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MUSEU PAULISTA +.
PUBLICADA a E
POR 4
H. von IHERING, Dr. med. et phil.
DIRECTOR DO MUSEU
VOLUME VIII o
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SÃO PAULO
TYPOGRAPHIA DO DIARIO OFF.GIAL
1911
\ A CE Pet)
INDICE
PAGS.
O Museu Paulista nos annos de 1906 a 1909
por Hermann e Rodolpho von lhering. 1-22
João Barbosa Rodrigues por Hermann von
Jhering (com estampa I). 23-37
Os Botucudos do Rio Doce por Hermann von
Ihering (com estampas II-VI) 38-01
Descripção de um novo genero e de uma nova
especie de Coccidas por Adolpho Hempel 52-53
Aufzihlung von Goccinellen aus dem Museu
Paulista von J. Weise. 04-63
Quelques nouveaux Ceropalides du Musée de
S. Paulo par Jean Brethes . 64-70
Descripção de abelhas novas do Brazil e “de
regiões visinhas por C. Schrotthy . 71-88
Os Amphibios do Brazil. 1 Ordem: Gymno-
phiona por Rodolpho von Ihering (com
SO RS NS past Men UE nt En) Po o ci a
A questão dos indios do Brazil por Hermann
von Lhering (com estampa VII). . 112-140
Fosseis de S. José do Rio Preto por Rodol-
pho von Ihering (com fig. 1-2). . 141-146
Os mammiferos do Brazil meridional; Carnivora
por H. von Ihering (com fig. Lea LAG 22
As Cobras do Brazil por oa von Lhe-
ming (fis, 1-29 4/4. 273-379
Algumas especies novas de peixes d’agua doce
por Rodolpho von Ihering 380-404
Quatro Lamellicorneos Apps por fe
Lüderwaldt : 405-413
Os insectos necrophagos paulistas por Ger-
mano Liiderwaldt . ‘ . 414-433
Origem da fauna neotropica por Hermann
von lJhering PMES PAS . 434-453
TL
Cobras e Amphibios das ilhotas de «Aguapé»
por Rodolpho von Ihering (fig. 1-2) .
Algumas especies novas de Vespas solitarias
por Rodolpho von lhering SNA
Neuropteros del Brazil por el Rev. Padre
Longinos Navas 8. J. (fig. 1-3) . .
As viagens de William John Burchell por
Hermann von Ihering.
A devastação e conservação das mattas por
Hermann von lhering. .
Bibliographia 1908-1910, Anthropologia e Zoo-
logia do Brazil, por PA von lhe-
ring .
Relaçäo dos Periodicos recebidos em | permuta
para a Bibliotheca do Museu. :
Publicado em 10 de Maio de 1911.
. 434-461
. 462-475
. 476-481
. 482-484
- 485-500
. 001-560
. 961-581
O MUSEU PAULISTA
NOS ANNOS DE
1906 a 1909
POR
DR, HERMANN E RODOLPHO VON INERING
Muito a contragosto nosso, temos de dar, como
relatorio que prefacia cada volume desta Revista, O
resumo dos facios occorridos e dos trabalhos realiza-
dos em quatro annos, de 1906 a 1909. Por varios
motivos a publicação do presente volume foi sempre
de novo retardada, o que é tanto mais lastimavel por-
quanto desta forma o Museu Pautista não pôde dar
noticia da vida deste estabelecimento scientifico aos cir-
culos intellectuaes com que está relacionado.
fintretanto os annos, que aqui passaremos rapida-
mente em revista, foram de grande progresso para 0
Museu Paulista, tanto com relação ao desenvolvimento
das collecções e dos serviços já existentes, como pela
organização de secções e dependencias novas.
Como já foi relatado no volume anterior, o dr.
Hermann von Ihering realizou, em 1907, uma viagem
de estudos à Europa, visitando os principaes museus
congeneres. As impressões e os resultados dessa via-
on ALL
gem já vêm relatados no Vol. VII, pag. 431 desta
revista. Muitos foram os melhoramentos impostos ás
collecções do nosso museu em virtude das observações
feitas e sobretudo advieram ao Museu Paulista gran-
des proveitos das novas relações que o dr. H. von
Ihering estabeleceu durante a viagem com institutos
de varios paizes e com collegas especialistas. Durante
esta ausencia do director, nos mezes de Abril a No-
vembro de 1907, foi o mesmo substituido pelo seu as-
sistente, custos sr. Rodolpho von Ihering. A unica mo-
dificação que houve no quadro do pessoal do Museu
foi a substituição do secretario auxiliar, sr. Carlos Ham-
dorff, pelo sr. Walter Fischer.
A média da frequencia do Museu Paulista por
parte do publico nos annos de 1906, 1907 e 1908 foi
só um pouco mais alta que nos annos anteriores. No
anno de 1909, porém, o numero de visitantes foi mui-
to superior, devido principalmente 4 reducçäo de
90 °/, no preço da passagem de bond da cidade ao
Ypiranga, que até meiados de 1904 era de 800 réis
ida e volta, ao passo que hoje custa apenas 400 rêis.
Além disto contribuiram ainda para este augmento
do numero de visitantes o ajardinamento da praça do
Monumento do Ypiranga e a inauguração do Parque
Antarctica em terrenos contiguos aos do Museu.
Em MODEMS RR ECS 44.619 visitantes
> LT OO TRI AR 40.680 »
> TOUS IN PRES Are 40.374 »
544009. pa ae ee Be 63.441 »
O «Guia pelas collecções do Museu Paulista» (preço
400 réis) com um resumo de zoologia, elaborado pelo
sr. R. von Jhering, tem tido bom acolhimento por parte
do publico e no correr do proximo anno provavelmente
será preciso reedital-o.
Seja-nos permittido salientar aqui em especial as
honrosas visitas de alguns collegas illustres.
Em 1907 estiveram no Brazil, em missão de seus
museus, os srs. Cons.º Franz Heger, chefe da secção
ethnographica do imperial museu de Vienna e o dr.
Arthur Smith Woodward, chefe da secção paleontolo-
gle ara
gica do British Museum of Natural History. de Londres.
Ambos estudaram detidamente as nossas collecções e
especialmente ao Cons.° Heger devemos uma bella se-
rie de peças ethnographicas do norte do Brazil, em
permuta com as que daqui levou. Tambem o dr. Fr.
Krause, ethnographo de Leipzig, nos visitou antes de
seguir viagem ao Xingu, onde foi elucidar algumas
duvidas sobre varias tribus de indios. Visitaram-nos
ainda o geologo dr. John G. Branner, da Universidade
Leland Stanford Junior em California, juntamente com
Derby, Hussak e Arrojado Lisboa, isto é, as summida-
des do conhecimento da geologia brazileira ; Prof. En-
rico Ferri, o insigne criminalista italiano; os mem-
bros do (Congresso Medico e alguns congressistas do
Pan-Americano do Rio de Janeiro. Durante a sua
estadia em S. Paulo esteve comnosco o sr.’ John Hase-
mann, enviado especial do Carnegie Museum, para o
gual reune uma colossal collecçäo de peixes da agua
doce do Brazil, material este que será estudado pelo
Prof. CG. H. Higenmann. Desejando este senhor per-
manecer algum tempo na Raiz da Serra, o sr. Rodol-
pho von Ihering acompanhou-o até lá, pondo-lhe 4
disposição a «Villa Darwin», que então servia de Es-
“tação Biologica ao Museu Paulista.
Temos a mencionar, finalmente, a visita dos srs. drs.
A. F. de Paula Sousa, director e Carlos N. Rabelo e
José Brant de Carvalho, lentes da Escola Polytechnica,
incumbidos, em commissão da Secretaria do Interior,
de verificar o estado actual e a marcha admnistrativa
do Museu Paulista e os melhoramentos necessariosao seu
desenvolvimento. No relatorio apresentado pelos mesmos
senhores, alias muito lisongeiro para esta repartição, foram
reclamados muitos melhoramentos, cuja execução seria
assaz conveniente. Assim foram apontadas: a con-
strucção de um edificio proprio para os laboratorios, of-
ficinas e colleeções de estudo, unico modo de se poder
augmentar o numero de salas com collecções expostas
ao publico; a acquisição de cerca de 115.000 metros
quadrados de terreno em torno do Monumento, area
aproveitavel em futuro para ajardinamento, e ampliação
do Parque botanico e para as edificações que se torna-
rem precisas.
2 NUE
Nos annos de 1906 a 1909 foram terminados
muitos serviços da maior utilidade para o estabeleci-
mento e varios de entre elles o director do Museu
vinha reclamando desde a installação do instituto no
Monumento do Ypiranga. Referimo-nos ao ajardina-
mento da praça e à criação de uma Estação Biologica.
A primeira destas obras já fci mencionada no relatorio
anterior; em Setembro de 1907 a Secretaria da Agri-
cultura encarregou o Sr. A. Puttemanns deste serviço,
que em Janeiro de 1909 foi entregue à administração
do director do Museu. Este jardim contribuiu muitis-
simo para o embellezamento do soberbo monumento ; o
visitante, deixando o bond no portão da frente, atravessa
o jardim em toda a sua extenção e de lado a lado do
edificio a vegetação de arvores e arbustos como que
forma a moldura do bello quadro. Infelizmente, porém,
a parte technica do ajardinamento e o seu acabamento
deixam muito a desejar; sé aos poucos, com o reduzido
pessoal de 3 jardineiros e 2 ajudantes, se conseguirá no
correr destes annos, melhorar estes defeitos, transfor-
mando grande parte dos canteiros e cuidando dos
caminhos. O orçamento da reforma das sargetas e da
canalização foi calculado pelo engenheiro das Obras Pu-
blicas em 8 contos de réis.
Em boa hora a Companhia Antarctica resolveu
installar o seu Parque Ypiranga em terreno contiguo
ao do jardim e desta forma, alem de contribuir por
seu lado para o embellezamento do arrabalde, cuida
tambem das commodidades dos visitantes.
O outro melhoramento de que foi dotado o Museu
e ao qual alludimos, foi a installação da «Estação Bio-
logica do Cajurú», como dependencia do Museu, no
Alto da Serra. Este estupendo laboratorio em plena
matta tropical, o primeiro no seu genero que se fundou
na America do Sul, o instituto o déve aos esforços
particulares do dr. Hermann von Jhering e à generosi-
dade de alguns capitalistas que, com suas contribuições
pecuniarias facultaram a execução do plano—velha as-
piração do director. Hoje a casa com todas as suas.
dependencias e commodidades e os hortos de experiencia
de sylvicultura estão promptos, funccionando como an-
TR de
nexo ao Museu; chamamos a attenção do leitor para o
artigo que sobre este assumpto o dr. H. von Ihering
publica mais adiante neste mesmo volume da Revista.
Já no relatorio anterior nos referimos aos traba-
lhos que estavam sendo feitos nos terrenos ao sul do
Monumento, para a criação do Parque Botanico. O fim
deste parque será constituir um horto botanico, onde
procuraremos reunir todos os representantes da flora
do Estado de S. Paulo, admittindo ainda, em alguns
casos, vegetaes de outros Estados do Brazil, quando a
sua cultura for de especial interesse biologico ou eco-
nomico. Com os poucos recursos da verba do Museu
que se pôde destinar a este trabalho, foram, entre-
tanto, realizados muitos serviços de plantação, abertura
de caminhos e amanho do terreno. Já agora os grupos
de Bromeliaceas, Filices e Cactaceas são bem ricos
e vistosos, bem como alguns grupos de Grammineas.
Em meio da capoeira já existente, foram plantadas
muitas mudas de arvores, madeiras de lei, palmeiras,
etc., mas estas plantas, de crescimento mais lento, só
em alguns annos se apresentarão com bello aspecto.
Muito trabalho demandou a preparação dos grupos
ethnographicos com que o Museu Paulista concorreu
à Exposição Nacional do Rio de Janeiro, em 1908, a
pedido da Secretaria do Interior.
Em um pavilhão especial, junto ao Morro da Urca,
o dr. Hermann von Ihering expoz grupos de diversas
tribus de indios deste Estado, como Cayuäs, Gorôados ou
Caingangs e Chavantes. Estas tribus de indigenas esta-
vam representadas cada uma por duas ou tres figuras de
indios, em tamanho natural, muito bem modeiadas pelo
habil artista sr. Bruno Zwarg, professor da Escola
Normal desta Capital. Cada um destes tres grupos,
como o mostram nossas ilustrações, estava disposto de
tal forma que mostrava os respectivos indios em suas
habitações, caracteristicas para a tribu que representa-
vam, e rodeavam-nos os seus utensilios e suas armas
egualmente caracteristicas. Tudo estava disposto de tal
fórma, em meio de rica ornamentação de folhagem e
vegetação, que dava uma impressão perfeitamente na-
tural e completava assim os fins instructivos que esta
exhibição tinha em vista, isto é, de apresentar aos vi-
rer
sitantes da Exposição Nacional quadros como que co-
piados do natural, atravez dos dados historicos e da
ethnographia, para mostrar a vida simples dos nossos
aborigenes, destacando ao mesmo tempo a diversidade
dos seus usos e costumes.
Apreciando quer os fins que esta exposição tinha
em vista, quer a sua consecução pelos meios empre-
gados, approuve à Commissäo Superior do Jury da
Exposição Nacional de 1908, no Rio de Janeiro, con-
ferir ao Museu Paulista a mais alta distincção por meio
de seu Grande Premio.
Tencionando cumprir com o que estatue o regu-
lamento deste museu, com relação às conferencias pu-
blicas neste estabelecimento, annunciou o Dr. H. v.
Ihering em Outubro da anno passado, quatro confe-
rencias, cujo assumpto deveria versar sobre a especie
humana, desde a sua origem e seu desenvolvimento,
atê seu apparecimento na America, especialmente na
America do Sul, e finalmente, sob ponto de vista ethno-
graphico e archeologico, o estudo dos nossos indios.
Infelizmente não se encontrou da parte do publico o
desejavel interesse e apoio e por isto não foi tentada
a realização dessas conferencias.
As colleeções
Nas salas de collecções expostas ao publico não
foram feitos augmentos ou modificações maiores, devido
em grande parte à falta de espaço. Foi montado apenas
um armario novo, com peças ethnographicas dos indios
Corôados ou Caingangs, do Oeste do Estado de S. Paulo,
material raro que o museu déve à Commissäo Geogra-
phica e Geologica do Estado, que o colligiu em suas
explorações do sertão desconhecido, no Oeste do Estado
de S. Paulo.
A collecçäo exposta dos Coraes foi consideravel-
mente augmentada pela compra de uma série de bellis-
simas peças da casa Ward.
Foram substituidos muitos preparados velhos e ac-
crescentados outros, novos, principalmente nas secções
SE 4; RER
de peixes, aves e mammiferos, trabalhos do Sr. João
L. Lima.
O mesmo preparador occupou-se ainda longo tempo
com a preparação e montagem de esqueletos, tanto de
mammiferos como de aves e reptis. Esta secção de es-
queletos successivamente tambem será grandemente am-
pliada, em vista da sua utilidade, em casos de consultas,
quer de caracter pratico, quer para o estudo de verte-
brados fosseis de épocas recentes. À proposito podemos
salientar o facto que se deu com relação ao estudo do
esqueleto fossil do nosso «lobo» ou guara. Consultados
por outro museu sul-americano, tambem nós não tinha-
mos o material de comparação suficiente, emquanto que
no Museu Lund de Copenhagen o Prof. H. Winge
pôde decidir a questão, pois que dispunha de sete es-
queletos completos da especie:
Muito trabalho demandou o preparo do esqueleto
completo da baleia Balcenoptera musculus, cujo com-
primento total era de 18 metros. Não podemos deixar
de agradecer aqui ao sr. C.el Ximenes Villeroy, chefe
das obras de defesa do porto de Santos, o grande e
valioso auxilio que nos prestou por esta occasião, tanto
para a preparação das peças, junto ao forte de Itaipus,
como para o transporte atè a estrada de ferro.
& +
O augmento das colleções de estudo durante estes
annos foi consideravel, tornando necessario estendel-as
em varias salas, onde foram collocados novos armarios.
Assim os couros de mammiferos occupam agora 14
caixas grandes (e ainda 2 com duplicatas) e mais 3 arma-
rios do typo Ihle, eguaes aos das aves, para os pequenos
roedores, morcegos, e marsupiaes; o catalogo de regis-
tro da secção attingiu on. 7913. Para a collecção orni-
thologica foram adquiridos novos armarios do modelo
Ible, de modo que os couros de aves occupam agora
12 armarios e mais 22 caixas grandes para as aves
grandes (além de 1 armario e 2 caixas para duplicatas)
e ainda 2 armarios typo Ihle para a collecçäo de ovos.
O catalogo de registro attingiu o n. 2814. Na secção en-
tomologica: foram collocados mais 2 armarios typo
Ihle, de modo que se pôde collocar os Neuropteros em
PU a
armario especial e dar começo à collecção de peças de-
licadas de biologia, conjunctamente com os respectivos
insectos. No mesmo armario está tambem a collecção
dos insectos que são de interesse para o estudo da en-
tomologia economica, figurando ahi tanto os insectos
prejudiciaes a qualquer cultura como os que, directa ou
indirectamente, se tornam uteis 4 agricultura. Estas sec-
ções se desenvolvem rapidamente e é claro que estão
destinadas a prestar relevantes serviços quando é mister
attender promptamente às consultas que continuamente
são feitas ao Museu.
Osr. H. Luederwald, preparador da secção ento-
mologica, tem trabalhado constantemente na preparação
das collecções, apromptando au mesmo tempo as remessas
de permuta e de pedido de classificação aos especialistas,
de modo que se tornam cada vez mais valiosas as nossas
collecçües. Damos abaixo a lista dos principaes especia-
listas que nos tem fornecido determinações de insectos,
e a todos elles endereçamos os nossos agradecimentos
pelos relevantes serviços que nos prestaram. Alguns
destes senhores publicam neste volume listas de nosso
material e descripções de especies novas, cujos typos se
acham no Museu.
Infelizmente não nos foi possivel assegurar prompta
publicidade ao manuscripto que nos enviou o sr. Max
Bernhauer (Gruenberg-Austria) em que vinham descriptas
dezenas de especies novas de coleopteros Staphylinidas
do Brazil, pelo que lhe restituimos o original, para ser
Impresso em outra revista.
Os seguintes senhores especialistas determinaram-nos:
Coleopteros :
Herb. S. Barber (U. S. Nat. Mus. Washington) —
Phengodina ;
Max Bernhauer (Grünberg-Austria) — Staphyla-
nde ;
Carlos Bruch (Museu de La Plata) —Phzlochlenza ;
Carl Felsche (Leipzig) — Lamellicornia ;
-Dr. E. Gounelle (Paris) — Cerambycide ;
Dr. A. Grouvelle (Paris) — Parnidee ;
Dr. W. Horn (Berlim) — Cicindelidee ;
Cap. Ch. Kerrmans (Bruxellas) Buprestide ;
UV ES DR
Dr. F. Ohaus (Hamburgo)— Ruteline Melolontine ;
+ Dr. Regimbart (Evreux-França) — Hydrophali-
de, Dytiscide ;
Von Rothkirsch (Lübben-Allemanha)— Buprestidee ;
Dr. F. Spaeth (Vienna) — Cassede ;
Custos 8. Schenkling (D. Ent. Nat. Mus. Berlim) —
Erotylidæ, Cleridæ, Endomychide ;
J. Weise (Berlim) — Coccineilide ;
Lepidopteros :
Sir G. F. Hampson (Brit. Mus. N. H.) — Mecro-
lepidoptera ;
Dr. K. Jordan (Tring Museum) — Sphingide;
W. Kearfott (New York) — Tortricidae;
Prof. Dr. A. Seitz (Darmstadt) — Lyconide, Le-
monide ;
Hymenoptera :
+ W. H. Ashmead (Curator U. 8. Nat. Mus.) —
Chalcidide ;
Juan Bréthes (Mus. Nac. Buenos Aires) — Vespi-
de, Fossoria ;
Visc. R. du Buysson (Mus. Hist. Nat. Paris) —
Chrysidide ; |
Ad. Ducke (Mus. Goeldi, Pará) —-Apide ;
H. Friese (Schwerin)— Apzde ;
Prof. Dr. A. Forel (Yvorne, Suissa) — Formicide ;
Curt Schrottky (P. Bertoni, Paraguay) — Apide
solat. ;
Rowland E. Tourner (London) — Thynnide ;
Rhynchota :
Ad. Hempel (Inst. Agron. Campinas) — Cocerde ;
Prof. A. Jakobi (Dir. Mus. Dresden) — Cicade ;
Prof. O. M. Reuter (Helsingfors) — Capside;
J. G. Sanders (Univ. Wisconsin, U. 8. A.) — Coc-
cide ;
Ed. Schmidt (Mus. Stettin) — Cicadide.
Diptera :
‘ Prof. M. Bezzi — Torino.
Termitida :
Dr. F. Silvestri — Portici-Napoles.
10
Com tal ajuda, as varias secções entomologicas
naturalmente se desenvolveram muito mais do que seria
possivel unicamente em virtude do trabalho do proprio
pessoal do Museu.
A secção dos lepidopteros foi repreparada cuida-
dosamente pelo sr. Ernesto Garbe, durante o tempo
em que não convinha que este nosso auxiliar viajasse.
Completamente reformada como se acha, occupando seis
armarios, a collecção de borboletas causa optima im-
pressão ; infelizmente é difficillimo obter a classificação
da maioria dos nossos Microlepidopteros, onde se en-
contram justamente as formas mais interessantes sob o
ponto de vista biologico e economico.
A secção dos Crustaceos em alcool foi tambem
reformada pelo Sr. E. Garbe e summariamente classi-
ficada pele Sr. R. von Ihering.
A secção dos Molluscos teve regular desenvolvi-
mento com as constantes remessas dos colleccionado-
res. Principalmente das conchas bivalvas do Rio Ara-
guaya, o Museu Paulista possue agora uma coliecção
completa, visto como varios viajantes obsequiosamente
de lá nos trouxeram abundante e variado material.
As collecções ethnographicas e archeologicas foram
enriquecidas por meio de varias acquisições, quer obti-
das directamente para o Museu Paulista por viajantes
especialmente encarregados, quer por compras e per-
mutas. Mencionaremos as seguintes series mais impor-
tantes :
A collecçäo completa de peças ethnographicas dos
indios Botocudos, da margem esquerda do Rio Doce no
Est. do Espirito Santo, obtida pelo sr. Walter Garbe;
em um artigo do Dr. H. v. Ihering nesta revista são
estudados todos estes artefactos ;
Uma collecçäo de 250 peças ethnographicas dos
indios Carajás do rio Araguaya, Est. de Goyaz, que em
varios pontos veiu completar. a nossa já rica collecção
desta tribu ;
Raridades escolhidas de uma grande série de ob-
jectos dos indios Guaranys de Bananal, no littoral do
Est. de S. Paulo, 3 legoas alêm de Conceição de Ita-
nhaen ;
Em permuta com com os Museus de La vlata e
ches A
Buenos Aires obtivemos alguns originaes e muitas co-
pias de bellissimas peças archeologicas de varias regides
da Rep, Argentina; este material nos tem especial va-
lor porque desta forma podemos confrontar directamente
esta cultura coma dos nossos indios dos Sambaquis que,
como o salientou o Dr. H. von Ihering (Rev. Mus.
Paul., vol. VII, p. 246) evidenciam grande concordan-
cia archeologica com os Calchaquis da Argentina;
Ainda por meio de permuta obtivemos, por inter-
medio do Cons. F. Heger, do imperial Museu de Vienna,
uma rica collecção de peças ethnographicas de varias
tribus de indios da Amazonia.
A nossa collecçäo de peças archeologicas dos indios
do Brazil meridional, aliás a mais rica do paiz, foi ainda
augmentada por uma compra de 180 exemplares escolhi-
dos da collecçäo do sr. Balbino de Freitas, no Rio Grande
do Sul; varios especimens de entre elles, do sambaqui de
Torres, constituem verdadeiras raridades de alto valor.
Finalmente, queremos salientar, em especial, duas
valiosas collecgdes que o Museu Paulista obteve de pre-
sente. Uma dellas, offerecida pelo chefe da Commissäo
Geographica e Geologica do Estado de S. Paulo, con-
tem raridades ethnographicas dos indios Caingangs ou
Corôados, obtidas pelas turmas da mesma Commissäo,
em exploração dos rios do Peixe, Feio e margem
esquerda do rio Paranapanema. A outra, dadiva do dr.
J. Bach, foi adquirida pessoalmente por este destemido
explorador entre os indios Tucanos do rio Uaupés,
affluente do Rio Negro, Amazonas; são umas 200 peças,
entre as quaes ha artefactos lindissimos, ricamente
trabalhados.
Viagens e excursões scientificas
Muitas foram as viagens de estudo e caça empre-
hendidas pelos empregados do Museu e por pessoas espe-
cialmente commissionadas. O sr. Ernesto Garbe, na-
turalista viajante do Museu, permaneceu todo o anno
de 1906 na região do curso inferior do Rio Doce, no
Estado de Espirito Santo, para onde seguira em Setem-
Jo Ve
bro de 1905, juntamente com seu filho Walter Garbe,
seu excellente auxiliar e photographo artista. De lá só
voltou nos ultimos dias de Dezembro, trazendo ricas
collecções, principalmente de material zoologico e algum
ethnographico. No mesmo anno, os srs. Rodolpho von
Ihering e João Lima foram a Piracicaba com o fim
especial de colligir os peixes daquelle rio, junto ao fa-
moso Salto. oram obtidas 45 especies de peixes, das
quaes 8 foram descriptas pelo mesmo sr. R. von She-
ring como novas à sciencia. Pouco depois seguiu o
sr. João Lima para Taiuhy, afim de estudar qual a
causa da mortandade immensa dos peixes daquelle rio ;
infelizmente o nosso enviado chegou tarde demais para se
poder reconhecer a peste que ao que, parece, atacära
indistinctamente os peixes de todas as familias, mas
principalmente os Loricariidae. O sr. Francisco Guen-
ther que adquirira especial habilidade em empalhar
peixes, foi encarregado de fazer uma collecçäo, o quan-
to possivel completa, dos peixes do mar nas Ilhas de
São Sebastião e Victoria; obtivemos assim uma optima
serie para as collecções expostas e rico material para
estudo.
Em 1907, o sr. Ernesto Garbe permaneceu alguns
mezes no Museu, tempo que aproveitou para curtir to-
dos os couros de mammiferos da collecção de estudos,
seguindo depois, em Abril, para o Estado do Paraná
(Castro, Tibagy) com o fim especial de procurar algumas
especies de aves e mammiferos que o celebre collec-
cionador austriaco Pelzeln obtivera em Castro em 1820
e que desde então nunca mais foram observadas, taes
como Lepthastenura setaria e striolata. Em boa parte
o sr. Garbe foi bem succedido, trazendo varias rari-
dades para as nossas collecções. Voltando em Agosto
dessa excursão, trabalhou algum tempo no laboratorio
de entomologia e partiu em Outubro para o Estado da
Bahia, de onde só voltou em começo de 1909. Da ca-
pital da Bahia o sr. Garbe seguiu a Joazeiro, no Rio
São Francisco; 4 mezes depois foi à cidade da Barra
e, passando novamente por Joazeiro, dirigiu-se para
Villa Nova, na região das caatingas, onde se demorou
6 mezes; seguiu depois para o sul do littoral do Es-
tado da Bahia, caçando durante 2 mezes em Caravellas ;
Ri UBE a
com a estrada de ferro internou-se no Estado de Minas
Geraes, trabalhando ahi por dous mezes principalmente
em Theophilo Ottoni. Naturalmente grande parte do ma-
terial obtido no sertão da Bahia era novo para as collecções
do Museu, pois que nunca obtiveramos animaes bahianos
a não ser da zona do littoral.
Em 1909 o sr. Garbe permaneceu ainda uma vez
no laboratorio de entomologia, preparando as borboletas
accumuladas em cartuchos e repreparando os exempla-
res mal conservados.
Encarregado da exploração da fauna do Rio Pa-
rahyba, seguiu o sr. E. Garbe em Agosto a S. Luiz
do Parahytinga, e dahi para as nascentes do rio Parahy-
tinga perto de Campos Novos de Cunha; voltando de-
pois para Taubaté seguiu o curso do Parahyba, colle-
ccionando na Estação de Cachoeira, perto de Cruzeiro,
Barra de Pirahy, depois em Entrerios, seguindo dahi
para Nova Friburgo; trabalhou por algum tempo
na Serra Macahé; esteve depois na raiz da serra em
Sant'Anna, e dahi voltou em meiados de Dezembro. Os
resultados foram muito satisfactorios, trazendo o activo
colleccionador rico material de toda a sorte de animaes
preparados para o Museu.
Em 1909 0 custos do Museu, Sr. Rodolpho von lhe-
ring esteve duas vezes em viagem. Em março foi com-
missionado a São José do Rio Preto, para estudar fosseis
que haviam sido encontrados em um poço de 24 metros de
profundidade. Constatou, pelos ossos encontrados nas ca-
madas profundas do poço, a existencia de formações
mesozoicas, obtendo fragmentos de esqueletos da Saurios,
Proalligator, etc. O resultado é de alta importancia para
o conhecimento da geologia do nosso Estado, visto que
permitte formar juizo exacto sobre a chamada formação
de Baurú, cuja edade geologica, por falta de fosseis, até
agora não era conhecida. Veja-se a este respeito o ar-
tigo que o mesmo senhor publica nesta Revista.
A segunda viagem feita pelo sr. R. von Ihering em
Novembro a Dezembro, em companhia do preparador sr.
J. L. de Lima, fôra realizada a pedido da Secretaria do In-
terior e tinha por fim explorar as grutas calcareas de Y po-
ranga e Xiririca, no Valle da Ribeira. Foram visitadas
quasi todas as grutas conhecidas, ao todo 14. Como
PE AE
estas grutas foram apenas percorridas, sem tempo de
ser feita uma exploração em regra, não foram obtidos
materiaes paleontologicos. Uma interessante contribuição
para o conhecimento do fauna cavernicola foi a desco-
berta de um myriapodo chilopodo, especie certamente
nova à sciencia.
O sr. Curt Unckel, que já por diversas vezes con-
vivera com indios de nosso serião e ao qual foram
dadas no Museu as instrucções para fazer observações
ethnographicas, tirar photographias, etc. seguiu a 4 de
Agosto para S. Cruz e dahi para 8, José dos Campos Novos
onde devia procurar os indios Chavantes, de cujo estudo
ethnographico fora encarregado. Em Platina e Mattão,
Lageado e Bebedouro, tomou apontamentos dos indios
Coroados mansos, demorando-se ahiaté 6 de Setembro.
Dahi seguiu para Roseta, Conceição de Monte Alegre,
S. Matheus, Rancharia, Laranja Doce em direcção a
Medeiros ; ssbendo porém que obteria melhor resultado
em Porto Tibiriçá, para là se dirigiu, chegando a 15
de Setembro. Procurando indios, foi à foz do Rio S.
Anastacio e Jaboticaba, onde examinou os Chavantes de
Matto Grosso; subiu o Rio Pardo, oito legcas rio acima,
até a foz do Rio Sapé, e ainda duas legoas para adiante,
encontrando indios Guatós, Guaranys e Terenos.
O resultado principal da expedição foi o de se
constatar que o exterminio dos Chavantes do Estado de
S. Paulo, pelos sertanejos da região, está virtualmente
terminado; actualmente só existem tres Chavantes na-
quella região e estes mesmo convivem com familias
brazileiras e já esqueceram completamente a sua lingua
materna.
O sr. Francisco Adam visitou por nossa ordem os
indios guaranys, localisados a 3 legoas de Conceição de
Itanhaen, que alias já conhecia e com os quaes man-
tinha boas relações. De lj nos trouxe uma boa serie
de objectos ethnographicos, entre os quaes havia algumas
peças que faziam falta à nossa collecção.
RON EN qu
Trabalho scientifico
Os trabalhos scientificos realizados pelo director e
seu unico assistente versaram, como é necessario para
o bom desenvolvimento de todas as secções, sobre um
grande numero de themas.
O dr. Hermann von ihering concluiu um grande
numero de estudos e publicou os respectivos resultados
nos escriptos scientificos que constam da lista que damos
em seguida. Além disto o director do museu dedicou
muito tempo ao estudo da classificação dos mammiferos
brazileiros, especialmente dos carnivoros. Se bem que
o numero das especies não seja muito elevado e, em
si mesmo, a classificação não offereça tamanho emba-
raço, entretanto o estudo torna-se difficillimo por causa
da immensa confusão que reina na literatura respectiva.
O mesmo animal, redescripto muitas vezes, tem uma
infinidade de nomes scientificos e, como as respectivas
descripções são quasi sempre deficientes, é só com muito
custo que se consegue estabelecer correctamente a sy-
nonymia completa; sd depois de feito isto é que se
póde constatar a distribuição geographica precisa da
especie. Para os carnivoros o dr. H. v. Ibering con-
seguiu completar este trabalho, de modc que em breve
dará publicidade à respectiva monographia.
Além disto occupou-se com o estudo de molluscos
recentes e fosseis, que constantemente lhe são enviados,
para classifical-os como especialista na materia.
Em entomologia occupou-se de varias questões de
interesse economico, como principalmente com relação
à bróca das arvores fructiferas.
O sr. Rodolpho von Ihering, assistente, occupou-se
nestes annos principalmente com o estudo systematico
dos peixes da agua doce e cobras do Brazil.
Sobre estas ultimas publicará, neste volume, uma
monographia completa com relação às familias das nossas
cobras, faltando-lhe unicamente terminar o estudo das
Colubridæ Aglypha e Opistoglypha. Sobre os peixes
Nematognathas tem em elaboração a respectiva mono-
graphia das especies brazileiras, que formará a conti-
nuação do trabalho «Os peixes da agua doce do Bra-
zil», começado no vok VII desta revista. Algumas das
LL GUESS
especies reconhecidas como novas vem descriptas neste
volume. Simultaneamente, conforme es exigencias do
serviço, estudou tambem alguns grupos de outros ver-
tebrados e arthropodes.
Ultimamente o sr. Walter Fischer, secretario au-
xiliar do Museu, dedicou-se ao estudo dos orthopteros,
classificando o nosso material de Mantide, Phasmide
e Proscopide.
O sr. H. Luederwald, preparador da secção ento-
mologica, continuou os estudos de biologia com relação
a varios insectos, tendo publicado a respeito algumas
observações ; fez tambem estudos de systematica, prin-
cipalmente de coleopteros lamellicorneos, conseguindo
ahi a classificação de quasi todo nosso material dos be-
souros coprophagos (Coprinæ) e dos Dynastine.
Lista das publicações
Dr. HERMANN VON IHERING
A) na Revista do Museu Paulista, vol. Vi.
Os Indios Patos e o nome da Lagoa dos Patos,
pg. 31-45; (reproduzido no Annuario do Est. do Rio
Grande do Sul, para o anno de 1910 de Graciano A.
de Azambuja.)
A distribuição de Campos e Mattas no Brazil,
(com Est. I-Vil) pg. 125-178.
As cabeças mumificadas pelos indios Mundu-
rucus (com Est. IX-X) pg. 179-201.
À Anthropologia do Estado de S. Paulo; tra-
ducção ampliada do inglez (com Est. XI-XII) pg. 202-
297.
Historia da fauna marina do Brazil e das re-
gioes visinhas da America meridional (trad. do Cap.
XIT da monographia «Les Mollusques fossiles du Ter-
tiaire et du Crétacé superieur de l’Argentine»), pag.
337-431.
A organização actual e futura dos Museus de
historia natural, pg. 431-449.
Bibliographia (1905-07) Historia Natural e An-
thropologia do Brazil—de collaboraçäo com Rodolpho
von lhering—pg. 450-536.
PE
B) em outras revistas scientificas :
Les Moilusques fossiles du Tertiaire et du Cré-
tacé superieur de l’Argentine—Anales del Museo Na-
cional de Buenos Aires, Ser. III, Tomo VII, 1907,
611 pags., 10 estampas.
Die Cecropien und thre Schutzameisen— Engler's
Botan. Jahrb. Vol. 39, tasc. 3-5, pags. 666-714, Est.
VI-X.
Die Linné’schen Gattungsnamen der marinen Nu-
dibranchien—Nachrichtsblatt der deut. Malacozool. Ges.
Heft. 4, 1907, pg. 218-221.
Ueber das natuerliche Vorkommen von Nephrit
in Brasilien—XiV Amerikanisten Kongress 1907, p.
997-515.
Die Verwendung von brasilianischen Steinaex=
ten, auf Grund von Experimenten—Bericht ueber
die Praehistoriker Versammlung, Coeln, 23-31—VII
1907. pag. 148-155.
Die Entstehungsgeschichte der neotropischen Re-
gion—Verhandl. k. k. zool. bot. Ges. Wien, vol. 58,
1908, pag. 283-302.
System und Verbreitung der Heliciden —loc. s.
cit. Vol. 59, 1909, pag. 420-455.
Les Melanides Americains— Journal de conchy -
liologie, Paris, vol. 57, 1909, pag. 289-316.
Mollusques du Pampéen de Mar del Plata et
Chapalmalan—Anales del Museo Nacional de Buenos
Aires, Tomo XVII 1909, pag. 429-438.
As brócas e a arboricultura—O Entomologista
Brazileiro, S. Paulo, 1909, Anno II, n. 8, pag. 225-
234, e Boletim de Agricultura, $. Paulo, 1909, pg.
922-Do 4.
ldem, Ile contribuição—loc. s. cit, Anno Il, n.
10, pag. 294-298.
Archhelenis und Archinotis, gesammelte Beiträge
zur Geschichte der Neotropischen Region, Leipzig,
1907, 8.º, 350 pag., 1 mappa.
RoDoLPHC VON IHERING
A) Na Revista do Museu Paulista :
Revista do Museu Paulista, vol. VII, 1908, O
Museu Paulista nos annos de 1903 a 1905, pag. 1-30.
— 18 —
Os peixes da agua doce do Brazil ; Introducção
e Parte I Gymnoti e 11 Cichlide (Est. VIU e desenhos)
pag. 2598-376.
Bibliographia (1905-07) Historia Natural An-
thropologia do Brazil, de collaboraçäo com dr. Hermann
von Jhering—pag. 450-536.
B) em outras revistas scientificas :
Notas preliminares, vol. I fase. 1.º Diversas espe-
cies novas de peixes Nematognathas do Brazil, 1907,
39 pags.
As aves do Brazil—vol. I dos Catalogos da Fauna
Brazileira, editados pelo Museu Poulista, de collabo-
ração com dr. Hermann von Jhering, 1907, 485 pags.
2 estampas.
Guia pelas collecções do Museu Paulista, 1907,
116 pags.
Landeskunde der Republik. Brasilien—Sammlung
Goeschen, Leipzig, 1908, 165 pags. e 1 mappa.
Uma praga dos vinhedos mineiros — O Entomo-
logista Brazileiro, Anno IT, n. 1 (com fig.)
Uma curiosa formação de galhas — loc. s.
Anno, IN 16
As especies brazileiras do genero Phloea (Henne )
—loc. s. cit., Anno II n. 5.
Idem—Phloea paradoxa Burm. ou Phloea longi-
rostris Spix ?—loc. s. cit. Anno lll, N.º J
HERMANN LUEDERWALD
Sobre a vida e a caça de insectos em Bromelias,
Entomologista Brazileiro. Anno If, n. 4.
Beitrag sur Ornithologie des Campo Itatiaya,
Zoolog. Jahrb,, Abt. System. Geogr., etc., XX VII, N.º 4.
Henry W. BROELEMANN
Os myriapodos do Brazil,--vol. II dos Catalogos
da Fauna Brazileira editados pelo Museu Paulista,
1909, 94 pags.
Obicctos offerecidos ao Museu Paulista,
em 1906
Capitão Joaquim Dias F. Coimbra, São Paulo: 1
cadeirinha antiga, usada para transporte de senhoras.
— 19 —
Dr. Senador Manuel Barata : 2 saccos de borracha,
um claro (de cauchú) outro escuro (de seringa).
- Dr. J. Gonçalves Oliveira, Avaré: 2 galhadas de
cervos.
Tenente Henrique Silva, Piquete: 1 larva de co-
leoptero com parasitas.
R. Alves Araujo Guimarães, Ouro Preto: 2 moedas
brazileiras antigas.
Dr. O. A. Derby, Rio de Janeiro : 1 modelo (copia
de um grande meteorito; o original tem 7,5 kilos de peso
e foi encontrado no municipio de Uberaba).
F. Kohfahl, São Paulo: 1 collecção de vistas da
cidade do Rio de Janeiro tiradas e heliographadas em
1850.
Dr. Vital Brazil, São Paulo: 10 vidros com cobras
grandes, amostra de veneno, dentes venenosos, ovos, e
parasitas intestinaes de cobras.
Commissäo Geographica, São Paulo: 4 arcos de
indios Caingangs do Rio Feio.
Dr. Alfredo de Carvalho: 1 medalha de prata.
Tenente Henrique Silva, Piquete: 1 collecção de 20
peixes.
Dr. Lafon, Baurü : 1 collecçäo de reptis.
D. Izabel de Azevedo, São Vicente: 1 gaivota rara.
Dr. O. A. Derby, Goyaz: 1 vidro com crustaceos
e peixes colligidos em Goyaz.
Dr. Moraes Dantas, São Paulo: 1 jaguatirica viva.
Oscar Pereira da Silva. São Paulo: 1 grande quadro
a oleo «Guerreiro Carajá».
Coronel Vieira de Camargo, Tatuhy : 1 veado virá.
Tancredo B. Paiva, Rio de Janeiro: 1 medalha
(Lauro Mueller).
Antonio Hemmel: 1 pente de senhora «trepa-mo-
leque».
Objectos offerecides as Museu Paulista.
em 19073
Ovidio de Mello, Barra do Pirahy: 1 tronco para
prender os pés dos escravos; 1 palmatoria; 1 algema
de ferro; 1 tronco de ferro para prender mãos e pés.
— 20 —
Antonio Vicente de Azevedo, Säo Paulo: 1 pente
de senhora «trepa-moleque» ; 1 medalha Christovam Co-
lombo.
Carlos Alvares, São Paulo : 5 vales «troco de bond-
carris urbanos» do Pará.
Eloy Cerqueira : 1 cedula 1004000 do Banco União
Estadual de São Paulo e Goyaz.
W. Fischer, São Paula: 1 collecção de insectos.
Padre Rick, Pelotas: 1 collecçäo de cogumelos.
Dr. Antonio de Souza Queiroz, São Paulo: 1 ca-
deirinha comprada em Portugal em 1787.
Ernesto Garbe, São Paulo: 1 collecção de insectos
do Paraná.
A. W. Bertoni: 1 collecçäo de conchas da Argentina.
Austin Tibiriçá, São Paulo: 1 cadeira antiga.
Juan Ambrosetti, Buenos Aires: 1 molde de al-
fareria zoomorpha : cabeça de onça de Entre-Rios, dos
indios Charrá-tumbu.
Pedro de Mello, Santos: 1 tacape bellissimo dos
indios da Amazonia e 1 dentadura de tubarão do Ma-
ranhão.
Commissäo Geographica e Geologica, S. Paulo:
1 colleeção valiosa de objectos ethnographicos dos in-
dios Coroados.
Mosteiro de São Bento, São Paulo: 1 cadeirinha.
Repartição de Estatistica e Archivo, Jão Paulo :
1 arreio de São Jorge.
Dr. Eugenio Egas : 1 valiosa collecçäo de quadros
historicos.
Objectos oferecidos ao Museu Paulista,
em 1908
Dr. J. Bach: 1 collecção de borboletas do Amazonas
e 1 rica collecçäo de objectos ethnographicos dos indios
Tucanos do rio Uaupés, Amazonas.
P. Dietz, Goyaz: 1 pequena collecção de pedras,
conchas e insectos.
Julio Conceição, Santos: 4 Corallus hortulanus L.
cobra nova para a fauna paulista e 1 espingarda que
pertenceu a D. Pedro II.
LA AE
Seminario Episcopal, Säo Paulo: 1 pia baptisma.
usada por Anchieta em Conceiçäo de Itanhaen.
Padre Ambrosio Schupp, Pelotas: 2 ossos fosseis,
1 collecção de crustaceos, 2 craneos de lobo do mar
(Arctocephalus), 6 peixes do mar, ! cobra, molluscos,
vermes e medusas.
Administração do Jardim Publico, São Paulo: 1
macaco Brachyurus da Amazonia e varias aves nacio-
naes e estrangeiras.
Nicanor de Toledo Mello: 1 grande collecção de
insectos.
Padre Rick, Pelotas: 4 caixinhas com series de
cogumelos.
Prof. Forel, Suissa: 1 pequena collecção de for-
migas.
L. Lopes de Oliveira : 1 pequena collecção de phas-
midas interessantes.
Instituto Bacteriologico de São Paulo: diversos
aniinaes mortos.
Dr. Eugenio Egas, S. Paulo: Varios quadros e
lithographias antigas.
S. Ribeiro, Campinas: 1 collecçcäo de 23 moedas
antigas.
Romão Richter, Paraná: 1 peixe cascudo, Plecos-
tomus do Rio Japó.
Exposição Nacional do Rio de Janeiro: 1 colle-
cção de peixes, mammiferos, aves e as figuras de indios
que figuraram na mesma exposição.
Camara Municipal de Sorocaba : 1 canhão de 184],
fundido em Ypanema.
Dr. Domingos Jaguaribe, São Paulo: 14 tartaruga
e varios objectos ethnographicos.
Francisco J. Civatti, São Carlos do Pinhal: 1 col-
lecção de aves.
Objectos oferecidos ao Museu Paulista,
em 1909
Francisco J. Givatti, Taquaritinga : 1 collecçäo de
aves empalhadas.
Padre A. Schupp, Rio Grande do Sul: 1 collecçäo
de conchas.
=" 9 us
Luiz Barreto, Ypiranga: diversas cobras.
Dr. O. A. Derby, Rio de Janeiro : crustaceos e
fosseis.
Dr. Candido Rodrigues, São Paulo: 1 pelle de
sucury.
Bacharel Fausto Lex, Barretos : insectos, peixes,
cobras, etc.
Consul Borman, Santos: peixes cascudos raros.
Jardim Publico, São Paulo: aves e mammiferos.
Dr. Eugenio Egas, São Paulo: vestimenta de couro
dos sertanejos do norte do Brazil.
Conde de Barbiellini, São Paulo: 1 collecçäo de
Staphylinidas.
Antonio de Pimentel, Porto Alegre : 1 collecçäo
de insectos.
Henrique Redd, São Paulo dos Agudos: 1 colle-
cção de insectos.
JOÃO BARBOSA RODRIGUES
POR
HERMANN VON ÎHERING
Os sentimentos, que me levam a prestar esta mo-
desta homenagem à memoria do eminente sabio ha
pouco fallecido, não são sd os do admirador e do ami-
20, mas antes de tudo os do naturalista que conhece
as difficuldades que se oppõem a grandes emprehendi-
mentos e que sabe avaliar o immenso trabalho, do-
cumentado pelas numerosas e valiosas publicações do
pranteado biologo. Infelizmente o culto das sciencias
naturaes ainda está em phase atrazada e infantil no
Brazil, onde em geral se deseja ver resultados praticos
dos estudos scientificos, isto é sua utilidade immediata.
E foi sob o peso destas circumstancias que soffreram o
director do Jardim Botanico do Rio de Janeiro e o es-
tabelecimento que elle dirigiu. Quanto mais raros forem,
numa época de compilações e rhetorica, os investigado-
res que, incessantemente, enriquecem a sciencia por tra-
balhos sérios, tanto mais numerosos são os adversarios e
inimigos mesquinhos, que se erguem contra taes figuras
proeminentes, para salientar-lhes os defeitos e avançar
conclusões atrevidas, procurando sombrear-lhes os me-
ritos incontestaveis. Barbosa Rodrigues luctou desde o
começo de sua carreira de naturalista contra esta dif-
ficuldade. A sua valiosa monographia das orchideas
por este motivo nunca foi publicada, e, provavelmente,
o mesmo teria acontecido com o «Sertum Palmarum»
sem a intervenção do meu saudoso amigo dr. A. C. de
Miranda Azevedo, que no Congresso Nacional propoz
e conseguiu a impressão desta obra.
E' o fim principal desta biographia pôr em evi-
dencia o valor real dos trabalhos botanicos do auctor
do «Sertum Palmarum».
TON
João Barbosa Rodrigues nasceu no Estado de Mi-
nas Geraes, onde seu pae era commerciante. Em 1869
terminou o seu curso de letras e formou-se pela anti-
ga Escola Central de Engenharia. Naquelle tempo pu-
blicou varias poesias e um volume em prosa intitulado
«Veladas nocturnas». D’ahi por deante dedicou-se a
trabalhos scientificos, cujos meritos foram amplamente
reconhecidos na Europa, onde Barbosa Rodrigues man-
tinha relações com numerosos sabios e com as maiores
sociedades scientificas. Nesta época desempenhou o
cargo de secretario do antigo Instituto Commercial e o
de secretario e professor de desenho do Collegio D.
Pedro II. Em 1871 foi encarregado pelo Governo de
explorar o valle do Amazonas. Nessa commissão se
demorou 3 1/2 annos e teve ensejo de explorar os Rios
Capim, Tapajóz, Trombetäs, Jamunda, Urubü e Jatapú,
sobre os quaes publicou & relatorios importantes,
cujas edições foram exgottadas em poucos mezes. Em
1818 occupou-se com o estudo de Curäre, sobre o qual
fez uma bella conferencia em presença de S. M. D.
Pedro I. Em Junho de 1883 foi nomeado director
do Museu Botanico do Amazonas, com séde em Ma-
nãos, e ahi dedicou-se o naturalista a estudos sobre
ethnologia e botanica do Estado do Amazonas, publi-
cando os resultados de suas investigações no periodico
«Velosia». Em 25 de Março de 1890, recebeu a no-
meação de director do Jardim Botanico do Rio de Ja-
neiro, cargo que com grande brilho occupou até a sua
morte, em 6 de Março de 1909.
Era casado em matrimonio feliz com a exa. sra. d.
Constança, que o acompanhou em muitas das suas via-
gens, cheias de perigos e de privações. No (Congresso
Latino-Americano de Montevideo esta sua digna con-
sorte foi distinguida com significativa hcmenagem, e o
seu marido, no segundo volume do Sertum Palmarum
a p. 30, publicou o retrato della, exprimindo-se do modo
seguinte por occasião de lhe dedicar uma especie nova,
Bactris constanciæ : «Le nom de lespèce rappelera le
courage, "amour des découvertes scientifiques et l’hé-
roisme dont elle a donné tant d'épreuves, notament le
2 octobre 1873 lorsque notre piroque coula à fond dans
la rivière Yatapú, entrainèe par le tourbillon de la
ge ES
grande chute d’eau nommé Udidy et dans d’autres cir-
constances, lorsque pendant la nuit nous fûmes attaqués
par un tigre dans la forêt ou nous avions nos hamacs
près de la Corredeira Picapó, sur les rives de la mème
rivière.»
Barbosa Rodrigues residia com sua familia no
parque particular do Jardim Botanico e ao morrer
deixou 13 filhos e 22 netos. Enire os filhos varões
conta-se o sr. J. Barbosa Rodrigues Filho, seu aju-
dante no Jardim.
Com Barbosa Rodrigues desappareceu o ultimo
representante da pleidade de excellentes botanicos do
Rio de Janeiro, que por meio de numerosas publica-
ções e collecções contribuiram para o conhecimento
da flora do Brazil. Refiro-me a Schwacke, Glaziou, E.
Ule e Dusen; vive ainda lá o eminente mestre Theodor
Peckolt, cujas numerosas publicações versam particu-
larmente sobre o exame chimico e pharmacologico das
plantas medicinaes do Brazil. Retiraram-se do Brazil
Ule e Dusen e morreram Fritz Mueller, Glaziou e
Barbosa Rodrigues. A situação da capital federal que,
com relação ao estudo da flora do paiz era tão van-
tajosa em tempos ha pouco passados, actualmente não
se apresenta de modo algum lisongeira.
Foi muito notado e criticado que, no enterro do
grande brazileiro, o Governo da Republica não se fez
representar e peior ainda foi a injustiça da ultima
mensagem do presidente da Republica, Dr. Affonso
Penna onde, ao tratar do Jardim Botanico, nem men-
cionou a morte do unico director competente daquelle
estabelecimento, criticando ainda injustamente a sua obra
e promettendo fazer uma reforma, pela qual o Jardim
devia entrar em outra phase de maior utilidade practica.
Leste assumpto queremos occupar-nos mais minu:
ciosamente. O Jardim Botanico do Rio de Janeiro não é
e nunca foi o que sob esta denominação se comprehende
em outros paizes. E”, entretanto, um dos mais notaveis
parques do mundo, com um grande numero de bellos
exemplares de plantas raras e esplendidas e, sob este ponto
de vista, não ha outro egual na America meridional. As
bellezas deste jardim são tão encantadoras que Barbosa
Rodrigues (n. 25, p. XXXII), tinha razão quando decla-
ON
rou que uma modificação completa do jardim devia
ser considerada como vm acto de «vandalismo». Não
ha regras geraes para os traçados dos jardins botani-
cos, mas ha 2 pontos de vista principaes para sua or-
ganização : a disposição systematica, isto é a reunião
das plantas segundo as suas afinidades naturaes e a
distribuição geographica dos vegetaes. Em grandes
jardins estes dous pontos de vista são ambos decisivos
para a confecção da planta do jardim, mas o systema
moderno antes de tudo quer apresentar ao visitante as
differentes fórmas de vegetação no seu conjuncto na-
tural. Isto, com relação ao Brazil, significaria a repre-
sentação de campos e serrados, de capoeira, caatinga,
pinhaes, hervaes, etc. e das diversas fórmas das mat-
tas. Parece-me que a parte do Jardim do Rio de Janeiro
que fica situada na planicie, não tem a necessaria exten-
são e devia ser augmentada pela acquisição de terrenos
annexos. Talvez deste modo ainda fosse possivel cor-
rigir em parte os defeitos organicos do jardim, e, se
isto não for possivel, ao menos devem ser reunidos,
quanto mais possivel nos mesmos canteiros, os diver-
sos membros da mesma familia. E segundo estes prin-
cipios que organizei o pequeno parque botanico do Mu-
seu Paulista e já consegui ter boa representação de
muitas familias. Assim já me foi possivel reunir nada
menos de 16 especies de samambaias arborescentes,
todas do Estado de S. Paulo e estou completando agora
a collecção de palmeiras. Já se vê em certos luga-
res, uma ao lado da outra, as diversas especies de La-
tana ou de Trbouchina e outras Melastomaceas, bem
como Cactaceas, Gramineas, Bromeliaceas, etc.
E” admiravel o modo como as differentes flóras
da Europa e da Asia estão representadas no novo Jar-
dim Botanico de Berlim. Tambem no Jardim de Bue-
nos Aires organizou-se a representação especial dos
vegetaes das diversas provincias do paiz.
O que o Jardim Botanico do Rio de Janeiro sera
sob outras direcções, o futuro nos mostrará. O mere-
cimento de Barbosa Rodrigues está em ter acabado
com o systema antigo, que fazia do Jardim um parque
de recreio e de pic-nics, com a «desordem que a arte es-
tabeleceu para imitar a natureza», e de ter augmentado e
OR —
classificado as plantas e, se assim mesmo o estabeleci-
mento não chegou ainda à perfeição por elle mesmo
desejada, a culpa disto estava antes de tudo na escas-
sez dos meios.
Em todo caso este celebre Jardim Botanico deve-
ra ser conservado perfeitamente no mesmo caracter se-
gundo o qual estão organizados os estabelecimentos con-
generes em outros paizes. Jardins de caracter scienti-
fico os ha de diversas qualidades, e, além do Jardim
Botanico destinado ao estudo scientifico e à represen-
tação systematica dos vegetaes de uma ou de diversas
regiões do globo, ha hortos de pomicultura, arboricul-
tura, de acclimaçäo, campos de experiencia para a agri-
cultura, etc.; mas sômente raras vezes, e por motivos
especialissimos, estas diversas funcções podem ser combi-
nadas no mesmo Jardim. Se a mensagem presidencial se
queixou do caracter improductivo do Jardim Botanico
da Capital Federal, querendo por isto attribuir-lhe as
funcções de um campo de experiencias de um instituto
agronomico, manifesta-se nesta idéia o desconhecimen-
to completo dos fins verdadeiros dos Jardins Botanicos.
Para campos de experiencias de agricultura não faltam
terrenos mais apropriados e mais extensos fora da Ca-
pital Federal e nos Estados da Republica; mas no in-
teresse da sciencia é para desejar que o «vandalismo»
projectado pela referida mensagem, como o fallecido
sabio chamaria esta promettida reforma, não seja exe-
cutado e que a mão competente de um naturalista ac-
centue successivamente cada vez mais o caracter scien-
tifico do bello jardim, que é um dos pontos de attra-
cção mais notaveis da bella Capital Federal do Brazil.
Barbosa Rodrigues é sem duvida a figura mais
proeminente entre os naturalistas que nasceram no
Brazil. Comparavel ao seu grande collega Martius,
elle occupou-se com igual successo da botanica, da eth-
nographia e da archeologia do paiz. Nestes ramos de
sciencia Barbosa Rodrigues tem verdadeiros e grandes
merecimentos, que em nada perdem pelo dilettantismo
com que tratou de varios problemas dos mais dificeis,
para os quaes não tinha a mesma competencia.
Os seus trabalhos botanicos B. Rodrigues começou
com estudos sobre as orchideas do paiz. Naturalista en-
Res
thusiasmado, viajante intrepido e artista aperfeiçoado,
conseguiu reunir immensos materiaes desta familia de
parasitas tão caracteristicas do Brazil A sua grande
obra «Iconographie des Orchidées du Brésil» nunca foi
publicada, o que é muito para lastimar. Muitas cente-
nas de orchideas ahi são descriptas como especies novas
e vem figuradas em mais de mil estampas. Si de facto o
imperador D. Pedro Il tivesse sido o protector das sci-
encias, com o qual gostava ser considerado particular-
mente na Europa, elle não teria deixado de cuidar da
impressão desta obra monumental. Mas, não obstante
as suas repetidas viagens à Europa e o seu interesse pela
literatura e pelos estudos scientificos, D. Pedro II não
se elevou acima do nivel da civilização no meio da
qual vivia. Certamente lhe teria sido facil chamar ao
paiz illustres scientistas europeus e fundar com elles
uma universidade no Rio de Janeiro. Não falta à moci-
dade nacional talento e vontade de apprender e de dedi-
car-se a estudos serios, mas o systema de concursos e
de protecção official inutiliza as melhores intenções
dos legisladores. Uma victima de taes circumstancias
lastimaveis foi Barbosa Rodrigues. Concordo perfeita-
mente com meu amigo Dr. Orville A. Derby que al-
gum dia me disse: «Si este Barbosa Rodrigues tivesse
tido a sorte de gozar d'uma instrucção scientifica supe-
rior de universidade, hoje seria um dos naturalistas
mais notaveis do mundo». A um talento desta ordem
o imperador devia ter facultado todos os meios para
desenvclver-se; mas aconteceu justamente o contrario.
Fizeram crer ao monarcha que as novas descobertas
do jovem naturalista brazileiro não passavam de phanta-
sias e esta opinião, quanto às orchideas, se conservou
no Brazil até que o monographo desta familia, que col-
laborou na monumental obra da «Flora Brasiliensis», A.
Cogniaux reconheceu bem fundada a maior parte destas
especies. Segundo esse auctor o numero de especies de or-
chideas brazileiras importa em 1795 e, de entre estas, 538
foram descriptas e figuradas por Barbosa Rodrigues, o
que quer dizer que quasi a terça parte de todas as
orchideas do Brazil foi descoberta e determinada por
Barbosa Rodrigues. Cogniaux, na «Flora Brasiliensis»
reconheceu os meritos de Barbosa Rodrigues, que lhe
Es O eee
confiira todas as suas estampas e descripções até então
não publicadas, dizendo a proposito o grande naturalista
belga que ao auctor das mesmas pertencem «a honra bem
como o perigo» destas descripções. Claro é que taes ma-
teriaes, consistindo apenas em descripções e figuras, não
podem substituir exemplares authenticos de herbarios.
mas deve-se tomar em consideração as dificuldades com
as quaes o naturalista luctou nas suas expedições à Ama-
zonia e ao sertão do Brazil. Mais tarde Barbosa Ro-
drigues occupou-se de preferencia com as nossas pal-
meiras e, como resultado destes estudos, temos, além
de grande numero de valiosas monographias, a obra
admiravel «Sertam Palmarum brasiliensium», 2 volumes,
ricamente illustrados e publicados a custa do Governo
Federal. E” esta uma obra indispensavel para o estudo
das palmeiras brazileiras. Em dous grossos volumes o
auctor trata de todas as especies de palmeiras do Brazil,
cujo numero total é de 382, sem contar as variedades
e das quaes 166 (isto é quasi a metade) foram desco-
bertas por B. Rodrigues. Deve-se tomar em conside-
ração, ainda, que muitas destas especies novas crescem
em regiões longinquas e pouco accessiveis e que as
174 estampas magnificas foram todas aquarelladas pelo
proprio auctor, durante as suas viagens. Em conversa
commigo Barbosa Rodrigues mostrou-se descontente
com a pouca importancia, que no paiz se ligou à pu-
blicação desta obra monumental. Neste sentido encon-
tra-se uma confirmação da leviandade com que se pro-
cedeu à distribuição do «Sertum Palmarum» na nota
curiosa narrada na Revista do instituto Geographico e
Historico da Bahia, 1908, vol. XV, N. “4, p. 129:
«Um desses exemplares, que são vendidos a 7508000
cada um, foi dado à repartição da policia. Essa regia
offerta foi naquella repartição por tal modo mal em-
pregada, que poucos dias depois viam-se as bellas es-
tampas pregadas nas sujas paredes do corpo da guarda !»
Pelo momento o verdadeiro valor scientifico desta
obra não pode sera julgado com todo rigor ; mas quando
casualmente me vi obrigado a occupar-me no anno
passado com o estudo das palmeiras do Estado de São
Paulo, cheguei a apreciar mais a obra de Barbosa Ro-
drigues do que a monographia da «Flora Brasilienis»,
Peet fu
publicada por Drude. Este ultimo monographo por
exemplo, baseiado em diversidades de somenos impor-
tancia, faz da nossa palmeira commum, gerivá, (Cocos
romanzoffiana) uma porção de pretendidas especies dif-
ferentes ; um facto destes não é apropriado para fazer-nos
considerar um trabalho como sendo de grande mereci-
mento. Comprehende-se bem que os biologos que vivem
no Brazil e particularmente especialistas da competencia
de Barbosa Rodrigues, não se deixam illudir por taes
erros e, estudando a variação da especie, reunem as
muitas pretendidas especies analogas. Procurando reu-
nir no jardim botanico do Museu Paulista as diversas
especies de palmeiras do Estado de São Panlo, verifi-
quei que esta parte da flora do nosso Estado é ainda
muito incompletamente conhecida.
Barbosa Rodrigues tratou tambem de assumptos
cujos methodos de investigação e cuja literatura não
lhe eram familiares. E” assim que, procurando escla-
recer a fecundação das palmeiras em sua publicação
Les noces des palmiers, não conseguiu o apoio dos
especialistas profissionaes.
Com relação à conhecida controversia que se es-
tabeleceu entre elle e o dr. João B. de Lacerda sobre
o curäre, tambem temos alguma duvida.
Claro está que estudos desta ordem só podem ser
executados com completo successo por pessôas perfei-
tamente versadas em experiencias de physiologia ani-
mal. Sem ter mesmo opinião propria sobre esta questão,
limito-me a chamar para ella a attenção dos leitores.
Parece que ha diversas qualidades de curáre e que
isto, em parte, explica as divergencias. E’ singular,
entretanto, que esta divergencia de opiniões tenha sur-
gido só na referida controversia do Rio de Janeiro e
não entre os experimentadores dos laboratorios europeus.
Não faltaram a Barbosa Rodrigues desgostos e
polemicas com os collegas da Capital Federal, e a mais
vehemente entre ellas foi a que teve com Ladislau
Netto e que versava sobre objectos archeologicos da
Amazonia e particularmente sobre uma preciosissima
pedra trabalhada, denominada «o idolo amazonico». O
que é certo é que Ladislau Netto procurou diminuir
os meritos de Barbosa Rodrigues com referencia ás
AE
suas descobertas archeologicas. Assim, o assumpto pri-
mitivo, do idolo, foi prejudicado na discussäo, o que,
afinal, provocou censuras na literatura respectiva. Bar-
bosa Rodrigues me deu informações minuciosas sobre
esta questão e affirmou que, tendo mandado objectos
archeologicos da Amazonia ao Museu Nacional, estes alli
foram indicados como provenientes do Rio Grande do
Sul. Em discursos sobre o assumpto, porém, elle pro-
vou a exactidão de suas affirmações, mostrando que a
proveniencia se achava ainda indicala a lapis nos re-
spectivos machados polidos.
Nas suas viagens, B. Rodrigues colligiu informa-
ções minuciosas sobre as tribus de indigenas que visitou
e publicou depois na sua Poranduba numerosos voca-
bularios. Um grande serviço prestou ao Estado do
Amazonas com a catechese e aldeação dos «chrichanãs».
De valor especial são as suas communicações sobre
antiguidades da Amazonia. As observações de Ladislau
Netto e Goeldi limitam-se aos municipios de Belém e
Marajó e mais ou menos o mesmo vale com relação a
Hartt; mas B. Rodrigues percorreu grande parte dos
Estados do Amazonas e do Pará. Foi assim que dos
artefactos zoo e anthropomorphos de pedra polida, que
alli se denominam «muyrakitans», elle reuniu exemplares
dos mais valiosos. Um cerio numero de entre elles
é de nephrite e o auctor do livro «Sobre os Muyra-
kitas» chegou à conclusão de que elles constituiriam uma
prova das antigas migrações e relações culturaes entre
a Asia e a America meridional. Foi isto ao tempo em
que o professor Fischer, na Allemanha, tambem de-
fendia a origem asiatica dos artefactos de nephrite e
jadeite, encontrados na Europa. No correr dos ultimos
dous ou tres decennios foi, entretanto, provado que o
nephrite occorre naturalmente em varios paizes da Eu-
ropa e o mesmo demonstrei com relação ao Brazil,
onde o nephrite é encontrado nativo em blocos brutos
em Amargosa, no Estado da Bahia. Sobre este assum-
pto compare-se o que escrevi nesta Revista, vol. VI,
pag. 538. Sobre a questão do nephrite já houve pole-
mica entre o auctor do «Muyrakitan», Ladislau Netto
e Sylvio Romero. Ladisläu Netto era tão audacioso e
dilettante em assumptos de americanismo e linguistica
SN et
como o proprio Barbosa Rodrigues, mas a critica de
Sylvio Romero é perfeitamente justa e bem fundada ;
e os que ainda tratam, com a maior leviandade possi-
vel, das origens americanas, migrações prehistoricas e
filiações linguisticas, deveriam estudar a «Ethnographia
Brazileira» de Sylvio Romero, em seu proprio proveito
e para o da literatura. Por minha parte, taes dis-
cussões ousadas, para não dizer ridiculas, não me di-
minuem o apreço em que tenho as obras archeologicas
de Ladislau Netto e Barbosa Rodrigues, pois que deixo
de lado as theorias disparatadas e aproveito o material
positivo que estes auctores reuniram. Certo ê que isto
não póde ser feito sem a devida critica, e, com relação
a Barbosa Rodrigues, aconteceu que elle indicou uma
cabeça mumificada como tendo sido feita pelos «mun-
durucus», quando, de facto, era do typo dos trophéos
que são preparados unicamente pelos indios jivarós, do
Equador. A respeito do assumpto não consegui ter
resposta de B. Rodrigues e os collegas mais competen-
tes, com os quaes tive correspondencia sobre o assumpto,
entendem que a narração de B. Rodrigues não deve
ser tomada em consideração, por ser contraria ás obser-
vações de todos os outros observadores. Compare-se
sobre este assumpto a Revista do Museu Paulista, vol.
VII, pags. 179-201.
Numerosas são as contribuições de Barbosa Rodri-
gues para o conhecimento das linguas indigenas e, posto
que nesses escriptos só se tratasse de materiaes authenti-
cos por elle colligidos, é sem duvida um grande serviço
prestado à ethnographia do paiz. A obra mais notavel
neste sentido é a «Poranduba» e o que por minha parte
mais aprecio é a «Annotação das listas de animaes e
plantas brazileiras publicadas por Luccock». Neste es-
tudo o auctor procura adiantar a elucidação etymologica
das palavras indigenas, ou antes da lingua guarany, e
este estudo deve ser consultado por todos que se inte-
ressam pelas denominações indigenas da nossa fáuna e
flora.
No ultimo trabalho publicado pelo pranteado natu-
ralista trata elle da diminuição das aguas da região do
Rio de Janeiro. Si bem que sejam valiosos os dados
estatísticos alli publicados, discordo completamente com
Eg. Qe
o resultado principal. segundo o qual a de vastação das
mattas não teria influencia sobre a diminuição das pre-
cipitações athmosphericas. O auctor neste assumpto se
perde em theorias complicadas, procurando dar expli-
cações de caracter geral ,em vez de local, e expõe ideias
sobre o desapparecimento da agua no interior da terra,
o facto de seccarem os rios da Europa etc., que nem quanto
aos factos, nem quanto às pretendidas causas podem ser
approvadas. O resultado é sempre o mesmo quando qual-
quer auctor se perde em theorias referentes a assumptos
que são alheios à sua competencia. Póde-se dizer que, até
certo ponto, os mais eminentes representantes da bio-
logia na America meridional procederam do mesmo
modo. E” assim que R. A. Philippi e Fritz Mueller se
occuparam não só da fauna, mas tambem da flora do
paiz e Burmeister, alêm dos numerosos estudos sobre
zoologia, paleontologia e geologia, publicou tambem um
excellente volume sobre a climatologia da Republica
Argentina, Mas todos estes sabios tinham não só per-
feita competencia para taes trabalhos scientificos, mas
tambem possuiam vasta illustração fóra dos limites de
seu campo de investigação.
Não é para dar sombra ao quadro aqui esboçado
do trabalho do naturalista brazileiro que fazemos estas
considerações, mas apenas no interesse da verdade. Con-
cluida uma vida tão util, fechadas as polemicas litera-
rias e scientificas, que não lhe faltaram nesta luta que
chamamos a vida, temos o direito e a obrigação de
examinar sem prevenção os resultados de tão nobres
aspirações e esforços. E, aquilatando assim os mere-
cimentos de Barbosa Rodrigues, tambem temos de re-
lembrar os enganos a que foi levado pelas suas theorias
ousadas; mas estas em nada podem alterar o grande
valor de seu trabalho scientifico, cheio de successos e
de novas descobertas. O fallecido sabio deu novos im-
pulsos ao estudo da flora e da archeologia de seu paiz,
sendo sem duvida a figura que mais se destaca en-
tre os naturalistas que aqui nasceram. Seus trabalhos
e suas descobertas estão definitivamente incorporados
aos alicerces do edificio monumental que nos representa
a exploração scientifica do Brazil.
São Paulo, 16 de Março de 1910. x
A ARE
Relação dos trabalhos scientificos do dr,
Joao Barbosa Rodrigues.
GEOGRAPHIA E BOTANICA.
1) Enumeratio palmarum novarum quas valle
fluminis Amazonum inventas et ad sertum palmarum
collectas etc., Sebastianopolis, 1875 ;
2) Exploração e estudo do valle do Amazonas,
Rio Capim, relatorio etc., Rio de Janeiro, 1875 ;
3) Idem, Rio Tapajós, relatorio etc., Rio de Ja-
neiro, 1879 ;
4) Idem, Rio Trombetas, relatorio etc., Rio de
Janeiro, 1875 ;
0) Exploração do Rio Jamundá, relatorio etc.,
Rio de Janeiro, 1875 ;
6) Idem, dos Rios Urubu e Jatapu, relatorio etc.,
Rio de Janeiro, 1875;
7) Genera et species orchidearum novarum etc.,
Sebastianopolis, 1877 ;
8) Estudos sobre a irritabilidade de uma Dro-
sera, Rio de Janeiro, 1878 ;
9) Protesto appendice ao enumeratio palmarum
novarum, Rio de Janeiro, 1879;
10) Palmeiras do Amazonas, em «Ensaios de
Sciencia», por diversos auctores, Rio de Janeiro, 1876-
1830 ;
11) Attalea oleifera, palmeira nova descripta
etc., Revista Brazileira, Rio de Janeiro, 1881, vol. VII,
postos
12) Flora da Serra do Lenheiro, Revista de
Engenharia, 1881, supp. n. 12, p. 196;
13) Resultado botanico duma breve excursão a
S. João d'El-Rey (Minas-Geraes), Revista da Engenha-
Ha Mes 1
14) Notas de Luccock sobre a Fauna do Bra-
stl, Rio de Janeiro, 1882 ;
15) Les palmiers, observation sur la monogra-
plue de cette famille dans la Flora Brasiliensis, Rio
de Janeiro, 1882 ;
16) Genera et species orchidearum novaruin
quas collegit etc., Sebastianopolis, 1882 ;
TOR pe
17) Tetrasiylus, gen. n. ob., novo genero das
Passifloraceae, Revista de Engenharia, n. 21, 1882;
18) Orchideæ Rodeinses et altere inedite, etc.,
Revista de Engenharia, tom. II, ns. 7 e 9, 1883;
19) Structure des Orchidées, notes d'un étude,
Rio de Janeiro, 1883 ;
20) ÆEclogæ plantarum novarum, Velosia, Rio
de Janeiro. vol. I (1879) segunda edição 1891, p. 1-88;
com estampas I-XIII, vol. II, primeira série, e XXIII,
segunda série ;
21) Palme amazonenses nove, Velosia, |. c., p.
91-112 ; com estampas [-lI vol. II;
22) Genera et species orchidearum novarum,
Velosia, L c., p. 115-133 ;
23) As Heveas ou Seringueiras, Bio de Janeiro,
1900 ;
24) Plantas novas cultivadas no Jardim Bota-
nico do Rio de Janeiro, fases. I-VI, 1891-1898;
20) Hortus fluminensis ou breve noticia sobre
as plantas cultivadas no Jardim Botanico do Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, 1894 ;
26) Palmæ Mattogrossenses nove vel minus co-
gnitæ, Rio de Janeiro 1898 ;
27) Palme Mattogrossenses ou relação de plan-
tas novas, Rio de Janeiro, 1898 ;
28) Palme nove Paraguayenses, Rio de Janei-
no 189:
29) Palme Hassleriane nove, R. de Janeiro, 1900;
30) Contributions du Jardin Botanique du Rio
de Janeiro, Rio de Janeiro, vol. I, 1900, vol. !1, 1901,
vol. III, 1902 ;
31) Myrtacées du Paraguay etc., Bruxelles, 1902;
32) Sertum Palmarum Brasiliensium, Bruxelles,
190332) vols. ;
33) Les noces des palmiers, Bruxelles, 1903 ;
ARCHEOLOGIA, ETHNOGRAPHIA E ZOOLOGIA
34) Idolo amazonico achado no Rio Amazonas,
Rio de Janeiro, 1879 ;
39) Antiguidades do Amazonas, em «Ensaios de
Sciencia», Rio de Janeiro, 1876-1880 ;
— go) —
36) O Murakitan, precioso coevo de homem
anti-columbiano, Rio de Janeiro, 1882;
37) O canto e a dansa selvicola, na Revista
Brazileira, tom. IX, Rio de Janeiro, 1881, p. 32-60;
38) Lendas, crenças e superstições, na Revista
Brazileira, tom. X, 1881, pags. 24-47;
39) Catalogo dos objectos expostos na Exposiçäo
Anthropologica, Rio de Janeiro, 1882;
40) O Rio Jauapery, Pacificação dos Crichanás,
Rio de Janeiro, 1885;
41) A lingua geral do Amazonas e o Guarany,
Rev. Inst. Hist. e Geogr., Rio de Janeiro, vol. LI,
suppl. 1888, p. 73-109,
42) O Muyrakytan, estudo da origem asiatica,
da civilização do Amazonas etc., Manãos, 1889;
43) O Muyrakytan, e os 1dolos symbolicos, Rio
de Janeiro, 2 vols., 1884;
44) Revista da Exposição Anthropologica do Bra-
zil, Rio de Janeiro 1882, os seguintes artigos: a eman-
cipação dos Mauhés, p. 10, a tribu dos Mundurucus,
p. 27, 36, 49, tribu dos Tembés, p. 20, 32, 50, tribu
dos Aruaquis e Pariquis, p. 36, 61, tribu dos Ja-
sahys, p. AT, tribu dos Ticunas, p. 52, indios Conibôs,
p. 64, Extracto d'um livro inedito, p. 70, 150, tribu
dos Cauixanas, p. 72, india Ardara, p. TO, fabrico
de uma montaria, p. 88, tribu dos Uaupés, p. 96, os
Miranhans, p. 124;
45) Poranduba Amazonense, Annaes da Biblio-
theca Nacional, vol. XIV, 1890, fasc. 2, pgs. 1-534;
46) Antiguidades do Amazonas, Velosia, II, 1492,
(segunda edição), p. 1-40, com estampas, I-VIII, I-XVI,
aide, vol. AIT:
47) Les Reptiles FF de la Vallée de P Ama-
zone, Velosia II, 1392, (segunda edição), p. 41-60;
48) Historico do Museu Botanico do Amazonas,
Velosia II, 1852 (segunda edição), p. 61-124, com es-
tampa I do vol. Il;
49) Vocabulario indigena comparado para mos-
trar a adulteração das linguas, Ann. Bibl. Nac., vol.
RV, 1892, p. 1-83 ;
90) Vocabulario indigena com a orthographia
correcta, |. c. 1894, p. 1-64;
O1) L'Uiraéry ou curáre, Bruxelles, 1903;
52) Diminuição das aguas no Brazil, Relatorio
geral da II. Reunião do Congresso Scientifico Latino -
Americano, Rio de Janeiro, 1709, tom. III, livr. A, p.
153-315 ;
Foram incluidos nesta lista todos os trabalhos e
artigos scientificos que foram publicados pelo fallecido
paturalista em revistas scientificas, periodicos technicos
Ou separatim e que nos foram accessiveis,
Näo incluimos aqui, naturalmente, os manuscriptos,
e, A excepção de alguns pequenos artigos botanicos, que
se referem a especies ou generos novos, como Monos-
tychosepalum, Esembeckia fasciculata, Esterhazia, O
Tamakuaré, que näo pudémos obter, pretendemos ter
dado a primeira lista bibliographica completa deste auctor.
OS BOTOCUDOS DO RIO DOCE
PELO
DRY HERMANN VON HERE:
I. NOVAS INVESTIGAÇÕES.
O Museu Paulista cuidou nos ultimos annos da ex-
ploração scientifica do Estado do Espirito Santo e par-
ticularmente da região do Rio Doce. No anno de 1906
o sr. Ernesto Garbe, naturalista-viajante do Museu,
em companhia de seu filho Walter, fez valiosas colle.
cções zoologicas nesta região, desde a fronteira do Es-
tado de Minas até Linhares e na Lagôa Juparana.
Naquella occasião estes viajantes não entraram em re-
lações com os indios, mas em compensação o sr. Wal-
ter Garbe, nos mezes de Marco até Maio de 1909 fez
de novo varias excursões, com o proposito especial de
visitar os Botocudos. ;
Desde muitos annos não temos informações novas
sobre estes indigenas e as seguintes observações mos-
tram que foi muito conveniente preencher esta lacuna.
A monographia mais valiosa sobre os Botocudos deve-
mos ao principe Max zu Wied, referentes à sua viagem
nos annos de 1815-17. Deixando aqui de lado as com-
municações de Tschudi, Hart e outros viajantes, desejo
chamar a attenção especialmente para o importante estudo
de P. Ehrenreich, que no anno de 1884 dedicou alguns
mezes ao exame dos Botocudos do Estado do Espirito
Santo. Acontece, entretanto, que os indios visitados por
Ehrenreich, particularmente os do Rio Panca, já haviam
perdido muitos dos seus costumes antigos e entre elles
o de pôr nas orelhas e nos beiços perfurados os discos
ur =
de madeira, conhecidos por «botoques», palavra da qual
se deriva o nome pelo qual estes indios são geralmente
conhecidos. Deste modo generalizou-se a ideia de que
os ornamentos caracteristicos dos Botocudos já perten-
cessem à época passada. Isto, porem, não é exacto e,
por este e outros motivos, será de interesse registrar
aqui os dados ethnographicos que pude obter com re-
lação ao estado actual dos Botocudos do Rio Doce.
Todos estes Botocudos são nomades, que vivem na
margem septentrional do Rio Doce no tempo das aguas
baixas e se retiram do rio para o interior das mattas
na época das chuvas e da enchente, isto é nos mezes
de Novembro até Março. São tres grupos de Botocudos
que actualmente vivem nesta zona:
1) Os Minhagiruns do Rio Panca, affluente do
Rio Doce, na visinhança de Collatina ;
2) Os «Botocudos de Natividade de Manhaçú», jun-
to da barra do Rio Manhacü, na fronteira dos Estados
de Minas e Espirito Santo ;
3) Os «Botocudos de Lapa», no Estado de Minas,
que moram a uma distancia de 60-70 kls. do Manhaçu,
rio acima. - Segundo o sr. W. Garbe, o nome dos
indigenas do Manhaçú e de Lapa seria o de Gutu-krak.
São provavelmente os mesmos que Ehrenreich denomina
Takruk-krak.
Estes indios são de estatura mediana e de côr
pardo-amarellada um pouco escura. O sr. Garbe tirou
delles uma bella serie de vistas photographicas, que
em parte são reproduzidas aqui, e alêm disto nos trouxe
o craneo de uma mulher de 22 annos de edade, da
qual antes elle havia tirado o retrato e que depois, ao
passar o Rio Doce, se afogou, tendo sido inhumada em
lugar afastado.
As communicações seguintes, quando não houver
observações especiaes, referem-se aos indios do Rio
Manhacu.
%
% *
As mulheres andam completamente nuas, os ho-
mens vestem uma tanga feita de qualquer fazenda, que
receberam de presente ou em troca. Uma vez o sr.
Garbe observou um homem tirando a tanga ao banhar-
= MS
se e viu que em baixo della o apice do membro era
ligado a uma cinta de cordão. Os homens cortam os
cabellos na frente, provavelmente afim de que os mes-
mos não lhes encubram a vista, incommodando-os quando
atiram com o arco. As mulheres cortam os cabellos
na frente até a raiz; fazem isto com facão ou tesou-
ra, ao passo que, antigamente, para tal fim se serviam
de facas de taquara. As sobrancelhas não são arran-
cadas. Os homens quasi não têm barba. Os indios Mi-
nhagiruns do Rio Panca andam completamente nús,
tanto as mulheres, como os homens. O costume de
trazer botoques nas orelhas e nos beiços ainda se acha
conservado entre os Botocudos. Na tribu do Rio Ma-
nhaçü conservou-se este uso só para as mulheres, que
trazem estes ornamentos caracteristicos nos beiços e
nas orelhas, ao passo que os homens deixaram este
costume. Entre os indigenas de Lapa, os homens ainda
usam ornamentos de orelhas. Estes discos (Figs. Ge 7)
que o sr. W. Garbe nos trouxe, têm a grossura de
2 1/2 cm. e um diametro de 6 1/2—7 cm. Estes
discos são brancos e muito leves, com uma fina
perfuração no centro. Muitas vezes tiram os botoques,
quando não se julgam observados; mas o sr. Garbe
notou que os indios punham os ornamentos no seu
logar, quando o viam passar o rio ao approximar-se 4
rancharia. As mulheres ligam mais attenção ao orna-
mento do beiço do que ao das orelhas. Pouco custou
ao sr. Garbe obter das mulheres os botoques das ore-
lhas, mas não quizeram de fórma alguma dar-lhe os
do beiço ; quando, afinal, alcançou de uma mulher que
lhe désse o botoque do beiço, as outras riram-se della,
apupando-a, pelo que ella logo tirou um dos botoques
da orelha e o poz no beiço. Em uma das cabanas o
sr. Garbe viu um tronco da arvore, do qual fazem
seus enfeites. Era um pedaço de 70-80 cm. de com-
primento, bastante pesado. Só depois de algum tempo
de tratamento no rancho, pela acção da fumaça, é que
estes pedaços de madeira perdem a agua e seccam. FE?
só neste estado que a madeira é leve e apropriada para
ser trabalhada e usada. A unica tinta que usam é a
vermelha de urucú, com que pintam a cara. No corpo
mostram muitas vezes cicatrizes, o que particularmente
SN be
se nota entre as mulheres, e já sabemos, por escripto-
res antigos, que os homens punem as mulheres com
facadas quando ellas lhes são infieis. Os filhos menores
não têm o beiço perfurado, sendo só por occasiäo do
casamento que se procede a esta operação. No buraco
põe-se uma varinha, que depois é substituida por cy-
lindros mais grossos, até que o botoque mesmo caiba
e possa ser usado. Actualmente, devido às suas relações
com os brancos, os costumes antigos já foram modifica-
dos em muitos pontos, e assim já os enfeites de perolas
de metal e diversos tecidos são communs entre as
tribus do Rio Doce.
As cabanas são feitas de modo simples, com fo-
lhas de palmeiras, de uma só parede, inclinada e diri-
gida contra o lado do vento ou da chuva. E alli que
entretêm fogo acceso dia e noute. Dormem ao redor do
fogo, deitando-se no chão liso, sem mais nada o nem
mesmo cobertor não usam. Os que obtiveram fazendas
appropriadas ou saccos, aproveitam-nos para cobrir-se,
particularmente com o intuito de abrigar-se contra as
mordeduras de moscas e mosquitos. Não cuidam da
limpeza ao redor das cabanas, deixando os seus excre-
mentos a pequena distancia e riem-se quando por ven-
tura alguem pisa nelles. Cada cabana é habitada por um
casal e a rancharia consiste em 6 até 10 cabanas. A de
Manhaçú era composta de 8 cabanas, contendo uma po-
pulação de 45 pessoas. No caso de augmentar o nu-
mero de familias, uma parte da povoação separa-se do
resto, fundando uma nova rancharia em outro logar.
AO passo que as cabanas da rancharia de Manhaçú eram
feitas de folhas de coqueiros, as de Lapa eram cober-
tas com casca de arvore. Nesta ultima localidade não
foram vistos cobertores para dormir.
O nutrimento consiste em peixes e animaes obti-
dos pela caça e ainda de fructas, mel e larvas de insectos.
Quando em viagem, levam consigo pedaços compridos
d'uma certa qualidade de cipó, que, depois de torrada,
mastigam e que dizem evitar-lhes a fôme durante todo
o dia. O Snr. Garbe me trouxe uma amostra deste cipó, que
méde 6-7 mm. de diametro, é molle e ouco e não tem
gosto pronunciado. Seria de interesse obter informações
minuciosas sobre este cipó e conhecer-se a planta da
=> MD >
qual provem. O Snr. Garbe trouxe mais dous pedaços de
bambü grosso, em que transportam a agua potavel
quando estão em viagem. O maior delles, de que dou
figura (Fig. 11), tem um comprimento de 167 ctm. e
20 ctm. de grossura. O seu conteudo entre os dous in-
termedios é de 4,9 litros de agua. Por fóra é ornado
com tiras de goimbé.
Mammiferos ou aves que caçam, põem no fogo sem
preparo algum e, depois de tudo assado, tiram as
tripas, das quaes exprimem com os dedos o conteudo,
comendo-as depois tambem. O Snr. Garbe, voltando da
caça com alguns coatis, viu que o primeiro que os
Botocudos faziam era cortar-lhes as mãos, para jogal-
as no fogo e comel-as depois de pouco tempo. Não
usam sal. Comem quasi todos os animaes que obtem,
não excluindo mesmo as cobras. Os Botocudos do Ma-
nhaçú, que sempre vivem em contacto com os brazilei-
ros visinhos, possuem farinha de mandióca, que é co-
zida em uma panella de ferro. Prompto o pirão, o
distribuem em vasos especiaes, que consistem em po-
rongos ou cascas da fructa da sapucaia e que servem
de pratos; ao comer tiram a comida com os dedos.
Aboboras são assadas na cinza e o mesmo fazem com
as espigas de milho, que porem em geral são postas
encima de uma chapa de metal. Todos esses indios são
comedores insaciaveis, e 0 viajante que os visita, deve
em primeiro lugar tratar de dar-lhes comida. Só depois
da refeição poderá conseguir delles informações e ob-
jectos em permuta. Quando os homens vão à caça e
voltam com boa presa, a alegria é geral; mas quando
o homem volta sem resultado, a mulher dá-lhe uma
sóva com qualquer pedaço de cipó. O Snr. Garbe mes-
mo viu-se ameaçado pelas mulheres, que contra elle e o
seu companheiro dirigiram seus arcos e flechas, porque
elles tinham levado comsigo os maridos, que por isto
não puderam voltar logo, de modo que as familias na
sua ausencia soffreram fome; por isto fizeram sentir a
sua indignação a todos, quando voltaram.
Para a caça os Botocudos se servem exclusiva-
mente dos arcos. Estes são cylindricos ou ligeiramente
achatados na superficie exterior e feitos do cérne da
,
palmeira brejauva. O comprimento dos arcos é em ge-
M BE Le
ral de 150-160 ctm., e a grossura, no meio, de 18-20 ctm.
Nos lados os arcos são mais finos, mas antes das pon-
tas, que são conicas e de comprimento de 2 ctm., nota-se
uma intumescencia, que serve de apoio para a ansa da
corda, cuja grossura é de 3-4 mm. De interesse es-
pecial são os arcos dos caciques (: ig. 2) dos quaes o sr.
Garbe conseguiu obter dous. As extremidades são en-
feitadas, na extensão de 35-55 ctm., com fitas de goim-
bê amarellas e pardo escuras. Estas zonas alternadas
de goimbê de côres differentes são bem elaboradas e
em uma das pontas, na qual o enfeite de goimbê é
mais extenso, notam-se anneis pretos nas zonas de cor
amarela. Em um dos arcos ha, proximo à parte
central do mesmo, uma zona amarella de goimbê, com 8
anneis pretos de goimbê escuro. A outra zona de 14
ctm. do comprimento, feita de goimbê amarellado, con-
tem 3 anneis de 3-4 mm. de largura, distantes 2-3 mm.
entre si, e que consistem de pennas pretas cuidadosa-
mente aparadas. As flechas, cujo comprimento varia de
160-175 ctm., são feitas de uma taquara fina, de 10 mm.
de grossura, cujos internodios têm uma distancia de 40-58
ctm. Para ser adaptada 4 corda, a flecha tem uma in-
cisão na extremidade posterior, que é coberta, n'uma
distancia de 25 a 35 ctm., por goimbê pardo, por meio '
do qual são fixadas as pennas, uma de cada lado. Estas
pennas são de gaviões, aráras e varias outras aves
grandes. Quanto à ponta ha tres typos. No primeiro é
a mesma feita de madeira, as vezes branca ou do cérne
preto da brejaüva. Estas pontas, cujo comprimento
varia de 30 a 40 ctm., têm d'um lado fortes dentes re-
curvados e em numero variavel de 4 a 8. No segundo
typo a ponta é feita de taquara, com margem cortan-
tes, sendo a cavidade interior tingida com a côr vermelha
do urucü, o que as vezes se nota tambem nas pontas
de madeira branca. A terceira forma consiste numa
vára, que termina em 3 ou 4 ramificações cuidadosa-
mente cortadas. Estas flechas são destinadas a ferir os
animaes sem entretanto matal-os, quando os querem con-
servar vivos. À ponta de bambú é preferida para a guerra.
Actualmente estes indios não fazem grande distincção
no emprego de flechas destinadas para a caça e as de
guerra. EK’ porem notavel que as flechas dos caciques
ds ADS
(fg. 3, 4, 5), se distinguem por ornamentos caracteristi-
cos e as differentes tribus dos Botocudos conhecem o
desenho especial destas flechas. As que o Snr. Garbe
trouxe têm o enfeite correspondente ao dos arcos, na
parte da flecha comprehendida entre as duas pennas
terminaes.
Os anneis de pennas são estreitos e separados por
intervallos mais ou menos eguaes 4 largura dos anneis.
Ha flechas com 2 e outros com 3 anneis, distinctivos
dos quaes observei os seguintes typos: verde e ama-
rello, sendo o amarello o posterior ; vermelho e branco
sendo o ultimo o posterior; preto e preto; preto, ver-
melho e preto.
O Snr. Garbe viu entre estes Botocudos uma qua-
lidade de veneno, embrulhado em folhas largas, e que
affirmam ser destinado para preparar as flechas her-
vadas. Deverá ser objecto de investigações ulteriores
esclarecer este ponto, visto que atê agora nada consta
sobre o uso de curáre ou outros venenos semelhantes,
entre os indiginas do Brazil meridional e central.
As flechas servem aos Botocudos tambem para a caça
de peixes e já os meninos exercitam-se neste mister. As
flechas, de que se servem para este fim, são as mesmas
que empregam na outra caça. "Temos na nova colle-
cção um arco de menino, de 85 ctm. de comprimento
e com as respectivas flechas, de tamanho correspon-
dente, e que o Snr. Garbe só obteve a muito custo.
Da população das cidades os Botocudos recebem anzées,
e poucos objectos ha que estimem mais como pre-
sentes. Do mesmo modo obtêm machados, facas, facões
e panellas de ferro. Estes preciosos artigos de metal
são considerados mais ou menos como bem commum da
tribu e passam sem difficuldades de uma mão a outra. Ao
contrario os objectos que elles mesmos preparam para
seu uso, são respeitados como propriedade particular, e
a mulher não se desfaz de taes objectos em ausencia
do marido e tão pouco dispõem dos objectos perten-
centes aos seus filhos, quando estes não estão presentes.
Além de arcos e flechas os Botocudos não têm
outras armas. As brigas ou duellos com porretes, que
conhecemos pelas narrações do principe Wied, actual-
mente parecem não estar mais em voga. Tão pouco
Sa ie
— 45 =
observou o Snr. Garbe buzinas para dar signaes, fachos
de cèra, machados de pedra ou facas de bambü. Quanto
a instrumentos de musica ha um só, que éa flauta de
taquara. O Snr. Garbe nos trouxe 2 exemplares (Fig.
9), um de 56 ctm. de comprimento e de uma grossura
de 8 mm. e outro de 44 ctm. por 6,5 mm. A extre-
midade inferior é aberta, e a superior, que corresponde
ao internodio, tem uma pequena abertura central. No
corpo da flauta notam-se duas aberturas quadrangulares,
que ao tocar são tapadas com os dedos. Estas flautas
elles sopram com o nariz, ao qual juntam a flauta,
perto da abertura axial. Só as mulheres tocam flauta
e a melodia é muito unifórme, repetindo-se sempre a
mesma modulação, que póde ser escripta mais ou menos
da seguinte fórma:
As duas flautas que o Snr. Garbe trouxe, provêm.
de Manhaçú. Da primeira expedição o Snr. Ernesto
Garbe trouxe uma flauta (Fig. 8) dos Minhagiruns do
Rio Panca, que é um pouco mais grossa e ornada no
meio com fitas concentricas de goimbê ; as do Manhaçü
não tem este enfeite.
As dansas são monotonas. O casal se abraça pelos
hombros, olhando para o chão e a mulher nesta
occasião ds vezes traz comsigo a criança. Ao dansar
cantam, mas da mesma maneira monotona. Os Botocudos
do Rio Doce nadam bem e no tempo de calor passam
muito tempo na agua, tomando banho diversas vezes
por dia. Os homens nesta oecasiäo tiram as tangas, para
não serem incommodados. Seja dito de passagem que
a mulher, a cuja morte já me referi, não teria pere-
cido afogada no rio, si não tivesse vestido nesta occasião
uma saia que recebera de presente.
Os casamentos se practicam sem cerimonia, mas
nesta occasião executa-se a perfuração do beiço e das
orelhas. Affirmaram ao Snr. Garbe que os cadaveres de
seus mortos são queimados n'uma grande fogueira e
VAG e
que depois desta cerimonia deixam a localidade onde
se deu o acontecimento fatal. Mais de accôrdo com as
informações anteriores, é de crêr que antes se trate de
uma fogueira accesa por cima da sepultura, depois de
realizado o enterro.
Segundo declarou o Snr. Garbe existe a supersti-
ção de que as almas dos mortos, que não foram en-
terrados ou queimados, se transformam em animaes e
particularmente em onças.
As mudanças de domicilio dependem, em parte, do
tempo, visto que os Botocudos vivem na visinhança do
rio quando elle está baixo, retirando-se para o interior
na época das chuvas, nos mezes de novembro até março.
O cacique em condições normaes não tem grande
influencia nem maiores prerogativas. Quando eleito, elle
usa uma pequena corda de folhas de coqueiro, de
9,9-7,5 ctm. de altura, representada pela nossa figura
J0. Entre os indios de Manhaçú o Snr. Garbe não en-
controu este enfeite, mas obteve-o dos indios da Lapa.
Ao cacique desta ultima localidade davam o nome de
«crenac». ao passo que o capitão «tijuque» era o caci-
que de Manhaçu.
Temos na collecção o craneo bem conservado de
umo mulher de 22 annos, que é de particular interes-
se, visto que possuimos tambem a photographia da
mesma pessoa, tirada pouco tempo antes de sua mor-
te. O exemplar corresponde bem ds descripções dadas
por Lacerda e Peixoto e por Ehrenreich, de modo que
me limito a poucas palavras e à apresentação das me-
»
didas. O cranco é mesocephalo, tendo um indice de
largura e comprimento de 77,24 mm. Visto de cima,
a fórma é oval, adiante bastante estreita, e alargada
para traz, devido à proeminencia das protuberancias
parietaes. A frente é relativamente alta e os arcos
superciliares não são proeminentes. Atê um pouco
atraz da sutura coronalis, o craneo é regularmente abo-
badado, mas na metade posterior eleva-se a parte me-
diana, o que dá uma figura pentagonal ao craneo quan-
do visto por de traz. A prognathia alveolar é pro-
nunciada. Na mandibula é notavel a falta dos dentes
incisivos e a reducçäo dos alveolos, cuja parede ante-
LES AU
rior esta gasta, o que indica que, por influencia do boto-
que, cahiram os respectivos dentes.
As medidas do craneo são as seguintes :
Capacidade craneana. . . . . . . . 1325
Comprimento maximo . . . . . . . 167
Dar maxim, CS ae a se TU tye te 129
Largura frontal menor . . . . . . . 89
Alta DEA RAS re wild Sh balk ete 139
Altura ANTIGUA dans) EAST ae Lo 110
Circumferencia horizontal . . . . . . 480
Circumferencia sagittal do osso frontal . 132
Idem, idem da sutura sagittalis . . . . 151
Idem, idem do osso occipital. . . . . 114
Darmnrandas EREGH ia: TE shy ent ist jhe 105
Lara ea zy coma is cos ante. ser eee 122
Altura da face superior. . ... . . . 70
cen COM Me COM AR ay lat tani ee a a dai ta 121
PRICE AP IAB SM ra aie am Mit ai À Lente iM hy 51
AVAGO ES O SRA IN SDS TS FACE. 21
Maionslareuray orbital ide midia! a 37
Maior altura dor DIGAL Un o ess 33
Compriment FON PAlA CITRON is 50
Largura palatina . . . A AU 3
Comprimento_ do Foramen magaum. VUE 34
Largura do Foramen magnum . . . . 29
Distancia do angulo maxillar . . . . 92
AT SION do DETENTE DO
Indice de comprimento e largura . . . 77,24
II. RESULTADOS E DISCUSSÃO COMPARATIVA.
O Snr. W. Garbe teve a sorte de encontrar tribus
dos Botocudos, que conservaram os costumes antigos de
modo mais completo, do que as que Ehrenreich visitou.
E” assim, que o uso do botoque, que segundo Ehren-
reich estava quasi extincto, se pratica ainda entre as
tribus de Manhaçúu e de Lapa. Entre estes ultimos
tambem os homens se ornam ainda com botoques nas
orelhas, o que não acontece com os do Manhaçú. As
mulheres, entretanto, em ambas localidades, usam estes
enfeites.
Entre as observações novas ha uma que seria
uma innovação, isto é a incineração dos cadaveres. Tra-
tando-se entretanto só de informações indirectas, que
foram dados ao Snr. Garbe, e que não se baseiam na
observação do facto, é bem possivel que se tenha da-
EMA, AU
do algum engano. E” bem conhecida a affirmação dos
auctores anteriores, segundo a qual os cadaveres são
inhumados, accendendo-se depois encima da sepultura
uma fogueira. Outra observação do Snr. Garbe, que
carece ser confirmada, é a do uso de veneno vegetal
para as flechas. Entre os objectos da collecçäo que são
novos à sciencia, ha dous de um interesse particular :
a existencia de flautas sopradas pelo nariz e de diver-
sos distinctivos dos caciques. Com referencia às flautas
quero relembrar o que sobre o mesmo assumpto pu-
bliquei no «Globus», Bd. LXXV, n. 23, 1899, p. 375.
Os distinctivos consistem em uma pequena corôa
de folhas de palmeira, que o cicique porém só traz no
primeiro tempo depois da sua eleição, ligando depois
pouca attenção a ella, e em flechas e arcos enfeitados
por anneis estreitos de pennas de diversas côres. Ehren-
reich (1. c. p. 25) já teve conhecimento da existencia
de arcos e flechas enfeitados, sem saber entretanto que
pertenciam aos caciques. Parece que os arcos e flechas
desta ordem, que agora recebemos, são os primeiros
que foram recebidos por um museu ethnographico, vis-
to que Ehrenreich diz não tel-os encontrado no Mu-
seu Nacional do Rio de Janeiro. Foi este o motivo por-
que dei aqui a descripçäo detalhada e a figura destes
artefactos.
Todos estes indios do valle do Rio Doce já man-
têm relação amigavel com os moradores brazileiros e
delles recebem utensilios, fazendas e viveres. Só os
Minhagiruns andam completamente nús; as outras tri-
bus vestem uma pequena tanga, mas, singularmente, só
no sexo masculino, ao passo que as mulheres em ge-
ral continuam a andar nuas.
E? deste modo que successivamente os habitos e
as industrias proprias se perdem cada vez mais. Fa-
chos de cêra e facas de bambu, que Ehrenreich obser-
vou em 1884 entre os Botocudos, hoje já não são
mais usados. Em vez de servirem-se de facas de bam-
bú para cortar os cabellos, usam de facas ou tesouras,
que receberam em permuta. Muito mais surprehendente
é o contraste entrea cultura actual e passada dos Boto-
cudos do Espirito Santo, quando comparamos as condi-
ções actuaes aqui esboçadas com a cultura primitiva,
ADN EN
qual ella nos é conhecida pela excellente descri-
pção dada pelo principe Wied e que se refere aos
annos de 1815-17. Naquella época os Botocudos ainda
usavam machados de pedra, os homens traziam no
membro uma pequena bainha tecida de folhas de pal-
meira e as mulheres atavam cordões de côr preta ao
redor do pulso, dos tronozelos e embaixo dos joelhos ;
enfeites de pennas ainda eram frequentes, usados par-
ticularmente pelos caciques e o cannibalismo estava
ainda em voga. Todos estes habitos desde aquelle tem-
po se perderam, como tambem o costume de duellos
com porretes praticado entre diversas tribus.
Seria de grande interesse conhecer a cultura pri-
mitivas destes indigenas, ao tempo da descoberta; mas
os escriptores antigos, como de costume, não nos dão
informações exactas. E’ um acaso singular que tres
escriptores antigos, quasi do mesmo tempo (de 1576-
1590), nos informaram sobre os Botocudos, que deno-
minavam Aimorés ou Gaimorés. Refiro-me ao Tra-
tado descriptivo do Brazil em 1587 de Gabriel Soares
de Souza, (Rev. Inst. Hist., Rio de Janeiro, XIV, 2.º
ed. 1879, p. 47), à Historia da Provincia de Santa :
Cruz, por Pero de Magalhães Gandavo (ibidem, XXI,
1858, p. 424) e ao estudo «Pr.ncipio e Origem dos
Indios do Brazil» publicado mais ou menos em 1584
por um Anonymo (ibidem, LVII, p. 208). Todos es-
tes auctores affirmam que os Aimorês são crueis, an-
thropophagos, que não têm roças e não sabem nadar;
mas nenhum delles menciona o habito mais caracte-
ristico, isto é o de enfeite de bodoques. Tal era o
susto que estes selvicolas causavam aos moradores do
littoral, que se não os conhecia de vista. Resta averi-
guar em que data começou. a ser empregada a pala-
vra Botocudos.
As observações, que actualmente possuimos da suc-
cessiva modificação dos costumes dos Botocudos, ou an-
tes, de sua degeneração, sob a influencia do contacto
com os brancos, nos obrigam a proceder com prudencia
quando procuramos conhecer a posição ethnographica
destes indios. O revestimento do membro viril tal qual
foi figurado pelo principe Wied ainda hoje é usado
pelos Cayapôs do Rio Araguaya e, si aquelles indios e
ogg del
os Carajás parecem à primeira vista bastante differentes,
por causa de sua habilidade do fabrico de bellos arte-
factos ornamentados com pennas, temos de lembrar-nos
que o principe Wied em varios lugares de sua viagem
(vol. Il, p. 12 e 13.) se refere a enfeites de pennas,
feitos e usados pelos Botocudos do Rio Doce. O mesmo
vale para o uso das flautas de taquara sopradas pelo
nariz, visto que este costume foi observado tambem en-
tre outros indios do grupo dos Gès, isto é os Coroados
(Caingangs).
EK’ verdade que os botoques enormes, que servem de
enfeite para os beigos e orelhas, representam uma par-
ticularidade caracteristica dos Botocudos, mas enfeites
de madeira ou de pedra, trazidos em orelhas e beigos
periuradôs eram extremamente communs entre os indios
do Brazil, seja da familia dos Tupis, seja da dos Ta-
puyas. Tudo isto contribue a diminuir a differença
entre os Botocudos e os outros povos Gês do Brazil.
Estes Tapuyas são os antigos donos do Brazil. Se-
guiu-se a invasão dos Tupis no Norte e dos Guaranys
no Sul do paiz, povos estes que, partindo ambos da Bo-
livia e das regiões vizinhas, chegaram afinal por migrações
differentes ao litoral do Brazil, encontrando-se de novo
no Estado de São Paulo. E com estes ultimos indios que
os Portuguezes e os Padres entravam por toda parte em
contacto, de modo que a seu respeito, sobre seus habitos
e sua lingua «tupy-guarany» estamos bem informados.
A parte mais fraca da ethnographia do Brazil central
e meridional é o conhecimento dos Tapuyas, e ao es-
tudo de sua cultura, lingua e historia devem ser diri-
gidos de preferencia as investigações futuras.
EXPLICAÇÃO DA ESTAMPA II
(Todas as figuras têm ‘/10,7 do tamanho natural)
Fig. 1. Pedaço de bambü grosso, em que os Bo-
tocudos transportam a agua potavel, quando estão em
viagem.
Elite
Fig. 2. Arco de um cacique, com enfeite de an-
neis de pennas cortadas.
Fig. 3. Flecha de caça de um cacique, com o
mesmo enfeite.
Fig. 4. Flecha de guerra de um cacique, com o
mesmo enfeite.
Fig. 5. Flecha de um cacique, para atordoar ani-
maes, com o mesmo enfeite.
Pagu Gurr. Botoques.
Fig. 8. Flauta dos Minhagiruns.
Fig. 4. Flauta dos Botocudos do Manhaçu.
Fig, 10. Gorôa de cacique.
Fig. 11, 12. sacólas para a caça.
Descripção de um novo genero 6 uma nova
especie de Coccidas
POR
ADO L PERO MERENE EI
ENTOMOLOGISTA DO INSTITUTO AGRONOMICO DE CAMPINAS
ESTADO DE SÃO PAULO
Lachnodiella novo genero. Corpo molle, he-
mispherico e oval, com dous pares de glandulas especiaes
no lado inferior, sendo um par perto da extremidade
anterior, entre as antennas e o primeiro par de pernas,
e o outro perto da margem posterior, e pouco distante
do lado do orifício anal. Antennas com seis articulações.
Typo Lachnodrella cecropiæ n. sp.
Lachnodiella cecropiæ n. sp. À femea adulta
tem o corpo hemispherico, oval, um pouco mais estreito na
extremidade anterior que na posterior. A côr, nos
exemplares novos, é amarella, e nos mais velhos é parda.
A derme é molle, sendo todo coberta com um pó fino
e branco, tendo na margem lateral tambem uma franja
branca e estreita. O corpo tem 3 mm. de comprimento,
2.50 mm. de largura e 1.25 mm. de altura.
As antennas têm 228 mim. a 245 mim. de compri-
mento, e são de 6 articulações, com a formula appro-
ximada de 613254, tendo as articulações os seguintes
comprimentos: (1), 44; (2), 36; (3), 39;(4), 21 ; (9),
Bi (0), (0:
As pernas säo curtas, com as unhas pequenas e
pouco curvadas, tendo as articulagdes do primeiro par
as seguintes dimensões; coxa 97.0: femur com tro-
chanter 208: tibia 84.5: tarso 65: unha 32.0: sendo
— ES 2
estas medições e as das articulações das antennas, em
micromillimetros. Não foram encontrados digitulos, nem
no tarso nem na unha.
O rostro está situado entre as antennas e o primeiro
par de pernas, extendendo o laço rostral até o segundo
par do pernas. O annel do anus tem 50 ou mais pellos
grandes. A derme molle tem, ro lado superior, muitos
pellcs pequenos e, no lado inferior, muitas pequenas glan-
dulas redondas. Ha ainda dous pares de glandulas grandes,
sendo um par perto da margem anterior, entre as an-
tennas e o primeiro par de pernas, e o segundo par
perto da margem posterior. A abertura destas glandu-
las é elliptica e compõe-se de dous labios curvados e
chitinosos, cada um de 60 micromillimetros de com-
primento, sendo ainda circundada por cerca de 200 pe-
quenas glandulas redondas. O ponto dos olhos persiste
no adulto. A margem lateral é circundada por uma fi-
leira dupla de pequenos espinhos grossos, curtos e
pontudos, tendo os tuberculos anaes cerca de 19 destes
espinhos e mais um pello grosso e comprido.
Hab.: S. Paulo e Campinas, no interior dos troncos
da embaúva, Cecropia adenopus Mart. Primeiramente
encontrada em S. Paulo, pelo Dr. H. v. Ihering.
Aufzaehluné von Coccinellen aus dem
Museu Paulista
VON
EE ES de)
Unter den Coleopteren stehen die Coccinelliden in
Bezug auf den Nutzen, den sie dem Menschen gewaehren,
unstreitig an erster Stelle. Sie saeubern die jungen Triebe
der Nadelhoelzer und der Laubbaeume im Walde, die
Treibhaeuser des Gaertners, die Rosenzuechtereien,
Baumschulen und Obstplantagen, die Blumen-und Ge-
muesebeete, kurz alle erdenklichen Pflanzenkulturen von
ihren schlimmsten Feinden, den Blattlaeusen und Spinn-
milben. Dazu lassen sie sich ohne Nachteil weithin
verschicken, buergern sich leicht ein, und koennen ohne
viele Muehe aufgezogen werden. Es ist daher meiner
Meinung nach nur der Unkenntnis oder Traegheit vieler
Menschen zuzuschreiben, wenn sie sich die Coccinelli-
den nicht in dem Masse nutzbar machen, wie man er-
warten sollte. Erst in neuerer Zeit sind weitere Kreise
auf diese unsere Freunde aufmerksam geworden, nach-
dem der intellegente Koebele Coccinelliden von Aus-
tralien nach Kalifornien brachte, welche sich in kurzer
Zeit so vermehrten, das die dortigen Orangenkulturen
radikal gereinigt wurden, die sonst durch Blattlaeuse
dem Untergange geweiht waren. Nach Koebeles Bei-
spiel hat gewiss auch Herr Professor Silvestri in Portici
(Napoli) Ende vorigen Jahres den lobenswerten Ver-
such gemacht, nordamerikanische und mexikanische Coc-
cinellen lebend in Italien einzufuehren, um sie dort an-
zusiedeln. Wir sehen den Ergebnissen mit Spannung
entgegen und wuenschen besten Erfolg.
dar o PARU
Ich moechte mir nun an dieser Stelle erlauben, den
brasilianischen Coleopterologen die dringende Bitte aus-
zusprechen, in naechster Zeit sich dem Sammeln und
der Beobochtung ihrer einheimischen Marienkaefer mit
Eifer widmen zu wollen; es wuerde nicht nur die Land-
und Forstwirtschaft eventuell manchen Nutzen daraus
ziehen, sondern auch unsere Kenntniss der dortigen For-
men, die seit dem Jahre 1851, in dem Mulsant's grosses
Werk «Species des Coll. Trimêres Sécuripalpes» er-
schien, auf demselben Flecke stehen geblieben ist, einen
erfreulichen Schritt vorwaerts tun. Ganze Gruppen bra-
silianischer Coccinellen sind uns heute so gut wie un-
bekannt. Ich erinnere nur an die Discotominen, nament-
lich die Gattungen Seladia, Pristonema, Micaria, die
in Brasilien in vielen praechtig und ganz apart gezeich-
neten Formen auftreten, die fuer hoechst selten (1)
gelten, weil sie in den groessten Sammlungen der Erde
immer nur durch einzelne Stuecke repraesentiert werden.
Die Einrichtung ihrer Copulationsorgane kennt niemand.
Andere Gruppen, z. B. die Hyperaspinen und Scymni-
nen sind aus Mulsant's Beschreibungen, deren Schwer-
punkt der damaligen Zeit entsprechend ausschliesslich |
die Faerbung bildete, nur unter der Grundlage eines
grossen Materiales wieder zu erkennen, weil Mulsant
von der abweichenden Zeichnung der beiden Geschlech-
ter vieler Arten noch keine Kenntniss hatte. Es fehlt
uns jede Beobachtung ueber die Lebensweise und Ent-
wickelung der Discotominen und der meisten Hyperas-
pinen. Hier ist also fuer unsere brasilianischen Kolle-
gen ein weites Feld offen, auf dem sich schoene Er-
folge erringen lassen.
Augenblicklich enthaelt das Museu Paulista in Säo
Paulo nur einen kleinen Stamm von Arten, der sich
aber durch eingehendes Sammeln mit dem Kaescher in
einigen Jahren leicht vervierfachen laesst. Die mir vom
Direktor Herrn von Ihering uebersandten Tiere sind
folgende :
_(1) Seltene Coccinelliden giebt es nicht; alle Arten treten
‘gleich massenhaft auf und die als selten angesehenen sind nur
von den Sammlern ungenuegend beachtet worden.
EL A os
1) Solanophilu humeraiis Latr. Campos do Jordão
(Estado de São Paulo, Il und III, 1906). 2 Exem-
plare, die einen Uebergang zur ab. cincta Ws.
bilden.
2) Solanophila paenulata Ger. Jundiahy (E. de São
Paulo). Alle Makeln der Fluegeldecken lederbraun.
3) Solanophila spreta Muls. Ilha de São Sebastião (Es-
tado de São Paulo, 1906).
4) Solanophila clandestina, São Paulo, 1904. (”).
o) Solanophila cacica Guër. tranca (Estado de S.
Paulo, VIII 1903).
6) Solanophila concolor Muls. Jundiahy (Estado de
S. Paulo).
7) Epilachna obscurocincta Muls. S. Paulo, 1905.
8) Coccinella pulchella Muls. Estado de S. Paulo.
9) Psyllobora hybrida Muls. Rio Grande (Estado de
S. Paulo).
10) Seladia eugeniae Muls. Ypiranga (Estado de Paulo,
14, IX, 1897).
Jede Fluegeldecke besitzt zwei Querreihen von drei
weissen Flecken, welche bald voellig frei, bald mehr
oder weniger breit der Quere nach verbuden sind. Der
uebrige Teil der Fluegeldecken ist einfarbig schwarz,
oder an der Spitze rot (hier oft mit einer dunklen Ma-
kel besetzt), zuletzt voellig rot. In diesem Falle sind
die weissen Makeln schwarz gesaeumt. Kopf und Thorax
sind einfarbig rotgelb, oder auf letzterem zwei schwarze
Punkte, welche doppelt so weit von einander entfernt
sind, als jede einzelne vom Seitenrande.
Kin sicheres Urteil ueber die Arten, welche Crotch,
Revis. p. 305 unter Sel. bicincta vereinigte, laesst sich
erst bei groesserem Materiale gewinnen; doch moechte
ich schon heute darauf hinweisen, dass die Mittelmakel
der zweiten Querreihe bei S. eugenzae weiter nach hinten
gerueckt ist, als bei S. fastuosa, waehrend bei dieser wieder
(*) O Snr. H. Luederwaldt observou que a larva desta es-
pecie se alimenta das folhas da Abobora (Cucurbita pepo) e do
Chúchú (Sechium edule), sem entretanto causar verdadeiro damno,
N. da R.
LP GERS
die aeussere Makel der Vorderreihe so weit nach hinten
liegt, dass sie ungefaehr mit ihren letzten 3/4 hinter die
beiden inneren Makeln reicht. Diese sehr verschiedene
Lage der weissen Flecke scheint gegen eine Vereini-
gurg zu sprechen.
11) Hyperaspis (Cleothera) glyphica Muls. Brazil.
12) Hyperaspis (Cleothera) iheringi : n. sp. ova-
« lis, convexa nigra, supra sat nitida, limbo angus-
« to laterali prothoracis elytrisque flavis, his mar-
« gine laterali limboque saturali antice valde—,
« postice paullo dilatato, etin singulo maculis dua-
« bus (1, 1) nigris.—Long. 4 mm. Ypiranga (Es-
« tado de S. Paulo, 14. IX, 1897, et X, 1906).
« Mas: capite flavo, pedibus fulvis, femoribus pos-
« ticis (apice excepto) nigris.
« Femina: femoribus nigris, apice, tibiis tarsisque
« fulvis».
Groesser als die aehnlich gefaerbte Cl. loricata
Muls. und von dieser schon durch die zweimal erwei-
terte Nahtbinde und die Form der Makeln jeder Flue-
geldecke leicht zu unterscheiden. Der gelbe Seitensaum
des Thorax ist ziemlich schmal, beim @ am Vorder-
rande noch saumfoermig bis zur Mitte jedes Auges
verlaengert, das & hat einen durchgehenden gelben
Vorderrandsaum. Die schwarze Nahtbinde der Fluegel-
decken beginnt neben der Mitte des Schildchens, erwei-
teri sich schnell bis zur groessten Breite ungefaehr in
1/4 Laenge und verengt sich aehnlich wieder vor der
Mitte; zum zweiten Male erweitert sie sich weit ge-
ringer in 3/4 Laenge. Die vordere Erweiterung hat
ungef-ehr die Form einer grossen, ovalen Laengsmakel.
Der erste schwarze Fleck jeder Fluegeldecke ist etwas
laenger als breit, gerundet dreieckig, die verrundete
Spitze liegt wenig nach vorn und aussen vom Schul-
terhoecker, der ziemlich geradlinige Hinterrand (oder
die Basis des Dreiecks) liegt in der Richtung auf die
Stelle, in der die Verengung der vorderen Nahtmakel
beginnt. Die zweite Makel, hinter der Mitte, ist ge-
rundet, ihr Innenrand aber geradlinig, schraeg von vorn
nach hinten und innen gerichtet, so dass die hintere
Aussenecke der Makel eine scharfe Spitze bildet, die
das Bestreben zeigt, sich mit der zweiten Erweiterung
der Nahtbinde zu vereinigen.
R
IE PUS
Kopf und Thorax sind zart gewirkt und dicht und
sehr tein punktuliert; etwas geringer glänzen die Flü-
geldecken, da sie aeusserst verloschen gewirkt und sehr
dicht punktiert sind. Die Punkte sind nicht besonders
klein, aber sehr flach. Das 9 hat die normalen 6,
das &' 7 Bauchringe, von letzteren sind der 6,° und 7.º
leicht quer vertieft.
Diese huebsche, und gut wiederzuerkennende Art
erlaube ich mir, Herrn Dr. Hermann von Ihering zu
widmen.
13) fyperaspis (Cleothera) scapulata Muls. Opusc. Ent.
1593, p. 81. — H. mercabilis Muls. 1. c. p. 98.
Campo Itatiaya (Estado do Rio de Janeiro, 13, V,
1906),Campos do Jordão (Estado de São Paulo,
RITO:
Diese Art ist kenntlich an der Makel 2 jeder Flue-
geldecke, welche einen weisslich gelben, feinen Saum
von der Schulterecke bis zur Mitte bildet und sich hier
in der Regel mit der stumpf dreieckigen Makel 4 ve-
reinigt. Die erste Makel bildet ein halbes Queroval an
der Basis, die dritte ein Oval, welches wenig schraeg
nach hinten und innen gerichtet ist. Makel 5 ist quer
dreieckig, mit abgerundeten Ecken. Die Vorderschie-
nen sind breit, unbewehrt.
Von diesem Tiere sind die Exemplare aus Tucuman,
die ich in der Revista del Museo de La Plata 1906
p. 229 auf H. scapulata bezog, sehr verschieden. Sie sind
durchschnitthch kleiner, zwar sehr aehnlich gefaerbt
und gezeichnet, aber Makel 3 ist viel schmaler und
laenger, mehr strichfoermig, noch weniger schraeg
gestellt; die Vorderschienen sind ziemlich schlank, mit
feinen und kurzen Zaehnchen vor der Mitte am Aus-
senrande. Nach diesen leicht zu uebersehenden Zaehn-
chen muss die Art zu Brachyacantha gestellt werden,
und ich lege ihr den Namen Br. tucumanensis
n. sp. bei.
14) Hyperaspis (Cleothera) 5-notata Muls. Ypiranga
(Estado de São Paulo 1954).
15) Hyperaspis (Cleotera) gaynoni Muls. São Paulo,
1904.
16) Hyperaspis festiva Muls. Pouso Alegre (Estado
de Minas Geraes).
EN Li
17) Hinda modesta: n. sp. 4 Subtus testacee, pecto-
«re nigricante, pedibus, capite prathoraceque flavo-
«albidis, hoc macnla basali bifida nigra, scutello ely-
«trisque nigris, his subtilissime punctatis, in singulo
«maculis quinque flavo-albidis, 2,2, 1, collocatis.
«Long. 2,8-3mm.Itapura (Estado de São Paulo, 1904).
«2 Pectore basique ventrali nigricantibus, protho-
«race nigro, limbo laterali lato flavo-albido, elytris
«maculis quatuor flavo-albidis : 1,2,1.»
Die vorliegende Hinda aehnelt verschiedenen Cleo-
thera-Arten, ist aber durch drei Merkmale ausgezei-
chnet : I. der Kopf des 9 ist ebenfalls gellich-weiss,
wie beim d'; II. die zweispilzige schwarze Basalmakel
auf dem Thorax dehnt sich beim © ueber den Tho-
rax aus, von dem nur ein breites Seitenband hell bleibt ;
HI. dem © fehlt die helle Humeralm-keljeder Fluegel-
decke. H. humerata Muls. ist groesser, mit breiteren,
am Aussenrande staerker gezaehnelten Vorderschienen.
Gerundet eifoermig, unterseits roetlich gelbbraun,
die Hinterbrust ganz oder wenigstens in der Mitte
schwarz, beim © auch noch die beiden ersten Bauch-
segmente, mit Ausnahme der Seiten. Der Kopf rebst
dem Munde, die fuehler und Beine sind weisslich gelb.
Stirn dicht, aber aeusserst fein punktiert, aehnlich auch
der Thorax. Letzterer verschmaelert sich von den Hin-
terecken aus fast geradlinig nach vorn ; er hat beim d
an der Basis einen wenig breiten, schwarzen Saum,
welcher ungefaehr 2/3 der Basis bedeckt und nach vorn
in zwei dreieckige Spitzen ausgezogen ist. Diese rei-
chen etwas ueber die Mitte nach vorn und sind durch
eine mehr oder weniger breite, helle Mittellinie geschie-
den. Zuweilen hoert jedoch die Trennung auf, und es
entsteht dann ein grosser, schwarzer Fleck bis vor die
Mitte, der sich nach vorn stark verengt und hier aus-
gerandet oder abgestutzt ist. Beim Weibchen ist die
Scheibe schwarz, an den Seiten liegt ein breiter gelber
Saum, welcher sich hinter der Mitte allmaehlich etwas
verengt. Schildchen schwarz, beim & zuweilenin der
Mitte rotbraun. Von den weisslich gelben Makeln der
Fluegeldecken sind 1, 3 und 4 rund, ziemilich gross, 3
und 4 bilden mit den entsprechenden Makeln der an-
deren Decke eine ziemlich gerade, bis stark nach hinten
Sg RU
gebogene Querreihe, was ganz von der Groesse des
dritten Makels abhaengt. Makel 5 in der Spitze ist
quer, fast immer groesser als eine der andern, nach
aussen gewoehnlich verschmaelert, oval, oder am Vor-
derrande im Bogen ausgerandet, und dann die innere
Vorderecke spitz und leicht ausgezogen. Makel 2 ist
die kleinste; sie liegt unterhalb der Schulterbeule in
der Schulterecke, ist annaehernd viereckig, na h hinten
etwas verengt, laenger als breit; si: fehlt dem 9. Der
Aussenrand der Vorderschienen ist sehr fein gezaehnelt
und hat einen aeusserst flachen Ausschnitt in der Spit-
zenhaelfte.
Diese Art ist weit verbreitet; mir liegen noch
Stuecke aus Cayenne (Heyne), von Amazonas und von
Mapim in Bolivia (Staudinger) vor.
18) Exochomus bimaculosus Muls. Estado de São Paulo.
19) Curinus coeruleus Muls, São del
20) Zenoria delicatula n. sp. : Subrotundata, con-
« vexiuscula, flavo-albida, griseo pilosa, crebre
« subtilissima punctulata, elytris dense evidenter
« punctatis, macula maxima, communi nigra si-
« gnatis, unguiculis anterioribus bifidis, posticis
« appendiculatis. —Long. 4 mm.»
Etwas groesser als Z. discordalis Kirsch. (1), leb-
hafter gefaerbt, die Fluegeldecken staerker punktiert,
mit kleinerer schwarzer Diskoidalmakel, die den Ba-
sallappen des Thorax nicht beruehrt.
Der Koerper ist gerundet, und nur maessig ge-
woelbt, blass gelblich weiss und weisslich behaart.
Die Haerchen sind fein und ziemlich kurz, auf der
Unterseite anliegend, auf der Stirn und dem Thorax ge-
neigt, auf den Fluegeldecken laenger aufstehend. Die
(1) Kirsch hat in der Arbeit ueber peruanischs Coccinel-
len (Deutsch. Zeitschr.. 1876, 117-132), neben die Gattungen
gegriffen. Seine Zenoria peruviana p. 125 ist Pseudoladoria si-
mulans Crotch und Siola discoidalis p. 127, die ich von Itai-
tuba (Amazonas) besitze, ist eine echte Zenoria, mit ganzen
Bauchlinien, welche sich ziemlich bis an den Hinterrand des
1. Segmentes erstrecken, dann ploetzlich umbiegen und nun
mit den Seiten fast parallel zum Vorderrande laufen. Cleothera
pardalis Kirsch 1. c. p. 122 ist mit Cl. caroline identisch.
LD TE A
Hinterbrust ist gebraeunt, eine gemeinschaftliche Ma-
kel der Fluegeldecken, welche den grcessten Teil der
Scheibe einnimmt, rein schwarz. Schildchen glatt,
schwarz, ein kleiner Fleck an der Basis roetlich gelb.
Kopf und Thorax sind dicht und aeusserst fein punk-
tiert. Die Fluegeldecken dicht und ziemlich kräftig
punktiert. Ihre Scheibenmakel umfasst gerade das
Schildchen, erweitert sich schnell und ist hinten aeha-
lich verengt. Sie bedeckt in der Mitte der Fluegel-
decken etwas mehr als die innere Haelfte. Der Sei-
tenrand der Fluegeldecken hat den fuer die Gattung
charakteristischen langen und sehr flachen Ausschnitt
nahe der Mitte, an dem die Epipleuren beulenartig auf-
getrieben sind. Die Klauen an den 4 Vorderbeinen
sind gespalten, der innere Dorn unbedeutend kuerzer,
als der aeussere. Die Hinterklauen haben einen Ba-
salzahn.
21) Exoplectra miniata Germ. Minas Geraes.
22) Poria cyanea Muls. Franca (Estado de S. Paulo.
RESUMO
Enumeração de Coccinellidas (Coleopt.) de Museu Paulista
E MELSE
«Entre os coleopteros, que de qualquer modo se
tornam uteis ao homem, as Coccinellidas, vulgarmente
chamadas Vacquinhas, occupam sem duvida o primeiro
lugar. Ellas limpam os brotos novos das arvores do
matto e das plantas das estufas, das culturas de rosas,
dos hortos de pomo-cultura, dos canteiros de flores e
de verdura, emfim de toda sorte de plantas cultivadas,
dando caça aos seus peiores inimigos, que são as Coc-
cidas e Acaridas (Tetrachidæ).
Além disto são insectos que pódem ser remmettidos
com facilidade para grandes distancias e que se acli-
matam sem difficuldade e sem exigir grandes cuidados.
ek GD Wel
Per isto só se pode attribuir à falta de conhecimento
ou à indolencia, o facto de não se ter ainda utilizado as
Coccinellidas em tão larga escala como era de esperar. Só
nos ultimos tempos estes nossos amigos tem merecido
maior attenção, depois que o intelligente naturalista Koe-
bele, importou Coccinellidas australianas na California,
onde estes besouros em pouco tempo se prapagaram de tal
forma, que os laranjaes foram inteiramente limpos das
Coccidas, praga esta de que elles se alimentam e que do
contrario teria devastado inteiramente os pomares. Foi cer-
tamento segundo o exemplo de Koebele que o snr. Prof.
F. Silvestri da Real Escola Superior de Agricultura de
Portici (Napoles) fez, em fins do anno passado, o louvavel
ensaio de introduzir Goccinellidas norte-americanas e me-
xicanas na Italia, para acclimatal-as ahi, como insectos,
protectores ae varias culturas. Aguardamos anciosamente
o resultado, desejando o melhor exito.
Seja-me permittido dirigir aqui um appello aos
coleopterologos brazileiros para que dediquem especial
attenção à collecta e observação biologica das «Va-
cquinhas» de seu paiz.
Os resultados de tal trabalho serão não só de re-
levante utilidade para a agricultura e sylvicultura, mas
tambem o nosso conhecimento scientifico teria muito a
lucrar, o que seria tanto mais desejavel em vista de
não se ter feito progresso nenhum neste estudo, desde a
publicação da grande obra de Mulsant «Espéces des
Col. Triméres Securipalpes» em 1851.
Ha grupos completos de Coccinellidas brazileiras,
que airda hoje nos são por assim dizer desconhecidos.
Lembro tão sômente os Discotomince, especialmente os
generos Seladia, Pristonema, Micaria, que são repre-
sentadas no Brazil por muitas especies lindissimas e de
desenho todo peculiar e que são tidas como rarissimas (9),
porque em todas as collecçües do mundo ellas não figu-
ram senão em poucos exemplares. Ninguem lhes des-
(*) Não ha Coccinellidas verdadeiramenta raras; todas ‘as
especies apparecem em maior quantidade e são tidas muitas vezes
como raras tão sómente porque os cclleccionadores não as tem
precurado mais attentamente.
UE gues
creveu ainda os orgäos copuladores, sempre caracteris-
ticos nesta familia. Outros grupos, como por exemplo
os Hyperaspinæ e Scymninæ sô podem ser discriptos
quando se tiver abundante material à disposição, visto
como as descripções de Mulsant se baseam, como então
era uso geral, principalmente no colorido, sem que o
auctor tivesse conhecimento de que este mesmo colorido
varia na mesma especie, segundo 0 sexo.
Ainda não temos observação alguma sobre a bio-
logia e o desenvolvimento dos Discotominoe e da maior
parte dos Hyperaspine.
Tudo isto offerece um vasto campo de actividade
para nossos collegas brazileiros, que com taes estudos
podem alcançar bello successo».
O auctor, especialista dos mais competentes, passa
a enumerar as especies de Coccinellidas que lhe foram
enviadas do Museu Paulista para fins de classificação.
Das 22 especies que enumera, 3 são novas para a
sciencia : Hyperaspis (Cleothera) iheringi, Hinda mo-
desta e Zenoria delicatula; a uma outra especie, da
Argentina, geralmente confundida com Hyperaspis sca-
pulata, mas que de facto pertence ao genero Brachya-
cantha, dá o novo nome de Br. tucumanensis; final-
mente a respeito de varias outras commenta e rectifica
as descripções dos auctores anteriores.
Quelques nouveaux Céropalides (Hymenopt.)
du Musée de São Paulo
PAR
JEAN BRÉTHES
(Du Museo Nacional de Buenos Aires)
Le Mr. R. von Ihering ayant eu l’amabilité de
m'adresser une petite collection de Céropalides apparte-
nant au Musée de São Paulo, j'y ai trouvé quelques
espèces nouvelles dont suit la description. Je prie les
Mrs. H. et R. von Ihering d'accepter mes meilleurs
remerciements, tant pour cette communication comme
par toutes celles qu’ils me font quand je leur en mani-
feste le désir.
1. Pompilus primarius, 7. sp.
(9° Gr. Kohl; 1884)
& Niger, abdomine segmento primo utrinque
flavo-notato, segmentis 3-6 apice fuscis, clypeo fronte,
coxis pedibusque griseo-puberulis, segmento mediano
dimidio postico argenteo-subaureo villoso et sparce
piloso, ales fuscis, tertio basalt via hyalino. Long.
corp. : vic 10 mm.; Alae: 10 min.
Le clypéus est légèrement convexe, tronqué en
avant et légèrement arrondi aux angles antérieurs. Le
front et le vertex se suivent sans impression qui les
sépare. Les ocelles en triangle transverse. Les yeux
ont leur bord interne parallèle et à peine convergent vers
le vertex. Les antennes ont le 2º article du funicule
un peu plus long que le scape et égalant à peu près
tes ae
la moitié de la distance oculaire. Le prothorax s’avance
en pente douce et son bord postérieur est arqué.
L’écusson est comprimé et porte comme deux fos-
settes latérales. Le segment médiaire est convexe, sans
stries ni impression d'aucune sorte, le bord supérieur
tombe suavement au postérieur sans aucune limite.
L’abdomen est subpétiolé, assez plat en dessus et plus
convexe en dessous.
Les ailes sont normales : la medio-discoïdale est
placée très peu avant (presque intersticielle) la mar-
gino-discoïdale. La 2° cellule cubitale est en rectangle
irrégulier: son bord radial un peu plus court que
l'opposé, son bord antérieur fortement convexe vers la
base de Paile. La 3: cellule cubitale a un bord radial
égal à la moitié de celui de la 2º celiule cubitale, son
bord cubital égal à celui de la 2º cubitale et son bord
externe légérement convexe, presque droit.
Aux ailes inférieures la cellule anale termine avec
la naissance de la veine cubitale. Les pattes sont grêles.
Les éperons internes des pattes postérieures sont un peu
plus longs que le protarse antérieur. Les tibias posté-
rieurs portent 3 (4) épines sur leur bord postérieur,
4 (5) au bord supéro-externe et 2 (3) au bord inféro-.
externe. Les ongles sont bifides.
1 4 de Jundiahy, Est. S. Paulo.
2%. Pompilus theringi 11. sp.
Q Viridis, antennis nigris, als fuscis, viclaceo-
mtentibus, unguibus dentatis. Long. corp. : 18 mm. ;
Alae : 18 mm.
Cette espèce est certainement voisine de P. ame-
thystinus Tasch. et P. spinolae Kohl.
De la premiêre (dont elle est plus voisine), elle pos-
sède le clypéus émarginê au milieu en arc de cercle
prononcé, la proportion des articles du funicule 2 et 3,
le pronotum anguleux derrière, le segment médiaire
avec une légère ligne imprimée sur la partie supé-
rieure et la partie postérieure légèrement excavée, sans
aucune strie, les peignes tarsaux, les ongles unidentés,
mais les pieds ne sont point du tout «beborstet» et le
CAR pa
6° segment ventral est uniformément poilu, sans trace
visible de quille médiane.
1 9 de Campinas, Est. S. Paulo.
3. Salius gracilicornis n. sp.
d niger, paulum cyaneus, alis ferrugineis late
enfumatulo-limbatis. Log.corp.: 16 mm.; Alae: 13
mm. Antennae: + 13 mm.
De tous les Salius sudaméricains à ailes ferrugi-
neuses, abdomen nois ou bleuâtre, thorax non marqué
de taches soyeuses dorées on argentêes et antennes com-
plétement noires, on ne connait que 3 espèces: le 8,
angustithoras Tasch. du Mexique, le S. notatipennis
Fox, et l'espèce actuelle. En comparant les descriptions,
on voit tout de suit que le S. gracilicornis n’a rien à
voir avec les deux espèces citées. D’un autre côté l’im-
pression transversale du 2.º segment abdominal est pres-
que nulle, ce qui arrive souvent dans les é de Salius,
mais la longueur des antennes et leur gracilité indiquent
cependant suffisamment que c’est un vrai Salus Pin-
secte que j'étudie.
La tête, les pleures, le segment médiaire et les
cuisses montrent des poils assez longs (pas si abondants
que dans plusieurs espèces chiliennes cependant); le tête
est transverse, le bord interne des yeux parallèle et lé-
gerement rapprochés seulement au niveau des ocelles,
le clyp4us est court, deux fois plus large que long, le
bord antérieur tronqué en grand arc de cercle, les ocelles
en triangle transverse, les antennes longues et gréles,
le 2.º article du funicule aussi long que la distance entre
les yeux, le pronotum arqué en arriére, le segment
médiaire avec ses parties supérieure et postérieure con-
fondues en are sans limite distincte; des stries tranverses
se voient sous un certain angle et quelques poils ar-
gentés à la base de la partie postérieure de chaque côté.
L’abdomen est pédonculé, le premier segment en pétiole
un peu élargi vers lextremité dont la largeur est à peu
près la moitié de celle du 2.º segment: celui-ci s êlar-
git progressivement jusque vers Pextrimité, et son im-
pression ventrale est presque nulle. Vers l'extrémité l’ab-
domen est légèrement comprimé. Les ongles des pattes
PE da
sont armés d'une dent perpendiculaire vers leur milieu.
Les ailes sont d'un ferrugineux jaunâtre, les nervures
ferrugineuses, ’extremité (comprenant la cellule radiale,
les 2.º et 3.º cubitales, presque toute la 2.º discoïdale)
d'un très léger enfumé noirâtre. La 2.º cubitale est à peu
près rectangulaire, la 3.º cubitale est plus grande ; son
bord radial est égal à celui de la 2.º cubitale, et son
extrémité sur la veine cubitale est plus proche de l’ex-
trémité de l’aile que de la 2.º cellule cubitale.
1 o de la ville de São Paulo.
4. Salius diffusus 7. sp.
Q Nigro-viridis, paulum cyaneo-nitens, antennis
flagello griseo-puberulo, ales fuscis. Long. corp. :
26 mm. Alae: 25 mm.
Le clypèus est assez convexe, transverse, finement
chagriné, parsemé de points pilifères plus nombreux vers
l'extrémité qui est tronquée, à peine arquée. Les yeux
sont parallèles, et légèrement convergents vers le haut.
Le front est canaliculé longitudinalement, les ocelies en
triangie transverse. Le 2.º article du funicule presque
égal à la moindre distance entre les jeux. Le pronotum
est assez court, angulaire en arriêre; les angles sont
bien relevés et séparés du bord postérieur par une assez
forte impression linéaire. Le segment médiaire est três
voutê: ses parties supérieure horizontale et postérieure
verticale bien nettes inais sans limite distincte réguliè-
rement arquée. Il y a une impression longitudinale mé-
diane et deux latérales, la striation transverse nulle aux
extrémités devient le plus forte sur la pente des parties
supérieure et postérieure. Les tibias intermédiaires et
postérieurs sont spinuleux, ces derniers serriformes. Les
ongles sont armés d’une épine submédiane. Les ailes
sont de couleur marron avec les cellules basales et anale
un peu plus claires ainsi que le bord costal de la
première cellule cubitale et une bande étroite qui unit ce
bord costal avec la 3.º cellule discoïdale Le bord radial
des 2.º et 3.º cellules cubitales est égal; celle-ci est plus
grande que celle-là, et la 3.º veine transverso-cubitale est
bien arquée vers son milieu pour se joindre perpendiculai-
rement à la veine cubitale. La première rècurrente aboutit
(o
vers la fin de la 2.º cellule cubitale, et la 2.º récurrente
vers le 1/3 basal de la 3.º cellule cubitale. Aux ailes in-
férieures, la cellule anale termine au-delà de la veine
cubitale.
1 Q de Ypiranga, Est. S. Paulo.
>. Salius carinatellus n. sp.
S Cyaneo-viridis, antennis articulis 7-13 subtus
obscure ferruginers, alis fuscis, paulum cyaneo-niten-
tibus. Long. corp. : 20 mm.; Alae : 19 mm.
Le ciypéus est transverse, convexe, son bord
antérieure échancrê en arc bien prononcé, le bord
interne des yeux est assez paralléle et légèrement con-
vergent vers le haut, le front légèrement canaliculé au
milieu, les ocelles en triangle transverse, le 2.° article
du funicule égal à la moindre largeur entre les yeux.
Le prothorax offre une impression longitudinale médiane
qui se bifurque ensuite pour longer le bord postérieur
angulaire et faire ainsi ressortir les angles assez pro-
éminents. Le segment médiairea sa partie supérieure
qui s'incline suavement vers l'arrière et qui peut cepan-
dant se distinguer de la partie postérieure par une strie
transverse assez forte : cette strie et 4 ou 5 antérieures
n'occupent cependant que la largeur de l'impression
longitudinale qui est bien prononcée.
L’abdomen est pédicellé, le premier segment étant
en entonnoir plus long que large à Vextre nité, et
le second segment continuant à s'élargir jusque vers ses
2/3. L’extrémité ventrale du premier segment est légé-
rement bisinueuse, et l’impression transverse du 2° se-
gment lui est paralléle. Le 6° segment ventral est plat,
couvert de poils courts qui sont plus serrés et nom-
breux pour former un V ouvert vers l'extrémité. La
plaque sous-génitale est en semi-cercle un peu allongé,
un peu relevée longitudinalement et avec des poils plus
abondants sur les bords.
Les ongles antérieurs sont en arc de cercle à peu
près de mème largeur partout et tronquês obliquement
à l'extrémité: vers la base ils présentent une épine
EX cor
perpendiculaire ; les ongles médians et postérieurs sont
simples avec une dent sub-basilaire.
La veine margino-discoïdale est située avant la
médio-discoïdale, la 3.º cellule cubitale plus grande que
la 2.º et recevant la 2.º recurrente vers le 1/3 antérieur,
son extrémité plus voisine du bord de Vaile que de la
récurrente, la 3.º transverso-cubitale bien convexe vers
l'extrémité de l’aile.
Aux ailes inférieures, la cellule anale est intersti-
cielle avec la veine cubitale (ou à peine antérieure).
Un o& de São Paulo.
6. Salius limbatus 7. sp.
Q Viridis, paulum cyaneus, antennis piceis, als
ferrugineis, bast nigris, sat late fusco-limbatis. Long.
corp.: 62 mm. ; Alae: %4 mm.
Le clypéus est convexe, transverse, légèrement
émarginé au bord antérieur. Les yue» sont parallèles
et un peu convergents vers le haut. Le front est lon-
gitudinalement canaliculé, la moindre distance entre les
yeux égale au 2.° article du funicule.
Le pronotum a ses angles bien saillants et son bord
postérieur un peu anguleux. Le segment médiaire (vu
de côté) a sa partie supérieure horizontale légèrement
oblique vers l'extrémité, et sa partie postérieure verti-
cale; leur limite est assez mal définie cependant. Une im-
pression longitudinaie médiane, et une stration pas trop
grosse plus pronencée vers l'arrière de la partie supé-
rieure et sur la protubérance post-stigmatique.
Abdomen sessile; une légère impression longitu-
dinale à la partie antéro-supérieure du premier segment.
Des points assez gros et serrés avant l'extrémité des
segments 2—5. L’impression transversale du 2.º se-
gmente est forte et est suivie d'un croissant saillant
dont les extrémités terminent en pointe monsse. Le
6° segment est légèrement caréné et lisse longitudina-
lement, ponctué-pilifére sur le reste. Les peignes tar-
saux antérieurs sont courts, les tibias médians et pos-
térieurs épineux, ceux-ci serriformes. Les ongles sont
simples, unidentés en dessous. Les ailes sont ferrugi-
— T0 —
neuses, la base noirâtre (à peu près le 1/3 de la lon-
gueur de la cellule médiane et les inférieurs un peu
au-delà du lobe anal). L’extrémité est brune, y com-
pris presque toute la cellule radiale, presque toute la
3º cellule cubital et à peu près la moitié de la 2.º cellule
discoïdale. Aux ailes postérieures cette couleur atteint
les cellules fermées.
La 3.º cellule cubitale est un peu plus grande que
la 2.º, son bord externe presque droit, un peu convexe
vers l'extrémité de Vaile et son extrémité apicale est
à peu près equidistante du bord de l’aile que de son
extrémité antérieure. Aux ailes postérieures, la cellule
anale termine au delà de la veine cubitale.
1 Q de Rio Grande do Sul.
Descripção de abelhas novas do Brazil
e de regiões visinhas
POR
Cx SCHROTTKY
Graças à amabilidade do illustre director do Museu
Paulista, sr. dr. H. von Ihering, podemos dar a conhe-
cer um certo numero de abelhas novas que pertencem
ao citado Museu e que provêm quasi todas do Estado
de S. Paulo, às quaes accrescentamos umas poucas ou-
tras do Paraguay, colleccionadas perto da fronteira bra-
zileira e que representam, sem duvida alguma, membros
da mesma Fauna.
I. Fam. Prosopidae
1.) Prosopis 1neringiy 1: sp.
9 Nigra, flavo-ornata ut Pr. arsenica Vach., sed
labro mandibulisque nigris, clypeo utriusque ferrugineo-
marginato, antennarum scapo flavo. flagello antice fer-
rugineo, supra fusco; abdominis segmentis dorsalibus
haud albido-ciliatis.
Caput subtiliter dense punctatum ; mesonotum opa-
cum, punctis crassis dense obtecium ; scutellum opacum
tamen sparse punctatum; post-scutellum subtiliter ru-
gulosum ; segmentum medium truncatum, longitudina-
liter multi-carinatum, lateribus arecæ basalis transverse
plicatis ; mesopleuræ leves, sparse punctulatæ. Abdo-
men coriaceum, segmento primo punctato, tamen punctis
nec densis nec crassis, segmentis reliquis impunctatis,
segmento anali breviter nigro-piloso.
— TO) —
Nigra, clypeo (marginibus lateralibus exceptis),
scuto nasal, orbitis internis fere totis, externis usque
ad dimidium, pronoti margine antica, callis humerali-
bus, tegularum macula parva et scutelli macula utrius-
que flavis ; tegulis fuscis, alis infuscatis venulis stigma-
teque atris; pedibus nigris vel fuscis, tarsis omnino
rufescentibus, tibiis basi flava, anticis totis flavis; se-
gmento ventrali sexto ferrugineo.
Long. corp. 7 mm., lat. abdom. 1,4 mm., ala 5,3 mm.
Paraguay : Puerto Bertoni, 2)—V— 09. Typo in
coll. Schrottky.
In honorem clarissimi dris. H. von Ihering nominata.
Specimen alterum mas hujus speciei esse videtur ;
magis cum Pr. cribellata Vach. concordat, tamen cha-
racteribus plurimis distinguitur.
& Nigra, flavo-ornata. Caput crebre punctatum ;
mesonotum et scutellum crasse sat dense punctata; se-
gmentum medium truncatum, longitudinaliter multi-
carinatum, rugosum ; mesopleuræ conspicue punctate ;
abdomen segmentis dorsalibus primo secundoque crasse
punctatis, reliquis opacis.
Coloribus ut Pr. theringi Q sed clypeo toto, labro
et mandibulis quoque flavis ; orbitis externis haud usque
ad dimidium oculorum flavis; alis sordide hyalinis, ve-
nulis stigmateque fuscis.
Long. corp. 6 mm., lat. abdom. !,1 mm., ala 4,5 mm.
Paraguay : Puerto Bertoni, 13—I1—09.
Il. Fam. Andrenidae
A Subfum, HALICTINAE
2. Odontochlora cydippe n. sp.
(SECT. B: SEGMENTUM PRIMUM VENTRALE
TUBERCULATUM )
9 Metallice viridis, capite cupreo, thorace aureo-
cupreo-micantibus, abdomine ultramarino; clypeo pur-
pureo, margine antica late nigra, paucis pilis pallidis
ciliata, crasse punctato intervallis inter punctos eis
By CU
aequalibus ; scuto nasal valde convexo, crasse punctato,
antice aliquid densius quam clypeo postice crebre pun-
ctato ; area interantennali valde concava; carina fron-
tali conspicua ocellum anticum attingenti ; capite reliquo
crebre punctato, punctis faciei crassioribus; distancia
oculorum ab ocellis posticis diametro ocelli plus quam
duplo longiore (= 22 : 10); distancia ocelli antici a pos-
ticis distancia interocellari plus quam duplo breviore
(— 7:17); antennis nigris, articulis tribus primis funi-
culi subaequalibus (= 7 :6:7). Mesonoto lateribus cre-
bre punctatis, in medio subtiliter reticulato, sparse pun-
ctato longitudinaliterque sulcato ; parapsidiis abbreviatis ;
scutello laviter crebre punctato ; segmenti medii area
basali longitudinaliter plicata cæterum leviter crebre
punctatum; pedibus fuscis, calcaribus posticis dilutiori-
bus; tegulis nitidis, brunneis; alis sordide hyalinis,
venulis brunneis. Abdomine marginibus segmentorum
1.0 — 4.º nigris, lateribus sat dense punctatis, in medio
sparsius et levius, segmento secundo in medio antice
punctis minimis haud conspicuis; quinto fusco; ventre
fuscatro, punctato, segmentorum marginibus dilutioribus.
Long. corp. 9 mm., lat. abdom. 2,5 mm.
Estado de S. Paulo: Avanhandava. Typo in coll.
Mus. Paul.
Conspectus specierum generis Odontochlorae
adhuc cognitarum
g
1 Segmentum ventrale pri-
mum in spinam acutam
productum (Sect. A). 2
Segmentum ventrale pri-
mum conspicue tuber-
culatum (Sect. B). . 5
2 Corpus totum nigrum . Od. styx Schrottky
Corpus totum viride. . 3
Caput et thorax virides,
abdomen nigrum . . Od. thetis Schrottky
8 Scutum nasale crebre pun-
CHAU NES fie aid i) :4
EM PEL
Scutum nasale rugulosum
paucisque punctis cras-
SIS sn Bel). ew) Od--amphitrate Sebrotilam
4 Abdomen crasse puncta-
tune MEN oo. NO: mueller (kal)
Abdomen subtiliter pun-
ctatum. . . . . . Od. phoemonoe Schrottky
5 Scutum nasale creberri-
me punctatum . . . Od. nausicaa Schrottky
Scutum nasale sparse pun-
etatuma juliet on DA end ppe mens:
ef
1 Corpus totum nigrum
(Sect. JB) li plo o visi NO Lethe Schnottiey:
Corpus pride Sis) Visitor He
2 Sculptura segmenti medi
crassior, mosonotum al-
bido pilosum (Sect. B) . Od. thebe Schrottky
Sculptura segmenti medii
subtilior, mensonotum
nigro-pilosim (Sect. A) Od. amphitrite Schrottky
3. Oxystoglossa jocasta n. sp.
Q Metallice viridis; clypeo late nigro-marginato,
demidio antico crasse denseque punctato, postico:viridi,
nitido in medio perpauce parve punctato; scuto nasali
sparsim leviter sed conspicue punctato; carina frontali
brevissima ; facie subdense crassiusculo, capite reliquo
crebe levius punctatis; antennis fusco-negris. Mesonoto
aurato, crebre punctato ; scutello quoque ; segmenti medii
area basali abbreviatim conspicue plicata, plicis plus
minusve 50, cæterum subtileter reticulatum, trunca-
ticne glabra, nitida, impunctata, lateribus punctulatis ;
pleuris reliquis regulariter punctatis: pedibus fuscis
pallide hirtis ; tegulis fuscis, nitidis, antice macula viridi
punctata ; alis pilis brevissimis dense hirtis, venulis fuscsi.
