevo género en el mioceno de Catamarca, que
Pere
levará el nombre de Pronothrotherium typicum, n. gen.
n. sp. (fig. 22). Se parece 4 Xyophorus en la linea
superior del rostro deprimida y descendente hacia abajo,
en el prolongamiento de la region palatina predenta! de
los maxilares, y en la colocacion y poco desarrollo de
la primera muela. En la conformacion de las otras mue-
las presenta un gran parecido con Xyophorus sulcatus.
El parecido es todavia mayor con Nothrotherwum.
La region de los nasales es prolongada como en este
último género y las muelas son del mismo tipo. Puede
decirse que la única diferencia notable consiste en la
presencia de la primera muela en el cráneo de Prono-
throtherium que falta en el de Nothrotherium. Pero
esta muela, de contorno eliptico, es muy pequeña y en
via de desaparicion en un grado ya tan avanzado que
el alveolo forma sobre el lado externo del maxilar una
convexidad poco notable. Debido igualmente al poco des-
arrollo de la primera muela, la fossa preorbital del
maxilar es poco profunda, existiendo adelante un vesti-
gio de la fosa predental. Con la supresion completa de
la primera muela desapareceria la pequeña convexidad
del alveolo de esta, borrandose las fosas preorbital y
predental y esta region del cráneo tomaria el mismo
aspecto que presenta en Nothrotherwum.
Este mismo género Pronothrotherium parece estar
representado en la formacion entrerriana por una especie
de menor tamaño de la que hasta ahora solo conozco
restos muy incompletos.
Segun los conocimentos actuales expuestos en las
páginas que preceden, las relaciones filogenéticas de No-
throtherium y Megalonyx representadas en una forma
gráfica serian las que condense el esquema que sigue.
Es ápenas un poco mas completo que el publiqué en
1889, pero está dispuesto de modo que aparezcan in-
mediatamente á la vista los hiatos que existen entre las
i
|
— 119 —
distintas formas. Las lagunas que aparecen nos demues-
tran que todavia quedan numerosas formas intermedias
por descubrir para poder trazar lineas menos discon-
tinuas.
MEGALONYX
CUATERNARIO
BONAERENSE
(Pampeano superior)
ENSENADENSE
(Pampeano inferior)
PUELCHENSE
HERMOSENSE
ARAUCANENSE
PLIOMORPHUS
MESOPOTAMENSE
PARANENSE
NOTHROTHERIUM
NOTHROPUS TARIJENSIS
|
NOTHROPUS PRISCUS
PRONOTHROTHERIUM TYPICUM
PRONOTHROTHERIUM SP?
Hiato geologico y paleontologico
EUCHOLOEOPS
SANTACRUCENSE (Megalonychotherium)
NoroHIPPIDENSE
PaTAGONICO
X YOPHORUS
S$ SO
— 120 —
Aleunas consideraciones generales sobre los edentados
Estamos muy lejos de la época en que se suponia
que los edentados eran de aparicion relativamente re-
ciente, y que representaban ramas regresivas degeneradas
6 envejeeidas de otros grupos de mamiferos de organi-
sacion mas perfecta.
Muchos afios van ya, que en la disposicion sisté-
matica de los mamiferos siempre coloco los edentados
despues de los marsupiáles, considerándolos como mas
primitivos que estos y mas cercanos de los monotremos.
Inmediatamente á continuacion de los edentados coloco
siempre los cetaceos y luego los monotremos conside-
rando los tres grupos como descendientes de un mismo
tronco.
La colocacion de los cetaceos reposa sobre todo
en corsíderaciones teóricas. Hasta ahora permanecen
refractarios á toda solucion practica 6 de hecho, pues
no se encuentran los antecesores fósiles que pudieran
confirmar 6 desautorizar las deducciones teóricas.
No sucede lo mismo con los edentados. Sus restos
fósiles se encuentran en todos los horizontes del ter-
ciario v del cretaceo superior y sin duda si encontrarán
en capas aun mas antiguas. Lo mas notable es que
esos restos, por mas antiguos que sean, no presentan
desviaciones que los acerquen á otros tipos de mamiferos
con la sola excepcion de los monotremos. A este res-
pecto, la concordancia es tan perfecta que actualmente
tomando en consideracion las formas fósiles no es po-
sible trazar una linea bien definida entre monotremos
y edentados,
Ambos grupos, con los caracteres que actualmente
poséen son de origen relativamente reciente, esto es de
la época terciaria. Los antecesores cretáceos de unos y
otros constituian un solo grupo en el cual se encuentran
reunidos los principales caracteres actuales de los eden-
tados y de los monotremos, conjuntamente con otros
que no se han transmitido á ninguno de los represen-
tantes vivientes ó de las últimas épocas geológicas. Todo
parece indicar que los edentados y los monotremos se
separaron de los reptiles independientemente de los de-
mas mamíferos.
Actualmente estoy occupändome del estudio de esta
cuestion, que espero tendré la oportunidad de tratar en
detalle en un trabajo especial. Pero no puedo sustraerme
al deseo de anticipar á lós lectores de este artículo, un
breve resumen 6 sintesis de las conclusiones á que me
conduce el estudio del material de que dispongo.
1º Los edentados del antiguo continente reunidos
bajo el nombre de Nomarthra, son verdaderos edenta-
dos y no animales de un origen independiente como
últimamente se pretendia. La simplicidad en la articu-
lacion de las vértebras lumbares se encuentra en los
edentados fósiles mas primitivos de Sud-América.
2º Los Manidæ tuvieron representantes en Sud-
América y tienen un origen comun con los Myrmeco-
phagide. La analogia de conformacion puede seguirse
casi hueso por hueso. q
3. Los Orycteropidæ descienden de los armadillos
primitivos de Sud-América, de los que se separaron al
fin de la época cretacea. Las diferencias que separan los
Orycteropidæ de los armadillos primitivos son el resul-
tado de especializaciones recientes.
4º Los tardigrados 6 perezosos es un grupo muy
reciente, posterior á la época santacruceña y que se
constituyó por una especializacion de representantes del
grupo de los Megalonychide (Trematherium),
5º Los gravigrados se aproximan de los Myrme-
cophagidæ y Wanidæ y se constituyeron desprendiendose
de la linea que conduce 4 estos últimos dos grupos.
6° Los edentados primitivos que constituyen el
tronco de origen de los Manide, de los Marmecopha-
gidæ y de los Gravigrada se constituveron despren-
diéndose de representantes acorazados del grupo de los
armadillos (Dasypoda).
7º Los Dasypoda primitivos descienden de los
Peltatelordea.
8º Los Peltephilide constituyen el grupo mas
especializado de los antiguos Peltateloidea.
9º Los Glyptodontia son una especializacion de
los Dasypoda primitivos de los últimos tiempos de la
época cretacea.
10º Los Monotremata actuales representan una
rama sumamente especializada de los antiguos Peltate-
loidea (Astegotherium, Prostegotherium, etc.)
Los principales caracteres primitivos de este grupo
antecesor comum de los Edentata y Monotremata son:
A. Cuerpo protegido por escamas óseas, no unidas
por suturas sino formando filas transversales ó imbricadas.
Este caracter se ha conservado hasta los géneros santa-
cruceños Peltephilus y Stegotherium, y degenerado en
escamas corneas se conserva en los Manide actuales.
B. Ausencia de sistema pilifero que se desarrolló
despues independientemente en los distintos grupos.
CG. Presencia de dientes incisivos. Mas 6 menos
desarrollados en unos casos, bajo una forma rudimentaria
en otros, se han conservado en algunos Dasypoda, en
los Peltephilidæ, v en algunos representantes del suborden
de los Glyptodontia y de la familia de los Myrme-
cophagide.
D. Dientes muy numerosos, pequeños y simples.
Este caracter se encuentra en algunos Dasypoda extin-
guidos aun no descriptos fOdontozaëdyus) y ha persistido
en parte en el Priodontes actual. Encuentrase tambien
en la juventud y bajo una forma rudimentaria en algunos
Myrmecophagide.
E. Existencia de una doble denticion. Este ca-
racter se encuentra en el antiguo género Protobradys y
ha persistido hasta los géneros actuales Tatu y Ory-
cteropus.
Ff. Cráneo con el hueso cuadrado y con el cua-
drato-jugal separados del squamosal por suturas bien
distintas. Este caracter se encuentra en los Peltateloidea
Peltephilus, Epipeltephilus (1) etc, y se observa tam-
bien aunque en forma menos aparente, sobre los pri-
meros gravigrados de los últimos tiempos de la época
cretacea.
Esta separacion del cuadrado jugal y del cuadrado
ha sido señalada por el Dr. Sixta en los cráneos de
individuos jovenes de los monotremos actuales.
G. Omoplato con un coracoideo y un epicoracoideo
distintos. Este caracter se encuentra en ejemplares jo-
venes de Peltephilus, Epipeltephilus, ete, en algunos
gravigrados igualmente jovenes, y tambien sobre algunos
Myrmecophagide. El coracoideo permanece separado
hasta muy tarde en los gravigrados mas antiguos y
tambien en algunos tardigrados. La separacion de los
tres huesos persiste y es caracteristica de los mono-
tremos actuales.
(1) En la descripcion que di recientemente de este género, digo que
ya no hay vestigios de la sutura que separa el cuadrado. Mejor limpiada la
pieza de la ganga que la envolvia, me apercibo de que se conservan vestigios
bien aparentes de la mencionada sutura.
La relacion filogénetica de estos distintos grupos es
aproximadamente la que expresa el cnadro adjunto.
Monotre- Oryctero- Myrmeco-
mata pide Manidæ phagida Fardigrada
Dasypoda Glyptodontla
Gravigrada
Gravigrada- Basypoda — Pettephitidee
\
Astegotherlda
rogravigrada
Peltateloldea
(Astegotherium, etc}
A DISTRIBUIÇÃO DE CAMPOS B MATTAS NO BRAZIL
POR
AERMANN von IHERING
ESTAMPAS I-VII
O fim do presente escripto é o de acompanhar com
algumas palavras o mappa que juntamente publico e que
se refere 4 distribuição des campos e das mattas na
America meridional em geral e no Brazil em particular.
Antes de participar os dados especiaes em que o
nosso mappa se baseia, será conveniente expôr em al-
gumas palavras as minhas ideas sobre este assumpto e
varias questões que a elle se ligam.
A matta virgem do Brazil é provavelmente a ma-
nifestação mais esplendida e luxuriosa, que se conhece,
da vegetação arborea do mundo actual. E” difficil salien-
tar em poucas palavras os traços característicos destas
mattas em comparação com as de outros paizes, por
exemplo com as florestas européas. Talvez possamos
indicar n'este sentido como em especial caracteristicas
as seguintes particularidades :
1.) A grande diversidade das especies de plantas
arboreas que compõem as mattas do Brazil ;
2.) A conservação quasi continua das folhas nas
copas, sendo pequeno o numero das arvores que no in-
verno ou ao começo da primavera largam as folhas;
3.) O grande numero de plantas trepadeiras que,
enliando-se nos troncos, muitas vezes sobem até o cimo
da arvore;
4) A riqueza de epiphytas, que vivem nos troncos
e galhos das arvores e entre os quaes predominam as
orchidaceas, bromeliaceas, cactaceas, fetos, ete.;
5.) As dimensões consideraveis que alcançam certas
plantas monocotyledoneas, taes como palmeiras, fetos arbo-
rescentes e bambuseas ;
6.) O rico desenvolvimento de plantas herbaceas,
arbustos, etc, que cobrem o chão, difficultando a pas-
sagem.
Em comparação os campos parecem muito unifor-
mes, em vista da grande predominancia das gramineas.
Acontece entretanto que são relativamente raros os
campos compostos quasi exclusivamente de gramineas e
hervas baixas, os chamados campos limpos. Muitas vezes
notam-se nos campos arbustos e outras plaants mais ou
menos altas, representando esta combinação de plantas os
campo sujo. A’ medida que se juntam arbustos, muitas
vezes espinhosos, cactaceas e arvores baixas, apparecem as
formas vegetaes conhecidas sob os nomes de carrascaes,
restingas e cerrados. Mattas baixas no meio dos campos
são designadas como catingas e quando as mattas se
assemelham, pela sua composição, 4 matta virgem, appa-
recendo, porém, isoladas no campo, como ilhas n'um
grande mar, dá-se-lhes o nome de capôes. Uma forma
de matta um tanto rachitica é a catanduva, que se-
gundo a opinião de alguns auctores é influenciada no seu
crescimento pelas queimas dos campos. Como se vê a
passagem entre as diversas formações vegetaes é quasi
insensivel. O leitor que desejar informar-se a respeito
desta materia, fará bem em consultar o interessante ar-
tigo do Snr. Alberto Lofgren (N° 27).
Possuimos tambem em nossa literatura duas obras
dedicadas 4 descripção e discussão scientifica da flora do
Brazil meridional e que de um modo especial se oceupam
dos caracteres biologicos, que as plantas dos campos bem
como as das mattas apresentam, em consequencia de sua
adaptação ás condições especiaes em que vivem. Refiro-me
ao livro de Lindmann (Nº 26) sobre a flora do
Rio Grande do Sul, do qual nos deu uma excellente
traducção o Snr. Lofgren, e 4 obra de Warming (N.º 44),
sobre a flora de Lagoa Santa em Minas Geraes.
Os autores citados dão algumas informações tambem
sobre a distribuição geographica das principaes formações
de vegetação nas regiões por elles examinadas. E7 pre-
ciso, entretanto, para muitos fins, ter informações o quanto
possivel exactas sobre a distribuição de campos e mattas
no Brazil e esta necessidade a mim se fez sentir duramente
por occasião de meus estudos sobre a distribuição geogra-
phica das aves e dos mammiferos do Brazil. Procurei
pois taes mappas, como são encontrados nas obras sobre
a distribuição geographica das plantas. Os principaes
entre estes mappas são os seguintes:
1) À. Grisebach (Nº 18). O respectivo mappa,
sobre as regiões de vegetação do mundo, indica apenas
as principaes provincias, sem entrar em detalhes a res-
peito das formações vegetaes.
2) A. Engler (N° 14). O mappa que acom-
panha a obra distingue zonas de campos, mattas tro-
picaes e outras mattas designadas como Megathermas,
que diz estarem desenvolvidas particularmente no Brazil
central. E evidente que para tratar deste assumpto de um
modo mais ou menos completo, a base empirica é
insuficiente.
3) A. F. W. Schimper (n 37). Na parte refe-
rente ao Brazil dá todo o Interior ao paiz como occu-
pado por campos, sendo apenas os grandos rios acompa-
nhados de largas orlas de mattas. E’ isto um modo muito
schematico em se tratando de um assumpto de grande
difficuldade, o que não póde dar resultados satisfa-
ctorios.
4) O. Drude (n. 12). O mappa que trata da
flora da America (N. VII) é o mais minucioso dos
que se occupam deste assumpto, mas ao mesmo tempo
tambem o mais incorrecto de todos que têm sido pu-
blicado até agora. A região das mattas tropicaes do
Brazil oriental já acaba em S. Paulo, não sendo pois
indicadas as mattas da Serra do Mar entre S. Paulo e
Rio Grande do Sul. O Rio São Francisco, que per-
corre uma zona de campos seccos, figura no mappa como
guarnecido, dos dous iados, de uma larga f«xa de mat-
tas tropicaes e o mesmo acontece com o Rio Paraná.
A zona dos campos do Brazil meridional não existê e a
do pinheiro, Araucaria brasiliensis, tem uma extensão
muito maior do que em realidade é o caso, extendendo-
se até 4 costa do Brazil meridivaal. O auctor, além de
não se basear nos conhecimentos mais necessarios, pro-
cedeu de um modo inconveniente, dando informações so-
bre um numero de formações vegetaes relativamente gran-
de demais, impedindo assim a facil comprehensão dos
factos principaes. :
Em vista da deficiencia desses mappas menciona-
dos procurei colligir dados exactos, afim de poder eu
mesmo publicar um que ao menos esteja isento dos
mais graves erros. Cada observação que aproveitei está
registrada no mappa sob um numero, achando-se a res-
pectiva explicação na segunda parte deste estudo.
A côr verde indica a extensão das grandes mattas,
incluindo naturalmente tambem regiões de campos e de
«capoeiras», que sejam pequenas demais para serem re-
gistradas. Como campos considerei todas as regiões nas
quaes esta formação vegetal predomina. Quasi por toda
parte encontram-se na zona dos campos capões e pe-
quenas mattas que acompanham o curso dos rios e arroios.
Se estas pequenas mattas não estão indicadas em nosso
mappa, o que aliás em representação cartographica de
tão pequena escala nem seria possivel, isto não quer
dizer que não existam, pois a côr vermelha de nosso
mappa não significa em absoluto a extensão dos cam-
pos limpos, mas sim a dos terrenos em que os campos
prevalecem, e onde determinam o aspecto geral da pai-
zagem. JE natural que, apezar de meus esforços, com
relação a muitas partes do vasto territorio do Brazil
não pudesse achar ou conseguir informações fidedignas
pois, ficarei agradecido por quaesquer communicações
exactas, que a respeito d'este assumpto me forem di-
rigidas.
Uma das questões mais dificeis é a da origem
dos campos. Ha neste sentido duas opiniões divergentes:
uma, que considera os campos como regiões nas quaes
as mattas, que outrora as cobriam, fossem destruídas
pelo fogo e outra, segundo a qual representam forma-
ções naturaes, primitivas. N'este sentido é preciso tratar
separadamente da origem dos campos primarios e da
dos campos secundarios.
FE’ certo que a acção do homem é grande quanto
á transformação de diversos typos de formações vegetaes.
Mais do que entre nós a questão tem sido estudada na
America do Norte, com referencia ás «prairies» dos Es-
tados occidentaes. Asa Gray (N° 17) se pronunciou a
este respeito do modo seguinte:
«A uma regular distancia além do Mississipi esta
região devera ter estado originariamente coberta de
matta. Ha chuvas suficientes para sustentar florestas
nestas terras, que são actualmente prairies. As arvores
crescem muito bem quando ahi são plantadas e des-
envolvem-se mesmo expontaneamente, quando encontram
rep
certas condições vantajosas. Ha até razões para suppor
que todas as prairies a leste do Mississipi e as do
Missouri até o Mimesota foram grandemente augmenta-
das ou mesmo privadas inteiramente das arvores pelos
indios, que ahi habitavam, e com as queimadas annuaes...
As planicies mais seccas e ainda mais aridas de além,
cobertas com a pequena «gramma de Bufalo», provavel-
mente nunca tiveram arvoredo em suas condições actuaes.»
Sobre o mesmo assumpto compare-se tambem outro
trabalho de Asa Gray (N° 17) Mechan (Nº 29)
e Miller Christy (Nº 30). Provam os estudos citados
que essas prairies se cobrem facilmente de mattas, quando
defendidas contra a acção do fogo.
Isto, porém, nada nos diz quanto á origem dos ter-
renos destes campos, que, segundo Lesquéreux (N.º 25),
foram depositados em antigas lagoas. O solo das
prairies é formado por uma terra preta, fertil, rica em
substancias organicas e em especial carbonicas. N’este
sentido se assemelham á celebre terra preta da Russia
meridional e aqui em S. Paulo encontramos campos com
os mesmos solos, e isto sempre em lugares planos, que
evidentemente outrora estavam cobertos por agua.
Costumamos denominar estes depositos como «de
turfa», não obstante serem o producto da decomposição
de gramineas e cypraceas que crescem em terrenos pan-
tanosos. Nas prairies o solo parece mais homogeneo,
de modo que não é considerado como turfa, denomina-
ção que talvez seria bem apropriada.
No Brazil foi P. W. Lund (Nº 28), o primeiro que
explicou a origem dos campos pela acção do fogo.
Na sua opinião as terras altas, collinas, ete. de Minas
estavam antigamente cobertas por catanduva, de cuja des-
truição teria resultado a formação dos campos. A. Lofgren
(Nº 27) tambem chegou a conclusões semelhantes,
dizendo que os cerrados são em grande parte o resul-
tado da destruição de mattas e «que o ultimo estado
desta série de esgotamentos de um terreno, outr'ora fertil
e revestido de uma vegetação luxuriante, é o campo
sujo.» Não tenho a respeito deste assumpto sufficientes
experiencias proprias, relativamente ao Estado de São
Paulo; mas as informações, que devo a observadores
habeis e fidedignos, confirmam completamente a opinião
do Snr. Lôfgren. Preciso n'esta occasião referir-me ás
observações que fiz no Estado do Rio Grande do Sul.
O terreno que fôra occupado por matta mostra tendencia
para cobrir-se de novo com esta formação vegetal depois da
destruição da antiga vegetação arborescente. E” verdade
que ha campos, potreiros, pastos, etc. que foram con-
quistados á zona dos mattos e que se conservam no
estado de campo; mas isto é devido exclusivamente á
influencia do gado, que destroe os brotos das arvores
nascentes. Deixe-se estes pastos sem gado e em pouco
tempo estarão cobertos de capoeira, que successivamente
toma o caracter de capão ou de matto. Vi uma capoei-
ra bem alta, quasi matto, n’uma estancia em Cangusst
no logar em que, trinta annos atraz, se costumava rea-
lizar o rodeio do gado da mesma estancia. O que tam-
bem no Rio Grande do Sul não me foi possivel constatar
é si entre os vastos campos ao norte e a leste de Porto
Alegre e de S. Leopoldo ha delles que se achem em
localidades que antigamente estivessem cobertas de matta
virgem. Se assim fôra parece que não ha possibilidade
de distinguir campos primarios e secundarios só pelo
aspecto e pelo caracter da vegetação.
Não são entretanto todas as mattas que têm esta
vitalidade ou tendencia de regeneração. Os pinheiraes,
depois da destruição das arvores, se transformam em
campos. Sabemos que a região entre a Serra do Mar e
a Serra da Cantareira, na época da descoberta, estava
occupada por pinheiraes que hoje desappareceram quasi
completamente. Observei, entretanto, perto de São Caetano,
Ÿ
— 132 —
uma localidade onde se acha em grande quantidade
resina de pinheiros, em forma de pequenas bolas.
Podemos pois affirmar que não é difficil transfor-
mar pinheiraes em campos, mas que a matta virgem é
muito resistente contra esta transformação. Por este mo-
tivo tambem julgo que os pinheiros são antes um ele-
mento da vegetação dos campos do que da dos mattos.
Deixo de entrar aqui na interessante discussão da
difficil questão sobre a origem dos campos primarios,
Peço ao leitor, que se interessar pelo assumpto, procurar
informações nos livros citados de Lindmann, Warming
e outros auctores e tomar conhecimento da discussão que
sobre o assumpto tiveram no correr do ultimo decennio
os Snr. J. Huber (Nº 20) e F. Katzer (Nº 23).
E’ certo que no Brazil já tivemos campos na época
terciaria. Isto é provädo pela distribuição geographica dos
animaes do sertão no interior do Brazil. Tambem os
animaes extinctos, descobertos nas cavernas de Minas
por Lund, pertencem em grande parte a estes elementos
caracteristicos da fauna dos campos do Brazil. Em gran-
de parte evidentemente estas differenças no caracter da
vegetação são dependentes das precipitações athmosphe-
ricas. Não é acaso se justamente na Serra do Mar,
onde a quantidade da chuva annual excede a tres metros,
encontramos as mais bellas e viçosas mattas e que no inte-
rior de Goyaz, da Bahia, do Matto Grosso, etc. onde a
quantidade da chuva annual não excede a um metro, predo-
minem campos seccos e estereis. Não é entretanto este
o unico factor que determina a distribuição das forma-
ções vegetaes. Muitas vezes observa-se, na mesma locali-
dade, que uma margem de um rio está coberta de mattas,
ao passo que na outra se extendem os campos.
Ha rios no interior do Brazil que por grande ex-
tensão correm por terrenos de campos e outras que nos
dous lados vão accompanhadas de largas faxas de mattas.
N'estes casos o clima não é a causa efficiente destas
differenças, sendo evidentemente decisivas as condições
do solo e do subsolo.
O caso porém não é tão simples como acreditam
certos autores, que são de opinião que onde haja terra
boa e fertil cresça matto. Não é raro encontrar-se mattas
em terrenos quasi estereis. Verifiquei isto na visinhança
de Pelotas, no Est. do Rio Grande do Sul, onde observei
mattas, nas fraldas da Serra dos Tapes, em terrenos de
barro vermelho, cobertas apenas por uma camada de
1-2 decimetros de terra. Já tive uma vez occasião de
tratar do assumpto e acho tão interessante a obser-
vação, que então tive ensejo de fazer, que vou repro-
duzil-a aqui, em traducção, de um estudo que publiquei
(Nº 21), relatando as minhas observações, que fiz
durante repetidas viagens no Estado, então Provincia
do Rio Grande do Sul.
« À parte mais interessante da nossa viagem neste
« dia- (30 de Março de 1886) e posso dizer mesmo o
« que deixou mais profunda impressão pelo ensinamento
« que nos déra em toda esta nossa viagem, foi sem du-
« vida a passagem pela Volta Grande (Rio Camaquan)
«e que detidamente examinamos.
«O rio de facto descreve uma ampla volta, apra-
«zivel pelo pittoresco que tem. Emquanto que na
« margem esquerda, rasos areiaes bordam a matta, na
« outra margem se eleva alto barranco, que, em seu meio,
« tem para mais de 25 pés de altura.
« Esta parte mais elevada do terreno marginal é
« occupada por campo, que attinge directamente o rio.
« Este é o unico ponto da margem direita do rio Ca-
« maquan, desde a barra até São José, em que tal se
« dá, sem que haja interposição de matto ou capão;
« nesse ponto eleva-se alto barranco, que nunca é coberto
« pelas enchentes.
« Este barranco de campo é tanto mais evidente
« por quanto não se passa gradativamente para o ter-
A À
A
À
À
A
À
— 134 —
reno de matto, mas sim fal-o em uma zona nitidamente
delimitada. Ao tocarem-se estas duas zonas, a parte do
barranco coberto de matta perde logo 6—8 pés de
«altura, o que faz com que a parte mais elevada deste
grande barranco de campo se destaque tanto mais evi-
« dentemente do demais terreno marginal, baixo, coberto
de matto.
« À esta differença de nivel correspondem tambem
differenças geognosticas. Naquella porção do barranco
sobre a qual verdeja o matto, a vista não descobre
differença sensivel entre a camada de humus e o subsolo
barrento de egual côr.
« No barranco do campo, porem, apos uma camada
de humus de dous a tres palmos de espessura, segue-se
jogo uma outra camada de barro branco entremeiada
de areia.
« Este saibro eu o considerava a principio como
sendo almagre; verifiquei porem depois, tratando-o com
acidos, que não continha carbonato de cal; tambem
«em S. José e em 8. Feliciano se o encontra formando
em parte o subsolo. E’ pois um barro argiloso, que
« contem ora maior ora menor quantidade de areia e
fragmentos de quarzo. Em alguns lugares o seu co-
lorido é de ochre ou amarello-ferrugineo, parecendo
mesmo que essas finas camadas horizontaes sejam
: ferruginosas. Este conjuncto de uma camada de cerca
de 5 a 6 metros de espessura é permeavel, como se
verifica especialmente no meio do barranco, em que,
«após o barro branco, se segue uma camada de argila
. cinzenta, escura ou azulada, fina e impermeavel. Vê-
se ahi que a argila não deixa passar a agua que
atravessára o barro, mantendo-se assim humida a sua
superficie.
« Nos lugares não humedecidos a argila é dura
como pedra, cinzento-clara e finamente fendida.
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— 135 —
« Tanto desta argila como do saibro o meu com-
panheiro, Snr. Soyaux, enviou amostras 4 Allemanha
para serem estudadas. Esta camada de argila tinha
uma espessura de talvez 1 á 1 14 metros e, além de
se prolongar ainda muito por debaixo da agua, parece
que se estendia tambem sob todo o plateau de campo.
« À camada de barro branco mostra numerosos
sulcos verticaes, formados pelas aguas da chuva;
muitas vezes são sulcos profundos, que deixam entre
si pequenas columnas, o que dá ao barranco o aspecto
de tubos de orgão ou de uma construcção ornada de
numerosos pilastresinhos.
« Esta observação nos evidencia que esta differença
de matto e campo tem aqui por base importantes diffe-
renças geologicas, pois que o terreno marginal occupado
pelo campo não é sómente bem mais elevado do que
a zona do matto ainda exposta ás enchentes, mas
possue além disso um subsolo inteiramente diverso ;
este nosso acerto foi ainda comprovado em varios outros
« pontos, como especialmente proximo á embocadura do
: Rio Palanque, onde havia barrancos de campo, com-
< quanto nem sempre fôssem tão frizantes para a inter-
pretação do problema que nos preoccupa.
« À questão da distribuição de matto e campo com
relação ás suas causas é sem duvida uma das questões
mais dificeis que ha a investigar no Brazil meridional.
Por emquanto falta ainda a base empirica para que se
a possa solver. Quanto ao Rio Grande do Sul além de
mim e de Sellow ainda não: houve outros naturalis-
tas (1) que aqui se occupassem de questões geologicas
e por emquanto nenhum geologo profissional fez do
Rio Grande do Sul assumpto de aprofundadas e detidas
investigações.
(1) Si deixamos de menciopar o companheiro do Woldemar Schultz,
Freiherr Q’Byrn (N.º 38).
Bata
À
À
À
«
— 136 —
« Ultimamente Keller-Leuzinger tocou ligeiramente
neste assumpto (1). Elle propende para attribuir a
delimitação de matto e campo ás condições tanto do
terreno como do clima. Eu não creio, porém, que seja
em especial por ahi que devamos procurar chegar ao
« esclarecimento.
« Relembrando impressões como as que acabamos de
descrever, da Volta Grande do Rio Camaquan, não
póde restar duvida sobre que o clima e em especial
«as chuvas não podem ser considerados como factores
que nos expliquem a questão.
« De outro lado temos no Sul da provincia muitas
vezes mattos em terras fracas, emquanto que, não longe
« delles, ha campos sobre fertilissimas terras de humus;
: taes são tambem os campos e os Pampas do Uruguay e
da Republica Argentina, cujo solo é de espesso e excel-
lente humus, muito estimado na economia rural pela
sua grande fertilidade e que por isso são pagos por
alto preço.
« E” minha convicção que só poderemos compre-
hender inteiramente as causas da distribuição de matto
e campo quando, pelos dados que nos fornecer a geo-
logia sobre as formações terciarias, chegarmos a deter-
minar qual a antiga distribuição de mar e terra du-
- rante as épocas principaes do Terciario, bem como,
ao menos em seus traços principaes, qual a historia
das épocas diluvial e alluvial.
« Se, em vista dos nossos actuaes conhecimentos a,
este respeito, fosse licito estabelecer hypotheses rela-
tivas ao caso, eu explicaria as minhas impressões neste
sentido de que os altos barrancos do campo, do Rio
Camaquan pertenceriam ao diluvio, ao passo que deve-
riam ser de origem alluvial os terrenos dos mattos
adjacentes ». E
* OO
(1) Deutsche Kolonialzeitung, Jakrg. 1886, Elett: SUNS po witb
— 137 —
O estudo que venho a concluir leva-nos a examinar
de um modo critico a questão das riquezas naturaes do
Brazil.
E” assumpto raras vezes tratado de um modo obje-
ctivo. Os viajantes extrangeiros, o naturalista em especial,
não podem deixar de exprimir a satisfacção que lhes
causa a belleza e a exuberancia da nossa natureza em
geral, a belleza da paizagem, a grandeza luxuriosa da
vegetação. À questão, posta no seu terreno legitimo não
é assumpto que dêva depender de sympathia e de im-
pressões estheticas, mas sim, como é questão economica,
unicamente dos dados positivos. Neste sentido o mappa
que publicamos póde servir até certo ponto como base
de apreciação. Verificamos que no sentido economico o
Brazil se apresenta dividido em tres provincias de as-
pecto e caracter physico completamente differentes, a
saber: a Amazonia, o Sertão do Brazil central e
Brazil litoral, com exclusão do extremo norte (isto
dos Estados ao norte do Pernambuco).
A Amazonia é a immensa região do Hylæa, dos
mattos serrados, da planicie alluvial do rio mais majes-
toso do mundo. |
Sem duvida esta região poderia ser um grande
centro de producção, em vista da fertilidade de seu sólo;
mas o clima não é apropriado para a immigração européa
e muitos dos affluentes são flagellados por febres perni-
ciosas. Nestas condições toda a producção quasi se limita
á extracção da borracha e o immenso territorio é quasi
que deshabitado e de pouco valor na sua producção rural
na actualidade. E” sem duvida uma grande reserva para
o futuro.
O Brazil Central offerece um contraste surprehen-
dente em comparação com essa região amazonica, visto
que lhe faltam as copiosas chuvas que tem como conse-
quencia a riqueza da flora; disto provem a pobreza da
vegetação, que, juntamente com o solo esteril, impede o
O
Po
e
— 138 —
desenvolvimento da lavoura. Estas terras são destinadas
á extracção de mineraes preciosos e á criação do gado;
tambem neste ponto em grande parte são improducti-
vas e sempre inferiores ás do Sul do Brazil.
Calcula-se que no Matto Grosso a legua quadrada nu-
tre 500 cabeças de gado vaccum, ao passo que essa relação
no Rio Grande do Sul é de 2.000 a 3.000 por legua.
Não é pois um acaso que tambem essas terras são mui
parcamente habitadas e em Goyaz compram-se as terras
por preços tão reduzidos, que a quantia com que ali
se pode adquirir uma ou duas leguas quadradas, em S.
Paulo, por exemplo, não dá para pagar uma casa das
mais simples e baratas.
Si para a Amazonia a questão do futuro desen-
volvimento depende só de boa administração e de ele-
mentos de trabalho, no Sertão, mesmo com a construc-
ção de estradas de ferro e outras medidas vantajosas,
as condições da produeção provavelmente não sofirerão
transformações em grande escala. O que póde-se fazer
com campos seccos, estereis, sem agua? Conta-nos o
Snr. Prof. Derby que no Estado da Bahia o trem que
percorre o Sertão até Joazeiro leva a agua potavel aos
poucos moradores de diversas das longinquas estações.
A parte do Brazil que podemos reconhecer como
centro de continuo trabalho, de prosperidade e de activi-
dade é a região da Serra do Mar ou do littoral, desde
Pernambuco ao Rio Grande do Sul, com as partes adja-
centes, como particularmente o Estado de Minas Geraes.
E aqui que mais de tres quartas partes da população
do paiz se acham domiciliadas e é esta a parte do paiz
a que se prende a historia do seu desenvolvimento e da
sua civilisação.
Examinando esta zona do Brazil é certo que é ella,
a unica entre todas, que em verdade é prodigiosamente
dotada pela natureza com recursos de toda qualidade.
Terreno fertil e variegado, vegetação uberrima, agua em
— 139 —
abundancia; clima agradavel, que permitte obter mesmo
varias colheitas no anno; um estado de saude que, com
poucas excepções, deve ser designado como excellente e
adequado á immigração européa. Serras e planicies, gran-
des rios, promiscua distribuição de. campos e mattas;
tudo, emfim, reune-se nesta zona para attrahir a coloni-
sação, assegurando ao trabalho um rico successo. EH
preciso notar, entretanto, que as riquezas que a natureza
aqui nos offerece são tão pouco inexgottaveis como qual-
quer outra fortuna; as gerações passadas já tem peccado
muito neste sentido e mesmo a geração actual ainda
não chegou ao ponto de tratar da conservação das ri-
quezas naturaes (*). A destruição contínua das mattas
já tem exercido grande influencia sobre o clima. Ja
nos quatorze annos em que móro na collina do Ypi-
ranga tive occasião de observar a diminuição da agua
nas fontes e nos ribeirões.
O riacho do Ypiranga diminuiu muito em seu vo-
lume de agua; tanto aqui como no Cambucy varios cor-
regos desappareceram completamente; a fonte da qual
bebiamos a agua em 1894, já seccou ha alguns annos.
Ainda no Rio Grande do Sul fiz observações analogas
na Serra do Tapes, onde, dos numerosos moinhos movidos
durante todo o anno só pela agua, desde a fundação
da Colonia de S. Lourenço em 1860, nenhuma podia
dispensar mais nos annos de 1880 a 1890 o auxilio
temporario de machinas à vapor. Observações analogas
foram feitas no Rio de Janeiro, tendo o Dr. A. E. Goeldi
dedicado um estudo a este assumpto (N° 16).
As mattas regularisam a distribuição das precipi-
tações athmosphericas, purificam o ar e representam uma
reserva colossal de agua no seu solo. E” esta uma ques-
tão que não raras vezes motiva equivocos. Tive uma
(*) Em annexo reproduzimos um interessante estudo feito neste sentido...
já em 1809 e para o qual chamamos attenção.
— 140 —
vez uma longa discussão sem resultado com meu inol-
vidavel amigo e chefe Dr. Cezario Motta, na qual elle
defendia a these de que a derrubada das mattas augmen-
tava o volume da agua das nascentes, em quanto que eu
era de opinião contraria. Devo o esclarecimento do proble-
ma ao meu distincto amigo Dr. Olavo Hummel, cujas
experiencias participo em seguida, verificando-se deste
modo que, depois do córte da matta, ha effectivamente
un; augmento temporario da agua nos poços e nas nas-
centes, o que naturalmente só dura pouco tempo, isto é,
só emquanto se vae desprendendo a agua, armazenada
no subsolo da matta, que a retinha.
Aqui transcrevo a sua interessante exposição :
« Ha annos, no Rio Claro, estavam dous senhores
« discutindo de fronte de um hotel. Um era extrangeiro,
«o outro brazileiro e fazendeiro, e ambos tinham certa
« ilustração. A discussão versava sobre a derrubada
« das mattas. O extrangeiro sustentava que os corregos
« diminuiam de volume com as derrubadas, e em seu
« apoio apresentava ensinamentos da sciencia, emquanto
« que o fazendeiro affirmava que as aguadas augmentavam
« de volume com o desnudo de terreno, beseando-se na
« experiencia adquirida.
« Em logar de acompanhar esta discussão darei
« alguns exemplos que conheço, e que comprovam a
« theoria do fazendeiro. |
« Era em 1878, quando a Companhia Paulista
« resolveu mudar a projectada estação terminal da linha
«em construcção do ramal do Porto Ferreira tres kilo-
« metros adiante do logar primeiramente marcado até
« aonde hoje se acha a estação do Leme. Pedi nessa
- occasião ao fazendeiro Snr. Raphael Leme informações
« sobre um corrego atravessado pelo prolongamento da
«linha e o Snr. Raphael me contou então que elle
« vira nascer O corrego que baptisára com o nome de
«
a
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À
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«
«
— 141 —
Batinga, e que appareceu quando se derrubou o matto
onde hoje se achava o cafezal. Um boeiro duplo
foi construido para o corrego passar por baixo do
aterro da estrada de ferro.
« Em 1887 corri o perimetro de uma grande fa-
< zenda no municipio de Jaboticabal. Um espigão divisor
estava em grande extensão coberto por mattas virgens,
e no lugar de que vai ser questão não havia absolu-
tamente agua dentro do matto. (Quinze annos depois
fui chamado para demarcar pequeno trecho neste mesmo
espigão, agora todo em cafezal. O calor era suffocante e
niio levaramos agua para beber. Então o fazendeiro
convidou-me para à: com elle a um poço que se achava
no cafezal, e lá chegado deitou-se no chão e, munido
de uma grande caneca, estendeu o braço para dentro
« do poço, tirando uma agua clara e fresca.
« Contou-me que, quando veio com a camaradagem
para derrubar o matto, fez cavar este poço, mas como
em 60 palmos de profundidade ainda não apparecesse
agua, largou e fez vir agua de longe, em barris. En-
tretanto, depois de acabada a derrubada e plantado o
café, appareceu a agua, enchendo quasi o poço, e agua
ainda corria pelo cafezal, morro abaixo, como um pe-
queno corrego que, pela regularidade do leito e ausencia
de vegetação nas margens, mais parecia um rego d'agua.
« Casos semelhantes têm-me sido referidos por outros
fazendeiros, e note-se que taes corregos nunca seccam,
modificando-se apenas o volume de agua conforme a
época do anno, como acontece com todos os corregos.
A mesma regra applica-se aos corregos já existentes,
mas que augmentaram muito com as grandes derru-
badas nas suas margens e por cima das cabeceiras.
« Verdadeiramente nada ha nisso de estranhavel.
À matta virgem deve reter enorme quantidade de agua
entre as raizes das arvores seculares que a formam,
por baixo da espessa folhagem que cobre o solo e da
À
À
«
vegetação baixa, que torna o matto impenetravel sem
abrir-se picada. Derrubado o matto nada mais na-
«tural que as fontes se formem e que a agua retida
ou absorvida até então, corra livremente, procurando
as depressões que depois, em forma de corrego, a
conduzem aos ribeirões.
« Tambem é preciso notar que o cafezal substitue
«o matto no sentido que as aguas pluviaes por elle
quasi não correm, ou então o solo, onde a derrubada
não é aproveitada para o plantio de café, é logo co-
< berto por capoeira impenetravel, que tambem em grande
parte impede a agua de correr, penetrando assim no
subsolo, sem comtudo ser retida ou absorvida na
mesma proporção como nas mattas.
« Mas disto não se segue que se deva derrubar as
mattas nas cabeceiras dos mananciaes que abastecem
as cidades, para assim augmentar o volume de agua.
Ao contrario, estas mattas sempre devem ser conser-
vadas, para que permaneçam limpas as fontes e para
que se torne o fornecimento mais egual. Tambem
são as mattas de grande importancia como reguladores
da athmosphéra, porque o ar nas noutes frias é bem
mais quente sobre as mattas, de onde resulta a cons-
tante transmutação com o ar menos quente, que paira
sobre os terrenos com pouca vegetação ao redor.
« Ainda as nuvens condensam-se de preferencia sobre
mattas extensas e altas. »
Está pois provado que, em consequencia da derru-
bada das mattas, dahi a certo tempo diminue a quantia
da agua dos corregos e rios e exerce uma influencia in-
fausta sobre a distribuição das chuvas. Por este motivo
desde muito tempo observadores esclarecidos tem pro-
testado contra a illimitada derrubada das mattas, mas
até agora sem resultado. O mesmo dá-se com a des-
truição insensata da nossa fauna, contra a qual nos
temos dirigido em memorias extensas desta Revista.
E de esperar que a organização de um Ministerio da
Agricultura por parte do Governo Federal signifique
tambem neste sentido um verdadeiro progresso. Actual-
mente todo o serviço da conservação das mattas do
Brazil está entregue a um director, auxiliado por um
amanuense e 6 operarios no Rio de Janeiro! E pre-
ciso limitar as derrubadas, fazer depender de licenças mu-
nicipaes o córte de roças, começar com a conservação e,
mais do que isto, a cultura das florestas e auxiliar o
aproveitamentro racional das terras de capoeiras e campos.
Naturalmente a cultura das terras fracas só é possi-
vel em combinação com uma limitada criação de gado,
que forneça o estrume necessario. Parece ser este modo
racional da cultura dos campos e das terras, já desprovidas
de matto, o ideal que o legislador e os governos deveriam
procurar realizar na medida do possivel. E de grande
merecimento neste sentido a iniciativa practica, a pro-
paganda e os conselhos que nos deu o Sr. Dr. Assis
Brazil no seu valioso livro (N.º 6).
x
=e
Resumindo as conclusões desta discussão, temos a
constatar que quasi dous terços do paiz consistem em
terras pouco prestaveis ou de pequeno valor natural e que
a parte dotada pela natureza com os maiores recursos
necessita a maior attenção e precaução por parte dos
respectivos governos, no interesse da conservação de suas
riquezas naturaes. Não concordo com a tendencia do in-
teressante e bem escripto livro de Affonso Celso: «Porque
me ufano de meu paiz» (Rio de Janeiro, Laemmert &
Comp. 1901) em que pinta o quadro referente ao Brazil
só em tintas claras e seductoras e sem a sombra que
de modo algum póde faltar. Acredito no grande futuro
do nosso paiz, mas vejo tambem que se destroe impie-
dosamente a sua bella natureza e os seus futuros recursos;
RETRO
desejo porém que a mocidade comprehenda a situação e os
recursos do paiz, como elles se nos apresentam hoje em
realidade, sob um estudo objectivo, e que elles saibam
que a futura felicidade não lhes deverá advir das riquezas
naturaes mas sim do trabalho perseverante.
ANNEXO
No correr deste estudo referi-me accidentalmente
a “Relação das Mattas das Alagoas”. minucioso estudo
apresentado, ao que parece por José de Mendonça de
Mattos Moreira, ao governo portuguez. O documento
guardado no Museu Paulista é ainda assignado por José
Joaquim da Silva Freitas, de cujo punho é a letra
caprichada de toda a “Relação”; cremos, entretanto, ter
este ultimo sido o secretario, que fez a copia do original,
redigido por um delegado da “Conservatoria das Mattas”.
Com optimo conhecimento do assumpto e ideias
muito adiantadas sobre sylvicultura, o auctor se expande
sobre a distribuição das mattas naquella região, as madeiras
de construcçäo que contêm e as medidas a serem tomadas
para a sua conservação.
Transcrevemos aqui esse documento em sua integra,
pois cremos que muitos, como nós, apreciarão esse tra-
balho, cuja orthographia original (!) não nos julgamos
com direito de modificar.
Relação das Mattas das Alagoas, que tem prin-
copio no Lago de Pescoço, e de todas as que ficão
ao Norte destas até o Rio da Ipojuca, distante dez
legoas de Pernambuco.
(Escripta em 1809 por José de Mendonça de Mattos Moreira e José
Joaquim da Silva Freitas, sendo a letra do documento deste ultimo.)
As Mattas da Capitania de Pernambuco da parte
do Sul ate Pernambuco tem « sua origem em hum Lago
— 145 —
chamado o Pescoço, oito legoas ao Norte do Bio de São
Francisco, em cuja margem se acha a Vlila do Penedo;
este Rio de Sam Francisco, e o que devide esta Ca-
pitania de Pernambuco da da Bahia, e delle principia a
Commarca das Alagoas para o Norte. Esta Maita do
Pescoço se estende para o Norte ao longo da Costa do
mar ate ao Rio de Sam Miguel, distante da Villa das
Alagoas tres legoas, com a estenção de mais de vinte
legoas, com huma largura dezigual de 3, 4 ate 7 legoas,
formando em toda esta estenção varios, e differentes
Ramos de Mattas com intervalos num dos outros de
terrenos aridos, e inuteis, como sejão as Mattas do mesmo
Pescoço, as do Riacno Sêco Cururipe, a Lagoa de Pao,
e outros distantes do porto de Cururipe, onde se em-
barcão as madeiras, que se constroem nestas Mattas
tres quatro e cinco legoas: Ao mesmo Rumo continuão
as Mattas da Pituba, perto do embarque destas madeiras;
caminhando Norte se achão as Mattas dos fundos da
Villa de S. José do Pochim, fundada perto de huã
Lagoa, de que ella toma o seu nome, distante da Costa
do Mar legoa e meia; estas Mattas do Pescoço continuão
ao Norte ate se encontrarem com as Mattas de Juquinha
de cima, em que se achão muitos Ramos de Mattos;
todas as Madeiras que se constroem nestas Mattas, e
nas de Pechim descem por huma Lagoa, que faz barra
no porto de Jequiha da Praia, onde se embarcão as
madeiras: As Mattas de Jequiha continuão ao Norte
ate ao Rio de Sam Miguel, formando varios Ramos, e
as madeiras destas Mattas, e as que se constroem ao
longo deste Rio, tanto da parte do Sul, como do Norte
em distancia de 3 e 4 legoas se embarcão no mesmo Rio,
pelo qual entrão Sumacas de todo o lote, e sobem pelo
mesmo 4 e 5 legoas distante da sua barra, ainda que
esta em tempo de inverno não he muita segura pela
precizão, que ha de ventos terraes para a sahida das
Sumacas, que de ordinario ha falta delles naquelle tempo
— 146 —
Nos tres portos, que se achão na estenção destas Mattas,
Cururipe, Jequiha da Praia, e Sam Miguel, se constroem
muitas Sumacas, menos no porto da Pituba, por não
admittir semelhantes construcçoens. Todas estas Mattas
do lago do Pescoço ate ao Rio de Sam Miguel com a
estenção, que acima digo, são as que ficarão reservadas
para a Marinha Mercantil no Plano que se fes para a
creação do Juizo da Conservatoria em rasão de serem
estes terrenos mais aridos e sêcos pelas visinhanças dos
Campestres, e Catingas do Certão, onde as madeiras
são curtas, e sem dimensoens, porem apezar de tudo isto
nas mesmas Mattas se achão muitos Ramos com ma-
deiras de construcção, como sejão Mattas do Riacho
Sêco, Fundo do Pochim, Jequiha de cima ate ao Rio
Sam Miguel, por cujo motivo tenho muitas vezes man-
dado construir nellas muitas madeiras de construcção,
e ha dous para tres annos mandei construir nas Mattas
do Riacho Sêco mil e tresentos páos para uma Fragata,
que se fizeräo em tres meses. Nos fundos de todas
estas Mattas para o certão forão os antigos cortes do
Pão Brazil, de que se tirou tanta quantidade de ma-
deira da melhor qualidade desta Capitania; porem que
forão destruídas pela falta de methodo com que se fizerão
estes córtes, chegando a indiscreta ambição da aquelles
Moradores a arrancar as Raizes de muitas arvores, para
se aproveitarem do preço porque a comprava a companhia
Geral de Pernambuco, encarregada naquelle tempo de
semelhantes remessas para a Côrte de Lisboa; porem
estes mesmos córtes, pela Providencia, que se deo no Plano
da Conservatoria se achão hoje regenerados, porque tendo
rebentado de novo, se achão com muitos pampanos
novos, com grande crescimento, de sorte que passados
annos darão a mesma quantidade, que ja derão cauzan-
do-lhe o maior beneficio a opposição com que sempre
sustentei, apezar de varias ordens, que senão devião
destruir estes Córtes com insignificantes remessas, quando
passados alguns annos podia tirar a Wazenda Real avul-
tados Interesses, e muito mais havendo muita madeira
desta em outros lugares ja madura para se fazerem as re-
messas, que S. Mag." ordenava. Ao Norte do Rio de S. Mi-
guel principião as Mattas, que na Creaçäo do Juizo da
Conservatoria forão destinadas e reservadas para as Cons-
trucçoens Reaes; estas se estendem para O Norte, ao
longo da Costa do Mar ate o Engenho d’Aldea, Cabe-
ceiras do Rio Formoso, distante dezoito legoas de Per-
nambuco com a estenção de Norte a Sul perto de
cincoenta legoas com huma largura dezigual de quinze
legoas acima da f6s do Rio de Sam Miguel, por serem
os mais fundos deste lugar aridos, e sêcos pela vizinhança
do Certão; em outros lugares se alargão as mesmas
Mattas 12, 15 e 20 legoas para o Certão, não devendo
exceder destes lugares em razão de serem as Mattas
aridas, e sêcas, e os caminhos muito asperos, de huma
dificil conducçäo, alem de se não crearem nella a famosa
Secupira-Merim, e outras madeiras de construeção, como
tudo ja foi ponderado no mesmo Plano da Creação da
Conservatoria das Mattas. Estas Mattas destinadas, e
reservadas para a Marinha Real desde o Rio de São
Miguel ate o Engenho da Aldea, com a estenção de
cincoenta legoas, formão grandes, frondosos Ramos de
Mattas, como sejão as Mattas das Alagoas do Sul,
situada esta Villa na margem de huma Lagoa, de que
ella tira o seu nome, a qual tem de comprido oito legoas,
e hum na sua maior largura, esta desagoa no mar,
porem a entrada della he muito perigosa, por causa dos
muitos escolhos, e tantos que tem, e que sempre se estão
mudando com os ventos Nordestes, e Sues: He por este
motivo que as madeiras, que por ella descem se embarcão
no porto de Jaraguá, ao Norte desta barra hua legoa e
meia, onde vão as madeiras por arrastos, ou em carros.
Este porto de Jaraguá he huma bahia a melhor que se
acha em toda a costa do mar na estenção de duzentas
10
2s iS 22
legoas desde Pernambuco ate a Bahia com seguros fundos,
e capaz de receber em tempo de verão mais de 200
vasos de qualquer qualidade, que elles sejão, menos de
inverno por ficar muito exposta aos ventos do mar;
porem com uma enciada vizinha para o Norte cercada
de recifes chamada Pajussara, aonde poderão invernar, sem
risco, muitas Sumacas de todo o porte. As Mattas das
Alagoas se devidem em varios ramos, como sejão todas
as Mattas que se achão ao longo do Rio de Sam Miguel
da parte do Norte, as do Riachão que confinão com as
Mattas de Sebahuma Grande, Sebahuma Merim, e outras
ate contestarem com grandes Mattas da Villa da Ata-
laia, distante da Villa das Alagoas seis legoas a Norte,
as melhores desta Commarca das Alagoas, bem conhecidas
nestes paizes pelas Mattas dos Palmares, o maior ma-
nancial de madeiras de Secupira-Merim, tanto na qua-
lidade, como na quantidade; nellas se achão muitos
grossos, e frondosos ramos de Mattas, como sejão Peran-
gaba, Tangil, Natêa, Boca da Matta, Marcello, Serra da
Urupema, Riachão, S. José, João Dias, Conceição, Rolo,
Canóes, Canadus, Golangí, Urucá, Murici, Manimbá, e
outros; as madeiras que se constroem nestas Mattas
descem pela Lagoa do Sul oito legoas ate o Lugar do
Trapiche, donde se transportão as madeiras para o porto
de Jaraguá, distante huma legoa, outras descem por
outra Lagoa chamada do Norte, por ficar para este rumo
apartada da outra duas legoas, em cuja margem se acha
uma povoação chamada do Norte vindo-se a unir estas duas
Lagoas, perto da sua fós, no mar. Os ramos que acima
digo vão contestar com as Mattas de Santo Antonio
do Merim; estas Mattas são igualmente boas, como as
das Alagoas, e as dos Palmares pela fertilidade dos seus
terrenos proprios da producção de Secupiras, e todas as
mais madeiras de construcção. Estas Mattas de Santo
Antonio do Merim, Mattas das Alagoas, e Mattas dos
Palmares na Villa da Atalaia, são as que desde o des-
— 149 —
cuberto destas Conquistas tem suprido todas as construc-
coens, que se tem feito na Bahia, e Pernambuco, tanto
da Marinha Real, como da Mercantil, assim como para
todas as remessas, que se tem feito para o Arsenal Real
de Lisboa, a excepção de algumas vindas da Parahiba,
por serem estas Mattas as que produzem as melhores
madeiras tortas, as mais necessarias para os Liames para
todas as construcçoens, como sejão cavernas, enchimentos,
1.8, 2.8, 3.º braços, aposturas, curvas da abertona, chaves,
mão de cintas, trincanizes, espaldoens, e outras madeiras
tortas para os Liames das construcçoens, qualidades que
se não achão nas Mattas do Cuairf, nas quaes ha grande
falta destas madeiras, apezar das muitas fadigas, que se
tem tido pelas descobrir, apezar de serem ellas as mais
frondosas Mattas destes Estados, e he por este motivo,
que desta Commarca se tem sempre remettido todas as
madeiras tortas para as construcçoens Reaes, que se fazem
na Bahia, assim como para a Marinha Mercantil. As
Mattas do Merim que acima digo estendem-se ate as
Mattas de Santo Antonio Grande com muitos frondosos |
ramos, como sejam Capapim, Jusseral, Ccbra, Sant'Tago,
e outros muitos, cujas madeiras se embarcão no porto de
Santo Antonio Merim: As Mattas de Santo Antonio
Grande se estendem ate Camarogibe com muitos ramos
de Mattas, como sejão Getituba, Cachoeira, Gavial, Peche,
Santo Antonio, Agua Fria, Riachão, e outros; todas estas
madeiras se embarcão no porto de Santo Antonio depois
de descerem algumas legoas pelos rios de Getituba, e
Santo Antonio; de Camarogibe continuão as Mattas ate
a villa de Porto Calvo, situada na margem do Rio
Manguaba, que desemboca no mar em porto de Pedras,
distante sete legoas; distante desta villa legoa e meia
principiäo as Mattas da Bacha Sêca, a qual abre dous :
braços, hum que segue ao Norte, que vai contestar com
as Mattas de Jacuipe, o outro se estende ate o Rio
Una, formando muitos frondosos, e grossos ramos de
@
el) Se
Mattas com a estenção de seis legoas, onde terminão as
Mattas do Juizo da Conservatovia, reservadas para as
construccoens Reaes; nesta estenção de terreno desde a
Bacha Séca ate o Rio Una, e deste ate o Engenho da
Aldea se achão os mais grossos Ramos de Mattas, os
melhores de toda esta Commarca, não só pela boa qua-
lidade de seus terrenos, grande abundancia de madeiras,
como sejão Bacha Sêca, Canhoto, Duas Bocas, Duas
Barras, Ilha, Arajuba, Margem do Rio Una, Cabeça de
Porco, Treseundinho, Fundos de Mambucabas, Fundos de
Maragi, e do Rio Formoso, e Engenho da Aldea, com
os seus respectivos portos para os seus embarques, como
são: Porto de Pedras, Barra Grande, o Segundo Surgi-
douro de Navios depois de Jaragua, Porto de Una, e
Rio Formoso; mas tambem por serem estas Mattas as
mais bem conservadas. e mais capazes de soffrerem as
maiores construcçoens, porque alem das muitas madeiras
de todas as qualidades nellas se achão as madeiras da
maior difficuldade, como sejão todas Roda de Proa,
Coraes das mesmas rodas, colunas, gios, cadastes, Mancos,
Bussardas, e outras muitas de semelhantes qualidades,
em razão de nunca já mais se fazerem nestas Mattas
Construcçoens algumas, tanto Reaes, como Mercantis,
por se tirarem todas das Alagoas, a excepção de algu-
mas Sumacas, que se -construião antigamente nos Portos
de Una, e Rio Formoso, e outros: Tudo isto me constou
por vestorias particulares, feitas nas mesmas com a maior
exacção, em razão de terem aquelles moradores occultado
não haverem Mattas naquelles Lugares. Deste Lugar do
Engenho da Aldea, onde terminão as Mattas Reaes, con-
tinuão as mesmas Mattas com frondosos ramos, e grandes
fundos para o Sertão ate a Villa de Serinhaem, e cor-
rendo ao Norte, vão contestar com as Mattas de Ipojuca,
Nossa Snr.“ da Escada, Mattas igualmente intactas, por
nellas se não terem feito construcçoens, a excepção das
aberturas feitas pelos habitantes, situaçoens de Engenhos,
o que geralmente se encontra em toda esta dilatada es-
tenção; continuando este mesmo cordão de Mattas de
Nossa Snr da Escada, mais, ou menos aberto ou roto,
vai a Goyanna Grande, Cidade da Parahiba ate ao Rio
Grande do Norte, onde terminão as Mattas desta Capi-
tania de Pernambuco com principio da parte do Sul no
Lago do Pescoço achando-se grossos ramos de Mattas
nos fundos de Goyanna, e muito melhores no Destricto
da Cidade de Parahiba, capazes de toda a construcção
com muitos ramos de Pão Brazil no Districto de Go-
yanna e fundos de Pernambuco.
Nos fundos das Mattas reservadas desde S. Miguel
ate o Engenho da Aldea, se achão as Mattas de Pao
amarelo, que continuão ate os fundos das Mattas de
Nossa Senhora da Escada, perto de Pernambuco; todas
estas Mattas tem grande abundancia de madeiras de
amarelo, porem muito distantes dos portos dos embarques,
de sorte que a extração dellas he mais facil, e commoda
nas Mattas de Jequiriçá, e outras da Bahia, assim como
todas as madeiras direitas das Mattas de Cairá, pela
muita abundancia, e grandeza que ha desta qualidade
de madeira naquelle Destricto.
Todas as Mattas que acima faço menção se achão
no mesmo estado em que se achavão ha trinta para
quarenta annos devididas, e separadas nos ramos decla-
rados com intervallos, em que se não achão madeiras
pela razão de haverem nesta dilatada estenção de ter-
renos muitos taboleiros, lugares aridos, e sêcos, onde
apenas se crião alguns pequenos arvoredos, á que os do
Paiz chamão Carrascos, outros como sejão as Costaneiras
a borda do Mar, não so por serem lugares aridos; mas
tambem porque sendo habitaçoens, que os primeiros
habitantes desde o descoberto destas Conquistas, neces-
sariamente se hão de achar rôtos por fazerem nelles as
suas plantaçoens de todas as qualidades: Os mesmos
tem aberto, e rôto outros muitos lugares, como he de
suppor do grande numero, que ha delles em toda a es-
tenção desta Capitania, que chegão a quinhentos Engenhos,
sendo a maior parte destes inuteis ao Estado, e ao Bem
Commum pela fraqueza dos Snrs. de Engenhos, e ser-
virem so de occuparem terrenos inutilmente; he por este
motivo, que eu huma, e muitas vezes representei a bene-
ficio do Estado a necessidade que havia de se estabelecer
hum methodo, que regulasse os Córtes das Madeiras, e
a Conservação das Mattas, por que a faltar este se
reduzirião as Mattas ao mesmo estado, á que se tinhão
reduzido as Mattas do Pão Brazil, ficando o Estado, e
a Nasção privado de um preciozo de madeiras, não so
pela sua rara qualidade, e abundancia, mas tambem, e
ainda muito mais, por terem estas Mattas a boa qua-
lidade, de crearem madeiras tortas para os Liames das
Náus, e Navios, que se constroem, aqual he mais difi-
cultosa achar-se nas mais Mattas destes Estados; porque
ainda que nelles se achem Mattas mais grossas, como
sejão as Mattas da Commarca dos Ilheos, e Rio Doce,
estas não crião madeiras tortas das qualidade propria
para construçoens, por ser a sua producção maior de
madeiras direitas de extraordinaria grandeza, como sejão
Quilhas, Sobrequilhas, Escoas, Cintas, Trincanizes, Vaos,
e outras destas qualidades, e he por esto razão que
para todas as Construcgoens das quatro Fragatas, e
huma Náu de Linha, eu fis remetter desta Commarca
todas as madeiras para os seus Liames á Cidade da
Bahia, e da mesma forma se remettem os Liames para
a Marinha Mercantil; porem a pezar de tudo isto as
Mattas de que faço menção, são muito bastantes para
suprirem a maior Marinha, que possa estabelecer-se, e
ainda vender ás Naçoens Estrangeiras, com grande in-
teresse da Real Fazenda, sem que lhe cauze o menor
desfalque; por serem estes terrenos da maior produção
de todas as qualidades de madeiras, em muito maior
numero do que pensão os seus moradores em alguns
— 153 —
lugares, em que duvidando-se haverem nelles madeiras
de construcção, eu as tenho mandado fazer em maior
numero, ficando sempre no mesmo estado.
Grande parte dos moradores sempre tiverão a maior
opposição ás construcoens, e por isto procurão removêlas
debaixo de pretestos falsos, e aparentes, como me succedeo
a trinta annos chegando á esta Commarca, de terem
algumas pessoas mais .authorizadas feito hum adjunto,
em que se assentou não haverem madeiras de construção
de huma Fragata, cujas madeiras erão os seus Liames de
10 polegadas de grosso, e de 15 de largo: Eu apezar da
minha pouca experiencia naquelle tempo, não so fis a
madeira que se me ordenou, mas em todo este dilatado
tempo tenho construido madeiras das maiores dimensoens,
e todas as que forão precizas para as quatro Fragatas.
e huma Náu de Linha, construidas na Cidade da Bahia,
e outras muitas avulsas, como tambem as que carreguei
nos Navios Pillar, Remedios, e S. Jose em direitura de
Jaraguá á Cidade de Lisboa, e todas as que se remetterão
de Pernambuco para aquella Corte para fornecimento.
do Arsenal Real, de sorte que hum anno, que fis remetter
para Pernambuco, e Bahia quarenta Sumacas carregadas
de madeiras de construcção, apezar de todas estas remessas,
nunca se achou falta naquellas Mattas, onde se constru-
irão, continuando a dar a mesma madeira, e a darão
em todo o tempo, por ser a Secupira huma qualidade
de madeira, que apezar da sua dureza, no espaço de
quinze, e vinte annos cresce a estado de dar madeiras
de construcção, como eu mesmo o tenho experimentado,
e me tem sido informado por Constructores de pro-
bidade, como fosse o Constructor Antonio Teixeira no
ramo chamado a Boca da Matta, que não tendo achado
nella madeira a quinze annos para Náus de Linha,
agora se achou, não so das maiores dimensoens, mas da
maior difficuldade, como fossem Cavernas, Enchimentos,
1.9, 2%, 3.º braços, e o mesmo tem experimentado outros
— 154 —
Constructores em differentes ramos de Mattas; e se isto
se observa em huns ramos de Mattas trabalhadas a mais
de duzentos annos, que farão aquellas em que nunca já
mais trabalharão construçoens, como sejão as Mattas da
Bahia Sêca, e todas aquellas. que se estendem destas
ate o Engenho da Aldea para o Norte, e desde ate
fundos de Serinhaem e Nossa Senhora da Escada, e
Ipojuca.
Sempre tem havido o maior prejuizo em se per-
suadirem, que so nas Mattas das Alagoas haverão ma-
deiras para Construcçoens, e para outros diferentes uzos,
quando estas se acham em outras muitas diferentes Mattas,
e em alguma de maior grandeza, e ate de mais facil ex-
portação. Isto mesmo fiz ver em 1804, mandando-me o
(Governo Interino de Pernambuco apromptar huma relação
de cinco mil páos de diferentes dimensoens para o Pa-
lacio Real de Lisboa, depois de ter examinado com o
maior cuidado que esta relação se não podia apromptar
nas Alagoas por menos de secenta contos e oitocentos mil
reis, não só pela distancia, em que se achava esta ma-
deira; mas tambem pela que se faria na sua condução
para Pernambuco da terça parte de seu vallor; passei a
aquella Praça, e por meio das minhas diligencias, não
so descobri a madeira nos arredores da mesma Praça,
em distancia de tres legoas, todas de caminho plano, mas
tambem descobri pessoas, que fizessem a dita madeira,
como fossem João Alvarez Mergulhão, e Francisco Xavier
dos Reys Carneiro, pelo preço que declara o Mappa, que
offereço, de sorte que veio resultar um beneficio a Fa-
zenda Real, de quarenta e tantos contos de reis, como
se vê, e mostra do mesmo Mappa comparativo dos preços
porque se farião nesta Commarca, e pelos que se fizerão
naquella Praça, ficando-me a satisfação de dar por meio
das minhas diligencias e conhecimentos, so neste artigo,
hum interesse a Fazenda Real de cento e tantos mil
cruzados, e mostrar que não so nas Alagoas ha madeiras,
mas que ha outras muitas Mattas de maior quantidade,
e com maior commodo de se extrahirem.
Todas estas Mattas, de que faço menção existirem
desde o Lago do Pescoço até o Rio de 8. Miguel, re-
servadas para a Marinha Mercantil, e deste Rio ate o
Engenho da Aldea para as construcçoens Reaes, e deste
ate as Cabeceiras do Rio Ipojuca, tem toda a capacidade,
sem experimentarem desfalque, que as impossibilite de
continuarem a servir aos mesmos fins de se abrirem
nellas mais de secenta cortes de madeiras Reaes, e para
outros navios menores.
Não ha meios mais uteis, não se para a conser-
vação de todas estas Mattas, mas ainda para a regene-
ração dellas, como sejão as providencias, que se derão
no Plano, ou Regimento de Conservatoria, mandado fazer
por S. Mag“ na Bahia, 4 que eu tive a honra assistir
como Membro da Junta, que para este fim se formou
por ordem da mesma Senhora, sendo della Presidente o
Il Ex." Snr. D. Fernando Jose de Portugal, quaes
são o de se evitarem os roçados nas grossas Mattas, que
com tanta liberdade se faziam antes deste Estabeleci-
mento, não se abrindo nellas situaçoens novas, conti-
nuando a execução desta providencia como ate o pre-
sente se tem executado, não se precisa outra providencia
para a sua conservação e regeneração, por ser a Secu-
pira Merim, e Acary Madeiras de maior augmento, como
acima digo, continuando estas providencias, como se tem
observado, as Mattas hirão cada vez em maior aug-
mento, e nunca ja mais poderá haver falta nellas, por
serem os roçados, e os fogos, que delles se ateão, os
que lhe cauzavão maior ruina.
O zelo que sempre tive pelo bem do Real Serviço,
me obriga a levar a respeitavel Presença de V. Ex os
meios, de que se podem tirar os maiores interesses nas
construcçoens a beneficio da Fazenda Real, como ja em
outra occasião tive a honra representar.
— 156 —
1° Que $. A. R. deve ter embarcaçoens proprias
para as conducçoens das madeiras, que se construirem
nos diferentes portos desta Capitania, de que resulta,
alem da maior promptidão destas remessas o interesse
do vallor da terça parte do vallor das madeiras, que se
costuma pagar as Embarcaçoens, que as conduzem: Pela
reprezentação, que ja em outro tempo fis, foi S. A. R.
servido Mandar construir as Sumacas necessarias para
estes serviços; em virtude desta Real Ordem, me ordenou
o Governo Interino de Pernambuco a construeção de
huma Sumaca com as dimensoens que julgasse neces-
saria, porem tendo occasião de huma grande Sumaca
nova da melhor Construeção com noventa e seis palmos
de esquadria á esquadria, e mais de 30 palmos de boca,
pelo preço de quatorze mil cruzados a comprei: esta
Sumaca tem dado muito serviço a Fazenda Real, tanto
na condueçäo de muitas madeiras, como na condueção
de Tropas, e mantimentos, para a Ilha de Fernando de
Noronha, conservando-se ainda no melhor estado para
dar muitos serviços a Fazenda Real; porem huma so
não he bastante para estes serviços, são precisas outras
mais, a proporção das construcçoens, as quaes devem ser
de iguaes dimensoens em quilha, boca, e construcçäo de
madeiras dobradas para resistir as cargas de madeiras.
2.º Nas construcçoens que se fazem para a Marinha
Real ficão muitas madeiras das galhadas das madeiras,
que se constroem, que não dando a vitola da 10 a 12
polegadas de grosso, e de 15 a 18 de largo para cons-
trucção de Fragatas e Náus, ficão nos Mattos ate o
tempo as consumir; porem que dando estas madeiras
6, 7 e 8 polegadas, se podem vender para todas as
construcçoens mercantis, com muito lucro da Fazenda
Real, fasendo-se nos respectivos portos depositos, ou Es-
tancias destas madeiras para se remetterem as Praças,
onde deve haver Estancias dellas, para se venderem ao
Commercio, de que rezulta a Fazenda Real, sendo con-
— 157 —
duzidas nas suas Sumacas, da a metade do vallor, que
tanto se paga de frete pela condução das madeiras do
Commercio; alem deste vallor tem a Fazenda Real o
avanso, porque se vende a madeira nas Praças, o qual
nunca “pode ser menos de 25 por cento para mais, e
ainda muito mais, sendo esta madeira feita de paos der-
rubados, e com estradas abertas, faz muito menos des-
pezas.
3.º As madeiras que se constroem em diferentes
portos para as construcçoens Reaes, devem ser remetti-
das aos respectivos Arsenaes, onde se fizerem as Cons-
trueçoens, porque não so se poupa a despeza que fazem,
indo para Pernambuco, secenta legoas ao Norte, dando-
se-lhe a terça parte do seu vallor pelo frete, como tam-
bem, sendo ellas contluzidas em Sumacas da lotação, que
acima digo, porque alem da pequena, que estas embar-
caçoens fazem, podem fazer tres viagens em cada anno
á essa Corte, tendo a madeira sempre prompta, o que
senão encontra, sendo esta condução feita em Charruas,
ou outros Navios maiores, porque alem destes fazerem
maiores despezas, não poderão fazer mais de huma via-
gem em cada anno pelas Monções contrarias, alem de
outros muitos encontros, que se experimentão na pratica
de todos estes serviços, todos elles em prejuizo da Fa-
zenda Real.
Alagoas e Agosto 20 de 1809.
José de Mendonça de Mattos Moreira.
José Joaquim da Silva Freitas.
RTE ei
1)
2)
5)
— 158 —
LISTA BIBLIOGRAPHICA
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ed. Paris, 1905, p. 350 ss.
Ave-Lallemant, Robert, Reise durch Sued-Brasilien
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Ave- Lallemant, Robert, Reise durch Suedbrasilien
im Jahre 1859, 2 Teile, Leipzig, 1860;
Azara, D. Felix de, Voyage dans l'Amérique Méri-
dionale, Trad. par C. A. Walckenaer,
4 vol., Paris, 1809;
Aedo May, a Oscar de, Novo Atlas Uni-
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Beschoren, Max, ae Pedro do Rio Grande do Sul,
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mann’s Mitteilungen», Gotha 1889 com
mappa ;
Burmeister, Hermann, Reise nach Brasilien, durch
die Provinzen von Rio de Janeiro und
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République Argentine, Trad. de PAlle-
mand par E. Maupas, 2 tomes, Paris,
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Castelnau, Francis de, Expédition dans les parties
centrales de l'Amérique du Sud, 6 vol,
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Cruls, L., Relatorio da Commissão Exploradora
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Janeiro, 1894;
Derby, Orville A., Contribuições para o estudo da
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graphia do Rio de Janeiro, Tomo 1,
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13) Endlich, Rodolpho A., A criação do gado vaccum
nas partes interiores da America do
Sul, Trad. da Revista allemã «Der
: Tropen-Pflanzer», Boletim da Agricul-
tura de 5 Paulo ENS 12 1902:
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Pp 06.88;
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man’s Journal, vol. XXVIII, p. 337;
18) Grisebach, A., Die Vegetation der Erde nach ihrer
klimatischen Anordnung,. 2 Baende,
Leipzig, 1872;
19) Huber, Jacques, Contribuição 4 geographia botanica
do littoral da Guyana entre o Ama-
zonas e o Rio Oyapock; Boletim do
Museu Paraense, Pará 1896, p. 381-
402;
20) Huber, Jacques, Sur les campos de Amazone in-
férieur; Extrait du Compte-Rendu du
Congrès international de botanique-à
— 160 —
l'Exposition Universelle, Paris 1900,
ps 387-400;
21) Thering, H. von &
Langhans, P., Das suedliche Koloniengebiet von Rio
Grande do Sul; Petermann’s Mitteilung-
en, 1887, Heft 10 u. 11, p. 296-297;
22) Katzer, Friedrich, Der landwirtschaftliche Cha-
rakter von Ceará; Globus, Illustrierte
Zeitschrift fuer Laender-und Voelkerkun-
de, Sonderabdruck aus Bd. LXXXII,
N. 1, Braunschweig, 1902;
23) Katzer, Friedrich, Zur Frage der Enstehung der
brasilianischen Campos; Abdruck aus
Dr. A. Petermann's Geogr. Mitteilun-
gen, 1902, Heft VIII;
24) Lamberg, Moritz, Brasilien, Land und Leute in
ethischer, politischer und volkswirt-
schaftlicher Beziehung und Entwicke-
lung, Leipzig, 1899;
25) Lesquéreux, Leo, veja Geological Survey of Illinois,
vol: I, 1886; p. 24;
26) Lindmann, C. A. M., A vegetação no Rio Grande
do Sul; Trad. portugueza por Alberto
Loefgreen, Porto Alegre, 1906;
27) Loefgreen A., Ensaio para uma Distribuição dos Ve-
getaes dos diversos grupos floristicos no
Estado de São Paulo; Boletim da Com-
missão Geographica e Geologica de São
Paulo, Nº 11, São Paulo, 1906, p: 28;
28) Lund, P. W., Bemaerkinger over Vegetationen paa
de indre Hoisletter af Brasilien isaer
i plantehistorik Henseende; Det Kgl.
Danske Vidensk. Selsk. Skrifter, 1835;
— 161 —
29) Meehan, Th., veja Just's bot. Jahresbericht, XIV, 2,
p. 240;
30) Miller, Christy, Why are the prairies treeless; Proc.
Roy. Geogr. Soc. and Monthly Record
of Geogr. London, 1892;
31) Moreira Pinto, Alfredo, Apontamentos para o Dic-
cionario Geographico do Brazil, 3 vol.
Rio de Janeiro, 1894;
32) Napp, Richard, Die argentinische Republik, Buenos
Aires, 1876;
33) Penna, Ferreira D. S., A região occidental da Pro-
vincia do Pará,. Pará, 1869;
34) Reindl, Joseph, Die schwarzen Fluesse Suedameri-
kas, Hydr. Studie auf geol. orogr., phv-
sik. u. biolog. Grundlage, Muenchen.
19035
35) Rengger, J. R., Reise nach Paraguav in den Jahren
1818-1826, Aarau, 1835; |
36) Sapper, Karl, Karte der Verbreitung der Vegeta-
tionsformen im suedlichen Mittelame-
rika, Aus Mittel-A mer. Reisen, 1900, II;
37) Schimper, A. F. W., Pflanzengeographie auf physik.
Grundlage, Jena, 1898, Karte 3;
38) Schultz, W., Studien ueber agrarische und physische
Verhaeltnisse in Suedbrasilien, Anhang,
p. 209;
39) Spix, Joh. Bapt. &
Martius, Carl Fiedrich, Reise in Brasilien, 3 Bde;
Muenchen, 1823:
40) Steinen, Karl von den, Durch Central-Brasilien, Ex-
pedition zur Erforschung des Xingü,
in Jahre 1884, Leipzig, 1886;
— 162 —
41) Taubert, P., Beitraege zur Kenntnis der Flora des
centralbrasilianischen Staates Goyaz mit
einer pflanzengeogr. Skizze von E. Ule;
Engler’s Botanische Jahrbuecher, Bd.
XXI. Leipzig, 1895, p. 402-457;
42) Varella, Alfredo, Rio Grande do Sul, Descripçäo
physica, historica e economica, Porto
Alegre, 1897;
43) Wappaeus, I. E., Handuch der Geographie und Sta-
tistik des Kaiserreiches Brasilien, Lei-
DAS Loc:
44) Warming, Eugen, Lagoa Santa, Kjobenhaven 1892,
D. Kgl. Danske Vidensk. Selsk. Skr,
6 Raekke, naturw. og. math. Afd. VI,
3, p. 155-488;
45) Wied-Neuwied, Maximilian Prinz zu, Reise nach
>rasilien in den Jahren 1815-17, 2
Bd., Frankfurt a. M, 1820;
— 163 —
Explicação dos numeros no Mappa da distri-
buição de Mattas e Campos na America
Meridional.
ES E
A côr verde indica as regiões de mattas; a côr
vermelha a dos campos.
Os numeros no mappa referem-se aos da explica-
ção que se segue, onde ficam registrados os trechos con-
cernentes aos auctores em que nos baseamos.
x
* o
Devido á longa elaboração que teve este mappa
(estampa [) e as multiplas correcções que soffreu, infe-
lizmente passaram desapercebidos alguns enganos na ul-
tima prova, os quaes devem ser corrigidos:
NG seem 66: INS: St ems6S:
NE 150 em ll 10 Nº 185 em2136:
N.º 98 em 89;
Das duas indicações N.º 46, só a debaixo, no campo,
é valida; N° 70 nos limites dos Est. Amazonas e Pará
deve ser corrigido em 70 b.
Os numeros que na lista estão marcados com um
asteristico devem soffrer ligeira transposição, a qual vae
indicada sob esses mesmos numeros.
*
* x
1 Serra de Almeirim (Est. Pará)
Wappaeus 1242 e 1641 (Obidos)
Martius III, 1374
11
Ja
10
11
12
— 164 -—
Campos de Marajó (Est. Pará)
Grisebach II, 380
Prolongação do Planalto Central no Sul do Es-
tado de Pará
Wappaeus 1633
Campos de Maranhäo
Wappaeus 1643
Campos do Paranahyba
Wappaeus 1252
Sertão de Piauhy
Wappaeus 1651
Sertão de Ceará
Wappaeus 1655
Sertão do Rio Grande do Norte
Wappaeus 1661
“Sertão de Parahyba
Wappaeus 1665
Campos em todos os arredores de Parahyba do
Norte
Informação do Snr. A. Ducke
Le, e
Sertão de Pernambuco
Wappaeus 1669
Taboleiros de Alagoas
Wappaeus 1679
Ave-Lallemant, Reise durch Nordbrasilien 374
Sertão de Sergipe e do Norte da Bahia
Wappaeus 1684 |
Ave-Lallemant 395 (Cachoeira de Paulo Affonso)
Sertão da Bahia ao Oeste da Serra de Sincora
Wappaeus 1692
Martius II, 609
14
16
17
18
a)
24
— 165 —
Sertão do Alto S. Francisco (Est. Bahia)
Wappaeus 1256
Campos de Minas
Wappaeus 1862 e 1864
Martius II, 559
Immensos campos ao Oeste do Alto 5. Francisco
(Est. Minas Greraes)
Castelnau I, 281. 282, 284, 296.
Campos do Rio Grande (Est. Minas Geraes)
Wappaeus 1269
Castelnau I, 281, 282, 284
Campos de Barbacena (Est. de Minas Geraes)
Wappaeus 1269 (campos no primeiro curso do
Rio Grande)
Castelnau I, 195, 252
Campos abaixo do Salto de Urubfipunga, no Pa-
raná (Est. São Paulo)
Wappaeus 1277
Campos entre Agudos e Lenções, entre Botucatá
e Espirito Santo do Turvo e Campos Novos
(Est. São Paulo); segundo carta do Snr. Hummel.
N.º 20 deve ficar mais a SE.
Planalto de Curityba ou Campo Largo desde o
Rio Yguassá até ao Sul de S. Paulo (Est. Paraná)
Wappaeus 1790
Campos de Guarapuava (Est. Paraná)
Wappaeus 1790 e 1276
Campos dos Curitybanos até Lages (Est. Sta.
Catharina)
Wappaeus 1790
Campos da Palma
Wappaeus 1790
DO
OX
26 a
30
“31
— 166 —
Campos do Meio (Vaccaria) (Est. Rio Grande
do Sul)
Beschoren, segundo mappa
Varella, 234, 235; 945
Campos de Cruz Alta, Cima da Serra (Est. Rio
Grande do Sul)
Beschoren, segundo mappa
Varella L supra c.
Matta do Portuguez e Matta do Castelhano, cir-
cumscrevendo o Campo do Meio
Dr. J. Dutra, segundo carta.
Campanha do Rio Grande do Sul
Varella |. supra c.
Campos das Missões no Rio Grande do Sul
Varella 1. supra c.
Beschoren, segundo mappa
Estero de Neembuca (Rep. Re
Rengger 6
Grão Chaco (Rep. Paraguay, : Norte)
Rengger 17
Castelnau II, 410, 411, 412
Wappaeus 1284
Planalto de Amambay (Est. M. Grosso)
Severiano da Fonseca I, 24
Campos entre os rios Apa e Aquidaban ( Para-
guay)
Endich; ocre Na sismo
* 31 extende-se tambem acima da fronteira do
Paraguay no Matto-Grosso
Campos da Vaccaria (Est. Matto Grosso)
Este e os seguintes (Nº 33) são percorridos pelo
Rio Ivinhema cujas margens são de extensos campos
Wappaeus 1271
e as
32 a Campos na margem esquerda do Paraná entre os
*34
O)
OX
36
9€
38
39
Rios Paranapanema e Ivahy, que penetram no
territorio paranaense
Informação do Padre Simoni
Campos dos Guaycurás e Campos do Rio Branco
(Est. Matto Grosso)
Castelnau II, 412
Campos entre Nova Coimbra e Rio Apa (Est.
Matto Grosso)
Wappaeus 1285
Campos do Rio Ivinhema
Wappaeus 1271
Castelnau II, 412
N.º 34 deve ser collocado sobre o Rio Ivinhema
que corre de 33 a 32 a
Campos de Corumbá, Albuquerque e Coimbra
(Est. Matto Grosso)
Campos acima de Albuquerque no Paraguay
Castelnau II, 389
Campos, de Nova Coimbra abaixo
Castelnau II, 410
Wappaeus 1318
Campos do Rio São Lourenço ( Est. Matto Grosso )
Wappaeus 1281
Castelnau II, 367
Planalto de Matto Grosso
Severiano da Fonseca I, 24
Castelnau II, 266, 275
Sertão de Camapuan (Est. Goyaz )
Veja tambem Atlas de Azevedo May
Campos de Bomfim no Rio Corumbá (Est. Goyaz)
Castelnau I, 209, 314
Veja tambem sobre os campos no primeiro curso
do Paraná, Wappaeus 1269
40
41
43
+
45.
46
47
pe 428
Campos ao Nordéste de Minas Geraes
Wappaeus 1564
Campos do primeiro curso do Tocantins e Ara-
guaya (Est. Goyaz) :
Campos ao Sul de Carretão
Castelnau I, 349, 359
Planalto de Goyaz
Wappaeus 1882
Planalto entre Araguaça e Tocantins (Est. Goyaz )
Wappaeus 1245, 1244
Planalto de Goyaz
Wappaeus 1882
Martius III, 1045, 1046
Campos entre o Rio Grande e a cidade de Goyaz
Castelnau II, 221, 240, 243
Campos ao Oeste do Rio Grande
Castelnau II, 246, 247, 250, 266
Campos de Parecis (Est. Matto Grosso)
Castelnau III, 57, 62, 93
Dicc. de Moreira Pinto «Tapajoz »
Wappaeus 1277
Martius IL, p. 1344
Chapadão do Xingá (Est. Matto Grosso )
Wappaeus 1242, 1640
Reindl 6
Steinen 135
Sobre o Xingá Martius III, 1049
Campos no Rio Madeira (Est. Matto Grosso)
Castelnau III, 143, 158
Campos do Forte do Principio da Beira
Campos dos Amigos (Est. Matto Grosso )
Castelnau III, 143, 158
Veja tambem Atlas de Azevedo May
49
— 169 —
Campos dos Veados (Est. Matto Grosso )
Castelnau III, 143, 158
Veja tambem Atlas de Azevedo May
Campos de Casalvasco (Est. Matto Grosso)
Castelnau III, 85
Campos dos Guarayos | Campos da Bolivia
Campos dos Chiquitos os 1210
Campos dos Chiriguanos Campos de $. Miguel
Campos altos do lado direito do Paraguay entre
Nova Coimbra e a embocadura do Rio Apa
Wappaeus 1285
Veja tambem Meyers Conver. Lex. «Bolivia »
Campos do Lago Uberaba ao Norte do Gaiba
(Rep. Bolivia) |
Castelnau III, 17, 18, 23, 26, 28
Campos do Oruro (Rep. Bolivia)
Meyers Conver. Lex. «Bolivia »
Deserto de Atacama (Rep. Chili)
Grisebach II, 419
Cordilheira do Chili sem matta
Grisebach II, 421
Campos entre a Cordilheira dos Andes e a Mari-
tima, de Santiago do Chili até o Rio Maule, no
qual só se consegue cultura por meio de irrigação
artificial.
Informação do Dr. O. Buerger
Pampas (Rep. Argentina)
Grisebach II, 455
Pampas da Republica do Uruguay
Grisebach II, 456
Patagonia
Grisebach II, 457
61
62
64
66
67
68
69
Trecho dos Andes de vegetação pauperrima ( Rep.
Pert )
Grisebach II, 420
ne de Sacramento entre o Ucayali e Hual-
laga (Rep. Perf)
Segundo Meyers Conv. Lex. Mappa do Perú
Campos do Rio Branco superior (Est. Amazonas)
Martius III, 1298, da emboccadura do Rio Cotingo
para cima
Llanos do Orenoco, que se estendem até a Cordi-
lheira de Merida e ao Norte egualmente até a
Serra da Costa (Rep. Venezuela)
Grisebach II, 361
Campos de Cumana (Rep. Venezuela)
Grisebach II, 358
Campos entre os Rios Madeira e Purûs na vizi-
nhança da cidade de Humaytá ou Crato; ha delles
‘que estão ligados aos do Planalto Central do
Brazil, encontrando-se ahi plantas caracteristicas
daquella região, como Lixeira, Poconé, Paratudo.
Informação do Coronel Ximenes Villeroy
Campos entre o Baixo Tieté e o Rio Aguapehy
(Est. S. Paulo)
Communicação do Snr. Coronel Jorge Maya
Campo do lado esquerdo do Rio do Peixe (Est.
S. Paulo)
Informação do Snr. Coronel Jorge Maya
Campos na região de Obidos, Villa Franca, San-
tarem e Alegre
Ferreira Penna 21, 32, 107, 125
Campos entre os rios Pará e Eripecurá (Cuminan)
Informação do Snr. Dr. F. Katzer
— 171 —
69a Grandes- Campos em frente 4 emboccadura do
Rio Madeira
Informação do Dr. J. Bach
70 Mattos do Juruá (Est. Amazonas)
Wappaeus 1236
“0a Campos rodeados de Mattas entre os Rios Xingá
e Tocantins
Informação do Snr. Dr. F. Katzer
706 70° Campos nas duas margens do Tapajoz
Informação do Dr. F. Katzer
71 Matta da Fralda oriental occidental dos Andes
(Rep. Colombia ) ye
Grisebach II, 420 e 421
© 72 Matta da America Central, que desce até a Bahia
de Choco (16.°—4° N) (Rep. Colombia)
Grisebach II, 359
72 a Campos no Panama, do lado do Atlantico
Informação do Snr. A. Ducke
726 Extensos campos ao Nordéste da Colombia
segundo Hettner e informação do Dr. O. Buerger
72e Savanas predominantes no Isthmo do Panama
segundo Sapper, mappa II
73 Matta do Rio Magdalena (Rep. Colombia )
Grisebach II, 374
74 Mattas virgens nas margens do Guaviare (Rep.
Colombia) que se estende até o curso inferior do
rio Meta e ao Rio Arouca
Meyers Convers. Lex, «America»
74a Região de Mattas
segunda informação do Dr. J. Bach
75 Matta no Rio Uaupé (Est. Amazonas)
Martius ITI, 1298
76
Si
82
82a
85
84
84a
85
— 172 —
Matta de Atures, descripta por Humboldt (Rep.
Venezuela )
Grisebach II, 361
Região da bifurcação do Amazonas e Orenoco,
coberta de Matta (Rep. Venezuela )
Grisebach II, 361
Mattos entre o Rio Branco e a Serra Parima
(Est. Amazonas)
Meyers Convers. Lex. «Mappa Perá»
Mattas no Rio Negro
Spix e Martius III, 1292
Mattas do Rio Purfs
Wappaeus 1238
Mattas entre os Rios Madeira e Tapajós
Reindl 6
Spix e Martius III, 1050
Mattas e Campos ao Sul de Paramaribo
Grisebach II, 369, 373
Entre os Rios Uassá e Araguary a zona do ht-
toral é occupada por campos numa largura de
trinta kilometros; para o interior seguem-se mat-
tas virgens.
Informação do Snr. A. Ducke
Mattas do Rio Essequibo
Grisebach II, 362
Mattas do delta do Orenoco até a Guiana
Grisebach II, 358
Mattas do Rio Orenoco e de seus affluentes
Informação do Dr. O. Buerger
Matta ao longo da costa de Venezuela
Grisebach II, 358
86
86 a
87
87a
89
90
— 173 —
Mattas do Pará
Wappaeus 1633
Spix e Martius IL 573
Mattas nos arredores de Pará
Segundo informação do Snr. A. Ducke
Mattas, segundo Moreira. Pinto 1. c. «Campo maior»
e «União»;
Segundo informação do Dr. Otmar Reiser, porém,
iodo o curso inferior do Rio Parnahyba corre por
cautingas das mais seccas.
Mattas em «Joromenha» e «Amarante»
Dice. de Moreira Pinto
Serra de Ibiapaba
Spix e Martius III, 1373
Segundo communicação do Dr. Theodoro Sampaio
Serra de Uruburetama
Wappaeus 1655
Mattas do Ceará nas Serras de Baturité, Arata-
nha, Acarapé e Maranguape
Wappaeus 1655
Serra Grande (Est. Ceará)
Segundo Communicação do Dr. Theodoro Sampaio
Mattas da Serra de Araripe (Est. Ceará)
Carta do Dr. Theodoro Sampaio
Mattas da Serra da Borborema (Est. Parahyba)
Carta do Dr. Thedoro Sampaio
Mattos do Est. Parahyba do N.
Wappaeus 1655
Mattas da Serra dos Carirys (Est. Pernambuco )
Carta do Dr. Theodoro Sampaio
Mattas de Pernambuco e Alagoas
Wappaeus 1669, Alagoas 1679
of
98
99
100
100 a
ET Oo
104
EMA Se ie
Mattas de Sergipe
Wappaeus 1669
Matta a E. da Serra da Sincorá (Est. Bahia)
Wappaeus 1692
Martius II, 609
Matta nas Serras de Gurgueia e das Mangabeiras
(Est. Piauhy)
Lamberg 139
Matto do Mucury (Est. Espirito Santo)
Wappaeus 1260
Prinz Wied 1, 230
Mattas no Rio Mucury no Est. da Bahia a E.
de Minas Geraes
Informação do Dr. Pandiá Calogeras
Grandes Mattas entre os Rios Jequitinhonha e o
Rio das Contas e mesmo até Caeteté
Informação do Dr. A. Pimentel
Enormes Mattas do Espirito Santo
Wappaeus 1712
Mattos entre o Rio Doce |
e Jequitinhonha Região das Mattas:
Wappaeus 1263 Mattas no Sul de Mi-
Maximilian Prinz zu Neu- | nas, Wappaeus 1864;
Wied I, 198, 203 Nas fontes do Rio Doce,
N.º 102 deveria estar | Burmeister 305
mais ao N.
Mattas do rio Parahyba (Est. Rio de Janeiro)
Wappaeus, 1264
N.º 103 deveria estar mais ao 8.
Matto da Serra de Mantiqueira (Est. Rio de Ja-
neiro)
Wappaeus 1768
Derby 26, (esta Serra continúa até o Rio Grande);
do conhecimento pessoal do autor
E fds
105 Matto nas Fontes do Rio S. Francisco (Est. Minas
Geraes)
Castelnau I, 280
105 a Campos nas adjacencias de Bello Horizonte (Est.
Minas Geraes)
Informação do Dr. A. Pimentel
106 Matto da Serra da Matta
Castelnau I, 284, 287
veja tambem Atlas de Azevedo May
107 Matto do Rio das Velhas (Est. Minas Geraes)
Castelnau I, 300
108 Matta de Catalão (Est. Govaz)
Castelnau I, 301, 303
Mattas nos affluentes do Rio $. Francisco, Indaya,
Abaeté, Somno, Quebra-Anzol, e Ribeirão dos
Dourados no Est. Minas Geraes
Informação do Dr. A. Pimentel
108a Larga faixa de Mattas no Paranahyba e seus af-
fluentes, Corumbá, Meia Ponte, e Bois no Est. Goyaz
Informação do Dr. A. Pimentel
Mattas ribeirinhas do Rio Paranahvba e Rio
Grande no Triangulo Mineiro
Informação do Dr. Pandiá Calogeras
109 Matto no curso superior do Tieté que se extende
desde a Serra da Cantareira até Ypanema
Martius I, 249, 250
Matto nas margens do Tieté
Martius, I, 261
Mattas ao Noroeste de Ytt
Martius I, 288
*110 Matto no, Rio Grande (Est. S. Paulo)
segundo carta do Snr. Olavo Hummel
N.° 110 por engano foi impresso 150 em vez de 110
119
— 176 —
Matta do Paranapanema (Est. 8. Paulo)
Wappaeus 1275 |
Matto do Alto Uruguay (Est. Santa pee
Varella 343, 344 e do auctor
Mattos de Jacuhy e Jbicuhy (Est. Rio Grande
do Sul)
Varella 1. supra c. e do auctor
Mattos do Herval (Est. Rio Grande do Sul)
Varella L supra c. e do auctor
Mattos dos Tapes (Est. Rio Grande do Sul)
Varella L supra c. e do auctor
Matto do Uruguay
Avé-Lallemant II, 118, 127
Mattos das Missões (Rep. Argentina)
Avzara LOS, ti
Burmeister I, 173
Mattos de Corrientes (Rep. Argentina)
Azara I, 105, 111, 120
Burmeister I, 174, 318
Mattos ao Norte de Santa Fé (Rep. Argentina)
Napp 122, 146
Grisebach, II, 455
Matto do Rio Bermejo (Rep. Argentina, Chaco)
Napp 146
Matto do Pilcomayo enon Paraguay)
Rengger 17
Matto de Paraguary (Rep. Paraguay)
Rengger 12 ,
Matto que se estende para a Serra de Maracajá
(Rep. Paraguay)
Rengger 8
SANT —
Mattos entre Guayrá e S. Maria (Est. Paraná)
Wappaeus 1277
Matto no Lago Gaiba (Est. Matto Grosso)
Mattos no S. Lourenço,
Castelnau II, 270, 383; poucas arvores no pri-
meiro curso do Paraguay, Wappaeus 1280
Matto de Xaráyes
Wappaeus 1279, 1318
Mattos da Campina (Villa Maria, Est. Matto
Grosso )
Wappaeus 1278, 1318
Matto do Jaurá (Est. Matto Grosso ).