Abdomine sat dense punctulato, segmentorum marginibus
haud conspicue nigro-marginatis; ventre fusco, subtiliter
transverse striato, segmentis in medio viridibus, punctatis.
rar
Long corp. 9 mm, lat. abdom. 3 mm.
Est. de S. Paulo: Campos do Jordão, Nov. Oo.
Typo in coll. Mus. Paul.
4. Oxystoglossa pyrgo n. sp.
@ Caeruleo-viridis, nigro-variegata; clypeo crasse
punctato, antice anguste nigro-marginato et fulvescenti-
ciliato ; scuto nasali crebre punctato; antennis fusces-
centibus, scapo nigro, capite reliquo creberrime ruguloso.
Mesonoto lateribus viridibus, dense punctatis, medio
nigro-purpureo, sparsissime punctato ; pleuris sat dense
punctatis maculis duabus confluentibus cyaneis ornatis ;
segmenti medii area basali conspicue longitudinaliter
plicata, partibus reliquis rugosis; pedibus fuscis fulves-
centi-hirtis, calcaribus testaceis, femoribus anticis vix
viridi-micantibus ; tegulis fuscis, nitidis, impucatis ; alis
sordide hyalinis, venulis fusco-ferrugineis. Abdomine
marginibus apicalibus seginentorum nigris, lateribus
sultiliter rugulosis, segmento quinto ventreque fuscis.
Long. corp. 7 mm., lat. abdom. 1,8 mm.
Est. de S. Paulo: Avanhandava. Typo in coll
Mus. Paul.
5 Oxystoglossa ephyra n. sp.
Q Viridis, clypeo crasse punctato antice anguste ni-
gro-marginato et fulvescenti-ciliato; scuto nasali crebe
ruguloso ; carina frontali conspicua ; orbitis internis an-
guste nigro marginatis, capite reliquo mesonotoque
subtiliter creberrime ruguloso punctatis; pleuris vix
conspicue punctulatis; segmenti medii area basali lon-
gitudinaliter plicata, plicis plus minusve 35 vermiformi-
bus, truncatione glabra impuncata, lateribus quoque ; pe-
dibus brunneis, fulvescenti-hirtis, ne coxis quidem viri-
dibus; tegulis ferrugineis ; alis sordide hyalinis, venulis
ferrugineo-testaceis. Abdomine marginibus apicalibus
segmentorum nigris, segmento quinto ventreque fuscis.
Long. corp. 7 mm, lat. abdom. 2 mm.
A Kst. de S. Paulo: Ypiranga: Typo in coll. Mus.
aul.
CA ee
Conspectus specieram gemris Oxystoglossae marginibus
apicalibas segmentorum abdominalinn nigris
1 Puncti mesonoti maximi,
longitudo ie 9-10
MOV.
Puncti mesonoti par vi, lon-
gitudo corporis 5- Smm.
2 Segmentum medium ubi-
que conspicue sculptu-
ratum . :
Segmentum medium post
aream busalem haud
sculpturatum .
3 Mesonotum ccebre pancta-
tum :
Mesonotum sparsius pun-
ctatum . : .
4 Alae cinerascenti-fulvae .
Alae hyalinae, apice in-
fuscatae neat"
5 Mesonotum viride, inter-
vallis inter punctos dia-
metro eorum our
bus AT iG
Mesonotum purpureum vel
nigropurpureum, inter-
vallis inter punctos dia-
metro eorum multo
maioribus . sels
6 Mesonotum purpureum,
punctis minimis; scu-
tellum impuctatum.
Mesonotum in medio ni-
gro-purpureum aliquid
crassius punctatum; sca-
tellum punctatum .
7 Maior; pedibus ubique
pallide pilosis
Minor, tarsis partim fusco-
hirtis
Ox.
2
Ox.
Ox.
foxvana (CkIl.)
. theringi (Gkll.)
. feronia (Sm.)
. caerulior (Ckll.)
thusnelda (Schrottky)
. Pyrgo n. sv.
urama (Sm.)
(7
8 Mesonotum subtiliter ru-
guloso-punctatum; area
basalis segmenti medii
tota radiatim striata . Ox. ephyra n. sp.
Mesonotum crebre crasse
punctatum ; area ba-
salis segmenti medii
abbreviatim radiatim
STI a M TO oca sta dino:
À seguinte especie, que pertence a este mesmo grupo,
foi-nos enviada durante a impressão, de modo que não
poude ser incluida na chave, depois de devidamente mo-
dificada pelo auctor. (N. da R.)
6. Oxystoglossa theia n. sp.
S Viridis; mandibulis falcatis; labro testaceo ;
clypeo sat dense parum crasse punctato; oculis emar-
ginatis obliquis; scuto nasali lateribusque faciei sat
dense punctatis; capite reliquo creberrime punctato al-
boque piloso ; antennis nigris, flagello antice fuscescenti,
articulo primo (flagelli) brevissimo ; secundo vix lon-
giore tamen conspicue latiore; carina frontali nulla.
Mesonoto scutelloque subtiliter crebre punctatis, mesonoto
antice abreviatim longitudinaliter sulcato; scutello magno
longitudinem postscutelli plus quam duplo superante ;
segmento medio creberrime punctato, angulis ubique
rotundatis, sulco mediano lato, area basali fortiter ra-
diatim plicata; pedibus nigro-aeneis nitidis, tibiis tarsisque
brunneis; tegulis atris, alis hyalinis, stigmate venulisque
fuscis. Abdomine olivaceo, sculptura inconspicua, pilis
tenuibus fulvescentibus parum dense hirto, marginibus
apicalibus segmentorum nigris, ventre nudo.
Long. corp. 6 mm, lat. abd. 1,1 mm.
Estado de S. Paulo: Ypiranga 16—XIL 08.
Mus. Paul: dd Typo.
Esta especie foi encontrada pelo sr. A. Lueder-
waldt, preparador de entomologia do Museu Paulista
no parque do estabelecimento; era ao anoutecer e as
“abelhas estavam reunidas em dous cachos, formados
Do TE
um por 9, outro por 5 ou 6 individuos, que, assim de-
pendurados nos tálos de uma graminea a pouca altura
do chão, immoveis, se dispunham a passar a noute.
# +
*
7. Oxystoglossa semiramis 1. sp.
Q Viridis, aureo-micans ; clypeo antice nigro-mar-
ginato, haud dense sed crasse punctato, postice fere
impunctato ; scuto nasali in medio perpauce punctulato,
lateribus densius ; carina frontali subnulla; mandibularum
apice antennarumque flagello rufescentibus ; capite reliquo
subtiliter crebre punctato. Mesonoto subtiliter ruguloso ;
segmenti medii area basali elongata, conspicue radiatim
plicata, partibus contiguis impuctatis; scutello duabus
maculis, aliquando purpureis, imptuctatis, caeterum crebre
punctulato; pedibus fuscatris fulvescenti-hirtis, coxis
viridi-micantibus, tarsis ferrugineis; tegulis brunneis,
alis hyalinis, iridescentibus, venulis testaceis. Abdomine
albido-hirto, segmentorum marginibus apicalibus fuscis.
Differt ab Ox. urania sculptura mesonoti scutellique, pu-
bescencia tibiarum etc.
Long. corp. 6,5 mm, lat. abdom. 1,7 mm.
Est. de S. Paulo: Ypiranga 16 IX 06; 25 I 07;
IX O7. Jundiahy 17 XI 00. Typo in coll. Mus. Paul.
8. Oxystoglossa thalia pauloénsis
| n. subsp.
Q Ut Oxystoglossa thalia typica (Sm.), sed te-
gulis, tibiis tarsisque fuscis. Clypeo dimidio apicali nigro,
crasse punctato; antennarum scapo elongato, dimidium
funicul: superanti; alis iridescentibus, venulis brunneis ;
segmenti medii area basali plurimis plicis longitudina-
libus rugulosis, lateribus subtiliter dense punctatis, ab-
domine breviter fulvo-sericeo, impunctato.
S Differt ab Oxystoglossa thalia typica femoribus
omnibus viridibus apice plus minusve ferrugineis. Anten-
narum scapo haud elongato, quartum longitudinis fu-
niculi haud superanti; clypeo antice anguste flavo-mar-
ginato ; labro mandibulisque flavis.
Est. de 8. Paulo: Campos do Jordão 16 II 06;
Jundiahy 14 X 00. Typos in coll. Mus. Paul.
LION
9 Augochloropsis carioca n. sp.
Q Nigro-olivacea ; clypeo brevi, convexo, punctato
margineque antica fulvescenti-fimbriata; scuto nasali
perpauce punctulato; capite reliquo subtiliter crebre
ruguloso albidoque piloso; antennis nigris, fagello an-
tice fusco. Mesonoto impunctato sulco longitudinali in
medio partito, parapsidiis conspicuis ; scutello postscu-
telloque haud sculpturatis; segmenti medii area basali
concava, radiatim plicata ; pedibus fuseis pallide pilosis;
tegulis nitidis fuscis; alis subhyalinis iridescentibus ve-
nulis fuscis. Abdomine marginibus apicalibus segmen-
torum 1.º — 3.º nigris, caeverum nigro-olivaceo palli-
deque piloso; ventre fuscc.
Long. corp. 7 mm., lat. abdom. 1,5 mm.
Est. de Rio de Janeiro: Campo Itatiaya IV. 06.
Typo in coll. Mus. Paul.
10. Tetrachlora thyias n. sp.
® Viridis, margine postica oculorum cuprea, clypeo
nitido, haud dense punctato, intervallis inter punctus
magnis, antice nigro-marginato et pallide fulvo ciliato ;
scuto nasali in medio sparsim, Jateribus crebrius pun-
ctato; carina frontali incospicua; capite reliquo, meso-
noto scutelloque crebre punctatis; tegulis viridibus ma-
cula magna purpurea; segmenti medii area basali striatim
plicata, lateribus subtiliter dense punctatis, truncatione
quoque sed sparsius ; pleuris crebre sat grosse punctatis ;
pedibus viridibus fulvo-hirtis, tibiis Ill antice et pos-
tice viridi-micantibus, tarsis ferrugineis; alis fere hya-
linis, venulis brunneis ; abdomine lato, dense fulvo-hirto,
lateribus subtiliter punctulatis, segmentorum margini-
bus sat late depressis (parte depressa segmenti secundi
plus minusve quartum, segmenti tertii tertium longi-
tudinis eorum attingit), segmento quinto fusco; ventre
seg nentis 1.º-—4.º viridibus margine apicali nigris, 5.º
6.°que fuscis.
Long. corp. 7,5 mm, lat. abdom. 2,3 mm.
Est. de S. Paulo: Raiz da Serra, 22. Xi 06. Typo
in coll. Mus. Paul.
E op pus
l]. Tetrachlora deianira n. sp.
@ Viridis, clypeo regulariter haud dense punctato,
antice nigro-marginato et pallide fulvo-ciliato ; scuto
nasali in medio impunctato, lateribus dense crasseque
puntato: carina frontali inconspicua ; capite reliquo,
mesonoto, scutellis, segmento medio pleurisque crebre
punctatis ; tegulis fuscis antice parva macula viridi; se-
gmenti medii area basali fere triangulari, longitudina-
liter striatim rugulosa, lateribus rotundatis; pedibus
viridibus fulvo-hirtis, tibiis Ii] antice posticeque viridi-
micantibus, tarsis fuscis ; alis fere hyalinis venulis tes-
taceis, nerv. rec. 1.º a tertia cellula cubitale prope
basim instructo. Abdomine segmentis primo secundo-
que conspicue mibrissalis, caeterum fulvo-hirto ; se-
gmento primo sat dense punctulato, margine apicali an-
gustissime depressa ; secundo punctulato, margine api-
cali aliquid latius depressa; quinto fusco ; ventre dimi-
dio basali viridi, apicali fusco.
Long. corp. 7,5 mm, lat. abdom. 2,5 mm.
Est. de 8. Paulo: Campos do Jordão, XI.09. Typo
in coll. Mus. Paul.
12. Tetrachlora creusa n. sp.
Q Obscure olivacea, obdomine nigro ; clypeo sparse
punctato antice nigro-marginato; scuto nasali nitido,
lateribus paucis punctis parvis; carina frontali brevis-
sima, tamen conspicua ; ocellis sat magnis; capite re-
_ liquo subtiliter sed crebre punctato; antennis rufescen-
tibus. Mesonoto sparsissime punctulato, antice in medio |
longitudinaliter suleato ; scutello reguloso-punctato ; se-
gmenti medii area basali conspicue plicata, apice fere
impunctato, glabro ; pedibus fuscis, albido-hirtis; tegu-
lis brunneis; alis hyalinis splendide iridescentibus, ve-
nulis brunneis, stigmate testaceo, cellula cubitali secunda
nervum recurrentem primum pone apicem (fere inter-
stitialem) accipienti; abdomine nigro, nitido, sparse
albido-hirto, impunctato.
Long. corp. 5 mm, lat. abdom. 1,2 mm.
Est. de S. Paulo: Ypiranga, 16.1X.06. Typo in
coll. Mus. Paul.
HT GAME
18. Augochlora (Pseudaugochloropsis)
Erinn ys. ie sp.
@ Nigra; clypeo crasse parum dense punctato an-
tice fulvescenti fimbriato ; scuto nasali eodem modo
punctato ; carina frontali brevissima ; antennarum scapo
elongato, dimidium flagelli superante, articulo secundo
flagelli reliquis breviore, 12.° apice conico reliquis lon-
giore, scapo nigro, flagello ferrugineo; capite reliquo,
mesonoto scutelloque creberrime parum subtiliter ru-
guloso-punctato ; pronoti angulis acutis; mesonoti mar-
gine antica in medio subtiliter foveolata; segmenti
medii area basali triangulari subtiliter oblique postice-
que transversim roguloso-striata, caeterum haud conspi-
cue punctulatum ; pedibus nigris, tarsis— praecipue pos-
ticis— ferrugineis, femoribus posticis scopulam laxam ful-
vescentem ferentibus, tibiis nigro-hirtis, calcare quin-
que-spinoso ; tegulis atris apice fuscis; alis nigrican-
tibus venulis testaceis, cellula cubitali tertia nervum
recurrentem primum pone angulum anticum (fere inter-
sticialem) accipiente. Abdomine subtiliter dense punctu-
lato apicem versus pilis Jongioribus rufis hirto, rima
anali brevi. |
Long. corp. 9—10 mm, lat. abdom. 2,8 mm.
Est. de S. Paulo; Paraguay (Puerto Bertoni).
Mus. Paul. : Est. de S. Paulo: Raiz da Serra
30. IX. 07, Typo.
Halictomorpha nov. gen.
(Typus: Halictomorpha phaedra n. sp.)
Statura parva ; caput rotundatum ; oculi convergen-
tes haud sinuati nec emarginati. Mesonotum haud scul-
pturatum ; segmentum medium longitudine scutelli +
postescutelli, area basali conspicua, fortiter sculpurata.
Alae anticae tribus cellulis cubitalibus ; prima longitu-
dine secundae + tertiae; secunda parva trapeziformis,
nervum recurrentem primum prope apicem accipiens ;
.tertia longitudinem secundae paulum superans, semicir-
cularis, nervo transverso-cubitali tertio valde curvato,
nervum recurrentem secundum post dimidium accipiens ;
stigma magnum; cellula radialis lanceolata in margi-
RR pao
nem costalem terminans, sine appendice; cellulae me-
diana et submediana plus minusve aequales. Calcar pos-
ticum feminae quatuor dentibus acutis munitum. Seg-
menta abdominalia primum et secundum haud vibrissata ;
segmentum anale feminae rima ordinaria datum.
14. Halictomorpha phaedra n. sp.
© Obscure olivacea, fere atra; capite purpureo,
mesonoto nigro, lucido ; clypeo nigro, sat crasse punc-
tato; scuto nasali nitido, impunctato convexo; fronte
conspicue carinata; capite reliquo subtiliter punctato ;
antennis nigris, funiculo apicem versus fulvo. Mesonoto
globoso, in medio longitudinaliter sulcato, fere impun-
ctato, hic illic perpaucis punctulis microscopieis; seu
tello atro-purpureo, impunctato ; segmenti medii area
basali concava, crasse rugosa, partibus contiguis rotun-
datis, impunctatis ; pedibus fuscis, pallide hirtis; tegulis
ferrugineis ; alis hyalinis, splendide iridescentibus, stig-
mate venulisque brunneis. Abdonine haud punctato vix
dense pallido-hirto ; ventre atro.
Long corp. 5,3 mm, lat. abdom. 1,5 mm.
Est. de S. Paulo: Ypiranga 2.1X.07. Typo in coll.
Mus. Paul.
15. Pseudagapostemon paulista n. sp.
d Olivaceus; clypeo flavo nigro-bipunctato; labro
flavo ; mandibulis fuscis; scuto nasali punctato, fronte
lateribusque faciei dense fulvescenti-hirtis ; vertice crebe
subtiliterque punctato; antennarum articulis tribus pri-
mis antice flavis, reliquis ferrugineis supra fuscis. Me-
sonoto scutelloque crebre subtiliterque reguloso-punctatis,
sparse fulvescenti-hirtis; segmenti medii area basali
crasse rugoso-punctata, apice sulco longitudinali bipar-
tito, lateribus carinatis; pleuris ruguloso-opacis ; callis
humeralibus flavis ; pedibus flavis, coxis obscure oliva-
ceis, trochanteribus partim quoque; tegulis flavis, alis
hyalinis, venulis testaceis. Abdomine viridi-olivaceo,
subtiliter tamen sat crebre punctulato, breviter fulve-
scenti-hirto ; segmento secundo ad basim constricto, se-
RULES
gmentorum omnium marginibus apicalibus leviter de-
pressis ; segmento septimo testaceo, acuto, lateribus ca-
rinatis, carinis apicem versus convergentibus.
Long. corp. 83 mm, lat. abdom. 2 mm.
Est. de 8. Paulo: Villa Marianna (8. Paulo, cida-
de) 23. UI. 06. Typo in coll. Mus. Paul.
16. Pseudagapostemon nasua n. sp.
d Olivaceus ; clypeo margine antica lineaque lon-
gitudinali abbreviata in medio atque cum illa connexa
flavis; labro mandibulisque, rima basi excepta, flavis ;
scuto nasali valde convexo, in medio subtuberculato,
crebe punctato; capite reliquo crebre subtiliterque punc-
tato, breviter fulvescenti-hirto ; antennarum articulis
tribus primis antice flavis, reliquis ferrugineis, supra
fuscis. Mesonoto scutelloque subtiliter crebre punctatis ;
segmenti medii area basali crasse rugosa, fere striatim
plicata, apice conspicue sculpturato, lateribus subcarina-
tis; pedibus flavis, coxis totis femoribus postice oliva-
ceis; tegulis testaceis ; alis subhyalinis venulis fuscis.
Abdomine subtiliter punctulato, segmentis apice vibrissis
parvis caducis ciliatis ; segmento septimo concavo, flavo.
Long. corp. 7,6 mm, lat. abdom. 1,5 mm.
Est. de S. Paulo: Ypiranga, I. 06; Est. de Minas
Geraes : Caxambü, V.06; Paraguay: Assumpção XII.
04; Puerto Bertoni, XiI 08, I. 09. Typo in coll. Mus. Paul.
B, Sublam, ANDRENINAE
17. Anthrenoides iheringi n. sp.
d Niger, albido-hirtus ; clypeo flavo margine an-
tica lateribusque nigris; antennis fuscis; capite thora-
ceque toto crasse crebreque punctatis, segmento medio
quoque tamen aliquid sparsius ; callis humeralibus linea-
que angustissima pronoti flavescentibus ; pedibus fuscis,
tibiis anticis fere totis, intermediarum et posticaruin
basi ferrugineis, tarsis omnibus flavescentibus ; tegulis
brunneis, alis fumatis, venulis ferrugineis; abdomine
crasse sat dense punctato, segmentorum omnium mar-
SA
gine apicali albo-ciliata (vibrissata); segmenti analis
apice acuto.
Long. corp. 7 mm, lat abdom. 2 mm.
Est. de 8. Paulo: Jundiahy. Typo in coll. Schrott-
ky. In honorem clarissimi Dris. H. von thering deno-
minata.
Ill. Fam Panurgidae
Sabfam. GASTROHALICTINAE nov.
Alae anticae duabus cellulis cubitalibus; segmen-
tum anale feminae rima longitudinal, ut Æalictinae,
datum.
CONSPECTUS GENERUM :
Venulae alarum anticarum
partim obsoletae, calcar
posticum feminae pec-
tinatum. . . . . . Gastrohalictus Ducke
Venulae alarum anticarum
omnes conspicuae, cal-
car posticum feminae
simplex . . . . . Mecraugochlora Schrottky
18. Gastrohalictus pabulator n. sp.
2 Olivaceus, albido-pilosus ; clypeo fere toto nigro,
crasse punctato ; scuto nasali nitido, impunctato ; anten-
narum scapo nigro, flagello fere toto ferrugineo ; ca-
pite reliquo subtiliter densissime punctulato. Mesonato
sparse tamen conspicue punctato; scutello crebrius ;
segmenti medii area basali dimidio antico rugulaso-
plicata, in medio longitudinaliter carinulata, postice gra-
nuloso-opaca a truncatione linea transversali nitida sub-
elevata divisa; pedibus atris, apice tibiarum tarsisque
ferrugineis, calcare postico tridentato; tegulis laete fer-
rugineis ; alis hyalinis, venulis testaceis (nervatura cum
descriptione generis optime concordat, tamen ala a cl.º
A. Ducke haud bene delineata est; v. Zeitschr. f. system.
sa EN Se
Hymenopt. Dipt. vol. II, tab. I, fig. 8); abdomine se-
gmento primo fere impunctato, reliquis haud conspicue
subtiliter rugulosis ; ventre longe albido-piloso.
Long. corp. 5 mm. lat. abdom 1,2 mm.
Est. de S. Paulo: Ypiranga, 2.1X.07. Typo in
coll. Mus. Paul.
19. Gastrohalictus ypirangensis n. sp.
9 Olivaceus, Gastroalicto pabulatore simillimus,
tamen differt : area basali segmenti medii longiore, tota
fortiusque sculpturata, longitudinem scutelli superanti,
longitudinali crasse rugoso-plicata ; calcare postico qua-
dridentato, pedibus omnino obscurioribus ; tegulis fuscis,
venulis alarum dilutioribus.
Long. corp. 5 mm. lat. abdom, 1,4 mm.
Est. de 8. Paulo: Ypiranga, 2. IX. 07. Typo in
coll. Paul.
Conspectos specieram generis Gastrohalicti
1 Area basalis segmenti
medii haud sculpturata;
abdomen marginibus
apicalibus. segmento-
rum rnfo-testaceis. . G. osmioides Ducke
Area basalis segmenti
medii conspicue scul-
turata ; abdomen mar-
ginibus apicalibus seg-
mentorum concolori-
RE CNP ENT atte 2
2 Dimidium anticum areae
basalis subtiliter sculp-
turatum ; calcar pos-
ticum tribus dentibus
SEMA Cs GC. pabulator Asp,
Area basalis tota fortiter
sculpturata; calcar pos-
ticum quatuor dentibus
armatum. . . . . G. ypirangensis n. sp.
ao BG es
IV. Fam. Ceratinidae
21. Ceratina oxalidis piracicabana
n. subsp.
Q Ut Ceratina oxalidis typica, sed clypeo mar-
gine antica flava neque tamen in medio macula magna
piriformi ornato ; parapsidus abbreviatis haud conspicuis,
caeterum capite mesonoto segmentisque primis tribus
nitidis, impuctatis ; area basali segmenti medii subtiliter
reticulata, opaca ; callis humeralibus flavis ; pedibus atris,
tarsis omnibus tibiisque anticis flavis; alis subhyalinis,
iridescentibus, venulis tegulisque brunneis ; abdominis
segmentis tribus apicalibus rugosis, epipygio in dentem
obtusum producto. Forsan species valida.
Long. corp. 4,5 mm. lat. abdom. 1,1 mm.
Estado de 8. Paulo: Piracicaba, XI — 06. Typo
in coll. Mus. Paul.
APPENDICE
Julgamos importante, para o conhecimento da dis-
tribuição geographica das abelhas, publicar ainda as
localidades de varias outras especies do Museu Paulista
que acabamos de estudar.
Fam, PROSOPIUAE
Prosopis gracillima Schrottky forma paranensis : Est,
de S. Paulo, Ypiranga, 2—IX—07.
Fam, ANDRENIDAG
Temnosoma metallicum Sm.: Est. de S. Paulo, Can-
tareira (Capital) 23—III—06; Est. de
Minas Geraes, Marianna,
Odontochlora phoemonoe Schrottky : Est. do Paraná.
» amphitrite Schrottky : Est. de 8. Paulo,
Ypiranga, 11—1X—07, Campos do Jor-
dão, 3—IJ-— 06; Est. de Minas Geraes,
Caxambu, V--06.
a 8p es
Odontochlora thetis Schrottky : Est. de S. Paulo, Ava-
nhandava.
Oxystoglossa thusnelda Schroitky: Est. de S. Paulo,
Avanhandava.
» caerulior (Ckll.): Est. de S. Paulo, Ava-
nhandava.
» francisca (Schrottky) : Est. de S. Paulo,
Avanhandava.
* Augochloropsis cocherelli Schrottky : Est. de S. Paulo,
Jundiahy, 14—X — 04.
» alaris (Vach.): Est. de S. Paulo, Ypi-
ranga, [—06, II—07, 21—X—06, Jun-
diahy, I—O1.
Tetrachlora multiplex (Vach.) : Est. de &. Paulo, Cam-
pos do Jordão, 2— 111-06.
» incerta (Schrottky) : Est. de S. Paulo, Ypi-
ranga, 20 —VII-— 02.
Augochlora (Paraugochloropsis) cupreola Ckll.: Est,
de Rio Grande do Sul:
Col. 8. Lourenço ; Est.
de Espirito Santo ; for-
ma paranensis: Est. .
do Paraná.
» » iris Schrottky : Est.
de S. Paulo, Avanhan-
dava.
» » cyanea Schrottky: Est.
de S. Paulo, Ypiranga;
Est. de Rio Grande do
Sul, Col. deS. Lourenço.
» » bucephala Sm.: Est.
de S. Paulo, Jundiahy,
10
> » berenice Sm.: Est. de
Rio de Janeiro, Gampo
Bello, IV — 06.
> » hecuba Schrottky: Est.
de S. Paul, Ypiranga
19—IV - 02.
» » moreirae Ckl.: Est.
de S. Paulo, Avanhan-
dava.
=) RRs
Augochlora (Paraugochloropsis) cleopatra Schrottky :
»
(Pseudaugochloropsis
q
Est. de S. Paulo, Jun-
diahy, 18 - IX - 00.
allustris (Vach.): Est.
de 8. Paulo, Avanhan-
dava, Campos do Jor-
dão XI—05, Jundiahy,
23—IV—00, 11 — VIII
— 00, 18 — IX— 00,
[—041.
diversipennis (Lep.):
Est. de Amazonas, Ma-
nãos.
nigromarginata
(Spin): Est. de is
Paulo, Ypiranga, 9 —
1V—03, I1I—06, Ava-
nhandava, Victoria de
Botucatu. 16—X—00,
Jundiahy, 14-—X—00,
17 — XI—00, I—01,
Est. Espirito Santo.
hypsipyle Schrottky :
Est. if S. Paulo, Ypi-
ranga; 19—XI—06.
pandrosos Schrottky :
Est. de S. Paulo, Ava-
nhadava.
Fam. CERATINIDAE
Ceratina laeta Spin.: Est. de S. Paulo, “Avanhandava.
aspera Schrottky : ist. de S. Paulo, Ava-
nhandava.
Os Amphibios do Brazil
I* Orden: Gymnophiona
POR
RODOLPHO VON IHERING
O grupo de Amphibios de que nos occupamos no
presente artigo, contem só poucas especies brazileiras,
que, pela denominação que recebem da bocca do povo,
são confundidas ora com «minhocas», ora com «cobras
de duas cabeças». (1)
Ambos os nomes tem alguma razão de ser unica-
mente pela tal qual semelhança que apparentam com
grandes vermes ou com as celebres Amphisbænas, que
são reptis apodos da ordem dos Saurios.
Mas estas semelhanças não são sinão muito vagas ;
dos vermes, os nossos Gymnophiona se distinguem logo
por serem vertebrados, com verdadeira bocca, provida
de dentes, etc.; das «cobras de duas cabeças» facilmente
se distinguem por terem estas perfeitas placas ou escudos
na cabeça, por ser a pelle reticulada (sulcos longitudi-
naes, cruzados por outros transversaes, que formam an-
neis) e ainda por estar a abertura anal, que é transversal
(1) O nome «Céga» (isto é cobra céga), bem como a deno-
minaçäo indigena «lbyára», («que mora debaixo da terra») pare-
cem referir-se tanto a este nosso Amphibio como principalmente
aos Reptis Amphisbænas.
aes
— 90 —
um pouco distante da extremidade posterior do corpo,
de modo que ha verdadeira cauda — ao passo que os
Gymnophiona tem a cabeça inteiramente lisa, a pelle
sé tem sulcos transversaes (anneis) e a abertura anal,
redonda, fica justamente na parte rhomba da extremidade
posterior do corpo, de modo que o animal não tem cauda.
co ‘, A 57
| Tan
/
‘ns
Vi :
Fig. 1. Siphonops annulatus (Mikan) Amphibio apodo, vulgarmente confundido
com a «Cobra de duas cabegas»
Assim caracterizados, os Gymnophiona serão facil-
mente reconhecidos; mais adiante daremos a chave de
classificação para os generos. Mas a quem está acostu-
mado ao estudo e à classificação de qualquer outro grupo
dos nossos animaes superiores, se afigurará de uma mo-
notonia incrivel esta famila de vertebrados, que assim
bem denota a sua antiguidade, pela persistencia tenaz
no mesmo typo primitivo que, longe de evoluir, procura
apenas retardar sua extincção.
À não falarmos em aves, peixes ou insectos, onde
qualquer parte do corpo esta sujeita às maiores variantes
= joie
de uma especie para outra, basta citarmos as cobras,
onde tambem os elementos susceptiveis de variações são
poucos; mas sempre ha caracteres de estructura, dentição,
forma e dimensão de escudos e escamas, proporções de
cabeça, corpo e cauda e finalmente o colorido, que di-
vergem de uma forma para outra, o que certamente
devemos attribuir à boa vitalidade das especies. Aqui,
porem, entre os Gymnophiona, sempre se repete o mesmo
typo e a custo se descobre um ou outro caracter que
possa servir para a differenciação. O corpo, perfeitamente
cylindrico, é egual ao dos vermes. A cabeça quasi
conica, um pouco achatada, é inteiramente lisa, sem es-
camas ou escudos, com a abertura buccal antes inferior do
que lateral, as narinas avançadas, os olhos recobertos por
uma membrana ou inteiramente invisiveis e só ha um
orgão caracteristico, o «tentaculo», situado sempre mais
ou menos proximo aos olhos. À forma do ientaculo,
bem como a zona que rodeia sua base e ainda a sua
posição relativamente à narina e aos olhos, são de im-
portancia para a classificação. Qual a utilidade deste
orgão ainda não foi reconhecido; mas como o animal.
constantemente o move, à moda dos mollusculos com seus
tentaculos, parece que se trata de um orgão de sentidos
- para o tacto. Quando Siphonops paulensis se move, O
tentaculo entumesce-se e treme ligeiramente; ao se to-
cal-o, ou quando o animal enterra a cabeça, o tentaculo
retrahe-se. O corpo, perfeitamente cylindrico, nada mais
tem que chame attenção sinão os anneis ; estes são per-
feitamente regulares e o seu numero é tão constante
para cada especie que por exemplo entre 20 exemplares
de Siphonops paulensis de diversas dimensões e prove-
niencia variada, contamos sempre 114, 115 ou 116 an-
neis e só uma vez 111. À abertura anal é quasi ter-
minal, redonda; a parte terminal, que deveria corresponder
à cauda, de comprimento mais ou menos egual à lar-
gura do corpo, é desprovida de anneis e inteiramente
lisa.
Varias especies (no Brazil unicamente as do genero
Cecilia) têm pequenas escamas como que imbutidas na
pelle ; todos os outros generos de que aqui tratamos
têm a pelle núa, geralim nte granulada ou então intei-
ramente lisa e as vezes ligeiramente pigmentada.
1 99 sa
Sob varios outros pontos de vista, porem, o estudo
destes amphibios é interessantissimo. Como neste caso se
trata de um grupo de vertebrados de alta antiguidade
geologica, questão de que mais adiante nos occuparemos
detalhadamente, e como alem disto os antepassados das
especies actuaes soffreram uma serie de modificações em
sua biologia, facto que naturalmente tambem influiu
grandemente sobre o desenvolvimento de diversos or-
gãos, que se adaptaram às novas circumstancias do meio
em que a especie passou a viver, claro esta que o estudo
dos Gymnophiona é assumpto assaz difficil quando que-
remos averiguar ao certo as phases phylogeneticas do
respectivo desenvolvimento.
Os subsidios de que podemos lançar mão nestas
investigações são os que fornecem o estudo detalhado
e comparativo da morphologia, e a embriologia, que
nos podem ensinar quaes as relações e os parentescos
desta familia com as outras da classe dos amphibios,
e o estudo da distribuição zoogeographica de todas as
especies pelo globo terrestre, de onde podemos concluir,
indirectamente, qual a sua edade geologica presumivel.
Não nos referimos aos ensinamentos preciosos que nos
poderia fórnecer a paleontologia, pois que, ao que nos
conste, não foi ainda encontrado nenhum fossil que pu-
desse ser attribuido, com segurança, a esta familia.
“Da biologia destes amphibios pouco ha que dizer.
Vivem tal e qual como as minhocas, perfurando a terra,
onde encontram o seu alimento. Este consiste em quanto
animalejo encontram em suas perfurações subterraneas,
como sejam principalmente larvas de insectos, ou mesmo
coleopteros, vermes, etc. Encontrei mesmo um casulo de
ovos de aranha no estomago de Siphonops puulensis,
especie da qual abri o estomago de muitos exemplares.
Algumas especies preferem terras humidas, outras só
as seccas, como por exemplo Sephonops paulensis, que
muito frequentemente se encontra na collina do Ypi-
ranga. Muitas vezes acha-se-os no interior de formi-
gueiros ou cupins, mas parece que não se alimentam
destes insectos, com os quaes cohabitam provavelmente:
só para aproveitar o calor do ninho.
Só em relação a uma especie do genero 7yphlo-
nectes da Colombia (7! natans Fischer), sabemos que:
elle)
ella vive effectivamente na agua corrente, pois 0 exem-
plar typico foi pescado de um rio, e, como anotou o
collecionador, justamente sobre um leito pedregoso. E'
provavel que tambem as outras especies do genero com-
partilhem o mesmo habitat, porque todas têm a parte
terminal do corpo comprimida, como que provida de
membrana natatoria. “Talvez o estudo detalhado deste
genero nos revelará ainda si estamos em face de uma
readaptação à vida aquatica, ou si são estas as ultimas
especies que conservaram o modo de vida outrora com-
mum a toda a familia.
Observação mais detalhada sobre a biologia dos
nossos Gymnophiona ainda não foi feita; sómente um
artigo de poucas paginas do dr. E. A. Goeldi refere o
que o seu primo André Goeldi observou em Thereso=
polis, dando o auctor em seguida uma resumida des-
cripção do embrião de Siphonops annulatus. Comtudo
assim ficamos sabendo que a biologia desta nossa espe-
cie pouco differe da das outras especies observadas pelos
primos Sarasin no Ceylão e por Brauer. nas ilhas Sey-
chelles. Da mencionada publicação do dr. Goeldi extrahi-
mos as seguintes informações. Os ovos, que tem a forma
dos de beija-flór, médem
10X8,5 mm. e são claros,
transparentes. À ninhada en-
contrada constava de 6 destes
ovos, ligados entre si por um
filamento, como contas de um
rozario e achavam-se debaixo
de um toco numa roça secca.
Enrolada sobre ellas a mãe Os Fig. 2 Ovos de Siphonops annulatus li-
guardava, como que a cho- RE E EA genie is de rozario
Cao 0) embrião, enrolado | |.) lee
dentro do ovo, é provido de 3 pares de ramos bran-
chiaes externos, semelhantes aos dos Urodelos (Axvlotl,
Proteus).
Ainda que seja facto geralmente conhecido, não
queremos deixar de relembrar aqui mais uma vez a
historia interessante do desenvolvimento e da consecu-
tiva perda dos branchios externos durante a metamor-
phose dos Gymnophiona. Como em todos os amphibios,
a respiração faz-se, no periodo larval, por meio de orgãos
O pp
adaptados à vida acquatica, analogos ds guelras dos
peixes. Durante a metamorphose dos batrachios e de
parte dos Urodelos, estes branchios são substituídos por
pulmões ou então, como nos Urodelos perennibranchiados,
persistem durante toda a vida, funccionando conjuncta-
mente com os pulmões.
Nos Gymnophionas dá-se o primeiro caso, da sub-
stituição dos branchios pelos pulmões; como o mostra
a fig. 3, o embrião é dotado de ramos de branchios (*)
mais ou menos eguaes aos dos Urodelos. No genero
asiatico Ichthyophis as larvas ainda vivem na agua,
pelo que os seus branchios
lhes são de utilidade e este
caso certamente representa
a forma primitiva da me-
tamorphose destes amphi-
bios. Mas as larvas de
outras especies, como por
exemplo as do genero Hy-
pogeophis das ilhas Sey-
chelles, que vivem em terras
seccas, não podem utilizar-
se desses branchios e por
_ Fig, 3. Embrião de Siphonops annulatus IStO simplifica-se a sua me-
tirado de um dos ovos (fig. 2), mostrando os E
ramos branchiaes (cop. de E. A. Goeldi) tamorphose. Assim, logo ao
sahir do ovo, já estão aptos
para a mesma vida terrestre, à qual a sua especie se
adaptou.
(*) Devido à insufficiencia da literatura de que dispomos no
momento, não queremos discutir o seguinte facto, que por ora
poderá ser lembrado como nota curiosa e talvez suggestiva.
Tanto as figuras de embriões de Hypogeophis rostratus e al-
ternatus publicadas por Brauer, como a de Siphonops annulatus
de Goeldi (mas esta ultima só no lado esquerdo), mostram tão
somente 2 pares de ramos branchises, emquanto, como é sabido,
em todos os Amphibios sempre ha, na phase larval ou persis-
tentes, 3 pares destes ramos. Goeldi, commentando o caso, de o
seu exemplar ter ? ramos de um lado e 3 do outro, acha que
seja apenas accidental; infelizmente, porêm, não constatou qual
a feição predominante nos embriões de que dispunha, de modo
que nos pudese afirmar o que constitue a regra e o que consti=
tue a excepção, ao menos com relação äquella ninhada. Quem sabe
é
LE OI ees
Comquanto não tenha sido verificado ainda, cremos
que certamente este tambem será o caso das larvas do
nosso genero Siphonops, adaptado às terras seccas. E
este mais um bello exemplo da «Lei biogenetica funda-
mental» de Hæckel, pois que o caracter phylogenetico
nos reapparece no embrião, si bem que um tanto
transtornado cenogeneticamente, devido à adaptação. No
embrião de Ichthyophis os primos Sarasin constataram
tambem rudimentos de extremidades posteriores que,
analogamente ao caso acima descripto, não se desen-
volvem, mas que egualmente nos servem de documento
para podermos afirmar que os antepassados destes
animaes, em periodo geologico mais remoto, eram do-
tados de extremidades.
O esqueleto destes animaes deverá merecer-nos
attenção especial, visto como a sua extrema simplici-
dade não é primitiva, mas, como acabamos de vêr, de-
vido a varias phases de adaptação. O cráneo consiste
em um reduzido numero de ossos, que representama
fusão de muitas peças. De resto, o esqueleto consta tão
sômente de vertebras, providas das respectivas costellas.
Não havendo extremidades, tão pouco é necessario que |
se desenvolvam as cinturas scapular e pelviana.
Mas como a locomoção do animal se effectua uni-
camente por meio das contorsões do corpo, é mistér que a
columna vertebral se possa mover amplamente em todos os
sentidos. E” assim que constatamos em todos os animaes
que se locomovem sem auxilio de extremidades, um grande
augmento do numero das vertebras, como por exemplo
entre os reptis. Os amphibios Anuros (rans e sapos) com
extremidades perfeitamente desenvolvidas, têm invaria-
velmente 9 vertebras ; já entre os Urodelos, como Pro-
teus, com extremidades menos adequadas à marcha, o
sijá não se vae consumando uma atrophia geral neste crgam, já
mesmo na propria phase embrion:l? Isto, naturalmente, como
acima o frisamos, só com relação ds especies cujas larvas não
se utilizam nunca destes orgãos, que, portanto, se tornaram in-
teiramente inuteis.
Ichthyophis glutinosos, cuja lavra, conforme observaram os
primos Sarasin, vive na agua e, portanto, se utiliza dos seus
ramos branchiaes, tem os tres pares de rames bem desenvolvidos.
LOGE
numero de vertebras sóbe a 60 e finalmente nos nossos
Gymnophiona, apodos, a columna vertebral consta de
100 a 150 (e, segundo Wiedersheim, mesmo de 250)
vertebras. Como todas estas vertebras têm egual func-
ção, tambem oseu typo é o mesmo, sem que se possa
distinguir diversas regiões da columna. Unicamente a
primeira vertebra, o atlas, que está em contacto com a
cabeça, diferencia-se pela forma, e ainda por lhe faltarem
costellas. Não ha propriamente vertebras caudaes, por-
que as poucas vertebras que às vezes ficam situadas
atraz da abertura anal, alêm de serem providas de cos-
tellas, não têm o principal caracteristico, o arco haemal
inferior, que distingue as vertebras caudaes nos outros
animaes.
Mas assim como o estudo comparativo nos mostra
que certas differenças morphologicas, que se notam entre
esta ordem e as duas outras da classe dos amphibios,
são devidas a transformações secundarias, tambem ha
varios pontos que evidenciam a necessidade de uma se-
paração, em grupos mais ou menos independentes.
Já o estudo da segmentação do ovo, observado com
todos os detalhes por Brauer, revela dissemelhanças de
certo alcance. À segmentação dos ovos de Hypogeophis
das ilhas Seychelles é «meroblastica», emquanto que em
todos os outros amphibios ella é «total inegual». Mas
esta segmentação merolastica é só apparente (1) e
constitue sômente uma variante do typo geralmente
adoptado pelos amphibios e, si, portanto, esta observação
não tem maior valor theorico, revela comtudo a grande
distancia que já separa os Gymnophiona dos demais
amphibios. Ainda outro ponto caracteristico constatado
por Hinsberg no desenvolvimento dos Gymnophiona e
que, como o facto acima citado, separa estes amphibios
dos Anura e Urudelos, é a forma da placa olfactiva e
ainda o modo de formação da respectiva covinha.
Ainda varias outras questões de embriologia, ser-
viram de base ao Prof. Brauer para considerar os Gym-
(1) Verdadeira segmentação meroblastica, como se a observa
em ovulos de escorpiões e de caphalopodas, parece que não se
dá em vertebrado algum.
= Ope
nophiona (como tambem o acredita Burkhardt), como
sendo as formas que continuaram a serie dos Selachios
aos Amniotas (2) serie esta da qual os Anamnios restantes
se desviaram mais ou menos consideravelmente, apezar de
que as formas actuaes, em estado adulto, foram, em certos
pontos, muito modificados secundariamente, em conse-
quencia de seu modo de viver todo peculiar. Por isso,
o referido auctor não inclue os Gymnophiona no mesmo
grupo dos Urodelos, mas colloca-os como grupo inde-
pendente no começo dos Amphibios, sendo que delles
é que se desenvolveram os Urodelos, dos quaes depois
surgiram os Anuros e ainda são elles que levam a serie
aos Amniotas.
' DISTRIBUIÇÃO GEOGRAPHICA
As especies desta ordem dos Amphibios são, como
já tivemos occasiäo de mostrar, muito pouco variadas
no seu aspecto e constituem uma familia o quanto pos-
sivel uniforme e na qual ninguem porá em duvida o
parentesco intimo de todos os generos. Geographica-
mente, porém, as 50 especies conhecidas tem uma dis-
tribuiçäo bastante curiosa: 6 especies cabem à Asia
meridional, 3 às ilhas Seychelles, 10 à Africa e 30 à
America tropical. Mais interessante ainda é a distribui-
ção de alguns dos 18 generos que constituem esta fa-
milia; 7 destes generos occorrem unicamente na Ame-
rica, ao passo que 2 outros ainda, Dermophis e Herpele,
alèm de terem especies na America Central e Meridio-
nal, contam representantes, ainda, o primeiro na Africa
occidental e oriental, o segundo na Africa occidental e
na India; estes dous ultimos paizes tem ainda um
outro genero commum, a saber Uraotyphlus.
Ora, como nunca houve Amphibios marinos, não
se pode imaginar que os antepassados dos Gymnophiona,
communs aos diversos continentes, tivessem atravessado
a nado os oceanos que separam os paizes em que hoje
(2) Interessante é que os embriões dos Gymnophiona ain’a
hoje mostram grande semelhança com os dos Selachios bem como
com os dos Amniotas.
DE get
estão distribuidos os diversos generos affins ou as especies
do mesmo genero. Assim estes amphibeos constituem
mais um documento, como já se conhecem tantos, com-
probatorios da antiga ligação desses continentes entre
si; só depois que estas especies communs aos diversos
continentes alcançaram as regiões que hoje habitam, é
que os actuaes oceanos Atlantico e Indico invadiram as
terras que atê então ahi existiam, isto é a «Terra de
Gondwana» que ligava a America meridional à India,
incluindo a Africa. Veja-se a respeito o mappa da dis-
tribuição de terra e mar no periodo Eoceno, «Arclihe-
lenis» do dr. H. von Ihering (Revista do Museu Paulista,
vel. VII, Est. XIII). Não é, porêm, na épocha terciaria,
mas em periodo geologico ainda anterior, que devemos
afigurar-nos o periodo da dispersão dos Gymnophiona e
isto em consequencia de certos argumentos aos quaes
em parte já nos referimos, mas que aqui precisamos
recapitular, para maior clareza.
Phylogeneticamente tudo nos leva a crèr que dos
quatro grupos de Amphibios, a ordem dos Stegocephalr
(conhecidos unicamente por fosseis do periodo carbo-
rifero até o começo do mesozoico, isto é triassico) não
tem affinidades directas com as tres outras ordens da
classe ; entre estas ultimas, como já vimos, parece que
os Gymnophiona (ainda que não os conheçamos sinão
postdiluvianos) representam o typo mais antigo, do qual
se derivaram os Urodelos (com documentos paleontolo-
gicos conhecidos desde o periodo cretaceo) ; dos Urodelos
por sua vez decendem os Anura (cujos primeiros fosseis
apparecem no Éoceno, ou começo do terciario).
Assim consideramos os Gymnophiona como uma
ordem antiquissima (1), do periodo mesozoico e que na-
(1) Os Aistopoda, que alguns auctores querem considerar
como antepassados dos Gymno;hiona, de facto apparentam al-
guma semslhança com estes ultimos, principalmente por serem
eguslmente apodos e de pequenas dimensões. Trata-se de uma
familia dos Ssegocephalos do periodo carbonifero, da Bohemia e
talvez da America do Norte; os antepassados dos Gymnophiona
porem, devemos procurar, ao nosso vêr, entre formas dotadas de
extremidades e que tenham vivido em regiões mais vizinhas do
centro de dispersão das nossas especies.
ts gate
quelle tempo de sua dispersäo se compunha de formas
mais bem dotadas de meios de locomocäo. As formas
larvaes bem nos indicam que a vida terrestre, subterra-
nea, dos Gymnophiona representa puramente uma ada-
ptaçäo, mais ou menos recente, e assim, tratando-se de
animaes verdadeiramente amphibios, que por isto estavam
intimamente ligados à hydrographia do paiz, podemos
comparar, sinão identificar a distribuição geographica
dos Gymnophiona com a dos peixes da agua doce, con-
cedendo mesmo áquelles ainda maior liberdade em suas
migrações do que a estes. O excellente estudo do Prof.
GC. Eigenmann, sobre os «Peixes da agua doce da Pata-
gonia e uma ventilação da theoria de Archiplata-Archhe-
lenis» mostra, em pequenos mappas (pg. 366-268) as
areas zoogeographicas de cinco familias de peixes, que
considera como adaptados, de ha longo tempo, à agua
doce e que portanto, em suas migrações não puderam
transpôr os oceanos, e para os quaes, por conseguinte tal
qual como pera os nossos Gymnophiona, uma solução de
continuidade dos continentes representa uma barreira in-
superavel. Das cinco familias detidamente estudadas por
Eigenmann duas, Lepidosirenidæ e Osteoglossidæ repre-
sentam formas antiquissimas, estando comprovada a
edade pelo menos triassica da primeira. Devido a esta
alta antiguidade, encontramol-as não só na America do
Sul, Africa e nas Ilhas de Sonda, mas tambem na Aus-
tralia; as tres outras familias, Characinide, Cichlidæ e
Pœciliidcæ faltam na Australia. Principalmente estas ulti-
mas familias assemelham-se perfeitamente em sua distri-
buição geographica aos Amphibeos que aqui estudamos,
e comquanto os Pecilude occupem uma area um
pouco mais vasta, extendendo-se tambem à Europa me-
ridional, ao Japão, etc., Eigenmann comtudo o explica
biologicamente.
Logo ao começarmos este capitulo de zoogeogra-
phia, dissemos qual a distribuição geographica actual
dos Gymnophiona e em nosso mappa (fig. 5) assignala-
mol-a em preto. Devemos agora confrontar os diversos
mappas paleogeographicos, referentes aos primeiros pe-
riodos da era mesozoica, para assim verificarmos si os
dados que o estudo desta familia offerece, combinam com
— 100 —
os resultados a que se tem chegado baseado em outros
documentos. quer paleontologicos, quer zoogeographicos.
De facto vemos que, para comprehendermos a distri-
buição das familias de peixes d'agua doce e de amphi-
bios de que acima tratamos, é imprescindivel que admit-
tamos que tenha existido uma ligação continental entre
-a Africa com a America meridional de um lado e com
a India de outro lado.
Foi baseado em muitos factos biologicos desta
ordem que o dr. Hermann von thering documentou
em 1893, a antiga existencia do continente que elle
denominou «Archhelenis» e de então para ca já innu-
Fig +. Os continentes mesozoicos (Ia phase), que explicam a dispersão dos
Gymnophiona. Partindo da Africa, elles puderam chegar, para o lado do occidente, até
o Brazil e para o oriente até as ilhas Seychelles e a India; o estreito de Bengala im-
pedia que alcançassem a Australia, que então estava ligada 4 China,
meros outros naturalistas vieram confirmar esta hypo-
these de paleogeographia.
Levar-nos-hia muito longe enumerar tão sómente
as provas capitaes e todos os documentos irrefutaveis
,em que hoje se baseia este asserto, e que o Dr. H. von
Ihering reuniu em seu livro «Archhelenis e Archinotis».
O mappa que acompanha esse livro refere-se ao
inicio da éra terciaria, emquanto que os nossos documen-
tos parecem referir-se ao mesozoico. Como se vê do
mappa de M. Neumayr, referente ao periodo jurassico,
já havia então ampla ligação entre a America meri-
dional e a Africa e, por meio de uma peninsula, este
continente estava ligado à India. O estreito de Bengala
impedia a communicação deste continente com o outro
Sino-australiano, que incluia as ilhas de Sonda. São jus
tamente taes ligações de continentes que nos explicam
perfeitamente boa parte das migrações effectuadas pelos
nossos Gymnophiona.
Si admittirmos a Africa como centro de dispersão
destes Amphibios, vemos que elles puderam chegar,
para o occidente, até as ilhas Seychelles e a India.
Fig. 5. Os continentes mesozoicos (Ila phase) que explicam a dispersão dos
Gymnophiona. A ligação do continente Antillia 4 Archhelenis faculta a migração ás
Antilhas e 4 America Central ; com a obstrucção do estreito de Bengala estabelece-se a
passagem para as ilhas de Sonda, mas a este tempo já a Australia está desligada da
Asia, de modo que esse continente não poude ser attingido.
Estavam porém cortadas as communicações com as
ilhas de Sonda e com a America Central. Segundo Ort.
mann já existia então um continente «Antilla», que
comprehendia, além das Antilhas, a America Central
e uma pequena parte do norte da America meridional,
acima da Amazonia e das Guyanas.
Em fins da era mesozoica, (segundo Ortmann no
Cretaceo superior), estabelece-se a communicação deste
continente Antillia com a Africa que, segundo H. von
— 102 —
Ihering, entretanto, continua ligada ao Brazil meridio-
nal pela Archhelenis. Ha documentos comprobatorios
de que as terras da actual costa septentrional do Brazil
abateram no periodo cretaceo, dando lugar a uma in-
vasäo do mar. ‘ol este acontecimento que, ao nosso
vêr, deu lugar à formação de um golfo do oceano Pa-
cifico, que porêm não conseguiu interromper as com-
municações da Africa com o Brazil e com a Antillia.
Assim conseguiram os Gymnophiona achar seu
caminho até a America Central, ao mesmo tempo que
tambem se passaram da India para as ilhas de Sonda, as
quaes, segundo o mappa do cretaceo superior de Ort-
mann, se desligaram da Australia e passaram a fazer
parte do mesmo continente que a India, pela obstru-
cção do estreito de Bengala.
Explica-se tambem, por este modo, porque os Gym-
nophiona não puderam attingir a Australia; a sua au-
sencia ahi, por si só, não mereceria maior reparo,
mas faltam egualmente áquelle continente as familias
dos peixes Characinilæ, Cichlide e Peeciliide, que,
segundo já expuzemos, compartilham com os nossos
Gymnophiona a mesma historia zoogeographica.
Realizadas estas migrações, podemos admittir que
os Gymnophiona passaram a adoptar o modo de vida
sedentario que hoje lhes é caracteristico. Uma obje-
cção, que certamente se fará a este modo de ver, ob-
jecção esta que tem toda razão de ser, dada a nossa
actual comprehensão da evolução das especies, é a se-
guinte: Como se explicaria então que todas as espe-
cies da familia, já agora espalhadas por tres continen-
tes, soffressem todas, repetimos, e independentemente
uma das outras, a mesma evolução ?
Com a seguinte transcripção de um trecho da
publicação do dr. H. von Ihering sobre o Systema e
a distribuição da fam. de lee dos Helicidæ (1909,
pag. 425) não damos certamente nenhuma resposta à
questão, que aliás se nos afigura mais embaraçosa do que
quantas outras actualmente se discutem neste campo da
evolução, onde pensavamos ter já comprehendido os pro-
blemas mais dificeis, e que as divergencias existentes
entre as varias escolas fossem tão sómente questões de
detalhes.
— 105 —
«O nosso entendimento, educado um tanto par-
cialmente, comprehende facilmente que os descenden-
tes de um certo subgerero ou genero possam eviden-
ciar quaesquer particularidades morphologicas, que de-
pois são transmittidas a toda a descendencia; mas
é-nos incomprehensivel como a mesma tendencia peculiar
na evolução se possa manifestar, ao mesmo tempo e
independentemente, em todos os membros da mesma
familia. Servindo-nos da comparação usual da arvore
genealogica, podemos dizer que comprehendemos os
processos de evolução consecutivos, mas não os que se
realizam parallelamente no mesmo sentido; entretanto
trata-se aqui não de factos singulares ou de excepções,
senão da manifestação de leis importantissimas».
Ao mesmo tempo que estas reflexões eram publi-
cadas em Vienna, o dr. Daniele Rosa, de Firenze, di-
vulgava a sua «Nova explicação da origem e da dis-
tribuição geographica das especies» onde, por meio de
sua hypothese da «llolvgenesis», pensa ter explicado
que «cada especie se origina de todos os individuos
da especie-mãe e portanto em toda a area, continua
ou descontinua, occupada pela mesma». Não cabe aqui:
uma discussão detalhada da theoria, em busca de do-
cumentos sobre «o idioplasma especifico que se evolve
indefinidamente e se complica, soffrendo scisões perio-
dicas...»
Mas o auctor em questão, inimigo declarado das
migrações (1), por meio das quaes nós outros explica-
mos os phenomenos da distribuição zoogeographica é,
portanto, contrario à utilização destes documentos para
a confecção dos mappas paleogeographicos. Entretanto,
pareceu-lhe necessario criar a hypothese hologenetica,
para assim explicar a semelhança das formas animaes
em areas discontinuas, que nós em parte explicamos
phylogeneticamente, mas que ainda assim nos offere-
cem enigmas como os que acima referimos.
(1) A hypothese tão sómente protela a explicação z00-
geographica, porque, imeginanio mesmo a espscie-mãe muito
antiga e primitiva, nem por isto sa póde prescindir de vias de
communicação para povoar todus os recantos do mundo.
— 104 —
CHAVE DE CLASSIFICAÇÃO DOS GENEROS (1)
I, (Com escamas cycloides na pelle; com 2 séries
de dentes no maxillar inferior :
A, Olhos visiveis:
a, Tentaculo globular, proximo
ERRO IDO. NPC o SD e o (Dermophis)
aa, Tentaculo valvular, junto e
abaixo da marina NE NE ) Ceeciiia
aaa, Tentaculo valvular, junto do
Olho jis DU acne ee TIRE IIe, Ue (Rhinatrema)
AA, Olhos invisiveis, cobertos pe-
los ossos craneanos . . . . (Gymnophis)
D, Sem escamas:
B, Com 2 séries de dentes no ma-
xillar inferior :
b, Parietaes e squamosaes em
Contatos No ao bre o LUN Typhlonectes
bo, Parietaes separados dos squa-
INOSAGS NAME AA Chthonerpeton
BB, Com só uma série de dentes
NO maxilar anterior Wie). Siphonops
DERMOPHIS Peters
Siphonops part. Dumeril & Bibron, VIII, 1841,
p. 284.
Dermophis Peters, Mon, Berl.) Acad demo
987 ; 2d. Boulenger, Gat. 1882, p. YT; id. Boulenger,
P. ZS. 1895, po 404;
Nao se conhece nenhuma especie deste genero do
Brazil; 3 são do Mexico, America Central, Perú e Bo-
livia, 2 säo da Africa.
Cascilia Linn.
Cecilia Linné, part. Syst. Nat., ed. X, 1758,
p. 229. zd. Boulenger, Cat. 1882, p. 93; 2d. Boulenger,
E. Z. 5: 1895 nado
(1) Os generos entre parenthesis não são ainda cenheci-
dos do Brazil; vivendo, porém, em paizes visinhos ao nosso, é
possivel que algumas das suas especies venham a ser encontra-
das na nossa fauna.
— 105 —
Cecilia gracilis Shaw
Cecilia gracilis Shaw, Zool. III, 1802, p. 9597;
id. Boulenger, Cat. 1882, p. 95; id. Boulenger, P. Z.
S.. 1895, p. 407.
Caracteriza-se por ter 210 a 255 anneis, todos in-
terrompidos, tanto na linha dorsal como na ventral.
Habit. Guyana, Brazil septentrional.
Cecilia tentaculata Linn. é conhecida só das
Guyanas e distingue-se das demais especies (4 da Co-
lombia e do Equador) por ter 135-150 anneis, dos quaes
os 40 ou 50 ultimos são incompletos na linha dorsal.
RHINATREMA Dum. & Bibr.
Rhinatrema Dumeril & Bibron, VIII, 1811, p. 288;
id. Boulenger, P. Z. S. 1895, p. 407.
Epicrionops Boulenger, Ann. & Mag. N. H. 1883,
D202
Este genero se distingue anatomicamente dos pre-
cedentes por näo ter os ossos parietal e squamosal em
contacto, como succede naquelles generos, mas sim se-
parados um do outro. As 2 especies conhecidas, que
aliás só differem pelo numero dos anneis: R. brvitta-
tum Cuy. (cf. Dum. & Bibr. Est. 89 fig. 4) com 340
anneis e À. bicolor Boul. (cf. Bouleng. P. Z. S. 1895,
Est. XXIII, fig. 2) com 245 anneis provêm, a primei-
ra da Guyana franceza, a segunda do Equador, e é
muito provavel que formas com um numero interme-
diario de anneis venham demonstrar a necessidade de
sua reunião em uma só especie. Interessante é o colo-
rido, que consiste em uma larga facha amarella ão lon-
go dos flancos.
GYMNOPIS Peters
Gymnopis Peters, Mon. Berl Ac. 1874, p. 216.
As quatro especies deste genero, descriptas como
distinctas, differem unicamente pelas proporções do dia-
metro do corpo e pelo numero de anneis, caracteres aliás
muito susceptiveis de ligeiras variantes, que virão apa-
— 106 —
gar os limites especificos. Todas as quatro especies
vivem na America Central e na Guyana.
Typhionectes Peters
Typhlonectes Peters, Mon. Berl. Ac. 1879, p. 940; id.
Boulenger, Cat. 1882, p. 102; id. Boulenger, P.
LVS AOU, | p 4 U0:
Alem da especie conhecida do Brazil, ha ainda
FP. kaupii Berth. 1867 (F. dorsalis Peters 1877) da
Venezuela, com só 99 anneis, todos completos e TF. na-
tans Fischer 1879 (cf. Boulenger Cat. 1882, p. 103,
Est. IX fig. 3) da Columbia, cujos anneis são pouco
distinctos. Esta ultima é a unica especie do genero
que foi effectivamenie colhida da agua; entretanto a
cauda comprimida de todas as especies parece denunciar
o seu habitat aquatico.
Wyphionectes compressicauda (Dum. & Bibr.)
Cecilia compressicauda Dumeril & Bibron, VII,
1821 ip. 278:
Typhlonectes compressicauda Boulenger. Cat. 1882,
po 022d. Boulenger, (POLS SO, pale
A maior porção do corpo é, como geralmente, cy-
lindrica; mss na sua parte posterior ella é comprimida,
formando-se ahi uma especie de crista na linha dorsal.
Ha 135 a 167 anneis, que porêm no dorso são incom-
pletos. A cauda é nulla, pois a abertura anal é per-
feitamente terminal. A côr é uniforme, pardo-azeitonada.
Attinge 470 mm. de comprimento, com um dia-
metro de 20 mm.
Habit. Venezuela, Guyana, Est. Amazonas, Manäos.
Chthonerpetem Pelers
Chthonerpeton Peters, Mon. Berl. Ac. 1879, p.
940 ; cd. Boulenger, Cat. 1882, p. 104; id. Boulenger,
P. Z. S. 1895, p. 411.
AO
O unico caracter que se pode salientar para dis-
tinguir este genero do precedente é o que indicamos
na chave e, a não ser sua importancia, haveria toda
vantagem em reunir todas as especies em um só ge-
nero, caso em que parece que deverá prevalecer o
presente nome.
Chthonerpeton indistinctum Reinh. & Liitk.
Siphonops indistinctus Reinhardt & Lütken, Vid.
Meddel., 1860, p. 203,
Chthonerpeton indistinctum, Boulenger, Cat. 1882,
p. 104; zd. Boulenger, P. Z. S. 1895, p. 411.
Os olhos säo distinctos ; os tentaculos acham-se
entre as narinas e o olho, em plano um pouco inferior.
Ha 78 a 100 anneis pouco distinctos e incompletos. O
colorido é cinzento escuro, às vezes com manchas claras,
irregulares. O maior comprimento observado é de 450
mm., com 14 mm. de diametro.
Habit. Est. Rio Grande do Sul, Porto Alegre;
Rep Argentina, Buenos Aires.
Ch. petersi (Boulenger, Cat. 1882, p. 104, Est.
IX fig. 2) é a segunda especie que se conhece. Aqui
os olhos são pouco distinctos e os tentaculos ficam jun-
tos às narinas; os anneis, em numero de 145, são com-:
pletos, excepto os 28 anteriores, que são interrompidos
nas linhas dorsal e ventral.
Attinge 620 mm. de comprimento. com 16 mm.
de diametro. Boulenger indica sua proveniencia como
«Amazonas superior», pelo que parece que ainda não foi
encontrada no Brazil.
Fiphoncps Wagl.
Siphonops Wagler, Isis, 1828, p. 740; id. Bou-
lenger, Cat. 1882, p. 101: 2d. Boulenger, BZ. S..
1895, p. 411.
Dos tres generos sul-americanos de Gymnophiona
sem escamas, só este tem uma só serie de dentes no
maxillar inferior, pelo que facilmente se distingue. O
numero de anneis parece ser mais constante do que
nos outros generos, o que facilita a differenciaçäo das
especies.
fig.
— 108 —
89-95 anneis, todos completos;
o diametro do corpo cabe 20-25
vezes no compr. tot. ; tentaculo
um pouco abaixo do olho e a
meia distancia entre este e a
DEU DIE A EN AT NU NA
100-104 anneis, todos completos;
o diametro cabe 36-37 vezes no
compr. tot.; tentaculo junto e
pouco abaixo do olho. . . .
111 anneis, interrompidos na li-
nha dorsal; o diamatro cabe 40
vezes no compr. tot.; tentaculo
como em 1; olho muito pequeno.
110-115 anneis completos; ten-
taculo como em II.
133 anneis interrompidos nas
linhas dorsal e ventral; tentaculo
muito junto do olho, que é in-
IS MELON UE OUR EMMA E
Siphonops annulatus
S. annulatus:
S. hardy
S. insulanus n. sp.
S. paulensis
S. brasiliensis
(Mikan)
Cecilia annulata Mikan, Delect. Flor. Faun. Bras.,
1820 ; 2d. Spix, Serp. Bras. 1824, p. 74, Est. XXVII,
it!
Srphonops annulatus Boulenger, Cat. 1882, p. 102,
Est. VIL, fig. 4; id. Boulenger, P. Z. 8., 1895, p. 412.
A cor geral do corpo é de ardosia
; Os anneis desta-
cam-se por serem brancos, mais largos nos lados.
Hab. Equador, Perú, Guyana;
nv
Fig.
Se
es
. Brazil: Amazonia, Bahia, Matto
à Grosso, Espirito Santo, Rio de
Janeiro, S Paulo.
Mus. Paul. : Est (Pantie:
Taubaté; Est. Rio de Janeiro,
Serra Macahé; Est. Esp. Santo,
6. Siphonops annulalus, Rio Doce (90,
cabeça, monstrando: x narina, #
tentaculo, o olho,
(Por intermedio do rev. P.° A.
90, 91 anmneis)-
Schupp, dedicado
correspondente do Museu Paulista, ao qual devemos
= (Nbr
muitos especimens interessantes do Rio Grande do Sul,
recebemos um exemplar de Pelotas, que, com alguma
duvida, classificamos como pertencente a esta especie.
Os seguintes caracteres : anneis interrompidos na linha
mediana e em menor numero (81). não nos parecem, en-
tretanto, sufficientes para auctorizar a sua separação da
fôrma typica, nem mesmo como subspecie).
Siphonops hardyi Boul.
Siphonops hardyi Bou-
lenger, Ann. & Mag. Nat.
Hist. (6) 1, 1888, p. 1895
id. Boulenger, P. Z. 8.,
ou 1299; po 412) Est XXIV,
ra fig. 3.
Fig. 7. Siphonops annulatus, lado ventral
da região anal
A côr é uniforme; o corpo, proporcionalmente,
é sempre menos grosso do que na especie precedente.
Hab. Est. Rio de Janeiro; Est. S. Paulo.
Mus. Paul. : Est. S. Paulo, Ypiranga (100 anneis) ;
Est. Rio de Janeiro, Serra Macahé (95 anneis).
Siphonops insulanus 7. sp.
Apresenta os mesmos caracteres que se repetem
em todas as especies deste genero; o numero dos an-
neis é de 111 e todos elles estão interrompidos na re-
gião dorsal, e às vezes um pouco na linha ventral; os
olhos, muito pequenos, mal se distinguem, e pouco adiante
e abaixo fica o tentaculo, relativamente grande. O
corpo & muito fino, pois seu diametro cabe ca. de 40-41
vezes no comprimento total.
Compr. tot. 170-200 mm.
Hab. et Mus. Paul.: Est. S. Paulo, Ilha Victoria
e Ilha de São Sebastião.
Siphonops paulensis Bocitg.
Siphonops paulensis Boettger, Cat. Batr. Senck.
Ges. 1892 p. 62; td. Boulenger, P. Z. S. 1895, p.
412.
— 440 —
E' a especie mais commum nos arredores da Ca-
pital de S. Paulo; seus caracteres anatomicos já in-
cluimos todos na chave, e quanto ao colorido pouco ha
que dizer. À côr geral é pardo-azulada, côr de chumbo,
e sô bem pouco mais clara no lado ventral; nos lados,
no sulco dos anneis distendidos, apparece um listra clara,
cinzenta. A pelle é lisa, luzidia, sem granulação vi-
sivel no animal vivo; pela influencia do alcool sobre a
pelle, apparecem rugosidades e certa granulação. Acima,
na parte introductoria, já nos referimos à biologia
desta especie.
Hab. Est. S. Paulo.
Mus. Paul.: S. Paulo, Capital, Ypiranga, Raiz da
Serra, Compr. e diametro maximos 38011 mm.
Siphomops brasiliensis Lil).
Siphonops brasiliensis Lütken, Vid. Meddel., 1852
p. 94; 2d. Buolenger, P. Z. S. 1895, p. 414.
E” especie em tudo semelhante à precedente e que
differe só pelos poucos caracteres já mencionados, Mesmo
as margens claras dos anneis parecem faltar nesta es-
pecie.
Habit. Est. Minas Geraes e S. Paulo (oeste).
Mus. Paul. : Est. S. Paulo, Franca, Rio Feio.
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À questão dos indios no Brazil
POR
HERMANN VON IHERING
Em differentes estados de cultura por occasião do
descobrimento, mantiveram naturalmente os indios re-
loções heterogeneas com os conquistadores. Doceis e
faceis de dominar uns, outros bravios, desconfiados e
traiçoeiros, envolveram-se e foram envolvidos pelos con-
quistadores em desintelligencias e luctas, em que os in-
digenas, como mais fracos, frequentemente succumbiam.
A raça, à cultura das diversas nações de indios entrou
por certo nesse resultado, mas não devemos esquecer
a influencia do europeu, sempre vária, segundo a sua
nacionalidade, os progressos de sua civilização ou as
suas convicções religiosas. Resultou do choque das duas
tendencias, o exterminio des indigenas.
Todavia, na America Meridional e Central os indios
representam, sujeitos à raça branca, elemento util e fe-
cundo de trabalho. Acontece-o exclusivamente em territo-
rios hespanhões. Sera um acaso da historia? A crueldade
hespanhola igualou e excedeu mesmo a dos portuguezes, e
chronicas affirmam que no Mexico a impiedade dos
conquistadores atassalhava indios para pasto dos cães
(Rev. do Inst. Hist. e Geog. do Rio de Jan., Vol. XII,
pag. 223).
Parece, todavia, que depois da época das luctas
comprehenderam melhor e conseguiram posteriormente
transmudar os indigenas em elementos fructiferos da
população.
No Brazil sómente os jesuitas resolveram o pro-
blema da catechese, particularmente na raça guarany.
A’ sua obra meritoria faltava entretanto solidez e con-
sistencia, desapparecendo ella com os seus auctores.
— 113 —
E’ provavel que não pequena culpa de tão lamen-
tavel acontecimento coubesse ao systema de educação
applicado pelos padres, mas de outro lado não se deve
desconhecer que estes indios do Brazil meridional não
são affeitos a um trabalho regular e continuo.
Em quasi todos os paizes da America, solveu-se,
no correr dos seculos, o problema, ora educando e al-
deiando os submissos, ora movendo cruas guerras aos
que repelliam os dominadores, e difficultavam a admi-
nistração e o progresso, assaltando, talando, matando
viajantes, fazendas e povoados.
Na America do Nerte o governo tomou a Si 0
patrocinio da vida e da propriedade dos colonos, per-
seguindo e punindo os atacantes e impedindo os ataques
por uma linha de fortificações. Difficuldades semelhantes
impediram tambem na Argentina o povoamento de seu
vasto territorio, onde, comtudo, os acampamentos for-
tificados na região du Rio Negro e do Chaco abrigavam
efficazmente a civilização.
Só o Brazil desconheceu solução systematica para
o importante problema, e até hoje prolonga-se a anar-
chia resultante da ausencia de providencias. A pre-.
dilecçäo sentimental do brazileiro em favor dos indios
é um escolho immenso a transpôr. A indole generosa
do povo apaixona-se pela sorte dos donos primitivos da
terra de Santa Cruz. Do mesmo modo por que jurados
falsamente humanitarios absolvem ao assassino, visto
como a punição do criminoso não conseguiria reanimar
a victima, o coração do brazileiro inclina-se a perdoar
aos miseros selvicolas, inconscientes da gravidade dos
delictos. A misericordia mal entendida impede assim a
punição dos culpados, e os assaltos continuam impiedó-
samente nas estradas de ferro e nas picadas, e a ma-
tança sem peias dos pioneiros da civilização, dos colo-
nos e dos sertanejcs.
A marcha ascendente da nossa cultura está em
perigo; é preciso pôr cobro a esta anormalidade que a
ameaça.
Protejam-se os indios pacificos, mas garantam-se
ao mesmo tempo aos colonos a vida e a propriedade
contra assaltos de indios bravios.
— 444 —
Quaes as dificuldades da civilização indigena, quaes
os meios opportunos e convenientes, quaes os resultados
esperaveis é o que pretendo nestas linhas.
Antes de mais, cabe-me espaço a uma questão
pessoal.
Ha longos annos já, quer no Rio Grande do Sul,
quer em S. Paulo, preoccupa-me altamente o estudo
dos indigenas, de sua historia e de sua actual e passada
cultura. Examinei e medi indios de varias tribus, e
consegui reunir valiosa collecçäo anthropologica e ar-
cheologica no Museu Paulista. Fructificaram os meus
esforços em grande numero de publicações.
Por occasião da ultima Exposição Universal de
S. Luiz, fui convidado a escrever um pequeno estudo
sobre os indigenas do Estado de S. Paulo. Escrevi
uma memoria em inglez, e della veiu à luz, mais tarde,
segunda edição e traducção portugueza. Visei ahi tão
sômente o aspecto scientifico da questão, mencionando,
entretanto, as relações entre indigenas e immigrados e
o exterminio dos elementos em guerra com os ser-
tanejos.
A phrase deu logar a um commentario desfavora-
vel do sr. dr. Silvio de Almeida, que communicou aos
leitores do Estado de S. Paulo a sua importante des-
coberta de recommendar eu o «exterminio dos indios».
Protestei immediatamente nunca ter proferido semelhante
cousa, mas o admiravel achado do sr. dr. Silvio corria
mundo, triumphalmente echoando pelos jornaes, numa
ancia sentimental de lances emocionantes. A sympathia
pelos pobres selvicolas desabrochou no peito de muitos
a velha flor do sentimentalismo, e prorompeu em does-
tos contra o caracter abominavel do naturalista da es-
cola moderna. Rolaram nuvens de protestos e entre
elles um até de indios catechisados. O «Centro de Scien-
cias e Letras», de Campinas, enviou uma objurgatoria
formal ao «Instituto Historico e Geographico de São
Paulo». O Instituto, ao envez de repulsar a aggressäo,
que de tal arte se movia contra as idéas de um seu
socio fundador e benemerito (que só por isso tinha titu-
los bastantes a esta deferencia), preferiu não tomar
conhecimento do officio, obrigando-me a não mais par-
tilhar das sessões daquella corporação.
— 115 —
Tanto menos poderia esperar tal proceder quanto
em sessão de 1908 expuz e desenvolvi minuciósamente
um programma relativo à discussão dos problemas in-
digenas, assistindo-me neste assumpto quiçá prioridade
em nossa época. O Instituto acceitou com applauso a
minha conferencia e nenhuma voz se levantou para
discutil-a.
Concedo de barato que uma parte dos socios, neste
ou naquelle ponto, discordasse das idéas expendidas,
mas cousa alguma poderia legitimar a falta de colle-
guismo para commigo, socio dos mais antigos do Insti-
tuto. Por outro lado, ligado pessoalmente por vinculos
de amizade a quasi todos os mais frequentes ás ses-
sões, nada me faz suspeitar razões subalternas no pro-
ceder daquella sociedade scisntifica.
Não ha outra razão, portanto, do que a falta de
coragem de vir a publico defender ao consocio, a seu
parecer já condemnado no tribunal da opinião.
Eu mesmo tive a prova disso. Pessoas, cujo juizo
tenho em alto preço, declararam-me o seu pleno accor-
do, mas ninguem quiz ter a audacia de affrontar a cor-
rente predominante. Embora! Quanto a mim, não re-
conheço outra norma de conducta intellectual do que a
verdade da sciencia e o interesse publico: «Salus po-
puli suprema lex».
Consoando com o Instituto, a Congregação do
Museu Nacional do Rio de Janeiro julgou conveniente
lavrar protesto contra as minhas doutrinas, ou melhor,
contra as que se me attribuiram. Um dos membros
daquella corporação muito se empenhou por occasião
da Exposição Nacional para impedir se premiassem os
grupos de indios, expostos no Pavilhão do Estado de
São Paulo pelo Museu de que sou director. Nada
tendo conseguido, apresentou em congregação do Mu-
seu o seu protesto. Pouco se me dava, a mim, dis-
tinguirem ou não o Museu com o Grande Premio
que se lhe conferiu, mas entendo ter havido real-
mente justiça por parte do jury. As cabanas com indios
não só eram a unica tentativa de representar-se a cul-
tura primitiva do paiz, mas patenteavam, ao mesmo
passo, os progressos da exploração anthropologica em
S. Paulo. Ha apenas poucos annos, distinguem se as
— 116 —
cabanas das diversas tribus do Estado, tão só pelos
trabalhos do Museu Paulista e da Commissão Geogra-
phica.
Não obstante os meus protestos em varios jornaes,
dos de maior circulação de S. Paulo, o director do
Museu Nacional continuou a publicar contra mim inve-
ctivas infundadas, reproduzindo uma carta do sr. Te-
nente-Coronel Candido Rondon. Até em publicações de
caracter scientifico lançaram-me apedrejos. Mencionarei
apenas um artigo de Vicente Melillo, na Revista do
Centro de Sciencias, Letras e Artes, de Campinas,
Vol. VI], n. 20, 1909, pag. 137. O auctor, sem ter lido
os trabalhos que critica, investe a fallar em «extermi-
nio dos selvagens», a decidir que a justiça por mim
feita à catechese religiosa é apenas «um ensaio de
agradar a todos os paladares, e particularmente aos
Jesuitas», appellida de ousadia o modo por que me ex-
primi como cidadão brazileiro, e nem siquer admitte
logica nas minhas conclusões. Ai de mim! Ha feliz-
mente criticas a que se não precisa responder, e si
menciono esta, é só por ser symptomatica.
Basta, todavia, de observações de caracter pessoal.
A mim, certamente, me não compete provar à saciedade
o absurdo de juizos injustos com que me brindem, mas
não posso esquivar-me de recommendar aos leitores o
artigo publicado a 11 de Dezembro de 1909, no Jornal
do Commercio pelo eminente lente da Academia de
Medicina, o dr. P. S. de Magalhães. Diz: «Nossos
creditos scientificos no exirangeiro são infimos. Não
cansarei de exigir remedio prompto e eficaz à degra-
dação do nosso ensino, à inferioridade da nossa instru-
cção ». E tendo-lhe varios medicos e naturalistas falado
de minha pessoa, o auctor lhes respondeu que ella «bem
recentemente houve de soffrer duros golpes da maledi-
cencia e de insensato nativismo».
*
CS
No interesse da seguinte discussäo preciso ainda
dar alguns esclarecimentos sobre a nomenclatura ethno -
logica por mim usada. O sr. Coronel Jorge Maia, na
sessão de 5 de Março de 1910 no Instituto Historico
— 417 —
de S. Paulo, averbou de illegitimo o uso das palavras
«tupy», «guarany», «tepuya» e «caraibe», visto que:
«nunca foram linguas, nações, tribus ou cousa que os
valha».
A lingua falada pelos indios «tupy-guarany» era
o «abanheê» ou «anheëngatu».
Existe ha algum tempo entre «tupymanos», a ten-
dencia de combater o uso das palavras «tupy», «gua-
rany», etc. A intenção, pouco recommendavel practica-
mente, carece de fundamento historico. A literatura
scientifica não admitte esses abusos, só comparaveis 4
leviandade com que as camaras municipaes mudam ao
sabor da moda nomes consagrados de ruas e praças.
Póde acontecer julgar o linguista preferivel a dencmi-
nação «em tupy» para a lingua que estuda, mas as deno-
minações geraes têm de ser conservadas pela literatura.
Já no seculo decimo sexto deparamos frequentemente
a denominação «tupy» e Antonio Ruiz de Montoya pu-
blicou, em 1639, o celebrado «Tesoro de la lengua
guarany». Acceitemos hoje a proposta do sr. Jorge
Maia, e amanhã seremos obrigados a substituil-a por
novas denominações de novos auctores de propostas, a
seu juizo, ainda melhores. Pouco importam os nomes
scientificos com que o chimico baptisou a cal e o gesso;
os nomes vulgares nem por isso se aboliram. Como
os francezes falam o francez, os guaranys falam o gua-
rany.
São razões, as allegadas, que no interesse da no-
menclatura estabelecida e consagrada forçam-nos a con-
servar denominações ethnographicas geralmente acceitas
no Brazil.
No «Estado de S. Paulo» de 22 de Abril de 1910,
foi publicada a continuação da «Miscellanea Indigena»
do sr. coronel Jorge Maia, onde o auctor professa a
opinião de que melhor fora ter-se queimado ao sahir
do prélo, o livro «Glossaria Linguarum» de Martius,
e condemna tambem «o arrojo do sr. dr. Paulo Ebren-
reich por ter continuado e modificado a classificação
de Martius».
Emquanto o sr. coronel Maia não apresentar es-
tudos proprios e ensaios de classificação, só a si mes-
mo prejudicará, espedaçando os melhores estudos que
— 118 —
atê agora possuimos. Quanto a mim ficarei satisfeito
vendo approvados os meus ensaios em que tentei cor-
rigir a classificação de Ehrenreich, com relação ä eth-
nographia do Brazil Meridional. Infelizmente as exi-
gencias do sr. Jorge Maia, de se organizarem gram-
maticas de todas as linguas dos nossos indigenas, será
sempre aspiração irrealizavel, por já não existirem pela
maior parte as respectivas tribus,
As obras de Carl von den Steinen, Koch-Gruen-
berg, ou de tantos outros, representam valiosas contri-
buições para o aprofundamento da linguistica brazileira
e o sr. Jorge Maia prestaria sem duvida melhores servi-
gos, antes com contribuições positivas do que com cri-
ticas injustas.
Como já ficou dito, nunca tratei indistinctamente
das relações de civilizados com indios, mas sempre, e
sempre, distingui os indios mansos sujeitos às nossas
auctoridades e os bravios, ao contrario, em continuas
Juctas.
Tratarei, pois, separadamente de ambos esses gru-
pos, e terminarei com algumas conclusões geraes.
Catechese dos indios mansos
A questão mais importante em debate é sobre si
a catechese deve ser leiga ou religiosa. Sobre esse
assumpto difficil divergem as opiniões, mas observando
os resultados alcançados em outras épocas, é possivel
chegar a conclusões mais ou menos exactas. E” ver-
dade que uns poucos de lustros não conseguem elevar
povos incultos, inferiores, ao estado intellectual, moral
e religioso da maior parte do povo brazileiro. O es-
sencial não é a catechese, é a educação. Com dedi-
cação esforcada e paciencia constante, os bons resulta-
dos, é quasi certo, se mostrarão no decorrer de algu-
mas gerações e os ascendentes dos indios se assimila-
rão no resto da população rural. Os adultos, creados
ao sopro da independencia e da antipathia contra a ci-
vilização, não se tornarão certamente, com raras exce-
pções, cidadãos uteis. O melhor que se pôde esperar
— 119 —
delles é negativo—que não continuem a perturbar a
ordem publica do sertão. Logo que, ao cabo de de-
cennios, os aldeamentos prosperem e ganhem o aspe-
cto e a vida de pequenos povoados ruraes, ter-se-ha sol-
vido o problema que tanto apaixona a opinião. A maior
difficuldade a vencer consiste no começo. A indole
apathica do indio, a absoluta inconstancia no cumprir
os deveres ou occupações expontaneas, oppõem a te-
nacidade de obstaculos à vontade do mestre a quem a
sua educação se confie. Ha nas colonias européas, dif-
ficuldades analogas a vencer por parte dos missiona-
rios e empregados. A experiencia demonstrou a ne-
cessidade de conhecimentos technicos e idoneidade mo-
ral nas pessoas destinadas a esses serviços, ao mesmo
tempo humanitarios e administrativos. Convenientemen-
te preparados em estabelecimentos especiaes, estaduaes
ou religiosos, os funccionarios na Europa, antes de
chegar ao logar de suas funcções, são já mais ou me-
nos versados na lingua falada na colonia, e conhecem
perfeitamente a indole, os defeitos, as fraquezas e as
boas qualidades dos colonizandos. Qual será em com-
paração a situação dos empregados nomeados pelo Go-
verno do Brazil? Terão, logo de começo, desillusões
amargas, e os annos passados longe da civilização,
entre homens estupidos e algum tanto antipathicos, afi-
gurar-se lhes-hão annos de punição e de exilio. Ausen-
tar-se-hão sem licença, do seu posto, tantas vezes quan-
to possivel, confiando a inferiores as suas delicadas
funcções. Taes funccionarios (a experiencia o demons-
tra), procuram locupletar-se à custa dos indios, tiran-
do grandes lucros, isso sem tocar nos abusos contra
as mulheres. Leia-se a respeito a memoria sobre a
catechese dos indios da Provincia de S. Paulo, pelo
dr. Joaquim Antonio Pintc Junior, em data de 16 de
Abril de 1862 (Rev. Soc. Ethn. e Givilis. dos Indios,
tomo J, S. Paulo, 1901, pag. 54-69); o auctor, muito
competente, lamenta o «nenhum resultado que se ha
colhido da catechese e civilização dos indigenas da
Provincia».
«Começado a executar o decreto regulamentar de
1845, pela nomeação do director geral e de alguns
directores parciaes, o primeiro com as honras de bri-
VE are
+
— 120 -
gadeiro, e os segundos com as de tenentes-coroneis, e
além disto com o fardamento destinado para o estado-
maior do exercito, grandes esperanças nutriu o publi-
co, de que assim munidos os indios de brigadeiro e
tenentes-coroneis veriam de dia a dia melhorada a sua
sorte; essas esperanças, porém, foram desapparecendo
com a logica irresistivel dos factos, diante da qual o
espirito o mais refractario se curva e humilha.
Os tempos correram, e como nenhuns resultados
felizes se colhessem, entendeu talvez o Governo, que o
numero dos tenentes-coroneis e capitães ainda era pe-
queno, e sob proposta do respectivo director geral, se
fizeram novas e repetidas nomeações de directores par-
ciaes, de thesoureiros e secretarios, de fórma que, a
julgar pelo numero de militares desta ordem que pos-
suimos na capital, dir-se-ia que nos achamos cercados
de hordas indigenas.
Esses diversos aldéamentos, porêm, cujos directo-
res conhecem apenas a sua existencia no diploma que
lhes conferiu honras militares, e que só tem realidade
na secretaria do Geverno, nos registros e assentos das
referidas nomeações, nenhum resultado tem apresen-
tado».
Queixas como estas sobre o decreto n. 26 de 24
de Julho de 1845, encontram-se tambem na valiosa
memoria de Joaquim Norberto de Sousa e Silva. «So-
bre as aldêas de indios da provincia do Rio de Janei-
ro» (Rev. Inst. Hist. Geogr., Rio de Janeiro, vol.
XVII, 1854, p. 121) dizendo o auctor que o referido
decreto «encerra mui poucas providencias, e praza a
Deus que ainda assim seja elle executado, para que se
reconheçam os seus defeitos e sejam emendados por
homens dotados de conhecimentos necessarios, bebidos
nessa longa experiencia de tres seculos e meio de vãos
ensaios».
Nos ultimos decennios do imperio, cada vez mais
cresceu o descuido da catechese dos indios e a repu-
blica não alterou um ápice.
Na época colonial foram os mesmos os defeitos
da catechese official. José Arouche de Toledo Ren-
don, que desempenhou em 1798 o cargo de director
geral de todas as aldeias da provincia de S. Paulo, la-
— 191 —
menta «os erros palmares que tèm commettido nossos
avós na civilização dos indios» e exprime a esperança
que «quando das aldeias se não colham fructos, como
de facto pouces se poderão colher, elles pelo menos
servirão como de viveiros para tirar-lhes alguns filhos,
que irão ser cidadãos mais uteis que seus paes». (I. c.
tomo IV, 1842, ed. 2, 1863, p. 317). O desembar-
gador Manoel Francisco da Silva Veiga Macre de Mou-
ra, encarregado de averiguar as causas da deserção
dos indios na aldeia de Itaguahi, Estado do Rio de Ja-
neiro, declara que o descuido da aldeia e as violencias
praticadas contra os indios começaram depois da sa-
hida dos jesuitas, ficando os indios e a aldeia sem ad-
ministração (1. c. vol. XVII, 1854, ed. 2., 1894, p.
330).
Tambem o Marquez do Lavradio attesta em 1876,
como vice-rei e capitão geral do Estado do Brazil, a
respeito dos jesuitas: « com a extincção d'estes, como
lhes não puzeram director nem pessoa alguma que os
governasse, ou que requeresse por elles, foram pouco
a pouco desertando, e as pessoas que foram adminis-
trar a fazenda de Santa Cruz foram lhes tirando as
terras que lhes tinham dado e fazendo-lhes outras vio-
lencias gos que alli ficaram, de modo que todos se
viram obrigados a sair e ficar a aldeia quasi sem nin-
guem» (I. c. tom. XVII, 1854, p. 333).
Não precisamos recorrer aos primeiros seculos da
occupação do Brazil pelos portuguezes para explicar as
crueldades commettidas pelos conquistadores contra os
indigenas e como eram necessarios decretos, leis e bullas
papaes, alids poucas vezes observadas, para garantir ao
selvagem os direitos de homem e cidadão. O illustre
estadista José Bonifacio de Andrada, de cuja memoria
transcrevo um trecho, indica como causa das difficul-
dades que se tem com os indios «o despreso com que
geralmente os tratamos, o roubo continuo das suas me-
lhores terras, os serviços a que os sugeitamos, pagan-
do-lhes pequenos ou nenhuns jornaes, alimentando-os
mal, enganando-os nos contractos de compra e venda,
que com elles fazemos, e tirando-os annos e annos de
suas familias e roças para os serviços do Estado e dos
particulares, e por fim enxertando-lhes os nossos vícios
— 122 —
e molestias sem lhes communicarmos nossas virtudes
e talentos» (I. c. vol. XVII, 1849, ed. 2.º 1874, p. 228).
Leiam-se todas estas ideias e experiencias pronun-
ciadas por pessoas de alta competencia, estudem-se os
innumeros documentos referentes à catechese dos indios,
os protestos do indios ou de seu capitão-mor, do juiz-
conservador ou de desembargador juiz conservador dos
indios (1. c. vol. XVII, da citada revista); o resultado
é sempre o mesmo: a condemnação absoluta da ca-
techese leiga entretida pelos governos.
Propositalmente deixei de parte o juizo formulado
por padres, mas vale a pena de tomar conhecimento
da opinião de alguns dos mesmos. Assim diz o padre
Claro Monteiro, o missionario martyr de S. Paulo, (Rev.
da Soc. Ethnogr. etc., S. Paulo, 1901, p. 78) «a cate-
chese dos indios cessou no dia em que o governo as-
sumiu indebitamente a direcção desse serviço, creando
uma repartição publica de catechese com pessoal bem
remunerado, para a collocação de protegidos politicos»...
«A maior difficuldade dos missionarios na civilização
dos selvicolas é a especulação torpe dos regatões, pro-
tegidos pelos regulos politicos dos sertões, que abusam
da ingenuidade e ignorancia do indio, para defraudal-o
escandalosamente ou reduzil-o a uma verdadeira escra-
vidio». O «Correio Catholico» publicado em Uberaba,
no numero de 20 de Fevereiro de 1910, dirigindo-se
contra a nova éra de catechese leiga, disse que «a apti-
dão para a catechese é a regra entre os missionarios ;
fora d’ahi está a excepção; o Governo escolha». Em
vista desse artigo o Snr. Dr. Rodolpho Miranda, Mi-
nistro da Agricultura deu, n’«O Paiz» de 15 de Março
uma declaração pela qual entende poder combinar a
catechese leiga e a religiosa. O futuro ha de mostrar
de que modo será possivelao Snr. Ministro harmonizar
estas duas intenções com o programma positivista do
Snr. Coronel Rondon, por elle escolhido para inaugurar
a nova phase da catechese official.
Por minha parte nunca deixei duvidas sobre a
preferencia que dou à catechese pelos missionarios. No
anno de 1901 fundei em S. Paulo, com os Snrs. Conego
Ezechias Galvão da Fontoura, Dr. Jcão Mendes de Almei-
da Junior, General Couto de Magalhães e outros, uma
— 425 —
sociedade de ethnographia e civilização dos indios, que
logo depois se findou, em vista da indifferença geral.
Na primeira sessão (p. 2 da Revista dessa Sociedade)
declarei que para a catechese «o meio mais efficaz será
o de confiar essas missões a ordens religiosas e invo-
car para isso o auxilio do Estado». Tambem na Re-
vista do Museu Paulista, vol. I, 1899, p. 43 exprimi-me
do mesmo modo dizendo que «o systema official da cate-
chese tem fracassado no Brazil, tão completamente que
é condemnado por todos os homens de criterio. Suc-
cessos grandiosos, não têm sido conseguido sinão pe-
los jesuitas. Só a faisca d'um amor que abrace tudo,
só a dedicação enthusiastica para uma obra considerada
como meritoria, ou antes como santa, é que pode dar
estimulo e satisfacção a quem estiver dedicando a sua
vida à educação de hordas indolentes, semiselvagens».
Nesta minha opinião sou absolutamente insuspeito, eu
acatholico e naturalista da escola moderna. Venerador
e amigo do eminente naturalista Ernesto Haeckel, não
o acompanho, entretanto, na sua campanha contra as
diversas confessões christãs, e, como este thema me envol-
veu em uma pequena discussão com o jornal anti-cle-
rical «A Lanterna» desta capital, julgo conveniente re-
produzir aqui o que disse naquelle jornal (n. 12, de 1
de Janeiro de 1910).
«Ha um ponto capital em que não estou de accordo
com o eminente mestre de biologia. Haeckel entende
que as ideias, que julga estarem provadas, devem entrar
para a escola, e elle deseja pôr de lado as religiões exis-
tentes, como desnecessarias. Aqui o ponto em que os
nossos caminhos se separam. As conclusões às quaes
o naturalista e o medico chegam, por estudos sinceros
e prolongados, não servem para o espirito inculto. Des-
truir ao povo a sua fé religiosa seria um procedimento
insensato, emquanto nada temos para offerecer-lhe que
possa substituil-a. Ha porêm outro motivo ainda mais
nobre para chegar à mesma conclusão. E” immense
o capital já accumulado e comprehendido pela sciencia,
mas todas as novas descobertas servem apenas para
afastar de nós mais um pouco o ponto onde acabam o
nosso poder e os nossos conhecimentos. O que vae
além disto é a hypothese, a theoria, a crença. Si qui-
— 124 —
zermos ser justos, temos de reconhecer que a crença
do naturalista monista não vale mais do que a do ho-
mem religioso. Por minha parte estou convencido de
que a religião christä, com as novas descobertas das
sciencias naturaes, soffrera tão pouco como na epoca de
Galileu e que as actuaes confissões desta religião sym-
pathica terão de modificar-se muito para em tempos
futuros servirem de modo suficiente ao animo e ao
coração dos devotos. Acredito mesmo que virá a época
em que a crença do naturalista moderno e a do christão:
observante chegarão ao ponto de se confundir dentro de
certos limites». As poucas palavras com que aqui pretendi
explicar a minha crença scientifica e religiosa, justificam-
se pela necessidade de esclarecer as minhas doutrinas a
respeito da catechese. Não faltou quem interpretasse
malevolamente as minhas ideias, nem quem, ignorante
da conducta moderada e sobria que o homem prudente
deve manter, extranhasse não ter agido eu com maior
exaltação e intransigencia.
Falo dos missionarios como historiador imparcial
e systematico, e renhuma referencia lisongeira profe-
riram meus labios que não fosse a expressão de mi-
nha consciencia, que não fosse um grande dever de
justiça.
O programma do Snr. Coronel Rondon
Está ainda em preparativos a éra de catechese
official que o Snr. Dr. Rodolpho de Miranda, Ministro
da Agricultura, pretende inaugurar, e, exceptuadas as de-
clarações do Snr. Coronel Rondon e principalmente a
carta de 14 de Março de 1910 por este dirigida ao
Snr. Ministro, não constam outros documentos por
onde se possa aferil-a. Na carta o Snr. Rondon fala
como positivista e membro da Egreja Positivista do Brazil,
com ademanes pouco usados por funccionarios, e de que
não devem usar, a meu parecer. Ponto de vista, tal,
tão pronunciado e subjectivo, faz: duvidar da solidez das
novas relações positivistas como governo da Republica.
O Snr. Ministro da Agricultura foi já obrigado a de-
clarar aos jornaes, condições que modificam a opinião:
formada pelo publico deante de informações anteriores,
— 425 —
e as declarações ministeriaes são aliás pouco condicen-
tes com o programma do Snr. Rondon.
Como positivista, o Snr. Rondon nem ao menos é
consequente, visto como exclue o ensino religioso da
catechese dos indigenas, quando na conhecida opimäo de
Comte o espirito passa em primeiro logar pela phase
theologica.
O programma para a Nova Inspectoria Federal de
Protecção Fraterna dos indigenas do Brazil, escripto
às pressas, é bem incompleto.
Em geral contem conceitos de ha muito recom-
mendados, como: tratamento bondoso, garantia da pos-
se de terras, e protecção contra violencias e abusos.
Achando desagradaveis aos indios quaesquer obrigações
e ensino systematicos, por mais uteis que se nos affi-
gurem a nós occidentaes, julga não obstante o Snr.
Rondon poder empregal-os facilmente na conservação
das linhas telegraphicas no sertão.
Duvdamos disso, assim como da conveniencia de
remover fraternalmente os indios em certos casos de
sua moradia actual para novas aldeias, segundo o exige
o interesse da respectiva Inspectoria. E” natural que
compita à Inspectoria fiscalizar o modo pelo qual os
indigenas são tratados nas colonias e -estabelecimentos
particulares, mas duvidamos que lhe caiba egualmente
«tornar effectiva a punição dos crimes que se cummet-
tem contra os indigenas».
Suscitar-se-hão naturalmente daqui conflictos com
a jurisdicção estadoal.
O programma preoccupa-se inexperientemente com
os pontos mais simples da questão, deixando de lado
os que encerram mais serias difficuldades
Não é necessario possuir alto gráu de imaginação
inventiva para dirigir aldeamentos de Bororós e Pare-
cis, e offerecer terrenos sos demais indios já em con-
tacto com as nossas auctoridades.
Não se precisa de domador para lidar com boiada.
O problema essencial da questão dos indios—a anarchia
que actualmente caracteriza as relações das auctoridades
nacionaes com os indios bravios—o programma do Snr.
Rondon nem toca de leve. Muito menos, o lado scien-
tifico do assumpto.
Te : AT
a
he
HUE
Tratarei mais adeante dos indios bravios, e baste
como conclusäo que o programma do futuro chefe da
Inspectoria de Protecção dos indios é absolutamente
insufficiente e incompleto. E” digno de censuras quem,
em momento tão inopportuno, faz praça de suas cren-
ças religiosas positivistas, e intenta dispensar comple-
tamente a coadjuvação valiosa dos missionarios. Não
é de esperar, deante das experiencias até agora, que o
processo de tratamento fraternal consiga solução sa-
tisfactoria.
Os assaltos e massacres continuaräo no sertäo do
Brazil Meridional, e, como até agora, serão os serta-
nejos obrigados a tratar da propria defesa e do exter-
minio dos indigenas. Não podemos acreditar que esse
programma positivista satisfaça às exigencias que uma
população tem o direito de reclamar de auctoridades
especiaes. Ficou ja demonstrada a insufficiencia da antiga
catechese official, e foram expostas em parte as causas
do insuccesso.
Comeca-se agora de novo com a catechese official,
sem medidas garantidoras de melhores exitos. A historia
concentra a sabedoria dos seculos e a ella cabe orientar
as gerações novas.
O Snr. Rondon combate ideias minhas, nunca por
mim professadas, imputando-me até pretender eu negar-
lhes terras já por elles occupadas ou escolhidas pelo
governo.
Ninguem exigiria do Exm°. Coronel, conhecesse a
minha conferencia produzida no Instituto Historico e
Geographico de S. Paulo, publicada na imprensa; mas
todos temos o direito de exigir-lhe que não invente
accusações para rebatel-as quixotescamente com vehe-
mencia e emphase ridicula. Divergimos em variados
pontos, e porventura poderia o Snr. Coronel levantar
questões scientificas, e não voejar eternamente em torno
de calumnias e invencionices propagadas pela imprensa.
Divirjo ainda do Snr. Rondon ao referir-se ao ca-
racter pacifico e sincero dos indigenas já submettidos.
Ninguem poderá prevér c procedimento dos empregados
destacados, nem as influencias contrarias às nossas in-
tenções que prevaleçam entre os indios. Indios com que
Julgamos viver em perfeita paz, commettem improvisa-
mente crimes contra os seus bemfeitores, ou incitam
a perpetral-os a indios com elles em contacto. Muito
instructivo afigura-se-nos a este respeito o assalto e o
saque dos indios Chavantes-Opaié à casa de Pedro Lopez
em Nhanduhy, na Vacaria de Matto-Grosso, a 4 de Ja-
neiro de 1905. Pedro Lopez cumulára entretanto de
serviços aos Chavantes. Soube-se pertencerem os atacantes
a uma horda differente da favorecida por Lopez, mas isso
apenas prova não garantirem absolutamente contra uma
tribu, os beneficics feitos aos seus membros.
A população de Matto Grosso crê, por isso, cons-
tituir a mansidão dos Chavantes e outros um ardil para
mais facilmente assassinar os seus bemfeitores.
O methedo fraternal implica assumir o governo a
responsabilidade de numerosas vidas, e tudo isso em
consequencia de ideias extravagantes e rematadamente
falsas sobre o caracter dos indios. Ainda este anno, novo
assassinato em Matto Grosso veio confirmar quanto af-
firmamos.
Chamou-se a victima F. Valois Velho, ha pouco
nomeado director dos indios Cajabis. Entretinha boas
relações com os naturaes e, confiante, atravessava sosinho .
o Paratininga no porto de seu sitio denominado «Mu-
lateira» e levava presentes para os indios. Assassinaram-
no traigoeiramente a 21 de dezembro. Para provar
quanto o philoindianismo epidemico destes ultimos tempos
tem degenerado para a ôca verbosidade, adduzirei aqui
um trecho de folha vespertina desta capital; em 25 de
Outubro de 1909 noticiou terem sido salteados os mem-
bros da commissão telegraphica do Amazonas a Matto
Grosso, por indios, ao vogar, em canoas pelo rio For-
moso. O dr. Paula Santos foi ferido, segundo o jornal,
por quatro flechadas e dous remadores pereceram. Assim
remata a noticia: «Por occasiäo do ataque felizmente
poude-se afugentar os indios, sem o sacrificio de nenhum
delles, cumprindo-se assim fielmente especiaes determi-
nações do chefe Coronel Rondon para que, mesmo ata-
cados, se evitasse sempre, e dentro do possivel, causar
a morte de um selvagem siquer».
+
— 428 —
Indios bravios
Eis aquio ponto unico de divergencias da opinião :
os selvagens bravios, em constante guerra com a popu-
lação neo-brazileira. (1)
Mostramos precedentemente o estado de completa
anarchia actual das luctas dos selvicolas com a população
neo-brazileira e com os colonos recem estabelecidos. As
auctoridades federaes e estadoaes, temendo a grita dos
jornaes, não têm a coragem de oppôr a força à força
e assim abandona-se e sacrifica-se o sertanejo. Os jor-
naes noticiam de quando em quando assaltos e depre-
dações. O cidadão pacato da capital, ao deparar as nar-
rativas, no ról das cousas desagradaveis, lamenta as
victimas da sanha selvagem como lamenta os estragos
do raio, as torturas do ophidismo, ou os negrores do
crime. sem medir as consequencias, sem reclamar re-
medios do governo. O criminoso deve punir-se no con-
senso de todos para segurança collectiva ; só o selvagem
escapa aos dictames da justiça e devasta propriedades,
e trucida os seus inermes habitantes. Uma exaltação
religiosa de neo-bruzileiros, como por exemplo, o caso
dos «Muckers allemães» do Rio Grande do Sul, em
1874 (2), ou dos «Jagunços bahianos» em 1896 (2), basta
para uma expedição de policia e de tropas ser enviadas para
combatel-os. Só os indios têm o direito de matar sertanejos,
mulheres e creanças, sem levantar-se uma unica aucto-
(1) O Snr. Tenents Coronel Rondon, na terminologia posi-
tivista denomina «occidentass» os brazileiros de origem europea.
A denominação entende só com a Europa e nada significa aqui.
Si não fira a contusão poderiumos designar a vopulação branca
pelo nome de immigrados. Ms cumpra distinguir os nascidos no
Brazil, dos novamente acelimados. Eu p opôria o nome de «neo-
brazileiros» para o conjuncto das raças immigradas e seus des—
cendentes depois da descoberta da America. Os indigenas seriam
o elemsnto brazileiro primitivo ou «palecbrazileiro».
(2) Ambros. Schupp, S J Die «Macker» Paderborn, 1900;
C. von Koseritz, Dir Muckerschwindel aut den Deutschen
Kolonien. Koseritz. Deutscher Volkskalender fiir 1875, Porto
Alegra, p. 119 ss.
(3) Euclides da Cunha, Os Sertões (Campanha de Canudos),
Rio de Janeiro 1903.
— 129 —
ridade para punil-os. Qual a razão? Pertencerä a terra
ainda aos primitivos donos? O Brazil Colonia, Imperio
ou Republica deve assegurar e assegura a todos egual-
dade perante a lei. E” verdade que os bandeirantes ca-
cavam indios, masa Lei de 6 de Junho de 1755 con-
stitue livres os indios, como mais tarde se forraram
escravos africanos. Os indios perante a imperfeita legis-
lação actual concideram-se menores e são confiados aos
juizes de orphãos. Os juizes em geral desleixam-se, e
crimes infames repetem-se por isso impunes contra in-
dios mansos. Os indios desfazem-se facilmente de terras
a troco de recompensas e vantagens insignificantes e sd
esta razão justifica a imperfeição das leis. Evitam-se,
comtudo, taes abusos, estabelecendo a reversão das terras
ao dominio do Estado, uma vez abandonadas pelo con-
cessionario Indigena.
Si tal succedesse não haveria mister fazer para elles
excepções ao direito commum da Republica. À penultima
conquista contra disposições legislativas odiosas contra
a população brazileira, foi a conseguida pelo eminente
estadista Gaspar Silveira Martins, em 1881, em favor
dos cidadãos acatholicos. A ultima será a que equiparar .
o indios aos demais cidadãos brazileiros. O estado cul-
tural dos aborigenes continuará, certamente, a exigir
por muito tempo, medidas especiaes. Concedam-se-lhes
favores, mas não a immunidade de matar brazileiros de
diversa origem. Falamos sem exagero algum. Anno apoz
anno, repetem-se no sertão de S. Paulo, Paraná e Santa
Catharina, assaltos em que se perdem propriedades, fa-
milias e vidas.
Adduzo aqui, para prova dos prejuizos causados, as
principaes sortidas dos Caingangs; e bem certo estou
2
que esta relação é ainda muito incompleta.
1906. Assalto e assassinio de 5 pessoas da Cor-
redeira ; de 2 pessoas no Lageado, além de
outros incidentes menores.
1907. São trucidados o agrimensor Deocleciano
Gomes e dous camaradas, ficando um ter-
ceiro ferido. x
1908. Assassinio de 2 serradores portuguezes em
Bariguy.
— 450 —
1909, em 29 de Março. Primeiro assalto ao pes-
soal da linha Noroeste em Santa Cruz, mor-
rendo 5 pessoas.
em 28 de Julho. Assalto na Fazenda «Indiana», pere-
cendo Manoel Paraná e dous camaradas e
havendo 6 feridos.
1910, em 29 de Março, os indios atacaram no ki-
lometro 248 uma turma de serradores, ten-
taram arrancar trilhos e levaram a chapa do
kilometro ; em 16 de Maio outro assalto 4
linha Noroeste.
Os moradores prejudicados por esta absoluta falta de
protecção por parte do governo, organizam-se com «bu-
greiros» (chamam-se assim os versados na caça indigena);
estes, Juntamente com os prejudicados, dirigem-se para a
aldeia, e de madrugada assaltam-na e destroem-na. Matam
todos os homens e as vezes mulheres e creanças, sem
perigo para os assaltantes, e na mais horrivel das carni-
ficinas. Chamam-se taes matanças, em S. Paulo, «dádas».
Primitivamente não escapava vivo ninguem, mas
afinal prevaleceu o costume de se pouparem as creanças
e parte das mulheres, que se distribuem pelos membros
da expedição, e provavelmente cedidas por dinheiro.
Alguns jornaes têm descripto as «dádas» com exagero.
O conhecido periodico geographico Globus (vol. 91, 1907
pag. 121) traz um artigo do Snr. Fricz, auctor de um
protesto contra taes selvagerias, em 1908, no Congresso
Internacional dos Americanistas em Vienna, sem resul-
tado, em que se leva muito alèm a exageração.
Fricz afirma que os bugreiros enfeitam as suas
espingardas com os dentes dos indios por elles mortos
e que vendem aos fazendeiros orelhas seccas de indios
por preço de duzia. São phantasias ou mentiras de ca-
cador, acceitas ingenuamente pelo viajante. O dr. Gensch,
em Blumenau muito se empenhou para pôr termos ds
«dädas», conseguindo apenas armisticios. Um dos valentes
bugreiros daquelle Estado, ao voltar para casa, encon-
trou-a destruida, e trucidada toda a familia. Comprehen-
de-se depois disto ter-se elle transformado de pacifico
agricultor no mais implacavel inimigo dos bugres. O
caso é analogo à justiça do lynchamento, applicada pelo
publico todas as vezes que a justiça official não se de-
monstra. Cumpre, com a maxima instancia, ao Estado
deitar um ponto final nessa anormalissima situação. O
problema consiste em prender «fraternalmente» esses
indios bravios, aldeial-os em condições de futura exis-
tencia, e que possam extinguir os costumes criminosos.
José Bonifacio de Andrada e Silva, cuja memoria
citada & a melhor de quantas conheço, escreveu (I. c.
p. 235): «as bandeiras que devem sahir a buscar indios
bravios dos mattos e campos para serem aldeiados, serão
homens escolhidos que levem em sua companhia, como
linguas, indios mansos, e um missionario para os persuadir
a catechisar com presentes, promessas e bom modo».
Para o Estado de S. Paulo, a questão é de grande
actualidade. Ou o Estado desiste de continuar a fazer
trafegar a estrada de ferro Noroeste, ou será obrigado
a tornar os indios respeitosos de nossa civilização. Só
ha dous recursos. O primeiro consiste em estabelecer
uma colonia bem dirigida, administrada e defendida, em
territorio occupado por indios bravios. Esta colonia
deveria ser formada com Coroados mansos, que de qual-
quer modo consigam entender-se com os indios bravos,
e demostrem-lhes a conveniencia de aldeiarem-se vanta-
josamente no mesmo territorio. Todavia os selvagens
consideram trahidores e inimigos, os transfugas, em bôas
relações com os brancos, e portanto a tarefa é precaria
e perigosa.
Em 1903 o Snr. Coronel Sanchez organisou uma
expedição em companhia dos frades capuchos, que a
pedido do governo de 8. Paulo queriam tentar a cate
chese dos Coroados bravios de &. Paulo. Uma india
de nome Maria, educada entre os brancos, conseguiu
explicar a uma outra mulher da tribu, as intenções
pacificas da expedição, fazendo-lhes ver as conveniencias
de entrarem os selvicolas em bôas relações com a po-
pulação do sertão. As propostas foram bruscamente
regeitadas pelos indios e um coroado manso, que acom-
panhava a expedição como camarada, foi morto a fle-
chada quando todos voltavam pela picada. Têm sido
infructiferos todos os ensaios de chegar a qualquer
accordo com estes selvagens.
Entretanto deve ser possivel a pacificação desses
Kaingangs ou Coroados, visto acharem-se já pela maior
ne
parte aldeiados no Estado do Paraná, principalmente nas
proximidades de (Guarapuava. Na primeira metade do
seculo passado viviam os Coroados do Rio Grande do
Sul em continua guerra com os colonos da Serra do
Mar. Entraram mais tarde em relação com as auctori-
dades e foram aldeiados. No Rio Grande do Sul e no
Paraná esses indios, si actualmente não prestam serviços
relevantes, ao menos não perturbam mais a ordem publica.
Será possivel em S. Paulo e Santa Catharina pro-
ceder da mesma sorte relativamente aos Coroados do
Brazil Meridional.
Si tal processo pacifico se não effectuar, virá o
tempo em que se organizem bandeiras para reduzir os
indios e aldeial-os. Pelo emprego de pessoal idoneo, as
capturas far-se-hão sem derramamento de sangue. Com-
prova não serem, por natureza, sanguinolentas as ca-
pturas, o facto de se não constatar um só obito em
membro de bandeira, por occasião de nove dádas do
municipio de Baurú. De resto, parece-me não contarem
muitos indios os Coroados do Oeste de S. Paulo, orçando
de 500 a 700.
Programma para tratamento dos
indigenas do Brazil
1) O elemento indegina desapparece do Brazil ab-
sorvido pela raça branca. Martius, em 1838, disse:
«Duas são as cousas que a humanidade transmitte here-
ditariamente : sangue e espirito. De ambos o indigena
da America só deixará vestigios. Por esta razão pode-se
dizer que a raça americana não tem mais futuro. Perante
a nossa vista ha de desapparecer». A legislação e admi-
nistração publica devem-se inclinar perante essa lição da
sciencia e da experiencia.
Amda que o indegina possa muitas vezes fundir-se
economicamente com o homem civilizado, ainda que
em parte se assimilem à população rural, nem por
isso as medidas postas em pratica em favor dos indi-
genas se devem considerar como conquista de novos
elementos de trabalho, mas simplesmente como um acto
de nobreza e de amor da raça vencedora para com a
vencida.
— 155 —
2) Não existem regras geraes para o tratamento
dos indios. Bravios ou trataveis, são sempre desejosos
de restringir ao indispensavel o contacto com os neo-
brazileiros, ainda que vivam frequentemente à moda do
caboclo no meio da população sertaneja. Prestam-se
alguns a serviços regulares de que refogem outros;
enumeram-se alguns entre os agricultores, dedicam-se
outros à creação do gado, são canoeiros outros. A’s
inclinações naturaes, e ás particularidades do caracter
da tribu se deve conformar a rossa conducta para
com elles.
3) Nenhuma outra catechese excede à dos mis-
sionarios, pelo zelo sincero dos catechisadores à obra
por elles considerada santa ou meritoria, quando esta-
belecida de accordo com as disposições do governo,
com a devida fiscalisação. O governo decidirá quaes as
tribus mais proprias à catechese, devendo-se considerar
os serviços, nos primeiros decennios, antes trabalho de
educação e de caridade do que como serviço religioso
regular. Restringir-se-ha o ensino, de começo, ao indis-
pensavel, visando mais a comprehensão da moral christã
do que a sua parte dogmatica.
A primeira condição de successo na catechese é
que os missionarios tenham perfeito conhecimento da
lingua dos indios, cuja educação vão tentar, e o Governo
deverá insistir nesta clausula em qualquer contracto que
fizer com os missionarios.
4) A catechese e o ensino religioso não devem
impor-se obrigatoriamente aos indios “desejosos de con-
tinuar a viver independentes. Serão então entregues à
fiscalisação das auctoridades encarregadas de subvencio-
nal-os opportunamente, e providenciando para evitar
todo o incommodo ou perigo que possam causar aos
visinhos. Poderão assim continuar livremente entregues
ds suas industrias e costumes com absoluta liberdade
religiosa emquanto não degenerem.
Os Carajás e Cayapos do Rio Araguaya recom-
mendam-se por exemplo à conservaçäo no actual estado
de cultura.
5) O procedimento das auctoridades deve ser di-
rigido pela bondade e pela justiça. Devem-se evitar
contacto continuo, bem como quaesquer outras medidas
— 154 —
coactivas de sua liberdade sem necessidade. As aucto-
ridades competentes devem zelar pelo cumprimento das
leis e regulamentos.
6) Os indios mais ou menos habituados à vida ser-
taneja serão entregues ao cuidado dos missionarios.
7) O governo concederá aos indigenas as terras por
elles occupadas, sem dar-lhes entretanto titulo ou direito
de alienal-as em todo ou em parte. Garantir-se-ha mais
ou menos completamente a conservação das respectivas
mattas, prestando os officiaes do governo especial attenção
a este assumpto.
8) Os indios serão equiparados aos outros cidadãos
da Republica, denunciando-se e julgando-se os crimes de
que forem victimas pelo direito commum brazileiro.
Gosarão sómente de um favor da lei: serão dis-
pensados do serviço militar e do pagamento de im-
postos. Esta medida refere-se porêm sómente aos indi-.
genas ainda não completamente civilizados.
9) Os indios assaltantes, que impedem o desenvol-
vimento regular da civilização, serão aldeiados mesmo
à força e até por meio de bandeiras, como já ha muito
o recommendava José Bonifacio, ainda que se devam o
mais que possivel evitar recursos extremos. Cumprirá
em taes casos tentar preliminarmente aldeial-os em co-
lonias com indios mansos da mesma tribu, como acima
ficou dicto. Nos serviços effectuados nos mattos não se
empregarão tropas regulares, mas sertanejos affeitos à
vida do matto e à indole dos selvicolas.
10) Juntamente com os fins praticos da civilização
dos indios, não se deve esquecer o interesse scientifico
da questão. EK’ em Vienna e na Allemanha que se en-
contram as collecgdes mais valiosas para o estudo da
cultura indigena. No Brazil fizeram-se collecções de
objectos reunidos ao acaso, que não tem a unidade e a
minucia daquellas collecções providas de todas as infor-
mações. Além das modestas expedições do Museu Paulista,
não se realizou expedição alguma organizada pelo go-
verno do Brazil, com a intenção de estudar o problema.
Deverá servir de modelo ao Brazil o «Ethnographical
Bureau» da America do Norte; tudo depende nesse
caso da competencia dos exploradores, a qual só pode
ser julgada pelos collegas idoneos de outros paizes.
— 135 —
Conclusôes
Na vida social näo existem apenas mentiras conven-
cionaes: existem tambem actos convencionaes, em que se
procede de modo absolutamente antagonico aos dictames
da experiencia scientifica e da prudencia. E" exemplo
disso o tratamento da syphilis, muito differente do das
outras molestias contagiosas, pelos obstaculos dos pre-
conceitos e convicções moraes. E” exemplo disso ainda
no Brazil a questão dos indios bravios. Repetem-se annos
e annos, assaltos, massacres e barbaridades de toda a
sorte e de parte a parte, e ninguem faz caso.
Mas eis que vem o naturalista, e em estudo ex-
clusivamente scientifico menciona o exterminio dos indios,
e logo echoam clamores de associações scientificas e
não scientificas, religiosas e outras, num unisono clamor
contra as perversidades do homem abominavel.
Que indigna hypocrisia. Por acaso não sabem os
censores o que dia por dia ahi vae pelo Brazil? Sem
duvida o ininterrupto exterminio dos indios desde a
descoberta é uma vergonha que se deveria varrer da
historia nacional. Não se arrojem convicios e baldões
aos que verificam e narram os factos, nem ainda mesmo
contra os auctores dos crimes ; mas censurem-se as actuaes
auctoridades estadoaes que, admittindo o actual estado de
anarchia, forçam os sertanejos a defender-se contra os
assaltos e a punir os assaltantes. Quantos conhecem o
interior do Estado de 8. Paulo, sabem como no correr
dos ultimos 50 a 60 annos limpou-se o sudoeste do Es-
tado não só de indigenas bravios como de mansos e
sujeitos ao nosso regimen. Nos ultimos trinta annos
concluiu-se o exterminio dos Chavantes do Estado de
S. Paulo. Tinha ha muitos annos desejo de mandar es-
tudar estes indios. No anno passado offereceu-se ex-
cellente opportunidade, podendo eu encarregar desta
taréfa o Sr. Kurt Unckel, amigo dos indios, o qual já
vivera dous annos entre os Guaranys do Rio Batalha,
onde o adoptou c cacique do aldeiamento. O resultado
foi quasi nulio. Os Chavantes, numerosos atê ha poucos
decennios, não existem mais hoje. Restam tão sómente
4 individuos, assimilados à população sertaneja e es-
— 156 —
quecidos em grande parte do seu idioma. Em 1898,
um sertanejo energico Verissimo de Goes procurou al-
deiar esses indios e levou-os atê a capital do Estado,
onde aliás nada conseguiu em favor de seus protegidos.
Com a maior difficuldade tornou com os seus trinta ou
quarenta Chavantes até São Matheus, onde os exiinguiu
uma epidemia, à excepção de um velho ainda vivo, e
empregado em serviços domesticos. À miseria augmen-
tou dahi por deante cada vez mais entre os Chavantes.
Certa vez quatro mulheres perseguidas por Coroados se
refugiaram em S. Matheus. O dono da primeira casa
em que procuraram abrigo prostrou logo uma dellas
com um tiro. O ultimo cacique dos Chavantes, homem
forte e alto, encontrando-se no campo com um morador,
foi tambem brutalmente assassinado a tiros, sem que
de sua parte tivesse havido troca de palavras ou resis-
tencia. Menos faceis de assassinar são os Coroados bravios
e guerreiros, que habitam as mattas espessas e lá se
defendem com as suas flechas como bons atiradores
que são. Organizaram-se innumeras dádas na visi-
nhanças de Baurú e de Campos Novos, nestes ultimos
tempos, e os bugreiros tem atacado à arma branca as
cabanas, matando creanças e mulheres. A imprensa eu-
ropea discute estas cousas e ha pouco em um congresso
de americanistas. A's auctoridades cabe reagir dupla-
mente no caso. Primeiramente impedindo os assaltos
às propriedades ruraes; em segundo logar reprimindo
os excessos da reacção dos colonos contra os indios.
Nada seria de extranhar si os governos dos paizes eu-
ropeus dirigissem ao Brazil esta pergunta: «Quaes são
as garantias de vida e propriedade que offereceis aos
nossos filhos, que a vosso convite ahi vão procurar uma
nova existencia» ?
Em toda essa questão só uma corporação scien-
tifica se pronunciou de modo criterioso : foi o «Club de
Engenharia» da Capital Federal, que, reprovando o
exterminio dos indios, declarou ao mesmo tempo «in-
dispensavel e urgente que o governo providencie sobre
a fundação de colonias militares convenientemente si-
tuadas e destinadas à protecção e defeza do sertanejo
contra os ataques dos indios bravios e egualmente sobre
a catechese destes, reservando-se aos mesmos, extensão
territorial propria e adequada à sua localização, de modo
a serem incorporados à nossa civilização».
A opinião dos sertanejos prejudicados não foi ouvida
nesta questão. Importam-lhes pouco as lamentações dos
jornaes e procedem na sua defeza com os recursos que |
sabem lançar mão. Os interesses dos colonos de Santa
Catharina foram entretanto discutidos pelo «Urwaldsbote»
de Blumenau e as conclusões do artigo editorial são as
seguintes: «Si se quizer poupar os indios por motivos
humanitarios & preciso que se tomem primeiro as pro-
videncias necessarias para não mais perturbarem o pro-
gresso da colonização.
«Claro esta que todas as medidas a empregar devem
calcar-se sobre este principio: em primeiro logar se
devem defender os brancos contra a raca vermelha.
«Qualquer catechese com outro fim não serve. Por-
que não tentar immediatamente? Si a tentativa não
dér resultado algum, satisfizeram-se ás tendencias hu-
manitarias ; então, sem mais prestar ouvidos às impre-
cações emphaticas e ridiculas de extravagantes apostolos
humanitarios, proceda-se como o caso exige, isto é,
exterminem-se os refractarios à marcha ascendente da
nossa civilização, visto como não representam elemento
de trabalho e de progresso».
Vê-se que quem escreveu estas linhas anceia por
uma solução, humanitaria ou não, que seja ao menos
efficaz e ponha termo 4s difficuldades do momento.
A questão debatida constitue problema de solução
tanto mais difficil quanto mais numerosos são os pontos
de vista a tomar em consideração : o philanthropico, o
juridico, o administrativo, o economico, o internacional.
Ao que eu saiba existem tres programmas para a so-
luçäo da questão dos indios do Brazil: o de José Bo-
facio de Andrada e Silva, de 1823: o meu de 1908 e
1910 e o do Snr. Coronel Rondon de 1910. O ultimo não
pode entrar em linha de conta por muito inconpleto.
O emprego dos processos fraternaes do Snr. Coronel
Rondon relativamente aos Coroados de S. Paulo e de
Santa Catharina, não daria outro resultado do que o
martyrio, como o do Monsenhor Claro Monteiro, que em
Maio de 1901 pagou com a vida a grandeza de suas
“intenções.
— 138 —
Ao encerrar esta discussão resta-me asseverar ter-
me envolvido nella muito contra a minha vontade, uma
vez que o assumpto só me preoccupa scientificamente.
E si nessa orientação consegui ampliar e coordenar
alguma cousa no conhecimento da ethnographia do Brazil
Meridional, não o fiz por compilação, mas com vigilias
prolongadas de multiplas questões de ethnologia, an-
thropologia e archeologia. Vi-me chrigado a colligir
pessoalmente os materiaes e colleeções em grande parte.
Organizei os mappas indispensaveis sobre a distribuição
dos campos e mattas do Brazil, e sobre a distribuição
geographica dos indios na epoca da descoberta e na
actualidade. Deste, junto a este estudo uma nova edição,
corrigida em muitos pontos de accordo com as infor-
mações expostas na explicação da estampa.
Relativamente a esse assumpto não ha porventura
pessoa alguma com mais experiencia do que eu, mas as
questões aqui estudadas ultrapassam em parte a minha
competencia. Trata-se de assumpto de caracter admi-
pistrativo-social, nos quaes evidentemente as questões
divergem. Não sou propagandista, como aliás o sou re-
lativamente à conservação das nossas mattas e à nossa
flora e fauna. Não pretendo por taes razões tomar parte
na discussão publica, porventura suscitada pelo presente
estudo. O unico escopo meu foi fornecer elementos de
estudo aos homens de estado e às pessoas cultas dese-
josas de informações. Não recommendei e não quero re-
commendar o exterminio dos indios; mas protesto contra
a anarchia reinante em tudo quanto respeita aos indios
bravios, como elemento da população do Brazil. A con-
tinuação do presente estado de cousas é uma vergonha
para um paiz civilizado. Oxalá os meus escriptos pu-
dessem solver o problema ao qual o presente artigo foi
por mim consagrado e dedicado.
EXPLICAÇÃO DO MAPPA (ESTAMPA VII)
No numero anterior desta Revista (Est. XII) sahiu
publicado um mappa sobre a distribuição geographica
dos indigenas do Brazil Meridional. Em estudos ulte-
riores informei-me novamente, e recebi valiosas publi-
cações novas até então inaccessiveis para mim. Fui,
— 159 —
obrigado por isso a fazer emendas importantes no mappa,
agora melhorado. A primeira edição, em escala pe-
quena, contem alem disso, alguns enganos quanto à col-
locação das tribus a que me reporto. De especial auxilio
me foi o Sar. Kurt Unckel, amigo enthusiasta e bom
conhecedor dos indios, a quem muito agradeço o me ter
desenhado o presente mappa. Da sua expedição em
serviço do Museu no anno passado, e para o sudoeste
do Estado de S. Paulo, provieram novas e importantes
informações, que vieram corrigir em parte as anteriores.
O mais importante resultado dessa expedição foi a
verificação da differença linguistica existente entre os
Chavantes de S. Paulo, actualmente extinctos e os de
Matto Grosso. Destes um grupo internou-se no Estado
de S. Paulo, perto do Porto Tibiriçá. O craneo desses
individuos examinados dentre os Chavantes--Oti é doli-
cocephalo. Ao passo que os indios do Estado de S.
Paulo se denominam Oti, os de Matto Grosso se deno-
minam Opayé.
Modificação consideravel é a referente aos indios que
eu denominära Noto-botocudos, habitando os Estados do
Paraná e de Santa Catharina. Estudos modernos esta-
beleceram subdividirem-se em dous elementos comple-
tamente differentes. O primeiro, estabelecido na zona
dos Rios Tibagy e Ivahy, coincide com os Arês de Te-
lemaco Borba. Estes Arês vivem entre os Kaingangs
da mesma zona, mostrando como indios guaranys podem
viver em completa harmonia com os indios tapuyas.
O resto dos indios, impropriamente chamados «bo-
tocudos», do extremo Sul do Estado do Paraná e Santa
Catharina, era desconhecido atê que os excellentes es-
tudos do Snr. Dr. Gensch em Blumenau nos deram in-
formações completas. O vocabulario destes indios differe
em parte do dos Kairgangs tyvicos. Mais ou menos
4/5 das palavras são identicas ou pouco differem.
Applico-lhes a denominação com que se chamam
a si proprios: Aweikôma. Os homens usam uia tem-
beta de madeira de dous centimetros de comprimento,
em forma de prego. E” por conseguinte bem differente
do ornamento correspondente dos Arês. O pequeno vo-
cabulario, que meu filho Rodolpho von Ihering colligio,
— 140 —
contem ao lado de palavras duvidosas, grande quantidade
de palavras de dialecto guarany.
Sei, por carta do Snr. João Dutra em S. Leopoldo
serem os Kaingangs do Rio Grande do Sul, mais re-
duzidos em numero do que figura no mappa anterior ;
os por mim indicados na Vaccaria não existem mais.
Desappareceram do mesmo modo os Guayanãs de Faxina
no Estado de S. Paulo. Faltam-me informações sobre
os Kaingangs do alto Uruguay, no Estado de Santa Ca-
tharina, e são duvidosos os indios da cachoeira de Marim-
bondo perto de Frutal, na fronteira de Minas e S. Paulo.
Sobre os indios da parte oriental do Paraguay recebemos
valiosos subsidios. Os Guayakis, segundo a publicação de
Ten Kate, p rtencem à familia guarany, com ligeiras va-
riantes dialectuaes. Publicação de notavel importancia é a
do Snr. Pe. Fr. Vogt, sobre os indios do alto Paraná.
Pelos vocabularios que communica, fica provado perten-
cerem os Guayanãs da Villa Azara à familia guarany.
Entre todos, só os Kaingangs (Coroados, Guayauäs,
Aweikommas) são bravios e perigosos para os sertanejos
e colonos; no mappa assignalei em especial esses sel-
vagens bravios de S. Catharina, Paranã eS. Paulo, com
a indicação das zonas limitrophes nas quaes costumam
practicar assaltos.
Algumas palavras ainda a respeito da orthographia
usada no presente mappa. [dra talvez recommendavel
applicar o «Standard Alphabet», actualmente usado em
publicações scientificas. Mas tem o inconveniente de se
não entenderem certos signaes sem prévia explicação ;
acceitei-o por isso apenas em parte.
A literatura a que alludi acima é a seguinte :
H. Ten Kate, Note ethnographique sur les indiens
«guayakuis», An. Mus. La Plata, Anthropol., II, 1897;
Pe. Fr. Vogt, Die Indianer des oberen Paraná, Mitt.
Anthropol. Ges. Wien, Bd. XXXIV, dritte Folge,
IV. Bd., 1904, pags. 200-221, 353-371;
Dr. H. Gensch, Die Erziehung eines Indianerkindes,
Berlin, 1908, Internat. Amerikanistenkongress, Wien
1908 ;
do. Woerterverzeichniss der Bugres von Santa Catha-
rina, Zeitsch. f. Ethnologie, Heft 5, 1908, p. 744-759;
Telemaco M. Borba, Actualidade Indigena, Curityba, 1908.
FOSSEIS DE S. JOSE DO RIO PRETO
(ESTADO DE SÃO PAULO)
POR
RODOLPHO von IHERING
Da pequena cidade do interior do nosso Estado, São
José do Rio Preto, a cerca de 23 leguas a veste de Be-
bedouro, communicára o medico dr. Aristides Serpa ao
Museu Paulista que, em um poço de quasi 30 metros
de profundidade, foram encontrados fosseis que, já pelo
facto de se acharem em tal profundidade, já por nunca
se ter encontrado fosseis naquella região, lhe pareciam
interessantes e dignos de serem estudados. Dos fra-
gmentos que juntamente enviava como amostra, entre-
tanto, nada se podia decidir sobre a especie animal
a que pertenciam e tão sómente, pelo aspecto de per-
feitamente petrificados uns, como que calcinados ou-
tros, era certa a sua grande antiguidade e pois mere=
ciam minuciosa investigação, mesmo porque até então
nada se sabia das formações geologicas da região. Fui
encarregado de proceder a um exame «in situ» e pro-
curar obter melhores subsidios, que permitissem quaes-
quer conclusões paleontologicas e geologicas.
Recebeu-me com a maior amabilidade o sr. dr A.
Serpe, a quem devo innumeros favores; e foi só com
© auxilio deste cavalheiro geralmente estimado que me
foi possivel dar tão prompta execução aos meus estudos.
— 142 —
Perguntando-me, como é natural, qual a impressão
que me fizera a região pela qual viajára, só lhe pude
dizer que unicamente me admirára não ser ella mais
povoada. Pois a excellencia das terras documentavam-na
as extensas mattas e as pastagens verdejantes; a cada
momento cruzavam nossa estrada pequenos regatos ou
ribeirdes com boas aguas, e as terras ligeiramente ondu-
ladas, comtudo não oppõem difficuldades 4 construcção
de boas estradas. Finalmente, as plantações que eu vira,
milharaes extensos, com pés da altura tripla de um ho-
mem, arrozaes cuja colheita assegurava optimos lucros :
tudo isto, plantado em meio do matto mal roçado e quei-
mado, mostrava que os mantimentos não faltavam a
quem quizesse trabalhar. O transporte, é verdade, diffi-
culta a venda destes productos; mas já as linhas da es-
trada de ferro não estão longe e os respectivos traba-
lhos vão tão adiantados, que em breve se fará commo-
damente a viagem a São Paulo e este rico celeiro do
nosso Estado poderá enviar directamente aos mercados
os mantimentos que produz.
Ancioso como estava por conhecer o já famoso poço,
logo obtive permissão do proprietario, sr. vigario A.
Purita, para nelle trabalhar e horas depois eu me achava
na bella matta em meio da qual se tinha dado inicio a
um pequena sitio de plantação; a agua necessaria de-
sejavam obter por meio de uma cisterna, a qual, sup-
punham, não seria dispendioso fazer, pois em geral os
poços de S. José do Rio Preto fornecem agua em 12
ou 14 metros de profundidade. Mas a excavação já ia
a 27 metros, sem que com isto se tivesse obtido o re-
sultado desejado.
A principio, até doze metros de profundidade, o
poço atravessa uma camada bomogenea de terra ver-
melha, que por toda região circumvizinha favorece o
crescimento de excellentes mattas. Segue-se depois al-
gum pouco de saibro, em veios irregulares, e logo abaixo
um arenite calcareo, constituida por muito fina aréa
esbranquiçada, sem um unico vestigio de outra substancia
pedregosa ou de concreção ; em vinte metros de profun-
didade uma ligeira indicação de estratificação falsa que-
bra um pouco aquella monotonia, parecendo a rocha
listrada horizontalmente. Emfim, aos 22,90 metros de
— 145 —
profundidade bruscamente este arenite é substituido por
terra compacta, de aspecto quasi argilloso, que forma
uma camada horizontal de oito a doze centimetros de
espessura ; logo abaixo nova camada de arenite, de ape-
nas um metro de espessura e outra camada de terra
vermelha, em tudo semelhante à precedente; mais 130
centimetros de arenite e, por fim, já no fundo do poço,
a começar dos 26 metros de profundidade, uma rocha
dura, toda conglomerada de pequenos fragmentos de
pedra, de arenite e de argilla ferruginosa, que pela sua
dureza fizera o poceiro desanimar no seu rude trabalho.
Ao menos na parte superior, que unicamente pude
examinar, esta rocha é relativamente rica em fragmen-
tos de ossos, como o são tambem as duas camadas de
terra vermelha acima mencionadas. Já durante a exca-
vação haviam sido tirados muitos fragmentos de ossos
e, na faina de obter melhores peças, excavei por longo
tempo estas camadas fossiliferas.
O resultado, se bem que não pudesse ser chamado
felicissimo, tambem não era desanimador ; dos ossos, só
poucos se deixavam extrahir em condições convenientes,
mas eu já possuia varios dentes e estes (tão bem como .
as conchas de molluscos) são as melhores chaves com
que o geologo descerra as porias do mysterio das éras.
De volta, e convenientemente preparadas e colladas
as peças, já o estudo comparativo dos dentes mostrou-
nos que possuiamos fragmentos de um «jacaré» antigo,
de especie ha longo tempo extincta; um dente que a
principio julgavamos ser de tubarão, bem semelhante ao
«Carcharodon rondeleti», mas que o nosso illustre amigo
Dr. A. Smith Woodward nos classificou como sendo
indubitavelmente de um dinosaurio do genero Theco-
dontosaurus e ainda alguns fragmentos osseos de um
outro animal, que mais tarde o nosso competente amigo
e collega dr. Florentino Ameghino, illustre director do
Museo Nacional de Buenos Aires, nos veiu explicar
como sendo fragmentos da couraça de algum Testu-
dinata.
Passemos a considerar as indicações geologicas que
possamos deduzir dos dous primeiros reptis mencionados.
Os fragmentos de tartaruga, por serem indeterminaveis
não nos permittem nenhuma conclusão.
a Aa
,
O dente do crocodilo é conico, ligeiramente compri-
mido, finamente sulcado em sentido longitudinal e guar-
necido de cada lado com uma crista delicadamente ser-
rilhada. Dos dous exemplares que tem
a corôa bem conservada, um é aguça-
do e a crista lateral extende-se até a
ponta (fig. 1), ao passo que o outro
tem a ponta gasta, mais conica (fig. 2).
Na cavidade pulpar do primeiro des-
tes dentes estava encaixado o dente
ma que mais tarde o deveria substituir,
Dente fossil de cro. ©, por sua vez neste ultimo estava con-
copa aa tido o substituto immediato. Ambos
estes dentinhos já mostram as mesmas
feições caracteristicasacima descriptas. O dr. F. Ameghino
acreditava serem estes dentes do «Proalligator austra-
lis Brav.» e por conseguinte deveria-
mos attribuir-lhes edade terciaria da
formação entreriana, a qual meu pae
Dr. Hermann von Jhering verificou,
pelo estudo dos respectivos molluscos,
ser miocena. Comtudo os crocodilios
da familia Gonzopholide, especialmen-
te os dos generos Goniopholis e Ma-
chimosaurus tem dentes assaz seme- Dente fossil de cro-
. . codilio, da familia Go-
lhantes, e assim talvez devamos attri- niopholidæ, um
buir aos nossos fosseis edade jurassica "o do que o da”
superior, primeiro periodo da éra me- Au
sozoica da qual säo conhecidos os representantes da
mencionada familia. De outro lado, com relação ao dente
do dinosaurio que o Dr. Smith Woodward nos affirma
ser do genero Thecodontosaurus, da subordem Thero-
poda, familia Zanclodontidæ, sabemos que todas as es-
pecies desta familia viveram tão sómente no periodo
triassico, superior.
Devemos portanto admittir edade triassica superior
até jurassica para a nossa camada.
Até agora não se sabia que as duas familias de
que aqui tratamos tivessem coexistido no mesmo perio-
do geologico, e devemos pois admittir que aqui na Ame-
rica do Sul ou uma ou outra das nossas especies appa-
receu mais cedo ou se extinguiu mais tarde do que nos
— 145 —
outros continentes. Esta constatação nova para a pa-
leontologia não pode causar extranheza, visto como até
agora tudo o que se discutia com relação a estas fa-
milias se baseava em material proveniente de outras
regiões.
Quanto ao «habitat» do jacarê sabemos que todas
as especies da respectiva familia sempre viveram ou na
agua doce nas embocaduras dos rios ou no littoral; os
Theropoda eram animaes terrestres, tambem habitantes
do littoral. Por outro lado ainda tive confirmação disto,
em correspondencia com meu presado mestre Prof. W.
Salomon, Heidelberg, que, tendo examinado amostras de
arenite da formação de São José do Rio Preto, con-
cluiu que a constituição do mesmo evidencia que a dita
formação é de origem marina e que ella deve ter sido
depositada a pequena distancia de uma costa. A respeito
de umas bolinhas e fragmentos de barro encontrados no
mesmo arenite o Prof. Salomon me informa que elles
representam certamente detritos de bancos de lôdo, for-
mados pelo mesmo mar que depositou as areias, e que
depois de consolidados foram destruídos por agentes
dynamicos do oceano. Arrastados pelas correntes, foram
depositados na formação que estudamos, tendo formas
tanto mais arredondadas quanto mais tempo haviam sido
arrastadas pelas ondas.
Infelizmente o resumido material que nos forneceu
esta excavação de São José do Rio Preto. pouco mais
nos diz senão que estamos em presença de uma forma-
ção marina, littoral, da éra mesozoica, e, sem que se o
possa affirmar positivamente, presumivelmente de entre
os periodos triassico e jurassico.
Até, agora na geologia da região do chamado Oeste
de S. Paulo só se distinguiam duas formações, denomi-
nadas «Grez de Botucati» e de «Bauru», que os geo-
logos, que se tem occupado do assumpto consideram
como de edade mesozoica, sendo a primeira presumi-
velmente triassica e a outra em duvida da parte media
ou superior desta edade e da jurassica ou do Cretaceo.
Devo à benevolencia do distincto geologo Dr. O.
A. Derby, illustre chefe do Serviço Geologico do Brazil,
as seguintes informações, que resumem os conhecimentos
actuaes da geologia da região.
— 146 —
«No Triangulo Mineiro, Sul de Goyaz, Oeste de
S. Paulo e Sul de Matto Grosso, tem-se reconhecido
em diversos pontos uma formação de grez molle, super-
posta às camadas de grez com lenções de trap (Grez de
Botucatu), que se considera como Triassica. Presume-
se que essa formação é essencialmente a mesma em
todas as partes onde tem sido reconhecida e tem-se
extendido a ella, em todas as regiões acima mencionadas,
o nome proposto por Gonzaga de Campos, de Grez de
Bauri. Pessoalmente tenho visto estas camadas perto
de Bagagem, Uberaba, Jaboticabal e S. Paulo dos Agudos,
e acho plausivel a hypothese da identidade da formação
nestes pontos, e pela maior parte julgo que estas ca-
madas originaram em agua doce. São certamente pos-
teriores às erupções de trap, que são post-Perminas e
assim estabelecem um limite inferior de edade para as
aqui consideradas. O limite superior não podia ser
indicado antes do apparecimento dos fosseis de S. José,
que agora parecem indicar uma edade pre-terciaria.
Assim temos de referil-as provisoriamente à edade me-
sozoica e a alguma subdivisão acima da base que se
presume ser representada pelo Grez de Botucatu».
Os Mammileros do Brazil Meriodinal
POR
HERMANN VON IHERING
I CON TRIBUICAO : (*)
CARNIVORA
I Felide ; III Procyonidæ
IIT Canide ; IV Musteshde
O presente escripto é o primeiro de uma serie de
publicações que, em forma de monographia são des-
tinadas a informar sobre os mammiferos dos quatro
Estados meridionaes do Brazil. |
Ao leitor extranho ás difficuldades deste ramo da
zoologia, poderá parecer que de todos os grupos do
reino animal este seja o mais facil de estudar, por tra-
tar-se de animaes grandes e geralmente conhecidos.
Singularmente dá-se o contrario. Mesmo sobre animaes
tão communs como raposas e coatis, gatos do matto,
macacos e veados não temos informações exactas e
nunca imaginei as difficuldades que tive de vencer só
com o grupo dos Carnivoros, não obstante ter ligado
attenção à sua classificação já ha tres decennios. Mui-
tas vezes nos faltam os necessarios materiaes de com-
paração, e isto particularmente do noroeste e do sertão
(*) Impressa durante a ausencia do dr. H. von Ihering,
esta contribuição foi por nós revista, sem podermos contudo
garantir tela completado de perfeito accordo com o auctor; jul-
gamos, entretanto, que mesmo assim este estudo devia ser pu-
blicado quanto antes, psra preencher uma lacuna que ha muito
se faz sentir em nessa literatura zoolcgica.
R. v. InERING
— 148 —
central do Brazil, o que difficulta ou torna impossivel
uma classificaçäo exacta, e explica os graves erros com-
mettidos por especialistas de competencia geralmente
reconhecida. Acontece ainda que muitos dos auctores
modernos estabelecem novas especies com a maior le-
viandade, baseando-se em um ou dous exemplares e em
differenças de côr, tão sómente de valor secundario.
O Museu Paulista, graças aos esforços de seus activos
naturalistas viajantes reuniu successivamente, além das
collecgdes expostas ao publico, valiosissimas series de
couros de mammiferos, todos acompanhados do respe-
ctivo craneo. Deste modo nos é possivel não só com-
parar representantes do mesmo genero ou da mesma
especie provenientes de localidades differentes, mas tam-
bem, estudar, pelo exame de numerosos individuos da
mesma proveniencia, a variabilidade de cada especie se-
gundo edade, sexo, época de anno etc. Ligo a maior
attenção a este aprofundamento de nossos conhecimen-
tos; de egual modo pensaram e com egual intuito tra-
balharam Reinhold Hensel e Herluf Winge, que se-
gundo minha opinião, são os auctores que têm prestado
os serviços mais relevantes para a investigação da fauna
dos mammiferos do Brazil.
Darei não só as descripções dos animaes aos quaes
este estudo ê dedicado com os caracteres principaes de
sua anatomia. mas tambem informações sobre o seu
modo de viver, sua distribuição geographica, seus no-
mes vulgares e a synonymia da literatura. Com re-
lação a esta ultima parte, entretanto, só mencionarei O
que julgo de maior importancia, e o leitor que desejar
informações mais completas, encontral-as-ha no livro
de L. Trouessart, «Catalogus Mammalium», que con-
stitue a resenha mais completa, sobre os mammiferos
quer quanto às especies, quer quanto é respectiva
bibliographia.
CARNIVORA
Entre os mammiferos unguiculados, os Carnivoros
formam um grupo bem natural, tomando em conside-
ração seu modo de viver e a sua organização. Mesmo
assim as differenças que se notam entre os diversos
— 149 —
typos não são pequenas. Em tamanho variam da esta-
tura do leão e do urso até a da doninha e da fuinha.
Muitos entre elles são raptores audaciosos e prejudiciaes
ao homem, que por isto os denominou «féras», taes
como o leão, a onça, O tigre, o urso e outros. E
grande o contraste entre os movimentos tardos dos pe-
sados ursos, a elegancia leve dos gatos e a extrema
agilidade da irára e de outros Mustelidas, de corpo
comprido e cylindrico, supportado por extremidades
curtas. Ha entre os Carnivores animaes que são excel-
lentes corredores como o lobo e as raposas, outros de
vida aquatica, como as lontras. Ha bons trepadores que,
como os coatis, passam grande parte de sua vida nas
cópas das arvores, à moda dos macacos e ainda, ao con-
trario destes, outros que cavam buracos no chão.
Esta diversidade no modo de viver dos carnivores
influiu tambem na sua alimentação. Em geral todos
preferem a carne de mammiferos e aves, isto é de ver-
tebrados cuja temperatura do sangue é constante e ele-
vada, mas, em falta de melhor, muitos se nutrem tam-
bem de vertebrados de sangue frio ou de besouros,
gafanhotos, outros insectos e mesmo de fructas. E" este
o caso das raposas; o guará come de preferencia os
fructos do Solanum grandiflorum, que por isto chamamos
«fructa de lobo». As hyenas se nutrem da carne de
cadaveres. Os ursidas e procynidas são omnivoros;
desta familia fazem parte o «mão-pellado» e o «coati»
do Brazil.
Apezar destas differenças biologicas, a organização
destes animaes é bastante uniforme.
Todos são cobertos de pello denso, distinguindo-se
cabellos compridos e rijos ou «granos» da pennugem,
que consiste em cabellos mais curtos e macios. EH’
devido a esta ultima particularidade que certas pelles
de ca rnivoros se tornaram tão apreciadas no commecio,
como artigo de moda, por vezes custosissimo.
O esqueleto é solido e leve, apropriado a movi-
mentos rapidos, como os executam estes animaes na per-
seguição da preza. Na extremidade anterior falta a
clavicula; o pollegar não é opponivel aos outros dedos.
Os ursos e os mustelidas têm cinco dedos tanto
nas mãos como nos pés; nos outros grupos os pes pos-
— 150 —
teriores só têm em geral 4 dedos. As unhas são sim-
ples, muitas vezes cortantes e apropriadas para cavar
como nos cães e em varios outros; nos gatos e seus
parentes as unhas são desenvolvidas em fortes garras
encurvadas, que encravam na carne da preza para dila-
ceral-a e neste caso são retractis, de modo que as po-
dem esconder.
A cabeça é de forma arredondada, sendo a parte
eraneana mais ou menos da mesma extensão que a da
face. O focinho, que é nú na ponta, prolonga-se em
uma pequena tromba nos coatis. Os beigos são provi-
dos de pellos compridos, cerdas rijas que representam
orgãos sensiveis para o tacto; 2s orelhas são pequenas
ou de tamanho regular e erguidas. Os olhos são grandes
e de excellente força visual.
No craneo é particularmente a dentadura que for-
nece os dados mais caracteristicos e importantes para a
classificação da ordem.
O craneo é forte com largas fossas temporaes e
grandes orbitas. A articulação da mandibula ou queixo
com o craneo é do typo de gynglymo, que, portanto,
apenas lhe permitte o movimento de gonzo ou dobradiça.
Encontram-se todas as tres categorias de dentes,
incisivos, caninos e molares e todos elles, à excepção
dos molares posteriores, já apparecem no animal novo,
na dentição de leite. Os incisivos são de cada lado em
cima como em baixo em numero de tres, e em geral são
os exteriores maiores do que os interiores. Os caninos
são conicos, alongados, às vezes enormes e cortantes.
Os molares anteriores são altes, comprimidos, cortantes
e alternados, entrando o superior sempre no espaço
deixado por dous inferiores. Os molares posteriores
são de forma mais ou menos quadrangular, cobertos de
tuberculos obtusos. Peculiar à dentadura dos carnivo-
ros são os dentes chamados «carniceiros», dos quaes ha
dous na maxilla superior e outros dous na mandibula.
O dente carniceiro superior é o quarto na serie dos
molares; elle tem tres arestas comprimidas e cortantes,
das quaes a do meio é amais forte e, alêm destas, ha
uma ponta interna, provida de raiz propria. Morpholo-
gicamente o dente carniceiro superior representa o quar-
to dente premolar e o inferior o primeiro dente molar.
— 151 —
O typo primitivo da dentição dos carnivores com-
prehende em cima como em baixo de cada lado 3 inci-
sivos, 1 canino, 4 premolares, 3 molares. No correr
do desenvolvimento torna-se mais pronunciada a diffe-
rença entre o dente carniceiro e os outros molares,
reduzindo-se o numero dos molares particularmente en-
tre os Felinos.
O estomago dos Carnivoros é simples, o intestino
é curto e quasi sempre provido de um curto coecum.
Só os ursos e os coatis têm o intestino comprido, de
accordo com a sua alimentação, que é mixta. No ma-
cho nota-se a situação extra-abdominal dos testiculos,
situados adeante do penis; este, excepto nos Felidas e
grupos alliados, é provido no interior de um ossiculo.
A femea tem as têtas situadas na barriga; nas diver-
sas familias c numero dellas varia de accordo com o
numero medio de filhotes dados à luz em cada cria.
Os cachorrinhos de todos os carnivores nascem cegos.
A placenta, que é munida de uma membrana decidua,
tem a forma annular. Uma singularidade dos carnivo-
ras constituem as glandulas odoriferas situadas ao lado
do anus. Estas bolsas glandulares tem o maior desen-
volvimento nos zorrilhos, nos quaes, por meio de um
musculo envolvente, a secreação fétida destas glandulas
pode ser lançada a certa distancia. A raposa europea
tem ainda no lado dorsal na base da cauda uma glan-
dula especial, mal-cheirosa, denominada «viola», não
me constando, entretanto, que exista tambem nas raposas
da America meridional.
Resta-nos ainda dizer algumas palavras sobre a his-
toria geologica dos carnivoros da America meridional.
Os carnivoros já se achavam abundantemente re-
presentados no Terciario antigo e mesmo no Cretaceo
da Argentina, onde os Sparassodonta segundo FI. Ame-
ghino, são os precursores não só dos Creodonta e Car-
mivora, mas tambem dos Dasyguridae. No correr do
Terciario, porém, estes animaes extinguiram-se na Ame-
rica Meridional, de sorte que os actuaes representantes
dos carnivoros na America Meridional são os descen-
dentes de animaes que vieram do hemispherio septen-
trional e chegaram à America do Sul durante as for-
mações miocena e pliocena.
— 452 —
Na America do Norte, ao contrario, apparecem no
correr do Terciario todos os diversos grupos de carni-
voros americanos. Instructiva é neste sentido a origem
dos Canidas que no Oligoceno são representados pelo
genero Cynodictis, que é o precursor immediato do ge-
nero Canis. Nos depositos miocenos de Entrerios en-
contramos ossos dos generos Amphycion e Canis, typos
estes que tambem na America do Norte occorrem em
depositos miocenos.
As raposas do genero Vulpes nunca chegaram à
America meridional. Os lobos genuinos da America
do Norte e da Europa chegaram tambem ao Brazil e à
Argentina, mas ali se extinguiram durante a formação
pleistocena, como aliäs succede tambem com os ca-
vallos, com as diversas especies de Mastodon e de va-
rios outros generos do hemispherio septentrional.
Segundo os estudos do Dr. Florentino Ameghino
e os meus, temos de distinguir, com relação à immi-
graçäo dos carnivoros na America Meridional, duas
migrações, differentes segundo a época e o caminho.
Pela primeira chegaram à America meridional repre-
sentantes dos Canidas, Ursidas, e Procyonidas. A
segunda migração, que veiu da America do Norte de-
pois da união definitiva e actual das duas Americas,
introduziu no Brazil e na Argentina os Felidas e Mus-
telidas, bem como parte dos Canidas. Existe apenas
uma divergencia entre Ameghino e mim, relativamente
à primeira destas duas migrações, a qual segundo Ame-
ghino chegára por uma ponte que ligava a America
meridional com a Africa. Meus estudos sobre os mul-
luscos fosseis das costas da America meridional me tem
conduzido, entretanto, à conclusão de que a ponte sobre
o oceano atlantico meridional, que chamei Archhelenis,
já não existia mais durante a formação miocena, de
que fazem parte as camadas fossiliferas de Entrerios.
Factos zoogeographicos me levaram à opinião de que
no Mioceno se deu uma immigração de animaes ter-
restres da Asia oriental até a America central e me-
ridional e sou por conseguinte da opinião que os pri-
meiros carnivoros modernos que alcançaram a America
meridional são provenientes da Ásia oriental,
— 153 —
Max Weber divide os Carnivores em 2 grupos, os
terrestres ou Fessipedes e os aquaticos ou Pinnipedes.
Reconhecendo embora exacta esta opinião, julgo mais
conveniente considerar as phocas e animaes alliados
como constituindo uma ordem differente, em vista da
grande transformação que a sua organização soffreu em
consequencia de sua adaptação ao seu novo modo de viver.
Os verdadeiros carnivores dividem-se ainda, segundo
a estructura de seus pés, em «digitigrados» que pisam
o chão sô com as pontas dos dedos, e «plantigrados»
que, caminhando, se apoiam sobre as plantas dos pés.
Esta distincçäo porém não é de importancia ca-
pital e prefiro acompanhar H. Winge que, segundo a
estructura do craneo, distingue duas sub-ordens, Her-
pestoidea comprehendendo os Felidas, Viverridas e
Hyenidas, e . Arctoidea com as familias dos Canidas,
Ursidas, Procyonidas e Mustelidas. Destas diversas
familias as dos Viverridas, Hyenidas e Ursidas não têm
representantes no Brazil. E' por consequencia só das
quatro outras familias que em seguida temos de oc-
cupar-nos.
Para facilitar a classificação, elaborei a seguinte
CHAVE PARA DISTINCÇÃO DAS SUB-ORDENS E
FAMILIAS DOS CARNIVOROS
A. Osso tympanico imcompleto, em annel; canal ca-
rotico curto; glandulas de Cowper presentes ;
intestino com coecum ; osso do penis pequeno ou
ausente ; unhas as vezes retractis... HERPESTOIDEA
a. Os pes são digitigrados, com 5 dedos na extremidade
anterior e 4 na posterior; as garras são fortes,
retractis; a lingua é coberta de espinhos ; os
dertes caninos são grandes, comprimidos, com
cristas anterior e posterior; o numero dos mo-
lares nos representantes viventes, é reduzido de
cada lado a 4 emcima e 3 em baixo. . Felide
AA. Osso tympanico completo, convexo ; canal carotico
comprido; glandulas de Cowper ausentes ; osso
do penis comprido ; as unhas em geral não podem
den Re ir AMAASE, nd CON EN Co ARCIOIDEA
— 154 —
b. Bulla tympanica grande; dente carniceiro grande;
pés digitigrados com 5 dedos na extremidade
anterior e 4, raras vezes 5 na posterior; unhas
nunca retractis; intestino com coecum; prostata
grande; osso do penis com sulco longitudi-
a en me HG Ree Gaara
bb. Bulla tympanica pequena ; dente carniceiro pequeno
ou indistincto ; pés plantigrados, com © dedos
tanto na extremidade anterior como na posterior ;
intestino sem coecum ; prostata rudimentar ; osso
do penis solido e cylindrico :
c. Uunhas não retractis; o numero dos dentes mo-
lares é de dous de cada lado, em cima e em
baixo Vila Ca ME A E Tala a
cc. Unhas ás vezes retractis; um só dente molar de
cada lado, encima e em baixo . , Mustelide
Fam, FELIDAE
A familia dos gatos comprehende os carnivoros
mais ferozes da fauna actual, que se nutrem exclusi-
vamente de animaes vertebrados, especialmente de aves
e mammiferos e que todos desprezam a carniça.
A cabeça curta mais ou menos globosa, o focinho
curto, os olhos grandes e as orelhas curtas caracteri-.
zam estes animaes. Os beiços superiores são providos
de cerdas fortes e compridas. O pello é em geral curto,
liso. As extremidades anteriores têm 5, as posteriores
4 dedos. Os pés são digitigrados e as unhas retractis,
de sorte que nos rastos dos Felidas não se vêm im-
pressões de unhas. A ultima phalange dos dedos é cur-
vada para cima e as unhas, que deste modo são pro-
tegidas, conservam-se sempre agudas e servem sómente
como arma e para trepar em arvores. À estructura das
extremidades posteriores faculta movimentos lestos e o
pulo.
O craneo é relativamente curto e o numero dos
dentes é mais reduzido do que na maior parte dos
outros carnivoros; este facto tem a sua explicação no
proprio modo de viver destes animaes. Os dentes
servem apenas para segurar e dilacerar a sua preza, e
— 155 —
os dous queixos funccionam como uma tesoura. Ha pois
apenas dentes conicos, como os incisivos e caninos, e
outros comprimidos e cortantes, que são os molares,
entre os quaes se destaca particularmente o dente car-
niceiro, por ser o mais forte e o maior. O numero dos
incisivos é de 3, tanto em cima como em baixo. Os ca-
ninos são altos, agudos, providos de duas cristas lon-
gitudinaes cortantes e ao lado destes ha um ou dous
sulcos profundos. O numero dos dentes molares de cada
lado é de 4 em cima e de 3 em baixo. Este numero, en-
tretanto, reduz-se com a perda do primeiro premolar.
Todos são cortantes, não havendo molares com funcção
de mastigar, à excepção de um pequeno dente superior
de cada lado. O primeiro molar em cima é pequeno e
falta mesmo em varias especies. Os outros tem 3 ou 4
pontas, das quaes a segunda é a mais forte. O dente
carniceiro superior na sua corôa, além de ter tres for-
tes pontas, é provido ainda na frente de uma aresta
interior. O dente carniceiro inferior tem apenas 2 pon-
tas ou lóbos cortantes. Só atraz do dente carniceiro su-
perior ha um pequeno molar para mastigar, mais ou
menos rudimentar e em posição transversal. A dentição
de leite tem quasi o mesmo numero de dentes molares,
só com um premolar a menos. A orbita em geral é
aberta para traz. O olho é bem desenvoivido e notavel
pela sua excellente accomodação, que torna os gatos
capazes de ver egualmente bem às escuras. Esta orga-
nização resulta da propriedade do interior do olho
reflectir à noute os parcos raios luminosos, explicando-se
deste modo que o olho dos gatos reluz de noute, mas
naturalmente só quando a escuridão não fôr absoluta.
A lingua é grossa, carnuda, coberta de espinhos
corneos, que se elevam sobre largas papillas. intes-
tino tem 3 ou 5 vezes o comprimento do corpo. Todas
as especies tem as já mencionadas glandulas anaes. A
femea tem 4 têtas na barriga e em algumas especies
este numero se eleva a 8, ficando neste caso os pares
anteriores collocados no peito. A temea pare em geral 2
a 4 filhotes. O macho não tem osso no penis ou só um
vestigio do mesmo. Este orgam é liso na maior parte
das especies, coberto de espinhos na onça parda, no
pequeno gato do matto (7. tegrina), bem como no
— 156 —
gato domestico e provavelmeute em mais algumas es-
pecies americanas.
Os Felidas constituem uma familia bem represen-
tada em quasi todas as zonas do globo. Os individuos
desta tam:lia vivem isolados ou aos casaes, mas nunca
em bandos. Em geral são bastante homogeneas,
tanto no aspecto como em sua organização, de
sorte que muitos naturalistas pretendem reunir em um
unico genero todas as especies viventes desta familia.
Temos de observar, entretanto, que ha mais um grupo,
bastante natural e suficientemente caracterizado para
que o possamos distinguir genericamente. E” o genero
Cynailurus Wagl. Este genero, do mesmo modo que os
lynces, não tem representantes na America meridional,
onde tão sómente o genero Kelis representa as formas
hodiernas da familia dos Felidas. Na época pliocena e
pleistocena viviam no Brazil e na Argentina represen-
tantes do genero Machairodus Kaup, especies aliás bem
conhecidas dos depositos terciarios da Europa e que se
distinguem pelos enormes dentes caninos superiores,
comprimidos quaes verdadeiras facas ; assim estes pos-
santes animaes, dotados de semelhantes armas, devem
ter sido, certamente, as féras mais temiveis de seu tempo.
Gen. KREIS. L.
Já no precedente foram expostos os caracteres.
principaes deste genero. O dente carniceiro superior é
sempre bem desenvolvido, ao passo que no genero Cy-
nailurus elle 6 o mais comprimido e não tem o tu-
berculo interior. Os lynces differem dos gatos por te-
rem extremidades altas, cauda curta e um pincel de
cabellos compridos na ponta da orelha. Homogeneas
como são as diversas especies de Fels, parece entre-
tanto, que divergem entre si, quanto ao funccionamento-
da pupilla do olho, que em certos felideos é sempre
redonda, ao passo que em outros toma fôrma elliptica,
quando exposta à luz intensa quer solar, quer artificial.
Os primeiros são os «gatos diurnos», os outros os
«gatos nocturnos». Segundo Gray pertencem ao pri-
meiro grupo, além do leão e do tigre, as onças pintada
— 157 —
e parda. Mas Gray mesmo (I. c. 1E67, p. 261) nota que
a pupilla da jaguatirica na claridade é oblonga. Será
pois conveniente fazer mais observações sobre este de-
talhe, ao qual, em todo caso, não se deve attribuir im-
portancia demasiada.
O estudo que fiz desta familia conduziu-me a cer-
tas conclusões novas com relação a alguns pontos. Em
primeiro lugar distinguem-se entre os nossos Felidas
dous grupos, dos quaes um se caracteriza por serem os
cabellos da nuca e do pescoço superior lisos e dirigi-
dos para traz como no dorso, ao passo que no outro
grupo, pelo contrario, todas as especies tem os pellos
desta região arrepiados cu mesmo dirigidos para diante.
Ao grupo das especies com cabellos da nuca arrepiados
pertencem a sussuarana, a onça, a jaguatirica e Felas
wredi. Todas as demais especies pertencem ao segun-
do grupo. E” notavel neste sentido a differença entre
a onça parda e as outras especies de gatos unicolores.
Outra differença que entre ellas existe é o colorido dos
filhotes, que são abundantemente pintados na onça par-
da, uniformes nos gatos mouriscos. Isto nos faz crêr
que os gatos de côr uniforme podem derivar de diffe-
rentes grupos de gatos unicolores ou pintados, e que a onça
parda tem parentesco mais intimo com a onçae ajaguatirica
do que com o gato mourisco. Um segundo ponto que
merece a nossa attenção ê a côr do Jado exterior da
orelha; todos os gatos pintados têm ahi uma grande
mancha branca, ao passo que os gatos unicolores têm
o lado exterior da orelha de côr uniforme, comquanto
mais escura na ponta. Terceiro ponto ainda, ao qual me
quero refirir concerne a configuração do craneo. À
crista sagittal é bem desenvolvida nas onças pardas e
pintadas e na jaguatirica, mas falta nas especies meno-
res; entretanto 7. wed? pertence evidentemente à mesma
secção como a jaguatirica e a onça pintada. Isto prova que
as especies menores não necessitam da referida crista, que
só apparece nas especies cujo craneo ultrapassa 120mm.
de comprimento. E” o desenvolvimento excessivo do
musculo temporal que determina esta modificação do
craneo e por conseguinte este caracter não deve ser
utilizado ao classificarmos as especies.
— 158 —
Tomando em consideração estes factos organizei a
seguinte chave para a distincçäo das especies brazilei=
ras do genero Felis.
CHAVE PARA A DISTINCÇÃO DAS ESPECIES
BRAZILEIRAS DE FELIS
(As medidas do corpo do animal e o do craneo são indica-
das em centimetros ou millimetros; o comprimento da cauda é
indicado em °/, do comprimento total, equivalendo este a 100).
A) UNICOLORES :
B) Grandes; o pello da nuca e do pescoço superior
é arrepiado; os filhotes são pintados ; cauda
ROO a Dal ND o a Mi RI Mi ne er
BB) Menores; o pello do pescoço superior e da nuca
é liso (deitado); os filhotes não são pintados :
C) Pello preio e brancacento,cauda 36º/. 1. yaguarunde
CC) Pello ruivo-amarello, mais claro na base e na
ponta;icanda AO el yy NT ON SN SENTE
AA) PINTADOS :
D) Pello da nuca e do pescoço superior arrepiado :
E) Comprimento total do animal 200-210 cm.; com-
primento total do craneo 200-300 mm. ; couro
com manchas orladas de preto e estas as vezes
com uma manchinha central preta; cauda 29-
EST Sci LR PD RA RAM TA IS
EE) Comprimento total do animal 100-126 cm.; com-
primento total do craneo 122-154 mm. ; o couro
com manchas orladas de preto ¢ que nos lados
tomam a configuração de estrias pardo-cinzentas ;
cauda 47-52 °/,. . Æ. pardalis chibigouazou
EEE) Comprimento total do animal 85-106 cm. ; com-
primento total do craneo 86-100 mm. ; o couro
com manchas redondas cujo centro é mais cla-
ro > «cauda o oa ur viro NR pe
DD) Pello da nuca e do pescoço superior liso (deitado):
F) Pello regular não alongado :
G) Comprimento total do animal 74-82 em.; com-
primento total do craneo 82-S1 im. ; o couro
com manchas grandes pardo-amarellas, mais cla-
ras no centro, cauda 56-38º , . F. tigrina
— 159 —
GG) Comprimento total do animal 88,5 96,5 cm. ;
comprimento total do craneo 92-102 mm. ; o cou-
ro com manchas escuras menores, bastante nu-
merosa, cauda 37-39º%% . . . . F. geoffroyt
FF) Pello macio e comprido :
H) Comprimento total do animal 85,4-96 (Brehm
100) cm. ; comprimento total do craneo 100-106
mm.; o couro com largas faxas obliquas, ruivo
amarellas ; cauda 28-30 “/, . . . F. pajeros
Em geral a distribuição das especies brazileiras de
Felis é vasta, e a maior parte dellas habita tambem
paizes limitrophes e mesmo a America Central e Septen-
trional. Só duas especies, F. geoffroyt e pajeros são
limitadas à zona meridional do Rio Grande do Sul,
donde se distribuem por toda a Rep. Argentina e F.
pajeros mesmo até o Chili. Ao que nos consta ha apenas
duas especies sul-americanas que não são encontradas
no Brazil: F. colocolo H. Smith e F. guigna Mol. que
vivem no Chili e na região andina da Argentina. As
diversas especies indicadas da Argentina e do extremo
Sul do Brazil vivem nos campos e em terreno aberto,
ao passo que todas as outras especies do Brazil são pro-
prias da zona das mattas e não atravessam as mattas
subtropicaes do norte da Argentina, à excepção das onças
parda e pintada, que não só vivem nas provincias cen-
traes da Argentina mas tambem na Patagonia, onde
porém a onça pintada actualmente já esta exterminada,
o que de resto tambem succedeu a esta mesma especie
em numerosos municipios do Brazil.
Felis concolor L.
Sussuarana; Onca parda
Cuguacuarana Marcgrave, Hist. Nat. Bras. 1648,
p. 230 (ma figura);
Guazuara F. de Azara, Apunt. Quadrup. Para-
Say 1002, pa tel:
FeLis concoLor Linné, Mantissa, 1771, p. 522;
Schreber, Siugetiere III, 1778, p. 394, Taf. 104; A.
Wagner, Säugetiere, Suppl. Il, 18414, p. 467, Taf. 104;
— 160 —
Prinz Wied, Beitr. Nat. Bras. II, 1826, p. 358; Rengger,
Säugetiere von Paraguay, 1830, p. 181; G. Cuvier
Ossements foss. VII, Paris, 1835, p. 370; Burmeister
Syst. Ubers. I, 1854, p. 88; id. Descr. phys. Rep. Arg.
I, 1879, p. 130; Elliot, Monogr. Felidae, 1883, pl. 2;
R. Hensel, Beitr. Säugetiere, Südbras. Berlin 872, p.
68; zd. Zoolog. Garten Frankfurt a/M. 1869 p. 382; G.
Mivart, The cat, London 1881, p. 397; E. Goeldi, Mam-
miferos do Brazil 1893, p. 67; H. von Ihering, Mam.
do Rio Grande do Sul, 1892, p. 116; H. Winge. E Mu-
seo Lundi 11, A. 1896. p. 12; E. Trouessart, Cat. Mam.
1/1800 .p. soe esuppl TUM po 2675 AMIS
Ann. Rep. Smithsonian Inst. Rep. Nat. Mus. Washin
gton 1891, p. 591-608; Matschie, Sitzber. Gcs. Natur.
Freunde Berlin, 1892, p. 220 e 1894, p. 58; Merriam,
Proc. Biol. Washington Academy 1901, p. 593; À. von
Pelzeln, Brasialische Säugetiere, K. Zool. bot. Gesell.
Band XXXIII, Wien 1883, p. 48;
FeLis DISCOLOR Schreber, Säugetiere, II, 1778,
Taf. 104 B, excl. texto p. 393;
Puma concotor E. A. Brehm, Die Säugetiere, Vol.
I., Leipzig, 1876, p. 381.
À onça parda distingue-se da onça pintada e dos
gatos do matto pintados pela forma mais esbelta; a ca-
beça é relativamente pequena, as pernas são alongadas.
O pello é curto, ainda que um pouco mais comprido na
barriga. A côr é amarella avermelhada, as vezes mis-
turada com cinzento mais escuro no meio do dorso,
amarello claro nos lados e na barriga, branca no peito,
na garganta e no lado interno das extremidades. As
orelhas são pardo-denegridas. A ponta da cauda é es-
cura. O beiço superior é munido de compridas cerdas
brancas. A cara ê esbranquiçada com uma mancha es-
cura diante do olho. A côr da iris é cinzento-amarella,
a pupilla é grande, redonda. O comprimento do corpo,
inclusive a cabeça, é de 1,20m, o da cauda de 60-65
cm., a altura de 60- 5 cm.
Os filhotes recem-nascidos são de côr clara, cin-
zento-amarella, com numerosas manchas escuras nas
costas, algumas linhas pretas no pescoço e com anneis
escuros na cauda.
— 161 —
O craneo é muito menor do que o da onça. O seu
comprimento total é de 168-198 mm. nos exemplares
da nossa colleção. Segundo Hensel o comprimento
basilar é de 135-155 nas femeas, de 161-192 mm. nos
machos.
O craneo distingue-se particularmente por ter a
fronte pouco abobadada.
A curva formada pelos dous ossos frontaes e pa-
rietaes pouco se eleva acima de uma linha mais ou me-
nos horizontal que corre do nariz à crista occipital. Na
onça e nos gatos do matto pintados a frente é proe-
minente, de modo a elevar-se muita acima da linha in-
dicada. O focinho é comprido, mas não tanto como o
da onça. Os detalhes se verificam pelas medidas seguintes;
TABELLA DAS MEDIDAS — Felis concolor L.
ma 1 m © © © one
E Io o E | 3S [dE | sgas
Sis ie = E = ENT TO es. | TSaN
a2 Vo | ox Be = | SS ise fecieas | sese
Os | as ES oS = Ee | 5 © Sa Seni so É
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So | A ge | An | & lnglnsghas|avz|l Bo 8
s” {8 |8 SU es] À) “|e [85 | sags
Z | = S los "ssa
30 SX 1981472 1138 |77 99 | 741 635 | 24 31.8
Q (?)1657 | 168/140,5/108 162 44 | 65 { 531 20,5 | 31,5
50 À OD (2) | 180450(7)115 168,5] 44168 | 591 22,5 | 32,8
974 1477447 M47,5]66 42 169] 57 123.5 | 32,2
Il
A sussuarana vive no Brazil de preferencia na re-
gião das mattas e, quando se encontra nos campos, ahi
procura os capões e os logares cobertos de mavega alta;
ao contrario do que se dá com a onça, não procura
muito os rios. De dia vive escondida no matto, indo
caçar à noute. O seu alimento consiste em ani'naes pe-
quenos, taes como veados, macacos, pacas etc. Nos campos
persegue as emas. Menos atrevida do que a onça, não
ataca o gado bovino ou cavallos adultos e muito me-
nos o homem, fugindo, ao contrario, quando se vê sur-
prehendida pelo mesmo.
A sussuarana é mais agil do que a onça e trepa
com facilidade nas arvores, onde consegue alcançar os
macacos. Rengger diz que uma vez observou um bando
— 162 —
de macacos que de repente, aos gritos, fugiu assustado.
O tom lastimoso da voz dos macacos e os excrementos
que continuamente deixavam cair, denotavam o medo
de que estavam possuidos. E” que uma onça parda os
perseguia aos saltos, de arvore em arvore; com agili-
dade incrivel passava por entre os galhos e os cipós
emmaranhados, ao mesmo tempo que de um só pulo
franqueava 0-6 metros.
Antes de começar a comer a carne da victima, a
onça parda rasga-lhe de prompto as veias do pescoço
para sugar o sangue ainda quente que borbuliia ás
golfadas.
Os animaes pequenos ella devora por completo, em
quanto que dos maiores só come a parte anterior do
corpo. Em circumstancias fortuitas a onça parda não
se contenta com uma só victima, e é esta a razão por-
que ds vezes causa grande prejuizo nos rebanhos de
ovelhas.
Rengger diz que em uma estancia, onde parou por
algum tempo, uma onça parda matou em uma unica
noute 18 ovelhas, de nenhuma das quaes, entretanto, havia
comido a carne. Perseguida no dia seguinte, foi encon-
trada e matada no matto pouco distante, e seu esto-
mago, cheio de sangue das ovelhas, não continha carne
alguma. O gozo excessivo de sangue produz-lhe uma
especie de embriaguez, como aliás tambem succede a uns
tantos outros carnivoros sanguinarios. Affirmam no Pa-
raguay que a onça parda é capaz de matar 50 ovelhas
em uma só noute. Si bem que a onça parda saiba na-
dar, ella não gosta de entrar na agua, preferindo, onde
as circumstancias o permittem, passar de arvore em
arvore sobre os arroios, valendo-se de sua grande des-
treza no pulo. Em geral a onça parda vive só; nos
mezes de Fevereiro e Março os dous sexos se reunem
por pouco tempo. Nesta época, tão pouco com em outros
mezes, não faz ouvir os seus rugidos. A epoca da pre-
nhez comprehende 87-97 dias, dando então à luz 2 ou
3 filhotes cégos. A mãe os esconde no matto ou na
macega alta, afastando-se longe delles em procura de
alimento, e dizem os caçadores que ella não é muito
valente na defesa de sua cria contra o homem ou os cães.
— 165 —
Os cachorrinhos mudam os dentes no primeiro anno
e já no terceiro alcançam o seu tamanho definitivo. Cal-
cula-se em quinze annos a duração média de sua vida.
A urina é fétida e costumam cobrir os seus excrementos
com terra. Devido à precaução e à agilidadade da onça
parda, a sua caça torna-se assaz Sifficil. Quando os cães
a cercam, ella defende-se contra elles com coragem, mas
em geral procura fugir, galgando alguma arvore dis-
tante. E" capaz de pular à distancia de quatro metros
ou pouco mais (como ficou dito acima Rengger, talvez
com algum exagero, calculou 5-6 metros) e em altura
alcança 3 metros. |
A onça parda habita a America toda, desde o Ca-
nada até a Patagonia. Nestas condições certamente ha
alguma variabilidade no seu typo e as menores differnças
observadas têm dado logar a sua descripção como es-
pecies novas. Não existem estudos bastante minuciosos
sobre o assumpto, mas parece que podem ser distingui-
das 3 subspecies que são :
1) E. concolor couguar Kerr. 1792 America do
Norte.
2) EK. concolor Linné, Amer. Central e Meridional,
a excepção da Patagonia e do Chili.
3) E. concolor puma Mol. Chili e Patagonia.
Esta ultima variedade é distinguida pela côr mais
cinzenta. Parece que o desenho dos filhotes é um tanto
differente nas diversas subspecies, mas em todo caso
tanto este caracter como uns tantos outros da variabi-
lidade no aspecto e anatomia devem ser cuidadosamente
estudados antes de que se procure externar um juizo de-
finitivo sobre as diversas subspecies deste animal.
Kelis yuaguarundi Yisch.
Gato mourisco; Yaguarundi; Jaguara cambé
Jaguarundi—F. de Azara, Apunt. Quadrup. Para-
guay, I, 1802, pag. 156.
Friis YAGUARUNDI— Fischer, Zoogen. 1814, p. 228;
Desmarest, Mamm. 1820, p. 230; a. Wagner, Säuge-
tiere, Suppl. I], 1841, p. 542, Taf. 103-B; Elliot, Mo:
nog. Felidae 1883, pl. XII; Rengger, Säugetiere vor
— 164 —
Paraguay 1830, p. 203; Prins Wiel, Beitr. Nat. Bras.
IT, 1826, p. 379; Waterhouse, Zocl. Beagle, London
1839, p. 16, pl. 8; Burmeister, Syst. Ubers. I. (854
p. 90; ed. Descr. phys. Rep. Arg. I, 187%, p. 135; R.
Hensel, Beitr. Sauget. Südbras. Berlin, 1872, p. 75;
G. Mivart, The Cat, London 1881, p. 412; Æ. Goeldi,
Mamm. do Brazil 1893, p. 68; H. von Ihering, Mamm. do
Rio Grande do Sul 1893, p. 117; Trouessart, Cat. Mamm.
I, 1899, p. 365, e suppl. 1904, p. 274; A. von Pelzeln,
Brasil. Säugetiere, K. K. Zool. bot. Gesell. Bd. XXXIII,
Wien, 1883, p. 49;
FELIS DARWINI— Martin, Proc. Zool. Soc. London
1837, p. 3.
FeLis HRA—H. Winge, E Museo Lundi, II, A, 1896,
p: 40, pl 1, fig. 5 6.
Puma YAGUARUNDI— Brehm, Tierleben, Säugetiere
vol. I, Leipzig 1876, pag. 386.
FELIS BRACOATA — Cope, Amer. Naturalist, vol.
DOT, ON: Works, 1889 p. aa:
Fig. 1 Gato mourisco ou Jaguarundi Felis yaguarundi Fisch.
— 165 —
E' este um gato do matto de corpo comprido e de
cabeça pequena. À côr é uniforme, pardo-cinzenta. Os
exemplares do Paraguay têm o pello preto e cinzento
annellado, mas os do Brazil meridional têm a ponta
preta e embaixo della 2 ou 3 anneis branco-amarel-
lados; nas femeas a côr ê um pouco mais clara. A iris
é pardo-cinzenta, a pupilla redonda. Os exemplares da
Argentina, aos quaes se refere a descripção de Bur-
meister, assemelha-se em côr aos do Brazil meridional.
O comprimento da cabeça e do corpo é de 64 cm., o
da cauda de 36 cm.
Sobre a biologia deste animal temos boas infor-
mações pelos escriptos de Rengger. Segundo o mesmo
auctur este animal não vive nos campos, mas em mattos
e capões, onde dorme de dia no seu escondrijo, sahindo
para a caça de noute e de preferencia de tarde ou na
madrugada. A sua nutrição consiste só em aves e
pequenos mammiferos. Em geral não vive em arvores,
sobre os quaes, porêm, se abriga quando é perseguido
pelos cães. Estes gatos vivem aos casaes, e as vezes
diversos casaes convivem na mesma matta. Seu tempo
de cio é nos mezes de Setembro a Dezembro. A femea
depois do 9-10 semanas pare 2 ou 3 filhotes, qu: nutre
particularmente com aves e preás, mas não os defende
contra o homem e os cães. As vezes causam prejuizo
matando gallinhas.
O principe Wied diz que este gato ê encontrado
no sertão, nas caatingas da Bahia, onde é denominado
«rara». -
O Jaguarundi habita a America do Sul desde as
Guyanas por todo o Brazil até o Paraguay e o Norte
da Argentina, no Gran Chaco e Santa Fé. Affirmam
que a mesma especie vive na America central e no
Mexico. Mearns e outros auctores distinguiram varias
especies, encontradas no Meixco e no Texas, mas estas
provavelmente têm apenas o valor de subspecies. Devo
chamar ainda a attenção à figura 103-B da obra de
Schreber que representa uma variedade de pescoço e
cara branca. Parece que esta variedade é proveniente
das Guyanas ; entre os exemplares do Brazil não a en-
contro.
— 166 —
Cope descreveu sob o nome de F. braccata uma
variedade do gato mourisco que se distingue por ter
faxas pretas na barriga e nas pernas; ao meu modo
de vêr, porém, representa apenas uma subspecie de F.
yaguarundi. A orelha tem a metade superior no lado
exterior preta. Não se conhece o craneo nem a pro-
cedencia exacta, porque o couro em que se baseia essa
descripçäo foi encontrado em um collecçäo reunida no
Rio Grande do Sul e Matto Grosso. No primeiro Es-
tado Hensel e eu só obtivemos o forma typica de F.
yaguarundi, razão pela qual não duvido que a variedade
braccuta seja proveniente do Matto Gresso, represen-
tando quiçá apenas uma variante individual de colorido,
Kelis eira Fisch.
Eira
Eira—#. da Azara, Apunt. Quadrup. Paraguay 1,
4802, p. 159.
FeLis EYRA—ischer, Zoogen., 1814, p. 228;
Prinz Wied, Beitr. Nat. Bras. II, 1826, p. 381; Rengger,
Säugetiere von Paraguay, 1830, p. 208; A. Wagner,
Saugetiere, Suppl. II, 1841, p. 944; Burmerster, Syst.
Uebers. I, 1854, p. 99; G. Mivart, The Cat, London
1881, pag. 412; Elliot, Monogr. Felidae, 1833, pl. XIII;
Trouessart, Cat. Mamm. I, 1899, pag. 306 e suppl. 1904,
p. 270;—Mearns, Proc. Biol. Soc. Washington 1901,
pag. 191.
Puma ErA—Brehm, Tierleben, Säugetiere, Vol. I,
Leipzig 1876, p. 388.
E” este um gato pouco conhecido, que nem Nat-
terer nem Wied, Burmeister, Hensel e Winge não
obtiveram. Explica-se assim a disposição de varios au-
etores de reunil-o com F. yaguarundr, como por exemplo
Winge o fez. As melhores informações sobre esta es-
pecie devemos a Azara e Rengger. O tamanho é sen-
sivelmente egual ao de F. yaguarund: e como aquella
especie tambem esta tem o corpo baixo e comrrido,
com longa cauda. O pello macio não é lustroso e meda
12-14 mm. de comprimento. A côr é ruivo-amarello-
— 167 —
clara. Em cima do beiço superior nota-se de cada lado
uma manchinha branco-amarellada, da qual nascem as
cerdas que são da mesma côr. Os dous sexos não dif-
ferem em tamanho e côr. A pupilla é redonda, a côr
da iris é pardo-cinzenta.
Vive de preferencia na borda do matto e nos capões
e sóbe em arvores, o que não se di com F. yagua-
rundi. Dizem que os filhotes que nascem em arvores
ôcas differem da mãe por lhes faltarem as manchas brancas
do beiço superior. Rengger diz que a F. eira muda
os dentes no primeiro anno, attingindo o estado adulto
no segundo anno. Não cobre os excrementos coim terra.
A sua nutrição consiste em pequenos mammiferos e aves.
Causa prejuizo pela sua predilecção por gallinhas e outras
aves domesticas e quasi não é possivel caçal-a por causa
de sua agilidade e a facilidade com que se esconde nas
arvores.
O nome indigina «eira» me faz crêr que este gato,
do mesmo modo como a iráre gosta de mel. Os indios do
Paraguay designam tanto esta especie como F. yagua-
rundi com o nome «eyra», distinguindo «eyra pyta»
(ou «eyra vermelha») de «eyra hu» ou jaguarundi.
Felis eyra é especie do sertão do Brazil, que vive
tambem no norte da Argentina e no Paraguay; para
o Norte é encontrada atê a America central, Mexico e
Texas.
Mearns creou numerosas especies novas para as
differentes raças locaes tanto desta especie como da
precedente; quando muito essas formas podem ser con-
sideradas como subspecie das duas especies aqui descri-
ptas. Ao contrario deste proceder, de crear especies
novas, Winge reuniu Felis eyra com F. yaguarundi ;
ao quanto posso julgar Winge só obteve exemplares
de HF. yaguarundi. Eu mesmo, em perto de 30 annos
de trabalho sobre a fauna do Brazil meridional, só obtive
um exemplar de F. eyra para o Museu Paulista, prove-
niente do Ceara, onde foi colleccionado pelo zeloso natu-
ralista sr. Francisco Dias da Rocha, em Fortaleza. O com-
primento da cabeça e do corpo é de 60 cm., oda cauda de
40, a altura no hombro de 26,5 cm. O pello é curto, os
cabellos não excedem 14-16 mm. de comprimento. A
»
côr é uniforme ruivo-amarellada. Os cabellos são mais
— 168 —
claros na base e perto da ponta. De cada lado da cara
nota-se uma mancha amarella ao lado da bocca e outra
no lado interno dos olhos. F. yaguarundi não tem
a mancha branca da bocca e os cabellos são duas vezes
mais compridos, medindo 20-39 cm. À côr varia um
tanto entre pardo e cinzento; os cabellos são sempre
distinctamente annellados. Entendo pois que se trata
de duas especies alliadas mas distinctas, e sabemos pelas
narrações de Azar: e Rengger que o modo de viver
de ambos é differente. F. eyra occorre no Brazil central
e no Paraguay, mas não sei se as indicações referentes
à America central e Mexico são baseadas nesta especie
ou em F. yaguarundi.
Quanto à forma e ao tamanho do craneo as duas
especies indicadas são quasi identicas. Entre os nos-
sos exemplares o craneo de F. eyra tem o dente car-
niceiro superior com 12 mm. de comprimento, em quan
to que nos craneos de F. yaguarundi este mesmo dente
méde geralmente 11 mm. Os craneos destas duas es-
pecies de Felis se distinguem bem dos outros do Bra-
zil pela presença de uma profunda covinha na parte
anterior dos ossos frontaes, logo atraz dos ossos na-
saes. Esta impressão, que podemos denominar fossa
prefrontal, à raras vezes encontrada em craneos de
outras especies sul-americanas de Felis e neste caso
ella fica situada mais para deante, representando antes
a terminação dos ossos nasaes do que uma particula-
ridade do osso propriamente da frente. Esta é convexa
nos craneos de que aqui nus occupamos ; proeminente
atraz da orbita, ella desce em linha quasi recta até a
ponta do focinho vendo-se o craneo de lado.
Nestas duas especies os processos postorbitaes são
bem compridos. As femeas tem maior largura pcstor-
bital do que os machos. A crista sagittal tem dimen-
sões minimas, desenvolvendo-se apenas na sua ultima
porção e isto mesmo só em pequena distancia. O se-
gundo premolar superior do craneo de F. eyra tem,
na base do bordo posterior, os denticulos bem fortes,
que em F. yaguarundi são menores e às vezes em par-
te indistinctos. O mesmo acontece com os denticulos do se-
gundo premolar inferior. Será necessario examinar
grandes series de craneos de F. eyra para verificar
(G8 e
se o mesmo effectivamente se distingue em alguns
pontos do de F. yaguarundi. O comprimento basilar
é em nosso craneo de F. eyra de 82 mm. e varia em
nossos craneos de F. yaguarundi de 82,5--86,5, o que
corresponde às medidas indicadas por Hensel que são
83,5--87,5.
TABELLA DAS MEDIDAS — Felis eyra Fisch.
|
NUMERO
te carniceiro sup.
comp. total (que é
100)
em relação com o
nho
Comprimento do den-
Largura do focinho
Comprimento do foci-
Comprimento total
Comprimento basilar
Largura zygomatica
Largura orbital
Largura postorbital
Largura temporal
57.5 |38,5/30 |40,5/224 112 1246
O0
bo
2444 9? |90
Ceara
Felis yaguarundi
Fisch.
2031 4 100,5/86,5 160,5 140 129 14351245 |11 1243
S. Lourenço—Rio
Grande do Sul
37 98 ls 58 [405180 |425)24 |11,2/245
S. Lourenco id.
1647 ov 97 |84,5 |57,5 |40,5]30 |44 123 [11 |23,7
S. Lourenço id.
1399 © ? 95 1885 [57 140 182" ]44 123. 1 1242
S. Lourenço id.
4003 9 9 |95 SM 158/9540 152 AR eS Er?
S. Lourenço id.
4272 & |98 |86 [62 |415/28,5142 1235 |11,5 |23,9
Catalão—Goyaz
Felis onssa (1) L.
Jaguareté, Cangussu ; Onça Pintada e Onça Preta
ou Tigre
Jaguara e Jaguareté Marcgrave, Hist. Nat. Bras.
1648, p. 235 e figura ;
(1) Como o expliquei em um artigo sobre a graphia dos nomes
brazileiros, latinizados para uso da nemeanclatura scientifica
et
es
Jaguareté F. de Azara, Apunt. Quadrup. I,
1802, p. 91-114 e Jaguareté negro, ibid. p. 114-120;
FeLis onga Linné, Syst. Nat., ed. XII. 1766, I, p.
61; R. Hensel, Zool. Garten Frankfurt a. M., 1869, p.
330; Elliot, Mcnogr. Felidae 1883, pl. V;; A. von Pel-
zein, Bras. Sauget. K. K. Zool. Bot. Ges. XXXII, Wien
1883, p. 48; Æ. Goeldi, Mamm. do Brazil, 1893 p.
63; H. von Lhering, Mamm. Rio Grande do Sul 1893,
p. 116; E. Trouessart, Cat. Mamm. I, 1899, p. 353
suppl. 1904, p. 267; A. Wagner, Säugetiere, Suppl.
11 1841, p. 474, pl. 99: Rengger,' saugetere pron
Paraguay 1830, p. 156-181; Pring Wired, Beitr. Nat.
Bras. 11, 1826 p. 344; G. Cuvier, Os sements foss.
Vil) Paris, 1835, p. 381) e441) pl. 106 meo es.
onça preta figura dos carneos; Burmeister, Syst. Ubers.
J, 1854, p. 84; ed. Descr. phys. Rep. Arg. I, 1879, p.
1485 CG: Mivart, The Cat, London 1881) phare
Winge, E Mus. Lundi II A. 1896 p. 12; #. A.Mearns,
Proc. Biol. Soc. Washington, vol. XIV, 1901, p. 137-
143; R. Hensel, Beitr. Säuget. Bras. Berlin, 1872 p. 68;
Friis PANTHERA Schreber, Säugetiere LI, 1778
pl. 99 e Felts onça ibid. p. 388;
LeopaRDUS ONZA A. E. Brehm, Die Säugetiere,
Voll, Leipzig 1876, p. 410.
A onça é o maior e mais temivel entre os carni-
voros do Brazil. O seu corpo attinge o comprimento
de 1,40--1,E0 m. medido do focinho até a raiz da
cauda ; esta tem um comprimento de 60 cm. A altura
do corpo é de 80-85 cm. O pello da nuca e do pes-
coço superior é arripiado e mesmo dirigido para diante
como em Felis wiedi e pardalis. A côr nas costas é
amarello-ruiva, tornando-se mais clara mais para baixo,
para passar afinal, no lado inferior e no lado interno das
extremidades, para um colorido branco. A cabeça e
o pescoço no lado superior são ornados de pequenas
(Zool. Anzeiger, vol. XXVIII, 1905, p. 785 ¢s.), não podemos
conservar ¢ nos nomes genericos ou especifizos, por não per-
tencer este signal 4 graphia latina; neste caso, porém, vão po-
demos supprimir, arbitrariamente, a cedilha, escrevendo «F', onca»
como o fazem alguns auctores, mas fazemos a substituição de ¢
por ss, com o que con:ervamos a pronuncia original F. onssa.
— 171 —
manchas arredondadas pretas, que se prolongam pelo
dorso, no meio do qual se tornam estreitas e alonga-
das. Nos lados notam-se cinco fileiras de grandes an-
neis pretos, que no centro incluem muitas vezes uma
outra manchinha preta. No meio destes anneis, que em
geral são completamente fechados, a côr ruiva é mais
carregada do que no campo. Tambem no lado inferior
nota-se grandes manchas pretas e do mesmo modo na
cauda, em cuja parte terminal formam anneis mais ou
menos completos; a ponta da cauda é toda preta. No
lado interior as orelhas são cobertas de cabellos brancos
e no lado exterior são escuras, com uma grande mancha
central branca ou amarellada. À cara é salpicada e os
beiços são bordados de preto.
SI
Fig. 2.—Onça pintada ou Jaguareté, Felis onssa L.
Entre os dous sexos não ha differença notavel
quanto ao colorido ; os filhotes são cobertos de pello
macio e comprido, cuja côr é mais clara e as manchas
são menos numerosas e mais irregulares na sua distri-
buição.
— 172 —
E' esta a forma typica da onça pintada. Os caça-
dores do Brazil distinguem uma variedade menor, de
cabeça mais grossa, cujos couros se distinguem pelas
manchas menores mais numerosas. Segundo Wied,
esta variedade, que é denominada «Canguçã» ou
«Acanguçú» (isto é de cabeça grande) vive no sertão
do interior do Brazil. Uma outra variedade é o tigre
ou a onça preta; é animal escuro, quasi preto, poden-
do-se assim mesmo distinguir os contornos dos anneis.
O craneo da onça é notavel pelas suas dimensões que
com effeito em machos velhos não ficam muito a quem
das do tigre asiatico. À pequena tabella que dou em se-
guida mostra o variabilidade que ha neste sentido. O
craneo maior, medido por Winge, tem 275 mm. de
comprimento basal, isto é pouco menos do que no maior
exemplar até hoje conhecido, guardado no Museo Na-
cional de Buenos Aires e que tem um comprimento
basal de 247 mm. O comprimento do dente carniceiro
superior varia, segundo Winge, de 28 a 33 mm. e se-
gundo os nossos exemplares de 28-30,5 mm. O que
antes de tudo caracteriza o craneo da onça é o grande
comprimento do focinho, que importa em 33-36,/° do com-
primento total do craneo, proporção que não se observa
em nenhuma outra especie dos felinos brazileiros. Se-
gundo Hensel o comprimento basilar do craneo da onça
femea varia do 182-184 mm. e, no craneo masculino, de
188-217. Não disponho de observações sufficientes para
poder contestar ou rectificar as affirmações de Hensel,
mas tenho o craneo de um exemplar feminino, cujo com-
primento basilar méde 200 mm. Os craneos adultos são
mun'dos de fortes cristas sagittaes e occipitaes ; mas
não são as dimensões destas que permittem distinguir
os craneos dos dous sexos, mas sim a configuração da
frente. Esta é mais ou menos convexa nas femeas, con-
cava nos machos. O craneo do animal novo tem a frente
fortemente convexa e, assim sendo, este estado juvenil
conserva-se melhor e as vezes bem pouco modificado no
sexo feminino. Parece-me certo que o craneo de «jaguar»
figurado por G. Cuvier (1 c. pl. 196, fig. 3) é o de
uma femea. O aspecto deste craneo é bastante differente
daquelle do craneo da onça masculina adulta. Ao passo
que o processo supraorbital nos craneos novos e femi
— 173 —
ninos fica situado no meio do craneo, na onça velha do sexo
masculino a caixa craneana excede grandemente as di-
mensões da parte facial, o que é devido particular-
mente ao grande desenvolvimento das cristas occipitaes.
As medidas dos principaes craneos de nossa collecçäo
são as segiuntes :
TABELLA DAS MEDIDAS—Felis onssa L.
Largura orbital
Largura
postorbital
Largura
temporal
Comprimento
do focinho
Comprimento do
dente carniceiro
superior
Larg. do focinho
em relação com
o compr. total
(egual a 100)
EEE
TTJT.Ãee...
Numero
Comprimento
total
Comprimento
basilar
Largura
zygomatica
ONÇA PRETA
9957) | 299º | 199'| 160 | 76 | 50 | 78 | 79 28 | 3405 °/,
ONÇA PINTADA
2329 | 236 | 197 | 154 | 62.) 41 3 | 84 | 80,5) 355º),
2559 | 243 | 200 4) 168 | 72,5) 50 | 79 | 87a) 29 369,
Rd | 200, 226) (BSS) SS | DL | SM OF 30 | 334°/,
2332 | 200 | 238 | 186 | 90 | 56.| 84 | 105 | 30 35°],
1745 | 200: 165 | 133 | 59 | 50 | 81 |. 71 20) | 3535 Jo
Uma particularidade do craneo da onça é um tu-
berculo osseo da margem interna da orbita no osso
lacrimal. Este tuberculo existe tambem em outras es-
pecies do mesmo genero, mas não é tão grande. in-
teressante é o craneo n. 1745 de Encarnacion, Para-
guay de um anima] novo, cujo corpo, inclusive cabeça
media 102 em. e a cauda 45 em. O comprimento total
do craneo é de 200 mm. e o comprimento basilar é de
165 mm. O processo lacrimal é forte as linhas tem-
poraes estão separadas no meio do osso parietal por um
espaço de 9 mm. Não ha pois crista sagittal e tambem
as cristas occipitaes são bem baixas. À frente é perfei-
tamente convexa. Persiste ainda a dentição de leite,
mas já apparecem varios dentes da dentição definitiva.
A corôa do dente canino não passa insensivel
mente ao corpo do dente porque este forma um angulo
obstuso com as linhas da corûa.
— 174 —
Outras particularidades caracteristicas do craneo da
onça são: a frente proeminente, que se eleva muito
acima de uma linha horizontal que corre aproximada-
mente do nariz à crista occipital, e o processo angular
da mandibula, que é mais curto e mais alta do que em
qualquer outra das especies grandes de Felis.
A onça vive de preferencia nas grandes mattas
ou nas suas borda e em capões. À area de sua distri-
buição extende-se desde Entrerios e Corrientes na Re-
publica Argentina por todo o Brazil atê a America
central, Mexico. Louisiana e Texas nos Estados Uni
dos. Não existe nem na Cordilheira dos Andes nem
tão pouco no Chili ou no Sul da Patagonia. R. Leh
mann Nitsche publicou um curioso estudo sobre «E ha-
bitat austral del tigre en la Republica Argentina»
(Rev. Jard. Zool Buenos Aires 2° epoca, Il, 1907,
p. 19-28) no qual demonstra que actualmente a onça
é encontrada, embora raramente, no norte da Patagonia
entre os Rios Colorado e Negro, mas que em época
anterior a onça vivia por toda parte na Patagonia,
como o provam certas denominações locaes e ainda al-
gumas lendas indigenas.
Os grandes exemplares da onça rivalizam perfeita-
mente com o tigre em tamanho e força; por isto tam-
bem, como aqueila féra da Asia, a nossa onça causa
grandes prejuizos à criação do gado, visto sû que não
aggride carneiros e potros, mas tambem egoas, mulas
e vaccas.
Diz Wied que a onça não se atreve atacar o touro,
e que este, quando presente o inimigo, rodeia a tropa,
mugindo sem cessar. Quando a onça conseguiu matar
um animal, carrega-o para algum lugar escondido,
chupando primeiro o sangue, para comer depois a car-
ne, particularmente do peito e do pescoço; em seguida :
esconde o cadaver como bem póde, para voltar a comer
na proxima noute. À caça principal da onça consiste em
veados, capivaras, e porcos, mas em ultimo caso tambem
não despreza préds e outros mammiferos pequenos, bem
como jabutis e outras aves grandes. Rengger chservou
uma onça immovel à beira de um rio, onde, depois de
certo tempo, com uma valente munhécada, lançou a
— 175 —
praia um grande peixe, um dourado. As horas predi-
lectas da onça para as suas caçadas são as do crepus-
culo; depois de empanturrar-se de sangue e de carne,
vae dormir, recolhendo-se para algum escondrijo de-
fendido por caraguatá cu outras bromeliaceas espinho-
sas. Em geral a onça não ataca o homem, a não ser
na época em que esta com filhotes. Affirmam que a
onça, que uma vez comeu carne humana, prefere esta à
de qualquer outro animal. E' por esta razão que os via-
jantes não dormem sem fogo. acceso. Corre como certo
que a onça, quando por qualquer circumstancia se de-
cide a assaltar um acampamento, de preferencia se
atira aos homens de côr, indios ou principalmente ne-
gros. Como não ha informações suficientes e principal-
mente fidedignas a respeito, seria de valor colligirem-
se dados exactos sobre os casos em que a nossa onça
effectivamente causou vicumas humanas. E” na época
do calor que a onça se torna particularmente perigosa
para o homem.
A onça, como já foi dito, caça de preferencia ao
crepusculo ou de madrugada ou nas noutes cla-
ras de luar. Passa o dia na sombra da matta, sem
comtudo ter paradeiro certo. Excellente nadadora, se-
gundo Rengger, distingue-se a onça de qualquer outro
animal que náda, pelo modo de fluctuar, porque levan-
a não sd a cabeça mas tambem o espinhaço para fora
da agua. Atravessa o Rio Paraguay quasi em linha
recta em lugares largos deste caudaloso rio. Tambem
consegue atravessar a nado o estreito de mar entre São
Sebastião e a ilha do mesmo nome, mas tão cançada
chega à praia da ilha, que varias dellas tem sido mor-
tas a cacete pelos moradores do logar.
Durante a maior parte do anno a onça vive sosinha
no districto que habita; é nos mezes de Agosto e Se-
tembro que os dous sexos se procuram, deixando então
ouvir com frequencia o seu rugido. Rengger diz que o
rugido das onças indica tambem a mudança do tempo,
particularmente qaando o vento vira para Sul depois
de ter soprado durante semana do Norte. A prenhez
comprehende em geral 99-101 dias. O numero de ca-
chorros é de 2 a 3, que a mãe trata com carinho e
“tb
defende com grande coragem ; abandona-os porem quando
attingem o tamanho de um cão perdigueiro. Com dous
e meio a tres annos a onça nova alcança o seu tama-
nho definitivo.
Rengger conta que no Paraguay o caçador vae
de encontro à onça armado de um facão de dous gu-
mes, defendendo o braço esquerdo com uma pelle de
ovelha. Acompanhado de seus cães, elle aggride a
féra, que em poucos pulos se approxima do caçador,
para erguer-se então como o urso, rugindo de bocca
escancarada. E” neste momento que o caçador estende
o braço esquerdo ás garras da onça, para cravar-lhe
com a dextra a sua arma no lado do coração. Rengger
conhecia um indio de Vajada que deste modo matára
mais de cem onças, mas que afinal numa destas caça-
das perdeu a vida. J. Paula Souza, na sua «Escola de
caça» (Rio de Janeiro 1863), diz que tambem no Bra-
zil este modo de caçar é uzado. Contam de um fazen-
deiro da provincia de Goyaz que matára 196 onças
quasi todas a faca, o que testemunhava com pessoas
importantes. Pediu por isso à assembléa geral de
1897 a isenção de imposto sobre seu gado, o que,
em vez de ser concedido immediatamente com galardão
e honra, foi-lhe negado. Outro celebre caçador paulis-
ta Ignacio Corrêa, em Pirapóra, na idade de 42
annos já havia matado 46 onças coma sua espingarda
ordinaria de Braga.
Rengger diz que no Paraguay matam a onça tam-
bem a lança. Reunem-se 3 caçadores, que levam com-
sigo 6-10 cães. I'm dos caçadores está armado de es-
pingarda, outro de lança e o terceiro leva uma forqui-
lha de madeira de metro e meio de comprimento. O
caçador aponta para a cabeça da féra ou para o peito;
se o tiro não tem o resultado desejado a onça arremes-
sa-se furiosa sobre o caçador, e no momento em que
ella se põe de pé, o homem da forquilha escora-lhe o
corpo, ao passo que o companheiro encrava a lança nas
costas. Diz o Visconde de Porto Seguro na sua «Caça
no Brazil» (Rio de Janeiro 1850, p. 117) que esta
caça é usada tambem no Brazil. Reprodnzo ainda a
seguinte passagem de Paula Souza: «A onça acuada no
TR
chão ê muito perigosa; se com o tiro eila não morre
logo, atira-se sobre o caçador, que tem de perecer ou
sahir aleijado da lucta. Por isso deve o caçador segu-
rar bem a pontaria, atirando na fronteira do coração
no principio das costellas, atraz do braço que o vulgo
chama—volta da apa, pois se não a puzer fóra de
combate com o primeiro tiro, ella de certo o porá fóra
de todo o combate com a primeira patada. Acuada,
porém, a onça em cima de alguma arvore é menos
perigosa».
A onça, como o animal mais forte e perigoso das
nossas florestas, não tem inimigos a temer. Dizem que
a onça e o jacaré são inimigos implacaveis, mas Brehm
refuta taes historias. Azara e Rengger refutam o que
se conta de combates entre a onça e o tamandnä-ban-
deira. O unico caso de que tenho conhec:mento, de
uma onça ter sido matada por outros animaes ferozes,
é o que relata J. Ambrosetti (Revista del Jardin Zoo-
logico, Buenos Aires tom. !, p. 198-205, Nas missões
argentinas alguns caçadores observaram uma lucia tre-
menda entre uma onça e uma vära de porcos do matto,
queixados. A onça, depois de ter matado um porco,
foi atacada com tanta violencia por todos os outros do
bando, que ficou morta no chão, entre oito a dez de
suas victimas
Felis pardaiis chibigouazou Griffith
Jaguatirica
Maracajá — Marcgrave, Hist. Nat. Bras. 1648
. 233.
i Chibi-guazu — #. de Azara, Apunt. Quadrup. Pa-
raguay, J; 1802, p. 152.
FeLis PARDALIS —Linné, Syst. Nat. ed. XII, 1766,
I, p. 62; Schreber, Säugetiere, IH, 1778, p. 390, pl.
103; Prinz Wied, Beitr. Nat. Bras. Il, 1826, p. 361 ;
Rengger, Siugetiere von Paraguay, 1830, p. 191; G.
Cuvier, Ossments fossiles, Val. VIT, 1835, p. 416; A.
Wagner, Säugetiere, Suppl. H. 1841, p. 496, pl. 104
e 103-A (var. catenata) ; Brehin, Tierleben, Säugetiere,
— 178 —
vol. I Leipzig, 1876, p. 442; R. Hensel, Beitr. Säuge-
tiere Südbras. Berlin, 1872, p. 70; Ælliot, Monogr.
Felidæ, 1883, pl XVII ; Muvart, The Cat, London,
+881, p. 408; A. o. Pelzeln, Bras. Säugetiere K. K.
zool. bot. Gesell., Bd., XXXII, Wien, 1883, p. 50; E.
Goeldi, Mam. do Brazil, 1898, p. 65; Winge, E Museu
Lundi, II, A, 1896, p. 11; Trouessart, Cat. Mamm. I,
LOOM SD
FeLis cHiBIGoUAZOU — Griffith, Animal Kingdom,
We 1827, p. 161: Mearns, Proc: U. 8. Nat Muse
1902, Washington, p. 246; Trovessart, Suppl. 1904,
E OR
A FELIS BRASILIENSIS —- Fr. Cuvier, Hist. Nat. Mamm.
1828, pl. 58.
FELIS ARMILLATA — Hr, Cuvier, Hist. Nat. Mamm.
18952; pl; 152
FELIS MARACAYA — À. Wagner, Säugetiere, Suppl.
HMS Ar yp. 4902:
FeLis miris — F. Cuvier, Mamm. 1820, pl. 137;
G. Cuvier, Oss. foss. VII, Paris 1835, p. 418; Bur-
meister, Syst. Ubers., I, 1854, p. 86; zd. Descrip. phys.
Rep. Arg. 1879, p. 121; H. von Ihering, Mamm. do
Rio Grande do Sul, 1893, p. 116; A. ». Pelzeln, 1. e.
p. ok
Este felino avantajado e forte, denominado «gato
do matto grande» ou «jaguatirica» no Brazil meridio-
nal, «mbaracaja» na Bahia e «chibiguassti» no Para-
guay, pelo seu tamanho é intermediario entre a onça
e l'elis macrura; como estas especies, o seu couro
tem os cabellos da nuca erectos, arripiados. A cauda
é relativamente curta. A côr é ruivo-amarellada em
cima, com numerosas manchas arredondadas, orladas
de preto. As manchas pretas do meio do dorso, que
são estreitas e alongadas, transformam-se nos lados em
estrias pardo-cinzentas com borda preta, sem comtudo
serem continuas, mas interrompidas de distancia em
distancia. Na nuca notam-se 5 ou 6 estrias pretas, que
na cabeça se desaggregam em pequenas manchas. A
parte inferior da cara é brancacenta, percorrida de cada
lado por duas estrias pretas que partem do olho. Em
cima e em baixo do olho ha uma mancha branco-ama-
— 179 —
rellada. Uma larga estria preta passa pela garganta
de um lado a outro. A orelha é branca no lado inte-
rior, preta no exterior, notando-se perto da ponta uma
grande mancha branca. A cauda é cinzenta, provida
de largas manchas escuras, que na extremidade formam
tres a cinco anneis pretos, completos; preta tambem é
a ponta da cauda. A’s vezes, porém, acontece que a
ponta é cinzenta como em um dos nossos exemplares.
O lado inferior e as extremidades no lado interno são
brancas com algumas manchas pretas. O lado exterior
das extremidades é amarello-cinzento com manchas es-
curas, às vezes orladas de preto, desenho que nos pés
se transforma em pontos pretos, ao passo que nos bra-
ços forma series transversaes, às vezes bem regulares.
O comprimento do corpo varia em nossos exem-
plares de 68 a 83 centms., o da cauda de 32 a 43
centms. A altura nos hombros corresponde, approxi-
madamente, ao comprimento da cauda. À iris é de côr
pardo-cinzenta ou verde-cinzenta e nos filhotes quasi
azul. A pupilla é quasi redonda, mas ao contrahir-se
na luz ella toma fórma elliptica.
Os dous sexos não se differenciam quanto às cores,
mas nos animaes novos a côr é mais cinzenta ou antes
cinzento-amarellada com manchas escuras irregulares e
desbotadas. Nesta edade o pello é arripiado, ainda que
macio; à medida que o animal cresce, o pello vae-se
tornando liso.
Esta nossa descripção corresponde a muitos exem-
plares, mas em geral o desenho e a côr variam muito
nesta especie. Ha couros em que as manchas da zona
mediana são pretas e estreitas, outros em que só a
serie mediana tem esta fórma, ao passo que já as series
contiguas são amarelladas, com orla preta, e outros em
que tambem na linha mediana se encontram manchas
arredondadas. Em couros de animaes adultos o campo
é amarello-ruivo, mas antes avermelhado do que ama-
rellado. Individuos novos ha, cuja côr predominante é
cinzento-amarella. A's vezes, as manchas compridas dos
lados formam fitas quasi continuas, variedade esta deno-
minada catenata, ao passo que em outros casos as
manchas dos lados são isoladas, mais ou menos redon-
— 180 —
das, em quanto que as fitas orladas de preto se reduzem
a uma só de cada lado sobre a barriga.
Os auctores que gostam de descrever especies novas
aproveitaram-se a valer desta variabilidade. E. A. Mearns
distingue nada menos de 5 especies de «ozelots» ou
jaguatiricas, que ao meu ver pertencem todas 4 mesma
especie. Mearns dá uma chave para a distincção destas
especies, segundo a qual a nossa variedade seria de côr
cinzenta, o que não é exacto. Segundo a chave de
Mearns os nossos couros combinam com F. pardalis,
mas, segundo o caracter das manchas, só no Brazil
poderiamos multiplicar o numero destas pretendidas es-
pecies.
O craneo da jaguatirica distingue-se bem do de
qualquer outra especie. Os processos supraorbitaes são
relativamente compridos. A crista sagittal é bem des-
envolvida, particularmente em machos velhos. KE’ bem
singular a variabilidade destes craneos, particularmente
no que diz respeito quanto à largura postorbital, que
particularmente em machos velhos é, às vezes, bem di-
minuta. O comprimento do dente carniceiro superior
nos individuos adultos varia de 15,5 —17 mm.; o com-
primento total importa em 133—154, o comprimento
basilar em 113 nas femeas e até 130— 133 mm. nos machos
velhos
Mearns diz que em F. chibigouazow o compri-
mento basilar mede. mais de 115 mm., ao passo que
deve importar em 120 no macho e 105 mm. na femeas
de F. pardalis. Como Mearns mediu apenas uma femea
e um macho, não se pôde attribuir valor geral à sua
aftirmação. Sem cuidar de outros pormenores, passo a
dar as medidas de diversos craneos da nossa colleccäo.
Observo ainda que o Chati (Felis mitis) de F. Cuvier
representa uma variedade menor da America Central,
que se distingue por ter a cauda extremamente curta,
de apenas 30 centms. Parece que foi esta variedade
da America Central que Mearns denominou F. costa-
ricensis.
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— 181 —
TABELLA DAS MEDIDAS Felis pardalis chibigouazou
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2467 © 133,5] 1135] 83,6 51 |31,5/54 137 |155]27,7
Castro — Paraná
ct
2466 122 |102 OP AB SA 160 155 [AS SB
Castro — Paraná
1936 & 1870141608) 94 56) | 25) 152) 113814714277
Itapura
1937 Q 133 |113 | 85 |50,5] 29,5] 51,5 35 |16 |26,3
Itapura
HAS & (?) |154 1133 | 98 1505135 |56 | 445] 16,5) 28,8
São Lourenço — Rio
Grande do Sul
41167 146 | 124 |101 |54 |34 |70,2]42 |17,2,28,7
Itararé
4805 9 13401120 85 |47,5]26 | 51,5) 38,5] 14 |28,1
Ubatuba — S. Paulo
As melhores informações que temos sobre a vida
da jaguatirica devemol-as ainda a Rengger. Segundo
este auctor, a jaguatirica vive nos mattos e não entra
nos campos; comtudo, procura frequentemente os ba-
nhados. Näda bem e trepa em arvores sem revelar
entretanto, a agilidade da onça parda. Não gosta de
approximar-se das habitações humanas, pelo que não
causa prejuizos à criação. Dorme de dia e caça de
noute e a sua presa predilecta consiste em aves maio- -
res, como jacús, macucos, mutuns, inambus, etc., pe-
quenos mammiferos, como macacos, coatis, veados e
* Da dentição de leite.
= 180
porcos nóvos, pacas, ratos, etc. Mesmo O ouriço-Caxeiro
ella não despreza e assim acontece às vezes que, ao
tirar-se-lhe o couro, se encontra o seu corpo cravejado
de espinhos deste roedor, que graças a esta sua defesa,
tão raramente é atacado. Estes gatos costumam viver
aos pares, e cada um destes tem o seu districto. A
época do cio cahe nos mezes de Outubro a Janeiro ;
e numero de cachorrinhos que a femea dá a luz é,
geralmente, de 2 a 3. Os animaes novos mudam os
dentes no correr do primeiro anno, mas é só com 18
mezes que o seu pello toma 9 desenho definitivo.
A distribuição geographica da jaguatirica extende-
se desde o Mexico e Texas pela America Central e as
Guyanas e por todo o Brazil atê Corrientes, na Argen-
tina. Diversos auctores descreveram as differentes va-
riedades locaes como especies distinctas, particularmente
do Mexico e da America Central. Suppondo que futu-
ras investigações mais criteriosas justifiquem ao menos
a separação da variedade mexicana da brazileira, accei-
tamos, provisoriamente, a forma typica de F. pardalis
eomo sendo a que habita o norte da America Meirdio-
nal até o Mexico, em quanto que a variedade brazi-
leira recebe o nome de À. pardalis chibigouazou.
Felis wiedi Schinz
Gato do Matto
Feuis wiepi — Schinz, Quvier’s Tierreich, I, 1821,
p. 235; Trouessart, Suppl. II, 1904, p. 271; O. Thomas,
Ann. & Mag. Nat. Hist., 1903, XIl, p. 234.
FELIS MACROURA — Pring Wired, Beitr. Natur-
gesch. Bras. 11, 1826, p. 371, ed. Abbild. pl. 22; Brehm,
Tierleben, Säugetiere, Leipzig, 1876, p. 448; von Pel-
zeln, Brasil. Siugetiere, K. IS. Zool. Bot. Gesell. vol
XXXIII, Wien, 1883, p. 90.
FELIS MACRURA — A. Wagner, Siiugetiere, Suppl.
H, 1841, p. 499; Rengger, Säugetiere von Paraguay,
1830, p. 202; Burmeister, Syst. Ubersicht, I, 1854,
p. 87; Hensel, Beitr. Säugetiere Südbras. Berlin, 1872,
p. 71; Wenge, E Museu Lundi, II A, 1896, p. 8e
106, pl. I, figs. 3-4; Trouessart, Cat. Mamm. I, 1899,
va
— 185 —
p. 859; Goeldi, Mamm. do Brazil, 1893, p. 66; A.
von Ihering, Mamm. do Rio Grande do Sul, 1893,
DATE
FeLIS TIGRINA — Miwart, The Cat, London, 1881,
p. 409, em parte.
FELIS WIEDI VvIGENS — O. Thomas, Ann. Mag. Nat.
Hist. 1904, vol XIV, p. 192:
Este gato tem muita semelhança com a juguatirica,
porém é muito menor. O pello da nuca é arripiado, a
cauda é bastante comprida, pois que o seu comprimento
corresponde a 40-46 °/, do comprimento total. A côr
predominante em cima é ruivo-amarella, em baixo branca
ou brancacenta. Ao longo do dorso notam-se algumas
series de manchas estreitas, pretas, em numero de tres,
geralmente. Nos lados estas manchas tornam-se mais
escuras e maiores, de forma quadrangular ou oval, dis-
postas em series obliquas mais ou menos longitudinaes.
As vezes o centro destas manchas é mais claro do que
as orlas. Na cabeça notam-se a começar do olho, duas
estrias pretas, em frente das quaes ha alguns pontos de
egual côr. O lado interno da orelha é coberto de cabellos
branco-amarellos, ao passo que no lado externo ella é
preta, orlada encima de desenho amarellado e crnada
- na metade inferior de uma mancha branca que se ex-
tende até a margem.
Pela nuca prolongam-se as estrias pretas da cabeça
e entre ellas accresce ahi uma estria mediana e de cada
lado outra estria escura. Na face notam-se duas estrias
pretas, que partem do olho. Na garganta ha uma fita
preta, transversa. Manchas pretas observam-se tambem
nas extremidades e na barriga. A cauda tem largas faxas
pardo-escuras transversaes, as ultimas das quaes formam
anneis. À planta dos pés é pardo-cinzenta. As medidas
importam em 50 a 60 ctm. para o corpo com a cabeça
e 30 a 46 para a cauda. No Museu Paulista temos tres
couros de machos cujo corpo com a cabeça mede 60
ctm. e cuja cauda tem o comprimento de 40, 41,e 43
ctm. Deste modo o comprimento da cauda corresponde
em geral a 40-46 º/, do comprimento total.
Fig. 3 Gato do matto—/Felis wiedi Schinz
O colorido, a forma e dispesição das manchas
variam muito nos diversos exemplares. Wied diz que
o campo do couro é cinzento-avermelhado em uns, ama-
rello-ruivo em outros. Nos exemplares adultos que co-
»
nheço a côr predominante é amarello-ruivo.
O craneo de F. wedi & bem differente do de
F. pardalis. A caixa craneana de #. wiedz é rela-
tivamente muito larga e tambem a largura postorbital
do craneo é mais consideravel do que naquella especie
e em outras alliadas. A frente é alta só na parte pos-
terior, na sutura coronal; em direcção ao focinho ella
decde em superficie achatada. No craneo de F. par-
dalis, ao contrario, a frente é abobadada, convexa. A dif-
Nota —Faltam no nosso desenho, de resto bastante natural,
as duas linhas pretas, dos olhos ao vertice, muito caracteristicas
para a especie, e ainda o comprimento da cauda poderia ter sido
augmentaio um pouco mais.
— 185 —
ferença mais notavel, entre os dous craneos em confron-
to, é a falta de uma crista sagittal em F. aviedi. Os de-
talhes deprehendem-se da tabella das medidas que junto:
TABELLA DAS MEDIDAS—Felis wiedi Schinz
Espirito Santo
2249 89 (iii 64 147,5 | 34 |46 1235111 (264
Espirito Santo
1649 Q 91 | 77 | 63 [495] 34 46 |225 1041247
S. Lourenço—Rio
Grande do Sul
1169 Q Seren iy) an
Itararé
A677 ov 100 86,5} 65 |48 80 [44 125,8 |12 3 [25,6
Joinville x
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S. Lourenço —Rio
Grande do Sul
2930 & $0; | 76 57 |40 | 32 |46,5/22 |10 (24,4
S. Lourenço—Rio
Grande do Sul
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já
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ON
Do
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Ha
F. wiedi não causa prejuizos serios ao homem, a
não ser que as vezes lhe roube uma gallinha. E” gato do
matto que caça não só de noute mas as vezes tambem
de dia. O seu alimento consiste em pequenos mam-
miferos e particularmente em aves, entre as quaes pre-
fere os inambús e urús. Estes gatos sóbem com faci-
lidade em cipôs e procuram a sua preza sobre as ar-
vores. Como domicilio lhes servem arvores ôcas ou
grutas, nas quaes tambem procriam. Perseguido pelos
cães, este gato refugia-se sobre alguma arvore, de onde
o caçador com facilidade o atira.
— 186 —
A presente especie tem vasta distribuição nas mattas
subtropicaes da America meridional e central. Wied a
obteve na Bahia, Hensel e eu no Rio Grande do Sul
e em S. Paulo; Natterer a caçou na Amazonia. Pro-
vavelmente a especie occorre tambem no Mexico, onde
ella é representada por uma subspecie de côr cinzenta,
F. wiedi glaucula Thos. (cf. O. Thomas. Ann. & Mag:
Nat. Hist. 1903. vol. XII, pag. 235).
O craneo desta subspecie mexicana não differe dos
de São Paulo quanto à sua forma e as suas dimensões,
excepto que a largura postorbital é um pouco menor,
pois que mede 30,5 mm. contra 32-35 em nossos exem-
plares. Thomas descreveu uma outra variedade deste
gato sob o nome de Felis wiedi vigens (Ann. & Mag.
Nat. Hist. 1904. vol. XIV, p. 192) proveniente do Pará.
Predomina nesta variedade a côr de oca («clay-colour»)
encima, branco-amarellada nos lados e na barriga. As
dimensões são as da forma typica e tambem o craneo
corresponde às nossas medidas. Sômente as bullas tym-
panicas são um pouco maiores, isto é tem 24 mm. de com-
primento com uma distancia de 9 mm. entre si. Em
nossos craneos da forma typica as dimensões destas
bullas variam de 19-22 mm., sendo a distancia entre ellas
sempre de 9 e em um só caso de 8 mm. Duvido que,
baseado em uma differença de t ou 2 mm., se possa
erigir novas especies ou subspecies, e assim julgo mal
fundamentada a subspecie em questão, a respeito de
cujo typo ainda ha a observar que o craneo exami-
nado por Thomas tem um comprimento basilar de 87
mm., o que indica as grandes propcrções do mesmo.
O meu modo de vêr combina com as observações de
Winge, que expoz muito bem as differenças entre os
craneos de F. wiedi e F. tigrina.
Felis tigrina Lral.
Gato do matto pintado
Maraguaé ou Maracaia—Marcgrave, Hist. Bras.
1648, pag. 233;
Le Marguay Buffon, tom. XIII, pl. 37 (teste Cuvier);
Gato cervante Giebel, Ueber. Fuchs & Katzen-
schädel aus Südamerika ;
= es =
a AOA
Feris TIGRINA Lraleben, Syst. Nat., 1777, p. 911 ;
G. Cuvier, Ossements fossiles, VII, 1855, p. 420;
Schreber, Säugetiere, I, 1778, p. 396 (Maragua) pl
106; A. Wagner, Säugetiere, Suppl. H, 1841. p. 500.
pl. 106; Brehm, Tierleben, Die Säugetiere vol. I, Leip-
zig, 1876, p. 446; Pelzeln, Bras. Saugetiere, Wien,
KK. Zool. Bot. Garten, Wien 1883, XXXIII, p. 91 ;
Elliot, Proc. Zool. Soc. 1877, p. 704; zd. Monger. Fe-
lidæ 1883, pl. 19; Goeldi, Mamm. do Brazil, 1898,
p. 67, nota; Winge, E Museu Lundi, II, A, 1896, p.
7 e 106, pl. I, fig. 1, 2; Miwart, The Cat, London,
1881, p. 409 (partim); Trouessart, Cat. Mamm. I, 1899,
pH/999 eu Suppl, 1004) ps 212:
FELIS PARDINOIDES Gray, Proc. Zool.-Soc. London
1867 p. 400; Mivart, The Cat, London, 1881, p. 411;
Thomas, Ann. & Mag. N. Hist. London, 1903, p. 254;
Feuis gurruLa Hensel, Beitr. Säugetiere, Südbras.
Berlin, 1872, p. 73; Thomas, Ann. & Mag. N. Hist.,
London, 1905, pag. 224, ss.;
FELIS GUIGNA Hensel, 1. c. p. 14;
E” este o menor dos gatos pintados. O pello é
menos macio do que o de Felis utedi. A côr é cin-
zento-amarella emcima, brancacenta embaixo. No meio
do dorso notam-se manchas pretas pequena, as vezes.
reunidas em estrias pretas mais ou menos continuas ;
nos lados as manchas são maiores, de forma mais ou
menos redonda ou oval, pardo-amarellas no centro, es-
curas na peripheria. Estas manchas, cujo diametro varia
de 10 a 30 mm., são por vezes incompletas e abertas
no lado anterior ou posterior. No pescoço e na nuca
notam-se 4 ou 9 estrias longitudinaes, das quaes a ex-
terior se prolonga até o olho. Emcima e embaixo do
olho existe uma mancha branco-amarella. Da mesma
cor são os beiços e as bochechas. Do olho para traz
correm duas estrias pretas, das quaes a inferior está
em contacto com a faixa preta que percorre a gar-
ganta. A orelha tem cabellos branco-amarellados no
lado interno; na sua parte exterior ella é preta, com
uma larga mancha branca. -s manchas escuras do
lado inferior são menos numerosas e densas; formam
fachas transversaes no braço e nos lados inferior e ex-
toricr da coxa. A cauda tem 10 a 11 anneis irre-
gulares, dos quaes os da base da cauda se desaggregam
mais ou menos completamente em manchas.
— 188 —
As dimensões deste gato são comparaveis às do gato
domestico. Nos exemplares adultos da nossa collecçäo o
comprimento do corpo e cabeça varia de 46 a 48 ctm.
nas femeas, de 48 a 52 ctm. nos machos. À cauda é
de 28 ctm. nas femeas, de 28 a 30 nos machos. Temos
presentes D couros que foram medidos por occasiäo da
preparação ; nestes exemplares o comprimento relativo
da cauda, isto é indicado em °/, do comprimento
total, varia de 36 a 38 °%,.
Comparando-se os diversos couros e exemplares
empalhados de nossa collecçäo, cujo numero excede a uma
duzia, resalta uma grande variabilidade de côre de desenho.
As manchas dos lados são as vezes bem pequenas, de
10-15 mm., ao passo que outras vezes ellas tem o ta-
manho duplo. Nos hombros observam-se em alguns
exemplares 2 ou 3 manchas pretas, bem grandes, plenas
ou cum centro claro, manchas estas que em outros
exemplares faltam por completo.
A côr geral varia de cinzento-amarellado a ama-
reilo-ruivo ; em outras pelles a côr geral é quasi preta,
de sorte que nestes exemplares escuros é difficil dis-
tinguir as manchas pretas.
O craneo é mais delicado e menor do que o de F.
wredr, menos largo na parte cerebral. O comprimento
basilar varia de 60 a 78 mm., e é pois menor do que
nas especies alliadas #. wed2 e F. geoffroyi. O com-
primento relativo do focinho varia de 21 a 24'/, do
comprimento total do craneo, ao passo que em F.
wred: esta proporção é de 24 a 26 °/,. A largura
postorbital, que no craneo de F. wed: importa em 32-35
mm., varia no de F.tigrina de 26 a 29 mm. São
estas differenças que permittem distinguir com exactidão
os craneos das especies alliadas, como já Winge o de-
monstrou claramente. A dentadura das duas especies
F. tigrina e F. wiedi ê bastante semelhante, mas he
uma differença notavel. O primeiro premolar superior,
sempre presente nos craneos de #. wredz, falta muitas
vezes em F. tigrina; entre 12 cranos de nossa col-
lecção este dente falta por completo em 2 dos mesmos
e nos outros varia de tamanho regular até dimensões
bem pequenas. Nos 7 craneos desta especie, prove-
nientes de Lagôa Santa em Minas Geraes e examinados
por Winge. só dous exemplares têm o premolar supe-
— 489 —
rior; em 3 outros falta o do lado esquerdo e nos 2
restantes elle falta nos dous lados. Hensel, pouco feliz no
estudo do material insufficiente que teve desta especie,
denominou HF. guigna os tres craneos aos quaes falta
o primeiro premolar superior, creando uma nova es-
pecie, /. guttula, para os exemplares cujos craneos tinham
estes dentes bem desenvolvidos. Se Hensel tivesse tido
material tão rico deste grupo como eu e Winge, cer-
tamente não teria commettido o erro de descrever uma
nova especie de gato baseado em differença tão pe-
quena, quando se vê, pela comparação de series grandes,
que mesmo os caracteres essenciaes de couro e craneo
variam amplamente.
TABELLA DAS MEDIDAS — Felis tigrina L.
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De ps sapo) ao) Youle =| 28) adam
© | ©, Es Bus E ae | ES Es BE IB Loma
2 | aS = Es LES Bo | o's DE | ES ROIS
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Itararé
4777 S |89 | 74 |555| — | 29 | 49,5] 215| 10 [94,45
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Ubatuba S. P. .
NTS o EST) TA | DO DI DO AD 2.0) A DD ees
Ubatuba S. P.
996 S | 88 | 76 |575| 38 | 28 | 42 | 24 |102/25,86
S. Paulo
1595 ? 86 | 72 | 55 | 97 | 27,5/,40 | 19] 40 [22109
S. Paulo
13593 ? 86 | 75 |545| 36 | 27 | 40 |495] 40 | 22.67
S. Paulo
401 | 85 [735545] 35 | 27 |393) 20 |
Alto da Serra |
PRETO |
2520 & | 82 [69 1050 | 35 | 285] 57 |48:5] 10/29/56
Rio Grande
Est. S. Paulo
PRETO
2391 4 | 83 | 71 | 52 |375]28,5] 39 | 19 | 10,2]22,89
Idem,
Est. S. Paulo
2562 Q | 84 | 715) 51 | 55 | 26 | 57 | 18 | 9:21] 21,42
Idem.
Est. S. Paulo
— 190 —
Se já obsarvamos uma variabilidade tão grande só
com relação aos exemplares de I’. tigrina provenientes
do Estado de S. Paulo, maiores ainda deverão ser as
differenças comparando-se craneos de outra proveniencia.
Como resultado positivo já podemos assignalar o se-
guinte facto: O dente premolar superior anterior en-
contra-se nos dous lados em 78 ‘/, dos craneos de São
Paulo, em 40 °/, dos do Rio Grande do Sul, em 29 °/,
dos de Minas Geraes. A falta deste premolar de 1 ou
dos 2 lados é pois antes normal nos craneos de prove-
niencia riograndense ou mineira, emquanto que con-
stitue excepção nos de 8. Paulo. E’ provavel que a
esta variabilidade mencionada corresponda outra de ca-
racteres exteriores. Pelo momento nada sabemos de
exacto a este respeito. Nos couros de F. pardinoides
da Colombia, examinados por Gray e Miwart, o com-
primento da cauda corresponde a 32-35 °/, do compri-
mento total, o que é um pouco menos do que se nota
em nossos exemplares, em que constatamos 36-38 º/o.
O. Thomas descreve 3 variedades de F. pardinoi-
des, nas quaes a cauda varia de 34-36 °/, de compri-
mento total, e cujos craneos correspondem perfeita-
mente às medidas dos nossos. Póde ser que futuras
investigações demonstrem a existencia de variedades
locaes de F. tigrina, e mesmo de uma especie nova
alliada; mas, em vista de tudo que cxpuzemos, a ar-
gumentação e os materiaes de estudo devem ser mais
amplos, do que até agora não tem sido o caso. Os nossos
couros de Novo Friburgo e Bahia são um pouco me-
nores do que os de São Paulo. O couro n. 2646, pro-
veniente da Bahia, méde 72 cm. inclusive a cauda,
que é comprida, pois mede 29 cm. ou 40 °/ do com-
primento total. O craneo tem 82,5 mm. de comprimento.
A linha basilar mede apenas 67 mm. sendo este pois O
menor de nossos craneos de Ff. tigrina. Nem no couro
nem no craneo descubro diferenças que pudessem jus-
tificar a separação como subspecie.
felis tigrina é especie dos mattos do Brazil e
é encontrada ainda no Estado do Rio Grande do Sul
perto de Porto Alegre. 6 nosso Museu obteve esta es-
pecie de todos os Estados do Brazil meridional, e Tho-
mas a indica do Espirito Santo. Gray a obteve da Co-
— 191 —
lombia e Thomas refere-se tambem a exemplares da
America central e da regiäo andina. Vive tambem nas
Guyanas, mas de lá não ha informações sufficientes so -
bre esta especie.
Quanto ao seu modo de viver quasi nada se co-
nhece; Brehm, tratando deste assumpto, confunde 4
especies differentes, e o que elle diz da indole de F.
tigrina é falso. Quem lêr aquelle trecho accreditara
que F. tigrina seja uma especie mansa e docil, que fa-
cilmente se acostuma ao homem. E entretanto em ver-
dade se dá justamente o contrario. Por varias vezes
tive estes gatos na gaiola e sempre estranhei a braveza
delles; nem mesmo os animaes novos se acostumavam ao
captiveiro e às pessoas que cuidavam delles. As poucas
informações que ha sobre o modo de viver destes gatos
referem que elles vivem na zona dos mattos, que trepam
bem em arvores e que se nutrem de pequenos mammi-
feros e aves. Não é dificil apanhal-os em armadilhas
e foi deste modo que foram obtidos os exemplares vivos
que tive occasião de observar.
Felis geoffroyi d'Orb.& Gerv.
Gato do matto
Mbaracayd F. de Azara, Apunt. Quadrup. Para-
amam 1, 1302, po 147;
FeLis GEOFFROYI A. Wagner, Arch. f. Naturge-
schichte, 1845, II, p. 20; A. @Orbigny e Gervais,
Bull. Soc. Philom. Paris, 1844, p. 40; d’Orbigny e
Gervais, Voyage dans ’Amerique Meridionale, Mam-
mitéres aris, 1847, po 21, pli 18 dou Tends Pur
meister, Descr. physique Rep. Arg. I. 1879, p. 124;
Elliot, Monogr. Felidae, 4883, pl. 20; H. von Ihering,
Mamm. do Rio Grande do Sul, 1893, p. 117 (excl. sy-
nonymia); Zrouessart, Cat. Mamm. I, 1899, pag. 360
& Suppl. 1904, p. 272; O. Thomas, Ann. & Mag. Nat.
Hist(1903;. pus
PARDALINA WARWICKI, Gray, Proc. Zool. Soc.
1867, p. 267 (figura do craneo) ;
FeLis GUIGNA Miwart, The Cat. London, 1881,
p. 410.
— 192 —
À côr predominante é cinzento-amarella, mais es-
cura no dorso; na barriga e no lado interno das ex-
tremidades este colorido passa gradativamente para O
branco. As manchas do dorso são pretas, estreitas, as
dos lados menos escuras mas numerosas e pequenas,
variando as suas dimensões de 1a 2 cm. em diametro ;
na barriga as manchas são pretas e menos numerosas.
Na nuca notam-se 5 faixas pretas, estreitas, das quaes
a exterior se prolonga até o olho. O desenho do resto
pouco differe do de H. tegrina.
A base da cauda é ornada de manchas pretas iso-
ladas, seguindo-se depois 12 a 16 anneis pretos. As
orelhas são amarelladas no lado interno, pretas no lado
exterior, com uma grande mancha branca. Sobre o braço
correm algumas faixas pretas transversaes e do mesmo
modo na parte superior da perna; os pés são ornados
de manchinhas pretas.
Esta especie tem mais ou menos a figura e Oo
tamanho de um gato domestico. Burmeister diz que
o exemplar maior, do Museu de Buenos Aires,
mede 90,5 cm., inclusive a cauda, cujo comprimento é
de 38 cm., o que corresponde a 39,5º/, do compri-
mento total do couro. As medidas de Azara, referentes
a um animal do sexo feminino, importam em 88,5 cm.
para o comprimento total, sendo a cauda de 33 cm., ou
sejam 37º/, do comprimento total. Um exemplar de
Santa Cruz, examinado por A. Milne Edwards, mede 91
cm. inclusive a cauda, cujo comprimento é de 29 cm.
(Miss. Scient. Cap Horn. tom. VI, Zoologie, Paris 1891,
p. 5). Em nossos couros o comprimento da cauda é de
29 a 34 cm.
O craneo de Felis geoffroyi é semelhante ao
de F. tigrina, mas a fossa prefrontal é mais desen-
volvida, embora não seja tão profunda como no craneo
de F. yaguarundi. A crista sagittal, bem desenvolvida
apenas na parte occipital do craneo, é por conseguinte
curta e mesmo por vezes nulla. O focinho é curto mas
semelhante ao de F. tigrina e ÿaguarundi. O compri-
mento total varia de 77,5 a 87,5. O dente carniceiro
superior tem um comprimento de 11 a 12 mm. A figura
que d'Orbigny deu do craneo de F. geoffroyi do Rio
Negro representaria um exemplar extraordinariamente
— 495 —
grande, tendo um comprimento total de 112 mm., caso
que a figura represente o tamanho natural. No texto os
auctores dizem que a base do craneo tem um compri-
mento de 98 mm. Uma singularidade desta especie é a
facilidade com que se perde o primeiro dente premolar
superior. De 7 de nossos craneos, só 4 têm estes pro-
molares bem desenvolvidos; em 1 falta o do lado di-
reito e em 2 outros faltam ambos. Neste sentido o craneo
de F. geoffroy: assemelha-se ao de F. tigrina, especie
aliás muito atlim a esta.
Dou em seguida as medidas dos craneos de nossa
collecção.
TABELLA DAS MEDIDAS — Felis geoffroyi
d'Orb. & Gerv.
= a 4 . loot
= a = 5 a Rã “a |E SA
SO Nee a E Ds oat eee
2 2 o NAN ee) Bate | ema
NUMERO a E EN a (Csi so
E E 3 a Fo E Es leita
E a E 5 5 5 [Be | 2° 544
| O © 4 H = SU ps Sê
7
34% |S 95 | 81 | 64 45 132 |455| 24 11 125,
[=]
1452 f || 98 | 83,5] 64 159 128 |46 | 29 19,129;
2
AAAS a 96 | 83.5] 64 |40,5/25 |42,5) 24 11,695
©
1648 © ? |%| 992 | 77,5] 60,559 |29 |45 | 99 /44,5/25.9
110Q 0 97 | 83,5) 64 |44 |28,5/44,5| 24 |141,4/24,7
5 RES p
AAAS |2l 102 | 87,5] 65.5/44 128,9/47,5| 24 12 123,5
2 x
15989 Ê ON 77.5] 62 44 29,546) 240412 12208
Este gato vive propriamente nos capões da Rep
Argentina, mas occorre tambem no extremo Sul do Rio
Grande do Sul, onde dá caça a aves e pequenos mam-
miferos, particularmente prêás. E” especie de distribuição
limitada, que na região indicada substitue . tigrina.
Os nossos exemplares, 2 couros e mais alguns craneos,
— 194 —
provem todos da Colonia de S. Laurenço, do Estado do
Rio Grande do Sul e devo-os à gentileza do Snr. Ghris-
tiano Enslen.
Felis pajeros Desm.
Gato dos Pampas
Pajero F. de Azara, Apunt. Quadrup. Paraguay I,
1-02 p. 160%
Friis PAJEROS Desmarest, Mammal. 1820, p. 231 ;
Waterhouse, Zool. of the Beagle, London 1839, p. 18,
pl 9; A. Wagner, Sauget. Suppl. IL 1841, p. 5455
Gervais, Mag. de Zool. de Guérin 1844, Mam. pl. 58;
Burmeister, Desc. phys. Rep. Arg. HI, 1879, p. 128;
R. A. Philipps, Arch. f. Naturg. 1873, p. 13-15, pl. I,
fig. 3e 4; Elliot, Monogr. Felidæ, 1883, pl. 11; Mmwart,
The Cat, London, 1881, p. 423; Trouessart, Cat. Mamm.
E, 1899, p. 361 e suppl: 1904, p. 274; O. Thomas,
Ann. e Mag 4Nat. whist. 1001 ton VAI poa:
Brehm Tierleben, Die Säugetiere, vol. I, Leipzig 1876,
p. 449 (com figura) ;
PAJEROS PAMPANUS J. E. Gray, Proc. Zool. Soc.
London 1867, p. 270.
E' este um gato forte, que se distingue pelo seu
pello comprido e macio.
Nosso exemplar proveniente do Chili tem o pello
do lado dorsal com 5-6 cm. de comprimento. A côr
geral é cinzento-amarella; no dorso e nos lados no-
tam-se largas faixas ruivo-amarellas, pouco distinctas,
que correm obliquamente de cima para traz e para baixo.
O lado inferior e as extremidades são amarello-claras,
com faixas transversaes, ruivas. Sobre a cara se extendem
duas estrias ruivas, que partem do olho. Os beiços e o
mento são brancos. A orelha é provida no lado interno
de longos cabellos brancacentos, ao passo que a sua
superficie exterior é ruiva embaixo, preta em cima. Na
cauda predomina a côr cinzenta, mas na metade apical
notam-se 5 a 6 anneis escuros. Os pellos do lado dorsal
são cinzentos na base, depois tornam-se amarellados e
terminam em ponta brancacenta os menores, preta com
um annel amarellado subterminal os mais compridos.
E a tg ST o
——
— 195 —
Brehm diz que o macho attinge o comprimento de
um metro e mais, e uma altura nos hombros de 30 a 35
em.; D'Orbigny e Gervais indicam 96 cm. de compri-
mento inclusive a cauda, que mede 29 cm. no exemplar
que examinaram. Burmeister diz que o exemplar do
Museu de Buenos Aires mede 85,4 cm., inclusive a cauda,
cujo comprimento é de 24,4 cm. À cauda por conse-
guinte corresponde a 28-30 +, do comprimento total.
O craneo do gato dos pampas é conhecido apenas
pela breve descripção de Gray e pela descripção e fi-
gura dadas por R. A. Philippi. O comprimento total do
craneo é, segundo estes auctores, 100a 106 mm.; mas
a largura seria de 61 mm. segundo Gray, de To mm.
segundo Philippi. Esta differença é tão grande que faz
suppôr que tivesse occorrido algum engano. O craneo
é pois muito largo e o an é EU curto,
medindo na figura de Philippi apenas 21 mm. O craneo
adulto tem uma forte crista sagittal. Na dentadura faz-se
notar a falta do primeiro dente premolar superior. Neste
sentido e na configuração do mento, que é alto e proe-
minente para baixo em forma de angulo, o craneo de
Felis pajeros assemelha-se ao de Kelis colocolo do
Chili.
Felis pajeros & animal dos campos, que vive de
preferencia nos logares humidos, onde se esconde nos
sapézaes. Nutre-se de preäs, ratos, perdizes e outras aves,
chegando às vezes a roubar aves domesticas. À area de
sua distribuição extende-se desde o Brazil meridional
até o Chili e a Patagonia. O couro que recebi do Chik
corresponde à descripção de Burmeister. As faixas trans-
versaes das pernas são ruivo-pardas, mais escuras na
extremidade anterior. Segundo O. Thomas os exemplares
da Patagonia meridional constituem uma subspecie, que
elle denominou Fp. cruzina, e que diz distinguir-se
pela côr pallida das manchas do corpo e pela côr preta
das faixas transversaes das pernas. Burmeister diz que
o Museu de Buenos Aires possue um exemplar prove-
niente de Entrerios; eu obtive um exemplar em São
Lourenço, perto da barra do Rio Camaquam, Rio Grande
do Sul, e Burmeister, ao qual mandei o exemplar, con-
firmou a minha determinação.
— 196 —
Fam, CANIDAE
A) Apreciação geral
Desta grande familia fazem parte numerosos ani-
maes geralmente conhecidos, como os lobos e as raposas
e antes de tudo o cão, Canis familiaris L.
Os animaes que formam esta familia são em geral
maiores do que os Mustelidas, porêm menores do que
os grandes representantes dos Felidas, que tambem os
excedem em audacia. À sua propria organização mostra
que os cães devem ser menos sanguinarios do que os
felinos, pois, ao contrario destes, não vivem exclusi-
vamente de alimento animal. Nunca matam só por ma-
tar e para chupar o sangue da victima; gostam de
carne mesmo de cadaveres e muitas vezes comem in-
sectos e fructas. Não sabem trepar em arvores e com
as unhas excavam buracos em logares escondidos, covas
que lhe servem de habitação.
A capacidade intellectual dos caninos é muito su-
perior à dos outros carnivoros e é esta intelligencia,
alliada à natural docilidade, que foi a causa da relação
intima que desde tempos remotos liga o cão, como ne-
nhum outro animal domestico, ao homem, ao qual serve
como companheiro fiel e util. O ouvido do cão não é
inferior ao do gato e o olfacto ainda é superior e de
uma perfeição admiravel. Alguns destes animaes têm
habitos nocturnos, outros preferem o dia para suas ca-
çadas, são velozes na corrida e sempre mostram ten-
dencia natural para andarem juntos em maior numero
e, às vezes, mesmo em bandos enormes, que são deno-
minados «alcatéas», quando constituídos por lobos.
O corpo dos cães é esbelto, de barriga delgada, e
supportado por pernas relativamente altas. Os pés são
digitigrados, tocando o chão apenas com as pontas dos
dedos, cujo numero em geral é de 5 no-pé anterior, de
4 no posterior. Todos os dedos são munidos de unhas
fortes, obtusas e não retractis. À lingua é lisa e gran-
de, o nariz constantemente humido. Faltam-lhes as
glandulas anaes, mas na base da cauda existe uma glan-
dula especial, denominada «viola», que é bem desenvol-
— 197 —
vida na raposa da Europa, mas não no lobo, e sobre
cuja existencia nos caninos da America meridional nada
nos consta. As têtas, em numero relativamente grande,
estão situadas na barriga e no peito; mas tambem nestes
animaes o numero dos cachorrinhos dados à luz de cada
vez é maior do que o costuma ser entre os gatos.
A dentadura consiste de cada lado, em baixo como
em cima, de 3 incisivos, 1 canino e 6-8 molares. O
numero de 43 dentes, como os tem o genero africano
Otocyon, não representa condições normaes. Provavel-
mente, a dentadura primitiva dos Canidas era de 44
dentes, sendo que o numero dos molares de cada lado,
em cima como em baixo, era de 7. Os incisivos supe-
riores são maiores do que os inferiores e em geral
com 3 denticulos, ao passo que os incisivos inferiores
têm 2 dent culos sómente. Os incisivos exteriores são
maiores do que os interiores. Os caninos são delgados,
um pouco comprimidos, mas sem crista cortante.
O quarto molar de cima e o quinto de baixo são
os dentes que se transformaram em dentes carniceiros.
A presente familia dos Canidas tem como repre-
sentantes no Brazil apenas dous generos, Speothos e
Canis. Ao primeiro dos dous pertence um cachorrinho
do matto, animal bem raro e imperfeitamente conhecido.
O numero dos dedos ê o mesmo nas especies de ambos
os generos, inas o numero dos dentes é menor em
Speothos, faltando, em cima como em baixo, o ultimo
molar ; ha, pois, so um molar superior e dous inferio-
res neste genero, ao passo que em Canis o rumero dos
molares é, para cada lado, de 2 em cima e 3 em baixo.
Por conseguinte, o numero total dos dentes é de 58
no genero Speothos, de 42 no genero Canis.
Gen. CANIS Z.
E' este um genero cosmopolita, distribuido em
numerosas especies sobre a terra toda, e que falta ape-
nas em muitas das ilhotas da Oceania, na Nova Zelandia
e em Madagascar. A dentadura consta de 7 molares
de cada lado em baixo ; na maxilla superior ha ao todo
6 molares, os 3 primeiros dos quaes são «molares fal-
sos», seguidos do dente carniceiro e atraz deste vêm
oe or
E gg
2 molares tuberculares. Em baixo o numero dos «mo-
lares falsos» é de 4; vem depois o dente carniceiro e
por ultimo os 2 molares tuberculares. Em cima ha 4
premolares e 3 molares, de modo que o dente carni-
eeiro é formado em cima pelo ultimo dente premolar,
em baixo pelo primeiro molar.
No seu aspecto, os membros deste genero são ca-
racterizados pelo focinho aguçado, os olhos relativamente
pequenos, as orelhas acuminadas em cima, pela barriga
retrahida, as pernas relativamente altas, munidas adeante
de 5, atraz de 4 dedos, as unhas rombas e immoveis.
O pello é comprido, particularmente no dorso e na
cauda; esta é longa, de modo que geralmente toca
o chão.
A distincçäo das diversas especies deste genero,
que se encontram no Brazil, não é facil. Uma de entre
ellas se distingue pelo porte maior e assemelha-se muito
ao lobo europeo, ao passo que as outras especies em
tamanho, aspecto e modo de viver são antes compara-
veis às raposas da Europa.
O lobo do Brazil, denominado «guará», distingue-
se do lobo europeo particularmente pelas pernas alon-
gadas. Este augmento do comprimento das extremidades
é devido particularmente a terem-se alongado os ossos
do metacarpo e do metatarso, cujas porções terminaes
se modificaram a ponto de terem perdido a mobilidade
entre si, pois que as respectivas articulações degenera-
ram por completo. O craneo, semelhante ao do lobo
europeo, é provido de uma forte crista sagittal e differe
apenas por ser o focinho mais alongado. A cauda é
eurta e não toca o chão, do mesmo modo como nos
lobos do velho mundo.
Tomando em consideração as modificações indica-
das, é justo reconhecer bem fundado o sub-genero
Chrysocyon Ham. Smith, que abrange os guarás da
America meridional.
Todas as outras especies de Canis da America me-
ridional têm as pernas de dimensões regulares, sem
alongamento dos ossos das extremidades e sem modi-
ficação ou degeneração das pontas inferiores dos ossos
metacarpaes e metatarsaes. No aspecto todos se asse-
melham à raposa européa, particularmente por terem
¥
‘
;
;
À
cauda longa que toca o chão com a ponta, e cujos
cabellos são compridos. Se as diversas especies de ra-
posas da America meridional ainda são insufficiente-
mente conhecidas, isto é devido à circumstancia de que
estes animaes se assemelham muito no aspecto, de fórma
que não podem ser distinguidas sem o estudo compa-
rativo dos craneos. E* verdade que por diversos aucto-
res já foram publicadas as medidas referentes aos cra-
neos das diversas especies de Canidas do Brazil, mas
muitas vezes estes detalhes não merecem toda confiança.
Assim differem entre si as medidas dos craneos ns. 115
a 120 do Museu do Pará, referentes a Canis thous e
microlis, communicadas por Studer e Hagmann. Huxley
figurou (I. c. p. 252, fig. 9-A) uma mandibula caracte-
ristica de Canis thous sob o nome de C. brasiliensis.
O auctor que, segundo pude constatar, melhor escreveu
sobre os Canidas do Brazil é o Dr. Herluf Winge, de
Copenhagen. A’s vezes, as pretendidas novas especies
publicadas na Europa baseiam-se tão sómente em um
unico exemplar de algum jardim zoologico. Reluctando
contra a utilização de materiaes tão duvidosos e incom-
pletos, fiquei por muito tempo em duvidas a respeito
das especies brazileiras de Canis. Sômente nos ultimos
annos pude completar os respectivos materiaes do Museu
Paulista, de modo que agora disponho de grandes series
de couros e craneos de todas as respectivas especies.
Entre os caracteres do craneo, que são de maior
utilidade para a distincçäo das diversas especies de
nossas raposas, temos de mencionar em primeiro lugar
a configuração da mandibula ou do queixo. A margem
inferior do corpo deste osso é mais ou menos rectili-
nea em C. thous, convexa em C. brasiliensis e velulus.
Nas duas ultimas especies o referido bordo passa insen-
sivelmente para a parte posterior, atê ao processo an-
gular, emquanto que em ©. thous esta transição é abru-
pta, dando logar à formação de um processo subangular.
O processo angular é comprido, mas estreito, nas duas
especies acima mencionadas, porém alto e curto em
C. thous.
Nesta ultima especie a altura do referido processo
é egual ao comprimento do dente carniceiro superior,
»
ao passo que elle é menor do que esse dente nas outras
— 200 —
especies indicadas. Outro caracter de grande importan-
cia é dado pelo comprimento relativo do dente carni-
ceiro superior em comparação com os dous molares
subsequentes. Dando o valor de 100 ao dente carnicei-
ro, o comprimento dos molares superiores em egual
proporção vale 120-128 em Canis brasiliensis, 130
a 143 em Canis thous e 155-165 em Canis vetulus.
Ao descrever as diversas especies do genero darei sem-
pre tambem as medidas dos craneos.
Um facto interessante, que resulta da comparação
das medidas craneanas, é a proporção do focinho em
comparação com o comprimento do craneo, tão diffe-
rente nas diversas especies. A distancia da margem
anterior da orbita do ponto terminal do osso interma-
xillar corresponde à distancia do olho à ponta do nariz
na face do animal. Pelas medidas communicadas, vê-se
que o comprimento do focinho em comparação com o
comprimento total do craneo é de 35-39 °/, no craneo
de C. vetulus e de 41-44 °/, no de C. brasiiensis ; esta
é por conseguinte uma especie de focinho comprido,
ao passo que a especie semelhante Canis vetulus é
distinguida pelo focinho curto.
A estas differenças accrescem outras, como a que se
observa no pello, que é muito mais comprido em C. 6ra-
seliensis do queem 6. vetulus. Observada de dia ou sob a
influencia da luz, a pupilla de C. brasiliensis é vertical
e elliptica, ao passo que ella é circular em todas as
outras especies de Canidas da America meridional. Neste
sentido C. brasiliensis assemelha-se à raposa européa,
emquanto que os lobos e os cães têm a pupilla circular.
Tambem o craneo de C. brasiliensis assemelha-se
ao da raposa européa, Vulpes vulpes L., e por esta
razão Studer considera Canis brasiliensis e as especies
alliadas como um grupo intermediario entre Canis e
Vulpes.
E” preciso notar aqui que já G. Cuvier (Rech.
Oss. Foss. 4.º ed. tom. VIi, Paris 1835, p. 47€) distin-
guiu, ao estudar o genero Canis, dous grupos cujos
typos são o lobo e a raposa da Europa. O primeiro
tem os sinos frontaes bem desenvolvidos e os ossos
frontaes em cima abobadados, de sorte que o processo
orbital é curvado para baixo. Em Vulpes vulpes L.,
— 201 —
ao contrario, Os sinos frontaes são rudimentares ou fal-
tam, o osso frontal é plano em cima e mesmo exca-
vado junto do processo orbital, cuja posição é horizon-
tal. Sob este ponto de vista todas as especies de Canis
da America meridional devem ser collocadas no grupo
dos lobos e cães.
Reconhecendo, pois, as especies de Canis do Brazil,
no que diz respeito ao craneo, como differentes da ra-
posa européa, typo de genero Vulpes, temos de convir
que as differenças entre as diversas especies brazileiras
são relativamente de pouca importancia. Conservo, pois,
todas as nossas especies no genero Canzs, no qual dis-
tingo os seguintes sub-generos :
1) Chrysocyon, Ham. Smith 1839, comprehen-
dendo o guará, C. jubatus. E’ esta uma especie de
porte grande, de pernas altas, craneo com um compri-
mento de 190-210 mm., provido de uma forte crista
sagittal. As articulações inferiores dos ossos metacar-
paes e metatarsaes são degeneradas, tendo perdido a
sua mobilidade. Os cabellos da nuca e do pescoço su-
perior são alongados e fortes, formando uma fraca juba.
C. jubatus tem parentesco com C. latrans e outros
lobos dos campos da America do Norte, para os quaes
Hamilton Smith creou o genero Lyciscus. Dos lobcs
verdadeiros estas especies se distinguem pelo focinho
alongado. A secção Lyciscus (s. str.), à qual pertence
C. latrans da America do Norte, teve um represen-
tante legitimo nas llhas Malvinas, Canis cagottis ant-
arcticus Shaw., especie actualmente extincta. Da se-
cção Chrysocyon conhece-se uma especie só, 0 nosso
guará.
2) Carcinocyon, Allen. O typo deste sub-genero
é C. thous L. O mesmo foi denominado Thous por
Gray, em 4868, nome que, entretanto, não póde ser
acceito, por ter sido applicado já em 1839 por Hamilton
Smith para outro grupo do genero Canis. Os sub-ge-
neros Dusicyon Hamilton Smith e Lycalopex Burmeis-
ter (1836) comprehendem, além do grupo em questão,
ainda varios representantes de outras secções. São estas
raposas que de preferencia vivem na região das mattas
e que pelo craneo se distinguem pelo processo suban-
gular da mandibula e pelo grande e alto processo an-
= JO
gular. Neste sentido, estas raposas se destacam perfei-
tamente das outras especies de Canis da America
meridional. Pertence a este sub genero C. thous espe-
cie em que distinguimos varias “subspecies, differentes
em côr e modo de viver.
3) Cerdocyon Ham. Smith. São synonymos deste
sub-genero Pseudalopex Burmeister e Pseudolycos, Fe
A. Philippi. O typo mais conhecido desta secção é Ca-
nis brasiliensis, que muito se assemelha 4 raposa eu-
ropéa. «+ pupilla é elliptica vertical na luz do dia; o
craneo dos individuos adultos tem a crista sagittal
quasi sempre bem desenvolvida, ao menos nas especies
grandes, como C. brasiliensis Schinz e C. magellanicus.
4) Æunothocyon, Allen. Este sub-genero, cuja
unica especie vivente é Canis velulus, comprehende
raposas de talhe pequeno, que têm o focinho muito
curto, a bulla tympanica bem grande e o dente carni-
ceiro superior pequeno em relação aos dous molares
superiores que o seguem.
Darei em seguida a descripção das diversas espe-
cies brazileiras e creio que a seguinte chave facilitará
a classificação quanto aos subgeneros.
CHAVE PARA A DISTINCÇÃO DOS SUBGENEROS
BRAZILEIROS DE CANIS
a) Pernas alongadas; ossos metacarpaes e meta-
tarsaes anormaes nas articulações terminaes in-
feriores; a cauda não toca o chão; cabellos da
nuca e do pescoço superior prolongados, formando
pequena juba SU o CArysSocuon
aa) Pernas não alongadas; ossos metacarpaes e me-
tatarsaes normaes; cauda comprida, tocando o
chão :
b) Processo angular da mandibula alto e largo; mar-
gem inferior da mandibula rectilinea, provida
atraz de forte processo subangular.— Carcinocyon
bb) Processo angular da mandibula baixo e estreito ;
margem inferior da mandibula convexa, despro-
vida de processo subangular :
— 205 —
c) Dente carniceiro superior comprido ; os dentes
molares superiores valem 120-128 em compa-
ração com o dente carniceiro superior, dando-se
ao comprimento deste ultimo o valor de 100;
pupilla elliptica ; focinho comprido; bulla tym-
panica pequena ERR AE Cerdocyon
d) Dente carniceiro superior curto; os dentes mo-
lares superiores medem 155-165 em comparação
com o dente carniceiro superior, dando-se ao
comprimento deste ultimo o valor de 100; pu-
pilla circular; focinho curto; bulla tympanica
bem largas qo a pi E anothocyan
B. Descripção das especies.
Canis (Chrysocyon) jubatus Desm.
Guará ou Lobo
Aguará-guazi— Azara, Quadrup. I, 1802, p. 266;
CANIS BRASILIENSIS Æ. Cuvier, Mamm., 1824, pl.
Lit:
Canis CAMPESTRIS Prinz Wired, Beitr. II, 1826,
p. 334;
CANIS ISODACTYLUS Florentino Ameghino, An.
Mus. Nac., Buenos Aires, 3. ser., tom. 6, 1906, p. 9-14;
Cmrysocyon JuBATUS Hamilton Smith, Nat. Li-
brary, IX, 1339, p. 242; À. von Pelzeln, Bras. Saüg.
I, 1893, p. 55; Studer, Suedamer. Can., 1905, p. 30,
eet aaa ls
Canis Jupatus Desmarest, Mamm. 1820, pag.
198; Rengger, Naturg. Saeug. Paraguay, 1830, p. 138;
Wagner, Schreber's Saeug. Suppl., 1. 1841, pag. 380;
Lund, Blik Bras. Dyrev., V, 1843, pag. 34; Burmeister,
Erl. Fauna Bras. 1876, pag. 25, pl. XXI, (animal) e
XXVI, fig. 1 e 2 (craneo); id. Syst. Uebers. I, 1851,
p. 94; zd. Descr. Phys. Arg. III, 1879, p. 140; Hensel,
Zool. Gart. XIII, 1872, p. 76; zd. Kennt. d. Saeug.
Suedbras., Abhandl. Berl. Ak., 1872, p. 79; Sctater,
Proc. Zool. Soc., 1877, p. 806, pl. 81; Mevart, Mo-
nogr. Canidæ, 1890, p. 21 ss, pl. 7, fig. 1%, p. 24;
Goeldi, Mamm. Bras., 1893, p. 68 ; von Lhering, Mamm,
— 904 —
S. Paulo, 1894, p. 26; id. Mamm. Rio Grande do Sul,
1903, p. 118; Winge, E Mus. Lundi, II, A, 1896, p.
114 e 24; Trouessart, Cat. Mamm. 1898, p. 304 e
Suppl. 1904, p. 231; Studer, Bol. Mus. Goeldi, Pará,
VOL RNA OO po MPU tio A
E a maior especie de Canis que vive no Brazil,
pois, segundo Burmeister attinge 145 cm. de com-
primento com uma altura de 75 cm.; o comprimento
da cauda é de 45 em., inclusive os cabellos terminaes.
O animal assemelha-se nas dimensões ao lobo europeu,
distinguindo-se pela cabeça mais alongada, as orelhas
maiores e as pernas mais altas. O pello é curto na
cara e nos pés, torna-se mais comprido nas pernas, e
attinge o seu maior desenvolvimento na nuca e no dorso
anterior, onde os cabellos ornados de pontas pretas têm
um comprimento de 10 a 12 cm., como que formando
uma juba. A cor predominante é pardo-avermelhada,
mais escura no dorso, mais claro-amarellada na barriga.
O focinho é denegrido, a garganta branca, os pês são
escuros, quasi pretos, a ponta da cauda é amarellada.
Na nuca nota-se uma mancha preta, que se prolonga
para traz no meio do dorso.
Fig. 4. Guará ou Lobo—Canis jubatus Desm.
O craneo é robusto, com uma forte crista sagittal;
o comprimento do craneo é de 214-234 mm., o da li-
nha basilar de 190-220. Um craneo da nossa collecção,
——— Se NA
ee —
nn. © ced ARE CR ee
— 205 —
n. 2479 do Estado do Parana, tem 233 mm. de com-
primento e 203 mm. de linha basilar.
Ja Blainville dev boa figura deste craneo na sua
-Osteographia, Canis, pl. VIL. Boas descripções deram: A.
Wagner, Archiv. f. Naturgeschichte 1843, I, p. 358; Lund
Blick P. Bras. Direv. V, 1843, p. 34, e R. Hensel (1,
c. p. 79); H. Winge fornece uma descripção e medidas
deste craneo. Miwart da boa figura e descripçäo do
craneo e do mesmo modo procedeu B. Studer. Assim
parece que näo poderia haver duvidas sobre este craneo,
mas mesmo assim alguns auctores divergem. H. Bur-
meister commetteu a respeito dous graves enganos.
Em primeiro lugar descreveu na sua obra Erlaut. 1. c.
p. 25 e pl. XXVI fig. I e 2 o craneo do guará de
modo falso, o que provavelmente foi devido ao proce-
dimento incorrecto do desenhista que fez a respectiva
ilustração do craneo; o mesmo estava quebrado e in-
completo e, reconstituindo-o no desenho, fel-o errada-
mente. Em segundo lugar figurou (Sitzber. Ges: Na-
turf. Freund, Berlim, 1885, p. 98), como exemplo do
craneo de um exemplar velho de Canis jubatus, um
craneo subfossil de uma especie differente, de Buenos
Aires, que não tem semelhança alguma com o craneo
do guard. Hensel, 1. c. p. 79, já refutou a opinião de .
Burmeister e o mesmo fez A. Nehring (Sitzber. Ges.
Naturf. Freand, Berlim, 1884; p. 107, 1885, p. 109-
121 e 1887 p. 47). Os nossos tres craneos desta es-
pecie e um do Museu Nacional do Rio de Janeiro cor-
respondem à figura dada por Miwart e outros auctores,
de modo que não ha razão para occupar-me ainda mais
detalhadamente desta questäo.
Quanto ao craneo subfossil da Argentina, descripto
por Burmeister em 1885, o mesmo faz parte do genero
Dinocynops Ameghino, do qual C. moreno Lydekker é
o typo. Compare-se sobre esta questão o que diz Flo-
rentino Ameghino (An. Mus. Nac. Buenos Aires, 3 ser.
vol. I, 1902, p. 232). Observo que ao meu modo de
vêr, Dinocynops e Palaeocyon Amgh. são apenas sub-
generos de Canis, que coincidem com Canis s. str.
Tenho a fazer mais uma observação com relação
aos trabalhos do snr. Fl. Ameghino. Este auctor des-
creveu uma especie nova, alliada ao guard, sob o nome
— 206 —
de C. isodactylus, com o astragalo perfurado, o que
segundo Ameghino não acontece em C. jubatus. Se-
gundo o snr. Winge, que ao meu pedido examinou a
serie de 7 esqueletos do Museu de Copenhague, alguns
exemplares têm esta perfuração no astragalo e outros
não. Claro esté que a pretendida especie deve entrar
na synonymia de C. jubatus.
O guard é animal arisco e cobarde, que não causa
prejuizos ao homem,
Vive nos campos, particularmente nos pantanaes.
Sabe-se pouco de sua vida e quasi nada da sua alimen-
tação; mas, veloz como é, graças ao comprimento de
suas pernas, é de suppor que persiga e alcance facil-
mente animaes pequenos, ainda que se contente tambem
com a alimentação vegetal, comendo de preferencia os
fructos de Solanum grandiflorum Ruiz e Pav. (que por
isto é denominado «fructa do lobo»), bem como bananas
e canna de assucar.
A região habitada pelo guarä extende-se desde
Santa Fé e outras regiões da Argentina, pelo Paraguay
e o Brazil meridonial até o Goyaz, Pernambuco e Pi-
auhy. Naterer o obteve do Araguaya, na fronteira de
Goyaz e Matto Grosso, e o principe Wied o menciona
de Minas e do sertão da Bahia; Lichtenstein (Die Werke
von Marcgrave und Piso über die Naturgeschichte
Brasilien's, Berliner Akademie 1815, p. 219) achou na
colleccäo Menzel, referente à expedição do principe Mau-
ricio de Nassau, um quadro que representa bem o nosso
guard. EK’ verdade que Marcgrave não descreve o guará,
mas elle menciona duas plantas cujos nomes indigenas
se referem ao guard (ou antes «aguará»). Azara o
denomina «aguará-guassú», O que significa «cão-grande».
Goeldi (Mamm. Brazil, 1893, p. 69) diz que o guará
vive em todo o Brazil central, da Bahia até o Piauhy.
Canis (Eunothocyon) vetulus Lund
Raposa do campo
Canis azaRAR Lund, Blik Bras. Dyrev. Il, 1839,
p. 91 (nec Wied 1824--C, brasiliensis) ;
— 207 —
Canis FULVICAÚUDUS Lund, Blik. Bras. Dyrev. V,
Kjôbenhaven, 1843, p. 20 e 27, Taf. XLIII, fig. 4-5
(craneo); Burmeister, Kr). Faun. Bras. 1856, p. 40, Taf.
24 (animal Tat 2812 e Tain29, fig. 2 (craneo);
ed. Syst. Ubers. 1, 1854, p. 100.
LYCALOPEX FULVICAUDUS Gray, Proc. Zool. Soc.
London, 1868, p. 911 e var. chiloensis ibidem (com
localidade falsa segundo Thomas) Proc. Zool. Soc.
London, 1903. Il, p. 236;
Canis PARVIDENS Mivart, Proc. Zool. Soc. London,
1890. p. 108; 7d. Monogr. Canidae, 1890, p. 76, ss.
pl. 18, (craneo) fig. 28-30 ;
PsEUDALOPEx AZARAE A. von Pelzeln, Bras. Säu-
get. Wien, 1893, p. 05 (partim: Matto Grosso, Goyaz) ;
Notocyon PARVIDENS Wortmann & Matthew,
Bull. Am. Mus. New York, XII, 1899, p. 126.
Norocyon vurostictus Wortmann & Mattew, Bull.
Am. Mus. New York, XII, 1899, p. 125, fig. 9 (craneo)
Canis urostictus Mivart, Proc. Zool. Soc. London,
1890, p. 419 ; id. Monogr. Canid. 4890, p. 81, pl. XIX, fig.
31-33 (craneo); Hagmann, Zool. Anzeig. 1901, p. 512-514;
CANIS SLADENI Thomas, Proc. Zool. Soc. 193,
Hopi 259) pl XVII; | |
Canis veTULUS Lund, Forts. Bem. Bras. U. Dyrs.
Kjôbenhaven, 1842, p. 4-5; zd. Blick Bras. Direv V.
Kjébenhaven 1843, p. 21, Taf. XL (animal), Taf. XLII,
fig. 4-5 (craneo); Wagner, Arch. f. Naturg., 1843, I,
p. 358; Burmeister, Erl. Faun. Bras. 1856, p. 57,
Taf. XXIII (animal) e Taf. XXVIII, fig. le XXIX, fig.
I (craneo) ; id. Syst. Ubers. |, 1854, p. 99; Winge,
E Mus. Lundi, If, A, 4896, p. 20 e 442; Thomas,
Proc. Zool. Soc. 1903, Il, p. 236 ;
Esta especie se assemelha muito ao Canis brasi-
hensis, mas & um pouco menor e o pello é menos com-
prido. O caracter mais saliente é constituido pelo fo-
cinho, que é muito mais curto que o de €. brasiliensis.
As orelhas são de fórma oval, apontadas em cima, co-
bertas de firos cabellos brancos no lado interno, ao
passo que o curto pello do lado superior é de cor par-
do amarella ou ruiva, c mais escuro, quasi denegrido,
na parte central e superior. À cór predominante do lado
superior é a cinzenta, misturada com amarello, branco
— 208 —
e preto. Os cabellos compridos ou «grannos», cujo
comprimento varia de 3,0 a 9,9 mm., tem a base
cinzenta, a ponta preta, e em baixo della uma es-
treita zona branca. O pello curto é macio e es-
curo em baixo, amarellado em cima. Os cabellos da
cabeça são curtos, predominando a côr branca, devido
à maior altura das manchas brancas subterminaes dos
cabellos. O mento é preto, a garganta branca ou bran-
co-cinzenta. O peito é cinzento-amarello, a barriga é
amarellada, cor de óca. As pernas têm encima a cor
do dorso e em baixo e no lado interno são ruivo-ama-
relladas. A cauda é comprida, provida de longos ca-
bellos cinzento-amarellos e munida de uma larga ponta
preta e de uma mancha preta na parte superior da base.
O comprimento do corpo com a cabeça é de 58
a 66 cm., o da cauda de 30 a 45 cm. Tenho uma
bella serie de exemplares de Franca, no oeste do Estado
de São Paulo, que illustra bem a variabilidade desta
raposa. A” côr do lado dorsal mistura-se ás vezes um
colorido amarello, outras vezes este tom falta. Do mesmo
modo varia a côr do lado inferior de cinzento-amarello
atê ruivo-escuro ou claro. O pello da cauda é cinzento,
ora pardo-escuro e as vezes ruivo. A mancha preta,
que occupa a base da superficie dorsal da cauda, é ora
pequena ora comprida e as vezes conflue mesmo com a
ponta preta, cuja extensão é variavel e que em alguns
exemplares se prolonga tambem pelo lado ventral da
cauda. De regra os pés são ruivos; tenho só dous
couros que os têm denegridos, mas estes não combinam
entre si, pois em um delles a garganta é mais ou
menos uniformemente de côr cinzenta, ao pesso que no
outro a mesma região é ornada de uma grande mancha
branca. Esta mancha falta em alguns exemplares, sendo
pequena em uns e muito grande em outros; neste ul-
timo caso ella se estende pelos lados do pescoço. Dos
dous couros escuros acima mencionados um tem a pen-
nugem ou o pello macio amarello e o outro o tem cin-
zento, o que raramente acontece nesta especie. O cra-
neo deste ultimo exemplar mostra tratar-se de um in-
dividuo velho.
O craneo desta especie é relativamente pequeno;
em nossos exemplares seu comprimento varia de
— 209 —
106 a 449 mm. O craneo é relativamente largo e bas-
tante retraido atraz do processo supraorbital. O caracter
mais singular deste craneo é ser a parte facial muito
curta. À distancia da margem anterior da orbita da
extremidade anterior do osso intermaxillar é de 40 a 42
mm. nas femeas (N. 4014, 1015), craneos estes que tem
409 e 444 mm. de comprimento. As distancias acima
indicadas importam em 45 mm. no macho n. 4075 e em 45
no macho n. 4012; o comprimento total do craneo é
de 414 no primeiro, de 449 no segundo desses exemplares.
Reduzindo estas medidas absolutas a valores relativos
dando ao comprimento total do craneo o valor de 400,
a distancia da margem anterior da orbita da extremi-
dade anterior do intermaxillar varia apenas entre 36,7
até 37,8. Observo que a mesma medida na especie
alliada Canis brasiliensis varia de 41 até 44. As linhas
temporaes são distantes entre si nos individuos novos
e conservam-se sempre neste estado no sexo feminino,
ao passo que em machos velhos se forma uma crista
sagittal, que sO no meio é imcompleta, tendo uma Jar-
gura de 4 mm. No craneo juvenil, de 85 mm. de com-
primento, não ha processo supravrbital. Um craneo mas-
culino, cuja dentadura já é completa (N. 4014) e com
109,5 mm. de comprimento e 100.5 mm. de linha ba-
silar, tem os processos supra-orbitaes pouco desenvolvi-
dos, ficando as pontas 27 mm. distantes entre si. Em
gers] o craneo da femea conserva-se mais ou menos
neste estado ao passo que no sexo masculino observa-
mos que estes processos com a edade se desenvolve:
cada vez mais, e chegam ao ponto de distarem entre si
24 atê 39 mm.
A mandibula é convexa embaixo e o processo an-
gular é curto e estreito. O dente carniceiro superior é
relativamente pequeno, apenas 1 mm. mais comprido
do que o molar subsequente. Dando o valor de 400 ao
comprimento do dente carniceiro, os dous molares se-
guintes equivalem a 155-164,7. Isto quer dizer que o
dente carniceiro é relativamente pequeno, e foi este o
motivo porque Mivart deu o nome de parvidens a esta
especie de rapoza.
Como se vê trata-se de uma especie que é varia-
vel não só na côr e nos caracteres exteriores mas tam-
— 20 —
bein um pouco no craneo. Foi esta a razão porque di-
versos auctores tem proposto nomes novos para as di-
versas formas desta especie. Assim já Lund creou uma
especia superílua, © fulvicaudus, que abrangeria os
individuos de cauda ruiva. Quem quizesse designar com
novos nomes as diversas variações por mim observadas
entre uma duzia de exemplares de Franca, poderia fa-
zel-o baseando-se mesmo em caracteres de certa impor-
tancia, taes como a côr do pello e a dos pés, a pre-
sença ou ausencia de uma mancha branca na garganta
e as variações da cauda.
O couro que mais me su rprehendeu foi o de n. 1012
de um macho de Franca, cuja côr predominante é cin-
zento-escura, emquanto que os pés são de côr denegrida
e cujo pello macie do lado dorsal tambem é cinzento-
escuro. Este animal corresponde bem à variedade sla-
den: de Thomas. Um segundo couro semelhante tem o
pello macio de côr ruivo-parda. O craneo do unico
exemplar que serviu como typo da pretendida especie
nova de Thomas tem 122 mm. de comprimento total
e 112 mm. de linha basilar, o que pouco differe das
medidas de nossos maiores exemplares. Tambem o osso
do penis, que em nosso exemplar {N. 1084) é de 45.5
mm. tem mais ou menos o mesmo comprimento, 47
mm., no exemolar de Thomas.
Em geral os exemplares de Chapada parecem ser
um pouco mais fortes do que os de Lagôa Santa ; tam-
bem os de Franca excedem aos de Lagôa Santa. Não
ha motivo algum para acceitar os nomes de parvidens
e urostectus, propostos por Mivart para exemplares que
pertencem indubitavelmente à presente especie.
C. vetulus não occorre no Estado do Pará; o que
Studer assim denominou é uma variedade de C. thous,
ao qual caberá o nome de O. thous guaraxa Hamil-
ton Smith, e do qual será questão no capitulo referente
a O. thous. A rapoza do campo é commum no Brazil
Central nos Estados de Minas, Matto Grosso e Goyaz,
occorrendo tambem no oeste do Estado de S. Paulo,
mas não nos Estados do Paraná, Rio Grande do Sul
etc. nem no Paraguay, na Argentina e no Chili. E
animal arisco que, entretanto, quando está com filho-
tes, é de muita coragem. Lund conta um caso em que
— 21 —
um sertanejo se viu obrigado a matar uma destas ra-
pozas que, defendendo os seus filhotes, näo recuava mesmo
deante do homem e a sua montaria, aggredindo-os mesmo,
furiosa. Lund obteve varias vezes filhotes desta especie,
que acceitavam restos de comida e com facilidade se
familiarizavam com as pessoas da casa.
O alimento desta rapoza consiste em pequenos mam-
miferos, aves e insectos e entre estes particularmente
gafanhotos. A cria consiste em 2a 3 filhotes, que Lund
várias vezes obteve no mez de Outburo.
Canis brasiliensis Schinz
Guarachaim
Aguarachai F. de Azara, Apunt. Quadr. Para-
ua 41602, pint hs
CANIS BRASILIENSIS Schinz, Tierreich I, 182!, p.
LD Alien. Teps Erin. Bixped. vol. LE Zoo); Ft.
I, Mamm. 1905, p. 198;
Canis PROTALOPEX Lund, Blik Bras. Dyrev., II,
Kjoebenhavn, 1839, p. 32; Winge, E Mus. Lundi, II.
A, 18960, pu 82;
CANIS CULTRIDENS Gervais e Ameghino, Maram.
fos. Amer. mer., 1880, p. 38; Ameghino, Act. Ac.
Cord Vi, 1889, pu 299:
CANIS ENTRERIANUS Cope, Am. Nat., vol. XXIII,
1889, p. 140 (Rio Grande do Sul);
CANIS ENSENADENSIS Ameghino, Act. Ac. Cord.
VI MeS) ap. 207:
Canis ANTIQUUS Ameghino, Mam. Fos. Rep. Arg.
1889 py 298 5
Canis DOMEYKANUS À. A. Philippe, An. Univ. Chili,
4901, p. 468 (com fig.).
Canis MAULLINICUS À. A. Philippe. Arch. f. Naturg.,
69. Jahrg., I, 1903;
Canis TRICHODACTYLUS À. A. Philippi, ibid, 1903,
p- 158 ;
CANIS AZARAI Lahille, Act. 1.º Congr. Cient. Lat.
Am., Buenos Aires, 1898, p. 19;
Canis AZARAE Pring Wired, Beitr. Naturg. Bras.,
H, 1826, p. 338 ; id. Abbild. 1824. pl. 23; Rengger,
Naturg. Paraguay, 1830, p. 143; Wagner, Schreb.,
Saeuget., Suppl., 1841, II, p. 434, Taf. 92 a (má figura)
id. Arch. f. Naturg., 1843., 1843, 1, 356 ; zd. 1846, IL, p.
147; Waterhouse, Zool. Beagle, Mamm., 1839, 14, pl.
VII; Burmeister, Syst. Uebers., Bras., I, 1854, p. 96;
zd. Erlaeuter. Fauna Bras., 1856, p. 44, pl. 28, fig. 4
epl 29 fig. 3; ed. Deser.. Phys. Are MLS om
147; Hensel, Beitr. Saeuget. Suedbras., Berlin, 1872,
p. 79; zd. Zool. Garten, Frankfurt, 1872, XIL, p.
77; Mivart, Monogr. Canidae London, 1890, p. 66,
pl. XVII; A. von lhering, Mamm. do Rio Grande do
Sul, 1903, p. 448; . Wenge, E Mus. Lundi, II, À; 1896
p. 14;
Esta especie é um pouco maior do que C. vetulus
à qual muito se assemelha. Os nossos exemplares de
Castro, Est. do Parana tem 60-64 cm. de comprimento
de corpo, inclusive a cabeça, medindo a cauda de 34
a 38 cm. O pello é bastante comprido, alcançando os
«grannos» no dorso o comprimento de 7 a 8 cm. O
focinho é comprido e as orelhas são grandes, acumi-
nadas para cima, medindo 6-6,6 nos exemplares de
Castro e 8-&,8 nos da Argentina. A côr predominante
nas costas é cinzento-amarellada. Cada «granno» é ama-
rellado na base, tornando-se em seguida escuro ; a ponta
é preta, com um largo annel subterminal branco. A
cara é ruivo-parda, salpicada de branco. O mento e o
queixo inferior são denegridos, mas a ponta do beiço
inferior e todo o superior são brancos. O peito e a bar-
riga são de côr branca ou branco-amarellada. As orel!:as
são brancas no lado interno e ruivas por fora. A côr
pardo-amarellada dos lados prolonga-se pelo lado exte-
rior das pernas. Nas pernas posteriores ha acima do
pé uma larga mancha pardo-denegrida. No lado exte-
rior a côr dos pés é amarella ou ruiva. À garganta e
parte da superficie anterior do pescoço são brancas ; de
um lado a outro passa uma faixa cinzenta. Ao longo
do dorso predominam os «grannos» pretos. A carda é
comprida, munida de longos cabellos, que são da côr
do dorso, à excepção da ponta e da base superior, que
são pretas. A pupilla do olho é de forma oval-vertical
de dia, circular de noute. Segundo Burmeister a côr
geral do corpo é mais amarellada no verão e mals
— 943 —
cinzenta no inverno, estação em que os «grannos» ficam
mais compridos, attingindo até X cm. do comprimento.
O mento desta especie é mais: alongado do que nas
outras, o que é devido particularmente ao comprimento
consideravel do focinho, que além disto é estreito.
O dente carniceiro superior desta especie é relati-
vamente mais comprido do que em qualquer outra do
Brazil. Como se verifica das nossas medidas, o comprimen-
to dos dous molares subsequentes ao dente carniceiro
superior vale 120-427 em comparação com o mesmo
dente carniceiro, a cujo comprimento attribuimos o va-
lor de 400. Isto combina com os resultados de Winge,
mas não com os de Huxley e Mivart. Este ultimo au-
ctor (Proc. Zool. Soc. 1850, p. 24:-253) em geral não dá
medidas directas, reduzindo-as de preferencia a uma
linha craneana por elle escolhida. Acontece ainda que
o craneo de Cans brasiliensis que elle figura (Fig. 8a,
9-a) não é desta especie mas de C. thous, como se
deprehende perfeitamente da configuração da mandi-
bula. Deixando pois do lado as informações inexactas
de Huxley, temos de commentar ainda a informação
inesparada de Mivart (Monographia), segundo o qual a
proporção indicada seria de 100 a 418. Taes propor- |
ções conheço apenas dos representantes chilenos de
C. brasiliensis, emquanto que nos do Brazil se verificam
sempre as que foram indicadas por Winge e por mim.
O comprimento do craneo em dous exemplares do
sexo feminino da nossa colleção é de 137 a 140, eem
tres craneos masculinos de 459 a 451 mm. O compri-
mento basilar correspondente é de 122 a 428 para as fe-
meas mencionadas e de 427 a 458 para os machos.
Quanto ao comprimento relativo do focinho, compare se
o que ficou dito na descripçäa de C. vetulus. Mivart
na sua Monographia confundiu (©. brasiliensis e C.
vetulus e a descripção delle refere-se não à forma ty-
pica mas a exemplares chileno-patagonicos. Tendo eu
obtido um exemplar vivo de C. brasiliensis da Bahia,
hoje incorporado à collecçäo do Museu Paulista, pude
verificar que o C. brasiliensis Wied & identico com a
forma do Paraguay e da Argentina. Conheço este ca-
chorro tambem do Rio Grande do Sul e do Estado do
Paraná, mas não de S. Paulo, onde no extremo oeste
— 944 —
é substituido, como em Minas, por C. vetulus. E’ sin-
gular, porém, que Winge constatasse C. brasiliensis
entre os animaes extinctos, postterciarios de Lagôa Santa
em Minas. Antigamente, portanto, a distribuição desta
especie era diversa da que actualmente constatamos.
Possuimos no Museu um exemplar de C. brasiliensis
de Pernambuco, cujo craneo está cortado na parte pos-
terior; o comprimento do focinho é de 52,5 mm. O
dente carniceiro superior mede 42,5 e o dos dous mo-
lares superiores 145 mm. À proporção destes ultimos em
relação ao dente carniceiro é 120400. o que corres-
ponde, bem como as medidas absolutas, às proporções
do craneo de C. brasiliensis. O focinho, entretanto, é mais
curto do que entre os exemplares do Sul e resta ave-
riguar si se tratar de um individuo pequeno ou de
uma variedade pernambucana. O couro tem o beiço
branco, a grande mancha branca na garganta, a man-
cha preta da perna posterior e outros caracteres de
C. brasiliensis.
Provavelmente haverá localidades no interior do
Brazil onde as duas especies ailiadas ainda hoje coexis-
tem. Arelação de C. brasiliensis com as diversas varie-
dades chileno-patagonicas ainda não está bem examinada.
Sobre a vida de C. brasiliensis devemos as me-
lhores informações a Azara e Rengger, referentes ao
«aguara-chaim» do Paraguay. Esta denominação gua-
rani, significa «cão crespo», em allusão ao pello com-
prido desta rapoza. E” animal dos campos. que prefere
viver na borda do matto e nas capoeiras. Seu alimento
consiste em pequenos mammiferos, taes como cotias,
pacas, préas, ratinhos etc. inambtis, perdizes e outras
aves, e tambem não despreza rãs e lagartos. Gosta
tambem de fructas e particularmente de melões. Tem
grande prodilecção pela canna de assucar, e assim taz
grandes estragos nas plantações, visto que só aproveita
a parte inferior e mais doce da canna; de cada vez
corta 8 a 40 e mais talos. Rengger observou uma dessas
rapazes quando roubavam de noute um pato perto de
uma casa. O animal se aproximou com o maior cui-
dado, contra o vento, e afinal de um pulo cahiu sobre
a ave, agarrando-a pelo pescoço, de modo que a victi-
ma não poude dar nem um grito. Quando estas rapozas
— 945 —
encontram um panno, um pedaço de couro, ou qualquer
outro opjecto que lhes attrahe a attenção, agarram-no
e o escondem, como brincando o fazem tambem os cães
novos. E” por isto que o viajante, que dorme no campo,
cuida de guardar bem os arreios. No Rio Grande do
“ Sui me affirmaram repetidas vezes que o aguarachaim
chega a cumer estes objectos de couro quando está com
muita fome. Tambem Azara conta o mesmo, ao passo
que segundo Rengger tal não é exacto.
De dia o guarachaim se esconde e dorme, sahindo
de noute para a caça. À sua voz como que diz: «guo a» ;
ouve-se estes cachorros de noute, particularmente no
inverno quando estão no cio, e quando o tempo vee mudar.
No verão e no outono, as raposas vivem separadas ; no
inverno os dous sexos se juntam e procuram uma cóva
embaixo das raizes de uma arvore ou buraco de tatú
abandonado. Em outubro a femea pare 3 à 5 filhotes,
a cuja alimentação & educação ella se dedica durante
alguns mezes. Os filhotes nascem quasi completamente
pretos. O colorido do animal adulto é mais escuro no
inverno do que no verão. Não ha differença de côr nos
dous sexos.
Canis thous L.
Cachorro do Matto
Canis THOUS Linné, Syst. nat, ed. XII, 1766, p.
69; Gmelin, Syst. nat. ed. XIII, 1788, vol. 1,4 p. 74 ;
Chien des Bois, Buffon, Hist. Nat. Supp., vol. VII,
. 446;
E VIVERRA CANCRIVORA Brongniart, Act. Soc. H. N.
Paris I (I), 4792, p. 445; Buffon, Act. Soc. Nat. Hist.,
Paris I, 1792, p. 149; Ameghino, 1. c. 1889, p. 304;
Meyer, Zool. Anal., vol. 1, 1794, p. 435 ;
Canis MELAMPUS Wagner, Schreber, Saeuget., Sup-
pl., 11, 4844, pl. 92 E.; id. Arch. f. Naturg., 1845, I, p.
307 e 308 e ibidem 1846 B. I, p. 147;
Canis AZARAE Lund, Forts. Bem., Kjoebenhavn,
1842, p. 4; H. von Ihering, Os Mamm. de 8. Paulo
1894, p. 26;
2 Din
CANIS BRASILIENSIS Lund, Blik Bras. Dyrev., 4845,
p. 10, pl. 42, fig. 43; Hagmann, Zool. Anzeig., 1901,
p. 509-544 ;
CANIS MELANOSTOMUS Wagner, Arch. f. Naturg.,
1843, I p. 358 e 1846, II, p. 157;
CANIS CANCRIVORUS var. BRASILIENSIS Burmeister,
Erlaeut. Faun. Bras., 1856, p. 51, pl. 22, pl. 27 (craneo) ;
CANIS CANCRIVORUS Desmarest, Mamm., 1820, p.
199; Wagner, Schreber's Saeuget., Suppl., 11,484, p.
403; Burmeister, Arch. f. Naturg. XLII, 4876, I, p.
120; zd. Descr. Phys. Arg., Ill, 4879, p.145 ; Mivart,
Monogr. Canidae, London, 4890, p. 97, pl. XV; Wenge,
E Mus. Lundi, ll, A, Kjoebenhavn, 1896, p. 23 e 83;
Thomas, Ann. & Mag. Nat. Hist., 7, ser., XII, 1903, p.
460 ; id. Proc. Zool. Soc., 1905, vol. IT, p. 435 ; Studer,
Bol. Mus. Goeldi, IV, 1904 p. 107, fig. 6, 6-a, 6-b (C.
brasiliensis); H. von Ihering, Mamm. de São Paulo,
1894, p, 26 ;
THous caNncRivorus Gray, Proc. Zool. Soc., 1868,
p. 514;
Canis RUDIS Guenther, Ann. & Mag. Nat. Hist., 5
ser., IV, 4879, p. 546 e 400;
LycaLoPUs VETULUS Studer, Suedam. Caniden, Bern,
1905, PD. 2, me dios
PsEUDALOPEX AZARAE Pelzeln, Bras. Saeuget. Wien,
1893, p. 99 (partim : Ipanema).
O nome de «cachorro do matto», que o povo da a
esta especie, já indica que a mesma prefere os mattos,
onde vive constantemente. Em tamanho esta especie
condiz com as duas outras rapozas já descriptas ; 0 co-
lorido porém é bastante variavel. As orelhas são um
pouco mais curtas e o pello é menos comprido do que
o de C. brasiliensis. A côr predominante é pardo-
cinzenta ou cinzento-amarellada. Os grannos do lado
dorsal tem longas pontas pretas, e assim prevalece esta
cor no dorso e na cauda. O alto da cabeça, os lados do
pescoço e o lado externo das pernas são de côr ama-
rellada ou ruiva. A cara é cinzenta, o focinho e os
beiços são denegridos, como tambem o mento e parte
da garganta. As orelhas são pardo-ruivas ou dene-
gridas no lado exterior, providas de cabellos brancos
no lado interno. As pernas são da côr do dorso, mas
or im
os pés são escuros. O peito e a barriga são amarel-
lados. Na cauda, que é munida de longos cabellos da
côr do dorso, predomina a côr preta, particularmente
no seu lado superior e na parte terminal. Os grannos
do dorso tem a base escura e tornam-se mais claros
para cima ; abaixo da parte terminal preta ha um annel
branco. A côr do pello macio varia de cinzento de-
negrido a pardo-amarellado.
O craneo é robusto e o focinho, que não é alon-
gado, distingue-se pela frente fortemente convexa. O
seu comprimento total varia de 445 a 455 mm. em
exemplares adultos, sendo as medidas correspondentes
da linha basilar de 155 2442. À distancia da margem
anterior da orbita à extremidade do osso intermaxillar
varia de 39 a 43 °c, do comprimento total. O dente
carniceiro superior tem 12,4 mm. de comprimento e,
dando-se a esta medida o valor de 400, o comprimento
dos 2 molares superiores corresponde a 430-143.
O que particularmente caracteriza este craneo é a
forma da mandibula, cujo bordo inferior é direito e pro-
vido de um forte processo subangular. O processo an-
cular da mandibula é alto, curto e grande.
Em 8. Paulo, segundo o que pudemos constatar,
vive sómente a variedade cinzento-escura, de pés de-
negridos, que À. Wagner denominou C. melampus e
com a qual coincide tambem C. melanostomus. Esta
parece ser a forma mais commum do Brazil meridional.
Do Estado do Rio Grande do Sul tenho uma varie-
dade na qual a côr amarella predomina não só em todo
o corpo mas tambem nos pés, que são menos escuros.
Poderia se accreditar que fosse esteo Cans entrerianus
de Burmeister (Reise, La Plata Staaten, Bd. II, p. 400)
mas este auctor diz que aquella rapoza de Entrerios
tem a pupilla do olho vertical, do que se deprehende
que é questão de uma variedade de C. brasiliensis, como
Cope foi o primeiro a reconhecer. Os exemplares que
tenho de São Lourenço, Rio Grande do Sul, ambos
machos (N. 514 e 518), representam uma variedade de
C. thous melampus, que denominei:
C. THOUS RIOGRANDENSIS 7. subsp. HE’ esta uma
variedade bem forte, que tem o dorso preto só no meio,
a garganta poucc escura, e os pês de côr pardo-clara.
— 218 —
No Pará vive uma voriedade de C. thous que tem
sido objecto de varias publicações, sem que as respe-
ctivas duvidas até agora tivessem sido bem esclarecida.
Hagmann tratou do craneo desta forma, por elle
designada como C. brasiliensis, baseando-se nos nu-
meros 447-122 da collecção do Museu do Para. Studer
em 1904 tratou dos mesmos craneos N. 117-120 dando-
lhes o nome de C. cancrivorus, ao passo que em 1905
os identifica com Lycalopex vetulus. E' um tanto dif-
ficil a comparação destas medidas, visto que as mesmas
nem sempre combinam entre si. Entretanto a compa-
ração das medidas e das figuras mostra que é erroneo
o modo de vêr de Studer, de que o respectivo animal
seja o mesmo C. vetulus de Lund. Como possuo um
craneo e couro da mesma especie do Estado do Pará,
que determinei como ©. thous savannarwin Thos. pude
esclarecer sufficientemente a questão, de modo a con-
ciliar as duvidas existentes.
Em todo caso é certo que tambem C. thous varia
muito em tamanho e côr e que são de pouco valor as
numerosas especies pretendidas que tem sido propostas
para estas variedades.
O cachorro do matto não é especie commum e vive
só nas regiões em que predominam as mattas. Por
isto pouco sabemos do seu modo de viver.
Nutre-se de pequenos mammiferos e de aves. Os
auctores antigos affirmavam que elle se nutre de ca-
ranguejos, o que porêm Schomburg, a quem devemos
as melhores observações biologicas sobre este animal,
não confirmou, como tão pouco qualquer outro natura-
lista. Entretanto, o Sr. Ernesto Garbe, naturalista-via-
jante do Museu Paulista, me disse que os exemplares
por elle caçados neste Estado se haviam alimentado de
diversos mammiferos e aves e além disto tambem de
coleopteros, gafanhotos e pequenos kagados. Estes ul-
timos, como se sabe, vivem perto da agua e o Sr. Garbe
por este motivo não duvida que O. thous comerá tam-
bem caranguejos, o que, aliás, seria bem natural, dada
a manifesta preferencia com que vive perto de rios e
banhados.
O facto de esta especie habitar as mattas explica a
sua vasta distribuição, que se extende de Corrientes,
QM)
Entre-Rios e Tucuman, por todo o Brazil até a regiäo
do Rio Orinoco ou até a Guyana.
Para completar o estudo desta especie darei em
seguida a enumeração das diversas subspecies com a
sua distribuição geographica ; são ellas as seguintes :
1) C. thous riograndensis von lhering, do Rio
Grande do Sul e talvez das regiões limitrophes. E” esta
uma variedade mais clara, de côr amarellada, que se
assemelha a C. thous guaraxa, sendo, porém, maior. A
linha basilar do craneo, que em C. guaraxa ë de
4147-124, é de 450-142 mm. na subspecie riograndense.
2) C. thous melampus Wagner, de Santa Catha-
rina até o Rio de Janeiro. EH’ a variedade que occorre
em S. Paulo e que se distingue pela côr pardo-escura,
quasi preta, das partes terminaes das extremidades e à
qual se refere a nossa descripção.
3) C. thous guaraxa Hamilton Smith. Variedade
um pouco menor, de pernas ruivo-amarellas, que vive
nos campos desde Minas até o Ceará e da qual O. Tho-
mas affirma ter obtido exemplares do Estado de S. Paulo,
sem, porém, indicar a localidade. O. Thomas deu a esta
subspecie 2 nomes: angulensis e de savannarum. A
primeira seria muito menor, com o dente carniceiro
superior apenas de 44 mm. de comprimento. Esta me-
dida, porém, ê anormal, visto que em meus exemplares
do sertão da Bahia e do Ceara este dente tem 12-12,8 mm.
de comprimento.
4) C. thous sclateri Allen (microtis Sclat.). Os
poucos exemplares que se conhecem desta subspecie
provêm do Pará e representam uma variedade forte.
quasi uniformemente escura.
O) O thous thous L. E' esta a forma typica da
Guyana, conhecida desde muito tempo sob o nome de
«chien des bois». A área occupada por esta varied:de
fica ao norte do rio Amazonas.
(Gen. SPEOTHOS Lund
SPEOTHOS P. W. Lund, Blik Bras. Dyrev. Kjübe-
nhavn, IJ, 1839, p. 35; III, 1840, p. 48 e V, 1843.
CYNOGALE P. W. Lund, Blick Bras. Direwerd
I], Kjédenhavn, 1842, p. 67 (nec Gray 1436).
Jen
Icticyon P. W. Lund, Blick Bras. Direwerd, V,
Kjübenhavn, 1843, p. 61.
CynaLicus Gray, Ann. & Mag. Nat. Hist. 1 ser.
vol. XVII, 1846 p. 293 ;
ABATHMODON P. W. Lund, Blick Bras. Dyrew., V,
1843, p. 74.