Castelnau III, 30
Wappaeus 1518
Mattos dos Andes na Bolivia
Napp 122
Mattas de Santa Cruz e Rio San Miguel (Bolivia)
Castelnau III, 220, 224, 228; VI, 9
Mattas entre o Madeira e Tapajoz (Est. Matto:
Grosso )
Castelnau II, 116, 117
Mattos de Arequipa (Rep. Peri)
Grisebach II, 420
132’ Oasis de Tucuman (Rep. Argentina )
Grisebach II, 450
-Matto de Algarobas ás margens do Salado (Rep.
Argentina ) |
Grisebach II, 455
N. 133: o verde, indicando matta, deve esten-
der-se por sobre esse numero e, acompanhando 0
Rio Salado, chegar até o 28° 5.
Oasis de Mendoza (Rep. Argentina)
Grisebach IT, 450
— 178 —
135 Andes do Chili cobertos de Matto
Grisebach II, 421
135 a Parcella de Mattas, compostas de especies sul-chilenas
Informação do Dr. O. Buerger
136 Matto no Rio das Mortes, Manso ou Roncador
(Est. Matto Grosso)
Castelnau IT, 253, 257, 267, 270
*137 Matto de Salinas (Est. Goyaz)
Castelnau I, 356, 359, 360, 364
O Nº 137 e a parcella de matto correspondente,
indicada por Castelnau, estão mal figurados no
mappa, devendo estar a meia distancia entre 137
e 138, ao N. da cidade de Goyaz.
137 a Mattas na ilha do Bananal
Segundo Dr. J. Bach e Moreira Pinto 200
Segundo informação do Snr. Dr. F. Katzer, porem,
consta haver tambem ahi grandes campos.
138 Grande Matto de Goyaz
Castelnau I, 318
Commissão Exploradora 216
Wappaeus 1882
Explicação das Estampas I-VII
Est. I Distribuição das Mattas e Campos na America do Sul;
veja-se a explicação detalhada 4 pg. 163.
Esr. II Campo de Santo Amaro, ao Sul de S. Paulo;
Esr. HI Caapão (caa matto, pâun ilha ou apoan redondo, em
guarani), ilha de matto no campo; perto de Osasco,
Est. S. Paulo;
Esr. IV. Pinheiros (Araucaria brasiliana) em região de campo;
perto de Curityba, Est. do Paraná;
Esr. V Caatinga (caa matto, tinga branco, claro em guarani),
matta especial das regiões seccas do Brazil; Joazeiro,
Est. da Bahia.
Esr. VI e VII Interior de matta no alto da Serra, Serra do
Mar, Est. 8. Paulo.
AS CABEÇAS MUMIFICADAS
PELOS INDIOS MUNDURUCUS
Prof. Dr. H. von IHERING
i ERES e e
As innumeras hordas de selvagens, que no tempo
da conquista habitavam o Brazil, viviam entre si em
continuas rixas e guerras. E como fosse muito divulgado
entre elles o uso da anthropophagia, particularmente entre
os da familia tupi, não é de admirar que muitas vezes
conservassem OS ossos ou outras partes dos corpos dos
inimigos mortos e devorados.
Ássim é que numerosos autores nos relatam que
nas cabanas dos indigenas encontraram accumulados ossa-
mes de inimigos mortos.
Em certos casos os indios se serviam dos craneos
das suas victimas como vasilhas para beber e no Museu
Nacional do Rio de Janeiro acha-se guardada uma busina
feita de um craneo humano. _
Serviam de trophéos tambem collares feitos dos dentes
des inimigos. O costume de escalpar o inimigo vencido
e de guardar as madeixas como trophéos, tão geralmente
praticado pelos bellicosos indigenas da America do Norte,
parece ter sido raro na America Meridional. Como prova,
entretanto, da occorrencia do escalpamento tambem na
America Meridional, menciono- aqui o caso contado por
Ulrich Schmidel, referente aos Yapirás do Paraguay, que,
com dentes agudos de peixes, tiravam ao inimigo vencido
o couro cabelludo, guardando-o como trophéo.
Entre os indigenas do Brazil não me consta ter
sido observado o preparo de escalpos, mas, em compen-
12
ET (es
sação, em certas regiões decepavam as cabeças dos ini-
migos, mumificando-as para servirem de trophéos. Estas
cabeças mumificadas se encontram representadas em nu-
merosas collecções da Europa e da America.
Uma das primeiras que foi descripta e figurada, é
a do Museu Anatomico de Gottingen, que foi figurada
por Blumenbach nas suas « Decades craniorum Tab.
XLVII e que lhe foi remettida da Bahia pelo Dr. Abbott.
Nem este nem Blumenbach conheciam a procedencia, mas :
von Martius já indicou os Mundurucás como preparadores
das mesmas, sendo entretanto resumidas e insufficientes
as respectivas informações. Os dados mais exactos sobre
a significação e preparação destes trophéos encontramos
na literatura brazileira moderna, sendo valiosas, particu-
larmente, as informações dadas por Barboza Rodrigues e
Antonio M. Gonçalves Tocantins. Sigo especialmente a
estes dous autores na seguinte exposição, á qual deu en-
sejo a acquisição que fez o Museu Paulista de duas
destas cabeças mumificadas.
Como quasi sempre acontece, estas cabeças, que me
foram cedidas pelo Snr. Estellita Alvares, eram despro-
vidas de indicações sobre a sua proveniencia.
Vou em seguida tratar primeiro das cabeças com-
pletas, munidas de craneo, depois das sem craneo e juntar
afinal notas sobre o preparo e o fim destas cabeças e as
tribus das quaes provêm.
A
Cabecas mumiticadas com craneo
A cabeça pertencente agora ao Museu Paulista e
figurada na estampa IX, é a de um homem de 30 a 40
annos com fracos vestigios de bigode e com rico cahello
preto luzidio. À pelle assemelha-se a couro grosso, bem
curtido, cuja côr tambem possue. A bocca entreaberta
— 181 —
deixa ver as maxillas privadas de dentes. As orbitas
estão cheias de uma massa resinosa, preta, em cuja super-
ficie exterior, fortemente convexa, estão embutidos, de
cada lado, dous dentes incisivos de cutia, evidentemente
para imitar a vista semifechada. Em cada orelha está
coilocada uma borla de fios de algodão, da qual pendem
bonitos enfeites de pennas de côres. Os cabellos da
frente estão rapados e no vertice nota-se uma pequena
corda de 25 mm. de diametro. O lado inferior da cabeça
está muito bem tratado, sendo perfeitamente liso e plano
e mostrando no meio uma abertura oval de 61 mm. de
diametro maior, pela qual se enxerga o craneo, cuja ca-
vidade cerebral está vasia.
Dou em seguida algumas medidas desta cabeça:
Comprimento total da cabeça 182 mm.; largura
maior da mesma 138 mm.; da raiz do nariz até a bocca
72 mm. dito até o mento 118 mm.
Cabeças semelhantes á que acabamos de descrever
já por varias vezes têm sido descriptas e figuradas. Se-
jam mencionadas as seguintes, além da já indicada de
Blumenbach.
Paul Gervais em Francis de Castelnau, Expedi-
tion dans les parties centrales de l'Amérique du Sud,
Part VII, Zoologie, Pariz 1855. Pl. XVIII. (frontispice)
Cabeça de um ao Mauhé preparada pelos Mundurucís.
J. B. von Spix und C. F Ph. von Martius, Reise
in Brasilien, Bd. III Muenchen 1831, pag. 1314, PL
XXXII (Guerreiro Mundurucá, ostentantado um destes
trophéos na ponta da lança).
Maximilian Prinz zu Wied-Neuwied, Reise nach
Brasilien in den Jahren 1815-1817 Frankfurt, 1820,
PE XVE fes:
F. R. Katzer. Zur Ethnographie des Rio Tapajós.
Globus, LXXIX, Braunschweig 1901, p. 39. À cabeça
é a de um indio Juruna e acha-se exposta no Museu
Ethnographico de Berlim.
Barboza Rodrigues. Revista da Exposição Anthro-
pologica Brazileira. Rio de Janeiro 1882, fig. 4 p. 80.
Indio Mundurucú, com uma cabeça-trophéo.
Segundo B. Rodrigues, loc. cit.
Barboza Rodrigues que viveu algum tempo
Antonio Manoel Gon-
calves Tocantins. Estudos
sobre a tribu Mundurucá.
Rev. Inst. Hist. do Rio de
Janeiro, Vol. XL (II) 1877
SAND OS.
I. G. Wood. The natural
history of man— America,
London 1870 p. 575.
Fr. Ratzel. Voelkerkun-
de, Leipzig 1886, IT, p. 643.
Ferdinand Denis, Brésil,
Paris 1846, Pl. 21; repro-
duz a cabeça mumificada,
figurada por Wied, repetindo
tambem a erronea denomi-
nação de «cabeça de Botu-
cudo », empregada por Wied,
que não indagou da pro-
cedencia destas cabeças,
ignorando que ellas só po-
diam ser attribuidas aos
Mundurucüs.
no
Alto Tapajóz no Estado do Pará, entre os Mundurucüs,
nos dá, á pagina 80, uma figura de uma destas cabeças
mumificadas com craneo, que é denominada «pariuá-a»
e 4 pagina 28 dá o desenho de um guerreiro Mundurucá
em trages festivos, trazendo comsigo, na ponta da lança,
um destes trophéos.
aw eb ees
Uma figura semelhante a. esta, de um guerreiro
Mundurucá, com uma cabeça mumificada na ponta da
lança, vemos no Atlas que acompanha a viagem de
Spix e Martius, Tab. 33.
Barboza Rodrigues não trata dos «pariuá-a» com
“craneo. Os primeiros autores que delles nos dão infor-
mações exactas são os celebres viajantes Spix e Martius,
que relatam o seguinte:
«O Mundurucá, sendo victorioso, não poupa o inimigo.
Depois de o ter ferido e prostrado por flexa ou lança,
que aliás nunca: estão envenenadas, o agarra pelos ca-
bellos e com uma faca de taquara, corta-lhe os musculos
e cartilagens do pescoço e com tanta habilidade que num
instante a cabeça fica separada do tronco. Segundo Ca-
zal foi este costume barbaro que motivou este apellido
«Pai-quice» com que as outras tribus denominam os
Mundurucás. A cabeça assim conquistada torna-se"objecto
dos maiores cuidados por parte do vencedor. Logo depois
de se reunir aos seus companheiros, extrahe os miolos,
os olhos e a lingua e depois de limpal-a de todos os
pedaços de carne adherentes, sujeita a cabeça á acção do
fogo, perto do qual é conservada até seccar. Em seguida
é lavada diariamente repetidas vezes com agua e, im-
pregnada de oleo de urucú, é exposta ao sól, processo
pelo qual se torna durissima. Completa-se depois a
preparação enchendo-lhe a cavidade com miolo artificial
de algodão tinto, provendo as orbitas dos olhos com re-
sina, na qual se encravam dentes e dando-lhe um en-
feite de pennas. Assim preparado, o medonho trophéo
não abandona mais o vencedor, que o carrega comsigo
preso num cordão em guerra e caça e, deitando-se no
rancho commum, colloca-o de dia no sól ou na fumaça
e de noute, qual guarda, perto da réde.»
Os mesmos autores, na estampa 34, figuram uma
cabana dos Mundurucás, ao lado da qual se vê, sobre
uma lança, uma destas cabeças mumificadas.
— 184 —
A. M. Goncalves : Tocantins (1. e. p. 83) diz que
obteve de um Mundurucá a cabeça mumificada de uma
moça, que actualmente se acha guardada no Museu Na-
cional do Rio de Janeiro. Esta cabeça é figurada á pa-
gina 83 e é a de uma moça da tribu Parintintin.
«Conserva sua abundante cabelleira; na frente está ras-
pada, como se fora á navalha. Assim a fronte parece
“prolongar-se sobre a cabeça até quasi o meio; no centro
dessa fronte artificial destaca-se uma mécha circular de
cabellos negros».
Em geral os Mundurucás não tem o costume de
matar as mulheres que aprisionam, porém em geral con-
servam-nas como escravas; dessa vez talvez se tratasse
de um caso anormal ou, quiçá, de um engano.
B
Cabeças mumificadas sem craneo
O exemplar adquirido pelo Museu (Est. X) parece
ser cabeça de uma mulher. O cabello tem o comprimento
de 37 em. As dimensões da cabeça são as seguintes:
86 mm. do vertice até o mento, 31 mm. da ráiz do
nariz á bocca, e 44 mm. de largura do rosto, de orelha
a orelha. Sahe do meio do vertice um cordão branco
de algodão, para pendurar o trophéo. Pende da bocca,
qual franja de longos fios trançados de algodão branco,
outro enfeite, que está amarrado em tres pontos aos
beiços, perfurados para este fim.
Ha uma affirmação, segundo a qual cabeças como
a descripta são preparadas pelos Mundurucús; refiro-me
ao testemunho de um observador dos mais competentes,
a do Dr. Barboza Rodrigues. Dou em seguida, com as
suas proprias palavras, a descripção que elle faz do pre-
paro destes trophéos. Na obra citada o autor á pag. 40
figura uma destas cabeças, que perfeitamente corresponde
ao nosso exemplar.
Barboza Rodrigues quando viveu entre os Mundurucás,
assistiu ao preparo de um destes trophéos e dá-nós a
seguinte descripção :
«Qual o processo, que empregam para a mumificação
e reducção, felizmente posso dizel-o, porque vi uma cabeça
em meio da operação, e me foi explicado por um membro
da mesma tribu.
Os peruanos mumificam tambem cabeças, que ficam
semelhantes a esta, mas si pelo mesmo processo ignoro.
Eis como se prepara um destes horriveis trophéos, que
dá, ao que o preparou, as honras de guerreiro notavel.
Logo depois de um ataque, finda a batalha, cada um
dos combatentes, que tiveram occasião de subjugar o
inimigo e degolal-o, começa o trabalho da conservação
de seu trophéo nesse mesmo local, e o acaba mais tarde
na sua malóca.
Principia por arrancar os dentes que servem para
o pariua-le-rau, com o qual o tuchána o recompensará
cinco annos depois; passa a extrahir os olhos e depois
todo o interior da cabeça.
Como um habil traxidermista vai virando o couro
cabelludo e descarnando-o do craneo até chegar a desco-
bril-o todo, ficando só preso pela face. Ahi com toda
habilitade destaca os musculos com a pelle e regeita os
ossos. Virada assim de dentro para fóra a cabeça, sem
distendel-a, com faca de taquára corta a musculatura
quasi toda.
Limpa, enxuga bem, e dá, quer interna quer exter-
namente, uma untura com oleo de andiroba (Carapa
guyanensis), e, com estopa e paina, raizes e folhas aro-
maticas socadas, passa a empalhar, procurando dar as
formas naturaes, que não desfigurem o individuo. Em-
palhada, pendura-a sobre um muquem, e ao calor brando
e fumaça vai seccando-a. Absorvido o oleo, e quando
— 186 —
parece querer seccar, diminue o enchimento, unta-a nova-
mente com oleo, e assim, seccando gradualmente, torna
menor o volume, até chegar a um ponto que não seja
mais possivel a pelle encolher-se. Então fura-lhe os labios,
prendendo ambos com fios de algodão, donde pende um
enfeito, tambem de fios pintados com urucá. Passa-lhe
pelo alto da cabeça um longo cordão para trazel-a pen-
durada ás costas, e é guardada ao fumeiro, o que dá a
côr negra que tem a pele e impede, assim como 0 ne
que os insectos a corroam.
A mumia referida mede de uma a outra orelha
passando a linha sobre o nariz, 0",05 (1), do occipital
aos labios 07,095, e de comprimento 0",06.»
Informações valiosas sobre o mesmo assumpto nos
fornece um livro de Richard Andrée (2) do qual trans-
crevemos o seguinte:
«Particular ao novo mundo parece uma preparação
de cabeça humana que consiste em tirar Os Ossos, res-
tando só as partes carnosas, que depois, por um pro-
cesso especial, se encolhem sem no emtanto soffrer
desfiguração.
Este modo de preparação, pelo qual a cabeça se
transforma em idolo, encontra-se na America meridional
e é bem relatado em uma deseripção extensa de J. F.
Barriero, que conta o seguinte sobre a cabeça-idolo dos
Jivaros (lado oriental da Cordilheira no Equador).
Ao Secretario da Legação espanhola em Quito.
Equador, Macas 2 de Dezembro de 1860. Recebi sua
carta de 15 de Agosto, na qual me pede informações
sobre a cabeça-idolo dos Jivaros, sobre sua procedencia
e preparação. O que agora communico a V. S. é o re-
(1) O original citado, devido a um lapso typographico, indica: 0”,50.
N. da R.
(2) Ethnographische Parallelen und Vergleiche von Richard Andrée.
Com 6 Est. e 21 figs. Stuttgart 1878. p. 142-147.
sultado de pesquizas que emprehendi durante mais de
dous annos. Um Jivaro da’ tribu dos Tambos encarre-
gou-se de obter para mim um dos idolos, no que não
foi bem succedido no primeiro anno. No anno seguinte
porém poz em execução o seguinte estratagema : elle
persuadiu a um Jivaro que o idolo delle desejava viajar
um pouco, para distrahir-se de alguma forma da longa
prisão; por isto que consentisse que o idolo o acompa-
nhasse. O indio baptisado trouxe-me a cabeça e levou
em troca uma porção de presentes para o dono della.
- Na guerra. cortam os vencedores as cabeças 4 suas
victimas; o craneo e o outro conteúdo se extrahe e in-
troduz-se uma pedra quente, sobre a qual a pelle secca
e se encolhe, sem comtudo alterar os traços physiono-
micos, transformando-se assim em uma cabeça em mi-
niatura, em escala pequena. Assim ao menos a mim
se me afigurou o processo—porém talvez me engane.
Estando a cabeça preparada, tocam o tunduli ou caixa
de rufos, o que se deve realisar dentro dos nove dias im-
mediatos depois do combate, acontecendo em caso con-
trario que as almas dos guerreiros mortos da propria tribu
ficam descontentes, causa pela qual a cabeça não presta
mais para idolo. No decimo dia começa a festa; o Jivaro
que possue uma cabeça-idolo, a pendura, junto com ou-
tros trophéos eguaes de outros indios, num poste na
choupana, occupando a cabeça mais recente lugar saliente.
Todos os individuos presentes e principalmente as mu-
lheres, ostentam seus mais preciosos enfeites e estão
sentados conforme sua hierarchia mais perto ou mais
longe do idolo. Então o pagé agarra a cabaça, levanta-a
pela corda e falla a ella, exaltando o valor de quem a
conquistou e terminando atinal com certas gesticutações.
Segue-se um breve silencio e depois um grito penetrante.
Todos saltam dos seus logares e começa um reboliço
atordoador. Em seguida ata-se a cabeça novamente no
poste e todos, excepto o vencedor, se sentam. Este
— 188 —
ultimo colloca-se armado da lança diante da cabeça, a
qual insulta, ao que o pagé responde em termos egual-
mente injuriosos: «Cobarde, em vida tu não ousavas
injuriar-me assim; tu tremias ouvindo meu nome, co-
barde! Um de meus irmãos me vingará!» O Jivaro
enfurecido com esta offensa, fere a cabeça, com a lança,
no rosto e a obriga a calar-se para sempre, cosendo-lhe
a bocca. Deste momento em diante o idolo torna-se
mudo e só serve de oraculo, ao qual os Indios embria-
gados dirigem perguntas.
Começa então a dança. O vencedor pendura o
idolo numa vara ao ar livre, no que é ajudado por sua
mulher predilecta. Homens e mulheres volteam dançando
ao redor da cabeça, cantando o hymno triumphal e to-
cando os instrumentos de musica. Isto repete-se durante
alguns dias.
As vezes, no ardor da perseguição, os indios não
tem tempo de cortar a cabeça ao inimigo morto; neste
caso realisa-se a cerimonia com substituição por uma
cabeça de porco, que occupa o lugar da cabeça-idolo.
= Manifestando-se escassez da colheita, ou si não
augmentam os animaes domesticos, como se deseja, então
as mulheres fazem preces dançando em roda da cabeça,
que um pagé segura. Se a cabeça não pratica o milagre
pedido, tosqueiam-lhe os cabellos e atiram-na para o matto.
De todos os usos selvagens dos habitantes da Cor-
dilheira oriental me parecia este o mais notavel.
Accrescento ainda que não transformam em idolos
as cabeças de todos os inimigos mortos em combate,
mas só daquelles que se distinguiram pela valentia. A
estes arrancam o coração que devoram assim como o
miolo. Este uso existe entre as tribus dos Tumbas,
Mendes, Pastaza, Jerumbaini, Tutamagosa, Chiguavida,
Achmiles, Guambinima, Guambisa, Huamboga, bem como
entre os indios que moram mais em baixo e entre aquelles
que moram na Morona e anida são anthropophagos.
— 189 —
Mas este uso não se limita só aos indios do
Equador. Deparamos com elle mais ao norte na Co-
lombia e a leste na região amazonica. Os Mundurusús
que torram as cabeças conquistadas aos inimigos perto
do fogo, não tiram os ossos, mas sómente o miolo e
os olhos. As orbitas enchem de resina, na qual encravam
as unhas da preguiça. Essa cabeça, ornamentada de pennas,
o guerreiro carrega comsigo, presa á cintura.
Philippi descreve uma cabeça do Museu de San-
tiago, Chile, dé 4” 8” altura e 3” 8” largura; Saffray
viu na Colombia uma destas cabeças « reduite à peuprês
au sixième du volume primitif, sans rides et sans défor-
mation des traits. »
Uma cabeça descripta por Lubbock, preparada pelos
Jivaros, tinha no emtanto 11” de altura. À cabeça cuja
estampa eu dou conforme uma photographia de R. H.
Furman em Pará, Brazil, tem 1% de tamanho natural,
e é a do cacique Tibi dos Antibas, que em março de
1871 foi morto pelos Aguaranas.
Os indios deram esta cabeça, não sem reluctancia,
a um official peruano, em troca de uma espingarda. »
Estas cabeças mumificadas dos Jivaros são encontra-
das em numerosas collecedes ethnographicas. Schmeltz, (1)
figura uma cabeça preparada pelos Jivaros conservada na
colleeção do Museu de Leyde, sendo notavel pelos nu-
merosos enfeites pendentes das orelhas e da bocca.
Outra figura que aqui seja mencionada é a que
Ladislau Netto (2) deu de um cacique Jivaro, que mostra,
pendurado nas costas, uma destas cabeças mumificadas,
sobre um adorno composto de tibias de aves pernaltas.
(1) Schmeltz, I. D. E. Ethnographische Musea in Midden—Europa.
Leiden 1896, p. 35.
(2) Ladislau Netto. Investigações sobre a Archeologia Brazileira. Archivos
do Museu Nacional de Rio de Janeiro, Volume VI, 1885, p. 323.
— 190 —
R. Virchow (1) tratou de uma cabeça mumificada
que era a de um indio Guambia e preparada por indios
da tribu dos Aguarunas do Equador. Virchow ligou
attenção especial ao exame do rico cabello, liso e preto.
Ser-nos-ia facil augmentar aqui as indicações lite-
rarias; desisto entretanto desta tarefa em vista da excel-
lente monographia de G. A. Colini (2) que detalhada-
mente trata das cabeças mumificadas, preparadas pelos
Jivaros, referindo-se extensamente á rica literatura res-
pectiva (3).
Um ponto, entretanto, deve ainda aqui ser discutido.
Estas cabeças mumificadas attrahiram naturalmente a atten-
ção não só dos curiosos mas especialmente dos viajantes
ilustrados e dos anthropologos. Muitos destes trophéos
chegaram deste modo a fazer parte das collecções de
Museus americanos e europeus e naturalmente foram pagos
por altos preços. |
Actualmente, como os tains deixaram de preparar
estes trophéos, os mesmos não se vendem a menos de
600-—800$000 rs. ou 1000—1.200 marcos.
Nestas condições desenvolveu-se no Equador a per-
versa industria do fabrico de taes trophéos, o que já
obrigou o governo do Equador a prohibir o commercio
estabelecido com taes trophéos.
R. A. Philippi (4) em 1872 chamou primeiro a
attenção geral a este facto, descrevendo e figurando uma
cabeça mumificada que era a de uma moça e da qual
(1) Rudolf Virchow, Verhandlungen der Berliner Gesellschaft für An-
thropologie, Ethnologie und Urgeschichte 1892, p. 78.
(2) G. A. Cohni.Osservazioni etnografiche sui Givari. Reale Accademia
dei Lincei, Roma, 1882-1883.
(3) Em todo caso taes peças sempre foram consideradas preciosidades,
pois que, como o diz M. Lorthior (Communication sur une tête momifiée—
Chancha.— Bull. de la Soc. d'Anthropologie de Bruxelles, Vol. VI, 1888, Pp
406, Est. XVII) em 1873 não havia na Europa senão 6 destas cabeças mumi-
ficadas.
(4) R. A. Philippi. Una cabeza humana adorada como Dios entre los
Jivaros. Anales de la Universidad. Tom. XLII, Santiago (1872), p. 91.
— 191 —
ficou averiguado que foi preparada no Equador por um
hespanhol, que vivia perto dos Jivaros. Tambem Ambro-
setti (1) tratou de uma destas cabeças falsificadas, pre-
paradas unicamente na intenção de ganhar dinheiro. Esta
cabeça era provida de parte do pescoço, que nos dous
lados estava cortado e costurado, o que não acontece nas
legitimas; faltavam-lhe tambem as tres suturas pelas
quaes a bocca costuma ser fechada nos trophéos verda-
deiros. Nestas condições não é dificil distinguir os trophéos
legitimos das falsificações.
Observações geraes e conclusões
Os factos que acabamos de communicar, provam o
que já dissemos na introducção, isto é, que o motivo
principal para o fabrico das cabeças mumificadas é a
vaidade e o orgulho do guerreiro triumphante, que guarda
para si, como trophéo, parte do corpo do inimigo ven-
cido. |
Não é esta entretanto a unica. razão para o pre-
paro das cabeças mumificadas, sendo outra o desejo de
levar 4 aldeia a cabeça de um guerreiro succumbido
em combate, que alli se torna objecto de veneração, e
que é afinal enterrada na propria cabana, depois de
decorrido certo prazo convencional. (Como prova dou
em seguida a respectiva narração de M. A. Gonçalves
Tocantins, referente aos Mundurucás.
«Quando em uma dessas frequentes guerras suc-
cede que um Mundurucá morre em combate, seus com-
panheiros cortam-lhe a cabeça e a fazem mumificar pelo
processo conhecido.
(1) Juan B. Ambrosetti. Cabeza humana preparada segun el procedi-
miento de los Indios Jivaros del Ecuador. Anales del Museo Nacional de
Buenos Aires, Tomo IX, 1903, p. 519-523.
00e
Regressando á aldeia, collocam-n'a em um logar
reservado, assim como as armas, a busina e os ornatos
que pertenceram ao guerreiro defunto. Esta reliquia tor-
na-se objecto de veneração publica.
Se passa algum Munduruci das aldeias visinhas
vai visital-a e rende-lhe o culto devido, chorando e la-
mentando a sorte do finado. Na aldeia natal preparam-
lhe honras publicas; fixam de antemão a época e fazem
convites ás aldeias visinhas.
Estas festas funebres duram mais de um dia. Ce-
lebram uma em cada um dos quatro primeiros annos
que se seguem á morte do guerreiro.
A festa do quarto anno termina pelo enterro da
cabeça . . . dentro da casa onde habita a familia do guerreiro
defunto; abrem uma sepultura em sentido vertical e n’ella
enterram a cabeça, em cuja honra se celebram as festas.»
No mesmo sentido como Gonçalves "Tocantins ex-
prime-se tambem Hartt no seu artigo, tratando dos
Mundurucás (Archivo do Museu Nacional do Rio de
Janeiro, vol. VI, 1885, p. 129) onde diz: « Quando
morre um guerreiro ou é morto fóra da aldeia, cortam-
lhe a cabeça, um braço ou uma perna, preparam-n'os
ao moquem e trazem para casa para enterrar; si a
distancia é muito grande, guardam sómente uma mão.
Quando um guerreiro morre perto da aldeia, mas dema-
siado longe para poder ser conduzido todo o corpo,
elles extrahem-lhe os intestinos, poem o corpo no mo-
quem e levam-n'o para a aldeia afim de enterral-o. Esta
mutilação e tratamento do corpo pelo fogo não tem pa-
rallelo, que eu saiba, em qualquer outra tribu.»
O costume de levar partes do corpo de um guerreiro,
fallecido longe dos’ seus, á sua cabana é geralmente
observado entre os indigenas do Brazil e especialmente
entre os da familia tupy.
De accordo com estas informações historicas vemos
que os enterros são realisados de dous modos differentes.
— 193 —
Em geral os Tupys, especialmente do Brazil meri-
dional, enterravam os seus defuntos em grandes vasos
de barro, denominados igaçabas, cuja abertura era diri-
gida para cima; muitas vezes eram cobertos por uma
tampa em forma de outra pequena panella.
Além de urnas que contêm o esqueleto mais ou
menos decomposto encontram-se outras em cujo fundo
está depositada uma bacia bem elaborada, na qual se
acha o craneo e as vezes mais alguma ossada do de-
funto. Em casos como este o enterro era secundario,
tendo sido transportada parte dos ossos, de certa dis-
tancia até a moradia do defunto. Uma destas bacias fune-
rarias, ha sete annos, foi encontrada quando se faziam
excavações na rua Piratininga, em S. Paulo; era uma
igaçaba, que continha um craneo humano bastante de-
composto.
Dei a figura (1) de outra destas bacias, tambem
exposta no Museu Paulista, que é a obra ceramica mais
perfeita que conheço do Brazil meridional. Ambas são
de paredes grossas, de formas symmetricas, elegantemente
trabalhadas e cuidadosamente ornamentadas com desenhos
lineares vermelhos e pretos, sobre fundo branco.
As cabeças mumificadas, quer sejam ellas dos pro-
prios companheiros, quer sejam de inimigos, são prepa-
radas do mesmo modo. Isto se refere especialmente ao
modo como são cortados os cabellos, e especialmente na
frente, onde elles são rapados nos dous lados, conservan-
do-se no meio uma mecha circular. Este é o modo usado
entre os Mundurucús. Assim, por exemplo, o descreve
Hartt: (15 ¢ ‘p:' 118):
(1) Revista do Museu Paulista, vol. VI, 1895. Est, XXIII, fig. 31.
+
— 194 —
«Os cabellos entre os Kaapinauára usam-se de va-
rios modos, não havendo distincção para as mulheres,
ao menos pelo que me disse o Tenente Joaquim Cor-
rêa. Ordinariamente o cabello é cortado completamente,
a alguma distancia atráz da testa, deixando sómente
uma repa na testa, em forma de corôa, cortado rente
(assemelhando-se á pequena escova usada para engraxar
as botas), sendo a raspagem feita com navalhas de
bambü, como se usa por exemplo entre os Botocudos;
porém agora os indios obtêm navalhas de aço e tesou-
ras pelo commercio.»
O mesmo modo de rapar os cabellos da testa era
usado entre os Caraibes, como por exemplo o participa
Waitz (1). Mas tambem entre os Tupis o mesmo cos-
tume existia em muita parte. Assim, por exemplo, o
conta Jean de Leri (2) com referencia aos Tupinambás
da bahia do Rio de Janeiro.
Julgo este um facto de grande interesse em vista
do pronunciado parentesco que notamos entre os Tupis
e Caraibes. Trata-se pois de um procedimento de alta
significação, se os Mundurucüs, segundo a relação de
Gonçalves Tocantins, rapam os cabellos da frente da cabeça
do inimigo morto, 4 moda caraibe, antes de preparal-a
como trophéo. Não podemos duvidar da exactidão dos
dados relatados por G. Tocantins, visto que as cabeças
figuradas, provenientes dos Manés e Parentintins tem a
testa rapada do modo descripto, embora estas tribus não
usassem cortar os cabellos desta forma. Tratando-se deste
modo de uma operação practicada em individuos já mortos
não tem a mesma valor anthropologico para o conheci-
mento da nacionalidade das cabeças mumificadas.
(1) Theodor Waitz, Anthropologie der Naturvélker. Vol. III, parte 1.º,
Leipzig 1862, p. 370.
: ) João de Leri, Historia de uma viagem feita á terra do Brazil; tra-
duzida por Tristão de Alencar Araripe. Rev. do Inst. Hist. e Geogr. Brazil.
Tomo LII, parte II, Rio de Janeiro, 1889, pag. 143.
— 195 —
Um facto cuja comprehensão psychologica se torna
dificil, é que as cabeças dos inimigos sejam preparadas
pelos Mundurucás do mesmo modo como as dos proprios
parentes e ainda dotadas com os caracteres distinctivos
dos Mandurucús e de seus parentes.
A mesma singularidade estranhamos relativamente
aos Jivaros, onde a cabeça do inimigo, insultada e mal-
tratada ao começo, depois da cerimonia é tratada como
uma veliquia veneranda. Em geral, os prisioneiros entre
as tribus tupis eram tratados com grande brandura e
affabilidade. Eram tratados com benevolencia quasi como
membros da mesma tribu e se lhes dava de tudo que
quizessem, inclusive mulheres.
Quando afinal os prisioneiros eram mortos e devo-
rados, este acto se revestia de toda a pompa e cere-
monia, sujeitando-se os prisioneiros de boa vontade a
este acto, ao qual muitas vezes lhes teria sido facil
subtrahir-se pela fuga.
Parece que o prisioneiro, uma vez que era acceito
na communidade dos Mundurucás, era considerado como
membro dessa tribu. Neste sentido afirma Hartt que
a tatuagem 4 moda mundurucá não póde ser conside-
rada como prova de origem mundurucá, citando casos
em que indios de outras tribus que elle conhecia, se lhe
apresentaram, depois de um certo numero de annos, com
a tatuagem dos Mundurucás.
Ha ainda outra particularidade com relação a estes
trophéos e a sua significação temporaria. A cabeça mu-
mificada do guerreiro munduruct é pelo espaço de quatro
annos exposta e venerada na sua cabana e depois enter-
rada. As cabeças dos inimigos representam para seu dono
uma especie de pensão ou privilegio, porém sómente
pelo espaço de quatro annos.
Esta afirmação de Gonçalves Tocantins é confir-
mada por Hartt, que sobre o assumpto se pronuncia
(1. e. p. 131) do seguinte modo:
13
— 196 —
«Nada póde induzir o guerreiro a desfazer-se do
medonho trophéo antes de uma certa festa, depois da
qual não lhe dá mais valor algum, sendo vendido ou
mesmo lançado a um canto.»
Não se entende a razão porque um trophéo, muito
apreciado pelo espaço de quatro annos, depois deste
prazo seja considerado desvalorisado, visto que nada
perdeu de seu valor effectivo como symbolo.
*
x OK
Todos estes factos tornam difficil conhecer a na-
cionalidade das differentes cabeças mumificadas. Parece
certo que cabeças provenientes de guerreiros mundu-
rucús nem como presentes nem vendidas passam a mãos
alheias. Não podem ser objecto de commercio, visto
como são logo enterradas, ao passo que as dos ini-
migos, especialmente depois de terem perdido seu valor
symbolico, podem ser dadas ou vendidas a viajantes. Esta
presumpção é confirmada pelo exame minucioso das res-
pectivas cabeças. Se bem que a testa rapada á moda
caraibe e o enfeite das orelhas sejam communs ás cabeças
provenientes tanto dos Mundurucás como dos seus ini-
migos, comtudo ha um caracter distinctivo. Os Mundu-
rucis costumam cortar o cabello na altura da orelha,
ao passo que isto não se dá com os Parentintins,
Manés e outros visinhos dos Mundurucás, Effectivamente
todas estas cabeças descriptas ou figuradas tem cabellos
compridos.
Ha outro caracter a que neste sentido se deve
attender, e que é a perfuração e o enfeite das orelhas.
Spix e Martius figuram na sua obra cabeças de indios
mundurucüs, manés e outros indios do baixo Amazonas,
referentes a indios que esses viajantes pessoalmente -exa-
minaram e por estes desenhos, bem como pela respectiva
descripção, verifica-se que os Mundurucás traziam na
orelha um pedaço cylindrico de madeira, no meio da
concha auricular, ao passo que os Manés, usando do
mesmo enfeite, o traziam no lóbulo. (1)
I” esta tambem a posição que o dito enfeite de
madeira tem na cabeça pertencente ao Museu Paulista,
e que desconfio ser proveniente dum indio Mané.
O outro meio para distinguir a proveniencia ethno-
logica destas cubeças mumificadas seria o exame cra-
neologico. Infelizmente a respectiva literatura é muito
deficiente neste ponto e tambem a extensa monographia
de Ehrenreich não trata do craneo dos Mundurucás e
de seus visinhos. Mas, mesmo se existissem indicações
aproveitaveis na literatura craneologica, não poderiam ser
utilizadas sem duvidas e precauções. O rapto continuo
de mulheres e crianças, praticado entre os Mundurucás
mais que em qualquer outra tribu e a facilidade com
que elementos extranhos são assimilados ás tribus mun-
durucús, devem ter alterado profundamente o caracter
physico dos Mundurucás. Deste modo deve ser difficil
chegar a resultados concludentes, sem estudos especiaes
nos proprios aldeamentos dos Mundurucis. |
Se em geral o preparo e a significação das cabeças
mumificadas com craneo, confeccionadas exclusivamente
pelos Mundurucás, são perfeitamente esclarecidos, não
podemos affirmar o mesmo das cabeças sem craneo. To-
dos os exemplares que vejo mencionados na literatura
provem dos Jivaros, e de tribus visinhas, ao passo que
todos os escriptores tratando dos Mundurucús se referem
apenas as cabeças com craneo. Só Barbosa Rodrigues
descreve estes trophéos desprovidos de craneo como fa-
bricados pelos Mundurucüs. Nao sei explicar esta con-
tradicção, observando que Katzer (L €. p. 38) affirma
que conforme suas investigações os Mundurucás prepa-
ram exclusivamente trophéos que incluem o craneo.
(I) Spix e Martius 1. c. Atlas Est. XXXV fg. 6, 7 e 8.
— 198 —
Considerando como exacta a narração de Barbosa Rodri-
gues, seria de presumir que houvesse alguma differença
entre as cabeças preparadas por duas tribus separadas
por tão grande distancia, o que entretanto não acontece.
Ha mais um ponto que exige algumas observações.
Figurei e descrevi (1) um cachimbo em forma de cabeça
humana, que em baixo da bocca tem tres pequenos
buracos, que lembram muito o fechamento da bocca por
suturas.
Tambem nas cabeças desenhadas nas urnas de Ma-
rajó notamos em baixo da bocca tres pequenos traços
e parece-me que um exame minucioso da literatura ar-
cheologica ha de accrescentar observações analogas. Te-
mos de contar com a possibilidade de que o uso da
mumificação de cabeças, hoje restricto aos Jivaros e
Mundurucús, antigamente tivesse tido uma distribuição
vasta na America Meridional e que a analogia tão sur-
prehendente entre tribus tão differentes e tão distantes
não se explique simplesmente pelo acaso.
Nesta supposição me acho de accordo com Ladis-
lau Netto que (1. c p. 323) figura um busto em terra
a cotta sobre um vaso de Marajó, dum sacrifice ou
grande chefe sagrado, que tem nas costas, pendente do
gorro, como trophéo, a cabeça de um inimigo, facto que
nos induz a crêr que na época precolombiana o uso de
taes trophéos fosse mais geral do que na actualidade.
Qualquer que seja a solução deste problema, em
todo caso se trata nestas cabeças mumificadas dum as-
sumpto de grande interesse, cujo estudo particularmente
com referencia á archeologia precolumbiana se recom-
menda, sendo possivel que diversas figuras representando
cabeças humanas em verdade sejam cabeças mumifica-
das ou trophéos.
(1) H. von Ihering, Bemerkungen zur Urgeschichte von Rio Grande
do Sul; Verh. der berl. anthropol. Gesellsch., 1893, p. 191.
ER Que
LISTA BIBLIOGRAPHICA
Ambrosetti, Juan, B., Cabeza humana, preparada segun
el procedimiento de los indios Jivaros
del Ecuador, Anales del Museo Na-
cional de Buenos- Aires, Tom. IX, 1903,
p. 519-523;
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- gleiche, Mit 6 Tafeln und 21 Holz-
schnitten, Stuttgart 1878, p. 142-147;
Blumenbach, J., F., Collectio Craniorum diver. gentium,
6 decades et nova pentas; nova pen-
tas collect. craniorum ed. H. v. Ihe-
ring, Vienna; tab. XLVII;
Castelnau, Francis de, Expédition dans les parties cen-
trales de l'Amérique du Sud, Part VII,
Zoologie, Paris 1855, PL XVIII;
Colini G. A. Osservazioni etnografiche sui Givari,
Reale Accademia dei Lincei, Roma,
1882-1883;
Denis, Ferdinand, Brésil, Paris, 1846, Pl. 21;
Hartt, Carlos Frederico, Contribuições para a Ethno-
logia do Valle do Amazonas, Archi-
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Janeiro, Vol. VI, 1885, p. 129;
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1905,-Est XXII fo 31;
Katzer, F. R., Zur Ethnographie des Rio Tapajéz,
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p38),
Leri, João de, Historia de uma viagem feita 4 terra
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00 =
Alencar Araripe, Rev. do Inst. Hist.
e Geogr. Brazil, Tom. LII, parte II,
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Lorthior, M., Communication sur une tête momifiée,
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Philippi, R. A., Una cabeza numana adorada como
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Ratzel, Friedrich, Voelkerkunde, Leipzig, 1886, II, p.
643%
Rodrigues, J. Barboza,, Revista da. Exposição Anthro-
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Schmeitz, J. D, E., Ethnographische Musea in Midden-
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ODL: J Be DOR! &
Martius, C. F. Ph. von, Reise in Brasilien, Bd. III,
Muenchen 1831, p. 1314, Taf. XX XTIT,
Pat XOX NH HE eee
Tocantins, Antonio Manoel Gonçalves, Estudos sobre
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do Rio de Janeiro, Vol. XL (Il, 1877,
fig) à po 93;
Virchow, Rudolf, Verhandlungen der Berliner Gesell-
schaft fuer Anthropologie, Ethnologie
und Urgeschichte, 1892, p. 78;
a
lt
Wied-Neuwied, Maximilian Prinz zu, Reise nach Brasi-
lien in den Jahren 1615-1817, Frank-
iurt, 1820, Est. XVII, fig. 5;
Wood, I. G. Natural history of man, America, Lon-
dons 1870, p. 979);
Waitz, Theodor, Anthropologie -der Naturvoelker, vol.
UI, parte -I, Leipzig, 1862, p. 370.
Explicação das estampas IX e X
Est. IX. Cabeça humana mumificada com craneo; tro-
phéo dos indios Mundurucás da Amazonia;
Est. X. Cabeça humana mumificada sem craneo; tro-
phéo dos indios Jivaros do Equador.
MR
A ANTIROPOLOGIA DO ESTADO DE SAO PAULO ©
-— PELO —
Prof. Dr. HERMANN von IHERING
CAPITULOS:
1) Os indios actuaes; 3) As linguas;
2) Tradições historicas; 4) Investigações arçheologicas ;
5) Conçlusões.
Explicação dos Mappas XI-XII e Literatura
—#$— 0—s>——— —
1) Os indios actuaes
O litoral do Brazil, na época da descoberta, estava
habitado por indigenas pertencentes ás duas nações: Tupi
e Tapuya. Estes ultimos, os antigos donos desta região,
tinham sido rechassados da costa á Serra do Mar e para
o interior do paiz, pelos povos tupis, que occupavam a
costa, desde a fóz do Amazonas até a do Rio da Prata.
A differença linguistica entre os Tupis e Tupinambás do
Rio de Janeiro e do Norte do Brazil e os Guaranis do
Brazil meridional era tão pequena, que se tornou facil aos
portuguezes entenderem-se por meio de uma só lingua
por toda parte com todos estes indigenas, tendo sido por
este motivo adoptada a denominação de «lingua geral»
para o copjuncto destes diversos dialectos tupis. Da
mesma lingua geral serviam-se os padres para a cathe-
chese dos indios e della provem tambem a maior parte
das denominações de localidades, bem como os nomes de
(*) Traduzido da 2.º edição ingleza deste estudo, que fôra elaborado
para ser distribuido, a pedido da commissão respectiva, na Exposição Universal
de São Luiz, U. S. A., 1904.
pO le
animaes e de plantas indigenas, que enriqueceram o nosso
idioma europeu. ~
A denominação de «Tapuyas» para os povos que não
eram tupis, apparentemente de um valor pratico apenas, foi
reconhecida como sendo bem fundada, pelas investigações
modernas, que nos demonstraram serem estas numerosas
tribus aparentadas entre si, não só sob ponto de vista
ethnographico, mas tambem com relação aos seus cara-
cteres physicos. O craneo dos Tapuyas é dolichocephalo,
o dos Tupis brachycephalo. Tribus das familias Carib e
Aruac, bem representadas nas regiões centraes e occi-
dentaes do: Brazil, nunca existiram no Brazil oriental e
meridional. Está de accordo com este resumo historico
o facto de pertencerem os indigenas, que actualmente se
encontram nos quatro Estados meridionaes do Brazil, a
dous grupos: aos Guaranis e aos Gês, que são o elemento
predominante entre os Tapuyas.
O numero dos indigenas ainda domiciliados no Estado
de São Paulo é presentemente muito reduzido, não exce-
dendo provavelmente a dez mil individuos.
A distribuição dos mesmos no Estado de São Paulo
é tal que no valle do Rio Paranapanema e na grande
região de mattas percorrida por seus afluentes, vivem
os indios independentes e pagãos, ao passo que os
indigenas aldeiados e catechisados são encontrados no
Jitoral e na parte meridional do Estado. Examinaremos
em seguida separadamente estes diversos elementos.
Os Guaranis ou Tupis meridionaes são todos
christãos e usam em geral os utensilios e vestidos, bem
como muitos costumes dos brazileiros, cujos nomes de
familia adoptaram e cuja lingua entendem mais ou menos.
Os Guaranis do Rio Verde, que quasi annualmente
visitam a capital do Estado, para reclamar contra a usur-
pação de parte de seus terrenos pelos fazendeiros vizinhos,
conservaram pouco de seus antigos costumes. Outros
grupos de Guaranis vivem no litoral entre Santos e
— 204 —
Iguape e estes ainda sabem executar bonitos trabalhos
em pennas de côres. Em parte já são cruzados com ele-
mentos da população luzo-brazileira.
Os Cayuds do valle do rio Paranapanema repre-
sentam os Guaranis independentes, mas sabemos que
"só nos annos de 1830-1852 immigraram do Paraguay
e do Matto Grosso meridional para o seu domicilio actual
nos Estados de S. Paulo e Paraná.
Sua côr é a de cobre amarellado, a estatura é me-
diana. Os homens andam nús, ou com um cinto; as
mulheres usam, ao redor da cintura, uma estreita fita
de embira ou um tecido, denominado cheripá. Os ho-
mens cortam os cabellos e perfuram o labio infericr,
mettendo na abertura um tembetá de resina de jatahy,
um cylindro transparente de 20 cm. de comprimento,
mais ou menos; as mulheres costumam pintar o rosto
com traços lineares. Fabricam louças de barro em que
cosinham e em que guardam seus alimentos. Suas armas
são o arco, a flecha, a lança e o cacete. Às flechas são
munidas de compridas pontas de madeira, simples ou far-
padas de um ou dos dous lados.
Informações mais minuciosas do que sobre os Cayuás
do valle do Paranapanema, as quaes devemos princi-
palmente ao Dr. Theodoro Sampaio, temos com relação .
aos indios de egual nação do Alto Paraná, contidas numa |
valiosa monographia de Ambrosetti. Verifica-se por ella
que estes indios já deixaram varios de seus antigos cos-
tumes característicos, como o de dormirem em rêdes e o-
da <couvade», isto é do uso de o pai guardar o leito
em vez da mãe, por occasião do nascimento de uma
creança. Como um resto deste costume póde-se considerar
a dieta rigorosa a que se sujeitam ambos os conjuges
antes do parto. Essas modificações secundarias dos cos-
tumes caracteristicos dificultam o estudo ethnologico, de
modo que um quadro completo só póde ser traçado
pela comparação das condições actuaes com as que
constam dos relatorios dos antigos escriptores. Assim
a anthropophagia pertence já aos costumes abandonados
pelos Cayuás, emquanto que conservam ainda a poly-
gamia. Sepultam o defunto em posição acocorada em
sua cabana, a qual queimam ‘depois do enterro, para o
qual usavam antigamente de grandes urnas funerarias.
Tambem o antigo costume de dormir em rêdes já está
quasi abandonado, servindo as pequenas rêdes em suas
casas mais como assento e para as creanças do que
para cama dos adultos, os quaes dormem no chão.
Os actuaes Cayuás distinguem-se vantajosamente por
sua sobriedade, não preparando elles bebidas alcoolicas. São
bastante timidos e usam geralmente de amuletos para a
caça e o amor, os quaes denominam «payé». As suas
cabanas, denominadas «tapui», são espaçosas, construi-
das de madeira e cobertas de folhas de palmeira. Estas
cabanas são construidas no matto, onde preparam tam-
bem as roças destinadas ás suas plantações. Como ali-
mento em primeiro logar lhes serve o milho; plantam
tambem mandioca, batatas e algodão, e deste sabem
confeccionar tecidos, elegantes gorros, etc. Os homens
são bons caçadores e pescadores e sabem pegar muitos
animaes em mundéos e urupucas.
Informa-nos o Dr. Theodoro Sampaio (Nº 43) que
no valle do rio Paranapanema encontrou Guaranis e
Cayuás. E’ necessario notar, entretanto, que a diffe-
rença entre ambos é insignificante, sendo em geral os
Guaranis de tez um pouco mais clara e distinguindo-se
elles entre si, Talvez sejam os Guaranis o elemento mais
antigo, sendo os Cayuás recem-immigrados.
O nome destes indios, escreve-se Cayuá ou Cainguá
e não deve ser confundido com o dos Cayowas do Alto
Tapajóz. O nome dos Cayuás as vezes é escripto «Cain-
gue», o que explica a possibilidade de esta tribu ser
contundida com a dos Caingangue.
gE)
Siemiradzki (N.º 49) distingue Cainguás e Caingues
entre os indigenas do Paraguay e Ehrenreich menciona
(N.º 10) Kainguá e Kaiowa, mencionando ainda no mappa
Caioa e Canguá. Estes auctores não deixam, duvida sobre
que as referidas tribus pertençam á familia guarani e
o mesmo diz Castelnau de seus Cayowas do Paraguay,
que, como já disse, não devem ser confundidos com os
Cayowas do Alto Tocantins.
Para evitar pelo futuro equivocos com relação aos
Cavuás do Brazil meridional e Paraguay e aos do rio
Tocantins, será conveniente designar os Cayuás do Bra-
zil meridional com o nome de Notocayuás.
Julgo conveniente dar publicidade aqui a duas ta-
bellas craneometricas referentes aos indios deste grupo.
Tabella de medidas dos Indios guaranis do Rio Verde
examinados por H. von lhering (1897)
ay a 18 a o
ofl 8 |[ES|EJSEGILS| vs
NOMES BS) E |SS ES 2s | ps da
5 4 3 Ea
SE] * |Ss|ss|6s|ns|"8
mm mm mm mm
1) Capitäo Antonio Jesuino Ro-
drigues 48 |1°,705 | 253 80 | 185 | 155 | 83, 8
2) Antonio Pedro . 55 | 1,630 | 257 87 | 186 | 146 | 78,5
3) Joaquim Leme 46 | 1,625 | 248 84 | 181 | 150 | 82, 9
4) Joaquim Fortunato de Souza | 30 | 1,695 | 248 79 | 189 | 152 | 80, 4
5) José Pedro. IS | 1,420 | 230 66 | 179 | 150 | 83, 8
6) José Baptista . 18 | 1,630 | 255 90H ATOM TRS
No anno passado o Snr. Ricardo Krone procedeu
a um exame dos Guaranis do valle do Rio Itariri e de
seu afluente, o Rio do Peixe, procedendo segundo ins-
trucções por mim recebidas e por ordem da Commissäo
Executiva da Exposição de São Luiz. O Snr. Krone
nesta occasião examinou 13 individuos, 8 homens e 5
mulheres.
Um ponto de especial interesse é o facto da pro-
nunciada brachycephalia destes indios que é de 82,4
para a serie total, sendo, segundo as indicações do Snr.
Krone, de 81,1 para os homens e de 84,4 para as
mulheres. Parece-me entretanto, terem-se dado alguns
enganos neste sentido. Assim por exemplo no individuo
numero VII (José Joaquim) o comprimento é de 90 mm,,
a largura de 152 mm. o que corresponde ao indice
cephalico de 80 e não de 75,6 como indica a tabella
do Snr. Krone.
Acontecendo que no calculo dos indices da tabella
do Snr. Krone, referente a estes Guaranis dos rios Ita-
riri e do Peixe, se deram varios enganos, dou aqui a
tabella exacta dos indices cephalico:
Homens | Compr. | Largura | Indice | Mulheres| Compr. | Largura | Indice
if 18,2 14,7 80 VIII 18 15 83
II 18,6 15 81 1X 17,8 | 14,8 83
II 18,4 15 ees ak: Be Leas ty na 90
LEE Ha LO 15,8 10.83 XI 18 14,8 82
V 19 15,5 81 XII 17 14,5 85
VI 18,5 DES 83
VII 19 15,2 80
XII 19 15,4 81
| à
Média do indice cephalico para 8 homens: St. Média de indice cephalico para 5 mulheres: 85.
Média geral do indice cephalico: 82,46.
Um ponto, em que não estou de accordo com o
Snr. Krone, é a pureza do sangue dos individuos exa-
minados.
O Snr. Krone exclãe dos indios puros os sob
numeros 5, 6, 8 e 10, considerando os demais como Gua-
5 ORR
ranis legitimos. Noto, entretanto, que entre os suppostos
typos legitimos ha varios de cabellos crespos e outros que
tem o cabello grisalho, embora contem apenas 40 ou 45
annos de edade.
E’ pois de suppor que tambem os individuos pre-
sumidos legitimos em parte já sejam mestiços.
Com esta conclusão se acha de conformidade a
desegualdade das physionomias, de entre as quaes é im-
possivel reconhecer um typo commum ou uniforme; de
outro lado, porém, a configuração do craneo é bastante
uniforme, o que evidentemente é devido ao facto de
terem tido craneo brachycephalo tambem os elementos
nacionaes que se mesclaram com estes indios do valle
do Rio Ribeira.
Em geral as observações do Snr. Krone se acham
de conformidade com as minhas, feitas em indios gua-
ranis do Rio Verde, com a excepção só de serem estes
de estatura um pouco mais alta.
Será conveniente lembrar aqui tambem o excellente
estudo do Snr. Juan Ambrosetti sobre os Cayuás, o qual
contem dados anthropologicos que estão de pleno ac-
cordo com as minhas observações e as do Snr. Krone.
Podemos dizer neste sentido que o grupo guarani
nos é bem conhecido em relação a sua anthropologia,
ethnologia, linguistica, historia e archeologia. São infeliz-
mente ainda poucas as tribus brazileiras de que se tem
um conhecimento tão completo.
Os Caingangs. A este grupo de indios pertencem
unicamente os temidos «Bugres» do Brazil meridional,
que tantos embaraços tem opposto á população do in-
terior ou sertão do nosso paiz.
O antigo nome deste grupo era o de Guayanas,
mas esta denominação perdeu-se successivamente, tendo
sido conservada apenas no oeste do Estado de S. Paulo,
nos municipios de Itapéva e Faxina. Em geral são
actualmente conhecidos sob os nomes de «Bugres» e de
«Coroados», referindo-se esta ultima denominação ao cos-
tume que tem, de cortar o cabello do vertice em forma
de coroa, uso que entretanto já foi abandonado por al-
gumas tribus. Esta denominação de Coroados porém é
summamente impropria, porque induz a confundil-os com
os verdadeiros Coroados do Estado de Minas e Matto
Grosso. Embora desde muito seja sabido que entre os
indigenas designados com este nome no Brazil meridio-
nal e no Matto Grosso, não existem relações de verda-
deiro parentesco, sempre de novo originaram-se deste
modo equivocos, como ainda aconteceu, ha pouco, ao
eminente linguista Brinton (N° 8), pois que reuniu os
Caingangs, sob o nome de Coroados, e os Camés com
os Coroados e Carajás (American Race, p. 260), sepa-
rando-os dos Tapuias, ao passo que os Guayanäs são
erroneamente considerados como pertencentes á familia.
Tupi. Por este motivo acostumamo-nos no Brazil a cha-
mar de «Caingangs» a estes Pseudo-Coroados do Brazil
meridional. E’ assim que elles mesmos se denominam,
significando esta palavra «gente do matto», e é notavel
a coincidencia da palavra «cá»-—matto, com a mesma
denominação na lingua tupi. 3
Foi Telemaco Borba (Nº 7) o primeiro que em
1882, introduziu na literatura scientifica esta deno-
minação, seguindo-lhe pouco depois neste exemplo o Vis-
conde E. de Taunay.
E” preciso, entretanto, notar que, em vez da deno-
minação geral do grupo, as vezes são usadas as deno-
minações locaes de diversas tribus componentes do gru-
po. Assim é usada em Santa Catharina a denominação
Socré, evidentemente identica com a de Xocren, usada
no Estado de Paraná, e no mesmo Estado, como no de
S. Paulo, conservou-se tambem a denominação de Camés
para uma tribu moradora dos campos.
As diversas tribus, de que se compõe a nação dos
Caingangs no Estado de Paraná, são, segundo a memoria
— 210 —
do Vise. de Taunay: Camés, Votordes, Dorins, Xocrens
e Tavens.
No Estado de S. Paulo temos de mencionar os
Camés, aldeiados no litoral entre Santos e Iguape, os
Guavanäs de Itapéva e Faxina e os Caingangs do valle
do Paranapanema e de seus affluentes, que, como já disse-
mos, geralmente são denominados Coroados. Eram estes
indios que nos annos de 1880-1886 commettiam innume-
ros e barbaros assaltos e assassinatos, difficultando sum-
mamente o povoamento da zona. Sobre este assumpto
acham-se colhidos os respectivos dados na memoria do Dr.
Theodoro Sampaio (N.º 43). Os mesmos Caingangs assal-
taram e exterminaram a expedição de Monsenhor Claro
Monteiro, destinada á exploração do rio Feio e catechese
dos indios do Baurá, sendo o mesmo sacerdote morio
por esta occasiäo, a 22 de maio de 1901.
Os Caingangs vivem em pequenas aldeias, compos-
tas de simples choupanas, cobertas com folhas de palmei-
ra, destinadas ás differentes familias. De dia e de noute
fica acceso no meio da cabana um fogo, deitando-se os
moradores sobre pedaços de casca de arvore, com os
pés virados contra o fogo. Os homens andam nús, usando
porém na estação fria de pannos grossos, feitos das fi-
bras da ortiga brava. Estes pannos, Curtis, ornamen-
tados com desenhos lineares, representam uma parti-
cularidade industrial dos Caingangs. O seu alimento é
constituido particularmente pela caça e fructos do matto;
plantam tambem milho e fazem grande colheita de pi-
nhões. Os pinheiros desempenham papel importante na
vida dos Caingangs e parece-me que a antiga ditribuição
destes deve ter sido mais ou menos identica com a da
Araucaria brasiliensis. As armas são arcos e flechas,
cujas pontas são feitas de pedra, ossos de macacos ou
de ferro europeu. Não usam pontas de flechas feitas de
bambá e, como parece, tão pouco as de medeira, embora
provavelmente algumas tribus adoptassem esta qualidade
de flecha de seus visinhos.
Existe o costume da polygamia, mas o numero de
mulheres em geral não excede a duas ou tres. Para
suas festas preparam uma bebida alcoolica de pinhões e
milho. Os enterros se fazem no chão, elevando-se em
cima do cadaver um tumulo de ca. de 2 m. de altura, em
forma conica. Em geral não são canoeiros, estando pouco
acostumados á vida nos grandes rios. Parece que neste
sentido e no da pescaria aprenderam com os seus visi-
. nhos Guaranis, pois que, em caso contrario, seria extranha-
vel que as palavras para peixe (pirá) e cerco de peixe
(parí) lhes tenham provindo da lingua tupi. Assam a carne,
a qual não comem crua, nem são anthropophagos; não
conhecem o uso do sal. Fazem uma qualidade de pão de
milho apodrecido.
Quasi tudo que sabemos da vida dos Caingangs
refere-se a observações feitas nos Estados do Rio Grande
do Sul e do Paraná, com relação a indios aldeados. A
cultura dos Caingangs ou « Corôados » de S. Paulo é-nos
quasi inteiramente desconhecida, mesmo por serem elles
absolutamente refractarios a qualquer relação amistosa
com a população brazileira, ainda quando estes estejam em
companhia de indigenas que falem a sua lingua. No correr
dos ultimos annos tivemos a lamentar no Estado de São
Paulo o assassinato do Monsenhor Claro Monteiro, facto ao
qual já acima nos referimos, bem como dous assaltos practi-
cados contra expedições da Commissão Geographica e
Geologica deste Estado. O primeiro destes assaltos deu-se
á margem do Rio Feio, tendo sido neste occasião feridos
por flechadas o chefe da turma exploradora, Dr. Olavo
Hummel e diversos camaradas. O segundo encontro deu-se
no Rio do Peixe por occasião da descida das canoas da
turma chefiada pelo Dr. Gentil Moura que explorava o
curso do Rio do Peixe.
14
Sobre esta exploração, que constatou que o Rio do
Peixe é o mesmo rio que no curso inferior tem o nome
de Aguapehy, publicou o chefe da Commissão Geogra-
phica, Dr. João Pedro Cardozo (N.º 9), um relatorio mi-
nucioso e ricamente illustrado.
Por occasiäo do segundo assalto mencionado, de 24
de Setembro de 1906, o pessoal da expedição lançou-se
immediatamente á perseguição dos selvagens, batendo as
mattas e déscobriu-se por esta occasião a malóca dos mes-
mos Caingangs. As informações que sobre esta exploração
contem o referido relatorio, juntamente com os interes-
santes objectos ethnographicos guardados na Commissäo
Geographica de São Paulo, e em parte offerecidos ao
Museu Paulista, modificaram a situação precaria quanto
ao conhecimento dos Caingangs de São Paulo, de modo
que em seguida podemos dar algumas informações exactas.
As miseras choupanas dos Caingangs consistem ape-
nas em algumas varas enfincadas no chão, no interior
da matta; formam uma especie de toldo de barraca,
aberto nos dous lados, com cumieira no meio e coberto
com folhas de palmeiras. São pequenas e evidentemente
destinadas cada uma a um só casal. Os indios dormem
no chão, sobre uma cama de folhas seccas. Não tem
plantações, nutrindo-se de caça, peixes, fructas selvagens,
mel de pão, etc. A carne é assada em uma cova aberta
ao lado da choupana, entre pedras acquecidas. Afim de
melhor poder lidar entre estas pedras quentes e com as
brazas, uzam de pinças de madeira, que são cuidado-
samente trabalhadas na parte superior, intermedia entre
os dous braços. Estes selvicolas não tem vestimentas,
mas segundo informações que obtive, uzam as vezes uma
cinta estreita, de tecido. Na época do frio cobrem-se
com pannos grossos, feitos das fibras da ortiga. brava e
denominados na lingua delles Curú. Os exemplares de
nossa collecção tem 164130 cent. de dimensão e uma
grossura de 3 mm. Quasi sempre notam-se nesses pan-
— 213 —
nos desenhos lineares em zig-zag, produzidos por fios tin-
gidos de côr pardo-escura.
As armas consistem em tacapes, que são apenas com-
pridas varas descascadas, bem como arcos e flechas.
Estas . ultimas são feitas da canna do Taquary,
munidas na extremidade posterior de pennas de Mcauco,
Gavião ou outras aves e tendo na outra extremidade
uma ponta de osso ou de ferro. Evidentemente gostam
muito para tal fim de instrumentos de metal, que ob-
tem pelos seus assaltos ás moradias dos sertanejos.
As pontas de osso consistem em pedaços de ossos de
extremidades de mammiferos, em geral pequenos e agu-
gados; raramente cortam lascas mais largas de ossos
de mammiferos maiores. A ponta é adaptada, em posi-
ção obliqua, á extremidade da canna, á qual é firme-
mente ligada por tiras de imbé. Vi tambem na Com-
missão Geographica um virote de ponta grossa, de ma-
deira, cuja parte axial se prolongava para diante em uma
ponta fina, de alguns centimetros de comprimento. Os
arcos, feitos em geral de madeira de Pao de arco, são
fortes, de secção circular, tendo os de caça um compri-
mento de 2 metros e os de guerra quasi 3 metros.
Entre os utensilios domesticos notamos ainda va-
sos de barro cozido, de fórma alongada, alta, conicos
em baixo e munidos logo abaixo da orla de um largo
sulco. Um destes pótes foi encontrado ainda: cheio pela
metade com mel. Foram encontrados nas cabanas do Rio
do Peixe cestos bem trabalhados de taquára, um porongo
revestido de um tescido ralo de alguns poucos fios grossos
e cheio de folhas de herva-matte, seccas e soccadas.
Os unicos objectos de enfeite que lhes conhecemos
são collares com dentes incisivos de macacos. Não estou
bem informado quanto a seus instrumentos de musica,
mas. sabemos que das bracteas de coqueiros preparam
buzinas, cujo som se ouve a grande distancia. E” parti-
cularmente em suas expedições guerreiras que elles se
— 214 —
servem destas buzinas e o seu grito alarmante muitas
vezes tem assustado os colonos domiciliados em terras
proximas dos territorios dos indios. Retirando-se elles de-
pois de seus assaltos para os esconderijos, os Caingangs
procuram reter os perseguidores, deitando, escondido em
meio das suas picadas, os estrepes, feitos de pontas de
osso, reunidos em maço por cera e fios, que devem fe-
rir horrivelmente o pé da victima que sobre elles pisar
descalço.
Os Chavantes do valle do Rio Paranapanema não
são, como Ehrenreich o pensou, uma tribu dos Caingangs,
mas um grupo independente da familia Gês.
Existem dous vocabularios de sua lingua, publica-
dos por Ewerton Quadros (N.º 12) e Telemaco Borba
(Nº 7). E evidente pelos mesmos que o seu idioma
é differente do dos Chavantes de Goraz e Matto Grosso,
motivo por que receberam o nome de Eeochavantes (N.º
19). As melhores informações sobre estes «Chavantes »
do Estado de S. Paulo, que vivem nos campos. entre os
cursos inferiores dos rios Paranapanema e Tieté, devemos
ao general Ewerton Quadros, e em seguida as reprodu-
zimos.
Os Chavantes são os mais escuros e mais atrazados
de entre todos os indios de S. Paulo; alimentam-se de
caça, insectos e larvas, e, impellidos pela fome, chegam-se
tambem ás habitações dos sertanejos, para roubar nas
roças e matar os animaes domesticos; comtudo não se
tornam perigosos, pois não aggridem ninguem e são antes
timidos, e, pelo contacto mais frequente, tornam-se doceis
e fieis. Têm os pés pequenos, as pernas finas, o ventre cres-
cido; mandibulas salientes, olhos pequenos e horizontaes.
Seus arcos são feitos do cerne da palmeira e as
pontas de suas flechas do cerne do alecrim, tendo muitas
farpas de um só dos lados; suas lanças, do cerne da
aroeira, medem 2,” 50 de comprimento quando: destinados
a homens e 1,"50 os das mulheres.
— 215 —
Todos elles, homens, mulheres e crianças, uzam de
um cordão de embira ao redor da cintura, tendo o das
mulheres um appendice, que passa por entre as pernas.
Todos elles cortam os cabeilos ao redor da cabeça, e fazem
córtes longitudinaes no pavilhão das orelhas. Uzam col-
lares de dentes de animaes, e não fabricam e nem se
servem de louça. Suas choupanas, feitas de folhas de
palmeira, são muito baixas e acanhadas, não se podendo
alojar nellas mais de um casal em cada uma.
Os Chavantes repellem a polygamia, e não em-
pregam suas armas contra o homem.
Emquanto que quasi todas as palavras do vocabu-
lario dos Cayuás e dos Coroados são agudas, as dos
Chavantes tem quasi todas o accento agudo na penul-
tima svllaba.
*
* +
Os actuaes indios do Estado de S. Paulo não repre-
sentam um elemento de trabalho e de progresso. Como
tambem nos outros Estados do Brazil, não se póde espe-
rar trabalho sério e continuado dos indios civilizados e
como os Caingangs selvagens são um impecilio para a
colonização das regiões do sertão que habitam, parece
que não ha outro meio, de que se possa lançar mão,
senão o seu exterminio.
A conversão dos indios não tem dado resultado
satisfactorio; aquelles indios que se uniram aos portu-
guezes immigrados, só deixaram uma influencia malefica
nos habitos da população rural. E” minha convicção de
que é devido essencialmente a essas circumstancias, que
o Estado de S. Paulo é obrigado a introduzir milhares
de immigrantes, pois que não se póde contar, de modo
efficaz e seguro, com os serviços dessa população indi-
gena, para os trabalhos que a lavoura: exige.
nao pra
2) Tradições historicas
Por esta minha descripção dos indios, que actual-
mente vivem no Estado de S. Paulo, torna-se evidente
que elles perderam a maior parie de seus antigos usos
característicos. Em geral os indios cathechisados, que
estão domiciliados nas aldeias deste Estado, não offere-
cem nenhum interesse ethnographico e aquelles, que a
este respeito são dignos de attenção, levam uma vida
retirada e são inaccessiveis, tornando-se perigosos á escassa
população civilizada do sertão. Exemplo disto foram os
excessos de 1901 no municipio de Baurá, aos quaes já
pouco acima nos referimos. Nestas circumstancias os
nossos conhecimentos destes aborigenes teriam sido muito
incompletos sem as valiosas informações que se acham
na literatura do seculo XVI. Neste sentido o «Roteiro
de Gabriel Soares de Souza» (N.º 53) é de summa
importancia. Não obstante o auctor desse Roteiro não
ter vivido em S. Paulo, elle manifesta conhecimentos
profundos das tribus que então habitavam o territorio
do Estado de S. Paulo. Os principaes entre estes, se-
gundo sua narração, eram os seguintes: os Tubinambás,
os Carijós, e os Guayanãs. Estes ultimos, como nol-o
diz o auctor; dormem sobre o chão e sua lingua distin-
gue-se da dos Tupis. Por isso é evidente que os Guaya-
nãs eram os antecessores dos Caingangs, que, em certos
districtos do Oeste do Estado, conservaram ainda no
correr do seculo passado o nome de Guayanãs. No tempo
do descobrimento do Brazil os Guayanãs habitavam a
Serra do Mar e as planicies onde agora está situada a
capital de $. Paulo. Os Carijós viviam entre Cananéa e
Santa Catharina, emquanto que os Tubinambás occupa-
vam a região entre Santos e Angra dos Reis, perto do
Rio de Janeiro.
Hans Staden (N.º 50), que nos annos de 1549-
1554 viveu como prisioneiro entre os Tupinambás ao
Norte de Santos, publicou um livro interessante sobre
sua captividade entre os selvagens. O estudo critico deste
livro mostrou que elle merece toda fé, particularmente
com relação a tudo quanto elle mesmo poude observar.
Mas as informações que obteve indirectamente, “como
por exemplo a anthropophagia dos Guayanãs, não devem
merecer o mesmo credito. À anthropophagia, usual entre
os Guayanãs e Tupis, não era practicada pelos povos da
familia dos Gês. Assim ainda Ewerton Quadros afirma
que os Cayuás devoravam seus prisioneiros, em quanto
que sabemos que os Guayanãs e Caingangs não comiam
carne humana.
Os Tupis, como Hans Staden os descreve, eram um
povo energico e bellicoso, canoeiros intrepidos, que, em
suas frageis embarcações, emprehendiam expedições bel-
licosas, que os levavam a grandes distancias. Suas amplas
cabanas, destinadas para um grande numero de familias,
estavam reunidas em aideias; estas eram fortificadas por
meio de pallisadas, nas pontas das quaes costumavam
pôr as cabeças dos seus inimigos mortos em combate.
Dormiam em rêdes e alimentavam-se não só do resul-
tado de sua caça e pescaria, mas tambem dos productos
que lhes forneciam suas plantações. O cannibalismo não
era usual entre elles.
Os Guayanäs de outro lado, consoante Gabriel
Soares, practicavam o cannibalismo e tratavam seus pri-
sioneiros com brandura. Elles não dormiam em rêdes,
mas sobre o chão e aquelles que viviam nos campos,
escavavam o chão, para assim fazer suas casas; não
tinham plantações. Os Guayanãs não eram muito belli-
cosos e facilmente entravam em boas relações com os
portuguezes, os quaes entretanto não podiam esperar bons
serviços da parte d’aquelles que aprisionavam para que
lhes servissem de escravos. (*)
(*) No manuscripto de Knivet (N.º 23) de 1591 da bibliotheca do
Dr. Eduardo Prado encontra-se, á pagina 125, um capitulo dedicado aos indios ;
a 9g
Na sua cultura os Carijos assemelhavam-se muito
aos Tupis, mas o seu caracter era mais brando; elles
não eram cannibaes ou então abandonaram muito cedo
este costume, pelo menos no Brazil meridional, No Pa-
raguay, entretanto, Ulrich Schmidel ainda encontrou-os
entregues ao cannibalismo. Em quanto que os Tupi-
nambás andavam nús, os Carijós usavam capas e as
mulheres vestiam aventaes de algodão. O ornamento
caracteristico dos Carijós é o tembetá, feito de resina e
que collocavam na perfuração do labio inferior. Os Ca-
rijós tinham vasta distribuição no Brazil meridional;
cada familia occupava a sua cabana propria. Antes do
descobrimento da America do Sul parece que tinham o
seu domicilio extendido mais para o Sul. O Snr. Lafone
Quevedo (N.º 26) indica que a lingua dos Guaranis se
fallava no tempo do descobrimento só entre a população
das ilhas, situadas na emboccadura do Rio da Prata e
nas adjacencias da margem septentrional deste rio. E
evidente que os poucos Guaranis representavam o resto
d'uma grande massa de população, que foi destruida ou
expulsa por outras tribus.
delle traduzo o seguinte trecho, referente aos Guayanãs: «Os Wayanasses vivem
a 18 legoas ao Sul do Rio de Januario num lugar chamado pelos portuguezes
«Ilha Grande». Estes anthropophagos são de apparencia toleravelmente boa.
Elles talham seu corpo e não se vangloriam tanto de comerem carne humana,
como os Tomayes, os Tomymenos e outros cannibaes o fazem. As mulheres são
gordas de corpo e muito feias, mas ellas tem muito boas caras. As mulheres
desta região pintam seu corpo e suas faces com uma cousa que se chama em
sua lingua «Vrucu», que cresce numa vagem como uma fava, e de que se faz
uma tinta vermelha como 6ca; é por causa desta côr que parecem tão feias.
Os cabellos, tanto dos homens como das mulheres, crescem muito longos, dos
dous lados; porem na corôa elles os cortam como os frades franciscanos. Estes
cannibaes deitam-se em rêdes feitas da casca de arvores e tambem quando viajam
pelo sertão carregam ás costas, em pequenas rêdes, todas as provisões que têm.
Nunca lhes falta o tabaco, que elles o estimam muito mais do que qualquer
cousa que têm em seu paiz, e com elle curam tambem as suas chagas quando
estão feridos. Quando os portuguezes têm precisão de escravos, elles vem a
Ilha Grande e ahi têm certeza de encontrar com alguns dos Wayanasses a pescar.
Então elles lhes mostram facas, perolas e vidros e lhes dizem que mercadorias
querem; e logo elles irão a um lugar chamado em sua lingua « Iawarapipo »,
que é sua cidade mais importante e dahi trazem tudo aquillo que julgam poder
vender na costa, e tão barato como puderdes, podeis comprar d’elles.
— 219 —
Os diversos auctores não estão de accordo com rela-
ção ás differentes tribus indigenas e Gabriel Soares não
dá informações detalhadas quanto aos Tupiniquins. Hans
Staden, entretanto, nos informa que os Tupiniquins, que
viviam em boas relações com os portuguezes, occupavam
o litoral numa extensão de 40 legoas e a cerca de 80
legoas para o interior; em sua carta de 1565 (Rev. Inst.
Hist. Tom. III, Rio de Janeiro 1841 (2° ed. 1860)
p. 250) o Padre Joseph de Anchieta menciona tambem
os Tupiniquins de S. Vicente.
Algumas tribus do Brazil central, que agora não
estão mais representadas no Estado de São Paulo, com-
tudo outrora habitavam este territorio. Von Martius
indica (N.º 35) que os Cayapós do Matto Grosso anti-
gamente viviam tambem no Estado de S. Paulo, nas
margens inferiores do Rio Tieté e entre este rio e o Rio
Paranahyba. Do outro lado do Estado os Puris, domi-
ciliados nos Estados de Minas Geraes e Espirito Santo,
viviam então tambem na região septentrional do Estado
de S. Paulo, onde em 1800, São João de Queluz (*)
foi estabelecido: como aldeiamento destes indios. Segundo
frei Gaspar da Madre de Deus o domicilio dos Jeronimes
e Puris no Estado de 8. Paulo ficava- entre Guaratin- |
guetá e Taubaté.
O leitor comprehenderá mais facilmente a distribui-
ção actual e antiga dos indiós do Estado de 8. Paulo
comparando os dous mappas que indicam a distribuição
destes indios, tanto em nossos dias, como no tempo do
descobrimento.
Hans Staden enumera como inimigos dos Tupi-
nambás os Goyatacaz ao Norte e os Carajás ao Sul.
(*) Quanto a este assumpto compare-se as informações do Vigario
Francisco das Chagas Lima (Rev. Inst. Hist. Tomo V, 3.º ed., Rio de Janeiro
1885, p. 72), como tambem Frei (Gaspar da Madre de Deus, loc. cit. Tomo
XXIV, Rio de Janeiro, 1861, p. 554. O Visconde de Porto Seguro (N.º 41)
afirma egualmente que os Puris viveram tambem em Taubaté.
op =
Parece por conseguinte que os Carajás occupavam anti-
gamente uma parte do Noroeste do Estado de S. Paulo.
Os Tamoyos, que viviam entre o Rio de Janeiro e
Angra dos Reis, ligavam-se occasionalmente com os Tupi-
nambás e alguns auctores crém mesmo que estes “dous
povos fossem identicos.
Por minha parte, distinguindo-os, estou de accordo
com (Gabriel Soares e Hans Staden; este ultimo auctor
diz expressamente que os indios da costa septentrional
de S. Paulo, entre os quaes viveu, chamavam-se a si mes-
mos Tupinambás.
Não posso achar informações exactas quanto aos
Tremembés da familia Tapuya; parece que viviam nas
partes septerionaes do Estado, onde ainda diversas loca-
lidades têm a mesma denominação.
Uma outra tribu, a respeito da qual só temos infor-
mações incompletas, são os Itanhaens, que habitam a
costa de São Paulo, ao Sul de S. Vicente em Itanhaen,
e aos quaes se refere Machado de Oliveira (N° 30).
Parece que eram da familia Guayanã e são talvez iden-
ticos com os Camés da costa meridional de S. Paulo;
von Martius os menciona. Ainda não pude verificar se
existem restos destes Camés na zona litoral do Sul de
S. Paulo, onde o nome dos Camés agora é desconhecido.
Com referencia aos Guanaos já emitti em outro
logar minha opinião (N° 16). Este povo, um membro
da familia Guarani, viveu na parte septentrional do Rio
Grande do Sul e nas adjacencias de Santa Catharina.
Gay nos communica (N.º 14) uma carta do anno de 1683
do padre Garcia, que visitou esta região.
Os Tamoyos eram relacionados com os Tupinambas,
como o eram tambem os Temininos, domiciliados na costa,
entre Angra dos Reis e o Rio de Janeiro.
E esta a razão porque por vezes, como já disse
acima, encontramos os Tamoyos mencionados na historia
de São Paulo, quando esperariamos encontrar o nome
dos Tupinambás. Pedro Taques de Almeida (N.º 54) diz
por exemplo, que os portuguezes, tendo fundado em 1531
a villa de S. Vicente, durante tres annos estavam expos-
tos aos combates com os Carijós, Tamoyos e Guayanãs.
Assim, no anno de 1562 a cidade de S. Paulo, fundada
em 1560, foi atacada por diversos indios entre os quaes
encontramos mencionado o nome dos Tamoyos, em com-
binação com os Tremembés, que se diz serem Tapuias,
e tambem com uma parte dos Guayanäs. A historia
deste episodio foi bem descripta por Machado de Oli-
veira (N° 30). |
Hans Staden emprega só o nome de Tupinambás
para estes indios tupis da costa septentrional de São
Paulo; indica que os inimigos delles eram os Goyata-
cazes ao Norte e os Carajás a Oeste. Parece portanto
que estes indios, que em nossos dias estão restringidos
quasi só ao Goyaz, e que antigamente se estendiam
para os dous lados até Minas Geraes e Matto Grosso,
outrora occupavam o Noroeste do Estado de S. Paulo.
Em geral os Tupinambás e as tribus alliadas eram, nos
tempos da conquista, os confederados dos francezes e
inimigos dos portuguezes, emquanto que os Guavanäs
e Tupiniquins eram amigos destes.
Como estas duas nações então viviam em parte
conjunctamente em S. Paulo e como a lingua adoptada
pelos portuguezes era o tupi, não podemos davidar de
que os Guayanãs devem ter tido algum conhecimento da
linguagem tupi e provavelmente tambem seus nomes,
adoptados pelos portuguezes, provêm deste idioma. E
por conseguinte dificil de dizer se Tibiriçá e outros
caciques de Piratininga pertenceram a esta ou aquella
nação.
Sabemos, entretanto, que alguns annos depois da
cundação de S. Paulo os Guayanãs abandonaram esta
fidade e se estabeleceram nas aldeias de S. Miguel e
Pinheiros, a pouca distancia. Isso parece indicar que os
Tupiniquins eram o elemento dominante, o que estaria
de accordo com a indole pacifica dos Guayanãs de S.
Paulo na grande região dos campos abertos. Uma de
suas tribus é conhecida pelo nome de Camés, palavra
que significa na linguagem dos Caingangs « cobardes ».
Que os Tupiniquins eram o elemento predominante em
Piratininga (São Paulo) prova-se pelas urnas funera-
rias encontradas na rua de Piratininga da actual cidade
de São Paulo ( Braz ); estas urnas estão guardadas no
Museu Paulista.
Tambem em vista disso não duvido que os chefes
acima mencionados destes indios de Piratininga perten-
ceram á nação dos Tupiniquins, assumpto do qual o
Dr. Washington Luis se occupou na sessão de Julho
de 1903 do Instituto Historico de São Paulo. Os anti-
gos escriptores não dão informações sobre a nacionali-
dade destes chefes e a affirmação de Frei Gaspar da
Madre de Deus (N.º 32), de que Tibiriçá fora Guayana
é portanto sem valor.
Procurei colligir todas as indicações que se referem
á distribuição tanto antiga como actual dos indigenas de
São Paulo e dos Estados adjacentes. Segundo estas indi-
cações organizei dous mappas, que acompanham o pre-
sente estudo. A comparação destes dous mappas leva-nos
aos seguintes resultados, assáz interessantes:
1) A grande diminuição do elemento indigena,
devido em parte «o seu exterminio, em parte á sua
fusão com o elemento rural immigrado;
2) O desapparecimento completo das tribus tupis;
3) A conservação de uma parte dos antigos Gua-
ranis e Carijós - no Brazil meridional e no Paraguay,
onde agora são denominados Guaranis, Arés e Cayuás;
— 223 —
4) A conservação de uma grande parte dos anti-
gos Guayanãs no Brazil meridional e no Paraguay, prin-
cipalmente no sertão da bacia do Rio Paraguay.
5) O desapparecimento, do Estado de $. Paulo, de
certas tribus do Brazil central, como por exemplo dos
Cayapós, Puris e Carajás, os quaes todos antigamente
occupavam uma área muito mais extensa.
O que difficulta o estudo comparativo dos indios do
Brazil é o estado incompleto de nossos conhecimentos
geraes da ethnographia do Brazil. Para alguns dos grupos
septentrionaes de indios, como os Caraibes e os Nu-
Aruaks, os estudos de Ehrenreich e von den Steinen nos
trouxeram a elucidação, mas estes grupos nunca estiveram
representados no Brazil meridional.
E' a definição exacta do que sejam os Gês e os
Crens de Martius, que agora nos offerece a maior diffi-
culdade.
Ehrenreich, entretanto, separa os Puris e tribus
“alliadas dos Gês, baseado em razões linguisticas, mas eu
não posso concordar com esta sua opinião. As differen-
ças linguisticas entre os diversos membros da familia
dos Gés são muito grandes, e mesmo entre o grupo
meridional dos Gês se encontram differenças muito evi-
dentes, taes como as que ha entre os Caingangs e os
Ingains. Devemos relembrar que todas as dissemelhan-
cas indicadas não se baseiam exclusivamente na diver-
sidade dos vocabulos. Minha experiencia quanto aos
Caingangs suggeriram-me a opinião de que as differen-
cas grammaticaes entre as linguas dos Tupis e dos Cain-
gangs não são essenciaes. De outro lado Ehrenreich
nos communica alguns traços característicos dos Gés,
dos quaes, entretanto, só dous são communs ás diversas
tribus dos Gés, a saber: a falta de rêdes e o pouco desen-
volvimento da navegação.
Ehrenreich menciona como caracteristicos aos Gés
os discos de madeira usados como ornamentos nas per-
furações dos beiços e das orelhas; mas os Caingangs e
Chavantes não conhecem este uso e o mesmo se dá
com relação ás flechas com pontas de taquára. Entre
os indios do Brazil meridional não se encontram flechas
com pontas de taquára. As flechas dos Chavantes têm
pontas farpadas e os Caingangs usam, além destas, de
outras com pontas de osso. Um exame minucioso dos
caracteres distinctivos não nos dá, portanto, uma base
para a divisão dos Tapuyas em Gês e «Nao-Gés». Julgo
mesmo impossivel, por emquanto, podermos proceder a
uma classificação correcta dos indios Tapuyas no Bra-
zil meridional e central. Mas o que já podemos reco-
nhecer, com Martius e Ehrenreich, é que os Carajás
representam um grupo independente de indios. Quanto
ao Estado de São Paulo esta questão é de pouca im-
portancia, pois que os indios deste Estado pertencem a
duas familias: á dos "Tupis e dos Tapuvas, como cha-
maremos os Gês de Ehrenreich; frizamos, comtudo, que
estes Gês não são identicos com o grupo de indios as-
sim denominado por Martius.
Os Tapuyas como aqui os comprehendemos, são
quasi identicos com os de C. von den Steinen (N.º 51
e 52), com a differença que von den Steinen exclue os
Puris dos seus Tapuyas.
3) As Linguas
O unico idioma indigena bem conhecido no Estado
de 8. Paulo é o dos Guaranis. Esta lingua «o ava-
nhehen » como a chama Couto de Magalhães em oppo-
sição ao «nhehengatá» ou tupi, é o dialecto que se fala
no Brazil meridional e no Paraguay, emquanto que o
dialecto semelhante do Norte é o tupi. A grande diffu-
são desta linguagem, desde o Norte até o Sul do Brazil,
foi de grande vantagem, tanto para os conquistadores,
como para os padres catholicos, que todos uzavam do
225 —
AE 7 Cd md ©
conjuncto destes dialectos, a chamada « Lingua Geral ».
FE’ consideravel o numero de obras linguisticas, mas são
o «diccionario da lingua guarany, por Montoya, e o dic-
cionario da lingua tupi, por Baptista Caetano de Al-
meida Nogueira, que geralmente se applica com maior
vantagem.
O conhecimento da lingua «tupi» é necessario e
mesmo indispensavel a todos que se dedicam a estudos
de historia e anthropologia do Brazil. Num tratado sobre
os nomes das abelhas indigenas na lingua dos "Tupis,
demonstrei que os antigos habitantes de S. Paulo tinham
conhecimento muito peculiar dos caracteres especificos e
biologicos destes insectos, bem como tinham bons co-
nhecimentos dos animaes em geral e das plantas indi-
genas. Devo entretanto confessar que dous amigos, os
Snrs. Dr. Theodoro Sampaio e Coronel Jorge Maia, não
estão de accordo commigo em diversos pontos.
“Eu, de minha parte, não teria estudado a etymo-
logia dos nomes destes e de outros animaes, si não es-
tivesse convencido de que o conhecimento dos caracte-
res distinctivos, tanto zoologicos como biologicos, dos di-
versos animaes representa a base para taes investigações.
Bastará dizer que algumas das etymologias, em desac-
cordo com as minhas, attribuem pequenas dimensões a
abelhas relativamente grandes, etc. e por isso continuo a
julgar correctas as minhas explicações ety mologicas, pois
que, consoante o conhecimento zoologico que tenho do
respectivo animal, não as posso dar de outro modo.
Tambem as investigações sobre a etymologia dos
nomes locaes brazileiros não deram ainda um resultado
satisfactorio. . Quasi que ao mesmo tempo foram publi-
cadas em S. Paulo duas obras sobre esse assumpto;
dellas a do Snr. Dr. Theodero Sampaio representa a con-
tinuação da-'excellente obra de von Martius, emquanto
que a obra do Snr. Dr. João Mendes de Almeida segue
orientação totalmente differente.
ape
Este ultimo auctor não admitte nomes locaes que
sejam derivados dos reinos animal e vegetal. Segundo
João Mendes de Almeida o nome de Jacarehy, ou «o Rio
dos Jacarés» é interpretado como «esquina e volta des-
necessaria » e do mesmo modo são attribuidas ao dialecto
guarani palavras genuinamente portuguezas, taes como
«Cardoso», «Campinas», «Casa Branca».
Actualmente, depois que faleceram Baptista Cae-
tano de Almeida Nogueira, Platzmann, Couto de Maga-
lhães e Macedo Soares, o numero dos que se interes-
sam pelas investigações da lingua dos Tupis é muito
pequeno; entre elles são os mais proeminentes: J. Barbosa
Rodriguez, do Rio de Janeiro; Jorge Maia, de S. Paulo;
Theodoro Sampaio, da Bahia, e outros; mas a todos
estes as suas occupações diarias lhes deixam só pouco
tempo para taes estudos. O coronel Jorge Maia escreveu
um diccionario do qual até agora só um fasciculo foi
publicado; mas, a julgar por .este unico, toda a obra é
digna duma edição completa e boa. Em vista disso
seria muito desejavel que linguistas profissionaes empre-
hendessem um estudo completo das denominações tupis.
Um segundo grupo de linguas que ‘esta bem repre-
sentado no Estado de S. Paulo, é o dos Caingangs, aos
quaes pertencem os chamados Coroados de São Paulo.
Estes indios são da familia dos Guayanäs, que em tempos
prehistoricos estavam distribuidos desde o Norte da Ar-
gentina atravez do Brazil meridional até a Bahia. Os
actuaes representantes deste grupo dos indios Gês estão
divididos em duas secções: os Caingangs de São Paulo
e do resto do Brazil meridional e de S. Pedro no terri-
torio das Missões do Alto Paraná, e os Ingains e Guaya-
nas do Alto Paraná. Estas duas secções linguisticamente
são algum tanto diversas entre si, mas são evidentemente
alliadas, pois que não se verificou até agora haver outra
lingua da familia dos Gês que offereça affinidades lingui-
sticas com o grupo dos Guayanãs. No Estado de $. Paulo
LO
20 —
costumava-se empregar ainda no seculo passado o nome
de Guayanãs para as Caingangs de Itapéva.
Não entro a estudar mais detidamente este assumpto,
pois que já o discuti na minha publicação sobre os Guay-
ans (N° 19); enumerei ahi todos os vocabularios con-
cernentes, publicados até agora. Elles representam nada
mais do que collecgdes de palavras, e não me consta que
se tenha feito ensaios para estabelecer a grammatica e
as regras desta lingua. Se não me engano temos a es-
perar contribuições importantes a este respeito da parte
do Snr. Dr. Lucien Adam, especialista mui competente
em linguas americanas.
Quanto aos Chavantes da região do Noroeste do
Estado de São Paulo, Ehrenreich (N.º 10) estava mal
informado quando dizia que os Caingangs eram erronea-
mente denominados Chavantes.
Os Chavantes do Estado de S. Paulo, que vivem no
curso inferior dos rios Tieté e Paranapanema, são muito
differentes dos Caingangs, e sua lingua se distingue bem
tanto da dos Caingangs como da dos Chavantes do Matto
Grosso. Por essa razão denominei-os Eochavantes. Pos-
suimos dous vocabularios de sua lingua; um que foi publi-
cado pelo General Ewerton Quadros (N.º 12) e outro
por Telemaco Borba (N.º 7). A lingua dos Eochavantes
parece ser um tanto alliada 4 dos Gés, mas não me foi
absolutamente possivel descobrir quaesquer affinidades
entre este e outros idiomas do Brazil central. Como os
dous vocabularios mencionados são pouco conhecidos darei
no seguinte uma reproducção.
VOCABULÁRIO
dos Eochavantes do Estado de S. Paulo (''Chavantes”)
SEGUNDO
| 1
TELEMACO Borsa} EWERTON (QUADROS
|
SEGUNDO
Agua
Anta
Arâra .
Arco .
Assado
Barriga
Braço .
Branco .
Bater-se .
Bugio .
Buraco
Cabeça
Campo
Capivara .
Cêra
Comer .
Longo .
Cobra .
Correr .
Casa
Chuva .
Dia . à
Deitar fora .
Estreila
Fogo .
Flecha
Jaboticaba
Jacû
Levantar-se .
Diélsede
Apila
Uida
Inhestecude
Mendoa
Eltué
Esteinde
Jaque
Uirjelem
Ontirra
Birrua
Ursube
.| Tuartle
Othigãe
Ogode
Tacabe
Umostiara
Apalaiao
Tauyeamne
Igobe
Chanin
Uotue
Boje
Tuasla
Ina
Torta
Uarriga
Guaiact
Escoguelabe
Ocochia
Apila
Etiu
Aquejuê
Ufübi
Folhabe
Palaião
| Tuásia
Achô
229 —..
Lontra
Lua.
Macaco
Machado .
Macuco
Mãe
Mão
Matar .
Matto Sue
Menino j
Milho .
Moço .
Mosquito .
Muito .
Mulher
Menina
Nariz .
Noite .
Olho
Orelha.
Paes:
Panella
Papagaio .
Pão.
Pescoço
Veação
Preto .
SEGUNDO
TeLEMACO BorBA
Nectube
Quijade
Cai
Endá
Fiduá
Insua
Nhadable
Diguede
Itarduéde
Chantle
Téuéde
Itobi
Leilebe
Hipipa
Uictoma
Assondaile
Oteiaque
Athli
Aconxe
Athrabe
Déxe
Guata
Tajane
Jube
Ratcha
Erredebe
Eteque
Atua
Inthla
| Hon
SEGUNDO .
EWERTON QUADROS
Guidde
Idãa
Estonduéde
Donduede
Sonduái
Acôti
Ascaba
Etge
Inchséla
— 230 —
SEGUNDO
TELEMACO BorBA
SEGUNDO
EWERTON QUADROS
Quati .
Rio.
Sentar-se.
Sol .
Tacape
Tamanduá
Taitetu
Terra .
Tigre
Tucano
Urn:
Veação
Velho .
Varie
Vermelho
Um.
Dous
Tres
Homem
Céo.
Trovao
Relampago .
Mel.
Irmão .
Irmã
Tain Ot too
Cabello
Fronte, Testa .
Sobrancelha .
Bocca .
Dentes
Etecubetei
Dielsede
Roiabe
Esquentabe
Inhare
Alabe
Tothle
Biroa
Cuatá
Flongue
Tofoaca
Jagode
Cueje
Heunôde
Najede
Pequinhe
Totonura
Geleidopa
| Esquentable
Quata
Jagode
Equéri
Inuáde
Atáve
Catiága
Jatûme
Concéde
Váca
Forte
Cul
Eteche
Cia
Inône
Afot
— 231 —
SEGUNDO SEGUNDO
TeLemaco BorBa | EWERTON (QUADROS
Caixa Lustúa
Dedo Iquéce
Joelho : | Euique
Sangue | Astaete
Tatá | Eféga
Perdiz | Foguedai
E
A palavra «tatá» (fogo) é vocabulo genuinamente
guarani e é interessante que os Caingangs conservaram
conjunctamente com «tatá» o verdadeiro termo caingang
«py» ou «pin». Os outros vocabulos são differentes, não
sómente destes dos Caingangs, mas tambem daquelles dos
Ingains e dos Guayanãs. Os indios ditos Botucudos, dos
Estados do Paraná e de Santa Catharina, para os quaes
propuz o nome de Notobotucudos, por conseguinte não
tem relação directa com os Botucudos. propriamente ditos,
mas representam um grupo isolado dos Tapuvas meridio-
naes. Devemos pois esperar que os resultados das futuras
investigações linguisticas e ethnographicas nos façam reco-
nhecer as affinidades ethnicas destes indios.
O exame do pequeno vocabulario dos Notobotucu-
dos, que communico mais adiante, prova que a particula
«ne», em connexão com palavras que designam partes
do corpo, representa um suffixo pronominal, que significa
«meu» ou «teu». O uso destes suffixos pronominaes é o
mesmo tanto na lingua dos Caingangs como na dos Tupis.
Ainda ontras particularidades dos idiomas tupi e tapuya
são communs aos dous grupos linguisticos. Assim os suf-
fixos augmentativos e diminutivos são usados de egual
modo. Iguasssú, que em tupi significa: 7 (agua ou rio)
— 232 --
e guassú (grande, extenso, na linguagem tupi) corresponde
perfeitamente ao «goio-en» da lingua dos Caingangs.
Ainda o valor adjectivo da primeira palavra d'um voca-
bulo composto (*) bem como outras particularidades, pro-
vam que não ha differença essencial entre os idiomas tupi
e tapuya. Affirmamos ainda mais que as differenças lexi-
cas, mesmo entre os grupos ethnographicos dos Tapuyas
não muito differentes entre si, são mesmo maiores do que
a priori se imaginaria e as verdadeiras affinidades destas
tribus não pódem ser descobertas sómente pelos estudos
linguisticos, mas necessitamos de seu confronto com os
resultados da investigação simultanea das questões de
anthropologia e ethnographia.
Como complemento a estas communicações quero jun-
tar algumas palavras sobre os Botucudos no Estado do
Paraná. O Sr. Rodolpho von Ihering, meu assistente, teve
occasião de examinar alguns individuos desta tribu, que
vieram a S. Paulo em companhia dos Caingangs da re-
gião do Tibagy. O Snr. Dr. Romerio Martins, Director
do Museu Estadoal de Curityba me informou que existem
Botucudos nas cabeceiras dos rios Uruguay e Iguassá.
Como estes Botucudos não estão relacionados com os
Botucudos verdadeiros do Espirito Santo, lhes darei o
nome de Notobotucudos. .
Vocabulario dos Notobotucudos e Caingangs da regiao do Tibagy
(Parana), colhido pelo snr. R. von lhering
PORTUGUEZ NOTOBOTUCUDO CAINGANG
E | ur a Gree pea
MAO AE aah ween pte ek tae ndepa ingminga
leo) ARS SÃO oat chépach ipén
Un bavi cas pera dina one nie nepuapê ningrú
DO no Je de Erva PARRA niapoá catnan
Nariz tarifa ALIEN GER Po nejaputà ningé
Cabello ht EN En etre neaçä iignain
Cabeça RUES nny ss cen ns nderaba | -—
Barbo AN NE NAN ARR nendebá —
IDEs ia no lapi oN a Edo e nereng iengiá
PERS pote Re NL e necupõ —
Braco do o uc Bias tie nendjuvá | —
BOZO fp tecido nica a por ae ane tatá | tatá, py
(*) Exemplos: Zembetá ou tembe — labialis, z£ — lapis ou «pedra do
beiço»; a primeira das duas palavras tem funcçäo de genitivo ou qualificativo.
4) Investigações archeologicas
Em geral as narrações dos historiadores do seculo
XVI são muito insufficientes com relação aos costumes,
armas e outros utensilios da vida diaria, que os indige-
nas usavam. Preencher esta lacuna é a taréfa da investi-
gação archeologica, cujos resultados principaes em seguida
havemos de expôr. ;
A divisão das culturas primitivas em uma época
paleolithica e neolithica, que tem sido tão fecunda para
os estudos archeologicos na Europa, não é applicavel á
cultura prehistorica de S. Paulo e provavelmente tão
pouco em todo o Brazil. E’ bem possivel, e até bem pro-
vavel, que o homem pleistoceno da Lagoa Santa em Minas
vivesse na época paleolitica, mas, até agora, nem de Minas
nem de S. Paulo se conhecem artefactos humanos que
fossem encontrados em depositos pleistocenos em posição
intacta e primitiva. Às armas e utensilios de pedia que
occupam logar saliente na exploração archeologica do
Brazil, provêm de terrenos alluviaes e são em parte poli-
dos, em parte lascados. Ao ultimo grupo pertencem as
pontas de flecha, das quaes as maiores talvez servissem
para lanças. Não é o material mas o uso que neste caso
decide qual o modo da confecção do objecto. Ao passo que,
sem excepção, os tembetás ou pedras de enfeite, que os
indios collocavam no labio inferior perfurado, são polidos,
as pontas de flechas sempre são lascadas.
Do mesmo material, de quartzo e de crystal de ro-
cha, faziam-se tembetás e pontas de flecha, como provam
os exemplares expostos nas collecções do Museu Paulista.
_ As unicas pontas de flecha polidas, encontradas no
interior do Estado de S. Paulo, são as de agatha, pro-
vidas de dente de um lado só, e parecem antes represen-
tar pontas de arpão. E” provavel que representem tambem
pontas de flecha os singulares objectos de pedra polida de
fórma conica, que se assemelham aos virotes de madeira
234
para flechas, usados ainda hoje pelos indios. Empregam
estes virotes para atordoar as aves pelo tiro, afim de
obtel-as em estado vivo e provavelmente os virotes de pe-
dra serviam para fazer cahir os grandes e pesados fructos
dos pinheiros (Araucaria brasiliensis).
Os machados polidos não serviam de arma mas como
machado para derrubar a matta no preparo das roças e em
parte tambem como enxadas. Estas ultimas são grandes
e de cada lado tem dous entalhes na extremidade não
cortante. Os diversos modelos de machados distinguem-
se não só pela forma, tamanho e material, mas especial-
mente pela extremidade opposta ao gume, que em alguns
é estreitada e acuminada, devendo passar por uma abertura
no cabo, sendo em outros curta e grossa, para ser em-
butida numa cavidade na extremidade engrossada do cabo.
Merecem especial attenção, entre os do ultimo typo, os
machados semilunares (“Ankerixte”), distinctivo do ca-
cique e destinados a fins cerimoniaes, principalmente em
occasião da matança dos prisioneiros.
Os machados pequenos serviam como facas ou ma-
chadinhas para trabalhos domesticos e em grande parte
eram providos de cabo. Ao passo que uns no polo rkiombo
eram envolvidos em couro ou tecido, outros eram muni-
dos, de cada lado, de uma covinha para as pontas dos dedos
pollegar e index. As mesmas covinhas encontram-se
tambem em pedras que tem a forma de um disco grosso
ou de um queijo e que na archeologia norte-americana
são denominadas «hammerstones». Temol-os designado
anteriormente em S. Paulo como «quebra-nozes», sendo
provavel que as vezes tambem serviam a tal fim; mas
que seu uso correspondia em geral mais ao de macha-
dinhas e martellos, prova o facto da occorrencia destas
covinhas tambem em machadinhas polidas.
Em numero relativamente grande encontram-se mãos
de pilão, pedras polidas mais ou menos cylindricas, des-
tinadas a triturar o milho e outros grãos no morteiro,
— 235 —
o qual por sua parte sempre era feito de madeira, como
ainda hoje é uzo em todo o interior do Brazil.
Encontram-se em S. Paulo e no resto do litoral
meridional do Brazil pequenos morteiros, chatos, de ca.
20 cent. de comprimento, imitando a figura de uma ave
ou de um peixe; são providos n'um lado de uma cavi-
dade oval pouco profunda, destinada a moer tintas e
outras drogas finas. Parece que estes almofarizes zoo-
morphos, chamados as vezes zoolithos, representam uma
especialidade artistica dos Carijós e constituem o que de
mais perfeito em peças artisticas o indigena do Brazil
meridional tem produzido. Outros objectos de relativa
perfeição artistica são os tembetás que em S. Paulo e em
todo Brazil merional são peças raras; mais commum-
mente são elles feitos de quartzo, crystal de rocha ou osso.
Consistem num corpo cylindrico ou achatado, que passa
pelo labio inferior perfurado; em uma das extremidades
tem uma parte transversal, que pousa em cima do labio.
À largura do corpo do tembetá varia em nossos exem-
plares de 16 a 32 mm.
Diversos outros artefactos de pedra, que são com-
muns em outras partes do Brazil, não são encontradas em
S. Paulo. Isto refere-se tanto aos amuletos de nephrite,
jadeite e steatite, imitando a forma de sapos e outros
animaes e denominados muiraquitans ( Amazonestones ),
como ás pedras de funda e bolas do Rio Grande do Sul.
Nos Estados da Bahia e Espirito Santo os machados
de nephrite não são raros; entretanto ao que sabemos
ao sul do Estado do Rio de Janeiro taes macahdos nunca
foram encontrados, nem no Brazil nem nas republicas
platinas. Ultimamente discutiu-se muito essa questão
com referencia ao trabalho publicado por Barbosa Ro-
drigues (N.º 6), que defendia a ideia da importação pre-
historica da Asia de todos os artefactos de nephrite que
se encontram na America. A descoberta de blócos de
nephrite em Amargosa (Est. da Bahia), onde machados
— 236 —
de nephrite são muito abundantes, demonstrou a origem
brazileira dessas peças. Esse assumpto foi por mim tra-
tado em meu estudo sobre «A Archeologia do Brazil »
(N.º 22).
Ainda outros artefactos, frequentes em outras regiões
do paiz, taes como os caximbos, não são encontrados em
S. Paulo; mas as vezes acham-se pedras arredondadas
ou laminas, perfuradas em uma das extremidades, para
serem penduradas como enfeite.
Os productos da arte ceramica são muito inferiores
aos dos Mounds da Ilha de Marajó em Pará e em outras
partes da região amazonica. Ao lado de panellas sim-
ples para o uzo domestico encontram-se grandes urnas
funerarias, cobertas em geral por uma tampa em forma
de vaso menor. Nestas «igaçabas » estão em geral os
ossos do defunto, quasi sempre muito decompostos, e as
vezes ainda uma outra bacia, que então contem a ossada.
Estas bacias funerarias, das quaes o Museu Paulista con-
serva duas, são cuidadosamente elaboradas e ornamentadas
artisticamente com desenhos lineares pretos e vermelhos,
sobre um fundo liso e branco. Em geral os enterros se
realisavam entre os Tupis e Guaranis em urnas funera-
rias, nas quaes o cadaver era accommodado em posição
acocorada. Se porem um guerreiro fallecia longe de sua
aldeia, procedia-se a um enterro provisorio, transportando-
se mais tarde parte da ossada, ou o craneo sómente, á
sua cabana, dentro da qual se effectuava a inbumaçäo
definitiva. Evidentemente era para este fim que serviam
as bacias funerarias acima mencionadas.
Em geral estes <igagabas» e panellas são toscamente
trabalhadas, de paredes grossas, lisas ou ornadas com
impressões. Sabemos que os Tupis fabricam vasos muito
grandes, para o preparo do «cauim>, a bebida alcoo-
lica, que preparavam de milho mastigado. Um destes
vasos immensos se acha conservado no edificio da Com-
missão Geographica e Geologica de $. Paulo; tem uma
ronde
altura de 65 cm. um diametro maximo de 40 cm. e
uma circumferencia de 321 cm. na parte mais larga.
Em geral estes restos da industria dos indigenas
acima enumerados são encontrados só pelo acaso. Des-
appareceram completamente os antigos aldeiamentos, sendo
assim escassos os testemunhos directos da presença antiga
dos indios. Merecem attenção especial neste sentido as
inscripções ou petroglyphos, feitos em paredes de rochedos
verticaes ou pouco accessiveis. Um valioso estudo sobre
este assumpto publicou na Revista do Instituto Historico
Tristão de Alencar Araripe (Nº 2) incluindo a descri-
pção e figura de um, que no Estado de S. Paulo o Dr.
Domingos Jaguaribe examinou e copiou, perto de Faxina.
Na visinhança da mesma localidade foi encontrado
um antigo cemiterio com numerosas igaçabas. Em geral
as sepulturas dos indigenas eram isoladas. Não raras vezes
encontram-se igaçabas com ossadas em Piratininga e
em bairros da Capital de S. Paulo, antigamente habita-
dos por Tupinaquins e outros indigenas.
Se bem que desapparecessem por completo as antigas
aldeias dos indigenas, muitas vezes reconhece-se ainda os
logares das cabanas, os chamados «paradeiros», que nas
roças se dastacam pela côr escura da terra. E' nestes lo-
gares, cuja superficie corresponde á de uma pequena casa, |
que se encontram cacos de panellas, as vezes machados
de pedra e outros utensilios. Além disto encontra-se, en-
terrado nestes logares, carvão e ossos de animaes, e a côr
escura do chão é evidentemente causada pelos restos or-
ganicos provenientes de residuos de refeições.
Ha um grupo de paradeiros muito caracteristicos, que
são encontrados só no litoral de S. Paulo e dos outros
estados do Brazil meridional. São estes os «Sambaquis»,
agelomerações immensas de ostras e outras conchas ma-
rinas, que na planicie alagadiça da zona costeira se ele-
vam como outeiros, que naturalmente se recommendavam
238
aos indigenas para seu domicilio. Alli elles viviam e en-
terravam tambem os seus mortos.
A verdadeira significação destes sambaquis era des-
conhecida, até pouco, não obstante de ter ella já sido
bem reconhecida pelo primeiro explorador da archeologia
de S. Paulo. o engenheiro Carlos Rath (N.º 42).
Encontra-se ainda muito divulgada a ideia de que
estes casqueiros correspondam aos Kjækkenmæddings da
Dinamarca, representando accumulações artificiaes das con-
chas de ostras e outros mariscos que serviam de nutri-
mento aos indios.
Tomando em consideração que os sambaquis tem
uma altura de 10 a 20 metros e muitas vezes um volume
de 30-40 mil e até de 100 mil metros cubicos, é preciso
reconhecer que estas construcções teriam representado a
curiosidade mais notavel da costa brazileira na época da
descoberta. Os historiadores do seculo X VI, entretanto, nem
sequer as mencionam e só no anno de 1797 o Frei Gaspar
da Madre de Deus (N.º 32) inventou a historia da cons-
trucção artificial dos sambaquis.
Conforme os meus estudos ha no Brazil meridional
dous grupos differentes de sambaquis, dos quaes um re-
presenta residuos de comida dos indigenas, e o outro os de-
positos naturaes do mar. Ao primeiro grupo pertencem os
pseudo-sambaquis nos cômores dos arredores da cidade
do Rio Grande do Sul, camadas pouco grossas de terra
escura, na qual se acham entremeiadas numerosas conchas,
espinhos e otolithos de peixes, ossos de animaes de caça,
pedaços de carvão, cacos de panellas e outros artefactos.
Os grandes sambaquis da costa dos Estados de S.
Paulo, Paraná e Santa Catharina apresentam um aspecto
todo differente, sendo elles accumulações enormes de con-
chas de ostras (Ostrea parasitica Gm.) com os quaes al-
ternam camadas mais ou menos horizontaes de berbigão
(Cryptogramma brasiliana Gm.) e outros molluscos bival-
vos. Para admittir que estas massas de conchas fossem
amontoadas pelos indios, seria necessario suppor que os
mesmos tivessem vivido por decennios exclusivamente de
berbigão e por muitos outros decennios sómente de os-
tras. Nem esta hypothese é admissivel nem a de que os
indigenas puzessem de lado as conchas, afim de construi-
rem com ellas os sambaquis. Não se encontram mistu-
rados com as conchas outros restos de comida nem pedaços
de carvão ou cacos de panellas. E” preciso notar que ainda
hoje na alimentação da população costeira as ostras e os
mariscos desempenham papel saliente, mas as conchas,
atiradas á praia, se decompõem em menos de dous annos.
Depositos colossaes e bem conservados não se formam
senão sob condições especiaes e isto particularmente
debaixo d’agua.
Que os sambaquis do Brazil meridional representam
apenas bancos de ostras, que foram depositadas em agua
baixa do mar, é provado tambem por outros factos geolo-
gicos. Entre estes citamos apenas os achados de ossos de
baleia em terrenos até onde actualmeute não pódem chegar
grandes cetaceos e a occorrencia de bancos naturaes de
ostras em affluentes do Rio Guahyba, em frente a Porto
Alegre. Estes factos geologicos provam que tanto no Brazil
meridional, como no Rio da Prata se deu uma transgres-
são do mar na época pleistocena, como que elevando o
seu nivel por 30 a 50 metros, em consequencia a um
abaixamento temporario do nivel do continente nas re-
gides costeiras. Com uma elevação subsequente da costa
os montes de conchas, formados no fundo do mar, at-
tingiram a sua actual posição; sem duvida então, nas
plagas baixas e alagadiças, offereciam condições favoraveis
para a moradia dos indios.
As conclusões a que cheguei quanto á origem dos
sambaquis foram confirmadas pelo Snr. Benedicto Calixto
(N.º 9), que sobre o assumpto publicou um artigo acom-
panhado de duas estampas, mostrando a antiga topogra-
phia das circumvisinhangas de Santos. Comparando a
— 240 —
extensão do mar nos tempos da descoberta com as suas
actuaes condições, nota-se que os canues do mar eram
então muito mais largos e que muitos lugares, hoje cober-
tos por manguesaes, eram então puro dominio das aguas
do mar. O Snr. Benedicto Calixto prova que muitos sam-
baquis da bahia de Santos, que já hoje estão destruidos,
mas dos quaes a tradição nos deixou marcados os lu-
gares, não podiam ter sido construidos pelos indios das
épocas prehistoricas, pois então ainda aquelles lugares es-
tavam cobertos pelo mar. E” ao estudo do Snr. A. Loefgren
e á sua publicação respectiva (N.º 28) que devemos um
bom conhecimento das condições geraes dos sambaquis
do litoral de S. Paulo, bem como informações quanto a
seu numero, sua collocação e composição e ainda aos ar-
tefactos que nelles se encontram; será a base para as
investigações futuras.
Não concordo, porém, com esse auctor quanto ás suas
ideias sobre a origem dos sambaquis. O Snr. Loefgren
considera todos os sambaquis como sendo construcções
artificiaes e tambem desse modo pensa o Snr. R. Krone
(N.º 24) que no seu artigo citado dá valiosas informações
sobre os craneos humanos que elle descobrira nos sam-
baquis da região de Iguape.
Em minha publicação sobre a origem dos samba-
quis de Iguape (N.º 20), eu modifiquei até certo ponto
as minhas ideias sobre o mesmo assumpto e em outro
artigo meu, sobre a Archeologia comparativa do Brazil
(N.º 25) eu communiquei os resultados de minhas ulti-
mas investigações quanto aos sambaquis dos arredores
de Santos. A leitura deste meu escripto facilmente evi-
tará a interpretação erronea de meu modo de pensar so-
bre este assumpto, como tal se deu no segundo artigo
do Snr. Loefgren (Nº 29).
Os sambaquis ficam deste modo destituidos de seu
presumido caracter de monumentos erigidos pelos indige-
nas, mas nem por isto perdem o interesse que tem para
— 241 —
a archeologia do Brazil, pois elles nos conservam em
grande parte os artefactos dos indios, que nelles tinham
estabelecido seu domicilio.
Nestas circumstancias é relativamente grande o ma-
terial anthropologico referente aos moradores dos sam-
baquis, e especialmente o de craneos. Estes, pela maior
parte, são brachycephalos, correspondendo á descripção
dos craneos dos Tupis, dada por Rodrigues Peixoto.
Sendo brachycephalas tambem as cabeças de indios gua-
ranis, examinadas por mim e R. Krone e dos Cayuás
medidas por J. Ambrosetti, é-se levado á supposição
de que os craneos dos sambaquis pertencem ás mesmas
tribus de Tupis e Guaranis que habitavam a costa no
tempo da descoberta. Devemos mencionar que o Snr.
Ehrenreich rejeita tal argumentação, em vista de existi-
rem tambem Tapuyas brachycephalos. Uma outra ob-
jecção, que neste sentido pode ser feita, é a de os ca-
daveres não terem sido sepultados nos sambaquis em
igaçabas, como era uso muito commum entre os Tupis
e Guaranis. |
Sabemos, entretanto, que neste sentido existia uma
grande differença entre as diversas tribus, das quaes al-
gumas sepultavam só as creanças em igaçabas, ao passo
que outras enterravam os cadaveres em covas cvlindricas
e outras os enterravam envolvidos em suas rêdes. Em
todo caso, porém, a ausencia, não só de urnas funerarias,
como tambem de qualquer producto de ceramica nos
sambaquis, é um argumento importante, que contribue
não só para se rejeitar a ideia de que os povos dos sam-
baquis pertencessem á familia "Tupis, mas, de outro lado,
nos suggere mesmo a ideia de que elles tenham sido
Tapuvas.
O craneo do sambaqui de Cidreira no Rio Grande’do
Sul, por mim descripto, assemelha-se aos dos Botucudos,
sendo originario evidentemente dum indio da familia
Guayanã. Já J. B. de Lacerda, (N.º 25) tinha chamado
— 242 —
a attenção á semelhança de certos craneos de sambaquis
de Santa Catharina com craneos de Botucudos.
5) Conclusões
Fica patente assim que, na época prehistorica, no
Brazil meridional já existiam duas familias de indios, dif-
terentes entre si.
Para avaliar a época até a qual remontam os ves-
tigios destes primeiros habitantes do Brazil meridional,
faltam até agora os dados precisos. Conhecemos até
agora só poucas localidades na America meridional em que
o homem coexistia com os animaes diluvianos extinctos.
Sobre a antiguidade do homem na região platina
devemos uma extensa e valiosa monographia a Florentino
Ameghino. Este auctor considera a formação pampeana
como pliocena, ao passo que quando examinei os mollus-
cos marinos, contidos nessa formação, verifiquei que, sem
excepção, pertencem a especies que ainda hoje vivem na
costa atlantica da America meridional, opinando eu por
conseguinte pela edade post-terciaria destas camadas.
No Brazil tem sido encontradas por Lund ossadas
humanas nas mesmas cavernas em Minas Geraes das
quaes o celebre naturalista tirou os restos dos mammi-
feros pleistocenos extinctos.
Os craneos humanos de Lagoa Santa correspon-
dem perfeitamente aos dos Botucudos. Foram emittidas
duvidas sobre a contemporaneidade do homem de La-
goa Santa com os mammiferos extinctos das cavernas.
O facto porém que os craneos e ossos humanos encon-
trados nessas cavernas se assemelham não só em aspecto
e côr aos dos mammiferos da mesma procedencia, mas
ainda no caracter principal, de serem fosseis ou calcina-
dos, deixa pouca duvida da real coexistencia do homem
com esses mammiferos extinctos, tão bem descriptos por
Lund e Herluf Winge.
— 243 —
São estes os principaes resultados a que conduziu
a investigação anthropologica e archeologica do Estado
de S. Paulo e se nada nos revelam de extraordinario,
devido ao baixo grão de desenvolvimento cultural em
que sempre se acharam os indigenas desta região, não
deixam de ser interessantes e instructivos, em vista da
concordancia dos dados, fornecidos por estudos tão dif-
ferentes, como o são as explorações historicas e archeolo-
gicas de um lado, anthropologicas, ethnographicas e lin-
guisticas do outro. Temos neste sentido a base segura
para julgar das propriedades physicas e culturaes que á
população rural actual transmittiram os seus antepassa-
dos, os indigenas, que só em pequena parte até esta data
se conservaram independentes, tendo sido pela maior parte
assimilados pelo elemento luzo-brazileiro immigrado, vindo
a constituir assim o elemento nacional da população actual
do Estado.
FE’ interessante observar que na actual cultura da
população rural podemos descobrir muitos vestígios da
cultura indigena precedente. Os nomes d’um grande nu-
mero de localidades, montanhas, rios, ete. são derivados
da linguagem tupi, e nas veias da maioria dos «caboclos»
ou «caipiras» corre o sangue da raça de seus anteces-
sores indios.
Muitas plantas communs que se cultivam, taes como
milho, feijão aipim, mandioca, batata, algodão, ete., já os
indios de São Paulo plantavam, e o seu preparo usual é
muitas vezes o mesmo como aqui fôra usado nos tem-
pos prehistoricos. Por esta razão muitas palavras tupis
foram encorporadas á lingua portugueza, como succedeu
no Brazil em geral, sem que comtudo em qualquer re-
gião se falle o dialecto guarani, como accontece no Pa-
raguay. À região do Estado de S. Paulo onde os an-
tigos costumes e os utensilios melhor se conservam, é a
16
OU AE
zona litoral. Dediquei um pequeno escripto ao estudo
dos residuos da edade de pedra (Nº 21), no qual des-
crevi e figurei alguns destes instrumentos. Emquanto
que os machados de pedra em toda parte, mesmo entre
as tribus dos indios semicivilizados, agora são substitui-
dos por machados de ferro, encontramos conservados na
zona litoral de S. Paulo alguns outros instrumentos de
pedra, taes como pedras de martello (quebra-nozes), que
são usados accidentalmente. Os pescadores, quando que-
rem ancorar suas candas, que são do primitivo typo
indigena, usam a «poita» (poh-tá), uma grande pedra ar-
redondada e presa por um entrelaçamento de embira, ou
a <igaratela», uma pedra allongada, amarrada a ganchos
de pao. Tambem os discos perfurados de argilla, usados
como pesos nas rêdes de pescar, são os mesmos como os
que os pescadores prehistoricos usavam, como é provado
por taes discos, achados em uma urna funeraria em $.
Vicente.
À casa-do «caipira» não é, senão com pequenas
modificações, a dos Guaranis. E’ interessante que assim
muitos costumes prehistoricos se conservaram até os nos-
sos dias e é provavel que futuras investigações augmen-
tem o numero destes achados, correspondentes a residuos
da edade de pedra.
Assim o elemento indigena de S. Paulo apresenta
tres phases successivas: a) os indios actuaes; b) aquel-
les do tempo da descoberta e c) 0 povo que habitava
os sambaquis, tendo nelles enterrado seus mortos. Só-
mente com referencia a esta ultima questão restam ainda
duvidas, e eu mesmo, como já disse, modifiquei minha
opinião a este respeito, desde à publicação da primeira
edição deste trabalho. Como os craneos encontrados nos
sambaquis parecem em essencia identicos com os dos
Tupis, eu julgava antigamente que estes dous povos fos-
sem identicos. O caracter dos machados de pedra po-
ay OA sd
lida é o mesmo e quanto aos caximbos não os conhe-
ciam nem uns nem outros.
Ha, entretanto, algumas differenças importantes en-
tre os Tupis e as tribus dos sambaquis. Não se en-
contram peças de ceramica nos sambaquis e por isso
lhes faltam as urnas funerarias, tão caracteristicas e com-
muns entre os Tupis e Guaranis.
Particularidade especial dos sambaquis do Brazil
meridional são além d’isso os bellos zoolithos, os almo-
farizes polidos, em forma de peixes ou aves, ete.
Como nenhum dos antigos chronistas menciona a
existencia de sambaquis nas costas de $. Paulo, é pro-
vavel que a cultura do povo sambaqui deve ter sido
muito mais antiga do que aquella dos indios que ahi
viviam no periodo da descoberta.
A ausencia de ceramica nos sambaquis contrasta
muito com o grande aperfeiçoamento de seus utensílios
de pedra polida e faz-nos suppôr que o respectivo povo
pertencêra á familia dos Gês, com cujas tribus encontra-
mos tambem machados de pedra polida e só pouco, senão |
nenhum desenvolvimento da ceramica.
Antigamente eu suppuz, como já disse acima, que
os craneos brachycephalos dos habitantes dos sambaquis
nol-os evidenciassem como Tupis; mas Ehrenreich mos-
trou que este argumento, não é de valor absoluto, pois
que ha tambem tribus brachycephalas entre os Tapuyas,
taes como os Cayapós.
Parece, portanto, razoavel concluir que o povo, que
habitava os sambaquis, pertencia á familia dos Tapuvas
e que viveu na costa do Brazil meridional muito tempo
antes da descoberta da America e antes do tempo da
migração dos indios da familia tupi que se dirigiam para
o Sul e pelos quaes este povo dos sambaquis foi des-
truido ou rechassado para o interior do paiz.
Os bellos objectos de pedra polida, zoolithos, etc.
aos quaes nos referimos, contrastam singularmente com
2 pie
a monotonia e simplicidade das peças archeologicas de
todo o Brazil meridional e central, patenteando grande
superioridade ao menos neste ramo do preparo de objectos
de pedra polida, em comparação com os dos demais abori-
genes do Brazil. Approveitei a viagem á Europa, que fiz
no corrente anno de 1907, para examinar as collecçôes
ethnographico-archeologicas dos principaes museus da Eu-
ropa central, nutrindo sempre a esperança de nellas en-
contrar objectos que admittissem comparação com os z00-
lithos dos sambaquis. Estas esperanças não se realizaram;
mas em Buenos Aires, em varias collecções publicas, vi
almofarizes em forma de ave vôando, isto é ornithomor-
phos, bem semelhantes aos dos sambaquis. Eis pela pri-
meira vez achados archeologicos que admittem, ou antes
provocam uma comparação da cultura dos sambaquis com
outra, que é a dos Calchaquis. A falta completa de
objectos ceramicos e metallicos nos sambaquis exclue
uma comparação franca e estou longe de affirmar que
os habitantes dos sambaquis fossem Calchaquis; insisto,
porem, na grande importancia desta concordancia archeo-
logica, que ha de servir de base para investigações ul-
teriores.
Vi tambem entre os objectos calchaquis mãos de
pilão, morteiros a outras peças de pedra polida, eguaes
ás que conhecemos dos sambaquis.
Os indios de S. Paulo nem actualmente, nem tão
pouco no tempo da descoberta não possuiam gráo de
civilização que se pudesse dizer mais elevado, nem mesmo
a influencia de outros elementos de maior cultura quasi
que não se fez sentir. Como já demonstrei, podemos
provar no Estado do Rio Grande do Sul a existencia de
utensilios introduzidos pelos indios dos Pampas; encon-
tram-se tambem outros instrumentos, que os indios do
Rio Grande do Sul ganharam pelas suas relações com
os Calchaquis e outras tribus de civilisação mais adi-
antada, habitantes da região andina da Argentina, Nem
— 247 —
as «bolas», tão communs no Rio Grande do Sul, se en-
contram em S. Paulo, nem os cachimbos, ainda que estes
ultimos tenham sido achados no interior do Estado da
Bahia e nas regiões intermediarias no Brazil central e
meridional e de feitio egual aos que se encontra no Rio
Grande do Sul. Os indios do grupo tupi, que nabitavam
a zona litoral do Brazil no tempo da descoberta, furna-
vam cigarros, desconhecendo o uso do cachimbo. Tanto
os cachimbos, como provavelmente tambem os fusos, fo-
ram transmittidos aos indios do Brazil oriental pelas
tribus que habitavam as regiões andinas e subandinas da
Argentina e do Brazil.
A influencia da ethnographia dos povos andinos é
mais forte sobre os das regiões mais proximas desta zona
e tanto mais enfraquece quanto maior a distancia.
A archeologia do Rio Grande do Sul é muito mais
rica em taes elementos de cultura heterogenea do que a
de S. Paulo, sem que comtudo elles faltem por completo
em S. Paulo. Objectos de metal, em especial de prata,
têm sido encontrados em sepulturas prehistoricas do Brazil.
meridional e o Snr. Uhle (N.º 55) publicou um trabalho
sobre um machado de cobre prehistorico, encontrado em
uma ilha do Rio Ribeira no Sul do Estado de S. Paulo.
Sebem que esta communicação fosse a unica, comtudo
não é incrivel, pois que sabemos que Alvar Nunez Ca-
beça de Vacca (N.º 56) observou pequenos machados
de cobre entre os Guaranis. A influencia de um povo
mais civilisado do que aquelle que habita a zona litoral
do Brazil fez-se sentir muito mais ainda na vasta dis-
tribuição de plantas cultivadas do que pela permuta dos
artefactos acima mencionados. Comtudos até hoje des-
conhecemos quasi inteiramente a verdadeira origem de
muitas dessas plantas.
Em geral no Brazil prehistorico a influencia da cul-
tura mais elevada dirigia-se do Occidente para o Oriente,
3 o pe
emquanto que dos tempos historicos para cá, isto é post-
colombianos, a transmissão cultural se move do Oriente
para o Occidente.
Explicação dos Mappas
Até agora só von Martius e Ehrenreich publicaram
mappas referentes á distribuição dos indios do Brazil. O
mappa de von Martius, publicado em sua Ethnographia,
e que fôra reproduzido por Couto de Magalhães (N° 34),
é muito incompleto no que diz respeito ao Brazil meri-
dional ; destinava-se em especial á representação da antiga
distribuição das. tribus da familia tupi. O mappa de
Ehrenreich refere-se 4 actual distribuição dos nossos in-
dios. Com a excepção de algumas colonias tupis, ahi só
se acha indicada a distribuição dos Caingangs no Estado
de S. Paulo.
Nos dous mappas, que junto apresento, a côr azul
indica os povos Tupis e a côr vermelha os Tapuias. Este
nome de Tapuias, que comprehende as tribus do Brazil
meridional que não sejam Tupis, corresponde aos Gés
de Ehrenreich, mas não aos de Martius. A côr ama-
rella refere-se a todos aquelles povos que não são nem
Tupis nem Tapuias.
ES AM BAN eT:
Mappa da antiga distribuição dos indios no
Brazil Meridional
Já dei no texto os dados sobre que se baseia este
mappa. As informações que se colhe nos antigos escri-
ptores são em geral suficientes; em alguns casos, porem,
não podemos precisar ao certo o ponto de contacto entre
as tribus do Brazil Central e as do Oriente. Entre as
tribus que não pertencem nem aos Tupis nem á familia
Esp o RES
dos Gés, devemos indicar no Rio Grande do Sul os
Charruas e em São Paulo os Carajás. Com relação aos
Guarús ou Guarulhos, uma tribu dos Guayanãs que viveu
em São Paulo e no Rio de Janeiro (com elles foram fun-
dados Conceição dos Guarulhos em S. Paulo e Santo
Antonio dos Guarulhos no Rio de Janeiro) compare-se o
que expuz em meu estudo sobre os Guayanãs (N.º 19).
Os antigos habitantes do. Uruguay foram estudados
por José H. Figueira (Nº 13), cuja publicação contem
um mappa. Um outro mappa, que trata dos indios do
tempo da descoberta-nas regiões da foz do Prata, é 0 que
foi publicado por Lafone Quevedo (N.º 26) onde o mesmo
auctor nos dá importantes notas sobre os diversos povos
e os seus caracteristicos linguisticos.
Ha ainda na região do Prata diversas tribus que
não são nem Tupis nem Tapuias e das quaes algumas,
como a dos Charruas, viveram tambem no Rio Grande do
Sul; quanto aos Carajás ainda não se lhes poude descobrir
as affinidades ethnographicas. Segundo as investigações do
Professor Lafone Quevedo os Eco e os Minuanos são
Tapuias, ainda que alguns auctores, (e dahi eu proprio,
em publicações anteriores), os considerassem Tupis. La-
fone Quevedo diz ainda (N.º 26) que os Minuanos, se-
gundo padre Lozano, eram tambem denominados Guenoas
ou Guanaos. Eguaes nomes o padre Garcia dá em sua
carta aos indios do Alto Uruguay.
Es DAM BAU RIT,
Mappa da aciual distribuição dos indios no
Brazil Meridional
Este mappa é mais ou menos schematico, dando a
distribuição dos indios como tem sido indicada successi-
vamente no correr destes ultimos 50 annos. Não é possi-
vel obter informações exactas referentes á distribuição,
— 250 —
com estatisticas, ete, da população indigena, que fossem
todas colhidas nestes ultimos annos. As informações nas
quaes aqui nos baseamos, provêm de épocas bastante dif-
ferentes. Não acceitei, comtudo, taes informações que se
referissem á primeira metade do seculo passado, pois que
de lá para cá houve a destruição quasi completa dos in-
dios Minuanos e Charruas, durante a revolução do Rio
Grande do Sul, emquante que em S. Paulo os Cayapés
se retiraram para o Matto Grosso e os Cayuás immigra-
ram do Paraguay e do Alto Paraná. Os Cayuás são
Guaranis e é um tanto difficil entender porque se os
distingue delles.
Os Caingangs do Rio Grande do Sul e de Santa
Catharina por vezes têm sido chamados Botucudos, o que
é errado, visto como os verdadeiros Botucudos nunca vi-
veram ao Sul do Rio de Janeiro.
Devo ao Rev. P. Marcos Simoni de S. Paulo, a
quem muito agradeço, algumas valiosas informações, que
dizem respeito aos indios do Estado do Paraná. Segundo
suas informações os indios Eochavantes do Sul do Matto
Grosso vivem tambem no Paraná, á margem esquerda
do Rio Paraná, entre os Rios Ivahv e Paranapanema
O Dr. Romario Martins chamou minha attenção ao
seguinte ponto: «No Estado do Paraná distinguem-se
os Cayuás dos Cayguás. Cayguds chama-se aos indios
semicivilisados e Cayuds os selvagens. » Parece que esta
distincção singular tambem se faz no Paraguay (Cayuä
e Caingue) e isto explica a confusão que ha na litera-
tura com relação a estes termos. Na literatura scientifica
esta terminologia não é admissivel e distinguimos sómente,
entre os membros da familia tupi do sul do Brazil, os
Cayuás selvagens ou semicivilisados, dos Guaranis civi-
lisados e catechisados.
a
eee
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do Mus. Nac. do Rio de Jan., vol. VI,
1885, p, 175-257;
26) Lafone Quevedo, Samuel A., Los Indios Chanases
y su lengua con apuntes sobre los
Querandies, Yarés, Boanos, Queanos 6
Minuanos, Bol. del. Inst. Geogr. Arg,
Tom. XVIII, Cuad. I, II y III, Bue-
nos Aires, 1897 ;
27) Lima, Francisco das Chagas, Rey. Inst. Hist.,
Tom. 3.°, ed. Rio de Janeiro, 1885,
peta:
28) Loefgren, Alberto, Os sambaquis de São Paulo,
Bol. da Com. Geogr. e Geol. do Est.
de S. Paulo, N. 9., São Paulo, 1893;
29) do. — Os sambaquis, Rev. Inst. Hist. de São
Paulo, vol. VIII, São Paulo, 1904, p.
458-466 ;
30) Machado de Oliveira, José Joaquim, Noticia ra-
ciocinada sobre as aldeias de Indios
da Provincia de $. Paulo, desde o seu
começo até a actualidade, Rev. Inst.
Hist. Rio de Jan., Tom. VIII (2º ed.),
Rio de Janeiro, 1867, p. 204 ss. ;
31) do. Quadro historico da Provincia de São
Paulo, São Paulo, 1864;
32) Madre de Deus, Frei Gaspar da, Memorias para
a historia da Capitania de S. Vicente,
hoje chamada de S. Paulo, do Estado
do Brazil, Lisboa, 1797 ;
33) Magalhães, General Couto de, O Selvagem, 1.º
Curso da lingua geral segundo Ollen-
dorf, Rio de Janeiro, 1876 ;
= gap
34) do. 7 Conferencia para o tricentenario de
Anchieta, São Paulo, 1897;
35) Martius, Carl Friedrich Phil. von, Zur Ethnogra-
phie Suedamerikas, zumal Brasiliens,
Leipzig, 1867;
36) Mendes de Almeida, João, Diccionario Geogra-
phico da Provincia de São Paulo, São
Paulo, 1902 :'
37) Nehring, A. Ein pithecanthropusaehnlicher Men-
- schenschaede] aus den Sambaquis von
Santos in Brasilien, Naturw. Wo-
chenschr, Bd. XI, Berlin, 1895, p.
549-552 ;
38) do. Menschenreste aus einem Sambaqui
von Santos in Brasilien, unter Ver-
gleichung der Fossilreste des Pithe-
canthropus erectus Dubois, Verhandl.
d. Berl. Anthrop. Gesell, p. 710-721;
39) Netto, Ladisldu, Investigações sobre a archeologia
brazileira, Arch. do Mus. Nac. do Rio
de Jan. vol. VI, 1885, p. 257-555 ;
40) Nobrega, Padre Manoel da, Informações das terras
do Brazil, Rev. Inst. Hist. do Rio de
Jan. Tom. VI, (2º ed.) Rio de Ja-
nero 16059, po 9ivess:
41) Porto Seguro, Visconde de, Historia geral do Bra-
zil antes de sua separação e indepen-
dencia de Portugal, 2 vols. Rio de
Janeiro ;
42) Rath, Carlos, Algumas palavras ethnologicas e pa-
leontologicas a respeito da provincia de
S. Paulo, S. Paulo, 1875;
— 256 —
43) Sampaio, Theodoro, Considerações geographicas e
economicas sobre o Valle do Rio Pa-
ranapanema, Bol. da Com. Geogr. e
Geol. do Est. de S. Paulo, N. 4, São
Paulo, 1890 ;
44) do. Qual a verdadeira graphia do nome
Guayanã? Rev. do Inst. Hist. de $.
Paulo, vol. IT, São Paulo, 1898, p.
2 ese
Sr
45) do. O Tupy na geographia nacional. Rev.
Inst. Hist. de S. Paulo, vol. VI, Sião
Paulo, 1902, p. 488-567:
46) do. Lingua indigena, Rev. Inst. Hist. de
S. Paulo, vol. VI, 1902, São Paulo,
pag. 567-572 ;
47) do. Da evolução historica do vocabulario
geographico no Brazil, Rev. Inst. Hist.
de S. Paulo, vol. VIII São Paulo;
| 1904, p. 150-169 ;
48) do. Os Guayanäs da Capitania de S. Vi-
cente, Rev. Inst. Hist. de S. Paulo,
vol. VIII, São Paulo, 1904, p. 169 ss.;
49) Siemiradzhi, Josef von, Beitraege zur Ethnogra-
phie der suedamerikanischen Indianer,
Mitteil. d. Anthropol. Gesell. in Wien,
Bd XXVIL 1896; pe TIQUE
50) Staden, Hans, Suas viagens e captiveiro entre os
Selvagens do Brazil, Ed. Com. do 4°
centenario, São Paulo, 1900, cf. Rev.
do Inst. Hist. do Rio de Jan., vol.
ENS BOB nb res
51) Steinen, Karl von den, Durch Central-Brasilien,
Exp. zur Erforsch. d. Xingá i. J. 1884,
Leipzig, 1886 ;
a) don Unter den Naturvoelkern Central-Bra-
siliens, Reiseschild. u. Ergebn. d. zwei-
ten Xingi—Exp., 1887-1888, Leipzig,
1894;
53) Souza, Gabriel Soares de, Tratado descriptivo do
Brazil, Rev. Inst. Hist, e Geogr. do
Rio de Jan, Tom. XIV, Rio de Ja-
neiro, 1879, p. 1-302;
54) Taques de Almeida Paes Leme, Pedro, Historia
“da Capitania de S. Vicente, Rev. Inst.
Hist. do Rio de Jan., Tom. IX, 1847,
1 parte, p. 13.6, °S8.; |
55) Uhle, M. Verhandl. d. Berl. Anthropol. Gesell.
1888, p. 20; 3
96) Vaca, Alvar Nunez Cabeça de, Commentaires, Pa-
Hiss st Gane Da BOM;
57) Wiener, Carlos, Estudos sobre os sambaquis do
Brazil. Arch. do Mus. Nac. do Rio
de Jan. vol. I, 1876, p. 1-21.
OS PEIXES pa AGUA DOCE DO BRAZIL
— POR —
RODOLPHO von IHERING
I PARTE
Gymnoti (Peixe espada, Tuvira, etc.)
Cichlidæ ( Acará,- Papa-terra, etc.).
Com 7 pesenHos E Estampa VIII
INTRODUCÇÃO
Com a presente contribuição iniciamos a publicação
de uma serie de artigos, cujo conjuncto deverá representar
um Catalogo dos peixes da agua doce do Brazil. Nada
existe de semelhante em nossa literatura, nem os estudos
parciaes publicados por ichthyologos estrangeiros, que se
têm o occupado de nossos peixes, poderão servir a quem
entre nos pretender occupar-se ligeiramente destes habi-
tantes dos nossos rios, pois tambem aqui se faz sentir
a grande dificuldade com que sempre se lucta nos es-
tudos desta natureza. Espalhados como estão estas
descripções originaes por innumeras obras e revistas sci-
entificas, e escriptas nos mais diversos idiomas, já é um
trabalho insano reunir tão sómente o material literario
necessario, para poder-se iniciar o estudo de classificação
propriamente dito. Reunida pois esta immensa literatura e,
resumindo criticamente a parte que se referia á fauna
brazileira, daremos nesses escriptos um resumo ao nosso vêr
sufficiente para uma facil classificação dos peixes. Dis-
pensamo-nos de dar descripções completas dos generos e das
— 259 —
especies, pois em geral ellas estão comprehendidas nas
chaves de classificação; procuramos dar-lhes ao mesmo terhpo
um caracter o mais que possivel popular, que permitta a sua
utilisação sem 6 conhecimento aprofundado da anatomia
e que dispense por isto mesmo o exame dos orgãos in-
ternos. Ao contrario em nossos estudos scientificos, em
geral a osteologia, especialmente do craneo, a conformação
dos apparelhos digestivo e respiratorio etc, servem de
base para o estabelecimento das relações phylogeneticas
dos animaes; com isto, porem, obrigariamos, a quem nos
quizesse seguir, à um estudo por demais meticuloso e
do qual, para os fins que temos em vista, bem nos po-
demos dispensar. Nem sempre foi possivel alliar estes
dous intentos de tal forma, que se possa garantir que,
o que não se conseguir classificar pelas nossas chaves,
deva ser considerado fórma nova; mas esperamos que
sempre se consiga estabelecer a relação mais proxima
da especie a classificar com as que vão aqui descriptas.
Em boa parte tambem se deverá leval-o á conta da varia-
bilidade de certas especies, assumpto do qual mais
adiante nos occuparemos. |
Varias circumstancias não nos permittiram fazer acom-
panhar as descripções de crescido numero de illustrações,
como teria sido de toda conveniencia. As poucas figuras
que entretanto damos, serão sufficientes para dar uma
ideia das feições dos generos.
A terminologia empregada se encontra explicada
na figura 1.
Dispensamo-nos de dar nesta parte uma descripção
detalhada do organismo do peixe, pois recentemente foi
publicado a este respeito um excellente estudo em por-
tuguez, o do nosso esforçado collega Sr. Alipio Miranda
Ribeiro (1), do Museu Nacional, onde se encontrarão todos
(1) Ahpio Miranda Ribeiro, Fauna Braziliense- Peixes- Archivos do
Museu Nacional do Rio de Janeiro, vol. XIV, ps. 25-129.
17
o pr
os detalhes que a este respeito se desejar. Limitamo- .
nos a dar a figura schematica (fig. 1) de um peixe, com
notas explicativas, bem como salientar alguns detalhes
cuja observação muito facilitará o inicio do trabalho da
classificação destes animaes.
Como os escriptos desta serie se destinam especial-
mente ao circulo mais geral dos amadores, julgamos con-
veniente dar aqui um resumo das ordens e familias de
peixes que occorrem na agua doce do territorio brazileiro.
Ordens e familias dos peixes d'agua doee que occorrem no Brazil
PISCES
Raiz. As « Raïas > têm varios representantes, espe-
cialmente do genero Potamotrygon Garm., que habitam
os grandes rios;
Dipnoi com o famoso De paradoxa, do
Amazonas e Paraguay ;
Symbranchia com o «Mussum» Symbranchus mar-
moratus, a unica especie, aliás muito variavel em seu
colorido.
Ostariophysi. Comprehendem 4 grandes ordens, cujos
representantes todos possuem ossiculos auditivos formando
o chamado «apparelho Weheriano». A ordem dos Even-
tognathi (Plectospondyli s.str.) falta na America do
Sul; sua familia mais importante é a dos CYPRINIDÆ,
com mais de 2000 especies na zona temperada septen-
trional; a ella pertencem a Carpa e o « Peixinho dou-
rado > da China;
A 3 outras ordens de Ostariophysi, que occorrem no
Brazil, «ão:
Heterognathi, ou Characini com uma só familia
dos Characinidae, encerram a grande maioria dos nossos
peixes de escama da agua doce, possuindo todas as es-
pecies (com excepção das Trahiras) a madeira adiaposa:
Lambary, Peixe-Cachorro, Dourado, Piava, Corumbatá,
Pacá, Piranha etc.
Nematognathi com todas as especies de peixes de
couro e os Cascudos. Esta ordem e a precedente, das
quaes cada uma contribue com cerca de 300 especies
para a ichthyofauna dos rios do Brazil, são os mais
importantes, quer numericamente, quer com relação ao
seu aproveitamento economico.
Gymnoti com duas familias, das quaes uma, a dos
GymnoriDa (Tuviras), contribue com cerca de 23 especies
para a nossa fauna; a outra, ELECTROPHORIDA, abrange
tão sómente o « Peixe electrico ». Desta ordem nos
occuparemos mais adiante detidamente.
Isospondyli com as familias STOLEPHORIDAE e CLU-
PEIDAE ou sardinhas, que são propriamente habitantes dos
mares, mas que accidentalmente penetram na agua doce ou
ha pouco a ella se adaptaram; OSTEOGLOSSIDAE (com
Osteoglossum bicirrhosum Agassiz) e ARAPAIMIDAE ( Ára-
paima gigas, o Pirarucá);
Haplomi com a familia dos CYPRINODONTIDAE com
os pequenos e elegantes « Guarú-guarás » dos riachos e
tanques.
Synentognathi com tres ou quatro especies de
BOoLONIDAE, « Peixe agulha ».
Persesoces com MuGILIDAE (Mugil platanus) «Ta-
inha» e ATHERINIDAE cujos principaes representantes
são marinos.
Percomorphi. Alem de alguns representantes de
familias principalmente marinas (SCrAENIDA « Pescada »
GOBIIDAE, BATRACHIDAE:), encerra tambem a dos CIcHLI-
DAE ( Acarás, Papa-terra, Jacundá, etc.) de que adiante
trataremos extensamente.
Heterosomata, familia PLEURONECTIDAE, « Lin-
guados », cujos principaes representantes são marinos.
Plectognathi, familia TETRAODONTIDAE, « Balacás »,
marinos, com uma só especie fluvial, Colomesus psittacus.
Como se vê os peixes da agua doce do Brazil
pertencem em sua grande maioria aos Nematognathi e
aos Characinidae; tres outras familias com alguma de-
zenas de especies são os Cichlidae, Gymnoti e Cy-
prinodontidac. Os demais peixes representam tvpos iso-
lados ou pertencem a familias que são propriamente marinas,
penetrando porem algumas de suas especies a agua doce.
O caso contrario, isto é de que representantes de familias
propriamente da agua doce penetram a agua salgada,
temos nos Nematognathi, SILURIDAE, pois que os barges
Tachysurinæ só voltam aos rios no tempo da desova.
A. Lot
=e a Sin je wl [ut (ip meer PRO
Mn
Fig. 1.— Topographia externa de um peixe.
1 Focinho V Nadadeira Ventral M Bigode mental
2 Cabeça A » Anal PM Bigode postmental
a Abertura Anal (G, » Caudal h Osso humeral
L. lat. Linha lateral Ad » Adiposa ab Abertura branchial
P Nadadeira Pectoral F Fontanella i Isthmo
D Nadadeira Dorsal M Bigode maxillar n Narinas
Considera-se como «focinho» a parte da cabeça
comprehendida entre sua extremidade anterior e o bordo
anterior da orbita; a cabeça, quando não ha outro ca-
racter mais evidente, considera-se delimitada atraz pelas
aberturas branchiaes.
Designamos geralmente as nadadeiras pelas suas le-
tras iniciaes D., V., C., ete. Com excepção da Adiposa
—- 263 —
que de ordinario consiste simplesmente em uma mem-
brana, as vezes com um espinho anterior, todas as na-
dadeiras são constituídas por um certo numero de raios
unidos por uma membrana; geralmente o 1.º raio ou
muitos dos anteriores são fortemente endurecidos e pon-
teagudos, verdadeiros «espinhos», nome que se lhe dá
em opposição ao demais, que são «raios molles», fina-
mente segmentados e geralmente ramificados. Para indi-
carmos na diagnose que por exemplo a nadadeira Dorsal
conta 10 espinhos e 14 raios molles, escrevemos conven-
cionalmente: D. X, 14. e da mesma forma damos a for-
mula para as outras nadadeiras.
Para a locomoção do corpo o principal impulso é
dado pela nadadeira Caudal, servindo as outras nada-
deiras mais para manter o equilibrio vertical. Si pri-
varmos um peixe de todas as outras nadadeiras, dei-
xando-lhe só a Caudal, elle nadará, mas de barriga
para o ar. As Pectoraes ajudam, com movimentos amplos
de um lado, o desvio para o lado opposto; o seu
pequeno movimento, constante, serve para auxiliar a res-
piração. Esta effectua-se pela passagem da agua pela bocca’
por entre as guelras e sahindo pelas aberturas branchiaes
(fig. 1, ab.), depois que o oxygenio, que estava dissolvido
na agua, foi absorvido pelo apparelho respiratorio dos
arcos branchiaes (veja-se fig. 3 e 4). O numero destes
arcos é geralmente de 5, mas só 4 delles são providos
de guelras.
A Linha lateral (L. lat.) consiste em uma serie lon-
gitudinal de escamas modificadas, que são perfuradas por
tubos com ramificações. Nos peixes de couro, desprovidos
de escamas, a linha lateral é constituida por aberturas na
propria pelle. As verdadeiras funcções deste dispositivo
ainda nos são desconhecidas; sabemos que em alguns
peixes estes póros segeregam muccosidade, mas como são
ricamente provides de nervos, sempre se suppoz terem
funcção sensitiva.
Fig. 2.— Explicação dos numeros que designam os ossos da cabeça do peixe
Frontal
Ethmcide
Postfrontal
Basisphenoide
Parietal
Supraoccipital
Paroccipital
Exoccipital
Alisphenoide
Mastoide
Petroso (sob N.º 19)
Orbitosphenoide
Sphenoide anterior
Vomer
Inter ou Premaxillar
rimam
Mew ND OW ON OUI BR À D
16
17
18
19
20
(vista lateral).
Maxillar superior
Nasal
Palatino
Temporal
Transverso (Pterygoideo )
Entopterygoideo
Quadrato (Jugal)
Tympanico
Operculo
Preoperculo
Suboperculo
Interoperculo
Symplectico
Dental
Articular
31 Angular
32 Epihyal, Ceratohyal
3 3 \ Basihyal
34
35 Glossohyal
36 Urohyal
37 Arcos branchiaes
38 Suprascapular
39 Scapular
40 Clavicula (Humeral)
41, 42 Coracoides
43 Cubital.
44 Radial
A dentição dos peixes varia muito, quer em forma,
quer na sua distribuição. Os menores dentes são os « vil-
liformes » que como placas cobrem os maxillares ou outros
ossos da cavidade buccal; são minusculos, quaes peque-
nos espinhos de um ou dous millimetros, muito achega-
dos uns aos outros. «Granulares» são os dentinhos já um
pouco maiores e cônicos; geralmente formam séries. Ha
toda uma gradação de dentes caninos e como que mo-
O dia
lares e incisivos, estes frequentemente com complicados
recortes.
Quasi sempre os peixes providos de dentes tem-
n’os nos ossos: Intermaxillar, Dental e no Pharynge; geral-
mente têm ainda dentes sobre o Vomer, Palatino e 5.º
arco branchial; além destes ainda pódem accrescer a
esta lista: os ossos Pterygoideos e Sphenoides e os ossos
da lingua.
Variabilidade dos peixes. Seria questão facil
classificar os peixes da agua doce, pois elles offerecem
uma grande somma de caracteres importantes para o
reconhecimento dos generos e das especies, como tal
nem sempre succede nas diversas ordens animaes; com-
tudo ha um certo numero de circumstancias que vem
difficultar o estudo e é justamente para ellas que quere-
mos chamar especial attenção. Além da deformação mais
ou menos consideravel que soffrem os exemplares pelos
processos de conservação, com os quaes em geral a pelle
se enruga e sempre o colorido perde sua intensidade ou
apaga por completo, temos a considerar ainda a varia-.
bilidade da especie. Quando esta vae a tal ponto que
todos os exemplares de uma região offereçam a mesma
particularidade em confronto com seus similares de
outras zonas, temos com isto fundamento para separal-
os como pertencentes a subspecie distincta. Ao que
porém nos queremos referir em especial, é a variabili-
dade que os exemplares da mesma localidade mostram
“entre si e que em especial é devida á edade do animal.
Em regra os peixinhos novos têm um colorido mais
rico e intenso do que os exemplares crescidos, e ainda
nos bem velhos não raro falta por completo o desenho
que nos novos ou medios é caracteristico. Além disso
a estação do anno tem certa influencia tambem sobre
o colorido, o que se observa especialmente nos machos,
em algumas familias. Não só o brilho das côres é muito
mais intenso, apparecendo mesmo alguns desenhos que fóra
52) qr
do tempo da procriação quasi não se notam, mas até a
forma da cabeça é alterada, pois que se desenvolve uma
protuberancia na fronte, que em certas especies ( come
por exemplo em Geophagus brasiliensis), pelas dimen-
sões que esta intumescencia adiposa attinge, deformam
grotescamente o perfil.
Como pois acabamos de ver, para a classificação,
não se deve dar valor absoluto ao colorido. Bem enten-.
dido, tal não vae a ponto de poderem ter colorido total-
mente diverso os exemplares da mesma especie; quando
ha falta deste ou daquelle desenho, póde muito bem
tratar-se de falha accidental; quando, porém, accrescem
varios detalhes bem accentuados, estes podem. servir
para fortalecer a distincção que se fizer, fundado em
caracteres morphologicos, que sempre devem servir de
base.
O numero dos raios das nadadeiras é bastante cons-
tante para cada especie e varia só dentro de pequenos
limites; assim exemplares da mesma especie pódem ter
formulas como D. XV, 10 ou D. XVI. 9. Em geral
quando ha accrescimo de um ou dous espinhos, ha tam:
bem uma diminuição correspondente de raios molles e
vice-versa. Uma differença de 3 ou 4 espinhos ou raios nas
nadadeiras Dorsal ou Anal não se dá dentro da mesma
especie, alliando-se geralmente outros caracteres a este,
com o que distinguimos especificamente os respectivos
especimens. Os raios das outras nadadeiras, Ventral,
Pectoral e Caudal não tem limites tão estrictos para a
sua variação, o que se explica por não coincidirem,
como os raios das duas outras nadadeiras, com as ver-
tebras da espinha dorsal.
Valor do estudo systematico dos peixes da agua |
doce.— Para que tambem a esta classe de animaes tenna-
mos dado um desenvolvimento egual ao que aspiramos
para todas no seu conhecimento zoologico, é imprescin-
divel o estudo aprofundado de sua systematico ou conhe-
— 267 —
cimento de todas as especies. A’ medida que esta tarefa
fôr cumprida, com respeito aos peixes dos nossos rios,
nos approximamos de uma relação completa dos mesmos
na synthese da fauna brazileira. Não precisamos enca-
recer o valor quer scientifico quer economico desse tra-
balho ; mas não deixaremos de salientar uma das ques-
tões que esperam a conclusão desse estudo systematico,
para que este lhe venha a servir de base. Ao mesmo
tempo se verá por ahi o valor que nos tem a indicação
precisa da localidade e mais detalhes da occorrencia
das diversas especies. E’ a questão da zoogeographia
ou distribuição geographica dos peixes da agua doce,
um campo de estudos que nestes ultimos tempos tem
preoccupado os mais distinctos naturalistas e que fornece
com effeito os mais bellos resultados, quer com relação
á propria biologia dos animaes, quer no que diz respeito
ás modificações geologicas que têm soffrido os continen-
tes e suas grandes parcellas componentes. Não é sómente
a paleontologia que nos fornece dados subsidiarios aos
estudos geologicos, e per ahi bem parca seria a contri-
buição a esperar da ichthyologia, pois rarissimos são
os peixes d'agua doce, fosseis, que se conhecem do
Brazil. Mas das proprias relações phylogeneticas das
ordens ou familias resultam valiosas informações para
deduzirmos dahi hypotheses relativas á antiga connexão
dos continentes. Especialmente com referencia á fauna
d'agua doce estas documentações nos merecem especial
valor, pois que, se ha evidente relação de parentesco
entre certos generos e hoje os encontramos separados por
extensos mares de agua salgada, que lhes é impossivel
atravessar, claro está que só podemos concluir que
outrora os antecessores desses animaes habitavam uma
patria commum e que, com o correr dos tempos, passa-
ram a habitar outras reglões, ao mesmo tempo que,
cada qual para o seu lado, soffria modificações mais
ou menos accentuadas. Tendo . sobrevindo então uma
— 268 —
transgressão marina, que separasse as duas regiões, vie-
mos a ter, de cada lado do oceano, representantes da
mesma familia, cujas affinidades reconhecemos claramente,
mas cuja distribuição geographica, sem esta reconstruc-
ção historica, não poderiamos comprehender. Para citar-
mos algum exemplo deste caso, bastará lembrarmos a
affinidade mais que evidente entre os membros sul e
central-americanos da familia das (Cichlidae com as
numerosas especies africanas da mesma familia. No mes-
mo caso estão os Lepidosirenidae e varias subfamilias
dos Characinidae; todas ellas occorrem só na America
do Sul e na Africa e são todas antigos habitantes da
agua doce. Menor valor como documentos zoogeographi-
cos têm as demais ordens, que têm representantes tam-
bem em outros continentes. Com effeito sabemos hoje
pelos estudos do Dr. H. von Ihering, que tal connexão
de facto existiu nos tempos eocenos do Terciario. Da
real existencia, que teve esse continente Achhelenis, o
mesmo autor nos dá provas cabaes em seu livro «Arch-
helenis und Archinotis », Leipzig, 1907, e ainda no
capitulo que neste mesmo volume transcrevemos mais
adiante, da grande obra «Les Mollusques fossiles du
Tertiaire de la Patagonie».
A par deste subsidio para o estudo das grandes
modificações por que passou o globo terrestre, os peixes
da agua doce ainda nos evidenciam, em nosso caso es-
pecial dentro dos limites do Brazil, que temos a distin-
guir varias zonas zoogeographicas; mas, ainda, depois
de as termos delimitado, (trabalho que aliás está quasi
todo ainda por fazer), não podemos comprehender com
seus actuaes limites essas zonas ou os motivos da actual
distribuição dos peixes nessas subregiões, sem que inves-
tiguemos a antiga configuração hydrographica. Como,
por exemplo, explicar que os peixes são em geral os
mesmos em todos os pequenos rios da vertente da Serra
do Mar, quando estes não têm outra ligação entre si
— 269 —
que não o oceano, o qual, porém, esses peixes não pódem
atravessar? E obvio que deve ter havido uma bacia
de agua doce que tenha sido commum a estes diversos
rios e, ainda que não tenhamos base sufficiente para
uma affirmação positiva e indiscutivel, parece que outra
não poderá ser a solução, senão de que estes rios todos
tenham tido uma bacia commum e que a fóz deste
grande systema hydrographico se estendia sobre terre-
nos hoje cobertos pelo oceano Atlantico. Hoje, como
dissemos, em virtude de não nos podermos basear em
listas completas, só podemos formular as perguntas ;
mais tarde será occasião de estabelecer-se hypotheses e
documental-as.
Ainda varias outras classes de animaes fornecem
bons documentos para estas questões zoogeographicas,
taes como os molluscos e crustaceos; mas estes, pela
maior facilidade que têm de se passarem, ou fazerem
transportar, de um systema hydrographico 2 outro, não
representam provas tão seguras como as da distribuição
dos peixes.
= ori e
I ORDEM GYMNOTI
Esta ordem de peixes, pelas relações anatomicas
que offerece, geralmente se colloca entre os Peixes Os-
tariophysi, aos quaes pertencem tambem as ordens dos
Eventognathi (Cyprinide), Heterognatha (Characinidæ)
e Nematognatha. Em sua forma externa, porém, nada
se parecem com aquelles; seu corpo alongado e fino
lembra antes o aspecto da enguia, para o que especial-
mente contribuem a ponta afilada em que termina a
cauda e a falta de nadadeiras Dorsal e Ventral. A
Anal é muito alongada, começando logo abaixo da
cabeça ; a abertura anal, que sempre fica em frente da-
quella nadadeira, fica pois collocada na garganta ou
mesmo entre os maxillares. As aberturas branchiaes são
muito pequenas.
Pertencem a esta ordem duas familias, das quaes
uma, a dos Ælectrophoridæ, contém uma só especie, o
«Poraqué» ou «Peixe electrico»; a outra, dos Gymno-
tidee-- conta 29 especies, das quaes 21 occorrem no
Brazil, sendo designadas pelos nomes vulgares de «Tu-
viras>, «Sarapô», «Peixe espada» no Brazil meridional
e ainda como «Ituy> na Amazonia. E facil a distine-
cao destas duas familias :
A Corpo coberto por escamas ;
sem orgãos electricos . . . Gymnotide
AA Corpo ni; provido de orgãos
electricos ab cre RR oa Electrophoridæ
Chave synoptica para a classificação da
am. Gymnotidæ
Com nadadeira caudal
Focinho näo alongado ; olhos
mais chegados á ponta do fo-
à
CC
bb
aad
cinho do que á abertura bran-
chial
Ambos os maxillares com
dentes, o inferior com 2 sé-
ries, o superior com 2 ou
mais séries
Angulo da bocca chegando até
abaixo dossolhos «Mu
Angulo da bocca chegando só
até abaixo das narinas .
Maxillar superior sem dentes,
o inferior só com 1 série .
Focinho alongado ; olhos mais
chegados á abertura branchial
do que á ponta do focinho
Focinho curvado para baixo.
Focinho direito, não curvado
para baixo
Sem nadadeira caudal; a cau-
da termina em ponta fina
Sem fontanella; anus debaixo
das aberturas branchiaes; ma-
xillar inferior muito saliente
Com fontanella; anus embaixo
da cabeça
Focinho alongado em cône ;
sem dentes
Focinho não alongado
Sem dentes
Com um filamento adiposo
em um sulco entre o mento
e a Pectoral .
Sternarchas
Sternarchella
Sternarchogiton
Sternarchorhynchus
Sternarchorhamphus
Giton
Rhamphichthys
Steatogenes
— 272 —
hh Sem filamento adiposo entre
o mento e a Pectoral . . . Hypopomus
gg Com dentes em ambos os ma-
xillares
i Olho grande, sem margem or-
bital livre; focinho compri-
IONE OL ak DR en En ne Ut
ii Olho pequeno, com margem
orbital livre; focinho cônico Gymnotus
Gen. STERNARCHUS Bloch & Schneider
Sternarchus Bloch & Schneider, Syst. Ichth. 1801, p. 497, Est.
94; Erigenmann d Ward, Proc. Washington Ac. Se., vol.
VII; 31905; p. 161;
a Escamas pequenas, com até
16 séries entre a linha lateral
e o dorso
b 11-16 escamas entre a linha
lateral e o dorso; altura do
focinho em frente aos olhos
menor do que o comprimento
do: focinho! é oye nad chan ® S. brasiliensis
bb 11-13 escamas entre a linha
lateral e o dorso; altura do
focinho em frente aos olhos
maior do que o comprimento
do octo a tis ea in on S. albifrons
bbb Angulo da bocca alcança até
atraz dos olhos; anus 4 frente
dos: Olas 4, #. ingen SD Rag ie S. bonapartw
au Escamas grandes, com só ca. de
6 séries entre a linha lateral
eo idoso rere hy. Moris a Hane, S. macroleprs
op
Sternarchus brasiliensis Reinh.
Est. VIII, fig. 2
Sternarchus brasiliensis Reinhardt, Vidensk. Meddel. Naturh.
Foren., Kjôbenh., 1852, ou Wiegm. Arch., 1854, p. 182;
Guenther, Cat. Fish, VII, 1870, p. 3; Æigenmans &
Ward, Proc. Washington Ac. Sc., vol. VII, 1905, p. 162,
fie
A. 170-185; Côr uniforme, parda, mais escura na
região dorsal.
Compr.: 350-400 mm.
Habit.: Minas Geraes, Rio das Velhas; Säo Paulo,
Rios Piracicaba, Mogy Guassá, Tieté.
Mus. Paul. : Est. S. Paulo, Rio Piracicaba; Est
Minas Geraes, Rio Sapucahy.
Sternarchus albifrons (Linn.)
Gymnotus albifrons Linné, Syst. Nat. ed. XII, I, 1766, p. 428;
Sternarchus albifrons Bloch & Schneider, Syst. Ichth. 1801,
Est. 94, p. 497; Castelnau, Anim. Am. Sud, Poiss., 1855,
p. 91, Est. 45, fig. 1; Guenther, Cat. Fish, VIII, 1870,
p. 2; Steindachner, Flussf. Suedam., II, 1881, p. 13, Est.
5, fig. 6; Æigenmann & Ward, Proc. Washington, Ac.
SC, vol VIE 1905; p; 162) fig. 25
Sternarchus lacepedi Castelnau, Anim. Am. Sud. Poiss., 1855,
p. 93, Est. 45, fig. 3:
Sternarchus maximiliani Castelnau, 1. ¢., p. 93, Est. 45, fig. 4;
Especie muito alliada a S. brasiliensis.
Habit.: Guyana, Venezuela, Equador; Rio Ama-
zonas, do Perú 4 foz; Rio Paraguay.
Sternarchus bonapartii Casteln.
Sternarchus bonapartii Castelnau, Anim. Am. Sud, Poiss. 1855,
92, Est. 45, fig. 2; Guenther, Cat. Fish. VIII, p. 1870,
p. 3; Eigexmann & Ward, Proc. Washington Ac. Se., vol.
MEL TIO) pr 163:
OA me
Tambem esta especie não differe de S. brasiliensis
senão pelos poucos caracteres indicados na chave.
Compr.: 200-230 mm. |
Habit: Rio Amazonas, Manáos ao Perit.
Sternarchus macrolepis Steind.
Sternarchus macrolepis Steindachner, Flussf. Suedam. 1881, p.
14, Est. V, fig. 7; Bigenmann & Ward, Proc. Washington
AeriSe vol Vall 1905; po 1635 fios
As escamas do corpo são muito maiores do que
nas outras especies deste genero, das quaes no mais
pouco differe.
Habit.: Amazonas, Manäos, Rio Negro e Rio Juruá.
Sternarchus subgen. STERNARCHELLA Zigenm.
Sternarchella Eigenmann & Ward, Proc. Washington Ac. Sc.
vol VEL 1965, po 163:
Pelas differenças que as duas especies, S. schotti
e 8. balaenops, do Perf, separadas por Eigenmann
como Sternarchella, apresentam com relação a Ster-
narchus, não cremos dever sustentar uma separação
generica, pois é muito intima a relação que as diversas
especies têm entre si O subgenero, como julgamos me-
lhor designar Sternarchella, caracteriza-se por ter foci-
nho mais curto e bocca menor.
Sternarchus (Sternarchella) sehotti Steind.
Sternarchus schotti Steindachner, Die Gymnotidae, 1868, p. 4,
Est. I, fig. 1 & 2; Guenther, Cat. Fish. VIII, 1870, p:
3; Steindachner, Flussf. Suedam., 1881, II, p. 42, Est.
Will fds
Sternarchella schotti Eigenmann & Ward, Proc. Washington Ac.
Sc. vol. VII 1905, p. 164, fig. 4;
A. 163. Diftere pouco da outra especie deste sub-
genero, S. balaenops, do Amazonas peruano, não se
tratando talvez senão de ligeiras variantes.
Habit.: Amazonas, Rio Negro ao Pert.
Gen. STERNARCHOGITON Zigenm.
Sternarchogiton Eigenmann & Ward, Proc. Washington Ac. Sc,
vol. VII, 2905, :p. 164;
A falta de dentes no maxillar superior, e, ao que
parece em ambos os maxillares na especie venezuelana
S. sachsi Pet, parecem auctorisar a separação generica
destas especies que no mais, porém, são muito chega-
das ás do genero Sternarchus, especialmente do sub-
genero Sternarchella.
Sternarchogiton nattereri (Stevnd.)
Sternarchus nattereri Steindachner, Die Gymnotidae, 1868, p.
3, Est. II, fig. 1; Guenther, Cat. Fish. VIII, 1870, p. 3;
Sternarchogiton nattereri Eigenmann & Ward, Proc. Washington
cases vol. WV 11.905, p. 5165; fini 5s
A. 197. <A boca é pequena, o perfil dahi á nuca
é muito curvo. As escamas de L. lat. são muito maio-
res que as demais.
Habit.: Amazonas, Rios Negro e Juruá.
Gen. STERNARCHORHYNCHUS Casteln.
Sternarchorhynchus Castelnau, Amim. Am. Sud, Poiss., 1855,
p. 91 e 95; ÆErgenmann & Ward, Proc. Washington Ac.
Ses, vol; VE 1905; p. 166;
Rhamphosternarchus Guenther, Cat. Fish. VIII, 1870, p. 4.
A forma geral do corpo é a usual; o focinho muito
longo e retorcido para baixo, de aspecto grotesco, cara-
cterizam-no perfeitamento.
a Anal com mais de 200 raios.
18
o
b Anal 210-226; bocca obliqua ;
altura da cabeça 1,7 em seu
comprimento Re TIRER
bb Anal 205-215; bocca direita;
altura da cabeça 2 em seu
S. mormyrus
comprimentos. io Sonny cias
aa Anal com 185 raios (do
Equador) seno Da ae ok 7S Canoa O SLi
Sternarchorhynchus mormyrus ( Steind. )
Sternarchus mormyrus Steindachner, Die Gymnotidae. 1868, p.
5, Est. L fig. 3; Guenther, Cat. Fish, VIII, 1870, p. 4.
Sternarchorhynchus mormyrus Eigenmann & Ward, Proc. Wa-
shington Ac. Sc., 1905, p. 167, fig. 8;
À figura que damos desta especie, dispensa-nos de
uma detalhada descripçäo. Especie bem parecida é
S. curvirostris Bouleng. do Equador, á qual tambem
nos referimos na chave. (*)
Habit.: Amazonas, Marabitanas, Juruá, Pert.
Sternarchorhynchus oxyrhynchus (Muell. & Trosch.)
Sternarchus oxyrhynchus Mueller & Troschel, Horae Ichtyol.,
III, 1849, p. 16, Est. II, figs. 1 & 2; Guenther, Cat. Fish,
VIII, 1870, p. 4;
Sternarchorhynchus oayrhynchus Eigenmann & Ward, Proc.
Washington Ac. Sc., vol. VII, 1905 p. 167, fig. 10;
Esta especie em seu aspecto não differe da pre-
cedente; algumas proporções, como da altura da cabeça,
a bocca mais direita, o focinho um pouco menos curvo
e o numero de raios da Anal, distinguem-na sufficien-
temente.
Habit.: Guyana, Amazonas, Rio Juruá.
(*) Conforme um recente exame de Eigenmann & Bean Proc. U. S.
Nat. Mus. Vol. XXXI, 1907, p. 666 S. curvirostris talvez coiincida especi-
ficamente com S. mormyrus.
— 277 —
Gen. STERNARCHORHAMPHUS Zigenm.
Sternarchorhamphus Eigemann & Ward, Proc. Washington Ac.,
Se: voLAN IL -1905;"p 165;
Genero intermediario entre Sternarchus e Sternar-
chorhynchus, tendo o focinho alongado como nas especies
deste, mas direito e não curvado para baixo.
a Abertura buccal de 14 compri-
mento do focinho; altura da
cabeça só pouco menor que seu
COMMPLEMERLO Ma Eee nee S. muelleri
aa Abertura buccal de */,) com-
primento do focinho; altura
da cabeça egual a 14 do seu
Comprimento Md ep S. tamandua
Sternarchorhamphus muelleri (Steind.)
Sternarchus (Rhamphosternarchus) mülleri Steindachner, Flussf.
Suedam., III, 1881, p. 15, Est. V, fig. 4;
Sternarchorhamphus mulleri Eigenmann & Ward, Proc. Wa-.
shington, Ac. Se., vol. VII, 1905, p. 166, fig. 7;
A. 237. Focinho alongado; a distancia entre os
olhos cabe 31% vezes no comprimento do focinho. A
Anal começa pouco atraz da vertical do olho.
Compr.: 200-510 mm.
Habit.: Amazonas, Para.
Sternarchorhamphus tamandua ( PBouleng.)
Est. VIII, fig. 1
Sternarchus tamandua Boulenger, Trans. Zool. Soc. XIV, 1898,
p. 427, Est. XLII;
Sternarchorhamphus tamandua Eigenmann & Ward, Proc. Wa-
shington Ac. Sc., vol. VII, 1905, p. 166, fig. 6;
Por ter o focinho muito mais longo e a bocca menor,
facilmente se distingue esta especie de S. muelleri. A.
220. Cor uniforme, amarello-clara.
DO
=
D
Compr.: 400 mm.
Habit.: Amazonas, Rio Juruá.
Mus. Paul. Rio Juruá.
Gen. GITON Kaup
Giton Kaup, em Dumeril, Analyt. Ichthyol., 1856, p. 201; Hi-
genmann d Ward, Proc. Washington Ac. Sc, vol. VII,
1905 podeis
A falta de fontanella, a posição mais recuada da
abertura anal e do inicio da nadadeira anal, o maxillar
inferior muito avançado, os dentes cônicos ete, são ca-
racteres que separam perfeitamente este genero dos de-
mais da mesma familia.
Conhece-se uma só especie, bastante variavel no
colorido. ;
Giton fasciatus ( Pallas )
Esto VALE Rossa
Gymnotus fasciatus Pallas, Spicil. Zool, VII, 35; ’
Carapus (*) fasciatus Guenther, Cat. Fish., VIII, 1870, p. 9;
Gymnotus brachyurus Bloch, 1787, Est. CLVIT;
Carapus. inacquilabiatus Valenciennes, em d’Orb., Voy. Am.
Mér., Poiss. II, 1847, Est. XIV;
Giton fasciatus Eigenmann & Ward, Proc. Washington Ac. Soc.
vol VIT TIO pes
Ainda que muitas vezes o colorido seja uniforme,
predomina geralmente o desenho em faxas transversaes
ou de manchas formando series.
Compr.: até 250 mm,
Habit.: America Central ao Amazonas, Rio São
Francisco, Brazil Central, Rio Grande do Sul, La Plata.
Mus. Paul.: Est. S. Paulo, Ilha de S. Sebastião;
Est. Espirito Santo, Rio Doce.
(*) Sem duvida a origem deste nome é o «Carapo» de Marcgraf
1648; este auctor quizera dar, à pg. 170, o nome vulgar «Carapó» mas na
impressão foi eliminado a cedilha, como o fizeram egualmente em onça, çocó,
Ne te dá E À ARE a A /
Jaçanã, etc. e mais tarde denominados : Felis onca, Ardea cocoi, Jacana jacana :
Gen. RHAMPHICHTHYS Muell. & Trosch.
Rhamphichthys Mueller & Troschel, Horae Ichthyol., HI, 1859,
p. 15; Bigenmann & Ward, Proc. Washington Ac. Se.
VO V EE 1905; po 16%:
a A distancia entre olho e aber-
tura branchial cabe 2 vezes
MO ROCTINIG es RS REM Ostra dus
aa A mesma distancia cabe 1 ou
1,28 no focinho. . . . . . Rrostratus marmo-
ratus
aaa A mesma distancia cabe 1.5
no focinho”. AL ee ae a. crostiratus. Tema
hardta
| Parece muito provavel que, com material abundante
de diversas regiões, se verificará serem insustentaveis,
nem mesmo como subspecies, as pretendidas especies;
caso se reunir tudo em uma só especie, esta deverá
chamar-se Rhamphichthys rostratus (L.).
Rhamphichthys rostratus (Linn.)
Gymnotus rostratus Linné, Syst. Nat., ed. XII, 1766, p. 427;
Rhamphichthys rostratus Guenther, Cat. Fish. VIII, 1870, p. 5;
Eigenmann & Ward, Proc. Washington Ac. Se. vol. VIL,
1905, p. 168;
A forma da cabeca lembra a de Sternarchorham-
phus, mas o cone formado pelo focinho é menos largo
e mais delgado na ponta. A linha lateral é desprovida
de escamas; della partem numerosos ramaes ou galhos
pequenos, parallelos entre si e dirigidos para traz. Acima
da L. lat. ha uma linha de póros e as escamas acima e
abaixo são maiores que as demais.
A Anal, que começa logo na garganta, tem um
numero variavel de raios, 390-470 e mais. A côr é bruna
REIS iy Ee
ou mais clara; numerosas manchas ou linhas cobrem |
todo o corpo, por vezes inteiramente chamalotado.
Habit.: Guyana, Amazonas.
Por falta de material não sabemos até que ponto
se possa levar a separação das formas cuja synonymia
passamos a enunciar.
Rhamphichthys rostratus marmoratus Casteln.
Rhamphichthys marmoratus Castelnau, Anim. Am. Sud, Poiss.,
1855, p. 86, Est. 46, fig. 2; Higenmann & Ward, Proc.
Washington Ac. Se., vol. VII, 1905, p. 168, fig. 12;
Rhamphichthys panterinus Castelnau, t. c e |. e, fig. 3;
Guenther, Cat. Fish. VII, 1870, p. 5;
Rhamphichthys lineatus Castelnau, Anim. Am. Sud, Poiss., 1855,
pee Sr Estuda Ge ile
Habit.: Venezuela, Guyana, Perf, Amazonas, Matto
Grosso, Paraguay, Buenos Aires;
Rhamphichthys rostratus reinhardtii (Xaup)
Gymnotus rostratus Bloch & Schneider, Syst. Ichth., 1801, p.
522, Est. CVI;
Rhamphichthys blochit Guenther, Cat. Fish, VIII, 7870, p. 5;
Rhamphichthus reinhardtii Eigenmann & Ward, Proc. Washin-
#ton, Ac. Ses vol. Vil 1905, .p. 169;
Habit.: Amazonas, Para ao Rio Negro, Juruá,
Paraguay.
Gen. STEATOGENES Pouleng.
Steatogenes Boulenger, Trans. Zool. Soc., London, XIV, 1898,
p. 428; Eigenmann & Ward, Proc. Washington Ac. Se,
vol. VIT, 19055 pis
A especie typica deste genero foi separada por Bou-
lenger como diversa de Rhamphachthys, por ter na região
mental, em cada lado, um sulco no qual se acha um fi-
lamento adiposo, semelhante ao que Sternarchus tem
no dorso.
Bes)
Steatogenes elegans (Steind.)
Rhamphichthys (Brachyrhamphichthys) elegans Steindachner,
Fischf. Cauca e Guayaquil, 1880, p. 57;
Rhamphichthys {Brachyrhamphichthys) mirabilis Steindachner,
rest (axe fios e la:
Steatogenes elegans Eigenmann & Ward, Proc. Washington Ac.
Sc; vol. VIL 1905, p.171; fig. 11;
Além do caracter indicado para o genero desta
especie, caracterizam-na o pequeno comprimento da ca-
beça, cujo focinho não é alongado e o desenho nitido em
forma de 13-16 faxas transversaes, mais largas no dorso,
que por vezes tambem passam sobre a Anal; esta tem
176 ou mais raios.
Compr.: 170-200 mm.
Habit.: Amazonas, Rios Negro e Juruá.
Gen. HYPOPOMUS Gill
Hypopomus Gill, Proc. Ac. Nat. Sc. Philad., 1864, p. 152;
Eigenmann & Ward, Proc. Washington, Ac. Se, vol:
WAT 0, po L6O:
Brachyrhamphichtys Guenther, Cat. Fish, VIII, 1870, p. 6;
A cabeça não é alongada, sendo pelo contrario o
focinho muito curto.
a Focinho cabe mais de 3 vezes
na cabeça; flancos com faxas
TRANS VICLSMES E LN 5 ier ae H. brevirostris
aa Focinho cabe menos de 3 vezes
na cabeça; flancos com man-
CMS EN SA ES UA vin Ee H. artedi
Hypopomus brevirostris (Stevnd.)
Rhamphichthys brevirostris Steindachner, Die Gyimnotidae, 1868,
p. 6, Est. II, fig. 2; Guenther, Cat. Fish., VIII, 1870, p. 6:
Hypopomus brevirostris Eigenmann & Ward, Proc. Washington
Ae: Ses vol Vii, 1905, Spa 170; fo 13%
A. 160-260. O comprimento do focinho cabe 3
vezes ou pouco mais na cabeça; a bocca é muito pequena. —
Numerosas faxas ou manchas transversaes irregulares em
todo o corpo.
Compr.: 150-210 mm.
Habit.: Venezuela, Amazonas inferior, Gruaporé,
Paraguay.
Hypopomus artedi /Xaup)
Rhamphichthys artedi Kaup, Apod. 1856, p. 128; Guenther,
Cat. Fish. VIII, 1870, p. 6. ;
Rhamphichthys mulleri Kaup, loc. cit. p. 120; Guenther, loc. cit.
Hypopomus artedi Eigenm. & Ward, loc. cit. p. 170; Æigen-
mann & Bean, Proc. U. S. Nat. Mus. Vol. XXXI, 1907,
p. 666.
Habit.: (Guayana, Rio Amazonas inf.
Gen. EIGENMANNIA Jord. & Everm.
Sternopygus auct. pt.
Cryptops Eigenmann, Ann. N. Y. Ac, Se. vol. VII, 1894, p. 626;
Eigenmannia Jordan & Eigenmann, Fish. North and Middle Am.
I, 1896, p. 341; Æigenmann d Ward, Proc. Washington
AcrBe vol: Vall 905 pere
Sufficientemente caracterizado na chave, este genero,
que representa a forma mais normal das «Tuviras»,
dispensa mais detalhada descripção.
a | Maxillar de comprimento egual
ao da orbita
b Perfil ventral convexo como
o dorsal; espaço interorbital
‘abe 3 vezes na cabeça . . E. virescens
— 283 —
bb Perfil ventral muito mas con-
vexo que o dorsal; espaço
interorbital 3.33. 7 na cabeça E. virescens hum-
boldti
aa Maxillar de comprimento du-
Do dd onda een E. troschela
Eigenmannia virescens ( Val.)
Est. VIII, fig. 3
Sternarchus virescens Valenciennes, em d’Orb. Voy. Am. Mér.
Poss 1847,po LI "ES 132 fig. 625
Sternopygus virescens Guenther, Cat. Fish, VIII, 1870, p. 7;
Steindachner, Fischf. Magd. Str., 1878, p. 55, Est. XIV,
fig. 4;
Eigenmannia virescens Eigenmann & Norris, Rev. Mus. Paul,
IV, 1899, p. 549; Æigenmann & Ward, Proc. Washington
Mee, vol Vik 1905, p: 173; fig. 14;
Sternopygus limbatus Schreiner & Ribeiro, Arch. Mus. Nac., Rio
de Janeiro, XII, 1902, p. 6;
Compr.: até 370-400 mm. 3
Habit.: Venezuela. Guyana, Amazonia, Paraguay,
Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas.
Mus. Paul.; Est. de S. Paulo, rio Tieté, Piracicaba,
Ypanema, Taubaté; Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul,
rio Camaquan.
Eigenmannia virescens humboldtii (Steind.)
Sternopygus humboldtii Steindachner, Fischf. Magd. Str, 1878,
p--55,- Est: XE. ;
Kigenmannia humboldtii Eigenmann & Ward, Proe. Washington
Ne Se vol. Vall 1905. p91 72. he: 1.6:
Só as pequenas diferenças indicadas na chave dis-
tinguem esta subspecie da forma typica de vasta dis-
tribuição.
Habit.: Venezuela, Amazonas, Marajó.
— 284 —
Eigenmannia troscheli (Xaup)
Sternopygus troscheli Kaup, Apod., 1856, p. 139; Guenther,
Cat. Fish., VIII, 1870, p. 8; Eigenmann & Ward, Proc.
Washington Ac. Se., vol. VII, 1905, p. 174;
Sternopygus axillaris Guenther, Cat. Fish. VIII, 1870, p. 8;
Eigenmanmia axillaris Eigenmann & Ward, Proc. Washington
Ac. Se. volvVII 1905 pia:
O que- especialmente distingue esta especie de Z.
virescens é o comprimento dos maxillares; o maxillar
inferior ultrapassa o superior. O colorido é como nas
outras especies uniforme, prateado. (remos que Stein-
dachner tem razão em reunir a esta especie H. axillaris
com olhos um pouco maiores e com uma mancha no
inicio da L. lat. |
Habit.: Amazonas, do Pará (#. axillaris) a
Manáos e Pera.
Gen. GYMNOTUS Linn.
Gymnotus Linné, Syst. Nat., ed. X, 1758, p. 246; Guenther,
Cat. Fish. VIII, 1870, p. 10; Higenmann & Ward, Wa-
shington Ac. Sc., vol. VII, 1905, p. 174;
Este genero, typico para a familia, distingue-se de
Eigenmannia por não estarem os olhos recobertos por
pelle, tendo orbita livre; o olho é pequeno, cabendo 4 ou
mais vezes no focinho.
a Focinho alongada, 3 ou mais
vezes na cabeça; perfil direito ;
Anal 29 02 a ne ae G. carapus
aa Focinho obtuso, 3 vezes na
cabeça, perfil superior convexo;
Anal 300 e mais raios . . G. obtusirostris
Gymnotus carapus Linn.
Gymnotus carapo Linné, Syst. Nat., ed. X. 1858, p. 246; Bloch,
V, 1786, (prc b 9) Estao duros
PARC © NE
Sternopygus carapus Guenther, Cat. Fish., VIII, 1870, p. 7;
Gymnotus carapus Eigenmann & Ward. Proc. Washington, Ac. Sc.
Vol VIT 1.905;/pa 176, fie ET:
O colorido é variavel, tendo geralmente os exem-
plares mais novos manchas claras; os adultos são escuros,
com manchas negras, principalmente atraz da cabeça.
Compr. até 550 mm.
Habit.: Venezuela, Amazonas, da foz ao Pera,
Brazil Central, Paraguay.
Mus. Paul.: Est. de $. Paulo, Piracicaba, Piras-
sununga.
Gymnotus aequilabiatus nigriceps n. subsp. (*)
Mus. Paul.: 2 exemplares (25 e 28 cent. de
compr.) de Boa Vista, Est. Maranhão.
Para que melhor pudessemos precisar a classificação
destes exemplares, necessitariamos de material mais abun-
dante deste genero. Comtudo cremos ter feito boa clas-
sificação, caso G. equilabiatus Hum. puder subsistir como
especie diversa de G. carapus, o que nos parece certo,
conforme a exposição de Steindachner (Zur Fischfauna
des Magdalena-Stromes, Denkschr. d. K. Akad. Wiss.,
mat. natw. Cl, Vol. XXXIX, Parte I, 1878, p. 69, Est.
XIV, fig. 1). A cabeça de G. equilabiatus é em compa-
ração com G. carapus, mais comprimida, mais alongada
e o perfil superior é antes concavo, emquanto que em
G. carapus elle é convexo.
Tudo isto se verifica muito bem em nossos exem-
plares. Notamos porém o colorido intensamente preto,
contrastando com o resto do corpo, o que falta á forma
typica.
(*) Our twe specimens offer all the caracters of G. equiladiatis,
pointed ou by F. Steindachner (loc. s. cit.). But the entirily black colour of
the head, in contrast to that of the body, as well as the geographical distri-
buition of these two forms, induced us to consider our specimers as subspeci-
-fically different.
Resta saber qual efectivamente a distribuição zoogeo-
graphica de G. cequilabiatus, pois que até hoje só o
conhecemos do rio Magdalena.
Gymnotus obtusirostris (Steind.)
Sternopygus obtusirostris Steindachner, Flussf. Suedam., II, 1881,
p. 43, Est. IL fig. 3;
Gymnotus obtustrostris Eigenmann & Ward, Proc. Washington
Ae. Ses vol. VIT, 1905 p=17 Be 19;
A feição mais obtusa do focinho desta especie, caso
seja constante, parece permittir sua differenciação de G.
carapus, ao qual do resto muito se assemelha. Parece
que geralmente lhe faltam as manchas, sendo todo o
corpo uniforme e escuro.
Compr.: até 500 mm.
Habit,: Rio Amazonas, curso medio.
Fam. ELECTROPHORIDÆ
Electrophorus Gill
Electrophorus Gill, Proc. Ac. Nat. Sc. Phil. 1864, p. 151;
Gymnotus auct. (nec Linn 1758);
Electrophorus electricus (Linn.)
Gymnotus electricus Linne, Syst. Nat. XII, 1766, I, p. 427;
Guenther, Cat. Fish. VII, 1870, p. 10;
Electrophorus electricus A. Miranda Ribeiro, Arch. Mus. Nac.
Rio de Jan, Vol. XIV, 1907, p. 71;
A unica especie deste genero, c «Paraquê» tão fa-
moso pelas descargas electricas com que este peixe se
defende, distingue-se dos demais Gymnoti pelos ca-
racteres que já indicamos na chave á p. 270 A cabeça é
muito deprimida; a abertura anal está situada atraz
da garganta. A abertura buccal não se estende até em
embaixo dos olhos; tem uma só serie de dentes conicos
[Sager teen
e atraz destes alguns outros, isolados, no meio de cada
maxillar. Numerosos póros na cabeça e parte anterior
do corpo. Os orgãos electricos acham-se ao longo de
cada lado da parte caudal ou a começar da metade do
comprimento do corpo, entre a metade de sua altura e
a base da nadadeira anal.
O colorido é mais ou menos uniforme, pardo em
cima e mais claro em baixo.
Habit.: Amazonia, Guyana.