Este geiero foi creado para um animal raro do
interior do Brazil, cuja posição systematica por algum
tempo era duvidosa, e assim alguns azctores, como Lund,
o collocavam entre os Canidas, emquanto outros, como
Burmeister, o incluiam entre os Mustelidas. O corpo é
relativamente comprido, as pernas são curtas como
tambem a cauda e as orelhas. Os dedos em numero
de cinco nos pés anteriores e de 4 nos posteriores, são
ligados entre si por uma forte membrana. A parte fa-
cial do craneo é curta, os processos postorbitaes são
pequenos. Uma forte crista sagittal corre por sobre o
meio do craneo. A mandibula é provida de um pro-
cesso subangular. Os dentes molares em geral apre-
sentam as mesmas variações como no genero Cans.
Quasi sempre ha de cada lado em cima e em baixo só
um dente molar, mas neste sentido dão-se tambem anor-
‘ malidades, de modo que o numero dos molares varia
de 4-2 em ambos os queixos. A forma do primeiro
molar superior é subtriangular, transversal. O coecum
é direito e curto. Burmeister em estudo ulterior mudou
de opinião, reconhecendo as affinidades de Speothos com
os Canidas ; esta tambem é a opinião de Winge e de
outros auctores modernos. E” preciso, entretanto, re-
conhecer que ha certos caracteres que parecem pôr o
genero Speothos em relação com os Muslelidas. Sera
necessario continuar os estudos comparativos com re-
lação a este genero, que talvez occupa, ao menos em
certos pontos, uma posição primitiva entre os Canidas.
Lund descobriu em Lagôa Santa uma segunda especie
deste genero, que só occorre em estado fossil e para o
qual propoz o nome de Speothos pacivorus. Mais tarde
Lund descreveu uma outra especie, um pouco menor,
do mesmo genero, que ainda vive e à qual deu o nome
de Icticyon venaticus. Sendo certo, como Winge o
demonstrou, que estas especies pertencem ambas ao
hl oR
mesmo genero, deve ser applicado o nome generico
Speothos, que tem prioridade.
O nosso exemplar de Sp. winger, de sexo feminino,
tem 4 pares de têtas, um atraz das extremidades an-
teriores e tres na barriga.
Estes animaes, que gostam de viver em bandos e
que então caçam conjnnctamente, faltam na zona do
littoral do Brazil, sendo encontrados nas regiões centraes
do paiz, onde de preferencia se escondem em capões
altos.
Speothos venaticus Lund
Cachorro do matto
CYNOGALE VvENATICA Lund, Blick Bras. Dyrew
IV, Kjobenhavn, 1842, p. 67 ;
Icricyon vENnaTicus Lund, Blick, Bras. Dyrew.
V, Kjübenhavn. 1845, p. 62-72, Taf XLI, XLUI, fig. 4-5;
Burmeister, Syst. Ubersicht Tiere Bras. 1, 1854, p. 107;
id. Erläut. Fauna Bras. 1856, p. 4, pl. XVII-XX ; Ælo-
wer, Proc. Zool. Soc. 4880, p. 70, pl. X; Mari,
Monogr. Canidae, London 1890, p. 490, pl. XLHI fig.
52-54; H. Winge, E Museu Lundi, Il Bd. A, Kjôben-
havn 4896, p. 29 e 54, pl. V; Van der Hoeven,
Verhandl. K. Akad. Wetensch. Amsterdam, Ili, 1856,
p. 4-40, pl. I; 7rouessart, Cat. Mamm. I, 1898, p. 315.
CYNALICUS MELANOGASTER Gray, Ann. & Mag.
Nat. Hist. XVII, 1846, p. 202.
Metictis cEsku Schinz, Rev. Zool. 1849, p. 477;
A. Wagner Arch. f. Naturg. 1849, II, p. 70;
SproTHos VENATICUS O. Thomas, Proc. Zool. Soc.
19035,-vols 11, p. 236 5
O animal tem o pello duplo dos Canidas e em es-
pecial no dorso ha grannos compridos, cuja côr é mais
ou menos uniforme. A côr na nuca e nas costas é
ruiva, tornando-se mais escura para atraz. A frente, bem
como o vertice, as orelhas e as bochechas são ruivas; a
barriga, a cauda e as pernas são pardo-escuras, quasi
denegridas.
O comprimento do corpo com a cabeça é de 65
a 68 cm., o da cauda de 42 a 44 cm.
© craneo tem os caracteres já mencionados na
introducção e seu comprimento total varia de 415 a
— Fee
145 mm. O comprimento do dente carniceiro varia
segundo Winge de 42 a 15 mm. sendo o ccmprimento
do molar superior 7.5 a 7.9 mm. Como já disse existe
às vezes emcima ou embaixo um segundo molar. Não
se conhece o osso do penis.
Ss
Fig. 5 — Cachorro do matto. Speothos venaticus Lund.
Este animal, segundo Lund, vive em Minas Geraes
nos capdes, cagando as vezes em bandos. Vive de pe-
quenos mammiferos e de aves. Thomas o recebeu de
Chapada no Matto Grosso e o exemplar descripto por
Schinz fora obtido de Novo Friburgo, Estado do Rio
de Janeiro. Um exemplar que viveu pcr pouco tempo
no Jardim Zoologico de Londres, era provenien'e de
Demerara. Guyana ingleza. |
Trata-se de um animal raro, de vasta distribuição
nas mattas do Brazil, particularmente dos estados cen-
traes, e da Guyana.
Speothos wingei sp. n.
Esta especie proveniente do Estado de Santa Ca-
tharina é um pouco maior do que Sp. venaticus e de
cor mais clara. Poderia consideral-a como variedade
meridional da especie precedente se não existissem dif-
ferenças tambem no craneo. O unico exemplar da nova
ee + PT ee
— 225 —
especie que possuo tem o comprimento de corpo e ca-
beça de 74 ctm. a cauda méde 11 ctm., a orelha 4 ctm.
A cabeça é ruivo-amarella, sendo pardu-clara nas bo-
chechas. O mento é um pouco mais escuro que o pes-
coço, cuja côr é ruivo-parda. Atraz das orelhas começa
a côr brancacenta que se estende sobre a metade an-
terior do corpo. A base do pello é cinzenta, seguido
de uma parte ruivo-pallida e terminando em ponta branca.
A parte posterior do dorso é ruiva, com pontas pretas
na maior parte dos grannos, dos quaes porém muitos
são brancos. O comprimento do pello do dorso poste-
rior importa em 3-4 ctm. e o mesmo vale ainda para
a cauda que é curta. Os pés e as pernas são de côr pardo-
denegrida. O craneo tem o comprimento de 132 mm.,
os dentes estão bastante gastos e as suturas desappa-
receram quasi todas. Trata-se pois de uma femea velha.
Recebi da mesma localidade mais um craneo (n. 2685)
sem indicação de sexo e por este motivo dou aqui as
respectivas medidas para ambos.
Medidas dos craneos n.º 26840 | n.º 2685
Comprimento total. . +. + + . . 132 133
Largura zygomatica . . . . «© « 80 81
Bargura basilar vo aca ques ss de 123 126
Comprimento do fecinho . .« « « « 48 48.
Comprimento do osso nasal + . « + 34 32
Comprimento da msndibula inferior. . 102.5 102
Comprimento de pm 4 superior. + +. 145 15
Comprimento de m Í superior + +. + 9 9,8
Comprimento do foramen incisivo . . 8 7,5
Na especie Speothos venaticus o comprimento do
craneo é de 117-124, o comprimento do osso nasal de
26-29, o da mandibula de 87-91, o do pm 4 supericr
de 7-8 mm. Vê-se portanto, pelas medidas, que os cra-
neos dos exemplares de Santa Catharina são maiores
do que os dos exemplares de Minas. Winge entretanto
(p. 30) menciona 2 craneos subfosseis da Lapa dos Tatts
que combinam com os craneos aqui descriptos. Winge
mesmo já notou esta differença e lembrou a possibilidade
de se tratar de uma raça geologica. Novos materiaes
devem esclarecer a relação desta especie com Sp. pa-
4CIVOTUS. |
Existe a possibilidade de que mais tarde se reco-
nheça que a forma aqui descripta coincida com Sp. pa-
civorus. Não conheço os motivos que induziram Winge
a reunir os craneos da Lapa dos Tatüs com Sp. vena-
ticus e de certo só estudos posteriores podem esclare-
cer a relação destas especies alliadas.
Os ossos nasaes nos craneos de Sta. Catharina não
tem o comprimento como o mostra o craneo n. 2033 de
Sp. pacivorus figurado por Winge, proveniente da Lapa
dos Tatts, e por esta razão parece-me necessario não
ligar valor demasiado ao comprimento dos ossos nasaes.
Em geral atraz dos processos postorbitaes a forma do
craneo é differente nos exemplares de Santa Catharina,
por ser mais abruptamente estreitado, o que não se dá
com o craneo de Sp. venaticus. Uma differença nota-
vel offerecem os foramens incisivos, cujo comprimento
nos craneos de Sta. Catharina é de 7,5—8 mm., ao passo
que elles tem ao menos 11-12 mm. no craneo figurado
por Burmeister. E’ por isto que, visto de cima, se
distingue grande parte deste foramen em Sp. venaticus
mas não em Sp. winger.
Dedico esta especie ao meu distincto collega dr.
Herluf Winge em Copenhague, cujos trabalhos sobre os
mammiferos do Brazil julgo serem os mais valiosos de
entre todos que foram publicados sobre esta materia.
Far. PROCYONIDAE
Os mammiferos que pertencem a esta familia tèm
relações intimas com os ursos, dos quaes differem pelo
tamanho menor, pela cauda comprida e por certos de-
talhes no esqueleto. Entretanto ainda se discute a ques-
tão se estas duas familias realmente devem ser conser-
vadas ou se os Procyonidas não representam antes uma
secção da familia dos Ursidas. Os membros do genero
Ursus são animaes grandes, cujo craneo é bem cara-
cterizado e no qual é notavel a degeneração dos dentes
premolares. A formula dentaria do genero Ursus é
5 A Oat
Não existem dentes carniceiros ; os dentes que lhes
correspondem não se distinguem essencialmente dos ou-
tros dentes molares. © numero dos dentes molares é
de 2 de cada lado, encima como embaixo. O caracteris-
tico da dentadura do genero Ursus consiste na reducçäo
dos premolares, dos quaes existem apenas 2, um em
frente do dente carniceiro e outro atraz do dente ca-
nino, e estes premolares estão separados por um grande
espaço desprovido de dentes. Entre os Procyonidas os
generos Procyon e Nasua tem 3 premolares de cada
lado encima e embaixo, ao passo que o numero delles é
reduzido a 2 no genero Potos. Seria neste sentido fa-
cil distinguir os membros das 2 familias se a configu-
ração da dentadura fosse sempre a mesma nos Ursidas.
Acontece, entretanto, que o unico genero dos Ursidas
que vive na America meridional, Tremarctos Gerv.,
tem de cada lado encima 3, e embaixo 4 premolares.
A formula dentaria é neste caso a mesma como no ge-
nero Canis, representando o mencionado genero uma
forma primitiva.
Os Procyonidas distinguem-se por terem patas lar-
gas com 5 dedos, unhas compridas e pouco arcuadas;
pés plantigrados de planta larga e nua. À cauda é
comprida, contendo 17 a 28 vertebras, ao passo que nos
Ursidas o numero destas vertebras está reduzido a 7-13.
Com relação à dentadura temos de observar que nos
incisivos, cujo numero é de 6 encima como embaixo, se
nota certa differença entre os 4 intermediarios e os 2
extremos, que ficam um pouco afastados delles e são um
tanto maiores. Os caninos, que são conicos nos Ursi-
das, são comprimidos nos Procyonidas, com bordos cor-
tantes, em frente e atraz. O maior desenvolvimento
estes caninos alcançam nos coatis, onde representam ar-
mas formidaveis, particularmente nos machos. No ge-
nero Nasua observa-se, não só com relação aos dentes
mas tambem a respeito do craneo, uma differença pro-
nunciada entre os craneos dos dous sexos, visto que só
o do macho tem uma crista sagittal, isto é, uma lamina
ossea no meio do vertice do craneo. À formula den-
taria dos generos Nasua e Procyon é a seguinte:
3 ide e Yat ME
sl) 114
— 226 —
Os premolares são conicos, comprimidos dos lados ;
os molares e o dente que corresponde ao dente carni-
ceiro são largos, de forma mais ou menos quadrangular
e cobertos de tuberculos. O focinhc é curto no genero
Procijon, prolongado' em curta tromba nos coatis. O
pello é comprido, composto de grannos e de cabellos
mais finos e curtos, que formam a lanugem. A cauda
é longa e densamente coberta de cabellos compridos e
quasi sempre ornada de anneis escuros; as unhas não
são retractis; a femea tem 3 pares de têtas, com ex-
cepção do genero Potos, onde este numero é reduzido
a dous. O macho tem um osso peniano cylindrico, solido,
um pouco curvado e com ponta ligeiramente alargada
ou bilobada.
Os Procyonidas, que vivem em bandos, são, como
os Ursidas, omniversos ; além de pequenos mammiferos
e aves comem ovos de aves, insectos, crustaceos e fru-
ctas. Vivem nos mattos ou perto da agua entre os
arbustos, mas nunca no campo aberto. Para a distinc-
ção das especies brazileiras pode servir a seguinte
CHAVE PARA A DISTINCÇÃO DOS GENEROS DOS
PROCYONIDAS DO BRAZIL
A) Cauda prehensil, comprida, com 28
vertebras; o numero dos dentes pre-
molares é de 2 de cada lado, encima
Benito) a Mine tc ake ca NUS Potos
A A) Cauda não prehensil, com 17 a 23
vertebras ; o numero dos dentes pre-
molares é de 3 de cada lado,, encima
e embaixo.
B) Pocinho curto, com 30-34 °/, de com-
primento do total do craneo ; largura
zygomatica correspondendo a 64-68º/a
do comprimento do craneo; crista
sagittal do craneo pouco desenvolvida |
ou ausente; cauda com 17 vertebras Procyon
BB) Focinho alongado com 41-44°/, de com-
| primento total do craneo ; largura zy-
gomatica correspondendo a 47-54º/o
DD A E cs MED o E E E On —
— 227 —
do comprimento do craneo; crista
sagittal do craneo bem desenvolvida
no sexo mascuiino, cauda com 21-23
UGE RS ee RR O eia Nasua
Do genero Potos Cuvier & Geoffroy (Cercoleptes
Ill.) vive uma especie na zona septentrional do Brazil,
que tambem habita a Venezuela e o Mexico; é o Po-
tos flavus (Penn.) Schreb., que em Goyaz e no Matto
Grosso é denominado «jupará» ou «macaco de meia
noute», por ser animal de vida nocturna. Goeldi ob-
teve-o no Pará, Cope de Chapada, Matto Grosso e o
Fig. 6 Jupará ou Macaco de meia noute
Potos flavus brasiliensis Ih.
Museu Paulista recebeu um couro de «Matto Grosso de
Goyaz», gentilmente offerecido pelo snr. Tenente Hen-
rique Silva. O principe Wied ouviu falar deste animal
raro na Bahia, onde é conhecido como jupará, dando-
lhe o auctor o nome de Nasua nocturna (Beitr. JT,
1826, p. 298). Não tratarei em seguida desta especie
por não ser encontrada no Brazil meridional. Em vista
do nosso material parece-me provavel que a forma ty-
pica do Mexico e do norte da America meridional seja
maior e de côr mais uniforme do que os exemplares
do Brazil central, que são menores, de cauda mais fina
e ornados de uma faixa escura, quasi preta, ao longo do
espinhaço e na base da cauda. Se estas differenças fo-
rem confirmadas pelo exame dos craneos, julgo que a
variedade brazileira representa uma subspecie diversa
da forma typica, e podemos applicar-lhe o nome de
Potos flavus brasiliensis subsp. n.
Gen. PROCYON Storr.
Os membros deste genero encontram-se unicamente
na America; estão representados na America do Norte
pelo «Urso lavandeiro», e na America meridional pelo
«Guaxinim» ou «Mão-pellado». São ursos pequenos, que
de preferencia vivem perto da agua e mesmo nas em-
bocaduras dos rios, onde caçam caranguejos e siris do
mangue, mas tambem não desprezam fructas, insectos
e outros pequenos animaes. Em comparação com o
coati têm nariz curio, achatado em baixo, coberto de
pello e com um sulco mediano. O numero dos dentes
é de 49, e seus caracteres já foram explicados na intro-
ducção deste capitulo. A cabeça é larga, o focinho curto.
As plantas dos pés são núas e tocam o chão em toda
a sua extensão apenas quando o animal está levantado
mas não quando caminha.
Procyon cancrivorus brasiliensis
subsp. n.
Mão pelado, Guachinim, Guassini, Jaguá-cambeda,
Jaguaracainbe.
El Pope — Azara, Apunt. Quadrup. I, Madrid,
£802) p: 278.
Ursus cancrivorus, G. Cuvier Tabl. Elem. Reg.
An. 1798, p-113;
Procyon cancrivorus, Wied, Beitr. Nat. Bras.
Vol. II, Weimar, 1826, p. 301; Rengger, Säugetiere
von Paraguay 1830, p. 115; A Wagner Arch. f.
Naturgesch. III Jahrg. Berlin, 1837 p. 971; id. Schre-
ber's Säugetiere, suppl. II, 1840 p. 160; Burmester,
Syst. Ubers. I, 1854, p. 115; Gray, Cat. Carn. etc. of
the British Mus. London 1869, p. 244; Trouessart, Cat.
mamm. J, 1899, p. 252 e suppl. I, 1904, p. 186; JT.
von Ihering, Os mammiferos do Rio Grande do Sul,
Porto Alegre 1903, p. 271; Hensel, Beitr. Säugetiere
oa
Südbras. Berlin, 1872, p. 67; Sclater, Proc. Zool. Soc.
London, 1875, p. 421; Pelzeln, Zcol. Bot. Ges. Wien,
1883, Beiheft p. 56 ;
Procyon cancrivorus Æ. D. Cope, American Na-
turalist, vol. 28, 1889, p. 141; E. A. Goeld:, Os mam-
miferos do Brazil, Rio de Janeiro 1893, p. 74; Wenge,
E Mus. Lundi, 1895 IT, A, p. 37;
Este animal tem mais ou manos as dimensões do
coati. O comprimento total é de 98 a 102 cm., sendo
o comprimento do corpo com a cabeça de CO a 69
ctm., e o da cauda de 34 a 40 em. O comprimento de
==
ary BROCKHAUS.X.A E
Fig. 7 — Mao pellado ou Guachinin — Procyon (*)
cauda corresponde pois a 34 a 40 °/, do comprimenta
total. O focinho é pontudo, bem mais curto que o do
coati. As orelhas são curtas, de forma oval; a pupillo
do olho é redonda. O pello do corpo é denso e curto ;
na nuca e no pescoço superior elle é arrepiado e dirigida
para deunte. A pennugem e a base dos grannos são do
côr cinzento-parda ou cinzento-amarellada ; era cima
os grannos são amarello-claros ou brancacentos e na
ponta pretos. As pernas, particularmente na metade
(*) O original deste desenho refers-se 4 especis norte ame-
ricara P. lotor, yne porém differe bem pouco da nossa especie,
ccmo adeznte 80 verá.
a Eg oe
inferior, säo escuras bem como os pés. A face, entre
os olhos ao redor e adiante delles, é preta. Os beiços
são brancos e esta côr se prolonga atraz do focinho,
formando uma faixa branca. Em cima do olho começa
uma estria brancacenta, que se prolonga ainda um pouco
atraz do olho. A frente é salpicada de cinzento-amarel-
lado e preto. As orelhas no lado anterior ou interno
são cobertas de pello brancacento ; no lado posterior são
escuras na base e brancacentas na ponta. O lado inferior
e a parte interna das extremidades são de côr branca-
amarellada. A cauda é coberta de pello comprido, preto
na ponta e munido de 5-6 anneis pretos, separados por
zonas amarelladas.
A femea tem 3 pares de têtas. O macho tem um
osso peniano cylindrico de 96-106 mm. de comprimento,
um pouco curvado, mais delgado perto da ponta ante-
rior, onde elle se divide em dous lobulos arredondados.
A parte basal, que é conica, de 13-15 mm. de compri-
mento, só nos exemplares bem adultos é perfeitamente
desenvolvida ou ossificada.
O craneo é largo e curto e só em machos muito
velhos adquire uma crista sagittal. Em um dos dous
craneos de nossa collecção que mostram esta crista (n°
2962 do Chaco Argentino e 2651 de Villa Nova, ser-
tão da Bahia) os dentes caninos estão gastos nos lados
oppostos.
O foramen infraorbital é bem grande, triangular,
separado da orbita por uma ponta estreita. O focinho
é curto, correspondendo a 30-34º/o do comprimento
total do craneo. Dos incisivos os 4 do meio são pro-
vidos de um sulco terminal mediano e de 3 pontas.
Os incisivos superiores são simples. Os caninos são
fortes, mas menos compridos e largos do que nos coa-
tis; na frente e atraz têm um bordo cortante, que é
separado do resto do dente por um sulco longitudinal.
Ha 6 molares em cima e em haixo, os 3 primeiros
dos quaes são conicos, os seguintes quadrados, grandes,
com numerosos tuberculos. Quanto ao seu apparecimento
sabe-se que os primeiros 4 molares são precedidos por
dentes de leite, os seguintes não.
Em craneos de exemplares velhos gasta-se o bordo
anterior do canino superior e o bordo posterior do
canino inferior, do mesmo modo como nos coatis. Nos
craneos de machos velhos as linhas temporaes appro-
ximam-se na região da sutura coronal até a 9mm., ao
passo que em exemplares semi-adultos, mas com dentes
intactos, estas linhas distam entre si 20 mm.
TABELLA DAS MEDIDAS (“Procyon cancrivorus brasiliensis
subsp. n.)
31 4] 2 E & los [Bes
| E a E = a ER = a
NUMERO £ = >| 2128/8 IE Soslede
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Säo Paulo
1673
Joinville, E 127 | 111 | 84 | 28 /20,5| 55 405| 7 |326
tharina
41437 juv.
HR 129 | 114 Are 30 156,5! 42 | 7 1325
Rio Grande do Sul
2418 adul.
Sie ee 1°3 106 84 36 28 56 37 7 30
Espirito Santo
2651 |
Villa ue 13351-14216 | 941 40.) 99158. 44108 33
O guaxinim ou mäo-pellado é um pouco maior do
que a especie semelhante da America do Norte, Pro-
cyon lotor, que tem o pello mais comprido. EK’ animal
nocturno que de dia dorme em seu esconderijo, de pre-
ferencia em arvores, e de noute procura o seu alimento,
que consiste em pequenos animaes, caranguejos, insectos,
aves e fructas. EK’ animal do matto, que prefere a visi-
nhança da agua, particularmente dos banhos, onde com
grande facilidade anda sobre o lodo, onde nem o caça-
dor nem o seu cão o podem perseguir. Assustado pelos
cães, trepa em uma arvore, onde o caçador o atira com
facilidade. Rengger, a quem devemos quasi todas as
— 232 —
informações sobre a vida deste animal raro, observou
alguns exemplares durante varios annos e diz que nunca
mergulham depois de terem cumido carne, o que aliás
tambem contam da especie norte-americana, o chamado
«urso Javandeiro». Ao homem este animal não causa
prejuisos, a não ser que as vezes coma canna de assu-
car. A sua carne não se come, porque o animal todo,
seu couro e suas dejecções fédem. O principe Wied diz
que o guaxinim é commum na costa do Brazil, parti-
cularmente na região do mangue, onde se nutre quasi
exclusivamente de caranguejos.
Pouco sabemos da propagação deste animal e não
conhecemos a duração da prenhez. Rengger ouviu dizer
que os filhotes, cujo numero varia de 2 a 4, apparecem
nos mezes de Outubro a Dezembro. O guaxinim tem
uma vasta distribuição geographica, que se estende
desde a America Central pelas Guyanas e por todo o
Brazil atê ao Rio Uruguay. bem como até o Paraguay
e o norte da Argentina. Sclater afirma que os exem-
plares das Guyanas, da Colombia e da America Central
atê Colon têm os pés ruivos, ao passo que os do Brazil
os têm pretos. Como o animal typico descripto por
Cuvier era proveniente da Guyana, a variedade de pés
pretos do Brazil merece outro nome, e assim proponho
o de P. c. BRASILIENSIS para a subspecie de que nos
occupamos.
Gen. NASUA Storr.
Os coatis que compõem este genero differem do
genero Procyon por ser o corpo mais delgado, por
terem pernas menos altas, cabeça alcngada e acuminada,
e cauda mais comprida. O naris prolonga-se em forma
de tromba, as orelhas são curtas e arredondadas. Os
coatis vivem nos mattos. onde trepam com habilidade
nas maiores arvores, caçando ahi pequenos mammife-
ros e aves e ahi tambem apanham e comem muitas
fructas.
Costumam tambem cavar o chão com o focinho,
em procura de vermes e larvas de insectos.
— 953 —
Nasua narica (L.)
Coati, Coati mondéo, Coati de vara
Coati Marcgrav e Piso, Hist. Nat. Bras., Lugdu-
num Batavorum, 1648, p. 228;
Cuati Azara, Apunt. Quadrup., Madrid, 1802, p.
293, ss.;
VIVERRA NARICA Linné, Syst. Nat., 1766, I, p. 64;
Schreber, Saeug., Erlangen, 3. Abt., 1778, p. 438,
Est. CXIX ;
NAsuA LEUCORHYNCHUS Tschud?, Fauna Peru, 1846,
p. 100;
Nasua sociaLis Weed, Beitr. Nat. Bras., Weimar
1826, vol. Il, p. 283; Rengger, Saeuget. von Paraguay,
Basel, 1830, p. 95; Lund, Blik. Bras. Dyrev., II, 1839,
p. 33; Burmeister, Uerbers. Tiere Bras., part I. Berlin,
1854, p. 120; Hensel, Abhandl. Ak. Berl, 1872, p.
63, ss; Goeldi, Mamm. do Brazil, Rio de Janeiro,
1898, p. 78; H. von Ihering, Mamm. do Rio Grande
do Sul, Porto Alegre, 1903, p. 27;
Nasua soLITARIA Wied, Beitr. Nat. Bras., Weimar,
1826, vol. II, p. 292; Rengger, Saeug. von Paraguay
1830, p. 98; Lund, Blik Bras. Dyrev., II, 1839, p.
83; Wagner em Schreber's Saeug., Suppl. 1840, p. 165,
Est. CXVII e CXIX; Burmeister, Uerbers. Tiere
Bras., par I, 1894, p. 121; H. von Ihering, Mamm.
do Rio Grande do Sul, 1903, p. 27;
Nasua NARICA Brehm, Tierleben, J. Abteil. II Bd.,
Leipzig, 1877, p. 202, com figura ; Burmester, Descr.
Phys. Rep. Arg. Il], 1879, p. 186: Pelzeln, Bras.
Saeuget. K. K. Zool. Bot. Ges., Beiheft zu Bd. XX XIU,
Wien, 1883, p. 56; Trouessart, Cat. Mamm. I. 1899,
p. 200e suppl. I, 1904, p. 185;
Nasua nasica Winge, E Museu Lundi, 1859, II A,
awl:
; Os individuos novos e de tamanho regular são de-
nominados, «coati de vara» ou «de bando», ao passo
que os velhos tem o nome de «coati mondéo».
As dimensões dos exemplares adultos variam de
120-125 ctm. quanto ao comprimento total, cabendo ao
corpo com a cabeça 70 cm. e à cauda 90 a SS ctm. A
— 254 —
cauda alcança por conseguinte 41-44 °/, do comprimen-
to total. O pello macio do dorso é de côr cinzento-
amarellada. Os «grannos» ou cabellos rijos são da
mesma côr na base; mais para cima tomam uma
côr amarella ou ruiva, tendo um avnel preto embaixo
da ponta. Nos lados a côr fica mais clara, sendo ruivo-
amarella uniforme na barriga. O focinho é preto, a
frente ruivo-amarella, separada de cada lado do olho
por uma estria branco-amarellada. Embaixo e atraz do
olho ha algumas manchas brancas, amarelladas, redon-
das. À orelha no lado anterior ou exterior é coberta
de cabellos amarellados; no lado posterior é escuro,
quasi preto, com margem amarellada. Os pés são pretos,
as pernas nº lado exterior são amarello-ruivas, de cor
mais clara no lado interno. A cauda que não é prehensil,
é de côr cinzento-parda, com ponta preta e sete ou oito
anneis escuros.
Fig. 8 Coati — Nasua narica L.
Os individuos velhos, chamados «coati mondéo»,
têm o lado dorsal mais claro, cinzento-amarello e na
cauda os cabellos que devem formar os anneis escuros
tem a ponta amarellada, de modo que os mesmos an-
neis escuros não se destacam tanto. E” muito grande a
— 255 —
variabilidade desta especie quanto à côr. Ha individuos
adultos nos quaes a ponta dos cabellos compridos do
dorso é preta por inteiro e outros em que predomina a
côr castanho-ruiva, particularmente nos lados e na bar-
riga. Não sabemos por hora atè que ponto estas va-
riações de côr coincidem com a distribuição geographica.
E’ certo, entretanto, que no Maranhão vive uma va-
riedade cujo pello é desprovido de anneis pretos sub-
terminaes e cuja côr é quasi uniformemente castanho-
ruiva. Como se vê em nossa tabella, as medidas desse
exemplar, que é um macho velho, são bem menores
do que as dos craneos correspondentes do Brazil me-
ridional.
Do Rio Juruá temos outra variedade de côr escura
misturada com ruivo, semelhante ao Nasua dorsalis
Gray, porém o colorido é menos claro nos lados e no
peito.
Os auctores, sem estudar a variação individual e
local desta especie, descreveram numerosas especies,
subspecies e variedades, de pouco valor em geral e
cuja importancia systematica ainda esta por ser ave-
riguada.
Comparando o craneo do macho velho ruivo do
Maranhão n. 2576 com outros de 8. Paulo verifiquei
que o comprimento total do craneo é de 126 mm. em
Nasua rufa n. 2976 e de 133,5—145 nos de S. Paulo.
A linha basilar do craneo é de 1:0 naquelle e de 117
a 125 nestes, o comprimento do focinho de 51,5
contra 56—60 nos outros e a serie de molares superio-
res é de 35,0 no de Maranhão de 38,5—43 nos de S.
Paulo. À crista sagittal do exemplar do Maranhão méde
8 mm. de altura, ao passo que nos de São Paulo é em
geral de 10 mm., variando de 7 a 11 mm. Isto mostra
que o craneo do Maranhão é menor que o da varie-
dade do Sul do Brazil.
O que parece certo é que no Brazil meridional
existe uma só especie de Nasua. O caçador brazileiro
distingue, como já foi dito, a «coati de vára» que vive
em bandos, do «coati mondéo» que léva uma vida so-
litaria. O principe Wied. acceitando, embora com du-
vidas, esta opinião, descreveu as duas formas sob o nome
— 256 —
de Nasua socralis e solitaria. Muitos auctores imitaram
Wied, mas os auetores modernos, como Hensel, Winge:
e mesmo Burmeister (na Descer. Phys. da Argentina), ad-
mittem só uma especie. Segundo a opinião de todos estes
auctores a coati mondéo é apenas um individuo velho
e particularmente do sexo masculino, que se separou do
bando.
Como os couros não fornecem caracteres decisivos
para a separação de duas especies, é só o estudo com-
parativo do craneo que póde dar-nos os necessarios es-
clarecimentos. Se realmente existem duas especies de
dimensões differentes, deverá ser possivel indicar, pelo
estudo do craneo, as differenças entre o macho velho
do coati de varä e do coati mondéo, e do mesmo modo
com relação às femeas. O rico material da collecção do:
nosso Museu não favorece tal opinião, visto que não
temos craneo algum de coati de vára que, sendo de
individuo masculino, tenha os caracteres de um exemplar
adulto. Hensel, que elle mesmo preparava os craneos de
sua collecção, nunca viu craneo feminino com crista e
ao mesmo resultado chegou Winge.
Não é só isto que distingue cs craneos femininos
e masculinos. Os dentes caninos são muito mais fortes
nos machos do que nas femeas. Na base o dente canino.
do macho adulto mede 8-10 mm. e mesmo até 12 mm.,
ao passo que no craneo feminino este dente tem uma
largura de 5 a 6 mm.
Quanto mais estes dentes caninos crescem, tanto
mais tambem se gastam. O canino inferior, roçando a
margem anterior do dente que lhe corresponde no ma-
xillar, desgasta a este, ao mesmo tempo que o traz afiado.
Tanto o desgaste destes dentes caninos como o dos
molares permittem julgar da edade do respectivo ani-
mal; em exemplares velhos os dentes molares chegam
a perder pelo uso a metade da sua corda. Outros ca-
racteres que nestes craneos indicam a velhice do ani-
mal são o desapparecimento das suturas que separam
os diversos ossos do craneo, e o desenvolvimento do.
processo supraorbital, que em individuos bem velhos
alcança tal comprimento que a orbita se torna pequena
em comparação com a de individuos novos. As linhas.
— 237 —
temporaes continuam separadas 15-18 mm. uma da outra
na região da sutura coronal; em individuos velhos esta
distancia póde diminuir até 9 mm. Em 2 craneos de
femeas novas, nos quaes o comprimento do craneo é de
117 a 120 mm., e cujo dente canino é ainda o da den-
tição de leite, as linhas temporaes distam entre si 24
a 26 mm. Em craneos novos do sexo masculino, com
132 e 137 mm. de comprimento, e nos quaes o dente
canino da dentição definitiva ainda não está completa-
mente desenvolvido, as linhas distam entre si 12e
16 mm.
Todos estes factos provam que no Brazil meridio-
nal existe sé uma especie de Nasua, que passa por uma
serie de modificações nas diversas phases de edade e de
Sexo.
Para completar as informações sobre o craneo
serve a tabella seguinte.
O craneo do coati é comprido e provido de uma
forte crista sagittal no sexo masculino quando adulto.
O focinho é alongado, correspondendo o seu compri-
mento a 41-44'/, do total do craneo. O foramen
infraorbital é relativamente pequeno e muito menor
do que a ponte ossea que o separa da orbita Os
incisivos exteriores estão separados dos restantes por
um pequeno intervallo e alem disto differem ainda
um pouco na forma. Os caninos são comprimidos,
largos, com bordos cortantes adiante e atraz e com
uma cova na base anterior e exterior do dente. Os 3
primeiros molares são conicos, os 3 seguintes quadra.
dos, com numerosos tuberculos.
958 <2
TABELLA DAS MEDIDAS— (Nasua narica L)
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2161 Q 1245) n0|:6:|-29,5/245] 4! m 6 | 43,3
Castro (Paraná)
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1675 Q 181) »16) 81 | 82.) 28,5] 46] 655 6 | 423
Joenville—St. Cath.
1926 Q juv. | 49 102 | 56,5 | 27,5 | 27,5 | 45] 53 9 7 | 43,4
Com canino de leite 4
Itapura
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je 0 À leite
285 & juv. do8 Bl Gui ao SM) Soho 3,5 | 42,1
Poço Grande esta appa-
Estado de Säo Paulo recendo em
baixo o
: lefin itivo
2490 S juv :
O Ju zn + or 26 9 €
Boa Vista—Maranhao PADS 54 au e 43 49 2 | 42,2
780 Sd ad
: 7 2 20 ë
O Gore 130 1j4 79 9 44 | 56,5 11 | 43,4
A femea tem 3 pares de têtas. O macho tem um
osso peniano, que em exemplares velhos alcança 90 mm.
de comprimento. O corpo deste osso é cylindrico, um
pouco curvado, e alargado e achatado na ponta, com
ligeira excavação mediana. A base, que é recurvada
para baixo, é excavada longitudinalmente em cima.
“Segundo os materiaes do Museu Paulista, podemos
distinguir entre os coatis do Brazil duas especies: Na-
sua nasua L., da qual faz parte o exemplar vermelho
— 259 —
do Maranhão, cujo craneo foi descripto acima, e Nasua
narica L. O pello da primeira especie é bem curto,
mas isto em parte depende do clima quente da locali-
dade de onde provem ; de facto acontece muitas vezes
que os representantes tropicaes de uma especie tem o
pello mais curto do que os da zona subtropical.
Tambem os coatis de Rio Juruá têm o pello mais cur-
to, embora segundo a cor e as dimensões do craneo
pertençam à segunda especie, para a qual temos de
adoptar a denominação de Nasua narica subsp. jurua-
na Ih. O pello desta especie é sempre mais comprido
do que na outra, e, comquanto seja variavel em côr,
sempre se distingue pelas pontas pretas dos cabellos do
dorso.
As informações mais detalhadas que temos sobre a
vida do coati devemos a Azara, Rengger, Hensel e
Wied. Segundo este ultimo auctor, estes animaes reu-
nem-se em bandos, levam uma vida nomada e nunca
ficam muito tempo na mesma região. São animaes diur-
ncs, que não tem guarida fixa e, onde a noute os apanha,
dormem nas arvores ou escondidos nas raizes das mes-
mas. Seu alimento consiste principalmente em larvas de
insectos que tiram do chão ou da madeira, mas não
desprezam tambem vegetaes e fructas. Não raro causam
grandes estragos nas plantações de milho. O coati mon-
deo separa-se da vára e só volta no periodo de cio.
Isto dá lugar a luctas encarniçadas entre os machos
velhos, combates que só terminam com a derrota de-
finitiva de um dos dous contendores. Depois de 67 a
“3 dias de prenhez, a femea pare 3 ou 5 filhotes, que
ella esconde em alguma guarida ou no sarçal. A côr
destes filhotes já se assemelha perfeitamente à dos adultos.
Quanto ao motivo pelo qual os machos velhos se
separam dos bandos ha ainda opiniões divergentes en-
tre os diversos auctores. Segundo Hensel dá-se esta
separação quando os dentes caninos começam a gastar-se.
As femeas nunca se separam do bando e, quando
por ventura se encontra uma só, é certo que ella des-
garrou dos companheiros no panico geral que se esta-
belece ao fugirem do caçador.
Os coatis sabem trepar muito bem em arvores.
No chão andam a passo ou aos pulos, com a cauda
— 240 —
sempre levantada verticalmente. Quando se veem per-
seguidos, toda a vára foge, trepando na mesma arvore.
Como são animaes de «vida muito dura», como se ex-
prime o caçador, e de facto são quasi insensiveis a
qualquer dor, o caçador deve atirar muito bem para
matar. Contra os cães defendem-se com muita cora-
gem, e as unhas das mãos e os grandes caninos ser-
vem-lhes de armas terriveis. Um macho velho antes
de succuinbir pode pôr fora de combate cinco ou seis
cães. Interessante é que os coatis quando são perse-
guidos pelo caçador e se percebem seriamente ameaça-
dos, ao disparar da espingarda por exemplo, se atiram
todos a um tempo da arvore para baixo, como si todos
estivessem feridos. E' facto geralmente sanido que o
coati se atira ao chão com o corpo embolado de tal for-
ma que não possa ferir o focinho extremamente sensivel.
A sua carne ê muito saborosa, especialmente dos
animaes novos.
O coati é animal de vasta distribuição, que vive
desde o Rio da Prata por todo o Brazil, Bolivia, Perú
e as Guyanas atê a America central, Mexico e Texas.
Parece que nesta vasta area de dispersão se pode dis-
tinguir diversas especies ou subspecies, mas 0 assumpto
não foi ainda estudado de modo bastante meticuloso.
Cuidando aqui só dos coatis do Brazil, temos de cons-
tatar apenas um facto, que é a predominancia da côr
ruivo-castanha nos individuos do norte do Brazil. Te-
mos um couro feminino e um de um macho velho do
Maranhão, ambos de côr pardo-vermelha uniforme, sem
pontas pretas ros grannos. Um couro do Rio Juruá é
escuro, mas com mistura de castanho. Como se vê, o
assumpto merece ser estudado mais detalhadamente.
Verifica-se pelo estudo dos couros e craneos que a for-
ma do Maranhão é menor em todas as suas medidas;
e como além disso os animaes adultos dessa proceden-
cia são de côr castanha uniforme, e, ainda, lhes faltam
as pontas pretas nos pellos, é evidente que alli se trata
de uma especie bem caracterizada. EK’ esta a especie
que já Linnéo conhecia e descreveu sob o nome de
Viverra nasua, e cujo nome deve ser Nasua nasua
(L.); a região habitada por esta especie é a bacia do
Amazonas inferior nos Estados do Pará e Maranhão.
— 241 —
Segundo Cope, a forma do Matto Grosso differe
por ter o pello do dorso castanho com pontas pretas.
Parece-me que com esta variedade de Matto (Grosso
coincide a especie do Rio Juruá. O respectivo couro
de nossa colleeção tem o pello muito curto, ao passo
que o mesmo é comprido na forma do Brazil meridio-
nal. Proponho para a variedade do Rio Juruá o nome
de Nasua narica juruana n. subsp.; elle combina em
tamanho e desenho com os exemplares do Brazil me-
ridional, mas distingue-se pela côr ruiva da base do
pello dorsal, que causa a impressão ruivo-preta do
couro.
Fam, MUSTELIDAE
Esta familia contem animaes de tamanho menor,
de fórma variada, e que pelo seu nutrimento se appro-
ximam dos omnivoros. A fórma do corpo é alongada
e esbelta, as pernas são baixas e os pés têm adeante
e atraz 5 dedos, que às vezes são reunidos na base por
uma curta membrana. À planta dos pés posteriores é
coberta de pello nos Mustelinas, à excepção de Tayra
e Grison, e é nua tambem nas outras subfamilias. Se-
gundo a configuração dos pés distinguem-se 2 secções:
1) pés arredondados com dedos curtos, curvados,
mais ou menos unidos por membrana e a ultima arti-
culação dirigida para cima ;
It) os pés posteriores alongados e com os dedos
direitos. A ultima secção, que comprehende os Melimas,
tem as unhas estendidas e rhombas, ao passo que a
outra secção, formada pelos Mustelinas e Lutrinas tem
as unhas curtas, pontagudas e retractis. A esta diffe-
rença na organisação dos pês corresponde a diversida-
de do modo de viver; certos membros desta familia,
como as lontras, passam grande parte de sua vida na
agua, nadando e mergulhando; outros vivem no chão,
cavando buracos e outros, finalmente, trepam nas ar-
vores com facilidade.
Uma singularidade destes animaes são as glandu-
las situadas ao lado do anus, que secretam um liquido
fétido, que em certos casos lhes serve de poderosa arma
de defeza.
na
A dentadura, muito caracteristica nesta familia,
soffreu certa reducção nos dentes molares, cujo numero
em cima varia de 3-5 e em baixo de 4-6.
Nas especies da America meridional encontra-se 1
só dente molar tubercular no maxillar superior e 1-2
no de baixo. O numero total dos dentes varia deste
modo de 34-38. O dente de maior valor para a classi-
ficação des membros desta familia é o dente carniceiro
superior. A sua forma é alongada, mais ou menos com-
primida, e na subfamilia Mustelina tem um tuberculo
pequeno ou talão no lado interno, perto da extremida-
de anterior deste dente.
Nos Lultrinas o dente carniceiro superior tem
grande desenvolvimento e o grande talão do lado inte-
rior estende-se desde a extremidade anterior até a pos-
terior. Nos Melinas o dente carniceiro superior é
menor, pois corresponde apenas 4 parte media do dente.
Differenças caracteristicas notam-se tambem com rela-
ção ao dente molar tubercular superior, situado atraz
do carniceiro, que & pequeno, oblongo-transverso nos
Mustelinas, maior nos Lutrinas e enorme nos Melinas,
onde seu comprimento excede ao do dente carniceiro.
Sublam. MUSTCLINAE
Os caracteres desta subfamilia, deduzidos particu-
larmente da dentadura e dos pés, se acham expostos
na introducção deste capitulo. As martas e outros ge-
neros desta subfamilia, que são bem representados no
velho mundo e muitos dos quaes, como a zibellina da
Russia, são grandemente estimados pelas excellentes
qualidades de suas pelles, tem poucos representantes na
America meridional. Da especie Putorius frenatus
Licht., que habita o Mexico e a America central, co-
nhece-se do Pará uma variedade, que Goeldi denomi-
nou paraensis. Temos em nossa collecçäo craneos pro-
venientes da Venezuela e que combinam com as figuras
de Goeldi. Uma outra especie sul-americana, de distri-.
buição limitada, é Lincodon patagonicus Gerv.
Especies geralmente conhecidas no Brazil e que
pertencem a esta subfamilia são a irára e o furão, cuja
descripção damos em seguida.
Gen. GRISON Oken
Grison Oken, Lehrbuch der Zool. II, 1816, p. XI
e 1000 (typo Viverra vittata Schreb. teste Allen Princ.
Exped. 1905, p. 147).
Gauictis Bell, Zool. Journal 1826, II, p, 592.
Furdo
Animaes esguios, que pelo talhe e pelo seu modo
de viver se assemelham 4 marta da Europa, da qual se
distinguem entretanto por terem pernas curtas e baixas.
O focinho é pouco erguido, a cabeça alargada para
atraz, as orelhas curtas e arredondadas, os pés têm 9
dedos reunidos por uma pequena membrana; na base
as unhas são fortes, altas, encurvadas e muito agu-
çadas. A planta dos pês é núa, com exclusão do cal-
canhar dos pés posteriores, de modo que estes animaes
são plantigrados. A cauda é curta, correspondendo o
seu comprimento a menos de metade do corpo, inclu-
sive cabeça.
O craneo, sensivelmente alongado, tem nes machos.
velhos uma crista sagittal. A dentadura é robusta e
particularmente os caninos, de forma conica, são fortes
e compridos. O numero dos dentes premolares é de
3 emcima e as vezes reduzido a só 2, pela perda do
primeiro delles, aliäs pequeno e situado immediata-
mente atraz do canino. O dente carniceiro superior
tem 3 pontas no lado de fóra e mais uma no meio do
lado interno, estreita e triangular. O unico dente molar
tubercular do queixo superior é de forma transversa,
muito mais largo do que comprido, alargado na parte
interna. Na mandibula inferior os 3 primeiros dentes
molares são pequenos, pontagudos ; segue-se atraz delles
o dente carniceiro, que tem 2 pontas fortes anteriores
e uma posterior menor. O ultimo dente é um dente
molar tubercular, bem pequeno.
A côr destes animaes é mais escura embaixo do
que emcima e caracteriza-os uma larga faixa branca ou
amarellada na frente, prolongada por cima dos olhos
sobre as orelhas até a nuca ou o pescoço.
— 244 —
Estes animaes vivem no matto, ou antes na capo-
eira, e caçam aves e pequenos maminiferos, aos quaes
chupam o sangue do pescoço.
Grison vittatus (Schreber)
Furão
El Huron minor F. de ; zara, Quadrup., I, 1802,
RSA
VIVERRA VITTATA J. von Schreber, Die Säugetiere
WI, Erlangen, 1775 p. 447, Tab. 124; J. F. Gmelin,
Syst. Nat. Lin. ed. XII, tom. I, 1788, p. 88;
GuLo vittatus À. Rengger, Nat. Säug. Paraguay,
Basel, 1830, p. 126 ;
GRISONIA VITTATA A. von Pelzeln, Bras. Säug. 1885,
p. 02; E. Goeldi, Mamm. Bras Rio de Janeiro, 1893,
p Tie E. Goeldi & G. Hagmann Bol. Mus. Goeldi,
vol. IV, n. 1, 1904, p. 60.
MUSTELA BRASILIENSIS A. d’Orbigny, Voy. Am.
Mamm. 1824—47. pag. 20, pl. XIII, fig. 3.
GALICTIS VITTATA Th. Bel!, Zool. Journ. Il, 1826,
p. on2;,2d.- Trans, Zool. Soc. London, Il, 48415.
203, Tab. 35, 36; J. 4. Wagner Säug. von. Schreber,
Suppl. 11, 1841, p. 215, Taf. 24; H. Burmeister, Saug.
Bras. 1, 1854, p. 109; ed. Descr. Phys. Are. MIE
1879, 158 ; R. Hensel, Beitr. Säug. Südbras. Berlin,
1872, p. 84; E. D. Cope The Am. Nat. 1889, vol.
XXI], n. 266, p. 140; A. Nehring, Sitzber. Ges. Nat.
Freund Berlin, 1885, p. 167; 1886, p. 43; 1901, p.
209; E. L. Trouessart, Cat. Mamm., I, 1898, p. 264,
esuppl. 1909, p. 193; H. von Ihering, Os Mamm. de
S. Paulo, 1894, p. 27; id. Os Mamm. do Rio Grande
do Sul, 1903. p. 26 (119); A. Winge, E Mus. Lundi,
IT, B, 1896. p. 40; F. Lahille. Act. 1, Congr. Cient. lat.
am. Buenos Aires, 1898, p. 16.
GRISON FURAX O. Zhomas, Ann. & Mag. Nat.
Hist. ser. 7, val. XX, 1907, p. 162.
Este animal, as vezes denominado «cachorrinho do
matto», tem pello cinzento-amarello emcima, pardo-es-
curo, Mais ou menos preto embaixo.
— 245 —
O frente e a cara são pretas. Emcima do olho
começa a faixa amarellada que se prolonga de cada lado
sobre as orelhas até a metade do pescoço. O pello do
lado dorsal tem a base amarellada seguida de uma
larga zona escura e com a ponta amarella. A cauda
é da côr do dorso, mas tem os cabellos mais compridos
Os pés são pretos.
O comprimento do corpo e cabeça importa em
520-549, o da cauda em 50-200, o do pê posterior
em 55-60 mm.
O comprimento do craneo desta especie varia nos
machos de 76-85 mm., nas femeas de 72-80; a linha
basilar de 70-82 nas machos e de 68-79 mm. nas fe-
meas e a largura zygomatica de 41-48,5 nos machos
e de 40-44 mm. nas femeas.
A fêmea ter; duas têtas de cada lado. O osso do
penis tem um comprimento de 39-46 mm. ; a parte me-
diana deste osso é triangular, encorpada para atraz,
ligeiramente curvada para baixo e a ponta, que é larga
e arredondada, tem em cima duas farpas erectas nos lados,
de modo que a sua forma tem sido comparada com a
de uma ponta de flecha.
O furão tem uma distribuição vasta, desde o Chile
e todo o territorio da Argentina até São Paulo, Minas, .
Bahia e Pará. O nome scientifico com que geralmente
se tem designado esta especie é Grison vittatus Schre-
ber; mas O. Thomas (I. c. 1907, p. 162) affirma que
a descripção de Schreber se refere a uma especie dif-
ferente, de Surinam, com denticulo accessorio no dente
carniceiro inferior. Talvez indagações futuras venham
a demonstrar serem pouco differentes as duas varieda-
des, e neste caso a especie do Brazil terá o nome de
Grison vittatus furax Thomas; se ao contrario Thomas
tem effectivamente razão, o nome de Schreber deverá
ser attribuido a G. allamand: ou outra especie alliada.
Por hora sóconhecemos duas especies de Grison e Thomas
não comprovou suficientemente a sua asserção. Segundo
Th. Bischoff (Koseritz, Deutscher Volkskalender, Jahr-
gang 1899, Porto Alegre, p. 121) no Rio Grande do
Sul o furão as vezes é tido como animal domestico
nos armazens, nos quaes serve de excellente caçador de
ratos.
ae
— 246 —
\
TABELLA DOS CRANEOS DE GRISON
VITATTUS Schreb.
LE
Compr. do |Serie dos mo-
focinho lares suprs.
Largura
N. dos craneos zygomatica
Linha basilar
Compr. total
1004 |
adulto | 85 78 48,5 24 18
1808 |
juvenil | 76 79 41 18 14,8
250 83 7h 48 (?)| — =| falta pm, 2
251 72 68 hO 18 17,6
1499
juvenil 80 72 44 18 17,6
Grison allamandi Bell.
GALICTIS ALLAMANDI Zh. Bell, Trans. Zool. Soc.
London, vol. II, 1841, pag. 204 Est. XXX VII ;
GALICTIS INTERMEDIA P. W. Lund, Medd. af. 1844.
unders. Knogle Huler Kjoebenhavn, 1845, p. 55; H.
Winge, E. Mus. Lundi, Il, 2, Kjoebenhavn 1896, p.
SS, pl VAN io Ds
GALICTIS CRASSIDENS A. Nehring, Sitzber. Ges.
Naturf. Freunde, Berlin, Nov. 1885, p. 168-175 ; zbedem
1886, p. 43-45 e p. 167-175 ; cbedem 1901, p. 209-216 ;
id. Zool. Jahrbuch, Bd. I, 1886, p. 177-212 ; id. Zo-
olog. Garten 1886, p. 274-279, e 1887, p. 252 ;
GaLICTIS CANASTER É. W. Nelson, Proc. Biol. Soc.
Washington, 190, vol. XIV, p. 129-130;
Em uma importante publicação feita em 1841 por
Th. Bell, fundamentou este auctor não só o genero Ga-
lictis, mas descreveu tambem uma especie nova, alliada
a G. vettatus, que elle denominou G. allamanda.
Esta especie, pelo tamanho, é intermediaria entre
Tayra barbara e Grison vittatus. Como animal raro
que é, foi mais tarde confundido com G. vittatus e
depois redescripto com nomes novos por Lund, Neh-
= Sy =
ring e Nelson. E' maior do que G. vittatus, e de
cor mais escura; assim no vertice e em todo o lado
suporior e na cauda é de côr cinzento-escura, às vezes
quasi preta; a frente é ornada de uma larga faixa
branca, que para atraz se prolonga sobre os lados do
pescoço. O ventre e todas as partes inferiores do corpo
são de côr pardo--scura ou preta. Um exemplar mas-
culino de Santa Catharina, descripto por Nehring, tem
675 mm. de comprimento de cabeça e corpo, a cauda
méde 175 mm. e o pé posterior 85 mm. O craneo
tem um comprimento total de 89,5-97 mm., sendo a
linha basilar de 82-83 mm. Por ahi se vê que tanto
pelas dimensões do corpo como do craneo G. allamandi
é uma especie maior, embora alliada a G. viltatus.
Exteriormente as duas especies distinguem-se pela faixa
da frente, que é branca em G. allamandi, amarellada
em G. vittatus. Nesta ultima especie o lado inferior,
que é quasi preto, destaca-se perfeitamente da parte
superior, salpicada de amarello. Uma differença nota-
vel observa-se no dente carniceiro do queixo inferior
que na margem interna tem no meio uma ponta bem
destacada, do mesmo modo como na irára, ponta esta
que falta a G. vttalus.
A distribuição geographica desta especie extende-se
desde Santa Catharina até as Guyanas, Venezuela e a
America central. Pode ser que os exemplares da parte
septentrional da America meridional sejam mais escuros
do que os do Brazil, e neste caso a variedade brazileira
poderá ser denominada G. allamand: intermedia Lund.
E” singular que no Brazil esta especie até agora foi
encontrada só em Santa Catharina e Minas Geraes; o
naturalista-viajante deste Museu, sr. E. Garbe caçou-a
até agora só uma vez, no mesmo Estado de Santa Ca-
tharina. E’ de suppor que esta especie seja encontrada
ainda no Oeste do Estado de São Paulo, na fronteira
com Minas Geraes.
Pouco se sabe sobre a vida desta especie, que se-
gundo o sr. Garbe é animal das mattas. Nehring diz
que provavelmente G. allamandi, «o grande grisão»
como elle o denomina, vive mais ou menos escondido
na vizinhança dos rios, onde provavelmente se nutre
de peixes. Como se vê, a este respeito as informações
— 248 —
ainda são muito deficientes e é de esperar que em
breve as tenhamos melhores e mais minuciosas.
Gen. TAYRA Oken
? GALERA P. Browne, Nat. Hist. Jam. 2e d. 1789,
peso:
Tayra Oken, Lehrbuch d. Zool. II. 1816, p. 1001
(typo Mustela barbara L).
Este genero é muito alliado ao precedente, com o
qual alias foi confundido até que Brown, Bell e Gray
o separaram. Deste genero se conhece só uma especie,
que é maior do que as do genero Grison e distinguida
pela cauda mais longa, quasi do comprimento do corpo
sem a cabeça, e pela falta de faixa brancacenta da frente
e dos lados da cabeça e do pescoço. Como o genero
precedente, tambem este na sua distribuição geographica
ficou limitado à America meridional e central.
Tayra barbara (L.)
Irdra, Papa-mél
El Huron mayor, F. de Azara, Quadrup. J, 1802
ME bi
i MusTELA BARBARA Linné, S yst. Nat. ed. XII, 1766,
p. 67; J. von Schieber, Die Säugetiere, IV Erl. 1778,
p. 498 e Suppl. Il, p. 214, T. 143, B (Gulo canescens
Licht); Prinz’ Weed, Beitr, IL. 1826, po 310.
GuLo BAkBaRUS J. R. Rengger, Nat. Säug. Pa-
raguay, Basel, 1830, p, 119;
GALICTIS BARBARA Wagner, Säug. vonSchreb. Suppl.
L14841, po 24, fat) 143 BE Burmester, (Sale
Bras. 1, 1894 p. 108, cd Descer. Phys. Arg. 11, 187
p. 157; A. von Pelzeln, Bras. Sávg. 1883, p. 023, hi
Hensel, Beitr. Sauget. Siidbras. Berlin. 1872, p. 82;
E. Goeldi Brazil, Mamm. Rio de Janeiro 1893, p. 72 e
Bol. Mus. Par. vol. IV, 1904, p. 61; 2. von Thering,
Os memm. de São Paulo 1874, p. 27 e os Mamm. do
Rio Grande do Sul, 1903, p. 25 (118).
GALICTIS BARBARA Hf. Winge, E Mus. Lundi, JJ,
B; 1896, p. 37; FF. Lahale, Act. L Congr) cient. lat,
— 949 — .
am. Buenos Aires, 1898, p. 16; Æ. L. Trouessart,
Cat. mamm. I, 1898, p. 265;
GALERA BARBARA É. D. Cope, The Am. Nat. 1889.
XXII, p. 141; Æ. L. Trouessart, Cat. Mamm. Suppl.
1904, pvt gS;;
? Ursus BRASILIENSIS Thunberg. Segundo O. Tho-
mas (Ann. Mag. Nat. Hist. 7 ser. vol. XX, 1907, p.
162) pertence a esta especie o Ursus brasiliensis Thun-
berg, que por outros auctores foi incluido na synonymia
de Grison vittatus.
Fig. 9. Irára ou Papa-mel — Tayra barbara (L.)
A cor predominante do animal é pardacenta ou
pardo-preta, mas a cabeça e o pescoço são mais ou
menos cinzentos. O focinho é mais escuro do que o
resto da cabeça, onde os cabellos são pardacentos com
a base ruiva e a ponta brancacenta ou amarellada. As
orelhas têm a côr da cabeça no lado posterior, ao
passo que no lado anterior e exterior são densamente
cobertas de cabellos brancos. Atraz do pescoço tornam-se
successivamente mais raras as pontas brancas ou par-
dacentas, predominando a côr escura mais ou menos
preta no dorso posterior, na cauda e nas extremidades,
na barriga e no peito. O pescoço embaixo é cinzento-
pardo, com pontas brancacentas, e com uma larga mancha
amarella no meio. O comprimento do corpo, inclusive a
Pl: À
tO)
cabeça, importa em 55-06 cm., o da cauda em 44-46 cm.
e o do pé posterior em 3-9 em. O comprimento total
do craneo é de 117-123 mm. nos machos, de 106-108
mm. nas femeas; a linha basilar mede 103-112 mm. nos
machos e 97-99 101 nas femeas; a largura sygomatica
é de 73-79mm. nos machos e de 61-64 mm. nas femeas.
A serie dos dentes molaros superiores, quando com-
pletamente desenvolvida, tem uma extensão de 21-25mm.
e o comprimento do focinho é de 28-35 mm.
O osso do penis já foi figurado (Taf. Il, fig. 2-21)
por Wied. O seu comprimento é de 78-81 mm.; o corpo
do osso é comprimido e elevado em cima em forma de
quilha e termina adiante em uma parte alargada, de
forma oval, cuja superficie superior tem o centro exca-
vado e as partes lateraes engrossadas em forma de
ferradura. À femêa tem 2 têtas de cada lado.
A irára tem uma vasta distribuição na America.
Central e Meridional, desde o Mexico até o Norte da
Republica Argentina. Vive nas mattas onde procura
seus esconderijos em arvores ôcas. Emprehende as suas
caçadas de preferencia à noute; trepa com facilidade
em arvores, onde procura ninhos de aves. Gosta extra-
ordinariamente da carne da cutia e re outros roedores
e os caçadores afirmam que mesmo o veado às vezes
não lhe escapa; gosta tambem de mel das abelhas, o
que lhe valeu o nome vulgar de «papa-mel», egual si-
gnificação tem a palavra guarany «irara», isto é era:
mel e vara: dono, comedor. Frequentemente se encon-
tram arvores com os signaes das unhas e dos dentes
da irära que ahi procurou mel.
As vezes a irára entra nos gallinheiros, onde causa
grandes estragos, à maneira da marta da Europa, cor-
tando as cabeças das gallinhas com os dentes, para
chupar-lhes o sangue. Perseguida pelos cães, a irára
costuma subir em arvores, onde o caçador a atira com
facilidade.
O numero dos filhotes é de 3a 4. O sr. E. Garbe
observou uma irára que, por qualquer motivo, estava
abandonando o seu esconderijo e então viu como ella
carregava na bocca, um depois do outro, os filhotes re-
cemnascidos. Entre os mesmos havia um de côr branco-
amarellada, que o sr. Garbe conseguiu obter e criar,
LE |
— 951 —
Ha pessoas que julgam que os cinzento-amarellos,
cuja côr nas extremidades da cauda é pardacenta, se-
jam especificamente diversos. Isto porêm é um enga-
no, visto que se trata apenas de variedades de colorido.
Por causa de seu modo de viver, raras vezes se
caça a irára, e a maior parte dos exemplares de nossa
collecção foi obtida de noute, em armadilhas.
TABELLA DAS MEDIDAS DOS CRANEOS DE Tayra
barbara L.
aa eee
E E £ a
© = 2
e É E a
= = © e ©
NUMERO DO CRANEO a = » E Aa
a 3 x q n E
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© a a © BR
© 5 mM Õ (05)
Segundo — 411 | 794 | — —
Hensel
2728 JA ae | 6,5 35 25
Minas
1087 419 | 106 73 94 24
Rio Gr. do Sul
444
Rio Gr. do Sul
488 495 | 442 78 | 35,5 | 25,9
Bauru
14692 106 | 104 | 63 [34,5 | 94
Itararé
926 108,5 99 64 | 29,5 | 24,5
Juruá
2726 407 00,5 61 28 | 25,8
Minas
Subfam. MELINAE
Os animaes desta subfamilia, cujo typo mais conhe-
cido é oteixugo da Europa, distinguem-se dos Lutrinas
ue tem o dente molar com eguaes dimensões, pela au- /-
/
— 952 —
sencia da membrana natatoria entre os dedos dos pés e
differem dos Mustelenas pelo tamanho consideravel do
dente molar tubercular do queixo superior. As di-
mensões destes animaes são mais ou menos as do gato,
mas sua fignra é menos esbelta, as pernas são curtas
e as unhas fortes são sobretudo muito compridas nos
pês anteriores, visto como devem servir para cavar bu-
raccs no chão. São pouco ligeiros nos seus movimentos
e não trepam em arvores. Os pés, providos de 5 dedos,
tem as plantas pela metade núas, mas sua marcha é
digitigrada ou semiplantigrada. A fêmea tem 3 tétas
de cada lado. Não precisam de grande agilidade, pois uão
temem os aggressores, contra os quaes esguicham a secre-
ção fétida de duas glandulas situadas ao lado do anus.
No craneo o palatino é pouco prolongado para
atraz do dente molar superior; este é de forma qua-
drangular ou tranverso-oblonga e distingue-se pelo
enorme desenvolvimento do talão ou tuberculo interno.
Em geral estes animaes têm o pello comprido, escuro
e ornado de uma faixa brancacenta de cada lado do
dorso. Na America meridional encontra-se só o genero
Conepatus, que tem o focinho nú, ao passo que os re
presentantes da America do Norte em geral o tem co-
berto de pellos.
Gen. GONEPATUS Gray
Congparus Gray, Ann. & Mag. Nat. Hist. 1837,
I, p. 081; Trouessart, Cat. Mamm. J, p. 260.
Mepmrris & MUsTELA, pt. Auct.
Marputius Gray, 1. s. cit
As duas especies do Brazil meridional, de que em
seguida nos occuparemos, säo representantes de dous
subgeneros differentes, Conepatus, s. str. e Marputius
Gray, differentes um pouco no desenho e tambem na
configuração do craneo. C. suffocans pertence ás formas
typicas do genero Conepatus; C. chilensis ao subge-
nero Marputius. Existe actvalmente a tendencia de criar
especies novas para cada variedade de côr e desenho,
mas as observações aqui expostas sobre a variabilidade
individual dos zorrilhos de São Lourenço, Est. do Rio
Grande do Sul mostram que taes emprehendimentos
são destituidos de base scientifica.
— 953 —
Conepatus suffocans Til.
Zorilho Jaritataca
EL JaguarÉ Azara, Quadrup. I, 1802, p. 187;
GuLLC surrocans Jlliger, Verhandl. Ak. Berlin,
TS LI po Wee neo
MEPmTIS HUMBOLDTI Gray, Ann. & Mag. Nat.
Hist., 189,20 po 991;
MEPHATIS PATAGONICA Lichtenstein, Abhandl. Ak.
Berlin, 1848, pag. 279, pl;
MEPHITIS FEUILLEI Gervais, Voy. «Bonite», Mamm,,
1340 plo WL te. deo.
MEPHITIS CASTANEA Gervais, em d'Orb., Voy. Am.
Mer., Mamm. 1850, p. 19, pl. XI;
Mepuitis surrocans Lichtenstein, Abhandl. Ak.
Berl., 1838, pag. 274, e Darstell. N. Saeuget. Berlin,
1827, Taf. 48, fig. 1; Wagner, Saeuget. von Schreber,
Suppl. 11, 1841, pag. 193; Burmeister, Syst. Ueber-
sicht Saeug. Bras. 1, 1854, p 111; id. Descer. Phys.
Arg. 1879, p. 163; H. von Ihering, Os Mamm. do
Rio Grande ido oul, 1903; p. 119 (26);
Taiosmus suFFocaNs Hensel, Beitr. Saeug. Sued-
bras., Berlin, 1872, p. 36;
Tatosmus PATAGONICUS Wenge, E Mus. Lundi, II,
BSD. D. als
CONEPATUS HUMBOLDTI Milne Edwards, Miss. “e.
Cans Horn, tom. Vi, Zool; Paris, 1891, p.6, pie Nil:
ConEPATUS HUMBOLDT! Allen, Rep. Princ. Exped.,
vol. III, Zool., part I, 1905, p. 144, pl. XXII (craneds) ;
E' animal de pello bastante comprido, particular-
mente na cauda, que é relativamente curta. O com-
primento total dos nossos exemplares importa em 57-65
cm., dos quaes 12-15 cm. correspondem à cauda, com
excepção dos cabellos terminaes, cujo comprimento é
de 6 a 9 em. O pell é denso e particularmente a la-
nugem é bem desenvolvida. A côr é pardo-escura, às
vezes quasi preta, às vezes ruivo-parda, mas sempre
sem brilho. Sobre o vertice passa uma estreita faixa
branca, transversal, mais ou menos angular, que para
atraz se prolonga sobre o lombo, mas raras vezes se
estende até junto a cauda, Esta faixa branca tem 5-10mm,
— 254 —
de largura e entre as duas faixas ha um intervallo de
5 a o mm. Em exemplares novos as linhas brancas
são mais compridas, estendendo-se até a base da cauda.
O lado inferior do animal é às vezes um pouco mais
claro do que o resto do corpo, mas os pês são de côr
mais escura. E” muito variavel a côr dos longos ca-
bellos da cauda. De nossos exemplares de São Lou-
renço, Estado do Rio Grande do Sul, o n. 228, cuja côr
geral é ruiva, tem a cauda uniformemente parda. O n.
346, de côr pardo-escura, tem a cauda uniforme tam-
bem, mas entre os cabellos compridos ha um pequeno
numero de cabellos brancos, que desde a base até a
ponta, na extensão de mais de 10 cm., são desta côr;
na cauda estes cabellos brancos estão irregularmente
distribuidos. No n. 345 a parte basal da cauda, que é
toda escura, ha na base abundante mistura com cabel-
los brancos na metade terminal. O n. 227 tem a base
da cauda com poucos, a metade terminal com muitos
cabellos brancos. As unhas são brancacentas e parti-
cularmente as do pé anterior são compridas.
E”, pois, extremamente variavel a côr do animal e
a distribuição dos cabellos brancos da cauda, e por
este motivo não pode ser approvado o procedimento
de O. Thomas, que propoz a nome de C. proteus para
certos representantes argentinos desta especie.
O craneo distingue-se pela constricção atraz da
orbita, medindo o craneo nesta parte 15-19mm. O com-
primento dos nossos craneos do Rio Grande do Sul
varia entre 70-80mm. ou de 58-66mm. para a linha
basilar. O craneo do macho tem uma crista que co-
meça mais ou menos na região da constricção. Par
ticularmente notavel nestes craneos é a frente abo-
badada.
No craneo da femea as linhas temporaes distam
6-7mm. entre si. O palatino prolonga-se atraz do ul-
timo molar. Com relação às demais medidas compare
se a seguinte :
— 255 —
T'ABELLA DAS MEDIDAS DE Conepatus suffocans e chilensis
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[o]
C. suffocans
De ME 80 66,5 | 46 1891827 ANA ITS
S. Lourenço
C. suffocars
229 © ANS SAM ADN AO) a Te 0
S. Lourenço
C. 8. humboldti
2513 74 59,5 | 47 47 23 16-0117
Pará
C. s. humboldti
2: 1088 9 (?) | 64 | 55 | 375/465! 90 | 45,517
Santa Cruz
C. s. humboldti
957 & (?) 64,5| 53 | 425/48 | 94 | 16 |7
Patagonia
C. chilensis
4009 & juv. 70 58 5 | 98,5
Franca
C. chilensis
1010 df 76 65 Ah,
Franca
C. chilensis
2649 & 90 76,5 | 58
Bahia
We
CA
h9
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(O74
pass
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7
CO
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(ex |
ho
[eb
—
=]
QI
>=
ho
LO
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t9
298] 49,5|7,8
+* Semi-adulto.
E” geralmente conhecido o costume deste animal
de esguichar elle contra o homem ou seus inimigos que
o ageridem, um liquido extremamente fétido. Como Aplino
explicou, o animal só pode defender-se deste modo quando
lhe & possivel levantar a cauda. No Estado Oriental este
viajante observou peões agurrarem um zorilho pela cauda,
girarem-no pelo ar e finalmente matal-o atirando-o ao
chão ou contra qualquer objecto duro.
O zorilho é animal dos campos. Durante o dia cos-
tuma esconder-se em galerias subterraneas, indo à noute
— 256 —
caçar pequenos mammiferos e aves. Seus movimentos
são lentos e, vendo approximar-se alguma pessoa, elle lhe
vira a parte posterior do corpo, afim de attingil-a com
sua secreção fétida, que o animal faz esguichar logo
que julga poder alcançar o inimigo.
A primeira descripção deste animal deu-nos Azara,
que o denominou «jaguaré» e que disse viver na Re-
publica Argentina; Rengger não a observou no Para-
guay.
No Brazil habita tão sômente o extremo Sul, e to-
das as vezes que os auctores se referem a «6. suffocans»
como occorrente em outros pontos do paiz, é questão
da especie de que trataremos em seguida e que de facto
se lhe assemelha, differindo entretanto por varios cara-
cteres.
Conepatus chilensis Desm.
MepHITIS CHILENSIS Desmarest, Nouv. Dict. Hist.
Nat., vol. XXI, 1818, p. 515; Lechtenstein, Abhandl.
Ak. Berlin, 1838, p. 272; A. von Ihering, Os Mamm.
do Rio Grande do Sul, 1903, p. 119 (26);
Mepuitis AMAZONICA Lichtenstein, Abhandl. Ak.
Berlin, 1838, p. 275; Wagner, Saeuget. von Schreber,
Suppl. IJ, 1841, p. 194;
Mepuitis FURCATA Wagner, Saeuget, von Schreber,
Suppl | py 1640 p. 192;
MEPHITIS WESTERMANNI Reinhardt, Vid. Selsk.
Horh., 1890 pi 7200;
CONEPATUS NASUTUS va”. CHILENSIS Gray, Zool. Soc.
London, 1365, p. 146; ed. Cat. Carn. Mamm, Brit. Mus.
London, 1869, p. 139;
Taiosmus Curtensis Hensel, Beitr. Saeug. Suedbras.,
Berlin, 1872, p. 85;
Taiosmus surrocans Wenge, E Mus. Lundi, II, 2.
Haelfte, 1896, p. 41, pl. VIH, fig. 3-7; |
Esta especie é um pouco maior do que a prece-
dente, tendo a cauda mais comprida, o pello menos
denso e mais curto, a côr predominante preta, um
pouco lustrosa. A faixa branca do vertice é muito larga
e prolonga se até a cauda que, com excepção d'uma
parte da base. é branca. As faixas brancas do dorso
tem a largura de 4-5ctm., de modo que a estria preta
— 257 —
no meio do dorso é muito mais estreita do que as es-
trias brancas. Estas approximam-se posteriormente e
tornam se mais estreitas ou às vezes interrompidas. A
base da cauda é preta, mas toda a parte media e ter-
minal é de côr uniforme branca. As unhas são bran-
cacentas. O lado inferior é preto pardo. Os nossos
exemplares de Franca são menores do que o grande
macho n. 2649 da Bahia, cuja cauda é muito comprida.
As medidas deste animal da Bahia, são 45 ctm. para
o corpo com a cabeça e mais 30 ctm. para a cauda. A
cabeça é de cor mais clara, pardo-cinzenta e no lado
posterior da orelha observam-se cabellos brancos. Embora
disponha de um só exemplar, não duvido que o mesmo
represente uma subspecie differente da de S. Paulo e
assim proponho para a mesma o nome de U. CH. BAHIENSIS,
n. subsp.
E
NA ae |
DD
i)
E = +
—
LÉ
=— ate NE == a amo
A CASES BE er
Fig. 10. Zorilho — Conepatus chilensis Desm.
O craneo desta especie é pouco constringido na
parte posterior da orbita, o que lhe d& um aspecto bas-
tante differente da especie precedente. Observando-se
o craneo de cima, o palatino estende-se um pouco mais
para atraz do que no craneo do 6. sujfocans. Em frente
à orbita ha sempre dous foramens infraorbitaes, 20 passo
que em C. suffocans estas duas aberturas em geral se
confundem em uma só. Segundo Hensel a linha basilar
desta especie é de apenas 63-7 mm. no sexo masculino, ao
passo que a mesma sóbe a 76 mm. em nosso exemplar
da Bahia.
Esta especie não differe da precedente no seu modo
de viver. A sua distribuição geographica estende-se
por todo o Brazil interior, desde o Planalto do Sul, até
o Amazonas. Hensel observou este zorilho na região
de serra acima no Estado do Rio Grande do Sul em-
quanto que na Campanha do mesmo Estado tanto este au-
ctor como eu encontramos C. suffocans. No Estado des.
Paulo esta especie occorre sómente na região de Franca.
Winge a obteve no Estado de Minas Geraes confundindo-a
porém com €. suffocans. O nosso exemplar do Sul do
Estado do Pará é de côr parda e tem as largas estrias
brancas interrompidas no lombo.
A cara é parda nos lados, pardo-cinzenta no meio.
Os iongos cabellos da cauda medem neste exemplar e no
da Bahia 8-9 ctm. de cumprimento, ao passo que os de
Franca no Estado de S. Paulo, tem pelo mesnos 11-13
ctm. de comprimento. T'ata-se pois de duas subspecies
differentes, uma do Brazil meridional, desde o Rio Grande
do Sul até Minas, com cabeça escura e cauda de ca-
bellos quasi erectos e compridos, e outra do Norte do
Brazil, cuja cauda é mais comprida, mas coberta de
cabellos mais curtos e lisos e que tem a cabeça mais clara,
mais ou menes cinzenta. Provisoriamente conservo para
a forma do Brazil meridional o nome de O. chilensis
Desm. e paraºa do Brazil septentrional o de C. chilensis
amazonicus. Licht.
Cubtam, LUTRINAE
À subfamilia dos ZLulrinæ comprehende as lontras
e ariranhas, animaes aquaticos, que vivem em rios e
lagõas e que se nutrem de peixes e às vezes de pequenos
mammiferos, ris e caranguejos. O corpo destes ani-
maes é comprido e supportado por extremidades curtas
que se distinguem pelo desenvolvimento de uma membrana
interdigital que lhes facilita a natação. Os pés, que têm
o dedos, são plantigrados e munidos de fortes garras
não muito agudas. A cabeça é achatada e larga e os
olhos, que são muito pequenos, ficam situados bem para
diante. A parte nia do nariz é minima e ás vezes
todo o focinho inclusive o nariz, está coberto de
pello; é o que constitue uma differença caracteristica
entre a lontra e a ariranha. As orelhas são curtas,
redondas e pouco apparentes, A cauda é comprida
— 259 —
larga, acuminada ao fim e as vezes achatada. O pello
que reveste o corpo é curto, molle e denso e bastante
liso e lustroso. No verão este pello é menos denso do
que no inverno, estação em que particularmente a la-
nugem se desenvolve fortemente. Ha porém neste sen-
tido uma notavel differença entre os individuos do Sul
do Brazil e os da região tropical, sendo que nesta zona o
pello é muito menos denso. O craneo é bastante de-
primido, particularmente na parte posterior, e nc sexo
masculino elle possue uma crista sagittal. As bullas
tympanicas são chatas, pouco desenvolvidas. Os dentes
caninos são conicos e compridos. Ha emcima e emb ixo
5 dentes molares, dos quaes segundo Burmeister os 3
primeiros são premolares. O primeiro entre os molares
superiores é bem pequeno e fica situado ao lado interno
do canino. Este pequeno dente as vezes se perde e
então ha apparentemente sô 4 molares. O dente car-
niceiro superior tem 5 pontas cortantes e no lado in-
terior um largo talão, cuja base occupa quasi todo o
comprimento do dente. O dente molar que segue atraz
do dente carniceiro é forte e grande, mais largo do
que comprido.
Por varios caracteres estes mammiferos demonstram
a sua perfeita adaptação 4 vida aquatica: as membranas
natatorias entre os dedos, e a cauda larga e comprida
facilitam a natação; alem disto umas dobras especiaes
da pelle fecham as orelhas e as ventas quando o animal
mergulha.
Gen. LUTRA Zxleben
Os membros deste genero, do qual faz parte a co-
nhecida lontra do Brazil, distinguem-se por terem nariz
nu, e por ser a cauda um pouco mais larga do que
alta e achatada perto da ponta. No craneo a orbita é
bem desenvolvida, os processos postorbitaes são fortes.
O genero Lutra habita quasi todas as regiões do
globo, havendo varias especies na America, e uma destas
L. felina Mol. do Chili, é bem alliada à lontra do Brazil.
— 960 —
Lutra paranensis eng.
Lontra
Lutre F. de Azara, Essais, I, p. 848;
Lurra PLATENSIS Waterhouse, Zool. of the Beagle
1839.Mamm.:p. 21; tabaco; fig» 4a-dis Js A. Wagner,
Saug. von Schreb. Suppl. II, 1841, p. 262; R. Hensel,
Beitr: Säugt. Südbras. Berlin, 1872, p. 87; E. D. Cope
The Am. Nat: 1889, voli) X XIU) pute Bs iGoelas
Mamm. Bras., Rio de Janeiro 1893, p. 72.
yes SOLITARIA (Natt.) JA. Wagner, Arch. f,
Nat. 1842, I, p. 308; 4. von Pelzein, Bras. Sauget.
1883, p. Bay)
LUTRA MACRODUS J. F. Gray, Proc. Zool. Soc.
London, 1865, p. 128;
Lurra LATIFRONS A. Nehring, Sitzber. Ges. Nat.
Hreunde Berlin, Al Sei, p. 28:
LUTRA PARANENSIS J. À. Rengger, Nat. As
Paraguay, Basel, 1830, p. 128; J. 4. Wagner, Säuget.
von Sobreber, Suppl. IT: 1811, pa 20 su. Bex no
Descr. Phys. Arg. III, 18 LOGI: An Nehr ing, © Sitzber.
Ges. Nat. Fruende Berlin, “ARNG, p: 146; A. Winge,
E Museu Lundi, II, B, 1896, p. 42; H, “on Lhering,
Os Mamm. de &. Paulo, 1894, p. 28; ed. Os Mamm.
do Rio Grande do Sul, 1903, p. 36 (119).
A Jontra do Brazil e da Argentina assemelha-se à
especie europea tanto pelo aspecto, como pelas dimen-
sões. O comprimento total varia de 100-120 cm. Em
nosso exemplar que tem este ultimo comprimento, a
cauda mede 52 ctm. À cauda é pouco achatada, quasi
cylindrica, mas tem de cada lado uma faixa de cabellos
arrepiados, que lhe dão o aspecto como si fosse achata-
da. Particularmente no inverno o pello é denso, mas
não muito comprido; consiste em grannos e lanugem
fina, mas curta. À côr predominante do lado superior
é pardo-cinzenta e a mesma côr se nota na cauda e
nas pernas. À barriga, o peito inclusive o pescoço in-.
ferior, as bochechas o focinho e a garganta são de
cor muito mais clara, cinzenlo-amarell: ada. No focinho
ha uma larga zona núa, que se estende de uma venta
à outra.
— 961 —
O craneo tem o comprimento do 108-121 mm. é
a sua linha basilar varia de 88-95 mm. no craneo fe-
minino, e de 97-104 no dos machos. Em exemplares
adultos observa-se uma pequena crista sagittal pouco
elevada. Os processos postorbitaes são compridos. No
craneo masculino n. 1046, cujo comprimento total é
de 121,5 mm., a linha basilar mede 104 mm., a lar-
gura orbitral 39 mm., a postorbital 19 mm., e o com-
primento do focinho é de 29 mm. O comprimento do
dente carniceiro superior é de 13 mm. neste craneo.
Quanto às variações das medidas do craneo compare-
sea subsequente tabella de medidas.
A fêmea tem 2 pares de têtas no ventre. O macho
tem um osso peniano muito forte e cuja ponta é cur-
vada para cima. O maior destes ossiculos da nossa col-
lecçäo méde 82 mm., com 9 mm. de grossura. A ponta
é comprimida, arredondada e curvada para cima, haven-
do embaixo um profundo sulco; comtudo não tenho
certeza si este osso provem desta especie ou da seguin-
te. En ossos de 57 mm. de comprimento a ponta é
alargada, um pouco deprimida, com 2 tuberculos de
cada lado.
Fig. 11. Lontra. Lutra paranensis Rengg.
A lontra aqui descripta tem uma vasta distribuição
no Brazil meridional, na Argentina, e no Paraguay.
Sobre o seu modo de viver nos informaram Azara,
Rengger e Hensel. E” animal que passa grande parte
de sua. vida na agua, indo à terra para comer e dor-
mir. Nutre-se de peixes e não raras vezes surge na
tona d'agua a cabeça de uma lontra nadando com um peixe
na bocca. A época do cio é segundo Rengger, nos me-
= ORO RE
zes de Julho e Agosto. Neste tempo o casal procura uma
toca que os dous escavam n'um barranco do rio, onde
vousam, e onde a femea na primavera pare 2 a 3 filho-
tes, que os paes criam e nutrem com peixes. Quando
reunidos em maior numero às vezes brigam e então
ouve-se a sua voz a grande distancia, gritaria compa-
ravel à dos gatos, quando estão bravos e brigam, porém
mais forte. O seu pello é apreciado e prepara-se ar-
rancando os grannos, isto é opello comprido. O animal
entretanto já é raro, de modo que os seus couros não
formam objecto de commercio regular.
Gen, PTERONURA Gray
Este genero foi erigido para uma unica especie,
a ariranha do Brazil. Os caracteres principaes deste
genero são o revestimento do pello do nariz e a cauda
achatada e munida de cada lado de uma crista, sendo
deste modo comparavel a uma espada de dous gumes. O
craneo é notavel pela reducção dos processos que limi-
tam a orbita posteriormente, de modo que a frente é
a estreita e quasi desprovida de processos postor-
itaes.
Pteronura brasiliensis Zmmn.
Ariranha
LUTRA BRASILIENSIS Zimmermann, Geogr. Gesch.
Il, 1780, p. 316; A A. Wagner, Saeuget. von Schreber,
Suppl. Il, 1841, :p./ 265; Prinz (Weed, Beitr. AL 1826
p. 320; H. Burmeister, Saeuget. Bras, 1, 1879, p. 113;
R. Hensel, Beitr. Saeug. Suedbras., Berlin, 1872. p. 90;
A. von Pelzeln Bras. Saeug., 1883, p. 53; (Pteronura)
A. Nehring, Sitzber., Ges. Nat. Freunde, Berlin, 1887,
p. 24; EH won Megs Os Mamm. de S, Paulo, 1894,
p. 28; id. Os Mamm. do Rio Grande do Sul, 1903,
p. OT (120); E. Goeldi, Mamm. Bras., Rio de Janeiro,
1893, p. 71 e E. A. Goeldi e Hagmann, Bol. Mus. Par.,
vol. IV, 1:04, p. 63; H. Winge, E Mus. Lundi, IL,
B, 1896, p. 42;
+
»
— 263 —
PTERONURA SANDBACHIL Gray, Laadon’s Mag. Nat.
Hist... 1, Weer ps. 080; e cdi "Anns and Mag. Nat.
Hist., Il, 1839) p. 285, Taf. 14; zbcd. Proc. Zool. Soc.,
1869, pi Jal 108. op. 66" Tat. VIT:
Lutra (PTERONURA) PARANENSIS A. Nehring, Sitz-
ber. Ges. Nat. Freunde, Berlin, 1900, p. 225 (nec
Rengger);
A ariranha é um animal muito mais comprido e
forte do que a lontra. Hensel descreve uma femea de
1,645 mm. de comprimento, observando ainda que ha
individuos muito maiores. Isto posso confirmar, pois vi
uma serie de couros provenientes do Rio Araguaya, em
que os exemplares grandes excediam a dous metros de
comprimento. O sr. Garbe viu no Estado do Amazonas
um couro de 2,40 metros de comprimento, de 90 ctm.
de largura e cuja cauda media mais ou menos 1 me-
tro de comprimento ; infelizmente não conseguiu ainda
couros bem preparados, mas apenas alguns craneos. As
differenças mais notaveis entre a ariranha e a lontra
consistem em ser o focinho inteiramente coberto de
pello, ao passo que a zona do nariz é nua na lontra.
Além disto a cauda da ariranha é achatada, ao passo
que a mesma é cylindrica na lontra, tendo só a ponta .
deprimida. A côr do lado dorsal não é muito differen-
te nos dous animaes, talvez um pouco mais escura na ari-
ranha; mas a barrigae o peito, que são da mesma côr
pardacenta na ariranha, são mais claros na lontra. A
garganta e o pescoço inferior são pardacentos, mas
providos de manchas brancacentas de tamanhe vario e
as vezes de cor amarellada. Tambem na lontra notam-
se algumas differenças de côr na garganta e no pesco-
ço, mas a diferença entre as duas côres é pouco pro-
nunciada. |
Si pelo aspecto exterior as vezes pode ser difficil
distinguir as duas especies, o mesmo não se dá quando
se tem os craneos à disposição. O da ariranha é muito
maior do que o da lontra e o comprimento da linha
basilar é, segundo Hensel, de 139 mm. As medidas dos
nossos dous craneos são explicadas pela seguinte tabella:
rag a,
TABELLA DAS MEDIDAS DOS CRANEOS DE L. paranensis
E DE Pleronura brasiliensis
| 3) s el! a] eee eae
ESFECIE E NUMERO | [55 5” ES | à à ES | BS 8 [Es
EAN ON Boeri oe ATEN ON À NES
ÉÉRÉSÉRÉÉMEN
1080 @ . .166126,5/18 |555|24,5| 108 | 92,512
4558 of. «67/38 /18,]55 |24/|,109 95018
Lontra
x j12*
1046 of . Heide 19 [55 [29 | 1215] 104)
9393. .. .196/19 115 | 74º |30 | 150 [189/79
M Le S .|95| 235/165) 75 |33 | 155 | 141 (17:
(18%
* à direita; ** 4 esquda:
O que alem do tamanho differenc'a a lontra da
ariranha é a circumstancia que ne craneo daquella o
processo postorbital do osso frontal é forte e comprido,
de modo que a orbita fica em grande parte fechada, ao
passo que se dá o contrario no craneo da ariranha,
cuja orbita é muito mais aberta, por causa das diminu
tas proporções do referido processo postorbital.
A distribuição geographica da ariranha só em
parte coincide com a da lontra, isto é com referencia
ao Brazil meridional e regiões visinhas. Tanto Hensel
como eu obtivemos a ariranha do Rio Grande do Sul, Neh-
ring do Paraguay ; no norte da Argentina elle occorre
segundo Lahille No Norte do Brazil e em toda a
região do Rio Amazonas e de seus affluentes, bem como
nas Guyanas é só a ariranha que se encontra. O snr.
Garbe me informa que os couros da ariranha e da
lontra são bons, isto é providos de grannos erectos e
de densa pennugem nos mezes de inverno, ao passo que
são simples, de pello curto e pouco denso nos mezes
de verão. E” por esta razão que de preferencia se caçam
no inverno não só as lontras mas tambem quaesquer
outros animaes cujos couros são apreciados.
— 265 —
As melhores informações que possuimos sobre a
vida da ariranha devemos ao principe Wied. Elle nos
informa que as ariranhas vivem aos bandos e que de
longe se fazem presentir pelo seu barulho, soprando e
gritando a modo dos gatos bravos. Nadam excellente-
mente e as vezes levantam a cabeça com um peixe na
bocca, como para mostral-o. A sua preza entretanto
não a comem na agua, mas na praia ou em pedras iso-
ladas, onde deixam os ossos ou espinhos da preza
devorada.
Para a procriação escolhem buracos ou galerias
subterraneas nos barrancos.
Não é difficil atirar o animal, mas em geral elle
se perde, afundando quando morto ou por se esconder
quando mal ferido. Póde dizer-se que a ariranha tem
uma vida diurna, ao passo que a lontra é antes animal
nocturno.
Acanguçú ,
Aguará . .
Aguará-guassú
Aguará-chaim
Ariranha . .
Cangussu 169,
Cachorro do matto,
INDICE
DOS
Nomes vulgares
Cachorinho do matto
Chibigouazou.
Coati e e e
Coati mondeo.
Coati de vara.
Hira e e e
Kyra e e e
Eyra pyta. .
Eyra hu .
Furão 243. .
Gato mourisco
Gato do matto,
Gato do matto
215, 216,
grande.
Gato do matto pintado .
Gato dos pampas. .
Grisão grande
Guará e e e
Guarachaim .
Guachimim .
Guassini . .
IATA lich ot ie
Jaguatirica 157,
Jaguarundi ,
Jaguareté, .
daguar. . o
Jagua-cambéba
Jaguaracambé
Jaritatáca , .
Juparão , é
Lobos, ema
Lontra <<
177
L]
Macaco de meia-noite
Mäo-pellado
Mbaracaya
221e
Pags.
170
206
206
211
362
170
227
244
178
233
233
233
166
166
167
167
244
163
178
182
186
194
247
194
211
228
228
248
178
163
169
170
228
228
253
227
194
260
227
228
178
Onça .
Onça parda
Onça pintada,
Onça preta
Papa-mel.,
Raposa do campo
Sussuarana, 157 ,
Tigre .
Urso lavandeiro .
Z orilho
Pags.
157
159
169
169
248
206
159
169
228
253
INDICE
DOS
Nomes scientificos
Pags.
Abathmodon . . Beaks: 5. o A UR 220
APUATASSUAZU) o beça o tara Met coe e 203
Aguarachai . hy DR 5a) Dasha ation PR 211
allamandi (Galictis) | Bi fk” us mto So eta eke OI NTI 246
allamandi (Grison) DAS a, RAR AT FU AR 246
amazonica (Mephitis) . . PER LD 256
amazonicus (Conepatus chilensis) . 6 Va TENTE EN 258
Amphycyon : DN GA sips sali Ss 152
antarcticus (Canis cagottis) . Me alee Be ANT 201
antiquus (Canis). BAL ho Niro her EUR a Nor 206
aneulensis (Canis th)". a nas ce) le Naa de epa 219
NTOLO MEA DUM M D Wout pe Well ti OR À 153
armillata (Felis) , . PARA Er EN oes 178
azarae (Canis) 206, 211 Cl gt oras ce elas 215
azarai (Canis) , 5 Rr . 211
azarae (Pseudalopex) À RE EE Pera ant cy: 216
bahiensis (Conepatus chilensis) AR RE AR EU 257
barbara (Tayra) 246 a Aa ET Ne ae en 248
barbara (Mustela) . ry 0 e e e . e . e . 248
barbarasi(GuÃo) pet vc) hs seno as a gn” ern Reames 248
barbara - (Galictis) , 2 Jeca ge ET ie ie RS 248
barbara (Galera) du des yk ps Oe tahoe Ana lege 249
braccata (elis; 164, ne neh Me tee 166
brasiliensis (Felis) . . dy jie 178
brasiliensis (Canis) 199, 202, 208, 209, 211, 217 en 218
brasiliensis (Potos flavus) : MRA Cy ses 228
brasiliensis (Procyon cancrivorus) . sais : À 228
brasiliensis (Mustela) ad qo rea o ye en owes 244
brasiliensis: (Oretis) 5). iai gran sa De a el te 249
brasilcensis (Ptoronura) du o RE Ur 262
prasilienais (Qutra) RSR es ils Ro 226
Conidae 15d» RSS OR NEM E Uh CE Te hy de ana 196
Carnivora, 148 . . o 151
Canis 152 107 201,04... ees
catenata . . RE (toi diet ER 179
Chati (Felis mitis) RR ir le <a à et RER 180
Canidas (Fam) nea ee ie. so sue ere 196
Carcinocyon 208 1 wis) fet, pe 202
campestris (Canis) . . . . . ue 203
cancrivora (Viverra), . . - 1e 215
cancrivorus (Canis) 216, SE 218
cancrivorus (Canis var.
cancrivorus (Ursus) . .
cancrivorus (Procyon) .
cancrivorus (Thous). .
canaster (Galictis) . .
castanea (Mephitis) . .
cervante (Gato) .
Cerdocyon 262 .
ceskii (Melictis) .
Cercoleptes . .
chibigouazou (Felis pardalis) 158, "177, 180
Chrysocyon, 198, 201 e,
chilensis (Conepatus) 252
chilensis (Mephitis) . .
chilensis (Thiosmus), .
concolor (Felis) 158, 159,
colocolo (Felis) 159,
concolor (Puma). .
couguar (Felis concolor)
costaricensis (Felis) . .
Conepatus os.
Creodonta. . . .
cruzina (Felis pajeros) .
crassidens (Galictis) .
cultridens (Canis) . ,
Miynadictis.) o io
Tp Sr cs ENA Lune
Cynogalol o, usa ori
Cynalicus . e . jo
Disyuridne: ento, vo?
darwini (Felis) , . .
discolor (Felis) . ;
Dinocynops .
domeykanus (Canis) . .
dorsalis (Nasua). .
Dusicyon ,
Eira . su a
eira (Felis) 164, 166, 167
eira (Puma)
entrerianus (Canis) 211 e
ensenadensis (Canis), .
Eunothocyon 202, ,
Byra. (Felis) mo aços e
familiaris (Canis) AE
Felidae 147, 153 e .
Felis . .
feuillei (Mephitis)
felina (Lutra) .,
flavus (Potos)
frenatus (Putorius)
161
fulvicaudus (Canis) 207 e.
6
— 269 —
brasiliensis) .
— 270 —
Pags.
fulvicaudus So NADIA SAM UA o UNO 207
furax (Grison) . . a a gh SED APR AD 244
furax (Grison vittatus) . ative - 5 245
furcata (Mephitis) . . . . o . 256
CAC RE RAR de du ke orga ORNE LE CO a - a 243
Galera, . RPE LF 248
geoffroyi (Felis) 159, 188, 191, 192 6: : 200 À 193
elauculay(Pelis wiedi) 14 2: eme pé 20 qui De DR 186
Grison. 5) 50 COANE 243
guigna (Felis).159, 187, 189 6... 2. .. «1 o noitada
Guazuara . . SMS UE SES TAM BANS) 159
guttula (Felis) 187 o SUN oa od RE NERO 189
Guaraxa (Canis thous) 210, . CREER 219
Herpestoidea . . a GA er pet een CRP RR Bg 153
humboldti (Mephitis) E PES RING UE ; : 253
humboldti (Conepatus) . . . . . . RUN PTS) 253
Huron TRAVE ad nha RAI NME as EIRE 248
Tlaron Minors | oe ior tit Vara od hed o dE gee 244
Icticyon , SON Ce ah ig VENEERS RER 220
intermedia (Galictis). week! het EA ad RAROS TA SN 246
intermedia (Ce “alamandi) as! ad Gah sy NUS eee 247
is0dactylus (Camis) NUM, ne Tam fee da 203
isodactylus (Canis) 145) Meur re, MISE ELO 206
JABUATAT res pe eal ON Re old or RR A "ES 169
JBC uarbtt ODM os TS gt Maeght wee ti UR te 170
gabatus (Came) DOTE er ON ANNE ON RS eS 203
Jubatus (Chrys0cyon) 0.5 sk sa NS ai AR 203
juruana (Nasua narica). «tac 4 Pano ve Sra dai Re 259
latrans (Canis)? 0 ae NUE EN Saw heen ae 201
latifrons? (Matra) ne e oco RU OR Ne RUE ADR 260
leucorhynchus (Nasua) . A RE AE OURS 233
lo tor (Procyon) Ma SN TON OUR o 231
Inn De MN AN CNE EN EE, SORTE LE 258
Libre ANNEES EM EN a UE Rae BE Qu FRET Ae 259
Loiro (o MESRINE Lu PURE EMEA TION NP A EPA PER 260
CycisCus RA RENAN RER EE En PAR Vi Ah 201
Lycalopex, ! et Su PPA ND Rs Ca aie Med ae 201
Mastodon Mr RUES SEL 152
Machairodus . . . ci eS . RR Sea 156
Maracaja . . tado DR : 177
maracaya (Felis) . o RC at his : 178
macrura (Felis) 178, , . . : 182
macroura (Felis). . UE: . o 182
Maraguaô. . . . NP Sidi te 5 156
Maracaia ir 94 a RENTE o oe GG 5 186
Marguay (le). ; ° o at ste 186
magellanicus (Canis). POE IS : 1145 202
maullinicus/{Canis) 2) 46 (she < cos TRUE 211
Marputius 2° "MM M EN SIMS Gi So RAN 252
macrodus (Lutra), ALORS: wy CR 260
Mbaracayai 57 sr PS CORAN, VUS ea ae 191
Pags.
Melinae . . . . . . . Q ° . . . . . 251
Melinas , . PCA CI SIREN PRET: 241
melampus (Canis), 215, 217 e selle el RESTA 219
melanostomus (Canis) 216 . Ne NES TA 217
melanogaster (Cynalicus) RARE ren are À CUS 221
Melinae . . . e . . . . . e e 251
Mephitis A . . e . e . . e . . ° = À 252
midis: (Fele) en we. ys Unes sah yn eg se (MES DIS 178
microtis (Canis) . . . . . ° ° . . . Û . 199
moreno (CARBONE EME pulsando ça yee 5 205
Mustelidae 147, 14 ro rent Ps DNA una 241
Mustelinae, ,. . + Et e ide! 4 Ca ee 242
Mustela. . Ship dr a onde let NET 252
Nasua 225, PA E . . . . . ° . . . 5 a 232
narica (Nasua) FA INT SP ge AL IRAN Es SPAS RO eae Mer 233
narica (Viverra) 293 9.1, 4 Are LRO ART 240
Haba (NARDA). alle pe qo Neue CODE fin ae 233
240
nasua (Nasua) 238 +. 1 Gs o
of Piu 256
nasutus (Conepatus). . . . . :
nocturna (Nasua). . . SSD au pates vo RE 227
Octocyon . . ERROR Ms o AAA ste LO Mae 197
Ve Te FDA} 170
onça (Felis) . . . sti: Vee att hee RE PO ews MOL
Sone CARE ates 170
ny icy NE AAA QE TUE 180
NU bebe CURTIS 223
pajeros (Felis), 159, 194 e gee Rd Oh aaa 195
Paleocyon. .. ses a goth. Fed poh PRG a) PALS 205
DR Consta COUT) DA Dido ab UT NS 260
pampanus, (Pajero)... Nes (UP a 194
panthora: (Melis). qem vo SNS het PE IGN 170
parnonsis (Pubotims) seja! qo pé Jo o) ro al 242
paranaenses (Latra) 260" (eia a ralo o) eme 263
pardalis (Felis) 170, 177, 180 elias : á 182
paramoides (Felis) 187.1 0.4. is) eh ne uae) ae ae 190
parvidens; (Canis) 207, 209 e + é ONE 210
patagonicus (Lincodon) . :
onza (Leopardus) .
Ozelots .
pacivorus (Speothos) 220 e
onssa (Felis) 158, 169 e
o
“
.
patagonica (Mephitis) ©. 2 o a Ma 0m 253
patagonicus (Thiosmus). . . =e (OS) SEGRE 253
Palas 22H ADO a ele. Le | te le A eS 227
Erocyontage AT 1D4 6. jo oii LT se meee! te 224
Erocyonidas 1920225 8 5 o ssa +: Was) fe 226
protilopex (Camere sata 0 EN 211
Procyon 225, 226, 228 e , . AR a sire 232
proteus (Conepatus) . Ve A O © D à 254
Papudalopex he a e o ve E 202
Pseudolycos 6 e e 5 . > . . . . . . e 202
Pteronura. e« « ete ne. CN: 262
puma (Felis concolor) : +.) ety beige oe © HORS 163
riograndensis (Canis thous) "217 é (etl ig. EAR NT 219
EUR (CANIS) ne 6s © e ele Mo ile o 216
— 272 —
rufa (Nasua) . . RCA TE
savannarum (Cane Fous) RR O 6. Gu
saudbachii (Pteronura). . + . . . .
sclateri (Canis thous) . .
sladent (Canis); |. ve vo conta É
socialis Nasua) 233, . .. . .
solitaria (Nasua) 233 . Ne he .
solttaria (DUR) ve co! io ANSE ae he
Speothos 197 . . é ERRAR | i '
RE . 1) pe Ss
suffocans (Conepatus), 259, 268 256, 257 6,
suffocans (Gullo). + es da in LE D
suftocans, ( Maphitis), 2) i.e! Weel ye) NN
suffocans Ghent 23360) va ye
Tayra . 5
thous (Canis) 201, 210, 213 DM
thous (Canis thous) Eds ARE
tigrina (Felis), 155, 158, 183, 186 er.
Trichodactylus (Canis) . PS -
EGO ArChOR PR, lg Va ihe PE Misto da IL ent Ke
Uradas in Mo tec! Wat UT Eee Re
urostictus (Notocyon) . . cu . ?.
urosnictus (Canis) elmo fe ol Ra do
Ursus 224, + . she Wah O da
vetulus (Canis) 202, 206 +. si vor OT
vetulus (Lycalopex) 216 . . . .
venaticus (Speothos) 221, 222, 223 e
venaticus (Icticyon) 220. ,
venatica (Cynogale). . +. . , . .
Vigens (Melis Wien) fen) som teh gol ha Rens
vittatus (Grison) 244, 246 e . . . o
wittata (Viverra)ies do Fie vo a) bee ete
vittatus (Grisonia) , . . a ip teg wean,
vittata. (Galietis),. iso no xe to Bian cobs
Vulpes 15246: 15 leu fet! go! tyler NAS
vulpes (Vulpes)! «e cs ao) de ate AM MA UM
warwickii (Pardalina) e a do CE TA LUS
westermanni (Mephitis) . . St RL
wiedi (Felis) 157, 158 e , . A LC
wingei (Speothos) 221 e . , ERRO do
yaguarundi (Felis) 158, 1636. SET Va
yaguarundi (Puma) » 498%) wc ln o) “o
As Cobras do Brazil
POR
RODOLPHO VON IHERING
I PARTE
INTRODUCÇÃO ; FAMILIAS :
1 Tijphlopidæ IV Bode
IT Glauconiude V Amblicephalide
HI Llysedee VI Viperide
VIT Colubridæ : a) Hlapine (*)
O estudo das cobras do Brazil, que fizemos ba-
seado no material bastante rico das colleeções do Museu
Paulista, deu-nos ensejo para reunir em forma de
catalogo todas as especies até hoje conhecidas como
occorrentes em nosso paiz.
Si bem que muitos auctores tenham publicado listas
mais ou menos extensas de cobras brazileiras, que col-
leccionaram ou estudaram, comtudo nada temos de
completo sobre o assumpto.
Os primeiros naturalistas que se occuparam da
nossa fauna foram Piso e Marcgrave e em sua obra
de 1658 «Historia Rerum naturalium Brasile» G
Marcgrave descreve só algumas especies, taes como a
Giboia, a Cascavel, Surucucú, Coral, Cobra cipó, etc. :
Bem mais tarde, nos annos de 1815 a 1847, os celebres
viajantes Principe Wied, Spix e Martius, d’Orbigny,
(*) As duas subdivisões restantes da fam. Colubride: b)
O. Opist-glypha e c) C. Aglypha formarão o assumpto da pro-
xims contribuição.
Castelnau ete.. reuniram grandes collecgdes de animaes
do Brazil que estudaram, ou fizeram descrever na Eu-
ropa, e assim as grandes obras publicadas por cada
um destes naturalistas contêm as primeiras diagnoses
de numerosas cobras do nosso paiz.
As grandes monographias de Schlegel (Essai sur
la Phisionomie des serpentes, 2 vol. 1837); Dumeril
e Bibron (Erpertologie générale, Ophidia, 8 vol., 1844-54)
e G. Jan (Iconographie des Ophidiens, com 300 estam-
pas, 1869-82) constituiram, cada qual em sua época,
os repositorios mais completos de tudo quanto se sabia
da historia natural das cobras. De então para cá o
numero dos zoologos que se especializaram no estudo
da herpetologia cresceu cada vez mais e assim vamos
encontrar centenas de descripções de especies novas ou
additamentos às diagnoses antigas, espalhadas por um
sem numero de revistas. Cada vez mais difficil se tor-
nava portanto tambem este estudo, e dahi os numerosos
erros commettidos e as redescripções com nomes novos
de especies já conhecidas, o que tanto complicou a
synonymia.
Nos annos de 1893 a 1896, a exemplo do que em
outros grupos do reino animal faziam os seus collegas
do grande Museu de Historia Natura] de Londres, o
Dr. G. A. Boulenger publicou o seu extenso «Catalog
of ithe Snakes in the British Museum», em tres volu-
mes. De feição inteiramente moderna, elaborado com
o maximo cuidado e baseado no riquissimo material do
grande Museu, esta obra tornou-se desde logo indis-
pensavel a quem quer que quizesse fazer boas classifi-
cações em herpetologia e até hoje não ha compendio
que a substitua. Basta dizer que o auctor teve à sua
disposição e estudou nada menos de 132% especies (das
1639 até então conhecidas), representadas por 11.092
exemplares. E” verdade que encontramos na literatura
mais moderna muitas emendas, e numerosas são as
especies novas descriptas posteriormente, mas difficil e
amplo como é o assumpto, nem era possivel fazer-se
obra perfeita e completa. Reunido como ahi está o
material, tornou-se possivel a collaboracão neste estudo
da parte de naturalistas que se propõem a investigação
de faunas regionaes. Foi com esta intensão que ini-
= Moi
ciamos o presente trabalho e, como em todos os es-
tudos zoologicos feitos no Museu Paulista, tambem aqui
cuidamos unicamente da fauna brazileira. A colleccäo
herpetologica de nosso Museu, ainda que não possa ser
considerada riquissima, comtudo já contêm uma bôa
parte das nossas cobras.
Quanto as publicações de caracter scientifico refe-
rentes especialmente a esta parte da fauna brazileira,
bem poucas temos de enumerar. Só do Rio Grande do
Sul ha duas listas mais extensas das cobras ahi estu-
dadas; R. Hensel em suas «Contribuições pars o co-
nhecimento dos vertebrados do Brazil meridional» (1868)
enumera 22 especies; a «Synopsis of the reptils and
batrachians of Rio Grande do Sul» (1886) de G. A.
Boulenger já é bem mais completa, graças ao rico
material que de la lhe foi enviado pelo Dr. Hermann
von Ihering, que ao todo obteve 42 especies de ‘cobras
daquelle Estado. Iinalmente sé temos de referir-nos
ao estudo publicado pelo Dr. Vital Brazil no jornal
«Estado de S. Paulo» de 24 e 31 de Janeiro de 1909
sobre as «Cobras venenosas do Brazil». O auctor deste
ultimo artigo, como chefe do Instituto Serumtherapico
do Butantan, S. Paulo, teve à disposição um enorme
material de cobras venenosas, mantidas vivas para a
extracção da peçonha que é utilizada para o prepare
do serum curativo. Desta forma as descripções e in-
dicações biologicas publicadas pelo Dr. Vital Brazil
tem-nos o mais alto valor e, com a devida venia,
yranscrevemol-as em parte nos capitulos respectivos,
Como em quasi todos os paizes, tambem entre nós
as cobras em sua generalidade são consideradas como
animaes perigosos e as poucas especies que não são
temidas como taes, ainda assim são tratadas sempre
como creaturas vis e repugnantes. O povo da roça e
do sertão, pelo contacto directo e diario com a nossa
fauna, sempre tem melhor conhecimento a respeito e
assim distingue por exemplo as «cobras cipó» ou as
«cobras d'agua» como inoffensivas, das verdadeiras
cobras venenosas. Estas quasi todas têm nomes es-
peciaes, mas assim mesmo é difficil encontrar quem
distinga a «Boi-pévassiy (Xenodon severus) ou a
«Cobra-nova» (Drymobius bifossatus), da verdadeira
«Jararâca». Isto explica-se pela semelhança destas duas
especies de cobras, que aliás pertencem a familias in-
teiramente diversas. A fórma do corpo é sempre a
mesma e os detalhes de estructura, nos quaes se baseia
a classificação scientifica, raramente são examinados
com o devido cuidado; a côr, à qual de preferencia o
povo liga maior attenção, é justamente o criterio mais
enganador, visto que especies inteiramente diversas têm
muitas vezes, como po exemplo acima citado, colorido
quasi identico. De resto todas as cobras ameaçam da
mesma forma, com as fauces escancaradas, a vibrar a
lingua bipartida, e como em fim certo temor sempre é
aconselhado pela prudencia, venenosa ou não venenosa, :
mata-se a cobra a cacetadas e cessou O interesse z00-
logico, apenas despertado pelo eventual perigo.
Tratando-se de investigar scientificamente quaes
sejam as cobras que effectivamente devem ser conside-
radas como venenosas, deveriamos procurar antes de
tudo definir o que seja «veneno». A toxicologia não
nos sabe dizel-o com precisão, e compete pois à pra-
ctica designar as substancias que tenham o caracteristico
de se tornarem nocivas por sua acção chimica ou phy-
sico-chimica sobre o organismo. Mas que aqui é sempre
questão de proporção quantitativa demonstram estes dous
casos: o sal de cosinha, ingerido em grande quantidade,
acarreta consequencias funestas; o veneno da Jararáca
ou da Surucucú é applicado em homceopathia como
substancia medicamentosa. Além disto acontece que o
mesmo veneno ataca muito desegualmente os diver-
sos animaes com que experimentarmos e ainda no
mesmo organismo os differentes tecidos soffrem desegual-:
mente a sua acção.
Mais facil é decidir o que diz respeito ao animal
que, por produzir physiologicamente uma substancia
toxica, devemos considerar como venenoso.
Resta distinguir anda animaes «passivamente vene-
nosos», os que não têm meios de se utilizar do seu ve-
neno proprio em detrimento de outros organismos (taes
são por exemplo os baiacús, ou o proprio homem, que
— 277 —
tem a «adrenalina», que na dose de 5-8 mg. em appli-
cação intravenosa é mortal para um cão), e animaes
«activamente venenosos» cujo typo mais caracteristico
constituem as cobras que como as nessas «Crotalinæ»
não só produzem substancias altamente toxicas, mas que
tambem são providas de um perfeito apparelho destinado
especialmente para imocular este veneno no organismo
de seus inimigos. Mas ao par destas serpentes, que
pelas prop: rções das dentuças e pela quantidade de ve-
neno de que pddem dispôr, não deixam duvidas quanto
a serem perigosas, ha outras que, sem terem verdadeiras
dentuças, comtudo pódeim ferir, mordendo a c:rne molle,
e a saliva venenosa que ao mesmo tempo penetra na
ferida (sem ser injectada pelo canal do dente como no
caso dos Crotalinas) póde produzir accidentes mais ou
menos graves, segundo as circumstancias. O veneno
terrivel dos Grotalinæ por exemplo é produzido por
uma glandula que, morphologicamente, é identica äquella
que em cobras não venenosas produz tão sómente uma
saliva, que em si é de todo inócua. Ha porém especies
intermediarias, isto é cuja saliva é até certo ponto
venenosa e que, injectada, ainda que não mate animaes
maiores, comtudo é de effeito local ruinoso. Muitas são
as cobras que se alimentam exclusivamente de animaes
pequenos e sobre estes a secreção tem effeito mortal.
A grande virulencia da peçonha é indicação evidente
de que a cobra ataca animaes grandes e que, para
vencel-os, precisou munir-se de arma poderosa.
As cobras coraes (Hlapince) são verdadeiras cobras
venenosas, tão bem como os Viperide. Si, entretanto,
muito commummente ellas são consideradas como não
venenosas, isto é devido ora à semelhança do colorido
destas Ælaps com o de cobras desprovidas de dente de
veneno, o que induz o pevo a confundir especies de
familias differentes, ora, em se tratando de verdadeiras
cobras coraes, as dimensões das mesmas são taes que
nao lhes é possivel ferir efficazmente o homem e por-
tanto o veneno não póde ser inoculado.
Mas, como já dissemos, ha ainda outras cobras
que, comquanto sejam desprovidas de perfeito apparelho
envenenador, devem ser consideradas como venenosas,
na accepção vulgar da palavra. São certas cobras do
— 278 —
grupo dos Colubridæ opistoglypha que tem os dentes
anteriores do maxillar superior pouco desenvolvidos,
mas os posteriores são relativamente grandes, sulcados
e com parte da glandula salivar modificada em sua
funcção, para produzir um veneno, com que estas cobras
paralysam suas victimas. Varias experiencias realizadas
neste sentido comprovaram que taes cobras conseguem
matar em poucos minutos suas prezas (rans e pequenos
reptis). Mas o que mais nos interessa aqui é o effeito
deste mesmo veneno sobre o organismo humano.
Naturalmente as especies de pequenas dimensões
aqui não nos interessam, pois com sua bocca pequena
e seus dentes de poucos millimetros de comprimento,
ellas não nos conseguem ferir efficazmente. Ha outras,
porém, de maiores proporções e que, apezar da posição
do dente maior na parte posterior do maxillar, conse-
guem encraval-o na carne; taes são, por exemplo, as
especies maiores de Oxyrhopus, Erythrolampus, Tham-
nodynastes, etc. E, efectivamente, com relação a
varias especies destas ha observações clinicas registra-
das na literatura e destas quizeramos salientar algumas.
No bello estudo de L. Stejneger sobre as cobras
venenosas dos Estados Unidos (1) vem relatado um caso
de mordedura por Krythrolampus (cobra coral falsa,
muito commum no Brazil). A cobra encravára tres ve-
zes successivamente seus dentes posteriores no dedo do
Snr. J. Q. e, meia hora depois, o dedo, muito dolo-
rido, estava grandemente inchado, tomando sua fórma
natural só quatro horas depois, mas as dôres persisti-
ram ainda por muito tempo. Caso analogo foi obser-
vado com relação a um exemplar ainda novo de Xe-
nodon severus (cobra commum no Brazil, chamada
«Boi-pevasst») Colubrida aglypha, com dentes não sul-
cados mas com os posteriores bem desenvolvidos. Muito
mais facilmente se demonstra a presença de veneno em
se tratando de experiencias «in anima vilis». Varias
experiencias feitas com cobras opistoglyphas mostraram
que os reptis e amphibios mordidos por ellas succumbem
minutos depois, com evidentes signaes de envenenamento.
(1) The Poisonous snakes of North Americs, Report of the
U. 8. National Museum 1892, p. 350.
— 279 —
Como já vimos acima, mesino as chamadas «Coraes
falsas» occasionam envenenamento e entretanto é muito
commum as proprias Hlaps serem consideradas inof-
fensivas, como até naturalistas do valor do Principe
Wied (1) nol-o affirmam.
Em vista destas incertezas, meu pae, Dr. Hermann
v. Ihering fez, em 1881, experiencias com «E. marc-
gravi» (certamente Æ. frontalis) no Rio Grande do
Sul e relatou os resultados obtidos em um artigo (2)
do qual damos em seguida um resumo. Fazendo um
Ht. frontalis de 73 cm. de comprimento morder succes-
sivamente duas vezes o pè de uma pomba, esta, passa-
dos dous minutos, deu signaes de indisposição, depois,
com respiração agitada e dispnéa, veiu a morrer cinco
minutos depois de mordida. As veias e o coração es-
tavam injectados de sangue escuro, cujos corpusculos,
tanto vermelhos como brancos, mostravam deformações.
E não são poucos os casos registrados por medicos
ou scientistas em que a mordedura de Elaps teve como
resultado a morte ou grave molestia em pessoas. Prin-
cipalmente com relação a E. fulvius da Florida, U. S. A.
e do Mexico, Stejneger, no artigo citado, relata nume-
rosos casos em que pessoas mordidas por esta coral
morriam decorridas apenas 18 a 24 horas; e o Dr. E.
Lonnberg (3) cita o caso de um homem ter fallecido
12 horas depois de mordido por uma coral (E. fulvius),
tendo sofírido as mais cruciantes dôres e passado as
ultimas horas desaccordado. Um caso muito singular
foi o em que esta mesma especie de Coral mordera o
dedo de um empregado do Museu Nacional de Washin-
eton. Como a cobra não largasse da victima, foi ella
arrancada à força, com o que o dente se quebrou na
ferida. Dôres violentas succederam à mordedura e per-
sistiu um mal-estar geral até o terceiro dia; depois,
passados dous mezes, reappareceram as dôres e reben-
tou uma ulcera na mão. Curioso é que mais ou menos
precisamente na mesma data do acontecimento, cada
anno de novo o dedo lhe começava a doer, rebentava
(1) Beitr. z. Naturg. Brasil; I, 1825, p. 404 e 414.
(2) H. v. Ihering; Ueber den Giftapparat der Krerallen-
schlangen ; Zool. Anreig. IV, 1881, n. 82, p. 409-412,
(3) Proc. U. S. Nat. Mus. XVII, 1894, p. 334,
— 280 —
uma ferida e em consequencia cahia a unha. Invaria-
velmente, durante dez annos, os mesmos accidentes se
repetiam e já o pobre homem quasi se conformava com
sua sorte, quando lhe indicaram uma planta brazileira,
o «Quaco» (Micania guacho) cuja infusão, tomada in-
ternamente. lhe disseram ser aqui preconisada como
eficaz em casos de mordedura de cobra. E, com effeito,
em tres annos consecutivos, este remedio, tomado pouco
ant s da data fatal, alliviou-lhe os padecimentos, pois,
desta forma, evitava o apparecimento da chaga e a con-
sequente queda da unha, ainda que o logar da ferida
se manifestasse dolorido (1).
Do exame das dentuças da Elaps frontalis o Dr.
H. von Ihering relata, no artigo acima citado, que a
primeira dentuça media 3 mm. de comprimento, era
canaliculada e tinha uma fenda na ponta, bem como
uma abertura basal anterior; uma sutura entre estes
dous orificios sobre o bordo anterior demonstra a ori-
gem do canal. Em seguida a esta primeira dentuça,
fixada no maxillar, achava-se outra, menor, egualmente
perfurada, porém movel, e, pois, ainda não fixada no
osso. Em uma coral, E. corallinus, de 70 em. de com-
primento, que examinamos, o dente media 2,8 mm. de
comprimento e atraz delle, dobrados sobre o maxillar,
vimos mais tres outros menores que, successivamente,
deviam substituir o dente funccional quando este fosse
inutilisado ; estes dentinhos mediam respectivamente :
2, 1,2 e 0,8 mm.
Ainda que nos exemplares menores os dentes, por
serem pequenos, nem sempre são facilmente visiveis,
comtudo logo as dobras epiteliaes protectcras indicam
a sua posição. O exame de alguns exemplares maiores
da collecçäo do Museu Paulista confirmou completa
mente a descripçäo dada pelo Dr. .H. von Ihering, no
(1) O caso, observado como foi em um instituto scientifico,
não pódo ser posto em duvida. Mas, tanto a reférencia ao facto
de se ter quebrado o dente na ferida, como o conjuncto dos
symptomas #presentados parecem indicar antes que um fragmento.
do dente se conservou encravado e que a este deva ser attri-
buido o respparecimento da chaga. O. veneno de ha muito
estava absorvido quando o nosso «Quaco» foi chamado a fazer
o milagre.
— 981 —
artigo acima citado. O estudo anatomico mostrou-nos
que em Elaps corallinus a posição e o percurso da
elandula de veneno são mais ou menos eguaes à figura
dada por F. Niemann (veja nossa
fig. 1) (7) em que estão repre-
sentadas as glandulas de Æ. lem-
niscatus. Comtudo ha uma diffe-
rença que, pela minuciosidade dos
estudos feitos pelo auctor citado,
De Ti obra coral "> D&O queremos levar à corta de
Hlaps lemniscatus (D) (cop. de observação deficiente. A figura
mencionada mostra-nos o canal
deferente da glandula terminando directamente sobre a
base do dente, ao passo que nos nossos exemplares de
E. corallinus, como o representa a fig. 2, otubo conti-
nua para além da base da den-
tuça, mas um pequeno orifício
lateral, correspondente ao canal
dentario, leva o veneno a este,
simplesmente por adaptação, sem
que haja um tubo'que penetre DO pi, 5 kianduia de venend
dente. Tambem os numerosos exem- com coral ie)
plares que examinamos nunca mos-
traram a glandula prolongada atraz em ponta recur-
vada, como ainda o indica a figura de Niemann, mas
sempre regularmente terminada em oval, ou apenas
um pouco curva, como. o mostra a nossa fig. 2.
Podemos considerar as cobras, conforme o perigo
que offerecem ou não, como pertencentes a tres grupos,
a saber :
Altamente venenosas e pois perigosissimas são,
entre as nossas cobras, unicamente as 8 especies (com
mais 3 sub species) de Crotalinae, isto em virtude não
(*) Beitr. zur Morphol. u. Physiol. der Oberlippendrüsen
einiger Ophidier; «rch, f. Naturg. Vol 58, 1 1892, p 262-
286, Est. XIV, fig. 3,
— 282 —
devido às grandes dimensões das dentuças e 4 consi-
deravel força muscular de que dispõem. Têm veneno
somente do effeito violento do veneno, como tambem
talvez tão energico como o das especies acima mencio-
nadas, as 41 especies do genero laps, ou Cobras
Coraes; comtudo a producção de veneno não é tão
abundante, os especimens raramente attingem grandes
proporções e os dentes e musculos não tem o desen-
volvimento sufficiente para que a cobra possa morder
facilmente. Por isto, comquanto sejam venenosas, raras
vezes occasionam accidentes.
Um segundo grupo constituem aquellas cobras que
offerecem algum perigo, sem comtudo poderem ser
agrupadas entre as cobras verdadeiramente venenosas.
São em primeiro lugar aquellas especies que attingem
taes dimenções que, confiadas unicamente em sua força
muscular, ellas podem dar combate mesmo a grandes
animaes, de força egual ou mesmo superior à do ho-
men; estas são bem poucas (unicamente as grandes
Boidae) e não nos consta que a sua saliva tenha outra
funcção senão a de facilitar a deglutição. Em segundo
lugar ha a considerar certas coïras com saliva um
tanto venenosa, que porém só tem maior effeito quando
applicado em animaes menores; comtudo nem sempre
deixa de ter consequencias quando injectado em pontos
delicados do organismo humano. E ainda que a saliva
não seja propriamente venenosa, mas que a respectiva
cobra seja bastante grande e que possua dentes e mus-
culos que lhe possibilitem morder fortemente e produ-
zir um ferimento, não está excluido algum accidente,
pois é geralmente sabido que qualquer saliva infecciona
facilmente um ferimento.
Por fim fallemos das centenas de cobrinhas, de
todo inoffensivas mesmo à menor creança, mas que, só
por serem cobras, pagam os peccados dos seus paren-
tes mãos. Os seus dentes apenas medem um millimetro
de comprimento, os musculos que movem o maxilar
tem força minima, e assim, quando muito, arranham
nossa epiderme; mas 0 povo as persegue como animaes
damninhos, quando pelo contrario só nos fazem bem,
destruindo pequenos vermes, larvas e insectos, ou mcllus-
cos prejudiciaes às nossas culturas.
— 283 —
Mesmo em favor de cobras maiores, não veneno-
sas, como a propria Giboia, poderiamos evocar estes
argumentos, para demonstrar que ellas são ao mesmo
tempo inoffensivas e uteis e, poderiamos mesmo citar
exemplos de indigenas e sertanejos nossos que as têm
como que domesticadas em casa, confiando-lhes a guarda
de seu lar contra ratos e outros animalejos nocivos. Mas,
por sabermos quanto está arraigada a repugnancia de
todos contra as cobras grandes, nem tentamos pedir
misericordia por ellas, quando, por justiça, o merece-
riam tanto como as cobrinhas miudas, por vezes tão
uteis e bellas, em sua generalidade inoffensivas.
Em resumo podemos in-
dicar os seguintes caracteres
pelos quaes se torna facil
reconhecer as cobras vene-
nosas, verdadeiramente peri-
gosas :
Fig. 3-Cabeça de Crotalina, mostran-
São extr
do um dos caracteres de cobra ve- : A) São extremamente pe
nenosa : cabeça recoberta por rigosas todas as cobras que
escamas e não por escudos 7 A
como na fig. 5. têm a cabeça encima coberta
por pequenas escamas (fig. 3), semelhantes às do resto
do corpo (e não escudos maiores, symetricos). Todas
possuem a covinha loral, entre o olho e a narina, fig. 4.
Estas nossas cobras pertencem todas à familia Viperi-
dae, subfamilia Crotalinae e todas tem um par de gran-
des dentuças no maxillar superior :
Nota:—Ha algumes poucss cobras, da familia Boidae, que
fszem excepção a esta regra; taes são a grande Sucury e a
Giboia, que em vez de escudos têm escamas na cabeça, mas fal-
ta-lhes sempre a covinha loral, que é caracteristica para os
nossos Crotalinas.
E’ uma méra coincidencia destacar-se esta famil a das ncs-
sas cobras venenosas das demais por este caracter. Já nos Estz-
des Unidos da America do Norte esta regra não tem valor, pois
que muitas especies da mesma subfamilia têm escudos e não
escamas na cabeça.
a) tendo a
cauda termi-
nada em gui-
so: são do
genero Cro-
talus, com a
unica espe=
cie brazileira
C. horridus Fig. 4-Cabeça de Crotalina, mostrando a cata e (L)
= E que caracteriza estas serpentes; N, fossa nasal.
(Cascavel); ]
aa) com acauda não terminada em guiso : são do
genero Lachesis (veja-se a respeito a parte especial
deste estudo, Surucucü, Jararáca, Urutú etc.). i
AA) Além das cobras acima caracterizadas, são
realmente venenosas só as «Cobras Coraes» (laps),
que têm escudos symetricos na cabeça (fig. 5), como
| todas as cobras näo venenosas, mas
que se distinguem da maior parte
destas pelo vivo colorido vermelho
coral, entremeiado por anneis pretos
ou pretos e amarellos. | Ha comtudo
Mig. Cabeça de Cobra varias especies que imitam as cobras
Elaps marcgravi Wied cores no coiorido (Oxyrhopus e
Erylhrolampus e que não são venenosas. Destas cobras
não venenosas as Coraes se distinguem por alguns ca-
racteres subtis, da conformação dos escudos suprala-
biaes e pela presença do dente de veneno, | aliás não
muito grande. Abrindo a bocca da cobra verifica-se que
as Ælaps ou Coraes têm o dente do maxillar superior
um tanto maior que os seguintes (fig. 6), as vezes um
tanto escondido em meio
das dobras da pelle da
gengiva, emquanto que
todas as outras cobras
não venenosas tem varios
dentes grandes não per-
furados na frente ou tem
ahi só dentes pequenos
e o dente maior, que
póde ser sulcado, ê O Fig. 6-Dentição proteroglypha que carac-
ultimo da serie, atraz. teriza a Cobra coral. (cop. Boulenger).
Deste modo, por serem «proteroglyphas», as Coraes se
distinguem facilmente de todas as outras Colubridae.
— 285 —
Os accidentes ophidicos e seu tratamento. —Como
em todos os paizes tambem entre nós o curandeiro e o
charlatãs inventaram as suas benzeduras ou mésinhas
mais ou menos exquisitas, para curar os envenenados
por mordedura de cobra. E não raro ouvimos dos bons
resuliados obtidos por esse tratamento, —certainente sem-
pre quando ou a cobra que mordera não era venenosa
de facto, ou quando o veneno foi injectado em quanti-
dade insufficiente para acarretar consequencias fataes.
Tambem as panacéas, apregoadas por profissionaes ou
leigos, naturalmente não nos faltaram.
E” crença muito diffundida que c alcool possa com-
bater o envenenamento ophidico, o que entretanto, como
o comprovao Dr. Vital Brazil, é destituido de qualquer
fundamento. O tratamento pelo permanganato de potassa,
que em seu tempo era apregoado como o unico de ef-
feito seguro, tambem não p»ude cumprir o que em seu
nome se promettia.
O unico processo que effectivamente garante a cura
é o dotratamento pelo serum anti-peçonhento que, ao
que saibamos no Brazile portanto com relação às nossas
serpentes, é preparado unicamente no Instituto Serum-
therapico do Butantan do Estado de S. Paulo, sob a
direcção do Dr. Vital Brazil. Foi este illustre scientista
que primeiro applicou à nossa fauna herpetologica o
methodo de immuniza äo estabelecido pelo Prof. Cal-
mette contra as peconhas; depois de obter os necessa-
rios dados sobre a natureza das peçonhas brazileiras e
os effeitos dos mesmos, estabeleceu dous typos diversos
de serum: o que denominou Antz-bothropico, que dève
ser applicado no caso de mordedura por qualquer especie
de Lachesis e o Anti-crotalico para os casos de acci-
dentes determinados pela cascavel. Alem disto estabele-
ceu um serum polyvalente, o Anti-ophidico, que tem
applicação nos casos em que não é possivel saber ao
certo qual das especies causou o accidente (1).
(1) Devido é dificuldade com que tem luctado para obter
veneno em quantidade sufficiente da «Sarucucú» e da «Jararáca
verde», o Dr. V. Braz | ainda não conseguiu estabelecer ao certo
o valor do serum com relação a estas duas cobras.
À quantidade de serum a empregar varia conforme
a gravidade do caso, de 10 a 30 cent. cub. Nos casos
em que a morte teria de realizar-se em 12 horas (são
realmente excepcionaes os casos em que a morte sobre-
vem antes de 12 horas) a intervenção deverá ser imme-
diata ou dentro das primeiras horas após o accidente.
Si ao contrario o caso é menos grave, tendo de dar-se
o obito 48 e mais horas depois do accidente, a injecção
ainda poderá ser util muitas horas depois (1).
Repetidas vezes tivemos o prazer de assistir a ex-
periencias realizadas pelo Dr. Vital Brazil. Keita a in-
jecção do veneno nos animaes de demonstração, coelhos
e pombos, injectava-se alguns minutos depois, conforme
a quantidade de veneno empregado, uma porção cor-
respondente de serum. E, emquanto o animal-testemunlia
poucos minutos depois estrebuchava, victimado pela
peconha, 9 outro, com a vida garantida pelo serum,
evidenciava symptomas mais ou menos graves de en-
venenamento ou não dava mesmo demonstração alguma
de ter sido envenenado ; todos se restabeleciam dentro de
poucos minutos sob a influencia do serum especifico
«cuja acção parece explicavel pela grande electividade
que possue para o veneno, conseguindo subtrahil-o dos
pontos em que começa a fixar-se».
Os resultados clinicos obtidos com a applicação do
serum (quasi 500 observações registradas no Instituto de
Butantan) demonstram cabalmente a efficacia do prepa-
rado do Dr. Vital Brazil. A estatistica demographo-sa-
nitaria do Estado de S. Paulo accusava até 1906 em
média 240 casos de obito por ophidismo; em 1907 o
total correspondente foi de apenas 130 casos e, indagando
das circumstancias de cada um destes obitos, verificou-
se que em todos elles (abstracção feita das poucas per-
guntas que ficaram sem resposta) não fora applicado o
serum que nesse anno havia sido distribuido pelo inte-
rior do Estado.
Destes poucos dados conclue-se o valor practico do
serum, mórmente tendo em consideração os grandes
prejuizos que as cobras venenosas causam ainda aos
May Or. Vital Brazil, Serumtherapia anti ophidica. Memoria
apresontaia ao 4° Congresso Latino-americane. Rev. Medica de
S. Paulo. N. 15, VIII, 09. |
— 287 —
cães de caça, etc., que todos, tão bem como o homem,
são facilmente salvos com a applicação do serum. Jé
hoje quasi todos os fazendeiros do nosso Estado tem as
fazendeiros, matando a criação, bovinos e cavallares,
varias qnalidades de serum entre os seus medicamentos
caseiros e innumeros são os que assim já salvaram ani-
maes de estimação. Tambem por nossa parte nunca
deixamos partir os nossos colleccionadores sem que es-
tejam devidamente munidos, e bem assim o aconselha-
mos a todos os que, pela natureza de suas viagens, se
expõem ao perigo do ophidismo.
Systema das Familias de Ophideos do
Brazil
Deixando de lado as classificações estabelecidas para
os Ophideos pelos auctores antigos, todas mais ou menos
artificiaes, sô nos occuparemos dos systemas modernos.
Dentre estes o mais expurgado e que melhor nos parece
agrupar os generos em familias e estas emtre si, é 0
que G. A. Boulenger estabeleceu definitivamente no seu .
grande «Catalogue of Snakes in the British Museum»,
London, Vol. I-III (1893-95). Em 1895 Cope publicou
outro systema, que em varios pontos differe do que
adoptamos, pelo que julgamos conveniente reproduzil-o.
Temos de observar ainda que agrupamos as 9 fa-
milias distinguidas por Boulenger em 5 secções, como
o faz o Prof. K. Grobben em seu «Lehrbuch der Zoo-
logie Claus-Grobben» (Ed. 1905).
I. Secção: Opoterodonta, cobrinhas vermifor-
mes, com abertura buccal pequena, não distendivel; com
cauda curta e grossa; olhos rudimentares; sem ecto-
pterygoideo e supratemporal e falta tambem o coronoideo
do maxillar inferior :
1. familia: Zyphlopidae ;
2. familia: Glaucontidue.
lI. Secção : Boaeformia. Com ectopterygoideo ;
ambos os maxillares com dentes; corcnoideo do maxil-
lar inferior presente :
3. familia: llystidae ;
— 288 —
4, familia: Boidae (e fam. Uropeltidae que não
occorre na America).
Ill. Secção: Amblycephalia. Maxillar superior
horizontal, convergindo posteriormente em direcção ao
palatino; o pterygoideo não alcança nem o quadrata
nem o maxillar inferior :
o." familia: Amblycephalidae.
IV. Secção: Solenoglypha. Maxillar superior
muito curto, erigivel verticalmente sobre o ectoptery-
goideo ; com grandes dentuças de veneno :
6," familia: Viperidae ;
V. Secção: Colubriformia. O pterygoideo alcan-
ça o quadrato ou maxillar inferior; este sem coronoideo ;
maxillar superior horizontal; supratemporal presente.
7º. familia. Colubridae: Proteroglypha, Opistogly-
pha Aglypha ; (e fam. Xenopeltidae que não occorre
na America).
Damos em seguida o systema de classificação dos
Ophideos elaborado por E. D. Cope: The classification
of the Ophidia (Trans. Amer. Philos. Soc. XVIII, 1845.
p. 197, s.s. e The Crocodilians, Lizards and Snakes of
North America, Report. of the U. S. National Museum
1898, p. 715 s.s.), baseado principalmente na estru-
ctura dos orgãos copulatorios e respiratorios.
Ophidia
B. D. COPE — The classification of the Ophidia, Trans. Americ.
Soc. XVIII, 1895, p. 197
e The Crocodilians, Lizards and Snakes of North America,
Report of the U. S. National Museu, for 1898, p. 715-1199;
SUB-ORDENS FAMILIAS SUB-FAMILIAS
I Catodonta. +... . . . Glauconiidae
Il Epanodonta. . . . . . . Typhlopidae
llysiidae
Ill Tortricina . . - + + (Rhinophidae)
— 289 —
SUB-ORDENS FAMILIAS SBU-FAMILIAS
Boidae
Peropoda. . ((Charinidae)
(Ungaliidae) (4)
(Xenopeltidae)
(Achrochordi-
| (Nothopidae). nae)
| ‘(Nothopinae)
'Calamarinae
Xenodontinae
Aglypho- Dromicinae
donta. Colubrinae
Leptognathi-
Colubridae . .{ nae
(Aneplophal-
IV Colubroidea linae)
(Lycodonti-
nae)
(Natricinae)
Dipsadinae
(cytalinae
Glyphodonta Dipsadidae . pd
| ttomatopsi
nae)
(Najidae)
Protero gti Elapidae
pha. . (Dendraspidi-
dae)
(Platycerca). (Hydrophidae) (2)
(Atractaspidi-
| dae)
Causi
V Solenoglypha Ne D)
[Crotatidae hea
rotalinae
NOTA. — O parenthesis indica que a respectiva familia ou
sub-familia não occorre no Brazil, nem nbs paizes circumvisinhos
(1) Como se verá na parte especial, ha uma especie U.
brasiliensis, cuja occorrencia no Brazil, entretanto, pomos em
duvida.
(2) Na America do Sul só occorre uma especie, Hydrus
bicolor, marinha, nas costas do Pacifico.
— 290 —
Na chave de classificaçäo que organisamos com o
fim de facilitar aos amadores a identificação das cobras
brazileiras, aproveitamos unicamente taes caracteres que
possam ser reconhecidos sem conhecimento da anatomia
especial, com o que julgamos ter facilitado muito o tra-
balho de classificação para quem não quizer fazer espe-
cialidade deste estudo. E, como tinhamos em vista
unicamente aquellas familias que occorrem no Brazil,
pudemos salientar tambem caracteres que não são de
todo peculiares às cobras em questão, mas que se en-
contram tambem em outras especies, de familias diversas,
cuja occorrencia na nossa fauna, porém, não é de esperar.
Para, entretanto, não deixar de todo incompleto este
estudo, passaremos a dar a caracterisação completa de
cada uma das familias que aqui descrevemos, e melhor
não o poderiamos fazer senão transcrevendo em parte
o que a respeito diz Boulenger no seu magnifico «Ca-
talogue of Snakes» já varias vezes aqui citado.
OPOTERODONTA
Typllopidae
Ossos craneanos solidamente unidos; ectopterygoi-
deo e supratemporal faltam ; o pterygoideo não alcança
o quadrato ou mandibular ; prefrontal forma sutura com
o nasal; maxillar com poucos dentes, que estão dispos-
tos em eixo transversal ao do craneo ; palatino sem
dente, bem como o maxillar inferior. Vestigios pel-
vianos reduzidos a um osso de cada lado. Corpo co-
berto por escamas cycloides uniformes ; olhos recobertos
pelos escudos.
America tropical, Europa e Asia meridional, Africa,
Australia.
. Glauconidae
Ossos craneanos solidamente unidos ; ectopterygoi-
deo e supratemporal faltam ; pterygoideo não alcança o
quadrato ou mandibular; prefrontal forma sutura com
o nasal; com dentes só no maxillar inferior, faltando
em todos os outros ossos; ilion, ischion e pubis for-
— 291 —
mam a cintura pelviana; com rudimentos do femur
Corpo coberto por escamas cycloides uniformes ; olhos
recobertos pelos escudos.
America tropical, sul da America do Norte, Africa,
Ásia.
BOAEFORMIA
Tlysudee
Ossos craneanos mais ou menos solidamente uni-
dos; transpalatino presente; pterygoideo alcançando o
quadrato ; este muito curto; supratemporal muito pe-
queno e encravado; com osso coronoideo no maxillar
inferior; com dentes em ambos os maxillares e no pa-
latino. Com vestigios de cintura pelviana (e de extre-
midades posteriores) como na familia precedente.
America do Sul tropical; Asia meridional e Cey-
lão.
Boidae
Maxillar, palatino e pterygoideo moveis; este ul-
timo extendendo-se atê o quadrato ou mandibular ; su-
pratemporal normalmente desenvolvido; prefrontal em
contacto com o nasal; com osso coronoideo no moxil-
lar inferior; com dentes em ambos os maxillares. Com
vestigios de cintura pelviana e de extremidades poste-
riores, que geralmente apparecem externamente em
fórma de espinhos ou unhas, de cada lado da abertura
anal,
America do Sul e oeste da America do Norte;
Africa; Australia e parte do Sul da Asia e Turquia.
AMBLYCEPHALIA
Aimblycephahide
Ossos da face pouco moveis; prefrontal näo entra
em contacto com o nasal; pterygoideo curto e não al-
cança o quadrato ou mandibular ; supratemporal rudi-
mentar ; maxillar horizontal; sem osso coronoideo no
maxillar inferior; com dentes em ambos os maxilares.
America do Sul e Central; Ásia meridional.
— 292 —
SOLENOGLYPHA
Viperidæ
Ossos da face moveis; prefrontal näo entra em
contacto com o nasal; ectopterygoideo alcança o man-
dibular ; supratemporal normalmente desenvolvido ; ma-
xillar muito curto, perpendicularmente erectil, provido
de um par de grandes dentuças, perfuradas ; sem osso
coronoideo no maxillar inferior.
America ; Europa; Asia e Africa.
COLUBRIFORMIA
Colubridæ
Ossos da tace moveis; prefrontal não entra em
contacto com o nasal; transpalatino presente; ptery-
goideo alcança o mandibular ou quadrato; supratem-
poral normalmente desenvolvido; max:llar horizontal,
não podendo ser erguido perpendicularmente ao trans-
palatino ; sem osso coronoideo no maxillar inferior.
Subdivide-se esta familia em tres grupos, segundo
caracteres da dentição, conforme indicamos na chave de
classificação. Aqui trataremos só do grupo dos Pro-
teroglypha, reservando para uma outra publicação o
estudo dos Aglypha o Oprstoglypha.
+
x *
Só duas pequenas familias de Ophideos, Uropeltide e
Xenopeltidæ faltam inteiramente à nossa fauna ; as sete
outras contribuem muito desegualmente para o total
das especies brazileiras, cujo numero se eleva approxi-
madamente a 180.
Quanto às familias Typhlopide e Glauconiude, das
quaes do Brazil por hora só se conhecem 3 especies da
primeira familia e outras 3 da segunda, o povo quasi
não as reconhecie como verdadeiras cobras, mas antes
são tidas como «cobras de duas cabeças», «minhócas» etc.,
devido tanto à sua fórma e ao colorido pouco diverso
do desses amphibios e vermes, como pelo seu modo
de vida, pois em geral as especies destas duas familias
vivem perfurando a terra, onde provavelmente tambem
encontram seu alimento.
— 295 —.
A familia dos Ilyseidae, que aliás conta ao todo
só tres generos com poucas especies, está representada
na America do Sul por um só genero monotypico, Ilysia
scytale L.; os dous outros generos são asiaticos.
A familia dos Amblycephalidae, egualmente pe-
quena, figura na fauna do Brazil com o genero mono-
typico Dipsas bucephala Shaw e um outro, Cochlio-
phagus (olim Leptognathus) com sé 9 especies.
As tres familias restantes, Boidae, Viperidae e Co-
lubridae é que conêtm a quasi totalidade das nossas co-
bras e cada uma dellas envolve typos dos mais familia-
res à nossa população.
As familias dos Bordae, que entre nós não tem re-
presentantes da subfamilia Pythoninae a que pertencem
os enormes Pythons asiaticos, figura em nossa fauna
com 9 generos da subfamilia Bomae. com as mui co-
nhecidas Giboias, Sucuris e Boa, ao todo 6 especies.
Da familia dos Viperidae, todas cobras essencial-
mente venenosa, occorre na America só a subfamilia
dos Crotalinæ, que no Brazil e mesmo em toda Ame-
rica meridional figura só com dous generos: Crotalus,
a Cascavel e Lachesis ou Jararácas, Urutús, Surucuct
etc. ou ao todo 7 especies com mais 3 subspecies no
Brazil. |
Finalmente resta a grande familia dos Colubridae,
subdividida em Proteroglypha (representados na Ame-
rica sO pelo genero Klaps, cobra coral, com 11 espe-
cies brazileiras), Opistoglypha e Aglypha. E' a estas
duas secções que pertencem portanto quasi 3/4 das nos-
sas cobras.
Ao ficar concluido o monumental Catalogue of Sna-
kes de G. A. Boulenger do British Museum em 1896
registrára-se um total de 1639 especies de Ophideos de
todo o globo; hoje certamente este numero é mais ele-
vado, podendo-se calcular em ca. de 1750 o numero
total de especies e para este total a fauna brazileira con-
tribue com 1/10 approximadamente.
Comparemos esta percentagem com a que se ve-
rifica com relação a algumas outros ordens de verte-
brados e veremos que, dada a geral riqueza de nossa
fauna, não ncs podemos queixar que neste caso ella seja
excessiva. Assim as 1680 especies de aves brazileiras
— 294 —
representam 1/8 da avifauna de todo o globo; os mam-
miferos brazileiros constituem talvez 1/11 das 5.000 es-
pecies conhecidas. Entretanto de toda a Republica Ar-
gentina Carlos Berg, em 1898, conseguiu assignalar tão
sómente 40 especies de Ophideos e da Republica do
Paraguay os estudos de E. D. Cope, O. Bottger e cu-
tros indicam a existencia de 44 especies.
Nos Estados Unidos da America do Norte, segundo
o catalogo de E. D. Cope (1391), ha cerca de 127 es-
pecies de cobras, além de numerosissimas subspecies.
Devemos observar, entretanto que a fauna norte-ameri-
cana está muito bem estudada e que a nossa lista tam-
bem será muito maior quando tivermos conhecimento
egualmente perfeito da nossa fauna.
Como nota curiosa mencionaremos ainda que em
toda a Allemanha existem apenas 5 especies de cobras,
das quaes porem 2, do genero Viper são venenosas.
A technica do estudo das cobras é das mais simples,
principalmente no que diz respeito às familas de que nos
occupamos no presente escripto. Os melhores caracteres
para os estudos aprofundados são fornecidos pela ana-
tomia, especialmente pela comparação de certos ossos
do craneo e das vertebras.
Como, porém, quizemos dar com esta nossa mono-
graphia um resumo que facilite especialmente ao amador
a classificação das cobras do Brazil, evitamos, como aliás
o fazemos em todos os nossos resumos desta natureza,
todos aquelles caracleristicos que exijam dissecções ou
conhecimentos aprofundados da anatomia especial. Por
este motivo tivemos de dar frequentemente um cunha
artificial às nossas chaves, mas isto pouco importa quando
queremos unicamente simplificar o trabalho da deter-
minação.
Bons caracteres morphologicos offerecem :
Os dentes, que em geral só gradativamente aug-
mentam ou diminuem em tamanho; ha porém alguns
casos especiaes, aos quaes em seguida nos referimos.
"90e
As cobras da familia Crotalinae possuem um par de
grandes dentuças implantadas no maxillar (fig. 7) perfura-
das da base à ponta
(fig. 7.2),em tamanho
natural canaleste que
dá passagemao vene-
no. Encravadoo den-
te na carne da victi-
ma, os musculos que
envolvem a glandula
productora do vene-
no, e especialmente
o «masseter», com-
Ea primem na e assim
Fig. —Cabeça de Urutú, preparada para
mostrar a giandula de veneno. O veneno passa pelo
canal dentario e é injectado na ferida. A fig. 7 mostra
este dispositivo. Artificialmente faz-se jorrar o veneno da
mesma forma, comprimindo simplesmente com os dedos a
região correspondente da cabeça, methodo este que é usado
no Instituto serumtherapico do Butantan em S. Paulo. Lo-
go atraz da dentuça funccional acha-se odente
de reserva que, no caso de se inutilisar o A
primeiro, vae logo occupar o seu lugar; (|
segue-se talvez meia duzia de denticulos ou Ny
mais, os ultimos apenas esboçados, que suc- ‘A
cessivamente, com o desgastar dos que os …
, Fig. 7.2—Dente de
precedem, vão crescendo até finalmente Jararica; a fle-
cha indica o
entrar por sua vez em funcçäo. percurso do canal.
Outras cobras venenosas tambem tem dentes com
dispositivo especial para injectar veneno, porem ainda
não tão aperfeiçoado como o acima descripto. Em ÆElaps o
dente injector, é tambem anterior, mas muito pequeno,
com apenas 3 mm. de comprimento nos exemplares
maiores. Da base, por onde o veneno penetra lateral-
mente no canal, até o orifício na ponta nota-se uma
sutura, que nos prova que o canal provem de um sim-
ples sulco exterior, cujos bordos depois se dobraram
para formar um canal. Este estado mais rudimentar
encontramos ainda nas cobras que agrupamos sob a
denominação de «Opistoglyphas». Nellas o ultimo dente
do maxillar superior tem um simples sulco ; tanto este
dispositivo rudimentar como a posição do dente no fundo
— 296 —
da bocca mostram que estas cobras não se utilizam
destes dentes como arma de ataque ou defeza, tão temi-
vel nos Grotalinas, e de facto o veneno produzido pela
mesma glandula é pouco energico. Nestas cobras os
dentes inoculadores de saliva venenosa entram em acção
já depois de segura a victima, no acto da deglutição.
Os escudos da cabeça (que differem das escamas
por tocarem-se simplesmente, sem serém imbricados
como aquellas), são placas de forma e
posição definidas, às quaes couberam por
isto denominações correspondentes aos
ossos craneanos que ellas cobrem, (fig. 8).
Mesmo de uma especie a outra do mes-
mo genero, o numero e principalmente
a forma dos escudos varia, emquanto
que dentro da mesma especie estes
caracteristicos são de uma constancia
quasi absoluta. Representando assim um
caracter especifico seguro, sempre nos
referimos a elle nas descripções.
No maxillar inferior são constantes
só as placas maxillares ou labiaes |
(fig. 9) que orlam a bocca e um ou ge- Tango cs escudos =
ralmente dous pares de placas media- cj: pj Pretrontal, F
nas ou mentaes, cujo intervallo em sen- font So:
tido longitudinal denominamos sulco me- (Leptophis)
diano. (fig. 10.) Este só falta, ou é pouco evidente, em
bem poucos generos (fig. 11).
As escamas do corpo tem as vezes cristas media-
nas, que são caracteristicas; a sua forma, por vezes
lanceolada, sô pouco con-
tribue para a caracterisa-
ção. Em varias especies
as escamas da linha media-
na, as que correspondem
ao espinhaço, são mais lar-
Fig: 9 — Escudos lateraes da cabeça : Rue Fe lateraes. 0 que
Ls or ARS porem é Importante, a ponto
pan de quasi constituir caracter
generico, ê o numero de se-
ries longitudinaes de escamas ou por outra, o numero de
escamas que formam um circulo completo ao redor
— 297 —
do corpo, na porção mediana deste. Só poucos são os
generos em que este numero varia com certa amplitude ;
na mesma especie raras vezes se en-
contra exemplares com uma differença
de 2 ou 3 escamas para mais ou para
menos na linha transversal. As vezes
tambem importa reparar na direcção
mais ou menos obliqua desta linha,
que é constante. Tudo isto refere-se
sé à porção do corpo um pouco
atraz da cabeça até a abertura anal;
tanto no pescoço como na cauda ha
certa variabilidade, tanto no numero
| como no arranjo das escamas. A con-
Ant tagem do numero de escamas em sen-
Fig: 10 — Lado inferior da tido longitudinal é de pouco resulta-
me clas mentee,’ do como documentação independente.
Sm: sulco mental. As Subventraes, do pescoço à aber-
tura anal e as Subcaudaes, dahi à ponta da cau-
da, sempre devem figurar na
descripção; seu numero admitte
variações mais ou menos am-
plas, mas as duas quantidades
sempre conservam uma certa
proporção entre si. Quanto ás
Ventraes sô ha a observar que
podem ser lisas cu carinadas
lateralmente; as Subventraes
são em regra duplas ou dividi-
das, e é importante em certos _ iyi
casos saber-se o numero das que "ie obra da fam, Amblyccpas
não são divididas, geralmente ““fraciro sulco mental e as.
logo em seguida 4 placa anal. Placas mentaes arredondadas.
O colorido tem muito menos valoa para a carac-
terisação da especie. Pouccs são os generos que conser-
vam um padrão mais ou menos constante para a dis-
tribuição do desenho. Elaps, por exemplo caracteriza-se
pelos anneis de varias cores que alternam regularmente ;
entretanto E. langsdorffi afasta-se muito deste typo, e
por outro lado um grande numero de cobras pertencentes a
familias inteiramente diversas imitam perfeitamente esse
padrão. A tonalidade do colorido é com poucas excep-
"908
ções, bastante constante (naturalmente é preciso con-
frontar só os exemplares vivos, não desbotados pelo
alcool em que se costuma conservar as cobras e que
actua principalmente sobre a côr vermelha, tornando-a
amarella ou quasi branca). Quanto ao padrão do dese-
nho distinguimos o da cabeça e o do corpo; na cauda
geralmente continua o mesmo desenho do corpo, mas
um tanto simplificado ou transformado. Ainda com
relação ao desenho do corpo ha a observar que o mes-
mo é mais ou menos constante só na região mediana
do corpo; junto ao pescoço elle como que ainda não
está bem assentado. Poucas são as cobras que tem a
metade posterior do corpo desenhada de modo differente
do padrão da metade anterior (alguns Cochliophagus,
Thamnodynastes, e outras Colubridas.) O desenho da ca-
beça, quando um pouco variegado, mereceu-nos sempre
peculiar attenção, pois sempre o reconhecemos como ca-
racteristico para cada especie; variando só dentro de
estreitos limites, accresce ainda a vantagem de se poder
determinar a sua extensão sobre os escudos, cujo valor
como elemento de caracterização já salientamos.
Ecologia das nossas cobras. — Bem resumido é,
por emquanto, o material de observações ecologicas co-
lhidas no sentido de nos informar sobre o modo de
viver das nossas cobras. Apenas as cobras venenosas
e algumas outras, taes como a Giboiaou a Sucury, têm
sido observadas de forma a conhecermos alguns detalhes
de seu viver, devido ao interesse que ellas despertam.
E não será preciso explicarmos aqui «porque»,
além «de interessante, é mesmo util sabermos quaes os
lugares em que de preferencia habitam as diversas es-
pecies de cobras, o alimento que ellas procuram e,
portanto, quaes dellas devemos considerar como uteis
em agricultura, por dizimarem animaes nocivos. Neste
sentido é conveniente fazer o exame do conteúdo esto-
macal, para saber ao certo quaes os animaes que con-
tribuem em maior porção para a alimentação de uma
determinada especie; claro está que aqui é sobretudo
importante classificar com exactidão as cobras examinadas.
As ultimas observações do Dr. Vital Brazil quanto
à preferencia da Rachidelus brasilii, a «Mussurana» pelas
“outras cobras, especialmente as venenosas, comprovam o
que dissemos e sem duvida ainda muitas observações de
egual interesse e valor practico estão por fazer.
Outro assumpto é o da procreação e o modo pelo
qual ella se realiza nas nossas diversas familias de co-
bras. Em geral os reptis são oviparos ou melhor ovo-
viviparos, visto como, ao ser posto o ovo, este ja não
representa uma unica cellula (como os ovos dos peixes
ou dos molluscos) mas contem um embryão mais ou
menos desenvolvido. Tambem a maior parte das cobras
põe ovos, revestidos de! uma casca coreacea, um tanto
translucida, de forma oval-alongada (mais ou menos na
proporção de 1X2,5 de diametros transversal e longi-
tudinal). Estes ovos são postos em numero variavel,
de 6 a 40, em lugares humidos e quentes, como humus
ou iolhagem em decomposição e ahi permanecem, sem
que a cobra-mãe lhes proporcione calor e, ao que pa-
rece, nem mesmo protecção. Tambem, depois de rom-
perem a casca do ovo, as pequenas cobrinhas não go-
zam do amparo de seus progenitores e são ellas mesmo
que desde logo devem prover a sua subsistencia. Com
relação a duas familias das nossas cobras sabemos, en-
tretanto, que ha verdadeira viviparidade, são os Vepere-
dae e Boidae. As nossas cobras venenosas todas (excepto
naturalmente os laps) dão à luz cobrinhas já perfei-
tamente desenvolvidas e que differem das adultas só
pelo tamanho; tambem as Giboias e a Sucury pro-
criam-se desta forma. Entretanto, com relação a varias
especies de ambas as familias ha observações de que
as femeas por vezes poem ovos, mas estes já tão des-
envolvidos que em breve surgem delles as cobrinhas.
O Dr. Werner (Zoolog. Garten, 1902 Vol. 43, n. 3 e 10)
relata que, tendo em seu viveiro varias especies de
Boidas, teve occasiäo de verificar que tanto Æpicrales
angulifer como E. striatus anormalmente tambem pu-
nham ovos, contendo embryões de 1/2 metro de com-
primento, medindo a cobra-mãe 1 1/2m. Os maiores
destes ovos mediam 110 X 45 mm. Tambem Brehm
refere (Tierleben VII, 1392, p. 444) o facto de se ter
observado um ‘conjuncto de 40 ovos de uma cascavel,
no momento em que as cobrinhas rompiam as cascas.
Comtudo, estes ultimos casos não constituem verdadeira
excepção da viviparidade das duas familias, mas expli-
— 300 —
cam-se antes como anormalidades, de o envolucro em-
bryonal persistir ainda por algum tempo, dando-se
mesmo o caso de uma cobra vivipara pôr alguns ovos, ao
mesmo tempo que lhe nascem cobrinhas normalmente.
Em todo caso, nestas questões necessitamos ainda de
um perfeito conhecimento dos factos como elles normal-
mente se passam, em plena liberdade. Nos jardins zoolo-
gicos o animal geralmente não enconira as condições
naturaes e assim facilmente se dão casos anormaes, cuja
generalisação nos induz em erros. Comprehendendo tudo
isto, é que os biologos norte-americanos dão o maior
valor às «field-notes», as observações colhidas pelo na-
turalista em plena natureza.
CHAVE PARA A CLASSIFICAÇÃO DAS FAMILIAS DE
COBRAS QUE OCCORREM NO BRAZIL
A Um dos maxillares desprovido
de dentes ; olhos recobertos :
a Maxillar inferior sem den-
tes; fenda anal rodeada
por escamas normaes . . Typhlopidae
aa Maxillar superior sem den-
tes; com grande escama
preanal. OEA
AA Os dous maxillares providos de
dentes; olhos livres e não
cobertos :
b A orbita é formada por um
unico escudo, dentro do
qual está o olho; às ve-
zes, ha vestigios de ex
tremidades posteriores;
sem sulco mental (Fig. 11) Llysedae
bb A orbita é formada por um
maior numero de escudos
e escamas que rodeiam o
olho :
c Com vestigios de extremi-
dades posteriores junto da
abertura anal; sem den-
tes premaxillares . . . Boidae (pt.)
ce Sem vestigios de extremida-
des posteriores :
Glauconidae
— 301 —
d Sem sulco mental (fig. 11). Amblycephalidae
dd Com sulco mental (fig. 10):
f A cabeça, pelo menos a par-
tir dos olhos, é recoberta
por pequenas escamas, se-
melhantes às do resto do
corpo (fig. 3); sempre com
um par de grandes den-
tuças anteriores, perfura-
das, no maxillar superior
e com uma covinha entre
a narina e o olho (fig. 4). Crotalinae
ff Toda a cabeça é recoberta
por escudos symetricos
Ce Oy oe EN a ti Colubridae
g Com o primeiro dente do
maxillar superior desen-
volvido em pequena den-
tuça (fig. 6). . . . . Colubridae Prote-
roglypha
gg Com um ou mais dentes pos-
teriores do maxillar supe-
rior mais desenvolvidos e
sulcados (fig. 12) . . . C. Opistoglypha
ggg Dentes todos sem sulco nem
perfuração (figs. 13e 14). € Aglypha
Figs. 13 e 14 —
> i Sw pes a E
27 o TT id
CC re Ds LT ye
ies eee
sj LG
Eee AS
nee à SN
FIG. 13
EL
FIG. 14
Fig. 12 — Dentição de Colubrida Opistoglypha. Ds.: dentes sulcados
(Tomodon occellatus)
Dentição de Colubridæ Aglypha com dentes subeguaes (Herpetodryas
fuscus, fig. 14) ou com Os ultimos
maiores (Rhadinaea merremii, fig. 13), porém nunca sulcados.
(cop. Boulenger)
1.º Fam, Typhlopidae
No estudo das nossas cobras esta familia tem bem
pouca importancia, como aliás se dá tambem com os
Glauconidae, pois que se trata unicamente de animaes
muito raros, que levam vida semelhante à dos «Cobras de
duas cabeças», com as quaes tambem se parecem pelo aspe-
cto geral. A differencisção das Typhlopedae e Glauconi-
dae, das chamadas «Cobras de duas cabeças», é facil, pois,
além de varios caracteres anatomicos de maior impor-
tancia, logo se distinguem as cobrinhas de que aqui trata-
mos, pela presença de verdadeiras escamas, dispostas-
em series regulares. Nas verdadeiras «cobras de duas
cabeças», quer Amphibios quer Reptis (1), a pelle é
nua ou quando muito tem escamas imperfeitas. No
mais, para a diferenciação das familias 7yphlopidae e
Glauconedae a chave de classificação que démos à
p. 301 é de todo suficiente.
Pouco ha que dizer da fôrma geral destas cobri-
nhas. O corpo é geralmente cylindrico, de largura
egual, da cabeça à cauda; atraz da cabeça nunca ha
constricção que represente pescoço; o focinho é mais
ou menos saliente, principalmente por ser o maxilar
superior um tanto mais longo que o inferior ; a cauda
é curtissima, pois a distancia do anus à ponta é geral-
mente bem pouco maior, ou mesmo meror ainda, que
a largura do corpo na região anal; quasi sempre a
cauda termina em ponta, mais ou menos pronunciada
ou conica. As escamas são muito pequenas e regula-
res; não ha placas ventraes. Nossas figuras 15 e 16
explicam bem a nomenclatura dos escudos da cabeça.
Ha no Brazil representantes de cada um dos tres
generos de que se compõe a familia. Helminthophis
e Typhlophis só contam, ao todo, o primeiro genero
especies, todas da região neotropica, e o segundo
uma unica especie; Twyphlops, o genero typico, encon-
tra-se em todas as cinco partes do mundo, e seu nu-
mero de especies se eleva a mais de 100, mas na
(1) Ha «cobras de duas cabeças» que são Reptis (Amphis-
baena) e outras que sto Amphibios (Gymnophiona); veja-se a
respeito o que cissemos em nosso artigo sobre estas ultimas, no
presente volume, p. 87-111.
— 905 —
Fig, 16
x Cabeça de Helminthophis quentheri, fig. 15 visto de cima,
fig. 16 visto de lado, com os escudos: R, rostral; Pf, prefrontal; Y, frontal;
N, nasal; S,s, supralabiaes ; Poc, preocular ; Oc, ocular.
(cop. Boulenger)
FIG. 15
America do Sul só se conhece 3 ou 4 dellas. Comtudo,
cremos que, com certeza, as futuras pesquizas farão des-
cobrir ainda varias especies novas destas cobrinhas raras.
CHAVE DE CLASSIFICAÇÃO DOS TYPHLOPIDAE
DO BRAZIL
(As especies mencionadas em pereuthesis são de paizes vizinhos
e ainda não foram essignaladas no Brazil)
A Cabeça em cima, com grandes
escudos :
a O escudo nasal é baixo e não
attinge o bordo posterior
do rostral; atraz do ros-
tral um frontal, de largu-
ra dupla ou tripla das es-
camas normaes . . . . Helminthophis
b Os prefrontaes unem-se atraz |
do rostral, separando este
do frontal; o escudo ocu-
lar limita com o 5.º su-
pralabial ; 24 series de es-
camas ; cabeça e cauda
amarellasd ttes o moço (Naam
nalus)
bb Os prefrontaes estão separa-
dos e o rostral limita com
o frontal (fig. 15). . . EH. guentheri
— 504 —
aa O escudo nasal eleva-se até
a margem posterior do
rostral, logo atraz do qual
começam escamas pouco
mais largas que as nor-
maes seguintes . . . Typhlops
c Sem preocular, ocular muito
grande; 26-28 series de
escamas ao redor de corpo (7. unilineatus)
ec Com preocular entre nasal e
ocular :
d Preocular entra em contacto
só com o 3.º supralabial ;
20-22 series. de escamas. (T. lumbricalis)
dd Preocular entra em contacto
com 2.º e 3.º supralabial,
nasal incompletamente di-
vidido :
e Olhos visiveis, narina lateral ;
18-20 series de escamas
ao redor do corpo; cauda
mais larga que comprida. 7. reteculatus
ee Olho invisivel, narina infe-
rior; 22 series de esca-
mas ao redor do corpo;
cauda mais longa que larga (T. longissimus)
. AA Cabeça em cima com escamas
uniformes, pequenas. . . Typhlophis
Rostral tão curto que não che-
ga à parte superior do fo-
cimo e a A RR TO aspas LOS
HELMINTILOPIIS Peters
RuINoTYPHLoPS (nec Fitz.) Peters, Mon. Berl. Ac.
1857, p. 40.
Hetmintuopuis Peters, loc. s. cit. 1860, p. 517 ;
Boulenger Cat. Snakes, I 1893, p. 4.
A não ser os caracteres mencionados na chave, as
especies deste genero pouco differem das do genero
Typhlops. até hoje, effectivamente, 86 FE guenthert
foi colligida no Brazil; como, porém, é possivel que a
especie venezuelana E ae venha a ser
+ apre
encontrada aqui, incluimol-a na chave. As outras tres
especies do genero occorrem só no Equador e na Ame-
rica Central.
Helminthophis guentheri Boulenger
HELMINTHOPHIS GUENTHERI Boulenger, Ann. & Mag.
Nat. fists (oy) NA Leee, p-, a0. 4 2.’ Cato Snakes, ;
1893, p. Custe. e
Um só escudo preocular, nsnhum subocular, pelo
que o ocular toca o 3.º supralabial ; atraz deste ha
outro bem menor; o 1.º supralabial é o maior. À cauda
é duas vezes mais longa que larga; termina em ponta
ou quasi espinho; 20 series de escamas ao redor do corpo.
A côr em cima é pardo-azeitonada, em baixo amarellada
com pequenas manchinhas ; a cabeça é brancacenta.
Habit. Est. Rio de Janeiro, Porto Real.
TE PILOFES Schneid.
TyPxLors part. Schneider, Hist. Amph. Il, 1801,
p. 339; Dumeril & Bibron, Erpet. Gen. VI, 1844,
p. 276; Boulenger, Cat. Snakes, I, 1893, p. 7.
Eleva-se a mais de 100 o numero de especies co-
nhecidas deste genero; encontram-se tanto nas regiões
meridionaes da Europa e da Asia como na Africa e na
Australia e ra America tropical. Propriamente sul-ame-
ricanas são só 4 especies, pelo que as ircluimos todas
em nossa chave, ainda que só uma, 7. reticulatus,
tenha sido encontrada no Brazil. Como, porém, a area
de dispersão desta especie é grande, é possivel que as ou-
tras venham a ser egualmente encontradas em nosso paiz.
Typhiops reticulatus (Linn.)
ANGUIS RETICULATA Linné, Syst. Nat. I, 1766, p. 391;
TYPHLOPS LUMBRICALIS Schlegel, Abbild., 1844, p.
ao, Est. de, figo A:
TYPHLOPS RETICULATUS Dumeril & Bibr on, Erp.
Gen. VI, 1844, 282, Est. 60; Boulenger, Cat. Snakes,
Pisos p. 27.
A côr geral do corpo é pardo-escura ou mesmo preta,
com orlas claras nas escamas, o que dá o aspecto de
— SoM
reticulação; a barriga é amarella e bem assim são ama-
rellas tambem as pontas do focinho e da cauda. O com-
primento dos exemplares adultos regula ser 300 mm.
Habit. Guyana, Perú; S. Paulo; Paraguay.
Mus. Paul.: Botucutú, Est. de S. Paulo.
TypHLops LonaIssimus (Dum. & Bibr.) Parece ser
especie bem alliada a 7. reliculatus, em cuja synony -
mia talvez venha a ser incluida, apoz exame de material
abundante. Até hoje parece que só se conhece o
exemplar typico, colligido pela expedição de Castelnau,
e pois proveniente ou da Amazonia (Brazil, Perú ou
Bolivia) ou da Bahia.
TYPHLoPs LUMBRICALIS (Linn.) diftere anatomica-
mente das especies precedentes como já indicamos na
chave; a côr é mais ou menos uniforme, parda em cima,
amarella embaixo. Tem sido encontrada nas Antilhas e
na Guyana, pelo que julgamos que possa occorrer tam-
bem na Amazonia.
TypHLOPS uUNILINIATUS (Dum. & Bibr.) é especie
que se distingue bem das precedentes, quer pelos ca-
racteres indicados na chave, quer pelo seu desenho ; este
consiste em uma linha preta, que se destaca sobre o
dorso, ao passo que todo o resto do corpo é uniforme-
mente pardacento. Esta especie só é conhecida da Guyana.
TEPELOPEIS Peters
CEPHALOLEPIS (nec Rafin.) Dumeril & Bibron, Erp.
Gen. VI, 1844, p. 314;
Typuuopuis Peters, Situb. Ges. Naturf. Fr. 1881,
p. 69; Boulenger Cat. Snakes, I, 1893, p. 57.
Em tudo semelhante ao genero typico da familia,
Typhlophis differe só por ter a cabeça toda coberta por
pequenas escamas em vez de escudos, e por ser o rostral
muito pequeno e baixo. Só se conhece uma unica especie,
que occorre no Brazil e na Guyana.
Typhlophis squamosas (Schleg.)
TyPHLoPs squamosus Schlegel, Abbild., 1844, p. 39,
Est. 32, fig. 9-12.
CEPHALOLEPIS LEUCOCEPHALUS Dum. & Bibr., loc.
SC ip, 1910:
— 507 —
TypropHis souamosus Boulenger, Cat. Snakes I,
1893, p. oF
Focinho arredondado, olhos invisiveis, cauda de
comprimento egual 4 largura, terminada em ponta. 24
escamas ao redor do corpo. De côr parda, escura, e com
focinho e cauda amarellados. Comprimento 130 mm.
Habit. : Brazil e Guyana.
Il. Fam. Glauconiidae
Esta familia já foi sufficientemente caracterizada ao
tratarmos da subdivisão dos Ophideos. Ao todo conhe-
cem-se cerca da 80 especies e sô uma dellas se diffe-
rencia genericamente (Anomalepis mexicana); Glau-
conia, o genero typico, tem representantes na America,
Africa, e Asia meridional; comquanto até hoje sejam
conhecidas só tres especies do Brazil, é muito provavel
que de facto haja aqui um numero muito mais elevado
dellas, que porém escaparam à observação, quer pelo
pouco interesse que despertam, quer pela vida occulta
que levam. Semelhantemente aos Typhloprdae, com que
se parecem pela forma geral do corpo, costumam en-
terrar-se e, furando a terra, ahi procuram seu alimento,
que consiste principalmente em pequenos vermes ou
larvas; raro apparecem na superficie, pelo que tambem
constituem raridades nas collecções. |
Comtudo o nosso colleccionador, sr. E. Garbe, re-
fere que varias vezes tem pegado exemplares que se
achavam sobre terra dura ou entre os trilhos da estrada
de ferro.
São cobrinhas de todo inoffensivas, pois mesmo não
tem quasi dentes; ao segural-as procuram tocar a mão
com a ponta da cauda, com o que, porém, não tentam
ferir, o que nem mesmo lhes seria possivel, mas sim-
plesmente contorcem-se desta forma, procurando um
apoio para a cauda, da qual se utilizam para a loco-
moção.
GLAUCONIA Gray
STENOSTOMA ‘nec Latr.) Wagler, em Spix, Serp.
Bras. 1824, pag. 68;
GLauconta Gray, Cat. Liz. 1845, p. 139; Bou-
lenger, Gat. Snakes, I, 1893 p. 59;
— 508 —
Com a caracterização da família salientamos tam-
bem o que, para o seu reconhecimento, ha de mais im-
portante na morphologia do unico genero conhecido.
O corpo é perfeitamente cylindrico, com a parte caudal
muito curta, terminando esta em cône pontudo; a ca-
beça não se destaca do tronco por meio de pescoço; 0
maxillar inferior é mais curto que o superior; os olhos
são relativamente grandes, mas recobertos e contidos
por completo dentro de um escudo ; além deste ocular,
os escudos mais importantes são um rostral, geralmente
estreito e longo; os nasaes (com as narinas) divididos
transversalmente ou não; um ou dous labiaes superiores,
pequenos entre o nasal e o ocular, e outro maior em
seguida ao ocular; o numero dos labraes inferiores é
geralmente de cinco ou seis. As escamas do corpo, muito
regulares, são bem mais largas que longas, e em nu-
mero constante de 14 series ao redor do corpo. Em
frente à abertura anal ha uma grande escama, da lar-
gura de tres series regulares.
Chave de Classificação das Especies Brazilewas
A Com um só escudo labial entre nasal e ocular :
a focinho e cauda destacam-se pela sua côr branca
do resto do corpo, que é listrado--G. albifrons.
aa focmho e cauda da côr geral do corpo; esca-
mas orladas de claro— G. dimidiata.
AA Com dons escudos labiaes entre nasal e ocular
— G. macrolepis.
Glauconia albifrons (Wagl.)
STENOSTOMA ALBIFRONS Wagler, loc. s. cit. 1824,
p. 68, Est. XXV, fig. 3; d'Orbigny, Voy. Am: Mer:
Rept. 18474 p. O MES neo 5
GLAUCONIA ALBIFRONS Boulenger, Cat. Snakes, I,
1895, (p00.
O escudo preocular é bastante grande; o olho esta
na margem anterior do escudo ocular; adiante e atraz
deste um supralabial; nasal com divisão nem sempre
completa; 6 labiaes inferiores.
— 309 —
A côr é pardo-avermelhada ou bruna, as vezes um
pouco mais clara no lado ventral; a porção mediana de
cada escama é a mais escura, de modo que assim se
formam 14 listras longitudinaes em zig-zag; a ponta da
cauda é inteiramente branca; na cabeça ha uma mancha
branca, as vezes grande, em outros exemplares reduzida
a uma manchinha no meio do rostral.
Grandes exemplares medem 275 mm. de compri-
mento.
Habit. America central, Pequenas Antillas, Perú,
Amazonia, Matto Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul,
Uruguay, Argentina.
Mus. Paul.: Est. Rio Grande do Sul, Porto Alegre
(comp. 17mm., diametro 2,5mm. Offerta do rev. P.º Ambr.
Schupp). Est. Bahia, Villa Nova, (comp. 130-140mm
diametro 2mm., E. Garbe leg.)
Glauconia dimidiata (Jan)
STENOSTOMA DIMIDIATUM Jan, Arch. Zool. Anat. Phys.
E1862, ples.
GLAUCONIA DIMIDIATA Boulenger, Cat. Snakes, I,
1893, p. 64.
Pouca differenca morphologica parece haver desta
especie para a precedente; o escudo supraocular é muito
pequeno e o labial anterior ao ocular não chega à al-
tura do olho.
No colorido distingue-se de G. albzfrons pela falta
do branco no focinho e na cauda; é uniformemente
pardo-avermelhado e as escamas tem ligeira orla branca.
Comprimento do exemplar typico: 280mm.; não
nos consta nenhuma outra referencia a seu respeito e
a unica indicação de proveniencia é:
Habit. : Brazil.
Glauconia macrolepis (Peters)
STENOSTOMA MACROLEPIS Peters, Mon. Berl. Ac.
1857, p. 402.
GLAUCONIA MACROLEPIS Boulenger, Cat. Snakes, I,
1893, p. 69.
— Sil) =
Com dous escudos supralabiaes entre o nasal e o ocu-
lar, sendo que o anterior chega ao nivel das narinas e
o segundo, que é por 1/4 mais alto, quasi attinge o
olho; os supraoculares são obliquos e quasi se tocam na
linha mediana, pelo que fazem destacar a escama sub-
sequente ao rostral como escudo frontal; os dous escu-
dos, que se seguem um apoz outro atraz do ocular e
e supraocular, tem grande largura, egual à do ocular ;
atraz do segundo dos escudos mencionados (parietaes)
começam as duas series de escamas adjacentes à me-
diana e ao lado daquellas, a começar do 3.º supralabial, co-
meça a 3.º serie. Labiaes inferiores em numero de seis.
A côr geral é escura, parda; no lado superior ape-
nas se distinguem cs limites das escamas; no lado ven-
tral as escamas são largamente orladas de claro, pelo
que o corpo ahi é mais claro.
Comprimento 290mm.
Habit. : Venezuela e Brazil: Est. Espirito Santo.
Mus. Paul . Espirito Santo, Porto Cachoeiro (E. Garbe
leg. 130mm. compr.)
O exemplar de nossa collecçäo combina tão bem
eom a descripçäo dada por Boulenger que, apezar de não
nos ser accessivel a descripçäo original, não duvidamos
em identifical-o com esta especie, não obstante a di-
versidade da proveniencia. Como se viu, G. albifrons
habita uma area ainda muito maior; por isto incluimos
a presente especie na lista da nossa fauna, como ter-
ceira especie de Glauconidae.
Ill. Fam. Ilysiidae
Na chave de classificaçäo das familias dos Ophideos
brazileiros ja foi salientado o caracter que melhor dis-
tingue a unica especie que desta familia occorre em
nosso paiz.
A posição systematica das cobras desta familia está
claramente indicada como sendo intermediaria entre
Boidae e Uropeltidae, e isto especialmente pela confor-
mação do esqueleto cranial; com os Boidae compartilha
— 311 —
o caracter importante da presença de vestigios pelvianos,
apparecendo as vezes, junto da abertura anal, dous pe-
quenos espinhos, que säo os rudimentos das extremidades
posteriores.
tHe Sits Hemp.
Inysta pt. Hemprich, Grundr. d. Naturg. 1820;
Bculenger, Gat. Snakes, I, 1893 p. 135.
A falta de um sulco mental, mediano; à posição do
olho muito pequeno no centro de uma unica escama
ocular, bem como as narinas que perfuram o apice da
escama nasal, entrando esta em contacio com a sua sy-
metrica por detraz da escama rostral; as escamas ven-
traes muito estreitas, de largura apenas dupla das adja-
centes; a cauda extremamente curta e grossa: carac-
terizam muito bem este genero, do qual aliás, só se
conhece uma unica especie, da Amazonia.
Ilysia scytale (Linn.)
ANGuUIS sCYTALE Linné, Syst. Nat. 1758, p. 228.
InysIA scYTALE Lichtenstein, Verz. Doubl. Mus.
Berlin, 1823, p. 104; Boulenger, Cat. Snakes, I, 1895,
pag. 133.
Kista especie ficou perfeitamente caracterizada pelos
caracteres acima indicados; pelo seu colorido ella lembra
muito as «cobras coraes», pois como aquellas é verme-
lha, com numerosos anneis pretos sobre todo o corpo.
Estes anneis, em numero de mais ou menos 56,
tem approximadamente a mesma largura que os espaços
vermelhos intermediarios ; geralmente são inteiros, mas
muitas vezes desencontram-se no lado ventral cu falta-
lhes mesmo o terço ventral. O focinho é vermelho; o
primeiro annel começa na altura dos olhos.
As escamas são inteiramente lisas, em numero de
19 ou 21 series; ventraes 210-214; subcaudaes 9-14.
Habit. Guyana, Amazonia, do Perú ao Paraná; compr.
830 mm.
Mus. Paul: Guyana hollandeza, Surinam (Subv.
242, Sc. 13; compr. 650 mm.)
L'une
IV. Fam. Boidae
As poucas especies da familia de cobras de que
aqui tratamos gozam de popularidade que só é egualada
pelas cobras venenosas Crotalinae, de que adiante nos
occuparemos. Não é, porém, o perigo do veneno tra-
hiçoeiro que de tal forma lhes deu renome; são unica-
mente as suas dimensões descommunaes entre os actuaes
representantes da fauna e suas proporções, que evocam
o terror. E é natural que, si as cobras pequenas a quasi
todos assustam, com maior razão estes monstros devem
inspirar pavor. De facto as cobras desta familia attin-
gem as maiores proporções e unicamente o Python asia-
tico se lhes eguala ; mas geralmente os exemplares mons-
tros são raros em regiões mais habitadas, pois o seu
desenvolvimento maximo ellas só attingem em edade
avançada e, com ou sem razão, por toda parte se lhes
move guerra de extermineo.
Trata-se ao todo de 6 especies, que se classificam
em 5 generos diversos. Mas só duas especies, a «Sucury»
e «Giboia» são verdadeideramente populares. A «Sucury»
é de todas as cobras actuaes a que attinge as maiores pro-
porções; exemplares de 10 metros de comprimento não são
raridade, e alguns, naturalmente muito velhos, chegam a
medir !4 metros. A sua vida é semi-aquatica, vivendo
constantemente à margem dos rios ou das lagoas, en-
roscadas em arvores ou sobre os barrancos, o que torna
mais facil ao viajante encontral-as. Como é facil de com-
prehender são muitos os exageros e mesmo as lendas
com que o povo as rodeia, mas os que lhe conhecem
a verdadeira indole, caracterizam-nos a Sucury antes
como cobra pacifica e mesmo timida. Seu alimento con-
siste em vertebrados, quer mammiferos (mesmo das pro-
porções da capivara e no maximo do veado), quer em
peixes, os quaes pega debaixo d'agua, nadando com
agilidade e mergulhando por largo espaço de tempo.
No verão, ao tempo que se juntam os. pares, a sua
vida é mais movimentada e então ouve-se lhe a voz,
que Wied (Beitr. z. Nat. Bras., I, p. 239) diz ser um
bramido grave, e Couto de Magalhães (Viag. Araguaya,
1889, p. 100) fala mesmo eu «urros medonhos». Sobre
o estado em que os filhos são dados à luz ha ainda al-
À à: ge
— 313 —
guma incerteza, viste como alguns auctores dizem serem
os «Boidae» viviparos, ao passo que outros dizem ter
observado posturas de ovos, dos quaes 24 dias depois,
na estufa, sahiram os filhotes. O mesmo se tem obser-
vado tambem com relação a Æpicrales.
A «Giboia» attinge egualmente grandes dimensões,
mas o nosso colleccionador, Snr. E. Garbe, acha que
6 metros, como indicam alguns escriptores é exagerado,
sendo 4 metros um comprimento bem consideravel para
esta especie; comtudo, segundo outras informações, consta
que esta especie attinge 5 metros de comprimento, o
que para uma cobra, cuja grossura muitas vezes é superior
à da coxa de um homem, representa um animal con-
sideravel.
Ao contrario da Sucury ella prefere o sertão, as zonas
seccas e em geral os campos; mas tambem tem sua
tóca entre pedras ou raizes de arvores. À sua caça é
mais ou menos a mesma que a da Sucury, com excepção
o dos reixes, pois a Giboia, como dissemos, não entrar
n'agua. Atirando-se sobre qualquer animal, ella enrola-
se-lhe logo pelo corpo, apertando a victima com repeti-
das voltas, e assim a comprime violentamente, para esma-
gar ou snffocal-a. Quando suppõe ter morto sua preza, ella
alarga um pouco as voltas; mas apenas percebe que a sua.
victima ainda não está completamente morta, de novo a
comprime com toda força. Por fim, depois de assim en-
roscada pelo seu corpo e de ter deformada a victima que fica
reduzida a um misero estado, sem mais, começa a deglu-
tição, que sempre principia pela cabeça da preza. Com a
fauce escancarada, e as articulações da cabeça todas disten-
didas, lentamente, com movimento difficil, vae ella aos
poucos engulindo, com pelle e osso, a ração de uma semana
ou mesmo de mezes. As dentes não tem outra funcção
que a de auxiliar os movimentos da deglutição, pois as
cobras não dilaceram as prezas em bocados, mas engo-
lam-nas inteiras. E isto nos ensina a propria constitui-
ção dos dentes, delgados e fracos. O Snr. Garbe já en-
controu uma Jaguatirica (Felis yaguarundr) toda in-
teira no estomago de uma Giboia. Os exageros de ca-
cadores e do povo em geral tambem aqui encontram
bom assumpto ; bois inteiros elles fazem a pobre Giboia
engulir; mas de facto só novilhos, bem com capivaras
— 14 —
e veados, que näo sejam dos maiores, podem ser devo-
rados por esta cobra. Ao homem só em condições muito
especiaes a Giboia pode tornar-se perigosa; ella não o
ataca senão em ultimo caso, quando já muito enfurecida
ou não encontrando outra sahida.
%
Subfam. Boinae. Só tomamos em consideração a
subfamilia dos Boinge, pois que a outra, dos Pythonina,
contem unicamente generos asiaticos e africanos, cujas
especies maiores (do genero Python) attingem 9 metros
de comprimento.
Entre as familias de cobras providas de dentes nos
dous maxillares, a fam. dos Bordae se distingue por di-
versos caracteres importantes, varios dos quaes porém
deixamos de mencionar aqui por exigirem um exame
anatomico mais delicado. Ha só duas familias de cobras
entre nós que tem vestigios de extremidades: a
que aqui descrevemos e a dos Zlysiidae (com uma só
especie muito bem caracterizada, 1. scytale). Alem disto
os Boidae sul-americanos não tem dentes premaxillares ;
a cabeça nunca tem escudos senão na area comprehen-
dida entre o focinho e os olhos pu
(fig. 17) e por vezes mesmo ahi
predominam as pequenas esca- «
mas; a cabeça se destaca bem &
do tronco e a conformação dot}
focinho é toda peculiar, trun-
cando em frente com bordos
angulosos e, como o disse Lin-
neo «canina», comparavei à ca-
beça de um cão do fila. O cor-
»
Fig. 17 — Cabeça de Boida, mos-
po sempre e proporcionalmente trando os escudos carac-
teristicos,
muito grosso e a cauda curta
e muito menos grossa que o corpo, pelo que fa
cilmente se verifica o ponto de seu inicio. As di-
mensões que attingem as diversas especies sempre são
consideraveis ; pelo menos nenhuma das que occorrem no
Brazil fica aquem de 2-3 metros quando tiver attingido
maior edade; isto no minimo, pois quanto às dimensões
maximas todos sabem que a Sucury «cessa de crescer
só quando morre».
— 315 —
CHAVE DE CLASSIFICAÇÃO DOS GENEROS BRAZILEIROS
A Escamas sem cristas:
a Com profundos sulcos labiaes (que
formam fossas junto aos angulos da bocca). Boa.
aa Sem profundo sulco labial (1):
b Toda a cabeça coberta com pe-
quenas escamas, mesmo entre os escudos
hasges dE APR A PAD ARENA a ENT Sy Conso
bb Gabeça, ao menos em parte, com
escudos :
c Com 21 a 29 series de escamas e
9 a 10 labiaes sup. SARE A bp
cc Com 40 ou muito mais series de
escamas e 11 ou mais labiaes sup. :
d 11-13 escudos labiaes sup., dos
quaes o 7°. e o 8.º entram na orbita ou
estão separados della por uma só serie de
Sue ane sa se re ta tis) ah eo PURE LL
dd 15-17 escudos labiaes sup., todos
separados da orbita por diversas series de
escamas ai e O AS 1 umectas.
AA Escamas com cristas:
e Cabeça coberta por escamas. . . Trachyboa.
ee Cabeça coberta em grande parte
por escudo si vom LME ami dora Wo Re TT NET
Ungalia (2).
Eprcrates.
(1) Em Epicrates só se ob:ervam sulcos verticaes entre os
escudos supralabiaes ; ha porém outres especies do mesmo genero
em que o sulco longitudinal é mais forte, sem comtudo formar
fossa como em Boa; ne:te ultimo genero não ha outros escudos
além dos do focinho, ao vasso que em Epicrates o escudo frontal
está bem desenvolvido.
(2) Ungalia brasiliensis Andersson (Bibang til K. Sw. Vet.
Akad. Handl. Vol, 27. See. IV, N.º 5, 1901, p. 4, Est. I fig. 1)
foi descripto como especie brazileira e pertencente ao genero
Ungalia, do qual até então só se conheciam 6 especies das An-
tilhas, uma da America central, e outra do Perú e Equador. Ao
tomar conhecimento da publicaçäo acima citada, verifiquei porém
que as indicações de proveniercis «Brazil» são muito suspeitas
e além disto não só o genero Ungalia como tambem Tropido-
dipsas, do qual 4 p. 17 vem descripta outra especie do «Brazil (?)»
são cobras da fauna central-americana. Por este motivo julgamos
que as ccbras dessa c:llecção do Dr. Touzet não são brezileiras mas
— 516 —
BOA Linn.:*)
Boa Linné, Syst. Nat. ed. X, 1758 ;
CoraLLUS Daud., Hist. Rep. V, 1803, p. 256; Bou-
lenger Cat. Snakes 1893, p. 99 ;
X1pHoscMA Wagler, em Spix, Serp. Bras. 1824, p. 40.
De todos os outros generos de Boinae o presente
se distingue facilmente pelo grande desenvolvimento dos
sulcos labiaes, tanto no maxillar superior como no in-
ferior; em Æprcrates e Constrictor tambem nota-se
uma impressão, só no maxillar superior, mas esta é
fraca e mal definida. Em Boa o sulco começa um pouco
antes da orbita, indo terminar no angulo da bocca, pas-
sando por sobre o meio das labiaes. Toda a cabeça é
coberta por pequenas escamas arredondadas e só restam
os escudos: rostral, nasaes e nem sempre os prefrontaes
e supraoculares. Os dous ou tres primeiros pares de den-
tes são grandes, todos os seguintes são pequenos.
CHAVE DE CLASSIFICAÇÃO DAS ESPECIES BRAZILEIRAS
A Subcaudaes 108-128 ; Escamas
51-59 series; Subventraes 270-299. . B. hortulana.
AA Subcaudaes 64-79; Escamas
em 61-71 series; Subventraes 188-219. B. canina.
Boa hortulana Linn.
Boa HORTULANA Linné, Syst. Nat. 1758, p. 215 (9);
XIPHOSOMA ORNATUM Wagler, em Spix, Serp. Bras.
1822/p. 20; Bist MLV, ee.
XIPHOSOMA DORSUALE Wagler, loc. s. cit. p. 43,
Est. XV;
da America central. Eis ahi demonstrado porque na nomenclatura
scientific, não podemos dar o minimo valor 4 significação dos
nomes genericos ou especifico: : Ungalia brasiliensis é uma cobra
que não cecorre no Brazil! E nem mesmo o proprio auctor tem
o direito de mudar esto nome, ailegando semelhante motivo.
(*) L. Stejner, (Proc. U. S. Net. Mus. Vol. XXIV, 1901,
p. 184) expoz claramente a necessidade de destrocarmrs os no-
mes genericos «Corallus» em Bca e «Boa» em Constrictor, visto
como o nome generico Boa Linne 1758, por ter sido mal defi-
nido, deve ser applicado sogundo os caracteres da especie typica
e esta, conforme cs preceitos do «prceesso de eliminação«, é B
canina,
a
CoraLLUS HORTULANUS Boulenger, Cat. Snakes,
I; 1895; 4804
A chave de classificação já indica o numero das
escamas que importam principalmente para a distincção
das duas especies brazileiras; ha ainda a observar que
na presente especie as escamas nasaes geralmente se
attingem por de traz da escama rostral.
O colorido varia bastante, principalmente com a
edade. Nos exemplares novos (X. ornatum de Wagler)
de meio metro de comprimento, a côr é pardo-bruna ou
quasi preta e o desenho do dorso consiste em delicadas
linhas claras, amarelladas, em semi-circulos cppostos,
que delimitam manchas mais escuras, ovaes, nos
flancos; junto das ventraes o desenho amarello ainda é
mais abundante; a barriga é inteiramente manchada de
preto e amarello; na cabeça ha no meio numer sos pe-
quenos traços finos, amarellos, emquanto nos lados predo-
minam linhas obliquas parallelas, e desenho variado
sobre as escamas labiaes e no maxillar inferior.
Nos exemplares grandes a côr geral é antes pardo-
cinzenta, com grandes manchas mais escuras em duas
series, geralmente com orla amarellada ou avermelhada,
côr de ferrugem; a barriga é mais clara, com menor
numero de manchas; na cabeça o desenho é em geral
pouco abundante e consiste sO em algumas manchas ar-
redondadas ou em traços largos, orlados de claro, sobre
o vertice entre os olhos; dous traços largos, que são
constantes, na região malar, a começar da orbita. Es-
camas em 5'-59 series; Subventraes 266-299; Subcau-
daes 108-128,
Habit. Equador, Perú, Guyana, Amazonia, Brazil
septentrional e no littoral atê Santos, Est. de S. Paulo.
Mus. Paul.: Est. Amazonas, Rio Juruá (95 series;
287 Subventr.; 127 Subcaud.; Compr. tot. 580mm.) Est.
S. Paulo, Santos (54-55 series, 268 Subventr.; 148-120
Subcaud.; Compr. tot. 1.700mm. offerta do Sr. Julio Con-
ceição); Itanhaem (1.46 mm.)
Boa cookt Gray, da Colombia, Venezuela e Guyana
ingleza certamente tambem será encontrada no Brazil,
aº menos nos limites com aquelles paizes.
aa Bhs
E” cobra que se assemelha bastante com a especie
precedente, tendo desenho analogo, egual numero de
subcaudaes, mas só 30 a 47 series de escamas ao redor
do corpo.
Mus. Paul.: Bolivia (compr. Umlauff ).
Boa canina Jinn.
Boa canina Linné, Syst. Nat. ed. X, 1758, p. 215 (2);
XIPHOSOMA ARARAMBOYA Wagler, em Spix, Serp.
Bras. 1824 p. 45 Est. XVI;
CoRALLUS CANINUS Boulenger, Cat. Snakes, I, 1893,
D. 1102:
Anatomicamente esta especie parece differir da prece-
dente só pelos caracteres já indicados na chave, e por
ter geralmente um par de pequenas escamas logo atraz
do escudo rostral, de modo a separar os escudos nasaes.
A côr dos exemplares adultos é verde-clara e o
desenho do corpo, que consiste em manchas transver-
saes, que passam de distancia a distancia sobre o dorso,
é branco-amarellado; a barriga ê amarella. Nos exem-
plares mais novos a côr geral é amarellada e as man-
chas tem orla escura ou verde. A cabeça em geral pa-
rece que não tem desenho.
Escamas em 61-71 series; Subventraes 188-219;
Subcaudaes 64-79; attinge 1,50m. de comprimento.
Habit. Guyana, Brazil, Amazonia, Rio de Janeiro.
CONSTRICTOR Laur.
Boa part. Linné, Syst. Nat. ed. X, 1758 p. 214;
Boulenger Cat. Snakes, I. 1893 p. 116;
ConstTRICTOR Laurent, Syn. Rept. 1768, p. 106;
Stejneger, Proc. U. S. Nat. Mus. vol. XXIV, 1901,
p. 184.
As duas especies propriamente sul-americanas deste
genero reconhecem-se facilmente pelo caracter que sa-
lientamos na chave de classificação : ausencia de escudos
na cabeça, que é toda coberta por minusculas escamas.
Ha mais duas outras especies na America central,
nas quaes se desenvolvem alguns escudos na cabeça ;
mas pelos dentes dos maxillares, os quaes diminuem gra-
dativamente de tamanho, Constrictor sô se assemelha
— 919 —
com Trachyboa (cujas escamas tem cristas) e com Æu-
nectes (cuja unica especie differe por não ter os escudos
nasaes separados por escamas) e pois em todo caso é
facil a determinação. Duas outras especies, do mesmo
genero Constrictor habitam a ilha de Madagascar.
Constrictor constrictor (Linn.)
«Gubora»
Boa constrictor Linné, Syst. Nat. ed. X, 1758,
p. 215; Wired, Beitr. Nat Bras. I, 1825, p. 211; Bou-
lenger Cat. Snakes I, 1895, p. 117;
CONSTRICTOR CONSTRICTOR Stejneger, Proc. U. S.
Nat. Mus. vol. XXIV, 1901, p. 184.
A cauda é muito curta e destaca-se visivelmente
do corpo por ser muito menos grossa. Na cabeça as
escamas são muito pequenas e irregulares, havendo cerca
de 18-20 em linha transversal de olho a olho; a orbita
é formada por 16-20 escamas; 20-25 escamas suprala-
biaes; 73-95 series de escama ao redor do ccrpo, sendo
que as tres primeiras series junto às subventraes são
formadas por escamas muito grandes.
O colorido do corpo em geral é bem constante,
mas os detalhes dos desenhos variam de um exemplar
para outro. À côr geral é parda, as vezes mais ruiva,
outras vezes azeitonada. Ao longo do meio do dorso ha
uma serie de grandes manchas claras, ovaes ou qua-
dradas, mais longas que largas, com os cantos ligeira-
mente arredondados (a maior parte das vezes essas man-
chas são recortadas nas margens anterior e posterior e
ainda podêm estar inteiramente separadas em duas me-
tades eguaes); ao longo desta serie mediana correm duas
linhas escuras, que se unem entre si nos intervallos dei-
xados pelas manchas, de modo a parecer uma escada,
mas com os degrdos mais grossos que as váras,
Nos pontos de encontro das linhas transversaes com
as longitudinaes, estas ultimas alargam-se e tem no
centro uma mancha amarella; as linhas transversaes pro-
longam-se ainda um tanto sobre os flancos, terminando
geralmente em ponta, e entre estas, partindo da barriga
e terminando a meia altura, sóbe um desenho em forma
de ponta de lança as vezes oval ou redonda, com am
centro claro.
— 520 —
A cauda é clara, mas tem 4 a 5 manchas arredon-
dadas irregulares e muitas com indicação de faixas trans-
versaes. À cabeça tem só uma linha mediana e outra
de cada lado, da narina 4 região malar, que passa sobre
o olho e que, antes deste, se liga em dous pontos às la-
biaes; o maxillar tem algum desenho irreguler.
As dimensões attingidas pela «Giboia» parece que
não ultrapassam 4,5 a 5 metros, sendo que de ordinario
sé se encontram exemplares de 2 ou 3 metros.
Habit. Venezuela, Peru. Guyana; Pará, Bahia, Rio
de Janeiro, S. Paulo, Matto Grosso.
Mus. Paul. Est. S. Paulo, Piracicaba, Franca, etc.;
Est. Bahia.
De Santa Cathariua e do Rio Grande do Sul não
se conhece a Giboia e tambem na Rep. Argentina não
é certa a sua occorrencia, porquanto C. Berg. (Contrib.
al conccimento de la fauna erpetol. argent., Anales Mus.
Nacional B. Aires, Tomo VI, 1899, p. 11) nega a sua oc-
correncia, affirmando a existencia só de C. occidentalis
Phil. Por isto a enumeração de C. constrictor por Kos-
lowski (Rev. Mus. La Plata Tomo, VII, 1898, p. 189)
sob o nome vulgar de Lampalagua, (com que aliás es
argentinos designam a nossa Sucury), como especie
muitas vezes caçada em diversas provincias, não inspira
confiança.
O mesmo auctor nos cita ainda (loc. cit. p. 26)
Constrictor imperator como occorrente em Matto Grosso,
mas tão interessante achado quizeramos antes ver me-
lhor documentado, para tambem esta especie poder ser
incluida na lista herpetologica do Brazil.
Como não temos material destas varias especies,
nada podemos affirmar de positivo. Comtudo C. occi-
dentalis, parece-nos, difficilmente poderá ser sustentada
como especie e, quando muito, representará uma sub-
specie meridional de C. constrictor porquanto os cara-
cteres morphologicos salientados pelos auctores que susten-
tam sua diversidade especifica, são todos de pouco valor,
baseiando se principalmente no numero de series de esca-
mas (81-95 em C. constrictor e 64-87 em C. occidentalis)
mas diversos exemplares nossos de C. constrictor não
tem senão 77,75 e mesmo só 73 series. O desenho descripto
para O. occidentalis tambem se encontra em exemplares
— 921 —
da nossa especie. Por isto, provisoriamente, queremos
admittir esta forma da Rep. Argentina com o nome de
CONSTRICTOR CONSTRICTOR OCCIDENTALIS (Phil.) e, pelo
mesmo motivo, chamamos de CoNSTRICTOR CONSTRICTOR
IMPERATOR (Daud.) à forma que occorre do Mexico ao
Perú.
Ambas as subspecies ainda não devem ser incluidas
na lista dos Boidas do Brazil, apezer de serem por vezes
citadas como desta proveniencia, mas, coino vimos acima,
erroneamente. A. S. Jensen tambem cita «B. imperator»
como occorrendo em Minas, Lagoa Santa (Vid. Medd.
1909, p. 99), com o que certamente se refere à forma
typica.
EPICRATES Mag.
ErrcraTES Wagler, Syst. Amph. 1830, p. 186;
Boulenger, Cat. Snakes, I, 1893, p. 98.
A dentição é analoga à que descrevemos para o
genero Boa, com o qual o presente tem affinidades. Algu-
mas especies tem escudos regulares na cabeça; a nossa
unica especie só tem alguns, sendo que o resto da ca-
beça é coberto por escamas irregulares. As vezes ha
uma fraca indicação de sulco labial, mas só no maxilar.
superior. O escudo rostral é grande, de conformação
regular; de cada lado seguem se-lhe 11 a 14 suprala-
biaes, dos quaes um ou dous entram na orbita.
Ha uma só especie conhecida no Brazil; as outras
são das Antilhas, à excepção de uma do Paraguay, da
qual tambem daremos uma rapida descripção.
Epicrates cenchria (Linn.)
Boa ceNcHRIA — Linné, Syst. Nat. 1758, p. 215;
Wed, | Abbild., 1824, VI, 3: vd. Beitr. Nat, Bras UD
foe), pu 219;
EPICRATES CENCHRIS — Boulenger, Cat. Snakes,
Pisos mp. SA
O escudo rostral é bem desenvolvido, bem como
os nasaes, prefrontzes e um frontal, aliás pequeno; o
escudo loral, alongado, entra em contracto com o 2º.
supralabial, mas fica separado dos seguintes por uma
serie de escudos intermediarios, dos quaes o 4.º entra
na orbita; o numero dos supralabiaes varia de 11 a 12
ou i3, e geralmente o 7.º ou 8º, ou 7.º e 8.º delles,
entram na orbita; tanto os escudos labiaes superiores
como os inferiores, que são em egual numero, estão se-
parados por sulcos verticaes mais ou menos profundos.
A côr geral é pardo-avermelhada e o desenho é
mais ou menos constante nos especimens brazileiros.
Consiste o desenho do corpo em uma serie de grandes
manchas dorsaes, redondas, claras, com orla escura, e
ha ainda uma outra serie, geralmente dupla, de manchas
pretas, orladas de claro, nos flancos. A barriga é clara,
pouco manchada. Sobre o meio da cabeça corre uma
linha preta, do focinho à nuca; uma outra acompanha
os bordos superiores dos labiaes e outras duas interme-
diarias, que lhes são parallelas, começam na altura dos
olhos. (Geralmente as manchas lateraes do pescoço não
são destacadas e formam uma ou duas linhas, orladas
de claro. ;
Escamas em 43-51 series; Subventraes 215-268 ;
Subcaudaes 43-66; Comprimento total até 1.700mm.
Habit. America central, Venezuela, Perú, Guyana,
Rep. Argentina (Chaco), Brazil: Amazonia, Bahia, Es-
pirito Santo, S. Paulo.
Mus. Paul. Est. S. Paulo (do Inst. Serumtherapico
do Butantan, 43 series; 215 Subventr., 43 Subcaud. ;
Compr. tot. 990mm.); Est. Espirito Santo, Porto Ca-
choeira (40 series; 248 Subventr. ; 43 Subcaud. ; Com-
pr. tot. 770mm.); Est. Bahia Villa Nova, (49 series ;
200 Subventr.; 58 Subcaud.; Compr. tot. 500mm.)
EPICRATES WIENINGERI Steindachner, Sitzber. Ak.
Wiss. Wien, Mat. Natur. KI. €, XH, 1903, p. Lo:
Ainda que esta especie até hoje não tenha sido
encontrada no Brazil, comtudo é provavel que occorra
tambem nas regiões do Matto Grosso, limitrophes do
Paraguay.
Differe morphologicamente de Æ. cenchria por ter
todos os escudos supralabiaes separados da orbita por
uma serie de suboculares; cs 2.º-5.º destes são conti-
guos ao grande escudo loral. (O numero de escamas é
approximadamente o mesmo : 47 series de escamas, 244
Subventraes, 64 Subcaudaes.
O desenho consiste em numerosas faixas transver-
saes, escuras, 60 no corpo e 20 na cauda, separadas por
pequenos intervallos claros; na cabeça ha uma linha
escura, mediana e dous pares de outras que lhe são
parallelas.
Habit. Rep. Paraguay, Altos.
EUNECTES Wagl.
Eunecres Wagler, Syst. Amph. 1830, p. 167;
Boulenger, Cat. Snakes, I, 1893, p. 115.
Os dentes anteriores nos dous maxillares são os
maiores, os subsequentes vão gradativamente diminuindo
de tamanho; focinho truncado em frente, com escudos
na região entre o focinho e os olhos; a cabeça poste-
rior coberta por escamas irregulares; narinas dirigidas
para cima; pescoço estreitado, de modo a se destacar
bem da cabeça.
Uma unica especie da America do Sul.
Eunectes murina (Linn).
«Sucury»
Boa murina Linné, Syst. Nat. 1766, p. 374. |
Boa acquatica Wied, Beitr. Nat. Bras. I, 1825,
p. 226; id. Abbild, IT, 1823, Est. 6.
EuNECTES MURINUS Boulenger, 1. s. cit. p. 115.
O escudo rostral é muito baixo, de modo que mal
chega à margem superior do focinho; este é anguloso
nos lados, e no bordo anterior conta só tres suprala-
biaes, que aliäs ao todo são em numero de 16-18. As
escamas do corpo são em geral pequenas, em numero
de 57-65 series. Subventraes 242-266; Subcaudaes 56-73.
A côr do dorso é pardo-azeitonada ; embaixo ama-
rellada. O desenho consiste em uma serie dupla de
manchas redondas, negras, as vezes orladas de clero ;
nos labios ha mais duas outras series de manchas ovaes,
tambem pretas, mas com o centro claro, o que chega
a dar-lhes feição de annel; na barriga ha pouco dese-
nho. A cabeça é escura; as vezes destacam-se bem 3
pares de linhas pretas, que partem do focinho e divergem
posteriormente, alternando com um fundo avermelhado.
— 5
O comprimento de exemplares bem desenvolvidos
é de 6-8 metros, mas dizem que não raro attingem 10
e alguns mesmo Jô metros. A pelle de nosso exem-
plar de 6 metros de comprimento méde 60 cm. de lar-
gura; outro de 5 metros de comprimento méde 53 cm.
de largura.
Habit. Perú, Guyana, Amazonia, Bahia, S. Paulo,
Minas Geraes, Matto Grosso, Rep. Argentina, Chaco,
Corrientes, Missiones.
Mus. Paul: Est. S., Paulo, Rio Tieté int, 8. dose
do Rio Pardo, 8S. Carlos do Pinhal.
Sobre a distribuição da Sucury no Brazil meridiona
é interessante observar que na zona do littoral de S.
Paulo para o Sul ella näo occorre; tambem é desco-
nhecida em Sta. Catharina e no Rio Grande do Sul,
mas pode ser que habite as margens do Rio Uruguay.
TRACE YT SOA Peters
TracHyBoA Peters, Mon. Berl. Acad. 1860, p. 200 ;
Boulenger, Gat. Snakes, I, 1893, p. 109.
Este genero se distingue facilmente de todos os
outros da subfamilia por ter todas as escamas provi-
das de altas cristas ; no mais, pela conformação dos den-
tes e outros caracteres, reconhece-se certa affinidade com
Constrictor e Eunectes. A cabeça é coberta sé por
pequenas escamas, faltando mesmo um escudo rostral.
Trachyboa gularis Peters
TRACHYBOA GULARIS Peters, Monb. Berl. Acad.
1860, p. 200, Est. fig. I; Boulenger, Cat. Snakes, I,
1898, p, 100:
ENYGRUS GULARIS Jan, Icon. Gen. 1861, p. 77, Est.
Ho ies (3.
E" a unica especie do genero acima caracterizado. (*)
Supralabiaes em numero de 12 ou 18, dos quaes 0 à.
(*) Durante a impressäo recebemos a diagnose da Trachy-
boa boulengeri Peracca (Anna, del Mus. Zool. R, Univers.
Napoli, Nuova serie, Vol. 3, N. 12, Abril 1910), a segunda
especie descripta deste genero, Nos seus caracteres principaes
— 525 —
ou 6.º entram na orbita, a qual, além disto, é formada
por mais 11 ou 13 escamas; 29 ou 31 series de es-
camas ao redor do corpo.
À côr em cima é pardo-bruna, mais escura na ca-
beça e no pescoçe. Ha geralmente duas series de gran-
des manchas alternadas ao longo dos flancos, sendo a
mancha inferior maior, de modo a passar por sobre a
barriga ; esta, de resto, é amarella.
Subventraes 150; Subcaudaes 25-30; Compr. tot.
400mm.
Habit. Venezuela, Guyaquil; Brazil (Amazonia ?)
V. Fam. Amblycephalidae
Aglyphodontes Paréasiens part., Leptognathiens
part. Duméril e Bibron, Erpetol. Gen. VII, 1854.
DiesaDIDAE part. Giimther, Cat. Col. Snakes 1338,
fe JO
AMBLYCEPHALIDAE Günther, Rept. Br. Ind. 1864,
p. 324; Boulenger Faun. Ind. Rept, 1890, p. 414; ed.
Cat. Snakes I11, 1896, p. 438.
Este pequeno grupo de cobras tropicaes, que ao .
todo conta 2 generos neotropicos e 3 outros asiaticos,
já ficou bem caracterizado pelos dados anatomicos que
salientamos na chave de classificação das familias.
Todas as cobras de desenvolvimento superior, com
dentes nos dous maxillares, tem um sulco mediano evi-
dente no maxillar inferior (cf. fig. 10), excepto justamente
a familia dos Amblycephalide (fig. 11) e a dos Zlysudæ:;
a distincção das especies destas duas familias é facil,
ella condiz bem com a resumida definição generica que demos
acima; de Tr. gularis ella se distingue por ter só 10 supralabiaes,
nenhum dos quaes attinga a orbita; tem só 23 séries de escamas
ao redor: do corps; curiosos são os tubsrculos dos quaes ha dous
pares no focinho e dous outros entre os elhos
O colorido é bruno, ir egularmente manchado de amarellado
nos flancos: nº lado ventral h. um desenho irregular, preto é
branco. Ventraes 139; Subean iacs 22,
A prveniencia deita especio é desconhecida; certamente
habita, como Tr. gularis, a America do Sul.
attendendo-se à posição do olho e à conformação da
orbita.
Chama attenção tambem a forma peculiar do corpo
destas cobras, que em geral são fortemente comprimi-
das, formando-se mesmo na região vertebral uma sorte
de espinhaço.
A cabeça é bem mais larga que o corpo e é se-
guida por verdadeiro pescoço; os olhos são geralmente
grandes. A cauda, por ser muito mais fina que o corpo,
destaca-se bem; seu comprimento importa em regra em
1/5 e sô em poucas especies em 1/3 do comprimento
total.
O numero das series de escamas ao redor do corpo
é constante, sendo de 15 na maior parte das especies e
de {5 só em poucas outras.
Colorido. Ainda quanto ao colorido, a familia dos
Amblycephalidæ é bastante homogenea no que diz res-
peito aos seus representantes sul-americanos. A côr fun-
damental pouco varia, e em geral é parda ou amarel-
lada; o desenho consiste em manchas ovaes, oppostas
ou alternadas sobre os flancos. Estas manchas se tocam
ou fundem ligeiramente na região vertebral (6. cates-
byt) ou, o que se póde acompanhar pela comparação de
varios typos intermediarios, ellas fundem-se cada vez
mais na região dorsal, ao mesmo tempo que os inter-
vallos diminuem, dando em resultado faixas transversaes,
como por exemplo em C. turgidus. Na cauda nem
sempre se conserva este padrão; o desenho da cabeça
varia de especie a especie, sendo mesmo mais ou menos
característico para cada uma dellas.
Notas biologicas. Quantos à biologia destas cobras
pouco podemos adiantar. O actual nome generico Coch-
liophagus nol-as caracteriza come «comedores de con-
chas», e isto devido a terem Dumeril e Bibron encon-
trado uma lesma, Vaginulus, no estomago da especie
typica, C. inaequifasciatus ; Guenther fez egual achado
( Veronicella) em C. mikani e nós extrabimos exem-
plares inteiros ou fragmentos, tambem de Vaginulus sp.
do estomago de varios C. turgidus do Rio Grande do
Sul (S. Lourenço) e de São Paulo (Vaginulus angus-
tuceps) e ainda de C. mikani de Piquete, São Paulo.
Neste ultimo exemplar o Vaginulus estava já esphacelado
2 SO ee
e por isto não foi possivel averiguar si o pequeno pa-
rasita Distomum, que egualmente se achava no esto-
mago (?) da cobra era parasita do reptil ou da lesma ;
a conservação dos 12 exemplares de Destomum era
perfeita, o que torna mais provavel a primeira hypothese.
Devéras singular é esta alimentação, ao que pa-
rece alé agora exclusiva, de Vaginulus !
Em um exemplar de C. turgidus encontramos 6
ovos, de 21 X8mm. de dimensão, mas já bastante de-
formados pela longa conservação, de modo que não per-
mittem descripção mais detalhada.
CHAVE DE CLASSIFICAÇÃO DOS AMBLYCEPHA-
LIDAE DO BRAZIL
A Pterygoideos com dentes . . . . COCHLIOPHAGUS
a Escamas em 13 series; só as es-
camas labiaes inferiores do 1.º par
estão em contacto na linha me-
diana :
b 8-9 labiaes superiores; 82-108
subcaudaes ; escamas vertebraes
duas vezes mais largas que com-
pridas: £2: Yah asi) oro pis Cascatesbuya
bb 10-11 labiaes superiores; 112-145
subcaudaes ; escamas vertebraes
näo chegam a ser duas vezes
mais largas que compridas. . . C. pavoninus
aa Escamas em 15 series :
c As escamas vertebraes egualam
em tamanho e forma às adja-
centes :
d Só as escamas labiaes inferiores
do 1.º par estão em contacto na
linha mediana; 7 escamas labiaes
superiores; focinho inteiramente
claro, com manchas nitidas nas
narinas Le 120 O ças
dd As escamas labiaes inferiores dos
2 primeiros pares attingem-se; 5
escamas labiaes superiores. . . (C.intermedius)
CC
7
if
ee
h
hh
hhh
CocaxLiopxaGus Dum. & Bibr.
jd. Erpet. Gen. VII, 1854, p. 478.
— Son
Escamas vertebraes maiores que
as adjacentes :
As escamas dos 2,3 ou 4 primeiros
pares de labiaes inferiores attin-
gem-se:
Com 7-8 labiaes superiores. . .
Com 9-10 labiaes superiores, bar-
riga com grandes manchas . .
Só as escamas do 1.º par de la-
biaes inferiores attingem-se na
linha mediana :
Com menos de 90 escamas sub-
caudaes; atraz das labiaes supe-
riores que entram na orbita ha
ainda :
3 supralabiaes; as manchas es-
curas estão separadas por inter-
vallos claros, da largura de 3 à
C. albifrons
C. variegatus
9 escamas” Vin: . C. mikant
2 supralabiaes em seguida às or-
bitaes ; as manchas escuras estão
separadas por intervallos claros,
da largura de só uma escama
o supralabiaes em seguida às
orbitaes .
Com mais de 90 escamas subcau-
HAS RUN o SET ET O |b
Pterygoideos sem dentes
Escamas em 13 series, com as
dorsaes engrandecidas; 2-3 pares
C. ventrima-
culatus
C. inaequifas-
cratus ?
C. alternans e
C. incertus
Dipsas
de labiaes inferiores attingem-se: D. endica
COCHLIOPHAGUS Dum. « Bibr.
Lreptoanatuus Dum. & Bibr. (nec Sws. 1839) Mem.
Ac. Sc. XXIII, 1853 p. 467; id. Erpet. Gen. 1854 VII,
p. 473; Boulenger, Cat. snakes III, 1896 p. 446.
1353 L c. p. 467;
— 929 —
C. Berg (Gomunic. del Mus. Nac. Buenos Aires,
1901, Vol. I, p. 291) demonstrou que o nome generico
Leptognathus, tão geralmente empregado para estas co-
bras, havia sido preoccupado para um genero de peixes
(Swainson, 1339) e ainda por Westwood (1841) para
coleopteros; devendo pois ser substituido, tem approvei-
tamento o nome Cochliophagus estabelecido pelos mes-
mos auctores Dumeril & Bibron para a especie ince-
qufasciatus.
Cochliophagus catesbyi (Sentz.)
CoLUBER CATESBYI Sentzen, Meyer's Zool. Arch.
E, 1705, p. 66.
STREMMATOGNATHUS CATESBYI Guichen, em Cas-
telnau, Anim. Nouv. Amer. Sud. II, Rept. 1855, p.
Ae test IR.
LEPTOGNATHUS CATESBYI Boulenger, Cat. Snakes,
WI, 1896, p. 449.
Pelos dous dados anatomicos que salientamos na
chave (escamas em 13 series, com as vertebraes de largura
duas vezes maior que o seu comprimento), esta especie
fica bem caracterizada. O colorido é o predominante neste
genero, com manchas ovaes escuras ao longo dos flancos,
orladas de branco sobre fundo pardo-amarellado ; estas
manchas unem-se as vezes em cima ou então são alter-
nadas, estreitadas embaixo ; barriga clara, com poucas
manchinhas, especialmente no meio, entre as pontas das
manchas ovaes de cada lado. Logo atraz da cabeça
as manchas oppostas confluem em cima e as vezes em-
baixo e são alongadas; o mesmo dá-se com as manchas
caudaes.
A cabeça é uniformemente escura em cima ou ma-
culada, com faixa branca atraz e nes lados, sendo ahi
interrompida pela mancha escura que circunda os olhos;
tocinho escuro, com listra transversal branca de olho a
olho, curvada para diante. Maxillar inferior branco, com
manchas pequenas no meio da mancha grande de cada
lado; esta ultima representa a continuação da mancha
ocular.
Subventraes 162-190; Subcaudaes 82-108; Compr.
670mm.
Habit. Equador, Bolivia, Perú, Guyana, Amazonia,
Pará, Rep. Argentina (Corrientes, G. Berg.)
Mus. Paul. Guyana (2)
Cochliophagus pavoninus (Schleg.)
Dipsas PAvONINA Schlegel, Phys. Serp. II, 1837,
p. 280.
LEPTOGNATHUS PAVONINUS Doulenger. Cat. Snakes,
1701896 p: 490:
Só pelos poucos caracteres anatomicos indicados na
chave esta especie se distingue da precedente; o colorido
do corpo é quasi o mesmo; o da cabeça differe por ser
o focinho branco ou pouco manchado e não ter a lista
branca transversal atraz do escudo rostral. EK’ em summa
especie bem alliada a C. catesbyr.
Subventr. 186-220; Subcaud. 112-145.
Habit. Equador, Bolivia, Guyana, Amazonia, Pará.
Cochliophagus turgidus (Cope)
LEPTOGNATHUS TURGIDUS Cope, Proc. Acad. Philad.
p. 108 e 136; Boulenger, Cat. Snakes, IH, 1895, p. 456.
C. turgidus, intermedius e bicolor, esta da America
Central, são as unicas deste genero que não tem as escamas
vertebraes augmentadas, de forma que ellas quasi não se
distinguem das escamas adjacentes. Tambem o colorido
é característico; o fundo é de côr clara, mas fica re-.
duzido a pequenos espaços ou linhas, pois grandes man-
chas pardas transversaes, duas ou trez vezes mais largas
que os ditos espaços, cobrem todo o lado dorsal; nos
flancos estas manchas tornam-se mais estreitas e ter-
minam em ponta nas placas ventraes; entre estas
pontas acham-se manchinhas escuras, bem como sobre
toda a barriga; logo atraz da cabeça as grandes man-
chas formam perfeitos anneis, só interrompidos na bar-
riga; poucas vezes este desenho se torna irregular e
isto especialmente na metade posterior do corpo. À ca-
beça é branca no focinho (nas narinas ha geralmente
duas manchinhas escuras), nos lados e atraz, antes do
primeiro annel dorsal; em cima a cabeça é irregular-
mente manchada ou toda parda e junto dos olhos este
colorido alarga-se, de modo a attingir quasi os labios.
O maxillar inferior sempre tem algumas manchas no
meio ou só nas escamas labiaes.
Attendendo a estes caracteres tambem pelo colorido
é facil distinguir esta especie de C. mzkanz, com que
tem alguma semelhança.
Subventraes 161-168; Subcaudaes 46-02.
Habit. Brazil meridional, Paraguay, Argentina (Gor-
rientes, Missiones).
Mus. Paul. Est. S. Paulo, Piracicaba, Jundiahy,
Franca, Barretos, Ypiranga; Est. Rio Grande do Sul,
S. Lourenço.
COCHLIOPHAGUS INTERMEDIUS Steindachner, Sitzungsb.
d. kk. Ak. Wiss. Wien CXIE; fase. 1-3, 1902, p. 16,
do Alto Paraguay, é uma especie alliada a C. turgedus,
pois não tem as escamas vertebraes differenciadas e o
colorido lhe é semelhante; differe porém por ter só 5
escamas labiaes superiores, sendo que duas ficam atraz
da orbita; as duas primeiras labiaes inferiores tocam-se
na linha mediana. Subventr. 155; Subcaud. 41. Muito
provavelmente esta especie será tambem encontrada no
Brazil central.
Cochliophagus albifrons (Sauv.)
DipsaDOMORUs ALBIFRONS Sauvage, Bull. Soc. Phi-
lom. (7) VIII.
LEPTOGNATHUS ALBIFRONS Boulenger, Cat. Snakes,
HI, 1896, p. 451.
Alem dos caracteres anatomicos basta salientar os
seguintes, do colorido, para caracterizar bem esta especie.
A côr geral é parda, clara, com manchas escuras em
forma de (), orladas de claro, com uma largura de
2-3 escamas no meio e unindo-se no dorso com a cor-
respondente do outro lado, ou alternando com esta; na
região caudal perde-se esta regularidade; a primeira
mancha atraz da cabeça é larga, unida no lado dorsal,
mas ella não passa pela barriga, que é branca no co-
meço, manchada com pontinhos pardos atraz.
A cabeça é toda clara, com sé duas manchas alon-
gadas escuras, que atravessam os parietaes e geral-
mente os excedem.
— 932 —
Subventraes 168-173; Subcaudaes 80 &5.
Habit. Brazil meridional, Santa Catharina.
Mus. Paul. Est. S. Catharina, Col. Hansa (V. 173,
Subc. 80, compr. 530mm.)
COCHLIOPHAGUS VARIEGATUS (Dum. & Bib.)
Leptognathus variegatus Dum. & Bibron, VI!, 1854,
p. 477; Boulenger, Cat. Snakes, III, 1896, p. 451.
FE” outra especie que se assemelha bastante à es-
pecie precedente, mas differe por ter um maior nu-
mero de escamas supralabiaes e por ser a barriga mais
manchada, notando-se como que uma continuação do
colorido dorsal, devido às grandes manchas ventraes.
Por emquanto sô se a conhece da Guyana, mas prova-
velmente este representante septentrional de C. albifrons
occorrera tambem na Amazonia.
Cochliopbagus mikani (Schleg.)
Drpsas mIKANI Schlegel, Phys. Serp. II, 1837, p. 277.
LEPTOGNATHUS MIKANI Boulenger, Snakes, II, 1896,
p. 403.
Os caractes indicados na chave são sufficientes para
distinguir esta especie das suas slliadas; comtudo nem
sempre as dimensões augmentadas das escamas verte-
braes são taes que excluam confusão com C. turgidus;
mas tomando tambem em consideração o colorido, é
facil a distineção. O desenho da metade anterior do corpo
é geralmente constituido por faixas pretas transversaes,
completas emcima, interrompidas no lado ventral, da
largura de 4 escamas vertebraes, um pouco obliquas e
separadas por faixas brancas ou pardo- amarelladas, de
só 1/3 da largura daquellas. Da metade do comprimento
do corpo em diante este desenho costuma transformar-se
em manchas de forma oval, pouco regulares e alongadas,
alternando as series de um lado com as do outro; os
intervallos tornam-se maiores e ahi apparecem outras
manchinhas, geralmente junto das vertebraes. A barriga
não tem desenho no primeiro terço do comprimento ;
dahi em diante apparecem manchinhas que formam, em
cada lado das ventraes, uma serie muitas vezes inter-
rompida. A cabeça, desde o focinho até o 1.º annel
branco do pescoço, é toda manchada de pequenos pontos
ou nuvens pardas. A partir da altura dos olhos e por
— 335 —
sobre quasi toda a extensäo dos parietaes alongam-se
duas manchas escuras ou pretas, orladas de uma linha
amarellada ; na base do frontal ha ainda outra mancha
arredondada, as vezes pouco distincta. O maxillar in-
ferior é inteiramente claro, sem desenho.
Subventraes 156-180; Subcaudaes 53-40. Compri-
mento: até 720mm.
Habit. Brazil, do Rio Grande do Sul ao Pernambuco;
Colombia, Equador.
Mus. Paul. Est. Rio Grande do Sul, $. Lourenço,
Camaquan; Est. Paraná, Piraraquära; Est. 8. Paulo, Pi-
quete, São Sebastião; Est. Espirito Santo, Rio Doce.
Os exemplares das ultimas localidades mencionadas
representam uma variedade que diverge um tanto da
forma typica, pelo colorido da cabega, onde ha um maior
numero de manchas bem definidas e pela disposiçäo das
manchas do corpo, que säo muito estreitas, espacadas,
interpondo-se entre ellas outras manchas menores. Ne-
cessitamos porém de material mais abundante para ave-
riguar si a constancia desta forma permitte o estabele-
cimento de uma subspecie, que então denominariamcs
CocHLIOPHAGUS MIKANI NEUWIEDI subsp. n
Cochliophagus ventrimaculatus (Boulg.)
LEPTOGNATHUS VENTRIMACULATUS Boulenger, Ann.
ge Mas Nat. Hist: (Oy NV Tesoro Sis Ne Cate
Snakes, III, 1896, p. 454. Est. XXIV fig. 2.
E” especie bastante alliada à precedente, da qual
comtudo se distingue bem por ter só duas escamas
labiaes atraz das que entram na orbita; este caracter
parece ser constante, bem como o colorido, que é o
seguinte: Grandes manchas transversaes inteiras, que
abrangem todas as escamas, excepto as ventraes ; são
separadas por intervallos, poucas vezes mais largos que
uma escama, e que terminam simplesmente junto ás
escamas vertebraes, de modo que não interrompem as
manchas pretas; estas são só ligeiramente arredon-
dadas embaixo e por vezes tem o centro um pouco
mais claro. A barriga tem abundantes manchas es-
curas, que se estendem as vezes sobre 2 ou 3 esca-
mas ventraes, podendo alternar sobre as duas metades
destas. Na cabeça ha numerosas manchas escuras
mais ou menos symetricas em forma de nuvens, se-
paradas entre si por delicadas linhas amarelladas. O
maxillar inferior é manchado e as manchas da bar-
riga começam logo no pescoço.
Subventraes 156-166; Subcaudaes 45-52; Compri-
mento total 525 mm.
Habit. Brazil, Rio Grande do Sul, Matto Grosso
e Paraguay.
Mus. Paul. Rep. Paraguay, Villa Encarnacion
(Subventr. 166; Sube. 45; Compr. tot. 420 mm.) Offerta
do snr. G. Schrottky.
Cochliophagus inaequifasciatus
(Dum. & Bibr.)
COCHLIOPHAGUS INAEQUIFASCIATUS Duméril & Bi-
bron, VII, 1854, p. 480.
LEPTOGNATHUS INAEQUIFASCIATUS Boulenger, Cat.
Snakes, 1, 1896, p. 499.
Parece que nunca mais foi reencontrada esta es-
pecie, que aliás, pela descripção original de Boulenger,
parece bem alliada a C. mikanz; desta porém differe
essencialmente por ter 5 escamas labiaes em seguida
à o.º escama, a qual tambem entra na orbita Caso não
seja questão de uma anormalidade individual, este ca-
racter basta para a distincção especifica.
Subventr. 174; Subcaudaes 61; Comprimento total
445 mm.
Tambem a proveniencia do exemplar typico é
. incerta ; vem mencionada unicamente como sendo do
« Brazil.»
Cochliophagus alternans Zisch.
LEPTOGNATHUS ALTERNANS Fischer, Jahrb. d. Ham-
burg. Wissensch. Anst. II, 1885, p. 105, Est. IV, fig.
8 ; Boulenger, Cat. Snakes, IT, 1896, p. 456.
O unico caracter morphologico, pelo qual se dis-
tingue esta especie das precedentes, é o maior numero
de Subcaudaes.
— Jam
O colorido, porém, é bastante caracteristico. A
côr geral é pardo-clara ; na primeira metade do com-
primento grandes manchas escuras, ovaes, separadas
por espaços mais ou menos eguaes ao seu diametro,
correspondem-se de lado a lado ou alternam nos flancos ;
as vezes interpõem-se outras menores na região dorsal;
na metade posterior geralmente este desenho é menos ni-
tido e as manchas interpostas são mais numerosas. A bar-
riga é clara na parte anterior, com manchinhas fracas.
A cabeça é uniformemente parda, as vezes mais clara,
com duas manchas ocelladas, bem escuras sobre os pa-
rietaes e outra egual, um pouco menor, no meio, atraz
daquellas ; ao redor destas ha algumas manchinhas es-
curas e as vezes ainda uma mancha na parte posterior
da orbita. O maxillar inferior, bem como o pescoço
são brancos, sem desenho.
Subventraes 181-197; Subcaudaes 93-118 ; Compr.
tot. 67 cm.
Habit. Littoral do Brazil meridional, Espirito Santo,
Santos, Santa Catharina.
Mus. Paul. Estado de S. Paulo, Alto da Serra;
Est. do Espirito Santo, Porto Cachoeira; (Subv. 194;
Subcaud. 118; Compr. tot. 560 mm.) Estado de Santa
Catharina, Col. Hansa (Subv. 181; Subcaud. 93 ; Compr.
tot. 670 mm.)
COCHLIOPHAGUS INCERTUS (Jan), Elenco, 1863, p.
101; Boulenger, Cat. Snakes HI, 1896, p. 458, cujo
distinctivo de C. alternans parece consistir só em ter
um maior numero de Subventraes (204) e Subcaudaes
(122), mas que no mais combina bem com a men-
cionada especie, mesmo quanto ao colorido, que lhe é
egual. Talvez venha a ser reconhecida como forma iden-
tica, e neste caso prevalecerá o nome mais antigo de
Jan, entrando C. alternans em sua synonymia.
A proveniencia de C. zncertus é indicada como sendo
«Guyana e Brazil»; o catalogo do British Museum
menciona um exemplar de S. José dos Campos, Est. de
S. Paulo, o que, sendo boa a classificação, parece
confirmar a nossa hypothese da identidade das duas
jormas.
OO —
DIPSAS Laur.
Drrsas Laurenti, Syn. Rept. 1TCR, 89; Boulenger
Cat. Snakes, 1896, p. 460.
Ainda que represente um genero evidentemente
diverso de Cochliophagus, com-
tudo não é facil distinguir De-
psas por meio de outros ca-
racteres que não sejam os da
dentição. Examinando porém
os dentes, vê-se, que ao con-
trario do que é regra geral em
Cochliophaqus, os pterygoideos
são desdentados, tendo assim
a serie mediana de dentes pa-
série lateral (maxilar), ao passo
Fig. 18.—Dipsas bucephata, com a ji pterygoideos au one
pterygoideos (*) desprovidos de den- genero alcançam ate quasi a
tes (cop. Boulenger) base do craneo. “« não ser esta
differenga, poderiamos citar só outros caracteres de méro
valor especifico.
Genero monotypico da America do Sul.
Dipses indica Laur. (*)
Dr»sas INDICA Laurenti, 1. s. cit. 1768, p. 90 (ba-
seado em Seba Thes. I, 1734, Est. 45 fig. 4).
; CoLUBER BUCEPHALUS Shaw, Zool. III, 1802 ,p. 422
Est. CIX.
DrpsaDOMORUS INDICUS Dum. & Bibr., VII, 1854,
p. 470, Est. 67.
Dipsas BUCEPHALA Boulenger Cat. Snakes HI, 1896,
p. 461, fig. 32.
A não ser o caracter generico acima indicado, os
demais detalhes que passaremos a descrever, poderiam
servir apenas para a differenciação desta especie de
outras do genero Cochliophagus.
Escamas em 13 series, sendo as dorsaes muito
maiores, mais largas que compridas, quasi hexagonaes,
com uma crista mediana. Os escudos da cabeça são
(* O nome especifico de L:urenti, preterido por indicar
patria falsa, deve não obstante pr'valecer sobre o sté hoje
adoptado, D. bucephala, em cumprimento da lei de privridade.
+ AU
An
a % '
9 à
: [o
— 337 —
os mesmos como no genero precedente, mas o frontal
é maior e sua margem anterior forma angulo um pouco
menos obtuso; os parietaes, muito largos, alcançam
quasi até o meio da orbita e no bordo posterior são muito
recortados ; 8-10 supralabiaes, dos quaes o 4.º e o f°
(ou tambem o 6.º) entram na orbita e o penultimo é
geralmente bem mais alto que os outros; os dous ou
tres primeiros pares de labiaes inferiores tocam-se na
linha mediana.
Pelo colorido assemelha-se muito a C. alternans.
Cor geral pardo-clara, com grandes manchas ovaes
correspondentes ou alternadas sobre os flancos; estas
manchas são mais escuras, orladas de claro, tocando-se
na linha mediana; as duas anteriores são mais com-
pridas que as seguintes. À cabeça emcima é toda da
cor fundamental do corpo; apenas sobre os escudos
frontal, parietaes e supraoculares ha umas vistosas man-
chinhas ocelladas, do tamanho de uma ou duas esca-
mas. O maxillar inferior é maculado bem como o pes-
coço. A barriga é pardo-clara, salpicada ou vermicu-
lada de brancacento.
Um ornamento todo particular desta especie é
constituido por uma serie de manchinhas irregulares,
brancas, ao lado das subventraes e subcaudaes; estão |
mais ou menos regularmente dispostas, uma no meio
da mancha oval escura, outra, simples ou dupla, nos
intervallos.
Subventraes 171-200 ; Subcaudaes 80-116 ; Compr.
total 710.
Habit. Equador, Perú, Bolivia, Brazil, Bahia, São
Paulo.
Mus. Paul. (offerta do Instituto Serumtherapico
do Butantan, S. Paulo). Estado de =. Paulo, Lençoes
(Subv. 180; Subcaud. 10470 ; compr. tot. 710 mm.)
Vl Fam. Viperidae
Apezar de ser bastante complexa, esta familia de
cobras reune um numero suficiente de caracteres com-
muns, que permittem a sua reunião. Practicamente a
manutenção deste conjuncto tem valor, pois assim po-
demos designar os Veperidae como a familia das co-
= "SOR.
bras essencialmente venenosas. Já vimos no capitulo
introductorio que a discriminação das cobras em «ve-
nenosas» e «não venenosas» não tem nem mesmo um
valor practico, pois no grupo destas ultimas encontra-
mos especies que as
vezes Injectam uma
quantidade de veneno
sufliciente para de-
terminar consequen-
cias mais ou menos
graves. Além disto
não ha differença es-
7 sencial nos orgãos de
Fig. 19. Craneo de Crotalinæ, mostrando a veneno dos diversos
anta a que permittem o levanta- typos. Comtudo os
Viperidae todos têm
um veneno extraordinariamente energico, que bem se dif-
ferencia do das demais cobras providas de dentuça ; com
relação à fauna brazileira esta distincção é bem facil,
porquanto alem daquellas, só temos a considerar como
portadoras de dentes de veneno, as Ælapidae ou «Go-
raes», e estas não dão lugar a confusão. No Velho
Continente é que encontramos outras serpentes egual-
mente venenosas, como Najas, Bungarus, etc. que,
porem, pertencem ao grupo dos Colubridae Protero-
glyphas.
A familia dos Viperidae subdivide-se em duas
subfamilias :
A Sem covinha loral ; osso maxillar não
excavado na base.) cn Veperinge
AA Com covinha loral entre a narina e o
olho; o osso maxillar tem uma cova
excavada nã. base ME , + Crotalinae
Mas destas duas subfamilias só nos interessa a
segunda, largamente representada na America. ao passo
que a dos Viperinae occorre só na Europa, Asia e
Africa, onde conta numerosas serpentes: Vipera, Bites,
Echis, Causus etc., muitas das quaes, principalmente
as do primeiro genero mencionado, tem um veneno
extremamente activo.
A subfamilia Crotalinae contem quatro generos,
a saber: Ankistrodon, que occorre na Ásia e na Ame-
— 339 —
rica do Norte e Central mas cuja peçonha em geral
não é das mais activas; Sistrurus com tres especies
na America do Norte e no Mexico, que só excepcional-
mente alcançam pouco mais de meio metro de compri-
mento e são raros os accidentes que causam. Restam
finalmente os dous generos que muito de perto nos in-
teressam, Crotalus e Lachesis, pois nelles estão com-
prehendidas 11 especies de serpentes da nossa fauna,
todas extremamente perigosas.
Por uma casualidade é facilimo dar caracteres que,
pela mais simples inspecção, nos habilitam a distinguir
os generos e mesmo, em parte, as especies e isto, como
já vimos, nos casos de accidente é de importancia, para
se poder applicar o serum mais adequado. Veja-se a
respeito o que foi dito à pag. 283 da introducção, bem
como a seguinte chave de classificação.
Já salientamos que a curiosa «covinha loral» con-
stitue uma particularidade morphologica desta familia,
a ponto de bastar só este caracter para se reconhecer
qualquer das suas especies. Naturalmente procurou-se
saber qual a utilidade deste orgam singular, mórmente
como em toda a serie animal não ha cousa alguma que
se lhe possa dizer analoga. Foi o Prof. Leydig (1868,
Nova Acta Acad. C. Leop. Nat. Curios. XXIV, N. 5)
que primeiro descreveu detalhadamente esta covinha
loral, reconhecendo então, que se tratava de um verda-
deiro orgam de sentido, visto como ahi vae ter um nervo
de certa importancia e que termina de forma analoga
aos nervos opticos e auditivos, isto é como si tivesse a
funcção de receber na covinha loral alguma impressão
do mundo exterior e que então seria levada ao cerebro.
Qual seja effectivamente esta sensação, ninguem ainda o
soube dizer, e, assim, provisoriamente se a chamou «do
sexto sentido», com o qual aliás tambem já foram brin-
dados outros animaes, como os peixes, por possuirem
estes a «linha lateral».
CHAVE DE CLASSIFICAÇÃO DOS CROTALINAE DO
BRAZIL
COBRAS EXTREMAMENTE VENENOSAS—que tem no
maxillar superior um par de grandes dentuças, cujo
canal é aberto só anteriormente na base e na ponta do
— 340 —
dente; todas têm, entre a narina e o olho, uma covi-
nha, a chamada covinha loral (fig. 4-L). As especies sul-
americanas têm a cabeça toda ou pela maior parte reco-
berta por pequenas escamas (fig. 3) (e não por escudos
grandes, symetricos).
A A cauda termina em guiso . .
À unica especie que occorre no
Brazil Si RR do PAR
AA A cauda termina em ponta, sem
a
bb
DUAS: Pi Men Mn RMS RE
Cauda terminando em espinho
e com as ultimas escamas
arrepiadas ; as escamas da
cabeça são arredondadas
Sem estes caracteres :
Cauda longa prehensil; cobra
verde-clara, com lista late-
ral e manchinhas dorsaes
amarelas: hig Gata
Cauda curta, não ou só pouco
prehensil; geralmente 0 co-
lorido é escuro, ou quando
muito esverdeado-sujo :
Escamas subcaudaes pela maior
parte divididas :
A segunda escama labial su-
perior forma a margem an-
terior dacovinha loral (fig. 4)
Com 195-202 escamas sub-
ventraes (*)
O corpo todo, de tom pardo
avermelhado ou cinzento,
tem um aspecto aveludado ;
as cristas das escamas são
incompletas, não attingindo
CROTALUS
C. terrificus
(CASCAVEL)
LACHESIS
L. mutus ( Su-
RUCUCÜ)
L. biliniatus (JA-
RARÁCA-VERDE )
(*) Veja-se tambem a referencia 4 L. monticellii, de pro-
cedencia desconhecida, pag. 352.
ff
ee
fff
dd
8
hh
— 541 —
ellas o bordo posterior ; ca-
beça sem desenho distincto.
Sem estes caracteres ; cabeça
em cima sempre com de-
senho de manchas . . .
Com 170-176 escamas sub-
ventraes :
Cabeça em cima inteiramente
negra, só com 2 listras ama-
rellas dos lados ao pescoço.
Entre a segunda escama labial
superior e a covinha loral
ha interposição de pequenas
escamas (fig. 7):
A cor geral é bruno-parda ;
o desenho dos flancos con-
siste ou em 4 manchas dis-
postas em quadrangulo ou
trapezio com base larga em-
baixo (novos), ou em linha
arqueada em forma de fer-
radura chata com abertura
para fóra ou de ramo de
um x (adultos) :
O deserho da cabeça, de fun-
do quasi todo preto, consis-
te em uma linha mediana e
outra arqueada, ambas in-
terrompidas, formando an-
cora ou como na fig. 24-A.
O desenhe da cabeça é formado
por 4 manchas escuras, orla-
das de claro, dispostas syme-
tricamente, e mais uma na
IE,
E;
atrox (JARA-
RÁCA)
atrox lanceo-
latus (JARARACA)
E
atrox jara-
racussu (JARA-
RACUSSÚ)
E:
alternatus
(UrurU CoATIÁ-
ù
RA)
ponta do focinho (fig. 24-B) L. newwiedi
(URuTU),
Eee
ge À cûr geral é a de terra aver-
melhada; manchas transver-
saes escuras alternam ou
unem-se com as do lado op-
posto, com intervallos eguaes
à sua largura (desenho da
cabeça como em L. neu-
wed) ai MNT EAN ME nenaieda mom =
petiningae (rara)
cc Subcaudaes pela maior parte
inteiriças
i A segunda supralabial forma
a margem anterior da covi-
nha loral (veja fig. 4); 72-83
subcaudaes, 230-253 sub-
ventraes . L. castelnaude
(rara)
ii A margem anterior da covi-
nha loral é formada por es-
cama independente da supra-
labial (veja fig. 7); 29-39
subcaudaes, 152-159 sub-
ventraes . NM) Sm MEN E Wangsberne
(rara).
CROTALUS Linn.
Crotatus Linné, Syst. Nat. 158, ed. X, p. 214;
Boulenger Cat. Snakes, III, 1896, p. 572.
Dentre as nossas cobras venenosas este genero dis-
tingue-se logo por ter a cauda terminada em guiso ou
chocalho (fig. 20). Varios auctores tem-se occupado deste
dispositivo tão in-
“4 teressante quão ex-
Ff, SSSR cepcional. O inicio
O O uf SSERIZLEE, do guiso é inter-
EE pretado como sendo
Fig. 20. Guiso da Cascavel (Cop. Garman.) um simples reves-
timento corneo da ultima vertebra caudal. Jä nos em-
brides vemol-o bem conformado e dahi em diante cada
annel que se lhe junta apparece por um processo ana-
logo ao da muda da pelle; geralmente a cobra quando
ARY NV NO)
EU | i / }
est!
— 545 —
descasca, cria tambem mais um annel no guiso. Assim
não tem razão de ! y pal
ser a opinião po- ASY Sy aaa va
pular de qua He Fig. 21. Guiso da Cascavel decomposto em seus segmentos
possa concluir do (Cop. Czermak.)
numero de segmentos do guiso qual a edade da cobra;
afóra do motivo exposto, accresce ainda que frequente-
mente as cascaveis quebram o seu guiso e então, em pouco
tempo este se refaz. E’ curioso este dispositivo que
deve produzir um som (*), cuja utilidade entretanto,
ainda não foi explicada positivamente.
Muito se tem escripto a respeito e varias são as
theorias. Assim foi observado que uma cascavel tanto
tempo fez tinir o seu chocalho até que de algures sur-
giu a sua companheira. Diz-se tambem que as serpen-
tes por meio da emissão deste som querem amedrontar
os inimigos, avisando-os assim que certamente serão
victimas do veneno caso ataquem; as serpentes dão este
aviso porque sabem que o envenenamento não é tão ra-
pido que evite um golpe de defesa, que por sua vez lhes
poderá ser fatal. Finalmente tambem aqui, como em todos
Os casos interessantes da biologia, que não tenham prompta
interpretação, a theoria da selecção natural foi invocada,
ainda que com pouco successo, para demonstrar que
na lucta pela existencia as cobras dotadas de guiso tem
superioridade sobre as de cauda simples !
Crotalus terrificus (Laur.)
«Cascavel»
CAUDISONA TERR)FICUS Laurente, Syn. Rept. 1768, p. 98.
CroraLus HORRIDUS Wed, Abbild. Nat. Bras. 1827 ;
Dumerit & Bibron, Erpet. gen. VII, 1854, p. 1472,
Est. 84-B, fig. 2.
(*) Com o polygrapho fizeram-se verificações a respeito do
numero de vibrações que a cobra executa com a csuda e o guiso,
quando produzam o som; o sr. Stejneger (I. c. p. 388) dá-nos o
resumo de duas destas observações, dos drs. Feoktistow e 1. Ott.
Mas o primeiro dá como resultado 75 vibrações da cauda e 110
do guiso por minuto, 20 passo que o segundo indica 60 vibra-
ções da cauda por segundo. Caso não so trate apenas do uma
indicação falsa quanto ao tempo, taes resultados, tão differentes,
não admittem comparação entro si e assim, por emquanto, nenhuma
dellas póde merecer fé.
— 9544 —
CROTALUS CASCAVELLA Wagler, em Spix, Serp. Bras
1824, p. 61, Est. 24.
CroTALUS TERRIFICUS Cope, Proc. U. 8. Nat. Mus.
XIV, 1892, p. 688; Boulenger, Cat. Snakes, HI, 1896,
p. 973.
E” a unica especie deste genero que occorre no
Brazil. Na cabeça, além dos escudos rostral e supra-
labiaes, que são normalmente desenvolvidos, ainda ha
os seguintes escudos : um par de internasaes e um de
prefrontaes ; sobre a margem interna da orbita ha de
cada lado um grande escudo oval, o supraocular; entre
estes ultimos ha 4 ou 6 escamas grandes e o resto da
cabeça é coberto por um grande numero de escamas
semelhantes às do corpo, porém muito menores. As
escamas do corpo estão dispostas em 23-51 series, sendo
que as lateraes tem crista muito menos distincta que
as medianas. A cauda é comprimida e termina em um
guiso composto de um numero variavel de «anneis» ou
segmentos, que tambem são comprimidos; o maior nu-
mero de segmentos que observamos foi de 14, mas consta
que ha exemplares com ca. de 20 segmentos. O numero
de Subventraes é de 160-199, o de Subcaudaes de 18-30.
O cclorido varia um pouco nos detalhes, mas con-
siste sempre em uma serie mediana de losangulos, desde
o pescoço até a cauda; o centro destes losangulos pardo-
esverdeados é em geral mais claro e por fóra sempre
são marginados por linhas claras constituidas por esca-
mas amarellas; estas geralmente prolongam-se lateral-
mente, formando assim nos flancos uma outra serie de lo-
sangulos, que alternam com os medianos ; nos intervallos
lateraes destes uma mancha menos regular constitue uma
terceira serie, que fica no mesmo plano transversal que
e losangulo central. A cabeça não tem desenho regu-
lar, sendo que muitas escamas, principalmente as maio-
res, tem orlas ciaras ; varias linhas claras passam della
ao pescoço, atê começar o desenho de losangulos acima
descripto, que na cauda ou pouco antes se perde.
O maior comprimento que esta cascavel parece at-
tingir é de 1.80 cm., sendo que os machos, ainda que
nem sempre sejam maiores, em geral são mais robustos
e sua cauda é mais comprida e mais grossa que a da
femea, |
— 545 —
Habit. Brazil, do Rio Grande do Sul a S. Paulo
(exclusive Serra do Mar), Minas Geraes, Bahia, Per-
nambuco; Rep. Argentina (Chaco Austral), Paraguay,
Bolivia, Perú; no Mexico occorre uma variante sem
linhas claras no pescoço.
Prefere as terras seccas e os campos ou capoeiras,
e parece evitar as grandes florestas; mattos menores com-
tudo não lhe constituem barreira insuperavel, pois o
nosso collecionador, snr. E. Garbe, tem-na encontrado
por vezes em trilhos de caça no matto. As mattas da
Serra do Mar a cascavel não consegue atravessar e por
isto ella falta no littoral de S. Paulo, Paraná, Espirito
Santo Na Amazonia tambem não occorre e serão erro-
neas as indicações de Spix (I. c. p. 67) a este respeito.
Mus. Paul. Est. 8. Paulo, Villa Prudente, Limeira,
Piracicaba, Franca, Rio Feio.
«Nos accidentes pelo Crotalus terrificus» diz o dr.
Vital Brazil, os accidentes locaes são muito pouco in-
tensos, contrastando quasi sempre com a gravidade dos
symptomas geraes, indicativos em via de regra da acção
predominante sobre os centros nervosos. A caracteris-
tica deste contraste constitue um bom elemento de dia-
gnose differencial entre esta especie de envenenamento
e o determinado pela maior parte das Lachesis.
«As hemorrhagias determinadas pelo veneno de
cascavel são raras e, quando ellas se processam, são tar-
dias, o que constitue tambem um bom caracter diffe-
rencial para distinguir o veneno crotalico do veneno
bothropico.
«São geralmente de muita gravidade os accidentes
determinados por esta especie, cujo veneno é pelo menos
cinco vezes mais activo do que qualquer outro.
«Os sôros a empregar-se são o anti-crotalico e o
anti-ophidico. Deve-se, porém, preferir o «anti-crotalico»,
sempre que houver a certeza de que a cobra determi-
nadora do accidente foi uma cascavel. As victimas serão
tratadas o mais promptamente possivel, não devendo
exceder a duas horas o prazo entre o momento do ac-
cidente e o da primeira injecção de sôro, que será de
20 centimetros cubicos no minimo.
«Os mordidos de cascavel devem ser observados
cuidadosamento, pelo espaço de 15 a 20 dias depois do
— 546 —
accidente, pois dentro deste periodo podem ser obser-
vadas recaidas ou o reapparecimento dos phenomenos
de envenenamento primitivos, que haviam cedido sob a
influencia do tratamente especifico. Nestas condições
uma nova injecção de sôro, mesmo feita muitos dias
depois do accidente, tem um effeito maravilhoso.
«Parece que, nestes casos, uma pequena porção de
peçonha que se achava em combinação instavel com o
sôro, se desliga afinal, indo fixar-se sobre os centros
nervosos, produzindo então phenomenos de extrema gra-
vidade ; acha-se, entretanto, extremamente sensibilisada
em relação à anti-toxina contida no sôro especifico ; de
sorte que uma nova injecção deste consegue, de novo,
subtrahir as cellulas do organismo à acção perniciosa da
peçonha. Varios casos temos observado neste sentido,
mas, exclusivamente nos accidentes determinados pela
cascavel.» :
LACILESIS Daud.
Lacxesis Daudin, Hist. Rept. V, 1803, p. 349;
Boulenger Gat. Snakes, 1896, p. 929.
TRIGONOCEPHALUS Oppel, Ordn. Rept. 1811, p. 91.
Copuias Merr., Tent. Syst. Amph. 1820, p. 154.
CRASPEDOCEPHALUS Juhl, Isis, 1822, p. 472.
Borarors Wagler, em Spix, Serp. Bras. 1824, p. 50.
Mecara Wagler, Syst. Amph. 1850, p. 174.
Este genero antiquissimo, de vasta distribuição, não
é tão homogeneo como parece pelo estudo só das es-
pecies brazileiras ; como, porém, aqui temos em vista só-
mente a classificação destas ultimas, não precisamos am-
pliar a caracterização, e as indicações dadas na chave
são inteiramente sufficientes. |
Conhecem-se ao todo cerca de 50 especies, das quaes,
porém, só 10 occorrem no Brazil; é no Perú, no Equa-
dor e na America central e Mexico que se acha o maior
numero das especies americanas. Na America do Norte
não ha nenhuma cobra deste genero entre as 14 espe-
cies venenosas de lá, que pela maior parte pertencem ao
genero Crotalus. Cerca de 20 especies são da Asia.
A classificação das nossas especies torna-se relati-
vamente facil quando se toma em consideração tanto os
caracteres anatomicos como os do colorido ; como entre-
— 947 —
tanto, o desenho e o numero de escamas não são cara-
cteres bastante seguros para a distincção especifica, jul-
gamos ser de melhor aviso subordinarmos 4 cathegoria
de subspecies aquellas formas que só por este meio
podem ser reconhecidas. E” este o unico ponto em que
a nossa classificação diverge da do dr. Vital Brazil.
Este eminente scientista mostrou que ha além disso dif-
ferenças na acção do veneno, entre as formas que aqui
designamos como subspecies. Ainda que reconheçamos o
valor destes caracteres, não os podemos utilizar, por im-
practicaveis, como elemento de classificação ; mas é jus-
tamente este um desses casos interessantes que colligi-
mos a respeito da differenciação das especies animaes,
em que qualquer caracter biologico precede a maior dif-
ferenciação morphologica das formas, antes que estas ulti-
mas possam ser bem reconhecidas pelo estudo puramente
systematico. (Veja-se a variedade biologica da vespa
social Polybia scutellaris, R. v. Ihering, Rev. do Mus.
Paul Vol. VL post).
Fig. 22. Lachesis mutus, «Surucucú»
Recapitulando o que ficou exposto na chave de clas-
sificação, vemos que as serpentes brazileiras deste genero
constam : de duas especies bem caracterizadas, L. mutus
(Surucucu) e L. bilineatus (Jararáca verde); de duas ou-
tras, pouco conhecidas, L. castelnaudr e L. langsbergi com
as subcaudaes não divididas e que não occorrem no Brazil
meridional; finalmente de dous grupos, que o povo dis-
— 548 —
tingue com as denominações de «Jararáca» e «Urutú»,
cada um dos quaes contem tres formas, que porém nem
todas podem ser classificadss em egual cathegoria. O
grupo da «Urutu» contem duas especies bem differen-
ciadas L. alternatus e neuwiedi e uma subspecie desta
ultima, L. n. itapetiningae; o da «Jararáca», cujas formas
muito grandes o povo denomina «Jararacussi», sem com
isto fazer referencia a variedades, comprehende tres sub-
species de difficil caracterização e que por nem todos os
auctores são egualmente acceitas : L. atrox, lanceolatus
e jararacussu.
Como forma typica deste ultimo grupo devemos reco-
nhecer à primeira mencionada, pois logo em 1708 Linneu
a descreveu, como «Coluber atrox» (Syst. Nat. ed. X, p.
222). Não é facil dist nguil-a da forma que designamos
por L. atroxw lanceolatus, a Jararäca ccmmum do Brazil
meridional, ao passo que a outra subspecie, L. a. jar ara-
cussu, se reconhece com facilidade. mórmente quando
se trata de exemplares adultos. O dr. Vital Brazil dá,
a cada uma destas formas, a cathegoria de especie, pois
que sempre teve à mão exemplares vivos e, ainda, toma
em consideração os effeitos do veneno, que differem de
uma fórma para a outra; o auctor do Catalog of Snakes,
G. A. Boulenger, entretanto só admitte duas especies
L. atrow e lanceolatus, e isto mesmo com duvida.
Ainda que na systematica, como dissemos, não podemos
dar às formas biologicas cathegoria egual à das espe-
cies morphologicas, comtudo como subspecie ellas serão
sustentaveis.
Lachesis mutus (Linné)
«Surucuci» (fig. 22)
CrotaLus mutus Linné, Syst. Nat. I, 1766, p. 373.
BorHrops surucucu Wagler, em Spix, Serp. Bras.
1824, p.159, (Est923:
LacHEsIs RHOMBEATA Wied, Abbild. Nat. Bras. 1825.
LacuEsis mutus Dum. d Bibr., VII, 1894; Bou-
lenge», Cat. Snakes, III, 1896, p. 534.
Pela conformação das escamas da cauda e da ca-
beça esta especie se distingue logo de todas as demais ;
— 349 —
tambem as escamas todas do corpo tem, não uma sim-
ples crista mediana, mas uma pequena protuberancia
em forma de espinho chato, ou, como diz o povo nor-
tista: Surucucú pico de jáca.
O colorido, bem caracteristico, é simples ; sobre um
/ fundo amarello-crême des-
tacam-se manchas pouco
regulares, as vezes quasi
rhomboedricas, as vezes
em oval alongado, ao lon-
go do meio do dorso, com
um prolongamento em
triangulo sobre o flanco.
Em outros exemplares as
“e manchas pretas são ainda
Fig. 23. Detalhe da pelle da Surucucú mos- mais irregulares, passan-
trando a forma peculiar das escamas. do obliquamente sobre 0
corpo, e emmendando-se em linha de zig-zag. Quasi
sempre ha ainda de cada lado uma manchinha clara for-
mada por 2 ou 3 escamas.
A cabeça não tem desenho definido, alternando ir-
regularmente grupos de escamas pretas com ouiras cla-
ras; do olho ao canto da bocca passa uma larga faixa
preta; abaixo desta a cabeça é toda uniformemente clara,
como toda a barriga.
Escamas em 33-37 series; Subventraes 200-230 ;
Subcaudaes 32-50. Os maiores exemplares attingem
2.400mm.
Habit. America central, Perú, Bolivia, Guyana,
Amazonas, Pará, Pernambuco, Bah:a, Espirito Santo e
nas regiões de Minas Geraes e Rio de Janeiro, proxi-
mas áquelle Estado.
Mus. Paul. Est. Espirito Santo, Porto Cachoeiro
(3 exempl. E. Garbe leg., IV. 06) maior comprimento
2,120mm.
Com relação ao veneno da Surucucú diz o dr. Vital
Brazil que os accidentes determinados por esta especie
devem ser gravissimos, não só em razão da potencia do
apparelho inoculador e da quantidade de veneno, como
da actividade deste. Depois do veneno da Cascavel é
um dos mais activos por injecção intramuscular, para
os animaes de laboratorio. Os phenomenos locaes são
— 550 —
pouco intensos, dando-se a penetração do veneno com
extrema rapidez.
Nenhum dos sôros anti-peçonhentos que actualmente
prepara o Insututo Serumtherapico de =. Paulo é bas-
tante activo contra o veneno da surucucu. O que maior
actividade revelou foi o sôro anti-crotalico, que neutra-
lisa tres minimas mortaes por centimetro cubico. Acon-
selha-se, pois, o emprego deste sôro em dose augmentada
no tratamento dus accidentes determinados por esta cobra.
Lachesis bilineatus (Wied)
Jararáca verde ou Surucuci de patioba
CopHias BILINEATUS Wied, Beitr. Nat. Bras. I,
1825, p. 483; 2d, Abbild. 1825.
LacHEsIs BILINEATUS Boulenger, Cat. Snakes III,
1896, p. 565.
Pelo colorido esta especie se distingue logo de to-
das as outras cobras venenosas; ella é inteiramente de
côr verde-clara (com um ligeiro tom azulado) e só nos
flancos, logo acima das escamas ventraes, corre de cada
lado uma linha amarella, da largura de uma escama,
desde o pescoço atê a cauda e sobre o dorso ha, ir-
regularmente distribuidas, pequenas machinhas de egual
côr, com alguns pontos pretos. Na cabeça as manchi-
nhas pretas são muito pequenas e numerosas, mas pouco
apparentes.
Traços verticaes pretos assignalam os limites dos
escudos labiaes, tanto do maxillar superior como do in-
ferior (nestes ultimos os traços são um pouco mais
fracos) e sobre a região malar, do olho ao angulo da
bocca, passa uma linha dupla preta. A barriga é toda
clara, ligeiramente azulada e cada escama tem, junto da
linha amarella, um traço preto, o que dá a impressão de
uma listra.
Ha 7 escamas supralabiaes, das quaes a segunda
forma a margem anterior da fossa loral. Todas as es-
camas tem cristas regulares; 27-30 series de escamas
ao redcr do corpo. A cauda é prehensil, delgada e cor-
responde a 1/10 do comprimento total. Subventraes
— 351 —
198-218 ; Subcaudaes 59-71, das quaes as primeiras são
geralmente inteiriças.
Habit. Equador, Perú, Bolivia, Brazil: Bahia, Es-
pirito Santo.
Mus. Paul. Est. Espirito Santo, Porto Cachoeiro
(E. Garbe. leg. IV 06) 2 exemplares.
A) compr. 84 cn; 213 Subventr.; 65 Subcaud. ;
B) compr. 50 cm; 211 Subventr.; 65 Subcaud.
Lachesis atrox Linn.
«Jararäca»
CoLuBER atrox Linné, Syst. Nat. ed. X, 1758,
p. 222 (apud Mus. Acad. Frid. 1754, Est. XXII, fig. 2.)
BorHrops MEGÆRA Wagler, em Spix : Serp. Bras.
1824; p. 90, Est. 19.
? BorHrops TEssELATus Wagler, 1. cit. p. 54, Est.
ENE fe, 2.
? Borruops TAENIATUS Wagler 1. cit. p. 55, Est.
XXI, fig. 3.
LacHEsis ATROX Boulenger, Cat. Snakes, III, 1896,
p. 097.
Como já vimos não é facil decidir a questão da
classificação das «Jararacas», entre cujas formas nos
acostumamos a denominar «L. atrox Linn.» áquella, cujas
escamas não tem crista completa, isto é, a crista ter-
mina um pouco antes do bordo posterior da escama.
O dr. Vital Brazil adduziu outros caracteres, que porèm
só podem ser reconhecidos no animal vivo.
«A coloração do fundo, e sobre a qual se desenham
figuras semelhantes as de L. lanceolatus, diz elle, é
de um pardo avermelhado, tomando por vezes um tom
cinzento. Esta combinação de cores dá um aspecto avel-
ludado ao animal, pelo qual se o reconhece à primeira
vista. O seu veneno subordina-se bem ao typo bothro-
pico, tendo algumas propriedades que o distinguem de
qualquer outro; é o de acção local mais intensa, mais
proteolytica sobre os tecidos».
Outras differenças mais positivas entre L. atrox ea
nossa Jararáca commum ainda não foi possivel assignalar.
Consideramos, pois, as duas formas como subspecies
muito alliadas. Quanto à applicação do nome de Lin-
— 352 —
neu, näo nos foi possivel verificar si elle se refere com
segurança a esta forma; na 10. edição do Syst. Nat.
(1758) com a qual, segundo a convenção, damos por
estabelecida a nomenclatura linneana, a descripção es-
pecifica reduz-se à indicação do numero de escamas
subventraes e subcaudaes (196-69) e seguem-se, como re-
ferencia descriptiva, as seguintes palavras: «Canus squa-
mis carinatis». Suppomos, entretanto, que a publicação
anterior de Linneu. que acima citamos (1754) e que é
acompanhada de gravuras, tenha servido de base para a
identificação adoptada; infelizmente, porém, não pos-
suimos essa obra.
No caso de se tornar necessaria a reunião das duas
formas de que aqui tratamos, deverá prevalecer o nome
de L. atrox Linn.
Habit. America Central ao Brazil, Pará a S. Paulo.
O Instituto Serumtherapico de S. Paulo tem-na rece-
bido de numerosas localidades do oeste do Est. de 8. Paulo.
Mus. Paul. Est. S. Paulo, Ribeirão Preto, Baurú ;
Guyana hollandeza.
segundo os estudos do dr. Vital Brazil o veneno
desta cobra subordina-se bem ao typo bothropico, mas
tem algumas propriedades que o distinguem de qualquer
outro; é o veneno de acção local mais intensa, mais
proteolytico sobre os tecidos. O sôro anti-bothropico
é muito activo contra o envenenamento determinado por
esta especie; pode-se tambem empregar com muito bom
resultado o sôro anti-ophidico.
Lachesis atrox lanceolatus (Lacep.) (*)
«Jararáca»
CoLuBEr LANcHoLATUs Lacépéde, Serp. II, 1789,
pe 00 Est NV fics].
TRIGONOCEPHALUS LANCEOLATUS Oppel. Ordn. Rept.
1814, p. 66; Schlegel, Phys: Serp. Il, 1887, p. 936,
Est. 19, fig. 3 e 4.
(*) Lachesis monticellii Peracca (Annuario del Mus. Zool.
R. Univ. Napoli, Nuova Serie, Vol. 3, N. 12, Abril 1910),
cuja diaguose recebemos durante a impressão deste trabalho,
representa sem duvida uma forma intimamente al'iada a L. atrox
e em especial a lanceolatus, mat que é conhecida até hoje tó pelo
— 993 —
Bormrops FURIA Wagler, em Spix. Serp. Bras.
1824, p. 92 Est. 20.
BOTHROPS LEUCOSTIGMA Wagler, 1. s. cit. p. 53, Est.
2b fig. 4.
CoPHIAS JARARACA Weed, Beitr. I, p. 470, e Abbild.
1825.
BoTHROPS LANCEOLATUS Dumeril & Bibron, Vil,
1894, p. 1909.
LACHESIS LANCEOLATUS Boulenger, Cat. Snakes, ILI,
1896, p. 535.
E’ a nossa cobra venenosa mais commum A sua
caracterização, entretanto, a não ser pelos dados que
incluimos na chave de classificação, é assaz difficil, pois
o colorido é extremamente variavel, quer no que diz
respeito à cor, quer quanto 90 desenho.
De entre os caracteres anatomicos, só podem ser
salientados os que mencionamos na chave de classifica-
ção, para differenciar esta especie das demais. A con-
formação das escamas do dorso, principalmente as da
região do pescoço, permitte distinguir esta subspecie
da forma typica: ao passo que em ZL. atroz Linn. a
crista mediaua não attinge o bordo posterior e em Z.
atrox jararacussu a crista forma quasi um tuberculo
como em L. mulus, na presente forma a crista atra- .
vessa toda a escama, desde sua base até a margem
posterior e com egual conformação em todo o percurso.
Outro caracter que, ao que parece, geralmente se cons-
tata, é serem todas as escamas da cabeça de L. a.
lanceolatus providas de crista, ao passo que em L. a.
exemplar typico, de procedencia desconhecida, O auctor destaca,
como caracteres diffa enciaes : a menor largura do escudo rostral,
numero mais elevado de subcaudaes (88) e colorido dfferente.
Observamos entretanto que a descrivção do desenho da cabeça,
que justamente o auctor reputa ser muito característico para a
sua especie, póde muito bem referir-se alanceolatus, cujo desenho
no resto do corpo é extremamente variavel; t:mbem a diffsrença
no numero das subcaudaes ão é extrema, pois que na nessa
Jararáca ellas attingem por vezes o numero de 70. Parece-nos
assim que futuros exames de material abundante virão prova-
velmente demonstrar a relação intima da forma des:ripta por
Peracca, sob o nome de L. monticelli, com L. atrox e ss suas
formas affias,
— 554 —
jararacussu aquellas escamas que ficam logo acima dos
escudos supralabiaes, näo tem crista alguma, sendo in-
teiramente lisas.
A côr geral desta jararaca é ou esverdeada, com
tons pardos, cinzentos, brunos e amarellos, ou tão es-
cura que o verde escuro não apparece muito. Sobre este
fundo desenham-se manchas quasi semilunares de cada
lado dos flancos, mais ou menos directamente oppostas
ou alternadas, com a abertura voltada para baixo ;
muitas vezes s a margem externa desta mancha é ni-
tida, ao passo que no centro reapparece a côr geral ou
então, quando esta ultima é muito escura, a mancha
se destaca só por ser marginada por escamas claras.
As vezes as manchas oppostas se fundem no meio e
tomam outro aspecto, e é principalmente na região
caudal que ha maior irregularidade neste sentido. A
barriga é sempre clara, esverdeada ou amarellada, com
manchas e salpicos irregulares, de côr escura. A cabeça,
sempre um pouco mais parda, tem geralmente algumas
manchas, que porem não formam desenho caracteristico;
a partir dos olhos, por sobre o angulo maxillar até o
pescoço, extende-se obliquamente uma mancha preta, um
pouco arqueada nos dous bordos e orlada de claro.
Como já dissemos os detalhes deste desenho estão muito
sujeitos a modificações, sem que seja possivel caracterizar
variedades distinctas por meio dellas. Observamos ainda
que os individuos desta especie emquanto pequenos, tem
a cauda branca, pelo que, sem outra razão, denominam
«Jararäca de rabo branco» os exemplares novos, como
si representassem variedade diversa. O numero das series
de escamas varia de 23 a 33; 180-240 subventraes, 46-70
subcaudaes; 200:50 pode-se indicar como numeros
medios.
Habit. Do Sul do Mexico até a Rep. Argentina e
aquem dos Andes; em todo o Brazil, tanto nas regiões
de campo como nas de matto, promiscuamente com as
duas outras formas de Z. atrox (no Est. de S. Paulo).
Mus. Paul. Est. S. Paulo, de todas as zonas, in-
clusive o littoral; Est. S. Catharina, Rio Grande do
Sul, Rio de Janeiro, Minas Geraes.
A’s difficuldades de classificação propriamente dita,
accrescem ainda as do nome a escolher. A forma ty-
— 555 —
pica sempre deverá chamar-se L. atroz, pois o Syst.
Nat. de Linneu de 1758, tem prioridade sobre todas as
outras obras. Acontece, porem, que o nome L. lanceola-
tus de Lacépede é de 1789, e antes disto varios auctores
parece que se tem referido à nossa Jararáca commum.
Assim Gmelin na XIII edição do Syst. Nat. de 1789
descreve à p. 1092 uma especie de Crotalina Coluber
glaucus, e antes delle Laurenti, em seu Syn. Rept. de 1768,
descreve à p. 101 (N. 221) uma Vipera coerulescens ;
ambas parecem ter affinidades com esta nossa jararáca;
e, no caso de esta ultima corresponder effectivamente
à especie de que tratamos, seremos obrigados a acceitar
tal nome, com © quea nossa Jararáca passaria a ser
denominada Lachesis atrox coerulescens (Laur).
Transcrevemos em seguida a descripção dos effeitos
do veneno da Jararáca, dada pelo Dr. Vital Brazil no
escripto acima citado.
«O veneno da Jararäca é bastante activo, podendo
determinar a morte assis rapidamente. Quando morde,
pode inocular a quasi totalidade da peçonha que tem
em disponibilidade.
«A acção do veneno começa a fazer-se sentir logo
após ao accidente: no lugar da mordedura, dôr, sen-
sação de calor e dormecencia, irradiando-se do ponto
de inoculação e ganhando todo o membro; augmento
progressivo de volume do membro mordido, o qual
corre por conta do edema seroso ou sôro hematico que
se forma no tecido cellular sub-cutaneo, podendo esten-
der-se ao tronco, depois de haver invadido todo o mem-
bro offendido ; abaixamento de temperatura, e vomitos
alimentares e hemorrhagicos, suores frios, pulso muito
frequente e fraco, cansaço muscular, somnolencia, perda
de conhecimento, hemorrhagia pela bocca, pelo ouvido
e algumas vezes pela pelle; morte em estado de algi-
dez, por parada do coração. Estes symptomas se apre-
sentam e se succedem com tanto maior rapidez quanto
maior fôr a quantidade de peçonha inoculada pela mor-
dedura da cobra e quanto maior for a sensibilidade da
victima. Quando a dose de veneno é insufficiente para
determinar a morte do individuo, podem ser observa-
dos os mesmos symptomas acima mencionados, de in-
tensidade e duração proporcionadas à quantidade de
im 7 cm
peçonha inoculada, terminando o caso pela cura, que
nestas circumstancias se dá espontaneamente .
«Nos accidentes determinados por esta especie pó-
de-se empregar o sôro anti-bothropico ou o sôro anti-
ophidico. O primeiro & muito mais activo do que o
segundo, exigindo por conseguinte muito menor dose.
O sôro anti-ophidico é, entretanto, sufficientemente acti-
vo, devendo mesmo ser preferido se houver alguma
duvida sobre a classificação da cobra mordedora».
Lachesis atrox jararacussu (Lacerda)
«Jararacussu»
LACHESIS LANCEOLATUS auct. pt.
Boturops JARARACUSSU Lacerda, Leçons sur le
venin des serpents du Brésil, R. de Jan. 1884, p. 8.
Est. IIL.
Ja ficou dito que esta subspecie se distingue das
precedentes por alguns poucos caracteres, que entretanto
não julgamos de todo sufficientes para garantir a separa-
ção especifica. As escamas em sua grande maioria não
tem só uma simples crista, mas esta é mais alta no meio,
onde forma como que um monticulo, à semelhança, quasi,
do que foi dito para L. mutus; as escamas dos lados
da cabeça quasi nunca tem crista, faltando ella sempre
às escamas contiguas aos 3 ou 4 ultimos escudos supra-
labiaes. O colorido é mais escuro que o das outras
subspecies, sendc o desenho o mesmo, ou reduzido a
linhas e manchas claras, sobre um fundo quasi negro.
À cabeça é muito escura ou completamente preta, com
os lados claros, notando-se porem ahi tambem a gran-
de mancha longa, obliqua e preta, do olho ao pescoço ;
entre essa faixa e o colorido preto da cabeça passa
uma linha clara, divisoria.
O numero das escamas subventraes é na presente
subspecie menor que nas outras, variando de 170-185.
Em comprimento attinge até 2,20 metros, portanto
porco menos que as maiores Surucucús.
Habit. Brazil, Est. S. Catharina, S. Paulo, Rio de
Janeiro, Espirito Santo, Minas Geraes. Devido à con-
fusão que até agora se fazia na classificação desta for-
— 991 —
ma, não podemos affirmar si ella occorre tambem no
Norte do Brazil.
Mus. Paul. Est. S. Paulo, Cerqueira Cezar, Tau-
baté; Est. S. Catharina, Col. Hansa; Est. Minas, Ma-
rianna; Est. Esp. Santo, Porto Cachoeiro.
Alem dos caracteres morphologicos acima indica-
dos para a distincção desta forma da precedente, o Dr.
Vital Brazil adduziu ainda outro caracter differencial,
relativo ás propriedades da peçonha. Segundo os estudos
do digno director do Instituto Serumtherapico a peçonha
da Jararacussú distingue-se facilmente do veneno das
L. atrox e L. a. lanceolatus por algumas de suas pru-
priedades.
«Os accidentes determinados pela presente especie
são em via de regra perigosissimos, não só por causa
da actividade da peconha, como da quantidade que é
capaz de inocular. A Jararacussi tem uma glandula
muito activa e de grande capacidade, produzindo na média
um centimetro de veneno liquido em cada extracção.
O seu veneno não se filia inteiramente nem ao
typo bothropico nem ao typo crotalico, participando
por algumas de suas propriedades destes dous typos de
peçonha. Nem o sôro anti-crotalico, nem o sôro antibo-
thropico são sufficientemente activos contra este veneno.
Nos accidentes determinados pela jararacussu deverá
ser sempre preferido o soro antiophidico».
Lachesis alternatus (Dum. & Bib.)
«Uruti, Coatiära»
BormRrops ALTERNATUS Duméril & Bibron VII,
Poor po tole, Est. Se, fio. 1.
LACHESIS ALTERNATUS, Boulenger, Cat. Snakes, II,
1896, p. 541.
Como já ficou dito, esta especie, conjunctamente com L,
neuwiedi e L. itapetiningae formam um grupo ccm affinidades
sensiveis; aqui porem temos caracteres sufficientes para susten-
tar a diversidade especifica. O melhor meio para se distinguir .
estas especies das formas de L. atrox é a conformação da 2.º
escama supralabial Como o mostra a fig. 7, esta escama é qua-
drangular e mais baixa que as suas visinhas e fica separada da
covinha loral as vezes por uma simples sutura, outras vezes por
uma serie horisontal de escamas; o bordo anterior desta covinha
é formado por uma escama independente da 2.º supralabial.
— 558 —
E' muito caracteristico o elegante desenho do cor-
po, que se destaca como manchas pretas em forma
de ex sobre um fundo pardo; estas manchas, oppostas
ou alternadas, são orladas de branco. Apparecem ainda
outras, menores, interpostas entre aquellas no dorso e
junto das placas subventraes. No pescoço e na cauda
ordinariamente não ha grande regularidade na confor-
mação e distribuição das manchas.
A cabeça é preta, da côr das manchas dos flancos,
e tem um desenho muito caracteristico, que o povo cos-
tuma dizer «em forma de cruz», mas come se vê pela
fig. 24-A essa comparação não é muito cabida. A exten-
são da linha mediana varia um pouco, sem comtudo alterar
muito o caracter do desenho. Os bordos da bocca são
sempre claros, excepto a ponta do focinho, que tem
uma mancha preta na escama rostral. Dos olhos ao
pescoço, com inclusic de maior ou menor parte do
angulo da bocca, extende-se uma mancha parda, de
bordos mais negros, e que corresponde à mancha se-
melhante que descrevemos para a L. atrox; pela sua
maior largura e tambem pela conformação ella difere
bastante daquella, onde o bordo inferior mal attinge a
bocca. A barriga é branca, maculada irregularmente
de preto. Ainda é caracteristico para esta especie o de-
senho do mavyillar inferior, que tem das listras ou
faixas pretas, em angulo agudo, terminando embaixo
do angulo da bocca; a partir da primeira escama sub-
ventral começa uma outra listra, que corre pel) meio
da barriga e que não continua nitida senão até 1/3 ou
1/2 do comprimento do corpo.
As escamas da cabeça (excepto geralmente as que
estão immediatamente acima das supralabiaes) e do corpo
tem crista regular e inteira ; as escamas estão dispostas em
29 a 39 series; 167-181 Subventraes, 34-51 Subcaudaes.
Habit. Brazil meridional, Est. S. Paulo, Paraná,
Rio Grande do Sul; Rep. Uruguay, Argentina, Para-
guay. E” curiosa esta distribuição; emquanto que esta
‘especie não occorre em Minas nem na Bahia, ete., L.
neuwiedi, que tanto se lhe assemelha e tem os mesmos
habitos de vida, occorre não só no Brazil meridional
mas tambem na Bahia, e ao que parece, ainda mais
para o norte.
— 959 —
Mus. Paul. Est. S. Paulo, Franca, Itapetininga,
Jaboticabal; Est. Paraná, Castro.
Os accidentes determinadas por esta especie são
justamente reputados de muita gravidade. O povo cos-
tuma dizer que o urutú quando não mata aleija. De fac-
to, assim deve ser, não tanto pela actividade do veneno,
mas pela quantidade de que habitualmente dispõem os
individuos desta especie.
O soro a empregar-se é o anti-bothropico ou o
anti-ophidico, que, menos activo do que o primeiro,
ainda assim dá bons resultados na practica.
(Cf. Dr. Vital Brazil loc. cit.)
Lachesis neuvviedi(Wagl.)
«Urutiv»
BorHroPs NEUWIEDI Wagler, em Spix, Serp. Bras.
Paeeps DO, Est 224 fig 4.
Boturors LEUCURUS Wagler, loc. s. cit. fig. 2.
Lacxesis NEUWIEDI bBoulenger, Cat. Snakes, III,
1896, p. 542.
Esta especie é muito alliada à L. alternatus, mas
os caracteres que em seguida salientamos permittem
perfeitamente seu reconhecimento como especie diversa. .
Os caracteres anatomicos são em tudo eguaes, ex-
cepto o numero de escamas, que é menor, especialmente
nas series ao redor do corpo, onde o seu numero é de
21-26 ;. Subventraes 168-182; Subcaudaes 40-53.
A côr geral do corpo é parda, geralmente bruno-
avermelhada ; sobre os flancos ha manchas escuras quasi
pretas, semilunares ou um tanto parecidas com as da
especie precedente, porem sempre menos largas e mais
altas; frequentemente as duas pontas da meia-lua sepa-
ram-se para formar ilhotas isoladas; estas manchas sempre
são orladas de claro e ora correspondem com as do lado
opposto, ora alternam, ou então fundem-se na linha dorsal;
não raro as manchas são trapezoides e, ligando-se ellas
pelo meio no dorso, constituem quasi faixas transversaes.
Frequentemente interpõem-se ainda outras manchas, in-
vertendo assim a regularidade do desenho descripto.
Muito caracteristico é o desenho da cabeça, cons-
tituido por diversas manchas arredondadas, commumente
— 560 —
em numero de cinco, havendo uma no alto do focinho
e as outras agrupadas em numero par entre os olhos e
atraz delles. O começo do primeiro par de manchas do
desenho do corpo alcança ainda a cabeça e extende-se
sobre o pescoço.
Na margem posterior da orbita co-
meça a mancha preta em faixa alongada,
presente na maioria das nossas especies
deste genero. À garganta etoda a bar-
riga são claras, porem mais ou menos
abundantemente manchadas de preto.
o Hab. Bahia, Espirito Santo, S.
ame ie Paulo, | Paraná, RioGrande donas
(A) e L. neuviedi 1B). Rep, Argentina, Paraguay.
Mus. Paul. Estado de S. Paulo, Limeira, Franca,
Piquete; Est. Minas Geraes, Santo Antonio, Vargem
Alegre, Marianna.
Com relação ao veneno de Lechesis newiviedi in-
forma o Dr. Vital Brazil o seguinte:
«A peçonha é bastante activa, felizmente inferior, na
media, à de outras especies de Lachesis. Produz pheno-
menos locaes bastante intensos e hemorrhagias abundan-
tes, como a de L. lanceolatus e L. alternatus. E” pois,
uma peçonha muito semelhante, pela symptomatologia
que produz, às destas duas especies, das quaes porem
se distingue facilmente por certos caracteres especiaes.»
Lachesis neuwiedi itapetiningae Boul.
LACHESIS ITAPETININGAE Boulenger, Annals & Mag.
Nat. Hist. Ser. 7, Vol. XX, 1907, p. 338.
Julgamos haver bastante relação de semelhança
entre esta forma, ultimamente descripta por Boulenger e
a L. newwiedi, para que possam ser consideradas como
subspecies. De facto o unico caracter anatomico que as
differencia é o numero das subventraes e subcaudaes.
O desenho da cabeça, tão caracteristico para estas especies
do genero, é em ambas as formas a mesma; a côr ge-
ralé avermelhada, mas o desenho, ao que parece, não é
constante, sendo constituido ou por faixas transversaes
formadas pela confluencia dorsal das manchas de cada
lado, ou então reconhece-se o desenho da L. neuwiedr
typica, ligeiramente alterado. O lado inferior da cabeça
é todo branco e a zarriga, de egual côr, tem abundante
colorido preto-cinzento na parte basal de todas as pla-
cas subventraes.
Subventraes 150; Subcaudaes 28, segundo os exem-
plares typicos. O Dr. Vital Brazil salienta ainda algu-
mas differenças que observou no veneno.
Habit. Est. S. Paulo, Itapetininga, S. Rita de Passa
Quatro, Pirassununga; Est. Bahia.
Mus. Paul. Est. 8. Paulo, Itapetininga (Offerta do
Instituto Serumtherapico do Butantan); Est. Bahia, Villa
Nova, Compr. 23 a 33 cm.; Subventr. 141-153 ; Sub-
caudaes 26-51.
Por falta do necessario material o Dr. Vital Brazil
ainda não poude completar seus estudos com relação ao
veneno desta cobra; é bastante activo, mas a respectiva
glandula é felizmente de pequena capacidade.
Eachesis castelnaudi (Dum. & Bibr.)
BotHrops CASTELNAUDI Duméril & Bibron, VU,
1354, p. 1511; Guichenot em Castelnau, Ann. Nouv.
Am. Sud. Rept. 1855, p. 75, Est. XV.
LACHESIS CASTELNAUDI Boulenger, Cat. Snakes, III,
1896, p. 544. |
Os caracteres anatomiccs que melhor definem esta
especie, são os seguintes: Entre os grandes escudos
supraoculares ha só 9 séries longitudinaes de escamas;
a segunda supralabial tem conformação analoga à de
L. atrox; as escamas do corpo estão dispostas em 25-
27 series; 230-253 Subventraes, 72-83 Subcaudaes, que
todas ou em sua maioria são inteir:ças, não divididas
no meio.
Pelo colorido esta especie parece ter grande seme-
Ibanca com a L. a. lanceolatus.
O maior comprimento indicado por Boulenger é de
1.220mm.
Habit. Brazil (ubi ?), Equador, Peru.
Trata-se de uma especie ao que parece bem distincta das
demais, bastante rara no Brazil; como não possuimos nenhum
exemplar, limitamo-nos a transcrever os topicos principaes da
descripção original.
— 362 —
Lachesis langsbergi (Schleg.)
TRIGONOCEPHALUS LANGSBERGIL Schlegel, Mag. de
Zool. Guerin-Men. 1841, Rept. p. I, Est. I.
LACHESIS LANGSBERGIL Boulenger, Cat. Snakes, III,
1896, p. 946.
A forma do focinha caracteriza-se pela placa rostral
muito avançada; a 2.º supralabial é semelhante à de Z
alternatus (fig. 7); ha só 5-7 series longitudinaes de
escamas entre as supraoculares; 25-27 series de escamas
sobre o corpo; 152-159 Subventraes; 29-35 Subcaudaes,
sendo estas todas inteiriças. São estes os caracteres mor-
phologicos que melhor e bem claramente distinguem
esta especie.
A côr geral é amarello-pardacenta, e o desenho
consiste em uma serie de grandes manchas dorsaes escuras.
Habit. Brazil (ubi ?), Guyana, Venezuela, Colombia
ao Mexico meridional.
Não pudemos ainda obter exemplar algum desta
especie, nem sabemos ao certo onde occorre no Brazil;
certamente habita sé os Estados do Norte.
Tambem com relação ao veneno, tanto desta espe-
cie como da precedente, nada se sabe.
Nos Études sur les reptilis (Mission scientifique au Mexique
et dans | Amérique Centrale, Recherches Zoologiques, Lil partie,
1.º section, fase. 17, 1909 pag. 933 (chave) e 951) o dr Mocquard
fundamenta o seu modo de vêr, parecendo-lhe uecessario des-
dobrar o genero Lachesis auct.
De um lado teriamos o genero Lachesis Daud. (Hist. Rept. V,
1803, p. 349) monotypico, e que caracterizaria sómento a «Suru-
cucü», L. mutus; de outro lado o genero Trimeresurus Lacépéde
(Ann. du Mus. 1804, pag. 209), comprehenderia os demais Crotalidas,
desprovidos de guizo caudal e ssm escudos symetricos na cabeça,
ou, com relação á nossa fauna, tedas as cobras venenosas (com
covinha loral) exclusive a Cascavel e a Surucucu. Os caracteres
salientados pelo dr. Mocquard são os seguintes: L. mutus tem
as ultimas subcaudaes transformadas em 5 series longitudinaes
de escames alongadas em espinhos, das quaes as tres medianas
não resultam da simples divisão das subcaudass que as precedem ;
as escamas da parte anterior da cabeça tem distinctamente forma
granulosa; as escamas do corpo são pouco imbricadas e providas
de uma saliencia em tuberculo.
Além disto o suctor adduz um outro caracter anatomico pelo
qual ainda so verificaria a diversidade dos dous generos; é que
nas demais especies (do genero Trimeresurus) a serie dos dentes
— 963 —
pterygoides ultrapassa, atraz, a articulação do osso transverso
com o pterygoideo, ao passo que na Surucucú esta serie de
dentes attinge quando muito a extremidade anterior desta ar-
ticulaçäo.
Desta forma, pela propria systematica, ficarism mais evidentes
as afinidades naturaes das especies: Ancistrodon e Trimeresurus
comprehendendo as formas de cauda terminando normalmente,
Lachesis mutus com scamas arrepiadas na porção terminal da
cauda e Crotalus e Sistrurus com cauda terminada em guizo.
Si tivessemos recebido em tempo esta bella publicação sobre
a fauna herpetologica do Mexico e da America Central, e que
o dr. Mocquard veiu a concluir com o fasciculo em questão,
teriamos dado ao nosso systema uma feição tal que nelle se
evidenciassem melhor estas aflinidades, subdividindo o genero
Lachesis em dous subgeneros, dos quaes um conteria apenas a
especie typica o o outro, Lachesis (Trimeresurus), abrangeria as
demais formas em questão. Em todo caso, porém, não nos pa-
rece bom trabalho de systematica distanciar tanto entre si estes
dous grupos de especies quanto delles distam as Cascaveis ou os
Sistrurus.
Ainda por este motivo torra-se assaz desejavel que che-
guemos a conhecer bem o veneno da Surucucú, para talvez po-
dermos tomar em consideração mais este caracter especifico, cujo
valor comtudo é preciso não exagerar; vimos acima que, não
obstante provir de especies bastante alliadas, o efeito dos res-
pectivos venenos póde ser muito differente.
VIE Familia Colubridae
A Colubridae Proteroglypha
SLAPS Schneid.
Kuaps part. Schneider, Hist. Amph. I, 1801, p.
289; Gimther, Proc. Zool. Soc. 1859, p. 84; Boulenger,
Cat. Snakes III, 1896, p. 411.
COBRAS CORAES VERDADEIRAS, VENENOSAS
Este é o unico genero de cobras brazileiras que,
pertencendo ao grupo dos Colubridae, são extremamente
venenosas, isto é, tem dentuças perfuradas no maxillar su-
perior (Proteroglypha). Facilmente se distinguem dos re-
— TOM =
presentantes da outra familia, Viperidae, que egualmente
tem dentuças no maxillar, por ser o dente de veneno
muito menor e não recurvado e por estar a cabeça re-
coberta em cima não por um numero irregular de es-
camas, mas por escudos de numero mais ou menos
constante e de arranjo symetrico, como é o caso na
maioria das nossas cobras (Fig. 8 e 25). A cabeça é curta,
,
tz eralmente de largura egual à parte
soe. 8 8 B P
SE subsequente do corpo (portanto não ha
Sy verdadeiro pescoço); os olhos são pe-
SE quenos e geralmente menores que
Fig. 25. Cabeça de Cobra à distancia que os separa dos labios ;
map marepravt Wiea à Pupilla é elliptica ‘ou subelliptica,
vertical. Corpo cylindrico, com escamas lisas, sempre
em 15 series longitudinaes. Anal normalmente dividida,
sé exceptionalmente inteira; cauda curta, cylindrica como
o corpo, afilando gradativamente e terminando em pe-
queno cone obtuso; as placas subcaudzes são normal-
mente divididas. © colorido do corpo, excepto em É.
langsdorfi, è o seguinte: vermelho entrecortado por
anneis pretos, completos, simples ou agrupados em se-
ries de tres, e neste caso o annel preto é separado dos
adjacentes por faixas amarellas.
Coraes falsas. Convem observar desde logo que
ha muitas outras especies de cobras que o povo deno-
mina «Coraes», mas que não são venenosas e que por
isto melhor chamamos «Coraes falsas». Pela forma e
pelo colorido imitam de modo surprehendente diversas
especies de Ælaps; distingue-se-as, porem, facilmente
tanto pelo caracter indicado da denução, como por te-
rem pescoço (isto é: o corpo estreita-se logo atraz da
cabeça), os olhos são grandes, com diametro bem maior
que a distancia da orbita ao lado ventral.
Notas brlogicas. Não é muito o que sabemos da
biologia das «Cobras coraes». Us escriptores antigos
pouco nos informam sobre o modo de vida dos Elaps
e geralmente essas affirmações são vagas ou mesmoin-
exactas.
Em geral estas cobras parecem preferir as regiões
de campos e de vegetação pouco . densa às mattas ou
aos banhados; varios dos nossos collecionadores nos in-
formam de que frequentemente as encontraram perfu-
— 965 —
rando o chäo (1) ou em cupins. Tal habito se explica
pela predileeçäo que parecem ter pelas «cobras de duas
cabeças», as Amphisbænas, como alias tambem o affir-
mam Linneu e Duméril et Bibron, VII, p. !218, citando
as Caecilias como alimento de E. lemniscatus. Exami-
nando o conteudo intestinal de numerosas Coraes da
colleeção do Museu Paulista encontrei unicamente es-
camas de cobras em varios exemplares e uma vez uma
«cobra de duas cabeças.» Neste ultimo caso tratava-se
de um exemplar de E. corallinus do Cubatão, Est. S.
Paulo, de 950mm. de comprimento, que engulira, intacto,
um grande Lepidosternon macrocephalum Gray, de
380mm. de compr. Como é geralmente sabido as Am-
phisbænas habitam de preferencia os ôcos dos cupins.
Distencedo das especies. Para a classificação mais
certeira das especies seria conveniente baseiar-se em
caracteres morphologicos, como de regra se faz em zo-
ologia. Em nosso caso de Hlaps, porém, tal não é pos-
sivel, em vista da subtileza das differenças, que, de uma
especie a outra consistem apenas em dados relativos à
proporção das dimensões das escamas e estas indica-
ções sô raramente são bastante constantes e seguras
para garantir a determinação. Comtudo aproveitamos,
quanto possivel, os caracteres fornecidos pelos es-
cudos da cabeça e. ainda que com menos exito, o nu-
mero das escamas ventraes e subcaudaes; o numero
destas escamas varia amplamente, pelo que só pode de-
monstrar a diversidade especifica no caso de serem sen-
sivelmente differentes as medias observadas.
Como se verá pela chave que organizamos, attri-
buimos aos caracteres de colorido maior valor do que
atê agora se tem feito. Naturalmente é preciso distin-
(1) O proprio nome indigena Ibibobóca pela sua etymologia
graravy tibi: terra, babaca: revirando ou mbolag: fen'er, furar e
pcis: fura-terra): indica-nos este modo de vida; esta expli-
cação parece-nos melhor que a de J. B. Almeida Negurira: ibibobog
(especie de cobra) como sendo: mboi ibipe babag ecbra enros-
cada no chão. Tambem na Hist. Nat. ce Maregrave e Fiso (de
1658) e nas cartas do Padre Anchieta encontramos este nome in-
digena para as cobras corses. O provo da roça dá-lhes o nome
de «Bzcord», o que, entretanto, não é senão o proprio ncme
«Cobra-csrai» estropeado.
— 966 —
guir criteriosamente aquellas variantes, que sempre se
observam em exemplares da mesma especie, mórmente
quando a procedencia é diversa, das que o exame de um
maior numero de especimens demonstra serem cons-
tantes. O desenho da cabeça esta mais sujeito a va-
riantes do que o resto do corpo; na cauda geralmente
o padrão já esta um pouco alterado.
Resumo das especies brazileiras do genero ELAPS e sua distribuição
gengraphica
Ao todo parece que ha 10 especies bem acceita-
veis de Hlaps no Brazil. Varias outras tem sido des-
criptas, mas os caracteres distinctivos indicados não se
mostraram bastante constantes, para que pudessem ser
sustentadas como especies validas. Aqui os caracteres
morphologicos da cabeça em geral pouco se prestam
para a differenciação. Sô E. surinamensis constante-
mente mostra a 3.º labial pouco desenvolvida, de modo
que só a 4.º labial forma o limite inferior da orbita.
L. gravenhorsti, de que aliás só Jan (1858) teve, ao
que parece, um unico exemplar, segundo a caracterização
dada por este auctor deve distinguir-se pela conformação
do escudo nasal posterior; mas póde muito bem ser
que este exemplar fosse simplesmente um EZ. frontaliscom
deformidade de escama. O mesmo facto deu-se com
relação a Æ. helerochilus descripto como nova espe-
cie, a qual foi sustentada como tal por muito tempo,
por ter sómente 6 escamas labiaes superiores; só em
1900 L. G. Seurat, loc. cit., reconheceu, pelo exame do
exemplar typico, que se tratava apenas de um E. fron-
tales anormal, em que as labiaes 1 e 2 não estavam
separadas.
L. decoratus tem a 6.º lab. sup. muito desenvol-
vida mas as vezes observa-se ainda ligeira indicação de
separação ; comtudo, como accrescem ainda outros ca-
racteres, julgo ser ella especie sustentavel.
L. maregravi, spixi e frontalis talvez nem todas
possam ser sustentadas.
Observo, entretanto, que a Coral que Wagler des-
creveu como Micrurus spixi geralmente tem sido con-
— 567 —
fundida sob o nome de E. sprxz com outra forma, que
talvez seja identica com L. marcgravi ou frontalis.
Tanto a descripçäo e o desenho de Wagler como tam-
bem os 3 exemplares descriptos por F. Werner pare-
cem referir-se a uma fórma do Brazil septentrional e do
Perú, cujos primeiros 6-8 anneis subcaudaes não são
divididos e cujo desenho alem disto não tem o agru-
pamento dos anneis pretos em series de tres em tres.
Outros auctores tem mencionado, sob o nome de
E. spixi, formas que talvez não se distinguem das duas
outras especies mencionadas, e parece que a propria
descripção de Boulenger no excellente «Catalogue of
Snakes» está neste caso.
Ainda outro nome, o de Æ. lemniscatus, tem sido
usado para fórmas diversas. Assim, Hensel, quando
refere que Æ. lemniscatus ê a cobra coral mais com-
mum do Rio Grande do Sul, provavelmente tinha em
vista &. frontalis, e o mesmo parece dar-se com Bou-
lenger na sua Synopse dos Reptis do Rio Grande.
Tanto E. lemniscatus como filiformis que, ao que
parece representam especies bastante alliadas, são fór-
mas do Norte do Brazil, da Guyana, etc. que se ca-
racterizam por terem o corpo muito fino e alongado e
tambem um numero maior de escamas ventraes e.
subcaudaes.
Sobre a distribuição geographica deste unico ge-
nero neotropico dos Proteroglypha, que occorre desde
o Mexico e nas Antilhas até o norte da Republica Ar-
gentina, ainda pouco se póde dizer, devido a que os
auctores antigos geralmente se contentavam com a in-
dicação «Brazil», tão vaga em zoogeographia. Até
agora só Æ, corallinus pode ser indicada come especie
de vasta distribuição, occorrendo ella em todo o nosso
paiz e ainda para alem dos seus limites.
Algumas especies são unicamente do norte: E. su-
rinamensis, buckleyt, langsdorffi e varias outras, alem
de umas tantas, conhecidas de paizes limitrophes e que
provavelmente ainda serão encontradas na Amazonia;
outras chegam mais para o Sul (Bahia), só duas (Æ.
frontalis e E. decoratus) parecem ser meridionaes, a
primeira da Argentina, Paraguay e Rio Grande do Sul,
a segunda de S. Paulo e Rio de Janeiro. Do Brazil
— 968 —
central não temos uma unica indicação de proveniencia.
Para alem dos Andes não ha um unico representante.
Em tudo Ælaps offerece-nos uma distribuição como em
geral a conhecemos dos immigrantes indo-australianos,
que em tempos chegaram à região neotropica.
CHAVE DE CLASSIFICAÇÃO PARA AS ESPECIES
BRAZILEIRAS DO GENERO ELAPS
]
Il
A
So a 4.º labial forma o bordo
inferior da orbita
As labiaes 3.2 e 4.2 formam o
bordo inferior da orbita :
Escudo nasal posterior sepa-
rado do preocular, o qual
é muito pequeno.
AA Escudo nasal posterior em con-
a
aa
bb
CC
tacto com o preocular :
Desenho do corpo: em cima
todo preto, com delicados
anneis claros; lado ventral
claro, com faixas vermelhas
Desenho do corpo constituido
por anneis inteiros, largos ;
os vermelhos geralmente
pelo menos da largura dos
pretos :
Os anneis pretos são de lar-
gura egual à dos vermelhos
e são orlados adiante e
atraz por escamas amarellas,
em forma de anneis.
Os espaços vermelhos são
mais largos que os anneis
pretos :
Anneis pretos orlados de es-
camas amarellas; Subcau-
daes geralmente todas di-
vididas ME Reto,
Anneis pretos não orlados de
amarello ; Subcaudaes 1-6
ou 8 não divididas .
E. surinamensis
E. gravenhorsta
E. longsdorfh
E. buckhleyr
E. corallinus
E. spice
— 569 —
bbb Os anneis pretos estão agru-
pados de 3 em 3, com 2
anneis amarellos entre si;
estes grupos são mais lar-
gos que os anneis verme-
lhos que os separam :
d Com manchas pretas no apice
das escamas vermelhas :
e A 6.º escama labial attinge o
parietal; escama frontal de
comprimento approximada-
mente egual à sua largura ;
sem manchas pretas no
apice das escamas amarellas Æ. decoratus
ee A 6.º escama labial não attin-
ge o parietal; frontal mais
longo que largo ; com man-
chas pretas nos anneis ama-
rellos :
Cabeça quasi toda preta, com
pouco e delicado desenho
amarello; V. 197-230 (250)
S. eaud: 19-26 (30) 0.0 = E frontales
ff O desenho preto da cabeça
consiste em uma mancha no .
focinho e no maxillar in-
ferior e em uma faixa de
labio a labio, curvada para
traz, passando sobre os olhos
e o vertice:
g V. 200-240; S. caud. 23-42 E. marcgravi
ge V. 241-262; S. caud. 30-39 E. lemniscatus
dd Sem manchas pretas no apice
das escamas, nem nas ver-
melhas, nem nas amarellas :
gee Desenho da cabeça como em
fi 3 NV. 200-308 ; S. caud
SAD Wiehe. oe) s+. ah) a De AS
Elaps surinamensis Cuv.
ELAPS SURINAMENSIS Cuvier, Reg. Anim. 1817,
H, p. 84 ; zd. Boulenger, Gat. Snakes 1826, III, p. 414.
— 310 —
Colorida fundamental vermelho, tendo ahi cada
escama uma mancha preta no apice; grupos de 3 anneis
separados entre si por dous outros amarellos ; dos anneis
pretos o central é sempre cerca de duas vezes mais largo
que os lateraes, e eguala com a largura do annel verme-
lho; estes anneis passam tambem sobre o. lado ventral,
mas ahi são um pouco mais estreitos. A cabeça, cujo
escudo frontal é cerca de 2 vezes mais longo que lar-
go, é vermelha, mas todas as escamas são orladas de
preto. Logo em seguida aos parietaes começa o pri-
meiro annel preto das series triplas já descriptas. Ven-
traes 167-182 ; Subcaudaes 32-37.