A descarga electrica deste peixe é produzida por
musculos especiaes, que perderam a sua antiga contra-
ctibilidade mas augmentaram muito a capacidade de pro-
duzir correntes electricas, o que aliás se pode observar,
ainda que muito fracamente, em qualquer musculo normal.
Ainda dous outros peixes, a Raia electrica (Torpedo)
e o silurideo Malapterurus da Africa tem dispositivos
mais ou menos eguaes e dão descargas electricas. O
nosso « Paraqué», porem, é o mais temivel delles, pois
as suas descargas tornam-se perigosas mesmo a grandes
animaes; a intensidade de seu fluxo electrico foi com-
parado á de uma bateria de 15 garafas de Leyde.
Uma descripção mais detalhada destes orgãos, bem
como das interessantes experiencias que se tem realizado
com este peixe, encontra-se na obra do Snr. Alipio M.
Ribeiro, acima citada, p. Y1 ss.; não queremos deixar
de citar tambem a bella prelecção do Prof. Portier « Les
Poissons électriques», Bull. du Musée Océanographique
de Monaco, N. 76, 1906.
II Fam. Cichlid
Esta familia de peixes, a mais importante dos de
agua doce da Ordem Percomorphi a que pertencem, era
até ha pouco mais geralmente conhecida pelo nome de
Chromide. Este ultimo nome, porem, não pode ser
conservado, visto como a especie typica mencionada por
2 o B da
Cuvier (1817) é um peixe marino de familia Poma-
centridae. |
A caracterização dos Cichlide entre os Acantho-
pterigios em geral é bastante dificil. Mas como aqui
só temos a distinguil-os de outros peixes da agua doce,
bastará a enumeração dos seguintes caracteres distinctivos.
O corpo é ou alongado, oblongo ou alto, sempre
bastante comprimido. As escamas são geralmente cte-
noides; a Linha lateral é interrompida (no terço final),
recomeçando mais abaixo. Uma só Dorsal, esta geral-
mente alongada, sempre com numerosos espinhos (mais
de dez e com poucas excepções em numero maior do
que o dos raios molles); Anal com tres ou mais espinhos.
A posição das Ventraes é thoraxica, tendo sempre
um espinho e cinco raios molles.
Os nomes vulgares com que o povo designa estes
peixes não são tão precisos como tal se dá para muitos
outros animaes, devido a subtileza de muitos dos cara-
cteres, de modo que nem mesmo genericamento esses
nomes não tem valor absoluto. Comtudo tambem aqui
notamos alguma classificação nas denominações triviaes.
Assim as especies dos generos Geophagus, Acara e
Astronotus ete, de corpo mais ou menos oval, são
chamados «Papa-terra», « Card» ou «Acará», com va-
rios qualificativos como: «péva» (chato), «una» (preto),
«tinga» (branco), etc, em guarani ou portuguez; esta
como que designação especifica porém varia muito lo-
calmente. As especies dos generos Crenicichla, de cor-
po pouco alto, muito alongado e com Dorsal longa, são
designadas como « Nhacundá» ou «Jacundá»; no Rio
Grande do Sul chamam-nos «Joanninhas», no Matto
Grosso «Joanna Guensa« ou simplesmente « Guensa >»,
com o accrescimo de algum qualificativo. Os bellos pei-
xes do genero Cichla bem caracterizados, grandes, de
colorido variegado e com a grande mancha ocellar na :
cauda, são denominados «Tucunaré >».
SEO
As melhores publicações modernas em que nos pu-
demos basear para o estudo desta familia são os do
Dr. C. Tate Regan (A Revision of the Fishes of the
South- American Cichlid Genera, Proceedings of the Zoo-
logical Society, London, 1905 e Annals and Magazine
of Natural History, 1905 e 1906, cf. Ser. 7, Vol. XVII,
p. 230, nota) e do Dr. J. Pellegrini (Contribution a
Pétude.... des poissons de la famille des Cichlidés —
Mémoires de la Societé Zoologique de France, tomo XVI,
1903, p. 41-385 ) e lastimamos tão somente termos
recebido tardiamente este ultimo trabalho, para que me-
lhor o aproveitassemos.
Arcos branchiaes, Fig. 31
de Chetobranchus, Fig. 4 de
Geophagus.
a arco branchial ;
ry raios, c cerdas
Z lobulo
Chave synoptica para a classificação dos generos da
Fam. Cichlidae
I Os ultimos espinhos da Dor-
sal são muito menores do que
os raios molles subsequentes;
Anal com 3 espinhos . . . Cichla
IT Os ultimos espinhos da Dorsal
são de comprimento mais ou
menos egual ao dos raios molles
ee
eee
h
hh
Cerdas do arco branchial lon-
gas e numerosas (fig. 3):
Com 3 espinhos na Anal.
Com mais de 3 espinhos na
Anal .
Cerdas do arco branchial nao
muito grandes e nao muito
numerosas (fig. 4):
Anal com 3 espinhos
Preoperculo serrilhado no bor-
do posterior
DEVE eco -9; maxillares
eguaes
DE XE XXIV(10- 13 maxil-
lar inferior mais longo .
D.XVI-XXV/11-19; maxil-
lar mais longo; dentes inter-
nos podem ser realcados .
Preoperculo não serrilhado
Sem lobulo na extremidade su-
perior do primeiro arco bran-
chial (fig. 3)
Sem escamas (ou só poucas)
entre os raios molles da Dor-
sal; D.XIII-XVI/7-12, A.
I11/6-11
Maxillar exposto; premaxillar
protractil
Maxillar não exposto: prema-
xillar não protractil .
Chaetobranchus
Chaetobranchopsis
Crenicara
Batrachops
Crenicichla
Acaropsis
Acara
JJ
ae)
CC
il
Com escamas entre os raios
molles da Dorsal; D.XII-XIV/
19-21, A.III/15-16 .
Com lobulo na extremidade
superior do primeiro arco bran-
chial (fig. 4)
Cerdas externas do primeiro
arco branchial insertas na mar-
gem do lobulo, caso os haja
DXII-XIX/9-1 7 ; L. lat. sem-
pre bem distante da base dos
espinhos da Dorsal
D.XV-XVI/5-7; L. lat. che-
ga a distancia de 14 escama
da base dos due da Dor-
sal
) D. VIT-VIII/14-15; L. lat.
72
chega á distancia de 14 es-
cama da base dos espinhos
da Dorsal.
Cerdas externas do primeiro
arco branchial insertas enci-
ma, na base do lobulo do arco
Beanchial
Anal com mais de 3 espinhos
D. XITI-XX/10-16, A. IV-
XI1/7-16
Dentes cônicos ou cylindricos,
não comprimidos .
Dentes fracos, comprimidos;
escamas da L. lat. bem maio-
res que as do resto do corpo
Astronotus
Geophagus
Heterogramma
_ Biotoecus
Retroculus
Cichlasoma
Uaru
kk D.VITI-XHI/24-31, A. V-IX
24-32
m Com dentes em toda a ex-
tensão dos maxillares . . . Pterophyllum
mm Com dentes só na parte an-
terior de cada maxillar. . . Symphisodon
Gen. CICHLA Schneid.
JACUNDÁ
Cichla Schneider, Bloch's Syst. Ichth. 1801, p. 340; Guenther,
Cat. Fish. IV, 1862, p. 303;
Regan, Ann. & Mag. Nat. His, Ser. 7, vol XVII, p. 230-231;
Corpo alongado, sua altura mais ou menos egual
ao comprimento da cabeça, cabendo ca. de 3 vezes no
compr. do corpo. D. XITI-XVI espinhos, o penultimo
dos quaes é o menor; 15-18 raios molles, A. II 10-11.
A Llat. 83-102 escamas e 9-12
“acima, 23-28 «abaixo della . O. ocellaris
AA L. lat. 104-121 escamas é
12-14 acima, 32-36 abaixo
delas res te a ro na C. temensis
Cichla ocellaris Schneid.
Cichla ocellaris Schneider, Bloch’s Syst. Ichth., 1801, p. 340;
Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 304; Steindachner, Denk-
schr. Ak. Wien, XLVII, 1883, p. 3; Est. I, fig. 2; Regan,
Ann. & Mag. Nat. Hist. ser, 7, vol. XVII, 1906, p. 232,
Cichla argus Valenciennes em Humboldt, Obs. Zool. II, 1833;
p: 167, Est XLV, fios:
Acharnes speciosus Guenther, 1. e. IV, 1861, p. 369;
renicichla orinocensis Guenther. t. c. p. 309;
Bruno com colorido verde e com 3-4 manchas es-
curas triangulares nos flancos, com a base no alto do
dorso e as pontas chegando ao meio do corpo; um ocello
grande na base da Caudal, assim como por vezes muitos
outros sobre o corpo, substituindo mesmo as manchas
triangulares. Nadadeiras verticaes com manchas alterna-
damente escuras e claras.
Compr.: 100-410 mm.
Habit.: Amazonas, Cudajas, Rio Guaporé, Vene-
zuela, Guyana.
Mus. Paul. Rio Juruá, Amazonas («Tucunart»),
225 mm.
Castelnau Anim. Am. Sud, Poissons p. 17, Est. X.
fig. 1, descreve como C. toucounarai uma forma que
parece ser sómente uma ligeira variante da forma typica,
mais pobre em colorido de manchas nos flancos. Foi
colligido em Goyaz, no Araguaya, rio Tocantins e no
Amazonas.
Outra forma, CEICHLA MULTIFASCIATA Casteln. loc.
c. p. 18. Est. X fig. 2, em cuja synonymia, erroneamente,
se tem incluido C. toucounarai de que acima tratamos,
representa uma especie de corpo mais alongado e com
desenho triangular no dorso mais numeroso (i1 faxas).
A expedição só obteve o exemplar typico, no Amazonas
peruano, pelo que deixamos de incluir em nossa lista
esta especie.
Cichla temensis /Zumb.
Perca brasiliensis Blochs, Ausl., Fische, 1792 VI, p. 84, Est,
CCCX, fig. 2;
Cichla temensis Humboldt Obs. Zool. 11, 1833, p. 169; Guenther,
Cat. Fish, IV, 1862, p. 304; Steindachner, Denkschr.
Ak. Wien, XLVI, 1883 p. 3, Est. I, fig. 3; Regan, Ann.
& Mag. Nat. Hist. ser. 7, vol. XVII, 1906, p. 233;
Cichla conibo Castelnau, Anim. Am. Sud, Poiss., 1855, p. 18
Est. X, fig. 3; Guenther, t. c. p. 305;
)
Esta especie pouco differe da precedente, a não ser
pelo numero de escamas como foi indicado na chave.
— 294 —
O colorido, por ser bastante variavel, parece não
permittir distincção exacta; pela mesma razão nos pa-
rece acertado sustentar ©. multifascrata Casteln., cujos
demais caracteres, alem do colorido, desconhecemos.
Compr.: 200-360 mm.
Habit.: Amazonas, da foz ao Juruá, Guyana.
Gen. Chaetobranchus Heck.
Chetobranchus Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p, 401;
Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 310; Regan, Ann. &
Mag. Nat. Hist. ser. 7, vol. XVII, 1906, p. 234;
Corpo em oval pouco alongado. O caracter mais
interessante é o que já mencionamos ua chave: o grande
desenvolvimento das cerdas no lado interno do arco bran-
chial, cujo numero sóbe a 60 ou 80.
a 2 escamas entre o ultimo raio
da D. ea L. lat.; o desenho
dos flancos consiste em uma
manchar escura: Cn C. flavescens
au 4 escamas entre o ultimo raio
da Dera suado 40 taxes
transversaes no flanco e um
ocello na base da caudal. . O. semifasciatus
Chaetobranchus flavescens Heck.
Chaelobranchus flavescens Heckel, Ann. Mus. Wien, Il, 1840,
pag. 402; Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, pag. 310; Stein:
dachner, Sitzb. Ak. Wien, LXXI, 1875, p. 128, Est. VI;
Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist, ser. 7, vol. XVII, 1906,
p: 235;
Chaetobranchus robustus Guenther, Le. p. 310;
Chaetobranchus brunneus Guenther, L e p. 310;
Chromys ucayalensis Castelnau, Anim. Am. Sud. Poiss. 1855, p.
LE Esto V dio
Acara ucayalensis Guenther, t. c. p. 281;
— 295 —
D. XIII 13-14; A. III 11-12; face com 5-6 séries
de escamas; L. lat. 27-29 escamas.
Pardo, com uma grande mancha no flanco; nada-
deiras com linhas claras e escuras alternadas.
Compr.: 260 mm.
Habit.: Amazonas, da foz ao Perf, Guyana.
Chaetobranchus semifasciatus Steind.
Chaetobranchus semifasciatus Steindachner, Sitzb. Ak. Wien,
LXXI, 1875, p. 130, Est. VII; Regan, Ann. & Mag.
Nat. Hist., ser. 7, vol. XVII, 1906, p. 235;
Dorsal e Anal com um ou dous raios e L. lat.
com 2 ou 3 escamas a mais que a especie precedente,
á qual é muito alliada, differindo della só pelos cara-
cteres indicados na chave.
Compr.: 188 mm.
Habit. : Amazonas, de Obidos ao Rio Iça.
Gen. CHAETOBRANCHOPSIS Stein.
Chaetobranchus (part.) Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXXI,
1875; po 128;
Chaetobranchopsis Stemdachner, i cit. p. 133; ÆErigenmann &
Bray, Ann. Ac. N. York, VII, 1894, p. 609; Regan,
Ann. & Mag. Nat. Hist. ser. 7, vol. XVII, 1906, p. 236;
Conhece-se uma só especie deste genero, que por
todos os demais caracteres é intimamente alliado a Chae-
tobranchus; diverge delle quasi só RE ter 6: (em vez
de 3) raios na Anal.
Chaetobranchopsis orbicularis Steind.
Chaetobranchus (Chaetobranchopsis) orbicularis Steindachner,
Sitzb. Ak. Wien, LXXI, 1875, p. 133;
Chaetobranchopsis orbicularis Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist,
ser. 7, vol. XVII, 1906, p. 236;
À — 296 —
D. XV-XVI 11-13; A. VI 15-16; 3-4 series de
de escamas na face; L. lat. 26-28 escamas.
Pardo com vestigio de faxas transversaes; uma man-
cha no meio do flanco (nem sempre distincta). Nadadeiras
verticaes com series longitudinaes de manchas escuras
e claras, alternadas.
Compr. 80 mm.
Babit.: Rio Amazonas, da foz ao Javary e mais
afluentes.
Gen. CRENICARA Steind.
Crenicara Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXXI, 1875, p. 99;
Dicrossus Steindachner, loc. cit. p. 102.
Crenacara Regan, Proc. Zool. Soc. London, 1905, I, p. 152;
Anal com III, 7-8 raios; Pectoral com 15 raios;
caudal arredondada.
a Altura do corpo 2 14 vezes no
compr.;, D..XVI- XVII 9;
RES O Ree ct UE . D. punctulata
aa Altura do corpo 3 14-4 vezes
no <compr.; Di CRIN 05 E
lat. 26: D. maculata
Crenicara punctulata Guenth
Acara punclulata (part.) Guenther, Ann. Mag. Nat. Hist. XII,
1863, p. 441;
Crenicara elegans Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXXI, 1875,
j SMS DS Pel Dey ial eo
Crenacara punctualata Regan, Proc. Zool. Soc., London, 1905,
Ip. 152-153
De côr parda, com duas series de manchas escuras,
uma acima, outra abaixo da linha lateral; uma faxa
com orlas claras entre os olhos e a bocca; manchas
o
— 297 —
escuras e claras na parte posterior da dorsal e no
meio da cauda.
Compr.: 104 mm.
Habit.: Rio Amazonas (Gurupá, Cudajas e Curu-
pira); Guyana (rio Essequibo ).
Crenicara maculata Sfeind.
Dicrossus maculatus Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXXI,
1875, p. 102;
Crenacara maculata Regan, Proc. Zool. Soc. London, 1905,
Ap kos |
No seu colorido esta especie assemelha-se a ©! pun-
ctulata, da qual differe pela menor altura do corpo, nu-
mero de raios da dorsal, ete.
Compr.: 60 mm.
Habit.: Rio Amazonas (Lagos Maximo e José
Asst, rios Tonantins, Javary, Tajapuru ).
Gen. BATRACHOPS Heck.
JACUNDA
Batrachops Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 432; Regan,
Proc” Zool: *Soc:; London; 1905, 1p. 153;
Crenicichla (part.) Guenther. Cat, Fish, 1862 IV, p. 305;
D. XXTI-XXIV 10-13; A. HI 7-10; .Caudal
arredondada.
Altura do corpo 4-5 ‘/;, cabeça 3 14-3 14 no com-
primento do corpo.
Batrachops
Com mancha ocellar na base
da caudal:
a 55-60 escamas em uma série
abaixo da L. lat.; nadadeiras
sem manchas:
b Maxillar extende-se até abai-
modo meio do” 0hhO 714%; B. ocellatus
— 298 —
bb Maxillar extende-se só até a
margem anterior do olho . . B. semifasciatus :
aa 66-70 escamas em uma série
abaixo da L. lat.; algumas na-
dadeiras com manchas:
c Com 3 e mais séries longitu-
dinaes de manchinhas sobre
ar Dorsal asa ne RE Die POLLO Une
cc Com uma faxa longitudinal,
subterminal na Dorsal; gran-
des manchas parallelas sobre
O: Corpo cr nos ok a CB Oe Ch 0
Batrachops ocellatus Perug.
Boggiana ocellata Perugia, Ann. Mus. Genova, (2) XVIII, 1897,
p 148;
Batrachops ocellatus Regan, Proc. Zool. Soc. London, 1905,
[ipa pba is
Olivaceo com linhas longitudinaes mais escuras ao
longo das séries de escamas.
Compr.: 265 mm.
Habit.: Rio Paraguay. ;
Batrachops semifasciatus Heck.
Batrachops semifasciatus Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840,
p. 436; Regan, Proc. Zool. Soc., London, 1905, I, p. 155.
Cremicichla semifasciata Guenther, Cat. Fish., 1862, IV, p. 309;
As escamas são claras com orlas escuras; uma
mancha alongada entre o olho e o operculo; 7-8 manchas
em séries no lado superior do corpo.
Compr.: 150 mm.
Habut.: Rio Paraguay.
Batrachops reticulatus Heck.
Batrachops reticulatus Heckel, Ann. Mus. Wien, IL, 1840, p.
433; Regan, Proc. Zool. Sce., London, 1905, I, p. 155;
Crenicichla reticulata Guenther, Cat. Fish. 1862, IV, p. 309;
moe
De côr escura; cada escama com centro escuro e
orla clara; mancha escura entre o olho e operculo; de-
senho na Dorsal, por vezes com manchinhas na Anal e
margens escuras na caudal.
Compr.: até 250 mm.
Habit.: Amazonas, Rio Negro, Pert.
Batrachops punctulatus ficg.
Crenicichla reticulata (non Heck.) Pellegr. Mém. Soc. Zool. Franc.,
XVI, 1903, p. 378 (1904);
Batrachops punctulatus Regan, Proc. Zool. Soc., London, 1905.
Epa O e Esto XV ie. ds
Alliado a estas especies é B. cyanotus Cope do
Alto Amazonas, no Perú, na qual porém o maxillar se
estende um pouco mais por baixo do olho e a Dorsal
não tem desenho.
Compr.: 140 mm.
Habit.: Guyana, Rio Essequibo; Rio Amazonas.
Gen. CRENICICHLA feck.
JACUNDA, JOANNA GUENSA;
Crenicichla Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 416 (part);
Guenther, Cat. Fish., 1862, IV, p. 305 ; Regan, Proc. Zool.
Soc., London, 1905, I, ps. 156-158;
D. XVI-XXV 11-19; A HI 7-12; dentes conicos,
em varias series, podendo os da serie interna ser recalcado;
margem posterior do preoperculo serrilhada. Corpo
alongado.
CRENICICHLA
A Escamas ctenoides, ao menos
ao longo da L. lat.
| 38-70 escamas em uma serie
abaixo da L. lat.
a Maxillar estendendo-se abaixo
do olho até 1% de seu diametro
3
aa
CC
aaa
— 300 —
38-46 escamas abaixo da L.
lat.; D. XVI-XVIII/13-16.
50-62 escamas abaixo da L.
lat: Dyce V HER 3-6
Maxillar estendendo-se só até
a margem anterior do olho;
63-70 escamas abaixo da L. lat.
Diametro ocular 14 da cabeça;
DK se: 13
1/8-10; ;
Diametro ocular % da ee
D. XX- nue Wii go
IT1/7-8 CE
Maxillar não se estende até a
vertical do olho; 57 escamas
abaixo da L. lat.; D. XVIII-
SO aN AO
C. lepidota
C. saxatilis
C. lacustris
C macrophthalmus
C wallacir
II 84-130 escamas abaixo da L. lat.
d
ce
dd
Maxillar não se estende até
abaixo do olho; focinho com
mais de 1% do PRB
da cabeça .
D. XXTIII/13- 14; A. 11/0 10;
84-95 escamas abaixo dá L. lat.
D. XXIV/14; A. ITT/11 ; pis
escamas abaixo da L. lat.
Maxillar estendendo-se até
abaixo do olho; focinho de 14
do comprimento da cabeça
ou menos .
Todas as escamas acima da
L. lat. são cycloides; 112-130
escamas abaixo da L. lat.
C. vittata
C. acutirostris
— 301 —
g 18-20 escamas entreo primeiro
raio dorsal ea L lat... 7. C. ornata
gg 15-16 escamas entre o pri-
meiro raio dorsal Eai ad O lenticulata
ff Só as escamas junto 4 cauda
acima da L. lat. são cycloides
h 93-108 escamas abaixo da L.
lat.; entre esta e o primeiro
raio dorsal 14-16 escamas . C. strigata
hh 106-113 escamas abaixo da L.
lat.; entre esta e o primeiro
raio dorsal 16-17 escamas . C. lugubris
hhh 120 escamas abaixo da L.
lat.; entre esta e o primeiro
raio dorsal 20 escamas. .'. C. cincta
«LA Escamas pequenas, cycloides;
narinas mais chegadas ao fo-.
cinho que ao olho . . . . C. johanna
Crenicichla lepidota Heck.
Crenicichla lepidota H:ckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840,p. 429;
Regan, Proc. Zool. Soc., London, 1905, I, p. 158;
Pardo; uma faxa escura desde o focinho, por cima
do olho, até o operculo (continuando ainda sobre o corpo
nos exemplares juv.); am traço obliquo abaixo do olho;
uma mancha acima da Pectoral; as vezes com faxas
transversaes sobre o corpo; um ocello na base de caudal.
Nadadeiras escurecidas, com algumas manchas claras na
Dorsal posterior, etc.
Compr.: até 165 mm.
Habit.: Rio Grande do Sul; Carandásinho, Matto
Grosso; Paraguay.
ce 3) Oe me
Crenicichla saxatilis (Linn. )
Sparus saxatilis Linné, Syst. Nat. 1758, (ed. 10), pag. 278;
Perca saxatillis Bloch, Ausl. Fische, VI, 1792, p. 79, Est. 309;
Cichla labrina Agassis, em Spix, Pise. Bras, 1829, p. 99, Est.
LXIL fig. 1;
Crenicichla saxatilis ‘Guenther, Cat. Fish. 1862, IV, p. 308;
Regan, Proc. Zool. Soc., London, 1905, I, p. 159-160;
Crenicichla saxatilis var. semacineta Steindachner, Denkschr.
Ak. Wien, 1892, LIX, p. 376.
Pardacento; uma faxa entre o olho e o operculo,
mas que por vezes comega ja no focinho; as vezes um
traço obliquo abaixo do olho; uma faxa escura desde o
operculo até a cauda, que. porém, pode ser interrompida
ou reduzida a algumas manchas; um ocello na base da
Caudal; geralmente com salpiques claros; Dorsal e Caudal
geralmente com orla escura; parte anterior da Dorsal as
vezes com uma serie de manchas entre os espinho e na
parte posterior e na Caudal com manchinas claras.
Compr.: de 140-179 ou 226 mm.
Hab.: Guyana, Trinidad; Amazonas, Tabatinga,
Cupai; Rio Grande do Sul.
Crenicichla lacustris Casteln.
Fig. 5
Cychla lacustris Castelnau, Anim. Am. Sud, Poiss. 1855, p. 19,
Fst VIE fg. 3:
Crenicichla lacustris Guenther, Cat. Fish, 1862, IV, p. 308;
Regan, Proc. Zool. Soc., London, 1905, I, p. 162;
— 303 —-
Colorido um tanto semelhante ao das especies pre-
cedentes e alem disso numerosas manchinhas violetas
em cima da cabeça e do corpo e nas nadadeiras verticaes.
Compr.: 88-169 mm.
Habit.: Rio de Janeiro, Porto Real; Rio Grande
do Sul, Camaquan.
Mus, Paul.: Est. S. Paulo, Poço Grande, Rio
Juquiá, Iguape, Ypanema, Piquete; Est. Esp. Santo,
Rio Doce.
Crenicichla macrophthalmus Heck.
Crenicichla macrophthalmus Heckel, Ann. Mus. ien, WII, 1840,
p. 427; Guenther, Cat. Fish., IV, 1862, p. 307; Regan,
Proc. Zool. Soc., London, 1905, I, p. 162:
Cor parda; faxa escura entre o olho e operculo ;
as escamas da L. lat. são claras com orla escura; as
nadadeiras verticaes não tem manchas, porem orlas escuras.
Com pres 205
Habit.: Amazonas, Rio Negro.
Crenicichla walacii Reg.
Crernicichla wallacit Regan, Proc. Zool. Soc., «London, 1905, I,
pats; “Ms NIV figo
Pardacento; faxa escura entre focinho e operculo,
sobre o olho, com fraca continuação sobre o corpo; Dorsal
e Anal com orla escura; Caudal com indicação de linhas
transversaes e uma mancha basal.
Compr.: 85 min.
Habit. : Amazonia, Rio Negro; Guyana, Essequibo.
Crenicichla vittata Heck.
Cremcichla vittata Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 417;
Regan, Proc. Zool. Soc., London, 1905, I p. 163;
Pardacento; faxa escura desde o focinho, sobre o
olho, até a ponta da cauda; no corpo, em cima, com
— 304 —
vestigios da faxas transversaes; traço obliquo abaixo do
olho; ocello na Caudal, logo acima da L. lat.; Dorsal
com series longitudinaes de manchinhas; Caudal com
margem inferior escura.
Compr.: 140-170 mm.
Habit.: Est. Matto Grosso, Rios Paraguay (Cai-
cara e Cuyabá e Paraná.
A indicação de Tate Regan (1 s. cit.), de esta especie
occorrer tambem no Rio Amazonas, é evidentemente um
equivoco, que se explica do seguinte modo: J. Heckel,
ao descrever a especie (loc. cit. p. 419) refere-se a um
exemplar de Caiçara; não é porém á localidade mais
conhecida deste nome, no Rio Amazonas, acima de Teffé,
que o auctor se referia, porem a Caiçära no Rio Pa-
raguay, proximo de Villa Maria, Estado de Matto Grosso,
onde Natterer colligiu nos mezes de Setembro de 1825
a Junho de 1826.
Talvez a confusão destas duas localidades de egual
nome tenha occasionado ainda outros enganos, o que
prejudicaria assaz os estudos zoogeographicos. —
Crenicichla acutirostris Guenth.
Cremicichla acutirostris Guenther, Cat. Fish., 1862, IV, p. 307;
Regan, Proc. Zool.) Soc. London, 1905, I, p. 164, Est.
RIVo go:
Pardacento com 10 faxas transversaes na parte su-
perior dos lados; Anal com estreita orla escura.
Compr 20 mar
Habit.: Amazonas, Rio Cupai.
Crenicichla ornata Reg.
Crenicichla brasiliensis var. lenticulata (non O. lenticulata Heck.)
Pellegrin, Mém. Soc. Zool. France, XVI, 1903, p. 383,
fiz. (1904);
Crenicichla ornata Regan, Proc. Zool. Soc., London, 1905, I,
p. 167. Est. XV, fig. 2;
— 305 —
Azeitonado, com desenho escuro; 7-8 faxas trans-
versaes no corpo; um traço do olho ao fim do operculo ;
muitas manchas na cabeça; grande mancha na base da
caudal; manchinhas sobre cada espinho da Dorsal for-
mando uma serie longitudinal; orlas escuras na Dorsal,
Anal e Caudal.
Compr.: 165-175 mm.
Habit.: Guyana; Amazonas, Rio Negro.
Crenicichla lenticulata Heck.
Crenicichla lenticulata Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p.
419; Regan, Proc. Zool. Soc., London, I, 1905, p. 167;
Crenicichla adspersa Heckel, t. c. p. 421;
Crenicichla johanna var. lenticulata Guenther, Cat. Fish., IV,
6290
Crenicichla johanna ver. adspersa Guenther, L c.;
Pardacento, com 8-9 manchas ao longo do meio
do corpo ou pouco acima, podendo tambem estar reduzidas
ás primeiras; cabeça e thorax com numerosos pontinhos;
ocello na base da Caudal; Dorsal orlada, Ventral com os
2 raios anteriores escuros.
Compr.: 260-350 mm.
Habit.: Amazonas, Rio Negro, Guaporé.
Crenicichla strigata Guenth.
Cremicichla johanna var. vittata (non C. vittata Heck.) Guenther,
Cat. Fish, 1862. 1V.-p: 3065
Crenicichla johanna var. strigata Guenther, 1. s. c.;
Crenicichla strigata Regan, Proe. Zool. Soc., London, 1905, I,
p. 165, Est. XV, fig 1;
Azeitonado, com desenho preto; do focinho, sobre
o olho, ao operculo, corre uma faxa que dahi em diante
se divide em duas, unindo-se de novo na cauda, onde
forma uma mancha e continua até a extremidade da
Caudal; uma linha acima e ao longo da L. lat.; uma
serie de manchas em annel, unidas por traços, ao longo
— 306 —
da base da Dorsal; manchinhas na parte superior da
cabeça: orlas escuras nas nadadeiras verticaes.
Compr.: 108-188 mm.
Habit.: Amazonas, Rios Capim e Cupai.
Crenicichla lugubris Heck.
Crenicichla lugubris Heckel, Ann. Mus. Nat. Wien, II, 1840,
p. 422: Regan, Proc. Zool. Soc. London, 1905, I, p. 165;
Crericichla funebris Heckel, t. e, p. 424;
Crenicichla johanna var. lugubris Guenther, Cat. Fish. 1862,
TVS, pro 07;
Crenicichla johanna var. funebris Guenther, L c.
Crenicichla brasihensis, var. lugubris Pellegrin, Mém. Soc. Zool.
France, XVI, 1903, p. 383, fig. (1904);
Pardacento, com manchas escuras acima da Pecto-
ral e na base da Caudal; Dorsal e Anal com margens
escuras, por sua vez orladas de claro.
Compr.: 160-255 mm.
Habit.: Guyana, Amazonas, Rios Negro, Capim,
Guaporé (Madeira).
Crenicichla cincta Reg.
Crenicichla brasiliensis var. fasciata (non Cychla fasciata
Schomb.) Pellegrin, Mém. Soc. Zool. France, XVI, 1903,
Pons Cos aig AE
Crenicichla cincta Regan, Proc. Zool. Soc. London, 1905, I,
p. 1166
Azeitonado, com 9-10 faxas transversaes no corpo,
em cima; um traço escuro obliquo do olho ao operculo ;
Dorsal de raios molles com grandes manchas; Caudal
escura, com manchas claras e uma mancha escura na
base, logo acima da L. lat.
Compr.:. 172 mm.
Habit.: Pará, Ilha Marajó.
— 307 —
Crenicichla johanna Heck.
Crenicichla johanna Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 417;
Regan, Proc. Zool. Soc. London, 1905, I, p. 168;
Crenicichla obtustrostris Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 305;
Crenicichla johanna var. johanna Guenther, t. c, p. 306;
Crenicichla brasiliensis var. johanna Pellegrin, Mém. Soc. Zool.
France, XVI, 1903, p. 383, fig. (1904);
Pardacento, com 10 ou 12 faxas transversaes acima
da L. lat, por vezes tambem apagadas nos adultos; em
baixo com algum desenho vertical; Dorsal com orla
escura e uma zona clara logo abaixo. i
Compr.: 150-290 mm.
Habit.: Amazonas, Rios Capim, Cupai, Lago Ja-
nuary, Guyana, Venezuela.
Gen. ACAROPSIS Heck.
Acara (part.) Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 338; Guen-
ther, Cat. Fish., IV, 1862, p. 276;
Acaropsis Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXXI, 1875, p. 80;
Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7, vol. XV, 1905,
p.945;
Em tudo à unica especie, que forma este genero,
mostra a maior affinidade com as do genero Acara,
do qual só foi desligada por ter os maxillares muito
desenvolvidos, o que faz com que a bocca seja muito
maior, podendo ainda os premaxillares ser distendidos
para a frente.
Acarop-is nassa Heck.
Acara nassa Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 353; Guen-
ther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 281;
Acara (Acaropsis) massa Siindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXXI,
1875, p. 81, Est. Il:
Acaropsis nassa Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7, vol.
XV: 1905; p: 345 € 346;
D. XITI-XIV 9-11, A. III 8-9. Kaces com 2 ou
3 séries de escamas, preoperculo nú. D.e A. sem esca-
20
— 308 —
mas; compr. do pedunculo caudal ‘/,-/; de sua altura.
Pardo, com linhas claras longitudinaes. Uma mancha
grande sobre o flanco; outras menores no inicio da L.
lat., atraz do olho; no angulo inferior do preoperculo
outra maior, as vezes ocellada como a da base da cauda.
Nadadeiras verticaes com manchinhas pequenas.
Compr.: 140-200 mm.
Habit.: Amazonas: Santarem, Obidos a Teffé;
nos affluentes R. Tapajós, Negro, Xingü, Jatahy, Ma-
deirà Guaporé; Guyana.
Gen. ACARA Heck.
Acara (part.) Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 338;
Guenther, Cat. Fish. IV, 1862 p. 276; Pellegrin, Mém.
See. Zool. France, XVI, 1903, p. 171; Regan, Ann. Mag.
Nat Elisti; ser 7 vol XV, 1905 cpr SoM od
D. XIII-XVI 7-12; A. HI 6-11; bocca mediana,
com o premaxillar pouco protractil. Entre os raios
molles da Dorsal e Anal ha só poucas escamas, quando
não faltam inteiramente. Corpo alto, pouco alongado.
Grande parte das especies deste genero (ao todo
ca. de 20), occorre só no Equador, Venezuela e Guyana.
ACARA
A Preoperculo sem escamas
I Dorsal e Anal sem escamas
a 5-6 cerdas na parte inferior do
arco branchial anterior; 24-27
escamas na L. lat.; face com
3-4 series de escamas. Entre
a L. lat. e o primeiro raio
molle da dorsal ha:
b 2 ou 21% escamas; A. I}
een UE À tetramerus
— 309 —
bb 1 ou 1 1% escamas; A. a
6-8
O peduneulo caudal Redes
e 34 ou !J do comprimento
de al Una ne og. AN poças A vittata
ce 14 ou 24 do comprimento da
aura PRE ot) ant) ias A paraguayenss
aa 7-9 cerdas na parte inferior
do arco branchial anterior;
29-30 escamas na L. lat.; pe-
dunculo caudal mais longo que
alto; faces com 5-7 series de
ÉSCATa Lc. TE eue ete SUDOCILOTES
IT Dorsal e Anal em parte com
escamas na basa; comprimento
do pedunculo caudal com !/,
À
Nilo da altura tn A portalegmenços
AA Preoperculo com escamas
d OD. XII-XIV/7-10; A. I/8;
Dorsal e Anal sem escamas A. dorsigera
dd - D. XIV-XV/9-10; A. IT/7;
Dorsal e Anal atraz com es-
camas na, base: mora res A. thayeri
Acara tetramerus Heck.
Acara tetramerus Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 341;
Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 277; Regan, Ann. &
Mag. Nat. Hist., ser. 7, vol. XV, 1905, p. 332;
Acara viridis Guenther, t. c. p. 280;
Acara pallidus Guenther, t. ¢. p. 280;
Chromys punctata Castelnau, Anim. Am. Sud, Poiss., 1855, p.
13, Est. VIII, fig. 1º;
Chromys uniocellata Castelnau, t. c. p. 15, Est. VI, fig. 1;
Acara vittata (non Heck.) Guenther, t. c. p. 279;
Acara uniocellata Guenther, t. c. p. 281;
— 310 —
D. XIII-XIV 9-11; Pardo com 5 faxas trans-
versaes na altura da L. lat.; abaixo desta, no meio do
flanco uma grande mancha; um traço claro entre o olho
e a narina; logo atraz e abaixo do olho uma mancha;
mancha ocellar na base da cauda; por vezes com uma
faxa longitudinal entre estas duas ultimas manchas; o
centro das escamas é claro, o que dá a impressão de
linhas longitudinaes, parallelas, claras; nadadeiras geral-
mente com manchinhas escuras.
Compr.: 80-160 mm.
Habil.: Amazonas, Cudajas Guyana.
Mus. Paul: Rio «Juruá, Amazonas (Cara preto)
110-160 mm; Cudajas, Amazonas,
Acara vittata Heck.
Acara vittata Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 346;
Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXXI, 1875, p. 72 Est,
HI, fig. 1; Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist. ser. 7, vol.
XV 1905; pass
D. XIII-XIV 10-11. Colorido semelhante ao de
A. tetramerus; atraz do olho a mancha é alongada em
traço vertical; a faxa longitudinal corre do olho ao fim
da Dorsal.
Compr.: 130 mm.
Habit.: Amazonas, Cudajas, Manacapurá; Matto
Grosso, Cuyabá, Rio Paraguay Guyana, Venezuela.
Mus. Paul.: Rio Cabriales, Valencia, Venezuela
(«Chusco>), 70-93 mm.; D. R. Guerra Mendes offr.
Acara paraguayensis Eigenm. & Kenn.
Acara paraguayensis Eigenmann & Kennedy, Proc. Ac. Philad.,
LV, 1903, p. 534; Regan. Ann. & Mag. Nat. Hist. ser. 7,
vol XV: 4905.0. 950.
— 311 —
D. XIV (XHI-XV) 9-10. Até 7 faxas transversaes,
desenvolvendo-se na terceira dellas uma mancha maior,
preta; desta ao olho corre uma faxa longitudinal; um
traço obliquo atraz do olho; ocello na cauda; Dorsal
com traços obliquos na parte posterior.
Compr.: 50-100 mm.
Habit.: Matto Grosso; Corumbá, Descalvados, Ca-
randásinho.
Mus. Paul.: Itapura, Rio Tieté, Est. S. Paulo (até
100 mm. compr:).
Acara subocularis Cope
Geophagus (Mesops) Thayeri (non Acara Thayeri Steind.)
Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXXI, 1875, p. 108, Est.
TEL hos a:
Acara subocularis Cope, Proc. Am. Phil. Soc. XVII, 1878, p.
696; Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist, ser. 7, vol. XV,
1905, p. 557;
D. XIII-XIV 10-11. Prateado; um traço vertical
por sobre o olho; geralmente com uma mancha, redonda
sobre o flanco; a membrana entre os. primeiros 4 ou 5
raios da D. é preta em cima; Caudal com linhas trans-
versaes no meio.
Compr.: 80-102 mm.
Habit.: Amazonas: Obidos, Lago January.
Mus. Paul.: Rio Juuá, Amazonas (Acará branco)
95 mm.
Acara portalegrensis Heck.
? Acara dimerus Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 341;
Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 277;
Acara portalegrensis Hensel, Arch. f. Nat. 1870, p. 52; Regan,
Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7, vol. XV, 1905, p. 341;
D. XIV-XVI 9-11. Com 8-9 faxas transversaes,
a terceira dellas com mancha maior, ligada ao olho por
— 312 —
uma faxa; uma linha clara do olho 4 narina; ocello
na base da cauda; Dorsal e Anal com linhas obliquas
atraz, bem como no meio da Caudal, verticaes ou obliquas.
:Compr.: 80-120 mm. |
Habit.: Rio Grande do Sul, Matto Grosso, Des-
calvado, Carandásinho; Paraguay, Chaco.
Acara dorsigera Heck.
Acara dorsigera Heckel, Aun. Mus. Wien, II, 1840, p. 348;
Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 280; Regan, Ann. &
Mag. Nat. Hist., ser. 7, vol. XV, 1905, p. 342;
D. XHI-XIV 7-10. Pardo, com 7-8 faxas trans-
versaes; no flanco uma mancha maior, ligada ao olho
por uma faxa escura; mancha escura entre 8° e 10°
raios da Dorsal; esta, atraz, bem como Anal e Caudal
com séries de manchinhas escuras e claras alternadas.
Compr.: 53 mm.
Habit.: Amazonas: Obidos, Serpa, Teffé, Villa
Bella, Lago Maximo; Rio Paraguay: Matto Grosso,
Villa Maria.
Acara thayeri Steind.
Acara Thayeri Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXXI, 1875, p.
68, Est. I, fig. 2; Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser.
do vol! XN P90 po Aos
D. XIV-XV 9-10. Pardo, com pequenas manchas
transversaes unidas, formando quasi uma faxa longitu-
dinal e unida á mancha longitudinal de atraz do olho ;
no meio do flanco uma das manchas é mais negra e
está ligada a outra que vae de cima da L. lat. 4 Dor-
sal; esta, atraz, bem como Caudal e Anal ás vezes com
manchinhas escuras.
Compr.: até 110 mm.
Habit.: Amazonas: Cudajas, Manãos, Alemquer.
— 315 —
Gen. ASTRONOTUS Swains.
Astronotus Swainson, Nat. Hist. Fish. II, 1839, p. 229; Regan,
Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7, vol. XV, p. 346;
Hygrogonus Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 303;
O que logo distingue a unica especie deste genero
é a abundancia de escamas que cobrem a parte poste-
rior da Dorsal e quasi toda a Caudal e Anal. Ainda
varios outros caracteres nol-o fazem separar com razão
do genero Acara, com o qual tem affinidades.
Astronotus ocellatus Agass.
Lobotes ocellatus Agassiz, em Spix, Pise. Bras, 1829, p. 129,
list. LX VII;
Hygrogonus ocellatus Guenther, Cat. Fish., IV, 1862, p. 303;
Astronotus ocellatus Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist. ser. 7,
Ole Vio LO0S pe 347
D. XII-XIIT 19-21, A. IIT 15-16. Face com 7-9
séries de escamas; L. lat. 33-38; Dorsal, Anal e Caudal
com escamas.
Pardo, com um ocello na base da Caudal, varios
na da Dorsal e um sobre a Pectoral, na base. Algum
outrd desenho nos operculos, linhas, etc, desapparecem
com a edade.
Compr.: 250 mm.
Habit.: Amazonas: em todo seu curso brazileiro
e no Perá e muitos afluentes; KR. Paraguay; Villa
Maria, Guyana.
/
Gen. GEOPHAGUS Leck.
Geophagus Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 383; Guenther,
Cat. Fish. IV, 1862, p. 315; Regan, Ann. & Mag. Nat.
List er Vol RX VIE. 1906: 50;
Mesops (part.) Guenther, 1. ec. p. 311;
a pi
Satanoperca Guenther, 1 c p. 313;
Biotodoma (part.) Eigenm. & Kennedy, Proc. Ac. Philad. 1903,
p: -D33.
Este genero, bem como os tres outros a elle alliados,
Heterogramma, Retroculus e Biotwcus tem um caracter
commum, que facilmente os distingue dos demais Cich-
lidas: o desenvolvimento de um lobulo no lado interno
da parte superior do 1.º arco branchial, como o representa
nosso desenho fig. 4. (p. 2..)
GEOPHAGUS
A 6-17 cerdas no primeiro arco
branchial
a Pectorai ultrapassa o inicio
da Anal
b Dorsal com 12-16 espinhos
c Pectoral attinge o fim da base
AA TA ER ANIME RUE OR G. balzani
ce Pectoral attinge só o meio da
da Anal
d Face sem (ou com só 2-3) «
escamas; Li lat. 30. . . . G. gymnogenys
dd Face com series de escamas
e L. lat. 27-28, acima della
4-5, abaixo 9 escamas; pe-
dunculo caudal mais alto que
longo. ni anal o eG De alças
ce JL. lat. 29-31, acima della 6,
abaixo 12-14 escamas; pe-
dunculo caudal mais longo
quenalto panama URL TE G. cupido *
bb Dorsal com 17-19 espinhos G surinamensis
Gary: bd ew
— 315 —
aa Pectoral não attinge (não
ultrapassa) o inicio da Anal
f © Com mancha preta no flanco,
traço vertical na cabeça e
mais desenho variado . . . G. brasiliensis
ff Sem mancha no flanco; de-
SCHHOMPOBER o eee a 8 G. jurupari
AA 19-21 cerdas no primeiro arco
branchial.
g D. XV 10; desenho: 7 faxas
transversaes e uma longitudinal
2
do operculo á cauda _. . . G. pappaterra
gg DS XE XTV 11-13; dese
nho: uma mancha no flanco
e um ocello na base da caudal G. daemon
ggg D.XII-XIV 11-12; 0 desenho
limita-se a uma mancha na
base darcaudal > te G. acuticeps
Geophagus balzani Perugia
Geophagus balzani Perugia, Ann. Mus. Genov. 1891, p. 623;
Regan, Ann. Mag. Nat. Hist., ser. 7, vol. XVII, p. 52.
Geophagus duodecimspinosus Boulenger, Proc. Z. Soc. 1895,
p5 524 e Trans; 2. ‘Soc. XIV; 1896, Est: IV, fig. ds
D. XII-XIIT 13-14; A. II 7-9; comprimento do
pedunculo caudal egual só a 34 de sua altura. L. lat.
27-32. |
Pardo, com ca. de 9 faxas transversaes; uma mancha
grande no flanco e um traço baixo do olho; nadadeiras
escurecidas, na Dorsal e Caudal em parte com manchas
claras.
Compr.: 88 mm.
Habit.: Rio Paraguay, Rep. Paraguay e Est.
Matto Grosso.
— 316 —
Geophagus gymnogenys Hens.
Geophagus gymnogenys Hensel, Arch. f. Nat. 1870, p. 61;
Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7, vol. XVII, 1906,
Pooks |
Geophagus camurus Cope, Proc. Ann. Phil. Soc. XX XIII, 1894,
DL LOS Est Red
Em tudo esta especie, aliás rara, mostra as maiores
affinidades com G. brasiliensis, da qual differe só pelos
caracteres indicados na chave: comprimento da Pectoral
que ultrapassa o inicio da Anal e a falta de escamas
na face (1). "Tambem as cerdas do 1.º arco branchial
são menos numerosas (6-8, emquanto que em G. bra-
sihensis são geralmente 9-12).
Compr.: 130 mm.
Habit.: Rio Grande do Sul, Uruguay.
Geophagus brachyurus Cope
Geophagus brachyurus Cope, Proc. Ann. Phil Soc. XXXIII,
1894, p. 105, Est. IX, fig. 18; Regan, Ann. & Mag. Nat.
Hist., ser. 7. vol: XVIL '1906,/p: 54;
D. XIV-XVI 8-10; A. III 8-9; L. lat. 27-28,
acima della 4-5, abaixo 9 escamas; pedunculo caudal
um pouco mais alto que comprido. |
Purdo-claro, com faxas transversaes, uma mancha
no flanco, um traço vertical na cabeça por cima do olho;
nadadeiras verticaes com linhas transversaes.
Compr.: 50-100 mm.
Habit.: Rio Grande do Sul, Uruguay.
(1) Suppomos que não se trate do caso muito commum em G. bra-
siliensis e provavelmente tambem em outras especies, de se cobrir, na epoca
da procriação, grande parte da cabeça com uma pelle por vezes tão grossa que
esconde inteiramente as escamas.
— 317 —
Geophagus cupido Heck.
Geophagus cupido Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 399;
Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser, 7, vol. XVII, 1906,
pod:
Mesops cupido Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 311;
D. XV 10; A HI 9: L. lat. 29-31, acima della
6, abaixo 12-14 escamas; pedunculo caudal mais longo
que alto.
Pardo; na cabeça um traço obliquo, no flanco uma
mancha ocellada; nadadeiras sem desenho.
Compr.: 80 mm.
Habit.: Rio Amazonas: de Manäos a Tabatinga,
Rio Guaporé, Guyana.
Geophagus surinamensis Bloch
Sparus surinamensis Bloch, Ausl. Fische, 1791, V, p. 112,
Est. CCLXXVII, fig. 2;
Geophagus surinamensis Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 315;
Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist. ser. 7, vol. XVII, 1906,
EE se
DE OG
Chromys proxima Castelnau, Anim. Am. Sud. Poiss., 1855, p.
14, Est. VII, fig: 1:
Satanoperca proxima Guenther, t. ¢, p. 314;
D. XVII-XVIUI 11-12; A. III 7-9; L. lat. 33-36,
acima delia 6-8, abaixo 12-14 escamas; a Pectoral at-
tinge quasi o fim da base da Anal.
Pardo, com vestígios de faxas transversaes; uma
mancha preta no flanco; nadadeiras verticaes com man-
chas escuras.
Compr.: 80-120 mm; 230 mm.
Habit.: Rio Amazonas em toda sua extensão no
no Brazil; Guyana.
Mus. Paul.: Amazonas, Rio Teffé.
— 318 —
Geophagus brasiliensis Quoy & Gaim.
Fig. 6 [tam. nat.]
Chromis brasiliensis Quoy & Gaimard, Voy. Uran., Poiss. 1824,
p. 286;
Chromis unipunctata Castelnau, Anim. Am. Sud, Poiss. 1855,
Spy o Est Ve Stee 27
Chromis unimaculata Castelnau, 1. c., Est. VII, fig. 2;
Chromis obscura Castelnau, t. e., p. 14, Est. VI, fig. 3;
Acara brasiliensis Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 278 ;
Acara gymnopoma Guenther, 1. c.;
Acara obscura Guenther, t. e, p. 281;
Acara unipunctata Guenther, t. ¢, p. 283;
Geophagus brasiliensis Kner, Novara, Fische, 1869, p. 226, Est.
X, fig. 3; Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXX, 1874, p.
511, Ext. IL e III; Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser.
Gy vol, AVISO 06) ps i575
D. XIV-XVI 10-13; A. JII 8-9; face com 4-7
series de escamas; L. lat. 27-30, acima della 3-4, abaixo
9-10 escamas; primeiro arco branchial com 9-12 cerdas.
Colorido de exemplares de tamanho medio: 100-
150 mm.:
— 319 —
Pardo, azulado ou claro; uma grande mancha no
flanco, um traço vertical do alto da cabeça, por sobre
o olho, ao angulo do preoperculo; este com pintinhas
pretas.
Dorsal e Anal adiante unicolores, atraz com de-
senho claro e escuro alternado, como tambem toda a
Caudal.
Exemplares maiores ainda (até 230 mm.) perdem
parte deste colorido, ou quasi todo, restando porém geral-
mente a mancha do flanco.
Na época da procreação o colorido torna-se bellis-
simo, pois a numerosas manchas claras, opalisantes,
junta-se um brilho azulado, iridescente em todo o corpo.
Exemplares novos (até 70 ou 90 mm.) conservam
o desenho mais completo, pois, além do acima descripto,
tem 8-9 faxas transversaes escuras e o desenho nus
nadadeiras é muito nitido.
Habit.: Brazil meridional occidental, do Rio Grande
do Sul á Bahia (só nas aguas da vertente directa do
Atlantico ).
Mus. Paul.: Est. 8. Paulo, Cubatão, Iguape, Poço |
Grande, Taubaté; Est. R de Janeiro, Campo Bello; Es-
pirito Santo, Rio Doce; Est. S. Catharina, Col. Hansa;
Est. Rio Grande do Sul, Rio Camaquan.
Geophagus jurupari Heck.
Geophagus jurupari Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 392;
Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist, ser. 7, vol. XVII, 1906,
p DG:
Satanoperca jurupari Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 313;
Satanoperca leucosticia Guenther, t. ce. p. 314;
Satanoperca macrolepis Guenther 1, c. ;
D. XV-XVI 9-10; A. III 6-7; primeiro arco bran- |
chial com 16 cerdas.
— 320 —
Pardo, com manchinhas claras, azuladas na cabeça;
as vezes com uma mancha escura na base da Caudal;
Dorsal com manchas claras e escuras alternadas na parte
posterior. |
São poucos os caracteres que se possa indicar para
distinguir esta especie de G. brasiliensis, cujo colorido,
porém, em geral é mais variado.
Compr.: 80-220 mm.
Habit.: Rio Amazonas, da foz a Tabatinga, Pert,
Guyana.
Geophagus pappaterra Heck.
Geophagus pappaterra Heckel, Anu. Mus. Wien, II, 1840, p.
396; Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7, Voi. XVII,
1906, p. 59. |
Satanoperca pappaterra Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 313.
D. XV 10; A. HI 7; face com 6 series de escamas;
L. lat. 32; primeiro arco branchial com 19 cerdas.
Amarellado, com 7 faxas transversaes e uma lon-
gitudinal do operculo á cauda; nadadeiras sem desenho.
Compr.: 200 mm.
Habit.: Matto Grosso, Rio Guaporé Guyana.
Geophagus demon Heck.
Geophagus demon Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 389:
Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist. ser. 7, Vol. XVII, 1906,
Peso ony
Satanoperca demon Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 313;
D. XIII-XIV 11-14; A. III 8; face com 6-410
series de escamas; L. lat. 32-33; primeiro arco bran-
chial com 19 cerdas. |
Pardo, com uma mancha escura no flanco e um
ocello na base da Caudal; Dorsal com traços claros e
escuros, alternados.
— 321 —
Compr.: 290 mm.
Habit.: Rio Amazonas, Obidos, Rios Negro e
Madeira.
Geophagus acuticeps Heck.
Geophagus acuticeps Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 394;
Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7, Vol. XVII, 1906,
p. 60;
Satanoperca acuticeps Guenther, Cat, Fish. IV, 1862, p. 312;
EEE NERE XIV OS A IEL 7-85: face com pt
series de escamas; L. lat. 30-31; primeiro arco branchial
com 19-21 cerdas.
Pardo, com 7-8 faxas transversaes nos exemplares
novos; nos individuos mais velhos restam só os vestigios,
em forma de tres manchas sobre o flanco e uma na base
da caudal; parte posterior da Dorsal com manchas.
Compr.: 80-220 mm.
Habit.: Rio Amazonas de Obidos a Tonantins
e affluentes.
Gen. HETEROGRAMMA Res.
Mesops (part.) Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 311.
Geophagus (part.) auct.
Biotodoma (non Eigenm. & Kennedy) Pellegrin, Mém. Soc. Zool.
France XVI, 1903, p. 186.
Heterogramma Regan, Ann. & Mag. Nat, Hist., ser. 7, vol. XVII,
1906, p. 60;
Este genero distingue-se de Geophagus, com o qual
tem affinidade, por serem menos numerosos os raios molles
da Dorsal; por ficar a L. lat. (que nem sempre é com-
pleta) separada da Dorsal só por 1 14 escamas; L. lat.
22-24 (em Geophagus 28-30) e acima e abaixo della
só 2-3/8 (em Geophagus 4-6/9-12) escamas.
D. XV-XVI 5-7; A. III 6-7; face com 3 series
de escamas.
— 322 —
HETEROGRAMMA
A L. lat. completa
a Focinho mais curto que o dia-
metro ocular; ultimo espinho
da D. com mais de 24 do com-
primento da cabeça . . . . EH. tematum
aa Focinho do compr. do diametro
ocular; ultimo espinho da D.
com menos de 24 do compr.
da cabeça 3.355 pony Ren eee HA. agassizw
AA L. lat. incompleta, principal-
mente no seu ramo inferior
b Espinhos da D. subeguaes, a
comecarr dos Vallis Ve Terre H. borelli
bb Espinhos da D. subeguaes a
começar do IV
c Alem do desenho usual, cada
serie de escamas da barriga tem
uma: listras preta ar var ck H. commbe
cc Faltam as listras, mas ha uma
faxa obliqua da base da Pecto-
ral 4 origem da Anal . . . HH. trifasciatum
Heterogramma tæniatum Guenth.
Mesops teniatum Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 312;
Heterogramma teniatum Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist. ser. 7,
vol. XVII, 1906, p. 61-62;
O desenho consiste em uma faxa longitudinal do
olho á base da cauda, formando-se ahi uma mancha;
uma faxa do focinho ao olho, que continua obliquamente
dahi ao interoperculo, embaixo. As membranas entre os
— 323 —
primeiros espinhos da D. são escuras; as partes molles
das nadadeiras verticaes são manchadas.
Compr.: 60 mm. |
Habit.: Amazonas, Rio Cupai.
Heterogramma agassizii Steind.
Geophagus (Mesops) Agassixit Steindachner, Sitzh. Ak. Wien,
LXXI, 1875, p. 111, Est: VIII, fig. 2;
Heterogramma Agassixii Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist. ser.
evo VIE 1906. pie 62%
Especie muito parecida com a H. teniatum, da
qual differe pelos poucos caracteres já indicados na chave.
O colorido é egual, divergindo só por ser a faxa do
flanco continuada sobre a Caudal, em substituição da
mancha basal.
Compr.: 55 mm.
Habit.: Amazonas, Manáos.
Heterogramma borellii Regan
Mesops teniatus (part.) Boulenger, Boll Mus. Torin. X, 1895,
n::106; p;- 33;
Heterogramma Borelli Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser, 7,
vol. VIT 1906, p. 6957;
Bruno, com o seguinte desenho: faxas transversaes
com manchas, que formam uma serie no meio do flanco;
da região temporal, por detraz do olho ao interoperculo,
passa uma listra curva e outra da bocca ao olho. Dorsal
e Anal com margem escura e manchas claras e escuras
entre seus raios molles.
Compr.: 30-55 mm.
Habit.: Rio: Paraguay, Matto Grosso: Caran-
dasinho.
Heterogramma commbæ Eigenm.
Mesops teniatus (part.) Boulenger, Boll. Mus. Torin. X, 1895,
n. 196, p. 335.
Heterogramma commbe Eigenm. apud Regan: Ann. & Mag.
Nat. Hist. ser. 7, vel. XVII, 1906, 64 e nota.
Especie muito alliada a HH. trifasciatum, da qual só
se distingue pelos caracteres de colorido indicados na chave.
T. Regan salienta tambem differenças nas propor-
ções do comprimento da cabeça (maior) e do espaço
interorbital (menor do que em H. trifasciatum), o que
porém parece ser caracter pouco seguro.
Compr.: 25-40 mm.
Habit.: Rio Paraguay, Matto Grosso: Caranda-
sinho, Rio Apa.
Heterogramma trifasciatum Eigenm. & Ken.
Mesops teniatus (part.) Boulenger, Boll. Mus. Torin. X, 1895,
ne 196, pros;
Heterogramma trifasciatum Eigenmann & Kennedy, Proc. Acad.
Philad. 1903, p. 536; Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist,
ser. -7,:-vol. XVII 1906, /p;765:
Como já dissemos acima trata-se de uma especie
muito alliada á precedente, H. commbe.
Compr.: 30 mm.
Habit.: Rio Paraguay, Matto Grosso, Rio Apa.
Gen. BIOTŒCUS Eigenm. & Kenn.
Saraca (non Walk.) Steindachner, Sitzb. Ak. MES LXXI 1875,
p. 125;
Biotecus Eigenmann & te Proc. Acad. Philad. 1903,
533; Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist, ser. 7, vol. XVII,
1906, POSE
Distingue-se este genero de Geophagus por ter o
numero de raios da Dorsal “reduzido a VII-VIII 13-14
A
e acima da L. lat. que é aliás indistincta, ha só 2 e
abaixo 7 escamas, como em Feterogramma.
Biotcecus opercularis Steind.
Saraca opercularis Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXXI, 1875,
p. 125; 3
Bioteecus opercularis Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist. ser. 7,
vol. XVII, 1906, p. 66;
Do VE-VEE 19-14 A TI: E: dat.29-80.
Uma mancha grande no operculo, outra na base da
Caudal; uma serie de pontos pretos em cima, ao longo
do flanco. Margem da Dorsal escura; Caudal com series
alternadas de manchas claras e escuras.
Compr.: 50 mm.
Habit.: Rio Amazonas, Lago Saraca.
Gen. RETROCULUS Eigenm. & Bray
Retroculus Eigenmann & Bray, Ann. Ac. N. York, VII, 1894
p. 614; Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist. ser. 7, vol. XVII,
1906, p. 49;
À unica especie desse genero deveria fazer parte de
Geophagus, si não se distinguisse pelo caracter indicado
na chave: as cerdas do lobulo superior do primeiro arco
branchial não se inserem na margem mas sim na base
do mesmo lobulo.
Retroculus lapidifer Casteln.
Chromys lapidifera Castelnau, Anim. Am. Sud, Poiss. 1855,
p. 16, Est. XII fig. 1;
Retroculus Boulengeri, Eigenm. & Bray Ann. Ac. N. York VII,
1894, p. 614;
Retroculus lapidifer Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7,
vol. XVII, 1906, p. 50;
D. XVI (*) 11; A. III 6-7; face com 4-6 séries
de escamas; L. lat. 38-39. Diametro ocular contido
4-5 vezes no compr. da cabeça.
Amarellado, com o dorso mais escuro, varias faxas
transversaes e na base dos raios molles da Dorsal com
uma mancha escura.
Compr.: 190-240 mm.
Habit.: Rio Araguaya.
Gen. CICHLASOMA Swains.
Cichlasoma Swainson, Nat. Hist., Fish. II 1839, p. 250;
Acara (part.) Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 276;
Heros Guenther t. c. p. 285;
Theraps Guenther t. c. p. 284;
Mesonauta Guenther t. e. p. 300;
Cichlosoma Regan, Ann. & Mag. Nat. ser. |7, vol. XVI, 1905,
p. 61 ss;
Além dos caracteres indicados na chave dos generos
desta familia, não é possivel salientar, outros, que ainda
melhor caracterizem este genero Cichlasoma, que conta
ca. de 70 especies de vasta distribuição. Em grande
parte são habitantes da America Central, sendo admi-
ravel esta grande variedade de especies em area tão
restricta.
Com excepção de juma especie, todos os Cichlasoma
que ocorrem no Brazil pertencem ao subgenero Cichla-
soma s. str.; nas especies que a elle pertencem em geral
os dentes de ambos os maxillares na série exterior não
augmentam muito em tamanho para a frente. No outro
subgenero (Parapetenia Reg.) dá-se o contrario e espe-
clalmente no maxillar inferior os primeiros dentes repre-
sentam caninos, aos quaes em geral correspondem outros
no maxillar superior.
(*) Castelnau, 1. cit. indica XIII raios, como tambem se conta egual
numero na 1llustraçäo da Est. XII.
|
+
a (A
Cichlasoma
Os primeiros dentes da série
externa de ambos os maxilla-
res representam caninos; fo-
cinho muito protractil (subgen.
POLOPClenia) use eas C. spectabalis
Os primeiros dentes da série
externa do maxillar superior,
ainda que maiores que os pos-
teriores, não representam ca-
ninos (subgen. Cichlasoma)
Escamas da L. lat. maiores do
que as que lhes ficam logo
abaixos nos flancos 2 = C. psittacum
Escamas da L. lat. eguaes em
tamanho ás que lhes ficam
logo abaixo nos flancos
Escamas da região thoraxica
muito menores que as dos
flancos
D. XVI-XVIII/11-14; Anal
VI-VIII/9-11
2 1/2 escamas entre L. lat. e
a base do primeiro raio molle
daaDersale= ase E, C. temporale
4 escamas entre L. lat. e a
base do primeiro o molle
dai Dorsaliss sion. . C. coryphaenordes
D. XV-XVII/13- 14; A. VIL-
AVS EE JU ques PRESSE C. severum
Escamas da região A
de tamanho quasi egual ás dos
flancos
— 328 —
d O desenho não consiste em
faxas transversaes
125 DD XIVEXVI (020 Aa
VIS- Da . O bimaculatum -
ds Ds RAN XVI/10- 12; E
VITI-IX/10-12; 3 14- A ese
mas entre L. lat. e a base do
primeiro raio molle da Dorsal C. festivum
dd © desenho consiste principal-
mente em 6-9 faxas transver-
saes
3 D. XV-XVII/9-11; A. VI
VIII/7-9; 1 ou 14% escamas
entre L. lat. e a base do pri-
meiro raio molle da Dorsal
e Beico inferior dobrado, com
interrupção no meio. . . . C. facetum
ee Beïco inferior dobrado, sem -
interrupção . . is. . . Co facetum auto-
chthon
Cichlasoma spectabile Steind.
Petenia spectabilis Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXXTI, 1875,
pO, Mest Vs:
Cichlosoma spectabile Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7,
Vol VE LO pa ooo.
D: XV 12-13; AVI 9-10: face com lonas
séries de escamas; 30 escamas no flanco e 19-20-++11-15
na L. lat.; compr. do pedunculo caudal egual a 24 de
sua altura.
Uma grande mancha escura sobre o flanco e outra
menor sobre a base da Caudal. |
Compr.: 160 mm.
Habit.: Amazonas: Gurupá, Obidos.
— 329
Cichlasoma psittacum Heck.
Heros psittacum Heck. Ann. Wien Mus. II, 1840, p. 369;
Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 290.
Hoplarchus Ba e Kaup, Arch. Nat. 1860, p. 129, Bona
VE fig.
Cichlosoma psittacum Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist. ser. 7,
vol. XVI, 1905, p. 323;
D. XV, 12-13; A. V, 8-10; face com 8-10-(*)
series de escamas; 44-48 escamas no flanco, 20411 na
L. lat.; Pedunculo caudal mais alto que longo.
De cor amarellada, com uma faxa escura do olho
a base da Caudal, onde ella se alarga em mancha.
Compr.: 130 mm.
Habit,: Amazonas: Rio Negro, Guyana.
Cichlasoma temporale Guenth.
Heros temporalis Guenther, Cat. Fish., IV, 1862, p. 287;
Acara (Heros) crassa Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXXI,
1875, p. 88, Est. V;
Heros Goeldi Goeldi, Boll. Mus. Pará, II, 1895, Est.
Cichlosoma temporale Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7,
Vo RV oOo. pos
DEVER VEL 11-12: AO VARVAT 29: 4-5" series
de escamas na face; 30-32 escamas na L. lat.
Em cima de cor mais escura do que embaixo; do
olho & base da Caudal extende-se uma faxa escura,
que se alarga em manchas nas duas extremidades e no
meio do flanco; de embaixo do olho á narina corre um
traço obliquo.
Compr.: 160 mm.
Habit.: Teffé, Obidos, Villa Bella; Rio Cunani;
Guyana franceza.
(*) Parece ser este o numero exacto, como o indicam Heckel e Stein-
dachner, loc. s. cit., segundo o exame dos typos; os algarismos 10-14 de T.
Regan |. s. cit. parecem provir de engano.
— 330 —
Cichlasoma coryphænoides Heck.
Heros coryphænoides Heckel, Ann. Mus. Wieu, II, 1840, p.
373; Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 296;
Cichlosoma coryphænoides Regan, Ann. & Mag. Nat. a
sere: 7, Vol. X NE 1905, ps tas
D. XVI 12-13; A. VI 9-10; 5 séries de escamas
na face; 31-33 escamas na L. lat.
Pardo, com faxas transversaes fracas; uma mancha
preta no flanco; nadadeiras escuras.
Compr.: 126 mm.
Habit.: Amazonas; Rio Negro: Obidos, Lago Saraca.
Cichlasoma severum Heck.
Heros severus Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 362;
Heros spurius Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 293;
Heros efasciatus Guenther, t. c., p. 294;
Chromys appendiculata Castelnau, Anim. Am. Sud, Poiss., 1855,
p.15 Est VIE fig;
Chromys fasciata Castelnau, L e, p: 17, Est. IX, fig. 2;
Uaru centrarchoides Cope, Proc. Ac. Philad. 1872, p. 253, Est.
XI; fie 2;
Acara (Heros) spuria Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXX,
1874, p. 507, Est. IV e loc. cit. LX XI, 1875, p. 83;
Cichlosoma severum Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7, vol.
XVI, 1905, 322;
D. XVI-XVII 13-14; A. VII-VIII 12-14; faces
com 5-6 séries de escamas; 30 (seg. Heckel e Steind.)
ou 36-42 (Regan) escamas na L. lat. e 28-30 na linha.
logo abaixo della.
Pardacento, com faxas transversaes, indistinctas nos
individuos maiores; algum outro desenho ligeiro sobre
o corpo ou por vezes só com algumas linhas longitudi-
naes no dorso; nadadeiras com traços escuros ou linhas
pontuadas.
Compr.: até 200 mm.
E o FETE egos i Ei
— 331 —
Habit.: Ao que parece houve falsas indicações
de proveniencia, não só devido a enganos nos rotulos
das collecções, mas tambem, como o evidenciam certas
contradições nas descripções, parece que se confundiu,
sob o mesmo nome, especies diversas.
Amazonas, Rio Negro (typo); de todo o curso do
Amazonas no Brazil e de muitos afluentes; Pera, Guya-
na. Araguaya (Castelnau); Rio Parahyba ? (Steindachner
julga tratar-se antes de exemplares do Rio S. Francis-
co). Como se vê, a especie teria uma distribuição vas-
tissima, qual não conhecemos outra para especie desta
familia. Evidentemente ha varios enganos a corrigir.
Cichlasoma bimaculatum Linn.
Labrus bimaculatus Linné, Syst. Nat. ed. X, 1758, p. 285.
Labrus punctatus Bloch, Ausl. Fische, 1792, VI, p. 20, Est.
CCXCV.
Perca bimaculata Bloch, t. e. p. 82, Est. CCCV ;
Acara bimaculata Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 276;
Cichlosoma bimaculatum Regan, Ann & Mag. Nat. Hist., ser.
7 NOL = AVE 19055" -p. 68°
D. XIV-XVI 9-11; A. IV (V-VI) 8-9; face
com 3 series de escamas; L. lat. 24-27 escamas.
Pardo, com uma grande mancha sobre o flanco e
um ocello na base da Caudal; ca. de 8 faxas transversaes;
uma manchinha atraz do olho; deste 4 mancha do flanco
ha as vezes uma linha escura; as escamas ventraes tem a
base clara e as escamas posteriores uma mancha escura;
Dorsal atraz, bem como Anal e Caudal manchados.
Compr.: 50-180 mm.
Habit.: Amazonas de Pará a Tabatinga e affluen-
tes; Perá; Matto Grosso: Rio Guaporé, Bio Paraguay,
Cuyabá, Cuve Trinidad.
— 332 —
Cichlasoma festivum Heck.
Heros festivus Heckel, Ann. Mus. Wien, I, 1840, p. 376;
Chromys acora Castelnau, Anim. Am. Sud, Poiss. 1854, p. 17,
Est IX, fe cl
Mesonauta insignis Guenther, Cat. Fish., IV, 1862, p. 300;
Cichlosoma festivum Regan, Ann. & Mag Nat. Hist., ser. 7,
VOLE LOU ETS O0
D. XIV-XVI 10-12; A. VIIT-IX 10-12; face
com 3 series de escamas; L. lat. 27-29 escamas; dobra
do beiço inferior interrompida no meio.
Pardo, com uma faxa obliqua do focinho, por sobre
o olho, 4 ponta do primeiro raio molle da Dorsal; as
vezes algumas faxas transversaes; um ocello na base da
Caudal; esta e a Dorsal são maculadas.
Compr.: 50-110 mm.
Habit.: Amazonas do Pará a Tabatinga e afiluentes;
Perá; Tocantins; Rio Guaporé; Matto Grosso: Caran-
dasinho, Descalvados.
Cichlasoma facetum Jen.
Chromis facetus Jenyns, Voy. « Beagle», Fishes, 1842, p. 104;
Heros facetus Guenther, Cat. Fish, IV, 1862, p. 290; Stein-
dachner; Sitzb. Ak. Wien, LX, 1869, p. 290, Est. I;
—_— ee ae ae a ee ee MS
tt ÉD a med à ciel Las É
333 —
Heros Jenynsii Steindachner, t. c. p. 282, Est. II;
Cichlosoma facetum Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7,
XVI, 1905, p. 70:
D. XV-XVII 9-11; A. VI-VIII 7-9; face com 4-5
series de escamas; L. lat. 26-28 escamas; comprimento
do -pedunculo caudal egual á metade da altura.
Pardacento, com 6 ou 7 faxas transversaes; uma
mancha escura na base da caudal; nadadeiras escuras.
Compr.: 50-160 mm.
Habit.: Rio Grande do Sul, La Plata, Rio Paraná,
S. Paulo, Espirito Santo.
Mus. Paul.: Est. S. Paulo, Cubatão, Iguape, rio
Juquiá, Franca; Est. Rio de Janeiro, Campo Bello, Est,
Esp. Santo, Rio Doce.
Cichlasoma facetum autochthon Guenth.
Heros authochthon Guenther, Cat. Fish., IV, 1862, p. 299;
Acara (Heros) autochthon Steindachner, Sitzb. Ak. Wien, LXX,
1874, p. 502, Est. I;
Cichlosoma autockthon Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist, ser. 7,
vol XVI; 1905, p. (1;
Tem todos os caracteres indicados para C. facetum,
differindo unicamente por não ter a dobra do beiço in-
ferior interrompida, como acontece nos exemplares daquella
forma typica, da qual consideramos esta como méra
subspecie septentrional.
Comp.: 80-130 mm.
Habit.: Est. Rio de Janeiro: Porto Real, There-
sopolis, Petropolis, Rio Parahyba.
Como especie distincta tem sido descriptos os exem-
plares typicos de Castelnau do Rio Tocantins, (. oblongum
(Casteln. Anim. Am. Sud, Poiss. p. 14, 1855). A des-
cripção original, que quasi corresponde á de C. auto-
chthon, é deficientissima, e como os typos estão em
pessimas condições, é impossivel sustentar esse nome
especifico sem examinar exemplares topotypicos.
— 334 —
O especimen da Republica Argentina descripto por
T. Regan (1. cit. p. 72) não parece condizer muito bem
com o C. oblongum original.
Gen. UARU Heck.
Uaru Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 330; Guenther,
Cat. Fish. IV, 1862, p. 302; Regan, Ann. & Mag. Nat.
Hist. ser. 7, vol. XIV, 1905, p. 439:
Os dous caracteres indicados na chave são os que
distiguem este genero monotypico do jque lhe é bem al-
liado, Eta (C. psittacum).
Uaru amphiacanthoides Heck.
Uara amphiacanthoides Heckel, Ann. Mus. Wien. II, 1840,
p. 331; Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 302; Regan,
Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7, vol. XVI, 1905, p. 439;
Uaru obscurum Guenther, 1. s. c.;
D. XV-XVI 14-16; A. VIII-IX 13-15; face com
9-12 series de escamas; L. lat. 20-10 escamas, abaixo
della 48, acima 57 escamas em uma serie; dobra do
beiço inferior interrompida; comprimento do pedunculo
caudal egual a 44 ou !% da altura.
Bruno, com uma mancha atraz do olno e outra na
base da caudal; uma faxa arqueada vae da base da
Pectoral á base da Caudal.
Compr.: 150-215 mm.
Habit.: Amazonas, Rio Negro e varios afluentes.
Gen. PTEROPHYLLUM Heck.
Pterophyllum Heckel, - Ann. Mus. Wien, IL, 1840, p. 334;
Guenther, Cat Fish. IV, 1862, p. 316; Regan, Ann. &
Mag. Nat. Hist. ser. 7, vol. XVI, 1905, p. 441;
Plataxoides tala Anim. Am. Sud, Poiss., 1855, p. 21, Est.
XE figa:
Genero alliado a Symphysodon, com o qual com-
partilha a forma oval do corpo; tem, porém, dentição
mais completa.
Pterophyllum scalare Cuv. & Val.
Platax sealaris Cuvier & Valenciennes, Hist. Nat. Poiss. VII,
1881 p23 Cs
Pterophyllum scalare Guenther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 316;
Regan, Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7, vol. XVI, 1905,
p. 441;
Plataxoides Dumerili Castelnau, Anim. Am. Sud, Poiss. 1855,
p. 21, Est. XI, fig. 3;
D. XI-XIII 23-27; A. V-VIII 25-29; face com
4-5 séries de escamas; É lat. 27-30 escamas, 40-47 em
uma linha longitudinal; 35-38 escamas na linha abaixo
da L. lat. Nadadeiras Dorsal, Anal e Caudal com pro-
longamentos filamentosos.
Prateado, com 4 faxas transversaes distinctas e por
vezes ainda com outras mais fracas entre ellas. Tambem
as nadadeiras verticaes tem as vezes desenho transversal.
Compr.: 50-102 mm.
= Habit.: Amazonas, da foz a Tabatinga e affluentes.
Outra especie, P. altum Pellegr. (Mem. Soc. Zool.
Fr. 1903 XVL p. 252, Est. IV, fig. 4) é da Venezuela,
Orenoco, e distingue-se pelo maior numero de escamas
na face e na L. lat. e por ter mais raios na Dorsal e Anal.
Gen. SYMPHYSODON Heck.
Symphysodon Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p. 332: Guen-
ther, Cat. Fish. IV, 1862, p. 316: Regan, Ann. & Mag.
Nat. Hist. ser. 7, vol. XV, 1905, p. 440;
(Genero monotypico intimamente alliado a Cichla-
soma (C. severum) do qual porém differe por caracte-
res importantes, já indicados na chave. As cerdas do 1.º
arco branchial estão atrophiadas, reduzidas a pequenas :
verrugas.
Symphysodon discus Heck.
Symphysodon discus Heckel, Ann. Mus. Wien, II, 1840, p.
333 ; Guenther, Cat. Fish., IV, 1862, p. 316; Regan,
Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 7, vol. XVI, 1905, p. 440;
D. VIII-IX 26-31; A. VILIX 27-30.
Corpo de forma quasi circular, comprimido; face
com 7-8 séries de escamas; L. lat. 65-70 escamas e
50-55 em uma série abaixo della.
Cobrem o corpo linhas longitudinaes ondeadas e
9 faxas transversaes, das quaes a primeira passa sobre
o olho; a mediana e a ultima são as mais escuras.
Nadadeiras verticaes com manchas alternadamente escu-
ras e claras.
Compr.: 100-170 mm.
Habit.: Amazonas: Rios Negro, Madeira, Xing,
Teffé, Cupai.
Explicação das figuras do texto
Fic. 1 (p. 262) Topographia externa de um peixe.
» 2 (p. 264) Principaes ossos da cabeça do peixe.
3 (p. 289) Arco branchial de “Chaetobranchus.
4 (p. 289) Arco branchial de Geophagus.
5 (p. 302) Crenicichla lacustris Casteln. “Joanninha”.
6 (p. 318) Geophagus brasiliensis Quoy & Gaim. “Acará”.
7 (p. 332) Cichlasoma facetum Jen.
Estampa VIII.
Fra. 1º Sternarchorhamphus tamandua Boul.
» 2 Sternarchus brasiliensis Reinh.
> 3 Kigenmannia virescens (Val).
» 4 Giton fasciatus (Pall.).
a
\
are DO dio Ed tie tit Sd À id ca de à
historia da Fauna marina do Brazil
are Dore.
Regiões visinhas da America Meridional
pelo Dr. HERMANN von IHERING
Traducçäo do Cap. XIl da monographia «Les Mollusques fossiles du Tertiaire et
du Crétacé superieur de Argentine» do Dr. H. von Ihering, Anales del
Museo Nacional de Buenos Aires, Série Ill, Como VII, 1907, 611 pgs., 18 est.
RELAÇÕES ZOOGEOGRAPHICAS E GEOLOGICAS
A. — Historia da fauna marina da Argentina e do Brazil
À zoogeographia estabelece as differenças que as
diversas regiões do globo apresentam com relação ao reino
animal. Antigamente suppunha-se que essas differenças
dependessem directamente das condições geographicas e |
physicas e foi o grande merecimento de Wallace ter
introduzido nessas discussões a ideia da connexão genetica
das diversas faunas.
Com um certo numero de premissas falsas, porem,
como a da invariabilidade das grandes profundidades dos
mares, elle se creou ohstaculos insuperaveis, que lhe im-
pediram de comprehender as antigas relações dos diversos
“continentes, assim como de sua fauna e flora. Sabemos
agora que a America não fórma um só continente senão
desde a formação pliocena para cá, e que a America me-
ridional estava antes disso em connexão, para o Oeste
com a Africa, e ao Sul com um continente antarctico.
Eu derá a este ultimo o nome de Archinotis e propuz
o nome de Archheienis para o continente que unia o
Brazil com a Africa occidental.
— 338 —-
Não é aqui o lugar em que devamos discutir esta
theoria, que foi, alias, bem acceita por numerosos col-
legas de alta competencia; devemos, comtudo, pôr em
evidencia que a hypothese relativa a esses continentes
modificou essencialmente a marcha de nossas pesquizas.
Si a America meridional esteve por muito tempo sepa-
rada da America do Norte e si aquella representa o
producto de uma connexão de diversas partes do conti-
pente, a fauna actual não é senão uma associação de.
elementos heterogeneos. E pois o fim do methodo ana-
lytico, por mim introduzido nas investigações zoogeographi-
cas, distinguirmos estes diversos elementos faunisticos e
constatarmos para cada um delles sua historia e suas
migrações successivas. Foi o que tentei realizar com re-
lação á fauna da agua doce da America meridional e, si
durante os ultimos doze annos me dediquei de preferencia
a investigações sobre a fauna malacologica do terciario
da Patagonia, era ainda o mesmo fim que me guiava.
Os depositos marinos que contêm Molluscos tercia-
reos, sobretudo os que se formaram em aguas pouco
profundas, permittem-nos comparar a fauna actual com
aquellas que se succederam nos mesmos lugares durante
a época terciaria. Si possuissemos colleeções completas
de molluscos de todas as diversas formações terciarias,
bem como dos outros continentes visinhos, ser-nos-hia
possivel reconstruir com certeza absoluta as antigas costas
dos mares e os antigos continentes.
Mas os materiaes que temos a nossa disposição estão
bem longe de ser completos. Eu os jnlgo entretanto bastante
sufficientes para já se deduzir delles conclusões no sen-
tido já indicado. E preciso reconhecer que a ausencia de
depositos terciarios em uma certa região pode ser causada
por uma conservação imperfeita ou por uma destruição
posterior das camadas fossiliferas, mas que ella pode
ser tambem primitiva, attendendo-se que o mar jamais
cobriu estas regiões durante a época terciaria. Este ultimo
339 —
caso é o que observamos nas costas do Brazil. Encon-
tram-se quasi em toda parte na America, e sobretudo nas
zonas littoraes, depositos marinos terciarios em abundan-
cia. É o que se nota na America do Norte, tanto nas
costas do Pacifico como nas do Atlantico, na America
Central, nas Antilhas, no Perá, no Chile, na provincia
magellanica, na Patagonia e ao Nordeste da Argentina,
mas de modo algum no Brazil. Desde a emboccadura do
Rio da Prata até a do Amazonas, não se conhece ne-:
nhum deposito terciario que contenha molluscos marinos.
Ao Sul do Estado de São Paulo até a Argentina, en-
contra-se, na zona littoral, depositos modernos de conchas,
que demonstram uma transgressão post-terciaria do mar.
Ao longo da costa, ao Norte do Brazil, ha depositos de
origem marina, que são de uma edade cretacea superior.
Nesta região o mar occupava uma parte do littoral du-
rante o cretaceo superior e esta circumstancia torna tambem
provavel que, ao começo da época terciaria, a costa não
se achava muito afastada da sua posição actual. Estes
factos não se explicam de uma maneira satisfactoria senão
pela theoria da Archhelenis. O continente, que unia o
Brazil 4 Africa, começou a desapparecer durante a for-
mação cretacea, e 4 medida que a desmenbração da Archhe-
lenis avançava, o Oceano aprofundava-se. Este aluimento
creava a zona central do Atlantico e estendia tambem
sua influencia sobre a zona littoral do Brazil. Estas mo-
dificações produziram os terraços que existem no Brazil,
da costa para o interior, e que, vistos do lado do mar,
produzem a impressão de cadeias de montanhas. O mesmo
facto creou as cataractas do Rio Paraná, do Rio São
Francisco -e dos affluentes meridionaes do Amazonas, e
eu não duvido que todo o valle do Amazonas seja tambem
formado da mesma maneira. |
Si os factos aqui indicados são exactos, o Oceano
Atlantico não existia ainda na época do cretaceo e do
eoceno.
D9
aa
— 340 —
A communicação interoceanica da America Central
permittia aos organismos marinos do Atlantico septen-
trional e do Mediterraneo distribuirem-se ao longo das costas
pacificas até o Chile, distribuindo-se ainda ao longo da
margem septentrional da Archhelenis e, pelo mar indo-aus-
traliano, até ás Indias e a Australia.
E neste immenso oceano tropical que os Nummu-
lites se procrearam em massas enormes durante o eoceno,
razão pela qual eu denominei este Oceano o Mar Num-
mulitico, applicando ao Oceano Antarctico da mesma
época o nome de Struthrolaria. Suess substituiu o pri-
meiro nome para o de Thetis, denominação que eu acceito,
applicando o nome de Nereis para o mar eogeno austral.
Na época do cretaceo superior e do eoceno, não
havia ainda senão dous grandes mares, que estavam em
communicação sómente na região de uma parte do actual
Oceano Pacifico. O contraste entre as faunas marinas
eogenas da America do Norte e a da Patagonia deve
por consequencia ter sido grande e é o que na realidade
se observa. Ha especies communs ás duas regiões, e 0 ca-
racter geral da fauna eocena é bem differente tambem.
Em geral, o mesmo caso se repete para as outras
regiões do mundo, mas as poucas relações que a fauna
da formação patagonica possam ter com as outras faunas
eocenas lhe dão uma ligação mais intima com as da
Europa e da Australia que com as da America do Norte.
Isto torna-se sobretudo evidente quando se compara
familias como as Arcidae, os Parallelodontidae e os
Trochidae.
As especies de Cucullaca e de Glycimeris da Pa-
tagonia são muito analogas com as da bacia de Paris, e
o genero Cucullaria é proprio ás duas regiões em questão,
faltando completamente á America do Norte, onde as con-
chas, que se chamou Cucullaria, não são em reali-
dade senão especies do genero Barbatia. O genero Gibbula
está representado no eoceno da Europa por fórmas muito
— 941 —
semelhantes ás da formação patagonica, emquanto que ellas
faltam quasi absolutamente no terciario eogeno da Ame-
rica do Norte. Os Lotorvidae são egualmente instructivos
sob este ponto de vista. Comprehender-se-ha melhor estas
relações si se considerar que as formas tropicaes chegaram
á Patagonia por migrações ao longo das costas orientaes da
Archhelenis e que a costa septentrional do mesmo con-
tinente eoceno se achava povoada por uma fauna tropi-
cal bem semelhante e ligada geneticamente á da Europa.
O mar, que, na época eocena, se estendia entre a
Archhelenis e a Europa, permittiu a diffusäo de uma
fauna mais ou menos uniforme, pela America central, a
Florida, a California, e mesmo o Chile, como pela Europa,
as Indias e a Australia. Os elementos desta fauna, que
avançaram para o occidente, extenderam-se até o Chile,
e as do Este se distribuiram para além da Australia até
a Nova Zelandia, onde nós os encontramos na formação de
Oamarû, ao lado da fauna antarctica antiga. Nenhuma
parte do globo teve isolamento em um tão alto grau como a
Patagonia e como ella nenhuma foi tão pouco accessivel
aos immigrantes da fauna tropical.
E” por esta razão que esta fauna eogena é tão dif-
ferente da das outras partes do globo. Esta differença era
então muito mais pronunciada do que hoje, e, pode-se
mesmo affirmar que, desde que os organismos terrestres
existem, jamais houve regiões zoogeographicas tão bem
delimitadas como no começo da época terciaria. E” facil
de comprehender que estas differenças faunisticas têm por
causa uma distribuição de us e mares toda differente
da dos nossos dias.
Actualmente muitas especies de molluscos de origem
septentrional se encontram ao longo das costas da Ar-
gentina até o rio Negro. Esta immigração de typos se-
ptentrionaes ao longo das costas da Argentina continuou
ainda na época post-terciaria, como ficou provado pelas
excavações feitas em Bahia Blanca, si bem que a tem-
— 342 —
peratura do mar fosse então muito mais fria que no co-
meço do terciario.
Os grandes representantes dos generos sub-tropicaes,
taes como Cucullaea, Arca, Glycimeris, Cardium, etc.
e sobretudo os generos proprios aos mares tropicaes, co-
mo Perna, provam que o mar, que banhava as costas
da Patagonia entre 40º e 50º de latitude sul, tinha uma
temperatura muito mais elevada, durante a época eogena,
do que hoje. |
As condições physicas eram, por consequencia, dif-
ferentes das actuaes no hemispherio meridional, o que
tambem se dava no hemispherio septentrional para as
regiões situadas sob latitudes correspondentes. Si a fauna
eocena de Paris e de Londres é na generalidade, bem
differente da da Patagonia, a causa não é a diferença
da temperatura do mar, mas sim as condições geographi-
cas completamente differentes. Evidentemente, a Archhe-
lenis se estendia muito para o Sul, de sorte que o
continente ultrapassava, nesta direcção, o limite zoogeo-
graphico das fórmas tropicaes. Na época superpatagonica,
a fauna marina softreu uma mudança notavel, e ahi se deu
um grande augmento de generos tropicaes. Neste caso
tambem não são especies da America central que fazem
a sua apparição, de sorte que esta alteração deve ter obe-
decido a uma modificação geographica. E a época de
desmembramento da Archhelenis que, consideravelmente
diminuída na sua extenção para o Sul, deixa uma pas-
sagem mais livre aos immigrantes tropicaes. Não é
sinão muito mais tarde, isto é após a destruição da Arch-
helenis e a formação do Oceano Atlantico, que co-
meça a invasão dos Molluscos da America central, os
quaes fazem a sua primeira apparição sobre as costas
da Argentina durante a formação entreriana.
Os representantes dos generos do Oceano Atlantico
tropical, taes como Strombus, Olivancillaria, Columbel-
la, Anomalocardia, Tivela, ete, no meio dos membros
— 343 —
da fauna antiga da Argentina, são de um aspecto tão
extranho como os Ungulados pliocenos, de origem septen-
trional, no meio da fauna indigena de mammiferos da
Patagonia. Nesta época, o numero de especies mais ou
menos cosmopolitas era muito menor que nos nossos dias
e as especies de vasta distribuição eram sómente as que
se espalhavam ao longo das: costas da Archhelenis e da
Thetis.
Um resto desta vasta distribuição geographica da
antiga fauna marina, tão differente da actual, são as
numerosas especies de Lotorium, Natica, Anomalocar-
dia, etc, que são communs ás Indias orientaes e occi-
dentaes.
Uma destas especies attingiu tambem a Patagonia.
E a Arca umbonata Lam. que se encontra na forma-
ção patagonica. E” por cansa de sua vasta distribuição
geographica, que comprehende as costas atlanticas da
America e da Europa, assim como as da Africa, das
Indias e da Australia, que esta especie recebeu um gran-
de numero de nomes. Sua primeira apparição teve logar
na formação patagonica; na Florida ella se encontra após
o oligoceno e na Europa a partir do mioceno.
Todas estas alterações da geographia e da fauna
marina tornam bem dificil descobrir a origem de cada
especie, mesmo deixando de lado o estado imperfeito dos
materiaes até aqui conhecidos. Pode acontecer que duas
especies, que tenham a mesma distribuição, sejam do ori-
gem geographica bem differente.
E” assim que nas duas costas da America meri-
dional ha além de certos generos mesmo especies identicas,
sem que esta concordancia na sua distribuição permitta
admittir-se uma origem geographica commum.
As migrações que podem ter contribuido para esta
distribuição são pelo menos as seguintes:
1.º Derivação da fauna marina do terciario antigo
da região chileno-patagonica. Como exemplo deste grupo
344
podemos citar Chione antiqua e e Brachydontes magel-
lanica.
2º Origem da costa pacifica e migração eogena ao
longo das costas septentrionaes da America meridional
até a Argentina. E” o caso dos generos Amiantis, bem
representado no terciario do Chile, que falta ao terciario
antigo da Patagonia e que apparece pela primeira vez
sobre as costas da Argentina na formação entreriana do
Paraná;
3. Origem patagonica e migração ao longo das cos-
tas atlanticas da America meridional até a costa paci-
fica do mesmo continente, por via de communicação
interoceanica. Até aqui não conheço exemplo de uma tal
distribuição ;
4.º Migração terciaria de formas tropicaes por via
de communicação interoceanica até o Chile e ao longo das
costas atlanticas até a Argentina. Os generos Trivela, Ano-
malocardia, etc. estão no caso e ha mesmo especies do
terciario do Et e do Perú, como Ostrea alvarezi Orb.,
e Chione muensteri Orb., que faltam na formação pa-
tagonica, mas que se encontram em companhia de ou-
tros immigrantes tropicaes na formação entreriana do
Paraná;
5.º Migração para o Norte, de especies antarcticas,
ao longo das duas costas da America meridional, pelas
quaes estes generos chegaram ao Chile e ao Perá de
um lado, e até o Rio da Prata de outro. E” o caso da
distribuição do genero Mesodesma e de certas especies
como Brachydontes purpurata, Huthria fuscata e Si-
phonaria lessoni.
Em todas estas migrações ha ainda a observar um
grande numero de variações, segundo a época e as con-
dições geographicas, de maneira que é difficil obter-se
conhecimentos exactos de todas estas modificações mo-
dernas e antigas da fauna marina. Estas condições são
objecto da discussão seguinte, mas o que desde já se
re a CAES D Pe
— 345 —
torna evidente, é que o conhecimento da distribuição actual
dos Molluscos não é absolutamente sufficiente, por si só,
para esclarecer a historia das diversas regiões faunisticas.
Não é senão com o auxilio das formas fosseis, quer
da região examinada particularmente, quer das regiões
ou continentes visinhos, que se póde reconstruir a genese
das diversas provincias faunisticas.
Os ricos materiaes estudados na minha monographia
« Mollusques fossiles » não sómente nos permittem, sob
este ponto de vista, tirar conclusões exactas, a respeito
dos Melluscos marinos e dos Brachyopodes, mas permit-
tem-nos tambem deduzir as leis geraes sobre a distribuição
dos animaes marinos da America meridional.
PB. — Historia da fauna marina da Argentina e da Patagonia.
Na época do cretaceo superior, o mar occupava uma
grande parte da Patagonia e, quasi com a mesma fauna
tem sido encontrados depositos no Chile (Quirquina) e
na região antarctica, sobretudo nas ilhas de Seymour.
Os depositos correspondentes da Patagonia meridional,
que constituem o rocaneano e salamanqueano, contêm uma
fauna indubitavelmente cretacea, cuja edade foi determinada
por Wilckens como senoneana superior. Os depositos
da Patagonia septentrional, que formam o rocaneano e o
salamanqueano, contem em grande parte especies de Mol-
luscos que tanto poderiam pertencer ao cretaceo superior
como ao terciario inferior. Não são sinão as numerosas
Gryphaea e Exogyra que têm um caracter mesozooico
pronunciado. Por esta razão discutiu-se a questão de que
ou estes depositos encerram uma fauna cretacea superior,
pobre em typos mesozooicos, ou uma fauna terciaria, na
qual se teriam conservado ostras da formação cretacea. Des-
cobertas de novas especies de Trigonia, Ammonites, etc.
decidiram a questão em favor do cretaceo superior, mo-
do de ver tambem confirmado pela presença de peixes
cretaceos e ossadas de Dinosaurios.
— 346 —
Os depositos que estão superpostos immediatamente
aos do cretaceo superior são os da formação patagonica,
que se estendem sobre uma grande parte da Patagonia,
sobretudo nas regiões littoraes. Pelas minhas investi-
gacdes, esses depositos pertencem ao eoceno e apresentam
na sua fauna relações bem intimas com os do cretaceo
superior. Alguns generos mesozoicos, taes como Gry-
phaea e Neoinoceramus, estão ainda conservados nos
depositos inferiores, e ha mesmo um certo namero de
especies que são communs ás camadas marinas da for-
mação patagonica e ás do cretaceo superior, ao lado de
outras especies, que não representam senão modificação das
do cretaceo superior.