Habit. Venezuela, Guyanas, Perú, Amazonia, Pará.
Mus. Paul. Est. Amazonas, Rio Juruá (V. 165;
S. c. 02) compr. tot. 600 mm.
Elaps gravenhorstii Jan
ELAPS GRAVENHORSTII Jan, Rev. & Mag. Zool. 1858,
p. 923; id. Boulenger, Cat. Snakes 1896, II, p. 415.
Como já dissemos, esta especie pouco differe de E.
marsqgravu, cujo colorido é identico ao de E. graven-
horstit ; mas nesta o annel preto mediano é 2 ou 3
vezes mais largo que os lateraes, alem do que o auctor
salienta que o escudo nasal não attinge o preocular,
que é muito pequeno, subindo por entre estes dous escu-
dos o 3.º labial, que assim attinge o prefrontal. Como
posteriormente esta especie nunca mais foi observada,
somos levados a crêr que o unico exemplar typico fosse
unicamente uma anormalidade.
Ventraes 191 ; Subcaudaes 25.
Habit. Brazil (ubi ?)
Elaps langsdorffi Wagl.
ELAPS LANGSDORFFI Wagler, em Spix Serpent.
Brasil. 1824, p. 10, Est. II, fig. 2; id. Boulenger, Cat.
Snakes 1896, p. 416.
E. BATESIL Gimther, Ann. & Mag. Nat. Hist. 1868
(4, 1) p. 428.
E. IMPERATOR (ope, Proc. Acad. Philad. 1868,
4110:
mm
— 971 —
Distingue-se facilmente esta especie das demais con-
generes por não ter o colorido caracteristico dos anneis
pretos e vermelhos; ella é quasi uniformemente parda
ou bruna no lado dorsal, com delicados anneis claros,
formados por escamas amarellas, distanciadas em sen-
tido transversal por um largura de escama e longitu-
dinalmente por 3-4 escamas. Lado ventral claro, com
faixas vermelhas. Sob o nome de E. imperator foi
descripta uma forma em que as faixas vermelhas do
lado ventral passam tambem sobre o lado dorsal.
Ventraes 196-225; Subcaudaes 37-54.
Habit. Amazonia sup., Japurá, Perú (Pebas).
Elaps buckleyi Boul.
ELAPS CORALLINUS Günth. pt. Cat. 1858, p. 235.
E. suckLey1 Boulenger, Cat. Snakes 1896, p. 416
Esto EXIF He 1.
E” especie bastante alliada a Æ. corallinus, da qual
comtudo differe pelos caracteres seguintes. Olhos maio-
res, de diametro egual 4 distancia da orbita 4 bocca.
Os anneis pretos, que alternam regularmente com os
vermelhos, são quasi sempre da largura destes ultimos,
excepto os primeiros 4, que são um pouco mais es-
treitos e os da cauda que são muito mais largos, fi-
cando ahi os anneis vermelhos reduzidos à largura de
um escama. Anterior e posteriormente o annel preto
é separado do vermelho por um annel amarello (branco
nos exemplares em alcool) da largura de uma escama.
Cabeça preta, excepto nos lados, onde da 5.º e 6.º la-
bial sup. sóbe uma faixa amarella, que nem sempre
conflue com a do outro lado atraz dos parietaes. Ma-
xillar inferior preto na sua maior parte anterior.
Ventraes 202-211 ; Subcaudaes 39-45.
Hart. Pará, Amazonia, Equador.
Mus. Paul. Est. Amazonas, Rio Juruá, (V. 208,
S. c. 42) comprimento total 600 mm.
Elaps corallinus Wied
ELaps coRALLINUS Wed, N. Acta Ac. Leop. Carol.
1500, X, 1, p.108, Esto IV; dd: Abba Nate) Brasil.
1825; Boulenger, Cat. Snakes, 1896 p. 420.
— 9172 —
Esta é a especie mais commum das «Cobras co-
raes verdadeiras» do Brazil meridional. Varia sensi-
velmente nos detalhes do colorido, mas parece que não
é possivel distinguir subspecies bem caracterizaveis.
Os olhos são menores que a distancia da orbita à
bocca. O colorido predominante é vermelho, raramente
quasi puro, pois sempre o apice das escamas é preto ;
o vermelho é entrecortado, a distancias eguaes no meio
do corpo por anneis pretos, cuja largura, ahi attinge
no maximo metade da dis espaços vermelhos; logo
atraz da cabeça estes ultimos geralmente são um
pouco mais largos que os anneis pretos e na cau-
da sempre os anneis pretos são 2 ou 3 vezes mais
largos que os vermelhos. Antericr e posteriormente
os anneis pretos são separados dos espaços vermelhos
por fino annel branco ou ligeiramente amarellado, o
qual porém não se dá no primeiro annel atraz da cabeça é
na região caudal. A cabeça étoda preta emcima; nos
lados, a partir das escamas labiaes 5. e 6. para cima
e atraz dos parietaes sóbe uma faixa clara, obliqua na
frente e vertical atraz é pois mais larga em baixo do
que emcima, e que geralmente se une 4 do lado op-
posto, mas só indistinctamente, pois ahi logo passa o
primeiro annel preto.
O maxillar inferior é quasi todo branco, excepto
em algumas escamas labiaes, que são manchadas de preto.
Ventraes 179-231 ; Subcaudaes 30-47.
Habit. America meridional cisandina, das Anti-
lhas menores até a Rep. Argentina (Tucuman, Tarija).
Mus. Paul. Est. 8. Paulo: Ypiranga (20 anneis
pretos no corpo, 4 na cauda; V. 224, 8. c. 30; compr.
total 920 mm.) — Cubatão (21 ann. pr., 4 na cauda;
V. 192 8., c. 4 inteiros, 30 divididos; compr. tot. 910
mm.) — Ilha Victoria (20 ann. pr., 6 na cauda ; V. 215,
S. c. 43; compr. tot. 600 mm.) — Piracicaba (19 ann.
pr., 7 na cauda; V. 206; 8. c. 2 int. 44 divididos ; compr.
tot. 500 mm) — Ilha de S. Sebastião ; Cerqueira Cezar ;
Baurü ; Piassaguera ; Alto da Serra; Ubatuba; Iguape;
Os Perus; Piquete, S. Manoel do Paraizo; Belem ;
Barretos.
Est. de Paraná, Paranaguá (18 ann. pr.,3 na cau-
da; V. 205, S. e. 36; compr. tot. 290 mm.) — Est.
— 5735 —
Rio de Janeiro, Cantagallo ; — Est. S. Catharina, Col.
Hansa; — Est. Bahia (22 ann. pr. + 4 na cauda).
O numero de anneis pretos varia nos nossos exem-
plares do Brazil meridional de 16+6 a 2144 ou 20+5;
nos especimens do Norte das Antilhas, Colombia etc.
Boulenger indica no seu Catalago 21-31 anneis no corpo,
e, como parece accrescerem outros distinctivos no colo-
rido, talvez E. corallinus appareça no Norte da America
do Sul sob forma constantemente differenciada da do Sul.
Elaps spixi Wagl.
Micrurus spixt Wagler, em Spix, Serp. Bras.
1824, p. 48, Est. XVII.
ELaps sprxt F. Werner, Abh. u. Ber. K. Zool.
Anthr. Eth. Mus. Dresden, 1900-1, Vol. IX, N. 2,p. 10;
nec E. spixi auct., et Boulenger, Gat. Snakes II,
1896, p. 427:
Ainda que em nossa collecçäo näo tenhamos exem-
plares de Ælaps que correspondam 4 forma typica des-
cripta por Wagler, comtudo parece que, c que geral-
mente se designa sob o mesmo nome, seja uma especie
diversa da que Spix trouxe do rio Solimões. Ao re-
ferirmo-nos 4 forma E. spi auct. nec Wagl. (pag. 376)
diremos o que ella nos parece ser ; aqui limitamos-nos a
sauentar o que tem de caracteristico a descripção original,
com a qual parecem combinar os tres exemplares de
Chanchamayo, Perú, caracterizados por F. Werner (lI. s.
cit).
À côr geral (ainda que descripta como amarellada,
como geralmente se tornam as Coraes conservadas em
alcool) é vermelha, com manchas escuras no apice das
escamas; largos anneis pretos, em numero de 20+2,
separam o vermelho em intervallos que são um pouco
mais largos do que os anneis pretos; cabeça inteira-
mente preta, maxillar inferior immaculados. Ventraes
215. Subcaudaes 22, das quaes as 8 primeiras são in-
teiras.
Os exemplares do Peru (cf. F. Werner) apresen-
tam os mesmos caracteres; 17 a 2142 anneis pretos ;
216-219 subventraes e 18-19 subcaudaes, das quaes as
9-6 primeiras são inteiras. Ainda que este caracter não
— 974 —
seja de maior valor, comtudo a observação de Werner,
de que os anneis pretos não estão dispostos em series
de tres, só vem confirmar que se trata da nossa espe-
cie em questão.
Habii. Amazonia, Pert.
Elaps decoratus Jan
Ears DECORATUS Jan, Rev. & Mag. Zool. 1858,
P 0805 Gunther Proc: Zool. Soc. 1859 , p. 89, Est.
X VIII à : Boulenger Cat. Snakes III, 1896, p. 419.
Morphologicamente esta especie se caracteriza bem
por ter o escudo frontal quasi egual ao seu compri-
mento e ser a 6.º escama labial superior muito alta,
de modo a attingir o parietal. (Em um exemplar de
Piquete, esta escama do lado esquerdo tem um sulco
mediano longitudinal, ao passo que no lado direito a
escama correspondente é inteiriça.)
Colorido predominante vermelho, com o apice das
escamas perto; em intervallos regulares o vermelho é
entrecortado por series de tres anneis pretos, dos quaes o
mediano é o mais largo, estando separado dos outros
dous por estreita faixa amarella. Os espaços verme-
lhos são de largura mais ou menos egual ao conjuncto
dos tres anneis pretos. Na cabeça, que é amarella, são
pretos só o focinho até as narinas e a ponta do ma-
xillar inferior, bem como uma faixa que passa das 3.º-
5.º labiaes por sobre o olho e pelo vertice; esta faixa
é curva para traz e um pouco mais estreita que 0 es-
cudo frontal. A algumas escamas atraz dos parietaes
passa o primeiro annel preto, seguido de uma faixa
amarella e de outro annel preto mais estreito, depois
do que começam a alternar regularmente os espaços ver-
melhos e as séries de tres anneis pretos, estes em nu-
mero de 10-17.
Ventraes 186-215, Subcaudaes 19, 25-37 ;
Habit. Brazil, Rio de Janeiro (a indicaçäo de «Me-
xico» feita por Jan, evidentemente é falsa).
Mus. Paul. Est. S. Paulo, Piquete, Funil.
— 375 —
Elaps frontalis Dum. & Bibr.
ELAps FRONTALIS Duméril et Bibron, Erpet. gen.
Vol. VII, 2, 1854, p. 1223; Guichenot, em Castelnau,
Anim. Am. Sud, 185%, p. 71. Est. XIV'; Boulenger,
Cat. Snakes, II, 1896, p. 427.
Ears HETERCCHILUS Moquard, Bull. Soc. Philom.
(7), 1887, 39; (? E. marcgrari).
Grupos de tres anneis pretos (dos quaes o mediano
é o mais largo) entrecortam o colorido fundamental
vermelho ; estes espaços vermelhos variam muito em
sua largura, sendo geralmente mais estreitos que 0
conjuncto dos tres anneis pretos. Todas as escamas
dorsaes, tanto as vermelhas como as amarellas dos anneis
estreitos, que separam entre si os anneis pretos do
mesmo grupo, tem o apice escuro; em especial nas
amarellas este desenho é muito forte, occupando quasi
toda a metade posterior da escama. A cabeça encima
até a base dos parietaes 6 muito preta, com delicado
desenho symetrico, principalmente em redor do rostral,
occulares e base do frontal; o terço anterior dos parie-
taes é geralmente amarello, o resto é preto; o maxillar
inferior tambem é de ordinario preto com algum dese-
nho amarello no meio, onde vão confluir algumas
linhas obliquas, que partem das labiaes.
Ventraes 197-230, 243 ; Subcaudaes 15-29.
Habit. Brazil meridional, Uruguay, Argentina, Pa-
raguay.
Mus. Paul. Est. Rio Grande do Sul, Camaquam ;
Est. S. Paulo, Barretos (F. Lex leg.) compr. tot. 710 mm;
Subventraes 250; subcaudaes 80; Est. Minas Geraes,
Mariana; subcaudaes 22.
Os caracteres que distinguem a especie acima des-
cripta da seguinte, são poucos e quasi que se limitam
ao desenho preto da cabeça, que em Æ. frontalis é
mais abundante, deixando só alguns intervallos amarellos,
ao passo que em E. marcgravi elle se limita 4 mancha
do rostral e a uma faixa transversal recurvada sobre o
meio da cabeça; E. lemniscatus tem o mesmo desenho
como esta ultima especie e parece differir unicamente
pelo numero mais elevado de escamas ventraes e sub-
caudaes. A publicação de M. L. Seurat (Bull. Mus.
— 376 —
d’Hist. Nat. Paris, 1900 n. 5), que se refere em espe
cial a estas tres especies, não nos dá os esclarecimentos
desejaveis e parece que houve mesmo classificação falsa
de alguns exemplares.
Este mesmo auctor verificou que o exemplar des-
cripto por Moquard como E. heterochilus, não póde
ser considerado como especie distincta, pois tão sómente
apparenta ter só 6 escamas labiaes superiores, por estarem
soldadas entre si as labiaes 1 e 2 ; classifica-o como
E. frontalis, ao passo que Boulenger (Cat. Snakes III,
p. 414) diz ser seu colorido egual ao de E. marcgr ave.
Elaps spexi, auct., nec Wagler, em parte parece
referir-se a E. frontalis, em parte a Æ. marcgravi.
Parece-nos que esta ultima é a fórma do Norte do
Brazil e aquella a do Sul, com limites no Rio de Ja-
neiro. Curioso é que a collecçäo do Museu Paulista, com
mais de 30 exemplares de Æ. corallinus do Est. de 8.
Paulo, não encerra sinão só dous exemplares da pre-
sente especie deste mesmo Estado, signal evidente de
sua raridade.
Com material mais abundante e que tenha o co-
lorido melhor conservado, é preciso averiguar si esta
forma e a subsequente não apresentam, talvez, senão
differenças subspecificas apenas. Isto verificado, o que aliás
parece bem provavel, o nome da presente fórma meri-
dional deverá ser Ælaps marcgrari frontalis D & B.
Elaps maregravi Wied
ELaps MARCGRAVI Weed, N. Acta Acad. Leop.
Carol. X, 1, 1820, p. 109; id. Abbild. Nat. Bras. 1823,
HI, 5; Boulenger, Cat. Snakes, III, 1896, p. 428.
Como já ficou dito, o colorido do corpo desta es-
pecie é o mesmo que o de B. frontalis, quer quanto ao
agrupamento dos anneis em series de tres, quer quanto
às manchas apicaes das escamas vermelhas e amarellas.
Sô o colorido da cabeça é differente, constando de uma
mancha preta no focinho, que abrange a escama rostral
e as placas circumvisinhas, e de uma larga faixa que
passa das 3.*-4.4 labiaes de um lado às mesmas placas
do outro, por sobre os olhos; a mesma é recurvada para
traz, deixando livres uma parte anterior do frontale pos-
ER oe
terior dos parietae. Geralmente sd a metade posterior
da 3.2 labial e a metade anterior da 4.º labial são attin-
gidas pela faixa preta; o maxillar inferior é preto nas
labiaes, claro no meio.
O numero de escamas Subventraes (210-240) e Sub-
caudaes (23-42) nem sempre pode servir como caracter
distinctivo de E. frontalis; em geral, porem, a pre-
sente especie tem um maior numero de subcaudaes que
a especie precedente.
Habit. Bolivia, Equador, Guyana, Pernambuco;
Bahia, Minas Geraes, Rio de Janeiro, S. Paulo, (Rep-
Argentina, Tucuman e Salta ? E. frontais).
Mus. Paul. Est. S. Paulo (Inst. Butantan, compr. tot.
1,400mm.,232 subv., 41 subc.) Minas Geraes, Vargem Ale-
gre (a: compr. tot. 600mm.,31 sube.; 6: compr. 1,200mm.,
28 sube.) Bahia, Villa Nova (compr. 2£0mm.,25 subc.)
Elaps lemniscatus (Linn.)
CoLUBER LEMNISCATUS Linné, Syst. Nat. I, 1766,
p. 386.
pt ELAPS LEMNISCATUS Boulenger, Cat. Snakes III,
1896, p. 430.
O corpo é em geral mais delgado e alongado do
que nas especies precedentes. Pelo colorido não é pos-
sivel distinguir esta especie da precedente; ao menos
pelas descripções parece que o padrão é egual nas duas.
Parietaes muito mais longos que sua distancia dos in-
ternasaes (em E. marcgravi estas dimensões são mais
ou menos eguaes entre si).
Ventraes 241-262; Subcaudaes 30-39.
Habit. Guyana ; Brazil, Bahia.
Elaps filiformis Günth.
ELaps FiLIFORMIS Giinther, Proc. Zool. Soc. 1859,
p. 86, Est. XVII 6; Boulenger Cat. Snakes, II, 1896,
p. 430.
— 578 —
O corpo é muito alongado e fino, mais do que em
todas as outras especies do genero. O colorido, tanto
do corpo como da cabeça, é o mesmo como o das duas
especies precedentes, mas differe pela ausencia das man-
chinhas apicaes; estas faltam, ainda que nem sempre
(segundo Boulenger) nas escamas vermelhas, mas ao
que parece, constantemente nas amarellas (como em E.
decoratus). O crescido numero de Ventraes (290-308)
e das Subcaudaes (35-45) distingue esta especie de todas
as outras congeneres.
Habit. Colombia ; Amazonia, Parà.
Addendum
p, 305 O Snr. A. G. Hammar examinou o typo
de Zyphlops wildert Garm. e verificou que essa espe-
cie pertence ao genero Helmnithophis.
Helminthophis wilderi (Garm).
TYPHLOPS WILDERI Garman, Science Observer, IV
1883, p. 48; HezmmTaopis WILDERI Hammar, Ann.
J. Mag. N. Hist. Ser. & Val. I, 1908, p. 334-5.
Especie muito alliada a H. guentheri, da qual dif-
fere só por ter 3 supralabiaes (H. quentheritem 4, mas
o ultimo é muito pequeno) e 3 labiaes inf. (em vez de
9); a escama subsequente ao escudo frontal é egual as
demais escamas do corpo, ao passo que em H. guen-
thert ella é bem maior (cf. fig. 15, p. 303).
O colorido tambem é o mesmo que o da especie
em confronto.
Compr. tot. 170-185 mm.
Os tres exemplares typicos, guardados no museu
da universidade de Cornell, U. S. A. foram colligidos
em 1878-9 pelo Prof. J. G. Branner em Cyriaco junto
à Serra da Providencia em Minas Geraes.
Parece que se trata apenas de uma variante ou
subspecie de H. guentherv.
Introducção. +. +. .
Cobrzs venenosas . .
Serumtherapiae + «
Systema das Familias.
Quantas especies ha no
Brazilgo a
Technica do estudo
Ecologia. . . .
Chave das Parilias
Fam. Typhlopidae.
Gen. Helminthophis .
E. guenthert, 200
H. wilderi Caen)
Gen. Typhlops «+ + o
o reticulatus. | eve
(T. longissimus) -
CE Iumbricalis) 0. 0
(T. uniliniatus) . .
Gen. Typhl_phis °
T. squamoius + « .
Fam. Glauconiidae .
Gen. Glauconia, . .
G. albifrons .
G. dimidiata . .
G, macroiepis. . .
Fam. llysiidae. . .
Geni Ty vi tv.
I. seytale Sitio eia
HaMer Done aim! 156
MATE jo ME Ma e
Bi Bortulana.. e. à:
(Bcooki) Ss Ars
ER CANINA, Sho NUS wie
Gen. Constricter . .
Co. constrictor ...- « 1e
eGiboia». aig te :
Cc: occidentalis). .
(C, c. imperator). .
en. Epicrates. .
E, cenchria. .
(E. wieningeri) .
Gen. Eunectese . .
He MUTINA . | ee,
anncary> + ql QU);
Gen. Trachyboa . .
PELOTAS eue
Fam. Amblycephalidae
Notas biologicas +. +
Gen. Cochliophagus .
273
275
285
287
292
294
298
300
302
304
305
378
305
305
306
306
306
306
306
307
307
308
309
309
310
311
311
912
316
316
317
318
318
319
319
321
321
321
321
322
323
323
323
324
324
325
326
328
ETetelof= [e] []=]
INDICE
Pag.
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CpavonInus. jus o fe
C. turgidus. . HO
(CG. intermedius) +. . .
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(C. vsriegatus).. PRO
GC; mikani : . e e
C. m. neuwiedi n. subsps.
C. ventrimscuiatcs.
C. insequifascistus. . «
CA VALEOENANS.<. Le isis tae
(CP imeertas)y ier ve eee
Gens Dipsas te DM ele,
D. isdica . e . . e
Bam. (Vagertuae pag vê
Chave dos Crotalinse. .
Gen“:CrotaluS e 4 e Sa
Crotalus terrificus. . .
Gen Lachesis « Si Da
Lachesis mutus. + . .
[E prinegtuss e Se,
Ibis atroz 0. Mie
L. atrox icons eee
L. atrox jararacussu . .
La. alternatus. . + e
L. neuwiedi a
L. neuwiedi itapetiningae
L. castelnaudi +. «+ +.
L. langsbergi . + o e
Subgen. Trimeresurus. .
Fam. Colubridie , . .
Gen. Elapse « . .
Cobras coraes den
Notas biologicas . « +
Distincção das especies.
clbibobôca»xe + + « e
Distribuição geograpbice.
Chave de classificaçäo
Elaps surinamensis.
. gravenhorstil + + o
langsdorfñ «+ + o e
. buckleyi. e e e e
. Corallinus o” ee o
spixi. . . e e e
decoratus « «»« . «
frontalis o SC
.. MATESTAVI ce We
~ lemniscatustem sa. aren
< fliformis’ areas
a
Alommas especies novas de peixes d'agna doce
(NEMATOGNATHA)
(Corydoras, Plecostomos, Hemipsilichthys)
POR
RODOLPHO VON IHERING
Corydoras meridionalis n. sp.
Focinho muito curto, obtuso, rhombo; quasi ver-
tical da altura das narinas 4 ponta, quasi concavo na
altura da fontanella; focinho cabe 2 vezes na cabeça ; olho
2 1/3 no focinho, 2 na interorbital; focinho à base da
Dorsal cabe 2 1/4 no corpo ; altura 3 vezes no corpo.
Bocca inferior, mas pouco atraz da ponta do focinho ;
barbas maxillares subeguaes, o par interno um pouco
mais longo, attingindo quasi a abertura branchial; bar-
biculas mentaes só de 1/2 diametro ocular. Processo oc-
ciptal longo, não muito estreitado atraz ; fontanella curta,
oval, entrando apenas na base do occiptal. Processo
coracoideo apenas visivel no lado ventral, cabendo a
distancia que os separa 1 1/2 vezes na distancia entre as
bases da Pectoral. 3 placas impares em frente à adiposa.
Dorsal I cabe 1 1/3 vezes na cabeça, egual à dis-
tancia do focinho à margem posterior do olho; direito,
grosso e liso; só o 1.º raio molle é mais longo, os
outros diminuem rapidamente de comprimento, tendo
o ultimo só 1/2 do comprimento do primeiro. Pectoral
I muito mais longo, attingido do focinho ao fim do
operculo ; tambem é liso, não denticulado.
Caudal longa, alcançando do inicio da Dorsal à
1.º placa impar da adiposa.
— 981 —
Colorido pardo-azeitonado em toda a cabeça (ex-
cepto o lado inferior) e ao longo da região dorsal; na
base da Dorsal, Adiposa e Caudal formam-se manchas
menores e abaixo das duas primeiras nadadeiras, sobre
a linha mediana ha duas manchas grandes, pretas. Entre
estas manchas e em toda a face ventral a côr é ama-
rella. As nadadeiras Dorsal, Adiposa e Caudal são li-
geiramente enfumaçadas ; a Pectoral o é ainda menos e
as outras são inteiramente claras, amarelladas. Placas
laleraes 23/215) Dol, Td. Os Vis Bula.
Compr.: até 60 mm.
Habit. : Colonia Hansa, Est. Santa Catharina.
Corydoras meridionalis =
Schnauze sehr kurz, abgestumpft, rhombisch ; fast senkrecht
von cer Hohe der Nasaliffmung bis zur Spitze; fast korkav in
der Hohe der Fentanelle; Schnauze 2 mal. im Kopfs; Auge
21/3 in der Schnauze, 2 mal in der Interorbitsle, Schnsuze bis
zur Basis der Dorsale 2 1/4 im Kérper, Hühe 3 mal im Kôrper.
Mund unte:s ändig, aber nahe der Spitze der Schnauze; Mund-
winkelbarteln gleichlang, das ianere Paar ein wenig liager,
beinahe die Branchialóffnung erreichend; Kinnbarteln nur 1/2
Augendiameter. Occipitalfortsatz lang, hinten nicht sehr ver-
jüogt; Fontanelle kurz, oval, k:um bis zur Basis der Occipitale
reichend. Co:acoidfortsatz kaum sichtbar an der Ventralseite, der
Abstand welcher sie trennt ist 1 1/2 in demjerigen zwischen ©
den Bzsis der Pectorale entkalten. 3 unpsaie Platten vor der
Fettflosse.
Dorzale I 1,1/3 in der Kopflänge entbalten, und gleicht
dem Abstande der Schrauze bis zum hinteren Augen-
rand; gerade, dick und giatt; nur der erste gegliedeite Strzhl
ist lioger, die folgenden nehmen schnell in der Linge ab, der
letzte nur haib so lang als de: erste. Pectorale I viel lävger,
von der Schnauze bis zum Ende des Kimendeckels rrichend ;
ebenfails glatt, ungezibnslt.
Caudale lang, vom Aafange der Dorsale bis zur ersten, un-
paaren Platie der Adipcsa reichend,
Olivenbrauns Färbung am ganzen Kopfe (untere Teil aus-
geschlossen) und der Dorsalgegend entlang; an der Basis der
Dorsale, 4dipcsa und Caudale bilden sich kleinere Flecken, und
unter den zwei ersten Flos:en, auf der Mittellinie sind zwei
grosse schwarze Flecken, Der Zwischenraum zwischen diesen
Flecken sowie die ganze Bauchseite ist gelb. Die folgenden
Florsen, Dorsale Adiposa und Caudale sind leicht raucbig; die
Pectorale ist es etwas weniger und die übrigen Flossen sind
gänzlich hell, gelblich.
peitenplatten,: 23/21; D, I, 7; A: 6; Vi TP PO TNT,
— 582 —
Kôrperlinge : bis 60 mm.
Habit. Colonia Hansa, Staat Santa Catharina.
Corydoras garbei n. sp.
Corpo curto, alto; altura contida 2 2/3 vezes no
comprimento, exclusive Caudal; pedunculo caudal 2 4/4
na maior altura do corpo ; cabeça apenas 3 vezes no
corpo; focinho contido 2 vezes, orbita 3 1/3, espaço
interorbital pouco mais de 2 vezes na cabeça.
Espinhos da Dorsal e Pectoral rectos, este ultimo
por 1 diametro ocular mais longo que o da Dorsal;
espinho da Adiposa muito longo, com mais de metade
de comprimento do Dorsal; 1 ou 2 placas impares.
Inicio da Dorsal, por um diametro ocular mais pro-
ximo do focinho que da base da Caudal; distancia da
Adiposa 4 Dorsal egual a 2/3 da base desta. Caudal
recortada até o meio, lobulo superior um pouco mais
longo, egual ou um pouco maior que a altura maxima
do corpo. Barbiculas maxillares eguaes, attingindo
apenas o inicio da abertura branchial; barbiculas men-
taes minimas. Processo occipital terminando em ponta
curta, e entra em contacto com a Dorsal apenas por ser
a escama impar em frente desta muito longa. Fon-
tanella mais curta que um diametro ocular.
O colorido da cabeça é mais ou menos uniforme,
escuro, o resto do corpo é claro, com uma serie de 4
manchas irregulares no dorso (1.º na base da Dorsal,
2.º no fim da mesma, 3.º na Adiposa, 4.º na base da
Caudal) ; outra serie de 5 manchas maiores quadradas
eo longo da L. lat. (nos exemplares maiores estas man-
chas ás vezes confluem) ; às vezes ainda com 2 man-
chinhas pouco acima da anal e alguns pontinhos no fim
da Pectoral. Dorsal com mancha preta no terço apical
do espinho e dos 2 ou 3 primeiros raios; Adiposa pre-
ta no apice; Caudal com 3-4 faixas transversaes em
zig-zag; as outras nadadeiras sem colorido.
Compr.: até 50 mm.
Habit.: Rio São Francisco, Est. da Bahia.
— 383 —
Corydoras garbei +
Kérper gedrungen, hoch; Hühe 2 2/3 mal in der Linge
(excl. Caudale) enthalten; Schwanzstiel 2 1/4 in der grüssten
Hohe des Kérpes; Kopf kaum 3 mal im Kürper; Schnauze 2
mal, Augenhóúhle 3 1/3, Interorbitalraum ein wenig mehr als 2
mal im Kopfe enthalten.
Dorsal und Pectoralstacheln gerade, dieser letzte um ein
Augendiameter liinger als derjenige der Dorsale; der Fettflos-
senstrahl sehr lang, etwas mehr als halb so lang als derje-
nige der Dorsale; vor seiner Basis sind 1 oder 2 unpaare Platten
vorgelegt.
_ Anfang der Dorsa’e um 1 Augendiameter niber der Schnauze
ais der Basis der Caudale; Entfernung der Adiposa von der
Dorsale gleicht etwa 2/3 der Basis letzterer. Caudale bis zur
Mitte ausge:chnitten; «barer Caudallappen ein wenig linger,
etwa so lang oder ein weniger linger als die grússte Húhe des
Kücpers. Mandwinkelbartel gleich lang, bis zur Branchialüffaung
reichend. Kinabarteln sehr klein. Occipitalfotsatz in Spitze en-
dend, kurz, und nur dur h die sehr laoge unpaare Schuppe vor
der Dorsale mit dieser in Berührung kommend, Fontanelie ge-
ringer als 1 Augendiameter.
Die Ficbung des Kopfes ist mehr oder weniger einfócmig,
dunkel ; der Rest des Kôürp:rs hell, mit einer Serie von 4
uogleichen Flacken asf dem Rücken. (Der 1.° an der Basis
der Dorsale, 2.° am Ende dersclben, 3° an der Afiposa, 4° auf
der Basis der Caudale); eine anders Serie von 5 viereckigen,
grüsseren Flecken, lings der Seitenlinie (bei grósseren Exem-
plaren fliessen diese Flecken manchmal zusammen); manchmal
auch noch mit 2 kleinen Flecken ein wenig oberhalb der Anale ©
und einige kleinere Punkte am Eade der Pectorale, Dorsale
mit einem schwarzen Flecken auf dem lotzten Drittel des Sta-
chels und der 2 oder 3 ersten Stcahlen; Adiposa schwarz an
der Spitze; Caudale mit 3-4 transversale Flecken in Zig-zag ;
die anderen Flo:sen ungefärbt.
Kérperldnge : bis zu 50 mm.
Habit : São Francisco-flusse in Staate Bahia.
Corydoras wenezuelanus 7. sp.
Muito curto, alto (a maior altura 2 2/3 no com-
primento do corpo); cabega rhomba, obtusa; os olhos
cabem 2 vezes ro focinho, 2 1/2 na interorbital. Bar-
biculas maxillares eguaes, muito curtas, attingindo apenas
a linha vertical dos olhos ; barbiculas mentaes sempre
menores do que 1 diametro ocular.
Processos coracoidoos estreitos, deixando entre si um
espaço nú (de pelle finamente granulada), com largura
egual a t/2 distancia entre as bases dos Pectoraes.
— 984 —
4-5 escamas impares em frente à adiposa. Espi-
nho dorsal equidistante entre o focinho e a base da
Caudal; seu comprimento egual ao do focinho ; grosso
na base, levemente recurvado, aspero na frente, denti-
culado atraz, na ponta; os 3 raios seguintes excedem-
no por um diametro ocular. Base da Dorsal egual ao
comprimento da Dorsal I. Distancia da Dorsal à Anal
egual ao comprimento do focinho, mais o diametro
ocular.
Pectoral I um diametro ocular mais longo do que
Dorsal 1; com a ponta atraz denticulada.
Caudal muito recortada (até quasi a metade), com
o lobulo superior um pouco mais longo.
O colorido é uniforme, escuro encima, claro na parte
ventral e quasi amarellado na zona correspondente à
barriga. A côr escura da csbeça é dada pela densa pon-
tuação preta, que é um pouco menos densa ao redor das
aberturas branchiaes. Especialmente nas 7-8 primeiras
placas lateraes o colorido é muito intensamente preto,
pelo que apparenta uma grande mancha abaixo da
Dorsal. As nadadeiras não tem desenho algum e são só
ligeiramente enfumaçadas.
Compr.: 35-45 mm, «Cochinito».
Habit.: Rio Capriales, Valencia, Est. Carabobo,
Venezuela, offerecidos, juntamente com 9 outras especies,
pelo Snr. R. Guerra Mendes.
Esta especie é semelhante a C. nattereri e ainda
mais a C. microps. Os caracteres morphologicos destas
duas formas são approximadamente os mesmos e, como
é especialmente o colorido que os diferencia, poderia-
mos talvez designar C. microps como sendo a forma typica
com faixa mais larga que C. nattereri, considerando
então C. m. venezuelanus com subspecie, em que este
colorido conflue pelo lado dorsal.
De C. natterert estas duas formas distinguem-se
bem por terem o perfil mais curto e arqueado.
E” entretanto muito surprehendente esta seme-
lhança da especie que descrevemos, com as formas bra-
zileiras, e isto especialmente por se tratar de um ge-
nero que mostra tamanha variabilidade, mesmo a pe-
quenas distancias.
— 585 —
Corydoras venezuelanus
Gedrungen, hoch (die giüsste Hühe 2 2/3 in der Ling ces
Kérpers); Kopf rhombisch, stumpf; Auge 2 mal in dar Schnauze
enthslten, 2 1/2 mal in der Interorbitale. Mundwinkelbartel gleich-
lang, sehr kurz, kaum die Verticallisie de: Augen erreichond ;
K'nnbarteln stets kürzer als ein Augendiameter.
Coracoidfortsatz schmal, einen nackten Raum von feiner gra-
nulierter Haut zwischen sich lassend, und deren Breita der
Halfte des Abstandes zwischen der Basis der Pectoralen gleicht,
4-5 unpaare Schuppen vor der Adiposa. Dorsalstachel ia
gleichem Abstand zwischen der Schrauze und der Bisis der
Caudale; seine Läoge gleicht derjenigen der Schnauze, an der
Basis dick, leicht gebogen, am Vorderthril rsuh, hinten, an
der Spitze gezähnelt; die drei folgenden Strahien überragen
ihe um ein Augendiameter. Die Basis der Dorsale gleicht der
Lä:ge der Dorsalo I. Der Abstand der Dersale zur Anale,
gleicht dar Liivge der S:hnauze plus Angandiameter.
Pectorale I, um ein Augerdiameter linger als Dorsale I;
binten an der Spitze gezähnelt.
Caudsle starck ausge:chnitten (fast bis zur Hilfte), der obere
Lappen ein wenig Jinger.
Die Firbung ist oben gleichmissg dunkel, hell an dem
Ventralteile, abar fast gelblich am Bauchs.
Die duvk'e Faibs des Kopfes entsteht durch die dichte,
schwarze Punktierung welche rngs um die Brsnchialófnungen
ein wenig lichter ist. Hauptsächlich sn den 7-8 ersten Seiten-
platten ist dis Fárbung stark schwarz, wodurch ein groiser
Flecken unter der Dorsale entsteht. Die Flossen haben keine |
Zeicanungen, und sind nur leicht rauchig..
Kôrperlänge 35-45 mm. Trivislname «Cochinito». Diese
neue Art verdanken wir wie msncha andere Fische dem Herrn
R. Guerra Mendes.
Habit Rio Cabriale:, Valencia, Est. Carabcho, Venezuela:
Diese Art ähnelt dem C. nattereri und noch mehr dem C, mi-
crops. In der Form sind diese zwei Arten sich annibrend gleich,
und da nur die Färbung sie unterscheidet so küanten wir O.
microps al: die typisths Form bezeichnen, mit einem breiteren
Streifen als C. nattereri, uni O m. venezuelanus als Suhspecies
betrachtan, in welcher diese Färoung an der Dorsalseite zusam-
merfliesst.
Diese zwei Formen untsrscheiden sich abor sehr gut vor C,
nattereri indem sis ein kiiraeres und gsbogeneres Profil h:ben.
Diese A-hnlichkait von OC venezuelanus mit dan brasiliani-
schen Formen ist um so auffallender da wir es mit einer Gat-
tung zu tun haben dsren Arten in den verschiedenen Gebieten,
selbst auf k'eine Entfernungen hia, sich sofort namhaft unter-
scheiden,
— 986 —
Corydoras nattereri triscriatus 1. subsp.
Distingue-se esta forma do typo descripto por Stein-
dachner (Ichthyol. Beitr., 1876, V, pg. 95, Est. XI,
fig. 1-1b) com o qual no mais combina perfeitamente,
por ter um desenho mais variegado. Alem da faixa la-
teral (que por vezes termina em uma mancha caudal),
ainda toda a região dorsal é muito maculada, a cabeça
é escura mas vermiculada no focinho; no flanco, entre
as nadadeiras ventral e anal, estende-se uma mancha
interrompida; a nadadeira caudal tem 5-7 faixas trans-
versaes irregulares e tambem na dorsal diversas man-
chinhas formam 3 linhas transversaes.
Comp. : Os maiores exemplares medem 45 mm.
Habit. : Rio Doce, Est. Espirito Santo, E. Garbe
leg. 1906.
Corydoras nattereri triseriatus
Diese Form unterscheidet sich von der typischen von Stein-
dachner boschrieb:nen Art (Ichthyol. Beitr,, 1876, 5. 95, Taf,
XI, fig. i—1b) und mit welcher sie sonst vellstiindig überein-
stimmt, darch die viel reichere Zeichnung. Ausser des Lateraifle-
ckens (welcher manchmal in ein Caudalflecken endet), ist noch die
ganze Dorsalgegend sehr buntscheckig, der Kopf ist dunkel, mit
warmfirmiger Zeichnung an der Schnauze; an den Seiten, zwi-
schen den Ventral und Analflossen dehnt sich ein unterbrochener
Flecken aus; die Caudalflosse hat 5-7 unregelmissige Querflo-
cken und auch an der Dorsale bilden verschiedere Fleckchen 4
Querlinien.
Koórpsrlinge: Die grüssten Exemplare messen 45 mm.
Hiabit, Rio Doce, Staat Espirito Santo, E. Garbe leg. 1906.
Corydoras flaveolus 7. sp.
Os caracteres morphologicos desta especie combi-
nam bem com os de C. aurofrenatus Eigenm. & Kenn.
Porem o raio Dorsal I é mais curto, egualando em com-
primento com os raios molles 4 ou 5 ; o Pectoral I é mais
longo por quasi um diametro ocular.
E' especialmente o colorido que differencia C. fla-
veolus de O. aurofrenatus. O colorido geral é amarellado;
a cabeça e quasi todo o terço superior do corpo são
cobertos de manchinhas pardas, que, especialmente no
ocinho e na interorbital, são muito pequenas e densas.
Tres manchas maiores no comeco e no fim da base da
Dorsal e da Adiposa; 3-4 manchas mais escuras e maiores
ao longo da linha mediana e ainda numerosas outras,
menores e maisfracas, irregularmente sobre os flancos.
Dorsal com 3-4 series obliquas de manchas ; Cau-
dal com 5-6 series transversaes, irregulares ; Adiposa
e Pectoral um pouco maculadas.
DITS MIS as leke23/2 4:
Compr.: 50 mm.; «Rouquinho».
Habit. : Pequenos riachos afiluentes do rio Piraci-
caba, acima do Salto; Est. S. Paulo.
Corydoras flaveolus
Die morphologischen Eigenschnften dieser Art stimmen
gut mit denen von O. curofrenatus Eigenm. & Kenn. überein.
Indessen ist Dorzale I kürzer, ihr gleichstehend in der Linge
sind die gegliedert:n Strahlen 4 oder 5. ; Pectorale I beinahe ein
Augendiameter linger.
Es ist hauptsächlich die Fiirbung welche C. flaveolus
von C. aurofrenatus unterscheidet. Allgemeine Firbung gelb-
lich. Der Kopf und beinahe der ganze ‘here Drittel des Kür-
pers sind bedeckt mit kleizen braunen Flecken, welche haupt-
sichlich an der Schnauze und Interorbitale sehr klein und dicht
sind. 3 grüssere Flecken am Anfang und am Ende der Basis
der Dorsale, sowie von der Adipcsa; 3-4 gré:scre und dunklere
Flecken an der Mittellinie, und noch zahlreichere kleinere und
schwiighere, unregelmiissige, auf den Flanken. Dorsale mit 3-4
schriigen Reihen von Fiecken ; Caudale mit 5-6 unregelmiissigen
Querstreifen. Fett-und Brustflossen ein wenig gefleckt.
D. 18; A- I 6; Seitenlinie 23/21.
Kérperlinge 50 mm. (Trivialoame «Rouquinho»).
Habit. Diese Art wurde in grüsterer Zahl in den Neben-
flüssen des Piracicaba-flusses oberhalb des gleichnamigen Wasser-
falles gefangen.
Plecostomus lexi n. sp.
Comprimento da cabeça contido 3 1/2 vezes no
comprimento total. Largura da cabeça quasi egual ao
seu comprimento ; diametro ocular contido quasi 9 ve-
zes, espaço interorbital quasi 3 1/2 vezes no compri-
mento da cabeça; focinho egual a pouco mais de 2/3
do comprimento da cabeça. Kamo mandibular contido
2 1/5 vezes no espaço interorbital. Focinho de forma quasi
rectangular, pouco arredondado na ponta. Bordo orbi-
tal interno não levantado, plano como o espaço interor-
— 388 —
bital ; linha mediana da cabeça apenas um pouco, in-
distinctamente, levantada na ponta do focinho e na me-
tade posterior do escudo supraoccipital ; no mais a ca-
beça é lisa, bastante achatada.
25 escudos na linha lateral, todos sem crista, excepto
os 3 ou 4 primeiros que são um pouco levantados no meio ;
7 entre Dorsal e Adiposa; 14 entre Anal e Caudal.
Supraoccipital orlado atraz por tres escamas de tamanho
desegual e irregulares. Lado ventral todo recoberto por
pequenas placas granulares ; sômente é nia a porção
sobre a qual se deita o labio inferior ; este tem papillas
largas e grossas na porção basal, arredondadas e baixas
no terço mediano e o terço marginal é quasi liso; com
barba lateral muito indistincta, larga, com comprimento
de apenas 1/* do diametro ocular.
D I 7, com o I raio por um diametro ocular mais
curto que a cabeça, ultrapassando por duas escamas a
base da Dorsal; 5.º e 6.º raios são os mais longos, mas,
deitados para traz ficam aquem da base da Adiposa, a
uma distancia egual ao comprimento do ultimo raio,
cujo tamanho eguala uma distancia interorbital; base da
Dorsal egual ao comprimento do focinho. Pectoral, que
na metade apical tem fortes espinhos recurvados, é do
comprimento da cabeça, alcançando um terço da Ven-
tral, e esta outro tanto da Anal, 1. 4. Caudal regular-
mente recortada, com o lobulo inferior um pouco mais
longo. Pedunculo caudal com altura um pouco supe-
rior a 1/3 do seu comprimento.
De côr olivaceo-bruna, com numerosos pontinhos
brancos, de tamanho da pupilla dos olhos, sobre todo o
lado superior do corpo, tão densos na cabeça como no
resto do corpo, regulando haver aqui 2, 3 ou 4 man-
chinhas em cada escama.
Nadadeiras, exclusive a caudal, todas tambem com
estes pontinhos brancos sobre os raios e com todas as
membranas inteiramente pretas, um pouco azuladas.
Comprimento total do exemplar typico 460 mm.
Habit. Rio Pardo, perto de Barretos, (Est. S. Paulo)
quasi na foz do rio, que é afluente do Rio Grande, por
sua vez tributario do lado esquerdo do Rio Paraná
Esta nova especie de «Cascudo» foi offerecida ao
Museu Paulista pelo illmo. sr. B.e! Fausto Lex, ao qual
— 989 —
já devemos muitas outras remessas de valor para as
nossas collecções zoologicas, e assim folgamos em ho-
menageal-o, dando à presente especie o nome de P. lex.
Plecostomus lexi
Kopflinge 3 1/2 mal in der Kürperlänge enthalten: die
Breits des Kopfes entspricht beinabe seiner Linge; Augen-
diameter 9 mai, Interorbitale beinshe 3 1/2 mal; Schneuzenlinge
etwas mehrals 2/3 der Kopflinge. Mandibuinrait 2 1/5 in der
Intercrbitsle exthalten, Schnauze fast rechteck'g, an der Spitze
pur wenig abgerundet. Innerer Augenrand ehenso wie dis In-
terorbitale glatt, ohna Kiel. Ueb thaupt haben nur de Schnau-
zenspitze und die hintere Hälfte der Supraoccipitale einen
schwachen Kiel.
25 Schilder an der Seitenlinie, alle ohne Kicl (nur die 3
oder 4 ersten der unteren Reihe sind in der Mitte e:was er-
haben) 7 Schilder zwischen Doisale und Fettflosse; 14 zwi-
schen Anale und Schwanzflosse ; Supraoccipitale hinten durch 3
ungleich grosse Schuppen begrenzt. Unterseite volkommen mit
kleinen granulierten Schuppen hedeckt und such am Kopfe ist
nur der von den Lippen bedeckte Tcil nackt. Muudwinkelbar-
tela breit aber sehr klein, von nur ein drittel Augendurchmesser
Linge.
D 1. 7, der I Strshl um] Augendurchmesser kürzer als der
Kopf und reicht derselbe, zurückgelegt. um 2 Platten üter die
Basis der Doreala hinaus; die Strahlen 5 und 6 sind die ling-
sten; sie reichen jedoch wenn zuriickgelegt nur bis zu einer
Entiernung von der Adiposa welche der Livge des letzten
Strables entspricht oder einer Intercrbitalbreite gleicht; die
Basis der Dorssle gleicht einer Schnauzenliinge; die Pectorale,
welchs an der Apicalbilfte mit starken, an der Spitze umge-
krümmten Dornen versehen ist, hat die Liinge des Kcp'es und
reicht zurückgelegt bis zum Basaldrittel der Ventrale; diese
ebenso auf dis Anale; die Schwanzflosse ist etwas ausgebuchtet;
Schwanzstiel dreimsl so lang als seins Hohe.
Dieser Panzerwals ist von olivenbrauner Farbe, überall mit
zahlreichen weissen Piinktchen versehen, deren Grosse etwa derje-
nigen der Augenpupille entspricht. Auch alle F lossen, ausschlieslich
derjenigen des Schwanzes, apos solche weisse Flecken auf den
Strahlen ; alle Fiossenhiats sind bläulich-schwarz.
Kôrperlinge 460 mm.
Habit Das scbüne Exemplar auf welches sich die Beschreibung
dieser wie mir scheint neuen Art bezieht,warde uns von Herrn Faus-
to Lexin Barretos,im Westen des Staates S. Paulo geschenkt, und
stammt der Fisch aus dem Rio Pardo-flusse, einem Nebenflusse
des Rio Grande, welcher seinerseits in dez Rio Paraná vom
La Plata-systeme müudet.
— 990 —
Plecostomus variipictus 7. sp.
»
O comprimento da cabeça, que é egual à sua lar-
gura, cabe 3 1/2 vezes no comprimento total. O dia-
metro ocular cabe 6 1/2 vezes, o espaço interorbital
2 S/4 vezes, o focinho 1 3/5 vezes no comprimento da
cabeça. O ramo mandibular cabe 2 1/3 vezes no es-
paço interorbital.
Focinho largo, quasi truncado na frente ; linha media-
na da cabeça um pouco levantada no focinho, menos ainda
no espaço interorbital, e finalmente com supraoccipital de
todo plano ; supraorbitses um pouco levantadas, de modo
que de cada lado da linha mediana da cabeça se forma
um sulco, que se extende da região interorbital até quasi
a ponta do focinho; lados da cabeça um pouco aba-
hulados, mas sem cristas ; focinho todo coberto ; barbi-
culas mentaes finas e longas, com 2/3 do diametro orbital.
20 placas na linha lateral, 7 entre a Dorsal e a
Adiposa, 14 entre a Anal e Caudal; entre as 3 ultimas
destas encaixam-se 4 placas azyguas, medianas. Todas
as series de placas ligeiramente carinadas e abundante-
mente providas de espinhos pequenos, um pouco mais
densos e maiores sobre as carinas. Supraoccipital limi-
tado posteriormente por uma unica placa.
Lado inferior da cabeça e do abdomen recobertos
por pequenas placas granulares, excepto em uma zona
núa em seguida ao labio inferior, um pouco mais larga
que os dous ramos mandibulares e que alcança para
traz a linha que une as duas aberturas branchiaes ;
núas são tambem as zonas adjacentes à base das Ven-
traes (do tamanho da placa que confina posteriormente
com o supraoccipital,) e uma zona ainda maior em
frente à Anal.
DI7, primeiro raio do comprimento da cabeça e
excedendo por um diametro orbital a base da Dorsal ;
os 3 ultimos raios, deitados, alcançam todos até 1/2
diametro orbital aquem da Adiposa. Pectoral (infeliz-
mente quebrada nos dous lados) certamente alcança a
metade da Ventral e esta, um pouco mais da base da
Anal. Caudal um pouco emarginada, com o lobulo in-
ferior um pouco mais longo; altura do pedunculo cau-
dal egual a 3 1/2 de seu comprimento.
— 991 —
O desenho branco muito variado desta especie dis-
tingue a mesma facilmente de todas as congeneres. A ca-
beça em frente é recoberta de pequenas manchinhas
brancas; no espaço interorbital e sobre os temporaes
começa um desenho irregular de linhas vermiculadas,
distantes entre si, desenho este que continua sobre o
corpo e nos lados até o fim da dorsal; a principio, na
cabeça e junto a ella, estas linhas correm mais em sen-
tido transversal, depois predomina a direcção longitu.
dinal e atraz da Dorsal começa um novo padrão de
desenho, representado por traços brancos sobre o meio
de cada escama, de modo que esta parte caudal tem 5
listras longitudinaes parallelas. O abdomen é coberto
de manchinhas pretas redondas, um pouco maiores que
a pupilla.
A Dorsal tem membranas interradiaes pretas, com
linhas medianas brancas, um pouco onduladas e que
começam no desenho vermiculado da zona núa de cada
lado da Dorsal. À membrana da Adiposa tambem tem
duas linhas um pouco vermiculadas. As ontras nada.
deiras todas, Pectoraes, Ventraes, Anal e Caudal tem
espaços interradiaes pretos com manchas brancas, dis-
postas regularmente em sentido longitudinal e que por
vezes tambem formam listras transversaes pela sua con-
fluencia, passando sobre os raios. |
Comprimento total do exemplar typico 370 mm.
Tambem este «Cascudo» foi offerecido ao Museu
Paulista pelo Sr. Fausto Lex, egualmento do Rio Pardo
perto de Barretos, Est. de S. Paulo, quasi em sua foz
no Rio Grande, tributario do lado esquerdo do Rio
Parana.
Plecostomus variipictus
Die Linge des Koyfes entspricht der Breits desselben und
ist 3 1/2 mal in der Kô-perlänge enthalten. Der Augendurch-
messer ist 6 1/2 mal, dis Interorbitalbreite 2 3/4 mal, die Schnauze
1 3/5 mal in der Kopfliinge enthalten. Der Mandibularramus
ist 2 1/3 mal in der Interorbitaibreite enthalten. De Schnauze
ist breit, vorne fast abgestumpit. Die Mittellinie des Kopfes
ist am Schnauzenteil nur etwas erhaben, weniger noch auf der
Interorbitale, und schliesslich ist die Suprsoccipitale ganz glatt.
— 992 —
Der Kopf wird von der Interorbitalgegend bis beinahe zur
Schnauzenspitze von 2 Längsfurchen durchzogen; Kopfseiten
etwas gewolbt jedoch nicht gekielt. Schnsuze gepanzert. Munda
winkclbarteln dünn, lang und gleichen etwa 2,3 des Augendurch-
messers.
26 Reihen Seiterschilder, 7 sw schen der Rücken-und Fett-
flosse, 14 zwischen An:l und Schwanzflesse ; zwischen diesen 3
le‘zten befinden sich 4 unpaare Platten. Alle Seitenplatten sind
leicht gekielt und mit zahireichen Dórnchen versehen, welche
besonders auf dem Kiel dicht stehen. Supracecipitale hinten von
einer einzigen Platte begrenzt; Unterseite scwchl des Kopfes
als des Bauches mit kleinen grenulierten Platten bedeckt und
nur eine kleine Zone hinter der Unterlipye ist neckt; in
der Breite entspricht diese nackts Zone etwa derjenigen der zwei
Mandibularrami und nach hinten dehnt sie sich bis zur Hühe der
Verbindungslinie der Bravchialéffoung aus; rackt sind ferner je
eine kleine Zone um die Basis der Ventrelen herum (von der
Grosse der Platte welche hinten die Supraoccipitaie begrenzt) und
eine etwas grüssere Zone vor der Anale.
Di 7, erster Strahl so lang we der Kopf und die Basis der
Dorsale éurch ein Augendurchmesser übertreffend ; die 3 letzten
Strabler reichen alls wenn zuriickgelegt etwa um einen 1/2 Au-
gerdurchmesses über die Fettfl sse hinaus. Brustflosse (leider bei-
derseits beschiidigt) reicht sicherlich bis zur Hälfta der Ventrale
und diese etwas über die Basis der Anale hinaus. Schwarzflosse
etwas ausgebuchtet mit etwas längerem unteren Larpen; die
Hohe des Schwanzstieles ist etwa 3 1/2 malin seiner Lange ent-
haiten.
Durch die reichliche weisse Zeichnung unterstheidet sich
diese Art l‘icht ven al en anderen der Gattung. Der Kopf ist
vorne reichlich we'sspunktiert; zwischen den Augen und auf den
Schläfen beginnt eins wurm'ôrmige Zeichnung welche sich über
den Kúrper his zum Ende der Dorsale erstreckt : suf dem Kopfe
und gleich hinter demselben verlaufen die e Linien in schráger
Richtung und nehm n darauf bin einen mehr horizontalen Verlauf,
worauf dann cin neuer Zsickenmuster beginnt, welches durch weisse
Striche über die Mitte jeder Pl-tte verlaufend dsrgestells ist,
wodurch dann die:er Kérperteil wie von 5 parallelen Lasgsli-
nien durchzogen aussieht. Die Unterseite ist reichlich mit run-
den, schwarzan Fleckchen die etwas gid:ser sind als dio Pupiile
versehen.
Die Dersale hat sckwaze Intersdiall äute, auf welcke
weisse, etwas bogige Mittellinien verleufen, welche euf dem
nackten Teil neben der Dorsale beginnen. Die Fettflcsse hat auch
zwei etwes wurmfücmige Livien. Alle anderen Flessen, Pecto-
ralen, Ventrslen, Ansle und Caudale haben schwarze Interradial-
bäute, mit weissen Flecken welche der 1 äuge nach verlaufen
und welche manchmal, indem sie sich verbinden, Transversal-
streifen bilden, welche die Strahlen durchqueren.
Kérper tinge des typischen Exerplares: 310 mm.
Auch dieser «Cascudo» ist dem Museum von Herrn Fausto
Lex ge:chenkt worden, und stammt derselbe etenfalls aus dem
— 5935 —
Ro Pardo, nshe bai Barretos, Staat. S. Paulo. beinahe an seiner
Miindurg im den Rio Grande, eirem linken Nebenflusse ces R.
Perané.
Plecostomus margaritifer Regan
O exemrlar typico desta especie, que em 1907 er-
viei ao illustre monographo deste grupo, media apenas
160 mm. e a descripção original desta especie (Proc.
Zool. Soc. London, 1907, p. 706, Est. 47, fig. 2) com-
bina bem cem a dos outros exemplares de egual tama-
nho que conservamos no Museu Paulista. Em Junho de
1908 tive occasão de trazer de Piracicaba mais dous
exemplares bem maiores desta especie, que medem
290 e 330 mm. de comprimento total, e assim posso
accrescentar alguns caracteres que se referem aos espe-
cimens :dultos.
O primeiro raio da Dorsal alcança quasi a base da
adiposa e em comprimento eguala 4 distancia da ponta
do focinho à base do 2.º raio da Dorsal. A barriga,
inteiramente coberta de placas granulosas, tem só muito
pequenas areas nüas junto às bases das Pectoraes e Ven-
traes; uma linha núa, interrompida, liga as aberturas
branchiaes ; alem disto, em baixo da cabeça, atraz do
labio, ha uma zona quadrangular nua.
O exemplar im pouco menor que o acima descri-
pto apresenta os mesmos caracteres, porem um pouco
menos accentuados ; assim a D. I é um pouco menor e
a barriga apresenta varios espaços nús.
Quanto ao colorido deve-se accrescentar 4 descri-
pção de Regan qre tambem as nadadeiras Pectoraes e
Ventraes tem abundantes manchas ou pontinhos brancos,
bem como a Caudal do exemplar medio, e a Dorsal na
metade posterior, do exemplar grande.
E” bem caracteristico, nesta como em algumas outras
especies, o colorido preto da metade posterior das mem-
branas interradiaes.
Um outro exemplar de (Cascudo de 230 mm. de
comprimento foi-nos enviado do Instituto Serumthera-
pico de Butantan, S. Paulo, e pelos caracteres morpho-
logicos não será possivel distinguil-o dos outros especi-
mens de Pl. margaritifer, a não ser que a D. I., que
tem egual comprimento que a cabeça, quando deitada
— 594 —
para traz alcança só a 3.º placa atraz da base da Dorsal,
em quanto que os outros raios alcançam até um dia-
metro ocular aquem da base da Adiposa. Evidentemente
a relação do comprimento da Dorsal não tem maior
valor para a caracterização desta especie.
Mas pelo desenho seria impossivel identificar este
especimen com a illustração acima citada de Regan. No
presente exemplar as manchas da cabeça são abundan-
tissimas e grandes (15 sobre a placa temporal, 17 na
area comprehendida entre os olhos e as narinas), e mui-
tas dellas são alongadas e mostram mesmo tendencia
para se fundir com as manchas visinhas. As manchas
sobre o corpo são muito evidentes e chegam a medir
quasi duas vezes o tamanho da narina. Tambem as na-
dadeiras todas são abundantemente manchadas ; estas
manchas brancas assentam sobre o meio dos raios, mas
quasi sempre passam de um e de outro lado sobre a
membrana interradial. Especialmente as da cauda são
alongadas, com quasi um diametro ocular de compri-
mento; ha 4 a 5 sobre cada segundo raio, alternando
regularinente os raios manchados com os de côr uni-
forme, parda. Tambem aqui a Dorsal tem colorido preto
na metade posterior da membrana interradial.
Trata-se pois de Pl. margaritifer com desenho
muito abundante e, como parece que este forma tem
alem disto outra distribuição geographica, pois não oc-
corre em Piracicaba mas no rio Pinheiros perto de S.
Paulo (Capital), cremos ser conveniente distinguil-a da
forma typica, dandc-lhe o nome novo:
Plecostomus margaritifer butantanis
n. subsp,
Plecostomus margaritifer Regan
Das typische Exemplar dieser Species welches ich im Jabre
1907 an den ausgezeichnetsn Monographen dieser Gruppo san-
dte, hatte eine Linge von kaum 160mm. und stimmt die Ori-
ginalbeschreibuvg dieser Art (Proc. Zool. Soc. London, 1907,
p. 796, Est. 47, fig. 2) ganz mit den anderen Exemplaren wel-
che wir hier im Museu Paulista besitzen überein. Im Jani 1908
hatte ich Gelegenheit von Piracicaba zwei viel gréssere Exem-
plare dieser Art mitzubring:n, welche eine Totalliinge von 290
und 330mm. hatten uod so bin ich in der Lage noch einiga
Mitteilungen zu machen welche sich auf erwachsene Tiere be-
ziehen.
— 595 —
Der erste Dorsalstrahl erreicht beinahs die Basis der Adi-
posa, und in der Länge gleicht er der Entfernung der Schnau-
zenspitze zur Basis des 2weiten Dorsalstrahles. Der Bauch,
gänzlich mit g:anulierten Platten bedeckt, hat nur sehr kleine
nackte Flächen nahe der Basis der Pectorale und Ventrale ;
eine unterbrochene nackte Linie verbindet die Branchialóffnun-
gen; ausserdem befindet sich unter dem Kopfe, binter der Lip-
pe eine viereckiga nackte Zcne.
Das niichste Exemplar, ein wenig kleiner als das eben be-
schricbene, weist dieselben Charektere auf, aber etwzs weniger
ausgeprigt; so ist der Dorsalstachel ein wenig kleiner und der
Bauch hat eins grüssere Zahl nackter Stellen.
Was die Zeichrung der Flossen anbelangt so muss ich
noch 2u Regan’s Beschreibung hinzufiigen dass auch die Pecto-
ral und Ventrsa'flossen zehlreiche weisse Flecken oder Funkte
haben, stwie die Schwanzflosse des mittleren Exemplares und
die hintere Halfte der Dorsale des grússeren Fisches,
Die schwarze Firbung der hinteren Hälfte der Zwischen-
haut der Flossep ist bei dieser, wie bei verschiedenen anderen
Arten der Gattung sehr charskteristisch.
Ein snderer Fanzerwels von 230mm. Linge wurde uvs von
dem Instituto Serumtherapico de Butentan, S. Paulo geschickt;
durch morphologische Charaktere ist es nicht móglich ihn von
dem typischen Pl. margaritifer zu unterscheiden. Es sei nur
erwihnt dass die Liinge des Dorsalstachels derjenigen des
Kopfes gleicht und dass er, nach hinten zuiückgelegt, nur die
3.to Platte hinter der Basis der Dorsale erreicht, während die
anderen Strahlen bis um einen Avgendiameter an die Basis der
Adiposa reichen. Wahrscheinlich hat das Verhiiltniss cer Länge
der Dorsale keinen grésseren Wert fiir die Charakterisierung
dieser Art.
Aber durch die Zeichnung wiire es unmüglich dieses Exem=
plar mit der chen erwitnten Abbildung von Regan zu verglei-
chen. Bei diesem Exemplare sind die Flecken des Kopfes sehr
zahlreich und gross (15 auf der Schlifenplatte, 17 zwischen den
Augen und den Nasenüffaungen); viele derselben sind verlängert
und zeigen meist Neigung ineinander zu verschmelzen. Die
weissen scharf begrenzten Flecken des Kôürpers, sind bis zwei-
mal so gross als die Nasexéffaungen. Auch die Flossen sind
reichlich befleckt; die weissen Flecken derselbsn befinden sich
hauptsichlich auf der Mitte der Strshlen, dehnen sich aber
auch seitlich auf die Zwischenhaut über. Besonders die des
Schwanzes sind verlängert und erreichen beinahe die Linge
eines Augendiameters ; auf jecem zweiten Strahl befinden sich
ihrer 4 oder 5, und die befleckten Strahlen wechseln regelmäs-
sig mit denjenigen gleich{ürmig brauner Farbe sb. Auch hier
ist die hintere Hälfte der Zwischenhsut cer Dorsale viel dun-
kler gefärbt als die vordere Hiilfte,
Es handelt sich also um Pl. margaritifer mit einer sehr
auffallenden Zeichnung, und da auch die gecgraphischa Ver-
— 596 —
breitung dieser Form (rio Pinheiros, Netenfluss des Tieté, rahe
der Hauptstadt 5. Paulo) eine andere ist als diejenige der ty-
pischen Form (rio Pirecicaba) so schlage ich den Namen
Pl. margaritifer butantanis n. subsp. für diese Unterart
VOT .
Plecostomus ancistroides 7. sp.
Altura do corpo contida 5 2/3 vezes no comprimento
é egual ao comprimento do focinho; cabeça 3 1/3 no
comprimento total; largura da cabeça um pouco menor
que seu comprimento. Ramo mandibular e diametro
ocular cabem 3 vezes no espaço interorbital, este cabe
2 1/2 vezes e o diametro ocular 7 a 7 1/2 vezes no com-
primento da cabeça.
Focinho pouco obtuso, ellipsuide, com ponta nua ;
com uma crista mediana do focinho ao supraoccipital,
interrompida no espaço interorbital que é plano, e com
crista supraorbital que começa junto à narina e atra-
vessa o terço superior do temporal; este tem uma gra-
nulação especial, vermicular ou radial, que assim destaca
esta placa nitidamente das adjacentes ; sipraoccipital limi-
tado atraz por 2 escamas geralmente deseguaes ou mesmo
por 3 escamas. 26 escamas em uma serie longitudinal,
todas com crista bastante evidente, a começar da cabeça ;
cum espinhos pouco desenvolvidos.
Lado ventral todo granuloso, excepto uma linha que
atravessa o thorax entre as aberturas branchiaes e uma
pequena area junto às bases das ventraes. (Nos exempla-
res de só 7 cm. de comprimento a barriga tambem já
tem a granulação, ainda que bastante espaçada).
Labios inteiriços, o inferior bastante desenvolvido ;
barbicula um pouco menor que o diametro ocular.
D I 7, o primeiro raio por um diametro ocular
mais curto que a cabeça, e por outro tanto mais longo
que a base da nadadeira Dorsal, e egual a distancia
desta ao fim do espinho da Adiposa; deitada, a Dorsal
alcança até 2 placas aquem da base da Adiposa; base
da Dorsal é egual à distancia do focinho ao bordo pos-
terior do olho. A Pectoral alcança justamente a base da
Ventral e esta cobre o terço basal da Anal. Caudal
— sam —
bastante recortada, com o lobulo inferior sempre bem
mais longo que o superior; os raios medianos medem
pouco mais que metade do raio inferior.
De côr pardo-olivacea, com numerosas manchinhas
pretas, muito pequenas, formando pontinhos redondos
sobre a cabeça; maiores, menos nitidos e regulares e
mais espaçados no resto do corpo. Barriga tambem cc-
berta de manchas escuras, um pouco apagadas, quasi do
tamanho dos olhos.
Todas as nadadeiras pares e impares com grardes
manchas escuras sobre os raios, manchas estas que
tambem alcançam de lado a lado uma parte da membrana
interradial e as vezes confluem em sentido transversal,
especialmente sobre a Dorsal, onde formam linhas um
pouco onduladas.
Comprimento maximo dos 15 exemplares do Museu
Paulista: 21 cm.
Typo: Rio Tatuhy. affluente do lado esquerdo do
Rio Sorocaba; Rio Piracicaba, Est. de S. Paulo.
Em seu aspecto geral, e especialmente pelo colo-
rido, esta especie assemelha-se bastante ao Pl. puncta-
tus, mas, alem dos caracteres anatomicos, tambem o de-
senho das nadadeiras é bem differente, pois as manchas
não estão dispostas em series verticaes e parallelas sobre
as membranas interradiaes, mas occupam o meio dos
raios e formam linhas transversaes.
De Pl. vaillanti, com a qual parece ter affinidades,
distingue-se por ter escudos sempre carinados e, ainda
por ter a placa temporal uma escultura notavelmente
diversa da das demais placas da cabeça, quando Stein-
dachner afirma justamente o contrario em sua diagnose.
Ha ainda alguma semelhança com algumas especies de
Ancistrus, mas a pequena mobilidade do operculo e in-
teroperculo, aliás não providos de espinhos dignos de
mensão, não nos auctoriza a incluir este Cascudo nesse
genero, que ainda não conhecemos dos rios do Est. de
S. Paulo.
Plecostomus ancistroides
Hobe des Kôürpers 5 1/2 in der Lisge enthalten, oder
gleich einer Schnauzen änge; Kopf 3 1/3 inder Kô-per linge,
Breite des Korfes ein wezig geringer als seine Linge; Man-
— 398 —
dibularast und Augendiameter 3 mal in der Interorbitalbreite,
diese 21/2 mal, Augendiameter 7 bis 71/2 mal in der Linge
des Kopfes enthalten.
Schrauze abgestumpft eliptisch mit nackter Spitze; eine
Mittelleiste verliiuft von der Schnauze bis zur Supracccipitale,
aber ist in der Interorbitalbreite, welche glatt ist, unterbrochen ;
eine Supraorb'talleiste, weiche bei der Nasenüffnung beginnt,d urch-
läuft das obcre Drittel der Echläfenplatte. Diese ist warmférmig
oder radial granuliert, so dass diese Plaits sich deutlich von den
Avgrenzenden unterscheidet ; Supraoccipitale hinten durch 2,
gewohnlich ungleiche, Platten oder sogar 3 derseib2n b:grenst.
26 Scbuppen in einer Liingsreihe, vom Kopfe ab alle ziemlich
deutlich gekielt aber mit nur wenig entwickelten Dü:nchen ver-
sehen.
Ventralseite garz granuliert mit Ausnehme einer Linie
welche zwischen den Branchialiffaungen verlinft und einer
kleinen Stelle an der Basis der Ventrale. (Bei den Exemplaren
von nur 7 em. Länge ist der Bauch ebenfalls schon granuliert
wenn auch nur ziemiich schwach. Lippen ganzrandig, cie untere
ziemlich entwickelt ; Barteln em wenig k'einer als ein Augen-
diameter.
D. I 7; de-erste Sirah! ein Augendiameter kützer als der Kopf,
um desselbe Maas jinger als die Basis der Dvrsalflosse, und
gleichlang els die Entfernung derselben bis zum Ende ces Stachels
der Adiposs. Zuriickgelegt errcicht dis Dorssle bis 2 Platten
vor der Basis der Adiposa: Besis der Dorsale gleicht der
Entfernung von der Schnauze bis zum hinteren Augenrande.
Pectorale erreicht genau die Basis der Ventrale, und diese
bade:ks den Basaldrittel der Anale. Caudcle ziemiich ausge-
schnitten, und ist der untere Lapper stets viel linger als der
obere ; die Mittalstrablen messen ein wenig mehr als die Hälfte
der Linge des unteren Strahles.
Von hell oilventrsuner Farbs, mit zahlreichen kleinen
schwarzer ilecken welchs sehr kleine schwarze Püuktchen auf
dem Kopfe bilden ; grüsser, weniger deutlich und reglmiissig
und weniger dicht auf dem Rest des Kúrpers. Der Bauch hat
auch dunklso etwas verlüschte Flecken, welcha fast die Grósse
der Augen haben.
Aile Flossen, paare und unpaare haben auf den Strahlen
grosse dunkle Fleckan, welche voa einer Seite zur anderen auf
die Zwischenhaut iibergreifen, manchmal sich in transversaler
Richtung verbiniend, haupisichlich auf der Dorsale, wo sie
verschiedene etwes wellige Lienien bilden.
Grüsste Linge der 15 Exemplare des Museu Faulista : 210
mm. Type: Rio Tatuhy, linker Nebsnzufluss des Rio Soro-
caba, Staat S. Paulo ; Rio Piracicaba.
Im Allgmeinen und haupt:ächlich durch die Färbung, gleicht
diese Art ziemlich dem Pl. punctatus, aber ausser durch die
anatomische Charakteren. ist sie durch die Zeichnung der
Floseen leicht zu unterschieden, denn die Flecken sind nicht in
— 999 —
verticalor und paralleler Reihsnfolge in den Zwischenbäuten
aufgesteilt sondern besetzen die Mite der Strahlen und bilden
transversale L'nien.
Von PI. vaillanti, mit welchem unsere Art verwandt zu sein
scheiut, unterscheidet sie sich durch diestets gekieltex Seiten-
schilder und auch noch durch die sehr auffallende Skulptur der
Schli‘enplattan welche sehr verschieden ist von derjenigen
der anderen Platten des Kopfes, während Jteindachner gerade das
Gegentheil in seiner Disgnise behauptet.
Pl. ancistroides hit auch noch einig> Aehnlichkeit mit ei-
nigen Ancistrus-Arten, aber die geringe Beweglichkeit des
Kiemen-und Zwischenkiemendeck:ls (die uberhaupt mit keinen
bemerkanwerten Stacheln versehen sind) erlaubt uns nicht
die:en Paszerwels in genannte Gattung unter zu bringen ; es sei
noch erwährt dess ncch kein Axcistrus aus den Fliissen 5.
Paulos bekannt ist.
Hiemipsilichthys garbei n. sy.
Comquanto esta especie represente sob varios
pontos de vista como que uma forma intermediaria entre
as duas especies já conhecidas do genero, comtudo ha
a distinguir, por outro lado, alguns caracteres, que pa-
recem differencial-a especificamente de H. gobio e I.
calmone.
Como a primeira dessas especies, a nossa tem as
barbiculas do angulo da bocca livres e proeminentes, |
barbiculas estas que faltam ao fH. calmonz; por outro
lado, como nesta ultima especie, todos os exempiares
da nossa, que consideramos nova, tem a nadadeira pec-
toral tao longa que ella ultrapassa a base da Ventral,
e esta Ventral attinge com sua ponta a base da Anal.
De H. calmoni o nosso H. garber se distingue, como
ja foi dito, pelas barbiculas bem desenvolvidas do an-
gulo da bocca e ainda por ser a Pectoral não só muito
menor mas de forma muito differente ; ella eguala apenas
à distancia entre a ponta do focinho e as narinas ou é
apenas um diametro ocular mais longa; além disto os
espinhos da face são muito mais numerosos, mais lon-
gos e direitos, sem ponta revirada; de egual compri-
mento são os espinhos da Pectoral, isto é em media são
eguaes à largura da Interorbital.
A altura do corpo é contida quasi 7 vezes, o com-
primento da cabeça (medido até a abertura superior das
guelras) 3 1/5 no comprimento do corpo. Devido à in-
— S06; —
tumescencia das faces, a cabeça é um pouco mais larga
que longa. O diametro ocular é contido 3 vezes na In-
terorbital, esta quasi 3 1/2 vezes no comprimento da cabeça.
O focinho ê menor que a cabeça apenas por uma
largura Interorbital ; o comprimento do ramo mandibular
é egual a uma largura Interorbital ou muito pouco te-
nor; a cabeça é bastante achatada, um pouco concava
nos lados em consequencia da intumescencia da face ;
no mais ha a notar tres cristas parallelas sobre a ca-
beça, começando a mediana entre as narinas e alcan-
cando quasi a ponta do focinho, emquanto que as duas
outras cristas lateraes começam junto às orbitas inter-
nas, sendo porém um pouco mais curtas. O contorno
do focinho é quasi perfeitamente semicircular, devido à
intumescencia lateral e provido com numerosos peque-
nos espinhos, que aliás cobrem quasi toda a cabeça; os
espinhos, extremamente longos e fortes, são direitos e
horizontaes ; occupam o terço mediano do comprimento
da cabeça, isto é correspondem à porção comprehen-
dida entre a abertura buccal e a margem posterior do
labio inferior; em média o comprimento destes espinhos
corresponde a uma largura interorbital; os anteriores
são um tanto menores, os posteriores sempre bastante des-
envolvidos; o operculo e o interoperculo tem apenas es-
pinhos pequenos.
Tanto c labio superior, que é estreito, como o labio
inferior, de forma arredondada, tem em sua porção basal
muitas papillas grandes; estas tornam-se menores e final-
mente diminutas em direcção à margem posterior do
labio. O bordo exterior do labio inferior é recortado e
algumas reentrancias maiores separam entre si os gru-
pos das pequenas franjas. A barbicula do angulo da
bocca mede sempre mais que um diametro ocular.
O corpo é recoberto de placas alongadas, despro-
vidas de crista, lisas mas com delicados espinhos; 27-29
series; apenas 3-5 placas impares em frente à base da
Adiposa; {1 placas entre as bases da Anale da Caudal.
O lado inferior da cabeça, do peito e da barriga
é nú, apenas nos individuos noves ha tambem uma zona
nua ao redor da base da Anale uma pelle que recobre as
placas Caudaes, mas tambem ahi sempre se'vê peque-
nos espinhos que recobrem as placas.
— 401 —
A Dorsal occupa uma posição um pouco anterior
ao meio do corpo, mais ou menos na metade da distan-
cia entre a ponta do focinho e a diposa. A base da
Dorsal é por um diametro ocular mais curta que o
focinho ou quea D I. Este primeiro raio da Dorsal é
pouco intumescido e flexivel; os dous raios seguintes são
de egual tamanho e os D subsequentes diminuem grada-
tivamente em comprimento, de modo que o ultimo cabe
1 2/3 vezes no comprimento da Dorsal I. A distancia
entre a Dorsal e a Adiposa é egual ao comprimento da
D I. O espinho da Adiposa é fraco e curto, medindo
apenas 2 diametros orbitaes.
O raio da Pectoral é de forma de todo anormal: logo
a partir da base elle se intumesce, alcançando uma largura
que por vezes é pouco in erior à da interorbital. Esta porção
larga e chata do P. I importa em quasi 3/4 do com-
primento total da nadadeira, cuja ponta é fraca e molle;
sobre a margem externa da porção alargada da nada-
deira ha, como sobre a face, tres series de espinhos
longos e direitos, implantados em grandes papillas; o
comprimento destes espinhos é mais ou menos egual ao
daquelles da face (ou egual a uma largura interorbital)
e tambem aqui as pontas são direitas, não recurvadas.
Os dous raios seguintes da Pectoral são de comprimento
egual ao anterior; deitada para traz esta nadadeira al-
cança um pouco mais de um terço da base da Ventral.
Esta começa quasi justamente abaixo do primeiro raio
da Dorsal e, deitada para traz, alcança a base da Anal;
seu primeiro raio é muito grosso e densamente coberto
de espinhos, cujo comprimento é egual à porção livre dos
dentes do maxillar superior. A Anal tem comprimento
egual à base da Dorsale acha-se collocada justamente
abaixo do ponto que a Dorsal alcança quando deitada.
O bordo posterior da caudal é truncado ou um pouco
concavo nos exemplares nuvos, sempre com o lobulo
inferior um pouco mais longo que o superior; os dous
raios marginaes desta nadadeira são providos de espi-
nhos um pouco mais fortes que os que guarnecem as
placas da porção caudal do corpo.
Tanto o dorso como os lados são de côr bruno-
violacea, manchados de signaes escuros e regulares, não
muito grandes. Nadadeiras Dorsal e Caudal bem como
— 402 —
as Pectoraes e Ventraes tèm membranas interradiaes
claras; nestas ultimas duas nadadeiras ha algumas se-
ries transversaes de manchinhas, que porem se limitam
aos raios das nadadeiras.
DITES VAT CON IL OA Pelo CA Ts
Comprimennto total: até 14 cm.
Habit. Colligidos no curso superior, montanha aci-
ma, do Rio Macahé, no Est. do Rio de Janeiro, pelo
sr. Ernesto Garbe, a quem tenho o prazer de dedicar esta
nova especie, como homenagem aos muitos serviços que
vem prestando ao Museu Paulista.
Hemipsilichthys garbei
Wenngleich diese Art in mancher Hinsicht den Ueber-
gang zwischen den beiden, bisher b«kannten Arten dieser Gat-
tung darstellt, so weist dieselbe dcch auch manche Charaktere
auf, dia dazu berechtigen, sie als eine neue, von den beiden
anderen verschiedene Art aufzufassen.
So hat ZH. garbei gleichfalls wie H. gobio die frei vorste-
henden Muncwinkelbarteln, welche JH. calmoni fehlen, aber
andererseits ueberragt, wie bei der letatgensnnten Art, in al-
len Fxemplaren von H. garbei die Pectoralflosse meist die Ba-
sis der Ventralen, und reichen letztere mit ihren Spitzen bis
sn die Besis der Anale. Von H. calmoni unterscheidet sich
H. garbei, wie gesagt, durch die Anwesenheit der whl ent-
wickelten Mundwirkelbartaln, curch viel kuerzere, aber ganz an-
ders geformte Pectornle, welchs nie lasvger ist, als die Distanz
von der Schnautzenspitze bis zu den Narinen oder einen Au-
gendurchme:ser mehr. Ferner sind die Stacheln der Wangen
viel zahlreicher, laenger und gerade, nicht an der Spitze umge-
bogen. Gleichgross sind die Stacheln der Pectorale (durch-
schnittlich einer Stirnbreite gleich).
Die Hoehe des Koerpers ist beinahe 7 mal, die Kopflaenge
(bis zum oberen Ende der Kiemenspalta gemessen), 3 1/5 mal
in der Kérperiiinge enthalten. Der Kopf ist wegen der Wan-
genfalten ein wenig breiter als larg. Der Augendurchmesser
ist 3 mel in der Stirnbreite, diese beinshe 3 1/2 mal in der Kopf-
linge enthalten. Die Schnauzo ist um eine Stirnbreit kuer-
zer als der Kopf. Die Laengs des Mandibularramus ist gleich
einer Stirnbreite, oder nur u:bedeutend kuerzer. Der Kopt ist
ziemlich flach, an den Seiten wergen des Wangenwulstes ein
wesig konkav und mit drei paralielen Jeistenfoermigen Erhe-
bungen versehen, von denen die mittlere zwischen den Narinen
beginvt und beinahe bis zur Schnauzens:itze reicht, waehrend
die beiden anderen als niegrige Supracrbitalleisten beginnen
und etwas kuerzer, aber eben so hoch wie die mittlere sind.
Der £Schnauzenrand ist fast genau halbkreisfoermig, wulstig,
— 405 —
resp. hacutig ueberzogen, aber bis an den Unterrand hin mit
feinen Dornen versehen, wie ueberhaupt fast der ganze Kopf.
Aeusserst lange, starke. ganz gerad und horizontale Dornen
befinden sich avf den Wangen, von unten gesehen im Laengs-
drittel des Kopfes von der Mundspalte sn bis sum Hivterrande
der Unterlippe. Die mittlere Laenge dieser Dornen entspricht
einer Stirnbreit, die verderex sind etwas kleiner, die hinteren
stets gross. Operculum und Interoperculum sind nur mit sehr
kleinen Dosrncben versehen.
Sowohl die schmale Oberlippe, als die mehr oder weniger
abgerundete Uaterlippe haben an ihren basalen Teilen zahlreiche,
grosse Fapillen, waehrend ciese nach dem f'eirn Rande hin
bedeutend kleinor werden. Der Aussenrand der Unterlippe ist
au:gezacki, und zwar bilden sich meist Gruppen ven kleineren
Laeppchen, welche unter sich durch etwas greessere Einschnitte
getrennt siud. Der stcts vorhandene Mundwinke:bart ist bed: u-
tend laenge: als ein Augendurchmesser.
Der Kverper ist mit laerglichen, ungekielten, glatten zart-
bedcrnten Schuppen bepanzer:; 27-29 Reihen. Vor der Fett-
flossenbssis nur 3-5 tnraare Pl:ettchen. 11 Flsettchen befinden
sich zwischen dem Ende der Ansle und der Basis der Schwanzflosse.
Die Unterseite von Kopf, Brust und Bauch ist nackt, nur
bei ausgewachsenen Exemplaren ist auch eine Zone um die
Basis der Ansle herum nsckthseutig, und ein Teil der Caudal=
platten ven einer fein:n Haut ucberdeckt, doch nur wenig, da
man stets “ie feineren Doerschen der Platten durchragen sieht.
Die Dersale liegt etwas naeher dem Kopfende, in der
Mitte zwischen Schnsuzenspitze und Fettflosse. Die Basis
der D. ist um einen Avgendurchmesser krerzer als die Schnau-
ze und als D. I. Dieser ist stets wenig verdickt, biegsam.
Die 2 naechsten gesp ltenen Strahlen sind gleichgross, die 5
darauffolgenden nehmen gleicbm:essig an Laenge ab und ist der
Letzte 1 2/3 mai in der Lange des D. I. enthaiten, Die Ent-
fernung zwi:chen dem Enie der Dorsale und der Basis der
Fettflosse ist gleich der Liieng: von D. I. Der Fettflossensta-
chel selber ist schwach und klein, kaum 2 Augendurchmesser
gross. Der S'achel der Brustflos:e ist hüchst sonderbar ge-
formt. Gleich an seiner Basis schwills er maechtig an und er-
reicht ein: Breita, welche manchmal der Stircbre:te nur sehr
wenig nachsteht. Dieser br-ite, fl:che Toil der P. I. macht
3/4 der Gisamtlaengo der Flosse (gleich einer Schnautzen-
laenge) aus, und ist die Spitze schma! und weich. An der Aus-
senseito des verbreiteten Teiles befi den sich, genau wie auf
den Wangen 3 Reihen langer gerader Stacheln, in grosse Pa-
pillen eineesetzt. Die Lsenge dieser Stacheln kommt cerjeni-
gen der Wangen beinshe gleich (g'eich einer Stirnbreite) und
sind auch bicr die Spitzen gerade, ungekruemmt. Die zwei fol-
genden Flcs:enstrahlen sind eben so lang wie P. I und ueber-
decken dieselben, wenn zurueckgelegt, mehr als ein Drittel der
Basis der Vontralen. Diess beginnen fast gensu unter dem
ersten Dorsalstrahl und ragen beinahe bis zur Basis der Anale,
— 404 —
Ihr erster sehr dicker Strahl ist unten dicht bedornt. Die
Grcesse dieser Dornen ist mit dem frei hervcrstenden Teile der
Oberkiefsrzaeine vergleichbar. Die Angle ist eben so lang als
die Basis der Dorsale und befindet sich genau unterhslb der
Spitze der zurneckgelegten Dorsale.
Der hintere Rand der Schwanzflos:e ist eiwas schraeg ge-
stellt, «der bei juengeren Exemplaren schwach korkav, und der
untere Randstrahl etwas l:enger als der cbere. Beide Rend-
strablen sind mit etwas staerkeren Dcernchen versehen als die
Schuppenplatten des Sckwanzteiles.
Ruscken und Seiten viclettbraun mit unregelmaessigen dunk-
leren mittelgrossen Fleckcher. Dorsalo und Caudele mit heiler
Flostenhaut, wie such bei den Pectoral- und Ventralficssen. Bei
beiden letzteren sind jedcch deutlich quergesteilte Reihen von
Fleck:hen sichtbar, welche nu: auf dis Flessenstrahlen be-
schraer kt sind.
D. 17; AILS; V 45: P.1%6:1C I 14 I: Seitenl:27-28;
Totallaenge bis zu 14 ctm.
Dicse Art, wurde im Staat Rio de Janeiro, im Gebirgs-
fluste Macahé (ca. 10-15m. Breite, flach und steinig) im Ober-
laufe, 6. h. em Gebirgsrande von Herrn Ernesto Garbe gesam-
melt und habe ich demselben, als verdienstvollen Sammler des
Museu Paulista ciese neue Art gewidmet.
Quatro Lanelicoreos Termitophtlos
POR
G. LUEDERWALDT
(Preparador da Secção Entomologica do Museu Paulista)
Ao colligir cupins nos arredores de 8. Paulo, reuni
tambem, alem de outros hospedes de termitidas, taes como
Cistelidas, Pselaphidas, etc. uma especie de Cetonida
e tres especies de Phileuridas, juntamente com suas for-
mas larvaes.
A principio foram os casulos rotos de Actinobolus
radians Westw. que encontrei em maior quantidade no
ninho de Cornitermes ; depois despertaram minha atten-
ção as grandes larvas brancas de Act. trilobus Lüderw.
nos ninhos de Æulermes, sem entretanto ainda conhecer
os respectivos besouros, até que finalmente deparei com
elles. juntamente com uma terceira especie, Phileurus
luederwaldt: Ohaus. (*)
Ao revêr o «Zoological Record» constatei que até
agora bem pouco ou quasi nada se sabe da biologia dos
Phileuridas brazileiros e assim julguei fazer bom tra-
balho prestando maior attenção ao assumpto, sendo
essas observações as que deram ensejo para escrever a
presente contribuição.
A principio tencionava descrever tambem as larvas
dos mencionados besouros, mas as dificuldades que nesse
(*) Esta especir, que eu a principio julgavs ser Ph mi-
crops Burm. do M-xi'o. foi retorhecida pelo Ur. F. Ohaus ser
nova á sciencia; cf. Diut. Entomol. Zeitsch. 1910, p. 688.
— 406 —
ponto encontrei, principalmente por falta do necessario
material de comparação, fizeram-me desistir dessa in-
tenção e assim limito-me a descrever e caracterizal-as
perfunctoriamente.
Uma das especies, Act. trilobus, era nova para a
sciencia, o que muito me surprehendeu, em vista da
abundancia com que a encontrei nos cupins; o caso, en-
tretanto, se explica pelo facto de este besouro raramente
sahir do seu esconderijo, pelo que não se o encontra com
facilidade, a não ser ao colleccionar os insectos termito-
philos, o que até agora parece que ainda não foi feito com
relação aos cupins dos nossos campos. À diagnose desta
especie já tive occasião de publicar na revista entomo-
logica «Deutsche Entomol. Zeitschrift» 1910, p. 95.
Nada encontramos sobre a biologia dos P hileuridas
brazileiros nas obras entomologicas. Burmeister, com refe-
rencia a Phileurus diz tão sómente que as especies deste ge-
nero se encontram frequentemente sob as cascas de
troncos apodrecidos e tambem Wassmann não menciona
Dynastida algum como sendo termitophilo (Kritisches
Verzeichniss der myrmekophilen und termitophilen
Arthropoden, 1894). R
O Dr. Ohaus, ao relatar os resultados de sua viagem
entomologica ao Brazil (Stettiner entomol. Zeitschrift,
1900, p. 215) diz que encontrou Trioplus e varias es-
pecies de Phzleurws em tocos de arvore, juntamente com
suas larvas e ovos, e já então suspeitava que elles cui-
dassem da criação de sua progenitura, facto que o mesmo
entomologista viu comprovado, ao menos com relação
a duas especies de Phileurus durante a sua segunda
viagem ao Brazil (Stettiner entomol. Zeitsch. 1909, Fasc.
LD. 4720);
Säo estas as unicas referencias que encontro sobre
o assumpto na literatura ao meu alcance.
Em seus traços geraes a biologia das tres especies em
questão é mais ou menos identica. Act. radians habita osni-
nhos de Cornitermes, caracteristicos pela sua forma de col-
meia, de paredes extremamente solidas; Act. trilobus e
Phileurus luederiwaldti, encontram-se em ninhos de duas
especies de Kutermes. Todos estes cupins são muito fre-
quentes nos arredores de S. Paulo. Por vezes tambem
se encontram as duas especies de Actinobolus em cupins
— 407 —
de outras especies, ainda que só isoladamente; assim
obtive Act. radians tambem de Huternies e Act. tri-
lobus de Cornitermes.
As tres especies alimentam-se, bem como suas lar-
vas, do proprio material de que é feito o ninho que
habitam, isto é das paredes finas, quebradiças, que fe-
cham os compartimentos internos da parte central do
cupim.
Estas paredes são constituidas, em sua parte in-
terna, de uma camada de barro ou terra, ao passo que
o lado externo das mesmas paredes é de uma massa
preta, o excremento dos termitidas, empregado por estes
insectos para dar um revestimento mais ou menos es-
pesso às divisões da parte central do cupim.
Certamente é esta parte do material que contem a
substancia nutritiva aproveitada pelos besouros e suas
larvas, ea camada de barro, que é fina como papel no
cupim de Hutermes, de grossura bem consideravel em
Cornitermes, certamente não tem importancia para a
alimentação. Por isto a construcçäo homogenea de Eu-
termes é atacada em todas as suas partes pelos besou-
ros e assim tambem não escapa o nucleo central, por
vezes durissimo, e que é o lugar onde de preferencia se
accommcda a rainha ; assim um cupim atacado por longo
tempo pelos Phileuridas acaba por ficar todo carcomido
e por fim destruido. No ninho de Corniterines só o nu-
cleo central contem a substancia que serve de alimento aos
besouros, emquanto que o envoltorio, quasi todo de barro
consistente, só pouco perfurado por canaes com reves-
timento de excrementos, permanece quasi intacto; mas
tambem aqui o cupim é com o tempo quasi todo destrui-
do por esta fórma e assim os besouros acabam por
destruir a colonia dos insectos que lhes proporcionavam
abrigo. Dahi o sem numero de cupins abandonados que
se encontram pelo campo; entretanto, assim mesmo, 0
envoltorio de barro resiste muitos annos à acção des-
truidora do tempo, offerecendo abrigo às corujas do
campo ou à temivel urutú, ou ainda, não raro, vem a
occupal-o os enxames de vespas que ahi constroem seus
ninhos.
Nos ninhos menores de Hutermes encontram-se
geralmente as larvas no fundo do cupim, envoltas em
— 408 —
suas proprias fézes ; nos ninhos maiores se os encontra
por toda a parte, excavando canaes e corredores, alar-
gados por fim em espaçosas cavidades.
Por toda parte encontram-se camadas, por vezes
espessas, de carocinhos concentricos (os de Act. trilobus,
de cor parda ou preta, medem 5 miu., por 3 mm. de
largo), que, por endurecerem rapidamente, não se agglo-
meram.
No cupim de Æutermes o besouro, depois de ter-
minar a sua metamorphose, procura a sua sahida, não
pela base do ninho, o que aliás lhe daria pouco traba-
lho de excavação, mas prefere fazer seu canal em. di-
recção mais ou menos vertical, atravez de todo o ninho,
o que, dada a pouca consistencia do material, tambem
não será muito mais trabalhoso. Por muito tempo näc
me foi possivel atinar com a origem destes canaes, que
tem antes o aspecto como si fossem produzidos por uma
bengala que houvera sido encravada no ninho ; só quando
fortuitamente encontrei o besouro adulto nesse canal,
comprehendi a sua utilidade. Act. radians, querendo
sahir, acompanha qualquer canal natural do ninho de
Cornitermes.
Tanto o besouro como as suas larvas vivem reunidos
em maior porção no mesmo ninho e encontra-se mesmo
todas as tres especies no mesmo cupim, mas em pro-
porção desegual. A maior quantidade de larvas de Act.
trilobus que encontrei no mesmo ninho foi de 18; de
Act. radians vi até 28 e de Ph. luederwaldti, 15 ; geral-
mente, porem, seu numero é menor e pede-se dizer que
em ninhos bem habitados ha em média 8 a 12 larvas da
primeira especie e talvez outro tanto de Ph. luederwaldita,
emquanto que Act. radians & a especie mais prolifera
e por isso a mais frequente. As 28 larvas que men-
cionei talvez pertencessem a duas posturas, mas tenho
encontrado até 44 besouros no mesmo ninho e varias
vezes até 30. Talvez esses besouros se reunissem em
tal quantidade vindos de varios cupins, pois que qual-
quer das tres especies emprehende passeios nocturnos,
occasião pela qual voam, com tantos outros insectos, de
encontro aos lampeões da luz electrica.
E' nos mezes de Outubro a Abril que se encontra
estes besouros em relativa abundancia nos cupins, em-
— 409 —
quanto que nos outros mezes do anno ahi são escassos ;
foi o que me fez concluir com relativa certeza que é
tambem aqui que os besouros cuidam da sua progeni-
tura. Ainda em Fevereiro deste anno encontrei um
unico Act. trilobus em companhia de larvinhas novas.
Nada: sei informar sobre a duração do periodo pupal,
ainda que varias vezes tentasse criar as larvas na gaiola.
Não tive sorte com esses ensaios, talvez por não poder
acompanhar o seu desenvolvimento todo e que por isto
não lhes fossem dispensados todos os cuidados neces-
sarios. Para que a larva possa completar o seu desen-
volvimento é preciso não só que haja sempre uma certa
humidade, mas tambem que a temperatura seja tão cons-
tante como ella o é no interior dos cupins. Consegui,
é verdade, criar varios besouros de bolas já fechadas,
mas assim não me era possivel precisar o tempo em-
pregado no desenvolvimento.
Só uma vez a sorte favoreceu as minhas repetidas
tentativas e assim pude criar da larva alguns Act. ra-
dians que se haviam encapsulado em fins de Dezembro
ou começo de Janeiro, surgindo os adultos nos dias 3
a & de Março, ainda que um pouco atrophiados. As
larvas vivem bem umas com as outras no captiveiro,
mesmo quando reunidas em maior numero; parecem
revelar maior actividade à noute, e é então que ellas
procuram o alimento, o que aliás condiz com a sua vida
normal no cupim fechado, inteiramente escuro. A’ luz
do dia sempre vi as larvas repousando, preguiçosas, em
meio da massa fecal.
Como parasita parece que occorre uma especie de
vespinha, visto como em fins de Julho encontrei certa
quantidade de casulos de Act. trilobus contendo os res-
pectivos basouros já desenvolvidos, mas inteiramente car-
comidos e junto destes casulos havia os de um grande
hymenoptero parasitico.
Seja dito de passagem que os cupins fazem desappa-
recer os cadaveres dos besouros que morrem no ninho,
revestindo-os com a argamassa da construcção, como
aliás, em circumstancias analogas, tambem o fazem as
abelhas.
O apparelho de estridulação que estes besouros pos-
suem, se bem que já fosse menc:onado por Burmeister,
— 410 —
sb foi descripto por Mr. Arrow, nos «Transact. of the
London Entomol. Soc. 1904». Este ultimo trabalho não
me é accessivel, mas delle tive noticia por intermedio
do Dr. F. Ohaus, que obsequiosamente me escreveu a
respeito. Estes orgams de estridulação parecem estar
situados no lado do corpo, entre as azas membranosas
e o abdomen, como eu aliás já o suspeitava de ha muito.
O som produzido por Act. radians é egual ao do Phil.
luederwaldti, emquanto que ouvi Act. trilobus emittir um
som que melhor se pode caracterizar como um fungar
baixo, rouco e compassado. Alem disto ouvi de noute
dous besourinhos desta ultima especie produzirem um som
comparavel à voz da rã europea Hyla arborea. Outras vo-
zes que tambem ouvi, e que consistiam em 5 ou 9 sons
successivos, de intervallos cada vez menores, não é
possivel descrever com precisão. Talvez os dous besou-
ros em questão fossem macho e femea, que dest'arte se
chamavam mutuamente; não o pude averiguar, porque
na manhã seguinte um dos besourinhos havia encon-
trado por onde fugir. Apertando entre as mãos e abor-
recendo assim meia duzia de Act. radians ou de Phil.
luederivaldti, ouve-se um como piar de avesinhas ainda
implumes. Act. trilobus emitte sua voz menos frequen-
temente que as duas outras especies, e pdde-se dizer que
é especie de indole mais preguiçosa ; promptamente se
finge de morto quando o agarram — o que aliás tambem
as duas outras especies costumam fazer, mas não tão
frequentemente.
As larvas roliças de Act. trilobus têm a forma
usual das larvas dos Dynastidas e de tal modo se do-
bram sobre si mesmas que a linha dorsal é quasi cir-
cular, ao passo que os sete primeiros segmentos ven-
traes estão dobrados sobre os seis posteriores ; assim
na posição de repouso, como que dobrada, a bocca da
larva toca na ponta do ultimo segmento ou a abertura
anal. A parte posterior do corpo da larva engrossa
successivamente. (O comprimento do corpo, da bocca à
abertura anal, ao longo da linha dorsal, mede 10 cm.
O corpo é molle, branco, reluzente e parcamente pro-
vido de pellos avermelhados ou de cerdas ; a cabeça é par-
da. Quando completamente desenvolvida, a larva não
consegue distender seu corpo em linha recta e com seus
— MA —
movimentos. difficeis não consegue andar sobre uma
superficie plana. Deitada sobre o chão aspero ella se
locomove desageitada e vagarosamente, deitada de lado,
contrahindo os segmentos do corpo, e não com o auxilio
das pernas.
A larva de Act. radians differe externamente da de
Act. trilobus sô pelo tamanho; a de Phil. luederiwaldti
não é tão dobrada sobre si mesma, tambem não é tão
engrossada para traz e o segmento anal é mais alon-
gado.
Os casulos de todas as tres especies encontram-se
espalhados ou adheridos entre si nas cavidades do cupim
carcomido ou nas frestas das paredes; a unica diffe-
rença que ha entre os casulos das varias especies é a
do tamanho, sendo que naturalmente o de Act. trilo-
bus é o maior (5 X 3 cm., com paredes de3 mm. de
grossura), e o de Act. radians o menor. A forma é
quasi ovoide e o material de que são feitos consiste,
em parte, nos proprios excrementos da larva, com al-
guma porção de terra, apenas collada; externamente
estes casulos são asperos e toscos, emquanto o lado in-
terior é bem acabado e liso. Em um dos extremos da
cellula sempre está a pellicula da ultima muda da larva,
etc. as chamadas «exuvias». Ao sahir do casulo, o besouro
adulto perfura a parede, produzindo um rombo, sempre
relativamente grande.
Como já disse, tive occasião de observar tambem
as larvas de outro coleoptero, Gymnetis albiventris Gory
& Perch. cuja biologia tem certa semelhança com a das
larvas dos Phileuridas ; ; como estas as larvas daquelle
lamellicorneo cohabitam com os cupins, alimentando-se
egualmente da argamassa de consirucçäo do ninho e, ao
que parece, vive unicamente nos ninhos de Corniter-
mes. Ahi observei repetidas vezes estas larvas, algumas
em companhia com as de Act. radians e sempre em
maior quantidade, pois a menor porção que encontrei
conjunctamente foi de 30 em um ninho; geralmente
seu numero é bem maior e uma vez contei 120 larvas
de varias ads em um só ninho.
Em outro cupim avantajado deparei com 47 larvas
de egual edade, juntamente com uma larva e dous in-
sectos adultos de Act. radians; & de notar que este
— 412 —
ninho de Cornitermes já havia sido destruido em parte
e que, portanto, o total das larvas que deviam ter exis-
tido nesse ninho fora certamente muito superior. Via-
se que o cupim servira durante annos consecutivos como
moradia aos Philewridas e Gymnetis, pois que o nu-
cleo estava completamente comido por elles e transfor-
mado em carocinhos de excremento, os quaes cobriam
o chão do ninho em uma espessura de talvez 10 a 15
cm. Era ahi que se achava soterrada a maior parte das
larvas, certamente para abrigar-se contra o frio intenso
que reinava; outras larvas haviam-se internado pelos
corredores da capa de barro do cupim, procurando ahi,
em falta de melhor alimento, os excrementos já decom-
postos dos termitidas.
Pode-se dizer que os besouros adultos das tres es-
pecies de Phileuridas passam a sua vida quasi por com-
pleto só nos cupins, encontrando ahi o alimento para
si e suas larvas; quando sahem do cupim que lhes ser-
viu de berço só o fazem para procurar outro, mais novo,
menos explorado. As contrario o Gymnetis albiven-
tris abandona para sempre o cupim em que nasceu, logo
que tenha as azas bastante desenvolvidas, e só quando
chega o tempo de depositar seus ovos é que as femeas
procuram de novo alguma casa de termitida; durante
o anno todo vivem geralmente nos campos, procurando
flores ou a seiva de alguns arbustos, como a que es-
corre da «Vassourinha», Bacharis rufescens Spreng.
Larvas de Gymnetis albiventris que eu havia col-
locado na caixa de criação em 30 de Junho, formaram
chrysalide em Agosto e completaram a sua metamor-
phose s6 em meiados de Dezembro, de modo que as
nymphas repousam ca. de 4 mezes; talvez, porém, o
desenvolvimento do besouro fora mais demorado devido
à falta de humidade constante na caixa de criação, pois
que varias vezes tive de ausentar-me durante esse tempo,
não podendo assim dispensar-lhes todos os cuidados.
A larva deste Cetoniida distingue-se facilmente das
dos Phileuridas, por ser bem menor e de forma mais
abrutalhada ; a fenda anal, que naquellas especies fica
situada na face ventral do ultimo segmento, está collo-
cada na larva de Gyinnetis justamente no apice desse
segmento. Alem disso encontram-se ahi, em frente 4
— 45 —
dobra articular, 2 series de cerdas pardas, curtas e gros-
sas, series estas que convergem na porção anterior. O
corpo é muito menos engrossado para traz, mais cylin-
drico, com o ventre dobrado em arco e não angular-
mente; sua côr é brancacenta, reluzente e só a parte pos-
terior do corpo parece pardo-escura, por causa de trans-
parecer o conteúdo do intestino. À larva consegue es-
tender-se quasi completamente, o que, como vimos acima,
as larvas dos Phileuridas não podem fazer. Na posição
de repouso o corpo arca-se de tal forma, que a bocca
se applica quasi directamente sobre a face ventral do
ultimo ou penultimo segmento; tambem esta larva não
consegue andar sobre uma superficie plana, com seus pês
fracos e rudimentares; para locomover-se, o animal,
desageitado e deitado de costas ou de lado, contrahe os
seus segmentos, como aliás já o notamos com relação
ds larvas dos Phileuridas. E mesmo sobre o chão
aspero a larva quasi não consegue andar normalmente,
quando não lhe é possivel encostar-se ; geralmente tomba
logo e só a muito custo consegue reerguer-se.
Quando se julgam ameaçadas, as larvas logo se
encolhem, e, assim enroladas, conservam-se por muito
tempo, até se animarem a tomar a posição normal ou
tentarem andar.
Os casulos assemelham-se aos dos Phileuridas, com-
tudo são bem menores, proporcionalmente ao tamanho
dos besouros adultos; tambem a forma do casulo é
mais arredondada. Seu comprimento importa em 2
centimetros, a largura em 1 1/2 cm. Pelo lado in-
terno o casulo parece mais alisado, por fóra é coberto,
como no dos Phileuridas, com os carocinhos de excre-
mentos, os quaes tambem são um tanto menores. Tam-
bem as larvas dos Gymnetis fazem boa camaradagem
entre si, tal qual como se observa com relação ds outras
larvas acima descriptas.
Os Insectos Necrophagos Paulistas
POR
GERMANO LUEDERWALDT
Preparador de Entomologia do Museu Paulista
O intuito que me levou a estudar o contingente com
que os insectos contribuem para a composição da fauna
cadaverica, aqui em S. Paulo, foi essencialmente o da
verificação das especies, portanto o lado systematico da
questão. Ao mesmo tempo a occasião me era propicia
para fazer apontamentos ecologicos, verificar, portanto,
quaes as condições normaes em que se encontram estes
insectos junto à carniça, que a uns serve apenas de
repasto, a outros constitue o habitat normal, o unico
meio favoravel em que podem desenrolar todo o seu
cyclo vital. Como, durante o tempo em que eu consa-
grava horas vagas à collecta destes insectos, minha
occupação no Museu era, em especial, revêr a collecção
de besouros, dahi talvez a preponderancia que teve neste
estudo a parte coleopterologica. Com isto, entretanto,
não quero ter negado o effectivo predominio, quer em
numero quer em especies, dos coleopteros entre os in-
sectos necrophagos da nossa fauna. Em segundo lugar
virão as moscas; mas estas é preciso crèar das larvas
que carcomem as carnes em putrefacção, pois só desta
fórma se poderá distinguir os hospedes obrigatorios de
commensaes que fortuitamente visitam a carniça.
Este estudo da fauna dos cadaveres tem, entretanto,
ainda outra face, que não a do lado puramente zoolo-
gico; é o que diz respeito a certa questão da medicina
legal e para a qual o Snr. Rodolpho von Ihering cha-
— 415 —
mou minha attenção. O scientista francez Megnin ela-
borára um calendario zoologico, pelo qual se pudesse
determinar a edade de um cadaver ; ou por outra, pre-
tendia o auctor que, classificando os seres vivos que a
um tempo carcomem e destrcem o cadaver, tanto nos
bastaria para sabermos ha quanto tempo o mesmo já
estava entregue à obra de destruição da fauna que o ha-
bita. Partia Megnin do principio de que certas especies
animaes só frequentam ou habitam o cadaver quando o
mesmo tiver alcançado certo grão de putrefacção, ou
depois de haver escoado certo lapso de tempo. Assim
seria possivel distinguir quatro periodos, correspondentes
“cada um a um certo numero de mezes, a saber: 1.º
«periodo Sarcophagiano» em que predominam as moscas;
2.º «periodo Dermestidiano» em que se encontram os
besourinhos do genero Dermestes e alliados; 3.º «pe-
riodo Silphidiano» do predominio dos besouros da familia
Silphidae e por fim um 4.º periodo «Acariano» em que
se encontram os pequenos arachnideos acarinos.
Não podemos saber de momento em que conceito
é tido ainda hoje, na Europa, este processo de verifica-
ção da edade dos cadaveres ; certo é que em tempos o
mesmo teve a melhor acceitação, pois todos os compen-
dios de medicina legal explanavam-no em seus detalhes.
Assim tambem os compendios brazileiros de medicina
legal de Souza Lima e Afranio Peixoto estudam lon-
gamente a questão, sem contudo discutir o ponto que
mais nos interessa, isto é a adaptação do processo ao
nosso meio.
Um interessante artigo do dr. Edgard Roquette
Pinto (Jornal do Commercio, 23 de Novembro de 1908)
estuda esta questão a proposito de um cadaver humano,
que havia sido encontrado nas mattas da Tijuca no Rio
de Janeiro e a respeito do qual a policia ignorava ha
quanto tempo elle jazia no local, talvez em consequencia
de um crime. Teria sido, pois, um caso interessante,
ao mesmo tempo que de alcance practico, a applicação
do methodo de Megnin. Mas as verificações do Snr.
Roquette Pinto, por este lado, leval-o-iam a attribuir
edade incomparavelmente superior ao cadaver do que
era possivel admittir em vista de outros dados de que
id a
— M6 —
se dispunha ; a fauna cadaverica, pelo calendario de Me-
gnin suggeria a edade de muitos mezes, quando podia
ser questão, apenas, de vinte dias no maximo.
Antes de tudo, como bem o dizo Snr. Roquette
Pinto, é preciso ter em vista a differença que vae do nosso
clima tropical para o europeu, ao qual se referia Megnin.
E além disto, accrescentamos nós, é preciso tomar em
consideração, como factores não menos importantes, a
diversidade das faunas e da ecologia de cada insecto em
questão. Mesmo que, para a Europa, esse calendario tivesse
todo valor practico, para utilizal-o entre nós seria preciso
refazer todo o estudo com relação à parte zoologica e à
successão chronologica, em vista das diversidades já acima
alludidas.
Ora a presente contribuição offerece tambem sob
este ponto de vista um grande numero de dados, visto
como, ao fim do trabalho, registrei, dia por dia, quaes
os insectos colligidos no cadaver em observação. Mas,
ao menos por emquanto, não foi possivel verificar ne-
nhuma differença sensivel no tempo do apparecimento de
certas especies ou familias de insectos.
E’ que a nossa fauna é extremamente rica em es-
pecies que, todas a um tempo, se lançam sobre a car-
niça, a qual, em virtude das condições climatericas, por
assim dizer quasi desde logo exhala intenso cheiro que
attrahe os insectos. Isto com relação ás nossas estações
quentes, pois que durante o frio, como adiante o do-
cumentamos com a observação dos factos, os cadaveres
podem permanecer dias e dias no campo, sem que sejam
frequentados por insectos.
Querendo, entretanto, insitir na applicação do pro-
cesso ao qual nos vimos referindo, só se poderá espe-
rar algum resultado da verificação do estado de desen-
volvimento em que se encontram as larvas, das moscas
por exemplo; mas, é certo, que por ahi, tambem só po-
demos inferir o minimo de edade a attribuir ao cadaver.
Assim, por exemplo, um certo grão de desenvolvimento
de uma larva de insecto necrophago exige, no minimo,
tantos e tantos dias ou mezes decorridos desde o dia da
postura do ovo; por ahi, entretanto, não sabemos ainda,
nem podemos vir a saber, quanto tempo antes disso já
o cadaver jazia no mesmo local.
— AT —
Talvez, com o tempo, continuemos, de par e passo
com nossos estudos entomologicos, a investigação de
taes questões, sem esperar, entretanto, que por ahi se
possa chegar a resultados de grande valor para a me-
dicina legal.
+" «
«Abundante caçada se consegue» diz A. Harrach a
respeito dos insectos necrophagos, em seu instructivo
compendic «O Colleccionador de Bezouros» p. 26, «fa=
zendo cévas, que consistem em cadaveres de animaes de
sangue quente; depositando-se animaes mortos, como
cães, gatos, coelhos, ratos, passaros, etc. em lugares
adequados, jardins, campos ou mattos, tendo o cuidado
de pôr-lhes um peso em cima, por exemplo uma pedra
pesada, para evitar que algum carnivoro carregue com
a carniça. Em breve começa a decomposição do cada-
ver e o mão cheirs attrahe uma infinidade de bezouros,
que desde logo começam a sua obra de destruição».
Ainda que a riqueza de especies de insectos necro-
phagos no Brazil (só me refiro, com conhecimento pro-
prio, aos campos dos arredores de S. Paulo) seja muito
maior do que a da fauna allemã, e comquanto tambem
aqui se reunam talvez outros tantos insectos ao redor do
cadaver, comtudo não se observa tal balburdia na disputa
pela carniça, como tive occasião de presenciar na Al-
lemanha. — E” que faltam aqui os typos mais activos
neste trabalho, as grandes especies de Necrophorus,
pretas ou pintadas de vermelho, das quaes na Europa
central ha uma meia duzia de especies, e entre estas 0
aventajado N. germanicus L., de ca. 3 cm. de compri-
mento. Tambem do genero Silpha, ao qual pertencem
muitas outras especies necrophagas grandes e activas, aqui
sempre vi representado só por S. cayennensis Sturm, de
corpo preto e collar vermelho ; entretanto na Allemanha
ha talvez outras 6 especies deste genero, que abundam
sobre cadaveres, entre eilas a grande S. lvtloralis L.
Da familia dos Staphylinidas até agora obtive
nestas caçadas, sempre só uma das grandes especies,
Creophilus varvegatus Mann., ao passo que na Allema-
nha occorrem Creoph. maxillosus L. e duas especies
do genero Leistotrophus.
— 418 —
Em compensação ha aqui um grande numero de
bezouros necrophagos que faltam à fauna allemã, taes
como Phanaeus, Pinotus, Deltochilum, Canthidium,
Choeridium ete; tambem de Trox obtive aqui 3 ox 4
especies, emquanto que lá só se encontra o 7. cadave-
recus Ill. Mas todas estas especies são pouco ageis e assim
não dão logo na vista ao remover-se a céva. Encon-
tiramos aqui um bezouro que não só desperta logo nossa
attenção pelo seu bello colorido e seus movimentos ir-
requietos, mas ainda prende nossa observação pelos seus
trabalhos curiosos de procreação.
I” o Canthon curvipes Har., uma das maiores es-
pecies do genero. Costuma apromptar uma bóla de
carne, do tamanho de uma avellä, que elle depois leva
ou rola para um lugar relativamente distante da carniça,
enterrando-a ahi e provendo-a de um ovo. (E' verdade
que até agora ainda não ha observação directa deste
facto com relação a Canthon; entretanto é o mais
provavel que elle assim proceda para depositar seus
ovos.) Mais adiante trataremos detalhadamente da bio-
logia d'este besouro tão interessante.
A esta associam-se varias outras especies do ge-
nero, talvez menos vistosas e das quaes algumas pelo
menos tambem fazem as suas bólas. Mas ao passo que
€. curvipes desempenha a sua actividade abertamente,
as outras especies fazem-no escondido sob a carniça.
Na lista abaixo vêm mencionadas todas as especies
de insectos que atê hoje tive occasião de encontrar tra-
balhando em cadaveres. Como até agora sé me occupei
d'este assumpto durante 2 annos, e isto em horas rou-
badas, talvez o numero das especies ainda seja eflecti-
vamente muito maior, 0 que especialmente me parece
provavel com relação aos besouros da familia dos Staphy-
tinidas.
I HYMENOPTEROS
Fam. ANTHOPHILA: Trigona ruficrus Latr. em car-
ne fresca (R. v. Ihering); Tr. amalthea Oliv. e caga-
fogo Mill. (Dr. H. v. Ihering).
— 419 —
Fam. VespIDAE : Polistes versicolor Oliv. em car-
ne fresca (R. v. Ihering); Polybia nigra Sauss. não é
rara na carne ainda fresca de cadaveres expostos como
céva.
Fam. FormicipAE: Diversas formigas dos generos
Pseudonyrma, Crematogaster, Pheidole e outros al-
liados, occorrem regularmente; alèm disto Solenopsis
geminata Fabr. e Camponotus rufipes K. e seus com-
panheiros, e ainda Pachycondyla striata Sm., Ecta-
tomma opaciventris Rog. e Neoponera tarsata Latr.
Uma vez tambem encontrei uma pequena especie ama-
rellada de Eciton no campo, tirando as gorduras de
uma ossada de boi.
IX COLEOPTEROS
Fam. CARABIDAE : Taenilobus crenulatus ? Chand.
- Fam. STAPHYLINIDAE : Creophilus variegatus Mann.
Philonthus brasilianus Bernh., ferialis Er.e Ph. flavo-
limbatus Er.; Belonuchus œanthopus Solsky; Aleo-
chara lateralis Er., notula Er.e taenata Er.; Atheta
lurida Er., brasiliana Bernh., mayalis Bernh. e lue-
derwaldti Bernh.; e Oxytelus subnitidus Bernh.; Ho-
plandria aleocharoides Bernh. ; ; Falagria fissula Er. e
Amblyopinus gahani Fol.
Fam. Histeripan: Pelo menos 3 especies ; :
Fam. SiLPHIDAE : Silpha cayennensis Sturm. ;
Fam. DERMESTIDAE : Derinestes sp.
Fam. CLERIDAE: Necrobia rufipes Deg. e N. ru-
ficollis F.; as duas especies occorrem tambem na Europa
e são mesmo cosmopolitas.
Fam, CisTELIDAE: Prostenus periscelis Perty e
Xystropus femoratus Germ.
Fam. LAMELLICORNIDAE (Coprinae): Canthon cure
vipes Har., tristis Har., dives Har., rutilans Cast. (de
côr azul, vermelha e verde), podagricus Har., 7-ma-
culatus Latr., conformis Har.; Deltochilum mor bil-
losum Burm., sulphuratum Felsche e brasiliense Cast.;
2 especies de Trechillum, entre as quaes a conhecida
especie Tr. heideri; um Ontherus sp.; Choeridium
pauperatum Germ. ; Canthidiuin decoratum Perty, apt-
catum Har., breve Germ., splendidum. auct., politum ?
— 429 —
Har. dispar Har. e mais uma meia duzia de outras es-
pecies deste genero; Pinotus ascanius Har e semiae-
neus Germ.; Phanaeus bonariensis Gory ; Onthophagus
hirculus Mann., bidentatus Drap. e uma outra especie
pequena, bruno-escura., Hurysternus impressicollis Cast.;
Trox pilularius Germ., suberosus Fabr. e gemmingeri
Har. O Snr. Ernesto Garbe, naturalista viajante do
Museu Paulista, ao qual tambem devemos tantas obser-
vações biologicas de alto interesse, informa que a maior
das nossas especies do genero, Phanaeus ensifer Germ.
tambem frequenta as carniças.
Hii DIPTEROS
Uma grande variedade de Muscidas.
IV ORTHOPTERA
Uma Blattida de porte mediano, bruno-preta.
WV HEMIPTER à
Muito frequentemente, si bem que não em abun-
dancia, apparece uma pequena especie de Coreidae.
Talvez só accidentalmente, como que procurando abrigo
debaixo dos cadaveres já dessecados, tenho encontrado
uma pequena Cydnida preta; é egualmente frequente
um grande percevejo preto da fam. Reduvidae, Apio-
merus nigrilobus, Stal mas esta vem certamente só para
dar caça a outros insectos, que ahi sabe que encontrará.
*
* *
As formigas Camponotus rufipes e Solenopsis
geminata, bem como um Cremalogasler preto, procu-
ram as carniças frescas, para lamber as carnes e talvez
comer um pouco; a Sclenopsis costuma cobrir a carne
de que quer comer, com monticulos de terra fôfa, para
assim poder trabalhar às escondidas.
Camponotus rufipes não raro se reune em tal
quantidade nos cadaveres frescos, que estas formigas
chegain a cobrir ecmpletamente a carniça e o chão.
Pachycondyla striata Sm., Ectatomma opaciventris
Rog., Neoponera tarsata Latr. e duas ou tres especies
de Myremcidas (Pheidole, Pseudomyrma) e talvez
alguns Camponotus, bem como o besouro Carabida
vem ccm outras intenções. Não é a carniça que os
attrahe, mas sim os ovos e as larvas de insectos, prin-
cipalmente das moscas varejeiras; muitas vezes obser-
vei come estes insectos carnivoros rebuscavam larvas,
que logo faziam em pedaços ou carregavam inteiras.
Quero mencionar ainda o que observei cerio dia
com relação a uma pequena Augochlora, abelha solitaria
côr de cóbre, que aliäs me admirou encontrarsobre a
céva, que consistia em um pedaço de coração de boi.
O pequeno apideo corria preoccupado por sobre a carne,
examinando-a com as antennas, e quando viu surgir
um Canthon curvipes, saltou às costas do besourinho,
onde se demorou algum tempo, de modo a deixar-se
carregar pela sua montaria. Depois a abelhinba voltou
à carne, mas não me pareceu que ella sugasse. Emfim,
tudo isso talvez não passasse de uma brincadeira.
Entretanto, com relação às 3 outras especies de apideos
mencionados na lista, é facto averiguado que ellas procuram
frequentemente a carniça ou mesmo carne fresca.
Por se tratar de abelhas, que em geral vivem só
de substancias vegetaes, o caso pareceria extranho ;
entretanto sabemos que varias especies de Trigonas,
frequentam materias impuras, como aliás o menciona o
Dr. H. v. Ihering em sua publicação acima citada.
Trigona bipunctata frequentemente se encontra sobre
excremento de vacca e muitas outras especies d'este
genero gostam de lamber o suôr humano.
Alguns coleopteros, como Dermestes sp., as 2 es-
pecies de Necrobia e os Cistelidas procuram de pre-
ferencia as carcassas para roer os ultimos restos de
substancias gordurosas.
Os demais insectos mencionados na lista, as mos-
cas, Silpha cayennensis, os Staphylinidas e Histeridas,
bem como os Copridas formam o conjuncto dos insec-
tos necrophagos, isto é os que frequentam regularmente
os cadaveres, com o fim de ahi procurar seu alimento,
ou para assegural-o à sua próle.
ep E
Os Trogidas e, ao que parece, a maior parte dos
Canthidium, e ainda os Staphylinidas gostam não da
carne fresca, mas do cadaver em estado de putrefacção
adiantada, em que as larvas das moscas já tenham tra-
balhado e desta forma tenham tirado um tanto da hu-
midade excesiva.
Nunca encontrei nas cèvas o Phanaeus ensifer
Grem., especie aliás rara nos arredores de S. Paulo;
por vezes porém observei canaes feitos embaixo da
carniça e pensava tratar-se de buracos de ratos, tal o
diametro dos canaes. O Sr. Garbe disse-nos, entretanto,
ter verificado serem estes canaes do grande Phanaeus,
pois teve occasiäo de o constatar pessoalmente. Obser-
vando que no fundo de um d'estes canaes reluziam, no
escuro, os olhos de um animal e não podendo excavar
o terreno, que era muito duro, encheu o canal com
agua e muito surprehendide ficou, quando viu surgir,
apressadamente, o Ph. ensifer, que procurava salvar se.
Kmquanto na Allemanha as diversas especies des
Necrophorus e de Silpha fornecem o maior contin-
gente para a composição da fauna coleopterologica da
carniça, são aqui os Lamellicorneos Coprini que des-
empenham este papel. Pela maior parte, os coleopteros
mencionados na nossa nota, são lérdos e vagarosos.
Fazem excepção alguns Staphylinidas, especialmente as
especies reluzentes do genero Philonthus, besourinhos
ageis que logo escapam, vôando ou correndo. quando
se levanta a peça que lhes servia de abrigo. Segue-
lhes, passado o primeiro susto, a vagarosa Silpha
cayennensis. So depois as diversas especies de Can-
thon e Onthophagus dão signal de vida, bem como os
Histeridae. Mas emquanto estes ultimos, mórmente em
dias de sol, procuram salvar-se vôando, os outros fogem
para algum recanto escuro ou uma fresta, onde se jul-
gam abrigados contra seus inimigos. Raro é sorprehen-
der-se algum Pinotus ou Phanaeus trabalhando na carniça
porque estes besouros, logo ao deparar com o achado,
se enterram por baixo delle. Tambem as especies de
Canthidium, Choeridium e Deltochilum (*) sô vamos en-
(fa) Muitas vezes o Sr. Garbe encontrou Deltochilum brasiliense Cast. nas
iscas que elle collocava nas armadilhas de carnivoros, e devia ser deveras um aspe-
eto curioso ver talvez meia duzia destes grandes besouros amontoados desta forma.
eu, en
contrar encobertos pela terra ou fazendo companhia aos
Pinotus ou Phanceus, nos buracos destes e o mesmo
fazem de preferencia os Trogidas.
Estes ultimos são de entre todos, os besouros mais
lérdos ; nem se movem, e como os seus elytros estão
geralmente sujos e recobertos de lama, é preciso ter
vista exercitada para poder distinguil-os.
Tal é em breves traços a impressão que geral-
mente se tem da composição e da vida da fauna de
insectos que nos mezes de verão se agglomeram de-
baixo de uma porção de carniça, para ahi alimentar-se
ou cuidar da sua progenitura.
Na Europa como aqui, são as moscas varejeiras
os primeiros insectos que descobrem a carniça; logo
ellas pôem os seus ovos asquerosos, dos quaes, decor-
ridas algumas horas, se originam as larvas, mais as-
querosas ainda, e que em massa perfuram as partes molles
do cadaver, para dahi a alguns dias enterrar-se afim
de formar a chrysalide. Quasi que ao mesmo tempo
apparecem os besouros Staphylinidas. Certa vez peguei
varios exemplares de um pequeno besourinho desta fa-
milia, Amblyopinus gahani Fol. debaixo de um rato,
morto havia poucas horas, eisto em occasião de tempe-
ratura tão fresca que algumas aves, sabiás e beija-flores
caçados nessa occasião, se conservaram sem apodrecer.
durante à dias ; isto prova certamente que estes besou-
ros são dotados de um faro extraordinario e, mesmo
assim, não nos é possivel comprehender como elles che-
gam a descobrir esse seu alimento.
Conforme a temperatura, um pouco mais cedo ox
mais tarde, mas geralmente só no segundo dia, appa-
recem os outros insectos necrophagos ; mas, ao passo que
os Husteridas, Canthonidas e Onthophagos apparecem
a qualquer hora do dia, os do grupo dos Phanaeus, Pino-
tus, Trox e Deltochilum vem se chegando só ao cre-
pusculo ou durante a noite.— Nunca me pareceu que
certas carnes fossem preferidas por determinados in-
sectos; a colheita era sempre mais ou menos a mes-
ma, quer eu utilizasse como ceva algum cadaver de
mammifero, de ave, ou de reptil ou peixe. O grande
Staphylinida Creophilus variegatus, é verdade, só me
— 424 —
apparecia nos cadaveres de mammiferos maiores, mas
talvez tambem o teria obtido com outros vertebrados,
si pudesse dispor por exemplo de aves maiores.
O Canthon curvipes em ultimo caso contenta-se
tambem com uma minhóca ou algum insecto morto,
assim como observei um Canthon conforms lidando
com uma abelha do reino, que encontrára morta. Um
Deltochilum significum eu observei certa vez quando elle
procurava sahir de um buraquinho de parede lisa, em
que fora cahir. Mas a subida custava-lhe muito ; é que
elle só se utilisava dos dous pares de patas anteriores,
porque as posteriores, recurvadas, seguravam uma car-
caça de centopéia, um Julida. Não sei, porém, para
que havia de servir ao besouro o fardo, que certamente
não valia tanto trabalho, pois c que havia de comestivel
no myriapodo, já outros insectos haviam comido.
Verdadeiramente extraordinaria é a quantidade de
insectos pequenos e minimos que se pôde obter nestas
caçadas, e assim depara-se com uma porção de espe-
cies, que de ordinario não apparecem. Basta dizer que
de uma feita, ao revistar uma pelle de gato que no
mez de maio euatirära ao campo, encontrei nada menos
de 250 pequenos Sraphylinidas ! Tendo collocado a pelle
em um balde com agua, o tempo era pouco para tirar
com a pinca todos os besourinhos que appareciam 4
tôna d'agua ou subiam pelas paredes do balde e assim os
reunia todos no vidro. Mas o sola pino, inclemente, e o
mau cheiro que exhalava da carniça, fizeram-me desistir
de continuar na faina e assim dei-me por satisfeito com
200 besouros colhidos de uma só vez, na certeza de que
os certarente poderia ter tirado talvez outro tanto.
Para melhor explicar o que de insectos necrophagos
se póde encontrar de cada vez em boas cévas, passo a
dar algumas notas que lancei em minha caderneta nos
mezes de verão do anno de 1906.
31 de Outubro. As cinco peças em que retalhei um
macuco e que deitei em varios lugares do parque do
Museu, renderam um minimo de colepteros : um unico
Canthon 7-maculatus.
E” verdade que o tempo frio e humido contribuia
para que a fauna de insectos se mantivesse reirahida e
alem disto a carne ainda estava muito fresca.
Devo mencionar que um certo numero de formigas
de varios generos: Crematogaster, Pseudomyrma, Cam-
ponotus rufipes e Pachycondyla striala rodeava a carne.
Nos dias 1 e 2 XI a cèva não rendera insecto algum.
— No dia 4 de Novembro, de tarde, encontrei mais
um Canthon 7-maculatus e ainda um Canthidium sp.
e à Canthon conformis.
Hoje, 5 XI, tirei mais um coleoptero, Deltochilum
mobillosum.
A céva de macuco tem hoje sete dias ; encontrei de
manhã 5 Histeridas e um Canthidium sp.; um pouco
afastados, debaixo de uma pedra, estavam 2 Silpha cayen-
nensis.
18 de Novembro. Um esqueleto de boi no campo,
que eu jà havia revistado anteriormente varias vezes
com bom resultado, ainda agora estä-me fornecendo boa
colheita, pois quasi de baixo de cada osso estão alguns
besouros. Com o sol quente dos ultimos dias, a carcaça
havia perdido o mão cheiro, com o que tambem os in-
sectos não afiluiam em tamanho numero.
Agora, com a ultima chuva, recomeça a putrefacção
do que ainda resta de carnes e tendões nos ossos, e
assim a caça torna-se outra vez lucrativa. Nos ultimos
dias obtive diversas especies de Canthon, Choeridium,
Onthophagus, Deliochilum, Pinotus e Trox ; alem disto,
ainda Dermestes sp., as 2 especies de Cistelidas e Ne-
crobrus e especialmente um grande numero de varias
especies de Canthidium.
As especies de Necrobius encontravam-se nos ossos
mais expostos, mas não era facil pegar estes bescurinhos
especialmente o N. ruficollis, que de prompto corria a
algum ponto proeminente e d'ahi largava vôo.
Tambem observei 2 Blattedas de tamanho médio,
pardo-escuras, escondidas debaixo dos ossos maiores.
19 de Novembro. Uma cobra cipó, morta pelas
rodas de um carro, jázia na estrada e nella encontrei
2 Canthon curvipes 2 C. conformise C. rulilans e
mais 1 Canthidium breve.
22 de Novembro. De munhã deitei 2 aves, uma
Gaivota e um Guará no campo do parque e, devido a
céva exhalar um cheiro intenso de corn'ça, já em al-
gumas horas estavam reunidos alii muitos necrophagos.
— 426 —
A primeira das aves rendeu uma porção de Histeri-
das, 9 Canthon 7-maculatus, 2 Dermestes sp. e diversos
Staphylinidas; sob o Guard encontravam-se mais ou
menos os mesmos besouros e ainda 7 Canthon curvipes.
Proporcionou-me um curioso aspecto o reboliço que
se estabeleceu quando me approximei do lugar em que
estavam essas cévas— um terreno de alguns metros qua-
drados em meio da «barba de bóde». — Chegava eu
justamente na occasiäo em que 3 Canthon curvipes
tratavam de carregar com as suas bólas de carne que
haviam apromptado. Ageis como ciris, os lindos besouros,
que ao sol reluziam quaes bolas de fogo, corriam pelo
chão duro, apressados por chegar com suas cargas ao
recanto escolhido para abrigal-as.
Corriam de traz para diante, utilizando os dous
pares de pernas anteriores, emquanto que o par posterior
servia para segurar a bóla de carne, cujo diametro
era de 14 mm. no exemplar que medi. — Onde o ter-
reno offerecia alguma difficuldade, elles a rolavam, le-
vantando ora uma, ora outra perna posterior, empurrando
então a carga com a ponta do tibia e não raro as per-
nas do par mediano ajudavam a dar a direcção ; onde,
porem, o caminho estava desembaraçado, os besouros
punham em practica um meio mais lucrativo, mas que
certamente requeria o emprego de muito mais força.
Seguravamas bólas com as pernas trazeiras, que são arquea-
das talvez para este mesmo fim, para que possam appli-
car-se ao volume e assim empurral-o. — Devido a serem
as bolas de carne transportadas desta forma, roladas
sobre o chão, ellas adquirem certa consistencia e sua
forma espherica, pois a principio são todas muito irregula-
res. Ao mesmo tempo, assim amassadas, ellas perdem um
pouco do seu volume, differença esta que entretanto é
compensada pelas particulas de terra e grãos de areia
que ficam adherentes. — Parecia de todo indifferente
aos besouros, qual o rumo que tomavam suas cargas.
O essencial para cada um era, no momento, por a salvo
o seu thesouro. Como não viam onde iam parar, por-
que, como dissemos, iam de costas, em breve foram
cahir num pequeno sulco, para elles um verdadeiro
precipício, e assim a muito custo tiveram de subir outra
vez com seus volumes. Logo adiante esbarravam contra
— 427 —
uma pedra ou novamente se precipitavam em outro bu-
raco. Mas todos os obstaculos iam sendo vencidos de
qualquer forma, com a maior persistencia, até que O
capim, por demais denso, veio impedir completamente
que continuassem a fuga, achando eu melhor pôr um
termo ao incidente, guardando os besouros e suas bólas
para internal-os na collecção. —- Succedia não raro que
ao descerem um barranco, os besouros rolavam juntamente
com suas bólas e assim iam parar em baixo, cada um
para seu lado e o besouro talvez cahido de costas. Mas
apenas se achavam de pé, corriam, com as antennas
desdobradas em leque, em procura da bóla, seguravam-na
e com maior pressa ainda, continuavam, como si tivessem
derecuperar os momentos perdidos. Um outro Canthon
curvipes surprehendi uma vez no momento em que elle
acabava de apromptar sua bóla, feita de carne de passa-
rinho ; faltavam-lhe sómente alguns pedacinhos, quando
lhe succedeu segurar um pedaço de tendão que de fór-
ma alguma lhe era possivel cortar. Ajudei-lhe então em
seu trabalho, separando-lhe o bocado com a pinça; ape-
zar de mexer assim com a bóla e com o proprio besouro,
este nem de léve se assustou, nem interrompeu o seu
trabalho. E” que todos estes besouros de tal forma se dis-
trahem nesta sua occupação, que não se apercebem de
perigo algum, de forma que a minha presença não os
encommodava. Varias vezes deparei com os besouros,
collocando suas bólas a alguma distancia no chão. O
Canthon assustava um pouco quando eu o segurava, en-
colhia as antennas e as patas, mas logo depois corria
para o seu thesouro, que encontrava, ao que me parece,
mais devido ao faro que à vista, e punha-se a carregal-o
sem mais se inquietar com o que lhe ia ao redor. —
Quando o trabalho os havia extenuado, principalmente
ao atravessarem o capim emmaranhado, elles descança-
vam, somente por alguns instantes, repousando as vezes
mesmo em cima dos seus fardos.
Estava um dia assim observando estes besouros em
sua faina, quando chegaram, voando, duas outras especies
de Canthon, um C. tristis, cujo vôo produzia um zunido
proporcionalmente muito intenso e um C. curvipes. O
primeiro d'elles pousou junto da carniça e logo desap-
pareceu debaixo della, ao passo que o outro me deu
ensejo a algumas observações. Assim como as léves bor-
boletas são comparadas a aves entre os insectos e os
coleopteros Dynastidas se parecem com os pachydermes,
assim tambem os besouros, que eu estava acompanhando
em suas occupações, me suggeriam uma comparação —
com os urubus; tal qual como estes o costumam fazer,
o besouro, antes de pousar no chão, gyrou duas vezes
no ar em torno da carniça e só depois veio à terra, à
alguma distancia della.
Por alguns momentos espreitou ainda, como para
se orientar, arrumando, emquanto isso, as suas azas de-
baixo dos clytros e só depois se approximou, desappa-
recendo logo debaixo do cadaver. Passados alguns ins-
tantes reapparecia elle, já com uma bola do tamanho de
uma ervilha, e que elle ia avolumando com o auxilio
do clypeo e dos tibias anteriores, trabalho este que era
executado de modo assaz practico. Para desprender a
carne, elle se utiliza principalmente do bordo , anterior,
cortante, do clypeo, o qual funcciona como faca, em-
quanto que os tibias anteriores, que certamente para
este fim são reforçados e denticulados, desprendem a
carne lateralmente; com as outras extremidades o be-
souro ajusta à bola os pedacinhos de carne assim
obtidos, comprimindo-os ou enrolando as tiras maiores.
No mesmo dia (22 de Novembro) examinei o ca-
daver de um cão, atirado num valle do campo e cujas
visceras e boa parte das carnes, já haviam sido comi-
das pelos urubús; esperava encontrar alguma das es-
pecies grandes de Deltochilum, mas encontrei apenas
coleopteros necrophagos dos mais vulgares. Verifiquei
apenas duas ou tres especies do Histeridas e Staphyl-
nidas menores, a Selpha cayennensis, tudo em relativa
abundancia. Do Canthon curvipes sd observei alguns
poucos exemplares e do Creophilus varegatus talvez
uma meia duzia. Pode ser que ao revolver a terra se
encontrasse mais alguns coleopteros, que já houvessem
feito o seu canal; mas desisti de exame mais minucioso,
devido não só ao mão cheiro do cadaver, como tambem
por causa das asquerosas moscas varejeiras, que se ag-
glomeravam em bandos.
ll de Dezembro. Peguei hoje dois Canthon tris-
tis, que transportavam, conjunctamente uma só bola.
— 429 —
Tambem observei hoje de manhä C. curvipes e confor-
mis em seu trabalho. Esta ultima especie procede pri-
meiro à excavação de seu canal, justamente por baixo
da carniça, para só depois tirar a quantidade de carne
de que precisa; desta forma é difficil observar o besouro
directamente durante o seu trabalho. O. curvipes, ao
contrario, faz primeiro a sua bóla, que em seguida
transporta para o lugar em que depois pretende cavar
o seu canal e só então desapparece. Por duas vezes
observei dous individuos desta ultima especie lidando,
conjunctamente, com a mesma bóla. Em um dos casos
a bóla, já começada, estava sendo acabada por um dos
besouros e foi depois transportada por outro; de outra
vez os dous besouros se occupavam ao mesmo tempo
com a bóla. Os dous tratavam de carregal-a; mas em
vez de se auxiliarem, só complicavam e difficultavam o
trabalho. Por isto pareceu-me sempre que não era
o desejo de auxiliar-se mutuamente que animava os dous
besouros, mas apenas a inveja e a cubiça.
Comtudo nunca assisti a disputas e brigas, como
se o observa frequentemente entre certas formigas ge-
niosas ; tal procedimento não condiz com o tempera-
mento pacato dos besouros. Parece que a intensão de cada
um é fugir com a bóla, precurando desapparecer com
ella de qualquer modo. De uma vez, certamente por
desconfiar que o rival estava prestes a escamotear 0
thesouro, o cutro apegou-se desesperadamente à bóla,
deixando-se mesmo arrastar por um trecho, assim agar-
rado.
U:ra das bólas acima mencionadas, o besouro pro-
curou enterrar a um metro de distancia da carniça,
entre as raizes de uma pequena touceira. Ahi chegado,
o besouro abandonou por pouco tempo o seu fardo,
começando logo a enterrar se quasi horizontalmente na
tenue canada de humus que cobria o terreno argiloso e
empedernido. Preparado assim o terreno, elle começou
a sotterrar a bóla; mas o meu cuidado de acompa-
nhal-o em seu trabalho e as sondagens que eu fazia
para verificar até onde iria o besouro com sua bóla,
fizeram-no desconfiar. O bichinho cessou de trabalhar,
surgiu primeiro sem a bóla, passeiando em deredor da
entrada, depois foi buscar tambem a bóla e enterrou-a
de novo, superficialmente, em outro lugar ; por fim, em
um momento descuidado, desappareceu-me.
Egual procedimento pude verificar repetidas vezes
com relação a esta especie. Tanto o besouro é des-
cuidado ao preparar ou transportar sua bdla, quanto
elle é previdente e desconfiado ao enterral-a. EH’ que
elle teme que alguem lhe vá descobrir o ninho e sua
postura, e assim prefere ter de novo o trabalho de
procurar outro sitio apropriado para enterrar a bóla,
apenas qualquer cousa lhe suscite desconfiança.
S0 de Dezembro. Um galo que eu havia posto
como céva dous dias antes, rendeu-me os seguintes e-
sonros: 4 ou 9 especies diversas de Histeridas em 41
exemplares, diversos Staphylinidas menores, 13 Trox
em 3 especies, Canthon curvipes e Phanaeus jasius e
alem disto um Cetonideo, Huphoria lurida. Este
ultimo besouro parece-me que só accidentalmente foi
parar ahi, ainda que, por estar todo sujo, parecesse ter
bulido na carniça. Os Histeridas. pelo menos as especies
maiores, voaram todcs ao eu começar a colheita.
No mesmo buraco em que, mais abaixo fui encontrar
o Phaneus, estavam tambem quasi todos os 7rox cujos
elytros estavam, como de costume, tão sujos de barro
que não era possivel reconhecer seu colorido natural.
Havia, tambem, em redor do local varias formigas, das
quaes citarei as seguintes especies: varios Camponotus,
Pheidole, Ectatomma, Pseudomyrma.
25-30 de Janeiro. Servindo-me de peixes e tarta-
rugas como carniça, obtive a seguinte colheita: duas
especies de Ziechillum morbillosum, Onthophagus,
bidentotus, o pequeno Trox suberosus, um pequeno
Aphodius, Canthidium decoratum e um Canthon pe-
queno ; de todas estas especies havia um numero mais
ou menos consideravel de individuos.
Creio que pela enumeração destes detalhes conse-
gui dar uma descripção bastante clara da vida dos in-
sectos necrophagos e, como se viu, cabe ao Canthon
curvipes o papel mais importante como factor na dis-
— 451 —
truição da carniça. Comtudo juntarei ainda alguns dados
que julgo interessantes.
De todas as especies de Canthon que tenho tido
occasião de observar, parece só que C. curvipes costuma
enterrar sempre as suas bolas a uma distancia maior do
cadaver; as outras especies, que egualmente observei
em seu trabalho de fabricar bolas, taes como C. tristis,
conforms e 7-maculatus, enterram-nas bem perto da
carniça ou mesmo por baixo della. Provavelmente ainda
outras especies procedem de egual forma, pois do con-
trario eu deveria ter encontrado algumas dellas ao faze-
rem o transporte, como se deu com C. curvipes. Bem
se vê que esta ultima especie sabe tirar todo o proveito
da conformação peculiar de seus tibias posteriores, lon-
gos e arqueados e parece-me que as especies affins,
como C. muticus devem fazer outro tanto.
O trabalho todo, de preparar a bola, carregar e sotter-
ral-a, não custa ao besouro mais do que um quarto de
hora; isto em circumstancias favoraveis porque, do con-
trario, quando ao arrancarem a carne atacam por acaso
um tendão, a cousa póde durar horas, porque a tanto não
jhes ajuda o entendimento para que abandonem aquelle
pedaço e procurem outro, mais facil de separar. Tam-
bem o trabalho de enterrar a bóla nem sempre lhes
corre bem. Eu vi um destes besouros que quatro ou cinco
vezes, sempre de novo recomeçou a fazer os buracos,
atê que afinal elle deparou com um pouco de terra
fofa, de onde pouco antes eu havia arrancado uma
touceira, e só ahi lhe pareceu conveniente fazer o ca-
nal definitivo. A terra desnudada e batida não agrada
a nenhum delles; todas as especies passam adiante
mesmo que tenham de arrastar sua bola por mais cinco
ou seis metros. E’ que ahi geralmente a terra é muito
dura e seria de todo impossivel um O. curvipes por
exemplo perfural-a.
Muitos foram os besouros necrophagos, taes como
varias especies Canthon, Deltochilum, Trox, Canthi-
dium, etc. que mantive no captiveiro, para poder ob-
servar-lhes de perto os trabalhos de reproducção; mas
sempre o resultado foi negativo. Entretanto ahi pude
reparar que O. conforms não faz verdadeiras bolas,
mas que elle se contenta com boccados de carne que
— 432 —
desiaca do cadaver; verifiquei ainda que os Canthon,
ao menos no captiveiro, tambem trabalham de noute e
que as bólas não continham ovos. Como tambem nunca en-
contrei ovos nas bólas de carne que eu subtrahia aos besou-
ros no campo, posso afirmar que a postura só se realiza
depois de enterrada a bóla em seu lugar definitivo.
Para finalizar quero dar ainda algumas informações
sobre o modo como costumo caçar os insectos necro-
phagos ; já tive occasião de citar o excellente livro de
Harrach em que me baseei ao começar estas caçadas.
E” preciso examinar a céva frequentemente, pelo me-
nos uma vez por dia e, depois de terminada a colheita,
deve-se collocar de novo a céva no mesmo lugar. EF?
ainda mais expedito collocar a carniça nui pote ou
alguidar, que se enterra quasi até a bocca, de modo
que os besouros que entram não podem mais sahir.
Muito bom resultado me deu ainda o seguinte processo.
A carniça fica suspensa sobre um grande funil de folha,
cuja abertura entra em um vidro de bocca larga com
alcool ; ahi facilmente cahem todos os besouros, que
desde logo estão seguros. Carniça menor é conveniente
cobrir com uma telha, das nacionaes ; della é facil co-
lher os besouros menores, que se agarram a esta co-
berta. E” aconselhavel, tambem, collocar algumas pedras
grandes ao redor da cèva, porque ahi vão se abrigar
muitos insectos que fogem da grande barburbia ento-
mologica. Muitas vezes dá resultado, ainda, peneirar a
terra que está debaixo da carniça; ou, melhor, atira-se
a carniça e depois tambem a terra em uma vasilha
com agua. Tudo que tem vida, em breve trata de vir à
tona d'agua e assim é facilimo pescar todos os insectos.
Para obter caça o mais que possivel variada é
preciso variar tambem a céva; grandes besouros esma-
gados, lagartos, lesmas, vermes, tudo dará resultado,
conforme o lugar e a occasiäo. O conhecido entomologo
francez, Perris, encontrou certa vez um besouro raro
comendo o cadaver de uma lagarta. Em vez de cojher
esse unico besouro, como o faria qualquer outro co Ile-
cionador menos experimentado, o naturalista tratou de
encontrar varias outras lagartas da mesma especie,
collocou-as em condições identicas e assim em breve
obteve um grande numero de besouros da mesma
— 433 —
especie rara, que antes era encontrada só accidental-
mente.
Facto analogo nos relata o naturalista viajante do
nosso museu, Sr. E. Garbe, que desta forma cbteve no
Estado do Rio de Janeiro, em 190! uma especie de
lamellicorneo Coprida, utilisando como céva uma lesma ;
quasi 30 exemplares deste besouro, que parece ser es-
pecie nova, foram o resultado do seu estratagema. Eu
mesmo cacei um grande numero de coleopteros, espe-
cialmente Staphylinidas, nas aberturas de um cupim
(Termes dirus), em que por certo grassára alguma
epidemia; o mau cheiro dos cadaveres dos cupins attra-
hia esse variado numero de especies de insectos ne-
crophagos.
Grigem da fauna neotropica
CONFERENCIA REALISADA EM 5 DE MAIO DE 1907 PERANTE A
K, K, Zoologisch-Botanische Gesellschaft de Vienna
POR
Hermann von Ihering.
Estamos habituados a ver na sciencia periodos de
actividade alterando-se com epocas de estagnação. E’
bastante para o marasmo improductivo que o peso de uma
grande auctoridade venha barrar o caminho aos novos
e aos epigonos. Alludo ao prestigio de Cuvier e de
Darwin. Não é preciso, para que me faça comprehen-
dido, desenvolver em todos os sentidos minha opinião.
A theoria da evolução natural é um facto e uma
conquista definitiva, de inabalaveis fundamentos. A in-
vestigação das causas da variabilidade, e das necessida-
des que a motivam, enumera-se, porem, entre os obje-
etos de considerações scientificas apenas esboçados. Não
vae nisso pactuar com a theoria da selecção, de que
não sou partidario.
Entre os homens que tem concorrido ora para acce-
Jerar ora para retardar o movimento assignalado, desta-
ca-se Wallace, o amigo e companheiro de Darwin, que
lançou no seu magistral livro « Distribuição geographica
dos animaes», os: fundamentos dos modernos processos
de investigação. Wallace incidiu todavia em erros gra-
ves, que transviaram as investigações. Entre todos, no.
taremos, o haver Wallace traçado cartas de expansão
geographica dos animaes em geral, quando cada vez
mais nos convencemos que cada grupo de animaes pos-
sue uma historia individual, facto tantas vezes com-
provado pelos dados geclogicos.
Näo poucos animaes chegaram a0 actual estado no
começo e no fim da epoca terciaria media, do mesmo
modo que grande parte dos animaes de agua doce havia
chegado ao seu pleno desenvolvimento actualno fim da
epoca secundaria. As varias epocas em que se deram
caminhos migratorios concorreram para a diversidade
dos grupos, de modo que não é fossivel historiar os
grupos individualmente sem o conhecimento das datas
paleontologicas, sómente pelas formas actuaes.
Não menos grave foi o erro de Wallace, estabele-
cendo a persistencia das grandes ilhas oceanicas. Sabe-
mos hoje que a distribuição das aguas e das terras tem
oscillado, produzindo uma differença de nivel no periodo
plioceno e posteriormente, de 3.000 a 4.000 metros.
Demais não se pode perceber porque em maior lapso de
tempo. não se tenham realisado mais consideraveis de-
pressões.
Em todo o caso, a geologia não conta factos posi-
tivos para fundamento da theoria de Wallace, e todos
os numeros por elle adduzidos, afim de descriminar as
terras continentaes das ilhas, são absolutamente arbitrarios.
A região mais consideravel a esse proposito é a
America, principalmente a America do Sul.
Segundo a theoria de Wallace a America nunca teria
sofírido solução de continuidade, em quanto que as in-
vestigações modernas nos levam a conclusões inteira-
mente oppostas; é este o assumpto de que passaremos
a tratar.
Em primeiro logar attrahem mais altamente a nossa
attenção, os mammiferos e os molluscos, de considera-
vel importancia não só porque sobejam ricos e variados
especimens vivos, como tambem pelos muitos e respei-
taveis documentos fosseis.