Entre as especies que são communs ás camadas
supracretaceas de Roca e Salamanca e ao Patagonico, po-
demos mencionar Zurritella chilensis, Malletia ornata,
Gryphaea burchhardti, Myochlamys patagonensis e uma
especie de Brachyopoda, Bouchardia patagonica. Duas
destas especies não são completamente identicas, mas
ellas são representadas nas duas formações por variedades
assás semelhantes. Ha outras especies que se corres-
pondem nas duas formações e que têm uma relação
genetica evidente.
E assim que a Ostrea rionegrensis, do rocaneano,
é o precursor de O. hatchert e que Venericardia pa-
lacopatagonica é o precursor de V. inaequalis. O genero
Strutiolaria, tão característico para as camadas eogenas
da Patagonia, é representado por uma especie, somente,
no cretaceo superior da mesma região, e o caso é inverso
para o genero Aporrhais.
O singular genero Lahillia, cuja distribuição é res-
tricta ao Chile e á Patagonia, se encontra tambem no
cretaceo superior e no patagonico. Vê-se que as rela-
ções faunisticas entre o cretaceo superior e o patagonico
são as mais intimas possiveis, e para fixar a edade
eocena da formação patagonica, este facto me parece
da D ii à
DM lite varie de Lane rasé Dinde “ur tale co
PTT ee) a. ee
à
DS Epa
hei aE
— 347 —
bem mais importante do que o numero restricto de
especies vivas que ahi se encontram. Esta conclusão está
perfeitamente de accôrdo com o resultado dos estudos
geologicos de Hauthal, Fl. Ameghino e outros auctores,
segundo os quaes se observa em muitas localidades do
Chile e da Patagonia a concordancia e a transição
gradual das camadas do cretaceo superior e do patagonico.
A fauna crétacea superior da Patagonia está inti-
mamente ligada com a do Chile e da região antarctica,
sobretudo das ilhas de Seymur, mas ella não offerece
relações pronunciadas com o cretaceo das Indias, como
suppoz C. Burckhardt, nem com o cretaceo superior do
Brazil, como eu pensava anteriormente. O genero Pseu-
dotylostoma, da Patagonia, differe dos verdadeiros 7y-
lostoma do Brazil, como mais acima demonstrei. Para
o cretaceo superior, temos pois a constatar o mesmo
contraste entre a fauna da Patagonia e do Brazil septen-
trional, contraste que nós encontramos de novo no eoceno,
comparando-se a fauna da Patagonia com a da America
septentrional e central. Estes factos nós provam que.
os mares tropicaes e austraes da America estavam
separados por uma barreira continental, tanto durante o
cretaceo superior como durante o eoceno, isto é que a
Archhelenis existia não sómente durante a época eocena
mas tambem na época do cretaceo.
E” interessante que a origem de algumas especies
de Molluscos do hemispherio meridional remonta ainda
para além da formação - patagonica até o cretaceo superior.
Não conhecemos especies recentes que se achem ao
mesmo tempo no cietaceo superior da Patagonia, mas
ha algumas que lhes são intimamente alliadas.
E” assim que a Turritella chilensis, do cretaceo
superior da Patagonia e do terciario do Chile é o pre-
cursor de T. cingulata, das costas do Chile, e que a
Malletia ornata, do cretaceo e do terciario da Patagonia,
é tão visinha de uma especie vivente da região aus-
— 348 —
traliana, M. australis, que pode ser que esta ultima não
seja senão uma subspecie da fórma fossil. As condi-
ções geraes da fauna marina antiga da Patagonia con-
servaram-se até nossos dias menos alteradas do que se
o observa em outras regiões do globo, e isto explica o
numero relativamente grande de especies viventes que
nós agora encontramos na formação patagonica.
Para as diversas formações terciarias da Patagonia,
a proporção de especies recentes é a seguinte:
FORMACAO
EDADE GEOLOGICA
Proporção de especies
| viventes
|
Patagonica Eoceno | PTE
Superpatagonica Eoceno superior | 9 %
Magellanica Oligoceno | 4,4 %
Entreriana Mioceno | 21 %
Araucaniana Plioceno inferior | 38 %
Pampeana
Postpampeana
Plioceno superior
Quaternario
~
73 %—92 %
95 %—100 %
Os poucos generos caracteristicos da formação pata-
gonica, como Struthiolaria, e seu correspondente cretaceo
Struthiolariopsis e Lahillia, genero aberrante da familia
dos Cardudaz, molluscos de dimensões gigantescas, estão
já representados no cretaceo superior do Chile e da Pa-
tagonia. E” preciso reconhecer que existem ainda differen-
ças entre estas faunas, as quaes fazem suppor um hiato,
pouco consideravel de resto; mas em todo caso trata-se
de uma continuação local da mesma fauna antiga e nós
não podemos por em duvida que investigações ulteriores
preencherão estes hiatos. A affirmação de Wilckens, que
as faunas marinas do cretaceo e do terciario estejam se-
paradas por um abysmo insuperavel, não é justificada
para no que diz respeito á Patagonia, onde o desenvolvi-
mento da fauna marina foi continuada de uma maneira
ininterrupta. E’ evidente tambem que na Nova Zelandia
— 349 —
as condições geologicas são quasi as mesmas, pois Hutton
indica ter recebido especies identicas de Moluscos e Se-
lachios do cretaceo superior e da formação eocena de
Oamarû. Hutton mudou mais tarde de opinião, seduzido
pela presença de Carcharodon megalodon na formação
de Oamará, mas isto foi engano, como demostrei (vide
Les Mollusques Fossiles du Tertiaire et du Cretacé su-
périeur de l’Argentine, pag. 87). Entretanto Wilckens
suppõe serem miocenas as formações patagonica e a de
Oamarû, opinião que não faz desapparecer os Zeuglodonti-
dae que, como sabemos, são exclusivamente restrictos ao
eoceno. O procedimento de Wilckens não é correcto neste
ponto. Elle compara as camadas, que contêm as grandes
ostras da formação patagonica e o modo como ellas estão
depositadas, com a molassa da Europa central; e, seduzido
por esta pretendida semelhança, chega á conclusão de que
as duas faunas sejam contemporaneas. A verdade é que
na Patagonia as condições são totalmente differentes da
das camadas mencionadas da Europa. Estas grandes ostras,
que Ortmann reuniu quasi todas em uma só especie,
Ostrea ingens, começam na Patagonia já no cretaceo su-
perior com Ostrea rionegrensis, continuando-se por todos
os depositos terciarios até o plioceno e elles não faltam
na formação pampeana. Estes factos evocam de novo a
differença que existe, segundo Huxley, entre a Homotaxia
e a Homochronia.
No começo da formação patagonica, havia uma con-
nexão entre os mares da Patagonia e do Chile, o que ex-
plica a presença de um numero restricto (20 sp. ou 8 °/,
de especies patagonicas) de especies identicas nos dous
paizes e outras que as substituem. O caracter geral da
fauna é o mesmo, e algumas especies de larga distribuição
se encontram tambem no terciario da Nova Zelandia.
O caracter da fauna marina do patagonico é bas-
tante singular, porque os generos predominantes são quasi
todos de distribuição vasta ou cosmopolita.
— 350 —
Um genero especialmente caracteristico do terciario
chileno-patagonico é Lahillia, ao passo que Strutholaria
e Cominella estão espalhados por toda parte nas regiões
antarcticas. O que contribäe em alto grau para fixar o
caracter particular desta fauna do patagonico é a ausencia
de um grande numero de generos, que fóra dahi são de
vasta destribuição, já nas zonas tropicaes já nas zonas
septentrionaes. Na formação patagonica, faltam represen-
tantes dos generos Conus e Cerithiwm, assim como das
familias seguintes: Olividae, Harpidae, Turbinellidae,
Columbellidae, Cassidae, Cypraeidae, Strombidae, Lit-
torinidae, Rissoidae, Solariidae, Neritidae, Turbinidae,
Haliotidae, Patellidae, Siphonariidae, Spondylidae,
Trigoniidae, Astartidae, Tritacnidae, Cyprinidae, Ery-
cinidae, Donacidae, Mesodesmatidae, Anatinidae.
Como se vê, trata-se não sómente de generos de
zonas tropicaes, nas tambem de generos de latitudes tem-
peradas. A presença de grandes especies de Cucullaea,
Glycimeris, Arca, Cardiwm, Perna, prova que na Pa-
tagonia a temperatura do mar era anteriormente quente
e por consequencia não era o clima, mas sim as condi-
ções geographicas, que impediram a immigração na Pa-
tagonia de numerosos generos do hemispherio septentrional.
Que uma tal barreira tenha realmente existido, está
provado, sobretudo porque não existem relações faunisticas
approximadas entre o terciario da Patagonia e o da Ame-
rica do Norte, mas antes com o terciario da Europa ou
mesmo com o das regiões indo-australianas.
Já vimos (pag. 71. loc. cit.) que entre as faunas
eogenas da Patagonia e da America do Norte não ha
as relações directas que existem com o terciario antigo
da Europa e o da Australia. Não conhecemos especies
de Cucullaria sinão do eoceno da Patagonia e da Eu-
ropa, sobretudo de Paris.
Os sub-generos Sassia e Lampusia, do genero Lo-
torium, faltam no terciario antigo da America do Norte
— 351 —
e Lampusia ahi não apparece sinão no plioceno. Estes
dous sub-generos se encontram entretanto, não sómente no
eoceno da Patagonia, mas tambem no de Paris e da Aus-
tralia. O mesmo se observa para os generos Cominella,
Siphonalia e Trophon, que faltam completamente no
terciario antigo da America do Norte, onde só apparecem
no plioceno.
A fauna eocena do grande mar tropical Thetis não
era perfeitamente uniforme e havia nelle provincias z00-
geographicas. Alguns generos que na sua distribuição eram
restrictos 4 America do Norte e Europa, como Venus,
Grateloupia, etc, não se encontram na Patagonia; nós
ahi encontramos entretanto numerosos generos, que tinham
uma vasta distribuição geographica desde a Australia até
a Europa.
Alguns destes generos, como Cominella, estão actu-
almente restrictos ao hemispherio meridional, ao passo
que outros, como Trophon, desappareceram quasi com-
pletamente dos mares tropicaes e se adaptaram aos mares
frios dos dous hemispherios. Siphonalia, si bem que es-
sencialmente do hemispherio meridional, tem tambem re-
presentantes viventes nas costas do Japão.
Todos estes generos de eoceno da Patagonia e da
Australia se encontram tambem na Europa, mas não no
eoceno da America do Norte. Estes factos provam que
as relações da fauna da formação patagonica com o mar
tropical se effectuaram para a metade oriental da Thetis,
e não para a America do Norte. Desta maneira, as fór-
mas tropicaes podiam-se espalhar de um lado para a
Australia e a Patagonia, e de outro para a Europa ea
America central e septentrional. Naturalmente estas mi-
grações a grandes distancias gastaram muito tempo, não
se estenderam sempre sobre toda a immensa região oc-
cupada pela Thetis e não attingiam as diversas regiões
ao mesmo tempo. Assim é por exemplo, que especies de
Fossarus se encontram já no eoceno superior ou no oli-
— 352 —
goceno da Australia e da Patagonia, emquanto que não
apparecem senão no mioceno na Europa e na America
do Norte. |
Quando estes generos se apresentam ao mesmo tempo
na Australia, na Patagonia e na Europa, não podemos
decidir si são originarios do hemispherio septentrional ou
meridional. Em geral estas migrações dirigiam-se do mar
tropical para a Patagonia, e não em um sentido inverso,
pois que é mais facil ás fórmas tropicaes se adaptarem
aos mares temperados e frios, do que os habitantes destas
ultimas regiões emigrarem para a zona tropical. É pre-
ciso, entretanto, lembrar que a temperatura do mar eogeno
da Patagonia era assás elevada. As migrações de especies
da formação patagonica para o hemispherio septentrional
estão provadas pela historia do genero Malletia, do qual
uma especie se encontra no mioceno da Italia, uma outra
no mioceno da Nova Zelandia, emquanto que a presença
de Malletia ornata nos depositos cretaceos e eocenos da
Patagonia prova que o genero é originario desta região.
Todos estes factos não se explicam de um modo
satisfactorio senão pela theoria da Archhelenis. Se não
tivesse havido um Oceano Atlantico contínuo, a troca de -
molluscos marinos da Patagonia e da America do Norte
não se poderia ter realisado. Segundo toda a apparencia, a
Archhelenis se estendia longe para o Sul, até a região an-
tarctica e ereava assim uma barreira, que impedia a dis-
persão de muitas especies tropicaes. Migrações ao longo
da costa oriental da Archhelenis realizaram-se entretanto
tambem na época da formação patagonica: uma das pro-
vas mais interessantes é a existencia da Arca wmbonata
na formação patagonica, especie vivente de uma grande
distribuição no Oceano Indico e no Atlantico. Si se
quizer comparar sobre este ponto o que já dissemos,
veja-se o cap. V, loc. cit.
Estas condições foram alteradas pelo aluimento gra-
dual da Archhelenis. Já durante a época do superpata-
PR fe <<
— 353 —
gonico, que é de edade eocena segundo a minha opinião,
a Archhelenis deve ter sido tão consideravelmente des-
membrada que as numerosas especies tropicaes puderam
avançar para a Patagonia. | assim que apparecem de
uma vez muitas especies de generos como Volvulella,
Bullinella, Urosalpina, Neowmbricaria e Macrocallista
e representantes de um certo numero de familias até
então não representadas na Patagonia, taes como Actaco-
nidae, Eutlimidae, Pyramidellidae, Fissurellidae, Del-
phinulidae, Fossaridae, Lotorudae, Cancellariidae e
Terebridae.
preciso, entretanto, lembrar que se trata de mem-
bros das faunas das Indias orientaes e occidentaes, e não
de representantes da fauna da America do Norte. O
genero Neoimbricarva é de um interesse particular, porque
até então, elle só é conhecido do terciario do Chile e da
Patagonia. Este genero falta no terciario antigo chile-
no-patagonico e niio se o encontra no Chile, senão nos
depositos de Navidad, que correspondem ao super-pata-
gonico, e que são distinguidos pela apparição subita de
especies de Conus e outros generos tropicaes. Por con-
seguinte trata-se de um elemento da costa septentrional
da Archhelenis, que se estendeu de um lado para o Oriente
até a Patagonia, e de outro para o Occidente até o Chile,
mas sem haver tocado na Europa.
Podia-se propor a questão si estas especies de Neoim-
bricaria não podessem ter chegado ao Chile por via de
uma nova communicação inter-oceanica chileno-patagonica.
Uma tal communicação effectivamente existiu ao fim da
formação patagonica, e são os depositos de formação ma-
gellanica que lhe correspondem. Na formação magellanica,
ao lado de alguns elementos faunisticos proprios, encon-
tra-se uma promiscuidade de especies do terciario antigo
do Chile e da Patagonia, mas os elementos caracteristicos
do superpatagonico ahi faltam completamente. Seja que
os limites zoogeographicos impedissem o avançamento das
— 354 —
fórmas tropicas até o Estreito de Magalhães, seja que
este canal estivesse já fechado de novo ao fim da for-
mação patagonica, esta communicação interoceanica, em
todo caso, não teve senão pouca ou mesmo nenhuma
importancia para a dispersão das fórmas subtropicaes do
superpatagonico.
Esta ultima formação representa a continuação
ininterrupta do patagonico, mas o numero de especies
communs ás duas formações não ultrapassa 25º/, do
numero total.
Depois da communicação interoceanica magellanica,
que acabamos de mencionar, a connexão terrestre entre
a Terra do Fogo e a Patagonia foi não somente res-
tabelecida, mas ainda a Patagonia se extendia muito
longe para o Este, até as ilhas Malvinas, a Georgia meri-
dional e para além. Esta communicação terrestre se conser-
vou provavelmente até o fim do plioceno, porque certos
animaes terrestres de origem septentrional, por exemplo
representantes do genero Canis, chegaram tambem ás
ilhas Malvinas, assim como até a Terra do Fogo e a
ilha de Chiloê Os innumeraveis canaes e linhas de
rupturas e de depressão, que se encontram presentemente
em todas as direcções nas regiões littoraes do districto
magellanico e do Chile, são por consequencia de edade
pleistocena, como tambem o é a origem do Estreito de
Magalhães. A destruição da Archhelenis foi completada
pelo abaixamento e desapparição de sua parte central,
donde resultou a reunião dos mares situados ao Norte
e ao sul da Archhelenis, que estavam até então separados,
e desta maneira foi creado definitivamente o Oceano
Atlantico. Não é senão depois desse momento que as
faunas marinas antigas septentrionaes e meridionaes se
puderam misturar, e é nos depositos miocenos de Entre-
Rios que nós constatamos o começo destas migrações. E”.
nestes depositos que pela primeira vez encontramos
abundantemente representados e misturados os typos do
nda AL id a O a ci EE
E Mis aaho É do!
— 355 —
mar das Antilhas, com especies e generos proprios do
patagonico.
Generos septentrionaes, como Amiantis, Tivela,
Anomalocardia, Olivancillaria, Strombus, Littorina,
fissoa, Columbella, etc, que se encontram misturados
no Parana com especies de Ostrea, Cymbiola, Trophon,
Turritella ete, do patagonico, ahi formam um contraste
surprehendente, da mesma maneira como os Ungulados
e Carnivoros septentrionaes, que se encontram na forma-
ção pampeana, e que estão misturados com os Desden-
tados, Marsupiaes e Roedores indigenas.
Ha uma differença notavel entretanto, entre a disper-
são dos Mammiferos e a dos Molluscos marinos: emquan-
to que os primeiros estão sempre representados por gene-
ros distinctos, segundo a sua origem patagonica ou septen-
trional, o mesmo não succede com os Molluscos, visto
que certos generos delles, taes como Cardium, Chione,
Myochlamys, já bem representados na formação pata-
gonica, offerecem nos depositos entrerianos especies bem
differentes. das de origem patagonica e que são originarios
da região das Antilhas ou do Oceano Pacifico.
Em geral, entretanto, na costa argentina, as migra-
ções da fauna das Antilhas não se estenderam muito
para além do Rio Negro, e é assim que a fauna das
Antilhas e do Norte do Brazil occupou as costas do
Brazil meridional e da Argentina septentrional, emquanto
que na Patagonia a fauna antiga do terciario se conservou
ainda até os nossos dias, em grande parte, sem mudança
notavel, e a historia do Oceano Atlantico pode ser ainda
restabelecida hoje pela sua fauna marina. Como se vê o
Oceano Atlantico representa uma concepção geographica,
mas não zocgeographica.
Todas estas condições tornar-se-iam ainda mais evi-
dentes si a fauna marina patagonica não tivesse sido
consideravelmente alterada, no seu caracter geral, pelas
immigrações successivas de Molluscos antarcticos. A an-
99
23
— 356 —
tiga concordancia faunistica das costas de Patagonia e do
Chile, como ella se apresenta na fauna antiga do terciario,
desappareceu aos poucos, quasi completamente. O genero
Turritella extinguiu-se na Patagonia, apezar de que estava
lá ricamente representado no terciario antigo, mas elle se
conservou no Chile, representado por uma especie bem
visinha das especies terciarias.
Por outro lado, os generos Trophon e Cymbiola
extinguiram-se no Chile, ao passo que se conservaram,
com numerosas especies, na Patagonia e no districto ma-
gellanico. Após a formação do Estreito de Magalhães,
algumas especies desses generos occuparam de novo partes
do Chile, como tambem algumas especies chilenas (Mu-
lina edulis e Acanthina calcar) avançaram ao longo
das costas da Patagonia meridional. Eu recebi estas duas
ultimas especies do Golfo de S. Jorge. Mas em geral
estas migrações pelo Estreito de Magalhães, e para além,
não são nem numerosas nem extensas.
Duas outras immigrações são bem mais importantes.
A primeira, que teve lugar durante o plioceno inferior ou
mesmo no plioceno superior, ao longo do continente ant-
arctico, hoje desapparecido, conduzia especies da Africa .
meridional até a Patagonia, e viceversa, como aconteceu,
por exemplo, para Brachydontes magellanica Sow. A
estes immigrantes do terciario moderno, vindos da Africa
meridional, pertenecem Mytilus edulis e as especies do
genero Bullia e Lucapinella, e, provavelmente tambem,
outras especies recentes, que são communs á Patagonia
e á Africa meridional e as quaes até agora não foram
encontradas na formação araucaniana da Patagonia. Se-
gundo meus conhecimentos estas especies communs á Afri-
ca meridional-e 4 Patagonia são as seguintes:
Patella barbara L. (Malvinas).
Pupilha aperta Sow.
Phasianella kocha Phil.
Solariella dilecta A. Adams.
— 357 —
Crepidula patagonica Orb.
Calyptraea chinensis L.
Argobuccinum argus Gm.
Mytilus edulis L.
Brachydontes magellanica Gm.
Saxicava arctica 1.
Mais tarde, pelo fim do plioceno, ou póde mesmo
ser durante o pleistoceno, teve lugar uma outra immi-
gração mais consideravel de Molluscos antarcticos, que
alterou profundamente o aspecto faunistivo, não só do Chile
como tambem da Patagonia. Os generos Acmaea, Sipho-
naria, Photinula, Modiolarca e muitos outros, provêm
desta ultima immigração., Alguns destes generos, taes
como Modiolarca, Photinula etc, são restrictos ao Es-
treito de Magalhães. Outros, como Nacella, se estendem
até o Rio Negro, e alguns, emfim, como Siphonaria, até
o Rio da Prata, onde se encontra uma especie nos de-
positos pleistocenos; ella avançou tambem para o Norte,
ao longo da costa pacifica da America meridional, por
causa das differenças da temperatura da agua do mar.
Em certos casos não se trata de especies identicas,
mas análogas. Assim é que Mesodesma mactroides, se
encontra na costa atlantica do Rio Grande do Sul e na
embocadura do Rio da Prata, ao passo que a especie
correspondente do Chile, Mesodesma donacium, está es-
palhada até Coquimbo e Perá. As duas especies em ques-
tão faltam completamente no terciario da Patagonia e do
Chile; pertencem ellas a um genero bem representado
na Nova Zelandia. Vivas ellas não se encontram nem no
Estreito de Magalhães, nem na Patagonia meridional, nem
ao Sul do Chile.
A distribuição actual da fauna marina antarctica foi,
por conseguinte, precedida, no começo do pleistoceno, de
uma outra distribuição notavelmente differente, que con-
duziu ás condições actuaes. O abaixamento da tempera-
tura do mar fez avançar alguns desses immigrantes vindos
ere
do Sul, assim como outros elementos da fauna magellanica,
ao longo das duas costas do continente, em uma direcção
septentrional até o Chile e o Brazil meridional; pela
mesma causa, especies da região antarctica avançaram até
o Estreito de Magalhães. Voltaremos a tratar das especies
communs ao Chile e 4 Patagonia na secção seguinte.
De uma parte destes immigrantes nos faltam entre-
tanto dados paleontologicos, de modo que só poderemos for-
mular hypotheses sobre a parte que se refere á sua origem.
Após esta exposição summaria da fauna marina da
Patagonia, podemos examinar de uma maneira analytica
os differentes elementos que compoem a fauna actual da
provincia magellanica, e discutir a origem desta fauna e
as migrações pelas quaes ella se enriqueceu, successiva-
mente. Como vimos, existia, no começo do terciario, uma
fauna antarctica commum, que se estendia até a Nova
Zelandia, o Chile e a Patagonia. Não é facil reconstrair
exactamente esta fauna, pois que a formação de Oama-
ra, da Nova Zelandia, é muito incompletamente conhe-
cida, e porque as camadas terciarias do Chile são bem
conhecidas sómente em relação á sua paleontologia, mas
nem um pouco em relação á sua statigraphia.
Em geral o numero de generos, que são caracteris-
ticos para esta antiga fauna antarctica e que lhe são ex-
clusivos é muito restricto e quasi reduzido a Strutho-
laria, Malletia e Lahillia: este ultimo genero parece
não ter attingido a Nova Zelandia. Considerando-se os
factos que vimos de explicar, podemos tomar como ele-
mentos desta antiga fauna antarctica os generos seguinte:
Scalaria, Crepidula, Calyptraea, Polynices, Tur-
ritella, Struthiolaria, Cymbiola, Pleurotoma, Denta-
lium, Cucullaea, Limopsis, Arca, Glycimeris, Atrina,
Ostrea, Myochlamis, Mytilus, Crassatellites, Veneri-
cardia, Phacoides, Cardiwm, Panopaea.
Corbula, Martesia, Lima, Nucula, Leda, Comi-
nella, Bulla e outros generos, se ajuntarão a elles quando
À PC PE TE ET Te +
— 359 —
se conhecer melhor a fauna terciaria antiga da Nova Ze-
landia. O que torna difficil estas investigações é que esia
antiga fauna antarctica não se apresenta inalterada em
nenhuma parte. A fauna eocena de Oamará, na Nova
Zelandia, contêm um numero relativamente grande de
generos da fauna indo-australiana, como Mesodesma, Di-
varicella, Trochus, Meritopsis, Ancilla, Melo, Margi-
nella, Cassidaria, etc. Todos estes generos säo estranhos
á fauna antarctica e faltam no eoceno da Patagonia. Elles
representam immigrantes de origem australiana, 0 que é
tambem provado porque o numero de especies identicas
ao eoceno da Australia e da Nova Zelandia monta a
11º/, do numero total de especies conhecidas até aqui
da formação do Oamará.
Estes elementos da antiga fauna indo-australiana
attingiram a Nova Zelandia mas não o Chile e a Pata-
gonia. Por outro lado, os elementos da fauna antiga chi-
leno-patagonica espalharam-se em parte até a Nova Ze-
Jandiz, mas não até a Australia.
Conhecemos diversas especies, como Cucullaea alta, -
Scalaria rugulosa e Turritella ambulacrum, que são
communs ao eoceno da Nova Zelandia e da Patagonia, em
quanto que Brachydontes magellanica, Turritella pa-
tagonica, Crepidula gregaria e outras especies não ap-
parecem na Nova Zelandia senão na formação miocena
de Pareora. Durante a formação eocena, havia então
condições geographicas que favoreciam migrações entre a
Patagonia e a Nova Zelandia.
Estas migrações, como mostramos no capitulo V
(loc. cit.), facilitavam sobretudo a troca faunistica entre
a Patagonia e a Nova Zelandia, mas muito menos ou
nada entre a Nova Zelandia e o Chile. Isto está provado
por um certo numero de especies e de generos de Mol-
luscos, e sobretudo pelos Brachiopodes cujos generos de
camadas eogenas são todos identicos na Patagonia e
Nova Zelandia e quasi completamente differentes no Chile
— 360 —
e Nova Zelandia. Provavelmente a costa entre a Pata-
gonia e a Nova Zelandia ficava mais ou menos entre os
50º e 60º de latitude Sul, ao passo que avançava muito
mais para o polo, entre o Chile e a Nova Zelandia.
As mesmas circumstancias se nos apresentam si exa-
minarmos a fauna eogena do Chile.
Ao lado de generos da antiga fauna da Archinotis,
ahi encontramos numerosos representantes da antiga fauna
tropical da America central, que attingiram a costa chi-
lena por via de communicação inter-oceanica. Estes ge-
neros são em grande parte differentes dos da Patagonia,
como demonstraremos na secção sobre a historia da fauna
marina do Chile.
Pelo seu lado a fauna eogena da Patagonia é tam-
bem uma mistura de elementos indigenas e de immigrantes
tropicaes. Estes ultimos faltam á fauna eogena da Nova
Zelandia e em parte tambem no Chile: citamos como
exemplo os generos Gibbula, Calliostoma, Neomphalius,
Trichotropis, Lotoriwm, Cominella, Siphonalia, Fusus,
Trophon, Vulpecula, Genotia, Pododesmus, Perna, Mo-
diolus e Sanguinolaria.
Com o correr do tempo, chegaremos certamente a
separar estes immigrantes tropicaes dos elementos indi-
genas. A existencia de um certo genero nas camadas
eogenas da Patagonia, do Chile e da Nova Zelandia não
é sufficiente ainda para provar seu caracter indigena, pois
que o mesmo genero tropical póde ter attingido estas di-
versas regiões, por migrações independentes, quasi ao
mesmo tempo. -
E” por exemplo o caso do genero Lotorium, que
está representado no Chile por outros sub-generos que
não os da Patagonia e que neste ultimo paiz não appa-
rece senão no superpatagonico ou no patagonico superior.
Não é sómente por migrações que esta antiga fauna
da Patagonia se modificou, mas tambem pela extincção
completa ou local de numerosos generos: Aturia, Neo-
361 —
imbricaria, Proscaphela, Neoinoceramus, Cucullaria
e Lahillia, todos bem representados no patagonico, que
não têm mais representantes nem no terciario moderno,
nem na fauna recente, seja da Patagonia, seja de outros
paizes. O numero de generos que se conservaram ainda
viventes sómente em outros paizes do globo, mas não
na Patagonia, é muito maior. Destes generos encontra-
mos ainda Struthiolaria e Siphonalia conservados na
região antarctica, Turritella no Chile e em outras partes
do globo; a desapparição deste ultimo genero da Pata-
gonia, que era um dos elementos predominantes da fauna
marina, até o plioceno, é bem singular. Aporrha's não
se encontra mais senão na Europa e a especie, que lá
é commum À. pes-pelecani, parece ter-se conservada tam-
bem no Brazil meridional.
Outros generos da super-formação pan-patagonica,
cujas especies não se conservaram senão no Mediterraneo,
são Gryphaea e Hadriania. Genotia tem representantes
viventes na Africa occidental; Cucuilaea e Gibbula são
ainda encontrados viventes no Oceano Indico, o ultimo
destes generos tambem na Europa. Os outros generos
estão conservados nas costas da America meridional, mas
não na provincia magellanica. Muitos dentre elles, taes
como Terebra, Pododesmus, Crenella, Venericardia,
Tellina, Abra, Corbula, Glycimeris e Panopaea são
encontrados viventes nas costas da Argentina. Alguns
destes generos estão agora restrictos ás profundezas abys-
saes das costas orientaes da America meridional, como
Amussium ringicula e Barsonia.
Pyrula, Trichotropis, Cancellaria, Tenagodes, Vol-
vulella e Psamnobia só se encontram nas Antilhas (no
que diz respeito 4 America meridional e central), Fossarus
e Liotia se espalharam das Antilhas até o Brazil sep-
tentrional. Os outros generos extinctos na Patagonia e
na região magellanica, mas conservados ainda na costa
oriental da America meridional, acham-se representados
— 362 —
na fauna do Brazil. São: Tornatina, Bullinella, Ver-
metus, Lotorium, Fusus, Arca, Lima, Modiolus, Car-
dium, Phacoides, Diplodonta, Crassatellites, Dosinia,
Macrocallista. Alguns destes generos tém ainda repre-
sentantes na costa do Uruguay.
Considerando-se os factos aqui discutidos, e as infor-
mações que dizem respeito aos generos immigrados na pro-
vincia magellanica, não é difficil por em relação a fauna
eogena da Patagonia com a recente. Não obstante, certos
erros são possiveis para alguns generos que encontramos
já representados no pan-patagonico. O facto de um ge-
nero representado na fauna viva da provincia magella-
nia, existir já no pan-patagonico, ainda não prova que
as especies vivas sejam descententes das fosseis. Ha com
effeito alguns generos da super-formação pan-patagonica
que se extinguiram durante a época terciaria e que, por
immigrantes relativamente modernos, estão de novo in-
troduzidos na fauna do districto magellanico. E' o caso,
por exemplo, do genero Crepidula, cuja unica especie
eogena se extinguiu e foi substituida por duas especies, das
quaes uma é originaria da região antarctica e a outra
do Chile. Quasi o mesmo caso repetiu-se para os ge-
neros Crucibulum, Sanguinolaria, Limopsis e em parte
tambem para Venaricardia. Temos um caso semelhante
no genero Árca, representado na fauna recente magella-
nica por uma pequena especie de Lissarca, sub-genero
visinho ou identico com Parbatia, que para lá prova-
velmente chegou por meio de migrações abyssaes. Para
os generos de uma distribuição bipolar, temos tambem
a constatar o mesmo facto, isto é a existencia de especies
de origem differente. Assim é que no genero Scissurella,
temos, ao lado de uma especie indigena, uma outra es-
pecie originaria do Norte do Oceano Atlantico.
Si tivessemos informações suficientes sobre todas
as especies da fauna actual magellanica, seria facil mostrar
a origem e a historia de cada uma destas especies vi-
+
NI RS Te TT TND AN
k
e e dé e AA O é Sa
ia cla di Sa Dea didi a ee
— 363 —
ventes; mas ha dellas que não se encontram senão nesta
provincia e sobre as quaes nada podemos dizer, por falta
de dados paleontologicos.
Provavelmente estas especies serão reconhecidas mais
tarde como identicas a especies já conhecidas de outras
regiões do globo, e então se julgará melhor da distribuição
destas especies, que teve lugar provavelmente nas grandes
profundidades do Oceano Atlantico. Estes generos são os
seguintes: Lamellaria, Pittium, Mathilda, Mitra, La-
chesis, Savatieria, Bela, Daphnella, Mangilia, Tole-
donia, Acmaea, Lyonsia, Lyonsiella, Pandora, Lo-
ripes, Solemya, Modiolaria, Astarte, Erycinella.
Dou adiante uma lista dos generos dos quaes se
conhecem representantes magellanicos, juntando nella o
numero de especies que dellas se conhece. No geral, aconselho
sobre esta materia os trabalhos de Rochebrune e Mabille
e de Strebel, mas preciso ajuntar ainda algumas notas
sobre a parte relativa á sua synonimia, quer quanto as
localidades onde ellas foram encontradas. Esta lista contem |
111 generos e 260 especies, e, segundo a opinião de
alguns auctores, o numero de especies seria um pouco
maior para alguns destes generos.
Entre estes generos ha 40 que já estão representados
na super-formação pan-patagonica. Entretanto, comparan-
do-se os generos fosseis com os modernos, é preciso deixar de
considerar 15 generos de Peroniidae, Nudibranchia, Mar-
senidae, Chitonidae e Cephalopoda, que não tem concha
ou cuja concha é delgada ou cornea, de maneira que
ficavam 96 generos conchiferos. A proporção de 40 ge-
neros pan- patagonicos sobre 96 generos de fauna recente,
isto é 41 º/, do numero total de: generos, é muito elavada;
ella explica bem o caracter archaico desta fauna, assim
como o numero relativamente grande de especies viventes
que já encontramos no patagonico, isto é no eoceno da
Patagonia.
— 364 —
Sejam dadas ainda algumas notas relativas á lista se-
guinte. Eu ahi não acceitei Cardium parvulum Dkr. (Mal.
Bl. VII, 1862, p. 36), encontrado em Chiloë e no Estreito
de Magalhães, porque E. von Martens escreveu-me que,
segundo a sua opinião, não se trata de um Cardium.
Os dentes centraes são tectiformes, não nodulosos e os
dentes lateraes faltam. Costas radiaes existem, mas são
planas, largas e pouco numerosas. Deixei tambem de lado
duas especies duvidosas de Doris, D. luteola Gould e
D. plumulata Gould que, segundo Bergh, são indeter-
minaveis. Chama maculata Clessin, indicada como sendo
do Estreito de Magalhães, deve ser excluida desta lista, se-
gundo a minha opinião, pois que se trata de um erro
de localidade. Não ha na fauna marina littoral do dis-
tricto magellanico grandes especies de Chama, como tam-
bem não as ha de Cardiwm, Arca, Bulla, Fusus e ou-
tros generos de mares temperados e tropicaes.
e] | 32
22 856 | se 85e
= 2 = œ s 5
EE (25 || EE (258
= 21885 =2 63%
st EE | so Nes
De | e
Polypus 6 Collonia Bes pre
Ommastrephes . I 'Calliostoma . a Se
Phidiana I Monodonta Seal
Trippa . 1 Chlorostoma . Leys
Archidoris I |Neomphalius alt =
Acanthodoris I lho tina san one] entre
Oncidiella . I Margarites I
Actaeon I — |/Solariella . I =
Tornatina . I — ||Scalaria. 2 ==
Kerguelenia . 2 Janthina I
Siphonaria 2 Eulima . I
Acmaea 4 Turbonilla. LER
Lepeta . 2 Crepidula . 2 =
Nacella . 9 Calyptraea 2 =
Scurria . I Crucibulum . I ==
Fissurella . 13 Polynices . 9 =
Puncturella 2 Marsenia . 2
Scissurella. I 'Marseniopsis. I
Turbo 2 Laevilitorina . I
— 365 —
8 | 52 s | 53
= eee sa |f2e
EE |$SE B=. Es
=e |S38 =2|/S3%
= | #8 = | 865
2 2 E EL
Rissoa . I Limopsis . 2 =
Bittium . : I Lissarca I
Cerithiopsis . I || Belicia, I
Mathilda : I Atrina . I —
Argobuccinum . 2 Margaritifera I
Trophon 3 — Myochlamys. 3 —
Urosalpinx 9 = Psendamussium I
Euthria . 9 Lima 3 —
Nassa I || Mytilus 5 —
Cominella . I — || Brachydontes 2 —
Bullia I | Lythodomus I —
Concholepas . I | Modiolaria I
Macron . I Modiolarca . 2 —
Acanthina 5 Pandora 3
Volvaria 2 = Lyonsia I
2 Mitrar =. I || Lyonsiella 2
Cymbiola . 3 = | Astarte. 2
Lachesis I Erycinella. 2
Savatieria . 4 Venericardia. 6 ==
Bela=" =. 3 || Loripes. 2
Daphnella 3 Thyasira . 2
Mangilia 2 Diplodonta . I —
Drillia 2 = Kellia . 3
Admete 4 = Lasea 2
Toledonia. I Cyamium . I =
Callochiton I Chione . 2 —
Plaxiphora 4 Pitar. I
Tonicia . 3 Marcia . I =
Ghion cr 2 Saxidemus I
Chætopleura . 2 Sanguinolaria I —
Ischnochiton 3 Dita .
Dentalium 3 -— M E
Nucula . 2 — HA E
Beda. 3 E! Mulinia 5
Yoldia . 2 Solen 2 E
Solemya I Ensis I
Malietia 3 — Saxicava I e
Passando-se em analyse esta fauna, temos a distin-
guir os grupos seguintes:
1.º Generos que já estavam representados na
fauna do pan-patagonico. São todos os generos que estão
assignaladas na segunda columna da lista precedente. São
— 366 —
em numero de 40. Já disse mais atraz que, em alguns
destes generos, taes como Crepidula, Crucibulum, Arca,
Limopsis, Verenicardia e Sanguinolaria, as especies
actuaes não são descendentes das especies do terciario
antigo, mas immigrantes relativamente modernos. Para o
restante destes generos, a continuidade faunistica é bem
pronunciada e a proporção relativamente grande (40 ge-
neros sobre 111 ou 99 especies sobre 261 do numero
total), com a qual este antigo elemento participa na fauna
actual da mesma região, é um dos traços mais signifi-
cativos da fauna marina magellanica.
Esta relação torna-se ainda mais evidente quando
se deixa de ladc os generos que se não puderam con-
servar ou que pouco se conservaram no estado fossil, taes
como Nudibranchia, Cephalopoda, Chitonidae, Marse-
niadae e Peroniidae. São 15 generos com 30 especies
e a relação dos generos viventes da fauna magellanica
que já estão representados na super-formação pan-pata-
gonica seria então de 40 sobre 96, ou 42 °/, e a re-
lação de 99 especies sobre as 231 corresponde a uma
proporção de 43 °/,. E pois evidente que os traços ca-
racteristicos da fauna antiga foram conservados na região
magellanica de uma maneira mais notavel que em muitas
outras partes do globo, e esta circumstancia nos explica
tambem a proporção já relativamente grande de especies
viventes que vimos de constatar na super-formação pan-
patagonica.
2° Immigrantes vindos da America septentrional
ou central, ao longo da costa atlantica. Encontra-se
algumas vezes indicações que conduziriam á crença de
que certas especies de Molluscos littoraes da America
do Norte se teriam dispersado ao longo das costas
atlanticas até o Estreito de Magalhães. E entretanto
um erro. (Os elementos da fauna littoral da America
septentrional e central estão bem espalhados na costa
do Brazil até a embocadura do Rio da Prata e para
— 967 —
além até o Rio Negro, mas não se os encontra mais
na costa da Patagonia. (Como exemplo menciono as
especies seguintes: Dall diz que Calyptraea centralis
Conr. se espalhou desde a America do Norte até Pto.
Gallegos, perto do Estreito de Magalhães (Tert. F. Flo-
rida, vol. 3, part. IL 1892, p. 353). Segundo o meu
modo de pensar esta especie não se encontra ao Sul de
Santa Catharina, e a especie do Estreito de Magalhães
será talvez C. pileus Lam. especie que foi descripta por
Philippi sob o nome de C. costellata, ou C. pileolus
Lam., com a qual O. decipiens Phil. coincide, ou mesmo
C. chinensis L. Segundo a minha opinião C. mamil-
laris Brod. da America central e C. parvula Dkr. são
svnonimos ou variedades desta ultima especie, ac passo
que C. candeana Orb. é synonima de C. centralis Conr.
Esta ultima especie foi constatada como vivente em Sta.
Catharina, assim como C. parvula, pelo fallecidé profes-
sor Martens. A distincção destas especies alliadas viventes
e fosseis é ainda difficil de se fazer. Pela minha parte,
creio que entre as especies do districto magellanico, C. cha- |
nensis ou pelo menos uma fórma extremamente visinha,
se encontra representada. Veja-se sobre este ponto a dis-
cussão sobre C. costellata por H. Strebel (1. c. IV, p. 159).
Crepidula wnguiformis Lam. não é encontrada na
Patagonia. Uma concha recente do Golfo de S, Jorge, que
eu havia tomado anteriormente por esta especie, é na
realidade Crepidula patagonica Orb. Actaeon delicatus
Pall. das Antilhas e do Sul da Patagonia, é uma especie
abyssal da qual voltarei a tratar no capitulo sobre es-
pecies bipolares.
Segundo Dautzenberg e Fischer (Result. Camp.
Alber. I, Fasc. XXXII, Monaco 1906, p. 52), Polyni-
ces lactea Guild., se encontraria no Cabo Verde e nas
ilhas Canarias, nas Antilhas e no Cabo Horn. Segundo
minhas observações, esta especie não se encontra no Brazil
senão ao Sul de $. Sebastião. A especie do Estreito de
— 368 —
Magalhaes é P. uber Vall. e o proprio M. Dautzenberg
a designou assim em uma nota preliminar (Act. Soc. Se.
Chili, VI, 1896, p. LXVI). Esta especie é de uma
vasta distribuição ao longo das costas pacificas da America
meridional, onde se a observou na California, no Perú,
no Chile, sendo que deste ultimo paiz R. A. Philippi a
recebeu em estado vivo, como me communicou, assim |
como nos depositos pleistocenos.
Barnea costata L. é uma especie das costas atlan-
ticas da America do Norte, das Antilhas e do Brazil,
onde ella se encontra até nas costas de São Paulo. Eu
jamais a recebi das costas situadas mais ao Sul, nem da
Argentina, e por esta razão não duvido que a affirmação
de POrbigny, que diz tel-a recibido das ilhas Malvinas,
seja causada por qualquer engano, sobretudo não tendo
esta indicação sido jamais confirmada.
Ha especies abyssaes do Oceano Atlantico do Norte
que são encontradas tambem na provincia magellanica e
que, nas altas latitudes vivem tambem na zona littoral.
Eu me occuparei dellas, mais detidamente, tratando
das especies bipolares. O que quero constatar aqui é que
não ha especies littoraes de Molluscos que estejam dis-
persas sobre as costas atlanticas desde a America do
Norte até o Estreito de Magalhães.
3.º Bspecies pelagicas e abyssaes do Oceano Atlan-
tico septentrional e central, que estão dispersas até a
provincia magellanica. Na fauna actual da região magel-
lanica, encontra-se duas especies de Zantina, I. fragilis
Lam. (J. communis Lam. e rotundata Leach) e pallida
Harv. (J. courselli Roch. e Mab.).
São especies de uma vasta distribuição, que se en-
contram em toda a extenção do Atlantico.
Ha tambem um certo numero de Molluscos abys-
saes, que estão representados na região magellanica, a
profundidades variaveis. Como dedico uma secção deste
capitulo ás especies bipolares, menciono aqui apenas os
— 369 —
principaes generos da fauna magellanica, que fazem parte
“desta cathegoria e que são: Felicia, Modiolaria, Lis-
sarca, Pseudamussium, Lasea, Kellia, Puncturella,
Scrssurella, Margarites, Photinula. Em geral os repre-
sentantes destes generos são especies do Norte do Atlan-
tico, mas uma parte destes generos tem distribuição quasi
cosmopolita, de sorte que não é possivel reconhecer-se a
origem das especies magellanicas. Póde acontecer tambem,
que, ao lado de especies immigradas do Atlantico septen-
trional, haja outras que sejam proprias do hemispherio
meridional.
E o que observamos no genero Puncturella, onde
P. noachina L. é de vasta distribuição nas regiões po-
lares, ao passo que P. malvina n. n. (P. conica Orb.,
nec Blv.) é restrica á região magellanica, onde foi encon-
trada, ao Sul do Chile e nas ilhas Malvinas.
4.º Immigrantes originarios da Africa meridional,
de onde vieram durante o plioceno. Na secção deste
capitulo, sobre especies bipolares, trataremos da historia de
Mytilus edulis, especie da Europa, que, ao longo da costa
occidental da Africa, attingiu o Cabo da Bôa Esperança,
dispersando-se para além, no hemispherio meridional. Dous
factos são interessantes nesta migração: a possibilidade
de que uma especie littoral da região temperada possa
passar a zona tropical da Africa e se distribuir para
além do Cabo. Na segunda metade do terciario, esta es-
pecie e muitas outras não estavam ainda, como hoje,
adaptadas ás aguas frias das regiões temperadas e desta
maneira lhes era possivel passar a zona tropical, conser-
vando-se sempre na zona littoral. Quanto ao segundo facto
mencionado, hoje, não é possivel ás especies littoraes
emigrarem para a região antarctica, pois que as profun-
didades do mar, ao Sul do Cabo da Bôa Esperança,
excedem a 2—3000 metros. Na época em que Mytilus
edulis se poude espalhar da Africa meridional para a
Patagonia, estas profundidades consideraveis não existiam
— 370
e estas migrações a realizaram ao longo das costas de
um continente antarctico.
Em um sentido inverso se realizou a migração de
algumas outras especies originarias da Patagonia, como
Brachydontes magellanica e Pupilha aperta.
“Ao lado destas especies mencionadas, ha algumas
que não se encontraram no Estreito de Magalhães, mas
nas ilhas Malvinas, como Patella barbara L. e Pha-
sianella kochi Phil, que vivem no Cabo e nas Mal-
vinas. De resto, Pupilha aperta até agora não foi
encontrada no Estreito de Magalhães; eu a recebi da
Patagonia. Uma especie insufficientemente conhecida é
Solariella dilecta A. Adams, a qual têm sido indicada
do Cabo e do Estreito de Magalhães. Crepidula pata-
gonica Orb. da qual Crypta subdilatata Roch. e Mab.
é um synonimo, é conhecida da Patagonia, Terra do Fogo
e do Cabo, de onde a descreveram sob 0 nome da C. rugu-
losa Dunk. Uma outra especie da mesma distribuição é
Calyptraea chinensis L.
Argobuccinum argus Gm. especie da qual A. ve-
alum não é senão uma variedade, segundo a minha
opinião e a de Hutton e Sowerby, vive na provincia,
magellanica, no Chile, na Nova Zelandia e no Cabo. Esta
distribuição realizou-se por migrações na região antarctica,
o que é confirmado por dous factos: a presença da es-
pecie nas ilhas de São Paulo e Amsterdam (sob o nome
de A. proditor Fraunf.) e sua ausencia nos depositos
pliocenos da Patagonia, da Nova Zelandia e do Chile.
A distribuição geographica e geologica do genero Argo-
buccinum nos mostra que se trata de um genero da zona
tropical do Atlantico, que attingiu 6 Cabo da Bôa Es-
perança e para além, a região antarctica, ao longo da
costa occidental da Africa, emquanto que especies que, pela
communicação interoceanica chegaram á costa pacifica da
America, ahi representam um sub-genero particular, Fusi-
triton Cossm., ao qual pertencem duas especies intimamente
— 371 —
relacionadas, A. oregonense do Japão e desde a Alaska
até a California, onde esta especie se encontra tambem
no plioceno, e A. cancellatum, do Chile e do Estreito
de Magalhães. Constatamos, por consequencia, que, nos
dous sub-generos de Argobuccinum, as especies se reti-
raram da zona tropical e se adaptaram á agua fria das
regiões temperadas, desde o plioceno.
E” o mesmo processo que nós vemos se realizar nas
migrações de Saxicava arctica, especie de uma vasta
distribuição geographica e geologica, que attingiu a região
antarctica por dous caminhos, o da Nova Zelandia na
época miocena, e o da Africa meridional, provavelmente
durante o plioceno ou mioceno. Pode ser que os exem-
plares de origem differente possam ser distinguidos, o
que investigações comparativas devem esclarecer.
Os generos da fauna: magellanica: que sahiram da
Africa meridional são, para nossas investigações, mais
importantes do que as especies que lhe são communs
com a Patagonia. Além de Argoburcinum estão neste
caso os generos Siphonaria, Kerquelenia, Lepeta, Eu-
thria, Bullia e talvez Fissurella tambem. Os dados
paleontologicos necessarios sobre a historia deste ultimo
genero nos faltam, de maneira que este ponto se conserva
duvidoso por emquanto. Eu tornarei a elle na secção
dedicada á fauna do Chile.
Lepeta é um genero do hemispherio septentrional,
conhecido tambem da Europa em depesitos pliocenos, do
qual se encontra duas especies no Estreito de Magalhães:
L. coppingeri Smith e L. emarginuloides Pils.
Na distribuição actual, Siphonaria está sobretudo
localizada no hemispherio austral, mas o genero é origi-
nario do outro hemispherio, onde já está bem representado
no eoceno de Paris. Não se conhece delle especies ter-
clarias da America, da Australia nem da Nova Zelandia.
Por consequencia não podemos duvidar que é um ge-
nero da fauna europea que, ao longo da costa occidental
24
312 —
da Africa, attingiu o Cabo, onde existem ainda numerosas
especies. Kerguelenia não é senão um sub-genero de :
Siphonaria.
Bullia é um genero do hemispherio austral, que está
representado por um bom numero de especies ao longo
das costas da Patagonia e do Brazil meridional. Eu penso
que as especies da Patagonia pertencem todas ao mesmo
genero. As opiniões são todas divergentes a respeito deste
grupo e é só da anatomia que se póde esperar esclare-
cimentos exactos. Segundo Cossmann, Bulha está já re-
presentado no eoceno da America do Norte, onde no
entretanto o genero se extinguiu no oligoceno. No mio-
ceno da Europa, entretanto, ha numerosas especies de
Bullia, segundo Cossmann, e é evidentemente da Europa
que são originarios os representantes da Africa meridional
e da Patagonia. E” no plioceno da Patagonia que nós
encontramos pela primeira vez um representante de Bullia.
A origem africana da Bullia da Patagonia é nesta cireum-
stancia bem evidente, em visto dos dados paleontologicos
já explicádos e não seria possivel imaginar uma outra
migração, que pudesse conduzir especies de Bula 4
Patagonia.
Emfim, o genero Huthria parece estar nas mesmas
condições. E species de Huthria são encontradas no eo-
ceno da Europa e da Australia. Os exemplares da Aus-
tralia formam um sub-genero extincto, e as especies vivas
provêm de Huthria s. str., sub-genero que teve uma abun-
dante representação no mioceno da Europa. E a este
genero que se ligam os representantes actuaes desse ge-
nero da Africa meridional, do distrieto magellanico e de
outras partes da região antarctica.
Não se encontra especies terciarias de Huthria nem
na America, nem na Nova Zelandia. Até aqui não se
conhece especies de Huthria do terciario da Patagonia,
mas não podemos duvidar que cllas se encontrem no
plioceno da Patagonia, pois que a distribuição geologica
— 373
e geographica deste genero é evidentemente a mesma que
a dos outros immigrantes pliocenos vindos da Africa
meridional. |
Notemos ainda que na fauna do Cabo ha muitas
especies que se encontram tambem na metade meridional
da America do Sul, mas não na Patagonia, o que se
explica bem pela differença de latitude. Entre as especies
que tambem se encontram sobre as costas do Brazil me-
ridional, podemos citar: Argonauta argo e A. tubercu-
lata, Lanthina fragilis e I. exiqua, Crepidula aculeata
e Cassis pyrum. Esta ultima especie é de interesse parti-
cular: eu a recolhi da costa do Rio Grande do Sul e
conhecemol-a do Oceano Indico, da Nova Zelandia, da
Africa meridional, ete... No estado fossil esta especie tem
sido encontrada no plioceno da Nova Zelandia. Como
nenhuma especie de Cassis tem sido encontrada no ter-
ciario da Argentina, segue-se que a especie é de origem
tropical, estando adaptada á zona temperada em regiões
muito distantes entre si. A distribuição de Argobuccinum
argus é pouco mais ou menos a mesma, mas sua pre-
senca na região antarctica e os dados paleontologicos
provam que a especie se espalhou desde o Cabo até a
região antarctica.
São pois duas especies originarias da zona tropical
e de distribuição geographica mais ou menos parecida,
que adquiriram seu domicilio actual por migrações com-
pletamente differentes.
Por consequencia temos a constatar que um certo
numero de generos e de especies da fauna actual do dis-
tricto magellanico provem do Cabo da Bôa Esperança,
e é bem possivel que o numero destes generos seja na
realidade maior, comprehendendo nelles tambem generos
que no presente estão extinctos no Cabo. E” possivel-
mente o caso dos generos Margarites e Photinula.
5º Immagrantes modernos da região antarctica.
Temos, emfim, a dizer algumas palavras sobre os immi-
tie
grantes originarios da região antarctica. Como taes, temos
a mencionar os generos Modiolarca, Lissarca, Cyanium,
Darina, Laevilitorina e talvez Fissurella.
A origem deste ultimo genero não está ainda elu-
cidada. Nacella pertence a um grupo de Patellidae, que
é restrico á região antarctica, mas este genero, ou antes
o genero alliado Helcioniscus, se encontra no plioceno da
Patagonia e talvez já no terciario antigo. Voltaremos a
este assumpto mais tarde, em se tratando da historia da
fauna marina do Chile.
6.º Immagrantes modernos, originados o Chile.
Não é senão na época post-terciaria que se formou o
Estreito de Magalhães, e comprende-se bem que as faunas
dos dous mares occuparam não somente o Estreito de
Magalhães, mas tambem as costas adjacentes. Recebi do
Golfo de São Jorge duas especies da fauna chilena, que
faltam nas camadas terciarias da Patagonia e que são
evidentemente immigrantes do Chile: Mulinia edulis e
Acanthina calcar. Provavelmente o numero destas es-
pecies de origem chilena augmentará á medida que a
fauna patagonica seja mais explorada, mas o numero de
especies pertencentes a este grupo não é, em todo caso,
muito consideravel.
CO. — Historia da fauna marina do Chile.
A base .de todos os nossos conhecimentos relativos
aos Molluscos marinos do Chile, sejam recentes ou fosseis,
é formada por trabalhos numerosos e importantes de R.
A. Philippi, que, mais que nenhum outro naturalista, con-
tribuiu para a exploração scientifica do Chile No seu
livro Los Fósdes Terciarios e Cuartarios de Chile,
Philippi se limita a descrever os diversos depositos ter-
ciarios do paiz e os molluscos que ahi são encontrados.
Quanto aos resultados geraes, constatou dous factos dos
mais importantes: a semelhança geral da fauna terciaria
dá nado. cabelo ex
do
ai
a
Ê
A
q
4
RS aoe
do Chile com as faunas miocena e recente do Mediter-
raneo, e a completa modificação da fauna no fim da época
terciaria. Quanto ao caracter geral desta formação terciaria
Philippi confirmou as observações de Darwin sobre a
identidade de um certo numero de especies do terciario
do Chile e da Patagonia.
Estes resultados das investigações de Darwin e de
Philippi são ainda hoje a base dos nossos conhecimentos
da historia dos molluscos marinos do Chile. Steinmann e
Moericke ensaiaram fazer uma subdivisão geologica do
terciario do Chile, distinguindo nelle duas edades ou for-
mações, a Navidadeana e a Coquimboana: a primeira
seria oligocena ou miocena inferior, a segunda miocena
superior ou pliocena.
Segundo estes auctores, estas duas formações seriam
caracterizadas por faunas bem distinctas, sendo que a
navidadeana teria aspecto atlantico, e a coquimboana aspec-
to pacifico. Teremos de examinas estes factos geologicos
ou paleontologicos sobre os quaes se apoia esta opinião.
Em opposição a esta idéa Philippi não julgava
possivel distinguir diversas formações terciarias e tomava
por phenomenos locaes as ligeiras modificações faunisticas
que se observa entre os diversos depositos.
De resto, Philippi não ensaiou distinguir os diffe-
rentes elementos faunisticos do terciario do Chile. Como
elle disse (I. c. p. 2 e 245), faltava-lhe, para isto, 0 co-
nhecimento das faunas actuaes e terciarias da Argentina,
da California, da Australia e da Nova Zelandia. Os co-
nhecimentos que, no presente, possuimos sobre os mol-
luscos recentes e fosseis da Patagonia, da California, da
America do Norte, etc, nos tornam possivel emprehender
este ensaio. Durante o cretaceo superior e no começo do
terciario, a analogia entre as faunas marinas da Patagonia
e do Chile, era muito pronunciada. Para o cretaceo isto
foi demonstrado pelas investigações de Wilckens e de
Steinmann. Para o terciario, todos os auctores têm con-
306 —
firmado as observações de C. Darwin. Nós tratamos desta
questão na secção precedente deste capitulo e mostramos
que 8 °/, das especies do patagonico se encontram tambem
ne terciario do Chile.
A concordancia geral do caracter destas duas faunas
é mais importante que a identidade de um certo numero
de especies. |
Havia una fauna antiga terciaria da região antarctica
que comprehendia a Nova Zelandia, o Chile e a Pata-
gonia, mas, como já vimos, cada ume destas regiões se-
paradas recebeu, sem interrupção, novos elementos fau-
nisticos por via de migrações, de sorte que a semelhança
primitiva se apagava cada vez mais.
O Chile recebeu numerosos elementos do mar tro-
pical Thetis, por via de communicação interoceanica e a
immigração de typos tropicaes, ao longo das costas do
Equador e do Perá, é mais abundante que a destes mes-
mos typos, ao longo da costa oriental da Archhelenis
até a Patagonia. Desta maneira certos generos tropicaes
de disperçar até a America central e o Chile,
sem chegar á America do Noite, e certos generos da
costa sehienicional da Archhelenis se Estender para
Oeste até o Chile e para Este até a Patagonia. Era
assim que se distribuiam, quasi ao mesmo tempo, até o
Chile e a Patagonia, especies de Sassia, Neoimbricarva,
Vermetus, Turbonilla, Eulima, etc. Ao lado destes ge-
neros encontramos outros, taes como Conus, Purpura,
Oliva, Olivancillaria (O. tumorifera Phil), Acanthina,
Concholepas, Macron, Persona, Cassis, Cypraea, Lat-
torina, Rissoa, ete., que não têm representantes no ter-
ciario da Patagonia.
Muitos destes generos não attingiram a America do
Norte. E’ o caso de Neoimbricaria, Olivancillaria, Pur-
pura, Persona, Sassia, Acanthina, Concholepas, Ma-
cron e outros. A fóra das migrações indicadas, a antiga fau-
na chilena se modificou continuamente pela extinção de cer-
Dic =
tos generos. E’ assim que desappareceram já no cretaceo
superios os generos Strombus, Trigonia e outros. Entre
os generos extinctos encontramos, no terciario, Aluria,
~ Dicolpus e Lahillia, e é muito grande o numero de ge-
neros da fauna terciaria do Chile, que actualmente não
são mais encontrados nas costas desse paiz. Philippi dá
(I. c. p. 247) uma lista de 39 generos do terciario do
Chile que não vivem mais, nos nossos dias, na costa |
chilena; mas um destes generos, Haliotis, deve ser eliminado
ainda, pois que .se trata de uma determinação inexacta.
O genero Haliotis jamais esteve representado na costa do
Chile.
Como já dissemos, Philippi não julgava possivel
uma distinção de diversas edades no terciario do Chile,
ao passo que Steinmann e Moericke consideram as ca-
madas de Caldera e Coquimbo como uma edade mais
moderna, o Coquimboano que seria plioceno ou mioceno
superior, emquanto que o Navidadeano, comprehendendo
os depositos do Chile meridional, seria oligoceno ou mio-
ceno inferior.
Como prova desta affirmação, Moericke da (1. €. p.
596) uma lista de 13 especies do Navidadeano, que
seriam encontradas tambem no mioceno da Europa, ou
que lá seriam substituídas por especies muito semelhantes,
E” preciso retirar desta lista Ostrea patagonica, que
é uma especie da Patagonia, não encontrada no Chile.
Ancillaria tumorifera Hupé é, segundo a minha opinião,
"uma especie de Olivancillaria.
Cassis monilifera Sow. é considerada por Moericke
como uma Cassidaria, erro já refutado por Philippi por
causa da differença do canal da abertura.
Suppondo-se que as comparações do auctor sejam em
tudo correctas, não é admissivel julgar contemporaneas
estas especies alliadas, visto a grande distancia que se-
para o Chile e o Mediterraneo.
— 9318 —
No capitulo sobre a formação patagonica, refutei
esta maneira de proceder, dando provas, e por isso não
insisto mais nesta questão. |
Para provar o caracter pacifico da fauna do Coquim-
boano, Moericke cita como generos de caracter essencial-
mente pacifico Chiton, Struthiolaria, Concholepas e
Acanthina (Monoceros). |
O primeiro destes generos é de distribuição cosmo-
polita. Na sua distribuição geographica, Séruthiolaria,
não é e nem tão pouco foi, nem pacifico nem atlantico,
mas antarctico, e os outros dous generos são immigrantes
do Atlantico. Acanthina se encontra nas camadas mio-
cenas da Italia e no plioceno de Java. Na California não
se encontra especies delle senão no pleistoceno, com excep-
ção, talvez, de uma especie de Chorus. E” preciso notar
entretanto, que Ralph Arnold não poude confirmar a pre-
sença de Chorus em camadas pliocenas da California.
No Chile encontram-se especies de dous sub-generos,
tanto em Coquimbo como ao Sul até Chiloë. As affir-
mações de Moericke neste ponto são incorrectas. A.
crassilabris é A. doliaris, por exemplo, se encontram
em La Cueva, perto de Valparaiso e À. grandis e À.
blainvillei são encontradas tão bem em Coquimbo como
em Valparaiso e Chiloë. Chorus giganteus é commum a
Coquimbo e a Tubul no Chile meridional.
Segundo a minha opinião a historia da Acanthina
é a mesma que a de Concholepas, genero tambem da
familia das Purpuridae. Conhece-se della uma especie ~
terciaria de Coquimbo, especies miocenas da Touraine,
França e uma especie eocena da Australia, C. antiquatus
Tate. Eu não duvido tambem que Acanthina deva ter
existido no terciario antigo do Oceano indo-australiano.
Em todo caso, os factos paleontologicos provam que estes
dous generos são elementos da antiga fauna da Thetis,
que ganharam o Chile seguindo as costas da Archhelenis.
Nestas circumstancias é certo que os factos, sobre os
e
quaes Moericke ensaiou sua subdivisão do terciario do
Chile, são insuficientes e que a paleontologia não offerece
nenhum argumento para separar os depositos terciario do
Norte e os do Sul do Chile; de sorte que, reconhecendo-se
erroneas as conclusões de Moericke, somos obrigados a
acompanhar a opinião de Philippi. E’ desta maneira,
tambem, que se torna insustentavel a ideia emittida por
Moericke, da edade pliocenas das camadas Coquimbo.
Si todos os elementos da Thetis, que se dispersaram no
terciario até o Chile, passaram pela communicação inter-
oceanica, estes generos não pódem ser pliocenos, pois que
esta communicação estava já interrompida no mioceno,
segundo a opinião dos geologos, de Hall, particularmente.
Pelo meu lado, não estou convencido que estes resultados
das investigações geologicas sejam exactos, porque não
é senão no plioceno que se operou a troca dos mammiferos
da America do Norte e do Sul.
Quanto á opinião de Philippi, somos, em geral levados
a confirmal-a, mas cem algumas modificações.
Vão é com o Mediterraneo, mas com o Atlantico,
ou melhor, com a Thetis, que a fauna terciaria do Chile
se apresenta relacionada. Não se deve, pois, pensar em
uma communicação directa entre o Chile e o Mediterraneo,
porque esta relação era dada pela Thetis, que commu-
nicava tanto com o Mediterraneo como com o mar do
Chile. Deste modo, explica-se que algumas especies
antigas, de vasta distribuição, estão conservadas no Chile
e na Africa occidental, outras no Chile e no Mediterraneo.
Este ultimo caso é o da Thyasira flexuosa, especie
viva e eogena do Chile, que foi observada tambem nos
depositos miocenos da Europa. A especie fossil do Chile
foi chamada por Philippi Th. chilensis, sómente por causa
da localisação tão distante do Mediterraneo. E” indis-
cutivel que o contraste entre as faunas terciaria e a pleisto-
cena do Chile é muito grande, mas isto não quer dizer que
tivesse havido uma transformação brusca da fauna. Segundo
380 —
nossa opinião, todos depositos terciarios, até aqui conhecidos
do Chile, são eogenos e não se conhece ahi depositos
neogenos. Esta cireumstancia é perfeitamente sufficiente
para explicar a grande diferença faunistica, que Philippi
pôz em evidencia, entre os depositos terciarios e post-
terciarios.
Actualmente não conhecemos differenças stratigra-
phicas entre os diversos depositos terciarios do Chile.
Ameghino subdividiu o terciario do Chile em uma camada
antiga, a Lebuveana e uma outra mais moderna, a Vavi-
dadeana. As minhas proprias investigações me condu-
ziram a semelhantes conclusões, mas é preciso confessar
que, para uma distineção exacta, faltam-nos factos con-
cludentes. Em geral o caracter faunistico do terciario do
Chile é muito analogo ao do pan-patagonico: de um
ludo, os elementos antigos da fauna commum chileno-pa-
tagonica consistem em generos eogenos extinctos, como
Lahilha e Aturia e uma proporção bem restricta de
especies viventes; de outro lado, houve uma alteração
radical na composição da fauna, por immigração de
numerosos generos tropicaes.
No terciario do Chile não encontramos representa-
das senão as especies viventes que se seguem:
Nucula pisum Sow.
Leda cuneala Sow.
Brachydontes magellanica Lam.
Mytilus chorus Mol.
Thyasira flexuosa Mont.
Chione antiqua King.
Dosinia ponderosa Gray.
Mesodesma donacium Lam.
Tagelus dombeyi Lam. |
Ensis macha Mol.
Crepidula unguiformis Lam.
Nassa taeniolata Phil.
— 981 —
Acanthina crassilabris Brug.
Acanthina (Chorus) gu 7 Less.
Oliva peruviana Lam.
Trigonostoma tuberculosum Sow.
Todas estas especies foram observadas por Philippi.
Moericke confirmou a existencia das especies indicadas de
Dosinia e Oliva no terciario de Coquimbo e lá encon-
trou especies de Venus, alliadas a V. dombeyi e V.
exalbida, Cumingia aff. mutica e Pectunculus aff. in-
termedius.
Nós não podemos acceitar sem modificações a lista
de especies terciarias de Molluscos do Chile. Philippi
incluiu nella 11 especies do magellanico e 17 especies
de Santa Cruz, que não foram encontradas no Chile. Além
disso, elle descreveu um bom numero de especies, que não
são conhecidas senão por moldes e que, sem duvida, em
grande parte, coincidem com especies descriptas pelas suas
proprias conchas. Como nós não procedemos da mesma ma-
neira, foi preciso supprimir, na lista de Philippi, as es-
pecies descriptas sómente pelos moldes, e cujo numero
sómente para o genero Venus, monta a 21. São pois
pelo menos 49 especies, que se precisa diminuir do nu-
mero total de 461 especies terciarias do Chile, de sorte
que nella não ficam senão 412. Si bem que o numero
se reduza ainda, tambem pelas especies que entram na
synouymia, conservamos, por ora, este numero de 412
especies fosseis, entre as quaes encontramos 16 viventes,
ou 3,8 °/,, quasi 4°/, do numero total.
Na realidade esta proporção deve ser maior, porque
o numero de especies fosseis se reduzirá a menos de 400
especies pelo estudo critico, e porque o numero de es-
pecies viventes deve ser, na realidade, muito maior.
Admittindo-se as 4 especies acima indicadas segundo
Moericke, o numero de especies viventes representadas
nas camadas eocenas do Chile eleva-se a 20, e a pro-
— 382 —
porção seria de 5 (4,7)°/, mais ou menos. Seria então
uma proporção quasi egual á do patagonico, cuja pro-
porção monta mais ou menos a 8°}.
Um exame critico dos Molluscos do terciario do
Chile nos conduz, por consequencia, ao resultado já ob-
tido por Vl. Ameghino e por mim mesmo: a contempo-
raneidade do terciario do Chile com o pan-patagonico da
Patagonia.
Moericke observa, com razão, que os resultados ob-
tidos na Europa pelas investigações geologicas não devem
ser applicados, sem restricção, ás camadas terciarias da
America meridional, onde as mudanças na composição da
fauna têm sido muito consideraveis.
Já Suess explicou bem estes factos. Segundo Phi-
lippi (1. e p. 246), conhece-se no Chile 90 generos de
Molluscos terciarios, dos quaes 40, ou 45°/, não estão
mais representados na fauna actual. Na Patagonia, co-
nhece-se, do pan-patagonico, 98 generos de Molluscos, dos
quaes 39, ou 60º/, não são mais encontrados na fauna
recente deste lugar. O numero de especies eogenas ainda
viventes é de 15 na Patagonia e de 14 no Chile. Vê-se
que as condições faunisticas passaram por modificações
semelhantes no Chile e na Patagonia. Devemos crêr que a
semelhança e a identidade parcial dos elementos destas duas
faunas e a analogia no seu desenvolvimento é o resultado
de uma evolução contemporanea. Nós vemos assim confir-
mada a opinião já externada e sustentada pela maior
parte dos paleontologos, segundo a qual a proporção de
especies viventes não serve para fixar, com segurança, a
edade geologica de differentes depositos terciarios. E” pre-
ciso notar ainda, que as faunas malacologicas da America
meridional são muito mais pobres que as do Oceano
indo-australiano, e que os depositos eogenos da Europa
e da Australia foram tambem muito mais ricos em
especies que os do Chile e da Patagonia. Desde o eoceno,
a fauna marina conservou-se na Patagonia menos alterada
383
que no Chile, pelo menos em relação a um certo nu-
mero de generos caracteristicos, e é preciso tomar em
consideração, estas condições quando se quizer discutir a
edade relativa destas camadas sedimentarias. E” bem pos-
sivel que os depositos eogenos contemporaneos contenham
7°], de especies recentes na Patagonia, 3-—4°/, no Chile,
mas não é admissivel considerar-se miocenos depositos
terciarios que não tenham mais de 3—-5°/, de especies
viventes, sobretudo quando todas as outras considerações,
já explicadas, nos levam á mesma conclusão, quanto
á edade eogena do terciario do Chile.
Segundo todas as probabilidades, estes depositos cor-
respondem, na sua edade, aos do pan-patagonico e per-
tencem, como elle, ao eoceno.
As relações da fauna marina do Chile não são
faceis de discutir, por causa da aasencia de depositos
neogenos e pleistocenos, do Sul deste paiz. Ao tratar da
fauna da Patagonia, já estudamos as relações faunisticas
com a Nova Zelandia, durante o terciario antigo. Cons-
tatámos então, que estas relações eram muito mais pronun-
ciadas entre a Patagonia e a Nova Zelandia, que entre.
esta ilha e o Chile. As especies do terciario do Chile
que se encontram egualmente na Nova Zelandia, são todas
conhecidas tambem na Patagonia, e não ha senão uma
especie, Sigaretus subglobosus Sow. do terciario do
Chile, que se tem indicado tambem do terciario da
Nova Zelandia.
Neste caso, como em muitos outros, eu não duvido
que não se trata senão de uma determinação inexacta e que
a pretendida S. subglobosus, da Nova Zelandia, seja na rea-
lidade uma especie differente, com estrias espiraes mais
finas e delicadas. O genero Sigaretus é extranho á
fauna antiga antarctica, e as especies mencionadas, im-
migraram, segundo todas as probabilidades, para o Chile
e Nova Zelandia, vindos da Thetis. Eu chamo a attenção
aqui, ainda, para a grande concordancia que existe entre
384 —
os Brachiopodes eogenos da Nova Zelandia e os da.
Patagonia, os quaes contrastam consideravelmente com os
Brachiopodes terciarios do Chile. A Nova Zelandia e a
Patagonia se achavam evidentemente ligados por uma
massa continental antarctica, situada mais ou menos na
mesma latitude destes dous paizes, ao passo que a costa
do Chile avançava muito mais para o polo, no seu pro-
longamento meridional, o que tornou dificil a troca de
faunas.
Pelo fim da época terciaria, as condições geogra-
phicas devem ter soffrido uma alteração, que facilitou a
troca dos elementos faunisticos.
Moericke é de parecer que Turbo calderensis Meer.
do terciario do Chile, tenha seus ascendentes mais pro-
ximos, em duas especies viventes da Nova Zelandia,
sobretudo com 7 granosus Mart.
Grzybowski descreveu uma especie de Puncturella,
P. phrygia, do terciario eogeno do Perá; segundo elle,
este genero ter-se-ja retirado para a Nova Zelandia, mas,
que en saiba, não se tem encontrado especies de Punctu-
rella, neste paiz, nem viventes nem fosseis. Não é
possivel se descobrir os caminhos que as especies antar-
cticas da America meridional devam ter percorrido; mas
é certo, que, ao lado destas relações de caracter geral, ha
outras, que demonstram relações intimas entre o Chile e
a Nova Zelandia.
A existencia de Monodonta nigerrima Gm, na
Nova Zelandia e no Chile, é interessante sob este
ponto de vista. Esta especie se encontra tambem no Es-
treito de Magalhães e não na Patagonia; a distribui-
ção de Argobuccinum argus é a mesma.
Ha outras especies da Nova Zelandia, taes como
Modiolarca pusilla e M. trapezina, Laevilitorina ca-
liginosa, Callochiton illuminatus Reeve, que não vivem
senão no Estreito de Magalhães e não no Chile. Pó-
de-se reunir a estas especies Nacella fuegensis, que
— 385 —
Suter indicou das ilhas Macquarie e Campbell, bem como
das ilhas Kerguelen. Abstracçäo feita das especies
cosmopolitas, taes como Saxicava arctica e Mytilus
edulis e das especies abyssaes, como Lasaea miliaris,
temos ainda a registrar as especies seguintes, que são
communs 4 Nova Zelandia e ao Chile: Brachydontes
magellanica, Huthria fuscata Brug. (antarctica Rve.),
Crepidula aculeata e provavelmente tambem - Chione
crassa Qu. e G. Com esta ultima epecie da Nova Zelandia,
parece ser identica Ch. gayi Hupe e, póde ser tambem,
Ch. fueyensis Smith e Ch. agrestis Phil; Nacella ma-
gellanica e Mytilus chorus não vivem na Nova Zelandia.
Estas especies e algumas outras, originarias da re-
gião antarctica, estão em parte dispersadas desde o cabo
Horn para o Norte, sobre as costas do continente ame-
ricano, de maneira que nós as encontramos tanto no
Chile como na costa da Patagonia.
Eis a lista destas especies encontradas nas duas
costas da extremidade austral da America do Sul:
Pleurobranchus patagonicus Orb.
Siphonaria lessoni Bly.
Nacella magellanica Gm.
Euthria fuscata Brug.
Trophon geversianus Pall.
Trophon laciniatus Mart.
Cymbiola spectabilis Gm.
Cymbiola magellanica Gm.
Mytilus edulis L.
Brachydontes magellanica Lam.
Brachydontes purpurata Lam.
Lyonsia chilensis Phil. (patagonica Orb.)
Chione antiqua King.
Saxicava arctica L.
Uma ou outra destas especies não se encontra
no Estreito de Magalhães, como Chione antiqua King.
Segundo sua origem, estas especies da lista precedente
se classificam em diversos grupos. Brachydontes ma-
gellanica e Chione antiqua são, no terciario antigo, as que
estão conservadas até o presente nas duas costas da
America meridional. As especies mencionadas do genero
Trophon e Cymbiola não se encontram no Chile senão
na região mais meridional. Provavelmente estes generos
se extinguiram no Chile na segunda metade do terciario
e ahi foram introduzidos novamente, na época quater-
naria, por migrações vindas do Estreito de Magalhães.
Mytilus edulis e Saxicava arctica são especies muito
antigas, das quaes já tratámos muitas vezes.
Em geral, as especies ennumeradas são immigrantes
modernos, que não se dispersaram nas duas costas da
America meridional, sinão nos tempos post-terciario, e
que são originarios da região antarctica. A estas espe-
cies é preciso provavelmente ajuntar Mactra symetrica
Desh., ou M. petiti Orb., com a qual M. coquimbana
Phil, do pleistoceno de Coquimbo, é synonyma, segundo
a minha opinião.
Ha outras especies, taes como Lima angulata,
Pholas campechiensis e Crepidula unguiformis, que
se encontram tambem nas duas costas da America me-
“ridional, mas mais ao Norte, isto é, no Chile e no Brazil.
São especies de origem tropical, vindas do Norte, quando
a passagem interoceanica da America central estava
aberta.
E assim que nós vemos encontrarem e mistu-
rarem-se elementos faunisticos totalmente differentes, uns
vindos do Norte, outros do Sul e todos os dous espa-
lhados sobre as costas atlanticas e pacificas da America
meridional, por migrações, das quaes nos é possivel co-
nhecer a historia pelo estudo critico dos dados zoogeo-
graphicos e paleontologicos correspondentes.
Um caso instructivo de migrações extensas é o do
genero Mesodesma, uma especie da qual, M. donacium
wT
4
da ds ae À Das à se ão fit dis
387
Lam., vive nas costas do Chile e do Perá, uma outra
no Brazil meridional e no Uruguay. A primeira, que per-
tence ao sub-genero Mesodesma, se encontra no terciario
do Chile, mas não se encontra representantes fosseis
deste genero na Patagonia. A especie do Brazil meri-
dional é M. mactroides Desh., e ella se encontra desde
o Rio Grande do Sul até Santos. Os exemplares da
emboccadura do Rio da Prata são maiores e mais soli-
dos, com a epiderme mais amarella e eu fiz delle uma sub-
especie, M. m. arechavaletar. Esta especie, que eu possuo
tambem de Monte Hermoso, faz parte do sub-genero
Taria, cujas especies, de resto, são restrictas 4 Nova
Zelandia. Trata-se pois de um immigrante antarctico, que
vivia, tambem antes, no Estreito de Magalhães e que
provavelmente foi impellido para o Norte, por influen-
cia da época glacial.
Si bem que a transtormação, pela qual possou a fauna
marina do Chile, após a época terciaria, fosse causada
principalmente pela invasão de numerosos typos antar-
cticos, encontramos tambem immigrantes, vindos do Norte,
nas camadas post-terciarias do Chile e da Bolivia. E lá
que encontramos os primeiros representantes do genero
“Chlorostoma, do qual diversas especies se encontram nos
depositos pliocenos e pleistocenos da California. Saxido-
mus é um outro genero das costas pacificas da America,
do qual uma especie, S. arata Gould, se encontra na
California no estado vivente e nos depositos miocenos e
pliocenos, emquanto que no Chile este genero não se en-
contra senão em depositos quaternarios. E” o caso de
S. rufa Lam. (opaca Sow.), especie que se encontra no
estado vivente no Chile e no Estreito de Magalhães.
Segundo Dall, especies de Saxidomus e de Chlorostoma
são communs, desde o eoceno, ás costas pacificas da Ame-
rica e da Asia. E’ portanto evidente que as especies chi-
lenas de Saxidomus e de Chlorostoma são immigrantes
vindos da America do Norte. Ao contrario, ha tambem
25
— 388 —
generos de Molluscos originarios do Chile, que estão dis-
persados até a California e, pela communicação inter-
oceanica, até as costas atlanticas da America meridional.
Alguns generos de Veneridae, sobretudo Prothaca e
Amrantis, são instructivos neste particular.
Este ultimo genero distribuiu-se não sómente até a
California, mas tambem, pelo canal interoceanico, ás costas
atlanticas da America meridional. |
Esta antiga communicação centro-americana, entre o
Atlantico e o Pacifico, nos explica, emfim, um dos traços
mais singulares da fauna marina do Chile: suas relações
com a fauna da Africa occidental. As especies caracte-
“rísticas, quanto a isto, são sobretudo as seguintes:
Calyptraea trochiformis Gm.
Crepidula dilatata Lam.
Purpura cingulata L.
Cardium ringens Gm.
Ha ainda varias outras especies vivas da fauna do
Chile, que se encontram tambem ao longo das costas occi-
dentaes e meridionaes da Africa, como Crepidula ungut-
formis Lam. e Arca reticulata Gm., mas são especies
de distribuição vasta ou mais ou menos cosmopolita. O
caso é inteiramente differente com as especies acima men-
cionadas, como veremos pela discussão especial.
Calyptraea trochiformis Gm. é mais conhecida sob
o nome de O. radians Lam. e não deve ser confundida
com C. aperta Sol. especie que foi descripta por La-
marek sob o nome de C. trochiformis e O. calyptraeformas.
O. trochiformis Gm. é conhecida tambem sob o
nome de ©. araucana Less. mas C. araucana Philippi
(I. ec. 1887 p. 87) é uma especie differente, para a qual
proponho o nome de C. levuana n. n.
C. spirata (Forbes) Rve. da California, é tambem
um synonymo de ©. trochiformis Gm. Esta especie é
conhecida do Chile, do Perá, da California, da Guiné, de
— 389 —
S. Vicente e do Cabo Verde. Dunker foi o primeiro a
communicar este facto; Dautzenberg e Fischer o confir-
maram em 1906. Não se conhece esta especie do ter-
ciario da America do Norte, mas eu a possuo do plioceno
de Mossamedes. No Chile ella não foi encontrada senão
em depositos pleistocenos.
Crepidula dilatata Lam. é uma especie do Chile
e do districto magellanico, para o qual se applicou tambem
o nome de Cr. peruviana Lam. pallida Brod. e sub-
dilatata Roch. e Mab. Na descripção de Molluscos da
Guiné, Dunker a indicou de Loanda, Africa occidental.
Esta especie não é tambem encontrada no Chile senão
nos depositos pleistocenos. Não se a encontra fossil na
America do Norte.
Purpura cingulata L. é uma especie vivente de
Natal e do Cabo de Bôa Esperança, da qual Philippi
diz (1 c. p. 54) que ella não vive no Estreito de Ma-
galhães, mas na costa do Chile e que elle a recebeu de
depositos quaternarios de Coquimbo.
Cardium ringens. Gm. No estado vivo esta especie.
não é conhecida senão da Africa occidental, mas ella foi
encontrada fossil em « Mejillones, Bolivia », segundo Phi-
lippi (1. e. p. 173). Esta especie não foi mais encontrada
fossil na America septentrional.
Estes factos, que demonstram as relações faunisticas
entre as costas occidentaes da Africa e da America me-
ridional, parecem, á primeira vista, pasmosos, mas, na
realidade não o são, pois que a communicação inter-
oceanica da America central explica perfeitamente estas
migrações, que tiveram lugar ao longo da costa septen-
trional de Archhelenis. Entre os Molluscos que tinham
tal distribuição, alguns estão extinctos na Africa ou na
America, e outros, que existem ainda, estão conservados
em estado vivo, seja nas Antilhas e no Brazil, seja na
costa occidental da America do Sul. Muitos generos da
costa septentrional da Archhelenis não se espalharam até
— 390 —
a America do Norte. Todas estas circumstancias se com-
prehendem facilmente; mas ha um ponto incomprelensivel,
que é a apparição destas especies nas costas do Chile e
do Perû na época post-terciaria, ao passo que se os deveria
encontrar no terciario, pois que a communicação entre os
dous oceanos foi interrompida já durante o mioceno. Como
resolver esta contradicção? Qual seria a distribuição de
terras e mares nesta região durante a segunda metade do
terciario, e haveria ahi uma barreira que impedisse mi-
gerações de Molluscos littoraes para o Sul?
A este respeito é singular que especies de Amiantis,
Acanthina e Chorus não appareçam na California
senão no pleistoceno e que especies de Chlorostoma e de
Saxidomus não sejam encontradas no Chile senão em
depositos da mesma época. Quanto ao Chile, é bem pos-
sivel que estas especies, tomadas agora por post-terciarias,
por causa de sua primeira apparição, ahi fossem já re-
presentadas na segunda metade do terciario, pois que, no
meu modo de pensar, não se conhece camadas neogenas
do Chile. Entretanto é possivel que certos depositos
« pleistocenos » do Chile sejam na realidade pliocenos,
porque a relação de especies extinctas é muito elevada
em alguns delles. |
E” assim, por exemplo, que esta relação é de 28º),
para os depositos de Cahuil e de 32º/, para os de Me-
jillones.
Eu me limito aqui a levantar a questão, mas para
se a resolver, as observações geologicas feitas até aqui não
me parecem sufficientes. Com effeito, segundo a minha opi-
nião, não ha capitulo mais intricado para a zoogeographia
marina, a paleontologia e a geologia do terciario da Ame-
rica do que a historia da costa pacifica deste continente.
Por estes factos expostos, não é difficil de se pro-
ceder a um exame analvtico da fauna actual do Chile.
Nós ahi distinguimos os elementos faunisticos seguintes:
— 391 —
1. Generos que são representados no Chile desde
o terciario antigo. Na secção deste capitulo, dedicada á
fauna da Patagonia, dei a daquelles generos que eram
communs ao terciario do Chile e da Patagonia.
Entre as especies viventes do Chile Nucula pisum
Sow. Leda cuneata Sow., Brachydontes magellanica,
Mytilus chorus e Chione antiqua, pertencem a este
grupo. Mencionamos ainda Turritella cingulata, que é o
descendente de uma especie eogena e cretacea, 7. chilensis.
O numero total de especies de Molluscos marinos do
Chile é de 260, segundo Pbilippi, mas o numero de especies
relacionadas com a antiga fauna chileno-patagonica não
passa de umas vinte especies.
2. Elementos da antiga fauna terciaria emigrados
do Norte, ao longo das costas da Archhelenis. A maior
parte destes generos extinguiram-se nas costas do Chile,
mas nós encontramos ahi, ainda, entre as especies viven-
tes: Oliva peruviana, Chorus giganteus, Acanthina
crassilabris, Nassa taeniolata, Crepidula unguiformas,
Dosinia ponderosa, Ensis macha, Tagelus dombeyi, etc.
3. Elementos tropicaes vindos do Norte, por uma
migração neogena, ao longo das costas da Archhelenis.
A este grupo pertencem as quatro especies mais acima
indicadas, cuja distribuição é limitada ás costas do Chile
e da Africa occidental, e que são Calyptraea trochiformis
Gm. Crepidula dilatata Lam. Purpura cingulata L,
Cardium ringens Gm. Pode ser que tambem pertençam
a este grupo, ou ao seguinte, as especies do genero Fis-
surella, para a historia do qual os dados paleontologicos
necessarios nos faltam presentemente. O mesmo se dá
para o genero Mulinia. |
4. Elementos da fauna californiana, emigrados para
o Chile pelo fim do terciario ou depois desta época. À
esta categoria pertencem as especies dos generos Saxi-
domus, Scurria, Acmaea, Chlorostoma e os Argobuc-
cinum do sub-genero Fusitriton. A historia destes ge-
— 392 —
neros nos é explicada pela paleontologia dos Molluscos
marinos da California e do Japão.
5. Elementos da fauna antarctica emigrados para
o Chile pelo fim do terciario, ou depois. Devemos aqui
mencionar especies de distribuição abyssal mais ou menos
cosmopolita, taes como Mytilus edulis, Saxicava arctica
e outras, que são restrictas 4 parte meridional do bemis-
pherio austral. Temos aqui a mencionar Modiolarca, Si-
phonaria, Nacella, Monodonta e Argobuccinum s. str.
Para alguns destes generos, não podemos constatar senão
relações antarcticas, mas para outros, como Monodonta
nigerrima, estas relações nos indicam directamente a Nova
Zelandia, pois que estas especies não se encontram nem
na Patagonia, nem no Cabo da Bôa Esperança.
6. Emfim, elementos da fauna patagonica immi-
grados no Chile, depois da época terciaria, pelo Estreito
de Magalhães. Quanto a estes, mencionaremos: Trophon
laciniatus, Tr. geversianus, Cymbiola spectabilis e C.
magellanica, especies que, no Chile, não se encontram
senão na parte meridional.
*
* *
Vê-se que não é senão com o auxilio da paleon-
tologia que nós podemos constatar o caminho que os
diversos generos e especies percorreram nas suas migra-
ções. E” assim que as Nacella da familia das Patellidae
são de origem antarctica, emquanto que as especies de
Scurria e Acmaea são procedentes da California. No
genero Argobuccinum ha dous sub-generos, dos quaes um
se distribuiu pela região antarctica e outro ao: longo das
costas pacificas da America. Neste ultimo caso encontra-
mos as duas variedades da unica especie Argobuccinum
cancellatum, restricta ás partes mais meridionaes e sep-
tentrionaes da costa pacifica da America, e a mesma ob-
servação se applica á maior parte dos outros generos da
os
393 —
costa chilena, que são originarios da California. Trata-se
pois, de generos vindos da zona tropical, que se adaptaram
aos mares temperados ou frios dos dous hemispherios.
Por consequencia a fauna do Chile passou por modifica-
ções muito importantes, depois do terciario antigo; nesta
época a temperatura do mar era muito elevada, ao passo
que em nossos dias ella é mais baixa do que deveria
ser, correspondentemente a sua latitude geographica.
Uma observação, enfim, sobre o clima do terciario
antigo do Chile. Philippi diz que a temperatura do mar
não parece ter sido muito differente da actual, por causa
do caracter dos Molluscos marinos. Não Fee reco-
nhece que se encontra, nos depositos terciarios do Chile,
um certo numero de generos proprios ás regiões tropi-
caes, taes como Conus, Cypraea, Terebra, Cr enatula,
Anatina, Melina e outros.
E” verdade que se não encontra, nos depositos ter-
ciarios do Chile, especies de Harpa, Pterocera, Tri-
dacna, etc., mas não se deve esperar encontrar no Chile
generos que são essencialmente proprios á região indica.
Por causa de circumstancias especiaes da região chilena,
está fóra de duvida que então a temperatura do mar era lá
mais elevada do que no presente, na primeira metade
do terciario, assim como na Patagonia.
D.—-Historia da fauna marina do Brazil
Como já dissemos na introducçäo deste capitulo,
o Brazil é um dos paizes mais antigos do mundo. O
mar não cobria senão uma parte deste paiz, durante o
devoniano. Mais tarde, durante o cretaceo superior, o
oceano occupou uma faixa estreita do littoral do Brazil
septentrional, deixando ahi numerosos depositos de Mol-
luscos marinos. A ausencia completa, nas costas do Brazil,
de camadas terciarias marinas fossiliteras, nos faz vér que,
após a transgressão cretacea do mar, houve ahi regres-
394 —
são do oceano, de sorte que a costa terciaria desta parte
do Brazil ficava situada mais para Este.
No Brazil meridional, desde o Espirito Santo até
a Argentina, o caracter da costa é bem differente, e não
se encontra ahi vestígio algum de depositos cretaceos ou
terciarios. Esta parte do Brazil estava em relação con-
tinua com a Africa, não sómente durante a época se-
cundaria, mas tam bete durante o terciario antigo.
Resulta dahi que este antigo continente, formado
pela Africa, a America meridional e as terras que as
reuniam, isto é a Archhelenis, separava dous mares: um
tropical, a Thetis, e um outro austral, para o qual pro-
ponho o nome de Nereis. Si estas conclusões são cor-
rectas, como sendo o resultado de investigações geo-
logicas e zoogeographicas, é evidente que o caracter das
duas faunas marinas, que se estendiam ao Norte e ao
Sul deste continente antigo, deve ter sido completamente
differente, e é justamente o que os factos paleontologicos
nos demonstram. Ao Norte do Brazil, assim como tambem
na Patagonia, se encontram depositos marinos perten-
centes ao cretaceo superior; mas suas faunas são com-
pletamente differentes.
O genero Tylostoma, que eu suppunha antigamente
representado tambem no cretaceo da Patagonia, ahi não
existe e as especies de Molluscos do cretaceo superior
do Brazil e da Patagonia differem entre si.
Segundo Ch. White, a fauna cretacea do Brazil
estabelece relações intimas com o cretaceo da Europa e
das Indias orientaes.
Em geral as especies cretaceas de Molluscos do
Brazil lhe são proprias. White descreveu apenas umas
doze especies já conhecidas, que se encontram, todas,
tambem na Europa e ao Sul das Indias orientaes, com
excepção de uma, Tri igonva subcrenulata Orb., descripta
do Chile. Este facto é bastante singular. Comprehende-
se facilmente que as faunas marinas cretaceas e eovenas
— 395 —
eram completamente differentes ao Norte e ao Sul da
Archhelenis, mas não se poderia comprehender porque os
Molluscos marinos do Norte da Archhelenis não pude-
ram attingir as costas do Perá e do Chile, si as con-
dições geographicas eram as mesmas como na primeira
metade do terciario. A fauna cretacea do Chile é muito
differente da do Norte do Brazil, emquanto que a fauna
eogena recebeu grande numero de immigrantes da Thetis
e, si durante o cretaceo esta troca de faunas não foi
realisada, é evidentemente devido a uma barreira, que
impedia as migrações de animaes marinos.
Póde ser que a America central estivesse ainda
prolongada, a Oeste, até as ilhas Sandwich. Em todo
caso, havia entre o cretaceo e o terciario modificações
na distribuição de terras e de mares, que eee as
migrações de animaes marinos.
As condigdes geraes das faunas marinas, ao Norte
e ao Sul da Archhelenis, devem ter sido as mesmas
tambem durante o terciario antigo. Nós não conhecemos
delle depositos no Brazil septentrional, mas sim nas An-
tilhas e na America do Norte e a fauna destes de-
positos é completamente differente da da Patagonia. Os
Molluscos marinos eogenos da Patagonia estabelecem
relações mais estreitas com a Nova Zelandia e a Europa
do que com a America septentrional e central. A tem-
peratura do mar eogeno da Patagonia fôra assáz elevada;
poderia-se então suppor que as faunas eogenas da Ame-
rica central e meridional tivessem podido se confundir
com a mesma facilidade, ou mesmo mais ainda, do que
ellas o teriam feito durante e depois da segunda metade
da época terciaria.
Si os factos nos mostram o contrario, e si as faunas
marinas eogenas das partes septentrionaes e meridionaes
da America são mais differentes entre si, do que com re-
lação a qualquer outra região do globo, é evidente que
havia uma barreira, que impedia a troca das faunas mari-
— 396 —
nas do Norte e do Sul da America. Esta barreira era
a Archhelenis e eu creio que a theoria deste antigo
continente póde ser considerada como definitivamente
provada.