Quanto aos mammiferos a America do Sul, e prin-
cipalmente a Patagonia, merecem demorada attenção,
sobre tudo depois dos insignes trabalhes do Director do
Museu Nacional de Buenos Aires, o Dr. Florentino Ame-
ghino. À situação da geologia patagonica tem sido averba-
da de obscura, razão pela qual tantas opiniões differentes
se tem degiadiado. A questão surge principalmente a
respeito das camadas de grés de Salamanca, em que se
SUR
encontram sedimentos marinos. Suscitou-se a questão de
serem ou sedimentos cretaceos, empobrecidos de typos
mesozoicos, ou camadas eocenas, em que se encontram
formas caracteristicas de typos mesozoicos, notavelmente
de Gryphaeas. Ultimamente accresceram os elementos
comprobatorios, de sorte a não subsistir duvida alguma
sobre tratar-se de sedimentos cretaceos, tanto mais quanto
as camadas terrestres intermediarias mostram-se ricas
de dinosaurios e peixes cretaceos.
As relações dos sedimentos na costa patagonica
mostram-se admiravelmente complicadas, alternando-se
com regularidade, por vezes quasi schematicamente des-
criminadas, as camadas marinas e terrestres. Antolha-
se ahi occasião excellente para a comparação dos varios
sedimentos marinos, fluviaes e terrestres, e para de-
terminar a sua edade relativa. Achamo-nos por tanto
bem informados sobre o cretaceo e seus limites, o que
conduz nos a julgar os sentimentos seguintes da camada
terciaria. Encontra-se já no cretaceo uma serie de faunas
diversas de mammiferos. Nenhuma região da terra é
tão instructiva quanto ao primeiro surto evolutivo dos
mammiferos como a Patagonia, pelo menos neste mo-
mento. São geralmente marsupiaes, macacos e roedores de
grupos determinados, como ainda os Subungulata e os
Edentados, os tamanduás e os preguiças, que, ao lado de
grupos extinctos, constituem esta fauna, que se acha
representada na Argentina nas camadas mais antigas do
cretaceo. Além disso ha uma multidão de formas ex-
tinctas.
Depois disto a America do Sul fieou longo tempo
isolada, isto é fechada às migrações de animaes terre-
stres, o que explica o aspecto característico da fauna
sul-americana. Só no plioceno deparam-se-nos soli-
pedes, cavallos, mastodontes, tapires, uma fauna inteira
a que se não encontraram precursores, e que são com-
tudo conhecidos no velho mundo e na America do Norte.
Induz-se dahi que a separação da America do Sul
já terminära no periodo plioceno, e ter existido uma
ponte de communicação facilitando aos mammiferos do
norte communicar-se com a America do Sul, e facili-
tando por outro lado o avançar da fauna sul-americana
para o norte.
Mae
Assim explica-se o achado em depositos da Florida
de ossos de Glyptodon e outros animaes dos pampas,
cobertos de areia onde se viam molluscos marinos plio-
cenos. Podemos assim concluir que só no periodo pli-
oceno se deu a união das duas Americas, tendo as faunas
conservado mais ou menos o caracter primitivo, apezar
das confusões reciprocas, até a epoca actual. Estes dados
vêm confirmar nossas investigações biologicas anteriores.
Seja-me licito apresentar um curto e instructivo
exemplo. Durante o estudo do respectivo material veri-
fiquei que no Brazil ha muitos vermes intestinaes iden-
ticos aos do velho mundo. O contrario acontece, abstração
feita dos importados, com os mammiferos do velho
mundo, que nada tem de commum com os sul-america-
nos. Agora pergunto, sios mammiferos immigrados pli-
ocenos e os primitivos indigenas não se differençam
quanto a possuirem vermes intestinaes communs ou par-
ticulares, parecendo-me que isso acontece sómente com
os veados, os cães e os gatos.
Estas deducções, modestas em si, vieram trazer
resultados apreciaveis para a Zoogeographia, e em breve
outros auctores vieram confirmar e continuar a questão
por muitos trabalhos.
E” curioso que em consequencia disso possamos in-
dicar animaes mais recentes do que os seus respecti-
vos vermes. Já os antepassados dos solipedes sul-ame-
ricanos, dos gatos, etc. deveriam ser atacados desses
helminthas, por sua longa duração persistentes atravez
da edade terciaria sem alterações, ao passo que os
mammiferos achavam-se ainda em transformações evolu-
tivas.
Passando-se a tratar do problema da relação da
fauna sul-americana anterior ao plioceno, com as fau-
nas de outros continentes, devemos cuidadosamente ex-
cluir os mammiferos. Os mammiferos terciarios da Afri-
ca são totalmente desconhecidos, con excepção dos no-
vamente descobertos no Baixo Egypto, e o mesmo
dá-se com relação a muitos outros paizes, interessantes
sob este ponto de vista.
Ha, porem, outro dominio do reino animal de con-
more importancia, inquestionavelmente : é o dos mol-
uscos.
— 438 —
oram investigações sobre a expansão de conchas de
agua doce que me mostram solução do assumpto, e isto
já nos annos de mil oitocentos e oitenta.
Acreditava se então que as conchas de agua doce
da America do Sal, especialmente os generos Unio e
Anodonta, pertenciam todos aos Unionidas, bem repre-
sentados nas aguas dos arredores de Vienna.
Era uma comprehensão erronea. As conchas bra-
zileiras semelhantes a Unio pertencem ao genero Diplo-
don, que se differencia perfeitamente pela esculptura ca-
racteristica do apice da concha do genero Unzo, genero este
que tem vasta distribuição no hemispherio septentrional.
Mais notaveis são as relações entre os molluscos de
concha desdentada. Esses molluscos que habitam tanques e
rios, tem na America de Sul larva differente da dos
Anodontas européus. Emdquanto estes tem uma larva
menor, na qual se observa uma implantação dentaria
movel, destinada a fixal-as aos peixes e a penetral-os,
continuando assim nos peixes a sua metamorphose, a
larva sul-americana é alongada, ciliada e munida de ten-
taculos, com uma pequenissima casca ou concha no meio do
corpo. E” claro que animaes tão diversos pelas larvas não
pertencem ao mesmo genero. E, com effeito, taes Ano-
dontas da America do Sul pertencem à familia dos Mu-
telidas, que de resto se encontram unicamente na Africa.
Considerações desta ordem levaram-me a compa-
rar a fauna de agua doce da America do Sul com a
da Africa. Devemos, em semelhante problema, ter pre-
sentes as difficuldades resultantes de insufficientes precau-
ções, atê aqui tomadas.
Póde haver animaes com distribuição geographica
mais ou menos egual, mas que chegaram ao mesmo
ponto por vias muito diversas. Conhecemos, por exem-
plo, a anta da America do Sul e das Indias Orien-
taes. Si quizessemos fundar desde logo, com estes da-
dos, a hypothese de um isthmo entre os dous conti-
nentes, cahiriamos em uma serie infindavel de equivo-
cos. Em primeiro logar a existencia do isthmo não
coincidiria com o primeiro apparecimento da anta, mui-
to mais recente, além de que os predecessores tercia-
rios da anta faltam completamente na America, muito
— 459 —
embora se encontrem na America do Norte e na Eu-
ropa. Esse grupo animal, emigrado do velho munde
para a America do Sul e a Asia Oriental, extinguiu-
se no hemispherio norte, mas continuou a ter repre-
sentantes naquelles paizes antipodas.
Poder-se-ia induzir immediatamente como regra
que, onde quer que se tenham dado taes expansões,
existam caminhos migratorios semelhantes.
Não acontece porêm assim, e relativamente aos
peixes e conchas dá-se cousa notavelmente diversa.
A semelhança das conchas de agua doce da America
do Sul e da Africa não se póde attribuir a uma ex-
pansão originariamente grande de um grupo universal,
e sim devemos suppôr uma communicação primitiva
das aguas brazileiras e africanas, visto como não se pode-
ria, a respeito dellas, imaginar uma migração maritima.
Si se tratasse de um grupo animal de antiga expansão
cosmopolita, encontrar-se-iam representantes fosseis dos
mesmos egualmente nos depositos secundarios e ter-
ciarios da Europa e da America do Norte. Tal não succede.
Ao contrario os fosseis Unionidas da America de
Norte são os predecessores immediatos das especies
ainda alli existentes, e de outro lado a elles perten-
cem, ligados por parentesco, todos os Najadas fosseis
conhecidos na America do Sul.
Na mesma posição acham-se os peixes. Accentua-
damente nos ultimos annos se tem pesquizado sobre a
expansão geographica dos peixes de agua doce e, com
uma só excepção, todos os investigadores chegaram a
accôrdo sobre ter existido communicação entre a Ame-
rica do Sul e a Africa.
Somente um estudioso, Pfeffer, de Hamburgo, acre-
dita em uma orientação migratoria sem soccorro da as-
signalada hypothese. Não consigo, todavia, tomar em
grande consideração a sua opinião, tanto mais quanto
Pfeffer é o menos competente dos que tem escripto
sobre zoogeographia.
Estudando a fauna marina, chega à conclusão de
ter existido no Eoceno uma fauna marina geral sobre
todo o globo, da qual, em consequencia do lento res-
friamento da terra, vieram a surgir as diversas fau-
nas de hoje. São puras fantasias, creadas na medita-
— 440 —
ção de sua mesa de trabalhos, em plena incompatibi-
lidade com os factos paleontologicos produzidos na Pa-
tagonia, Chile, Nova Zelandia, etc. Contrariamente a
Pfeffer já Günther assignalou as semelhanças das fau-
nas de agua doce da America do Sul e da Africa, sem
todavia penetrar em explicações geneticas.
Ultimamente Boulenger e Eigenmann demonstra-
ram em varios trabalhos que deveria ter havido com-
municaçäo entre os continentes. Eigenmann sobretu-
do, (um dos melhores conhecedores dos peixes de agua
doce da America do Sul) pronunciou-se de modo a não
permanecer sombra de duvida a favor da theoria da
communicação entre os continentes. Satisfaz-me cons-
tatar como o meu prezado collega dr. Steindachner,
até hoje silencioso em trabalho escripto sobre o as-
sumpto, pactúa solidariamente com a opinião de Eigen-
mann, segundo manifestou-me em conversação, tendo
sido a isso levado pelas surprehendentes semelhanças
entre os peixes mencionados. Ao mesmo conselheiro
Steindachner devo a gentileza de haver chamado a mi-
nha attenção para o aspecto particular da expansão dos
peixes de agua doce no Brazil, de perfeito accôrdo com
as minhas conclusões experimentaes. A esse proble-
ma allia-se o contraste entre os peixes de agua doce
do nordeste do Brazil e do Amazonas, onde os Chro-
midas figuram em generos e especies numerosas, ao
passo que são parcamente representados no S. Francis-
co e no Brazil meridional.
Dos meus estudos sobre a distribuição das conchas
de agua doce lembrarei apenas alguns topicos. Em
primeiro logar salientarei o contraste entre o 5. Fran-
cisco e o Amazonas e tambem entre o Paraná e o
Paraguay, rios que ambos vão desembocar no Rio da
Prata. Poder-se-ia imaginar possuirem elles a mesma
fauna, mas tal não succede e deparamos no Paraguay
com grande numero de typos da fauna amazonica que não
figuram no rio Paraná, tendo provavelmente perseve-
rado até hoje caminhos migratorios possibilitando aos
elementos amazonicos a penetração no systema do Rio
Paraguay. Experiencias geologicas e paleontologicas
confirmam tambem aqui os dados verificados pela bio-
logia. Ja affirmamos isto mesmo, ha pouco, a respei-
— 44, —
to das conchas de agua doce e agora constataremos o
mesmo facto com relação aos peixes. O que conhece-
mos até agora dos peixes terciarios de agua doce da
America do Sul, forma uma serie sem interrupção com
os representantes vivos desta região.
Acontece o mesmo com a fauna dos peixes da
America do Norte e da Europa, onde faltam por com-
pleto representantes dos Characinidas e Chromidas da
America do Sul. Acreditava-se atê certo tempu que
pela sua posição systematica um unico genero, aliás in-
certo, Priscacara devesse periencer aos Chromidas ;
mas na verdade as suas affinidades são outras. De outro
lado faltam representantes fosseis dos Cyprinidas na me-
rica do Sul, assim como elles faltam tambem à nossa
fauna actual. Como consequencia resulta serem as for-
mas terciarias dos animaes de agua doce ancestraes
das fórmas hodiernas, quer na America do Sul, quer
na Europa. Os factos paleontologicos são, portanto, co-
herentes com as nossas conclusões, tiradas de investi-
gações zoogeographicas.
Outro campo de trabalho, onde attingiram-se re-
sultados semelhantes aos dos molluscos e peixes flu-
viaes e marinos, são os carangueijos decapodes de agua
doce, sobre os quaes Ortmann publicou um estudo
zoogeographico excellente.
Si todos os resultados da investigação zoologica
foram bem fundamentados, devem ter-se effectuado as
mesmas experiencias no campo da botanica. E” o que
de facto succedeu. No tempo em que iniciei os meus
estudos, a botanica estava fundado sobre o systema de
Wallace, e, estudando eu com o maior esforço p'ssivel
a flora do Brazil, cheguei à conclusão que as suas affi-
nidades naturaes condiziam bem com o meu modo de vêr.
Ao tratar da genese da flira sul-americana esfor-
cei-me em demonstrar que a minha doutrina se ada-
ptava muito melhor aos factos do que a de Wallace,
escolhida por Engler para fundamento de suas: theses
floristicas. Gomprazo me em registrar ter Engler ulti-
mamente revertido de sua anterior opiniao, acceitando
por completo a minha. Depois de taes successos seria
natural restringir-me a investigar as migrações animaes
dentro dos limites do Brazil, abandonando as questões
— rhone
suppramencionadas. Näo podia, entretanto, vencer as ob-
jeccôes facilmente imaginaveis sobre os dados zoogeogra-
phicos, por isso que elles não podem ser estabelecidos com
segurança sem dados paleontologicos que os comprovem.
Pensei que a existencia de um isthmo brazilio-
ethiopico implicaria a existencia de condições de vida
muito diversas para a fauna daquelle tempo do que para
a actual. Procurei representar num mappa, publicado
em outro logar, a posição relativa das aguas e das terras
segundo a minha concepção, e dei à terra desappare-
cida o nome «Archhelenis».
Dada a existencia do isthmo por mim supposto na
epoca terciaria, não existiria então o Oceano Atlantico.
A Archhelenis separaria portanto os mares, cujo mundo
animal demonstraria notaveis contrastes.
A geologia offerece-nos meios de constatar a exa-
ctidäo da theoria archhelenica, mandando comparar os
organismos do terciario antigo da Patagonia de um lado
com os da America Central e Septentrional de outro lado.
A’ demonstração desta questão dediquei por excel-
lencia os annos de 1894 a 1907. Recebi os materiaes para
esses estudos em grande quantidade da Argentina.
De extraordinario valor mostraram-se as grandes
e excellentes collecções dos evertebrados fosseis do cre-
taceo e do terciario da Patagonia, enviados gentilmente
pelo exmo. sr. dr. Florentino Ameghino, illustre dire-
ctor do Museu nacional de Buenos Aires.
Dos fosseis da epoca mesozoica estudei sômente os
do periodo cretaceo superior, que represertam uma
fauna já consideravelinente differenciada, a qual se liga
fortemente ao terciario antigo.
Em primeiro logar offerecem-nos pontos de com-
paração as formas do cretaceo superior do Brazil do
Norte e da Patagonia. As formações mencionadas do
Brazil contêm uma immensidade de especies observadas
tambem nas camadas correspondentes da Inglaterra e
da Hespanha, e que tazem reconhecer, só por isso, terem
occupado grandes áreas. Isso mesmo faz-nos admirar
o não encontrarmos nem uma unica dessas especies
tambem ao Sul do Brazil. Comparando os molluscos ma-
rinos da Patagonia e do Brazil vemos que as especies são
consideravelmente diversas, e aos mesmos resultados nos
— 445 —
conduzem os estudos sobre as formações tercisrias.
Deve-se observar, todavia, que as opiniões dos diversos
auctores sobre o terciario primitivo da Patagonia diver-
sificam. A formação patagonica, taxada como miocena
por Steinmann, Wilkens e Ortmann, pertence à epoca eoce-
na na minha opinião e na de Ameghino. Justifica-se esta
nossa opinião, primeiramente, pela antiguidade da fauna,
cujas especies sobrevivem somente na proporção de 5 a
8 º/o Generos mesozoicos como Gryphaea, Lahillia
e mesmo algumas especies de molluscos communs ao
cretaceo superior e à formação patagonica exitem ahi.
Constata se tambem, geologicamente, uma gradação evo-
lutiva entre as duas formações. Muitas especies co-
nhecidas da formação patagonica representam-se nas
camadas precedentes do cretaceo superior, atravez das
especies mais proximas que as substituem. Existe por
conseguinte apenas pequena differença na fauna e não
hiato, que dever-se-ia observar caso as formações pata-
gonicas fossem da época miocena. E' tanto mais es-
tranhavel esta relação entre o cretaceo superior e o
terciario primitivo (que chega a patentear-se mesmo
pela identidade de umas tantas especies), quando na Eu-
ropa entre o cretaceo e o terciario subsiste um grande
hiato, um enorme contraste. O mundo animal mari-
no que encontramos na formação patagonica differe.
completamente do do terciario primitivo da America do
Norte. Nenhuma duvida pode existir a esse respeito
e minha opinião accorda-se plenamente com a do meu
illustre collega em Washington, Sur. W. H. Dall. De-
mais acham-se nestas camadas patagonicas muitas es-
pecies e generos que tambem se encontram na Nova
Zelandia e no Chile. Deriva, portanto, dahi, uma prova
de que é questão aqui de uma fauna proveniente da
zona antarctica. Quantc às conchas eocenas nenhu-
ma semelhança existe entre as norte-americanas e as
patagonicas. Existem apenas algumas especies da for-
mação patagonica nas camadas da America do Norte,
taes como a Arca umbonata, que se encontram ainda
vivas na Europa, Asia, etc., especies de expansäo geo-
graphica extensissima, que por conseguinte näo se po-
dem considerar como elementos intermediarios entre a
fauna terciaria primitiva da America do Norte e a da
— 444 —
America do Sul. De outro lado encontramos na fauna
marina terciaria primitiva da Patagonia, relações
mais intimas com o terciario da Europa e principal-
mente com a «bacia de Paris». Representantes dos ge-
neros Cucullaria, Siphonalia, Trophon e outros de-
param-se em grande quantidade pela Patagonia, no eo-
ceno e na bacia de Paris, porém não na America do Norte.
Posto que se espalhasse na época terciaria primi-
tiva uma fauna marina quasi uniforme na America
Central e do Norte, na Europa e Asia e mesmo na
Australia, já então existiam nesse immenso mar dos
tropicos provincias zoogeograpbicas, principlamente no
occidente da Europa, cuja fauna contrasta em alguns
pontos com a da zona indo-europea.
Resulta essencialmente dos estudos recentes possuir
a fauna patagonica maiores affinidades com a do eoce-
no indo-europeu do que com a America do Norte. Po-
de-se imimaginar, portanto, para o terciario primitivo,
possibilidade de migração do mundo animal do oceano
Indo-europeu para a Patagonia, tornando-se o caminho
mais commodo no fim da formação patagonica, sobre-
tudo na formação superpatagonica, que se lhe succede
immediatamente. Achamos nesta ultima um augmento
consideravel de molluscos e principalmente de Gastero-
podes da zona tropical. Evidentemente deu-se uma evo-
lução geographica, pela qual a linha de costa da Pata-
gonia ao Oceano Indico transportou-se mais para norte.
Portanto tambem com relação à a sua fauna tercia-
ria primitivaa Patagonia approxima-se mais da fauna
indo-australiana do que à da America do Norte.
Até aqui investigamos a historia genetica da fauna
marina oriental da America do Sul; passemos agora à
edade geologica subsequente, à formação de Entrerios.
Esta tem o seu principal desenvolvimento nos arredores
do Paraná e do Rio Negro, emquanto nas proximida-
des de Buenos Aires ella se encontra a uma profundi-
dade de oitenta metros abaixo das camadas pampeanas.
Achamos nesta formação certas especies da formação
patagonica, ou sua descendencia mais ou menos trans-
formada, e por outro lado os elementos da fauna das
Antilhas. O numero das especies ainda vivas attinge
a 20º e tudo attesta trata-se de camadas miocenas.
PA dios)
MEDO = uh
~~ \ ay TT =». :
— 445 —
Pela primeira vez presenciamos aqui à mistura da fauna
patagonica marina com a da America Central, o que nos
demonstra o desapparecimento, naquelle época, da Archhe-
lenis, com o que as aguas oceanicas de norte e de sul se
communicam livremente, estabelecendo assim as condi-
ções hodiernas. A permuta das especies marinas na
direcção de norte para sul e vice-versa deu-se de en:
tão para ca continuamente, e muitas especies da costa
atlantica da America do Norte ainda hoje vivem es-
parsas até além de La Plata e da Patagonia septentrional.
Com esses dados é nos possivel determinar com
grande exactidão a proveniencia da fauna marina ac-
tual da Argentina e do Brazil, assim como das diversas
especies e poder-se-ia conseguir muito mais, si não liou-
vesse um pequeno grupo de especies que não provêm
nem do terciario primitivo da Patagonia nem da Ame-
“rica Central ou dc Norte. O primeiro logar cabe ao
genero Bullia, cujas especies vivas se restringem à India,
à Africa do Sul, à Patagonia e ao Brazil meridional.
O genero apparece como fossil no eoceno da Ame-
rica do Norte, extinguindo-se ahi, ao passo que no mio-
ceno europeu alcança notavel desenvolvimento. Estes
caracões devem ter-se espalhado dahi para a Asia e a
Africa, cuja extremidade meridional se extendia prova-
velmente mais para o sul, de modo a facilitar ao genero
Bullia alcançar, ao longo de uma costa antarctica a Pata-
gonia, onde encontramos OS seus primeiros representan-
tes nas camadas miocenas. Outro exemplo estranho de mi-
gração semelhante offerece a concha Mytilus edulis.
Esta forma não pertence aos typos mais antigos
do terciario, mas a arca que ella occupa é muito
vasta. Apparece não sómente no hemispherio norte
como tambem no sul, porém falta completamente na
Australia e no Japão. Como fossil encontra-se no ter-
ciario mais recente da Europa e no plioceno da Pata-
gonia. Na America do Norte essa especie apparece
em tempos postterciarios, na costa do Pacifico como na
do Atlantico. Nas regiões tropicaes e sub-tropicaes
Mytilus edulis não existe e por conseguinte não se
pode attribuir o seu apparecimento no Chile e na Pa-
tagonia, a uma migração ao longo da costa americana.
Tambem em tal caso a unica explicação possivel é a
— 446 —
hypothese de uma migraçäo da concha da Europa me-
ridional ao longo da costa occidental da Africa até o
Cabo da Boa Esperança e pelas costas que se extendiam
dahi além até a região antarctica. O numero de ever-
tebrados marinos que seguiu esse caminho da Europa
para a Africa do Sul è enorme, e o unico ponto em
que nos baseamos em uma hypothese na nossa explica-
ção é a supposição de uma larga expansão antiga da
Africa do Sul para as regiões do continente antarctico.
Já mencionamos, ha pouco, que Mytilus edulis
emigrou para a Nova Zelandia e outras partes da região
Antarctica, assim como tratamos da sua immigração para
a Patagonia na epoca terciaria. Ha uma serie de outros
molluscos marinos que vivem sómente na agua rasa
da zona da costa, e cuja expansão, partindo da Africa
para a Nova Zelandia e a Patagonia demonstra da
mesma maneira terem-se extendido então a Patagonia e |
a Africa meridional mais para o sul, communicando-se
com as terras antarcticas.
São esses os factos capitaes que desejava expôr a
respeito dos molluscos do Oceano Atlantico e da sua
respectiva historia e expansão. Mas parece-me de van-
tagem recapitularmos, resumidamente, a historia geolo-
gica e biologica do Brazil e ao mesmo tempo tomar
em conta os factos anteriores.
O Brazil é, geologicamente falando, uma das re-
giões mais antigas do globo. Durante o periodo de-
voniano o mar cobriu em parte esta região, o que pos-
teriormente nunca mais succedeu, a excepção de alte-
rações locaes na zona da costa. No fim do periodo
carbonifero possuia nas regiões meridionaes uma flora
bem rica, que conhecemos regularmente por fosseis em
excellente estado de conservação.
Attrahe a attenção a flora de Glossopteris, tambem
conhecida na Africa do Sul, Argentina e India e que
differe muita da do hemispherio norte. Resulta uma
certa uniformidade da flora Glossopteris e das regiões
por ella occupadas, do facto de acharmos nella em toda
a parte vestigios de um periodo glacial, dos tempos
carboniferos, que nunca se demonstrou no hemispherio
norte. Explicam-se estas disposições paradoxaes geo-
logicamente, acreditando ter sido muito outra a divisão
— 447 —
das terras e das aguas e que o chamado continente «Gon-
dwana» estendia-se do Brazil Meridional à Africa Meridio-
nal e à India até a Australia. Devemos considerar o Brazil
como uma região continental antiquissima, tendo perdido,
no correr do tempo, toda communicação com as partes
visinhas. No periodo mesozoico a ponte de communi-
cação da Australia para a India destruiu-se provavel-
mente, mas a communicação do Brazil com a India
poderia ter permanecido até no periodo mesozoico.
O insigne geologo Neumayr esboçou uma carta dos
continentes no periodo jurassico, onde o Brazil e a Africa
figuram como uma grande região continental e uniforme.
A nossa theoria archhelenica não é portanto uma
novidade, mas é apenas a expressão dos factos biolo-
gicos e zoologicos não em contradicção com todos os
outros conhecimentos geologicos, e dos quaes ella é
a consequencia, baseada nesses documentos, deante
das conclusões rigorosas, que são uma conquista defi-
nitiva, a respeito das relações entre as terras e as
aguas no periodo mesozoico. Sabiase da diversidade
de communicaçõ s entre os continentes durante a epoca
mesozoica, relativamente à communicação actual, porem
falleciam os menores dados para decisão da questão, a
respeito do modo porque se effectuou a transformação
para as formas modernas como se acham dispostas.
Em primeiro logar factos zoogeographicos demons-
travam a continuidade entre o Brazile a Africa ainda
existente no terciario primitivo. Iloje os dados geo-
logicos habilitam-nos a reconhecer a evolução e a com-
municação das linhas de costa do terciario primitivo,
assim como a construir com elles a disposição dos
continentes no eoceno.
Archhelenis consistia em um continente commu-
nicando o Brazil Meridional com a Africa, no eoceno.
A destruição do velho continente, começada ao norte
no cretaceo, completou-se no oligoceno. O immenso
mar tropical, Thetis, como o denominamos com o grande
geologo viennez Suess, entrou em communicação com
o mar do sul, Nereis. O Oceano Atlantico formou-se
desse modo e por isso encontramos desde o mioceno
aquella troca de elementos marinos da fauna costeira
da America do Norte com a do Sul, que era impossi-
— 448 —
vel realizar-se durante o cretaceo e durante o terciario
primitivo.
Mas ainda não estava completamente formado o
continente norte americano, por isso que a America do
Norte e a do Sul ficaram durante o mioceno do mesmo
modo separadas por mares, como o foram durante todo
o terciario primitivo. Sômente no plioceno as duas
Americas ligaram-se por terra, e a unica modificação
essencial, em que se consegue reconhecer a differença
da configuração geographica moderna, era a vasta ex-
tensão da Patagonia para o sul e o sudueste, isto é a com-
municação da Patagonia com à Terra do Fogo, as ilhas
de Falkland e a massa terrestre antarctica.
Conceberiamos completamente a genese da America
nos seus traços principaes do que acima dissemos, si
não achassemos difficuldades de desenvolver as relações
enigmaticas a respeito da America Central. E” curioso
que especies de Monoceras e outros molluscos do ter-
ciario chileno appareçam na California pela primeira
vez no pleistoceno. Ao contrario certas especies de Chlo-
rostoma, Saxidomus e outras formas caracteristicas do
terciario da California só se encontram no Ghile na
epoca post-terciaria, como o demonstrou Philippi. Creio
explicarem-se melhor essas relações pela hypothese da
existencia de uma região terrestre, muito vasta, da Ame-
rica Central, na epoca terciaria, extendendo-se das An-
tilhas aos Galapagos, terras estas que por mim foram
designadas como «Pacila».
Si, na verdade, essa região ia até as ilhas de
Sandwich on não, é uma questão de importancia secun-
daria. Devemos antes de tudo, penso eu, estudar os
molluscos terciarios, principalmente os dos littoraes da
America, para claramente comprehendermos as relações
da fauna costeira antiga com a de hoje. Os molluscos
terciarios representam a este respeito um thesouro in-
calculavel, apenas vindo à luz.
E” interessante comparar a esse respeito a expan-
são dos molluscos marinos terciarios ao redor da
America na zona costeira. (Conhecemos taes camadas
marinas ao norte da America do Sul, na costa atlan-
tica e pacifica da America do Norte e da America
Central, Perú, Chile, Patagonia Oriental e Occidental,
— 449 —
como tembem ao norte da Argentina, mas em parte
alguma do Brazil. Discute-se sobre si as camadas ma-
rinas pertencentes ao cretaceo superior ao norte do
Brazil fazem parte tambem do eoceno, porem a ver-
dade é que faltam em absoluto camadas quer cretaceas
quer terciarias entre Espirito Santo e La Plata. Con-
trasta isso consideravelmente com a zona littoral bra-
zileira e as outras costas da America, e esses factos
geologicos conhecidos attestam todas a theoria archhe-
lenicas, pois sem duvida podemos achar por toda a parte,
nas costas americanas, camadas dos mares terciarios,
com excepção, entretanto, dos logares onde as costas
se extendiam, outr'ora, largamente para o oceano.
Quanto à migração dos molluscos chegamos a
pontos de vista diversos dos de ha poucos annos. Acre-
ditava-se antigamente ser a semelhança das faunas ma-
rinas da India Occidental e da America Occidental
produzida exclusivamente pela migração de larvas. Pre-
tendia-se até explicar o apparecimento de especies iden-
ticas de Gasteropodes da India Oriental e Occidental
pela hypothese da migração das larvas dos caracdes
atravez do oceano Atlantico, pelo Cabo da Boa Espe-
rança. Abandonaram-se essas fantasias, mas uma con-
cepção positiva da migração de larvas dos seres ma-
rinos da zona costeira resultou só em seguida ás in-
vestigações da «Planktonexpedition» de Hensen, que
nos forneceu dados valiosissimos.
Verificou-se ahi que o conjuncto dos organismos
fluctuantes em movimento, chamados «Plancton», differe
completamente na zona costeira dos do mar alto. Al-
gumas dessas formas costeiras são tambem, por vezes,
arrastadas para o mar alto, onde, porêm se perdem
e por isso encontram-se muito raramente.
Assim, por exemplo, o ouriço marinho e a estrella
marinha, do mesmo modo que os echinodermes em geral
são em toda a parte animaes pertencentes ou às regiões
costeiras ou ao mar fundo, porém nunc» ao mar alto,
e as suas larvas tambem rão se encontram, por conse-
guinte, no mar alto. Considerando esses factos, ganhamos
uma base de observação positiva, demonstrando a fal-
sidade da hypothese da migração das larvas.
— 450 —
Quando costas de continentes muito distantes, como
as da America do Sul e Africa Occidental patenteiam
grande porcentagem de especies identicas de animaes
marinos na zona littoral, prova isso apenas que a ex-
tensão geographica terciaria differia da hodierna, e que
por consequencia as disposições das aguas e das terras
possibilitaram então migrações hoje impossiveis. Existem
molluscos em certo numero capazes de viver em diversas
profundidades do oceano, mas em geral o mundo ani-
mal marino da zona costeira é diverso do do mar
alto e profundo. - Os evertebrados marinos da costa não
podem alcançar costas distantes nem por meio de mi-
grações no solo submarino, nem por expansão de suas
larvas sobre toda a região. Mares profundos separam,
portanto, as faunas de costas fronteiras. Sómente geo-
logicamente podemos estabelecer explicação para a ex-
pansão, muitas vezes maravilhosa, da fauna marina
moderna, pela comparação das faunas vivas e das ter-
ciarias que as precederam.
A historia genetica do Oceano Atlantico, como eu
a expuz acima, possue evidentemente alguma cousa de
hypothetica, ainda que eu tentasse separar na exposição
os factos e as indncções. Ninguem melhor do que eu
sente as imperfeições dessa exposição, mas em com-
pensação dever-se-à reconhecer a immensidade das ob-
servações e estudos relativos, e que ninguem pode do-
minar como especialista todas a provincias do saber,
em connexão com o nosso problema. Estas observações
cabem perfeitamente ao estudo restricto da historia ge-
netica de uma região dada, da America do Sul, no caso
vertente. Esta região extendia-se differentemente em
periodos anteriores. Todavia os dados fornecidos pelos
factos geologicos, que se accordam plenamente com os
obtidos desde muito pela biogeographia, não deixam
duvidas sobre a invalidade da theoria de Wallace.
A doutrina acima defendida, só por só, possibilita
explicarem-se os factos da expansão geographica dos
animaes e plantas de modo coherente com os dados
geologicos. Por isso a ilha de Santa Helena offerece à
zoogeographia particular interesse. E pena ter empobre-
cido muito a flora e a fauna pelo longo isolamento, mas
apezar disso constatam-se factos notaveis, que demonstram
— 451 —
ser a ilha o resto de um continente submerso. Os caracões
terrestres fosseis do genero Auris tem parentes sómente
na Serra do Mar no Brazil. Isso constitue para os
systematicos da velha escola um embaraço pungente.
Creou-se para Auris auris-vulpinus Lam. um genero
particular, Chelonopsis, assim como se tem collocado esta
especie ora no genero Aures ora no gen. Achatina. Na mi-
nha opinião Chzlonopsis não é senão subgenero de Aurvs.
Não menos interessante é o apparecimento de re-
presentantes fosseis do genero Manatus (Peixe-boi) em
Santa Helena, a respeito do que escreveu Lydekker em
1899. Representantes vivos e fosseis desses Sirenios
conhecem-se sómente na Africa e na America do Sul
Oriental. Não se trata, portanto, de um grupo animal
outrora muito disseminado, e pois sómente a theoria
archhelenica nos explica o caso. A velha flora de Santa
Helena merece por isso investigações aprofundadas.
Sinto particular prazer de explanar perante esta
douta assembléa as minhas experiencias, expostas jus-
tamente agora que, antes de minha viagem, conclui dous
livros (1) sobre o assumpto de que venho de tratar. Li uma
conferencia em sessão desta Sociedade, em que o Snr.
Blaschke explicou as relações zoogeographicas da Antar-
ctis, trabalho interessante que despertou vivazes discussões.
Tambem o Professor Grobben tratou a questão de
uma maneira attrahente no seu conhecido compendio.
Elle mesmo foi quem attrahiu de novo minha attenção,
em conversação, para uma conferencia de Riitimeyer,
principalmente dedicada à investigação da origem da
fauna antarctica. (2)
Li varias vezes a conferencia attentamente, e assim
peço licença para manifestar a minha opinião a respeito.
Não se separam facilmente o verdadeiro e o falso
dessa velha doutrina, inteiramente inacceitavel no seu
(1) H. v Ihering, Les Mollusques foisiles du Tertiaire et
du Cretacé superieur de "Argentine, Buenos-Aires, 1907 (Anales
del Mus. de Buenos-éires, vol. XIV.)
H. v. Ih:ring. Archhelenis und Archinotis, Leipzig 1907.
(2) L. Rütimeyer, Uber die Herkunft unserer Tierwelt.
Basel, 1867. Veja-se:
L. Rutimeyer, Gesammelte kleine Schriften, Bd. I, p. 137-
223, Basel 1898,
— 452 —
ponto de partida. Muitos argumentos que para Rüti-
meyer constituem a base da explicação dos factos, con-
tradizem-se, como por exemplo a historia da expansão.
de genero Didelphis.
Rütimeyer ensina terem existido dous grandes
centros de origem e de expansão para os mammiferos,
como tambem para os outros animaes, principalmente
terrestres, assim como entre outros para as aves que
não voam, sendo um arctico outro antarctico. No ulti-
mo citam-se geralmente, como formas caracteristicas, os
desdentados, avestruzes e pinguins. Sabe-se hoje pos:
suirem pinguins e aveztruzes historia completamente di-
versa. Os primeiros constituem perante a antiga e a
moderna expansão, um grupo puramente antarctico, po-
rém os ancestraes de Rhea procuram-se em vão no ter-
ciario primitivo argentino. Encontraram-se tambem avez-
truzes proximamente aparentadas com Rhea e Struthio
nas camadas terciarias do hemispherio norte. Egualmente
a respeito dos Desdentata ou «Bruta», entre os que Rü-
timeyer inclue os Monotremas, chegou-se a opinião dif-
ferente. Confesso ter acreditado com Riitimeyer na ori-
gem antarctica do grupo, porém a verdade é que, como
o demonstraram Ameghino e Osborn, elles passaram da
Patagonia, por via terrestre, à Africa. Recentes des-
cobertas por Ameghino de representantes fosseis de Ma-
nidae e de Orycteropidae no terciario primitivo da Ar-
gentina, vieram approximar ainda mais as relações his-
toricas dos desdentados do velho e do novo mundo. A
theoria de Riitimeyer confunde assim elementos da Ar-
chinotis e da Achhelenis. :
E” comple'amente impossivel toda communicação
da India com a Antarctis. Examinando o mappa de Rii-
timeyer, evidencia-se fundar-se elle sobretudo sobre a
expansão dos desdentados, e assim inclina-se mais para
a Archhelsnis do que para a Archinotis. Em todo o caso
a errorea ideia fundamental da origem antarctica dos
poucos grupos considerados, faz com que se não possa
tomar como discutivel a hypothese de Riitimeyer. Pelo
contrario as theorias de Hooker, Hutton e outros sobre a
historia da região antarctica procedem inteiramente e fo-
ram confirmadase alargadas pelas investigações posteriores.
A massa de observações fundamentaes desmente inteira-
— 453 —
mente as antigas observações em contrario. O ponto cen-
tral para as sentenças finaes na historia da flora e da fauna
da America do Sul é hoje a Patagonia, e nenhum nome
ligou-se jamais tão irtimamente a esia provincia da sci-
encia do que o de Florentino Ameghino. Do mesmo modo
por que as investigações desse notavel scientista lança-
ram os verdadeiros fundamentos para a historia dos
mammiferos do hemispherio sul, assim tambem possi-
bilitaram os molluscos terciarios da Patagonia o reco-
nhecerem-se as transformações geographicas occorridas
durante a epoca terciaria no mesmo hemispherio e o
conhecer-se, pela reconstrucção das ligações continentaes
e das linhas littoraes, a historia do Uceano Atlantico.
Conheço o interesse que esta sociedade sempre mani-
festou por questões como estas que ora nos preoccupam,
e foi isto que me despertou o desejo de patentear os
corollarios das minhas investigações concluidas em prin-
cipios deste anno. Nenhuma outra capital da Europa,
como Vienna se tem ligado, e por tamanho tempo, ao
progredir das investigações scientificas do Brazil. A’ Aus-
tria, em principio do seculo transacto, pertence a mais
avantajada expedição naturalista ao Brazil, tal que ja-
mais se levou a cabo outra egual. As collecgdes por
João Natterer reunidas por vinte annos de trabalho,
nas varias regiões do Brazil, por elle enviadas a Vienna,
constituem ainda hoje o mais nobre fundamento do co-
nhecimento da fauna brazileira. As collecçôes viennenses
sobre ethnographia brazileira figuram juntamente com
as de Berlim, como as primeiras da Europa.
E o mesmo deve ser affirmado da nova Commissäo
Austriaca de Naturalistas, que, mantendo as celebradas
tradições da Austria Hungria, desempenhou cabalmente
o seu mandato de estudar em 1901 o Estado de $.
Paulo.
Cobras 6 Amphibios das Hhotas de «Agua»
POR
Rodolpho von Ihering
Devido à amabilidade do Snr. Florentino Filippone
em Montevidéo o Museu Paulista recebeu uma remessa
de cobras e um amphibio Gymnophiona, que foram
apanhados em circumstancias devéras curiosas. E” o
caso que estes animaes, ao todo 6 especies, represen-
tadas por 14 individuos, estavam sendo transportados,
Rio da Prata abaixo, pelas ilhotas fluctuantes de «Ague-
pé» (chamados «Camalotes» nas republicas platinas),
plantas acquaticas da familia Pontederiaceae, cujas es-
pecies mais vulgares e abundantes são Æichhornia azu-
rea e crassipes. Estas plantas de lindas flores azues, bran-
cas ou amarelladas crescem nos remansos dos rios e ahi
deitam raizes, cobrindo extensas areas, principalmente
là onde as aguas tem menor profundidade e onde, em
tempos normaes, as correntezas não se fazem sentir.
Como é natural em muitas descripções de viagens se
encontram referencias a estes prados de aguapé; sali-
entam a sua belleza ornamental os que apenas contor-
naram as grandes massas de hydrophytos ou maldizem-
nas aquelles que tentaram, por vezes inutilmente, atraves-
sal-as com suas embarcações.
O Dr. J. Severiano da Fonseca (Viagem ao redor
do Brazil 1875-78, Rio de Janeiro, 1880 vol. 1) à pa-
gina 319, descreve a lagoa Mandioré, situada pouco
abaixo da juncção do rio S. Lourenço com o rio Para-
guay ; com a sua canhoneira queriam seguir determi-
nado rumo, para fazer explorações hydrographicas, quando
chegaram «a um formoso prado, que parecia limite das
aguas, mas que foi abrindo passo à prôa da canhoneira
por algumas centenas de metros, até o logar em que
— 455 —
toda a força das manchinas não poude vencer a resis-
tencia das fulcra ou falsas raizes desses intrincados
hydrophytos, cobertos então de flores e formando com
o esbelto navio parado em seu meio, o mais surprehen-
dente e encantador espectaculo».
Um cliché, muito deficiente, é verdade, representa
esta paizagem, em que entretanto o espirito artistico do
leitor, com um pouco de boa vontade, descobre moti-
vos bellissimos, que justificam plenamente o enthusias-
mo do viajante illustre.
Um pouco mais ao Norte em sua viagem pelo rio
Paraguay (p. 336) o mesmo escriptor penetrou a la-
goa Uberaba que «representa actualmente um lago cir-
cular de um diametro approximadamente de vinte kilo-
metros; o mais está literalmente coberto desse prado
de «camalotes» tão entrançado e tão tenaz que offerece
resistencia ao peso de animaes de certa corpulencia
quaes as onças. E” elle, como os dos outros logares, for-
mado de longas cyperaceas e nymphéas, cujos grossos
rhizomas e extenças raizes se aprofundam por muitas bra-
ças, entremeiadas dos mil laços com que as ensarta infini-
dade de pontederias, alysmaceas, nayadeas e hydrocho-
rideas, sobresahindo a todas a Victoria regia».
Citaremos ainda o seguinte topico do Dr. J. R.
Rengger (Reise nach Paraguay, 1318-1826, Aaurau
1830, p. 41). «Les crues s'annoncent par les plantes
aquatiques que le fleuve commence a charier. Ces plan-
tes, qui couvrent les eaux stagnantes des petits bras de
fleuve et des lagunes situées entre les îles sont enle-
vées par le courant, même en si grande quantité que
la surface de l’eau en est presque couverte. Il n'est
pas rare de voir au milieu d'une de ces îles flottantes
quelques grands serpents d’eau (Eryx). En général, les
habitants du rivage sont alors dans le cas de prendre
des précautions contre les serpents que le fleuve amène
en grand nombre, soit des iles, soit des bas fonds.»
Lembro-me que em criança, na nossailha da f6z do rio
Camaquam no Rio Grande do Sul, muito brincavamos
com o aguapé, colhendo as mimosas flores de matizes
delicados ou ajudando os camaradas a recolher grandes
porções desta planta, para serem utilizadas como alimento
para os porcos, que aproveitavam grande parte dos
— 456 —
talos succulentos, das raizes e principalmente os rhizo-
mas. Empregava-se tambem esse material como adubo
e com grande proveito, pois que, deixando apodrecer
os grandes montes de aguapé, em pouco tempo se ob-
tinha optimo estrume, que se misturava facilmente com
a terra, sem haver perigo de elle brotar, nem trazer de
envolta outras plantas que fossem damninhas. Greio que
na nossa região foi meu pae o primeiro a utilizar este
material, tão abundante quão excellente, e as verduras
da nossa horta eram sempre as mais viçosas quando a
terra havia sido preparada com esta qualidade de adubo.
Alem disto as proprias circumstancias obrigavam os
moradores ribeirinhos a recolher o aguapé, porque em
tempos de enchente as correntezas arrancavam ilhotas
extensas desta planta acquatica des remansos e arras-
tavam-nas comsigo agua abaixo e então, como succedia
constantemente no porto das nossas canoas, entulhavam
completamente a enseada; era, pois, mister arrancar
d'ahi o aguapé, para abrir passagem para as embarca-
ções. Em taes occasiões nós crianças faziamos abundante
colheita zoologica para nosso pae, que então nos fazia
distinguir as varias especies de Planorbis que viviam
entre as raizes do aguapé ; era ahi que apanhavamos mui-
tos peixinhos, principalmente os chamados «Cascudinhos»
(Otocinclus) bem como muitos crustaceos, e deleitavamo-
nos em colher os cachos de ovos côr de rosa das con-
chas Anadontas. Tambem os insectos abundavam sobre
o aguapé, especialmente uma grande variedade de ga-
fanhotos e de lavandeiras ou Libellulidas.
Conhecendo assim de perto esta fauna do aguapé,
foi para mim um prazer poder examinar o material
colligido pelo Dr. Florentino Felippone. Este distincto
correspondente do Museu Paulista me informa que os
animaes colligidos se achavam todos sobre taes «cama-
lotes», que chegaram às costas uruguayas, arrastadas
pela correnteza do rio da Prata, devido às grandes en-
chentes que houve em 1905 nos rios Paraná e Uruguay.
Desta férma não é possivel saber ao certo de onde
vieram estas cobras e o amphibio que, tendo-se refu-
giado uns sobre o aguapé e outros que vivem con-
stantemente em meio destas plantas acquaticas, foram
todos arrastados pela correnteza e obrigados assim a
— 457 —
deixar sua terra natal para ir parar quasi no oceano,
si não fôra o naturalista dar-lhe outro destino... mais
aproveitavel. Infelizmente por hora ainda não temos co-
nhecimento bastante perfeito da fauna herpetologica da
região do Prata para podermos affirmar com certeza
qual a proveniencia destas cobras e, portanto, desde
onde ellas vieram viajando no aguapé. Comtudo ha duas
ou tres especies de cobras, entre as seis do lóte, que pa-
recem indicar antes patria mais septentrional, ou seja
o Paraguay.
* +
Eis a relação das especies :
2 Lachesis alternatus, «Urutú», de 79 e 85 cm.
de comprimento ; especie de vasta distribuição no Brazil
e na Argentina.
i Aporophis coralliventris Boul., de 44 cm. de
comprimento; a côr vermelho-coral da barriga cara-
cteriza muito bem esta especie mas, como tambem suc-
cedeu no presente exemplar, a acção do alcool destroe
facilmente este colorido, tornando o lado ventral quasi
uniformemente amarello-claro ; só no terço posterior do
corpo as subventraes tem margens escuras. Até agora
só se conhece esta especie do Paraguay (Concepcion). |
2 Thamnodynastes natterer: (Mikan). Cobra das
mais cummuns na America meridional, onde occorre
das Guyanas até os Pampas da Argentina. Vive de pre-
ferencia nos campos sujos ou no matto, e nunca foi
até agora observada na agua.
2 Helicops carincauda (Wied) Esta especis ja
foi mencionada no Catalozo de C. Berg como encon-
tradiça em Corrientes e no (Chaco. Hensel (Arch. f.
Naturg. 1868, p. 329) diz que nunca a encontrou em
terra, mas sempre, e frequentemente, nas aguas quietas
dos rios, onde se esconde entre as plantas acquaticas,
vivendo da caça aos peixes.
6 Rhadinaea merremi fusca (Cope) «Cobras d'agua»
cujas dimensões variam de 50 a 97 cm. com Subven-
traes em numero quasi constante de 177 a 180; o com-
primento da cauda cabe pelo menos 5 1/2 vezes no
comprimento total. O colorido tambem é perfeitamente
egual em todos os exemplares; o lado dorsal é bruno-
— 458 —
azeitonado claro e todas as escamas tem margens pretas ;
no angulo posterior das escamas da parte anterior do
corpo este desenho preto é mais largo, de modo a for-
mar manchas apicaes.
Como já foi dito, não podemos dizer ao certo qual
a proveniencia de todas estas cobras; mas, ainda que
G. Berg não mencione nem Rh. merremi nem a pre-
sente subspecie como conhecidas da Argentina, parece-
nos certo que ella ahi deve occorrer. Burmeister (Reise
La Plata II, 1861 p. 528) menciona Rh. merremi,
aliás segundo exemplares examinados pelo provecto
herpetologo Jan, como occorrentes em Paraná, Entre Rios)
e assim talvez fosse apenas uma omissão de Berg dei-
xando de incluir esta especie no seu Catalogo. Ahi
menciona sómente Lh. poecilopogon e undulata; mas
quanto a esta ultima especie, ainda que sem outra base
senão a da distribuição geographica conhecida, pomos
em duvida a sua occorrencia na Argentina, visto como
sé é conhecida do Brazil, ao norte de S. Paulo e da
Amazonia. Na Rep. Argentina occorrem ainda Rh. oc-
cipitalis, anomala, sagittifera e talvez Rh. jaegeri,
genimaculata e obtusa.
I Chthonerpeton indistinctum (Reinh.) Liitk., o
amphibio apoda do qual nos occupamos neste mesmo
volume da Revista, p. 107.
Nada consta na literatura sobre a ecologia deste
animal; Peters diz (Arch. f. Naturg. 1879. p. 929) que
Hensel observára estes amphibios reunidos em maior
quantidade em certa profundidade no chão ( «gesell-
schaftlich ziemlich tief in der Erde» ), mas na referencia
que esse auctor faz aos numerosos exemplares que cal-
ligiu nos arredores do Porto Alegre (Arch. f. Naturg.
1867, p. 162) elle não menciona este facto. Pelo con-
trario, meu pae, que em 1881 procurava obter este in-
teressante animal, ao quanto se lembra, teve então in-
formações por carta do proprio Dr. Hensel, de que o
Chthonerpeton vivia nas terras humidas ou nos ba-
nhados do Guahyba ; comtudo, tendo procurado nesses
lugares que lhe foram indicados pelo mesmo naturalista,
não conseguiu obter um exemplar, siquer, da especie
que, entretanto, devia ter sido commum pouco antes.
Agora, porém, fica comprovado que esta especie habita
— 459 —
os banhados, entre o lodo e as raizes das plautas acqua-
ticas; sé desta forma se explica que tantos Chthoner-
peton (1 de F. Filippone e 5 de G. Bruch) tenham sido
arrastados pelas correntezas, de emvolta com o aguapé.
Portanto, destas 6 especies de vertebrados, tres:
Rhadinaea merremi, Helicops carinicauda e Chtho-
nerpeton indistinctum são animaes que vivem habi-
tualmente em meio das plantas acquaticas; os outros
achavam-se accidentalmente sobre o aguapé e, ao se
desprenderem as ilhotas, viram-se embarcados, vogando
destino incerto.
* *
Chihonerpeton indistinctum (Reinh). Ao descre-
ver esta especie em nosso estudo acima citado, sobre
os amphibios do Brazil, não possuiamos nenhum
exemplar da mesma, nem tão pouco conhecíamos o
bello estudo de W. Peters (Ueber die Einteilung der
Caecilien, Monatsber. Berl. Ak. Wissensch. 1879). Agora
recebemos essa publicação (da qual extrahimos a fig.
9-b, por combinar perfeitamente com os exemplares que
estudamos) e, alëm do especimen acima mencionado,
colhido do aguapé pelo Dr. F. Filippone, o snr. C.
Bruch do Museu de La Plata nos mandou dous outros
da mesma especie que, juntamente. com mais alguns
outros, foram apanhados em identicas condições : «Varios
exemplares entre camalotes, arrastados pelas aguas, nas
margens do rio da Prata; 25 a 40 cm., 9. VII. 1905.
C. Bruch». Ainda por intermedio do prezado collega
Sr. Juan Brèthes do Museu Nacional de Buenos Aires
recebemos, para confronto, 6 exemplares da Rep. Ar-
gentina, cujas medidas variam de 24 a 39cm.
Todos elles provem das circumvisinhanças de Buenos
Aires, a saber: da propria capital e de Dock Sur e
Darsena Sur, nos arredores; de Quilmes, ca. de 20 km.
rio abaixo e de San Isidro, outro tanto ric acima da capital;
portanto todos na margem direita do Rio da Prata, o
grande estuario que nestas alturas ainda é todo de agua
doce.
Aproveitamos o ensejo para agradecer a todos
os collegas a amabilidade com que corresponderam aos
— 460 —
nossos desejos, proporcionando-nos abundante material
para o estudo.
Da collecção do Museu Paulista devo registrar ain-
da um exemplar do Est. do Paraná (da collecção talvez
obtido pelo Dr. H. v. lhering); este especimen marca
assim 2 occorrencia mais septentrional da especie no
Brazil. Encontrei no tubo digestivo do mesmo uma ca-
beça mutilada de um insecto, ao que parece ainda em
forma larval, que o sr. H. Luederwaldt reconheceu
como sendo muito provavelmente de um Gryllida.
Com este material pudemos verificar que a des-
cripção dada por Peters (L s. cit. p. 940) e a fig. 9
(que mostra a cabeça de perfil) representam perfeita-
mente a feição normal desta especie. Na maior parte
dos exemplares se observa uma faixa branca, obliqua, que
une o olho à narina e que falta a alguns exemplares
devido talvez à influencia do alcool. A zona anal, na
maior parte dos exemplares, apresenta-se um tanto con-
cava, em forma de ventosa oval, e sempre é branca ou
brancacenta. Nenhum dos especimens tem as manchas
claras irregulares a que se referem as descripções. A
cor dos exemplares de tamanho medio, bem conserva-
dos, é sempre cinzenta-ardosia; nos exemplares velhos
ou de má conservação, a pelle se torna bruna, ru-
gosa, apparecendo tambem pontinhos claros que, alter-
nando com a granulação, recobrem toda a superficie.
Os anneis são sempre interrompidos no dorso e no
ventre, mais nitidamente emcima do que embaixo. O
numero destes anneis (ainda que indicado nas descripções
como variando de 78 a 100) em todos os nossos 9 exem-
plares não varia senão de 76 a 79, e 80 no exemplar do
Paraná. Já tivemos occasião de salientar o quanto neste
grupo o numero dos anneis é constante; além disto
verifica-se que no trecho da diagnose latina de Reinh.
& Lutk. «annuli 73-100» houve um accrescimo in-
devido da cifra 100, visto como os auctores se baseiam
em um unico exemplar typico ( «En Siphonops som er
opgivet at vaere fra Buenos Aires») cujo numero de an-
neis combina com o indicado na diagnose latina ( «Rigenes
Autal er 78). Hensel (R. Hensel Beitr. z. Kennt. d.
Wirbelt. Südbras. (Arch. f. Naturg. 1867, p. 123)
indica tambem 82 anneis como sendo o maximo,
entre os numerosos exemplares que colligiu.
M 2
— 461 —
Boulenger salientou como distinctivo generico entre
Siphonops e Typhlonectes contra Chthonerpeton, a dis-
posição dos ossos craneanos squamosal-parietal, os
quaes estão separados um do outro neste ultimo genero
(fig. 2), ao passo que estão em contacto naquelles dous ou-
tros (fig 1). Alem de confirmarplenamente esta differencia-
ção quanto a Siphonops e Chthonerpeton, podemos
ainda accrescentar que, além disto, estes dous generos
se distinguem tambem por estarem neste ultimo genero
OS Ossos pares: nasaes, frontaes e parietaes em contacto
entre si na linha mediana, av passo que em Srphonops
na linha mediana se encaixa entre elles um osso impar,
o etbmoide (fig. 1, th.)
Fig. 1 Siphonops paulensis, craneo visto
de cima. Æth. — ethmoide, N- nasal
FE — frontal, P — parietal,S — squamosal
Oc — occipital.
Fig. 2 Chthonerpeton indistinctum, craneo
visto de cima; as mesmas letras como na
fig. 1 (menos o ethmoide que não apparece),
Cop. de W. Peters.
ÁleNmas especies novas de Vespas solvtarias
(EUMENIDAE)
POR
Rodolpho von Ihering
Em continuação à nossa publicação sobre as «Ves-
pas sociaes do Brazil» (Revista do Museu Paulista, vol.
VI, p. 97-309, Est. II-VI) tencionavamos emprehender
a classificação de nosso material de «Vespas solitarias».
Mas não só os trabalhos iniciados em varios outros gru-
pos da fauna brazileira, como tambem a difficuldade do
assumpto, fizeram-nos protelar este trabalho, que, sobre
mais amplo, é tambem muito mais penoso que o estudo
das vespas sociaes. Basta dizer que atê agora ainda
não foi possivel, aos varios auctores que se dedicam ao
assumpto, delimitar nitidamente os generos abrangidos
pelas 2 familias em questão.
Distinguimos as tres familias de Vespidas sociaes
e solitarias da seguinte forma :
A Vespas sociaes com azas dobradas
longitudinalmente na posição de re-
pouso; unhas simples; tibias do II
par com dous esporões. . . Ê Vespidae
AA Vespas solitarias com azas do-
bradas longitudinalmente na posi-
ção de repouso ; unhas nunca sim-
ples mas com um ou mais denti-
culos; tibia do II ies Com ou sz
espordes . Humenidae
AAA Vespas solitarias cujas | azas não
dobram longitudinalmente; unhas
simples ou “denticuladas o A a Masi
— 465 —
À primeira destas familias, das vespas sociaes, já
estudamos detidamente, como acima dissemos, e alem
disto, ainda com relação às especies brazileiras, consti-
tuiram assumpto de varias publicações do sr. A. Ducke
(Bol. Mus. Goeldi, Pará, vol. IV, 1906, e vol. V, 1999).
A familia Masaride contem cerca de 60 especies,
distribuidas por 12 generos (segundo W. H. Ashmead,
Canadian Entomologist, vol. 34, n. 9, 1902, p. 219),
dos quaes, porém, só um, Trimeria Sauss. (de unhas
simples) ao que nos consta, cecorre no Brazil. A nossa
unica especie Tr. americana, & dos «Campos Geraes»
de Minas; outra, ainda inedita, do Paraguay, vae ser
descripta pelo sr. A. W. Bertoni.
Resta a familia dos Æuwmenidae que, fazendo abs-
tracção de duas outras subfamilias, que aqui não nos
interessam, se subdivide da seguinte forma:
A Tibias medianos com wm espinho apical Euwmeninae
AA Tibias medianos com dous espi-
nhostapicaes E eM) ET M nDiscoelenge
A” primeira destas subfamilias pertence a grande
maioria das nossas especies de vespidas solitarias : só
os generos Humenes (com certamente mais de 50 es-
pecies brazileiras) e Odynerus contribuem com uma
centena de especies, muito interessantes pelos delicados |
ninhos de barro, que constroem, das mais variadas for-
mas, para abrigar a sua próle e que aprovisionam com
lagartas.
Os generos desta subfamilia dos Humeninae ainda
podem ser agrupados, segundo Ashmead, em tres tribus,
que comprehendem cada qual um dos generos mais
diffundidos : Humenus, Odyneruse Alastor e que se
distinguem facilmente pela seguinte chave :
A Segunda cellula cubical não peduncu-
lada, porém mais ou menos quadrada
ou, quando muito, estreitada ou an-
gular na margem radical:
a Abdomen distinctamente pedunculado ÆEuwinenini
aa Abdomen sessil ou subsessil, nunca
distinctamente pedunculado . . Odynerini
AA Segunda cellula cubital distincta-
mente pedunculada e portanto sem
margem radial. ess . OEM astorint
— 464 —
Muito menos rica em especies é a outra subfami-
lia Discoelinae, que unicamente, até agora pudemos es-
tudar, graças ao valioso concurso que nos prestou o sr.
Curt Schrottky, incansavel hymenopterologo, que agora
com tanto successo estuda este ramo da fauna para-
guaya.
As especies da região platina já foram cuidadosa-
mente estudadas pelo sr. Juan Bréthes, pelo qual foram
verificadas nada menos de vinte e tantas especies nessa
região, mas que o auctor reune todas no genero Dis-
coelius, por não encontrar elementos sufficientes para
diferenciar Didymogastra PeRTY, que portanto deve
entrar na synonymia deDescoelus, quando Saussure o
considerava como uma subdivisão do gen. Zethus.
De facto o numero de articulos dos palpos labiaes,
em que se baseia a distincção adoptada por Ashmead,
não representa caracter seguro, e assim tambem nós
deixamos de differenciar esses dous generos.
Tambem o gen. Wettsteinia D. Torre é supprimido
por Brèthes (1906, p. 318), de modo que as duas es-
pecies brazileiras, sichelianus e brasiliensis, ficam in-
cluidas no genero Descoelius.
O gen. Zethusculus Sauss. foi incluido por Ashmead
na subfam. Discoelinae, mas tanto Z. fraternus como
Z. schrottkyanus n. sp. que adiante descrevemos tém
um só esporão no apice dos tibias II e portanto mostram
que pertencem à subfam. Æumeninae.
Desta fórma os generos brazileiros da subfam. Dis-
coelinae ficam reduzidos a dous:
A cuja base do II segmento abdominal
não forma verdadeiro pedunculo mas
é sessil ou subsessil, Ro gra-
dualmente 140 Hu nu AU Heros
AA cuja base do II segmento é con-
trahida, formando pedunculo dis-
time DO NAME shen eR: Discoelius
Ao primeiro genero pertence à grande especie He-
ros gigas, que entretanto o sr. À. Ducke (Zeitschr. f.
Hym. d. Dipt. vol. V, 1905, p. 171) não distingue ge-
nericamente de Discoelius. Este ultimo genero com-
prehende um numero de especies muito maior, mas por
emquanto a differenciação destas ainda é muito difficil.
— 465 —
À propria monographia de Dalla Torre, na grande obra
«Genera Insectorum» de Wytsmann 1904, não fez se-
não complicar o malbaratamento. Este ultimo auctor
estabeleceu 3 grupos em que divide o gen. Discoelius,
mas não indica as especies que pertencem a cada um
destes grupos. Das 10 especies que cita, apenas duas são
americanas: D. merula do Chili e D. puelchellus do
Mexico. Seja dito ainda que o typo do genero é, se-
gundo Ashmead, D. zonalis Panzer, da Europa; será
preciso averiguar si ha realmente tanta aflinidade entre
as especies dc velho continente e as neotropicas ou si
as nossas devem ser distinguidas genericamente.
Passando a descrever algumas especies novas de
Eumenidas, devo agradecer ao sr. C. Schrottky o ama-
vel auxilio que me prestou e o estudo que fez das duas
primeiras das especies seguintes, que tambem a elle pa-
receram novas.
*
x *
Zethus (ZeruuscuLvs) schrottkyanus 7. sp. (*)
Especie muito semelhante a Z. fraternus, mas
nesta o pedunculo abdominal tem pontuação muito
mais grosseira e mais densa, e alem disto o clypeo do
macho desta é amarello só na metade inferior; de
Z. missionus ella differe pela esculptura do segmento
mediano e do pedunculo abdominal.
Mittelgrosse Art von ganz schwarzer Farbe mit
nur einer sehr feinen Apicalbinde auf dem Hinterleibs-
stiel welcher leicht punktiert, aber doch glänzend ist;
die übrigen Abdominalsegmente weiss behaart. Fliigel
rauch-brun mit schwarzem Radialrande.
@ Der Kopf ist breit und stark punktiert; auf
der Stirne befinden sich zwei kleine quer gestellte Fle-
cken zwischen und etwas oberhalb der Fiihler. Der
Clypeus ist breit, etwas leichter punktiert und auf
den Zwischenriumen äusserst fein gerastert. Der Füh-
lerschaft ist länglich, abgeflacht und sehr fein punk-
(*) Sehr ähnlich dem Z. fraternus, dessen Hinterleibs-
stiel viel grüber und dichter punkaert ist und bei welchem
nur die Varderhi'fte dos Clypeus beim & gelb i:t. Von Z,
missionus durch die Skulptur des Mittelsegmentes und die
des Hinterleibsstielas ve:schieden.
— 466 —
tiert.Die Entfernung der Ocellen von den Augen ist
etwas grósser als diejenige der zwei hinteren Ocellen
unter sich.
Der Prothorax ist sehr stark punktiert, vorne
kantig ; Mesothorax etwas weniger stark punktiert,
vorne mit einer bis zur Mitte reichenden Mittellinie
versehen ; Scutellum breiter als lang, in der Mitte sehr
wenig eingedrückt, karg punktiert. Postscutellum kurz,
breit dreieckig. Metathorax mit undeutlicher Skulptur,
kurz greis behaart. Erstes Abdominalsegment lang-
oval, glänzend, jedoch leicht punktiert; zweites Abdo-
minalsegment kurz gestielt, dieser Stiel etwa so lang
als der Petiolus hinten breit ist, das ganze Segment
oben unpunktiert, greis behaart; die folgenden Seg-
mente sind breit aber flach punktiert, besonders an
den Rändern und hauptsächlich unten lang behaart.
Ventralseite aller Segmente besonders des 2.2: stark
punktiert.
Zweite Cubitalzelle mit kleinem Radialrande, etwa
halb so breit als der Zwischenraum zwischen den 2
rücklaufenden Nerven. Dritte Cubitalzelle hodher als
breit, jedoch am Radialrande stark nach innen erweitert.
Long. tot. 17 mm.; part. 13 mm.; Alae {2 mm.
S Das Männchen unterscheidet sich von dem
Weibchen folgendermassen: Der Clypeus ist gelb, ab-
gestumpft, vorne schwarz eingesiumt und mit zwei
kleinen Zähnchen versehen. Keine gelbe Zeichnung auf
der Stirne, welche an dieser Stelle stärker quer erhoben
ist. Fast alle Gheder der Fiihlergeisel sind unten gelb
gezichnet.
Long. tot. 15 mm. ; part. 12 1/2 mm. ; Alae 10 mm.
Typus : Est. Rio Grande do Sul (Camaquam), Dr.
H. von Ihering leg.
Discoelius pseudozethus 7. sp. (*)
Pelo tamanho e pelo colorido esta especie se
assemelha extraordinariamente a Zethus mexicanus mas,
alem de possuir 2 esporões no II par de tibias, o seu
(*) Färbung und G:ésse genau wie Zethus mexicanus,
aber ausser den 2 Schiensporen der Beine II, an dem ähnlich
wis bei Heros gigas gebildeten Hinterleibsstiel zu e ksnnen.
— 467 —
I segmento abdominal, o podunculo, não é intumescido,
porém de forma muito parecida ao de Heros gigas.
Q Schwarz mit rotem Clypeus und Mandibeln,
letztere schwarz gerandet; 5.'*s Tarsalglied des vor-
deren Beinpaares gelblich.
Es ist dieses eine äusserst grosse, starke Zscoe-
lius-Art. Der Kopf ist etwas geschwollen, die kleinen
Ocellen sind nicht in Grübchen eingelassen. Mandibeln
sehr lang mit 4 etwa gleichgrossen und einem 9.'°"-
etwas kleineren weiter abstehenden inneren Zähnchen ver-
sehen. Clypeus breit, runzelig punktiert, vorne schwach
ausgebuchtet, in der Mitte mit einem sehr kleinen Zähn-
chen. Stirne convex. Antennen stark, das grosse Schaft-
glied doppelt so gross als das Funiculum, das dritte Glied
sehr lang. Augenauschnitt sehr tief. Der ganze Kopf
fein aber deutlich, etwas weitläufig punktiert. Prothorax
etwas grüber punktier, mit stark markierten Vorder-
randwinkeln. Mesothorax mit einer leichten vorderen
Medianlinie, welche bis zur Mitte reicht; hinten zwei
Paare von Furchen, von welchen die inneren teifer
und kürzer, die äusseren seichter und linger sind; die
Vorderhiilfte des Mesothorax ist ziemlich matt, die
hintere glänzend, ebenso wie die Fliigelschtippchen und
Scutellum. Letzteres ist fast so lang wie breit ; Post-
scutellum schmal, kantig, und wie der Metathorax
fein punktiert und greis behaart. Metathorax mit einer
schmalen, konkaven Partie, am Aussenrande kantig
und hinten beiderseits mit spitzem Anhange versehen.
Hinterleib zethus artig geformt, jedoch erinnert der
Hinterleibsstiel mehr an Heros gigas. Klügel gelblich-
braun. violet schimmernd; Radialrand der 2.2 Cubi-
talzelle beinahe so breit als der Zwischenraum zwischen
den 2 riicklaufenden Nerven. Ziemlich unabhingig von
den Nerven durchlaufen den Vorderfliigel einige, im
Gegensatz zu der allgemeinen Färbung, etwas hellere
Linien.
Long. tot. 25 mm.; part. 22 mm.; Alae 19 mm.
Typus: Jundiahy, 28 Oct. 1900, M. Beron leg.
AS
Von Herrn ©. Schrottky wurde mir das Exem-
plar n. 3389 der Sammlung des Museu Paulista mit
Zweifel als «D. heydeni» bezeichnet, da er das Mit-
— 468 —
telsegment «excavate» nennen wiird, während Saussure für
die genannte Art gerade das Gegenteil behauptet.
Unser Exemplar gehért vielmehr zur nächstfolgenden
Gruppe Saussure's (Syn. Americ. Wasps, Smith. Misc.
Coll. n. 254, 1875, p. 25) «Metathorax excavated ;
the excavation margined with sharp carinae» und zwar
zur zweiten Unterabteilung nach der Form des Tho-
raxes (nicht «short, quadrate or rounded» sonder)
«elongate attenuated anteriorly, elliptical», wohin Saus-
sure nur die mexikanische Art Z. toltecus stellt. Auch.
ist unsere, wir es scheint neue Art, etwas kleiner und
in der Zeichnung etwas iirmer, da das Postscutellum
und auch der Metathorax ungezeichnet sind.
Der Farbenbeschreibung nach künnte es sich um
Z. carinatus Sm. handeln ; die morphologischen Cha-
raktere dieser Art sind jedoch nur durch Untersu-
chung des Typus zu ermitteln. Jedenfalls ist aber an
unserem Exemplare die «longitudinal carina» des Pe-
tiolus so unauftälllg durch eine schwache Wulst (resp.
Unterbrechung der Granulierung) ersetzt, dass dieses
Merkmal von Smith keine besondere Erwähnung ver-
dient haben würde. Ausser dem ist die genannte Art
von Bates in Villa Nova (de Barreirinhos) im Staate
Amazonas (nahe bei Obidos) gesammelt worden. Ich
glaube daher diese Art mit einem neuen Namen be-
legen zu müssen :
Discoelius luederwaldti n. sp.
Schwarz aber mit folgender gelber Zeichnung: der
Clypeus, Mandibeln, Fiihlerschaft, eine gelbe Linie quer
über die Stirne von einem Augenausshnitte zum ande-
ren (jedoch oberhalb der Fiihlerbasis unterbrochen), die:
ganze Hinterhauptsgegend m:t Ausnahme des Occiput,
Prothorax vorne, ein grosser Fleck unterhalb der
Flügel, der Aussenrand der Fliigelschuppen, ein sehr
kleiner Fleck hinter diesen, zwei andere jederseits des
Scutellum, eine vorne zweizackige Binde auf dem
Hinterrande des Hinterleibstieles, sowie die Hinterränder
der 2 folgenden Segmente : gelb; die 2 vorderen Bein-
paare grôsstenteils gelb, oberhalb etwas braun gefleckt,
3 *s Beinpaar schwarz, ein wenig braunrot gefleck.
Fühlergeissel bräunlichrot.
AB OR
Der Kopf ist breit-oval, breiter als der Thorax,
hinten kantig, überall ziemlich stark punktiert ; Clypeus
breit, vorne abgestumpft, undeutlich punktiert. Auf der
Stirne zwischen und etwas oberbalb der Fühler mit
sehr kleinem Tuberkel versehen; Ocellen versenkt,
viel näher unter sich als von den Augen abstehend.
Thorax stark abgerundet, am Prothorax mit nur
sehr kleinem, unauffalligem Rande versehen; stark punk-
tiert, in den Zwischenräumen dieser groben Punkte
überall mit viel feineren Pünktchen versehen. Meso-
thorax vorne bis zur Mitte sehr leicht median gefurcht,
vom Scutellum aus bis zur Mitte hin mit zwei weite-
ren Paaren von Furchen versehen. Scutellum etwas
breiter als lang, leicht gewolbt; äusserst seicht der Län-
ge nach eingesenkt, vom Mesothorax deutlich von
einer grésseren Zahl in Querreihe stehender Griibchen
abgeteilt. Postscutellum an den Seiten kantig, nach
hinten zu abschüssig. Metathorax mit einer mittleren
konkaven Partie versehen, welche an den Seiten kantig
begrenzt ist. Besonders in der konkaven Partie stark
behaart. Hinterleibsstiel etwa so lang wie das darauf-
folgende Segment; das Basaldrittel linear, sodann auf
einmal erweitert; nach hinten zu nur sehr wenig
schmäler ; die aufsteigende Partie kantig mit dem hori-
zontalen Teile begrenzt; oben stark punktiert, von einer
medianen Wulst durchzogen, welche hinten in ein
hufeisenformiges Grübchen endet. Zweites Segment sehr
kurz gestielt, etwa geformt wie bei D. silvaegrande;
überall mit sehr feiner Punktierung und ziemlich weit-
laufig mit etwas groberen Punkten versehen, schwach
glinzend da es ausserdem noch leicht sammtig behaart
“ist. Die Apicalränder aller folgenden Segmente stark
behaart. Flügeläderung etwa wie bei D. silvaegrande;
der Radialrand der 2 e". Cubitalzelle auf ein Minimum
reduziert. Flügel glashell, nur am Vorderrande gelblich-
braun; die Aederung braun, an der Basis gelblich.
Long. tot. 15mm; part. 13mm.; Alae 9mm.
Typus. Ypiranga, S. Paulo, H. Luederwaldt leg.
DBiscoelius bruneoniger n. sp.
Kopf schwarz mit dunkel braunrotem Clypeus und
Mandibeln, letztere schwarz gerandet; Fühler hellrot-
— 470 —
braun an der Basis, gegen das Ende hin fast schwarz;
zwei rotliche Punkte über den Fühlern. Thorax oben
dunkel, warm rotbraun, etwas heller am Hinterrande
des Prothorax und dunkel, fast sehwarz, auf dem hin-
teren Drittel des Mesothorax. Hinterleibsstiel schwarz
mit undeutlicher rotbrauner Apicalbinde; ebenso das
nichste Segment; alle folgenden Segmente goldbraun.
Beine einfórmig rotbraun. Flügel einformig durchsich-
tig rauchbraun, mit zartem, violetem Glanze, kaum
etwas dunker am Vorderrande. Der ganze Kúrper
einformig kurz blond und auf dem Abdominal 2ten.
segmente sehr dicht, anliegend und etwas dunkler
bebaart; auf dem Mesothorax sind die Haare weisslich
und an den Apicalriindern der letzten Abdominal-
segmente lang und goldig.
Kopf. Die Mandibeln sind der Linge nach ge-
furcht und grob, unregelmässig punktiert, am Vorder-
rande zweimal ausgezackt. Clypeus gewülbt, vorne
breit abgestumpft, leicht nach oben umgebogen, ziem-
lich dicht aber nicht sehr tief punktiert. In der Mitte
zwischen den Fiihlern ein kleiner Kiel, neben welchem
zu jeder Seite sich ein kleiner roter Hocker befindet.
Die Stirne ist etwas gewülbt. Der ganze Kopf ist lings-
gefurch-punktiert.
Thorax. Prothorax rechtwincklich, vorne und an
den Seiten ganz gerade abgeschnitten, kantig, noch
markanter als bei Hum. uruguayensis; am Vorderran-
de undeutlich breit, etwas nach oben aufgebogen. Me-
sothorax mit einer kurzen, vorne breiteren, Medianker-
be und zu jeder Seite von dieser mit einer wulstigen
feinen Längslinie versehen.
Metathorax kaum schmäler aber abgerundet; Scu-
tellum kaum gewélbt, ein wenig schräg; an den Seiten
nur undeutlich kantig, da der scharf markierte Seiten-
rand des Mesothorax sich schnell verliuft; Postscutel-
lum mit nur sehr schmalem ebenem Teile, welcher an
den Seiten ein wenig kantig hervorsteht; dann fast
rechtwicklig nach unten gebogen, am Hinterrande fast
nicht eckig, beinahe gerundet. Metathorax an den Sei-
ten abgerundet, in der Mitte nur wenig eingebogen,
jedoch ist die Mittellinie sehr deutlich. Der ganze Tho-
rax ist sehr rauh, ganz dicht und grob punktiert, aber
-- 4714 —
nur auf dem Mesothorax annährend wie auf dem Schei-
tel in unregelmässigen Furchen angeordnet.
Abdomen mit etwa dem Thorax gleichlangem Pe-
tiolus, dessen Basalhälfte linear ist und kurz hinter der
Einlenkung oben einen medianen kleinen Hocker trágt.
In seiner ganzen Worm gleicht der Petiolus demjeni-
gen des D. selvaegrandis aber der erweiterte Teil ist
weniger breit und etwas linger; hinten, subapical mäs-
sig eingeschniirt; die Punktierung ist sehr grob und
dicht. Auch das zweite Abdominalsegment gleicht sehr
demjenigen der eben verglichenen Art; die Punktierung
ist hier sehr fein und dicht, aber durch die dichte,
anliegende Behaarung erscheint dieses Segment wie
fein längsgefurcht.
Das Fliigelgeiider ist dasselbe wie von D. szlvae-
grandis, nur ist der Radialrand der 2% Cubitale
wesentlich breiter.
Long. tot. 15 mm; part. 12 mm.; Alae, 12 mm.
Typus: Est. Goyaz; Mr.G. A. Baer leg. (N. 6803).
*
* *
Der Typus von D. (Didymogastra) peculiaris Fox
stammt aus Rio de Janeiro; in unserer Sammlung
befindet sich aber ein Exemplar (N. 2244) welches von
Staudinger erworben wurde und welches entweder in
Perú (Pachieta) oder Bolivien (Mapiri) gesammelt wurde.
In morphologischer Hinsicht stimmt es absolut mit
der ausführlichen Beschreibung des Fox’schen Typus
überein. Dagegen ist die Firbung unseres Hxempla-
res viel reicher, und so glaube ich daher diese Form,
auch mit Rücksicht auf seine oberamazonische Her-
kunft, als Subspecies abtrennen zu kônnen:
Discoelius peculiaris dives 7. subsp.
Der typischen Form in morphologischer Hinsicht,
nach der Beschreibung zu urteilen, absolut gleich je-
doch viel reicher gefärbt.
Gelb ist folgende Zeichnung: Zwei Flecken sei-
tlich auf dem Clypeus (mit Ausnahme der Mittellinie,
schmäler oben, breiter unten und des Vorderrandes,
welche schwarz sind), zwei andere über der Basis der
Antennen, ein äusserst kleiner Punkt hinter den Augen,
oben, Prothorax, Tegulae, ein kleiner Fleck unterhalb
diesen, je eine in der Mitte unterbrochene Binde über dem
Scutellum und Postscutellum (auf letzterem ist die Un-
terbrechung jedoch nur angedeutet), ein grosser drei-
eckiger Fleck zu jeder Seite der Mittellinie des Mittel-
segmentes, eine Apicalbinde auf dem Hinterleibsstiel, wel-
che in der Mitte unterbrochen ist, sich nach Vorne seit-
lich etwas vorschiekt und in einen Haken endigt ; sehr
feine Apicalbinden, oben wie unten auf allen folgenden
Segmenten.
Alle drei Bienpaare sind reich gezeichnet, rein
gelb auf den zwei letzten Paaren, rostgelblich auf dem
ersten. Der Fühlerschaft ist gelb, mit Ausnahme eines
braunroten Streifens vorne, welcher gegen das Ende
hin fast schwarz wird; das nichste Fühlerglied ist bräun-
lichrot, die übrigen Glieder fast schwarz, das letzte
jedoch gelblich.
Kopf und Thorax wie bei der typischen Form reich
und lang gelbbraun behaart; auf dem 2.7 Abdo-
minalsegmente ist die Behaarung sehr kurz und hell,
lang und hellgelb auf den Apicslrindern der folgenden
Seginente.
J. Brèthes beschreibt (An. Mus. Buenos Aires, Ser.
IJ, 2, 1903, p. 245) D. nitidus aus Rio de Janeiro,
dem D. pecularis sehr nahestehend und welche even-
tuell auch besser als Subspecies dieser anscheinend va-
riabilen Art betrachtet wird. Der Autor giebt verschie-
dene Unterschiede in der Punktierung an, nach wel-
chen zu schliessen unsere hier beschriebene Form in
dieser Hinsicht dem J. peculiaris näher steht als D.
nitidus. Letztere hat manche gelbe Zeichnungen wel-
che unserer Art fehlen, wie z. B. die Mandibeln, der
fast ganz gelbe Clypeus, die Basis des 2. Abdominal-
Segmentes, etc.
Discoelius segmentalis n. sp.
Schwarz mit gelber Zeichnung : Mandibeln, Clypeus,
Fühlerschaft, zwei Punkte über den Kühlern, je einer
welcher den inneren Teil des Augenausschaittes aus-
— 473 —
fullt, der Kopf hinter den Augen mit Auschluss des
Scheitels, Vorderrand des Prothorax (mit einer Unter-
brechung in der Mitte vor dem Mesothorax), ein mit-
telgrosser Fleck unter den Fliigeln, je ein sehr kleiner
neben den Fliigelschuppen und an den Seiten des Scu-
tellums, Hinterrand des Petiolus - seitlich und sehr
schmale Apicallinie auf dem 2% Abdominalsegmente, |
und II Beinpaar : gelb. Auf der Mitte des Clypeus ist
ein bräunlich-roter undeutlich abgegrenzter Fleck zu be-
merken; Fiihler unten rostgelb; Fliigelschuppen breit
gelbbraan eingefasst. Fliigel durchsichtig hellbraun,
mit nur wenig dunklerem Vorderrande.
Die Punktierung des Clypeus ist schwach und un-
deutlich, diejenige des Kopfes tiefer und dicht; weniger
dicht auf dem Prothorax und vorne aut dem Mesotho-
rax, dessen hintere Partie nur hie und da mit einem
groben Eindrucke versehen ist, sonst aber ganz mit
allerfeinster Punktierung versehen ist; Scutellum stark
aber ziemlich weitläufig punktiert. Petiolus pockennar-
big durch die äusserst grobe, dichte Punktierung ; im
Uebrigen ist der Hinterleib zart aber dicht punktiert.
Clypeus wenig gewolbt, viel breiter als hoch, jeder
seiner drei vorderen Ränder ein wenig ausgebuchtet ;
hinterer Wangenrand ziemlich kantig. Thorax etwas
gerundet, Prothorax jedoch kantig (etwa wie bei Z
hilarianus Saussure, Etudes II, Pl. VI, fig. 6, und
nicht viereckig wie bei Z lobulatus Sauss., 1. cit. fig. 4,
mit welchem indessen unsere Art wie weiterhin zu
sehen ist, manches gemeinsam hat) der Vorderrand stark
nach oben umgedreht; Mesothorax weit nach vorne
vorgeschoben, so dass der Prothorax linear verengt ist.
Medianfurche des Mesothorax nur sehr leicht vorne an-
gedeutet, dagegen sind die zwei anderen Linien, jener
zur Zeite, auf dem ersten Drittel des Mesothorax kaum
wahrzunehmen, jedoch nach hinten zu bis an das Scu-
tellum sehr tief eingedrückt. Scutellum kaum gewôlbt,
mit einer sehr schwachen Medianfurche versehen ;
an den Seiten kaum kantig, wogegem das Postscutellum
mit seitlichen Leisten begrenzt ist. Metathorax sehr kon-
kay, mit kantigen Rändern. Petiolus nur am ersten
Lingsviertel linear, gerade aufsteigend, oben quer kan-
tig begrenzt ; der erweiterte Teil ist vorne etwas breiter
mes AT
als hinten, jedoch nicht gewolbt; hinten ist er mit einer
subapicalen, napfformigen Einsenkung versehen; zu er-
wiihnen ist noch eine etwas bogige Liingsfurche welche
unten an dem Petiolus verläuft. Das zweite Abdoininal-
segment hat mit Ausnahme des ebenso schmalen aber
viel kürzeren Stieles, dieselbe Form wie dasjenige von
Z. lobulatus Sauss. mit welcher Art unsere hier be-
schriebene auch die Aus einanderfaltung des Tegumentes
dieses wie des niichsten Segmentes gemein hat. Der
Verlauf der Ausenränder der Segmente II und III ist
jedoch ein anderer, beiderseits konkav, in der Mitte mit
vorstehender Spitze.
Betreffs der Flügeläderung ist zu bemerken dass
die 2t* Cubitale keinen Radialrand hat sondern von
den zwei angrenzenden Zellen oben links und rechts
sehr eingeengt (fast gestielt) ist.
Das vorletzte Fühlerglied des & ist bedeutend kürzer
und dinner als das vorhergehende; etwas linger als
dieses ist das Endglied, welches sehr viei dünner und
etwas abgeflacht, gerade, aber zuriickgelegt ist.
Long. tot. 12 mm.; part. 10 mm.; Alae 8.5 mm.
Typus : Obidos, Est. Amazonas (H. Rolle)
Unsere Art hat entschiedene Aehnlichkeit mit Z
lobulatus, was eventuell durch Aufstellung eines Subgenus
noch hesser hervorgehoben zu werden verdiente.
Andererseits unterscheidet sich unsere Art von der
eben genannten dadurch das der Prothorax nicht auffal-
lig kantig (longuement epineux) sondern vielmehr abge-
rundt ist; der Thorax ist nicht so grob punktiert wie
bei der Saussure’sche Art und der Kopf ist nicht wie
bei jener goldig behaart.
Z. thoracicus Fox hat wie Z. lobulatus und D.
segmentalis die eigentiimliche «accessory membrane»
des St: (resp. 2%) Hinterleibsegmentes und auch
betreffs anderer Charaktere weisst sie Aehnlichkeiten
mit dieser Art auf. Durch den sehr langen Thorax
unterscheidet sie sich wohl von den zwei anderen
Arten. D. segmentalis ist ausserdem durch die rorm
der 2 te. Cubitalzelle gekennzeichnet, da sie vorne
von den zusammenfliessenden Transverso-cubitaladern
I u. II begrenzt und also von der Radialzelle abge-
schlossen wird. Dadurch ähnelt sie dem viel kleineren
— 475 —
Z. notatus, welcher wie es scheint auch in diese Gruppe
gehirt; indessen ist in der Beschreibung nichts über
Auseinanderfaltung der Hinterleibsegmente gesagt.
Ed
* x
Ebenfalls aus Obidos, Amazonas (H. Rolle) stammt
ein anderes Exemplar unserer Sammlung (N. 15.820)
welches in vieler Hinsicht ziemlich gut zur Fox’schen
Beschreibung von Z. notatus passt; aber hier ist die
2 te Cubitalzelle vorne missig breit mit der Radiale
begrenzt (evwas breiter als die Verbindung der I. Cu-
bitalzelle mit dem 1. riicklaufendem Nerv) während fiir
Z. notatus die gleiche Form beschrieben wird wie wir
sie oben für unseren D. segmentalis erwiihnten. Bei
Z. notatus sind die Hinterleibssegmente II u. Ill nicht aus-
einandergefaltet, wiihrend unser Exemplar, welches als:
Discoelius explicatus 7. sp.
bezeichnet werden mag, diese zwei Segmente wie
bei dem vorhergehenden D. segmentalis entwickelt hat.
Die Färbung ist auch reicher als bei Z notatus.
& Mandibeln, Clypeus und innerer Augenrand bis
zum Ausschnitte hellgelb ; Mitte des Clypeus sowie der
Rest des Kopfes rütlich-gelb mit Ausschluss eines
grossen schwarzbrauaen Fleckes zwischen den Fühlern
und Ocellen, letztere mit einbegriffer ; Fiihler rotgelb,
die Geissel oben rotbraun; der ganze Prothorax, ein
grosser geteilter I*leck unter den Flügeln, zwei paral-
lele, etwas undentliche Liingsflecken auf dem Meso-
thorax, Flügelschüppchen, zwei grüssere Flecken auf
der unteren Hilfte des Scutellums, weitere zwei sehr
kleine an den Kanten des Postscutellums, rétlichgelb.
Apicalränder der Hinterleibssgmente I, II, und II
schmal gelb gerandt. Beinpaare I hellgelb, II braun-
gelb, III schwarz mit braungelben Articulationen.
Flügel gelblich getrübt, mit etwas dunklerem Rande.
Das letzte Fühlerglied des & ist nur ein wenig
linger als das vorletzte, ebenso dick an der Basis,
stumpf-konisch und nicht gebogen.
Long. tot. 10mm.; part. 8 1/2 mm. ; Alae 7 mm.
| Typus: Obidos, Est. Amazonas (H. Rolle).
Neuropleros del Brazil
POR
el Rev. Padre Longinos Navás, 8. J
I Tres Esnidos (Odonatos) nuevos
De una colecciôn de insectos Neurópteros del Bra-
sil que me envió generosamente el sr. Gonde de Bar-
biellini, Director de «O Entomologista Brasileiro» (1)
voy à dar à conocer ante todo las tres especies se-
guientes de la familia de los Esnidos y tribu de los
Esninos, que me han parecido nuevas.
1. Aeschna litigatrix sp. nov.
Similis A. bonarienst Ramb.
d' Caput fronte flavo-viridi, labro linea transversa
angusta basilari nigra ; parte alta frontis prominente,
signo T nigro, pedunculo longo, crasso, capite seu li-
nea transversa tenul, convexa, fascia externa fuscescente
parallela pedunculo, lineam flavam crassam inter se et
pedunculum liberante ; triangulo occipitali parvo, flavo.
Thorax rufus, pleuris duplici fascia obliqua flavida,
secunda minus distincta, notatis.
Abdomen rufo-fuscum, 2.° segmento parum inflato,
3.° fortiter constricto, 2.º macula laterali dorsali caeru-
lea ad apicem ; 10.° dorso dente acuto instructo, mar-
(1) Devido a ter sido suspensa temporariamente a publicação do «Entomolo-
gista Brazileiro», o Snr. Conde Barbiellini nos confiou obsequiosamente os originaes
do Rey. Padre L. Navas, conhecido entomologo hespanhol, e assim folgamos em
dar publicidade em nossa Revista às presentes diagnoses dos 2 generos novos e
das 3 especies novas, todos da fauna paulista.
— ATT —
gine postico medio recto,
ad latera denticulato ;
cercis superioribus (fig.
1 a-b) rufo-fuscis, duobus
ultimis abdominis se-
gmentis longioribus, ba-
si angustis, dente inferno
instructis, sensim usque
ad tertium basilare di-
ee latatis, mox marginibus
S Aeschna litigatrix Nav. sub-parallelis, levissime
5, eme gel abdomen visto por encima ; convexis, apice oblique
ala posterior. truncatis, mucronatis ;
cerco inferiore fulvo, dimidiam cercorum superiorum
longitudinem attingente, apice rotundato.
Pedes nigri, femoribus dorso basi usque ad medium
totis ; lateraliter linea usque ad apicem ferrugineis; ti-
biis dorso linea ferruginea.
Alae hyalinae, costa flava, stigmate angusto, longo,
duas cellulas subjectas longe superante, apice angustato,
fusco, externe ad quintum apicale rufuscente. Sector
subnodalis longe ante stigma furcatus, ferme quanta est
hujus longitudo, tres series cellularum post se tegens.
Trianguli discalis haud elongati, duabus venulis. Trian- .
gulus axillaris (fig. 1 c) lengus, angustus, tribus cel-
lulis, anterioribus elongatis. Area supratriangularis li-
bera, nullis venulis instructa. Membranula grandis, fusca,
linea anteriore juxta venam postcubitalem pallida. Ve-
nulae antenodales 13 in ala anterior-, 8 in posteriore,
postnodales 7 et 10 respective.
Longit. corp. 56 mm.
Longit. abdom. 41 mm.
Longit. al. poster. 37,5 mm.
Patria: São Paulo, 6 de Abril 1910 (Leg. Bar-
biellini) En mi colección.
Es tan parecida esta especie à la A. bonayiensis
Ramb. que cuesta trabajo distinguirla, y no será ocioso
marcar algunas diferencias más sensibles.
El color de la cabeza es totalmente distincto, más
pálido, sobre todo el triângulo occipital, que es manifies-
tamente amarillo. También difiere bastante el colór de todo
— 478 —
el cuerpo ; el abdomen no posee manchas amarillas, sino
azules, que en el insecto vivo serân más manifiestas.
El abdomen se estrecha mas en el tercer segmen-
to; la espina del 10 es más aguda. Los cercos supe-
riores son proporcionalmente más estrechos no côncavos
interiormente, y mirados de perfil, mas agudo el diente
de la base.
El sector subnodal se ahorquilla más adentro, à una
distancia del estigma igual al menos à la longitud de
éste; la membranilla es de otro color, como de café y
no grisácea. (1)
2. Gynacantha martini sp. nov.
Mediocris, affinis G. adelae Mart.
S Caput fronte viridi-flavo, labro flavescente, fas-
tigio frontis flavescente signo T fusco-nigro, petiolo brevi,
capite seu linea transversa crassa, medio crassiore, carina
transversa pilosa, triangulo occipitali exiguo, flavo-viridi.
Thorax sordide viridis.
Pedes flavidi, femoribus rufescentibus, tarsis inferne
nigris. emora antica superne et inferne nigra, late-
raliter flavida, apice viridescentia. Tibiae anticae in-
ferne nigrae, superne viridescentes.
Abdomen rufescens, basi parum inflatum; 2.° se-
gmento auriculis prominulis, apice truncato, 5 dentibus
nigris denticulato ; 3.º segmento ad medium angustato ;
10.° postice desuper truncato in lineam rectam (fig. 2
a); cercis superioribus duobus ultimis abdominis segmen-
tis simul sumptis sesquilongioribus, usque an quintum
apicale angustis, mox in spathulam ampliatis, apice trun-
cato, externe rectis, interne ad folium angulato ; cerco
(1) La particularidad de ofrecer ambas especies vecinas,
bonariensis y litigatrix de carecer de vanillas en el espacio su-
p‘ririgoual induce à incluiriasen un género nuevo afin al Aeschna
que poirá apellidares Neureclipa n. gen. (del griego yvevoor
nervio y êxAmjs deficiente) y cuya caracteristica podrá ser:
Spatium hypertrigonale in ala utraque nullis venulis in-
structum
S segmento 10.º dente dorsali; cercis supericribus dente
inferno instructis,
Cetera ut in Aeschna.
— 479 —
inferiore triangulari elongato, usque ad quintum apicale
superiorum attingente (fig. 2 a, b).
Alae hyalinae, costa et stigmate fuscis, stigmate elon-
gato, 2 1/2 cellula subjectas, aequante ; fureula sectoris
subnodalis longe ante stigma
cece, incipiente, saltem quanta est
aly hujus longitudo, quatuor se-
ries cellularum tegente ; fere
7 venulis in area submedia et
4 in hypertrigonali. Mem-
branula exigua, ultra ini-
tium trianguli axillaris vix
extensa, angusta, basi am-
pliore, grisea, externe ob-
ne é _ scuriore. ‘Triangulis axil-
S Gynacaniha martini jaris tribus cellulis. Circi-
Nav. nus 8 cellulis et post illum
mo cae wine dune series, colbulipuma (lis.
gión axilar del ala posterior. 2 6): Antenodales 21, post-
nodalis 16 in ala anteriore, in posteriore vero 14 et
17 respective.
Patria: São Paulo, 6 de Abril de 1910 (Barbiel-
lini leg). El tipo en mi colecién. Tengo el gusto de de-
dicar esta especie al insigne monógrafo de los Esninos
D. Renato Martin de Paris.
REMARTINIA gen. nov.
Etimologia. He formado este nombre genérico en
obsequio del ilustre odonatólogo francês D. Renato Mar-
tin, à quien debo innumerables obsequios en el estudio
de los Odonatos.
Similis Gynacanthæ Ramb.
Membranula mediocris, ad marginem axillarem ma-
nifeste decurrens, fere aequali spatio ac praeter venam
postcubitaiem. Triangulus axillaris elongatus, acutus,
venula in duas cellulas divisus, latere anteriore brevissi-
mo, quartam partem lateris externi haud attingente.
Cerci feminae breves.
Cetera ut in genere Gynacantha Ramb.
4 o id ny
ua a tes
- + é r
Rg
“bu BBO
3%. Remartinia barbiellina sp. n.
Grandis, viridi-smaragdina.
Caput facie caerulea, labro margine antico anguste
fuscato, latius in 9, fronte protensa, parte superiore
viridi, medio angulata, macula T nigra, pedunculo pos-
tice angusto, antrorsum ampliato, capite seu linea an-
tica juxta carinam transversam frontalem angulata, an-
gulo obtuso; vesicula interoculari transversa, subtota
nigra, macula anteriore utrimque ad extremum viridi;
triangulo occipitali minimo, flavo viridi.
Thorax laete viridis, fascia media ad carinam in
crista viridem, alia humerali, alia ad suturam, fuscis.
Abdomen viride, nigro maculatum ; (1) primo se-
gmento viridi, dorso gibboso, gibba transversa, pilosa,
fascia laterali fusca limitata; 2.º viridi, dorso fusco, co-
lore maculam pyriformem grandem anticam mediam
aliasque duas postillam minores triangulares claudente,
auriculis parvis; 3.º mediocriter angustato 3-6 carina
dorsali et triangulo basali et apicali viridibus, reliquum
fuscis ; 8.º, 9.º, 10.º subtotis fuscis, 10.° postice trun-
cato, infra marginem posticum lamina convexa rotun-
data nitente prominula ;
cercis in d (fig. 3 a, 5),
superioribus fuscis, longis,
segmentis 9-10 plane lon-
gioribus, basi mediocriter
angustatis, dein introrsum
usque ad tertium apicale
dilatatis; mox interne se-
ab micirculariter emarginatis,
d Remartinia barbiellina *Pice denrsum producto ;
Naw cerco inferiore triangulari
a. Extremo del abdomen visto por en- elongato, dimidiam supe-
cima; b. Ide ri 8 Te i : à
axilar: del ala postés 00 o piorum longitudinena! de
quante aut superante. Cerci in Q breves, obtusi.
(1) Por efecto de la desecacion no pu-de disticguirse bien
el color del fondo sino en los tres primeros segmontos; los
restantes parecen en gran parts nagros, con msnsha triangular
dorsal azul al principio y fin do cada segmento.
= 484 ee
Pedes nigri, femoribus basi rufescentibus, unguibus
ante medium dente armatis.
Alae membrana leviter fusco tincta, ad apicem et
ad venulas densius, reticulatione nigra, stigmate nigro,
angusto, longo, duas cellulas subjectas excedente. Sector
subnodalis sub initium stigmatis furcatus, furca duas
series cellularum continente, quinque cellulas subjectas
tegens. Trianguli discales mediocriter elongati, 3 ve-
nulis distincti (fig. 3, c). Triangulus axillaris longissi-
mus, vertice acuto, introssum recurvo, venula ante me-
dium in duas cellulas diviso, latere anteriore fere quin-
tam partem, longitudinis lateralium haud excedente.
Membranula infumata, in ala anteriore triangalaris con-
vexa, in posteriore concava, in 4 usque ad venulam
trianguli pertingens. Circinus axillaris 9 cellulis in d,
una centrali, 10 in 9, duabus centro clausis.
Venula costales ferme 18/13 in ala anteriore, 12/15
in posteriore.
Longit. corp. d' T1 mm. Q 78 mm.
» abd. 99 mm. O8 mm.
» al. post. 44 mm. 48 mm.
Patria: São Paulo, Marzo 19lu. Una pareja co-
gida in copula (Barbiellini.) En mi colecciôn.
Dedico esta especie à sua generoso dador, el snr.
Conde A. A. Barbielliui.
Zaragosa, Colegio del Salvador, Gulio de 1910.
As viagens de William John Barchell
POR
Dr. Hermann von Ihering
Em nossos trabalhos zoologicos deparamos de vez em
vez com especies de insectos, aves, etc. que foram colli-
gidas no Brazil por Burchell, e, tratando-se muitas vezes de
localidades pouco conhecidas ou cujas denominações tem
sido mudadas no correr dos annos, é conveniente conhecer-
se os dados exactos do itinerario deste excellente natura-
lista. Ao Snr. Dr. E. B. Pulton, da Universidade de
Oxford, devemos informações minuciosas sobre as ricas
collecções obtidas por Burchell no Brazil, a respeito
das quaes publicou algumas notas na Revista «Annals
& Magazine of Natural History». As partes até agora
publicadas são as seguintes :
The collection of William John Burchell D. €.
L. in the Hope-department, Oxford University Museum.
I. — Introduction by E. B. Pulton, Annals &
Magazine of Natural History, Ser. 7 vol. XII, London
1904, p. 45-56.
Il. — On a new Stridulating-organ in Scorpions,
discovered by W. J. Burchell in Brazil in 1828, by
R. J. Pocock, ibidem, p. 56-62.
Ill. — Rhipidocérides et Malacodermes, par J.
Bourgeois, ibidem p. 89-102.
IV. — On the Lepidoptera Rhopalocera, by Cora
B Sanders of Lady Margaret hall, Oxford, ibidem vol.
XIII, 1904, p. 305-323, Ithomiinae, e p. 353-371,
plate VI, Danainae, Saturninae, ibidem ser. 8 vol. I,
1908, p. 33-42; Morphinae, ibidem vol. II, 1908, p.
165-195, Nymphalidae by J. C. Moulton; ibidem, vol.
V, 1910, p. 822-346, Heliconiinae by E. G. Joseph.
Burchell era, na opiniäo do illustre naturalista Swin-
son, um dos melhores preparadores e dos mais capazes
— 485 —
investigadores de todos os tempos e paizes. Como Nat-
terer, proviu os objectos de sua collecçäo de minuciosas
observações sobre a localidade, data, etc, em que foram
obtidos; tres livros de notas de viagem completam as
informações.
Algumas de suas observações já foram ha muito
tempo communicadas por Darwin, Belt e Bates, como
por exemplo as que se referem às formigas de correi-
ção, às sauvas, e aos sons produzidos por algumas
borboletas, particularmente Ageronia feroma.
William John Burchell nasceu em 1782 sendo filho
primogenito de um jardineiro em Foulham. Teve uma
excellente educação, e no anno de 1805 foi nomeado pela
Companhia das Indias Orientaes para o cargo de Bo-
tanico para a ilha de Sta. Helena, onde permaneceu 5
annos, dirigindo-se depois ao Cabo da Bôa Esperança,
onde começou suas explorações africanas, que tornaram
conhecido seu nome, ligado, por exemplo a uma nova
especie de zebra, que fora por elle descoberta.
O pae de Burchell não quizera consentir no casamento
de William com uma sua visinha em Foulham, e julgou li-
quidado o assumpto com a viagem do filho a Sta. Helena.
Os dois jovens, entretanto, continuaram as suas ternas re-
lações e Burchell persuadiu a noiva que o fosse en-
contrar em Sta. Helena. A moça annuiu, mas du-
rante a viagem atou relações com o capitão do navio
e casou-se com elle. Esta desillusão exerceu grave e
funesta influencia sobre o espirito de Burchell, que
desde aquelle tempo se dedicou exclusivamente às suas
expedições a longinquos paizes. Depois da sua volta 4
Inglaterra em 1830 viveu elle retirado do mundo. em
Foulham, no meio das suas immensas collecções, guar-
dando-as com tal zelo e ciume, que não admittia que
nem amadores nem scientistas tomassem conhecimento
dellas e tão pouco publicou qualquer relatorio sobre as
mesmas. No anno de 1863, com oitenta annos, o infeliz
naturalista poz termo à sua vida, suicidando-se.
A secção mais valiosa das colleeções consistia em
um immenso herbario, que foi offerecido pela herdeira,
a irmã de Burchell, ao jardim Botanico de Kew. Entre
as collecgdes zoologicas reunidas no Brazil, Burchell
— 484 —
menciona 362 especies de aves e 16 a 20.000 exem-
plares de insectos.
As collecgdes zoologicas e os livros de notas de
viagem foram offerecidos à Universidade de Oxford,
onde se acham guardados no Hope-department.
Na primeira parte da prblicação acima mencionada
de E. B. Pulton são dadas informações exactas sobre a
viagem de Burchell e um mappa (Est. IT) com o iti-
nerario das excursões. No interesse dos nossos leitores
resumo aqui os factos principaes :
Burchell esteve de 18 de Julho de 1825 até 6
de Outubro do mesmo anno no Rio de Janeiro, fazendo
então atê 16 de Novembro uma excursão ao Estado de
Minas. A estadia no Rio de Janeiro, com as excursões
à Serra dos Orgãos etc. estendeu-se atê Setembro de
1826, quando se dirigiu a Santos, onde se demorou quasi
3 mezes. Em Dezembro de 1826 e Janeiro de 1827
colleccionou em Cubatão, seguindo depois para S. Paulo,
de onde fez excursões a Jundiahy e Capivary, seguindo
no mesmo anno pelo rio Mogy-mirim para o rio Grande.
A 3 de Novembro, vindo de Bagagem do Estado
de Minas, chegou a Catalão no Estado de Govaz, em
cuja capital se demorou 9 mezes. : Depois dirigiu-se para
Jaraguá e Meia Ponte, em Setembro de 1828. Outras
localidades desta região das cabeceiras do rio Tocantins,
onde teve amplo successo na caça de insectos, são :
Guarda-môr, Trahiras na margem do Rio Vendinha,
Calvacanti, “io Palma, Conceição, Chapada e Porto
Real, hoje Porto Nacional.
Neste ultimo lugar esteve de Novembro de 1828
até fins de Abril de 1829, seguindo então rio abaixo
até o Pará, onde ainda se demorou 8 mezes.
Até agora não era possivel saber 20 certo quaes
as localidades em que foram obtidos os objectos da col-
leccäo e este inconveniente se fez sentir muito incom-
modamente com relação às formigas, particularmente
as do genero Eciton. Duvidas desta ordem ja agora
não podem mais existir, visto como possuimos mi-
nuciosas informações sobre as localidades e os mezes e
dias de toda a viagem de Burchell.
S. Paulo, Outubro de 1910.
Devastação O CONSSrTaÇÃO Gas Halles
Conferencia do dr. Hermann von Ihering na Universidaie Popular
de Piracicaba
As plantas e os animaes na sua totalidade for-
mam o que se denomina o mundo organico, cujo estudo
compete à biologia. Esse mundo podemos comparal-o
a um mechanismo em que todos os seres se congre-
gam para funccionar com o auxilio uns dos outros, de
modo tão subtil e tão admiravel, que nada conhecemos
de mais perfeito. E’ claro que a um mechanismo tão
complicado rão se podem tirar quaesquer peças, como
não se póde tentar modifical-o profundamente sem con-
sequencias muito serias.
infelizmente, nesta materia, o homem não procede :
sempre com a necessaria prudencia. Nos paizes de civi-
lização adiantada já se tem feito muito : os Estados Unidos
da America do Norte, particularmente, Já possuem uma
larga legislação protectora da florae da fauna. A Ame-
rica Meridional, a este respeito, acha-se num lastimavel
atrazo. Para só falar do Brazil, faltam leis federaes de
caça, pesca, protecção das aves. Às revistas européas,
tratando da desapiedada matança de passaros, beija-
flores, garças e outras aves de plumas, indicam o Bra-
ml e o Perú entre os paizes que se acham em primeira
linha na exportação de plumas e passaros destinados a
enfeitar os chapéos das senhoras. Agora, com a orga-
nização do ministerio da Agricultura, é de esperar que
em breve o Brazil perca a posição pouco lisonjeira que
neste sentido occupa. Actualmente, no Brazil, perseguem-
se impunemente, durante todo o anno, não só os animaes
de caça, mas tambem os passarinhos. Uma grande parte
— 486 —
dos nossos rios já perdeu quasi todos os seus peixes,
mercê da pesca a dynamite; nas mattas, arrancam-se
milhares de orchideas e outras parasitas, que a preço
infimo são vendidas na Europa. Onde está a vigilancia
dos estadistas responsaveis por todos estes damnos que
o paiz assim soffre ? E, como cumulo de imprudencia,
o congresso federal decreta no orçamento do exercicio
de 1911 uma disposição em que concede un premio
ao maior exportador de madeiras de lei! Ao homem
que isto fizer não deve caber premio em dinheiro,
mas a cadêa. O Brazil, com um regimen florestal ra-
cional, poderá prover todo o mundo com as melhores
e mais bellas qualidades de madeira; mas o córte das
mattas sem replantação é a devastação insensata das
mattas restantes, e portanto um crime contra a riqueza
futura e contra o clima do paiz.
Aqui em S. Paulo já existem algumas leis muni-
cipaes de caça, mas por falta de fiscalização não são
observadas, e, como a caça em muitos municipios já não
existe, o que em outros paizes é um sport aqui dege-
nera em caçada de moleques, que com as suas «pica-
paus» entram nos terrenos particulares, fazendo heca-
tombes de tico-ticos, sabiás, sairas, anus e de todos os
passaros que lhes estejam ao alcance do chumbo. Deste
modo ficamos privados dos nossos melhores auxiliares
na perseguição dos insectos nocivos. As içás, que outrora
eram destruidas em grande parte pelos suiriris, tesouras,
bem-te-vis e outros passaros insectivoros, actualmente
podem multiplicar-se à vontade.
Todos comprehendem que de um relogio não se
pode retirar nenhuma peça sem interromper ou trans-
tornar o seu funccionamento ; mas do mechanismo, muito
mais complicado e subtil, da natureza viva julga-se
poder inutilizar em grande numero e impunemente os
componentes. Engano! As consequencias da impru-
dencia não deixam de se manifestar, mais cedo ou mais
tarde. Se do relogio removemos uma rodinha, o me-
canismo está immediatamente parado. Mas os prejuizos
causados pela devastação da natureza se fazem sentir
apenas aos netos e bisnetos da geração culpavel. Ne-
nhum desses prejuizos é mais serio que o da “derrubada
das mattas. E’ conhecida a grande influencia que as
—- 487 —
mattas exercem sobre o clima e, particulamente, nas pre-
cipitações atmosphericas. E' verdade que este ponto
ainda não está completamente esclarecido, mas os de-
talhes da investigação não nos importem por agora;
insistimos apenas na existencia de taes relações. In-
dubitaveis são antes de tudo as uteis funcções do solo
das mattas. E” nelle que se accumula uma quantidade
enorme de agua, a qual em parte é absorvida pela ve-
getação, que depois a restitue parcialmente à atmos-
phera, pela evaporação, emquanto que outra parte nutre
as fontes e as cabeceiras dos arroios. Aqui no Estado
de S. Paulo querem-nos convencer às vezes de que a
quantidade de agua das fontes é augmentada pelo corte
das mattas, mas esta opinião está em contradição com
a idéa geralmente admittida de que a destruição das
mattas de um paiz lhe diminue a quantidade de chuvas
e das aguas dos rios. O contraste entre as duas affir-
mações é, entretanto, apenas apparente. A fonte sup-
prida por uma coliina revestida de boa matta verterá
mais agua depois da derrubada, porque o solo, antes
defendido por luxuriosa vegetação, seccando, transmitte
à fonte, de uma vez, todo aquelle volume de agua
que outrora retinha como esponja. Este augmento,
porém, é transitorio; decorrido algum tempo, a
fonte se tornará mais fraca ou seccará completamente.
De nenhum modo se conseguem ensinamentos e
informações mais decisivas do que pela leitura dessas
grandiosas obras que se intitulam a Historia Natural e
Historia Universal. Já muitas nações desappareceram
do globo exclusivamente por causa da destruição das
mattas. Garantiam-lhes estas a regularidade das chuvas,
a salubridade do clima, o vantajoso resultado das plan-
tações. Destruidas, a fome bateu-lhes à porta; os rios
perderam a agua, para de repente transbordarem em ter-
riveis enchentes, e no solo arido as colheitas se tor-
naram fracas. Tal foi a sorte da Assyria, da Babylonia
e da Terra da Promissäo, onde manava <leite e mel».
Hoje tudo esta transformado nesses paizes, por causa
da devastação das mattas, em misero deserto, onde o
viajante que se atreve a percorrel-o é obrigado a trazer
comsigo cargueiros de agua.
Seria facil accumular os exemplos, mas não e nossa
— 488 —
intenção repetir o que já muitas vezes tem sido exposto.
Bem poucos são os paizes cuja área é provida de mattas
em proporção suficiente, e estes mesmo têm de soffrea
com as enchentes, causadas pela destruição das mattas
nas cabeceiras dos rios. Assim, a Allemanha tem as
terriveis enchentes dos rios Elba e Oder, a França tem as
inundações do Loire e Seine. Na America ninguem se lem-
brava da necessidade de seguir o exemplo das nações euro-
péas, até que a miseria ameaçou os Estados Unidos da
America do Norte, que com a sua costumada cnergia
puzeram mãos à obra, constituindo florestas do governo,
parques nacionaes, e creando uma legislação e adminis-
tração florestaes que promettem dar bons resultados.
Estes já poderiam ser optimos, se o trabalho não fosse
interrompido e muitas vezes aniquilado por formidaveis
incendios nas mattas. Em contraste singular com os
esforços heroicos dos norte-americanos, o Brasil conti-
nua, como em delirio, no seu suicidio economico.
Não faltam no Brasil pessoas e corporações scien-
tificas que se empenhem na propaganda em favor da
conservação das mattas, como os senhores drs. A. Silva
Telles, A. Loefgren e outros, em S. Paulo, as socieda-
des Nacional e Paulista de Agricultura, e, em Pira-
cicaba mesmo, os srs. H. Puttmans, Fernandes Silva
e Osorio de Sousa. Os estudos technico-scientificos mais
valicsos devemos ao dr. J. Huber, director do Museu
do Estado do Pará. A gloria da iniciativa pratica
tóca entre nós à (Companhia Paulista de Vias Ferrea
e Fluviaes, que em Jundiahy e Rio Claro começou
grandes plantações de eucalyptus com o fim especial de
obter dormentes. O exemplo dessa Companhia já esta
instigando à imitação, entre outros pontos, na fazenda
Monte Alegre, em Piracicaba. O primeiro passo de
propaganda pratica, no interesse do estudo e da conser-
vação das mattas, foi dado por mim com a fundação
da Estação Biologica no Alto da Serra. O estabeleci-
mento, situado a 20 minutos da estação do Alto da
Serra, consiste em varios edificios, entre os quaes 0
principal, circumdado por um largo alpendre, contêm
laboratorios, bibliotheca, collecções e dormitorios. O
inspector, cuja familia se encarrega da pensão, já abriu
bons caminhos pela matta e organizou plantações de
— 489 —
arvores, sementeiras etc. O estabelecimento, que ha
mais de um anno esta funccionando perfeitamente, foi
por mim offerecido no anno passado como presente ao
governo do Estado, para ser annexado ao Museu. (Como
até agora nada foi resolvido sobre o assumpo, as des-
pesas de custeio correm todas por minha conta.
Desde seculos a voz de illustres patrictas, no Brasil,
se tem levantado contra a devastação das mattas, desta-
cando-se entre elles a figura nobre e sympathica de
José Bonifacio de Andrada e Silva. Em geral, pode-se
dizer que a época colonial foi mais feliz e prudente do
que o imperio, reservando à corôa as melhores mattas,
particularmente no interesse da marinha.
Houve naquelle tempo altos funccionarios da côrte que
heroicamente resistiram à destruição, mas quasi sempre
succumbiam afinal, victimas da intriga dos interessados.
Em tempos do imperio nada se fez em favor das
riquezas naturaes do paiz, à excepção talvez da defesa
das mattas na zona das cabeceiras dos riachos, nos ar-
redores das principaes cidades. Durante a republica
estas condições peoraram muito, devido tambem ao cre-
scimento da população e à abertura de novas estradas
de ferro. Em vista da indifferença com que os gover-
nos dos Estados e da União assistem ao desperdício das
riquezas do paiz, cada nova estrada de ferro significa '
uma larga zona de devastação. Os trabalhadores di-
vertem-se caçando, mas fazendo exterminio ; derrubam
as mattas, pescam com dynamite nos rios. O que por
ventura lhes escapa é victima dos colonos e intrusos
que se estabelecem na vizinhança da estrada. Comeca
então o barbaro corte das roças, o fabrico de carvão,
a extracção de madeira para dormentes e lenha; e para
cumulo de desgraça, varias companhias de estradas de
ferro ainda empregam lenha como combustivel.
Deste modo são destruidas innumeras mattas mesmo
nas colonias do Estado de S. Paulo. Uma colonia à
qual faltem mattas não tardará a soffrer; de modo que
o interesse do governo exige que ellas, a9 menos em
parte, sejam conservadas nas colonias. Não ha, entre-
tanto, até agora, disposições legaes :a este respeito, e
assim acontece que na colonia de Nova (Odessa, men-
salmente, mil metros cubicos de lenha são vendidos 4
— 490 —
Companhia Paulista, pelo preço de 3g000 réis cada um.
Com tal preço a lastimavel devastação nem ao menos
corresponde a um lucro razoavel dos colonos. Quem é
mais prejudicado com tudo isto é o Estado, que já tem
caipiras em numero sufficiente para a terrivel destruição
e não precisa subvencionar uma immigração extran-
geira para que lhe venha acabar com as mattas restantes.
Infelizmente procede-se deste modo por toda a
parte no Brazil, mas toda esta destruição dos recursos
naturaes dá resultados tão pouco compensadores, que
nem ao menos redunda em lucro consideravel para os
proprietarios e trabalhadores.
Na Allemanha tira-se vantagem immensa das mattas,
e milhares de pessoas se entregam ao sport ou ao mister
da caça, tirando della mais resultado do que acontece
no immenso territorio do Brazil. Isto por lá acon-
tece ha milhares de annos, e entretanto as mattas se
renovam sempre numa eterna juventude e a caça não
diminue. O mesmo se dará no Brazil desde que por leis
sabias e bem fiscalizadas se ponha termo a essa inepta
destruição das riquezas naturaes.
De interesse especial foi para mim ter podido es-
tudar ba pouco a questão economica das mattas nas
republicas Argentina e do Paraguay. Com surpreza ve-
riquei que na Argentina, e particularmente na sua
grande capital, o problema do supprimento de combus-
tivel à população já não existe. Ao redor de Buenos
Aires ha terrenos baixos, expostos à inundação, e ilhas
em grande numero, não apropriadas à agricultura. Ap-
plicadas como estão à arboricultura, estas terras dão
regularmente forte rendimento aos proprietarios e for-
necem à cidade o que ella necessita de combustivel e
madeira branca de menor valor. Os salgueiros, que alli
de preferencia se plantam, permittem o corte cada cinco
annos e fornecem uma lenha apreciavel. Os troncos cor-
tados são substituidos pelos rebentos do mesmo pé. Os
alamos que se observam, em quantidade, ao lado delles
dão em onze annos troncos que fornecem taboas baratas
para o interior das casas, caixões, etc., sendo compa-
raveis neste sentido à nossa gumixava.
À madeira de lei de que as serrarias de Buenos Aires
necessitam lhes vem do Brazil e do Paraguay. Deste
— 491 —
modo pode-se dizer que na devastaçäo das florestas bra-
zileiras não tomam parte apenas os brazileiros, mas
tambem os argentinos. Claro está que, organizada uma
cultura racional de florestas, o Brazil poderá exportar
madeira em grande escala; o que é condemnavel é o
corta sem o necessario replantio.
São innumeros os protestos sob os quaes as com-
panhias ricas obtem autorização para a devastação das
nossas mattas. Uma companhia franceza, allegando que-
rer colonizar parte do Estado de Espirito Santo, foi
auctorizada pelo governo daquelle Estado a derrubar
mattas numa enorme área, e, ultimamente, capitalistas
americanos empenham-se para obter concessões analogas.
A companhia de madeira com sède em Buenos Aires
obteve do governo daquelle Estado uma primeira cessão
de 100 leguas de terras de mattas, e consta que já
possue mais agora. Merece sympathias essa companhia
bem organizada, porque estabeleceu para sua adminis-
tração a regra de plantar 5 mudas de cedro por cada
arvore cortada.
Nem por isso entendo que os Estados não devam
ter autorização para vender parcellas enormes do ter-
ritorio nacional às grandes companhias extrangeiras ou
nacionaes. Compete ao governo e ao congresso federal
estabelecer as normas para a verda das terras devolutas,
para a fiscalização das condições e sobre o praso em que
tal alienação fôr feita.
Uma outra medida, sem a qual não poderemos sair
da actual situação, é a revisão das leis de terras. Pa-
rece-me necessario que a legislação sobre este assumpto
seja harmonica nos diversos Estados. A lei de terras
do Estado de S. Paulo, não obstante as varias modi-
ficações pelas quaes tem passado, é tão cheia de gra-
ves defeitos que uma revisão radical se recommenda.
Nessa revisão, antes de tudo devem ser aproveitadas as
experiencias das commissões de discriminação de terras.
Os preços de terras de mattas estabelecidos por
aquella lei são infimos, e não convém que o Estado se
desfaça sem necessidade de valiosa propriedade a um
preço que corresponde a 15-20 por cento do valor real.
Este procedimento sô tem por effeito attrair o
machado do lenhador, favorecer a especulação e empo-
— 492 —
brecer o Estado. Preços baratos por boas terras são
aconselhaveis como meio de attração para regiões par-
camente povoadas, mas nocivos em zonas de população
regular, onde as florestas já são por demais dizimadas.
A lacuna mais sensivel da lei de terras é a falta ab-
soluta de garantias para a propriedade estadual. No
papel, a lei determina a criminalidade do intruso que
em terras devolutas procede à derrubada das mattas,
mas na realidade não ha absolutamente fiscalização al-
guma. Nessas condições, acontece que nos districtos de
Cubatão e Alto da Serra, ao mesmo tempo que a com-
missão de discriminação de terras procedia ao registo
das propriedades do Estado, nas mesmas terras lenha-
dores e intrusos iam fazendo roças e vendendo ma-
deira. Pela propria qualidade do sólo as terras do Alto
da Serra e do Campo Grande não se prestam à agri-
cultura. A terra vegetal não tem, em geral, espessura
maior de um palmo e o subsólo é um saibro branco
impermeavel, no qual não penetram nem a agua, nem
as raizes das plantas cultivadas, ainda que sejam arvores.
Num sitio que comprei naquella região se acha uma
immensa roda de madeira que o antigo proprietario
tinha construido para socar milho. A roda funccio-
nava bem, mas o milho alcançava apenas um metro
de altura e não dava espigas. E” um dever civico do
governo prohibir a destruição de mattas em terras desta
ordem.
Outro defeito da lei de terras é o modo pelo qual
facilita enganos e ladroeiras. Sem exame algum da va-
lidade dos titulos, o tabellião legaliza a transacção, que
o Estado sancciona cobrando gorda siza. Ha pouco, tendo
tido occasião de conversar com um dos tabelliães desta
cidade sobre tal assumpto, disse-me elle que por sua
parte não tinha obrigeção nem possibilidade de exami-
nar os titulos. «Se o senhor quizer, eu lhe faço a trans-
acção da venda do palacio do governo, mas a respon-
sabilidade é toda sua !»
Lembro-me de um caso em que um amigo meu,
aliás desembargador, foi victima de uma esperteza que
elle proprio me contou; tendo adquirido um terreno na
avenida Paulista, verificou depois que a pessoa com
quem fizera o negocio não era o verdadeiro proprieta-
— 493 —
rio. O mesmo se deu com um valioso terreno na vizi-
nhança immediata do Museu. A culpa de acontecimentos
desta ordem cabe à lei de terras, que parece ser feita
entre os deputados, no congresso, sem o concurso dos
competentes auxiliares technicos da Secretaria da Agri-
cultura.
Aproveitei a minha viagem pelo interior da Ar-
gentina e do Paraguay para verificar como naquelles
paizes se procede perante as difficuldades que aqui causam
tanta confusão. Admirado, notei que por lá não havia
dificuldade alguma a este respeito. Isto por um simples
motivo: a existencia de um imposto territorial. Basta
introduzir entre nós este imposto e estabelecer que as
terras pelas quaes durante dez annos não for pago o
respectivo imposto passarão a ser considerades devolu-
tas, e o trabalho das commissões de discriminação será
immensamente facilitado. Dizem que a isto se oppora
o proprio interesse dos legisladores, mas não posso
acredital-o, visto que as condições geraes nos outros
paizes da America meridional não são tão differentes,
que seja impossivel alcançar aqui o mesmo progresso
sob cuja benefica influencia prosperam as republicas
platinas.
Seria grande engano suppôr que os tristes aspectos
da devastação das riquezas naturaes. representem um
capitulo especial da cultura intellectual e moral do Bra-
zil. O homem por toda a parte é o mesmo, e a ganancia
individual visa o lucro immediato, pouco se importando
com as consequencias que acarreta ds gerações vindou-
ras. E' dever do governo oppor se à gananciae ao mau
procedimento dos individuos e defender os interesses
geraes. Em materia alguma a attitude firme do Estado
é mais necessaria do que na defesa nas mattas. Neste
sentido entre nós tudo ainda está por fazer, e antes de
tudo é mister ensinar ao povo que ninguem se póde julgar
autorizado a ter para como o governo outra moral que
aquelle que rege suas relações com os particulares. Ainda
ha pouco o secretario da agricultura do Rio Grande do
Sul, no seu relatorio, queixou-se dos estragos feitos por
intrusos nos hervaes do Estado, reconhecendo que será
dificil acostumar a população rural a respeitar a pro-
priedade publica. Isto, naturalmente, não será possivel
— 494 —
sem guardas em numero sufficiente, mas estes mesmos
guardas pôdem trabalhar na construcçäo de caminhos
e em serviços de silvicultura, segundo o exemplo que
já dei nos terrenos da Estação Biologica. Não faltará
quem proteste contra taes constricções da liberdade
pessoal, mas sem estes meios não ha silvicultura. Demais,
isso de liberdade pessoal, em que tanto se fala, nem
sempre tem cabimento. O homem que é membro da
civilização moderna depende, com relação ao seu corpo,
da hygiene publica, e quanto à sua vida intellectual
regem-no as leis do ensino. Mais tarde a patria o re-
clama para o serviço militar, a sociedade exige as suas
funcções politicas, juridicas etc. Que haja mais uma
restricção que o impeça, aqui como em outros paizes,
de derrubar mattas, embora se trate de sua propriedade,
sem previa licença especial das autoridades.
São tres os problemas essenciaes de que se compõe
a questão da conservação das mattas, a saber: o for-
necimento de lenha ou combustivel, a extracção de ma-
deira de lei e outros productos, e a defesa dos manan-
ciaes dos rios e ribeiros, no interesse do clima e do
abastecimento de agua. Quanto à «lenha», os maiores
consumidores são as estradas de ferro, engenhos cen-
traes e outros estabelecimentos industriaes. Compete
aos legisladores obrigar essas companhias à planta-
ção de arvores que lhes forneçam o necessario com-
bustivel. |
Como já expliquei, ha no clima do Brasil muito
maior facilidade para o crescimento das arvores do que
na Europa. Aqui, para a producção de boa madeira,
basta a metade ou a terça parte do tempc que arvores
de qualidades correspondentes necessitam na Europa.
Ha muitas arvores no Brazil que em um a dois decen-
nios estão nas condições de ser beneficiadas, a não
falar dos eucalyptos, cuja precocidade é extraordinaria.
De plantações de pinheiros do Brazil, Araucaria bra-
siliensis, obtem-se madeira para construcções com 20
annos e blócos de taboada, com 30 annos. Entre as
arvores europeas não se conhece cyclo de evolução de
menos de 50-66 annos, e as essencias mais valiosas,
como o carvalho, precisam, para tal periodo, de 160 a
200 annos.
— 495 —
Com relação ao plantio de arvores de boa quali-
dade, denominadas «madeiras de lei», pouco tenho que
dizer; faltam a este respeito os necessarios ensaios, que
competem a estabelecimentos de silvicultura, como o
horto da Secretaria da Agricultura e a Estação Biolo-
gica do Alto da Serra.
A defesa das mattas das cabeceiras dos rios e ar-
roios competirá à legislação federal e estadual. Devem
ser discriminadas extensas areas de mattas, cuja con-
servação é exigida no interesse do clima.
Seria desejavel que a legislação favorecesse a ini-
ciativa das camaras municipaes e tambem de compa-
nhias e particulares, que, mediante compromisso, se
obrigassem a respeitar à risca as disposições da lei.
Um dos primeiros passos a dar, para O inicio da flo-
resticultura official, seria a criação de diversos insti-
tutos de silvicultura. À estes compete estudar as con-
dições de crescimento das arvores, seu plantio e tra-
to, obtenção de sementes, e o estudo e tratamento
das doenças vegetaes e dos damnos de toda a especie
a que taes arvores estão expostas. Claro é que para
tal fim seria conveniente aproveitar os serviços de es-
pecialistas estrangeiros, formados em escolas de silvi-
culiura; mas estes profissionaes não terão de applicar |
apenas os methodos europeus, porém sim adaptal-os às
condições especiaes do paiz. Antes de tudo é preciso
conservar o caracter mixto e variado das mattas bra-
sileiras e limitar a plantação de florestas uniformes de
eucalyptus, pinheiros, etc., a poucas essencias florestaes,
particularmente as que servem de combustivel. Só de-
pois de iniciado o serviço poder-se-á pensar em fundar
escolas de silvicultura, que, logicamente, não represen-
tam o primeiro mas o ultimo passo na realização de
todo o serviço nacional e estadual de silvicultura.
Parece-me opportuno discutir aqui a questão das
riquezas naturaes do Brazil, das quaes tanto se fala.
Com relação aos seus recursos naturaes, o Brazil
divide-se em tres regiões differentes : a Amazonia, o
Littoral e o Sertão interior. As immensas planicies al-
luviaes do Amazonas e de seus afluentes são pela maior
parte cobertas por espessas mattas, que, além da bor-
racha, não fornecem nenhum outro producto de grande
FA
— 496 —
extracção. Na hypothese de que a já annunciada pro-
ducçäo da borracha por meio de synthese alcance im-
portancia pratica, ou no caso de que o preço da borracha
obtida nas fazendas da India exclua a concorrencia da
borracha brasileira no mercado mundial, a producção e
exportação dos Estados do Pará e Amazonas ficarão
reduzidas a uma quantia minima. Todo o processo de
producção de borracha e cauchú no Brazil é irracio-
nal; ha falta de braços, e os trabalhadores que lá estão
soffrem miseria economica e physica, por causa da
nutr.ção insufficiente. Além disto, as margens dos rios
são muito expostas a febres e outras doenças, de modo
que a Amazonia é inferior, em salubridade e producção,
à maior parte das outras regiões do mundo. A Ama-
zonia não póde ser, pois, considerada como região de
alto valor, mas representa uma reserva para o futuro,
de valor incalculavel. Será tarefa da sciencia tornar habi-
tavel e productiva tão extensa e exhuberante região.
Em peor condição ainda se acha o sertão que, por
falta de agua, em grande extensão, é inhabitavel e mesmo
pouco se presta para a criação de gado. A legua qua-
drada, que na maior parte do Matto Grosso supporta
apenas 900 rezes, no Rio Grande do Sul nutre 3.000
cabeças e na Argentina mais ainda. E” natural que,
nestas condições, o preço da terra seja baixo no sertão
e em Goyaz seja possivel adquirir uma legua quadrada
por 300 ou 400 mil réis. Nem mesmo com a cons-
trucção de estradas de ferro tudo isto será alterado,
visto que a causa do atrazo é a falta deagua. Na es-
trada de ferro de Bahia a Joazeiro, ha estações a que
todos os dias o trem fornece agua; basta dizer que em
Joazeiro a quantidade total da chuva annual é apenas
de 11 centimetros. Infelizmente a zona das seccas esta se
estendendo cada vez mais, como um monumento escandalo-
so da inepcia dos governos e estadistas do seculo passado,
que não souberam pôr termo às derrubadas prejudiciaes e
tratar de augmentar as florestas. Actualmente o minis-
terio da agricultura encarrega-se de debellar o mal.
Trabalhos de engenharia e plantações de florestas
virão melhorar pouco a pouco a situação, mas em todo
caso o sertão do Brasil é uma das partes do globo
menos favorecidas pela natureza.
“is
Me
— 497 —
Resta a zona littoral, desde Pernambuco até o Rio
Grande do Sul, ricamente dotada com todos os recursos
de clima, solo, vegetação e fauna. Mas em especial é
esta região que até hoje mais tem soffrido pela devas-
tação illimitada e insensata, por ser a zona mais densa-
mente povoada.
Indaguemos agora qual a proporção das terras
do Brazil que são cobertas de mattas, em com-
paração com as de campos. Na Europa questões desta
ordem se resolvem facilmente, graças aos muitos estu-
dos realizados; com relação ao Brazil faltavam as ne-
cessarias investigações até que no volume VII da «Re-
vista do Museu» publiquei um artigo a respeito, acom-
panhado de um mappa. Nos ultimos annos fiz muitas
emendas áquelle mappa e cheguei ao resultado de que
todo o Brasil tem 41 por cento de terras de matta,
proporção esta que sobe a 74 por cento tendo-se em
conta unicamente a Amazonia e importa em 26 por
cento para o Estado de São Paulo. Esta ultima per
centagem corresponde à da Allemanha. Se bem que
esta proporção ainda seja vantajosa, não pode haver
duvida que nos ultimos trinta annos as mattas do Es-
tado de São Paulo foram immensamente reduzidas, que
a quantidade de chuva diminuiu e que muitas fontes e
ribeirões secaram completamente. A situação exige pro-
videncias serias por parte do poder legislativc e do go-
verno. São Paulo é dos Estados mais favorecidos pela
natureza, mas assim mesmo as viagens ao interior nos
conduzem por extensas zonas em que os terrenos tem
pouco valor, campos sem lavoura e sem gado, sape-
zaes e samambaiaes que substituem as ricas mattas de
outrora e onde já houve roças e cafezaes.
Todos estes terrenos podem ser grandemente va-
lorizados pela silvicultura, e estou convencido de que em
menos de cem annos o Estado de S. Paulo tirará tanto
lucro da silvicultura como hoje do cafe.
Basta dizer que, na Allemanha, uma população maior
que a de todo o Estado de São Paulo deve seu sustento
à cultura das mattas e às industrias relacionadas com a
mesma.
E até sobre os trabalhadores nacionaes esta trans-
formação terá influencia benefica. O caipira, hoje um
— 498 —
elemento prejudicial às mattas, com pouca disposição
para prestar serviços regulares na lavoura do café, de-
dicar-se-à com gosto ao serviço florestal e ao transporte
de seus productos.
Afim de facilitar a comprehensão das idéas e expe-
riencias aqui expostas, elaborei o seguinte programma
para.a organisação do respectivo serviço :
PROGRAMMA PARA A ORGANIZAÇÃO DO SERVIÇO FLORESTAL
No BRAZIL
1.º — Para essa organização faltam ainda as necessa-
rias experiencias e não se pode esperar conseguil-as
sem o auxilio de especialistas estrangeiros. E’ pre-
ciso que estes ultimos não se limitem a applicar
sómente os conhecimentos adquiridos por elles no
seu paiz, mas que cooperem intelligentemente para
criar a base de um serviço novo, de conformidade
com as condições especiaes do clima, da flora e do
caracter mixto das mattas.
2.0 — O ministerio da agricultura deverá entrar em ac-
côrdo com os Estados da União, pedindo a lista
das mattas estaduaes destinadas a serem conser-
vadas e informações sobre as medidas que garantam
a sua fiscalização; promover tambem o mais pos- |
sivel o augmento das mattas federaes ou estaduaes.
3.º — Não sendo possivel a conservação de mattas sem
leis que restrinjam a liberdade pessoal com rela-
ção às derrubadas, o ministerio estudará as condi-
ções de tal legislação e favorecerá o mais pos-
sivel a constituição de mattas municipaes e parti-
culares, sempre sujeitas às respectivas leis federaes
e estaduaes.
4º — Os governos da União e dos Estados terão de
organizar institutos de silvicultura com o fim de
adquirirem os conhecimentos scientificos e praticos
que ainda nos faltam e no intuito especial de au-
xiliarem a plantação de mudas de varias essencias
de madeira de lei.
9.9 — Nas mattas destinadas a fornecer lenhas e dor-
mentes podem ser plantadas quaesquer especies de
arvores, mas os estabelecimentos officiaes deverão
— 499 —
empenhar-se por conservar a rica e celebre flora
do Brazil, inclusivè as qualidades de arvores de
crescimento lento.
6.º — Manter-se-ão em cada Estado reservas florestaes,
nas quaes será prohibida a caça e retirada de ma-
deira e plantas. Estas mattas, uma vez criadas,
serão mantidas para sempre como verdadeiros san-
tuarios da flora nacional.
7.0 — E necessario garantir a preservação das mattas
da Serra do Mar, bem como nas cabeceiras dos
principaes rios e arroios.
8.º — Deverão ser prohibidas as derrubadas em ter-
renos com mais de 80 gráus de declividade.
9.º — HK’ preciso acabar com o abuso dos intrusos. Os
colonos nacionaes receberão o seu lote de terra
como os immigrantes, mas em lugares que lhes
forem assignalados pelo governo e não segundo
sua livre escolha.
10. — Uma medida indispensavel para o progresso é
a decretação de um imposto territorial, revertendo
à nação todas as terras pelas quaes não tenha sido
pago o imposto, no correr de dez annos.
11. — E' preciso que a nova legislação impeça aos
Estados da Republica a venda de terrenos de
mais de duas leguas quadradas a companhias nacio-
naes ou extrangeiras e que por meio de impostos
e outras medidas legaes faça com que as vendas
já realizadas, que excedem as dimensões indica-
das, sejam legalizadas de conformidade com os in-
teresses das ditas companhias, marcando-se para a
concessão um prazo maximo de 60 até YO annos
e exigindo-se dellas a subinissão à legislação flores-
tal do paiz.
12. — Os governos federal e estaduaes fomentarão
quanto lhes fôr possivel a plantação de arvores de
crescimento rapido para o abastecimento das cida-
des como combustivel.
13. -— As companhias de estradas de ferro poderão con-
tinuar a queimar lenha nas machinas, com a condição
de que seja proveniente de mattas de sua propria
cultura e que impeçam os incendios ao longo das li-
nhas, por cujos prejuizos sempre serão responsaveis.
w
— 500 —
14. — Os donos ou concessionarios das mattas, que as
explorem com o fim de extrair tannino e outros
productos chimicos, deverão ser obrigados a re-
plantar a floresta à medida que as explorarem.
15. — Aos particulares que pretenderem dedicar-se 4
silvicultura, em terrenos de campo, poderão ser
cedidos gratuitamente os necessarios terrenos, me-
diante contrato pelo qual fique garantida a since-
ceridade de suas intenções.
16. — Uma vez que o serviço florestal estiver bem en-
caminhado, os governos federal e estaduaes deve-
rão criar escolas especiaes de silvicultura, que tenham
por fim preparar o pessoal administrativo e tech-
nico, ao qual deve ser entregue a fiscalização e a
cultura das mattas.
23 de Dezembro de 1910.
BIBIIOGRAPHTA
1908 - 1910
ANTROPOLOGIA E ZOOLOGIA DO BRAZIL
POR
RODOLPHO von IHERING
A. Periodicos
Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de
Historia Natural e Ethnographia. Tomo V, fase. 1 e 2
1997-08), Pará, 1909.
Este tomo dos boletins comprehende dous fasci-
culos, um com o relatorio administrativo referente a 1903,
outro a 1904.
A parte scientifica contêm varios artigos ornitho-
logicos da Dra. E. Snethlage; o que diz respeito à col-
lecção do rio Purús já foi publicado numa revista or-
nithclogica allemã (veja-se adiante nesta bibliographia)
e tambem as «Novas especies de Aves amazonicas» já
tiveram publicidade no Ornithol. Monatsberichte de
Reichnow, 1907, X e XII. O Dr. E. A. Goeldi propõe
um novo genero Microtrogon para Trogon ramonea-
nus; quanto à questão Galbacyrhynchus leucotis m-
notatus Ihering (8 V., 905) ou G. purusianus Güldi
(25 V., 905) veja-se a bibliographia do Vol. VII desta
Revista, pag. 502.
— 502 —
O Sr. A. Ducke dá valiosas contribuições ao co-
nhecimento das vespas sociaes do Brazil em que faz a
revisão das especies quanto à sua posição generica e
organiza novas chaves de classificação. Tres estampas
mostram varios ninhos, entre os quaes seguramente o
mais interessante é o de Megacanthopus punctatus ! que
em sua forma extremamente alongada muito se assemelha
aum galho secco e em que as cellulas mais novas são
fixadas lateralmente 4 margem inferior das cellulas mais
velhas; ultrapassa, portanto, ainda, a exquisitice do
ninho de Polistes goeldu.
O Dr. J. Huber traduz o seu estudo já publicado
em allemão, sobre a origem das colonias de saúva (Atta
sexdens) e ao qual já se refere a nossa bibliographia
do Vol. VII p. 520. Seria imperdoavel a omissão das
boas figuras da publicação allemã, si o auctor não nos
prometesse voltar ao assumpto em memoria completa,
acompanhada de estampas.
Dos apreciaveis trabalhos botanicos do Dr. Huber
o presente volume encerra varios sobre seringueiras
(Hevea), descripções de especies novas do genero Vetex
e uma 7.º contribuição para a serie «Materiaes para a
Flora amazonica»; a extensa enumeração de plantas si-
phonogamas baseia-se em materiaes colligidos de 1902
a 1907 pelo Sr. A. Ducke na Guyana. Muitas das es-
pecies são novas, todas estudadas pelo proprio auctor,
com excepção apenas das novas Piperaceas e Melia-
ceas determinadas pelo Dr. C. de Candolle.
Varios botanicos extrangeiros collaboraram no vo-
lume com escriptes sobre a sua especialidade, taes como
A. Gogniaux (Melastom. e Cucurbit.) A. Zahlbruckner
(Lichenes) P. Dietel (Uredinaceae), P. Hernnings (Fungi)
estudando a flora amazonica.
Idem, Tomo VI, 1909,Pará 1910.
A unica contribuição zoologica neste volume é o
pequeno artigo da Dra. E. Snethlage sobre a distribui-
ção da Avifauna campestre na Amazonia em que a au-
ctora procura explicar os factos observados a este res-
peito de accordo com as condições geobotanicas da re-
gião. No mais são estudos botanicos do director do Mu-
seu, Dr. J. Huber, descrevendo especies amazonicas no-
vas, e principalmente um magistral artigo sobre «mat-
— 505 —
tas e madeiras amazonicas», em que o auctor primeiro
estuda as mattas sob diversos pontus de vista, taes como
a sua composição nos varios terrenos, o crescimento e
edade das arvores, a discriminação das sementes assi-
gnalando a grande importancia dos morcegos e roedo-
res, como as cutias, neste trabalho e finalmente algu-
mas paginas de critica 4 influencia destruidora do ho-
mem que devasta a matta e não replanta as boas es-
sencias, quando «raro acontece que no logar de uma
arvore de valor derrubada nasce outra da mesma especie;
o que toma o seu lugar, pelo contrario são essencias de
nenhum valor economico». A segunda parte do estudo
trata das nossas madeiras. O auctor calcula em talvez
20.0.0 o numero das especies de plantas vasculares da
Amazonia e 10.000 as plantas lignosas; destas talvez só
2.900 sejam arborescentes e Pará terá dellas cerca
de 1.000 especies (mais que o duplo da riqueza cor-
respondente dos Estados Unidos). O auctor reuniu
uma lista de perto de 500 nomes vulgares de arvores
paraenses e presume que botanicamente isto corresponda
à realidade; mas no commercio só se encontram umas
40 qualidades de madeira. Depois de estudar ampla-
mente essa riqueza florestal, dá uma utilissima lista al-
phabetica das madeiras paraenses que indica o nome
vulgar, o scientifico e a familia respectiva. Em appen-
dice prevê o futuro da exploração das florestas amazo-
nicas e insiste sobre a necessidade de culturas e reser-
vas florestaes ; mostra a conveniencia de se ligarem estes
serviços aos do seu Museu—emfim, mudando os nomes
e adoptado às suas circumstancias é o mesmo esforço
que aqui no Sul empregou o Dr. H.v. Ihering, que para
tal fim creou a sua Estação Biologica do Cajurt, Alto
da Serra.
Memorias do Instituto Oswaldo Cruz, Mangui-
nhos, Rio de Janeiro, tomo I, fasc. 1 e 2; tomo Il,
fasc. 1 e 2, 1909-1910.
E” a primeira vez que nesta Bibliographia resumi-
mos os trabalhos que aqui nos interessam, publicados
em orgão official do grandioso Instituto de Manguinhos.
Dispensamo-nos de dizer o que seja um instituto diri-
gido pelo illustre dr. Oswaldo Cruz, pois todos que se
interessam pelos trabalhos scientificos realizados no Bra-
— 504 —
zil sabem que é lá que se encontra não só tudo o que:
seja necessario para bem trabalhar, mas ainda, uma
pleiade de scientistas, especialistas, que todos trabalham
com affan na investigação dos problemas a cuja solu-
ção consagram os seus dias.
Entre os muitos estudos publicados nos fasci-
culos presentes, só nos interessam aqui os que se: ligam
directamente à zoologia; escapam ao nosso programma
os de assumpto medico e mesmo os de protozoologia,
sciencia esta que o proprio v. Prowazek quer ver des-
ligada, como ramo especial da biologia. São os se-
guintes os estudos que dizem respeito aos nossos me-
tazoarios :
Tomo I, fase. 1° Drs. A. Lutz e A. Neiva, uma
nova especie de mutuca Hrephopsis auricincia (Pan-
- goninae) ; ;
dos mesmos auctores uma contribuição para a estudo
das mutucas, Tabanidas, em que são communicadas
varias listas de especies recebidas de diversas localida-
des do Brazil e a proposito das quaes são commentadas
algumas questões de distribuição geographica ;
Dr. ». Neiva estuda varias questões da ecologia
das Anophelinas brazileiras, que dizem respeito à fre-
quencia destes mosquitos e às horas em que sugam de
preferencia, factos dos quaes podem tirar-se conclusões
que sirvam para orientação nas campanhas prophilacti-
cas. Um mappa do Brazil mostra a distribuição conhe-
cida das especies que provadamente são transmissoras
do impaludismo (Cyclolepteron 2 esp., Celha 2 esp.
Arribalzagara 1 esp.), de mais & outras, transmissoras.
provaveis, etc.
Tomo I, fasc. 2: Dr. Ad. Lutz estuda as especies
brazileiras do genero Simulium, «borrachudos» ou.
«piúm». Todas estas 13 especies pertencem ao subge-
nero Æusimulium, e o auctor reune os caracteres dis-
tinctivos em uma chave de classificação. Muito interes-
santes são os dados biologicos verificados pelo auctor;
as larvas desenvolvem-se só na agua corrente de cor-
regos com bastante quéda, na agua não agitada as larvas
morrem em poucas horas.
Dr. Gomes de Faria descreve uma nova especie
de Echinostomum, parasita do intestino delgado do anti
— 505 —
azul (Crotophaga maior) e ao qual deu o nome de
Ech. crotophagae.
Tomo II, fase. 1.º O Dr. Gomes de Faria conti-
nua seus estudos helminthologicos, descrevendo Dicro-
coelium infidum, nova especie de Distomo parasita da
vesicula biliar da Sucury (Bunectes murina; & raro
serem as especies deste genero parasita de animaes
homeothermos.
O Dr. A. Lutz, em Notas dipterologicas, ventila varias
questões referentes à mutuca Dialomeneura longipennis
e às Sarcophaga, das quaes o auctor conhece perto de
17 especies de S. Paulo.
Tomo Il, fasc. 2.º Alem de varios estudos de
protozoologia da lavra dos srs. drs. S. von Prowazek,
M. Hartmam e C. Chagas, ha um interessante estudo
biologico do dr. A. Neiva sobre o famoso «barbeiro»,
o hemiptero transmissor da terrivel trypanosomiiase
descoberta por G. Chagas. O auctor estudou cuidadosa-
mente todas as particularidades do modo de viver do
Lamus megistus (Neiva prefere conservar o nome ge-
nerico Conorhinus, quando, segundo verificamos, o ca-
racter de Stal, da posicão das antennas com relação aces
olhos offerece distinctivo facil das especies maiores
Lamus, das vinte e tantas outras especies Conorhinus); -
mostra que si hoje elle é insecto domiciliario, ainda
conserva os seus habitos primitivos de habitante das
mattas, tanto que na gaiola põe os seus ovos aglutina-
dos sobre as folhas como é de regra nesta familia e
portanto trata-se de uma adaptação recente.
O dr. Ad. Lutz publica uma segunda contribuição
para o conhecimento das especies brazileiras de Simuliwna,
Além de interessantes notas biologicas, o artigo trata
de 20 especies do genero, muitas das quaes são novas.
Não nos agrada o procedimento do auctor descre-
verdo com rome especifico novo varias formas pupaes
das quaes: entretanto ainda não conhece o imago. Pelas,
regras internacionaes de nomenclatura estes nomes tem
perfeito valor systematico ; mas felizmente em entomo-
logia o processo ainda não se generaliza, a ponto de
podermos, com egual direito, descrever a lagarta de
uma borboleta desconhecida, deixando a outros inves-
tigadores o trabalho da identificaçäo.
— 506 —
O dr. Gomes de Faria continüa os seus trabalhos
sobre helminthologia brazileira, descrevendo o Ancylos-
tomum braziliense, nova especie de parasita do intes-
tino delgado de cães e gatos domesticos.
Archivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro, Vol.
XIV, 1907, 238 pags., XXV Estampas. zd Vol. XV,
1909, 256 pags. e numerosas estampas.
O primeiro destes volumes, além de um escripto
do dr. J. B. de Lacerda sobre o microbio da febre
amarella (« À invisibilidade do microbio da febre amarella
é simplesmente o fructo de uma illusão … ») e de um
artigo sobre o « Porquinho da India e a theoria genealo-
gica » de A. Miranda Ribeiro (fc. Bibliogr. Rev. VII.
p. 900) contem mais tres artigos deste ultimo autor.
Dous dos mesmos tratam dos Peixes da Fauna Brazi-
leira, sendo que a primeira parte comprehende as no-
ções geraes de morphologia, physiologia e taxonomia,
provida de bons desenhos explicativos e a segunda parte
(Desmobranchios) faz o estudo systematico dos tuba-
rões e das raias conhecidas do Brazil; são ao todo 50
especies, 19 do primeiro grupo, 31 do segundo. Boas
photographias em numero de 20 estampas illustram um
grande numero de especies. Resta-nos fazer votos para
que o autor chegue a concluir o grande trabalho, uti-
lissimo por ser bem feito e preencher uma lacuna da
nossa literatura.
Em um outro artigo, sobre « Alguns dipteros in-
teressantes », o mesmo snr. À. M. Ribeiro estuda mais
algumas moscas parasitas de morcegos, em continuação
a seus estudos que já registramos aqui (Vol. VI, p.
645).
O vol. XV abre com um longo estudo do dr.
J. B. de Lacerda, sobre varias plantas venenosas,
cuja introducção lhe dá ensejo salientar factos de
outra ordem e sustentar varias doutrinas. Longo é o
capitulo sobre o curare, mas lastimamos que ahi o
autor tambem se propuzesse dizer mais do que apontar
simplesmente os erros em que a este proposito cahiu
o eminente botanico, ao qual o nosso presente volume
dedicou paginas de sincera homenagen: J. Barbosa
Rodrigues. Assim à pag. 78 podia omittir as referen-
clas às « expressões pittorescas » dc seu defunto con-
— 507 —
tendor, mormente quando a pag. 122 do seu proprio
trabalho o critico surge em perfeita parallela com um
« pôtro esporado ».