As faunas eogenas marinas da America do Norte
e da Patagonia são completamente differentes, e não é
senão na formação entreriana que se encontra elementos
da fauna terciaria das Antilhas e da Florida. Nas cama-
das miocenas do Paraná, na Argentina, ao lado de espe-
cies do pan-patagonico, encontra-se outras que são
originarias da região tropical da America. Alguns destes
generos emigrados do Norte, estão ainda hoje represen-
tados nas costas da Argentina, taes como Columbella,
Marginella, Olivancillaria, Amiantis, Tivela e Tagelus,
emquanto que outras, como Rissoa, Littorina, Strom-
bus, Turbinella e Anomalocardia, são restrictas, na sua
distribuição actual, ás Antilhas e ao Brazil. A’ medida
que a Archhelenis desapparecia, as faunas marinas visi-
nhas occupavam as novas costas, mas foi sobretudo a
fauna da Thetis que se estabeleceu nas costas do Brazil.
Comprehende-se assim porque não se encontra um ele-
mento taunistico proprio ás costas do Brazil, excepto al-
gumas especies de distribuição outr'ora mais vasta, que
não se conservaram senão nas costas deste paiz. Segundo
estas diversas modificações na sua distribuição, temos de
distinguir differentes grupos faunisticos, dos quaes vamos
falar, começando pela grande secção de especies origi-
narias do mar tropical Thetis.
1) Molluscos do Brazil provenientes do Norte,
isto é, da Thetis.—Entre as diversas subdivisões desta
secção a mais importante é, sem duvida, a seguinte:
a) Especies cuja distribuição actual se estende
do Brazil até us Antilhas e a America do Norte. —
Entre 531 especies de Molluscos marinos, que conheço
até hoje das costas do Brazil, 356, ou 67 %, pertencem a
esta subdivisão. Um grande numero destas especies se
TRES
encontravam j4, fosseis, ao Sul da America septentrional
e sobretudo na Florida, como se póde constatar exami-
nando-se a grande monographia de Dall.
b) Especies do Brazil que não se encontram nas
Antilhas, na Florida, etc., mas que reapparecem na
costa pacifica da America central. — Muitas especies
da subdivisão precedente vivem nas duas costas da Ame-
rica central, facto bem conhecido, que se explica pela
franca communicação, que existia entre os dous mares,
durante a época terciaria antiga até o mioceno, mas se-
parados hoje pelo isthmo central-americano. Por isto é
natural que estas especies do Brazil se encontrem tam-
bem na California, no Panamá, no Perá e mesmo no
Chile. E’ o caso, por exemplo, das especies seguintes,
que se encontram tambem nas Antilhas e na Florida:
Mytilus edulis L.
Arca noae L.
Chione cardioides Lam.
Heterodonax bimuculata L.
Tagelus gibbus Spengl.
Sanguinolaria operculata Gm.
Sanguinolaria rossea Lam.
Tellina interrupta Wood.
Verticordia ornata Orb.
Saxicava aretica L.
Purpura patula L.
Lanthina exigua Lam.
Lotorium tuberosum Lam.
Cypraea exanthema L.
Lacuna tenella Jeffr.
Com excepção das especies de Mytilus e de Saxi-
cava, cuja distribuição é essencialmente bipolar e que
-attingiram o Brazil meridional por via de migrações ao
longo da corte patagonica, estas especies pertencem todas
á fauna tropical.
398 —
Em outros casos os representantes pacificos de es-
pecies atlanticas, que eram anteriormente de vasta distri-
buição, estão mais ou menos modificados, e elles são
- considerados como especies alliadas por alguns auctores, e
como subespecies, por outros.
Não é entretanto a estas especies de vasta distri-
buição ás quaes aqui me refiro, mas a certas especies
brazileiras, que faltam nas Antilhas e na America do
Norte e que reapparecem nas costas pacificas da Ame-
rica Central. Provavelmente todas estas especies não esti-
ram jamais representadas nas Antilhas ou na Florida, mas
dispersaram-se ao longo da costa oriental da America
do Sul, até a communicação interoceanica, ganhando assim
as costas pacificas. "Trata-se pois de migrações eogenas,
e não é possivel comprehender-se a distribuição geogra-
phica destas especies, sem se recorrer á distribuição de
terras e de mares, taes como eram durante a primeira
metade da época terciaria As especies, ás quaes me
refiro, são as seguintes: |
Modiolus guyanensis Lam. Não se conhece esta
especie senão das costas do Bsazil, desde S. Catharina
até o Pará, assim como das Guyanas e da Venezuela. Na
costa pacifica esta especie é encontrada no Panamá e
no Mexico.
Phacoides childreni Gray. Wana especie do Brazil
septentrional, que tambem foi indicada da California. M.
M. Dall, a quem cedi a metade de um bello exemplar de
Pernambuco, propoz um novo nome para a especie da
California, o de Ph. chantusi. Por minha parte não
considero este representante pacifico senão como uma
subspecie, cujo nome seria por conseguinte: Ph. children
chantusi Dall.
Sanguinolaria operculata Gm. Especie do Brazil e
da America central, que falta nas Antilhas, e que é re-
presentada na costa pacifica da America central por 8.
operculatu hanleyr Bert.
-— 399 —
Mactra alata Spengl. Vive sobre as costas do
Brazil, desde Santa Catharina até a Bahia. Encontra-se
tambem na costa pacifica da America central e da Ca-
lifornia, onde recebeu o nome de M. subala Meerch.
M. exoleta Gray, de Panamá, é tambem uma especie
muito alliada. O sub-genero Mactrella do qual fazem
parte todas estas especies, não é representado na fauna
da America do Norte, nem vivo nem fossil.
Neomphalius viridulus Gm. E uma especie com-
mum ás costas orientaes da America do Sul, desde Sta.
Catharina até Costa Rica; ella se encontra tambem na
costa occidental da America central, mas não na Flo-
rida e nem nas Antilhas.
c) species do Brazil que se encontram tambem
na costa occidental da Africa.
Examinando-se a distribuição dos Molluscos marinos
da Africa occidental, que se encontram tambem nas costas
atlanticas da America, constatamos uma grande diver-
sidade na sua distribuição sobre as costas americanas.
Conhecem-se especies da Africa occidental, que vivem
tambem nas Antilhas, mas não na America meridional ; |
taes são:
Melina perna L.
Cardium isocardia L.
Petricola typica Jon.
Tellina radiata L.
Livona pica L.
Nerita versicolor Lam.
Tectarius muricatus L.
Turritella exoleta L.
Mesalia. caribaea Orb.
Murex messorvus Rye.
Columbella cribraria Lam.
Volvaria avena Val.
A estas especies se juntam algumas outras da Ame-
rica central ou do Norte da America meridional, que eu
2 Age ae
não sei si se encontram tambem nas Antilhas, taes como:
Cypraea picta Gray, da Venezuela, Purpura coronata
Lam., de Guatemala e Conus flammeus, de Honduras.
As especies seguintes, que são communs ás Anti-
lhas e á costa occidental da Africa, vivem tambem no
Mediterraneo: Pinna rudis L., Natica maroccana Dillw.
Natica sagraiana Orb., Cœcum glabrum Mont, Pit-
tum lima Brug, Columbelia levigata L.
O numero de especies distribuidas desde o Brazil
até as Antilhas e a Florida e que se encontram tambem
na costa occidental da Africa, é bem consideravel. Eu
dou a lista dellas, que comprehendem 54 especies. Al-
gumas não são conhecidas senão da Jha da Madeira,
Açores, Canarias, do Cabo Verde e de Santa Helena;
mas eu não duvido que, pela maior parte, sejam ellas
ainda encontradas na costa occidental da Africa, que está
ainda pouco explorada. E” por esta razão que ennumero
as localidades africanas de onde eu as conheço.
LISTA DAS ESPECIES DA AFRICA OCCIDENTAL, QUE
SE ENCONTRAM TAMBEM NO BRAZIL E NAS AN-
TILHAS:
Ostrea parasitica Gm. Africa occidental
Myochlamys gibba L. Africa occidental
Pteria colymbus Bolt. Cabo Verde, Guiné
Arca umbonata Lam. São Vicente, Guiné
Arca now L. Sao Vicente
Codakia orbiculata Mont. Senegambia
Cardium semisulcatum Sow. Africa meridional
Cardiwm spinosum Meusch. Guiné
Cardium serratum L. Guiné
Petricola robusta Sow. Africa meridional
Petricola pholadiformis
Lam. Guiné
Macrocallista maculata L. Guiné, Senegaruia
Pitar circeinatum Born. Guiné
— 401 —
Tagelus gibbus Spengl.
Donax rugosa L.
Tellina exrilis Lam.
Semele reticulata Gm.
Mactra fragilis Gm.
Saxicava arctica L.
Spirula peroni Lam.
Tanthina communis Lam.
Tanthina exigua Lam.
Amalthea antiquata L.
Crepidula aculeata Gm.
Crepidula fornicata L.
Cheilea equestris L.
Polynices lactea Guild.
Polynices porcellana Orb.
Lattorina flava Brod.
Cerithium atratum Born.
Strombus bubonius Lam.
Cypraea spurca L.
Cypraea lurida L.
Dolium perdix L.
Cassis tuberosa Lam.
Cassis testiculus L.
Lotorium costatum Born.
Lotorium pileare Lam.
Lotorium testaceum Moerch.
Lotorium tritonis L.
Buffo ponderosa Rye.
Purpura helene Quoy.
Africa occidental
Africa occidental (elongata
Lam.)
Africa occidental
Guiné, Santa Helena
Guiné
Senegambia
Africa occidental
Cabo Verde, Cabo da Boa
Esperança, Santa Helena
Cabo da Boa Esperança,
- Santa Helena
Senegambia, Santa Helena
Cabo da Bôa Esperança
Senegambia
Africa occidental
Cabo Verde, Canarias
Madeira
Cabo da Boa Esperança
(africana Krauss, segundo
Weinkauff)
Guiné
Cabo Verde, Senegambia
Africa occidental, Sta. Helena
Ascensão, Cabo Verde, Sta.
Helena
Senegambia, Guiné
Cabo Verde
Africa occidental
Cabo da Bôa Esperança, Ca-
narias, Sta. Helena
Cabo da Boa Esperança
Cabo Verde, Africa occid.
Cabo Verde, Sta. Helena
Cabo Verde
Cabo Verde, Ascensão
— 402 —
Purpura hemastoma L.
Ocinebra haneti Petit.
Murex pomum Gm.
Pollia variegata Gray
Columbella dichroa Sow.
Leucozoma cingulifera Lam.
Hemifusus moro L.
Marginella prunum Gm.
Terebra cinerea Born. .
Conus verrucosus Hwass.
Hydatina physis L.
Bulla striata Brug.
Guiné
Senegambia ( fasciata
Sow.)
Africa occidental
Cabo Verde, Senegam-
bia, Guiné
Cabo Verde
Africa occidental
Senegambia
Senegambia
Africa occidental
Africa occidental
Cabo da Bôa Esperança
Senegambia (adansont).
As especies seguintes não são conhecidas senão
das costas do Brazil e da Africa occidental, mas não
das Antilhas.
Mytilus perna L.
Chama senegalensis L.
Callocardia albida Dall
Macoma aurora Hanley
Corbula sulcata Lam.
Argonauta tuberculata Shaw
Fissuridea fumata Rye.
Nerita ascensionis Gm.
Amathea grayana Menke
Brazil, Venez. Afr. occid.
Seneg. Bahia
R. de v. Ian. Sierra Leona
(como ©. a Adamsi).
Afr. oceid., Calif, Pana-
ma, Brazil (como vari-
edade cleryana Orb,)
R. de Jan., Seneg.
Afr. mer., Nova Zel.,
São Paulo
S. Paulo, Pernambuco,
Cabo da B. Esp.
Guiné, Fernando de No-
ronha, Ascen.
Fern. de Noronha, Pana-
má, Sta. Helena, Afr.
oceid., ilhas de Sand-
wish
— 403 —
Crepidula hepatica Desh. Punta San Ant, Pat,
Afr. occid., Panamá.
Calyptraea chinensis L. Sta. Cath, Afr. occid.,
Eur., Asia, Estreito
de Magagalhães
Fossarus pusillus Gould R. de Jan, Liber.
Fossarus ambiguus L. Fern. Nor. Seneg., Medit
Cassis pyrum Lam. R. Grande do Sul, Cabo
Verde, Nat, Nova
Zel., Indo-austr.
Murex turbinatus Lam. Tener. Afr. oce.. Sta.
Cath.
Murex senegalensis Gm. Seneg, Sta. Cath, R.
ae ae
Voluta hebraea L. Afr. oce, R. de Jan,
Alagoas.
Fasciolaria aurantiaca Lam. Bahia, Alag., Per, Ma-
celó, Cabo da B. Es-
perança (como pur-
purata Jon.).
* Reunindo-se as 18 especies desta lista ás 54, que
tambem se encontram nas Antilhas, temos 72 especies
de molluscos marinos do Brazil, ou 14% do numero to-
tal, que se encontram tambem nas costas da Africa oc-
cidental e ilhas adjacentes. Minha lista de molluscos
do Brazil comprehende agora 581 especies.
d) Especies do Brazil, não encontradas na costa
occidental da Africa e que reapparecem no Mediter-
raneo ou no Oceano Indico.— Um facto assaz surprehen-
dente é a presença de Aporrhais pes-pelecani L., especie
commum da Europa, nas costas do Brazil meridional.
Quando pela primeira vez recebi esta especie de Iguape,
no Sul do Estado de São Paulo, acreditei que tivesse
sido um engano de proveniencia. Mas um coleccionador
do Museu Paulista a obteve, mais tarde, de Paranaguá,
Estado do Paraná, e o Dr. Florentino Felippone m'a
26
— 404 —
enviou de Maldonado. Esta especie é, aliás, de avançada
edade geologica, pois que ella é encontrada nas camadas
oligocenas de Mainz, Allemanha, e uma especie parecida,
A. araucana Phil, se encontra no terciario do Chile.
Uma outra surpreza, que me trouxe a mesma loca-
lidade de Paranaguá, foi para mim a descoberta de
Terebra flammea Lam, especie da China e das Indias
orientaes, da qual obtive dous exemplares da costa do
Paraná, um recente e outra pleistoceno, do Sambaqui
de Boguassá.
Conhece-se, não sómente diversas especies de vas-
ta distribuição, que se encontram nas costas do Bra-
zil e no Oceano Indico, como Capulus intortus Lam,
da ilha Mauricia, Martesia striata L. das Philippinas
e do Japão, etc, mas tambem numerosas especies do
Brazil e das Antilhas, que não se encontram senão no
Oceano Indico. E’ o caso de ZLotorium tuberosum Lam.
Lotorium cynocephalum Lam. Lotorium chlorostomum
Lam. Marginella angustata Sow., Rissoina chesnelii
Michaud, Stomatella nigra Quoy, Murex microphyllus
Lam., Fusus distans Lam., Fusus verrucosus Wood.
Até agora tem-se, em geral, ensaiado explicar todos
estes casos de uma distribuição descontinua pela hypo-
these de migrações de larvas destes molluscos, hypo-
these que não vale a pena discutir-se, sobretudo porque
ha especies do Brazil e outras das Antilhas, que reap-
parecem nas localidades as mais distinctas do Oceano
Indico. Segundo tudo que vimos de constatar neste
estudo, estes casos de vasta distribuição se referem todos
a molluscos de alta edade zoologica, que antes estavam
dispersados em quasi toda a extenção da Thetis e que
não -se conservaram, até nossos dias, senão em algumas
partes da vasta região que occupavam antigamente. Na
realidade o numero destas especies tropicaes, de distri-
buição tão vasta, é maior do que se suppõe, não só-
mente porque, em muitos casos,- especies identicas foram
— 405 —
descriptas sob nomes differentes, mas tambem porque ha
especies analogas ou correspondentes, que deveriam, pro-
vavelmente, ser distinguidas como subspecies de uma
unica especie, quasi cosmopolita, como é o caso de di-
versas Arca, Anomalocardia, e outras.
e) Especies proprias ás costas do Brazil, deri-
vadas da fauna das Antilhas. Nós encontramos, tanto
na costa septentrional do Brazil, como na meridional,
especies que se não encontram senão nestas regiões, mas
que pertencem a generos bem representados nas regiões
visinhas. Na costa do Brazil septentrional até o Rio
de Janeiro, e mesmo ao Norte de $. Paulo encontra-se
ainda grandes especies, e mesmo colossaes, de Cassis,
Lotorium, Strombus, etc. e numerosos representantes de
“Latirus, Fusus, Mactra, ete.
Mactra alata Spengl., Calcar olfersi Trosch., Pla-
naxis brasiliana Lam. Persicula sagittata Hinds., An-
ella lienardi Bern, Marginella bullata Born. e ou-
tras especies deste genero, servem, junto com muitas outras,
para dar um caracter especial a esta fauna, sobretudo:
por causa de especies da Africa occidental, que reappa-
recem na costa atlantica da America, sendo restrictas
ao Brazil, como certas especies de Nerita, Fossarus,
Purpura Murex, Chama, etc. ‘Todas estas especies, sem
excepção, estão intimamente ligadas 4 fauna tropical do
Atlantico, representando especies de distribuição outrora
mais vasta, que são agora restrictas ás costas do Brazil.
As especies proprias do Brazil meridional, desde o
Rio de Janeiro até o Rio Negro, na Patagonia, perten-
cem tambem, em grande parte, a generos originarios das
Antilhas e circumvisinhanças, taes como Tivela ventri-
cosa e outras especies do mesmo genero, Mactra 1he-
ringi, numerosas especies de Columbella, Leucozonia,
etc, ás quaes se juntam as que faltam nas costas das
Antilhas e da Venezuela, mas que reapparecem na costa
— 406 —
occidental da Africa, como Cassis pyrum, Murex tur-
binatus, Murex senegalensis, Ocinebra haneti e outras.
2) Molluscos do Brazil, provenientes do Sul, seja
da Nereis, seja da parte austral do Atlantico. Em-
quanto que as especies tropicaes das Antilhas e do Nor-
te do Brazil são restringias, na sua distribuição, ás
costas do Brazil e da Argentina ao Norte do Rio Ne-
gro, ha outras que são proprias á Patagonia e que se
encontram tambem no Brazil meridional até São Paulo
e Rio de Janeiro. Ha mesmo algumas, como Pandora
brasiliensis Gould, Solen poirieri Roch. e Mab., Solen
tehuelchus Orb., Chaetopleura asabellei Orb., Ischno-
chiton pruinosus Gould, que se encontram desde o Es-
treito de Magalhães até São Paulo. Cymbiola magel-
lanica vive desde o Estreito de Magalhães até o Rio
Grande do Sul. Myochlamys paranensis tehuelcha e
Bullia cochlidium são distribuidas desde Puerto Madryn,
na Patagonia, até o Rio de Janeiro. Esta mistura de
typos tropicaes e patagonicos é um dos traços caracte-
risticos da fauna marina do Brazil meridional. A maior
parte das fórmas caracteristicas da fauna magellanica não
se estende sobre a costa da Patagonia senão até o Rio
Negro, mas, em alguns generos, houve uma separação
de especies, segundo a temperatura do mar, de maneira
que algumas se conservaram na fauna magellanica, outras
sobre as costas da Patagonia, e outras nas da Argentina
ao Norte do Rio Negro e no Brazil meridional.
E assim que Cymbiola ferussaci Don. é restricta
ao Estreito de Magalhães, emquanto que O. spectabilis
Gm. (ancilla Sol.), C. magellanica Gm. e C. tuberculata
Wood, são distribuidas desde o Estreite de Magalhães
até o Rio da Prata e mesmo até o Rio Grande do Sul.
C. brasiliana Sol. e C. fusiformis Kien. se encon-
tram desde o Rio Negro até o Rio Grande do Sul, e
uma especie, ©. angulata Sws., se estende mesmo desde
o Rio Negro até o Rio de Janeiro.
— 407 —
A distribuição do genero Bullia é quasi a mesma,
pois que ha especies restrictas ao destricto magellanico,
como B. squalida King. (Estreito de Magalhães até
San Julian), outras da costa da Patagonia e da Ar-
gentina e duas especie, B. cochlidium e B. armata, que
são distribuidas desde o Norte da Patagonia até o Rio
de Janeiro.
Evidentemente o abaixamento da temperatura do
mar, que teve logar nesta região pelo fim da época ter-
ciaria, e depois desta época, influiu sobre o habitat desses
Molluscos, que se adaptaram, em parte, ás novas condições
physicas, e que em parte emigraram para o Norte. Em
geral, encontramos precursores destes Molluscos nas ca-
madas terciarias da Argentina, mas ha tambem delles que
não chegaram á Patagonia senão na época pleistocena e
dos quaes não se tem encontrado representantes fosseis.
E o que succede com Mesodesma mactroides Desh., es-
pecie da região antarctica, que é hoje commum nas praias
arenosas do Brazil meridional, desde a emboccadura do
Rio da Prata até Santos.
Temos a distinguir, segundo sua historia, diversos:
erupos de Molluscos do Brazil meridional.
a) species derivadas da fauna eogena da Pa-
tagonia. Sobre este ponto temos a mencionar as especies
seguintes, todas conhecidas do pan-patagonico e das quaes
dou, entre parenthesis, a distribuição geographica actual,
Cymbiola fusiformis Kien. (Bahia Blanca, Rio
Grande do Sul).
Nucula semiornata Orb. (Rio Negro, São Paulo,
Antilhas ).
Crenella divaricata Orb. (Rio Negro, Antilhas,
Panamá).
Diplodontae villardeboæna Orb. (Rio Negro, Rio
de Janeiro ).
Mactra symetrica Desh. (Santa Catharina, Rio de
Janeiro ).
408 —
Conhecemos os precursores, da formação patagonica,
de algumas outras especies; é assim que Cymbiola
ameghinor Ih. é o precursor de C. brasiliana Sol. da
Argentina e do Rio Grande do Sul.
Naturalmente não é possivel demonstrar todas as
fórmas intermediarias de cada especie, mas, em um grande
numero de casos, a analogia de fórmas alliadas permitte
chegar a conclusões exactas, e esta questão encontra-se
discutida, para os diversos generos e especies, no quinto
capitulo do meu livro: «Les Mollusques fossiles»
b) Especres originarias da fauna miocena da
Argentina, tal como esta se nos apresenta na for-
mação entreriana. Como já expliquei, encontramos nas
camadas de Entrerios, ao lado de generos e de especies
conhecidas da formação patagonica, outros elementos fau-
nisticos que são relacionados á fauna tropical da Thetis,
signal da existencia do oceano Atlantico, nesta época:
Entre as especies ainda viventes da formação entreriana,
uma dellas, Cardium robustum Sol, não se encontra
hoje senão nas Antilhas; uma outra, Tivela fulminata
Phil, é hoje restricta ao Brazil meridional, desde Santa
Catharina até São Paulo, e todas as outras ainda são
encontradas vivas nas costas da Argentina e do Brazil
meridional. Myochlamys paranensis, Diplodonta villar-
deboena, Amiantis purpurata, Tagelus gibbus e Bar-
nea lanceolata são especies da formação entreriana, que
vivem ainda no Brazil meridional, ao Sul do Rio de
Janeiro.
Entre estas especies ha dellas que se encontram já
na formação patagonica, como Diplodonta villardeboæna
e Corbula pulchella, emquanto que as outras parecem
provir do mar Thetis. Isto é evidente para a especie
de Tagelus, que se encontra ainda nas costas atlan-
ticas tropicaes da America meridional, das Antilhas e da
Africa occidental, e em estado fossil nas camadas mio-
cenas da America do Norte. Amiantis purpurata, ao
atl, th Mc A É
Tr
PE E a
fa EI O de où à Te e à À
409 —
contrario, pertence a um genero do (Oceano Pacifico
meridional, que jamais esteve representado nos Estados at-
lanticos da America do Norte. Esta especie, portanto,
seguiu as costas chileno-peruvianas e, depois de ter
passado a communicação interoceanica, ella attingiu as
costas do Brazil e da Argentina. A este respeito, os:
Molluscos aqui tratados deveriam, ao menos em parte,
se classificar entre os que vieram do Norte, como elementos
da fauna da Thetis. E preciso notar, entretanto, que os
diversos elementos reunidos na formação entreriana, for-
mam uma fauna de caracter uniforme, que, na sua evolução
ulterior obedeceu ás mesmas leis de migração; isto está
provado pela actual distribuição geographica de alguns
destes Molluscos, que se estendem sobre a costa patagonica,
mais ao Sul que não os que vieram mais tarde das
Antilhas. E” assim que encontramos, sobre a costa da
Patagonia, Myochlamys paranensis e especies de Olivan-
cillaria e de Olivella, emquanto que os immigrantes
mais modernos não se dispersaram ao Sul para além
do Rio Negro.
Tambem os elementos desta fauna entreriana, origi-
narios da Thetis, não são identicos aos. vindos mais
tarde das Antilhas. Ha um bom numero de generos
que se dispersáram ao longo da costa septentrional
da Archhelenis até o Brazil e a Argentina de um lado,
e até o Chile de outro, sem ter attingido jamais a America
do Norte. "Temos tratado deste assumpto, ao discutir a
historia da fauna do Chile e eu me limito a lembrar aqui
a distribuição das Purpuridae, e sobretudo dos generos
Acanthina e Concholepas.
Olivancillaria pertence a estes generos: distribuido
actualmente sobretudo nas costas atlanticas da Africa,
do Brazil e da Argentina, nós o encontramos repre-
sentado no estado fossil tanto na formação entreriana
como no terciario do Chile, mas não na America do
Norte.
— 410 —
Pela mesma communicação interoceanica, que deu
accesso para o Chile aos Molluscos tropicaes da Thetis,
distribuiram-se tambem molluscos originarios das costas do
Chile e do Perá: estes puderam assim alcançar as costas
do Brazil e da Argentina, sem chegar á America do
Norte. Em contraste com esta facilidade das migrações
de molluscos sobtropicaes das costas do Chile e do Perá
até o Brazil e a Argentina, temos a constatar que ne-
nhuma especie conhecida das formações pan-patagonicas
e entrerianas da Patagonia ou da Argentina attingiu a
costa pacifica da America meridional por meio de mi-
grações em direcção inversa.
Si constatamos a existencia de Ostrea alvareza,
Chione muenstert e provavelmente de algumas outras espe-
cies da formação entreriana no terciario do Perá e partes
contiguas do Chile, somos forçados a admittir, como expli-
cação, uma migração desde o Perá até o Brazil, pois que
se trata de especies que são extranhas ao terciario antigo
da Patagonia. |
Todos estes factos nos demonstram que, ao longo
da costa septentrional da Archhelenis e por via de com-
municação interoceanica, se distribuiam facilmente mol-
luscos da Thetis, que em grande parte não avançaram
até a America do Norte. Estas circumstancias provam
que o mar, que banhava a costa septentrional da Archhe-
lenis, era vasto e profundo, de sorte que, ao menos durante
certas épocas, os molluscos costeiros da Archhelenis não
puderam alcançar as costas da America do Norte, ou
pelo menos, não puderam lá chegar senão em pequeno
numero.
Varios dos generos da Thetis, que, pela primeira vez,
fazem a sua apparição na formação entreriana no terri-
torio da Argentina e do Brazil meridional, vivem ainda
em nossos dias nas costas da Argentina, taes como
Columbella, Marginella, Olivancillaria, Amiantis, Ti-
vela e Tagelus. Outros, ao contrario, como Æassoa,
SE =
Litiorina, Strombus, Turbinella e Anomalocardia, são
agora restrictos ás costas do Brazil. Alguns generos,
vivos ainda sobre as costas da Argentina, como Mar-
ginella, Olivancillaria, e Amiantis, são tambem encon-
trados nas costas da Patagonia. E’ um facto notavel,
pois que os elementos da fauna das Antilhas e do Brazil
não ultrapassam, em geral, a emboccadura do Rio Negro.
c) Especres originarias da fauna pliocena ou
araucaniana da Patagonia. A fauna pliocena contri-
buiu tambem, bem que em gráo pouco consideravel, para
augmentar a fauna do Brazil meridional. Temos de men-
cionar, a este respeito: Pitar rostratum Koch. é P.
lahillei Ih., este ultimo vivendo desde o Rio Negro até
São Paulo, o primeiro desde o Estreito de Magalhães até
o Rio Grande do Sul.
No mais, Mytilus edulis se extende tambem sobre
as costas da Argentina, do Rio Grande do Sul e de
Santa Catharina, assim como as diversas especies do
genero Bulha, de cuja distribuição já tratamos.
d) Especies immigradas da Patagonias durante a
época pleistocena. Em geral as especies antarcticas, que
se dispersaram pelas duas costas da extremidade meri-
dional da America do Sul, não passaram a emboccadura
do Rio Negro ou a do Rio da Prata nas suas migrações
ao longo das costas do Oceano Atlantico.
Uma especie, entretanto, Mesodesma mactroides al-
cançou o Brazil meridional, mas ella se extinguiu nas costas
da propria Patagonia.
> =?
Para recapitular os resultados da discussão prece-
dente, podemos constatar que diversos elementos faunisticos
contribuiram para a formação da fauna marina actual
do Brazil, por migrações successivas e distinctas. Vimos
que algumas especies que habitam as costas do Brazil,
são distribuidas até as Antilhas, ao passo que outras
reapparecem nas costas pacificas da America: central
Ro GR
e meridional, na costa occidental da Africa e mesmo
no Oceano Indico. As especies, que são proprias ás costas
do Brazil, não são senão formas isoladas e que se ex-
tinguiram nas regiões que ellas antigamente occupavam.
À época de cada uma das migrações é ainda mais
dificil de se estabelecer, do que a simples migração de dif-
ferentes generos e especies. À este respeito é importante
distinguir-se a primeira migração dos elementos da Thetis,
originarios da costa septentrional da Archhelenis, daquella
que é mais recente e pela qual chegaram ao Sul as es-
pecies das Antilhas, da America central e da Florida.
À primeira destas migrações teve lugar durante o
terciario antigo, a segunda durante o terciario moderno
e esta ainda continuou até nossos dias.
As migrações que tiveram sua origem na zona tro-
pical e as dirigidas da Patagonia e da região antarctica
para o Brazil meridional, realisaram-se em diversas épocas.
Os elementos da fauna tropical dispersaram-se ao
longo das costas do Brazil até o Rio da Prata e, para
além, até à emboccadura do Rio Negro, sem que as correntes
de agua doce desses grandes rios, como tambem não a do
Amazonas, tivessem exercido o menor effeito sobre a
distribuição geographica dos organismos marinos, que
povoam as costas atlanticas da America do Sul.
Os Molluscos marinos, originarios da Patagonia, per-
tencem a um segundo centro de dispersão. Alguns são
limitados á Patagonia na sua distribuição actual e pas-
sada, emquanto que outros alcançaram o Brazil meri-
dional até o Rio Grande do Sul, São Paulo e mesmo
Rio de Janeiro. Ha tambem generos tito bem represen-
tados nas regiões antarcticas como na zona tropical do
Oceano Atlantico, e tambem tanto nos depositos terciarios
da Patagonia como nos da Florida e outras partes da Ame-
rica do Norte, e esta circumstancia mostra bem que houve
especies de Molluscos marinos dos quaes não pudemos
ainda descobrir a origem. Em geral, entretanto, os factos
— 413 —
paleontologicos, conhecidos do Sul e do Norte da Ame-
rica, são sufficientes para se poder reconhecer bem aquelles
grupos faunisticos nos quaes se ordenam as differentes
especies e generos em questão.
Pela sua origem temos, por conseguinte, de distin-
guir na fauna brazileira tres elementos principaes.
1º Especies tropicaes derivadas da fauna marina
que occupava a costa septentrional da Archhelenis. São
elementos eogenos que, immediatamente após a destruição
da Archhelenis, occupavam a costa do Brazil meridional e
que encontramos fosseis nas camadas miocenas do Paraná.
2º Elementos tropicaes originarios das Antilhas e
das costas atlanticas da America central, que se distri-
buiram até as costas do Brazil meridional e da Argentina.
As migrações destes Molluscos devem ter começado du-
rante o mioceno e continuaram até os nossos dias.
3º Elementos da fauna patagonica, que ficaram se-
parados da região brazileira durante o terciario antigo.
As antigas migrações têm, entretanto, conduzido para o
Brazil, não só especies originarias do terciario moderno,
como tambem certas especies e generos da formação pa-
tagonica. FE’ a mistura de elementos tropicaes e pata-
gonicos que deu seu cunho característico á fauna do
Brazil meridional e do Norte da Argentina.
E. - ESPECIES BIPOLARES
Uma questão muitas vezes discutida durante a ul-
tima decada, é a existencia de especies bipolares, isto é,
especies de organismos marinos, evertebrados principal-
mente, que seriam communs ás regiões arcticas e sub-
arcticas, sem habitarem a zona intermediaria, dos mares
tropicaes e temperados. As descobertas sen-acionaes da
expedição do «Challenger» dirigiram a attenção para a
semelhança das faunas marinas da região antarctica com
as da latitude correspondente do hemispherio Norte. Theel,
Murray e Pfeffer insistiram particularmente sobre estes
— 414 —
factos e os dous ultimos sabios exprimiram suas ideias
em uma theoria destinada a explicar a causa deste phe-
nomeno interessante. Segundo Pfeffer e Murray, os mares
da época mesozoica eram todos quentes e povoados por
uma fauna mais ou menos uniforme. A reducção succes-
siva da temperatura na região arctica e na antarctica
durante a época terciaria, teria causado a origem das pro-
vincias geographicas actuaes, e é desta maneira que certos
generos € especies se teriam conservado inalterados nas
regiões circumpolares dos dous hemispherios. E” preciso
lembrar que, desde o tempo da expedição do Challenger,
nossos conhecimentos sobre a distribuição vertical e ho-
rizontal dos evertebrados marinos têm augmentado con-
sideravelmente. Muitas especies, que se julgava bipolares
na sua distribuição, foram encontradas, durante este
tempo, nas regiões tropicaes e sub-tropicaes. Em geral
todos os naturalistas, que, nas suas especialidades, têm
feito investigações sobre esta questão, pronunciaram-se
contra a theoria de Pfefter e Murray. Os que quizerem,
comparem sobre esta materia as diversas publicações
de Ortmann, cujas idéas são as mais concordes com os
resultados das minhas investigações. Para os Molluscos,
eu sustentei esta opinião já em 1897.
E. A. Smith, em um ensaio publicado em 1902,
chega ao mesmo resultado, sem, entretanto, ter conheci-
mento de minhas publicações. Em relação a outros grupas
de evertebrados, diversos auctores foram levados ás mesmas
conclusões e a este respeito temos de citar Chun, para
as faunas pelagicas, Ortmann, para os Crustaceos deca-
podos. Breitfuss, para as Esponjas calcareas, Herdman,
para os Tunicados, d'Arey Thompson, para os animaes
vertebrados em geral, Ludevig para os Echinodermas e
Birger para os Nemercianos. Em geral foi constatado
por estes auctores que, ao lado de certas semelhanças, a
fauna arctica e a antarctica são bem differentes e que o
numero de especies propriamente bipolares é bem restricto.
— 415 —
Si bem que se não tenha discutido mais a fundo
a theoria de Pfeffer e Murray, estas novas investigações
demonstraram que uma das causas da semelhança das
faunas arctica e antarctica é dada pelas migrações de certas
especies, pelas vias abyssaes do Oceano Atlantico, de
sorte que estas especies, que vivem nas costas, na agua fria
das altas latitudes, são encontradas a grandes profundi-
dades nas regiões tropicaes e temperadas do mar, onde
as condições biologicas" são quasi as mesmas, principal-
mente quanto á temperatura.
As idéas de Pfeffer e Murray, sobre a modificação
gradual da fauna marina durante a época terciaria, pro-
curam dar-nos uma explicação genetica; mas esta theoria,
entretanto, é feita sem o menor conhecimento da historia
das faunas marinas, que nos é dado sobretudo pela pa-
leontologia dos Molluscos e Brachiopodes. Com os ricos
materiaes, que agora possuimos das antigas faunas da
Patagonia, do Chile e da Nova Zelandia, é possivel exa-
minar a historia de cada uma destas especies, consideradas
como bipolares, e é o que vamos fazer. e
Si a theoria mencionada é correcta, encontraremos
representadas na fauna eocena da Patagonia, isto é na
formação patagonica, as especies que tem hoje distribuição
bipolar. Não é este o caso, entretanto. Entre as especies
recentes da formação patagonica não ha nenhuma que
seja bipolar, e a unica especie de muito vasta distribuição
geographica e geologica, Arca umbonata, é restricta aos
mares tropicaes e temperados. Por consequencia, é evi-
dente que as duas premissas da theoria de Pfefter e
Murray não são fundamentadas: a da existencia de uma
fauna tropical marina uniforme no cretaceo superior e
no eoceno, e a presença, nas camadas eocenas, de especies
que actualmente são bipolares.
Examinando-se a historia das especies bipolaras,
constatamos que ellas se dividem em duas secções: uma
comprehende as especies de vasta distribuição geographica
— 416 —
e geologica, e outra, as especies arcticas do Oceano Atlan-
tico do Norte, que attingiram a região antarctica em um
tempo pouco remoto, por migrações nas grandes profun-
didades do Oceano.
À primeira secção é formada só por duas especies,
Mytilus edulis L. e Saxicava arctica L.
O «mexilhão», especie commum das costas da Eu-
ropa e da America do Norte, não é conhecido nos mares
tropicaes e sub-tropicaes, mas ella reapparece na região
antarctica e sub-antarctica, no Cabo da Bôa Esperança,
na Nova Zelandia, nas ilhas Kerguelen, na Patagonia e
no Chile. No estado fossil conhece-se esta especie da
Europa, onde foi encontrada nos depositos pliocenos e
póde-se suppor que ella lá será encontrada nos depositos
miocenos. Na America do Norte e no Chile, ella não
se encontra a não ser nas camadas pleistocenas, mas na
Patagonia conhece-se-a da formação pliocena.
Só é possivel explicar estes factos por uma migração
miocena ou pliocena, que se realizou ao longo da costa
occidental da Africa, até o Cabo e, mais ao Sul, até a
região antarctica.
Como Mytilus edulis é uma especie da zona littoral,
comprehende-se bem que ella não se conservasse na costa
occidental da Africa, por causa da tendencia manifesta
deste Mollusco para se adaptar á existencia na agua fria
ou temperada.
Quanto 4 Saxicava arctica, ella tem distribuição
quasi cosmopolita, encontrando-se nos mares frios e tem-
perados dos dous hemispherios, assim como na região
intermediaria, onde ella foi observada nos Açores, Senegal
e Santa Helena. No estado fossil ella se apresenta pela
primeira vez no eoceno da Australia e em seguida no
oligoceno da Europa e no mioceno da Nova Zelandia e
da America do Norte; ella não foi encontrada fossil nem
na Patagonia nem no Chile. E’ pois uma especie do
Oceano indo-australiano que successivamente se dispersou
— 417 —
sobre a maior parte dos mares, o que lhe facilitou sua
grande extensão bathymetrica, que varia entre 0 e
1287 metros.
A historia da distribuição destas duas especies of-
ferece duas grandes analogias, mas ella differe tambem
essencialmente quanto á sua edade geologica e quanto á
extenção de suas migrações. Ao passo que a distribuição
de Mytilus é nitidamente bipolar, a da Saxicava é
cosmopolita. |
Si Mytilus tambem vivesse em tão grandes profun-
didades como Saxicava, ter-se-ia, tambem, certamente
conservado na costa occidental da Africa. Suppondo-se
que Saaicava arctica estivesse extincta nos Açores, na
Madeira e em Santa Helena, ete. sua distribuição seria
bipolar; Mytilus edulis seria tambem cosmopolita neste
sentido antes de ter alcançado sua distribuição bipolar,
isto é quando vivia na zona tropical. A distribuição
bipolar não é senão um caso especial de distribuição mais
ou menos cosmopolita.
A discussão das especies bipolares da segunda secção |
tambem nos conduziu 4 mesma conclusão. Todas estas espe-
cles são de pequeno porte e ellas se encontram tanto nas
aguas pouco profundas da zona littoral da região arctica
como nas grandes profundidades do Oceano Atlantico.
Algumas são tambem conhecidas de regiões inter-
mediarias tropicaes e sub-tropicaes e aquellas que até
agora não foram encontradas nessas regiões, provavelmente
serão encontradas ainda em profundidades abyssaes.
Nestas condições, somos levados á conclusão de que
se trata de especies arcticas que, pelo fundo do Oceano
Atlantico, se dispersaram até a região antarctica. Sabe-se
que na bacia central do Oceano Atlantico a temperatura
da agua nas grandes profundidades é quasi a mesma que
a da zona littoral das regiões polares.
Muitas especies, que na Europa se encontram na
zona littoral, são abyssaes na região tropical e sub-tropical.
A
E” assim, por exemplo, que Dentaliwm entale L. foi
encontrada, segundo Locard, no Cabo da Bôa Esperança
em profundidade de 27-36 m.; na Europa é uma especie
da zona littoral, mas nos Açores ella existe a 823 m.
de profundidade.
Observações analogas tem sido feitas, não somente
para outras especies de Molluscos, como tambem para
outros grupos de evertebrados, mesmo para organismos
pelagicos. E” assim que Chun demonstrou que Sagitta
hamata, verme pelagico, que vive na superficie do mar
nas duas regiões polares, se encontra tambem na zona
intermediaria do Oceano Atlantico, mas a profundidades
de 300-1500 m.
E” desta maneira que cada nova expedição diminuiu
o numero das pretendidas especies bipolares e Smith tem
razão admirando-se de Pfeffer continuar a repetir suas
afirmações inexactas. Nesta occasião, observo que a unica
especie de Brachiopoda Platidia anomioides, que Mur-
ray indicou como bipolar, não o é effectivamente, porque,
segundo Dall, a expedição do «Blacke» a obteve nas
Antilhas e na California.
Desta maneira, especies europeas de Molluscos, podem
ainda hoje alcançar a Africa meridional por migrações
na agua profunda, ao longo da costa occidental deste
continente, mantendo-se na agua fria das grandes pro-
fundidades da zona tropical. Taes migrações não são,
entretanto, possiveis senão para especies que vivem tão
bem na zona littoral das regiões frias e temperadas como
nas aguas frias das grandes profundidades do Oceano.
Passou e não voltará mais, o tempo em que especies
da zona littoral puderam se dispersar da Europa até o
Cabo da Bôa Esperança, pois que estas especies estão
agora adaptadas ás differentes zonas climatericas.
Falta ainda notar que as especies bipolares da se-
gunda secção são todas conhecidas da região arctica do
Oceano Atlantico, e que não ha especies bipolares ori-
— 419 —
ginarias da zona arctica ou da zona antarctica do Oceano
Pacifico. Estas migrações representam, pois, um phenomeno.
particular do Oceano Atlantico e ellas estão, sem duvida,
em connexão com a época glacial, que era quasi que
exclusivamente localizada no Oceano Atlantico septen-
trional e nos paizes que o circumdam. Durante a época
glacial, a temperatura das grandes profundidades do Oceano
Atlantico era, provavelmente, mais baixa que agora.
- Estes resultados são confirmados pelos dados pa-
leontologicos. De todas estas especies da segunda secção,
nenhuma é conhecida fossil da Patagonia ou de outras
partes da região antarctica. Ao contrario, varias têm sido
encontradas em depositos pliocenos da Inglaterra e da
Italia. Sobre todos estes detalhes envio o leitor ás ex-
plicações dadas no fim da presente divisão deste capitulo.
Quanto á sua distribuição geographica, as especies desta
segunda secção, que podem ser consideradas como bipo-
lares, são: Glomus nitens Jeff, Keliella miliaris Phil.
e Puncturella noachina L.
Deve-se accrescentar a estas especies as seguintes,
cuja distribuição é essencialmente bipolar, mas que têm.
sido encontradas em algumas localidades intermediarias
e a grandes profundidades. São: Kellia suborbicula-
ris Mont, Lasaea. rubra Mont. e Scissurella crispata
Flem.
E” preciso notar, entretanto, que para algumas des-
tas especies as determinações não podem ser consideradas
seguras, pois que se trata de conchas muito pequenas e
das quaes não se têm obtido, até aqui, materias suffi-
cientes. Deve-se crêr que os nossos conhecimentos sobre
estas especies e algumas outras, de distribuição analoga
são ainda muito incompletos. E’ assim que as opiniões
dos especialistas os mais competentes, de Bergh e Vays-
sière, são divergentes sobre a Archidoris tuberculata
Cuv., da região antarctica, que foi descripta por Bergh
sob o nome de A. kerguelensis.
27
Um caso analogo offerece a distribuição de Aeolidia
papillosa L., especie da região arctica, encontrada, não
somente. na Europa, mas tambem em Alaska e ao Norte
da costa atlantica da America do Norte, e que reap-
parece no Estreito de Magalhães (Otway) e no Chile.
Esta especie será provavelmente encontrada ainda nas
costas da Patagonia e da Africa meridional, pois que pa-
rece que a sua distribuição é mais ou menos analoga á
de Mytilus edulis. Não temos razão alguma para suppor
que esta especie tenha emigrado da Alaska até o
Chile, ao longo da costa pacifica da America, pois não
ha outros exemplos de migrações de especies holarcticas
ao longo da costa occidental da America.
Durante o terciario, quando a temperatura do mar
era mais elevada, não tiveram lugar migrações, entre o
Norte e o Sul, ao longo das costas pacificas da Ame-
rica e, pelo fim da época terciaria, ou depois desta épo-
ca, os Molluscos costeiros arcticos já estavam adaptados
á agua fria e não puderam mais passar a zona tropical.
Não nos resta outra explicação senão admittir que a
distribuição da Aeolidia papillosa se effectuou da mesma
maneira que a de Mytilus edulis, e evidentemente esta
mesma conclusão se applica tambem para Archadoris
tuberculata.
Uma outra especie, a cuja distribuição devemos de-
dicar algumas palavras, é Actaeon delicatus Dall, espe-
cie da região das Antilhas e da Florida, que foi encon-
trada em P. Gallegos, perto do Estreito de Magalhães,
a uma profundidade de 100 m. Como, entretanto, os
exemplares das Antilhas foram todos dragados á profun-
didade de 146-800 m., é evidente que é uma especie
abyssal, que se dispersou ao longo da base do continente
para o Sul.
Pseudamussium vitreum Gm. é uma especie abys-
sal, que se poderia considerar bipolar, pois que ella foi
encontrada a grandes profundidades ao Sul da Patago-
Se dio ii À a Di min
di o dA “a a Td dd a ben oie
nia, mas se a conhece tambem do Japão e das Philip-
pinas. Ha especies abyssaes de distribuição restricta e
outras de destribuição assaz vasta. E” o caso de Denta-
lium keras Watson, especie que se tomou por bipolar,
mas que foi encontrada tambem nas regiões intermedia-
rias, como no Golfo do Mexico, onde foi dragada a uma
profundidade de mais de 3000 m.
O estudo dos generos nos conduz ás mesmas con-
clusões a que chegamos pelo estudo das especies. Quasi
todos os generos, que se tem tomado por bipolares, são
encontrados tambem em regiões intermediarias, tropicaes.
E” assim que o genero Trophon, cujas especies vi-
vem sobretudo na zona arctica e na aptarctica, é repre-
sentado na fauna littoral tropical por algumas especies
da secção Aspella. Si, com Cossmann, se eleva este sub-
genero á cathegoria de genero, Trophon seria bipolar, na
sua distribuição geographica, pois que as poucas especies
conhecidas dos mares temperados e sub-tropicaes são abys-
saes. O genero Trophon, que era de vasta distribuição
nos mares quentes do eoceno, adaptou-se pois successi-
vamente ás aguas frias e temperadas, mas não com-.
pletamente.
Dos outros generos que, como Chrysodomus Sws.,
etc. estão mais ou menos no mesmo caso: Admete me
parece ser nitidamente bipolar. Este genero era de vasta
distribuição no mar eoceno tropical e, pelo fim da época
terciaria, adaptou-se ao mar frio das duas regiões polares.
Ao lado destes generos de alta edade geologica e
que nos são já conhecidos do eoceno dos dous hemisphe-
rios, ha outros que são tambem essencialmente bipolares
em sua distribuição actual, mas dos quaes não conhecemos
representantes fosseis no hemispherio meridional.
FE’ o caso do genero Margarites Leach (Margarita
auct.) que é conhecido no hemispherio septentrional desde
o cretaceo e do qual, até aqui, não foi observado nenhum
— 422 —
representante terciario, nem no Chile, nem na Patagonia,
nem na Australia e Nova Zelandia.
Não obstante, conhecemos delle um certo numero
de especies da região antarctica. Uma dellas foi encon-
trada na costa da Patagonia, e eu não duvido que se
ha de encontrar representantes deste genero no Estreito
de Magalhães. Segundo a minha opinião, as especies do
districto magellanico, que se tem tomado por Margarites,
pertencem ao genero Solariella. A historia de Photinula
está provavelmente tambem em relação com este genero.
Segundo Dall, o sub-genero Bathymophila é inter-
mediario entre Margarites e Photinula, pois que a concha,
qnando nova, é umbilicada. As especies de Margarites,
vivem, em grande parte, em profundidades abyssaes e
tambem parece bem provavel que os representantes me-
ridionaes attingiram o hemispherio meridional por via de
migrações pelo fundo do Oceano Atlantico. Das tres es-
pecies, que Dall menciona da Florida e das Antilhas, duas
são abyssaes e uma especie da região antarctica, Marga-
rites infundibulum Watson, é de distribuição quasi cos- |
mopolita, tendo sido encontrada nas ilhas Bermudas e
Marion, em Ceylão, etc, em profundidades de do 1460
— 3370 m.
Si notamos ainda que especies de Photinula e Mar-
garites não são representadas na fauna actual da Africa
meridional, parece-me que, segundo o estado de nossos
conhecimentos presentes, não podemos explicar a pre-
sença de especies deste genero nos mares antarcticos se-
não por migrações pelo fundo do Oceano Atlantico.
Pondo de parte esta questão de especies bipolares,
o caracter geral da fauna malacologica da região arctica
e da antarctica, é completamente differente.
Ha generos arcticos, como Volutharpa, Buccinopsis,
Lacuna, Moelleria, Cyprina, Mya, ete, que não tem
representantes na fauna antarctica, e generos antarcticos,
que faltam na região arctica. E* o caso de Struthiolaria,
Cominella, Euthria, Photinula, Siphonaria, Modiolarca,
etc. as quaes, si bem que, em parte, não sejam restrictos
á região antarctica propriamente dita, faltam absoluta-
mente nas faunas arcticas. Ha outras differenças no ca-
racter geral das duas faunas, as quaes expliquei no meu
estudo sobre a historia da fauna marina da Patagonia
(1. e. 1897, p. 534); mas como os diversos auctores, que
se occuparam da materia, chegaram ao mesmo resultado
com a unica excepção de Pfeffer, não vale a pena occu-
par-se ainda da questão.
Em geral, as conclusões aqui expostas concordam
com as de minha publicação anterior e com as de Ort-
mann; e não é senão em. alguns pontos que não estou
de accordo com elle. As migrações de especies litto-
raes arcticas pelo fundo do mar, dirigiram-se de Norte
a Sul e não em sentido inverso, como o admitte Ortmann.
As migrações ao longo da costa atlantica da Africa são
egualmente admittidas por Ortmann e por mim mesmo;
mas para as das costas pacificas da America, suppostas por
Ortmann e Bouvier, não posso me conformar com esta
opinião. Estas migrações, das quaes tratei na secção sobre
a historia da fauna marina do Chile, modificaram a fauna
deste paiz e do Estreito de Magalhães, mas não se pro-
longaram para além do cabo Horn. Nenhum destes ge-
neros originarios da America central ou septentrional,
que pertencem ao Chile e á provincia magellanica, têm
representantes na região antarctica fora do districto
magellanico.
Reunindo-se os resultados aos quaes as presentes
investigagdes nos conduzem, podemo-nos exprimir nas
conelusões seguintes :
1.) A theoria de Pfeffer e Murray, de uma fauna
cretaceo-eocena uniforme, da qual as especies e generos
bipolares seriam os sobreviventes, não 2 correcta, pois
que diferenças muito pronunciadas, na distribuição geo-
graphica de animaes marinos, existiam já na época in-
— 424 —
dicada, e, porque as faunas fosseis eocenas da Patagonia,
do Chile e da Nova Zelandia não tem nenhuma especie
commum com os depositos contemporaneos do Norte da
Europa e da America.
2.) Ha, com efeito, especies vivas de Molluscos
marinos de distribuição bipolar, que se dividem, segundo
sua historia em duas secções differentes.
A primeira é formada por especies que tiveram
vasta destribuição geographica durante a época terciaria,
e que attingiram a Patagonia durante o plioceno (Myti-
lus edulis) ou o pleistoceno (Saxicava arctica).
A segunda secção consiste em especies de pequeno
porte, que vivem tanto na zona littoral como nas grandes
profundidades do Oceano. Ellas não se encontram 1108
depositos terciarios da Patagonia, mas, pelos dados pa-
leontologicos, ellas viveram na Europa na época terciaria.
Segundo todas as probabilidades, estas especies attingiram |
o hemispherio meridional por migrações pelo fundo do
Oceano Atlantico.
3.) As migrações de especies arcticas pelas profun-
dezas abyssaes do oceano até a região antarctica são
possiveis ainda hoje para as especies eurybaticas, isto é
para as que vivem tão bem na agua fria das grandes
profundidades da zona tropical, como na littoral das altas
latitudes dos dous hemispherios.
Para as especies exclusivamente littoraes, a possi-
bilidade de uma migração de polo a polo não mais existe
no presente e o unico caminho, que lhes foi aberto para
taes migrações durante a época terciaria, foi ao longo das
costas occidentaes da Europa e da Africa, até a ponta
meridional deste continente, que se estendia mais que
hoje para o Sul, durante a segunda metade do terciario.
4.) As especies bipolares, de origem moderna, pro-
vêm da zona arctica. Não ha especies bipolares do Oceano
Pacifico, nem especies biploares de origem antarctica.
5.) Quasi todos os generos que, na sua distribuição
actual, são essencialmente restrictos ás zonas frias dos
dous hemispherios, tem tambem alguns representantes nas
zonas intermediarias, e elles tiveram tambem vasta dis-
tribuição na região tropical, durante a época tercisria. De
resto, o que temos dito para as especies bipolares, se ap-
plica, quasi da mesma maneira para estes generos.
6.) O numero de especies bipolares é muito res-
tricto, e muitas serão provavelmente ainda reconhecidas
antes cosmopolitas do que bipolares. O caracter geral da
fauna arctica e da antarctica é bem differente; ha generos
que são restrictos 4 zona arctica e pita que são pro-
prios da região antarctica.
A historia das faunas das duas regiões é perfeita-
mente differente, e si se fizer abstracção de algumas especies
cosmopolitas de alta edade geologica, que se tornaram bi-
polares, pela sua extineçäo na zona tropical, a semelhança
entre as faunas dos mares frios circumpolares é um phe-
nomeno perfeitamente moderno, causado por migações post-
terciarias pelo fundo do Oceano Atlantico.
7.) Em geral, não é possivel reconhecer-se a historia
dos animaes marinos, e sobretudo dos evertebrados, só
com o auxilio de sua distribuição geographica actual ;
não é senão pelos dados paleontologicos que nos é pos-
sivel constatar as migraçães terciarias, das quaes resulta
sua distribuição actual. Não obstante, para os Molluscos
e os Brachiopodes, a historia desta destribuição nos con-
duziu a certas conclusões de caracter geral, e estes resultados
devem ser tomados em consideração relativamente ás in-
vestigações sobre outros grupos de evertebrados, para os
quaes não existem dados paleontologicos tão abundantes.
(Quanto á discussão detalhada das especies bipolares,
veja-se o capitulo F—ÆEnumeraçäo das especies bipo-.
lares nos Anales del Museo Nacional de Buenos, Ser. III,
Tomo VII, 1907, pgs. 552-556).
— 426 —
F. — As migrações antigas e modernas e as
especies cosmopolitas
Discutindo-se a historia da fauna marina da Ame-
rica meridional, temos já constatado os principaes caminhos
que os Molluscos marinos tomarem para suas migrações.
Não é preciso, por consequencia, voltar a esta questão,
mas resta-nos discutir ainda certos pontos zoogeographicos,
sob o ponto de vista comparativo. São sobretudo as
migrações ao longo das grandes massas continentaes que
devemos estudar.
Por migrações ao longo das costas da America ou
da Africa os Molluscos costeiros arcticos poderiam al-
cançar a zona antarctica ? Como já temos visto, a este
respeito as condições são bem differentes relativamente
ä America e á Africa. Este ultimo continente está se-
parado a Este da região arctica por massas terrestres
e elle esteve isolado della pelo mar tropical Thetis, du-
rante o terciario antigo. À costa oriental da Africa formou
sempre uma parte do Oceano Indico e para as migrações
mencionadas de Norte ao Sul não são senão as costas
da America e a costa occidental da Africa que formam
o objecto da discussão que vamos estudar.
Durante o terciario antigo, os mares que banhavam
a Patagonia e a America Central estavam separados pela
Archhelenis, o que explica bem a grande diversidade de
suas faunas. Não é senão na segunda metade do terciario
que estas migrações puderam se realisar e a invasão da
Argentina e do Brazil meridional, por elementos da fauna
das Antilhas e do Brazil septentrional, não pnderam se
realisar antes desta época. Estas migrações continuaram
ainda na época quaternaria e levaram certas especies tropi-
caes até a costa argentina septentrional. O limite fau-
nistico é formado pela embocadura do Rio Negro e é
até este mesmo ponto que se dispersou a maior parte
dos Molluscos patagonicos.
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od TA a TE EE ae TS
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— 427
Um certo numero destes Molluscos littoraes da Pa-
tagonia ainda se distribuiu no Brazil meridional, e
é possivel que algumas destas especies tropicaes, vindas
do Norte, se tenham ainda espalhado para além do Rio
Negro. As poucas especies, entretanto, que são communs
á America do Norte e ao districto magellanico, não são
Molluscos littoraes, distribuidos ao longo das costas
atlanticas de toda a America, mas especies bipolares,
sobretudo Molluscos arcticos, que vivem tambem em pro-
“fundidades abyssaes, de sorte que elles podem passar
a zona tropical sem sahir das aguas frias, ás quaes estão
acostumados.
Não ha sinão um facto que parece fazer objecção
ás nossas conclusões. E” a existencia de tres epecies vivas
que se encontram na superformação pan-patagonica e que
“vivem tambem nas Antilhas: Nucula semiornata, Arca
umbonata e Crenella devaricata. Poder-se-ia objectar
que são especies patagonicas, que alcançaram as Antilhas
e a Florida por migrações ao longo das costas da Ame-
rica meridional e central.
Felizmente os dados paleontologicos que possuimos;
ao menos para uma destas especies, são suficientes para
nos permittir de refazer sua historia. E’ Arca umbonata,
especie de vasta distribuição geologica e geographica, que
conhecemos no estado fossil não sómente do terciario da
Europa, mas tambem do oligoceno da Florida e da super-
formação pan-patagonica da Patagonia. Como esta ultima
é eocena, é evidente que é preciso excluir a idéa de uma
migração ao longo da costa atlantica da America. Trata-
se pois, neste caso, de especies antigas, originarias da costa
septentrional da Archhelenis, de onde se distribuiram
quasi ao mesmo tempo, para Este até a Patagonia e
á Florida ao Oeste.
As condições são perfeitamente analogas com relação
a costa pacifica da America, com a unica diferença que
as especies originarias da America do Norte se distri-
buiram muito mais para Sul, até o Estreito de Magalhães.
O genero Amiantis, provindo do Chile, se propagou por
uma migração em sentido inverso, até a California. Ha
tambem especies de distribuição primitivamente tropical,
que emigraram para Norte e Sul, adaptando-se á agua
fria das regiões temperadas. E” o caso, por exemplo, de
Argobuceinum cancellatum (Chile) e A. cancellatum
oregonensis (Alaska-Califernia). Na America meridional,
os Molluscos pacificos e atlanticos são um pouco diffe-
rentes, o que se explica, provavelmente, pela temperatura
mais baixa do Pacifico. Em um, como no outro oceano,
nenhuma das especies littoraes, emigradas do Norte para
o Sul, se dispersou para além do Cabo Horn, e ne-
nhuma alcançou a região antarctica. ;
As condições são completamente differentes para a
costa occidental da Africa. O numero das especies da
Europa, que alcançaram o Cabo da Bôa Esperança, é bem
grande e muitos attingiram a região antarctica, disper-
sando-se até a Nova Zelandia e a America do Sul. O
caso mais instructivo é o de: Mytilus edulis. Esta es-
pecie é originaria do hemispherio septentrional, onde vive
sobre as costas da Europa e da America do Norte.
Neste ultimo paiz, esta especie não fez a sua appa-
rição senão na época quaternaria, e ella não se propagou
ao Sul senão até a America central. Na Europa, ao con-
trario, Mytilus edulis se encontra em abundancia nos
depositos pliocenos, distribuindo-se ao longo da costa da
Africa até o Cabo. Si esta especie se dispersou tambem
na zona antarctica, tal é a prova de que esta região estava
ligada á Africa por massas terrestres, quando estas mi-
grações se realisaram. Como encontramos Mytilus edulis
nos depositos pliocenos da Patagonia, segue-se que as
migrações mencionadas devem ter-se efectuado durante
a época miocena. A historia do genero Bullia, e sobre-
tudo a sua apparição inesperada na Patagonia, é per-
feitamente analoga, pois que as especies da Patagonia e
da Africa meridional são muito semelhantes e o genero
Bullia é abundante nos terrenos miocenos da Europa.
As migrações que tiveram lugar na segunda metade da
época terciaria da Europa para a Africa meridional, re-
presentam o unico caminho pelo qual os Molluscos lit-
toraes do hemispherio septentrional puderam avançar para
o hemispherio austral e mesmo até a região antarctica.
Todas estas migrações demonstram os dous factos
seguintes:
1.º) Que a distribuição de terras e de mares era
differente nas diversas partes da época terciaria.
2.°) Que cada uma das especies de molluscos lit-
toraes está adaptada a certas condições da temperatura
do mar.
Os molluscos da região patagonica não eram capazes
da avançar até o Equador; ao menos durante a formação
miocena. Em geral a adaptação a certas temperaturas se
accentuou sobretudo na época quaternaria, de sorte que
especies, que são agora restrictas a regiões temperadas,
puderam passar a zona tropical, durante a época terciaria.
FE’ o caso de um certo numero de especies do Cabo
da Boa Esperança, e é preciso lembrar tambem, que o
genero Oxystele, um dos mais caracteristico da fauna ma-
rina do Cabo, não se encontra no estado fossil senão
na Europa.
Estas condições todas nos explicam os casos de dis-
tribuição vasta e discontinua. Cassis pyrum, por exemplo,
encontrada quasi nas mesmas latitudes no Brazil meri-
dional, na Africa meridional e na Nova Zelandia, é
evidentemente uma especie da Thetis, que se adaptou gra-
dualmente ás aguas das regiões temperadas, ao menos para
a maior extensão do seu habitat.
Eu chamo eocosmicas as especies de distribuição
vasta, quasi cosmopolitas que adquiriram sua actual dis-
tribuição essencialmente durante o terciario antigo. Nesta
cathegoria se reunem as numerosas especies de Mollus-
— 430 — :
cos, como as do genero Lotorvum, que vivem nas duas
Indias, sem estarem representadas sobre a costa occi-
dental da Africa.
As especies miocosmicas são as que alcançaram sua
actual distribuição geographica na segunda metade do
terciario. Como exemplo, já explicâmos a historia de
Mytilus edulis.
As especies neocosmicas, emfim, são aquellas que
chegaram á sua vasta distribuição actual na época qua-
ternaria. São, quasi que exclusivamente, as especies d'agua
fria, que vivem tão bem nas costas da zona arctica e.
antarctica, como nas grandes profundidades do mar, na
zona tropical e na sub-tropical. Querendo, compare-se a
respeito destes Molluscos o que temos dito sobre as es-
pecies bipolares, convindo lembrar que, entre os ultimos,
não ha sómente especies neocosmicas, mas que ha outras
tambem, que são miocosmicas, como Mytilus edulis e
mesmo eocosmicas, como Saxicava arctica, especie que
não terminou suas migrações senão na época quaternaria.
9
EXPLICAÇÃO DA ESTAMPA XIII
Distribuição de Terra e Mar na formação Eocena
Thetis e Nereis são os antigos oceanos separados
pelo continente Archhelenis; com o desapparecimento
desta ponte de ligação entre a America do Sul e a
Africa, formou-se, no periodo mioceno, o actual Oceano
Atlantico.
Ie
A ORGANISAÇÃO ACTUAL E FUTURA
Dos
MUSEUS DE HISTORIA NATURAL
"POR —
DR. HERMANN von IHERING
A viagem que fiz 4 Europa no interesse do Museu
Paulista, durante os mezes de Abril a Novembro de
1907, me deu ensejo de estudar o progresso e a orga-
nisação actual dos principaes Museus de Historia Natural
da Europa central. Acho tão interessantes as impressões,
que tive desta excursão scientifica, que me parece conve-
niente publical-as. Não posso fazel-o sem exprimir meus
sinceros agradecimentos aos distinctos collegas que, com
verdadeiro sacrifício de seu precioso tempo, me receberam
e acompanharam, dando-me occasião de examinar mi-
nuciosamente todas as secções dessas ricas collecgdes
scientificas.
Encontrei os Museus grandes, e a maior parte dos
menores, em uma situação critica, que naturalmente preoc-
cupará grandemente os naturalistas, que se dedicam no
correr deste seculo a este ramo de sciencia, e procurarei
expôr em seguida, de melhor modo possivel, meu parecer
profissional.
E” certo que desde muito tempo todos os Museus
de Historia Natural mais importantes devem preencher
o duplo fim de servir de meio de instrucção publica e
de contribuir ao progresso da sciencia. Entretanto é só
nos ultimos decennios que se veio a comprehender a ne-
cessidade de exprimir, tambem na organisação material
dos Museus, esta diversidade de taréfas.
432 —
Póde-se dizer mesmo, que a transformação mencio-
nada se acha em plena execução. Ella está sendo rea-
lizada segundo os materiaes em algumas secções, como
por exemplo nas dos insectos e molluscos e apenas co-
mecada em outras, como na dos mammiferos.
Além dos fins officiaes acima indicados, tive o desejo
de me occupar de perto com certos grupos de mammiferos,
que, sem o conhecimento dos exemplares typicos, não po-
dem ser esclarecidos. São estes os generos Cebus, Canis,
Cervus e Hesperomys. Julgo, entretanto, que a minha
viagem foi neste sentido quasi sem proveito. Ha um
grande Museu apenas, o de Londres, no qual desde algum
tempo se acha organizada a collecçäo de estudos. O que
assim se chama nos outros Museus visitados é apenas
o deposito dos mammiferos velhos, rejeitados da colleeção
geral. Em Vienna, onde muito esperei do material au-
thentico de Natterer, encontrei os couros de Cebus, que
quiz estudar, desprovidos de craneos e os, que os tinham,
estavam empalhados de tal fórma a incluirem o craneo
no couro. Parece-me que em Vienna e Paris, tres ou
quatro preparadores teriam trabalho para 5 annos ou
mais, para organizar a colleeção de couros de mammi-
feros do modo como a sciencia hoje o exige. Em ver-
dade, porém, os preparadores por toda a parte estão
occupados com preparações novas, destinadas a serem
expostas. Assim o material exposto ao publico, embora
já demasiado na maior parte dos Museus, cresce de mez
em mez. E” assim, por exemplo, que estranhei em Paris
vêr empalhada e exposta toda a valiosa e riquissima
colleccäo de Lemuridas de Madagascar, proveniente das
viagens de Grandidier. Não se deveria expôr duplicatas
ao publico. Alem disso os exemplares empalhados e
expostos se estragam muito facilmente. Corresponde pois
este procedimento a uma má orientação dos respectivos
directores e chefes de secção. Como ha pouco em Paris
a direcção desta parte das colleeções foi assumida pelo
— 433 —
eminente especialista Dr. Trouessart, é de esperar que,
successivamente, este estado de cousas se modifique. E
preciso, entretanto, notar que o chefe de secção depende
do regulamento e da organisação geral do estabelecimento,
e esta, no Museu de Paris, necessita de uma reforma
geral. Acontece, por exemplo, que, segundo o regulamento
do Museu, dos animaes que morrem na «Menagerie»,
são entregues á secção zoologica apenas os couros, ao
passo que o resto, inclusive o craneo, vae ao Museu de
Anatomia Comparada. Isto é um procedimento que bem
se entendia ha sessenta annos, mas que não corresponde
mais ao actual estado da zoologia. E” impossivel estudar,
de um modo exacto, os mammiferos, sem conhecimento
de seus craneos, que fornecem, não só dados valiosissi-
mos para a distincçäo das especies e generos, mas que
informam tambem sobre a edade, sexo etc., dos individuos;
não obstante este facto ser hoje geralmente reconhecido,
entretanto os regulamentos dos grandes Museus, pela maior
parte, conservam ainda a orientação antiga.
Quasi que a unica excepção neste sentido constitue
o British Museum de Londres; mas tambem alli as cousas.
não correm todas como deviam. O Snr. O. Thomas é
o mais activo entre os especialistas que se dedicam a
este ramo de sciencia, mas mesmo assim elle não vence
o serviço, e estão-se accumulando materiaes, que elle não
tem tempo de estudar definitivamente. Sinto isto espe-
cialmente com referencia aos Muridas do Brazil, dos
quaes ahi apreciei series consideraveis de numerosas es-
pecies alliadas. Todos nós esperamos do Snr. Thomas
que elabore e publique o Catalogo dos Roedores do
British Museum; mas o tempo delle é preenchido por
serviços do expediente, de entradas novas etc, de modo
que parece haver pouca esperança para a elaboração desse
volume, anciosamente esperado pelos collegas.
Em seguida examinarei separadamente os assumptos
que constituem os fins dos Museus de Historia Natural.
— 454 —
1.°—As Collecções expostas ao Publico
º
Antigamente estavam expostos ao publico todos os
materiaes que entravam nas collecções dos Museus. Dahi
provem esta infinidade de aves, mammiferos etc. empa-
lhados, que enchem as vitrinas de numerosas salas e
que, na sua uniformidade, cançam o publico. Deve ser
absolutamente condemnado este procedimento imprudente.
Não ha conveniencia alguma em expôr ao publico nu-
merosos exemplares da mesma especie, devendo ser eli-
minados os duplicatas e guardados na collecção de estudos.
Tambem não ha razão para expôr numerosas especies
do mesmo genero, caso sejam tão alliadas entre si, que
só o especialista consiga distinguil-as.
Os antigos profissionaes não conheciam outro pro-
cedimento senão empalhar os couros de todos os animaes
que recebiam. A ideia de collecções separadas, uma para
a demonstração ao publico e outra para fins de estudos,
nasceu e firmou-se sómente nos ultimos decennios. E
só deste modo que se explica o facto de que no Museu
de Paris toda a collecção de Lemuridas de Madagascar,
como foi acima mencionado, se acha empalhada e exposta
ao publico. Isto tem como RER Es ao menos tres
graves inconvenientes:
1º Expõe-se ao publico um grande numero de
duplicatas, reclamando assim sua attenção para objectos
que nao a merecem;
2º Priva-se o especialista da possibilidade de es-
tudar os couros com os respectivos craneos, na collecção
scientifica ;
3.º ÆExpôe-se ao perigo de facil deteriorisação e
mesmo de perda, collecções valiosissimas, das quaes uma
boa parte devia ficar guardada de modo mais conscien-
cioso e para sempre.
E' facto geralmente conhecido que as preparações
de animaes, sob a influencia do ar, da luz e ainda de
— 435 —
varias circumstancias prejudiciaes e mesmo dos materiaes
empregados para a preparação, como por exemplo o arame
que enferruja, se estragam com o tempo. Não conhecemos
actualmente methodo melhor para a conservação defini-
tiva e perfeita dos animaes, do que o alcoól e methodo
peior do que o empalhamento. Penso que as adminis-
trações dos Museu terão de occupar-se, no futuro, do
melhor modo da conservação de exemplares raros e au-
thenticos, particularmente dos tvpos de especies novas,
e neste sentido creio que será estabelecida a regra de
não se empalhar e expôr taes especimens valiosos.
Si antigamente o Museu era constituido pelo con-
juncto dos materiaes das collecgdes e tudo estava fran-
queado ao publico, hoje a intenção dos directores destas
collecções é tornar cada vez mais interessantes e instru-
ctivas as colleccdes expostas ao publico, o que exige
uma escolha criteriosa dos objectos expostos. Pretende-se
hoje expôr menos exemplares ou objectos e tornar aquel-
les que foram escolhidos, mais instructivos e atractivos
ao publico. Parece-me que este esforço deveria egualmente
ser estendido aos Museus de Archeolcgia, Ethnographia '
e Artes, aos quaes a ideia de separação de colleeções ex-
postas e scientificas, em grande parte ainda é extranha,
de modo que expõem, um ao lado do outro, tantos du-
plicatas quantos possuem.
Já falei acima da exposição de duplicatas da mesma
especie, mas preciso accrescentar que o mesmo vale tam-
bem para as especies alliadas e semelhantes. Não é
conveniente expôr, sem necessidade, exemplares e especies
do mesmo genero, que apenas a vista pratica do espe-
“cialista consegue distinguir. Desta regra, na practica, de-
vemos afastar-nos apenas em certos casos, como por
exemplo quando se pretende demonstrar uma serie de
especies alliadas, como exemplo da composição de um
genero natural, ou quando se trata de exhibir, de modo
completo, a fauna indigena da provincia ou do paiz a
, E
— 436 —
cuja exploração se dedica o respectivo Museu. E certo
que a maior parte dos Museus novos já procede segundo
estas normas, mas é singular que, ao lado destes, haja
um grande numero de outros Museus, que ainda procedem
da mesma maneira como ha cem annos era usual.
Um progresso notavel, que data dos ultimos dous
decennios, é a exposição de preparações biologicas, de
grupos naturaes de animaes destinados a illustrar seu
modo de viver. Como o novo systema do Jardim Zoo-
logico de Hagenbeck apresenta reunidos os diversos ani-
maes, que vivem numa determinada zona e sob as mesmas
condições physicas e biologicas, assim procura-se hoje
exhibir grupos biocoenoticos de animaes de certas regiões
bem caracterizadas, como da zona arctica, dos Alpes, do
Sertão, etc. e do mesmo modo procedem atualmente, e
com admiravel successo, os Jardins Botanicos.
Instructivos e bellos são os grupos biologicos na
secção ornithologica do British Museum, apresentando as
variadas condições da vida e do modo como as aves
constroem e collocam seus ninhos. Distingue-se neste
sentido tambem o Museu de Hamburgo, no qual são
notaveis particularmente as preparações de animaes ma-
rinos, expostos de um modo muito elegante em aquarios
artificiaes. Muito instructivas são tambem as preparações
de insectos, mostrando o cyclo biologico das diversas es-
pecies, o dimorphismos dos sexos, estações etc. imitações
mimeticas, os estragos causados á vegetação e especial-
mente ás plantas cultivadas, por insectos nocivos. Par-
ticularmente lisongeira, neste sentido, é a impressão que
tive nos Museu de Strassburgo e Paris. Em geral todos
os grandes Museus que visitei, têm ligado grande at-
tenção aos melhoramentos neste sentido, como tambem
se esforçam por dar rotulos mais explicativos, por vezes
com informações minuciosas e pequenos fnappas, illus-
trando a distribuição geographica de certos generos, fa-
milias, ete. Tambem o methodo plastico da preparação
ee tte" vs. d.* ‘à 14
437 —
dos Vertebrados tem contribuido muito para tornar mais
naturaes, mais elegantes e artisticas as scenas da vida
animal que representam. Taes grupos naturaes são muito
mais attractivos e instructivos do que as séries uniformes
de animaes isolados, que geralmente enchem as vitrinas.
Ha, porem, um ponto em que as opiniões ainda pare-
cem divergir e em que não raro ha abusos, que prejudicam
os fins das colleeções zoologicas, franqueadas ao publico.
Expondo-se uma preparação artistica, representando di-
versos individuos, sexos, etc. de uma especie, é natural
que se dê tambem ao quadro um aspecto natural, imitando
um pouco o meio physico no qual passa a vida dos respe-
ctivos animaes. Acontece, entretanto, que as vezes o ar-
tista então procede com phantasia exagerada. E’ o que
se deu no Museu de Altona. Vi um grupo de Orang-
utangos, tão escondidos na folhagem, de modo que custou
vel-os bem. E” preciso lembrar-se de que cada arte tem
as suas regras e seus limites, como tão bem o expoz
Lessing, na sua.obra classica «Laokoon».
A folhagem, as arvores, as flores, os rochedos, e
tudo isto que é destinado a representar o scenario em'
que se desenrola a vida animal, são de valor secundario
nos grupos biologicos e devem ser apenas ligeiramente
indicados. Dar uma importancia principal a estes orna-
mentos avcessorios, seria o mesmo como, si numa audição
musical, o acompanhamento viesse a desempenhar o pa-
pel principal.
O assumpto que menos me satisfez nesta viagem
foi a construcçäo dos edificios. Deixo completamente de
lado o procedimento inqualificavel dos architectos aus-
triacos que, para a construcçäo de edificios destinados a
Institutos scientificos, Museus e habitações para animaes
do Jardim Zoologico, procederam segundo suas inclinações
artísticas, sem mesmo consultar os chefes technicos e
scientificos competentes. Provavelmente isto tambem na
Austria, pelo futuro, não será mais possivel e os Insti-
— 438 —
tutos scientificos modernos, que vi em Vienna, como 0.
Instituto Botanico, a Anatomia, ete, são construidos de.
conformidade com as indicações e desejos dos respectivos
directores. Foram abusos desta ordem que levaram uma
vez o celebre pintor Lenbach a exclamar: «Nada mais.
desejaria do que ser um dia omnipotente e carrasco, só-
mente para poder decapitar architectos».
Na segunda metade do seculo passado construiram-se .
muitos edificios para Museus, com um grande vestibulo
central, coberto por clarabóias. Acontece, entretanto, que
a parte do edificio situada entre o vestibulo e as pare-
des exteriores é larga demais, não havendo por isto, em
grande parte das salas, a claridade indispensavel para o
exame dos objectos ou para outros trabalhos. Esse de-
feito torna-se notavel mesmo em dias de sol, e, portanto
muito mais, em dias de chuva e de ceu encoberto. Acon-
teceu-me varias vezes que, por esta razão, me vi obrigado
a desistir do exame de uma vitrina, que me interessava,
como por exemplo da que no Museum d'Histoire Natu-
relle contem a variada e preciosa colleeção de Didelphide.
O typo mais infeliz dessa casta de edificios, que na sua
construcção se assemelham a uma estação central de es-
trada de ferro, é o Museu de Hamburgo. Esse typo
naturalmente está condemnado pela experiencia. Dos novos
edificios de grandes Museus deve-se exigir abundante luz
para todas as salas e dependencias, do que resulta que
os vestibulos, cobertos por clarabóias, devem ser substi-
tuidos por largas areas internas, e que as alas do edificio
não tenham largura demasiada, afim que a luz das duas
fileiras de janellas penetre perfeitamente nas salas. Onde
ha espaço sufficiente póde-se tambem construir para as.
collecgdes expostas, edificios de um andar só, que per-
mittam o emprego de luz de cima. Esta construcçäo,
usada já em algumas pinacothecas, tem a grande vanta-
gem de permittir que se colloque, em toda a extensão
das paredes, a serie de armarios, de collecçôes, ete. Posto
— 439 -—
o caso que estas salas de exposição se achem no primeiro
andar, o outro, terreo, poderá servir para fins de admi-
nistração.
Seja como fôr, a questão da luz deverá preoccupar
muito mais o espirito do director e do architecto, em
casos de construcções para Museus, devendo-se ligar mais
importancia a este assumpto. Em geral resultará destas,
e muitas outras exigencias, que os futuros grandes Mu
seus occuparão uma area muito maior do que os actuaes,
e por este motivo em geral não será possivel dar-lhes
uma situação no centro da cidade. O melhoramento das
communicações, com o serviço electrico, compensa esta in--
conveniencia, e a situação do Museu numa vasta area,
offerece a possibilidade da creação de um parque, no qual
os vigitantes podem descançar e entreter-se. Em todo o
caso é preciso, que a area occupada pelo Museu, seja tão
grande que nada impeça alterações e um futuro augmento
do prédio.
2.º - As Collecções para Estudo
Ha muitos Museus provinciaes ou municipaes, que
só contam com recursos modicos ou parcos, de sorte que
não podem remunerar naturalista de competencia e neste
caso o trabalho scientifico, entregue ao acaso, isto é ao
auxilio de amadores, é de uma importancia secundaria.
O pequeno pessoal scientifico e technico neste caso é
destinado apenas ao desenvolvimento e á conservação das
collecgdes expostas ao publico. E esta uma situação bem
definida. Acontece, entretanto, que ha estabelecimentos
desta ordem, que procuram imitar os grandes Museus
quanto ao trabalho scientifico, o que naturalmente não
póde dar o resultado desejado, em vista da falta quasi
completa dos elementos indispensaveis. Não admira que
tambem os fracos tenham as vezes aspiraçães nobres, que
muito excedam as suas forças; mas o que, dificilmente
— 440 —
se comprehenderá, é a falta absoluta de orientação, o
trabalho sem plano nem progamma definido. Cada Museu
tem suas intenções e seus fins especiaes e absolutamente
não ha regras geraes; mas o que é evidente, é que os
Museus de Historia Natural actualmente não podem con-
tinuar na mesma orientação (que é a falta de orientação),
como no começo do seculo passado. O que se deve exigir
de cada Museu é que se saiba o que elle quer; que
tenha um plano determinado para o seu trabalho e seu
desenvolvimento futuro. A falta quasi absoluta desta
orientação indispensavel foi o facto que mais me impres-
sionou nesta minha viagem e isto com relação a quasi
todos os Museus que visitei.
Observei grande progresso na installação de Insti-
tutos Anatomicos, de Institutos Zoologicos e particular-
mente de Museus, Institutos e Jardins Botanicos, mas
não vi um unico Museu Zoologico qne estivesse na al-
tura que o actual estado de sciencia exige. Em seguida
estudaremos a causa deste atraso, discutindo ao mesmo
tempo as medidas, que são necessarias para transformar
os Museus Zoologicos, de modo que no futuro possam
melhor corresponder ás multiplas exigencias, do serviço
e da sciencia.
Já no precedente tratamos das condições pouco sa-
tisfactorias das colleeções de mammiferos nos grandes
Museus da Europa central. A collecçäo mais adeantada
neste ramo é a do British Museum, e isto não por causa
da melhor orientação daquelle Museu, mas exclusivamente
devido ao zelo e 4 competencia do Snr. O. Thomas, que,
pessoalmente, subvencionou os viajantes, trazendo-lhe os
mesmos colleegdes de summo valor, particularmente da
America Meridional. Não obstante todas estas circum-
stancias, o Snr. Thomas não vence o trabalho accumulado.
Tudo isto prova que, tambem naquelle grande estabele-
cimento, os recursos e o pessoal não são sufficientes, para
ter em dia esta e outras secções. O British Museum
dn Más
EP q en ae
TEVE eee Lo a a, ee + ‘=,
.
— 441 —
distingue-se, de todos os outros congeneres, pelo valor :
de seus catalogos, que expõem ao Mundo scientifico mi-
nuciosamente as riquezas lá accumuladas. A secção or-
nithologica conseguiu publicar em 27 volumes o catalogo
das aves, obra monumental, que summamente honra o
instituto do qual sahiu. Seria um serviço inestimavel si
o mesmo Museu publicasse tambem o catalogo dos mam-
miferos; mas é claro que isto exigiria um grande numero
de collaboradores, que por emquanto faltam. E” assim
que ao primeiro volume deste catalogo. referente aos
Marsupiaes, não se seguiram outros, mostrando-se assim,
tambem aqui, a desproporção que existe, entre as aspi-
rações e as forças disponiveis, mesmo em secção tão
auspiciosamente dirigida.
A secção ornithologica do mesmo Museu já foi
estudada de um modo muito mais completo e mesmo
assim já não occupa o primeiro lugar, nem ao menos na
Inglaterra, onde o Museu de Tring dispõe de melhores
elementos de progresso; evidentemente isto só se poude
dar porque no British Museum, não são sufflcientes o
. pessoal e os recursos para a secção ornithologica. Si
tal acontece no primeiro Museu europeu de Historia Na-
tural, quanto mais tal se dará nos outros Museus do
continente.
Referindo-nos aqui apenas ás colleeções scientificas,
temos de distinguir tres grupos dos mesmos: Museus
centraes, provinciaes e especializados. Estes ultimos
são, sem duvida, os que melhor correspondem ás exigen-
cias da sciencia, mas mesmo assim só existem em nu-
mero limitadissimo.
Já mencionei o Museu de «Rothschild» em Tring,
cujas collecções só abrangem Lepidopteros e Aves. Uma
collecçäo ornithologica, das mais valiosas, principalmente
para o estudo da fauna neotropica, é a do Snr. Conde
H. von Berlepsch em Gertenbach, Allemanha. As colle-
cções entomologicas de Stettin e da Sociedade Entomologica
de Berlim são das mais perfeitas nas suas especialidades,
e, quanto vale neste ramo a iniciativa particular, caso
não lhe faltem os meios, está provado pelas collecções
de Lepidopteros do fallecido Dr. O. Staudinger e pelas
collecçôes entomologicas dos Snrs. Oberthuer em Rennes.
Evidentemente, não é só a riqueza dos meios, que explica
estes successos, mas tambem a grande dedicação ao as-
sumpto. E este um ponto delicado, pois é certo que
não é pequeno o numero de empregados vitalicios dos
grandes Museus, cuja actividade é bem pequena. Deve
ser evitado, o mais possivel, que os lugares de ajudantes
scientificos dos Museus sejam occupados por pessoas que
só procuram obter um emprego, visto que nunca dará
bom especialista em sciencias naturaes, quem não for
attrahido a esta occupação pelo natural interesse, pela
sua inclinação. Ha mil occupações ou carreiras a que
satisfactoriamente se podem dedicar pessoas que sómente
demonstrem zelo e competência por essa sua profissão ;
mas para o estudo systematico e biologico da zoologia
e botanica. é necessario alguma cousa mais, é preciso ter
amor á natureza, verdadeira vocação.
E” este evidentemente um ponto que no futuro pre-
occupará mais as administrações dos Museus do que
actualmente. É certo tambem, que a posição e o trabalho
dos ajudantes dos Museus de sciencias naturaes, muito
deixam a desejar. Os vencimentos são insufficientes e
não sóbem em proporção razoavel no correr dos annos.
Acontece assim que estes empregados se veem obrigados
a procurar outras fontes de rendimentos, com trabalhos
literarios, etc, que são extranhos ao seu serviço princi-
pal. Isto devia ser evitado e póde-se mesmo estimular
a actividade no serviço, remunerando-se-lhes os artigos
scientificos, catalogos, etc. publicados pelo Museu.
As difficuldades resultantes do caracter dos empre-
gados do Museu, não proveem entretanto sómente dos
chefes de secção e dos ajudantes, mas muitas vezes tambem
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do director. E delle que, particularmente, depende o pro-
‘gresso do estabelecimento e o espirito que nelle rege.
Quanto maior o Museu, tanto mais desapparece este pe-
rigo, ficando cada vez mais responsaveis os chefes de
secção. Mas são graves tambem as consequencias se 0
director não dér a orientação ao instituto, figurando apenas
como representante da administração. Muitas vezes, entre-
tanto, acontece que o director se preoccupa apenas com
seus proprios estudos scientificos. E’ esta, por exemplo,
a causa do atraso em que se acha o Museu Nacional
de Buenos Aires. Burmeister só tratava de certas espe-
cialidades, que formavam o objecto de seus estudos e
C. Berg, o melhor conhecedor dos Hemipteros e Homo-
pteros da America Meridional, deixou no Museu Nacional
de Buenos Aires apenas 4 gavetas com bem poucos
specimens de typos destes insectos, como signal de sua
dedicação a esta ordem de insectos. Elle tinha uma grande
e valiosa collecção particular destes insectos e o Museu
continuou pobre. Em muitos Museus é prohibido aos
empregados terem collecções proprias e exemplos como 0
acima citado provam a conveniencia desta medida. Deste
modo é só actualmente, sob a direcção do Dr. Fl. Ame-
ghino, que o Museu de Buenos Aires obterá um edificio
grande e novo, quando já Burmeister devia ter tido a
necessaria influencia, para alcançar esta medida, indispen-
savel desde muito tempo. O quanto vale a influencia
de um director activo e energico, é demonstrado pelo suc-
cesso do Dr. Fr. Moreno, que conseguiu a organisação
do Museu de La Plata, no mesmo periodo em que Bur-
meister se contentou com o edificio velho e insuficiente,
ainda hoje oceupado pelo Museu Nacional.
Uma outra inconveniencia na actual organisação dos
principaes Museus, que me admirou, é o trabalho não
pequeno de escripturação, registro de entradas, catalogos,
etc. causado pelo. serviço do expediente, que é executado
pelo pessoal scientifico e que devia ser entregue a um
— 444 —
amanuense. E” economia mal empregada, de se gastar o
tempo valioso do director e de seus ajudantes scientificos,
com trabalhos secundarios de escripturação, para econo-
misar a despeza de alguns escripturarios auxiliares.
Os Museus das provincias, dos municipios e das
universidades são em grande parte organizados sem plano.
Não é pequeno o numero daquelles, que quasi não são
visitados pelo publico e que, para os fins de instrucção,
são grandes demais; é verdadeiramente sem proveito que
ainda são augmentados. Estes Museus, si por ventura qui-
zerem conservar o caracter scientifico, deveriam limitar-se
neste sentido a algumas especialidades. Não acho boa,
neste sentido, a orientação do bello e novo Museu Sen-
kenberg, que absolutamente não está na posição para
corresponder a um programma vasto, dispondo de pes-
soal diminuto, miseravelmente remunerado. Ou a cidade
e os amigos do Museu devem augmentar os vencimentos |
do pessoal scientifico, ao menos por 50 mil marcos annuaes,
ou restrinja-se o programma, limitando as collecções de
estudo a varias especialidades, entre as quaes forçosamente
se impõe as do Terciario de Mainz, estudado com grande
successo pelo professor Kinkelin e a collecção herpeto-
logica, verdadeiro monumento da competencia e da de-
dicação do professor Boettger. Na America meridional
ha dous Museus estadoaes, de programma limitado, de-
dicados ambos ao estudo da natureza do Brazil: os de
S. Paulo e Pará e que só por meio desta restricção se
puderam tornar de tanta utilidade, como o são na opi-
nião dos scientistas competentes.
Museus desta ordem tambem podem prestar, com
pessoal diminuto e recursos escassos, verdadeiros serviços
á sciencia e este exemplo devem, successivamente, se-
guir os outros Museus de segunda ordem. Deste modo
conservarão o caracter de Museus centraes ou de primeira
ordem, apenas os das grandes capitaes dos principaes
paizes da Europa e isto só se conseguirem sahir da actual
— 445 —
situação critica, por meio de uma reorganisação completa,
que lhes proporcione edificios apropriados, e grande au-
gmento de meios e de pessoal scientifico.
Si agora, depois de termos examinado a crise e o
futuro dos Museus, procurarmos apurar a questão do
que o progresso da sciencia exige, declararemos que o
futuro será o dos Museus especialisados. E’ duvidoso si
os grandes Museus serão capazes de acompanhar as m6-
dificações, que o desenvolvimento da sciencia torna neces-
sarias. Desejo explicar isto por meio de um exemplo.
Um dos grandes grupos do Reino Animal, que é o
mais descuidado em todos os Museus, é o dos Moluscos.
São raros os mestres da competencia de E. von Martens,
P. Fischer, Pilsbry e W. H. Dal. E até estes se veem
obrigados a restricções nos seus trabalhos scientificos.
Ao passo que para os insectos existem especialistas dis-
tinctos para Lepidopteros, Coleopteros, ete. com refe-
rencia aos Molluscos entrega-se todas as classes à um
unico especialista, que as vezes ainda tem de se oceu-
par das conchas fosseis. E’ excusado dizer que é abso-
lutamente impossivel a um naturalista estudar, ao mesmo
tempo, os Molluscos terrestres, da agua doce e do mar,
as Lesmas tão bem como os Nudibranchios, os Cepha-
lopodes, e ainda os Pteropodes, não falando dos Molluscos
fosseis. Nestas condições não é grande cousa que se
póde esperar dos grandes Museus. O British Museum
tem um especialista notavel, na pessoa do Snr. E. A.
Smith, mas catalogos das diversas classes ou ordens não
se publicam. Isto é tanto mais lamentavel quanto é pre-
cario o estado dos recursos literarios para os generos
deste typo. Não temos absolutamente cataiogos de certo
valor, nem para os Molluscos recentes nem para os fosseis.
Se hoje se dá um nome a uma especie considerada
nova, e pertencente a um genero de numerosas especies
e de avançada edade geologica, como Ostrea, Mytilus,
etc, não ha absolutamente meio algum para se verificar
446 —
si O respectivo nome já está preoccupado ou não. E
evidente que necessitamos de obras monographicas ou ao
menos de catalogos synonymicos, que facilitem este trabalho.
E’ só um Museu dedicado aos Molluscos que será
capaz de executar trabalhos desta ordem, e ahi, ao mesmo
tempo, devem ser estudadas as especies recentes e as
. fosseis. Um tal Museu precisará, segundo meu calculo,
6 chefes de secção para os Molluscos recentes e 6 outros
para os fosseis; alem disto assistentes, naturalistas via-
jantes, especialistas para os estudos systematicos e anato-
micos, preparadores, desenhadores, secretarios etc. e recursos
sufficientes para custear expedições scientificas, compra de
objectos, editar publicações bem illustradas, etc., de sorte
que calculo a despeza annual em 250.000 marcos, visto que
os especialistas devem ser bem pagos, afim que não pre-
cisem empregar parte de seu tempo disponivel em trabalhos
remunerados, extranhos ao seu serviço. Um Museu desta
ordem poderia, quando bem administrado, e tendo os
meios. disponiveis, occupar-se successivamente tambem de
outros grupos do Reino Animal, cuja distribuição geo-
graphica e geologica mereça ser estudada em comparação
com a dos Molluscos, o que se dá particularmente com
os Brachiopodes e Coraes. Só assim podemos esperar
um verdadeiro progresso para o conhecimento dos Mol-
“luscos, mas não dos grandes Museus actuaes, que já
julgam ter feito alguma cousa para os Molluscos, se por
ventura dão ao unico empregado um ajudante Muitas
vezes uma unica personagem energica contribue mais
para o progresso do conhecimento dos Molluscos do que
uma duzia de Museus. Um estabelecimento, como o de-
sejamos, representaria, caso fosse bem dirigido, um meio
de concentrar o trabalho simultaneo sob todos os pontos
de vista zoologicos e paleontologicos, com relação a certos
generos ou familias. Sessões regulares reuniriam uma
ou duas vezes por semana os collegas, quando actual-
mente o pessoal dos grandes Museus, com poucas ex-
— 447 —
cepções, não vive em communidade intellectual alguma.
Museus como para os Molluscos, seriam necessarios tam-
bem para outros grupos, assim por exemplo para Co-
leopteros e para outros grupos de insectos. Para muitas
familias, por exemplo, existem excellentes especialistas,
que em parte, como o Dr. F. Ohaus com relação aos
Rutelidas, realizam trabalhos verdadeiramente modelos,
pois que se dedicam não só a estudos systematicos e
anatomicos, mas investigam tambem a biologia, a creação
e o desenvolvimento das larvas. Muitas familias de Co-
leopteros, porém, são insufficientemente estudadas, como
por exemplo a dos Curculionidas e seria tarefa dema-
siada confiar, num Museu coleopterologico, os Curculio-
nidas a um unico especialista.
Se bem que para Museus especializados desta or-
dem será dificil obter os meios necessarios, é mister
lembrar-se que o numero de capitalistas interessados no
desenvolvimento das sciencias naturaes cresce de anno a
anno. Não se póde, entretanto, exigir que elles tenham
melhor orientação do que os proprios directores dos Mu-
seus. O que antes de tudo é necessario, é a propaganda
entre os naturalistas e que se firme a convicção de que
a organisação actual dos Museus se acha uum periodo
transitorio, numa verdadeira crise.
Durante a minha ultima viagem ouvi varias vezes
severas criticas sobre o emprego imprudente de ricos meios
offerecidos em favor do progresso das Sciencias Naturaes,
tendo sido citados exemplos extravagantes da America
do Norte.
Em geral podemos dizer que a creação de novos
Museus tem hoje relativamente pouco valor. Mais um
Museu, menos um Museu, o resultado não é grande cousa
para o progresso das Sciencias Naturaes. Este progresso
da Zoologia e da Botanica systematicas é em nossos dias
mais garantido pela dedicação, pelo zelo dos amadores
do que pelos trabalhos dos Museus. Os millionarios,
— 448 —
que hoje ligam o seu nome á creação d'um novo Mu-
seu do typo velho, pouco adiantam o estado da Sciencia ;
os que, porém, fundarem Museus especializados que, no
sentido que acabamos de expor, adiantarem efficazmente
o estudo de certos grupos, hoje descuidados, abrirão uma
nova éra. Os collegas que lêrem estas linhas talvez dis-
cordem em parte, lembrando-se do progresso que o estudo
de certas ordens do Reino Animal têm feito sob a chefia
de certos especialistas eminentes; mas se elles quizerem
proceder d'um modo comparativo, têm de convencer-se
de que muitos outros Museus, não menos afamados, pouco
adiantam o estudo da mesma ordem. E justamente o
merito dos Museus fornecer a naturalistas preclaros e
activos, os meios para estudos importantissimos. Ha tam-
bem classes ou ordens do Reino Animal que sempre
foram preferidos e protegidos e que já estão adiantados
na sua classificação; mas ha um grande numero de ou-
tras classes e ordens, que não progridem, ou só muito
pouco, e que, por meio de Museus especializados, poderiam,
no correr de poucos decennios, ficar equiparados aos me-
lhor estudados.
O progresso nas Sciencias, como em outros ramos
de toda a nossa vida cultural e politica, depende de muitos
factores, que não estão sujeitos á nossa vontade. Sempre
serão raros os gigantes do trabalho e os genios, mas
tambem é certo que o nivel dos naturalistas mediocres
poderá ser elevado, por meio do bom exemplo e da com-
munidade intellectual com os collegas e pela influencia
educadora de estabelecimentos scientificos bem dirigidos.
Neste sentido os Museus do velho typo pouco “valem.
Para o futuro tambem neste sentido as cousas poderão
ser muito melhoradas, pela boa combinação das forças
disponiveis e pelo seu emprego criterioso e bem dirigido.
Reconhecer a crise em que se acham actualmente
os Museus de Historia Natural, é o primeiro passo para
a propaganda, da qual advirá a discriminação dos diversos
ES Ang cs
Museus, segundo os seus fins differentes. O futuro pro-
gresso das Sciencias Naturaes, no que depende dos Museus,
não é questão só do augmento do pessoal e de recursos,
mas, antes de tudo, da fixação do programma de cada
um delles e da especialisação systematica. Os Museus
do seculo presente não podem ser os simples continua-
dores dos do seculo passado; os seus fins são outros,
não só com referencia ás collecções expostas ao publico,
mas tambem quanto ao seu caracter scientifico.
São Paulo, em 21 de Novembro de 1907. o
BIBLIOGRAPHIA
1905-07
Historia Natural e Anthropologia do pad
“POR
Dr. HERMANN e RODOLPHO von THERING
——— ese o —
A.— Feriodicos Brazileiros
Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense de
Historia Natural e Ethnographia, Vol. IV, N. 2-3,
Dezembro 1904 e Março 1906).
Na parte administrativa figura a copia do regimento
interno do Muséu, reorganizado em Janeiro de 1904. Na
parte scientifica varios trabalhos de valor merecem espe-
cial attenção. O primeiro artigo «Mosquitos do Pará»,
é um resumo provisorio das observações e experiencias
do Dr. Goeldi, com relação especial ás questões sani-
tarias. Mais detalhadamente estes estudos vem reprodu-
zidos nas «Memorias» do mesmo museu e, em tratando
dessa publicação, diremos algo a respeito.
O Dr. Hagmann apresenta uma chave synonymica,
«As Aves Brazilicas», onde transcreve, em duas colum-
nas, os nomes scientificos empregados pelos auctores an-
tigos: Spix, Wied, Burmeister, Pelzeln de um lado, do
outro os nomes sob que figuram as mesmas especies no
Catalogo de Aves do British Museum. Sem duvida foi
grande o trabalho empregado na transcripção, mas não
comprehendemos a utilidade destas listas,
E 5
«Grandiosas migrações de borboletas no valle ama-
zonico» é o titulo de um pequeno mas bello escripto
do Dr. Goeldi, traduzido por Capistrano de Abreu, do
original allemão (Die Schweiz, Zurich 1900, Vol. IV,
p. 441-445); duas boas estampas illustram-no artis-
ticamente.
«Sobre as vespidas sociaes do Pará» por Adolpho
Ducke. Um optimo estudo systematico e biologico sobre
as vespas sociaes, que nos causou immenso prazer, pois
vem. completar o nosso sobre o mesmo assumpto, publi-
cado no Vol. VI desta Revista. Justamente da Amazonia
não nos fôra possivel descrever bem esta familia, ahi. tão
abundantemente representada, devido á escassez de ma-
terial. O nosso operoso collega, porém, em suas repe-
tidas excursões, reuniu collecçäo riquissima e quanto isto
era necessario comprovam-no as numerosas especies no-
vas agora descriptas, bem como as rectificações. Boas
chaves, em latim, facilitam a classificação, e numerosas
questões biologicas são esclarecidas e muitos ninhos il-
lustraãos pelas duas estampas. Ao refirimo-nos a outras
publicações do Snr. Ducke sobre o mesmo assumpto, en-
traremos em mais detalhes, mas não queremos deixar de
felicital-o aqui por mais esta optima contribuição.
«Notas sobre a patria e distribuição geographica
das arvores fructiferas do Pará» pelo Dr. J. Huber, for-
mam tima interessante resenha sobre assumpto que muitas
vezes se discute, sem comtudo saber onde buscar infor-
mações. Como se vê por essa exposição, que constante-
mente é baseada em documentação historica, é muito
incerta, ainda, a patria e época de importação de grande
numero de nossas arvores fructiferas e, pois, foi utilissima
essa ventilação, especialmente da parte de tão competente
botanico.
«Fungi paraenses (I])» por P. Hennings. Lista de
numerosos fungos, colligidos no Pará pelo Dr. J. Huber;
em boa parte trata-se de especies novas para a sciencia.
29
«
— 452 —
« Arvores de borracha e de balata da região ama-
zonica» pelo Dr. J. Huber são novas contribuições com que
o auctor vem completar sua monographia sobre Hevea
(Boletim III); desta vez occupa-se especialmente das ar-
vores dos generos Sapium e Mimusops.
« Molestias que affectam os animaes domesticos, mor-
mente o gado, na ilha de Marajó» por V. Chermont de
Miranda. Estudando rapidamente as principaes molestias
com que tem a luctar o criador, o auctor, sempre como
pratico que se revela, indica o risco que correm os ani-
maes e ensina, ao mesmo tempo, quaes os remedios mais
convenientes a empregar. E' evidente a utilidade de se-
melhante publicação. |
Nas «Miscellaneas Menores» o Dr. Huber discute
varias questões botanicas de interesse; tratando ahi
ligeiramente da velha questão dos ninhos de Japá, fal-o
de modo todo objectivo, mostrando que os Icteridas es-
colhem, segundo o lugar em que vivem, materiaes diversos
para a construcção de seus ninhos.
O n. 4 do mesmo Boletim, Vol. IV, abre suas pa-
ginas tarjado de lucto, dando o necrologio e retrato do
Dr. Max Kaech, o joven geologo que, dous mezes antes
apenas, assumira o cargo de chefe da secção geologica do
Museu Goeldi, em successão ao Dr. K. von Kraatz-Kosch-
lau, que egualmente succumbira á febre amarella no Pará.
O relatorio do Museu, publicado pelo director, re-
fere-se ao anno de 1902.
Na parte scientifica figuram dous estudos botanicos
do Dr. J. Huber, « Materiaes para a flora amazonica, VI:
Plantas vasculares do baixo Ucayali e do Pampa do Sa-
cramento» e «Ensaio duma synopse das especies do
genero Hevea sob os pontos de vista systematico e geo-
graphico». Neste ultimo estudo o: auctor descreve as 21
especies de arvores de borracha do genero Hevea, dis-
cutindo por fim a sua distribuição na Amazonia.
— 453 —
«Sobre as Vespidas sociaes do Para» por A. Ducke
é um supplemento ao seu artigo, a que acima nos refe-
rimos. Aqui já eleva a 103 o numero de especies obser-
vadas na Amazonia. As numerosas figuras das 4 estampas
representam muitas formas interessantes de ninhos, que,
em boa parte, eram até agora desconhecidos.
«Chelonios do Brazil» por E. A. Góeldi. E” o pri-
meiro capitulo da monographia Reptis do Brazil, obra
inedita, da qual já foi publicado outro capitulo nesses
“mesmos Boletins (Vol. III, p. 490 es.) sobre os Lacertilios
ou Lagartos. À parte que agora appareceu, refere-se aos
Kagados ou tartarugas e foi elaborada no mesmo estylo
popular como as outras «Monographias Brazileiras» do
mesmo auctor. Enumera 25 especies e occupa-se detalha-
damente da biologia e do valor economico destes animaes.
Uma «Bibliographia», bastante desenvolvida e in-
teressante encerra este volume.
Memorias do Museu Goeldi, IV:. Os Mosquitos
no Pará, por E. A. Goeldi.
E” dificil criticar um trabalho como o que este
alentado fasciculo das «Memorias» nos apresenta, cheio
de tabellas de experiencias e conclusões a que as mes-
mas levaram o auctor. O quê porém desde logo attrahe
o interesse e a attenção é a importancia do assumpto e
a rica ilustração dada 4 obra, por numerosas figuras e
bellissimas estampas coloridas e ‘as numerosas observa-
ções biologicas. Com relação ás conclusões a que chega
o auctor quanto ao papel que a Stegomya fasciata des-
empenha como transmissora da febre amarella, ou segundo
o Dr. Goeldi, a responsabilidade directa que lhe cabe,
nada diremos, pois é questão puramente medica ou de
bactericlogia. Enfeixa perfeitamente o modo de pensar
do auctor, o seguinte paragrapho das Conclusões :
«13) Cada picada isolada é venenosa em geral e
«como transmissor normal age e serve por si só cada
Ep
«individuo feminino de Stegomya no momento da pi-
«cada. Cada picada é uma infecção parcial; a infecção
«total é alcançada pelo effeito sommado de todas as pi-
«cadas isoladas, isto é, de todas as infecções parciaes».
Como se vê, esta theoria, aliás facilmente atacavel,
segue rumo inteiramente opposto ás que attribuem a febre
á acção de um microbio parasita do sangue, ainda des-
conhecido. 4
Revista do Instituto Archeologico e Geographico
Pernambucano, Tomo XI— Recife, 1904.
Mencicnamos, dos artigos contidos neste volume,
especialmente os seguintes:
E. Wiliamson, Geologia das regiões auriferas da Pa-
rahyba e de Pernambuco. — Alfredo de Carvalho: Wiliam
Swainson em Pernambuco, sendo este um trabalho muito
apreciavel, visto que, em lingua portugueza, pouco ou nada
se acha escripto sobre a vida deste naturalista, cujos
trabalhos aqui no Brazil foram tão vastos, fornecendo
immenso material para a sciencia natural deste paiz.
O Zoobiblion de Zacharias Wagner por Alfredo de
Carvalho, occupa-se de uma obra antiga, interessantissima,
sobre o Brazil, cujo auctor, Zacharias Wagner, era em-
pregado do conde Mauricio de Nassau, e figurou e descre-
veu o que lhe parecia interessante do Brazil, reunido tudo
isto na obra mencionada, que ha pouco foi encontrada
pelo Dr. Paul Emil Richter no Real Gabinete de Es-
tampas de Dresde. Charles Darwin, O recife de grès
do Porto de Pernambuco, traducção do ingles. —Henry
Koster, viagens no Brazil, tradueção. John C. Brapner,
inscripções em rochedos do Brazil.
Boletim da Directoria de Agricultura, Viaçãei
etc. do Estado da Bahia.
Em outra secção desta bibliographia transcrevemos
o resumo de um artigo publicado nesses Boletins pelo
Dr. O. A. Derby: Notas geologicas sobre o Est. da Bahia.
|
Se A ns ss ee ÈS
— 455 —
Do mesmo auctor ainda é um artigo de grande interesse:
O regimen das chuvas nas regiões da secca ( An. IV,
Vol. VII, N° 4-6, p. 204 ss.) Baseando-se nos dados
meteorologicos que, de 1897 a 1902, foram colhidos em
Quixeramobim, Est. do Ceará, dá-nos como media da
chuva annual 651,6." «Um anno com chuva approxi-.
mada á normal, embora arriscado a ser de colheitas de-
ficientes, não é necessariamente anno de fome, mas ella
é quasi infallivel nos annos em que a chuva decahe sen-
sivelmente da normal (inferior a 600.”” annuaes.) »
Compara depois a nossa região das seccas com a
zona egualmente flagellada nos Est. Unidos da America
do Norte, Great Plaine entre o rio Mississipi e us mon-
tanhas Rochosas e aconselha, que sejam utilizadas, em
nossos sertões, as experiencias feitas lá. Antes de tudo,
porem, como demonstra, é imprescindivel um conhecimento
perfeito das condições meteorologicas, por meio do esta-
belecimento de uma estação pluviometrica em cada mu-
nicipio; depois deveriam algumas estações agronomicas
investigar quaes as culturas mais apropriadas ás diversas:
condições, que fossem reconhecidas pelos estudos clima-
tologicos.
Archivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro,
not NX LIT: 1005:
O presente volume, de 190 paginas e acompanhado
de varias estampas, contem os seguintes estudos:
P. Dusén: Sur la Flore de la Serra do Itatiaya;
já no volume VI desta Revista nos referimos (p. 593)
a esta publicação;
Carlos Moreira: Campanha de pesca do « Annie»;
Crustaceos colligidos por uma barca de pesca nas cir-
cumvisinhanças do Rio de Janeiro; ao todo foram obti-
dos 25 crustaceos, em boa parte novos para a nossa
fauna, devido a não se ter ainda cuidado, até agora, da
pesca em maiores profundidades. Já nos referimos ( vol.
— 456 —
VI desta Revista, p. 625) ao estudo anteriormente pu-
blicado pelo mesmo auctor sobre o mesmo assumpto.
Bons desenhos illustram este estudo. É
A. Miranda Ribeiro: Genus Megalobrycon; uma
revisão das especies de peixes characinideos do genero
Megalobrycon, vulgarmente designadas por «Piabanhas »;
a especie que o auctor considerou nova, M. piabagna,
foi representada em uma estampa. O mesmo auctor oc-
cupa-se da Braulia coeca, mosca que vive como para-
sita sobre as «abelhas do reino ». « Vertebrados. de Tta-
tiaya >» é o titulo de uma enumeração que o mesmo
auctor faz dos vertebrados colligidos pelo Snr. Carlos
Moreira. Especialmente a lista das aves é mais extensa
e a estas tivemos occasião de nos referir em nosso Ca-
talogo da Fauna Brazileira, vol. I, Aves.
A Lavoura—Boletim da Soc. Nacional de Agri-
cultura, Rio de Janeiro, annos VITI-XTI, 1904-1907.
Dos numerosos escriptos de interesse agricola, desta-
camos os seguintes, por se ligarem aos nossos estudos:
Varias publicações com relacção á formiga cuya-
bana (Anno XI, N.º 4, p. 131 ss.) com uma carta do Snr.
Dr. Carvalho Borges Jun. e outra (1 c, N° 6) do Dr.
H. von Ihering, relatando os estudos feitos e aos quaes Já
nos referimos no Relatorio deste volume, p. 28.
Do Snr. Alipio M. Ribeiro sobre Peixes do Iporan-
ga, (Anno XI, Nº 5) estudo systematico ao qual em
outra parte desta bibliographia nos referimos.
M. Pio Corrêa (Anno XI, N° 9, 10, 11) sobre
algumas madeiras e diversos vegetaes uteis do Brazil.
Seguindo a ordem alpaabetica dos nomes vulgares, des-
creve rapidamente muitas das nossas plantas e indica as
suas applicações. Infelizmente nem sempre é dado o mes-
mo cuidado á classificação scientifica das especies. Sem |
ser novidade em nossa literatura, pois ja nos temos re-
ferido em volumes anteriores a varios outros trabalhos
1
|
4
4
À
-
4
— 457
analogos, comtudo, ao terminar, o auctor terá prestado
um bom serviço com a confecção de um diccionario para
consulta sobre os nossos vegetaes uteis.
Notas Preliminares, editadas pela redacção do
Revista do Museu Paulista, S. Paulo, vol. I, fase. 1,
1907.
Esta nova publicação, iniciada pela mesma redac-
ção desta Revista do Museu Paulista, destina-se 4 divul-
gação mais rapida de diagnoses de formas novas da nossa
fauna, communicações ligeiras sobre assumptos biologicos
e escriptos analogos; emfim servirá de Boletim ao Museu
Paulista.
O primeiro fasciculo, alem de participar factos rela-
tivos aos trabalhos no Museu, contem as descripcôes de
dous generos e oito especies novas de peixes Nemato-
gnathas do Brazil, pelo Custos do Museu, Snr. Rodolpho
von Ihering. Para facilitar a leitura das diagnoses aos
interessados, que não comprehendam nosso ideoma, ellas
vão acompanhadas de uma traducção ingleza.
Revista do Instituto Historico e Geographico de
S. Paulo, vol. VIII (1903), LX (1904), X: (1905),
AU (1906).
Do orgão deste operoso centro de estudos, que con-
tribue com quatro volumes para o nosso presente biblio-
graphia. limitamo-nos a chamar a attenção para alguns
estudos referentes ás materias de que nos occupamos.
Vol. VIII. O Dr. Theodoro Sampaio dedica algumas
paginas ao estudo da historia dos « Guayanäs da capitania
de S. Vicente». O Dr. H. von Ihering escreve sobre «As
abelhas sociaes do Brazil e suas denominações tupis» e
mostra, pela explicação etymologica dos nomes dados pelos
indios ás abelhas mellificas, o quanto os nossos indigenas
conheciam a sua biologia, e conclue que «na observação
da fauna e da flora de sua terra entre os povos não civi-
lizados, não .existe outro que exceda aos antigos donos
deste solo, os indios tupis.» Sobre a Origem dos Sam-
baquis escrevem os Srs. Drs. Æ von Ihering e Alberto
Lofgren; já em outra parte deste volume da Revista
(p. 237) esta questão foi ventilada e só lastimamos que
o escripto do ultimo destes dous auctores tenha um ca-
racter menos objectivo do que seria a desejar a bem do
assumpto e do Instituto.
Vol. IX. A Ethnographia da America, especial-
mente do Brazil, conferencia feita em 1838 (e não 1888
como nol-o faz ler um erro typographico) por C. F.
Ph. von Martius, é traduzida pelo Sr. A Lofgren. Residuos
da edade de pedra na cultura actual do Brazil, pelo Dr.
H. von Ihering; enumeração de muitos utensilios de que
ainda hoje se servem os nossos pescadores e que lhes
foram transmittidos pelos seus antepassados indigenas,
como em muitos casos o indicam as proprias denomi-
nações; varios desses objectos estão illustrados.
Vol. X. Os primitivos aldeiamentos indigenas e
indios mansos de Itanhaen por Benedicto Calixto. O fes-
tejado artista dá-nos um resumo da historia do povoa-
mento indigena de Itanhaen ao Sul de Santos e descreve
tambem as actuaes condicções dos pobres aborigenas.
Vol. XI. Traducção feita pelo Sr. A. Lofgren do
interessante estudo de C. F. Ph. von Martius sobre o
estado do direito entre os autochtones do Brazil. Mais
adiante figura outra tradueção da publicação moderna
de P. Ehrenreich: «A Ethnographia da America do Sul
ao começar o seculo XX»; bem como da « Viagem ao in-
terior do Brazil nos annos de 1814-1815 pelo naturalista
G. V. Freireyss » São devéras utilissimas estas traducções,
de originaes escriptos em publicações raras e linguas menos
diffundidas, pois assim são trazidas ao facil alcance de
todos nos. O Dr. von Ihering, escrevendo sobre a eth-
nologia do Brazil meridional, relata varias lendas indigenas
t
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Ag
e as que lhes são correspondentes entre povos selvagens
de outros paizes.
Relatorios da Commissäo Geographica e Geologica
do Estado de São Paulo.
a) 1905 Exploração dos rios Feio e Aguapehy (extremo
sertão do Estado) pelos engenheiros Olavo Hum-
mel, Gentil de Moura, J. Bierrenbach Lima Jr.
e pelo botanico Gustavo Edwall.
b) 1906 Exploração do rio Tieté (Barra do rio Jacaré-
Guassá ao rio Paraná) pelo engenheiro J. Black
Scorrar e pelo geologo Guilherme Florence.
ce) 1906 Exploração do rio Paraná (I Barra do rio
Tieté ao rio Paranahyba; II Barra do Tieté ao
rio Paranapanema) pelos engenheiros J. Black
Scorrar e G. Florence (geologo) e Coronel Cor-
nelio Schmidt.
d) 1907 Exploração do rio do Peixe pelos engenheiros
J. Pedro Cardozo, Chefe da Commissão, Gentil
Moura e pelo botanico Gustavo Edwall. |
Por influencia do Dr. Carlos Botelho, então secreta-
rio da Agricultura do Est. de S. Paulo foi apressada a
exploração do sertão desconhecido do Estado. Como havia
mesmo rios cujo curso e communicação se ignorava in-
teiramente, foram muitissimo uteis taes medidas, mórmente
como quasi todas as expedições organizadas tiveram bom
exito. Disso os relatorios que acabamos de enumerar dão
prova e a sua rica ilustração, por meio de numerosas
plantas e estampas, tornam interessantissimo cada um dos
relatorios. Nao nos deteremos com os resultados prin-
cipaes destas expedições (verificação de ser o rio Feio
o mesmo que em sua f6z, no rio Paraná, é denominado
Aguapehy e que o rio do E desagua mais ao sul no
rio Paraná com o nome de rio Tire) com o que se con-
seguiu deixar explorada toda a bacia hydrographica do
— 460 —
extremo sertão do Estado. Aqui interessam-nos mais os
trabalhos dos Snrs. G. Edwall e G. Florence, que, como
botanico e geologo, acompanharam as turmas e deram o
relatorio dos seus estudos; mas, como éra natural, não pu-
deram ser grandes os resultados, em vista de serem seus |
trabalhos prejudicados pela marcha constante das turmas,
que tinham em vista outros fins, e das quaes comtudo era
impossivel separar-se, pelo risco que offereciam as caçadas
isoladas no territorio dos indios bravios Coroados, os quaes
de facto repetidas vezes agerediram as turmas (veja
post):
Tambem um colleccionador, que da parte de nosso
Museu acompanhou a turma do rio Feio, não poude fazer
grandes colleeções pelo mesmo motivo.
De valor para o estudo da ethnographia dos nossos
indios são as descripções detalhadas e as illustrações de
muitos utensilios dos indios Coroados ou Caingangs, dos
quaes bem pouco se conhecia. Como já tivemos occasião
de mencionar, muitos dos artefactos colligidos foram of-
ferecidos ao nosso museu, onde agora figuram em ar-
mario especial.
Revista Agricola, Lavoura, Commercio e Indus-
tria, 8. Paulo, 1905-07, N. 112-149.
Dos trabalhos originaes temos a destacar diversos
da lavra do Snr. Arsenio Puttemans: Molestias do fumo
em S. Paulo (N.º 112), causadas pelos fungos Cercospora
nicotiane, e Alternaria tenuis; completam as descrip-
ções boas figuras e indicações dos remedios. As molestias
das plantas cultivadas: molestias da alfafa em S. Paulo,
pelo mesmo auctor (N.º 119-121); sob ponto de vista scien-
tifico são especialmente dignas de nota as informações
referentes 4 «ferrugem», causada pelo cogumelo Urumyces
striatus e & molestia causada pela Pleosphaerulina brio-
siana Poll. f. brasiliensis Puttem; estudos novos, com
ESTA ER
ilustrações originaes. Tambem o Tylenchus devastatria
é assignalado como inimigo da alfafa (pela primeira vez
no Brazil).
Revista da Sociedade Scientifica de S. Paulo
(Anno 1 e 2).
O primeiro fasciculo desta Revista foi publicado
em Junho de 1905; dahi para cá constantemente ap-
parecem novos numeros, sempre com variado conteudo,
“contribuições dos consocios, referentes ás suas especia-
lidades. Destas salientaremos as que versam sobre as-
sumptos de bacteriologia dos Snrs. Drs. A. Lutz e A,
Splendort e botanica do Dr. A. Usteri. Particularmente
valiosos nos são vs escriptos do Dr. Adolpho Lutz, sobre
os dipteros do grupo dos Tabanideos, as chamadas «mu-
tucas». O auctor publicará mais tarde as diagnoses das
especies novas, assaz numerosas na rica colleccäo de dip-
teros sanguesugas (com ca. de 200 especies) do Instituto
Bacteriologico de S. Paulo, do qual é digno chefe. No
presente estudo, escripto em allemão, mereceram-lhe espe-
cial attenção as especies já conhecidas pelos escriptores
antigos e, corrigindo as indicações falsas, occupa-se tam-
bem da sua biologia e distribuição geographica. Ancio-
sos esperamos a publicação da monographia completa,
que esperamos seja acompanhada de todas as valiosas
aquarellas, de ha muito preparadas sob a direcção do
illustre scientista.
| Annuario da Escola. Polytechnica de 8. Paulo,
Elano, 1903 27 V; 1905: 54 E 1906 : «VEL 1907.
Entre as contribuições dos lentes e trabalhos de
collaboração devemos mencionar como especialmente in-
teressantes, em nosso ramo de estudos, o resumo da confe-
rencia do Dr. Vital Brazil, sobre « Envenenamento ophidico
e seu tratamento» com numerosas experiencias sobre o
— 462 —
veneno crotalico e o seu antidoto efficaz, o serum anti-
crotalico.
Do Snr. Arsenio Puttemans é um bello estudo sobre
Ferrugem dos cereaes em S. Paulo; mais adiante, na parte
botanica desta bibliographia voltaremos a este assumpto.
Ainda do mesmo auctor figuram no Vol. VI uma Re-
lação dos fungos parasitarios, observados nos hortos de
ensaio da Escola (1905-06).
O Dr. A. Usteri apresenta varios estudos botanicos:
«Contribuição para o conhecimento da flora dos arredores
da cidade de S. Paulo»; «Contribution à la connaissance
du Struthantus concinnus», Loranthacea vulgarmente de-
nominada «Herva de passarinho » com estudos anatomicos
principalmente sobre a raiz; <Cerebela paspalr Cesati.»
fungo parasita das sementes de grammineas do genero
Paspalum.
No Vol. VII ainda o Dr. Usteri publica alguns es-
tudos botanicos, entre os quaes um extenso: «Estudos
sobre Carica papaya» que representa uma pequena mo-
nographia sobre o «Mamão», com investigações especiaes
sobre as condições da fecundação, as quaes o auctor de-
verá continuar para poder-nos communicar resultados mais
precisos sobre este interessante processo, ainda mal co-
nhecido com relação 4 Carica.
Annaes da Escola de Minas de Ouro Preto, Est.
de Minas Geraes, Nº 7 (1905), 8 (1906), 9 (1907).
A’ redacção destes Annaes felicitamos por ter con-
seguido para si a utilissima contribuição que o Dr. M.
Arrojado Lisboa lhe promette offerecer annualmente: uma
Bibliographia mineral e geologica do Brazil. O professor
J. C. Branner organizára uma bibliographia, publicada
nos Archivos do Museu Nacional, que alcança os escri-
ptos impressos até 1902. O Dr. A. Lisboa, agora, publica
nestes Annaes a que se refere aos annos de 1903-1906
e promette continual-a.
— 463 —
O auctor não poupou esforços para dar excellente
desenvolvimento ao seu trabalho, onde commenta as pu-
blicações recentes sobre assumptos de geologia e mine-
ralogia, dando dellas um breve resumo, ao qual junta a
sua critica. Esta tem-nos tanto maior valor quanto re-
conhecemos a alta competencia scientifica do auctor della.
Azambuja, Graciano A. de, Annuario do Estado
do Rio Grande do Sul, para o anno de 1905-- Porto
Alegre, 1904.
Sobre ethnologia indigena e outros assumptos, que
mais de perto nos interessam, tratam os seguintes artigos:
Os aborigenes do Brazil sob o ponto de vista ethnolo-
gico, pelo Rev. Padre A. Schupp, $. J. conclusão do
trabalho, cuja primeira parte foi publicada no Annuario
para o anno de 1904, e do mesmo auctor «Uma con-
tribuição para a Geologia do Rio Grande do Sul» interes-
sante trabalho o qual tambem foi publicado em lingua
allemã e já mencionada por nós á p. 604 do vol. VI
desta revista. Necrologio do Dr. Alberto Vieira Braga
pelo Snr. Gomes de Freitas. |
As arvores do Rio Grande do Sul pelo Dr. João
Dutra, continuação do estudo encetado no Annuario pre-
cedente. Plantas inedicinaes do Estado do Rio Grande
do Sul pelo Dr. Francisco Araujo, egualmente continua-
ção. Tupy-Guarany, Esboço sobre a lingua indigena,
por F. Opitz.
BB. — Botanica
Huber, J., Arboretum Amazonicum, Iconographia
dos mais importantes vegetaes espontaneos e cultivados
da região amazonica, 3º e 4º decada, Pard-Zurich.
2
Já no Vol. VI, p. 692 nos referimos nesta biblio-
graphia a esta publicação, iniciada com 20 estampas;
agora, com o apparecimento de mais duas decadas, já se
- - 464 —
eleva a 40 o numero das bellissimas photogravuras desta
serie. Continua excellente a escolha dos originaes, quer
quanto ao seu valor illustrativo, familiarizando-nos com
a riquissima flora amazonica, quer quanto ao lado ar-
tistico, pois quasi cada folha é um quadro bellissimo.
Lindman, C À. M. A vegetação no Rio Grande
do Sul. Traduzido do sueco por Alberto Lofgren;.
Porto Alegre, 1906.
Quando na bibliographia desta Revista, Vol V, p.
69%, se tratou da edição original deste livro, ficou dito
quanto era lastimavel ser escripto em lingua tão pouco
divulgada. Agora, graças á optima traducção feita pelo
Snr. A. Lóferen, temos uma edição portugueza e caloro-
samente recommendamos este livro a quem se interessar
por questões botanicas referentes ao Brazil, pois é es-
cripto com muita largueza de vistas e ahi são discutidas
numerosas e attrahentes questões floristicas.
Wetistein, Richard R. von; Vegetationsbilder aus
Südbrasilien ; com 58 estampas, Leipzig, 1904 +
O valor e o fim principal desta pnblicação é re-.
presentado pelo rico Atlas com 58 estampas, referentes
ás diversas formações vegetaes do Brazil meridional e
particularmente do Estado de S. Paulo. Como já com-
municamos nesta Revista, Vol. VI p. 2,0 auctor, em
companhia de varios outros collegas austriacos, fez a
este Estado no anno de 1901 uma excursão scientifica,
um dos fructos da qual é este trabalho. O texto que
acompanha as estampas é resumido e não se apresenta
em forma de um estudo scientifico. destinado a partici-
par novas observações e estudos com discussão minaciosa
de respectiva literatura, mas é destinado a expôr as im-
pressões e observações feitas durante a viagem. Estas.
impressões naturalmente em parte são subjectivas.
Assim 0 auctor diz que os principaes factores, relativos
ás condições de existencia das mattas virgens tropicaes
— 465 —
são a humidade e a luz, ao passo que outros naturalistas
designaram como taes factores a humidade e a sombra.
Seja notada aqui tambem, com referencia á p. 6, que a
altura sobre o nivel do mar de Raiz da Serra não é 260
mas 20 metros.
E” com prazer que, pela leitura desta attrahente con-
ferencia, passamos em revista as diversas formações ve-
getaes de nosso Estado, para cujo estudo se apresenta
este trabalho como uma introducção biologica. O que
neste sentido é de summo interesse, é, como já dissemos,
o rico atlas de vistas photographicas, bem reproduzidas
e em parte coloridas. Neste sentido a publicação do Snr.
von Wettstein representa um excellente meio de intru-
cção, servindo para esboçar em seus traços geraes a Flora
de nosso Estado.
«Marti Flora Brasiliensis» sive enumeratio plan-
tarum in Brasilia hactenus detectarum.
Com a publicação do fasciculo N.º 130 foram com-_
pletados os 40 volumes, que constituem a monumental
obra de 20.733 paginas e 3.811 estampas, em que estão -
descriptos 2.253 generos (160 novos) e 22.767 especies
(5.689 novas) de plantas, quasi todas brazileiras.
Ja é bastante conhecido o historico deste grande
emprehendimento de Ph. von Martius, (1840-68, fase.
1-46) continuado por W. Eichler até 1887, (fase. 47-99)
e J. Urban (até 1. IV. 1906, fase. 100-130). Interessantes
são as estatisticas que agora se podem estabelecer sobre
a collaboração prestada pelos 65 botanicos encarregados
da elaboração das monographias (38 allemães, forneceram
9,603 paginas; 2 belgas— 3.135 pg.; 5 inglezes— 2.298
pg.; 5 suissos— 2.043 pg.; 4 francezes—485 paginas de
texto, etc.)
Naturalmente, com a demora da publicação dos fas-
ciculos, tornou-se bastante desegual o acabamento das
monographias; comtudo é interessante conhecer o numero
466
de especies descriptas nas familias que, quantitativamente,
são as mais importantes. Assim as Orchidaceas contêm
1.455 especies, Composite —1.312 sp.; Leguminosa—
1.234 sp.; Myrtacee-— 1.06% sp.; Melastomacer-—986
sp.; Rubiaceæ— 974 sp.; Euphorbiaceæ—859 sp; Gra-
miniæ—-682 especies.
Pilger, R.; Beitráge zur Flora der Hylaea nach
den Sanimbungen von H. Ule; Abhandlungen des bo-
tanischen Vereins der Provinz Brandenburg, XLVI,
F905 p.100 101 SES
Hsta valiosa publicação refere-se ás ricas collecções
botanicas feitas por E. Ule na região amazonica nos
annos de 1900-1902. -Além dos senhores Ule e Pilger
contribuiram muitos outros especialistas para esta publi-
cação. As estampas referem-se a algumas especies novas
dos generos Aberemoa e Klaptodendron.
E grande o numero das especies - novas descr:
pelos auctores.
Ule, E.; Il Beitráge zur Flora der. Hylaea nach
den Sammlungen von Ule’s Amazonas-Expedition ; loc.
8. cut. XE VE 1906; po 1175208, Est. Ile
Com a collaboração de muitos botanicos é- conti-
nuada a descripção das plantas recolhidas pelo Snr. Ule,
sendo numerosissimas as especies novas.
Barbosa Rodrigues, I; Myrtacées du Paraguay,
recueillies par Mr. le Dr. Emile Hassler ; Bruxelles,
1908.
Um volume ricamente illustrado, que contem a des-
cripção de um grande numero de especies novas de Myr-
taceas, colleccionadas pelo Snr. Emile Hassler, em regiões
que até agora ainda não foram exploradas. Parte das
especies descriptas foi encontrada tambem nos terrenos
limitrophes do Brazil.
— 467 —
Starbäck, K.; Ascomyceten de I. Regnell’schen
Expedition, III, Est. 1-2. Arkiv for Botanik, TI, 4,
Nº 6, 1904, Stockholm.
Malme, G. O.; Die Gentianaceen der II. Reg-
nell’schen Expedition ; loc. cut. III, 1-3, Nº 12;
Lindman, O A.; Regnellidium novum genus
Marsiliacearwm ; loc. sup. cit. Nº 6.
Malme, G. O.; Die Umbelliferen der II. Regnell-
schen Expedition ; loc. cit. III, 4, Nº 13, Est. 1-5.
Fries, R. B.; Die Anonaceen der II. RegnelPschen
Expedition ; loc. cit. TV, 4, 1905, Nº 14, Est. 1-4.
Todas estas valiosas publicagdes, em que os respecti-
vos auctores estudam certas familias, em que são especialis-
tas, são ainda fructos das duas expedições Regnellianas
ao Brazil e ás quaes já por varias vezes tivemos occa-
sião de nos referir nesta secção bibliographica. Estes
resultados patenteiam ainda uma vez quão proveitosas
foram estas expedições para a exploração botanica do
nosso paiz. |
Malme, G. O.; Aslepiadaceæ paranenses a Dre.
P. Dusen collecte; Arkw for Botanik; TV; 1-5, N°
3, 1905. |
Em comparação com os Estados de S. Paulo, Sta. Ca-
tharina e Rio Grande do Sul, o auctor julga o Estado do
Paraná o mais mal conhecido botanicamente (dá-se quasi o
mesmo tambem quanto á sua fauna!) e assim foi de grande
interesse a viagem de estudos, que para lá fez o Dr.
Dusén, por ordem do nosso Museu Nacional. O auctor,
que muito se dedica ao estudo da flora brazileira, ennumera
e descreve pequena parte do material então colligido.
Cogniaux, Alf.; Notes sur les Orchidées du Brésil
et des regions voisines; Bull. Soc. roy. botan. de Bel-
gique, Vol. XLIII, 1906, p. 266-356.
— À impressão demorada dos fasciculos da Flora Bra-
siliensis que compõem a monographia das Orchideas
À 30
- — 468 —
(1893-1906), escripta pelo Snr. A. Cogniaux, fez com que
se tornassem necessarias numerosas addendas; no presente
escripto figura a lista completa das orchideas brazileira
conhecidas que, com as que aqui vem descriptas, perfazem
um total de 1.746 especies, */, das quaes são exclusiva-
mente brazileiras. Não queremos deixar de pôr em relevo,
como tambem faz o auctor da monographia, a importante
cooperação prestada por um scientista nosso, o Dr. J.
Barbosa Rodrigues, illustre director do Jardim. Botanico
do Rio de Janeiro, pois são suas as descripções e illus-
trações de 538 especies novas destas plantas.
Noel, Bernard; Nouvelles espèces d’endophytes
d'Orchidées; Comptes Rendus de l’Académie des Sci-
ences, Tome GA; Nº-19 Paris, 1905, pe fe
O auctor verificou, por uma serie de experiencias,
que a germinação dos grãos de Orchideas depende do
concurso de cogumelos endophytas, que são differentes
“nas varias especies de Orchideas, o que constitue um
novo e interessante caso de verdadeira symbiose.
Lindman, C. A. M., Zur Kenntniss der Corona
eiriger Passifloren ; Botaniska Studier (till. Kjellman)
Upsala 1906, p, 55-79. |
O auctor estudou as flores de nove especies de Pas-
siflora (maracujá) quasi todas do Rio Grande do Sul e
Matto Grosso. De todas dá a descripção e desenhos de-
talhados e chega a diversas conclusões geraes, quanto 4
divisão que se pode estabelecer no apparelho floral, se-
gundo as suas funcções. A «corona» divide-se em 3
secções: a perigonial, a do orgam productor de nectar e
o apparelho occultor de nectar.
Barbosa Rodrigues, J.; Les noces des Palmiers.
Remarques préliminaires sur la fecondation ; Bru-
xelles, 1908.
Um interessante estudo de biologia botanica, que se
occupa minuciosamente da fecundação das palmeiras e
— 469 —
do desenvolvimento das nozes. Numerosas estampas ex-
plicativas, bem executadas, enriquecem este trabalho, es-
clarecendo o assumpto.
Ule, E.; Wechselbeziehungen zwischen Ameisen
und Pflanzen; Flora oder Allg. bot. Zeitung, Vol. 94.
fase. 5,190.
Este trabalho occupa-se das relações mutuas e con-
dições de dependencia entre formigas e plantas e completa
uma publicação do Snr. Forel, da qual já tratamos á p.
640 do Vol. VI desta Revista. O auctor occupa-se
mais do lado botanico deste assumpto, dividindo as for-
migas em grupos, conforme as plantas nas quaes vivem.
Ule, E.; Blumengárten der Ameisen am Ama-
zonenstrome ; Vegetationsbilder, herausgegeben von Dr.
G. Karsten und Dr. FL Schenk, à. - Rethe, Heft. 1.
Jena, 1905, Tafei 1-6.
Sao seis lindas estampas muito bem executadas e
companhadas de texto explicativo. E’ o mesmo assum-
pto, já tratado em outra publicação pelo mesmo auctor,
á qual nos referimos á p. 639 do Vol. VI desta Revista.
Ule, H.; Die Kautschukpflanzen der Amazonas-
Expedition und thre Bedeutung fiir die Pflanzen-geo-
graphie; Engler’s Botanisohe Jahrbücher, Vol. XX XV,
Heft 5 1905, p. 668-678.
O auctor emprehendeu nos annos de 1900-1903
uma expedição á região amazonica, cujo fim principal era
de verificar quaes são as plantas que fornecem a borracha.
A maior parte da borracha exportada do Amazonas,
quasi 34, provem da Jlevea brasiliensis Mill. Arg.
Este nome se pretende agora alterar, por questões de no-
menclatura; ao que porem se oppõe o auctor, ponderando
que traria grandes inconvenientes a mudança do nome
de uma planta, tão conhecida e que desempenha tão
importante papel no commercio e na industria.
— 470 —
H. discolor Müll. Arg. e mais algumas especies do
Rio Negro não fornecem mais que mil toneladas annual-
mente. Tambem extrahe-se uma borracha inferior de
outras especies de Hevea.
Algumas especies de Sapium e Micrandra sipho-
noides Benth. dio uma borracha de boa qualidade, que
entretanto só constitue uma pequena parte da producção
total. Da Castilloa ulei Warb. extrahe-se um producto
que distinguem pelo nome de «cauchá> e que tambem
contribue com algumas mil toneladas para a exportação.
Ule, B.: Kautschuckgewinnung u. Kautschuck-
handel um Amazonenstrome; Beiheft zum Tropenpflan-
zer, Berlim, Vol. VI, N° 1, 1905, 71 pgs.
Precedido de um resumo botanico, referente ás plantas
fornecedoras de borracha, o conteúdo principal desta pu-
blicação refere-se ao methodo seguido pelos nossos serin-
gueiros para a obtensão do latex, o preparo usual deste,
sua exportação, ete. Descreve tambem minuciosamente a
vida que levam os operarios de um seringal, entre os
quaes predominam os cearenses. Que haja mesmo algum
exagero na descripção da sorte destes trabalhadores, mas
geralmente esta é triste e digna de compaixão. Uma
vez endividado para com o seu patrão, o que, com a
grande carestia de todos os generos, é facillimo succeder,
o pobre seringueiro fica quasi reduzido á posição de
escravo. Muito variavel é o resultado do trabalho; annos
ha em que o operario póde colher só 300 kls. de bor-
racha, ao passo que em lugares mais favoraveis obterá
até 1000 kls. O rendimento de uma só arvore pode
variar tambem de 2 a 12 kls. por anne.
Ule, E.; Kautschukgewinnung u. Kautschukhandel
in Bahia; Notizbl. d. k. botan. Gart. u. Mus. Berlim,
NEALE AY Ole POD:
Por ordem do Bahia-Kautschuck-Syndikat de Leip-
zig, o provecto conhecedor das nossas arvores de borracha
A ad da dc a ie à
eee > o be dpi ee
bé. tdo
bon ne A do a ae o At id Sd
— 471 —
percorreu, apoz sua viagem na Amazonia, o Estado da
Bahia. Na publicação que apresenta, descreve primeiro
a sua viagem e as impressões botanicas, passando depois
a tratar das plantas productoras de borracha dessa re-
giao. São ellas a mangabeira (Hanicornia speciosa) e
a maniçoba, arvores do genero Manihot. Deste genero de
Euphorbiaceas conhecem-se ca. de 82 especies, das quaes
72 occorrem no Brazil; mas só se sabe de 5 especies que
forneçam borracha e 3 destas vem descriptas como novas
pelo Snr. Ule. Boas ilustrações no texto e em estampas
mostram-nos estas plantas.
Passando a estudar os methodos empregados na
colheita, vê-se que em parte os «borrageiros» seguem 0
mesmo systema usado pelos seus collegas «seringueiros »
da Amazonia; em parte uzam outro, que é o seguinte:
fazem uma pequena excavação na terra, junto ao tronco
e ahi, no collo da raiz, férem a arvore com a ponta da
faca; para que a borracha não se misture muito com
a areia, forram o buraco com folhas ou com barro (de
cupim), que depois facilmente se lava. Assim, de uma.
só vez, obtem-se geralmente peças de ca. de 50 a 100
er. de peso, mas tambem se tira muito mais, excepcio-
nalmente até 1 kl.
Com excellente conhecimento do assumpto, o auctor
passa a discutir a productividade geral destas arvores de
borracha, aconselhando ao mesmo tempo muitos melho-
ramentos para a cultura. Finalmente compara a borracha
do Para (Hevea) com a da Bahia (Manihot); aquella
é de qualidade superior e alcançará, pois, sempre preço
superior; mas esta offerece, em compensação, vantagens
consideraveis. Assim já no 4º anno a maniçoba dá boa
colheita (Hevea só no 8º ou 10 anno); a colheita é
mais facil e, especialmente, não requer, como a Hevea, o
melhor terreno, podendo ser plantada em regiões aridas,
sem valor para outras culturas.
— 472 —
Pecholl,. Th.; Heil-und Nutzpflanzen Brasiliens ;
Ber. d. Deut. Pharmac. Gesellsch. Berlim, Ann. XV
fase. 67. (1909); AVL fase sO; "Os, (eos
Da grande familia das Euphorbiaceas, que tem uma
representação de 67 generos e ca. 884 especies no Brazil,
o auctor conhece 172 especies, com emprego technico,
economico ou therapeutico. Referindo-se a cada uma
destas especies, scientificamente classificadas, indica a sua
distribuição geographica e o seu nome vulgar; descreve
depois rapidamente o vegetal e passa a tratar extensa-
mente do seu emprego indigena; de muitas especies dá-
nos o resultado de suas analyses chimicas. A literatura
concernente, antiga e moderna, é optimamente aproveitada,
o que torna intessante, tambem ao leigo, esta publicação
tão valiosa pelas communicações scientificas e de utilidade
practica.
Barbosa, Rodrigues, J.; L’wiraéry ou curare, Ex-
traits et complément des notes dun naturaliste brési-
lien; Bruxellas, 1903.
Este trabalho é mais um fructo das longas viagens
do auctor na Amazonia e das observações e estudos rea-
lizados nessa região.
A palavra «uiraêry», composta de wira (passaro),
cor (matar) e y (liquido), significa: liquido para matar
passaros. À arma, com a qual são arremessadas as pe-
quenas flexas, embebidas neste veneno, é a «sarabatana»,
palavra derivada, por corrupção, de carauatana (cara-
furado, wa-madeira, atan-duro).
As sarabatanas são feitas de dous pedaços cylin-
dricos de madeira, que, depois de furados e bem alisa-
dos por dentro, são adaptados um ao outro, tornando-se
a juncção mais solida por tiras de fibras vegetaes, que
se enrolam ao redor das duas peças.
O auctor enumera todas as tribus amazonicas que
fazem uso deste veneno e dá uma breve descripção dos
— 473 —
costumes de cada uma. O verdadeiro curare, que deve
a sua acção particular sempre a um Strychnos, é des-
tinado exclusivamente á caça e nunca á guerra.
A sarabatana com a flexa envenenada é uma ex-
cellente arma de caça, que não só fornece ao indio a
carne para o seu sustento, mas tambem quantos animaes
vivos elle quizer. Querendo apoderar-se da caça viva, os
indigenas applicam sal como antidoto ao animal ferido
e paralysado, e conseguem que elle se restabeleça em
pouco tempo; o sal é applicado tanto externamente na
ferida como internamente. Foi esta parte da exposição
do auctor que se tornou alvo de violenta contestação, e
originou uma longa polemica entre os Snrs. Lacerda e
Joubert de um lado e o auctor do outro.
Tudo que diz respeito a esta polemica, artigos de
jornal, actas sobre as respectivas experiencias, pareceres
de summidades scientificas, encontra-se reunido no capi-
tulo IV. O auctor sustenta que as experiencias, feitas
pelo Snr. Lacerda, para provar que o sal não é anti-
doto, não pódem invalidar em nada a sua affirmação,
porque o veneno empregado não foi o curáre legitimo,
- cujo effeito sempre se déve a um Strychnos, mas um liqui-
do obtido de Menispermaceas, que não póde ser neutra-
lisado pelo sal. Este falso curáre é fabricado principal-
mente em Caldeirão, Tonantins e Içá e destinado 4 venda e
exportação ; nada tem de commum com o curáre dos caça-
dores indigenas, fabricado por estes mesmos para seu uso.
Os effeitos do falso curáre, constatados nus expe-
riencias do Dr. Lacerda, são totalmente differentes dos
do legitimo. O animal ferido é accommettido de con-
vulsões, espasmos e ás vezes vomitos, mostra afilicção
e o desejo de fugir, emquanto que, ferido pelo verdadeiro
curáre, extrahido da Strychnos, o animal parece como
que possuído de um certo bem estar, de um cansaço
agradavel, que o convida ao repouso; elie dispõe-se para
dormir e a vida esvahe-se sem tormentos nem dôres,
permanecendo as faculdades intellectuaes intactas até o
ultimo momento. O coração continua a bater algum
tempo depois da morte do animal e, mesmo arrancado
do peito, palpita ainda as vezes perto de meia hora.
Debaixo do mesmo ponto de vista o auctor exerce
no ultimo capitulo a critica de duas publicações do Dr.
Lacerda Filho sobre o mesmo assumpto: «Curare pré-
paré au moyen d'une seule plante de la famille des Me-
nispérmacées» dos Archivos do Museu Nacional e « An-
notações á historia do urári» (Annaes da Academia de
Medicina, 1899, I 65, p. 1-21).
Puttemans, Arsenio; Ferrugem dos cereaes em
S. Paulo; Annuario da Escola Polytechnica de 8.
Paulo para 1905.
Das pesquizas do auctor sobre a «ferrugem» dos ce-
reaes em S. Paulo, resultou que esta molestia aqui não
é produzida, como até agora geralmente se acreditava,
pela Puccinia graminis Pers, que para seu desenvolvi-
mento necessita do concurso da «uva espim», Berberis
vulgaris L., planta esta que não se encontra neste Es-
tado. Esta circumstancia já devia suggerir a supposição
que a ferrugem dos cereaes daqui era essencialmente -
differente da que se observa em outras regiões, onde
existe a Perberis.
E, de facto, o auctor conseguiu provar que este mal
é causado em 8. Paulo pela Puccinia rubigovera D. C.
que tem um cyclo vegetativo diverso da P. gramanis,
não precisando, para a sua propagação, da Berberais.
Falta determinar ainda qual esta planta, desconfiando o
auctor que seja uma Borraginacea.
Spegazzim, Carlos; Fungi aliquot Paulistana ;
Rev. del Museo de la Plata, Vol. XV, 1907, Ser. 2,
tom. II, p. 7-48.
Tendo o auctor recebido uma rica collecçäo de fungos
colligidos em S. Paulo pelo Dr. A. Usteri, classificou-os
e verificou nada menos de 154 especies, uma grande
parte das quaes considerou novas e decreveu.
Rehm, Dr. H. & J. Rick; Novitates brazilienses ;
Loc. sup. cit. p. 223-226.
Descripção de 16 especies novas de fungos.
Rick, Pº J.; Pilze aus Rio Grande do Sul; Bro-
teria, S. Fiel-Portugal, 1906, vol. V; p. 5-53, Est.
TAKE
As 310 especies de fungos do Rio Grande do Sul,
que o operoso padre Rick enumera, pertencem especial-
mente 4 ordem dos Basidiomycetas e dos Ascomycetas.
Um grande numero das especies descriptas é novo para
a sciencia; seis excellentes estampas phototypicas illus-
tram os principaes typos.
Rick, Pº J.; Fungi austro-american eas. Kase. 1
Annales Mycologici, vol. TI, n. 5, 1904, p. 1-5 e Fase.
Pb Vol LER n°171905, po 15-16.
Com o fim de tornar conhecidos os cogumelos sul-
americanos, e facilitar o estudo delles, o auctor tem dis-
tribuido representantes das especies, colligidas por elle,
em collecções consecutivas de 20 exemplares cada uma,
dando as notas explicativas, concernentes a cada colle-
cção, nos Annales Mycologici; o Fasc. I contém os Ns.
1-20 e Fasc. II os Ns. 21-42: entre elles descreve
duas especies e duas variedades novas.
Hennings, P.; Fungi fluminenses a. cl. E. Ule
collecti ; Hedwigia Vol. XLITI, p. 78-95.
Descripção de uma collecçäo de cogumelos, reunida
pelo Snr. Ule, no Rio de Janeiro.
Hennings, P.; Fungi amazonic a cl. Ernesto
Ule collecti ; Hedwigia, Vol. XLIII, I, p. 154-186
— 476 —
com Estampa III; IT ibid. p. 242-273, Est. IV; III
ibid. p. 351-400, Est. IV; Vol. XLIV p. 57-71.
Nos annos de 1900-1903 o Snr. Ule tez abun-
dantissimas colleccdes de cogumelos na região amazonica,
principalmente nas seguintes localidades: Marary e Bom
Fim, no Juruá, Rio Negro, Marmellos, affluente do Ma-
deira, e no Perú: Leticia, Iquitos, Yurimaguas. E” riquis-
simo o material destas collecções, 700 especies mais ou
menos e entre ellas muitas especies novas são deseriptas.
Não podemos entrar em apreciação mais particular
deste importante trabalho; seja só mencionado que á
pag. 244 ss. encontramos descriptas varias especies do
interessante genero Cordiceps, cogumelos parasitarios,
que vivem nos gafanhotos e outros insectos; a Est. IV
mostra figuras explicativas referentes ao mesmo assumpto.
Brotherus, V. F. Muse amazonici et subandina
Uleani ; Hedwigia XLV.
De egual proveniencia são as 113 especies de mus-
gos, descriptos nesta publicação e das quaes boa parte
era nova á sciencia.
Bauer, E.; Laub—und Lebermoose von Porto Ale-
gre; Verhandl. der k. k. zool. bot. Gesellsch. Wien,
Vol. LV, 1905, fase. 9-10, pag. 575-560.
Sao ahi enumeradas pelo auctor as numerosas espe-
cies de musgos do -grupo dos Bryophytas que, pelos
Snrs. Ed. Reineck e J. Czermak, foram colligidos nos
arredores da capital do Estado do Rio Grande do Sul.
O facto de terem sido colhidas só poucas novidades ex-
plica-se por ter o Snr. E. Ule dedicado no Sul do Bra-
zil muitos annos de estudo a este grupo de plantas.
Jahn, E.; Myxomyceten aus Amazonas, gesam-
melt von E. Ule; Hedwigia Vol. XLIII p. 300-305.
Descripção de 13 especies de Myxomycetas, colli-
sidas pelo Snr. Ule na região amazonica. Esta pequena
— 477 —
colleeção parece indicar um certo parentesco com os
_Myxomycetas da America do Norte, sobre o que, no
emtanto, só collecções mais completas pódem dar certeza,
Rosenstock, E; Beiträge zur Pteridophytenflora
Stidbrasiliens; Hedwigia, Vol. XLIIT, 1904, p. 210-258.
Deseripção de uma rica collecçäo de fétos, proveni-
ente do Brazil meridional, sendo algumas especies novas.
Os fétos, descriptos de S. Paulo, foram colligidos em
Toledo; acha-se entre estes a interessante especie Azolla
microphylla, que se encontra fluctuando nos ribeirões.
C. — Geologia e Paleontologia
Thering, Hermann von; Archhelenis und Archa-
notis; Leipzig, 1907, 350 ps, 1 mappa.
O livro deste titulo é um conjuncto de escriptos
em parte antigos, em parte modernos do Dr. H. von
Thering, todos referentes a questões biologicas da America
do Sul, estudando o auctor em todas ellas principalmente
aquillo com o que contribuem para esclarecer a historia
e a formação deste continente. Por isto os 16 capitulos
desta obra são de per si referentes todos a assumptos
os mais diversos; no conjuncto, porém, vem todos docu-
mentar as ideias expostas nos ultimos capitulos, que tratam
do desenvolvimento do continente sulamericano. Dispen-
samo-nos de dar um extracto da interessante exposição
do auctor, quando descreve a conformação dos continentes
Archhelenis e Archinotis, que na época terciaria repre-
sentavam, um, a America do Sul e a Africa unidas, outro
o continente antarctico, ligado 4 Australia; a quem for
de interesse este assumpto indicamos a tradução do capitulo
XII, «Historia da fauna marina do Brazil», da obra
«Les Mollusques fossiles du tertiaire et du Cretace sup.
de P Argentine», do mesmo auctor, que damos neste volume
da Revista, p. 337 e seg. Ahi reproduzimos tambem o
— 478 —
mappa (Est. XIII) referente á distribuição de terra e
mar no globo, durante a formação eocenae, cujo original
acompanha o livro « Archhelenis e Archinotis ».
Arldt, Th.; Die Entwivkelung der Kontinente und
ihrer Lebewelt; Leipzig, 1907. |
O auctor, que já em varias publicações se occupou
da antiga geographia do globo e das modificações suc-
cessivas da fauna e da flora, trata neste livro de modo
completo do mesmo assumpto. E um volume bem im-
presso, de 730 paginas, illustrado por 17 figuras e 23
mappas. Estes ultimos representam os continentes do
Cambrio, do Silur e Devon e das formações subsequentes,
tendo sido sempre aproveitadas as publicações concernentes,
mais importantes, com excepção só dos valiosos estudos
e respectivos mappas de Ortmann, entre os quaes, par-
ticularmente os referentes á distribuição e historia dos
Crustaceos, são valiosissimos.
Com relação aos organismos modernos e terciarios,
o auctor distingue 3 reinos, a Paleogea, com as regiões
da Australia, America meridional e Madagascar, a Mesogea
comprehendendo as regiões africana e oriental e a Cenogea
abrangendo a região holarctica.
E” obra elaborada com grande zelo, cujos resultados
em parte coincidem com os nossos. (Quanto ás relações
antigas da America meridional com outros continentes,
as nossas opiniões divergem, como é natural, visto que
o material geologico, que forma a base de nossas con-
clusões, não era ainda conhecido ao auctor.
SV
Simroth, Heinrich; Die Pendulationstheorie ; Lew-
ZUG, cL OO.
Esta nova e interessante obra é destinada a explicar
as modificações pelas quaes passaram os continentes e
seus organismos no correr das épocas geologicas. O auctor
— 479 —
toma por base de suas especulações a theoria de Reibisch,
segundo a qual a posição dos pólos de nosso globo se
desviou, com grande amplitude, durante as diversas épocas
geologicas. A Africa é segundo o auctor, o unico con-
tinente que não está de accordo com a theoria, e, por
este motivo, Simroth accredita que o mesmo represente
apenas uma lua, que tivesse cahido do céo no mar atlan-
tico, causando assim a deslocação dos pólos (p. 543-544).
Por nossa parte não podemos abandonar a base
solida, que as investigações geologicas tem fornecido para
o conhecimento do desenvolvimento do nosso globo.
El. voc th.
Derby, Orville A.; Notas geologicas sobre o Es-
tado da Bahia ; Boletim da Secretaria de Agricul-
tura, Viação, Industria e Obras Publicas do Estado
da: Baka, vol. VIT, Bahia, 1905; p. 12-31,
Este importante estudo, publicado pelo sabio chefe
do Serviço Geologico e Mineralogico do Brazil, merece
attenção toda especial, pelo valor que têm, para a nossa
literatura, taes raras contribuições. Infelizmente devemos -
limitar-nos a transcrever as conclusões desse relatorio da
excursão geologica. Resumindo estas observações, quanto
aos recursos mineraes e agricolas do Estado, e encarando
estes debaixo de outros pontos de vista, cuja exposição
detalhada não cabe nesta simples resenha geologica, pode-
se dizer:
I As jazidas mineraes, até hoje conhecidas, que
apresentam condições naturaes de possança favoraveis
para uma exploração industrial, são as de diamantes e
carbonados, ouro, monazite, cobre e, presumivelmente,
graphite e mica.
IT O aproveitamento destas jazidas depende menos
das suas condições naturaes do que das artificiaes, sus-
ceptiveis de modificação pela acção humana, mas que
actualmente constituem impecilios prohibitivos da lavra
480 —
da grande maioria dellas. Entre estes impecilios os mais
importantes são: as difficuldades de transporte, a falta
de legislação adequada, a confusão e falta de segurança
nos titulos de propriedade territorial, as exigencias dos
proprietarios dos terrenos mineraes e a falta de pessoal
apto para os serviços de mineração, especialmente os
das pesquizas preliminares.
HI A capacidade agricola dos diversos terrenos
do Estado depende mais das saas condições climatologicas
(irregularidade ou deficiencia de chuva) do que da sua
composição e extructura geologica. Em virtude destas
condições só ha probabilidade da lavoura se generalizar
em algumas regiões mais favorecedas, que se apresentam
especialmente no litoral do sul do Estado, sendo espo-
radica em grande parte ao sertão, onde a industria pas-
toril ha de continuar de occupar as maiores extensões
do territorio.
IV Sémente nas regiões relativamente limitadas ha
probabilidade de se poder minorar os effeitos das seccas,
pela utilização de aguas subterranea, obtidas por meio
de poços artesianos.
Na maior parte do territorio, que soffre de escassez”
de agua, o allivio possivel ha de vir do melhor apro-
veitamento das aguas superficiaes, armazenando-as por
meio de açudes.
Calogeras, J. Pandid; As minas do Brazil e sua
legislação; 3 vol. Imprensa Nacional, Rio de Janeiro,
1904.
Os tres bellos volumes publicados sob este titulo
representam um parecer apresentado na Camara Federal
dos Deputados á Commissäo especial das minas pelo
auctor, em sua qualidade de relator. Expondo a materia
com optimo conhecimento do assumpto e salientando
sempre as medidas que julgava conveniente serem to-
— 481 —
madas em prol do desenvolvimento da industria, guiava-o
sempre o pensamento de, «na mais extensa medida,
libertar de peias administrativas e fiscaes quer as pes-
quizas, quer o meneio das jazidas». E antes de tudo
cumpria dar organização á « lei de minas », para eliminar
as duvidas existentes nas relações de direito civil, a que
a exploração das riquezas mineraes daria lugar.
Dando amplo desenvolvimento a este programma, o
Dr. J. P. Calogeras elaborou verdadeiras monographias,
em que sempre estuda o historico da mineração no Brazil
e os antigos methodos empregados; depois as investiga-
ções geologicas realizadas, os aperfeiçoamentos introduzidos
nos processos de extracção e a producção. actual no
Brazil; nas Conclusões discute questões dignas de critica
severa; por fim uma extensa lista bibliographica indica
fontes literarias para mais detalhadas informações.
Seguindo sempre, com grande proveito para o facil
manejo da obra, este methodo de exposição, o auctor
dá-nos, no 1.º volume, os capitulos referentes ao ouro,
ao diamante, ás pedras coradas (turmalinas, aguas-mari-
nhas, agatas, topazios, etc), terras raras (barvo, tellurio, .
titanio, zirconio e outros mineraes raros, cujo emprego
industrial os torna procurados) e areias monaziticas. No
2º volume são estudados: ferro, manganez, cobre, os
combustiveis, prata, e substancias diversas, como chumbo,
sal, salitre, e materias para a industria e para as cons-
trucções. Nas Conclusões geraes estuda conjunctamente
os multiplos factores que impedem o amplo desenvolvi-
mento da mineração no Brazil. O 3º volume contem
“exposições sobre direito mineiro e um resumo da legis-
lação dos Estados do Brazil; o projecto de lei regu-
lando a propriedade das minas e, em annexo, diversos
projectos e pareceres anteriores.
O valor desta obra, quanto ao nobre fim a que se
destinava, como parecer apresentado aos poderes legisla-
tivos de nosso paiz, é evidente. Mas ainda, independente
deste serviço prestado, a obra do illustre auctor será
geralmente apreciada e procurada, pois ahi vamos en-
contrar, exposto em bello estylo, assumptos que a todos
nós interessam e sobre os quaes até agora não encon-
travamos em nossa literatura informações positivas, amplas
e modernas: as riquezas mineraes do Brazil.
Camara, Antonio Alves; O Manganez no Esta-
do da Bahia, 1906, Rio de Janeiro.
O auctor prevê um bello futuro á exploração do
manganez na Bahia, por ser superior em qualidade ao
da Russia e de Minas, e além disso serem menores as
despezas para o transporte e o embarque transatlantico
do que em Minas Geraes. A exploração. do manganez
foi retardada por causas accidentaes, de cambio e preço
dos terrenos, mas já houve grande progresso na explo-
ração do manganez bahiano, pois a estatistica do embarque
de Nazareth indica 820 ton. para o anno de 1901 e
3500 ton. em 1905.
Hussak, Hug.; Ueber das Vorkommen von Palla-
dium und Platin in Brasilien; Sitzungsb. der k. k.
Acad. der Wissensch. Mathem. naturw. Klasse, Wien.
1904, V-VIT, pg. 379-406, Est. e 1.
Esta importante publicação do distincto mineralogo
da Commissão Geogr. e Geologico de S. Paulo estuda
a occorrencia de Palladium e Platina no Brazil. Depois
de enumerar a literatura concernente e discutir o lado
historico da questão, passa o auctor a descrever minu-
ciosamente o rico material mineralogico do qual dispunha,
aproveitando tambem notas de observações feitas pelo
Dr. M. Lisboa. A platina, conhecida no Brazil já ha
cerca de 100 annos, tem sido encontrada em Pernambuco
e especialmente em Minas Geraes. Em quasi todas as
localidades, em que se a tem encontrado, parece apresen-
tar-se como sendo de formação primaria, excepto porém
— -483
na Serra do Espinhaço, onde parece antes tratar-se de
formações secundarias, oriundas da decomposição de silex
que contivéra a platina.
Uma traducção portugueza deste valioso estudo foi
publicada nos Annaes da Escola de Minas de Ouro
Preto, 1906, N28, p. 77-188 pelo Dr. M: Arrojado
Lisboa.
Silveira, Alvaro da; Os tremores terra em Bom
Suecesso (Minas Geraes); Bello Horizonte, 1906.
Em Bom Successo deram-se, a 4 de Abril de 1901
e ainda algum tempo depois, leves tremores de terra e
repetidos rumores subterraneos, que muito inquietaram a
população da cidade mineira, sem porém realmente occa-
sionar prejuizos. Não faltaram pessôas que, attribuindo-
se uma competencia que em verdade não possuiam, cada
vez mais amedrontaram a população com theorias terro-
ristas. O livrinho do Dr. Alvaro da Silveira relata não
só os factos, mas tambem toda a comedia pseudo-scien-
tifica a elles ligada.
Wettstein R; Brasilien und Blumenau ; Leipzig,
1907, 339 pag.
Este bello livro, cujo titulo aliás foi mal escolhido,
é essencialmente uma fonte de informações para os que
se interessam pelos nucleos coloniaes allemães no Brazil
meridional.
Como o auctor viveu por longo tempo em Blumenau,
especialmente a este prospero centro da actividade rural
dos immigrantes allemães que o livro se refere. Abrem
o livro alguns capitulos sobre a America do Sul e o
Brazil meridional, com referencia a geographia politica
e economica e diversas considerações geraes de interesse
especial para os allemães. Passando a tratar da comarca
de Blumenau, descreve-a detidamente, com optimo conhe-
cimento, tanto das suas actuaes condições, como dos males
ol
ERR alti
que impedem seu melhor desenvolvimento; é especialmente
a falta de communicações rapidas e baratas, para a ex-
portação, que o auctor aponta como maior impecilio. Seu
juizo sobre a população é por vezes em demasia severo
e não lh’o devemos levar a mal, no que diz respeito a
nós, pois é o mesmo que tambem applica com relação
aos teutos-brazileiros e a instituições allemães do minis-
terio do exterior, etc.
O que ainda em especial queremos salientar como
ralioso neste livro é a abundante e optima illustração,
por meio de mappas, estampas finissimas e bem esco-
lhidas e figuras no texto e ainda a grande somma de
dados estatisticos com que o auctor sempre procura do-
cumentar suas affirmações.
Thomas, Ivor; Neue Beitraege zur Kenntniss der
Devomschen Fauna Argentiniens ; Zeitschrift d. Deu-
tschen Geol. Gesell, Bd. 57, Jahrg. 1905.
Nosso conhecimento da «formação: devoniana» da
America do Sul, que ainda era bastante insuficiente, foi
enriquecido consideravelmente pela dissertação acima men-
cionada. Encontram-se depositos devonianos no Brazil,
nos Estados de Matto Grosso, Pará e Paraná, e alem
disto na Bolivia, na Argentina e nas ilhas Falkland.
Foram os Snrs. Rathbun e Hartt que primeiro consta-
taram relações intimas da fauna destes depositos sul-
americanos com x dos depositos da America do Norte,
chamados « camadas de Hamilton.» Esta opinião foi
agora confirmada pelo auctor desta publicação.
Thering, Hermann von; Les mollusques fossiles du
tertiaire et du crétacé superieur de l Argentine; Anales
a Museo Nacional de Buenos Aires, T. XIV, (Ser.
CUT LOO Gece O tet lek hie
Esta grande monographia dos molluscos fosseis do
Terciario e do Cretaceo superior da Rep. Argentina, que
AE
Ou
|
por si completa um volume dos Annaes do Museu Na-
cional de Buenos Aires, poude ser elaborada pelo auctor
graças aos riquissimos materiaes, que lhe foram enviados,
para seu estudo, pelo director daquelle museu, Dr. Flo-
rentino Ameghino.
De outro lado, só com o aprofundado conhecimento
da fauna malacologica da America do Sul, como o do
auctor, que ha 25 annos lhe devota especial attenção,
tal trabalho podia ser levado a bom fim. Para dar uma
ideia da difficuldade deste estudo, basta dizer que de só
duas das formações contiguas mais antigas, Patagonica
(Eoceno) e Super-patagonica (Eoceno superior) se conhece
282 especies de conchas e entre estas só 47 são com-
muns ás duas formações; a presente monographia con-
tribuiu com 110 especies novas para este total.
O fim principal, que o Dr. H. von Ihering teve em
vista com este estudo, foi o de contribuir com os dados,
que forneceriam os molluscos fosseis, para a discussão,
que vae tão accesa, sobre as edades geologicas da Pata-
gonia e a correlação destas com as das regiões circum-
visinhas. Para isto devia primeiro descrever monogra-
phicamente o material conhecido, o que faz nos capitulos
I- XI, onde são estudadas tambem as diversas forma-
ções de per si e são corrigidas as classificações falsas da
literatura anterior.
O capitulo XII trata das relações zoogeographicas
e geologicas desta fauna marina das diversas regiões
da America do Sul e conjuctamente com este estudo,
como o seu resultado de mais alto alcance, são discutidas
as questões da historia, e pois do desenvolvimento, do
nosso continente.
Interessantissimas são as conclusões a que por esta
fórma chega o auctor, que, no correr do estudo, muitas
vezes lança mão de methodos ou expedientes novos. Como
estes resultados constantemente vem trazer conhecimentos
novos a respeito da historia geologica do nosso paiz,
— 486 —
julgamos até necessario divulgar, por uma revista do
nosso meio, o conteudo de tão util e attrahente capitulo.
Por este motivo demos neste mesmo volume da
nossa Revista uma traducçäo do original francez, per-
mittindo-nos, porem, supprimir algumas listas e discussões,
que teriam interesse só a quem lêsse tambem os capi-
tulos anteriores, distinados aos especialistas.
EH. Koken; Indisches Perm und die Permische
Piszeit; Neues Jahrbuch f. Min. Geol., & Paleont.,
Festband 1907, Stuttgart, pgs. 446-546.
O auctor communica, neste tratado interessante, os
resultados de sua viagem á India, que fez com o fim
de estudar a formação permiana desse paiz. Nas pagi-
nas 530-544 discute-se a questão das causas do pericdo
glacial permiano. Segundo Arrhenius explica-se este phe-
nomeno só pela redueção da quantidade de acido carbonico
contida na atmosphera. Mas E. Koken julga não poder
adoptar esta hypothese. Considerando que no periodo :
permiano todas as condições physicas eram outras, não
sómente com referencia á distribuição dos continentes,
mas tambem com. relação a outros elementos physicos,
como da altura das montanhas, composição do ar, etc.
Ha auctores, tambem, que julgam, que os dous pólos
soffreram uma deslocação nesta época. E” porem muito
mais natural suppôr-se, que o. phenomeno glacial permiano
tivesse sua origem nas condições physicas d'aquelle pe-
riodo. E” um trabalho infructifero de Arrhenius, querer
dar uma solução a este problema, por uma hypothese
que se baseia em acções telluricas, que nunca se poderão
verificar e que, em todo caso, são muito inverosimeis.
A questão da causa deste periodo glacial permiano
é dum interesse especial para nós, pois que o abalizado
geologo, Prof. Orville Derby, que estudou esta formação
em nosso Estado, achou um grande bloco eratico, que
julga ser desse periodo glacial.
ND. ti a
— 487 —
“Derby, Dr. O. A.; the Serra do Espinhaço, Bra-
zul; The Journal of Geology, vol. XIV, 1906, n. 5,
p. 374-401.
Baseado tanto em observações proprias, colhidas em
repetidas viagens, como no estudo da respectiva literatura,
o illustre geologo, auctor de mais este valioso estudo, dá
uma detalhada descripçäo da Serra do Espinhaço, que,
na sua accepção hodierna, comprehende © districto das
cabeceiras e vertentes da bacia do $. Francisco, nos Es-
tados de Minas Geraes e Bahia. Relativamente bem ex-
plorada, esta região déve a sua bibliographia um tanto
rica ao facto de conter em certa abundancia a pedra e 0
metal mais preciosos que geralmente se explora: o dia-
mante e o ouro. Caracterizam esta serra a topographia
aspera de seus picos, em media com cerca de 1.000 m.
de altitude e a abrupta delimitação, por escarpas de algu-
mas centenas de metros, contra as regiões mais planas
e baixas.
As rochas componentes desta grande serra divi-
dem-se em tres grupos, que são: I. Os gneisses e mica-
schistos; II. Os schistos, quarzitos e calcareos das re-
gides auriferas; III. Os quarzitos e gréz das regiões
diamantiferas. A estes mineraes associam-se granitos e
outros de origem eruptiva, que não alcançam as séries
superiores e provavelmente são mais antigos. (Quanto á
estructura, geologica o auctor mostra que «a Serra do
Espinhaço consiste em um «complexo basal» de rochas
metamorphicas e eruptivas, tendo sobreposta, com estra-
tificação discordante uma ou mais séries de estratos
quarzitosos, que têm sido perturbadas por um systema
de dobras com a orientação geral de norte, ao passo que
no resto da região montanhosa do Brazil sudeste, da
qual esta serra constitue uma parte, a orientação domi-
nante dos estratos é nordeste.»
— 488 —
Quanto á edade geologica do terreno da Serra, são
varias as hvpotheses que dominam, devido ao estudo
ainda imperfeito dos fosseis. Comtudo o Dr. Derby acha
que provavelmente devem ser consideradas paleozoicas,
dos periodos devoniano ou permiano, as rochas deste
systema, datando da mesma épocha a elevação que sof-
freram.
Outras localidades, como as do curso medio do Je-
quitinhonha e das camadas terciarias da costa, do cre-
taceo de Paulo Affonso, etc. demonstram que, provavel-
mente na épocha terciaria, se effectuou um movimento
de elevação, provavelmente simultaneo, e de egual im-
portancia para toda a região.
Acabamos de receber agora o vol. XII da Revista
do Inst. Hist. e Geogr. de São Paulo e ahi (pags. 40-
59) folgamos em ver reproduzido na integra este artigo,
em portuguez e pois ao facil alcance dos que entre nós
se interessam pelo assumpto.
Catzer, Fried.; Beitrag zur Geologie von Ceará;
Denkschr. d. math-natw. Kl. k. Ak. Wiss. Wien, Vol.
LXNVIII, 1905, p. 525-560 e mappa.
O auctor dá publicidade ás suas valiosas observa-
ções geologicas, feitas em 1897, em uma excursão ao
interior do Est. do Ceará. Só na zona costeira encon-
trou formações quaternarias, que em parte tambem po-
derão pertencer ao terciario. No mais a parte central
do Estado é formada pelo Archaico; ahi predominam
gneiss e juntamente apparecem (Granito e Syenite. Estas
ultimas rochas mostram a mais interessante conformação
de cônes ou cupolas de 100 a 200 metros de altura,
marcos que documentam o muito que o constante traba-
lho de erosão retirou em seu redor.
Branner, John Casper; The Stone Reefs of Bra-
zil, their geological and geographical relations, with
a chapter on the coral reefs. Bulletin of the Museum
i it ci a i a i RE
ee dt.
— 489 —
of Comparative Zoology at Harvard College, vol. XLIV
Cambridge. Mass. 1904.
E este um importante trabalho sobre os recifes de
grés brazileiros, de tanto mais valor, porquanto muito
pouco até agora foi escripto sobre a geologia da costa
brazileira; são poucos os homens de sciencia que se tem
occupado dos recifes de nossa costa.
O primeiro que nos deu uma descripçäo neste sen-
tido foi Darwin, que, na sua viagem no «Beagle», tocou
em Pernambuco e reconheceu que os recifes desta região
eram formados de areia endurecida. Hartt, em 1870, mos-
trou que a opinião, de que um recife uniforme acom-
panhasse a costa do Brazil, era destituida de fundamento
e que se encontram porções isoladas de recifes, tanto de
coral como de grés.
Pelo trabalho de Branner ficamos agora conhecendo
a formação da costa brazileira numa extensão de 1.000
milhas maritimas, pouco mais ou menos, desde Espirito
Santo até o Rio Grande do Norte.
| Na primeira metade do Plioceno teve logar uma
consideravel depressão da costa, seguida de uma eleva-
ção de menor importancia; os recifes de grés formaram-
se durante esta épocha da depressão; elles consistem em
camadas quasi horizontaes, que só fracamente se incli-
nam para o mar, da mesma fórma como as costas de
areia. À parte rochosa tem uma espessura de tres para
quatro metros e assenta sobre areia, conchas e limo, que
não mostram regularidade alguma de disposição. Quanto
aos depositos cretaceo-eocenos nota-se uma singular dis-
cordancia entre os fosseis e a formação destas camadas;
emquanto esta paréce indicar a épocha terciaria, os fos-
seis provam a edade cretacea. A determinação exacta
da época torna-se assim suiimamente dificil, devendo-se
recorrer á hvpothese de que muitas fórmas terciarias da
America do Norte existiram no cretaceo do Brazil ou
— 490 —
que as fórmas cretaceas de outras partes da terra sobre-
viveram no Terciario do Brazil. O auctor acha mais
provavel a segunda supposição, visto que os estudos de
Dall sobre Molluscos e os de Verril sobre Coraes pro-
varam que as respectivas faunas de Florida e das In-
dias occidentaes são originarias do Brazil. Assim se
chegaria á explicação de que a fauna terciaria das regiões
do Golfo de Mexico, proveniente do Brazil, tivesse pas-
sado por certas modificações, devido a influencias locaes,
emquanto a fauna brazileira da mesma épocha, que não
soffreu taes alterações, conservou seu aspecto cretaceo.
Smith Woodward, A.; On a Amiod fish from the
Cretaceous of Bahia, Brazil. Ann. and Mag. Nat.
Elasti sen 1,1 Londres, 1902, 4476
Descripção de uma nova especie Megalurus maw-
sont, encontrada no Cretaceo da Bahia. E’ de grande
interesse scientifico este achado, por ser este exemplar o
unico de peixe Amido typico até agora conhecido das
formações da America meridional. E’ de notar ainda
que o genero Megalurus na Europa pertence á formação
do Jurassico superior.
Woodward, A. Smith; On some Dinosaurian bo-
nes from South Brazil; Geol. Mag. N. S. (4), 1903,
o RARO pa
Este estudo baseia-se em material colligido pelo
Snr. J. Fischer em Santa Maria da Bocca do Monte
(Serrito) no Est. do Rio Grande do Sul e pelo mesmo
offerecido ao Museu Paulista. Trata-se de restos de
saurios alliados a Huskelesaurus. No presente volume
(p. 46-57) o distincto scientista honra-nos com sua colla-
boração, tendo-nos enviado um desenvolvido estudo sobre
o mesmo material.
Solms-Laubach, Graf H.; Ueber die Schicksale
der als Psaronius brasiliensis beschriebenen Fossilreste
ant ds D nl née +2 NO ee E NS DON ee ee
— 491 —
unserer Museen; Festschrift zu P. Ascherson's TO.
Geburtstage. Berlin, 1904, p. 18-26.
Por esta publicação fica provado que a bella chapa
de Psaronius brasiliensis Unger, isto é uma secção ar-
tificial de um tronco fossil de um féto arborescente, exposta
no Museu Nacional do Rio de Janeiro, fazia parte do
mesmo tronco do qual outras secções estão guardadas
nos Museus de Paris e Londres. Solms-Laubach veri-
ficou a historia deste blóco, na qual se acha envolvida
o nome do colleccionador Claussen, que fora companheiro
de Sellow em suas viagens pelo Brazil meridional. O Dr.
Derby, em artigo publicado no «Jornal do Commercio»
do Rio de Janeiro, de 14-1[-05, diz ser provavel que
este tronco, cuja procedencia não é conhecida, seja pro-
veniente do Estado do Rio Grande do Sul.
Outros exemplares de Psaronius do Estado de S.
Paulo foram descobertos e examinados pelo Dr. Derby.
Bonnet, Ed.; Contribution à la flore de la pro-
vince de Bahia; Bull. du Mus. d’ Hist. Naturelle, 1905,
OE Ose TOTO.
Estudando as plantas fosseis, que o Museu de Paris
obteve ha tempos do material colligido pelo Dr. Orville
Derby em Ouricanga, Est. da Bahia, o auctor compara
o resultado de seus estudos com os a que chegou Konst.
von Ettinshausen (cf. Sitzb. der Mat. Natw. Klasse d. k.
Akad. d. Wiss. Wien, CXII, 1903, p. 852), baseado
em material da mesma localidade, reunido pelo Dr. Hussak.
Pertencem todas ao periodo plioceno e quasi que não
differem dos representantes actuaes das especies com-
paradas. ;
D-— Anthropolosia
Koch-Grünberg, Th.: Südamerikaniche Felszeich-
nungen; Berlin 1907, 92 pgs. 30 estampas.
Um bello volume em que o apreciado ethnographo
estuda as «Pictogravuras sulamericanas>. As prolongadas
viagens do Dr. Koch em 1903 a 1905 pelo Japurá e
Alto Rio Negro forneceram-lhe abundantissimo material;
alem disto revela-se profundo conhecedor da nossa lite-
ratura concernente e assim poude dar-nos uma monogra-
phia sobre o assumpto. A’s centenas foram reproduzidos
os desenhos gravados pelos indios em rochedos e alguns
tambem feitos sobre utensilios.
Representam esses desenhos: caricaturas de pessoas,
de peixes, cagados, cobras, aves, etc. ou simples desenhos
“lineares, curvas, circulos, sempre, porem toscos e rara-
mente como que representando uma acção ou um con-
juncto significativo.
Tomando isto em consideração, bem como varias
outras cireumstancias, como o pequeno aperfeiçoamento
alcançado, ete, o auctor nega-lhes o valor de communi-
cações caracterizadas, que alguns auctores querem dar à
estes desenhos. «Assim como o indio, nas horas do
ocio, rabisca com o carvão toda a sorte de figuras na
parede de sua casa, elle tambem se sente tentado ensaiar
sua arte infantil nas faces lisas do rochedo.»
Koch-Griinbera, Th. Anfänge der Kunst im Ur-
wald; Berlin, 1906.
Um complemento muito interessante e curioso da
obra acima referida é esta, dos «Inicios da arte na flo-
resta». Durante a mesma viagem aos rios Negro e -fapura
o Dr. Koch colligiu uma immensa quantidade de de-
senhos, feitos a lapis pelos indios, a pedido do auctor.
Por vezes as notas explicativas tornaram-se indispensaveis
para a interpretação de taes desenhos; muitas figuras
porem caracterizam nitidamente o original pedido e a
alguns dos auctores destes desenhos não se pode negar
talento e habilidade na representação de animaes, pessoas
ou de alguma scena.
— 495 —
Friderici, Georg; Skalpieren und aehnliche Kriegs-
gebraeuche in America; Braunschweig, 1906.
Aos ethnographos é de interesse e valor especial
este excellente trabalho de Friederici, no qual o auctor
depoz suas ricas experiencias e seus amplos conhecimentos
ethnologicos. O estudo abrange os indios de ambas as
Americas. Conhecedor perfeito da literatura respectiva,
dá-nos valiosas informações sobre o escalpamento e outros
costúmes de guerra. D’um interesse especial para nós
é o que communica a este respeito sobre os indigenas
do nosso paiz. Elucidando a origem etymologica da pa-
lavra «escalpo », julga que esta se deriva do alto-allemão-
antigo, de onde passou para o inglez e outros idiomas.
Sobre a questão onde este costume de guerra foi
primeiro exercido, existe grande divergencia de opiniões
entre os diversos ethnographos; o auctor julga que a mesma
tenha partido da peninsula Florida. O fim que os indios
tinham em vista com esta mutilação, era duplo: ganhar
um tropheo, que lhes fosse mais facil transportar do que
o craneo todo, e ao mesmo tempo privar o morto da
alma, pois o culto destas nações primitivas ensina que
um homen sem escalpo, não póde mais participar dos
gozos celestes. A este respeito, pois, o escalpamento se
distingue de todos os outros costumes de guerra, como
o de cortar as orelhas, dedos (Tupis), mãos, de cavar
os olhos, de esfolar toda a pelle dos mortos, costumes
esses que representam apenas actos de vingança.
O primeiro auctor que fornece valiosas informações
sobre o escalpamento usado entre os indios sul-americanos,
é Ulrich Schmiedel (Guaycurá-Mbayás, Abipó, etc.); mas
elle declara expressamente que os Guaranis não conhe-
clam este uso de guerra. Interessante é o que Hans
Staden e Claude d'Abbéville commnicam sobre os Gua-
ranis e Tupis. Si é licito dar-lhes credito, estes indios
satisfaziam-se com a obtenção da cabeça do inimigo,
— 494 —
mas não conheciam o costume de escalpar os inimigos
mortos. Cortavam toda a cabeça com suas facas de
taquára, para conserval-a como tropheo ao lado das suas
cabanas. O mesmo constataram Orellana e Acuña, para
os tupis do valle do Amazonas. Quanto aos Mundurucás
os chamados «espartanos dos territorios amazonicos »,
suas cabeças mumificadas são sufficientemente conhecidas.
Os tropbeos dos Botocudos são, segundo Wied, muito
parecidos com os dos Munducurás.
Assim é evidente que os indigenas do Brazil não
conheciam o costume do escalpamento, emquanto que
todos os indios da America do Norte escalpavam.
Friederici, Georg; Die Schiffahrt der Indianer ;
Studien und Forschungen zur Menschen-und l’oel-
kerkunde unter wissenschaftlicher Leitung von Georg
Buchan, Stuttgart 1907 ;
Mais um bom trabalho ethnographico sobre os in-
digenas da America, com referencia especial 4 navegação
primitiva em nosso continente.
Algumas paginas introductorias demonstram a in-
clinação e aptidão dos indios para a navegação. Segue
depois uma descripção dos diversos typos destes bateis
primitivos, onde tambem trata extensamente das canoas,
pirogas e ubás dos nossos indigenas. Infelizmente o
auctor não completou o seu estudo com a investigação
da etymologia das denominações indigenas; sem duvida,
como elle mesmo reconhece, isto é muitas vezes difheil
e em certos casos torna-se quasi incomprehensivel a vasta
divulgação dos nomes, mas por isto mesmo o estudo é
interessante e necessario.
Os outros capitulos tratam dos accessorios destas
embarcações, finalizando o auctor seu valioso livro com
uma observação psychologica, um tanto poetica, sobre o
emprego diverso dos bateis pelos indios.
- - 495 —
Devemos mais uma vez reconhecer os amplos conhe-
cimentos da respectiva literatura ethnographica, que o
auctor revela.
Friederici, G.; Der Traenengruss der Indianer ;
«Globus» LXXXIX p. 30 ss.; Leipzig, 1907, 22 ngs.
Alfredo de Carvalho; A Saudação lacrimosa dos
indios (trad. e commentarios) Rev. do Inst. Archeol.
e Geogr. Pernambucano, Vol. X 1(1904), p. 755-765,
DANIO. |
O assumpto de que trata o estudo do Dr. Friederici
é de bastante interesse no estudo da nossa ethnographia,
pois encontramos numerosas informações a respeito deste
curioso uso, de ser o hospede recebido com. prantos ce-
rimoniaes. Na America do Sul sabemos que os Charruás,
Linguas, Tupis, Guaranis, Tapuyas, Zaparos, Guayana-
Caraibes e (?) Araucanos usavam a «saudação lacrimosa » ;
tambem na America Central e do Norte muitas tribus
assim faziam.
Por causa da grande diffusão deste uso por toda a
America, 0 caso, que a principio parecia propício para
ponderações a respeito de sua transmissão directa, agora
é considerado pelo proprio Dr. Friederici como desti-
tuido deste valor, por não poder ser considerado cara-
cteristico para este ou aquelle grupo de indios, em vista
de ser relativamente commum. |
Lhering, Hermann von; The Anthropology of the
State of S. Paulo, Brazil; second enlarged edition,
with 2 maps. «Diario Official» 1906, 52 pgs.
A segunda edição deste estudo anthropologico, ao
qual já nos referimos no Vol. VI, foi bastante augmen-
tada e provida de dous mappas sobre a distribuição antiga
e actual dos indios de S. Paulo. Não nos referiremos
mais detalhadamente a esta edição, pois damos neste
mesmo volume uma traducção completa, egualmente acom-
panhada dos mappas.
496 —
Schmidt, Max. ; Ableituny sidamerikanischer Ge-
flechtsmuster aus der Technik des Flechtens. Zeitschrift
für Ethnologie, Organ der Berliner Gesellschaft fiir
Anthrop., Ethnologie und Urgesch. 36 Jahrgang. Heft
IT u. LV, Berlin, 1904, p. 490512.
Este estudo tem por objecto as obras de trança
de algumas tribus de indios sulamericanos. O auctor
expõe que, tanto o modo do trabalho, como os desenhos
formados pelos tecidos são determinados pelas propriedades
das palmeiras, que fornecem aos indigenas tanto o ma-
terial para as suas obras, como os modelos para a dis-
posição de seus ordumes. Muitas illustrações acompa-
nham o interessante artigo, representando leques, cestas,
esteiras, etc. dos Carajás, Bacairi, Guaté, Beroré, Nahu-
Rá Pra Cainguá, etc.
Este estudo completa, com referencia especial aos
aborigenes do Brazil, a excellente publicação de Otis T
Mason « Aboriginal american basketry » Washington
1904, que, ás pgs. 529-531 trata dos cestos e de outras
obras de trança dos indios brazileiros, baseando-se par-
ticularmente nas publicações de C. von den Steinen,
Ehrenreich, Ambrosetti, H. Meyer e outros investigadores
modernos. ER
Schmidt, Max; Guand; Zeitschrift fiir Ethnologie
1903. Bd. XXXV, p. 324-336; 560-604.
Em uma viagem pelo interior do Brazil o auctor de-
dicou-se ao estudo da lingua dos Guanás, que moram
perto de Cuyabá.
As conclusões do auctor estão de accordo com a
supposição, hoje mais acceita, de que os (Guaná fazem
parte do grupo dos Nú, como C. v. d. Steinen o deno-
mina e que occupa uma larga zona, que se estende desde
Bolivia até a Venezuela.
caça à mb
— 497 —
Schmidt, Max; Indianerstudien in Zentralbrasilien,
Erlebnisse und ethnologische Studien einer Reise in
den Jahren 1900-1901. Berlin 1905.
Foi esta a quinta viagem ethnographica ao rio Xingü,
e, como o mostra C. von den Steinen, criticando a obra
mencionada, na Zeitschrift f. Ethnologie, vol. XXXVI,
1906, p. 234, ella foi, ao que parece, a menos feliz de
todas. Os indigenas daquella região já não são mais
aquelles entre os quaes Steinen viveu e a sua ganancia
muito dificulta emprehendimentos como estes.
Na volta do Xingá o auctor visitou os indios
Guatós do Alto Paraguay, dedicando algum tempo ao
seu examen ethnologico e linguistico.
Attenção especial ligou o auctor aos tecidos feitos
pelos Guatés, estudando os respectivos methodos technicos,
cuja origem se prende aos trabalhos feitos com folhas
de palmeiras. Do mesmo assumpto já tratou o auctor
na Zeitschrift für Ethnologic XXX VII, 1905, p. 490-512.
Carvalho, Alfredo de; Phrases e palavras: Recife,
1906. |
E” bem interessante a leitura deste pequeno e des-
pretencioso livro. O auctor trata de varios assumptos
historicos, de costumes antigos e de diversas phrases de
explicação difficil. E' este por exemplo o caso da phrase
« Fazer o quilo», onde quer derivar a palavra não do
grego, mas da lingua Bunda, onde «quilo» é somno ou
«siesta » depois da refeição. O auctor, sem duvida a
personalidade mais activa e sympathica na actual vida
scientifico literaria do Pernambuco, procura esclarecer o
mais possivel as etymologias de localidades, animaes
etc. mostrando-se bem versado na lingua Tupy. O mesmo
auctor publicou em 1905 uma traducção das «Notas Domi-
nicaes de L. F. de Tollenare », interessante obra que contem
valiosas inforinações sobre a vida diaria no Estado de
Pernambuco, no começo do seculo passado, dando parti-
— 498 —
cularmente informações minuciosas sobre a producção
agricola e a industria.
Teschauer C., S. J.; A ethnographia no Brazil no
principio do seculo XX; Annaes da bibliotheca Pu-.
blica Pelotense, Pelotas, Est. Rio Grande do Sul, 1905,
Vol. TI, p. 83-99.
Tratando dos escriptos mais modernos sobre assum-
ptos ethnographicos e archeologicos, o auctor do resumo
bibliographico commenta variadas questões importantes de
nossa historia pre-colombiana.
Payer, Richard; Reisen im Janapiry-Gebrete; Pe-
termans Mitteilungen, Gotha, Vol. 52, 1906, N. 10,
p 217-222, Est. XV.
O pequeno artigo deste viajante, cujas observações
por vezes deixam entrever claramente o pouco conheci-
mento que tem das cousas de nosso paiz, pouco contem
de novo, a não ser uma pequena lista, em forma de
vocabulario, do idioma dos indios Janapirys, que moram
junto ao rio de egual nome, affluente da esquerda do
rio Negro. Estes mesmos indios já ha mais de vinte
annos o Dr. Barbosa Rodrigues tentou visitar, não con-
seguindo, entretanto, realizar este seu intento.
Tambem os indios U-ha-miri o Sr. Payer visitou;
salienta em especial as peripecias das permutas que fazia,
no interesse de obter material ethnographico para o Mu-
seu imperial de Vienna.
A estampa dá um mappa da região visitada e uma
vista da povoação Moura, na margem direita do Rio
Negro.
E. SooloElaS
Thering, H. von; Eine notwendige Nomenclatur-
regel mit Rücksicht auf brasilianische Eigennamen ;
Zool. Anzeiger, Vol. 28, Nº 24-25, 1905, p. 785-767.