São mais da lavra do director do Museu Nacio-
nal: Estudos sobre a causa do Béribéri e sobre o
microbio da febre amarella. Neste ultimo trabalho o
autor demonstra o seu processo (certamente original),
por meio do qual conseguiu ampliar as heliotypas de
Sternberg, que representam sangue de um doente de febre
amarella com 1.450 diam.: applicando-lhes a machi-
na-photographica, conseguiu dar-lhes um augmento que
attinge 4.800 diam.
Mas seria necessario, antes de tudo trabalhar com
gelatinas e principalmente papeis idealmente homogeneos
e lisos, para evitar que umirreverente granulo destes
não nos appareça como parte integrante do preparado.
Alipio Miranda Ribeiro continúa sua monographia
sobre os peixes, descrevendo o nosso unico Spirophoro,
Lepidosiren paradoxa, «Pira-mboia».
J. Sampaio descreve uma nova especie de Orchi-
dea, Restrepra duseni.
Ricardo Krone publica um estudo sobre as ca-
vernas do valle do Rio Ribeira, assumpto sobre o qual
o mesmo auctor já escreveu nesta Revista (Vol. HI) e .
que dahi para cA o tem preoccupado constantemente.
Como nós tambem tivemos occasião de percorrer um
grande numero dessas grutas, foi com especial agrado
que relembramos as pittorescas passagens que as qua-
rentae tantas photographias representam.
Mas tambem é esta a parte mais importante da
presente contribuição. Pelo lado geologico o assumpto
está exgottado. Um estudo que entretanto promette
maiores resultados é o paleontologico, mas este de-
manda excavações prolongadas. O snr. Kroneja havia
reunido um bom numero de fosseis para o nosso Museu
e a respeito delles o illustre director do Museu Na-
cional de Buenos Aires nos escreveu uma interessante
nota (Rev. Mus. Paul. VII, p. 51-124); esses mammi-
feros, dos quaes o mais interessante é o Nothrotherium
magninense, são todos de edade quaternaria.
Poucos são os animaes que ainda agora habitam
estas grutas. Pelo sr. Alipio M. Ribeiro foi descripto
— 508 —
um «bagre cego» encontramos na caverna e nos
mesmos um interessante myriapodo que pela sensivel
reducção do numero de ocellos e ainda pela perda
de pigmento colorido bem mostra que se vae ada-
ptando à vida nas trevas. Além disto havia ainda
nessa mesma caverna um pequeno diptero todo branco-
amarellado, que certamente tambem já se adaptara ao
local.
Agora que as principaes destas grutas se acham
em poder do Estado de S. Paulo, que as adquiriu se-
gundo nossa escolha, a exploração scientifica das mesmes
poderá realizar-se systematicamente de accordo com as
disposições do governo. E, alem disto, esta desapro-
priação traz comsigo a vantagem de se poder sustara
destruição vandalica que estas bellezas naturaes soffriam
constantemente pelos visitantes que, por malvadez ou
por passatempo, ao percorrerem as encantadoras ga-
lerias de estalactites, destruiam com uma pancada, os
mais artisticos vrnamentos. em cuja producção a natu-
reza empregou dezenas ou centenas de annos.
Por fim, uma pagina annexa, ofterece ao leitor
um «Protesto», pela congregação do Museu Nacional,
contra a famosa «idéa de exterminio dos indigenas
brazileiros». Tambem essa congregação imputa tal
«idéa» ao Dr. H. von Ihering,mas resta averiguar si
é cabivel que os factos consumados durante seculos
sejam attribuidos, como «idéa», a quem quer que seja
que venha, posteriormente, historiar esses acontecimentos
ou prevêr o desenvolvimento que os mesmos vão to=
mandc. Veja-se a este proposito o artigo do Dr. von
Ihering nesta Revista, pgs. 112 «A questão dos indios
no Brazil». E, para quem quizer lêr nas entrelinhas
desse Protesto, relembramos um outro, tambem diri-
gido contra o Dr. von Ihering, pelo mesmo Museu Vol.
IX); duas vezes sete annos não bastaram para que fosse
esquecido o antigo rancor. Entretanto da nossa parte
tudo fizemos por entreter boas relações com os collegas
do Museu Nacional, tão superiores a nós . . . em numero.
Revista da Sociedade Scientifica de São Paulo —Vol.
HI (1908), IV (1909), (Janeiro-Agosto 1910).
— 509 —
De aecordo com a indole da Sociedade foram edi-
tados em sua revista estudos que abordam os mais di-
versos ramos do saber humano.
De que nos interesse aqui nesta bibliographia só ha
a mencionar os escriptos dos Drs. Carini e Splendore
que contem diagnoses de novas especies: Haemogrega-
rina leptodactyli Carini de Leptod. ocellatus) Vol. HI,
pag. 99 ; Haemogr. tupinambis e H. missont Carini
(de Tupinambis teguixin) Vol. 1V, p. 46, 47, Toxo-
plasma cuniculi Splendore Vol. IV, p. 75-79, figs. ;
Tripanosoma zonotrichiae Splend. (Zonot. pileata) Vol
V, p. 6, fig. Tr. schistochlamydis Splend. (Schist. ca-
pistratus) p. 8, fig.; Tr. hypostomi Splend. (Hypost. ?
auroguttatus) p. 11 fig.
Quanto à especie de veixe cascudo, mencionada
pelo auctor temos duvidas e podemos unicamente as-
segurar que se trata de uma das muitas especies de
Plecostomus dos arredores de S. Paulo, genero este
que só ultimamente consegimos revêr descrevendo va-
rias especies novas.
O Dr. Vital Brazil relata as interessantes obser-
vações sobre a biologia da cobra Rachidelus brazilr
que é e xclusivamente ophiophaga, atacando impu-
nemente as nossas serpentes mais venenosas pelo que.
pensa o auctor que essa cobra pode desempenhar im-
portante papel na defeza do homem contra o ophidismo.
O Entomologista Brazileiro, Revista mensal de
entomologia economica; Director-proprietario Conde
A.A. Barbiellini.
Com o fasciculo de Abril— Maio de 1908 o Snr.
Conde A. A. Barbiellini iniciou a publicação desta revista
entomologica à qual desejavamos então o mais prospero
futuro e existencia duradoura, pois viamos nesse orgão
mais um elemento de propaganda, no Brazil, para a di-
lecta sciencia que se dedica ao estudo dos insectos.
Mas... digamos como os nossos antigos diriam—não
foi sob boa estrella que o «Entomologista» iniciou a sua
vida, pois com o fasciculo de Janeiro de 1910 (22.
numero) deixou elle de apparecer, apezar dos melhores
esforços de seu activo director.
Não é que os assumptos de que tratava não fossem
interessantes e dignos de um amplo circulo de leitores,
— 510 —
quer amadores de entomologia, quer agricultores que
precisassem de informações sobre a biologia dos nossos
principaes insectos uteis ou damninhos ás plantações, 4
apicultura, à sericultura e mesmo à gallinicultura ; tam-
pouco se dirá que não eram dos melhores os collabo-
radores que enviavam suas contribuições às columnas
do «Entomologista», pois adiante mencionaremos traba-
lhos da lavra dos mais conhecidos naturalistas do nosso
paiz, publicados nessa revista. Succumbiu, emfim, o «En-
tomologista» do mal de que morrem tantas e tantas outras
revistas, das quaes, entretanto, se diria estarem destina-
das à mais brilhante carreira.
Mencionemos, pela ordem de apparecimento, os arti-
gos de conteudo scientifico que aqui mais nos interessam.
As moscas das fructas (Trypetidae) A. A. Barbiel-
linn MINS dive” 20;
Os ensectos sugadores de sangue—Dr. A. Lutz (I,
N. 3);
Gonodonta miranda n. sp. de lepidoptero, com
descripção da respectiva lagarta—Benedicto Raymundo (I,
No);
Thysanoptero (Phlocothripidae) que forma curiosa
galha sobre Polypodium—Rod. v. Ihering, com figr.
(LNG eras
Praga dos vinhedos mineiros (Macrodactylus su-
turalis Mann.)—Rod. v. Ihering com fig. (II, N.8e 9);
Curuqueré ou lagarta do algodoeiro; Albama ar-
gillacea Hib. biologia e destruição — A. Hempel com
9 figs. (II, N. 10-11);
Symbiose nova entre Coccidas e fungos: Hry-
ptokermes ingae, Hempel, e Antennaria sp. sobre Inga
affinis— Dr. J. Rick (II, N. 10-12);
Insectos nocivos ao algodoeiro (Heliothis armiger,
Araeocrus fasciculatus, Anthonomus grandis— A. Hem-
pel, com figs. (II, N. 12);
Vida e caça de insectos em broméliáceas —H. Lue-
derwaldt (II, N. 4);
Insectos nocivos ao Eucalyptus—Navarro de Andrade
(II, N. 5); |
As especies brazileiras do gen. Phloea (Hemipti)
—Rod. v. Ihering e observações biologicas a respeto.
pelo Dr. P. S. Magalhães (II, N. 5);
— 511 —
As brócase a arboricultura ; Coleobrécas: Bu-
prestida de Ficus carica «Figueira» ; Hilepus catogra-
phus de Anona reticulata «Fructa de conde»; Diplo-
schema rotundicolle de Citrus aurantium «Laranjeira»;
Cyllena {Clytus) mellyi de Quercus «Carvalho»; Le-
pidobrôcas : de Cedrela fissilis «Cedro» ; de Psidium
guayava, Myrciaria jaboticaba, etc.— Dr. H. von Ihe-
ring com 10 figs. (11), N. 8); Continuação: Trachy-
deres succinctus em limoeiro; Tr. thoracicus da fi-
gueira. (ll, N. 10);
Prasilianische Lonchaeiden ; chave de classifica-
ção das especies neotropicas de Lonchaea e descripção
das L. paulistana, barbiellinii, aculeata, nn. spp. —
Prof. M. Bezzi—Torino (HI. N. 1);
Phloea longirostris Spin. 1837 (—Ph. paradoxus
Burm. 1835 nec Hahn)--Rod. v. Ihering (Il, N. 1);
Como se ve o «Entomologista Brazileiro» contem
um crescido numero de artigos de optimo conteudo
scientifico e é pois verdadeiramente lastimavel ter cer-
rado a sua publicação. O sr. Conde Barbielline não de-
sanimou comtudo por completo e continua na ingrata
faina de redactor, sustentando outra revista «Chacaras e
Quintaes».
Broterva—Revista de Sciencias Naturaes, Portugal,
S. Fiel vol. IX, 1910, fase. III.
Acostumados ha longos annos a relatar aqui os
estudos botanicos e zoologicos, escriptos em nosso idio-
ma, na revista portugueza «Broteria», já considerava-
mos esse periodico scieatifico como um dos poucos que
tinham especialmente em vista o estudo da nossa flora
e fauna. Nem o facto de serem p:dres muitos dos col-
laboradores, nos lembrava ser este collega de mar-alem,
redigido por sacerdotes.
His que em seguida à proclamação da republica em
Portugal, recebemos o seguinte Aviso pela Redacção :
«Les Rédacteurs de la Broteria sont contraints de
«la transporter à l'étranger, car le gouvernement de
«la République les a expulsés du Portugal et confisqué
«leurs collections et bibliothèques. C’est pour cela qu’ils
demandent à MM. les Directeurs des Revues qui fon-
«des échanges avec la Broteria, de suspendre leurs ent
«vois et de les garder jusqu’à ce qu’ils soient informés
— 512 —
«de la nouvelle adresse de la Rédaction et Adminis
«tration.»
Por parte de outra revista scientifica, allemã, sou-
bemos que o populacho tambem tomou parte na mani-
festação republicana «contra os trabalhos scientificos dos
padres.» Muita cousa foi destruida, muitas colleeções
valiosas de plantas, insectos, etc. foram damnificadas ou
quem sabe, inteiramente estragadas, muitos escriptos e
livros da grande bibliotheca rasgados.
Lastimamos, sinceramente, ter a Broteria soffrido
tão rude e injusto revez, ella que jamais procurou tirar
partido religioso das suas contribuições ao estudo das
plantas e dos animaes.
Mas já nos veiu noticia de que os diligentes natu-
ralistas tencionam continuar o bello trabalho emprehen-
dido sob os auspicios do nome de Brothero, o celebre
botanico portuguez (1744-1827) e fazemos votos porque,
tambem na nova phase da sua existencia, essa revista
scientifica continue a dispensar, como até agora, Oo
mesmo interesse pelos assumptos de biologia brazileira.
-— À” ultima hora consta-nos, mesmo que a Brotheria
escolhera o nosso paiz como nova séde, pretendendo edi-
tar os seus utilissimos estudos bem proximo da Capital
Federal, e assim estamos certos de que será uma revis-
ta essencialmente dedicada à investigação das cousas
biologicas do nosso Brazil. Dando boas-vindas ao colle-
ga, queremos crêr que aqui jamais se lhe perturbará o
socego e a tranquillidade de que necessita para a sua
faina de naturalista, porque sabemos que a sua indole,
comquanto profundamente catholica, não é a de propa-
gandista sedicioso e desta forma contará com o mais
decidido apoio da nossa parte, para auxiliarmos mutua-
mente na grande taréfa que nos é commum: conhecer,
até onde é possivel investigar, os segredos maravilho-
sos da nossa grandiosa natureza.
B Anthropologia
Bericht über die Praehistoriker — Versammlung
23-31, VII, 1907, Cüln.
— 013 —
Para solemnizar a inauguração do Museu Anthro-
pologico de Colonia, a Sociedade Anthropologica dessa
cidade convocou um congresso de scientistas, propor-
cionando ampla discussão de questões momentosas sobre
o desenvolvimento da raça humana. Predominaram,
naturalmente questões relativas à anthropologia na Al-
lemanha e na Europa em geral; comtudo tambem
foram discutidos varios assumptos sul-americanos. Assim
o Prof. G. Steinmann discorreu sobre a Edade do ho-
mem na Argentina, ao que o Dr. H. von Ihering,
presente a esse congresso, accresceu os dados relativos
a este mesmo problema no Brazil, ventilando tambem
a questão da edade geologica do Homo pampaeus
que lhe parece dever ser considerada como pliocena-
superior, ainda que o illustre director do Museu de Buenos
Aires, Dr. Fl. Ameghino lhe attribua maior edade.
Outro assumpto sobre o qual discorreu o Dr. H.
von Ihering foi o do emprego pratico dos machados
de pedra dos nossos aborigenes, a respeito do que
havia realizado experiencias demonstrativas e que vem
tambem relatadas na Revista do Instituto Historico e
Geographico de S. Paulo, Vol. 12 p. 426-432.
Congresso Internacional dos Americanos 16." ses-
são, em 1908 Vienna (Internationaler Amerikanisten
— Kongress, sechzehnte Tagung Wien 1908).
M. de Oliveira Lima, trata da evolução da ci-
dade do Rio de Janeiro e particularmente da sua trans-
formação,
O Conselheiro F. Heger, descreve as collecções
archeologicas e ethnographicas americanas do Museu
de Vienna, entre as quaes tem summo valor 5 peças
mexicanas da epoca Montezuma. e as collecções feitas
no Brazil por João Natterer, que contem mais de 2500
numeros.
O Prof. S. B. de Moura de Pará, explica o pro”
gresso da Amazonia e expõe as condições actuaes dos
indios Cherentes e Sperviers do Rio Tocantins, acre-
scentando um pequeno capitulo sobre a lenda dos Mui-
raquitans, artefactos de nephrite.
— 514 —
O Dr. João Coelho, achou grande quantidade de
jardeite nos Rios Trombetas e Tapajós; o auctor, en-
tretanto não conhece a literatura e nem ao menos o
livro respectivo de Barboza Rodriguez.
Como appendice o livro contem a interessante
memoria do Dr. H. Gensch em Blumenau «A edu-
cação de uma menina india», onde pretende contribuir
para a solução da questão dos indios na America me-
ridional.
O auctor acceitou na sua familia, e educou, uma
menina de 13-14 annos, dos indios que denominei
«Aweikoma», indios estes que fazem parte do grupo
Gaingang. O auctor nos fornece valiosas informações
sobre estes indios, seus costumes e sua lingua, juntando
varias photographias.
Alberto Fric, de Praga fez uma viagem de ex-
ploração ao Estado de Sta. Catharina e Paraná, em
serviço do Museu de Hamburgo.
Os indios que examinou pertencem aos Caingang e
Schocren, dos quaes os primeiros se subdividem em
Kadiurukré e Kamé.
Estes indios pygmeos, que a si mesmo denominam.
«Sseta», medem 160 cm. de altura e tem mãos e pês
compridos. Fallam um antigo dialecto guarany, e nestas
condições não se comprehende como Fric os reune com
os Chokren. O auctor é da opinião que elles são identicos
com os Guayaqui do Paraguay, indios dados 4 cultura
de tabaco e de algodão e que são habeis na arte de
tecer e que usam arcos collossaes.
Estas observações são importantissimas, sendo de
lastimar que o auctor não communique as suas expe-
riencias de modo mais completo. Se me lembro bem elle
me declarou ter encontrado entre estes Ssetas o summo
valor seria, portanto conhecer a lingua destes indios.
O auctor, fala em seguida da crueldade com a
qual os indios são perseguidos e matados no Brazil
meridional. A conquista moderna é peior do que a do
Estado do Congo, visto que aqui não se trata da sal-
vação da propria vida ou da vingança de parentes as-
sassinados.
Aqui não são aventureiros que fazem a conquista
mas elles para tal fim alugam gente das classes mais
— 515 —
baixas da sociedade humana, que depois da sua volia
são festejados como herées.
O auctor foi nomeado pelo Governo «Pacificador
dos indios de Sta. Catharina» e para esse fim recebeu
delle 30.000 ha. de terras devolutas, não tendo entre-
tanto podido realizar as suas intenções por acharem-se
muitas pessoas que desejavam obter lá concessões de
terras. «Elevou-se», disse o auctor «a este proposito
uma enorme campanha de jornaes, quando este era o
unico meio de poder estudar scientificamente taes in-
digenas», fui demittido mediante despacho telegraphico
pelos Museus de Berlim e Hamburgo em razão de ar-
tigos de jornaes anonymos, telegrammas falsos e a pe-
dido da legação allemã em Petropolis.
Heger, Reg. Rat. Fr. Die archaeologischen und
ethnographischen Sammlungen aus America im k. k.
naturh. Hofmuseum in Wien. p. 172 der «Fest-schrift«
herausgeg. anlaessl. des XVI Intern. Americanisten
kongresses in Wien, 9-14 IX 1908, vom Organisations
komitee.
E” uma interessante noticia historica sobre o de-
senvolvimento que teve a secção archeologica e ethno-
graphica do grande Museu de Vienna em sua parte re-
lativa à America, desde a fundação dessa secção por F.
von Hochstetter em 1876. Effectivamente já existia um
museu ethnographico em 1806, mas ora tratada com
carinho, ora desprezada essa collecção teve os destinos
os mais diversos e tambem curiosos, atê que foi defi-
nitivamente organizada. Já a esse tempo ella continha
abundante material brasileiro, graças aos esforços do
infatigavel colleccionador J. Natterer que de 1817 a
1835 viajou pelo Brasil e alem de abundante colheita
zoologica reuniu nada menos de 1492 peças ethnogra-
phicas de 72 tribus dos nossos indigenas; ainda no
mesmo tempo aqui estiveram os drs. J. E. Pohl e Schott,
que tambem fizeram collecções analogas--ao todo 2153
peças, cclleeção da qual já Hochstetter dizia com or-
gulho que jamais seria possivel reunir outra tão bella
enrica.
E o museu de Vienna sempre continuou a collec-
cionar, com especial interesse, objectos ethnographicos
do Brasil; assim ainda ultimamente em 1907 foi adqui-
— 516 —
rida pelo Cons. Heger a valiosa collecção do Barão. de:
Loreto que continha 1400 peças (das quaes 70 foram
cedidas, em permuta, ao Museu Paulista). Ao todo, até:
1908, o museu de Vienna continha 16.072 peças ar-
cheol. e ethnogr. americanas, das quaes 6.900 eram:
sul-americanas e, destas, 4.600 eram brasileiras.
Koch. Grünberg. Dr. Th, Die Maku; Anthropos,
1906, Vol. I, pi 877-906.
Um consciencioso estudo da tribu dos Makus, indios
do matto que habitam as regides entre os rios Negro:
e Japurá. O nome makü não é senão um termo insul-
toso com que os Aruak designavam essa tribu; hoje
tal epitheto se generalisou para esses indios que em sua
maioria foram dominados por outros, invasores, das tri-
bus dos Tucanos, Tarianas, etc. E” portanto, difficilimo
obter vocabularios puros destes indios que em geral
acceitaram a lingua e os costumes das raças domina:
doras. O autor publica tres listas de vocabulos que
conseguiu colher em diversas localidades. E’ a primei-
ra vez que se publicam amostras linguisticas dos Makus ;.
sabe-se que Natterer, entre os seus 98 vocabularios de
indios brasileiros, obtivera dous dos Makús, mas o ter-
rivel incendic de 1849 que tanto prejuizo causou ao
Museu de Vienna, destruiu todos estes apontamentos de:
incalculavel valor, salvando-sc apenas os cinco vocabu-
larios publicados por Martius.
Koch-Grünberg, Dr. Th. Die Yauapery, von
Georg Hübner ; Zeitschr. fr. Ethnologie, 1907 fasc. 1-2,
p. 225 —248.
Acompanhando um pequeno vocabulario dos indios
Yauaperys colhido pelo sr. G. Hübner, de Manáus, bem
como as photographias de 11 individuos desta tribu, o
illustre ethnographo que tão aprofundadamente estuda
os nossos aborigenes, traça o historico dos indios em
questão. Relata as tristes perseguições de que os in-
dios do rio Yanapery. afiluente do rio Negro, parallelo:
ao rio Branco, foram victimas em 1856; em 1884 Bar-
bosa Rodrigues conseguiu accommodal-os de modo que
os seringueiros puderam estabelecer-se neste rio. Mas
em 1905 houve perseguições de parte a parte (quem
poderá averiguar a quem cabe a culpa do inicio das
hostilidades, si aos brancos ou si aos indios?) — e o
— 517 —
governo do Est. Amazonas enviou dous officiaes e 50
praças de policia contra os Yauaperys e assim, como
nos tempos crueis da Conquista, foram mortos talvez 300
indios, pela maior parte presos nas suas cabanas às quaes
se ateava fogo. Apenas 19 individuos foram presos e
levados a Manáus e justamente estes proporcionaram
occasião ao sr. J. Hübner a colligir o vocabulario e
tirar as photographias. Anteriormente só Rich. Payer
visitou estes indios, em 1901 e a respeito publicou in-
teressante descripçäo nos «Petermanns Mitteilungen»
1906, fase. 10, (veja-se a respeito a nossa Bibliographia,
Vol. VII, p. 498) e é com o vocabulario deste explo-
rador que o auctor diz identificar-se o que lhe forneceu
o sr. Hübner. Quanto aos Yauaperys, de Barbosa Ro-
drigues, ha varias duvidas a elucidar ; Payer condemnou
em absoluto o trabalho do nosso patricio, emquanto que
o presente autor procura explicar as differenças exis-
tentes. O certo é que os vocabulos colhidos por B.
Rodrigues mostram a maior affinidade com a lingua
dos Crichanäs, ao passo que linguisticamente os indios
estudados por Payer e Hiibner pertencem a uma tribu
do grupo dos Caraibas, que o autor o compara à dos
Bonari (vocabulario de Fr. Bernardino de Souza, 1870,
cf. Brinton, S. Amer. Lang. 1892) com a qual tem
muita afinidade.
O autor lembra a possibilidade de migrações
que se puderam ter realidades de 1884 a 1901, do que
aliás já H. Condreau fala em 1887.
Koch-Grünberg Dr. Th. u. J. Hiibner. Die,
Makuschi und Wapischäna ; Zeitsch. f. Ethnologie, 1908
fasc. 1.
E' um estudo analogo ao precedente, em que o
operoso ethnographo aproveita o material photographico
e linguistico—extensos vocabularios— colligidos por I.
Hübner no Rio Branco entre os indios Macuxis e Va-
pichänas. Como esta tribu já fora anteriormente estu-
dada por Natterer, Schomburg, Appun e E. im Thurn,
o autor poude utilizar muitas informações litterarias e
completar uma bella monographia scbre estes indios do
grupo linguistico dos Caraibes, que ainda formam a tribu
mais populosa da região superior do Rio Branco.
Koch-Grünberg, Dr. Th. Zwei-Jahre unter den
— 518 —
Indianern ; Reise in Nordwest-Brasilien, 1903-05 (Edit.
E. Wasmuth, Berlin).
Os primeiros fasciculos desta grande obra não só
ethnographica, mas descriptiva em geral das obser-
vações e impressões do auctor nos sertões do Brazil,
mostram bem quanto o illustre scientista soube apro-
veitar os dous annos, de 1903 a 1905 que passou entre
os nossos indios.
A obra vae ser publicada em dous volumes, de 24
fasciculos cada um a (%5 pf.) com 400 illustrações,
além de 20 estampas em heliogravura. A julgar pelo
resumo do conteudo publicado, será uma leitura não
só interessante para quem quer que se interesse pelos
indios da Amazonia, especialmente do Rio Negro, mas
os ethnographos e linguistas encontrarão ahi farta
massa de observações novas, dados e conclusões sobre
as imigrações realizadas por varias tribus e para mais
de 40 linguas e dialectos, muitos dos quaes ainda in-
teiramente desconhecidos.
Varios assumptos de interesse scientifico já foram
expostos pelo auctor em revistas scientificas, taes como :
Der Fischjang bei den Indianern Nordwest bra-
siliens ; Globus, XCIII, fase. 4, 2 Jan. 1908;
Tratando da pesca entre os indios da região explo-
rada, com ampla descripção dos methodos e utensilios
empregados ;
indianische Frauen — Archiv f. Anthropologie
Nova Ser. Vol. VII, fase. 1'2-1909, p.: 912100; "Um
interessantissimo estudo sobre a posiçäo social da mu-
lher entre os indios, com descripção das curiosas
prerogativas de que gosa, hem como das obrigações
de que ella é incumbida.
Die Hianähoto-Uruäna ; Antropos. Rev. Intern.
de Etnol. et de Linguistique, Wien. Vol. II, 1908,
(ASC fe OLIGO;
Estudo monographico dos indios Uruäna (ou «Oma-
gua») do curso superior dos rios Japurá e Caiary
Vaupés; os desta ultima região, visinhos do rio Ma-
câya dão-se o nome «Hianákoto». «Koto» ou «Goto»
significa: gente, povo em Caraibe, e é a este grupo
ethnico que pertencem estes indios. Um amplo voca-
bulario, comparado com varias outras linguas affins
— 519 —
e estudos grammaticaes completam o opusculo de 112
paginas, illustrado com photographias de tynos destes
indios.
Das Haus ber den Indianern Nordwest-brasiliens.;
Archiv für Anthropologie (Neue Folge) Vol. VII, fase.
1, 1908, p. 37-50, Est. V-VII, 29 fig. 9.
Conhecendo de perto tantas e tantas tribus de in-
dios da Amazonia, o auctor se propoz descrever em
geral o que seja a «maloca», a casa commum em que
habita toda a população do aldeiamento.
Fazendo abstracção dos detalhes, descreve as ge-
neralidades que se repetem sempre eguaes, mesmo entre
tribus bem diversas pela lingua e pelos costumes. Pela
leitura da interessante conferencia ficamos conhecendo
não só a parte propriamente architectonica e orna-
mental destas grandes cabanas, mas tambem a vida in-
intima dos seus habitantes, que é descripta com muita
graça pelo auctor, que tanto tempo cohabitou com essa
genie simples e feliz em sua rusticidade.
Krause, Dr. Fr. Bericht über eine ethnogra-
phische Forschungsreise in Zentralbrasilien ; Zeits. für
Ethnologie, Berlin, fase. 3-4, 1909 p. 494-502.
Idem—Tanzmasken-nachbildungen vom mittleren
Araguaya; Jarhrb. des Stadt Mus. f. Voclkerkunde Lei-
pzig, Vol. HI, 1908, 09, 26 pags., 10 estampas.
Idem—ISndianische Kultur ; !llustrierte Zeitung Vol.
135, Leipzig, 28, VII, 1910, N. 3500, com 29 figs. col.
São sem duvida as duas tribus mais interessantes
do Brazil que o dr. Krause visitou, em 1908, a dos
Carajás e a dos Cayapôs, os primeiros na ilha Bananal
do Araguaya e um pouco ao Sul, estes 20 Norte, perte
de Conceição; duas, outras tribus da região são os Ja-
vajés e os Tapirapes. Na segunda publicação acima ci-
tada o auctor faz estudos sobre as mascaras de dansas,
tão caracteristicas, dos carajás, bem como descreve os
ranchos das mascaras, que correspondem mais ou menos
a um club frequentado só pelos homens da tribu e que
lá, a pretexto de fazer as mascaras, passam o dia a
conversar e fumar, longe das mulheres que não podem
nem se chegar aestas «hodocre». O viajante não foi
feliz na obtenção das mascaras que tanto cubiçava ; em
compensação os indios fizeram-lhe muitos desenhos e
— 520 —
miniaturas. Ha um grande numero de typo de masca-
ras, conforme as dansas a que se destinam. Estas dan-
sas, executadas só por homens, tem significações varias,
referentes à abundancia de caça e pesca, de mel, etc.
A ultima publicação mencionada, de caracter mais
popular, mostra em belles trichromias, os mais variados
artefactos desses nossos indios artistas. Felizmente o
Museu Paulista tambem possue uma collecção bem rica
destas preciosidades ethnographicas que anno por anno
se tornam mais preciosas. Como o proprio autor o sa-
lienta é excepcional o espiritc conservador que estes
Carajás manifestam, conservando os seus costumes e as
suas industrias, quando em geral as nossas tribus indi-
genas perdem tudo isto sob a influencia da nossa cul-
tura, da qual entretanto pouco mais aproveitam do que
a pinga, o alcool. Em boa parte tambem a boa estrella
dos indios do Araguaya corroborou para que assim
fosse; quasi todos os brasileiros influentes que entabo-
laram relações com estes indigenas foram homens de
coração e que os tratavam com bondade, como José
Pinto da Fonseca (1774), o dr. Gouto de Magalhães e
Sebastião de Freitas, o muito estimado commandante
de vapor.
Friederici, Dr. G. Die Amazonen Amerikas;
Leipzig, Edit. Simmel & Comp. 1910, 25 pags.
A proposito de um escripto do dr. Richard Lasch
«Zur siidamerik. Amazonensage» no Globus, vol. 97,
1910, p. 351 o autor, interrompendo os seus estudos de
ethnologia da Nova Guinea, volta como que de passa-
gem aos assumptos brasileiros, que bem conhece. Tra-
ta-se da Gynaicocracia precolombiana, das «Amazonas»
que alternativamente são consideradas meros typos de
lendas americanzs, ou então reconhecidas como tendo
existido de facto. Mas antes de tudo o autor chama
attenção ao estudo de E. Beauvois «La fable des Ama-
zonas chez les indig. de " Amerique Précolomb.» em «Le
Muséon», Now. Ser. Vol. V, 1904, p. 287-326, que o
dr. Lasch desconhece. Friederici sente não poder por
ora dedicar-se à investigação desse problema historico
—o que é tanto mais lastimavel quando sabemos quanto
este autor conhece a literatura que nos diz respeito—,
mas diverge tambem de Beauvois, bem como das demais
— 521 —
soluções dadas «per summa capitis» à questão. Salienta,
entretanto, que até hoje sempre tem sido malbaratados,
como sendo um só facto, varios problemas que em si,
cada um, reclamam soluções diversas, e isto por se tratar
de manifestações varias da natureza e do espirito do
homem.
Muito rocommendavel é a extensa bibliographia ci-
tada pelo autor, que entretanto ainda a considera in-
completa,
Hamy Dr. E. T. album des Habitants du Nou-
veau Monde d'Antoine Jacquard, Journal de la Soc. des
Am. de Paris, Tom. IV, No. Il, 1906, p. 225-236, T,
IV, PI.-VIL O illustre director du Musée d'Ethno-
graphie de Paris, agora infelizmente já fallecido,
apresenta-nos nas estampas que acompanham o seu pe-
queno artigo, a reproducçäo d’uma bella serie de quadros
de indios executados pelo artista francez, Antoine Jacques
por occasião da presença destes indigenas sul-americanos
em Paris no anno de 1614. Estas estampas provem do
Cabinet des Estamps de la Bibliotheque Nationale e eram,
até agora quasi desconhecidas. Não obstante serem
um pouco fantasticas, parece que a maior parte destes
indios são Tupinambás. O enfeite de pennas da cabeça
e o que trazem nas costas são os mesmos que conhe- |
cemos pela descripção dos autores antigos.
Hans Staden designou o enfeite circular de pennas
do dorso «endoap» (Il, Gap. 15). Ao lado dos objectos
evidentemente tupis ha alguns tacapes quadrangulares
como são usados na Guiana o que causou algumas du-
vidas. Si bem que o artista approveitasse de algumas
armas não provenientes dos Tupis, é evidente que os
desenhos foram feitos por occasião da presença dos
Tupinambás na França.
Hamy Dr. E. T. Le Bas-Relief de l'Hôtel du Brésil
au Musée Départementale d'Antiquités de Rouen Jorn.
de la Soc. Am. de Paris, Tom. IV, ns. 1, 1906, p. 16;
Outro artigo do Sr. Hamy que se refere a uma
gravura e um bas-relief elaborado em commemoraçäo
das festas celebradas em Rouen por occasião da Entrada
do Rei em 1.º e 2.º de Outubro de 1650. Para dar as
magestades uma ideia da vida dos indigenas do Brazil
— 522 —
foram levados para a França além de muitos outros
indios uns 50 da familia de Tupis.
Estabeleceram para estes indios perto de Rouen
nas margens da Seine uma rancharia com todas as
condições naturaes como se as encontraram no Brazil.
Esta rancharia é representada na primeira estampa cujo
original se acha no livro do Municipio de Rouen.
O «bas-relief» que originariamente estava fixado
em cima da porta d'uma casa velha, n. 17 da rua
Malpalu de Rouen e que depois foi guardado no Musée
Départementale d'antiquités é reproduzido pelas boas
photographias. Este «bas-relief» que ë composto de
duas partes é minuciosamente executado. Aqui se pôde
ver como os indigenas roçam o matto e constróem suas
canôas com os seus machados de pedra. Segundo o
autor estes indios em parte são Tabaires, e em parte
Tupinambás.
Rivet, Dr. La race de Lagoa Santa chez les po-
pulations precolombiennes de l’Equateur. Bull. et Mém.
de la Soc. d'Anthropologie de Paris, 2. 1V. 1908, p.
209-268.
Os preciosos craneos achados por P. W. Lund na
caverna da Lapa da Lagoa, da Lagoa Santa (Minas Ge-
raes) e que desde logo foram reconhecidos pelo illustre
naturalista dinamarquez como representantes de uma raça
humana bem caracterizada e distincta da dos aborigenes
da região. Mas só .em 1876 esta observação teve maior
divulgação pelos estudos de Lacerda e Rodrigues Pei-
xoto, pouco depois ainda por Quatrefages, até que
Kollmann, ten Kate e sobre tudo Süren Hansen fi-
zeram estudos completos a respeito dos 17 crancos da
raça de Lagoa Santa.
O auctor do presente estudo reexaminou toda a
questão, corrigiu alguns erros de medição e de obser=
vação que haviam occorridos aos anthropologos acima
citados e insiste em que os indios que hoje em dia mais
se assemelham à raça de Lagoa Santa são os Botucudos.
Porfim compara essa raça humana a muitos outros
craneos americanos, para chegar às seguintes conclusões :
As raças do norte da America meridional, das
Guyanas à Colombia, differem por completo da raça de
Lagoa Santa; entretanto a semelhança observada por
— 525 —
ten Kate, entre os craneos antigos do Brazil e os da
peninsula californica, depois de longa lucta, já agora
parece confirmada pelo laço de intimo parentesco que
os auctores modernos afirmam existir entre essas duas
raças hypsidolichocephalas. Deniker denominou «raça
paleo-americana » a estes primitivos habitantes da Ame-
rica do Sul, ligados como se viu acima à raça califor-
nica. Mas um outro typo, o que hoje vemos represen-
tado pelos Caraibes e Aruaks, de craneo subbrachice-
phalo, platycephalo, habitava o norte do continente sul-
americano ; é desta raça que provêm os povos tupi-gua-
ranis que, em tempos prehistoricos, invadiram a região
meridional, occupada pela raça paleo-americana e esta-
belecendo-se ahi, formaram a «sub-raça sulamericana»
propriamente dita de Deniker. Uma outra corrente mi-
gratoria dirigiu-se de éste para oeste, em que uma raça
brachycephala que tambem domina nos Andes «raça
central-americana» de Deniker dos Colchaquis, Pampea-
nos Araucanos, Puelches, occupou outra região em que
habitara a raça da Lagoa Santa a qual do Sul do Bra-
zil à Patagonia não se encontra mais sinão em estado
fossil ou sub-fossil.
E’ esta em geral, tambem a opinião de Dr. H. von
Ihering, que a exprimiu claramente em varios dos seus
escriptos nesta Revista. |
Krone, Ric. Beitraege zur Sambaqui-frage. Pe-
termanns Geogr. Mitteilungen, 1909, fasc. X, p. 263-
96 e fasc. XI, p. 309-319, Est. 28-31.
O auctor examinou minuciosamente os sambaquis
da região de Iguape da costa de Est. de S. Paulo, isto
é as collinas formadas por ostras e outras conchas ma-
rinas, e que serviam de moradia aos primitivos habi-
tantes da costa. O auctcr julga que estas collinas tenham
sido formadas, artificialmente, pelo homem, declarando
ter encontrado cinza, carvão e outros restos de foguei-
ras. Neste sentido o auctor se acha em opposição a
outros auctores, particularmente Siemiradzki, H. von
Ihering e Benedicto Calixto. Provavelmente investiga-
ções ulteriores virão demonstrar que a verdade já foi
affirmada por H. von Ihering segundo o qual ha tanto
sambaquis artificiaes como naturaes.
— 594 —
Borba, C4 Telemaco. A actualidade indigena.
Curityba (Imprensa Paranaense) 1908, 168 pag.
E" esta uma das raras publicações sobre ethnogra-
phia que não se limitam a compilar dados e informa-
ções de outros auctores, mas que se baseia em experi-
encias proprias. Os escriptos do Sr. Telemaco Borba
neste sentido são bem conhecidos e a nossa Revista se
orgulha por ter contribuido para o reconhecimento dos
seus trabalhos. À presente publicação trata de aprofun-
dar o nosso conhecimento relativo aos indigenas do
Estado do Paraná e, em cinco estampas, fornece boas
figuras de pontas de flechas, morteiros, mãos-de-pilão e
outros utensilios e armas dos primitivos habitantes, actu-
aes e prehistoricos da região.
Merece mensão especial entre os objectos figurados,
a figura 58-59 de um chifre de boi com desenhos feitos
pelos indios Kaingangues de Ivahy, e uma flauta, dos
mesmos indios, de Jatahy.
Os Arés são identificados pelo auctor com os «Bo-
tocudos» do Estado do Paraná; elles «falam o guarani
mas com pronuncia alterada» explicando-se assim as
duvidas expostas nesta Revista.
De especial interesse é a communicaçäo, 4 pag.
120, que nos campos do Estado do Paraná existem ves-
tigios de cóvas que haviam sido habitados por indios
e que pelo povo são denominadas «buracos de bugres».
Esta observação é importante com relação 4 phrase
de Gabriel Soares no Roteiro do Brazil, «os Guayanas
vivem em cóvas pelo campo, onde tem fogo dia e noute».
Quanto aos vocabularios, os de guaranis em parte
contem enganos que os competentes encontrarão com
facilidade. Não vale a pena entrar aqui nos detalhes de
ligeiras controversas que existem entre o auctor e o
Dr. Hermann von Jhering.
A nossa intensão aqui é apenas chamar a attenção
dos nossos leitores para tão valiosa publicação sobre os
nossos aborigenes.
Carvalho, Alfredo de. Prehistoria Sul-Americana.
Recife (Jornal de Recife) 1910, 235 pag. 20 grav.
O livro é uma reedição do trabalho publicado na
Revista do Instituto Archeologico e Geographico Per-
nambucano, Vol. XIV, 1910 e que se originou de uma
— 525 —
pequena polemica entre o auctor e varios contendores
que se insurgiam contra as conclusões adoptadas pelo
auctor, de accordo com os estudos de Koch-Gruenberg
a respeito das anscripções lapidares sulamericanas
(veja-se nossa bibliographia vol. VII pag. 491). Assim
nos parece que o titulo escolhido para o livro é amplo
de mais, visto como o principal assumpto é o destas
inscripções lapidares; só os tres ultimos dos doze capi-
tulos do livro abordam questões mais amplas, especial-
mente a origem dos povos americanos e as suas mi-
grações.
Muito louvavel é este trabalho de A. de Carvalho,
no qual emprega o melhor dos seus esforços, de divul-
gar em nosso idioma os estudos de muitos investiga-
dores allemães e ingleses, cujas publicações são pela
maior parte inteiramente desconhecidos ao nosso povo.
Dominando perfeitamente varias linguas, o auctor resu-
me habilmente os bons livros e a extensa bibliographia
que fecha o volume mostra quanto é amplo tal trabalho.
Leão, Emelindo A. Subsidios para o estudo dos
Kaingangues do Paraná (Memoria apresent. ao 2.º Con-
gre. Brazileiro de Geographia) Livr. Economica Curityba
1910, 40 pags.
Neste estudo o auctor trata das crenças religiosas
de superstições, do culto dos mortos e do «diluvio», de
conformidade com as informações de ha muito conhe-
cidas do Cel. Telemaco Borba. No segundo capitulo exa-
mina-se a questão dos Guayanãs, communicando o au-
ctor um pequeno vocabulario Kaingang, compilado de
varios auctores.
€. Zoologia
Thomas, Olfield; Four new amazonian Monkeys;
Ann. & Mag. Nat. Hist. Ser. & vol. 2, n. 7, 1908,
p. 88 ss.
Nas collecções de couros de mammiferos enviadas
pelo sr. Hoffmann do Amazonas ao British Museum, o
sr. O. Thomas julga ter encontrado quatro especies novas
de macacos, tres pertencentes ao genero Callicebus e
uma ao genero Sarmriri. Parece que em geralas diffe-
renças indicadas em confronto com as especies conhe
— 526 —
cidas, säo fracos e fazem-nos crèr que antes se trate
de subspecies. São os seguintes os nomes propostos :
Callicebus remulus, O. hoffmannsi, C. egoria e Sar-
mire madeira.
Thomas, O. On certain African and S.-Ameri-
can Otters. Ann. & Mag. Nat. Hist. London, ser. 8,
vol. 1, 1908, p. 397-395.
Neste estudo, que sé me veiu às mãos depois de
concluido o artigo publicado neste volume onde tratei
dos carnivoros do Brazil meridional, o auctor escreve
schre Lutra platensis, e especies affins propondo varias
novas especies, baseadas nas differenças da parte núa
do nariz. Infelizmente o auctor acceitou a opinião falsa
de Nehring, segundo a qual Lutra paranensis Rengger,
teria sido baseada sobre a ariranha.
Mas em realidade a descripção de Rengger refere-
se à lontra e este naturalista diz que nunca viu exem-
plares de comprimento maior do que 1-1, 2,m. o nosso
exemplar maior mede 1, 32 m. As lontras de S. Paulo
têm a linha superior da parte nua do nariz, direita,
bem definida. Esta linha seria mal definida em L. mu-
tis Thos. que seria a especie do Rio de Janeiro, Pará
e Guiana, Provavelmente esta ultima especie será ape-
nas uma sub-especie de L. paranensis. H. v. Ih.
Hernandez, Dr. Miguel. Beitraege zur Embryologie
der Guerteltiere; Morpholog. Jahrbuch, vol. 36, fasc. 2,
1209, p, 302-333, Est. XVITI-XX.
Na presente contribuição sobre a embryologia dos
tatus o sr. M. Fernandez, do Museu de La Plata estu-
da em especial a inversão dos foliculos germinativos e
a polyembryonia especifica da «mulita», Tatusia hybri-
da. Sobre o mesmo assumpto já em 1835-1836 o Dr.
H. von Ihering fez estudos, mas com pouco material,
inconveniente com que aliás tambem lutaram Külliker e
Milne Edwards. O auctor poude examinar 60 uteros
prenhes do pequeno tati e assim naturalmente poude
generalizar as suas observações. Elle confirma a indi-
cação de v. Ihering, de que os filhotes do mesmo parto,
que em media são em numero de 8-9, são todos do
mesmo sexo:
AS principaes conclusões novas a que chega o
auctor, depois de expor minuciosamente todos os deta-
Ham
lhes observados e que illustra em excellentes micropho-
tograpbias, são as seguintes:
1.º Na mulita dá-se uma inversão dos foliculos
germinativos.
2.º "Todos os embryões da mesma gestação da mulita
desenvolvem-se do mesmo ovo, sendo de notar que a diffe-
renciação dos embryões só começa depois do germen se
ter differenciado e nos foliculos germinativos primarios.
O auctor salienta ainda que a primeira destas cons-
tatações tem o seu facto correspondente na embryolo-
gia dos roedores como Mus e Cavia; quanto à segun-
da, da polyembryonia especifica, é este um facto intei-
ramente inesperado, visto como elle não se dá em
nenhum outro grupo dos vertebrados, a não ser nos
casos da formação de gemeos nos mammiferos, e espe-
cialmente nos casos de ovos telolecitos.
Como o sr. M. Fernandez pretende continuar estes
seus estudos tão bem iniciados, recommendamos-lhe em
especial o confronto dos resultados a que chegou A.
Rosmer (lur la gênese de la grossesse gêmellaire mo-
nochoriale, Bull. int. Acad. des Sciences Cracovie Clas-
se lc. Nat. N- 8. 1901) e ao qual já nos referimos em
bibliographia anterior (Rev. Mus. Paul. V, p. 715).
Nesse resumo citado é questão de Dasypus novemcin-
ctus, mas duvidamos que a pequena diversidade syste-
matica das duas especies estudadas possa justificar ta-
manhas differenças embryologicas.
Ihering, Dr. H. von. Systematik, Verbreitung u.
Geschichte der südamerik. Raubtiere. Archiv. f, Na-
turseseh. -Anno;:76,:14940, volsk; fases 42% finds ATA:
Este estudo contem em parte os mesmos resnlta-
dos das longas investigações do auctor sobre os carni-
voros sul-americanos, a respeito dos quaes o presente
volume da revista publica um trabalho monographico :
«Os mammiferos do Brazil meridional, parte 1: Carni-
voros». Na publicação allemã, elaborada posteriormente
à outra, o auctor trata menos extensamente da syste-
matica e biologia desses mammiferos, desenvolvendo em
compensação outros capitulos, não menos interessantes,
como sejam a distribuição geographica e a historia das
suas migrações, a phylogenia dos carnivoros em geral
e como não o podia deixar de fazer, esboça tambem as
— 528 —
questões paleogeographia que se prendem à sua disper-
são, aliás bastante complicada. As ideias principaes deste
problema já foram publicadas neste volume p. 434,
Origem da fauna neotropica; agora, com relação aos
carnivoros o auctor constata o facto sobremodo impor-
tante de terem existido Ursidas e Procyonidas muito
mais cedo (Entreriano ou Mioceno) na America meri-
dional do que na America do Norte, onde só tiveram
entrada muito recentemente, no Pleistoceno. Depois de
refutar outras interpretações dadas a estas evidencias
paleontologicas, o dr. von lhering conclue pela admis-
são de uma antiga connexão da America do Sul com
a Ásia, faixa de terra esta que entretanto naquelle tem-
po vão dava accesso à America do Norte e que a prin-
cipio terminava na America Central; a reunião da
America Central com a do Sul só se deu depois que o
Oceano Pacifico veio interceptar a migração no sentido
inverso, isto é do America meridional à Asia, tanto
que a nossa fauna não tem representantes ali. O auctor
fortalece esta sua interpretação expondo a migração dos
caracões do gen. Helio que obrigam às mesmas con-
clusões (veja-se a este respeito o estudo especial do
auctor, que tambem relatamos aqui) e nós accrescenta-
mos o facto da distribuição analoga das cobras Prote-
roglyphas, que abundam na fauna indo-australiana
(Naja, Bungarus mas que na America estão represen-
tados sómente pelo gen. Hlaps («coral»). cf. aqui «as
cobras do Brazil» p. 368. Só bem mais tarde estabele-
ceu-se a connexão actual entre as duas Americas, de
modo que estes immigrantes, já acclimatados na região
neotropica, puderam depois subir para a America do
Norte.
Menegaux, A. Contrib. a l'étude des édentês actuels
(Bradypodidae); Arch. de Zoologie experiment. et ge-
nerale, Serv. V, 1 1909, pag. 277-344, Est. II-VI.
O auctor estuda muito acuradamente o esqueleto
das extremidades da «Preguiça» (Bradypus torquatus),
estudo este em que aliäs foi precedido por pouco de
Poche (Anatomie u. systemat. Stellung von Br. tor-
quatus, Zool. Anzeiger, Vol. 23, 1908, p. 56-57-80).
Interessante é o capitulo sobre a biologia da preguiça,
em que vem recolhidas as informações bibliographicas
— 529 —
anteriores, muitas das quaes entretanto são refutadas
pelo que relatou o viajante Geay (Guyana franceza)
que tambem tirou duas photographias destes animaes
quando subiam em grossas arvores, com o filhote ds
costas. A alimentação que unicamente lhes convem é
a folha de Imbauva (Cecropia peltata) e & por isto
que estes animaes são tão raros nos jardins zoologicos
da Europa onde, em falta daquellas folhas, comem
outras mas que lhes fazem mal.
Quanto à velocidade (!) de sua marcha, os unicos
dados conhecidos que indicam maior distancia percorrida
são: 731 metros em uma nonte e 500 m. em 7e 8 horas.
Toldt Dr. Karl. Die Chiropteren Ausbeute : Ergeb.
derz ool. Expedit. der k. Akad. Wiss. nach Brasilien 1908.
Durante a expedição emprehendida pelos natura-
listas austriacos, sob a direcção do Cons.º Fr. Steinda-
chner em 1903, foram colhidas apenas 11 especies de
morcegos, ao todo 32 exemplares. O Dr. Toldt jun., que
se mostra inimigo da descripção de especies novas ba-
seadas em caracteres de somenos importancia, procura
antes reduzir o numero dellas ; evidencia, entretanto, a
importancia do exame acurado, microscopico dos pellos
dos mercegos, visto como a pigmertação dos mesmos
(melhor do que a forma) auxiliam o trabalho da clas-
sificação, especialmente em se tratando de exemplares
velhos e desbotados.
Snethlage E. Ueber unteramazonische Vogel Jor.
Ornith. Leipzig, LV, 1906, p. 519-527 ; 1907, p. 203-99.
A auctora continua relatando suas observações sobre
a avifauna da Amazonia inferior e alem de completar
a lista das aves que ahi occorrem, estes artigos trazem
sempre alguma observação sobre a respectiva biologia.
Snethlage, E. Eine Vogelsammlung von Rio Purüs,
ism ci, 4908, p. 7:24
O Museu do Pará enviou nos annos de 1903 e
1904 duas expedições de naturalistas ao Rio Purús no
Est. do Amazonas, e no presente estudo vem enume-
rados os resultados ornithologicos da mesma.
Pouco antes o Museu Paulista havia enviado o seu
naturalista-viajante ao mesmo Estado, isto é ao Rio
Juruá, um pouco mais a NO; um mappa estampado 4
p. 8 pela Snra. Snethlage assignala as regiões exploradas.
— 530 —
Na Revista do Museu Paulista Vol VI, p. 385-460 foi
estudado o material colligido pelo Sr. E. Garbe que
obtivera 399 couros de aves, representando 18% es-
pecies, das quaes 18 eram novas para a fauna orni-
thologica do Brazil, além de 7 formas descriptas como
novas à sciencia.
O Museu do Pará obteve ao todo 567 couros de
aves, representando 194% especies, das quaes 19 tambem
eram novas para o nosso paiz, havendo entre ellas 4
formas descriptas como novas.
Vê-se por ahi quanto ainda resta fazer para co-
nhecermos bem as aves dessa região e é de notar que
& justamente este um grupo da fauna do nosso paiz
que até hoje melhor foi estudado.
Liiderwaldt, H. Beitrag zur Ornithologie des Campo
tatiaya. Zoclogische Jahrbiicher, Bd. XXVII, Hef 4
1909, p. 329-360.
Ao caçar passaros para o Museu nos Campos de
Katiaya, o auctor fez abundantes notas ornithologicas,
que publicou depois de identificadas as respectivas es-
pecies. Alem das especies por elle colligidas, o auctor
inclue as que o Sr. Alipio M. Ribeiro registrou em
sua publicação «Vertebrados do Itatiaya» (Arch. Mus.
Nac. Vol. 13), de forma que o total das aves conhe-
cidas da região sôbe agora a quasi 100 especies.
Miller, W. De Witt. A review of the Manakins
of the genus Chiroxiphia; Bull. Amer. Mus. Nat.
Hist. New York XXIV, 1908, p. 331-343, Est. XXV.
O auctor estuda as 8 especies do genero Chiroa-
phia, das quaes 3 occorrem no Brazil; trata-se dos
delicados e graciosos «Tangarás» ou «Dansadores», tão
conhecidos pelo seu habito encantador de organisarem
bailados na floresta, dansas estas que são o encanto
mesmo do caipira mais rustico.
Já no nosso Catalogo das aves do Brazil, p. 300
enumeramos Ch. pareola regina e caudata como as
trez especies do Brazil; esta ultima é a fórma do Brazil
meridional, Ch. regina occorre só na Amazonia su-
perior e pareola occorre na Guyana, no Pará, na Bahia
e em Rio de Janeiro. E”, portanto, erronea a nossa
indicação (I. cit.) de esta especie occorrer tambem no
Equador e na Bolivia; ahi vivem Ch. napensis e bo:
— 5931 —
liviana que são especies bastante semelhantes à pareola,
porém distinctas.
Hellmayr, C. E. On a collection of birds made
by Mr. F. W. Hoffmanns on the Rio Madeira, Brazil.
Nov. Zool. Tring. vol. XIV, 1907, pag. 343-412.
Id. An account of the birds coll. by Mr. G. A.
Baer in the state of Goyaz; 1. s. cit. vol. XV 1908
pag. 13.
O auctor, ao qual em cada resumo bibliographico
nos referimos como apaixonado investigador da avi-
fauna brazileira, estudou nos artigos acima citados, as
collecções de aves que os Srs. Hoffmanns e Baer reu-
niram, o primeiro no Rio Madeira (197 especies e subs-
pecies) o segundo no Goyaz. Esta ultima collecção,
pertencente ao hon. Rothschild, comprehende 800 couros
que representam 280 especies e subspecies, entre os
quaes naturalmente havia umas tantas formas novas.
Reiser, O. Liste der Vogelarten welche auf der
von der k: Ac, Wiss. 1903 nach N. O. Brasilien ents.
Exped. unter Leitung des Hofr. Steindachner gesaumelt
wyurden. Denkschr. k. Ac. Wiss. Wien, Math. Natw.
Klasse, Vol. 76, 1910, p. 05-100,
Nos mezes de Fevereiro a Setembro de 1903 uma
expedição de naturalistas percorreu o norte do Brazil
custeada pela imperial academia de sciencias de Vienna
e dirigida pelo conselheiro Dr. F. Steindachner ; im-
mensos foram os resultadcs obtidos quer sob ponto de
vista zoologico, quer botanico, mas por emquanto bem
pouco os respectivos especialistas publicaram com re-
lação a este material.
O Sr. O. Reiser, encarregado do estudo das aves
das quaes elle mesmo caçou nada menos de 695 exem-
plares, classificou os 1347 couros, em sua maior parte
obtidos nos Estados de Piauhy e Bahia, alguns em Per-
nambuco e outros no Maranhão; além disto a expe-
dição trouxe um grande numero de ovos e ninhos e
tudo acha-se entregue ao grande k. k. Naturh. Hofmu-
seum de Vienna. A publicação definitiva ainda está
em elaboração e assim por hora a lista de que aqui
nos occupamos registra apenas o nome e a procedencia
dos exemplares. Trata-se ao todo de 349 especies e
subspecies, algumas das quaes já foram descriptas como
MANS
— 592 —
novas pelo Dr. Reiser (Sitzb. mat. natw. KI. Ak. Wiss.
Wien, 1905) mas infelizmente o auctor não menciona
nem mesmo estas fontes litterarias. Com relação à
nomenclatura usada tambem teriamos a fazer algumas
observações, como por exemplo : o emprego dos nomes
de Brisson; à p. 88 o auctor emprega o nome Opis-
tocomus cristatus, evitando ode Müller O. hoazzn, (por
não ser latinizado, mas à p. 65 conserva Helzactin que
está nas mesmas condições e deve ser substituido por
Heliactinia Reichenb.
Goeldi, E. A. Description of Hyla resinifictrix
Goeldi, a new Amazonian tree-frog peculiar for its bre-
eding habits. London, Proc. Zool. Soc. 1907, p. 135-140.
Além de descrever a especie nova da Amazonia o
Dr. E. A. Goeldi relata a ecologia singular deste sapo,
que põe os seus ovos em arvores ôcas depois de tel-as
calafetado com rezina. Desta forma o sapo garante a
permanencia da agua das chuvas na cavidade, onde os
gyrinos completam a sua metamorphose. «O breo-bran-
co»; da casca de Protium heptaphyllum, ou resina do
«cunnuarú» que é o nome indigena do sapo, diz o Dr.
Goeldi, é muito procurado pelos indigenas.
Boas illustrações caracterizam a especie nova e
mostram o curioso trabalho do batrachio.
Boulenger, G. À On a new genus of snakes from
Brazil. Ann. & Mag. Nat. Hist., Ser. 8 Vol, 2, N. 7,
19085 poy
Uma cobra, de S. Paulo enviada pelo Dr. Vital
Brazil ao British Museum, foi reconhecida como sendo
especie nova, cujos caracteres genericos não combinam
bem como os de Oxyrhopus, pelo que foi estabelecido
como typo de um genero tambem novo, Rhachidelus
brazili.
Eigenmann, C. H. The poeciliid fishes of Rio
Grande do Sul and the La Plata basin. Washington
D. C., Smithsonian Inst. U.S. Nat. Mus. Proc. XXXII,
1907, p. 425-433.
E” uma pequena contribuição, por ser de só pou-
cas paginas, mas de extraordinario valor para quem
pretende fazer a classificação destes pequenos peixinhos
de todos os riachos, que o povo denomina «Guarú-gua-
rus». O auctor refere-se em especial ds 12 especies.
— 555 —
de Paeciliidae da regiäo do Rio Grande do Sul e da
bacia do Prata, região esta que H. von Ihering mostrou
ser bastante homogenea em sua fauna d'agua doce. Ao
todo ha 15 generos nesta familia, um delles Z/yodon n.
gen., e entretanto 8 delles occorrem nessa região. Co-
nhecem-se até agora cerca de 30 especies de «guarú-
guarus» do Brazil. A familia toda comprehende 150
especies todas neotropicas, que habitam em sua grande
maioria a America Central.
Eigenmann, C. H. & Fletcher Ogle, Annotated
list of Characin fishes in the U. S. Nat. Museum and
the Mus. of Indiana Univ. with descr. of new species;
Proc. U. S. Nat. Mus. XXXIII, N. 1556, 1908.
Os auctores estudam o abundante material ichtyo-
logico dos dous museus, que contem um grande nu-
mero de especies brazileiras. Só do nosso lambary
commum, Astynax rutilus foram comparados grande)
series de varias procedencias e assim os auctores ches
gam à conclusão que À. jequitinhonhae (nec Steind.-
Eigenm. & Norris Rev. Mus. Paul. IV, p. 357 de Pi-
racicaba não é senão uma variante de corpo menos alto
que o normal em À. rutilus, como aliás bem descon-
fiavamos. Descrevem ainda à pag. 6 um «Corumbatä»
de Piracicaba Parodon piracicabae n. sp. que iamos
descrever tambem como novo, por ser differente de
P. affinis Steind. (cf. Eig. & Norris, Rev. Mus. Paul.
IV, p. 356, nec. Steind.) Varias outras especies bra-
zileiras são descriptas como novas. Uma boa chave de
classificação facilita o estudo dos lambarys de linha la-
teral incompleta, Hemigrammus Gull..
Ergenmann, Prof. C. The Fresh water fishes of
Patagonia and an Examination of the Archiplata-Arch-
elenis Theory. Reports of the Princeton University
Expeditions to Patagonia 1896-9, Vol. III, Zoology,
Part III, 1409, pag. 225-374, Est. 30-37.
ed. Catalogue of the Fresh-water fishes of tropi-
cal and south temperate America, loc. s. cit. Part IV,
1910, pag. 370-511.
As duas grandes publicações do eminente ichthyo-
logo comprehendem muito mais assumpto do que o
indicam os titulos em seu laconismo.
Assim na primeira parte, alêm de se occupar da
fauna patagonica, o auctor, incidentemente trata tam-
bem de questões da systematica dos nossos peixes, dan-
do novas chaves de classificação para varias familias e
generos que muito nos interessam. São 20 todo só
29 as especies de peixes d'agua doce que se conhece
da Patagonia.
Um outro capitulo estuda a zoogeographia dos pei-
xes sul-americanos. À este respeito o auctor publicou já
ha tempos um interessante resumo, ao qual ros referi-
mos em nossa Bibliographia do Vol. VII desta Revis-
ta, p. O10; agora Prof. Eigenmann toma por thema
a theoria da Archhelenis-Archiplata do dr. H. von
Ihering. Começa por esboçar as bases da mesma, re-
ctificando algumas affirmações de Ortmann (Report
supr. cit. Vol. IV, pag. 319 ss.), que havia dado à
Archiplata de v. lhering uma extensão muito ampla,
incluindo nella uma parte da Archhelenis, isto é Ar-
chabrazal.
O auctor passa a discriminar as regiões ichthyo-
graphicas com relação à fauna neotropica. A primei-
ra, de Transição, não é senão uma mistura das guar-
das avançadas dos elementos neotropicos e nearcticos.
A região Mexicana contem formas immigradas da
America do Norte, mas nenhuma do Sul.
À grande região sul-americana compõe-se alêm da
Patagonica uma das mais pobres de todo o mundo, de
uma região extraordinariamente rica, a Brazileira,
que comprehende 10 ‘/, de todos os peixes d'agua do-
ce conhecidos atê hoje e uma outra, a Andina, extre-
mamente pobre, com elementos derivados da outra,
mas já tão modificados que causaria surpreza encon-
trar qualquer das suas especies em Manãos. Entretan-
to, a fauna da vertente do Pacifico mostra grandes af-
finidades com a da Amazonia e como esta, da vertente
Atlantica, é genericamente diversa da fauna Africana,
«è certo que a fauna da vertente Pacifica derivou da
fauna da vertente Atlantica muito depois que a Guya-
na foi separada da Africa». |
Dahi Eigenmanr passa a tratar da «Necessidade e
evidencia de uma antiga communicação terrestre a
Africa e a America do Sul». Em nosso estudo sobre
a distribuição geographica des Gymnophiona (cf. ante
a pag. 99) tivemos occasiäo de nos referir aos mappas
muito instructivos com que o auctor illustra a origem
de nove familias de peixes d'agua doce da America de
Sul. O auctor conclue, inteiramente de accôrdo coma
theoria de il. von lhering, que «Existiu uma porção
continental entre a Africa e a America do Sul possi-
velmente em contacto com a Guyana na America do
Sul e em algum ponto na -Africa tropical. Estas ter-
ras eram habitadas, entre outros, pelos peixes das fa-
milias Lepidosirenide, Peeciliide, Characinide, Ci-
chhdæ e Siluridæ. Estas terras desceram abaixo do
nivel do oceano, forçando as faunas em duas direcções,
para cs lados da Africa e da America do Sul e ex-
terminando todas as formas que não migraram para ©
oriente ou o occidente. Destes dous rudimentos de-
senvolveram-se as actuaes faunas differentes da Africa
e da America do Sul... Não se póde affirmar que uma
dessas faunas se derivasse directamente da outra...
O Brazil oriental, ao sul do Amazonas (Archama-
zonia), deve ter recebido muito cedo a sua fauna da
região occidental da Helenis (Archiguiana), visto como
ella contêm muitos generos peculiares a esta região,
indicando uma longa separação, e os depositos de agua
doce do Terciario desta area contém generos de per.
xes d'agua doce ainda existentes (p. 370).
Eigenmann insiste em que a separação da Ame-
rica do Sul da Africa se tenha realizado antes do ter-
ciario, visto como ha muitas familias de peixes de agua
doce que existem em um só destes continentes e ainda
porque os depositos terciarios de Taubaté e Paraná
contém generos hoje existentes. Ora, os mencionados
fosseis dos shistos betuminosos de Taubaté contém uma
fauna de tal forma semelhante à actual que, ao con-
trario do que a principio se pensava, ella deve ter sido
depositada nos ultimos tempos do periodo terciario. As-
sim este documento não constitue uma contra prova da
affirmação de H. v. Ihering, de que ainda nos primei-
ros tempos terciarios houvera communicação directa
entre a Africa e a America do Sul.
O grande catalogo dos peixes d'agua doce da Ame-
rica tropical e do Sul, que constitue a Parte IV do
Vol. Ill, Zoologia do Report, é um auxilio valiosissi-
— 536 —
mo para o estudo dos nossos peixes. Eleva-se a 1917
o total das especies conhecidas desta região e nada
menos de 748 dellas pertencem à bacia do Amazonas.
Para quem ouviu falar das 1.800 especies novas que
L. Agassiz pretendia ter colligido, não parecera isto
grande cousa; mas de facto até 1898, segundo E. A.
Goeldi, sé se conheciam 513 especies de toda a região
amazonica ! |
Steindachner, Cons. Dr. F. Ueber einige Fisch-
arten ans dem Flusse Cubatão, S. Catharina bei The-
resopolis ; Sitz-b. k. k. Akad. Wiss. Wien, math. natn. Il.
Vok GKVI; £907.
O illustre director do imperial museu de historia
natural de Vienna, o decano dos ichthyologos talvez,
Franz Steindachner, a quem devemos estudos sobre nossa
fauna desde o anno de 1863, ainda nestes tres annos
de 1907 a 09 contribuiu com mais de 20 escriptos para
o conhecimento dos peixes d'agua doce do Brazil. Quasi
todos estes ultimos vem publicados no Akad. Anzeiger
da Academia de Sciencias de Vienna; o que acima ci-
tamos, refere-se a uma collecção de peixes do rio Guba-
tão perto de Theresopolis em Santa Catharina; são
apenas 11 especies e entretanto 9 dellas são novas à
sciencia—testemunho bastante eloquente de quanto é mal
conhecida ainda esta fauna. Uma das especies é dedi-
cada ao ex-ministro da viação dr. Miguel Calmon e o
respectivo nome Hemzpsilichthys cameroni, se bem que
repetido constantemente desta forma, foi mal impresso,
quando devia ser: H. calmoni.
Daday de Deés, Prof. Eug. Monographie Sys-
tem. des Phyllopodes Anostracés; Ann. des Sciences
Naturelles, Zool., Vol. XI, 1910 fasc. 2-6.
Com o rico material do Museu de Paris, dispondo
alem disto ainda de outras collecções, o auctor elaborou
uma completa monographia do interessante grupo dos pe-
pequenos crustaceos phyllopodas de corpo alongado, des-
providos de concha, chamados Phyll. Anostraca. Cinco são
as familias admittidas pelo auctor, a saber : Polyartemu-
dae auct., Strepto cephalidae, Brauchipobidae, Branchi-
nectidae e Chirocephalidae, as quatro ultimas novamente
definidas pelo auctor. Conhecem-se ao todo 8t especies, das
quaes porém só Soccorrem na America do Sul e mais 2 nas
— 537 —
Antilhas; do Brazil se menciona apenas uma, Bran-
chinecta iheringi Lillj. do Rio Grande do Sul. Veja-
se a proposito desta especie o estudo do dr. H. von
lhering sobre «Crustaceos Phyllopodos do Brazil» —Rev.
Mus. Paul, Vol. I, p. 176—publicaçäo esta aliás omit-
tida na lista bibliographica da nova monographia.
Naturalmente não será tão reduzido o numero de
especies brazileiras, mas é questão, unicamente, da pouca
attenção até agora dispensada a este grupo.
Oliveira, Dr Leo Lopes de. Mimetismo em in-
sectos brasileiros; These apresentada à Faculdade de
Medicina do Rio de Janeiro, para obtensão do grão de
doutor em medicina. Maio de 1909.
Ainda mais do que a these ichthyologica apresen-
tada pelo dr. Azurem Furtado (cf. nossa bibliographia
Vol. VI, p. 623), o presente trabalho admira ser accei-
to como bom assumpto para se poder conquistar, pela
sua defeza, o gráu de doutor em medicina. Ou bem a
cadeira à qual é dirigida a dissertação deveria ser de
«Historia Natural», tão sómente, e não «Historia natu-
ral Medica», ou então é isto um subterfugio, pelo qual
a Faculdade de Medicina quer permittir à nossa moci-
dade academica interessada por caussa da historia natural
do paiz, uma unica possibilidade de revelar conhecimen- '
tos zoologicos fe portanto tambem botanicos, etc.) pe-
rante uma congregação... já que entre nós não ha fa-
culdade em que se professe philosophia.
O trabalho do sr doutorando em si é bastante in-
teressante e bem feito, mórmente por ser acompanhado
de 6 estampas coloridas, de modo que o leitor facil-
mente reconhecerä os insectos em questão (grande falta
faz uma explicação das estampas!) Os desenhos ori-
ginaes deixavam bastante a desejar, pois do contrario,
executadas como foram na afamada casa Werner e
Winter, de Frankfurt, as estampas seriam bellissimas.
Tambem com relação ás denominações scientificas dadas
aos insectos teriamos a fazer muitas correcções, quer
por terem sido empregados nomes antiquados, quer por
serem alguns evidentemente talsos.
O auctor cita em geral os factos mais conhecidos
em mimetismo, como especialmente os que já foram
apontados por Bates, o naturalista perspicaz que pri-
— 538 —
meiro se occupou deste assumpto. Comtudo, por ser
verdadeiro amante da natureza e apaixonado colleccio=
nador, o dr. Lopes de Oliveira reuniu por exemplo um
maior numero desses curiosos «bichos treme-treme» ou
«taquarinhas», orthopteros da fam. Proscopidae.
A imitação mimetica de flores e principalmente de
fructos, de que se occupa o auctor, a natureza não acon-
selharä- do contrario, querendo esconder-se, o insecto
attrahirä mais depressa os seus perseguidores ; poderão
objectar nos que em todo caso o insecto conseguiria
assim dissimular a sua existencia aos passaros insecti-
voros ; mas quasi todas as aves frugivoras tambem co-
mem insectos, que em media perfazem até 40 °/, do
total de seu alimento.
Para que o trabalho fosse completo, não quanto aos
factos observados, e por observar, que estes são innu-
meros, mas quanto às ideias que elles despertam, seria
indispensavel um longo capitulo sobre as leis e as causas
de mimetismo ; mas quanto a isto o auctor diz que a
indole do seu modesto trabalho não lhe permitte abor-
dar esse assumpto, «por demais debatido». De facto
muito se tem escripto a este respeito, mas hoje não
mais nos contentamos com algums phraseologia sobre
o «principio da utilidade», assim como não nos basta
a invocação do principio da selecção.
Liiderwaldt, H. Insektenleben auf dem Campo
Itatiaya. Zeitschr. f. wissensch. Insektenbiologie, Bd.
XV, 1910, Heft 6/7, p. 231-235.
Durante uma excursäo realizada aos Campos de
Itatiaya, o auctor, além de muitos outros materiaes,
reuniu grande quantidade deinsectos e é à ecologia destes
que são consagradas as poucas paginas acima mencio-
nadas, nas quaes se acham condensadas numerosas ob-
servações Interessantes.
Jones, E. Duk. Descriptions of new species of
Lepidoptera Heterocera from south-east Brazil; Trans.
entom. Soc. London, 1908, p. 143-176.
Tendo estudado abundante material de mariposas,
especialmente do Paraná, o arctor descreve 78 espe-
cles que considera novas, pertencentes ds fam. Sphzn-
gidae, Syntomidae, Arctiidae, Noctuidae, Saturnidae,
etc.
Silva, Benedicto Raymundo da, Contribuição para
a Historia Natural dos Lepidopteros do Brazil ; HI Con-
gresso Scientifico Latino Americano, Rio de Janeiro,
1905, Tomo III, livro B; Imprensa Nacional 1907.
O livro contem 33 estampas com 105 figuras de
borboletas, pela maior parte do grupo das Rhopaloceras
ou Diurnas; estas illustrações, muito bem feitas pelo
auctor, que é um verdadeiro artista no genero, foram
tambem muito bem reproduzidas na Belgica e assim
basta o seu confronto com os exemplares para reco-
nhecer as especies.
Quanto à parte systematica desde interessante grupo
de insectos, o trabalho deixa muito a desejar. Antes
de tudo é de lastimar que tenham sido descriptas ape-
nas as especies que foram illustradas, quando teria sido
facil salientar os caracteres distinctivos de muitas outras
parecidas ou aliadas ás que as figuras representam.
Teria sido muito vantajoso o emprego de chaves de
classificação, ao menos para as familias e os generos,
mas em todo caso, tanto para este fim, como para dar
mesmo mais valor as diagnoses, teria sido necessario
incluir nas mesmas maior numero de caracteres mor-
phologicos e especialmente com relação a innervação
das azas. |
Esses dados, que deveriam ter sido explicados por
desenhos schematicos, säo os unicos que tem verdadeiro
valor decisivo para o agrupamento das familias e dos
generos. As citações de auctores, além de muitas vezes
serem falsas, são tão incompletas que melhor fora ti-
vessem sido omittidas; desacompanhadas de indicação
mais precisa, deveriam ao menos mencionar o livro em
que o respectivo auctor descreveu a especie e em que anno.
As classificações em geral são bôas, embora mui-
tas vezes tenham sido empregados nomes cahidos em
desuzo em obediencia às regras de nomenclatura. Na
Estampa 1, as fig. 2 e 3 representam a mesma especie
Papilio hectorides, (da qual P. torquatinus Esp. é O
macho, que antigamente se considerava forma distincta).
Não nos leve a mal o auctor termos uzado cri-
tica mais severa para com o seu trabalho, mas si assim
procedemos foi antes para advertir a outros amadores
que, si quizerem produzir obra equivalente à que se faz
— 540 —
em boa sciencia, é preciso amoldar-se às normas ge-
ralmente estabelecidas e acceitas. Assim procedendo
vae-se muito melhor prevenido contra erros em que
do contrario qualquer cahirá forçosamente.
Lüderwaldt H. Vergiftungsercheinungen durch
Verletzung mittelst haariger oder dorniger Raupen.
Zeitschr. f. wissens. Insektenbiologie Bd. XV, 1910, Heft
11, p. 398-401.
Todos sabem quão dolorosa é a queimadura de
«Tatarana», mas poucos conhecem a mariposa que evo-
lue dessas lagartas. O auctor não só fez experiencias
com as lagartas cabelludas (que o indigena em sua lin-
guagem poetica compara ao fogo) mas criou os respe-
ctivos lepidopteros Saturnidas, fam. Lasiocampidae :
Automeris viridescens, Hyperchiria orodes, Megalo-
pyge superba e lanata.
Em Chacaras e Quintaes (S. Paulo, Março 1911,)
aconselhamos as folhas da dahlia como unico remedio
efficaz contra as queimaduras de tatorana e talvez em
breve continuaremos o interessante estudo, que até agora
tem sido tratado tão perfunctoriamente.
Druce, H. H, On neotropical Lycaenidae, with
descriptions of news species. London, Proc. Zool. Soc.
1907, 566-632, pls. XX XI-XXXVI.
As delicadas e bellas borboletas do genero Thecla,
que o auctor estuda neste artigo, esperavam de ha
muito uma revisäo criteriosa.
Nem o seu colorido, que no lado superior das azas
é quasi sempre azul ou verde metallico, nem a forma
ou o numero de appendices caudaes da aza posterior e
nem mesmo o percurso das nervuras permittem a
subdivisão deste genero riquissimo em secções bem fun-
damentadas. Assim o estudo é difficilimo, mormente
ainda em vista da confusão estabelecida pelos auctores
antigos e o que naturalmente mais admira, pelos mo-
dernas tambem ! Druce, no presente escripto, se occu-
pa de 185 especies que todas teve occasiäo de ter em
mãos; alem de muitas outras, 43 são brasileiras novas
e provêm quasi todas da Amazonia (Collecção Bates,
Mus. Godman), Espirito Santo (Druce), Castro no Est.
Paraná (Coll. E. D. Jones) e Chapada, Matto Grosso
(H. H. Smith). Oxalá o snr. Druce não esmoreça na
— 541 —
elucidação das questões duvidosas, proporcionando-nos
então uma monographia completa.
Mensão especial merecem ainda as bellas estampas
coloridas em numero de 6, que illustram 96 especies
com rara perfeição.
Mabille, P. et Hug. Boullet; Essais de Revision
de la fam. des Hesperidae ; Annales des Sciences Natu-
relles, Zoologie, Tome VII, Ns. 4-6. 1908.
A monographia das borboletas Hesperidae iniciada
com a presente publicação, corrige o quanto possivel as
imperfeições que naturalmente devia conter o trabalho
de Mabille no Genera Insectorum de Wytsman (1903-
04) e alem disto vem amplial-o, de forma a tornal-o
incomparavelmente mais pratico. O grande imprehen-
dimento Genera Insectorum dá-nos apenas chaves de
classificação para as familias e generos, emquanto que
as especies são apenas enumeradas com a sua biblio-
graphia e proveniencia. Aqui Mabillee Boullet elabora-
ram optimas chaves para todas as especies conhecidas
e, para facilitar ainda mais o trabalho da identificação,
utilizaram-se unicamente de taes caracteres que pudes-
sem ser reconhecidos sem que seja preciso submetter
os especimens a manipulações que os viriam lezar, como
por exemplo o desnudar das azas, para por a descoberta
as respectivas nervuras.
Actualmente a familia dos Hesperidae comprehende
cerca de 3.000 especies; o presente fasciculo estuda 18
generos que comprehende cerca de 170 especies em
grande parte brazileiras.
Ducke, À. Beitrag zur Kenntniss der Solitärbienen
Brasiliens. Nachtr. zu Jahrg. 1906,7s. Hymenopter.
Teschendorf &, 1907, p. 80.
ldem, Zur Synonymie einiger Hymenopteren Ama-
zoniens, |. s. cit. p. 137-141.
Idem. Beitrag zur Kenntniss der Solitärbienen Bra-
siliens. |. s. cit. pag. 141-144, 321-325, 361-368,
455-461.
Idem. Nouveau genre de Sphégides. Paris, Ann.
Soc. ent. LXXVI, 1907, p. 28-29.
Idem. Secondo supplemento alla revisione dei Cri-
sididi dello stato brasiliano del Pará. Firenze, Bull.
Soc. ent. ital. vol. XXXVIII, 1906, 1907, p. 3-19.
— 542 --
O paciente e criterioso entomologo do Museu
Goeldi em Pará occupa-se, nos tres primeiros artigos
acima citados, principalmente das abelhas solitarias,
que constituem uma grande especialidade do auctor.
Naturalmente são de preferencia os insectos ama-
zonicos que o Sr. Ducke sujeita à critica rigorosa; mas
de uma excursão que fez a Minas Geraes, Barbacena
obteve tambem muito material desta zona e assim um
elevado numero de especies novas foi descripta por elle
e muitos são os commentarios que faz à lista das es-
pecies já conhecidas.
Tambem alguns outros grupos de hymenopteros o
auctor estuda com muita competencia. As bellas Chry-
sididas, sempre de novo merecem a sua attenção; já
agora se eleva a 50 o numero de especies conhecidas do
Estado do Pará. Qual a abundancia destas vespinhas,
uma vez conhecido o local em que se reunem de pre-
ferencia, mostra o facto de haver o Sr. Ducke colhido
com mais dous amigos, em poucos dias nada menos
de mil e tantos Chrysididas (32 especies!) em uma
roça em que abundava a Euphorbiacea Croton chamae-
dryfolius.
Liiderwaldt, H. Zur Biologie zweier brasilianischer
Bienen. Zeitschr. für wissench. Insektenbiologie, Bd.
XV 1010 Meet 8/0, p. 291-208:
Descripçäo do curioso ninho da abelha solitaria,
Megachile inquirenda que faz seus tubinhos entre a
folhagem das bromelias e Pasiphae iheringé que, se
bem que seja do grupo das abelhas solitarias, mostra
grande tendencia à vida social, tanto que o auctor a
observou repetidas vezes pousando em grande numero
sobre o mesmo galho (uma vez até 97 exemplares.
Lüderwaidt, H. Sphex striatus Sm. — Prionyx
johannis Fabr. bei seinem Brutgeschäft. Zeitschr. f. wis-
sensch. Insektenbiologie, Bd. XV, 1910, Hft 5 p. 177-179.
Observação muito interessante sobre a predilecçäo
de um vespäo pelos gafanhotos da praga (Schestocerca
paranensis) e outros detalhes sobre a biologia , de
Prionyx johannis Fabr.
Gregory, A. L. Beekeeping no Rio Grande do
ae Gleenings in Bee culture, Vol. 36, N. 23, p.
4,
— 545 —
O pequeno artigo do auctor que intelligentemente
se occupa da creação de abelhas em Taquary no Rio
Grande do Sul, é especialmente interessante pelo rele-
vo em que põe o perigo da «lerva lanceta». Pelo
nome vulgar indicado parece tratar-se da composita
Solidago microglossum.
Coincidia-lhe a perda de abelhas da colmêa com
a inflorescencia desta planta. Tambem varios visinhos,
de Santa Maria, muito soffreram por esta occasião ;
assim um proprietario de #9 colmeias ficou reduzido
a 3 e um outro apicultor de 62 colmeias perdeu 57.
Salienta ainda o auctor qne sempre os favos estavam
cheios de mel.
Tratando depois de varias pragas, salienta a «lra-
puã». (Trigona ruficrus) como grande inimigo da
Apis. E’ verdade que geralmente só atacam as
colmeias fracas; mas fazem-no com tanta violencia e
aos milhares, que em breve as abelhas do reino fazem
e deixam todo o mel à abelha indigena, que aliás, co-
mo é sabido, não tem ferrão.
Brèthes, Juan. Contribucion preliminar para el
conocimento de los Pepsis; Anales del Museo Nacio-
nal de Buenos Aires, T. XVII, Ser. 3, t. X, 1898, p.
233-245.
Descrevendo rapidamente perto de 80 especies no- —
vas de vespas do genero Pepsis, o auctor revela ter
estudado a fundo este grupo de hymenopteros.
A grande maioria das especies é da Rep. Argen-
tina, muitas são do Paraguay e 13 do Brazil; dentre
estas algumas lhe foram enviadas do Museu Paulista
e devemos agradecer-lhe a amavel dedicatoria de P.
Lheringt.
Enderlein, Dr. Günther, Neue Evaniiden, beson-
ders aus Sumatra; Stettiner Entom. Zeit. Vol. 67,
pa,
São descriptas varias especies novas dos curiosos
hymenopteros da fam. Hvanzidee, e diversas destas es-
pecies fcram capturadas pelo Sr. H. Luederwaldt nosso
preparador de entomologia, quando em Santa Cathari-
na. Uma das especies, Evania appendigaster & cos-
mopolita, e isto em virtude de ella ser parasita do ovo
da barata; só assim, à custa do orthoptero, é que o
— 544 —
minusculo hymenoptero poude conseguir levar a cabo
uma viagem ao redor do mundo !
Enderlein, Dr. G. Neue Evaniiden aus Formosa n.
Súdamerica; 1. s. cit., Vol. 70, 1909.
Ainda nesta contribuição as especies brazileiras de
Evaniidas descriptas como novas, foram colligidas em
Santa Catharina pelo Sr. H. Luederwaldt.
Brues, Ch. T. Some new species of Platygaste-
ridae (Hymenoptera) from Brazil, Broteria, Ser. Zoolog.
Vol. IX, 1910, fasc. II, 151-159.
Descripçäo de 8 especies de minusculos hymenopte-
res, todos novos, da fam. Platygasteridae que haviam
sido criados pelos revs. padres J. Ricke J. Bruggmann
em S. Leopoldo, Rio Grande do Sul. São insectos de
apenas 1 a 2 mm. de comprimento, que se criam como
parasitas nas larvas de zoocecidias, ou productores de
galhas. Estas mesmas galhas brazileiras já foram estu-
dadas por J. S. Tavares (Contributio prima ad cogni-
tionem cecidologiae Brazilias, Brotheria, Ser. Zool. vol.
VIII, p. 4-29, 1909, com estampas).
Die exotischen Kifer in Wort und Bild, von
Alex. Heyne, fortgeführt von Otto Taschenberg, Lfg.
27 (Register); Heyne Leipzig, 262 pags. 39 estampas.
Veio a ser concluido o bello trabalho de A. Heyne
em que este coleopterophilo apresentava aos amadores
os mais bellos typos de besouros dos outros continen-
tes que não a Europa. Depois de abandonado por Heyne,
a obra foi levada avante, e a bom termo, pelo dr. O.
Taschenberg e assim todas as formas mais interessan-
tes dos coleopteros maiores figuram nas estampas muito
bem coloridas e ainda, no texto as descripções de muitas
outras, ampliam grandemente o valor desse livro. Como
já dissemos elle não é, nem podia ser completo, mas 0
amador brazileiro encontrará ahi muitas figuras e des-
cripções dos nossos bellos besouros.
Fiebrig, K. Cassiden u. Cryptocephaliden Para-
guays, ihre Entwicklumgstadien u. Schutzvorrichtun
gen. Zool. Jahrb. Supplem. 12, fasc. 2. 1910.
Embora os coleopteros de cuja biologia se occupa,
o autor sejam paraguayos, não quizemos deixar de
chamar a attenção para este bello estudo, porque assim
— 545 —
talvez entre nôs algum amador se lembre de fazer tra-
balho analogo com relação à nossa fauna.
O autor occupou-se em especial do estudo da bio-
logia destes besouros, cujas larvas, phytophagas vivem
sobre as folhas de um grande numero de plantas; mas
para se dissimular lançam mão de toda sorte de dis-
farces, vra simulando algum fragmento vegetal, ora
tomando tal aspecto que parece impossivel haver uma
larva de baixo de tão grotescos rebiques e filamentos
dirigidos em todas as direcções. São ao todo 30 espe-
cies de Cassidae e outras tantas Cryptocephalidae, das
quaes porem só 10 puderam ser identificadas com suas
larvas.
Gounelle, E. Listes des Geram:ycides de la region
de Jatahy, Est. Goyaz Ie partie, Ann. Soc. Entomol.
France, vol. 77, 1408, fase. 4, p. 587-688.
Com o simples titulo de «lista de besouros longi-
corneos» o distincto especialista nos dá alem de uma
breve descripçäo da localidade goyana a enumeração
de talvez umas 230 especies de Cerambycidas que pou-
de obter successivamente dessa região das cabeceiras
do Tocantinse do Araguaya. Para mais de cem dessas
especies foram reconhecidas como novas à sciencia e
por isto cuidadosamente descriptas ; foram estabelecidos '
tambem varios generos novos.
Fazemos votos para que em breve o operoso autor
venha a concluir este catalogo regional que, nas con-
dições em que se encontra actualmente a nossa litera-
tura a este respeito, tem grande valor tambem para o
estudo destes insectos em outras regiões do paiz.
Spaeth, Dr. Fr. Krit. Studien über Chelymor-
pha Boh. n, verw Gattungen. Deut. Ent. Zeitschr. 1909,
719-732.
O auctor dá-nos apenas as subdivisões que póde
estabelecer neste genero Chelymorpha, da fam. Chry-
somelidae e, como anteriormente se lhe dava extensão
demasiado ampla, exclue as form»s que podem por si
sô formar generos; destes estabelece um grande numero
que facilmente se reconhecem pelo caracter de chaves
analyticas que deu a todo o trabalho. Alem disto vem
descriptas umas tantas especies novas, muitos das quaes
são brasileiras.
— 546 —
Spaeth, Dr. Hr. Beschreibung neuer Cassididen
nebst synonymischen Bemerkungen; Verhandl. k. k.
zool. bot. Ges. Wien, 1909, p. 354-297.
Descripção de numerosas especies novas de besou-
ros sul-americanos da fam. Cassididae, e entre ellas
muitas do Brazil, varias das qnaes lhe haviam sido en-
viadas do Museu Paulista, o que o auctor agradece co-
gnominando uma das especies Omoplata thering?.
Bernhauer, Dr. Max. Beitrag zur Staphyliniden-
fauna von Siidamerika; Arch. f. Naturg. Berlin, Vol.
TS pu TONS ly 28829 72.
O operoso especialista que de ha muito se consagra
ao estudo dos besouros Staphylinidas, dá publicidade a
um elevado numero de especies novas que estudou ul-
timamente. São ao todo 159 especies pertencentes a
99 generos, 10 dos quaes foram agora estabelecidos pelo
auctor. 36 dessas especies são brasileiras e quasi me-
tade destas, 41, são do Est. de S. Paulo, de onde lhe
foram enviadas em parte pelo Museu Paulista (24), em
parte pelo sr. Conde A. Barbiellini (:7). Varias destas
especies novas foram dedicadas ao dr. H. von Ihering
e ao sr. H. Luederwaldt preparador da secção entomo-
logica do nosso museu ; outras especies ainda foram
dedicadas ao sr. Conde Barbiellini.
O auctor observa, quanto à distribuição geographi-
ca destes besourinhos que naturalmente ha bastante se-
melhança faunistica entre as especies da America Cen-
tral e do Sul, mas que são bem poucas as formas communs
ás duas regiões. Quanto 4 fauna chilena esta geral-
mente se assemelha mais 4 palea:ctica ou nearctica do
que à do resto da America do Sul e isto especialmente
com relação ao grupo dos Aleocharinae.
Lesne, P. Sur les parasites xylophages du Mani-
coba (Manhiot glaziouvi).
A Maniçoba do Ceara, tão apreciavel pela abun-
dancia com que fornece o latex para a producção da
borracha, está infelizmente sujeita à acção perniciosa de
um grande numerc de insectos —o que aliás se dá tam-
bem com relação à maior parte dos vegetaes que cul-
tivamos.
Varias especies de coleopteros enviados de Baturité
ao Laboratorio de Entomologia do Museu de Paris, de-
HAT
ram assumpto à nota de M. Lesne. O auctor assignala
a Curculionida Caelosterne rugicollis Bohem. como
coleobroca que prejudica a arvore não tanto pelos canaes
excavados por ella mesma, mas principalmente por serem
os seus canaes abandonados aproveitados e enormemen-
te augmentados por outros besouros da fam. Scolytida
Xyleborus confusus e ainda por um outro: urculionida
Cossonus impressus cearensis Lesne. «As galerias si-
nuosas e irregulares excavadas pelas larvas deste besou-
ro tarandent a madeira em todos os sentidos e apressam
a sua decomposição». Assim aconselha o auctor a maior
vigilancia, devendo ser contados em tempo os galhos
atacados ao mesmo tempo que se deve evitar que haja
feridas abertas na arvore, pois que, estando lesada a
casca os insectos atacam directamente os tecidos deli-
cados, sem que a latex possa protegel-os.
A proposito deste assumpto convem lembrar a bella
monographia que o mesmo Mr. P, Lesne publica nos
Ann. Soc. Entomol France (6.º mém, Vol. 78, 1909,
p, 471 ss). As sub-tribus Dinapatinae e Apatinae
estudadas no fasciculo acima mencionado pertencem à
fauna africana e asiatica, mas ha duas especies, Apate
terebrans e monachus que tambem occorrem no Brazil,
bem como em varios outros pazes, para onde foram
transportadas pelo homem. São espesies perigosas, pois
tanto a larva como o adulto perfuram algodoeiros, ca-
cáoeiros e, ainda, a nossa preciosa Rubiacea. o café. Nas
antilhas, o velho Rohr em 1793 (Observ. sur la cul-
ture du coton) já dizi: que «si cet insecte endommage
nos cotonniers et ruine nos jardins, c'est une conse-
quece de la destruction gênérale de nos forêts.,.»
Lüderwaldt, H. Die Frassspuren von Cephaloleia
deyrolli Baly.. Zeitscher. f. wissensch. Insektenbiologie
Bd. XV, 1910, Heft 2, p. 51-63.
Muito irequentemente se observa que as grandes
folhas de varias especies vistosas de Marantaceas são
crivadas de pequenos orifícios, dispostos em linhas pa-
rallellas, tanto longitudinaes como transversaes. A to-
dos nos do museu que cagavamos frequentemente nas
mattas da Serra do Mar, onde o facto apontado é de
observação quotidiana, interessava saber qual o auctor
deste delicado trabalho; coube à paciente investigação
— SAMI
do sr. H. Luederwaldt descobrir o besourinho que assim
procede nas folhas ainda enroladas e ao Mr. Donkier,
de Paris devemos a identificação do coleoptero da fam.
Chrysomelidae : Cephaloleia deirollei Baly. var.
Raffray, A. Nouvelles espèces de Psélaphides ;
Ann. Soc. Entom. de France, Vol. 78, 1909, p. 15-52.
Entre o grande numero de especies novas descri-
ptas pelo excellente especialista da fauna Pselaphidæ
(besourinhos tão diminutos que os de 2,5 mm. de com-
primento já são gigantes!) figuram muitas do Brazil,
colhidas em parte pelo Sr. Gounelle e muitas outras
pelo G.*° A. A. Barbiellini, apaixonado entomologista,
redactor do «Entomologista Brazileiro».
Wheeler, W. M. Studies on Myrmecophiles: TI
Microdon; Journ. N. York Entom. Soc. Vol. XVI,
1908) p. 202.
Bezzi, Prof. M. Zwei neue südamerik. Micro-
don Arten. Wiener Entom. Zeitung, Vol. XXIX, fase.
9-10, 1910, p. 319.
= No primeiro escripto o emerito conhecedor da
biologia das formigas estuda as relagdes que as mos-
cas Syr phidas do gen. Microdon mantêm com as for-
migas (bem como “cupins) com os quaes cohabitam. E”
curioso quanto as formas larvaes destas moscas têm
tormentado não poucos naturalistas que as considera-
vam, uns como Coccidas, outros como molluscos, les-
mas! E isto da parte de boa gente como Burmeis-
ter, Spix, Simroth, etc.
O auctor dá uma boa bibliographia dos principaes
estudos que tem sido publicados sobre estas interes-
santes moscas myrmecophilas.
A larva têm um tuberculo na sua extremidade
posterior, tuberculo este no qual ficam situados os dous
stigmatas reniformes, ou crivos respiratorios; na face
ventral acha-se um pécarnoso com que a larva se loco-
move e que explica ter sido confundida a mesma com
lesmas. As larvas alimentam-se das dejecções hypo-
pharyngeanas dos seus hospedes. Em seguida passa-
se a phase formando a larva o seu «puparium» em
que permanece alguns dias ou uma semana.
Possuimos varias destas capsulas Jarvaes encon-
tradas em Campo Grande, Est. S. Paulo, no ninho da
— 549 —
formiga Atta (Acrony mex) nigra. O tuberculo pos-
terior persiste e accrescem dous outros, prothoracicos.
A esculptura é a mesma que a da larva, porêm mais
accentuada ; no terço anterior vê-se um sulco trans-
versal, ponto em que a capsula se rompe, para dar
sahida à mosca, que tem uma vaga semelhança com
uma pequena mutuca.
O Prof. Bezzi acima citado estuda tres especies
do genero que tem maior affinidade entre si : M. mira-
bilis Wall. de Chapada, Matto Grosso; M. bertoni n.
sp. de Puerto Bertoni no Paraguay e M, iheringi n.
sp. de S. Paulo (capital) onde foi colligida pelo dr.
H. von Ihering, a quem é dedicada a nova especie.
Enderlein, Dr. Giinther, Neue Gattungen u. Ar-
ten aussereuropäischer Fliegen ; Stettiner Entomol. Zei-
tung, Vol. 72, p. 135 209.
Uma grande parte das moscas novas descriptas
neste artigo, pertence à fam. Mycetophilidæ e para
mais de 30 dellas foram colligidas em Santa Catharina
pelo nosso preparador de entomologia, Sr. H. Lueder-
waldt, a quem, em justa homenagem, foi dedicada a
especie nova Mycetophila lwederwaldtr. Varias dellas
serviram de typo para generos novos.
Kertész, Dr. I. Vorarbeiten zu einer Monogra-
phie der Notacanthen; Ann. Mus. Nat. Hungarici, Vol.
VI, 1908, p. 321-374, Est. V-VIII.
“ incançavel dipterologo, ao qual já devemos varios
volumes do excellente «Catalogus Dipterorum», conti-
nua na faina de melhorar as condições da systemati-
ca dos dipteros. Na publicação acima citada elle pro-
mette a elaboração de uma monographia dos Nota-
cantha, da fam. Siratiomyidee, o que constitue um
emprehendimento assäz difficil, em vista da confusão
que reina a respeito na literatura. Assim o auctor es-
tuda successivamente os diversos generos, elabora as
chaves de classificação descrevendo ao mesmo tempo
as especies novas; na presente nota preliminar o dr.
Kertész se occupa de um certo numero de especies bra-
zileiras e repetimos aqui o seu pedido com relação ao
material bem preparado destas moscas. Enviando-lhe
especies da nossa fauna, não só o auxiliaremos na con-
fecção da monographia, como teremos prestado um
— 550 —
serviço ao estudo dos dipteros do nosso paiz que, 4
excepção de bem poucos grupos, são ainda bem pouco
conhecidos.
Lutz, Dr. Ad. Tabaniden Brasiliens u. einiger
Nachbarstaaten ; Zool. Jahrb. Suppl. X. fase. 4. 1909,
pag. 619—692, Est. I—M.
Na introducçäo desta bella monographia sobre as
moscas da fam. Tabanidae (mutucas) do Brazil e de
alguns paizes vizinhos, o illustre director do Instituto
Bacteriologico de S. Paulo affirma com muita razäo
que o estudo dos dipteros sugadores de sangue tomou
um grande desenvolvimento desde logo que se reconhe-
ceu qual a importancia destes insectos como transmis-
sores de germens de molestias, quer humanas quer ani-
maes em geral. Assim é que o estudo não só da sys-
tematica. como da biologia em geral, dos mosquitos
está por assim dizer quasi concluido e isto em virtude
de serem os Culicideos os transmissores de febres pe-
rigosissimas. Aos Tabanideos pode-se attribuir egual
malificio, como por exemplo a transmissão de Trypa-
nosomas, causadores de epizootias; mesmo o terrivel
«mal de cadeiras» dos cavallos é provavel que seja
transmittido pelas mutucas.
Fo: o estudo. destas questões que levou o dislincto
baeteriologista a colligir os nossos “rabanidas e, veri-
ficando quão precario era o estado da parte puramente
systematica, resolveu deslindar todas estas questões. Mas
só com a maior dedicação, por longos annos, o auctor
poude chegar a bom termo, qual o que agora admi-
ramos na sua bella monographia. Muito louvavel nos
parece o procedimento do auctor reproduzindo sempre
os diagnoses originaes. pela maior parte publicados antes
de 1350, em livros hoje raros; assim as suas proprias
observações nos merecem duplo valor.
A chave de classificação dos generos comprehende 8
gen. (5 dos quaes são novos) da fam. Pangominae alem
do gen. Esenbechia ; a fam. Chrysopinae comprehende
mais uma duzia de especies só do gen. Chrysops. A
collecção do auctor comprehende ao todo 54 especies
brazileiras ; todas ellas, e mais quatro. do Uruguay,
Argentina, etc. são figuradas nas tres estampas duplas,
cuja perfeição tanto no desenho como no colorido, não.
— 551 —
podemos deixar de salientar (E é com pezar que re-
lembramos que foi a grande despeza da confecção destas
estampas, que nos impossibilitou incluir nesta nossa
Revista esta bella monographia, com cuja impressão o
auctor em tempos nos quiz honrar !). São transcriptos
ainda as diagnoses de umas tantas outras especies que
o Dr. Lutz não poude confrontar pessoalmente e cuja
patria é desconhecida ou indicada apenas como «Brazil»
quando é certo que apenas uma ou outra mutuca das
mais communs occorre do norte ao sul do nosso paiz.
Entretanto, apoz tanto trabalho, ainda resta muito
a fazer, eo auctor mesmo o confessa; pois até agora
nada sabemos onde o como se realiza a reproducção
destas moscas.
Peryassit, Ant. Gonçalves. Os Culicideos do Brazil ;
Trabalhos do Instituto de Manguinhos, Rio de Janeiro,
1908 ; 407 pgs.
Uma bella monographia dos mosquitos brazileiros,
elaborada no Instituto de Manguinhos sob os auspicios
do Dr. Oswaldo Cruz. Depois de esclarecer a termina-
logia empregada e de descrever rapidamente a biologia
destes insectos, o auctor discute a classificação dos
mesmos, e é a do Dr. A. Lutz, ligeiramente modificada
por Theobald que o auctor acceitou na sua monogra-
phia. Seguem-se os quadros das sub-familias (10) dos
generos (47) e das especies (131). As descripções de-
talhadas das especies, bem como a das larvas comple-
tam a monographia, que assim torna relétivamente facil
aos leitores brasileiros a determinação das especies.
Infelizmente em alguns assumptos, relativos à pura
elaboração material da monographia o euctor não se-
guiu os methodos usuaes, consagrados pela grande
conveniencia. Assim fazem falta absoluta as referen-
cias bibliographicas. Em ultimo caso, para as especies
bem conhecidas bastaria a citação da monographia de
Theobald, mas para aquellas que só ultimamente foram
descriptas, julgamos indispensavel esta indicação. In-
correcto é o titulo da 2.º especie: :C. antermedium,
Chagas. n. sp. ; não sabemos si ella já foi ou não des-
cripta uma vez.
Não nos agrada muito a refusão que o auctor fez
das descripções dos auctores anteriores, baseado em
+
— 552 —
seu proprio material, pois muito facilmente se é levado
a confundir especies diversas ou subespecies; melhor
nos parecia annotar as diagnoses originaes, nos casos
de estas serem boas, como as de Thechald ou Lutz.
Interessantissimas são as experiencias (IL Cap.) feitas
com relação à resistencia das larvas cm misturas de agua
do mar com agua doce; 8-9 °/, de mistura de agua
do mar não mostra inconvenientes; porcentagem mais
elevada prejudica a evolução e 50 °/, mata as larvas.
Um terceiro capitulo contem abundantes informações
biologicas, principalmente sobre a Stegomgyia calopus.
Dour: Harrison G. & Fred. Knab, Descriptions
of some new mosquitoes from tropical America ; Proc.
Us S. Nat. Mus. Vol! XXXV 1909 in: 4692:
Neste trabalho são descriptas especies novas de
Culicideos do Mexico, Guba e Guyana; mas os au-
ctores propõem tambem dous nomes novos para mos-
quitos brazileiros : Anopheles cruzi para a especie que
era denominada Myzomyia lutzi Theob. e isto em
virtude de os auctores não reconhecerem como dis-
tinctos de Anopheles nem este ultimo genero nem
Myzor pu que tam bem encerra uma especie deno-
minada M. Lutz: Cruz. Ainda outra especia lutzi Peryas-
su (da monographia acima citada) os auctores pretendem
incluir no gen. anopheles, deixando de reconhecer como
valido u gen. Manguinhosia e neste caso suggerem o
nome pergassur para esta especie (Mang. lutzr) em
homenagem ao auctor da monographia brazileira.
Tudo isto, entretanto, parece-nos forte obra de
«lumping», pois, ao menos para Manguinhosia, os ca-
racteres salientalos são ‘astante evidentes.
Schnudt, Hdm. Die Issinen des Stettiner Museums ;
Stett. Entom. Zeit, Vol. 71, 1910, p. 146.
O auctor estudou todo o material de Hemipteros
Homopteros da fam. Issinae, a respeito da qual alias
o Dr. Melichar publicou optima monographia (Abh. k.
k. Zool. bot. Ges. Wien, 1906). O Sr. Schmidt descreve
varias especies novas do Brazil, colligidas pelo Sr.
H. Luederwaldt em Santa Catharina, e pelo Dr. Fr.
Ohaus durante a sua fecunda viagem entomologica.
Reuter, O. M. Capsidae in Brasilia collectae in
Museo I. R. Vindobonensi asservatae; Ann. k. k. Na-
»
— 555 —
turhist. Hofmuseum Wien, Vol. XXII, 1907-8, p. 33-80.
Uma infinidade de especies brazileiras de Capsidas
contidas na collecçäo entomologica do grande museu de
Vienna foram estudadas pelo emerito especialista de
Helsingfors, Prof. O. M. Reuter. O auctor realizou um
bom trabalho para a nossa literatura, pois, alêm de des-
crever um grande numero de especies novas, redescreve
uma boa porção de especies antigas, postas assim a mais
facil alcance. Infelizmente, para um grande numero
de especies não ha indicação de proveniencia mais pre-
cisa do que «Brasilia», mesmo para material colligido
pelo caprichoso colleccionador Natterer. Trata-se da
familia mais extensa de hemipteros heteropteros, que
em sua maior parte vivem sobre vegetaes e assim é
claro que em entomologia economica elles devem ser
estudados com o maior cuidado.
Rehn, James A. G. On Brazilian Grasshoppers,
sub-fam. Pyrgomorphinae & Locustinae ; Proc. U. S.
Nat. Mus. Vol XXXVI, 1009 n 1661.
Em muitas outras publicações o auctor já se tem
occupado dos gafanhotos do Brasil e são muitas as es-
pecies novas que daqui elle descreveu, como especial-
mente da valiosa colleccäo de H. H. Smith, do Matto
Grosso. Ainda desta vez ha muitas especies da men-.
cionada collecçäo, outras foram colligidas pelo sr. Koe- .
hele, em Pernambuco e na Bahia. São ao todos umas
90 especies, e destas, 17 são novas, além de 4 generos
egualmente novos; optimos desenhos illustram muitas
destas formas.
O auctor persiste em reconhecer a necessidade em
desiroçar os nomes das duas principaes familias de ga-
fanhotos : chamamos até agora Locustidae a familia que
comprehendia as formas de antennas finas e mais longas
que o corpo e de tarsos 4-articulados e Acridiidae a dos
verdadeiros gafanhotos, de antennas mais curtas que o
corpo, ovipositor curto e tarsos 3-articulados.
Certamente em virtude de uma das leis de nomen-
clatura foi preciso trocar os nomes e assim a familia a
que pertence o «gafanhote da praga» por exemplo, a
Schistocerca, deve ser chamada agora fam. Locustidae.
Brunner v. Wattenwyl, K. u. Redtenbacher, Jos.
— 554 —
Die Insektenfamilie der Phasmiden ; Leipzig (W. En-
gelmann) 1206-1908, 590 pag, 27 estampas.
Com a terceira parte que acaba de ser publicada,
ficou concluida a importante monographia das Phasmi-
das, esse interessante grupo de orthopteros que se appro-
ximam dos «louva-Deus» e que quasi todos constituem
verdadeiros typos de mimetismo.
O material do Museu Paulista, já um tanto desen-
volvido neste grupo bastante raro, comprehende um
grande numero de especies, faltando-nos porem, a maior
parte das especies amazonicas.
O nosso mallogrado secretario-traductor sr. Wal-
ter Fischer, havia emprehendido o respectivo estudo
systematico e tencionava dar publicidade nesta Revista
a um resumo monographico a respeito; o manuscripto
entretanto ainda estava apenas em começo quado o des-
venturado moço poz termo à sua existencia.
Navás, P. Longinos. Hemeróbidos (Insect. Neuropt.)
nuevos ; Brotheris, Serie Zoologica, Vol. IX, 1910,
fasc. IT, p. 69-90.
Algumas das especies novas destes pequenos e
curiosos neuropteros são brasileiros ; o que porem mais
nos interessa neste escripto do competente especialista
é a chave completa dos generos desta familia que pres-
tará optimo serviço a quem quizer dedicar-se à classi-
ficação destes insectos.
Já arteriormente o mesmo auctor (I. s. cit. Vol.
IX, fasc. I, p. 57, publicära uma chave referente aos
generos da fam. Chrysopidae que differe da precedente
por serem aqui as veias transversaes entre costal e
sub-costal simples, ao passo que na fam. Hemerobidae
ellas são bifurcadas. Em geral, tambem, as azas das
especies daquella familia Chrys. são levemente esver-
deadas ou amarelladas, ao passo que nestas (Hemer.)
ellas são brunas ou enfumaçadas.
Ulmer, G. Neue u. wenig bekannte aussereur.
Trichopteron (Wiener Mus.) ; Ann. Naturhist Hofmus.
Wien, 20, 1905, p. 59-98.
Já na bibliographia do Vol. VII, desta Revista p.
532, nos referimos a um extenso trabalho do auctor,
sobre Trichopteros do Brazil. No estudo acima men-
cionado o mesmo especialista descreve abundante ma-
— 555 —
terial novo destes insectos e que em boa parte provem
do Brazil, especialmente de Santa Catharina e do Rio
Grande do Sul. Muitos desenhos illustram o texto.
Como é natural, estes escriptos referem-se especial-
mente à parte systematica ; entretanto, o que justamente
desperta maior interesse no estudo dos Trichopteros é
a parte ecologica, e principalmente a phasa larval, que
é acquatica. Na Europa e nos Estados Unidos é este
um dos capitulos mais apreciados da biologia dos in-
sectos inferiores; cada especie tem o seu modo especial
de fabricar seu casulo, que consiste em um amontoado
de gravetos, grãos de areia, ou qualquer outro material,
mas sempre de forma caracteristica.
Como tantos outros, tambem este assumpto deverá
ser estudado aqui mesmo em nosso paiz; o amadcr que
se encarregasse desta tarefa não teria mãos a medir
para as observações e assim seria o mais aconselhavel
descartar-se do trabalho de classificação que ficaria a
cargo de algum especialista como o auctor ao qual acima
nos referimos.
Rohr, Dr. Carlos Jorge. Estudos sobre Ixodidas
do Brazil; Trabalho do Instituto Oswaldo Cruz. 1909,
Rio de Janeiro, 220 pg. Est. I-V.
A monographia que constitue esta brilhante
dissertação inaugural sobre os Culicideos, é um reposi-
torio completo da materia de que trala—os carrapatos
do Brazil. Uma parte introductoria ensina a technica ;
em seguida a anatomia é estudada em todos os seus
detalhes, bom como a biologia em geral. Em seguida
começa o trabalho original do auctor, a biologia espe-
cial, em que uma immensidade de quadros demonstra
o grande cuidado que presidiu à verificação de todas
questões. Assim o Argas persicus, parasita das gallinhas
é assumpto de nada menos de 47 quadros, em que vem
registrados milhares de algarismos que fixam as médias
das medidas do carrapato em todas as suas phases evo-
lutivas ; os pesos respectivos, tomados antes e depois de
terem sugado; o tempo empregado na evolução e ex-
periencias com relação à temperatura. A 0.º os ovos
não evoluem (morrem); a 21.º empregam 31-41, a 24,6º
empregam 12 a 14 dias, a 55.º apenas 8-11 dias. A
largata que surge destes ovos, depois de curto prazo fi-
— 556 —
xa-se ao hospedeiro para sugar pela primeira vez, du=
rante (2) 3-4 (7) dias; cahem e passam por um periodo
de repouso, de 4-5 dias a 35.º ou de 12-22 dias a 20,8.º
A larva, então, rompe a pelle e surge a «protonympha»
que, depois de ter egualmente repousado, sugado e re-
pousado novamente (durante 1, 2, 5 semanas ou 38 dias,
praso inversamente proporcional à temperatura de 35.º-
22.º), soffre segunda mudança de pelle, para se trans-
formar em «deutonympha»; esta faz mesmo que já fez
no periodo anterior e por fim surge o adulto.
O macho é pouco menor que a femea, antes da
moção, muito menos depois da sucção. A femea, depois,
de fecundada, faz varias posturas de (60) 100 a 250
(274) ovos, sem que seja necessario haver copula antes '
de cada uma das posturas subsequentes, suas sim é pre-
ciso haver repasto sanguineo.
Estudos analogos foram feitos com relação a muitos
outras especies de carrapatos.
Segue-se o capitulo referente a systematica, em que
são descriptas as 45 especies de carrapatos encontrados
no Brazil; 31 das mesmas pertencem ao genero Am-
blyomma, que pela maior parte são parasitas de mam-
miferos indigenas; A. cayennense hospeda sobre o bo-
mem, e animaes domesticos; 2lgumas outras especies
vivem sobre aves e ainda amphibios e reptis.
Margaropus annulatus var. microplus è a especie
commumente encontrada no boi.
A chave de classificação abrange todos os 12 ge-
neros da familia, mas é de lastimar que não tenham
sido confeccionadas chaves para a classificação das es-
pecies brazileiras, o que teria facilitado muito o traba-
lho a quem só de passagem se quizesse occupar das
nossas especies. Mais sensivel ainda é a falta de indi-
cação sobre a distribuição geographica das especies que
é indispensavel sob varios pontos de vista. Uma lista
dos Ixodidos enviados ao Instituto de Manguinhos, em
que é indicada a proveniencia, em parte preenche essa
lacuna, mas só com relação a 29 especies. Tambem as
indicações literarias não foram dadas para cada espe-
cie, quando teria sido sobre conveniente, muito facil, na
synonimia. A bibliogrophia final não nos pode prestar
O mesmo serviço.
— 557 —
Optimas estampas em photomicrographias repre-
sentam detalhes anatomicos e tambem o aspecto dorsal
e ventral de varias especies.
Temos, assim, a nossa monographia, e excellente,
sobre os carrapatos, como o Dr. F. Lahille já a deu à
Argentina em 1905.
Todos comprehendem quanto é necessario conhecer-
mos bem estes sugadores de sangue, pois são varias as
molestias microbianas que transmittem ao homem, ao
gado («tristeza»), às gallinhas (Spirochaeta gallinarum).
Banks, Nathan. New tropical Pseudoscorpions
Journ. of the N. York Entom. Soc. 1909, Vol. XVII,
Nip A454 ss,
Entre varias outras especies novas de Pseudoscor-
pionidas, o autor descreve duas brazileiras, Olprum mo-
destum de Pernambuco e Chelanops confraternus de
Pogo Grande, Est. de S. Paulo, colligido pelo Sr. W.
Moenkhaus quando funccionario do Museu Paulista.
Bouvier, Prof. E. L. Monographie des Onycho-
phores; Ann. Sc. Naturelles, Zoologie, Ser. 9 Tom. Il
eV Paris 190%,
O eminente natur alista do Museu de Paris, ao come-
çar a sua monographia dos arthropodes vermiformes,
mais geralmente conhecidos pelo nome generico Peri-
patus, repete as palavras de A. Gaudry: «Vieux ha-
bitants de la terre, apprenez-nous d'oú vous êtes venus !».
Para arrancar a resposta, o auctor passa a estudar de-
talhadamente todo o organismo dos Onychophoros, il-
lustrando seus ensinamentos com um grande numero de
desenhos. Quanto à phylogenia deste grupo Prof.
Bouvier está de accordo com Ray Lamkester (1902)
que subdvide os Arthropodes em tres grupos.
I Hyparthropoda (classe hypothetica que
liga Arthropodes aos Chetopodos).
Sub-phylum } II Proarthropoda—Classe Onychophora.
Arthropoda Classe 1 Diplopoda
» 2 Arachnida
HI Euarthropoda » 3 Crustacea
» Chilopoda
(| » Hexapoda
— 558 -—
A classe dos Onychophora é susceptivel, como o
mostra o auctor, de uma subdivisão em duas familias:
I fam, Peripatidae que alem do gen Koperipatus com-
prehende o unico genero americano Peripatus ; IT fam.
Peripatopsidae Bouv. contem 5 generos, todos austra-
lasianos e africanos.
O gen. Peripatus compõe-se de tres grupos, um
africano, outro andicula e os Peripatos caraïbes, entre
os quaes se acham as especies brazileiras.
Estas são P. geayi Bauv. Guyana e P. ohause
Bouv. Rio de Janeiro; P. brasiliensis Bouv. Santa-
rem, Amazonia; e talvez tambem P. edwardsi, evansr
e mthurm, conhecidas só das Guyanas, mas que muito
provavelmente tambem podem ser encontradas dentro
dos limites do nosso paiz. O Snr. Ernesto Garbe só
uma vez obteve estes curiosos animalejos e isto em
Porto Cachoeiro, Est. Espirito Santo, P edwards», em
meio de madeira apodrecida.
Em S. Paulo, onde poderiam accorrer na Serra
do Mar, visto que P. ohawsi foi encontrado no Rio de
Janeiro, nunca foram encontrados, apezar de muito os
rebuscarmos em Alto da Serra; é que a sua distribuição
geographica não se extende senão pela região tropical.
Ihering, Dr. Hermann von. Ueber brasilianische
Najaden; Abh. Senkenb. Naturf. Gesellsch, Vol. 32
Festschrift 3. 70tn- Gebst. v. W. Kobelt; Frankfurt,
a UMA ONO ps) SAO sts XO:
Idem. Zur Kenntnis der sûdamerik. Heliciden, loc.
Cit. po A 2 se DEV
As duas publicações malacologicas foram elabora-
das pelo auctor para figurar no bello volume com que
a sociedade de sciencias naturaes festejou o 70.º anni-
versario do distincto naturalista Dr. W. Kobelt, aliás
um dos melhores conhecedores dos molluscos do nosso
tempo. Mas como o salienta o auctor, Kobelt não
fez só estudos de systematica, mas estudou as suas in-
vestigações ao amplo campo da zoogeographia, contri-
buindo muito, desta forma para a elucidação de pro-
blenas paleographicos da Europa e dos paizes medi-
terraneos.
Depois de estudar systematicamente as nossas es-
pecies de conchas do grupo das Najades (Fossula,
— 559 —
Mycetopoda, Tetraplodon) elle passa em revista as es-
pecies desta grupo que occorrem nos systemas fluviaes
dos rios Doce, Araguaya e S. Francisco, e muitas são
as novas descriptas por esta occasião e figuradas na es-
tampa que acompanha o texto.
O resultado mais interessante a que conduziu este
estudo comparativo das faunas dos nossos diversos sys-
temas fluviaes é o contraste surprehendente entre as
faunas dos rios Paraná e Paraguay. Explica-se o caso,
em si tão estranho, pela circumstancia de se ter reali-
zado uma avultada immigração de elementos amazonicos
no systema do fio Paraguay, elementos faunisticos estes
que chegaram até à foz do Prata e mesmo no Rio
Grande do Sul, sem que, entretanto, nenhuma destas
especies conseguisse penetrar no Paraná. E curioso
notar, ainda, que esta immigração se deu só em sentido
de Norte a Sul, e que compartilharam nestas viagens
apenas as especies que habitam as aguas quietas.
O auctor explica todos estes casos de sua obser-
vação, tirando dahi conclusões de grande alcance para
a comprehensão não só da actual zoogecgraphia, mas
tambem para a interpretação das vertentes antigas dessa
região.
A outra publicação acima mencionada trata de:
varias questões relativas aos caracões sul americanos.
Além de descrever varias especies novas e de elaborar
uma chave de classificação para as especies sul-ameri-
canas do genero Helicigona, o auctor discute as rela-
ções de parentesco entre as nossas especies e as formas
europeas. Concluindo pelas intimas affinidades destes
caracões, que hoje habitam regiões tão distantes entre
si, O auctor utiliza-se deste argumento para documentar
ainda por esta forma as suas theorias sobre a antiga
distribuição dos continentes (veja-se a respeito a con-
ferencia do auctor sobre a «Origem da fauna neotropica»
publicada neste volume, o. 434 ss.).
Mac Farland, Frank Mage. The Opisthobran-
chiate Mollusca of the Branner-Agassiz Expedition to
Brazil; Leland Stanford Janior University Publications,
University series, n. 2. Estampas I-XIX.
O auctor examinou os molluscos Opisthobranchiatos
obtidos em 1899 na costa do Brazil por A. W. Greely,
— 560 —
membro da expedição Branner-Agassiz. Sao 7 especies
entre as quaes 5 novas, pertencentes aos generos :
Pleurobranchus, Discodoris, Peltodoris, Spurilla.
E” com prazer que registramos esta valiosa publi-
cação, acompanhada de numerosas estampas e boas fi-
guras anatomicas, visto que, como o auctor o diz, a
pequena lista por H. von Ihering publicada em 1886 s
conservou durante vinte annos quasi inalterada. E
Carini, Dr. A. Sobre uma hemogregarina da
Phylodryas schotti; Revista Medica de S. Paulo, 1910,
VAN QE
Descripçäo de uma especie, a Haemogregarina
phylodryast, parasita do sangue da «cobra cipó» e in-
formações sobre a multiplicação do mesmo que se faz
em kistos nas visceras.
Perlodicos recebidos em permuta para a Bibli)-
theca do Museu
America do Sui
Brasil
Revista Medica . E
Revista trimensal do Instituto Gea
graphico e Historico .
Boletim da Secretaria da Agr icultu-
ra, Viação, Industria e Obras Pu-
blicas : A hal
A Escola.
O Archivo À
Boletim do Museu Para cia
Revista da Academia (Cearense
Revista trimensal do Instituto do
Ceará . é
Boletim do Muse. Rocha :
Revista do Instituto Archeologico
e Geographico Alagoano.
Revista Agricola . .
Revista do Instituto Historica e
Geographico do Rio Grande do
Norte. -. E bs
Annaes da Escola ‘de Minas
Revista e Archivo Publico Mineiro
Annuario de Minas Geraes.
Revista Medica. .
Boletim da Sociedade de Medicina
e Cirurgia :
Boletim e Memorias do Museu
Paraense . .
Boletim Official da Tostrueção | Pu-
blica ’ ;
Bahia
»
»
Belém
Cuyabá
Curityba
Fortaleza
Natal
Ouro Preto
Bello Horizonte
» »
» »
Juiz de Fóra
Pará
»
AGO
Revista do Instituto Geographico
e Ethnographico :
Revista Agricola do Rio Grande
do Sul.
Annaes da Bibliotheca Pelotense.
Revista do Centro Economico do
Rio Grande do Sul ,
Relatorio da Escola de Engenharia
Archivo do Amazonas :
Revista da Academia Pernambu-
cana de Letras. .
Revista Academica da Faculdade
de Direito
A Lavoura—Boletim da Sociedade
Nacional de Agricultura. . .
Annaes da Bibliotheca Nacional .
Archivos do Museu Nacional .
Boletim do Museu Commercial
Jornal dos Agricultores. .
Trabalhos do Instituto de Nem
guinhos
Memorias do ethnie Esto
Cria Nar ie :
Annuario do ADR 3
Boletim Policial
Brazilian Mining Review
Revista Americana male pase
Revista Trimensal do Instituto
Historico Brazileiro .
A fazenda ;
Revista da Sociedade de Geogra-
phia
Boletim do instituto Anne
Boletim da Commissäo Geogra-
phica e Geologica .
Estatistica Agricola e Zootechnica.
Revista Agricola .
Revista do Instituto Historico e
Geographico .
Revista Brazileira . à PARE
Revista Meia qu
Pará
Pelotas
»
Porto Alegre
» »
Mandos
Recife
»
Rio de Janeiro
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» » »
Sao Paulo
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» »
» »
» »
» »
» »
— 565 —
Archivo da Sociedade de Medici-
na’ e CITE. o São Paulo
Boletim de Agricultura. . . » »
Boletim da Faculdade de Direito. » »
Revista Pharmaceutica e Odonto- »
logica . : » »
Annuario da Escola Polytechnica » »
Revista de Medicina Tropical. . » »
Revista da Sociedade Scientifica »
denso Paulo sr Se RE ey »
OE nZendeIro:! so era eh ane DD »
Chacaras e Quintaes . . . » »
Revista do Centro de Sciencias,
Letras e Artes . «vc I Campinas
Uruguay
Anales del Museu de Montevidéo. Montevideo
NAN oder ar Rn »
Paraguay
Revista de Agronomia y de Cien-
cias applicadas a Assumpção
Revue Mensuelle du Paraguay . »
EL Agricultor dl : »
Anales Cientificos Paraguayos. : »
Argentina
Anales del Museo Nacional. . . Bwenos-Azres
Comunicaciones del Museo Nacional »
Revista do Jardim Zoologico. . »
Anales del Ministerio de Agricul-
ALU SC NN ERA »
Bolletin del Instituto Geogratico
APSONINO an. sl. à »
«PP obladorsa e gina? | 10 Rs »
Tribuna farmaceutica . »
Anales de la Sociedad er ne
Argentina. . . CARE »
Anales de la nino Bl sto »
Boletia de Agricultura y Ganaderia »
— 564 —
Boletin de la Academia Nacional
de Ciencias . :
Revista del Museo de LA Plata !
Anales del Museo de La Plata
Revista de la Faculdad de Agro-
nomia y Veterinaria .
Revistas de Letras e Ciencias ice
ciales . QU
Chile
Actes de la Société Scientifique du
Chili Mr
Boletin del Mise) Nacional
Anales de la Universidad
El Pensamiento Latino . ‘
Revista Chilena de Historia Na-
tual Gees
Boletin del Museo de Brute Na-
tural Al
Pert
Anales de construciones civicas,
minas e industrias del Pert
Boletin de la Sociedad de Ns
nieros . . :
Tllustracion Peruana
Boletin de la Sociedade Geogra-
fica de Lima. .
«El Perú», Estudios Mineralogicos
e Geologicos da la Sociedad Geo-
graphica de Lima . :
Boletin del Cuerpo de Ingenieros
del Perú (Ministerio de Fomento)
Boletin del Ministerio de Fomento
Revista Historica .
Cordoba
La Plata
» »
» »
Tucuman
Santiago
»
»
»
Valparaiso
Y
America Central e Mexico
Antilhas
Bulletin of the Botanical Depart-
ment of Jamaica
Kingston
— 565 —
Bulletin of the Department of Agri-
culture. . . Kingston
Proceedings of the Victoria Insti-
titer) ia . Trimdad
Annual Report of the Victoria Ins-
titute . »
Memoria Annual del Instituto de
2.8 Enseñanza de la Habana . Cuba
Costa Rica
Boletin del Instituto Fisico-Geo-
graphico Nacional. . . . SS. José
Anales del Instituto Fisco- Geogra-
phico del Museo Nacional . . » »
Paginas lIllustradas. Revista de
Ciencias, Artes y Literatura >» »
Anales del Museo Nacional. . . S. Salvador
Mexico
Anales del Instituto medico nacional Mexico
Boletin de la Sociedad Geologica
Mexicana. . »
Boletin del Instituto Geologico de
Mexico. . : »
Anales del Museo Nacional. Re »
Memorias y Revistas de la Socie-
dad Cientifica «Antonio Alzate» »
La Naturaleza . . . SR »
Boletin del Museo Nacional o »
Parergones del Instituto Geologico. »
Boletim Meteorologico . . . . Tuluca
America do Norte
Hatch Experiment Station, Massa-
chusetts, Agricultural College . Amherst, Mass.
Publications of the University of
California. . . o Berkley, Cal.
Indiana University Bulletin. . . Bloomington
Proceedings of the Boston Society
of Natural History. . . . . Boston, Mass.
— 566 —
The Journal of Experimental Zool.
The University of Colorado Studies.
The Museum News. . .
Bulletin of the Museum of Compara- a-
tive Zoology at Harvard College.
Annual Report of the Curator of the
Museum ofComparative Zoology.
Memoirs of the Museum of Gom-
parative Zoology .
The Auk, a Quarterly Journal of
Ornithology . .
Memoirs of the Peabody Museum
of American Archaelogy and Eth-
nology, Harvard University.
Peabody Museum Harvard Univer-
sity, Archaeological and Ethno-
logical Papers à.
Report of the Peabody Museum of
American Arch. and Ethnology.
Publications of the Field Colum-
bian Museum.
Bulletin of the Chicago “Academy
of Science. à
Journal of the Cincinnati Society
of Natural History. :
Bulletin of the Lloyd Librar y of
Botany.
Proceedings of the Davenport Aca-
demy of Science
Iowa Academy of Science . :
Proceedings of the Indiana Aca-
demy of Science
Bulletin of the Experiment Station
of Florida.
The Kansas University Quartely .
Memoirs of the American Anthro-
pological and Ethnological So-
cieties . .
West Virginia. “Geological Survey
Gleaning in Bee Culture.
Transactions of the Wiscousin
Academy .
Baltimore
Boulder
Brooklyn
Cambridge, Mass.
» »
» »
» »
» »
» »
Chicago, Ill.,
» »
Cincinnati, Ohio
» »
Davenport, Iowa
Desmoines, lowa
Indianopolis, Ind.
Lake City, FI.
Lawrence, Kansas
» »
» »
Medina, Ohio
Madison
AN
Annual Report of the Public Mu-
seum, oi). . . Milwaukee Wis
Bulletin of the Wisconsin Natu-
ral History Society . . » »
Transactions of the Connecticut
Academy of Science . . . New Haven, Conn.
Memoirs of the New York Aca-
demy of Science ', |... . New-York N Y.
American Geographical Society à » »
Annual Report of the Michigan :
Academy of Sciences. . » »
Transactions of the New-York
Academy of Science . . » »
Zoological scientific contributions
of New-York Zool. Society. . » »
Annals of the New-York Acade-
my Science . . » »
Memoirs of the American Museum
of Natural Elistory- ij. » »
Bulletin of the Americon Museum
of Natural History. . . » »
Annual Report of the American
Museum of Natural History . » »
Journal of the New-York Ento-
mological Society . . » »
The Museum ofthe Brooklyn In-
stitute of Arts and Sciences. . >
Annual Report of the New-York
Zoological Society . . ire DS
Zoological Society Bulletin. . . NOR
Transactions of the Wagner Free
Institute of Sciences . . . Philadelphia, Pa.
Proceedings of the Academy of
Natural Sciences. . . » »
Proceedings of the American Phi-
losophical Society . . » »
Anthropological Publications of the
University Museum . . » »
Bulletin of the Geogrophical So-
ciety of Philadelphia . . . » »
Transactions of the Department of
Archaeology. Free Museum of
— 568 —
Science and Art. University of
Pensylvania .
Publications of the Carnegie Mu-
seum .
Memoirs of the Carnegie Museum
Annals of the Carnegie Museum.
Proceedings of the Rochester Aca-
demy of Science
Proceedings of the Californian
Academy of Sciences .
Memoirs of the California Acade-
my of Sciences .
Annual Report of the Missoury
Botanical Garden
Transactions of the Kansas Aca-
demy of Sciences .
Bulletin of the Illinois State La-
boratory of Natural History.
Biennal Report of the Biological
Experiment Stations
Smithsonian Report, U. S. National
Museum À
Proceedings of the Biological So-
ciety
Bulletin of International Bureau of
the American Republics .
Annual Report of the Bureau of
Ethnology by I. W. Powel.
Annual Report of the Geological
Survey by I. W. Powell.
Report of the U. S. Commissionar
of Fish and Fishery
Bulletin of the U.S. Department
of Agriculture .
Yearbook of the U. S. Department
of Agriculture . .
Bulletin of the U. S. National Mu-
seum |. <
Bulletin of the "Philosophical So-
ciety .
Bulletin U. S. Geol. ‘Survey
partment of the Interior.
fe
Philadelphia, Pa.
Pittsburgh, Pa.
Pittsburgh, Pa.
» »
Rochester, N. J.
S. Francisco, Calif.
» »
St. Louis, Mo.
Topeka, Kansas
Urbana Il.
» »
Washington, D. C.
» »
» »
» »
» »
» »
» »
» »
» »
» »
>» »
— 569 —
Profissional Paper U. S. Survey
Depart. of the interior Saki
Water-Supply Paper. U. S. Geol.
Survey Depart. of the Interior.
Monographs of the U. S. Geol.
Survey. Depart. of the Interior.
Annual Report, U. S. Geol. Sur-
vey. Charles D. Walcott .
Annual Report of the U. S. Na-
tional Museum .
Proceedings of the American As-
sotiation for the Advancement
of Science.
American Anthropologist, organ of
the Anthropological and Ethno-
logical Societies of America
Annual Report of the Board of
Regents Smith. Inst. ;
Canada
Publications of the Geological and
Natural History Survey of Ca-
madayy, o.
Raport Annuel ‘de la Commission
Géologique de Canadá
Transactions of the Canadian Ins-
titute Ds
Proceedings of the Canadian Ins-
titute: .
Report of the Entomological So-
eiety of Ontario. b
Bulletin of the Ohio Ag: icultural
Experiment Station.
Europa
Allemanha
Sitzungsberichte der Gesellschaft
naturforschender Freunde
Washington D. C.
» »
» »
» »
» »
» »
» »
» »
QSILAZS,
Montreal (FT aca Ra
| fi LIBRARY =
Ottava z E Es!
Onn A
Toronto N& Mass O7
NY a Rbd
»
»
Wooster, Ohio
Berlim
— 570 —
Zeitschrift für wissenschaftliche In-
sektenbiologie
Mitteilungen aus der Zoologischen
Sammlung des Museums für
Naturkunde . :
Zeitschrift fiir Ethnologie É
Sitzungsberichte der K. Akademie
der Wissenschaften. .
Berliner Entomologische Zeitschrift
Deutsche Siidpolarexpedition
Deutsche entomologische Zeitschrift
Museumskunde. . VIE
Naturwissenschafiliche Wochens-
chrift .
Verbandlungen ‘des Naturhistoris-
chen Vereines
Sitzungsberichte des Naturhistoris-
chen Vereines
Sitzungsberichte der Niederrheinis-
chen Gesellschaft für Natur-und
Heilkund .
Abbandlungen des Naturwissens-
chaftlichen Vereines . :
Deutsche Geographische Bältter .
Schriften der Naturforschenden
Gesellschaft Aisa}
Mitteilungen aus den Kel Zool.
Museum ht:
Publicationen des Kel. Ethnologis-
chen Museums. .
Abhandlungen und Bericht des Kel.
Zool. Tuo e Muse-
US.) 1"
Der Zoologische Garten.
Bericht über die Senckenbergis-
che Naturforschende Gesells-
CHAT. MMS
Abhandlugen der “Senckenbergis-
chen Naturforschenden Gesells-
CHATS
Bericht der Naturforschenden Ge-
sellschatt . :
Berlim
Bonn
»
»
Bremen
»
Danzig
Dresden
»
»
Frankfurt a. M.
»
Freiburg 1. Br.
— 571 —
Petermanns es Mittei-
lungen.
Berichte der i ne eos
sellschaft fuer Natur-und Heil-
kunde E
Mitteilungen des Natur baba a
ftlichen Vereines für Neu-Vor-
pommern und Ruegen.
Nova Acta Academiae Caes. Leop.
Carol E ND PES
Leopoldina, amtliches Organ der
Kaiserl. Leop. Carol. Akademie.
Zeitschrift für Naturwissenschaf-
NE ENTRE
Abhandlungen der naturforschen-
den Gesellschaft.
Mitteilungen aus dem No
Ra Museum.
Jahrbuch der Hambur Cohen Wis-
senschaftlichen Anstalten.
Verhandlungen des Vereins für
Naturwissenschaftliche Unterha-
ltung
Mitteilungen aus s dem. Rômer- Mu-
seum
Jenaische ARE a Nu ee
senschaften
Abhandlungen und Bericht des
Vereines für Naturkunde
Sitzungsberichte der Naturfors-
chenden Gesellschaft .
Jahrbuch des Staedtischen Mu-
seums fuer Voelkerkunde
Botanische Jahrbiicher für Syste-
matik und Pflanzengeschichte .
Verhandlungen der Deustschen
Zoologischen Gesellschaft.
Sitzungsberichte der (Gesellschaft
zur Befórderung der gesammten
Naturwissenschaften
Gotha
Giessen
Greifswald
Halle a. 8.
» »
» »
» »
Hamburg
»
»
Hildesheim
Jena
Kassel
Leipzig
»
Marburg
— 572 —
Denkschriften der K. Akademie
der Wissenschaften (math. phys.
Klasse) nto
Verhandlungen der Ornithologis-
chen Gesellschaft in Bayern
Sitzungsberichte der mathematisch-
physikalischen Klasse der k.
b. Academie der Wissenscha-
ften zu Miinchen
Abhandlungen und Berichte des
Museums tir Natur-und Hei-
matkunde .
Pee des Naturwissenschaftli-
E chen Vereines .
Se Entomolog: sche Zeitung.
Mitteilungen aus dem Kgl. Na-
turalienkabinett . :
Neues Jahrbuch fir Mineralogie,
Geologie und Paleontologie .
Jahrbiicher des Nassauischen Ver-
eins fiir Naturkunde .
München
»
»
Magdeburg
Regensburg
Stettin
Stuttgart
Stuttgart
Wiesbaden
Gran-Bretanha
The Scientific Transactions of the
Royal Dublin Society.
The Scientific Proceedings of the
Royal Dublin Society. .
Economic Proceedings of the Royal
Dublin Society . .
Canadian Entomolog'st .
Journal ofthe Linnean Society.
Proceedings of the Linnean So-
ciety .
The Entomologist and Ilustrat
Journal of General Entomology.
Proceedings of the General Me-
eting for Scientific Business of
the Zool. Society
Transactions of the Zoological So- :
ciety
Dublin
»
»
London
»
»
»
»
London
— 575 —
Report of the Manchester er
Owens College .
Novitates Zoologicae .
França
Bulletin de la Société d'Histoire
Naturelle . :
Memoires de la Societé Dineenne
de Normandie
Bulletin de la Société Nim
de Normandie À
Mémoires de l’Academie dae Scien-
ces
Ramon ee) a rare Be
antiquités du Departement de
la Côte D’Or.
Annales de l’Université .
Annales du Musée d'Histoire Na-
turelle .
Annales de la Faculté des See
Bulletin du Musée d'Histoire Na-
turelle .
Comptes Rendus de Picadas
des Sciences .
Revue des Travaux Scientifiques.
Bulletin Scientifique de la France
e de la Belgique
Revue des Cultures Coloniales.
Journal de la Société des Améri-
canistes de Paris
Bulletin de Societé Entomologique
de France.
Annales de la de ln
gique de France.
Archives de Medicine Navale .
Archives de Parasitologie de Ra-
phael Blanchard. À à
Journal d'Agriculture Tropicale -
Bulletin du Jardin Colonial et Jar-
din d’essai de Colonies Fran-
çaises .
Manchester
Tring
Dijon
»
Grenoble
Marseille
»
Paris
»
— 574 —
Comptes Rendues du Congrés des
Sociétés Savantes de Paris et
des Departments
Mémoires de la Société zoologique.
Bulletin Scientifique de la France
et de la Belgique 4
Annalesde l'Institut Nacional Agro-
nomique : :
Annales de Paléontologie
Revue Agricole. :
Rionaco
Resultats des Campagnes Scien-
tifiques du Prince de Monaco .
Bulletin de l’Institut OA CARE
que de Monaco. : :
Belgica
Extrait des Memoirs du Musée
Royal d'Histoire Naturelle.
Bulletin du Musée Royale d'His-
toire Naturelle . SMa ais
Bulletin de le Societé Royale
Linnéenne. À
Procès-verbaux de la Société Bel-
ge de géologie de palaeontologie
et d'hydrologie . à
Bulletin de la Société d'Etudes
Coloniales. Bro :
Annales de la Société Entomolo-
gique de Belgique .
Annales de la Société Belge de
Microscopie .
Bulletin de la Société Belge de
Mieroscopie uso COLA
Bulletin de la classe de Sciences
de l’Académie Royale de Bel-
gique .
Bulletin de la Royal Académie
des Sciences, de Lettres et des
Beaux-Arts de Belgique .
Paris
»
Saint-Denis
Monaco
»
Bruxelles
— 575 —
Annuaire de "Académie Royale de
Sciences et Lettres et Beaux-Ar-
tes de Belgique .
Bulletin de la Société d Anthro-
pologies! |. 1
Annales de la Société Royale Ma-
lacologique de Belgique .
Bruxelles
»
»
Austria-Hungria
Mitteilungen der Kgl. Ungaris-
chen Geologischen Anstalt.
Jahresbericht der Kgl. Ungari-
schen Geologischen Anstalt.
Aquila.
Annales Historico-Naturales Mu-
sei Nacionalis Hungarici
A Magyarorszagi Kagylôsräkok
Maganrajz. :
Mathematische und Naturwissen-
schaftliche Berichte aus Uugarn.
Ethnographische Sammlungen des
Un. Nationalmuseums.
Bulletin International de l’Acadé-
mie des Sciences de Cracovie .
Arbeiten aus dem Zoologischen
Institut.
Mitteilungen des Naturwissenscha-
ftlichen Vereins fiir Steiermark.
Berichte des Naturwissenschaf-
tlich medicinischen Vereines
Die Chronik d. Sevcenko Gesel-
Ischaft .
Sammelschrift der Here
Naturwissenschaftlich-Aeztlichen
Section der Sevcenko Gesells-
echaft "the
«Lotos». Abhandlungen des Deuts-
chen Naturwissenschaftlich-M e-
dicinischen Vereines für Boh-
men.
Budapest
»
»
Cracovie
Graz
»
Innsbruk
Lemberg
Prag
— 576 —
«Lotos», Sitzungsberichte des Deut-
schen Neturwissenschaftlich-me-
dicinischen Vereines für Béh-
men. ERG MEO LE
Jahresbericht der Kel Bühmis-
chen Gesellschaft der Wissens-
chatten. 51
Sitzungsbericht der Kel. Bühmis-
chen Gesellschaft der Wissens-
chaften. e SAN à
Archiv der ARTE Landesdur-
chforschung von Bôhmen
Evkôünyve. Jahresheft des Natur-
wissenchaftlichen Vereines .
Verhandlungen der K. K. Zool.
Botanischen Gesellschaft .
Jahresbericht des Wiener Ento-
mologischen Vereines. .
Jahrbuch der K. K. Geologischen
Reichsanstalt. .
Verhandlungen der K. K. ‘Genle:
gischen Reichsanstalt. .
Sitzungsbericht der K. K. Akade-
mie der Wissenschaften. .
Mittheilungen der Erdbeben-Com-
mission der Kais. Academie der
Wissenschaften. . PED
Denkschriften der Kaiserlichen
Akademie der Wissenschaften,
Math. Naturw. Klasse. :
Mitteilungen der K. K. landw.
bakteriol. und Pflanzenstation .
Zeitschrift fuer das landwirtschaf-
tliche Versuchswesen in Oes-
terrelçh TR Mean SA Me de
Annalen des K. K. Naturhisto-
rischen Hofmuseum
Abhandlungen der K. K. Geogra-
phische Gellschaft . :
Mitteilungen der K. K. Geogra-
phischen Gesellschaft .
Wiener Entomologische Zeitung .
Prag
»
»
Trenscsin
Wien
»
»
»
»
Y Y
— 577 —
Suissa
Materiaux pour la flore Crypto-
gramique . .
Verhandlungen der Naturforschen-
den Gesellschaft :
Memoires de la Société de Phy-
sique et d'Histoire Naturelle
Mitteilungen aus der Schweizer
Entomologischen Gesellschaft .
Vierteljahrsschrift der Naturfors-
chenden Gesellschaft .
Russia
Horae Societatis Entomologicae
Rossicae . .
Bulletin de l’Académie ‘impériale
des Sciences . !
Revue Russe d’Entomologie
Acte Societatis pró-faune et flora
feunica. .
Raboti iz Laboratorii Focloienesen
go Cabineta . aie
Hollanda
Bisondere Tentoonstellingen van’s
Ryks Ethnographische Museum .
Entomologische Berichten .
Tijdschrift voor Entomologie (Ne-
derlandsch. Entomol. Vereeni-
gung) .
Dinamarca
Güteborg Kôngl. Vetenskaps och
Vitterhets-Sanhalles Handlinger.
Entomologiske Meddedelser.
Meddedelser on Gropland udgio-
not... De Ce ete ae
Commissionen for Ledelsen of
Geologiske og Geographiske
Berne
Basel
Genève
Schaffhausen
Zürich
S. Petersbourg
8
»
Helsingfors
Varsovia
Leiden
S. Gravenhage
»
Góteborg
Kjobenhawn
— 578 —
Suecia
Archiv for Mathematik of Natur-
videnskab .
Sveriges Geologiska Under sükning
Entomologisk Tidschrift.
Arkiv for Zoologi
Arkiv for Botanik.
Arkiv for Kemi, Mineralcgi och
Geologi
Kungl. Svenska Vetenskaps Aka-
demiens Ba
Entomologisk Tidskrift .
Bulletin of the Geological Insti-
tution of the University of
Uppsala SR Dna A
Noruega
Bergens Museums Aarbog .
Det Kongelige Norks Videnskabers S
Selskabs Sckritter . ,
Tromsés Museums Aarshefter .
Htalia
«Redia» Giornale di Entomologia.
Annali del Museo Civico de Sto-
ria Naturale.
Atti della Societa Nas ae
Scienze Naturali del Museo Ci-
vico. ;
Mitteilungen aus s der Zoologischen
Station zu Neapel . :
Annuario del Museo Zoologico
della R. Universitá.
Bolletino del Laboratorio di Zoo-
logia Generale e Agraria della
R. Scuola Superiore d Agricul-
tura.
Bolletino della Real Sc uola Supe- |
riore d' Agricultura.
Christiania
Stockolin
»
Uppsala
»
Bergen
Throndhjem
Tromsé
Firenze
Genova
Milano
Napoli
»
Porticr
»
— 579 —
Annali della Real Scuola Supe-
riore d’ Agricultura. L
Atti della Reale Accademia cr
Lincei .
Rendiconti della Reale Nees lake
dei Lincei.
Boletino della Societá Geologica
Italiana
Memorie della Enredo Nato
mia Romana Dei Nuovi Lincei
Bolletino dei Musei di Zoologia
Anatomia Comparativa
Hespanha
Boletin y Memorias de la Real
Academia de Ciencias y Artes.
Boletin de la Institución Catalana
d'Historia Natural. E
Annales, Boletin y Memorias de
la Sociedad Espanola de Histo-
ria Natural
Memorias de la Real Ana
de Ciencias exactas, fisicas e
naturales: it,
Revista de la Real eaten de
Siencias exactas, fisicas y natu-
Tales...
Boletin de la Bibliotheca, Museu
Balaguer . So RPA
Portugal
Communicações da Direcção dos
Trabalhos pee de Por-
tugal :
«O Sone ers À
Jornal de Sciencias Mathematicas,
Physicas e Naturaes da Aca-
demia Real de Sciencias.
Boletim da Real Associação Central
da Agricultura Portugueza .
Bulletin de la Sociètè E
de Sciences Naturelles.
»
Torino
Barcelona
»
Madrid
»
Villa Nueva
Lisboa
»
— 580 —
Revista Official da Missäo Agro-
nomica a Cabo Verde. . . . Praia
Annaes Scientificos da Academia
Polytechnica. . . . Porto
Annaes de Sciencias Natures, À »
Portugalia vs |. »
Revista de Sado aate Nauaes do
Collegio de S. Fiel. . . . . Soalheira
Asia
Meddedelinger uit «Sland Plan-
tentuin» Schadelijke en ee
Insecten van Java. . . Batavia
Meddedelingen e Joahrbock van ‘det
Department von Landbow . . »
«Slands Plantentuin» Bulletin de
l’Institut Botanique de Buiten-
ZONE vs . Butenzorg
Bulletin du department de VAgri-
culture aux indes Néerlandaises. »
Madras Government Museum Bul-
letin Rämèsvaram Island and
fauna of Gulf of Manaar. . . Madras
Journal of the Straits Branch of
the Royal Asiatic Society . . Singapore
Annotationes Zoologicae Japonicae Tokzo
The Zoological Magazin. . . »
Mitteilungen der Deutschen Ge-
sellschaft für Natur-und V6l-
kerkunde Ostasiens. . »
The Journal of the | College of
Science. ANR »
Africa
Annals of the South African Mu-
seum . Cap Town
Report of the South African Mu-
seum . » »
Report of the Government Bio-.
logist, = NS ea MAN AIRNESS AS
— 581 —
Marine Investigations in South
Africa . :
Report of the Government Natal
Museum .
Reports of the ‘Comitee of Control
of the South African Central Lo-
cust Bureau .
Annals and Report of the Natal
Government Museum .
Annals of the Transvaal Museum!
Australia
Transactions ofthe Royal Society
of South Australia.
Memo'rs of the Royal Society of
South Australia .
Annual Report of the Zoological
and ‘cclimatisation Society of
Victoria
Proceedings of the Royal Society
of Victoria
Proceedings of the Zoological
and Acclimatisation Society .
Memoirs of the National Museum.
The Victoria Naturalist . aks
Zoological and Acclimatisation So-
Glebys. Sr.
Journal of the Department of Agri-
culture of Western Australia .
Journal and Proceedings of the
Royal Society of New South
Wales .
Proceedings of the Linnean So-
ciety of New South Wales .
Records of the Geological Survey
of New South Wales
Memoirs oft he Geological Survey
of New South Wales. à
Records of the Australian Museum.
Memoirs ofthe Australian Museum.
Pretoria
Adelaide
»
Melbourne
»
Victoria
Perth
Sydney
»
»
»
— 582 —
Annual Report of the Trustees of
the Australian Museum . ;
Annual Report of the Departement
of Mines and Agriculture of New
South Wales. à
Transactions and Proceedings of
the New Zealand institute E
Bulletin of the Colonial Museum.
Reports of the En Sta-
tion Comittee. ; BY oss
Polynesia
Fauna Hawaiiensis.
Occasional Papers of the Bernice
Pauahy Bishop Museum. :
Memoirs of the Bernice Pauahy
Bishop Museum of Polynesian
Ethnology and Natural Hystory
Reports of the RU Sta-
tion Comittee. : AL
Wellington
»
»
Honolulu
»
»
»
Hihas Philippinas
Bulletin of the Philippine Museum.
Ethnological Survey Publications.
The Philippine Journal of Sciece.
Manila
»
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Revista do Museu Paulista Vol Mie Est. of
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REVISTA DO MUSEU PAULISTA Vol. VIII.
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INDIOS BOTOCUDOS DO RIO DOCE
FIG. 1. Tres indios, vistos em outras posições na FIG. 2.
FIG. 3. Accendendo fogo pelo atrito de madeira dura com outra molle,
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REVISTA DO MUSEU PAULISTA, Mol VA Est. IV
INDIOS*BOTOCUDOS DO: RIO DOCE
REVISTA DO. MUSEU PAULISTA, Vol: VITE Est. V.
INDIOS BOTOCUDOS DO RIO DOCE
FIG. 10. O craneo descripto á pag. 46 é desta mulher, que falleceu dias depois de ter
sido photographada.
REVISTA DO MUSEU PAULISTA, Vol. VIIT. st. VI
INDIOS BOTOCUDOS DO RIO DOCE
FIG. 11. Homem tocando flauta com o nariz e mulher bebendo agua do taquarussú.
FIG. 12. Arranchamento.
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com a população neobrazileira
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[57] Géz occidentaes, Kaiapô.
CL Gez meri fans, Corôados
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Comp.1i0.Hartnann-Reichenbach S.Paulo © Rio
Mappa Ethnographico do Brazil meridional
organisado por ELy. thering
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TYPOGRAPHIA DO DIARIO OFFICIAL
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