499
Neste pequeno artigo o auctor faz ver as incor-
recções que se têm praticado, ao se utilizar nomes proprios
brazileiros na denominação scientifica de muitos animaes.
À graphia dos nomes scientificos, quer genericos quer
especificos, é a latina; é certo que o latim desconhece o
¢, mas não é justo que por isto se elimine simplesmente
a cedilha, deturpando assim a pronuncia original. Muitas j Já
são taes incorrecções (F. onca, Jacana, ou A. coco,
designando onça, jaçanã e socó). No meio da palavra €
deve pois ser substituido por ss; quando ¢ está no inicio
da palavra (como muitos auctores antigos escreviam no-
mes indigenas) substitue-o um s. Ainda varias outras
questões duvidosas de nomenclatura, que já agora são
horas de normalizar, ahi são discutidas.
Lhering, H. von; Zur Regulierung der malaco-
logischen Nomenclatur; Nachrichtsbl. deutsch. Malaco-
zool. Gesellsch. 1906, p. 1-12.
O auctor salienta o quanto se tem feito com re-
lação á uniformisação da nomenclatura na ornithologia
por exemplo e o quanto, de outro lado, tem sido des-
curadas taes questões no estudo dos molluscos. Nem
mesmo as «Regras internacionaes de nomenclatura z00-
logica», apesar de fundamentaes, são observadas como
deveria ser; além disto é preciso ainda combater abusos
como o de serem adoptados nomes tirados de simples
“catalogos de casas commerciaes.
A discussão provocada por este escripto trará por
certo tambem ao ramo dos conchyologos a desejavel uni-
formidade de interpretação das questões duvidosas.
Thering, H. von; Das Rind und seine Zucht an
Brasilien; I Jahrbuch d. deutsch. Colonie im St. São
Paulo, 1905, p. 97-118.
Depois de se referir rapidamente ás condições. de
_ creação pecuaria no nosso paiz, o auctor discrimina e
caracteriza as 6 principaes raças que se criam no Brazil:
32
— 500 —.
gado Cuyabano, Caracú, Franqueiro, Torino, Zebú e
China. Ao tratar das subspecies da forma typica Bos
tauros, distingue, com os principaes auctores, quatro formas:
B. t. primigenius, B. t. frontosus, B. t. brachycephalus
e BP. t. ruetimeyeri Th. sendo este ultimo um nome novo,
proposto em substituição de B. t. brachyceros Ozoln e
Riitimeyr, por ter sido este já preoccupado por Gray,
para outra especie. Seis photographias representam os
typos acima mencionados. Varias apreciações sobre as
vantagens que offerece cada uma destas raças e conside-
rações sobre as nossas condições especiaes, como paiz de
criação, terminam este estudo.
Miranda Ribeiro, Alipio; O Porquinho da India
e a Theoria Genealogica; Arch. do Museu Nacional,
Vol. XIV, 1907, p. 221-227, Est. XXI-XXI.
O auctor communica o resultado de varias expe-
riencias, feitas no Rio de Janeiro, quanto ao cruzamento
entre o Porquinho da India (Cavia porcellus L.) e o
Prêá (Cavia aperea Erxl.); confirma deste modo os en-
saios analogos realizados ha mais de 10 annos em Berlim
por A. Nehring. Os productos destes cruzamentos são
figurados. Como resultado o auctor declara: «Eu tenho
firme convicção de que Cavia aperea, O. cobaya (C.
porcellus L.) e C. cutleri não apresentam peculiaridade
de estructura, que pareçam justificar o nosso modo de
vel-as como especies distinctas.
De modo que uma unica conclusão segura se póde,
por emquanto, tirar do facto aqui trazido a publico—é
que elle, confirmando muitos dos resultados de Nehring,
vem destruir a noção corrente de que o Porquinho da
India não se cruza eom o seu antepassado brazileiro,
como disse Haeckel (Hist. C. Creaç. 130) citando esse
exemplo como prova de que «ha organismos que não
podem mais se cruzar, seja com os seus antepassados
incontestaveis, seja com uma posterioridade fecunda».
— 501 —
-Hagmann, G.; Anomalien im Gebisse brasiliani-
scher Sauegetiere; Verh. der deutsch. Zool. Ges. Mar-
burg, 1906, p. 274-276.
O auctor, apresentando cerca de 140 craneos de
mammniferos, que obteve da ilha Mexiana (embocadura do
Amazonas), faz algumas considerações a respeito. Trata-se
especialmente de craneos do veado, Cervus simplicicornis,
bem como de Coelogenys, Dasyprocta etc. Constata-se
uma porcentagem bastante elevada de anomalias dentarias
(ca. de 10 %),0 que o auctor attribue 4 Znzucht, devido
ao isolamento da fauna da ilha Mexiana.
Meade, Waldo, E. G. & Nicoll, M. J.; Description
of an unknown animal seen at sea off the coast of
Brazil; Proceed. Zool. Soc. London, 1906, p. 719-721
(teat fig. 114).
A 7 de Dezembro de 1905 os dous senhores, que
escrevem o artigo a que nos referimos, observaram, se-
gundo descripção detalhada que elaboraram, nas costas do
Brazil (7° 14’ lat. 8, 34° 25° long. W) um grande animal
marinho, uma creatura extraordinaria, que, pela figura que
o Snr. Nicoll desenhou, bem lembraria a famigerada Ser-
pente do mar (!), si não fosse mostrar a figura ainda
uma nadadeira dorsal, que na legendaria serpente ainda
ninguem quiz ter observado,
Não duvidamos da sinceridade dos escriptores em
questão, mas, franqueza, estas observações não nos podem
mover a incluir, na lista. da fauna marina das nossas
costas, esse monstro, que aliás ainda dous tripolantes do
mesmo navio «Valhalla» querem ter observado!
Thomas, Oldfield; New Neotropical Molossus, Co-
nepatus, Nectomys, Proechimys and Agouti, with a
note on the Genus Mesomys; Ann. & Mag. of Nat.
Hist, Ser. 7, Vol. XV, June 1905 p. 584-591.
Descripção das novas especies enumeradas no ti-
tulo, das quaes uma, Proechimys goeldii, é proveniente
— 502 —
do Brazil, tendo sido colleccionada em Santarem. Como
o auctor recebesse dous exemplares de Mesomys ecaudatus
da Ilha de Marajó, elle reconheceu como bem fundado
o genero Mesomys, ao qual pertencem M. ecaudatus e
M. ferrugineus Guenther. O nome desnecessario Hu-
ryzygomatomys, proposto por Goeldi para Hehimys spi-
nosus é svnonymo de Echimys Cuv. Deste modo o proprio
Dr. Goeldi forneceu os materiaes para refutar a tentativa.
por elle emprehendida, de mostrar que o genero Mesomys
nunca existira.
Goeldi, E. A.; Nova zoologica aus der Amazonas-
Region. Neue Wirbeltiere. Extrait des Comptes rendus
du 6% Congrès intern. de Zoologie, Session de Berne
1904. Sorti de presse le 25 mai 1905,
As communicações feitas ao Congresso de Berna
tratam em primeiro logar dos Hapalidas (ou antes
Callithrichidas, segundo a nomenclatura moderna) que
foram obtidos numa expedição ao Rio Puráús. São alem
das tres especies de Midas, obtidas por nossa expedição
ao Rio Juruá (nesta Revista VI, p. 415), duas outras,
das quaes uma é alliada a M. rufiventer Gray e a outra
a M. labiatus E. Geoffroy.
Seguem notas sobre um roedor raro, Dinomys bra-
nickii Peters, das vertentes do Rio Purás. Esta especie,
cuja vida é essencialmente nocturna, era até agora só
conhecida da região andina do Perá; quanto á sua po-
sição na systematica, achega-se particularmente á capivara.
São mencionados mais: um peixe cego de uma cis-
terna da Ilha de Marajó, que será descripto sob o nome
de Phreatobius cisternarum, sendo alliado ao genero
Trichomycterus, e duas especies novas de aves, Pipra
caelestipileata e Galbaleyrhynchus purusianus.
Esta ultima forma é apenas uma variedade de G.
leucotis, que descrevi nesta Revista sob o nome de «in-
notata» (Vol. VI, p. 445). Esta nova subspecie, em-
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— 503 —
bora já em 1903 e 1904 participada aos ornithologos
europeus por mim e Góldi, foi publicada por mim em
copia separada em Março de 1905, sendo 8 de Maio
de 1905 a data da publicação do Vol. VI da Revista
do Museu Paulista, ao passo que o artigo do Dr. Góldi
foi publicado em 25 de Maio do mesmo anno. O nome
desta ave será pois Galbalcyrhynchus leucotis inno-
tatus Th.
Goeldi, Emil A. On Myiopatis semifusca, a small
Neotropical Tyrant bird, harmful to Tree-culture as
Disseminator of the parasitic Loranthacee. The Ibis,
8 Serves, Vol. V, Nº 18, London 1905, pag. 169-179.
O artigo communica interessantes observações do
Snr. Andreas Góldi, feitas na Serra dos Orgãos, Rio de
Janeiro e confirmadas em Pará.
As aves, denominadas «caga-sebos » no Rio de
Janeiro (Certhiola chloropyga, Phyllomyias burmegsteri
e Serpophaga suberistata) comem as bagas da «herva
de passarinho» e expellem os caroços; estes, viscosos,
fixam-se em galhos, onde em grande parte germinam.
Estas aves tornam-se assim os propagadores da praga
da <herva de passarinho». No Pará a mesma obser-
vação foi teita com referencia a Myopatis semifusca
que, com as bagas já livres dos caroços, nutre seus filhotes.
Estas observações refutam, ao menos em parte, a
opinião geralmente admittida, de que estes caroços fossem
dispersos pelos excrementos das aves.
Que esta passagem pelo tubo intestinal de aves não
é necessaria, já observei no' Rio Grande do Sul, onde fiz
experiencias com bagas de uma herva de passarinho,
que esmaguei, plantando os caroços em casca de arvores
vivas, onde em parte os vi germinar. Tendo ligado attenção
aus excrementos, depositados em cima de poste de cerca,
encontrei nelles sementes de figos bravos e de muitas
outras plantas, mas nunca de «herva do passarinho».
— 504 —
Goeldi, Emil A; A story about the Giant Goat-
sucker of Brazil; The Ibis. Vol. IV, Nº 16. London
1904.
Este artigo occupa-se da lenda do povo amazonense,
que attribue ao Urutaú, Nyctibius jamaicensis, o curioso
costume de acompanhar com a cabeça o curso do sol,
emquanto o animal, pousando sobre um galho de arvore,
conserva o corpo immovel. Por photographias, tiradas
de duas em duas horas de um exemplar desta especie,
existente no jardim zoologico do Pará, o auctor prova
que a lenda não tem fundamento.
Goeldi, Emil A; Album de aves amazonicas ;
supplem. illustr. ds « Aves do Brazil» do mesmo au-
ctor, fasc. 3, Est. 25-48, conclusão.
A serie. de estampas coloridas, que representam os
principaes typos da nossa avifauna e 4 qual já nos refe-
rimos em bibliographia anterior, é completada com o
presente fasciculo. Não podemos deixar de salientar o
aperfeiçoamento dos desenhos das aves, agora vantajosa-
mente representadas em escala maior, com7o que as fi-.
guras preenchem bem o seu fim. Dous fasciculos, com
indice e listas, facilitam a procura das especies repre-
sentadas.
Hellmayr, ©. E; Notes on a collection of birds
made by Mr. A. Bony in Pard, Brazil; Novit. Zool.
Votes Xd TONS, Ne 2 ne 07200
id. Notes on a second collection of birds from
Pará, loc. cit. Vol. XIII, 1906, Nº 2, p. 353-385 ;
id. Another contribution to the ornithology of the
lower Amazonas; loc. cit. Vol. XIV, 1907, p. 1-39;
id. On a collection of birds from Teffé, rio So-
limões, Brazil; loc. s. cit. p. 40-91.
Com esta serie de publicações ornithologicas sobre
as aves do Pará, baseadas em materiaes colligidos por
instigação do Zoological Museum de Tring (do hon. Dr.
W. Rothschild) Inglaterra, o eximio conhecedor das aves
brazileiras presta serviços relevantissimos para a investi-
gação da avifauna da Amazonia.
Sempre com o mesmo methodo, descrevendo as espe-
cies na medida do necessario e corrigindo enganos occor-
ridos, o auctor alem disso passa muitas vezes a discutir
um conjuncto de especies ou subspecies, onde lhe merece
especial attenção a distribuição geographica. De varias
destas publicações já nos utilizamos, corrigindo o nosso
«Catalogo das Aves do Brazil» e esperamos do operoso
amigo ainda muitas contribuições, como sempre bem-
vindas.
Não damos maior desenvolvimento á lista biblio-
graphica dos trabalhos referentes á ornithologia do Bra-
zil, visto como na parte introductoria do nosso «Catalogo
das Aves do Brazil» (p. XXII-XX VI) demos uma lista
bastante extensa, e no respectivo texto aproveitamos os
resultados desses estudos.
Seria, porém, injusto deixar de mencionar mais uma
vez as excellentes contribuições do Sr. Dr. C. E. Hell-
mayr, que, com o maior criterio e louvavel pertinacia,
vae estudando os exemplares typicos das nossas aves.
Visitando successivamente os grandes museus, que guar-
dam os exemplares sobre os quaes se baseiam descrip-
ções que dão lugar a duvidas, elle desfaz os enganos,
redescreve-os e assim presta-nos um serviço sem o qual
nunca teriamos chegado a ter uma nomenclatura defini-
tiva. Taes publicações são :
Hellmayr, ©. E., Revision der Spix’schen Typen
brasilianischer Vocais k. bayer. Akad. d. Wiss. München
1906.
id. Critical notes on the types of little-known spe-
cies of neotr. birds. Novitates Zoologice, Tring. 1906.
Menegaua, A., et Hellmayr, Etudes des espèces
critiques et des types du groupe des Passeraux tracheo-
— 506 —
phones de PAmérique tropicale, appartenant au Museum
d'Hist. Nat. de Paris. 1905-1906.
Thering, Hermann von & Rodolpho von Jhering,
As Aves do Brazil, vol. I dos Catalogos da Fauna
brazileira, editados pelo Museu Paulista, S. Paulo,
1907.
“Já ficou dito á pag. 28 deste volume qual o intento
com que foi iniciada a publicação dos «Catalogos da
fauna do Brazil» dos quaes o que versa sobre as aves
representa o I volume. Em suas 485 paginas esse tra-
balho encerra, além de varias considerações geraes,- a
enumeração de 1.567 especies e 213 subspecies, de
que até então tinhamos conhecimento de occorrerem no
Brazil. O material do Museu Paulista, de que nos pude-
mos servir para o estudo, consistia em 6.984 couros
de aves, representando 1.102 especies brazileiras. Como
bem o sabiamos, o trabalho não podia sahir livre de
erros e enganos; mas era justamente a correcção destes
que tencionamos provocar, e já hoje temos numerosos
accrescimos e emendas a fazer, as quaes, muito augmen-
tadas daqui a alguns annos, nos habilitarão a editar
novamente este catalogo, bastante expurgado e mais des-
envolvido.
Dous mappas, um representando a distribuição de
mattas e campos na America do Sul, outro dando as
zonas zoogeographicas do Brazil e suas subdivisões, illus-
tram a exposição do Dr. H. von Ihering (p. VITI-XIT),
da qual passamos a transcrever 0 topico referente a estas
divisões em zonas zoogeographicas :
«Segundo os meus estudos, temos a distinguir no
Brazil tres provincias zoogeographicas," das quaes a se-
ptentrional, a da Amazonia ou da Hylaea, é formada
apenas por magnificas mattas ininterrompidas, ao passo
que as outras duas se compõem de mattas e campos.
Denomino a provincia do Brazil central — provincia
E)
Araxana, e a do littoral do Brazil--provincia Tupiana.
Em todas estas provincias temos de distinguir subdi-
visões. E’ assim que no Brazil meridional a região do
Rio de Janeiro até á Bahia, (a subprovincia Tupinam-
bana), ao sul do Rio de Janeiro se extende em uma
estreita faixa, ao pé da Serra do Mar, até Santa Catha-
rina, ao passo que a segunda subprovincia, a Guara-
niana, se extende do Rio de Janeiro até ao Sul do
Rio Grande do Sul. Explica-se assim que no Estado
de S. Paulo, em resumo, da costa para o interior, atra-
vessamos, successivamente, tres provincias ou subprovin-
clas: a tupinambana, no. littoral, a guaraniana no cen-
tro e a araxana no Oeste do Estado, entre os rios
Grande, Piracicaba e Pirassununga.
A temperatura media do anno é de 22,6 gráus
Cel. na zona do littoral, de 17,6 na região da capital,
serra acima, differenças que facilmente fazem compre-
hender a existencia de differenças correspondentes na
composição da fauna. Tambem na provincia araxana
verifica-se a subdivisão em uma metade meridional e
outra septentrional, mas muitas das especies mais cara-
cteristicas têm uma extensão enorme nestas vastas pla-
nicies. »
Vital Brazil; Contribuição ao estudo do Ophi-
dismo; Separado do «Porto Medico» Porto, 1904.
Este trabalho occupa-se de um assumpto de summa
importancia: do tratamento em casos de mordedura de
cobra. Ás numerosas experiencias, feitas pelo auctor e
relatadas neste estudo, são de elevado interesse, visto
que destróem muitos preconceitos, ainda geralmente accei-
tos e inesmo até ensinados em tratados de medicina.
* As cobras venenosas que se encontram no Brazil
são: uma especie de Crotalus, O. horridus, cascavel,
e 8 especies de Lachesis: L. mutus, (surucucá) L. lan-
ceolatus, (jararáca), L. alternatus (urutá), L. newwiedi,
— 508 —
L. jararacussú, (surucucú tapete) e mais tres, pouco
frequentes, e que sómente se encontram nos Estados do
Norte. Quanto á capacidade secretoria do veneno póde-
se enumerar as especies na seguinte ordem: Urutá, jara-
ráca e cascavel.
Na mesma especie a quantidade do veneno é pro-
porcional ao tamanho da cobra, de modo que quanto
maior ella fôr tanto mais veneno secretará. A peçonha
gasta renova-se muito lentamente e é necessario um.
praso de 15 dias para accumular-se a quantidade pri-
mitiva, do que se deprehende que a mordedura será
tanto mais perigosa quanto mais tempo tiver decorrido
desde a ultima vez que a cobra derramou sua peçonha.
A maior parte dos tratamentos, até agora em uso,
em caso de mordedura de cobra são inefficazes. Um me-
thodo muito adoptado, de comprimir as veias acima do
ponto offendido, para retardar a absorpção do veneno,
não tem o desejado resultado, visto ter sido provade
por muitas experiencias, que a absorpção da peçonha se
realisa em egual tempo, quer se tenha recorrido áquella
precaução, quer não. Da mesma fórma tem-se verificado
a inefficacia do alcool, tambem muito preconisado, do
figado da propria cobra e muitos outros processos, fre-
quentemente empregados, aos quaes muito indevidamente
se attribue a cura, que na realidade se explica pela quan-
tidade diminuta da peconha de que a cobra dispunha.
Estadando as propriedades toxicologicas das peço-
nhas brazileiras, o auctor conseguiu immunisar animaes
contra a acção das mesmas, limitando-se entretanto esta
immunisação a um typo de veneno, de sorte que o se-
rum fornecido pelos animaes immunisados contra o ve-
neno da jararáca, o «serum antibothropico», não é ap-.
plicavel em casos de mordedura pela cascavel, devendo-
se recorrer neste caso ao «serum anticrotalico», que se
deve empregar tambem contra a peçonha da Lachesis
jararacussiú. Misturando em partes eguaes os dous se-
PE ae
— 509 —
rums, obteve-se o «serum antiophidico>, applicavel com
resultado seguro contra todas as peçonhas das cobras
aqui existentes. A dosagem aconselhada é de 60 ce.
nos casos graves, de 40 nos medios e de 20 nos casos
leves.
Siebenrock, F.; Ueber die Berechtigun der Selb-
staendigkeit von Hydraspis hilarw D.u. B; Zoologischer
Anzeiger, Vol. XXIX, 1905, p. 424. ss.
Dumeril e Bibron separaram H. hilarw de H. geof-
froyana e tambem Boulenger julga que as duas formas
devem ser consideradas especies distinctas. O auctor
acha, entretanto, que em muitos casos é difficil traçar com
segurança uma linha divisoria e que ha muitas formas
intermediarias, que suscitam duvidas a qual das duas
especies devem ser subordinadas. Assim, pois, é da opinião
que A. hilarii seria mais acertadamente considerada va-
riedade H. geoffroyanu, do mesmo modo como Clemmys
caspica Gm. tem a variedade C. c. rivulata Val.
Siebenrock, F.; Die Schildkrôtenfamilie Cinoster-
nidae ; Sitzb. k. Ak. Wiss. Wien, mat. natw: Kl. CXVE,
1907, p. 527-599, 2 mappas.
A publicação occupa-se da familia de chelonios
Cinosternidae que, por ser nova, o auctor fundamenta,
difterenciando-a dos outros cágados cry ptodeos ( Testudi-
nae, Chelonidae ete. ).
Na America do Sul só occorrem duas especies,
Cinosternum leucostomum (Equador, Colombia etc.) e
C. scorpioides ; no Brazil, só na Amazonia esta ultima está
representada pela subsp. C. s. integrum, onde essa «mus-
sua» é muito apreciada como petisco.
Boettger, O.; Reptilien aus dem Staate Paraná ;
Zvolog. Anzeig. Vol. XNXIX, 1906, p. 373-575.
Enumeraçäo de 22 especies de reptis, colligidos, em
Curityba e outras localidades do Est. do Paraná; contem
510 —
a descripçäo de uma especie nova de cobra do genero
Oxyrrhopus e observações a respeito de outras poucas co-
nhecidas.
Eigenmann, ©. H.; The fresh-water fishes of South
and Middle America; The Popular Science Monthly,
1906, p. 515-550.
O provecto conhecedor dos peixes americanos discute
em 8 paragraphos os traços caracteristicos da ichthyo-
fauna da America do Sul; entre estes interessam mais
de perto a biologia brazileira os seguintes: «Sobre a
grande variedade de peixes na area comprehendida entre
o golfo Caraib e a Rep. Argentina»; « À pobreza em
typos ou familias que contribuem para esta variedade »;
«A pobreza da fauna da America Central e seu caracter
essencialmente sul-americano »; « À pobreza da fauna da
Patagonia e sua essencial differença da fauna brazileira» ;
« À semelhança entre as faunas da America e Africa
tropicaes ».
Discutindo a grande variedade de especies de peixes
julga que mesmo hoje ainda não conhecemos tres quartas
partes da fauna da America do Sul e comtudo, da tota-
lidade das especies de peixes da agua doce conhecidas,
dez porcentos provem da America do Sul. Entretanto
reduzem-se a quatro as principaes familias propriamente
d'agua doce, que fornecem este elevado numero de especies;
os Characinida, Nematognathi, Cichlidae e Poecilide,
estas duas ultimas familias, a que pertencem os Acaräs
e os Guarú-guarás além disto ainda tem mais impor-
tancia na America Central do que na America do Sul Eli-
minando em seguida da lista aquellas familias de distri-
buição mais vasta, quer devido 4 sua antiguidade, quer
pela facilidade com que poderiam passar de um conti-
nente a outro, chega o auctor a apurar aquelles typos
(Siluridae, Poeciliidæ e em especial Cichlide e Cha-
racinidæ) que melhor se prestam para comprovar a antiga
Sg) JE
connexão que deve ter existido entre os continentes da
America do Sul e da Africa.
Desenvolvendo em seguida seu modo de pensar, a
este respeito, baseado nos elementos ichthyologicos que
melhor conhece, o Prof. Eigenmann synthetisa a theoria
da Archiplata- Archhelenis do Dr. Hermann von Ihering e
mostra que o estudo da actual ichthyofauna vem com-
provar a antiga communicação por via terrestre dos dous
continentes, hoje separados pelo mar. Esta connexão ao
seu ver existin antes da origem das actuaes especies e dos
generos e mesmo antes da origem de algumas sub-fami-
lias; geologicamente, pois, nos primeiros tempos do periodo
tertiario. :
Depois desta separação dos continentes pela for-
mação do actual oceano Atlantico, nunca mais houve
permuta directa de typos e deve ser levada á conta de
parallelismo no desenvolvimento, a semelhança, por vezes
surprehendente, que se nota entre os peixes dos dous
continentes.
Silva, Henrique; Fauna fluviatil de Goyaz; Con-
tribuicdo para o conhecimento vulgar dos peixes e mais
especies fluviaes e lacustres do Brazil central; São
Paulo, 1905.
O Snr. Tenente Henrique Silva, auctor de um livio
sobre a caça no interior do Brazil, é um dos melhores
conhecedores do Estado de Goyaz, para cuja exploração
scientifica se esforça a contribuir, Neste sentido o auctor
nos dá um esboço dos principaes peixes que vivem na-
quelle Estado, ajuntando observações biologicas. O auctor
é da opinião que a riqueza da fauna ichthyologica da
Amazonia foi avaliada com exagero, ao passo que a de
Goyaz, que é rica e tem os principaes elementos com-
muns com a da Amazonia, é quasi desconhecida.
Como prova desta affirmação, o auctor já tem offe-
recido ao Museu Paulista couros de dous animaes caçados
— 512 —
no Matto Grosso de Goyaz, até agora não conhecidos
daquelle Estado, isto é, de Mazama nana Lund, o veado
Camocica, e de Cercoleptes caudivolvulus Schreb. ou
antes de Potos flavus Schreb., como este carnivoro, con-
hecido sob o nome de Macaco de meia noite, é deno-
minado agora. Fazemos votos para que o Snr. Henrique
Silva não esmoreça no seu zelo pela exploração scien-
tifica do seu estado natal e que lhe seja possivel forne-
cer-nos successivamente exemplares authenticos dos peixes
dos quaes trata, visto que só deste modo, e não com o
auxilio dos nomes triviaes, será possivel conhecer uma
fauna ichthyologica e a distribuição geographica das di-
versas especies que a compõem. Tivemos occasião de nos
referir ao valor dos nomes vulgares em um estudo sobre
peixes publicado neste volume e sempre se poderá observar
que, geralmente, os nomes indigenas só caracterizam bem
o genero, mas que as especies, mesmo quando bem diver-
sus em pontos extremos, têm muitas vezes nome identico.
Alipio M. Ribeiro; Peixes do Iporanga, S. Paulo.
A Lavoura, R. de Janeiro XI, N° 5, 1907. p. 185-190.
Determinando os peixes colligidos pelo Snr. R.
Krone no rio Iporanga, affluento do rio Ribeira no sul
do Est. de S. Paulo, o auctor classificou-os como per-
tencentes a 15 especies; quatro dellas (dos generos Pime-
lodella, Heimipsilichthys, Plecostomus e Corydoras) são
julgadas novas e por isso descriptas e em parte figuradas.
Eigenmann, C. H.; the Mailed Cattishs of South
America; Science. Vol. XXI, N. 542, 1905, p. 792-
100:
Neste pequeno artigo o competente ichthyologo pôe
em evidencia o valor da monographia do Dr. Tate Regan
sobre a Fam. Loricariidæ, trabalho ao qual já nos refe-
rimos na bibliographia anterior. Comtudo houve alguns
euganos ou omissões, como não podiam deixar de occorrer
em tamanha obra e alguns erros de nomenclatura, que
;
À
— 513 —
o Prof. Eigenmann julgou conveniente corrigir. Em nosso
proximo estudo sobre os peixes da agua doce do Brazil
trataremos desta familia, que comprehende os nossos «cas-
cudos», e ahi trataremos largamente deste assumpto.
Eigenmann, ©. H. e D. Perkins Ward; The Gym-
notidae ; Proc. Wash. Acad. of Se., 1905, Vol. VII,
p. 159-188, Est. VII-XT.
Pellegrin, J., Contribution à Pétude anatomique,
biologique et taxinomique des poissons de la fam.
des Cichlides. - Mém. ‘Soc. Zoolog. de France, Tom.
XVI, 1903, p. 41-394, Est. IV-VTI.
Regan, ©. Tate, A revision of the South-Ame-
rican Cichhd genera; Proc. Zool. Soc. 1905, I, p. 152-
168, Est. XIV-XV; id. Annals & Mag. Nat. Hist,
1905 (4) XV, p. 329-347; DOS > Vol XVI p.
60-77, 225-243, 316-340, 433-445; Vol. XVII, 1906,
p. 49-66, 230-239.
As publicações acima referidas, da lavra dos me-
lhores ichthyologos modernos, representam, a primeira, 0
resumo das especies até hoje conhecidas dos peixes de-
nominados «Tuviras», «Peixe-espada» ete.; as duas ou-
tras são monographias sobre os peixes vulgarmente co-
nhecidos por «Acarás», «Papa-terra», «Nhacundá» ete.
Deixamos de referir detalhadamente estas valiosas
contribuições á nossa literatura ichthyologica, pois em
artigo anterior, neste mesmo volume, tratamos largamente
das familias de peixes em questão e salientamos o grande
auxilio que nos prestaram, nesses estudos, as monogra-
phias supramencionadas.
Steindachner, F; Sitzungsb. mat. natw. Kl. k. Akd.
Wiss. Wien, 1907, vol. CX VI, sessões de 28. IT e
25. TV.
Descripções de varias especies novas de peixes
d'agua doce do Brazil, principalmente de S. Catharina,
— 514
de onde o auctor recebeu i especies (do rio Cubatão) e
das quaes 5 foram reconhecidas como indescriptas.
Ihering, Rodolpho von; Description of four new
Loricariid fishes of the genus Plecostomus from Bra-
zl; Ann. de Mag. Nat. Hist. Ser. 7, Vol, XV, 1905,
p. 258 ss.
Auxiliado pela excellente monographia do Dr. Tate
Regan—Loricarude (cf. Bibliogr. Vol. VI, p. 622) tor-
nou-se relativamente facil classificar os nossos! peixes
<Cascudos» ; entre as especies do genero Plecostomus
(o mais vulgar) 4 typos foram reconhecidos pelo auctor
como sendo novos e, depois de terem a valiosa saneção
do Dr. T. Regan, publicaram-se, no escripto citado, as
respectivas diagnoses. |
Thering, Rodolpho von; Diversas especies novas
de peixes Nematognathas do Brazil; Notas Prelimi-
nares do Museu Paulista, 1907, Vol. E fasc. Esp
14-39.
Diagnoses, em portuguez e inglez, de dous generos
novos e oito especies novas de peixes da agua doce do
Brazil, todos pertencentes ao grupo dos Nematognathas,
sendo: Rhamdioglanis (n. gen.) frenatus n. sp, Hepta-
pterus multiradiatus, Plecostomus (Rhinelepis) microps,
Otocinclus (Microlepidogaster) tietensis, Loricaria pi-
racicabæ nn. spp. Aspidor as (n. gen.) rocha, Corydo-
ras eigenmanni e C. juquiaæ nn. spp.
Magalhães, P. 8. de; Sur les insectes qui atta-
quent les livres; Bull. Soc. Zool. de France, XX XIT
190%; pe DO:
Em sessão anterior da Société zoologique, o illustre
cathedratico da Faculdade de Medicina do Rio de Ja-
neiro fizera uma conferencia sobre insectos destruidores
de livros; tratava da Lepisma e da lagarta de uma
borboleta, Tinea. No presente escripto descreve uma
— 015 —
especie nova de coleoptero Dorcatoma bibliophaqum
Mag. da fam. Anobiidæ, cuja larva, semelnantemente ao
Anobium bibliothecarum Poey, damnifica os livros.
Heller, K. M.; Neue Rüsselkäfer aus Central u.
Südamerika; Stettiner Entomol. Zeitung, Ann. 67,
1906, p: 1 ss. Est: T
Neste trabalho estão descriptas varias especies no-
vas de coleopteros da fam. Curculionide, do Brazil.
O que muito eleva o valor desta publicação é ter-se
dado o auctor ao trabalho de organizar diversas chaves
para a classificação de generos e de especies; é emfim
um trabalho como só nol-o apresenta quem domina a
materia, como este provecto especialista.
Ohaus, Fr.; Beiträge zur Kenntniss der ameri-
kanischen Ruteliden; Stettiner Entomologische Zeitung
Ann: 66;-1909,-p. 283:
Esta nova publicação do distincto coleopterologo, que
tão detidamente tem estudado os coleopteros lamellicor-
neos do Brazil, encerra um grande numero de descripções
de especies novas de Rare entre as, quaes muitas do
Brazil; alguns dos exemplares typicos foram-lhe enviados
pelo nosso- Museu. |. 3 É ,
Heller, K. M.; Prasilianische Káferlarven, gesam-
melt von Dr. Fr. Ohaus; Stettiner Entomologische Zeitung,
Ann. 65, 1904, p. 381-401.
O material, examinado neste estudo, foi colligido no
Brazil pelo Dr. Fr. Ohaus. As larvas, depois de serem
tratadas com agua fervente, foram conservadas em alcool;
a conservação em formalina não deu bons resultados.
As especies examinadas pertencem á familia dos Ce-
rambycidas e são algumas de Brionidas (Ctenoscelis,
Mallodon, Polyoza e Parandra) e uma especie de On-
coderes, das Lameidas e ainda uma de Brenthus. Duas
estampas bem executadas acompanham o valioso estudo.
99
09
qs we
Gounelle, EB.; Contributions a l’étude des moeurs
d Hypocephalus armatus (Col.) avec planche. Annales
de la Societé Entomologique de France, Vol. LXXIV
1905, p. 105 ss.
Este estudo occupa-se de um interessante Coleoptero,
Hypocephalus armatus, cujo «habitat» parece bem limi-
tado, visto que, afóra de dous exemplares colleccionados |
pelo Snr. Glaziou em Goyaz (veja-se tambem a nota á
p. 19 deste volume), só foi até agora colleccionado per-
to da villa de Condeuba no Sul do Estado da Bahia,
numa extensão de 50 km. pouco mais ou menos. As
observações que se tem podido fazer, por emquanto, sobre
este Coleoptero subterraneo, chamado Carocha pelos mo-
radores daquella região, ainda são assaz incompletas, igno-
rando-se ainda em grande parte a sua biologia.
Gounelle. E.; Cerambycides nouveaux ou peu con-
nus de la Region Neotropicale, I. Ann. Soc. Entom.
de drance,. Volto 1906, pgs 220 Hsia =
Alem de descrever numerosas especies novas (1) destes
coleopteros longicorneos, provenientes em grande parte do
Brazil: S. Paulo, Goyaz, Amazonia, etc., o competente es-
pecialista facilita o estudo dos generos de que trata, dando
boas chaves das especies e outras informações de valor.
Como é em especial pela subregião brazileira que o Snr.
Gounelle se interessa, tendo mesmo feito algumas viagens
de estudo a varios dos nossos Estados, elle discute, infeliz-
mente só em nota resumida, os limites que acceita para esta
subregião zoogeographica. Modificando em parte os limites
traçados por Wallace, acceita os que foram indicados para
o sul da região pelo Dr. H. von Ihering; faz entrar as
provincias Argentinas de S. Juan del Esterro, Tucuman
e Salta; segue a vertente oriental dos Andes (excluindo
Agradeço em especial a amabilidade do auctor, dedicando-me a nova es-
pecie, bellissima, Æoplistocerus heringi, do valle do Rio Pardo, Est. de
S. Paulo—H. v. Ih.
rh
a parte occidental da Colombia, que Wallace comprehen-
dia); e mostra, emfim, a duvida que ha, em incluir-se ou
não, na subregião brazileira, os vastos lhanos da Vene-
zuela, entre o Orinoco e a cadeia dos Andes.
Gounelle E.; Note sur deux Lamiaires (Hudesmus)...
et deux genres noveaux ; Bull. Soc. Entomol. de France,
1900, No Toe poe C2 8s.
Tendo o auctor obtido specimens de coleopteros Ce-
rambycidas do Brazil, que tinbam sido descriptos como per-
tencentes ao genero Hudesmus, elle corrige a classificação,
creando novos generos: Cherentes (para E. niveilateralis
Thoms. dos Est. de S. Paulo e Goyaz) e Bacuris (para
E. sexvittatus Bates, de Pernambuco e Pert.)
Kolbe, H.; Ueber die Arten der amerik. Dynas-
tidengattung Strategus; Berl. Entom. Zeitschr. LI, 1906,
p- 1-52, Est. af
Estudando monographicamente este bello genero de
coleopteros lamellicorneos, o auctor descreve tambem as
especies que occorrem no Brazil (provavelmente 5), a!-
gumas das quaes estão figuradas na estampa. Infelizmente,
porem, o auctor não proviu sua publicação de alguns
complementos uteis, como sejam uma completa relação bi-
bliographica, indispensavel para um estudo aprofundado
e chaves para a determinação das especies, com o que
muito teria facilitado a classificação, aos que não podem.
consagrar muito tempo ao estudo do grupo, mas que quei-
ram aproveitar a opportunidade do apparecimento de
uma pequena monographia, para com auxilio della deter-
minar ou rever o seu respectivo material.
_ Bernhauer, Max; Neue Staphyliniden aus Stida-
merika I, IT, ITI, IV (em Deut. Entomol. Zeitsen.
1906, Nº 1, p. 193 ss; Verhandl. k. k. zool. bot. Ges.
Wien, 1906, p. 322 ss; Wiener Entomol, Zeit. XXVE
1907, 7-9, p. 281 83.).
— 518 —
O competente especialista austriaco, que já de ha
muito estuda os coleopteros Staphylinidas, em boa hora
resolveu dedicar attenção especial a estes minusculos be-
sourinhos da America do Sul. Tendo entrado em rela-
ção com diversos colleccionadores no Brazil, é abundante
o material que tem recebido; de S. Paulo o nosso Mu-
seu poude enviar-lhe centenas de exemplares, graças á
actividade do preparador auxiliar, Snr. H. Lüderwaldt, e
tambem o Snr. A. A. Barbiellini tem-lhe colligido muitos
destes Staphylinidas. Muitissimas são as especies novas
encontradas, em parte descriptas nas publicações acima
mencionadas, em parte ainda ineditas. Somos gratos ao
Snr. Dr Bernhauer pela honra que nos deu, ligando os
nossos nomes (theringi, luederwaldi) 4 denominação de
varias especies novas.
Thering, Hermann von; Die Cecropien und ahre
Schutzameisen; Engler's Botan. Jahrb. Vol. 39, fase.
3-5, 1907, p. 666-714, Est. VI-X.
Por diversas vezes naturalistas illustres, como Fr.
Müller, A. W. Schimper, E. Ule e A. Forel, estudaram a
interessante questão biologica da convivencia da formiga
Azteca com a arvore Cecropia, vulgarmente conhecida
por <Imbauva». Esta convivencia, tão intima e constante
entre estes dous organismos, provocava ponderações de
alto alcance e os adeptos do «seleccionismo» aqui julgavam
ter encontrado uma comprovação brilhante de sua theoria.
A formiga habita o interior ôco da imbauva; ahi
estabelece seu ninho, procria-se e tira da propria arvore
todo o alimento necessario. Este constiste em substancias
que revestem o interior dos canaes novos, no «corpus-
culo de Müller» e no «stomatoma», que representa o des-
envolvimento hypertrophico do parenchyma, causado pela
mordedura da formiga. O exame chimico do stomatoma
demonstrou ser elle constituido por substancia parecida
A cêra vegetal e conter materia saccharina (glycose e sac-
de nie
charose). Os corpusculos de Müller brotama bundan-
temente de entre os pellos da base de inserçäo da folha
(trichilium) e compdem-se de substancias albuminoedes e
gordurentas, e são, portanto, valiosissimos como alimento.
Tudo. isto, abrigo e alimento, a arvore offerece aos
seus inquilinos e suppunha-se que, como seria justo,
tambam 9 senhorio tirasse proveito desta cohabitaçäo.
Dava-se ás formigas o papel de defensores das arvores,
protegendo-as, - principalmente contra as devastações da
sativa (Atta). De facto as formigas Azteca atacam o
homem, por exemplo, ao qual logo persentem; mas uma
série de observações e experiencias do Dr. v. Ihering
mostrou que esta protecção é bem pouco efficaz contra
insectos damninhos. O auctor combate pois a theoria de
Fr. Miiller-Schimper, segundo a qual esta convivencia
seria uma symbiosa propriamente dita, que se teria tor-
nado indispensavel, tanto á arvore como á formiga. Se-
gundo os resultados a que chegou o Dr. von Ihering, a
“convivencia em questão representa antes um caso de
parasitismo e «a imbauva póde tão bem viver sem as
Azlecas como o cão ‘sem as pulgas». Com referencia á
theoria de Buscaglioni e Huber, segundo a qual as plan-
tas em que vivem formigas teriam tido sua origem nas
regiões sujeitas a enchentes, concorda, como E. Ule,
com as observações em que a dita theoria se baseia, mas
não a acompanha na sua generalização demasiada.
Nas conclusões a que o auctor é levado pelos es-
tudos de observação e experiencia, elle resume seu modo
de vêr quanto ao papel que agora cabe a esta questão
biologica, na discussão do seleecionismo, cujo valor, como
theoria explicativa da origem das especies, continua a
negar, como o fez já em 1878 (Das periphere Nervensys-
tem der Wirbeltiere). Hoje, como então, suppõe que a
causa da formação das especies está no augmento pro-
gressivo da frequencia de uma variante, que a principio
apparecia só excepcionalmente, mas pela qual finalmente a
— 520
totalidade dos individuos de uma especie póde ser levada
a formar outra especie, mesmo que não tenha havido
isolamento local.
Huber, J.; Ueber die Koloniengründung bei Atta
sexdens; Biolog. Centralblatt, Leipzig, Vol. XX V, 1905,
NV. 18, p. 606-619; N. 19, p. 625-635.
Uma questão sobremodos interessante, na biologia
das formigas «sauvas» (Atta sexdens), é o conhecimento
do inicio da colonia. Todos sabem que é a femea gorda,
«Içá», que se enterra e dahi a tempos faz sahir nu-
merosa próle. Estudando detalhadamente este inicio do
ninho, o Dr. H. von Ihering fez diversas observações
interessantes e publicou um trabalho que foi relatado nesta :
Revista, Voi. III, p. 563 e traduzido na Revista Agricola,
Ann. IV, 1898, p. 255 ss.
O illustre botanico, hoje director do Museu Goeldi
do Pará, Dr. J. Huber, resolveu continuar estes estudos,
auxiliado pelo Dr. E. Goeldi. As investigações trouxe-
ram completa confirmação da descoberta do Dr. H. von
Thering, de que a içá, ao começar o ninho, leva com-
sigo, na cavidade buccal, os germens do cogumelo (o-
zites), que serve de alimento ás formigas.
“Depois de expôr detalhadamente as observações e ex-
periencias feitas, illustradas por muitas figuras, o auctor
resume os resultados do estudo nas seguintes conclusões:
1º a içá de Atta sexdens é capaz de fundar uma
colonia em uma cavidade feita por ella mesma, só, e
sem receber alimento ou auxilio de fora;
2º O tempo empregado para o desenvolvimento
de uma colonia, até o apparecimento das primeiras obrei-
ras, importa no Pará, no caso mais favoravel, em 40
dias; as primeiras larvas apparecem depois de ca. 15
dias e as primeiras nymphas depois de um mez. Appa-
recidas as primeiras obreiras, passa-se ainda pelo menos
uma semana até que seja estabelecida a communicação
do ninho com o mundo exterior e que comece o recorte
das folhas. Fóra das caixas de experiencia este periodo
de transição será provavelmente ainda maior.
a O cogumelo é adubado com excrementos flui-
dos, primeiro pela içá e no periodo de transição tam-
bem pelas obreiras novas.
4º A içá nutre-se primeiro com os seus proprios
ovos, dos quaes emprega só uma pequena parte para a
procreação. Além disso lambe o cogumelo, do qual, porém,
não come. Desde que apparecem as primeiras obreiras, a
ic é provavelmente alimentada. por estas.
5° As larvas são alimentadas (primeiro pela içá
e durante o periodo de transição pelas obreiras novas)
com ovos recempostos, que ellas chupam.
6.º As operarias novas comem desde logo «beter-.
raba de cogumelo».
Forel, A.; Einige biologische Beobachtungen des
Herrn Prof. Dr. E. Góldi an brasilianischen Amenrsen;
Biologisches Centralblatt, Bd. XXV N. 6, 1905, p.
170-181. |
Dr. Forel publica diversas photographias, referentes
A biologia de formigas brazileiras, que, juntamente com
os respectivos ninhos, lhe foram cedidos pelo Dr. E.
A. Goeldi.
Deixando de lado observações já anteriormente pu-
blicadas, mencionamos aqui a figura de um ninho de
Camponotus senex, que, no seu centro, contem um ninho
duma Meliponida, que, ao que parece, é de uma Trigona.
Observo aqui que a symbiose de Trigonas (Tr. fulvi-'
ventris nigra Friese) com formigas (Camponotus rufi-
pes) já foi descripta por mim na minha Biologia das
Meliponidas, p. 261.
De grande interesse são as boas photographias dos
ninhos de diversas especies de Azteca, adherentes á casca
de arvores e que foram descobertos na região do Rio
22 —
Purûs pelo Sr. André Goeldi. Seguem-se observações
sobre a fundação de novas culturas de cogumelos pelas
Saúvas e figuras de culturas de cogumelos de Atta
octospinosa, encontradas no matto sem capa- exterior
(<Freier Pilzgarten»).
1 EL, vo
Enderlein, Giinther. Neue Evaniiden, etc. Stettiner
Entomol. Zeitung, Ann. 67, 1906, p. 227.
Entre diversos hymenopteros da fam. Evaniida, o
auctor descreve alguns novos, dos generos Brachygaster
e Gasteruption, colligidos em S. Catharina pelo prepa-
rador auxiliar do Museu Paulista, Sr. H. Lüderwaldt.
Schulz, W. A.; Neue Beobachtungen an südbra-
sihanischen. Meliponiden-Nestern ; Zeitschr. fiir wis-
sensch. Insektenbiologie, 1905, fase. 5, p. 199, fase. 6,
De iD eies)
Estudando tres ninhos de abelhas sociaes (Meli-
pona marginata e Trigona emerina), que pelo nosso
Museu foram enviados ao Instituto Zoologico da Uni-
versidade de Strassburgo, o auctor descreve-os e com-
menta algumas das observações, que vem completar os
estudos biologicos feitos pelo Dr. H. von Ihering, a cuja
publicação sobre este assumpto (Biologie der stachellcsen
Honigbienen Brasiliens) já nos referimos na bibliogra-
phia do vol. VI desta Revista; pg. 635.
Dreyling, L.; Die wachsbereitenden Organe bei den
gesellig lebenden Brenen; Zoolog. Jahrb. Jena, 1905,
ol. XXIT, p. 289-830, Est. 17-18.
id; Beobachtungen über die wachsabscheidenden
Oraane bei den Hummeln, ete. Zoolog. Anzeiger, Vol.
XI 1905, :N.-15, p. 563-6075.
Nos dous artigos acima mencionados o auctor volta
a tratar do assumpto da producção da cêra nas abelhas
sociaes; já na bibliographie do Vol. VI, p. 637, nos re-
ferimos a um artigo anterior. Utilizando-se de material
que daqui lhe enviaramos, o auctor fez numerosos pre-
parados, tanto do Trigona como de Melipona (nossas
abelhas indigenas) e tambem de Bombus (mamangaba).
Estes estudos minuciosos confirmam perfeitamente o que
na nota preliminar ficára dito, e Dr. H. von Ihering
constatára: que a secreção de cêra nas Meliponidas e
Bombus é realizada pelas glandulas dorsaes do abdo-
men (segmentos 2-6), ao passo que as obreiras de Apis
(a «abelha do reino») segregam a cêra por meio de glan-
dulas ventraes.
Schulz, W. A.; Hymenopteren Amazoniens; Sitzber.
math. phys. Klasse Akad. Miinchen; 1905, V. p. 757 ss.
id. Hymenopteren-Studien; Leipzig (Engelmann)
1905, p. 147.
Na primeira destas publicações o Sr. Schulz, que
aliás já esteve pessoalmente collecionando na Amazonia,
estuda parte dos hymenopteros contidos nas collecções
do museu zoologico de Munich e que na sua maior parte
foram collecionados por H. W. Bates, o famoso auctor do
« Naturalist on the Amazons River». De especial in-
teresse são as suas observações sobre vespas e abelhas
sociaes. Como que uma continuação desses estudos
representa o terceiro capitulo da segunda publicação men-
cionada, onde o auctor trata largamente de numerosas
especies de vespideos amazonicos, juntando as observações
proprias, recolhidas no Pará nos annos de 1892 a 95.
Varias dessas notas teremos occasião de discutir em artigo
supplementar ao d’As vespas sociaes (veja-se Vol. V
desta Revista 1905, p. 97 ss.) Ainda nos Hymeno-
pteren-Studien refere-se o auctor a insectos brazileiros
tratando dos Trigonalides, familia da qual dá boa chave
synoptica. |
A’ pagina 93 é descripta uma nova especie, Liaba
cisandina, que foi por nós retirada de um ninho de
— 524 —
\
vespa social, a Polybia dimidiata e da qual, pois, é pa-
rasita, facto ao qual já nos referimos em nossa publi-
cação acima citada, pg. 297.
« Na parte em que o auctor trata da biologia das
Meliponidas, elle descreve um ninho de Melipona scu-
tellaris, em cujos favos observou passagens eguaes ás
que se encontra nos de Trigona. Resta examinar se isto
é a regra para os ninhos de M. scutellaris. Em geral
as differenças biologicas, que encontrei entre os ninhos
de Melipona e Trigona, são mais ou menos constantes,
de modo que me parecia de valor registral-as, sem, por
isto, duvidar da occorrencia de typos transitorios, par-
ticularmente quando se toma em consideração um unico
Es H. v. The»
Ducke, A.; Biologische Notizen über einige südam.
Hymenopteren ; Leitschr. f. wissensch. Insektenbiologie,
1905, fase. 4, p. 175.
Anota o Sr. Ducke algumas observações biologicas
anteriormente publicadas sobre abelhas solitarias ( Hu-
glossa) e vespas sociaes. |
(Quanto a estas são-nos ellas de especial valor, pois
vem completar o que disseramos em nossa publicação |
sobre as vespas sociaes (vol. VI desta Revista), com
relação ao inicio e á duração dos ninhos. Nos climas
frios e mesmo ainda em S. Paulo, a temperatura baixa
obriga as vespas de ninhos desprotegidos ( Polistes, Mis-
chocyttarus ) a abandonarem suas habitações. Na Ama-
zonia, porém, verificou o Sr. Ducke, as mesmas vespas
occupam seus ninhos durante o anno todo; desconfia,
entretanto, que nas regiões da secca sejam obrigados a
dissolver a colonia nos mezes inclementes, não de frio,
que ali não ha, mas do calor e da secca.
Ducke, Ad; Zur Kenntnis der Diploptera vom
Gebiete des unteren Amazonas; Zeitschr. f. Hymenopt.
u. Dipterol. 1905 (V), fase. 3, p. 100-173.
On
125
Dá a descripção de tres especies novas de vespas
do genero Zethus (s. str.), todas ellas do Amazonas
inferior: Z. spiniventris, inermis e buyssons, além das
quaes ainda se conhecem 2 especies desse genero na
mesma região: Z. mexicana e caeruleipennis.
Ducke, A.; Les espèces de Polistomorpha Westw.;
Bull. Soc. Entomol. de France, 1906, N° 11, p. 165.
Os quatro hymenopteros Chalcidideos, conhecidos
como pertencentes a este genero, o auctor obteve-os todos
na Amazonia e, descrevendo as especies, dá boa chave.
Uma das especies, P. nitidiventris, era nova. Inte-
ressante é o mimetismo que se observa com relação a
algumas especies, que imitam vespas sociaes ( Polybra ).
Cockerell, T. D. A.; Notes on some bees in the
British Museum. Trans. of the Amer. Entomol. Society,
Vol. XXXI, Nº 4, 1905, pag. 309-864.
O operoso auctor, que tanto tem estudado as abelhas,
e ao qual devemos avultado numero de publicações
referentes a estes hymenopteros do Brazil, ha pouco
estudou os numerosos «typos» de abelhas, guardados nas
colleeções do British Museum em Londres. Ainda que
em especial estudasse os typos norte-americanos, todavia
refere-se tambem a muitas especies de outros paizes e
assim são numerosos os seus apontamentos, agora publi-
cados, que interessam os estudiosos da fauna brazileira.
O Sr. Cockerell inclue em suas notas tambem numerosas
chaves svnopticas para a determinação. Seria um tra-
balho bastante necessurio,.o da revisão completa dos
typos de todos os insectos brazileiros descriptos por Fred.
Smith, visto como as suas diagnoses por vezes deixam
muito a desejar.
Brauns, S.; Zwei neue Mesostenus aus Brasilien;
Aes a Hymenopt. u. Dipterol., 1905, fase. 3, p.
129-13
2 ERG aes
Descreve duas especies novas de Ichneumonidas,
Mesostenus theringi e M. cassunungae, as quaes foram
por nos criadas dos ninhos das vespas sociaes Polistes
versicolor Ol. e Polybia ( Megacantopus ) cassununga
ft. v. Lh. Esses Tchneumonidas aproveitam-se dos mo-
mentos em que as larvas do vespideo estejam mal vigiadas,
para nellas depositarem seus ovos, que assim. se desen-
volvem 4 custa da larva do vespideo, a qual succumbe.
Sobre este mesmo assumpto veja-se o que escrevemos
nesta mesma Revista, Vol. VI, p. 297 no estudo sobre
« As Vespas sociaes do Brazil ».
Ainda outro hymenoptero parasita de vespa, ao qual
nos referimos á mesma pagina citada, foi descripto na
publicação do Sr. W. A. Schulz, da qual já nos oecu-
pamos á pg 525.
Ducke, Adolpho; Revisione dei Crisididi dello
Stato brasiliano del Pará. Bull. della Soc. Entomol.
Italiana, Anno XXXVI, Firenze 1904, p. 14-48 e Suppl.
ibid. p. 99-102.
Mais um estudo proveniente da fecunda exploração
hymenopterologica da região amazonica, a que o auctor
se dedicou. Este estudo contem a enumeração de qua-
renta e uma especies de Chrysididas e chaves para sua
determinação. Em annexo são dadas as figuras do ter-
ceiro segmento dorsal do abdomen de 15 especies.
Buysson, À. du; Espèce nouvelle de Vespide (Hy-
mén). Bul. de la Soc. Entomol de France, Nº 8 Paris
1005 Mn 126.
Descripção de uma nova vespa social da Bahia,
semelhante a Charterginus nitidus Ducke e a qual é
denominada pelo auctor Charterginus ductkei.
Goeldi, B. A.; Stegomyia fasciata, der das Gelb-
ficber übertragende Mosquito und der gegenwärtige
Stand der Kenntnisse über die Ursache dieser Krank-
— té 1e. vo
eee ee ns, be
2 —
|
ex
heit; Comptes Rendus du 6º Congrès international
de Zoologie. Session de Berne 1904.
O auctor é da opinião que a febre amarella é pro-
duzida por uma secreção venenosa, que, pela picada da
Stegomyia fasciata seja innocalada no homem. A fre-
quencia destas picadas, accumulando uma somma suffi-
ciente do toxico, determina o apparecimento da febre
amarella, quando a isto não se oppõe a acção dum clima
infenso á molestia ou algum outro factor, que paralyse
a acção do texico. Desta sorte a molestia não se trans-
mittiria de uma pessoa atacada de febre amarella a outras,
mas a secreção da Stegomyia, já por si venenosa, adquire
maior virulencia pelo accrescimo do sangue infeccionado.
O auctor pensa que o successo, que se tem obtido nos
ultimos tempos pelo tratamento antiophidico nos casos
de febre amarella, venha em apoio de sua theoria. Ao
nos referirmos a uma outra publicação sobre o mesmo
assumpto (p. 453) já falamos desta theoria.
Bourroul, Celestino; Mosquitos do Brazil; These de
Doutoramento, Faculdade de Medicina da Bahia, 1904.
Descripção de novas especies de Culicideos do
Brazil, com um appendice «Synopse e systematisação
dos Mosquitos do Brazil» pelo Sr. Dr. Adolpho Lutz.
As especies de mosquitos encontradas pelo auctor,
na Bahia, são em numero de 26.
Bezz, Mario; Empididæ neotropice Muser Nat.
Hungarici; Ann. Mus. Nat. Hung. Budapest, Vol.
LI, 1905, p. 424-460.
Descrevendo um grande numero de especies novas
ou mal conhecidas, da America do Sul, o auctor, com-
petente dipterologo, deu-se ao mesmo tempo o trabalho,
ultilissimo, de incluir chaves de classificação e uma lista
das especies conhecidas destas moscas da região neo-
tropica. Do Chile conhece-se uma representação abun-
— 528 —
dantissima, devido principalmente á operosidade de R. A.
Philippi, que descreveu muitas especies; do Brazil pouco
consta e isto devido talvez menos á falta de especies, do
que a terem sido pouco estudadas estas moscas minusculas,
que geralmente vivem em bandos.
Thering, Rodolpho von; A Mosca das fructas e
sua destruição, Folheto de distribuição gratuita, da
Secret. da Agricultura do Est. de S. Paulo, 1905, 21 pgs.
A primeira parte deste estudo occupa-se da deseri-
pção das especies de moscas que damnificam as nossas
fructas; são Trypetidas: Anastrepha fratercula e bise-
riela, Halteophora ( Ceratatis ) capitata .e Lonchata
glaberrima. Tres dellas são representadas por desenhos.
Passando a estudar a biologia destas moscas, um quadro
demonstra o tempo empregado pelas larvas no seu desen-
volvimento, o qual varia de 3 a 8 semanas.
Juntamente com as moscas foram tambem Hate
parasitas, um hymenoptero da familia Cynepidae, Hexo-
merocera brasiliensis Ashm. Passando revisäo aos me-
thodos aconselhados para a destruição das moscas dam-
ninhas, vê-se que pouco ha de verdadeiramente apro-
veitavel, pois os remedios a empregar são ou muito
dispendiosos, ou pouco efficazes. Aproveitando os ensi-
namentos do emprego dos proprios parasitas da praga
para combater a esta, o auctor aconselha a recolta com-
pleta das fructas cahidas e, em vez de destruil-as, com
o que seriam mortos tambem os parasitas, manda col-
local-os em uma caixa de criação « Aminacarpo>, de
onde, por entre as malhas finas do tecido de metal, o
parasita, muito menor, póde sahir; ao passo que a mosca
fica presa e morre.
E” evidente que com tal apparelho se obtem resul-
tado completo quanto á criação e o que o comprova, é
ter o Prof. A. Berlese (Italia) ideado já anteriormente
um dispositivo mais ou menos analogo, para combater
or ae
Tae
outra praga, procurando fomentar o desenvolvimento e
alastramento do seu insecto parasita. O que, porem, só
a practica deverá ensinar é o quanto se conseguirá
justamente por este meio e até que ponto só poderá fazer
valer o principio natural, de que o parasita ruinoso ao
animal parasitado e que encontra todas as circumstancias
favoraveis para sua propagação, faz baixar por boa por-
centagem a abundancia do animal parasitado.
Tavares, J. S.; Descripção de uma Cecidomyia nova
do Brazil; Broteria, 8. Fiel-Portugal, 1906, Vol. V,
p. 81-84.
Deseripção de uma especie nova de Cecidomyia nova,
encontrada em S. Leopoldo, Rio Grande do Sul pelo
rev. padre Bruggmann, a quem o auctor dedicou o genero
novo Bruggmannia, alliado a Schizomyia. A especie
foi denominada B. brasiliensis.
Fruhstorfer, H.; Verzeichuis d. v. Dr. Koch-Griin-
berg am ob. Uaupés ges. Rhopaloceren und Bespr.
verw. Arten; Stettiner Entom. Zeitung, Ann. 68, 1901,
p. 117, e 207 ss.
O apreciado anthropologo Dr. Koch-Grünberg, a
cujos trabalhos de exploração ethnographica no Brazil
repetidas vezes nos temos referido, colligiu tambem du-
rante sua viagem ao rio Uaupes (1903 -1905) uma bella
serie de borboletas, agora estudadas pelo Snr. H. Fruh-
“storfer. O auctor, ao mesmo tempo que se refere a estes
exemplares (ao todo 63 especies), descreve tambem muitas
outras formas do Brazil. Infelizmente, porém, o distincto
especialista vae muito longe na sua faina de encontrar
formas novas, subspecies que são apenas variantes do
mesmo typo, etc. Assim, por exemplo, tenta discriminar
em Morpho achillaena Hübn. 7 subspecies, das quaes
quatro seriam de Minas Geraes, Espirito Santo, S. Paulo
e Sta. Catharina.
-— 530
Si esta distribuição geographica fosse bem estabele-
cida, ainda vá que se separassem subspecies pela maior
ou menor dimensão de alguma mancha ou pelo brilho
mais ou menos intenso do azul.
Em nossa collecção, só de S. Paulo, entretanto, po-
demos reconhecer quasi todas ellas, varias até da mesma
localidade (Ypiranga). Já que nunca se poderá estabelecer
caracter seguro para se normalizar a classificação, ao,
menos que nos valha a proveniencia de localidade iden-
tica: para fazer-nos acreditar na variabilidade das formas. -
Opsiphanes (genero já tão perseguido pelos que
tudo querem desmembrar), soffreu egualmente o accrescimo
de numerosas subspecies, em consideração ao recorte talvez
um pouco mais pronunciado de uma das azas e colorido
mais Intenso.
Valha-nos, porem, ter o auctor preferido a descri-
pção das formas novas como subspecies, com o que não
somos desorientados na comprehensão da distribuição geo-
graphica de um genero; verdadeiramente temiveis são os
creadores de «especies novas», os typos das quaes, com-
parados cora abundante material, nem como formas locaes
não podem ser distinguidos.
Rothschild, Walter, and Karl Jerdan.; À revision
of the american Papilios; Novitates Zoologicae, Vol.
XIII, 1906 (N. 3), p. 411-752, Est. IV-IX
Apresentam-nos os auctores neste grosso volume uma
monographia de alto valor, que logo seduz a todo o le-
pidopterologo ou amador a rever a sua collecçäo de. bor-
boletas deste bello genero Papilio. São monographias
desta ordem que facilitam enormemente o estudo dá fauna
regional e, certamente, muito contribuirá para este fim
a obra em questão, resultado de longo e penoso trabalho
dos operosos auctores.
O genero Papilio é quasi cosmopolita; na recente
publicação de Rothschild e Jordan, porém, só as especies
E o did casi it De a DJ a ee DD PO
Ce 7
POE À à
ae én Û
LS OPEN TT ae
SRE de
americanas são estudadas; o seu numero, entretanto, se
eleva presentemente a 169, alem de mui numerosas sub-
species. O genero é dividido em 3 secções bem delimitadas
por caracteres larvaes, da crysalide e do imago; as sec-
ções dividem-se em subsecções e estas em grupos, sempre
precedidos por hoas chaves analyticas, que muito facilitam
a classificação. As descripções são precisas e a bi-
bliographia extensa. As estampas, em parte coloridas,
ilustram 68 especies do genero.
A publicação desta monographia dá pois ensejo a
felicitarmos novamente seus auctores e recommendal-a aos
estudiosos, que queiram, por proprio esforço, classificar
as numerosas especies brazileiras deste genero. Infeliz-
mente só quando apparece uma destas monographias
completas é que os nossos amadores se podem dedicar,
com relativa facilidade, ao estudo do respectivo grupo
animal. Sem esta base faltam-lhe os meios para a clas-
sificação, pois raros serão aquelles que se dedicarão com
tanto amor e tamanha tenacidade ao assumpto, que não
poupem dinheiro para a acquisição da literatura neces-
saria e que não esmoreçam ao cabo de algumas tentativas.
Alem de ser preciso reunir uma collecção a mais com-
pleta que fôr possivel para a comparação, é mister conhecer
as descripções tanto antigas como modernas, e estas estão
esparsas por um sem numero de periodicos escriptos em
todas as linguas. Ainda bem quando houver um catalogo
bibliographico mais ou menos moderno, a partir do qual
se possa compulsar o Zoological Record ; sem isto, porem,
só quem pacientemente registre todas as indicações, quem
portanto é especialista, poderá affirmar si certa especie
já foi descripta ou não, e qual o seu actual nome generico.
Hampson, G. F; Catalogue of the Lepidoptera
Palene in the Britsh Museum; Vol. IV (1903), V
(1905): Noctuide.
Os dous ultimos volumes publicados da grande obra
do auctor sobre as borboletas nocturnas de todo o globo,
34
2
tratam unicamente dos Noctuidae. Enorme é o numero
das especies brazileiras e muitas dellas ahi são descriptas
pela primeira vez. -
Schmidt, Edm.; Beitrag zur Kenntniss der Fulgo-
riden; Stettiner Entomol. Zeitschr. Ann. 67, 1906.
Sob o titulo acima o auctor tem estudado succes-
sivamente numerosos generos da familia a que tambem
pertence a nossa «Jequitirana-boia». E’ de lastimar, porem,
que até agora elle pouco tenha escripto sobre os repre-
sentantes sul-americanos; folgariamos muito ver o Snr.
E. Schmidt resolver numerosas questões da svstematica
dos nossos Fulgoridas, com egual esmero como o tem feito
para outras faunas.
Certamente affluiria abundante material brazileiro ao
competente especialista, caso elle se puzesse em communi-
cação com os entomologos do paiz.
Ulmer, Georg; Zur Kenntniss aussereuropdischer
Trichopteren; Stettiner Entomol. Zeitung, Ann. 66,
1905, p. 155, Est. I-IV.
O immenso material de Trichopteros estudado pelo
auctor nos museus de Hamburgo, Stettin e Halle, en-
cerrava um sem numero de fórmas novas, que minucio-
samente descreveu, com illustração de muitos detalhes.
Muitas destas especies são brazileiras e foram col-
ligidas em Sta. Catharina pelo Sur. H. Lüderwaldt,
preparador auxiliar do nosso Museu.
Needham, James, G.; A new genus and species
of Libelulinae from Brazil. Proc. of the Biological
Soc. of Washington, Vol. XVIII, 1905, p. 115-116.
Descripção d'um genero novo de Libellulinae, con-
tendo a especie nova Ædonis helena, da qual dous ma-
chos foram capturados em março de 1898 no Ypiranga,
pelo Snr. A. Hempel, então zelador deste Museu.
o
— 533 =a
Rehn, James A. G.; Notes on South-American
Grasshoppers of the subfam. Acridinae. Procced. of the
Am. Nat. Museum, Vol. XXX (Nº 145), p. 571-591.
Numerosas especies novas de gafanhotos, algumas
representando typos de novos generos, são descriptas
nesta publicação. A maior parte das especies brazileiras
provem de Chapada, Est. do Matto Grosso, tendo sido
colligidas por H. H. Smith
Rehn, James A. G.; Studies in South and Central
American Acridinae (Orthoptera). Proc. of the Acad.
of. Nat. Sc. Philadelphia, Vol. L VIII, 1906, p. 10-51.
O operoso auctor não se limita a descrever sómente
as especies novas, que encontrou nas collecções da Aca-
demia de Sciencias Naturaes de Philadelphia e na col-
lecção do Dr. Hebard, mas extende-se tambem em con-
siderações mais geraes, tratando assim da relação de
numerosos generos, de sua distribuição, etc. e tambem
a nomenclatura desse grupo elle sugeita a critica severa.
Varias das 63 especies são novas e muitas das brazi-
leiras são provenientes do Est. de S. Paulo, tendo sido
colligidas pelo Sr. Ad. Hempel, outr'ora funccionario do-
Museu Paulista.
Thiele, Joh.; Beitrage zur Morphologie der Argu-
liden. Mitteill. des Zool. Mus. Berlin 1904, TI, fase. 4, 51
pag. Est. 6-9.
Estudando o material dos dous generos Argulus e
Dolops, crustaceos ectoparasitas de peixes, do Museu de
Berlim, o auctor occupou-se especialmente da morpho-
logia de cada especie; tambem para o estudo systema-
tico deste interessante grupo dos Argulidas o trabalho
é de real utilidade. Ao todo conhecem-se 38 especies,
— 094 —
das quaes só 12 não occorrem na America. Dolops é
o genero mais primitivo, só da agua doce, ao passo que
Argulus conta numerosas especies marinas.
Dolops striata Bouv. é o nome definitivo, que deve
substituir o de D. koseritzi v. Ihering, por este não ter
sido estabelecido correctamente em 1882. A esta mesma
especie já nos referimos no Vol. IV desta Revista, p.
571, quanto nos referiamos 40 artigo do Prof. Bouvier
(1898).
Quanto á posição systematica dos Argulidas, o au-
ctor, depois de discutir a questão, julga não poder re-
unil-os nem com os Phyllopodas neta com os Copepo-
das e, por conseguinte, distingue-os, sob o nome de
Branchiura Thorell, como grupo especial, alliado áquelles.
Koenike, F; Zwei neue Wassermilben aus den Catt.
Megapus n. Diplodontus; Zoolog. Anzeig. Vol. XX VIII,
1905, p. 694-698.
Uma das especies dos Acarideos novos estudados
pelo auctor, Dipl. peregrinus, provem do Rio Grande
do Sul e foi-lhe enviado pelo Dr. H. von Ihering.
Ellingsen, Edv.; Pseudoscorprns from South Ame-
rica. Boll. dei Musei di Zool. ed. Anat, comp. della
Univ Torino; Voi. MA 1900, NS 900 pie
As varias especies de Pseudoscorpionideos do Bra-
zil, que o auctor descreve, foram enviadas ao Museu da
Universidade de Turim pelos Srs. Drs. Borelli do Matto
Grosso e Goeldi do Para.
O que dá subido valor à pequena publicação é ter
o auctor reunido, sob chave analytica, todas as especies
sulamericanas do genero Chelifer Geoff, do qual trata
em especial. Pertencem a este genero, por exemplo, va-
rias especies que frequentemente se encontram como
ectoparasitas do grande coleoptero cerambycida Acro-
cinus longimanus.
Wagner, A. J. Helicinenstudien, Monogr. der gen.
Palaeohelicina wu. Helicina; Denkschr. der k. Acad.
Wassensch. wien, mathem. natw. Kl. Vol. LXXVIII,
1906, p. 203-248, Est. X-XIIT.
Continuando seus excellentes estudos sobre os cara-
coes terrestres, o auctor vem agora a tratar monographi-
camente do genero Helicina, do qual ha numerosas
especies no Brazil; algumas das que descreve são novas.
Vaugan, T. Wayland; (A new species of Coe-
nocyatus from California and) the Brazilian Astrangid
Corals. Proc. Un. St. Nat. Mus., Vol. XXX, Nº 1477,
p. 8417-850, Est. 77-78.
Como additamento 4 lista dos Coraes brazileiros,
estudados por Verrill (Trans. Connect. Acad. Sei. XI,
1902—cf. Rev. Mus. Paul. Vol. VI, p. 656), o auctor
descreve e figura mais duas especies do genero Astran-
gra, provenientes de Periperi (Bahia) e do Paquetá (Rio
de Janeiro). |
Magalhães, P. S. de; De l’Elephantiasis et des
manifestations chirurgicales de la Filariose ; «Tribune
Médicale», Paris, 25 août 1906, p. 1-49.
O illustre scientista e lente da Faculdade de Me-
dicina do Rio de Janeiro publica a sua prelecção feita
em Paris a convite do Prof. Réclus, sobre a Elephan-
tiasis e suas relações com a Filariose.
Reconhece como causa da molestia, que vulgarmente
se denomina elephantiasis a extase prolongado da lym-
pha, devido a impedirem os vermes, a Filaria sangui-
— 536 —
.
nis nocturna, a livre circulação. Distingue-se já sete
especies de filarias do sangue e da lympha do homem.
À transmissão faz-se por meio de mosquitos das mais
variadas especies e mesmo de generos diversos, como
sejam: Culex, Anopheles, Stegomyia e Panoplites. O
embryão da Filaria, que permanece de 7 a 17 dias no
organismo do insecto, attinge 1,70 mm. de comprimento e
0,03 mm. de largura; os vermes adultos medem de 55-77
mm. a femea e 38,6 mm. o macho em comprimento e
0,18-0,28 mm, a femea e 0,12 mm. o macho em dia-
metro.
Congratulamo-nos com o illustre auctor e helmin-
tologo pelo successo que esta sua conferencia alcançou
na Europa e tanto mais por sabermos que foi quasi de
improviso que o Prof. P. S. Magalhães se dirigiu ao
preclaro auditorio. :
PONT Se
ENE EA
PERIÓDICOS RECEBIDOS EM PERMUTA
PARA A
BIBLIOTHECA DO MUSEU PAULISTA
America do Sul
Brazil
Revista «medicas, CE sms ea o Bahia
Revista trimensal do Instituto (Ceo-
graphico e Historico . . . >
Boletim da Secretaria da Agricultura,
Viação, Industria e Obras Publicas »
ABS COM Pura Me pio gis. Se YS Belén
O Archivo to. Poe Cuiabá
Boletim do Museu Paranaense ane ts Cera tybo
Revista da Academia Cearense. . . Fortaleza
Revista trimensal do Instituto do Ceará >
Boletim do Museu Rocha . . . »
Revista do Instituto Archeologico « e
Geographico Alagoano . . . . . Maceió
Revista Agricola. . . »
Revista do Instituto Etico; e Geo:
graphico do Rio Grande .do Norte Natal
Annaes da Escola de Minas: . . . Ouro-Preto
Revista e Archivo Publico Mineiro . Bello Horixonte
Annuario de Minas Geraes . . . > »
Boletim da Sociedade de Medicina e |
CENTER EME Juix de Fora
Boletim e Mon de: Museu pas
raense . . Pará
Boletim Official da Instrucção Publica >
SS
Revista do Instituto Geographico e
Ethnographico . . .
Revista Agricola do Rio Grande do Sul
Annaes da Bibliotheca Pelotense .
Revista do Centro Economico do Rio
Grande do Sul
Archivo do Amazonas
Revista da Academia Pla Meto
de Letras.
Revista Academica wa clas! ae
Direito .
A Lavoura
Annaes da Biblioteca Nacional
Archivos do Museu Nacional
Jornal dos Agricultores .
Annuario do Observatorio .
Brazilian Mining Review
Revista Trimensal do Instituto Histo.
rico Brazileiro .
Sociedade Nacional de Agricultura :
Revista da Sociedade de Geographia
Boletim do Instituto Agronomico -
Boletim da Commissio Geographica e
Geologica .
Revista Agricola site
Revista do Instituto IR en e Gea:
graphico
Revista Brazileira
Revista Medica PE
Boletim de Agricultura . :
Boletim da Faculdade de Dos À
Revista Pharmaceutica e Odontologica
Annuario da Escola Polytechnica .
Revista de Medicina Tropical
Sociedade Scientifica de S. Paulo.
O Fazendeiro
Revista do Centro de Sciencias, Bae
e Artes.
Uruguay
Anales del Museu de Montevideo.
Vida Moderna .
Pará
Pelotas
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Porto Alegre
Mandos
Recife
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Rio de Janeiro
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Campinas
Montevideo
aa BO, ak
Paraguay
Revista de Agronomia y de Ciencias
applicadas : :
Revue Mensuelle du Paraguay
El Agricultor
Anales Cientificos Paraguayos
Argentina
Anales del Museo Nacional
Comunicaciones del Museo Nacional
Anales del Ministerio de Agricultura
Bolletin del Instituto Geografico Ar-
HÉRTINO sy, 46222
«El Poblador » .
Tribuna farmaceutica . . .
Anales de la Sociedad Gennes we
gentia
Anales de la Universidad’. bas
Congresso Cientifico Latino Americano
Boletin de Agricultura y Ganaderia.
Boletin de la Academia Nacional de
Ciencias . .
Revista del: Museo de a Plata.
Anales del Museo de La Plata.
Revista de la Faculdad de Agronomia
y Veterinaria
Demografia
Revistas de La e heats See
Chile
Actes de la Société ave du
CRIME EL hae R
Anales de la Den 4
El Pensamiento Latino . . .
Revista Chilena de Historia Na
Boletin del Museo de Historia Natural
Perú
Anales de construciones civicas, minas
e industrias del Perú..
Boletin de la Sociedad de Ingenieros
Assumpção
Buenos- Aires
»
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Cordoba
La Plata
> >
> »
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Tucuman
Santiago
>
>
Valparaiso
»
Lima
>
— 540 —
«El Perú», Estudios Mineralogicos e
Geologicos de la Sociedad Geogra-
phica “de Limas e RENE
Boletin del Cuerpo de Ingenieros del
Perú (Ministerio de Fomento) . . >
Boletin del Ministerio de Fomento . >
Revista" Estonia sw eens a >
America Central e Meszico
Antilhas
Bulletin of the Botanical Department
of Jamaica . . . Kingston
Bulietin of the Department of Agri-
cultos AE >
Proceedings of the Victoria Institute Trinidad
Annual Report of the Victoria Institute » |
Memoria Annual del Instituto de 2.º
Enseñanza de la Habana. . . . . Cuba
Costa Rica |
:
Boletin del Instituto Fisico-Geographico ;
Nacional . . S. José +
Anales del Instituto Fisico- ( ieographico |
del Musec Nacional. . . D |
Paginas Ilustradas. Revista de Cien- |
clas; Aries y literature, #20 io» |
Anales del Museo Nacional . . . . S. Salvador
Mexico |
Boletin de la Sociedad Geologica Me-
RICANA Hse ieee e O net AC e CRETE 0 i |
Boletin del Instituto Geologico de ]
Mexico. #50 EE came > 1
Anales del Museo Nacional A > |
Memorias y Revistas de la Sociedad |
Cientifica «Antonio Alzate» . . . » l
La Naturaleza . , . . PER >
Boletin del Museo Nacional Pl daria >
Parergones del Instituto Geologico. . | >
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America do
Hatch Experiment Station, Massachu-
setts, Agricultural College .
Publications of the University of Ca-
lifornia . SOS ES seta
Indiana University .
Proceedings of the Boston Society of
Natural History .
The Journal of Experimental Zoolog ey
The University of Colorado Studies .
The Museum News. . .
Bulletin of the Museum of Compara-
tive Zoology at Harvard College .
Annual Report of the Curator of the
Museum of Comparative Zoology .
Memoirs of the Museum. of Compara-
tive Zoology. ..
The Auk, a Quarterly Journal of Or-
nithology .
Memoirs of the Peabody Museum of
American Archaeology and Ethno-
logy, Harvard University
Peabody Museum, Harvard University,
eo and Ethnological Pa-
pers. -.
Report of the Peabody Museum of
American Arch. and Ethnology.
Publications of the Field Columbian
Museum.
Bulletin of the Chicago “Academy ak
Science.
Journal of the Cincinnati Society of
Natural History . .
Bulletin of the Lloyd Library of Be
Lamy à.
Proceedings ‘of the Davenport Aca-
demy of Science .
Iowa Academy of Science .
Proceedings of the Indiana Academy
‘of Science.
Bulletin of the Experiment Station of
Florida . .
ITorte
Amherst, Mass.
Berkley, Cal.
Bloomington
Boston, Mass.
Baltimore
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Cambridge, Mass.
> »
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Chicago JL.
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Cincinnati, Ohio
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Davenport, Iowa
Desmoines, Iowa
Indianopolis, Ind.
Lake City, F1.
RR do
The Kansas University Quarterly .
Memoirs of the American Anthropo-
logical and Ethnological Societies .
Annual Report of the Public Museum
Bulletin of the Wisconsin Natural
History Society :
Transactions of the Connecticut Aca-
demy of Science.
Memoirs of the New York Academy
of Science. :
Gleanings in Bee Culture :
American Geographical Society . :
Annual Report of the Michigan Aca-
demy of Sciences
Transactions of the New-York Aca-
demy of Science .
Annals of the New-York Academy of
Science.
Memoirs of the American Museum of
Natural History
Bulletin cf the American Museum of
Natural History
Annual Report of the American Mu-
seum of Natural History
Journal of the New-York Entomological
Society .
The Museum of the Brooklyn Intitute
of Arts and Sciences .
Annual Report of the New-York foo-
logical Society. ; E
Zoological Society Bulletin
Transactions of the Wagner Free Ins-
titute of Sciences
Proceedings of the Academy of Na-
tural Sciences . 4
Proceedings of the Dane Phila:
sophical Society .
Bulletin of the Geographical Society
of Philadelphia
Transactions of the Department of Ar-
chaeology. Free Museum of Science
and Art. University of Pensylvania
Publications of Carnegie Museum.
Lawrence,
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New-York, N. Y
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Philadelphia,
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Pittsburgh,
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Memoirs of the Carnegie Museum. . Pittsburgh, Pa.
Annals of the Carnegie Museum . . > >
Proceedings ofthe Rochester Academy
of Science . . . Rochester, N. I.
Proceedings of the Californian. Aca-
demy of SCIENCES egies S. Francisco, Calif.
Memoirs of the California Academy
of Sciences . . > »
Annual Report of the Missoury Bo-
tanical Garden. . . . St. Louis, Mo.
Transactions of the Kansas Academy
of Sciences. : . Topeka, Kansas
Bulletin of the Illinois State Tabora-
tory of Natural History . . . Urbana Ill.
Biennal Report of the Biological Ex-
periment Stations . . TIC
Smithonian Report, U. S. National
Museum . . Washington, .D. C.
Proceedings of the Biological Society > >
Bulletin of International Bureau of
the American Republics. . . > >
Annual Report of the Bureau of Ethno-
fog by Le We Powel’. 7, > >
Annual Report of the Geological Sur-
vey by I. W. Powell. . . > >
Report of the U. S. Commissionar of
Fish and Fishery. . . > >
Bulletin of the U. S. Department of
Agriculture . . . > >
Yearbook of the U. s. Department of
Aericultare 262%" > >
Bulletin of the U. 8. National Museum > >
Bulletin of the Philosophical Society > >
Bulletin U.S. Geol. Survey Department
of the Interior... > >
Profissional Paper U.S. Geol Survey |
Depart. of the Interior . . . > »
Water-Supply Paper. U. S. Geol. a
vey Depart. of the Interior . . . > >
Monographs of the U. S. Geol. Survey.
Depart. of the Inferior -... 0... > >
Annual Report, U. S. Geol. Survey.
Charles). Waltotitis: wi. ob sot. > >
— 544 —
Annual Report of the U. S. Nacional
Museum ST DT MERE
Proceedings of the American As-
sotiation for the Advancement of
Science.
American Anthropologist, organ of the
Anthropological and Ethnological
Societies of America . .
Annual Report of the Board of Re-
gents Smith. Inst. Pça e
Canadá
Publications of the Geological and
Natural History Survey of Canadá
Raport Annuel de la Commission
Géologique de Canadá
Transactions of the Canadian Institute
Proceedings of the Canadian Institute
Report of the Entomological Society
of Ontario cree
Bulletin of the Ohio Agricultural Ex-
periment Station .
Hat pls lage ==),
Allemanha
Sitzungsberichte der Gesellschaft na-
Ed E Freunde .
Mitteilungen aus der Zoologischen
Sammlung des Museums ee Na-
turkunde .
Zeitschrift fuer Ethnologie. :
Sitzungsberichte der K. Akademie. abe
ARE de es ee
Berliner Entomologische Zeitschrift .
Zeitschrift für Zoologie .
Deutsche Suedpolarexpedition
Deutsche entomologische Zeitschrift .
Museumskunde
Naturwissenschaftliche Wochenschr ift
Washington, D. C.
Montreal
Ottava
Toronto
> -
>
Wooster, Ohio
Berlim
Verhandlungen des Naturhistorischen
Vereines .
Sitzungsborichte des Naturhistorischen
Vereines .
Niederrheinische Gesellschaft fuer Na-
tur-und Heilkund -
Abhandlungen des Naturw issenschatt-
lichen Vereines à
Deutsche Geographische Blaetter
Naturforschende Gesellschaft .
Mitteilungen aus den Kel. Zool. Mu-
seum
Publicationen des Kel. Ethnologischen
Museums .
Abhandlungen und Bericht des Kel.
Zool. Anthropologischen Museums.
Der Zoologische Garten .
Bericht ueber die Senckenbergische
Naturforschende Gesellschaft .
Abhandlugen der Senckenbergischen
Naturforschenden Gesellschaft .
Bericht der Naturforschenden Gesell-
schatt
Petermans te Mitteilungen
Berichte der Oberhessischen Gesell-
schaft fuer Natur-und Heilkunde .
Mitteilungen des Naturwissenschaftli-
chen Vereines fiir N ERR
und Ruegen. : e
Nova Acta Academiae “Cues. Leop.
Carol.
Leopoldina, amtliches Organ der Kai-
serl. Leop. Carol. Akademie .
Zeitschrift fuer Naturwissenschaften .
Mitteilungen aus dem Naturhistori-
schen Museum.
Jahrbuch der Hamburgischen NWis-
senschaftlichen Anstalten . i
Verhandlungen des Vereins fuer Natur-
wissenschaftliche Unterhaltung .
Mitteilungen aus dem Rümer-Museum
Jenaische Zeitschrift fuer Naturwis-
senschaften .
Bonn
»
Bremem
»
Danzig
Dresden
»
Frankfurt a.
>
»
Freiburg 1.
Gotha
Giessen
Greifsiwald
Halle a. 8.
3
»
Hamburg
»
Hildesheim
Jena
M.
Br.
— 546 —
Abhandlungen uad Bericht des Ver-
eines fuer Naturkunde
Sitzungsberichte der Naturforschenden
Gesellschaft . :
Jahrbuch des Staedtischen Museums
fuer Voelkerkunde .
Botanische Jahrbuercher fuer Syste-
matik und Pflanzengeschichte
Verhandlungen der Deustschen Zoolo-
gischen Gesellschatt.
Sitzungsberichte der Gesellschaft : zur
Befórderung der gesammten Natur-
Ww issenschaften . :
Denkschriften der K. Akademie der
Wissenschaften (math. phys. Klasse)
Verhandlungen der Ornithologischen
Gesellschaft in Bayern à
Sitzungsberichte der mathematisch- phy-
sikalischen Classe der k. b. Acade-
mie der Wissenschaften zu München
Abhandlungen und Berichte des Mu-
seums fuer Natur-und Heimatkunde
Berichte des Naturwissenschaftlichen
Vereines . :
Stettiner Entomologische Zeiturg a
Mitteilungen aus dem Kgl. Naturali-
enkabinett. . a
Kassel
Leipzig
»
Marburg
Miinchen
»
Magdeburg
Regensburg
Stettin
Stuttgart
Gran-Bretanha
The Scientific Transactions of the Ro-
yal Dublin Society .
The Scientific Proceedings ‘of the Ro-
yal Dublin Society .
Economie Proceedings of the Royal
Dublin Society.
Canadian Entomologist. . seit
Journal of the Linnean Society. .
Proceedings of the Linnean Society.
The Entomologist and Illustrat Journal
of General Entomology .
Proceedings of the General Meeting
for Scientific Business of the Zool.
Society .
Dublin,
»
»
London *
547 —
Transactions of the Zoological Society
Report of the Manchester Museum,
Owens College. . .
Novitates Zoologicae
Franca
Bulletin de la Societé d’Histoire Na-
turelle
Memoires de i Sovicté eee de
Normandie
Bulletin de la Société bibi. de
Normandie
Mémoires de PAcademie ES Sciences
Mémoires de la Commission de anti-
quités du Departement de la Cote
D'Or. :
Ananles de Ne o :
Annales du Musée d'Histoire NE
Annales de la Faculté des Sciences.
Bulletin du Musée d'Histoire Naturelle
Comptes Rendues de lAcadémie des
Siences .
Revue des Travaux Scientifiques
Bulletin Scientifique de la France e
de la Belgique. :
Revue des Cultures Colonics
Journal de la Société des América-
nistes de Paris. DRE Le pare
Bulletin de la Societé Entomologique
de France
Annales de la Societé Entomologique
de France. É
Archives de Medicine Navalé
Archives de Parasitologie; Raphael
Blanchard.
Journal d'Agriculture Tropicale.
Bulletin du Jardin Colonial et Jardin
d’essai des Colonies Françaises.
Comptes Rendues du Congrés des So-
ciétés Savantes de Paris et des De-
partmentes.
Mémoires de là Société zoologique
London
Manchester
Tring
Autun
Caen
>
Dijon
>
Grenoble
Marseille
>
Paris
>
»
?
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Bulletin Scientifique de la France et
de la-Belgique. . .
Annales de l’Institut Nacional Agro
nomique . .
Annales de Paléontologie
Revue Agricole
Monaco
Resultats des Campagnes Scientifiques
du Prince de Monaco... : :
Bulletin da Musée Oecanographique
de Monaco .
ol
Extrait des Momoirs du Musée Royale
d'Histoire Naturelle.
Bulletin du Musée Royale d'Histoire
Naturelle . . .
Bulletin de le Societé Royale Linné-
enne .
Procés- verbaux de la Société Belge
de géologie de agen ads et
Whydrologie . :
Bulletin de la Societé d'Etudes “Colo-
niales; =.
Annales de la Société Entomologique
de Belgique . :
Annales de la Société Belge de Mi-
eroscopie ©.
Bulletin de la Société Belge ‘de Mi
croscopie . .
Bulletin de la classe de Sciences de
la Academie Royale de Belgique .
Bulletin de la Royal Academie des
Sciences, de Lettres et des Beaux-
Arts de "Belgique. :
Annuaire de l’Académie Royale “de
Sciences et Lettres et Beaux-Artes
de Belgique. . .
Bulletin de la Société d’ Anthropologie
Annales de la Société Royale Mala-
cologique de Belgique. . Ne
Paris
Saint-Denis
Monaco
»
Bruxelles
>
>
— 549
Austria-Hungria
Mitteilungen der Kgl. Ungarischen Geo-
logischen Anstalt. :
Jahresbericht der Kel. Ungarischen
Geologichen Anstalt.
_Aquilla.
Annales Historico-Natureles Musei Na-
cionalis Hungarici . .
A Magyarorszagi Kagylósr akok Magan-
rajz
Mathematische und Naturwissenschaft-
liche Berichte aus Uugarn.
Ethnographische Sammlungen des Ung.
Nationalmuseums.
Bulletin International de | fan
des Sciences de Cracovie
Arbeiten aus dem Zoologischen Institut
Mitteilungen des Naturwissenschaftli-
chen Vereins für Sterermark.
Berichte des Naturwissenschaftlich
medicinischen Vereines . .
Die Chronik d. Sevcenko Gesellechatt
Sammelschrift der Mathematisch-Na-
turwissenschaftlich - Aeztlichen Sec-
tion der Sevcenko Gesellschaft .
«Lotos», Abhandlungen des Deutschen
Naturwissenschaftlich-Medicinischen
Vereines für Bohmen .
«Lotos», Sitzungsberichte des Deve
schen Naturwissenschafttlich-medi-
cinischen Vereimes für Bôhmen
Jahresbericht der Kgl. Béhmischen
Gesellschaft der Wissenschaften
Sitzungsbericht der Kgl. Bühmischen
Gesellschaft der Wisenschaften .
Archiv der naturw. Landesdurchfor-
schung von Bühmen .
He Jahresheft des Ne
senchaftlichen Vereines . k
Verhandlungen der K. K. Zool. Bata
nischen Gesellschaft.
Budapest
Cracovie
Gra:
TInnsbrul:
Lemberg
Prag
Trensesin
Wien
Jahresbericht des Wiener Entomolo-
gischenANoreines.. J. gs ven tO
Jahrbuch der K. K. Geologischen
Reichsanstalt. . . RAM Asa >
Verhandlungen der Kok Geologi-
schen Reichsanstalt: = see >
Sitzungsbericht der K. K. Akademie
der Re pistes e.
Mittheilungen der Erdbeben-Commis-
sion der Kais. Academie der Wis-
senschaften . . >
Denkschriften der Richet Ane
mie der Wissenschaften, Math. Na-
turw. Klasse. . . >»
Mitteilungen der K. K. landw. bakteriol. É
und Pflanzenstation . . >
Zeitschrift tuer das land wirtcchaftliche
Versuchswesen in Oesterreich . . >
Annalen des K. K. Naturhistorischen
Hofmuseum : |. =. >
Abhandlungen der ok Geographi-
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Mitteilungen der K. K. Geographis-
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Verhandlungen der Naturforschenden
GesellSehaft:. =. s. Basel
Memoires de la Société de Physique
et d’Histoire Naturelle. . . . Genève
Mitteilungen aus der Schweizer En-
tomologischen Gesellschaft. . . . Schaffhausen
Vierteljahrsschrift der Naturforschen-
den Gesellschaft." : © > Zürich
Russia
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Hollanda
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Entomologische Berichten . . . . . S. Gravenhage
Tijdschrift voor Entomologie (Neder-
landsen, Entomol. Vereenigung).
Dinamarca
Giteborg Küngl. Vetenskaps och Vit-
terhets-Sanhalles Handlinger . . . Góteborg
Entomologiske Meddedelser. . . . . Ajobenharn
Meddedelser on Gronland udgionof
Commissionen for Ledelsen of Geo-
logiske og Geographiske. . . . . >
Suecia
Archiv for Mathematik of Naturvi-
denskab... .-. ; iat: Christiania
Sveriges Geologiska Tale ning. . Stockholm
Entomologisk Tidschrift . Lee JON MES >
Arkiv for Zoologi
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Arkiv for Kemi, ae och Geo-
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Entomologisk USER NS Uppsala
Bulletin of the Geological Institution
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Noruega
Bergens Museums Aarbog . . . Bergen
Det. Kongelige Norks Videnskabers
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Tromsüs Museums Aarshefter . . . Tromsô
Italia
«Redia» Giornale di Entomologia .
Annali del Museo Civico di Storia
Naturale
Atti della Societá Taio A Scienze
Naturali del Museo Civico .
Mitteilungen aus de Zoologischen Sta-
tion zu Neapel
Annuario del Museo Zoologico. dealin
R. Universita
Bolletino del Laboratorio di Zoologia
Generale © Agraria della R. Seuola
Superiore d Agricultura : :
Bolletino della Real Scuola Superiere
d Agricultura
Annali della Real Seuola Superiore
d Agricultura
Atti della Reale den dei aes
Rendicont della Reale Accademia dei
Lincei dd fee SO pan RE E
Memorie della Pontificia Accademia
Romana Dei Nuovi Lincei.
Bolletino dei Musei di Zoologia ed
Anatomia Comparativa.
Hiespanha
Boletin y Memorias de la Real Aca-
demia de Ciencias y Artes. .
Boletin de Ja Institución Catalana
d Historia Natural de tse
Annales, Boletin y Memorias de la
Sociedad Española de Historia Na-
tural . MORE Qi Mere
Memorias de la Real Academia de
Ciencias exactas, fisicas y naturales
Revista de la Real Academia de Cien-
cias exactas, fisicas y naturales.
Boletin de la Bibliotheca, Museu Ba-
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Genova
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Roma
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Portugal
Communicações da Direcção dos Tra-
balhos Geologicos de Portugal . . Lisboa
Jornal de Sciencias Mathematicas, Phy-
sicas e Naturaes da Academia Real
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Boletim da Real Associação Central
da Agricultura Portugueza .
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Sciences Naturelles . :
Revista Official da Missão Aeronoinics
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Annaes Scientificos da Academia Po-
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Annaes de Sciencias Naturaes >
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«Slands Plantentuin» Bulletin de: |’ ieee
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Manaar . - : Madras
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Annals of the South African Museum Cape Town
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Report of the Government Biologist.
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Marine Investigations in South Africa Cape Town
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Acclimatisation Society of Victoria Melbourne
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Zoological and Acclimatisation Sanne Victoria
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Occasional Papers of the Bernice Pau
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Museum of Polynesian Ethnology
and Natural -Hustontys:. “les, >
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Distribuiçao de Terra e Mar na Formaçao Eocena
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